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Numero do processo: 10950.724873/2012-78
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 06 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1001-000.504
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso para, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa- Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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A prática de SIMULAÇÃO de uma situação, para beneficiarse indevidamente de regime especial de tributação, caracterizandose como prática reiterada de infração à legislação tributária, é causa de exclusão do simples. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso para, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 72 48 73 /2 01 2- 78 Fl. 820DF CARF MF 2 Tratase Recurso Voluntário contra o acórdão, número 0640.502, da 6ª Turma da DRJ/CTA, o qual indeferiu a Manifestação de Inconformidade contra o Ato Declaratório Executivo DRF/SCS n° 28, DE 17/09/202, que a excluiu do Simples Nacional, face por infração ao inciso II do art. 3º, ao inciso I do § 4º do art. 3º, incisos II, IV e VIII do art. 29, todos da Lei Complementar nº 123, de 14/12/06, combinado com o § 4º do art. 6º , incisos I e II, do art. 15, e no caput, inciso I e § 1º do art. 75, todos da Resolução CGSN nº 94, de 29/11/11. Em síntese, foi proferido o seguinte voto: Do conhecimento da impugnação 6. O Contribuinte foi cientificado da exclusão do Simples Nacional em 26/10/12, vide AR de fl. 716, tendo protocolado sua Manifestação de Inconformidade em 25/10/12, com observância do prazo estipulado no art. 15 do Decreto n° 70.235, de 06/03/1972. Assim, dela se toma conhecimento. Da alegação e ilegalidade e inconstitucionalidade do ato de exclusão do Simples Nacional 7. Alega a empresa que a fiscalização não teria observado “diversos preceitos legais e constitucionais”, sendo o ato de exclusão “eivado de nulidades”. 8. Primeiramente, quanto à alegação de nulidade do ADE nº 28, insta destacar que, nos termos do art. 59, do Decreto nº 70.235, de 1972, a nulidade somente se verifica quanto o ato é lavrado por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa, o que não ocorreu no presente caso, conforme será visto neste Voto. 9. Quanto à alegação de violação a preceitos legais, em que pese a defesa pretendida, o ato de exclusão do Simples Nacional é um ato administrativo vinculado, previsto na Lei Complementar nº 123, de 2006, e na Resolução nº 94, de 2011, do Comitê Gestor do Simples Nacional, conforme demonstrado a seguir: Lei Complementar nº 123, de 2006 Art. 2o O tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte de que trata o art. 1o desta Lei Complementar será gerido pelas instâncias a seguir especificadas: (...) § 6o Ao Comitê de que trata o inciso I do caput deste artigo compete regulamentar a opção, exclusão, tributação, fiscalização, arrecadação, cobrança, dívida ativa, recolhimento e demais itens relativos ao regime de que trata o art. 12 desta Lei Complementar, observadas as demais disposições desta Lei Complementar. (...) Art. 3º Para os efeitos desta Lei Complementar, consideramse microempresas ou empresas de pequeno porte a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário a que se refere o art. 966 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente registrados no Registro de Empresas Mercantis ou Fl. 821DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 3 3 no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso, desde que: (...) II no caso da empresa de pequeno porte, aufira, em cada ano calendário, receita bruta superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior a R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais). (...) § 4º Não poderá se beneficiar do tratamento jurídico diferenciado previsto nesta Lei Complementar, incluído o regime de que trata o art. 12 desta Lei Complementar, para nenhum efeito legal, a pessoa jurídica: I de cujo capital participe outra pessoa jurídica; (...) Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: (...) II for oferecido embaraço à fiscalização, caracterizado pela negativa não justificada de exibição de livros e documentos a que estiverem obrigadas, bem como pelo não fornecimento de informações sobre bens, movimentação financeira, negócio ou atividade que estiverem intimadas a apresentar, e nas demais hipóteses que autorizam a requisição de auxílio da força pública; (...) IV a sua constituição ocorrer por interpostas pessoas; (...) VIII houver falta de escrituração do livro caixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária; Resolução do CGSN nº 94, de 2011 Art. 6º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio do Portal do Simples Nacional na internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, “caput” ) (...) § 4º No momento da opção, o contribuinte deverá prestar declaração quanto ao não enquadramento nas vedações previstas no art. 15, independentemente das verificações efetuadas pelos entes federados. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, caput ) Fl. 822DF CARF MF 4 (...) Art. 15. Não poderá recolher os tributos na forma do Simples Nacional a ME ou EPP: (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 17, “caput”) I que tenha auferido, no anocalendário imediatamente anterior ou no anocalendário em curso, receita bruta superior a R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) no mercado interno ou superior ao mesmo limite em exportação de mercadorias, observado o disposto nos §§ 2º e 3º do art. 2º e §§ 1º e 2º do art. 3º; (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 3º, inciso II e §§ 2º, 9º, 9º A, 10, 12 e 14) II de cujo capital participe outra pessoa jurídica; (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 3º , § 4º, inciso I) (...) Art. 75. A competência para excluir de ofício a ME ou EPP do Simples Nacional é: (Lei Complementar n º 123, de 2006, art. 29, § 5 º; art. 33) I da RFB; (...) § 1º Será expedido termo de exclusão do Simples Nacional pelo ente federado que iniciar o processo de exclusão de ofício. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 29, § 3º) 10. Da análise dos dispositivos colacionados acima, temse que a exclusão do Simples Nacional foi efetuada com rigorosa observância à legislação vigente ao seu tempo. 11. Quanto à alegada não observância a preceito constitucional, a empresa cita, em sua defesa, o art. 150, inciso II, alínea “b”, da Constituição Federal, porém, tal dispositivo diz respeito à majoração e à cobrança de tributo novo, mas não ao caso presente. 12. Diante desse quadro, concluímos por afastadas as alegações de nulidade do ADE nº 28 e de violação a preceitos legais e constitucionais. Da natureza jurídica do ato de exclusão e dos seus efeitos 13. Segundo defesa apresentada, alega e empresa que o ato de exclusão do Simples Nacional é um ato desconstitutivo e que, por tal razão, não pode retroagir, sob pena de violar o princípio da irretroatividade tributária e, conseqüentemente, o ato jurídico perfeito, a coisa julgada e a segurança jurídica. 14. O ato administrativo em questão, além de ser um ato declaratório por natureza, não decorre do exercício do poder discricionário da administração, mas sim do estrito cumprimento da legislação tributária. 15. Vejamos o que diz a Lei Complementar nº 123, de 2006, quanto aos efeitos da exclusão: Fl. 823DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 4 5 Art. 28. A exclusão do Simples Nacional será feita de ofício ou mediante comunicação das empresas optantes. Parágrafo único. As regras previstas nesta seção e o modo de sua implementação serão regulamentados pelo Comitê Gestor. Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: (...) § 1º Nas hipóteses previstas nos incisos II a XII do “caput” deste artigo, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que incorridas, impedindo a opção pelo regime diferenciado e favorecido desta Lei Complementar pelos próximos 3 (três) anoscalendário seguintes. § 2o O prazo de que trata o § 1º deste artigo será elevado para 10 (dez) anos caso seja constatada a utilização de artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento que induza ou mantenha a fiscalização em erro, com o fim de suprimir ou reduzir o pagamento de tributo apurável segundo o regime especial previsto nesta Lei Complementar. (sem grifo no original) 16. Conforme se extrai dos dispositivos transcritos acima, nas hipóteses previstas nos incisos II a XII do art. 29, a exclusão da empresa do Simples Nacional produzirá efeitos a partir do mês em que tiver ocorrido a situação motivadora da exclusão, cabendo à administração tributária, mediante procedimento fiscal, apontar o momento em que tal situação ocorreu. 17. Em relação a empresa AGILCARGO LOGÍSTICA LTDA. ME e com base nas razões expostas na Representação Fiscal de fls. 656 a 706, a data de ocorrência da situação motivadora da exclusão é a data de constituição da pessoa jurídica, ou seja, 18/04/08. 18. Quando a empresa foi constituída, seus proprietários deviam ter plena ciência da legislação tributária vigente na época, não cabendo aos mesmos, agora, alegar o seu desconhecimento (vide art 3º do DecretoLei nº 4.657, de 1942 Lei de Introdução ao Código Civil). Portanto, não há que se falar em violação ao princípio da segurança jurídica, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada, menos ainda em violação ao princípio da irretroatividade tributária. Do direito de defesa contra o ato declaratório de exclusão 19. Alega a empresa que o presente Ato Declaratório fere o direito de defesa, pois teria sido dado o direito de recorrer contra o mesmo após este ter surtido seus efeitos excludentes, quando, em seu entendimento, a exclusão deveria ocorrer somente após o julgamento definitivo da impugnação interposta contra a exclusão, a qual deveria ser recebida com efeito suspensivo. 20. Não procedem os argumentos da defesa, pois em nenhum momento foi negado à empresa o direito de recorrer. Além do mais, o próprio ADE cientifica a empresa do Fl. 824DF CARF MF 6 direito de recorrer e informa que a exclusão não será definitiva enquanto vigente o prazo para recorrer (vide fl. 709): Poderá o contribuinte, dentro do prazo de trinta dias contados a partir do recebimento deste Termo, impugnar a presente exclusão, por escrito, nos termos do Decreto n° 70.235, de 7 de marco de 1972, e suas alterações posteriores, ao Delegado da Receita Federal do Brasil de julgamento em Curitiba, ou em suas unidades, assegurados, assim, o contraditório c a ampla defesa. Não havendo manifestação neste prazo, a exclusão do SIMPLES NACIONAL tornarseá definitiva. 21. Por decorrência lógica, se a empresa contestar a sua exclusão do Simples Nacional, enquanto não julgada em definitivo sua defesa, a exclusão também não será definitiva no âmbito administrativo. 22. Portanto, temse por afastada a alegação de violação ao direito de defesa contra o ADE. Da alegada desconsideração da personalidade jurídica 23. Segundo defesa apresentada, alega a empresa que a fiscalização talvez tenha aplicado o art. 116, § único, do CTN, para considerar as três pessoas jurídicas (TGM TRANSPORTES e AGILCARGO VELHA e AGILCARGO NOVA) como apenas uma, a fim de serem somados os faturamentos, porém, tal dispositivo ainda foi regulamentado. 24. Em que pesa a defesa, compulsando os autos, observase que em nenhum momento a fiscalização citou o caput do art. 116 ou seu § único, mas sim identificou a existência de grupo econômico, motivo pelo qual, para a verificação do faturamento com vistas ao enquadramento no Simples Nacional, foi considerado o faturamento das três pessoas jurídicas envolvidas, nos seguintes termos: As três empresas atuam no ramo de Transporte rodoviário de cargas, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional. O procedimento adotado pelos contribuintes consiste em fracionar uma empresa, única de fato, visando se aproveitar dos benefícios concedidos às empresas optantes do sistema de tributação do SIMPLES NACIONAL – Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte. Das empresas, o auditor identificou a TGM TRANSPORTES LTDA, CNPJ 84.964.840/000164, como a principal do grupo, sendo as demais criadas para simples alocação da folha de pagamento da principal, buscando, principalmente, se eximir da contribuição patronal destinadas à seguridade social e às Outras Entidades / Terceiros. A TGM e os seus sócios são os primeiros beneficiários dos procedimentos adotados que serão abordados nesta representação, contudo existem registros de repasses de valores de sócio da TGM para sócio da AGILCARGO LOGISTICA LTDA ME, de Pessoa Física à Pessoa Física, fato demonstrado nas Declarações de Imposto de Renda Pessoa Fl. 825DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 5 7 Física dos envolvidos. Desta forma, o sócio da empresa subsidiária AGILCARGO LOGISTICA LTDA ME também se beneficia das condutas adotadas. Em interpretação mais benéfica, pode ser afirmado que as empresas constituem grupo econômico de fato. Em interpretação mais gravosa as Pessoas Jurídicas envolvidas são, de fato, uma única empresa, contudo simulam perante o fisco existirem Pessoas Jurídicas distintas. As constatações serão expostas abaixo em detalhes. (...) Dos fatos, depreendese que as empresas são uma só. A AGILCARGO NOVA não deixou de ser a AGILCARGO ANTIGA e as duas AGILCARGO nunca deixaram de ser TGM, embora simulem serem Pessoas Jurídicas distintas. Desta forma, a verificação do faturamento para usufruto do tratamento diferenciado instituído pela Lei Complementar n.º 123/06 deve ser realizado em conjunto com as Pessoas Jurídicas envolvidas. (...) Comprovado que as empresas são, de fato, uma única, tratamos de efetuar a soma de seus faturamentos, visto que esta somatória não pode ultrapassar os limites estabelecidos no art. 2º, inciso II, da Lei nº 9.317/1996 e art. 3º, caput, Inciso II, da Lei Complementar nº 123/2006.Mesmo que seja considerado que as AGILCARGO são Pessoas Jurídicas distintas, a TGM seria sócia oculta das AGILCARGO pelos repasses financeiros efetuados, participando ocultamente de seu capital social. 25. Portanto, temse por afastada a alegação de que a fiscalização teria aplicado o art. 116, do CTN, e seu § único, no procedimentos fiscal em questão. Do embaraço à fiscalização 26. Alega a empresa que não houve nenhum embaraço à fiscalização e que sempre atendeu prontamente ao solicitado, apresentando justificativas aos questionamentos. 27. Pois bem, traz a Lei Complementar nº 123, de 2006, a seguinte definição para o embaraço, em seu art. 29, inciso II: Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: (...) II for oferecido embaraço à fiscalização, caracterizado pela negativa não justificada de exibição de livros e documentos a que estiverem obrigadas, bem como pelo não fornecimento de informações sobre bens, movimentação financeira, negócio ou atividade que estiverem intimadas a apresentar, e nas demais Fl. 826DF CARF MF 8 hipóteses que autorizam a requisição de auxílio da força pública; 28. Segundo se observa na Representação Fiscal de fls. 656 a 706, os Termos de Intimação foram respondidos, porém, não com informações suficientes. A esse respeito, cita a fiscalização a seguinte situação (vide fl. 702): (...) as explicações prestadas pelas AGILCARGO quanto a formação de seu patrimônio em veículos de transportes foram deficientes pois sem qualquer registro em contabilidade das supostas transações de compra e venda efetuadas com a TGM. 29. Portanto, não bastava apenas a empresa responder aos Termos de Intimação, mas, sim, deveria ter prestado informações suficientes, na forma requerida nos Termos de Intimação (fls. 55 a 65 e 68 a 77), e devidamente corroboradas com documentos capazes de suportálas, o que nem sempre ocorreu. Da interposição de terceiros 30. Quanto ao inciso IV do art. 29 da Lei Complementar nº 123, de 2006(interposição de terceiros na constituição da empresa), alega o contribuinte que o fato de os sócios das empresas AGILCARGO e TGM serem da mesma família, não implica em ocultação do real proprietário, o chamado "laranja" e que se esse realmente fosse o intuito, a empresa teria sido constituída com sócios sem nenhuma ligação com os sócios da TGM. Mas, não é oque ocorreu. A empresa foi criada pelos filhos dos sócios da TGM, por simples oportunidade de negócio, ligada ao mesmo ramo de atividades da família. Ocasião em que os filhos tiveram o apoio dos pais para iniciar sua vida empresarial. 31. Primeiramente, insta destacar que a fiscalização não utilizou a expressão “laranja”, mas sim a expressão “sócio oculto”, como no exemplo a seguir, extraído da Representação Fiscal, fls. 695 e 696: O Sr. Israel [sócio da TGM] distribui ao filho parte do seu patrimônio pessoal obtido pela realização de lucros na TGM, caracterizando o Sr. Thiago [sócio da AGILCARGO] como beneficiário das condutas adotadas. O fato do Sr. Thiago usufruir dos resultados da TGM, indiretamente, o coloca como sócio oculto da TGM. 32. A fiscalização aponta, inclusive, que a TGM seria, também, sócia oculta das AGILCARGO, vide fl. 696: Mesmo que seja considerado que as AGILCARGO são Pessoas Jurídicas distintas, a TGM seria sócia oculta das AGILCARGO pelos repasses financeiros efetuados, participando ocultamente de seu capital social. 33. Cabe acrescentar que a própria fiscalização informa que a “ligação parental entre os sócios pouco representa, se não fossem os demais procedimentos adotados pelas Pessoas Jurídicas” (fl. 658, item 3). 34. Logo, a constatação de que a AGILCARGO LOGÍSTICA LTDA. ME foi constituída por interpostas pessoas não se deu apenas com base no grau de parentesco entre os sócios das três empresas (TGM, AGILCARGO VELHA e AGILCARGO NOVA), mas sim no conjunto das várias operações envolvendo as três empresas, as quais foram muito bemdetalhadas pela fiscalização. Da prestação exclusiva de serviços à TGM Fl. 827DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 6 9 35. Segundo a defesa, a empresa AGILCARGO LOGÍSTICA LTDA. ME não foi criada com o único objetivo de prestar serviços exclusivos à TGM, pois, “conforme se pode notar nos documentos juntados a empresa TGM tem diversos prestadores de serviços (mais de vinte), já que como central de logística tem que contar com outras empresas para melhor atender seus clientes.” 36. Conforme se observa na redação desse item da defesa, a empresa informa que a TGM tomou serviços de vários prestadores, mas, em verdade, o que a fiscalização aponta é que a AGILCARGO NOVA, à exceção do mês 12/2011, prestou serviços exclusivamente para a TGM, no período abrangido pelo procedimento fiscal (vide fl. 690): No período abrangido pela fiscalização nas AGILCARGO o faturamento mensaldas empresas está embasado na emissão mensal de um único documento Conhecimento de Transportes Rodoviário de Carga CTRC. Fazendo exceção apenas a competência 12/2011, onde a contabilidade demonstra a emissão dedocumentos CTRC para outras empresas. 37. Portanto, improcede a alegação de que a empresa AGILCARGONOVA não teria sido criada com o único objetivo de prestar serviços exclusivos à TGM. Da falta do LivroCaixa e da identificação da movimentação financeira 38. Por fim, alega a empresa que com “relação ao inciso VIII [do art. 29 da Lei Complementar nº 123, de 2006], o requisito de livro caixa é suprido pela existência de escrituração contábil, colocada à disposição do fisco, que a examinou com tempo suficiente. Portanto, é surpresa a afirmação de que não é possível a identificação da movimentação financeira bancária.” 39. Em que pese a alegação de que a escrituração contábil colocada à disposição do fisco teria sido suficiente, não é isso o que diz a fiscalização (vide fl. 690): Tanto a contabilidade apresentada pela antiga como pela nova AGILCARGO não apontam a existência de contas "BANCO". Todas as transações de entradas e saídas de recursos são registradas na contabilidade como sendo em dinheiro. Os supostos faturamentos recebidos pela prestação de serviços à TGM, os supostos aportes de recursos via contratos de mútuo, os pagamentos dos salários dos empregados e demais encargos sobre a folha, tudo está registrado como entrada ou saída de dinheiro. Contudo tal fato não representa a verdade material: existem contas bancárias com registros de entrada e saídas de recursos. Todos os registros contábeis ocorridos nas AGILCARGO são a débito e crédito da conta "CAIXA". Inclusive os supostos faturamentos. Todos os pagamentos de funcionários e demais despesas registradas tem como fonte de saída a conta "CAIXA". Todos os recursos aportados, por supostos faturamentos e por supostos empréstimos contratados com a TGM são registrados como entradas de dinheiro. (...) Fl. 828DF CARF MF 10 As AGILCARGO NOVA e ANTIGA apresentam a sua contabilidade sem registros de lançamento, a débito ou crédito, de conta "BANCOS". Por outro lado, a auditoria constatou a existência de contas bancárias, pertencentes à AGILCARGO ANTIGA, com registros de aportes e saídas de valores não contabilizados, mesmo após o seu último faturamento registrado. Ficou constatado também que os empregados da outra AGILCARGO, a nova, são pagos via transferência bancária, com origem dos recursos em conta banco de titularidade da antiga e aporte em conta bancária de empregados da nova. 40. Conforme se observa na transcrição acima, a empresa efetuou pagamentos mediante transferência bancária, porém, sem registro contábil de tais operações, o que, de fato, dificultou ou até mesmo impossibilitou a identificação das movimentações financeiras, razão pelo qual temse por afastada a alegação de que a contabilidade apresentada à fiscalização teria sido suficiente. Conclusão 41. Isso posto, voto pela improcedência da Manifestação de Inconformidade. Voto Conselheiro José Roberto Adelino da Silva Relator Inconformada, a recorrente apresentou o Recurso Voluntário, tempestivo que apresenta os demais pressupostos de admissibilidade, previstos no Decreto 70.235/72, e, portanto, dele eu conheço. Assim como o fizera, por ocasião da impugnação, a recorrente questiona (agora no recurso) a inadequação do ato impugnado, utilizandose dos mesmos argumentos, apenas acrescentando que: Inadequação do ato impugnado · na decisão recorrida afirma que o ato declaratório obedece as disposições legais, notadamente o art. 29, § 3e, da Lei Complementar 123 de 2006. · Por esclarecedor, transcrevemos abaixo o dispositivo supracitado: Art 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: (omissis) §3S A exclusão de ofício será realizada na forma regulamentada pelo Comitê Gestor, cabendo o lançamento dos tributos e contribuições apurados aos respectivos entes tributantes. Fl. 829DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 7 11 · Por sua vez o Comitê Gestor, na Resolução n9 94/ 2011, na Subseção II, que fala sobre a exclusão de ofício dispõe: Da Exclusão de Ofício Art. 75. A competência para excluir de ofício a ME ou EPP do Simples Nacional é: I da RFB; das Secretarias de Fazenda, de Tributação ou de Finanças do Estado ou do Distrito Federal, segundo a localização do estabelecimento; e dos Municípios, tratandose de prestação de serviços incluídos na sua competência tributária. § 1 ^Será expedido termo de exclusão do Simples Nacional pelo ente federado que iniciar o processo de exclusão de ofício. (Lei Complementar n s123, de 2006, art. 29, § 3 2) § 2 2Será dada ciência do termo de exclusão à ME ou à EPP pelo ente federado que tenha iniciado o processo de exclusão, segundo a sua respectiva legislação, observado o disposto no art. 110. § 3 Na hipótese de a ME ou EPP impugnar o termo de exclusão, este se tornará efetivo quando a decisão definitiva for desfavorável ao contribuinte, observandose, quanto aos efeitos da exclusão, o disposto no art. 76. · Como se pode observar, a Resolução do CGSN determina que seja expedido Termo de Exclusão do Simples dando oportunidade ao contribuinte de impugnar . E não Ato Declaratório que não tem o condão de desconstituir direito. · Também a Lei dispõe que a exclusão somente será definitiva quando, impugnada a exclusão, tenha decisão definitiva desfavorável ao contribuinte. · Não foi o que ocorreu neste caso, já que ao emitir o Ato Declaratório ( e não Termos de Exclusão como diz a lei), a autoridade administrativa (RFB) em ato contínuo efetuou o lançamento decorrente daquela exclusão, antes mesmo que se tornasse definitiva. · Sendo assim, o ato impugnado carece de legitimidade e de fundamento legal de validade. Da Desconsideração da personalidade jurídica Repete, basicamente, os mesmos argumentos utilizados quando de sua impugnação e rebate os indícios apontados na decisão de primeira instância. · Não tendo sido caso de aplicação do art. 50, do Código Civil, é possível que o agente fiscalizador, desprezando os documentos apresentados, a estes atribuídos o caráter fraudulento, tenha focado o Fl. 830DF CARF MF 12 art. 116, parágrafo único, do CTN. Contudo, esse dispositivo da lei complementar ainda não está em vigor, porquanto depende de regulamentação, no pertinente aos procedimentos. Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária, (grifos nossos) · Afirma que: Para finalizar, as infrações cometidas pela recorrente, segundo a fiscalização estão dispostas nos incisos II, IV e VII do art. 29, da Lei Complementar 123/2006. Contudo, não houve uma comprovação de que tais infrações ocorreram. · No tocante ao inciso, vale ressaltar que, em nenhum momento, houve quaisquer embaraços à fiscalização. Pelo contrario, a recorrente sempre atendeu prontamente ao que foi solicitado, apresentando justificativas aos questionamentos. · Também com relação ao inciso IV, não interposição de terceiros na constituição da recorrente. O fato de os sócios das empresas Agilcargo e TGM Transportes serem da mesma família, não implica em ocultação do real proprietário, o chamado "laranja". Se esse realmente fosse o intuito, a recorrente seria constituída com sócios sem nenhuma ligação com os sócios da TGM. Mas, não é o que ocorreu. A empresa foi criada pelos filhos dos sócios da TGM, por simples oportunidade de negócio, ligada ao mesmo ramo de atividades da família. Ocasião em que os filhos tiveram o apoio dos pais para iniciar sua vida empresarial. · Não se alegue que a recorrente foi criada com o único objetivo de prestar serviços exclusivos à TGM Transportes, pois, conforme se pode notar nos documentos juntados a empresa TGM tem diversos prestadores de serviços (mais de vinte), já que como central de logística tem que contar com outras empresas para melhor atender seus clientes. · Com relação ao inciso VIII, o requisito de livro caixa é suprido pela existência de escrituração contábil, colocada à disposição do fisco, que a examinou com tempo suficiente. Portanto, é surpresa a afirmação de que não é possível a identificação da movimentação financeira bancária. Fl. 831DF CARF MF Processo nº 10950.724873/201278 Acórdão n.º 1001000.504 S1C0T1 Fl. 8 13 · Sendo assim, a decisão recorrida, não deve prosperar, haja vista apenas ter reproduzido as razões apresentadas pela fiscalização, não tendo comprovado a legalidade da ação da fiscalização em considerar o faturamento de empresas jurídicas distintas para desenquadramento de uma delas do Simples Nacional. · por último requer: ISSO POSTO, requer a Recorrente, aos senhores Conselheiros, a quem o julgamento deste recurso estiver afeto, nova decisão, a fim de que, reformando a decisão de primeiro grau, seja dado provimento ao presente recurso, com a consequente anulação do lançamento em sua totalidade. Todos os argumentos utilizados em seu recurso foram devidamente rebatidos pela DRJ, como se pode verificar da leitura do voto, acima transcrito. A recorrente acrescentou, em relação à inadequação do ato declaratório, que, segundo ela, não foi o instrumento adequado, ou por ser inconstitucional, ou por estar em desacordo com as normas, pois, deveria ter sido emitido um termo de exclusão. O que seria o Ato Declaratório Executivo senão o instrumento utilizado (e autorizado pela Portaria MF 125 e alterações subsequentes, hoje a portaria 430/2017, art. 340, inciso VIII) para comunicar a exclusão de um contribuinte do Simples nos termos da LC 123/2006 e da Resolução CGSN 94/2011. Portaria 430, art.340, inciso VIII Expedir súmulas e publicar atos declaratórios relativos à idoneidade de documentos ou à situação cadastral e fiscal de pessoas físicas ou jurídicas. Assim, entendo não prosperar as alegações da recorrente, tanto pelos motivos acima, quanto pelas conclusões apresentadas no acórdão da DRJ. Com relação às demais alegações, reitero as conclusões da DRJ, em seu acórdão, exceto quanto à ausência do Livro Caixa que é desnecessário, como alega a recorrente, se o contribuinte faz a escrita contábil regular, ainda que contenha vícios. Se este fosse o caso, em um outro procedimento fiscal, caberia então o arbitramento, que não é tratado neste processo. Também, as alegações, da recorrente, quanto ao artigo 116, do CTN , entendo que também não devem prosperar. Em nenhum momento isto foi aventado pela fiscalização. O que se tem são diversos indícios que indicam que foram utilizadas interpostas pessoas, que se tratam de uma única empresa, como, por exemplo, transações realizadas através da conta caixa, no volume apresentado. O CARF já decidiu, nesta mesma linha, no acórdão 2403002.856, que reproduzo a ementa: Acórdão: 2403002.856 Número do Processo: 13855.001761/200916 Data de Publicação: 03/03/2015 Fl. 832DF CARF MF 14 Contribuinte: ESTIVAL IMPORTACAO EXPORTACAO LTDA Relator(a): MARCELO MAGALHAES PEIXOTO Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 SIMULAÇÃO. FORMA DE EVADIRSE DAS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS. INTERPOSTAS PESSOAS. SIMPLES A simulação não é aceita como forma de planejamento tributário com vistas a reduzir a carga tributária da empresa. Manobra considerada ilegal. A utilização de interpostas pessoas enquadradas no SIMPLES para contratação d Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para determinar o recálculo da multa de mora, de acordo com o disposto no art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 11.941/2009 (art. 61, da Lei nº 9.430/96), prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte. por fim, adoto as conclusões da DRJ que, por economia processual, deixo de transcrevêlas, visto que já o feito acima, com a ressalva, já comentada, quanto à não apresentação do Livro Caixa. Assim, voto por rejeitar a preliminar de nulidade para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário, sem crédito tributário em litígio. É como voto. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Fl. 833DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.001577/2010-47
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/12/1994 a 31/12/1999
NULIDADE. VÍCIO FORMAL. ARTIGO 173, II, DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO
Havendo decretação de nulidade por vício formal, há possibilidade, se atendidos os requisitos legais do art. 173, II do CTN, de ser efetuado lançamento substitutivo.
LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO. DECADÊNCIA TRIBUTÁRIA. INOCORRÊNCIA.
Em caso de declaração de nulidade do lançamento por vício formal, o crédito substitutivo deve ser lançado dentro do prazo de 05 anos a contar da data da decisão.
Não foi transcorrido o prazo de 05 anos contados da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado.
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. POSSIBILIDADE.
Restou devidamente comprovado a utilização indevida de empresa com o desiderato único de obter benefício tributário indevido, há de se aplicar o instituto da desconsideração da personalidade jurídica.
DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE.
Indefere-se o pedido de perícia ou de diligência quando o julgador administrativo, após avaliar o caso concreto, considerá-las prescindíveis para o deslinde das questões controvertidas.
MULTA.
Para fatos geradores anteriores a dezembro de 2008, a multa deverá ser recalculada, se for o caso, por ocasião do pagamento ou execução do crédito tributário, nos termos da Portaria conjunta PGFN/RFB nº 14/09.
Numero da decisão: 2401-005.347
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e rejeitar as preliminares. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos a relatora e os conselheiros Rayd Santana Ferreira e Andréa Viana Arrais Egypto, que davam provimento parcial para determinar que a multa aplicada seja limitada a 20%, nos termos da Lei 8.212/91, art. 35. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Miriam Denise Xavier.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente e Redatora Designada
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Cleberson Alex Friess e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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VÍCIO FORMAL. ARTIGO 173, II, DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO Havendo decretação de nulidade por vício formal, há possibilidade, se atendidos os requisitos legais do art. 173, II do CTN, de ser efetuado lançamento substitutivo. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO. DECADÊNCIA TRIBUTÁRIA. INOCORRÊNCIA. Em caso de declaração de nulidade do lançamento por vício formal, o crédito substitutivo deve ser lançado dentro do prazo de 05 anos a contar da data da decisão. Não foi transcorrido o prazo de 05 anos contados da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. POSSIBILIDADE. Restou devidamente comprovado a utilização indevida de empresa com o desiderato único de obter benefício tributário indevido, há de se aplicar o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. Indeferese o pedido de perícia ou de diligência quando o julgador administrativo, após avaliar o caso concreto, considerálas prescindíveis para o deslinde das questões controvertidas. MULTA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 15 77 /2 01 0- 47 Fl. 1255DF CARF MF 2 Para fatos geradores anteriores a dezembro de 2008, a multa deverá ser recalculada, se for o caso, por ocasião do pagamento ou execução do crédito tributário, nos termos da Portaria conjunta PGFN/RFB nº 14/09. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e rejeitar as preliminares. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos a relatora e os conselheiros Rayd Santana Ferreira e Andréa Viana Arrais Egypto, que davam provimento parcial para determinar que a multa aplicada seja limitada a 20%, nos termos da Lei 8.212/91, art. 35. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Miriam Denise Xavier. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente e Redatora Designada (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Cleberson Alex Friess e Rayd Santana Ferreira. Fl. 1256DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Inicialmente, cumpre destacar que os Processos 14479.000969/200745; 19515.001578/201091; 19515.001579/201036; 19515.001580/201061; e 19515.001582/201050 encontramse apensos aos presentes autos conforme termo de apensação de fls. 1.161/1.165. Contra o contribuinte em epígrafe foram lavrados, em 08/06/2010, os Autos de Infração (DEBCAD 37.162.9675; DEBCAD 37.162.9683; DEBCAD 37.162.9691; DEBCAD 37.162.9705 e DEBCAD 37.162.9713), a saber: • DEBCAD 37.162.9675 – no valor de R$ 3.753.688,34, no período de 12/1994 a 12/1999, consolidado em 08/06/2010, referente a contribuições previdenciárias devidas à Receita Federal do Brasil, à cargo da empresa, inclusive para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT). As contribuições previdenciárias incidiram sobre o seguinte fato gerador: (i) caracterização de segurado autônomo como segurado empregado; (ii) caracterização de prestadores de serviço como segurados empregados; (iii) alimentação – constituídos no presente processo; • DEBCAD 37.162.9683 – no valor de R$ 348.341,53, no período de 01/1996 a 12/1999, consolidado em 08/06/2010, referente a contribuições previdenciárias dos segurados empregados, devidas à Receita Federal do Brasil. As contribuições previdenciárias incidiram sobre o seguinte fato gerador: (i) caracterização de segurado autônomo como segurado empregado e (ii) caracterização de prestadores de serviço como segurados empregados – 19515.001578/201091; • DEBCAD 37.162.9691 – no valor de R$ 989.608,58, no período de 12/1994 a 12/1999, consolidado em 08/06/2010, referente a contribuições destinadas às seguintes entidades e fundos: INCRA, SESC, SENAC, SEBRAE e Salário Educação – Processo 19515.001579/201036; • DEBCAD 37.162.9705 – no valor de R$ 15.405,44, consolidado em 08/06/2010, referente às contribuições a cargo da empresa, assim como as destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, para as competências 01/1996 a 08/1996 e 11/1996 a 08/1997, cujos fatos gerados foram arbitrados com base na remuneração da mãodeobra contida em Notas Fiscais de Serviço da empresa Hands Help Recursos Humanos e Serviços Temporários Ltda., tendo em vista a solidariedade entre a empresa tomadora de serviço com a empresa prestadora de serviços executados mediante cessão de mãodeobra – Processo 19515.001580/201061; e • DEBCAD 37.162.9713 – no valor de R$ 5.562,19, consolidado em 08/06/2010, referente às contribuições previdenciárias dos segurados empregados, calculadas Fl. 1257DF CARF MF 4 em relação aos serviços prestados pela empresa de trabalho temporário Hands Help Recursos Humanos e Serviços Temporários Ltda., tendo em vista a solidariedade entre a empresa tomadora de serviço com a empresa prestadora de serviços executados mediante cessão de mãodeobra – Processo 19515.001582/201050. Constam do Relatório Fiscal (fls. 29/39), os seguintes fatos: “1. Este relatório fiscal é parte integrante do Auto de Infração de obrigações principais DEBCAD n° 37.162.9675, emitido em substituição A Notificação Fiscal de Lançamento de Débito DEBCAD n° 35.136.7110, de 30/08/2000, julgada nula por decisão da Quarta Câmara de Julgamento do Conselho de Recursos da Previdência Social, através do acórdão n° 2610, de 27/10/2005. 2. O objeto do presente Auto de Infração consiste na apuração das contribuições previdenciárias devidas A Receita Federal do Brasil, A cargo da empresa, assim como as destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, para o período de 12/1994 a 12/1999, face decadência do período anterior, contido na Notificação Fiscal de Lançamento de Débito anulada. 3. As contribuições previdenciárias incidiram sobre os fatos geradores abaixo identificados. 3.1. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO AUTÔNOMO COMO SEGURADO EMPREGADO 3.1.1. O crédito lançado teve como fato gerador a descaracterização da segurada ‘autônoma’ VANESSA MARTINS LORETO, caracterizandoa como segurada empregada, tendo em vista a prestação de serviço com as seguintes características: a) A segurada foi empregada da empresa, no período de 18/12/1995 a 05/05/1997, conforme Registro n° 00531, na função de advogada júnior. b) No período de Junho/1997 a dezembro/1998 passou a ser segurada ‘autônoma’, continuando a receber praticamente a mesma remuneração, sendo o valor contabilizado à titulo de ‘Serviços Prestados Pessoa Física’. c) Em Janeiro/1999 continuou a prestar serviços de advocacia, como sócia da empresa EL SHADAI CONSULTORIA EM INFORMATICA LTDA, assinando contrato para prestação de serviços nas instalações da empresa. O contrato foi firmado com o objetivo de ‘prestação de serviços de comércio varejista de suprimento para informática e serviços de consultoria, assessoria, planejamento, projetos, análise de sistemas, treinamento, desenvolvimento e demais serviços na área de informática’. d) A contratação incluiu autorização para desconto de Seguro Saúde, constando como data de admissão da segurada, 04/01/1999, na função de advogada”. Fl. 1258DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 4 5 A base para a realização do levantamento foi o disposto no artigo 12, inciso I, alínea "a" da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, em consonância com o artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho. Assim sendo, através do exame da documentação apresentada, a fiscalização constatou a existência de pressupostos legais necessários à configuração da relação de emprego. Destacou, ainda, que “foi verificado encaminhamento ao Departamento Pessoal da empresa, de ‘Autorização para desconto em folha de Seguro Saúde’, e tendo em vista que o pagamento da verba Assistência Médica é inerente à segurado empregado, restou evidenciada a caracterização da segurada como empregada da autuada”. O período lançado neste código de levantamento abrange apenas as competências em que a segurada prestou serviços na categoria de "autônoma", ou seja, 06/1997 a 12/1998. Também foram lançadas contribuições que incidiram sobre valores pagos e creditados aos prestadores de serviço. Confirase: “3.2. CARACTERIZAÇÃO DE PRESTADORES DE SERVIÇO COMO SEGURADOS EMPREGADOS. 3.2.1. As contribuições incidiram sobre valores pagos os creditados à prestadores de serviço, considerados pela empresa como ‘pessoas jurídicas’, porém caracterizados como segurados empregados, por se enquadrarem em uma ou algumas das situações abaixo mencionadas: a) Prestadores de serviço que foram reembolsados por despesas (táxi, estacionamento, pedágio, refeição, combustível) após a entrega do "Relatório de Despesas", sendo os reembolsos contabilizados na conta denominada ‘Salários a Pagar’. b) Funcionários demitidos e contratados como prestadores de serviço imediatamente â sua demissão e na mesma função (além do Encarregado do Departamento Pessoal e da Advogada, foram considerados os prestadores de serviço que exerciam funções relacionadas 6 atividade fim da empresa, ou seja: anal. Suporte, coord. Suporte, anal. Sistemas, coord. Sistemas, anal. Laboratório, coord. Tecnologia, etc.). c) Contratos firmados com a seguinte cláusula: ‘Haverá a dedução relativa à ajuda de custo concedida a titulo de alimentação e assistência médica’. d) Lançamento contábil de Notas Fiscais de Serviço em nome da pessoa física. e) Pagamento de despesas com ‘formação profissional’ para os prestadores de serviço (pessoa física), conforme registros contábeis. Fl. 1259DF CARF MF 6 f) Existência de diversas empresas com sede na cidade de Poá, à Rua Dep. Guaracy Silveira n° 139, alterando apenas o número do conjunto/sala, e constando, nos contratos firmados, que o serviço seria prestado nas instalações da empresa contratante. g) Nos casos em que a empresa prestadora de serviço era constituída por dois sócios, eram firmados dois contratos distintos, sendo anexada a documentação pessoal de cada um dos sócios e o pagamento efetuado individualmente e, muitas vezes, através de depósito em dinheiro em sua conta bancária. Foi citado o exemplo do contrato firmado com os dois sócios da empresa KAHEMME INFORMATICA S/C LTDA. (EMERSON TOBAR SILVA e MARCELO PIMENTEL DA SILVA). h) Os números das Notas Fiscais constantes dos registros contábeis e "posição de fornecedores" correspondem a controle interno da empresa, não tendo sido apresentada outra modalidade de controle citando o número da Nota Fiscal emitida pelo prestador de serviço. A base para a realização do levantamento foi o disposto no artigo 12, inciso I,alínea "a" da Lei n° 8.212/1991, em consonância com os artigos 2° e 3° da CLT, e a definição constante do artigo 9°, parágrafo 4º, do Decreto n° 3.048, de 06/05/1999, que aprovou o Regulamento da Previdência Social. Assim, a fiscalização constatou a existência de pressupostos legais acima citados, necessários à configuração da relação de emprego, sendo caracterizados como segurados empregados os prestadores de serviço que se enquadravam nas situações descritas no item 3.2.1. anteriormente citado e cujos serviços identificavam, através do exame da documentação apresentada, relação com as atividades normais da empresa, conforme abaixo exemplificado: a) O objeto social da empresa autuada, conforme seu Estatuto Social, era ‘a prestação de serviços de consultoria, assessoria e desenvolvimento de sistemas informatizados’ e a maioria das empresas eram contratadas com a mesma finalidade, ou seja, ‘prestar serviços de consultoria em sistemas de informática’. b) Algumas contratações estavam relacionadas com a rotina operacional da empresa, como por exemplo: Contrato firmado com GME COM. E SERV. DE INFORMÁTICA LTDA. ME, referente é contratação de PAULO ROGERIO FANTI, encarregado do Departamento Pessoal da empresa, sendo o objeto do contrato ‘a prestação de serviços de consultoria em sistemas de informática’. Contrato firmado com EL SHADAI CONSULTORIA EM INFORMÁTICA LTDA, correspondente A contratação da advogada, citada no item 3.1.1. supra. O objeto constante do contrato é ‘a prestação de serviços de comércio varejista de suprimento para informática e serviços de consultoria, assessoria, planejamento, projetos, análise de sistemas, treinamento, desenvolvimento e demais serviços na área de informática’. Fl. 1260DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 5 7 c) Foram firmados contratos após a demissão dos funcionários, conforme abaixo exemplificado: PAULO ROGERIO FANTI, demitido em 30/09/1998, conforme Ficha Registro de Empregados n° 000800 (sup. Adm.), e firmado contrato em 01/10/1998, como sócio da empresa GME COM. E SERV. DE INFORMATICA LTDA. ME (SUP. ADM.). MAURO SERGIO TESTONI, demitido em 28/04/1998, conforme Ficha Registro de Empregado 000383 (função Analista de Sistemas), e firmado contrato em 01/05/1998, como sócio da empresa M.L.G.C. COM. E SERV. DE INFORMATICA LTDA. ME. (Coord. Sistemas). GERSON DE PAULO PEREIRA, demitido em 31/05/1997, conforme Ficha Registro de Empregado n° 000270 (função diagramador), e firmado contrato em 02/06/1997, como GERSON DE PAULO PEREIRA (sup. Diagramador). Assim sendo, após análise da documentação apresentada, a fiscalização concluiu que foram caracterizados como segurados empregados os prestadores de serviço que se enquadravam nas situações acima descritas separados em dois levantamentos, um para o período de 01/1996 a 12/1998 e outro para o período de 01/1999 a 12/1999, portanto, anterior e posterior à obrigatoriedade de declarar em GFIP. Em seguida, destacou que diversos contratos foram firmados com a cláusula “haverá a dedução relativa à ajuda de custo concedida à titulo de alimentação e assistência médica”, sendo que as verbas valerefeição e assistência médica são inerentes à segurados empregados. Em razão disso, considerou como salário de contribuição os valores referentes às despesas com valerefeição contabilizados na conta 4.2.01.016, deduzidos os valores descontados dos empregados, porque o contribuinte não comprovou sua inscrição no PAT. Ademais, aplicou a penalidade mais benéfica ao contribuinte, ou seja, multa de 12% até a competência 10/1999 e 24% nas competências 11 e 12/1999, pois o ato de infração pelo descumprimento de obrigação acessória originalmente aplicado foi relevado, em razão da primariedade do sujeito passivo. O presente auto de infração substitutivo foi lavrado dentro do prazo de 5 (cinco) anos contados da data em que se tornou definitiva a decisão que anulou por vício formal o lançamento anterior. Despacho de fls. 326 informa que cópia do lançamento anulado (Processo nº 36266.003683/200687) foi anexado ao presente processo. Devidamente cientificada do Auto de Infração em 28/06/2010 (fl. 2), a Recorrente apresentou Impugnação em 27/07/2010, cujas razões (fls. 329 a 368), alega, em síntese, o que segue: Fl. 1261DF CARF MF 8 (I) Constituiuse o presente lançamento com a repetição dos mesmos elementos contidos na NFLD primitiva e sem qualquer elemento novo que justificasse seu lançamento, alegandose a existência de autorização para reexame de período já fiscalizado e que a Impugnada tem o prazo de 05 anos para constituir o crédito tributário a partir da decisão que houver anulado por vício formal o lançamento anteriormente efetuado; (II) Ocorre que, na decisão proferida pelo CRPS, além de verificar a existência de vício formal, os julgadores foram enfáticos ao fundamentar ao final que não restaram comprovados os requisitos do vínculo empregatício, sendo este um vício material e que, conseqüentemente, não permite a realização de novo lançamento sobre os fatos já decididos anteriormente; (III) Restará devidamente demonstrada a decadência do lançamento realizado, a homologação dos valores devidamente declarados e recolhidos pela Impugnada, a comprovação da inscrição da empresa no PAT em relação ao período lançado, bem como a inexistência acerca da comprovação do vínculo empregatício, de forma que, sob qualquer ótica que se analise a questão, se concluirá pela improcedência do lançamento realizado e da necessidade de cancelamento do presente auto de infração; (IV) Conforme pode ser observado no relatório fiscal e no corpo do auto de infração, o lançamento foi realizado nos mesmos moldes da NFLD cancelada, apenas repetindo os seus elementos e sem trazer nenhum elemento novo para justificar o presente lançamento. (V) Dessa forma, tendo em vista as provas já produzidas no referido processo administrativo e a decisão já proferida no referido processo, a qual julgou improcedente o lançamento realizado, requer a juntada do processo administrativo da NFLD n° 35.136.7110 ao presente auto de infração. (VI) Em hipótese alguma poderia ter sido realizado novo lançamento sobre os mesmos fatos já fiscalizados e apreciados pelo julgamento administrativo, tendo em vista que não foram meros vícios formais que tornaram o lançamento nulo, mas também o fato de haver vícios de ordem material, que impedem o novo lançamento administrativo. A decisão do CRPS foi enfática no sentido de que não houve a comprovação dos requisitos do vínculo empregatício, questão esta que não envolve apenas vício formal, mas que se trata de mérito da questão, tratandose de vício material da NFLD, que não permite novo lançamento. (VII) Conforme se verifica pela data constante da lavratura do presente AIIM, o mesmo foi constituído com a notificação do contribuinte em 28/06/2010. Ocorre que o Auto de Infração constituiu créditos referentes a contribuições destinadas a previdência social referente às competências de 12/1994 a 12/1999 tendo ocorrido vício material do lançamento originário, no caso da NFLD 35.136.4110 que foi cancelada, não ocorreu a hipótese do inciso II, do artigo 173 do CTN, de forma que o lançamento anulado não pode ser realizado novamente. (VIII) De qualquer maneira ainda que não fosse esta a situação que impede a existência do presente lançamento, verificase que mesmo no caso do lançamento primitivo houve a decadência de parte dos valores lançados, bem como a homologação dos valores declarados e recolhidos pela Impugnante. (IX) A NFLD 35.136.7110 foi consolidada em 30/08/2000, constituindo créditos referentes às contribuições destinadas previdência social referentes às competências de 02/91 a 12/99. Dessa forma, concluise de forma indubitável que se operou a figura da Fl. 1262DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 6 9 decadência em relação ao lançamento primitivo, devendo ser excluído do presente lançamento as competências anteriores a agosto de 1995. (X) No mérito, o auto de infração combatido aponta como elemento de seu direito subjetivo o teor do artigo 12 da Lei n° 8.212/91, por suposta caracterização dos requisitos do artigo 3º da CLT. Todavia, olvidouse a fiscalização de constatar e comprovar a presença dos requisitos ensejadores contidos no artigo 12, inciso I, a, da Lei n° 8.212/91, que fixa, de forma imperativa, que são segurados obrigatórios como empregados as pessoas físicas que prestem serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado; (XI) Para a caracterização destes elementos há obrigatoriamente a necessidade da presença do trabalho não eventual, prestado de forma pessoal, por pessoa física, em situação de subordinação, com onerosidade, sendo incapaz de gerar o vínculo em razão da ausência de todos os requisitos de forma cumulativa. (XII) A fiscalização deveria levar em consideração os elementos fáticos, os quais já restaram devidamente comprovados por ocasião do lançamento anulado, já que os documentos acostados no referido processo demonstraram de forma inequívoca a inocorrência da hipótese descrita, tanto que o CRPS anulou o lançamento realizado em função da falta de comprovação dos requisitos para comprovação do vínculo empregatício. (XIII) Tendo sido devidamente comprovado documentalmente a inscrição da Impugnante no PAT, não há qualquer razão para a manutenção do lançamento no tocante as despesas com alimentação. (XIX) Relativamente à multa aplicada nas competências 11 e 12/1999 a fiscalização deixou de aplicar a limitação ao percentual de 20%, mais benéfico ao contribuinte, após as alterações da MP nº 449/08. Ao final, requer seja decretada a improcedência das exigências fiscais. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro I (RJ) lavrou Decisão Administrativa textualizada no Acórdão nº 1272.120 da 12ª Turma da DRJ/RJI, às fls. 1.167/1.179, julgando parcialmente procedente a impugnação apresentada, mantendo em parte o crédito tributário. Confirase: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/1994 a 31/12/1999 OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. SEGURADO EMPREGADO. REQUISITOS. CARACTERIZAÇÃO. NEGÓCIO JURÍDICO. DESCONSIDERAÇÃO. POSSIBILIDADE. Constatada a presença de todos os requisitos legais caracterizadores do segurado empregado, incumbe à fiscalização efetuar o lançamento das contribuições devidas pela empresa e pelo segurado nesta qualidade, ainda que o contrato formal de prestação de serviços tenha sido realizado como autônomo ou pessoa jurídica. Fl. 1263DF CARF MF 10 OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. SALÁRIO INDIRETO. ALIMENTAÇÃO IN NATURA. INSCRIÇÃO. PAT. AUSÊNCIA. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. VERBA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA. Não há incidência de contribuição previdenciária sobre os valores de alimentação fornecidos in natura, conforme entendimento contido no Ato Declaratório nº 03/2011 da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte” A Recorrente foi cientificada da decisão de 1ª Instância no dia 08/05/2015, conforme Aviso de Recebimento à fl. 1.215. Inconformada com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário às fls. 1.217/1.249. Reprisa os mesmos argumentos lançados em sua peça de impugnação, e, ao final, requer seja o recurso conhecido e provido, a fim de julgar o remanescente do lançamento totalmente improcedente, cancelandose a autuação. Alternativamente, requer seja o presente lançamento totalmente improcedente ante as parcelas homologadas que foram devidamente declaradas e pagas pela Recorrente à época. É o relatório. Fl. 1264DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 7 11 Voto Vencido Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa – Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1.1. DA TEMPESTIVIDADE A Recorrente foi cientificada da r. decisão em debate no dia 08/05/2015 conforme Avisos de Recebimento à fl. 1.215, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 03/06/2015, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DAS PRELIMINARES DE NULIDADE 2.1 Da impossibilidade de lançamento substitutivo. A Recorrente suscita preliminar de nulidade do lançamento ao fundamento de que “(...) na decisão proferida pela 4ª Turma do CRPS, além de verificar a existência de vício formal, os julgadores foram enfáticos ao fundamentar ao final que não restaram comprovados os requisitos do vínculo empregatício, sendo este um vício material e que, consequentemente, não permite a realização de novo lançamento sobre os fatos já decididos anteriormente”. Sustenta que no presente caso, o lançamento foi realizado nos mesmos moldes da NFLD anteriormente cancelada, apenas repetindo os seus elementos e sem trazer nenhum argumento novo para justificar o presente lançamento. Com essas considerações, afirma que a repetição do lançamento é um absurdo jurídico, o qual “ignora o princípio da segurança jurídica insculpido em nossa Constituição Federal, o disposto no artigo 173 do Código Tributário Nacional e até mesmo a decisão proferida pelo CRPS, a qual julgou improcedente o lançamento primitivo realizado na NFLD 35.136.7110”. Acrescenta que a existência de vício material, ao contrário do vício meramente formal, dá causa a nulidade do lançamento e não permite o seu refazimento. Em que pese o seu esforço, verifico que não assiste razão à Recorrente. Isso porque, ao contrário do que sustenta, o Acórdão nº 2610/2005, da 4ª Caj do CRPS, declarou a nulidade do lançamento por vício formal (fls. 430/435). Vejase: “EMENTA: PREVIDENCIARIO. LANÇAMENTO POR ARBITRAMENTO. SOLIDARIEDADE. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE TÉCNICA DE CORREÇÃO. VÍCIO FORMAL INSANÁVEL. NULIDADE. Notificação Fiscal de Lançamento de Débito lavrada com falta do tipo de débito, em desacordo artigo 37 da Lei 8.212/91, gerando a ausência da fundamentação legal no relatório Fundamentos Legais do Débito, Fl. 1265DF CARF MF 12 enseja a sua nulidade, pela impossibilidade técnica de se efetuar a correção no sistema de cadastramento de débito, caracterizandose vicio formal insanável. Nos termos do artigo 37, da Lei 8.212/91 o fiscal autuante ao promover o lançamento deve fundamentalo de forma clara e precisa, sob pena de nulidade da notificação. NFLD ANULADA.” Além disso, conforme bem pontuado pela primeira instância administrativa a quo, quando do julgamento realizado pelo Conselho de Recursos da Previdência Social, a 4ª Câmara de Julgamento anulou o lançamento da NFLD 35.136.7110 por vício formal, sem, contudo, analisar o mérito da demanda, consoante se observa do início do voto do relator, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira. Confirase: “Presentes os pressupostos de admissibilidade, sendo tempestivo e efetuado o depósito recursal, conheço do recurso e passo a examinar as alegações recursais. Não obstante as razões de fato e de direito ofertadas pela contribuinte em seu recurso, e bem assim as contrarazões do INSS em defesa da manutenção da exigência, há nos autos vicio formal capaz de ensejar a nulidade do lançamento, prejudicando, assim, a análise do mérito, como passaremos a demonstrar. [...] Por todo o exposto, estando a NFLD sub examine em desacordo com os dispositivos legais que regulam a matéria, VOTO NO SENTIDO DE CONHECER DO RECURSO e ANULARA NFLD POR ERRO FORMAL INSANAVEL.” Do exposto acima, verificase que a decisão prolatada foi clara no sentido de que se tratava de nulidade formal, portanto, novo lançamento em substituição ao anterior anulado poderia ser realizado no prazo de 5 (cinco) anos, com amparo no artigo 173, II do CTN. Sobre o tema, Leandro Paulsen esclarece que, no que toca ao inciso II, do artigo 173, do CTN: “cuidase de hipótese de reabertura de prazo decadencial, caracterizando, pois, efetiva interrupção do prazo que estava em curso.” (in Direito Tributário: Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência, 15ª Ed, ESMAFE: 2013, p. 1196/1197). Segundo Hugo de Brito Machado: “Relevante é ressaltarmos que a reabertura do prazo para a feitura de um novo lançamento destinase apenas a permitir que seja sanada a nulidade do lançamento anterior, mas não autoriza um lançamento diverso, abrangente do que não estava abrangido no anterior”. (in Aspectos do Direito de Defesa no Processo Administrativo Tributário, RDDT 175/106, abr 2010). Fl. 1266DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 8 13 A jurisprudência administrativa deste Conselho comparece nesse sentido. Recordese: “Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Data do Fato Gerador: 30/10/2007 PAF. NULIDADE. VÍCIO FORMAL. ART. 173, II CTN. LANÇAMENTO SUBSTITUTIVO Havendo decretação de nulidade por vício formal, há possibilidade, se atendidos os requisitos legais do art. 173, II do CTN, de ser efetuado lançamento substitutivo. PAF. APRECIAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE. De conformidade com o artigo 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, c/c a Súmula do CARF nº 2, e ainda com o art. 26A do Decreto 70.235/1972, não compete às instâncias administrativas apreciar questões de inconstitucionalidade de lei, por extrapolar os limites de sua competência. MULTA. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. No caso de eventual lançamento substitutivo, o mesmo deve ser realizado de acordo com o princípio da retroatividade benigna (art. 106, II, ‘c’ do CTN). Recurso Voluntário Negado.” (CARF, Segunda Seção de Julgamento, 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, Relatora Conselheira Carolina Wanderley Landim, Acórdão nº 2401 003.860, Data da Sessão: 10/02/2015 No caso em tela, em obediência à lei, o lançamento substituto foi cientificado pessoalmente ao contribuinte em 28/06/2010, logo, dentro prazo legal de 5 (cinco) anos, contados da decisão proferida em 27/10/2005. Dessa forma, tenho que a decisão guerreada não merece qualquer reparo nesse sentido. 2.2 Da decadência Afirma a Recorrente que no presente caso deveria ser aplicado o instituto da decadência tributária, pois já teria ocorrido o prazo de “mais de 10 (dez) anos” contados da data do fato gerador. Fl. 1267DF CARF MF 14 Argumenta que o Auto de Infração em debate compreende as competências de 12/1994 a 12/1999, sendo que a sua notificação teria ocorrido apenas em 28/06/2010. Novamente sem razão. Inicialmente, cumpre esclarecer que não há que se falar em crédito tributário referente à competência 12/1994, porquanto a decisão recorrida a excluiu em razão da decadência, mantendose as competências 01/1996 a 12/1999. E, nesse ponto, mostrase irretocável o acórdão a quo. Conforme destacado anteriormente, no presente caso ocorreu um lançamento substitutivo em decorrência de ter sido anulado o lançamento fiscal anterior por conter vício formal. A regra prevista no artigo 173, II, do Código Tributário Nacional concede ao Fisco prazo de 05 (cinco) anos, da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado o lançamento anterior, para que o crédito seja constituído por meio de lançamento substitutivo. Confirase: “Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado.” Cumpre esclarecer que, para o lançamento de ofício, o crédito tributário é considerado definitivamente constituído com a regular ciência da decisão definitiva, momento em que não pode mais o lançamento ser contestado na esfera da Administração. Observase que a definitividade da decisão que anulou a NFLD nº 35.136.7110 deverá levar em consideração a regra estampada no inciso I do artigo 42 do Decreto nº 70.235/1972, nos seguintes termos: “Art. 42. São definitivas as decisões: I de primeira instância esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; II de segunda instância de que não caiba recurso ou, se cabível, quando decorrido o prazo sem sua interposição; III de instância especial. Parágrafo único. Serão também definitivas as decisões de primeira instância na parte que não for objeto de recurso voluntário ou não estiver sujeita a recurso de ofício.” Dessa regra estatuída acima, percebese que as decisões de segunda instância das quais não caibam mais recursos, ou transcorrido o prazo de sua interposição, são definitivas. Com isso, a partir do momento em que não for mais cabível qualquer recurso ou Fl. 1268DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 9 15 tendo ocorrido o exaurimento das vias recursais, as decisões de segunda instância no âmbito do processo administrativo transitam em julgado e geram a coisa julgada formal. Constatase que a ciência do lançamento substitutivo, ora analisado, ocorreu em 28/06/2010 conforme consta do Auto de Infração (fl.02), e os documentos acostados aos autos, pelo Fisco e pela Recorrente, apontam que a decisão veiculada por meio do Acórdão nº 2610/2005 da Quarta Câmara de Julgamento do CRPS, que, por vício formal, anulou o lançamento tributário anteriormente efetuado, foi proferida em 27/10/2005 (fl 1.057). Todavia, houve pedido de revisão do acórdão (fl. 1.061/1.065), que restou indeferido pela Quarta Câmara de Julgamento do CRPS, através do Despacho n ° 235/2006 (fls. 1.082/1.085). Inconformada, a Delegacia da Receita Previdenciária formulou o Pedido de Uniformização de Jurisprudência (fls. 1.087/1.098), o qual, entretanto, foi indeferido pela Quarta Câmara de Julgamento do CRPS, através do Despacho n° 206031/08 (fls. 1.109/1.110), proferido em 04/03/2008. Com isso, o lançamento fiscal substitutivo poderia ser lavrado até 03/03/2013, e foi lavrado em 08/06/2010. Logo, o lançamento fiscal substitutivo está em consonância com o prazo legal de 05 (cinco) anos previsto no artigo 173, II, do Código Tributário Nacional. 3. DO MÉRITO 3.1. Da desconsideração da personalidade jurídica A Recorrente sustenta que o entendimento adotado pela fiscalização e seguido pela decisão de primeira instância, relativamente ao enquadramento de autônomos e sócios de pessoas jurídicas como segurados empregados, para fins de exigência de contribuição previdenciária, não estariam presentes os requisitos para a sua caracterização, nos termos do artigo 12, inciso I, a, da Lei nº 8.212/91. Afirma que a fiscalização “desconsiderou o ato jurídico perfeito, bem como exorbitou da capacidade tributária ativa da Recorrida, ao passo que desconsiderou contratos de natureza civil, devidamente formalizados, caracterizandoos como se de natureza trabalhista fossem”. Sobre o tema em relevo, entendo que, para que haja a desconsideração da personalidade jurídica, devese avocar uma análise casuística, com o fim de verificar se houve abuso no uso da personalidade jurídica e seus responsáveis. Em caso como tais, impõese à autoridade lançadora a observância dos parâmetros e condições básicas previstas na legislação de regência que somente poderá ser levada a efeito quando àquela estiver convencida do cometimento do crime (dolo, fraude ou simulação), devendo, ainda, relatar todos os fatos de forma pormenorizada, possibilitando ao contribuinte a devida análise da conduta que lhe está sendo atribuída. Em outras palavras, não basta à indicação da conduta dolosa, fraudulenta ou simulatória, a partir de meras presunções e/ou subjetividade, impondo a devida comprovação por parte da autoridade fiscal da intenção prédeterminada do contribuinte, demonstrada de modo concreto, sem deixar margem a qualquer dúvida, visando impedir/retardar o recolhimento do tributo devido. Fl. 1269DF CARF MF 16 O Código Civil Brasileiro estabelece que “em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. Depreendese da dicção do referido artigo que é necessário utilizarse desse aparato jurídico em algumas situações definidas em Lei. Dessa maneira, as hipóteses de aplicação da desconsideração da personalidade jurídica merecem apreciação. Como acima descrito, as hipóteses da aplicação podem ser: abuso de personalidade jurídica desvio de finalidade e confusão patrimonial; comportamento doloso e fraudulento. Na hipótese de desvio de finalidade e confusão patrimonial. Considerase que o desvio de finalidade concretizase no objetivo diferente do ato constitutivo para prejudicar alguém; mau uso da finalidade social, ou seja, é a ação contrária à prevista em nosso ordenamento, tentando protegerse através da figura pessoa jurídica. Por outro lado, a confusão patrimonial existente entre o sócio e a pessoa jurídica consiste na mistura do patrimônio social com o particular do sócio, causando dano a terceiro, de tal modo que é essencial para utilização da desconsideração, pois, sua ação incide diretamente nessa separação patrimonial. Frisese que esses atos advêm diretamente da utilização abusiva da pessoa jurídica e a desconsideração da personalidade jurídica visa possibilitar a transferência da responsabilidade para aqueles que a utilizarem indevidamente. De tal modo, temse que o ato de constituição da pessoa jurídica é um ato jurídico, com isso, é regido pelo Ordenamento pátrio, portanto, são embasados na licitude. Dessa forma, a constituição da pessoa jurídica ou sua utilização para a prática de atos ilícitos é hipótese de desconsideração da pessoa jurídica. Por conseguinte, quando o administrador ou sócios fazem mau uso da finalidade social da pessoa jurídica através de ação danosa ou fraudulenta e causam dano a outrem, usase a desconsideração para penalizálo. Assim sendo, eles serão responsabilizados e seus bens poderão ser atingidos, sem confusão com os bens de patrimônio da pessoa jurídica. Devese respeitar os ditames principiológicos da autonomia patrimonial e admitir o uso desse instituto somente em casos de repressão à fraudes ou de coibição ao mau uso da forma da pessoa jurídica. Ademais, temse o entendimento de que, apesar da possibilidade de aplicação do art. 50 do Código Civil de 2002, a autoridade fiscal possui o poder de apurar o crédito tributário de maneira a afastar a personalidade jurídica face à autorização proveniente do próprio Código Tributário Nacional. Assim, prepondera que essa atitude revela as nuanças de utilização do afastamento da personalidade jurídica. Logo, também, entendese que para a o ordenamento jurídico Brasileiro, assim como para o direito tributário, fazse presente a possibilidade de aplicação da desconsideração ou da personalidade jurídica. Ressalto, contudo, que entendo que a desconsideração só pode ser utilizada em casos extremos, que fique devidamente comprovada a má utilização de estruturas societárias com o escopo de lesar o Fisco ou obter vantagem indevida. Fl. 1270DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 10 17 No caso em tela, de acordo com o relatório fiscal, a conduta da Recorrente estaria demonstrada nos seguintes termos: 3.1. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO AUTÔNOMO COMO SEGURADO EMPREGADO 3.1.1. O crédito lançado teve como fato gerador a descaracterização da segurada ‘autônoma’ VANESSA MARTINS LORETO, caracterizandoa como segurada empregada, tendo em vista a prestação de serviço com as seguintes características: a) A segurada foi empregada da empresa, no período de 18/12/1995 a 05/05/1997, conforme Registro n° 00531, na função de advogada júnior. b) No período de Junho/1997 a dezembro/1998 passou a ser segurada ‘autônoma’, continuando a receber praticamente a mesma remuneração, sendo o valor contabilizado à titulo de ‘Serviços Prestados Pessoa Física’. c) Em Janeiro/1999 continuou a prestar serviços de advocacia, como sócia da empresa EL SHADAI CONSULTORIA EM INFORMATICA LTDA, assinando contrato para prestação de serviços nas instalações da empresa. O contrato foi firmado com o objetivo de ‘prestação de serviços de comércio varejista de suprimento para informática e serviços de consultoria, assessoria, planejamento, projetos, análise de sistemas, treinamento, desenvolvimento e demais serviços na área de informática’. d) A contratação incluiu autorização para desconto de Seguro Saúde, constando como data de admissão da segurada, 04/01/1999, na função de advogada. [...] 3.1.3. Assim sendo, através do exame da documentação apresentada, foi constatada a existência de pressupostos legais necessários A configuração da relação de emprego. Cabe salientar que foi verificado encaminhamento ao Departamento Pessoal da empresa, de "Autorização para desconto em folha de Seguro Saúde", e tendo em vista que o pagamento da verba Assistência Médica é inerente A segurado empregado, restou evidenciada a caracterização da segurada como empregada da autuada. 3.1.4. A empresa não apresentou quaisquer recolhimentos, ainda que referentes à condição de ‘autônomo’, motivo pelo qual foram exigidas integralmente todas as contribuições na condição de segurado empregado. Fl. 1271DF CARF MF 18 [...] 3.2. CARACTERIZAÇÃO DE PRESTADORES DE SERVIÇO COMO SEGURADOS EMPREGADOS. 3.2.1. As contribuições incidiram sobre valores pagos os creditados à prestadores de serviço, considerados pela empresa como ‘pessoas jurídicas’, porém caracterizados como segurados empregados, por se enquadrarem em uma ou algumas das situações abaixo mencionadas: a) Prestadores de serviço que foram reembolsados por despesas (táxi, estacionamento, pedágio, refeição, combustível) após a entrega do "Relatório de Despesas", sendo os reembolsos contabilizados na conta denominada ‘Salários a Pagar’. b) Funcionários demitidos e contratados como prestadores de serviço imediatamente â sua demissão e na mesma função (além do Encarregado do Departamento Pessoal e da Advogada, foram considerados os prestadores de serviço que exerciam funções relacionadas 6 atividade fim da empresa, ou seja: anal. Suporte, coord. Suporte, anal. Sistemas, coord. Sistemas, anal. Laboratório, coord. Tecnologia, etc.). c) Contratos firmados com a seguinte cláusula: ‘Haverá a dedução relativa à ajuda de custo concedida a titulo de alimentação e assistência médica’. d) Lançamento contábil de Notas Fiscais de Serviço em nome da pessoa física. e) Pagamento de despesas com ‘formação profissional’ para os prestadores de serviço (pessoa física), conforme registros contábeis. f) Existência de diversas empresas com sede na cidade de Poá, à Rua Dep. Guaracy Silveira n° 139, alterando apenas o número do conjunto/sala, e constando, nos contratos firmados, que o serviço seria prestado nas instalações da empresa contratante. g) Nos casos em que a empresa prestadora de serviço era constituída por dois sócios, eram firmados dois contratos distintos, sendo anexada a documentação pessoal de cada um dos sócios e o pagamento efetuado individualmente e, muitas vezes, através de depósito em dinheiro em sua conta bancária. Foi citado o exemplo do contrato firmado com os dois sócios da empresa KAHEMME INFORMATICA S/C LTDA. (EMERSON TOBAR SILVA e MARCELO PIMENTEL DA SILVA). h) Os números das Notas Fiscais constantes dos registros contábeis e "posição de fornecedores" correspondem a controle interno da empresa, não tendo sido apresentada outra modalidade de controle citando o número da Nota Fiscal emitida pelo prestador de serviço. [...] Fl. 1272DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 11 19 3.2.3 Foi constatada a existência de pressupostos legais acima citados, necessários à configuração da relação de emprego, sendo caracterizados como segurados empregados os prestadores de serviço que se enquadravam nas situações descritas no item 3.2.1. supra e cujos serviços identificavam, através do exame da documentação apresentada, relação com as atividades normais da empresa, conforme abaixo exemplificado: a) O objeto social da empresa autuada, conforme seu Estatuto Social, era ‘a prestação de serviços de consultoria, assessoria e desenvolvimento de sistemas informatizados’ e a maioria das empresas eram contratadas com a mesma finalidade, ou seja, ‘prestar serviços de consultoria em sistemas de informática’. b) Algumas contratações estavam relacionadas com a rotina operacional da empresa, como por exemplo: Contrato firmado com GME COM. E SERV. DE INFORMÁTICA LTDA. ME, referente é contratação de PAULO ROGERIO FANTI, encarregado do Departamento Pessoal da empresa, sendo o objeto do contrato ‘a prestação de serviços de consultoria em sistemas de informática’. Contrato firmado com EL SHADAI CONSULTORIA EM INFORMÁTICA LTDA, correspondente A contratação da advogada, citada no item 3.1.1. supra. O objeto constante do contrato é ‘a prestação de serviços de comércio varejista de suprimento para informática e serviços de consultoria, assessoria, planejamento, projetos, análise de sistemas, treinamento, desenvolvimento e demais serviços na área de informática’. c) Foram firmados contratos após a demissão dos funcionários, conforme abaixo exemplificado: PAULO ROGERIO FANTI, demitido em 30/09/1998, conforme Ficha Registro de Empregados n° 000800 (sup. Adm.), e firmado contrato em 01/10/1998, como sócio da empresa GME COM. E SERV. DE INFORMATICA LTDA. ME (SUP. ADM.). MAURO SERGIO TESTONI, demitido em 28/04/1998, conforme Ficha Registro de Empregado 000383 (função Analista de Sistemas), e firmado contrato em 01/05/1998, como sócio da empresa M.L.G.C. COM. E SERV. DE INFORMATICA LTDA. ME. (Coord. Sistemas). GERSON DE PAULO PEREIRA, demitido em 31/05/1997, conforme Ficha Registro de Empregado n° 000270 (função diagramador), e firmado contrato em 02/06/1997, como GERSON DE PAULO PEREIRA (sup. Diagramador). Fl. 1273DF CARF MF 20 Ora, tais fatos restam devidamente comprovados pela robusta prova documentação produzida nos autos (fls. 496/1.160). As constatações fáticas realizadas pela fiscalização sobre a prestação dos serviços à Impugnante, pelos sócios das pessoas jurídicas (“ex empregados” da Recorrente), não deixam dúvidas de que estão presentes os elementos caracterizadores do segurado empregado, restando configuradas a pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação, de modo que agiu corretamente a fiscalização ao desconsiderar o negócio celebrado com as pessoas jurídicas, nos termos do artigo 116 do CTN, e enquadrar como segurados empregados os sócios que prestaram serviços à Recorrente. De acordo com o artigo 9°, parágrafo 4° do Decreto n.° 3.048, de 06/05/1999, “entendese por serviço prestado em caráter não eventual aquele relacionado direta ou indiretamente com as atividades normais da empresa”. Portanto, a não eventualidade diz respeito à continuidade das atividades da empresa. Deve ser vista em relação nos fins do empreendimento, direta ou indiretamente e não deve ser confundida com frequência, jornada ou horário de trabalho. É empregado aquele que exerce atividade essencial e diretamente relacionada à atividade fim da empresa ou ligada à sua rotina operacional. As atividades desempenhadas pela segurada “autônoma”, Vanessa Martins Loreto, estão subordinadas à política administrativa da empresa, uma vez que, como empregada ocupava o mesmo cargo e, quando deixou de ser considerada autônoma também continuou na mesma função. Sobreleva notar que, a dependência reconhecida pela lei é a jurídica e, portanto a subordinação estabelecida na lei deve ser entendida como o direito do empregador de dirigir e fiscalizar a prestação do trabalho e dispor dos serviços contratados como melhor lhe aprouver, sendo assim, o direito do empregador de definir no curso da relação contratual a modalidade de atuação concreta do trabalho. No caso dos autos, existem elementos que revelam a existência de tal subordinação, como por exemplo, a concessão de benefícios, tais como Seguro de Vida e Seguro Saúde. Ademais, no caso da advogada, embora tenha havido a rescisão do contrato formal de trabalho em 05/1997, houve continuidade da prestação, na sede da empresa e nos mesmos moldes de subordinação e remuneração anteriores, entre 06/1997 e 12/1998, quando então decidiu constituir uma empresa e prosseguir com a prestação de serviços acobertada por suposto contrato com a pessoa jurídica. De outro giro, no que se refere ao enquadramento dos sócios das pessoas jurídicas como segurados empregados, as constatações foram ainda mais contundentes, pois recorrente a afirmação de que se tornaram sócios de “pessoa jurídica” após serem formalmente demitidos da empresa em que trabalhavam como empregados, e que continuaram a exercer as mesmas atividades nas dependências da Recorrente, submetidos à mesma remuneração, rotina e fiscalização. Quando a empresa tinha dois sócios a contratação era individual e não da sociedade. Além disso, os pagamentos eram realizados em favor da pessoa física dos sócios e não das pessoas jurídicas que constituíram, haja vista o lançamento do pagamento em nome dos sócios, além do fato de atribuírem numeração interna que não correspondiam às das notas fiscais emitidas pelas pessoas jurídicas, para fins de contabilização. Assim, descabe alegar que se estaria tributando a receita da pessoa jurídica. Em que pese as declarações (fls. 765/791) dos supostos empresários afirmando ausência de exclusividade com a Recorrente, não há nos autos nenhuma prova de que a pessoajurídica a elas pertencente tenha prestado serviço o outrem. No presente caso, não se cogita de contratação de serviços especializados ligados à atividademeio do tomador de serviços, mas sim de autêntica contratação envolvendo Fl. 1274DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 12 21 a sua atividadefim, motivo pelo qual não se pode considerar que a conduta do sujeito passivo se constitua em terceirização, como defende a Recorrente. Repisese que as provas dos autos são contundentes em evidenciar que a Recorrentes praticou simulação, buscando a obtenção de vantagem. Verificase, portanto, o esquema arquitetado, envolvendo a contratação de segurados empregados por intermédio de empresa interposta, com o objetivo de diminuir os custos tributários e trabalhistas da empresa Recorrente. 3.2. Da diligência Em relação ao protesto pela realização de diligência cabe referência ao disposto nos artigos 18 e 28 do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, que assim dispõem: “Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 9/12/93) Art. 28. Na decisão em que for julgada questão preliminar será também julgado o mérito, salvo quando incompatíveis, e dela constará o indeferimento fundamentado do pedido de diligência ou perícia, se for o caso.” (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 9/12/93)” Ao sujeito passivo cabe o ônus da prova em relação ao que alega, devendo fazêlo oportunamente, por ocasião da impugnação, conforme estabelecem os incisos III, IV e parágrafo 4º do artigo 16, do Decreto 70.235/72, na redação dada pelas Leis 8.743/93 e 9.532/97. No caso em exame, considerase desnecessária a diligência proposta por entendêla dispensável para o deslinde do presente julgamento. Nenhum fato novo foi trazido que justificasse a realização da diligência pleiteada e a insuficiência de documentos para comprovar as alegações suscitadas pela Recorrente não é motivo para tal. A avaliação da necessidade de se realizar a diligência participa da esfera da discricionariedade do aplicador e, assim, façome acompanhar de precedentes das três Seções de Julgamento que compõe este Conselho, conforme se depreende: PROVA PERICIAL. DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. Indeferese o pedido de perícia ou de diligência quando o julgador administrativo, após avaliar o caso concreto, considerálas prescindíveis para o deslinde das questões controvertidas. (CARF, 2ª Seção de Julgamento, 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, Acórdão nº 2401004.612, Rel. Conselheiro Cleberson Alex Friess, Sessão 08/02/2017) PROVA PERICIAL. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. O indeferimento do pedido de perícia não caracteriza cerceamento do direito de defesa, quando demonstrada a desnecessidade da produção de novas provas para formar a convicção da autoridade julgadora. (CARF, Fl. 1275DF CARF MF 22 3ª Seção de Julgamento, 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, Acórdão nº 3201000.617, Rel. Conselheiro Daniel Mariz Gudino, Sessão 02/02/2011) PERÍCIA. REQUISITOS. INDEFERIMENTO. Deve ser indeferido, por demonstrar intenção protelatória, o pedido de perícia para obter informações sem a demonstração da sua necessidade. (CARF, 3ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, Acórdão nº 103 23.470, Rel. Conselheiro Leonardo de Andrade Couto, Sessão 28/05/2008) Assim, pelas justificativas acima descritas, dadas as circunstâncias do caso concreto, com base no artigo 18 do Decreto nº 70.235/72 e nos precedentes ora referenciados, voto por negar provimento ao pedido de diligência e entendo, ademais, neste particular, não ter havido qualquer prejuízo à ampla defesa da Recorrente. 3.3. Da multa Por fim, em relação à multa aplicada nas competências 11 e 12/1999, no percentual de 24%, entendo que assiste razão ao contribuinte, devendo a multa aplicada ser limitada ao percentual de 20% (vinte por cento), nos moldes estabelecido no artigo 35 da Lei nº 8.212/91 Portanto, ao contrário do afirmado pela instância a quo, a legislação vigente à época não é mais benéfica ao contribuinte, merecendo reparo. 3. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, CONHEÇO do Recurso Voluntário da recorrente para, rejeitar as preliminares arguidas, e, no mérito, DARLHE PROVIMENTO PARCIAL, nos termos do relatório e voto. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 1276DF CARF MF Processo nº 19515.001577/201047 Acórdão n.º 2401005.347 S2C4T1 Fl. 13 23 Voto Vencedor Conselheira Miriam Denise Xavier – Redatora Designada A única divergência em que restou vencida a relatora foi sobre a multa aplicada. MULTA A multa aplicada não é a de mora, pois não houve o recolhimento espontâneo por parte do sujeito passivo de contribuições em atraso, mas sim o lançamento de ofício de contribuições devidas, o que determina a aplicação da multa de ofício nos termos do artigo 44 da Lei 9.430/96. A regra vigente à época dos fatos geradores era a prevista no artigo 35 da Lei 8.212/91, que estabelecia que o percentual de multa a ser cobrado era de 12% (para as competências até 10/99) ou 24% (para as competências a partir de 11/99, devido às alterações promovidas pela Lei 9.876, de 26/11/99) e o percentual aumentava de acordo com a fase do processo administrativo. Com a publicação da MP 449/08, convertida na Lei 11.941/09, a multa para o lançamento de ofício passou a ser de 75%, nos termos do artigo 35A da Lei 8.212/91 c/c o artigo 44 da Lei 9.430/96. Logo, a multa mais benéfica é a da redação da lei vigente à época dos fatos geradores, no percentual de 12% ou 24%, conforme o caso. A multa cobrada no presente AI possui o devido respaldo legal e é de caráter irrelevável, não cabendo à autoridade administrativa, plenamente vinculada, reduzir seu percentual, como determinado pela relatora. Por ocasião do pagamento pelo contribuinte, deverá ser calculada a multa mais benéfica, em razão da alteração na legislação previdenciária promovida pela Lei 11.941/09, nos termos da Portaria conjunta PGFN/RFB nº 14, de 4/12/09. Fl. 1277DF CARF MF 24 CONCLUSÃO Pelo exposto, no mérito, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Por ocasião do pagamento ou execução do crédito tributário, a multa deverá ser recalculada, se for o caso, nos termos da Portaria conjunta PGFN/RFB nº 14/09. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Fl. 1278DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.003414/2003-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 19/05/2003 a 14/12/2004
AÇÃO JUDICIAL - COMPENSAÇÃO
A partir da introdução do artigo 170-A ao CTN, pela Lei Complementar n° 104/2001, a compensação somente é permitida após o trânsito em julgado da decisão judicial que reconheceu o direito do contribuinte. Vedação que, todavia, não se aplica a ações judiciais propostas em data anterior à vigência desse dispositivo.
RECURSO REPETITIVO. ART. 543C DO CPC. OBSERVÂNCIA PELO CARF NA FORMA DO ART. 62-A
Constatado o julgamento definitivo pelo STJ em sede de recurso repetitivo do RESP no. 1.164.452, é de observar-se pelo CARF o seu conteúdo na forma do art. 62 do RICARF.
COMPENSAÇÃO DIREITOS CREDITÓRIOS PLEITEADOS NA JUSTIÇA AÇÃO PROPOSTA ANTERIORMENTE À LEI COMPLEMENTAR 104/01 COMPENSAÇÃO DECLARADA ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO DA MEDIDA JUDICIAL. POSSIBILIDADE.
É permitida a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial apresentada pelo sujeito passivo antes da limitação imposta pela Lei Complementar n° 104/01. Apenas após a determinação legal é que a compensação está limitada ao trânsito em julgado da decisão judicial (art. 170A do CTN).
CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL
Não se conhece do Recurso Voluntário no tocante à matéria objeto de ação judicial.
Suspensão de exigibilidade do crédito tributário. A existência do crédito tributário ocorre via lançamento. O lançamento é o procedimento necessário para que a Fazenda Pública se veja a salvo do ônus da DECADÊNCIA.
Numero da decisão: 3302-005.476
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède -Presidente
(assinado digitalmente)
Jorge Lima Abud - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Déroulède.
Nome do relator: JORGE LIMA ABUD
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 19/05/2003 a 14/12/2004 AÇÃO JUDICIAL - COMPENSAÇÃO A partir da introdução do artigo 170-A ao CTN, pela Lei Complementar n° 104/2001, a compensação somente é permitida após o trânsito em julgado da decisão judicial que reconheceu o direito do contribuinte. Vedação que, todavia, não se aplica a ações judiciais propostas em data anterior à vigência desse dispositivo. RECURSO REPETITIVO. ART. 543C DO CPC. OBSERVÂNCIA PELO CARF NA FORMA DO ART. 62-A Constatado o julgamento definitivo pelo STJ em sede de recurso repetitivo do RESP no. 1.164.452, é de observar-se pelo CARF o seu conteúdo na forma do art. 62 do RICARF. COMPENSAÇÃO DIREITOS CREDITÓRIOS PLEITEADOS NA JUSTIÇA AÇÃO PROPOSTA ANTERIORMENTE À LEI COMPLEMENTAR 104/01 COMPENSAÇÃO DECLARADA ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO DA MEDIDA JUDICIAL. POSSIBILIDADE. É permitida a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial apresentada pelo sujeito passivo antes da limitação imposta pela Lei Complementar n° 104/01. Apenas após a determinação legal é que a compensação está limitada ao trânsito em julgado da decisão judicial (art. 170A do CTN). CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL Não se conhece do Recurso Voluntário no tocante à matéria objeto de ação judicial. Suspensão de exigibilidade do crédito tributário. A existência do crédito tributário ocorre via lançamento. O lançamento é o procedimento necessário para que a Fazenda Pública se veja a salvo do ônus da DECADÊNCIA.
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Vedação que, todavia, não se aplica a ações judiciais propostas em data anterior à vigência desse dispositivo. RECURSO REPETITIVO. ART. 543C DO CPC. OBSERVÂNCIA PELO CARF NA FORMA DO ART. 62A Constatado o julgamento definitivo pelo STJ em sede de recurso repetitivo do RESP no. 1.164.452, é de observarse pelo CARF o seu conteúdo na forma do art. 62 do RICARF. COMPENSAÇÃO DIREITOS CREDITÓRIOS PLEITEADOS NA JUSTIÇA AÇÃO PROPOSTA ANTERIORMENTE À LEI COMPLEMENTAR 104/01 COMPENSAÇÃO DECLARADA ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO DA MEDIDA JUDICIAL. POSSIBILIDADE. É permitida a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial apresentada pelo sujeito passivo antes da limitação imposta pela Lei Complementar n° 104/01. Apenas após a determinação legal é que a compensação está limitada ao trânsito em julgado da decisão judicial (art. 170A do CTN). CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL Não se conhece do Recurso Voluntário no tocante à matéria objeto de ação judicial. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 00 34 14 /2 00 3- 17 Fl. 1098DF CARF MF 2 Suspensão de exigibilidade do crédito tributário. A existência do crédito tributário ocorre via lançamento. O lançamento é o procedimento necessário para que a Fazenda Pública se veja a salvo do ônus da DECADÊNCIA. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente (assinado digitalmente) Jorge Lima Abud Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Déroulède. Relatório A empresa PLM PLÁSTICOS S/A apresentou, o formulário correspondente à Declaração de Compensação (fls. 01) , através de seu procurador e as demais Dcomp’s eletrônicas nas datas constantes da tabela abaixo: Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.099 3 A empresa Nitriflex S A cedeu créditos à PLM PLÁSTICOS S A que passou a requerer as compensações objeto dos documentos já apontados na tabela acima. O referido crédito da Nitriflex S A Indústria e Comércio decorreria da ação judicial n° 98.00.166580, da 19a Vara Federal de São João de Meriti/RJ. A interessada anexou às fls. 09/19, 21/30 cópia de peças e de decisões exaradas pelo Tribunal Regional Federal da 2 Região, Rio de Janeiro/RJ, no Mandado de Segurança n° 2001.51.10.0010250 (2001.02.01.0313448). Tais documentos revelam, frisese, a existência de decisão judicial, contra a União Federal/Fazenda Nacional, autorizando o estabelecimento Nitriflex S A Indústria e Comércio a compensar os créditos, sem a restrição, julgando ilegal a Instrução Normativa SRF n° 41, de 2000, a qual se contrapunha ao direito do referido estabelecimento, de compensar créditos do IPI, reconhecidos em ação judicial, com débitos de terceiros. Às fls. 58/59 foram anexadas cópias de dois Pedidos de Compensação de Crédito com Débito de Terceiros que se encontram em análise no processo administrativo n° 13746.000683/200101. ’ A DRF/Curitiba/PR que jurisdiciona o domicílio do devedor entendeu que o Mandado de Segurança n° 2001.51.10.0010250 (2001.02.01.0313448) perdeu o objeto após a edição do art. 49 da Lei n° 10.637, de 2002, em relação às compensações requeridas após 29/08/2002. A mesma DRF salientou que a Procuradoria da Fazenda Nacional em Santa Catarina compartilhava do mesmo entendimento. O Parecer Seort n° 232, de 2008 destaca que as compensações deste processo foram apresentadas após 29/08/2002 e “estão utilizando o direito creditório de terceiro obtido na esfera judicial pela empresa Nitriflex ” e constam do processo administrativo n° 10735.000001/9918” . Ao final o parecer houve por bem adotar o entendimento da Procuradoria da Fazenda Nacional para propor a não homologação da compensação pleiteada. O Despacho Decisório de folhas 126 aprovou integralmente o parecer e determinou a adoção das demais providências cabíveis nos termos da legislação em vigor. Por meio do Comunicado de folhas 128, a interessada tomou ciência do Parecer Seort/DRF/NIU/RJ n° 232, de 2008 e respectivo Despacho Decisório, sendo que o AR (Aviso de Recebimento) se encontra às folhas. 243 e tem 11/06/2008 como data de postagem. Foi dada ciência à detentora do crédito Nitriflex S A do mesmo parecer e do despacho decisório, sendo que, a terceira credora tomou ciência em 05/06/2008 através do AR que se encontra em anexo, também, às fls. 243 do presente processo. Pelo requerimento de fls. 130/131 e arrazoado de fls. 134/159, o interessado manifestou sua inconformidade Em 12 de fevereiro de 2009, através do Acórdão n° 0922.540, a 3a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Juiz de Fora/MG por maioria de votos, decidiu NÃO HOMOLOGAR as COMPENSAÇÕES constantes do presente processo. Fl. 1100DF CARF MF 4 Entendeu a Turma que: Em que pese a Delegacia da Receita Federal de Nova Iguaçu/RJ ter deixado transcorrer mais de 5 (cinco) anos para apreciar a declaração de compensação, não ocorreu a homologação tácita. Outrossim, entendeu pela ilegalidade da compensação em razão de ter sido efetuada com crédito de terceiro, inobservando as decisões judiciais que amparam o direito da recorrente. Por fim, entendeu pela impossibilidade de apreciação de questões, no âmbito administrativo, relativas a ofensa a princípios constitucionais, tais como o da legalidade, não cumulatividade e irretroatividade de Lei. A impugnante foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, em 25/03/2009, via Aviso de Recebimento. Em 16/04/2009, ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, apresentando suas razões, de folhas 284 a 310. O Recorrente alegou os seguintes pontos: ü A homologação tácita da compensação; ü A decisão transitada em julgado proferida no MS 2001.51.10.0010250 afastou o óbice previsto na IN/SRF 41/00; ü O acerto das DECOMP não deflui apenas do comando da res iudicata do MS n.° 2001.51.10.0010250, mas também e principalmente da Produzida no bojo do MS n.° 98.00166580; ü A coisa julgada produzida no MS n.° 98.00166580 não só reconheceu o direito de crédito, como também sua plena disponibilidade, sendo certo que o MS n.° 2001.51.10.0010250 só foi impetrado , para preventivamente afastar a interpretação restritiva do Fisco, à época constante da IN/SRF n.° 41/00, e até então inexistente; ü O reconhecimento por meio do V. Acórdão acima, transitado em julgado, dar do princípio constitucional da nãocumulatividade do IPI implica o direito de crédito, bem como o direito de dele dispor, até porque repitase —, à época dos fatos inexistia previsão legal limitativa de sua disponibilidade; ü O TRF da 2a Região fundamentou sua decisão de afastar a aplicação da IN/SRF 41/00 com base no principio constitucional da irretroatividade das leis, segundo o qual a lei nova não pode retroagir para afetar fatos consumados antes de sua entrada em vigor. Entendeu a E. Corte que a instrução normativa, sobre ser ilegal, não poderia retroagir para afetar fatos consumados sob a égide de legislação que permitia a cessão para terceiros do crédito de IPI reconhecido no MS 98.00166580, no caso o art. 170 do CTN e arts. 73 e 74 da Lei n.° 9.430/96, regulamentados pela IN/SRF 21/97; Fl. 1101DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.100 5 ü Se ficou decidido que a IN/SRF 41/00, inobstante o aspecto de sua ilegalidade, não pode retroagir para limitar o 'aproveitamento do crédito de IPI da Nitriflex, sujeito à legislação em vigor na época da ocorrência dos fatos geradores (ocorridos entre 08/88 e 07/98), é defeso ao Fisco pretender aplicar a nova redação do art. 74 da Lei 9.430/96, que entrou em vigor muito tempo depois daquela instrução normativa; ü O principio constitucional aplicado pelo Poder Judiciário foi o da irretroatividade das leis (art. 5.°, XXXVI, da CF/88), pelo qual nenhuma lei pode retroaqir para limitar o direito à cessão do crédito de IPI da Nitriflex2 para terceiros, seja IN, portaria, decreto, lei ordinária, lei complementar e até mesmo a emenda constitucional; ü A nova redação do art. 74 da Lei 9.430/96 entrou em vigor 01/10/2002, no que só pode afetar créditos desde então gerado; ü Sobre a irretroatividade da nova redação do art. 74 da Lei 9.430/96 — O entendimento do STJ acerca da matéria fixou o entendimento que o regime jurídico da compensação, em razão das sucessivas mudanças implementadas, fixase pela data do ajuizamento da ação; Pelo exposto, requer seja CONHECIDO e PROVIDO o presente recurso voluntário para que, reformandose o V. Acórdão de fls. 245/261, seja acolhida a alegação de HOMOLOGAÇÃO TÁCITA da compensação efetuada pela recorrente. Caso não seja esse o entendimento,requer seja CONHECIDO e PROVIDO o presente recurso voluntário para que, reformandose o V. Acórdão de fls. 245/261, seja homologada a compensação realizada pela recorrente, com a conseqüente extinção e baixa dos débitos. Em 29 de janeiro de 2014, através da Resolução n° 3403000.528, a 3a Turma Ordinária, da 4a Câmara, da 3a Seção de Julgamento do CARF baixou os autos em diligência para que fosse atendido às seguintes solicitações: I. intime a ora recorrente a fornecer cópia dos contratos, caso existam, firmados entre ela, na condição de cessionária, e a Nitriflex S.A. Comércio e Indústria, por meio dos quais tenham negociado entre si a cessão dos saldos credores de IPI que a recorrente aqui oferece em compensação; II. esclareça, se possível com o auxílio de tabelas e demonstrativos, acerca da subsistência, à época em que a declaração de compensação aqui debatida foi formalizada, de direito de crédito em montante suficiente para a extinção dos débitos declarados, tendo em vista as variadas formas e datas em que possa ter sido empregado pela própria cedente (Nitriflex S.A. Comércio e Indústria) ou por terceiros, total ou parcialmente; Fl. 1102DF CARF MF 6 III. informe sobre a existência e o desfecho de eventual pedido de habilitação de crédito porventura requerido pela cedente Nitriflex S.A. Comércio e Indústria. Devidamente intimado, o Recorrente apresentou cópia do contrato de cessão de direitos creditórios tributários firmado entre ela, na condição de cessionária, e a Nitriflex S.A. Comércio e Indústria, na condição de cedente, às folhas 1.035 do processo digital, do qual se extrai o seguinte fragmento: Atendeu o quesito II da Resolução, a partir das folhas 1.043 do processo digital. E ainda se manifestou a partir das folhas 1.023 do processo digital, de onde se extrai os seguintes fragmentos: (...) Fl. 1103DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.101 7 Antes de cumprir a determinação, cumpre informar que referida diligência restou prejudicada, em razão de decisão do próprio E. CARF no processo de crédito (processo piloto). No dia 27/01/2015 a Col. 2a Turma Ordinária da 3a Câmara da 3a Seção do E. CARF julgou o processo administrativo n.° 10735.000001/9918 apensos (processo de crédito, piloto). Com o julgamento desses PA’s, decretandose a homologação tácita de compensações onde houve o decurso do prazo de 5 (cinco) anos entre a data do protocolo do pedido e ciência da decisão administrativa, bem como reconhecendose o direito creditório e determinandose os encontros de contas na origem, tanto em relação aos débitos próprios da Nitriflex quanto aos débitos de terceiros, nada mais pode ser decidido nos presentes autos em sentido contrário. (...) Ademais, se referido processo foi julgado totalmente procedente para reconhecer o montante do crédito com o qual a recorrente compensou seus débitos, não resta outro caminho senão a realização do encontro de contas, aplicandose, assim, o mesmo entendimento da Col. 2a Turma Ordinária da 3a Câmara da 3a Seção do E. CARF, até mesmo para evitar que sejam proferidas decisões conflitantes, o que trataria insegurança jurídica, fenômeno incompatível com o nosso Ordenamento Jurídico. (...) Ademais, como já mencionado na decisão acima, esse E. CARF ao julgar o processo administrativo n° 10735.000001/9918, afastou todos os óbices que vêm sendo agitados pelo Fisco à compensação do crédito da Nitriflex com débitos próprios e de terceiros, ou seja, a necessidade de habilitação administrativa prévia do crédito também foi afastada. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lima Abud Relator Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que a recorrente teve ciência da decisão de primeira instância em 23 de março de 2009, na forma do inciso II, do §2o, do artigo 23 do Decreto n° 70.235/72, quando, então, iniciouse a contagem do prazo de 30 (trinta) dias para apresentação do presente recurso voluntário apresentando a recorrente recurso voluntário em 16 de abril de 2009. Fl. 1104DF CARF MF 8 Da controvérsia. A homologação tácita da compensação; e A compensação com crédito de terceiros fundada em decisão judicial. Do Mérito. A compensação com crédito de terceiros fundada em decisão judicial. A discussão diz respeito à compensação dos débitos da empresa PLM PLÁSTICOS com créditos de terceiros constantes do processo administrativo n° 10735.000001/9918, pertencentes à empresa Nitriflex S. A. O cerne da questão a ser aqui enfrentada tem por premissa o seguinte fato: legislações supervenientes restringiram o direito até então adquirido pelo contribuinte quanto à possibilidade de compensação de créditos de terceiros. Está a se referir como legislações supervenientes o seguinte rol de normas: Ø Artigo 170A, do Código Tributário Nacional; Ø Artigo 74 da Lei n. 9.430/96; Ø Instrução Normativa SRF n° 41/2000; e Ø Instrução Normativa SRF n° 517/2005. E a questão a ser enfrentada por esta Turma é a seguinte: Essas legislações supervenientes atingiram compensações dessa natureza em curso? Para o deslinde dessa questão, a presente análise deve enfrentar os efeitos do conflito intertemporal quanto às normas que regulamentam a compensação. (...) o que se examina é a aplicação intertemporal de uma norma que veio dar tratamento especial a uma peculiar espécie de compensação (...) Esse prelúdio é retirado do corpo do voto proferido pelo Relator Ministro Teori Albino Zavascki, ainda no Superior Tribunal de Justiça para denotar que aquele Tribunal já se debruçou sobre a matéria, inclusive editando recurso repetitivo (543C do CPC). O instituto dos recursos repetitivos, introduzido ainda no Código de Processo Civil de 1973, no seu artigo 543C, pela Lei n. 11.672/08, e regulamentado no STJ, pela Resolução n° 8, de 07.08.2008, trata de recursos que se fundam em questões de direito idênticas às de outros recursos. Ø (REsp n° 1.164.452 MG 2009/02107136), proferido na sistemática do julgamento de recursos repetitivos (543C do CPC), TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. LEI APLICÁVEL. VEDAÇÃO DO ART. 170A DO CTN. INAPLICABILIDADE A DEMANDA ANTERIOR À LC 104/2001. Fl. 1105DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.102 9 1. A lei que regula a compensação tributária é a vigente à data do encontro de contas entre os recíprocos débito e crédito da Fazenda e da contribuinte. Precedentes. 2. Em se tratando de compensação de crédito objeto de controvérsia judicial, é vedada a sua realização “antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial”, conforme prevê o art. 170A do CTN, vedação que, todavia, não se aplica a ações judiciais propostas em data anterior à vigência desse dispositivo, introduzido pela LC 104/2001. Precedentes. 3. Recurso especial provido. Acórdão sujeito ao regime do art.543C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (Grifo e negrito nossos) Assim, a determinação do STJ que deve ser seguida pelos integrantes do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, na forma do art. 62, II, b) do RICARF, é a vedação da aplicação dos efeitos da alteração da norma a ações judiciais propostas em data anterior à vigência desse dispositivo, introduzido pela LC 104/2001. Na busca de critérios para modelar a questão intertemporal referente à introdução de uma nova espécie de compensação frente ao ordenamento jurídico até então vigente aquela em que o crédito da contribuinte, a ser compensado, é objeto de controvérsia judicial o acórdão proferido pelo STJ assim previniu: “4. Esse esclarecimento é importante para que se tenha a devida compreensão da questão agora em exame, que, pela sua peculiaridade, não pode ser resolvida, simplesmente, à luz da tese de que a lei aplicável é a da data do encontro de contas. Aqui, com efeito, o que se examina é a aplicação intertemporal de uma norma que veio dar tratamento especial a uma peculiar espécie de compensação: aquela em que o crédito da contribuinte, a ser compensado, é objeto de controvérsia judicial. É a essa modalidade de compensação que se aplica o art. 170A do CTN. O que está aqui em questão é o domínio de aplicação, no tempo, de um preceito normativo que acrescentou um elemento qualificador ao crédito que tem a contribuinte contra a Fazenda: esse crédito, quando contestado em juízo, somente pode ser apresentado à compensação após ter sua existência confirmada em sentença transitada em julgado. O novo qualificador, bem se vê, tem por pressuposto e está diretamente relacionado à existência de uma ação judicial em relação ao crédito. Ora, essa circunstância, inafastável do cenário de incidência da norma, deve ser considerada para efeito de direito intertemporal. Justificase, destarte, relativamente a ela, o entendimento firmemente assentado na jurisprudência do STJ no sentido de que, relativamente à compensabilidade de créditos objeto de controvérsia judicial, o requisito da certificação da sua existência por sentença transitada em julgado, previsto no art. 170A do CTN, somente se aplica a créditos objeto de ação judicial proposta após a sua entrada em vigor, não das anteriores. Nesse sentido, entre outros: REsp 880.970/SP, 1a Seção, Min. Benedito Gonçalves. Fl. 1106DF CARF MF 10 (...) 6. No caso dos autos, a ação foi ajuizada em 1998, razão pela qual não se aplica, em relação ao crédito nela controvertido, a exigência do art. 170A do CTN, cuja vigência se deu posteriormente. Não tendo adotado esse entendimento, merece reforma, no particular, o acórdão recorrido. DJe de 04/09/2009; PET 5546/SP, 1a Seção, Min. Luiz Fux, DJe de 20/04/2009; EREsp 359.014/PR, 1a Seção, Min. Herman Benjamin, DJ de 01/10/2007.” (Grifo e negrito nossos) Em consequência disso, devem ser afastadas as oposições referentes ao direito de compensação anteriormente apontadas em relação à crédito de terceiros, pois essas oposições já foram afastadas pelo Poder Judiciário não havendo à administração qualquer outra medida senão acatar as determinações judiciais. Desta forma, devem ser reformadas as decisões da Delegacia da Receita Federal e o acórdão da Delegacia Regional de Julgamento recorrido no sentido de dar cumprimento ao que foi estabelecido no REsp n° 1.164.452 MG 2009/02107136, proferido na sistemática do julgamento de recursos repetitivos (artigo 543C do CPC/1973). O Mandado de Segurança n° 98.00166580 A Nitriflex S A Indústria e Comércio ajuizou Mandado de Segurançça n° 98.00166580 buscando reconhecimento do direito ao crédito presumido de IPI referente às aquisições de matérias primas, produtos intermediários e material de embalagens isentos, não tributados ou que foram tributados à alíquota zero, bem como seu direito de compensálo com o imposto (IPI) a recolher no final do processo industrial, obtendo decisão favorável, transitada em julgado em 18/04/2001 após acórdão exarado pelo Tribunal Regional Federal da Segunda Região. O Mandado de Segurança n° 2001.51.10.0010250 Como a decisão transitada em julgado no Mandado de Segurança n° 98.00166580 somente lhe permitia utilizar seus créditos com débitos relativos a este mesmo imposto, a empresa Nitriflex S/A, ora CEDENTE VENDEDORA dos créditos a serem compensados, impetrou junto à 5a Vara Federal de São João de Meriti RJ um outro Mandado de Segurança (MS), o de n° 2001.51100010250, esse visando afastar a incidência dos efeitos da Instrução Normativa SRF n° 41, de 2000, obtendo sentença favorável que, em 12/09/2003, também transitou em julgado no sentido de reconhecer e de declarar o seu direito de ceder parte de seu crédito a terceiros para que estes utilizassem em compensação tributária. Neste sentido: EMENTA: PROCESSUAL CIVIL APELAÇÃO ANS IMPOSSIBILIDADE DE A LEI, AINDA QUE VEICULE NORMAS DE ORDEM PUBLICA, RETROAGIR PARA ATINGIR O ATO JURÍDICO PERFEITO, O DIREITO ADQUIRIDO OU A COISA JULGADA. CONTRATOS ANTERIORES À LEI N. 9.656/98 SENTENÇA CONFIRMADA.. 1 A lei nova só incidirá sobre os fatos ocorridos durante seu período de vigência, não podendo a mesma alcançar efeitos produzidos por relações jurídicas anteriores à sua entrada em vigor, ou seja, alcançando Fl. 1107DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.103 11 apenas situações futuras. 2 Em matéria processual vigora o princípio do isolamento dos atos processuais, que determina que a nova norma atingirá o processo no ponto 7 Decisão Mandado de Segurança 2001.51.10.0010250 TRECHO DO RELATÓRIO "(...) Portanto, o mérito do presente writ reside na aplicabilidade ou não da restrição contida na IN/SRF n. 41/00 e da análise da sua retroatividade para alcançar fatos consumados sob a égide de normas que garantiriam o direito a compensar o seu crédito com débitos de terceiros. A Procuradoria da Fazenda Nacionalinterpôs duas ações rescisórias 2003.02.01.0056758 e 1.788/RJ a primeira em 15/04/2003, na intenção de reverter a decisão sedimentada no MS n° 98.00166580 (transitado em julgado em 18/04/2001), para afastar o direito aos créditos com mais de 05 anos a partir da data de ajuizamento do mandamus e para tomar improcedentes os pedidos da mesma ação primitiva, restabelecendose o que foi decidido na sentença de primeiro grau. O acórdão exarado pelo TRF da 2a Região rescindiu parte a decisão proferida nos autos do Mandado de Segurança n° 98.00166580, reconhecendo o direito ao crédito de IPI nos cinco anos que antecederam a impetração. A empresa Nitriflex obteve decisão atualmente transitada em julgado suspendendo os efeitos das decisões das Ações Rescisórias, que estavam sendo utilizadas pelas autoridades administrativas para negar os procedimentos de compensação por ausência de “liquidez e certeza”. Desta forma, por uma razão ou por outra, não é possível evitar ou impedir a análise das compensações apresentadas, assim como não é possível aplicar a restrição pretendida pelas autoridades administrativas, de que o crédito é ilíquido e incerto ou que a legislação posterior impediria a compensação do crédito com débitos de terceiros. Instrução Normativa SRF n° 517/05: A necessidade de Habilitação do Crédito e Liquidez e Certeza O seguinte argumento utilizado pela autoridade administrativa para não reconhecer o crédito da empresa Nitriflex e consequentemente denegar o direito de compensação da empresa PLM PLÁSTICOS é a suposta “não habilitação do crédito” para justificar a ausência de “liquidez e certeza” do mesmo. Acompanhando o entendimento unânime da 2a Turma Ordinária, da 3a Câmara, da 3a Seção de Julgamento do CARF, no Acórdão n° 3302002.816, de 27 de janeiro de 2015, os créditos já haviam sido homologados nos anos de 1999 e 2000, ou seja, 5 anos antes da edição da Instrução Normativa que estabeleceu procedimentos para a habilitação de créditos. Para tanto, transcrevese o seguinte trecho: Desta forma, claro está que os créditos não tinham porque serem habilitados, o que por si só é suficiente para afastar a exigência fiscal. É cediço que a habilitação é um procedimento preparatório de compensação que pretende constatar a validade do crédito, o que não tem sentido neste caso, em que a SRF já havia fiscalizado e quantificado o crédito, e até realizado Fl. 1108DF CARF MF 12 encontros de contas com emissão de DCC, em observância à coisa julgada. Registrase que não obstante, as autoridades administrativas exigiram a habilitação do crédito, o que resultou na formação do processo administrativo no 13746.000191/200551. Ademais, as autoridades administrativas, por meio deste procedimento, inviabilizaram a compensação da Recorrente, determinando, ainda, que a habilitação só poderia ocorrer após o término das ações rescisórias, o que impossibilitaria a utilização do crédito pela Recorrente. A despeito de a questão em si estar sendo discutida em outro processo administrativo, fato é que foi utilizado como razão de decidir pelo v. acórdão recorrido, razão pela qual passo a analisálo. A meu ver, impossível a manutenção deste obstáculo. Primeiramente em virtude das razões postas, em segundo lugar porque conforme esclarecido a questão restou decidida nos autos do MS n° 2005.51.10.0026900, que afastou a aplicação da IN/SRF 517/2005 no caso concreto. Neste contexto, todas as compensações, com débitos próprios e de terceiros, devem ser processadas em conformidade com o Decreto n° 70.235/1972. (Acórdão n° 3302002.816, de 27 de janeiro de 2015, 2a Turma Ordinária, da 3a Câmara, da 3a Seção de Julgamento, Rel. Fabiola Cassiano Keramidas) Homologação Tácita das Compensações de Terceiros As compensações analisadas compreendem o período de 04/2003 até 12/2004, portanto, antes da entrada em vigor da referida legislação, de modo que na data do protocolo dos pedidos o art. 74 da Lei n° 9.430/1996 apresentava a seguinte redação: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei n° 10.637, de 2002). § 1° A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados.(Incluído pela Lei n° 10.637, de 2002) § 2° A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação.(Incluído pela Lei n° 10.637, de 2002) § 3° Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser objeto de compensação: (Incluído pela Lei n° 10.637, de 2002) § 4o Os pedidos de compensação pendentes de apreciação pela autoridade administrativa serão considerados declaração de Fl. 1109DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.104 13 compensação, desde o seu protocolo, para os efeitos previstos neste artigo.(Incluído pela Lei n° 10.637, de 2002) § 5° A Secretaria da Receita Federal disciplinará o disposto neste artigo.(Incluído pela Lei n° 10.637, de 2002).” Notase, portanto, que não havia previsão legal, no momento do encontro de contas, para que a compensação fosse considerada não declarada. A rigor, na época, a legislação tributária (IN SRF n° 226/2002, revogada pela IN SRF n° 460/2004) limitavase a prever o indeferimento liminar do pedido de compensação: Art. 1° Será liminarmente indeferido: (...) II o pedido ou a declaração de compensação cujo direito creditório alegado tenha por base: (...) c) crédito de terceiros, cujo pedido ou declaração tenha sido protocolizado a partir de 10 de abril de 2000. As decisões até aqui exaradas entenderam que a homologação tácita não alcançaria o presente caso porque as “Declarações de Compensação” dos processos em exame não se caracterizariam como tal por expressa vedação legal. Reportandome, mais uma vez, do Acórdão n° 3302002.816, de 27 de janeiro de 2015, avalio que essa interpretação diverge da Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e do próprio CARF que fixam a data do encontro de contas como o marco juridicamente relevante para fins de aplicação intertemporal das regras de compensação (1° CC. Recurso Voluntário 158.483. PAF n° 13851.000099/200593; 1° CC. 2a C. Recurso Voluntário 136.257. PAF n° 10980.006685/200316; 1a CC. Recurso Voluntário n° 158.533. PAF n° 16327.001377/200475). Nessa linha, o seguinte julgado: “TRIBUTÁRIO. COMPENSAÇÃO. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE”. APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE NO MOMENTO DO ENCONTRO DE CONTAS. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO. PRECEDENTES. 1. O processamento da compensação subordinase à legislação vigente no momento do encontro de contas, sendo vedada a apreciação de eventual “pedido de compensação” ou declaração de compensação com fundamento em legislação superveniente. Precedente: EREsp 488.992/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, DJU de 07.06.04. 2. Em conseqüência, o marco a ser considerado na definição das normas aplicáveis na regência do “recurso de inconformidade” é a data em que protocolizado o pedido de compensação de crédito com débito de terceiros, o que, na hipótese, deuse em 15 de fevereiro de 2001 e 14 de março de 2001. 3. A “manifestação de inconformidade” foi prevista, pela primeira vez, como meio impugnativo da decisão que não homologa a compensação, na Fl. 1110DF CARF MF 14 Instrução Normativa SRF 210, de 30 de setembro de 2002, passando a ser normatizada legalmente a partir da Lei 10.833/03 conversão da MP 135/03 (cf. REsp 781.990/RJ, Rel. Min. Denise Arruda). 4. A Primeira Seção, ao julgar o EREsp 850.332/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, examinando a matéria à luz da redação original do art. 74 da Lei 9.430/96, portanto, sem as alterações estabelecidas pelas Leis 10.637/02, 10.833/03 e 11.051/04, concluiu que o pedido de compensação e o recurso interposto contra o seu indeferimento suspendem a exigibilidade do crédito tributário, já que a situação enquadrase na hipótese do art. 151, III, do CTN. Precedentes. 5. Ressaltese que, neste âmbito judicial, não há emissão de juízo de valor quanto à própria validade da compensação efetuada, mas, tão somente, no que tange à aplicação da jurisprudência do Tribunal em relação aos efeitos em que devem ser recebidas as impugnações apresentadas na esfera administrativa anteriormente à Lei 10.833/03 (conversão da MP 135/03). 6. Embargos de divergência providos.” (STJ. 1a S. EREsp 977083/RJ. Rel. Min. CASTRO MEIRA. DJe 10/05/2010.) E não poderia ser diferente considerando que diante de uma situação de normalidade, ou seja, tendo em vista exação válida perante o ordenamento jurídico, a lei aplicável, em matéria de compensação tributária, será aquela vigente na data do encontro de créditos e débitos, pois neste momento é que surge efetivamente o direito à compensação, de acordo com os cânones traçados pelo Direito Privado a tal instituto, que devem ser respeitados pela lei tributária, ex vi do artigo 110 do Código Tributário Nacional. A compensação é modo de extinção do crédito tributário e sendo assim deve observar a legislação vigente quando se pretende realizar o acerto entre créditos e débitos. Destarte, o contribuinte, optante da restituição via compensação tributária, submetese aos limites estabelecidos nas Leis, cuja aplicação deve obedecer, na normalidade, o marco temporal da “data do encontro dos créditos e débitos”, respeitada a decisão judicial tomada no REsp n° 1.164.452 MG. Nesse sentido, cabe registrar o seguinte acórdão da 2a Turma Ordinária, 3a Câmara, da 3a Seção no julgamento do Recurso Voluntário no 10909.001589/0058, da lavra do eminente Conselheiro Alexandre Gomes, decidido por unanimidade: PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CONVERSÃO EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. Lei 9.430/96, art. 74, § 4o. Será considerada tacitamente homologada a compensação objeto de pedido de compensação convertido em declaração de compensação que não seja objeto de despacho decisório proferido no prazo de cinco anos, contado da data do protocolo do pedido, independentemente da procedência e do montante do crédito. DCOMP. PRAZO DE CINCO ANOS PARA APRECIAR. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. Lei 9.430/96, art. 74, § 5o. Será considerada tacitamente homologada a compensação objeto de declaração de compensação (Dcomp), que não seja objeto de despacho decisório proferido, e cientificado o sujeito passivo, no prazo de cinco anos, contado da data de seu protocolo Fl. 1111DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.105 15 No contexto, se o legislador tributário determinou a aplicação do prazo de cinco anos de forma retroativa a todos as compensações apresentadas na vigência da legislação pretérita, que foram convertidas em declaração de compensação , não faz o menor sentido, dentro de uma interpretação sistemática e teleológica, afastar a aplicação do prazo de cinco anos apenas para as declarações protocolizadas entre 01/10/2002 e 30/10/2003. Sequer há previsão legal para essa interpretação, porque as instruções normativas que disciplinam o tema, inclusive a IN SRF no 460/2004, determinaram a aplicação do prazo de cinco anos a todas as declarações de compensação, irrestritamente e sem exceção: Art. 29. A autoridade da SRF que nãohomologar a compensação cientificará o sujeito passivo e intimáloá a efetuar, no prazo de trinta dias, contados da ciência do despacho de não homologação, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. (.) § 2° O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de cinco anos, contados da data da entrega da Declaração de Compensação. Ora, se a legislação não diferencia, não cabe ao intérprete fazêlo, sobretudo quando o resultado dessa exegese conduz a uma conclusão incompatível com o primado da segurança jurídica e da estabilidade das relações jurídicas. Inclusive, algumas das compensações apresentadas já nasceram como declarações de compensação, não se tratando de pedidos de compensação convertidos em declaração de compensação e isso deve ser observado. Não bastasse o exposto, ressalto que a questão, inclusive, já foi solucionada há bastante tempo (há quase 10 anos) pelo Poder Judiciário no Mandado de Segurança n° 2001.51100010250. Pelo exposto, entendese que se está diante do instituto da concomitância. O ingresso na via judicial para discutir determinada matéria significa abrir mão da discussão pela via administrativa da mesma matéria, pois, uma vez que o monopólio da função jurisdicional pertencente ao Estado é exercido pelo Poder Judiciário, o processo administrativo, nesses casos, perde sua função. Assim, considerando que prevalecerá o que for decidido pelo Poder Judiciário, prosseguir com o processo administrativo importaria em despender desnecessariamente tempo e recursos, violando os princípios da moralidade e da economicidade. A Lei nº 6.830, de 22 de setembro de 1980 (Lei de Execução Fiscal), estabelece, no artigo 38, que a propositura, pelo contribuinte, de mandado de segurança, ação de repetição de indébito ou ação anulatória de ato declarativo da dívida, importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. Já o Decretolei nº 1.737, de 20 de dezembro de 1979, artigo 1º, § 2º, estabelece que a propositura, pelo contribuinte, de ação anulatória ou declaratória da nulidade Fl. 1112DF CARF MF 16 do crédito da Fazenda Nacional importa em renúncia ao direito de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso interposto. No mesmo sentido, foi expedido o Parecer Normativo Cosit nº 7, de 22 de agosto de 2014, publicado no DOU de 27/08/2014, seção 1, pág. 65: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ementa: CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL E PROCESSO JUDICIAL COM O MESMO OBJETO. PREVALÊNCIA DO PROCESSO JUDICIAL. RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. DESISTÊNCIA DO RECURSO ACASO INTERPOSTO. A propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto. Quando contenha objeto mais abrangente do que o judicial, o processo administrativo fiscal deve ter seguimento em relação à parte que não esteja sendo discutida judicialmente. A decisão judicial transitada em julgado, ainda que posterior ao término do contencioso administrativo, prevalece sobre a decisão administrativa, mesmo quando aquela tenha sido desfavorável ao contribuinte e esta lhe tenha sido favorável. A renúncia tácita às instâncias administrativas não impede que a Fazenda Pública dê prosseguimento normal a seus procedimentos, devendo proferir decisão formal, declaratória da definitividade da exigência discutida ou da decisão recorrida. É irrelevante que o processo judicial tenha sido extinto sem resolução de mérito, na forma do art. 267 do CPC, pois a renúncia às instâncias administrativas, em decorrência da opção pela via judicial, é insuscetível de retratação. A definitividade da renúncia às instâncias administrativas independe de o recurso administrativo ter sido interposto antes ou após o ajuizamento da ação. Dispositivos Legais: Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN), art. 145, c/c art. 149, art. 151, incisos II, IV e V; Decretolei nº 147, de 3 de fevereiro de 1967, art. 20, § 3º; Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, arts. 16, 28 e 62; Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (CPC), arts. 219, 267, 268, 269 e 301, § 2º; Decretolei nº 1.737, de 20 de dezembro de 1979, art. 1º; Lei nº 6.830, de 22 de setembro de 1980, art. 38; Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXV; Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 53; Lei nº 12.016, de 7 de agosto de 2009, art. 22; Portaria CARF nº 52, de 21 de dezembro de 2010; Portaria MF nº 341, de 12 de julho de 2011, art. 26; art. 77 da IN RFB nº 1.300, de 20 de novembro de 2012. Por fim, registrese que a questão já foi sumulada pelo Conselho de Contribuintes, tendo o enunciado sido renumerado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, conforme se segue: Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo Fl. 1113DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.106 17 administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Dessa forma, a impugnação, no tocante à matéria objeto de ação judicial, não é conhecida, e o órgão julgador administrativo aprecia, apenas, a matéria distinta da constante do processo judicial. Jurisprudência Administrativa No contencioso administrativo, é pacífica a posição de que a propositura de ação judicial importa em renúncia à instância administrativa, devendo ser examinada apenas a matéria distinta da constante do processo judicial. Neste sentido, aprovouse o enunciado de Súmula CARF nº 01. Ementa: CONCOMITÂNCIA – Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Súmula 1a CC nº 1) (Acórdão CC nº 101 96.955) Ementa: NORMAS PROCESSUAIS – DISCUSSÃO JUDICIAL CONCOMITANTE COM O PROCESSO ADMINISTRATIVO. A submissão da matéria à tutela autônoma e superior do Poder Judiciário, prévia ou posteriormente ao lançamento, inibe o pronunciamento da autoridade administrativa sobre o mérito da incidência tributária em litígio, cuja exigibilidade fica adstrita à decisão definitiva do processo judicial. (Acórdão CC nº 101 97.092) Ementa: CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL – A propositura de ação judicial importa a renúncia à discussão administrativa relativamente à matéria sub judice. Quanto à matéria diferenciada, há de ser conhecido o recurso. (Acórdão CC nº 10517.358) Ementa: NORMAS PROCESSUAIS CONCOMITÂNCIA DE PROCESSOS NA VIA ADMINISTRATIVA E JUDICIAL INEXISTÊNCIA DE RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA A concomitância de processos na via administrativa e judicial não decorre da simples propositura e coexistência de processos em ambas as esferas, pois somente exsurge quando houver a perfeita identidade no conteúdo material do objeto da ação em discussão e do auto de infração. Necessidade, ademais, no caso concreto, de verificar o devido cumprimento de decisão judicial que determinou a suspensão do processo administrativo até ulterior trânsito em julgado de decisão prolatada pelo Poder Judiciário acerca da legalidade/constitucionalidade da quebra de sigilo bancário. (Acórdão CC nº 10249.320) Fl. 1114DF CARF MF 18 Jurisprudência Judicial. O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do RE nº 233.582/RJ, realizado em 16/8/2007 (publicação em 16/5/2008), já se pronunciou pela constitucionalidade do parágrafo único do art. 38 da Lei nº 6.830/1980, mediante acórdão com a seguinte ementa: Ementa: CONSTITUCIONAL. PROCESSUAL TRIBUTÁRIO. RECURSO ADMINISTRATIVO DESTINADO À DISCUSSÃO DA VALIDADE DE DÍVIDA ATIVA DA FAZENDA PÚBLICA. PREJUDICIALIDADE EM RAZÃO DO AJUIZAMENTO DE AÇÃO QUE TAMBÉM TENHA POR OBJETIVO DISCUTIR A VALIDADE DO MESMO CRÉDITO. ART. 38, PAR. ÚN., DA LEI 6.830/1980. O direito constitucional de petição e o princípio da legalidade não implicam a necessidade de esgotamento da via administrativa para discussão judicial da validade de crédito inscrito em Dívida Ativa da Fazenda Pública. É constitucional o art. 38, par. ún., da Lei 6.830/1980 (Lei da Execução Fiscal LEF), que dispõe que "a propositura, pelo contribuinte, da ação prevista neste artigo [ações destinadas à discussão judicial da validade de crédito inscrito em dívida ativa] importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto". Recurso extraordinário conhecido, mas ao qual se nega provimento. Também no mesmo sentido: RE 234.798 (DJe 16/5/2008); RE 234.277/RJ (DJe 16/5/2008); RE 389.893/RJ (DJe 16/5/2008) e RE 267.140 (DJe 16/5/2008). No Superior Tribunal de Justiça (STJ), é predominante o entendimento no sentido de que incide o parágrafo único do art. 38 da Lei nº 6.830/1980, quando a demanda administrativa versar sobre matéria menor ou idêntica a da ação judicial. Para o STJ, a discussão judicial do crédito tributário, sob qualquer modalidade de ação, antes ou posteriormente à autuação, importa na renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto. Originárias de uma mesma relação jurídica de direito material, é desnecessária a defesa na via administrativa quando o seu objeto está contido no versado na via judicial, em razão da prevalência da decisão judicial. O STJ entende, ainda, não existir impedimento ao reingresso do contribuinte na via administrativa, caso a ação judicial seja extinta sem julgamento de mérito (CPC, art. 267), já que não houve, nesse caso, a solução da relação de direito material. Ementa: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. DECISÃO QUE ANULOU O ACÓRDÃO RECORRIDO POR CONTRADIÇÃO (ART. 535 DO CPC). MULTA PREVISTA NO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC PREJUDICADA PELA NULIDADE DO ACÓRDÃO. SUPOSTO RECONHECIMENTO DO DIREITO DA CONTRIBUINTE POR PARTE DO FISCO. VERIFICAÇÃO INVIÁVEL. [...] 6. Ademais, a propositura de Ação Anulatória pela contribuinte (caso dos autos) implica, como regra, a renúncia à instância administrativa (art. 38, parágrafo único, da Lei 6.830/1980 e Fl. 1115DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.107 19 precedentes do STJ), o que impede a presunção de prejudicialidade em favor da empresa. 7. Inviável, portanto, a extinção do feito nesta instância especial, podendo o pedido ser reiterado nas instâncias ordinárias. 8. Agravo Regimental não provido. (STJ/Segunda Turma; AGRESP nº 821434; Relator Ministro Herman Benjamin; DJe 19/3/09) Ementa: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPETRAÇÃO ANTERIOR À AUTUAÇÃO FISCAL. RENÚNCIA AO DIREITO DE RECORRER ADMINISTRATIVAMENTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Cuidam os autos de mandado de segurança que, em grau de apelação, recebeu julgamento assim ementado: TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. IMPETRAÇÃO ANTERIOR À AUTUAÇÃO FISCAL. RENÚNCIA AO DIREITO DE IMPUGNAÇÃO ADMINISTRATIVA. INEXISTÊNCIA. PROCESSO ADMINISTRATIVO NULO POR TER DESPREZADO A IMPUGNAÇÃO DO CONTRIBUINTE E, COM O FUNDAMENTO TÃOSOMENTE, A NECESSIDADE DE EFETUAR O LANÇAMENTO PARA EVITAR DECADÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA CARACTERIZADO NULIDADE ACOLHIDA. [...] 3. Sentença reformada. Inconformada, a Fazenda Nacional interpôs recurso especial pelas alíneas "a" e "c" da permissão constitucional alegando violação dos artigos 1º, § 2º, do DL 1.737/79 e 38, parágrafo único da Lei 6.830/80 pelos seguintes motivos: a) a discussão judicial do crédito tributário, sob qualquer modalidade de ação, antes ou posteriormente à autuação, importa na renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto; b) há perfeita identidade entre o objeto do processo administrativo e o objeto do processo judicial, uma vez que ambos tratam do direito da impetrante/recorrida de efetuar o pagamento do Imposto de Importação com redução de 88% nas internações de telefones celulares por ela produzidos; c) ao questionar judicialmente o crédito tributário objeto de lançamento fiscal, a recorrida perdeu o direito de impugnálo na via administrativa; d) a utilização concomitante das vias administrativa e judicial, com o mesmo objetivo, afigurase juridicamente impossível, em razão da primazia das decisões judiciais sobre as decisões administrativas. 2. O ajuizamento de ação judicial anteriormente à autuação implica renúncia à interposição de recurso na esfera administrativa. Não é possível a utilização concomitante da via judicial e da administrativa, em face da prevalência da decisão judicial, devendose evitar destarte, julgamentos divergentes. Inteligência do § 2º do art. 1º do DecretoLei 1.737/59 e parágrafo único do art. 38 da Lei n. 6.830/80. 3. Existe identidade entre o objeto do processo administrativo e o objeto do processo judicial, uma vez que ambos tratam do direito da Fl. 1116DF CARF MF 20 recorrida de efetuar o pagamento do Imposto de Importação com redução de 88% nas internações de telefones celulares por ela produzidos. 4. Recurso especial provido. (STJ/Primeira Turma; REsp nº 1.001.348; Relator Ministro José Delgado; DJe 24/4/08) Ementa: TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA. AÇÃO JUDICIAL. RENÚNCIA DE RECORRER NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IDENTIDADE DO OBJETO. ART. 38, PARÁGRAFO ÚNICO DA LEI Nº 6.830/80. 1. Incide o parágrafo único do art. 38, da Lei nº 6.830/80, quando a demanda administrativa versar sobre objeto menor ou idêntico ao da ação judicial. 2. A exegese dada ao dispositivo revela que: "O parágrafo em questão tem como pressuposto o princípio da jurisdição una, ou seja, que o ato administrativo pode ser controlado pelo Judiciário e que apenas a decisão deste é que se torna definitiva, com o trânsito em julgado, prevalecendo sobre eventual decisão administrativa que tenha sido tomada ou pudesse vir a ser tomada. (...) Entretanto, tal pressupõe a identidade de objeto nas discussões administrativa e judicial". (Leandro Paulsen e René Bergmann Ávila. Direito Processual Tributário. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 349). 3. In casu, os mandados de segurança preventivos, impetrados com a finalidade de recolher o imposto a menor, e evitar que o fisco efetue o lançamento a maior, comporta o objeto da ação anulatória do lançamento na via administrativa, guardando relação de excludência. 4. Destarte, há nítido reflexo entre o objeto do mandamus tutelar o direito da contribuinte de recolher o tributo a menor (pedido imediato) e evitar que o fisco efetue o lançamento sem o devido desconto (pedido mediato) com aquele apresentado na esfera administrativa, qual seja, anular o lançamento efetuado a maior (pedido imediato) e reconhecer o direito da contribuinte em recolher o tributo a menor (pedido mediato). 5. Originárias de uma mesma relação jurídica de direito material, despicienda a defesa na via administrativa quando seu objeto subjugase ao versado na via judicial, face a preponderância do mérito pronunciado na instância jurisdicional. 6. Mutatis mutandis, mencionada exclusão não pode ser tomada com foros absolutos, porquanto, a contrario sensu, tornase possível demandas paralelas quando o objeto da instância administrativa for mais amplo que a judicial. 7. Outrossim, nada impede o reingresso da contribuinte na via administrativa, caso a demanda judicial seja extinto sem julgamento de mérito (CPC, art. 267), pelo que não estará solucionado a relação do direito material. Fl. 1117DF CARF MF Processo nº 10980.003414/200317 Acórdão n.º 3302005.476 S3C3T2 Fl. 1.108 21 8. Recurso Especial provido, divergindo do ministro relator. (STJ/Primeira Turma; REsp nº 840556; Relator Ministro Francisco Falcão; DJe 20/11/06) Portanto, a questão foi levada ao Poder Judiciário, não cabendo mais a manifestação do Contencioso Administrativo da Receita Federal do Brasil em função do instituto da CONCOMITÂNCIA. Nos termos do Parecer Normativo Cosit nº 7, de 22 de agosto de 2014: 21. Por todo o exposto, concluise que: a) a propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública, em qualquer momento, com o mesmo objeto (mesma causa de pedir e mesmo pedido) ou objeto maior, implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto, exceto quando a adoção da via judicial tenha por escopo a correção de procedimentos adjetivos ou processuais da Administração Tributária, tais como questões sobre rito, prazo e competência. b) por conseguinte, quando diferentes os objetos do processo judicial e do processo administrativo, este terá prosseguimento normal no que concerne à matéria distinta; http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.ac tion?idArquivoBinario=0 c) a renúncia às instâncias administrativas abrange os processos de constituição de crédito tributário, de reconhecimento de direito creditório do contribuinte (restituição, ressarcimento e compensação), de aplicação de pena de perdimento e qualquer outro processo que envolva a aplicação da legislação tributária ou aduaneira; http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.ac tion?idArquivoBinario=0 d) a decisão judicial transitada em julgado, seja esta anterior ou posterior ao término do contencioso administrativo, prevalece sobre a decisão administrativa, mesmo quando aquela tenha sido desfavorável ao contribuinte e esta lhe tenha sido favorável; http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.ac tion?idArquivoBinario=0 e) a renúncia às instâncias administrativas não impede que a Fazenda Pública dê prosseguimento normal aos seus procedimentos, a despeito do ingresso do sujeito passivo em juízo; proferirá, assim, decisão formal, declaratória da definitividade da exigência discutida ou da decisão recorrida, e deixará de apreciar suas razões e de conhecer de eventual petição por ele apresentada, encaminhando o processo para a inscrição em DAU do débito, quando existente, salvo a ocorrência de hipótese que suspenda a exigibilidade do crédito tributário, nos termos dos incisos II, IV e V do art. 151 do CTN; http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.ac tion?idArquivoBinario=0 f) o mesmo raciocínio se aplica, no que couber, aos processos administrativos em que não se discuta a exigibilidade do crédito tributário lançado de ofício, mas Fl. 1118DF CARF MF 22 envolvam quaisquer outras matérias de interesse do sujeito passivo, que ele opte por submeter ao exame do Poder Judiciário (nestes casos, de igual modo, o curso do processo administrativo não será suspenso, ressalvada decisão judicial incidental determinando sua suspensão); (...) (Grifo e negrito nossos) Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de não conhecer o Recurso do Contribuinte. É como voto. Jorge Lima Abud Fl. 1119DF CARF MF
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Numero do processo: 10480.006259/2002-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2001
COMPENSAÇÃO. PREJUÍZO FISCAL E BASE NEGATIVA. COMPROVAÇÃO EM DILIGÊNCIA. GLOSAS INDEVIDAS
Comprovado o direito creditório do contribuinte, em valor suficiente para a utilização em declaração de compensação ou restituição, cabe a homologação da PERDCOMP.
Numero da decisão: 1302-002.783
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente
(assinado digitalmente)
Rogério Aparecido Gil - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gustavo Guimaraes da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: ROGERIO APARECIDO GIL
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2001 COMPENSAÇÃO. PREJUÍZO FISCAL E BASE NEGATIVA. COMPROVAÇÃO EM DILIGÊNCIA. GLOSAS INDEVIDAS Comprovado o direito creditório do contribuinte, em valor suficiente para a utilização em declaração de compensação ou restituição, cabe a homologação da PERDCOMP. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gustavo Guimaraes da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 00 62 59 /2 00 2- 32 Fl. 577DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 3 2 Tratase de recurso voluntário interposto face ao Acórdão nº 15.024, de 07/04/2006, da DRJ de Recife (PE) que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, mantendo a decisão da DRF que, não homologou DCOMP da recorrente. O acórdão recorrido registrou a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2001 Ementa: COMPENSAÇÃO. REQUISITO. Nos termos do art. 170 do CTN, somente são compensáveis os créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. Rest/Ress. Indeferido Comp. não homologada O Recorrente apurou em 31/12/2001 saldo negativo de IRPJ relativamente àquele anobase no valor de R$11.425.920,30 (fls. 66 DIPJ/2002), o qual foi objeto Pedido de Restituição protocolado em 30/04/2002, ocasião em que apresentou também Pedido de Compensação com a CSL devida nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2002 (fls. 01), dando origem ao presente processo. Incidentalmente aos Pedidos de Restituição e Compensação formulados em 30/04/2002, o Recorrente formulou nas datas de 18/02/2003, 15/04/2003 e 30/04/2003 quatro Pedidos de Compensação relativos a débitos próprios de IRF, PIS, COFINS, IRPJ e CSL, todos constantes destes autos. Ao analisar referidos pedidos, o Serviço de Orientação e Análise Tributária solicitou ao Serviço de Fiscalização "a realização de diligência junto à contabilidade e aos livros fiscais da empresa acima identificada, a fim de que fosse verificado o real valor das restituições por ela pleiteadas..." (fls. 72), o que foi realizado mediante expedição de MPFD n° 04.1.002004003897 (fls. 77), cujo relatório, reportandose à diligência anteriormente efetuada nos autos do processo n° 10480.001670/200301, embora expressamente reconhecendo a existência do saldo negativo no valor de R$ 11.413.424,21, entendeu ser indevida a compensação porque, segundo o auditor fiscal responsável pelo Relatório Fiscal, haveria naquele ano de 2001 IRPJ a pagar e não a restituir, sendo que o saldo positivo de imposto a pagar decorreria de suposta dedução indevida de despesa de ágio, quando da apuração do lucro real, tendo sido determinada a lavratura de "auto de infração exatamente em relação à glosa de deduções na apuração do lucro real da empresa " (fls. 84). Assim, a referida diligência de 20/12/2004 originou o processo administrativo n° 19647.013200/200497, no qual foram exigidos IRPJ e CSL, acrescidos de multa de ofício de 75% e juros de mora, relativamente aos fatos geradores ocorridos em 31/12/2001 e 31/08/2002. Ocorre que quando do lançamento relativo ao fato gerador de 31/12/2001, o fiscal autuante "compensou" do valor apurado a título de IRPJ no auto de infração, o saldo negativo de IRPJ apurado no anobase 2001 no montante de R$l1.413.421,21 que, segundo a recorrente, equivaleria ao crédito reconhecido nos presentes autos como passível de restituição, como teria sido constatado no próprio Termo de Verificação Fiscal, cuja cópia foi anexada à fl. 140 dos presentes autos, "verbis": Fl. 578DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 4 3 "2.6) COMPENSAÇÃO NO AUTO DE INFRAÇÃO IRPJ PAGO POR ESTIMATIVA NOS ANOS CALENDÁRIOS DE 2001 E 2002. Conforme verificamos, a fiscalizada apresentou crédito de IRPJImposto de Renda Pessoa Jurídica, decorrente do Imposto de Renda pago por estimativa e Imposto de Renda retido na fonte, lançados nas DIPJs, dos Anos Calendários de 2001 e 2002 (apurados em 31/12/2001 e 31/08/2002), conforme consta das Fichas 12 A linha 18 Imposto de Renda a Pagar, nos valores de R$ (11.425.920,30) eR$(l 1.924.789,29), respectivamente. Das verificações efetuadas nos documentos de apoio aos referidos créditos, apuramos os seguintes créditos decorrentes de IRPJ pago por estimativa e Imposto de Renda Retido na Fonte, a saber: DIPJ Ano calendario 2001 Apuração 31/12/2001 (docfls. 1295/1369). R$11.413.421,21 DIPJ Ano calendario 2002 Apuração 31/08/2002 (docfls. 1246/1294). R$l 1.924.782,29 Face ao exposto, estamos procedendo à compensação dos referidos créditos tributários no Auto de Infração do IRPJ, nos respectivos períodos de apuração. " g.n. Paralelamente, nos presentes autos foi proferido o Despacho Decisorio SEORT/IRPJ de fls. 147 no seguinte sentido: 1) Não homologo a compensação dos créditos de IRPJ com os débitos indicados às fls. 02, 25, 37, 49 e 61, haja vista a inexistência dos créditos informados; 2) Determino a cobrança dos débitos não compensados constantes das declarações de compensação anexas ao mesmo." Em face do despacho decisório, a recorrente apresentou manifestação de inconformidade sustentando a improcedência de referida decisão, tendo em vista que: a) as declarações de compensação são anteriores à lavratura do auto de infração que originou o processo n° 19647.013200/200497; b) o crédito tributário objeto do auto de infração estava com exigibilidade suspensa (e assim permanece), pendendo de apreciação o recurso voluntário interposto naqueles autos, não havendo que se falar, exatamente por isso, em utilização efetiva dos créditos objeto de restituição neste feito naquele processo. Diante do indeferimento de sua manifestação de inconformidade, a recorrente interpôs recurso voluntário, admitido por ser tempestivo, pela 2ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara, da 1ª Seção (extinta), conforme Resolução nº 110200.089, de 12/06/2012, por meio da qual converteu o julgamento em diligência, designandose as seguintes providências à DRF de origem: Em vista da natureza dos argumentos aduzidos pela Contribuinte e da notória relação de prejudicialidade entre este processo e o PA n. 19647.013200/200497, proponho a conversão do julgamento em diligência para que seja determinada a baixa desses autos à Delegacia de Origem para que esta aguarde o julgamento Fl. 579DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 5 4 definitivo dos recursos interpostos no PA n. 19647.013200/200497 e proceda, se o caso, o recálculo do direito creditório pretendido pelo Contribuinte nesses autos de acordo com a revisão dos lançamentos reflexos determinada naquele PA. Após tais providências, lavrar Relatório de Diligência circunstanciado e dele dar ciência à Contribuinte para sobre ele se manifestar, no prazo de 30 (trinta) dias, retornandose os autos a esse Colegiado para ulterior julgamento. Em cumprimento à diligência, a DRF juntou cópia do Acórdão nº 1201 000.285, de 09/07/2010 (fls. 334/354) da extinta 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção do CARF, proferido no referido Proc. 19647.013200/200497, que julgou procedente em parte o recurso voluntário para determinar alterações no lançamento. Juntou, ainda, cópia do despacho que não admitiu o respectivo recurso voluntário interposto pela Fazenda Nacional (fls. 355 e 356), transitando em julgado o referido acórdão; cópia da Informação Fiscal, de 19/05/2014 (fls. 357/375); cópia da manifestação da recorrente sobre a Informação Fiscal (fls. 376/505); cópia da Informação Fiscal que reconheceu erro de digitação na Informação Fiscal de 19/05/2014, retificando o valor do direito creditório reconhecido de R$11.824.782,20, para R$11.924.782,29; e cópia do despacho que determinou o retorno dos autos ao CARF. Além de sua manifestação sobre a Informação Fiscal, a recorrente, à vista do julgamento definitivo do referido Proc. 19647.013200/200497, também juntou a petição e documentos de fl. 514/537, dos quais transcrevemse as seguintes informações: (...) dar ciência a V.Sa. de que já foi proferida decisão definitiva nos autos do |Processo Administrativo n° 19647.013200/200497, a qual já foi inclusive implementada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil no Recife às fls. 1924/1932 e 2394/2395 daqueles autos, conforme cópias anexas (doc. 1.), tendo a Informação Fiscal lavrada reconhecido expressamente que: (i) em razão do provimento parcial do recurso voluntário interposto nos autos daquele Processo Administrativo foram recalculados e restabelecidos os saldos de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSL; e (ii) em razão do restabelecimento dos saldos de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSL, restaram canceladas as compensações de ofício com os saldos negativos de IRPJ dos anoscalendários de 2001 e 2002, realizadas pela fiscalização quando da lavratura do auto de infração que deu origem ao Processo Administrativo, restabelecendose os respectivos saldos negativos. De se ressaltar que a compensação objeto do presente processo só não foi homologada em razão da inexistência do crédito indicado em face justamente da compensação de ofício procedida nos autos do Processo Administrativo n° 19647.013200/200497, agora cancelada. O referido acórdão nº 1201000.285, de 09/07/2010 da extinta 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção do CARF, proferido no referido Proc. 19647.013200/2004 97, registrou os seguintes termos em suas disposições finais: Diante do exposto, voto no sentido de não conhecer do recurso da Contribuinte no que tange a matéria relativa à execução do crédito tributário lançado nos presentes autos, e por conhecer do restante da irresignação, para no mérito, dar lhe parcial provimento, de modo a: Fl. 580DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 6 5 (i) no que tange à glosa relativa às deduções das contrapartidas de amortização do ágio vertido à contribuinte, manter a exigência de IRPJ apenas em relação às glosas relativas ao ágio vertido na operação de cisão de BPBR Empreendimentos Ltda. (itens 2.3.1 e 2.3.2 do Termo de Verificação Fiscal); e afastar integralmente as glosas relativas à CSLL em relação ambas as operações societárias; (ii) cancelar a glosa das despesas relacionadas aos encargos de manutenção da dívida assumida pela Contribuinte por ocasião da cisão ocorrida na BPBR Empreendimentos Ltda. em 16/04/2002; (iii) cancelar parcialmente os lançamentos reflexos de IRPJ e CSLL (Item 2.5 Glosa de Compensação de Prejuízos Fiscais e Item 2.6 Compensação no Auto de Infração IRPJ pago por estimativa nos anos calendários de 2001 e 2002, e Item 3.2 Compensação de Base Negativa da CSLL), que devem ser recalculado para refletir os cancelamentos das glosas de CSLL ora determinados; (iv) manter a apuração dos juros de mora pela taxa SELIC; e (v) cancelar a apuração de juros de mora sobre as multas aplicadas. Diante dessa determinação do referido Acórdão nº 1201000.285 (Proc. 19647.013200/200497), quanto ao recálculo para refletir os cancelamentos das glosas de CSLL, a DRF Recife recebeu os autos do Proc. 19647.013200/200497, bem assim os processos referentes às utilizações do crédito parcialmente reconhecido, nos termos do referido acórdão nº 1201000.285. Promoveu a abertura do Dossiê Eletrônico nº 10010.013267/0316 58, de 10/03/2016 (10/03/2016) e procedeuse às devidas verificações, quanto aos débitos efetivamente compensados e os valores que remanesceram para posterior cobrança, conforme Relatório de Informação Fiscal a seguir transcrito: Chegaram ao Setor de Liquidação do SEORT/DRFRecife diversos processos ligados ao contribuinte acima identificado, nos quais foram analisados créditos relativos a saldo credor de IRPJ dos anoscalendário de 2001 e 2002, relativos aos exercícios 2002 e 2003. Verificouse que, conforme decisão prolatada pelo CARF nos autos do processo n° 19647.000697/200483, foi realizada diligência por parte da fiscalização desta delegacia junto ao contribuinte a fim de verificar os efeitos da decisão proferida no processo n° 19647.013200/200497, onde foram lavrados autos de infração de IRPJ que teriam influência sobre os créditos em análise naquele processo. Da realização da fiscalização foi elaborada informação fiscal informando que os créditos a que fazia jus a empresa, relativos aos anoscalendário 2001 e 2002 eram os abaixo relacionados. AnoCalendário Exercício Valor do Crédito apurado pela fiscalização Valor do Crédito Reconhecido pelo CARF 2001 2002 11.413.421,21 11.413.421,21 2002 2003 11.924.782,29 11.924.782,29 Reconhecendo a existência dos créditos conforme acima detalhados, o CARF deu provimento ao recurso voluntário e homologou as compensações declaradas pela empresa até o limite do crédito reconhecido. Assim, o processo retornou a este Fl. 581DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 7 6 SEORT a fim de serem feitos os cálculos da compensação do crédito reconhecido, ciência à empresa e cobrança dos débitos acaso remanescentes após a compensação. Ao iniciar o cumprimento desta tarefa, verificouse a existência de diversos outros processos e PER/DCOMP cujos débitos se encontravam vinculados a estes mesmos créditos. Desta forma, a fim de cumprir fielmente a decisão do CARF e evitaremse prejuízos ao contribuinte e à Fazenda, farseia necessário que todas as compensações fossem apuradas de uma única vez com o valor dos créditos já reconhecidos e que o resultados desta compensação fosse informado em todos os processos relativos a estes créditos, inclusive aos que ainda estão em tramitação junto ao CARF, a fim de que os procedimentos de compensação se tornassem uniformes a todos os processos. A realização desta compensação em um único procedimento é necessária porque as datas de compensação devem seguir rigorosamente a ordem de apresentação dos débitos por meio dos processos ou PER/DCOMP. Do exposto, iremos, de início relacionar todos os processos que estão vinculados aos valores de crédito de saldo negativo de IRPJ dos anoscalendário de 2001 e 2002, relacionados pela ordem em que as compensações foram apresentadas para fins de valoração das datas de compensação. Processos Vinculados ao Crédito do anocalendário 2001 Processo ou PER/DCOMP Localização 10480.006259/2002-32 [presente processo] CARF 10480.001670/2003-01 CARF 10480.003514/2003-76 CARF 01845.55 58.120803.1.3.02-1551 SEORT/DRF-Recife Processos Vinculados ao Crédito do anocalendário 2002 Processo ou PER/DCOMP Localização 19647.000357/2003-71 CARF 19647.001919/2003-02 CARF 19647.000697/2004-83 SEORT/DRF-Recife 14714.11783.040204.1.7.02-5804 SEORT/DRF-Recife 19570.10120.200204.1.3.02-2670 SEORT/DRF-Recife 19647.003910/2006-71 SEORT/DRF-Recife 19647.003912/2006-60 SEORT/DRF-Recife 19647.003911/2006-15 SEORT/DRF-Recife 38086.97562.240907.1.2.02-0595 SEORT/DRF-Recife Com base nos créditos reconhecidos pelo CARF para estes anos, foi realizado o confronto com estes e os débitos declarados pelo contribuinte nos diversos processos e PER/DCOMP. Da realização da compensação resultou o seguinte. Débitos compensados com Crédito do anocalendário 2001 Fl. 582DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 8 7 Concluise que em relação aos créditos de IRPJ deferidos do anocalendário 2001, fo i possível a compensação de todos os débitos a ele vinculados e, ainda, remanesceu um crédito no valor original de R$ 1.365.102,98. Débitos compensados com Crédito do anocalendário 2002 Fl. 583DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 9 8 Crédito do anocalendário 2002 utilizado na compensação Fl. 584DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 10 9 Concluise, com relação a compensação dos créditos do anocalendário 2002 que estes não foram suficientes para quitar todos os débitos a ele vinculados e ainda sobraram débitos que não foram integralmente compensados cujos valores a cobrar encontramse discriminados na coluna SALDO na tabela discriminativa dos débitos declarados para compensação. CONCLUSÃO À vista do exposto, a fim de que sejam uniformizados os procedimentos de compensação envolvendo os créditos acima narrados e que se encontram em diversos processos espalhados por diversas instâncias processuais, determino que sejam juntados a cada um dos processos envolvidos nesta análise, cópia dos documentos componentes deste dossiê e desta informação a fim de que sejam adotados os procedimentos de cobrança e/ou compensação em relação aos débitos envolvidos e, também, a fim de que os julgadores do CARF que ainda realizarão a análise de outros processos que se encontram naquela instância sejam informados do resultado da análise dos mesmos créditos que foi realizada em outros processos para que se evitem julgamentos conflitantes. Ao Setor de Liquidação do SEORT para as providências a seu cargo. Esses os fatos e fundamentos relevante para o julgamento do presente caso. Voto Conselheiro Rogério Aparecido Gil Relator Na forma verificada, por ocasião da conversão do julgamento em resolução, o recurso voluntário foi conhecido, à vista da tempestividade e do preenchimento dos demais requisitos de admissibilidade (afixado edital de fls. 214, em 23/02/2007 (sextafeira); considerouse intimado o contribuinte 15 dias após aquela data: 12/03/2007; o "dies a quo" seria: 11/04/2007; o recurso voluntário foi protocolado, em 09/04/2017). A diligência designada pela referida extinta 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção do CARF foi cumprida, conforme relatado, e o julgamento definitivo do recurso voluntário da recorrente, no referido Proc. 19647.013200/200497, julgou procedente em parte o recurso voluntário para determinar alterações no lançamento. Assim, restou superada a prejudicialidade sustentada pela recorrente. À vista da Informação Fiscal (fls. 542/568), registrada no referido dossiê eletrônico e juntada a estes autos, a DRF verificou que, conforme decisão prolatada pelo CARF nos autos do processo n° 19647.000697/200483, foi realizada diligência por parte da fiscalização desta delegacia junto ao contribuinte a fim de verificar os efeitos da decisão Fl. 585DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 11 10 proferida no processo n° 19647.013200/200497, onde foram lavrados autos de infração de IRPJ que teriam influência sobre os créditos em análise naquele processo. Da realização da fiscalização foi elaborada informação fiscal informando que os créditos a que fazia jus a empresa, relativos aos anoscalendário 2001 e 2002 eram os abaixo relacionados. AnoCalendário Exercício Valor do Crédito apurado pela fiscalização Valor do Crédito Reconhecido pelo CARF 2001 2002 11.413.421,21 11.413.421,21 2002 2003 11.924.782,29 11.924.782,29 Reconhecendo a existência dos créditos conforme acima detalhados, o CARF deu provimento ao recurso voluntário e homologou as compensações declaradas pela empresa até o limite do crédito reconhecido. Assim, o processo retornou a este SEORT a fim de serem feitos os cálculos da compensação do crédito reconhecido, ciência à empresa e cobrança dos débitos acaso remanescentes após a compensação. Ao iniciar o cumprimento desta tarefa, verificouse a existência de diversos outros processos e PER/DCOMP cujos débitos se encontravam vinculados a estes mesmos créditos. Desta forma, a fim de cumprir fielmente a decisão do CARF e evitaremse prejuízos ao contribuinte e à Fazenda, farseia necessário que todas as compensações fossem apuradas de uma única vez com o valor dos créditos já reconhecidos e que o resultados desta compensação fosse informado em todos os processos relativos a estes créditos, inclusive aos que ainda estão em tramitação junto ao CARF, a fim de que os procedimentos de compensação se tornassem uniformes a todos os processos. Concluiuse que, a realização desta compensação em um único procedimento era necessária porque as datas de compensação deveriam seguir rigorosamente a ordem de apresentação dos débitos por meio dos processos ou PER/DCOMP. Verificase que, relacionaramse os processos que estão vinculados aos valores de crédito de saldo negativo de IRPJ dos anoscalendário de 2001 e 2002, indicados pela ordem em que as compensações foram apresentadas para fins de valoração das datas de compensação. Processos Vinculados ao Crédito do anocalendário 2001 Processo ou PER/DCOMP Localização 10480.006259/2002-32 [presente processo] CARF 10480.001670/2003-01 CARF 10480.003514/2003-76 CARF 01845.55 58.120803.1.3.02-1551 SEORT/DRF-Recife Processos Vinculados ao Crédito do anocalendário 2002 Processo ou PER/DCOMP Localização 19647.000357/2003-71 CARF 19647.001919/2003-02 CARF 19647.000697/2004-83 SEORT/DRF-Recife 14714.11783.040204.1.7.02-5804 SEORT/DRF-Recife 19570.10120.200204.1.3.02-2670 SEORT/DRF-Recife Fl. 586DF CARF MF Processo nº 10480.006259/200232 Acórdão n.º 1302002.783 S1C3T2 Fl. 12 11 19647.003910/2006-71 SEORT/DRF-Recife 19647.003912/2006-60 SEORT/DRF-Recife 19647.003911/2006-15 SEORT/DRF-Recife 38086.97562.240907.1.2.02-0595 SEORT/DRF-Recife Com base nos créditos reconhecidos pelo CARF para estes anos, a DRF realizou o confronto com estes e os débitos declarados pelo contribuinte nos diversos processos e PER/DCOMP. Conforme quadros reproduzidos no relatório, retro, referente ao ano calendário 2001, verificase que os créditos da recorrente utilizados nos pedidos de restituição/compensação em questão (PERDCOMPs), referentes somente ao ano calendário 2001, foram suficientes para liquidar os débitos que envolvem os presentes autos (Proc. 10480.006259/200232) e, ainda, sobejaram R$1.365.102,98, conforme conclusão da DRF, abaixo reproduzida: Concluise que em relação aos créditos de IRPJ deferidos do anocalendário 2001, fo i possível a compensação de todos os débitos a ele vinculados e, ainda, remanesceu um crédito no valor original de R$ 1.365.102,98. Assim demonstrado pela DRF, em cumprimento à Resolução em referência, é de se acolher o pedido da recorrente. Por todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Fl. 587DF CARF MF
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Numero do processo: 13603.904422/2011-70
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 30/11/2005
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACOLHIMENTO.
Na existência de obscuridade, omissão ou contradição no acórdão proferido os embargos devem ser acolhidos.
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OBSCURIDADE. CONSTATAÇÃO.
Verificada a omissão/obscuridade alegada pela embargante é necessário sanar a decisão prolatada, proferindo-se nova decisão colegiada.
Numero da decisão: 3001-000.351
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em acatar a preliminar suscitada e, no mérito, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes (modificativos), para dar provimento parcial e cancelar o Despacho Decisório por vício material.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 30/11/2005 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACOLHIMENTO. Na existência de obscuridade, omissão ou contradição no acórdão proferido os embargos devem ser acolhidos. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OBSCURIDADE. CONSTATAÇÃO. Verificada a omissão/obscuridade alegada pela embargante é necessário sanar a decisão prolatada, proferindose nova decisão colegiada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em acatar a preliminar suscitada e, no mérito, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes (modificativos), para dar provimento parcial e cancelar o Despacho Decisório por vício material. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante. Relatório Tratamse de Embargos de Declaração opostos pela União Fazenda Nacional (efls. 64 a 67), com fulcro no artigo 65, Anexo II, do Regimento Interno do AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 90 44 22 /2 01 1- 70 Fl. 72DF CARF MF 2 Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Ricarf, aprovado pela Portaria MF 343, de 09.06.2015, em face do Acórdão de Recurso Voluntário 3001000.160 (efls. 53 a 62), de minha relatoria. Dos fatos Relembrando os fatos de interesse, temse que a PGFN, por meio de sua Procuradora, manifestouse, depois de intimada do Acórdão 3001000.160, nos termos que a seguir reproduzo, por sua concisão e clareza: (...) DAS RAZÕES DOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO A Declaração de Compensação gerada pelo programa PER/DCOMP foi transmitida com o objetivo de ter reconhecido o direito creditório correspondente a COFINS Código de Receita 5856, no valor original na data de transmissão de R$ 13.684,40, representado por Darf recolhido em 15/12/2005, para efeito de compensálo com o(s) débito(s) discriminado(s) no referido PER/DCOMP. A compensação não foi homologada em face do não reconhecimento do crédito apontado por ter sido identificado a utilização do DARF para pagamento de débitos do contribuinte. Em grau recursal, esta Turma proferiu o acórdão nº 3001 000.160, assim ementado: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 30/11/2005 DESPACHO DECISÓRIO. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. DCTF RETIFICADORA. EFEITOS. Em face de a DCTF retificadora ter a mesma natureza e efeitos da declaração original, é imprestável os fundamentos do despacho decisório proferido com fundamento nesta última, quando consta dos autos a informação de que a DCTF retificadora fora entregue a tempo de se proceder à sua regular auditoria de procedimentos.” Esta decisão, no entanto, incorre em omissão sobre questão essencial à solução da lide. O voto vencedor se pronunciou no seguinte sentido: “outro norte, temse o Acórdão 3201003.071, de 27.07.2017, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, Processo 19740.900036/200904, da lavra do Conselheiro Relator Paulo Roberto Duarte Moreira, cujas razões de decidir passo a adotar para fundamentar o presente voto: (...) Fl. 73DF CARF MF Processo nº 13603.904422/201170 Acórdão n.º 3001000.351 S3C0T1 Fl. 73 3 Da conclusão Por todo o exposto, conheço do recurso voluntário e dou lhe provimento.” Como visto, a decisão embargada é omissa, pois não indica em que precisos termos ocorreu o provimento do recurso voluntário. O referido vício também pode ser enquadrado como obscuridade, uma vez que suscita dúvidas, não sendo possível determinar com precisão quais as providências cabíveis para eventual execução do julgado. A respeito, cabe inclusive ressaltar que o Acórdão 3201 003.071, Processo 19740.900036/200904, a cujos termos se reporta a decisão embargada, trouxe o seguinte fundamento e dispositivo: “Quanto ao pedido da recorrente de não declarar a nulidade na hipótese do mérito lhe ser favorável, entendo não ser a melhor solução à lide. Isto porque possível enfrentamento do mérito pela Turma somente se efetivaria diante de elementos carreados aos autos que permitissem decidir o direito, e tais elementos não prescindiriam de diligência à unidade de origem, providência que julgo menos eficiente que novo despacho decisório. Ademais, não pode o CARF suprir deficiência instrutória ainda que em sede de compensação, pois à luz do art. 10 da IN RFB nº 903/2008: "Os valores informados na DCTF serão objeto de procedimento de auditoria interna". De se observar que procedimento algum fora realizado em relação à apuração dos valores da compensação, sejam débitos ou créditos. Não podem as autoridades administrativas omitiremse de analisar a materialidade dos débitos e créditos em compensação, eis que do contrário comprometem a regularidade do processo administrativo de restituição e compensação de tributos, cuja implicação é a manifesta nulidade nos termos do art. 59, II do PAF. (...) Conclusão Diante do exposto, em respeito aos princípios da ampla defesa e do contraditório, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso, para cancelar o despacho decisório, por vício material.” Portanto, naqueles autos, ao contrário do que ocorreu no presente feito, ficou devidamente clara a delimitação do provimento do recurso voluntário e quais providências deveriam ser adotadas para a execução do julgado. Fl. 74DF CARF MF 4 O citado vício ganha especial relevância quando se constata que o contribuinte interessado formulou pedido no recurso voluntário para homologar a compensação pleiteada. Assim, por um lado a decisão embargada adota como fundamentos as razões de uma determinada decisão que traz como conclusão a determinação de cancelamento do despacho decisório, de modo que outro seja proferido em seu lugar dessa vez considerando o teor da DCTF retificadora. Contudo, por outro lado, o mesmo acórdão embargado apenas dá provimento ao recurso voluntário, sem qualquer delimitação ou ressalva, depreendendose a partir daí o acolhimento do pedido de homologação da compensação feito pelo contribuinte em sua peça recursal. Caracterizados, portanto, os vícios da omissão e da obscuridade. Nesses termos, revelase a necessidade de se aclarar o decisum, sanando as omissões/contradições/obscuridades acima apontadas, a fim de que a decisão deste Colegiado mostrese consetânea com tudo o que destes autos consta, bem como para que seu conteúdo reste claro e completo, não deixando qualquer margem de dúvidas para a interposição de recurso especial e/ou execução do julgado. Ante o exposto, requer a União (Fazenda Nacional) que sejam conhecidos e providos os presentes Embargos de Declaração, para sanar os vícios apontados. Do despacho de admissibilidade dos aclaratórios Submetido à análise de admissibilidade, os aclaratórios foram admitidos por meio do Despacho 3000S/Nº 3ª Seção / 1ª Turma Extraordinária (efls. 69/70), por mim exarado em 19.03.2018, nos seguintes termos: (...) O arrazoado de fls. 63 a 66, após síntese dos fatos relacionados com a lide, acusa a decisão do vício de omissão, pois não indica em que precisos termos ocorreu o provimento do recurso voluntário, o que também poderia ser enquadrado como obscuridade, uma vez que suscita dúvidas, não sendo possível determinar com precisão quais as providências cabíveis para eventual execução do julgado. São esses os fatos. Passo à análise dos pressupostos de admissibilidade do apelo. Nos termos do art. 65 do RICARF, cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciarse a Turma, e poderão ser interpostos, mediante petição fundamentada, no prazo de cinco dias contados da ciência do acórdão. Os autos digitais foram encaminhados à PGFN para ciência da decisão embargada, em 08/02/2018 (fls. 62). Assim sendo, considerandose o prazo estabelecido no § 5º do art. 7º da Fl. 75DF CARF MF Processo nº 13603.904422/201170 Acórdão n.º 3001000.351 S3C0T1 Fl. 74 5 Portaria MF nº 527, de 9 de novembro de 2010, o recurso, apresentado em 05/03/2018 (fls. 67), é francamente tempestivo. (...) As alegações do embargante quanto ao alcance do provimento dado são procedentes. Se, por um lado, a decisão embargada adota como fundamento as razões de uma determinada decisão, que traz como conclusão a determinação de cancelamento do despacho decisório, de outro, não fica claro se a decisão embargada homologou a compensação, conforme pedido do recorrente, ou cancelou o despacho decisório, na esteira da decisão invocada como razão de decidir. O ponto merece ser esclarecimento. Conclusão Com essas considerações, para os fins previstos no § 7º do art. 65 do RICARF, com a redação que lhe foi dada pela Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016, acolho os embargos interpostos para saneamento dos vícios apontados. É o relatório. Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Dos pressupostos de admissibilidade Preenchidos os requisitos de admissibilidade dos Embargos de Declaração, passo ao exame do mérito, nos termos do parágrafo 1º do artigo 65, Anexo II, do Ricarf. Da cronologia dos fatos O requerente, com vista a pleitear o direito creditório que alega possuir, transmitiu em 29.01.2008 a Per/Dcomp 28459.50968.290108.1.3.043507 (efls. 02 a 06). O Despacho Decisório Número de Rastreamento 952424906 (efl. 07), referindose ao mencionado Per/Dcomp, foi emitido em 09.09.2011 e cientificado ao pleiteante em 23.09.2011 (efls. 09/10). Na Manifestação de Inconformidade, apresentada em face do despacho decisório, mais especificamente em seu item "2", o recorrente esclarece (efls.11/12): 2 Em 29/10/2009 providenciamos a retificação da DCTF de nº original 22.58.09.63.7578, que abrange o período de 01/07/2005 à 31/12/2005, através da retificadora de nº 1000.000.2009.201047430, cujo recibo é o de nº 10.67.99.90.89 20, recebida e processada em 29/10/2009, aqui anexada. Fl. 76DF CARF MF 6 A Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF Retificadora, processada em 29.10.2009, que acompanhou a manifestação de inconformidade, referese ao mês de Fevereiro/2005 (efls. 20 a 30). No Recurso Voluntário, dentre outras alegações, o recorrente, com arrimo no princípio da presunção relativa, reafirma que a retificação da DCTF não lhe retira o direito ao crédito. Salienta que em momento algum tal circunstância foi objeto de questionamento. Assevera que o procedimento adotado e a origem do crédito são idênticas, não havendo falar em inexistência de crédito liquido e certo. Conclui que seu direito é incontroverso, pois o valor foi informado incorretamente na DCTF que posteriormente foi corrigido através da retificação. Do mérito A ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional PGFN aponta que a decisão atacada padece de omissão e/ou obscuridade, na medida em que deixou de apontar com precisão em que termos ocorreu o provimento do respectivo recurso voluntário, suscitando dúvidas quanto às providências cabíveis relativamente à execução do referido julgado. O vício de omissão/contradição restou devidamente demonstrado nos presentes aclaratórios. O simples cotejo entre os pertinentes excertos do voto vencedor do Acórdão 3201003.071, de 27.07.2017, que deu guarida e fundamento ao julgado embargado e o dispositivo deste último do confirma o asseverado, vejamos: Voto (...) No caso dos autos, não ha incidência de nenhuma das hipóteses de inadmissibilidade da DCTF retificadora. Ademais, a retificação da DCTF em questão operouse ao abrigado da espontaneidade, porquanto efetuada antes de qualquer procedimento do Fisco. Nessas circunstâncias, a DCTF retificadora apresentada alterou eficazmente a situação jurídica anterior; contudo, os efeitos da retificação da DCTF foram solenemente desconsiderados no despacho decisório. A nova realidade estampada na DCTF retificadora tem de ser devidamente avaliada pela Autoridade Fiscal, quanto à sua liquidez e certeza. Somente após tal providência é que eventualmente poderá ser denegada a repetição e não homologada a compensação. (...) Não podem as autoridades administrativas omitiremse de analisar a materialidade dos débitos e créditos em compensação, eis que do contrário comprometem a regularidade do processo administrativo de restituição e compensação de tributos, cuja implicação é a manifesta nulidade nos termos do art. 59, II do PAF. (...) Conclusão Fl. 77DF CARF MF Processo nº 13603.904422/201170 Acórdão n.º 3001000.351 S3C0T1 Fl. 75 7 Diante do exposto, em respeito aos princípios da ampla defesa e do contraditório, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso, para cancelar o despacho decisório, por vício material.” Dispositivo do Acórdão Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Diante dessa constatação, temse que de fato o que ocorreu foi mera omissão, por parte deste Conselheiro, quanto ao alcance do provimento dado ao Recurso Voluntário e, por conseguinte, às providências dele decorrente, para a efetiva execução do referido julgado. Dessa forma, evidenciado o equívoco e, por conseguinte, reformulando o dispositivo do acórdão, cabe conhecer do Recurso Voluntário para darlhe provimento parcial, para cancelar o Despacho Decisório, por vício material. Conclusão Diante do exposto, conheço e recebo os embargos para integrar ao V. Acórdão na forma indicada no parágrafo precedente. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 78DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.965278/2012-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Mar 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon May 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007
NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. VÍCIO NÃO CONFIGURADO. PRELIMINAR REJEITADA.
Tendo o despacho decisório eletrônico adequada fundamentação, motivação e demonstrativo quanto às questões decididas, não restou configurado o alegado cerceamento do direito de defesa.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. NÃO APRESENTAÇÃO DE INFORME DE RENDIMENTOS. PEDIDO DE DILIGÊNCIA REJEITADO.
Nos autos do processo de compensação tributária, o contribuinte é autor do pedido de compensação tributária.
O ônus da prova incumbe ao autor quanto ao fato constitutivo do seu direito creditório pleiteado, consoante Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 2015, art. 373, I) de aplicação subsidiária ao processo administrativo tributário federal, e com observância do Decreto nº 70.235/72 (arts. 15 e 16).
Incumbe ao contribuinte a demonstração, acompanhada das provas hábeis e idôneas, da existência do crédito que alega possuir contra Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa.
Os requisitos ou atributos de liquidez e certeza quanto ao crédito objetado contra a Fazenda Nacional devem estar preenchidos ou satisfeitos quando da transmissão da DCOMP, data em que a compensação tributária se efetiva, sob condição resolutória.
A busca da verdade material não autoriza o julgador a substituir o interessado na produção das provas.
DCOMP. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. SALDO NEGATIVO .
O saldo negativo, passível de compensação tributária, é aquele apurado ao final do período a partir do confronto entre o imposto devido ou contribuição devida e as parcelas já antecipadas.
O reconhecimento de direito creditório, relativo a saldo negativo apurado no final do período, para ulterior compensação com débitos vencidos ou vincendos, condiciona-se à demonstração de sua certeza e liquidez,o que inclui a comprovação das retenções na fonte levadas à dedução, por meio dos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras, nos termos da legislação de regência.
Admite-se a utilização das retenções na fonte como dedução na apuração do da exação fiscal ao final do período, quando comprovada a ocorrência da retenção por meio dos respectivos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras em nome do beneficiário, o que pode ser suprido pela confirmação em DIRF, e desde que comprovado, ainda, o oferecimento à tributação dos correspondentes rendimentos que sofreram as retenções.
Numero da decisão: 1301-002.907
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e o pedido de diligência, e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente), Roberto Silva Junior, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Nelso Kichel, José Eduardo Dornelas Souza, Milene de Araújo Macedo e Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. VÍCIO NÃO CONFIGURADO. PRELIMINAR REJEITADA. Tendo o despacho decisório eletrônico adequada fundamentação, motivação e demonstrativo quanto às questões decididas, não restou configurado o alegado cerceamento do direito de defesa. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. NÃO APRESENTAÇÃO DE INFORME DE RENDIMENTOS. PEDIDO DE DILIGÊNCIA REJEITADO. Nos autos do processo de compensação tributária, o contribuinte é autor do pedido de compensação tributária. O ônus da prova incumbe ao autor quanto ao fato constitutivo do seu direito creditório pleiteado, consoante Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 2015, art. 373, I) de aplicação subsidiária ao processo administrativo tributário federal, e com observância do Decreto nº 70.235/72 (arts. 15 e 16). Incumbe ao contribuinte a demonstração, acompanhada das provas hábeis e idôneas, da existência do crédito que alega possuir contra Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. Os requisitos ou atributos de liquidez e certeza quanto ao crédito objetado contra a Fazenda Nacional devem estar preenchidos ou satisfeitos quando da transmissão da DCOMP, data em que a compensação tributária se efetiva, sob condição resolutória. A busca da verdade material não autoriza o julgador a substituir o interessado na produção das provas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 96 52 78 /2 01 2- 61 Fl. 793DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 3 2 DCOMP. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. SALDO NEGATIVO . O saldo negativo, passível de compensação tributária, é aquele apurado ao final do período a partir do confronto entre o imposto devido ou contribuição devida e as parcelas já antecipadas. O reconhecimento de direito creditório, relativo a saldo negativo apurado no final do período, para ulterior compensação com débitos vencidos ou vincendos, condicionase à demonstração de sua certeza e liquidez,o que inclui a comprovação das retenções na fonte levadas à dedução, por meio dos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras, nos termos da legislação de regência. Admitese a utilização das retenções na fonte como dedução na apuração do da exação fiscal ao final do período, quando comprovada a ocorrência da retenção por meio dos respectivos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras em nome do beneficiário, o que pode ser suprido pela confirmação em DIRF, e desde que comprovado, ainda, o oferecimento à tributação dos correspondentes rendimentos que sofreram as retenções. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e o pedido de diligência, e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente), Roberto Silva Junior, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Nelso Kichel, José Eduardo Dornelas Souza, Milene de Araújo Macedo e Bianca Felícia Rothschild. Relatório Cuidase do Recurso Voluntário apresentado contra decisão da DRJ/São Paulo que julgou a Manifestação de Inconformidade procedente em parte, homologando a compensação até o limite do crédito deferido. Fl. 794DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 4 3 O presente processo decorre de pedido de compensação, que tem como crédito pleiteado saldo negativo de IRPJ. A DERAT/São Paulo deferiu, em parte, o saldo negativo de IRPJ, conforme Despacho Decisório Eletrônico. Ciente do Despacho Decisório Eletrônico, que não reconhecera parte do direito creditório pleiteado, a contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, suscitando: 1) Nulidade do despacho decisório por desrespeito aos princípios da motivação e da ampla defesa: que autoridade administrativa não teria apontado os motivos que a levaram a glosar parte do direito creditório pleiteado e, ainda, que o enquadramento legal indicado também não explicaria a glosa; que a falta de entrega de DIRF, eventual erro cometido pela fonte pagadora no preenchimento dessa declaração ou o não fornecimento do informe de rendimentos não podem, em desfavor do beneficiário, ser motivo de glosa do imposto ou da contribuição retidos na fonte, cabendo à autoridade fiscal no exercício de seu poderdever, exigir da fonte pagadora as explicações necessárias, conforme se depreende dos artigos 8º e 9º da IN/SRF nº 119/2000; que, ainda, a falta de intimação da contribuinte ou das fontes pagadoras para que pudessem apresentar documentos e/ou esclarecimentos sobre o direito pleiteado torna nulo o Despacho Decisório Eletrônico por cerceamento do direito de defesa. 2) Pedido de diligência: que a glosa procedida pela DERAT/São Paulo originouse de uma conjugação de situações: a) fontes pagadoras que não entregaram DIRF ou as entregaram com divergências em relação aos Informes de Rendimentos: b) diferenças entre regime de caixa e competência nas declarações apresentadas ao fisco e entrega de DIRF pelas fontes pagadoras em nome das filiais da manifestante e não em nome da matriz, o que, diante do princípio da verdade material, indica a necessidade de uma análise mais profunda das informações prestadas na DCOMP; que, quanto à documentação fiscal do período de apuração objeto do crédito pleiteado, a manifestante não tem dúvida de que os valores escriturados a título de IRRF, informados na respectiva DIPJ e na DCOMP, em tela, refletem fielmente as notas fiscais emitidas e os valores recebidos das fontes pagadoras, o que a autoridade julgadora, em respeito ao princípio da verdade material, poderia apurar por meio de diligência fiscal. A DRJ/São Paulo (1ª Turma), enfrentando as questões suscitadas pela contribuinte e analisando as provas carreadas aos autos, julgou a Manifestação de Inconformidade procedente em parte ao: rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito: Fl. 795DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 5 4 a) indeferir o pedido de diligência (ônus de produção da prova do direito constitutivo do crédito pleiteado é do autor do pedido); b) reconhecer, em parte, o saldo negativo de IRPJ, relativo ao 4º trimestre de 2007, além do valor original que fora reconhecido pelo despacho decisório eletrônico recorrido, e homologar parcialmente a compensação. Ciente desse decisum, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário da parte que restou vencida, reiterando, em síntese, as razões já aduzidas na primeira instância, ou seja,: suscitou, preliminarmente, nulidade do Despacho Decisório Eletrônico e retorno dos auto à DERAT/São Paulo para proferir nova decisão, pois foram olvidados princípios basilares da Administração Pública, a saber motivação e razoabilidade; que, antes da emissão do referido despacho, a unidade de origem da RFB deveria ter intimado a ora recorrente e as fontes pagadoras; que houve preterição do direito de defesa. pedido de diligência fiscal: que cabe à fonte pagadora, além da obrigação de reter e recolher o IRRF, fornecer ao beneficiário o competente comprovante de informe de rendimentos e entregar ao fisco a DIRF; que as fontes pagadoras nem sempre cumprem corretamente as obrigações acessórias (cometem erros no preenchimento) e até deixam de entregar DIRF; que há divergências (eventuais diferenças) em face de regime de caixa x regime de competência; que a recorrente indicou na DIPJ as fontes responsáveis pela retenção do IRRF/pagamentos; que, em suma, busca a comprovação fática dessas retenções na fonte/pagamentos, mediante solicitação de diligência, para prevalecer o princípio da verdade material, em relação aos valores ainda não deferidos; que, caso seja superada na preliminar suscitada, invocando o princípio da verdade material, pediu a realização de diligência fiscal para a produção de provas (intimação das fontes indicadas na DIPJ, responsáveis pela retenção do imposto e/ou contribuição a apresentar informes de rendimentos, DIRF e comprovantes de pagamentos. Por fim, a recorrente, com essas razões, pediu a reforma da decisão recorrida na parte que restara vencida. É o relatório. Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator Fl. 796DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 6 5 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1301002.898, de 16.03.2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.997366/200927, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1301002.898): "O Recurso Voluntário, por ser tempestivo e atender aos demais requisitos de admissibilidade, merece ser conhecido; logo, dele conheço. Conforme relatado, a lide versa acerca do crédito pleiteado pela contribuinte na DCOMP objeto dos autos saldo negativo do imposto ou contribuição, na parte que restou vencida. A parcela do crédito denegado pela decisão recorrida corresponde, juntamente, ao valor do IRRF, quanto ao PA objeto dos autos, para o qual não há prova idônea, cabal, nos autos de que fora retido/recolhido e os rendimentos oferecidos à tributação pela ausência de informes de rendimentos e inexistência de DIRF. Preliminar de Nulidade do Despacho Decisório Eletrônico: Assim como fizera na primeira instância de julgamento, a recorrente voltou a suscitar nulidade do Despacho Decisório Eletrônico da DERAT/São Paulo, argumentado que fora emitido com inobservância dos princípios da motivação e da ampla defesa, que teria implicado cerceamento do direito de defesa ou prejuízo à defesa. Rechaço, peremptoriamente, a preliminar suscitada. Primeiro, como é sabido, na teoria geral dos recursos, a decisão posterior substitui a anterior, mesmo quando confirma a anterior. Assim, a decisão a quo substituiu o Despacho Decisório Eletrônico quanto enfrentou as questões deduzidas na Manifestação de Inconformidade (preliminar e mérito). Então, não há que se falar em nulidade do Despacho Decisório, quando a decisão posterior o substituiu. Não obstante, no caso não há vício algum, seja na decisão a quo, seja no despacho decisório, que pudesse macular de nulidade essas decisões. Como é sabido, também, no processo de compensação tributária a fase litigiosa instaurase com o oferecimento da manifestação de inconformidade contra o despacho decisório. Fl. 797DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 7 6 Assim, não cabe objetar cerceamento do direito defesa na fase préprocessual. Antes da ciência do despacho decisório não há lide, nem processo. Não há imputação de fato, ou acusação fiscal. Fase préprocessual. No caso de pedido de crédito em compensação tributária, a pretensão resistida (lide) surge após ciência do despacho decisório (que denegou total ou parcialmente o direito creditório), mediante apresentação da manifestação de inconformidade. Os cânones constitucionais da ampla defesa e do contraditório aplicamse na fase processual (processos administrativo e judicial), e não na fase préprocessual que tem caráter de investigação, vale dizer, que tem natureza inquisitória. Logo, não tem plausibilidade jurídica a objeção da recorrente de que teria ocorrido cerceamento do direito de defesa na faseprocessual, pois o fisco, antes da emissão do Despacho Decisório Eletrônico, não teria dado oportunidade da contribuinte para se defender, ou seja, que não teria intimado a contribuinte e as fontes responsáveis pela retenção do imposto/contribuição na fonte de fornecer os informes de rendimentos e de entregar as DIRF respectivas. Na fase préprocessual, que é de interesse exclusivo do fisco, de caráter inquisitorial, não há obrigatoriedade de intimações, quando a autoridade administrativa entender que não deva fazêlo, ou pelo fato de já possuir os elementos de prova para embasar a expedição do ato administrativo. Diversamente do alegado pela recorrente, o Despacho Decisório está fundamentado, motivado, fatos devidamente narrados, inclusive consta informação, expressa, no seu corpo (anverso), endereço do Sítio da RFB, local onde o demonstrativo completo das retenções da exação fiscal na fonte (relação das retenções deferidas e relação das retenções não aceitas) restou disponibilizado, acessível (disponível para consulta, a partir da expedição do Despacho). Quanto ao acesso ao citado demonstrativo completo das retenções na fonte aceitas e as não deferidas, consta o seguinte texto no corpo do Despacho (anverso) e que transcrevo a seguir, in verbis: (...) Fl. 798DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 8 7 Para informações sobre a análise de crédito, detalhamento da compensação efetuada, verificação de valores devedores e emissão de DARF, consultar o endereço www.receita.fazenda.gov.br, menu "Onde Encontro", opção "PERDCOMP", item "PER/DCOMPDespacho Decisório". Enquadramento Legal: Art. 168 da Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional). Inciso II do Parágrafo 1º do art. 6º da Lei 9.430, de 1996. Art. 4º da IN RFB 900, de 2008. Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Art. 36 da Instrução Normativa RFB nº 900, de 2008. (...) Como demonstrado, não tem plausibilidade jurídica a preliminar suscitada, pois o Despacho Decisório e a decisão recorrida não têm vício algum que os pudesse inquinar de nulidade. Por tudo que foi exposto, rejeito a preliminar de nulidade suscitada. Pedido de Diligência Fiscal. Direito Creditório. Ônus da Prova. Falta de Comprovação da Liquidez e Certeza. Na primeira instância já foram analisadas, exaustivamente, todas as provas juntadas aos autos, conforme se pode constatar do voto condutor do acórdão recorrido. Nesta instância ordinária recursal, a contribuinte não juntou outras provas, além das juntadas na primeira instância e já apreciadas pela decisão recorrida. Ou seja, quanto ao direito creditório não deferido pela decisão a quo, a contribuinte não trouxe outras provas nesta instância de julgamento. A recorrente, então, simplesmente pediu a realização de diligência fiscal, ou seja, conversão do julgamento em diligência para que se intime as fontes pagadoras a apresentar informes de rendimentos e DIRF respectiva, para buscar a verdade material. Ora, no processo administrativo de compensação tributária, a contribuinte é autora do pedido de crédito contra o fisco, ao utilizar o crédito para saldar, quitar o débito confessado na DCOMP (compensação tributária, sob condição resolutória). Sendo autora do pedido de crédito contra a Fazenda Nacional, o ônus probatório do fato constitutivo do direito de crédito é da contribuinte, consoante Código de Processo Civil, Lei nº 13.105/2015, art. 373, I, de aplicação subsidiária ao Processo Administrativo Fiscal, in verbis: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 799DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 9 8 (...) E o momento para produção das provas, fazer a juntada aos autos, é por ocasião da apresentação da Manifestação de Inconformidade, conforme arts. 15 e 16 do Decreto nº 70.235/72, in verbis: Art.15.A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art.16.A impugnação mencionará: Ia autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (RedaçãodadapelaLeinº8.748,de1993) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados,assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (...) Ainda, a contribuinte, para efeito de compensação tributária (para fazer o encontro de contas) tem o ônus de comprovar a liquidez e certeza do crédito pleiteado, nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional – CTN, cujos requisitos citados devem estar atendidos, preenchidos, na data de transmissão da DCOMP. A compensação tributária informada na DCOMP consideráse efetivada, sob condição resolutória, na data da transmissão. A utilização de crédito contra o fisco na DCOMP para compensação de débitos vencidos ou vincendos condicionase à demonstração de sua certeza e liquidez, o que inclui a comprovação do IRRF levado à dedução, por meio dos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras, nos termos da legislação de regência. Quanto ao pedido de restituição de crédito/compensação, a prova hábil para comprovar os rendimentos obtidos e o IRRF é o comprovante de que trata a específica legislação tributária, ou seja, os informes de rendimentos emitidos pela fonte pagadora, em nome do beneficiário. Na sua ausência, por interpretação razoável, são admitidos os valores apresentados em Declaração de Imposto de Renda na Fonte (DIRF). Fl. 800DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 10 9 Assim, o IRRF sobre quaisquer rendimentos poderá ser compensado na declaração de pessoa física ou jurídica, se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos, que não é o caso. Ainda, apenas para argumentar, caso fossem juntadas notas fiscais com mera indicação de tributos retidos na fonte temse como prova indiciária mas não comprovam a retenção no período, e muito menos têm o condão de afastar o comprovante de que trata a legislação tributária. Entretanto, a recorrente não trouxe outras provas aos autos, quando da apresentação do recurso nesta instância recursal, além das já analisadas e aproveitadas pela decisão recorrida, pois limitouse a pedir diligência. Ora, a produção de provas do fato constitutivo do direito de crédito alegado, como já frisado alhures, é ônus da alçada da recorrente. A busca da verdade material não autoriza o julgador a substituir o interessado na produção das provas. Como já dito, o ônus probatório do crédito alegado contra a Fazenda Nacional é da Contribuinte. Diligência fiscal não se presta para produzir prova cujo ônus probatório é da recorrente. Nesse sentido, é o entendimento jurisprudencial deste CARF. Aproveito para trazer à colação os seguintes precedentes: PEDIDO DE DILIGÊNCIA/PERÍCIA—A diligência ou perícia não é meio próprio para comprovação de fato que possa ser feita mediante a mera apresentação ou juntada de documentos, cuja guarda e conservação compete à contribuinte, mas sim para esclarecimento de pontos duvidosos que exijam conhecimentos especializados.Tendo a decisão devidamente apreciado o pedido formulado, motivadamente, sendo considerada prescindível, incabível a argüição de nulidade da decisão proferida.(Acórdão CC n°10708.709, Sessão de 17/08/2006). ASSUNTO:IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2004 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao autor do pedido a demonstração, acompanhada de provas hábeis e idôneas, da composição e da existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidos os atributos de certeza e liquidez pela autoridade administrativa. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170 do Código Tributário Nacional.Rejeito o pedido de realização de diligência fiscal. (Acórdão 1802001.435, sessão de 07/11/2012, Relator Nelso Kichel). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDI CA IRPJ Anocalendário: 2001 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. DIREITO CREDITÓRIO. LIQUIDEZ E Fl. 801DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 11 10 CERTEZA. ÔNUS DA PROVA. A compensação, encontro de débitos e créditos, é forma de extinção do crédito tributário. Para a concretização da compensação tributária deve ser comprovada, de maneira inequívoca, a liquidez e a certeza do direito creditório utilizado. A prova do fato constitutivo do direito creditório compete ao autor do pedido. Para que a autoridade administrativa possa reconhecer o direito creditório pleiteado pelo contribuinte e, por via de conseqüência, considerar as compensações tributárias informadas, é necessário que sejam carreados aos autos documentos que demonstrem, de forma inequívoca, a certeza e liquidez do crédito alegado, ex vi do disposto no art.170 do CTN. (Acórdão 180201.885, sessão de 05/11/2013, Relator Nelso Kichel). ASSUNTO:IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDI CA IRPJ Anocalendário: 2003 DIREITO CREDITÓRIO SALDO NEGATIVO DO IRPJ. RESTITUIÇÃO. O reconheci mento de direito creditório, relativo a saldo negativo do IRPJ, para ulterior compensação com débitos vencidos ou vincendos, condicionase à demonstração de sua certeza e liquidez, o que inclui a comprovação do Imposto de Renda Retido na Fonte levado à dedução, por meio dos informes de rendimentos emitidos pelas fontes pagadoras,nos termos da legislação de regência.FATO CONSTITUTIVO. ÔNUS PROBATÓRIO. O ônus probatório, quanto a fato constitutivo direito creditórioé do autor do pleito, no caso o contribuinte. Para o interessado constituir prova a seu favor, não basta carrear aos autos elementos por ele mesmo elaborados; deverá ratificálos por outros meios probatórios cuja produção não decorra exclusiva mente de seu próprio ato de vontade. (Acórdão nº 1802000.998, sessão de 04/10/2011, Relator Nelso Kichel). Portanto, rejeito o pedido de diligência. No mérito, a recorrente não comprovou a existência do direito creditório demandado contra a Fazenda Nacional, nesta instância recursal ordinária. Por tudo que foi exposto. voto para rejeitar a preliminar de nulidade suscitada, rejeitar o pedido de realização de diligência fiscal e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, rejeito a preliminar de nulidade suscitada e o pedido de realização de diligência e, no mérito, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 802DF CARF MF Processo nº 10880.965278/201261 Acórdão n.º 1301002.907 S1C3T1 Fl. 12 11 Fl. 803DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.914245/2009-10
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon May 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Exercício: 2010
INTEMPESTIVIDADE. CIÊNCIA DO SUJEITO PASSIVO. AUSÊNCIA DE COMPROVANTE DE INTIMAÇÃO. NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NECESSIDADE DE NOVO JULGAMENTO.
Não havendo nos autos o comprovante da ciência do sujeito passivo por via postal, mas mero relatório dos Correios de que a correspondência contendo o Despacho Decisório foi entregue, não há como se aferir que a ciência se deu na data nele constante, eis que se trata de documento apócrifo, não comprovando a intimação do sujeito passivo.
De acordo com o diploma legal que rege o Processo Administrativo Fiscal, na ausência de prova do recebimento, considera-se a intimação efetuada quinze dias após a sua expedição. Em face da não observância da regra processual pela decisão a quo, houve um erro no exame de admissibilidade da manifestação de inconformidade, a qual não poderia ser considerada intempestiva, devendo o acórdão recorrido ser anulado, com o retorno à primeira instância, para o proferimento de nova decisão, desta feita com o enfretamento do mérito das razões da Manifestação de Inconformidade.
Numero da decisão: 2201-004.446
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente
(assinado digitalmente)
Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), José Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 2010 INTEMPESTIVIDADE. CIÊNCIA DO SUJEITO PASSIVO. AUSÊNCIA DE COMPROVANTE DE INTIMAÇÃO. NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NECESSIDADE DE NOVO JULGAMENTO. Não havendo nos autos o comprovante da ciência do sujeito passivo por via postal, mas mero relatório dos Correios de que a correspondência contendo o Despacho Decisório foi entregue, não há como se aferir que a ciência se deu na data nele constante, eis que se trata de documento apócrifo, não comprovando a intimação do sujeito passivo. De acordo com o diploma legal que rege o Processo Administrativo Fiscal, na ausência de prova do recebimento, considerase a intimação efetuada quinze dias após a sua expedição. Em face da não observância da regra processual pela decisão a quo, houve um erro no exame de admissibilidade da manifestação de inconformidade, a qual não poderia ser considerada intempestiva, devendo o acórdão recorrido ser anulado, com o retorno à primeira instância, para o proferimento de nova decisão, desta feita com o enfretamento do mérito das razões da Manifestação de Inconformidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 91 42 45 /2 00 9- 10 Fl. 234DF CARF MF Processo nº 16327.914245/200910 Acórdão n.º 2201004.446 S2C2T1 Fl. 235 2 (assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), José Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 1633.456 8a Turma da DRJ/SP1, o qual julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada em face da não homologação da DCOMP nº 34488.89928.200409.1.3.048506, protocolizada em 19/11/2009. A manifestação de inconformidade (fls. 01 a 04), em face do Despacho Decisório eletrônico n° (de Rastreamento) 848708594 (fl. 12), de 07/10/2009, no qual a autoridade não homologou, por inexistência de direito creditório, a compensação declarada na DCOMP. Na Fundamentação da decisão, a autoridade informa que, consoante os sistemas de controle da RFB, o valor recolhido em DARF, em 20/01/2009, de R$ 13.523.039,71, código de receita 0561, relativo ao período de apuração de 31/12/2008, declarado na DCOMP como indevido ou a maior, teria sido integralmente utilizado na quitação de débito do interessado (mesmo tributo, valor e período de apuração mencionados), não restando, assim, crédito disponível para compensação. Em conseqüência, apurou valor devedor consolidado para pagamento até 30/10/2009, referente ao débito indevidamente compensado mediante a referida DCOMP, de R$ 326.820,87, de principal, R$ 15.360,58, de juros, e de R$ 65.364,17, de multa. Cientificado da decisão, em 19/10/2009 (fl. 26), o interessado apresentou manifestação de inconformidade, em 19/11/2009 (fl. 01), oferecendo, em síntese, as seguintes informações e razões: i) o direito creditório invocado na DCOMP, de R$ 317.826,38, seria líquido e certo porque resultante do recolhimento de R$ 13.523.039,71, em DARF, relativo a IRRF Rendimento do Trabalho Assalariado, código de receita 0561, efetuado, em 20/01/2009, em montante maior do que o valor correto, de R$ 13.205.213,33 (R$ 317.826,38 = R$ 13.523.039,71 R$ 13.205.213,33); ii) teria declarado, equivocadamente, o débito na DCTF que teria sido retificada em 29/10/2009 (fl. 13) para conter o valor correto (fl. 16); iii) considerando seu direito à compensação assegurado pelo artigo 74 da Lei n° 9.430/96 e pelos artigos 165 e 170 do CTN, requer seja revisto o Despacho Decisório, homologandose a compensação declarada. Fl. 235DF CARF MF Processo nº 16327.914245/200910 Acórdão n.º 2201004.446 S2C2T1 Fl. 236 3 Foi prolatado o Acórdão nº 1633.456 8a Turma da DRJ/SP1 (fls. 149/154), que julgou pelo não conhecimento da manifestação de inconformidade, nos termos da seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Data do fato gerador: 20/01/2009 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO DCOMP. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. TEMPESTIVIDADE NÃO PROVADA. MÉRITO NÃO CONHECIDO. A contestação da data constante de comprovante emitido pelos Correios, de ciência da Decisão, mostrase inócua quando o contribuinte não logra trazer aos autos prova documental de outra data, alegada, que tornaria tempestiva a interposição da peça irresignatória. Eventual petição apresentada fora do prazo, mas suscitando questão de tempestividade, caracteriza impugnação e instaura a fase litigiosa do procedimento, comportando julgamento apenas dessa matéria preliminar, não do mérito. Manifestação de Inconformidade Não Conhecida. Sem Crédito em Litígio Em face dessa decisão, cuja ciência se deu em 08/09/2011 (fl.157) e o recurso voluntário foi protocolado tempestivamente em 06/10/2011 (fls. 158/171), tendo apresentado as razões recursais, a seguir sintetizadas: 1) A tempestividade do recurso voluntário; 2) Que o presente recurso seja recebido com efeito suspensivo, nos termos do artigos 33, do Decreto 70.235/72. Ainda sobre o efeito suspensivo, alegou o art. 151, III, do CTN que prevê que as reclamações e recursos suspendem a exigibilidade do crédito tributário; 3) Que, ao contrário do alegado pela DRJ, há sim prova nos autos de que a intimação se deu no dia 20/10/2009. A ausência de AR contraria o disposto no artigo 23, II, do Decreto 70.235/72. O sistema de rastreamento dos correios não é prova da ocorrência da regular intimação. Por fim, requer seja provido o recurso voluntário para que os autos voltem à Delegacia da Receita Federal para julgamento do mérito da manifestação e inconformidade e, caso seja necessário, que seja intimada novamente para apresentar eventuais documentos, nos termos do artigo 16, §4º, alíneas "a" e "b", do Decreto 70.235/72. É relatório. Voto Conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Fl. 236DF CARF MF Processo nº 16327.914245/200910 Acórdão n.º 2201004.446 S2C2T1 Fl. 237 4 Admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, devendo, pois, ser conhecido. Mérito O julgamento da presente lide se restringe à análise da tempestividade da Manifestação de Inconformidade. No entendimento da DRJ, o protocolo foi intempestivo, uma vez que se deu em 19/11/2009, um dia após findo o prazo legal de 30 (trinta) dias. De acordo com o entendimento da autoridade julgadora de primeira instância, a prova da intimação do sujeito passivo é um relatório dos Correios atestando que a entrega de deu no dia 19/10/2009. Não há nos autos comprovante do recebimento da intimação (Aviso de Recebimento AR). Para o caso que se cuida, o Decreto nº 70.235/1972 estabelece que ausente o comprovante de recebimento da intimação deverá ser considerada realizada 15 (quinze) dias após a sua expedição. Vejamos: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. § 1o Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: I no endereço da administração tributária na internet; II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. § 2° Considerase feita a intimação: II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; (Grifouse). Fl. 237DF CARF MF Processo nº 16327.914245/200910 Acórdão n.º 2201004.446 S2C2T1 Fl. 238 5 Ocorre que, também não há nos autos a cópia da intimação para se aferir a data de sua expedição. Todavia, essa ausência pode ser suprida por uma dedução lógica. Se o Despacho Decisório foi emitido em 07/10/2009, a expedição da intimação só poderá ter se dado em data igual ou posterior à sua emissão. Considerando a data da expedição como sendo 07/10/2009, temse que o 15º dia posterior a esta data é 22/10/2009, dia em que efetivamente deve ser considerada realizada a intimação, nos termos das disposições normativas do Decreto nº 70.235/1972 supra transcritas. Com base nessas considerações, temse que a decisão de primeira instância padece de vício, eis que proferida em desacordo com o que estabelece o Decreto nº 70.23/1972, culminando em inegável preterição ao direito de defesa do contribuinte. Destarte, deve ser anulado o acórdão recorrido, com retorno dos autos à DRJ de origem para o proferimento de nova decisão, desta feita, com o enfretamento do mérito. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e, no mérito, dar lhe provimento. (assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Fl. 238DF CARF MF
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Numero do processo: 12181.000555/2008-15
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2008
OPÇÃO. INCLUSÃO RETROATIVA. INÍCIO DE ATIVIDADE. CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS CUMULATIVOS NO PRAZO LEGAL.
Existe previsão legal para o rito de inclusão retroativa no Simples Nacional no caso de início de atividades em que foram cumpridos os requisitos legais cumulativos e conforma-se com o Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, cujo rito propicia o controle da legalidade do ato administrativo. A falta de cumprimento das condições cumulativas legais impede o deferimento da inclusão retroativa no Simples Nacional.
Numero da decisão: 1003-000.023
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Relatora e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2008 OPÇÃO. INCLUSÃO RETROATIVA. INÍCIO DE ATIVIDADE. CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS CUMULATIVOS NO PRAZO LEGAL. Existe previsão legal para o rito de inclusão retroativa no Simples Nacional no caso de início de atividades em que foram cumpridos os requisitos legais cumulativos e conforma-se com o Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, cujo rito propicia o controle da legalidade do ato administrativo. A falta de cumprimento das condições cumulativas legais impede o deferimento da inclusão retroativa no Simples Nacional.
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ME Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2008 OPÇÃO. INCLUSÃO RETROATIVA. INÍCIO DE ATIVIDADE. CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS CUMULATIVOS NO PRAZO LEGAL. Existe previsão legal para o rito de inclusão retroativa no Simples Nacional no caso de início de atividades em que foram cumpridos os requisitos legais cumulativos e conformase com o Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, cujo rito propicia o controle da legalidade do ato administrativo. A falta de cumprimento das condições cumulativas legais impede o deferimento da inclusão retroativa no Simples Nacional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 18 1. 00 05 55 /2 00 8- 15 Fl. 56DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 57 2 A Recorrente formalizou em 30.10.2008, fls. 0103, o Pedido de Inclusão Retroativa no Simples Nacional alegando que: A empresa acima citada encontrase constituída desde 10/04/2008, porém não havia até então iniciado suas atividades. Tal início só se deu, quando da concessão do alvará de localização e funcionamento provisório, liberado pela Prefeitura Municipal de Varginha, o qual teve como data de emissão o dia 20/10/2008. No Despacho Decisório de Inclusão no Simples Nacional DRF/Varginha/MG nº 599, de 11.11.2009, de 12/11/2008, fls. 1516, consta que o pedido foi indeferido fundamentado no fato de que: Verificase que o contribuinte protocolizou em 30/10/2008 O pedido de Inclusão no Simples Nacional, portanto decorridos mais de 180 dias da inscrição no CNPJ, ocorrido em 10/04/2008, conforme comprovante de (fl. 13). De acordo com o art. 7°, §1°, §3°, I e § 6°, da Resolução CGSN N° 004, de 30/05/2007, temos: [...] Verificase de acordo com a legislação supracitada, que o contribuinte perdeu 0 prazo para a opção pelo Simples Nacional como empresa em início de atividade, a qual deveria ter sido efetuada até 180 (cento e oitenta) dias da data de abertura constante do CNPJ. Ante o exposto, proponho 0 INDEFERIMENTO da presente solicitação apresentada pela requerente. Cientificada, a Recorrente apresentou a impugnação. Está registrado na ementa do Acórdão da 1ª Turma/DRJ/JFA/MG nº 0932.034, de 21.10.2010, fls. 3031: OPÇÃO RETROATIVA. INÍCIO DE ATIVIDADE. A ME ou a EPP não poderá efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de empresa em inicio de atividade depois de decorridos 180 (cento e oitenta) dias da data de abertura constante do CNPJ, observados os demais requisitos previstos no inciso I do § 3° do art. 7° da Resolução CGSN n° 04, de 2007. Manifestação de Inconformidade Improcedente Notificada em 18.11.2010, fl. 39, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 10.12.2010, fls. 4042, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Referente ao cumprimento dos requisitos cumulativos para deferimento da inclusão retroativa pelo Simples Nacional no caso de início de atividades aduz que: A empresa acima citada ingressou com seu contrato social na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em fevereiro de 2008, obtendo seu registro somente em 10/40/2008 sob o n° 31208114101. Nesta época as dificuldades de adaptação e funcionamento do cadastro sincronizado estavam no auge, haja vista a data em que iniciamos o processo de inscrição no CNPJ 15/04/2008 documento n° 01 ), e somente obtivemos o DBE (documento básico de entrada do CNPJ) em 14/05/2008 documento n°02). Comprova o documento n° 03 (comprovante de inscrição estadual) que a citada inscrição estadual foi concedida em 21/05/2008. Nessa fase 0 processo de constituição da empresa foi paralisado só sendo retomado no mês de Fl. 57DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 58 3 outubro de 2008, quando se deu o seu ultimo deferimento de inscrição, ou seja, a inscrição municipal que foi concedida em 20/10/2008 conforme comprova o documento de n° 04. Após a tentativa de inscrição no simples nacional, sendo essa negada eletronicamente, sob o argumento a seguir: “não foi possível efetuar a opção, pois já decorreram 180 dias da data de abertura da empresa constante no sistema CNPJ” documento n° 05 inconformada com a negativa, foi protocolizada em 30/10/2008 documento n° 06) pedido de inclusão no simples nacional cuja as razões apresentadas foram: “a empresa acima citada encontrase constituída desde 10/04/2008, porém não havia até então iniciado duas atividades. Tal inicio só se deu, quando da concessão do alvará de localização e funcionamento provisório, liberado pela Prefeitura Municipal de Varginha, o qual teve como data de emissão o dia 20/10/2008”. Tal pedido recebeu o numero de processo 12181.000555/200815, sendo novamente negado em 11/11/2008, e para decisão o r. julgador invocou o art. 7°, § 1°, § 3°, I e § 6°, da resolução CGSN n° 004, de 30/07/2007. [...] Concernente ao pedido expõe que: Com base no diploma legal acima, e considerado que o alvará de licença de funcionamento fornecido pela Prefeitura Municipal de Varginha, última inscrição deferida só foi concedido em 20/10/2008, portanto dez dias antes de protocolado 0 pedido de inclusão no simples, requer: Considerar enquadrada no sistema de tributação de Simples Nacional, lastreado pela leicomplementar123 de 14/12/2006 com efeitos a partir de julho de 2007, desde a data de sua fundação, ou seja, 01/02/2008, decisão essa que sem duvida incentivará o empreendedorismo, promoverá a criação de emprego, fomentará a distribuição de renda e homenageará a justiça. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. A Recorrente diz que deve ser deferida a sua inclusão retroativa no Simples Nacional no início de atividade. A Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, determina que a opção pelo Simples Nacional da pessoa jurídica enquadrada na condição. O indeferimento da opção pela sistemática será formalizado mediante ato da Administração Tributária e a exclusão do Simples Nacional será feita de ofício ou mediante comunicação das pessoas jurídicas optantes. Existe previsão legal para o rito de inclusão retroativa no Simples Nacional no caso Fl. 58DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 59 4 de início de atividades em que foram cumpridos os requisitos legais cumulativos e conformase com o Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, cujo rito propicia o controle da legalidade do ato administrativo. O tratamento diferenciado, simplificado e favorecido denominado Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional) é regulamentado pelo Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN). A opção do sujeito passivo deve ser manifestada por meio da internet até o último dia útil do janeiro sendo irretratável para todo anocalendário, oportunidade em que presta declaração quanto ao não enquadramento nas vedações legais. Nos casos de empresa com início de atividade no anocalendário de 2008, o prazo para opção neste mesmo ano se encerrará após decorridos 10 (dez) dias da comprovação do último deferimento de inscrição nos entes federativos, quando exigíveis. A pessoa jurídica não poderá efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de empresa em início de atividade depois de decorridos 180 (cento e oitenta) da data da abertura constante no CNPJ, observados os demais requisitos. A opção implica o recolhimento mensal, mediante Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS) até o dia 20 do mês subseqüente àquele em que houver sido auferida a receita bruta. Ainda que se trate de situação de inatividade, deve ser entregue anualmente à RFB e declaração única e simplificada de informações socioeconômicas e fiscais a ser disponibilizada aos órgãos de fiscalização tributária e previdenciária, constituindo confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos tributos e contribuições que não tenham sido recolhidos resultantes das informações nela prestadas.1. A Resolução CGSN nº 04, de 30 de maio de 2007, determina: Art. 7º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. [...] § 3º No caso de início de atividade da ME ou EPP no ano calendário da opção, deverá ser observado o seguinte: I a ME ou a EPP, após efetuar a inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), bem como obter a sua inscrição estadual e municipal, caso exigíveis, terá o prazo de até 10 (dez) dias, contados do último deferimento de inscrição, para efetuar a opção pelo Simples Nacional; II após a formalização da opção, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) disponibilizará aos Estados, Distrito Federal e Municípios a relação dos contribuintes para verificação das informações prestadas; III os entes federativos deverão, no prazo de até 10 (dez) dias, contados da disponibilização das informações, comunicar à RFB acerca da verificação prevista no inciso II; 1 Fundamentação legal: art. 179 da Constituição Federal, art. 17, art. 33 e art. 39 da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, Resolução CGSN nº 4, de 30 de maio de 2007 e Resolução CGSN nº 15, de 23 de julho de 2007 . Fl. 59DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 60 5 IV confirmados os dados ou ultrapassado o prazo a que se refere o inciso III sem manifestação por parte do ente federativo, considerarseão validadas as respectivas informações prestadas pelas ME ou EPP; V a opção produzirá efeitos a partir da data do último deferimento da inscrição nos cadastros estaduais e municipais, salvo se o ente federativo considerar inválidas as informações prestadas pelas ME ou EPP, hipótese em que a opção será considerada indeferida; VI validadas as informações, considerase data de início de atividade a do último deferimento de inscrição. § 4º A RFB disponibilizará aos Estados, Distrito Federal e Municípios relação dos contribuintes referidos neste artigo para verificação quanto à regularidade para a opção pelo Simples Nacional, e, posteriormente, a relação dos contribuintes que tiveram a sua opção deferida. § 6º A ME ou a EPP não poderá efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de empresa em início de atividade depois de decorridos 180 (cento e oitenta) dias da inscrição no CNPJ, observados os demais requisitos previstos no inciso I do § 3º deste artigo. Analisando a legislação de regência que vigorava à época dos fatos, temse que a microempresa ou empresa de pequeno porte no caso de início de atividade no ano calendário da opção, deve observar as seguintes condições cumulativas: (a) após efetuar a inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), bem como obter a sua inscrição estadual e municipal, caso exigíveis, terá o prazo de até 10 (dez) dias, contados do último deferimento de inscrição, para efetuar a opção pelo Simples Nacional; (b) não poderá efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de pessoa jurídica em início de atividade depois de decorridos 180 (cento e oitenta) dias da inscrição no CNPJ, observados os demais requisitos legais. Está registrado no voto condutor do Acórdão da 1ª Turma/DRJ/JFA/MG nº 0932.034, de 21.10.2010, fls. 3031: O art. 7° da Resolução CGSN n° 04, de 30/05/2007, estabelece as regras de inclusão no Simples Nacional e os §§ 3°, inciso I, e 6°, trata especificadamente os casos de empresas em início de atividades, in verbis: [...] No presente caso, a inscrição no CNPJ se deu em 10/04/2008 (fi. 13) e o contribuinte protocolizou, em 30/10/2008, o pedido de inclusão retroativa no Simples Nacional. Antes, o contribuinte havia tentado a opção via Portal do Simples Nacional, mas houve a recusa do sistema, em 13/ 10/2008, por já terem decorridos 180 dias da data de abertura da empresa constante no sistema CNPJ. A alegação do interessado de que houve um equívoco no despacho decisório que não considerou a Resolução CGSN n° 41, de 1° de setembro de 2008, que alterou a Resolução CGSN n” 04/2007, não deve prosperar por dois motivos: Fl. 60DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 61 6 primeiro, porque, conforme art. 2° da Resolução CGSN n° 41, esta, apesar de entrar em vigor na data de sua publicação, somente produziu efeitos a partir de 01/01/2009; segundo, porque tal alteração não revogou o § 6° do art. 7° da Resolução CGSN n" 04/2007 que estabelece o prazo de 180 (cento e oitenta) dias da data da abertura constante no CNPJ para se fazer a opção pelo Simples Nacional. Em face do exposto, por ter o contribuinte perdido o prazo para efetuar a opção pelo Simples Nacional como empresa em início de atividade, a qual deveria ter sido efetuada até 180 (cento e oitenta) dias da data de abertura constante no CNPJ, voto no sentido de indeferir o pedido. Analisando as provas produzidas nos autos, verificase que a Recorrente: (a) teve sua abertura junto em 10.04.2008, conforme registro na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais JUCEMG, fls. 0205; (b) conforme Comprovante de Inscrição Estadual de Minas Gerais teve sua situação em 21.05.2008, fl. 24; (c) teve seu início de atividades junto a RFB em 10.04.2008, de acordo com o Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), fl. 13; (d) teve a emissão Alvará para Fiscalização e Funcionamento da Prefeitura Municipal de Varginha/MG deferida em 20.10.2008, conjuntamente com a inscrição municipal, fl. 07; (e) o pleito de opção retroativa constante nos presente autos foi formalizado em 30.10.2008, fls. 0103. Nesse sentido a Recorrente deveria cumprir os seguintes requisitos concomitantemente: (a) poderia efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de pessoa jurídica em início de atividade até 30.10.2008 (dez dias contados do último deferimento de inscrição formal); (b) poderia efetuar sua opção pelo Simples Nacional até o dia 07.10.2008 (180 dias da inscrição do CNPJ), a saber: 20 dias em abril + 31 dias em maio + 30 dias em junho + 31 dias em julho + 31 dias agosto + 30 dias em setembro + 7 dias em outubro do ano de 2008. Especificamente sobre o pedido de inclusão retroativa, cabe ressaltar que o princípio da legalidade estabelece os limites da atuação administrativa e tem por objeto o exercício de direitos individuais em benefício da coletividade e nesse sentido a vontade da Administração Pública decorre tãosomente da lei de modo que apenas pode fazer o que a lei permite (art. 37 da Constituição Federal). Restou comprovado que a Recorrente formalizou seu pedido de inclusão retroativa no Simples Nacional no dia 30.10.2008, fls. 0103, ou seja, após do decurso dos prazos legais permissivos. Analisando o conjunto probatório produzidos nos autos verificase Fl. 61DF CARF MF Processo nº 12181.000555/200815 Acórdão n.º 1003000.023 S1C0T3 Fl. 62 7 que a opção produzirá efeitos a partir da data do último deferimento da inscrição nos cadastros estaduais e municipais. A ilação designada na peça recursal destacase como improcedente. Temse que nos estritos termos legais o procedimento fiscal está correto, conforme o princípio da legalidade a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de julho de 2015). A falta de cumprimento das condições cumulativas legais impede o deferimento da inclusão retroativa no Simples Nacional. Em assim sucedendo, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Fl. 62DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10803.720032/2015-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jun 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2012, 2013
NULIDADE. ERRO DE ACUSAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. GANHO DE CAPITAL. OPERACIONALIDADE DAS RECEITAS. DIVERGÊNCIA. FUNDAMENTAÇÃO REGULAR E PLAUSÍVEL NO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INOCORRÊNCIA.
A divergência sobre a natureza operacional ou não de receitas colhidas pela Fiscalização não configura erro de acusação quando há margem para debates sobre tal classificação.
Se devidamente fundamentada a acusação em raciocínio com conclusão plausível, utilizando para tanto elementos da legislação aplicável aos fatos efetivamente ocorridos, não há de se falar em erro ou nulidade do lançamento de ofício.
OMISSÃO DE RECEITAS. LUCRO PRESUMIDO. RECEITA OPERACIONAL. VENDA DE TERRENO POR EMPRESA (SPE) ESTATUTARIAMENTE DEDICADA À INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA. CONCEITO DE RECEITA BRUTA IMOBILIÁRIA ABRANGENTE. AUSÊNCIA DE TRATAMENTO OU ONERAÇÃO FISCAL DISTINTA ENTRE ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS. MANUTENÇÃO CONTÍNUA EM ESTOQUE E EXCLUSIVA INTENÇÃO DE ALIENAÇÃO.
Na hipótese de Sociedade de Propósito Específico, originalmente constituída para promover incorporação em terreno de sua propriedade sempre mantido em conta do ativo circulante, que não obtêm êxito na realização imobiliária pretendida inicialmente e aliena regularmente tal imóvel de seu estoque, mesmo sem edificações ou desdobros, a receita percebida pode ser classificada como operacional, ficando sujeita ao coeficiente de presunção de 8%, determinado pelo art. 15 da Lei nº 9.249/95, para a obtenção da base de cálculo.
O conceito de receita bruta imobiliária, veiculado pelo art. 30 da Lei nº 8.981/95, abrange expressamente as atividades imobiliárias de loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, dando tratamento geral e idêntico ao seu produto, sem qualquer restrição, distinção ou ressalva.
Receitas secundárias, fruto de atividades de natureza correlacionada, decorrente ou semelhante ao objeto principal da sociedade, estão incluídas na receita bruta, mesmo antes da vigência da Lei nº 12.973/2014.
A determinação do objeto social das companhias é de decisão e implementação de seus titulares, sendo promovida contratualmente, sem qualquer necessidade de autorização pública. Desse modo, a classificação pela Fiscalização de uma receita como não operacional não pode, exclusivamente, basear-se na ausência da presença de uma subatividade imobiliária específica em seu registro societário.
Contabilmente, a classificação de um ativo como circulante é determinada pelo fato deste ser mantido essencialmente com o propósito de ser negociado. Se a natureza das atividades pressupõe e compreende a alienação de um determinado imóvel, e este sempre esteve registrado em conta de ativo circulante (estoque), não existindo qualquer elemento indicativo de utilização diversa, não se sustenta a rotulação de ativo permanente imobilizado para tal bem.
RECEITA TRIBUTÁVEL. PERMUTA DE BENS IMÓVEIS. LUCRO PRESUMIDO.
Nas empresas que adotem o regime do Lucro Presumido, o valor do bem alienado em forma de permuta deve ser tratado como receita e oferecido à tributação. Havendo torna, tal montante se agrega à receita e igualmente deve ser tributado. Se a permuta envolver bem do não circulante, a tributação deverá ocorrer na forma de ganho de capital e não como resultado da atividade operacional da contribuinte.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2012, 2013
MULTA QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. SÚMULA CARF Nº 14. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DE FRAUDE. INOCORRÊNCIA.
Não obstante o conteúdo da Sumula CARF nº 14, é necessária a comprovada ocorrência de fraude e dolo para a devida aplicação da previsão contemplada no §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96.
A imputação genérica e especulativa da ocorrência de fraude a fatos e negócios que não concorreram para a ocorrência da infração, sem qualquer demonstração ou prova de postura ilícita extratributária, não é fundamentação válida para a qualificação da multa de ofício
O mero registro contábil de histórico de entradas e saídas sob justificativas e rubricas cuja a comprovação documental não foi feita pelo contribuinte não constitui fraude.
RESPONSABILIDADE. ADMINISTRADORES. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DAS HIPÓTESES DO ART. 135 CTN. IMPROCEDÊNCIA.
A responsabilização do administrador é prerrogativa excepcional da Administração Tributária, que demanda conjunto probatório robusto e preciso para permitir a transposição da pessoa do contribuinte, penetrando na esfera patrimonial de seu gestor e titular. É necessária a imputação pessoal, com correspondente comprovação, das práticas e circunstâncias elencadas no dispositivo sob análise.
A simples elucubração da intenção dos gestores para cometer a infração tributária, sem a demonstração de nexo causal com as condutas pessoais efetivamente apuradas, não basta para atribuir-lhes responsabilidade.
RESPONSABILIDADE. EMPRESAS SÓCIAS. ART. 124 INCISO I CTN. NECESSIDADE DE DESCRIÇÃO NO TVF E INADEQUAÇÃO DO DISPOSITIVO. IMPROCEDÊNCIA.
O simples arrolamento de sócios como Responsáveis Solidários nas folhas dos Autos de Infração, sem a devida descrição dos motivos e justificativa legal da sua responsabilização no Termo de Verificação Fiscal, não basta para promover a sua inclusão no polo passivo.
A norma contida no art. 124, inciso I, do CTN não é própria e adequada para a responsabilização de sócios, devidamente constantes do contrato ou do estatuto social das pessoas jurídicas autuadas.
O interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele econômico, finalístico e consequencial que os titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2012, 2013
IDENTIDADE DE IMPUTAÇÃO.
Decorrendo a exigência de CSLL da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada, no mérito, a mesma decisão, desde que não presentes arguições especificas e elementos de prova distintos.
Numero da decisão: 1402-002.874
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: negar provimento ao recurso de ofício; rejeitar a preliminar de nulidade e dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i)reduzir a base de cálculo do lançamento de ofício aplicando o coeficiente de 8% para obtenção do lucro presumido; ii) excluir os coobrigados da relação jurídico-tributárias. II) por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reduzir a multa ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro Evandro Correa Dias que votou por manter a penalidade nos moldes aplicados; e III) por voto de qualidade, negar provimento ao recurso no que se refere à redução no valor tributável dos imóveis recebidos em permuta. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso nessa matéria. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor. O Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues participou do julgamento apenas em relação à multa qualificada e à exclusão dos coobrigados, tendo em vista que o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves votou as demais matérias na sessão de outubro/2017.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Caio Cesar Nader Quintella - Relator.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves.
Nome do relator: CAIO CESAR NADER QUINTELLA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: negar provimento ao recurso de ofício; rejeitar a preliminar de nulidade e dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i)reduzir a base de cálculo do lançamento de ofício aplicando o coeficiente de 8% para obtenção do lucro presumido; ii) excluir os coobrigados da relação jurídico-tributárias. II) por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reduzir a multa ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro Evandro Correa Dias que votou por manter a penalidade nos moldes aplicados; e III) por voto de qualidade, negar provimento ao recurso no que se refere à redução no valor tributável dos imóveis recebidos em permuta. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso nessa matéria. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor. O Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues participou do julgamento apenas em relação à multa qualificada e à exclusão dos coobrigados, tendo em vista que o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves votou as demais matérias na sessão de outubro/2017. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto - Presidente. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella - Relator. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone - Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves.
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012, 2013 NULIDADE. ERRO DE ACUSAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. GANHO DE CAPITAL. OPERACIONALIDADE DAS RECEITAS. DIVERGÊNCIA. FUNDAMENTAÇÃO REGULAR E PLAUSÍVEL NO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INOCORRÊNCIA. A divergência sobre a natureza operacional ou não de receitas colhidas pela Fiscalização não configura erro de acusação quando há margem para debates sobre tal classificação. Se devidamente fundamentada a acusação em raciocínio com conclusão plausível, utilizando para tanto elementos da legislação aplicável aos fatos efetivamente ocorridos, não há de se falar em erro ou nulidade do lançamento de ofício. OMISSÃO DE RECEITAS. LUCRO PRESUMIDO. RECEITA OPERACIONAL. VENDA DE TERRENO POR EMPRESA (SPE) ESTATUTARIAMENTE DEDICADA À INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA. CONCEITO DE RECEITA BRUTA IMOBILIÁRIA ABRANGENTE. AUSÊNCIA DE TRATAMENTO OU ONERAÇÃO FISCAL DISTINTA ENTRE ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS. MANUTENÇÃO CONTÍNUA EM ESTOQUE E EXCLUSIVA INTENÇÃO DE ALIENAÇÃO. Na hipótese de Sociedade de Propósito Específico, originalmente constituída para promover incorporação em terreno de sua propriedade sempre mantido em conta do ativo circulante, que não obtêm êxito na realização imobiliária pretendida inicialmente e aliena regularmente tal imóvel de seu estoque, mesmo sem edificações ou desdobros, a receita percebida pode ser classificada como operacional, ficando sujeita ao coeficiente de presunção de 8%, determinado pelo art. 15 da Lei nº 9.249/95, para a obtenção da base de cálculo. O conceito de receita bruta imobiliária, veiculado pelo art. 30 da Lei nº 8.981/95, abrange expressamente as atividades imobiliárias de loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, dando tratamento geral e idêntico ao seu produto, sem qualquer restrição, distinção ou ressalva. Receitas secundárias, fruto de atividades de natureza correlacionada, decorrente ou semelhante ao objeto principal da sociedade, estão incluídas na receita bruta, mesmo antes da vigência da Lei nº 12.973/2014. A determinação do objeto social das companhias é de decisão e implementação de seus titulares, sendo promovida contratualmente, sem qualquer necessidade de autorização pública. Desse modo, a classificação pela Fiscalização de uma receita como não operacional não pode, exclusivamente, basear-se na ausência da presença de uma subatividade imobiliária específica em seu registro societário. Contabilmente, a classificação de um ativo como circulante é determinada pelo fato deste ser mantido essencialmente com o propósito de ser negociado. Se a natureza das atividades pressupõe e compreende a alienação de um determinado imóvel, e este sempre esteve registrado em conta de ativo circulante (estoque), não existindo qualquer elemento indicativo de utilização diversa, não se sustenta a rotulação de ativo permanente imobilizado para tal bem. RECEITA TRIBUTÁVEL. PERMUTA DE BENS IMÓVEIS. LUCRO PRESUMIDO. Nas empresas que adotem o regime do Lucro Presumido, o valor do bem alienado em forma de permuta deve ser tratado como receita e oferecido à tributação. Havendo torna, tal montante se agrega à receita e igualmente deve ser tributado. Se a permuta envolver bem do não circulante, a tributação deverá ocorrer na forma de ganho de capital e não como resultado da atividade operacional da contribuinte. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2012, 2013 MULTA QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. SÚMULA CARF Nº 14. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DE FRAUDE. INOCORRÊNCIA. Não obstante o conteúdo da Sumula CARF nº 14, é necessária a comprovada ocorrência de fraude e dolo para a devida aplicação da previsão contemplada no §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. A imputação genérica e especulativa da ocorrência de fraude a fatos e negócios que não concorreram para a ocorrência da infração, sem qualquer demonstração ou prova de postura ilícita extratributária, não é fundamentação válida para a qualificação da multa de ofício O mero registro contábil de histórico de entradas e saídas sob justificativas e rubricas cuja a comprovação documental não foi feita pelo contribuinte não constitui fraude. RESPONSABILIDADE. ADMINISTRADORES. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DAS HIPÓTESES DO ART. 135 CTN. IMPROCEDÊNCIA. A responsabilização do administrador é prerrogativa excepcional da Administração Tributária, que demanda conjunto probatório robusto e preciso para permitir a transposição da pessoa do contribuinte, penetrando na esfera patrimonial de seu gestor e titular. É necessária a imputação pessoal, com correspondente comprovação, das práticas e circunstâncias elencadas no dispositivo sob análise. A simples elucubração da intenção dos gestores para cometer a infração tributária, sem a demonstração de nexo causal com as condutas pessoais efetivamente apuradas, não basta para atribuir-lhes responsabilidade. RESPONSABILIDADE. EMPRESAS SÓCIAS. ART. 124 INCISO I CTN. NECESSIDADE DE DESCRIÇÃO NO TVF E INADEQUAÇÃO DO DISPOSITIVO. IMPROCEDÊNCIA. O simples arrolamento de sócios como Responsáveis Solidários nas folhas dos Autos de Infração, sem a devida descrição dos motivos e justificativa legal da sua responsabilização no Termo de Verificação Fiscal, não basta para promover a sua inclusão no polo passivo. A norma contida no art. 124, inciso I, do CTN não é própria e adequada para a responsabilização de sócios, devidamente constantes do contrato ou do estatuto social das pessoas jurídicas autuadas. O interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele econômico, finalístico e consequencial que os titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2012, 2013 IDENTIDADE DE IMPUTAÇÃO. Decorrendo a exigência de CSLL da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada, no mérito, a mesma decisão, desde que não presentes arguições especificas e elementos de prova distintos.
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ERRO DE ACUSAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. GANHO DE CAPITAL. OPERACIONALIDADE DAS RECEITAS. DIVERGÊNCIA. FUNDAMENTAÇÃO REGULAR E PLAUSÍVEL NO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INOCORRÊNCIA. A divergência sobre a natureza operacional ou não de receitas colhidas pela Fiscalização não configura erro de acusação quando há margem para debates sobre tal classificação. Se devidamente fundamentada a acusação em raciocínio com conclusão plausível, utilizando para tanto elementos da legislação aplicável aos fatos efetivamente ocorridos, não há de se falar em erro ou nulidade do lançamento de ofício. OMISSÃO DE RECEITAS. LUCRO PRESUMIDO. RECEITA OPERACIONAL. VENDA DE TERRENO POR EMPRESA (SPE) ESTATUTARIAMENTE DEDICADA À INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA. CONCEITO DE RECEITA BRUTA IMOBILIÁRIA ABRANGENTE. AUSÊNCIA DE TRATAMENTO OU ONERAÇÃO FISCAL DISTINTA ENTRE ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS. MANUTENÇÃO CONTÍNUA EM ESTOQUE E EXCLUSIVA INTENÇÃO DE ALIENAÇÃO. Na hipótese de Sociedade de Propósito Específico, originalmente constituída para promover incorporação em terreno de sua propriedade sempre mantido em conta do ativo circulante, que não obtêm êxito na realização imobiliária pretendida inicialmente e aliena regularmente tal imóvel de seu estoque, mesmo sem edificações ou desdobros, a receita percebida pode ser classificada como operacional, ficando sujeita ao coeficiente de presunção de 8%, determinado pelo art. 15 da Lei nº 9.249/95, para a obtenção da base de cálculo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 3. 72 00 32 /2 01 5- 28 Fl. 2948DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.949 2 O conceito de receita bruta imobiliária, veiculado pelo art. 30 da Lei nº 8.981/95, abrange expressamente as atividades imobiliárias de loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, dando tratamento geral e idêntico ao seu produto, sem qualquer restrição, distinção ou ressalva. Receitas secundárias, fruto de atividades de natureza correlacionada, decorrente ou semelhante ao objeto principal da sociedade, estão incluídas na receita bruta, mesmo antes da vigência da Lei nº 12.973/2014. A determinação do objeto social das companhias é de decisão e implementação de seus titulares, sendo promovida contratualmente, sem qualquer necessidade de autorização pública. Desse modo, a classificação pela Fiscalização de uma receita como não operacional não pode, exclusivamente, basearse na ausência da presença de uma subatividade imobiliária específica em seu registro societário. Contabilmente, a classificação de um ativo como circulante é determinada pelo fato deste ser mantido essencialmente com o propósito de ser negociado. Se a natureza das atividades pressupõe e compreende a alienação de um determinado imóvel, e este sempre esteve registrado em conta de ativo circulante (estoque), não existindo qualquer elemento indicativo de utilização diversa, não se sustenta a rotulação de ativo permanente imobilizado para tal bem. RECEITA TRIBUTÁVEL. PERMUTA DE BENS IMÓVEIS. LUCRO PRESUMIDO. Nas empresas que adotem o regime do Lucro Presumido, o valor do bem alienado em forma de permuta deve ser tratado como receita e oferecido à tributação. Havendo torna, tal montante se agrega à receita e igualmente deve ser tributado. Se a permuta envolver bem do não circulante, a tributação deverá ocorrer na forma de ganho de capital e não como resultado da atividade operacional da contribuinte. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2012, 2013 MULTA QUALIFICADA. OMISSÃO DE RECEITAS. SÚMULA CARF Nº 14. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DE FRAUDE. INOCORRÊNCIA. Não obstante o conteúdo da Sumula CARF nº 14, é necessária a comprovada ocorrência de fraude e dolo para a devida aplicação da previsão contemplada no §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. A imputação genérica e especulativa da ocorrência de fraude a fatos e negócios que não concorreram para a ocorrência da infração, sem qualquer demonstração ou prova de postura ilícita extratributária, não é fundamentação válida para a qualificação da multa de ofício O mero registro contábil de histórico de entradas e saídas sob justificativas e rubricas cuja a comprovação documental não foi feita pelo contribuinte não constitui fraude. Fl. 2949DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.950 3 RESPONSABILIDADE. ADMINISTRADORES. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO E COMPROVAÇÃO DAS HIPÓTESES DO ART. 135 CTN. IMPROCEDÊNCIA. A responsabilização do administrador é prerrogativa excepcional da Administração Tributária, que demanda conjunto probatório robusto e preciso para permitir a transposição da pessoa do contribuinte, penetrando na esfera patrimonial de seu gestor e titular. É necessária a imputação pessoal, com correspondente comprovação, das práticas e circunstâncias elencadas no dispositivo sob análise. A simples elucubração da intenção dos gestores para cometer a infração tributária, sem a demonstração de nexo causal com as condutas pessoais efetivamente apuradas, não basta para atribuirlhes responsabilidade. RESPONSABILIDADE. EMPRESAS SÓCIAS. ART. 124 INCISO I CTN. NECESSIDADE DE DESCRIÇÃO NO TVF E INADEQUAÇÃO DO DISPOSITIVO. IMPROCEDÊNCIA. O simples arrolamento de sócios como Responsáveis Solidários nas folhas dos Autos de Infração, sem a devida descrição dos motivos e justificativa legal da sua responsabilização no Termo de Verificação Fiscal, não basta para promover a sua inclusão no polo passivo. A norma contida no art. 124, inciso I, do CTN não é própria e adequada para a responsabilização de sócios, devidamente constantes do contrato ou do estatuto social das pessoas jurídicas autuadas. O interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele econômico, finalístico e consequencial que os titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2012, 2013 IDENTIDADE DE IMPUTAÇÃO. Decorrendo a exigência de CSLL da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada, no mérito, a mesma decisão, desde que não presentes arguições especificas e elementos de prova distintos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: negar provimento ao recurso de ofício; rejeitar a preliminar de nulidade e dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i)reduzir a base de cálculo do lançamento de ofício aplicando o coeficiente de 8% para obtenção do lucro presumido; ii) excluir os coobrigados da relação jurídicotributárias. II) por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reduzir a multa ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro Evandro Correa Dias que votou por manter a penalidade nos moldes aplicados; e III) por voto de qualidade, negar provimento ao recurso no que se refere à redução no valor tributável dos imóveis recebidos em permuta. Fl. 2950DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.951 4 Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso nessa matéria. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor. O Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues participou do julgamento apenas em relação à multa qualificada e à exclusão dos coobrigados, tendo em vista que o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves votou as demais matérias na sessão de outubro/2017. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella Relator. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves. Fl. 2951DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.952 5 Relatório Tratase de Recurso de Ofício e Recurso Voluntário (fls. 2869 a 2912), interpostos contra v. Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Recife/PE (fls. 2820 a 2837) que manteve integralmente o crédito tributário e multas exigidas nas Autuações sofrida pela Contribuinte (fls. 954 a 10007), apenas excluindo do polo passivo as empresas MZM Participações Ltda e MZM Participações FC Ltda (únicas sócias da Recorrente), provendo em parte a Impugnação apresentada (fls. 2611 a 2811). O processo versa sobre exações de IRPJ e CSLL, acompanhadas de multa de qualificada (150%), lançada em face da empresa Gold Boston Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda., diante da omissão de receitas não operacionais (ganho de capital), ocorridas nos anoscalendário de 2012 e 2013, responsabilizando também, nos termos do art. 135, inciso III, do CTN, as pessoas de FRANCISCO DIOGO MAGNANI, CLAUDIO YUKISHIGUI TAKAESU (Sócios do Grupo MZM) e as empresas MZM Participações Ltda. e MZM Participações FC Ltda. A acusação fiscal que sustenta a Autuação se resume à constatação de que não foram tributadas as receitas percebidas com a alienação de 2 (dois) imóveis, de propriedade da empresa Autuada, adquirido em 08/10/2008 e alienado, em 25/04/2012, por meio de contrato de Promessa de Permuta com Torna. Entendeu a Autoridade Fiscal que tais bens faziam parte do ativo não circulante imobilizado (antigo ativo permanente imobilizado), mesmo que registrados, desde a aquisição, em conta de estoque, caracterizando a infração objeto do lançamento como Omissão de Receitas Não Operacionais Infração: Ganho de Capital, como descrito nas Autuações. No vasto e completo TVF (fls. 1010 a 1044), após descrever os procedimentos realizados juntos às partes envolvidas na operação apurada, a Fiscalização esclarece o histórico societário da empresa Autuada, desde a sua constituição em 05/2007 até a pactuação da Permuta com torna dos terrenos que detinha em 04/2012. Confirase tal resumo trazido no TVF sobre o controle e a titularidade da Contribuinte: Fl. 2952DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.953 6 A partir dos documentos apresentados pelos sócios anteriores da empresa Gold Boston, a síntese das alterações assim pode ser descrita: 07/05/2007 (Contrato Social): A Gold Boston foi fundada com capital inicial de R$ 1.000,00 integralizado em dinheiro, por: GOLDFARB Incorporações e Construções S/A (capital de 999,00) GRÉCIA Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda (capital de 1,00) 06/10/2008 (2ª Alteração): GRÉCIA saiu da sociedade e deu lugar a PDG REALTY Co Incorporação S/A; Capital Social alterado para R$ 8.433.760,00 (metade para cada sócio), saldo a ser integralizado. 02/12/2009 (3ª Alteração): Sai PDG REALTY CoIncorporação; Entra PDG REALTY S/A Empreendimentos e Participação; Estabelecido prazo de 2 anos para integralização do capital a integralizar. 31/05/2010 (4ª Alteração): A Alteração Contratual afirma que o capital foi integralizado (8.433.760,00); Aumentou o capital para R$ 21.433.760,00 (metade para cada sócio), com 1 ano para integralizar. 24/04/2012 (5ª Alteração): A Alteração Contratual afirma que o capital foi integralizado (21.433.760,00); Aumentou o capital para R$ 23.588.878,00 (tudo integralizado); A integralização do aumento foi com o uso de Adiantamentos para Futuros Aumentos de Capital (AFAC); 24/04/2012 (6ª Alteração): PDG REALTY saiu e repassou suas cotas para a GOLDFARB que ficou com 100% do capital; GOLDFARB também saiu e repassou suas cotas para: Fl. 2953DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.954 7 MZM PARTICIPAÇÕES (R$ 23.588.877,00) MZM PARTICIPAÇÕES FC (R$ 1,00) O custo de aquisição das cotas foi de R$ 55.939.200,00 (valor da transação dos imóveis) (SIC) Alterou a sede e os administradores. (fls. 1014 a 1015) Fica relatado em tal documento de fundamentação de lançamento que os sócios anteriores da Gold Boston (empresas Goldfarb e PGD Realty) pactuaram inicialmente um contrato de Compromisso de Compra e Venda de tais terrenos com MZM Empreendimentos Imobiliários Ltda., datado de 11/02/2011 (fls. 166 a 180) cujo objeto (terrenos) acabou sendo cambiado, por meio de Aditivo Contratual com a anuência das partes, datado de 24/04/2012 (fls. 217 a 219), pelas quotas da própria empresa detentora de tal bem (Gold Boston Autuada). Dessa forma, após tal negócio, as empresas MZM Participações Ltda e MZM Participações FC Ltda (designadas contratualmente pela sua controladora como destinatárias das quotas adquiridas) tornaramse as únicas sócias da Gold Boston. Em seguida, em 25/04/2012 foi firmado pela empresa Gold Boston SPE contrato de Promessa de Permuta de Imóvel com Torna para Odebrecht Realizações Imobiliárias SP 12 SPE Empreendimento Imobiliário Ltda. (posteriormente designada social e comercialmente como Santo Andre Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S A) constando também lá como Intervenientes Pagadores a empresa MZM Empreendimentos Imobiliários Ltda. e os Srs. FRANCISCO DIOGO MAGNANI e CLAUDIO YUKISHIGUI TAKAESO e, como Interveniente Anuente, a companhia Odebrecht Realizações Imobiliárias S. A. (fls. 228 a 261). Os considerandos preliminares de tal contrato são profundamente esclarecedores para a compreensão total da operação, razão pela qual são reproduzidos na sequência: Fl. 2954DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.955 8 Fl. 2955DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.956 9 Posto isso, esclarecese que o a omissão de receitas que formaram o ganho de capital supostamente ocorrido são frutos de tal transação de alienação. Garantindo o relato fidedigno da infração apontada pela Fiscalização, confirase os termos da acusação contida no TVF no tópico Análise da Fiscalização, inclusive demonstrando as mudanças no tratamento contábil e fiscal procedidos nos Livros da Autuada após a troca de titularidade societária para as empresas do Grupo MZM, onde está precisamente descrito o ilícito tributário imputado, agora sob análise: Em face das várias características e perspectivas fiscais, contábeis e societárias envolvidas nas transações imobiliárias que culminaram no ganho de capital na Gold Boston, a auditoria passará a analisar em detalhes os contornos dos reflexos tributários envolvidos. 3.1 Da Venda dos terrenos para a Santo André Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S A A partir das intimações fiscais e circularizações nas empresas envolvidas na transação com os terrenos concluise que a fiscalizada, constituída com objeto social de incorporação Fl. 2956DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.957 10 imobiliária, possuía os terrenos em seus ativos até que os alienou para a empresa Santo André Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S A, consoante negócio realizado em Promessa de Permuta de Bem Imóvel com Torna, datada de 25/04/2012, o qual foi formalizado em Cartório mediante Escritura de Compra e Venda apresentada pela adquirente, juntamente com os comprovantes documentais de pagamento pela aquisição. Neste sentido, os terrenos acima descritos, conforme as matrículas anexadas, passaram a compor uma matrícula única nº 121.115. Na análise das escrituras dos terrenos apresentadas e dos Contratos Sociais da fiscalizada, em relação aos imóveis da Avenida Industrial, concluise que inicialmente eram duas matrículas, sendo: Matrícula 10.093: terreno na Avenida Industrial, nº 1.600, com área total de 16.973,00 m2 Matrícula 19.140: terreno na Avenida Industrial, nº 1.740, com área total de 38.966,20 m2 Estas duas matrículas foram unificadas na matrícula 121.115, perfazendo a soma das duas áreas, ou seja, 55.939,20 m2, em 12/12/2011, tendo como proprietária Sul América Capitalização S/A – SULACAP, CNPJ 03.558.096/000104. A Averbação 01 da matrícula 121.115 aponta a existência de registros nas matrículas originais (10.093 e 19.140), relativos à promessa de venda do imóvel à Gold Boston. Em 05/04/2012 formalizouse a transferência no Registro de Imóveis da venda do imóvel para a Gold Boston, pelo valor de R$ 13.000.000,00 (treze milhões de reais), ocorrida financeiramente em 08/10/2008 conforme Promessa de Compra e Venda. Nesta data a adquirente ainda era controlada aos antigos sócios Goldfarb e PDG Realty. Em 24/04/2012 ocorreu a transferência das cotas da Gold Boston para a MZM Participações e MZM Participações FC, que foram negociadas pelo preço de R$ 55.939.200,00, conforme previsão contratual a cargo da adquirente do grupo MZM. Neste sentido foram a informações comprovadas documentalmente pelos sócios anteriores da Gold Boston (Goldfarb e PDG Realty) ao tratarem da alienação dos terrenos: “por meio de alienação da participação societária às adquirentes”, e ainda que, “foi realizada a cessão onerosa de cotas registrada mediante a 6ª alteração contratual da Sociedade e formalizada entre as partes por contrato de compra e venda em que as adquirentes se comprometeram a realizar o pagamento da seguinte forma....” Em verdade a aquisição das cotas decorreu de que, em 11/02/2011, a Gold Boston e a MZM Empreendimentos Imobiliários Ltda haviam firmado Compromisso Particular de Venda e Compra, cujo objeto eram os dois terrenos (matrículas Fl. 2957DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.958 11 10.093 e 19.140, posteriormente unificados na matrícula 121.115), ao preço de R$ 55.939.200,00 (valor equivalente a R$ 1.000,00 o m2). Pelas cláusulas previstas no contrato acima referido, em 24/04/2012, através de Termo Aditivo do referido contrato, a adquirente (MZM Empreendimentos Imobiliários Ltda) manifestou o desejo de trocar o objeto da compra e venda, onde deixou de ser os terrenos e passou a ser a aquisição da integralidade das cotas da vendedora Gold Boston. Nesta ocasião a então adquirente dos terrenos (MZM Empreendimentos), além de optar por adquirir as cotas da Gold Boston em vez dos terrenos, indicou as empresas MZM Participações Ltda e MZM Participações FC Ltda para serem as titulares das referidas cotas, sendo então formalizada a 6ª alteração contratual da Gold Boston, em 24/04/2012. Em seguida, já com os novos sócios (MZM Participações e MZM Participações FC), a Gold Boston firmou em 25/04/2012, um dia após a efetiva posse da sociedade, uma Promessa de Permuta de Bem Imóvel com Torna dos terrenos à ODEBRECHT Realizações SP 12 SPE Empreendimento Imobiliário Ltda (atualmente denominada Santo André Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S/A), pelo valor de R$ 84.343.736,24. Seguindo a esteira dos negócios tabulados anteriormente, a formalização desta venda dos terrenos veio precedida dos pagamentos da adquirente iniciados em janeiro/2012. Da leitura desta verificase nos considerandos no item vi, que as partes celebraram Memorando de Entendimento em 14/12/2011, os quais sofreram aditamentos em 20/01/2012, 19/03/2012 e 20/04/2012, estabelecendo as premissas para aquisição dos terrenos. Daí advem os pagamentos ocorridos desde jan/2012, anteriormente ao registro cartorial. Na proposta de venda foi definido que a matrícula 121.115 (que compreende a área total dos dois terrenos, ou seja, 55.939,20 m2) seria desmembrada em 3 matrículas, fato que se materializou em 22/11/2012, quando surgiram as seguintes matrículas: 125.124 com área de 28.396,22 m2, preço de venda: R$ 29.972.164,96 125.125 com área de 20.000,00 m2, preço de venda: R$ 33.759.967,97 125.126 com área de 7.542,98 m2, preço de venda: R$ 20.611.603,31 Totais .. 55.939,20 m2, preço de venda: R$ 84.343.736,24 A despeito do ganho auferido pela fiscalizada na alienação dos terrenos constantes de seu ativo, não houve apuração nem recolhimento do ganho de capital. Na contabilidade da fiscalizada Gold Boston os terrenos estão registrados em Fl. 2958DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.959 12 Balanço Patrimonial em 31 de março de 2012 como “estoques terrenos imóveis a comercializar” pelo montante de R$ 20.967.838,43. 3.2 Dos registros contábeis na Gold Boston da alienação dos terrenos A análise das Declarações de Imposto de Renda da fiscalizada nos anoscalendário de 2011, 2012 e 2013, quando foi optante pelo lucro presumido, concluise que não reconheceu qualquer base de cálculo sujeita à tributação do imposto de renda e da contribuição social. No anocalendário foram reconhecidas receitas, mas excluídas na linha de ajuste do RTT. Avaliase, de acordo com a alteração do controle societário ocorrida em abril/2012, bem como por causa da alteração da transação dos terrenos que de alienação dos imóveis resultou em alienação de quotas da Gold Boston, que os registros contábeis deveriam estar em consonância com o negócio implementado. Assim deve ocorrer ao ser seguida a devida técnica contábil com seus reflexos fiscais. 3.2.1 Dos registros contábeis sob o controle societário dos antigos sócios Goldfarb A auditoria ao compulsar os registros contábeis da Gold Boston nos anoscalendário 2012 e 2013 deparase com duas situações distintas. Isto porque quando a escrita foi de responsabilidade dos sócios anteriores, envolvendo em 2012 os meses de janeiro a abril, as receitas foram registradas na conta 3110101003 Receita na Venda de Imóveis, e totalizaram ao final de 31/03/2012 o montante de R$ 42.858.810,55, de acordo com a Demonstração do Resultado em 31 de março de 2012, subscrita pelo diretor John Christer Salen e pelo contador Samuel Severo da Silva, assim como pelo Balancete de Verificação das Contas, posição em 30/04/2012, extraído dos arquivos contábeis digitais fornecidos pelo contribuinte mediante validador de arquivos. A perspectiva de análise destes registros deve levar em consideração que até decisão da compradora MZM Empreendimentos optar pelo implemento do Termo Aditivo de Contrato de Compromisso de Venda e Compra, datado de 24/04/2012, a controladora da Gold Boston considerava que teria alienado os terrenos. Portanto, registrou parcela do ganho de capital na contabilidade. Os novos sócios deveriam ter estornado estes lançamentos da alienação do terreno para a MZM, e incluído os lançamentos contábeis de reconhecimento da venda dos terrenos para a Santo André Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S/A.. Digase que tal venda estava acertada desde 14/12/2011 com os Memorandos de Entendimento sobre a aquisição dos terrenos. 3.2.2 Dos registros contábeis sob o controle societário dos novos sócios do Grupo MZM Fl. 2959DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.960 13 Considerando que a partir de seu ingresso na sociedade, às empresas do grupo MZM e aos seus sócios controladores coube a decisão de venda dos terrenos, que na prática foi implementada pelos novos sócios MZM Participações e MZM Participações FC. Neste caso, deveriam os novos sócios realizar o correto registro contábil do ganho de capital, assim como o recolhimento dos tributos decorrentes da consequente apuração do ganho de capital. No entanto, tal fato não ocorreu, uma vez que, conforme pode ser constatado na Declaração da Pessoa Jurídica dos anoscalendário 2012 e 2013, não houve registro contábil de receitas a partir de abril/2012. A partir da verificação de ausência dos registros contábeis das receitas de alienação dos terrenos à Odebrecht na fiscalizada, a questão que surge seria de como foram registrados os ingressos de recursos financeiros advindos da adquirente. Pois bem, a planilha fornecida pela Santo André Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S/A detalha para quem foram feitos os pagamentos, devidamente embasada pelos comprovantes financeiros. Tais pagamentos foram realizados a mando do credor à Odebrecht, advindos da adquirente. 3.3 Do fluxo financeiro dos pagamentos da Santo Andre Boulevard Jardim 1 Empreendimentos Imobiliários S A e seus correlatos registros contábeis de entrada e posterior destinação A partir de agora passaremos aos detalhamentos do fluxo financeiro dos pagamentos da Santo André Boulevard ao credor Gold Boston. Digase, de início, que os pagamentos seguiram a “Promessa de Permuta de Bem Imóvel com Torna”. Na ocasião o credor Gold Boston, representado pelos sócios do grupo MZM e as empresas intervenientes, determinou o fluxo destes pagamentos. Conforme indicam as informações prestadas pela adquirente Santo André Boulevard, devidamente documentadas com os comprovantes financeiros, houve dois recebimentos iniciais datados de 24/01/2012 e 24/02/2012, que deveriam ser recebidos pela alienante Gold Boston, mas foram direcionados a critério da credora para a empresa MZM Empreendimentos. Para o recebimento de R$ 3.088.996,48, em 24/01/2012, a empresa Gold Boston registrou na conta contábil 1110202065 – Entrada Banco Itaú agência 2000 CC 488862, e em seguida deu saída aos recursos para os sócios em contrapartida da conta contábil 1250110001 Dividendos Pagos Antecipadamente LP em 27/01/2012, sendo o montante de R$ 1.544.050,00 para cada sócio. Para o recebimento de R$ 3.116.224,92, em 24/02/2012, a empresa registrou na conta contábil 1110202065 – Entrada Banco Itaú agência 2000 CC 488862, e em seguida deu saída aos recursos para os sócios em contrapartida da conta contábil 1250110001 Dividendos Pagos Antecipadamente LP em 28/02/2012, sendo o montante de R$ 1.588.000,00 para cada sócio. Fl. 2960DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.961 14 Portanto, nestes casos tão logo os recursos entraram nas contas da empresa foram distribuídos antecipadamente aos sócios, não obstante os registros de receitas. Constatase que à época os sócios eram Goldfarb e PDG Realty. Por outro lado, a partir do controle da empresa pelos novos sócios os registros contábeis deixaram de ser feitos em conta de receita de venda de imóveis. Em verdade a empresa não mais reconheceu qualquer receita pela venda dos terrenos, registrando os recebimentos na conta contábil 11010020002 Bradesco 32298, em contrapartida da conta do Passivo código 21050010008 Partes Relacionadas. Desta forma ocorreu para os recebimentos havidos na monta de R$ 5.225.779,86 em 06/07/2012, para o valor de R$ 5.486.899,38 em 23/01/2013 e para o valor de R$ 1.257.066,44. A diferença entre ambos reside no fato de que para o primeiro lançamento informou como histórico contábil “VR. REF. TRANSFERENCIA P/ Adto. Mão de Obra – MZM x GOLD CFE. EXTRATO”, enquanto nos demais lançamentos descreveu no histórico “VR. REF. TRANSFERENCIA ENTRE EMPRESAS – MZM x GOLD BOSTON CFE. EXTRATO”. A saída destes recursos da empresa ocorreu logo em seguida, sendo que para o anocalendário de 2012, justificouse no histórico contábil “VR. REF. TRANSFERENCIA P/ ADIANT DE MAODEOBRA GOLD BOSTON X MZM CFE. EXTRATO”, a débito da conta contábil do Passivo “Partes Relacionadas”. Este lançamento sob o ponto de vista contábil representaria que a empresa quitou uma dívida com a MZM relacionada com mãode obra. Digase que para o anocalendário 2013 o mesmo procedimento foi adotado, sendo a saída dos recursos justificada pelo histórico contábil “ TRANSFERENCIA ENTRE EMPRESAS GOLD X MZM ENGENHARIA CONF EXTRATO”. Neste caso incluiuse para justificar o esvaziamento dos ativos disponíveis da empresa como decorrente de transação com a MZM Engenharia. A seguir, estes registros na contabilidade da Gold Boston: Tais lançamentos foram registrados inicialmente como se fossem passivo decorrente de futuro aumento de capital, sendo em seguida enviados os recursos para as empresas do grupo da MZM. Neste caso, deveria ter sido quitado o ingresso de Fl. 2961DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.962 15 recursos com a integralização dos recursos pelos acionistas. Porém, assim não ocorreu. Ao final, os recursos entraram e saíram por motivos diferentes dos registrados contabilmente. O ingresso foi pelo recebimento da venda dos terrenos, e a saída não foi por causa da integralização de capital pelos quotistas. Na sequência, os pagamentos da adquirente foram direcionados para Goldfarb Incorporações e Construções S/A, a menos do pagamento na monta de R$ 1.257.066,44 ocorrido em 04/02/2013 que foi recebido pela Gold Boston. Neste caso o montante total que foi redirecionado para Goldfarb perfaz R$ 43.284.163,79. Nada justifica que a Gold Boston não reconheça estas receitas de recebimentos pela venda dos terrenos, uma vez que não há que ser confundida a dívida dos novos sócios da Gold Boston com as obrigações da empresa sob fiscalização. Ao serem redirecionados os pagamentos, os novos sócios assim o fizeram no intuito de não recolher o ganho de capital, eis que não haveria o ingresso financeiro na auditada. Mais ainda. Os lançamentos contábeis foram falseados pela MZM Empreendimentos Ltda, sob responsabilidade dos sócios administradores. Isto porque, conforme pode ser verificado pelos Livros Diários entregues pela empresa, os registros dos dois ingressos em conta corrente dos valores de R$ 2.000.000,00 em 24/01/2012 e de R$ 2.050.834,21 em 24/02/2012 tem como contrapartida a baixa do adiantamento de aquisição de terrenos. Neste caso, as respostas apresentadas pela MZM Empreendimentos no início da auditoria, conforme já relatado, estão em desacordo com a verdade, uma vez que, em resposta datada de 02/03/2015 a empresa informou que os terrenos não teriam sido adquiridos pela MZM Empreendimentos. Concluise pelo exposto que a Gold Boston e seus sócios do grupo MZM acobertaram como puderam o negócio da aquisição das quotas da Gold Boston e da alienação dos dois terrenos para a incorporadora Odebretch Realizações S A. Na sequência, a Fiscalização adentra temas de forma acadêmica, sem fazer referência aos fatos do caso concretamente analisado, como Aspectos Específicos Tributação Construção Civil, relatando também a Possibilidade de Opção Pelo Lucro Presumido, a Apuração do Lucro Presumido, passando a verificar a figura da permuta, concluindo que: Temse, portanto, que a contrapartida da entrada no ativo de um montante em dinheiro, ou de um bem ou direito, ou ainda da redução de uma obrigação, decorrente de uma operação de venda ou de permuta, é RECEITA. Assim, quando a construtora dá saída a um bem ou direito do seu ativo, como um apartamento pronto ou a construir, ela aufere uma RECEITA, pouco importando se o pagamento é feito em pecúnia, em bens ou redução de um passivo. A RECEITA é Fl. 2962DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.963 16 lançada na conta de resultado e o recurso/bem/direito é lançado a débito de conta de ativo (aumentando) ou de passivo (reduzindoo). (fls. 1028/1029) Em prosseguimento, discorre sobre a Distinção entre Lucro Real e Lucro Presumido, chegando a posição de que: Ora, é cristalino que a construtora ou incorporadora, quando dá saída aos apartamentos prontos ou a construir que estão no seu estoque, aufere RECEITA. Assim, sobre esta receita devese aplicar o percentual de 8% para apurar o Lucro Presumido. Para apuração do Lucro Presumido, não importa o efetivo resultado da operação. Não importa se o custo contábil equivalha a 50% do valor de venda, caso em que o resultado é muito maior do que o presumido; não importa que o valor seja inteiramente recebido em outros imóveis, sem torna, caso em que o resultado é neutro. (fl. 1029) De forma mais concreta então, aborda a Inaplicabilidade da IN SRF nº 107, de 14 de julho de 1988, ao Lucro Presumido, a qual dispõe sobre os procedimentos a serem adotados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas e do lucro imobiliário das pessoas físicas, nas permutas de bens imóveis. Tal Instrução Normativa determina que apenas a eventual torna (diferença positiva entre o valor de imóveis permutados) será conhecida como receita tributável. Afirma a Autoridade Fiscal sobre tal assunto que: Primeiro: como foi exposto anteriormente, a sistemática de apuração do imposto sobre o lucro real e sobre o lucro presumido são completamente diferentes. No Lucro Real, importa o resultado efetivo. No Lucro Presumido, não importa o resultado efetivamente apurado. Assim, quando a ementa enuncia que a IN “dispõe sobre os procedimentos a serem adotados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas e do lucro imobiliário das pessoas físicas, nas permutas de bens imóveis”, quer dizer que ela se aplica somente às operações em que se apura o efetivo resultado da operação. Não se aplica às operações em que o lucro é presumido. Segundo: o fato de a Lei nº 9.718/98 ter facultado às construtoras e incorporadoras a opção pela apuração do IRPJ e da CSLL com base no Lucro Presumido não faz com que a IN SRF 108/88, que detalha como se apura o RESULTADO no Fl. 2963DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.964 17 Lucro Real e na IRPF, passe a ser aplicada à sistemática do Lucro Presumido, que lhe é totalmente estranha. (fl. 1030) Ainda trata da posição da Receita Federal do Brasil sobre o tema, trazendo normativos interna desse Órgão arrecadador, principalmente citando o Parecer Normativo nº 9, de 4 de setembro de 2014, que assim reza: Na operação de permuta de imóveis com ou sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica que apura o imposto sobre a renda com base no lucro presumido, dedicada a atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, constituem receita bruta tanto o valor do imóvel recebido em permuta quanto o montante recebido a título de torna. A referida receita bruta tributase segundo o regime de competência ou de caixa, observada a escrituração do livro Caixa no caso deste último. O valor do imóvel recebido constitui receita bruta indistintamente se tratase de permuta tendo por objeto unidades imobiliárias prontas ou unidades imobiliárias a construir. O valor do imóvel recebido constitui receita bruta inclusive em relação às operações de compra e venda de terreno seguidas de confissão de dívida e promessa de dação em pagamento, de unidade imobiliária construída ou a construir. Considerase como o valor do imóvel recebido em permuta, seja unidade pronta ou a construir, o valor deste conforme discriminado no instrumento representativo da operação de permuta ou compra e venda de imóveis. Por fim, após tratar Do Momento do Reconhecimento da Receita Bruta, a Fiscalização retorna ao relato mais concreto da operação analisada, justificando e fundamentado de que porque tratou como ganho de capital o produto das receitas omitidas. Confirase: O objeto social da empresa está definido desde a constituição da empresa conforme segue: Fl. 2964DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.965 18 Neste sentido, a empresa foi constituída como sociedade de propósito específico para a consecução de empreendimento imobiliário. Desta forma ocorreu desde 07/05/2007. Em seguida, na consecução do seu objeto social adquiriu os terrenos conforme detalhado acima em 08/10/2008. Passados vários anos desde a aquisição, sem que tenha viabilizado seu objeto social, eis que nenhum empreendimento imobiliário foi executado nos terrenos adquiridos, decidiu alienálos para a incorporadora. Esta realmente fez a incorporação e empreendimento imobiliário com os terrenos adquiridos. Desta forma, a alienação dos terrenos não faz parte do objeto do social da Gold Boston, razão pela qual serão tributados como ativo imobilizado da fiscalizada. Daí resulta na apuração do ganho de capital tributado pelo lucro presumido. Assim reza o Regulamento do Imposto de Renda ( RIR/99 ), no art. 521, a seguir transcrito: GANHOS DE CAPITAL E OUTRAS RECEITAS Art. 521. Os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo art. 519, serão acrescidos à base de cálculo de que trata este Subtítulo, para efeito de incidência do imposto e do adicional, observado o disposto nos arts. 239 e 240 e no § 3º do art. 243, quando for o caso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 25, inciso II). § 1º O ganho de capital nas alienações de bens do ativo permanente e de aplicações em ouro não tributadas como renda variável corresponderá à diferença positiva verificada entre o valor da alienação e o respectivo valor contábil. (...) A apuração do ganho de capital será feita considerando que os recebimentos foram parcelados e que houve a permuta por unidades imobiliárias a serem construídas cujo montante foi estipulado desde a Promessa de Permuta. Neste caso, em concordância com item acima, o ganho de capital será considerado nas datas de incorporação das permutas. Naturalmente que a proporção do ganho de capital será apurada em função dos custos do imóvel adquirido no montante de R$ 13.000.000,00. Ou seja, ocorreu um ganho de capital total de R$ 77.809.828,80 ( R$ 90.809.828,80 – R$ 13.000.000,00 ) que foi diferido de acordo com os recebimentos, e com as duas incorporações ocorridas em 30/08/2013 e 21/11/2013 no montante de R$ 12.650.000,00 cada qual. Neste sentido seguem os cálculos do ganho de capital: Fl. 2965DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.966 19 (fls. 1035 a 1037) No que tange à qualificação da multa punitiva aplicada (150%), a Autoridade Fiscal fundamenta da seguinte forma a sua aplicação: A evasão tributária perpetrada pela Gold Boston Ltda ao deixar de recolher o ganho de capital foi idealizada através da triangularização financeira entre as empresas do mesmo grupo econômico e seus devedores. Isto porque, conforme suso demonstrado, as operações financeiras entre a Gold Boston comandada pelos novos sócios, a MZM Empreendimentos e o devedor implicaram no acobertamento financeiro e contábil deste ganho. A ordem natural financeira e contábil se aplicada, não permitiria a sonegação ora perpetrada. Estes fatos minudentemente relatados caracterizam a figura da sonegação fiscal. A Gold Boston reconheceu a vigência do contrato da Promessa de Venda cuja receita foi omitida, portanto tinha conhecimento dos valores dos tributos devidos na apuração do imposto de renda, mas preferiu agir de maneira evasiva, sem registrar suas receitas a despeito de indicar terceiros para receberem seus créditos, caracterizando o intuito de fraude e justificando a aplicação da multa qualificada. A conduta deliberada e sistemática destes atos demonstra a presença do DOLO, no sentido de ter a consciência e querer a conduta de sonegação e agir em conluio com outra empresa de seu grupo econômico MZM, descritas nos art. 71 e 73 da Lei nº Fl. 2966DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.967 20 4.502/64, justificando a aplicação da multa qualificada de 150%. (...) (fls. 1037/1038) Ao seu turno, no que tange à responsabilização das pessoas físicas e das empresas arroladas, a Fiscalização assevera que: Em face das operações societárias relatadas caracterizada está a fraude perpetrada pelo grupo econômico MZM e seus sócios administradores. Isto porque restou evidenciado nestes atos a intenção dolosa dos sócios administradores, inclusive na administração da Gold Boston pois os atos da empresa são sempre praticados através da vontade de seus dirigentes, preocupados o tempo todo em ocultar a realidade dos fatos com o intuito único de eximirse de pagamento de tributos. No presente caso a responsabilidade dos sócios está presente desde a forma societária engendrada na aquisição das cotas pela MZM Participações e seus sócios. Isto porque há vários pagamentos realizados pela adquirente dos terrenos direcionados diretamente para os sócios anteriores da Gold Boston. Isto significa dizer que parcela significativa do ganho de capital na operação de alienação dos terrenos, a mando dos sócios da Gold Boston, não transitou financeiramente pela fiscalizada. Com efeito, os credores determinaram aos devedores que pagassem diretamente para a Goldfarb várias parcelas da venda dos terrenos na “Promessa de Permuta de Bem Imóvel em Torna”. Constatase daí que, para saldar dívidas com os proprietários anteriores devidas pelas aquisições das cotas de capital, a Goldfarb recebeu pagamentos que atingiram a monta de R$ 43.284.163,79. Tais operações financeiras em nada relacionamse com os interesses da empresa que alienou os terrenos. Isto porque, por óbvio, o ganho de capital pertence à fiscalizada Gold Boston que ao invés de recebêlos, determina que as parcelas sejam pagas a terceiros com quem a Gold Boston não tem relação comercial. Nada mais une a Goldfarb com a Gold Boston a partir da alienação do controle societário para a MZM Participações, pertencente, à época dos fatos, aos sócios Francisco Diogo Magnani e Cláudio Yukishigue Takaesu. O direcionamento de tais recebimentos decorreu de interesses particulares dos sócios da Gold Boston que tinham dívidas anteriores à alienação resultante do ganho de capital. Estas dívidas derivam da aquisição das cotas societárias pela MZM Empreendimentos da Goldfarb. Daí resta claro que a alienante teve seu Caixa esvaziado pelos interesses dos sócios, sem ter havido o correspondente reconhecimento contábil do lucro, nem recolhidos os tributos devidos pela venda dos terrenos. Fl. 2967DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.968 21 Ainda na auditoria financeira do direcionamento dos pagamentos recebidos pela Gold Boston pela alienação dos terrenos verificase que os dois pagamentos iniciais no montante de R$ 4.050.834,21 foram endereçados às contas da MZM Empreendimentos. Nesta data inexiste motivo idôneo para que pagamentos que deveriam ser endereçados à Gold Boston passem diretamente para a MZM Empreendimentos. A relação que une MZM Empreendimentos e Gold Boston não é comercial, muito menos societária. Os registros contábeis da Gold Boston não apontam qualquer recebimento pelas duas parcelas pagas pela devedora, nem há qualquer reconhecimento de receitas pela MZM Empreendimentos recebedora dos pagamentos. Os Livros Diário da MZM Empreendimentos registram os recebimentos de forma a induzir a erro, pois indicam uma baixa nos adiantamentos da aquisição dos terrenos, quando na realidade os recebimentos decorrem de recebimentos pelos terrenos alienados pela Gold Boston. Em verdade, há premeditada confusão patrimonial entre as empresas do grupo MZM. Isto porque quem negociou a aquisição das cotas foi a MZM Empreendimentos, porém quem adquiriu as cotas foi MZM Participações. De outra parte, nos lançamentos contábeis que registraram a saída do numerário recebido pela Gold Boston na venda dos terrenos, o destino dos recursos foi a MZM Empreendimentos a título de mão de obra, sem que qualquer contrato tenha sido apresentado pela empresa MZM Empreendimentos e pela Gold Boston. Observese que no início da auditoria a MZM Empreendimentos eximiuse por algumas vezes em responder sobre as aquisições dos terrenos. Somente após o Termo de Intimação Fiscal nº 03 apresentou o contrato de Promessa de Permuta. Neste mesmo sentido da confusão patrimonial entre as empresas do grupo econômico MZM, há várias transferências de recursos sob histórico contábil de adiantamento para futuro aumento de capital (AFAC ), sem que qualquer operação societária tenha ocorrido. Ademais, há várias saídas de recursos da Gold Boston para as empresas do grupo MZM, tais como MZM Engenharia e MZM Participações. Nestes casos, os registros foram falseados para esconder o motivo do ingresso dos recursos e para registrar a saída para empresas do mesmo grupo da MZM. Também há saídas de recursos como adiantamento de mão de obra fosse. (...) Os fatos ora trazidos apontam para a perfeita subsunção aos ditames legais aplicáveis à responsabilização tributária pessoal. Sobre a matéria trata o Art. 135, inciso III,da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional (CTN) :(...) Ora, reiteradas foram as declarações falsas prestadas pela fiscalizada. Houve, com a finalidade de redução do pagamento de IRPJ e CSLL, desde a falta do reconhecimento de receitas nas DIPJ, não obstante registros contábeis de receitas na Fl. 2968DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.969 22 contabilidade de jan/2012 a mar/2012, até a falta dos registros contábeis pelas parcelas recebidas pela empresa quando os novos sócios assumiram o controle da empresa. Houve a infração a legislação tributária prevista no artigo 1º, inciso I e artigo 2º, inciso I, da Lei 8.137/90, os quais dispõem:(...) Diante do exposto, Responsabilizamos Pessoalmente, nos termos do Art. 135, III, do CTN – Código Tributário Nacional, conforme Termo de Responsabilidade Tributária, os responsáveis Cláudio Yukishigue Takaesu, CPF nº 006.195.758 71, e Francisco Diogo Magnani, CPF nº 859.983.89891, sócios administradores do Grupo MZM, com participação na fiscalizada, pois desde a aquisição do terreno decidiram a forma como ocorreria a transação quando optaram pela aquisição das cotas societárias. Em seguida, na administração da empresa adquirida decidiram pela falta de contabilização das receitas de venda dos terrenos, assim como pelo redirecionamento dos recebimentos diretamente aos antigos cotistas da empresa, também sem qualquer registro contábil. Tais atos demonstram de forma clara e manifesta a intenção de dolosamente impedir o reconhecimento e pagamento do ganho de capital na alienação dos imóveis. Cientificado da Autuação, o Contribuinte ofereceu Impugnação (fls. 2611 a 2811), trazendo, em suma, as seguintes alegações: a nulidade dos Autos de Infração, posto que qualificouse a receita da venda dos terrenos, considerada omitida, como ganho de capital, quando se trataria de receita operacional, sujeita ao percentual de 8% para apuração do lucro presumido, implicando em erro de acusação; reforça, no mérito, a natureza operacional das receitas omitidas, estando tal operação abrangida na atividade imobiliária da empresa, ainda que constituída sob a rubrica de SPE para incorporação, vez que seu intuito sempre foi a revenda (com ou sem unidades edificadas), ficando sempre registrado em estoque (ativo circulante); aponta que tais terrenos sempre foram elementos indissociáveis de sua atividade operacional, havendo apenas a insuficiência de recursos para a efetiva construção das unidades, levando à ulterior comercialização desses imóveis, na mesma condição de terrenos. Traz normativos recentes da própria RFB que estampam entendimento que, mesmo que o imóvel tenha sido adquirido e classificado como ativo não circulante, a decisão posterior dos gestores e a relação da operação com seu objeto bastaria para caracterizar como operacional a receita percebida. Colaciona julgado deste E. CARF no mesmo sentido; alega inexistência de conluio e fraude, afirmando tratarse a conduta do contribuinte de mera omissão de receitas, bem como não houve provas bastante da ocorrência de sonegação; Fl. 2969DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.970 23 afirma não haver qualquer ilegalidade ou fraude em pagamentos efetuados "à ordem para terceiros", como descrito no TVF; alega ser confiscatório o montante de 150% da multa qualificada; pugna pela falta de fundamentação legal do Parecer Normativo nº 9/2014, e subsidiariamente, se mantida a autuação, requer a exclusão do valor dos bens entregues em permuta da base de cálculo, devendo ser apenas tributada a torna; afirma não haver fundamentação para a aplicação do art. 135 do CTN ao presente caso, tratandose de ocorrência de omissão de receitas e não sendo concretamente apontada a conduta fraudulenta individualizada; a responsabilidade solidária de fato atribuída as duas empresas sócias da Autuada não possui qualquer fundamento específico; por fim, afirma haver vícios na Representação para Fins Penais, incluindo indivíduo que não consta do lançamento de ofício. Ato contínuo, o processo foi encaminhado à 3ª Turma de Julgamento da DRJ/REC, que julgou parcialmente procedente a impugnação, apenas excluindo do polo passivo as empresas MZM Participações Ltda e MZM Participações FC Ltda, mantendo integralmente o crédito tributário e a penalidade qualificada. Confirase a ementa daquele r. Julgado a quo: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2012, 2013 NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. REQUISITOS ESSENCIAIS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Concedido prazo para impugnação da exigência, com a devida ciência do auto de infração, que se mostra em consonância com a atinente legislação de regência, restam insubsistentes as alegações de cerceamento do direito de defesa e de nulidade do procedimento fiscal. ARGUIÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. DELEGACIAS DE JULGAMENTO. INCOMPETÊNCIA. APRECIAÇÃO. As Delegacias de Julgamento devem observar a legislação tributária vigente no País, sendolhes defeso apreciar arguições de inconstitucionalidade e de ilegalidade de normas regularmente editadas. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 2970DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.971 24 Anocalendário: 2012, 2013 LUCRO PRESUMIDO. BENS DO ATIVO PERMANENTE. ALIENAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. O resultado positivo da alienação de bens do ativo permanente não integra a base de presunção do lucro presumido, uma vez que não se trata de atividade operacional. A sua tributação assim se dá a título de ganho de capital. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2012, 2013 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. MULTA DE OFÍCIO. FATO GERADOR. INTENÇÃO DE OCULTAR DO FISCO. QUALIFICAÇÃO. Restando evidenciada a conduta do contribuinte no sentido de ocultar do fisco a ocorrência de fato gerador, qualificase a multa de ofício, consoante previsão do § 1' do art. 44 da Lei n' 9.430, de 1996. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE. Os mandatários, prepostos, empregados, diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado são responsáveis solidários pelos créditos correspondentes às obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei. RESPONSABILIDADE. SÓCIO DE DIREITO. IMPUTAÇÃO INDEVIDA. O sócio de direito não se confunde com a pessoa jurídica de cujo capital participa, de maneira que não há responsabilizálo por conta dessa sua condição. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Diante de tal revés parcial, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls. 2869 a 2912), repisando os argumentos de sua Impugnação e fazendo alusão específica aos termos do v. Acórdão recorrido, apontando as razões da necessidade de sua reforma. Fl. 2971DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.972 25 Ofertou a Fazenda Nacional Contrarrazões (fls. 2921 a 2946) reforçando e replicando os fundamentos de procedência do v. Acórdão recorrido, requerendo sua plena manutenção. Na sequência, os autos foram encaminhados para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Fl. 2972DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.973 26 Voto Vencido Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella Relator O Recurso Voluntário é manifestamente tempestivo e sua matéria se enquadra na competência desse N. Colegiado. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. O Recurso de Ofício atende às hipóteses de cabimento trazidas na Portaria MF nº 63/2017. Recurso Voluntário Nulidade do Lançamento de Ofício Preliminarmente, alega a Recorrente a nulidade do lançamento de ofício, afirmando que teria ocorrido erro de acusação, na medida em que qualificam a receita da venda dos terrenos, considerada omitida, como ganho de capital, enquanto, na realidade, tratase de receita operacional, sujeita ao percentual de 8% para apuração do lucro presumido. Invoca o art. 59 do Decreto nº 70.235/721 para fundamentar seu argumento e defende ser claramente operacional a natureza das receitas da alienação dos terrenos, diante do 1 Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. Fl. 2973DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.974 27 seu objeto social e atividades empresariais registradas, a permanente intenção de revenda daqueles bens e a sua manutenção em conta de estoque, chegando a adentrar o tema meritório. Não assiste razão à Recorrente nesse ponto. Como visto, no caso, o erro de acusação se resume exclusivamente à classificação dada pela Fiscalização às receitas omitidas como não operacionais. Posto isso, primeiramente temos que a acusação central de omissão de receitas não é questionada concretamente e sequer combatida no mérito pela Recorrente, que acaba por reconhecer tal ocorrência. Por sua vez, após comprovar a ocorrência de tal omissão, a Autoridade Fiscal traz fundamentação, clara e técnica, da razão para a classificação de tal modalidade de renda não ofertada à tributação como ganho de capital. A descrição dos fatos condizem com os elementos de prova trazidos e a qualificação jurídica a eles atribuída mostrase plausível, contendo construções e interpretações alicerçadas em normas de Direito e de contabilidade o que independe de sua procedência ou não. Assim, o que ocorre, na verdade, é mera discordância interpretativa entre Fisco e Contribuinte em relação a um dos elementos (que guarda reflexos quantitativos na exação imposta) que compõe o lançamento de ofício e não uma falha na natureza do objeto infracional/acusatório. Há de se considerar que, tratandose de contribuinte dedicado a atividade imobiliária e, ao mesmo tempo, optante pela apuração do IRPJ e da CSLL pela dinâmica do Lucro Presumido, as circunstâncias da alienação e o histórico da aquisição e posse do bem imóvel, naturalmente, dão margem a debates sobre a sua devida classificação contábil, não sendo elemento óbvio das circunstâncias fáticas colhidas. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. Fl. 2974DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.975 28 Além disso, o fato da fundamentação da nulidade confundirse com mérito das alegações, que inclusive subsidiam pedido alternativo de redução da base de cálculo da Autuação, reforçam a natureza de divergência interpretativa na rotulação das receitas como não operacionais, ao invés de erro de acusação. Nesse sentido, a constatação de procedência da suposta nulidade demandaria a investigação meritória, revelando forte indício processual de não se tratar de matéria preliminar de vício no lançamento. E, mais importante é o fato de que a Contribuinte e os Responsáveis, durante todo o contencioso administrativo, foram capazes de elaborar profunda, concisa e extensa defesa, abarcando e refutando tecnicamente a correção das Autuações, penalidades e outras imputações. A constatação de operacionalidade ou não das receitas omitidas irá apenas influenciar na quantificação da exação tributária em tela. Diante disso, rejeitase a preliminar de nulidade alegada. Mérito Antes de adentrar o mérito, cabe esclarecer e frisar que, não obstante ter a Autoridade Fiscal, em seu profundo trabalho dedicadose a relatar as operações societárias referentes ao controle e à titularidade da Gold Boston, não existe a acusação de planejamento tributário ilegal ou abusivo. Importante ressaltar que não houve a desconsideração de quaisquer negócios ou da personalidade jurídica de empresas envolvidas. A infração constatada é exclusivamente de omissão de receitas não operacionais, imputada apenas à Gold Boston SPE, conduta esta que, de acordo com a própria Fiscalização, foi o objetivo final das operações realizadas e da postura contábil adotada pela Recorrente, inclusive rotulada como fraudulenta. Confirmando tal constatação, confirase a conclusão do TVF quando da qualificação da multa: Fl. 2975DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.976 29 A evasão tributária perpetrada pela Gold Boston Ltda ao deixar de recolher o ganho de capital foi idealizada através da triangularização financeira entre as empresas do mesmo grupo econômico e seus devedores. Isto porque, conforme suso demonstrado, as operações financeiras entre a Gold Boston comandada pelos novos sócios, a MZM Empreendimentos e o devedor implicaram no acobertamento financeiro e contábil deste ganho. A ordem natural financeira e contábil se aplicada, não permitiria a sonegação ora perpetrada. (destacamos fls. 1037) As operações societárias extensamente relatadas e a postura contábil da Contribuinte guardam maior relevância para a qualificação da multa e a responsabilização de terceiros. Feito tal esclarecimento, fica claro que o cerne da matéria dos autos é a ocorrência de omissão de receitas (ainda que supostamente perpetrada mediante fraude), sendo este o primeiro tema meritório e premissa jurídica primordial de toda a autuação, devendo ser o primeiro tema a ser analisado. Omissão de Receitas Pois bem, na fundamentação do lançamento de ofício é relatado que a empresa Contribuinte, entre janeiro e abril de 2012, ainda sob titularidade dos sócios Gold Farb e da PGD Realty, vinha registrando regularmente os valores recebidos pelo contrato de Promessa de Compra e Venda dos Terrenos (posteriormente modificado para compra de quotas), na conta 3110101003 Receita na Venda de Imóveis, e totalizaram ao final de 31/03/2012 o montante de R$ 42.858.810,55, de acordo com a Demonstração do Resultado em 31 de março de 2012, subscrita pelo diretor John Christer Salen e pelo contador Samuel Severo da Silva, assim como pelo Balancete de Verificação das Contas, posição em 30/04/2012. E, a partir da troca do controle dessa SPE para os sócios do Grupo MZM, os registros dessas entradas de recursos deixaram de ser feitos em conta de receita de venda de imóveis. Relatase que os recebimentos percebidos passaram a ser registrados na conta contábil 11010020002 Bradesco 32298, em contrapartida da conta do Passivo código 21050010008 Partes Relacionadas. Parte deles teriam sido entregues a MZM Empreendimentos, justificadamente por dívida da Gold Boston em função de um suposto contrato de fornecimento de mãodeobra, que não fora comprovado existir. Fl. 2976DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.977 30 Assim restaram registrados os históricos dos eventos na contabilidade da Recorrente, referente a essas receitas omitidas: Após tais entradas, outros pagamentos foram redirecionados (ainda que com previsão contratual) em favor da exsócia Gold Farb (de quem o Grupo MZM havia adquirido a Gold Boston), totalizando o valor R$ 43.284.163,79, ficando tal soma fora da contabilidade da Contribuinte. Dito isso, analisando as defesas opostas pela Recorrente e seus pedidos correspondentes, não há combate direto e o questionamento eficaz da ocorrência dessa omissão de receitas, restando ponto pacífico do contencioso. A Contribuinte efetivamente se opõe a inúmeros elementos das Autuações sofridas, como interpretações e classificações adotadas, e, principalmente, esclarece a licitude e lisura das condutas rotuladas como fraudulentas. Mas, em momento algum, nega ou desconstrói a constatação fiscal da omissão percebida. Assim, diante da incontroversa ausência de oferta à tributação de tais valores e da consistente demonstração comprovada de sua ocorrência pelo Fisco, resta tal tema superado, sendo procedente a acusação nesse ponto, passandose à verificação das demais matérias. Classificação das Receitas O primeiro tema concretamente questionado pela Recorrente é a natureza não operacional dos valores colhidos, defendendo tratarse de legítima receita operacional, vez que a Gold Boston possui objeto social imobiliário, tendo sido tais terrenos adquiridos com expressa intenção de comercialização (independentemente do sucesso de construir unidades Fl. 2977DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.978 31 imobiliárias sobre estes), restando sempre registrados tais bens em conta do ativo circulante (estoque). Analisando o TVF, temos que a fundamentação para a rotulação de tais valores como receita não operacional, que levou à formação de ganho de capital, é clara, objetiva e encontrase precisamente no seguinte trecho: O objeto social da empresa está definido desde a constituição da empresa conforme segue: Neste sentido, a empresa foi constituída como sociedade de propósito específico para a consecução de empreendimento imobiliário. Desta forma ocorreu desde 07/05/2007. Em seguida, na consecução do seu objeto social adquiriu os terrenos conforme detalhado acima em 08/10/2008. Passados vários anos desde a aquisição, sem que tenha viabilizado seu objeto social, eis que nenhum empreendimento imobiliário foi executado nos terrenos adquiridos, decidiu alienálos para a incorporadora. Esta realmente fez a incorporação e empreendimento imobiliário com os terrenos adquiridos. Desta forma, a alienação dos terrenos não faz parte do objeto do social da Gold Boston, razão pela qual serão tributados como ativo imobilizado da fiscalizada. Daí resulta na apuração do ganho de capital tributado pelo lucro presumido. (fls. 1035 destacamos) Como se observa, a classificação de não operacional das receitas fundase no fato do objeto social da Recorrente (seu propósito específico) ser a incorporação imobiliária, que pressupõe a edificação de unidades sobre o terreno, para a posterior alienação comercial e, na operação efetivamente verificada, os terrenos foram alienados sem qualquer construção por parte da empresa autuada. Inicialmente, deve se esclarecer que a opção de constituir uma empresa sob a rubrica de Sociedade de Propósito Específico (SPE) é medida corriqueira e extremamente usual no mercado imobiliário, destinada à organização de uma multiplicidade de operações independente, isolando nestas companhias os recursos necessários para a condução de um empreendimento específico. Fl. 2978DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.979 32 A individualização societária dos empreendimento também auxilia o direcionamento de investimentos, possibilitando até a presença de parcerias e investidores externos individuais, com intenção de aplicação de recursos apenas em determinada empreitada (dentro de uma gama de multiplicidade de empreendimentos). A Lei Comercial e Societária não contempla solenemente tal modalidade, ou melhor, designação da pessoa jurídica, e nem lhe atribui qualquer regulamento próprio ou especial muito menos restrições. Ainda que, posteriormente a sua livre utilização pelo mercado nacional, tal figura foi expressamente mencionada na legislação atinente às Parcerias PúblicoPrivadas e naquela dirigida à tributação de micro empresa e empresas de pequeno porte pelo Simples Nacional, tal regramento pontual é alheio ao presente caso. A SPE é uma empresa como qualquer outra, geralmente diferenciandose pelo casamento da execução de seu objeto com a sua duração, podendo ter roupagem societária de limitada ou mesmo de sociedade anônima. Desse modo, essa delimitação de seu objeto societário está relacionado à sua função empresarial e ao tempo de sua existência. Como é certo, a descrição e a circunscrição dos objetivos de uma companhia é de livre deliberação dos seus sócios, sendo inclusive elemento passível de adições e modificações a qualquer tempo, sem necessidade de aval ou autorização pública, fazendo parte da liberdade empresarial conferida aos atores da iniciativa privada. Feitas tais considerações, já temos que a Fiscalização atribuiu severa rigidez e capacidade de produção de efeitos legais e tributários a tal descrição contratual constitutiva da Recorrente. Como visto, seu objeto seria especificamente a incorporação imobiliária e em tal especificidade que reside a argumentação fiscal sobre a não operacionalidade do produto da alienação dos terrenos. Lembrese que, no presente caso, não se trata de uma empresa do comércio varejista de bens de consumo não duráveis ou mesmo uma indústria que, decidiu vender um terreno que possuía e utilizava, classificando, depois, a receita de sua alienação como operacional. O que temos é uma SPE puramente imobiliária, originalmente constituída para a atividade imobiliária de incorporação, que acabou alienando os terrenos de seu estoque sem efetivamente promover edificação e desdobro de novas unidade autônomas. Fl. 2979DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.980 33 Visto isso, saindo do âmbito contratual e de Direito Privado, adentrando o universo das normas tributárias, encontrase tratamento específico das receita bruta imobiliária no art. 30 da Lei nº 8.981/95, reproduzido no art. 227 do RIR/99: Art. 227. As pessoas jurídicas que explorem atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, deverão considerar como receita bruta o montante recebido, relativo às unidades imobiliárias vendidas. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, aos casos de empreitada ou fornecimento contratado nas condições do art. 409, com pessoa jurídica de direito público ou empresa sob seu controle, empresa pública, sociedade de economia mista ou sua subsidiária. (destacamos) Tal conceito e redação são também empregados e repetidos no caput e § 4º do art. 15 da Lei nº 9.249/95, que justamente trata da base de cálculo ficcional do Lucro Presumido, remetendo especificamente a esse dispositivo que arrola as atividades imobiliárias que compõem a receita bruta imobiliária: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (...) § 4º O percentual de que trata este artigo também será aplicado sobre a receita financeira da pessoa jurídica que explore atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, quando decorrente da comercialização de imóveis e for apurada por meio de índices ou coeficientes previstos em contrato. (destacamos) Primeiramente se observa que o próprio conceito de receita bruta imobiliária, base para a aplicação das alíquotas de presunção, não faz qualquer distinção de tratamento entre as diversas modalidades da exploração imobiliária. Fl. 2980DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.981 34 Nesse sentido, tanto o produto da incorporação como da venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda são tratados de forma idêntica nesse regime de tributação. Assim, concluíse que, legalmente, o conceito de receita bruta imobiliária é abrangente e generalizado em relação às modalidades de exploração empresarial de imóveis. Essa mesma Lei nº 9.249/95 também contempla a hipótese de desempenho de outras atividades pelas companhias optante pelo Lucro Presumido, determinando no § 2º do art. 15 que no caso de atividades diversificadas será aplicado o percentual correspondente a cada atividade. Ora, como já visto, a aquisição de terrenos para revenda não só está contida no conceito de receita bruta imobiliária, sem qualquer distinção da incorporação, como também está, sem diferenciação nenhuma, sujeita ao mesmo percentual de 8% para a determinação da base de cálculo dessa modalidade simplificada de tributação. Assim, do ponto de vista jurídicotributário, considerando a abrangência do conceito legal de receita bruta imobiliária e a tributação idêntica conferida a estas subatividades imobiliárias no regime do Lucro Presumido, o tratamento e a classificação discrepante conferidos para o produto econômico de tais operações não se apresenta justificável ou legalmente arrimado. E, mesmo antes da das alterações providas pela Lei nº 12.973/14 no art. 12 do DecretoLei nº 1.598/77, é notório que a doutrina tributária e contábil contemplavam a receita proveniente de atividades outras, secundárias, mas relacionadas ou decorrente da atividade principal, dentro do conceito ordinário e geral de receita bruta operacional. Diante disso, podese afirmar que a restrição promovida pela Fiscalização para descaracterizar as receitas auferidas com a alienação dos terrenos sem edificação (tratandose aqui de contrato de Permuta com Torna) não se coaduna com a amplitude e generalização que o próprio Legislador conferiu ao conceito de Receita Bruta Imobiliária, posteriormente empregado diretamente na legislação específica da tributação pelo Lucro Presumido, para submeter à mesma carga fiscal todas as atividades imobiliárias contempladas em tal delimitação conceitual. Não há, também, qualquer vantagem fiscal para a Contribuinte (ou prejuízo ao Fisco) na mudança da forma de exploração do terreno. Fl. 2981DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.982 35 Mesmo sendo o objeto principal da Gold Boston a incorporação, consoante com a intenção original de seus sócios e gestores, dentro de seu plano de negócios pretendido no início de 2008 (quando da aquisição dos terrenos), não foge à realidade o fato de não ter se obtido os recursos financeiros necessários até 2012 (sendo período de noticiada crise do setor), decidindose, então, pela comercialização dos terrenos no estado em que se encontravam (frise se que tais imóveis chegaram a ser desdobrados em matrículas próprias e diferentes, antes da realização da Permuta). Afinal, ainda que tivesse a Gold Boston êxito em promover as construções, registrar e comercializar as unidades imobiliárias, tais terrenos ulteriormente seriam vendidos da mesma forma, como fração ideal daqueles novos bens imóveis. Como alega a Recorrente, a alienação dos terrenos é parte lógica e comercialmente indissociável de seu objeto social. Na esteira de tal raciocínio, temos que, desde a sua aquisição, tais bens foram mantidos em conta de ativo circulante (estoque), o que denota e comprova, contabilmente, a permanente intenção de revenda daqueles. A própria Fiscalização reconhece que sempre foi dado este tratamento contábil aos terrenos. Porém, na interpretação restritiva da Fiscalização, mesmo com tal expresso registro e natureza da atividade da sociedade, entendeuse por tratar tais terrenos de ativo imobilizado, o que deu ensejo à conclusão de ocorrência de ganho de capital2, pela única razão de a alienação dos terrenos não faz parte do objeto do social da Gold Boston. Frisese que, seja no intuito inicial de promover a incorporação ou mesmo quando da decisão de alienação de tais terrenos sem edificações, sob a luz das regras contábeis vigentes à época dos fatos, a classificação contábil de tal ativo permanece como circulante. Vejamos a classificação dada o CPC 26R1 sobre o assunto: Ativo circulante 2 Art. 32. Os ganhos de capital, demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo artigo anterior serão acrescidos à base de cálculo determinada na forma dos arts. 28 ou 29, para efeito de incidência do Imposto de Renda de que trata esta seção. (...) § 2º O ganho de capital nas alienações de bens do ativo permanente e de aplicações em ouro não tributadas na forma do art. 72 corresponderá à diferença positiva verificada entre o valor da alienação e o respectivo valor contábil. (redação vigente à época dos fatos geradores) Fl. 2982DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.983 36 66. O ativo deve ser classificado como circulante quando satisfizer qualquer dos seguintes critérios: (a) esperase que seja realizado, ou pretendese que seja vendido ou consumido no decurso normal do ciclo operacional da entidade; (b) está mantido essencialmente com o propósito de ser negociado; (c) esperase que seja realizado até doze meses após a data do balanço; ou (d) é caixa ou equivalente de caixa (conforme definido no Pronunciamento Técnico CPC 03 – Demonstração dos Fluxos de Caixa), a menos que sua troca ou uso para liquidação de passivo se encontre vedada durante pelo menos doze meses após a data do balanço. Todos os demais ativos devem ser classificados como não circulantes. É claro que, independentemente de todo o ocorrido entre 2008 a 2012, a única razão para tal terreno ter sido adquirido era a sua revenda como parte ideal agregada a unidades imobiliárias sobre estes construídas em incorporação ou mesmo no estado em que se encontravam. Nunca ouve qualquer utilização ou destinação para tais bens que pudesse lhes revestir de ativo não circulante imobilizado. Nem a Fiscalização relata qualquer fato ou documento que aponte para tal destinação diversa. O intuito de seus titulares sempre foi de mercância. Ainda que a N. Procuradoria da Fazenda Nacional tenha alegado em suas Contrarrazões que a fiscalização assevera que a venda dos imóveis, que fora iniciada por decisão dos antigos sócios da Gold Boston fora registrada como venda de ativo imobilizado. Ou seja, entenderam os vendedores naquele momento que realizavam venda de ativo imobilizado, a documentação contábil fls. 84 a 90 comprova exatamente o contrário, contendo registro de que os imóveis estavam mantidos em conta de estoque, lançando sob a rubrica de receita bruta operacional os valores pactuados com a alienação. E a simples troca do controle acionário de qualquer companhia, per si, não é capaz de alterar a classificação contábil dos bens que lhe pertencem. Tal evento é absolutamente alheio a tal regramento patrimonial contábil. Fl. 2983DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.984 37 Ainda, reforçando tal posição, a própria Receita Federal do Brasil entende que, em caso mais extremo que o presente, mesmo se tais imóveis tivessem sido adquiridos sem a intenção alienálos, registrandoos no ativo não circulante, e sem que a empresa possuísse objeto imobiliário, tal mudança de intenção e objeto social pelos gestores da companhia bastaria para classificar a receita percebida na sua alienação como operacional, tributável sob o percentual de 8% na dinâmica do Lucro Presumido. Confirase a Solução de Consulta nº 254/2014: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADE IMOBILIÁRIA. VENDA DE IMÓVEIS. TRIBUTAÇÃO. As receitas decorrentes da venda de imóveis, efetuadas por pessoa jurídica que exerça de fato e de direito atividade imobiliária, sob a sistemática do lucro presumido, sujeitamse ao percentual de presunção de oito por cento para apuração da base de cálculo do IRPJ, ainda que os imóveis destinados a venda tenham sido adquiridos antes de formalizada na Junta Comercial a inclusão de tal atividade em seu objeto social. Dispositivos Legais: Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99), arts. 224, 518 e 519. (...) 18. Considerar impedimento significa afirmar que a formação do estoque de bens para revenda somente pode se dar a partir da inclusão da atividade imobiliária no registro do comércio, de maneira que não seria possível um imóvel adquirido anteriormente à alteração contratual integrar o estoque dessa atividade econômica. 19. Contudo, parece intuitivo que esse raciocínio se mostra incompatível com a própria dinâmica e organização das entidades empresariais, que exigem, muitas vezes, a redefinição de suas atividades e a deliberação sobre a destinação a ser dada aos elementos patrimoniais, para fins de exploração do seu objeto social. 20. Assim, é legítimo concluir que, no processo de organização que abrange a inclusão das atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos e compra e venda de imóveis próprios e de terceiros, a pessoa jurídica poderá definir quais bens integram o seu estoque para venda, tanto aqueles adquiridos com o propósito negocial de venda, quanto aos bens previamente integrantes de seu patrimônio, para os quais há decisão de redirecionálos ao comércio. Fl. 2984DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.985 38 21. Postos em contexto esses aspectos inerentes à atividade empresarial, seria de surpreender que a legislação tributária condicionasse a incidência da margem presumida sobre as receitas da atividade imobiliária ao momento de aquisição dos imóveis destinados a venda. Inexiste, porém, tal restrição temporal. 22. De modo que, formado o estoque de imóveis para venda, a pessoa jurídica que explore atividade imobiliária, optante pelo lucro presumido, deverá considerar como receita bruta o montante recebido pelos bens vendidos, cuja base de cálculo presumida do IRPJ e da CSLL, em cada mês, será determinada mediante a aplicação, respectivamente, do percentual de 8 % (oito por cento) e 12 % (doze por cento) sobre essa receita bruta auferida. 23. Tornase irrelevante, portanto, o fato de o imóvel comercializado ter sido adquirido em época anterior, quando a atividade imobiliária ainda não figurava nos atos constitutivos como objeto social da pessoa jurídica. 24. Para considerar a receita como oriunda da sua atividade econômica, o que importa é que a pessoa jurídica exerça, de fato e direito, a atividade imobiliária quando auferir tal receita decorrente da alienação do imóvel destinado a esse fim. (destacamos). A posição adotada em tal Solução de Consulta é mais permissiva do que a interpretação aplicada pela Fiscalização ao presente caso quando da confecção e formalização do lançamento de ofício. Posto isso, entendese que as receitas omitidas, não ofertadas à tributação, têm clara natureza de receita bruta operacional da Recorrente, ficando, então, sujeitas ao coeficiente de 8% de presunção para determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL apurados sob o regime do Lucro Presumido, dandose provimento ao Recurso Voluntário nesse ponto para reduzir o valor da exação. Tributação do Valor dos Imóveis Recebidos em Permuta (Parecer Normativo COSIT nº 9/2014) Como se observa no TVF, a Autoridade Fiscal entendeu aplicável ao caso o Parecer Normativo COSIT nº 9/14, permitindo computar o valor dos imóveis recebidos em permuta nas receitas tributáveis colhidas para o lançamento de ofício. Fl. 2985DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.986 39 Frisese, a titulo de comentário, que tal postura fiscal valida a classificação das receitas omitidas como operacionais (conforme acima já decidido), mostrandose contraditória, pois esse Parecer Normativo se baseia objetivamente na obtenção de base de cálculo por meio de coeficiente de presunção do Lucro Presumido, o que não ocorre na tributação do ganho de capital percebido pelo contribuinte optante. Como consta expressamente do normativo em questão, determinase a tributação do valor dos imóveis recebidos em permuta pelo fato de que neste regime o custo do imóvel entregue na permuta não irá afetar a base de cálculo, de forma a tornar neutro o resultado, diferentemente do tratamento dado pela Instrução Normativa SRF nº 107/88 às empresas optante pelo Lucro Real (que apenas tributam apenas a eventual torna que pode acompanhar a permuta). Confirase, na íntegra, os fundamentos e conclusões do Parecer Normativo COSIT nº 9/14: 2. Retrospectivamente, as pessoas jurídicas que exploram atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, estavam obrigadas ao lucro real. 3. Entretanto, com a efeméride do art. 14 da Lei nº 9.718, de 27 de novembro de 1998, as pessoas jurídicas que explorem atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, podem optar pelo lucro presumido. E a IN SRF nº 25, de 25 de fevereiro de 1999, veio disciplinar que as pessoas jurídicas que exerçam as referidas atividades não poderão optar pelo lucro presumido enquanto não concluídas as operações imobiliárias para as quais haja registro de custo orçado. 4. No caso da comercialização de imóveis envolvendo a permuta de imóveis, a Instrução Normativa SRF nº 107, de 1988, veio disciplinar a matéria, e seu alcance é delimitado ao regime de apuração do lucro real logo em seu preâmbulo, o qual dispõe, in verbis: “Dispõe sobre os procedimentos a serem adotados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas e do lucro imobiliário das pessoas físicas, nas permutas de bens imóveis.” 5. Cabe consignar que não há dúvidas quanto ao fato de que as operações de permuta, de acordo com o art. 533 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), a seguir transcrito, estão adstritas às mesmas disposições relativas à compra e venda. A permuta de imóveis, portanto, da mesma Fl. 2986DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.987 40 forma que a compra e venda, está sujeita, em princípio, à incidência do imposto de renda, tanto no caso de alienante pessoa física quanto no de alienante pessoa jurídica. Por conseguinte, está sujeita também à incidência da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), no caso de ser o alienante pessoa jurídica. “Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante.” 6. Conforme o art. 518 do RIR/1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999), a base de cálculo do IRPJ no regime de apuração pelo lucro presumido é determinada através de percentual aplicado sobre a receita bruta. E a definição de receita bruta para este regime, a teor do que dispõe o art. 519 do RIR/1999, é dada pelo mesmo dispositivo definidor referente à apuração anual do IRPJ com pagamento mensal por estimativa, ou seja, o art. 224 do RIR/1999, abaixo transcrito: “Art.224. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31). Parágrafo único. Na receita bruta não se incluem as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos e os impostos não cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31, parágrafo único).” 7. Se a permuta se equipara à compra e venda e se a receita bruta compreende o produto da venda nas operações de conta própria, claro está que o valor do imóvel que a pessoa jurídica que explora atividades imobiliárias recebe em permuta compõe sua receita bruta e, por conseguinte, a apuração da base de cálculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS. 8. Além disso, o item 2.1.1 da IN SRF nº 107, de 1988, não permite concluir que nas operações de permuta sem torna resta descaracterizado o valor do imóvel recebido como receita. Confirase seu teor: “No caso de permuta sem pagamento de torna as permutantes não terão resultado a apurar, uma vez que cada pessoa jurídica atribuirá ao bem que receber o mesmo valor contábil do bem baixado em sua escrituração.” Fl. 2987DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.988 41 9. Pela ratio legis da norma complementar, não há resultado a tributar no lucro real porque o valor contábil do imóvel que entra é igual ao valor do imóvel que sai, fazendo com que os lançamentos venham a se anular em termos de resultado. Daí a razão do tratamento dado à permuta sem pagamento de torna no âmbito da apuração do IRPJ pelo lucro real. Mas há, sim, receita e, havendo receita, haverá repercussão no caso da apuração da base de cálculo do IRPJ pelo lucro presumido. Isso porque neste regime o custo do imóvel entregue na permuta não irá afetar a base de cálculo, de forma a tornar neutro o resultado. 10. Em todas as situações reguladas pela IN SRF nº 107, de 1988, ocorre a apuração de lucro na forma de receita menos custo. E, como é consabido, essa apuração nada tem a ver com o lucro presumido, regime em que o lucro é obtido por presunção legal, a partir de percentual prédefinido pela lei a ser aplicado sobre a receita bruta, sem uma verificação efetiva de sua ocorrência. 11. Não se pode, portanto, aplicar uma norma que disciplina a forma de apuração do lucro real em operações de permuta de imóveis à determinação do lucro presumido. O lucro real é a regra judiciosa de apuração e tributação do lucro. O lucro presumido, outrossim, é opcional, tem por base a receita bruta do contribuinte, esteio da mensuração de sua capacidade contributiva, ainda que estimada, neste caso, estando aí envolvido todo o produto das vendas efetuadas pela pessoa jurídica que se dedique a atividades imobiliárias, mesmo que com parte do respectivo pagamento sendo efetuado com base em operações de permuta. Ao optar livremente pelo regime do lucro presumido, o contribuinte escolhe apurar o lucro para fins tributários de forma indireta, presuntiva, não cabendo portanto apurar o lucro de forma direta, real, apenas para determinado(s) tipo(s) de operação. 12. A conclusão quanto ao panorama em vigor é que às pessoas jurídicas tributadas pelo regime do lucro presumido que explorem atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda não se aplicam os conceitos do custo orçado (aplicável às vendas contratadas antes de completado o empreendimento), bem como o de reconhecimento do lucro bruto, nas contas de resultado de cada período de apuração, proporcionalmente à receita da venda recebida (no caso das vendas a prazo ou em prestações, com pagamento após o término do períodobase da venda). Estando claro também que o valor do imóvel recebido em permuta compõe a receita bruta e, por conseguinte, a apuração da base de cálculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e do COFINS. 12.1. Ressaltese que, nos termos dos regramentos existentes para a apuração do lucro presumido, o valor do imóvel recebido em permuta compõe a receita bruta e tributase segundo o Fl. 2988DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.989 42 regime de competência (i.e., no período de apuração da celebração da permuta) ou de caixa (no período de apuração do recebimento do imóvel dado em permuta), à opção do contribuinte, observada a escrituração do livro Caixa no caso deste último, consoante a IN SRF nº 104, de 24 de agosto de 1988. Conclusão 13. À vista do exposto, podese sintetizar que: 13.1. Na operação de permuta de imóveis com ou sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica que apura o imposto sobre a renda com base no lucro presumido, dedicada a atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, constituem receita bruta tanto o valor do imóvel recebido em permuta quanto o montante recebido a título de torna. 13.2. A referida receita bruta tributase segundo o regime de competência ou de caixa, observada a escrituração do livro Caixa no caso deste último. 13.3. O disposto no item 13.1 aplicase indistintamente tanto no caso de permuta tendo por objeto unidades imobiliárias prontas quanto no caso de unidades imobiliárias a construir. 13.4. O disposto no item 13.1 aplicase inclusive em relação às operações de compra e venda de terreno seguidas de confissão de dívida e promessa de dação em pagamento, de unidade imobiliária construída ou a construir. 13.5. Considerase como valor do imóvel recebido em permuta, seja unidade pronta ou a construir, o valor deste conforme discriminado no instrumento representativo da operação de permuta ou compra e venda de imóveis. O pilar do raciocínio apresentado é que, uma vez que é irrelevante para o regime do Lucro Presumido qualquer dispêndio sejam custos ou despesas da empresa no desenvolvimento das suas atividades, sendo apenas as receitas percebidas em contrapartida dos imóveis alienados objeto da apuração do lucro tributável sob presunção, o valor da unidade imobiliária recebida em troca de outra não pode ser desconsiderado ou descontado na determinação da base de cálculo. Pois bem, inicialmente, sob um prisma mais amplo do tema, é necessário considerar que o regime de tributação pelo Lucro Presumido é simplificado, fazendo parte do corolário da praticabilidade fiscal implementado há décadas no sistema tributário nacional. Fl. 2989DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.990 43 Tal sistemática oferece ao contribuinte a possibilidade de substituir a apuração do Lucro Real e da base de cálculo da CSLL por um coeficiente fictício, aplicável sobre sua receita bruta. E, uma vez ocorrida a tributação sobre tal dinâmica, ela é absoluta e definitiva. Não poderia o contribuinte demonstrar que seu lucro foi efetivamente menor, visando à redução ou ao reembolso do valor dos tributos pagos, sendo necessário cambiar a opção, efetivada nos períodos seguintes. Contudo, a ficção jurídica contida em tal dinâmica simplificada cingese apenas à apuração da base cálculo, não se estendendo aos princípios informadores, às normas gerais e aos demais conceitos legais que disciplinam e constroem a regulamentação jurídica da tributação sobre a renda das pessoas jurídicas no Brasil. Como visto, em termos práticos, após a veiculação do Parecer Normativo COSIT nº 9/2014, oficializouse tratamento pela Administração Tributária dúplice e diametralmente oposto em relação à tributação do negócio permutas imobiliárias: o valor dos imóveis é tributado no Lucro Presumido e não é tributado no Lucro Real. E a diferença, o discrímen, entre tais tratamentos tem base em ficção jurídica, que acaba por fundamentar a obrigação de tributar o valor do imóvel permutado, na dinâmica simplificada de apuração. Tal situação (valerse de ficção ou presunção absoluta3 para dar margem a obrigação tributária) é inaceitável, sendo fortemente rechaçada pela própria doutrina especializada quando esclarece o alcance da praticabilidade tributária, como versa a Min. Regina Helena Costa4 em sua célebre obra: Com efeito, se induvidoso constituir a presunção ferramenta de manejo indispensável com vista a possibilitar a execução da lei tributária, ensejando a facilitação da arrecadação mediante a redução da complexidade da realidade fática, exatamente por isso seu emprego exige cautela, de modo a não se perpetar ofensa injustificável a essa mesma realidade. Pelo quê forçoso concluir que o direito tributário não comporta o emprego de presunções absolutas para efeito de determinar o nascimento de obrigações tributárias, a teor dos princípios da 3 "Aliás, ao menos em matéria tributária não vislumbramos utilidade em criar duas categorias distintas, ficção e presunção absoluta, pelo simples fato de que não encontramos, no direito positivo, regimes jurídicos distintos aplicáveis a cada uma destas categorias." GONÇALVES, José Artur Lima. Imposto sobre a Renda – Pressupostos Constitucionais. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 152. 4 Praticabilidade e Justiça Tributária Exequibilidade da Lei Tributária e Direitos do Contribuinte. São Paulo : Malheiros Editores, 2007. pp. 167/169. Fl. 2990DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.991 44 verdade ou realidade material, da capacidade contributiva e da discriminação constitucional de competências. (...) Não se olvide, no entanto, a advertência formulada por Perez de Ayala reconhecer que "a existência de ficções de direito na definição legal dos elementos do fato imponível, dos sujeitos passivos tributários e das bases imponíveis pode ter graves inconvenientes para a realização do princípio da capacidade contributiva (...)". A nosso ver, diante de nosso ordenamento jurídico, a conclusão há de ser mais veemente. Com efeito, prestigiando o direito tributário os princípios da realidade ou da verdade material e da capacidade contributiva, inviável tornase o emprego, pelo legislador, de ficções, nessa seara, para a criação de obrigações. Em outras palavras, pensamos que, justamente por sua absoluta falta de conexão com a realidade já que se refere a fato improvável ou mesmo inexistente , a ficção não pode ser empregada para tal fim. (destacamos) Não se pode, por meio de ficção, tratar como rendimento os resultados e efeitos de instituto jurídico, típico e próprio, que não revela qualquer acréscimo patrimonial ou produto de capital e trabalho, conceitualmente alheio ao seu alcance legal. O percentual de presunção tem sua aplicação limitada a elementos que exprimam renda, relacionados aos fatos geradores do IRPJ e da CSLL. Um imóvel é entregue pelo contribuinte permutante e outro é recebido em substituição dentro de uma reciprocidade, neutra, intrínseca e indissociável da natureza e do aperfeiçoamento de um contrato/negócio de Direito Civil individual, não podendo haver tratamento jurídicotributário isolado dos valores (de igual monta) dos imóveis envolvidos, equipandoos, de forma desconexa e economicamente descontextualizada, a ordinárias despesa/custo e receita da atividade operacional valendose apenas da ciência contábil para tal fracionamento. Posto isso, uma vez que a premissa primordial do Parecer Normativo COSIT nº 9/2014 para determinar a obrigação de se tributar permutas de imóveis de igual valor é a ficção empregada na apuração do Lucro Presumido, ignorando o conceito legal de renda veiculado no art. 43 do CTN, já poderseia afirmar que a sua conclusão apresentase juridicamente inconsistente e a sua validade questionável. Dando continuidade a essa mesma linha de exposição, independentemente da utilização de ficções, como já comentado, o próprio conceito de permuta, de existência milenar, Fl. 2991DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.992 45 exprime um negócio de troca, que na sua própria natureza depreendese equivalência e neutralidade econômica. Ainda que no Código Civil de 2002 o Legislador tenha determinado que aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda (como é explorado e objetivamente utilizado como fundamento nos Itens 5 a 7 para as conclusões do Parecer Normativo COSIT), tal remissão por técnica legislativa de aplainamento de regulamentação não pode de forma alguma permitir a confusão entre dois institutos distintos de Direito Civil. Frisese aqui que o Parecer Normativo COSIT nº 9/2014 invoca o art. 2245 do RIR/99 para a definição de receita bruta na composição da base de cálculo do IRPJ dentro do regime do Lucro Presumido, sendo tal dispositivo uma regra geral. Mas, em relação às atividades imobiliárias, o art. 2276 do mesmo Regulamento (correspondente ao art. 30 da Lei nº 8.981/95) se apresenta como norma especial, delimitando a receita bruta imobiliária, aplicável ao caso tratado, inclusive por força de previsão expressa do art. 15 da Lei nº 9.249/95 conforme anteriormente mencionado. Não obstante, é certo que ambos dispositivos versam sobre o produto de vendas. Por sua vez, o Parecer Normativo valese indevidamente dessa regulamentação de Direito Civil coincidente (entre venda e permuta) para deformar e alargar o conceito legal desse instituto, estendendo a tributação da receita percebida com vendas ao valor dos imóveis recebidos em permuta. Sem qualquer sombra de dúvida, são institutos distintos. Confirase a definição de De Plácido e Silva7 acerca de tal figura e a sua lição sobre a distinção entre venda e permuta: 5 Art. 224. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31). Parágrafo Único. Na receita bruta não se incluem as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos e os impostos não cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31, parágrafo único). 6 Veiculando o conceito de receita bruta imobiliária, o art. 227 do RIR/99 prevê que deverão considerar como receita bruta o montante recebido, relativo às unidades imobiliárias vendidas. 7 Vocabulário Jurídico. Rio de Janeiro : Forense, 2007, s.v. permuta. Fl. 2992DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.993 46 PERMUTA. Derivado de permutar, do latim permutare (permutar, trocar, cambiar), na significação técnica do Direito exprime o contrato, em virtude do qual os contratantes trocam ou cambiam entre si coisas de sua propriedade. (...) Na venda há um preço. Na permuta, a troca de valores é firmada na sua equivalência, pelo que dela se exclui qualquer obrigação que resulte na entrega de soma em dinheiro. Bem claro está, pois, o conceito, em virtude do qual se verifica que uma cosia é permutar e outra é comprar e vender. (destacamos) E tanto assim é que, esse mesmo Legislador civil alocou as disposições sobre esses negócios em Capítulos diferentes do Título IV do Código Civil (venda no Capitulo I e permuta no Capítulo III). Ora, se tratase de institutos legais idênticos, razão não haveria para dispor sobre eles, separadamente, no mesmo compêndio. Ou então, deveria existir dispositivo que expressamente afirme tratarse da mesma figura de Direito, levando (nesse caso hipotético) à conclusão inafastável que permuta e venda são mero sinônimos. Como anteriormente já defendido por este Conselheiro em outros Acórdãos, a interpretação que pressupõe existência de equívoco do Legislador e, principalmente, a existência de conteúdo inútil no texto legislativo mostrase logicamente improcedente, dentro da análise da dinâmica entre as normas de um sistema jurídico. E ainda, essa regulamentação coincidente desses institutos pelo Direito Civil restringese ao universo de Direito Privado, não podendo valerse o Direito Público, especificamente o ramo do Direito Tributário, de tal opção legislativa de equiparação de tratamento na esfera civil para promover a fusão ou a equiparação total de seus conceitos para fins de incidência tributária em total conflito com aquilo disposto nos arts. 108, §1º, 109 e 110 do CTN8. 8 Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: I a analogia; II os princípios gerais de direito tributário; Fl. 2993DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.994 47 A opção de equiparar tratamentos legislativos de um objeto em determinada esfera não se confunde com fusionar, suprimir ou mesmo excluir conceitos e institutos distintos de Direito. É certo que permuta exprime neutralidade entre valores transacionados. Exatamente por isso que falase em permuta com torna, destacandose daquele conceito neutro a parcela que representa efetivo desencontro de valoração e, consequentemente, o acréscimo econômico na transação. Porém, quando da sua ocorrência concreta, e diante das ferramentas da regulamentação contábil, deve ser confirmada tal equivalência valorativa entre os bens para a legitima constatação de ocorrência legítima de permuta. O que não pode prevalecer é a determinação geral, abstrata, objetiva e automática de se considerar o valor integral dos bens de quaisquer permutas imobiliárias ocorridas como receita tributável. Desse modo, o Parecer Normativo COSIT nº 9/2014 apresentase ilegal por determinar a tributação do valor de imóveis recebidos em permuta (além da eventual torna negociada) carregando conclusão que fere o conceito de receita bruta imobiliária, veiculado no art. 227 do RIR/99 (art. 30 da Lei nº 8.981/95), o qual apenas compreende os valores recebidos com as operações de venda. Adentrando ainda outra abordagem, em termos mais práticos e financeiros, se efetivamente for realizada a simples troca de uma unidade imobilidade, alocada em estoque, por outra, de mesmo valor, não há qualquer acréscimo patrimonial ou disponibilidade renda em favor da sociedade. III os princípios gerais de direito público; IV a eqüidade. (...) § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Fl. 2994DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.995 48 A disponibilidade da efetiva renda apenas ocorrerá quando da venda, definitiva. Contrario sensu, se for tributada a simples operação de permuta de unidade do estoque e, posteriormente, também se tributar a venda desse mesmo imóvel recebido em troca, fica clara a dupla oneração de apenas uma transação mercantil. Mas é certo que, se de alguma forma, a destinação imediata que for dada ao imóvel recebido em permuta, diferente de alocação em estoque, alterar positivamente o resultado no período, seu valor deverá compor a receita tributável, posto que afastada a situação de neutralidade. Nesse sentido, são estas as lições do Prof. Ricardo Lacaz Martins9, sobre esta precisa questão: A tributação presumida incide sobre a receita recebida, assim se considerada a permuta recebida como receita para efeito do LP [Lucro Presumido] o contribuinte acabaria por arcar com uma dupla imposição sobre o mesmo negócio realizado, pois deveria recolher o imposto quando do recebimento dos imóveis em permuta e, posteriormente, quando da sua alienação. (...) Se a lei faz referência ao montante recebido por unidades vendidas, então, não haveria que se cogitar que a permuta configure receita bruta para fins tributários (ainda que contabilmente devesse registrar como tal depois da Lei nº 11.638/2007). Inclusive o art. 30 da Lei nº 8.981/95, base legal do art. 227 do RIR, aplicase tanto ao lucro real quanto ao lucro presumido. Aproveitando o ensejo das lições do Professor citado, digase que as regras da ciência contábil, per si, não podem ampliar ou inovar sobre a materialidade da incidência tributária, rigidamente delimitada em Lei, bem como as alterações e normas de transição introduzidas pela Lei nº 11.638/2007 e Lei nº 11.941/2009 possuem expressa neutralidade para fins fiscais (lembrando que os fatos tributários da presente demanda ocorreram anteriormente à vigência da Lei nº 12.973/2014). 9 Tributação da Renda Imobiliária. São Paulo: Quartier Latin, 2011. pp. 195/197. Fl. 2995DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.996 49 Por ser relativamente recente o Parecer Normativo COSIT nº 9/2014, a sua legalidade ainda não foi objeto de análise das E. Cortes Superiores do Poder Judiciário. Contudo, desde 2015, a C. 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região vem, reiteradamente, condenando tal normativo em sua jurisprudência, como ilustra o recente Acórdão proferido na Apelação (Remessa Necessária) nº 5000704 14.2017.4.04.7200/SC, proferido em 06/09/2017: TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. IRPJ. CSLL. PIS E COFINS. PERMUTA DE IMÓVEIS. INEXIGIBILIDADE. 1. O valor decorrente do recebimento de imóveis dados como parte do pagamento nas operações de permuta de imóveis não se enquadra no conceito de receita bruta. 2. Não há justificativa para a inclusão destes valores na base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. 3. Somente a torna eventualmente recebida nas operações de permuta deve ser oferecida à tributação do IRPJ, pelas empresas optantes pelo lucro presumido. Precedentes desta Corte. (...) Assim, a base de cálculo do IRPJ e CSLL, para as pessoas jurídicas que exploram atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, optantes pelo lucro presumido, é determinada através de percentuais fixados em lei, de 8% e 12%, respectivamente, sobre a receita bruta auferida nos casos de atividade imobiliária (Lei n.º 9.249/95, artigos 15 e 20). Já a receita bruta desta atividade compreende o montante efetivamente recebido relativo às unidades imobiliárias vendidas (Lei n.º 8.981/95, artigo 30). Prosseguindo, releva esclarecer que se considera permuta toda e qualquer operação que tenha por objeto a troca de uma ou mais unidades imobiliárias por outra ou outras unidades, ainda que ocorra, por parte de um dos contratantes, o pagamento da parcela complementar em, dinheiro, denominada "torna". Nesse cenário, a Receita Federal do Brasil tem adotado o entendimento constante do Parecer Normativo COSIT n.º 9/2014, lastreado no artigo 533 do Código Civil Brasileiro, equiparando os procedimentos de permuta de bens imóveis a duas operações simultâneas de compra e venda e, assim, considerando que o ingresso de bens imóveis em operações de permuta, com ou sem "torna", constitui receita bruta e sujeita se, portanto, à tributação. Fl. 2996DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.997 50 Entendo, contudo, que a mera previsão de aplicação das disposições de compra e venda à permuta/troca pela legislação civil não se mostra suficiente a ensejar que nos negócios jurídicos de permuta, sem torna, ou seja, sem complemento em dinheiro, haja receita para fins de tributação. Na realidade, na operação de permuta haverá apenas uma substituição de ativos, o que evidentemente de modo algum caracteriza o conceito de receita, na medida em que nem todo o ingresso no patrimônio da pessoa jurídica se amolda a esse conceito. Vale ressaltar que, ao se falar em receita, pressupõe se o recebimento de dinheiro, de maneira definitiva, em razão da celebração de negócio jurídico. Portanto, somente a torna eventualmente recebida nas operações de permuta deve ser oferecida à tributação do IRPJ pelas empresas optantes pelo lucro presumido respeitandose o princípio da capacidade contributiva, na medida em que não há ingresso financeiro na operação de permuta, ou melhor, há apenas uma troca de ativos. Neste sentido, aliás, é o entendimento já consolidado no âmbito deste Regional, consoante precedentes que passo a colacionar:(...) Em suma, não há falar em violação à sistemática da tributação do lucro presumido, na medida em que tal está sendo rigorosamente observada, consoante acima explanado. O que ocorre, por outro lado, é que não se amolda ao conceito de receita bruta a mera substituição de ativos que ocorre nas operações de permuta em que não há a compensação financeira conhecida por "torna". Não se cogita, de outro lado, de ofensa ao disposto no artigo 533 do Código Civil, porquanto não se está com o entendimento ora adotado afirmando que não se aplique às trocas ou permutas as disposições que regulamentam os procedimentos de compra e venda, mas tão somente se afirma que tal aplicação não é suficiente para gerar, no campo da tributação, os efeitos que a Receita Federal pretende aplicar, porquanto não há autorização para que, uma vez mais, se considere receita bruta aquilo que é, em verdade, mera substituição de ativos. (destacamos) Posto isso, o Parecer Normativo COSIT nº 9/2014 é manifestamente ilegal, devendo ser afastado, reduzindose do valor total das receitas colhidas a parcela apontada no próprio TVF como referente aos imóveis recebidos em permuta, no montante de R$ 25.300.00,00. Multa Qualificada Fl. 2997DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.998 51 Os presentes autos versam sobre infração de omissão de receitas, levando a consideração preliminar da Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. (destacamos) E, na mesma linha da dicção de tal consolidação jurisprudencial, a Fiscalização formulou no TVF acusações de ocorrência de fraude, a qual visaria exatamente a tal infração. Resta, então, verificar se, realmente, os fatos lá narrados e efetivamente comprovados, que levaram a ocorrência da infração de omissão de receitas (objeto deste lançamento) configuramse como fraudelentos. Tal imputação está integralmente contida em dois parágrafos, justificando sua colação: A evasão tributária perpetrada pela Gold Boston Ltda ao deixar de recolher o ganho de capital foi idealizada através da triangularização financeira entre as empresas do mesmo grupo econômico e seus devedores. Isto porque, conforme suso demonstrado, as operações financeiras entre a Gold Boston comandada pelos novos sócios, a MZM Empreendimentos e o devedor implicaram no acobertamento financeiro e contábil deste ganho. A ordem natural financeira e contábil se aplicada, não permitiria a sonegação ora perpetrada. Estes fatos minudentemente relatados caracterizam a figura da sonegação fiscal. A Gold Boston reconheceu a vigência do contrato da Promessa de Venda cuja receita foi omitida, portanto tinha conhecimento dos valores dos tributos devidos na apuração do imposto de renda, mas preferiu agir de maneira evasiva, sem registrar suas receitas a despeito de indicar terceiros para receberem seus créditos, caracterizando o intuito de fraude e justificando a aplicação da multa qualificada. A conduta deliberada e sistemática destes atos demonstra a presença do DOLO, no sentido de ter a consciência e querer a conduta de sonegação e agir em conluio com outra empresa de seu grupo econômico MZM, descritas nos art. 71 e 73 da Lei nº 4.502/64, justificando a aplicação da multa qualificada de 150%. (destacamos) Fl. 2998DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 2.999 52 Primeiramente, é necessário esclarecer que deixar de recolher eventual ganho de capital ou mesmo não oferecer receitas operacionais à tributação não configura evasão fiscal ou mesmo sonegação, sendo desnecessário desenvolver mais sobre o tema. Concretamente, afirma a Autoridade Fiscal que foi através da triangularização financeira entre as empresas do mesmo grupo econômico e seus devedores (conduta meio) que a Gold Boston SPE deixou de recolher o ganho de capital (conduta fim). Verificando todas as operações societárias e instrumentos obrigacionais firmados entre as partes acostados nos autos, constatase, primeiramente, que a omissão de receitas aqui analisada não pode ser atribuída, de qualquer forma, à venda de quotas da Gold Boston SPE, pela Gold Farb ao Grupo MZM (MZM Empreendimentos foi parte neste contrato de Compra e Venda, determinando que as destinatárias e titulares das participações adquiridas fossem suas controladas, MZM Participações e MZM Participações FC). A omissão percebida, na verdade, deveuse exclusivamente à forma e à falta de registros contábeis nos Livros e Declarações da Recorrente de parte de tais receitas em nada interferindo para sua ocorrência a suposta triangulação entre as companhias envolvidas. Todavia, a Autoridade Fiscal aponta como explicação e justificativa para a Contribuinte deixar de registrar R$ 43.284.163,79, pagos diretamente pela Odebrecht à Gold Farb, a quitação da dívida que a MZM Empreendimentos pela aquisição das quotas da própria Gold Boston (fato este sempre tratado às claras pelas partes, expressamente registrado no contrato de Compromisso de Permuta). Ocorre que, a especulação sobre a motivação da conduta infracional não pode ser confundida com a própria infração que, repitase, fora apenas deixar de lançar parte dos valores envolvidos na contabilidade e não ofertar essas receitas à devida tributação. No contrato de Compromisso de Permuta fica claro que aquele valor de R$ 43.284.163,79 era juridicamente devido à Gold Boston, eis que detentora dos imóveis permutados, configurando para todos os fins, inclusive contábeis e tributários, entrada de sua titularidade. Tal instrumento particular de alienação não configura qualquer fraude e nem dá margem a qualquer justificativa para os que estes valores não fossem lançados nas contas da Fl. 2999DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.000 53 Gold Boston pelo contrário, suas previsões já obrigavam a Recorrente a registrar e tributar os valores recebidos. Comprovando tal ponto, em hipótese alternativa ao efetivamente ocorrido, se o numerário continuasse sendo entregue diretamente pela Odebrecht à Gold Farb, por conta de cumprimento de disposição contratual de pagamento à ordem (o que não configura fraude), mas, a Recorrente (Gold Boston), com base nas obrigações contraídas no contrato de Compromisso de Permuta, lançasse tais valores na sua contabilidade como receita (independentemente da sua classificação), não haveria mais a infração de omissão de receitas. Mais importante: não foi apresentada nenhuma alegação específica de simulação, falsidade, defeito jurídico ou fraude nas transações societárias e nem nos contratos. Apenas rotulouse genericamente todas as operações e negócios firmados, considerados em conjunto, como fraude, sem explicar tecnicamente como influenciaram na ocorrência do ilícito tributário, quando, na verdade, a omissão de receitas ocorreu por razões independentes a tais negócios. Desse modo, repitase, foi apenas postura contábil da Recorrente que deu margem a tal ilícito, mostrandose as operações societárias e os instrumentos de alienação firmados (chamados de triangulação) alheios à infração colhida, rejeitandose a rotulação da Fiscalização sobre tais fatos como condutas fraudulentas ou evasivas. Cabe agora, então, averiguar as posturas contábeis da Recorrente. Temos duas situações distintas: deixar de registrar a entrada de R$ 43.284.163,79; registrar demais recebimentos sob as seguintes rubricas: Em verdade a empresa não mais reconheceu qualquer receita pela venda dos terrenos, registrando os recebimentos na conta contábil 11010020002 Bradesco 32298, em contrapartida da conta do Passivo código 21050010008 Partes Relacionadas. Desta forma ocorreu para os recebimentos havidos na monta de R$ 5.225.779,86 em 06/07/2012, para o valor de R$ 5.486.899,38 em 23/01/2013 e para o valor de R$ 1.257.066,44. A diferença entre ambos reside no fato de que para o primeiro lançamento informou como histórico contábil “VR. REF. Fl. 3000DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.001 54 TRANSFERENCIA P/ Adto. Mão de Obra – MZM x GOLD CFE. EXTRATO”, enquanto nos demais lançamentos descreveu no histórico “VR. REF. TRANSFERENCIA ENTRE EMPRESAS – MZM x GOLD BOSTON CFE. EXTRATO”. A saída destes recursos da empresa ocorreu logo em seguida, sendo que para o anocalendário de 2012, justificouse no histórico contábil “VR. REF. TRANSFERENCIA P/ ADIANT DE MAODEOBRA GOLD BOSTON X MZM CFE. EXTRATO”, a débito da conta contábil do Passivo “Partes Relacionadas”. Este lançamento sob o ponto de vista contábil representaria que a empresa quitou uma dívida com a MZM relacionada com mãode obra. Digase que para o anocalendário 2013 o mesmo procedimento foi adotado, sendo a saída dos recursos justificada pelo histórico contábil “ TRANSFERENCIA ENTRE EMPRESAS GOLD X MZM ENGENHARIA CONF EXTRATO”. Neste caso incluiuse para justificar o esvaziamento dos ativos disponíveis da empresa como decorrente de transação com a MZM Engenharia. A seguir, estes registros na contabilidade da Gold Boston: Tais lançamentos foram registrados inicialmente como se fossem passivo decorrente de futuro aumento de capital, sendo em seguida enviados os recursos para as empresas do grupo da MZM. Neste caso, deveria ter sido quitado o ingresso de recursos com a integralização dos recursos pelos acionistas. Porém, assim não ocorreu. Ao final, os recursos entraram e saíram por motivos diferentes dos registrados contabilmente. O ingresso foi pelo recebimento da venda dos terrenos, e a saída não foi por causa da integralização de capital pelos quotistas. (fls. 1022 a 1023). Em relação aos registros efetuados, temos duas situações distintas: alguns com histórico de transferência entre empresas e outros que remetem a adiantamento de mão deobra. A Autoridade Fiscal (apenas no tópico da Responsabilidade e não da Multa Qualificada propriamente, digase) afirma que as transferências configurariam uma confusão Fl. 3001DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.002 55 patrimonial proposital e que o destino dos recursos foi a MZM Empreendimentos a título de mão de obra, sem que qualquer contrato tenha sido apresentado pela empresa MZM Empreendimentos e pela Gold Boston, sendo tais posturas fraudulentas. Mas, tratandose de infração de omissão de receitas, a simples ausência do registro contábil de valores ou não ser a empresa capaz de justificar a correspondência negocial de histórico lançado na contabilidade (inclusive transferência entre empresas) não configura fraude, restando esta conduta ainda adstrita ao ilícito exclusivamente tributário da omissão. Isso porque, tal postura de registro em Livros não caracteriza a elaboração de documento falso ou mesmo a simulação de um negócio inexistente, capaz de produzir efeitos típicos de como se real fosse. Ainda que deva ser rechaçada tal conduta contábil, a situação é totalmente diferente de um contribuinte que efetivamente forja um contrato de fornecimento de mãode obra ou construção, com elementos materiais inverídicos, para simular sua ocorrência, seu valor e seus efeitos. Ou mesmo empresas coligadas que criam dívidas artificiais, mas fundamentadas em documentos propositalmente elaborados para tal fim, justificando movimentação financeira. O que foi efetivamente narrado e comprovado pela Fiscalização foi apenas lançamento de históricos na contabilidade, com referências que não tiveram o compatível respaldo documental e justificativa de ocorrência pelo Contribuinte, restringindose tal conjunto fáticoprobatório à infração ordinária de omissão de receitas, não havendo em se falar de fraude. E ainda que as transferências e saídas dos numerários correspondentes às receitas omitidas possam até dar margem a indício de confusão patrimonial, tal ocorrência indiciária não se relaciona ao objeto da Autuação: infração de omissão de receitas, que deuse independentemente da existência efetiva ou não dessa confusão não comprovada. A Autoridade Fiscal também afirma que as respostas apresentadas pela MZM Empreendimentos no início da auditoria, conforme já relatado, estão em desacordo com a verdade, uma vez que, em resposta datada de 02/03/2015 a empresa informou que os terrenos não teriam sido adquiridos pela MZM Empreendimentos. Fl. 3002DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.003 56 Primeiramente, a MZM Empreendimentos não é a empresa Autuada (Gold Boston é a contribuinte), no sentido de que a sua resposta, teoricamente em desacordo com a verdade, não poderia influenciar na qualificação da multa aplicada à Recorrente. Mais relevante é o fato de que, juridicamente, a MZM Empreendimentos realmente adquiriu as quotas da Gold Boston e não os terrenos, sendo plenamente verdadeira sua afirmação. Por fim, mais uma vez no relato do tópico Responsabilidade (e não da Multa Qualificada), afirma a Autoridade Fiscal que reiteradas foram as declarações falsas prestadas pela fiscalizada. Houve, com a finalidade de redução do pagamento de IRPJ e CSLL, desde a falta do reconhecimento de receitas nas DIPJ, não obstante registros contábeis de receitas na contabilidade de jan/2012 a mar/2012, até a falta dos registros contábeis pelas parcelas recebidas pela empresa quando os novos sócios assumiram o controle da empresa (destacamos), enquadrando a postura da empresa em crime contra ordem tributária, previsto na Lei nº 8.137/90. Da própria enumeração das declarações falsas prestadas, fica claro que todas elas ressumemse, ou são mero resultados consequênciais lógicos, à ordinária infração tributária de omissão de receitas. Diante do exposto, afastase as acusações de fraude, sonegação e evasão, vez que ausente fundamento e comprovação adequados para tanto, devendo ser a multa aplicada reduzida ao montante de 75%. Responsabilidade dos Srs. FRANCISCO DIOGO MAGNANI e CLAUDIO YUKISHIGUI TAKAESU (ESPÓLIO) Valendose o TVF, para a responsabilização das pessoas físicas, administradores estatutários da Gold Boston, dos mesmo fundamentos de ocorrência de fraude, evasão e sonegação, as razões e motivos acima utilizados para a superação de tais acusações também aplicamse para a exclusão do responsáveis do polo passivo. Mas, em acréscimo, frisese que no TVF não há a descrição individualizada de nenhuma conduta perpetrada por tais pessoas ou sua participação pessoal e direta nas infrações. Apenas reside lá a descrição das já mencionadas situações como fraude, fato este que também confirma a ausência da fundamentação fáticoprobatória necessária para a devida aplicação do art. 135, inciso III, do CTN. Fl. 3003DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.004 57 Confirase a lição de Aliomar Baleeiro10 (em obra atualizada por Misabel Abreu Machado Derzi) sobre o tema: A aplicação do art.135 supõe assim: 1. a prática de ato ilícito, dolosamente, pelas pessoas mencionadas no dispositivo; 2. ato ilícito, como infração de lei, contrato social ou estatuto, normas que regem as relações entre contribuinte e terceiro responsável, externamente à norma tributária básica ou matriz, da qual se origina o tributo; 3. a autuação tanto da norma básica (que disciplina a obrigação tributária em sentido restrito) quanto da norma secundária (constante no art. 135 e que determina a responsabilidade do terceiro, pela prática do ilícito). (destacamos) Por fim, frisese que a qualificação expressamente apontada pelo Fisco no TVF para a responsabilizar tais pessoas não é de administradores da Gold Boston, mas, sim, sócios administradores do Grupo MZM, com participação na fiscalizada. Como se observa, tais pessoas não são sócias da Recorrente (Gold Boston), adotando o TVF teoria que responsabiliza sócios de outras empresa, que têm participação no Contribuinte. Tal postura não encontra base legal no art. 135, inciso III, do CTN, único dispositivo expressamente utilizado pela Fiscalização para promover tal responsabilização. Diante do exposto, devem ser excluídos os Srs. FRANCISCO DIOGO MAGNANI e CLAUDIO YUKISHIGUI TAKAESU do polo passivo das Autuações. Recurso de Ofício 10 Direito Tributário Brasileiro. 11ª Ed., rev. e ampl. por Misabel Machado Derzi. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 757. Fl. 3004DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.005 58 Como relatado, no v. Acórdão recorrido se entendeu ser indevida a responsabilização das empresas MZM Participações Ltda e MZM Participações FC Ltda, excluindoas do polo passivo do lançamento de ofício. Confirase os termos do V. Acórdão a quo: 54. O mesmo não se pode dizer da imputação das empresas MZM Participações e MZM Participações FC. O fato de elas serem sócias (de direito) da Golden Boston motivo da imputação não implica devam ser responsabilizadas pelo crédito. 55. O inciso I do art. 124 do CTN permite classificar como responsável solidário pelo crédito quem tenha interesse comum na situação constitutiva do fato gerador, o que diz com o sócio de fato; ou seja, o dispositivo autoriza a inclusão de terceiro no pólo passivo da obrigação, mas desde que fora de seu quadro social. 56. Não há confundir a pessoa jurídica com os seus sócios; de modo que as obrigações da empresa não trazem estes de plano como coobrigados. Nesse sentido, são vários os julgados administrativos, como os a seguir transcritos (excertos): (...) (fls. 2834) Como se observa de tal r. decisum, a única motivação para responsabilizar tais companhias era o fato de serem sócias da Gold Boston. Ainda que seja comentado pela DRJ o art. 124, inciso I, do CTN, este não é invocado no TVF. Apenas utilizase o art. 135 do mesmo Codex Tributário nos fundamentos do lançamento. Mais contundente é o fato de não ser especificamente explicada, demonstrada e nem mencionada a sua responsabilização no TVF quando versa sobre a responsabilização de terceiros, além do Contribuinte. Sua razão social e qualificação como Responsável de Direito resume às folhas demonstrativas dos Autos de Infração. Uma vez clara a absoluta improcedência de tal manobra da Fiscalização, já reconhecida pela N. Instância a quo, concordando este Conselheiro com tal conclusão, além daquilo acima exposto, para os demais fins processuais, adoto tudo aquilo decido pela DRJ, nos termos do art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99. Fl. 3005DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.006 59 Diante do exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade alegada e, no mérito, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para i) reduzir a base de cálculo do lançamento de ofício, aplicando às receitas colhidas o coeficiente 8% para a sua obtenção, dentro da dinâmica do Lucro Presumido, ii) excluir do valor de tais receitas apuradas o montante dos imóveis recebidos em permuta, conforme considerado e descrito no TVF, iii) afastar a multa qualificada, reduzindoa para o coeficiente de 75% da multa de ofício e iv) excluir os Srs. FRANCISCO DIOGO MAGNANI e CLAUDIO YUKISHIGUI TAKAESU (ESPÓLIO) do polo passivo das exações em tela. Ainda, voto por negar provimento ao Recurso de Ofício. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella Fl. 3006DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.007 60 Voto Vencedor Conselheiro Paulo Mateus Ciccone – Redator Designado Com o devido respeito, ouso divergir do substancioso voto exarado pelo Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella unicamente em relação ao provimento que deu ao recurso voluntário para reduzir o valor tributável do imóvel alienado em permuta (com torna), acompanhandoo nos demais posicionamentos. Relembrando, a Fiscalização entendeu que a recorrente auferiu receita derivada de alienação, por permuta, de imóvel de seu ativo (com torna) e que tal montante, além de se constituir em receita (omitida), deixou de ser tributado como “ganho de capital” na sistemática do Lucro Presumido, digase, sobre a base de cálculo aplicarseia diretamente a alíquota do IRPJ (15% + 10% de adicional) e não as mesmas alíquotas após a incidência do percentual de 8%. De outra banda, a recorrente e o voto do Relator, além da discussão em torno da permuta e da torna, entendem que o valor a ser tributado passaria, antes, pelo percentual de 8% do Lucro Presumido e, só depois, incidiriam as alíquotas do IRPJ. Dizendo mais claramente, para o Fisco a alienação do terreno sujeitarseia à aplicação direta das alíquotas do IRPJ enquanto que para a recorrente (e voto do Relator) esta operação faria parte das atividades operacionais da contribuinte e, nesse sentido, o montante da referida receita sofreria imposição de 8% para se encontrar a base de cálculo do tributo e só a partir daí ocorreria a incidência das alíquotas (15% +10% a título de IRPJ). Nesse diapasão, a diferença percentual final entre um e outro critério é expressiva (considerando, ainda, a CSLL): Ø 34% (15% + 10% de IRPJ e 9% de CSLL), se entendida a operação como ganho de capital; Ø 11% [8*(15% + 10%)] + 9%, se entendida como fruto da atividade operacional da recorrente. Posto os fatos, passo à análise da lide. Alerto que deixo de apreciar os detalhes da operação de alienação, via permuta, com torna, e que contou com a participação de várias empresas na operação (segundo o Fisco, “a evasão tributária perpetrada pela Gold Boston Ltda ao deixar de recolher o ganho de capital foi idealizada através da triangularização financeira entre as empresas do mesmo grupo” TVF – fls. 1037), posto que o tema já foi exaustivamente relatado na acusação, rebatido pela defesa e longamente dissertado pelo voto do I. Relator. Antes de prosseguir, impende esclarecer que a recorrente não contesta ter havido “omissão de receitas” (não tributadas, portanto); porém, não no montante imputado pelo Fisco. A respeito, a análise das suas peças recursais da defesa claramente aponta neste sentido e o tema foi já perspicazmente tratado pelo I. Relator em seu voto neste Acórdão: Fl. 3007DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.008 61 “Dito isso, analisando as defesas opostas pela Recorrente e seus pedidos correspondentes, não há combate direto e o questionamento eficaz da ocorrência dessa omissão de receitas, restando ponto pacífico do contencioso”. (negritouse). Foco, assim, apenas os pontos centrais desta discussão, ou seja, i) o tratamento da alienação, por permuta, como “receita”; ii) se o montante da torna se incluiria no valor da alienação (permuta); iii) em caso positivo, se a tributação seria a título de “ganho de capital”; e, iv) se, diferentemente, faria parte da atividade operacional da recorrente e por isso sujeita à aplicação do percentual do Lucro Presumido. Principio pelos dois tópicos iniciais. Que a permuta se equipara à “alienação” é inquestionável (artigo 533, Código Civil)11; também inquestionável que, via de consequência, para fins contábeis e tributários, configurase como legítima “receita” tudo aquilo que implique em “ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários” (CPC 30 – item 7). Resta, portanto, verificar se a “permuta” e a “torna” comporiam o montante da receita e, mais ainda, a aplicação do Parecer Normativo Cosit nº 9/2014. Embora muito se comente acerca do PN citado e a sua possível “ilegalidade” (tanto que a proposta do I. Relator foi de afastar sua aplicação por “ilegal”)12 penso que o entendimento nele exarado tem concreta substância e agrega corretamente princípios contábeis e tributários. Na verdade, antes da edição do PN, a RFB já havia se manifestado em outros atos normativos tratando do tema “permuta”, por exemplo, Solução de Divergência Cosit nº 5/2010, já destacada na decisão recorrida (fls. 1031): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ LUCRO PRESUMIDO. PERMUTA DE IMÓVEIS. RECEITA BRUTA. Na operação de permuta de imóveis sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica tributada pelo IRPJ com base no lucro presumido, dedicada à atividade imobiliária, constitui receita bruta o preço do imóvel recebido em permuta. 11 Da Troca ou Permuta Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: 12 “Posto isso, o Parecer Normativo COSIT nº 9/2014 é manifestamente ilegal, devendo ser afastado, reduzindose do valor total das receitas colhidas a parcela apontada no próprio TFV como referente aos imóveis recebidos em permuta, no montante de R$ 25.300.00,00”. Fl. 3008DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.009 62 Dispositivos Legais: art. 533 da Lei nº 10.406, de 2002 (Código Civil); arts. 224, 518 e 519 do Decreto nº 3.000, de 1999. Na mesma linha, mas já se referenciando à “torna”, a Solução de Consulta Cosit nº 207, de 11/07/2014: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ LUCRO PRESUMIDO. PERMUTA DE IMÓVEIS. RECEITA BRUTA. A pessoa jurídica tributada pelo lucro presumido, dedicada à atividade imobiliária, ao realizar permuta de imóveis com recebimento de torna, aufere como receita bruta para fins do IRPJ, além da torna, o preço do imóvel recebido na operação. Dispositivos Legais: Lei nº 10.406, de 2002 (Código Civil), art. 533; e Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99), arts. 224, 518 e 519. Digase, o entendimento já recorrente no seio da Administração Tributária foi apenas consolidado no Parecer Normativo, de forma que o tratamento dado ao tema pelo PN 9/2014 não deveria gerar a surpresa que parece ter gerado. Assim penso, os questionamentos apontados sobre o PN soamme improcedentes. Como ensina Edmar de Oliveira Andrade Filho (in Imposto de Renda das Empresas – 10ª Ed. Atlas – SP – pg. 145): “Nos exatos termos do art. 533 do Código Civil de 2002, aplicamse à troca (ou permuta) as disposições referentes à compra e venda. Tratase do contrato pelo qual um dos contratantes promete uma coisa em troca de outra, que não o dinheiro. Na troca, afirma Orlando Gomes, não há preço como na compra e venda, mas é irrelevante que as coisas permutadas tenham valores desiguais. Ela envolve “uma dupla alienação” em que pode ou não haver a figura da “torna” ou saldo em dinheiro, sem que isto descaracterize o contrato. (...) Assim se uma empresa celebra contrato de troca que tenha por objeto um bem cujo valor registrado no Ativo é igual a R$ 100,00 e recebe um outro bem no mesmo valor, ele não apurará resultado algum, mas terá uma receita de venda (ou ganho de capital, se for o caso) no valor de R$ 100,00. Desta forma, se considerarmos que há uma dupla alienação, NÃO É CORRETO o registro contábil unicamente entre contas do Ativo, sem trânsito por resultado.” (destaques acrescidos). Ainda na linguagem do mesmo autor (mesma obra, 6ª Ed. – 2009 pg. 117): “Uma empresa pode obter receitar com a alienação ou desapropriação de bens que, do ponto de vista contábil, são classificáveis no Ativo Permanente. Fl. 3009DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.010 63 Quando isto ocorre, essa empresa obtém uma receita não operacional ou um ganho de capital, o que é o mesmo. O termo alienação compreende qualquer operação que importe transmissão ou promessa de transmissão, a qualquer título, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão ou promessa de cessão de direitos e contratos afins” (negritos não constam no original) A leitura dos ensinamentos do ilustre doutrinador permite melhor visualizar a matéria: a permuta gerará, sempre e sempre, uma receita. Se a permutante estiver no regime do Lucro Real, esta receita (se a permuta for de valores iguais) será anulada pelo custo do outro bem permutado. Se houver mais valia, sobre ela incidirá o IRPJ naquela sistemática de apuração (Lucro Real). Contrario sensu a interpretação a ser dada se a permutante adotar o Lucro Presumido (caso dos autos) é que o bem permutado será, sempre e sempre, uma receita e, por óbvio, não haverá “custo” a ser a ela (receita) contraposto (como ocorre no Lucro Real), pelo simples motivo de que naquele regime o “custo” já estará embutido na diferença entre “100%” e a alíquota aplicada para apuração da base de cálculo (8%, 16%, 32%, etc.). Com isso se quer dizer que “permuta” deverá ser sempre tratada como receita (independentemente de ter havido ou não “torna”). A diferença é que no regime do Lucro Real o bem recebido em permuta comporá o custo, o que não acontece quando se está diante do Lucro Presumido. Tratando do tema, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis externou a sua posição no CPC 30, cujos excetos, no que interessa, seguem abaixo (negritouse): “10. No caso de permuta de bens e serviços de mesma natureza não há reconhecimento de receita; esta só ocorre quando de permuta de bens e serviços de natureza diferente. Atenção especial é dada em Interpretação anexa ao Pronunciamento para o caso de permuta de publicidade. 12. Quando os bens ou serviços forem objeto de troca ou de permuta, por bens ou serviços que sejam de natureza e valor similares, a troca não é vista como uma transação que gera receita. Exemplificam tais casos as transações envolvendo commodities como petróleo ou leite em que os fornecedores trocam ou realizam permuta de estoques em vários locais para satisfazer a procura, em base tempestiva e em local específico. Por outro lado, quando os bens são vendidos ou os serviços são prestados em troca de bens ou serviços não similares, tais trocas são vistas como transações que geram receita. Nesses casos, a receita deve ser mensurada pelo valor justo dos bens ou serviços recebidos, ajustados pela quantia transferida em caixa ou equivalentes de caixa. Quando o valor justo dos bens ou serviços recebidos não pode ser mensurado com Fl. 3010DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.011 64 confiabilidade, a receita deve ser mensurada utilizando se como parâmetro o valor justo dos bens ou serviços entregues, ajustado pelo valor transferido em caixa ou equivalentes de caixa”. Que não diferem, na essência, da posição assumida pelo IBRACON no NPC nº 14, de 18/01/2001: “14. Quando mercadorias ou serviços são permutados por outras mercadorias ou serviços, que são de uma mesma natureza ou valor, essa troca não é considerada como uma transação que gera receita. É este geralmente o caso de produtos como óleo ou leite, quando os fornecedores permutam ou trocam estoques em diversos locais a fim de atender à demanda dentro do prazo em determinado local. Quando as mercadorias são vendidas ou os serviços são prestados em troca de mercadorias ou serviços sem semelhança, essa troca é considerada uma transação que gera receita. A receita é medida pelo valor justo das mercadorias ou serviços recebidos, ajustado por qualquer numerário ou equivalente. Quando o valor justo das mercadorias ou serviços não puder ser medido com segurança, a receita é medida pelo valor justo das mercadorias ou serviços entregues, ajustado por qualquer numerário ou equivalente”. (destacado). Foi nesse contexto que o PN 9/2014 (ementa abaixo) se inseriu: “Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas IRPJ. PESSOAS JURÍDICAS. ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS. PERMUTA DE IMÓVEIS. RECEITA BRUTA. LUCRO PRESUMIDO. Na operação de permuta de imóveis com ou sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica que apura o imposto sobre a renda com base no lucro presumido, dedicada a atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, constituem receita bruta tanto o valor do imóvel recebido em permuta quanto o montante recebido a título de torna. A referida receita bruta tributase segundo o regime de competência ou de caixa, observada a escrituração do livro Caixa no caso deste último. O valor do imóvel recebido constitui receita bruta indistintamente se tratase de permuta tendo por objeto unidades imobiliárias prontas ou unidades imobiliárias a construir. O valor do imóvel recebido constitui receita bruta inclusive em relação às operações de compra e venda de terreno seguidas de confissão de dívida e promessa de dação em pagamento, de unidade imobiliária construída ou a construir. Considerase como o valor do imóvel recebido em permuta, seja unidade pronta ou a construir, o valor deste conforme discriminado no instrumento representativo da operação de permuta ou compra e venda de imóveis. Fl. 3011DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.012 65 Lei nº 9.718, de 27 de novembro de 1998, art. 14; Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), art. 533; RIR/1999, arts. 224, 518 e 519; IN SRF nº 104, de 24 de agosto de 1988”. Excertos de seus fundamentos aclaram o ementado (com destaques deste Relator): “5. Cabe consignar que não há dúvidas quanto ao fato de que as operações de permuta, de acordo com o art. 533 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), a seguir transcrito, estão adstritas às mesmas disposições relativas à compra e venda. A permuta de imóveis, portanto, da mesma forma que a compra e venda, está sujeita, em princípio, à incidência do imposto de renda, tanto no caso de alienante pessoa física quanto no de alienante pessoa jurídica. Por conseguinte, está sujeita também à incidência da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), no caso de ser o alienante pessoa jurídica. 6. Conforme o art. 518 do RIR/1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999), a base de cálculo do IRPJ no regime de apuração pelo lucro presumido é determinada através de percentual aplicado sobre a receita bruta. E a definição de receita bruta para este regime, a teor do que dispõe o art. 519 do RIR/1999, é dada pelo mesmo dispositivo definidor referente à apuração anual do IRPJ com pagamento mensal por estimativa, ou seja, o art. 224 do RIR/1999, abaixo transcrito: “Art.224. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31). Parágrafo único. Na receita bruta não se incluem as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos e os impostos não cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário (Lei nº 8.981, de 1995, art. 31, parágrafo único).” 7. Se a permuta se equipara à compra e venda e se a receita bruta compreende o produto da venda nas operações de conta própria, claro está que o valor do imóvel que a pessoa jurídica que explora atividades imobiliárias recebe em permuta compõe sua receita bruta e, por conseguinte, a apuração da base de cálculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS. 8. Além disso, o item 2.1.1 da IN SRF nº 107, de 1988, não permite concluir que nas operações de permuta sem torna resta descaracterizado o valor do imóvel recebido como receita. Confirase seu teor: “No caso de permuta sem pagamento de torna as permutantes não terão resultado a apurar, uma vez que cada pessoa jurídica atribuirá ao bem que receber o mesmo valor contábil do bem baixado em sua escrituração.” Fl. 3012DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.013 66 9. Pela ratio legis da norma complementar, não há resultado a tributar no lucro real porque o valor contábil do imóvel que entra é igual ao valor do imóvel que sai, fazendo com que os lançamentos venham a se anular em termos de resultado. Daí a razão do tratamento dado à permuta sem pagamento de torna no âmbito da apuração do IRPJ pelo lucro real. Mas há, sim, receita e, havendo receita, haverá repercussão no caso da apuração da base de cálculo do IRPJ pelo lucro presumido. Isso porque neste regime o custo do imóvel entregue na permuta não irá afetar a base de cálculo, de forma a tornar neutro o resultado. 10. Em todas as situações reguladas pela IN SRF nº 107, de 1988, ocorre a apuração de lucro na forma de receita menos custo. E, como é consabido, essa apuração nada tem a ver com o lucro presumido, regime em que o lucro é obtido por presunção legal, a partir de percentual prédefinido pela lei a ser aplicado sobre a receita bruta, sem uma verificação efetiva de sua ocorrência. 11. Não se pode, portanto, aplicar uma norma que disciplina a forma de apuração do lucro real em operações de permuta de imóveis à determinação do lucro presumido. O lucro real é a regra judiciosa de apuração e tributação do lucro. O lucro presumido, outrossim, é opcional, tem por base a receita bruta do contribuinte, esteio da mensuração de sua capacidade contributiva, ainda que estimada, neste caso, estando aí envolvido todo o produto das vendas efetuadas pela pessoa jurídica que se dedique a atividades imobiliárias, mesmo que com parte do respectivo pagamento sendo efetuado com base em operações de permuta. Ao optar livremente pelo regime do lucro presumido, o contribuinte escolhe apurar o lucro para fins tributários de forma indireta, presuntiva, não cabendo portanto apurar o lucro de forma direta, real, apenas para determinado(s) tipo(s) de operação. 12. A conclusão quanto ao panorama em vigor é que às pessoas jurídicas tributadas pelo regime do lucro presumido que explorem atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda não se aplicam os conceitos do custo orçado (aplicável às vendas contratadas antes de completado o empreendimento), bem como o de reconhecimento do lucro bruto, nas contas de resultado de cada período de apuração, proporcionalmente à receita da venda recebida (no caso das vendas a prazo ou em prestações, com pagamento após o término do períodobase da venda). Estando claro também que o valor do imóvel recebido em permuta compõe a receita bruta e, por conseguinte, a apuração da base de cálculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e do COFINS. 12.1. Ressaltese que, nos termos dos regramentos existentes para a apuração do lucro presumido, o valor do imóvel recebido em permuta compõe a receita bruta e tributase segundo o regime de competência (i.e., no período de apuração da celebração da permuta) ou de caixa (no período de apuração do recebimento do imóvel dado em permuta), à opção do contribuinte, observada Fl. 3013DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.014 67 a escrituração do livro Caixa no caso deste último, consoante a IN SRF nº 104, de 24 de agosto de 1988”. Para concluir o parecerista: “13.1. Na operação de permuta de imóveis com ou sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica que apura o imposto sobre a renda com base no lucro presumido, dedicada a atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados à venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para a revenda, constituem receita bruta tanto o valor do imóvel recebido em permuta quanto o montante recebido a título de torna”. Precedentes deste Colegiado confirmam a tese, exemplificativamente: LUCRO PRESUMIDO. PERMUTA DE IMÓVEIS. RECEITA BRUTA. Na operação de permuta de imóveis sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica tributada pelo IRPJ com base no lucro presumido, dedicada à atividade imobiliária, constitui receita bruta o preço do imóvel recebido em permuta. (Ac. 3202001.120) No mesmo segmento: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2008 LUCRO PRESUMIDO. PERMUTA DE IMÓVEIS. RECEITA BRUTA. Na operação de permuta de imóveis sem recebimento de torna, realizada por pessoa jurídica tributada pelo IRPJ com base no lucro presumido, dedicada à atividade imobiliária, constitui receita bruta o preço do imóvel recebido em permuta. “Ac. 1201001.813 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 26 de julho de 2017 – Rel. José Carlos de Assis Guimarães) Por pertinente, transcrevo excertos do voto condutor, em tudo aplicável ao caso e que agrego ao meu entendimento aqui expresso: “A meu ver, não há como desconsiderar como receita da atividade empresarial da Recorrente, no momento da alienação das unidades imobiliárias, os valores dos bens recebidos em permuta. Isto porque, a recorrente espontaneamente apurou o lucro de sua atividade empresarial pela sistemática da presunção, Fl. 3014DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.015 68 hipótese em que o lucro é estimado com base em coeficientes (percentuais) que incidem sobre a receita total auferida. Não se pode aplicar, por integração analógica, ato normativo destinado a disciplinar, em particular situação, a apuração do lucro real àqueles contribuintes que adotam o regime do lucro presumido, visto que neste, caso não se consideram custos ou despesas (arts. 518 e 519 do Decreto n.º 3.000, de 1999 – RIR/99), tal como sucede naquele outro. Embora destinados a apurar o lucro da atividade, esses regimes são dessemelhantes, donde inaplicáveis as disposições encartadas na IN SRF n.º 107, de 1988, que visou disciplinar os procedimentos a serem adotados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas e do lucro imobiliário das pessoas físicas, nas permutas de bens imóveis. Ora, se a Recorrente optou por apurar o seu lucro tributável pela sistemática denominada por “lucro presumido”, deve arcar com o ônus e o bônus dessa opção. Nesta sistemática, o lucro é calculado a partir de índices previamente fixados pela lei que devem incidir sobre a receita total auferida; por outro, não é possível apropriarse de custos ou despesas, como se faz na sistemática de apuração por “lucro real”, de modo a abater do valor da receita bruta tributável os custos decorrentes das permutas de bens imóveis. No caso da apuração pela sistemática do “lucro presumido”, a lei não diferenciou a receita tributável decorrente do recebimento em pecúnia (“dinheiro”) ou em bens. A incidência se dá indistintamente, desde que ocorra o auferimento de receita em decorrência da venda de mercadoria, da prestação de serviços ou da conjugação de ambos, independentemente da forma de pagamento empregada. Assim, uma empresa que se dedica à atividade imobiliária, tributada pelo lucro presumido, não pode deixar de oferecer à tributação o valor de uma unidade imobiliária que alienou, recebendo em contrapartida outra unidade imobiliária, em operação denominada permuta. Ao alienar a unidade imobiliária, o valor atribuído à contrapartida recebida deve necessariamente integrar a receita bruta, irrelevante se a operação foi de compra e venda e a contrapartida foi diretamente expressa em moeda, ou se a operação foi de permuta, e a contrapartida foi outra unidade imobiliária, ainda assim passível de ser expressa em moeda. O valor atribuído à operação é decorrente da atividade fim da pessoa jurídica, e deve integrar a receita bruta, para fins de determinação da base de cálculo do lucro presumido”. E, como conclusão, cabível lembrar estudo realizado pelo Conselheiro Luís Flávio Neto, deste Colegiado Administrativo Tributário Federal de 2º Piso, relativamente, às conseqüências tributárias nas permutas de bens imóveis realizadas por empresas optantes pela sistemática do Lucro Presumido no sentido de que "operações de permuta sem torna de bens imóveis do ativo circulante ensejam receitas operacionais ao contribuinte." (Farias & Castro, Renato e Leonardo – Operações Imobiliárias – Estruturação e Tributação – Saraiva – SP – 2016 – pg. 713). Fl. 3015DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.016 69 Pelo exposto, pareceme irretocável o trabalho fiscal que impingiu à recorrente ter havido omissão de receitas pela não tributação do valor da permuta. Como o regime adotado pela contribuinte à época era o do Lucro Presumido, a mensuração deve ser feita pelo total da alienação, sem considerar, por elementar, qualquer rubrica a título de custo. Já sobre a torna, evidente que se a permuta, per si, no regime do Lucro Presumido, já é receita, quando mais um “plus” que advenha desta operação de troca, sempre lembrando que, pela melhor doutrina contábil brasileira, “Receita” corresponde à “entrada de ativos, sob forma de dinheiro ou direitos a receber, correspondentes, normalmente, à venda de mercadorias, de produtos ou à prestação de serviços, podendo também derivar de juros sobre depósitos bancários ou títulos e de outros ganhos eventuais”13, e que, na normatização do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), mediante a Resolução nº 1.121/2008, que aprovou a NBC T 1 e que trata da Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, receita e “ganhos” têm a seguinte definição: 74. (...) receita abrange tanto receitas propriamente ditas como ganhos. A receita surge no curso das atividades ordinárias de uma entidade e é designada por uma variedade de nomes, tais como vendas, honorários, juros, dividendos, royalties e aluguéis. Assim, a “torna”, sem nenhuma dúvida, compõe o montante da receita obtida pela recorrente e não oferecida à tributação, implicando nos lançamentos de ofício aqui tratados. Por fim, não se olvide a dicção do artigo 43, do CTN: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1o A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. (Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) § 2o Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. Passo agora a analisar os argumentos das partes a respeito da tributação de tais valores, os do Fisco de que se estaria diante de “ganho de capital”, por alienação de bem do ativo permanente (hoje, não circulante), e os da recorrente de que a operação envolveria a 13 Sérgio de Iudícibus, José Carlos Marion e Elias Pereira, na obra DICIONÁRIO DE TERMOS DE CONTABILIDADE (Ed. Atlas, 2ª Edição, disponível na Rede Mundial de Computadores) Fl. 3016DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.017 70 atividade da empresa, por isso, tributados só após a aplicação do percentual de 8% do Lucro Presumido. A recorrente centraliza seus argumentos aduzindo que o terreno permutado, desde o princípio, estava em seu circulante e havia intenção de alienálo. Para o Fisco, entretanto, o objeto social da recorrente não comportaria tal atividade. Penso que razão cabe ao Fisco. Segundo os estatutos sociais da contribuinte, seu objeto social era: "... exclusiva e especificamente, promover a execução mediante a incorporação, construção e venda, de um empreendimento imobiliário" Pois bem, respeitando entendimentos contrários, penso que o Contrato Social de uma empresa é sua certidão de nascimento e define suas operações, mormente quando se está diante da legislação tributária e, mais que nunca, a do Lucro Presumido, quando se sabe que os percentuais de apuração da base de cálculo passam, necessariamente, pela definição das suas atividades operacionais. Assim, somente pode utilizar o percentual de 1,6% a entidade que pratique a atividade de revenda, para consumo, de combustível derivado de petróleo, álcool etílico carburante e gás natural; 16% as atividades de prestação de serviço de transporte, exceto o de carga, para o qual se aplicará o percentual previsto no caput, etc. Ora, no caso concreto, a recorrente informou ser sua atividade "... exclusiva e especificamente, promover a execução mediante a incorporação, construção e venda, de um empreendimento imobiliário", ou seja, não faz parte do referido objeto social a compra e venda de terrenos; nada obstante, haja vista o propósito específico da empresa, eles comporiam, de forma proporcional, as eventuais unidades imobiliárias que seriam construídas e, posteriormente, vendidas o que não se logrou fazer. Como bem observado pelo autuante (TVF – fls. 1035): “Neste sentido, a empresa foi constituída como sociedade de propósito específico para a consecução de empreendimento imobiliário. Desta forma ocorreu desde 07/05/2007. Em seguida, na consecução do seu objeto social adquiriu os terrenos conforme detalhado acima em 08/10/2008. Passados vários anos desde a aquisição, sem que tenha viabilizado seu objeto social, eis que nenhum empreendimento imobiliário foi executado nos terrenos adquiridos, decidiu alienálos para a incorporadora. Esta realmente fez a incorporação e empreendimento imobiliário com os terrenos adquiridos. Desta forma, a alienação dos terrenos não faz parte do objeto do social da Gold Boston, razão pela qual serão tributados como ativo imobilizado da fiscalizada. Daí resulta na apuração do ganho de capital tributado pelo lucro presumido”. (destacado) E a clara dicção do artigo 227, do RIR/1999: Fl. 3017DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.018 71 Art. 227. As pessoas jurídicas que explorem atividades imobiliárias relativas a loteamento de terrenos, incorporação imobiliária, construção de prédios destinados a venda, bem como a venda de imóveis construídos ou adquiridos para revenda, deverão considerar como receita bruta o montante recebido, relativo às unidades imobiliárias vendidas (Lei nº 8.981, de 1995, art. 30, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º). Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, aos casos de empreitada ou fornecimento contratado nas condições do art. 409, com pessoa jurídica de direito público ou empresa sob seu controle, empresa pública, sociedade de economia mista ou sua subsidiária (Lei nº 8.981, de 1995, art. 30, parágrafo único, Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995, art. 1º, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º). Ora, o artigo transcrito não contempla a atividade a que se propôs a recorrente ("... exclusiva e especificamente, promover a execução mediante a incorporação, construção e venda, de um empreendimento imobiliário"), isto é, nele não se encontra “venda de terreno”. Claro que este “terreno”, um dia, provavelmente, seria utilizado para a consecução do objeto social da recorrente (realizar empreendimentos imobiliários...), mas isto NÃO SE CONSUMOU. Se e quando isto tivesse se materializado, o terreno seria, paulatinamente, tributado à razão de 8% por sua agregação ao imóvel sobre ele construído. MAS, repitase, tal evento jamais ocorreu, mesmo que passados alguns anos da sua aquisição. Nesta linha, como bem levantado pela PGFN em suas contrarrazões, citando Bulhões Pedreira, “O critério de classificação é a função do bem no patrimônio da sociedade empresária, que não decorre necessariamente da natureza do bem e pode resultar de deliberação dos órgãos administrativos”. (Finanças e Demonstrações Financeiras da Companhia, p. 322). Mesmo pensar de Iudícibus, Martins e Gelbcke “Cabe entender que esses tipos de ativos devem também ter a característica de permanente, isto é, não devem ser valores ou bens destinados à negociação. Além disso, são ativos que não tem uma destinação definida quanto a seu uso na manutenção da atividade da empresa, mesmo que possam vir a ter no futuro. Vejamos alguns exemplos para melhor entendimento: A companhia pode ter terrenos ou mesmo outros imóveis atualmente não utilizados nas suas atividades e não pretender vendêlos, pois, por precaução, prefere mantê los para uma eventual expansão futura, ou, mesmo, para uma futura venda a terceiros. Nesse caso, tais ativos, apesar de sua natureza, devem ser classificados como investimentos, pelo fato de não estarem sendo usados nas atividades atuais da sociedade nem haver definição de sua Fl. 3018DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.019 72 futura utilização nessas atividades”. (Manual de Contabilidade das sociedades por ações: aplicável às demais sociedades/FIPECAFI, 2003) Por relevante, sirvome de excertos do arrazoado da PGFN (fls. 2931/2932): “A regra da intenção de permanência, como definidora da classificação contábil do ativo, se aplica, inclusive, aos bens pertencentes a empresas que exercem atividade imobiliária, já que alguns deles poderão ter destinação diversa da venda, como é o caso, por exemplo, do imóvel que constituiu sua sede, ou o que eventualmente é por ela destinado à locação, ou ainda, aquele cuja destinação ainda não se decidiu. Ou seja, o simples fato de uma empresa ser caracterizada como imobiliária não fazer presumir que todos os seus bens devam ser registrados no circulante. É certo que as empresas cujo objeto social inclui a incorporação imobiliária e a compra e venda de imóveis podem manter imóveis, quer adquiridos, quer construídos, tanto em conta de ativo circulante (estoque) como também em seu ativo permanente (não circulante), sendo relevante verificar, neste aspecto, qual a intenção da empresa com relação aos imóveis em questão (se destinado à venda ou à permanência), intenção essa que deve ser extraída das circunstâncias que envolvem os fatos a serem analisados. Bens imóveis podem ser registrados no “ativo circulante”, notadamente na conta “estoques”, quando sejam destinados à venda, ou seja, quando tem a finalidade de comercialização. Bens imóveis também podem ser registrados no “ativo imobilizado”, sendo este o lugar apropriado ao registro dos imóveis cuja função no patrimônio do contribuinte é gerar rendas a partir de sua exploração. Em síntese, os imóveis para venda devem ser registrados no estoque, e aqueles usados para renda devem ser registrados no ativo imobilizado ou investimento. Vale dizer que a entrada de um bem no ativo imobilizado ou de investimento tem como condição básica a expectativa de permanecer no patrimônio da pessoa jurídica por mais de 12 meses por ser direito de qualquer natureza não classificável no ativo circulante ou cuja finalidade seja a utilização na manutenção das atividades da pessoa jurídica (ex: alugar). Ou seja, em primeiro lugar é preciso observar que para definir se um determinado bem pertence ao ativo permanente ou circulante devese ter em mente a intenção da recorrente no momento de sua aquisição. O registro contábil deve constituirse em procedimento não aleatório e em consonância com os princípios contábeis geralmente aceitos, mais precisamente o Princípio da Oportunidade previsto no art. 6º da Resolução CFC nº 750, de 29 de dezembro de 1993”. Finalmente, impende ver a legislação que trata da matéria e que robustece o entendimento aqui esposado. Diz o RIR (com destaques acrescentados): Art. 418. Serão classificados como ganhos ou perdas de capital, e computados na determinação do lucro real, os resultados na alienação, na desapropriação, na baixa por perecimento, extinção, desgaste, obsolescência ou exaustão, Fl. 3019DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.020 73 ou na liquidação de bens do ativo permanente (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31). § 1º Ressalvadas as disposições especiais, a determinação do ganho ou perda de capital terá por base o valor contábil do bem, assim entendido o que estiver registrado na escrituração do contribuinte e diminuído, se for o caso, da depreciação, amortização ou exaustão acumulada (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31, § 1º). § 2º O saldo das quotas de depreciação acelerada incentivada, registradas no LALUR, será adicionado ao lucro líquido do período de apuração em que ocorrer a baixa. Art. 518. A base de cálculo do imposto e do adicional (541 e 542), em cada trimestre, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida no período de apuração, observado o que dispõe o § 7o do art. 240 e demais disposições deste Subtítulo (Lei no 9.249, de 1995, art. 15, e Lei no 9.430, de 1996, arts. 1º e 25, e inciso I). Art. 519. Para efeitos do disposto no artigo anterior, considera se receita bruta a definida no art. 224 e seu parágrafo único. Atentese que os arts. 518 e 519 acima transcritos estão inseridos no Subtítulo IV (Lucro Presumido) do Título IV (determinação da base de cálculo) do Livro II (tributação das pessoas jurídicas) do RIR/99 – e direcionamse para as pessoas jurídicas que apuram o IRPJ pelo lucro presumido, significando dizer que a receita bruta deve ser entendida como o resultado obtido pela pessoa jurídica com as vendas realizadas e os serviços prestados. Por seu turno, o art. 521 do RIR/99 trata justamente do ganho de capital para as pessoas jurídicas que adotam o lucro presumido: Art. 521. Os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo art. 519, serão acrescidos à base de cálculo de que trata este Subtítulo, para efeito de incidência do imposto e do adicional, observado o disposto nos arts. 239 e 240 e no § 3º do art. 243, quando for o caso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 25, inciso II). [destaques não constam no original] § 1º O ganho de capital nas alienações de bens do ativo permanente e de aplicações em ouro não tributadas como renda variável corresponderá à diferença positiva verificada entre o valor da alienação e o respectivo valor contábil. § 2º Os juros e as multas por rescisão contratual de que tratam, respectivamente, os arts. 347 e 681 serão adicionados à base de cálculo (Lei nº 9.430, de 1996, arts. 51 e 70, § 3º, inciso III). § 3º Os valores recuperados, correspondentes a custos e despesas, inclusive com perdas no recebimento de créditos, deverão ser adicionados ao lucro presumido para determinação do imposto, salvo se o contribuinte comprovar não os ter deduzido em período anterior no qual tenha se submetido ao Fl. 3020DF CARF MF Processo nº 10803.720032/201528 Acórdão n.º 1402002.874 S1C4T2 Fl. 3.021 74 regime de tributação com base no lucro real ou que se refiram a período no qual tenha se submetido ao regime de tributação com base no lucro presumido ou arbitrado (Lei nº 9.430, de 1996, art. 53). § 4º Na apuração de ganho de capital, os valores acrescidos em virtude de reavaliação somente poderão ser computados como parte integrante dos custos de aquisição dos bens e direitos se a empresa comprovar que os valores acrescidos foram computados na determinação da base de cálculo do imposto (Lei nº 9.430, de 1996, art. 52). Concluindo, em qualquer hipótese dos autos, mesmo que a contribuinte viesse a escolher apurar o IRPJ e a CSLL pelo lucro presumido, esta sistemática não se aplicaria às receitas nãooperacionais, posto que o art. 521 do RIR/99 deixa expresso que os ganhos de capital auferidos pela pessoa jurídica optante pelo Lucro Presumido deverão ser acrescidos à base de cálculo do IRPJ e, conseqüentemente, da CSLL. Dessa maneira, além dos valores correspondentes à receita bruta, o sujeito passivo também deve incluir na apuração dos mencionados tributos os ganhos de capital que tenha obtido. Portanto, resta patente que a regra é oferecer à tributação os resultados provenientes da operação que gerou o ganho de capital. Em suma, considerando que a permuta com torna constituise em verdadeira receita e como a alienação fezse de bem notoriamente pertencente ao não circulante (ex permanente) da empresa, a regra tributária atingida é a do ganho de capital, por isso, isento de erros o trabalho fiscal, que deve ser prestigiado pelos seus escorreitos fundamentos. Neste sentido, encaminho meu voto para NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário especificamente em relação à matéria aqui tratada, acompanhando o I. Relator nos demais temas. É como voto. Brasília (DF), em 19 de fevereiro de 2018. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 3021DF CARF MF
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Numero do processo: 10746.900604/2011-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri May 11 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1302-000.603
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Lizandro Rodrigues de Sousa (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: PAULO HENRIQUE SILVA FIGUEIREDO
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Lizandro Rodrigues de Sousa (suplente convocado) e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase de Recurso interposto em relação ao Acórdão nº 0350.448, de 31 de janeiro de 2013, proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília/DF (fls. 158 a 165), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo sujeito passivo. O presente processo cuida da Declaração de Compensação (DCOMP) nº 07114.32818.311007.1.3.049279 (fls. 22 a 27), por meio da qual a contribuinte compensou débito de sua responsabilidade referente ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), relativo ao 3º trimestre de 2007, no valor de R$ 617,33, com crédito decorrente de suposto RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 07 46 .9 00 60 4/ 20 11 -5 9 Fl. 321DF CARF MF Processo nº 10746.900604/201159 Resolução nº 1302000.603 S1C3T2 Fl. 322 2 pagamento indevido ou a maior relativo a título de Contribuição social sobre o Lucro Líquido (CSLL). O crédito em questão, no valor de R$ 504,60, originarseia de pagamento efetuado em 31/01/2006, no montante de R$ 2.859,82; e não foi reconhecido pelo Despacho Decisório de fl. 13, por se encontrar inteiramente utilizado para quitação de débito da contribuinte, de modo que a compensação declarada não foi homologada. Cientificado, o sujeito passivo apresentou a Manifestação de Inconformidade de fls. 2 a 12, na qual sustentou que, por equívoco, na Declaração de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), relativa ao anocalendário de 2005, e na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), referente ao quarto trimestre do citado ano calendário, informou débito a título de CSLL, regime de apuração baseado no Lucro Presumido, calculado a partir da aplicação do percentual de 32% sobre a sua receita bruta. Contudo, em decorrência da sua atividade, estaria sujeito à CSLL, sobre o Lucro Presumido, calculada com base na aplicação da alíquota de 12% sobre a sua receita bruta. Invocou o princípio da verdade material e apresentou elementos que, no seu entender, comprovariam o erro de fato e o indébito em questão (DIPJ retificadora, cópias parciais dos livros Diário, Razão e Registro de notas fiscais de serviços prestados, bem como cópias das notas fiscais do período). Relatou, ainda, haver procedido à retificação da DIPJ referente ao ano calendário de 2005, e apresentou diversas decisões de Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento que respaldariam o crédito pleiteado. Em dezembro de 2012, o sujeito passivo apresentou o documento de fls. 156 e 157, intitulado "Resumo do Manifesto de Inconformidade P.J.", no qual, além de reiterar os termos da sua Manifestação Inconformidade, esclarece que deixou de retificar a DCTF do 4º trimestre de 2005, uma vez que, no momento em que constatou a necessidade de tal retificação, já se teria operado a decadência do seu direito de alterar o referido documento. A decisão de primeira instância (fls. 158 a 165) considerou que a Recorrente não havia apresentado documentação suficiente capaz de "demonstrar a natureza das atividades a que se referiram os rendimentos declarados e que poderia esclarecer qual(is) o(s) correto(s) percentual(is) aplicável(is), se de 12%, tal como pretendido, se de 32%, ou mesmo de percentuais diversificados, conforme § 2º do artigo 15 da Lei nº 9.249/95", de modo que o alegado indébito não se revestiria da liquidez e certeza necessárias ao reconhecimento do direito creditório, nos termos do art. 170 do CTN. Registrou, ainda, que as decisões administrativas colecionadas pela pessoa jurídica não possuíam caráter de normas complementares, nem efeitos vinculantes. Deste modo, não reconheceu o direito creditório do sujeito passivo. Após a ciência, comprovada às fls. 166/167, foi interposto o Recurso de fls. 171 a 182, por meio do qual a Recorrente, após reiterar as razões contidas na Manifestação de Inconformidade, sustenta que tem como cliente contratante, na maioria dos serviços prestados, o Poder Público, sendo a prática e costume os contratos de obras públicas serem formalizados sob a sistemática da empreitada global. Fl. 322DF CARF MF Processo nº 10746.900604/201159 Resolução nº 1302000.603 S1C3T2 Fl. 323 3 Aduz que os documentos já apresentados, em especial as notas fiscais de serviço, são elementos hábeis a demonstrar se tratar de serviços prestados com fornecimento de material. Invoca a aplicação do princípio in dúbio pro contribuinte (calcado no art. 112, inciso II, do CTN) ou, ainda, a realização de diligência para juntada aos autos dos contratos de prestação de serviço. Contudo, com base no art. 16, §4º, alínea c, do Decreto nº 70.235, de 1972, combinado com o §5º do referido dispositivo, já traz aos autos os mencionados contratos de prestação de serviço, que comprovariam o direito pleiteado. É o Relatório. Voto Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator Como já relatado, tratase de Declaração de Compensação (DComp) referente a pagamento efetuado, em 31/01/2006, a título de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), relativo ao 4ª trimestre do anocalendário de 2005. O crédito compensado decorreria do fato de a Recorrente haver confessado na DCTF e recolhido a CSLL, apurada sob o regime de apuração baseado no Lucro Presumido, a partir da aplicação do percentual de 32% sobre a sua receita bruta, quando, em decorrência da receita se referir à atividade de construção civil com fornecimento de material, o percentual aplicável para a determinação do Lucro Presumido ser o de 12%, conforme art. 20 da Lei nº 9.249, de 1995. O direito creditório invocado não foi reconhecido pelo Despacho Decisório de fl. 13, por se encontrar inteiramente utilizado para quitação de débito da contribuinte, de modo que a compensação declarada não foi homologada. Por outro lado, a Manifestação de Inconformidade do sujeito passivo foi julgada improcedente por se considerar que os elementos juntados aos autos não são suficientes para comprovar que os serviços prestados pela Recorrente incluem o fornecimento de todo o material necessário à sua realização. Nos termos do art. 20 da Lei nº 9.249, de 1995, a base de cálculo da CSLL devida pelas pessoas jurídicas que apuram o IRPJ com base no Lucro Presumido, corresponderá a doze por cento da receita bruta, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1º do art. 15 daquele diploma legal, dentre as quais se inclui a prestação de serviços em geral, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. O citado art. 15 foi interpretado pelo Ato Declaratório Normativo Cosit nº 6, de 1997, que esclareceu que, para a determinação da base de cálculo do IRPJ mensal, a construção por empreitada com emprego de qualquer quantidade de materiais se sujeitaria ao percentual de 8% (oito por cento), enquanto incidiria o percentual de 32% (trinta e dois por cento) sobre a receita das atividades de construção por empreitada unicamente de mãodeobra. Fl. 323DF CARF MF Processo nº 10746.900604/201159 Resolução nº 1302000.603 S1C3T2 Fl. 324 4 A Instrução Normativa SRF nº 93, de 24 de dezembro de 1997, tratava do assunto, nos mesmos moldes do ADN mencionado. Aquele entendimento vigorou até a edição da Instrução Normativa SRF nº 480, de 15 de dezembro de 2004, que definiu como "construção por empreitada com emprego de materiais, a contratação por empreitada de construção civil, na modalidade total, fornecendo o empreiteiro todos os materiais indispensáveis à sua execução, sendo tais materiais incorporados à obra". (Destacouse) No caso sob exame, tratandose do anocalendário de 2005, aplicase, portanto, o entendimento que exige o fornecimento de todos os materiais, para a aplicação do percentual favorecido na determinação da base de cálculo da CSLL. A questão que se põe, portanto, é saber se as provas documentais apresentadas pelo sujeito passivo são (ou não) suficientes para comprovar que as receitas tributadas no trimestre em questão se referem a serviços de construção civil prestados com o fornecimento de material. Ocorre que, previamente à apreciação do Recurso, fazse necessário esclarecimento. É que, dentre os contratos apensados ao Recurso, constatase a existência de instrumento firmado com a Construtora Monte do Carmo Ltda, CNPJ nº 01.919.293/000178 (fls. 301/308). Do mesmo modo, vêse que notas fiscais (fl. 300 e 309) são emitidas pela Recorrente, em relação ao contrato firmado com a Construtora Monte do Carmo Ltda, e que os valores das referidas receitas estão contabilizadas nos Livros contábeis e fiscais juntados pela Recorrente, e foram considerados na apuração da CSLL devida no período em questão. Isto posto, voto no sentido de converter o presente julgamento em diligência, para que o processo retorne à Unidade de origem (DRF/PalmasTO), para que: a) intime o sujeito passivo a esclarecer a existência de notas fiscais e contrato referente à Construtora Monte do Carmo Ltda, CNPJ nº 01.919.293/000178, na base de cálculo utilizada para a determinação da CSLL relativa ao 4º trimestre do anocalendário de 2005 e do indébito de que trata o presente processo; b) informe os valores efetivamente recolhidos pela Recorrente, a título de CSLL, em relação ao referido período de apuração, detalhando a eventual utilização/disponibilidade dos pagamentos efetuados; c) ao fim, elaborese relatório de diligência contendo as informações acima requeridas, bem como se manifestando em relação aos esclarecimentos prestados pelo sujeito passo, que deve ser cientificado do resultado, com a concessão de prazo para, querendo, manifestarse nos autos. Após, reencaminhese o processo a este Colegiado. (assinado digitalmente) Fl. 324DF CARF MF Processo nº 10746.900604/201159 Resolução nº 1302000.603 S1C3T2 Fl. 325 5 Paulo Henrique Silva Figueiredo Fl. 325DF CARF MF
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