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Numero do processo: 10680.722701/2010-25
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/05/2006 a 31/12/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.834
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 72 27 01 /2 01 0- 25 Fl. 242DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 243DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 244DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 246DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 248DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 250DF CARF MF Processo nº 10680.722701/201025 Acórdão n.º 9202004.834 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 251DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15374.002916/2003-84
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 16 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 2802-000.166
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade, sobrestar o julgamento nos termos do §1º do art. 62-A do Regimento Interno do CARF c/c Portaria CARF nº 01/2012.
(Assinado digitalmente)
Jorge Claudio Duarte Cardoso Presidente e Relator.
EDITADO EM: 16/07/2013
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Claudio Duarte Cardoso (Presidente), German Alejandro San Martín Fernández, Jaci de Assis Junior, Carlos Andre Ribas De Mello, Dayse Fernandes Leite e Julianna Bandeira Toscano.
Nome do relator: Não se aplica
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade, sobrestar o julgamento nos termos do §1º do art. 62-A do Regimento Interno do CARF c/c Portaria CARF nº 01/2012. (Assinado digitalmente) Jorge Claudio Duarte Cardoso Presidente e Relator. EDITADO EM: 16/07/2013 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Claudio Duarte Cardoso (Presidente), German Alejandro San Martín Fernández, Jaci de Assis Junior, Carlos Andre Ribas De Mello, Dayse Fernandes Leite e Julianna Bandeira Toscano.
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade, sobrestar o julgamento nos termos do §1º do art. 62A do Regimento Interno do CARF c/c Portaria CARF nº 01/2012. (Assinado digitalmente) Jorge Claudio Duarte Cardoso – Presidente e Relator. EDITADO EM: 16/07/2013 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Claudio Duarte Cardoso (Presidente), German Alejandro San Martín Fernández, Jaci de Assis Junior, Carlos Andre Ribas De Mello, Dayse Fernandes Leite e Julianna Bandeira Toscano. Conselheiro Jorge Claudio Duarte Cardoso, Relator Tratase de lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Física do exercício 2002, anocalendário 2001, decorrente da apuração de omissão de rendimentos representada pela alteração dos rendimentos tributáveis de R$12.050,00 para R$65.202,20 e computo do desconto simplificado pelo valor máximo (R$8.000,00). A autoridade fiscal descreveu que os rendimentos foram considerados tributáveis porque não são rendimentos de aposentadoria ou pensão, tendo sido deduzidos os honorários advocatícios. Na impugnação foi alegada a nulidade do lançamento por não ter sido demonstrada a origem da alteração da base de cálculo no valor de R$53.152,20, e , no mérito, a RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 53 74 .0 02 91 6/ 20 03 -8 4 Fl. 506DF CARF MF Processo nº 15374.002916/200384 Resolução nº 2802000.166 S2TE02 Fl. 438 2 improcedência do lançamento porque o imposto deve ser calculado segundo as alíquotas vigentes nas épocas em que os rendimentos deveriam ter sido pagos, assim como reconhecido na ação trabalhista que deu origem aos rendimentos, e não sobre o valor total pago no momento da efetiva disponibilidade. A Delegacia de Julgamento rejeitou a preliminar sob o fundamento de que, embora não expressa em planilha de cálculos, a importância apurada pela fiscalização fora extraída dos documentos oferecidos pela própria interessada no decorrer da ação fiscal, sendo possível inferir o valor da omissão de rendimentos, tal como demonstrado no acórdão recorrido às fls. 392, e que os autos demonstram que pela razões despendidas pela impugnante não houve qualquer prejuízo à defesa. No mérito, o acórdão recorrido considerou que a forma de cálculo do valor da retenção foi uma ordem à fonte pagadora e não obriga a União que sequer foi cientificada ou chamada a intervir, sendo correta a tributação dos rendimentos pagos de forma acumulada com base no art. 12 da Lei 7.713/1988 (art. 56 do RIR1999). Ciência do acórdão em 05/11/2007. A peça recursal apresentada em 26/11/2007 amparase na alegação de que o imposto de renda incidente sobre os rendimentos recebidos acumuladamente em virtude de ação trabalhista devem ser calculados com observação dos valores históricos e das tabelas e alíquotas vigentes na épocas a que tais rendimentos se referem, o que encontra apoio no art. 116, I e art. 144 do CTN e em jurisprudência trabalhista. É o relatório. O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele devese tomar conhecimento. Da leitura do fundamento do acórdão recorrido e da peça recursal, verificase que o litígio está restrito à forma de tributação dos rendimentos recebidos de forma acumulada em virtude de ação trabalhista. A planilha que discrimina as competências trabalhistas encontrase às fls. 296 e ss. Considerando que o Supremo Tribunal Federal admitiu a existência de repercussão geral quanto a essa matéria, e que o mérito será julgado nos Recursos Extraordinários nº 614232 e 614406, ainda pendentes de julgamento e com expressa decisão do e. STF de sobrestar os demais julgamento, é o caso de sobrestar o presente julgamento, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 62A do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/2009, com a redação dada pela Portaria MF nº 586/2010 c/c Portaria CARF nº 01/2012. Vejamos: RE 614406 AgRQORG / RS RIO GRANDE DO SULREPERCUSSÃO GERAL NA QUESTÃO DE ORDEM NO AG.REG. NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO Relator(a): Min. ELLEN GRACIE Julgamento: 20/10/2010 Ementa TRIBUTÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. IMPOSTO DE RENDA SOBRE VALORES RECEBIDOS Fl. 507DF CARF MF Processo nº 15374.002916/200384 Resolução nº 2802000.166 S2TE02 Fl. 439 3 ACUMULADAMENTE. ART. 12 DA LEI 7.713/88. ANTERIOR NEGATIVA DE REPERCUSSÃO. MODIFICAÇÃO DA POSIÇÃO EM FACE DA SUPERVENIENTE DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI FEDERAL POR TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL. 1. A questão relativa ao modo de cálculo do imposto de renda sobre pagamentos acumulados se por regime de caixa ou de competência vinha sendo considerada por esta Corte como matéria infraconstitucional, tendo sido negada a sua repercussão geral. 2. A interposição do recurso extraordinário com fundamento no art. 102, III, b, da Constituição Federal, em razão do reconhecimento da inconstitucionalidade parcial do art. 12 da Lei 7.713/88 por Tribunal Regional Federal, constitui circunstância nova suficiente para justificar, agora, seu caráter constitucional e o reconhecimento da repercussão geral da matéria. 3. Reconhecida a relevância jurídica da questão, tendo em conta os princípios constitucionais tributários da isonomia e da uniformidade geográfica. 4. Questão de ordem acolhida para: a) tornar sem efeito a decisão monocrática da relatora que negava seguimento ao recurso extraordinário com suporte no entendimento anterior desta Corte; b) reconhecer a repercussão geral da questão constitucional; e c) determinar o sobrestamento, na origem, dos recursos extraordinários sobre a matéria, bem como dos respectivos agravos de instrumento, nos termos do art. 543B, § 1º, do CPC. (grifos acrescidos). Diante do exposto, suscito o sobrestamento do julgamento até julgamento da matéria pelo Supremo Tribunal Federal. (Assinado digitalmente) Jorge Claudio Duarte Cardoso Fl. 508DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10680.724147/2011-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 25 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Thu Feb 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/02/1999 a 31/12/2009
COFINS. INCONSTITUCIONALIDADE DO ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO PREVISTA NO PARÁGRAFO 1º DO ARTIGO 3º DA LEI 9718/98. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO EM CASO CONCRETO DO CONTRIBUINTE. INTERPRETAÇÃO DO ENTENDIMENTO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
O conjunto das decisões existentes, proferidas pelo STF, evidencia que a Corte Constitucional não se pronunciou quanto ao alcance concreto, em relação às instituições financeiras, da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, e que, diante do impasse de definir se tal entendimento implicaria em retirar do conceito de faturamento das instituições financeiras as receitas financeiras auferidas por estas instituições, o Plenário entendeu pela necessidade de reconhecer a Repercussão Geral da questão, em recurso que ainda aguarda julgamento de mérito (RE 346084, DJ 01/09/2006; RE 585235 QO-RG, DJe-227 28/11/2008; RE 527602, DJe-213 13/11/2009; RE 609096 RG, DJe-080 02/05/2011).
Resta claro que ainda será definido pelo STF qual o alcance concreto da referida declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, de maneira que não configura violação da coisa julgada a tarefa empreendida pela Administração Tributária de pesquisar e definir qual deve ser o alcance do conceito de receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos.
Diante, pois, da falta de definição pelo próprio STF, é plausível a interpretação de que a receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos deve abranger as receitas financeiras decorrentes das atividades desenvolvidas por estas instituições no mercado financeiro, na qualidade ampla de serviços financeiros.
Recurso negado.
Numero da decisão: 3403-003.572
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho e Luiz Rogério Sawaya Batista. Os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Fenelon Moscoso de Almeida e Antonio Carlos Atulim acompanharam o Relator pelas conclusões, invocando os mesmos fundamentos de mérito lançados no Acórdão 3403-003.375. Sustentou pela recorrente o Dr. Ewerton Azevedo, OAB/DF nº 15.317.
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos Atulim - Presidente
(assinado digitalmente)
Ivan Allegretti - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Domingos de Sá Filho, Rosaldo Trevisan, Luiz Rogério Sawaya Batista e Ivan Allegretti. O Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida participou do julgamento em substituição ao Conselheiro Jorge Freire.
Nome do relator: Relator
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/02/1999 a 31/12/2009 COFINS. INCONSTITUCIONALIDADE DO ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO PREVISTA NO PARÁGRAFO 1º DO ARTIGO 3º DA LEI 9718/98. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO EM CASO CONCRETO DO CONTRIBUINTE. INTERPRETAÇÃO DO ENTENDIMENTO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. O conjunto das decisões existentes, proferidas pelo STF, evidencia que a Corte Constitucional não se pronunciou quanto ao alcance concreto, em relação às instituições financeiras, da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, e que, diante do impasse de definir se tal entendimento implicaria em retirar do conceito de faturamento das instituições financeiras as receitas financeiras auferidas por estas instituições, o Plenário entendeu pela necessidade de reconhecer a Repercussão Geral da questão, em recurso que ainda aguarda julgamento de mérito (RE 346084, DJ 01/09/2006; RE 585235 QO-RG, DJe-227 28/11/2008; RE 527602, DJe-213 13/11/2009; RE 609096 RG, DJe-080 02/05/2011). Resta claro que ainda será definido pelo STF qual o alcance concreto da referida declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, de maneira que não configura violação da coisa julgada a tarefa empreendida pela Administração Tributária de pesquisar e definir qual deve ser o alcance do conceito de receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos. Diante, pois, da falta de definição pelo próprio STF, é plausível a interpretação de que a receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos deve abranger as receitas financeiras decorrentes das atividades desenvolvidas por estas instituições no mercado financeiro, na qualidade ampla de serviços financeiros. Recurso negado.
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INCONSTITUCIONALIDADE DO ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO PREVISTA NO PARÁGRAFO 1º DO ARTIGO 3º DA LEI 9718/98. DECISÃO JUDICIAL TRANSITADA EM JULGADO EM CASO CONCRETO DO CONTRIBUINTE. INTERPRETAÇÃO DO ENTENDIMENTO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. O conjunto das decisões existentes, proferidas pelo STF, evidencia que a Corte Constitucional não se pronunciou quanto ao alcance concreto, em relação às instituições financeiras, da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, e que, diante do impasse de definir se tal entendimento implicaria em retirar do conceito de faturamento das instituições financeiras as receitas financeiras auferidas por estas instituições, o Plenário entendeu pela necessidade de reconhecer a Repercussão Geral da questão, em recurso que ainda aguarda julgamento de mérito (RE 346084, DJ 01/09/2006; RE 585235 QORG, DJe227 28/11/2008; RE 527602, DJe213 13/11/2009; RE 609096 RG, DJe080 02/05/2011). Resta claro que ainda será definido pelo STF qual o alcance concreto da referida declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, de maneira que não configura violação da coisa julgada a tarefa empreendida pela Administração Tributária de pesquisar e definir qual deve ser o alcance do conceito de “receita da venda de bens e serviços” em relação aos bancos. Diante, pois, da falta de definição pelo próprio STF, é plausível a interpretação de que a receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos deve abranger as receitas financeiras decorrentes das atividades desenvolvidas por estas instituições no mercado financeiro, na qualidade ampla de serviços financeiros. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 72 41 47 /2 01 1- 00 Fl. 1230DF CARF MF 2 Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Domingos de Sá Filho e Luiz Rogério Sawaya Batista. Os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Fenelon Moscoso de Almeida e Antonio Carlos Atulim acompanharam o Relator pelas conclusões, invocando os mesmos fundamentos de mérito lançados no Acórdão 3403003.375. Sustentou pela recorrente o Dr. Ewerton Azevedo, OAB/DF nº 15.317. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim Presidente (assinado digitalmente) Ivan Allegretti Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Domingos de Sá Filho, Rosaldo Trevisan, Luiz Rogério Sawaya Batista e Ivan Allegretti. O Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida participou do julgamento em substituição ao Conselheiro Jorge Freire. Relatório Tratase de Declarações de Compensações (fls. 619/622) nas quais o contribuinte apresenta como crédito valores que teriam sido recolhidos a maior a título de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins. Sustenta que tal crédito decorreria do direito que lhe foi reconhecido, em decisão judicial transitada em julgado, na Ação Ordinária nº 2005.38.00.0459615 (petição inicial às fls. 2/27; acórdão às fls. 41/67; certidão de objeto e pé às fls. 33; andamentos de 1ª e 2ª Instâncias às fls. 34/40). As compensações forma homologadas em parte pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Belo Horizonte/MG (DRF), em decisão (fls. 803/814) cuja ementa é a seguinte: Assunto: Contribuição para o Financiamento Social(Cofins) Ação Judicial Anocalendário: 1999 a 2009. Ementa: O contribuinte poderá utilizar crédito de tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal(SRF) reconhecido judicialmente, após o trânsito em julgado da ação respectiva, na compensação com débitos de sua responsabilidade. Base Legal: Lei 5.172(CTN), Lei nº 9.430/96, IN SRF no 900/2005. Declaração de Compensação Homologada em Parte Fl. 1231DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.206 3 Direito Creditório Reconhecido em Parte Em síntese, tal decisão verificou e entendeu o seguinte: Verificase, pelas planilhas apresentadas, que a quase totalidade das receitas que compuseram inicialmente a base de cálculo da Cofins devida pertencem a 5 rubricas, todas dentro do grupo Receitas Operacionais : Rendas de operações de créditos Rendas de Aplicações Interfinanceiras de Liquidez Rendas de Títulos e Valores Mobiliários Rendas de Prestação de Serviços Outras Receitas Operacionais Em seu pleito, o contribuinte entende como devido apenas a Cofins incidente sobre as Rendas de Prestação de Serviços. Seus créditos decorreriam da diferença entre os valores recolhidos com base na receita bruta total e os débitos apurados com base nas chamadas “Rendas de Prestação de Serviçosconta contábil 7.1.7.00.009” Entretanto, no que diz respeito à natureza jurídica das receitas operacionais das instituições financeiras, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), mediante o Parecer PGFN/CAT no 2.773/2007, firmou entendimento diverso deste assumido pelo interessado, a ser adotado em todas as manifestações administrativas e judiciais do órgão, nas demandas de instituições financeiras relativas à exigência de PIS e Cofins com base na Lei no 9.718/98. Referido Parecer foi resultado de consulta formulada mediante a Nota Técnica Cosit/SRF no 21, de 28/08/2006, sobre a natureza jurídica das receitas decorrentes das atividades do setor financeiro e de seguros, quanto ao que seria considerado faturamento para esses setores, e ao que foi afastado pelo STF, relativamente a estas atividades econo micas, para fins de apuração e recolhimento do PIS e Cofins, após o julgamento do RE/357.9509/RS (DJ 15/08/2006), em que foi declarado inconstitucional o § 1o do art. 3o da Lei 9.718/98 (parágrafo este que determinou a ampliação da base de cálculo das referidas contribuições, ou seja, incluiu também as receitas não operacionais). (...) 7)“têmse, então, que a natureza das receitas decorrente das atividades do setor financeiro e de seguros pode ser classificada como serviços para fins tributaŕios, estando sujeita à incidência das contribuições em causa (PIS/Cofins), na forma do disposto nos artigos 2º e 3º, caput e nos §§ 5º e 6º do mesmo artigo, exceto no que diz respeito ao “plus” contido no § 1º do artigo 3º da Lei no 9.718/98, considerado inconstitucional por meio do Fl. 1232DF CARF MF 4 Recurso Extraordinário 357.9509/RS e dos demais recursos que foram julgados na mesma assentada”. Assim, o referido parecer PGFN/CAT está em conformidade com a jurisprudência do STF relativa à abrangência e determinação da base de cálculo do PIS/Cofins devido pelas Instituições Financeiras e Seguradoras e, por decorrência, aplicase ao presente processo. Resumindo, para a PGFN, a base de cálculo da Cofins devida pelas instituições financeiras, segundo as decisões judiciais sobre a matéria e a jurisprudência do STF, é a receita bruta da pessoa jurídica, excluídas as receitas não operacionais e as demais exclusões previstas na legislação de regência, vale dizer, as que constam dos parágrafos 2o, 4o, 6o e 8o do art. 3o da Lei 9.718/98, além daquelas admitidas para o PIS, nos termos do § 5o desse mesmo artigo, combinado com o art. 1o e incisos da Lei nº 9.701/98. (grifos editados) A descrição dos fatos pode ser ainda complementada pela transcrição do seguinte trecho do relatório do acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento de Belo Horizonte/MG (DRJ), que também descreve os fundamentos da manifestação de inconformidade apresentada pelo contribuinte (fls. 991/1020): Transitou em julgado, em 01/12/2009, a Ação Ordinária nº 2005.38.00.0459615, na qual o TRF, por maioria, deu provimento à apelação do autor, para afastar a preliminar de coisa julgada e, por unanimidade, julgou parcialmente procedente o pedido inicial, admitindo tão somente que seja afastada a ampliação da base de cálculo do PIS/Cofins, nos termos do art. 3º, parágrafo 1º, da Lei nº 9.718/98, até a eficácia das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833, de 29/12/2003, bem como reconheceu o direito à compensação das importâncias que comprovadamente tenham sido recolhidas a maior por força da aplicação do referido dispositivo legal, com a incidência da taxa Selic, com outros tributos/contribuições. O contribuinte entende que seus créditos decorreriam da apuração da contribuição levandose em conta, como base de cálculo, as chamadas “Rendas de Prestação de Serviços” (conta Cosif nº 7.1.700.00.9). No entanto, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, conforme as conclusões do Parecer PGFN/CAT nº 2.773, de 2007, elaborado em decorrência de consulta formulada mediante a Nota Técnica Cosit/SRF nº 21, de 2006, firmou entendimento diverso, a ser adotado em todas as manifestações administrativas e judiciais do órgão, nas demandas de instituições financeiras relativas à exigência de PIS e Cofins com base na Lei nº 9.718/98. Para a PGFN, a base de cálculo da Cofins devida pelas instituições financeiras, segundo as decisões judiciais sobre a matéria e a jurisprudência do STF, é a receita bruta da pessoa jurídica, excluídas as receitas não operacionais e as demais exclusões previstas na legislação de regência, vale dizer, as que constam dos parágrafos 2º, 4º, 6º e 8º do art. 3º da Lei nº Fl. 1233DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.207 5 9.718/98, além daquelas admitidas para o PIS, nos termos do §5º desse mesmo artigo, combinado com o art. 1º e incisos da Lei nº 9.701/98. Dessa forma, são exigíveis os valores da Cofins apurados com base no faturamento mensal tal como definido pelo art. 2º da LC nº 70/91, ou seja, “a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza”, permitidas as exclusões determinadas pela legislação não atingida pela inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98. Ademais, a decisão judicial transitada em julgado restringiu o período do crédito, sem que o contribuinte tenha interposto qualquer recurso, até a eficácia das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833, de 29/12/2003. Portanto, o contribuinte tem direito somente aos créditos apurados até o período de apuração janeiro/2004 (vencimento em fevereiro/2004), relativos à parcela dos recolhimentos que dizem respeito ao tributo pago incidente sobre as receitas totais, excluídas as receitas não operacionais, cujo valor em 19/03/2010 totaliza R$ 863.592,25. Irresignado com o indeferimento do seu pedido, tendo sido cientificado em 15/06/2011 (fl. 816), o contribuinte apresentou, em 14/07/2011, a manifestação de inconformidade de fls. 819/856, com os argumentos a seguir sintetizados, fazendo anexar os documentos de fls. 857/989. Aduz, inicialmente, que o Despacho Decisório foi proferido em franco desrespeito à eficácia preclusiva da coisa julgada formada na Ação Ordinária nº 2005.38.00.0459615, ignorando por completo a norma individual ditada pelo Poder Judiciário para regular a relação jurídicotributária entre o recorrente e a União Federal, quanto à Cofins. A coisa julgada deve ser interpretada à luz do Código de Processo Civil para se estabelecer o limite de sua eficácia, sob pena de se adentrar em terreno cuja jurisdição foi exercida com exclusividade e soberania pelo Poder Judiciário. A autoridade da coisa julgada impede qualquer juízo diferente sobre a mesma relação submetida à apreciação do Poder Judiciário. Assim, é desimportante o Parecer PGFN/CAT nº 2.773, de 2007, já que o entendimento a ser adotado é aquele decorrente da coisa julgada formada na ação judicial, sempre quando estiver em debate a exigência da Cofins com base na Lei nº 9.718/98, porque essa matéria já foi deduzida em juízo. Explica todo o trâmite da Ação Ordinária nº 2005.38.00.0459615, que foi aforada, em 19/12/2005, com o objetivo principal de se eximir do recolhimento da Cofins nos moldes do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98. A causa de pedir estava assentada na inconstitucionalidade da exigência da Cofins sobre receitas que extrapolavam o conceito de faturamento, entendido com os ingressos decorrentes da venda Fl. 1234DF CARF MF 6 de mercadorias e/ou da prestação de serviços. A União apresentou contestação defendendo o argumento de que o faturamento é a totalidade dos ingressos que constituem o objeto social da pessoa jurídica. A sentença exarada em 07/01/2008 acolheu a preliminar de coisa julgada e declarou extinto o processo. A apelação ao TRF da 1ª Região foi acolhida para afastar os fundamentos que foram tomados pelo sentenciante para extinguir a ação sem julgamento do mérito, sendo declarada a inconstitucionalidade incidental do §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98 e reconhecido o direito à compensação do indébito tributário recolhido nos 10 anos anteriores à propositura da demanda. A Fazenda Nacional opôs Embargos de Declaração para que fosse aplicado o prazo de 5 anos para a repetição do indébito e para que a Turma julgadora se manifestasse sobre a interpretação diferente a ser dada à declaração de inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98 daquela conferida pelo STF para as pessoas jurídicas em geral, por se tratar de instituição financeira. Os Embargos de Declaração foram rejeitados, afastandose a pretensão da União quanto ao conceito de faturamento para as instituições financeiras. No julgamento do TRF cristalizouse, portanto, que a base de cálculo da Cofins encontrase definida no art. 2º da LC n° 70/91 e corresponde à receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza, até a eficácia das alterações promovidas pela Medida Provisória n° 135/03 (convertida na Lei n° 10.833/03); se o entendimento da Fazenda Nacional é no sentido de que a receita operacional integra o conceito de faturamento para as instituições financeiras, ao contrário do que definido pelo Tribunal, devia ter se valido, então, dos recursos processuais próprios para a alteração do julgado; e prevalece a tese da prescrição decenal para a repetição do indébito relativo à Cofins. Contra os acórdãos da Apelação e dos Embargos de Declaração, a Fazenda Nacional não manejou Recurso Especial e/ou Recurso Extraordinário, deixandoos transitar livremente em julgado. A base de cálculo da Cofins foi fixada como sendo a receita bruta decorrente das vendas de mercadorias e/ou de serviços de qualquer natureza, não correspondendo à receita operacional, como pretendeu a União com seus Embargos Declaratórios, e nem à totalidade das atividades desenvolvidas em torno de seu metier social, como igualmente pretendeu a União por ocasião da contestação apresentada em primeira instância. Em fiel cumprimento ao que restou decidido pelo TRF, fez incidir a Cofins, única e exclusivamente, sobre as “Rendas de Prestação de Serviços”, calculando seu crédito a partir dos valores que foram indevidamente recolhidos sobre as demais contas do grupo de receitas operacionais. No entanto, ignorando completamente todos os efeitos decorrentes da Ação Ordinária, o Despacho Decisório se agarrou ao Parecer PGFN/CAT n° 2.773/07 e à Nota COSIT/SRF n° 21/06 para dizer que todas as receitas auferidas deverão ser tributadas pela Cofins, com exceção das receitas não operacionais. O Delegado da DRF se arvorou na posição do TRF para, ele próprio, decidir os Fl. 1235DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.208 7 Embargos de Declaração que foram opostos pela União contra o acórdão da Apelação proferido na Ação Ordinária, acolhendo os e dando a eles provimento, ao contrário do que fez a Corte Regional. Para a DRF, a base de cálculo da Cofins é a receita operacional, tal como pedido pela União em seus Embargos Declaratórios. Informa que pretendeu, com a demanda judicial, fosse declarada a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, para que a base de cálculo da Cofins se limitasse à receita bruta decorrente da venda de mercadorias e/ou da prestação de serviços. A resistência apresentada pela União Federal teve o condão de redefinir os contornos da lide. Isso porque, tanto na contestação quanto nos Embargos Declaratórios opostos, a União se insurgiu não apenas quanto à declaração de inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, mas, também, encetou nos autos a discussão referente ao que seria ou deveria ser considerado faturamento para as instituições financeiras e entidades assemelhadas, pleiteando que, acaso reconhecida a referida inconstitucionalidade, o faturamento, para as instituições financeiras e entidades equiparadas, deveria equivaler a sua receita operacional total ou à totalidade das atividades desenvolvidas em torno de seu metier social. Citando o CPC, entendimento doutrinário, e discorrendo acerca dos conceitos de causa petendi (causa de pedir) e causa excipiendi (contradireito), afirma que o litígio se formou não somente quanto à constitucionalidade do §1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98, como também no que se refere à extensão da base de cálculo da Cofins para as instituições financeiras e assemelhadas. Estabelecido o objeto do litígio, devidamente delimitado tanto na causa petendi do autor como na causa excipiendi do réu, o TRF da 1ª Região selou, em definitivo, a controvérsia. A norma individual criada pelo Poder Judiciário pode ser dissecada em duas partes: (a) é inconstitucional o §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98; (b) prevalece o disposto no art. 2º da Lei Complementar nº 70/91 para a determinação da base de cálculo da Cofins. Os julgadores acolheram a causa de pedir articulada pelo autor, afastando o “contradireito” argüido pelo réu, ou seja, nenhuma das exceções opostas pelo réu foi agasalhada pelos julgadores, o que significa que o Tribunal não acolheu a resistência da União Federal no sentido de que, para as instituições financeiras e equiparadas, o faturamento equivale a sua receita operacional total, limitandose a dizer que, havendo divergência de interpretação ou discordância da análise, haveria o ente público de buscar outro caminho processual. Proferido o acórdão, caberia ao litigante que se sentiu prejudicado a interposição dos recursos cabíveis (Recurso Especial e/ou Recurso Extraordinário) e a ausência deles corresponde à aceitação do que restou resolvido pela Corte Regional, revelando seu conformismo com a solução dada à lide. Está Fl. 1236DF CARF MF 8 sepultada, definitivamente, a controvérsia acerca do conceito de faturamento, pairando a inafastável eficácia preclusiva da coisa julgada, nos termos do art. 474 do CPC. Sobre o assunto, traz entendimentos doutrinários. Na ação judicial petrificouse o entendimento de que a base de cálculo da Cofins é o faturamento decorrente “das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza”, que não corresponde (ou equivale) à receita operacional, tampouco à totalidade das atividades desenvolvidas em torno do metier social, porque essas questões, efetivamente suscitadas/argüidas no processo pelo réu, foram repelidas pelo Tribunal, direta ou indiretamente, e o réu não as levou adiante. Não cabe ao réu, agora, no curso da execução do julgado, reabrir a discussão atinente à base de cálculo da Cofins para as instituições financeiras, porque já preclusa e, portanto, absolutamente irrelevante para o desfecho da controvérsia. Em resumo, faturamento, para o manifestante, não corresponde a sua receita bruta operacional auferida no mês, porque a Corte Regional fixou a base de cálculo da Cofins no art. 2° da LC n° 70/91 e porque o ente público, na tentativa de convencer o Tribunal, submeteu expressamente tal questão à apreciação do Órgão Colegiado (via Embargos Declaratórios), tendo sido repelida, pelos julgadores, a sua pretensão. Agora, a eficácia preclusiva da coisa julgada impede o conhecimento desta matéria. Entende ter cumprido, à risca, o comando judicial transitado em julgado, segundo o qual a base de cálculo da Cofins é “o faturamento mensal, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza”, ou seja, é devida a Cofins apenas e tão somente sobre as Rendas de Prestação de Serviços. A DRF fechou completamente os olhos para a ação judicial e se socorreu em elementos absolutamente estranhos à lide instaurada, ancorandose no Parecer PGFN/CAT n° 2.773/07 e na Nota Técnica COSIT/SRF n° 21/06, para estabelecer que faturamento engloba a atividade principal da empresa e, no caso das instituições financeiras e assemelhadas, corresponde à totalidade das receitas operacionais da entidade, exatamente aquilo que a União Federal sustentou em sua contestação ou em seus Embargos Declaratórios. Esqueceuse a autoridade, no entanto, de que a pretensão da União foi repelida pelo Poder Judiciário, pelo que não tem qualquer valia nem o Parecer nem a Nota Técnica. Aliás, foi exatamente com base neles que a União Federal construiu sua defesa em juízo, o que só aumenta a impertinência de invocálos para negar as compensações. Apresenta o confronto entre o que foi dito no processo judicial e no presente processo administrativo, para mostrar que a DRF está repetindo os mesmos fundamentos que foram deduzidos pela União no Poder Judiciário, em manifesta afronta ao art. 474 do CPC. Não está reaberta a discussão sobre a base de cálculo da Cofins a ser adotada e em nenhum momento a autoridade administrativa reputou aplicável, ao presente processo, a decisão transitada em julgado, no que a ela não interessava. Afirma que em nada importa tanto o Parecer quanto as manifestações Fl. 1237DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.209 9 posteriores da Suprema Corte acerca do assunto, pois o que deve ser aplicado, aqui, sem qualquer discussão, sob pena de afronta à eficácia preclusiva da coisa julgada, é a decisão final proferida pelo TRF 1ª região. A autoridade administrativa resolveu fazer justiça com as próprias mãos, arvorandose na função que é imanente do Poder Judiciário para ditar, no caso concreto, que o faturamento corresponde a sua receita operacional, ignorando o que se deve entender por princípio da unicidade de jurisdição. O Poder Judiciário, provocado, já editou uma norma individual para o caso concreto, a qual ganhou a definitividade de coisa julgada e não pode ser desconstituída por medidas extraprocessuais. Argumenta que, em relação à eficácia da MP nº 135/03, convertida na Lei nº 10.833/03, a DRF apegouse à literalidade da decisão judicial proferida, equivocandose quanto à qualificação jurídica de seu conteúdo. O TRF não limitou o seu direito até o dia 1º de janeiro de 2004, pois, nessa data, a lei de fato entrou em vigor, mas não teve qualquer tipo de eficácia contra o recorrente, diante do que estabelece, textualmente, o seu art. 10, inciso I, que submeteu à legislação anterior da Cofins todas as instituições financeiras e entidades equiparadas. Vigor e eficácia são conceitos distintos que não devem ser confundidos. As “alterações promovidas pela Medida Provisória n° 135/2003, convertida na Lei n° 10.833, de 29/12/2003” não são eficazes com relação ao recorrente, porque, até o momento, o legislador não determinou sua submissão a este normativo. O que fez o Tribunal foi limitar os efeitos de sua declaração até o dia em que a Lei n° 10.833/03 for eficaz para o recorrente como já o é para a maior parte das empresas industriais ou comerciais, por exemplo , ou seja, até o dia em que a norma começar a produzir efeitos concretos. Até lá, prevalecerá a base de cálculo prevista no art. 2º da LC n° 70/91. Conclui que o Despacho Decisório ofendeu gravemente não apenas a coisa julgada formada na Ação Ordinária como, também, a eficácia preclusiva dela emergente, ao reabrir o debate de questão já sepultada pelo Poder Judiciário. Caso os argumentos anteriores sejam afastados, ou seja, considerando ser possível reabrir a discussão sobre a base de cálculo da Cofins para as instituições financeiras e assemelhadas, o conceito de faturamento utilizado no Despacho Decisório ainda não há de prevalecer. Não há como concordar com a conclusão da PGFN no citado Parecer, quando equiparou a receita operacional da instituição financeira à receita decorrente da prestação de serviços. O conteúdo do conceito de faturamento já foi delimitado, primeiro pela doutrina, depois pelos tribunais, sendo que a legislação brasileira só prevê como ato passível de fatura a venda de mercadorias e/ou prestação de serviços. Demais operações, como, por exemplo, operações de crédito, nos termos da legislação pátria, não são documentadas por fatura, mas por títulos outros, como a duplicata. Em consequência, essas Fl. 1238DF CARF MF 10 operações não irão compor o conceito de faturamento, porque a legislação não lhes determinou o registro por meio de fatura. A expressão faturamento significa que a contribuição será calculada sobre a receita decorrente da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. A tentativa de alargamento da base de cálculo da Cofins pela Lei nº 9.718/98 foi declarada inconstitucional pelo STF, que enalteceu o conceito restrito de faturamento. Portanto, faturamento não é a receita operacional da pessoa jurídica. Sobre o tema, transcreve entendimentos doutrinários e jurisprudência dos Tribunais e traz a posição de juristas em resposta a consulta formulada pela Febraban. O conceito de faturamento é uno e não varia por razões ligadas à pessoa que o aufere, não havendo motivos para a inclusão das receitas operacionais (especificamente as de intermediação financeira) na base de cálculo da Cofins devida pelas instituições financeiras e entidades assemelhadas. Nesse contexto, não restam dúvidas de que os serviços das instituições financeiras, enquanto as receitas financeiras decorrentes de operações bancárias (empréstimos, financiamentos, etc.) estão fora do conceito de “faturamento”, que é a base de cálculo do Cofins. A lista de serviços tributáveis pelo ISSQN trazida na Lei Complementar n° 116/2003 (item 15) não faz qualquer menção às receitas financeiras, exatamente por não se constituírem como serviços, havendo previsão de tributação apenas das atividades como abertura de contas, administração de fundos, fornecimento de atestados, consulta a contas bancárias, etc. Assim, a taxa, tarifa ou comissão que remunera o serviço da instituição financeira é passível de tributação tanto pelo ISS quanto pela Cofins, mas os juros decorrentes da remuneração do capital disponibilizado ao cliente não constituem receitas de serviços, mas sim receita financeira, não alcançada pelo “faturamento”. Os Ministros do STF também não deixaram abertura para questionamentos acerca do conceito de faturamento, tendo havido a reformulação do texto da proposta de Súmula Vinculante n° 22 para: “é inconstitucional o §1º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, que ampliou a base de cálculo do PIS e da Cofins”. Não há discrepâncias entre os demais Ministros da Suprema Corte, que propuseram redação semelhante. Portanto, renomados juristas e Ministros do STF estão acordes em não permitir a diferenciação do conceito de faturamento conforme o tipo de atividade exercida pela pessoa jurídica. Cita também a posição do STJ, cujos Ministros decidiram que o precedente do STF (que declarou a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo da Cofins) se aplica às instituições financeiras e que o conceito de faturamento deve compreender apenas as receitas decorrentes da venda de mercadorias e/ou serviços, não abrangendo a totalidade das receitas operacionais da pessoa jurídica. Assim, restou demonstrado que a doutrina e a jurisprudência, tanto do STJ quanto do STF, corroboram o entendimento de que a base de incidência da Cofins não é abrangente a ponto de colher a totalidade das receitas operacionais da pessoa jurídica, não sendo verdadeira a afirmação contida no Despacho Decisório de que “o referido Parecer PGFN/CAT está em Fl. 1239DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.210 11 conformidade com a jurisprudência do STF relativa à abrangência e determinação da base de cálculo do PIS/Cofins devido pelas Instituições Financeiras e Seguradoras”. (...) Mesmo que superados todos os argumentos acima, o Despacho Decisório merece ser anulado, já que maculado de diversos erros conceituais de cálculo. Isso porque tomouse como fundamentação normativa de validade o Parecer PGFN CAT n° 2.773/07, o qual determina a tributação das receitas de intermediação financeira, ao argumento de que estas decorrem do exercício de sua atividade fim (de seu objeto social). Contudo, ao proceder ao recálculo do crédito, a autoridade fiscal não observou essa premissa (de apenas considerar como indevido o crédito correspondente às receitas de intermediação financeira). Foi reconhecido o crédito em relação às receitas registradas na conta “Receitas Não Operacionais” e negado o crédito em relação a todas as parcelas registradas como “Receitas Operacionais”. Ocorre que, de acordo com o Plano de Contas Cosif, são registradas como “Receitas Operacionais” várias parcelas que não correspondem a intermediação financeira, como, por exemplo: 7.1.9.30.00.6.1 Recuperação de encargos e despesas (na qual estão registradas verbas que possuem a seguinte natureza: ressarcimento do plano de saúde, Vale Transporte e Programa de Alimentação cobrados dos empregados; ressarcimento de despesas com telefone e transporte de valores, entre outras); e 7.1.9.99.00.9.1 Outras Rendas Operacionais (na qual estão registradas verbas que possuem, a título exemplificativo, a seguinte natureza: Variações Monetárias Ativas (que referemse a juros sobre depósitos judiciais fiscais, cíveis e trabalhistas e correção de créditos de tributos a recuperar) e rendas de Juros sobre Capital Próprio (JCP), entre outras). Verificase que o crédito foi negado inclusive em relação a receitas que não representam intermediação financeira, enquanto o Parecer PGFN CAT n° 2.773/07 apenas o excluiria em relação a estas (receitas financeiras). Por tal motivo podese concluir que o Despacho Decisório merece ser anulado, já os cálculos dele decorrentes não guardam coerência sequer com seu fundamento de validade. Caso não seja acatado tal argumento, requer seja recalculado o crédito, de modo que ele seja reconhecido em relação a todas as outras receitas diferentes daquelas relativas a intermediação financeira. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento de Belo Horizonte/MG (DRJ), por meio do Acórdão nº 0245.437, de 24 de junho de 2013 (fls. 991/1020), decidiu pela manutenção da decisão da DRF, resumindo seu entendimento na seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/1999 a 31/12/2009 Fl. 1240DF CARF MF 12 DECISÃO TRANSITADA EM JULGADO. EFEITOS. Em relação à matéria levada ao Poder Judiciário, cujo processo transitou em julgado, é soberana a decisão judicial, que deve ser prontamente observada pela Administração Pública Federal. INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. BASE DE CÁLCULO. A base de cálculo da Cofins para as instituições financeiras e assemelhadas, ainda que entendida como a receita bruta derivada exclusivamente das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza, compõese da receita bruta operacional auferida no mês proveniente de sua atividadefim, o que inclui as receitas advindas de intermediações financeiras. ALEGAÇÕES. PROVAS. As alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que as confirmem. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O contribuinte interpôs Recurso Voluntário (fls. 1135/1162), reeditando os mesmos fundamentos da sua manifestação de inconformidade. É o relatório. Voto Conselheiro Ivan Allegretti, Relator O recurso voluntário foi protocolado em 05/08/2013 (fl. 1135), dentro do prazo de 30 dias contados da notificação do acórdão da DRJ, que aconteceu em 05/07/2013 (Termo de Abertura de Documento; fl. 1063). Quanto à preliminar de nulidade, entendo que deve ser rejeitada pois a realização de diligência é medida que se presta a proporcionar os elementos necessários para a formação da convicção do julgador. Como também porque a diligência pode propor critérios diferentes daquele que o contribuinte pretende ver aplicado, de maneira que a adoção de critérios distintos e a realização de cálculos diferentes daqueles esperados pelo contribuinte não ofende o seu direito à ampla defesa e o princípio da verdade material. Passo à análise do mérito. O ponto central do debate consiste em definir o alcance da declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 em relação ao contribuinte em questão, que é uma instituição financeira. O itinerário desta questão jurídica começa com a declaração de inconstitucionalidade deste dispositivo pelo STF no julgamento do Recurso Extraordinário nº Fl. 1241DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.211 13 346.084, passando pelo subseqüente debate a respeito da súmula vinculante que deveria ser baseada neste julgamento do Plenário, mas que acabou não sendo editada, e então, pelo julgamento em Repercussão Geral do Recurso Extraordinário nº 585.235 e, em seguida, pelo início do julgamento do Recurso Extraordinário nº 400.479, que até o momento apenas recebeu voto do Ministro Cezar Peluso, e, enfim, pelo reconhecimento de Repercussão Geral no Recurso Extraordinário nº 609.092 (Tema nº 372), que ainda aguarda julgamento. Entendo ser indispensável, com efeito, ter consciência do itinerário e do atual contexto em que se encontra a discussão da questão no STF, para que se possa dar uma solução adequada ao presente caso, sem descuidar do fato de que se trata de contribuinte em relação ao qual houve decisão em ação judicial de sua autoria. Para preparar o julgamento, faço a seguir uma breve, mas circunstanciada, síntese do referido itinerário e, em seguida, da decisão proferida no caso concreto do contribuinte, para então decidir. 1) A declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98. Em 2006 foi publicado o acórdão do julgamento em que o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º, da Lei nº 9.718/981, cuja ementa sintetiza o seguinte entendimento: CONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE ARTIGO 3º, § 1º, DA LEI Nº 9.718, DE 27 DE NOVEMBRO DE 1998 EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 20, DE 15 DE DEZEMBRO DE 1998. O sistema jurídico brasileiro não contempla a figura da constitucionalidade superveniente. TRIBUTÁRIO INSTITUTOS EXPRESSÕES E VOCÁBULOS SENTIDO. A norma pedagógica do artigo 110 do Código Tributário Nacional ressalta a impossibilidade de a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance de consagrados institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados expressa ou implicitamente. Sobrepõese ao aspecto formal o princípio da realidade, considerados os elementos tributários. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PIS RECEITA BRUTA NOÇÃO INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º DA LEI Nº 9.718/98. A jurisprudência do Supremo, ante a redação do artigo 195 da Carta Federal anterior à Emenda Constitucional nº 20/98, consolidouse no sentido de tomar as expressões receita bruta e faturamento como sinônimas, jungindoas à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. É inconstitucional o § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, no que ampliou o conceito de receita bruta para envolver a totalidade das receitas auferidas por pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas desenvolvida e da classificação contábil adotada. 1 Embora o julgamento do Recurso Extraordinário nº 346.084 tenha sido concluído em 09/11/2005, o acórdão apenas foi publicado em 01/09/2006 Fl. 1242DF CARF MF 14 (RE 346084, Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 09/11/2005, DJ 01092006 PP00019 EMENT VOL0224506 PP01170; grifo editado) O Plenário entendeu que, por ter sido editada antes da alteração do texto constitucional pela EC nº 20, a Lei nº 9.718/98 não poderia alargar a base de cálculo de PIS/Cofins para alcançar toda e qualquer receita, devendose restringir o seu alcance aos moldes anteriores, nos quais já se encontrava definido o conceito de faturamento, o qual seria equivalente ao de receita bruta, assim compreendendo apenas a receita da venda de mercadorias e serviços. As discussões travadas no referido acórdão já revelavam a preocupação dos Ministros a respeito de qual viria a ser o tratamento das receitas financeiras, conforme fica claro no seguinte trecho: O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO – Sr. Presidente, gostaria de enfatizar meu ponto de vista, para que não fique nenhuma dúvida ao propósito. Quando me referi ao conceito construído no RE 150.755, sob a expressão ‘receita bruta de venda e mercadorias e prestação de serviço’, quis significar que tal conceito está ligado à idéia de produto do exercício de atividades empresariais típicas, ou seja, que nessa expressão se inclui todo incremento patrimonial resultante do exercício de atividades empresariais típicas. Se determinadas instituições prestam tipo de serviço cuja remuneração entra na classe das receitas chamadas financeiras, isso não desnatura a remuneração de atividade própria do campo empresarial, de modo que tal produto entra no conceito de ‘receita bruta igual a faturamento’. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Mas, ministro, seria interessante, em primeiro lugar, esperar a chegada de um conflito de interesses, envolvendo uma dúvida quanto ao conceito que, por ora, não passa pela nossa cabeça. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO – Mas passa pela cabeça de outros. Já não temos poucas causas, Sr. Ministro, para julgar. Quanto mais claro seja o pensamento da Corte, melhor para a Corte e para a sociedade. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Não pretendo, neste julgamento, resolver todos os problemas que possam surgir, mesmo porque a atividade do homem é muito grande sobre a base de incidência desses tributos. E, de qualquer forma, estamos julgando um processo subjetivo e não objetivo e a única controvérsia é está: o alcance do vocábulo ‘faturamento’. E, a respeito desse alcance, temos já, na Corte, reiterados pronunciamentos. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO – É o que estou fazendo: esclarecendo meu pensamento sobre o alcance desse conceito. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Senão, em vez de julgarmos as demandas que estão em Mesa, provocaremos até o surgimento de outras demandas, cogitando de situações diversas. Fl. 1243DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.212 15 (fls. 1254/1255 do acórdão; grifos editados) No julgamento ficaram vencidos, parcialmente, os Ministros Ilmar Galvão (Relator), Cezar Peluso e Celso de Mello e, integralmente, os Ministros Gilmar Mendes, Maurício Corrêa, Joaquim Barbosa e Nelson Jobim. Como visto, embora o Ministro Cezar Peluso tenha se considerado vencido ao pretender a utilizar o conceito de receita empresarial típica, o fato é que não houve, conscientemente, deliberação pelo Plenário a respeito de qual deveria ser o tratamento para o caso de “determinadas instituições” que “prestam tipo de serviço cuja remuneração entra na classe das receitas chamadas financeiras”. Ou seja, houve o reconhecimento de que, em relação aos contribuintes em geral, o âmbito da incidência de PIS/Cofins deveria circunscreverse às receitas da venda de bens e de serviços, mas sem adiantar a definição, mas deixando expressamente em aberto, de como deve ser o alcance de tal conceito em relação às instituições financeiras. Esta situação é reafirmada pelos passos que seguiram. 2) O julgamento da Repercussão Geral no RE 585.235 e do RE 527.602. No intuito de estender o entendimento aos demais recursos existentes, o STF realizou em 10/09/2008 o julgamento da mesma questão em regime de Repercussão Geral (art. 543B do CPC) nos autos do Recurso Extraordinário nº 585.235, cujo acórdão recebeu a seguinte ementa: EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nos 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (RE 585235 QORG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 10/09/2008, REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe227 DIVULG 27112008 PUBLIC 28112008 EMENT VOL02343 10 PP02009 RTJ VOL0020802 PP00871 ) Nada obstante, a mesma questão voltou ao Plenário em 05/08/2009, quando foi reafirmado o mesmo entendimento, no julgamento do RE 527.602: PIS E COFINS LEI Nº 9.718/98 ENQUADRAMENTO NO INCISO I DO ARTIGO 195 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, NA REDAÇÃO PRIMITIVA. Enquadrado o tributo no inciso I do artigo 195 da Constituição Federal, é dispensável a disciplina mediante lei complementar. RECEITA BRUTA E FATURAMENTO A sinonímia dos vocábulos Ação Declaratória nº 1, Pleno, relator Ministro Moreira Alves conduz à exclusão de aportes financeiros estranhos à atividade Fl. 1244DF CARF MF 16 desenvolvida Recurso Extraordinário nº 357.9509/RS, Pleno, de minha relatoria. (RE 527602, Relator(a): Min. EROS GRAU, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 05/08/2009, DJe213 DIVULG 12112009 PUBLIC 13112009 EMENT VOL0238205 PP00928 LEXSTF v. 31, n. 372, 2009, p. 209226) Estes dois julgamentos limitaramse a ratificar o entendimento já consolidado no julgamento anterior do Plenário, de que a ampliação apenas seria válida se tivesse sido encartada em lei complementar, ou se a lei ordinária tivesse sido editada depois da alteração do texto constitucional pela EC nº 20, reiterando, assim, a inconstitucionalidade do mesmo dispositivo da Lei nº 9.718/98. Não houve nenhuma consideração específica a respeito do alcance da declaração de inconstitucionalidade em relação às entidades financeiras. 3) A súmula vinculante que não foi editada. Os meios de comunicação noticiavam já em 2006 que os Ministros do STF deliberariam em breve a aprovação de súmula vinculante a propósito da inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo de PIS/Cofins2, o que chegou a ser previsto para a sessão plenária de 02/05/20073, e depois em 10/09/20084. Mas apenas em 2009 o STF publicou Edital eletrônico, datado de 13 de maio, por meio do qual levava a público como poderia vir a ser o texto da súmula. O Edital tinha o seguinte conteúdo: (...) FAZ SABER aos que este edital virem ou dele tiverem conhecimento que neste Tribunal se processam os autos da Proposta de Súmula Vinculante nº 22, em que é proponente o Supremo Tribunal Federal, que visa à edição de súmula vinculante com as seguintes sugestões de verbetes: Assunto: TRIBUTO. COFINS. BASE DE CÁLCULO. CONCEITO DE RECEITA BRUTA. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI 9718/98: “É inconstitucional o § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou a base de cálculo do PIS e da COFINS.” ou “A alteração da base de cálculo da COFINS, pelo art. 3º, § 1º, da Lei 9718/98, mediante a ampliação do conceito de faturamento, violou o art. 195, I e § 4º, da CF, vício que a subseqüente edição da Emenda Constitucional 20/98 não convalidou.” ou “É inconstitucional o § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998, que ampliou o conceito de receita bruta, a qual deve ser entendida como a proveniente das vendas das mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza.” ou 2 Valor Online, 07/08/2006, “Cofins pode ter súmula vinculante”, Fernando Teixeira 3 Valor Online, 25/04/2007, “Votação no STF pode afetar caixa da União”, Jossete Goulart 4 Revista Consultor Jurídico, 11/09/2008, “STF resolve fazer Súmula sobre base de cálculo da Cofins” Fl. 1245DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.213 17 “É inconstitucional o parágrafo 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, a qual deve ser entendida como a proveniente das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais.” (tabulação editada) Em sessão plenária de 04/02/2010, depois de debates, o STF decidiu pelo adiamento da votação, para dar oportunidade de que houvesse antes o julgamento de casos específicos a respeito das instituições financeiras. Ou seja, não chegou a haver consenso a respeito de nenhuma da redações sugeridas, por se entender pela conveniência de apreciar antes a situação específicas das instituições financeiras. 4) O voto do Ministro Cezar Peluso no RE 400.479. Em 19/08/2009 foi iniciado em Plenário o julgamento do Recurso Extraordinário nº 400.479, no qual se discute a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo em relação a uma seguradora. Neste julgamento apenas foi proferido voto pelo Relator, o Ministro Cezar Peluso, do que se seguiu o pedido de vista do Ministro Marco Aurélio, aguardandose a retomada do julgamento até hoje. Do entendimento do Ministro Cezar Peluso apenas se conhece o que foi divulgado no Informativo STF nº 556, não havendo ainda acesso ao seu exato teor. O texto do referido Informativo revela que o Ministro Cezar Peluso proferiu voto partindo daquela mesma consideração que já havia feito no julgamento do caso líder, o RE 346.084, baseada no conceito de “receita da atividade empresarial típica”, aprofundando o detalhamento do conceito. Fica claro, porém, que o Ministro pretendeu ir além de apenas de conferir um tratamento específico às instituições financeiras em relação ao entendimento já firmado, mas que pretendeu rejulgar a questão jurídica em toda a sua amplitude, ou seja, que seu voto tem a finalidade de revisar o entendimento do STF a respeito da inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo em relação a todos os contribuintes, propondo novos critérios jurídicos para delimitar o alcance das contribuições. Isto pode ser conferido nos seguintes trechos, extraídos do referido Informativo: (...) PIS/COFINS: Base de Cálculo e Seguradoras 2 O Min. Cezar Peluso afirmou que o Tribunal estaria sendo instado a definir, de uma vez por todas, o que seria a noção de faturamento constante do art. 195, I, da CF, na redação que precedeu a EC 20/98. (...) PIS/COFINS: Base de Cálculo e Seguradoras 7 Fl. 1246DF CARF MF 18 Prosseguindo, o relator salientou ser óbvio que as seguradoras ou os bancos não emitem faturas e que a emissão destas não constituiria critério válido suficiente para configurar faturamento. Para ele, esse fato, consistente em emitir faturas, seria mera decorrência de outro acontecimento, este sim economicamente importante e correspondente à realização de operações ou atividades da qual esse faturamento adviria. (...) PIS/COFINS: Base de Cálculo e Seguradoras 8 Observou que, ao elaborar suas demonstrações de resultado, as instituições financeiras partiriam, para chegar à conta de resultado operacional, da rubrica receitas da intermediação financeira, que seria precisamente o seu ramo de atuação principal. (...) PIS/COFINS: Base de Cálculo e Seguradoras 9 Concluiu o relator que a proposta que submetia à Corte seria a de reconhecer que se devesse tributar tãosomente e de modo preciso aquilo que cada empresa auferisse em razão do exercício das atividades que lhe fossem próprias e típicas enquanto conferissem o seu propósito e a sua razão de ser. Dessa forma, escapariam à incidência do tributo as chamadas receitas não operacionais em geral, as receitas financeiras atípicas e outras do mesmo gênero, desde que, não constituíssem elemento principal da atividade. Não fugiriam à noção de faturamento, pois, as receitas tipicamente empresariais colhidas por bancos, seguradoras e demais empresas, que, pela peculiaridade do ramo de atuação, não se devotassem, contratual e estritamente, à venda de mercadorias ou à prestação de serviço. Salientou, por fim, não ser necessário desenvolver um rol exaustivo que correlacionasse todas as espécies possíveis de receitas aos variados tipos de atividades e objetos sociais e empresariais, bastando que se estabelecesse, com segurança, o critério jurídico, afirmandose a tese de que a expressão faturamento corresponderia à soma das receitas oriundas das atividades empresariais típicas. Esta grandeza compreenderia, além das receitas de venda de mercadorias e serviços, as receitas decorrentes do exercício efetivo do objeto social da empresa, independentemente do seu ramo de atividade, sendo que tudo o que desbordasse dessa definição específica não poderia ser tributado. Após, pediu vista dos autos o Min. Marco Aurélio. RE 400479 EDAgR/RJ, rel. Min. Cezar Peluso, 19.8.2009. (RE 400479) Este julgamento, enfim, apenas recebeu o voto do Ministro Cezar Peluso, sendo que o entendimento do Ministro não consiste em definir o que seriam a receita da venda de bens e serviços para a seguradora, mas de revisar o alcance das contribuições utilizando outro conceito: o de receita empresarial da atividade típica. 5) A Repercussão Geral no RE 609.096. Em 03/03/2011 foi reconhecida pelo STF a Repercussão Geral no Recurso Extraordinário 609.096, em acórdão com a seguinte ementa: Fl. 1247DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.214 19 EMENTA: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. COFINS E CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS. INCIDÊNCIA. RECEITAS FINANCEIRAS DAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. CONCEITO DE FATURAMENTO. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. (RE 609096 RG, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI, julgado em 03/03/2011, DJe080 DIVULG 29042011 PUBLIC 02052011 EMENT VOL0251201 PP00128; grifo editado) Esta Repercussão Geral foi registrada pelo STF como Tema nº 372, com a seguinte descrição: 372 a) Exigibilidade do PIS e da COFINS sobre as receitas financeiras das instituições financeiras; b) Exigência de reserva de plenário para as situações em que se afasta a incidência do disposto no art. 3º, §§ 5º e 6º, da Lei nº 9.718/1998. (grifo editado) Em seu voto, o Ministro Relator concluiu o seguinte: Entendo que a controvérsia possui repercussão geral. Com efeito, o tema apresenta relevância do ponto de vista jurídico, uma vez que a definição sobre o enquadramento das receitas financeiras das instituições financeiras no conceito de faturamento para fins de incidência da COFINS e da contribuição para o PIS norteará o julgamento de inúmeros processos similares, que tramitam neste e nos demais tribunais brasileiros. Ademais, a discussão também apresenta repercussão econômica porquanto a solução da questão em exame poderá ensejar relevante impacto financeiro no orçamento das referidas instituições, bem como no da Seguridade Social e no do PIS. Além disso, a matéria em debate guarda similitude com a questão tratada no RE 400.479AgRED/RJ, Rei. Min. Cezar Peluso, submetido ao julgamento do Plenário desta Corte em 18/8/2009, mas suspenso, na mesma data, em razão do pedido de vista do Min. Marco Aurélio. Destarte, com base nos motivos já expostos, verifico que a questão constitucional trazida aos autos ultrapassa o interesse subjetivo das partes que atuam neste feito, recomendando sua análise por esta Corte. Fica claro, portanto, que o próprio STF entende que ainda não existe definição a respeito de como deve acontecer – ou seja, de qual deve ser o alcance específico – da aplicação da declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98 em relação às instituições financeiras. Fl. 1248DF CARF MF 20 6) Síntese da questão no STF. Considerandose o itinerário e o panorama atual da questão perante o STF, constatamse os seguintes fatos: a) o Plenário do STF firmou e reiterou em regime de Repercussão Geral o entendimento pela inconstitucionalidade do alargamento pretendido pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, reconhecendo que tal entendimento tem a implicação prática de circunscrever a incidência da contribuição às receitas decorrentes da venda de bens e de serviços; b) as decisões existentes, proferidas pelo STF, não se baseiam na distinção entre os conceitos de receita operacional e nãooperacional, nem utilizam o conceito de “receita da atividade empresarial típica” como conceito delimitador do âmbito de incidência de PIS/Cofins; c) o STF entende que ainda é necessário promover julgamento especificamente a respeito do alcance do conceito de faturamento em relação às instituições financeiras, questão que ainda aguarda julgamento. Estes fatos, por sua vez, permitem concluir que o STF não avalizou o entendimento de que a aplicação da declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras implicaria forçosamente em que as receitas financeiras obtidas por estas instituições estariam excluídas do conceito de venda de bens e de serviços. Esperase, com efeito, que o julgamento da Repercussão Geral no RE 609.096 promova a aplicação da declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, delimitando com precisão os seus efeitos em relação a estas instituições. Contudo, repisese, não se pode dizer que exista definição pelo STF de qual é o alcance do conceito de receita da venda de bens e de serviços para as instituições financeiras e equiparadas. 7) O caso concreto. Em relação à Cofins, conforme relatado, o contribuinte propôs ação judicial específica, na qual foi proferida decisão final pelo próprio pelo STF, com trânsito em julgado, reconhecendo a inconstitucionalidade e afastando em relação ao contribuinte o alargamento da base de cálculo prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. A decisão no caso concreto do contribuinte foi proferida em termos idênticos aquele primeiro julgamento do Plenário do STF, que afastou o alargamento da base de cálculo em relação aos contribuintes em geral. Estáse diante da tarefa, portanto, de buscar os contornos concretos para a aplicação da decisão judicial proferida no caso concreto do contribuinte, cujo comando é pela inconstitucionalidade do alargamento previsto no art. 3º, § 1º, da Lei 9.718/98, por entender que tal ampliação da base de cálculo da Cofins por lei ordinária violou a redação original do art. 195, I, da Constituição, com isso limitando o seu alcance à receita da venda de mercadorias e serviços. A tarefa, pois, consiste em delimitar o alcance do conceito de receita da venda de mercadorias e de serviços em relação ao contribuinte em questão, que é um banco. Fl. 1249DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.215 21 O plano de contas das instituições financeiras apresenta a seguinte discriminação de rubricas: 7.1.0.00.008 RECEITAS OPERACIONAIS RECEITAS FINANCEIRAS 7.1.1.00.001 Rendas de Operações de Crédito 7.1.4.00.000 Rendas Aplicação Interf. Liquidez 7.1.5.00.003 Rendas D/Tit. E Valores Mobiliários Outras Receitas Operacionais RECEITAS PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS 7.1.7.00.009 Rendas da Prestação Serviços RECEITAS NÃO OPERACIONAIS 7.3.9.00.003 Outras Receitas n/ Operacionais Como visto, as receitas operacionais são divididas entre receitas financeiras e receitas de prestação de serviços. Não há dúvida de que a contribuição incide sobre as receitas da conta 7.1.7.00.009 Rendas da Prestação Serviços, com o que concordam o contribuinte e a Fiscalização, desejando o contribuinte, no entanto, que o alcance das contribuições seja confinado única e exclusivamente a esta conta. A questão, ao ver deste Relator, consistiria em saber se as receitas financeiras podem ser alcançadas pelo conceito de receita de serviço, para assim aferir se foi respeitada a decisão judicial proferida no caso concreto do contribuinte. A decisão judicial proferida no caso concreto do contribuinte não diz que a contribuição deve alcançar a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresarias. O conceito de “receitas oriundas do exercício das atividades empresarias” é categoricamente distinto do conceito de “receita da venda de bens e da prestação de serviços”. Tanto é diferente, que o voto proferido pelo Ministro Cezar Peluso no Recurso Extraordinário nº 400.479 adotou este novo conceito com a expressa intenção de alterar o entendimento esposado pelo Plenário do STF nos julgamentos anteriores, cuja origem remonta ao Recurso Extraordinário nº 346.084. Ocorre que a decisão judicial proferida no caso concreto do contribuinte aplica o mesmo entendimento firmado no Recurso Extraordinário nº 346.084, delimitando a incidência da contribuição à receita da venda de bens e de serviços. Cumpre delimitar, portanto, qual poderia ser o alcance deste conceito em relação às instituições financeiras. Fl. 1250DF CARF MF 22 O Recorrente argumenta que “O conceito de faturamento é uno e não varia por razões ligadas à pessoa que o aufere, não havendo motivos para a inclusão das receitas operacionais (especificamente as de intermediação financeira) na base de cálculo da Cofins devida pelas instituições financeiras e entidades assemelhadas. Nesse contexto, não restam dúvidas de que os serviços das instituições financeiras, enquanto as receitas financeiras decorrentes de operações bancárias (empréstimos, financiamentos, etc.) estão fora do conceito de “faturamento”, que é a base de cálculo do Cofins”. De fato o critério de delimitação da incidência não é a receita operacional, mas a receita da venda de bens e serviços. Ocorre que desde o Despacho Decisório, baseandose em Parecer da PGFN, sustenta o Fisco que o conceito de venda de serviços, no caso das instituições financeiras, alcançam as receitas financeiras, porquanto representativas de serviços financeiros. De fato, não parece legítimo apoiarse na distinção entre obrigação de fazer e obrigação de dar, para confinar o conceito de receita de serviços aos ingressos obtidos por atividades que envolvessem exclusivamente uma obrigação de fazer, ou expurgando atividades que envolvessem a obrigação de dar, tal como se fosse possível, diante da complexidade do feixe de obrigações envolvidas, categorizar os contratos e isolar as atividades econômicas hermeticamente em tais classes de obrigação. O Código Civil – CC (Lei nº 10.406/01, arts. 593 a 604) define prestação de serviços como “toda a espécie de serviço ou trabalho lícito, material ou imaterial”, “contratado mediante retribuição” para “execução de certa e determinada obra ou serviço”, que seja “prestado por quem possua título de habilitação, ou satisfaça requisitos outros estabelecidos em lei, e não estiver sujeito às leis trabalhistas ou a lei especial”, do que resta claro que não se resume à atividade em si mesma considerada, mas também ao resultado obtido de tal atividade. O Código de Defesa do Consumidor – CDC (Lei nº 8.078/90, art. 3º, §2º), por sua vez, define serviço como “qualquer atividade” de pessoa física ou jurídica “fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, abrangendo inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, excepcionando apenas as decorrentes das relações de caráter trabalhista. Diante destes textos legais, ainda que se levasse ao extremo a referida classificação entre obrigação de dar e fazer, para dizer que uma pura obrigação de dar não configuraria prestação de serviço, ainda assim não parece possível dizer que o feixe de obrigações e atividades que envolvem a atividade financeira dos bancos poderia ser qualificada como uma pura e exclusiva obrigação de dar. Mais: o conceito decisivo para o caso é o de “receita da venda” de bens e serviços, o que revela que seu alcance primário parte do conceito de receita, e não do pinçamento e isolamento do conceito estrito de venda de bens e do conceito estrito de prestação de serviço. O que se quer dizer com isso é que ao se referir à receita da venda de serviços, buscouse alcançar toda a gama de atividades econômicas que envolvem o setor terciário da economia. Como se sabe a atividade de serviços inserese no setor terciário da economia, distinguindose das atividades dos setores primário (atividades de extração e Fl. 1251DF CARF MF Processo nº 10680.724147/201100 Acórdão n.º 3403003.572 S3C4T3 Fl. 1.216 23 produção de matériaprima) e secundário (atividades de transformação de matéria prima em produtos manufaturados para o consumo e construção civil). O setor terciário, com efeito, envolve a comercialização de mercadorias em geral e a prestação de serviços em geral. Pela mesmo motivo, não assiste razão ao Recorrente quando sustenta que o fato de determinadas atividades não figurarem na lista anexa à Lei Complementar nº 116/2003 – que lista os serviços que podem ser submetidos à incidência do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) – exigiria reconhecer que tais atividades não configurariam um serviço. O inverso pode ser verdade: uma atividade listada no referida Lei Complementar deve ser tratada como serviço, inclusive para o reconhecimento de que as receitas obtidas como retribuição pela referida atividade configuram receita de venda de serviços. Mas não se pode dizer, como quer o Recorrente, que o simples fato de não ser prevista na lista exigiria negar à atividade a qualidade de serviço, ou recusar aos pagamentos recebidos por tal atividade a qualidade de receita pela venda de serviços. Mesmo porque, a Constituição outorga aos Municípios a competência para instituir “serviços de qualquer natureza, não compreendidos no art. 155, II, definidos em lei complementar”, de maneira que nem a lei complementar fica obrigada a abranger todos os tipos de serviços existentes, nem o Município fica obrigado a instituir o impostos em relação a todos os serviços previstos na lei complementar. Ou seja, fica claro que pode haver serviços que, não estando listados na lei municipal ou na lei complementar, não estarão sujeitos ao ISS, não significando isto, contudo, que deixe de ser um serviço, nem que os pagamentos realizados por tal atividade possam deixar de ser tratadas, por que recebe, como receita da venda de serviços. 8) Conclusão Considerando que o STF não se pronunciou no sentido de que a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 implicaria em retirar do conceito de faturamento das instituições financeiras as receitas financeiras auferidas por estas instituições, mas justamente que o Plenário entendeu pela necessidade de reconhecer a Repercussão Geral deste tema, ficando expresso que ainda será definido pelo STF qual o alcance concreto da referida declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, entendo que não se configura violação da coisa julgada na tarefa empreendida de pesquisar e definir qual deve ser o alcance do conceito de “receita da venda de bens e serviços” em relação à Recorrente. Diante, pois, da falta de definição pelo próprio STF – seja no caso concreto do Recorrente, seja em relação às instituições financeiras em geral – quanto ao alcance da declaração de inconstitucionalidade em relação às instituições financeiras, tornase plausível e adequado adotar em âmbito administrativo a interpretação de que a receita da venda de bens e serviços em relação aos bancos deve abranger as receitas financeiras decorrentes das atividades desenvolvidas no mercado financeiro, por configurarem serviços financeiros. Fl. 1252DF CARF MF 24 Pelas razões expostas, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ivan Allegretti Fl. 1253DF CARF MF
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Numero do processo: 10740.720002/2014-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010
CRÉDITOS BÁSICOS. OPERAÇÕES SIMULADAS. GLOSAS. Comprovado que as operações de compras dos bens que geraram os créditos aproveitados foram simuladas, glosam-se os valores indevidamente creditados, exigindo-se de ofício as diferenças apuradas, decorrentes dessas glosas.
MULTA DE OFÍCIO. AGRAVAMENTO. SIMULAÇÃO. FRAUDE DEMONSTRADA. O aproveitamento de créditos básicos, mediante a simulação de operações que não correspondem à realidade da transação comercial, inclusive, com compras de notas fiscais e/ ou emitidas com o fim específico de gerar os créditos fictícios, implica no agravamento da multa.
Recurso voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.226
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente.
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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OPERAÇÕES SIMULADAS. GLOSAS. Comprovado que as operações de compras dos bens que geraram os créditos aproveitados foram simuladas, glosamse os valores indevidamente creditados, exigindose de ofício as diferenças apuradas, decorrentes dessas glosas. MULTA DE OFÍCIO. AGRAVAMENTO. SIMULAÇÃO. FRAUDE DEMONSTRADA. O aproveitamento de créditos básicos, mediante a simulação de operações que não correspondem à realidade da transação comercial, inclusive, com compras de notas fiscais e/ ou emitidas com o fim específico de gerar os créditos fictícios, implica no agravamento da multa. Recurso voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente. Semíramis de Oliveira Duro Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 74 0. 72 00 02 /2 01 4- 12 Fl. 636DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 11 2 Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da 17ª Turma da DRJ/RJ1 que julgou improcedente a impugnação interposta contra os lançamentos das contribuições para o Programa de Integração Social (PIS) e para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), referentes aos fatos geradores ocorridos nos períodos 01/01/2010 a 31/12/2010. Os lançamentos decorreram da glosa dos créditos do PIS e da Cofins aproveitados indevidamente sobre notas fiscais fraudadas, emitidas por pseudoatacadistas de café, conforme demonstrado no Termo de Encerramento da Ação Fiscal às fls. 341/448, parte integrante de ambos os autos de infração. As principais controvérsias destes autos são a existência de um esquema fraudulento de constituição de empresas visando às vantagens tributárias indevidas, consistentes em creditamento ilícito de PIS e Cofins e a participação da Recorrente nesse esquema. Acolho o relatório da decisão recorrida para análise dos pormenores do caso em comento: Trata o presente processo de Auto de Infração relativo ao PIS, períodos de apuração de janeiro a dezembro de 2010 (fls. 433/439), no valor total de R$ 1.169.986,39, incluindo principal, juros de mora e multa de ofício de 150%. Foi também lavrado Auto de Infração relativo à COFINS, abrangendo os mesmos períodos de apuração (fls. 440/447), no valor total de R$ 5.389.028,48, incluindo principal, juros de mora e multa de ofício de 150%. Os valores apurados como devidos decorrem da glosa de créditos considerados indevidos e fictícios, derivados da aplicação do regime da incidência nãocumulativa das referidas contribuições. No Termo de Encerramento da Ação Fiscal (fls. 341/431), parte integrante e comum dos autos de infração, constituído de 91 folhas, a Fiscalização buscou fundamentar o alegado, acima resumido, mediante um conjunto de depoimentos reduzidos a termo, prova documental, e documentos encaminhados pela Polícia Federal e Ministério Público. Cabe sintetizar, neste relatório, parte do referido Termo, cujo conteúdo foi decisivo para lavratura dos Autos de Infração, ora sob análise. Na peça, os AFRFB autuantes aduzem que: a) A fiscalização teve como escopo a verificação de pretensos créditos deduzidos dos valores devidos das contribuições não cumulativas para o PIS/COFINS, bem como utilizados nos pedidos de ressarcimento/compensação por meio de PER/DCOMP; b) As provas arregimentadas na presente ação fiscal, provenientes das investigações originadas na operação fiscal TEMPO DE COLHEITA Fl. 637DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 12 3 deflagrada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES, em outubro de 2007, e da operação BROCA, fruto da parceria entre o Ministério Público Federal, Polícia Federal e Receita Federal, comprovaram que os sócios da EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A, principalmente MARCOS ALEXANDRINO MARTINS ASTOLPHO, detinham sólido conhecimento a respeito do esquema da interposição fraudulenta de pseudo atacadistas na cadeia de comercialização de café, quer indicandoas para documentar falsamente as compras de café de produtores rurais/maquinistas, quer valendose das notas fiscais das mesmas em operações intermediadas por corretores; c) Nesta ação fiscal, verificouse que a EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A lançou mão de outras pseudoatacadistas, além daquelas já identificadas em ação fiscal anterior, anoscalendário de 2006 a 2009, visando dissimular compras de café de pessoas físicas (produtores rurais/maquinistas), e assim se apropriar fraudulentamente dos créditos PIS/COFINS; d) Os fatos apurados no decorrer da ação fiscal evidenciaram, em tese, crime contra a ordem tributária tipificado no art. 1º, inciso I, II e IV da Lei nº 8.137, de 27/12/1990, pela supressão dolosa de tributos devidos, bem como no art. 2º, inciso I, da precitada lei, por eximirse mediante fraude de pagamentos de tributos; e) A ação fiscal anterior, realizada em face da EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A, relativamente aos anoscalendário de 2006 a 2009, encontrase consubstanciada no processo administrativo nº 10783.725179 201166. O citado processo foi objeto de análise por parte da 17ª Turma da DRJ/RJ1 em face da apresentação de impugnação e, nos termos do Acórdão nº 1248.363, de 19/07/2012, por unanimidade de votos, julgouse improcedente a impugnação. OCARF, também por unanimidade de votos, negoulhe provimento; f) A existência de empresas pseudoatacadistas e o modo delas operarem é de pleno conhecimento por parte da EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A, quer se omitindo em relação a umas, quer operando com outras. Conforme demonstram os documentos e esclarecimentos coletados no curso das investigações patrocinadas pela DRF VIT/ES, bem como os apreendidos na OPERAÇÃO BROCA, a EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A utilizouse de meios ilícitos para a obtenção de crédito tributário, o que afasta os limites impostos pela boafé; g) A fraude visou diminuir a carga tributária da empresa na comercialização no mercado interno. Pior: nas vendas ao mercado externo, cujas operações estão isentas da incidência do PIS/COFINS, o esquema gerou créditos ilícitos de 9,25% sobre o valor das compras, o que representa um ganho financeiro extraordinário; h) Na primeira ação fiscal, período de 2006 a 2009, o volume de notas fiscais de empresas de fachada apropriadas ilicitamente pela EXPORTADORA DE Fl. 638DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 13 4 CAFÉ ASTOLPHO S/A alcançou a cifra de aproximadamente R$ 132.000.000,00. Somente em relação às pseudoatacadistas COLÚMBIA, L&L, DO GRÃO e V. MUNALDI foram quase R$ 18 milhões em notas fiscais apropriadas ilicitamente; i) A DRF/VTA/ES recebeu, por meio do Ofício OF/GETPOT/Nº 91/2008, de 1º/04/2008, do MPES CD’s contendo documentos digitalizados decorrentes da busca e apreensão. Planilhas de controle de compras e outros documentos apreendidos fazem clara distinção entre o vendedor do café e o emissor da nota fiscal; j) Repetemse no período analisado algumas empresas laranjas envolvidas nas operações do período analisado anteriormente, a saber: YPIRANGA, CONILON NORTE. P.A. DE CRISTO e WR DA SILVA; k) A essas se juntaram outras novas empresas laranjas, por exemplo, NORTE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, RODRIGO SIQUEIRA, R. ARAÚJO CAFECOL MERCANTIL, W.R. DA SILVA, CAPARAÓ COMÉRCIO DE CEREAIS, NOVA BRASÍLIA, PRINCESA DO NORTE, CAFEEIRA ARRUDA e outras; l) Com base no valor dos BENS PARA REVENDA constantes dos DACON´S e nas Planilhas de Memória de Cálculo encaminhadas à fiscalização, foi possível identificar os supostos fornecedores utilizados pela EXPORTADORA ASTOLPHO como forma de dissimular compras de café de produtor e assim creditarse ilicitamente dos créditos do PIS/COFINS, relacionados em fl. 413; m) Com relação ao mês 08/2010, o contribuinte informou de forma equivocada, e em duplicidade, o valor de R$ 2.224.415,00 referente às aquisições de café provenientes de PESSOAS FÍSICAS como sendo de PESSOA JURÍDICA. Tal quantia foi expurgada do cálculo do rateio do crédito integral. Estas aquisições já estavam rateadas para fins de apuração do crédito presumido – atividade agroindustrial; n) Sendo as aquisições de café realizadas de pessoas físicas, efetuouse a glosa dos créditos integrais indevidos e compensados pela fiscalizada. Nos termos da legislação pertinente, a EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A tem direito ao respectivo crédito presumido; o) Efetuouse a RECOMPOSIÇÃO dos saldos dos créditos decorrentes de operações do mercado interno. Ao final, lançouse de ofício as contribuições do PIS e da COFINS devidas em razão da dedução indevida de supostos créditos pautados em notas fiscais de empresas laranjas; p) A fiscalização elaborou o DEMONSTRATIVO DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS NÃO CUMULATIVOS, anexo ao Termo; q) Conforme mostrado no DEMONSTRATIVO citado, a recomposição dos créditos a descontar do PIS/COFINS nãocumulativos resultou em saldo a Fl. 639DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 14 5 pagar dessas contribuições, objeto de lançamento de ofício e principalmente no NÃO RECONHECIMENTO INTEGRAL dos créditos pleiteados nos PEDIDOS DE RESSARCIMENTO; r) Procedeuse o lançamento de ofício para constituição do crédito tributário relativo às seguintes multas isoladas: (a) sobre o valor total do débito indevidamente compensado, nos termos do art. 18 da Lei nº 10.833/2003; (b) sobre o valor do crédito objeto de pedido de ressarcimento indeferido/indevido, de acordo com o parágrafo 16 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, alterado pela Lei nº 12.249, de 11 de junho de 2010, c/c art. 139; s) Dos fatos narrados e considerando a atitude dolosa da fiscalizada de reduzir o montante devido das contribuições sociais, foi aplicada a multa de ofício de 150% sobre os valores das contribuições PIS/Cofins lançados em decorrência da falta/insuficiência de recolhimento do PIS e Cofins. O “Termo de Encerramento da Ação Fiscal” contém cópias de provas documentais, relatos detalhados e demonstrativos dos cálculos efetuados. A base legal dos lançamentos de PIS/Cofins encontrase descrita no corpo dos autos de infração, às fls. 435 (PIS) e 442 (COFINS). A base do lançamento da multa de ofício e dos juros de mora encontrase às fls. 439 (PIS) e 446 (COFINS). Devidamente cientificada, a autuada apresentou a Impugnação anexada às fls. 454/490, na qual alegou, em síntese, que: a) o Decreto nº 70.235/72 possibilita ao impugnante, instaurada a litigiosa do processo administrativo, pugnar pela produção de provas, requerendo assim, diligência e perícias; b) os Auditores fizeram uso de prova emprestada das Operações Tempo de Colheita e Broca, sendo que a impugnante não foi alvo de nenhuma destas duas ações fiscais; c) não teve acesso ao processo físico, tendo recebido um CD com toda a documentação que os Auditores ‘acharam’ necessária para a confecção da defesa; d) transcorrera mais de 60 dias entre a primeira intimação, expedida em 12/07/2013 e a segunda solicitação de esclarecimentos, em 12/11/2013, sem que fosse feita nova prorrogação, assim, é nula autuação; e) não está comprovada a máfé da impugnante, mas a de outros, em especial, a de comerciantes de café do norte do ES; f) a impugnante foi vítima de armação criada no norte do estado, razão pela qual os documentos que comprovam a fraude praticada por outras empresas, Fl. 640DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 15 6 em conluio com corretores, produtores rurais e maquinistas não pode ser lhe imputada; g) estamos diante do uso de prova emprestada onde na maioria delas sequer é citado o nome da empresa impugnante, seus dirigentes ou funcionários; h) o fato de veículos da família e empregados da impugnante estarem vinculados ao transporte de mercadorias que eram destinadas ao Armazém Geral Astolpho nada denuncia senão a prestação de um serviço agregado a outro; i) não há que se falar de glosa de créditos de PIS/Cofins, quando não existe a declaração de inidoneidade formalizada; e, ainda que exista, deve ser observada a delimitação de espaço, tempo e as excludentes do art. 82 da Lei nº 9.430/96; j) buscou, periodicamente, junto à RFB e a SEFAZ a certeza de que os CNPJ e as Inscrições Estaduais estavam ativas e regulares, como também verificou saber se havia certidões negativas, além disso, comprou, recebeu e pagou pelas mercadorias, assim, não há que se falar em máfé da impugnante; k) inegável a necessidade de ser decretada a nulidade integral dos autos de infração, ante os erros e omissões de apuração, gerando assim valores imprecisos do PIS e Cofins, multa e juros de mora; l) também se evidencia um erro prejudicial à impugnante o indeferimento de todos os pedidos de compensação e/ou ressarcimento, uma vez demonstrado que várias empresas fornecedoras da impugnante não tiveram sua inaptidão declarada; m) o Fisco não aponta a efetiva participação da impugnante no suposto esquema de fraude à Fazenda; n) a Impugnante não pode ser responsabilizada por atos de terceiros, descabendo a imputação de máfé; o) comprovado que inexistiu máfé não há que se falar em multas de ofício, juros de mora, negativa de pedidos de ressarcimento ou compensação, devendo ser decretada a nulidade dos autos, com o cancelamento das multas e o deferimento dos pedidos de compensação e ressarcimento; p) não há que se falar em imputação penal, posto que não inclusa a impugnante e seus dirigentes nas práticas delituosas tipificadas na lei. A impugnante junta documentos e, com base na argumentação expendida, requer que: a) sejam apreciadas e deferidas as preliminares, como também deferidas as diligências; Fl. 641DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 16 7 b) seja deferida a reprodução integral do feito, com prazo de 30 dias para emenda da impugnação e juntada de novos documentos; c) prazo para os auditores apresentarem sua contraposição; d) sejam apreciados e analisados todos os pedidos e pontos da impugnação; e) seja julgada procedente a impugnação, anulando o auto de infração, isentando a impugnante de toda a imputação atribuída; f) seja admitida a produção de novas provas especialmente por diligências e perícias; g) sejam juntados os documentos anexos e sejam anotados os dados dos advogados na capa do processo. Em 24 de julho de 2014, a 17ª Turma da DRJ/RJ1, no Acórdão nº 1267.119, julgou improcedente a impugnação, com decisão assim ementada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 FRAUDE. DISSIMULAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO. NEGÓCIO ILÍCITO. Comprovada a existência de simulação/dissimulação por meio de interposta pessoa, com o fim exclusivo de afastar o pagamento da contribuição devida, é de se glosar os créditos decorrentes dos expedientes ilícitos, desconsiderando os negócios fraudulentos. USO DE INTERPOSTA PESSOA. INEXISTÊNCIA DE FINALIDADE COMERCIAL. DANO AO ERÁRIO. CARACTERIZADO. Negócios efetuados com pessoas jurídicas, artificialmente criadas e intencionalmente interpostas na cadeia produtiva, sem qualquer finalidade comercial, visando reduzir a carga tributária, além de simular negócios inexistentes para dissimular negócios de fato existentes, constituem dano ao Erário e fraude contra a Fazenda Pública. MULTA DE OFÍCIO. FRAUDE. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício qualificada deve ser aplicada quando ocorre prática reiterada, consistente de ato destinado a iludir a Administração Fiscal quanto aos efeitos do fato gerador da obrigação tributária, mormente em situação fraudulenta, planejada e executada mediante ajuste doloso. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 NULIDADE. Não padece de nulidade a decisão, lavrada por autoridade competente, contra a qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. DILIGÊNCIA. PERÍCIA. DESNECESSÁRIA. INDEFERIMENTO. Indeferese o pedido de diligência (ou perícia) quando a sua realização revelese prescindível ou desnecessária para a formação da convicção da autoridade julgadora. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. ELEMENTOS DE PROVA. A prova deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o Fl. 642DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 17 8 direito de fazêlo em outro momento processual, por força do artigo 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72. Inconformada, a Recorrente intentou tempestivamente o seu recurso voluntário, oportunidade em que repisou os exatos termos de sua impugnação, com exceção da colocação do anexo I. Este anexo I, que constou na peça impugnatória ao lançamento, requeria diligência para acesso irrestrito a toda a prova emprestada das operações Tempo de Colheita e Broca, bem como coleta de informações junto a todas as empresas citadas nas operações. Consta que o processo nº 10740.720004/201410 destinase à constituição e exigência de multas isoladas, o qual se encontra distribuído para esta relatora e é objeto de julgamento nesta mesma oportunidade. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Preliminar Alega a Recorrente que os elementos utilizados para construção do quadro fáctico geral do auto de infração são ilícitos, por serem provas emprestadas resultado de processos fiscalizatórios dos quais a empresa não figurava como parte. As provas colacionadas aos autos são provenientes das investigações originadas na operação fiscal TEMPO DE COLHEITA deflagrada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES, em outubro de 2007, e da operação BROCA, fruto da parceria entre o Ministério Público Federal, Polícia Federal e Receita Federal. A decisão recorrida explica os procedimentos de coleta da prova documental: Quanto à prova, inicialmente registrese que os depoimentos amealhados na fase de investigação estão convertidos em Termos de Declaração juntados aos autos, devidamente assinados pelos depoentes, onde não se vislumbra traço de coação, inclusive muitos acompanhados de advogados, por isto mesmo lícitos. Não há elementos nos autos para imputar a nenhum dos depoentes a qualidade de interessado no julgamento contra o autuado, ou a existência de alguma relação (exceto de natureza comercial ou negocial) entre a impugnante e os depoentes (ou de seus parentes) que implique interesse no resultado da decisão administrativa negativa da perspectiva do autuado. Ao contrário, a decisão administrativa favorável ao recorrente seria de maior interesse para muitos dos depoentes, que de algum modo podem ser responsabilizados na medida de participação, em tese, no esquema de simulação/dissimulação Fl. 643DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 18 9 dos atos comerciais sub examine. Assim, a acusação de que foi vítima de armação criada no norte do estado perde substância. Acrescentese que não há vício na coleta dos elementos probatórios documentais, porquanto foram obtidos no bojo da Operação Broca que deflagrada como desdobramento da Operação Tempo de Colheita decorreu de ação conjunta da Receita Federal, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. A partir do resultado obtido desse esforço conjunto, cada instituição atuou com os elementos que são pertinentes às suas funções legais e constitucionais. Assim, entendese como desarrazoada a alegação de que a Receita Federal não poderia utilizar elementos colhidos nas citadas operações, pois da ação participou. Além disso, o Ministério Público do Espírito Santo – Grupo GETPOT – encaminhou, por meio do Ofício OF/GETPOT/Nº 91/2008, de 1º/04/2008, à Receita Federal documentos apreendidos na operação deflagrada (fl. 103). O Ministério Público Federal, titular da ação penal, encaminhou, mediante autorização judicial, à Receita Federal documentos relativos à Operação Broca por entender haver neles nítido interesse. Portanto, não há falar nesta quadra de ‘prova emprestada’, muito menos de documentos obtidos ilicitamente, e, em consequência, não há falar de mácula no procedimento fiscal. Consta nos autos, que a empresa teve acesso a todos os depoimentos e documentos, bem como foi exercido o amplo direito de defesa mediante contraditório regularmente instaurado, tendo sido ofertada a impugnação ao lançamento e apresentado o presente recurso voluntário, nessas oportunidades a Recorrente até citou trechos dos depoimentos, o que demonstram o seu amplo conhecimento dos fatos. Quanto ao MPF, este tem tripla função: a) materializa a decisão da administração, trazendo implícita a fundamentação requerida para a execução do trabalho de auditoria fiscal; b) atende ao princípio constitucional da cientificação e define o escopo da fiscalização; e, c) reverencia o princípio da pessoalidade. Não há nulidade do MPF por prorrogação dos prazos, que pode ser realizada por quantas vezes for necessário, observado, em cada caso, o prazo máximo de 120 dias, conforme os art. 12, 13 e 14 da Portaria RFB nº 4.066, de 02/05/2007. Ademais, a autuação está exaustivamente fundamentada nos dispositivos legais que a regem e a descrição dos fatos já conduz às situações jurídicas que desencadearam o lançamento, pois a narração é clara, não deixando qualquer dúvida quanto ao fato imputado, o que permitiu à Recorrente identificar o fundamento da exigência fiscal. Por outro lado, também não vislumbro outras nulidades no auto de infração, por ausência de violação às prescrições dos artigos 142 do CTN, 10 e 59 do Decreto nº 70.235/1972, pois restando o enquadramento legal e a descrição dos fatos aptos a permitir a identificação da infração imputada ao sujeito passivo, e estando presentes nos autos todos os documentos que serviram de base para a autuação sob exame, não há que se falar em cerceamento de defesa. Fl. 644DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 19 10 Desse modo, devem ser afastadas com veemência as alegações da Recorrente de nulidade do auto de infração, pois são retóricas, genéricas e desprovidas de qualquer elemento de prova. Mérito Glosa dos Créditos de PIS e Cofins nas Aquisições de PseudoAtacadistas As glosas dos créditos básicos de PIS e Cofins tiveram como fundamento a simulação de operações de compra de café de produtores rurais (pessoas físicas), mediante a utilização de pessoas jurídicas fictícias e/ ou criadas com o fim específico de simular as compras como se fossem destas, com vistas a gerar créditos destas contribuições. Do exame do Termo de Encerramento da Ação Fiscal, efls. 341/448, verificase que as operações simuladas foram provadas por meio de documentos, depoimentos e declarações das pessoas físicas e jurídicas que participaram do esquema fraudulento. A fiscalização demonstrou que as pessoas jurídicas que emitiram as notas fiscais, em valores elevados, não tinham capacidades financeiras nem espaços físicos que permitissem tais operações, sendo que a maioria delas eram inativas perante a Secretaria da Receita Federal. As notas fiscais, a documentação contábil, os depoimentos, todo o material anexado aos autos comprovam a operação simulada na compra do café, ou seja, foram colocadas fraudulentamente entre o produtor rural e os verdadeiros adquirentes do café, as empresas atacadistas que só existiam para emissão de nota fiscal intermediária para permitir o aproveitamento indevido de créditos de PIS e Cofins em sua integralidade. Por isso, transcrevese parte do relatório da autoridade fiscal, que descreve o modus operandi do esquema, sintetizando todo o volume de documentos arrolados: No início das investigações no Espírito Santo, ANTÔNIO GAVA, sócio da COLÚMBIA, situada em COLATINA/ES, em breve palavras contidas nas declarações prestadas em 30/11/2007, apontou para o esquema de venda de notas fiscais da COLÚMBIA para guiar café de produtor: 4) Que a COLUMBIA funciona como recebedora da nota fiscal do produtor e emissora da nota fiscal de saída, que vai para o real proprietário do café, ou melhor, o verdadeiro comprador do café; 5) O real comprador do café adquire o produto do produtor rural por intermédio de corretores de café; 6) Que os compradores de café efetuam depósitos nas contas correntes da COLUMBIA, e esta efetua o pagamento aos produtores rurais. Em seguida, a V. MUNALDI surgiu como mais uma “firma” vendedora de nota. Em 28/02/2008, ALTAIR BRÁZ ALVES, da V. MUNALDI, revelou o esquema: 13) Que a empresa V. MUNALDIME nunca foi atacadista de café; que sequer atuou no seguimento de compra e venda de café; 14) Que a V.MUNALDIME foi criada unicamente com o objetivo de fornecer notas fiscais para os verdadeiros compradores (destinatários finais) de café; que o adquiriam diretamente dos produtores rurais; Fl. 645DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 20 11 15) Que a V.MUNALDIME recebia a nota fiscal do produtor rural por intermédio de um Officeboy do verdadeiro comprador de café, e, em seguida, emitia uma nota fiscal de entrada, e na, mesma data, emitia uma nota fiscal de saída para o verdadeiro comprador de café; 16) Que, em regra, antes de receber a via original da nota fiscal do produtor rural, a própria empresa compradora do café encaminhava, via fax, a referida nota à V.MUNALDIME, para fins de emissão de notas fiscais de entrada e de saída; 17) Que, em regra, as notas fiscais de entrada e de saída da V.MUNALDIME eram emitidas na mesma data da nota fiscal do produtor rural; 18) A nota fiscal de saída emitida pela V.MUNALDIME era entregue ao Office boy da real empresa compradora do café; 19) Que, na verdade, a operação de compra de café se dava diretamente entre o comprador final de café e o produtor rural, sendo que a V. MUNALDIME funcionava exclusivamente como repassadora de recursos financeiros das empresas compradoras de café para os produtores rurais; os quais recebiam os valores mediante depósitos em suas contas bancárias; 20) Os verdadeiros compradores de café remetiam os recursos financeiros para as contas correntes titularizadas em nome da V.MUNALDIME, que eram utilizadas para pagamento aos produtores rurais; 21) Quando os compradores eram de outros estados estes incluíam nos recursos depositados na conta corrente da V.MUNALDIME o valor referente ao ICMS que era, posteriormente, recolhido em nome da empresa V.MUNALDIME; 22) Que o declarante nunca teve qualquer contato com os produtores rurais no que tange às operações descritas nas notas fiscais do produtor, recebidas pela V.MUNALDIME; 24) Que o declarante informou que a V.MUNALDIME recebia em torno de R$ 0,35 (trinta e cinco centavos) a R$ 0,50 (cinquenta centavos), por saca de café, a título de comissão; 25) O declarante informa que quando o café era destinado à armazenagem era emitida uma nota fiscal de produtor rural na qual constava como local de descarga um armazém geral do próprio comprador; e a V.MUNALDI, por sua vez, emitia uma nota fiscal de saída de simples remessa para o armazém. Posteriormente, o armazém emitia uma nota fiscal de devolução do café para a V.MUNALDIME e esta emitia uma nota fiscal de saída (venda) para a real compradora do café; 26) Em outros casos constava, ficticiamente, na nota fiscal do produtor rural como local de descarga a própria V.MUNALDIME; e esta por sua vez emitia uma nota fiscal de saída (venda fictícia) para o verdadeiro adquirente do produtor rural. Em 06/03/2008, em resposta às indagações fiscais, COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L, todas de COLATINA/ES, manifestaramse de igual teor. Fl. 646DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 21 12 Relataram à época que não possuíam imóveis, veículos, tampouco funcionários, e que, quando havia necessidade, contratavam serviços terceirizados de motoboy para entrega de documentos. Quanto à origem dos recursos creditados nas contascorrentes, afirmaram categoricamente que eram recursos que pertenciam a terceiros compradores do café: Os recursos transitados pela conta da (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] são dos compradores do café, sejam estes corretoras de contratos futuros, especuladores de mercado, indústrias, torrefadores, cerealistas, atacadistas ou exportadores. Asseveraram que NÃO são e NUNCA foram empresas COMERCIALIZADORAS ou ATACADISTAS de café: (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L], assim, afirma que, na verdade, não é e nunca foi uma COMERCIALIZADORA ou ATACADISTA de café e sim, sempre foi uma simples agente de comércio, ou seja, um corretor pessoa física, transformado por imposição dos compradores (que são poucos e poderosos) em pessoa jurídica. Esclareceram que, em alguns casos, os compradores entravam em contato com a COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L informando que estavam no mercado comprando café e elas localizavam os vendedores (produtores rurais/maquinistas) e retornavam a informação às compradoras. Em alguns casos, o destinatário final entrava em contato com (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] informando que está precisando de um determinado número de sacas de café; especificando a qualidade, quantidade, tipo de embalagem, preço ofertado por saca, prazo de pagamento, etc. De posse desta informação (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] localizava produtores interessados na venda do produto. Encontrando o vendedor, (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] entrava em contato com o Comprador e informava que já tinha localizado a sua encomenda. Recebida a informação de quem era o vendedor, o comprador poderia ou não fazer contato com o mesmo. Certo é que o comprador depositava o valor na conta da COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L e “exigia que o produtor ‘guiasse’ o produto com nota de produtor para a fiscalizada”. E prosseguem relatando que: recebendo a nota fiscal do produtor, liberavam para este o valor da venda e emitiam em seguida uma nota fiscal própria de venda para a Compradora e: (...) retendo em favor da (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] apenas sua parte do negócio, ou seja, de R$0,15 a R$0,30 por saca. Este valor poderia chegar a R$0,50 por saca, caso (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] fosse também contratada para acompanhar a contratação de caminhão para fazer o frete, etc. Esta operação se dava tanto para as chamadas ”vendas à vista" (com entrega imediata do produto) bem como nas vendas futuras (Bolsa do Café/Contratos de entrega futura). Desta forma, muitas vezes, (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] poderia receber recursos não só de indústrias, torrefadores, exportadores; mas também de corretoras de valores, corretores de café, especuladores do mercado financeiro (pessoas físicas ou jurídicas), etc. Fl. 647DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 22 13 Certo é que no momento da entrega do produto, ou seja, no momento em que há a necessidade de guiar a mercadoria com a Nota Fiscal do Produtor Rural para a (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L], a figura do corretor de café, corretoras de valores, especuladores do mercado financeiro desaparecem, posto que a nota fiscal de venda (viagem do produto) emitida pela Fiscalizada será emitida em favor do verdadeiro comprador e tomador final da mercadoria. Em outros casos, alegaram que desempenhavam a função de meras intermediárias financeiras: recebia a encomenda do comprador, localizava o vendedor e no fechamento do negócio, somente operava o dinheiro. Recebia o recurso do comprador e repassava o dinheiro ao vendedor, sendo que o Comprador podia informar outra empresa, que não à (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L], para receber a nota fiscal do produtor e, via de consequência, emitir a nota fiscal de viagem/venda. (grifo nosso) Para piorar, afirmaram que em certas ocasiões o comprador (indústria, exportador ou corretora), “depois de fazer a negociação direta com o produtor ou com a corretora de mercado futuro, apenas informava a (...) [COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L & L] que iria precisar de seus serviços, quais sejam receber a Nota do Produtor, receber o dinheiro, pagar o produtor e emitir a Nota fiscal de Venda /Viagem”. (negrito e grifo nosso) A ressaltar ainda das respostas das diligenciadas que o comprador “EXIGIA QUE O PRODUTOR ‘GUIASSE’ O PRODUTO COM NOTA DE PRODUTOR PARA A FISCALIZADA” E ELAS, EM CONTRAPARTIDA, EMITIAM UMA NOTA FISCAL DE SAÍDA PARA O COMPRADOR. Assim, não operam como atacadistas de café, mas, sim, são usadas como uma ponte de repasse de recursos dos compradores para produtores rurais/maquinistas. Agem desta forma “POR IMPOSIÇÃO DOS COMPRADORES (QUE SÃO POUCOS E PODEROSOS)”. Revelaram, ainda, que em hipótese alguma teriam “recursos para operar da forma como operaram nos últimos anos, mormente considerando a pesada carga tributária imposta por lei na operação, em especial da forma como exigida pelos compradores, qual seja com incidência integral de PIS/COFINS”. (grifamos e negritamos). De fato, a margem de lucro combinada com a atual carga tributária inviabiliza a intercalação de outra empresa na cadeia de comercialização de café entre o produtor e as atacadistas. Pelo princípio da nãocumulatividade ora vigente cada etapa na cadeia de comercialização paga exatamente sobre o valor agregado. A mudança de tributação cumulativa para nãocumulativa para o PIS (12/2002) e para a COFINS (02/2004) trouxe a majoração das alíquotas em aproximadamente 153%. Portanto, para não suportar um aumento significativo da carga tributária a atividade tem que ser tal que nas etapas de comercialização possa se beneficiar de créditos. Isso não acontece logo na primeira etapa da comercialização do café. Pois, compra de produtor rural (pessoa física) para revenda não gera crédito de PIS/COFINS. Exceto nos casos para produção especificados na legislação que dá direito ao crédito presumido (atualmente 35% da alíquota). Ou ainda na hipótese da saída de cerealista (pessoa jurídica que exerça Fl. 648DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 23 14 cumulativamente as atividades de secar, limpar, padronizar, armazenar e comercializar) com suspensão do PIS e da COFINS. Então, como dissimular a compra de café de produtor pela EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A e, por conseguinte, possibilitar o creditamento dos 9,25% sobre as compras? Criouse um impasse. A solução: A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PSEUDO ATACADISTA DE CAFÉ. Formouse, então, o mercado paralelo de pseudoatacadistas com objetivo de fornecer nota fiscal, tal como será mostrado adiante. A existência e o modo delas operarem é de pleno conhecimento por parte da EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A, quer se omitindo em relação a umas, quer operando com outras. Os documentos e esclarecimentos coletados no curso das investigações patrocinadas pela DRF VIT/ES, bem como os apreendidos na OPERAÇÃO BROCA, são hialinos para demonstrar que a EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A detinha pleno conhecimento de que o café adquirido junto aos produtores rurais/maquinistas era falsamente documentado com nota fiscal de empresa de fachada. EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A utilizouse de meios ilícitos para a obtenção de crédito tributário, o que afasta os limites impostos pela boafé. Portanto, não há que dizer que a EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A agiu de boafé, pois na ocasião em que se deram as operações tinha ciência da inidoneidade dos fornecedores, ainda que as informações cadastrais da Receita Federal noticiassem que não tinham pendências de ordem fiscal. É sabido que a regularidade fiscal contemplada nessas informações da Receita Federal são baseadas nas declarações de débitos apresentadas pelas empresas. Como essas pseudoatacadistas não apresentaram declarações tanto de IRPJ quanto DCTF (Declaração de Contribuições e Tributos Federais) ou apresentaram a primeira na situação de inativas, figuram no cadastro como ativas e eventuais certidões emitidas, por óbvio, não acusam a existência de débitos. A fraude visou diminuir a carga tributária da empresa na comercialização no mercado interno. Pior: nas vendas ao mercado externo, cujas operações estão isentas da incidência do PIS/COFINS, o esquema gerou créditos ilícitos de 9,25% sobre o valor das compras, o que representa um ganho financeiro extraordinário. Ainda mais considerando a competitividade no mercado internacional de café, que com os preços praticados pelo Vietnã nas bolsas de mercadorias internacionais, não aparenta operarem com grandes margens de lucro. Esses créditos ilícitos foram utilizados para dedução da contribuição devida na venda no mercado interno, bem como compensação com outros tributos e contribuições. Além, é claro, dos créditos remanescentes serem objetos de pedidos de ressarcimento. Na primeira ação fiscal, 2006 a 2009, o volume de notas fiscais de empresas de fachada apropriadas ilicitamente pela EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A alcançou a cifra de aproximadamente R$132.000.000,00 (cento e trinta e dois milhões) de reais. Somente em relação às pseudoatacadistas COLÚMBIA, L&L, DO GRÃO e V. MUNALDI foram quase R$18 milhões em notas fiscais apropriadas ilicitamente. Fl. 649DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 24 15 Encerrando suas respostas, COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO e L&L mencionaram que na cidade de COLATINA e outros municípios existem “mais de 80 (oitenta) empresas que ainda não foram atingidas pela presente Fiscalização e que continuam a operar como acima exposto”. E ainda acrescentaram: “muitas destas empresas foram constituídas depois que a presente fiscalização teve início, uma vez que os verdadeiros compradores do café não mais querem operar com as empresas ‘antigas’, exigindo assim que fossem constituídas novas empresas, visando principalmente a comercialização da safra 2007/08 que iniciarseá em abril/maio próximo”. Os fatos narrados, as declarações prestadas pelos representantes das pessoas jurídicas fiscalizadas e os documentos até então acostados não deixam dúvidas: COLÚMBIA, ACÁDIA, DO GRÃO, L&L e V. MUNALDI – ME não compram e, portanto, não vendem café. Não passam de meros escritórios de venda de notas fiscais. Ressaltese que sobre a matéria em comento nestes autos, esta turma já se pronunciou no Acórdão 3301002.773, de 28/01/2016, de relatoria do Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Não há que se cogitar de nulidade quando o auto de infração preenche os requisitos legais, o processo administrativo proporciona plenas condições à interessada de contestar o lançamento e inexiste qualquer indício de violação às determinações contidas no art. 142 do CTN ou nos artigos 10 e 59 do Decreto 70.235, de 1972. NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. Não há que se falar em nulidade da decisão de primeira instância quando ela foi proferida por autoridade competente, sem preterição do direito de defesa e elaborada com observância do disposto no art. 31 do Decreto 70.235/72. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. MATÉRIA DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA DO JUDICIÁRIO. SÚMULA CARF Nº 2. Nos termos da Súmula CARF nº 2, de 2009, este Conselho Administrativo não é competente para se pronunciar sobre inconstitucionalidade de lei tributária, pelo que não se conhece de argumentos como o de suposto caráter confiscatório da multa de ofício. PIS E COFINS. REGIME NÃOCUMULATIVO. AQUISIÇÃO DE INSUMOS DE PESSOA FÍSICA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PESSOA JURÍDICA. SIMULAÇÃO. GLOSA DE CRÉDITO. Constatado que o negócio jurídico efetivo foi celebrado com fornecedor pessoa física, devese glosar o crédito de PIS e COFINS apropriado na operação, em conformidade com o art. 3º, §3º, I da Lei nº 10.833/03. Fl. 650DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 25 16 INTERPOSIÇÃO DE TERCEIRO. SIMULAÇÃO. FRAUDE E CONLUIO. MULTA QUALIFICADA. A interposição simulada de terceiro alheio ao negócio jurídico, com o escopo de reduzir o montante do tributo configura fraude e conluio (Lei nº 4.502/64, arts. 72 e 73), justificando aplicação de multa qualificada (Lei nº 9.430/96, art. 44, §1º). MULTA ISOLADA. ART. 74, § 15 E 16 DA LEI 9.430/96. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO. Deve se afastar a exigência das multas isoladas aplicadas com base nos §15 e 16 do art. 74 da Lei nº 9.430/96 em face da aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106, II, "a" do CTN, tendo em vista sua revogação pelo art. 27, inc. II, da Lei nº13.137/2015. Recurso Voluntário Negado. Entendo ter a autoridade fiscal demonstrado que as aquisições de pessoas jurídicas por parte da Recorrente em nome das comprovadas empresas de fachada serviram para dissimular as reais aquisições de café em grãos diretamente de pessoas físicas (produtores rurais/maquinistas), por isso acertadamente, foram glosados os créditos integrais de PIS (1,65%) e COFINS (7,6%), calculados sobre os valores das notas fiscais de aquisição de café em grãos; pois o correto seria a apropriação dos créditos presumidos. Por isso, sendo as aquisições de café realizadas de pessoas físicas, deve ser mantida a glosa dos créditos integrais indevidos e compensados pela Recorrente. Nos termos da legislação pertinente (Lei nº 10.637/2002, art. 3º, §§ 10º e 11; Lei nº 10.833/2003, art. 3º, §§ 5º e 6º e Lei 10.925/2004, art. 8º), a Exportadora de Café Astolpho S/A tem direito ao respectivo crédito presumido, vez que o café destinado à revenda é beneficiado, padronizado, preparado e separado por densidade dos grãos com redução dos tipos da classificação e posteriormente vendido para o mercado interno e externo. Por conseguinte, foi necessária e obrigatória a recomposição dos saldos dos créditos decorrentes das operações fiscalizadas, o que resultou no lançamento de ofício das contribuições do PIS e da COFINS devidas em razão da dedução indevida de supostos créditos pautados em notas fiscais fraudadas. Não há reparo, portanto, a ser feito nesta oportunidade. Exigência de Multa de Ofício Qualificada O agravamento da multa de ofício, como no presente caso, em que ficou comprovada a participação da Recorrente no esquema de fraude com o objetivo de gerar créditos fictícios de PIS e Cofins, passíveis de desconto dos valores das contribuições apuradas sobre o faturamento mensal e/ ou de ressarcimento do saldo credor apurado no trimestre, está previsto na Lei nº 9.430, de 27/12/1996, que assim dispõe: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de Fl. 651DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 26 17 pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. A Lei nº 4.502, de 30/11/1964, assim define fraude e conluio: Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. O que se observa da análise dos depoimentos e demais documentos acostados aos autos, bem como da motivação da autoridade fiscal é: EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A lançou mão de créditos fictícios no período ora analisado. Com o uso desse expediente, a fiscalizada lograria êxito em se abster do pagamento do PIS e da COFINS e, em especial o ressarcimento de créditos indevidos e a homologação das compensações indevidas de débitos, caso não fosse a atuação da administração tributária que, oportuna e tempestivamente, apurou a fraude e constituiu, de ofício, o crédito tributário suprimido/reduzido, e não reconheceu o crédito pleiteado e tampouco homologou as compensações indevidas. Em razão da convicção firmada pela fiscalização quanto à intenção da fiscalizada em reduzir contribuições devidas e se eximir dos tributos devidos por meios defesos em lei contra a ordem tributária, a Lei n° 8.137/90, de forma inequívoca, evidencia que a prestação de declaração falsa, a inserção de elementos inexatos em livro exigido pela lei fiscal, a utilização de documento que saiba ou deva saber falso ou inexato por si só, bem como empregar outra fraude, para eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo, inseremse no contexto de fraude à fiscalização tributária, sendo o tipo doloso. Apropriação dos créditos sabidamente indevidos, não são meros erros, mas sim uma fraude de efeitos relevantes para a fiscalizada e para a Fazenda Nacional, com participação dos sócios, em especial, Marcos Alerxandrino Martins Astolpho, que não só indicou as empresas de fachada como fez uso das notas Fl. 652DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 27 18 fiscais das mesmas. Isso está devidamente registrado nas declarações prestadas pelos produtores rurais/maquinistas e corretores, assim como nos documentos amealhados. EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A apropriouse de créditos da nãocumulatividade sabidamente inexistentes, fictícios, que resultaram em significativa redução das contribuições de PIS e Cofins devidas. EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A utilizou pseudo empresas, figuras apenas formais, para dissimular suas aquisições de café dos produtores rurais, com o único propósito de “fabricar” créditos integrais da nãocumulatividade para as contribuições PIS e Cofins. Em resumo, na EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A apuraramse as seguintes condutas por parte dos seus responsáveis: a) prestar declaração falsa às autoridades fazendárias e fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos em documento ou livro exigido pela lei fiscal: informou nos Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais créditos integrais fictícios decorrentes da aquisição de bens para revenda; b) Utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato: as notas fiscais emitidas pelas pseudoempresas atacadistas são ideologicamente falsas e foram utilizadas pela EXPORTADORA DE CAFÉ ASTOLPHO S/A nas operações de compra de café; c) Empregar outra fraude, para eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo: Esses créditos ilícitos geraram pedidos de ressarcimento e compensação com outros tributos. Considerando, em tese, a presença de crime contra ordem tributária e ainda a figura da sonegação, está demonstrado o intuito fraudulento do contribuinte em reduzir o montante devido das contribuições sociais e eximirse do pagamento de tributos, o que enseja a exasperação da multa. Do exposto, restaram caracterizados tanto a fraude como o conluio: a fraude ficou demonstrada na emissão de notas fiscais de empresas pseudoatacadistas criadas com o fim específico de gerar créditos fictícios de PIS e Cofins, na compra de notas fiscais e na simulação de operações de compras de café de produtores rurais, como se fossem de atacadistas. Já o conluio se deu pelo acerto entre as partes envolvidas, pois o esquema fraudulento deu ganhos a todos os envolvidos: a Recorrente se apropriou de créditos fictos, os pseudoatacadistas lucraram com a venda da nota fiscal e os corretores/corretoras ganharam comissão na corretagem. Assim, a aplicação da multa qualificada decorre estritamente das prescrições do artigo 71, I da Lei 4.502/1964 e artigo 44, II, da Lei 9.430/1996. Ademais, o lançamento tributário é atividade administrativa plenamente vinculada, consoante dispõem os arts. 3° e 142, parágrafo único, do CTN, a autoridade fiscal deve obrigatoriamente observar a legislação Fl. 653DF CARF MF Processo nº 10740.720002/201412 Acórdão n.º 3301003.226 S3C3T1 Fl. 28 19 específica ao apurar os valores que compõem o crédito tributário, não podendo negar aplicação à lei ou ato normativo em vigor. Conclusão Entendo que os elementos dos autos permitem a afirmação de que a Exportadora de Café Astolpho S/A utilizou pseudoatacadistas para dissimular compras de café de pessoas físicas (produtores rurais/maquinistas) e com isso se apropriar fraudulentamente dos créditos básicos PIS/COFINS, motivo pelo qual voto por negar provimento ao recurso voluntário, mantendo a integralidade do auto de infração. Sala de Sessões, em 22 de fevereiro de 2017. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro – Relatora Fl. 654DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13005.000521/2005-81
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2001 a 31/12/2004
Ementa:
Recurso Especial de Divergência. Admissibilidade.
A admissibilidade de Recurso Especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Recurso Especial Não Conhecido
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98 DECLARADA PELO STF. IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS.
O crédito presumido de IPI corresponde a parcela relacionada a redução de custos e não à obtenção de receita nova oriunda do exercício da atividade empresarial. Por decisão definitiva do proferida pelo STF, deve ser afastada a inclusão na base de cálculo da contribuição do PIS e da COFINS, das parcelas relativas ao crédito presumido de IPI, por não se constituírem em receitas decorrentes da venda de mercadorias e serviços.
Numero da decisão: 9303-004.663
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à natureza do ressarcimento de crédito presumido do IPI e, no mérito, por maioria de votos, na parte conhecida, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos que lhe deu provimento e, também, Andrada Márcio Canuto Natal e Rodrigo da Costa Pôssas, que lhe deram provimento parcial.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: DEMES BRITO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2001 a 31/12/2004 Ementa: Recurso Especial de Divergência. Admissibilidade. A admissibilidade de Recurso Especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial Não Conhecido CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98 DECLARADA PELO STF. IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. O crédito presumido de IPI corresponde a parcela relacionada a redução de custos e não à obtenção de receita nova oriunda do exercício da atividade empresarial. Por decisão definitiva do proferida pelo STF, deve ser afastada a inclusão na base de cálculo da contribuição do PIS e da COFINS, das parcelas relativas ao crédito presumido de IPI, por não se constituírem em receitas decorrentes da venda de mercadorias e serviços.
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Admissibilidade. A admissibilidade de Recurso Especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial Não Conhecido CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98 DECLARADA PELO STF. IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. O crédito presumido de IPI corresponde a parcela relacionada a redução de custos e não à obtenção de receita nova oriunda do exercício da atividade empresarial. Por decisão definitiva do proferida pelo STF, deve ser afastada a inclusão na base de cálculo da contribuição do PIS e da COFINS, das parcelas relativas ao crédito presumido de IPI, por não se constituírem em receitas decorrentes da venda de mercadorias e serviços. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 5. 00 05 21 /2 00 5- 81 Fl. 513DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 514 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à natureza do ressarcimento de crédito presumido do IPI e, no mérito, por maioria de votos, na parte conhecida, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos que lhe deu provimento e, também, Andrada Márcio Canuto Natal e Rodrigo da Costa Pôssas, que lhe deram provimento parcial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Demes Brito Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional com fundamento no art. 7, I, c/c art. 15, ambos do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais aprovado pela Portaria MF n.° 147, de 25 de junho de 2007, a época da interposição do Recurso, contra ao acórdão nº 20216.615, proferido pela 2º Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, que decidiu em dar provimento ao Recurso Voluntário, para excluir da base de calculo da COFINS as receitas oriundas de subvenções estaduais (ICMS) destinadas a Contribuinte pelo Estado do Rio Grande do Sul e as receitas oriundas do credito presumido de IPI. Transcrevo, inicialmente, excerto do relatório da decisão de primeiro grau: "Contra a contribuinte retromencionada foi lavrado o Auto de Infração de fls. 03/08, com exigência de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social — Cofins, nos períodos de apuração compreendidos entre os meses de janeiro de 2001 e dezembro de 2004. As irregularidades fiscais constante do auto de infração estão discriminadas no Relatório de Ação Fiscal, fls. 09/11, nas planilhas, fls. 12/15 e nos demonstrativos, fis. 16/24, que as relatam como falta de recolhimento da contribuição, sendo os valores apurados em decorrência da não adição h. base de cálculo da contribuição de valores referentes ao crédito presumido de IPI e cessão de créditos de ICMS, tendo como base legal os arts. 1 2 e 39 da Lei Complementar nº 07/70; art. 2 2, inciso I, art. 82, inciso I, e art. 92 da Lei n2 9.715/98; arts. 22 e 32 da Lei n2 9.718/98; arts. 1 2, 32 e 42 da Lei n2 10.637/2002; art. 6 2 da NE Corat/Cofis/Cosit n 2 4/2004". Fl. 514DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 515 3 Na Descrição dos Fatos e Enquadramentos Legais (fl. 05) a autoridade lançadora registra que em procedimento de verificações obrigatórias foram constatadas divergências entre os valores declarados e os valores escriturados. Cientificada da autuação em 07/11/2001, conforme fl. 04. O Acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2001 a 31/12/2004 CRÉDITO PRESUMIDO. ICMS E IPI. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98 DECLARADA PELO STF. IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO NA BASE DE CALCULO DA COFINS. O crédito presumido do ICMS e do IPI são parcelas relacionadas A. redução de custos e não à obtenção de receita nova oriunda do exercício da atividade empresarial. Por decisão definitiva proferida pelo STF, deve ser afastada a inclusão na base de cálculo da contribuição ao PIS e da Cofins, das parcelas relativas ao crédito presumido do ICMS e do IPI, por não se constituírem em receitas decorrentes da venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. Recurso provido. Não conformada com tal decisão, a Fazenda Nacional interpõe o presente Recurso, sustentando que o acórdão recorrido ao dar provimento ao Recurso para excluir da base de calculo da COFINS, receitas oriundas de subvenções estaduais (ICMS) e as receitas oriundas do credito presumido de IPI, segundo a fundamentação do acórdão, tais receitas não estariam enquadradas no conceito de faturamento (acepção restrita) conforme preconizado nas recentes decisões do STF (RE 390.840). Por isso, valendose da declaração de inconstitucionalidade proferida, ainda que na via difusa, pelo Pretório Excelso, a Câmara a quo exclui da base de cálculo da COFINS as referidas rubricas. E que não é esta a melhor solução, pois, mesmo depois das decisões do STF, as receitas em questão podem ser consideradas receitas operacionais insertas no conceito restrito de faturamento. Para comprovar o dissenso jurisprudencial, foi apontado, como paradigmas, os Acórdãos nºs 20179.494, 20179.596 e 20401.911. No despacho de admissibilidade, o Presidente da Câmara admitiu parcialmente do Recurso. fls 459/461, somente quanto a discussão da extensão administrativa da declaração de inconstitucionalidade do art. 30, § 1º, da Lei n° 9.718/98 e à natureza do ressarcimento de crédito presumido do IPI. Vejamos: As controvérsias suscitadas cingemse às questões da natureza jurídica dos créditos presumidos de ICMS e de IPI (se são ou não enquadrados no conceito de receita) e quanto a possibilidade de os órgãos administrativos de julgamento estenderem a aplicação aos demais contribuintes de decisão definitiva sobre a inconstitucionalidade de lei proferida pelo STF em sede de controle difuso. Fl. 515DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 516 4 Inicialmente, cumpre registrar que, para configuração de hipótese capaz de ensejar a subida dos autos a instancia superior, o recurso especial de divergência deve se apresentar absolutamente revestido dos requisitos de admissibilidade previstos no Regimento Interno da Camara Superior de Recursos Fiscais. Do exame dos elementos constitutivos dos autos, verificase que restou comprovada a divergência relativa à extensão administrativa dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade do art. 3°, § 1 0, da Lei n°9.718/98. Enquanto o Acórdão recorrido aplicou a interpretação do STF, que restringiu o conceito de faturamento a receita proveniente das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, para excluir da base de cálculo da contribuição os valores auferidos com a alienação de créditos do ICMS e com o ressarcimento de crédito presumido de IPI; o Acórdão paradigma n°20401.911 decidiu tal questão em sentido diametralmente oposto, ou seja, considerou que a declaração da inconstitucionalidade do art. 3°, § 1°, da Lei n° 9.718/98 não pode ser estendida aos demais contribuintes antes da publicação da Resolução do Senado, nos termos do art. 52, X, da Constituição. Relativamente a questão da natureza do crédito presumido de IPI, o paradigma 20179.494 comprova divergência de entendimento em relação ao acórdão recorrido, quanto ao tratamento a ser dado ao crédito presumido de IPI. Enquanto o Acórdão recorrido considerou que o ressarcimento do crédito presumido de IPI se consubstancia em mera recuperação de custo, não sendo passível de tributação; o Acórdão paradigma julgou no sentido de que este beneficio é uma receita, pois aumenta o patrimônio do beneficiário, devendo, portanto, ser incluído na base de cálculo da contribuição. No que tange à questão do ICMS, verificase que conquanto a ementa do acórdão recorrido tenha feito menção a "crédito presumido do ICMS e do IPI", parte dos valores objeto do lançamento de oficio albergado neste processo se referem a cessão de créditos de ICMS por parte da empresa autuada, conforme se pode verificar pela leitura do seguinte excerto extraído do relatório do Acórdão recorrido (ti. 374), in verbis: "(..) As irregularidades fiscais constante do auto de infração estão discriminadas no Relatório de Ação Fiscal, fis. 09/11, nos planilhas. Ils. 12/15 e nos demonstrativos fls. 16/24, que as relatam cam a falta de recolhimento da contribuição, sendo os valores apurados em decorrência da não adição ã base de calculo da contribuição de valores referentes ao crédito presumido de IN e cessão de créditos de ICMS,tendo como base leal (..)" Analisandose o inteiro teor dos paradigmas colacionados pela Procuradoria da Fazenda Nacional verificase que nenhum deles julgou questão do ICMS semelhante a dos autos. Em nenhum dos casos trazidos a colação foi mantida a exigência da contribuição sobre valores provenientes Fl. 516DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 517 5 da comercialização de créditos de ICMS. Com efeito, o paradigma 201 79.494 (fis. 355/400) não tratou da tributação da venda créditos de ICMS, mas sim da natureza do ICMS registrado extemporaneamente na escrita fiscal, matéria que nada tem a ver com a questão decidida no acórdão recorrido. Já o paradigma 20179.596 (fis. 401/406) tratou da questão da natureza do crédito presumido de ICMS, tendo sido decido que ele integra a base de cálculo da contribuição. Entretanto, no caso concreto, já foi visto que não se tratou de crédito presumido de ICMS, mas sim da pura e simples venda de créditos do ICMS. E, finalmente, quanto ao paradigma 20401.911, também se verifica que não divergiu do acórdão recorrido quanto ao ICMS, uma vez que a questão lá resolvida versou sobre a natureza jurídica de um incentivo fiscal especifico concedido pelo Estado do Ceara, denominado PROVIM e não sobre a venda de créditos do ICMS, como se deu no caso concreto. Inconformada, a Fazenda Nacional maneja agravo contra o despacho de admissibilidade, e no Reexame foi admitido integralmente o Recurso fls. 477/479, utilizando se para tanto, os seguintes fundamentos: Analisandose o voto condutor do Acórdão recorrido, verificase que no mérito foi discutida a inclusão do crédito presumido do ICMS na base de cálculo da COFINS, mais especificamente, se os valores oriundos de venda de créditos de ICMS a terceiros integram a base de cálculo da citada contribuição. Vejamos a seguinte transcrição de trecho do Acórdão 202 18.615 (folha 376): "Quanto ao mérito, no caso do crédito presumido de ICMS, não cabe a sua inclusão na base de cálculo da Cofins, pois o mesmo configurase como mero registro contábil redutor em conta de custos, não podendo ser tratado como receita para fins de ser tributado pela contribuição, por não se tratar de ingresso de recursos, seja por Regime de Caixa ou por Regime de Competência, uma vez que não houve ingresso de recursos financeiros na empresa e tampouco houve qualquer redução na base de cálculo da Cofins por força do beneficio fiscal estadual." Por sua vez, o exame da ementa do paradigma 20179.596 revela que neste julgado também foi discutida a inclusão dos créditos do ICMS na base de cálculo da contribuição, in verbis: "Normas processuais, Ação judicial. A propositura, contra a Fazenda Nacional, da ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente a autuação, com o mesmo objeto, importa a renúncia ás instâncias administrativas ou desistência de eventual recurso interposto. COFINS. CRÉDITO PRESUMIDO DE ICMS. INCIDÊNCIA. A partir de 01/02/1999 os créditos presumidos do ICMS integram a base de cálculo da Cofins. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Fl. 517DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 518 6 Procede a cobrança de encargos de juros com base de taxa Selic, porque se encontra amparada em lei, cuja constitucionalidade não pode ser aferida na esfera administrativa. Recurso negado." (grifei) Assim, entendo que para as situações fáticas muito similares, em decorrência de interpretações jurídicas divergentes, resultaram decisões distintas, merecendo, assim, uma nova apreciação pela CSRF para se buscar uma uniformidade na jurisprudência. Devidamente cientificada, a Contribuinte apresentou petição de que estava ciente do despacho de admissibilidade da Fazenda Nacional. fls. 484/485. É o relatório. Voto Conselheiro Demes Brito Relator O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamada de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame de admissibilidade do Recurso Especial. Conforme exposto no exame de admissibilidade, os acórdãos paradigmas acostados pela Fazenda Nacional não se prestam a comprovar divergência jurisprudencial referente a comercialização de créditos de ICMS. Verificase que nenhum deles julgou questão do ICMS semelhante a dos autos. Em nenhum dos casos trazidos a colação foi mantida a exigência da contribuição sobre valores provenientes da comercialização de créditos de ICMS. Fl. 518DF CARF MF Processo nº 13005.000521/200581 Acórdão n.º 9303004.663 CSRFT3 Fl. 519 7 Neste sentido, não conheço do Recurso. Quanto a discussão da extensão administrativa da declaração de inconstitucionalidade do art. 30, § 1º, da Lei n° 9.718/98, referente à natureza do ressarcimento de crédito presumido do IPI, o Recurso deve ser conhecido. Com efeito, o ressarcimento do tributo anteriormente pago não é passível de ser considerado receita, tratase de uma parcela do imposto que compõe o custo de insumos adquiridos, mesmo de que modo presumido. Portanto, não se trata de receita e não deve ser tributado. Neste mesmo sentido, o Supremo Tribunal Federal STF, ao julgar o Recurso Extraordinário nº 358.273, definiu que: "CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PIS RECEITA BRUTA NOÇÃO INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º DA LEI Nº 9.718/98. A jurisprudência do Supremo, ante a redação do artigo 195 da Carta Federal anterior à Emenda Constitucional nº 20/98, consolidouse no sentido de tomar as expressões receita bruta e faturamento como sinônimas, jungindo as à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional. É como voto é como penso. Demes Brito. Fl. 519DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.727100/2012-07
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Apr 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
CANCELAMENTO DA GLOSA PELA DRJ. AUSÊNCIA DE INTERESSE. NÃO CONHECIMENTO DO PLEITO.
Já havendo sido atendido o pedido do contribuinte quando do julgamento de primeiro grau, não cabe o conhecimento do pleito, dada a evidente inexistência de interesse.
DESPESAS MÉDICAS. PLANO DE SAÚDE. INDICAÇÃO DOS BENEFICIÁRIOS.
Restando comprovado ser o contribuinte e seus dependentes os beneficiários do plano de saúde, deve ser restabelecida a dedução de despesas a ele correspondente.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2402-005.707
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer parcialmente do recurso, para, na parte conhecida, dar-lhe provimento, para fins de restabelecer a dedução de despesas médicas no valor de R$ 8.076,36, vinculada à Sul América Saúde.
(Assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho, Presidente em Exercício.
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson, Relator.
Participaram do presente julgamento o(a)s Conselheiro(a)s Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 CANCELAMENTO DA GLOSA PELA DRJ. AUSÊNCIA DE INTERESSE. NÃO CONHECIMENTO DO PLEITO. Já havendo sido atendido o pedido do contribuinte quando do julgamento de primeiro grau, não cabe o conhecimento do pleito, dada a evidente inexistência de interesse. DESPESAS MÉDICAS. PLANO DE SAÚDE. INDICAÇÃO DOS BENEFICIÁRIOS. Restando comprovado ser o contribuinte e seus dependentes os beneficiários do plano de saúde, deve ser restabelecida a dedução de despesas a ele correspondente. Recurso Voluntário Provido.
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AUSÊNCIA DE INTERESSE. NÃO CONHECIMENTO DO PLEITO. Já havendo sido atendido o pedido do contribuinte quando do julgamento de primeiro grau, não cabe o conhecimento do pleito, dada a evidente inexistência de interesse. DESPESAS MÉDICAS. PLANO DE SAÚDE. INDICAÇÃO DOS BENEFICIÁRIOS. Restando comprovado ser o contribuinte e seus dependentes os beneficiários do plano de saúde, deve ser restabelecida a dedução de despesas a ele correspondente. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 71 00 /2 01 2- 07 Fl. 90DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer parcialmente do recurso, para, na parte conhecida, darlhe provimento, para fins de restabelecer a dedução de despesas médicas no valor de R$ 8.076,36, vinculada à Sul América Saúde. (Assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho, Presidente em Exercício. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson, Relator. Participaram do presente julgamento o(a)s Conselheiro(a)s Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 91DF CARF MF Processo nº 10580.727100/201207 Acórdão n.º 2402005.707 S2C4T2 Fl. 102 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador (BA) DRJ/SDR, que julgou procedente em parte Notificação de Lançamento de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) relativa ao ano calendário 2009 (fls. 37/46). O lançamento decorreu da glosa de dedução à contribuição à previdência privada e Fapi, de dedução com dependentes, de despesas com instrução, despesas médicas e de compensação indevida a título de IRRF. Examinada a impugnação (fls. 33/34), a instância de primeiro grau (fls. 60/65) cancelou em sua totalidade as glosas de dedução à contribuição à previdência privada e Fapi, de despesas com instrução e de compensação indevida a título de IRRF. Foi mantida parcialmente a glosa da dedução com dependentes, e integralmente a glosa de despesas médicas. O contribuinte interpôs recurso voluntário em 13/12/2013 (fls. 69/83), afirmando discordar da mencionada decisão, no tocante às glosas correspondentes à previdência privada e despesas médicas junto à Sul América Companhia de Seguro Saúde, tendo em vista os documentos que acosta. É o relatório. Fl. 92DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser apenas parcialmente conhecido, entretanto. A mera leitura dos termos do item "Dedução Indevida de Previdência Privada e Fapi" da decisão vergastada (fl. 63), revela que a correspondente glosa efetuada pela fiscalização (fl. 39) já foi extirpada do lançamento "deve ser excluída a glosa do valor de R$ 4.203,13". Nessa esteira, resta evidente que não há interesse recursal do contribuinte remanescente, no particular. Por sua vez, a dedução de despesas médicas e de saúde na declaração de ajuste anual tem como supedâneo legal os seguintes dispositivos do art. 8º da Lei nº 9.250/95, abaixo transcritos: Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10580.727100/201207 Acórdão n.º 2402005.707 S2C4T2 Fl. 103 5 IV não se aplica às despesas ressarcidas por entidade de qualquer espécie ou cobertas por contrato de seguro; V no caso de despesas com aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias, exigese a comprovação com receituário médico e nota fiscal em nome do beneficiário.(grifei) Na espécie, temse que a decisão não acatou as despesas médicas vinculadas ao plano Sul América Companhia de Seguro Saúde, sob a seguinte alegação: Para comprovar despesas médicas referentes à Sul América companhia de seguro, o contribuinte juntou ao processo comprovante de pagamento feitos a essa entidade sem informar quem são os beneficiários do plano (fls.23/25), formalidade exigida pela legislação para que se identifique se o beneficiário é o contribuinte ou dependente seu. Sem embargo, nos documentos referidos às fls. 23/25, bem como nos carreados no recurso voluntário às fls. 78/83, está explicitado que os beneficiários do dito plano são, além do recorrente, seus dependentes Marcelo Fontes Monteiro e Matheus Fontes Monteiro. Por essa razão, deve ser restabelecida a dedução de R$ 8.076,36. Ante o exposto, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso, para, na parte conhecida, darlhe provimento, para fins de restabelecer a dedução de despesas médicas no valor de R$ 8.076,36, vinculada à Sul América Saúde. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 94DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10074.000579/2009-47
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3302-000.547
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em converter o julgamento em diligência, vencido o Conselheiro Domingos de Sá, que dava provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente
(assinado digitalmente)
Walker Araujo - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (presidente da turma), Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
Nome do relator: WALKER ARAUJO
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em converter o julgamento em diligência, vencido o Conselheiro Domingos de Sá, que dava provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa - Presidente (assinado digitalmente) Walker Araujo - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (presidente da turma), Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em converter o julgamento em diligência, vencido o Conselheiro Domingos de Sá, que dava provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (presidente da turma), Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araujo. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de auto de infração no valor de R$ 81.148.697,00 (fls.0719) com relatório fiscal em anexo. Seguem as alegações da fiscalização aduaneira. I. O procedimento da Receita Federal decorre da operação Dilúvio da Policia Federal e de ordem judicial de folha 285/290. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 00 74 .0 00 57 9/ 20 09 -4 7 Fl. 16656DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 3 2 II. O esquema de fraudes era controlado por um grupo de pessoas denominado Grupo Principal, constituído pela impugnante (PLENA COMERCIAL ATACADISTA LTDA), pela PRINCIPAL DO BRASIL COMERCIAL ATACADISTA LTDA e pela RANGER ASSESSORIA EM VENDAS, TREINAMENTO E PARTICIPAÇÕES. III. As empresas Plena e Principal foram constituídas no mesmo dia 22/07/2004, tendo como única acionista a empresa Ranger. A Plena e a Principal possuíam as mesmas instalações e o mesmo grupo controlador e os mesmos empregados. O patrimônio inicial de ambas as empresas de R$ 152.000.000,00 proveio de uma suposta cisão parcial da empresa Ranger. Tal integralização não foi comprovada, tratandose de artifício contábil com o fim de inflar a capacidade da empresa para realizar operações milionárias. IV. Até 19/05/2006, a Plena não estava habilitada a operar no comércio exterior. Para isso utilizavase de interpostas pessoas. 0 objetivo era fugir da condição de equiparada a estabelecimento industrial para efeitos de IPI, afastar questionamentos acerca da origem dos recursos empregados e da integralização do capital social de R$ 152.000.000,00 e evitar os controles referentes às transações no comércio exterior, controles estes que se tornaram mais rigorosos com o advento da Lei n° 10.637/2002 e da IN SRF n°225/2002. V. Basicamente o esquema fraudulento consistia na compra pelo grupo Principal dos produtos diretamente no exterior para revenda no Brasil. Na seqüência, a empresa orientava seus exportadores a emitir a documentação do despacho de importação no nome das importadoras (tradings) contratadas pela Plena para figurarem como adquirentes dos produtos adquiridos. VI. Grande parte das operações do GRUPO PRINCIPAL pode ser dividida em duas partes. Urna parte era relativa à importação de copiadoras, impressoras multifuncionais da marca Sharp e respectivos suprimentos comercializados pela Plena e outra parte era relativa a produtos eletrônicos como aparelhos de DVD, home theater e televisões de plasma, todos produzidos na China da marca Principal Eletrônicos, comercializados pela Principal. Embora a Plena esteja inserida no grupo Principal, o foco da fiscalização se restringiu a Plena e a sua relação com a marca Sharp. VII. A despeito da existência de contrato de distribuição exclusivo entre a Sharp Electronics e o grupo Principal, as mercadorias não eram comercializadas entre as empresas, sendo utilizado um complexo esquema de ocultação entre o real vendedor e o real comprador. No decorrer do relatório apresenta a fiscalização o suposto esquema incluía empresas supostamente compradoras e vendedoras, corno tradings no Brasil e outras empresas sediadas no exterior. VIII. A fraude se iniciava no exterior. Documentos apreendidos na "Operação Dilúvio" (Processo 10980.005074/200784) revelam que o grupo Principal, além de utilizar importadoras (tradings) no Brasil, utilizavase também de um esquema fraudulento no exterior para refaturar suas cargas com o apoio de outras empresas de fachada como a Costa Oriental e a 5 Continentes. No caso da empresa Plena, o esquema consistia na aquisição dos produtos Sharp previamente pelo Grupo Principal em Miami e remetidos ao Brasil pela empresa 5 Continentes ou ao Uruguai de onde eram reenviados ao Brasil como uma exportação de outra empresa: Port Capria. Entre os documentos apreendidos na Operação Dilúvio há um contrato de exclusividade de distribuição da marca Sharp no Brasil através da empresa Ranger e faturas emitidas pela Sharp diretamente para Plena de mercadorias que foram desembaraçadas pelas tradings, provas cabais, portanto, de que as importações foram realizadas por conta e ordem desta última, caracterizando a interposição fraudulenta. Fl. 16657DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 4 3 IX. 0 esquema consistia basicamente de um exportador A, um exportador fictício B, um importador laranja C e o real adquirente D (empresas Plena e Principal). Estas empresas são listadas em diversos quadros, como o de folha 33. As negociações eram resolvidas entre A e D, sendo que, no entanto, a operação de comércio exterior era praticada por B e C, sendo estas empresas B e C que figuravam no comércio exterior. X. Este modelo busca ocultar o real importador das mercadorias adquiridas 'D') junto a uma empresa no exterior ( A'), também geralmente oculta. Eram estas duas empresas que transacionavam e de fato definiam a transação comercial. XI. Durante a denominada "Operação Dilúvio", os elementos de informação colhidos no local de busca SPC 29 (PRINCIPAL/PLENA) demonstram que as empresas do GRUPO PRINCIPAL (no momento atual PLENA/RANGER, PRINCIPAL DO BRASIL entre outras) e seus proprietários SERGIO EDUARDO ADLER, CPF 082.619.71830 e MAURO LUIZ ZYNGIER, CPF 131.956.36867 com o apoio de seu diretor comercial RUBENS MORANTE BARCELLOS, CPF 157.317.08878 agiram em conluio para a prática sistemática de importações na qual ocultavam a condição de real adquirente das empresas do Grupo Principal através do uso de documentos ideologicamente falsos. XII. Prosseguindo na análise da documentação, aquele grupo especial constatou que os emails trocados entre os diretores da SHARP desaconselhavam a emissão de faturas diretamente da SHARP ELECTRONICS nos EUA para vendas ao Brasil, ao menos até final do ano de 2005, diante dos problemas com a SDB (a falida SHARP DO BRASIL) que continuavam a impactar seus negócios no Brasil. Segundo conclusão do relatório da "Operação Dilúvio", o esquema de ocultação dos reais participantes das operações ora questionadas gerava benefícios tanto aos interessados no Brasil quanto à própria SHARP CORPORATION, que desta forma minimizava os riscos de arresto ou bloqueio judicial de cargas nos portos brasileiros que eventualmente ocorressem em virtude das discussões judiciais, em nosso pais, quanto à titularidade da marca SHARP. XIII. A empresa PLENA COMERCIAL ATACADISTA foi constituída em 22/07/2004 com o capital social de R$ 400.000,00, divididos em 400.000 ações ordinárias nominativas, sem valor nominal a serem totalmente integralizadas no período de 24 meses da data da constituição. A única acionista era a empresa RANGER ASSESSORIA EM VENDAS, TREINAMENTO E PARTICIPAÇÕES, CNPJ 05.511.909/000128 e o Diretor Presidente era o Sr. PAULO ALVES URUGA, CPF 054.078.39865. XIV. A empresa RANGER é uma sociedade simples limitada cujo capital é integralmente detido pelas sócias REVERE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ 06.372.776/000119, e SEA VENTURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ 06.372.766/000183. XV. Em 30/10/2004, foi formalizado protocolo de cisão parcial da empresa RANGER, cujo patrimônio foi avaliado em R$ 152.081.148,85. Deste valor R$ 152.000.000,00 foram transferidos para as empresas PLENA (R$ 92.000.000,00) e PRINCIPAL (R$ 60.000.000,00). XVI. Em 26/07/2005, foi realizada Assembleia Geral Extraordinária em que se decidiu pela alteração do Diretor Presidente PAULO ALVES URUGA em favor de LUIZ AUGUSTO PAULINO, alteração de endereço da filial do Espirito Santo e abertura de filial em Brasilia. Fl. 16658DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 5 4 XVII. Cita a fiscalização uma série de irregularidades A. folha 26 da autuação: a) a empresa PLENA COMERCIAL ATACADISTA LTDA apresentou em sua DIPJ anocalendário 2004, ano de sua constituição, os valores de R$ 87.400.000,00 a titulo de ágios em Investimentos e R$ 92.000.000,00 a títulos de outras reservas; b) no anocalendário de 2005, o valor de R$ 92.000.000,00 passou para o capital social integralizado da empresa, não tendo sido identificada a origem destes recursos; c) em pesquisas nos sistemas da Receita Federal, mais especificamente no RADAR/DW Aduaneiro, verificouse que a empresa começou a operar no comércio exterior oficialmente somente no ano de 2006, tendo importado R$ 7.786.790,76 neste ano, R$ 10.320.973,26 em 2007 e R$ 2.921.433,75 em 2008 (até 14/05/2008); d) em pesquisa no IRPJ, verificouse que nas DIPJ apresentadas em 2005, 2006 e 2007 a empresa declara sempre valores na conta ágios de investimentos, sem informar os investimentos e que a partir de 2005 esses valores são a contrapartida para o capital integralizado. Ao final conclui a fiscalização que estão evidenciados os indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade financeira da empresa. XVIII. Tanto a empresa PLENA COMERCIAL ATACADISTA quanto a PRINCIPAL DO BRASIL têm como sócios a SEA VENTURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ 06.372.766/000183, e REVERE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ 06.372.776/000119, ambas criadas na mesma data, 21/06/2004, com 50% de participação societária e localizadas no mesmo endereço na Avenida Paulista 14° andar, Sao Paulo. 0 administrador da empresa é LUIZ AUGUSTO PAULINO, CPF 035.415.31886. XIX. As duas empresas sócias da Plena possuem os mesmos sócios MAURO LUIZ ZYNGIER e SERGIO EDUARDO ADLER. XX. Os dois sócios acima citados (MAURO LUIZ ZYNGIER e SERGIO EDUARDO ADLER) eram também sócios da RANGER ASSESSORIA EM VENDAS, TREINAMENTO E PARTICIPAÇÕES, cujo património foi objeto de protocolo de cisão do capital em favor das empresas PLENA COMERCIAL ATACADISTA (empresa autuada) e PRINCIPAL DO BRASIL. XXI. As empresas RANGER, PLENA E PRINCIPAL são denominadas pela fiscalização como GRUPO PRINCIPAL. XXII. A fiscalização apresenta fluxograma à folha 35. XXIII. Contrato traduzido de fls. 09/83 do Anexo XIX demonstra que as vendas da SHARP ELECTRONICS CORPORATION eram em verdade com o GRUPO PRINCIPAL (RANGER, PRINCIPAL e, em especial, PLENA), conforme folhas 81/135 do mesmo anexo. 0 contrato lista uma série de obrigações a serem cumpridas pela PLENA. XXIV. Conforme documentos juntados aos autos, o GRUPO PRINCIPAL havia assumido através da RANGER a obrigação de efetuar compras semestrais mínimas, sendo que os pedidos deviam ser efetuados cinco meses antes do inicio da produção dos produtos. Tais obrigações contratuais contrapostas As datas das faturas usadas em despacho já seriam suficientes para demonstrar que todas as supostas compras de produtos SHARP efetuadas pelas "tradings" como MERCOTEX e MTRADING eram mera simulação. Como determina o próprio contrato, as cargas eram faturadas nos EUA para empresas do Grupo Principal como a própria PLENA. XXV. Diversos documentos vinculados ao CP 13 nos quais constam cópias de emails trocados entre funcionários da MERCOTEX e Karina Paganelli, funcionária da Fl. 16659DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 6 5 PLENA. Como exemplo temos o de fls. 95 do anexo XXV, em que a Sra Patricia, da MERCOTEX, solicita a Sra. Karine, da PLENA, a correção da invoice e packing list referentes ao BL 1102. Ou seja, quem de fato produzia os documentos de desembaraço era a funcionária da PLENA. Além disso, ternos ainda neste anexo, várias DFs, faturas e packing list de operações envolvendo produtos SHARP que demonstram que MERCOTEX e MTRADING cederam seus nomes para as importações (fls. 105/273, anexo XXV). Foram inclusive localizados os pedidos e a confirmação de compra dos produtos SHARP pela PLENA (fls. 111, anexo XXVI), demonstrando que a carga já pertencia ao grupo Principal antes de seu embarque no exterior. No CP 14 há grande quantidade de solicitações de numerário acompanhadas das respectivas cópias dos documentos de transferência bancária do Grupo Principal para as pessoas jurídicas interpostas. No anexo VI, fls. 08/109 e anexo XXVI, fls. 161/164, há diversas faturas emitidas pela SHARP em 2005 cujo destinatário é a empresa PLENA. Estes documentos provavelmente não foram apresentados na ocasião do desembaraço, pois a fiscalizada não estava habilitada a operar no comércio exterior nesta época, estando impossibilitada de registrar Declaração de Importação em seu nome.Concluise, por óbvio, que no desembaraço foram apresentados outros documentos, provavelmente falsos, pois os que instruíram os despachos na aduana deveriam estar em nome das "tradings" que realizavam as importações. XXVI. Além da ocultação do real importador, houve também a ocultação do real exportador. Conforme relatório SPC 29, as vendas para PLENA, antes de chegar no Brasil, eram processadas de SHARP ELECTRONICS para a empresa PELLHAM nos EUA, em nome da qual assinava o Sr. RUBENS BARCELOS. Com relação ao Sr. RUBENS BARCELOS, CPF 157.317.08878, as investigações no curso da operação SPC 29 demonstram que ele se apresentava, ao menos ate dezembro de 2004, como executivo envolvido na distribuição de produtos da SHARP no Brasil e como responsável pela gerência da PLENA, vinculandose através desta também com RANGER ASSESSORIA. Constatase do relatório SPC 29 que a empresa PELLHAN, em nome da qual a SHARP nos EUA faturava as cargas vendidas ao Grupo Principal, era de fato controlada pelo senhor Rubens M. Barcellos, como demonstram as diversas faturas e próformas de faturas onde consta o aceite dele nas compras de PELLHAN junto a SHARP nos EUA. (fls.205/247 do anexo XIX). Portanto, temos que Barcellos, Sergio Adler e Mauro Zyngier tinham atividade comercial em comum na distribuição de produtos da marca SHARP através da PLENA COMERCIAL, sendo que BARCELLOS tinha a propriedade de "PRINCIPAL ELETRONICS", parte essencial da atividade da PRINCIPAL DO BRASIL COMERCIO ATACADISTA, que se fundamenta na venda a redes varejistas de produtos eletrônicos com a referida marca. Em fls. do Relatório SPC 29 constam diversas informações apontando que este grupo de pessoas já exerciam atividades comerciais anteriores em comum utilizandose de empresas de fachada para importar os produtos que comercializavam, que empregaram o nome de terceiras pessoas para figurar como sócios ou responsáveis de empresa as quais controlavam, todas condutas típicas da ocultação do sujeito passivo. XXVIII. Emails impressos e o chamado "INTEROFFICE MEMORANDUM" (fls. 103/110 do anexo XIX) tratam de negociações comerciais diretas entre Adler, Zyngier, representando a PLENA e o senhor Edward Fuller, que seria o vicepresidente da SHARP Latina América. XXIX. 0 relacionamento comercial direto entre o Grupo Principal e a SHARP, independente da intermediação de terceiros, é também documentado por diversos relatórios que seguem o arquivo em discussão (anexo XIX, fls. 143) onde temos valores a serem pagos a SHARP, pela empresa PLENA, números de faturas das vendas realizadas e os valores a elas vinculados e um documento denominado "LETTER OF GUARANTEE OF PLENA COMERCIAL ATACADISTA TO SHARP ELECTRONICS Fl. 16660DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 7 6 CORPORATION" (anexo XIX, fls. 128) de 16/12/2005 onde constam números de faturas e seus respectivos valores. Portanto, não resta qualquer dúvida que o real negócio entabulado. sempre foi entre PLENA e a SHARP ELECTRONICS. XXX. Observese, ainda, que parecer do escritório F&G CONSULTORIA (anexo XIX, fls. 152/156) consta anexo do email, de 03/12/05, trocado entre os diretores da SHARP que detalha a forma de funcionamento das operações por conta e ordem, bem como as vantagens auferidas por aqueles que violam os termos da legislação de regência (IN/SRF 225/02). 0 parecer chega a afirmar que: "grande parte das importações brasileiras é feita através de "tradings" para evitar o recolhimento de IPI por ocasião da venda no mercado interno". XXXI. Também é claro nos citados emails trocados entre os diretores da SHARP que a emissão de faturas diretamente da SHARP ELECTRONICS nos EUA para vendas ao Brasil era desaconselhada pelos seus advogados diante dos problemas com a SDB (a falida SHARP DO BRASIL) que continuavam a impactar seus negócios no Brasil. XXXII. Entre os documentos encontrados no local de busca SPC 29 também são dignos de nota os chamados "DEBIT MEMO" (anexo XIX, fls. 185/246) onde RANGER aparece faturando serviços de apoio a vendas, marketing, manutenção de show room e outras despesas de promoção de vendas para a SHARP ELECTRONICS. Chama a atenção que tais documentos sejam subscritos por Rubens Barcellos em nome da PELLHAM CORP, empresa sediada nos EUA, fato que leva a crer na existência de acertos financeiros entre os envolvidos diretamente no exterior e fora dos controles normais de câmbio. Tais "DEBIT MEMO" ainda dizem respeito a um desconto de 3% pelo cumprimento da quota de vendas, ou seja, a vinculação entre os envolvidos afetou os valores de transação. Os referidos "DEBIT MEMO" demonstram a estreita relação entre SHARP e o Grupo Principal e o fato de que os mesmos estavam na condição de real comprador e vendedor das operações questionadas respectivamente. XXXIII. Supostas "invoices" de fls. 89/104, anexo XXIII eram produzidas parcialmente no Pais. Como exemplo temos as de n° 0013, 046 e 047, em que os campos "quantidade" e "preço" estão em branco para que fossem preenchidos segundo a conveniência do Grupo Principal. XXXIV. Ainda temos, no CP 2, provas de que o grupo principal não media esforços para a falsificação de documentos, desta vez envolvendo a XOCECO da CHINA. No anexo VI, fls. 190/191, há um conjunto de cópias de emails trocados entre 18 de julho e 15 de agosto de 2006 entre Karina Paganelli (que usa o titulo de Supply Chain Manager da PRINCIPAL/PLENA) e Jeffrey Lee, bem como com outros funcionários que usam o email com a extensão SHARPD1GITAL. Tais emails tratam da compra e nacionalização de 249 aparelhos de televisão LCD de 27 a 32 polegadas exportados pela XOCECO da China. Em 15 de agosto de 2005, quando se encerram os preparativos da importação, a senhora Paganelli determina que as faturas sejam enviadas ao Brasil sem assinatura e sobre tal decisão é questionada por Jeffrey Lee que alega não compreender a razão disto. Juntos a tais emails estão os set's de faturas objeto da discussão, em nome das fachadas SUPPORT IMPORTAÇÃO e RIO LAGOS, sem assinaturas conforme determinou a gerente Paganelli caracterizada, assim, a ocultação do real adquirente e a falsidade ideológica. XXXV. Documento denominado "Processos conduzidos através da trading CLAC de São Paulo" onde a empresa PRINCIPAL/PLENA orienta os procedimentos internos para trazer cargas do Uruguai. Em tal documento consta em destaque a expressão "IMPORTADOR DE FATO E 0 ADQUIRENTE", por óbvio tal alerta foi feito em função da praxe de não se informar quem era o importador de fato e real adquirente por ocasião do des acho fls. 1018, anexo XXI). Fl. 16661DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 8 7 XXXVI. Prestações de contas do Grupo MDO, que inclui a MTRADING, encontradas em poder da empresa PLENA trazem inclusive dados sobre fechamento de câmbio, o que seria de interesse somente do real comprador (MTRADING) junto ao fornecedor no exterior e não de uma empresa que adquire bens de outra no mercado nacional (PLENA). Em alguns casos tais prestações de contas são seguidas da respectiva nota de saída da MTRADING onde consta o número da DI usada para internação, bem como das faturas forjadas em nome desta importadora de fachada (observese que algumas faturas chegam a mencionar o respectivo PO e o número do BL). Seguem junto as planilhas de custos e cópias das transferências bancárias do Grupo Principal para a importadora de fachada iniciar despacho ou fechar câmbio, conforme CP 12. XXXVII. Documentos intitulados "PROC. MGO" de números 67/05, 442, 571, 572 e 550, sendo que não foi possível ainda identificar a que DI se referem, entretanto, todos contêm faturas em nome de MTRADING de cargas vendidas por SHARP e na maioria deles temos também faturas de mesmo número e descrição de carga onde a transação se dá entre e SHARP e PELLHAN, ou seja, mais elementos a demonstrar a ocultação e a fabricação de faturas para tanto. Mas o elemento de prova mais importante que segue junta tais faturas forjadas é o documento interno da PLENA denominado "Listagem de Posições de Embarque", onde consta explicitamente que esta repassa recursos para que MTRADING proceda ao registro das respectivas DI's, ou seja, MTRADING não opera com recursos próprios e sim com recursos do cliente e real adquirente que é o GRUPO PRINCIPAL. XXXVIII. Email impressos, de janeiro, fevereiro e abril de 2005, onde o diretor do Grupo Principal (RANGER/PLENA e PRINCIPAL), senhor Rubens M. Barcellos, determina a utilização de disponíveis do Grupo para que efetuasse pagamento a SHARP, mas deixando claro que esses recursos devem ser repassados para a MTRAD1NG para que esta efetuasse o fechamento do câmbio. Os recursos utilizados não pertencem a quem se identifica junto a SRF como importador e adquirente. Junto aos emails com as instruções do senhor Barcellos temos cópias dos respectivos documentos de transferência bancária e para alguns há a previa solicitação de numerário da MTRADING para fechamento de câmbio. XXXIX. Controles de movimentação financeira entre MTRADING e PLENA com destaque para os documentos com o titulo ICMS TRADING onde consta o campo adiantamentos, ou seja, PLENA adiantava valores para que a trading efetuasse pagamentos de ICMS mais um elemento a demonstrar o vinculo como prestadora de serviços de MTRADING e não uma situação real de compra e venda de mercadorias CP 17. XL. Não obstante dez intimações da fiscalização, a contribuinte não apresentou as notas fiscais de 2004 ou sua identificação, as cópias dos livros Diário e Razão 2004, os documentos fiscais que teriam originado os respectivos lançamentos contábeis. Houve também negativa da apresentação dos livros contábeis de 2005 e demais documentos fiscais, tornandose impossível o rastreamento da origem dos recursos que transitaram pela empresa. XLI. Não se deve ignorar também que operações comerciais realizadas posteriormente tiveram como lastro estas operações cuja documentação não foi apresentada pela fiscalizada. XLII. Argumenta as folhas 114124 que foi simulada a incorporação dos valores pela Sea Venture e Revere. Não houve pagamento dos ágios ou ingresso de recursos financeiros nos bancos ou caixa das empresas. Isto significa que o patrimônio liquido Fl. 16662DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 9 8 da Plena e da Principal, nos itens Capital e Reserva de Lucros, não tem correspondência financeira no Ativo, através de Caixa/Bancos. XLIII. As fls folhas 131132, conclui a fiscalização pelo lançamento da multa de conversão da pena de perdimento, nos termos do artigo 23, inciso V e parágrafos 2° e 3° do DecretoLei n° 1455/1976 (redação dada pela Lei n° 10.637/2002) e artigo 105, inciso VI do DecretoLei n°37/1966. Intimada (fls. 09 e 13), ingressou a contribuinte As folhas 422423 com pedido de reabertura do prazo de impugnação tendo em vista que, a despeito de pedido prévio, não foi disponibilizada a empresa cópia integral do processo, mas tãosomente das primeiras 134 folhas. Seguem as alegações da empresa autuada/interessada/impugnante. Pedido deferido folha 426. Novamente intimada à folha 427 e 431, apresentou impugnação de folha 433502. Seguem os argumentos da empresa/contribuinte interessada/autuada/impugnante. 1. A fiscalização estabeleceu um marco divisório com parâmetro na data de 19/05/2006, data em que a impugnante foi habilitada no comércio exterior. Até esta data, entende a fiscalização que a infração foi de ocultação do real importador (art. 23, V, DL 1.455/76), e, após esta data, argüi a fiscalização a interposição fraudulenta de terceiros (art. 23, V. DL 1.455/76). 2. A impugnante não praticava importações por conta e ordem de terceiros. Até estar habilitada nos registros aduaneiros, utilizavase da estrutura da importação por encomenda, conforme ADI n° 7/2002, que determinava que uma importação somente poderia ser considerada corno "por conta e ordem" nas hipóteses em que a trading atuava como prestadora de serviço. Não havia adiantamento de valores por parte da impugnante, e sim pagamento por processos de importação passados, razão pela qual era às vezes devedora das tradings, sendo que a fiscalização registra â. fl. 58 (tópico "outras provas obtidas"), a existência de haveres da Mtrading contra a impugnante. Em relatório, a fiscalização afirma a necessidade de identificar a quais DIs se referem os numerários, providência lido adotada pelo Fisco. Folha 261 demonstra que os pagamentos se referem a processos antigos. 3. Argumenta que, se as importações prescindiam de recursos da impugnante, nada mais lógico que as mercadorias não fossem desembaraçadas enquanto esses recursos não tivessem sido transferidos. E, se os recursos tivessem sido adiantados, não poderia existir planilha de haveres. Assim, para as operações tidas por conta e ordem, a autuação é manifestamente improcedente. 4. Após a obtenção do Radar, a impugnante passou a importar diretamente (e não mais por encomenda), o que afasta a acusação de interposição fraudulenta, sendo que a fiscalização alega que a pena é devida pelo fato de a empresa se recusar a informar a origem dos recursos que deram suporte às suas operações. 5. Protesta contra a conclusão de que as operações de importação realizadas a partir do ano de 2006, nas quais a autuada figurou como importadora direta ou adquirente em importações por conta e ordem, que a fiscalização concluiu que "somente puderam ser realizadas com o lastro financeiro das operações fraudulentas (interposição) realizadas no nascedouro da sociedade, com a utilização de recursos cuja origem o contribuinte preferiu não revelar". 6. A fim de demonstrar a capacidade financeira, alega a impugnante que: a) as operações de comércio exterior foram realizadas com recursos financeiros obtidos em bancos nacionais Bradesco, Real, Rural, Cruzeiro do Sul e Safra); b) fornecedores Fl. 16663DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 10 9 internacionais concediam crédito à impugnante, tanto por questões de fomento comercial quanto em razão da relação comercial com a impugnante, sendo que tal linha de crédito foi concedida em 20 de julho de 2006, conforme contrato em anexo; c) diante dos benefícios comerciais que as operações com a marca Sharp poderiam trazer, as tradings muitas vezes concediam crédito à impugnante; d) as próprias atividades desenvolvidas geraram receita, e, conseqüentemente, capital necessário para realização das operações. 7. A não apresentação de tradução juramentada dos documentos acostados aos autos importa em cerceamento de defesa; 8. Por exigência da Sharp, a empresa Ranger, já consolidada no mercado, não participou das empresas Plena e Principal, sofrendo uma cisão parcial, vertendo parte de seu patrimônio à impugnante. 9. Não há ilegalidade no fato de as pessoas jurídicas Ranger, Plena e Principal serem dirigidas pelas mesmas pessoas físicas. Muitas das alegações da fiscalização dizem respeito à Principal, e não à impugnante, sendo que eventual irregularidade da Principal importa em erro de sujeição passiva. 10. Em momento algum, a impugnante afirmou que sua capacidade financeira advinha do ágio. Pelo contrário, a impugnante sempre informou que a contabilização do ágio não gerou recursos financeiros, ou que o ágio foi utilizado para realizar as importações. Em verdade, a impugnante expressamente demonstrou que sua capacidade financeira provinha de empréstimos bancários, financiamentos com fornecedores internacionais e das próprias operações mercantis. Ademais, o Fisco não demonstrou que a impugnante somente poderia realizar as operações de comércio exterior em razão da contabilização do ágio, o que é pressuposto necessário para caracterizar a presunção legal de interposição fraudulenta. 11. Até 20/02/2006, edição da Lei n° 11.281/2006, não havia qualquer regramento editado pela RFB quanto As operações por encomenda. Logo, as regras instituídas na IN SRF n° 634/2006, com base na Lei n° 11.281/2006, somente são aplicáveis a fatos posteriores. Portanto, não há como exigir, por exemplo, que a impugnante tivesse sido mencionada como encomendante nas DIs anteriores a 27/03/2006 (IN SRF n° 634/2006). 12. Solicita A folha 14 da impugnação, a aplicação do artigo 1 0, §3°, da Lei n° 11.281/2006 como regra interpretativa. 13. A pena de perdimento requer que a infração seja grave em sua substância, e não sob o aspecto meramente formal, sendo que houve no máximo a não indicação do nome da impugnante nas DIs, que sequer poderia ser exigido anteriormente à Lei n° 11.281/2006. Não havia sequer campo para indicação do encomendante das mercadorias. 14. 0 fato de as vendas não serem realizadas diretamente corn a Sharp Electronics Corporation (SEC) não importa em irregularidade uma vez que a forma como a mercadoria era encaminhada ao Brasil diz respeito exclusivamente ao fabricante no exterior e que a impugnante estaria cumprido o acordo de distribuição firmado. 15. Fato importante é a ausência de subfaturamento, fato reconhecido muitas vezes pelo Fisco. Não houve prejuízo ao Fisco brasileiro. Fl. 16664DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 11 10 16. Na medida em que a impugnante era urna das distribuidoras dos produtos Sharp no Brasil, não há qualquer ilegalidade na existência de negociações entre os diretores da Plena e a Sharp Latino América ou na prestação de serviço pela empresa Ranger. 17. Somente a ocultação de real importador é considerada ilegalidade. No ha que se falar em exportador ou "exportador fictício", mas sim no comprometimento da SEC em vender os produtos Sharp e fazêlos chegar, direta ou indiretamente, à impugnante. 18. Não há prova de fraude como conduta ilícita da contribuinte em cada ato inquinado de doloso, fraudulento ou simulado. 19. Não houve adiantamento de recursos para as tradings, mas somente pagamento antecipado pelas mercadorias já importadas (i.e. de importação/desembaraço já concluído). 20. Apesar da multa lançada de 81 milhões, o Fisco possui informação de solicitação de numerário referente ao montante de 12 milhões (vide fl. 135). Não se pode apenar com pena máxima de perdimento com base em levantamento parcial. 21. Este valor de R$ 12 milhões se refere a apenas alguns meses de 2005 e em quase sua totalidade se refere as operações corn a MTRADING. 22. É ilógica a alegação de "esquema de fraude" para obter um proveito de apenas 1,5% ou R$ 250.000,00 (correspondentes a 15% de IPI sobre a margem média de venda de 30% menos 9,65% de PIS e Cofins). 23. Não houve recolhimento de IPI por ausência de previsão legal. Quando a Lei n° 11.281/2006 entrou em vigor, a impugnante passou à condição de equiparada à industrial e passou a recolher automaticamente o tributo. 24. A fiscalização localizou notas fiscais de saída emitidas pela Mtrading contra a impugnante no valor de aproximadamente R$ 23.000.000,00, sendo que foi aplicada pena de perdimento superior a R$ 43.000,000,00 (fl. 178). A diferença de R$ 20.000.000,00 se refere a pedido de outras empresas já que a impugnante não era distribuidora exclusiva dos produtos Sharp. 25. As tradings utilizadas são empresas de renome nacional, estando muitas constituídas há mais de dez anos. Somente urna das tradings está suspensa no CNN e mesmo assim em data posterior aos fatos deste processo. 26. 0 Fisco não comprova fraude na sua alegação de que possui documentos com a fachada SUPPORT que vem a ser parte do esquema de fraude operado através da RIO LAGOS TRADING. Na verdade, se analisado apenas operações corn a MTRADING, não há menção da CARDIN, PORTES, RIO LAGOS, SAB COMPANY, CLAC OU DSBORGES, não obstante todas estas tradings terem sido arroladas como interpostas pessoas no relatório da fiscalização. 27. Indaga como a fiscalização afirma que as faturas e os CTRCs são falsos se sequer conseguiu localizar tais documentos. Não há sequer provas que a impugnante seja a destinatária de todos os bens importados pelas tradings. A impugnante está sendo punida por bens que sequer adquiriu. 28. Não há prova de adiantamento de recursos para as tradings, sendo que, em momento algum, questionase a capacidade financeira das tradings, sendo que as mesmas sequer foram fiscalizadas. A fiscalização não investigou se as tradings eram Fl. 16665DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 12 11 financiadas pela impugnante, sendo que a fiscalização não fez o mesmo por saber que tal investigação revelaria que as tradings utilizadas são de renome nacional. 29. Argui que o ponto fundamental para anular integralmente o auto de infração é o fato de os pedidos de solicitação de numerário se referirem a operações passadas (importações concluídas). Em nenhum dos documentos anexados pela fiscalização, há prova de que a MERCOTEX não tinha capacidade financeira para regularizar as importações. 30. Apresenta incongruências no levantamento dos contratos de câmbio à folha 463. Por exemplo, Mega que o anexo IV possui apenas cinco contratos de fechamento de câmbio (todos referentes a MTRAD1NG). No tocante às transferências bancárias que a fiscalização alega serem para tais contratos, observase que o de fl. 7 não possui indicação de valor, o de fl. 12 não possui qualquer indicação e o de fl. 13 indica cinco valores, sendo que na DI supostamente referente a tal câmbio ha apenas três valores. 31. Nos documentos anexados no Anexo I, especificamente nas solicitações de remessa de valores, não há menção da DI, tratandose de pagamento de importação já concluída. Logo, não é verdadeira a afirmação que o grupo Principal é a fonte dos recursos da Mercotex. 32. 0 mesmo se afirma em relação Mtrading. Documento de folha 149 do Anexo III se trata de um controle da Mtrading quanto a títulos vencidos de dezembro de 2005. Documento de folha 261 do Anexo I possui o rótulo de numerário para fechamento de câmbio e traz a ressalva "processo antigo Carga já está no estoque". 33. Protesta contra a investigação por amostragem nos contratos de cambio tendo em vista a gravidade da acusação e o valor do lançamento. 34. Afirma que os documentos fiscais foram apreendidos pela Policia Federal. 35. Lista como origem de recursos empréstimos bancários e linha de crédito com o fornecedor estrangeiro no valor de US$ 7,000,000.00, conforme folha 471. Cita também os lucros das operações mercantis (vendas). 36. As folhas 463464, alega que a fiscalização anexa somente cinco contratos de câmbio da Mtrading e levanta fragilidades em relação a estes contratos. Além disso, a fiscalização analisou somente duas operações de câmbio e que, apesar de haver oito tradings, a fiscalização fez prova apenas em relação a Mtrading. 37. Alega que parte da documentação não foi apresentada por conta de apreensão da Policia Federal. Os documentos estão atualmente com a Justiça Federal, sendo que não foi apreciado pedido de restituição dos documentos. 38. As folhas 469 em diante, apresenta elementos acerca do empréstimo junto a bancos nacionais (R$ 35.000.000,00) e a fornecedor estrangeiro (US$ 7.000.000,00). 39. Argui que também obteve lucro com suas operações mercantis, sendo lançado inclusive tributos internos em virtude deste lucro. Tal lucro foi superior a R$ 47.000.000,00 em 2006 e a 17.000.000.00 em 2007. 40. Sobre a formação do ágio, alega que tal operação é licita, que não há relação da contabilização do ágio com as atividades de comércio exterior praticadas e que o Fisco não provou que as operações de comércio exterior somente poderiam ser realizadas em razão da contabilização do ágio. Fl. 16666DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 13 12 41. Os documentos encontrados com a empresa (faturas e registros de pagamento) não indicam qualquer irregularidade, pois apenas demonstram o controle paralelo da encomendante em relação às mercadorias importadas, o que é totalmente licito e compreensível. 42. A Sra. Karina Paganelli não é e nunca foi funcionária da PLENA ou da PRINCIPAL, e sim assessora da SHARP e justamente por isso efetuava ajustes em relação aos documentos de responsabilidade da fornecedora estrangeira, conforme folha 148 do Anexo 26. 43. Alega que a fiscalização não indicou em qual das 8000 folhas do processo estão as DIs que justificam a autuação, o que impossibilita a defesa, notadamente em relação às planilhas de fls. 135/195. 44. Defende que nas DIs do processo, os valores aduaneiros são muito inferiores aos registrados na autuação fiscal. 45. A aplicação da pena de perdimento representa enriquecimento ilícito da União haja vista os tributos pagos pela trading ou pela própria impugnante após a sua equiparação a estabelecimento industrial. 46. Alega o caráter confiscatório da multa e o principio da proporcionalidade e razoabilidade. 47. As empresas Plena e Principal são empresas distintas e clientes distintos, além de produtos diferenciados. 0 auto de infração contempla muitos negócios que poderia ter sido praticados pela Principal ou outras empresas, jamais a impugnante. No Anexo II, fls. 2/21, foram anexados documentos de titularidade da Principal, sendo citada, inclusive, a mercadoria TV de Plasma, que não poderia fazer parte do portfólio da impugnante. Em outras partes da autuação são citados documentos da Principal. 48. As tradings adquiriram a propriedade das mercadorias e por elas pagaram ao exportador sem qualquer adiantamento por parte da impugnante. Algumas vezes a impugnante efetuou pagamentos antecipados por processo de importação passados, prática comum do comércio exterior, e não desconstituídos nos autos. 49. Sem a vinculação por parte do Fisco dos pagamentos em relação a cada DI, é mera especulação a conclusão de que os pagamentos constituem em antecipação. 50. A Lei n° 11.281/2006 não define como infração por importação por conta e ordem de terceiros a importação para revenda a encomendante prédeterminado. Solicita a procedência da impugnação. Protesta por juntada posterior de documentos. À folha 980, encaminhouse o processo para julgamento e informouse a tempestividade da impugnação. Em diligência de folha 981, solicitavase: 1) resposta ao questionamento se houve revaloração aduaneira das mercadorias ou se o valor apurado corresponde ao constante nas DIs e Notas Fiscais, 2) a indicação das folhas onde se encontram os documentos citados nas tabelas de folhas 135/195, 3) a elaboração de tabela organizada por trading que informe as DIs objeto da autuação fiscal, a data de registro, o valor registrado em DI, a folha em que se encontram a DI, o valor apurado no auto de infração com a indicação da folha que comprova tal valor. Fl. 16667DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 14 13 Em resposta à diligência, informa a fiscalização que, com relação ao item 1, a) o valor da autuação se baseia nos valores constantes nas DIs, b) as tabelas organizadas por tradings importadoras, c) a informação de erro em duplicidade apenas para as DIs 05/13358328 e 05/05475582, com a correção às folhas 982/993. Com relação ao item 2, informa que a) as planilhas refletem informações prestadas nas Dls, tendo anexado na contracapa deste processo o CD com os extratos das DIs registradas pela própria PLENA e que foram objeto de autuação por não comprovação de origem. Com relação ao item 3, informa que as planilhas de fls. 145/195 já se encontram, desde a lavratura do auto de infração, organizadas por Trading e demais informações. As folhas 10261034, apresenta a empresa autuada manifestação sobre a diligência. 51. As DIs juntadas corroboram a necessidade de anulação do trabalho fiscal uma vez que as DIs demonstram que foram realizadas importações por tradings, referentes a produtos produzidos pela Sharp. As DIs não provam que a PLENA foi destinatária dos produtos ou que a PLENA adiantou qualquer recurso para as tradings. Não há prova de que a PLENA estava supostamente oculta nas importações. 52. Uma vez que não há exclusividade entre a PLENA e a SHARP, a PLENA não pode ser autuada por toda e qualquer importação que conste a SHARP como exportadora e/ou fabricante. No contrato de folhas 9/30 do Anexo XIX (CP10), constatase que o contrato não era de exclusividade entre as empresas (clausula 2 (a) e (c) de fls. 11). 53. 0 conjunto probatório mínimo necessário para provar vinculação entre a PLENA e as tradings seria: Declarações de importação, contratos de importação entre a PLENA e as tradings, notas fiscais de venda dos produtos importados e comprovantes bancários dos adiantamentos de recursos com vinculação entre os pagamentos x as DIs x notas fiscais de saída. Em vez de tais documentos, a fiscalização apresentou apenas as DIs. 54. Às folha 1031, alega que o valor da autuação fiscal corresponde ao dobro do constante em documentos com relação às tradings MTRADING e MERCOTEX, sendo que para as demais Tradings nada foi dito ou juntado aos autos, não obstante requerimento da DRJ. 55. Lista à folha 1031 quadro com o intuito de demonstrar o descabimento da autuação fiscal. 56. Em nenhum dos documentos anexados não há prova de que as tradings não, tinham capacidade financeira para realizar as importações, sendo que não houve adiantamento de recursos, e sim pagamento por mercadorias já importadas. 57. Diferentemente do afirmado pela fiscalização, os documentos de folhas 113/260 do Anexo IX não demonstram de forma discriminada as operações realizadas pela MTRADING com os respectivos valores. O documento juntado pela fiscalização é apenas um controle gerencial da MTRADING, não sendo documentos fiscal, além de não conter comprovação dos pagamentos. Reitera o pedido de procedência da impugnação. A 2ª Turma da DRJ/FNS, em sessão realizada em 03.09.2010, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a impugnação, cancelando o crédito tributário no valor de R$ 47.082,86 referente à importação da Trading Portes Importação e Exportação Ltda., cuja ementa do acórdão combatido foi sintetizado nos seguintes termos: Fl. 16668DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 15 14 Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 28/10/2004 a 25/06/2008 QUESTIONAMENTO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO. A ilegalidade e a inconstitucionalidade da legislação tributária não são oponíveis na esfera administrativa. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 28/10/2004 a 25/06/2008 RESPONSABILIDADE ADUANEIRA POR INFRAÇÕES Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 28/10/2004 a 25/06/2008 PRESUNÇÃO DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. OCULTAÇÃO DE REAL COMPRADOR E/OU VENDEDOR É punível com a pena de perdimento a ocultação de real comprador e/ou vendedor, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. FALSIFICAÇÃO OU ADULTERAÇÃO DE DOCUMENTOS É punível com a conversão da pena de perdimento em multa igual ao valor da mercadoria nos casos de falsificação ou adulteração dos documentos da operação de exportação. Não se conformando com a decisão de piso, a Recorrente, intimada em 10.11.2010 (fls. 2.225), interpôs Recurso Voluntário em 06.12.2010 (fls. 2.2292.314), reproduzindo, em síntese, os mesmos argumentos tecidos em sede de impugnação. Remetidos o processo à este Tribunal, a antiga composição desta Turma decidiu por converter o julgamento em diligência para que a autoridade fiscal providenciasse cópia dos conjuntos probatórios relacionados às fls. 05 e 06, sendo que os motivos ensejadores para realização da referida diligência foram assim expostos (fls.2.4182.432): A acusação fiscal tem por cerne o eventual acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários da operação, o que caracterizaria a interposição fraudulenta por parte da Recorrente face a simulação da referida operação. Isto porque, a operação praticada entre a contribuinte e responsável solidária se revestiu da forma de uma importação em nome próprio, seguida da venda de mercadorias, quando, na verdade, observandose o conjunto de normas que disciplinam as operações de importação por conta e ordem de terceiros já explicitadas, deveria ter se Fl. 16669DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 16 15 formalizado como tal, o que não ocorrera no presente caso, restando caracterizado a presunção legal do artigo 27, da Lei nº 10.637/02. Verifico às fls. 05 que são relacionados 42 Anexos como sendo “conjunto de provas”, a partir das quais a fiscalização chegou às conclusões do lançamento de ofício. Verifico que no Termo de Verificação Fiscal, em inúmeras oportunidades, fazse referência aos “CP´s”, onde há inclusive referência escrita à mão por quem analisou em princípio o processo, às folhas específicas dos mencionados anexos. A exemplo, fls. 39 a 60. Esses documentos constituem o conjunto probatório a partir do qual as autoridades aduaneiras concluíram pela fraude ora analisada. Por isso, são igualmente fundamentais para que esse Julgador possa avaliar a fraude fiscal da qual a contribuinte é acusada. Isso posto, voto por converter o presente recurso em Diligência, para que a D. fiscalização digitalize e apense ao presente processo os Conjuntos Probatórios relacionados às fls. 05 e 06. Os documentos solicitados pela antiga composição foram juntados aos autos pela fiscalização (vide folhas de nº 2.43316.603). Instada a se manifestar, a Recorrente protocolou petição em 25.07.2016 (fls. 16.64816.654), requerendo o provimento integral de seu Recurso com base nas seguintes alegações: (i) praticamente todos os documentos possuem o carimbo "cópia extraída dos Autos do IPL nº 009/2006 DPFIPGAPR "Operação Dilúvio"", sendo que os documentos que não contém os referidos carimbos consistem em cópias de contratos sociais, contas de aluguel, declarações de importação, contratos bancários, documentos estes não utilizados como fundamento da autuação e que isoladamente não justificam a aplicação da pena de perdimento; (ii) todas as provas que justificam as conclusões do AIIM advém do processo administrativo 10980.005074/200784, fruto do "Relatório de Triagem de Documentos Apreendidos no Local de Busca SPC 29", preparado pela DIANA da 9ª Região Federal e encaminhado a IRF/RJO a título de representação fiscal; (iii) os documentos que compõem o "Relatório de Triagem de Documentos apreendidos no Local de Busca SPC 29", da DIANA da 9ª Região Fiscal foram obtidos em 16 de agosto de 2006, por meio de diverso Autos de Busca e Apreensão executados pela Polícia Federal com base na decisão proferida no processo 2006.70.00.0024370; (iv) a expedição de mandado de busca e apreensão ocorreu com base nas escutas telefônicas feitas após mais de um ano de gravações telefônicas, sendo que somente em 16 de agosto de 2006, mais de 400 dias após a primeira escuta ser autorizada (que ocorrera em 25 de maio de 2005) é que o MM Juízo Criminal autorizou a busca e apreensão de documentos, sendo que esta fato é relevante para este processo, visto que o STJ, nos autos do Habeas Corpus 142.045/P`R, analisando a questão da legalidade da quebra de sigilo relativa à escuta telefônica deferida na "Operação Dilúvio", decidiu que as provas obtidas a partir de 24.07.2005 são ilegais, posto que as escutas telefônicas feitas após esta data são ilícitas; Fl. 16670DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 17 16 (v) com base na decisão proferida no HC 142.045/PR (transitada em julgado em 09/01/2012), o MM Juízo da Vara Criminal da Justiça Federal do Paraná (processo nº 2006.70.00.00224370, em 08/11/2011) passou a analisar quais provas deveriam ser consideradas válidas, decidindo que: "Assim, permanecem hígidas as provas colhidas durante o primeiro período da interceptação telefônica autorizada, bem com nas três prorrogações que lhe foram subsequentes. Os demais elementos de prova obtidos a partir dos dados colhidos nessa fase de investigação também permanecem hígidos, pois derivam de prova obtida licitamente. De outra parte, segundo os termos do julgado, as interceptações telefônicas realizadas a partir da quarta prorrogação autorizada encontramse maculadas pelo vício insanável da ilicitude. São, portanto, imprestáveis para fins de utilização de prova no processo penal. Correlatamente, os demais elementos de prova obtidos a partir dos dados colhidos nessa fase de investigação também encontramse eivado de ilicitude, pela aplicação da "teoria dos frutos da árvore envenada", agora expressamente adotado pelo CPP (art. 157, §1º, do CPP); e (vi) no caso em tela, todos os documentos que suportam o lançamento foram obtidos a partir das provas ilícitas, já que somente foram obtidos em razão das escutas telefônicas. E frisese que a apreensão dos documentos ocorreu somente após mais de 340 dias do último dia tido como "oriundo de escuta legítima". É o relatório. Voto Conselheiro Walker Araujo Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Conforme exposto anteriormente, a Recorrente alega que todos os documentos que deram suporte ao lançamento fiscal foram declarados ilegais pelo STJ, nos autos do Habeas Corpus 142.045/PR e, que nos autos do processo 2006.70.00.00224370, o MM. Juiz da lide aplicou a decisão proferida pela Corte Superior e decidiu quais provas seriam consideradas válidas. Cita parte das decisões proferidas em ambos os processos. Neste ponto, resta claro que as decisões proferidas nos processos judiciais possuem relevância no resultado do processo aqui em análise, considerando que o lançamento fiscal está totalmente fundamentado em provas, no caso em notas fiscais, declarações de importação e transferência de numerário, sendo que a nulidade destas provas e consequentemente a impossibilidade de utilizálas é absolutamente imprescindível para o caso sob análise. Todavia, não constam nos autos elementos suficientes, tais como: inicial, decisões, sentença, acórdão e transito em julgado dos referidos processos; para se aferir a veracidade das alegações apresentadas pela Recorrente, bem como para verificar corretamente a aplicabilidade das referidas decisões ao presente processo administrativo. Deste modo, entendo ser imprescindível para o deslinde da questão a juntada de cópias das principais peças dos processos anteriormente citados, para se perquirir sobre o efeito das decisões judiciais que declaram ilícitas as provas colhidas na denominada "Operação Dilúvio". Fl. 16671DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 18 17 Por outro lado, tratandose de prova colhida na esfera criminal, é preciso ter em mente o que determina o artigo 157, caput e §§ do Código de Processo Penal: Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. §1º São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras. §2º Considerase fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova. Como a Recorrente alega que todas as provas que instruíram o lançamento fiscal foram declaradas inválidas pelo judiciário, entendo prudente que seja conferida oportunidade à autoridade fiscal para que analisem as provas colacionadas aos autos e segreguem os elementos que na sua opinião não possuam nexo de causalidade com as interceptações telefônicas ou, ainda que possuam, poderiam ser enquadradas como fonte independente daquela declarada nula pela Corte Superior, ou que poderiam ter sido obtidas nos termos do parágrafo 2, do artigo 157, do Código de Processo Civil. Por tais razões, compartilho o entendimento adotado pela Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção de Julgamento do CARF, quando do julgamento do processo administrativo nº 12466.002006/200970 que, naquela oportunidade, decidiu converter o julgamento em diligência, por entender imprescindível identificarse, dentre as provas coletadas pela fiscalização, quais foram efetivamente afetadas pela decisão do STJ (HC 142.045/PR), separando daquelas que foram decorrentes da interceptação quando ela ainda era válida (os primeiros sessenta dias), além daquelas decorrentes de procedimentos fiscais realizados pela própria Secretaria da Receita Federal do Brasil, dentro de sua competência legal. Assim, voto por converter o julgamento em diligência para que: a) o contribuinte: traga aos autos cópia das principais peças (inicial, decisões, sentença, acórdão e transito em julgado) dos processos judiciais HC 142.045/PR e 2006.70.00.00224370; b) a fiscalização: b.1) Identificação, dentre as provas utilizadas para o lançamento, daquelas que efetivamente foram consideradas ilícitas pelo STJ, segregandoas das outras que não foram contaminadas; b.2) Identificação das provas que derivaram do primeiro período de sessenta dias da interceptação telefônica; b.3) Identificação da provas produzidas por fonte independente (ex. apresentadas durante a ação fiscal); b.4) Identificação das provas que a Receita Federal poderia ter acesso independentemente de autorização judicial. Fl. 16672DF CARF MF Processo nº 10074.000579/200947 Resolução nº 3302000.547 S3C3T2 Fl. 19 18 Ao final, deve ser elaborado relatório circunstanciado e conclusivo a respeito das provas nestes autos e demais verificações efetuadas. Após, intimese a Recorrente para, querendo, apresentar sua manifestação, nos termos do artigo 35, do Decreto nº 7.574/2011. É como voto. (assinado digitalmente) Conselheiro Walker Araujo Relator Fl. 16673DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.720212/2013-25
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL.
No bojo da incorporação de ações ocorre alienação da totalidade de ações ou quotas da pessoa jurídica incorporada na subscrição do aumento de capital da pessoa jurídica incorporadora, não havendo que se falar em ausência de manifestação de vontade. Não é caso de sub-rogação real e nem de permuta. A diferença positiva entre a participação que passa a ser detida na incorporadora e a participação antes detida na incorporada constitui ganho de capital tributável.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano-calendário correspondente, não havendo falar em impossibilidade de imposição da multa após o encerramento do ano-calendário.
No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2009
LANÇAMENTOS REFLEXOS OU DECORRENTES.
Pela íntima relação de causa e efeito, aplica-se o decidido ao lançamento principal ou matriz de IRPJ também ao lançamento reflexo ou decorrente de CSLL.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 9101-002.735
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento (i) por maioria de votos, quanto ao ganho de capital na operação de incorporação de ações, vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; e (ii) por voto de qualidade, quanto à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os Conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra. Encerrado o prazo regimental, o Conselheiro Luís Flávio Neto não apresentou a declaração de voto.
Julgamento iniciado na reunião de 03/2017 e concluído em 04/04/2017.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Ausente, justificadamente, o Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão.
Nome do relator: ADRIANA GOMES REGO
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GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. No bojo da incorporação de ações ocorre alienação da totalidade de ações ou quotas da pessoa jurídica incorporada na subscrição do aumento de capital da pessoa jurídica incorporadora, não havendo que se falar em ausência de manifestação de vontade. Não é caso de subrogação real e nem de permuta. A diferença positiva entre a participação que passa a ser detida na incorporadora e a participação antes detida na incorporada constitui ganho de capital tributável. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano calendário correspondente, não havendo falar em impossibilidade de imposição da multa após o encerramento do anocalendário. No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009 LANÇAMENTOS REFLEXOS OU DECORRENTES. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 02 12 /2 01 3- 25 Fl. 1342DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.342 2 Pela íntima relação de causa e efeito, aplicase o decidido ao lançamento principal ou matriz de IRPJ também ao lançamento reflexo ou decorrente de CSLL. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento (i) por maioria de votos, quanto ao ganho de capital na operação de incorporação de ações, vencidos os Conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; e (ii) por voto de qualidade, quanto à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os Conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra. Encerrado o prazo regimental, o Conselheiro Luís Flávio Neto não apresentou a declaração de voto. Julgamento iniciado na reunião de 03/2017 e concluído em 04/04/2017. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Ausente, justificadamente, o Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. Fl. 1343DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.343 3 Relatório FAZENDA NACIONAL e OLD PARTICIPAÇÕES LTDA recorrem a este Colegiado, por meio dos Recursos Especiais de efls. 1.065/1.089 e 1.141/1.291, respectivamente, contra o acórdão nº 1402001.815, de 23 de setembro de 2014 (efls. 1.014/1.063), que deu provimento parcial ao recurso para (i) reconhecer o direito ao cômputo dos lucros capitalizados no custo de aquisição, para efeito de apuração do ganho de capital (por unanimidade), e (ii) cancelar a exigência de multa isolada (por maioria). Transcrevese a ementa do acórdão recorrido: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2010 OPERAÇÃO DE INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. SUBSCRIÇÃO DE AÇÕES POR VALOR SUPERIOR AO VALOR CONTÁBIL. ALIENAÇÃO EM SENTI AMPLO. GANHO DE CAPITAL. A incorporação de ações constitui uma forma de alienação em sentido amplo. A subscrição de ações pelo valor de mercado e superior ao consignado na escrituração contábil, ainda que no bojo da figura da incorporação de ações, caracteriza ganho de capital, devendo incidir a tributação correspondente. GANHO DE CAPITAL. VERDADE MATERIAL. COMPROVAÇÃO DO ERRO DE FATO. REDUÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. POSSIBILIDADE. É de se admitir o erro de fato como causa de revisão do lançamento, eis que, se este há de ser feito de acordo com o tipo abstrato da norma, tem de conformarse à realidade fática. Assim, restando comprovada, através da apresentação de documentação hábil e idônea, a ocorrência de base tributável menor para apuração do ganho de capital, cabível a sua redução. MULTAS ISOLADAS. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS. IRPJ. CSLL. VERIFICAÇÃO APÓS O ENCERRAMENTO DO EXERCÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. O artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, preceitua que a multa de ofício deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. O Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido efetivamente devido pelo contribuinte surge com o lucro apurado em 31 Fl. 1344DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.344 4 de dezembro de cada anocalendário. É improcedente a aplicação de penalidade pelo não recolhimento de estimativa quando a fiscalização apura, após o encerramento do exercício, valor de estimativas superior ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou Contribuição Social sobre o Lucro Líquido apurado em sua escrita fiscal ao final do exercício. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. Tratandose de tributação reflexa, o decidido com relação ao principal (IRPJ) constitui prejulgado às exigências fiscais decorrentes, no mesmo grau de jurisdição administrativa, em razão de terem suporte fático em comum. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Ambos os recursos foram admitidos por meio, respectivamente, do Despacho de efls. 1.092/1.098 e do Despacho de efls. 1.295/1.300. Recurso da Fazenda Nacional: A Fazenda aponta divergência jurisprudencial em relação aos acórdãos a seguir, cujas ementas estão assim redigidas na parte de interesse: Acórdão nº1302001.080: MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. O legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei 9.430/96, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada e que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do anocalendário. Acórdão nº 180200.205: MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS – CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO. Não há entre as estimativas e o tributo devido no final do ano uma relação de meio e fim, ou de parte e todo (porque a estimativa é devida mesmo que não haja tributo devido). Por isso, a multa pela falta de estimativas não se confunde com a Fl. 1345DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.345 5 multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Além disso, não há no Direito Tributário algo semelhante ao Princípio da Consunção (Absorção) do Direito Penal, o que também afasta os argumentos sobre a concomitância de multas. As alegações de mérito da Fazenda, são, em síntese, as seguintes: a) que não há óbice a que sejam aplicadas ao contribuinte faltante, diante de duas infrações tributárias, duas penalidades distintas, uma vez que o que a proibição do bis in idem pretende evitar é a dupla penalização por um mesmo ato ilícito; b) que as infrações apenadas pela "multa de ofício" e pela "multa isolada" são bastante diversas. A multa de ofício decorreu do não pagamento de tributo pelo contribuinte, ao passo que a multa isolada "será devida caso exista tributo a pagar por ocasião do Ajuste Anual"; c) que "a multa isolada será devida ainda que, ao final do período, tenha sido apurado prejuízo fiscal, já que a infração da qual resulta essa multa consiste, simplesmente, no descumprimento do regime de recolhimento mensal por estimativa, não possuindo qualquer relação com o pagamento em si do imposto"; d) que "em suma, as multas de ofício e isolada não decorrem da mesma infração", tratandose de "multas inteiramente diversas, previstas em lei, e não configuram bis in idem"; e) que a multa de ofício e a multa isolada possuem bases de cálculos distintas. A primeira "incide sobre o tributo devido pela parte e que não foi recolhido no momento oportuno", ao passo que a segunda "deve ser calculada sobre as antecipações que não foram pagas pela empresa no decorrer do ano", sendo que "nem sempre o conjunto dessas antecipações equivalerá ao tributo cobrado"; f) que "considerando que o limite máximo da multa isolada, após o encerramento do anocalendário, é mesmo o tributo anual devido e como a empresa não efetuou qualquer recolhimento da CSLL, excepcionalmente, a base de cálculo das penalidades será a mesma", observando que "tal fato não configura ilegalidade, pois, como visto acima, as multas são aplicadas para punir infrações distintas"; g) que "a partir da Lei 9.430/96, o contribuinte somente estará dispensado de recolher os tributos devidos, apurados pelo sistema de estimativa, quando transcrever no Livro Diário os balancetes de suspensão ou redução", sendo que "quando deixar de recolher os tributos devidos, sem justificar o não recolhimento mediante a transcrição no Livro Diário dos balancetes de suspensão ou redução, estará sujeito ao pagamento da multa prevista no art. 44, §1º, inciso IV da Lei n.º 9.430/96". Ao longo de seu recurso a Fazenda Nacional apresenta julgados do CARF em favor de seus argumentos. Ao final, após observar que "o fato gerador do presente feito é posterior ao advento da MP nº 351/2007 (convertida na Lei nº 11.488/2007)", pede a Fazenda que o presente recurso seja provido, "mantendose a multa isolada aplicada pela falta de pagamento da estimativa mensal de IRPJ e da CSLL". Fl. 1346DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.346 6 A Contribuinte apresentou, tempestivamente, contrarrazões (efls. 1.110/1.138), aduzindo, em essência, o que segue: a) que o valor pago a título de estimativa é antecipação e não goza de natureza jurídica de tributo, sendo que, caso ao final do anocalendário não se verifique lucro tributável, sequer existirá tributo a ser recolhido; b) que o bem jurídico tutelado pelas multas de ofício e isolada "é exatamente o mesmo"; c) que "caso se admitisse a aplicação de penalidade em razão da falta de recolhimentos mensais por antecipação, poderia se chegar ao absurdo de tributar valores que, ao final do anocalendário, se verifiquem que sequer eram devidos"; d) que como no presente processo o auto de infração foi lavrado após o encerramento do anocalendário, já não havia mais base para lançamento da multa"; e) que o entendimento que a Fazenda defende "encontrase há muito superado no âmbito do E. CARF", assinalando que o próprio paradigma indicado pela Fazenda foi reformado pela 1ª Turma da CSRF, anexando o acórdão nº 9101001.187. Cita também outro julgado da CSRF; f) que, ao contrário do que faz crer a Fazenda, "ambas as multas referemse à mesma conduta, de modo que resta configurado o bis in idem na presente autuação". Assinala que a multa isolada "tem as mesmas causas de lançamento que a multa de ofício" e que as duas multas "relação de meio e fim, isto é, uma conduta é mero ato preparatório para a consumação da outra". Traz a baila o Princípio da Consunção; g) que a conduta mais lesiva é a de reduzir indevidamente o tributo devido ao fim do anocalendário, sendo de menor relevância a conduta de deixar de antecipar o fluxo de caixa do governo; h) que a impossibilidade de concomitância das multas permanece mesmo com a nova redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, conferida pela Lei nº 11.488/2007. Faz cotejo entre a antiga e a nova redação desse dispositivo; i) que não obstante a Súmula CARF nº 105 tenha se destinado a fatos geradores ocorridos até 2006, "seu racional é o mesmo que informa os Fatos Geradores contemporâneos", citando julgado da CSRF em que o Relator deixou expresso que os fundamentos para afastar a aplicação da multa isolada se aplicam mesmo após as alterações citadas no item anterior. Cita também julgado da 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção do CARF. Recurso da Contribuinte: A Contribuinte aponta divergência jurisprudencial em relação a duas matérias (incorporação de ações e juros de mora sobre multa), indicando como paradigmas os acórdãos cujas ementas estão assim redigidas na parte de interesse: Acórdão nº 9202003.579 Ganho de Capital na Operação de Incorporação de Ações: Fl. 1347DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.347 7 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2008 IRPF OPERAÇÃO DE INCORPORAÇÃO DE AÇÕES INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL. A figura da incorporação de ações, prevista no artigo 252 da Lei n° 6.404/76, difere da incorporação de sociedades e da subscrição de capital em bens. Com a incorporação de ações, ocorre a transmissão da totalidade das ações (e não do patrimônio) e a incorporada passa a ser subsidiária integral da incorporadora, sem ser extinta, ou seja, permanecendo com direitos e obrigações. Neste caso, se dá a substituição no patrimônio do sócio, por idêntico valor, das ações da empresa incorporada pelas ações da empresa incorporadora, sem sua participação, pois quem delibera são as pessoas jurídicas envolvidas na operação. Os sócios, pessoas físicas, independentemente de terem ou não aprovado a operação na assembléia de acionistas que a aprovou, devem, apenas, promover tal alteração em suas declarações de ajuste anual. Ademais, nos termos do artigo 38, § único, do RIR/99, a tributação do imposto sobre a renda para as pessoas físicas está sujeita ao regime de caixa, sendo que, no caso, o contribuinte não recebeu nenhum numerário em razão da operação autuada. Não se aplicam à incorporação de ações o artigo 3°, § 3°, da Lei n° 7.713/88, nem tampouco o artigo 23 da Lei n° 9.249/95. Inexistência de fundamento legal que autorize a exigência de imposto de renda pessoa física por ganho de capital na incorporação de ações em apreço. Acórdão nº 910100.722 Incidência de Juros de Mora sobre a Multa de Ofício: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada. Acórdão nº 0203.133 Incidência de Juros de Mora sobre a Multa de Ofício: ATUALIZAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. INAPLICABILIDADE. FATOS GERADORES A PARTIR DE 1°/01/97. Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa de oficio aplicada. As alegações de mérito da Contribuinte, são, em síntese, as seguintes: Fl. 1348DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.348 8 a) a Recorrente, após demonstrar o dissídio jurisprudencial, principia a exposição de suas razões sintetizando a doutrina do Prof. Ricardo Mariz de Oliveira no livro "Incorporação de Ações no Direito Tributário" (item IV do recurso), assinalando que ali se conclui "pela intributabilidade da operação de incorporação de ações", uma vez que, por sua própria natureza jurídica, a operação de incorporação de ações "não tem o condão de gerar ganho de capital aos envolvidos"; b) no item V do recurso a Recorrente trata dos "aspectos societários da incorporação de ações". Referindo que esse instituto foi criado pela Lei das S.A. com o intuito de viabilizar a constituição de subsidiária integral (companhia cuja totalidade das ações é detida por outra companhia), a Recorrente descreve os passos da operação estabelecidos art. 252 da Lei das S.A., asseverando que: c) na seqüência faz distinção entre os institutos da incorporação de ações e da subscrição de capital com integralização em bens, referindo que: (...) d) faz também distinção entre incorporação de ações e constituição de subsidiária integral com aquisição de ações da futura subsidiária mediante a entrega de ações da futura controladora, referindo que a própria Lei das S.A. faz a diferenciação no § 2º do art. 251, e assinalando que o vocábulo "ou" que consta no dispositivo em questão evidencia o que segue: Fl. 1349DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.349 9 e) aduz que, sendo distintos os institutos, deve "ser respeitada esta separação à luz do primado da segurança jurídica e do art. 110 do CTN que proíbe a lei tributária de alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado"; f) no item VI do recurso a Recorrente argumenta pela não caracterização da incorporação de ações como alienação em razão da ausência do elemento volitivo por parte dos acionistas, concluindo que, não se inserindo no gênero alienação, resta impedida a exigência de IRPJ e CSLL sobre eventual ganho de capital decorrente de alienação. Ressume a recorrente sua argumentação como segue: g) no item VII do recurso a Recorrente defende a caracterização da incorporação de ações como hipótese de subrogação, descaracterizada a alienação. Defende que, sem o elemento volitivo, a "incorporação de ações resultou tão somente na substituição de ações da HFF, que anteriormente compunham o patrimônio da Recorrente, por ações da BRF", fenômeno que corresponde à hipótese de subrogação do Direito Civil ("substituição de um bem por outro em virtude de expressa disposição legal, com a manutenção da relação jurídica inicialmente estabelecida"). E, ocorrendo mera subrogação entre ações, resta afastada a possibilidade de exigência de IRPJ e CSLL, "mormente em razão da preservação dos custos históricos das ações". Vale transcrever trecho da argumentação: (...) Fl. 1350DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.350 10 h) cita parecer da Comissão de Valores Mobiliários CVM que solidifica o entendimento legal de que a incorporação de ações "não caracteriza hipótese de alienação, e sim subrogação real legal, uma vez que não há acréscimo patrimonial para o acionista, já que se trata de mera substituição proporcional das ações da incorporada pelas da incorporadora". E tece considerações acerca do mercado de capitais brasileiro e do risco à economia que representa se admitir que a incorporação de ações é mera alienação, deixando consignado que: i) cita o Parecer Normativo nº 39/1981 exarado pela Receita Federal, assinalando que: (...) Fl. 1351DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.351 11 j) no item VIII do recurso a Recorrente argumenta subsidiariamente que, caso se reconhecesse a incorporação de ações como alienação de bens, a incorporação consistiria em uma operação de permuta (sem torna), em razão da ausência do elemento monetário. Nesta seara, "a Receita Federal, ao emitir a Instrução Normativa 107/88, reconheceu que permutas não são operações aptas à geração de acréscimo patrimonial ao tratar da permuta de imóveis", não se podendo alegar que seria diferente em relação à bens móveis. Cita aqui os Pareceres PGFN nºs 970/91 e 454/1992 que concorrem para a irrelevância da natureza dos bens dados em troca na permuta para fins da neutralidade fiscal preconizada, bem como acórdão da CSRF. E conclui que, sendo caso permuta sem torna, "não há como haver a incidência de IRPJ e CSLL uma vez que não se apura ganho de capital tributável"; k) no item IX do recurso a Recorrente passa a tratar da ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, expendendo as razões a seguir: Fl. 1352DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.352 12 Fl. 1353DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.353 13 Ao final pede a Contribuinte o que segue: A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões (efls. 1.302/1.325), aduzindo, em essência, o que segue: Fl. 1354DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.354 14 a) no item II.2 defende que na incorporação de ações ocorre efetiva alienação, sendo que qualquer acréscimo patrimonial dela decorrente deverá ser oportunamente oferecido à tributação, repetindo os argumentos trazidos em sede de contrarrazões ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte; b) aduz que a diferença entre a incorporação de ações e a incorporação de empresas é que na primeira a incorporada continua a existir (porém passando à condição de subsidiária integral da incorporadora), ao passo que, na segunda, a incorporada é extinta. E registra que "a incorporação de ações é uma alienação em sentido amplo, o que já foi reconhecido pela doutrina", consignando que essa operação "provoca uma transferência de propriedade, pois os sócios deixam de ser acionista da empresa convertida em subsidiária integral e passam a possuir ações da empresa cujo capital foi aumentado"; c) consigna também que nela "existe o elemento volitivo, pois os acionistas aceitam entregar as suas ações para subscrição de capital na sociedade incorporadora", observando que "no direito societário, vigora o princípio majoritário, em que as propostas são levadas a Assembleia e, se aprovadas pela maioria, são implementadas", podendo o sócio minoritário que não concordar com a incorporação de ações exercer o seu direito de retirada. Registra também que "o ato volitivo dos minoritários pôde inclusive ser aferido ante sua postura passiva, de não utilização do seu direito de retirada quando da alienação das ações"; d) cita doutrina de Modesto Carvalhosa nesse sentido, acrescentando que esse doutrinador "descarta a substituição compulsória de ações (subrogação real) defendida pela Recorrente, mostrando que, na verdade, os sócios adquirem ações da incorporadora, dando em pagamento ações de sua propriedade" e que Edmar de Oliveira Andrade Filho tem entendimento semelhante; e) alega que "a incorporação de ações não pode ser equiparada a uma sub rogação real", uma vez que a última "caracterizase pela substituição do objeto, da coisa devida, onde a segunda fica no lugar da primeira com os mesmos ônus e atributos", ao passo que na incorporação de ações "não se mantém a relação originária, apenas alterando um bem por outro"; f) refere que esse é o entendimento de Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior , acrescentando que esses tributaristas "confirmam a tributação do ganho de capital em operações de incorporação de ações", sob os seguintes argumentos: i) a incorporação de ações é um negócio típico do Direito Societário, que se operacionaliza mediante (a) o aumento de capital da sociedade “incorporadora”, em regime extraordinário, porquanto ausente o direito de preferência dos acionistas desta; e (b) a subscrição e integralização deste por meio da transferência das ações da sociedade “incorporada”, também sob regime extraordinário, uma vez que a lei atribui à diretoria desta sociedade uma autorização para fazêlo no lugar dos acionistas; ii) a incorporação de ações implica alienação das ações da ‘incorporada’, a título de integralização do capital da ‘incorporadora’; Fl. 1355DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.355 15 iii) os acionistas, pessoa física ou jurídica, que transfiram ações em razão de incorporação de ações, podem apurar perda de capital (dedutível) ou ganho de capital (tributável) em vista de essa transferência darse por valor, respectivamente, inferior ou superior ao custo das ações correlatas; e iv) a sociedade ‘incorporadora’ pode apurar ágio ou deságio em razão do recebimento de ações da companhia ‘incorporada’, os quais se submeterão, conforme o caso, ao regime jurídico do artigo 7º da Lei nº 9.532/1997, ou àquele do artigo 426 do RIR/1999. g) cita jurisprudência da 2ª Turma da CSRF em favor de seus argumentos; h) no item II.3 das contrarrazões a Fazenda passa a tratar da ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. Alega que os que defendem a não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício o fazem a partir de uma suposta interpretação literal do art. 61 da Lei nº 9.430/1996, mas uma interpretação efetivamente literal conduz ao entendimento contrário, na medida em que quando o dispositivo em questão menciona “os débitos decorrentes de tributos e contribuições”, alcança os “débitos cuja origem remonta a tributos e contribuições”. Nesse sentido, refere que "não se pode suprimir a expressão 'decorrente de', constante do texto real e em vigor"; i) aduz que as multas têm finalidade punitiva e educativa, as quais seriam frustradas caso se afastasse a incidência de juros moratórios sobre as multas de ofício considerando o tempo que pode transcorrer ao longo de discussão administrativa e judicial; j) argumenta que"não é lógico que o valor do tributo sofra a incidência de juros moratórios, enquanto que a multa de ofício não, sendo que ambas as verbas fazem parte de um mesmo todo (crédito tributário)". Cita julgado do TRF da 4ª Região nesse sentido; k) quanto à incidência dos juros à taxa SELIC, traz a baila a dicção da Súmula nº 4 do CARF, que corroboram os seus argumentos, na medida em que essa súmula "fala genericamente em débitos tributários"; l) a Fazenda aduz ainda, de forma subsidiária, que, "caso os ilustre julgadores entendam que o art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não abrange a multa de ofício, é preciso deixar claro que, ainda assim, incidiriam juros de mora à taxa de 1% ao mês", uma vez que "não se poderia desprezar o comando do já citado art. 161 do CTN". Após a apresentação das contrarrazões da Fazenda Nacional, a Recorrente, em 14 de dezembro de 2016, apresentou a petição de efl. 1340, em que vem "noticiar fatos supervenientes, plenamente hábeis a refletir no julgamento do presente Recurso Especial, nos termos do artigo 342, inciso I, do CPC/15 e por analogia ao artigo 16, § 4º, alínea "b", do Decreto nº 70.235/72". Na petição em questão "reitera pedido para que seja julgado procedente o Recurso Especial em razão dos argumentos já trazidos pela Recorrente, cancelandose o lançamento", bem como, "apenas a título de argumentação, caso não seja este o entendimento de V. Sas. (...) seja reconhecida, ao menos a existência de dúvida objetiva quanto à natureza da operação de incorporação de ações e de seus efeitos, aplicandose os artigos 100, inciso II, parágrafo único e/ou, 112, inciso II, ambos do CTN". Fl. 1356DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.356 16 Os fatos supervenientes narrados são os seguintes: a) Acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em 11/10/2015, no julgamento do Recurso de Apelação nº 505279342.2011.4.04.7000, em que entendeu a Corte que, relativamente à incorporação de ações "não há a alienação de ações ou mesmo uma incorporação ficta, mas sim a subrogação legal dos acionistas cujas ações houveram de ser incorporadas, nas ações da incorporadora. (...) A alienação importa na renúncia de um direito e é, portanto, voluntária. Tendo em vista que na subrogação real derivada de lei há a substituição de uma coisa por outras em razão de expressa previsão legal, ão há gue se confundir alienação com subrogação real";§ b) Acórdão proferido pela 2ª Turma da CSRF no Processo Administrativo nº 10680.726772/201188, em que "ao examinar hipótese de incorporação de ações, concluiuse naquela oportunidade pela inexistência de ganho de capital porque não há alienação, mas sim subrogação por força de lei"; c) Parecer da Procuradoria Federal especializada junto à CVM que "é categórico ao afirmar que não há alienação na operação de incorporação de ações, mas sim subrogação real legal, pois não é obrigatória a concordância dos acionistas para que a substituição das ações ocorra isso se dá por força de lei"; d) Posicionamento da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional no decorrer da sessão de julgamento do processo 10880.723083/201327, pela 2ª Turma, da 3ª Câmara, da 1ª Seção, "também sobre ganho de capital em incorporação de ações da HFF pela BRF", em que a PGFN "trouxe á discussão o acórdão nº 1301001.852 (...), que seria supostamente aplicável ao caso". Aduz a Recorrente, em síntese, o que segue: 18.1 Referido acórdão foi proferido em processo administrativo envolvendo a BRF, que foi autuada em razão da amortização de ágio gerado na suposta aquisição de participação societária por meio de incorporação de ações (doc. 4). 19 Segundo a D. PGFN, o fato de este E. CARF ter decidido naquele acórdão pela existência de ágio em operação de incorporação de ações seria a prova de que a outra "ponta" da operação necessariamente apuraria ganho de capital. 18.1 Referido acórdão foi proferido em processo administrativo envolvendo a BRF, que foi autuada em razão da amortização de ágio gerado na suposta aquisição de participação societária por meio de incorporação de ações (doc. 4). 19 Segundo a D. PGFN, o fato de este E. CARF ter decidido naquele acórdão pela existência de ágio em operação de incorporação de ações seria a prova de que a outra "ponta" da operação necessariamente apuraria ganho de capital. (...) 22 Como se nota, apesar de o presente processo sobre ágio estar em trâmite desde 2012, ele nunca antes havia sido mencionado nos processos referentes ao ganho de capital em incorporação de ações, sendo a primeira vez exatamente durante a Sustentação Oral 10880.723083/201327. Fl. 1357DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.357 17 23 Notese que a D. PGFN somente levantou esse argumento convenientemente após a decisão deste E. CARF favorável ao contribuinte em relação ao aproveitamento do ágio decorrente de incorporação de ações. 23.1 A razão para essa conduta reside no fato de que a D. PGFN se posicionou contra existência do ágio na operação de incorporação de ações, com argumentos idênticos aos empregados pela Recorrente em seu recurso para demonstrar a inexistência de ganho de capital na operação de incorporação de ações. 24 Digase, ainda, que tal alteração de posicionamento não se deu porque a D. PGFN chegou a uma conclusão sobre o assunto, mas apenas porque, vendo suas chances diminuidas em relação ao processo de ágio, resolveu inverter os argumentos e "apostar" na arrecadação por meio do ganho de capital sobre a operação de incorporação de ações. 25 Assim, a titulo de argumentação, caso prevaleça o entendimento de que existe ganho de capital na operação de incorporação de ações, deve ser afastada a exigência da penalidade nos termos dos artigos 100, inciso § único e 112, inciso II, do Código Tributário Nacional. É o relatório. Voto Conselheira Adriana Gomes Rêgo Relatora Os recursos são tempestivos e atendem aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deles tomo conhecimento. Recurso Especial da Contribuinte Ganho de Capital na Operação de Incorporação de Ações A questão central que se discute no presente processo se refere à caracterização (ou não) da transferência de ações que ocorre na incorporação de ações como alienação, logo sujeita à tributação de eventual ganho de capital apurado. A Contribuinte entende que a operação não caracteriza alienação, basicamente pela ausência de elemento volitivo e por se afigurar a hipótese de subrogação real, uma vez que não ocorre acréscimo patrimonial. Subsidiariamente alega que, ainda que se entenda que se trata de hipótese de alienação, estarseia diante de operação de permuta sem torna, em razão da ausência do elemento monetário. Já a Fazenda Nacional defende o entendimento abraçado pela Fiscalização e referendado pelos colegiados julgadores da DRJ e do CARF, o qual se encontra bastante bem Fl. 1358DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.358 18 sintetizado na ementa do acórdão ora recorrido que anuncia que "a incorporação de ações constitui uma forma de alienação em sentido amplo", sendo que "a subscrição de ações pelo valor de mercado e superior ao consignado na escrituração contábil, ainda que no bojo da figura da incorporação de ações, caracteriza ganho de capital, devendo incidir a tributação correspondente". Antes de adentrar o enfrentamento da controvérsia jurídica que se coloca, importante sintetizar as operações que ensejaram a lavratura do auto de infração, para melhor compreensão. Para tal, tomo parto da síntese que consta no voto condutor do acórdão recorrido e daquilo que consta no Termo de Verificação Fiscal TVF (efls. 20/37) para assim descrever as operações que culminaram com a incorporação de ações em debate: § Em 31/12/2008 OLD Participações Ltda (a ora Recorrente) detinha 26.751.658 ações ON da SADIA S.A., registradas em sua contabilidade pelo valor de R$ 27.658.293,28. § Em 19/05/2009, PERDIGÃO (depois BRF Brasil Foods) e SADIA publicaram fato relevante, informando o fechamento de acordo para futura associação com vistas à unificação de suas operações. Em tal documento constam os exatos termos de tal associação: a) Alteração da denominação de PERDIGÃO para BRF, com a posterior Incorporação de Ações da HFF Participações pela BRF, que poderá seguirse da Incorporação da própria HFF pela BRF (HFF Participações vem a ser a empresa controladora da SADIA); b) Reorganização Societária da SADIA, HFF e PERDIGÃO/BRF; c) Incorporação de Ações da SADIA pela BRF. § Ato contínuo, OLD Participações subscreveu 2.173.187 novas ações emitidas pela HFIN Participações em aumento de capital, por meio da utilização de igual número de ações de sua propriedade na SADIA. § Do mesmo modo, OLD Participações subscreveu 24.578.471 novas ações de emissão de HFF Participações em aumento de capital, sendo utilizado igual número de ações de sua propriedade na SADIA. Outros acionistas da SADIA fizeram o mesmo, resultando que a HFF se tornou controladora da SADIA. § Em 08/07/2009, em assembleia geral extraordinária da BRF Brasil Foods (antiga Perdigão) aprovouse a incorporação da totalidade das ações da HFF Participações pela BRF Brasil Foods, emitindo a BRF Brasil Foods 0,166247 ação ON para cada ação da HFF § Ao final das operações: o OLD Participações não mais detinha investimentos diretos na SADIA, passando a registrar investimentos na HFIN e na BRF Brasil Foods, cujo montante possuía o mesmo valor contábil do investimento anteriormente detido de forma direta na SADIA. Fl. 1359DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.359 19 o BRF Brasil Foods passa a ter HFF participações como subsidiária integral, e, através dela passa a controlar a SADIA, detendo 88% de suas ações ordinárias. No entender da Fiscalização (TVF, efls. 20/37), por meio da incorporação de ações da HFF Participações pela BRF Brasil Foods, a OLD Participações alienou as 24.578.471 ações que detinha da HFF Participações (incorporada) para a BRF Brasil Foods (incorporadora), recebendo em contrapartida 4.086.097 ações da BRF Brasil Foods. Nessa operação, a OLD Participações auferiu ganho de capital tributável, assim apurado: Da análise dos fatos, é insofismável que a ora Recorrente (OLD Participações), ao fim e ao cabo, recebeu 4.086.097 ações da BRF Brasil Foods em contrapartida às 24.578.471 ações que detinha da HFF Participações (as quais obteve com o aporte na HFF de igual número de ações que antes detinha da SADIA). Indisputável, também, que iniciou o processo com um ativo cujo valor era de R$ 25.411.455,22 e terminou com um ativo cujo valor era de R$ 160.992.224,49, valor esse dado pela relação de troca fixada no processo de incorporação de ações e preço de emissão das ações da BRF Brasil Food, importando a diferença em R$ 135.580.769,27. Dito isso, temse que a incorporação de ações é uma forma de converter uma empresa (incorporada) subsidiária integral de outra (incorporadora) pela incorporação de todas as ações da incorporada ao patrimônio da incorporadora. Isso ocorre mediante o aumento do capital social da incorporadora, sendo o capital social resultante do aumento subscrito com a totalidade das ações (ou quotas) da incorporada, recebendo os sócios da incorporada ações da incorporadora. Seu regramento é dado pelo art. 252 da lei das sociedades anônimas (Lei nº 6.404, de 1976 Lei das SA), a seguir reproduzido: Art. 252. A incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira, para convertêla em subsidiária integral, será submetida à deliberação da assembléiageral das duas companhias mediante protocolo e justificação, nos termos dos artigos 224 e 225. § 1º A assembléiageral da companhia incorporadora, se aprovar a operação, deverá autorizar o aumento do capital, a ser realizado com as ações a serem incorporadas e nomear os peritos que as avaliarão; os acionistas não terão direito de preferência para subscrever o aumento de capital, mas os dissidentes poderão retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 2º A assembléiageral da companhia cujas ações houverem de ser incorporadas somente poderá aprovar a operação pelo voto Fl. 1360DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.360 20 de metade, no mínimo, das ações com direito a voto, e se a aprovar, autorizará a diretoria a subscrever o aumento do capital da incorporadora, por conta dos seus acionistas; os dissidentes da deliberação terão direito de retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 3º Aprovado o laudo de avaliação pela assembléiageral da incorporadora, efetivarseá a incorporação e os titulares das ações incorporadas receberão diretamente da incorporadora as ações que lhes couberem. § 4o A Comissão de Valores Mobiliários estabelecerá normas especiais de avaliação e contabilização aplicáveis às operações de incorporação de ações que envolvam companhia aberta. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Embora a doutrina qualifique a incorporação de ações como instituto próprio do Direito Societário, bem como reconheça diferenças em relação a outros institutos próximos, como a incorporação de companhias, importante sublinhar, prima facie, que não é por se estar diante de negócio típico do Direito Societário que, de plano, se vai afastar suas repercussões tributárias. Nunca é demais lembrar que a definição do campo de incidência do imposto sobre a renda plasmada no art. 43 do Código Tributário Nacional CTN estabelece que o imposto incide de forma ampla sobre a renda e proventos de qualquer natureza, e “independe da denominação da receita ou do rendimento”. Tal disposição, cabe assinalar, faz eco aos princípios da universalidade e da generalidade que orientam o imposto, os quais indicam que todas as rendas auferidas, bem como todas as pessoas, a ele se sujeitam, à exceção dos casos para os quais haja norma expressa de imunidade, isenção ou não incidência. Nessa senda, não há como deixar de reconhecer que no momento em que companhia incorporadora (aqui BRF Brasil Foods) recebe participação social na incorporada (aqui HFF Participações) que compõe o patrimônio de sócio da incorporada (aqui a Recorrente, OLD Participações), entregando a esse (agora ex) sócio, em contrapartida, novas ações suas, estáse diante de ato de "transferir gratuita ou onerosamente a outrem um direito ou a propriedade de uma coisa, que, então, passará a integrar o patrimônio alheio". E esse é, precisamente, o conceito de alienação1. É insofismável, portanto, que, no bojo do processo de incorporação de ações, ocorre a transferência das ações da incorporada do patrimônio de seu (ex) sócio para o patrimônio da incorporadora, ocorrendo, sim, a alienação de ações da incorporada na subscrição do aumento de capital da incorporadora. Essa é, aliás, a conclusão a que chegaram reconhecidos doutrinadores. Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior em percuciente estudo sobre a natureza societária da incorporação de ações e seus efeitos tributários concluem 1 DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998. Vol. 1. p. 164 Fl. 1361DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.361 21 que "a incorporação de ações implica alienação das ações da 'incorporada', a título de integralização do capital da 'incorporadora'"2. Modesto Carvalhosa, por sua vez, assevera que o negócio de incorporação de ações envolve, "ao mesmo tempo de uma incorporação e de uma alienação fictas", justificando a ocorrência de alienação em razão de que "o controlador da sociedade incorporada aliena não apenas suas ações à incorporadora, mas também as dos minoritários"3. Já Edmar de Oliveira Andrade Filho evidencia a grande abrangência do conceito de alienação, deixando claro que nele se abriga a incorporação de ações ("a incorporação de ações constitui uma forma de alienação em sentido amplo; com efeito, o detentor das ações ou quotas as entrega sob a forma de conferência de bens para subscrição de capital e recebe ações ou quotas da sociedade que teve o seu capital aumentado e que passou a ser a única acionista da sociedade convertida em subsidiária integral"4. Vale também reproduzir trecho da argumentação no mesmo sentido que apresenta a Fazenda Nacional em suas contrarrazões: De fato, a alienação, por definição, é o ato de transferir para alguém uma propriedade ou um direito. Tratase de um ato de disposição no qual ocorre a transferência de domínio. Vejam, senhores Conselheiros, que a incorporação de ações encaixase perfeitamente em tal conceito. A operação provoca uma transferência de propriedade, pois os sócios deixam de ser acionista da empresa convertida em subsidiária integral e passam a possuir ações da empresa cujo capital foi aumentado. Assim, estandose diante de alienação, os eventuais resultados positivos advindos são, a teor do art. 31 do DecretoLei nº 1.598, de 1977 (redação vigente ao tempo dos fatos geradores), classificados como ganhos de capital e, como tal, tributados na pessoa jurídica. Confirase o caput do dispositivo (base legal do art. 418 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999, Decreto nº 3.000, de 1999): Art 31 Serão classificados como ganhos ou perdas de capital, e computados na determinação do lucro real, os resultados na alienação, inclusive por desapropriação (§ 4º), na baixa por perecimento, extinção, desgaste, obsolescência ou exaustão, ou na liquidação de bens do ativo permanente. A Recorrente traz, em desfavor da tese de que no bojo da incorporação de ações ocorre alienação, as alegações de que (1) não está presente na incorporação de ações o elemento volitivo e de que (2) tratase, em verdade, de caso de subrogação real. 2 SCHOUERI,Luís Eduardo & ANDRADE JR, Luiz Carlos de. Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior. Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. Revista Dialética de Direito Tributário. n. 200, mai. 2012, p. 4472. 3 Autor citado nas contrarrazões da Fazenda Nacional, com a seguinte referência: "CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. 4º Volume. Tomo II Art. 252. 4ª Ed., Saraiva, São Paulo, 2011, p. 172." 4 Autor citado no acórdão recorrido, com a seguinte referência: "Imposto de Renda das Empresas, 5ª edição, Editora Atlas, São Paulo, 2008, p. 461462." Fl. 1362DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.362 22 Em primeiro lugar, não se pode afirmar que não há elemento volitivo, de manifestação de vontade, na transferência de ações que subjaz à incorporação de ações. Conforme estampado no art. 252 da Lei das SA, "a incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira (...) será submetida à deliberação da assembléiageral das duas companhias mediante protocolo e justificação". Assim, como bem destacado pela Fazenda Nacional, a vontade do acionista nos desígnios da sociedade é manifestada na assembléia da sociedade, sendo garantido ao sócio dissidente, que não concordar com a deliberação da maioria, o direito de retirada previsto no art. 137 da Lei em questão. Vale evocar aqui novamente a doutrina de Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior, que assim rebatem o argumento de ausência de manifestação de vontade no já citado artigo "Incorporação de Ações: Natureza Societária e Efeitos Tributários"5: Não é apenas a conclusão a que chegaram os defensores da segunda corrente, ora examinada, que, ano nosso ver, merece crítica. Parecenos, também, infundado o argumento de que a ausência de manifestação de vontade dos sócios seria relevante para definir a natureza jurídica da incorporação de ações, e que isso excluiria a possibilidade de esse negócio jurídico acarretar a alienação das ações da "companhia incorporada". No direito societário, impera o princípio majoritário. Segundo este, as decisões relativas aos atos a serem praticados pela sociedade são tomadas pela maioria dos sócios. Isso significa que os sócios dissidentes tomam decisões sem manifestar vontade alguma? Claro que não. Pode não haver, no momento de cada decisão, a exteriorização da vontade específica daqueles. Contudo, no momento em que decidem ingressar na sociedade os, acionistas manifestam a vontade de sujeitaremse às "regras do jogo", que, por seu turno, contemplam a substituição no dia a dia da companhia, da vontade dos sócios, pela vontade da maioria. (...) Pelo exposto, não nos parece fundamentada a preocupação, manifestada pela segunda corrente, ora examinada, quanto à ausência de vontade dos acionistas na incorporação de ações. Ficou claro, nas linhas anteriores, que a lei criou um mecanismo em que a vontade, tanto do acionista como da companhia, é necessária e manifestada, embora em momentos distintos. Não há, em absoluto, falta de vontade. A ausência de uma manifestação de vontade individual pelo acionista, no momento da operação, sob a perspectiva do Direito Privado (que admite a representação indireta e a autorização), não é motivo bastante para se buscar atribuir, à transferência das ações dos acionistas da "incorporada", natureza criativamente diversa. 5 SCHOUERI,Luís Eduardo & ANDRADE JR, Luiz Carlos de. Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior. Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. Revista Dialética de Direito Tributário. n. 200, mai. 2012, p. 4472. Fl. 1363DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.363 23 No presente caso, em particular, a manifestação de vontade da Recorrente resta evidenciada não só pelo princípio majoritário, mas de forma específica e direta. Isso porque na ata da assembleiageral da HFF Participações realizada em 8/7/2009 (efls. 311/372), que decidiu pelo encaminhamento da incorporação de ações, consta que foi registrada "a presença de acionistas representando a totalidade do capital social da companhia" (sublinhouse), que foram as "deliberações tomadas por unanimidade de votos e sem qualquer ressalva" (sublinhouse), bem como o que segue: Não há, portanto, como se pretender alegar a falta de elemento volitivo na incorporação de ações sob exame a descaracterizar a alienação. No que se refere à alegação de que se estaria diante de subrogação real, tem se que essa figura do direito civil corresponde à "substituição de uma coisa por outra com os mesmos ônus e atributos"6 (sublinhouse). Ocorre que, diferentemente do que acontece na subrogação real, na incorporação de ações não ocorre simples substituição de um bem do patrimônio do proprietário por outro, mantidos os mesmos ônus e atributos. Com efeito, a participação societária que era detida na incorporada antes da incorporação de ações ostenta atributos que não estão presentes, a toda evidência, na participação societária na incorporadora que passa a ser detida com a operação de incorporação de ações. Incorporadora e incorporada são pessoas jurídicas distintas, tendo estatutos sociais, patrimônio e relações societárias diferentes. Vejase como Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior explicam com clareza esse aspecto diferenciador7: O exame das ponderações acima expostas nos leva a concluir que não há, na incorporação de ações, a substituição jurídica a que aludiu Nelson Eizirik, pois: i) a relação originária não se mantém. Antes da incorporação de ações, o sócio é titular de participação da sociedade “A”. Após a operação, passa a ser titular de participação na sociedade “B”. Não existe identidade entre as relações jurídicas existentes antes (sócio – “A”) e depois (sócio “B”) da incorporação de ações. Imaginese, por exemplo, que a classe das ações fosse diferente, antes e após a operação. Isso bem seria possível, evidenciado a diferença entre as relações jurídicas observadas. ii) o papel desempenhado pelo bem substituído não se confunde com o do bem subrogado. O bem substituído legitimava, por exemplo, o sócio a receber dividendos da sociedade “A”, ou a participar das assembléias da sociedade “A” etc. O bem sub rogado, diversamente, legitima o sócio a receber dividendos da 6 DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998. Vol. 4. p. 437 7 Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, Ed. Dialética, 2012, pp. 44/72. Fl. 1364DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.364 24 sociedade “B”, ou a participar das assembleias da sociedade “B”, etc. Também não procede o argumento subsidiário da Recorrente no sentido de que a incorporação de ações consistiria operação de permuta sem torna em razão da ausência do elemento monetário. Embora a subscrição de capital da incorporadora com as ações da incorporada se dê sem pagamento em pecúnia, o elemento preço está ali presente. É que não só na subscrição de capital há sempre a estipulação de um preço, expresso em moeda, como na incorporação de ações, em particular, a avaliação do valor das ações a serem incorporadas é imposta pelo antes transcrito art. 252 da lei das sociedades anônimas, em evidente "precificação". Assim, o elemento preço impede que se caracterize a incorporação de ações como permuta, uma vez que na permuta o vínculo obrigacional é de troca de uma coisa por outra coisa, não sendo o preço elemento da troca. Cumpre, a propósito, destacar trecho do TVF em que a precificação das ações objeto da incorporação no presente caso resta evidente: Vale trazer a baila, mais uma vez, as considerações de Luís Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Júnior8 acerca da impossibilidade de se caracterizar a incorporação de ações consistiria operação de permuta: Vale, ainda, corrigir um equívoco em que se tem incorrido na tentativa de negar a realização da renda na incorporação de ações, qual seja, a equiparação dessa operação à permuta, ainda que para fins fiscais. A permuta (ou troca) é o contrato por meio do qual um contratante promete uma coisa em troca de outra (...) Mas a troca não se confunde com a compra e venda, pois seu objeto consiste no escambo de coisas, enquanto o objeto da primeira é a troca de coisa por dinheiro. A necessidade de a compra e venda envolver uma prestação em dinheiro decorre de um de seus elementos essenciais: o preço. O preço não é elemento da troca, como ensina Pontes de Miranda, ao tratar desse contrato. (...) Diante do exposto, a caracterização de uma permuta na incorporação de ações implicaria a inexistência de preço definido em dinheiro, bem como a formação de um vínculo obrigacional que tivesse por objeto a troca de coisa por coisa. Vejamos se essas condições são atendidas pela incorporação de ações. 8 Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, Ed. Dialética, 2012, pp. 44/72. Fl. 1365DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.365 25 (...) A subscrição é o negócio jurídico pelo qual o acionista se compromete a entregar recursos à companhia. O capital subscrito é, portanto, a expressão da promessa feita pelo acionista. (...) O que a lei prevê é que o capital subscrito (a quantia prometida à sociedade) poderia ser integralizado (pago) mediante a entrega de bens. Diante do exposto, é mister concluir que, na subscrição de capital existe a estipulação de um preço, expresso em moeda (...) Com base nesses comentários, vêse que a subscrição envolve um elemento que é estranho à permuta, a saber, o preço. Além disso, o que se expôs acima também conduz a uma segunda constatação: a de que a subscrição não envolve, por essência, a troca de bens por ações. Pelo contrário, a subscrição cria a obrigação de integralizar o capital social, que é expresso em moeda. A lei, entretanto, autoriza que o pagamento dessa obrigação se dê mediante a entrega de bens, sujeitos a prévia avaliação. A integralização, que é ato jurídico stricto sensu, pode consistir na entrega de bens; contudo, isso não desnatura os efeitos da subscrição, negócio jurídico. Nesse contexto, a integralização em bens aproximase do instituto da dação em pagamento (embora ainda sejam institutos diferentes). Por essas razões, cremos que a incorporação de ações na medida em que se concretiza por meio de uma subscrição de capital pelos sócios da "incorporada", ainda que em regime extraordinário não pode ser equiparada à permuta. Não há reparos, portanto, à decisão da 2ª Turma da 4ª Câmara da 1ª Seção, ora recorrida. Isso porque no bojo da incorporação de ações ocorre alienação da totalidade de ações (ou quotas) da pessoa jurídica incorporada na subscrição do aumento de capital da pessoa jurídica incorporadora, não havendo falar em ausência de manifestação de vontade. Não é caso de subrogação real (não há identidade entre os atributos das participações societárias na incorporada e na incorporadora), nem de permuta (o elemento preço se faz presente). Assim, a diferença positiva entre a participação que passa a ser detida na incorporadora e a participação antes detida na incorporada constitui ganho de capital tributável. No presente caso, como se viu, a Recorrente detinha participação na HFF Participações (incorporada) ao valor de R$ 25.411.455,22 (custo de aquisição) e passou a deter participação na BRF Brasil Food (incorporadora) ao valor de R$ 160.992.224,49, estando sujeita à tributação do acréscimo patrimonial correspondente, na forma do art. 31 do Decreto Lei nº 1.598, de 1977. Não se alegue aqui que a indisponibilidade da renda advinda do acréscimo patrimonial em comento o retiraria do alcance do imposto sobre a renda. É que, como consignado no TVF, o antes citado art. 43 do CTN, ao enunciar a ampla incidência do imposto sobre a renda, deixa expresso que esse imposto "tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica" de renda e proventos de qualquer natureza. E, como decidiu o Superior Tribunal de Justiça no Agravo Regimental nos Embargos de Declaração no Fl. 1366DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.366 26 Recurso Especial 1232796/RS (2ª Turma, Relator Ministro Humberto Martins, Dje 09/02/2012), a disponibilidade econômica não se confunde com a disponibilidade financeira. Transcrevese parcialmente a ementa do julgado em questão: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS SITUADAS NO EXTERIOR. DISPONIBILIDADE JURÍDICA DA RENDA. ART. 74 DA MP. N. 2.15835/2001. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA CONTIDA NO CAPUT DO ART. 43 DO CTN. PRECEDENTES. 1. "Para que haja a disponibilidade econômica, basta que o patrimônio resulte economicamente acrescido por um direito, ou por um elemento material, identificável como renda ou como proventos de qualquer natureza. Não importa que o direito ainda não seja exigível (um título de crédito ainda não vencido), ou que o crédito seja de difícil e duvidosa liquidação (contas a receber). O que importa é que possam ser economicamente avaliados e, efetivamente, acresçam ao patrimônio." (Zuudi Sakakihara in "Código Tributário Nacional Comentado", coordenador Vladimir Passos de Freitas, Ed. RT, p. 133). 2. "Não se deve confundir disponibilidade econômica com disponibilidade financeira da renda ou dos proventos de qualquer natureza. Enquanto esta última se refere à imediata 'utilidade' da renda, a segunda está atrelada ao simples acréscimo patrimonial, independentemente da existência de recursos financeiros." (REsp 983.134/RS, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 3.4.2008, DJe 17.4.2008.) 3. "Não é necessário que a renda se torne efetivamente disponível (disponibilidade financeira) para que se considere ocorrido o fato gerador do imposto de renda, limitandose a lei a exigir a verificação do acréscimo patrimonial (disponibilidade econômica). No caso, o incremento patrimonial verificado no balanço de uma empresa coligada ou controlada no exterior representa a majoração, proporcionalmente à participação acionária, do patrimônio da empresa coligada ou controladora no Brasil." (REsp 983.134/RS, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 3.4.2008, DJe 17.4.2008.) Vale registrar aqui que outra turma ordinária da 1ª Seção decidiu no mesmo sentido da turma ora recorrida ao analisar lançamento em que figurava como sujeito passivo outra empresa que, como a ora Recorrente, detinha participação na empresa incorporada no presente processo de incorporação de ações (HFIN PARTICIPACÕES S.A., acórdão nº 1302 001.823, sessão de 6 de abril de 2016, Relator Alberto Pinto Souza Júnior, decisão por maioria). Interessante, aliás, transcrever trecho desse julgado em que o Relator assinala a irrazoabilidade de conclusão no sentido da não tributação do acréscimo patrimonial verificado: Logo, é indiscutível que a titularidade jurídica de ações da BRF no valor R$ 78.453.718,92, quando a recorrente teve que dar em pagamento ações da HFF no valor apenas de R$ 11.977.426,00, gerou uma disponibilidade econômica de renda caracterizada Fl. 1367DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.367 27 pelo acréscimo patrimonial decorrente do ganho de capital no valor de R$ 66.476.292,92. Além disso, a incorporação de ações da HFF gerou o registro de ágio pela BRF, inclusive fundamentado em expectativa de rentabilidade futura (R$ 1,4 bilhão), o que significa que o custo de aquisição das ações da HFF registrado pela BRF foram superiores ao seu valor patrimonial. Não obstante, a recorrente alega que contabilizou as ações recebidas pelo valor das ações dadas em pagamento, ou seja, contabilizou as ações da BRF por R$ 11.977.426,00? Ora, na outra ponta, a BRF registrou o custo de aquisição de tais ações da HFF de titularidade da recorrente por R$ 78.453.718,92, tanto que contabilizou ágio no investimento na HFF. A vingar o entendimento da recorrente, criase, assim, o melhor dos mundos para os contribuintes e o pior para o Erário, pois, para a recorrente, não haveria ganho de capital a ser tributado, mas, para a BRF, seria registrado um ágio por expectativa de rentabilidade futura com possibilidade de gerar futura despesa de amortização dedutível das bases tributáveis (a depender apenas da ocorrência de um dos eventos do art. 7º da Lei 9.532/97). Mutatis mutandis, seria como, em um venda de um produto, o comprador declarar um custo de aquisição dedutível da base tributável de R$ 78 milhões e, do outro lado, o vendedor declarar uma receita tributável de R$ 11 milhões. Convém também transcrever a parte de interesse da ementa do julgado em questão, seguido de ementas de outros recentes acórdãos exarados por turmas ordinárias da 1ª Seção, os quais bem demonstram que a posição aqui abraçada é amplamente dominante no CARF: Acórdão nº 1302001.823 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, Sessão de 6 de abril de 2016, Relator Alberto Pinto Souza Júnior, decisão por maioria: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. Não há falar em ausência de elemento volitivo do titular na incorporação das suas ações por terceiro, pois o ordenamento constitucional brasileiro jamais permitiria que uma lei ordinária desse a um particular o poder de dispor sobre a propriedade de terceiro com capacidade de direito e de fato, sem a sua anuência ou contra a sua vontade, sob pena de ofensa ao direito fundamental à propriedade. Quem participa de uma sociedade se submete, por vontade própria, às regras societárias, logo, não há falar que, por ser a decisão da sociedade uma deliberação colegiada, não exista ali o elemento volitivo daquele que restou vencido ou mesmo submetido à deliberação assemblear Fl. 1368DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.368 28 A incorporação de ações se desenvolve pela subscrição de ações da incorporadora e, posterioriormente, a dação das ações da subscritora de titularidade de seus sócios em pagamento daquelas, razão pela qual, haverá apuração de ganho de capital por aquele que integralizar ações subscritas com a dação de outras ações de valor inferior às integralizadas. Acórdão nº 1301001.856 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, Sessão de 09 de dezembro de 2015, Relator Paulo Jakson da Silva Lucas, decisão por maioria: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 INCORPORAÇÃO DE AÇÃO. (...) Na incorporação de ações, há alienação pelos acionistas da incorporada de seus ativos, nos termos do art. 3º, § 3º, da Lei nº 7.713, de 1988, sendo a transmissão da propriedade dos ativos onerosa e avaliada em moeda corrente. Assim, havendo diferença positiva entre o valor da transmissão e o respectivo custo de aquisição, esta deve ser tributada como ganho de capital, independentemente da existência de fluxo financeiro. Acórdão nº 1301002.010 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, Sessão de 04 de maio de 2016, Relator Wilson Fernandes Guimarães, decisão por maioria: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2009 (...) INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. GANHO DE CAPITAL. PROCEDÊNCIA. Sujeitase à incidência do Imposto de Renda Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, a título de ganho de capital, a diferença entre o valor das ações incorporadas ao capital de outra sociedade e o montante representativo das novas ações recebidas em virtude de tal incorporação. Irrelevantes, no caso, a ausência de fluxo financeiro e de manifestação de vontade do titular das ações alienadas. Acórdão nº 1401001.682 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, Sessão de 09 de agosto de 2016, Relator Antonio Bezerra Neto, decisão por maioria: Fl. 1369DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.369 29 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. NATUREZA JURÍDICA. GANHO DE CAPITAL. TRIBUTAÇÃO. A incorporação de ações por envolver uma transferência de titularidade das ações da incorporada, dadas em pagamento em uma conferência de aumento de capital, para a incorporadora, caracterizase como uma espécie do gênero alienação. No caso concreto, como houve a valorização a preço de mercado das ações dadas em pagamento, gerouse um acréscimo patrimonial tributável pelo ganho de capital. INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. ACIONISTA. DIREITO DE RECESSO. A incorporação de ações seguirá os ditames das deliberações das assembleias gerais das companhias incorporadora e incorporada. Os acionistas da incorporada, que não concordarem com o evento de incorporação de ações, tem a opção de se retirar da sociedade, podendo se reembolsar do valor de suas ações. A destacar também a existência de diversos julgados no mesmo sentido de Turmas Ordinárias da 2ª Seção do CARF (citese, como exemplo, os acórdãos de nºs 2401 004.344 e 2201003.254, ambos de 2016), bem como o acórdão a seguir da 2ª Turma da CSRF: Acórdão nº 920200.662 – 2ª Turma da CSRF, Sessão de 12 de 04 abril de 2010, Relator Elias Sampaio Freire, decisão por voto de qualidade: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA – IRPF Exercício: 2005. IRPF OPERAÇÃO DE INCORPORAÇÃO DE AÇÕES GANHO DE CAPITAL. As operações que importem alienação a qualquer titulo, de bens e direitos, estão sujeitos a apuração do ganho de capital. A incorporação de ações constitui uma forma de alienação em sentido amplo. O sujeito passivo transferiu ações, por incorporação de ações, para outra empresa, a título de subscrição e integralização das ações que compõem seu capital, pelo valor de mercado. A diferença a maior (entre o valor de mercado e o valor constante na declaração de bens) deve ser tributada como ganho de capital. Fl. 1370DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.370 30 Com relação aos elementos trazidos pela Recorrente na petição de efl. 1.340, em que ela noticia haver "fatos supervenientes, plenamente hábeis a refletir no julgamento do presente Recurso Especial", correspondendo esses fatos à acórdão do TRF da 4ª Região, acórdão da 2ª Turma da CSRF, Parecer da Procuradoria Federal especializada junto à CVM e posicionamento externado pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional no decorrer da sessão de julgamento do processo 10880.723083/201327, temse que não alteram as conclusões antes delineadas. Vale assinalar, aliás, que o acórdão proferido pela 2ª Turma da CSRF no Processo Administrativo nº 10680.726772/201188 e o Parecer da Procuradoria Federal especializada junto à CVM a que se refere a Recorrente sequer podem ser considerados supervenientes em relação ao presente Recurso Especial, o qual foi protocolado em 9/9/2015 (efls. 1.141). Com efeito, o acórdão da 2ª Turma da CSRF em questão é o de nº 9202003.579, o qual não só foi exarado antes da apresentação do presente recurso (na sessão de 3/3/2015), como foi utilizado como paradigma pela ora Recorrente na própria demonstração da divergência que compõe e sustenta o presente recurso especial. Já o Parecer da Procuradoria Federal especializada junto à CVM, assinado pela Procuradora Federal Raquel Passarelli de Souza Toledo de Campos, é datado de 19/5/2014. De destacar, também, por conta da referência da Recorrente ao julgamento do processo 10880.723083/201327 pela 2ª Turma da 3ª Câmara da 1ª Seção, que, como assinalado anteriormente, aquele colegiado, ao analisar lançamento em que figurava como sujeito passivo outra empresa que, como a ora Recorrente, detinha participação na empresa incorporada no presente processo de incorporação de ações (HFIN PARTICIPACÕES S.A., acórdão nº 1302001.823) chegou às mesmas conclusões aqui delineadas. Não vejo, portanto, como aquele julgamento poderia vir a vulnerar as conclusões que aqui se alcança acerca da incidência de IRPJ e CSLL sobre o acréscimo patrimonial havido em processo de incorporação de ações, de forma a se tornarem aplicáveis aqui, como quer a Recorrente, os arts. 100, inciso III e parágrafo único, e/ou, 112, inciso II, do CTN. Cumpre registrar, por outro lado, que pedido desse jaez sequer foi feito no presente Recurso Especial, sendo absolutamente novo. Não merece acolhida, portanto, o recurso da Contribuinte no que se refere à presente matéria. Incidência de Juros de Mora sobre a Multa de Ofício No tema dos juros de mora sobre a multa de ofício, verificase que essa 1ª Turma da CSRF vem reiteradamente se posicionando pela incidência. Citese, nesse sentido, os acórdãos de nº 9101002.180 e 9101002.181 (de 19/01/2016), ambos de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, bem como os de nº 9101002.209 e 9101002.209 (de 02/02/2016) e 9101002.349 (de 14/06/2016), esses de minha relatoria, tendo sido acompanhada por maioria de votos pela turma. Peço vênia, portanto, para adotar os argumentos expendidos no último julgado citado, de nº 9101002.349, no qual assim me manifestei: A Lei nº 9.430, de 1996, estabelece, em seu art. 61, § 3º, que sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e Fl. 1371DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.371 31 contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal incidirão juros de mora à taxa SELIC. Vejase (sublinhei): Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. De outra banda, está estampado na Súmula CARF nº 5 que são devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento. Confirase (sublinhei): Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Ora, dos arts. 113, § 1º, e 139 do CTN deflui que o crédito tributário, que decorre da obrigação principal, compreende tanto o tributo em si quanto a penalidade pecuniária, o que inclui, à toda evidência, a multa de oficio proporcional de caráter punitivo. Vale transcrever os dispositivos (sublinhei): Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Sendo assim, outra não pode ser a interpretação da expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições” expressa no retrotranscrito art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, senão a de que abarca a integralidade do crédito tributário, incluindo a multa de oficio proporcional punitiva, constituída por ocasião do lançamento. Este é, aliás, o entendimento do Superior Tribunal de Justiça STJ, como se vê no julgamento do Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.335.688/PR, em 4/12/2012, Relator Min. Benedito Gonçalves (sublinhei): AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE Fl. 1372DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.372 32 MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido Vale destacar o seguinte trecho da decisão: Quanto ao mérito, registrou o acórdão proferido pelo TRF da 4ª Região à fl. 163: "... os juros de mora são devidos para compensar a demora no pagamento. Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento." Conforme o antes transcrito § 3º do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, a taxa aplicável ao débitos de que aqui se trata, aí incluídos, como se viu, os decorrentes da aplicação de multa de ofício, é aquela "a que se refere o § 3º do art. 5º", qual seja a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC. Vejase: Art. 5º (...) § 3º As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Nesse quadrante, o fato de o art. 43 da Lei nº 9.430, de 1996, trazer disposição expressa sobre a incidência dos juros de mora sobre a multa isolada, ao invés de reforçar a tese de não incidência dos juros sobe a multa de ofício, como defende a Contribuinte, concorre no sentido da incidência. Isso porque o dispositivo em questão, ao fixar a possibilidade de se formalizar "auto de infração sem tributo", referese ao "crédito tributário" formalizado, evidenciando que essa expressão alberga também a penalidade pecuniária. Confirase: Auto de Infração sem Tributo Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Fl. 1373DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.373 33 Também aqui, portanto, não deve ser acolhido o recurso da Contribuinte. Recurso Especial da Fazenda Nacional Cingese o recurso fazendário ao tema da aplicação da multa isolada por falta de recolhimento das estimativas. A lei determina que as pessoas jurídicas sujeitas à apuração do lucro real, apurem seus resultados trimestralmente. Como alternativa, facultou, o legislador, a possibilidade de a pessoa jurídica, obrigada ao lucro real, apurar seus resultados anualmente, desde que antecipe pagamentos mensais, a título de estimativa, que devem ser calculados com base na receita bruta mensal, ou com base em balanço/balancete de suspensão e/ou redução. Observese: Lei nº 9.430, de 1996 (redação original): Art. 2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. § 1º O imposto a ser pago mensalmente na forma deste artigo será determinado mediante a aplicação, sobre a base de cálculo, da alíquota de quinze por cento. § 2º A parcela da base de cálculo, apurada mensalmente, que exceder a R$ 20.000,00 (vinte mil reais) ficará sujeita à incidência de adicional de imposto de renda à alíquota de dez por cento. § 3º A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma deste artigo deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano, exceto nas hipóteses de que tratam os §§ 1º e 2º do artigo anterior. § 4º Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: I dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os limites e prazos fixados na legislação vigente, bem como o disposto no § 4º do art. 3º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base no lucro da exploração; III do imposto de renda pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; Fl. 1374DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.374 34 IV do imposto de renda pago na forma deste artigo. [...] Vêse, então, que a pessoa jurídica, obrigada a apurar seus resultados de acordo com as regras do lucro real trimestral, tem a opção de fazêlo com a periodicidade anual, desde que, efetue pagamentos mensais a título de estimativa. Essa é a regra do sistema. No presente caso, a Contribuinte fez a opção por apurar o lucro real anualmente, sujeitandose, assim, e de forma obrigatória, aos recolhimentos mensais a título de estimativas. Como se vê no Termo de Verificação Fiscal TVF (efls. 20/37), a multa isolada aplicada pela falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e de CSLL teve fulcro no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, mais precisamente em seu inciso II, alínea "b", com as modificações introduzidas pela Lei nº 11.488, de 2007. A exigência da multa isolada foi mantida pela autoridade julgadora de 1ª Instância, mas afastada pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF sob o argumento de que após o encerramento do anocalendário objeto do lançamento, quando já apurada a base de cálculo do IRPJ e da CSLL efetivamente devidos nos períodos, impossível coexistirem num determinado momento (ocasião do lançamento) duas bases de cálculo para uma mesma exação, ou seja, uma com base nas estimativas mensais e outra ao final do ano calendário. Equivocada, como se verá, a decisão da Turma do CARF recorrida, devendo ser restabelecida a multa isolada. Há aqueles que alegam que as alterações promovidas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, pela Medida Provisória nº 351, de 22 de janeiro de 2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488, de 2007, não teriam afetado, substancialmente, a infração sujeita à aplicação da multa isolada, apenas reduzindo o seu percentual de cálculo e mantendo a vinculação da base imponível ao tributo devido no ajuste anual. Nesse sentido invocam a própria Exposição de Motivos da Medida Provisória nº 351, de 2007, limitouse a esclarecer que a alteração do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, efetuada pelo art. 14 do Projeto, tem o objetivo de reduzir o percentual da multa de ofício, lançada isoladamente, nas hipóteses de falta de pagamento mensal devido pela pessoa física a título de carnêleão ou pela pessoa jurídica a título de estimativa, bem como retira a hipótese de incidência da multa de ofício no caso de pagamento do tributo após o vencimento do prazo, sem o acréscimo da multa de mora. E, ainda que se entenda que a identidade de bases de cálculo foi superada pela nova redação do dispositivo legal, para essas pessoas subsistiria o fato de as duas penalidades decorrerem de falta de recolhimento de tributo, o que imporia o afastamento da penalidade menos gravosa. Ora, a vinculação entre os recolhimentos antecipados e a apuração do ajuste anual é inconteste, até porque a antecipação só é devida porque o sujeito passivo opta por postergar para o final do anocalendário a apuração dos tributos incidentes sobre o lucro. Contudo, a sistemática de apuração anual demanda uma punição diferenciada em face de infrações das quais resulta falta de recolhimento de tributo pois, na apuração anual, o fluxo de arrecadação da União está prejudicado desde o momento em que a estimativa é devida, e se a exigência do tributo com encargos ficar limitada ao devido por ocasião do ajuste Fl. 1375DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.375 35 anual, além de não se conseguir reparar todo o prejuízo experimentado à União, há um desestímulo à opção pela apuração trimestral do lucro tributável, hipótese na qual o sujeito passivo responderia pela infração com encargos desde o trimestre de sua ocorrência. Na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, esta penalidade foi prevista nos mesmos termos daquela aplicável ao tributo não recolhido no ajuste anual, ou seja, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição, inclusive no mesmo percentual de 75%, e passível de agravamento ou qualificação se presentes as circunstâncias indicadas naquele dispositivo legal. Vejase: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Vide Lei nº 10.892, de 2004) § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; [...] III isoladamente, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto (carnêleão) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de fazêlo, ainda que não tenha apurado imposto a pagar na declaração de ajuste; IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente; V isoladamente, no caso de tributo ou contribuição social lançado, que não houver sido pago ou recolhido. (Revogado pela Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Revogado pela Lei nº 9.716, de 1998) [...] A redação original do dispositivo legal resultou, assim, em punições equivalentes para a falta de recolhimento de estimativas e do ajuste anual. E, decidindo sobre este conflito, a jurisprudência administrativa posicionouse majoritariamente contra a Fl. 1376DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.376 36 subsistência da multa isolada, porque calculada a partir da mesma base de cálculo punida com a multa proporcional, e ainda no mesmo percentual desta. Frente a tais circunstâncias, o art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, foi alterado pela Medida Provisória nº 351, de 2007, para prever duas penalidades distintas: a primeira de 75% calculada sobre o imposto ou contribuição que deixasse de ser recolhido e declarado, e exigida conjuntamente com o principal (inciso I do art. 44), e a segunda de 50% calculada sobre o pagamento mensal que deixasse de ser efetuado, ainda que apurado prejuízo fiscal ou base negativa ao final do anocalendário, e exigida isoladamente (inciso II do art. 44). Além disso, as hipóteses de qualificação (§1º do art. 44) e agravamento (2º do art. 44) ficaram restritas à penalidade aplicável à falta de pagamento e declaração do imposto ou contribuição. Observese: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. I (revogado); II (revogado); III (revogado); IV (revogado); V (revogado pela Lei nº 9.716, de 26 de novembro de 1998). As conseqüências desta alteração foram apropriadamente expostas pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão no voto condutor do Acórdão nº 9101002.251: Logo, tendo sido alterada a base de cálculo eleita pelo legislador para a multa isolada de totalidade ou diferença de tributo ou contribuição para valor do pagamento mensal, não há mais qualquer vínculo, ou dependência, da multa isolada com a apuração de tributo devido. Fl. 1377DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.377 37 Perfilhando o entendimento de que não se confunde a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição com o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, é vasta a jurisprudência desta CSRF, valendo mencionar dos últimos cinco anos, entre outros, os acórdãos nºs 910100577, de 18 de maio de 2010, 910100.685, de 31 de agosto de 2010, 9101 00.879, de 23 de fevereiro de 2011, nº 9101001.265, de 23 de novembro de 2011, nº 9101001.336, de 26 de abril de 2012, nº 9101001.547, de 22 de janeiro de 2013, nº 9101001.771, de 16 de outubro de 2013, e nº 9101002.126, de 26 de fevereiro de 2015, todos assim ementados (destaquei): O artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, preceitua que a multa de ofício deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. Daí porque despropositada a decisão recorrida que, após reconhecer expressamente a modificação da redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 pela Lei nº 11.488, de 2007, e transcrever os mesmos dispositivos legais acima, abruptamente conclui no sentido de que (efls. 236): Portanto, cabe excluir a exigência da multa de ofício isolada concomitante à multa proporcional. Em despacho de admissibilidade de embargos de declaração por omissão, interpostos pela Fazenda Nacional contra aquela decisão, e rejeitados, foi dito o seguinte (efls. 247): Por fim, reafirmo a impossibilidade da aplicação cumulativa dessas multas. Isso porque é sabido que um dos fatores que levou à mudança da redação do citado art. 44 da Lei 9.430/1996 foram os julgados deste Conselho, sendo que à época da edição da Lei 11.488/2007 já predominava esse entendimento. Vejamos novamente a redação de parte [das] disposições do art. 44 da Lei 9.430/1996 alteradas/incluídas pela Lei 11.488/2007: [...]. Ora, o legislador tinha conhecimento da jurisprudência deste Conselho quanto à impossibilidade de aplicação cumulativa da multa isolada com a multa de oficio, além de outros entendimentos no sentido de que não poderia ser exigida se apurado prejuízo fiscal no encerramento do anocalendário, ou se o tributo tivesse sido integralmente pago no ajuste anual. Todavia, tratou apenas das duas últimas hipóteses na nova redação, ou seja, deixou de prever a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas. E não se diga que seria esquecimento, pois, logo a seguir, no parágrafo § 1º, excetuou a cumulatividade de penalidades quando a ensejar a aplicação dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964. Bastava ter acrescentado mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996, estabelecendo expressamente essa hipótese, que aliás é a questão de maior incidência. Fl. 1378DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.378 38 Ao deixar de fazer isso, uma das conclusões factíveis é que essa cumulatividade é mesmo indevida. Ora, o legislador, no caso, fez mais do que faria se apenas acrescentasse “mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996”. Na realidade, o que, na redação primeira, era apenas um inciso subordinado a um parágrafo do artigo (art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996), tornouse um inciso vinculado ao próprio caput do artigo (art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996), no mesmo patamar, portanto, do inciso então preexistente, que previa a multa de ofício. Vejase a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 11.488, de 2007 (sublinhei): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]; Dessa forma, a norma legal, ao estatuir que “nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas”, está a se referir, iniludivelmente, às duas multas em conjunto, e não mais em separado, como dava a entender a antiga redação do dispositivo. Nessas condições, não seria necessário que a norma previsse “a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”. Pelo contrário: seria necessário, sim se fosse esse o caso, que a norma excetuasse essa possibilidade, o que nela não foi feito. Por conseguinte, não há que se falar como pretendeu o sujeito passivo, por ocasião de seu recurso voluntário em “identidade quanto ao critério pessoal e material de ambas as normas sancionatórias”. Se é verdade que as duas normas sancionatórias, pelo critério pessoal, alcançam o mesmo contribuinte (sujeito passivo), não é verdade que o critério material (verbo + complemento) de uma e de outra se centre “no descumprimento da relação jurídica que determina o recolhimento integral do tributo devido”. O complemento do critério material de ambas é, agora, distinto: o da multa de ofício é a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição; já o da multa isolada é o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, cuja materialidade, como visto anteriormente, não se confunde com aquela. (grifos do original) Fl. 1379DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.379 39 Destaquese, ainda, que a penalidade agora prevista no art. 44, inciso II da Lei nº 9.430, de 1996, é exigida isoladamente e mesmo se não apurado lucro tributável ao final do anocalendário. A conduta reprimida, portanto, é a inobservância do dever de antecipar, mora que prejudica a União durante o período verificado entre data em que a estimativa deveria ser paga e o encerramento do anocalendário. A falta de recolhimento do tributo em si, que se perfaz a partir da ocorrência do fato gerador ao final do anocalendário, sujeitase a outra penalidade e a juros de mora incorridos apenas a partir de 1º de fevereiro do ano subseqüente9. Diferentes, portanto, são os bens jurídicos tutelados, e limitar a penalidade àquela aplicada em razão da falta de recolhimento do ajuste anual é um incentivo ao descumprimento do dever de antecipação ao qual o sujeito passivo voluntariamente se vinculou, ao optar pelas vantagens decorrentes da apuração do lucro tributável apenas ao final do anocalendário. E foi, justamente, a alteração legislativa acima que motivou a edição da referida Súmula CARF nº 105. Explico. O enunciado de súmula em referência foi aprovado pela 1ª Turma da CSRF em 08 de dezembro de 2014. Antes, enunciado semelhante foi, por sucessivas vezes, rejeitado pelo Pleno da CSRF, e mesmo pela 1ª Turma da CSRF. Vejase, abaixo, os verbetes submetidos a votação de 2009 a 2014: PORTARIA Nº 97, DE 24 DE NOVEMBRO DE 200910 [...] ANEXO I I ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DO PLENO: [...] 12. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº : Até a vigência da Medida Provisória nº 351/2007, a multa isolada decorrente da falta ou insuficiência de antecipações não pode ser exigida concomitantemente com a multa de ofício incidente sobre o tributo apurado no ajuste anual. [...] PORTARIA Nº 27, DE 19 DE NOVEMBRO DE 201211 [...] ANEXO ÚNICO 9 Neste sentido é o disposto no art. 6º, §1º c/c §2º da Lei nº 9.430, de 1996. 10 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 112, em 27 de novembro de 2009. 11 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 19, em 27 de novembro de 2012. Fl. 1380DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.380 40 [...] II ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DA 1ª TURMA DA CSRF: [...] 17. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº: Até 21 de janeiro de 2007, descabe o lançamento de multa isolada em razão do não recolhimento do imposto de renda devido em carnêleão aplicada em concomitância com a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Acórdãos precedentes: 10422036, de 09/06/2006; 3401 00078, de 01/06/2009; 340100047, de 06/05/2009; 10423338, de 26/06/2008; 920200.699, de 13/04/2010; 920201.833, de 25/ 10/ 2011. [...] III ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DA 2ª TURMA DA CSRF: [...] 22. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº: Até 21 de janeiro de 2007, descabe o lançamento de multa isolada em razão do não recolhimento do imposto de renda devido em carnêleão aplicada em concomitância com a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Acórdãos precedentes: 10422036, de 09/06/2006; 3401 00078, de 01/06/2009; 340100047, de 06/05/2009; 10423338, de 26/06/2008; 920200.699, de 13/04/2010; 920201.833, de 25/ 10/ 2011. [...] PORTARIA Nº 18, DE 20 DE NOVEMBRO DE 201312 [...] ANEXO I I Enunciados a serem submetidos ao Pleno da CSRF: [...] 9ª. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA 12 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 71, de 27 de novembro de 2013. Fl. 1381DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.381 41 Até a vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007, incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Acórdãos Precedentes: 9101001261, de 22/11/11; 9101 001203, de 22/11/11; 9101001238, de 21/11/11; 9101001307, de 24/04/12; 1402001.217, de 04/10/12; 110200748, de 09/05/12; 1803001263, de 10/04/12. [...] PORTARIA Nº 23, DE 21 DE NOVEMBRO DE 201413 [...] ANEXO I [...] II Enunciados a serem submetidos à 1ª Turma da CSRF: [...] 13ª. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Acórdãos Precedentes: 9101001.261, de 22/11/2011; 9101 001.203, de 17/10/2011; 9101001.238, de 21/11/2011; 9101 001.307, de 24/04/2012; 1402001.217, de 04/10/2012; 1102 00.748, de 09/05/2012; 1803001.263, de 10/04/2012. [...] É de se destacar que os enunciados assim propostos de 2009 a 2013 exsurgem da jurisprudência firme, contrária à aplicação concomitante das penalidades antes da alteração promovida no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, pela Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007. Jurisprudência esta, aliás, que motivou a alteração legislativa. De outro lado, a discussão acerca dos lançamentos formalizados em razão de infrações cometidas a partir do novo contexto legislativo ainda não apresentava densidade suficiente para indicar qual entendimento deveria ser sumulado. Considerando tais circunstâncias, o Pleno da CSRF, e também a 1ª Turma da CSRF, rejeitou, por três vezes, nos anos de 2009, 2012 e 2013, o enunciado contrário à 13 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 12, de 25 de novembro de 2014. Fl. 1382DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.382 42 concomitância das penalidades até a vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007. As discussões nestas votações motivaram alterações posteriores com o objetivo de alcançar redação que fosse acolhida pela maioria qualificada, na forma regimental. Com a rejeição do enunciado de 2009, a primeira alteração consistiu na supressão da vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007, substituindoa, como marco temporal, pela referência à data de sua publicação. Também foram separadas as hipóteses pertinentes ao IRPJ/CSLL e ao IRPF, submetendose à 1ª Turma e à 2ª Turma da CSRF os enunciados correspondentes. Seguindose nova rejeição em 2012, o enunciado de 2009 foi reiterado em 2013 e, mais uma vez, rejeitado. Este cenário deixou patente a imprestabilidade de enunciado distinguindo as ocorrências alcançadas a partir da expressão "até a vigência da Medida Provisória nº 351", de 2007, ou até a data de sua publicação. E isto porque a partir da redação proposta havia o risco de a súmula ser invocada para declarar o cabimento da exigência concomitante das penalidades a partir das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, apesar de a jurisprudência ainda não estar consolidada neste sentido. Para afastar esta interpretação, o enunciado aprovado pela 1ª Turma da CSRF em 2014 foi redigido de forma direta, de modo a abarcar, apenas, a jurisprudência firme daquele Colegiado: a impossibilidade de cumulação, com a multa de ofício proporcional aplicada sobre os tributos devidos no ajuste anual, das multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas exigidas com fundamento na legislação antes de sua alteração pela Medida Provisória nº 351, de 2007. Omitiuse, intencionalmente, qualquer referência às situações verificadas depois da alteração legislativa em tela, em razão da qual a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas passou a estar prevista no art. 44, inciso II, alínea "b", e não mais no art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, sempre com vistas a atribuir os efeitos sumulares14 à parcela do litígio já pacificada. 14 Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e alterado pela Portaria MF nº 586, de 2010: [...] Anexo II [...] Art. 18. Aos presidentes de Câmara incumbe, ainda: [...] XXI negar, de ofício ou por proposta do relator, seguimento ao recurso que contrarie enunciado de súmula ou de resolução do Pleno da CSRF, em vigor, quando não houver outra matéria objeto do recurso; [...] Art. 53. A sessão de julgamento será pública, salvo decisão justificada da turma para exame de matéria sigilosa, facultada a presença das partes ou de seus procuradores. [...] § 4° Serão julgados em sessões não presenciais os recursos em processos de valor inferior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) ou, independentemente do valor, forem objeto de súmula ou resolução do CARF ou de decisões do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça na sistemática dos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil. [...] Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. [...] § 2° Não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que aplique súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais ou do CARF, ou que, na apreciação de matéria preliminar, decida pela anulação da decisão de primeira instância. Fl. 1383DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.383 43 Assim, a Súmula CARF nº 105 tem aplicação, apenas, em face de multas lançadas com fundamento na redação original do art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, ou seja, tendo por referência infrações cometidas antes da alteração promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, publicada em 22 de janeiro de 2007, e ainda que a exigência tenha sido formalizada já com o percentual reduzido de 50%, dado que tal providência não decorre de nova fundamentação do lançamento, mas sim da retroatividade benigna prevista pelo art. 106, inciso II, alínea "c", do CTN. Neste sentido, vale observar que os precedentes indicados para aprovação da súmula reportamse, todos, a infrações cometidas antes de 2007: Acórdão nº 9101001.261: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2001 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Acórdão nº 9101001.203: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2000, 2001 Ementa: MULTA ISOLADA. ANOSCALENDÁRIO DE 1999 e 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor das glosas efetivadas pela Fiscalização. Acórdão nº 9101001.238: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Fl. 1384DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.384 44 Exercício: 2001 [...] MULTA ISOLADA. ANOCALENDÁRIO DE 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor da receita omitida apurado em procedimento fiscal. Acórdão nº 9101001.307: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 1998 [...] MULTA ISOLADA APLICAÇÃO CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Acórdão nº 1402001.217: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 [...] MULTA DE OFICIO ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a penalidade quando existir concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual (mesma base). [...] Fl. 1385DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.385 45 Acórdão nº 1102000.748: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2000, 2001 Ementa: [...] LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PENALIDADE. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. Devem ser exoneradas as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas, uma vez que, cumulativamente foram exigidos os tributos com multa de ofício, e a base de cálculo das multas isoladas está inserida na base de cálculo das multas de ofício, sendo descabido, nesse caso, o lançamento concomitante de ambas. [...] Acórdão nº 1803001.263: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 [...] APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Frente a tais circunstâncias, ainda que precedentes da súmula veiculem fundamentos autorizadores do cancelamento de exigências formalizadas a partir da alteração promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, não são eles, propriamente, que vinculam o julgador administrativo, mas sim o enunciado da súmula, no qual está sintetizada a questão pacificada. Digo isso porque esses precedentes têm sido utilizados para se tentar aplicar outra tese no sentido de afastar a multa, qual seja a do princípio da consunção. Ora se o Fl. 1386DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.386 46 princípio da consunção fosse fundamento suficiente para inexigibilidade concomitante das multas em debate, o enunciado seria genérico, sem qualquer referência ao fundamento legal dos lançamentos alcançados. A citação expressa do texto legal prestase a firmar esta circunstância como razão de decidir relevante extraída dos paradigmas, cuja presença é essencial para aplicação das conseqüências do entendimento sumulado. Há quem argumente que o princípio da consunção veda a cumulação das penalidades. Sustentam os adeptos dessa tese que o não recolhimento da estimativa mensal seria etapa preparatória da infração cometida no ajuste anual e, em tais circunstâncias o princípio da consunção autorizaria a subsistência, apenas, da penalidade aplicada sobre o tributo devido ao final do anocalendário, prestigiando o bem jurídico mais relevante, no caso, a arrecadação tributária, em confronto com a antecipação de fluxo de caixa assegurada pelas estimativas. Ademais, como a base fática para imposição das penalidades seria a mesma, a exigência concomitante das multas representaria bis in idem, até porque, embora a lei tenha previsto ambas penalidades, não determinou a sua aplicação simultânea. E acrescentam que, em se tratando de matéria de penalidades, seria aplicável o art. 112 do CTN. Entretanto, com a devida vênia, discordo desse entendimento. Para tanto, aproveitome, inicialmente do voto proferido pela Conselheira Karem Jureidini Dias na condução do acórdão nº 9101001.135, para trazer sua abordagem conceitual acerca das sanções em matéria tributária: [...] A sanção de natureza tributária decorre do descumprimento de obrigação tributária – qual seja, obrigação de pagar tributo. A sanção de natureza tributária pode sofrer agravamento ou qualificação, esta última em razão de o ilícito também possuir natureza penal, como nos casos de existência de dolo, fraude ou simulação. O mesmo auto de infração pode veicular, também, norma impositiva de multa em razão de descumprimento de uma obrigação acessória obrigação de fazer – pois, ainda que a obrigação acessória sempre se relacione a uma obrigação tributária principal, revestese de natureza administrativa. Sobre as obrigações acessórias e principais em matéria tributária, vale destacar o que dispõe o artigo 113 do Código Tributário Nacional: “Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária.” Fica evidente da leitura do dispositivo em comento que a obrigação principal, em direito tributário, é pagar tributo, e a Fl. 1387DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.387 47 obrigação acessória é aquela que possui características administrativas, na medida em que as respectivas normas comportamentais servem ao interesse da administração tributária, em especial, quando do exercício da atividade fiscalizatória. O dispositivo transcrito determina, ainda, que em relação à obrigação acessória, ocorrendo seu descumprimento pelo contribuinte e imposta multa, o valor devido convertese em obrigação principal. Vale destacar que, mesmo ocorrendo tal conversão, a natureza da sanção aplicada permanece sendo administrativa, já que não há cobrança de tributo envolvida, mas sim a aplicação de uma penalidade em razão da inobservância de uma norma que visava proteger os interesses fiscalizatórios da administração tributária. Assim, as sanções em matéria tributária podem ter natureza (i) tributária principal quando se referem a descumprimento da obrigação principal, ou seja, falta de recolhimento de tributo; (ii) administrativa – quando se referem à mero descumprimento de obrigação acessória que, em verdade, tem por objetivo auxiliar os agentes públicos que se encarregam da fiscalização; ou, ainda (iii) penal – quando qualquer dos ilícitos antes mencionados representar, também, ilícito penal. Significa dizer que, para definir a natureza da sanção aplicada, necessário se faz verificar o antecedente da norma sancionatória, identificando a relação jurídica desobedecida. Aplicamse às sanções o princípio da proporcionalidade, que deve ser observado quando da aplicação do critério quantitativo. Neste ponto destacamos a lição de Helenilson Cunha Pontes a respeito do princípio da proporcionalidade em matéria de sanções tributárias, verbis: “As sanções tributárias são instrumentos de que se vale o legislador para buscar o atingimento de uma finalidade desejada pelo ordenamento jurídico. A análise da constitucionalidade de uma sanção deve sempre ser realizada considerando o objetivo visado com sua criação legislativa. De forma geral, como lembra Régis Fernandes de Oliveira, “a sanção deve guardar proporção com o objetivo de sua imposição”. O princípio da proporcionalidade constitui um instrumento normativo constitucional através do qual podese concretizar o controle dos excessos do legislador e das autoridades estatais em geral na definição abstrata e concreta das sanções”. O primeiro passo para o controle da constitucionalidade de uma sanção, através do princípio da proporcionalidade, consiste na perquirição dos objetivos imediatos visados com a previsão abstrata e/ou com a imposição concreta da sanção. Vale dizer, na perquirição do interesse público que valida a previsão e a imposição de sanção”. (in “O Princípio da Proporcionalidade e o Direito Tributário”, ed. Dialética, São Paulo, 2000, pg.135) Assim, em respeito a referido princípio, é possível afirmar que: se a multa é de natureza tributária, terá por base apropriada, via de regra, o montante do tributo não recolhido. Se a multa é de natureza administrativa, a base de cálculo terá por grandeza montante proporcional ao ilícito que se pretende proibir. Em Fl. 1388DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.388 48 ambos os casos as sanções podem ser agravadas ou qualificadas. Agravada, se além do descumprimento de obrigação acessória ou principal, houver embaraço à fiscalização, e, qualificada se ao ilícito somarse outro de cunho penal – existência de dolo, fraude ou simulação. A MULTA ISOLADA POR NÃO RECOLHIMENTO DAS ANTECIPAÇÕES A multa isolada, aplicada por ausência de recolhimento de antecipações, é regulada pelo artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A norma prevê, portanto, a imposição da referida penalidade quando o contribuinte do IRPJ e da CSLL, sujeito ao Lucro Real Anual, deixar de promover as antecipações devidas em razão da disposição contida no artigo 2º da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A natureza das antecipações, por sua vez, já foi objeto de análise do Superior Tribunal de Justiça, que manifestou entendimento no sentido de considerar que as antecipações se referem ao pagamento de tributo, conforme se depreende dos seguintes julgados: “TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE RENDA. CSSL. RECOLHIMENTO ANTECIPADO. ESTIMATIVA. TAXA SELIC. INAPLICABILIDADE. 1. "É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96" (AgRg no REsp 694278RJ, relator Ministro Humberto Martins, DJ de 3/8/2006). 2. A antecipação do pagamento dos tributos não configura pagamento indevido à Fazenda Pública que justifique a incidência da taxa Selic. 3. Recurso especial improvido.” (Recurso Especial 529570 / SC Relator Ministro João Otávio de Noronha Segunda Turma Data do Julgamento 19/09/2006 DJ 26.10.2006 p. 277) “AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA IRPJ E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSSL APURAÇÃO POR ESTIMATIVA PAGAMENTO ANTECIPADO OPÇÃO DO CONTRIBUINTE LEI N. 9430/96. É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista Fl. 1389DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.389 49 no art. 2° da Lei n. 9430/96. Precedentes: REsp 492.865/RS, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ25.4.2005 e REsp 574347/SC, Rel. Min. José Delgado, DJ 27.9.2004.Agravo regimental improvido.” (Agravo Regimental No Recurso Especial 2004/01397180 Relator Ministro Humberto Martins Segunda Turma DJ 17.08.2006 p. 341) Do exposto, inferese que a multa em questão tem natureza tributária, pois aplicada em razão do descumprimento de obrigação principal, qual seja, falta de pagamento de tributo, ainda que por antecipação prevista em lei. Debates instalaramse no âmbito desse Conselho Administrativo sobre a natureza da multa isolada. Inicialmente me filiei à corrente que entendia que a multa isolada não poderia prosperar porque penalizava conduta que não se configurava obrigação principal, tampouco obrigação acessória. Ou seja, mantinha o entendimento de que a multa em questão não se referia a qualquer obrigação prevista no artigo 113 do Código Tributário Nacional, na medida em que penalizava conduta que, a meu ver à época, não podia ser considerada obrigação principal, já que o tributo não estava definitivamente apurado, tampouco poderia ser considerada obrigação acessória, pois evidentemente não configura uma obrigação de caráter meramente administrativo, uma vez que a relação jurídica prevista na norma primária dispositiva é o “pagamento” de antecipação. Nada obstante, modifiquei meu entendimento, mormente por concluir que tratase, em verdade, de multa pelo não pagamento do tributo que deve ser antecipado. Ainda que tenha o contribuinte declarado e recolhido o montante devido de IRPJ e CSLL ao final do exercício, fato é que caberá multa isolada quando o contribuinte não efetua a antecipação deste tributo. Tanto assim que, até a alteração promovida pela Lei nº 11.488/07, o caput do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, previa que o cálculo das multas ali estabelecidas seria realizado “sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”. Frente a estas considerações, releva destacar que a penalidade em debate é exigida isoladamente, sem qualquer hipótese de agravamento ou qualificação e, embora seu cálculo tenha por referência a antecipação não realizada, sua exigência não se dá por falta de "pagamento de tributo", dado o fato gerador do tributo sequer ter ocorrido. De forma semelhante, outras penalidades reconhecidas como decorrentes do descumprimento de obrigações acessórias são calculadas em razão do valor dos tributos devidos15 e exigidas de forma isolada. 15 Lei nº 10.426, de 2002: Art. 7º O sujeito passivo que deixar de apresentar Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ, Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica, Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte DIRF e Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais Dacon, nos prazos fixados, ou que as apresentar com incorreções ou omissões, será intimado a apresentar declaração original, no caso de nãoapresentação, ou a prestar esclarecimentos, nos demais casos, no prazo estipulado pela Secretaria da Receita Federal SRF, e sujeitarseá às seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) Fl. 1390DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.390 50 Sob esta ótica, o recolhimento de estimativas melhor se alinha ao conceito de obrigação acessória que à definição de obrigação principal, até porque a antecipação do recolhimento é, em verdade, um ônus imposto aos que voluntariamente optam pela apuração anual do lucro tributável, e a obrigação acessória, nos termos do art. 113, §2º do CTN, é medida prevista não só no interesse da fiscalização, mas também da arrecadação dos tributos. Vejase, aliás, que as manifestações do Superior Tribunal de Justiça acima citadas expressamente reconhecem este ônus como decorrente de uma opção, e distinguem a antecipação do pagamento do pagamento em si, isto para negar a aplicação de juros a partir de seu recolhimento no confronto com o tributo efetivamente devido ao final do anocalendário. É certo que a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça já consolidou seu entendimento contrariamente à aplicação concomitante das penalidades em razão do princípio da consunção, conforme evidencia a ementa de julgado recente proferido no Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.576.289/RS: TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44, I E II, DA LEI 9.430/1996 (REDAÇÃO DADA PELA LEI 11.488/2007). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTES. 1. A Segunda Turma do STJ tem posição firmada pela impossibilidade de aplicação concomitante das multas isolada e de ofício previstas nos incisos I e II do art. 44 da Lei 9.430/1996 (AgRg no REsp 1.499.389/PB, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28/9/2015; REsp 1.496.354/PR, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 24/3/2015). 2. Agravo Regimental não provido. Todavia, referidos julgados não são de observância obrigatória na forma do art. 62, §1º, inciso II, alínea "b" do Anexo II do Regimento Interno do CARF aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015. Além disso, a interpretação de que a falta de recolhimento da antecipação mensal é infração abrangida pela falta de recolhimento do ajuste anual, sob o pressuposto da existência de dependência entre elas, sendo a primeira infração preparatória da segunda, desconsidera o prejuízo experimentado pela União com a mora subsistente em razão de o tributo devido no ajuste anual sofrer encargos somente a partir do encerramento do ano I de dois por cento ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante do imposto de renda da pessoa jurídica informado na DIPJ, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega desta Declaração ou entrega após o prazo, limitada a vinte por cento, observado o disposto no § 3º; II de dois por cento ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante dos tributos e contribuições informados na DCTF, na Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica ou na Dirf, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega destas Declarações ou entrega após o prazo, limitada a vinte por cento, observado o disposto no § 3º; III de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante da Cofins, ou, na sua falta, da contribuição para o PIS/Pasep, informado no Dacon, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega desta Declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo; e (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) IV de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) [...] Fl. 1391DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.391 51 calendário. Favorece, assim, o sujeito passivo que se obrigou às antecipações para apurar o lucro tributável apenas ao final do anocalendário, conferindolhe significativa vantagem econômica em relação a outro sujeito passivo que, cometendo a mesma infração, mas optando pela regra geral de apuração trimestral dos lucros, suportaria, além do ônus da escrituração trimestral dos resultados, os encargos pela falta de recolhimento do tributo calculados desde o encerramento do período trimestral. Quanto à transposição do princípio da consunção para o Direito Tributário, vale a transcrição da oposição manifestada pelo Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior no voto condutor do acórdão nº 1302001.823: Da inviabilidade de aplicação do princípio da consunção O princípio da consunção é princípio específico do Direito Penal, aplicável para solução de conflitos aparentes de normas penais, ou seja, situações em que duas ou mais normas penais podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato. Primeiramente, há que se ressaltar que a norma sancionatória tributária não é norma penal stricto sensu. Vale aqui a lembrança que o parágrafo único do art. 273 do anteprojeto do CTN (hoje, art. 112 do CTN), elaborado por Rubens Gomes de Sousa, previa que os princípios gerais do Direito Penal se aplicassem como métodos ou processos supletivos de interpretação da lei tributária, especialmente da lei tributária que definia infrações. Esse dispositivo foi rechaçado pela Comissão Especial de 1954 que elaborou o texto final do anteprojeto, sendo que tal dispositivo não retornou ao texto do CTN que veio a ser aprovado pelo Congresso Nacional. À época, a Comissão Especial do CTN acolheu os fundamentos de que o direito penal tributário não tem semelhança absoluta com o direito penal (sugestão 789, p. 513 dos Trabalhos da Comissão Especial do CTN) e que o direito penal tributário não é autônomo ao direito tributário, pois a pena fiscal mais se assemelha a pena cível do que a criminal (sugestão 787, p.512, idem). Não é difícil, assim, verificar que, na sua gênese, o CTN afastou a possibilidade de aplicação supletiva dos princípios do direito penal na interpretação da norma tributária, logicamente, salvo aqueles expressamente previstos no seu texto, como por exemplo, a retroatividade benigna do art. 106 ou o in dubio pro reo do art. 112. Oportuna, também, a citação da abordagem exposta em artigo publicado por Heraldo Garcia Vitta16: O Direito Penal é especial, contém princípios, critérios, fundamentos e normas particulares, próprios desse ramo jurídico; por isso, a rigor, as regras dele não podem ser estendidas além dos casos para os quais foram instituídas. De fato, não se aplica norma jurídica senão à ordem de coisas para a qual foi estabelecida; não se pode pôr de lado a natureza da lei, nem o ramo do Direito a que pertence a regra tomada por 16 http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2644 Fl. 1392DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.392 52 base do processo analógico.[15 Carlos Maximiliano, Hermenêutica e aplicação do direito, p.212] Na hipótese de concurso de crimes, o legislador escolheu critérios específicos, próprios desse ramo de Direito. Logo, não se justifica a analogia das normas do Direito Penal no tema concurso real de infrações administrativas. A ‘forma de sancionar’ é instituída pelo legislador, segundo critérios de conveniência/oportunidade, isto é, discricionariedade. Competelhe elaborar, ou não, regras a respeito da concorrência de infrações administrativas. No silêncio, ocorre cúmulo material. Aliás, no Direito Administrativo brasileiro, o legislador tem procurado determinar o cúmulo material de infrações, conforme se observa, por exemplo, no artigo 266, da Lei nº 9.503, de 23.12.1997 (Código de Trânsito Brasileiro), segundo o qual “quando o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações, serlheão aplicadas, cumulativamente, as respectivas penalidades”. Igualmente o artigo 72, §1º, da Lei 9.605, de 12.2.1998, que dispõe sobre sanções penais e administrativas derivadas de condutas lesivas ao meio ambiente: “Se o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações [administrativas, pois o disposto está inserido no Capítulo VI – Da Infração Administrativa] serlheão aplicadas, cumulativamente, as sanções a elas cominadas”. E também o parágrafo único, do artigo 56, da Lei nº 8.078, de 11.9.1990, que regula a proteção do consumidor: “As sanções [administrativas] previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar antecedente ou incidente de procedimento administrativo”.[16 Evidentemente, se ocorrer, devido ao acúmulo de sanções, perante a hipótese concreta, pena exacerbada, mesmo quando observada imposição do mínimo legal, isto é, quando a autoridade administrativa tenha imposto cominação mínima, estabelecida na lei, ocorrerá invalidação do ato administrativo, devido ao princípio da proporcionalidade.] No Direito Penal são exemplos de aplicação do princípio da consunção a absorção da tentativa pela consumação, da lesão corporal pelo homicídio e da violação de domicílio pelo furto em residência. Característica destas ocorrências é a sua previsão em normas diferentes, ou seja, a punição concebida de forma autônoma, dada a possibilidade fática de o agente ter a intenção, apenas, de cometer o crime que figura como delitomeio ou delito fim. Já no caso em debate, a norma tributária prevê expressamente a aplicação das duas penalidades em face da conduta de sujeito passivo que motive lançamento de ofício, como bem observado pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão no já citado voto condutor do acórdão nº 9101002.251: [...] Fl. 1393DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.393 53 Ora, o legislador, no caso, fez mais do que faria se apenas acrescentasse “mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996”. Na realidade, o que, na redação primeira, era apenas um inciso subordinado a um parágrafo do artigo (art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996), tornouse um inciso vinculado ao próprio caput do artigo (art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996), no mesmo patamar, portanto, do inciso então preexistente, que previa a multa de ofício. Vejase a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 11.488, de 2007 (sublinhei): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]; Dessa forma, a norma legal, ao estatuir que “nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas”, está a se referir, iniludivelmente, às duas multas em conjunto, e não mais em separado, como dava a entender a antiga redação do dispositivo. Nessas condições, não seria necessário que a norma previsse “a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”. Pelo contrário: seria necessário, sim se fosse esse o caso, que a norma excetuasse essa possibilidade, o que nela não foi feito. Por conseguinte, não há que se falar como pretendeu o sujeito passivo, por ocasião de seu recurso voluntário em “identidade quanto ao critério pessoal e material de ambas as normas sancionatórias”. Se é verdade que as duas normas sancionatórias, pelo critério pessoal, alcançam o mesmo contribuinte (sujeito passivo), não é verdade que o critério material (verbo + complemento) de uma e de outra se centre “no descumprimento da relação jurídica que determina o recolhimento integral do tributo devido”. O complemento do critério material de ambas é, agora, distinto: o da multa de ofício é a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição; já o da multa isolada é o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, cuja materialidade, como visto anteriormente, não se confunde com aquela. (grifos do original) A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, portanto, claramente fixou a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de Fl. 1394DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.394 54 lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. Somente desconsiderandose todo o histórico de aplicação das penalidades previstas na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, seria possível interpretar que a redação alterada não determinou a aplicação simultânea das penalidades. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". Ademais, quando o legislador estipula na alínea "b" do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, claramente afirma a aplicação da penalidade mesmo se apurado lucro tributável e, por conseqüência, tributo devido sujeito à multa prevista no inciso I do seu art. 44. Acrescentese que não se pode falar, no caso, de bis in idem sob o pressuposto de que a imposição das penalidades teria a mesma base fática. Basta observar que as infrações ocorrem em diferentes momentos, o primeiro correspondente à apuração da estimativa com a finalidade de cumprir o requisito de antecipação do recolhimento imposto aos optantes pela apuração anual do lucro, e o segundo apenas na apuração do lucro tributável ao final do anocalendário. A análise, assim, não pode ficar limitada, por exemplo, à omissão de receitas ou ao registro de despesas indedutíveis, especialmente porque, para fins tributários, estas ocorrências devem, necessariamente, repercutir no cumprimento da obrigação acessória de antecipar ou na constituição, pelo sujeito passivo, da obrigação tributária principal. A base fática, portanto, é constituída pelo registro contábil ou fiscal, ou mesmo sua supressão, e pela repercussão conferida pelo sujeito passivo àquela ocorrência no cumprimento das obrigações tributárias. Como esta conduta se dá em momentos distintos e com finalidades distintas, duas penalidades são aplicáveis, sem se cogitar de bis in idem. Neste sentido, aliás, são as considerações do Conselheiro Alberto Pinto Souza Júnior no voto condutor do Acórdão nº 1302001.823: Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento sobre bases estimadas. Ressaltese que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixar de recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei no 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. [...] Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art. 44 e, Fl. 1395DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.395 55 consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos de que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, alem dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal obrigatório (carnêleão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondose igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJ estimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Tais circunstâncias são totalmente distintas das que ensejam a aplicação de multa moratória ou multa de ofício sobre tributo não recolhido. Nesta segunda hipótese, sim, a base fática é idêntica, porque a infração de não recolher o tributo no vencimento foi praticada e, para compensar a União o sujeito passivo poderá, caso não demande a atuação de um agente fiscal para constituição do crédito tributário por lançamento de ofício, sujeitarse a uma penalidade menor17. Se o recolhimento não for promovido depois do vencimento e o 17 Lei nº 9.430, de 1996, art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. Fl. 1396DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.396 56 lançamento de ofício se fizer necessário, a multa de ofício fixada em maior percentual incorpora, por certo, a reparação que antes poderia ser promovida pelo sujeito passivo sem a atuação de um Auditor Fiscal. Imprópria, portanto, a ampliação do conteúdo expresso no enunciado da súmula a partir do que consignado no voto condutor de alguns dos paradigmas. É importante repisar, assim, que as decisões acerca das infrações cometidas depois das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não devem observância à Súmula CARF nº 105 e os Conselheiros têm plena liberdade de convicção. Somente a essência extraída dos paradigmas, integrada ao enunciado no caso, mediante expressa referência ao fundamento legal aplicável antes da edição da Medida Provisória nº 351, de 2007 (art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996) , representa o entendimento acolhido pela 1ª Turma da CSRF a ser observado, obrigatoriamente, pelos integrantes da 1ª Seção de Julgamento. Nada além disso. De outro lado, releva ainda destacar que a aprovação de um enunciado não impõe ao julgador a sua aplicação cega. As circunstâncias do caso concreto devem ser analisadas e, caso identificado algum aspecto antes desconsiderado, é possível afastar a aplicação da súmula. Vejase, por exemplo, que o enunciado da Súmula CARF nº 105 é omisso acerca de outro ponto que permite interpretação favorável à manutenção parcial de exigências formalizadas ainda que com fundamento no art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996. Neste sentido é a declaração de voto da Conselheira Edeli Pereira Bessa no Acórdão nº 1302 001.753: A multa isolada teve em conta falta de recolhimento de estimativa de CSLL no valor de R$ 94.130,67, ao passo que a multa de ofício foi aplicada sobre a CSLL apurada no ajuste anual no valor de R$ 31.595,78. Discutese, no caso, a aplicação da Súmula CARF nº 105 de seguinte teor: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Os períodos de apuração autuados estariam alcançados pelo dispositivo legal apontado na Súmula CARF nº 105. Todavia, como evidenciam as bases de cálculo das penalidades, a concomitância se verificou apenas sobre parte da multa isolada exigida por falta de recolhimento da estimativa de CSLL devida em dezembro/2002. Importa, assim, avaliar se o entendimento § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) Fl. 1397DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.397 57 sumulado determinaria a exoneração de toda a multa isolada aqui aplicada. A referência à exigência ao mesmo tempo das duas penalidades não possui uma única interpretação. É possível concluir, a partir do disposto, que não subsiste a multa isolada aplicada no mesmo lançamento em que formalizada a exigência do ajuste anual com acréscimo da multa de ofício proporcional, ou então que a multa isolada deve ser exonerada quando exigida em face de antecipação contida no ajuste anual que ensejou a exigência do principal e correspondente multa de ofício. Além disso, podese interpretar que deve subsistir apenas uma penalidade quando a causa de sua aplicação é a mesma. Os precedentes que orientaram a edição da Súmula CARF nº 105 auxiliam nesta interpretação. São eles: [...] Observase nas ementas dos Acórdãos nº 9101001.261, 9101 001.307 e 1803001.263 a abordagem genérica da infração de falta de recolhimento de estimativas como etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano, e que por esta razão é absorvida pela segunda infração, devendo subsistir apenas a punição aplicada sobre esta. Sob esta vertente interpretativa, qualquer multa isolada aplicada por falta de recolhimento de estimativas sucumbiria frente à exigência do ajuste anual com acréscimo de multa de ofício. Porém, os Acórdãos nº 9101001.203 e 9101001.238, reportam se à identidade entre a infração que, constatada pela Fiscalização, enseja a apuração da falta de recolhimento de estimativas e da falta de recolhimento do ajuste anual, assim como os Acórdãos nº 1402001.217 e 1102000.748 fazem referência a aplicação de penalidades sobre a mesma base, ou ao fato de a base de cálculo das multas isoladas estar contida na base de cálculo da multa de ofício. Tais referências permitem concluir que, para identificação da concomitância, deve ser avaliada a causa da aplicação da penalidade ou, ao menos, o seu reflexo na apuração do ajuste anual e nas bases estimativas. A adoção de tais referenciais para edição da Súmula CARF nº 105 evidencia que não se pretendeu atribuir um conteúdo único à concomitância, permitindose a livre interpretação acerca de seu alcance. Considerando que, no presente caso, as infrações foram apuradas de forma independente estimativa não recolhida em razão de seu parcelamento parcial e ajuste anual não recolhido em razão da compensação de bases negativas acima do limite legal e assim resultaram em distintas bases para aplicação das penalidades, é válido concluir que não há concomitância em relação à multa isolada aplicada sobre a parcela de R$ 62.534,89 (= R$ 94.130,67 R$ 31.595,78), correspondente à Fl. 1398DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.398 58 estimativa de CSLL em dezembro/2002 que excede a falta de recolhimento apurada no ajuste anual. Divergência neste sentido, aliás, já estava consubstanciada antes da aprovação da súmula, nos termos do voto condutor do Acórdão nº 120100.235, de lavra do Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes: [...] O valor tributável é o mesmo (R$ 15.470.000,00). Isso, contudo, não implica necessariamente numa perfeita coincidência delitiva, pois pode ocorrer também que uma omissão de receita resulte num delito quantitativamente mais intenso. Foi o que ocorreu. Em razão de prejuízos posteriores ao mês do fato gerador, o impacto da omissão sobre a tributação anual foi menor que o sofrido na antecipação mensal. Desse modo, a absorção deve é apenas parcial. Conforme o demonstrativo de fls. 21, a omissão resultou numa base tributável anual do IR no valor de R$ 5.076.300,39, mas numa base estimada de R$ 8.902.754,18. Assim, deve ser mantida a multa isolada relativa à estimativa de imposto de renda que deixou de ser recolhida sobre R$ 3.826.453,79 (R$ 8.902.754,18 – R$ 5.076.300,39), parcela essa que não foi absorvida pelo delito de não recolhimento definitivo, sobre o qual foi aplicada a multa proporcional. Abaixo, segue a discriminação dos valores: Base estimada remanescente: R$ 3.826.453,79 Estimativa remanescente (R$ 3.826.453,79 x 25%): R$ 956.613,45 Multa isolada mantida (R$ 956.613,45 x 50%): R$ 478.306,72 Multa isolada excluída (R$ 1.109.844,27 – R$ 478.306,72: R$ 631.537,55 [...] A observância do entendimento sumulado, portanto, pressupõe a identificação dos requisitos expressos no enunciado e a análise das circunstâncias do caso concreto, a fim de conferir eficácia à súmula, mas não aplicála a casos distintos. Assim, a referência expressa ao fundamento legal das exigências às quais se aplica o entendimento sumulado limita a sua abrangência, mas a adoção de expressões cujo significado não pode ser identificado a partir dos paradigmas da súmula confere liberdade interpretativa ao julgador. Como antes referido, no presente processo a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas mensais foi exigida para fatos ocorridos após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Fl. 1399DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.399 59 Sendo assim e diante do todo o exposto, não só não há falar na aplicação ao caso da Súmula CARF nº 105, como reclama a Recorrente, como não se pode cogitar da impossibilidade de lançamento da multa isolada por falta de recolhimento das estimativas após o encerramento do anocalendário. Como se viu, a multa de 50% prevista no inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 e calculada sobre o pagamento mensal de antecipação de IRPJ e CSLL que deixe de ser efetuado penaliza o descumprimento do dever de antecipar o recolhimento de tais tributos e independe do resultado apurado ao final do anocalendário e da eventual aplicação de multa de ofício. Nessa condição, a multa isolada é devida ainda que se apure prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, conforme estabelece a alínea "b" do referido inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, sendo que não haveria sentido em comando nesse sentido caso não se pudesse aplicar a multa após o encerramento do anocalendário, eis que antes de encerrado o ano sequer pode se determinar se houve ou não prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. É de se prover, portanto, o recurso fazendário, restabelecendo a multa isolada multa isolada por falta de recolhimento das estimativas. Conclusão Em face do exposto, conheço do recurso da Fazenda e, no mérito, DOULHE PROVIMENTO. Conheço do recurso da Contribuinte e, no mérito, NEGOLHE PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 1400DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.400 60 Declaração de Voto Conselheiro Gerson Macedo Guerra Como amplamente debatido, o presente caso tratase de um clássico negócio jurídico de incorporação de ações, previsto no artigo 252, da Lei 6.404/76. No presente caso, os acionistas da sociedade incorporada foram autuados, ao argumento de terem auferido ganho de capital na operação, em decorrência da realização dos atos jurídicos que redundaram na troca de suas ações em HFF por ações da BRF. Nesse contexto, para se chegar ao correto entendimento tributário da questão, fazse necessário entender a natureza jurídica da incorporação de ações, bem como dos atos e negócios jurídicos necessários para se chegar ao cabo do negócio. São, basicamente, duas correntes doutrinárias que tratam do tema. Uma que entende ser a incorporação de ações uma simples operação de aumento de capital com subscrição em bens (ações). Outra que entende ser a incorporação de ações é um instituto jurídico híbrido, que objetiva a concentração empresarial, com a manutenção da personalidade jurídica da companhia cujas ações são incorporadas. A linha que entende ser a incorporação de ações uma simples operação de aumento de capital, ou seja, uma operação de alienação. Sobre essa tese destaco os dizeres de Fran Martins: “Pois, na verdade, a conversão de uma sociedade anônima existente em subsidiária integral mediante a chamada incorporação das ações da primeira no patrimônio da segunda nada mais é do que um aumento de capital da sociedade controladora, ou, na expressão da lei, incorporadora, com subscrição das ações desse aumento pelos acionistas da sociedade que vai tornarse subsidiária integral, sendo o pagamento dessas ações feito não em dinheiro mas com ações dos acionistas da sociedade a ser incorporada.” (Martinsm Fran, Comentários à Lei das Sociedades Anônimas. 4ª edição, revista e autorizada por Roberto Papini. Rio de Janeiro: Forense, 2010, p. 1040) Nessa linha de raciocínio é possível se chegar a uma hipótese em que a transferência das ações da sociedade incorporada para a incorporadora pode gerar ganho de capital, ou seja, quando o acionista da incorporadora transfere suas ações por valor superior ao custo. É o que conclui Luiz Eduardo Schoueri e Luiz Carlos de Andrade Jr., senão vejamos: “É sim, possível, ao cabo da incorporação de ações, a apuração de ganho de capital (tributável) pelo acionista da sociedade “incorporada”, caso o valor pelo qual a transferência se suas ações se efetive seja superior ao respectivo custo” (Incorporação de Ações: Natureza Societária e Efeitos Fl. 1401DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.401 61 Tributários”, em Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, p. 44/72) Essa foi a linha defendida no Auto de Infração. Mas não me parece ser a compreensão mais justa da questão, como me parece a segunda corrente, a qual tecerei breves comentários a seguir. Para essa outra corrente, defendida por Eizirik, a incorporação de ações é um instituto jurídico híbrido, que objetiva a concentração empresarial, com a manutenção da personalidade jurídica da companhia cujas ações são incorporadas, passando ela a ter apenas um acionista. Nos dizeres do referido autor: “Tratase, portanto, de típica operação de integração empresarial, que não se confunde com operação de aumento de capital, embora traga, como uma de suas consequências, por força da incorporação das ações da incorporada ao capital da incorporadora, o aumento do capital desta última.”(Eizirik, Nelson, Incorporação de Ações: Aspectos Polêmicos, artigo no licro Fusão, Cisão, Incorporação e Temas Correlatos, coordenado pos Walfrido Jorge Warde Jr., Quartier Latin, 2009, p. 77/99) Conforme ensina o autor em questão “o aumento de capital da companhia incorporadora, assim, decorre da incorporação de ações, isto é, constitui um ato complementar e necessário à consumação da incorporação de ações, objetivando criar novas ações que serão suscritas pela diretoria da companhia incorporada, nos termos do §2º do artigo 252, da Lei Societária, para serem entregues aos acionistas da companhia cujas ações foram incorporadas.” Baseado na ausência do elemento volitivo para a efetivação da operação de incorporação de ações, dada a compulsoriedade da transferência das ações, o autor em questão conclui que: “ocorre uma subrogação real legal, pois determinada pela Lei das S.A. e decorrente da natureza da operação de incorporação de ações, que não pode ser realizada de forma diversa da prevista no artigo 252 da Lei das S.A.” E aqui a doutrina de Mariz de Oliveira conclui que a incorporação de ações acarreta a mera substituição de ações da cia incorporada por ações da cia incorporadora, emitidas exclusivamente para esse fim. (Oliveira, Ricardo Mariz de, Incorporação de Ações no Direito Tributário, Quartier Latin, 2014) Essa substituição não gera ganho de capital por se tratar de simples troca de título, que não pode ter outro custo além do custo das ações incorporadas, uma vez que os acionistas não despendem qualquer outro valor para passarem a ser donos das novas ações. Para essa corrente a substituição produz efeito jurídico e econômico semelhante ao negócio jurídico permuta. Notadamente, permuta sem torna, onde não há a possibilidade de o bem recebido ter custo diferente do bem dado. Fl. 1402DF CARF MF Processo nº 10880.720212/201325 Acórdão n.º 9101002.735 CSRFT1 Fl. 1.402 62 Nessa hipótese, o ganho de capital apenas é verificado quando da alienação do bem recebido em permuta. Não consigo enxergar a operação de outra maneira, tratase apenas de troca de ações da companhia incorporada por ações da companhia incorporadora. Não vislumbro ganho de capital em mera troca de papéis, não há renda nova. Por esse motivo que se defende que o custo de aquisição deve permanecer inalterado. Eventual ganho apenas se concretiza quando da alienação das ações recebidas ao cabo da incorporação, para terceiros. É nesse contexto que dou provimento ao recurso do Contribuinte. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 1403DF CARF MF
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Numero do processo: 15956.000061/2009-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu May 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/2004 a 31/10/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA. INTELIGÊNCIA DA SÚMULA CARF nº 1.
A expressão mesmo objeto constante do texto sumulado diz respeito àquilo sobre o qual recairá o mérito da decisão, quando sejam idênticas as demandas. Portanto, tem-se como critérios de aplicação da impossibilidade do prosseguimento do curso normal do processo administrativo, em vista da concomitância com processo judicial, tanto o pedido como a causa de pedir, e não somente o pedido.
MULTA DE OFÍCIO. REGIME JURÍDICO A SER APLICADO.
Para as competências anteriores a dezembro de 2008 (entrada em vigor da MP n 449) deve ser aplicada a multa prevista no art. 35 da Lei n 8.212. Para o período posterior à entrada em vigor da Medida Provisória nº 449, cujos valores não foram declarados em GFIP há que se aplicar a multa de 75% (prevista no art. 44 da Lei 9.430).
PREVIDENCIÁRIO - CUSTEIO - TAXA SELIC - APLICAÇÃO À COBRANÇA DE TRIBUTOS.
Nos termos da Súmula CARF n° 4, a partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.
MULTA DE MORA. RETROATIVIDADE BENIGNA. NOVA REDAÇÃO DO ART. 35 DA LEI N. 8.212/1991
Em respeito ao princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, II, do CTN, a multa de mora aplicada com base no revogado inciso II, a do artigo 35 da Lei n. 8.212/1991, deve ser limitada a 20%, conforme nova redação do artigo 35 da Lei n. 8.212/1991, dada pela MP 449/2008, convertida na Lei n. 11.941/2009.
Numero da decisão: 2201-003.559
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para determinar o recálculo da multa nos termos no artigo 35, caput, da Lei n° 8.212/91, na redação conferida pela Lei n° 11.941/09. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Carlos Henrique de Oliveira, Dione Jesabel Wasilewski, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Marcelo Milton da Silva Risso e José Alfredo Duarte Filho Apresentará declaração de voto, no sentido das conclusões, o Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira.
(Assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente
(Assinado digitalmente)
Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra. Ausente justificadamente Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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CONCOMITÂNCIA. INTELIGÊNCIA DA SÚMULA CARF nº 1. A expressão “mesmo objeto” constante do texto sumulado diz respeito àquilo sobre o qual recairá o mérito da decisão, quando sejam idênticas as demandas. Portanto, temse como critérios de aplicação da impossibilidade do prosseguimento do curso normal do processo administrativo, em vista da concomitância com processo judicial, tanto o pedido como a causa de pedir, e não somente o pedido. MULTA DE OFÍCIO. REGIME JURÍDICO A SER APLICADO. Para as competências anteriores a dezembro de 2008 (entrada em vigor da MP n 449) deve ser aplicada a multa prevista no art. 35 da Lei n 8.212. Para o período posterior à entrada em vigor da Medida Provisória nº 449, cujos valores não foram declarados em GFIP há que se aplicar a multa de 75% (prevista no art. 44 da Lei 9.430). PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO TAXA SELIC APLICAÇÃO À COBRANÇA DE TRIBUTOS. Nos termos da Súmula CARF n° 4, a partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. MULTA DE MORA. RETROATIVIDADE BENIGNA. NOVA REDAÇÃO DO ART. 35 DA LEI N. 8.212/1991 Em respeito ao princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, II, do CTN, a multa de mora aplicada com base no revogado inciso II, ‘a’ do artigo 35 da Lei n. 8.212/1991, deve ser limitada a 20%, conforme nova AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 95 6. 00 00 61 /2 00 9- 00 Fl. 259DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 514 2 redação do artigo 35 da Lei n. 8.212/1991, dada pela MP 449/2008, convertida na Lei n. 11.941/2009. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para determinar o recálculo da multa nos termos no artigo 35, caput, da Lei n° 8.212/91, na redação conferida pela Lei n° 11.941/09. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Carlos Henrique de Oliveira, Dione Jesabel Wasilewski, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Marcelo Milton da Silva Risso e José Alfredo Duarte Filho Apresentará declaração de voto, no sentido das conclusões, o Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira. (Assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente (Assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra. Ausente justificadamente Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 1236.005 12ª Turma da DRJ/RJ1 (efls. 194/200), que julgou improcedente a sua impugnação. O lançamento em questão referese à exigência da contribuição destinada à Seguridade Social e para o financiamento dos benefícios concedidos em razão da incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho – GILRAT, incidentes sobre o valor da comercialização da produção rural realizada por agroindústria no mercado externo através de trading companies. As infrações constatadas na ação fiscal e que deram ensejo à lavratura em tela foram minuciosamente descritas no Relatório Fiscal, efls. 37/40 e podem, conforme excerto do relatório da decisão a quo, ser assim sintetizadas: 2.1 Que o contribuinte é agroindústria do setor sucroalcooleiro, pois desenvolve atividade de produção rural e industrialização de produção própria e adquirida de terceiros (canadeaçúcar), cuja atividade está relacionada no art. 2 , caput, do DecretoLei Fl. 260DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 515 3 n° 1.146/70 e, portanto, contribui para a Previdência Social sobre a comercialização da produção; 2.2. Que, em face da ação judicial n° 2005.61.00.025.1305, a qual entre outros, originou o agravo de instrumento n° 2007.03.00.0184863, que trata do mandado de segurança coletivo proposto na 8 VF de São Paulo, cópia nos autos, o presente débito, de caráter preventivo, deverá ficar sobrestado até que haja o julgamento definitivo da questão; 2.3. Que a Emenda Constitucional EC n° 33, de 11/12/2001, alterou o art. 149 da Constituição Federal de 1988 e concedeu imunidade tributária às receitas decorrentes de exportações; 2.4. A IN/INSS/DC n° 100, de 18/12/2003, trata do assunto no art. 252 e a IN/MPS/SRP n° 3, de 14/07/2005, dispõe do tema no artigo 245, sendo que o seu parágrafo 1 estabelece que o disposto no artigo aplicase exclusivamente quando a produção é comercializada diretamente com adquirente domiciliado no exterior e o parágrafo 2 acrescenta que a receita decorrente de comercialização com empresa constituída e em funcionamento no País é considerada receita proveniente do comércio interno e não de exportação (...); 2.5. No caso concreto, o contribuinte exporta açúcar e álcool via cooperativa (Copersucar). Além dessa operação, o contribuinte também exporta produtos orgânicos com a utilização de trading companies; A DRJ julgou improcedente a impugnação do contribuinte, sob os seguintes fundamentos principais: A existência de processo judicial com o mesmo objeto importa em renúncia da instância administrativa, cabendo ao fisco apenas declarar a definitividade da exigência discutida. A multa de mora é cabível quando findo o prazo previsto no art. 63, § 2º da Lei 9.430/96. Os juros moratórios foram embasados no art. 34 da Lei 8.212/91, cabendo a autoridade lançadora a estrita obediência a lei, sendo competência do judiciário e do legislativo a suspensão da vigência legal. A decisão de piso restou ementada nos termos abaixo: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RENÚNCIA À VIA ADMINISTRATIVA. AÇÃO JUDICIAL E PROCESSO ADMINISTRATIVO CONCOMITANTES. IMPOSSIBILIDADE. CONHECIMENTO PARCIAL DA MATÉRIA ABORDADA. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual antes ou posteriormente à autuação, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto, tomandose definitiva a exigência discutida. FORMALIZAÇÃO DE LANÇAMENTO PARA EVITAR DECADÊNCIA. MULTA E JUROS DE MORA. Fl. 261DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 516 4 APLICABILIDADE DA MULTA ENQUANTO PENDENTE A DECISÃO JUDICIAL. A interposição da ação judicial favorecida com a medida liminar interrompe a incidência da multa de mora, desde a concessão da medida judicial, até 30 dias após a data da publicação da decisão judicial que considerar devido o tributo ou contribuição, devendo ser mantida a penalidade enquanto pendente a decisão judicial. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora por expressa disposição legal. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO EM SEDE ADMINISTRATIVA. VEDAÇÃO. Não compete à autoridade administrativa manifestarse quanto à inconstitucionalidade ou ilegalidade das leis, por ser essa prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. Cientificada do acórdão no dia 25/04/11, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário, tempestivamente, em 24/05/11, alegando, em síntese, que: É nulo o acórdão da DRJ por não analisar todos os pontos abordados pela contribuinte, uma vez que o manejo de Mandado de Segurança coletivo não importa em renúncia da via administrativa, não impedindo a discussão individual pelo contribuinte na via administrativa. Juntou julgados presentes às efls. 211/212 como prova do alegado. Ao contrário do entendimento do acórdão de piso, a presente lide não visa a declaração de inconstitucionalidade da norma, e sim o cancelamento de sua aplicação, feita pelo fisco, de norma que não encontra respaldo no ordenamento jurídico, uma vez que desrespeita norma de hierarquia superior. Cabe à Lei Complementar estabelecer normas gerais de Direito Tributário. Não pode o poder Executivo, através de Instrução Normativa, limitar a imunidade prevista na Constituição Federal. Colacionou julgado, presente à efl. 216, que embasa a tese defendida. Não é correta a interpretação dada pelo Fisco do art. 245, § 1º da Instrução Normativa nº 03/2005, vigente à época da ocorrência dos fatos geradores, no que tange a imunidade das receitas decorrentes de exportação. A limitação dada pelo § 1º, do art. 245 do mencionado instrumento normativo de que apenas a comercialização direta estaria imune, jamais poderia ser levada a efeito por mera IN, vez que cabe à lei complementar, de acordo com o art. 146 da Constituição Federal, estabelecer as normas gerais em matéria tributária, bem como regular os limites ao poder de tributar. A multa de ofício não é cabível, conforme entendimento do antigo Conselho de Contribuintes, assim como os ditames da Súmula CARF nº 17. É incabível a multa de mora, uma vez que a mesma não deriva do lançamento original, não podendo ser posteriormente aplicada. Por fim, requer a improcedência da ação fiscal e o cancelamento do Auto de Infração. Fl. 262DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 517 5 É o relatório. Voto Daniel Melo Mendes Bezerra, Conselheiro Relator Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche aos demais requisitos de admissibilidade, devendo, pois, ser conhecido. Da renúncia parcial ao processo administrativo fiscal Em seu recurso, a recorrente tenta demonstrar que goza de imunidade em relação às contribuições previdenciárias incidentes sobre as suas receitas de exportação, objeto do Auto de Infração em análise, e que a restrição imposta pelo art. 245 e seus parágrafos, da IN 03/2005 afigurase como inconstitucional e ilegal. Cumpre observar que a matéria relativa à legalidade da referida exação e do normativo citado é objeto de discussão judicial, o que implica em renúncia ao contencioso administrativo, acarretando o não conhecimento do recurso. Com relação ao entendimento de que a decisão da DRJ é nula, pois a impetração de Mandado de Segurança coletivo não impede a discussão individual pelo contribuinte na esfera administrativa, sendo que a DRJ não poderia ter se furtado de apreciar os argumentos levantados pela recorrente em sua impugnação, é oportuno observar que tal possibilidade afigurase inexistente em razão do sistema de contencioso administrativo adotado no Brasil. A título de esclarecimento, cumpre informar que existem dois grandes sistemas administrativos: o sistema do contencioso administrativo e o sistema de jurisdição única. Alexandre de Moraes (Direito Constitucional Administrativo. Atlas, 2002), traz a seguinte síntese: “O sistema do contencioso administrativo, também conhecido como sistema francês, caracterizase pela impossibilidade de intromissão do Poder Judiciário no julgamento dos atos da Administração, que ficam sujeitos tãosomente à jurisdição especial do contencioso administrativo. Dessa forma, há uma divisão jurisdicional entre a Justiça Comum e o Contencioso Administrativo, e somente este pode analisar a legalidade dos atos administrativos. Diversamente, o sistema de jurisdição única, também conhecido por sistema judiciário ou inglês, tem como característica básica a possibilidade de pleno acesso ao Poder Judiciário, tanto nos conflitos de natureza privada, quanto dos conflitos de natureza administrativa. ” Fl. 263DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 518 6 Desde a instauração do período republicano, o Brasil sempre adotou o sistema de jurisdição única como forma de controle jurisdicional da Administração Pública, cuja fundamentação encontrase no art. 5°, inciso XXXV, da Constituição Federal de 1988: Art. 5° Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes XXXV a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito Nesse sentido, as decisões judiciais sobrepõemse às decisões administrativas. Essa matéria já foi objeto de enunciado do Conselho Pleno, tendo sido editada a Súmula CARF n° 01, transcrita a seguir: Súmula CARF n° 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Desse modo, se uma matéria foi submetida à apreciação judicial, não cabe mais a sua análise na esfera administrativa. Assim, caso haja decisão judicial favorável à Associação ÚNICA, impetrante do Mandado de Segurança, a recorrente, como empresa integrante, também será beneficiada, motivo pelo qual não cabe, no âmbito administrativo, discussão da mesma matéria. Cumpre observar, porém, que o presente lançamento tem como objetivo resguardar o crédito tributário, já que não é possível a sua constituição após o término do prazo de decadência, mesmo com decisão judicial favorável ao fisco, uma vez que o prazo decadencial não se interrompe nem se suspende com a interposição de medida judicial, fluindo a partir da ocorrência do fato gerador ou da data prevista em lei. E é por esse motivo que a autoridade lançadora, que deixou claro, em seu Relatório Fiscal, que o presente débito deverá ficar sobrestado até que haja julgamento definitivo da questão na esfera judicial. Contudo, é oportuno ressaltar que a ação judicial proposta suspende apenas a exigibilidade do crédito, ou seja, os atos executórios de cobrança. A autoridade administrativa não está impedida de fiscalizar, lançar ou julgar o crédito tributário, e nem deve ser suspenso o trâmite do presente processo administrativo, pois a suspensão referese à exigência do crédito e não à possibilidade de a autoridade fiscal efetuar o lançamento ou de as autoridades julgadoras administrativas apreciarem a defesa e o recurso no processo administrativo fiscal. E sendo o lançamento um ato vinculado, a fiscalização, ao constatar a ocorrência do fato gerador e o não recolhimento da contribuição devida, não poderia deixar de lavrar o competente Auto de Infração, protegendoo da decadência. Fl. 264DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 519 7 A empresa deixou de recolher o tributo por considerar as receitas das vendas de seus produtos à empresas intermediária como sendo Exportações Diretas, e não fez incidir, portanto, as contribuições sociais, pois entendeu estar amparada pelo art. 149, I, § 2° da CF, alterado pela EC n° 03/01, e por decisão judicial em Mandado de Segurança impetrado por entidade à qual a recorrente é associada. E a fiscalização, cuja atividade é plenamente vinculada às determinações legais, tendo constatado a ocorrência do fato gerador, lançou corretamente o débito, em consonância com o disposto no art. 33 da Lei 8.212/91, com redação dada pela Lei 11.941/2009: Art. 33. A Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (...) § 7o O crédito da seguridade social é constituído por meio de notificação de lançamento, de auto de infração e de confissão de valores devidos e não recolhidos pelo contribuinte.(Redação dada pela Lei n° 11.941, de 2009). Em relação ao argumento de que a IN 03/2005 é inconstitucional, observase que tal matéria é objeto de Mandado de Segurança impetrado por entidade da qual a recorrente é associada. Assim, reiterase, nos termos do art. 126, § 3º, da Lei 8.213/91, houve renúncia ao contencioso administrativo em relação à exigibilidade das contribuições lançadas e em relação à inconstitucionalidade do normativo citado, motivo pelo qual não conheço do recurso que trata de tais matérias. Desse modo, o presente julgamento deve ficar adstrito à matéria diferenciada da submetida à apreciação do Poder Judiciário. Da Multa Diferentemente do alegado pela recorrente, o presente lançamento não contempla multa de ofício, mas a multa de mora prevista na redação do art. 35, da Lei nº 8.212/91, cuja redação vigeu até 03/12/2008, dia anterior à publicação da Medida Provisória nº 449/2008. Quanto à aplicação da multa constante deste Auto de Infração, é necessário dizer que a Medida Provisória MP n° 449, de 03/12/2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27/05/2009, alterou diversos dispositivos da Lei nº 8.212, de 24/07/1991, notadamente no que tange à aplicação de penalidades. Em princípio, as multas estabelecidas pela Lei nº 11.941/2009 serão aplicadas a fatos geradores ocorridos após a sua vigência. No entanto, para as infrações com fato gerador anterior a 04/12/2008 (data da entrada em vigor da MP 449/2008), na aplicação de multas para Fl. 265DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 520 8 condutas equivalentes, devese observar o princípio da retroatividade benigna, estabelecido pelo inciso II, alínea ”c”, do artigo 106 do Código Tributário Nacional CTN (Lei 5.172, de 25/10/1966). Em relação à multa há de se registrar que o dispositivo legal que lhe dá supedâneo foi alterado pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, merecendo verificar a questão relativa à retroatividade benigna prevista na alínea “c”, do inciso II, do artigo 106, da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966. Entendo que o novo regime (aplicação da multa de 75%) é mais gravoso. Desse modo, para as competências anteriores a dezembro de 2008 (entrada em vigor da MP nº 449) deve ser aplicada a multa prevista no art. 35 da Lei nº 8.212. Para o período posterior à entrada em vigor da Medida Provisória nº 449, cujos valores não foram declarados em GFIP há que se aplicar a multa de 75% (previsão no art. 44 da Lei 9.430). Todavia, o lançamento que se cuida contempla competências de 01/2004 a 12/2005, devendo ser alterada a forma de cálculo da multa. Segundo as novas disposições legais, a multa de mora que antes respeitava a gradação prevista na redação original do artigo 35, da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, passou a ser prevista no caput desse mesmo artigo, mas agora limitada a 20% (vinte por cento), Se a conduta atraso aqui apurado era punido com multa moratória, consequentemente, com a alteração da ordem jurídica, só pode lhe ser aplicada, se for o caso, a novel multa moratória, prevista no caput do art. 35 do diploma legal acima citado. Incide na espécie, pois, a retroatividade prevista na alínea “c”, do inciso II, do art. 106, da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966, Código Tributário Nacional, devendo a multa lançada na presente autuação ser calculada nos termos do artigo 35 caput da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei n° 11.941, de 27 de maio de 2009, se mais benéfica ao contribuinte. Da aplicação da Taxa Selic A insurgência da recorrente contra a aplicação da Taxa Selic como juros moratórios não pode prosperar, uma vez que se trata de matéria sumulada neste Tribunal Administrativo no sentido de sua legalidade, conforme podemos conferir a seguir: Súmula CARF nº 4 A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Acrescentese que, para os tributos regidos pela Lei 8.212/91, o art. 34 do referido diploma legal prevê a aplicação da Taxa Selic. Assim sendo, improcede a argumentação da recorrente quanto à não incidência de juros de mora no presente lançamento. Fl. 266DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 521 9 Conclusão Diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso e, no mérito da parte conhecida, darlhe parcial provimento para aplicar a multa prevista no artigo 35, caput, da Lei n° 8.212/91, na redação conferida pela Lei n° 11.941/09. Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Declaração de Voto Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira Com a máxima vênia, divirjo parcialmente do entendimento do nobre Relator, posto que entendo que se deva conhecer do recurso voluntário interposto em face da ausência de concomitância de instâncias. Explico. Bem observou, o eminente Conselheiro Relator, que o lançamento mantido pela decisão recorrida versa sobre a concessão de segurança em mandado coletivo que determinou a suspensão da exigência da contribuição destinada à Seguridade Social e para o financiamento dos benefícios concedidos em razão da incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho – GILRAT, incidentes sobre o valor da comercialização da produção rural realizada por agroindústria no mercado externo através de trading companies. Ciente de tal tutela judicial, ainda não transitada em julgado, o Fisco realiza o presente lançamento tributário visando prevenir a decadência de seu direito de crédito no caso de sentença favorável à Administração Tributária. Tal situação, segundo a decisão de piso e o Conselheiro Relator, tem o condão de caracterizar renúncia ao processo administrativo em razão da concomitância de instâncias. Não se pode concordar com tal entendimento. Não é essa a inteligência da Súmula CARF nº 1, fundamento da decisão de piso, esposada no voto do Relator. Fundamento. Segundo o insigne Relator, verificase concomitância toda vez que o contribuinte buscar o judiciário e da decisão resultante, poder restar prejudicado, pelo sucesso da lide judicial, o lançamento tributário objeto da discussão no âmbito administrativo. Entre outros fundamentos, apóiase o Conselheiro na dicção da Súmula CARF nº 1. Vejamos seus termos: "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de Fl. 267DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 522 10 matéria distinta da constante do processo judicial." (destaques nossos) Claríssima a disposição que consolidou entendimento praticamente unânime deste Colegiado: há tácita renúncia ao processo administrativo a propositura, antes ou depois do lançamento, de medida judicial com o mesmo objeto do processo administrativo. Assim, mister entendermos o que é o objeto do processo administrativo e cotejálo com o objeto do processo judicial que se analisa. Segundo o dicionário Michaelis 'online', publicado no sitio uolBusca (http://dic.busca.uol.com.br/result.html?q=objeto&group=0&t=10), o verbete objeto, em sua acepção jurídica: "objeto •sm(lat objectu) Tudo que se oferece aos nossos sentidos ou à nossa alma. Coisa material:Havia na estante vários objetos. Col: bateria,trem(quando agrupados para o mesmo fim). Motivo, causa. Tudo que constitui a matéria de ciências ou artes. Assunto, matéria. Intenção, desígnio, mira. Fim a que se mira ou que se tem em vista. Filos. Aquilo que é pensado, por oposição ao próprio ato de pensar. Direito: Tudo aquilo sobre que recai um direito, ou uma ação, ou obrigação." (sublinhamos) Também no mesmo sentido, um tanto amplo para os fins do nosso estudo, caminha o dicionário jurídico. Para objeto do processo, encontramos a seguinte significação (Diccionario Básico Jurídico, 7ª ed. Comares Editorial): "Conjunto de fatos que integrando o processo, o levam a conseguir as diversas finalidades que o mesmo persegue (...)" Das significações apresentadas, podemos inferir que o objeto da demanda processual é aquilo que com ela se pretende obter, o que se quer alcançar. Porém, somente tal entendimento é suficiente para se verificar a concomitância, como entende o Relator? Não nos parece a melhor doutrina. O Professor Moacyr Amaral Santos, no clássico Primeira Linhas de Direito Processual Civil ( 1º Vol., Ed. Saraiva, 20ª ed., p. 163), leciona que objeto da ação: "é o pedido do autor (Cod Proc. Civil, art 282, IV), ou seja, o que ele solicita que lhe seja assegurado pelo órgão jurisdicional. (...) Assim, o objeto, isto é, o pedido (res, petitum) é imediato ou mediato. O pedido imediato consiste na providência jurisdicional solicitada: sentença condenatória, declaratória, constitutiva ou mesmo providência executiva, cautelar ou preventiva. Fl. 268DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 523 11 O pedido mediato é a utilidade que se quer alcançar pela sentença, ou providencia jurisdicional, isto é, o bem material ou imaterial pretendido" Continuando sua lição, o emérito Professor das Arcadas, ensina que o pedido deve estar sempre apoiado, deve sempre corresponder a uma causa de pedir, pois "quem invoca uma providência jurisdicional quanto a um bem pretendido, cumpre dizer no que se funda seu pedido" (ob. cit., pag. 164). Recorda o Mestre que o Códex Processual exige que o autor exponha na inicial não só o seu pedido, mas também os fundamentos jurídicos deste. Com tal exigência, a lei processual requer a exposição não só a causa próxima de pedir os fundamentos jurídicos como também a causa remota o fato gerador do direito. No caminhar de sua lição, com a didática exemplar que sempre o caracterizou, o Professor Moacyr Amaral, explica que a identificação de ações ( o cerne de nosso problema) exige que se examine detalhadamente a identidade, a individualidade de uma demanda. Para tanto, leciona o saudoso Professor: "(...) duas ações são idênticas quando em ambas seus elementos são os mesmos. Assim, duas ações são idênticas quando entre elas há: a) identidade de partes (eadem personae); b) identidade de objeto (eadem res); c) identidade de causa de pedir (eadem causa petendi)." Exsurge a distinção. Temse identidade entre ações quando as mesmas, intrinsecamente, coincidem, ou seja, são iguais. Para tanto, necessariamente convergem para a mesma solução a partir de divergências sobre o mesmo bem da vida mas forçosamente com essa divergência decorrente do mesmo motivo, da mesma causa. Tal exigência decorre não só de um imperativo processual, mas também de um imperativo lógico. Não basta a demanda reunir mesmas partes, sobre o mesmo bem em discussão: o motivo da disputa deve ser o mesmo. Por exemplo se pode entender melhor. Dois senhores podem discutir sobre um imóvel, mais acuradamente sobre a posse e propriedade de um imóvel. Imaginemos que se trate de um imóvel comercial, onde o proprietário, por contrato de locação, passou a posse do imóvel a um comerciante. Tempos depois, o comerciante propôs a compra do imóvel. Firmam um contrato de compra e venda, com pagamento parcelado. Ajustam que durante o pagamento parcelado da compra, o locatário, agora promitente comprador, continuaria a pagar o aluguel. Iniciados os pagamentos, o comprador, vêse em dificuldades financeiras e atrasa algumas parcelas. O vendedor, opta pela resolução contratual unilateral e vende, à vista, o imóvel a outrem, porém ajustando com o novo comprador, que entregará o imóvel desocupado. Ingressa com medida judicial, ação de despejo, visando a retomada do imóvel. Nesse caso o objeto é a posse do imóvel. Fl. 269DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 524 12 O locatário, aqui ainda promitente comprador, inconformado com o desfazimento do contrato de promessa de compra e venda, ingressa com ação judicial buscando fazer valer seu direito decorrente do contrato de compra e venda firmado e portanto anular a segunda venda. Objeto da ação: a propriedade do imóvel. Partes envolvidas: as mesmas. Resultado, objeto , de uma e de outra: o imóvel. Importante recordar que se o direito de promitente comprador for reconhecido, por óbvio que a segunda decisão terá seu resultado impactando na primeira, na ação de despejo. Mesmo assim, há coincidência de ações? Por óbvio que não. A distinção é flagrante quanto à causa de pedir. Em uma e em outra ação, embora o objeto e as partes sejam os mesmos, o fundamento jurídico do pedido é distinto. Esses requisitos para que se reconheça a identidade de ações e portanto, a concomitância também é reconhecido por Julio Fabbrini Mirabete (Processo Penal, Ed. Atlas, 10ª ed., p. 217), processualista de renome que explicita, ao examiniar a litispendência: "Os elementos que identificam a demanda, impedindo outra por litispendência são: a) o pedido (petitum), o que o autor pede; b) as partes (personae), são as partes em litígio; a causa de pedir (causa petendi), a razão de fato pela qual o autor pede a condenação, no processo penal o fato criminoso. Numa expressão bem simples, se o mesmo autor, com o mesmo fundamento de fato, faz o mesmo pedido, contra o mesmo réu, a demanda é a mesma que a anterior" (destacamos) Não é outra a lição de Cândido Rangel Dinamarco, outro ícone da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que em sua importantíssima obra, Instituições de Direito Processual Civil ( Vol III, 2ª ed. Ed. Malheiros p. 136), assevera: "Didaticamente e seguindo uma linha tradicional no processo civil brasileiro, o Código de Processo Civil afirma que uma ação é precisa reprodução de outra quando em ambas coincidem os três elementos constitutivos, tendo elas as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido (...)" (destacamos) Outro simples raciocínio demonstra a importância da causa de pedir como traço elementar, e portanto distintivo, de uma ação. Pensemos agora em hipótese de lide tributária clássica, ou seja, insurgência contra a tributação. Decerto que nessas ações tributárias, dois elementos serão sempre coincidentes: i) as partes, pois sempre se analisará a demanda de determinado contribuinte contra a Administração Tributária; ii) o pedido, o próprio objeto, pois sempre o contribuinte buscará se esquivar da exação como pretendida pelo Fisco. Ora, nesses casos, ao prevalecer a questão como posta pelo Relator, ou seja, há concomitância quando o contribuinte pode alcançar na via judicial o mesmo resultado que teria na esfera administrativa, qualquer tipo de lide judicial afastaria qualquer demanda na fase administrativa, uma vez que pelo nosso pressuposto ao conseguir judicialmente o afastamento da pretensão fiscal como pretendida pela Administração Tributária, a esfera administrativa nunca teria função. Fl. 270DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 525 13 No caso presente, o contribuinte, por meio de sua associação, ingressou com uma ação de inexistência de relação tributária acerca de determinado tributo. Tempos depois, ao perceber que aquele contribuinte não estava recolhendo os valores devidos sobre aquele determinado tributo, o Fisco inicia procedimento fiscalizatório. Ao ser cientificado da existência da demanda judicial, a autoridade fiscal, visando cumprir a determinação legal, opta por lançar o tributo em litígio somente para prevenir a decadência. Na impugnação, o contribuinte se insurge sobre o lançamento tributário em razão da existência, em sua opinião, de nulidade no procedimento do lançamento. A prevalecer a posição aqui atacada, por ser certo que o resultado da lide judicial pode ser a declaração da inexistência da relação tributária entre o Fisco e o contribuinte, a processo administrativo tributário não poderia ser conhecido pois se observaria a concomitância, com consequente renuncia. Resultado: a Administração Tributária deixou de examinar, de controlar, a legalidade de determinado ato por ela produzido, correndo o risco assim, de expor ao mundo um ato eivado de ilegalidade, nulo portanto, realizado por quem está adstrito ao princípio da legalidade, que determina que a Administração Pública só pode fazer o que a lei permite. Por óbvio que não pode ser esse o conceito de concomitância. Ao aplicarmos aos exemplos acima a clássica doutrina processualista, que exige para que se tenha identidade de ações a presença dos três elementos essenciais da ação (mesmas partes, mesma causa de pedir e mesmo pedido), não se verificaria a concomitância havendo, portanto, o exame dos processos por serem distintos. Outro não é o entendimento da própria Administração Tributária. Vejamos o trecho do conteúdo do Parecer Normativo Cosit nº 7, de 22 de agosto de 2014, que versa exatamente sobre o tema aqui analisado: "Da identidade de objetos dos processos administrativo e judicial 9. Poderseia questionar quanto à definição da expressão “mesmo objeto” a que se reportam o ADN Cosit nº3, de 1996, a Súmula nº1 do CARF e a Portaria MF nº341, de 2011. Aqui, fazse mister diferenciar o objeto da relação jurídica substancial ou primária do objeto da relação jurídica processual. Aquele consiste no bem da vida sobre o qual recaem os interesses em conflito, in casu, o patrimônio do contribuinte; este, por sua vez, diz respeito ao serviço que o Estado tem o dever de prestar, e nos procedimentos de que este se utiliza para tanto, resultando no proferimento de decisões administrativas ou judiciais em cada processo, guardando relação de instrumentalidade com a real demanda do autor (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Constituição Federal Comentada. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009. p. 179). 9.1. Assim, só produz o efeito de impedir o curso normal do processo administrativo a existência de processo judicial para o julgamento de demanda idêntica, assim caracterizada aquela em que se verificam as mesmas partes, a mesma causa de pedir Fl. 271DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 526 14 (fundamentos de fato – ou causa de pedir remota e de direito – ou causa de pedir próxima) e o mesmo pedido (postulação incidente sobre o bem da vida) a chamada teoria dos três eadem, conforme definida no art. 301, § 2ºda Lei nº5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil – CPC), o qual ora se aplica por analogia. 9.2. Levase em consideração o objeto da relação jurídica substancial; se a discussão judicial se refere a questões instrumentais do processo administrativo, contra as quais se insurge o sujeito passivo da obrigação tributária, não há que se falar em desistência da instância administrativa nem em definitividade da decisão recorrida, quando nesta se discute alguma questão de direito material. Se, no entanto, a discussão administrativa gira em torno de alguma questão processual, como a tempestividade da impugnação, por exemplo, questão esta também levada à apreciação judicial, configurase a renúncia à esfera administrativa quanto a este ponto específico. 9.3. Seguindo esse raciocínio, encontrase entendimento na doutrina e na jurisprudência de que só se caracteriza a identidade de ações quando se verificam as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir: 19. Identidade de ações: caracterização. As partes devem ser as mesmas, não importando a ordem delas nos pólos das ações em análise. A causa de pedir, próxima e remota [...], deve ser a mesma nas ações, para que se as tenha como idênticas. O pedido, imediato e mediato, deve ser o mesmo: bem da vida e tipo de sentença judicial. Somente quando os três elementos, com suas seis subdivisões, forem iguais é que as ações serão idênticas. (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado. 11. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. p. 595) Litispendência. Identidade de pedidos. A identidade de pedidos não caracteriza a litispendência. Somente se verifica a litispendência com a identidade de ações: as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir. (TRF5ª, 1ª T., Ap 17299RN, rel. Juiz Ridalvo Costa, v.u., j. 10.12.1992, JSTJ 47/583) 9.4. Vale reproduzir o seguinte excerto do Parecer PGFN/Cocat nº2/2013: 49. Dito disso, conferimos ao instituto da concomitância no PAF o mesmo tratamento da litispendência no processo civil, pois a verificação da ausência desses dois pressupostos negativos têm como finalidade precípua evitar o processamento de causas iguais quando houver: (i) identidade das partes, (ii) da causa de pedir e (iii) do pedido (art. 301, §§ 1ºe 2º, do CPC; e Súmula nº1/CARF). 50. Com efeito, na linha do que foi afirmado no item 26, tanto a concomitância quanto a litispendência constituem requisitos de validade objetivos extrínsecos da relação processual. São Fl. 272DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 527 15 pressupostos negativos, ou seja, fatos que não podem ocorrer para que o procedimento se instaure validamente. Representam acontecimentos estranhos à relação jurídica processual (daí o adjetivo "extrínseco") que, uma vez existentes, impedem a formação válida do processo (procedimento). (grifos conforme original) 9.5. Feitos esses esclarecimentos, e à vista da terminologia utilizada nos normativos retromencionados, adotarseá, neste parecer, o entendimento de que a expressão “mesmo objeto” diz respeito àquilo sobre o qual recairá o mérito da decisão, quando sejam idênticas as demandas. Portanto, temse como critérios de aplicação da impossibilidade do prosseguimento do curso normal do processo administrativo, em vista da concomitância com processo judicial, tanto o pedido como a causa de pedir, e não somente o pedido. 9.6. Seguindo essa lógica, caso o processo administrativo fiscal contenha pedido mais abrangente que o do processo judicial, ele deve ter seguimento somente em relação à parte que não esteja sendo discutida judicialmente. Se, por exemplo, a ação judicial requer a anulação de um lançamento em relação a determinada multa, mas nada diz sobre a base de cálculo do tributo, e a impugnação administrativa tratar também da discussão sobre a base de cálculo, esta parte deverá ser objeto de julgamento administrativo. 10.A prevalência, nesses casos, do curso do processo judicial se deve ao princípio constitucional da unicidade de jurisdição, insculpido no art. 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal (“a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;”), segundo o qual o Poder Judiciário detém o monopólio do controle jurisdicional, não sendo necessário que se configure a efetiva lesão a direito, bastando a simples ameaça para que se dê o ingresso em juízo. Ademais, o caráter de não definitividade das decisões administrativas consiste na possibilidade de sua apreciação pelo Judiciário. Registrese, ainda, a desnecessidade do esgotamento da via administrativa para o acesso ao Poder Judiciário, como ocorria no sistema constitucional revogado (CF/1967, art. 153, § 4º). (CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 312). 10.1. Outra justificativa que se pode invocar para a inadmissibilidade da concomitância entre as discussões sobre a mesma matéria nas instâncias judicial e administrativa, sob pena de se admitir um dispêndio desnecessário de recursos públicos, além do risco de se obterem decisões conflitantes, passa pelo princípio da economia processual, o qual, segundo lecionam Cintra, Grinover e Dinamarco (CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 79), “preconiza o máximo resultado na atuação do direito com o mínimo emprego possível de atividades Fl. 273DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 528 16 processuais”. Tratase do mesmo princípio que inspira os efeitos do instituto da litispendência no processo civil (arts. 219, 267 e 301 do CPC)." (destaques não constam do Parecer mencionado) Nesse mesmo caminho segue o STJ. Afirma o voto condutor da decisão proferida no Ag Rg no Agravo em Recurso Especial nº 702.892SP, de Relatoria do Min Sérgio Kukina, julgado em 15/03/16 pela Primeira Turma. "Há litispendência quando se repetem ações em curso com as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido; ainda que sejam causas de natureza diversa, como são mandado de segurança e processo de conhecimento, induvidosa a réplica proibida pela lei processual." Assentes quanto ao conceito de concomitância entre a ação judicial e o processo administrativo tributário, passemos ao caso concreto. No caso em apreço, a determinação da identidade de ações se torna ainda mais necessária e, com a devida vênia, o desacerto do entendimento esposado no voto do Relator ainda mais flagrante. Como bem apontado pelo nobre Relator, associação do qual o contribuinte faz parte, impetrou Mandado de Segurança pelo qual obteve decisão favorável no sentido da não incidência da contribuição previdenciária sobre a receita obtida por meio da venda para o exterior por meio de 'trading companies'. Vejamos a questão da concomitância. Para tanto, destaquemos as controvérsias existentes. No plano judicial, encontramos um mandado de segurança proposto por substituto processual da Recorrente em face da Administração Tributária tempos antes do procedimento fiscal que tem por objeto a não incidência da contribuição previdenciária sobre a receita decorrente de exportações por meio de 'trading companies'. No plano administrativo, observamos que o Recorrente se insurge contra o lançamento tributário realizado com fito de prevenir a decadência do direito do Fisco. Ao buscarmos os elementos essenciais das duas demandas encontraremos: Administrativo Judicial Partes Recorrente e Fisco Substituto processual e Fisco Pedido Nulidade/Cancelamento lançamento Imunidade da receita de exportação Causa de pedir Nulidade/ não aplicabilidade da multa/descabimento da SELIC imunidade/inconstitucionalidade da IN Fl. 274DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 529 17 A simples leitura do quadro acima demonstra a inexistência de coincidência entres os elementos caracterizadores das lides, o que torna despiciendo que o contribuinte possa a vir obter a improcedência do lançamento como resultado da demanda judicial proposta. Assim, mister que se conheça do recurso apresentado, uma vez que não se pode, sob ofensa ao primado da lógica jurídica, aplicarse a Súmula CARF nº 1 ao caso em apreço, vez que nem mesmo o objeto, o pedido em si, é o mesmo. Na via judicial, se discute imunidade das receitas de exportação via 'trading companies'. Na via administrativa o pedido é cancelamento do lançamento, seja por nulidade, seja por reconhecimento da imunidade. Não obstante o exposto, mister realçar que a concomitância de ações exige além da identidade do pedido, a identidade da causa de pedir. Em consequência, entendo pelo conhecimento do recurso e passo a analisá lo, na ordem das alegações, na parte em que o Conselheiro Relator tratou como concomitância. NULIDADE DA DECISÃO DA DRJ. Alega, o Recorrente, nulidade da decisão de piso em face do não enfrentamento dos argumentos sobre alguns pontos que constavam da impugnação ao lançamento em face da propositura de ação judicial sobre o tema. Tais excertos das alegações recursais demonstram o entendimento do Recorrente (fls 2 do Recurso): "A DRJ não conheceu de alguns argumentos da impugnação apresentada, sob o fundamento de que a existência do Mandado de Segurança impetrado pela ÚNICA, associação da qual faz parte a Recorrente, importaria renúncia à instância administrativa Ocorre, entretanto, que a DRJ não poderia se furtar a apreciar os argumentos levantados pela Recorrente em sua impugnação, na medida em que a existência de medida judicial coletiva, ajuizada por associação da qual a Recorrente faz parte, não induz à renúncia da discussão administrativa pelo contribuinte individual. Com efeito, o item "a" do ADN 03/96 estabelece que "apropositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente á autuação, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto" (destacamos). O ato normativo no qual se fundamentou a DRJ é claro ao indicar que a renúncia à discussão administrativa ocorre quando o próprio contribuinte1 opta pelo ajuizamento de medida judicial, antes ou no curso do processo administrativo. Fl. 275DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 530 18 (...) Em outras palavras, a decisão favorável proferida em medida judicial coletiva protege o contribuinte contra a exigência fiscal, por implicar a suspensão da exigibilidade do crédito tributário (como no caso em análise), ou extingue o crédito tributário (nos termos do art. 156, X, do CTN), quando se trata de decisão transitada em julgado. Entretanto, a existência de medida judicial coletiva em curso não pode suprimir o direito do contribuinte de exercer individualmente o seu direito de defesa na esfera administrativa." Em que pese como acima demonstrado nossa concordância parcial com os argumentos recursais não observo a nulidade arguída. Vejamos Cediço que o processo administrativo tem por fulcro o controle de legalidade do ato administrativo que é ínsito a todo ato emanado pela Administração Pública. Principiologicamente, é assente que a Administração Pública se submete a legalidade, não lhe cabendo agir senão sob a demanda da lei. Não pode a Administração fazer nada se a lei não lhe autorizar, ao reverso do particular que pode fazer tudo, exceto o que a lei não proibir. Nesse sentido caminha o ensinamento de Celso Ribeiro de Bastos (Curso de Direito Administrativo, 4ª ed. São Paulo: Ed. Saraiva pg. 25), que após discorrer sobre o significado do princípio da legalidade no âmbito do Direito Público, concluí: "De tudo ressalta que a Administração não tem fins próprios , mas há de buscálos na lei, assim como, em regra, não desfruta de liberdade, escrava que é da ordem jurídica" Tamanha vinculação não pode permitir que um ato administrativo, ato emanado da Administração, contenha alguma ilegalidade. Por isso o necessário controle por meio do processo administrativo, procedimento que permite à Administração o controle de seus atos, que ela exerça a denominada autotutela. Tal controle, por óbvio, não pode deixar de existir no processo administrativo fiscal. Como dito, cabe à lei, regular o procedimento administrativo, assim entendido o conjunto de atos concatenados destinados a produzir o ato principal, no caso a constituição do crédito tributário pelo lançamento. O Decreto nº 70.235/72, cumpre esse papel, recepcionado que foi pela Carta da República de 1988. Sobre o tema das nulidades, assim ele determina: "CAPÍTULO III Das Nulidades Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; Fl. 276DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 531 19 II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Art. 61. A nulidade será declarada pela autoridade competente para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade." Ora, não se observa os vícios ensejadores da nulidade na decisão vergastada. Não há ato emanado de autoridade incompetente tampouco foi praticado qualquer tipo de ofensa ao direito de defesa do Contribuinte. O fato da autoridade julgadora de primeira instância entender que a existência de propositura de medida judicial por substituição anterior ao lançamento, enseja a concomitância de instâncias não torna nula a decisão por ela proferida, por expressa ausência de disposição legal a esse respeito. Por esses fundamentos, rejeito a preliminar de nulidade. IMUNIDADE DAS RECEITAS DE EXPORTAÇÃO. Pleiteia a Recorrente, que se interprete as disposições da Instrução Normativa nº 03/05, no sentido da imunidade das receitas de exportação contida no artigo 149, § 2º da Constituição Federal. Cita doutrina e jurisprudência no sentido dos seus argumentos. Mais uma vez não cabe razão ao Recorrente. Explico. Segundo o Recorrente a Instrução Normativa SRP nº 03/05, esbordou o limite de uma norma regulamentar. Transcrevo seu argumento: "Em suma, o art. 245, § Io, da IN n° 03/2005, norma de cunho meramente regulamentar, não pode prevalecer, na medida em que transbordou a sua competência ao criar limitação à fruição de imunidade, que não consta do próprio texto constitucional. " Fl. 277DF CARF MF Processo nº 15956.000061/200900 Acórdão n.º 2201003.559 S2C2T1 Fl. 532 20 (grifo não consta do recurso) Em primeiro lugar, mister recordar que não pode este Conselho apreciar questões ligadas a constitucionalidade de norma. Tal questão é reconhecida pela própria recorrente conforme observo linhas acima do trecho supra transcrito. A súmula CARF nº 2 é taxativa ao declarar a incompetência deste Conselho para se pronunciar sobre tal tema. Não obstante o exposto, necessário ainda, como bem faz a Recorrente e a própria autoridade lançadora, reconhecer que o objetivo do lançamento tributário que aqui se analisa, é o de constituir de maneira preventiva o crédito decorrente da contribuição previdenciária incidente sobre as receitas brutas da comercialização da produção rural que se encontra em discussão perante o Poder Judiciário por meio do Mandado de Segurança Coletivo mencionado. Ora, a questão de fundo, o motivo ensejador do lançamento, se encontra sob análise do Poder Judiciário, não podendo nesse tema se pronunciar a Administração Pública em razão da prerrogativa da competência do Poder Judiciário para dirimir as lides levadas ao seu conhecimento. Assim, pelo exposto, nego provimento ao recurso nessa parte. Reafirmo a concordância deste Conselheiro com o entendimento do Conselheiro Relator nas demais questões apontadas pela Recorrente. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto por conhecer do recuso voluntário, rejeitar preliminar de nulidade e no mérito, darlhe parcial provimento para determinar o recálculo da multa nos termos do artigo 35, caput, da Lei nº 8.212/91, na redação conferida pela Lei nº 11.941/09. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Fl. 278DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13502.900780/2009-27
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2004 a 31/12/2004
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO.
Comprovada a liquidez e certeza do direito creditório, reconhece-se a homologação da declaração de compensação, nos termos do artigo 170 do CTN e artigo 74 da Lei nº 9.430/1996.
Recurso Voluntário Provido
Direito Creditório Reconhecido.
Numero da decisão: 3302-003.712
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente Substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente-Substituto), Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Walker Araújo, Jose Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes De Souza, Lenisa Rodrigues Prado e Orlando Rutigliani Berri.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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(incorporada por DUPONT DO BRASIL S/A) Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2004 a 31/12/2004 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. Comprovada a liquidez e certeza do direito creditório, reconhecese a homologação da declaração de compensação, nos termos do artigo 170 do CTN e artigo 74 da Lei nº 9.430/1996. Recurso Voluntário Provido Direito Creditório Reconhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente Substituto e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (PresidenteSubstituto), Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Walker Araújo, Jose Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes De Souza, Lenisa Rodrigues Prado e Orlando Rutigliani Berri. Relatório Tratase de pedido de ressarcimento de IPI relativo ao 4º trimestre de 2004, cumulado com declaração de compensação, o qual foi parcialmente deferido, resultando em um glosa de R$ 163.074,53. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 50 2. 90 07 80 /2 00 9- 27 Fl. 560DF CARF MF Processo nº 13502.900780/200927 Acórdão n.º 3302003.712 S3C3T2 Fl. 561 2 Por bem retratar a realidade dos fatos, transcrevese relatório da resolução de nº 3302000.309: "Tratase de recurso voluntário (fls. 149 a 157) apresentado em 02 de março de 2012 contra o Acórdão no 1529.037, de 22 de novembro de 2011, da 4ª Turma da DRJ/SDR (fls. 114 a 118), cientificado em 01 de fevereiro de 2012, que, relativamente a declaração de compensação de IPI do 4º trimestre de 2004, considerou a manifestação de inconformidade improcedente, nos termos de sua ementa, a seguir reproduzida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – IPI Período de apuração: 01/10/2004 a 31/12/2004 CRÉDITO DO IPI. LEGITIMIDADE. A primeira via da nota fiscal original ou da cópia autenticada e os livros fiscais correspondentes são os documentos imprescindíveis para conferir certeza e liquidez a créditos do IPI aproveitados na escrita fiscal da interessada. Manifestação de Inconformidade Improcedente A declaração de compensação foi transmitida em 08 de junho de 2005, de acordo com o termo de fl. 2, com base no parecer de fls. 4 e 5. A Primeira Instância assim resumiu o litígio: "No Termo de Verificação Fiscal, fls. 82 a 89, o fiscal diligente relata, dentre outros fatos, que: => O contribuinte fiscalizado fabrica diversos produtos, como Diuron, DCNB, DCA, DCPI e Propanil. Todos os produtos são tributados pelo IPI à alíquota zero. Parte de sua produção é exportada, o que lhe dá direito ao beneficio fiscal do Crédito Presumido do IPI; => na DCOMP 42019.59393.080605.1.3.018467 o contribuinte indica a existência de um crédito de IPI passível de ressarcimento no valor de R$ 213.253,02, relativo ao crédito básico do 4° trimestre de 2004; => entretanto, à semelhança do ocorrido na análise das DCOMP anteriores, o sujeito passivo não conseguiu localizar as notas fiscais n° 6720, n° 6877 (novembro/2004), n° 7020, n° 63700 e n° 7273 (dezembro/2004). Em decorrência, houve uma glosa no valor de R$ 163.074,53 no IPI creditado, e o crédito a que faz jus o contribuinte é de R$ 50.178,49. A Delegacia da Receita Federal em Camaçari proferiu Despacho Decisório eletrônico n° 843117445, de 07/07/2009, fl. 01, reconhecendo parcialmente o crédito pleiteado, no valor de R$ 50.178,49, e homologando as compensações declaradas até o Fl. 561DF CARF MF Processo nº 13502.900780/200927 Acórdão n.º 3302003.712 S3C3T2 Fl. 562 3 limite do crédito reconhecido, em razão da ocorrência de glosa de crédito em procedimento fiscal. Cientificada do despacho decisório em 06/03/2009, conforme informação A fl. 02, a contribuinte apresentou, em 07/04/2009, manifestação de inconformidade, fls. 90 a 106, alegando, em síntese, que: => entregou, dentro do prazo concedido pelo Fiscal, a maior parte dos documentos solicitados e informou que algumas notas haviam sido extraviadas; => em decorrência da não apresentação das notas fiscais de n° 6720, 6877, 7020, 63700 e 7273, reconheceu apenas parte do crédito de IPI relativo ao 4° trimestre de 2004, conforme termo de encerramento de fiscalização; =>. contudo, o extravio de tais notas não pode ser motivo para o indeferimento dos créditos de IPI do 4° trimestre de 2004, visto que existem outras provas que podem demonstrar a existência e a validade do saldo credor, como, por exemplo, o registro de tais notas nos livros da Manifestante. Tais provas já demonstram a existência de saldo credor suficiente para efetuar as compensações relacionadas no despacho decisório; => apesar de entender que o registro de tais notas seria suficiente para comprovar a existência e a validade dos créditos, a Manifestante informa ao Fisco que requereu aos seus fornecedores uma cópia autenticada das notas fiscais faltantes para atender integralmente as suas exigência, as quais encontramse anexadas à presente (doc. 07); => apesar de a composição do crédito já estar demonstrada no corpo dos Per/Dcomp, a Manifestante requer que sejam aceitos os documentos em anexo para a necessária demonstração da validade do crédito; => levandose em consideração as anexas cópias autenticadas das notas fiscais, bem como a informação constante do termo de verificação fiscal, no qual o fiscal constatou que o crédito referente as demais notas fiscais são plenamente válidas, verificase a existência do crédito total pleiteado, bem como a suficiência para a compensação; => cabe ainda comentar que, por um equivoco no preenchimento do Per/Dcomp 40691.08896.170605.1.3.010100, foi mencionado o dia 24/06/2009 como data de • vencimento do tributo CSRF (595202) da lº quinzena de junho de 2005; => requer a reforma do despacho decisório, para homologação da compensação efetivada, declarandose extintos os débitos em questão, nos termos do artigo 156, inciso II, do CTN; => por fim, protesta provar os fatos acima expostos por todos os meios de prova admitidos, notadamente pela juntada de quaisquer documentos e, até mesmo, pela realização de prova Fl. 562DF CARF MF Processo nº 13502.900780/200927 Acórdão n.º 3302003.712 S3C3T2 Fl. 563 4 pericial, desde que a autoridade administrativa fundamente e demonstre o motivo pelo qual as compensações não foram homologadas." No recurso, a Interessada alegou o seguinte: "Em que pese o extravio, durante a fiscalização, a Requerente, a fim de colaborar com os trabalhos dos auditores fiscais e comprovar a idoneidade do crédito, apresentou a escrituração fiscal de tais notas em seu livro fiscal. Os auditores desconsideraram a escrituração fiscal e glosaram o crédito de R$ 163.074,53, exclusivamente, pela não apresentação das notas fiscais 6720, 6877, 7020, 63700 e 7273. A Requerente, por meio de seus fornecedores, conseguiu cópia das referidas notas fiscais e as apresentou ao fisco em sede de Manifestação de Inconformidade. [...] A controvérsia nesse caso baseiase em (i) momento de apresentação das notas fiscais e (ii) se a 2ª via das notas fiscais (apresentadas pela Recorrente em sede de Manifestação de Inconformidade) teriam o condão de comprovar a origem do crédito. A respeito do momento de apresentação das notas, em que pese o que determina o §4º do art. 16 do Decreto 70.235/72, sabese que o processo administrativo tributário é norteado pelo principio da verdade material, que consiste na apreciação da realidade material em contraposição a meras irregularidades formais, como por exemplo, o momento de apresentação das notas. Na sequência, citou opinião da doutrina e ementas de decisões administrativas." Na sessão de 25/06/2013, o julgamento foi convertido em diligência mediante a Resolução nº 3302000.309, para que a recorrente fosse intimada a apresentar cópias autenticadas das referidas notas fiscais; apresentadas ou não as notas autenticadas, para que fosse verificado se as referidas notas foram escrituradas e se suas informações eram compatíveis com a escrituração; e para que fosse verificado se os produtos e os valores constantes das notas de fato justificariam os valores glosados de créditos e se seriam suficientes para abranger as compensações não homologadas. Após o cumprimento à resolução, a autoridade fiscal elaborou relatório fiscal, no qual constatou a apresentação das cópias autenticadas dos documentos fiscais de nº 6720, 6877, 7020, 63700 e 7273, apresentados, certificando que referidos documentos foram devidamente escriturados e que os valores constantes nas notas fiscais justificavam as glosas fiscais e eram suficientes para abranger as compensações não homologadas, conforme quadro de efls. 239, perfazendo um total justificado de R$ 163.074,53. Cientificada da informação fiscal, a recorrente não se manifestou. Na forma regimentar, o processo foi distribuído a este relator. Fl. 563DF CARF MF Processo nº 13502.900780/200927 Acórdão n.º 3302003.712 S3C3T2 Fl. 564 5 É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. O recurso interposto atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. A diligência confirmou a apresentação das cópias autenticadas das notas fiscais objeto da glosa, asseverou que os créditos foram devidamente escriturados, em conformidade com o artigo 190 do RIPI/2002, e certificou que os valores constantes dos documentos justificavam à parcela glosada do crédito pleiteado no montante de R$ 163.074,53 (efls. 2), afastando assim o fundamento da glosa e atestando, ao final, o direito creditório pleiteado. Diante do exposto, voto para dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 564DF CARF MF
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