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Numero do processo: 10410.005172/2006-03
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2002
DECADÊNCIA. GANHO CAPITAL. AUSÊNCIA RECOLHIMENTO.
Na ausência de recolhimento, o prazo para o Fisco constituir o crédito tributário de ofício, na apuração de ganho de capital na alienação de imóveis, rege-se pelo art 173, I, do CTN.
ALIENAÇÃO. DESMEMBRAMENTO DE IMÓVEL. GANHO DE CAPITAL.
Imóveis desmembrados de origem comum constituem-se em imóveis distintos para fins de apuração de ganho de capital, não lhes sendo aplicável, em caso de alienação, a isenção prevista nos termos do art. 23 da Lei nº 9.250/95.
Numero da decisão: 2402-005.968
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar de decadência suscitada e negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Theodoro Vicente Agostinho, Maurício Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Fernanda Melo Leal.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2002 DECADÊNCIA. GANHO CAPITAL. AUSÊNCIA RECOLHIMENTO. Na ausência de recolhimento, o prazo para o Fisco constituir o crédito tributário de ofício, na apuração de ganho de capital na alienação de imóveis, rege-se pelo art 173, I, do CTN. ALIENAÇÃO. DESMEMBRAMENTO DE IMÓVEL. GANHO DE CAPITAL. Imóveis desmembrados de origem comum constituem-se em imóveis distintos para fins de apuração de ganho de capital, não lhes sendo aplicável, em caso de alienação, a isenção prevista nos termos do art. 23 da Lei nº 9.250/95.
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GANHO CAPITAL. AUSÊNCIA RECOLHIMENTO. Na ausência de recolhimento, o prazo para o Fisco constituir o crédito tributário de ofício, na apuração de ganho de capital na alienação de imóveis, regese pelo art 173, I, do CTN. ALIENAÇÃO. DESMEMBRAMENTO DE IMÓVEL. GANHO DE CAPITAL. Imóveis desmembrados de origem comum constituemse em imóveis distintos para fins de apuração de ganho de capital, não lhes sendo aplicável, em caso de alienação, a isenção prevista nos termos do art. 23 da Lei nº 9.250/95. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 41 0. 00 51 72 /2 00 6- 03 Fl. 122DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar de decadência suscitada e negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Theodoro Vicente Agostinho, Maurício Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Fernanda Melo Leal. Fl. 123DF CARF MF Processo nº 10410.005172/200603 Acórdão n.º 2402005.968 S2C4T2 Fl. 205 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Recife (PE) – DRJ/REC, que julgou procedente Auto de Infração de Imposto de Renda de Pessoa Física relativo ao anocalendário 2001 (fls. 4/11), decorrente da constatação da infração de falta de recolhimento do imposto sobre ganhos de capital. Entendeu o Fisco que em 27/7/2001 foram alienadas duas frações do imóvel Fazenda Ouro Preto adquiridas pelo contribuinte em 28/3/1988, sem o recolhimento do imposto de renda devido. Por seu turno, o contribuinte impugnou o lançamento (fls. 78/80), arguindo em síntese que: informou à Receita Federal que recebeu em 30/07/2001 R$ 47.500,00 da venda da parte de um imóvel e R$ 39.343,85 da venda de outra parte, e deveria ter sido considerado que toda a alienação deuse por valor igual ou inferior a R$ 440.000,00, de único bem imóvel que o titular possua, individualmente, e que em decorrência disso o ganho de capital é isento da incidência de IRPF; os terrenos vendidos foram originados de desmembramento onde constituíam um só imóvel do titular contribuinte conforme documentação juntada, afirmando que toda a alienação informada foi de R$ 86.843,85, dentro do limite de isenção do IRPF, que é de R$ 440.000,00; o direito do fisco de proceder ao lançamento do suposto crédito tributário não é devido, uma vez que o IRPF é imposto sujeito ao regime de lançamento por homologação, ressaltandose que este foi todo alcançado pela decadência, uma vez que o fato gerador do suposto crédito ocorreu em 31/07/2001, e que a Receita Federal tinha o prazo de 5 anos a contar da data do tato gerador para constituir o crédito tributário, ou seja, até 31/07/2006, o que não ocorreu. A exigência foi mantida no julgamento de primeiro grau (fls. 87/92), ensejando a interposição de recurso voluntário em 8/6/09 (fls. 99 e ss), no qual foram repisados os argumentos da peça impugnatória. É o relatório. Fl. 124DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Expliquese, de pronto, que o exame da prejudicial de decadência está, no particular, vinculado à análise das demais questões de mérito, em conjunto com as quais será então oportunamente abordada. Conforme documentos acostados às fls. 26/28, os imóveis alienados têm origem em partilha intervivos do imóvel Engenho Ouro Preto promovida por José de Assis Lins e Maria Gomes Lins, lavrada no Cartório de Imóveis de Novo Lino (AL) em 28/3/1988, cabendo ao recorrente fração do condomínio, à ocasião estabelecido, correspondente a 143 ha. Posteriormente, de acordo com Escritura Pública de Divisão Amigável e Desmembramento lavrada em 18/7/2001 (fls. 29/34), o imóvel partilhado foi dividido em partes distintas e autônomas, denominadas daí por diante de Engenho Ouro Preto Parte 1 e Engenho Ouro Preto Parte 2, sendo que ao contribuinte couberam partes ideais de 112,75 ha e de 26,75 ha, respectivamente. Ora, o desmembramento de imóvel rural dá azo ao surgimento de distintas propriedades, a despeito da existência ou não de formalização de tal realidade no respectivo registro de imóveis. Não por acaso, o art. 8º da Lei nº 5.868/72 assim dispõe: Art. 8º Para fins de transmissão, a qualquer título, na forma do Art. 65 da Lei número 4.504, de 30 de novembro de 1964, nenhum imóvel rural poderá ser desmembrado ou dividido em área de tamanho inferior à do módulo calculado para o imóvel ou da fração mínima de parcelamento fixado no § 1º deste artigo, prevalecendo a de menor área. § 1º A fração mínima de parcelamento será: a) o módulo correspondente à exploração hortigranjeira das respectivas zonas típicas, para os Municípios das capitais dos Estados; b) o módulo correspondente às culturas permanentes para os demais Municípios situados nas zonas típicas A, B e C; c) o módulo correspondente à pecuária para os demais Municípios situados na zona típica D. (...) § 3oSão considerados nulos e de nenhum efeito quaisquer atos que infrinjam o disposto neste artigo não podendo os serviços Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10410.005172/200603 Acórdão n.º 2402005.968 S2C4T2 Fl. 206 5 notariais lavrar escrituras dessas áreas, nem ser tais atos registrados nos Registros de Imóveis, sob pena de responsabilidade administrativa, civil e criminal de seus titulares ou prepostos. A leitura da norma supra revela que o próprio legislador atribui aos imóveis rurais oriundos de desmembramento o caráter de imóveis efetivamente distintos entre si, sendo que cada um deles deve observar, inclusive, o tamanho mínimo do módulo rural estipulado para a região, estando também previsto na lei o decorrente registro dos novéis imóveis no respectivo cartório. Sendo assim, verificase na espécie existirem dois imóveis independentes, que foram posteriormente alienados, aliás, a compradores diversos, ainda que na mesma data (27/7/2001), motivo pelo qual não há falar em isenção nos termos regrados pelo art. 23 da Lei nº 9.250/95, como demanda o recorrente. A inércia do contribuinte em providenciar o devido registro dos imóveis não lhe socorre, estando perfectibilizadas na esfera dos fatos as alienações efetuadas, com a incidência do imposto de renda em cada uma das transações. Nessa esteira, resta também prejudicada a postulação versando sobre decadência, pois não se verificando o benefício isentivo, e inexistindo comprovação de recolhimento do imposto sobre ganho de capital, aplicase o prazo do art. 173, I do CTN para aferição do prazo para lançamento. Assim, havendo ocorrido o fato gerador das alienações em julho/2001, o prazo para o direito do Fisco constituir o crédito tributário via lançamento de ofício iniciouse em jan/2002, com término em 31/12/2006, não se constatando decadência visto que o contribuinte foi cientificado da autuação em 18/12/2006. Ante o exposto, voto no sentido de rejeitar a decadência suscitada e negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 126DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.721224/2011-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Data do fato gerador: 30/06/2006, 31/07/2006, 31/08/2006
RENDA VARIÁVEL. PREJUÍZO. COMPENSAÇÃO. PROVA. ÔNUS.
Tendo a fiscalização comprovado a ocorrência de operações em Bolsa de Valores com ganho líquido, cumpre ao contribuinte demonstrar a existência do prejuízo anteriormente apurado em operações da mesma natureza para fins de compensação. Para tanto, não basta a prova isolada da ocorrência de uma operação com prejuízo dois anos antes dos fatos geradores submetidos à tributação, pois este evento deveria estar formalizado em instrumento próprio, Demonstrativo de Renda Variável, de forma a permitir à Fazenda Pública confirmá-lo ou contestá-lo pela sua inexistência ou pela ocorrência de outras operações com ganho que já tenham absorvido o prejuízo apurado.
Numero da decisão: 2201-003.897
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Dione Jesabel Wasilewski - Relatora.
EDITADO EM: 26/09/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DIONE JESABEL WASILEWSKI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Data do fato gerador: 30/06/2006, 31/07/2006, 31/08/2006 RENDA VARIÁVEL. PREJUÍZO. COMPENSAÇÃO. PROVA. ÔNUS. Tendo a fiscalização comprovado a ocorrência de operações em Bolsa de Valores com ganho líquido, cumpre ao contribuinte demonstrar a existência do prejuízo anteriormente apurado em operações da mesma natureza para fins de compensação. Para tanto, não basta a prova isolada da ocorrência de uma operação com prejuízo dois anos antes dos fatos geradores submetidos à tributação, pois este evento deveria estar formalizado em instrumento próprio, Demonstrativo de Renda Variável, de forma a permitir à Fazenda Pública confirmá-lo ou contestá-lo pela sua inexistência ou pela ocorrência de outras operações com ganho que já tenham absorvido o prejuízo apurado.
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PREJUÍZO. COMPENSAÇÃO. PROVA. ÔNUS. Tendo a fiscalização comprovado a ocorrência de operações em Bolsa de Valores com ganho líquido, cumpre ao contribuinte demonstrar a existência do prejuízo anteriormente apurado em operações da mesma natureza para fins de compensação. Para tanto, não basta a prova isolada da ocorrência de uma operação com prejuízo dois anos antes dos fatos geradores submetidos à tributação, pois este evento deveria estar formalizado em instrumento próprio, Demonstrativo de Renda Variável, de forma a permitir à Fazenda Pública confirmálo ou contestálo pela sua inexistência ou pela ocorrência de outras operações com ganho que já tenham absorvido o prejuízo apurado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Dione Jesabel Wasilewski Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 12 24 /2 01 1- 15 Fl. 179DF CARF MF 2 EDITADO EM: 26/09/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 170/173) apresentado em face do Acórdão nº 0957.652 (fls. 159/162), da 4ª Turma da DRJ/JFA, que negou provimento à impugnação (fls. 123/127) do sujeito passivo ao auto de infração (fls. 109/115) pelo qual foi constituído crédito tributário total de R$ 55.412,14, relativo a Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF e acréscimos legais, tendo por base de cálculo ganho líquido apurado em operações realizadas em bolsa de valores nos meses de junho, julho e agosto de 2006. De acordo com o auto de infração (fls. 109/115), foi identificada omissão de ganhos líquidos no mercado de renda variável, obtidos em operações na Bolsa de Valores, nos meses de junho, julho e agosto de 2006. A fiscalização teria elaborado planilha com o objetivo de apurar o resultado líquido obtido em cada mês pelo fiscalizado, o que foi feito a partir das notas de corretagem apresentadas por ele. Apesar de intimado a se manifestar sobre a apuração realizada pela fiscalização, o contribuinte não o teria feito até a lavratura do auto de infração. Em sede de impugnação, o sujeito passivo invoca o direito a compensar prejuízo obtido em operação em renda variável no ano de 2004, embora não tenha apresentado o demonstrativo de renda variável nesse ano nem nos seguintes. A decisão de 1ª instância administrativa negou provimento à impugnação, sob o argumento de que a apresentação do "Resumo de Apuração de Ganhos de Renda Variável", registrando o resultado negativo alegado seria imprescindível para o exercício do direito à compensação. A ciência dessa decisão ocorreu em 13/05/2015 (fl. 168) e o recurso voluntário foi protocolado tempestivamente, uma vez que juntado ao processo em 10/06/2015 (fl. 169). Em suas razões de recorrer, o contribuinte alega, em síntese, que o lucro não existiu porque havia um prejuízo anterior a ser compensado; o direito à compensação desse prejuízo não pode ser anulado pelo fato de não ter sido declarado em época própria; a punição aplicada pela turma julgadora não tem previsão legal; o auto de infração foi enquadrado de forma errada, já que lavrado em função da existência de um lucro que não existiu e não em função da falta de apresentação do formulário próprio, verdadeira razão do lançamento. É o que havia para ser relatado. Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10120.721224/201115 Acórdão n.º 2201003.897 S2C2T1 Fl. 179 3 Voto Conselheira Dione Jesabel Wasilewski Relatora O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos de admissibilidade e dele conheço. Preliminar nulidade Entre os argumentos de defesa apresentados pelo recorrente reconheço uma preliminar de nulidade, baseado no errôneo enquadramento legal do auto de infração. Nas palavras do recorrente: Na verdade o auto de infração deveria ser lavrado pelo fato de não termos apresentado o formulário contendo o Resumo das operações na bolsa de valores. Como não houve lucro e sim prejuízo, não existiu fato gerador que fundamentase o lançamento feito. Sem razão o recorrente. A leitura do auto de infração evidencia que ele foi lavrado por "omissão de ganhos". Para que haja omissão de ganhos, é necessária a confluência de dois fatores: um, a existência do próprio ganho, que é o fato gerador da obrigação tributária; dois, a inexistência de providências atribuídas ao sujeito passivo que formalizam a realização do fato gerador tributário, o que pode ocorrer através da declaração de imposto de renda ou do pagamento do tributo devido. A mera ausência de entrega de um formulário, como fato a gerar uma obrigação tributária, consistiria em um descumprimento de obrigação acessória. Mas não é disso que trata o processo em questão, aqui o contribuinte não apenas deixou de apresentar o documento que lhe competia mas, segundo a imputação realizada pela autoridade fiscal, não cumpriu também a obrigação principal ao deixar de recolher o tributo devido. Não identifico assim o erro de enquadramento legal alegado pelo apelante, uma vez que a questão da existência ou não do crédito alegado é matéria de mérito e não de preliminar. Pelo exposto, nego provimento à preliminar pela qual se ataca a correção do enquadramento legal feito no lançamento. Mérito No mérito, alega o contribuinte que o lucro não existiu porque havia um prejuízo anterior a ser compensado; o direito à compensação desse prejuízo não pode ser anulado pelo fato de não ter sido declarado em época própria e a punição aplicada pela turma julgadora não tem previsão legal. Fl. 181DF CARF MF 4 Antes de enfrentar essas questões propriamente, é preciso estabelecer algumas premissas e a primeira delas é que o direito é um sistema de linguagem, e assim é vertido desde as normas de caráter geral e abstrato, até os atos mais concretos que provocam alteração na situação jurídica de um sujeito individual. E inserido nesse contexto, o direito tributário é um dos ramos do direito mais afetados pela necessidade de formalização dos atos jurídicos. É por isso que não basta à Fazenda Pública buscar a satisfação judicial de seu direito de crédito invocando a ocorrência do fato gerador. Esse fato deve estar traduzido em um instrumento que o formaliza, ou seja deve estar vertido na linguagem jurídica, o que faz através do auto de infração, que se submete a todo o rito ditado pela legislação tributária. A formalização dos atos e fatos jurídicas é um ônus para a Fazenda Pública e é também um ônus para o contribuinte, quando pretende se valer de prerrogativas que lhe são conferidas pelo ordenamento jurídico. No âmbito do IRPF há instrumento próprio para a formalização dos atos e fatos que alteram o fato gerador tributário, e esse instrumento é a Declaração de Imposto de Renda. Portanto, para que o contribuinte tenha direito a uma dedução, a uma restituição do imposto de renda ou à compensação futura de prejuízos havidos, por exemplo, na atividade rural ou em operações de renda variável, é necessário que os eventos do mundo fenomênico tenham sido vertidos para a linguagem jurídica por meio da declaração. Até porque, o resultado em favor do contribuinte ou do fisco decorre de um conjunto de informações que são reunidas nesse demonstrativo, e não de um ato/fato individualizado. Temse assim que o direito do contribuinte decorre da conjunção desses elementos, um material, consistente na ocorrência dos atos/fatos de onde nasce o direito, e um formal, que é a tradução desses atos/fatos em instrumento próprio. Na hipótese em questão, restou evidenciado que o contribuinte sonegava informações a respeito de suas operações no mercado de renda variável. Pretende se valer de um prejuízo, sem que tenha se utilizado do instrumento que o formaliza, traduzindo esse fato para o mundo do direito, o que equivaleria à pretensão da Fazenda Pública em cobrar tributo sem lançamento. Mas não é só isso. Além desse fato ser o descumprimento de um dever formal, ele impede também que se faça um juízo acerca da existência do direito em si, pois na ausência do demonstrativo com todas as operações realizadas pelo sujeito passivo nos anos calendário envolvidos, não é possível saber se, entre o momento em que teve prejuízo e aquele em que pretende compensálo com ganho, não realizou outras operações com resultado positivo, que já teriam absorvido o prejuízo apurado. Se o contribuinte tivesse apresentado seus demonstrativos na época própria, estes fatos teriam passado pelo crivo da fiscalização tributária, que poderia confirmálos ou contraditálos, submetendoos ao processo administrativo tributário. Quanto à existência de norma impondo essa exigência, à época dos fatos estava em vigor a Instrução Normativa SRF nº 25, de 2001, de onde se destaca: Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10120.721224/201115 Acórdão n.º 2201003.897 S2C2T1 Fl. 180 5 Art. 26. São isentos do imposto de renda os ganhos líquidos auferidos por pessoa física em operações efetuadas: (...) Parágrafo único. Relativamente às operações de que trata este artigo, a pessoa física fica dispensada de preencher, no formulário "Resumo de Apuração de Ganhos Renda Variável", informações sobre as alienações isentas realizadas no ano calendário, exceto no caso de pretender compensar as perdas apuradas com ganhos auferidos em operações realizadas em bolsa sujeitas à incidência do imposto.(grifouse) Portanto, não se trata de punir o contribuinte negandolhe o direito à compensação como alega. Na verdade, ele não fez prova dos elementos que constituem o seu direito, não sendo possível reconhecerlhe, com os elementos que traz ao processo, a possibilidade de compensação de perdas pretendida por ele. Conclusão Com base no exposto, voto por conhecer do recurso voluntário apresentado para, rejeitada a preliminar de nulidade, no mérito, negarlhe provimento. Dione Jesabel Wasilewski Relatora Fl. 183DF CARF MF
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Numero do processo: 13116.901598/2012-42
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 31/08/2006
PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE.
A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário.
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA.
O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.947
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
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ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 15 98 /2 01 2- 42 Fl. 80DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição para o PIS. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico indeferindo o Pedido de Restituição, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante informou que o direito creditório tinha por fundamento a isenção da contribuição para o PIS decorrente da adesão ao Programa Universidade para Todos ProUni, nos termos da Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009, em que se reafirmou o direito à isenção durante o período de vigência do Termo de Adesão (art. 5º da Medida Provisória nº 213/2004). Nos termos do Acórdão nº 14053.579, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de inexistir comprovação, por meio de documentação contábil e fiscal, do direito creditório pleiteado e por não ter havido a comprovação da adesão da instituição ao ProUni, nos termos do art. 8º da Lei nº 11.096/2005. Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de solução de consulta da Receita Federal assegurando o direito à isenção, o que, segundo ela, tornava "legalmente desnecessária" a exigência de comprovação de sua adesão ao programa. Argumenta, ainda, que, nos casos da espécie, é "faticamente impossível" a apresentação de documentos, por se tratar o pedido de restituição de procedimento eletrônico. Na sequência, sustenta a absoluta desnecessidade dos elementos de prova exigidos pela Delegacia de Julgamento, quais sejam, folhas de salário e contabilidade, por se tratar de questão aperfeiçoada e superada ante a homologação da base de cálculo da contribuição por parte da Fiscalização, tendo em vista que constou do despacho decisório que o valor declarado encontravase exato e perfeito. Supletivamente, pugna, caso o CARF entenda necessário, pela realização de diligência junto à repartição de origem, para que a autoridade administrativa oficie o Ministério da Educação com vistas a elucidar os termos no quais se manteve a sua adesão ao ProUni no período sob comento. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator Fl. 81DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.885, de 28/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 13116.900001/201412, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.885): O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. O dispositivo legal que trata da isenção de impostos e contribuições às instituições de ensino que aderirem ao Prouni é o art. 8º da Lei nº 11.096/2005, reproduzido no que se aplica ao caso (grifei): Art. 8o A instituição que aderir ao ProUni ficará isenta dos seguintes impostos e contribuições no período de vigência do termo de adesão: (Vide Lei nº 11.128, de 2005) (...) III Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991; e IV Contribuição para o Programa de Integração Social, instituída pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. § 1° A isenção de que trata o caput deste artigo recairá sobre o lucro nas hipóteses dos incisos I e II do caput deste artigo, e sobre a receita auferida, nas hipóteses dos incisos III e IV do caput deste artigo, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2° A Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda disciplinará o disposto neste artigo no prazo de 30 (trinta) dias. § 3° A isenção de que trata este artigo será calculada na proporção da ocupação efetiva das bolsas devidas. (Incluído pela Lei nº 12.431, de 2011). A Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.493, de 18/07/2005, com os dispositivos que se aplicam ao caso transcritos (grifei): Art. 1o O Programa Universidade para Todos PROUNI, de que trata a Lei no 11.096, de 13 de janeiro de 2005, destinase à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de cinqüenta por cento ou de vinte e cinco por cento, para estudantes de cursos de graduação ou seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos, que tenham aderido ao PROUNI nos termos da legislação aplicável e do disposto neste Decreto. Parágrafo único. O termo de adesão não poderá abranger, para fins de gozo de benefícios fiscais, cursos que exijam formação prévia em nível superior como requisito para a matrícula. Art. 2o O PROUNI será implementado por intermédio da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 5 4 § 1o A instituição de ensino superior interessada em aderir ao PROUNI firmará, em ato de sua mantenedora, termo de adesão junto ao Ministério da Educação. (...) Art. 12. Havendo indícios de descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão, será instaurado procedimento administrativo para aferir a responsabilidade da instituição de ensino superior envolvida, aplicandose, se for o caso, as penalidades previstas. (...) A Secretaria da Receita Federal em cumprimento ao disposto no § 2º do art. 8º acima, editou a Instrução Normativa SRF nº 456/2004, posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.394/2013, que dispunha, no que se aplica ao caso (grifei): Art. 1º A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (ProUni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, das seguintes contribuições e imposto: I Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); II Contribuição para o PIS/Pasep; (...) § 1º A isenção de que trata o caput recairá sobre o lucro na hipótese dos incisos III e IV, e sobre o valor da receita auferida na hipótese dos incisos I e II, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2º Para fins do disposto nos incisos III e IV do caput a instituição de ensino deverá apurar o lucro da exploração referente às atividades sobre as quais recaia a isenção, observado o disposto no art. 2º e na legislação do imposto de renda. (...) Art. 3º Para usufruir da isenção, a instituição de ensino deverá demonstrar em sua contabilidade, com clareza e exatidão, os elementos que compõem as receitas, custos, despesas e resultados do período de apuração, referentes às atividades sobre as quais recaia a isenção segregados das demais atividades. (...) O termo de adesão foi previsto no art. 5º da Lei nº 11.096/2005, in verbis (grifei): Art. 5o A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, poderá aderir ao Prouni mediante assinatura de termo de adesão, cumprindolhe (...) § 1o O termo de adesão terá prazo de vigência de 10 (dez) anos, contado da data de sua assinatura, renovável por iguais períodos e observado o disposto nesta Lei. Fl. 83DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 6 5 (...) Art. 7o As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: (...) Art. 9o O descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão sujeita a instituição às seguintes penalidades: (...) Art. 16. O processo de deferimento do termo de adesão pelo Ministério da Educação, nos termos do art. 5o desta Lei, será instruído com a estimativa da renúncia fiscal, no exercício de deferimento e nos 2 (dois) subseqüentes, a serusufruída pela respectiva instituição, na forma do art. 9o desta Lei, bem como o demonstrativo da compensação da referida renúncia, do crescimento da arrecadação de impostos e contribuições federais no mesmo segmento econômico ou da prévia redução de despesas de caráter continuado A recorrente alega a desnecessidade de apresentação de qualquer documento que comprove sua regular adesão ao Prouni sob o fundamento de que o documento é totalmente eletrônico e a própria Lei nº 11.096/2005 em seu art. 11, § 1º, remete a competência para tais verificações e exigências ao Ministério da Educação. Não é o que se extrai da leitura dos dispositivos acima. O termo de adesão é documento a ser firmado no qual se inserem requisitos de participação no referido Programa. Os diversos dispositivos transcritos (Lei, Decreto e Instrução Normativa) apontam para vários elementos a serem inseridos no Termo que permitiram não somente a adesão da instituição de ensino, mas o controle de sua permanência, enquanto regular e vigente, a aplicação de penalidade, e, principalmente ao que interessa ao presente litígio, a isenção de contribuições. Dessa forma, a exibição do documento "Termo de Adesão" é essencial ao gozo do benefício fiscal de isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Ao contrário do que alega a recorrente, o termo de Adesão, ainda que eletrônico, prevê o ato de sua assinatura, para que se dê a devida validade e autenticidade. Realmente é emitido no âmbito do Ministério da Educação, o que demonstra não estar nos sistemas internos (informatizados) da Secretaria da Receita Federal; e, se de fato materializado apenas em formato eletrônico em razão de sua essencialidade, é de se presumir a possibilidade de sua impressão, típica das emitidas por órgãos públicos, com chave de segurança para confirmação da autenticidade. Ademais, documento oficial, que confere benefícios tributários de outra ordem, e firmado entre partes Ministério da Educação e instituição de ensino privada há de ser mantido pela parte interessada para o gozo dos benefícios previstos no Termo. Fl. 84DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 7 6 Nada obstante, o que a recorrente argumenta para a não apresentação do Termo de adesão ao Prouni outros recorrentes em situação idêntica não se escusaram do cumprimento de singelo mister. Vejase exemplo de julgado proferidos neste Conselho em que se demonstrou a possibilidade fática de apresentar e comprovar a adesão e mantença no Programa (grifei): Autoridade Julgadora de 1ª Instância bem observou ainda que o contribuinte em questão comprovou nos autos (fls. 3.325) a adesão ao Programa Universidade para Todos, trecho que merece ser reproduzido por ser de extrema valia: "60. Para comprovar a adesão ao PROUNI o contribuinte anexou aos autos cópia do correio eletrônico do MEC (fls. 3.118) e cópia do Termo de Adesão (fls. 3.119 a 3.273). (Acórdão nº 3402001.704, processo nº 19515.000260/200879, relatoria do cons. João Carlos Cassuli Junior, sessão de 22/03/2012) Não se pode concluir de outra forma, senão a que a recorrente não se dignou a comprovar a existência e aposição de assinatura no Termo de Adesão e a regular fruição do Programa que aderiu. Tenho que este fundamento é suficiente para negar provimento ao recurso voluntário; contudo, há de se tecer ainda argumentos pertinentes ao ônus probatório a cargo a de quem pleiteia direito seu. Antes, porém, analisase as demais teses suscitadas no recurso voluntário que visam seu provimento Sustenta ainda a desnecessidade de apresentação das folhas de salário e respectivamente contabilidade pois entende que no despacho decisório há o reconhecimento expresso de que a base de cálculo encontrase "exata e perfeita", além de "devidamente homologada". Quanto à exigência de apresentação de documentos fiscais e contábeis, assentou o voto condutor do acórdão recorrido que deveria também ter juntado a folha de salários, a fim de demonstrar a base de cálculo do PIS, e os livros fiscais que demonstrassem os lançamentos relativos a ela. Ora, em que pese a ressaltava da DRJ, com a qual concordo, que a isenção do PIS prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 não alcança a parcela que incide sobre a folha de salários, a Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009 proferiu entendimento cuja interpretação errônea da contribuinte adiante será enfrentado lhe é favorável quanto à isenção do PISfolha de salários. Ad argumentandum tantum, justamente firmada no entendimento favorável que extraiu do ato expedido pela autoridade, a recorrente pleiteia a restituição do PISfolha de salários, código de receita "8301". Se há o entendimento de que faz jus à esta isenção deveras tem o ônus de fazer prova documental de seu pretenso direito, qual seja, a apresentação dos documentos e livros atinentes à rubrica "salários" para que se comprove qual sua dimensão (quantificação) na base de cálculo. Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 8 7 Por fim, assevera que a controvérsia quanto ao direito à isenção está superado pela conclusão da indigitada Solução de Consulta, que entende terlhe assegurado a isenção do PIS sobre folha de salários. Mais uma vez, sem razão a contribuinte. A Solução de Consulta expressamente consignou que a isenção alcança a Contribuição para o PIS, nada dispondo acerca do PIS folha de salários. Digase que na elaboração da peça a consulente, ora recorrente, apenas informou ter realizada a adesão ao Prouni, sem qualquer comprovação naquele autos de consulta, e apresenta seu entendimento de que a isenção alcançaria o PIS folha de salários, para ao final requerer a manifestação do Órgão quanto ao seu entendimento. Eis a cartaconsulta: Entendo que ao fundamentar a solução da consulta, a autoridade que a proferiu fez constar em seus fundamentos a legislação que trata da incidência do PIS sobre a folha de salários, à alíquota de 1%, deixando assente a tributação sobre esta rubrica, com a transcrição do art. 13 e incisos III e IV, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Colacionou os dispositivos que tratam da isenção do PIS sobre a receita auferida pela instituição de educação que aderir e assim se mantém no Prouni. Transcreveu os arts. 8º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º da Lei nº 11.096/2005; arts. 1º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º, e 3º caput e parágrafo único da IN SRF nº 456/2004, para em seguida enunciar no mesmo tópico "fundamentos" que: " 5. Ante os dispositivos acima expostos, verificase que a instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória n° 213, de 2004, Fl. 86DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 9 8 ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS." Conclui a solução da consulta com o enunciado: Conclusão 6. Em face do exposto, concluise que a instituição privada de ensino superior com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao programa Universidade para Todos (prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Completase os fatos com a apresentação da ementa da Solução de Consulta SRRF/1ªRF/Disit nº 86, de 2 de junho de 2009: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: PIS. PROUNI. INCIDÊNCIA. A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5o da Medida Provisória nº 213. de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Dispositivos Legais: art.13 da Medida Provisória n° 2.15835/2001; art.8° da Lei n° 11.096/2005; arts. 1º e 3o da Instrução Normativa nü 456/2004. Não vislumbro imprecisão no Ato que poderia dar a interpretação de que toda e qualquer incidência do PIS a que se sujeitam as entidades aderentes ao Prouni estaria isenta. A uma, os dispositivos legais da ementa da solução de consulta informam a legislação aplicada, primeiro, a que dispõe acerca do Pis folha de salários tributado à alíquota de 1% e após, a que trata do PIS alcançado pela isenção; a duas, porque nos fundamentos, a autoridade trouxe a legislação que faz distinção entre PISfolha de salário tributada à alíquota de 1%, e o PIS sobre receitas isentos nos termos e requisitos das legislação; a três, a omissão do termo "PIS sobre folha de salários" não tem o condão de fazêlo incluir na isenção pelo motivo a seguir; a quatro, nos termos do art. 111 caput e inciso II do CTN, "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção"; a cinco, não caberia a autoridade fiscal ou administrativa contrariar preceito legal. Por fim, sacramentando o entendimento do não alcance da isenção ao PIS sobre folha de salários, o Órgão Central da Secretaria da Receita Federal editou a Solução de Divergência Cosit nº 1, de 2015, publicada no D.O.U de 24/12/2015, com a ementa: SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA Nº 1, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2015. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP EMENTA: INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR. PROUNI. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE A FOLHA Fl. 87DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 10 9 DE SALÁRIOS. A isenção de que trata o art. 8º da Lei nº 11.096, de 2005, não se aplica à Contribuição para o PIS/Pasep incidente sobre a folha de pagamentos da pessoa jurídica que adere ao Prouni. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 9.532, de 1997, art. 12; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 9º e 46; Lei nº 11.096, de 2005, art. 8º; DecretoLei nº 5.172 (CTN), de 1966, art. 111,II; Instrução Normativa RFB nº 1.394, de 2013 e Medida Provisória (MP) nº 2.15835, de 2001. O último argumento da recorrente referese à eventual realização de diligência, oficiandose ao Ministério da Educação acerca da sua manutenção no Prouni, acaso não seja superada os fundamentos ante aduzidos que entende suficiente ao direito à restituição pleiteada decorrente do pagamento indevido da Contribuição. Primeiramente, desnecessária a providência pois como assentado neste voto os fundamentos antecedentes são suficientes para negar provimento ao recurso. Não há dúvidas intransponíveis nos autos que necessitam de serem completadas para decidir o litígio. Nos processos, como o presente, que tratam de solicitação de restituição e compensação, a comprovação do direito aos créditos incumbe ao postulante. É seu dever carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, em especial quando necessário à fruição de benefício tributário de isenção. Caso essa comprovação houvesse sido feita, e ainda restasse dúvida ao julgador quanto a permanência regular e temporal no Programa, cabível seria a diligência. Assim, incabível a solicitação de diligência dirigida ao Ministério da Educação para apresentação do Termo de Adesão, documento primário e essencial ao compromisso assumido e firmado pela instituição educacional que requer o gozo dos benefícios do Prouni e que não se dignou a apresentar aos autos. Até esse ponto, restou assente que a recorrente não apresentou o Termo de Adesão ao Prouni, folhas de salário e escrituração contábil; e não permaneceu silente quanto às exigências. Em todas as peças recursais impugnação e recurso voluntário sustentou a desnecessidade desse dever, pois entendeu que o despacho decisório e a solução de consulta reconheceram expressamente seu direito à isenção do PIS relativo ao Programa, sem colacionar qualquer documento seu aos autos. A ausência de elementos probantes viola a regra jurídica adotada pelo direito pátrio de que a prova compete à pessoa que alega o fato, conforme se depreende do abaixo transcrito artigo 16, caput, III, do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), que regulamenta o processo administrativo fiscal no âmbito federal, e do artigo 373, do Código de Processo Civil,verbis: Decreto n° 70.235, de 1972: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Lei nº 13.105/2015 CPC Fl. 88DF CARF MF Processo nº 13116.901598/201242 Acórdão n.º 3201002.947 S3C2T1 Fl. 11 10 "Art. 373. 0 ônus da prova incumbe: I — ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II — ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor." Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. As Declarações (DCTF, DCOMP e DACON, PER/DCOMP), os documentos fiscais e contábeis e aqueles pertinentes a benefícios tributários, celebrados com órgãos públicos, são produzidos e celebrados pelo próprio contribuinte ou com sua participação, de sorte que, havendo inconsistências ou omissões, impõe a obrigação da recorrente em comprovar os fatos mediante a escrituração contábil e fiscal, sustentada em documentos, tendo em vista que, apenas os créditos líquidos e certos comprovados inequivocamente pelo contribuinte são passíveis de compensação tributária, conforme preceituado no artigo 170 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional/CTN). Conclusão Por todo o exposto a recorrente não se desincumbiu do ônus de provar o alegado direito líquido e certo, decorrente de suposto pagamento a maior ou indevido de PIS. Assim, não encontro razão para modificar a decisão a quo e VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO e NÃO RECONHECER O DIREITO CREDITÓRIO. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 89DF CARF MF
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Numero do processo: 10805.001089/2001-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/08/1991 a 31/08/1991, 01/10/1991 a 31/12/1996
PIS. BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. SÚMULA CARF Nº 15 (VINCULANTE). A base de cálculo do PIS das empresas industriais e comerciais, até a data em que passou a viger as modificações introduzidas pela Medida Provisória nº 1.212/95 (29/02/1996), era o faturamento do sexto mês anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária, podendo a semestralidade ser reconhecida de ofício. Aplicação da Súmula CARF nº 15, vinculante.
LANÇAMENTO. ELEMENTO MODIFICATIVO OU EXTINTIVO DA AUTUAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, neste caso, a quantificação do indébito alegado em contraposição ao lançamento. Reconhecimento parcial do indébito alegado pelo contribuinte, conforme o demonstrado no procedimento de diligência fiscal.
Recurso Voluntário parcialmente provido.
Numero da decisão: 3301-003.857
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente.
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora.
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, José Henrique Mauri, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. SÚMULA CARF Nº 15 (VINCULANTE). A base de cálculo do PIS das empresas industriais e comerciais, até a data em que passou a viger as modificações introduzidas pela Medida Provisória nº 1.212/95 (29/02/1996), era o faturamento do sexto mês anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária, podendo a semestralidade ser reconhecida de ofício. Aplicação da Súmula CARF nº 15, vinculante. LANÇAMENTO. ELEMENTO MODIFICATIVO OU EXTINTIVO DA AUTUAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, neste caso, a quantificação do indébito alegado em contraposição ao lançamento. Reconhecimento parcial do indébito alegado pelo contribuinte, conforme o demonstrado no procedimento de diligência fiscal. Recurso Voluntário parcialmente provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente. Semíramis de Oliveira Duro Relatora. Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, José Henrique Mauri, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 00 10 89 /2 00 1- 17 Fl. 431DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 432 2 Relatório Tratase do Auto de Infração lavrado contra o contribuinte em epígrafe, relativo à falta de recolhimento do PIS no período de agosto de 1991 e de outubro de 1991 a dezembro de 1996, no montante de R$ 16.793,02, incluídos multa de oficio e juros de mora calculados até 31/05/2001. No Termo de Verificação e Constatação, a autoridade fiscal informa que foi impetrada a Ação Ordinária, com pedido de tutela antecipada, nº 96.00246513, em face da União Federal, objetivando compensar ou restituir as diferenças porventura recolhidas a maior a título de PIS, com fulcro nos DecretosLeis nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988. A sentença julgou procedente a ação proposta, condenando a União a efetuar a compensação dos valores recolhidos com base nos referidos decretosleis, com valores posteriores de PIS e outros tributos, no que superasse o previsto na Lei Complementar nº 07, de 07 de setembro de 1970. A fiscalização elaborou demonstrativos com a finalidade de apurar a correta compensação da contribuição, efetuando o lançamento das diferenças não recolhidas. Em sua impugnação, a empresa aduziu: a ação impetrada na justiça sob o nº 96.00246513, a qual se encontra em trâmite perante a 12ª Vara da Justiça Federal em São Paulo – SP visava à declaração da existência de crédito compensável a seu favor e o direito de realizar essa compensação nos termos da Lei nº 8.383/91. Em 09/12/1996, foi deferida em parte a sua pretensão, tendo a sentença sido proferida em 02/04/1998. Como não concordou com os seus termos, interpôs apelação ao TRF da 3ª Região; no seu entender, a sentença restabeleceu a aplicação do disposto no art. 62 da Lei Complementar nº 07/70, ou seja, alíquota de 0,75% sobre a base de cálculo, que é o faturamento relativo ao 6º (sexto) mês anterior ao de ocorrência do fato gerador. Cita jurisprudência do Conselho de Contribuintes em apoio de sua tese; como a legislação posterior aos DecretosLeis nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988, apenas alteraram o prazo de recolhimento e a indexação do PIS devido, não promovendo qualquer alteração em sua base de cálculo, que continua sendo aquela determinada pelo art. 6º da Lei Complementar, o auto de infração é ilegal e deve ser anulado; a autoridade fiscal agiu com evidente equívoco, pois não poderia realizar a conferência dos cálculos feitos pela contribuinte antes do trânsito em julgado da sentença. É certo que não está impedida de efetuar o lançamento de eventual débito, no resguardo dos interesses da Fazenda Nacional para evitar a decadência, no entanto, isto somente poderia ocorrer após o trânsito em julgado da sentença; a multa punitiva de 75% ultrapassa em muito o percentual de 2% fixado pela Lei n° 9.298/96, tendo efeito, inclusive, de confisco, nos termos do art. 150, IV, da Fl. 432DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 433 3 Constituição Federal, devendo ser excluídos do montante do débito a multa de ofício e os juros de mora; como o caso se encontra sub judice, com tutela antecipada a amparar as compensações efetuadas, deve o auto de infração ser retificado para que dele conste que o crédito tributário lançado está suspenso por força dessa liminar concedida. A 5ª Turma de Julgamento da DRJ em Campinas SP julgou o lançamento procedente, com acórdão assim ementado: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/08/1991 a 31/08/1991, 01/10/1991 a 31/12/1996 Ementa: PIS. BASE DE CÁLCULO. FATO GERADOR. A base de cálculo vinculase ao fato tributável para que surja a obrigação tributária. Aquela há de retratar, em valores, a real dimensão do fato gerador, pelo que o art. 6° da Lei Complementar 7, de 1970, veicula norma sobre prazo de recolhimento e não regra especial sobre base de cálculo retroativa da referida contribuição ao PIS, conforme Parecer PGFN/CAT/n° 437/98, aprovado pelo Ministro da Fazenda. JUROS DE MORA. Seja qual for o motivo da falta, os juros de mora serão devidos, conforme determinação contida no CTN. MULTA DE OFÍCIO. CONFISCO. A alegação de ofensa ao princípio da vedação de confisco diz respeito à inconstitucionalidade da lei, sendo defeso aos órgãos administrativos reconhecêla de forma original. Lançamento Procedente. No recurso voluntário, a empresa reitera os argumentos da sua impugnação, pleiteando que os cálculos das parcelas devidas nos termos da LC nº 07/70 sejam efetuados com base no faturamento do sexto mês anterior ao de ocorrência do fato gerador. Ao final, requer a improcedência do auto de infração, ou, caso a decisão seja pela manutenção do auto de infração, que sejam excluídos a multa de oficio e dos juros, bem como seja determinada a suspensão do crédito tributário até o trânsito em julgado da ação judicial. A Segunda Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, através da Resolução nº 20201.014, converteu o julgamento do recurso em diligência, para que a autoridade fiscal elaborasse demonstrativo dos indébitos do PIS recolhido com base nos Decretosleis nº 2.445 e 2.449, de 1988, relativamente aos períodos de apuração ocorridos entre julho de 1988 e fevereiro de 1996, nos termos das decisões reiteradas do Segundo Conselho de Contribuintes, ou seja, aplicandose a semestralidade sem atualização da base de cálculo, para a determinação da parcela devida, e corrigindose os créditos apurados até o momento da realização da compensação, de acordo com os índices autorizados judicialmente, informando se após as providências restariam parcelas a se exigir no auto de infração. É o relatório. Fl. 433DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 434 4 Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário reúne os pressupostos legais de interposição, devendo ser conhecido. Conforme relatado, a antecipação de tutela na ação proposta pela empresa foi concedida em 09/12/1996, autorizando a compensação dos indébitos solicitados com parcelas vincendas do próprio PIS. A sentença proferida em 02/04/1998, entretanto, restringiu o direito aos cinco anos anteriores ao ingresso da ação, corrigidos monetariamente de acordo com o Provimento n° 24/97 do Conselho da Justiça do Eg. Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Ao julgar a apelação da autora, o TRF da 3ª Região afastou a decadência, reconhecendo o direito à restituição/compensação de todo o período solicitado, ou seja, a partir de julho de 1988. O acórdão estabeleceu que a atualização monetária a ser aplicada aos indébitos deve incluir os expurgos inflacionários e que, a partir de 12/01/1996, deve incidir, exclusivamente, juros calculados pela taxa Selic. A sentença judicial determinou que o PIS deveria ser apurado segundo as regras da Lei Complementar nº 07/70, porém a semestralidade da base de cálculo não foi objeto da petição inicial, tampouco foi tratada em qualquer outra fase da ação judicial. Diante disso, por não se tratar de matéria concomitante à discussão judicial, pode ser objeto de apreciação pelo CARF. A autoridade fiscal analisou os livros da empresa para apurar a correta compensação do PIS. Todavia, a conclusão da autoridade fiscal foi de que a Recorrente não possuía pagamentos realizados a maior com valores suficientes para a compensação com os todos os demais períodos de apuração, por isso lavrou o auto. Delimitação da controvérsia O cerne da discussão se deu no tocante à interpretação do art. 6º da Lei Complementar nº 07/70 e seu parágrafo único, se o dispositivo se referia ao prazo de recolhimento do tributo ou se se referia à configuração da base de cálculo (o faturamento do sexto mês anterior à incidência). Com a declaração de inconstitucionalidade dos Decretosleis nº 2.445 e 2.449, ambos de 1988, ficou restaurada a sistemática da Lei Complementar nº 07/70, para o recolhimento do PIS, até a edição da MP nº 1.212/95. Para o Fisco, o art. 6º e parágrafo único da Lei Complementar nº 07/70 não se reporta à base de cálculo, mas sim ao prazo para recolhimento do PIS. Já para o contribuinte, o referido dispositivo referese à base de cálculo do PIS, ou seja, o faturamento do sexto mês anterior à ocorrência do fato gerador. Fl. 434DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 435 5 Com razão o contribuinte, pois essa tese foi acolhida pela STJ, restando pacificada por meio de vários precedentes, inclusive sob a sistemática de recurso repetitivo e sumulada (Súmula nº 468). Base de cálculo do semestral PIS, sem correção monetária O art. 6º e parágrafo único da Lei Complementar nº 07/70 prescreviam: Lei Complementar nº 7, de 7 de setembro de 1970 Institui o Programa de Integração Social, e dá outras providências. Art. 6.º A efetivação dos depósitos no Fundo correspondente à contribuição referida na alínea b do art. 3º será processada mensalmente a partir de 1º de julho de 1971. Parágrafo único A contribuição de julho será calculada com base no faturamento de janeiro; a de agosto, com base no faturamento de fevereiro; e assim sucessivamente. De acordo com o dispositivo, a base de cálculo é o faturamento do semestre anterior (PIS semestral), então não se refere ao prazo para recolhimento do PIS. Ademais, a base de cálculo do PIS apurada na forma da Lei Complementar nº 07/70 não está, por ausência de previsão legal, sujeita à atualização monetária. O Decretolei nº 2.445/88, com redação do Decretolei nº 2.449/88, alterou a base de cálculo do PIS, a alíquota e a data de vencimento: a partir de 01/07/1988, a base de cálculo do PIS incidia sobre a receita operacional bruta com a alíquota de 0,65% (art. 1º, V), vencendo no 10º dia do mês subsequente àquele em que devido (art. 2º, I). Considerando que a Constituição Federal de 1988 veda a possibilidade de criação ou majoração de tributos por decretosleis, em observância ao princípio da estrita legalidade, o STF declarou a inconstitucionalidade dos referidos decretosleis. O precedente do STF foi o RE nº 148.754, publicado em 04/03/1994, redator para o acórdão Min. Francisco Rezek, Tribunal Pleno. Por sua vez, a Resolução do Senado Federal nº 49/95, publicada em 10 de outubro de 1995, suspendeu a execução dos diplomas legais declarados inconstitucionais, conferindo efeitos erga omnes à decisão proferida no RE nº 148.754/RJ. Os DecretosLei nº 2.445 e 2.449, de 1988 determinavam que a base de cálculo do PIS era a receita operacional do próprio mês do fato gerador, diferentemente da LC nº 7/70, que determinava como base de cálculo o faturamento do 6º mês anterior ao de ocorrência do fato gerador e, da MP nº 1.212/95 que determinou que o faturamento do próprio mês do fato gerador. Fl. 435DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 436 6 Assim, legítima a incidência da contribuição para o PIS, nos termos da Lei Complementar nº 07/1970, no período entre os meses de outubro de 1995 a fevereiro de 1996, ou seja, é legítima a cobrança do PIS, na forma disciplinada pela Lei Complementar nº 07/70, no período compreendido entre a declaração de inconstitucionalidade dos Decretosleis nº 2.445/88 e 2.449/88 e a entrada em vigor da MP nº 1.212/95. Tratase de tema pacífico na esfera judicial e na administrativa, tendo sido objeto da Súmula CARF nº 15 (vinculante): “A base de cálculo do PIS, prevista no artigo 6º da Lei Complementar nº 7, de 1970, é o faturamento do sexto mês anterior, sem correção monetária.” Direito à restituição/compensação Como demonstrado, é pacífico o entendimento que a base de cálculo do PIS, sob o regime da Lei Complementar nº 7/70, é o faturamento do sexto mês anterior ao da ocorrência do fato gerador, sem correção monetária, e, sendo inconstitucionais os Decretoslei nº 2445 e 2449/88, conforme a Resolução nº 49/95, deve prevalecer a lei, nos termos em que imposta até a edição da Medida Provisória nº 1.212/95, convertida na Lei nº 9.715/98. Por conseguinte, exsurgiu o direito de o contribuinte compensar os valores recolhidos indevidamente a título de PIS de acordo com os atos inconstitucionais, naquilo que superou o previsto na Lei Complementar n° 7/70. A compensação demanda suporte documental comprobatório dos direitos creditórios requeridos, para atestar a certeza e liquidez do crédito pleiteado pelo contribuinte, nos termos do art. 170 do CTN. Isso porque, na compensação/restituição é do próprio contribuinte o ônus de registrar, guardar e apresentar os documentos e demais elementos que testemunhem o seu direito ao creditamento. Assim, o contribuinte deve comprovar a efetividade do recolhimento e das bases de cálculo sobre as quais foram realizados os recolhimentos a maior. Foi determinada a diligência para apuração do indébito da recorrente, utilizandose a semestralidade. A metodologia desse procedimento foi descrita nesses termos: 7. Não havia nos documentos deste processo os faturamentos dos meses de 01/1988 a 06/1988 que serviriam de Base de Cálculo para a apuração do PIS dos meses de 07/1988 a 12/1988. O contribuinte foi intimado em 18/10/2016, segundo o AR, a apresentar os faturamentos faltantes e em 31/10/2016 assim respondeu: “vem pelo sócio abaixo assinado, em resposta ao Termo de Intimação acima, informar que não está mais de posse dos livros fiscais solicitados, referente ao período de 01/1988 a 06/1988”. Não será possível, portanto, calcular as contribuições para o período de 07/1988 a 12/1988. Rememoramos que a pessoa jurídica é obrigada a conservar em ordem, enquanto não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, os livros, documentos e papéis relativos a sua atividade, ou que se refiram a atos ou operações que modifiquem ou possam vir a modificar sua situação patrimonial, conforme preceitua o art. 4° do Decretolei 486/1969. Na apuração do PIS relativo aos períodos de apuração 01/89 a 02/96, foram utilizados os valores levantados pela fiscalização por ocasião da lavratura do Auto de Infração do Fl. 436DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 437 7 presente processo, os quais foram obtidos dos livros de apuração de ICMS e IPI, conforme informado no Termo de Verificação Fiscal anexo ao Auto de Infração. 8. Todos os cálculos e conversões de moeda foram feitos no sistema CTSJ, versão 2.06.00.65. 9. Os pagamentos efetuados pelo contribuinte estão presentes nos anexos I (DARFs (vieram do PAJ 108.800363/979624, pgs 102/125)), II (Pagamentos no sistema SincorTratapgto) e III (pagamentos importados diretamente no sistema CTSJ). O anexo IV apresenta todos os pagamentos por código de receita e o anexo V relaciona todos os pagamentos em ordem cronológica. 10. O anexo VI apresenta o cálculo do PIS devido, confrontando DL 2.445 e 2.449, de 1988 com a Lei Complementar 7/70. 11. O anexo VII contém os débitos apurados. 12. O anexo VIII contém os índices autorizados judicialmente. 13. O anexo IX contém o Resumo das Vinculações Auditadas. 14. O anexo X contém as Vinculações Auditadas de Pagamentos após as vinculações apenas com os débitos referentes a 01/1989 a 02/1996, ressaltando que não se conseguiu apurar as contribuições de 07/1988 a 12/1988. 15. O anexo XI contém os Saldos de Pagamentos, após as vinculações com os débitos passíveis de apuração relativos ao período de 01/89 a 02/96. O resultado da diligência foi: No despacho do CARF (Resolução 20201.014), foi solicitado que se elaborasse um demonstrativo dos indébitos do PIS recolhido com base nos DL nº 2.445 e 2.449, de 1988, relativamente aos períodos de apuração ocorridos entre 07/1988 e 02/1996, informando se após esta providência restariam ainda parcelas a se exigir no auto de infração. Ocorre que não foi possível levantar os valores das contribuições de 07/1988 a 12/1988, conforme descrito no item 7, em decorrência da não apresentação dos livros fiscais referentes a este período, livros estes que deveriam ter sido guardados pelo sujeito passivo. Portanto, em razão de não abranger todo o período solicitado pelo CARF (07/1988 a 02/1986), a informação está prejudicada, pois cobriu um período menor (01/1989 a 02/1996). Analisando o anexo XI do relatório da diligência (Demonstração de Saldos de Pagamentos, após as vinculações com os débitos passíveis de apuração relativos ao período de 01/89 a 02/96), efls. 405/408, observase que: PIS Receita Operacional (3885) tem saldo acumulado de R$ 53.361,8. PIS Faturamento (8109) tem saldo acumulado de R$ 55.146,32. Ausência de comprovação do indébito referente a 07/1988 a 12/1988. Fl. 437DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 438 8 Então, deve ser dado parcial provimento ao recurso voluntário da Recorrente, para reconhecer o indébito devidamente comprovado e até o limite reconhecido pela autoridade fiscal, no procedimento de diligência fiscal. Confiscatoriedade da multa aplicada Sustenta a Recorrente que a multa aplicada de 75% tem caráter manifestamente abusivo, desproporcional e confiscatório. O art. 44, I, da Lei nº 9.430/96 prevê a aplicação de multa no percentual de 75% do imposto devido e não recolhido. É exatamente o caso em comento. Todos os traços da multa aplicada estão previstos em lei, atendendo ao princípio da legalidade, nos termos dos art. 5º, II e 37, caput da Constituição e art. 97 do CTN. Cumpre salientar que, de acordo com o parágrafo único do art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Dessa forma, constatada a ausência de recolhimentos, a autoridade fiscal não só está autorizada como, por dever funcional, está obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa pertinente. A caracterização da multa como efeito confiscatório implica em análise de constitucionalidade, o que também encontra óbice na Súmula CARF nº 1. Por fim, os juros são devidos por expressa determinação legal, art. 161 do CTN e Lei nº 9.065/95 (SELIC a partir de 1º de abril de 1995). Pelo exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário, para reconhecimento parcial do indébito alegado pelo contribuinte, no montante demonstrado no procedimento de diligência fiscal. Sala de Sessões, 27 de junho de 2017. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 438DF CARF MF Processo nº 10805.001089/200117 Acórdão n.º 3301003.857 S3C3T1 Fl. 439 9 Fl. 439DF CARF MF
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Numero do processo: 13116.901617/2012-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 30/11/2006
PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE.
A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário.
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA.
O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.966
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
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ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 16 17 /2 01 2- 31 Fl. 77DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição para o PIS. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico indeferindo o Pedido de Restituição, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante informou que o direito creditório tinha por fundamento a isenção da contribuição para o PIS decorrente da adesão ao Programa Universidade para Todos ProUni, nos termos da Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009, em que se reafirmou o direito à isenção durante o período de vigência do Termo de Adesão (art. 5º da Medida Provisória nº 213/2004). Nos termos do Acórdão nº 14053.598, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de inexistir comprovação, por meio de documentação contábil e fiscal, do direito creditório pleiteado e por não ter havido a comprovação da adesão da instituição ao ProUni, nos termos do art. 8º da Lei nº 11.096/2005. Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de solução de consulta da Receita Federal assegurando o direito à isenção, o que, segundo ela, tornava "legalmente desnecessária" a exigência de comprovação de sua adesão ao programa. Argumenta, ainda, que, nos casos da espécie, é "faticamente impossível" a apresentação de documentos, por se tratar o pedido de restituição de procedimento eletrônico. Na sequência, sustenta a absoluta desnecessidade dos elementos de prova exigidos pela Delegacia de Julgamento, quais sejam, folhas de salário e contabilidade, por se tratar de questão aperfeiçoada e superada ante a homologação da base de cálculo da contribuição por parte da Fiscalização, tendo em vista que constou do despacho decisório que o valor declarado encontravase exato e perfeito. Supletivamente, pugna, caso o CARF entenda necessário, pela realização de diligência junto à repartição de origem, para que a autoridade administrativa oficie o Ministério da Educação com vistas a elucidar os termos no quais se manteve a sua adesão ao ProUni no período sob comento. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator Fl. 78DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.885, de 28/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 13116.900001/201412, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.885): O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. O dispositivo legal que trata da isenção de impostos e contribuições às instituições de ensino que aderirem ao Prouni é o art. 8º da Lei nº 11.096/2005, reproduzido no que se aplica ao caso (grifei): Art. 8o A instituição que aderir ao ProUni ficará isenta dos seguintes impostos e contribuições no período de vigência do termo de adesão: (Vide Lei nº 11.128, de 2005) (...) III Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991; e IV Contribuição para o Programa de Integração Social, instituída pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. § 1° A isenção de que trata o caput deste artigo recairá sobre o lucro nas hipóteses dos incisos I e II do caput deste artigo, e sobre a receita auferida, nas hipóteses dos incisos III e IV do caput deste artigo, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2° A Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda disciplinará o disposto neste artigo no prazo de 30 (trinta) dias. § 3° A isenção de que trata este artigo será calculada na proporção da ocupação efetiva das bolsas devidas. (Incluído pela Lei nº 12.431, de 2011). A Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.493, de 18/07/2005, com os dispositivos que se aplicam ao caso transcritos (grifei): Art. 1o O Programa Universidade para Todos PROUNI, de que trata a Lei no 11.096, de 13 de janeiro de 2005, destinase à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de cinqüenta por cento ou de vinte e cinco por cento, para estudantes de cursos de graduação ou seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos, que tenham aderido ao PROUNI nos termos da legislação aplicável e do disposto neste Decreto. Parágrafo único. O termo de adesão não poderá abranger, para fins de gozo de benefícios fiscais, cursos que exijam formação prévia em nível superior como requisito para a matrícula. Art. 2o O PROUNI será implementado por intermédio da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Fl. 79DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 5 4 § 1o A instituição de ensino superior interessada em aderir ao PROUNI firmará, em ato de sua mantenedora, termo de adesão junto ao Ministério da Educação. (...) Art. 12. Havendo indícios de descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão, será instaurado procedimento administrativo para aferir a responsabilidade da instituição de ensino superior envolvida, aplicandose, se for o caso, as penalidades previstas. (...) A Secretaria da Receita Federal em cumprimento ao disposto no § 2º do art. 8º acima, editou a Instrução Normativa SRF nº 456/2004, posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.394/2013, que dispunha, no que se aplica ao caso (grifei): Art. 1º A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (ProUni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, das seguintes contribuições e imposto: I Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); II Contribuição para o PIS/Pasep; (...) § 1º A isenção de que trata o caput recairá sobre o lucro na hipótese dos incisos III e IV, e sobre o valor da receita auferida na hipótese dos incisos I e II, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2º Para fins do disposto nos incisos III e IV do caput a instituição de ensino deverá apurar o lucro da exploração referente às atividades sobre as quais recaia a isenção, observado o disposto no art. 2º e na legislação do imposto de renda. (...) Art. 3º Para usufruir da isenção, a instituição de ensino deverá demonstrar em sua contabilidade, com clareza e exatidão, os elementos que compõem as receitas, custos, despesas e resultados do período de apuração, referentes às atividades sobre as quais recaia a isenção segregados das demais atividades. (...) O termo de adesão foi previsto no art. 5º da Lei nº 11.096/2005, in verbis (grifei): Art. 5o A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, poderá aderir ao Prouni mediante assinatura de termo de adesão, cumprindolhe (...) § 1o O termo de adesão terá prazo de vigência de 10 (dez) anos, contado da data de sua assinatura, renovável por iguais períodos e observado o disposto nesta Lei. Fl. 80DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 6 5 (...) Art. 7o As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: (...) Art. 9o O descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão sujeita a instituição às seguintes penalidades: (...) Art. 16. O processo de deferimento do termo de adesão pelo Ministério da Educação, nos termos do art. 5o desta Lei, será instruído com a estimativa da renúncia fiscal, no exercício de deferimento e nos 2 (dois) subseqüentes, a serusufruída pela respectiva instituição, na forma do art. 9o desta Lei, bem como o demonstrativo da compensação da referida renúncia, do crescimento da arrecadação de impostos e contribuições federais no mesmo segmento econômico ou da prévia redução de despesas de caráter continuado A recorrente alega a desnecessidade de apresentação de qualquer documento que comprove sua regular adesão ao Prouni sob o fundamento de que o documento é totalmente eletrônico e a própria Lei nº 11.096/2005 em seu art. 11, § 1º, remete a competência para tais verificações e exigências ao Ministério da Educação. Não é o que se extrai da leitura dos dispositivos acima. O termo de adesão é documento a ser firmado no qual se inserem requisitos de participação no referido Programa. Os diversos dispositivos transcritos (Lei, Decreto e Instrução Normativa) apontam para vários elementos a serem inseridos no Termo que permitiram não somente a adesão da instituição de ensino, mas o controle de sua permanência, enquanto regular e vigente, a aplicação de penalidade, e, principalmente ao que interessa ao presente litígio, a isenção de contribuições. Dessa forma, a exibição do documento "Termo de Adesão" é essencial ao gozo do benefício fiscal de isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Ao contrário do que alega a recorrente, o termo de Adesão, ainda que eletrônico, prevê o ato de sua assinatura, para que se dê a devida validade e autenticidade. Realmente é emitido no âmbito do Ministério da Educação, o que demonstra não estar nos sistemas internos (informatizados) da Secretaria da Receita Federal; e, se de fato materializado apenas em formato eletrônico em razão de sua essencialidade, é de se presumir a possibilidade de sua impressão, típica das emitidas por órgãos públicos, com chave de segurança para confirmação da autenticidade. Ademais, documento oficial, que confere benefícios tributários de outra ordem, e firmado entre partes Ministério da Educação e instituição de ensino privada há de ser mantido pela parte interessada para o gozo dos benefícios previstos no Termo. Fl. 81DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 7 6 Nada obstante, o que a recorrente argumenta para a não apresentação do Termo de adesão ao Prouni outros recorrentes em situação idêntica não se escusaram do cumprimento de singelo mister. Vejase exemplo de julgado proferidos neste Conselho em que se demonstrou a possibilidade fática de apresentar e comprovar a adesão e mantença no Programa (grifei): Autoridade Julgadora de 1ª Instância bem observou ainda que o contribuinte em questão comprovou nos autos (fls. 3.325) a adesão ao Programa Universidade para Todos, trecho que merece ser reproduzido por ser de extrema valia: "60. Para comprovar a adesão ao PROUNI o contribuinte anexou aos autos cópia do correio eletrônico do MEC (fls. 3.118) e cópia do Termo de Adesão (fls. 3.119 a 3.273). (Acórdão nº 3402001.704, processo nº 19515.000260/200879, relatoria do cons. João Carlos Cassuli Junior, sessão de 22/03/2012) Não se pode concluir de outra forma, senão a que a recorrente não se dignou a comprovar a existência e aposição de assinatura no Termo de Adesão e a regular fruição do Programa que aderiu. Tenho que este fundamento é suficiente para negar provimento ao recurso voluntário; contudo, há de se tecer ainda argumentos pertinentes ao ônus probatório a cargo a de quem pleiteia direito seu. Antes, porém, analisase as demais teses suscitadas no recurso voluntário que visam seu provimento Sustenta ainda a desnecessidade de apresentação das folhas de salário e respectivamente contabilidade pois entende que no despacho decisório há o reconhecimento expresso de que a base de cálculo encontrase "exata e perfeita", além de "devidamente homologada". Quanto à exigência de apresentação de documentos fiscais e contábeis, assentou o voto condutor do acórdão recorrido que deveria também ter juntado a folha de salários, a fim de demonstrar a base de cálculo do PIS, e os livros fiscais que demonstrassem os lançamentos relativos a ela. Ora, em que pese a ressaltava da DRJ, com a qual concordo, que a isenção do PIS prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 não alcança a parcela que incide sobre a folha de salários, a Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009 proferiu entendimento cuja interpretação errônea da contribuinte adiante será enfrentado lhe é favorável quanto à isenção do PISfolha de salários. Ad argumentandum tantum, justamente firmada no entendimento favorável que extraiu do ato expedido pela autoridade, a recorrente pleiteia a restituição do PISfolha de salários, código de receita "8301". Se há o entendimento de que faz jus à esta isenção deveras tem o ônus de fazer prova documental de seu pretenso direito, qual seja, a apresentação dos documentos e livros atinentes à rubrica "salários" para que se comprove qual sua dimensão (quantificação) na base de cálculo. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 8 7 Por fim, assevera que a controvérsia quanto ao direito à isenção está superado pela conclusão da indigitada Solução de Consulta, que entende terlhe assegurado a isenção do PIS sobre folha de salários. Mais uma vez, sem razão a contribuinte. A Solução de Consulta expressamente consignou que a isenção alcança a Contribuição para o PIS, nada dispondo acerca do PIS folha de salários. Digase que na elaboração da peça a consulente, ora recorrente, apenas informou ter realizada a adesão ao Prouni, sem qualquer comprovação naquele autos de consulta, e apresenta seu entendimento de que a isenção alcançaria o PIS folha de salários, para ao final requerer a manifestação do Órgão quanto ao seu entendimento. Eis a cartaconsulta: Entendo que ao fundamentar a solução da consulta, a autoridade que a proferiu fez constar em seus fundamentos a legislação que trata da incidência do PIS sobre a folha de salários, à alíquota de 1%, deixando assente a tributação sobre esta rubrica, com a transcrição do art. 13 e incisos III e IV, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Colacionou os dispositivos que tratam da isenção do PIS sobre a receita auferida pela instituição de educação que aderir e assim se mantém no Prouni. Transcreveu os arts. 8º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º da Lei nº 11.096/2005; arts. 1º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º, e 3º caput e parágrafo único da IN SRF nº 456/2004, para em seguida enunciar no mesmo tópico "fundamentos" que: " 5. Ante os dispositivos acima expostos, verificase que a instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória n° 213, de 2004, Fl. 83DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 9 8 ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS." Conclui a solução da consulta com o enunciado: Conclusão 6. Em face do exposto, concluise que a instituição privada de ensino superior com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao programa Universidade para Todos (prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Completase os fatos com a apresentação da ementa da Solução de Consulta SRRF/1ªRF/Disit nº 86, de 2 de junho de 2009: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: PIS. PROUNI. INCIDÊNCIA. A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5o da Medida Provisória nº 213. de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Dispositivos Legais: art.13 da Medida Provisória n° 2.15835/2001; art.8° da Lei n° 11.096/2005; arts. 1º e 3o da Instrução Normativa nü 456/2004. Não vislumbro imprecisão no Ato que poderia dar a interpretação de que toda e qualquer incidência do PIS a que se sujeitam as entidades aderentes ao Prouni estaria isenta. A uma, os dispositivos legais da ementa da solução de consulta informam a legislação aplicada, primeiro, a que dispõe acerca do Pis folha de salários tributado à alíquota de 1% e após, a que trata do PIS alcançado pela isenção; a duas, porque nos fundamentos, a autoridade trouxe a legislação que faz distinção entre PISfolha de salário tributada à alíquota de 1%, e o PIS sobre receitas isentos nos termos e requisitos das legislação; a três, a omissão do termo "PIS sobre folha de salários" não tem o condão de fazêlo incluir na isenção pelo motivo a seguir; a quatro, nos termos do art. 111 caput e inciso II do CTN, "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção"; a cinco, não caberia a autoridade fiscal ou administrativa contrariar preceito legal. Por fim, sacramentando o entendimento do não alcance da isenção ao PIS sobre folha de salários, o Órgão Central da Secretaria da Receita Federal editou a Solução de Divergência Cosit nº 1, de 2015, publicada no D.O.U de 24/12/2015, com a ementa: SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA Nº 1, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2015. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP EMENTA: INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR. PROUNI. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE A FOLHA Fl. 84DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 10 9 DE SALÁRIOS. A isenção de que trata o art. 8º da Lei nº 11.096, de 2005, não se aplica à Contribuição para o PIS/Pasep incidente sobre a folha de pagamentos da pessoa jurídica que adere ao Prouni. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 9.532, de 1997, art. 12; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 9º e 46; Lei nº 11.096, de 2005, art. 8º; DecretoLei nº 5.172 (CTN), de 1966, art. 111,II; Instrução Normativa RFB nº 1.394, de 2013 e Medida Provisória (MP) nº 2.15835, de 2001. O último argumento da recorrente referese à eventual realização de diligência, oficiandose ao Ministério da Educação acerca da sua manutenção no Prouni, acaso não seja superada os fundamentos ante aduzidos que entende suficiente ao direito à restituição pleiteada decorrente do pagamento indevido da Contribuição. Primeiramente, desnecessária a providência pois como assentado neste voto os fundamentos antecedentes são suficientes para negar provimento ao recurso. Não há dúvidas intransponíveis nos autos que necessitam de serem completadas para decidir o litígio. Nos processos, como o presente, que tratam de solicitação de restituição e compensação, a comprovação do direito aos créditos incumbe ao postulante. É seu dever carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, em especial quando necessário à fruição de benefício tributário de isenção. Caso essa comprovação houvesse sido feita, e ainda restasse dúvida ao julgador quanto a permanência regular e temporal no Programa, cabível seria a diligência. Assim, incabível a solicitação de diligência dirigida ao Ministério da Educação para apresentação do Termo de Adesão, documento primário e essencial ao compromisso assumido e firmado pela instituição educacional que requer o gozo dos benefícios do Prouni e que não se dignou a apresentar aos autos. Até esse ponto, restou assente que a recorrente não apresentou o Termo de Adesão ao Prouni, folhas de salário e escrituração contábil; e não permaneceu silente quanto às exigências. Em todas as peças recursais impugnação e recurso voluntário sustentou a desnecessidade desse dever, pois entendeu que o despacho decisório e a solução de consulta reconheceram expressamente seu direito à isenção do PIS relativo ao Programa, sem colacionar qualquer documento seu aos autos. A ausência de elementos probantes viola a regra jurídica adotada pelo direito pátrio de que a prova compete à pessoa que alega o fato, conforme se depreende do abaixo transcrito artigo 16, caput, III, do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), que regulamenta o processo administrativo fiscal no âmbito federal, e do artigo 373, do Código de Processo Civil,verbis: Decreto n° 70.235, de 1972: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Lei nº 13.105/2015 CPC Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13116.901617/201231 Acórdão n.º 3201002.966 S3C2T1 Fl. 11 10 "Art. 373. 0 ônus da prova incumbe: I — ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II — ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor." Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. As Declarações (DCTF, DCOMP e DACON, PER/DCOMP), os documentos fiscais e contábeis e aqueles pertinentes a benefícios tributários, celebrados com órgãos públicos, são produzidos e celebrados pelo próprio contribuinte ou com sua participação, de sorte que, havendo inconsistências ou omissões, impõe a obrigação da recorrente em comprovar os fatos mediante a escrituração contábil e fiscal, sustentada em documentos, tendo em vista que, apenas os créditos líquidos e certos comprovados inequivocamente pelo contribuinte são passíveis de compensação tributária, conforme preceituado no artigo 170 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional/CTN). Conclusão Por todo o exposto a recorrente não se desincumbiu do ônus de provar o alegado direito líquido e certo, decorrente de suposto pagamento a maior ou indevido de PIS. Assim, não encontro razão para modificar a decisão a quo e VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO e NÃO RECONHECER O DIREITO CREDITÓRIO. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 86DF CARF MF
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Numero do processo: 10314.726111/2014-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2009
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO - IMPROCEDÊNCIA
A ausência de fundamentação clara sobre as razões fáticas para a autuação importa a sua improcedência por carência da caracterização do fato gerador, antecedente da regra impositiva.
Numero da decisão: 1401-002.034
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Guilherme Adolfo dos Santos Mendes - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lizandro Rodrigues de Sousa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lizandro Rodrigues de Sousa, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 61 11 /2 01 4- 73 Fl. 430DF CARF MF 2 Relatório Em relação às peças iniciais do presente feito, sirvome do relatório da autoridade a quo: Tratase de autos de infração no valor total de R$ 21.500.000,00 (vinte e um milhões e quinhentos mil reais) lavrados contra a contribuinte em epígrafe, ENERPEIXE S.A., para exigência de IRPJ e CSLL relativos ao ano de 2009. Conforme consta do Termo de Verificação Fiscal da Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Fiscalização em São Paulo (Fls. 64 a 68),verbis: (...) I – DO RESULTADO DA FISCALIZAÇÃO APURAÇÃO DO LUCRO REAL EXCLUSÃO INDEVIDA DE PROVISÃO DE JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO OS FATOS A empresa provisionou em 31/12/2009 os Juros s/ Capital Próprio no valor de R$8.600.000,00 (Oito milhões e seiscentos mil reais) e R$12.900.000,00 (Doze milhões e novecentos mil reais). CONSTATAMOS QUE, estes valores foram estornados no mesmo dia conforme Razão Contábil da conta Despesas Financeiras fornecido pela empresa através do SPED Contábil, conforme Quadro abaixo: (...) CONTA DATA DÉBITO CRÉDITO SALDO FINAL 6350419032 28/12/2009 8.600.000,00 8.600.000,00 6350419038 28/12/2009 12.900.000,00 12.900.000,00 6350419032 31/12/2009 8.600.000,00 (12.900.000,00) 6350419038 31/12/2009 12.900.000,00 (8.600.000,00 7100123002 31/12/2009 12.900.000,00 12.900.000,00 7100123003 31/12/2009 8.600.000,00 8.600.000,00 7100123002 31/12/2009 12.900.000,00 (12.900.000,00) 7100123003 31/12/2009 8.600.000,00 (8.600.000,00) Constatamos que os valores de R$8.600.000,00 (Oito milhões e seiscentos mil reais) e R$12.900.000,00 (Doze milhões e novecentos mil reais) que somam R$21.500.000,00 (Vinte e um milhões e quinhentos mil reais) tanto a provisão quanto a reversão estão contemplados no Lucro Líquido antes do IRPJ conforme Ficha 06A linhas 68 no valor de R$149.554.679,73 (Cento e quarenta e nove milhões, quinhentos e cinqüenta e quatro mil, seiscentos e sessenta e nove reais e setenta e três centavos) conforme lançamento das Despesas Financeiras na linha 42 e a Reversão dos saldos das Provisões representada pelos Juros s/ Capital Próprio na linha 30. Portanto, a Reversão dos Juros s/ Capital Próprio do ano de 2009 foi excluída indevidamente na DIPJ 2010/2009 na Ficha 09A – Demonstração do Lucro Real e, na linha 40 () Reversão dos Saldos das Provisões Não Dedutíveis. Fl. 431DF CARF MF Processo nº 10314.726111/201473 Acórdão n.º 1401002.034 S1C4T1 Fl. 431 3 (...) A ciência ao contribuinte dos respectivos autos de infração deuse em 04/09/2014 (quintafeira) (Fls.81 a 92). A contribuinte apresentou a presente impugnação em 06/10/2014 (segunda feira) (Fls. 104 a 249) em face dos referidos autos de infração com os mesmos argumentos em relação ao IRPJ e à CSLL, alegando em síntese: I a nulidade dos Autos de Infração impugnados, em decorrência da precariedade do trabalho fiscal que os originou, especialmente no que se refere à adequada fundamentação das autuações em questão; II – o cancelamento dos Autos de Infração impugnados, tendo em vista a idoneidade do procedimento de escrituração dos juros sobre capital próprio (JCP) e do procedimento de apuração do IRPJ e da CSLL adotado pela Impugnante, no anocalendário de 2009; e III subsidiariamente, o reconhecimento do direito da Impugnante à dedução dos pagamentos efetuados no período de 2010, com o afastamento dos lançamentos atinentes ao principal dos débitos e a manutenção apenas de juros de mora relativos ao período compreendido entre o momento da dedução realizada no ano de 2009 e a data do efetivo pagamento dos JCP no ano de 2010. DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU A decisão (fls. 411420) deu provimento à impugnação e recorreu de ofício. Abaixo, seguem as razões do provimento. Após descrever novamente as alegações da defesa e os procedimentos adotados pela autoridade fiscal, concluiu que esta autoridade descreveu de forma minuciosa o período de apuração, os documentos que embasaram o lançamento e os motivos da autuação. Assim, não caberia a nulidade da autuação. Nada obstante, o procedimento adotado pelo contribuinte estaria correto, uma vez que apropriou as despesas de JCP no período em que foi registrado o valor no seu passivo exigível. É o relatório do essencial. Fl. 432DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator Estou de acordo com a parte dispositiva da decisão recorrida, mas discordo dos seus fundamentos. A apropriação de JCP como despesa do período deve seguir a disciplina do art. 9º da Lei nº 9.249/95: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo – TJLP. Sua decisão não passou de uma verificação da lisura do procedimento adotado pelo sujeito passivo no reconhecimento do JCP. No entanto, deste dispositivo legal não podemos deduzir que basta o registro contábil do total dos JCP devidos aos sócios em conta de passivo para caracterizar o valor como despesa. Para tal, é necessário que os valores tenham sido individualizadamente creditados a cada um dos sócios. Ademais, o crédito contábil não corresponde semanticamente ao crédito caracterizador do fato gerador do imposto de renda. A escrituração contábil pode se caracterizar como relevante elemento de prova de relações jurídicas entre a empresa e terceiros, mas não é o instrumento formal que as cria, extingue ou modifica. É apenas o suporte material em que se registram tais mutações jurídicorelacionais, as quais são empreendidas por meio de outros documentos, como contratos, acordos, deliberações, títulos de créditos, etc. Não é, pois, o registro contábil a crédito que caracteriza o direito de crédito do sócio perante a empresa. A palavra “crédito” é polissêmica. É empregada, no geral da língua portuguesa e particularmente no direito positivo, em múltiplas acepções. É próprio da linguagem contábil adotar o termo “crédito” como um dos dois tipos de registros do denominado método das “partidas dobradas”, que exige, para o lançamento de cada um dos fatos de conteúdo econômico, uma duplicação de registros, cujos totais devem ser absolutamente iguais. Às vezes, essa acepção típica do domínio contabilista é incorporada, sem alterações, pela linguagem jurídica. Todavia, no discurso normativo, habitualmente o termo “crédito” diz respeito a um dos liames componentes das relações jurídicas de cunho patrimonial, tecnicamente denominadas “obrigações”. As relações jurídicas são formadas por sujeitos localizados em dois pólos distintos, por dois vetores em sentidos diversos e por um objeto. Nas obrigações, tipo específico de relação, os sujeitos são denominados ativo e passivo; os vetores, vínculos ou liames são chamados de débito e crédito; e o objeto deve ter conteúdo patrimonial, deve ser aferido em moeda (dinheiro). Pois bem, enquanto na linguagem contábil o termo “crédito” é empregado para designar uma das características dos valores componentes do registro contábil, acepção Fl. 433DF CARF MF Processo nº 10314.726111/201473 Acórdão n.º 1401002.034 S1C4T1 Fl. 432 5 esta que até pode ser incorporada por diplomas normativos para fazer referência a essa atividade contabilista, no direito, como regra, o termo “crédito” é empregado no sentido de vínculo jurídico; sentidos, pois, totalmente distintos. Dessa forma, ao possibilitar a despesa de JCP creditados a titular, sócio ou acionista, o artigo 9º da Lei nº 9.249/95 não define o momento do reconhecimento da despesa como aquele do registro contábil credor dessas quantias, mas como a data do nascimento do liame jurídico correspondente ao direito de o sujeito ativo exigir do sujeito passivo o montante pecuniário. Ademais, deve haver sincronia entre a apropriação da despesa para fins de apuração do IRPJ e para retenção do IRRF, nos termos do parágrafo 2º do mesmo artigo 9º, o qual também faz a mesma referência ao crédito, como podemos verificar abaixo: § 2° Os juros ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte à alíquota de quinze por cento, na data do pagamento ou crédito ao beneficiário. Não pode a pessoa jurídica de um lado reduzir o seu IRPJ e, de outro, deixar de reter e recolher o IRRF em razão do crédito a favor do beneficiário. Assim, não podemos perder de vista que o fato gerador do imposto de renda, como definido no artigo 43 do Código Tributário Nacional, é a “aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica”. Ou seja, o “crédito” a que a lei ordinária faz menção para estabelecer a incidência do IRRF não pode ser interpretado em dissonância com a aquisição da disponibilidade, aquisição esta que não se caracteriza pelo simples registro contábil credor em conta de passivo. Aliás, a bibliografia especializada é uníssona nesse sentido. Apenas a título de exemplo, transcrevemos trecho do Livro “Imposto de Renda das Empresas” da autoria de Edmar Oliveira Andrade Filho, em que se analisa especificamente o crédito dos JCP, in verbis: Quando a lei se refere a juros “pagos ou creditados”, supõese que, propositadamente, ela não atribui relevância à fluência desses juros no tempo. Aqui há que se recordar que existem diferenças sensíveis entre juro pago, juro creditado e juro incorrido. A ideia do que seja um juro pago não apresenta maiores problemas interpretativos porquanto se há pagamento, de se supor que são devidos e incorridos; tal proposição não deve ser aplicada nas remotas hipóteses em que há pagamento antecipado. O conceito de juro creditado é mais complexo em virtude da ambigüidade da palavra crédito, mas, se fizermos uma interpretação em harmonia com o art. 43 do CTN, não será difícil concluir que juro creditado é aquele posto à disposição do beneficiário, segundo o direito (o contrato entre as partes) aplicável. (São Paulo, Atlas, 2012; pág. 294) Desse modo, não é o lançamento contábil, o qual registra os juros incorridos, na lição de Edmar de Oliveira, que determina o crédito dos juros para fins de incidência do IRRF. De igual sorte, também não é para fins de dedução de despesas. Esse entendimento também é encontrado no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão máximo de julgamento do contencioso administrativo, que sempre Fl. 434DF CARF MF 6 asseverou não ser o mero registro contábil a crédito apto a caracterizar a disponibilidade econômica, nem a jurídica e, portanto, capaz de consubstanciar o fato gerador do imposto sobre a renda mesmo nas suas modalidades de incidência na fonte. Abaixo, transcrevemos, a título ilustrativo, ementa de acórdão sobre o tema: IMPOSTO DE RENDA NA FONTE. CRÉDITO CONTÁBIL. RESIDENTES OU DOMICILIADOS NO EXTERIOR. FATO GERADOR Estão sujeitas à incidência do imposto na fonte as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas a beneficiários residentes ou domiciliados no exterior, por fonte situada no país. O registro contábil do crédito não caracteriza disponibilidade econômica ou jurídica dos rendimentos. (AC nº 10616.071) Para espancar qualquer dúvida sobre o teor da decisão, reproduzimos também o conteúdo do voto condutor: O imposto lançado está disciplinado pelo art. 72, da Lei 9.430 de 27 de dezembro de 1996, que assim preceitua: Art. 72. Estão sujeitas à incidência do imposto na fonte, à alíquota de quinze por cento, as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas para o exterior pela aquisição ou pela remuneração, a qualquer título, de qualquer forma de direito, inclusive à transmissão, por meio de rádio ou televisão ou por qualquer outro meio, de quaisquer filmes ou eventos, mesmo os de competições desportivas das quais faça parte representação brasileira. A discussão nos autos é definir se a escrituração contábil das despesas, sem a efetiva remessa ao beneficiário no exterior, obriga a fonte pagadora ao recolhimento do imposto. Matéria semelhante foi enfrentada pelo Conselheiro José Clóvis Alves no Acórdão nº 10229.889, de 18/5/1995, que, ao analisar as expressões dos artigos 554, 555 e 575 do RIR/1980, chegou as seguintes conclusões, em resumo: que o imposto de renda na fonte incide quando percebidos, sendo a retenção obrigatória na data do pagamento, crédito, entrega, emprego ou remessa; o termo “crédito” indica que o imposto é devido no momento em que o rendimento se torna juridicamente disponível; “o crédito contábil, como simples provisionamento dos juros para pagamento de obrigação a vencer, em respeito ao regime de competência, sem que o aplicador possa juridicamente reclamar tal valor, pelo não vencimento da obrigação, não é fato gerador do imposto, ocorrendo tão logo esta condição seja implementada”. Nesse sentido, também o Acórdão nº 1037.602 (24/5/1988), no qual ficou decidido que: “não há fato gerador do imposto incidente na fonte quando os juros são contabilmente creditados ao beneficiário do rendimento em data anterior ao vencimento Fl. 435DF CARF MF Processo nº 10314.726111/201473 Acórdão n.º 1401002.034 S1C4T1 Fl. 433 7 da obrigação, consoante os prazos ajustados em contrato de empréstimo, que se mantenha inalterado. O simples crédito contábil, antes da data aprazada para seu pagamento, não extingue a obrigação nem antecipa a sua exigibilidade pelo credor. O fato gerador do imposto de renda na fonte, pelo crédito dos rendimentos, relacionase, necessariamente, com a aquisição da respectiva disponibilidade econômica ou jurídica”. A Lei nº 5.162 de 25 de outubro de 1966, Código Tributário Nacional, no artigo 43 define o fato gerador do imposto como a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica, e no artigo 116 registra que se considera ocorrido: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II – tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja devidamente constituída, nos termos do direito aplicável. Desse modo, o imposto incide apenas no momento que o sujeito passivo de fato tenha adquirido a disponibilidade econômica ou jurídica. Como não está comprovado nos autos que os valores foram remetidos para o exterior, resta a analise se o registro do crédito na contabilidade, implica em disponibilidade econômica. Hugo de Brito Machado, in Curso de Direito Tributário, São Paulo, Malheiros: 1998, p. 221, discorre que “a disponibilidade jurídica ocorre com o crédito, à disposição do sócio, de sua parte no lucro da parte no lucro da pessoa jurídica. Disponibilidade sem qualquer obstáculo. Se o sócio, para haver essa participação, precisa acionar a pessoa jurídica, então na verdade não tem ele a disponibilidade”. Assim sendo, podese concluir que o simples crédito na contabilidade, não caracteriza a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica da empresa beneficiária do pagamento. Posto isso, voto por dar provimento ao recurso. Também não se diga que a Instrução Normativa SRF nº 41/08 fixou entendimento diverso do acima estampado, como aduziu a decisão recorrida. Só uma leitura apressada, superficial e descontextualizada do seu teor conduz à conclusão de que o lançamento contábil representa o crédito jurídico para fins de dedução da despesa. A referida instrução apenas disciplina os requisitos para a dedução dos JCP da base de cálculo do IRPJ, dentre os quais, a realização de um preciso tipo de registro contábil. Desse modo, o registro não se caracteriza como condição suficiente, apesar de necessária, para autorizar a dedução dos JCP da base de cálculo do IRPJ. Assim, apesar de nas Demonstrações Financeiras acostadas aos autos pelo Fisco (Fls. 69 a 80) constar notas explicativas que demonstra a deliberação pelo JCP, resta Fl. 436DF CARF MF 8 claro que tais valores não são passíveis de ser exigidas pelos acionistas. Abaixo, reproduzo os mesmos trechos da decisão recorrida com o destaque aqui mencionado: (...) 13.2 Destinação do Lucro Os acionistas têm direito a dividendos mínimos de 25% do lucro líquido ajustado, podendo a ele ser imputado, integrando o montante dos dividendos distribuídos pela Companhia, para todos os efeitos legais e nos termos da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e regulamentação posterior, o valor dos juros sobre capital próprio (JSCP) pagos ou creditados, individualmente aos acionistas, a título de remuneração do capital próprio. (...) Em 28 de dezembro de 2009, o Conselho de Administração da Companhia aprovou o crédito de juros sobre capital próprio, no montante bruto de R$ 21.500, imputados aos dividendos a serem distribuídos pela Companhia em data a ser deliberada, os quais foram contabilizados em Despesas financeiras, conforme requerido pela legislação fiscal. Para efeito destas demonstrações financeiras, esses juros foram revertidos nas demonstrações dos resultados. (...) Ora, se a data irá ser deliberada no futuro sem previsão específica, significa dizer que o valor não era exigível pelos sócios por ocasião do encerramento do exercício. Logo, não havia crédito algum. Fiz questão de deixar claro meu posicionamento acerca do conceito de crédito e dos efeitos sobre o reconhecimento da despesa por causa da decisão de primeira instância que tratou desse tema. Nada obstante, em momento algum a autoridade fiscal faz essa acusação. Aliás, como aduzido pela impugnante, não é possível aferir exatamente qual foi a acusação fiscal. É de se destacar que a autoridade julgadora de primeiro grau aduziu que a autoridade lançadora descreveu pormenorizadamente as razões para a autuação. No entanto, em parte alguma do seu voto teceu um único parágrafo, uma só linha para apontar qual seria esse fundamento. Suponho que considerou a questão do creditamento, mas tal acusação não consta do termo. Não sigo porém o caminho de considerar o auto de infração nulo. As nulidades dizem respeito a cerceamento de direito de defesa, o que não se dá no procedimento fiscalizatório em razão da sua natureza inquisitiva, e ato exarado por agente incompetente. Nenhuma dessas hipóteses ocorreu no presente feito. A ausência de razão clara de acusação é questão de mérito e, assim, a sua consequência jurídica (o auto de infração) deve ser considerado improcedente. Fl. 437DF CARF MF Processo nº 10314.726111/201473 Acórdão n.º 1401002.034 S1C4T1 Fl. 434 9 É como voto para negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Fl. 438DF CARF MF
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Numero do processo: 13016.000029/2005-87
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2004 a 31/10/2004
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.369
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado MADEM SA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MADEIRAS E EMBALAGENS ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2004 a 31/10/2004 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 01 6. 00 00 29 /2 00 5- 87 Fl. 189DF CARF MF Processo nº 13016.000029/200587 Acórdão n.º 9303005.369 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão 380300.864. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. A Fazenda Nacional requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão onerosa de créditos de ICMS é uma operação que equiparase a verdadeira alienação de direitos a titulo oneroso, originando receita tributável, devendo compor a base de cálculo da PIS/ COFINS, conforme dispõe o art. 1° §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, bem como o art. 1° da Lei nº 10.833/2003. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. O contribuinte apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 190DF CARF MF Processo nº 13016.000029/200587 Acórdão n.º 9303005.369 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 13016.000029/200587 Acórdão n.º 9303005.369 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 192DF CARF MF Processo nº 13016.000029/200587 Acórdão n.º 9303005.369 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 193DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.728063/2009-41
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
SRL. DIREITO GARANTIDO NA NOTIFICAÇÃO DE LANÇAMENTO. ERRO NA CLASSIFICAÇÃO DE RENDIMENTOS.
Sendo o procedimento de SRL - Solicitação de Retificação de Lançamento garantido ao Contribuinte pela própria Receita Federal, por meio da Notificação de Lançamento, esta mesma notificação não pode constituir óbice ao direito que lhe foi facultado, mormente quando a retificação não tem o escopo de reduzir o tributo apurado no lançamento original.
Numero da decisão: 9202-005.747
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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DIREITO GARANTIDO NA NOTIFICAÇÃO DE LANÇAMENTO. ERRO NA CLASSIFICAÇÃO DE RENDIMENTOS. Sendo o procedimento de SRL Solicitação de Retificação de Lançamento garantido ao Contribuinte pela própria Receita Federal, por meio da Notificação de Lançamento, esta mesma notificação não pode constituir óbice ao direito que lhe foi facultado, mormente quando a retificação não tem o escopo de reduzir o tributo apurado no lançamento original. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 80 63 /2 00 9- 41 Fl. 124DF CARF MF 2 Relatório Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física do exercício de 2008, acrescido de juros de mora e multa de ofício, tendo em vista a omissão de rendimentos tributáveis recebidos da Cooperativa de Serviços e Recursos Próprios dos Médicos e do Sistema Unimed – Unihosp (R$ 88.782,44), da Sociedade Mantenedora de Educação Superior (R$ 7.971,25) e da Fundação Petrobrás de Seguridade Social Petros (R$ 21.186,70), no total de R$ 117.940,39. Contra o Contribuinte em epígrafe foi emitida a Notificação de Lançamento de fls. 10 a 14, facultandolhe a utilização do procedimento "SRL Solicitação de Retificação de Lançamento". Utilizandose da prerrogativa que lhe foi facultada, o Contribuinte apresentou "SRL", relativamente aos rendimentos considerados omitidos, admitindo inclusive haver cometido erro relativamente aos rendimentos recebidos da Cooperativa de Serviços e Recursos Próprios dos Médicos e do Sistema Unimed Unihosp (R$ 88.782,44), da Sociedade Mantenedora de Educação Superior (R$ 7.971,25), bem como solicitando a inclusão de deduções. A "SRL" foi indeferida e o lançamento mantido. Cientificado, o Contribuinte apresentou Impugnação, julgada procedente em parte pela DRJ Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Na oportunidade, foi excluída da exigência a parte relativa aos rendimentos recebidos da Fundação Petrobrás de Seguridade Social Petros (R$ 21.186,70). Cientificado, o Contribuinte interpôs Recurso Voluntário ao CARF, solicitando o acolhimento das deduções pleiteadas na SRL. Em sessão plenária de 22/01/2014, foi julgado o Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão 2801003.346 (fls. 87 a 96), assim ementado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2008 MOLÉSTIA GRAVE. ISENÇÃO. IMPOSTO DE RENDA. LEI Nº 7.713/1988. SÚMULA CARF Nº 63. Rendimentos que não sejam proventos de aposentadoria, como os de natureza salarial, ainda que recebidos no momento em o que o beneficiário já se encontre aposentado, por motivo de invalidez, não são isentos do imposto de renda. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão, e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, é o teor da Súmula CARF nº 63. ALTERAÇÃO DA DIRPF APÓS A NOTIFICAÇÃO DE LANÇAMENTO. ERRO DE FATO. COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. CONHECIMENTO DE OFÍCIO. Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10580.728063/200941 Acórdão n.º 9202005.747 CSRFT2 Fl. 125 3 Tendo em conta que a quase totalidade dos tributos, atualmente, sujeitamse ao lançamento por homologação, o § 1º do art. 147 do CTN tem sido invocado e aplicado por analogia para definir o marco até quando pode o contribuinte retificar livremente suas declarações. O § 1º simplesmente retira do contribuinte a possibilidade de tornar, por ato próprio, insubsistente a sua declaração originária, quando já notificado o lançamento. Não compromete, porém, os direitos de petição e de acesso ao Judiciário. Poderá o contribuinte, pois, a qualquer tempo, enquanto não decaído seu direito, peticionar administrativamente noticiando os equívocos e solicitando a revisão de ofício pela autoridade, forte no art. 149 do CTN. Recurso Voluntário Provido em Parte." A decisão foi assim registrada: "Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para acatar dedução de despesas médicas, no valor de R$ 9.860,84, nos termos do voto do Relator. Vencido o Conselheiro Marcelo Vasconcelos de Almeida que negava provimento ao recurso." O processo foi encaminhado à PGFN em 18/02/2014 (Despacho de Encaminhamento de fls. 97). Assim, conforme o art. 7º, da Portaria MF nº 527, de 2010, a ciência presumida do Procurador ocorreria em 19/03/2014, e, em 07/03/2014, foi interposto o Recurso Especial de fls. 98 a 105 (Despacho de Encaminhamento de fls. 106). O Recurso Especial está fundamentado nos arts. 67 e 68, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e visa rediscutir a possibilidade de alteração da Declaração de Ajuste Anual mesmo após a notificação de lançamento. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme despacho de 22/08/2014 (fls. 109/110). Em seu apelo, a Fazenda Nacional alega: a controvérsia cingese à possibilidade de alterar a Declaração de Ajuste Anual nos autos do presente processo administrativo fiscal, tendo em vista a apresentação de nova dedução de despesa médicoodontológica; primeiramente, cumpre destacar que a Declaração Retificadora é a via documental adequada para tal intento, substituindo integralmente a declaração retificada, com todas as alterações requeridas pelo contribuinte, contudo há limites à retificação; primeiramente, cumpre destacar que os contribuintes têm prazo de cinco anos para apresentação de Retificadora, a fim de ser condizente com o prazo de prescrição/decadência dos créditos tributários; neste aspecto, o pedido em exame está tempestivo, pois se refere ao exercício de 2008 e foi inserido na impugnação apresentada em novembro de 2009; Fl. 126DF CARF MF 4 há, ainda, outra restrição temporal para a Declaração Retificadora: a vedação de inclusão de nova dedução, ou qualquer outra modificação no critério de apuração do tributo após notificado o lançamento; com efeito, a retificação do lançamento só pode ser feita até o início do procedimento fiscalizatório, conforme dispõe expressamente o art. 147, do Código Tributário Nacional; a última regra apresentada é suficiente para refutar a tese do acórdão recorrido, na medida em que indica norma que impõe proibição expressa à retificação da declaração na vigência de lançamento tributário; o dispositivo legal tem o intuito de evitar que os contribuintes queiram se valer de processos administrativos fiscais para pleitearem alterações a qualquer tempo, como subterfúgio a auferir deduções sem a contrapartida de ações fiscalizatórias para a devida conferência destas; no caso dos autos, o pedido de inclusão de dedução de despesas médicas, assim como a apresentação dos documentos respectivos, só foram feitos por ocasião da impugnação do lançamento, logo não podem ser aceitos, considerando a preclusão para o requerimento da citada dedução; aliás, cabe destacar o enunciado da Súmula nº 33 do CARF, que assim dispõe: Súmula CARF nº 33: A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. nesse contexto, e considerando que o ordenamento jurídico pátrio trouxe regra específica a respeito do tema ora em análise, não há respaldo para manter o acórdão recorrido; conforme já esclarecido, não pode ser aceito, para fins de reduzir o valor do imposto devido, o montante de despesa médica declarado apenas em retificadora apresentada após a notificação do lançamento, sob pena de afronta à disposição do art. 147, § 1º, do CTN. neste contexto, a dedução pleiteada revestese de patente ilegalidade, devendo ser refutada de forma veemente. Ao final, a Fazenda Nacional pede que seja conhecido e provido o Recurso Especial, reformandose o acórdão recorrido e restabelecendose a decisão de 1ª instância. Cientificado em 13/08/2015 (AR Aviso de Recebimento de fls. 116), o Contribuinte quedouse silente. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Não foram oferecidas Contrarrazões. Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10580.728063/200941 Acórdão n.º 9202005.747 CSRFT2 Fl. 126 5 O processo tratava inicialmente de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física do exercício de 2008, acrescido de juros de mora e multa de ofício, tendo em vista a omissão de rendimentos tributáveis recebidos da Cooperativa de Serviços e Recursos Próprios dos Médicos e do Sistema Unimed – Unihosp (R$ 88.782,44), da Sociedade Mantenedora de Educação Superior (R$ 7.971,25) e da Fundação Petrobrás de Seguridade Social Petros (R$ 21.186,70), no total de R$ 117.940,39. O Contribuinte declarara como rendimentos tributáveis apenas o valor de R$ 10.000,00, recebido da Petros, o que resultou em imposto devido zero (Declaração de Ajuste Anual de fls. 20 a 25). Nesse contexto, obviamente não haveria qualquer sentido em pleitear deduções, já que elas não seriam aproveitadas. Ocorre que a Notificação de Lançamento de fls. 10 a 14, que formalizou a exigência, facultou ao Contribuinte a utilização do procedimento "SRL Solicitação de Retificação de Lançamento", disponibilizado pela própria Receita Federal, que assim o descreve em seu sítio na Internet: "Conceitos básicos A Solicitação de Retificação de Lançamento SRL visa possibilitar ao contribuinte requisitar, de forma ágil e sumária, a revisão do lançamento de ofício efetuado em sua Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda Pessoa Física, para a correção de possíveis erros que demonstrem de forma inequívoca a improcedência do lançamento. Caso o contribuinte discorde do resultado da análise de sua SRL, poderá apresentar impugnação à Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento – DRJ de sua jurisdição. Atenção: a SRL é facultada apenas aos contribuintes que receberam notificação de lançamento em cujo texto conste, de maneira expressa, dentro do quadro "Intimação", essa faculdade, nos termos do art. 6 º da Instrução Normativa SRF nº 579, de 08 de dezembro de 2005. Quem não recebeu a notificação, pode acessar a página “Contribuinte com declaração retida em malha fiscal” e verificar as opções disponíveis para resolver pendências na declaração. (...) Local para apresentação A Solicitação de Retificação de Lançamento – SRL deve ser apresentada, juntamente com todos os documentos que comprovem a improcedência do lançamento, no endereço constante no quadro ‘Local de Lavratura’ da Notificação de Lançamento ou na unidade de atendimento da Secretaria da Receita Federal do Brasil do domicílio fiscal do contribuinte." (grifei) Utilizandose da prerrogativa que lhe foi facultada, o Contribuinte apresentou "SRL", relativamente aos rendimentos considerados omitidos, admitindo haver cometido erro relativamente aos rendimentos recebidos da Cooperativa de Serviços e Recursos Próprios dos Fl. 128DF CARF MF 6 Médicos e do Sistema Unimed Unihosp (R$ 88.782,44), da Sociedade Mantenedora de Educação Superior (R$ 7.971,25), bem como solicitando a inclusão de deduções não pleiteadas na declaração (Dossiê de Malha Fiscal de fls. 31 a 68). Com efeito, o reconhecimento do erro por parte do Contribuinte, que classificou como isentos rendimentos que eram tributáveis, dá ensejo à contrapartida desse erro, que é a utilização de deduções que não foram pleiteadas na declaração original, obviamente porque naquele contexto não teriam utilidade. A despeito da legalidade e legitimidade do pleito do Contribuinte, que inclusive foi autorizado pela Administração Tributária, o "Resultado da Solicitação de Retificação de Lançamento" de fls. 16/17, de forma lacônica indeferiu o pleito, sem sequer fazer referência às deduções pleiteadas. Confirase o resultado da análise: "Nos trabalhos de revisão de ofício do lançamento objeto da notificação de lançamento acima identificada, foram analisados os documentos e esclarecimentos, apresentados pelo contribuinte, restando não comprovados os valores declarados que deram origem à autuação." A DRJ Delegacia da Receita Federal de Julgamento, que poderia ter corrigido o lapso na análise da SRL, assim se manifestou quanto às despesas pleiteadas via SRL: "Registrese, entretanto, que nesse momento processual não pode ser acatado o pleito de incluir novas deduções, como proposto pelo contribuinte na SRL. Essa inclusão implicaria retificação da declaração de ajuste anual para reduzir tributo, o que é vedado expressamente pela legislação tributária após a notificação do lançamento, como dispõe o art. 147, § 1º, do Código Tributário Nacional (CTN):" De plano, constatase que seria verdadeiramente absurdo entender que, tendo a própria Receita Federal, na Notificação de Lançamento, facultado ao Contribuinte uma "Solicitação de Retificação de Lançamento SRL", ao mesmo tempo proibisse o Contribuinte de solicitar tal retificação, por já ter recebido a mesma Notificação de Lançamento que lhe facultou a solicitação de retificação. Ademais, a retificação de lançamento pleiteada pelo Contribuinte via SRL não implicaria redução de tributo, como acima afirmado. Muito pelo contrário, na declaração original fora apurado "Imposto a Restituir" no valor de R$ 7.267,10 (fls. 20), sendo que após a retificação dita restituição cairia para R$ 446,05. Quanto ao acórdão recorrido, este admitiu a dedução do valor de R$ 9.860,84, a título de despesas médicas, porém partindo de duas premissas equivocadas, não endossadas no presente voto. Primeiramente, a de que estaria conhecendo de ofício provas apresentadas após a Impugnação: "Desta feita, o direito da parte à produção de provas posteriores à apresentação da Impugnação, até o momento da decisão administrativa comporta graduação, a critério da autoridade julgadora, com fulcro em seu juízo de valor acerca da utilidade e da necessidade, de modo a assegurar o equilíbrio entre a celeridade, a oficialidade, a segurança indispensável, a ampla defesa e a verdade material, para a consecução dos fins processuais." (grifei) Com efeito, repitase que os comprovantes de despesas médicas foram apresentados em sede de SRL, ou seja, ainda durante o procedimento fiscal, tanto assim que Fl. 129DF CARF MF Processo nº 10580.728063/200941 Acórdão n.º 9202005.747 CSRFT2 Fl. 127 7 constam do "Dossiê de Malha Fiscal" de fls. 31 a 68. Ademais, esse pleito foi inclusive examinado e rechaçado pela DRJ, que não poderia ter dele tratado se já não constasse do processo quando da prolação do acórdão de Primeira Instância. Assim, não se trata aqui de conhecer de argumentos ou documentos trazidos após a Impugnação, pela aplicação do princípio da verdade material, e sim de analisar a Solicitação de Retificação de Lançamento SRL apresentada pelo Contribuinte ainda na fase do procedimento fiscal, instruída com a respectiva documentação. A outra premissa equivocada, veiculada no acórdão recorrido, é no sentido de que o Contribuinte não teria declarado os rendimentos omitidos: "Bem, o lançamento fiscal apontou omissão de rendimentos recebidos de fontes pagadoras pessoas jurídicas, conforme relatado. O contribuinte não as declarou e nos autos justifica se dizendose isento, por ser portador de moléstia grave (cardiopatia grave)." (grifei) Compulsandose a Declaração de Ajuste Anual de fls. 20 a 25, constatase que o Contribuinte não deixou de declarar os rendimentos mas sim os declarou como isentos e não tributáveis, incluindoos exatamente na hipótese de isenção por moléstia grave. Com efeito, da forma como foi descrita a situação no acórdão recorrido, poderseia concluir que o Contribuinte simplesmente omitira os rendimentos, vindo a justificar tal omissão, após ser notificado, mediante a alegação de ser portador de moléstia grave, o que poderia inclusive ser interpretado como máfé. Assim, cabe aqui resgatar a boafé do Contribuinte, que apenas classificou os rendimentos de forma equivocada, o que justifica inclusive o fato de a própria Receita Federal lhe ter oportunizado o procedimento de SRL, restrito às situações de simples erro. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, negolhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 130DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.721613/2011-19
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
LIVRE INICIATIVA. LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL.
A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerando-se a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal.
SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS.
A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados.
CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL.
Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitar-se da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais.
Numero da decisão: 9101-002.793
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 LIVRE INICIATIVA. LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL. A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerando-se a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal. SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS. A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados. CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL. Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitar-se da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
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LIBERDADE NEGOCIAL. ORDEM ECONÔMICA E FINANCEIRA INTEGRADA COM OS VALORES DA LEI MAIOR. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. ESTADO FISCAL. A Lei Maior, ao discorrer sobre os princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei e estabelece no art. 1º, dentre os princípios fundamentais, o da livre iniciativa. São valores que devem ser balizados considerandose a necessidade de o Estado arrecadar tributos para exercer sua função primordial. Não há que se falar em Estado Democrático de Direito sem que exista o Estado Fiscal. SISTEMA TRIBUTÁRIO. TRIBUTAÇÃO DIFERENCIADA PARA PESSOAS JURÍDICAS. PREMISSAS. A legislação tributária autoriza a existência de regimes de tributação diferenciados, para que a pessoa jurídica possa eleger a opção mais adequada às suas necessidades, precisamente porque a empresa tem um efeito multiplicador, fomenta o desenvolvimento, gera empregos, exerce papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, aufere mais rendimentos e proporciona ao Estado uma maior arrecadação de tributos. Nesse contexto, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação para desvirtuar o instituto da pessoa jurídica no sentido de se construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base tributária menor, são condenáveis porque afrontam o sistema jurídico e ferem as premissas que deram origem à existência dos regimes de tributação diferenciados. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 16 13 /2 01 1- 19 Fl. 6938DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.939 2 CONSTRUÇÕES ARTIFICIAIS. BUSCA DESVIRTUADA DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO MAIS FAVORÁVEL. Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária, que poderia funcionar como apenas uma empresa, aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda e criar várias empresas para se valer de regimes de tributação diferenciados visando especificamente redução da carga tributária. É artificial construção no qual se concentram os dispêndios do grupo econômico em uma empresa criada sob o regime de tributação do lucro real a ponto de tornar a apuração deficitária, e se direcionam receitas em empresas com regime de tributação do lucro presumido, com base de cálculo sobre o faturamento reduzida. Pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas artificiais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Fl. 6939DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.940 3 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela FAZENDA NACIONAL (efls. 6795/6824) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1301001.329 (efls. 6761/6793), pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 07/11/2013, no qual foi dado provimento ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte. Resumo Processual A autuação fiscal de IPI, relativa aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, discorre sobre as pessoas jurídicas MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHAPRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial". Entendeu a Fiscalização que as empresas, apesar de constituídas como pessoas jurídicas diferentes, na realidade seriam uma mesma universalidade, e a separação teria sido realizada com o objetivo de reduzir a carga tributária. Foram realizados ajustes na base de cálculo, considerandose a apuração incidente sobre apenas uma empresa, a MK, identificada como sujeito passivo direto (Contribuinte). As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram arroladas como sujeitos passivos indiretos (sujeito passivo solidário com fulcro no art. 124 do CTN). Foi realizada nova apuração de IPI consolidandose os créditos e débitos das quatro empresas. A MK apresentou impugnação que foi julgada improcedente pela primeira instância (DRJ). Irresignada, a Contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual foi dado provimento pela segunda instância (Turma Ordinária do CARF). Foi interposto pela PGFN recurso especial e a Contribuinte apresentou contrarrazões. O recurso foi admitido parcialmente, por despacho de exame de admissibilidade, para a matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", decisão confirmada por despacho de reexame. A seguir, maiores detalhes sobre a autuação fiscal. Da Autuação Fiscal Discorre a autoridade autuante (efls. 19/40) que as empresas MK, ME, Alpha e Mondial, constituídas em pessoas jurídicas diferentes, eram, na realidade, uma mesma empresa, fundamentando suas conclusões nas seguintes constatações: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. Entendeu a autoridade autuante que não haveria nenhum motivo negocial para o desmembramento e existência segmentada das quatro empresas. Concluiu que o único objetivo do desmembramento da empresa em quatro seria a redução do pagamento de tributos e Fl. 6940DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.941 4 vantagens fiscais no âmbito do ICMS, razão pela qual as operações tributáveis das quatro empresas foram consolidadas. Apurou a Fiscalização que as empresas teriam escriturado créditos indevidos nos livros de apuração do IPI cuja origem não foi demonstrada mediante documentação probatória. Foram apurados débitos conforme notas fiscais de saída e considerados valores declarados em DCTF das quatro empresas. Foi eleita com Contribuinte, sujeito passivo direto, a MK, por ser a única empresa que mantém atividade industrial e comercial utilizando a marca “Mondial”, e por possuir em seu quadro societário, o efetivo responsável pelas operações das empresas, Sr. Alberto Baggiani. As demais empresas, ME, Alpha e Mondial foram incluídas no pólo passivo na condição de sujeito passivo indireto, por conta da solidariedade do art. 124 do CTN . Foi lavrado auto de infração de IPI (efls. 03/18), relativos aos períodos de apuração compreendidos entre 01/01/2007 a 31/12/2009, e dos Termos de Sujeição Passiva Solidária (efls. 6255/6263). Da Fase Contenciosa. A MK apresentou impugnação (efls. 6273 e segs), que foi julgada improcedente pela 4ª Turma da DRJ/Salvador, nos termos do Acórdão nº 1528.134 (efls. 6449 e segs.), conforme ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2009 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito que instruíram o lançamento fiscal. PROVAS INDICIÁRIAS. A comprovação material de uma dada situação fática pode ser feita, indiretamente, por um conjunto de elementos e indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de estabelecer a certeza dessa matéria de fato. CRÉDITO INDEVIDO DE IPI. GLOSA. Mantémse a glosa de crédito para os quais a contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea, capaz de legitimar os valores escriturados. Foi interposto recurso voluntário (efls. 6498 e segs) pela MK (Contribuinte), apreciado pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção do CARF, na sessão de 07/11/2013. Decidiu o Acórdão nº 1301001.329 (efls. 6761 e segs) dar provimento ao recurso voluntário, conforme ementa a seguir. Fl. 6941DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.942 5 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2009 Ementa: PROVAS INDICIÁRIAS A comprovação material de uma dada situação fática pode ser feita, indiretamente, por um conjunto de elementos e indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de estabelecer a certeza desta matéria de fato. CRÉDITO INDEVIDO DE IPI. AUSÊNCIA DE PROVA GLOSA IMPROCEDENTE Se os indícios apontados pela fiscalização são insuficientes para consubstanciar a prova indireta da acusação, não se sustenta o lançamento que nela se lastreia. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 6795/6824). Protesta sobre entendimento da decisão recorrida, de que teria ocorrido vício na autuação fiscal na identificação do sujeito passivo, na medida em que foi indicada uma das pessoas jurídicas devedoras como contribuinte e as demais como responsáveis solidárias, vez que o reconhecimento da simulação importaria desconsiderar as personalidades jurídicas das quatro empresas formalmente constituídas, que seria substituídas pela entidade única, e por isso a autuação deveria ter sido em face da sociedade de fato. Entende a recorrente que a tese não encontraria respaldo na jurisprudência do CARF, vez que para se caracterizar a simulação não seria necessária a descaracterização da pessoa jurídica. Interpretandose o art. 118, I e 149, VII do CTN, concluise que, se a situação formal diverge da realidade dos fatos, o Fisco deve reconhecer a ocorrência de simulação e proceder ao lançamento de acordo com a situação verdadeira dissimulada. Entende que a indistinção dos direitos e obrigações e, portanto, da receita auferida, ensejou a autuação que poderia dirigirse indistintamente a qualquer uma das pessoas jurídicas, eis que todas são responsáveis pelo tributo devido por se constituírem, em verdade, numa mesma entidade. E, ainda assim, a Fiscalização tomou cuidado de adotar critério para identificar a empresa que figuraria como responsável principal, indicando aquela em que o dirigente de fato era também o dirigente registrado nos estatutos da empresa. Sobre a qualificação jurídica dos fatos, discorre que as provas apresentadas pela Fiscalização permitem a conclusão de que as diferentes empresas formavam uma só na realidade, visando a consecução de um único objeto social: a importação, industrialização e comercialização de produtos da marca MONDIAL. Assim, entende que a situação tratada nos autos subsumese à hipótese prevista no inciso I, § 1º, do art. 167, do Código Civil, pois os direitos atribuídos separadamente a cada uma das quatro empresas, ALPHAPRO, MONDIAL, ME ELETRONICA e MK ELETRONICA, eram gozados como se estas fossem uma entidade única, dirigida pela mesma pessoa, com identidade de objetos, sendo a separação motivada exclusivamente para fins tributários. O Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 6826/6831 deu seguimento parcial ao recurso da PGFN, para a matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", decisão confirmada por despacho de reexame (efls. 6832/6833). Foram apresentadas contrarrazões pela MK (efls. 6842/6885). Protesta sobre os acórdãos paradigmas apresentados pela recorrente, entendendo que não se mostrariam aptos a caracterizar a divergência necessária para o seguimento do recurso,por trataram de situações Fl. 6942DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.943 6 fáticas completamente distintas do caso em análise. No mérito, contesta o entendimento da Fiscalização, que admite nenhuma das quatro empresas existe isoladamente, posto que formariam, em verdade, uma empresa única, mas não informa qual seria a empresa materialmente existente sobre a qual deveria recair a autuação, incorrendo em vício na identificação do sujeito passivo. Sobre a mesma direção das empresas, a Contribuinte jamais negou tal situação, e esclareceu, desde o início, que se trata de um grupo econômico, composto por mais de uma empresa, cujos principais executivos são os mesmos, em um contexto normal no meio empresarial. Quanto ao mesmo endereço, as empresas funcionam em galpões vizinhos, e distintos. Em relação à mesma atividade desenvolvida, as empresas MK, ME e Alpha trabalhavam com produtos e mercados distintos, e a Mondial foi criada para fugir da guerra fiscal existente entre os Estados Federados, de forma que vendia os produtos da MK, ME e Alpha quase que exclusivamente para empresas localizadas fora do Estado da Bahia. Isso porque a MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS, e, por isso, empresas adquirentes fora do Estado da Bahia passaram a ter problemas para se apropriar do crédito de ICMS incidente em etapas anteriores perante os seus Estados (SP, MG, dentre outros). Assim, resolveu o grupo econômico criar uma quarta empresa, a Mondial, que não se utilizava do benefício fiscal de ICMS da Bahia, e, por isso, poderia vender os produtos para fora do Estado sem problemas. Por isso, a Mondial comprava os produtos da MK, ME e Alpha, para que pudessem ser revendidos para fora do Estado da Bahia. Sobre os processos trabalhistas, não há nenhuma menção de que um empregado seria compartilhado pelas quatro empresas, pelo contrário, a situação apresentada apenas confirma que são empresas de um mesmo grupo econômico. Sobre a acusação de interpostas pessoas, não teria ocorrido nos autos, vez que as pessoas constaram como sócias das empresas apenas na fase inicial, antes mesmo das empresas darem início às suas atividades, tanto que o quadro societário foi alterado posteriormente. Sobre a conta de consumo, a conta de energia era no nome da ME porque era a empresa que era proprietária dos imóveis, e os galpões eram alugados para as outras empresas, sendo que a própria Fiscalização reconheceu que as despesas de energia eram devidamente partilhadas. Sobre a mesma contabilidade e o mesmo contador, tratase de situação ideal, no qual as empresas do mesmo grupo econômico tenham uma padronização nos seus registros contábeis. Quanto à simulação para reduzir a carga tributária, devese observar que em 2007 as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (Mondial e Alpha). E a Mondial auferia prejuízo fiscal porque apenas revendia, a preço de custo, os produtos das outras três empresas. Enfim, a partir de 2009, todas as empresas optaram pelo regime de tributação do Lucro Real, ou seja, a tese da "simulação" perde todo o objeto. E, caso se houvesse o intuito de manipular os valores de tributo a recolher, o que deveria ter sido feito era concentrar todas as despesas nas empresas optantes pelo lucro real, e não ratear as despesas em todas as empresas do grupo econômico. Requer, ao final, pela manutenção da decisão recorrida na sua integralidade. É o relatório. Fl. 6943DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.944 7 Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Admissibilidade Foram apresentados como paradigmas pela PGFN os Acórdãos nº 2401 00.056 e nº 110200.667. A apreciação do primeiro mostrase suficiente para caracterizar a divergência, do qual transcrevo a ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2000 a 30/04/2006 RELAÇÃO JURÍDICA APARENTE DESCARACTERIZAÇÃO Pelo Princípio da Verdade Material, se restar configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. O mero exame da ementa não se mostra suficiente para entender o contexto da decisão. A situação tratada nos autos do processo paradigma diz respeito a empresas cuja composição societária é composta por membros de uma mesma família (Cechinel). A empresa eleita como sujeito passivo direto é a Confecções Roscel Ltda que concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, tem faturamento inexpressivo, e mesmo ausente em determinados períodos. Uma terceira empresa realiza as operações de venda, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda, e possui parcelamento especial (REFIS). A acusação fiscal é de que a separação seria artificial, e as três empresas seriam, na realidade, uma só, a Confecções Roscel Ltda. O arranjo teria como objetivo elidir a incidência da contribuição previdenciária patronal. Vale transcrever excerto do voto: Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. Fl. 6944DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.945 8 As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. Verificouse que a Confecções Roscel Ltda paga despesas relativas à Roscel Indústria do Vestuário Ltda como insumos, água e esgoto, contribuição para sindicato de classe, contribuição para o INSS e que, embora a Confecções Roscel Ltda contasse com apenas 2 empregados no ano de 2005 e a fábrica com 125, aquela efetuou o pagamento à empresa especializada para realização de exames médicos, bem como elaboração de PCMSO, PPRA e LTCAT de ambas as empresas. Ainda foi verificado que após a opção pelo SIMPLES da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, houve um remanejamento de vínculos da Indústria e Comércio de Confecções Cechinal Ltda para a primeira. (...) No caso em questão, despesas da Roscel Indústria do Vestuário Ltda foram pagas pela Confecções Roscel Ltda e, segundo consta do Relatório Fiscal, não houve emissão de notas fiscais da primeira, embora tenha número significativo de empregados e despesas que seriam normais em uma empresa independente e ativa. A semelhança com a situação tratada nos presentes autos mostrase evidente. As acusações fiscais para descaracterizar a separação das empresas, tanto nos presentes autos quanto no do paradigma, discorrem sobre o fato de que são empresas geridas pela mesma pessoa e grupo econômico, optantes por regimes de tributação diferentes visando reduzir a carga tributária, com localizações em lotes vizinhos, comunicação artificial de receitas e despesas, compartilhamento de empregados, existência de mesmo escritório de contabilidade, dentre outros. No paradigma, são três empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido constituídas artificialmente, e que na realidade eram uma só, no qual foi eleita como sujeito passivo a Confecções Roscel Ltda, e cuja construção teria sido com o intuito de reduzir a carga tributária. No recorrido, são quatro empresas, de um mesmo grupo econômico, sob regimes de tributação diferenciados, que teriam sido construídas artificialmente para viabilizar redução na carga tributária, e no qual uma delas foi eleita como sujeito passivo direto, a MK. E, mediante suportes fáticos similares, a interpretação da legislação tributária para as decisões recorrida e paradigma foi divergente. Na decisão recorrida, entendeuse que a construção societária não teria sido artificial e que não estaria demonstrada. Na decisão Fl. 6945DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.946 9 paradigma, entendeuse que a construção societária das três empresas teria sido artificial, que restou demonstrado o intuito deliberado de redução indevida da carga tributária. Observase que, caso fosse dada para a decisão recorrida a mesma interpretação da legislação tributária conferida pela decisão paradigma, o resultado seria no sentido de que as quatro empresas teriam sido construídas artificialmente, com a finalidade de se estruturar valendose de regimes de tributação diferenciados visando indevida redução de carga. Seria dada interpretação da legislação tributária completamente diferente daquela proferida na decisão recorrida. Enfim, registrese que o fato de o despacho de exame de admissibilidade não ter dado seguimento para a matéria "legitimidade passiva em caso de simulação", em nada prejudica o exame do mérito. Isso porque o fundamento principal da autuação fiscal é a qualificação jurídica dos fatos, ou seja, se teria ocorrido uma simulação por parte da Contribuinte ao segmentar a operacionalização de suas atividades em quatro empresas. E, a decisão recorrida, apesar de entender que teria havido uma identificação incorreta do sujeito passivo na parte inicial do voto, apresenta, como razão de decidir, em extenso arrazoado nas páginas seguintes, precisamente a matéria que foi admitida pelo despacho de exame de admissibilidade, ou seja, conclui no sentido de que os fatos indiciários presentes nos autos não seriam suficientes para caracterizar a simulação da Contribuinte. Portanto, entendo que não há reparos a fazer no despacho de admissibilidade de efls. 6826/6831, que deu seguimento parcial do recurso da PGFN para conhecer a matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação". Mérito Discutese se a constituição de quatro empresas, MK Eletrodomésticos Ltda ("MK"), ME Indústria Eletrônica do Nordeste Ltda ("ME"), ALPHAPRO Cuidados Pessoais Ltda (antiga MC Climatização, "Alpha") e Mondial Eletrodomésticos ("Mondial"), que fabricam, importam e comercializam produtos com a marca comercial "Mondial", seriam ou não uma construção artificial, ou seja, se seriam, na realidade, uma só sociedade empresária, e que teria se segregado com a finalidade de buscar uma indevida redução de tributos. Nesses casos são coletados indícios que, a depender da perspectiva em que são interpretados, convergem rumo a diferentes direções. Mas há sempre um fator determinante, um imã que vai agir de maneira preponderante no sentido de atrair os indícios para uma convicção. Na seara tributária, naturalmente, o pólo de atração é se as decisões empresariais tomadas e as correspondentes ações empreendidas tiveram como objetivo um deliberado decréscimo na base de cálculo dos tributos a pagar. Certamente a Lei Maior, ao discorrer sobre a ordem econômica e financeira e dos princípios gerais da atividade econômica, dispõe no art. 170, parágrafo único, que é assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. E a atuação deve ser norteada por princípios fundamentais, como os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, estabelecidos, não por acaso, já no art. 1º. Fl. 6946DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.947 10 Ocorre que a livre iniciativa é utilizada, de maneira desvirtuada, para justificar construções societárias completamente descontextualizadas, implicando segregações de empresas visando deliberadamente o afastamento da obrigação de pagar tributos. Livre iniciativa não comporta tal comportamento. Pelo contrário, tratase de valor que se submete a outros valores tutelados pelo Estado Democrático de Direito. Não se consubstancia em direito superior, fora do alcance de outros tutelados pelo sistema jurídico, a ponto de poder ser exercido sem que necessite prestar esclarecimentos ao Estado e à sociedade. Vale transcrever abalizada doutrina sobre o assunto 1: A construção do Estado Democrático de Direito, anunciado pelo art. 1º, passa por custos e estratégias que vão além da declaração de direitos. Não há Estado Social sem que haja Estado Fiscal, são como duas faces da mesma moeda. Se todos os direitos fundamentais têm, em alguma medida, uma dimensão positiva, todos implicam custos. Conforme salientam Holmes e Sunstein, nenhum direito é apenas o direito de ser deixado só pelo poder público. (...) Logo, levar direitos a sério exige que seus custos também sejam levados a sério. (grifei) Nesse contexto, é interesse do Estado incentivar a livre iniciativa, e produção econômica, que irá gerar a principal fonte de receita estatal, a arrecadação de tributos. Assim, legislação tributária autoriza, a partir de parâmetros estabelecidos em lei, que o contribuinte possa eleger um regime de tributação que melhor se amolde às suas atividades. Fato é que foram estabelecidas distinções entre pessoa física e pessoa jurídica. A pessoa física tem a opção entre apresentar a declaração de rendimentos completa ou simplificada, enquanto que a pessoa jurídica dispõe de um maior leque de regimes de tributação. Por que tem a pessoa jurídica tratamento mais favorável por parte do Estado? Porque se parte da premissa que a pessoa jurídica tem um efeito multiplicador, irá fomentar desenvolvimento, gerar empregos, exercendo papel social relevante e, por consequência, num ciclo virtuoso, auferir rendas e possibilitar uma maior arrecadação de tributos para o próprio Estado. Por isso, falase em regimes de tributação diferenciados para a pessoa jurídica. Assim, atitudes no sentido de se utilizar permissivo previsto na legislação, para, por exemplo, desvirtuar o instituto da pessoa jurídica para construir despesas artificiais, ou realizar segregação artificiosa de empresas visando buscar enquadramento em regimes de tributação com base menor, são condenáveis porque afrontam o sistema tributário e afrontam as premissas que autorizam tratamentos diferenciados para determinados contribuintes (como, por exemplo, as pessoas jurídicas). A livre organização encontra limites, a depender da lesão a impor na coletividade. O liberalismo, laisserfaire, que blindava integralmente o indivíduo contra a ação do Estado, visto como um odioso interventor nas liberdades individuais, é modelo que foi submetido a revisões no decorrer da história recente para se amoldar às necessidades da sociedade. Há tempos exigese do Estado atuação mais presente, em maior ou menor grau, a depender da corrente econômica e/ou política, mas é incontestável que a cobrança de tributos é 1 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional, 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 1365. Fl. 6947DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.948 11 contraprestação necessária e indispensável para que o Estado possa desenvolver suas atividades. No caso concreto, vários indícios foram colhidos pela autoridade autuante, avaliados inicialmente pela primeira instância (DRJ), que manteve entendimento de construção artificial das quatro empresas. Por sua vez, os mesmos indícios foram apreciados pela segunda instância (CARF), que entendeu pelo afastamento da autuação. Os critérios para cognição dos indícios são diversos, tanto que, como se pode observar, recebeu diferentes interpretações por cada uma das instâncias de julgamento. Fato é que grande parte dos indícios apresentados pela ação fiscal são incontroversos: (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras. O que é controverso é em que direção que devem convergir. De acordo com o recurso da PGFN, são indícios que lastreiam entendimento de que houve uma construção artificial, que as quatro empresas são uma só, e que foram segregadas para viabilizar uma redução indevida de tributos. Para a Contribuinte, a constituição das quatro empresas decorreu de decisões com lastro negocial, visando uma melhor organização do grupo e otimizar o desempenho de suas atividades operacionais. Tratase de situação em que se mostra inevitável averiguar a força motriz que, efetivamente, impulsionou as decisões da Contribuinte de segregar suas atividades em quatro empresas. A acusação fiscal pautouse na seguinte conclusão (efl. 31): 43 A constituição de diferentes empresas foi feita com o objetivo de reduzir a carga tributária incidente sobre as atividades da empresa, conforme se segue:(...) As empresas ME e MK, optantes do lucro presumido, e a empresa Alpha, lucro real, vendiam seus produtos para a Mondial que, por sua vez, efetuava a revenda para o mercado interno. A estruturação foi contestada pela autoridade autuante, ao dizer que a opção pelo lucro presumido pela ME e MK para os anoscalendário de 2007 e 2008 proporcionou uma redução na base tributável de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008 para o IRPJ e a CSLL, enquanto que as outras duas empresas do grupo, submetidas ao lucro real, foram submetidas a bases tributáveis menores, inclusive auferindo prejuízos (Mondial). Aduziu ainda que: Como se vê, as empresas optantes pelo lucro presumido obtiveram uma margem de lucro bastante superior às de lucro real. Isto se explica em parte pelas vendas feitas pela MK e ME à Mondial, onde os produtos eram vendidos por preço superior ao que a Mondial vendia aos clientes externos, conforme explicado no item 3.1. Outra explicação é a concentração de despesas na Fl. 6948DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.949 12 empresa Mondial que, por sua vez, repassava parte dessas despesas à empresa AlphaPró, como, por exemplo, as despesas decorrentes de contratos comerciais com os varejistas, como bônus, comissões, VPC, transportes, etc”. Por outro lado, em contrarrazões (efls. 6927 e segs.), manifestouse a Contribuinte quanto ao fato de a ME e MK terem optado pelo lucro presumido e a Mondial e Alpha pelo lucro real: 147. Conforme devidamente comprovado no seu Recurso Voluntário, cada empresa tinha uma finalidade e sua atividade própria, de modo que os produtos comercializados por cada empresa eram totalmente distintos e envolviam mercados e riscos diferentes. 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípeBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. 149. Em outras palavras: as atividades de cada empresa são distintas, tendo em vista que não fabricavam os mesmos produtos, e a segregação delas tinha a finalidade exclusivamente gerencial e negociaI. 150. Ademais, a "tese" de que o desmembramento das atividades buscava apenas reduzir tributos não se fundamenta e é contraposta às provas acostadas pela própria Fiscalização. A grande questão é a seguinte: Qual o benefício tributário que a empresa obteve em desmembrar as suas atividades? A resposta inferida da prova dos autos é nenhuma! (grifei) E sobre a alegação de que as vendas da MK e da ME para a Mondial eram em valor inferior ao que a Mondial revendia para o mercado, manifestouse a Contribuinte: 115. A partir do surgimento desta nova empresa, A ME, MK e MC continuaram vendendo os seus produtos diretamente para os clientes localizados dentro da Bahia e passaram a vender outra parte de seu estoque para a Mondial, para que esta realizasse as vendas para os clientes localizados fora do território baiano. 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! Fl. 6949DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.950 13 117. Quanto à alegação de que a MK e ME vendiam seus produtos por um preço maior que aquele que era praticado pela MONDIAL, tal asserção também não tem respaldo na realidade. 118. A ocorrência eventual de vendas aos clientes, pela Mondial, em preço menor do que o praticado na venda das outras empresas do grupo para ela, refletem estratégias comercias (promoções), que decorrem das leis do mercado (oferta e procura), não tendo, portanto, qualquer relação com fraude ou simulação. Vale notar que os próprios fiscais registraram que isto ocorreu em apenas um mês ("na passagem do mês de Julho para Agosto de 2007" página 08, ponto "31", do Termo de Verificação), pois não era prática corriqueira da empresa. Tratouse, como dito, de estratégia comercial pontualíssima. Sobre o tema também se pronunciou a decisão recorrida: Além disso, não foi comprovada pela fiscalização, que só fez o levantamento para alguns produtos e em um mês, a alegação de que as três empresas venderam para a Mondial por um preço acima do praticado pela Mondial. Ainda, a explicação dada pelo contribuinte, de que foram concedidos descontos pela Mondial, é plausível. Ademais, mesmo que ficasse comprovada a prática de venda para a Mondial por valor acima do de mercado, isso poderia implicar em glosa de custos na Mondial (por simulação), mas não implicaria em nenhuma convicção sobre existir confusão de objetivos e de recursos das quatro empresas. Verificase que a decisão recorrida entendeu que a explicação dada pela Contribuinte, de que a Mondial revendia os produtos com descontos e por isso, muitas vezes em valor inferior ao valor de aquisição junto à MK e ME, era plausível. Completou ainda que a Fiscalização só teria realizado levantamento para alguns produtos e em apenas um mês. E a Contribuinte expressamente discorreu no sentido de que as empresas que estavam submetidas ao lucro presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores do que aquelas submetidas ao lucro real (Mondial e Alpha). 151.A título exemplificativo, ao analisar os livros fiscais das quatro empresas e dos balancetes acostados ao processo pela própria fiscalização, percebese que, em 2007, as empresas que estavam submetidas ao Lucro Presumido (MK e ME) registraram despesas operacionais maiores que aquelas que estavam sujeitas ao Lucro Real (MONDIAL e MC (Alpha Pró)). Perguntase: isso é atitude de contribuinte que concentra despesas e manipula resultados? É claro que não. (grifei) Como se pode observar, os mesmos fatos receberam diferentes leituras. Contudo, o demonstrativo elaborado pela autoridade autuante, ao comparar as bases tributáveis de lucro real X lucro presumido para a MK e ME, e a redução considerável da base de cálculo, na ordem de R$4.469.125,43 em 2007 e R$13.715.674,05 em 2008, não foi contestado. Fl. 6950DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.951 14 E, diante de tal fato, com base nos Demonstrativos de Resultado de Exercício disponibilizados nos autos (efls. 3256/3273), foram consolidados os seguintes quadros, para cada uma das empresas (MK, ME, Mondial e Alpha), relativo aos anoscalendário de 2007 e 2008: AC 2007 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 50.198.429,17 51.697.404,16 112.106.365,85 30.994.998,51 Deduções 14.642.754,07 16.511.513,92 36.868.073,98 11.114.937,90 Receita Líquida 35.555.675,10 35.185.890,24 75.238.291,87 19.880.060,61 CMV 22.453.208,09 20.045.223,73 67.244.812,89 12.697.225,85 Lucro Bruto 13.102.467,01 15.140.666,51 7.993.478,98 7.182.834,76 Despesas Operacionais 7.621.778,73 8.264.334,55 8.075.871,84 6.450.160,00 Receitas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Despesas Não Operacionais 265.000,00 549.581,78 0,00 135.000,00 Lucro Antes do IR 5.215.688,28 6.326.750,18 82.392,86 597.674,76 AC 2008 MK ME Mondial Alpha Receita Bruta 63.488.280,50 98.389.597,02 274.186.094,63 63.702.795,74 Deduções 18.092.729,28 29.379.110,76 99.772.854,72 23.720.665,53 Receita Líquida 45.395.551,22 69.010.486,26 174.413.239,91 39.982.130,21 CMV 28.651.440,69 45.784.959,20 147.066.864,00 26.404.034,80 Lucro Bruto 16.744.110,53 23.225.527,06 27.346.375,91 13.578.095,41 Despesas Operacionais 8.106.850,53 7.356.760,38 27.458.077,88 14.091.072,73 Receitas Não Operacionais 0,00 568.204,57 4.523,59 24.816,65 Despesas Não Operacionais 0,00 0,00 0,00 0,00 Lucro Antes do IR 8.637.260,00 16.436.971,25 107.178,38 488.160,67 Apesar de a Contribuinte ter se manifestado sobre as despesas operacionais, aspecto relevante a ser averiguar na apuração da base tributável é o Custo de Mercadorias Vendidas (CMV). E, a empresa optante do lucro real, Mondial, percebeu um valor de CMV substancialmente superior aos das demais empresas do grupo. Vale apresentar novo quadro, sobre a participação percentual do CMV na receita líquida de cada uma das empresas: % CMV / Receita Líquida 2007 2008 Regime de Tributação MK 63,15 63,12 Lucro Presumido Fl. 6951DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.952 15 ME 56,97 66,34 Lucro Presumido Mondial 89,38 84,32 Lucro Real Alpha 63,87 66,04 Lucro Real Observase que a Mondial (lucro real), nas palavras da própria Contribuinte 2 revendedora dos produtos das demais empresas do grupo, MK e ME (optantes de lucro presumido) e Alpha (lucro real), empresas responsáveis pela importação e fabricação dos produtos, apurou CMV em valores substancialmente superiores. Em termos quantitativos também a Mondial respondeu por maior parte do CMV do grupo. % de CMV 2007 2008 Regime de Tributação MK 18,34 11,56 Lucro Presumido ME 16,37 18,47 Lucro Presumido Mondial 54,92 59,32 Lucro Real Alpha 10,37 10,65 Lucro Real Total 122.440.470,56 247.907.298,69 Respondeu a Mondial por 54,92 % (R$122.440.470,56) para o anocalendário de 2007 e 59,32% (R$247.907.298,69). Uma coisa é uma organização societária, entre empresas do mesmo grupo, optar por constituir uma empresa (ou mais) para importação de insumos e fabricação de produtos, e vender tais produtos para uma outra empresa (ou mais), para revender os produtos para o mercado. Optou por segregar, em empresas diversas, o ciclo da produção e venda dos produtos. A essência da liberdade negocial, sob a perspectiva dos fundamentos da Lei Maior, resta atendida. Situação completamente diferente é essa mesma organização societária aproveitarse da segregação do ciclo de produção e venda para se valer de regimes de tributação diferenciados, desvirtuando completamente a construção do sistema tributário. Ora, direcionou parte substancial dos dispêndios incorridos para a empresa revendedora (Mondial) que por acaso é optante do lucro real. E concentrou as receitas nas empresas produtoras que, por acaso, são optantes do lucro presumido (ME e MK). Os quadros demonstram de maneira incontestável que a Mondial concentrou a maior parte dos dispêndios auferidos pelo grupo, e por isso, ao optar pelo regime de 2 Vide contrarrazões da Contribuinte: 116. Ora, conforme já explicitado, a Mondial Eletrodomésticos era uma mera revendedora assim, não tinha porque aumentar os preços praticados pelas outras empresas do grupo. Não havia valor agregado! (...) 148. A criação de cada uma das empresas teve uma razão de ser e um motivo empresarial: a) criouse a ME para a realização de importações e vendas de produtos importados; b) resolveuse dividir os riscos das atividades da ML, criandose duas novas empresas, em duas etapas: i) primeiro, uma parte dos produtos que eram fabricados pela ML passou a sêlo pela MK; ii) depois, a parte restante passou a ser fabricada pela MC, ambas já alocadas em Conceição do JacuípejBA, pois a ML enfrentava muitos problemas financeiros e com a contratação de pessoal; c) por fim, criouse a Mondial Eletrodomésticos para que fosse possível realizar as vendas dos produtos fabricados ou importados para fora da Bahia, a fim de fugir da guerra fiscal. Fl. 6952DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.953 16 tributação pelo lucro real, percebeu uma redução significativa de sua base tributável, tanto que auferiu prejuízos em 2007 e 2008. Por outro lado, a MK e a ME, com percentuais de CMV bem menores, beneficiaramse da opção pelo lucro presumido, incidente sobre coeficiente de determinação aplicado sobre a receita bruta. Consolidouse cenário no qual as despesas foram concentradas para a Mondial, mera revendedora e optante do lucro real, e situação inusitada no qual o CMV das empresas fabricantes, MK, ME e Alpha foi apurado em valor substancialmente inferior, tanto em termos qualitativos quanto qualitativos. E a Contribuinte não se conteve em buscar o "melhor dos mundos" apenas em relação ao Fisco Federal. Isso porque relatou que a criação da Mondial teria ocorrido visando dirimir os efeitos da guerra fiscal entre o Estado da Bahia e outros entes federados. A empresa teria sido constituída como mera revendedora porque as outras três empresas, MK, ME e Alpha gozavam de benefício fiscal de ICMS. A situação provocava um problema quando a venda era efetuada para fora do Estado da Bahia, porque outros estados, como São Paulo, não autorizava o adquirente a aproveitar o crédito de ICMS, apesar de estar destacado na nota fiscal que acompanhava o produto. Assim, a Mondial, como não gozava do benefício fiscal, permitia aos adquirentes o aproveitamento do crédito. Ora, não se discute a criação da Mondial. A questão é que a Mondial foi criada em regime de tributação diferenciado das empresas MK e ME. Observase que o grupo econômico não se contentou em constituir a Mondial apenas para "contornar" restrições fiscais do ICMS (mediante "drible" na aplicação da lei estadual dos demais entes federados, criando empresa revendedora para adquirir produtos das empresas fabricantes e permitir o creditamento do ICMS nos estados do Sul e do Sudeste). Também se aproveitou do contexto para adotar o regime de lucro real para a Mondial (onde foram concentrados a maior parte dos dispêndios do grupo) e concentrar as receitas nas empresas produtoras ME e MK optantes do lucro presumido. Nesse sentido, diante da constatação de que a constituição das quatro empresas buscou, na realidade, concentrar a maior parte dos dispêndios do grupo na empresa revendedora submetida ao lucro real, e submeter maior parte da base tributável às empresas submetidas ao lucro presumido, todos os demais indícios levantados, (a) funcionamento no mesmo endereço; (b) exercício da mesma atividade; (c) uso da mesma marca comercial / licenciamento da marca; (d) mesma direção; (e) sócios majoritários comuns com sede no Uruguai; (f) utilização de terceiros na constituição das empresas; (g) divisão dos mesmos funcionários nos cargos de gerência/coordenação; (h) transações internas entre empresas; (i) processos trabalhistas comuns; (j) mesmo contador e mesma contabilidade; (k) compartilhamento de contas de consumo e (l) compartilhamento de informações contábeis e financeiras, convergem no sentido de que a constituição das quatro empresas foi uma artificialidade, visando a redução indevida da carga tributária e prejuízo aos Cofres Públicos. Observase ainda que as empresas MK e ME mudaram o regime de tributação para o anocalendário de 2009, passando de lucro presumido para o lucro real, ou seja, todas as quatro empresas passaram a ser optantes do lucro real. Ocorre que, conforme relatório da ação fiscal, as empresas ME e Alpha encerraram suas atividades em dezembro de Fl. 6953DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.954 17 2009, e a Mondial reduziu suas atividades a quase zero, fazendo com que a única empresa funcionando dentro da normalidade seja precisamente a Contribuinte, MK. Diante da decisão de encerrar as atividades em 2009, não por acaso a ME passou a optar pelo lucro real, regime de tributação que permite o aproveitamento dos prejuízos fiscais. Da mesma maneira, a MK, que, na condição de única empresa funcionando dentro da normalidade, passou a assumir os dispêndios de todo o grupo, o que explica a mudança do regime de tributação. E vale dizer: quem a autoridade fiscal, diante do entendimento de que as quatro empresas funcionavam, de fato, como apenas uma, elegeu com sujeito passivo direto? Precisamente a MK. O teste da realidade demonstra que não poderia ter sido mais acertada a qualificação do sujeito passivo da autuação. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer parcialmente o recurso da PGFN para a matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" e, na parte devolvida, darlhe provimento. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 6954DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.955 18 Declaração de Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Trata dos créditos de IPI (anoscalendário 2007 a 2009) lançados em razão dos mesmos fatos discutidos no processo principal (IRPJ e CSLL), de nº 10530.721612/2011 66. O Acórdão nº 1301001.329, proferido pela Turma a quo, decidiu com base no acórdão que julgou o recurso voluntário interposto nos autos principais, o acórdão de nº 1101000.852. Parte desta decisão foi transcrita no acórdão recorrido. O recurso especial da PGFN é igual ao apresentado no processo principal, exceto pela referência ao fato de o acórdão recorrido não ter transcrito a parte relativa ao erro na identificação do sujeito passivo. Não obstante, a PGFN, apenas por segurança, preferiu enfrentar a matéria. O recurso foi submetido a juízo de admissibilidade. Deuse seguimento à matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" por conta do cotejo do acórdão recorrido com os dois paradigmas indicados pela PGFN: nº 240100.056 e nº 110200.667. Já em relação à matéria "erro na identificação dos sujeitos passivos", o despacho negou seguimento ao recurso por entender que o tema não foi abordado na decisão recorrida. Pois bem, correto o Despacho de exame de admissibilidade, a PGFN não precisava mesmo recorrer relativamente a erro na identificação do sujeito passivo, porque essa matéria não foi razão de decidir do recorrido. 1) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da pretensão de reexame fático Em contrarrazões e memoriais, a contribuinte alega que a PGFN, ao propor a discussão a respeito da qualificação jurídica dos fatos relatados nos autos, estaria, na realidade, pretendendo a reapreciação dos fatos, o que é vedado em sede de julgamento de recurso especial. Os fatos a serem apreciados não seriam, ao contrário do que argumenta a recorrente, incontroversos. Assim, tratarseia efetivamente de reexame dos fatos e valoração das provas. Considero improcedentes tais alegações. Fl. 6955DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.956 19 Em grande parte dos casos julgados pela CSRF, é impossível, na prática, desviar totalmente o olhar do conjunto probatório reunido nos autos e restringir a discussão à pura abstração jurídica. A não ser em discussões já consagradas, como por exemplo aquela que diz respeito ao cabimento da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, as deliberações empreendidas pela Câmara quase sempre resvalam na verificação do conjunto probatório coligido no processo, sem que isso possa ser considerado um "reexame" de fatos ou provas. Tal fato é particularmente verdadeiro quando se trata de julgamentos acerca de planejamentos tributários, que normalmente envolvem mais de uma empresa, várias etapas, múltiplos atos societários e diversos efeitos tributários. A completa avaliação destes cenários, ainda que em julgamento pela instância especial do contencioso administrativo, não pode dispensar totalmente a verificação, ainda que superficial, dos fatos e provas retratados no processo. A correta aplicação do direito ao caso sob discussão demanda necessariamente que se entenda como os fatos se desenrolaram no mundo real, o que só pode ser alcançado por meio do olhar lançado sobre os fatos e provas. E a aplicação do direito é justamente o que se espera de uma instância recursal. Em que pese tratar de recursos judiciais, é justamente esta a inteligência do art. 1.034 do Novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015): Art. 1.034. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial, o Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça julgará o processo, aplicando o direito. Parágrafo único. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial por um fundamento, devolvese ao tribunal superior o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado. Assim, a aplicação do direito ao caso concreto não pode e não deve ignorar todo o contexto fático e acervo probatório que foi construído na devida fase processual. Julgo ser exatamente este o caso da presente lide. Da análise do processo, não vislumbro discussão relevante acerca de provas produzidas ou de fatos relatados. Assim, tem se um conjunto probatório estabelecido e passível de valorização jurídica. A Fiscalização e a autoridade julgadora de primeira instância consideraram que tal conjunto probatório era suficiente para se concluir pela invalidade tributária dos atos negociais praticados, propondo a desconsideração de seus efeitos fiscais. A Turma a quo, a partir da análise do mesmo conjunto probatório, construiu entendimento diverso, no sentido que não existiriam indícios relevantes de vícios que pudessem mitigar a regularidade formal dos atos negociais, permanecendo inalterados os efeitos tributários pretendidos pela contribuinte e pelas demais empresas pertencentes ao seu grupo econômico. Diante disso, verifico que o recurso especial sob análise, caso conhecido, não tem a pretensão de revolver e rediscutir a coleção de provas reunidas, mas simplesmente de debater a melhor valoração jurídica a ser dada a um conjunto de atos negociais que já são, na presente fase processual, incontroversos. A parte que permanece controvertida, na minha opinião, já se localiza no campo da diversidade de qualificações jurídicas que diferentes mentes podem dar aos mesmos fatos. Fl. 6956DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.957 20 Com base nestes argumentos, entendo que deve ser rejeitada a preliminar da contribuinte recorrida de não conhecimento do recurso especial em relação à matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", por alegada pretensão de reexame de provas. 2) Preliminar de não conhecimento da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação" em razão da ausência de similitude fática A contribuinte recorrida refuta a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os dois paradigmas (nº 240100.056 e nº 110200.667), no que diz respeito à qualificação jurídica dada aos fatos relacionados nos autos, sob o argumento de que inexistiria similitude fática entre os julgados. Em seu intuito, a contribuinte questiona argumentos específicos trazidos pela PGFN em seu recurso especial, apontando aspectos que impediriam o adequado cotejo entre as decisões no que diz respeito a estes pontos. Assim, defende que, apesar de o acórdão recorrido e o paradigma nº 2401 00.056 tratarem de empresas submetidas a direção comum e que utilizam os serviços do mesmo contador, a comparação pretendida pela recorrente é impossível diante da consideração da distinção de outras características dos casos concretos, tais como a identidade de objetos sociais, a confusão de recursos humanos e financeiros, presença de gestor "oculto" e o vínculo empregatício do contador. Já o confronto entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667, sugerido pela recorrente em relação à comunhão de objetos sociais e à identidade/proximidade do espaço físico, tampouco seria possível se levarse em conta a existência de diferenças fáticas relevantes relativas à redação dos contratos sociais, à confusão de recursos e despesas e ao correto rateio de custos e despesas compartilhados. Dessa forma, defende a contribuinte que nenhum dos dois paradigmas elencados pela recorrente se prestaria à tarefa de comprovar a ocorrência de divergência jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. Entendo que, quando a autuação fiscal é fundamentada em planejamento tributário considerado pela Fiscalização como ilícito ou abusivo, sua análise deve ser feita sempre sobre o conjunto de suas características, evitandose o cotejo entre recortes que podem ser retirados de seu real contexto. Assim, creio que a comparação entre os arcabouços fáticos da decisão recorrida e dos acórdãos paradigmas deve ser feita tendose em perspectiva a totalidade de suas características. Esta é a única forma de se verificar se os casos concretos analisados são similares o suficiente para que as distintas conclusões jurídicas dali derivadas possam ser consideradas como verdadeiras divergências jurisprudenciais. Isso posto, examinemse os trechos retirados do Acórdão nº 240100.056 que discorrem sobre as características do planejamento tributário constatado pela Fiscalização: "Relatório Fl. 6957DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.958 21 (...) A auditoria fiscal desenvolveu ação fiscal em empresas, cuja composição societária é composta por membros da família Cechinel, conforme se verifica à folha 51. Tais empresas seriam a Confecções Roscel Ltda (administração), Roscel Indústria do Vestuário Ltda (fábrica), Industria e Comércio de Confecções Cechinel (Posto de vendas) e Roscel Administração de Imóveis Ltda (administração de bens próprios). A despeito da apresentação formal de sociedades empresárias aparentemente distintas, constatouse a efetiva existência de uma única empresa, sujeito passivo do presente lançamento. Foi verificado que a existência formal da Roscel Indústria do Vestuário Ltda, que na prática representa o setor de industrialização ou fábrica do sujeito passivo, somente se justifica como artificio para a obtenção indevida de tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela lei do SIMPLES. A Indústria o Comércio de Confecções Cechinel Ltda comercializa os produtos da Roscel. Tal empresa possui parcelamento especial (REFIS). O que levou a auditoria fiscal à conclusão de que o conjunto das empresas formalizadas na verdade representa uma simulação com o objetivo de elidir a contribuição previdenciária patronal são as seguintes constatações. • Com exceção da administradora dos bens próprios, as demais empresas dedicamse à exploração de uma só atividade econômica, qual seja, a confecção e comércio de peças de vestuário (...) • Não se trata de empresas distintas funcionando de "per si", mas de um empreendimento econômico desenvolvendo a mesma atividade e sob a mesma administração de fato, bem como funcionando no mesmo local (uma com endereço na frente do imóvel, acesso pela Rodovia Luiz Rosso, e outra nos fundos, acesso pela rua Raimundo Pucker). (...) • Há trabalhadores formalmente registrados e pessoa jurídica diversa daquela em que efetivamente prestam serviços. • A Confecções Roscel Ltda figurou como reclamada em ação trabalhista juntamente com a indústria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. (...) • O expediente adotado pela empresa resulta na situação em que o faturamento e o patrimônio ficam reservados para a verdadeira empresa e o quadro funcional com os respectivos encargos de folha para a empresa optante pelo SIMPLES. • Embora a contabilidade apresentada pelas empresas contivesse várias irregularidades, verificouse a inexistência de contabilização de despesas necessárias á manutenção da atividade da Roscel Indústria do Vestuário Lula, como assistência técnica de máquinas e equipamentos, fornecimento de água e esgoto, bem como de patrimônio. Fl. 6958DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.959 22 (...) Voto (...) As empresas envolvidas pertencem a membros da família Cechinel. O arranjo realizado pelas empresas consiste em manter três empresas separadas. A notificada Confecções Roscel Ltda concentra a administração das empresas e o faturamento, além de possuir pequeno número de empregados. A empresa Roscel Indústria do Vestuário Ltda responde pela fabricação das confecções, concentra grande número de empregados, é optante pelo sistema diferenciado de tributação SIMPLES, não possui patrimônio, faturamento inexpressivo e, em alguns períodos, ausente. As operações de venda são realizadas por uma terceira empresa, a Industria e Comércio de Confecções Cechinel Ltda. Embora a recorrente tente fazer transparecer que se trata de empresas independentes entre si, não é o que se verifica. As empresas Confecções Roscel Ltda e Roscel Indústria do Vestiário Ltda funcionam no mesmo local e possuem empregados registrados em uma empresa prestando serviços em outra. Segundo a auditoria fiscal, as empresas têm como administrador, embora não conste atualmente do quadro societário, o fundador do grupo, Sr. Celso Cechinel. Ao contrário do que alega a recorrente não é absolutamente natural que uma pessoa que não participe mais formalmente da gestão de uma empresa possa falar em nome da mesma ou substituir os responsáveis formais, ainda que sejam seus filhos. No que concerne ao fato dos contadores de uma empresa aparecerem assinando documentos contábeis das duas empresas, a recorrente alega que nada impede que seus contadores pudessem prestar serviços a outras empresas. Tratase de mais uma alegação desprovida de comprovação. Da análise dos fatos apresentados, é possível concluir que a conduta descrita se revela verdadeira simulação. O Código Civil Brasileiro instituído pela Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002 regula a questão da simulação no Capítulo que trata da Invalidade do Negócio Jurídico e no inciso I do § ra do artigo 167 temos o exato enquadramento da situação verificada pela auditoria fiscal, in verbis: (...) Escudada no Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária, aos verdadeiros participantes do negócio pois, de acordo com o art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Fl. 6959DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.960 23 Não restam dúvidas de que todos os expedientes utilizados tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intentio facti se divorcia da intentio iuris, ou seja, a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra. (...) Nesse diapasão, podese citar o entendimento de Heleno Urres em sua obra Direito Tributário e Direito Privado — Autonomia Privada, Simulação, Elusão Tributária — Ed. Revista dos Tribunais —2003 — pág. 371: "Como é sabido, a Administração Tributária não tem nenhum interesse direto na desconstituição dos atos simulados, salvo para superarlhes a forma, visando a alcançar a substância negociai, nas hipóteses de simulação absoluta. Para a Administração Tributária, como bem recorda Alberto Xavier, é despiciendo que tais atos sejam considerados válidos ou nulos, eficazes ou ineficazes nas relações privadas entre os simuladores, nas relações entre terceiros ou nas relações entre terceiros com interesses conflitantes. Eles são simplesmente inoponíveis à Administração, cabendo a esta o direito de superação. pelo regime de desconsideração do ato negociai, da personalidade jurídica ou da forma apresentada, quando em presença do respectivo "motivo" para o ato administrativo: o ato simulado"" É de fácil constatação a existência de várias coincidências entre os indícios apontados pela Fiscalização nos autos em que foram proferidos o acórdão recorrido e o paradigma nº 240100.056. Em cada um dos dois casos, a Fiscalização considerou que empresas integrantes de um grupo econômico, submetidas à gestão das mesmas pessoas, atuavam de forma coordenada como se fossem uma só pessoa jurídica. As empresas compartilhavam a mesma localização física (espaços contíguos, com comunicação direta). As suas contabilidades estavam entregues ao mesmo contador ou escritório de contabilidade. Elas figuravam juntas como reclamadas em diversas ações trabalhistas. Havia empregados que, embora formalmente ligados a apenas uma das empresas, prestavam serviços às demais. Nos dois casos concretos, a Fiscalização entendeu que o arranjo orquestrado entre as empresas tinha o único propósito de reduzir, de forma artificial, a carga tributária total devida pelas empresas integrantes dos grupos econômicos. Com este intuito, as empresas simulavam uma segregação das atividades componentes de seu processo produtivo, deslocando despesas e receitas para as empresas que teriam sua tributação mais favoravelmente impactada por estes valores. Obviamente existem diferenças fáticas entre os dois casos concretos (como seria esperado, diante da improbabilidade de se encontrar configurações fáticas exatamente iguais). Todavia, diante da contemplação da plenitude dos quadros comparados, as semelhanças, para os fins aqui propostos, se mostram significativamente mais relevantes do que os aspectos distintos. Assim, diante da existência de similitude fática entre os acórdãos recorridos e paradigma (nº 240100.056) e do fato de as interpretações jurídicas adotadas por eles, diante de quadro similar, serem diversas (o acórdão paradigma entendeu configurada simulação e manteve a tributação lançada sobre uma das empresas participantes do grupo, enquanto a Fl. 6960DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.961 24 decisão recorrida considerou não configurado planejamento tributário e determinou o cancelamento da autuação lavrada contra uma das empresas integrantes do grupo), considero que foi suficientemente demonstrada a existência de divergência jurisprudencial entre as decisões cotejadas. A recorrente indicou ainda, quando defendeu a existência de dissídio jurisprudencial acerca da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", um segundo acórdão paradigma, de nº 110200.667. Desta segunda decisão, podemos extrair as seguintes passagens de interesse para a análise ora realizada: "Inicialmente, registrese que não há dúvidas de que as empresas SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS partilham de uma única área geográfica. Comprovam este fato as fotos anexas aos autos, e os relatos feitos de que o acesso a ambas as empresas, em que pese uma conste nos cadastros da RFB como sediada no nº 18.500, e a outra no nº 18.550, se dá pela mesma portaria, que há uma única recepção, que as instalações de direção e administração são comuns, que os funcionários da contabilidade são os mesmos, e que a máquina que emite as notas fiscais é a mesma. Estas são constatações feitas in loco pela fiscalização, e que em nenhum momento foram contraditadas pela recorrente. Por outro lado, até este ponto podese considerar tais providências como simples racionalização de operações com vistas a uma redução dos seus custos administrativos. (...) Segundo a recorrente, as empresas não dividiriam instalações e equipamentos. Cada uma delas possui fornecedores, funcionários, equipamentos e instalações próprias, e desenvolve as suas atividades de forma independente uma da outra, conquanto complementares. Conforme já relatado, afirma a recorrente que a KIWI BOATS fabrica somente os cascos de fibra de vidro de acordo com a encomenda de clientes, e a SCHAEFER YACHTS apenas promove a instalação, nesses cascos, dos equipamentos que são adquiridos no mercado pelos seus clientes. (...) Tampouco a alegação da recorrente de que cada empresa teria seus próprios fornecedores se confirma. (...) Assim, o que as notas fiscais emitidas pelas empresas em questão demonstram é tão somente uma “repartição” do faturamento pela venda do produto final, em que a KIWI BOATS emite diretamente em nome do adquirente da embarcação uma nota fiscal de venda do casco nu, e a SCHAEFER YACHTS emite outra nota fiscal para o mesmo adquirente, contendo a seguinte segregação: materiais montados no casco, e prestação de serviços. Diante de tais constatações, perfeitamente correto o procedimento fiscal de tributá las como uma única entidade, consolidando as suas escritas fiscais e contábeis, e aproveitando os recolhimentos, eventualmente por elas feitos, na apuração dos tributos lançados. Além das empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, há que se falar, no ano de 2005, na participação de uma terceira empresa envolvida no negócio. Tratase da empresa SPA Comércio de Embarcações e Equipamentos Náuticos Ltda (SPA), Fl. 6961DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.962 25 constituída em agosto de 2004, pelos Srs. Márcio Luz Schaefer e Pedro Odílio Phelippe, que também são os mesmos sócios da empresa SCHAEFER YACHTS, sendo que o Sr. Márcio Luz Schaefer também é o sócio majoritário da KIWI BOATS, com 95% de participação. Esta empresa, conforme as alegações da recorrente, tem por finalidade a prestação de serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, administrando todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, verificando o material empregado e os acessórios que compõe a embarcação encomendada. (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Por fim, considerese ainda os seguintes indícios complementares de inexistência da alegada segregação de fato das operações entre as três empresas fiscalizadas. Em primeiro lugar, destaquese que os contratos sociais das empresas SCHAEFER YACHTS e a KIWI BOATS não evidenciam a alegada segregação de atividades entre elas, senão antes uma quase total identidade destas. Vejamos quais eram os seus objetivos sociais à época dos fatos (2005): (...) Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. (...) Quanto à aplicação da multa qualificada (150%), por todo o exposto, creio estar suficientemente demonstrado a presença de simulação nos atos praticados pelas empresas formalmente constituídas, ao tentar dar a aparência de que uma única atividade na verdade segregarseia em três distintas empresas, localizadas todas de fato no mesmo espaço geográfico (embora uma delas declarasse ter sua sede em outro local, também naquele espaço comum desenvolveria suas atividades)." A exemplo do que ocorreu no exame da primeira decisão paradigma indicada pela PGFN a respeito da matéria "qualificação jurídica de fatos indiciários da ocorrência de simulação", verifico que também o conteúdo do Acórdão nº 110200.667 configura dissídio jurisprudencial frente ao acórdão recorrido. A decisão também estuda planejamento tributário operacionalizado por um grupo de empresas submetidas a gerência comum. Naqueles autos, a exemplo do contatado no processo em que foi exarado o acórdão recorrido, a Fiscalização elencou nos autos de infração os seguintes indícios de que as empresas atuavam como se fossem uma só entidade: i) mesmo endereço (espaços contíguos, com comunicação interna direta); ii) exercício das mesmas Fl. 6962DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.963 26 atividades; iii) artificial segregação de atividades; iv) deslocamento de receitas de uma empresa para outra, submetida a regime de tributação mais favorável. Assim, como ocorreu no caso discutido no acórdão recorrido, também no acórdão paradigma tratouse de lançamento realizado pela Fiscalização contra uma das empresas integrantes do grupo econômico, de forma centralizada. Diante de conjuntos fáticos semelhantes, o acórdão recorrido e o Acórdão nº 110200.667 efetivamente concluíram de forma divergente. Enquanto a decisão paradigma considerou inoponíveis ao Fisco os efeitos do planejamento tributário levado a efeito e configurada a simulação (lá houve, inclusive a aplicação de multa de ofício qualificada), o acórdão recorrido considerou lícita a atuação do grupo econômico da contribuinte). Portanto, também frente ao segundo paradigma trazido pela PGFN, Acórdão nº 110200.667, restou comprovada a existência de divergência jurisprudencial apta a provocar o conhecimento do recurso especial, nos termos do art. 67, do Anexo II do RICARF/2015. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 6963DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.964 27 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa. Não tendo sido apresentada no prazo regimental3, considerase não formulada a declaração de voto. 3 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 6964DF CARF MF Processo nº 10530.721613/201119 Acórdão n.º 9101002.793 CSRFT1 Fl. 6.965 28 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto. Não tendo sido apresentada no prazo regimental4, considerase não formulada a declaração de voto. 4 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 6965DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12898.002143/2009-24
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/01/2006, 01/10/2006 a 31/10/2006
PIS E COFINS. RETENÇÃO NA FONTE. RECEITA NÃO TRIBUTADA. DEDUÇÃO DO VALOR DEVIDO. IMPOSSIBILIDADE.
Somente os valores da Contribuição retidos na fonte, vinculados às receitas tributadas pelo contribuinte, são passíveis de dedução.
RO Negado e RV Provido em Parte
Crédito Tributário Mantido em Parte
Numero da decisão: 3302-004.499
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício.
Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para acatar as retenções relativas às receitas tributadas no mês de outubro de 2006.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Walker Araujo - Relator.
EDITADO EM: 07/08/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
Nome do relator: WALKER ARAUJO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para acatar as retenções relativas às receitas tributadas no mês de outubro de 2006. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente. (assinado digitalmente) Walker Araujo - Relator. EDITADO EM: 07/08/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
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FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/01/2006 a 31/01/2006, 01/10/2006 a 31/10/2006 PIS E COFINS. RETENÇÃO NA FONTE. RECEITA NÃO TRIBUTADA. DEDUÇÃO DO VALOR DEVIDO. IMPOSSIBILIDADE. Somente os valores da Contribuição retidos na fonte, vinculados às receitas tributadas pelo contribuinte, são passíveis de dedução. RO Negado e RV Provido em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para acatar as retenções relativas às receitas tributadas no mês de outubro de 2006. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator. EDITADO EM: 07/08/2017 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 89 8. 00 21 43 /2 00 9- 24 Fl. 419DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo. Relatório Por bem retratar a realidade dos fatos, adoto e transcrevo o relatório da decisão de piso de fls. 179183: Contra a empresa qualificada em epígrafe foi lavrado auto de infração de fls. 52 em virtude da apuração de falta de recolhimento da contribuição ao PIS nos períodos de apuração 01/2006 e 10/2006, sendo exigida a contribuição de R$ 465.258,16, multa de ofício de R$ 348.943,61 e juros de mora de R$ 180.644,61, perfazendo o total de R$ 994.846,38. Igualmente, foi lavrado Auto de Infração –fls.58, em virtude de falta de recolhimento da COFINS, para os períodos de apuração 01/2006 e 10/2006, sendo exigida a contribuição de R$ 2.143.007,34, multa de ofício de R$ 1.607.255,50 e Juros de Mora de R$ 832.060,06, perfazendo o montante de R$ 4.582.322,90. Na Descrição dos Fatos, o AFRFB esclarece que o presente lançamento é resultante da revisão de declaração e em decorrência de valores das contribuições declarados pelo sujeito passivo, constantes do DACON – Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais referentes aos meses 01/2006 e 10/2006, sem que tenha havido a elaboração da respectiva DCTF. Cientificada em 10/12/2009, a interessada apresentou em 18/12/2009 a impugnação de fls. 70, na qual alegou: 1. O presente caso é proveniente de mera omissão da impugnante, tanto no lançamento da compensação do valor devido a título de COFINS na DCTF, quanto no lançamento de dedução por retenção na fonte no DACON; 2. Em relação ao período de apuração 01/2006, os valores das contribuições foram indicados na DCOMP 16964.66531.130206.1.3.029774, transmitida em 13/12/2006, conforme consignado em DCTF retificadora transmitida em 10/12/2009; 3. Já os valores apurados no período de apuração 10/2006, também dado como não recolhidos, foram objeto de dedução por retenção na fonte, lançados em DACON retificador transmitido em 10/12/2009; 4. Cumpre esclarecer que as retificações somente foram transmitidas em 10/12/2009, pois (i) as omissões somente foram percebidas pela impugnante com a notícia da Autoridade Fiscal, (ii) de outro tanto, não seria possível fazêlo no curso da ação fiscal; 5. Face ao exposto, requer seja julgada procedente a presente impugnação para declarar insubsistentes os Autos de Infração, protestando pela produção das provas em direito admitidas. A impugnação apresentada pela Recorrente foi julgada, por unanimidade de voto, procedente em parte, para excluir do lançamento apenas o PA relativo ao período de 01/2006, nos termos da ementa abaixo sintetizada: Fl. 420DF CARF MF Processo nº 12898.002143/200924 Acórdão n.º 3302004.499 S3C3T2 Fl. 3 3 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2006 a 31/01/2006, 01/10/2006 a 31/10/2006 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. EXTINÇÃO. CONDIÇÃO RESOLUTÓRIA. IMPLEMENTAÇÃO. INEXISTÊNCIA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. NÃO CABIMENTO. A compensação será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. Descabe o lançamento de ofício de crédito tributário extinto pela compensação visto que a respectiva declaração constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente confessados. PIS E COFINS. RETENÇÃO NA FONTE POR PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO. Os valores da Contribuição ao PIS e Cofins retidos por pessoas jurídicas de direito privado, têm natureza de antecipação do montante devido ao final do respectivo período de apuração devendo o rendimento correspondente integrar a base de cálculo da contribuição. Não se conformando com a decisão de piso, a Recorrente, intimada em 04/03/2013 (fls.191), interpôs recurso voluntário em 02/04/2013 (fls. 194206), alegando, em síntese, o quanto segue: A Recorrente não oferece à tributação os valores recebidos a título de adiantamento, dando a estes tratamento de Faturamento para Entrega Futura; Adiantamento não constitui base de cálculo; A Recorrente somente reconhece a receita e a oferece à tributação no momento da efetiva entrega dos dados a seus clientes; Como os clientes da Recorrente não fazem a distinção entre adiantamento e faturamento, os mesmos desde de logo promovem a retenção e o pagamento do imposto; Todos os valores dados como não recolhidos foram objeto de dedução por retenção na fonte, lançada no DACON Retificador nº 21.23.10.87.00.54, transmitido em 10/12/2009; A Recorrente efetivamente dispunha de créditos para promover dedução por retenção na fonte, em decorrência da retenção e pagamento do imposto pelos clientes, como demonstra o Informe de Rendimentos anexo (doc. nº 04 a 04G); O crédito de que se utilizou a Recorrente nasceu no momento em que seus clientes promoveram a retenção na fonte e o pagamento do imposto foi efetuado, eis que neste momento verificase o pagamento a maior que dá direito ao crédito da Recorrente; O caso presente não trata de crédito escritural a que se refere a Lei nº 10.833/2003, mas de crédito decorrente de imposto a maior; e Há que se consagrar o Princípio da Verdade Material e reconhecer que não houve qualquer prejuízo ao erário. Fl. 421DF CARF MF 4 Exonerado crédito superior ao limite de alçada, recorrese de ofício ao Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, nos termos do artigo 1º, da Portaria MF nº, de 03 de janeiro de 2008, vigente à época do julgamento do processo em primeira instância administrativa. É o relatório. Voto Conselheiro Walker Araujo I Tempestividade A Recorrente foi intimada da decisão de piso em 04/03/2013 (fls.191) e protocolou Recurso Voluntário em em 02/04/2013 (fls. 194206), dentro do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33, do Decreto 70.235/721. Nos termos do artigo 1º, da Portaria MF nº 63, de 09 de fevereiro de 2017, haverá recurso de ofício sempre que a decisão de primeiro grau exonerar o contribuinte do pagamento de tributos e encargos da multa, em valor superior a R$ 2.500.000,002, sendo que no presente caso o valor exonerado perfaz a quantia originária de R$ 3.234.718,26. Desta forma, considerando que os recursos preenchem os requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. II Recurso Voluntário II.1 Questões preliminares A Recorrente em sede recursal não arguiu questões preliminares, restringindo seu inconformismo apenas em relação ao mérito propriamente dito. Deste modo, passase a análise dos argumentos suscitados pela Recorrente. II.2 Supressão de Instância A Recorrente alegou em sede recursal que se deve consagrar o princípio da verdade material e reconhecer que não houve qualquer prejuízo ao erário, posto que os impostos foram pagos, em sua integralidade retidos na fonte. Tal fundamento de defesa não pode ser apreciado, por restar configurada a preclusão a seu respeito, conforme determinação contida no artigo 17, do Decreto nº 70.235/72, que assim dispõe: 1 Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. 2 Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Fl. 422DF CARF MF Processo nº 12898.002143/200924 Acórdão n.º 3302004.499 S3C3T2 Fl. 4 5 Art.17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Sua análise diretamente pela Segunda Instância administrativa implicará em supressão de instância, visto que a matéria não foi submetida ao julgamento de Primeira Instância. Outro não é entendimento emanado pelo Conselho Administrativos de Recursos Fiscais : (...) PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO E RECURSO VOLUNTÁRIO. PRECLUSÃO. ART. 17 DO DECRETO 70.235/72. O recurso voluntário é cabível contra a decisão de primeira instância, de modo que o âmbito válido de sua fundamentação naturalmente se circunscreve aos temas tratados no julgamento que pretende reformar. O recurso voluntário não pode inovar, veiculando novos argumentos de defesa que não foram apresentados na impugnação nem debatidos em primeira instância. Exceção feita apenas quanto a temas reconhecidamente de ordem pública, como é o caso da decadência e da prescrição. (...) (Acórdão 340300.385, PA 10680.008629/200309, Rel. Cons. Ivan Allegretti, j. 25/05/2010) Desta forma, a análise do pedido realizado pela Recorrente resta prejudicado por imposição do preceito anteriormente citado. II.2 Mérito O cerne da questão diz respeito ao direito da Recorrente deduzir das contribuições calculadas os valores retidos pelos tomadores de serviços, considerando, para tanto, que as receitas auferidas pela Recorrente a título de adiantamento vinculados aos tributos retidos, não foram tributadas no período de apuração. Em síntese apartada, a Recorrente alega que (i) teve retenção na fonte nos seus rendimentos e, por um equívoco, deixou de efetuar a dedução no valor da contribuição a pagar, trazendo aos autos DACON retificador e os comprovantes de retenção anual; (ii) somente reconhece a receita e a oferece à tributação no momento da efetiva entrega dos dados a seus clientes, sendo que os adiantamentos recebidos de seus clientes, contabilizados como "adiantamento para entrega futura", não são levados à tributação no momento do recebimento; e (iii) que o reconhecimento da receita vinculada as retenções objeto da lide foram reconhecidas e tributadas no PA agosto/setembro de 2007, data efetiva da entrega dos dados fornecidos pela Recorrente. Neste ponto, a decisão de primeira instância afastou as pretensões da Recorrente com base nos seguintes fundamentos: Em relação ao período de apuração 10/2006, o interessado alega que teve retenção na fonte nos seus rendimentos e, por um equívoco, deixou de efetuar a dedução no valor da contribuição a pagar, trazendo aos autos DACON retificador e os comprovantes de retenção anual. Conforme o artigo 30, da Lei n.º 10.833, de 29 de dezembro de 2003, desde 1º de fevereiro de 2004, os pagamentos efetuados pelas pessoas jurídicas a outras pessoas jurídicas de direito privado, pela prestação de serviços profissionais, serviços de limpeza, conservação, manutenção, segurança, vigilância, transporte de Fl. 423DF CARF MF 6 valores e locação de mãodeobra, bem assim os serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção e riscos, administração de contas a pagar e a receber, estão sujeitos à retenção na fonte da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e da Contribuição para o PIS/Pasep: Acrescentese que o valor a ser compensado, correspondente a cada espécie de contribuição, será determinado pelo próprio contribuinte mediante a aplicação, sobre o valor da fatura, das alíquotas respectivas às retenções efetuadas, nos termos da legislação aplicável. Dessa forma, no encerramento de cada período de apuração, os valores retidos podem ser deduzidos no cálculo da contribuição devida, desde que os respectivos rendimentos tenham sido oferecidos à tributação. No que se refere à Contribuição ao PIS e a COFINS, a retenção por si só também não produz indébito tributário, pois os valores correspondentes somente podem ser aproveitados até o limite da contribuição devida apurada em cada período de apuração, salvo a ocorrência de erro na própria apuração do valor retido, decorrente, por exemplo, de aplicação incorreta da alíquota, erro na apuração da base de cálculo ou no tratamento tributário das receitas. Junto com sua impugnação, o contribuinte apresentou Comprovantes Anuais de Retenção de CSLL, Cofins e Pis/Pasep (Lei nº 10.833, de 2003, art.30), para o anocalendário 2006, e, no caso específico do período de apuração outubro de 2006, ora lançado, o valor retido corresponde a R$ 4.012.833,87 – fls.154, 156, 158, 161, 165, 166 e 168, sendo que este último comprovante corresponde a retenção de que trata o art. 64, da Lei nº 9.430,de 1996. Tanto a Lei nº 9.430/96, quanto a Lei nº 10.833/2003, estipulam que os valores retidos serão segregados às contribuições correspondentes, in casu, PIS e COFINS. No entanto, para que a referida retenção seja deduzida do valor da contribuição a pagar, após a apuração no período correspondente, é necessário que o rendimento respectivo tenha sido oferecido à tributação na Receita Bruta. Reportandonos aos informes de rendimentos acima citados, em relação ao período de apuração outubro/2006, o montante do valor pago pelas fontes pagadoras corresponde a R$ 62.628.123,60. No DACON Mensal original – fls.175/176, e no DACON Mensal retificador – 10/2006, onde o contribuinte indica as retenções efetuadas para deduzir a contribuição a pagar, na Ficha 07 A – Cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep Regime NãoCumulativo –fl.139, e na Ficha 17 A – Cálculo da Cofins Regime Não Cumulativo – fl.146, a pessoa jurídica informa como Receita de Vendas de Bens e Serviços a importância de R$ 22.573.715,67. Com efeito, repitase a exaustão, para que o contribuinte possa deduzir do valor mensal da contribuição devida a importância retida, e que possa ser configurada como antecipação do devido, é condição fundamental que os rendimentos auferidos e pagos pelas fontes pagadoras responsáveis pela retenção sejam parte integrante da base de cálculo respectiva. No caso em estilo, tal situação efetivamente não se encontra configurada pois o interessado indica no Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais como Receita de Venda de Bens e Serviços no período de apuração outubro de 2006, o valor de R$ 22.573.715,67, enquanto pretende deduzir dos valores apurados na Fl. 424DF CARF MF Processo nº 12898.002143/200924 Acórdão n.º 3302004.499 S3C3T2 Fl. 5 7 presente autuação importâncias retidas cujos rendimentos correspondentes somam a importância de R$ 62.628.123,60. Logo, entendemos que não resta comprovado que os valores que o interessado pretende deduzir a título de retenção na fonte tem a sua correspondência no montante de Receita de Serviços tributada e consignada nas declarações correspondentes. Pois bem. Primeiramente, a retenção do tributo não caracteriza pagamento indevido ou a maior, o qual, se evidenciada, daria ensejo à restituição ou compensação, sendo considerado apenas como antecipação do que for devido pelo contribuinte que sofreu a retenção, a teor da previsão expressa contida no artigo 36, da Lei nº 10.833/2003: "Art. 30. Os pagamentos efetuados pelas pessoas jurídicas a outras pessoas jurídicas de direito privado, pela prestação de serviços de limpeza, conservação, manutenção, segurança, vigilância, transporte de valores e locação de mãodeobra, pela prestação de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção e riscos, administração de contas a pagar e a receber, bem como pela remuneração de serviços profissionais, estão sujeitos a retenção na fonte da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, da COFINS e da contribuição para o PIS/PASEP. (Vide Medida Provisória nº 232, 2004) Art. 36. Os valores retidos na forma dos arts. 30, 33 e 34 serão considerados como antecipação do que for devido pelo contribuinte que sofreu a retenção, em relação ao imposto de renda e às respectivas contribuições." Portanto, ocorrendo, um valor de retenção superior ao valor efetivamente devido pelo contribuinte, considerando que a Recorrente recebeu parte do pagamento e sofreu retenção sobre o valor global, entendese que apenas se antecipou mais do que o valor devido no final de apuração. Deste modo, não há que falar em pagamento indevido ou a maior, mas sim antecipação de pagamento submetida as regras escriturais de apuração prevista na Lei nº 10.833/2003. Em relação fato de que a Recorrente efetivamente dispunha de créditos para promover dedução por retenção na fonte, em decorrência da retenção e pagamento do imposto pelos clientes, o que segundo ela seria suficiente para afastar o lançamento fiscal, insta tecer que o direito/origem ao crédito propriamente dito não esta sub judice, sendo que a questão posta sob análise está atrelada ao momento de reconhecimento e utilização do crédito. E nesse aspecto, não vejo que os argumentos apresentados pela Recorrente sejam suficientes para afastar integralmente o lançamento fiscal. Isto porque, a Recorrente pretendeu deduzir dos valores apurados na presente autuação importâncias retidas cujos rendimentos correspondentes somaram a importância de R$ 62.628.123,60, ao passo que somente parte desta quantia (R$ 22.573.715,67) foi reconhecida como receita e levada à tributação, conforme se verifica no Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais como Receita de Venda de Bens e Serviços no período de apuração outubro de 2006. Fl. 425DF CARF MF 8 Logo, no encerramento do período de apuração tratado nestes autos (10/2006), os valores retidos somente poderiam ser deduzidos no cálculo da contribuição devida, no limite da receita oferecida à tributação, o que de fato ocorreu apenas em relação ao montante de R$ 22.573.715,67. Esse, inclusive, foi entendimento do julgador de piso, o qual adoto como fundamento da decidir, a saber: Com efeito, repitase a exaustão, para que o contribuinte possa deduzir do valor mensal da contribuição devida a importância retida, e que possa ser configurada como antecipação do devido, é condição fundamental que os rendimentos auferidos e pagos pelas fontes pagadoras responsáveis pela retenção sejam parte integrante da base de cálculo respectiva. Neste cenário, entendo que a Recorrente poderá deduzir no cálculo das contribuições devidas, as retenções relativas às receitas tributadas no mês de outubro de 2006. III Recurso de Ofício Dispõe os artigos 50, §1º, e 64, da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999: Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) § 1o A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. *** Art. 64. O órgão competente para decidir o recurso poderá confirmar, modificar, anular ou revogar, total ou parcialmente, a decisão recorrida, se a matéria for de sua competência. Com base nas normas anteriormente citadas, adoto como fundamento de decidir as razões apresentadas pelo i. julgador de piso, o que peço vênia para reproduzir: Como ponto exordial em sua impugnação, o contribuinte alega que apresentou Declaração de Compensação, transmitida em 13/12/2006, com vistas a compensar, no período de apuração 01/2006, os débitos de PIS – R$ 264.207,98 e COFINS – R$ 1.216.957,95. De fato, observandose a Declaração de Compensação nº 16964.66531.130206.1.3.029774 – fl.104, transmitida em 13/02/2006, ou seja, anterior ao início do procedimento fiscal que ocorreu em 26/05/2009, mediante o Termo de Intimação de fl.50, podemos constatar que os valores das contribuições ao PIS e COFINS, pertinentes ao período de apuração 01/2006, ora lançados, já haviam sido informados pelo contribuinte através da Declaração de Compensação. Com efeito, cabe de pronto uma análise prévia do direito de a contribuinte proceder, sob a sistemática do lançamento por homologação, de forma unilateral, à compensação suscitada. A extinção de crédito que advém da compensação é prevista no Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro Fl. 426DF CARF MF Processo nº 12898.002143/200924 Acórdão n.º 3302004.499 S3C3T2 Fl. 6 9 de 1966) pelo seu art. 156, II, tendo sido tal possibilidade detalhada no art. 170 do mesmo diploma legal nos seguintes termos: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, assim estabeleceu em seu art. 74, este com as alterações introduzidas pelas Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 30/12/2002) § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. .(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 30/12/2002) § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação .(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 30/12/2002) ...... § 6o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados.( incluído pela Lei nº 10.833, de 29/12/2003) Da leitura do dispositivo legal acima podemos afirmar que a partir da edição da Lei 10.833, de 2003 não é mais cabível a constituição e exigência por meio de lançamento de ofício de valores confessados através de declaração de compensação, considerando que, por expressa disposição legal, o crédito tributário declarado encontrase extinto sob condição resolutória de sua ulterior homologação e a referida declaração, a partir de outubro de 2003, constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. Em outras palavras, significa dizer que nenhum procedimento de ofício da autoridade fiscal é necessário para efetivar a constituição e cobrança de tais valores, bastando o encaminhamento dos débitos à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União. Fl. 427DF CARF MF 10 No caso vertente, as Declarações de Compensação foram transmitidas em 13/02/2006, antes portanto do início do procedimento fiscal e, evidentemente, da ciência do lançamento, o que caracteriza a improcedência da autuação, cabendo a exclusão do PA 01/2003 das contribuições ao PIS e COFINS. IV. Conclusão Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício e, dar parcial provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto relator. É como voto. (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator Fl. 428DF CARF MF
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