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Numero do processo: 13925.720121/2013-14
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 20 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Exercício: 2012
EMENTA
DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA. REJEIÇÃO. GLOSA MOTIVADA PELA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. MANUTENÇÃO.
Ausente qualquer tipo de documento capaz de registrar a entrega de moeda ou o depósito de quantias em conta-corrente, é impossível restabelecer o direito à dedução dos valores alegadamente pagos a título de pensão alimentícia.
Numero da decisão: 2001-005.466
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Honorio Albuquerque de Brito - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator(a)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo Rocha Paura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Honorio Albuquerque de Brito (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO
1.0 = *:*
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PENSÃO ALIMENTÍCIA. REJEIÇÃO. GLOSA MOTIVADA PELA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. MANUTENÇÃO. Ausente qualquer tipo de documento capaz de registrar a entrega de moeda ou o depósito de quantias em conta-corrente, é impossível restabelecer o direito à dedução dos valores alegadamente pagos a título de pensão alimentícia. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Honorio Albuquerque de Brito - Presidente (documento assinado digitalmente) Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator(a) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo Rocha Paura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Honorio Albuquerque de Brito (Presidente). Relatório Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida: Contra o contribuinte acima identificado foi lavrada a Notificação de Lançamento nº 2012/724113196065751, em 18/3/2013, acostada às fls. 34/39, relativa ao Imposto de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 92 5. 72 01 21 /2 01 3- 14 Fl. 81DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2001-005.466 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13925.720121/2013-14 Renda Pessoa Física do exercício 2012, que lhe exige crédito tributário no valor de R$2.547,32, conforme abaixo demonstrado: Tabela 1 – Valor do crédito tributário apurado Demonstrativo do Crédito Tributário Cód.DARF Valores em Reais (R$) Imposto de Renda Pessoa Física-Suplementar (Sujeito à Multa de Ofício) 2904 1.398,94 Multa de Ofício (Passível de Redução) 1.049,20 Juros de Mora (calculados até 28/03/2013) 99,18 Valor do Crédito Tributário Apurado 2.547,32 Fonte: Notificação de Lançamento nº 2012/724113196065751 Decorreu o citado lançamento da revisão efetuada na Declaração de Ajuste Anual (DAA) ND 09/36.688.632, enviada em 21/2/2013, ano-calendário 2011 e, de acordo com o relatório denominado “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” (fls. 36), foi glosado o valor de R$15.029,00, indevidamente deduzido a título de pensão alimentícia judicial e/ou por Escritura Pública, por falta de comprovação, ou por falta de previsão legal para sua dedução. A autoridade lançadora complementa: Não foram apresentados os comprovantes de pagamentos solicitados no Termo de Atendimento nº 2012/10000037158 Cientificado em 1/4/2013 (fls. 40), o contribuinte apresentou impugnação em 15/4/2013 (fls. 2), acompanhada dos documentos de fls. 3/19, alegando, em síntese, que apresentou os esclarecimentos e documentos solicitados por meio do Termo de Atendimento nº 2012/10000037158, que demonstram se tratar de decisão judicial, que ora reapresenta. Solicita o cancelamento da cobrança indevida e a restituição que lhe é devida. A impugnação é tempestiva e atende aos demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto 70.235/1972 e alterações. São dedutíveis da base de cálculo mensal e na DAA as importâncias pagas a título de pensão alimentícia, inclusive a prestação de alimentos provisionais, conforme normas do Direito de Família, sempre em decorrência de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente ou por escritura pública (Lei nº 9.250/1995, arts. 4º, inciso II, e 8º, inciso II, “f”; Decreto nº 3.000/1999, art. 78). Em sua DAA (fls. 25/30), o contribuinte informou o pagamento de pensão alimentícia a Paula Fabro no valor de R$15.029,00 A autoridade lançadora expõe na notificação lavrada que o contribuinte não apresentou os comprovantes de pagamentos solicitados (fls. 36). Ressalte-se que em consulta ao dossiê malha fiscal referente ao ano-calendário 2011 (processo de nº 10010.021653/0614-40) não se localizou nenhum comprovante de pagamento apresentado pelo contribuinte. Cabe mencionar que no item IV de petição judicial (cópia) juntada às fls. 3/9 consta que a pensão alimentícia deveria ser paga às filhas Fabiana Fabro (nascida em 5/11/1986) e a Paula Fabro (nascida em 28/10/1993), com desconto em folha de pagamento junto à Secretaria de Estado da Administração e da Previdência, no equivalente a 30% de seus vencimentos, sendo o valor apurado depositado em conta bancária em nome da requerente (Sônia Torres Fabro, mãe de suas filhas). Consta do Termo de Audiência juntado às fls. 11 (fls. 17 do processo judicial) a homologação da convenção de separação judicial consensual celebrada pelos cônjuges, constante de petição apresentada pelos interessados e de decisão judicial proferida às fls.16 do processo judicial. No entanto, o contribuinte não apresentou cópia dessa decisão judicial. Veja-se que o contribuinte informa no documento de fls. 18 que pelo acordo homologado deveria repassar à alimentante R$18.339,82, mas que de comum acordo repassara apenas R$15.029,00, em espécie, uma vez que a beneficiária era menor de idade e não tinha conta bancária. No entanto, cabe frisar, pela petição juntada às fls. 3/9, Fl. 82DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2001-005.466 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13925.720121/2013-14 o valor da pensão deveria ser descontado em folha de pagamento e creditado em conta bancária da mãe das beneficiárias, a ser indicada posteriormente. Analisando a documentação acostada aos autos, não se localiza cópia nem da decisão que homologou o valor da pensão judicial a ser paga e nem documento que comprove o pagamento do montante que teria sido estabelecido em provimento judicial. Assim, mantém-se a glosa efetuada pela autoridade lançadora. Diante do exposto, voto por julgar improcedente a impugnação, mantendo a exigência formalizada. A decisão de primeira instância manteve o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2012 PENSÃO ALIMENTÍCIA. COMPROVAÇÃO. A dedução da pensão alimentícia em declaração de ajuste somente é possível se os alimentos estiverem comprovadamente pagos e encontrarem amparo em decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou escritura. Cientificado da decisão de primeira instância em 25/06/2015, o sujeito passivo interpôs, em 30/06/2015, Recurso Voluntário, alegando a improcedência da decisão recorrida, sustentando, em apertada síntese, que: a) o acordo homologado judicialmente para o pagamento de pensão alimentícia está comprovado nos autos b) os pagamentos de pensão alimentícia estão comprovados nos autos É o relatório. Voto Conselheiro(a) Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator(a) O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. A questão de fundo devolvida ao conhecimento deste Colegiado consiste em decidir-se se o recorrente comprovou o pagamento de valores a título de pensão alimentícia, cuja dedução é pleiteada. A autoridade lançadora rejeitou o pedido de dedução, por entender ausentes comprovantes de pagamento, tal como o recorrente fora intimado a apresentar (fls. 15). Por seu turno, o órgão julgador de origem manteve a glosa, com o acréscimo da falta de comprovação da existência do título judicial constitutivo da obrigação alimentar. Em resposta, o recorrente afirma ter realizado os pagamentos mediante uma combinação de entrega de dinheiro em espécie e de depósitos em conta-corrente (fls. 52). Ocorre que os autos não contam com nenhuma prova referente à entrega de moeda ou ao depósito de valores em instituição financeira. Não há sequer os recibos mencionados pelo recorrente. Fl. 83DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2001-005.466 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 13925.720121/2013-14 Sem a comprovação do pagamento dos valores, é impossível restabelecer a dedução pleiteada. Ante o exposto, CONHEÇO do recurso voluntário e NEGO-LHE PROVIMENTO. É como voto. (documento assinado digitalmente) Thiago Buschinelli Sorrentino Fl. 84DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 37183.004414/2006-11
Turma: Sexta Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Wed Dec 12 00:00:00 UTC 2007
Ementa: Contribuições Sociais Previdenciárias
Data do fato gerador: 07/06/2006
Ementa: AUTO DE INFRAÇÃO. INOBSERVÂNCIA DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. ARTIGO 33, § 2°, DA LEI N° 8.212/91. Constitui infração deixar a empresa de exibir à Fiscalização quaisquer documentos ou livros
relacionados com as contribuições para a Seguridade Social, nos termos do artigo 33, § 2°, da Lei n° 8.212/91.
DECADÊNCIA. PRAZO DECENAL. O prazo decadencial para a constituição dos créditos previdenciários é de 10 (dez) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o
crédito poderia ser lançado, conforme preceitos do artigo 45, da Lei n°8.212/91.
MANUTENÇÃO DOCUMENTOS RELACIONADOS COM AS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. PRAZO. Com Mero no artigo 225, § 5°, do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n° 3.048/99, o contribuinte deverá manter os documentos relacionados com as contribuições previdenciárias à disposição do fisco durante o prazo de 10 (dez) anos.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 206-00.314
Decisão: ACORDAM os Membros da SEXTA CÂMARA d0 SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES, por unanimidade de votos: I) em rejeitar a preliminar suscitada; e II) no mérito, em negar provimento ao recurso.
Nome do relator: RYCARDO HENRIQUE MAGALHÃES DE OLIVEIRA
1.0 = *:*
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ementa_s : Contribuições Sociais Previdenciárias Data do fato gerador: 07/06/2006 Ementa: AUTO DE INFRAÇÃO. INOBSERVÂNCIA DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. ARTIGO 33, § 2°, DA LEI N° 8.212/91. Constitui infração deixar a empresa de exibir à Fiscalização quaisquer documentos ou livros relacionados com as contribuições para a Seguridade Social, nos termos do artigo 33, § 2°, da Lei n° 8.212/91. DECADÊNCIA. PRAZO DECENAL. O prazo decadencial para a constituição dos créditos previdenciários é de 10 (dez) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ser lançado, conforme preceitos do artigo 45, da Lei n°8.212/91. MANUTENÇÃO DOCUMENTOS RELACIONADOS COM AS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. PRAZO. Com Mero no artigo 225, § 5°, do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n° 3.048/99, o contribuinte deverá manter os documentos relacionados com as contribuições previdenciárias à disposição do fisco durante o prazo de 10 (dez) anos. Recurso Voluntário Negado.
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Numero do processo: 10680.927493/2016-44
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 20 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Mon Feb 06 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS)
Período de apuração: 01/07/2012 a 30/09/2012
NÃO CUMULATIVIDADE DAS CONTRIBUIÇÕES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. DIREITO A CRÉDITO.
Na não cumulatividade das contribuições sociais, consideram-se insumos os bens e serviços adquiridos que sejam essenciais ao processo produtivo ou à prestação de serviços, observados os requisitos da lei, dentre eles terem sido os bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País e terem sido, em regra, tributados pela contribuição na aquisição.
CRÉDITO. ARMAZENAGEM. OPERAÇÕES PORTUÁRIAS. CARGA E DESCARGA. POSSIBILIDADE.
Geram direito a crédito da contribuição os dispêndios com armazenagem em operações de venda, abarcando, além dos custos decorrentes da utilização de um determinado espaço, os gastos relativos a operações correlatas, como carga e descarga, observados os requisitos da lei.
CRÉDITO. SERVIÇOS. INSUMOS. INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. POSSIBILIDADE.
Geram direito a crédito os dispêndios com serviços de industrialização por encomenda, devidamente tributados pelas contribuições, utilizados como insumos na produção, observados os requisitos da lei.
CRÉDITO. FRETE ENTRE ESTABELECIMENTOS. MINÉRIO DE FERRO BRUTO E BENEFICIADO. POSSIBILIDADE.
Geram direito a crédito da contribuição os gastos com frete no transporte de minério de ferro bruto ou beneficiado entre estabelecimentos da pessoa jurídica, observados os requisitos da lei.
CRÉDITO. REVENDA. AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS. IMPOSSIBILIDADE.
Na aquisição de bens destinados à revenda, o direito ao crédito se restringe ao valor da mercadoria, inclusive do frete na hipótese de este compor o custo de aquisição, não alcançando os dispêndios com frete contratado junto a terceiros, uma vez que a possibilidade de desconto de crédito na aquisição de serviços utilizados como insumos se restringe àqueles utilizados no processo produtivo ou na prestação de serviços.
Numero da decisão: 3201-010.159
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, observados os requisitos da lei, para reverter as glosas de créditos relativas a (i) despesas com os serviços portuários (descarga e embarque), (ii) aquisição de serviço de beneficiamento do minério de ferro prestado pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em cujas notas fiscais constar o destaque das contribuições PIS/Cofins, e (iii) fretes nas transferências de minério em estado bruto e minério beneficiado entre os estabelecimentos da pessoa jurídica, vencidos o conselheiro Ricardo Sierra Fernandes, que negava provimento ao Recurso Voluntário, bem como os conselheiros Márcio Robson Costa e Marcelo Costa Marques dOliveira, que davam provimento integral ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3201-010.152, de 20 de dezembro de 2022, prolatado no julgamento do processo 10680.926535/2016-20, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Hélcio Lafetá Reis Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Ricardo Sierra Fernandes, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ricardo Rocha de Holanda Coutinho, Márcio Robson Costa, Marcelo Costa Marques dOliveira (suplente convocado) e Hélcio Lafetá Reis (Presidente). Ausente o conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, substituído pelo conselheiro Marcelo Costa Marques dOliveira.
Nome do relator: HELCIO LAFETA REIS
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AQUISIÇÃO DE INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. DIREITO A CRÉDITO. Na não cumulatividade das contribuições sociais, consideram-se insumos os bens e serviços adquiridos que sejam essenciais ao processo produtivo ou à prestação de serviços, observados os requisitos da lei, dentre eles terem sido os bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País e terem sido, em regra, tributados pela contribuição na aquisição. CRÉDITO. ARMAZENAGEM. OPERAÇÕES PORTUÁRIAS. CARGA E DESCARGA. POSSIBILIDADE. Geram direito a crédito da contribuição os dispêndios com armazenagem em operações de venda, abarcando, além dos custos decorrentes da utilização de um determinado espaço, os gastos relativos a operações correlatas, como carga e descarga, observados os requisitos da lei. CRÉDITO. SERVIÇOS. INSUMOS. INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. POSSIBILIDADE. Geram direito a crédito os dispêndios com serviços de industrialização por encomenda, devidamente tributados pelas contribuições, utilizados como insumos na produção, observados os requisitos da lei. CRÉDITO. FRETE ENTRE ESTABELECIMENTOS. MINÉRIO DE FERRO BRUTO E BENEFICIADO. POSSIBILIDADE. Geram direito a crédito da contribuição os gastos com frete no transporte de minério de ferro bruto ou beneficiado entre estabelecimentos da pessoa jurídica, observados os requisitos da lei. CRÉDITO. REVENDA. AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS. IMPOSSIBILIDADE. Na aquisição de bens destinados à revenda, o direito ao crédito se restringe ao valor da mercadoria, inclusive do frete na hipótese de este compor o custo de aquisição, não alcançando os dispêndios com frete contratado junto a terceiros, uma vez que a possibilidade de desconto de crédito na aquisição de serviços AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 92 74 93 /2 01 6- 44 Fl. 1402DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 utilizados como insumos se restringe àqueles utilizados no processo produtivo ou na prestação de serviços. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, observados os requisitos da lei, para reverter as glosas de créditos relativas a (i) despesas com os serviços portuários (descarga e embarque), (ii) aquisição de serviço de beneficiamento do minério de ferro prestado pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em cujas notas fiscais constar o destaque das contribuições PIS/Cofins, e (iii) fretes nas transferências de minério em estado bruto e minério beneficiado entre os estabelecimentos da pessoa jurídica, vencidos o conselheiro Ricardo Sierra Fernandes, que negava provimento ao Recurso Voluntário, bem como os conselheiros Márcio Robson Costa e Marcelo Costa Marques d’Oliveira, que davam provimento integral ao recurso. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3201-010.152, de 20 de dezembro de 2022, prolatado no julgamento do processo 10680.926535/2016-20, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Hélcio Lafetá Reis – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Ricardo Sierra Fernandes, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ricardo Rocha de Holanda Coutinho, Márcio Robson Costa, Marcelo Costa Marques d’Oliveira (suplente convocado) e Hélcio Lafetá Reis (Presidente). Ausente o conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, substituído pelo conselheiro Marcelo Costa Marques d’Oliveira. Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário interposto em decorrência da decisão da Delegacia de Julgamento (DRJ) que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade manejada pelo contribuinte acima identificado para se contrapor ao despacho decisório da repartição de origem, que indeferiu o pedido de ressarcimento e não homologou a compensação declarada, relativo à(ao) COFINS não cumulativa. De acordo com o Relatório Fiscal que embasou o despacho decisório, abrangendo outros períodos de apuração além do período destes autos, para efeito de definição do rateio proporcional dos custos, despesas e encargos comuns utilizados na determinação dos créditos vinculados às receitas tributadas no mercado interno, não tributadas e de exportação, foram consideradas as receitas brutas de vendas e todas as demais receitas, desconsideradas as receitas financeiras, com glosa de créditos relativamente aos seguintes dispêndios: a) serviços de operação portuária (descarga no pátio e embarque); Fl. 1403DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 b) serviços de beneficiamento do minério de ferro prestados pela Companhia Siderúrgica Nacional, em razão da suspensão das contribuições nas operações; c) transferências de produtos acabados entre os estabelecimentos Fernandinho e Pires; d) transferências de minério em estado bruto (produtos em elaboração) entre os estabelecimentos Itabirito e Rio Acima, bem como entre os estabelecimentos de Congonhas e Ouro Preto; e) frete na compra para exportação de produtos acabados (minérios) junto à empresa V&M. Constou, também, do Relatório Fiscal, que foram aproveitados de ofício os créditos descontados indevidamente. Na Manifestação de Inconformidade, o contribuinte requereu o reconhecimento integral do crédito, aduzindo o seguinte: 1) “como a alteração do rateio proporcional não causou prejuízo à Requerente, este será assumido da forma como proposta pela Fiscalização, requerendo-se, em eventuais ajustes a serem realizados em virtude das alegações e comprovações apresentadas na (...) Manifestação de Inconformidade, que estes sigam os mesmos critérios aplicados pela Autoridade Fiscal”; 2) “insumo é (i) todo bem ou serviço essencial e necessário à realização/produção de outro bem ou serviço; (ii) definido como tal a partir da integração deste bem ou serviço como fator de produção empregado, direta ou indiretamente, em determinado processo produtivo; e (iii) que a ele esteja associado de maneira que, uma vez suprimido, dificulte ou até mesmo torne inviável o regular exercício do objeto econômico escolhido pela pessoa jurídica”; 3) “não deve prosperar a glosa de 32% das despesas com os serviços portuários, referentes aos subprocessos de descarga e embarque, visto que (i) a divisão de custos das atividades de armazenagem, embarque e carga é meramente contábil, sendo que, faticamente, tais atividades são indissociáveis, compondo uma única prestação de serviço, essencial ao processo produtivo da Requerente; (ii) além disso, por argumentação, caso se considere independentes as atividades de carga (embarque) e descarga, estas devem ser consideradas despesas com prestação de serviços de frete, prestados pela fornecedora Companhia Siderúrgica Nacional à Requerente, nos exatos termos do art. 3º, IX, da Lei nº 10.833/03; e, (iii) subsidiariamente, ainda que não se entenda que tal creditamento está previsto no artigo 3º, IX, da Lei 10.833/03, é certo que poderia ser entendido como insumo, pois tais serviços são necessários para a fabricação e comercialização do bem”; Fl. 1404DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 4) “deve ser anulada a glosa sobre a parcela de 32% do custos dos serviços de operação portuária, referente aos subprocessos de carga (embarque) e descarga, uma vez que, por argumentação, ainda que houvesse fundamentos válidos que justificassem a mudança de orientação na interpretação relativa aos referidos créditos, não poderia a Administração Federal retroagir seus efeitos com relação aos exercícios anteriores, isto em razão da vedação à retroatividade dos efeitos da alteração dos critérios jurídicos, nos termos do art. 146 do Código Tributário Nacional”; 5) “ainda que se admita a legitimidade da glosa da parcela de 32% (embarque e descarga) dos créditos com serviços de operação portuária e que seja admitida a aplicação de tal alteração de critério jurídico com relação aos trimestres de 2012, não poderia o Despacho Decisório exigir multa e juros de mora da Requerente, nos termos do art. 100, parágrafo único, do CTN, devendo ser canceladas tais penalidades”; 6) “o serviço de industrialização, consistente no beneficiamento do minério de ferro bruto, é serviço aplicado diretamente no processo produtivo, bem como por se tratar de serviço essencial ao desenvolvimento de sua atividade, a Requerente tomou crédito de PIS/COFINS decorrentes das referidas despesas, com base no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.833/03”; 7) “deve ser afastada a glosa sobre os serviços de industrialização, vez que (i) estes não são abrangidos pela suspensão das contribuições previsto no Ato Declaratório Executivo nº 74/08, pois tal instrumento somente é aplicado às hipóteses de aquisição de matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem; (ii) a vedação do § 2º do art. 3º da Lei nº 10.833/03 não se aplica ao caso desta Requerente, vez que, na operação de prestação de serviço de beneficiamento em questão, não existe quaisquer das hipóteses de “alíquota zero”, “isenção” ou “não incidência” das contribuições; e (iii) ainda que não se admita o indicado nos itens (i) e (ii), deverão ser aceitos os créditos referentes às notas fiscais em que houve a tributação do PIS/COFINS pela fornecedora, acostadas à (...) Manifestação de Inconformidade”; 8) “deve ser afastada a glosa sobre despesas com frete, visto que (i) é essencial e necessário à realização/produção, que, uma vez suprimido, torna inviável o regular exercício do objeto econômico escolhido pela Requerente; (ii) a Jurisprudência do CARF corrobora o entendimento de que as despesas de frete na transferência de produtos, acabados ou não, entre estabelecimentos da mesma empresa geram créditos de PIS/COFINS; e, (iii) no caso da aquisição de minério de ferro da V&M, esta era realizada na modalidade “Free on board” – FOB, na qual a Requerente contratava empresas de transporte rodoviário para retirar o produto no estabelecimento vendedor (V&M) para entrega no estabelecimento da Requerente, não tendo nessa operação de transporte a Fl. 1405DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 suspensão das contribuições PIS/COFINS (Ato Declaratório Executivo nº 74/08), o que deve ensejar no direito ao crédito de PIS e COFINS”. A Delegacia de Julgamento (DRJ) julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, mantendo, na íntegra, o despacho decisório, considerando-se que (i) a natureza do crédito com despesas de frete na aquisição de bens segue a natureza do crédito do bem transportado, (ii) as despesas com fretes relacionados ao transporte entre estabelecimentos da empresa não dão direito a crédito na apuração da(o) COFINS sob a modalidade não cumulativa e (iii) inexistência de direito a crédito sobre o valor da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Cientificado da decisão de primeira instância, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário e reiterou seu pedido, repisando os argumentos de defesa. É o relatório. Voto Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O recurso é tempestivo, atende os demais requisitos de admissibilidade e dele se toma conhecimento. Conforme acima relatado, trata-se de despacho decisório da repartição de origem em que não se reconheceu o direito creditório pleiteado, relativo à Cofins não cumulativa, e, por conseguinte, não se homologaram as compensações declaradas. O objeto social do Recorrente encontra-se identificado nos autos como atividade industrial voltada ao beneficiamento de minério de ferro na forma bruta, dentre outros, para comercialização no mercado interno e exportação. Remanescem controvertidas nesta instância as seguintes matérias: a) direito ao desconto de créditos em relação a serviços de operação portuária (descarga no pátio e embarque); b) direito ao desconto de créditos em relação a serviços de industrialização por encomenda (beneficiamento de minério de ferro prestado pela empresa CSN); c) direito ao desconto de créditos em relação à transferência de minério de ferro beneficiado e de minério de ferro bruto entre estabelecimentos da pessoa jurídica; d) direito ao desconto de crédito em relação aos serviços de transporte rodoviário de minério de ferro adquirido junto à empresa V&M, destinado à exportação. Fl. 1406DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 Para análise do pleito do Recorrente, observar-se-ão os dispositivos das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 que regem as matérias controvertidas, com destaque para o seu art. 3º, inciso II, em que se prevê o desconto de créditos na aquisição de bens e serviços utilizados como insumos na produção ou na prestação de serviços, tendo-se em conta o critério da essencialidade (dispêndios necessários ao funcionamento do fator de produção), nos termos definidos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do REsp 1.221.170, submetido à sistemática dos recursos repetitivos, de observância obrigatória por parte deste Colegiado. Feitas essas considerações, passa-se à análise do Recurso Voluntário. I. Crédito. Serviços de operação portuária. Segundo a Fiscalização, os serviços de operação portuária, abrangendo as atividades de descarga no pátio e embarque, ocorrem em etapa posterior ao processo produtivo, na operação de venda do minério de ferro, e, portanto, não se enquadrando como insumos, tratando-se, na verdade, de gastos genéricos (gastos com utilização de carregador de navio, viradores de vagão e correia transportadora), não se caracterizando, ainda, como operação de frete na venda ou de armazenagem em operação de venda. O Recorrente, por seu turno, argumenta que as despesas com os serviços portuários (descarga e embarque) se referem a atividades indissociáveis à armazenagem e frete em operações de venda, compondo uma única prestação de serviço, essencial ao processo produtivo, razão pela qual também autorizam o desconto de crédito com base no conceito de insumo. Alega, ainda, que, por ter a Receita Federal já reconhecido, em períodos anteriores, o direito ao desconto de crédito em relação a essas atividades, a posição adotada neste processo se configura alteração de critério jurídico, cujos efeitos não podem retroagir, nos termos do art. 146 do Código Tributário Nacional (CTN). Argumenta, também, que, ainda que se admitisse a legitimidade da glosa desses créditos, dada a alteração de critério jurídico, não podia a autoridade administrativa exigir multa e juros de mora, conforme art. 100, parágrafo único, do CTN. Analisando-se os fatos sob análise neste item do voto, deve-se ressaltar, de início, que a lei não faz a redução da previsão do desconto de créditos nos termos propugnados pela Fiscalização e reafirmados pela DRJ, pois, no inciso IX do art. 3º da Lei nº 10.833/2003, o desconto de crédito encontra-se assegurado em relação à “armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor.” Fl. 1407DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 Inexiste na lei a regra segundo a qual o crédito só pode ser descontado em relação ao serviço de guarda de mercadorias, tratando-se, portanto, de uma construção interpretativa adotada pela Fiscalização e pelo julgador de piso. Não se pode perder de vista que a operação de armazenagem pressupõe, além da guarda física das mercadorias, a entrada e a saída dos bens no recinto (transbordo), controles logísticos, limpeza, conservação, segurança, consolidação etc. O seguinte excerto conceitua muito bem a operação de armazenagem: É muito comum ver pessoas confundindo os conceitos de armazenagem e estocagem, dada a similaridade inicial de ambos os termos. No entanto, saber no que cada conceito consiste ajuda numa melhor compreensão dos processos envolvidos nessa etapa dos serviços logísticos. Estocagem ou estoque refere-se aos produtos guardados em determinado espaço físico, podendo ser considerada parte do trabalho exercido na armazenagem. Já a armazenagem é um conceito muito mais amplo, referindo-se a todas as operações que são necessárias para manter um estoque, deslocar mercadorias e suprir lojas, fábricas e clientes. Resumidamente, a armazenagem não é apenas um grande armazém onde estão colocadas todas as mercadorias, insumos e matérias-primas de uma empresa, mas sim um conjunto de funções que engloba todas as etapas de movimentação e de estoque dos produtos. (g.n.) 1 Nesse sentido, constata-se que a armazenagem só se realiza com as operações de entrada e saída dos produtos em um determinado recinto ou espaço, não se restringindo, portanto, ao período em que tais bens se encontrem depositados, razão pela qual o direito ao crédito se estende às operações de carga, descarga, organização e acondicionamento. Além do mais, o referido inciso autoriza também, par a par com a armazenagem, o desconto de crédito em relação ao frete na operação de venda, hipótese essa que vem reforçar o fundamento ora adotado. Sobre essa matéria, muito bem se manifestou o Recorrente, verbis: Pois bem. Como primeiro passo da operação, depois de beneficiado, o minério de ferro é transportado por linha férrea, administrada pela concessionária MRS Logística, para seu escoamento realizado no Terminal de Carga – TECAR, localizado no Porto de Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro, operado pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional no período objeto do presente processo, qual seja, o ano de 2012. Após chegar ao Porto de Itaguaí, o trem é descarregado por meio dos viradores de vagões e o minério é armazenado, por meio de correias e empilhadeiras, nos pátios de estocagem do Porto de Itaguaí. 1 Disponível em: <<https://diavanti.com.br/armazenagem-na-logistica/>> Acesso em 19/10/2021. Fl. 1408DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 (...) Posteriormente, o minério é retirado do pátio de estocagem, por meio de retomadoras, e posicionadas na correia transportadora para o embarque em navios no terminal portuário para exportação. (...) Em suma, a operação acima ilustrada é objeto da prestação de serviço de operação portuária, prestada pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional à Recorrente, que consiste nas atividades indissociáveis de descarga do minério de ferro no pátio de estocagem (armazenamento) do Porto de Itaguaí e posterior embarque da mercadoria nos navios para a exportação. (g.n.) Esta turma julgadora já decidiu, por maioria de votos, nesses mesmos termos, verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 (...) CRÉDITO. ARMAZENAGEM. POSSIBILIDADE. Geram direito a crédito da contribuição os dispêndios com armazenagem em operações de venda, abarcando, além dos custos decorrentes da utilização de um determinado recinto, os gastos relativos a operações correlatas, como carga e descarga, conservação, organização etc., observados os demais requisitos da lei. (Acórdão nº 3201-009.425, j. 24/11/2021) Logo, reverte-se a glosa sob comento, observados os demais requisitos da lei. II. Crédito. Serviços de industrialização por encomenda. A Fiscalização, a partir da análise das notas fiscais eletrônicas, concluiu que os serviços de beneficiamento do minério de ferro prestados pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) haviam sido realizados sob o regime de suspensão da tributação das contribuições PIS/Cofins, conforme Ato Declaratório Executivo nº 74, de 30 de outubro de 2008 (processo nº 13602.001505/2008-10), que concedera à Nacional Minérios habilitação no regime especial de suspensão das contribuições na aquisição de matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem (insumos). Apurou, ainda, que as informações que comprovavam a saída com suspensão constavam do campo “Informações Complementares” da maior parte das notas fiscais emitidas, o que comprovava a ausência de tributação de tais receitas pelas contribuições PIS/Cofins. Tendo-se em conta o art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 e artigos 8º e 13 da Instrução Normativa SRF nº 595/2005, reafirmou a Fiscalização a vedação à utilização de créditos relacionados a Fl. 1409DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 aquisições de bens ou serviços não sujeitas ao pagamento das contribuições, sendo apontado no relatório fiscal que as glosas se referiram às notas fiscais em que se confirmaram as saídas com suspensão (Anexo 2b – Glosa de Serviços utilizados como insumos – Serviços de industrialização). O Recorrente se contrapõe às conclusões da Fiscalização, aduzindo que o Ato Declaratório Executivo nº 74/2008, baseado no art. 40 da Lei nº 10.865/2004, abrange somente a aquisição de bens utilizados como insumos (matéria-prima, produtos intermediários e material de embalagem), mas não a aquisição de serviços de industrialização, não podendo se afastar o direito ao crédito nesses casos pelo simples fato de ter constado, equivocadamente, no documento fiscal, um ato normativo não aplicável à operação sob comento, ainda mais quando a própria legislação de regência autoriza tal creditamento. Argumenta, ainda, destacando uma das notas fiscais emitidas pela CSN, que ele não adquiriu matéria prima, produto intermediário ou material de embalagem da CSN, mas serviço de beneficiamento do minério de ferro, serviço esse não abrangido pela norma de suspensão, pois o que efetivamente ocorria era a remessa de minério de ferro bruto à prestadora do serviço, que, então, realizava a operação de beneficiamento, retornando o produto final ao Recorrente. Analisando-se as notas fiscais acostadas aos autos, na primeira instância, pelo Recorrente, constata-se que, na nota fiscal nº 000.017.151, de 08/03/2012, consta o destaque das contribuições PIS/Cofins incidentes sobre o serviço de industrialização realizado por outra empresa, nota fiscal essa incluída no demonstrativo elaborado pela Fiscalização identificado como “Anexo 2b - Glosa Serviços Utilizados como Insumos - Serviços de Industrialização com suspensão tributária das Contribuições PIS/PASEP e COFINS”, o mesmo ocorrendo em relação a outras notas fiscais, estas relativas a períodos de apuração posteriores ao período destes autos. Consultando-se o teor do Ato Declaratório Executivo nº 74/2008, também apresentado na primeira instância, confirma-se a informação do Recorrente de que ele se refere apenas à aquisição de insumos (matéria- prima, produtos intermediários e material de embalagem), não abrangendo, por conseguinte, a aquisição de serviços de beneficiamento prestados pela CSN. Nesse sentido, em relação às aquisições de serviços de beneficiamento do minério de ferro prestados pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em cujas notas fiscais constar o destaque das contribuições PIS/Cofins, deve-se reverter, observados os demais requisitos da lei, as glosas de créditos respectivas, tendo em vista tratar- se de serviço utilizado como insumo na produção de bens destinados à venda, nos termos do inciso II do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e Fl. 1410DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 10.833/2003, dispositivo legal esse que serviu de fundamentação à Fiscalização para afastar o direito pleiteado. III. Crédito. Frete. Transporte de minério de ferro bruto e beneficiado. A Fiscalização glosou créditos relativos a despesas com o transporte de minério em estado bruto e de minério beneficiado entre estabelecimentos da pessoa jurídica, considerando que tais operações não se referem a fretes em operações de venda de mercadorias, não fazendo parte da etapa de fabricação e nem se constituindo insumos utilizados diretamente na produção de bens destinados à venda. O Recorrente se contrapõe a esse entendimento, argumentando que a contratação de serviços de transporte ocorre em vários momentos dentro de sua cadeia produtiva, não se restringindo à etapa inicial ou final da produção, mas, sim, a diferentes ocasiões nas quais há previsão legal de desconto de crédito, por se tratar de despesa essencial ao processo produtivo. Na sequência, o Recorrente detalha as referidas transferências de produtos, destacando-se os seguintes trechos de sua peça recursal: A Instalação de Tratamento de Minérios - ITM da unidade Fernandinho era alimentada por material próprio, consistindo nos seguintes equipamentos: britagem, peneiramento, classificação e concentração em separador magnético de rolo (a úmido). Após o beneficiamento, o minério de ferro seguia para ser escoado através do Terminal Ferroviário Itacolomy – TFI, localizado no estabelecimento Pires. Para a realização dessa operação de escoamento, os produtos eram transferidos da unidade Fernandinho para a unidade Pires via transporte rodoviário, para futura comercialização (exportação do minério de ferro). (...) Para a realização da citada transferência do minério entre as unidades Fernandinho I e Fernandinho II, a Recorrente faziam a contratação de empresa transportadora para esta operação. Portanto, na unidade Fernandinho II se operava a extração do minério de ferro bruto, sendo tal material transportado aos caminhões da empresa contratada para ser transferido à unidade Fernandinho I, na qual ocorria o beneficiamento do minério de ferro bruto, tornando-se produto acabado. (...) Na Mina de Engenho, operava-se a extração do minério de ferro bruto, sendo, na sequência, enviado à unidade Pires, em Ouro Preto, por meio de transporte rodoviário contratado pela Recorrente, na qual era realizado o beneficiamento do minério de ferro, gerando produtos acabados destinados à exportação. (g.n.) Conforme se verifica dos excertos supra, a atividade principal do Recorrente é exercida por um conjunto de estabelecimentos, havendo a Fl. 1411DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 extração do minério bruto em alguns deles, minério esse remetido a outras unidades para beneficiamento e posterior venda/exportação, encontrando-se tais operações inseridas no contexto do processo produtivo ou de venda do produto final. Os incisos II e IX do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 assim dispõem: Art. 3 o Do valor apurado na forma do art. 2 o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2 o da Lei n o 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (...) IX - armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. (g.n.) Conforme se verifica do inciso II supra, a lei autoriza o desconto de crédito das contribuições não cumulativas na aquisição de serviços utilizados como insumo na produção, hipótese essa em que se enquadra a operação sob análise, pois, tratando-se de produtora de bens cujo principal insumo é o minério de ferro, as despesas com frete no transporte desse insumo à unidade produtora se mostra de todo essenciais ao processo produtivo, razão pela qual as referidas glosas devem ser revertidas, observados os requisitos da lei. Esta turma de julgamento tem jurisprudência firme acerca dessa matéria, ainda que, eventualmente, por maioria de votos, verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Ano-calendário: 2006 (...) FRETE ENTRE ESTABELECIMENTOS. Há previsão legal para a apuração de créditos da não-cumulatividade das contribuições sociais em relação aos gastos com frete de transferência entre estabelecimentos da mesma empresa. Essas despesas integram o conceito de insumo empregado na produção de bens destinados à venda e se referem à operação de venda de mercadorias. Geram direito à apuração de créditos a serem descontados das contribuições sociais. (Acórdão nº 3201-009.409, rel. Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, j. 23/11/2021) (...) Fl. 1412DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10485.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10485.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/D4542.htm#tabela Fl. 12 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 (...) CRÉDITO. FRETES DE INSUMOS, PRODUTOS EM ELABORAÇÃO OU SEMIACABADOS. ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. POSSIBILIDADE. Os fretes de insumos, produtos em elaboração ou semiacabados entre estabelecimentos da mesma empresa, diante do processo produtivo explicitado, mostra-se como item essencial e pertinente à produção, devendo ser reconhecido como insumo. (Acórdão nº 3201-009.633, rel. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, j. 15/12/2021) Em relação ao transporte de produtos acabados, trata-se de despesas com frete entre estabelecimentos com destino final à exportação, hipótese essa alcançada pela previsão de desconto de créditos do inciso IX do art. 3º acima transcrito, pois, uma vez finalizada a fabricação de um produto, sua saída do estabelecimento com destino à exportação dá início à chamada “operação de venda” prevista na lei, já tendo esta turma julgadora decidido nos seguintes termos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/10/2012 a 31/12/2012 (...) CRÉDITO. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. OPERAÇÕES DE COMPRA E DE VENDA. POSSIBILIDADE. Há previsão legal para a apuração de créditos da não-cumulatividade das contribuições sociais em relação aos gastos com fretes entre estabelecimentos, assim como dos fretes realizados nas operações de transferências, de compras e de vendas. Essas despesas integram o conceito de insumo e geram direito à apuração de créditos. Fundamento: Art. 3.º, incisos II e IX, da Lei 10.833/03. BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS. TRANSPORTE DE CARGA. FRETE NA REMESSA DA PRODUÇÃO PARA FORMAÇÃO DE LOTE DE EXPORTAÇÃO. DIREITO AO CRÉDITO. Estão aptos a gerarem créditos das contribuições os bens e serviços aplicados na atividade de transporte de carga e remessa da produção, passíveis de serem enquadrados como custos de produção. Fundamento: Art. 3.º, IX, da Lei 10.833/03. FRETE. LOGÍSTICA. MOVIMENTAÇÃO CARGA. REMESSA PARA DEPÓSITO OU ARMAZENAGEM. Os serviços de movimentação de carga e remessas para depósito ou armazenagem, tanto na operação de venda quanto durante o processo produtivo da agroindústria, geram direito ao crédito. Fundamento: Art. 3.º, IX, da Lei 10.833/03. (Acórdão nº 3201-009.227, rel. Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, j. 21/09/2021) Fl. 1413DF CARF MF Original Fl. 13 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 Logo, observados os demais requisitos da lei, revertem-se as glosas dos créditos decorrentes de fretes nas transferências de minério em estado bruto e minério beneficiado entre os estabelecimentos da pessoa jurídica. IV. Crédito. Frete. Aquisição de produto para exportação. A Fiscalização glosou créditos relativos ao transporte (frete) na aquisição de minérios destinados à exportação junto à empresa V&M, considerando tratar-se de parte integrante do custo de aquisição dos bens, tendo sido verificado que as mercadorias haviam sido adquiridas com suspensão das contribuições, inviabilizando-se, portanto, o desconto de crédito pretendido, pois, no seu entender, a possiblidade de crédito do frete acompanha o regime da mercadoria transportada. O Recorrente informa que, para atender a suas demandas comerciais, ele adquiriu minério de ferro da empresa V&M, na modalidade “Free on board” (FOB), que era entregue no Terminal Ferroviário Itacolomy (TFI), na unidade Pires, por empresa de transporte rodoviário, sendo os volumes adquiridos distribuídos de acordo com a programação diária da fila de navios no Porto de Itaguaí, encontrando-se o direito ao desconto de crédito assegurado pelo inciso IX do art. 3º das Leis nº 10.833/2003 e 10.637/2002. Da descrição dada pelo Recorrente, extrai-se que, diferentemente do alegado por ele, está-se diante de uma operação de aquisição de bem para revenda, disciplinada pelo inciso I do art. 3º das Leis nº 10.833/2003 e 10.637/2002 2 . Tal previsão legal não abrange a aquisição de serviços utilizados como insumos, pois não se está diante de um processo produtivo ou da prestação de serviços, mas de mera revenda de mercadorias adquiridas, hipótese em que o crédito se restringe aos bens adquiridos, não abarcando, por conseguinte, os fretes contratados junto a terceiros, fretes esses não incluídos no preço total da mercadoria. Dito em outras palavras, tratando-se de bem adquirido para revenda, aquisição essa, conforme já dito, regida pelo inciso I do art. 3º da Lei nº 10.833/2002, a tal caso não se aplicam as disposições relativas à aquisição de bens e direitos utilizados como insumos na produção ou na prestação de serviços, estas previstas no inciso II do mesmo artigo legal. Quanto à possibilidade aventada pelo Recorrente de se aplicar o inciso IX do art. 3º das Leis nº 10.833/2003 e 10.637/2002, por se tratar, no seu entendimento, de frete em operações de venda, ela não se adequa ao fato sob análise, pois o dispêndio com transporte sob comento se refere à 2 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; e b) nos §§ 1o e 1o-A do art. 2o desta Lei; Fl. 1414DF CARF MF Original Fl. 14 do Acórdão n.º 3201-010.159 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10680.927493/2016-44 aquisição do bem para revenda e não à venda ou exportação do bem adquirido. Nesse sentido, mantém-se a glosa de crédito relativa ao presente tópico. Conclusão Importa registrar que, nos autos em exame, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, observados os requisitos da lei, para reverter as glosas de créditos relativas: (i) às despesas com os serviços portuários (descarga e embarque); (ii) à aquisição de serviço de beneficiamento do minério de ferro prestado pela empresa Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em cujas notas fiscais constar o destaque das contribuições PIS/Cofins; e (iii) aos fretes nas transferências de minério em estado bruto e minério beneficiado entre os estabelecimentos da pessoa jurídica. (documento assinado digitalmente) Hélcio Lafetá Reis – Presidente Redator Fl. 1415DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 13896.721721/2014-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 17 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Fri Jan 27 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2010
LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ATIVIDADE VINCULADA E OBRIGATÓRIA. EMPRESA EM PROCESSAMENTO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL. LEI Nº 11.101/2005.
A Fazenda Pública não fica impedida de efetuar eventuais lançamentos tributárias visando a constituição dos respectivos créditos tributários nas hipóteses em que a empresa se encontra em processamento de recuperação judicial, já que a atividade do lançamento é vinculante e obrigatória nos moldes do artigo 142, caput e parágrafo único do Código Tributário Nacional.
PRELIMINAR. ALEGAÇÃO DE NULIDADE. PRETERIÇÃO AO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO.
A nulidade no processo administrativo fiscal apenas deve ser reconhecida, excepcionalmente, nas hipóteses em que restar verificada (i) a incompetência do servidor que lavrou praticou o ato, lavrou termo ou proferiu o despacho ou decisão, ou, ainda, (ii) a violação ao direito de defesa do contribuinte em face de qualquer outra causa, como vício na motivação dos atos (ausência ou equívoco na fundamentação legal do auto de infração), indeferimento de prova pertinente e necessária ao esclarecimento dos fatos, falta de apreciação de argumento de defesa do contribuinte.
CRÉDITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA CALCULADOS COM BASE NA TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 4.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.
LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ATO ADMINISTRATIVO. PRESSUPOSTO DE EXISTÊNCIA. MOTIVAÇÃO ADEQUADA À REALIDADE DOS FATOS E DO DIREITO. ATO-NORMA VÁLIDO.
O instituto do lançamento tributário se enquadra na categoria dos atos administrativos e, enquanto tal, sua identidade estrutural é composta por elementos e pressupostos de existência, os quais, em conjunto, equivalem aos requisitos necessários para que o ato possa ser considerado como integrante do sistema jurídico, enquadrando-se, portanto, na espécie ato administrativo, inserindo-se aí os pressupostos do motivo e da motivação do ato-norma de lançamento.
Nas hipóteses em que a motivação do lançamento é adequada à realidade dos fatos e do direito o ato-norma de lançamento será válido, não havendo se cogitar, aqui, da nulidade do auto de infração, já que os motivos que ensejaram a apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas não se confundem com os motivos que implicam na apuração de omissão de rendimentos caracterizada pelos depósitos de origem não comprovada.
LANÇAMENTO. RECEITA ESCRITURADA E NÃO DECLARADA. Comprovada a existência de receita escriturada, porém não oferecida à tributação, correta a constituição dos créditos tributários relativos aos tributos sobre ela incidentes.
OMISSÃO DE RECEITAS. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. INCIDÊNCIA DE CSLL, PIS E COFINS
De acordo com o artigo 24, § 2º da Lei nº 9.249/1995, o valor da receita omitida será considerado na determinação da base de cálculo para o lançamento da contribuição social sobre o lucro líquido, da contribuição para a seguridade social - COFINS e da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PIS/PASEP.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. CARÁTER CONFISCATÓRIO. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO.
A conduta do sujeito passivo de reiteradamente deixar de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas corresponde à hipótese de sonegação e justifica a qualificação da multa de ofício imposta no lançamento de ofício.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR INFRAÇÕES. NATUREZA OBJETIVA. INTENÇÃO DO AGENTE. IRRELEVÂNCIA.
A responsabilidade por infrações à legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, bastando, para tanto, a culpa em quaisquer dos seus três graus (negligência, imperícia ou imprudência).
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUA O FATO GERADOR. INTERESSE JURÍDICO.
A aplicação da responsabilidade passiva solidária exige a presença de interesse jurídico comum que é aquele em que as pessoas são consideradas como sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato gerador. O mero interesse econômico entre tais sujeitos ou o interesse jurídico reflexo, oriundo de outra relação jurídica, afasta a aplicação da responsabilidade solidária.
DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. SÓCIOS ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE.
A conduta de reiteradamente deixar-se de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas pelo sujeito passivo corresponde à hipótese de sonegação, que não se confunde com o mero inadimplemento e justifica a atribuição de responsabilidade tributária aos sócios administradores da pessoa jurídica.
REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. CARF. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 108.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais.
Numero da decisão: 1302-006.335
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do recurso voluntário, vencido o conselheiro Ailton Neves da Silva (suplente convocado), que votou por conhecer parcialmente do recurso, deixando de conhecer da alegação relativa ao caráter confiscatório da multa de ofício, e por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade do auto de infração, e, quanto ao mérito, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, apenas, para afastar a responsabilidade tributária atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, com base no art. 124, inciso I, do CTN, vencido o conselheiro Sávio Salomão de Almeida Nóbrega (relator), que dava provimento ao recurso em maior extensão, para exonerar, também, a exigência da multa de ofício qualificada e para afastar a responsabilidade tributária atribuída aos citados sócios, com base no art. 135, inciso III, do CTN. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo, quanto às matérias em relação às quais o relator foi vencido.
(documento assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo Presidente e Redator Designado
(documento assinado digitalmente)
Sávio Salomão de Almeida Nóbrega - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ailton Neves da Silva (suplente convocado(a)), Flavio Machado Vilhena Dias, Sávio Salomão de Almeida Nobrega, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado(a)), Fellipe Honorio Rodrigues da Costa (suplente convocado(a)), Paulo Henrique Silva Figueiredo (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Marcelo Oliveira.
Nome do relator: SAVIO SALOMAO DE ALMEIDA NOBREGA
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ementa_s : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2010 LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ATIVIDADE VINCULADA E OBRIGATÓRIA. EMPRESA EM PROCESSAMENTO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL. LEI Nº 11.101/2005. A Fazenda Pública não fica impedida de efetuar eventuais lançamentos tributárias visando a constituição dos respectivos créditos tributários nas hipóteses em que a empresa se encontra em processamento de recuperação judicial, já que a atividade do lançamento é vinculante e obrigatória nos moldes do artigo 142, caput e parágrafo único do Código Tributário Nacional. PRELIMINAR. ALEGAÇÃO DE NULIDADE. PRETERIÇÃO AO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. A nulidade no processo administrativo fiscal apenas deve ser reconhecida, excepcionalmente, nas hipóteses em que restar verificada (i) a incompetência do servidor que lavrou praticou o ato, lavrou termo ou proferiu o despacho ou decisão, ou, ainda, (ii) a violação ao direito de defesa do contribuinte em face de qualquer outra causa, como vício na motivação dos atos (ausência ou equívoco na fundamentação legal do auto de infração), indeferimento de prova pertinente e necessária ao esclarecimento dos fatos, falta de apreciação de argumento de defesa do contribuinte. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA CALCULADOS COM BASE NA TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 4. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ATO ADMINISTRATIVO. PRESSUPOSTO DE EXISTÊNCIA. MOTIVAÇÃO ADEQUADA À REALIDADE DOS FATOS E DO DIREITO. ATO-NORMA VÁLIDO. O instituto do lançamento tributário se enquadra na categoria dos atos administrativos e, enquanto tal, sua identidade estrutural é composta por elementos e pressupostos de existência, os quais, em conjunto, equivalem aos requisitos necessários para que o ato possa ser considerado como integrante do sistema jurídico, enquadrando-se, portanto, na espécie ato administrativo, inserindo-se aí os pressupostos do motivo e da motivação do ato-norma de lançamento. Nas hipóteses em que a motivação do lançamento é adequada à realidade dos fatos e do direito o ato-norma de lançamento será válido, não havendo se cogitar, aqui, da nulidade do auto de infração, já que os motivos que ensejaram a apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas não se confundem com os motivos que implicam na apuração de omissão de rendimentos caracterizada pelos depósitos de origem não comprovada. LANÇAMENTO. RECEITA ESCRITURADA E NÃO DECLARADA. Comprovada a existência de receita escriturada, porém não oferecida à tributação, correta a constituição dos créditos tributários relativos aos tributos sobre ela incidentes. OMISSÃO DE RECEITAS. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. INCIDÊNCIA DE CSLL, PIS E COFINS De acordo com o artigo 24, § 2º da Lei nº 9.249/1995, o valor da receita omitida será considerado na determinação da base de cálculo para o lançamento da contribuição social sobre o lucro líquido, da contribuição para a seguridade social - COFINS e da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PIS/PASEP. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. CARÁTER CONFISCATÓRIO. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A conduta do sujeito passivo de reiteradamente deixar de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas corresponde à hipótese de sonegação e justifica a qualificação da multa de ofício imposta no lançamento de ofício. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR INFRAÇÕES. NATUREZA OBJETIVA. INTENÇÃO DO AGENTE. IRRELEVÂNCIA. A responsabilidade por infrações à legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, bastando, para tanto, a culpa em quaisquer dos seus três graus (negligência, imperícia ou imprudência). RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUA O FATO GERADOR. INTERESSE JURÍDICO. A aplicação da responsabilidade passiva solidária exige a presença de interesse jurídico comum que é aquele em que as pessoas são consideradas como sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato gerador. O mero interesse econômico entre tais sujeitos ou o interesse jurídico reflexo, oriundo de outra relação jurídica, afasta a aplicação da responsabilidade solidária. DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. SÓCIOS ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE. A conduta de reiteradamente deixar-se de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas pelo sujeito passivo corresponde à hipótese de sonegação, que não se confunde com o mero inadimplemento e justifica a atribuição de responsabilidade tributária aos sócios administradores da pessoa jurídica. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. CARF. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 108. O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais.
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ATIVIDADE VINCULADA E OBRIGATÓRIA. EMPRESA EM PROCESSAMENTO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL. LEI Nº 11.101/2005. A Fazenda Pública não fica impedida de efetuar eventuais lançamentos tributárias visando a constituição dos respectivos créditos tributários nas hipóteses em que a empresa se encontra em processamento de recuperação judicial, já que a atividade do lançamento é vinculante e obrigatória nos moldes do artigo 142, caput e parágrafo único do Código Tributário Nacional. PRELIMINAR. ALEGAÇÃO DE NULIDADE. PRETERIÇÃO AO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. A nulidade no processo administrativo fiscal apenas deve ser reconhecida, excepcionalmente, nas hipóteses em que restar verificada (i) a incompetência do servidor que lavrou praticou o ato, lavrou termo ou proferiu o despacho ou decisão, ou, ainda, (ii) a violação ao direito de defesa do contribuinte em face de qualquer outra causa, como vício na motivação dos atos (ausência ou equívoco na fundamentação legal do auto de infração), indeferimento de prova pertinente e necessária ao esclarecimento dos fatos, falta de apreciação de argumento de defesa do contribuinte. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA CALCULADOS COM BASE NA TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 4. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. ATO ADMINISTRATIVO. PRESSUPOSTO DE EXISTÊNCIA. MOTIVAÇÃO ADEQUADA À REALIDADE DOS FATOS E DO DIREITO. ATO-NORMA VÁLIDO. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 89 6. 72 17 21 /2 01 4- 75 Fl. 585DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 O instituto do lançamento tributário se enquadra na categoria dos atos administrativos e, enquanto tal, sua identidade estrutural é composta por elementos e pressupostos de existência, os quais, em conjunto, equivalem aos requisitos necessários para que o ato possa ser considerado como integrante do sistema jurídico, enquadrando-se, portanto, na espécie “ato administrativo”, inserindo-se aí os pressupostos do motivo e da motivação do ato-norma de lançamento. Nas hipóteses em que a motivação do lançamento é adequada à realidade dos fatos e do direito o ato-norma de lançamento será válido, não havendo se cogitar, aqui, da nulidade do auto de infração, já que os motivos que ensejaram a apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas não se confundem com os motivos que implicam na apuração de omissão de rendimentos caracterizada pelos depósitos de origem não comprovada. LANÇAMENTO. RECEITA ESCRITURADA E NÃO DECLARADA. Comprovada a existência de receita escriturada, porém não oferecida à tributação, correta a constituição dos créditos tributários relativos aos tributos sobre ela incidentes. OMISSÃO DE RECEITAS. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. INCIDÊNCIA DE CSLL, PIS E COFINS De acordo com o artigo 24, § 2º da Lei nº 9.249/1995, o valor da receita omitida será considerado na determinação da base de cálculo para o lançamento da contribuição social sobre o lucro líquido, da contribuição para a seguridade social - COFINS e da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PIS/PASEP. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. CARÁTER CONFISCATÓRIO. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A conduta do sujeito passivo de reiteradamente deixar de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas corresponde à hipótese de sonegação e justifica a qualificação da multa de ofício imposta no lançamento de ofício. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR INFRAÇÕES. NATUREZA OBJETIVA. INTENÇÃO DO AGENTE. IRRELEVÂNCIA. A responsabilidade por infrações à legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, bastando, para tanto, a culpa em quaisquer dos seus três graus (negligência, imperícia ou imprudência). Fl. 586DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUA O FATO GERADOR. INTERESSE JURÍDICO. A aplicação da responsabilidade passiva solidária exige a presença de interesse jurídico comum que é aquele em que as pessoas são consideradas como sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato gerador. O mero interesse econômico entre tais sujeitos ou o interesse jurídico reflexo, oriundo de outra relação jurídica, afasta a aplicação da responsabilidade solidária. DECLARAÇÕES E RECOLHIMENTO REITERADAMENTE REALIZADOS A MENOR. SONEGAÇÃO. SÓCIOS ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE. A conduta de reiteradamente deixar-se de confessar e recolher os tributos devidos em relação às receitas efetivamente auferidas pelo sujeito passivo corresponde à hipótese de sonegação, que não se confunde com o mero inadimplemento e justifica a atribuição de responsabilidade tributária aos sócios administradores da pessoa jurídica. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. CARF. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 108. O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do recurso voluntário, vencido o conselheiro Ailton Neves da Silva (suplente convocado), que votou por conhecer parcialmente do recurso, deixando de conhecer da alegação relativa ao caráter confiscatório da multa de ofício, e por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade do auto de infração, e, quanto ao mérito, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, apenas, para afastar a responsabilidade tributária atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, com base no art. 124, inciso I, do CTN, vencido o conselheiro Sávio Salomão de Almeida Nóbrega (relator), que dava provimento ao recurso em maior extensão, para exonerar, também, a exigência da multa de ofício qualificada e para afastar a responsabilidade tributária atribuída aos citados sócios, com base no art. 135, inciso III, do CTN. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo, quanto às matérias em relação às quais o relator foi vencido. (documento assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo – Presidente e Redator Designado (documento assinado digitalmente) Sávio Salomão de Almeida Nóbrega - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ailton Neves da Silva (suplente convocado(a)), Flavio Machado Vilhena Dias, Sávio Salomão de Almeida Nobrega, Fernando Beltcher da Silva (suplente convocado(a)), Fellipe Honorio Rodrigues da Costa Fl. 587DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 (suplente convocado(a)), Paulo Henrique Silva Figueiredo (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Marcelo Oliveira. Relatório Trata-se, na origem, de Autos de Infração por meio dos quais foram constituídos créditos tributários de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ (fls. 184/199), Contribuição sobre o Lucro Líquido – CSLL (fls. 200/211), Contribuição para o PIS/PASEP (fls. 212/218) e de Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS (fls. 219/225), relativos ao ano-calendário de 2010 e cujos débitos correlatos restaram formalizados no montante total de R$ 4.544,124.87, incluindo-se aí a cobrança dos respectivos impostos e contribuições, a incidência de juros de mora e a aplicação de multa qualificada no percentual de 150%. Com base no Relatório do Acórdão recorrido nº 16-70.314 que foi elaborado pela 10ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo – SP, o qual estarei por adotá-lo, aqui, e transcrevê-lo, a seguir, em relação aos pontos que aqui nos interessam, a autuação fiscal tal qual relatada no Relatório do Auto de Infração de fls. 227/241 pode ser facilmente compreendida a partir dos elementos fático-jurídicos a seguir reproduzidos: “No relatório do auto de infração (fls. 227 a 241), a fiscalização informa que constatou a existência de receitas escrituradas e não declaradas no ano-calendário de 2010. Relata que examinou as notas fiscais eletrônicas emitidas pela contribuinte e apurou o total de receitas de vendas e revendas no montante de R$ 26.252.313,78, valor compatível com o constante da Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA e com a relação de notas fiscais de saída entregue pela contribuinte. Fl. 588DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 A fiscalização relata que a contribuinte informou, na Declaração de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ (lucro presumido), nas Declarações de Contribuições e Tributos Federais – DCTF e nos Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais – Dacon, apenas o montante de R$ 2.559.378,29 como receitas auferidas no ano-calendário de 2010, deixando de declarar aproximadamente 90% dos valores recebidos pela comercialização de suas mercadorias apurados nas notas fiscais eletrônicas. A tabela abaixo sintetiza os valores declarados e recolhidos pela contribuinte: Na tabela a seguir, estão demonstradas as diferenças entre os valores de receitas apurados nas notas fiscais e os informados na DIPJ e nos Dacon: Fl. 589DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 A fiscalização alega que, constatada a declaração inexata dos valores das receitas tributáveis, deve ser efetuado o lançamento de ofício, conforme previsto no art. 841 do RIR/99. Sustenta que a conduta reiterada da contribuinte em declarar receitas significativamente inferiores às auferidas configura sonegação, conforme disposto no art. 71, I, da Lei nº 4.502/64, o que enseja a aplicação da multa qualificada prevista no art. 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Acrescenta que deve ser atribuída responsabilidade tributária solidária aos sócios da pessoa jurídica Ariovaldo Coyado, CPF 853.461.288-91, e Carlos Oliveira Costa, CPF 816.736.638-34, com base nos artigos 124, I, e 135, III, do Código Tributário Nacional, tendo sido lavrados os termos de sujeição passiva de fls. 479 e 481. A fiscalização também informa que foi formalizada representação fiscal para fins penais, que deu origem ao processo administrativo nº 13896.721722/2014-10. A pessoa jurídica autuada e os responsáveis tributários foram cientificados das autuações por via postal em 01/07/2014 (fls. 484, 486 e 488).” A empresa e os responsáveis tributários foram notificados da autuação fiscal por via postal e, aí, em conjunto, entenderam por apresentar a Impugnação de fls. 492/507 por meio da qual suscitaram, em síntese, as seguintes alegações: (i) Que se encontrara em Recuperação Judicial e que, no caso, não houve qualquer intuito lesivo ou fraudulento e que, ainda assim, se houve erro, ocorreu por culpa exclusiva do profissional contabilista contratado; (ii) Que a autuação era nula em razão da inexistência de metodologia, o que teria ocasionado a preterição ao seu direito de defesa; Fl. 590DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 (iii) Que a Taxa Selic foi considerada como índice de correção / atualização dos créditos tributários em flagrante violação ao artigo 161, §1º do Código Tributário Nacional; (iv) Que a autoridade fiscal não poderia ter utilizado a sistemática do lançamento de ofício sem qualquer embasamento e/ou com fundamento em suposições e, portanto, ante a ausência de documentação comprobatória, violou o princípio da reserva legal, nos termos do que estabelecem os artigos 3º, 97 e 142 do CTN, do que se conclui, pois, que os lançamentos estimados não se amoldam ao conceito de disponibilidade econômica ou jurídica previsto no artigo 43 do CTN; (v) Que a multa na modalidade duplicada apresentava caráter confiscatório, bem assim que não houve, no caso, má-fé ou conluio lesivo; (vi) Que a desconsideração da personalidade jurídica e a inclusão dos responsáveis solidários não possuía embasamento; e (vii) Que, no caso, não existiu qualquer sonegação, conluio ou má-fé por parte dos sócios, de modo que não existia qualquer justificativa para a apresentação de Representação Fiscal para Fins Penais – RFFP. Os autos foram encaminhados à autoridade julgadora de 1ª instância para que a respectiva defesa administrativa fosse apreciada e, aí, em Acórdão de fls. 533/547, a 10ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo – SP entendeu por julgá- la improcedente, de modo que tanto a cobrança dos créditos tributários foi mantida in totum quanto as responsabilidades tributárias solidárias tais quais atribuídas também restaram mantidas. Ao final, o referido Acórdão nº 16-70.314 restou ementado nos seguintes termos: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010 NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Com o início da fase litigiosa, a contribuinte tem o direito de exercer plenamente seu direito de defesa, podendo apresentar todos os elementos de prova contra o lançamento. Não há cerceamento do direito à ampla defesa se o relatório do auto de infração descreve em detalhe a infração imputada ao sujeito passivo. LANÇAMENTO. EMPRESA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. A Fazenda Pública não fica impedida de proceder ao lançamento, que constitui atividade vinculada e obrigatória da autoridade administrativa, quando a contribuinte encontra-se em recuperação judicial. LANÇAMENTO. RECEITA ESCRITURADA E NÃO DECLARADA. Comprovada a existência de receita escriturada, porém não oferecida à tributação, correta a constituição dos créditos tributários relativos aos tributos sobre ela incidentes. MULTA DE OFÍCIO. O julgador administrativo não pode afastar a aplicação da multa prevista em lei e carece de competência para apreciar questões suscitadas quanto à inconstitucionalidade da legislação tributária. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas cumprir a determinação legal. Fl. 591DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 MULTA QUALIFICADA. ART. 44, I, §1º DA LEI N° 9.430/96. SONEGAÇÃO. ART. 71 DA LEI N° 4.502/64. Não cumprir com as obrigações tributárias acessórias quanto a apresentação regular de declarações, informando corretamente a receita decorrente das operações da empresa, configura omissão dolosa tendente a impedir ou retardar o conhecimento da Autoridade Fazendária da ocorrência do fato gerador, conforme preceitua o art. 71 da Lei 4.502/64. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A utilização da taxa SELIC para o cálculo dos juros de mora decorre de disposição expressa em lei, não cabendo aos órgãos do Poder Executivo afastar sua aplicação. CSLL. PIS. COFINS. LANÇAMENTOS REFLEXOS. A ocorrência de eventos que representam, ao mesmo tempo, fatos geradores de vários tributos, implicam a obrigatoriedade de constituição dos respectivos créditos tributários. A decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. Nos termos do art. 124, inciso I, do CTN, as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador respondem solidariamente. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Os atos da pessoa jurídica são manifestados por meio de seu representante legal. Omitir informação para eximir-se de pagamento de tributo, configura ato ilícito conforme preceitua o art. 135, III, do CTN. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. Não compete às Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento pronunciar-se acerca de Representação Fiscal para Fins Penais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido.” Na sequência, a empresa Brylcor-Santana Indústria e Comércio de Tintas e Vernizes Ltda. foi devida e regularmente intimada do resultado da decisão proferida pela autoridade julgadora de 1ª instância por via postal em 11/01/2016 (fls. 561), enquanto que os responsáveis solidárias Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa foram intimados, respectivamente, através dos Editais nº 001947376 (fls. 563) e 001947379 (fls. 565), sendo que, no final, o Recurso Voluntário foi apresentado em conjunto tanto pela empresa quanto pelos responsáveis. E, aí, os autos foram encaminhados a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF para que o recurso seja apreciado. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Sávio Salomão de Almeida Nóbrega, Relator. De início, devo analisar a admissibilidade do Recurso Voluntário interposto pela empresa Brylcor-Santana Indústria e Comércio de Tintas e Vernizes Ltda. e pelos responsáveis Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa (fls. 567/582) para verificar se os pressupostos recursais intrínsecos e extrínsecos encontram-se presentes. Fl. 592DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 A começar pela análise do requisito extrínseco da tempestividade, verifico, de plano, que a Brylcor-Santana Indústria e Comércio de Tintas e Vernizes Ltda. tomou conhecimento do resultado da decisão proferida pela autoridade julgadora de 1ª instância por via postal em 11/01/2016 (fls. 561). O responsável Ariovaldo Coyado foi intimado do teor do acórdão recorrido através do Edital nº 001947376, cuja ciência ocorreu efetivamente em 02/02/2016 (fls. 563). Do mesmo modo, o responsável Carlos Oliveira Costa também foi intimado do resultado da decisão proferida pela autoridade julgadora de piso por meio do Edital nº 001947379, cuja ciência ocorreu em 02/02/2016 (fls. 565). As partes, em conjunto, entenderam por interpor o Recurso Voluntário em 01/02/2016. A título de esclarecimentos, pode-se dizer que, ao menos em relação aos responsáveis Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, o Recurso foi apresentado de forma prematura, já que eles foram intimados do resultado do teor do Acórdão recorrido nº 16-70.314 em data posterior ao à data em que o recurso foi efetivamente protocolado, ou seja, antes do início da contagem do prazo previsto no artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Todavia, por força do artigo 218, 4º da Lei nº 13.105/2015, o requisito da tempestividade restou devidamente cumprido. Considerando, pois, que o Recurso Voluntário foi formalizado dentro do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33 do Decreto nº 70.235/72 e preenche os demais pressupostos de admissibilidade recursais, devo conhecê-lo e, por isso mesmo, passo a apreciá-lo e examinar as alegações preliminares e meritórias formuladas, as quais, a rigor, serão tratadas em tópicos apartados. Observo, de plano, que os recorrentes Brylcor-Santana Indústria e Comércio de Tintas e Vernizes Ltda., Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa sustentam , basicamente, as mesmas alegações que já havia suscitada em sede de impugnação, as quais podem ser assim sintetizadas: (i) Que se encontra em Recuperação Judicial e que, no caso, não houve qualquer intuito lesivo ou fraudulento e que, ainda assim, se houve erro, ocorreu por culpa exclusiva do profissional contabilista contratado; (ii) Que a Certidão de Dívida Ativa - CDA é nula em razão da inexistência de metodologia no que tange com a composição do valor da CDA e, ainda, em decorrência da falta do preenchimento dos requisitos previstos nos artigos 2º da Lei nº 6.830/80 e 202 do Código Civil, que exigem que os dispositivos legais que embasaram a constituição do crédito constem na CDA, o que acabou ocasionado, pois, a preterição ao seu direito de defesa, nos termos do que dispõe o artigo 5º, inciso LV da Constituição Federal, que encampa os princípios do contraditório e ampla defesa; (iii) Que a Taxa Selic foi considerada como índice de correção ou atualização dos créditos tributários em flagrante violação ao que é previsto no artigo 161, §1º do Código Tributário Nacional; (iv) Que a autoridade fiscal não poderia ter utilizado a sistemática do lançamento de ofício sem qualquer embasamento e/ou com fundamento em suposições e, portanto, ante a ausência de documentação comprobatória, violou o princípio da reserva legal nos moldes do que estabelecem os artigos 3º, 97 e 142 do CTN, do que se conclui, pois, que Fl. 593DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 os lançamentos estimados não se amoldam ao conceito de disponibilidade econômica ou jurídica previsto no artigo 43 do CTN; (v) Que a multa na modalidade duplicada apresenta caráter confiscatório, bem assim que não houve, no caso, má-fé ou conluio lesivo; (vi) Que a desconsideração da personalidade jurídica e a inclusão dos responsáveis solidários não possui embasamento; e (vii) Que, no caso, não existiu qualquer sonegação, conluio ou má-fé por parte dos sócios, de modo que não existiria qualquer justificativa para a apresentação de Representação Fiscal para Fins Penais – RFFP. Com base em tais alegações, a recorrente requer que o seu recurso seja julgado totalmente procedente para que o acórdão recorrido seja reformado e o lançamento efetuado seja cancelado, bem assim que, subsidiariamente, caso não seja esse o entendimento, que, ao menos, a multa qualificada, a responsabilidade solidária dos sócios e a Representação Fiscal para Fins Penais –RFFP sejam canceladas. Passemos, então, ao exame das questões que devem ser aqui enfrentadas e devidamente analisadas. 1. Das alegações acerca da recuperação judicial De início, registre-se que o fato de a empresa Brylcor-Santana Indústria e Comércio de Tintas e Vernizes Ltda. encontrar-se em processo de recuperação judicial nos moldes da Lei nº 11.101, de 09 de fevereiro de 2005, não é suficiente para impedir que a autoridade fiscal possa efetuar o lançamento e constituir o respectivo crédito tributário, ainda mais quando se tem em vista que o lançamento tributário é atividade vinculada à lei e obrigatória, nos termos do artigo 142, caput e parágrafo único do Código Tributário Nacional. Aliás, note-se que, à época dos fatos aqui discutidos, o próprio artigo 6º, § 7º da Lei nº 11.101/2005 dispunha que a decretação da falência ou o do processamento de recuperação judicial não implicaria na suspensão das execuções fiscais. Veja-se: “Lei nº 11.101/2005 Art. 6º A decretação da falência ou o deferimento do processamento da recuperação judicial suspende o curso da prescrição e de todas as ações e execuções em face do devedor, inclusive aquelas dos credores particulares do sócio solidário. [...] § 7º As execuções de natureza fiscal não são suspensas pelo deferimento da recuperação judicial, ressalvada a concessão de parcelamento nos termos do Código Tributário Nacional e da legislação ordinária específica.” Vale destacar, ainda, que o artigo 187 da Lei nº 5.172/66 – Código Tributário Nacional é claro ao dispor que o crédito tributário não está sujeito a concurso de credores ou habilitação em falência ou em processamento de recuperação judicial. Confira-se: Fl. 594DF CARF MF Original Fl. 11 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 “Lei nº 5.172/66 Art. 187. A cobrança judicial do crédito tributário não é sujeita a concurso de credores ou habilitação em falência, recuperação judicial, concordata, inventário ou arrolamento. (Redação dada pela Lcp nº 118, de 2005) (Vide ADPF 357) Parágrafo único. O concurso de preferência somente se verifica entre pessoas jurídicas de direito público, na seguinte ordem: I - União; II - Estados, Distrito Federal e Territórios, conjuntamente e pró rata; III - Municípios, conjuntamente e pró rata.” Decerto que, no curso do litígio tributário instaurado através da reclamações administrativas, o crédito tributário permanece com a exigibilidade suspensa, de acordo com o que dispõe o artigo 151, inciso III do Código Tributário Nacional 1 , todavia, reafirme-se que o processamento de recuperação judicial não impede que as autoridades fiscais possam efetuar eventuais lançamentos tributários visando a constituição dos respectivos créditos tributários. A jurisprudência deste Tribunal Administrativo tem sustentando essa linha de entendimento, conforme se verifica do precedente citado abaixo: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE (IRRF) Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006 RECUPERAÇÃO JUDICIAL. LANÇAMENTO. Mesmo estando a empresa em processo de recuperação judicial de que trata a Lei nº 11.101, de 2005, seus tributos devidos não pagos nem confessados serão objeto de lançamento, juntamente com a multa de ofício e os juros de mora. (Processo nº 15540.000580/2008-61. Acórdão nº 1402-005.689. Sessão de 21/07/2021. Acórdão publicado em 03/09/2021).” Por essas razões, conclui-se que a existência do processo de recuperação judicial não constitui óbice à lavratura dos autos de infração. 2. Das alegações de nulidade em razão da preterição ao direito de defesa O artigo 59 do Decreto nº 70.235/72 prescreve duas hipóteses de nulidade dos atos jurídicos administrativos. Confira-se: “Decreto nº 70.235/72 Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.” 1 Cf. Lei nº 5.172/66. Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: III - as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo. Fl. 595DF CARF MF Original Fl. 12 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Pelo que se observa, enquanto a regra constante do inciso I se refere a pressuposto subjetivo (agente competente) de atos processuais (atos, termos, despachos e decisões), a regra insculpida no inciso II atende a pressuposto processual de ato decisório, porquanto a obediência ao princípio constitucional da ampla defesa é mandatória em todo o processo administrativo fiscal. O que nos interessa efetivamente para o deslinde da questão que ora se analisa é verificar que o inciso II cuida da nulidade decorrente do cerceamento do direito de defesa, que, no âmbito do processo administrativo fiscal, é garantido pela Constituição Federal, sendo essa a razão pela qual as decisões administrativas devem sempre ser proferidas em respeito aos princípios do contraditório e ampla defesa, sob pena de serem consideradas nulas em decorrência da falta de elemento essencial à sua formação. Nas palavras de Leandro Paulsen, René Bergmann Ávila e Ingrid Schroder Sliwka 2 , “[A nulidade no processo administrativo fiscal] Só deve ser reconhecida excepcionalmente, quando verificada: a) incompetência do servidor que lavrou praticou o ato, lavrou termo ou proferiu o despacho ou decisão; ou b) violação ao direito de defesa do contribuinte em face de qualquer outra causa, como vício na motivação dos atos (ausência ou equívoco na fundamentação legal do auto de infração), indeferimento de prova pertinente e necessária ao esclarecimento dos fatos, falta de apreciação de argumento de defesa do contribuinte.” É nesse mesmo sentido Marcos Vinicius Neder e Maria Teresa Martínez López 3 se manifestam: “O artigo 59 trata de nulidade por vício de incompetência, seja dos atos e termos processuais (inc. I), seja dos despachos e decisões (inc. II) (...). [...] O inciso II cuida, ainda, da nulidade decorrente de cerceamento do direito de defesa que, no processo administrativo fiscal, é garantido pela Constituição Federal. Daí as decisões administrativas devem ser emitidas sempre em respeito aos princípios do contraditório e da ampla defesa sob pena de serem consideradas nulas pela falta de elemento essencial à sua formação. Da mesma forma, a omissão de requisitos essenciais enseja a nulidade do lançamento quando cercearem o direito de defesa do contribuinte.” Fixadas essas premissas iniciais, observe-se que todas as informações necessárias para a boa compreensão das razões fáticas e jurídicas relativas às exigências tributárias aqui discutidas restaram expostas, de forma clara, no Relatório do Auto de Infração de fls. 227/242, a partir das quais se verifica, com precisão, todos os enquadramentos legais que serviram de suporte para a feitura dos respectivos lançamentos. De fato, a autoridade fiscal demonstrou, com clareza, que o motivo da autuação foi a existência de receitas não declaradas, apuradas pela comparação entre as receitas constantes 2 PAULSEN, Leandro; ÁVILA, René Bergmann; SLIWKA, Ingrid Schroder. Direito processual tributário: Processo administrativo fiscal e execução fiscal à luz da doutrina e da jurisprudência. 8. ed. rev. e atual. Porto Alegre: Livraria do advogado, 2014, Não paginado. 3 NEDER, Marcos Vinicius; LÓPEZ, Maria Teresa Martínez. Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado (de acordo com a Lei nº 11.941, de 2009, e o Regimento Interno do CARF). 3. ed. São Paulo: Dialética, 2010, Não paginado. Fl. 596DF CARF MF Original Fl. 13 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 das notas fiscais de saída e as declaradas à Receita Federal na DIPJ, DCTF e Dacon. Cabe ressaltar, ainda, que o Anexo I do Relatório do Auto de Infração traz a relação individualizada das notas fiscais de vendas de produtos em 2010 (fls. 243 a 477). Além disso, a contribuinte foi intimada, no curso do procedimento fiscal, por meio do termo de intimação fiscal 006 (fls. 22 a 33), a “esclarecer, por escrito, qual a razão das divergências entre os valores das Receitas apuradas conforme as notas Fiscais e os valores informados em sua DIPJ conforme demonstrado na Planilha ‘TIF 006 – Comparativo Receitas conforme notas fiscais x Receita Declarada DIPJ’, parte integrante deste TIF”, mas, no final, não apresentou qualquer manifestação em resposta. Por essas razões, entendo por rejeitar a preliminar de nulidade do auto de infração porque não houve, no caso, qualquer cerceamento ao direito de defesa. 3. Das alegações sobre a impossibilidade de atualização do crédito com base na Taxa Selic Como é sabido, a obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto o pagamento do tributo ou de penalidade e extingue-se com o crédito dela decorrente, nos termos do artigo 113, § 1º do Código Tributário Nacional 4 . Por outro lado, o artigo 139 do Código Tributário Nacional dispõe que o crédito tributário decorre da obrigação principal e apresenta mesma natureza 5 . A partir da interpretação conjunta dos respectivos dispositivos, conclui-se que o crédito tributário inclui tanto o valor do tributo quanto o da penalidade pecuniária, haja vista que tanto o crédito quanto a penalidade constituem a obrigação tributação, a qual, aliás, tem a mesma natureza do crédito a ela correspondente. Em outras palavra, um é a imagem absolutamente simétrica do outro, apenas invertida. E, aí, como o crédito tributário correspondente à obrigação tributária e esta é constituída de tributo e de penalidade pecuniária, diz-se que a penalidade, portanto, compõe o crédito. Ao tratar do crédito, o artigo 161 do Código Tributário Nacional estabelece que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis. Confira-se: “Lei nº 5.172/66 SEÇÃO II - Pagamento Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. 4 Cf. Lei n 5.172/66. Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue-se juntamente com o crédito dela decorrente. 5 Cf. Lei nº 5.172/66 Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Fl. 597DF CARF MF Original Fl. 14 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.” Pelo que pode observar, verificado o inadimplemento do tributo será cabível a incidência dos juros de mora sobre o principal, desde a data do vencimento da obrigação até a data da lavratura do auto de infração, bem como a aplicação de multa punitiva, que, a propósito, passam a integrar o crédito fiscal consolidado, que é o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Não se pode olvidar que os juros moratórios representam, efetivamente, o preço do direito, isto é, o valor que o detentor da moeda (contribuinte) paga ao seu legítimo proprietário (Fisco) pela posse temporária do numerário que, aliás, desde o vencimento da obrigação já é de sua titularidade. Com efeito, a partir da data de vencimento especificado no Auto de Infração para o pagamento espontâneo, o Sujeito Passivo passa a figurar como potencial devedor do montante consolidado objeto do lançamento tributário. Os juros, portanto, são devidos para compensar a demora do sujeito em relação ao pagamento do crédito tributário consolidado. E, aí, se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do crédito tributário consolidado. E tanto é assim que este Tribunal acabou entendendo por fixar esse entendimento através da edição da Súmula CARF nº 4 que, a rigor, é de natureza vinculante e, por isso mesmo, acaba compondo o rol das normas tributárias complementares, nos termos do que prescreve o artigo 100, inciso II do Código Tributário Nacional. Confira-se: “Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018).” A título de esclarecimentos, note-se que, muito embora o artigo 100, inciso II do Código Tributário Nacional6 prescreva que as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa a que a lei atribua eficácia normativa equivalem a normas complementares das leis, tratados, convecções internacionais e decretos, é de se reconhecer que essa competência só veio a ser exercida a partir da promulgação da Lei nº 11.196/2005 a qual, a rigor, acabou conferindo força vinculante às súmulas aprovadas pela Câmara Superior de Recursos Fiscais – CSRF. Atualmente, a edição de súmulas e a atribuição de efeito vinculante conferido pelo Ministro da Economia estão previstas no próprio Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria do Ministério da Fazenda nº 343, de 09 de junho de 2015. Confira-se: “PORTARIA MF Nº 343, DE 09 DE JUNHO DE 2015. 6 Cf. Lei nº 5.172/1966. Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: [...] II - as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa. Fl. 598DF CARF MF Original Fl. 15 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 CAPÍTULO V - DAS SÚMULAS Art. 72. As decisões reiteradas e uniformes do CARF serão consubstanciadas em súmula de observância obrigatória pelos membros do CARF. [...] Art. 75. Por proposta do Presidente do CARF, do Procurador-Geral da Fazenda Nacional, do Secretário da Receita Federal do Brasil ou de Presidente de Confederação representativa de categoria econômica ou profissional habilitada à indicação de conselheiros, o Ministro de Estado da Fazenda poderá atribuir à súmula do CARF efeito vinculante em relação à administração tributária federal. [...] § 2º A vinculação da administração tributária federal na forma prevista no caput dar-se- á a partir da publicação do ato do Ministro de Estado da Fazenda no Diário Oficial da União.” (grifei). Por essas razões, não há como se afastar a incidência dos juros de mora sobre o crédito tributário aqui discutido. Os juros de mora incidem sobre a totalidade do crédito tributário e, no caso, são calculados com base na Taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC. Com efeito, entendo por também não acolher as alegações referentes à inaplicabilidade da Taxa Selic enquanto índice de atualização do crédito tributário discutido. 4. Das alegações acerca do lançamento de ofício É preciso consignar, de plano, que nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional 7 , o imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica. Veja-se: “Lei nº 5.172/66 Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1 o A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. (Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) § 2 o Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. (Incluído pela Lcp nº 104, de 2001).” 7 Cf. Lei n. 5.172/66, Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Fl. 599DF CARF MF Original Fl. 16 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Ao se referir à aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica, o Código Tributário Nacional quer deixar claro que a renda ou os proventos podem ser os que foram pagos ou simplesmente creditados. A disponibilidade econômica, pois, decorre do recebimento do valor que vem a acrescentar ao patrimônio do contribuinte, enquanto que a disponibilidade jurídica decorre do simples crédito desse valor, do qual o contribuinte passa a dispor juridicamente, embora não lhe esteja ainda em mãos. Em outras palavras, entende-se por disponibilidade econômica a percepção efetiva da renda ou do provento, enquanto que a disponibilidade jurídica diz respeito à aquisição de um título jurídico que confere direito de percepção de um valor definido, o qual poderá ingressar no patrimônio do contribuinte. É nesse sentido que Rubens Gomes de Sousa 8 sustenta: “A disponibilidade ‘econômica’ (...) verifica-se quando o titular do acréscimo patrimonial que configura renda o tem em mãos, já separado de sua fonte produtora e fisicamente disponível: num palavra, é o dinheiro em caixa. Ao passo que a disponibilidade ‘jurídica’ (...) verifica-se quando o titular do acréscimo patrimonial que configura renda, sem o ter ainda em mãos separadamente da sua fonte produtora e fisicamente disponível, entretanto já possui um título jurídico apto a habilitá-lo a obter a disponibilidade econômica.” Pois bem. Conforme se verifica do Relatório do Auto de Infração de fls. 227/242, os lançamentos tributários foram efetuados diante da existência de receitas não declaradas, apuradas mediante a comparação das receitas constantes nas notas fiscais eletrônicas e as informadas nas declarações prestadas à Receita Federal (DIPJ, DCTF e Dacon). Não se trata, pois, de presunção ou suposição tal como alegam os recorrentes, mas, sim, de receitas não oferecidas à tributação as quais restaram comprovadas pela fiscalização por notas fiscais eletrônicas obtidas no sistema SPED. As receitas auferidas pela empresa autuada no ano-calendário de 2010 totalizaram R$ 26.252.313,78 de acordo com as notas fiscais eletrônicas por ela emitidas, discriminadas individualizadamente no anexo I do Relatório do Auto de Infração (fls. 243 a 477) e sintetizadas nas tabelas de fls. 230, abaixo reproduzidas: 8 SOUSA, Rubens Gomes de. Pareceres 1 – Imposto de Renda. Resenha Tributária, 1975, p. 248. Fl. 600DF CARF MF Original Fl. 17 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Esse montante de receitas auferidas é corroborado pelas informações constantes da GIA – ICMS, do razão contábil e do registro de apuração do IPI. Por outro lado, a contribuinte autuada informou na DIPJ, nas DCTF e nos Dacon receitas que totalizaram R$ 2.559.378,29 no ano-calendário de 2010. Assim, restou comprovada a existência de receitas não declaradas no total de R$ 23.692.935,49 no período: Fl. 601DF CARF MF Original Fl. 18 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Em razão da conduta da empresa em fazer declaração inexata dos valores de suas receitas tributáveis, o que acabou reduzindo significativamente os tributos recolhidos, a autoridade fiscal procedeu com a feitura do lançamento aqui discutido com base no artigo 142 do Código Tributário Nacional o qual, a rigor, deve ser formalizado com observância a todos os requisitos ali previstos. Confira-se: “Lei nº 5.172/66 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível.” Note-se que o verificar a ocorrência do fato gerador tem a ver com o motivo do ato e significa, portanto, que o lançamento deve estar lastreado em provas do acontecimento que dá ensejo ao pagamento do tributo. Em outras palavras, verificar a ocorrência do fato gerador equivale à comprovação do fato tal qual descrito na hipótese de incidência tributária. É a própria verificação da subsunção do fato à norma. Vale transcrever, aqui, os comentários de Luciano Amaro9 ao artigo 142 do Código Tributário Nacional: “Afirma, ainda, que o lançamento seria tendente a verificar a ocorrência do fato gerador etc. Ora, o Código Tributário Nacional confunde aí o lançamento com as investigações 9 AMARO, Luciano. Direito tributário brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014, Não paginado. Fl. 602DF CARF MF Original Fl. 19 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 que a autoridade possa desenvolver e que objetivem (tendam a) verificar a ocorrência do fato gerador etc., mas que, obviamente, não configuram lançamento. A ação da autoridade administrativa (investigação) é que objetiva a consecução de eventual lançamento. Efetivado o lançamento, porém, este não “tende” para coisa nenhuma, ele já é o resultado da verificação da ocorrência do fato gerador, mesmo porque, sem que se tenha previamente verificado a realização desse fato, descabe o lançamento. Em suma, o lançamento não tende nem a verificar o fato, nem a determinar a matéria tributável, nem a calcular o tributo, nem a identificar o sujeito passivo. O lançamento pressupõe que todas as investigações eventualmente necessárias tenham sido feitas e que o fato gerador tenha sido identificado nos seus vários aspectos subjetivo, material, quantitativo, espacial, temporal, pois só com essa prévia identificação é que o tributo pode ser lançado. (grifei). Ao confeccionar o lançamento, a autoridade fiscal tem, na verdade, um dever jurídico de investigação ou encargo da prova no que diz com a comprovação da ocorrência do fato tal qual descrito abstratamente na norma superior, o qual não se confunde num ônus da prova, nem em sentido material, nem em sentido formal, já que a averiguação da verdade material não é objeto de um simples ônus, mas, sim, de um dever jurídico. É nesse sentido que Alberto Xavier10 sustenta: “O lançamento, como ato de aplicação do direito, envolve, como já se disse, a interpretação da lei, a caracterização do fato previsto na hipótese normativa e sua ulterior subsunção no tipo legal. O procedimento tributário de lançamento tem como finalidade central a investigação dos fatos tributários, como vista à sua prova e caracterização; respeita à premissa menor do silogismo de aplicação da lei. Como, porém, proceder, à investigação e valoração dos fatos? A este quesito a resposta do Direito Tributário é bem clara. Dominado todo ele por um princípio da legalidade, tendente à proteção da esfera privada contra os arbítrios do poder, a solução não poderia deixar de consistir em submeter a investigação a um princípio inquisitório e a valoração dos fatos a um princípio da verdade material. [...] Porque no procedimento administrativo se tende à averiguação da verdade material quanto ao objeto do processo – indispensável para aplicação da lei de imposto – nele não se coloca, em rigor, um problema de repartição de ônus da prova como critério de juízo sobre o fato incerto. Ao contrário de que entendia a antiga jurisprudência do Reichsfinanzhof e do Supremo Tribunal Administrativo da Prússia, apoiada na doutrina por Rauschning, Berger e Louveaux, segundo a qual no procedimento de lançamento existiria uma repartição do ônus da prova semelhante à que vigora no processo civil, cabendo à Administração provar os fatos constitutivos do seu direito e ao contribuinte provar os fatos impeditivos, é hoje concepção dominante que não pode falar-se num ônus da prova do Fisco, nem em sentido material, nem em sentido formal. Com efeito, se é certo que este se sujeita às consequências desfavoráveis resultantes da falta de prova, não o é menos que a averiguação da verdade material não é objeto de um simples ônus, mas de um dever jurídico. Trata-se, portanto, de um verdadeiro encargo da prova ou dever de investigação, que não se vê vantagem em designar por novos conceitos, ambíguos quanto à sua natureza jurídica, como o de ônus da prova objetivo (objektive Beweislast), 10 XAVIER, Alberto. Do lançamento no Direito Tributário Brasileiro. 3ª ed. reform.e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 131, 155/157. Fl. 603DF CARF MF Original Fl. 20 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 ônus da probabilidade (Vermutungslast) ou situação, base ou condição da prova (Beweislagen).” (grifei). Ora, se o lançamento tributário é definido como atividade administrativa plenamente vinculada, por óbvio que tal prescrição tem por destinatário a própria autoridade fiscal e, por isso mesmo, se autoridade não obedece quaisquer dos requisitos constantes do artigo 142 do Código Tributário Nacional, a nulidade do lançamento restará patente. A título de complementação, veja-se, ainda, que os lançamentos de ofícios efetuados pela autoridade fiscal no caso concreto observaram, também, as disposições constantes no artigo 841 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999, aprovado pelo Decreto nº 3.000/99. Confira-se: “Decreto nº 3.000/99 Seção IV - Lançamento de Ofício Art. 841. O lançamento será efetuado de ofício quando o sujeito passivo: I - não apresentar declaração de rendimentos; II - deixar de atender ao pedido de esclarecimentos que lhe for dirigido, recusar-se a prestá-los ou não os prestar satisfatoriamente; III - fizer declaração inexata, considerando-se como tal a que contiver ou omitir, inclusive em relação a incentivos fiscais, qualquer elemento que implique redução do imposto a pagar ou restituição indevida; IV - não efetuar ou efetuar com inexatidão o pagamento ou recolhimento do imposto devido, inclusive na fonte; V - estiver sujeito, por ação ou omissão, a aplicação de penalidade pecuniária; VI - omitir receitas ou rendimentos. Parágrafo único. Aplicar-se-á o lançamento de ofício, além dos casos enumerados neste artigo, àqueles em que o sujeito passivo, beneficiado com isenções ou reduções do imposto, deixar de cumprir os requisitos a que se subordinar o favor fiscal. Ressalte-se, ainda, que a ocorrência de eventos que representam, concomitantemente, fatos geradores de vários tributos implicam, por assim dizer, na obrigatoriedade de constituição dos respectivos créditos tributários. De acordo com o que dispõe o artigo 24, § 2º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, com redação dada pela Lei nº 11.941/2009, o valor da receita omitida também será considerado para fins de determinação da base de cálculo da CSSL, da COFINS e do PIS. Confira-se: “Lei nº 9.249/1995 Art. 24. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. [...] § 2 o O valor da receita omitida será considerado na determinação da base de cálculo para o lançamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS, da Contribuição Fl. 604DF CARF MF Original Fl. 21 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 para o PIS/Pasep e das contribuições previdenciárias incidentes sobre a receita. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009).” Decerto que o lançamento ora em discussão foi realizado com estrita observância aos requisitos constantes no artigo 142 do Código Tributário Nacional e, portanto, tendo sido formalizado não em razão de suposições e/ou presunções, mas, sim, em decorrência da constatação das receitas que não foram oferecidas à tributação - é aqui que se inclui o dever jurídico de comprovação da ocorrência do fato gerador -, deve ser mantido integralmente. Além do mais, frise-se que as receitas auferidas pela empresa autuada no ano- calendário de 2010 no total de R$ 26.252.313,78 as quais não foram oferecidas à tributação correspondem, pois, à disponibilidade econômica ou jurídica a que alude o artigo 43 do Código Tributário Nacional, do que se conclui pela manutenção do lançamento de ofício aqui discutido. Por essas razões, entendo por não acolher das alegações dos recorrentes no sentido de que o lançamento foi realizado em suposições e/ou presunções. 5. Das alegações sobre o caráter confiscatório da multa e da sua aplicação na modalidade qualificada Observe-se, de plano, que, de acordo com o artigo 26-A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, o qual dispõe sobre o processo administrativo fiscal, os órgãos de julgamento não podem afastar ou deixar de observar a aplicação de tratado, acordo internacional, lei ou decreto sob fundamento de inconstitucionalidade. Veja-se: “Decreto nº 70.235/72 Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.” Em consonância com o que determina o artigo 26-A do Decreto nº 70.235/72, registre-se que o artigo 62 do Regimento Interno - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343 de junho de 2015, também prescreve que é vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar quaisquer disposições contidas tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Veja-se: “PORTARIA MF Nº 343, DE 09 DE JUNHO DE 2015. Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.” A Súmula CARF nº 2 também dispõe que este Tribunal não tem competência para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Veja-se: “Súmula CARF nº 2 Fl. 605DF CARF MF Original Fl. 22 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” Tendo em vista que não cabe a este Tribunal Administrativo se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de tratados, acordos internacionais, leis ou decretos, é de se concluir que as alegações de que a multa aplicada na modalidade qualificada é confiscatória e viola o artigo 150, inciso IV da Constituição Federal não devem ser aqui examinadas, haja vista que esse tipo de alegação reivindicaria a análise da inconstitucionalidade da própria norma tributária prevista no artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430/96. Por essas razões, entendo por não acolher das alegações meritórias no sentido de que a multa é confiscatória e, portanto, inconstitucional. Por outro lado, tem-se que as alegações acerca das circunstâncias que ensejaram a aplicação da multa na modalidade qualificada devem ser aqui apreciadas. Dito isto, note-se que as sanções aplicadas para os ilícitos tributários apresentam a dupla função de (i) inibir aquelas condutas por parte de possíveis infratores que visam suprimir ou reduzir o pagamento de tributos, intimidando-os – eis, aí, a chamada prevenção geral –, e, também, de (ii) punir os sujeitos infratores que efetivamente deixaram de adotar aquela determinada conduta prevista na legislação, fazendo com que eles não reincidam na infração – aqui, diz-se que a prevenção é especial. No final das contas, as sanções devem ser estabelecidas para estimular o cumprimento da obrigação tributária e evitar, pois, a prática de infrações à legislação tributária, revelando aí a sua função educativa. Nas palavras de Luciano Amaro11, “No campo das sanções administrativas pecuniárias (multas), é preciso não confundir (como faz, frequentemente, o próprio legislador) a proteção ao interesse da arrecadação (bem jurídico tutelado) com o objetivo de arrecadação por meio da multa. Noutras palavras, a sanção deve ser estabelecida para estimular o cumprimento da obrigação tributária; se o devedor tentar fugir ao seu dever, o gravame adicional representado pela multa que lhe é imposta se justifica, desde que graduado segundo a gravidade da infração. Se se tratar de obrigação acessória, a multa igualmente se justifica (pelo perigo que o descumprimento da obrigação acessória provoca para a arrecadação de tributos), mas a multa não pode ser transformada em instrumento de arrecadação; pelo contrário, deve-se graduá-la em função da gravidade da infração, vale dizer, da gravidade do dano ou da ameaça que a infração representa para a arrecadação de tributos.” Dito isto, observe-se, de logo, que o artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430/96 dispõe sobre a multa qualificada no percentual de 150%, a qual deve ser aplicada nas hipóteses em que há ação dolosa praticada de acordo com as hipóteses previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.5020/1964. Confira-se: “Lei nº 9.430/96 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas:(Vide Lei nº 10.892, de 2004)(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e 11 AMARO, Luciano. Direito tributário brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014, Não paginado. Fl. 606DF CARF MF Original Fl. 23 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 nos de declaração inexata;(Vide Lei nº 10.892, de 2004)(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) [...] § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007).” Pelo que se pode observar, a aplicação da multa qualificada exige, por assim dizer, duplo convencimento e, sobretudo, dupla comprovação. Quer dizer, para que a multa qualificada seja aplicada, é necessário que haja o comportamento previsto no critério material da multa de ofício, consubstanciado na falta de pagamento e na falta de declaração ou nos casos de declaração inexata de imposto ou contribuição, revestido, ainda, de ação dolosa, exposta e devidamente comprovada e enquadrada nas hipóteses de fraude, sonegação ou conluio. É na própria legislação tributária que devemos buscar a essência das condutas puníveis com a multa qualificada, revelando-se, pois, qual é a característica que as distingue das situações em que a referida multa não é aplicada. Aliás, o próprio § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/96 é claro ao dispor que a multa será duplicada nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964 os quais, respectivamente, tratam dos institutos da fraude, da sonegação e do conluio. É ver-se: “Lei nº 4.502/64 Art. 71 – Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária ou o crédito tributário correspondente. Art. 72 – Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73 – Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos no artigo 71 e 72.” O artigo 71 da Lei nº 4.502/1964 trata da sonegação não no sentido do contribuinte deixar de simplesmente pagar o tributo devido por via dolosa, mas por, dolosamente, criar embaraços à fiscalização no que diz com o conhecimento do fato gerador e/ou de todos os seus aspectos. Ou seja, trata-se da tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do fato gerador. O núcleo aí é o impedimento ou o retardo do conhecimento, por parte da autoridade fazendária, do fato gerador do tributo ou, ainda, das condições que lhes são essenciais, o que não se confunde, portanto, com o mero ato de deixar de recolher o tributo intencionalmente. Embora não transpareça, a natureza da ação dolosa tendente a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador prevista no artigo 72 da Lei nº 4.502/62 é facilmente percebida a partir da leitura dos artigos 1º, inciso II e 2º, inciso I da Lei nº 1º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, cujas redações seguem reproduzidas abaixo: Fl. 607DF CARF MF Original Fl. 24 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 “Lei 8.137/1990 Capítulo I - Dos Crimes Contra a Ordem Tributária Seção I - Dos crimes praticados por particulares Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: (Vide Lei nº 9.964, de 10.4.2000) [...] II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; Art. 2° Constitui crime da mesma natureza: (Vide Lei nº 9.964, de 10.4.2000) I - fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo.” (grifei). A figura da fraude prevista no artigo 72 da Lei nº 4.502/1964 está intimamente ligada ao próprio fato gerador, de modo que a ocorrência do fato gerador é impedida ou retardada dolosamente por via sabidamente ilegal que adultera a realidade do fato gerador ou de quaisquer dos seus elementos, aspectos ou condições, podendo consistir tanto na simulação absoluta quanto na simulação relativa. O núcleo desse artigo, portanto, é o ato doloso do agente que objetiva encontrar economia fiscal por meio de ato conhecidamente ilícito. Por fim, o artigo 73 da Lei nº 4.502/1964 prevê a hipótese em que aqueles atos previstos nos artigos 71 e 72 são praticados, dolosamente, a partir de um ajuste entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas visando quaisquer dos efeitos próprios da sonegação ou da fraude. Em outras palavras, o conluio restará configurado quando duas ou mais pessoas lançam mão de artifícios maliciosos e ilegais para praticar os atos previstos nos respectivos artigos 71 e 72, de sorte que essa união para a prática do ilícito de forma dolosa é comumente denominada de pacto doloso. É nesse sentido que Gabriel Lacerda Troianelli 12 tem sustentado: “Percebe-se, imediatamente que a essência da sonegação é a tentativa de impedir ou retardar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, de algum de seus elementos ou de condições pessoais do contribuinte que o afetem. Ou seja, a tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do fato gerador. [...] Como se percebe pela simples leitura do inciso II do artigo 1º da Lei nº 8.137/1990, fraudar a fiscalização tributária significa inserir elementos inexatos ou omitir operação de qualquer natureza em documento ou livro exigido pela lei fiscal. Da mesma forma, o inciso I do artigo 2º desta lei deixa bem claro que o núcleo do tipo correspondente à fraude fiscal é a falsidade. Assim, também a fraude tem por essência a tentativa de ocultar do conhecimento da autoridade fiscal a ocorrência do fato gerador ou de algum de seus elementos, mediante a apresentação de elementos falsos. Quanto ao artigo 73, por dizer apenas que “conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72”, nada contribui quanto à busca da essência da conduta punível mediante a aplicação da 12 TROIANELLI, Gabriel Lacerda. Planejamento tributário e multa qualificada. In: Revista Dialética de Direito Tributário nº 179, ago./2010, p.48/49. Fl. 608DF CARF MF Original Fl. 25 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 multa qualificada já que meramente se refere às condutas típicas da sonegação ou fraude. Dessa análise pode-se concluir que a essência comum à fraude e à sonegação é a tentativa de ocultar o fato gerador ou seus elementos, de impedir que a autoridade fiscal tome conhecimento dos fatos relevantes para permitir a correta exigência do tributo devido. Neste ponto, é relevante notar que, independentemente da qualificação da conduta, esta intenção do contribuinte de enganar o Fisco, de esconder a verdade (...).” Note-se que o traço característico e comum nas três modalidades é a conduta dolosa. O dolo é imprescindível para a aplicação da penalidade qualificada, pois, como visto, as previsões dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64 se referem exclusivamente às situações em que o dolo está presente, podendo-se observar, pois, que, enquanto o artigo 71 e 72 se referem à “ação ou omissão dolosa”, o artigo 73 se refere ao “ajuste doloso”. O dolo, o qual, aliás, consubstancia-se em elementos relativos à vontade e à consciência, é, portanto, o requisito inafastável para que a multa seja aplicada na modalidade qualificada. Apenas com a comprovação da intenção maliciosa por parte do agente infrator é que é possível aplicar a penalidade qualificada, o que significa dizer que os demais casos em que o dolo não é comprovado estarão adstritos à penalidade normal que, a propósito, é aplicada no percentual de 75%. No caso concreto, note-se que autoridade fiscal entendeu por aplicar a multa na modalidade qualificada com base nos seguintes elementos que restaram expostos às fls. 238/239 do Relatório do Auto de Infração. Veja-se: “10. Qualificação das multas aplicadas [...] 10.3. A prática da sonegação encontra-se evidenciada nas seguintes condutas da fiscalizada: 10.3.1. O fiscalizado apresentou Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ do exercício 2011, relativa ao ano de calendário 2010 na qual foi constatada omissão de receitas num total de R$ 23.692.935,49. 10.3.2. O contribuinte entregou todas as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF pertinentes ao ano-calendário de 2010, reduzindo o valor das receitas de vendas em aproximadamente 90% (noventa por cento), ou seja, estabeleceu um percentual de recolhimento de apenas 10% (dez por cento). 10.3.3. O contribuinte, em todos os meses de 2010, declarou e recebeu apenas parte dos valores relativos ao IRPJ, à CSLL, à COFINS e ao PIS, no ano-calendário de 2010, de acordo com as consultas aos sistemas da RFB. 10.3.4. Assinale-se ainda que os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais – DACONs relativos ao ano-calendário 2010, foram apresentados informando apenas 10% (dez por cento), aproximadamente, de suas receitas tributáveis em todos os meses de 2010, tornando claro o intuito de recolher menos tributos; 10.3.5 Quando intimado a esclarecer a diferença entre os valores apurados com base nas notas fiscais comparado com as informações prestadas à Receita Federal na DIPJ, DACON, DCTF, o contribuinte, até a presente data, não esclareceu nem se manifestou. 10.3.6. Os elementos e documentos coletados no curso do procedimento fiscal, bem como a conduta dos representantes da empresa tornam evidente o inequívoco intuito de sonegação.” Fl. 609DF CARF MF Original Fl. 26 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Ao que parece, a premissa utilizada pela autoridade fiscal para aplicar a multa na modalidade qualificada foi a de que a empresa, de forma reiterada, teria recolhido impostos a menor, de modo que, no final, a conduta reiterada de declarar ao Fisco receitas inferiores às efetivamente auferidas configuraria a sonegação. Ocorre que tais situações fático-jurídicas não se amoldam ao tipo legal previsto no artigo 71 da Lei nº 4.502/64 o qual trata da figura da sonegação que, a rigor, corresponde, pois, na tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do fato gerador, sendo que a essência da sonegação é a tentativa de impedir ou retardar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, de algum de seus elementos ou de condições pessoais do contribuinte que o afetem, ou seja, a tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do próprio fato gerador. Como visto anteriormente, o instituto da sonegação previsto no artigo 71 da Lei nº 4.502/62 deve ser compreendido não no sentido do contribuinte deixar de simplesmente pagar o tributo devido por via dolosa, mas por, dolosamente, criar embaraços à fiscalização no que diz com o conhecimento do fato gerador e de todos os seus aspectos de modo a ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou mesmo a ocorrência do próprio fato gerador. O núcleo aí é o impedimento ou o retardo do conhecimento do fato gerador do tributo ou, ainda, das condições que lhes são essenciais, o que não se confunde, portanto, com o ato de deixar, ainda que de forma reiterada, de recolher o tributo a menor. Com efeito, entendo por afastar a aplicação da multa qualificada aplicada com fundamento no artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430/96. 6. Das alegações da desconsideração da personalidade jurídica e da inclusão dos responsáveis no polo passivo De plano, reconheça-se que o descumprimento da legislação tributária ensejará a aplicação de sanção, independente da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, o que significa dizer que as alegações de suposta boa-fé ou de que não houve qualquer lesão ao ente público são de todo irrelevantes. No campo das sanções tributárias, a regra geral é a de que a culpa já é suficiente para responsabilizar o agente nos moldes do que determina o artigo 136 do Código Tributário Nacional. Veja-se: “Lei nº 5.172/66 Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato.” Confira-se que, salvo disposição de lei em contrário, o artigo 136 do Código Tributário Nacional acaba dispensando o dolo como elemento dos tipos que definem as infrações tributárias. Não se requer, portanto, que o agente tenha a intenção de praticar a infração, Fl. 610DF CARF MF Original Fl. 27 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 bastando que haja com culpa em quaisquer dos seus três graus (negligência, imperícia ou imprudência) 13 . Nas palavras de Sacha Calmon Navarro Coêlho 14 , “O ilícito puramente fiscal é, em princípio, objetivo. Deve sê-lo. Não faz sentido indagar se o contribuinte deixou de emitir uma fatura fiscal por dolo ou culpa (negligência, imperícia ou imprudência). De qualquer modo a lei foi lesada. De resto se se pudesse alegar que o contribuinte deixou de agir por desconhecer a lei, por estar obnubilado ou por ter-se dela esquecido, destruído estaria todo o sistema de proteção jurídica da Fazenda.” Dito isto, registre-se que, no caso concreto, a autoridade fiscal entendeu por atribuir a responsabilidade tributária aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com fundamento nos artigos 124, inciso I e 135, inciso III do Código Tributário Nacional, conforme as razões expostas no tópico 11. Responsáveis Solidários do Relatório do Auto de Infração às fls. 239/240, a seguir reproduzidas: “11. Responsáveis Solidários 11.1 Considerando a prática da empresa em declarar, de forma reiterada e sistemática, ou seja, durante todo o ano de 2010, apenas parte de suas receitas tributáveis (aproximadamente 10%), tanto em DCTF, como nas DACONs e DIPJ, deixando de efetuar os recolhimentos previstos na legislação vigente e sonegando parcela significativa das receitas auferidas, conforme demonstrado nos itens anteriores, entendemos que tal fato caracteriza conduta passível de responsabilidade solidária (...). [...] 11.2. Em face do acima exposto, qualificam-se como sujeitos passivos solidários pelo crédito tributário ora constituído, nos termos do disposto no inciso I do art. 124 e inciso III do art. 135 do CTN (Lei nº 5.172/66), os responsáveis pela empresa à época dos fatos: 11.2.1. Ariovaldo Coyado, CPF 853.461.288-91 – Sócio e Diretor Financeiro 11.2.2. Carlos Oliveira Costa, CPF 816.736.638-34 – Sócio e Diretor Operacional.” É preciso examinar a responsabilidade atribuída no caso concreto sob duas perspectivas, buscando-se compreender, pois, qual é a melhor exegese aplicada às hipóteses da responsabilidade prevista nos artigos 124, inciso I e 135, inciso III do Código Tributário Nacional. Confira-se, então, o que dispõe o artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional: “Lei nº 5.172/66 Seção II – Solidariedade 13 PAULSEN, Leandro. Direito Tributário: Constituição e Código e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 16. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014, Não paginado. 14 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Teoria e Prática das Multas Tributárias. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001, P. 55/56. Fl. 611DF CARF MF Original Fl. 28 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal.” A origem da disposição do artigo 124 do CTN provém da figura da solidariedade tal qual contida artigo 264 do Código Civil, que prescreve que “há solidariedade, quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito, ou obrigado, à dívida toda”. Trata-se da ocorrência de mais de um credor ou mais de um devedor na mesma relação obrigacional em que, cada qual, terá o direito ou será obrigado pela dívida toda. Pois bem. Ao associar a locução interesse comum à expressão situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, o legislador deixou claro que não é qualquer interesse comum que pode ser considerado como suficiente para a aplicação da regra da responsabilidade solidária, sendo necessário que se trate de interesse jurídico no fato ou na relação jurídica que constitui o antecedente e o consequente da regra-matriz de incidência tributária. O interesse comum cuja presença cria a solidariedade não é um interesse meramente de fato, mas, sim, um interesse jurídico, que é aquele que decorre de uma situação jurídica 15 , de modo que o mero interesse social, moral ou econômico, enquanto pressuposto fático do tributo, não autoriza, portanto, a aplicação do artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional. De acordo com Renato Lopes Becho 16 , “(...) Que é ter interesse comum no fato gerador? Parece-nos ser quando há mais de uma pessoa ocupando o mesmo pólo de uma relação jurídica (agora não de natureza tributária). Especifiquemos melhor. Há situações econômicas em que mais de uma pessoa ocupa uma mesma posição em relação a outras. É o que ocorre na copropriedade. Quando houver mais de um proprietário (contribuinte), haverá solidariedade entre eles. [...]. Observemos que, se as múltiplas pessoas não ocuparem o mesmo polo da relação jurídica de Direito privado, não haverá interesse comum.” Seguindo essa mesma linha de entendimento, Ramon Tomazela Santos17 dispõe que “O artigo 124 do CTN prevê, ainda, que são solidariamente responsáveis (i) as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; e (ii) as pessoas expressamente designadas por lei. O item (i) acima trata das pessoas que têm interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. O interesse comum, hábil a justificar a imposição de responsabilidade tributária solidária, deve ser interpretado no seu sentido jurídico, pois, como consta expressamente do inciso I do artigo 124 do CTN, o interesse deve ser comum “na situação que constitua o fato gerador”. Assim, o interesse comum restará caracterizado, por exemplo, nas hipóteses em que duas ou mais pessoas figurarem no mesmo polo da relação jurídica descrita em lei como fato gerador, tal como ocorre com 15 MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao Código Tributário Nacional: Artigos 96 a 138.. vol. 2. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2008, p. 460-461. 16 BECHO, Renato Lopes. A responsabilidade tributária dos sócios tem fundamento legal? In Revista Dialética de Direito Tributário nº 182, nov./2010, p. 114-115. 17 SANTOS, Ramon Tomazela. Responsabilidade tributária e grupo econômico. In: Revista Dialética de Direito Tributário nº 238, jul./2015, p. 108, 120-121. Fl. 612DF CARF MF Original Fl. 29 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 os coproprietários de um imóvel em relação ao IPTU incidente sobre a respectiva propriedade. Neste caso, como ambos os contribuintes estão enquadrados na condição de proprietários do imóvel, realizando a situação definida como fato gerador, é justificável a atribuição de responsabilidade solidária pelo pagamento do imposto devido. [...] O interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal caracteriza-se pela existência de direitos e deveres compartilhados por pessoas situadas no mesmo polo da relação jurídica de direito privado escolhida pelo legislador como suporte fático para a incidência tributária. Assim, as partes partilham de um interesse comum em sentido técnico-jurídico, que não se confunde com o mero interesse econômico, social ou moral, que pode existir nas relações entre sociedades (...).” Portanto, a aplicação da responsabilidade passiva prevista no artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional exige a presença do interesse jurídico comum que, a rigor, corresponde à hipótese em que as pessoas são sujeitos da relação que deu azo à ocorrência do fato gerador, o que, tecnicamente, não se confunde com o interesse econômico no resultado ou no proveito da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal. Além do mais, registre-se que, para que a fiscalização possa atribuir a responsabilidade solidária a alguém, deverá comprovar que o suposto responsável solidário praticou atos que se subsumiram ao critério material da regra matriz de incidência do tributo que se analisa. À toda evidência que essa não é a hipótese dos autos. No caso concreto, note-se que a responsabilidade dos Srs. Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa foi atribuída com base no artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional porque eles detinham, respectivamente, as condições de sócio e diretor financeiro e sócio e diretor operacional. Ora, o suporte fático eleito pela autoridade lançadora apresenta viés econômico o qual não se subsume à hipótese legal da responsabilidade solidária. Não restam dúvidas de que, nesse ponto, não houve subsunção do fato à norma. A solidariedade não é, pois, uma forma de inclusão de um terceiro no polo passivo da obrigação tributária, mas, sim, uma forma de graduar a responsabilidade dos sujeitos de direito que já compõem o polo passivo da obrigação (mais de um contribuinte, um contribuinte e um responsável ou mais de um responsável), a fim de definir a natureza das relações entre coobrigados (v.g., solidária ou subsidiária). O artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional não trata, portanto, da hipótese de inclusão de um terceiro no polo passivo da obrigação tributária e isso se justifica, inclusive, por conta do tratamento que é dado a essa matéria na seção II do Capítulo IV do Código, que versa sobre a sujeição passiva em caráter geral, e não no capítulo V, o qual trata especificamente das diferentes hipóteses de atribuição de responsabilidade tributária pelo legislador 18 . Por essas razões, entendo que a responsabilidade solidária atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com fundamento no artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional deve ser cancelada. A responsabilidade aplicada no caso concreto também reivindica a análise do que dispõe o artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional, cuja redação segue transcrita abaixo: 18 DERZI, Misabel Abreu. Atualização da obra de Aliomar Baleeiro, Direito Tributário Brasileiro. 11ª ed. Rio de Janeiro: Forense, p. 729. Fl. 613DF CARF MF Original Fl. 30 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 “Lei nº 5.172/66 Seção III - Responsabilidade de Terceiros Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: [...] III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.” Como se pode observar, se o diretor, o gerente ou o administrador da pessoa jurídica pratica atos que, segundo o contrato ou o estatuto, não poderia praticá-lo, e se, além disso, o ato ilegal ou abusivo resultar no surgimento de obrigações tributárias, aí o autor do ato deve assumir pessoalmente a responsabilidade pelos créditos tributários correlatos. É de se reconhecer, de plano, que a intepretação do artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional deve ser realizada por partes. A primeira questão diz respeito à compressão dos atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei ou contrato social ou estatutos por parte dos diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. A dúvida, aqui, pode ser lançada nos seguintes termos: o sócio que não detém poderes de gestão pode ser pessoalmente responsabilizado com fundamento no artigo 135, III do CTN? E a resposta, de logo, é de todo negativa. Veja-se que a referência aos diretores, gerentes e representantes é realizada pelo legislador sem qualquer distinção, já que tais categorias são equiparadas com o único objetivo de, igualmente, que sejam responsabilizadas pessoalmente pelos débitos tributários da pessoa jurídica. Mas, decerto que essa equiparação tem apoio em um ponto em comum que existe entre essas três figuras. E qual é a semelhança que existe entre elas? É que elas agem em nome da pessoa jurídica e, ao fazê-lo, podem agir com excesso de poderes. Ora, a locução excesso de poderes se refere, exclusivamente, àquele que age além do que lhe seria dado fazer. Um dos pressupostos de fato da norma de responsabilidade estatuída no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional é a prática de atos, por parte de quem detém os poderes de gestão da sociedade, com excesso de poder ou a infração à lei, contrato social ou estatutos e que, no final, implique, senão o surgimento, ao menos o inadimplemento de obrigações tributárias. Apenas quem está na administração executiva, é diretor ou gerente ou representante de direito privado pode ser responsabilizado, o que significa dizer, portanto, que a responsabilidade pessoal, no caso, decorre de atos praticados ilicitamente por conta e risco do gestor. Segundo Leandro Paulsen 19 , a mera condição de sócio é insuficiente para a caracterização pessoal da responsabilidade prevista no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional: “Conforme se vê das notas específicas adiante, entende-se que a responsabilização exige que as pessoas indicadas tenham praticado diretamente ou tolerado a prática do ato abusivo e ilegal quando em posição de influir para a sua não ocorrência. A mera 19 PAULSEN, Leandro. Direito Tributário: Constituição e Código e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 16. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014, Não paginado. Fl. 614DF CARF MF Original Fl. 31 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 condição de sócio é insuficiente, pois a condução da sociedade é que é relevante. Também por isso, não é possível responsabilizar pessoalmente o diretor ou o gerente por atos praticados em período anterior ou posterior a sua gestão.” A título de informação, registre-se que a jurisprudência deste Tribunal tem encampado essa linha de entendimento, conforme se verifica dos precedentes citados a seguir: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF [...] RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DO ARTIGO 135 DO CTN. SÓCIO NÃO GERENTE. AUSÊNCIA DE DOLO. INAPLICABILIDADE. A responsabilidade tributária tipificada pelo CTN como pessoal, prevista no artigo 135, tem como requisitos básicos a necessidade de que o sujeito que pratique atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos haja com dolo e seja ou uma das pessoas elencadas no artigo 134 (inciso I), ou que atue como mandatário, preposto ou empregado (inciso II), ou, ainda, que seja diretor, gerente ou representante de pessoas jurídicas de direito privado (inciso III). Não sendo comprovados nenhum destes requisitos, não pode incidir a responsabilização tributária. Tampouco podem servir de motivo para a aplicação de tal responsabilidade fatores como o parentesco entre o suposto responsável e outro responsabilizado ou a capacidade econômica do suposto responsável. (Processo nº 10803.720109/2012-17. Acórdão nº 1402-002.733. Sessão de 16/08/2017. Publicado em 06/11/2017). *** “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 [...] RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO. ART. 135 DO CTN. MOTIVAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO DE CONDUTA DOLOSA. IMPROCEDÊNCIA. A simples qualificação de sócio, por si só, é insuficiente para a aplicação do artigo 135 do CTN. Inexistindo motivação ou prova de que a pessoa praticou conduta dolosa que caracterize excesso de poderes ou infração a lei, contrato social ou estatutos, não há que se falar em responsabilidade tributária pessoal. [...] (Processo nº 13971.724408/2014-49. Acórdão nº 1201-001.925. Sessão de 19/10/2017. Publicado em 24/11/2017).” Continuando com a análise interpretativa do artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional, chegamos no segundo ponto que merece atenção. É que os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado somente devem ser considerados pessoalmente responsáveis pelos créditos resultantes dos atos praticados fora da esfera de atuação da própria pessoa jurídica. Os atos devem ser estranhos aos objetivos da sociedade ou, melhor, alheios aos seus interesses. Se o administrador, manifestamente, e visando seus próprios interesses, pratica atos que excedem os limites da sua função e que não estão abrangidos dentre as finalidades da empresa, aí, sim, responderá pessoalmente pelo crédito tributário na condição de substituto tributário. Agora, se o ato tiver sido praticado no interesse da empresa, a substituição não será levada a cabo, porque, do Fl. 615DF CARF MF Original Fl. 32 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 contrário, abrir-se-ia margem para atuação de má-fé por parte das empresas que se esquivariam de assumir responsabilidades por obrigações tributárias resultantes de operações realizadas no seu interesse, sob o argumento de que seus representantes teriam agido irregularmente20. Por mais óbvio que seja, é um tanto relevante consignar que as pessoas jurídicas têm existência distinta da existência dos seus membros, o que significa dizer que as sociedades possuem deveres jurídicos diferentes dos deveres jurídicos dos seus administradores e gestores21. Juridicamente, as sociedades de direito privado são tão reais quanto as pessoas físicas. Exprimem-se por órgãos e são capazes de todos os direitos, exceto aqueles que resultam de fatos jurídicos em cujo suporte fático há elemento que elas não podem satisfazer (e.g., ser parente para suceder legitimamente ou ter pretensão a alimentos). Daí que não é relevante saber se houve infração à lei tributária, porque, como sabido, não se pode pretender que a pessoa jurídica apenas venha a praticar atos lícitos. Se o ato é praticado pela pessoa jurídica através de algum órgão seu a responsabilidade será da própria pessoa jurídica, e não da pessoa física que validamente exerce ali a função de gestão ou de administração. Ao revés, se a pessoa que compõe a administração atua fora dos limites da sua competência, o ato não será de responsabilidade da pessoa jurídica. Isso significa que os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado somente podem ser responsabilizados com fundamento no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional nas hipóteses em que atuam fora dos limites de sua competência. Essa atuação, obviamente, é aquela que se dá com infração às normas que limitam essa competência, ou seja, a lei societária, o contrato social ou o estatuto. Com efeito, a lei que o legislador faz referência não é qualquer lei e muito menos a lei tributária, mas, sim, a lei que é societária que, a rigor, é, por assim dizer, análoga ao contrato social. Portanto, a mera infração à lei tributária não é causa jurídica suficiente para responsabilizar pessoalmente os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, porque, do contrário, qualquer infração à lei tributária seria capaz de ensejar a responsabilidade do administrador, do que resultaria o fim da própria personalidade jurídica da empresa. Essa linha de pensamento é de todo superficial e, como visto, não se sustenta diante de uma análise mais técnica e apurada. No entendimento de Misabel Abreu Machado Derzi22, “(...) o ilícito é, assim, prévio ou concomitante ao surgimento da obrigação tributária (mas exterior à norma tributária) e não posterior, como seria o caso do não pagamento do tributo. A lei que se infringe é a lei comercial ou civil, não a lei tributária, agindo o terceiro contra os interesses do contribuinte. Daí se explica que, no pólo passivo, se mantenha apenas a figura do responsável, não mais a do contribuinte, que viu, em seu nome, surgir dívida não autorizada, quer pela lei, quer pelo contrato social ou estatuto.” É também como Renato Lopes Becho23 tem sustentado ao dispor que 20 SOUZA, Hamilton Dias/ FUNARO, Hugo. A desconsideração da personalidade jurídica e a responsabilidade tributária dos sócios e administradores. In: Revista Dialética de Direito Tributário nº 137, fev./2007, p. 56. 21 Cf. Lei nº 10.406/2002. Art. 49-A. A pessoa jurídica não se confunde com os seus sócios, associados, instituidores ou administradores. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) 22 DERZI, Misabel Abreu Machado. Nota de atualização à obra de Aliomar Baleeiro, Direito Tributário Brasileiro, 11ª ed., Forense, 1999, p. 756. Fl. 616DF CARF MF Original Fl. 33 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 “Se entendermos que a referência à lei do art. 135 do CTN significa, para o administrador de empresa, qualquer lei, inclusive a tributária, ou a de trânsito, ou a dos títulos de crédito, o efeito será o fim da separação entre pessoa jurídica e pessoa física de seus sócios ou administradores. [...] E infração de lei? É qualquer conduta contrária a qualquer norma? Queremos crer que não. É infração à legislação societária, na mesma linha dos outros elementos do artigo. Um caso sempre lembrado de infração de lei é o da dissolução irregular da sociedade, ou o funcionamento de sociedade de fato (não registrada nos órgãos competentes). Um tipo de infringência à lei (CTN, art. 135) pode estar, por exemplo, na não observância das determinações da Lei n. 5.764/71 (Lei das Cooperativas), ou aquelas presentes no Código Civil, art. 1.093.” De modo não menos importante, atente-se, ainda, para um último ponto que merece atenção. É que, se é certo que a responsabilidade depende da pratica dos respectivos atos que a caracterizam, também é certo que a autoridade lançadora é quem deve comprovar a apuração de tais atos, nos termos do que dispõe artigo 142 do Código Tributário Nacional. A jurisprudência deste Tribunal é uníssona no sentido de considerar que cabe à autoridade fiscal comprovar que os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado praticaram atos com excesso de poderes e infração à lei, contrato social ou estatutos, conforme se verifica dos precedente listados adiante: “ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2007, 2008 [...] RESPONSABILIDADE DE SÓCIO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE INFRAÇÃO À LEI NO EXERCÍCIO DA GERÊNCIA. O sócio administrador é responsabilizado pessoalmente pelo crédito tributário apenas quando se comprova que o mesmo cometeu atos ilícitos no exercício da gerência da sociedade. Na falta de comprovação, deve ser afastada a responsabilidade pessoal solidária. [...] (Processo nº 19515.721580/2011-61. Acórdão nº 1201-001.660. Sessão de 15/05/2017. Publicado em 08/06/2017). *** ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2008 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 DO CTN. PODERES DE GESTÃO/ADMINISTRAÇÃO. I - O art. 135 do CTN, ao dispor no caput, sobre os atos praticados, diz respeito aos atos de gestão para o adequado funcionamento da sociedade, exercidos por aquele que tem poderes de administração sobre a pessoa jurídica. A plena subsunção à norma que trata da sujeição passiva indireta demanda constatar se as obrigações tributárias, cujo surgimento ensejaram o lançamento de ofício e originaram o crédito tributário, foram resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social 23 BECHO, Renato Lopes. Responsabilidade tributária de terceiros: CTN, arts. 134 e 135. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 106-108. Fl. 617DF CARF MF Original Fl. 34 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 ou estatutos. Fala-se em conduta, acepção objetiva (de fazer), não basta apenas o atendimento de ordem subjetiva (quem ocupa o cargo). Ou seja, não recai sobre todos aqueles que ocupam os cargos de diretores, gerentes ou representantes de pessoa jurídica de direito privado, mas apenas sobre aqueles que incorreram em atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. II - O fundamento da responsabilização tributária do art. 135 do CTN repousa sobre quem pratica atos de gerência, podendo o sujeito passivo indireto ser tanto de um “sócio-gerente”, quanto um diretor contratado, ou ainda uma pessoa que não ocupa formalmente os cargos de diretores, gerentes ou representantes de pessoa jurídica de direito privado, mas que seja o sócio de fato da empresa. Não basta a pessoa integrar o quadro societário, deve restar demonstrado que possui poderes de gestão, seja mediante atos de constituição da sociedade empresária (contratos sociais, estatutos, por exemplo), ou, quando se tratar de sócio de fato, em provas demonstrando a efetiva atuação em nome da empresa. III - A caracterização de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos demandam a demonstração de ilícito específico, que evidencie o ocorrência de uma construção artificial para se amoldar a uma hipótese de incidência tributária. Provado que os diretores da pessoa jurídica praticaram atos de gestão amparados no que lhes conferia o contrato da sociedade para criação de despesas fictícias mediante constituição de sociedade inexistente de fato para prestação de serviços, deve ser restabelecida a responsabilidade tributária que lhes foi imputada. [...] (Processo nº 10530.723584/2013-83. Acórdão nº 9101-004.755. Sessão de 03/11/2021. Acórdão publicado em 04/10/2021).” Por todo o exposto, note-se que a responsabilidade de terceiro com fundamento no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional pressupõe, portanto, a caracterização dos seguintes elementos: (i) que terceiro detenha poderes de gestão tal qual acontece com os diretores, gerentes e administradores; (ii) que os diretores, gerentes ou administradores tenham praticado atos com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto; e, além disso, (iiii) que a prática dos atos ilegais ou abusivos resultem, senão o surgimento, ao menos o inadimplemento de obrigações tributárias. No final, frise-se que todos esses elementos precisam ser demonstrados e, sobretudo, comprovados por parte da autoridade fiscal, nos moldes do que preceitua o artigo 142 do Código Tributário Nacional. Ocorre que, no caso concreto, a autoridade fiscal entendeu por responsabilizar os sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com fundamento no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional exclusivamente porque eles detinham as condições de, respectivamente, sócio e diretor financeiro e sócio e diretor operacional da empresa recorrente, sendo certo que, em nenhum momento, a autoridade apontou que eles teriam agido com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto e muito menos que os atos supostamente por eles praticados tenham ensejado o surgimento das obrigações tributárias aqui discutidas. Por todo o exposto, entendo que a responsabilidade atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com base no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional também deve ser afastada. 7. Das alegações sobre a Representação Fiscal para Fins Penais Fl. 618DF CARF MF Original Fl. 35 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Neste ponto, cumpre-se registrar, de logo, as controvérsias levantadas acerca do Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais constitui matérias estranhas às atribuições deste E. CARF nos moldes do que determinam os artigos 1º a 4º do seu Regimento Interno – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a qual foi atualizada pela Portaria ME nº 3.125, de 07 de abril de 2022. E tanto é assim que este E. CARF acabou editando a Súmula nº 38 a qual, a rigor, é de natureza vinculante e, por isso mesmo, acaba compondo o rol das normas tributárias complementares, nos termos do que estabelece o artigo 100, inciso II do Código Tributário Nacional. Veja-se: “Súmula CARF nº 28 O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 383, de 12/07/2010, DOU de 14/07/2010).” O destinatário da Representação Fiscal para fins Penais é o Ministério Público Federal, a quem competirá dar seguimento ou não à referida representação. Conclusão Por todo o exposto e por tudo mais que consta nos autos, conheço do presente recuso voluntário, rejeito a preliminar de nulidade por preterição ao direito de defesa e, quanto às alegações de mérito, entendo por dar parcial provimento para (i) afastar a responsabilidade tributária atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa e, além disso, (ii) cancelar a multa qualificada de 150%. (documento assinado digitalmente) Sávio Salomão de Almeida Nóbrega Voto Vencedor Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo, Redator designado O Colegiado, ao julgar o Recurso Voluntário interposto nos presentes autos, acompanhou o ínclito relator no seu bem fundamentado voto, em relação à maior parcela das matérias sob análise. Não obstante, a maioria da Turma Julgadora dele divergiu em relação à atribuição de responsabilidade tributária aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, com base no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional (CTN), e à exigência da multa de ofício qualificada. Tendo sido designado redator do voto vencedor quanto a tais temas, passo a expor os fundamentos da decisão que prevaleceu no julgamento. Fl. 619DF CARF MF Original Fl. 36 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO No lançamento de ofício de que trata o presente processo, a autoridade tributária aplicou, na constituição dos créditos tributários, a multa de ofício no seu percentual qualificado, ou seja, 150% (cento e cinquenta por cento). Veja-se com foi fundamentada tal imposição, no Relatório do Auto de Infração de fls. 227/242: 10.1 Os lançamentos descritos no presente Termo, pertinentes ao IRPJ, CSLL, PIS e da COFINS, foram efetuados com a aplicação das multas previstas no §1° e §2°, Inciso I, do artigo 44 da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pelo artigo 14 da Lei n° 11.488/2007, cujo teor transcreve-se na seqüência: "...Artigo 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; § 1° O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste Artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n°4.502, de 30 de novembro de 1964. independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 2° Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1° deste Artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: - prestar esclarecimentos; 10.2 Cabe ressaltar que esta fiscalização aplicou a duplicação da multa de 75% no Auto de Infração por entender que o contribuinte praticou sonegação, nos termos estabelecidos no caput e no inciso I do artigo 71 da Lei n° 4.502/64, transcrita na seqüência: Artigo 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. 10.3 A prática da sonegação encontra-se evidenciada nas seguintes condutas da fiscalizada: 10.3.1 O fiscalizado apresentou a Declaração de Informações Econômico - Fiscais da Pessoa Jurídica - DIPJ do exercício 2011, relativa ao ano de calendário 2010 na qual foi constatada omissão de receitas num total de R$ 23.692.935,49. 10.3.2 O contribuinte entregou todas as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais - DCTF pertinentes aos ano-calendário de 2010, reduzindo o valor das receitas de vendas em aproximadamente 90% (noventa por cento), ou seja, estabeleceu um percentual de recolhimento de apenas 10% (dez por cento). 10.3.3 O contribuinte, em todos os meses de 2010, declarou e recolheu apenas parte dos valores relativos ao IRPJ, à CSLL, à COFINS e ao PIS, no ano-calendário 2010, de acordo com as consultas aos sistemas da RFB. 10.3.4 Assinale-se ainda que os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais - DACONs relativos ao ano-calendário 2010 foram apresentados informando apenas 10% (dez por cento), aproximadamente, de suas receitas tributáveis em todos os meses de 2010, tornando claro o intuito de recolher menos tributos. Fl. 620DF CARF MF Original Fl. 37 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 10.3.5 Quando intimado a esclarecer a diferença entre os valores apurados com base nas notas fiscais comparado com as informações prestadas à Receita Federal na DIPJ, DACON, DCTF, o contribuinte, até a presente data, não esclareceu nem se manifestou. 10.3.6 Os elementos e documentos coletados no curso do procedimento fiscal, bem como a conduta dos representantes da empresa tornam evidente e inequívoco o intuito de sonegação. O nobre Relator, contudo, considerou que as condutas descritas pela autoridade administrativa não se amoldariam ao disposto no art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964, de modo que deveria haver o afastamento . Assim, manifestou-se: Ocorre que tais situações fático-jurídicas não se amoldam ao tipo legal previsto no artigo 71 da Lei nº 4.502/64 o qual trata da figura da sonegação que, a rigor, corresponde, pois, na tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do fato gerador, sendo que a essência da sonegação é a tentativa de impedir ou retardar o conhecimento da ocorrência do fato gerador, de algum de seus elementos ou de condições pessoais do contribuinte que o afetem, ou seja, a tentativa de ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou a ocorrência do próprio fato gerador. Como visto anteriormente, o instituto da sonegação previsto no artigo 71 da Lei nº 4.502/62 deve ser compreendido não no sentido do contribuinte deixar de simplesmente pagar o tributo devido por via dolosa, mas por, dolosamente, criar embaraços à fiscalização no que diz com o conhecimento do fato gerador e de todos os seus aspectos de modo a ocultar da autoridade fazendária algum elemento ou mesmo a ocorrência do próprio fato gerador. O núcleo aí é o impedimento ou o retardo do conhecimento do fato gerador do tributo ou, ainda, das condições que lhes são essenciais, o que não se confunde, portanto, com o ato de deixar, ainda que de forma reiterada, de recolher o tributo a menor. Com efeito, entendo por afastar a aplicação da multa qualificada aplicada com fundamento no artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430/96. Com a devida vênia, deve-se divergir do referido entendimento. Observe-se que o legislador previu a multa de ofício no percentual ordinário de 75% (setenta e cinco por cento) para as hipóteses de “falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”. Diversamente, para as situações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, estipulou o percentual qualificado para penalizar em grau diverso os responsáveis pelas condutas (comissivas ou omissivas) dolosas destinadas a “impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária” “da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais” ou “das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente”, ou ainda, a “impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”. No caso tratado nos presentes autos, como apontado pela autoridade responsável pelo lançamento de ofício, o sujeito passivo apresentou diversas declarações ao Fisco Federal omitindo a quase totalidade das receitas auferidas, assim como realizou o recolhimento dos tributos federais em montante ínfimo quando comparado ao apurado na ação fiscal, com base nas notas fiscais eletrônicas de sua emissão e nas declarações prestadas ao Fisco Estadual. A reiteração da conduta de declarar pequena parcela das receitas auferidas em todas as Declarações de Débito e Crédito Tributários Federais (DCTF) e todos os Demonstrativos de Apuração das Contribuições sociais (Dacon) apresentados em relação ao ano- Fl. 621DF CARF MF Original Fl. 38 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 calendário de 2010; o fato de que as receitas declaradas importariam em cerca de 10% (dez por cento) das efetivamente percebidas (denotando método e planejamento da prática adotada) e o recolhimento de valores compatíveis com os valores declarados, em lugar do que seria devido, não deixa dúvidas de que as condutas da Recorrente se enquadram na situação prevista no art. 71, inciso I, do CTN, merecendo, portanto, a aplicação da multa de ofício qualificada. Veja-se que não se trata, apenas, da “mera” omissão no recolhimento dos tributos devidos. Ao, reiteradamente, recolher e informar ao Fisco Federal montantes inferiores aos devidos, o sujeito passivo, indubitavelmente, buscou impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária dos fatos geradores por ele praticados no ano-calendário de 2010. Neste sentido, diversamente do que entendeu o Relator, deve ser negado provimento ao Recurso Voluntário quanto a tal ponto, com a manutenção da multa ofício no seu percentual qualificado, ou seja, 150% (cento e cinquenta por cento). DA RESPONSABILIDADE COM BASE NO ART. 135, INCISO III, DO CTN De outra parte, a autoridade responsável pelo lançamento tributário atribuiu aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, responsabilidade tributária com base em dois dispositivos legais: o art.124, inciso I, e o art. 135, inciso III, do CTN. Veja-se o que constou do Relatório do Auto de Infração de fls. 227/242: 11.1 Considerando a prática da empresa em declarar, de forma reiterada e sistemática, ou seja, durante todo o ano de 2010, apenas parte de suas receitas tributáveis (aproximadamente 10%), tanto em DCTF, como nas DACONs e DIPJ, deixando de efetuar os recolhimentos previstos na legislação vigente e sonegando parcela significativa das receitas auferidas, conforme demonstrado nos itens anteriores, entendemos que tal fato caracteriza conduta passível de responsabilidade solidária, senão vejamos: Como previsto na Lei n° 5.172/66 (Código Tributário Nacional): Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II - as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I - as pessoas referidas no artigo anterior II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. O Decreto 3000/99 — Regulamento do imposto de Renda define a responsabilidade de terceiros em seu artigo 210: RESPONSABILIDADE DE TERCEIROS Fl. 622DF CARF MF Original Fl. 39 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Art. 210. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos (Lei n ° 5.172, de 1966, art. 135): I - os administradores de bens de terceiros, pelo imposto devido por estes; II - o síndico e o comissário, pelo imposto devido pela massa falida ou pelo concordatário; III - os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelo imposto devido sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício; IV - os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas; V - os mandatários, prepostos e empregados; VI - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. 11.2 Em face do acima exposto, qualificam-se como sujeitos passivos solidários pelo crédito tributário ora constituído, nos termos do disposto no inciso I do art. 124 e inciso III do art. 135 do CTN ( Lei n° 5.172/66), os responsáveis pela empresa à época dos fatos: 11.2.1 Ariovaldo Coyado, CPF 853.461.288-91 — Sócio e Diretor Financeiro 11.2.2 Carlos Oliveira Costa, CPF 816.736.638-34 — Sócio e Diretor Operacional O Relator entendeu, no que foi acompanhado por todo o Colegiado, que não seria cabível a atribuição de responsabilidade com base no art. 124, inciso I, do CTN. Já quanto à responsabilidade atribuída com fulcro no art. 135, inciso III, do CTN, o nobre Relator apontou que somente deveria ser imposta em relação aos “atos praticados fora da esfera de atuação da própria pessoa jurídica”, “estranhos aos objetivos da sociedade ou, melhor, alheios aos seus interesses”. Justificou, ademais que, para a referida responsabilização, “não é relevante saber se houve infração à lei tributária”. A conduta que justificaria a atribuição da responsabilidade com base no mencionado dispositivo seria [ ...] aquela que se dá com infração às normas que limitam essa competência [dos sócios administradores], ou seja, a lei societária, o contrato social ou o estatuto. Com efeito, a lei que o legislador faz referência não é qualquer lei e muito menos a lei tributária, mas, sim, a lei que é societária que, a rigor, é, por assim dizer, análoga ao contrato social. Portanto, a mera infração à lei tributária não é causa jurídica suficiente para responsabilizar pessoalmente os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, porque, do contrário, qualquer infração à lei tributária seria capaz de ensejar a responsabilidade do administrador, do que resultaria o fim da própria personalidade jurídica da empresa. Essa linha de pensamento é de todo superficial e, como visto, não se sustenta diante de uma análise mais técnica e apurada. Finalmente, o relator manifestou o seu entendimento no sentido de que [...] no caso concreto, a autoridade fiscal entendeu por responsabilizar os sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com fundamento no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional exclusivamente porque eles detinham as condições de, respectivamente, sócio e diretor financeiro e sócio e diretor operacional da empresa recorrente, sendo certo que, em nenhum momento, a autoridade apontou que eles teriam agido com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto e muito menos que os atos supostamente por eles praticados tenham ensejado o surgimento das obrigações tributárias aqui discutidas”. Neste ponto, entendeu o restante do Colegiado por divergir do Relator. Fl. 623DF CARF MF Original Fl. 40 do Acórdão n.º 1302-006.335 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 13896.721721/2014-75 Em primeiro lugar, por considerar que seria indevida a restrição efetuada no seu raciocínio no sentido de que a “lei” mencionada no dispositivo legal em questão seria, exclusivamente, a lei societária. Observe-se que o legislador fala em “atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos”. Neste sentido, não há qualquer restrição à natureza da lei infringida pelas pessoas elencadas nos incisos do art. 135 do CTN. O relevante é que a atuação destas exceda os poderes que lhe forem conferidos ou viole os diplomas ali elencados. Quanto à lei, a melhor leitura parece ser aquela apontada por Luís Eduardo Schoueri 24 , no sentido de que “o artigo 135 compreende as infrações a leis não tributárias; e, no que se refere às infrações a leis tributárias, excetua-se o mero inadimplemento”. No caso dos autos, como visto, foram apresentadas diversas declarações à Administração Tributária Federal e efetuados recolhimentos de tributos federais em montantes de aproximadamente 10% (dez por cento) das receitas efetivamente auferidas pela pessoa jurídica. Os sócios arrolados pela autoridade responsável pelo lançamento fiscal possuíam poderes de administração e são, em última análise, os responsáveis pelo atos praticados, que se incluem na sua esfera de gestão. Como já reconhecido no tópico anterior, a conduta praticada não foi o mero inadimplemento da obrigação tributária, mas a prática reiterada de atos que buscaram impedir ou retardar o conhecimento dos fatos geradores realizados e dos montantes de tributos devidos em decorrência destes. Diversamente do que entendeu o relator, portanto, os sócios em questão não foram responsabilizados, exclusivamente, pela condição que ostentavam, mas pela prática dos atos perfeitamente identificados e a eles atribuídos. Deste modo, cabível a manutenção da responsabilidade atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa com base no artigo 135, inciso III do Código Tributário Nacional. Por todo o exposto, entendeu a maioria do Colegiado por, divergindo, parcialmente, do relator, quanto ao mérito, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, apenas, para afastar a responsabilidade tributária atribuída aos sócios Ariovaldo Coyado e Carlos Oliveira Costa, com base no art. 124, inciso I, do CTN, mas mantendo a exigência da multa de ofício qualificada e a responsabilidade tributária atribuída aos citados sócios, com base no art. 135, inciso III, do CTN. (documento assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo 24 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito tributário. 9. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019, e-book, não paginado. Fl. 624DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 16327.002908/2001-02
Data da sessão: Tue May 05 00:00:00 UTC 2009
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/01/1997 a 31/03/1997
AUDITORIA ELETRÔNICA DE DCTF. DÉBITOS DECLARADOS COMO RENDO EXIGIBILIDADE SUSPENSA. PROCESSO JUDICIAL RECONHECIDO. FALTA DE RECONHECIMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO.
RECONHECIDO. FALTA DE RECOLHIMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO.
Cancela-se o lançamento formalizado sob o fundamento de que o processo judicial ou a suspensão da exigibilidade dos débitos não estavam comprovados, quando, faticamente, essas circunstâncias não se verificaram.
Recurso provido.
Numero da decisão: 2803-000.092
Decisão: ACORDAM os membros da 3ª Turma Especial da SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO DO CARF. por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
Nome do relator: ALEXANDRE KERN
1.0 = *:*
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ementa_s : CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/1997 a 31/03/1997 AUDITORIA ELETRÔNICA DE DCTF. DÉBITOS DECLARADOS COMO RENDO EXIGIBILIDADE SUSPENSA. PROCESSO JUDICIAL RECONHECIDO. FALTA DE RECONHECIMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. RECONHECIDO. FALTA DE RECOLHIMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. Cancela-se o lançamento formalizado sob o fundamento de que o processo judicial ou a suspensão da exigibilidade dos débitos não estavam comprovados, quando, faticamente, essas circunstâncias não se verificaram. Recurso provido.
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Numero do processo: 10469.721089/2015-92
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 21 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Mon Feb 06 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Exercício: 2013
RETIFICAÇÃO DA DAA. INCOMPETÊNCIA DO CARF. SÚMULA CARF Nº 33.
O CARF não é competente para apreciar pedidos de retificação da declaração de ajuste anual, cuja competência é da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte.
A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício.
MULTA DE OFÍCIO PREVISÃO LEGAL. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício tem como base legal o art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96, segundo o qual, nos casos de lançamento de ofício, será aplicada a multa de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição.
Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade.
Numero da decisão: 2003-004.642
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Wilderson Botto - Relator(a)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima, Wilderson Botto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente).
Nome do relator: WILDERSON BOTTO
1.0 = *:*
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ementa_s : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2013 RETIFICAÇÃO DA DAA. INCOMPETÊNCIA DO CARF. SÚMULA CARF Nº 33. O CARF não é competente para apreciar pedidos de retificação da declaração de ajuste anual, cuja competência é da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte. A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. MULTA DE OFÍCIO PREVISÃO LEGAL. INCIDÊNCIA. A multa de ofício tem como base legal o art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96, segundo o qual, nos casos de lançamento de ofício, será aplicada a multa de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade.
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INCOMPETÊNCIA DO CARF. SÚMULA CARF Nº 33. O CARF não é competente para apreciar pedidos de retificação da declaração de ajuste anual, cuja competência é da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte. A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. MULTA DE OFÍCIO PREVISÃO LEGAL. INCIDÊNCIA. A multa de ofício tem como base legal o art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96, segundo o qual, nos casos de lançamento de ofício, será aplicada a multa de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator(a) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ricardo Chiavegatto de Lima, Wilderson Botto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 46 9. 72 10 89 /2 01 5- 92 Fl. 67DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2003-004.642 - 2ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10469.721089/2015-92 Relatório Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 42/44): Foi efetuada notificação de lançamento às fls. 15/20 em decorrência de apuração de deduções indevidas de despesas médicas e contribuição à previdência privada no exercício de 2013, ano-calendário de 2012. A ciência do lançamento ocorreu em 06/02/2015 (fl. 30), e a contribuinte apresentou, em 10/03/2015, a impugnação de fls. 02/06, alegando, em sede preliminar, que tem direito à isenção de imposto de renda por ser portadora de moléstia grave. Com relação à matéria lançada, afirmou que comprovou a despesa com plano de saúde no valor de R$4.172,71, mediante retenção direta pela fonte pagadora. Por fim, a contribuinte afirmou que a multa de ofício de 75% tem caráter confiscatório e que seu percentual deveria ser reduzido, conforme apontado por jurisprudência citada na impugnação. A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve parcialmente o lançamento do crédito tributário em litígio, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2013 DECLARAÇÃO. PEDIDO DE RETIFICAÇÃO. COMPETÊNCIA. Esta instância administrativa de julgamento não é competente para analisar pedido de retificação de declaração. DEDUÇÕES. COMPROVAÇÃO PARCIAL. Uma vez comprovadas, parcialmente, as deduções que foram objeto de glosa, conforme previsão contida na legislação pertinente, há de se fazer os devidos ajustes no cálculo da correspondente declaração de rendimentos. Cientificada da decisão, 19/10/2016 (fls. 49/50), a contribuinte, por procurador habilitado interpôs, em 10/11/2016, recurso voluntário (fls. 53/56), repisando as alegações da peça impugnatória, no sentido de que é portadora de moléstia grave fazendo jus a isenção do imposto de renda, bem como pugna pela redução da multa de ofício, porquanto excessiva e dessumível da desproporção existente entre o desrespeito à norma e a sua consequência jurídica. Cita jurisprudência judicial neste sentido. Requer, ao final, o cancelamento do débito fiscal reclamado ou, caso assim não entenda, seja reduzida a multa de ofício para 20%. É o relatório. Voto Conselheiro Wilderson Botto - Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razão por que dele conheço e passo à sua análise. Fl. 68DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2003-004.642 - 2ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10469.721089/2015-92 Preliminares Não foram alegadas questões preliminares no presente recurso. Mérito Da multa de ofício aplicada e do pedido de isenção por moléstia grave: O litígio recai sobre a aplicação da multa de ofício aplicada no percentual de 75%, bem como o eventual reconhecimento da enfermidade que acometera a Recorrente, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, no sentido do reconhecimento do seu direito à isenção fiscal por moléstia grave e a redução da multa aplicada para o percentual de 20%. Pois bem. Em que pese as alegações trazidas, do cotejo dos fundamentos contidos no voto condutor da decisão recorrida (fls. 42/44) e atendo-se às informações contidas no lançamento (fls. 23/28), não há como prosperar a pretensão recursal. Assim, considerando que a Recorrente, nesta fase recursal, não trouxe novas alegações hábeis e contundentes a modificar o julgado em relação às matérias em litígio, me convenço do acerto da decisão recorrida, pelo que adoto como razão de decidir os fundamentos, lançados no voto condutor (fls. 43/44), mediante transcrição dos excertos abaixo, à luz do disposto no § 3º do art. 57 do Anexo II do RICARF: A impugnante invocou suposta isenção de imposto de renda por alegar ser portadora de moléstia grave especificada em lei. Todavia, tal pleito representa matéria estranha à presente lide e, portanto, fora da competência de julgamento desta Delegacia. Assim, tal solicitação não se sujeita à apreciação por parte desta instância administrativa de julgamento. (...) Por fim, no que tange à solicitação da contribuinte para a redução da multa de ofício imposta no lançamento, cabe transcrever o disposto no art. 97 do CTN: “Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: ................................................................................................................................... VI – as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou a dispensa ou redução de penalidades.” (Grifou-se)”. Frise-se que a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, conforme determina o art. 142 do CTN e, uma vez apurada a infração de dedução indevida da base de cálculo do imposto na declaração de rendimentos do contribuinte, correta a aplicação do percentual de 75% de multa de ofício efetuada pela autoridade fiscal, em estrita obediência ao disposto no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Quanto ao pedido de exclusão do crédito tributário por ser isenta ao recolhimento do imposto de renda em razão da moléstia grave que lhe acometera, nada a prover, uma vez que tal pleito não foi objeto do lançamento, tratando-se, de fato, de matéria estranha aos autos por violar os contornos da lide, que tratou especificamente de deduções indevidas de previdência privada (matéria sequer impugnada, portanto preclusa) e de despesas médicas (cuja dedução restou restabelecida pela decisão de piso). Ademais, e corroborando o acerto da decisão recorrida, quanto a eventual pedido de retificação da DAA para ajustar os rendimentos recebidos, vale salientar que o presente recurso – cuja origem, diga-se novamente, decorreu da glosa das despesas com previdência privada e médicas (fls. 23/28) – não é via própria para se perquirir tal desiderato. A Fl. 69DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2003-004.642 - 2ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10469.721089/2015-92 competência deste CARF restringe-se em promover o julgamento de recursos contra decisões proferidas pelas Delegacias da Receita Federal de Julgamento/DRJ – sob pena, dentre outros, de supressão de instância – sendo competente para tanto, a unidade de origem da Receita Federal que jurisdiciona a contribuinte, a quem caberá conferir a ocorrência cumulativa dos requisitos necessários a fruição do benefício fiscal, na exata dicção do art. 5º, XII e § 1º da IN SRF nº 15/2001, que normatizou o art. 6º, XIV e XXI da Lei nº 7.713/88, respeitados os prazos e limites temporais para se pleitear as respectivas correções e ajustes. E ainda que assim não fosse, acresça-se que eventual retificação da DAA é obstada pelo início de procedimento fiscal de ofício ao teor do art. 7º, I e § 1º, do Decreto nº 70.235/72 (PAF) e art. 832 do RIR/99, não produzindo quaisquer efeitos após a ciência do contribuinte acerca da autuação realizada, cuja matéria já se encontra sumulada neste CARF: Súmula CARF nº 33: A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Destarte, considerando que a questão da análise do benefício fiscal pela ocorrência da moléstia grave não foi objeto do lançamento e constatando que pretensão recursal está centralizada exclusivamente sobre a redução da multa de ofício aplicada de 75% para 20%, não há que se falar em isenção por moléstia grave. Já em relação à aplicação da multa de ofício, sua incidência à base de 75% decorre de expressa previsão legal (art. 44, I da Lei nº 9.430/96), não podendo ser reduzida e nem dispensada, cabendo a fiscalização aplicá-la sob pena de violação do dever funcional, por força do art. 142 do CTN. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Portanto, escorreita e legal é a conduta fiscal no particular. Por fim, vale registrar que o lançamento rege-se por expressa determinação legal, sendo portanto, a atividade fiscal, vinculada e obrigatória, na exata dicção do art. 142 do CTN, competindo ao Fisco realizar a revisão da declaração de ajuste anual, calcular a exigência e constituir o crédito tributário ou ajustar o imposto a restituir declarado, sob pena de responsabilidade funcional. Conclusão Ante o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter o lançamento remanescente e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 70DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 5 do Acórdão n.º 2003-004.642 - 2ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10469.721089/2015-92 Fl. 71DF CARF MF Original
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Numero do processo: 12965.002651/2008-81
Turma: Terceira Turma Especial da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 07 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/2004 a 30/04/2005, 01/11/2005 a 30/11/2005
RESTITUIÇÃO. CONTABILIDADE. DIREITO CREDITÓRIO.
A Delegacia de origem que analisou processo de restituição constatou que há distorções de informações no confronto dos livros contábeis, notas fiscais e folhas de pagamento de segurados, ou são de difícil interpretação. A falta de
justificativa de todas as irregularidades/dúvidas apontadas no despacho decisório torna prejudicada a análise do direito creditório do interessado.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2803-000.809
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado.
Nome do relator: HELTON CARLOS PRAIA DE lIMA
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CONTABILIDADE. DIREITO CREDITÓRIO. A Delegacia de origem que analisou processo de restituição constatou que há distorções de informações no confronto dos livros contábeis, notas fiscais e folhas de pagamento de segurados, ou são de difícil interpretação. A falta de justificativa de todas as irregularidades/dúvidas apontadas no despacho decisório torna prejudicada a análise do direito creditório do interessado. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. (Assinado digitalmente) Helton Carlos Praia de Lima – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento, os Conselheiros Helton Carlos Praia de Lima, Eduardo de Oliveira, Oseas Coimbra Júnior, Carolina Siqueira Monteiro de Andrade, Amilcar Barca Teixeira Junior, Gustavo Vettorato. Fl. 571DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 12965.002651/200881 Acórdão n.º 280300.809 S2TE03 Fl. 524 2 Relatório Tratase de processo de restituição onde a interessada pleiteia, em 12/12/2008, a devolução de diferenças de valores retidos sobre notas fiscais de prestação de serviços referentes às competências 1/2004 a 11/2005, em relação ao valor devido sobre a folha de pagamento. A empresa informa não ser optante pelo Simples e possuir contabilidade regular. Foi anexado ao pedido cópias de notas, demonstrativos, balanço anual e folhas de pagamento. Em 19/8/2010, a Sarac/DRF/PCS indeferiu o pedido de restituição (folhas 305 a 306), informando que algumas notas fiscais não foram lançadas, varias notas fiscais escrituradas em um único lançamento, algumas não consta o valor bruto, as folhas de pagamento dos segurados foram apresentadas em duplicidade e algumas não possuem centro de custo e estão separadas do contribuinte individual empresário, e algumas GFIP’s possuem erros. O contribuinte protocolou manifestação de inconformidade (folhas 309 a 478), juntando cópias de notas fiscais, cópia de livro auxiliar de notas fiscais emitidas, demonstrativos de notas fiscais/recibos de serviços prestados por competência, folhas de pagamento, demonstrativo de centro de custos para as competências 11/2004 e 2/2005 e Rais do ano base 2005. A decisão da DRJ em Juiz de Fora/MG (fls. 480/482) julgou improcedente a manifestação de inconformidade, concluindo que a contabilidade não reflete fielmente os fatos que deveria registrar, tornandose prejudicada a análise do direito creditório do interessado. O contribuinte foi cientificado da decisão em 10/01/2011, fls. 482, inconformado apresentou recurso em 9/02/2011, fls. 483 a 521, aduzindo em síntese: os lançamentos contábeis encontramse efetuados em consonância com as formalidades de escrituração contábil estabelecidas pela Resolução de número 563/83 do CFC e demais normas correlatas ao assunto. Exemplifica com as notas fiscais nº 886 a 888 (fls. 484 a 486). Menciona que estes esclarecimentos já foram apresentados no manifesto de inconformidade; os lançamentos contábeis foram realizados conforme disposto no art. 164 da Instrução Normativa SRP 3/2005 (atualmente, art. 137 da IN RFB 971/2009). Exemplifica com as notas fiscais nº 856 a 858. requer que a câmara a quo, ser compelida a retomar a análise do direito creditório pleiteado nos exatos termos do manifesto de inconformidade. Outrossim, caso não seja este o entendimento, requer a devolução dos autos para a instância a quo para que seja apreciado os demais pedidos de restituição que não estejam vinculados as nfs 886 a 888 e, 856 a 858. Não houve contrarrazões. Fl. 572DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 12965.002651/200881 Acórdão n.º 280300.809 S2TE03 Fl. 525 3 É o relatório. Fl. 573DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 12965.002651/200881 Acórdão n.º 280300.809 S2TE03 Fl. 526 4 Voto Conselheiro Helton Carlos Praia de Lima, Relator O recurso foi interposto tempestivamente (fls. 522), pressuposto superado, passo ao exame das questões. O valor total da nota fiscal n º 886 de R$3.600,00 (fls. 328) não é o mesmo informado pelo contribuinte no recurso cujo valor bruto é R$3.608,68 (fls. 485). Tomando como exemplo a análise da NF n º 886 (fls. 328), os valores descritos são: Serviços de direção técnica R$578,70 + IRRF R$8,68 + Material utilizado R$3.029,98, Valor total da Nota R$3.600,00 (578,70 +.8,68 + 3.029,98 = 3.617,36). O valor total da nota fiscal nº 857 (R$1.860,02), fls 325, não correspondem ao valor bruto apresentado no recurso R$ 1.888,44 (fls. 486). Portanto de difícil compreensão os documentos apresentados (notas fiscais) e os correspondentes lançamentos contábeis. Os documentos do contribuinte foram analisados quando do Despacho Decisório n° 1016/2010, fls. 305 a 305, que apresentou as distorções no confronto dos livros contábeis, notas fiscais e folhas de pagamento de segurados, indeferindo o pedido. São os termos do despacho: 4. A empresa apresentou os Livros Diário e Razão dos exercícios 2004 e 2005. Analisando os Livros Razão verificamos que: 4.1 Não foram neles lançadas as Notas Fiscais N.F. no 000857 e 000887, anexadas por cópia ao processo (fls. 259 e 222, respectivamente); 4.2 As seguintes N.F. foram foram escrituradas em um único lançamento: 000849 e 000850, 000851 e 000852, 000853 e 000854, 000856 e 000858, 000860 e 000861, 000865 e 000866, 000868 e 000869, 000870 e 000871, 000874 e 000875, 000878 e 000879, 000880 e 000881, 000883 e 000885, 000886 e 000888, 000893 e 000894, 000895 e 000896, 000901 e 000902, 000904 e 000905, 000911 e 000912. Anexamos cópias por amostragem ás folhas 298 e 299. 4.3 As N. F. deveriam ter sido lançadas pelo valor bruto com os correspondentes lançamentos a crédito dos valores das retenções. Por exemplo, o valor bruto da N.F. de n° 000856 é R$ 1.500,00 (Um mil e quinhentos reais), conforme cópia anexa ás folhas 260 e DNF de fls. 257 e da N.F. de n° 000858 é R$ 48.200,00 (Quarenta e oito mil e duzentos reais), conforme cópia anexa As folhas 18. A soma do valor bruto das duas referidas N.F. é R$ 49.700,00 (Quarenta e nove mil e setecentos reais) mas as duas N.F. foram lançadas 0 conjuntamente com o valor de R$ 42.221,35 (Quarenta e dois mil, duzentos e vinte e um reais e Fl. 574DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 12965.002651/200881 Acórdão n.º 280300.809 S2TE03 Fl. 527 5 trinta e cinco centavos). Na N.F. 000856 não houve destaque mas na N.F. 000858 houve destaque de R$ 5.302,00 (Cinco mil, trezentos e dois reais). Não localizamos o lançamento do valor retido nos livros contábeis apresentados. Anexamos cópias As folhas 298 e 299. 5. As folhas de pagamento dos segurados empregados foram apresentadas em duplicidade para cada competência, sendo que as anexas As folhas 29 a 93 têm como 'centro de custo' a tomadora RJ IND E COM IMP E EXP DE BISCOITOS LTDA, CNPJ 05.588.696/000132 ou a tomadora VILLAGE FLORIDA, CNPJ 01.169.211/000115 e nas anexas As folhas 111 a 177 não há indentificação do 'centro de custo' como se os mesmos segurados empregados, com os mesmos salários, tivessem prestado serviço apenas para a própria empresa requerente. 6. Nas Guias de Recolhimento do FGTS e InformaçÕes à Previdência Social GFIP, referente As competências 07/2004, 10/2004 e 01/2005 (fls. 300 a 304), todos os segurados empregados são informados na tomadora RJ IND E COM IMP E EXP DE BISCOITOS LTDA, como se a prestadora não houvesse prestado serviços para outras empresas, o que não é verdadeiro, como se percebe na análise dos DNF das N. F. em que não houve retenção (fls. 219, 240 e 291). A empresa não apresentou ONE das competências 07/2004, 10/2004 e 01/2005 para as N.F. em que houve retenção. 7. As folhas de pagamento do segurado contribuinte individual empresário (fls. 94 a 110) foram confeccionadas e apresentadas separadamente das folhas de pagamento dos segurados empregados (fls. 29 a 93 e de 111 a 177) não havendo totalização dos valores da folha de pagamento e, apesar de terem sido apresentadas em duplicidade as folhas de pagamento dos segurados empregados, conforme descrito no item 5 acima, não foi apresentada nenhuma folha de pagamento dos referidos segurados para as competências 04/2005 e 11/2005. Os documentos apresentados pelo contribuinte quando da manifestação de inconformidade foram analisados na decisão da DRJ em Juiz de Fora/MG (fls. 480/482) que indeferiu o pleito, informando que não foram justificadas todas as irregularidades apontadas no despacho decisório e que alguns valores não foram lançados corretamente ou são de difícil interpretação contábil, tornandose prejudicada a análise do direito creditório do interessado. São as afirmações da decisão: 0 manifestante justifica algumas das irregularidades apontadas pelo despacho combatido e alega ter corrigido outras. Não nos parece, no entanto, que a contabilidade, reflita fielmente os fatos que deva registrar. Observese o lançamento referente As notas 886 a 888, como quer a empresa. O valor lançado é de R$6.675.63. As notas, As folhas 328 a 330, totalizam. Fl. 575DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 12965.002651/200881 Acórdão n.º 280300.809 S2TE03 Fl. 528 6 respectivamente, R$3.600,00, R$1.860,12 e R$1.477,50. Não nos foi possível determinar corno a soma dessas três notas redundou no valor lançado. A vista da planilha de folha 362, cujo valor também não corresponde ao valor lançado, provavelmente pela falta da dedução do imposto de renda de urna das notas, é que se chega ao citado valor. Tanto esse lançamento quanto o referente As notas fiscais 856 a 858, cujo valor lançado também foi o valor liquido (bruto menos as retenções. conforme demonstrativo de folha 315), contrariando o disposto no art. 164 da Instrução Normativa SRP 3/2005 (atualmente, art. 137 da Instrução Normativa RFB 971/2009). Detectado pelo órgão a quo tais irregularidades na contabilidade, de fato, tornase prejudicada a análise do direito creditório do interessado. Pelo exposto, votamos pelo indeferimento da manifestação de inconformidade apresentada. Conforme mencionado e em razão dos documentos apresentados pelo contribuinte nos autos já terem sido analisados pela autoridade fiscal que proferiu o despacho decisório e pela decisão da DRJ em Juiz de Fora/MG, indefiro o pedido de retorno dos autos para análise na Delegacia da Receita Federal e na DRJ em Juiz de Fora/MG. CONCLUSÃO: Pelo exposto, voto em negar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Helton Carlos Praia de Lima Fl. 576DF CARF MF Documento de 6 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP15.1019.15424.CQQS. Consulte a página de autenticação no final deste documento. PÁGINA DE AUTENTICAÇÃO O Ministério da Fazenda garante a integridade e a autenticidade deste documento nos termos do Art. 10, § 1º, da Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001 e da Lei nº 12.682, de 09 de julho de 2012. Documento produzido eletronicamente com garantia da origem e de seu(s) signatário(s), considerado original para todos efeitos legais. Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001. Histórico de ações sobre o documento: Documento juntado por HELTON CARLOS PRAIA DE LIMA em 09/06/2011 17:57:15. Documento autenticado digitalmente por HELTON CARLOS PRAIA DE LIMA em 09/06/2011. Documento assinado digitalmente por: HELTON CARLOS PRAIA DE LIMA em 09/06/2011. Esta cópia / impressão foi realizada por MARIA MADALENA SILVA em 15/10/2019. Instrução para localizar e conferir eletronicamente este documento na Internet: EP15.1019.15424.CQQS Código hash do documento, recebido pelo sistema e-Processo, obtido através do algoritmo sha1: 94A26DC068B5FB272C8BEFCD79BF18BFF5F21BA7 Ministério da Fazenda 1) Acesse o endereço: https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx 2) Entre no menu "Legislação e Processo". 3) Selecione a opção "e-AssinaRFB - Validar e Assinar Documentos Digitais". 4) Digite o código abaixo: 5) O sistema apresentará a cópia do documento eletrônico armazenado nos servidores da Receita Federal do Brasil. página 1 de 1 Página inserida pelo Sistema e-Processo apenas para controle de validação e autenticação do documento do processo nº 12965.002651/2008-81. Por ser página de controle, possui uma numeração independente da numeração constante no processo.
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Numero do processo: 10580.720698/2009-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 08 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Ano-calendário: 2006
RENDIMENTOS TRIBUTÁVEIS.
Os valores recebidos pelo sujeito passivo, que se enquadrem no conceito de renda ou proventos de qualquer natureza, sujeitam-se à tributação pelo imposto sobre a renda, a menos que haja expressa disposição legal que os exclua do campo de incidência do imposto.
O caráter indenizatório e a exclusão, dentre os rendimentos tributáveis, do pagamento efetuado a assalariado, ou em função de ação judicial, devem estar previstos em legislação federal para que o valor seja excluído do rendimento bruto para efeito de tributação do IRPF.
JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOB VERBA RECEBIDA EM ATRASO. REMUNERAÇÃO POR EXERCÍCIO DE EMPREGO, CARGO OU FUNÇÃO. RECURSO ESPECIAL N° 855.091/RS DO STF. REPERCUSSÃO GERAL.
No julgamento do RE n° 855.091/RS, com repercussão geral reconhecida, o STF fixou a tese de que "não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função". Aplicação aos julgamentos do CARF, por força de determinação regimental.
As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo STF e pelo STJ em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 - Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros do CARF no julgamento dos recursos sob sua apreciação.
VERBAS RECEBIDAS A TÍTULO DE FÉRIAS PROPORCIONAIS E RESPECTIVO TERÇO CONSTITUCIONAL. NÃO INCIDÊNCIA DO IRPF. RESP 1111223/SP-STJ.
Os valores recebidos a título de férias proporcionais e respectivo terço constitucional são indenizações que não compõem a base de cálculo do imposto sobre a renda, nos termos do quanto decidido pelo STJ RESP 1111223/SP, sob o rito de repercussão geral.
DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS.
As decisões administrativas e judiciais, mesmo proferidas pelo CARF ou pelos tribunais judiciais, que não tenham efeitos vinculantes, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se estendem a outras ocorrências, senão aquela objeto da decisão.
Numero da decisão: 2202-009.525
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para exclusão da base de cálculo do lançamento os valores recebidos a título de férias proporcionais, respectivo terço constitucional e os valores recebidos a título de juros moratórios.
(documento assinado digitalmente)
Mário Hermes Soares Campos Relator e Presidente
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Sonia de Queiroz Accioly, Leonam Rocha de Medeiros, Christiano Rocha Pinheiro, Thiago Duca Amoni (suplente convocado), Martin da Silva Gesto, Mario Hermes Soares Campos (relator).
Nome do relator: MARIO HERMES SOARES CAMPOS
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Os valores recebidos pelo sujeito passivo, que se enquadrem no conceito de renda ou proventos de qualquer natureza, sujeitam-se à tributação pelo imposto sobre a renda, a menos que haja expressa disposição legal que os exclua do campo de incidência do imposto. O caráter indenizatório e a exclusão, dentre os rendimentos tributáveis, do pagamento efetuado a assalariado, ou em função de ação judicial, devem estar previstos em legislação federal para que o valor seja excluído do rendimento bruto para efeito de tributação do IRPF. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOB VERBA RECEBIDA EM ATRASO. REMUNERAÇÃO POR EXERCÍCIO DE EMPREGO, CARGO OU FUNÇÃO. RECURSO ESPECIAL N° 855.091/RS DO STF. REPERCUSSÃO GERAL. No julgamento do RE n° 855.091/RS, com repercussão geral reconhecida, o STF fixou a tese de que "não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função". Aplicação aos julgamentos do CARF, por força de determinação regimental. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo STF e pelo STJ em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 - Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros do CARF no julgamento dos recursos sob sua apreciação. VERBAS RECEBIDAS A TÍTULO DE FÉRIAS PROPORCIONAIS E RESPECTIVO TERÇO CONSTITUCIONAL. NÃO INCIDÊNCIA DO IRPF. RESP 1111223/SP-STJ. Os valores recebidos a título de férias proporcionais e respectivo terço constitucional são indenizações que não compõem a base de cálculo do imposto sobre a renda, nos termos do quanto decidido pelo STJ RESP 1111223/SP, sob o rito de repercussão geral. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 06 98 /2 00 9- 08 Fl. 135DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 As decisões administrativas e judiciais, mesmo proferidas pelo CARF ou pelos tribunais judiciais, que não tenham efeitos vinculantes, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se estendem a outras ocorrências, senão aquela objeto da decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para exclusão da base de cálculo do lançamento os valores recebidos a título de férias proporcionais, respectivo terço constitucional e os valores recebidos a título de juros moratórios. (documento assinado digitalmente) Mário Hermes Soares Campos – Relator e Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Sonia de Queiroz Accioly, Leonam Rocha de Medeiros, Christiano Rocha Pinheiro, Thiago Duca Amoni (suplente convocado), Martin da Silva Gesto, Mario Hermes Soares Campos (relator). Relatório Trata-se de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 12-62.967 da 18ª Turma da 1ª Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro/RJ - DRJ/RJ1 (e.fls. 97/100), que julgou procedente em parte a impugnação ao lançamento de Imposto sobre a Renda Pessoa Física (IRPF), relativo ao exercício de 2007, ano-calendário de 2006, no valor total, consolidado em 05/01/2009, de R$ 207.386,90, com ciência por via postal em 14/01/2009, conforme o Aviso de Recebimento de e.fl. 33, consubstanciada na Notificação de Lançamento de e.fls. 20/24. Conforme a “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” da Notificação, da análise das informações e documentos apresentados pelo contribuinte, e informações constantes dos sistemas da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil (RFB), constatou-se omissão de rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente em virtude de processo judicial trabalhista, auferidos pelo sujeito passivo na “Complementação da Descrição dos Fatos” é ainda esclarecido pelo autoridade fiscal lançadora que: Conforme acordo homologado no processo trabalhista 00144.2003.023.05.00.3 do TRT da 5ª Região, o contribuinte recebeu da Xerox do Brasil LTDA um valor bruto de R$840.000,00. O valor líquido recebido foi R$680.000,00. O acordo relaciona as seguintes parcelas que compõe o valor líquido: Indenização espontânea: R$15.000,00, férias + 1/3: R$15.000,00, aviso prévio adicional: R$10.000,00, juros de mora: R$200.000,00, indenização INSS e IR: R$100.000,00, comissões sobre cobranças: R$150.000,00, RSR sobre as comissões: R$30.000,00, comissões defesa de cancelamento: R$120.000,00, bónus de receita: R$40.000,00. Nenhuma destas parcelas é isenta ou não tributável. Portanto o valor tributável é igual ao valor bruto (R$840.000,00). Foi pago R$120.000,00 a título de honorários advocatícios, conforme recibo. Portanto o rendimento tributável abatido os honorários é R$720.000,00. Fl. 136DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 Inconformado com o lançamento, o contribuinte apresentou impugnação (e.fls. 2/19), onde afirma ter sido reclamante em ação trabalhista movida contra sua ex-empregadora, a pessoa jurídica Xerox Comércio e Indústria Ltda., tendo recebido, em acordo judicial realizado e ajustado no ano de 2006, a quantia de R$ 840.000,00 brutos, ou R$680.000,00 líquidos. Aduz que parte do valor recebido, conforme as rubricas discriminadas no termo de acordo homologado judicialmente, seria composta por verbas não sujeitas à tributação do imposto sobre a renda, por possuírem natureza indenizatória, além do pagamento de R$ 120.000,00 de honorários advocatícios. Defende assim que a base de cálculo sujeita à incidência do IRPF seria substancialmente inferior ao valor bruto presumido na autuação, correspondendo exatamente ao montante declinado nos autos do acordo trabalhista e na sua Declaração de IRPF relativa ao período da notificação. Alega também erro de cálculo na notificação ao apurar a renda tributável por não ter deduzido o valor correspondente aos honorários advocatícios. Passa a discorrer sobre as diversas verbas que afirma constantes do acordo homologado judicialmente e que entende não se caracterizarem como renda tributável, a teor do art. 43 do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966), quais sejam: A) Indenização Espontânea; B) Férias mais o Terço de Férias; C) Aviso Prévio Adicional; D) Juros de Mora; E) Indenização INSS e IR. A impugnação foi considerada tempestiva e de acordo com os demais requisitos de admissibilidade, sendo julgada procedente em parte. Foi acatado no julgamento de piso o argumento de que não teriam sido deduzidos do lançamento o valor dos honorários advocatícios. Foi assim excluído da base de cálculo do lançamento o valor de R$ 120.000,00, correspondente aos honorários advocatícios pagos pela recorrente relativos ao processo judicial trabalhista. O acórdão exarado apresenta a seguinte ementa: OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE AÇÃO TRABALHISTA. Somente pode ser considerado isento ou não tributável aquele rendimento que o contribuinte lograr comprovar por meio de documentação hábil que se enquadraria em alguma daquelas hipóteses previstas no art. 39 do RIR/99. DECISÕES JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões judiciais não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aplicam a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificado do acórdão do julgamento de primeira instância, o sujeito passivo interpôs recurso voluntário (e.fls. 105/123), onde reproduz todos os argumentos de defesa articulados na peça impugnatória, relativamente às verbas que afirma possuírem natureza indenizatória e não sujeitas à tributação do IRPF, conforme consignadas no acordo homologado perante a 23ª Vara da Justiça do Trabalho em Salvador/BA. Advoga assim, novamente, que parte do valor recebido, conforme as rubricas discriminadas no referido termo de acordo, seria composta por verbas de natureza indenizatória, não sujeitas à incidência do IRPF. Citando o art. 43 do CTN, passa o recorrente a discorrer sobre o conceito de renda tributável e as diversas rubricas que requer sejam consideradas como não integrantes da base de cálculo do presente lançamento, devendo assim ser excluídas da Notificação. Para melhor compreensão dos argumentos de defesa, peço vênia para parcial reprodução da peça recursal: III. DA TIPIFICAÇÃO DAS PARCELAS PAGAS E A DESCARACTERIZAÇÃO DE RENDA TRIBUTÁVEL Fl. 137DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 Em se perquirindo a natureza das parcelas pagas ao recorrente no bojo da composição judicial epigrafada, não encontra êxito decerto a pretensão fiscal cartulada no instrumento de lavratura. Com efeito, a tributabilidade das parcelas recebidas pelo contribuinte está condicionada à subsunção de sua natureza jurídica com o conceito de renda tributável encartado nos arts. 43 e segs. da Codificação Fiscal. Decerto que o mero ingresso de recursos não configura per se o fato imponível do Imposto sobre a Renda, cabendo ao aplicador da norma impositiva aferir criteriosamente se sua origem reporta a acréscimo patrimonial, é dizer, variação patrimonial positiva, resultante de atividade econômica, produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos. Neste contexto se destacam verbas diversas que, malgrado constituam pecúnia, não implicam acréscimo patrimonial, mas sim ressarcimento ou recomposição do patrimônio do contribuinte, e, nest'arte, não consubstanciam fato gerador do Imposto sobre a Renda. (...) É o que restará demonstrado, de forma lhana e simples, a lastrear decisão desta Colenda Corte Administrativa pela reforma da decisão de piso, quanto aos itens referidos. i) INDENIZAÇÃO ESPONTÂNEA: A indenização espontânea decorrente de acordo ou convenção coletiva de trabalho se caracteriza exatamente pela sua compulsoriedade, uma vez convencionada pelas partes na norma coletiva de trabalho. Trata-se de indenização pactuada nas negociações coletivas de trabalhos, entre os sindicatos respectivos, como compensação adicional à legal paga ao obreiro dispensado imotivadamente. Nestes termos, e porque o acordo coletivo tem eficácia de lei entre as partes, tem jurisprudência considerado que a indenização espontânea pactuada em acordo coletivo não se submete à imposição pelo IRPF, havendo de ser excluída de sua base imponível. Senão, vejamos o entendimento do E. STJ, a saber: (...) Vê-se que, malgrado a alcunha de "espontânea" ou "livre", tal parcela pactuada em acordo coletivo não configura mera liberalidade do empregador, exatamente porque prevista em acordo coletivo, e, portanto, reveste-se de evidente natureza indenizatória. Em assim sendo, por tratar-se tal parcela de indenização prevista em acordo coletivo de trabalho, não incide o IRPF, de sorte a implicar a improcedência deste item. ii) FÉRIAS + 1/3 As férias não gozadas, portanto indenizadas, sejam vencidas ou proporcionais, não representam renda tributável, exatamente porque representam uma recomposição do patrimônio do obreiro, destituído do seu direito ao legítimo gozo das férias. Efetivamente, é direito do trabalhador, no máximo um ano após a conclusão do período aquisitivo, fazer gozo de seu trintídio de férias. É do incumprimento desta disposição constitucional, e celetista, que exsurge em prol do obreiro o direito à respectiva indenização. Sabendo-se que a indenização, per se, implica mera recomposição, e não acréscimo, ao patrimônio do beneficiário, fica descartada a incidência do IRPF. Ademais disso, é sabido que as férias vencidas e não pagas, além do adicional de 1/3, são expressamente isentas pela legislação tributária aplicável. Decerto, tais verbas se reputam peremptoriamente excluídas da incidência do IRPF, sendo assim consideradas por determinação do art. 39, XX do RIR, aprovado pelo Decreto 3.000/99 e art. 6°, V, da Lei 7.713/88. Daí que, sendo, como são, as verbas decorrentes de férias não gozadas e 1/3, não apenas alheias ao conceito de acréscimo patrimonial, mas também expressamente beneficiadas Fl. 138DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 com norma isentiva, é de ser reformada a decisão, decretando-se a improcedência deste item. iii) AVISO PRÉVIO ADICIONAL: O aviso prévio indenizado, correspondente ao mês de remuneração do obreiro para a sua subsistência no mês seguinte à comunicação da dispensa, não consubstancia remuneração de trabalho, e, por isso mesmo, não representa acréscimo patrimonial tributável. De efeito, da mesma forma que o aviso prévio pago conforme previsão legal, o aviso prévio adicional pago em virtude de cumprimento de norma coletiva não sofre a incidência de IRPF, constituindo verba isenta conforme disposição regulamentar. E assim o é porque como se trata de atendimento a disposição cogente de norma coletiva, não caracterizando pagamento realizado por mera liberalidade do empregador. Não é outro o regime do dispositivo regulamentar, que, conforme o art. 39, XX do RIR/99, excluem expressamente do montante tributável pelo IRPF o valor recebido a título de aviso prévio indenizado, não apenas aquele prescrito na lei e na Constituição, mas também aquele previsto na norma coletiva regedora do vínculo laboral. Nestes termos, e porque o aviso prévio adicional indenizado, previsto na convenção ou acordo coletivo, não se qualifica como acréscimo patrimonial tributável, sendo ainda objeto de norma desonerativa expressa, há de ser proclamada a improcedência deste item. iv) JUROS DE MORA: Os juros de mora recebidos pelo reclamante decorrente do litígio trabalhista têm natureza indenizatória, visando à mera recomposição do patrimônio do credor diante da depreciação que o interstício moratório impõe ao quantum debeatur. Efetivamente, tal questão, outrora polêmica, já encontrou solução definitiva na nossa jurisprudência, consoante demonstram as decisões do Colendo STJ, a saber: (...) v) INDENIZAÇÃO INSS E IR: Trata-se de indenização paga pelo Reclamado/Empregador a título de ressarcimento do prejuízo acarretado pela cobrança acumulada de INSS e IRPF, sobre o pagamento dos seus direitos em parcela única. Como já asserido e revolvido, a tributação da renda pelo IRPF, consoante traçado no arquétipo constitucional do imposto, e preenchido pela lei de normas gerais de tributação, qual seja o Código Tributário Nacional, tem como base material o desencadeamento de uma variação patrimonial positiva, identificada no tempo a partir da aquisição de disponibilidade econômica e jurídica desta renda, produto resultante do capital, do trabalho ou da combinação de ambos. Daí que nas hipóteses de recebimento de quantias que não logram acrescer o patrimônio do seu titular, mas meramente recompor seu acervo patrimonial, não se identifica, neste recebimento, sucesso apto a incitar a operação da norma de incidência do imposto. É o caso do contribuinte que, por ato de terceiro, sofreu decréscimo patrimonial, tendo determinado pagamento exatamente o efeito de restabelecer a sua higidez patrimonial. Temos, portanto, tal hipótese configurada no caso concreto, quando, ao invés do pagamento regular dos direitos trabalhistas do recorrente, mensalmente e em valores módicos, sujeitos a uma faixa de incidência isenta ou de alíquota reduzida, o seu empregador, ao efetuar o pagamento de tais quantias em parcela única e montante de valor superior, acarreta ao obreiro prejuízo na forma de incidência fiscal em faixa de alíquotas superior. Daí que, não se tratando a parcela referida de mera liberalidade paga pelo empregador, mas sim de indenização efetiva decorrente de efetivo prejuízo material acarretado ao Fl. 139DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 reclamante, o valor não é sujeito à tributação pelo IRPF, o que implica a improcedência desta exigência. Finalmente, não tendo havido recolhimento a menor, não há que se falar em omissão de rendimentos, tudo de molde a exigir seja reformada a decisão recorrida, o que, por via do presente Recurso Voluntário se requer. Ao final é requerido o conhecimento e provimento do Recurso Voluntário, ficando descaracterizada a omissão de rendimentos apontada, para que seja julgada improcedente a Notificação e confirmação do direito do autuado à restituição do imposto retido conforme constante em sua declaração do IRPF do período objeto do lançamento. É o relatório. Voto Conselheiro Mário Hermes Soares Campos, Relator. O recorrente foi intimado da decisão de primeira instância, por via postal, em 19/03/2014, conforme o Aviso de Recebimento de e.fl. 103. Tendo sido o recurso protocolizado em 17/04/2014, conforme atesta o carimbo aposto por servidor da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Salvador/BA (e.fl. 105), considera-se tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. Conforme relatado, trata-se de Recurso Voluntário em que se discute a tributação de diversas verbas recebidas pelo sujeito passivo em decorrência de reclamatória trabalhista, seguida de acordo judicial firmado perante a 23ª Vara da Justiça da do Trabalho em Salvador/BA. Registre-se que não ´foram juntadas aos autos a referida reclamatória trabalhista e, em especial, a sentença prolatada pela Justiça do Trabalho. Ao que importa à presente lide, somente foram anexados, entre outros: a) cópia de petição no processo judicial trabalhista dando conta do acordo celebrado entre as partes, com detalhamento dos valores a receber pelo reclamante, acordados entre as partes e especificados como: “Parcelas Indenizatórias sem Incidência do IRF/INSS” e “Parcelas Remuneratórias/Salariais com Incidência de IRR/INSS” (e.fls. 29/32 e 66/69); b) Ata de Conciliação realizada perante o juízo da 23ª Vara do Trabalho de Salvador/BA, (e.fl. 73/74), que homologa acordo em que as reclamadas pagam ao reclamante, a quantia bruta de R$ 840.000,00, devendo o valor liquido de R$680.000,00 ser liberado ao reclamante mediante a expedição de alvará judicial; c) planilha intitulada “Cálculos de liquidação de sentença”, sem qualquer identificação do emitente (e.fls. 76/ 82). Antes de passar à análise propriamente do recurso, deve ser novamente pontuado que as decisões judiciais que o recorrente invoca, em regra, são desprovidas da natureza de normas complementares e não vinculam decisões deste Conselho, sendo opostas somente às partes e de acordo com as características específicas e contextuais dos casos julgados e procedimentos de onde se originaram, não produzindo efeitos em outras lides, ainda que de natureza similar à hipótese julgada. Ressalve-se as situações expressamente previstas em lei, em que se reconhece a natureza vinculante de determinadas decisões, as quais serão objeto de apreciação nas páginas seguintes. Apropriado de pronto também esclarecer que, não há qualquer elemento vinculante no acordo firmado pelo recorrente e a Xerox Comércio e Indústria Ltda e homologado no processo trabalhista judicial, em especial quanto à discriminação de “Parcelas Indenizatórias sem Incidência do IRF/INSS” e “Parcelas Remuneratórias/Salariais com Incidência de IRF/INSS”. Tal ajuste (acordo) não impede que a Administração Tributária aplique, de acordo Fl. 140DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 com a interpretação que faz da legislação tributária, a classificação da natureza tributária das verbas deferidas, mesmo porque, a Fazenda Pública não foi parte na ação e, em nenhum momento, foi instada a pronunciar-se sobre tal matéria. Após o julgamento de piso foram mantidos na base de cálculo do lançamento, e é objeto de contestação no presente recurso, as seguintes verbas recebidas pelo recorrente e declaradas como parcelas indenizatórias não sujeitas à incidência do imposto sobre a renda: “indenização espontânea”, “férias mais terço constitucional”, “aviso prévio adicional”; “juros de mora” e “indenização INSS e IR”. “Indenização Espontânea”, “Aviso Prévio adicional” e “Indenização INSS e IR”. O imposto sobre a renda é regido, entre outros, pelo princípio da generalidade. Segundo tal princípio, a tributação do imposto independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando para sua incidência o benefício auferido pelo contribuinte, por qualquer forma e a qualquer título, conforme disposto no art. 3°, § 4°, da Lei n.° 7.713, de 1988. Noutro giro, as verbas isentas do IRPF também estão expressamente previstas no art. 39 do RIR/1999, vigente à época de ocorrência dos fatos, onde consta no inciso XX, tendo como base o art. 6° da Lei n.° 7.713, de 1988, quais rendimentos percebidos por ocasião da rescisão de contrato de trabalho seriam isentos. Quaisquer outros rendimentos, mesmo nomeados com o título de indenizações, devem compor o rendimento bruto para efeito de tributação, uma vez que, sendo a isenção uma das modalidades de exclusão do crédito tributário, deve ser decorrente de lei e de interpretação literal e restritiva, nos termos dos arts. 111 e 176 do CTN. Daí resulta que todos os rendimentos, abstraindo-se sua denominação, acordos ou qualquer outra circunstância, estão sujeitos à incidência do imposto sobre a renda, desde que não agasalhados no rol das isenções de que tratam os incisos que compõem o art. 39°, do RIR/1999. Nesse sentido, o Parecer Normativo CST n.° 5, de 1984, ao discorrer sobre hipótese em que parcela da remuneração seja paga a assalariado a título de "indenização", esclarece em sua ementa: "... O caráter indenizatório e a exclusão dentre os rendimentos tributáveis do pagamento efetuado a assalariado devem estar previstos pela legislação federal para que seu valor seja excluído do rendimento bruto". Portanto, não tem o acordo homologado junto à Justiça do Trabalho o condão de criar coisa julgada sobre a matéria. Nesses termos, a incidência do IRPF sobre as verbas recebidas pelo contribuinte mediante o acordo homologado judicialmente deve ser aferida tendo por base a legislação de regência do tributo, com destaque para o art. 43 do CTN, que trata da hipótese de incidência do imposto. Destaco novamente o fato de que o recorrente não trouxe aos autos quaisquer documentos que pudessem embasar suas alegações, sequer a petição inicial da reclamatória trabalhista e sentença proferida pelo juízo. No que tange à “Indenização Espontânea”, informa o autuado tratar-se de indenização pactuada nas negociações coletivas de trabalhos, entre os sindicatos respectivos, como compensação adicional à legal paga ao obreiro dispensado imotivadamente. Ora, não há qualquer norma tributária que exclua tal pagamento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda. Destaco ainda que o interessado cita julgado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que versa sobre indenizações pagas no bojo de programas de demissão voluntária instituídos pelas respectivas fontes pagadoras, hipótese que não se subsome ao presente caso. Fl. 141DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 Ao tratar do “Aviso Prévio adicional”, afirma o recorrente que: “De efeito, da mesma forma que o aviso prévio pago conforme previsão legal, o aviso prévio adicional pago em virtude de cumprimento de norma coletiva não sofre a incidência de IRPF, constituindo verba isenta conforme disposição regulamentar. E assim o é porque como se trata de atendimento a disposição cogente de norma coletiva, não caracterizando pagamento realizado por mera liberalidade do empregador.” A própria afirmação do autuado não deixa dúvidas quanto à natureza adicional e tributável de tal verba, uma vez que não se trata do aviso-prévio regular devido por ocasião da rescisão do contrato de trabalho. Conforme informa o contribuinte trata-se de verba adicional, entretanto, o inc. XX, do art. 39 do RIR/1999, somente trata como hipótese isentiva do IRPF o aviso-prévio regular, não havendo base normativa que autorize a não inclusão do “Aviso Prévio adicional” na base de cálculo do imposto. Nesse mesmo sentido a verba recebida a título de “Indenização INSS e IR”, que informa o recorrente tratar-se de indenização paga pelo Reclamado/Empregador a título de ressarcimento do prejuízo acarretado pela cobrança acumulada de INSS e IRPF, sobre o pagamento dos seus direitos em parcela única. É por demais consabido que o imposto sobre a renda e a contribuição previdenciária a cargo do empregado são valores devidos pelas pessoas físicas e não pela pessoa jurídica empregadora, sendo descontados de todos os empregados por ocasião do pagamento. Dessa forma, eventual acordo firmado entre empregador e empregado, no sentido de restituição/indenização, ou qualquer outra denominação, de tais tributos não implica qualquer repercussão na sujeição passiva do IRPF, devendo os valores recebidos serem incluídos na base de cálculo do imposto. Com relação às verbas relativas a “Indenização Espontânea”, “Aviso Prévio adicional” e “Indenização INSS e IR”, o sujeito passivo não logrou comprovar, por meio de documentação material hábil, que alguma dessas parcelas se caracterizariam como hipótese de isenção ou não tributação prevista no art. 39 do RIR/99. Correta assim a decisão proferida pela DRJ/RJ1, ora objeto de recurso, ao considerar como rendimentos tributáveis os valores recebidos a título de “Indenização Espontânea”, “Aviso Prévio adicional” e “Indenização INSS e IR”, posto que o sujeito passivo não logrou comprovar, por meio de documentação material hábil, que alguma dessas parcelas se caracterizariam como hipótese de isenção ou não tributação prevista no art. 39 do RIR/1999. Não incidência do IRPF sobre juros moratórios Defende o recorrente a não incidência de imposto sobre a renda sobre juros de mora definidos como parcela indenizatória, que não poderia ser considerado como um acréscimo no patrimônio. Após o lançamento e também o julgamento de piso, em apreciação do RE 855.091 (trânsito em julgado em 14/09/2021), em repercussão geral (Tema 808), o Supremo Tribunal Federal fixou entendimento no sentido da não incidência do IRPF sobre os juros de mora pagos pelo atraso no recebimento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função, sendo firmada a seguinte tese: “Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função”. A decisão encontra- se assentada nos seguintes termos: O Tribunal, por maioria, apreciando o tema 808 da repercussão geral, negou provimento ao recurso extraordinário, considerando não recepcionada pela Constituição de 1988 a parte do parágrafo único do art. 16 da Lei nº 4.506/64 que determina a incidência do imposto de renda sobre juros de mora decorrentes de atraso no pagamento das remunerações previstas no artigo (advindas de exercício de empregos, cargos ou funções), concluindo que o conteúdo mínimo da materialidade do imposto de renda contido no art. 153, III, da Constituição Federal de 1988, não permite que ele incida Fl. 142DF CARF MF Original Fl. 9 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 sobre verbas que não acresçam o patrimônio do credor. Por fim, deu ao § 1º do art. 3º da Lei nº 7.713/88 e ao art. 43, inciso II e § 1º, do CTN interpretação conforme à Constituição Federal, de modo a excluir do âmbito de aplicação desses dispositivos a incidência do imposto de renda sobre os juros de mora em questão. Tudo nos termos do voto do Relator, vencido o Ministro Gilmar Mendes. Foi fixada a seguinte tese: "Não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função". À vista de tal julgado, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, emitiu orientação no sentido do cumprimento da decisão do STF, nos termos do Parecer PGFN SEI nº 10167/2021/ME, de 7 de julho de 2021, donde se extrai a seguinte conclusão: 29. Em resumo: a) no julgamento do RE n° 855.091/RS foi declarada a não recepção pela CF/88 do art. 16 da Lei n° 4.506/1964; b) foi declarada a interpretação conforme à CF/88 ao § 1° do art. 3° da Lei n° 7.713/88 e ao art. 43, inciso II e § 1°, do CTN; c) a tese definida, nos termos do art. 1.036 do CPC, é "não incide imposto de renda sobre os juros de mora devidos pelo atraso no pagamento de remuneração por exercício de emprego, cargo ou função", tratando-se de exclusão abrangente do tributo sobre os juros devidos em quaisquer pagamentos em atraso, independentemente da natureza da verba que está sendo paga; d) não foi concedida a modulação dos efeitos da decisão nos termos do art. 927, § 3°, do CPC; e) a tese definida aplica-se aos procedimentos administrativos fiscais em curso; f) os procedimentos administrativos fiscais suspensos em razão do despacho de 20/08/2008 deverão ter seu curso retomado com a devida aplicação da tese acima exposta; g) os efeitos da decisão estendem-se aos pedidos administrativos de ressarcimento pagos em atraso sendo desnecessário que o reconhecimento do pagamento em atraso decorra de decisão judicial. Sugere-se que o presente Parecer, uma vez aprovado, seja remetido à RFB em cumprimento ao disposto no art. 3°, § 3°, da Portaria Conjunta PGFN/RFB n° 1/2014.(destaques do original). Nos termos do § 2º do art. 62 do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), o entendimento preconizado no julgado acima sumariado deve ser reproduzido pelos seus conselheiros no julgamento dos recursos. Portanto, assiste parcial ao recorrente quanto a tal pleito, devendo ser excluída da base de cálculo do lançamento a parcela recebida a título de juros moratórios. Não incidência do IRPF sobre férias indenizadas e respectivo terço constitucional No tocante às férias não gozadas e respectivo terço constitucional, recebidas na rescisão contratual, também há posicionamento definitivo do Superior Tribunal de Justiça atinente à matéria no sentido da não tributação. Deve assim ser reproduzido o decidido no REsp 1111223/SP, recurso representativo de controvérsia, submetido ao procedimento do art. 543-C do CPC, nos termos do já citado § 2º do art. 62 do Anexo II do RICARF. Confira-se a ementa de referido julgado: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. DEMISSÃO SEM JUSTA CAUSA. VERBAS RECEBIDAS A TÍTULO DE FÉRIAS PROPORCIONAIS E Fl. 143DF CARF MF Original Fl. 10 do Acórdão n.º 2202-009.525 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10580.720698/2009-08 RESPECTIVO TERÇO CONSTITUCIONAL. RECURSO SUBMETIDO AO PROCEDIMENTO DO ART. 543-C DO CPC E DA RESOLUÇÃO STJ 08/08. 1. Os valores recebidos a título de férias proporcionais e respectivo terço constitucional são indenizações isentas do pagamento do Imposto de Renda. Precedentes: REsp 896.720/SP, Rel. Min. Castro Meira, DJU de 01.03.07; REsp 1.010.509/SP, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe de 28.04.08; AgRg no REsp 1057542/PE, Rel. Min. Francisco Falcão, DJe de 01.09.08; Pet 6.243/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, DJe de 13.10.08; AgRg nos EREsp 916.304/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, DJU de 08.10.07. 2. Recurso representativo de controvérsia, submetido ao procedimento do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08. 3. Recurso especial provido. (REsp 1111223/SP, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22/04/2009, DJe 04/05/2009) Portanto, nos termos do quanto decidido pelo STJ, sob o rito de repercussão geral, os valores recebidos a título de férias proporcionais e respectivo terço constitucional devem ser excluídos da presente notificação. Ante todo o exposto, voto por conhecer do Recurso e no mérito pelo seu provimento parcial, para exclusão da base de cálculo do lançamento os valores recebidos a título de férias proporcionais, respectivo terço constitucional e os valores recebidos a título de juros moratórios. (documento assinado digitalmente) Mário Hermes Soares Campos Fl. 144DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 10830.722801/2015-03
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 23 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Mon Feb 27 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Exercício: 2011
DEDUÇÃO INDEVIDA DE DESPESAS MÉDICAS. FALTA DE COMPROVAÇÃO.
A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea dos gastos efetuados, podendo ser exigida a demonstração do efetivo pagamento e prestação do serviço
Numero da decisão: 2002-007.129
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o Conselheiro Thiago Duca Amoni (relator) que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo de Sousa Sateles.
(documento assinado digitalmente)
Diogo Cristian Denny - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator(a)
(documento assinado digitalmente)
Marcelo de Sousa Sateles Redator Designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo de Sousa Sateles, Thiago Duca Amoni, Diogo Cristian Denny (Presidente).
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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FALTA DE COMPROVAÇÃO. A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea dos gastos efetuados, podendo ser exigida a demonstração do efetivo pagamento e prestação do serviço Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o Conselheiro Thiago Duca Amoni (relator) que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo de Sousa Sateles. (documento assinado digitalmente) Diogo Cristian Denny - Presidente (documento assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni - Relator(a) (documento assinado digitalmente) Marcelo de Sousa Sateles – Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcelo de Sousa Sateles, Thiago Duca Amoni, Diogo Cristian Denny (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 28 01 /2 01 5- 03 Fl. 84DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida: Contra o(a) contribuinte acima identificado(a) foi expedida notificação de lançamento referente a Imposto de Renda Pessoa Física, exercício 2011, ano-calendário 2010, formalizando a exigência de imposto suplementar no valor de R$5.562,65, acrescido de multa de ofício e juros de mora. A autuação decorreu de glosa das despesas médicas, no total de R$20.227,82, detalhadas na notificação de lançamento, “DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL”. Cientificado(a) do lançamento em 07/05/2015, o(a) contribuinte apresentou impugnação em 29/05/2015. Na impugnação (fls. 3/4), o contribuinte contesta a infração integralmente, conforme alegações e documentos. Tendo em vista o disposto no art. 6º-A da IN RFB nº 958/09, os documentos apresentados e as questões de fato foram analisados pela Autoridade Lançadora, sendo lavrado Despacho Decisório (fls. 31/33), que decidiu por acatar a despesa com plano de saúde de R$ 2.827,82 e por manter a glosa da despesa de R$ 17.400,00 (Rafael Campos - falta de comprovação do efetivo pagamento e do paciente dos serviços - comprovantes às fls. 10/21), reduzindo o imposto suplementar para R$ 4.785,00, mais multa de ofício e juros de mora. Cientificado (fls. 34/39), o contribuinte se manifestou às fls. 42/45, trazendo novas alegações e reapresentando os recibos do profissional. A decisão de primeira instância manteve o lançamento do crédito tributário exigido, encontrando-se assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Exercício: 2011 NOTIFICAÇÃO DE LANÇAMENTO EMITIDA POR PROCESSAMENTO ELETRÔNICO. Ementa vedada pela Portaria RFB nº 2.724, de 2017. Cientificado da decisão de primeira instância em 19/12/2019, o sujeito passivo interpôs, em 08/01/2020, Recurso Voluntário, alegando a improcedência da decisão recorrida, sustentando, em apertada síntese, que: a) os documentos apresentados cumprem com os requisitos legais e são hábeis a comprovar as despesas médicas - prestação dos serviços e efetivo pagamento; b) as despesas médicas estão comprovadas nos autos, identificando o beneficiário dos serviços prestados. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro(a) Thiago Duca Amoni - Relator(a) O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. Fl. 85DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 Da dedução de despesas médicas As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 - Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99): Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no ano-calendário será a diferença entre as somas: I - de todos os rendimentos percebidos durante o ano-calendário, exceto os isentos, os não-tributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II - das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no ano-calendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no ano-calendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"). §1ºO disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, §2º): I- aplica-se, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II- restringe-se aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III- limita-se a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas - CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento (grifos nossos) O trecho em destaque é claro quanto a idoneidade de recibos e notas fiscais, desde que preenchidos os requisitos legais, como meios de comprovação da prestação de serviço de saúde tomado pelo contribuinte e capaz de ensejar a dedução da despesa do montante de IRPF devido, quando da apresentação de sua DAA. O dispositivo em comento vai além, permitindo ainda que, caso o contribuinte tomador do serviço, por qualquer motivo, não possua o recibo emitido pelo profissional, a comprovação do pagamento seja feita por cheque nominativo ou extratos de conta vinculados a alguma instituição financeira. Assim, como fonte primária da comprovação da despesa temos o recibo e a nota fiscal emitidos pelo prestador de serviço, desde que atendidos os requisitos legais. Na falta Fl. 86DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 destes, pode, o contribuinte, valer-se de outros meios de prova. Ademais, o Fisco tem a sua disposição outros instrumentos para realizar o cruzamento de dados das partes contratantes, devendo prevalecer a boa-fé do contribuinte. Nesta linha, no acórdão 2001-000.388, de relatoria do Conselheiro deste CARF José Alfredo Duarte Filho, temos: (...) No que se refere às despesas médicas a divergência é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pela contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. (...) É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocando-o na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (dedução tributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecê-lo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Some-se a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagador recebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações Fl. 87DF CARF MF Original Fl. 5 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazê-lo daquela forma." Ainda, há jurisprudência deste Conselho que corroboram com os fundamentos até então apresentados: Processo nº 16370.000399/200816 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.387 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 18 de abril de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FLÁVIO JUN KAZUMA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Processo nº 13830.000508/2009-23 Recurso nº 908.440 Voluntário Acórdão nº 2202-01.901 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 10 de julho de 2012 Matéria Despesas Médicas Recorrente MARLY CANTO DE GODOY PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2006 DESPESAS MÉDICAS. RECIBO. COMPROVAÇÃO. Recibos que contenham a indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas - CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica - CNPJ de quem prestou os serviços são documentos hábeis, até prova em contrário, para justificar a dedução a título de despesas médicas autorizada pela legislação. Fl. 88DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 Os recibos que não contemplem os requisitos previstos na legislação poderão ser aceitos para fins de dedução, desde que seja apresenta declaração complementando as informações neles ausentes. Às e-fls. 69 e seguintes há recibos emitidos por Rafael Campos, no valor de R$17.400,00, que considero hábeis e idôneos para comprovação das despesas médicas. Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, dar-lhe provimento. É como voto. Thiago Duca Amoni - Relator Voto Vencedor No que pese o excelente voto apresentado pelo relator acima, permita-me divergir de seu entendimento quanto à comprovação das despesas médicas glosadas pela fiscalização, conforme passo a expor. Antes de se passar à análise dos argumentos e documentos apresentados pelo recorrente, veja-se o disposto no Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999, acerca das deduções permitidas de despesas médicas: DEDUÇÕES Art.73.Todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, §3º).(Grifos Acrescidos) Despesas Médicas Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no ano-calendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea “a”). § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): I- aplica-se, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II- restringe-se aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III- limita-se a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (grifos acrescidos) Como se depreende da legislação transcrita acima, a dedução das despesas médicas na Declaração de Imposto de Renda está sujeita à comprovação a critério da Autoridade Fl. 89DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 Lançadora. O primeiro item a ser comprovado pelo contribuinte, segundo expressa disposição legal (pagamentos efetuados), é exatamente o pagamento das despesas médicas. É regra geral no direito que o ônus da prova cabe a quem alega e, tendo o contribuinte informado, em sua declaração de ajuste anual, deduções de despesas médicas, deve fazer prova dessas despesas, quando provocado, para usufruir das referidas deduções. É o que estabelece o art. 11, § 3º do Decreto-Lei nº 5.844, de 1943, quando dispõe expressamente que o contribuinte pode ser instado a comprová-las ou justificá-las. Comumente é aceito, para comprovar o pagamento das despesas médicas, o recibo/nota fiscal firmado pelo profissional da área médica. No entanto, cabe esclarecer que mesmo o contribuinte apresentando os recibos firmados pelo profissional, com todos os requisitos exigidos pela legislação acima transcrita, é licito à Autoridade exigir, a seu critério, outros elementos de provas adicionais, caso não fique convencido da efetividade da prestação dos serviços ou do respectivo pagamento. É equivocado entender-se que basta para comprovação de despesas médicas/odontológicas a apresentação de recibo contendo o nome, endereço e número do CPF ou CNPJ de quem prestou o serviço. Essa não é a correta interpretação ao inciso III transcrito (matriz legal do art. 80, § 1º, III, do RIR/1999. A essência do dispositivo é a especificação e comprovação tanto dos serviços prestados quanto dos pagamentos, tanto que se admite o cheque nominativo como documento comprobatório, por ser prova de transferência de numerários entre pessoas. No entanto, mesmo essa forma de prova pode estar sujeita à justificação da efetiva prestação do serviço, quando dúvidas razoáveis acudirem ao fisco, pois a prestação do serviço ao contribuinte ou a seus dependentes, aliada ao pagamento, é o substrato material a dar guarida à dedução, consoante o inciso II do mesmo art. 8º da Lei 9.250, de 1995. A exigência em questão é que quando solicitada a comprovação do pagamento essa seja feita por meio de documento hábeis a comprovar tal fato. No presente caso, a fiscalização glosou as despesas médicas acima elencadas por falta de comprovação do efetivo pagamento. Os documentos apresentados não foram considerados como provas incontestes do efetivo pagamento, das deduções pretendidas. Para fazer a comprovação do pagamento ou da prestação dos serviços, assistia ao contribuinte a possibilidade de apresentação de vários documentos, tais como: extratos bancários com saques contemporâneos e nos valores dos pagamentos, cheques nominativos, depósitos bancários, transferências entre contas dentre outros documentos. Os recibos apresentados pelo contribuinte não foram considerados suficientes para comprovação do efetivo pagamento das despesas. Fundamentado o lançamento na falta de comprovação do efetivo pagamento das despesas médicas deduzidas na declaração, para ter direito às respectivas deduções, não basta ao contribuinte apresentar simples recibos e/ou declarações dos profissionais, cabe, portanto, ao beneficiário dos recibos provar que realmente efetuou os pagamentos nos valores constantes nos comprovantes, bem assim a época em que os serviços foram prestados, para que fique caracterizada a efetividade da despesa passível de dedução, no período assinalado. O interessado teve oportunidade, à luz do art. 15 do Decreto nº 70.235/72, de contestar os dados apurados pela Fiscalização, fundamentando sua defesa com os elementos de Fl. 90DF CARF MF Original Fl. 8 do Acórdão n.º 2002-007.129 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10830.722801/2015-03 prova suficientes e necessários a infirmar os dados utilizados na efetivação do lançamento, no entanto, não o fez. É pertinente aqui transcrever o disposto no artigo 29 do Decreto nº 70.235/72: “Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias.” (grifei). Na situação presente e conforme análise da documentação trazida aos autos, não houve o convencimento de que as despesas médicas ocorreram na forma e valores alegados pelo contribuinte. A glosa deve ser mantida Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, negar-lhe provimento. É como voto. Marcelo de Sousa Sáteles – Redator Designado Fl. 91DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 36278.000235/2007-73
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 09 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2023
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/08/2005 a 31/05/2007
RELATÓRIOS DO AUTO DE INFRAÇÃO. INAPTIDÃO PARA ATRIBUIR RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÚMULA CARF Nº 88.
Relação de Co-Responsáveis - CORESP", o "Relatório de Representantes Legais - RepLeg" e a "Relação de Vínculos -VÍNCULOS", anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa.
SÚMULA CARF N° 119. CANCELAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991. LEI Nº 11.941/2009.
Por força da retroatividade benigna, o cálculo da penalidade deve ser efetuado conforme a atual redação do art. 32-A da Lei nº 8.212/1991, que fixa o percentual máximo de 20% para a multa moratória.
Numero da decisão: 2202-009.391
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para se proceder ao recálculo da multa, com vistas a se aplicar a penalidade mais benéfica à recorrente, comparando-se o valor aplicado com base na regra vigente à época dos fatos geradores, com o valor da multa apurado com base na atual redação do art. 32-A da Lei 8.212, de 1991.
(assinado digitalmente)
Mário Hermes Soares Campos - Presidente.
(assinado digitalmente)
Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Relatora.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Christiano Rocha Pinheiro, Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira (Relatora), Mário Hermes Soares Campos (Presidente), Martin da Silva Gesto, Samis Antônio de Queiroz, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Sônia de Queiroz Accioly.
Nome do relator: LUDMILA MARA MONTEIRO DE OLIVEIRA
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ementa_s : ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/08/2005 a 31/05/2007 RELATÓRIOS DO AUTO DE INFRAÇÃO. INAPTIDÃO PARA ATRIBUIR RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÚMULA CARF Nº 88. Relação de Co-Responsáveis - CORESP", o "Relatório de Representantes Legais - RepLeg" e a "Relação de Vínculos -VÍNCULOS", anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. SÚMULA CARF N° 119. CANCELAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991. LEI Nº 11.941/2009. Por força da retroatividade benigna, o cálculo da penalidade deve ser efetuado conforme a atual redação do art. 32-A da Lei nº 8.212/1991, que fixa o percentual máximo de 20% para a multa moratória.
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INAPTIDÃO PARA ATRIBUIR RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÚMULA CARF Nº 88. Relação de Co-Responsáveis - CORESP", o "Relatório de Representantes Legais - RepLeg" e a "Relação de Vínculos -VÍNCULOS", anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. SÚMULA CARF N° 119. CANCELAMENTO. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991. LEI Nº 11.941/2009. Por força da retroatividade benigna, o cálculo da penalidade deve ser efetuado conforme a atual redação do art. 32-A da Lei nº 8.212/1991, que fixa o percentual máximo de 20% para a multa moratória. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para se proceder ao recálculo da multa, com vistas a se aplicar a penalidade mais benéfica à recorrente, comparando-se o valor aplicado com base na regra vigente à época dos fatos geradores, com o valor da multa apurado com base na atual redação do art. 32-A da Lei 8.212, de 1991. (assinado digitalmente) Mário Hermes Soares Campos - Presidente. (assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 27 8. 00 02 35 /2 00 7- 73 Fl. 276DF CARF MF Original Fl. 2 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Christiano Rocha Pinheiro, Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira (Relatora), Mário Hermes Soares Campos (Presidente), Martin da Silva Gesto, Samis Antônio de Queiroz, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Sônia de Queiroz Accioly. Relatório Trata-se de recurso voluntário interposto pela IBT IND. BRASILEIRA TELEVISORES LTDA. contra acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém – DRJ/BEL – que acolheu parcialmente a impugnação apresentada para reconhecer a decadência parcial da exigência da multa aplicada por ter apresentado GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas contribuições previdenciárias [CFL 68], bem como para que seu cálculo observasse as alterações promovidas pela Lei nº 11.941/09. Em sua impugnação (f. 116/122) suscitou, em sede preliminar, a carência de responsabilidade dos sócios/administradores, além da decadência da exigência. No mérito, afirma que as obrigações principais ensejadoras do aplicação da sanção foram igualmente impugnadas. Ao apreciar as alegações e os documentos acostados, proferido o acórdão assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIARIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005 AUTO DE INFRAÇÃO N° 37.064.390-9. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. GFIP. OMISSÃO DE FATOS GERADORES. Apresentar Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social - GFIP corn ciados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenckirias, constitui infração ao artigo 32, inciso IV, parágrafo 5°, da Lei 8.212/91. CONEXÃO. O instituto da conexão, previsto no art. 103 do Código de Processo Civil, diz respeito somente ao processo judicial, sendo facultado ao contencioso administrativo ordenar a reunião dos mesmos para apreciação e julgamento, em primeira instância administrativa. PRAZO DECADENCIAL. SÚMULA VINCULANTE. Prescreve a Súmula Vinculante n° 8, do STF, que são inconstitucionais os artigos 45 e 46, da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência, razão pela qual. em se tratando de lançamento de oficio, deve-se aplicar o prazo decadencial de cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art.173, I, do CTN). ELEIÇÃO DOS DIRIGENTES DA EMPRESA COMO CO- RESPONSÁVEIS DO DÉBITO. Os dirigentes de uma empresa podem figurar como co- responsáveis pelo débito quando a esta deixa de recolher a contribuição previdencidria devida, por estar, assim, havendo Fl. 277DF CARF MF Original Fl. 3 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 infringência A lei tributária, conforme prevê o artigo 135 do CTN, e por expressa permissão do Art. 13 c Parágrafo Onico da Lei n° 8.620/93. DISTINÇÃO ENTRE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA. O descumprimento da obrigação principal dá ensejo à constituição do credito previdencidrio através de Noti ficação Fiscal de Lançamento de Debito - NFLD, enquanto que o descumprimento da obrigação acessória tern corno conseqüência a lavratura do Auto de Infração. RETIFICAÇÃO DA MULTA. A apresentação pelo Sujeito Passivo de novos elementos capazes de alterar a base de cálculo do lançamento do crédito previdencidrio, obriga a Administração Pública a promover sua retificação. LANÇAMENTO NÃO DEFINITIVAMENTE JULGADO. RETROATIVIDADE BENIGNA EM MATÉRIA DE INFRAÇÃO. Tratando-se de auto de infração decorrente do descumprimento de obrigação tributária acessória não definitivamente julgado aplica-se a nova lei quando cominar penalidade menos severa que a prevista naquela vigente ao tempo da sua lavratura. Intimada do acórdão, a recorrente apresentou, em 16/04/2010, recurso voluntário (f. 238/240), reiterando a preliminar de ilegitimidade passiva e se insurgindo contra a forma de cálculo da multa, após a determinação da retroatividade benigna da lei pela instância a quo. Às f. 264, por não ter sido possível identificar o deslinde da exigência das obrigações principais consubstanciadas nas NFLD nºs 34.064.383-6 e 37.064.384-4, proferi despacho propondo o encaminhamento dos autos à DIPRO/COJUL para que prestadas as informações imprescindíveis ao julgamento da obrigação acessória. Em resposta (f. 266/267), determinou o setor fosse oficiado o órgão de origem para esclarecimento do desenlace das retromencionadas NFLDs. Às f. 271/272 acostadas telas que informam terem sido os créditos baixados por liquidação. Vieram-me os autos conclusos – vide despacho às f. 273. É o relatório. Voto Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Relatora. O recurso é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, dele conheço. Fl. 278DF CARF MF Original Fl. 4 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 I – DA PRELIMINAR A recorrente insistiu que “não é qualquer infração que permite desconsiderar a personalidade jurídica da pessoa jurídica.” (f. 246) Entretanto, a mera leitura do documento que, supostamente atribuiria responsabilidade, evidencia que sua finalidade é tão-somente “lista[r] todas as pessoas físicas ou jurídicas de interesse da administração previdenciária em razão de seu vínculo com o sujeito passivo, representantes legais ou não, indicando o tipo de vínculo existente e o período correspondente.” O receio de inclusão das pessoas físicas listadas fica claramente afastado com o disposto na Súmula CARF nº 88, que elucida que [a] Relação de Co-Responsáveis - CORESP", o "Relatório de Representantes Legais - RepLeg" e a "Relação de Vínculos - VÍNCULOS", anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. (sublinhas deste voto) Deixo de acolher a preliminar. II – DO MÉRITO Conforme relatado, cinco foram as NFLD’s ensejadoras da aplicação da sanção – nºs 37.064.381-0, 37.064.382-8, 37.064.385-2, 37.064.383-6 e 37.064.384-4. Com relação às duas primeiras NFLD citadas, por força da aplicação do disposto na Súmula Vinculante de nº 8, reconhecida a decadência de parcela das exigências – vide processos nºs 35011.000642/2007-49 e 36278.000232/2007-30. Já no tocante à NFLD nº 37.064.385-2, não foi a acolhida a pretensão do sujeito passivo – cf. processo nº 36278.000232/2007-30. E, por derradeiro, as obrigações principais consubstanciadas nas NFLD nºs 34.064.383-6 e 37.064.384-4 foram baixadas por liquidação. A instância a quo, em atenção à declaração de inconstitucionalidade do prazo decadencial decenal, houve por bem reconhecer a decadência parcial da exigência, além de determinar a aplicação retroativa da Lei nº 11.941/09 da seguinte forma: Cabe à autoridade administrativa competente, no momento da extinção do crédito tributário de obrigação principal, observar o cumprimento do preceito insculpido no art. 106, inciso 11, alínea "c", do CTN, mediante limitação do quantum máximo do somatório das multas aplicadas no presente auto de infração em conjunto com as multas incidentes sobre a obrigação principal, ao percentual de 75% da importância não recolhida no prazo regulamentar, e, simultaneamente, não declarada e/ou informada de forma incorreta, inexata ou omissa, de forma a assegurar a Fl. 279DF CARF MF Original https://carf.fazenda.gov.br/sincon/public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudenciaCarf.jsf Fl. 5 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 aplicação da penalidade pecuniária mais benéfica ao sujeito passivo. (f. 228) É sobre o cálculo da multa, tal qual determinado pela DRJ, que se insurge a recorrente. A controvérsia era outrora pacificada pela Súmula CARF nº 119, que veio a ser neste ano cancelada, conforme consta da Portaria do Ministério da Economia nº 9.910, publicada no dia 18 de agosto de 2021. Inexistindo entendimento vinculante, passo declinar as razões que demonstram a pertinência do pedido da recorrente. A Procuradoria da Fazenda Nacional editou o Parecer SEI Nº 11315/2020/ME, ratificando a Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME, que trata da “Lista de Dispensa de Contestar e Recorrer”, a qual peço vênia para transcrever, no que importa: 1. Trata-se da Nota Cosit nº 189, de 28 de junho de 2019, da Coordenação-Geral de Tributação da Secretaria da Receita Federal do Brasil – COSIT/RFB e do e-mail s/n, de 13 de maio de 2020, da Procuradoria-Regional da Fazenda Nacional na 3ª Região – PRFN 3ª Região, os quais contestam a Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME, que analisou proposta de inclusão de tema em lista de dispensa de contestar e de recorrer, nos termos da Portaria PGFN nº 502, de 12 de maio de 2016[1]. (...) 10. Nesse contexto, em que pese a força das argumentações tecidas pela RFB, a tese de mérito explicitada já fora submetida ao Poder Judiciário, sendo por ele reiteradamente rechaçada, de modo que manter a impugnação em casos tais expõe a Fazenda Nacional aos riscos da litigância contra jurisprudência firmada, sobretudo à condenação ao pagamento de multa. 11. Ao examinar a viabilidade da presente dispensa recursal, a CRJ lavrou a Nota SEI nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME, relatando que a PGFN já defendeu, em juízo, a diferenciação do regime jurídico das multas de mora e de ofício para, a partir disso, evidenciar a possibilidade ou não de retroação benigna, conforme as regras incidentes a cada espécie de penalidade: 6. A respeito da questão, a Fazenda Nacional vem defendendo judicialmente a tese de que, para a definição do percentual aplicável a cada caso, indispensável discernir se se trata de multa moratória, devida no caso de atraso no pagamento independente do lançamento de ofício, ou de multa de ofício, cuja incidência pressupõe a realização do lançamento pelo Fisco para a constituição do crédito tributário, diante do não recolhimento do tributo e/ou falta de declaração ou declaração inexata por parte do contribuinte. 7. Na perspectiva da Fazenda Nacional, havendo lançamento de ofício, incidiria a regra do art. 35 anterior à Lei nº 11.941, de 2009 (que previa multa para a NFLD e a escalonava até 100% do débito) ou aplicar-se-ia retroativamente o art. 35-A da Lei nº 8.212, de 1991 (que estipula multa de ofício em 75%), quando mais benéfico ao contribuinte. Tais regras, conforme defendido, diriam respeito à multa de ofício. Noutras palavras, na linha advogada pela União, restaria afastada a incidência da atual Fl. 280DF CARF MF Original Fl. 6 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 redação do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991 (de acordo com a Lei nº 11.941, de 2009), porquanto aplicável apenas à multa moratória, não havendo que se falar em redução da multa de ofício imposta pelo Fisco para o patamar de 20% do débito. (grifos no original) 12. Entretanto, o STJ, guardião da legislação infraconstitucional, em ambas as suas turmas de Direito Público, assentou a retroatividade benigna do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação da Lei nº 11.941, de 2009, que fixa o percentual máximo de multa moratória em 20%, inclusive nas hipóteses de lançamento de ofício. O mesmo entendimento é colhido em precedente da eg. Câmara Superior, cujo acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2007 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. NOTA SEI Nº 27/2019/CRJ/PGACET/PGFN-ME. A jurisprudência do STJ acolhe, de forma pacífica, a retroatividade benigna da regra do art. 35 da Lei nº 8.212/91, com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009, que fixa o percentual máximo de multa moratória em 20%, em relação aos lançamentos de ofício. Afasta- se a aplicação do art. 35-A da Lei nº 8.212/91, que prevê a multa de 75% para os casos de lançamento de ofício das contribuições previdenciárias, por considerá-la mais gravosa ao contribuinte. O art. 35-A da Lei 8.212, de 1991, incide apenas em relação aos lançamentos de ofício realizados após a vigência da referida Lei nº 11.941, de 2009, sob pena de afronta ao disposto no art. 144 do CTN. (CARF. Acórdão nº 9202-009.703, Cons.ª Rel.ª Rita Eliza Reis Da Costa Bacchieri, sessão de 23 de agosto de 2021. Por esses motivos, a multa imposta merece ser recalculada conforme redação atual do art. 32-A da Lei nº 8.212/1991, que fixa o percentual máximo de 20% para a multa moratória, por força da retroatividade benigna – ex vi da al. “c” do inc. II do art. 106 do CTN. III – DO DISPOSITIVO Ante o exposto, dou provimento parcial ao recurso, para se proceder ao recálculo da multa, com vistas a se aplicar a penalidade mais benéfica à recorrente, comparando- se o valor aplicado com base na regra vigente à época dos fatos geradores, com o valor da multa apurado com base na atual redação do art. 32-A da Lei 8.212, de 1991. (documento assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira Fl. 281DF CARF MF Original Fl. 7 do Acórdão n.º 2202-009.391 - 2ª Sejul/2ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36278.000235/2007-73 Fl. 282DF CARF MF Original
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