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Numero do processo: 16643.000115/2010-59
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 21 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Jul 17 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. LANÇAMENTO REALIZADO NA VIGÊNCIA DE MEDIDA JUDICIAL. VIOLAÇÃO DA REGRA INSCRITA NO ART. 62 DO DECRETO Nº 70.235/1972. INOCORRÊNCIA.
A existência de processo judicial não transitado em julgado, com medida suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, não impede o lançamento de ofício cuja obrigatoriedade decorre do caráter vinculado do ato administrativo, consoante dispõe o art. 142 do CTN.
Diante da interpretação do art. 63 da Lei nº 9.430/1996, o art. 62 do Decreto nº 70.235/1972 não veda a formalização do lançamento de débitos com exigibilidade suspensa por medida judicial, limitando-se a proibir-lhe a cobrança enquanto vigorar a ordem de suspensão.
CONCOMITÂNCIA AÇÃO JUDICIAL E PROCESSO ADMINISTRATIVO COM O MESMO OBJETO EM DISCUSSÃO. PREVALÊNCIA DA ESFERA JUDICIAL SOBRE A ADMINISTRATIVA EM RESPEITO AO PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DAS DECISÕES JUDICIAIS. DESISTÊNCIA DA DISCUSSÃO NA ESFERA ADMINISTRATIVA.
A existência de ação judicial com o mesmo objeto da discussão na esfera administrativa pressupõe a sua concomitância, tendo como consequência a desistência da discussão na esfera administrativa, por respeito ao Princípio da Supremacia das Decisões Judiciais, estabelecendo a prevalência da esfera judicial sobre a esfera administrativa.
Diante desta concomitância aplica-se ao caso a Súmula CARF nº 1, a qual estabelece que importa renúncia ás instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial
INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2
O CARF não tem competência para se manifestar sobre alegações de inconstitucionalidade das leis, de acordo com a Súmula nº 2.
LANÇAMENTO REALIZADO NA VIGÊNCIA DE MEDIDA JUDICIAL. JUROS DE MORA. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 5 DO CARF.
São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. (Súmula nº 5 do CARF)
TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 4 DO CARF.
A utilização da Taxa SELIC decorre de expressa determinação legal. Aplica-se a Súmula º 4 do CARF.
Numero da decisão: 3301-006.128
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente o recurso voluntário e na parte conhecida, negar provimento.
Assinado digitalmente
Winderley Morais Pereira - Presidente.
Assinado digitalmente
Ari Vendramini- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Ari Vendramini (Relator)
Nome do relator: ARI VENDRAMINI
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LANÇAMENTO REALIZADO NA VIGÊNCIA DE MEDIDA JUDICIAL. VIOLAÇÃO DA REGRA INSCRITA NO ART. 62 DO DECRETO Nº 70.235/1972. INOCORRÊNCIA. A existência de processo judicial não transitado em julgado, com medida suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, não impede o lançamento de ofício cuja obrigatoriedade decorre do caráter vinculado do ato administrativo, consoante dispõe o art. 142 do CTN. Diante da interpretação do art. 63 da Lei nº 9.430/1996, o art. 62 do Decreto nº 70.235/1972 não veda a formalização do lançamento de débitos com exigibilidade suspensa por medida judicial, limitandose a proibirlhe a cobrança enquanto vigorar a ordem de suspensão. CONCOMITÂNCIA AÇÃO JUDICIAL E PROCESSO ADMINISTRATIVO COM O MESMO OBJETO EM DISCUSSÃO. PREVALÊNCIA DA ESFERA JUDICIAL SOBRE A ADMINISTRATIVA EM RESPEITO AO PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DAS DECISÕES JUDICIAIS. DESISTÊNCIA DA DISCUSSÃO NA ESFERA ADMINISTRATIVA. A existência de ação judicial com o mesmo objeto da discussão na esfera administrativa pressupõe a sua concomitância, tendo como consequência a desistência da discussão na esfera administrativa, por respeito ao Princípio da Supremacia das Decisões Judiciais, estabelecendo a prevalência da esfera judicial sobre a esfera administrativa. Diante desta concomitância aplicase ao caso a Súmula CARF nº 1, a qual estabelece que importa renúncia ás instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 00 01 15 /2 01 0- 59 Fl. 951DF CARF MF 2 administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2 O CARF não tem competência para se manifestar sobre alegações de inconstitucionalidade das leis, de acordo com a Súmula nº 2. LANÇAMENTO REALIZADO NA VIGÊNCIA DE MEDIDA JUDICIAL. JUROS DE MORA. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 5 DO CARF. São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. (Súmula nº 5 do CARF) TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 4 DO CARF. A utilização da Taxa SELIC decorre de expressa determinação legal. Aplica se a Súmula º 4 do CARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente o recurso voluntário e na parte conhecida, negar provimento. Assinado digitalmente Winderley Morais Pereira Presidente. Assinado digitalmente Ari Vendramini Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Ari Vendramini (Relator) Relatório 1. Reproduzo o relatório constante do Acórdão DRJ+RIO DE JANEIRO : Em decorrência da ação fiscal, foi lavrado auto de infração para exigir da interessada a CIDE – Remessas ao exterior, sobre fatos geradores ocorreram no ano de 2006, no valor de R$ 1.514.276,68, acrescido de juros de mora. DA AUTUAÇÃO Conforme Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fl. 181 a 188 e Termo de Verificação fiscal (fl.173 a 180), foram feitos lançamentos fiscais relativos à falta/Insuficiência de pagamentos de CIDE, sendo apurados os fatos descritos a seguir. FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DA CIDE Fl. 952DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 951 3 REMESSA DE VALORES PARA O EXTERIOR O contribuinte foi intimado a apresentar alguns esclarecimentos e documentos, Bem como planilha demonstrativa contendo relação dos valores remetidos ao exterior. A referida planilha deveria conter: data do pagamento, nome do beneficiário, nome dos pais, identificação da conta contábil, valor pago em moeda estrangeira, valor pago em reais, razão do pagamento, valor do IRF e valor da CIDE. Durante o procedimento de verificações obrigatórias foram constatadas divergências entre os valores declarados e os valores escriturados. A fiscalizada foi intimada a apresentar cópias de documentos relativos a ações judiciais demandadas. Foram solicitadas cópias de contratos de serviços feitos durante os anos calendário fiscalizados. A fiscalizada afirmou que os contratos anteriormente apresentados, embora sejam datados de 2009, estabelecem em sua cláusula 10 que as relações de prestação de serviços objeto de tais contratos tiveram início em 01/01/2005 (fls. 043/046). Do Mandado de Segurança n° 2002.61.00.0206864 (Anexo II) Este Mandado de Segurança discute a exigibilidade da CIDE sobre os pagamentos feitos à SAP AG como contraprestação pela cessão de direitos de uso e comercialização de software, sem a transferência da correspondente tecnologia. A Lei n° 11.542, de 28 de fevereiro de 2007 modificou a Lei n° 10.168/00, acrescentando ao art. 2° o parágrafo 1°A, que diz textualmente: "A contribuição de que trata este artigo não incide sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programa de computador, salvo quando envolverem a transferência da correspondente tecnologia", produzindo efeitos a partir de 1° de janeiro de 2006. Há outras ações que se referem aos Mandados de Segurança 2001.61.00.0244423 e 2004.61.00.0208390, pelos quais se discute a exigibilidade do IRRF e da CIDE incidentes sobre remessas ao exterior realizadas pelo contribuinte como pagamento pela prestação de determinados serviços relacionados ao software licenciado ao contribuinte pela SAP AG. Do Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390 (Anexo III) No Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390, o contribuinte questiona a incidência da CIDE sobre as remessas decorrentes dos contratos de prestação de serviços relacionados ao software licenciado ao mesmo e desenvolvido pela sociedade alemã SAP AG. Em síntese, alega que na prestação de tais serviços não lidam com transferência de tecnologia, estando por tanto, fora do campo de incidência da CIDE. Existem dois tipos de contratos firmados entre o contribuinte, e a SAP AG. O primeiro, referese ao Contrato de Distribuição de Software (o "Contrato de Distribuição") para a comercialização, distribuição e manutenção de determinado software da SAP AG para usuários finais no território brasileiro, onde não há transferência da tecnologia. O segundo tipo referese ao contrato de prestação de serviços de software ("Contrato de Prestação de Serviços de Software"), em vigor desde 1° de janeiro de 2003, no qual a SAP Brasil e a SAP AG concordam em prestar determinados serviços de urna parte A outra mediante solicitações. Com base neste "Contrato de Prestação de Serviços de Software", foram firmados diversos contratos de serviço, entre a SAP Brasil e as demais subsidiárias da SAP, tendo em comum, a vigência a partir de 01 de janeiro de 2005, e o teor, que é basicamente o mesmo. Da leitura do art. 3º dos contratos (fl. 060/158), a contratada concorda Fl. 953DF CARF MF 4 em fornecer serviços especializados, dentre os quais: RH e gerenciamento e suporte); de consultoria; marketing. A fiscalização entende que os serviços têm a natureza de "serviços técnicos especializados". Dessa forma, ao efetuar as remessas para pagamento dos serviços descritos, o contribuinte está sujeito a retenção do Imposto de Renda com alíquota de 15% e da CIDE com alíquota de 10%. Apesar de a fiscalizada não demonstrar ter dúvidas em relação à incidência do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), pelo fato da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico — CIDE, instituída pelo art. 2° da Lei n° 10.168, de 2000, estar intrinsecamente ligada ao referido imposto na medida em que a alíquota do IRRF é reduzida para 15% (quinze por cento) quando ocorre pagamento da CIDE. A partir de 1° de janeiro de 2002, os valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos a beneficiário residente ou domiciliado no exterior a titulo de royalties ou pela remuneração de contratos que tenham por objeto: fornecimento de tecnologia; prestação de assistência técnica (serviços de assistência técnica e serviços técnicos especializados), serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes; cessão e licença de uso de marcas; e cessão e licença de exploração de patentes, ficaram sujeitos ao pagamento da referida contribuição, calculada a alíquota de 10% (dez por cento), ainda que tais contratos não tenham sido averbados no INPI e registrados no BACEN. Analisando as alterações introduzidas pela Lei n° 10.332, de 2001 (regulamentadas pelo Decreto n° 4.195, de 2002), verificase que a partir de 1° de janeiro de 2002 sobre a remuneração de quaisquer serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhante, prestados por residentes ou domiciliados no exterior, passou a incidir a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, instituída pelo art. 2° da Lei n° 10.168, de 2000, ficando a alíquota do imposto de renda na fonte reduzida para 15% (quinze por cento) apenas para as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas ao exterior a titulo de remuneração de "serviços de assistência administrativa e semelhante", já que a redução de alíquota para "serviços técnicos e de assistência técnica" está prevista no art. 30 da Medida Provisória n° 2.06263, de 23 de fevereiro de 2001 (atualmente Medida Provisória n°2.15970, de 24.08.2001). Na legislação tributária relativa a CIDE não há definição do que se entende por "serviços de consultoria". Mas a legislação relativa ao Imposto de Renda na Fonte (intrinsecamente vinculado a CIDE), ao tratar da sua retenção nos casos de prestação de serviços de natureza profissional (assessoria e consultoria técnica), por meio do Parecer Normativo CST n° 37 de 26 de junho de 1987 (publicado no DOU de 30.08.1987), define como serviços os que configuram alto grau de especialização, obtido através de estabelecimentos de nível superior e técnico, vinculados diretamente A capacidade intelectual do indivíduo, concluindo que os serviços de assessoria e consultoria técnica alcançados pela tributação restringemse Aqueles resultantes da engenhosidade humana, tais como: especificação técnica para fabricação de aparelhos e equipamentos em geral; assessoria administrativoorganizacional; consultoria jurídica etc. Pela descrição dos serviços a serem prestados pela empresa estrangeira, constantes dos itens 3 dos respectivos contratos, anexados por cópias As fls. 060/158, é de se concluir que se trata de uma consultoria e/ou assessoria administrativoorganizacional, ou seja, devem ser considerados "serviços de natureza profissional". Para efeito de incidência da CIDE, os serviços acima mencionados devem ser enquadrados como "serviços técnicos especializados", sendo irrelevante a forma como são executados. De acordo com os art. 16 e 17 da IN SRF 252/2002, a prestação de serviços em geral, cuja remuneração sujeitase incidência do Imposto de Fl. 954DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 952 5 Renda na Fonte à alíquota de 25%, aquela cuja execução não depende de pessoas que detenham conhecimentos técnicos especializados. Por outro lado, se a execução dos serviços depender de pessoas que detenham conhecimentos específicos, estarseia diante da prestação de serviços técnicos especializados, em relação aos quais, pelo fato de a remuneração estar sujeita incidência da CIDE, a alíquota do Imposto de Renda na Fonte fica reduzida para 15%. A fiscalizada efetuou depósitos judiciais referentes a CIDE no período fiscalizado (fl. 159 a 169), porem, sem informálos em DCTF. A base de cálculo da C1DE é o valor efetivamente pago, creditado, entregue, empregado ou remetido a residente ou domiciliado no exterior, ainda que a fonte pagadora brasileira tenha assumido o ônus do Imposto de Renda Retido na Fonte, o que não ocorreu uma vez que a fiscalizada efetuou as retenções e remeteu o valor liquido, tendo a empresa estrangeira suportado o encargo do IRRF. Os valores totalizam R$ 1.514.276,68, sendo objeto de lançamento de oficio, com status de "exigibilidade suspensa", sem acréscimo de multa. 2. Inconformada com o lançamento do qual foi cientificada em 14/06/2010 (fl. 191) a interessada apresentou em 27/01/2009 a impugnação de fl. 196 a 223, na qual alega, em síntese que: A Requerente tem por objeto social a prestação de serviços na área de informática, especialmente a distribuição e sublicenciamento de programas de computador (software). O software é desenvolvido pela SAP Akitiengesellsschaft System, Aplications and Products in Data Processing ("SAP AG"). A aplicação do software e seu correto funcionamento dependem do acompanhamento da instalação e execução do programa e tais serviços são prestados à Requerente e aos usuários finais. A tecnologia não é transferida. A Requerente celebrou contratos de prestação de serviços com a sociedade alemã SAP AG (doc. n° 4). O objeto dos contratos é a prestação de determinados serviços aos usuários finais do software e também aos próprios funcionários da Requerente, tais como os serviços de consultoria. Os créditos tributários encontramse com a exigibilidade suspensa, nos termos do artigo 151, incisos II e IV, do Código Tributário Nacional ("CTN"), em razão do Mandado de Segurança n° 2004.61.00.020839o (doc n° 5) e da existência de depósitos judiciais efetuados em tais autos. A requerente impetrou referido Mandado de Segurança, por meio do qual pleiteia a nãoincidência da CIDE sob as remessas feitas a SAP AG a titulo de pagamento pela prestação de serviços (sem transferência de tecnologia) ligados ao software. Atualmente, aguarda publicação do julgamento dos embargos de declaração opostos contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 3a Região que manteve a sentença contrária à Requerente. Ainda assim, a D. Fiscalização lavrou indevidamente o presente Auto de Infração de forma a constituir o pretenso credito tributário e prevenir a decadência do direito de fazêlo. Nulidade: ausência de descrição precisa. A D. Fiscalização menciona o Mandado de Segurança no 2004.61.00.0208390, e indica na apuração da base de cálculo, montantes correspondentes aos depósitos judiciais. Fl. 955DF CARF MF 6 No entanto, o Termo de Verificação Fiscal e o Acórdão recorrido não são suficientemente claros a indicar exatamente qual é a relação jurídica/contratual sobre a qual está sendo exigida a CIDE, o que obrigou a recorrente a apresentar sua defesa sem mesmo ter a certeza de quais fatos estão sendo alegados em seu desfavor, sendo que neste sentido, o Conselho de Contribuintes já reconheceu, em situações análogas, a nulidade da atuação.. A presunção da qual a recorrente teve que se valer para formular os argumentos de defesa ora expendidos teve por base única e exclusivamente a comparação entre os valores constantes do item 5 do Termo de Verificação Fiscal e aqueles constantes das DARF relativas aos depósitos judiciais da CIDE ocorridos nos autos do Mandado de Segurança no 2004.61.00.0208390, em claro cerceamento do direito de defesa da recorrente, sendo que a descrição insuficiente dos fatos objeto do auto de infração e do Acórdão combatido deve ensejar a decretação de sua nulidade, que a recorrente requer. A suspensão da exigibilidade do crédito tributário e a ofensa ao artigo 62 do Decreto n° 70.235/72. A D. Fiscalização desrespeitou o artigo 62 do Decreto 70.235/72. Vale conferir a interpretação dada pela própria SRF. Assim, face o teor do artigo 62 do Decreto no 70.235/72, a D. Fiscalização Federal não poderia ter lavrado o Auto de Infração em referência. Assim sendo, tendo em vista a discrepância entre o procedimento adotado pela D. Fiscalização Federal e o disposto no artigo 62 do Decreto n° 70.235/72 o auto é improcedente, na medida em que os termos da medida liminar concedida pelo Poder Judiciário e os depósitos judiciais suspendem a exigibilidade tributária (artigo 151, II e IV do CTN). Ausência de infração. A Autoridade Administrativa apenas tem competência para lavrar o Auto de Infração quando verificar a infração. Assim, não pode, alguma, alterar a natureza do Auto de Infração, tão somente para prevenir a decadência. No caso em tela, não há que se falar em infração, pois, antes mesmo de qualquer ato procedimental do Fisco tendente à efetivação do lançamento, a Requerente antecipouse e obteve perante o Poder Judiciário medidas liminares, seguidas da realização de depósitos judiciais no montante integral dos supostos créditos tributários que suspenderam sua exigibilidade, impedindo a lavratura de Auto de Infração. Resta claro, que o Auto de Infração não merece prosperar, pois, como ato administrativo, deve ser utilizado conforme a estrita legalidade, tendo como condição de existência a infração e a penalidade, o que não ocorreu in casu. DA INAPLICABILIDADE DA CIDE NO CASO CONCRETO. Contratos de prestação de serviços: A ausência de transferência de tecnologia e a materialidade da CIDE. Na medida em que sua matriz constitucional é o artigo 149 da CF/88 que prevê tratarse de instrumento de atuação do Estado em determinada área e que referida área encontrase definida no artigo 218, a CIDE criada pela Lei n. ° 10.168/2000 não pode ir além das fronteiras balizadas pelos referidos ditames constitucionais. Em outras palavras, por tratarse de instrumento da área de ciência e tecnologia, a CIDE não pode alcançar bens, pessoas ou relações que não digam respeito à ciência ou tecnologia. Em dos artigos 149 e 218 da CF/88, bem como do artigo 10 e do caput do artigo 2° da Lei n. ° 10.168/2000, abaixo transcritos, que o aspecto material (materialidade) da hipótese de incidência da CIDE é a Fl. 956DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 953 7 transmissão de conhecimentos tecnológicos provenientes do exterior, o que não ocorre no presente caso. A Fiscalização busca justificar a incidência da CIDE sobre os pagamentos ao exterior pela prestação dos serviços em questão sob o argumento de que tais serviços se tratam de "uma consultoria e/ou assessoria administrativoorganizacional, ou seja, devem ser considerados "serviços de natureza profissional", que conseqüentemente devem ser considerados "serviços técnicos especializados”. A D. Fiscalização busca arrimo para o posicionamento descrito no item 33 acima nos termos do Parecer Normativo CST n° 37 de 26 de junho de 1987 ("Parecer 7; CST 37/87) — doc n°50). E embora não afirme textualmente, pela forma como seus argumentos foram articulados, a Requerente supõe que a D. Fiscalização tenha tido a intenção de se vales dos itens três e 4 do referido parecer. A Fiscalização deixou de considerar o Parecer Normativo CST n° 8, de 17.4.1986 que é a base do Parecer CST 37/87 e define os critérios em função da incidência do imposto de renda na fonte, nos casos de prestação de serviços caracterizadamente de natureza profissional, que correspondem aos serviços atualmente constantes do artigo 647 do Regulamento do Imposto de Renda ("RIR" — Decreto n° 3.000/99). O Parecer CST 8/86 delimita em seu item 11 o âmbito de incidência da retenção na fonte instituída pelo artigo 52 da Lei n° 7.450/85 e explica que "É importante assinalar o objetivo da lei ao utilizar a expressão serviços caracterizadamente de natureza profissional; dentro desse comando legal está imp lícita a pretensão do legislador de submeter à incidência do imposto de renda na fonte as remunerações auferidas por serviços que, por sua natureza, se revelem inerentes ao exercício de quaisquer profissões, sendo irrelevante, na forma do novo disciplinamento legal, que se trate de profissão regulamentada por lei ou lido." De acordo com a linha utilizada pela D. Fiscalização, os serviços descritos no item 6 da presente Impugnação devem ser entendidos como sendo inerentes ao exercício de alguma profissão especifica. A despeito disso, é importante destacar que não há, em nenhuma passagem ou trecho do Auto de Infração e Termo de Verificação Fiscal em questão, qualquer indicação de qual seria a profissão que estaria sendo exercida na prestação dos referidos serviços e que justificaria a aplicação do tratamento legal que a D. Fiscalização pretende ver reconhecido no caso concreto. Há, portanto, uma inegável deficiência no referido argumento pois, incumbe a quem alega comprovar suas alegações. A D. Fiscalização aparentemente ignorou os termos do item 16 do Parecer CST 8/86 (“Assim, não sera exigida a retenção do imposto quando o serviço contratado englobar, cumulativamente, várias etapas indissociáveis dentro do objetivo pactuado como é o caso, por exemplo, de um único contrato que, seqüencialmente, abranja estudos preliminares, elaboração de projeto, execução e acompanhamento do trabalho". A própria legislação estabelece a exceção em razão da desnaturação da característica de serviços profissionais nas hipóteses em que se verifica a prestação de vários serviços indissociáveis previstos em um mesmo contrato. O contrato prevê a prestação de vários serviços de forma indissociada uns dos outros, o que, nos termos do item 16 do Parecer CST 8/86, o que afasta qualquer possibilidade de que os serviços considerados como de natureza profissional. Os serviços descritos não se confundem com serviços técnicos e de assistência técnica, muito menos com serviços de assistência administrativa e semelhantes, previstos no parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000, com as alterações promovidas pela Lei n° Fl. 957DF CARF MF 8 10.332/2001, na medida em que tais serviços implicam, necessariamente, na transferência de tecnologia. O INPI, no item 2 do Ato Normativo n. ° 135, de 15.4.1997, do então Ministério da Indústria, do Comercio e do Turismo, averbará ou registrará os contratos que impliquem em transferência de tecnologia. A prestação de serviços deve resultar, na transferência de tecnologia, como ocorre com os serviços técnicos e de assistência técnica, bem como com os serviços de assistência administrativa e semelhante (§ 3º do art.355 do RIR/99). Os contratos em questão têm por escopo a prestação de serviços relacionados à execução das atividades usuais de âmbito administrativo/gerencial que de forma alguma ensejam a transferência de tecnologia Prova disso e a anexa certidão negativa de averbação expedida pelo INPI. Nos termos do artigo 211 da Lei n° 9.279/96, o INPI deverá registrar apenas os contratos que impliquem transferência de tecnologia. O artigo 150 da CF/88 estabelece, em seu inciso I, que nenhum tributo poderá ser exigido ou aumentado sem lei que o estabeleça. Dessa forma, é evidentes a inaplicabilidade e inexigibilidade da CIDE sobre as remessas efetuadas. O fato de o artigo 10 do Decreto n. ° 4.195/2002 ter suprimido o artigo 80, parágrafo único, do Decreto n. ° 3.949/2001, que estipulava a averbação do contrato no INPI como condição para a incidência da CIDE, não permite afirmar que é legitima a sua incidência em quaisquer contratos, já que a função do Decreto é meramente regulamentar a lei e jamais introduzir nova incidência, especialmente nesse caso, que exige transferência de tecnologia. O parágrafo único do artigo 8°, do Decreto n° 3.949/2001, ao dispor que os contratos a que se refere este artigo deverão estar averbados no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (...)", não teve o condão de estabelecer obrigação ao contribuinte da CIDE de averbar os contratos no INPI. Essa conduta já é exigida pela própria lei da propriedade intelectual. O fato de o Decreto n° 3.949/2001 ter feito menção à averbação no INPI não indica qualquer obrigatoriedade nova, pois qualquer contrato que possua em seu escopo a transferência de tecnologia deve ser averbado no INPI, não em virtude da disposição do Decreto, mas sim em função da Lei n° 9.279/96. Admitir raciocínio diverso implicaria assumir que o Decreto n° 4.195/2002, que revogara o Decreto no 3.949/2001, também revogou o artigo 211 da Lei de Proteção à Propriedade Intelectual e as disposições materiais da lei instituidora da CIDE. A inclusão ou a posterior supressão do parágrafo único do artigo 8° do Decreto n° 3.949/2001 em nada altera o aspecto material da hipótese de incidência da CIDE. A uma, porque originalmente não estabelecera qualquer obrigação nova ao contribuinte; a duas, porque o alcance de decreto regulamentar deve limitarse As disposições legais. Não poderiam as Autoridades Fiscais entenderem que a CIDE é devida sobre quaisquer remessas ao exterior, independentemente da existência de transferência de tecnologia nas relações contratuais em referência, somente pelo fato de inexistir menção no Decreto n° 4.195/2002 acerca da averbação dos contratos no INPI. A CIDE somente pode alcançar bens, pessoas ou relações que digam respeito à ciência ou tecnologia. Os limites da atuação da contribuição de intervenção no domínio econômico: Referibilidade e Intervenção temporária. Admitindose que a instituição da exação de que ora se cuida foi válida convém ainda analisar quais são os limites da atuação do Estado em determinada área ou setor econômico. A incidência somente seria legitima se fosse possível verificar um beneficio especifico para o sujeito passivo. Fl. 958DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 954 9 A CF/88 delineou também o universo de fatos e pessoas que podem ser atingidos e beneficiados pela CIDE, ou seja, serão apenas aqueles que pertencerem à respectiva área de forma a se concretizar o requisito da referibilidade, necessário para a caracterização contribuição de intervenção no domínio econômico. A ausência de beneficio especifico e de proporcionalidade na cobrança da CIDE das empresas signatárias de contratos de serviços como estes ora apresentados pela Requerente, desvirtua a natureza da exação como uma contribuição de intervenção no domínio econômico nos moldes do artigo 149 da CF/88. A exação é de duvidosa constitucionalidade e legalidade, uma vez que os benefícios advindos da sua arrecadação não são direcionados aos seus sujeitos passivos, e sim a toda sociedade. A CIDE visa tão somente corrigir imperfeições e desequilíbrios em determinada área ou setor econômico, atuando na Área/setor durante o tempo em que perdurarem as distorções. Tal exação é inaplicável na presente relação jurídica e que não pode ser considerada uma contribuição de intervenção no domínio econômico, em razão da ausência do beneficio especifico, bem como da temporariedade da sua exigência. Aspecto formal da CIDE: Instituição por lei complementar. A análise sistemática dos textos constitucionais permite afirmar que a CF/88 inovou ao fixar a necessidade de lei complementar para a instituição dos tributos previstos no artigo 149, exceção ás contribuições de seguridade social do artigo 195, tal afirmativa decorre da remissão expressa feita pelo artigo 149 da CF/88 ao inciso II do artigo 146, que trata das matérias cuja disciplina obrigatoriamente devem ser regidas por lei complementar. A CIDE em discussão, ao arrepio da norma constitucional, foi instituída por lei ordinária (Lei nº 10.168/2000), tal fato, por si só, já basta para comprovar a inconstitucionalidade da exação. Natureza da CIDE: Imposto. A CIDE não foi instituída por lei complementar, e sim pela Lei n. ° 10.168/2000, o que de plano já a torna inconstitucional, em nítida violação ao artigo 154, inciso I, da Constituição Federal. Fato gerador e base de cálculo idênticos ao do Imposto de Renda na Fonte ("IRF) Vedação à tributação bis in idem (fl. 219). A CIDE possui o mesmo fato gerador e base cálculo do IRF, conforme se depreende da redação da alínea "a" do inciso II do artigo 685 do Regulamento do Imposto de Renda ("RIR/99"), e dos artigos 708 e 710 do RIR/99. O tipo tributário é composto pela hipótese de incidência e base de cálculo. A identidade desses elementos gera ou a bitributação, na hipótese de o tributo ser cobrado por diferentes autoridades, ou a tributação bis in idem na hipótese de o sujeito ativo ser o mesmo. A tributação bis in 'idem é repelida pelo sistema tributário nacional (artigo154; inciso I, da CF/88). A CIDE possui a mesma hipótese de incidência e base de cálculo do IRF e sua cobrança gera a tributação bis in idem, expressamente proibida pela CF/88. Tal conclusão pode ser extraída do confronto entre os artigos 685, 708 e 710 do RIR/99 e do parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000, alterado pela Lei n° 10.332/2001. Conflito material com a Emenda Constitucional n. ° 33/01. Fl. 959DF CARF MF 10 A base de cálculo da CIDE conflita com o disposto no artigo 149, parágrafo 2°, inciso III, da CF/88, introduzido no ordenamento pátrio com a publicação, em 12.12.2001, da Emenda Constitucional n° 33 ("EC 33/01"), que prevê a base de cálculo aplicável ás contribuições de intervenção no domínio econômico. O referido dispositivo constitucional, ao prever que as contribuições de intervenção no domínio econômico podem ter alíquota ad valorem, restringiu também outro aspecto material da sua hipótese de incidência, ao dispor que este tributo poderá ter como base de cálculo somente o faturamento, a receita bruta, o valor da operação e/ou o valor aduaneiro. Há um conflito material entre o disposto no parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n. ° 10.168/00 e o artigo 149, parágrafo 2°, inciso III, da CF/88, razão pela qual referida exação não poderia ser considerada uma contribuição de intervenção no domínio econômico. Por conseguinte, concluise que o artigo 2°, parágrafo 2°, da Lei n. ° 10.168/00, foi tacitamente revogado pela EC 33/01, bem como que a Lei n. ° 10.332/01, publicada posteriormente à EC33/01, e inconstitucional. Impossibilidade de vinculação de receita a fundo (artigo 167,IV, da CF/88). A CIDE ainda afronta ao inciso IV do artigo 167 da Constituição Federal, que proíbe a vinculação de receita de imposto a fundo, órgão ou despesa. A Lei n. ° 10.168/2000 determina, em seu artigo 40, que o produto da arrecadação da CIDE será destinado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico. Diante disso, e evidente a inexigibilidade da CIDE, tendo em vista a ausência de referibilidade da exação e a utilização de base de cálculo distinta daquela prevista pela CF/88, o que impede sua caracterização como uma das contribuições do artigo 149 da CF/88, denotando sua natureza de imposto, nos termos do artigo 4 0 do CTN. Ademais, ainda que a CIDE seja considerada imposto, sua inexigibilidade subsiste, tendo em vista a inobservância dos artigos 154, inciso I, e 167, inciso IV, ambos da CF/88. Ofensa às normas do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS). A exigência da CIDE viola o artigo XVII do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (“GATS’), internalizado e regulamentado no direito brasileiro através do Decreto n. ° 1.355, de 30.12.1994”. O Brasil não poderá tributar serviço proveniente do exterior 'de forma distinta daquela aplicável ao serviço similar nacional. Todavia, enquanto os pagamentos efetuados pela Requerente às subsidiárias do grupo SAP no exterior estão atualmente sujeitos A incidência da CIDE, à alíquota de 10%. Há um tratamento discriminatório menos favorável As empresas estrangeiras em nítida violação ao artigo XVII do GATS. Portanto, é inexigível a CIDE. ILEGALIDADE DA EXIGÊNCIA DOS JUROS DE MORA. 0 artigo 161 do CTN prevê o acréscimo de juros de mora aos créditos não integralmente pagos no vencimento. Os juros de mora são, portanto, um ônus ao contribuinte que, pelo retardamento culposo da obrigação tributária, possui debito exigível pela Fazenda Publica. A Requerente nunca esteve em mora no cumprimento de suas obrigações fiscais, tendo em vista que, amparada por decisões judiciais e depósitos judiciais, não incorreu em atraso, impontualidade ou violação do dever de cumprir a obrigação no tempo devido. A virtude da suspensão da exigibilidade do credito tributário consiste fundamentalmente na descaracterização da mora, por não haver qualquer Fl. 960DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 955 11 omissão do contribuinte quanto ao pagamento do tributo. Ora, se a mora e uma conseqüência da exigibilidade não pode logicamente haver mora em relação pretensões inexigíveis. O artigo 161, §2º, do CTN, estabelece que o contribuinte que formular Consulta aos órgãos da Receita Federal, antes do vencimento do tributo, poderá pagálo sem a incidência dos juros. Ora, se a própria legislação privilegia a boa fé e a conduta do contribuinte que formular consulta dentro do prazo com muito mais razão não incidem os juros de mora nos casos em que o contribuinte busca a tutela do Poder Judiciário, por entender como ilegal e inconstitucional determinada exigência fiscal. TAXA SELIC. Outra evidente ilegalidade cometida na cobrança de juros de mora no caso em tela e a utilização da taxa SELIC. Sob pena de violação ao artigo 150, inciso I do CTN, não pode ser aplicada a taxa SELIC na constituição do pretenso credito tributário, uma vez que a mesma (i) não foi criada por lei para fins tributários e (ii) não possui caráter moratório, sendo uma mera "taxa de referência" calculada e divulgada unilateralmente pelo BACEN, com base na variação do custo do dinheiro e na flutuação desse custo no mercado financeiro, sistemática que lhe confere nítida natureza remuneratória do capital alheio. É o relatório 3. A DRJ/RIO DE JANEIRO exarou o Acórdão de nº1274.184, que assim restou ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2014 DA NULIDADE. DESCABIMENTO Descabe a decretação de nulidade quando não existirem atos insanáveis e quando a autoridade observa os devidos procedimentos fiscais, previstos na legislação tributária. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE Anocalendário: 2006 MATÉRIA DISCUTIDA NA ESFERA JUDICIAL. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. A propositura da ação judicial, antes ou posteriormente à autuação, afasta o pronunciamento da autoridade administrativa sobre a matéria objeto da pretensão judicial, razão pela qual não se aprecia administrativamente o seu mérito, não se conhecendo da impugnação apresentada, salvo naquilo que tratar de matéria diversa da(s) questionada(s) na referida ação. LANÇAMENTO POSTERIOR À AÇÃO JUDICIAL E ART. 62 DO DEC. 70.235/1972. A suspensão prevista nos incisos II e IV do art. 151 do C.T.N. não ilide o direito de a Fazenda Pública constituir seus créditos, atividade mandatória, nos termos do art. 142 do mesmo código. Impede, sim, que fisco exerça qualquer ato que vise constranger o sujeito passivo ao pagamento AUTUAÇÃO APÓS A CONCESSÃO DE LIMINAR. POSSIBILIDADE. A concessão de liminar em mandado de segurança apenas suspende a exigibilidade do crédito não impede o lançamento tributário com exigibilidade suspensa. Fl. 961DF CARF MF 12 ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2006 TAXA SELIC. A utilização da taxa SELIC decorre de expressa determinação legal. Não cabe à autoridade administrativa a análise de argüições de inconstitucionalidade, por fugir à sua competência DOS JUROS DE MORA. COBRANÇA. O caput do art. 161 do CTN dispõe que o crédito não pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido 4. Irresignada, a impugnante apresentou recurso voluntário, dirigido a este CARF, onde, repisando as matérias já discutidas em sede de impugnação, alega : I A TEMPESTIVIDADE defende a tempestividade do recurso voluntário II A PENDÊNCIA DOS AUTOS E O V. ACÓRDÃO RECORRIDO A recorrente tem por objeto social a prestação de serviços na área de informática, especialmente a distribuição e sublicenciamento de programas de computador (software). O software é desenvolvido pela SAP Akitiengesellsschaft System, Aplications and Products in Data Processing ("SAP AG"). A aplicação do software e seu correto funcionamento dependem do acompanhamento da instalação e execução do programa e tais serviços são prestados à recorrente e aos usuários finais, para que possam aprender a operar o programa de computador. A tecnologia do programa é detida exclusivamente pela SAP AG e não é transferida ao Brasil ou a qualquer ente licenciado. A recorrente celebrou contratos de prestação de serviços com a sociedade alemã SAP AG (doc. n° 4 da impugnação). O objeto dos contratos é a prestação de determinados serviços aos usuários finais do software e também aos próprios funcionários da Requerente, tais como os serviços de consultoria, suporte e outros. A recorrente foi supreendida com a lavratura de auto de infração Os créditos tributários encontramse com a exigibilidade suspensa, nos termos do artigo 151, incisos II e IV, do Código Tributário Nacional ("CTN"), em razão do Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390 (doc n° 5) e da existência de depósitos judiciais efetuados em tais autos. A requerente impetrou referido Mandado de Segurança, por meio do qual pleiteia a nãoincidência da CIDE sob as remessas feitas a SAP AG a titulo de pagamento pela prestação de serviços (sem transferência de tecnologia) ligados ao software. Atualmente, aguarda publicação do julgamento dos embargos de declaração opostos contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 3a Região que manteve a sentença contrária à recorrente. Ainda assim, a D. Fiscalização lavrou indevidamente o presente Auto de Infração de forma a constituir o pretenso credito tributário e prevenir a decadência do direito de fazêlo. a recorrente apresentou sua impugnação contra a autuação, sendo que a autoridade julgadora considerou procedente o lançamento por não concordar com a exigência, pois a DRJ não levou e4m consideração elementos de fato e de direito essenciais á discussão travada no presente processo, a recorrente interpõe o recurso voluntário, no qual demonstrará os fundamentos que levam a total improcedência do Acórdão recorrido, pelo que deve o auto de infração ser cancelado III QUESTÕES PRELIMINARES a Nulidade ausência de descrição precisa Fl. 962DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 956 13 A D. Fiscalização menciona o Mandado de Segurança no 2004.61.00.0208390, e indica na apuração da base de cálculo, montantes correspondentes aos depósitos judiciais. No entanto, o Termo de Verificação Fiscal e o Acórdão recorrido não são suficientemente claros a indicar exatamente qual é a relação jurídica/contratual sobre a qual está sendo exigida a CIDE, o que obrigou a recorrente a apresentar sua defesa sem mesmo ter a certeza de quais fatos estão sendo alegados em seu desfavor, sendo que neste sentido, o Conselho de Contribuintes já reconheceu, em situações análogas, a nulidade da atuação.. A presunção da qual a recorrente teve que se valer para formular os argumentos de defesa ora expendidos teve por base única e exclusivamente a comparação entre os valores constantes do item 5 do Termo de Verificação Fiscal e aqueles constantes das DARF relativas aos depósitos judiciais da CIDE ocorridos nos autos do Mandado de Segurança no 2004.61.00.0208390, em claro cerceamento do direito de defesa da recorrente, sendo que a descrição insuficiente dos fatos objeto do auto de infração e do Acórdão combatido deve ensejar a decretação de sua nulidade, que a recorrente requer. b a suspensão da exigibilidade do crédito tributário e a ofensa ao artigo 62 do Decreto nº 70.235/72 Ao lavrar o auto de infração, a fiscalização desrespeitou o artigo 62 do Decreto 70.235/72, pois este determina que durante a vigência de medida judicial que determinar a suspensão da cobrança do tributo, não será instaurado procedimento fiscal contra o sujeito passivo favorecido pela decisão, relativamente á matéria sobre o que versar a ordem de suspensão. Assim, em face do teor do artigo 62 do Decreto no 70.235/72, a Fiscalização Federal não poderia ter lavrado o Auto de Infração em referência. Assim sendo, tendo em vista a discrepância entre o procedimento adotado pela Fiscalização Federal e o disposto no artigo 62 do Decreto n° 70.235/72 o auto de infração é manifestamente improcedente, na medida em que os depósitos judiciais realizados nos autos do Mandado de Segurança nº 2004.61.00.0208390, suspendem a exigibilidade do crédito tributário (artigo 151, II do CTN), impedindo a lavratura do auto de infração. c ausência de infração A Autoridade Administrativa apenas tem competência para lavrar o Auto de Infração quando verificar a infração. Assim, não pode, em hipótese alguma, alterar a natureza do Auto de Infração (penalizar), tão somente para prevenir a decadência. No caso em tela, não há que se falar em infração, pois, antes mesmo de qualquer ato procedimental do Fisco tendente à efetivação do lançamento, a recorrente antecipouse e obteve perante o Poder Judiciário medidas liminares, seguidas da realização de depósitos judiciais no montante integral dos supostos créditos tributários que suspenderam sua exigibilidade, impedindo a lavratura de Auto de Infração. Resta claro, portanto, que o Auto de Infração não merece prosperar, pois, como ato administrativo, deve ser utilizado conforme a estrita legalidade, tendo como condição de existência a infração e a penalidade, o que não ocorreu in casu. Fl. 963DF CARF MF 14 não sendo suficientes tais argumentos, a recorrente passa a demonstrar, no tocante ao mérito da questão, a total improcedência da exigência fiscal. III2 INAPLICABILIDADE DA CIDE NO CASO CONCRETO Em que pese o Acórdão recorrido ter reconhecido a concomitância entre o mérito da presente exigência fiscal e o objeto da discussão travada no Mandado de Segurança nº 2004.61.00.0208390 e, por conseguinte, não ter sequer conhecido da impugnação quanto ao referido mérito, a recorrente entende importante ressaltar novamente os motivos pelos quais a exigência da CIDE, no caso concreto, não deve prosperar. III.2.1 CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS A AUSÊNCIA DE TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA E A MATERIALIDADE DA CIDE A CIDE foi instituída com base no artigo 49 da CF/88, que delega competência á União Federal para a instituição de tres tipos de contribuições, como instrumento de atuação do Estado nas respectivas área, as contribuições de intervenção no domínio econômico devem servir como instrumento de atuação do Estado em determinada área ou setor econômico, com finalidade específica A atuação interventiva do Estado, contudo, não é ilimitada, depende de justificado motivo, decorrente da necessidade de atuação da União Federal para organizar determinada área ou setor econômico e afastar as distorções, sempre dentro dos limites estabelecidos na Constituição Federal Na medida em que sua matriz constitucional é o artigo 149 da CF/88 que prevê tratarse de instrumento de atuação do Estado em determinada área e que referida área encontrase definida no artigo 218, a CIDE criada pela Lei n. ° 10.168/2000 não pode ir além das fronteiras balizadas pelos referidos ditames constitucionais. Em outras palavras, por tratarse de instrumento da área de ciência e tecnologia, a CIDE não pode alcançar bens, pessoas ou relações que não digam respeito à ciência ou tecnologia. Em razão da redação dos artigos 149 e 218 da CF/88, bem como do artigo 1º e do caput do artigo 2° da Lei n. ° 10.168/2000, que o aspecto material (materialidade) da hipótese de incidência da CIDE é a transmissão de conhecimentos tecnológicos provenientes do exterior, o que não ocorre no presente caso. Mesmo diante do exposto, a Fiscalização busca justificar a incidência da CIDE sobre os pagamentos ao exterior pela prestação dos serviços em questão sob o argumento de que tais serviços se tratam de "uma consultoria e/ou assessoria administrativoorganizacional, ou seja, devem ser considerados "serviços de natureza profissional", que conseqüentemente devem ser considerados "serviços técnicos especializados”. Conforme se verifica nos itens 4.2.15 a 4.2.17, do TVF, a Fiscalização busca arrimo para o posicionamento descrito, nos termos do Parecer Normativo CST n° 37, de 26 de junho de 1987 ("Parecer CST 37/87). Embora não afirme textualmente, pela forma como seus argumentos foram articulados, a recorrente supõe que a Fiscalização tenha tido a intenção de se vales dos itens três e 4 do referido parecer ( (3. Pela natureza do disposto no texto transcrito, evidenciase a pretensão de fazer incidir o imposto de renda na fonte somente em relação aos serviços, listados no item 6 da Instrução Normativa nº 23/86 – Assessoria e consultoria técnica (exceto o serviço de assistência técnica prestado a terceiros e concernente a ramo de indústria ou comércio explorado pelo prestador do serviço , que configurem alto grau de especialização, obtido através de estabelecimentos de nível superior e técnico, vinculado Fl. 964DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 957 15 diretamente á capacidade intelectual do indivíduo) (4. Assim, podemos concluir que os serviços de assessoria e consultoria técnica alcançados pela tributação restringemse áqueles resultantes da engenhosidade humand, tais como : especificação técnica para fabricação de aparelhos e equipamentos em geral, assessoria administrativoorganizacional, consultoria jurídica, etc.) ). Entretanto, a Fiscalização deixou de considerar a existência do Parecer Normativo CST n° 8, de 17.4.1986 que é a base do Parecer CST 37/87 e define os critérios a serem observados em função da incidência do imposto de renda na fonte, nos casos de prestação de serviços caracterizadamente de natureza profissional, que correspondem aos serviços atualmente constantes do artigo 647 do Regulamento do Imposto de Renda. O Parecer CST 8/86 delimita, em seu item 11, o âmbito de incidência da retenção na fonte instituída pelo artigo 52 da Lei n° 7.450/85 e explica que "É importante assinalar o objetivo da lei ao utilizar a expressão serviços caracterizadamente de natureza profissional; dentro desse comando legal está implícita a pretensão do legislador de submeter à incidência do imposto de renda na fonte as remunerações auferidas por serviços que, por sua natureza, se revelem inerentes ao exercício de quaisquer profissões, sendo irrelevante, na forma do novo disciplinamento legal, que se trate de profissão regulamentada por lei ou não." Portanto, de acordo com a linha de raciocínio utilizada pela Fiscalização, os serviços descritos no item 6 do presente recurso voluntário devem ser entendidos como sendo inerentes ao exercício de alguma profissão especifica. A despeito disso, é importante destacar que não há, em nenhuma passagem ou trecho do Auto de Infração e Termo de Verificação Fiscal em questão, qualquer indicação de qual seria a profissão que estaria sendo exercida na prestação dos referidos serviços e que justificaria a aplicação do tratamento legal que a Fiscalização pretende ver reconhecido no caso concreto, havendo, portanto, como é cediço em Direito, uma inegável deficiência no referido argumento pois, incumbe a quem alega comprovar suas alegações. Há, ainda , que se considerar que a Fiscalização aparentemente ignorou os termos do item 16 do Parecer CST 8/86 (“Todavia, é importante transparecer o objetivo genérico, em relação ás atividades listadas no ato normativo citado, de que a hipótese de incidência sob exame somente ocorre relativamente aos serviços isoladamente prestados na área das profissões arroladas. Assim, não sera exigida a retenção do imposto quando o serviço contratado englobar, cumulativamente, várias etapas indissociáveis dentro do objetivo pactuado como é o caso, por exemplo, de um único contrato que, seqüencialmente, abranja estudos preliminares, elaboração de projeto, execução e acompanhamento do trabalho". ) A própria legislação estabelece a exceção descrita em razão da desnaturação da característica de serviços profissionais nas hipóteses em que se verifica a prestação de vários serviços indissociáveis previstos em um mesmo contrato. Vale destacar que o contrato prevê indiscutivelmente a prestação de vários serviços de forma indissociada uns dos outros, o que, nos termos do item 16 do Parecer CST 8/86, afasta qualquer possibilidade de que os serviços em questão venham a ser considerados como’ caracterizadamente de natureza profissional”. Cumpre também notar que os serviços descritos não se confundem com serviços técnicos e de assistência técnica, muito menos com serviços de assistência administrativa e semelhantes, previstos no parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000, com as alterações promovidas pela Lei n° Fl. 965DF CARF MF 16 10.332/2001, na medida em que tais serviços implicam, necessariamente, na transferência de tecnologia, aspecto material da hipótese de incidência da CIDE.. é importante mencionar, que o Instituto Nacional da Propriedade Industrial INPI, determina, no item 2 do Ato Normativo n. ° 135, de 15.4.1997, do então Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo, que “ O INPI averbará ou registrará, conforme o caso, os contratos que impliquem em transferência de tecnologia, assim entendidos os de licença de direitos (exploração de patentes e marcas) e os de aquisição de conhecimentos tecnológicos (fornecimento de tecnologia e prestação de serviços de assistência técnica e científica) e os contratos de franquia”. Assim, para fins de caracterização da materialidade da CIDE, a prestação de serviços deve resultar, obrigatoriamente, na transferência de tecnologia, como ocorre com os serviços técnicos e de assistência técnica, bem como com os serviços de assistência administrativa e semelhantes, conforme determina o § 3º do art.355 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/99). Os contratos objeto do presente processo têm por escopo a prestação de serviços relacionados à execução das atividades usuais de âmbito administrativo/gerencial da recorrente, que de forma alguma ensejam a transferência de tecnologia Prova disso e a anexa certidão negativa de averbação expedida pelo INPI, órgão competente que, nos termos do artigo 211 da Lei n° 9.279/96, o INPI deverá registrar apenas os contratos que impliquem transferência de tecnologia. Portanto, podese concluir que, se os contratos de prestação de serviços firmados pela recorrente, que são objeto do auto de infração combatido, de fato envolvem serviços de assistência administrativa e semelhantes, nos termos definidos em lei e, pois, transferência de tecnologia, tais contratos, uma vez apresentados ao INPI, deveriam ter sido obrigatoriamente averbados/registrados pelo referido órgão. Ocorre que o INPI, ao examinar os contratos, recusouse a registrá los/averbálos. Assim, diante do fato de o INPI não ter averbado os contratos, resta evidente que tais serviços não podem ser considerados como ‘serviços técnicos, de assistência técnica”, ou mesmo como “serviços de assistência administrativa e semelhantes”, mas sim como serviços puros, que não envolvem transferência de tecnologia. Assim, os pagamentos feitos pela recorrente, em contrapartida aos serviços em questão, não podem estar sujeitos á incidência da CIDE. A exigência da CIDE sobre as remessas efetuadas pela recorrente , a título de pagamentos pela prestação de serviços puros, é manifestamente inaplicável, já que nestes contratos de prestação de serviços não há transferência de tecnologia, aspecto material de incidência da exação. O artigo 150 da CF/88 estabelece, em seu inciso I, que nenhum tributo poderá ser exigido ou aumentado sem lei que o estabeleça. Dessa forma, é evidente a inaplicabilidade e inexigibilidade da CIDE sobre as remessas efetuadas. A esse respeito cumpre ressaltar o fato de o artigo 10 do Decreto n. ° 4.195/2002 ter suprimido o artigo 8º, parágrafo único, do Decreto n. ° 3.949/2001, que estipulava a averbação do contrato no INPI como condição para a incidência da CIDE, sendo que tal aspecto não permite afirmar que é legitima a sua incidência em quaisquer contratos, já que a função do Decreto é meramente regulamentar a lei e jamais introduzir nova incidência, especialmente nesse caso, que estaria destoando do conceito legal, que exige transferência de tecnologia para legitimar a incidência da CIDE. O parágrafo único do artigo 8°, do Decreto n° 3.949/2001, ao dispor que “os contratos a que se refere este artigo deverão estar averbados no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (...)", não teve o condão de estabelecer obrigação ao contribuinte da CIDE de averbar os contratos no Fl. 966DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 958 17 INPI. Essa conduta já é exigida pela própria lei da propriedade intelectual. Portanto, o fato de o Decreto n° 3.949/2001 ter feito menção à averbação no INPI não indica qualquer obrigatoriedade nova, pois qualquer contrato que possua em seu escopo a transferência de tecnologia deve ser averbado no INPI, não em virtude da disposição do Decreto, mas sim em função da Lei n° 9.279/96. Admitir raciocínio diverso implicaria assumir que o Decreto n° 4.195/2002, que revogara o Decreto no 3.949/2001, também revogou o artigo 211 da Lei de Proteção à Propriedade Intelectual e as disposições materiais da lei instituidora da CIDE. Diante disso, é evidente que a inclusão ou a posterior supressão do parágrafo único do artigo 8° do Decreto n° 3.949/200,1 em nada altera o aspecto material da hipótese de incidência da CIDE. Primeiro, porque originalmente não estabelecera qualquer obrigação nova ao contribuinte; segundo, porque o alcance de decreto regulamentar deve limitarse ás disposições legais, sob pena de inconstitucionalidade. A Lei nº 10.168/2000, com as alterações promovidas pela Lei nº 10.332/2001, vincula o recolhimento da CIDE á existência de transferência de tecnologia nas relações contratuais relativas ás remessas efetuadas ao exterior, os regulamentos posteriores, por estarem adstritos ao texto de lei em função do princípio constitucional da legalidade, não poderiam modificar o aspecto material da hipótese de incidência da CIDE e pretender afastar a necessidade de existência de contratos com empresas estrangeiras que impliquem transferência de tecnologia, para legitimar a cobrança da exação. A atividade administrativa está adstrita aos termos da lei, a discricionariedade da Administração Pública, portanto, deve ser operada dentro do campo de alternativas que a própria lei dispõe, razão pela qual não poderiam as Autoridades Fiscais entenderem que a CIDE é devida sobre quaisquer remessas ao exterior, independentemente da existência de transferência de tecnologia nas relações contratuais em referência, somente pelo fato de inexistir menção no Decreto n° 4.195/2002 acerca da averbação dos contratos no INPI. Tendo em vista que a CIDE objetiva incentivar o desenvolvimento da tecnologia nacional, sua incidência, se considerada válida, deverá se ater ás hipóteses de efetiva transferência de tecnologia do exterior, em respeito á materialidade da exação, nos termos da lei nº 10.168/2000. Assim, por tratarse de instrumento de intervenção da União na área de ciência e tecnologia, a CIDE somente pode alcançar bens, pessoas ou relações que digam respeito à ciência ou tecnologia. A hipótese da recorrente é diversa, pois nos serviços prestados á recorrente não há transferência de tecnologia, portanto não há que se falar na incidência da CIDE no caso concreto da recorrente em decorrência do pagamento desses serviço. III.2.2 OS LIMITES DA ATUAÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO REFERIBILIDADE E INTERVENÇÃO TEMPORÁRIA Admitindose que a instituição da exação de que ora se cuida foi válida convém ainda analisar quais são os limites da atuação do Estado em determinada área ou setor econômico. Convém lembrar que o Programa de Estímulo á Interação Universidade Empresa para Apoio á Inovação, financiado pelos recursos advindos da CIDE, nos termos da Lei nº 10.168/2000, objetiva incrementar o desenvolvimento tecnológico nacional. A promoção, o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológica estão presentes no Fl. 967DF CARF MF 18 artigo 218 do T ítulo VIII da Constituição Federal, que trata da Ordem Social. Ainda que se admita a incidência de contribuição de intervenção no domínio econômico em área ou setor delimitado no contexto constitucional da Ordem Social, tal incidência somente seria legítima se fosse possível verificar um beneficio especifico para o sujeito passivo, ou seja, caso se concretizasse a denominada referibilidade. A CF/88 delineou também o universo de fatos e pessoas que podem ser atingidos e beneficiados pela CIDE, ou seja, serão apenas aqueles que pertencerem à respectiva área de forma a se concretizar o requisito da referibilidade, necessário para a caracterização do tributo como espécie de contribuição de intervenção no domínio econômico. Inequívoca, portanto, a ausência de beneficio especifico e de proporcionalidade na cobrança da CIDE das empresas signatárias de contratos de serviços como estes ora apresentados pela recorrente,o que desvirtua a natureza da exação como uma contribuição de intervenção no domínio econômico nos moldes do artigo 149 da CF/88. A exação é de duvidosa constitucionalidade e legalidade, uma vez que os benefícios advindos da sua arrecadação não são direcionados aos seus sujeitos passivos, e sim a toda sociedade. A CIDE visa tão somente corrigir imperfeições e desequilíbrios em determinada área ou setor econômico, atuando na Área/setor durante o tempo em que perdurarem as distorções. Tal exação é inaplicável na presente relação jurídica e que não pode ser considerada uma contribuição de intervenção no domínio econômico, em razão da ausência do beneficio especifico, bem como da temporariedade da sua exigência. III.2.3 ASPECTO FORMAL DA CIDE INSTITUIÇÃO POR LEI COMPLEMENTAR A análise sistemática dos textos constitucionais permite afirmar que a CF/88 inovou ao fixar a necessidade de lei complementar para a instituição dos tributos previstos no artigo 149, exceção ás contribuições de seguridade social do artigo 195, tal afirmativa decorre da remissão expressa feita pelo artigo 149 da CF/88 ao inciso II do artigo 146, que trata das matérias cuja disciplina obrigatoriamente devem ser regidas por lei complementar. A CIDE em discussão, ao arrepio da norma constitucional, foi instituída por lei ordinária (Lei nº 10.168/2000), tal fato, por si só, já basta para comprovar a inconstitucionalidade da exação. III.2.4 NATUREZA DA CIDE IMPOSTO a ausência de referibilidade o tributo criado pela lei nº 10.168/2000 não pode ser configurado como uma contribuição de intervenção no domínio econômico, pois os frutos advindos de sua arrecadação promovem vantagem para toda a coletividade e não para os seus contribuintes. desta foram, não existindo um benefício individual e mensurável, a denominada referibilidade, aso contribuintes da CIDE, não há que se falar na espécie tributária delineada no artigo 149 da CF/88, o que denota tratarse de um possível imposto. b a necessidade de lei complementar Assim, se configurada a natureza da exação como verdadeiro imposto, a sua cobrança somente será válida se preenchidos todos os requisitos do artigo 154, inciso I, da CF/88. A CIDE não foi instituída por lei complementar , e sim pela Lei nº 10.168/2000, o que de plano já a torna inconstitucional, em nítida violação ao artigo 154, Inciso I, da CF/88. Fl. 968DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 959 19 c fato gerador e base de cálculo idênticos ao do imposto de renda na fonte (IRF) vedação a tributação e bis in idem A CIDE possui o mesmo fato gerador e base cálculo do IRF, conforme se depreende da redação da alínea "a" do inciso II do artigo 685 do Regulamento do Imposto de Renda ("RIR/99"), e dos artigos 708 e 710 do RIR/99. O tipo tributário é composto pela hipótese de incidência e base de cálculo. A identidade desses elementos gera ou a bitributação, na hipótese de o tributo ser cobrado por diferentes autoridades, ou a tributação bis in idem na hipótese de o sujeito ativo ser o mesmo. A tributação bis in idem é repelida pelo sistema tributário nacional (artigo154; inciso I, da CF/88). A CIDE possui a mesma hipótese de incidência e base de cálculo do IRF e sua cobrança gera a tributação bis in idem, expressamente proibida pela CF/88. Tal conclusão pode ser extraída do confronto entre os artigos 685, 708 e 710 do RIR/99 e do parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000, alterado pela Lei n° 10.332/2001. d conflito material com a Emenda Constitucional nº 33/01 A base de cálculo da CIDE conflita com o disposto no artigo 149, parágrafo 2°, inciso III, da CF/88, introduzido no ordenamento pátrio com a publicação, em 12.12.2001, da Emenda Constitucional n° 33 ("EC 33/01"), que prevê a base de cálculo aplicável ás contribuições de intervenção no domínio econômico. O referido dispositivo constitucional, ao prever que as contribuições de intervenção no domínio econômico podem ter alíquota ad valorem, restringiu também outro aspecto material da sua hipótese de incidência, ao dispor que este tributo poderá ter como base de cálculo somente o faturamento, a receita bruta, o valor da operação e/ou o valor aduaneiro. Há um conflito material entre o disposto no parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n. ° 10.168/00 e o artigo 149, parágrafo 2°, inciso III, da CF/88, razão pela qual referida exação não poderia ser considerada uma contribuição de intervenção no domínio econômico. Por conseguinte, concluise que o artigo 2°, parágrafo 2°, da Lei n. ° 10.168/00, foi tacitamente revogado pela EC 33/01, bem como que a Lei n. ° 10.332/01, publicada posteriormente à EC33/01, e inconstitucional. e impossibilidade de vinculação de receita a fundo (artigo 167, inciso IV , da CF/88) A CIDE ainda afronta ao inciso IV do artigo 167 da Constituição Federal, que proíbe a vinculação de receita de imposto a fundo, órgão ou despesa. A Lei n. ° 10.168/2000 determina, em seu artigo 40, que o produto da arrecadação da CIDE será destinado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico. Diante disso, e evidente a inexigibilidade da CIDE, tendo em vista a ausência de referibilidade da exação e a utilização de base de cálculo distinta daquela prevista pela CF/88, o que impede sua caracterização como uma das contribuições do artigo 149 da CF/88, denotando sua natureza de imposto, nos termos do artigo 4 0 do CTN. Ademais, ainda que a CIDE seja considerada imposto, sua inexigibilidade subsiste, tendo em vista a inobservância dos artigos 154, inciso I, e 167, inciso IV, ambos da CF/88. III.2.5 OFENSA ÁS NORMAS DO ACORDO GERAL SOBRE O COMÉRCIO DE SERVIÇOS (GATS) Fl. 969DF CARF MF 20 A exigência da CIDE viola o artigo XVII do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (“GATS’), internalizado e regulamentado no direito brasileiro através do Decreto n. ° 1.355, de 30.12.1994”. O Brasil não poderá tributar serviço proveniente do exterior 'de forma distinta daquela aplicável ao serviço similar nacional. Todavia, enquanto os pagamentos efetuados pela Requerente às subsidiárias do grupo SAP no exterior estão atualmente sujeitos A incidência da CIDE, à alíquota de 10%. Há um tratamento discriminatório menos favorável As empresas estrangeiras em nítida violação ao artigo XVII do GATS. Portanto, é inexigível a CIDE. IV A LEGALIDADE DA EXIGÊNCIA DOS JUROS DE MORA 0 artigo 161 do CTN prevê o acréscimo de juros de mora aos créditos não integralmente pagos no vencimento. Os juros de mora são, portanto, um ônus ao contribuinte que, pelo retardamento culposo da obrigação tributária, possui debito exigível pela Fazenda Publica. A Requerente nunca esteve em mora no cumprimento de suas obrigações fiscais, tendo em vista que, amparada por decisões judiciais e depósitos judiciais, não incorreu em atraso, impontualidade ou violação do dever de cumprir a obrigação no tempo devido. A virtude da suspensão da exigibilidade do credito tributário consiste fundamentalmente na descaracterização da mora, por não haver qualquer omissão do contribuinte quanto ao pagamento do tributo. Ora, se a mora e uma conseqüência da exigibilidade não pode logicamente haver mora em relação pretensões inexigíveis. O artigo 161, §2º, do CTN, estabelece que o contribuinte que formular Consulta aos órgãos da Receita Federal, antes do vencimento do tributo, poderá pagálo sem a incidência dos juros. Ora, se a própria legislação privilegia a boa fé e a conduta do contribuinte que formular consulta dentro do prazo com muito mais razão não incidem os juros de mora nos casos em que o contribuinte busca a tutela do Poder Judiciário, por entender como ilegal e inconstitucional determinada exigência fiscal. V CONCLUSÃO E PEDIDO Conforme amplamente demonstrado e comprovado, a autuação sofre de vício material ao descrever erroneamente a relação jurídicocontratual que dá base aos pagamentos sobre os quais a CIDE é supostamente devida, devendo então ser anulada em razão de tal vício materialidade Em que pese o mérito da exigência já estar submetida ao Poder Judiciário, por meio do Mandado de Segurança nº 2004.61.00.0208390 e, portanto, que a decisão final a ser proferida em tal processo judicial deverá prevalecer em relação aos fatos or em discussão, a recorrente entende ter comprovado que : I) a CIDE é inexigível sobre as remessas efetuadas pela recorrente, na medida em que o contrato de prestação de serviços não reúne as condições fáticas necessárias á configuração do aspecto material da hipótese de incidência do tributo, II) os depósitos judiciais realizados nos autos do MS nº 2004.61.00.0208390 suspendem integralmente a exigibilidade dos créditos tributários e impedem a lavratura de auto de infração e a cobrança de juros de mora. Por fim, a recorrente pleiteia seja integralmente acolhido o recurso voluntário para o fim de que seja reconhecida a nulidade e/ou a improcedência da presente autuação, bem como das exigências fiscais impugnadas, incluindo a CIDE e os juros de mora, determinand0se o cancelamento dos supostos débitos fiscais constantes do auto de infração e o consequente arquivamento do presente processo administrativo. Fl. 970DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 960 21 5. Os autos foram então a mim distribuídos. É o relatório. Voto Conselheiro Ari Vendramini ADMISSIBILIDADE 1. O recurso voluntário é tempestivo, preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço na parte não concomitante com as ações judiciais. CONSIDERAÇÕES INICIAIS 2. Cabe, preliminarmente, delinearse a lide. 3. A recorrente possui dois contratos em vigor á época a autuação, firmados entre a própria recorrente, SAP BRASIL, e a SAP AG (empresa alemâ): 1 O primeiro, referese ao Contrato de Distribuição de Software (o "Contrato de Distribuição") para a comercialização, distribuição e manutenção de determinado software da SAP AG para usuários finais no território brasileiro, onde não há transferência da tecnologia. 2 O segundo tipo referese ao contrato de prestação de serviços de software ("Contrato de Prestação de Serviços de Software"), em vigor desde 1° de janeiro de 2003, no qual a SAP Brasil e a SAP AG concordam em prestar determinados serviços de urna parte A outra mediante solicitações. Com base neste "Contrato de Prestação de Serviços de Software", foram firmados diversos contratos de serviço, entre a SAP Brasil e as demais subsidiárias da SAP, tendo em comum, a vigência a partir de 01 de janeiro de 2005, e o teor, que é basicamente o mesmo. Da leitura do art. 3º dos contratos (fl. 060/158), a contratada concorda em fornecer serviços especializados, dentre os quais: RH e gerenciamento e suporte); de consultoria; marketing. 4. A recorrente possui as seguintes ações judiciais relacionadas ao tema tratado nestes autos : 1 – MANDADO DE SEGURANÇA Nº 2002.61.00.0206864 este Mandado de Segurança discute a exigibilidade da CIDE sobre os pagamentos feitos à SAP AG como contraprestação pela cessão de direitos de uso e comercialização de software, sem a transferência da correspondente tecnologia. A Lei n° 11.542, de 28 de fevereiro de 2007 modificou a Lei n° 10.168/00, acrescentando ao art. 2° o parágrafo 1°A, que diz textualmente: "A contribuição de que trata este artigo não incide sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programa de computador, salvo Fl. 971DF CARF MF 22 quando envolverem a transferência da correspondente tecnologia", produzindo efeitos a partir de 1° de janeiro de 2006. 2 MANDADO DE SEGURANÇA Nº 2004.61.00.0208390 – a recorrente questiona a incidência da CIDE sobre as remessas decorrentes dos contratos de prestação de serviços relacionados ao software licenciado ao mesmo e desenvolvido pela sociedade alemã SAP AG. Em síntese, alega que na prestação de tais serviços não lidam com transferência de tecnologia, estando por tanto, fora do campo de incidência da CIDE. 3 – OUTRAS AÇÕES JUDICIAIS Há outras ações que se referem aos Mandados de Segurança 2001.61.00.0244423 e 2004.61.00.0208390, pelos quais se discute a exigibilidade do IRRF e da CIDE incidentes sobre remessas ao exterior realizadas pelo contribuinte como pagamento pela prestação de determinados serviços relacionados ao software licenciado ao contribuinte pela SAP AG. DAS PRELIMINARES 6. A recorrente alega que haveria nulidade : a) do lançamento por ter descumprido decisão judicial que expressamente determinou que a fiscalização se abstivesse de exigir a CIDE sobre as remessas ao exterior a título de roaming internacional ; b) falta de precisão na autuação e no julgamento, pois, o TVF e o Acórdão recorrido não são suficientemente claros ao indicar exatamente qual é a relação jurídica/contratual sobre a qual está sendo exigida a CIDE, obrigando a recorrente a apresentar sua defesa sem mesmo ter a certeza de quais fatos estão sendo alegados em seu desfavor e, c) que o Acórdão da DRJ também seria nulo por não ter ocorrido a concomitância, defendida pelo Acórdão, entre o processo administrativo e os processos judiciais titularizados pela recorrente. 7. Entendo não proceder as alegações da recorrente. 8. Quanto ao lançamento, agiu correto a fiscalização ao lavrar o auto de infração para prevenir a decadência do crédito tributário, pois em sendo o tributo devido, até que decisão judicial transitada em julgado o defina como não devido, há que ser constituído o crédito a ele referente, por expressa determinação legal contida no artigo 142 do Código Tributário Nacional Lei nª 5.172/1966, sendo dever de ofício da autoridade fiscal o fazer , sob pena de incursão em crime de responsabilidade funcional. 9. A decisão judicial não proibiu a Fazenda Pública de constituir o crédito tributário pelo lançamento, mas sim de exigílo, por tal motivo o crédito foi constituído com sua exigibilidade suspensa, nos moldes do artigo 151 do mesmo códex tributário. 10. Foram impetrados, pela interessada, na 17º Vara Federal da Seção Judiciária de São Paulo os Mandados de Segurança nº 2002.61.00.0206864 e 2004.61.00.0208390, objetivando suspensão da exigibilidade da CIDE sobre pagamentos à SAP AG no exteriror, Fl. 972DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 961 23 sendo concedidas inicialmente liminares e feitos os depósitos dos montantes integrais, o que suspendeu a exigibilidade do crédito tributários na forma do art. 151, II e IV do CTN. No MS 2002.61.00.0206864 a interessada solicita que se reconheça inexigibilidade da CIDE nas hipóteses de remessas de valores ao exterior já efetuada e a serem efetuadas pelo pagamento de licença de uso de software, albergadas nos contratos de distribuição de software (fl.646). Conforme consta na fl.654, a 6ª Turma do Egrégio Tribunal Regional Federal denegou a segurança e revogou a liminar concedida. Atualmente o feito encontrase no STJ. 11. No MS 2004.61.00.0208390 o contribuinte pleiteia a suspensão da contribuição relativa as remessas ao exterior de valores que não digam respeito a royalties ou assistência técnica relativa a transferência de tecnologia (fl.729). Conforme consta na fl.796, a 4ª Turma do Egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região deu provimento parcial à apelação da impetrante. O processo encontrase no citado tribunal. 12. Desta forma, a autoridade fiscal não descumpriu a ordem judicial, como alega a recorrente, da mesma forma a DRJ não deixou de observar tal questão, como alega a recorrente. 13. Portanto, rejeito tal preliminar de nulidade. 14. Quanto á falta de precisão na descrição do auto de infração e no acórdão DRJ, entendo não prosperar tal alegação pois desde que a recorrente pôde apresentar seus argumentos de defesa de foram clara e precisa, elencando os seus pontos de discordância, tanto em impuganaçãõ como na fase de recurso voluntário, não ocorreu a nulidade suscitada. 15. Além disso, no TVF, no item Dos Fatos, a autoridade fiscal lista os documentos solicitados, inclusive os contratos fornecidos pela própria recorrente, que afirmou que os contratos anteriormente apresentados, embora sejam datados de 2009, estabelecem em sua cláusula 10 que as relações de prestação de serviços objeto de tais contratos tiveram início em 01+01+2005, ainda no item 4,2,2 deste mesmo TVF a autoridade descreve detalhadamente que da a leitura dos contratos anexados, por cópia, constatase que a contratada concorda em fornecer serviços especializados. Conclui a autoridade fiscal que : “ 4.2.6. Diferentemente do contribuinte, esta fiscalização entende que os serviços descritos no item 4.2.4 tem a natureza de "serviços técnicos especializados", 4.2.7. Dessa forma, ao efetuar as remessas para pagamento dos serviços descritos no item 4.2.4, entendemos que o contribuinte está sujeito a retenção do Imposto de Renda com alíquota de 15% e da CIDE com alíquota de 10%.” 16. Desta forma, rejeito esta preliminar de nulidade. 17. Com relação á concomitância relatada no Acórdão DRJ, será tratada em tópico seguinte, mas, em preliminar, a alegação da recorrente de que o Acórdão da DRJ também seria nulo por não ter ocorrido a concomitância, defendida pelo Acórdão, entre o processo administrativo e os processos judiciais titularizados pela recorrente, entendo ter realmente ocorrido a concomitância, portanto, correto o Acórdão DRJ quando, em sua ementa, traz a seguinte informação : MATÉRIA DISCUTIDA NA ESFERA JUDICIAL. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. : A propositura da ação judicial, antes ou posteriormente à autuação, afasta o pronunciamento da autoridade administrativa sobre a matéria objeto da pretensão judicial, razão pela qual não se aprecia administrativamente o seu mérito, não se conhecendo da impugnação apresentada, salvo naquilo que tratar de matéria diversa da(s) questionada(s) na referida ação. Fl. 973DF CARF MF 24 18. Portanto, rejeito tal preliminar de nulidade. NO MÉRITO A EXISTÊNCIA DE CONCOMITÂNCIA 19. Afastadas as alegações preliminares, passemos á análise do mérito da contenda. 20. Quanto á concomitância, entendo que esta realmente existe, em função da identidade de objeto entre as ações judiciais impetradas e as razões de impugnação interpostas, como bem delineou a decisão de piso, ao esclarecer que : Destaquese que o auto de infração se destinou a lançar, de ofício, valores relativos a CIDE que estão sendo questionados judicialmente pela interessada, ou seja, a exigibilidade da CIDE sobre os pagamentos feitos a SAP AG como contraprestação pela cessão de direitos de uso e comercialização de software, sem a transferência da correspondente tecnologia (Mandado de Segurança n° 2002.61.00.0206864) e a CIDE sobre as remessas decorrentes dos contratos de prestação de serviços relacionados ao software licenciado ao mesmo e desenvolvido pela sociedade alemã SAP desenvolvidos pela sociedade alemã desenvolvidos pela sociedade alemã SAP desenvolvidos pela sociedade alemã SAP AG (Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390). Ora, não é possível que a empresa que impetrou as ações judiciais não conheça o teor das mesmas. Observese que a fiscalização apresentou planilha com os valores devidos de CIDE em várias datas, os valores das remessas de recursos ao exterior e muitos outros detalhes, dirimindo qualquer dúvida sobre os valores autuados. tendo a recorrente efetivado depósitos judiciais para se proteger da exigibilidade do tributo. Do Mandado de Segurança n° 2002.61.00.0206864 (Anexo II) Este Mandado de Segurança discute a exigibilidade da CIDE sobre os pagamentos feitos à SAP AG como contraprestação pela cessão de direitos de uso e comercialização de software, sem a transferência da correspondente tecnologia. A Lei n° 11.542, de 28 de fevereiro de 2007 modificou a Lei n° 10.168/00, acrescentando ao art. 2° o parágrafo 1°A, que diz textualmente: "A contribuição de que trata este artigo não incide sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programa de computador, salvo quando envolverem a transferência da correspondente tecnologia", produzindo efeitos a partir de 1° de janeiro de 2006. Do Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390 (Anexo III) No Mandado de Segurança n° 2004.61.00.0208390, o contribuinte questiona a incidência da CIDE sobre as remessas decorrentes dos contratos de prestação de serviços relacionados ao software licenciado ao mesmo e desenvolvido pela sociedade alemã SAP AG. Em síntese, alega que na prestação de tais serviços não lidam com transferência de tecnologia, estando por tanto, fora do campo de incidência da CIDE, conforme CERTIDÃO DE OBJETO E PÉ ás fls.26 a 29 destes autos digitais. Outras ações judiciais Há outras ações que se referem aos Mandados de Segurança 2001.61.00.0244423 e 2004.61.00.0208390, pelos quais se discute a exigibilidade do IRRF e da CIDE incidentes sobre remessas ao exterior realizadas pelo contribuinte como pagamento pela prestação de determinados Fl. 974DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 962 25 serviços relacionados ao software licenciado ao contribuinte pela SAP AG. OS CONTRATOS EXISTENTES Á ÉPOCA DA AUTUAÇÃO Existem dois tipos de contratos firmados entre a recorrente, SAP BRASIL, e a SAP AG. (fls. 61/ 159 dos autos digitais) O primeiro, referese ao Contrato de Distribuição de Software (o "Contrato de Distribuição") para a comercialização, distribuição e manutenção de determinado software da SAP AG para usuários finais no território brasileiro, onde não há transferência da tecnologia. O segundo tipo referese ao contrato de prestação de serviços de software ("Contrato de Prestação de Serviços de Software"), em vigor desde 1° de janeiro de 2003, no qual a SAP Brasil e a SAP AG concordam em prestar determinados serviços de urna parte A outra mediante solicitações. Com base neste "Contrato de Prestação de Serviços de Software", foram firmados diversos contratos de serviço, entre a SAP Brasil e as demais subsidiárias da SAP, tendo em comum, a vigência a partir de 01 de janeiro de 2005, e o teor, que é basicamente o mesmo. 21. Ainda a própria recorrente nos traz as seguintes informações, quando anexa aos autos consulta realizada ao aclamado Marco Aurélio Greco, conforme fls. 368/369 dos autos digitais : A Consulente relata, que: 1. Em 11.9.2002, a SAP Brasil, Ltda. ("SAP") impetrou Mandado de Segurança para afastar a incidência da Contribuição de Intervenção, no Domínio Econômico ("CIDE"), instituída nos termos da'' Lei re, 10.168, de 29 de dezembro de 2000 ("Lei 10.168/2000"),om modificações ;instituídas pela Lei n° 10.332, de 29 de dezembro de 2001 ("Lei' , 10.332/2001"), em relação às remessas ao exterior, para a sua controladora ("SAP AG"), da remuneração paga pela licença de uso e distribuição de software, instrumentalizada em contratos de distribuição de software. 2. Ao analisar o pedido inicial, a MMa. Juiza Federal houve por bem deferir a medida liminar. As razões que ensejaram o deferimento da medida liminar decorrem, basicamente, (i) da ausência de previsão legal para a incidência da exação nas remessas ao exterior em decorrência do pagamento pela licença de uso de software; e (ii) da impossibilidade de se verificar o aspecto material de incidência da CIDE no caso especifico da SAP. 3. Posteriormente, a União Federal interpôs Agravo de Instrumento ao Tribunal Regional Federal da Terceira Região; com pedido de efeito suspensivo. Sustentou a União Federal que (i) não haveria que se falar em ausência de previsão legal para a incidência da CIDE, já que a SAP efetua pagamentos relativos a concessão de marcas e patentes a empresa alemã. 4. A Desembargadora Relatora houve por bem atribuir efeito suspensivo ao Agravo, com base nas seguintes premissas : (i) licença de uso é fato gerador da CIDE, nos termos da lei 10.168/2000; e (ii) os rendimentos obtidos pelo uso ou exploração de direito autoral configuram royalties, desde que não percebidos pelo autor ou criador do bem ou da obra, o que também acarretaria a incidência da CIDE. 5. A SAP interpôs Agravo Regimental. Em 12 de março de 2003, contudo, a Turma, por maioria de votos decidiu que: (i) licença de uso e fato gerador da CIDE; e (ii) os pagamentos efetuados pela SAP a SAP AG constituem pagamento de royalties e não de remuneração pelo uso de um direito de autor. Fl. 975DF CARF MF 26 22. Por tais motivos, entendo haver concomitância entre os motivos de impugnação, repisados no recurso voluntário ( III2 INAPLICABILIDADE DA CIDE NO CASO CONCRETO, III.2.1 CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS A AUSÊNCIA DE TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA E A MATERIALIDADE DA CIDE, III.2.2 OS LIMITES DA ATUAÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO REFERIBILIDADE E INTERVENÇÃO TEMPORÁRIA, III.2.3 ASPECTO FORMAL DA CIDE INSTITUIÇÃO POR LEI COMPLEMENTAR, III.2.4 NATUREZA DA CIDE – IMPOSTO ( a ausência de referibilidade, b a necessidade de lei complementar , c fato gerador e base de cálculo idênticos ao do imposto de renda na fonte (IRF) vedação a tributação e bis in idem, d conflito material com a Emenda Constitucional nº 33/01, e impossibilidade de vinculação de receita a fundo (artigo 167, inciso IV , da CF/88)), e os processos judiciais titularizados pela recorrente. 23. Quanto ás alegações da recorrente quanto ao ferimento ás normas do GATS (( III.2.5 OFENSA ÁS NORMAS DO ACORDO GERAL SOBRE O COMÉRCIO DE SERVIÇOS (GATS) A exigência da CIDE viola o artigo XVII do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (“GATS’), internalizado e regulamentado no direito brasileiro através do Decreto n. ° 1.355, de 30.12.1994”, o Brasil não poderá tributar serviço proveniente do exterior 'de forma distinta daquela aplicável ao serviço similar nacional, todavia, enquanto os pagamentos efetuados pela Requerente às subsidiárias do grupo SAP no exterior estão atualmente sujeitos á incidência da CIDE, à alíquota de 10%., há um tratamento discriminatório menos favorável ás empresas estrangeiras em nítida violação ao artigo XVII do GATS, portanto, é inexigível a CIDE e constatase que a exigência da CIDE, na hipótese em discussão, constitui ainda um óbice ao comercio de serviços internacional, na medida em que trata discriminatoriamente os serviços e prestadores de serviços estrangeiros, violando notadamente o artigo XVII do GATS, em contrariedade ao artigo 5º, parágrafo 2°, da Constituição Federal de 1988, e ao artigo 98 do CTN.), além de trazer discussão sobre a constitucionalidade da CIDE, o que já impediria este colegiado de apreciar tais alegações, por respeito ao comando inserto na Súmula CARF nº 2, também são idênticas ás razões de pedir na inicial do Mandado de Segurança de nº 2004.61.00.0208390 (fls. 313/314 dos autos digitais), impetrado pela recorrente junto á 17ª Vara Federal de São Paulo/SP, o que também impede este colegiado de apreciar tal matéria submetida ao Poder Judiciário, por respeito ao comando inserto na Súmula CARF Nº 1. 24. Portanto, clara está a coincidência dos objetos dos pedidos, tanto na esfera administrativa, como na esfera judicial. 25. Desta forma, devese obediência ao Princípio Constitucional da Supremacia das Decisões Judiciais e da Prevalência da Esfera Judicial sobre a Administrativa, ambos insculpidos no Inciso XXXV do Artigo 5ª da Constituição Federal : Art.5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: ………………………………. XXXV a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. 26. Para tanto, este CARF emitiu a Súmula nº 1 Súmula CARF nº 1 Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Vinculante, conforme Portaria nº 227, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Fl. 976DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 963 27 27. Portanto, em razão da matéria em julgamento por este CARF encontrarse contida na matéria submetida á análise do Poder Judiciário, é de se aplicar ao caso concreto em exame a Súmula CARF nº 1. 28. Quanto aos efeitos da concomitância, deixase de conhecer as alegações relativas á matéria objeto das ações judiciais, declarandose formalmente a definitividade do lançamento no âmbito administrativo, cabendo á Unidade Administrativa de origem (DEMAC/SP) a verificação do atual andamento das ações judiciais e os efeitos das suas decisões sobre a matéria em questão, para seu cumprimento.´ QUESTÕES CONSTITUCIONAIS 29. A recorrente alega questões constitucionais, nos seguintes itens do recurso voluntário : III.2.2 OS LIMITES DE ATUAÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO REFERIBILIDADE E INTERVENÇÃO TEMPORÁRIA, III.2.3 ASPECTO FORMAL DA CIDE INSTITUIÇÃO POR LEI COMPLEMENTAR, III.2.4 – NATUREZA DA CIDE – IMPOSTO (a) ausência de referibilidade; b) a necessidade de lei complementar; c) fato gerador e base de cálculo idênticos ao do imposto de renda na fonte (IRF) – vedação á tributação e bis in idem; d) conflito material com a Emenda Constitucional nº 33/01; e) impossibilidade de vinculação de receita a fundo (artigo 167, inciso IV, da CF/88), III.2.5 OFENSA ÁS NORMAS DO ACORDO GERAL SOBRE O COMERCIO DE SERVIÇOS (GATS).(constatase que a exigência da CIDE, na hipótese em discussão, constitui ainda um óbice ao comercio de serviços internacional, na medida em que trata discriminatoriamente os serviços e prestadores de serviços estrangeiros, violando notadamente o artigo XVII do GATS, em contrariedade ao artigo 5º, parágrafo 2°, da Constituição Federal de 1988, e ao artigo 98 do CTN.) 30. Não cabe a esse colegiado manifestarse a respeito de tais argumentos, portanto, aplicase ao caso a Súmula nº 2 deste CARF : SÚMULA CARF nº2 : O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DA EXIGÊNCIA DA CIDE NO AUTO DE INFRAÇÃO LEGALIDADE 31. É lastreada em fundamento legal a exigência da CIDE segundo os ditames do art. 2º da Lei nº 10.168, de 29/12/2000 (DOU 30/12/200 extra), com a redação que lhe foi dada pela Lei nº 10.332, de 19/12/2001 (DOU de 20/12/2001), fundamentos utilizados para autuação pela autoridade fiscal. 32. Para maior comodidade transcrevese a seguir: “Art. 2º Para fins de atendimento ao Programa de que trata o artigo anterior, fica instituída contribuição de intervenção no domínio econômico, devida pela pessoa jurídica detentora de licença de uso ou adquirente de conhecimentos tecnológicos, bem como aquela signatária de contratos que impliquem Fl. 977DF CARF MF 28 transferência de tecnologia, firmados com residentes ou domiciliados no exterior. § 1º Consideramse, para fins desta Lei, contratos de transferência de tecnologia os relativos à exploração de patentes ou de uso de marcas e os de fornecimento de tecnologia e prestação de assistência técnica. § 1oA. A contribuição de que trata este artigo não incide sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programa de computador, salvo quando envolverem a transferência da correspondente tecnologia.(Incluído pela Lei nº 11.452, de 2007) § 2º A partir de 1º de janeiro de 2002, a contribuição de que trata o caput deste artigo passa a ser devida também pelas pessoas jurídicas signatárias de contratos que tenham por objeto serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes a serem prestados por residentes ou domiciliados no exterior, bem assim pelas pessoas jurídicas que pagarem, creditarem, entregarem, empregarem ou remeterem royalties, a qualquer título, a beneficiários residentes ou domiciliados no exterior. (introduzido pela Lei nº 10.332/2001) § 3º A contribuição incidirá sobre os valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de remuneração decorrente das obrigações indicadas no caput e no § 2º deste artigo. (redação dada pela Lei nº 10.332/2001) § 4º A alíquota da contribuição será de 10% (dez por cento). (redação dada pela Lei nº 10.332/2001) § 5º O pagamento da contribuição será efetuado até o último dia útil da quinzena subsequente ao mês de ocorrência do fato gerador.” (incluído pela Lei nº 10.332/2001) Conforme se pode verificar no dispositivo legal acima, a redação original da Lei nº 10.168/2000 realmente previa a incidência da contribuição apenas sobre pagamentos de obrigações estipuladas em contratos que envolvessem a transferência de tecnologia (§ 1º). 33 Entretanto, com o advento da Lei nº 10.332/2001, foi incluído o § 2º que ampliou a hipótese de incidência para outros pagamentos efetuados em contratos que não necessariamente envolvam a transferência de tecnologia, como os contratos de assistência administrativa e os royalties remetidos "a qualquer título". 34. Na regulamentação, o art. 10 do Decreto nº 4.195/2002 estabeleceu o seguinte: Art. 10. A contribuição de que trata o art. 2o da Lei no 10.168, de 2000, incidirá sobre as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de royalties ou remuneração, previstos nos respectivos contratos, que tenham por objeto: I – fornecimento de tecnologia; II – prestação de assistência técnica: a) serviços de assistência técnica; b) serviços técnicos especializados; III – serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes; IV – cessão e licença de uso de marcas; e V – cessão e licença de exploração de patentes. 35. A redação do § 2º do texto legal e a redação do art. 10 do Decreto nº 4.195/2002 (Regulamento), autorizam a interpretação oficial da Administração Tributária no sentido de que a hipótese de incidência da CIDE REMESSAS/TECNOLOGIA abrange pagamentos relativos a contratos que não envolvam a transferência de tecnologia, isso porque no art. 10 do Fl. 978DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 964 29 Regulamento o Poder Executivo discriminou cinco categorias de contratos, sendo que os contratos incluídos nos incisos III, IV e V não envolvem a obrigatoriedade de transferência de tecnologia. 36. Reforça este entendimento a inclusão do § 1ºA ao artigo 2º da Lei nº 10.168/2000, pela Lei nº 11.452/2007, posteriormente ao advento do Regulamento, por meio do qual o legislador ressalvou da incidência a remuneração pela licença ou direitos de comercialização e uso de programas de computador, quando o contrato não envolva a transferência de tecnologia. 37. Em outras palavras, até a inclusão do referido § 1ºA, qualquer remuneração relativa a contrato relativo a licença ou direito de comercialização de software deveria ser tributado pela CIDE, situação que só se alterou com a ressalva introduzida pelo § 1ºA. 38. Aplicase a este fato a Súmula CARF nº 127 :/ Súmula CARF nº 127 A incidência da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) na contratação de serviços técnicos prestados por residentes ou domiciliados no exterior prescinde da ocorrência de transferência de tecnologia. 39. No que concerne à caracterização de serviço técnico especializado, consideramos que o serviço de consultoria e assistência técnica, prestado pela SAP AG (empresa alemã) à recorrente, preenche os requisitos da definição de serviço técnico estabelecido no art. 17, II, "a" da IN 252/2002, expedida pela Secretaria da Receita Federal: (...) II – considerase a) serviço técnico o trabalho, obra ou empreendimento cuja execução dependa de conhecimentos técnicos especializados, prestados por profissionais liberais ou de artes e ofícios; 40. A questão da inclusão do IRRF na base de cálculo da CIDE REMESSAS/TECNOLOGIA também entendo estar abarcada na questão da discussão interposta na esfera judicial, quanto á constitucionalidade do tributo, pois ai está contida a base de cálculo, em todas as suas nuances, cabendo esta decisão ao poder judiciário, como já aventado anteriormente neste voto.. DA EXIGÊNCIA DOS JUROS DE MORA 41. Como informa o Ilustre Julgador da DRJ/RIO DE JANEIRO I : A fiscalizada efetuou depósitos judiciais referentes a CIDE no período fiscalizado (fls. 159 a 169), porém, sem informálos em DCTF. A base de cálculo da CIDE é o valor efetivamente pago, creditado, entregue, empregado ou remetido á residente ou domiciliado no exterior, ainda que a fonte pagadora brasileira tenha assumido o ônus do Imposto de Renda Retido na Fonte, o que não ocorreu, uma vez que a fiscalizada efetuou as retenções e remeteu o valor líquido, tendo a empresa estrangeira suportado o encargo do IRRF . Fl. 979DF CARF MF 30 42. Constam cópias de guias de depósitos judiciais ás fls. 319/ 362 dos autos digitais. 43. Consta, também dos autos (fls. 803 dos autos digitais), o Ofício PRFN3ª Região SP/DIDE2/UVIP/FAL nº 2/2012, datado de 13/09/2012, da Sra. Procuradora da Fazenda Nacional FLAVIA DE ARRUDA LEME, dirigido ao Sr. Delegado da Receita Federal do Brasil em São Paulo/SP, onde, entre outras informações a respeito do Mandado de Segurança nº 2002.61.00.0206864, destacamos : Para as providências pertinentes, encaminhamos a anexa cópia integral dos autos do mandado de segurança em epigrafe, bem como da NOTA JUSTIFICATIVA/PRFN3/DIDE2 N2 58/2012 (controle 14.683), para ciência da decisão que deferiu o levantamento de parte dos depósitos judiciais informados nos autos. Tratase de autos de Mandado de Segurança em que se questiona a incidência da CIDE instituída pelo artigo 2° da Lei 10.168/20001 , com a redação dada pela Lei 10.332/2001, quando a licença de uso/comercialização/distribuição de software se dá sem transferência de tecnologia. Defende, também, o contribuinte, a inconstitucionalidade da referida CIDE. Houve concessão de liminar suspendendo a exigibilidade da CIDE em questão,em primeira instância. No entanto, foi deferido efeito suspensivo ao agravo de instrumento da Fazenda Nacional, suspendendo, assim, os efeitos da liminar. Por tal motivo, o contribuinte solicitou autorização judicial para efetuar depósitos a fim de suspender a exigibilidade da CIDE questionada. Informa, o impetrante, que os depósitos foram realizados até 31/01/2007, quando o contribuinte deixou de fazêlo por força da Lei 11.452/07. (….) Após interpor recurso de apelação, o contribuinte esclareceu que descontinuaria a realização de depósitos, tendose em vista que a Lei 11.452/07 isentou, da referida CIDE, as operações objeto dos autos, ao acrescentar o § 1°A ao artigo 2° da Lei 10.168/2000. Tendose em vista, ainda, que o artigo 21 da Lei 11.452/07 estabeleceu que o comando legal acima transcrito produziria efeitos a partir de 1.2 de janeiro de 2006, o contribuinte requereu o levantamento dos depósitos realizados entre 10/01/2006 até 31/1/2007 (fl. 559/562). Referido pedido foi indeferido pelo Relator, desafiando a interposição de Agravo Regimental. O agravo regimental foi julgado em conjunto ao recurso de apelação do contribuinte, sendo que: A apelação do contribuinte foi improvida, por não haver inconstitucionalidade na lei questionada, bem como ser irrelevante a ocorrência de transferência de tecnologia para a cobrança da CIDE sobre a licença de uso e comercialização de software, sob a égide do artigo 2° da Lei 10.168/2000, com a redação dada pela Lei 10.332/2001; e O agravo regimental do contribuinte foi provido, para deferir o levantamento dos depósitos realizados sob a égide da Lei 11.452/2007 (1°/01/2006 até 31/1/2007), tendose em vista que "a partir de janeiro de 2006, a referida contribuição não incidiria sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programas de computador, exceto quando envolverem a transferência da respectiva tecnologia." (F1.665) Assim, o contribuinte interpôs recurso especial e recurso extraordinário quanto ao improvimento do recurso de apelação e a Fazenda Nacional Fl. 980DF CARF MF Processo nº 16643.000115/201059 Acórdão n.º 3301006.128 S3C3T1 Fl. 965 31 interpôs recurso especial contra o deferimento do levantamento do depósito, formulando, ainda, pedido de atribuição de efeito suspensivo ao recurso. No recurso especial da Fazenda Nacional, interposto pela alínea "a" do permissivo constitucional, alegouse ofensa ao artigo 1°, §3°, da Lei 9.703/98, defendendose que os depósitos judiciais somente podem ser levantados após o trânsito em julgado. O recurso especial da Fazenda Nacional restou inadmitido, dentre outros motivos, por não atacar o fundamento da decisão recorrida, qual seja, a não incidência da CIDE sobre as operações objeto dos autos (a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programas de computador, sem a transferência da respectiva tecnologia) a partir de 1º/1/2006. Tendose em vista que tal fundamento não restou enfrentado pelo recurso especial, houve aprovação da Nota Justificativa, anexa, de não interposição de recurso (agravo de despacho denegatório de recurso especial), aprovada pela D. Chefia de Defesa da Segunda Instancia e pela D. Chefia de Defesa da PRFN3. Assim, quanto ao deferimento do levantamento dos depósitos referentes aos fatos geradores corridos a partir de 1°/1/2006 operouse a preclusão. 44. Não consta nos autos, informação de que tais depósitos tenham sido efetivados em montante integral do valor discutido judicialmente, além da informação da D. PRFN de que a impetrante, no caso aqui a recorrente, interrompeu os depósitos judiciais por entender que, a partir de 01/02/2007, em função de as operações objeto dos autos teriam sido isentadas por lei. 45. Assim, quanto aos juros de mora, aplicase ao caso a Súmula nº 5 deste CARF : Súmula CARF nº 5 São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). A TAXA SELIC 46. Correta a aplicação da Taxa SELIC, por expressa determinação legal contida no artigo 13 da Lei nº 9.065/1995. 47. No âmbito deste CARF aplicase a Súmula nº 4 : Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Conclusão 48. Por todo o exposto, CONHEÇO parcialmente o recurso voluntário, na parte não concomitante com as ações judiciais,e , na parte conhecida, NEGO PROVIMENTO, para manter o lançamento e o Acórdão DRJ/RIO DE JANEIRO em sua integralidade. Fl. 981DF CARF MF 32 É o meu voto. assinado digitalmente Ari Vendramini Relator Fl. 982DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.903874/2013-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 19 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Jul 26 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3402-002.149
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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decisao_txt : Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
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(assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra (Presidente). Relatório Trata de Recurso Voluntário contra decisão da DRJ, que considerou improcedente a Manifestação de Inconformidade contra despacho decisório, nos seguintes termos: (...) DIREITO CREDITÓRIO. NECESSIDADE DE PROVA. CERTEZA E LIQUIDEZ. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 10 80 .9 03 87 4/ 20 13 -1 7 Fl. 598DF CARF MF Processo nº 11080.903874/201317 Resolução nº 3402002.149 S3C4T2 Fl. 3 2 Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da existência do crédito declarado, para possibilitar a aferição de sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CRÉDITO. NÃO COMPROVAÇÃO. EFEITO. A restituição e/ou ressarcimento de créditos tributários está condicionado à comprovação da sua respectiva certeza e liquidez. A falta de comprovação do crédito objeto de Pedido de Ressarcimento, impossibilita o seu deferimento. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Intimada desta decisão. a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, pelo qual pede a reforma da decisão pelas seguintes razões: i) Preliminarmente: Nulidade da decisão recorrida por ausência de fundamentação, desvio de finalidade, prejuízo ao Contraditório, Ampla Defesa e ao Devido Processo Legal; ii) No mérito, o cerne da questão se detém à análise da possibilidade de aproveitamento de créditos decorrentes de aquisições de produtos (soja) adquiridos pela Contribuinte e equivocadamente destacados por alguns de seus fornecedores como passíveis de aproveitamento da suspensão prevista no artigo 9º, III, da Lei nº 10.925/2004, visto que a empresa Recorrente utiliza tais produtos para revenda, o que impede a fruição da regra de suspensão pelo fornecedor segundo a legislação de regência; iii) Não exerce atividade agroindustrial ou utilizou os produtos adquiridos como insumo na fabricação de quaisquer produtos; iv) Tem sido aplicada equivocadamente a norma suspensiva; v) Aplicase o Princípio da Verdade Material; vi) Cabe o retorno dos autos à origem para a realização de diligência. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3402002.137, de 19 de junho de 2019, proferido no julgamento do Processo nº 11080.903871/201383. Portanto, transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 3402002.137): "2. Da necessidade de conversão do julgamento em diligência Fl. 599DF CARF MF Processo nº 11080.903874/201317 Resolução nº 3402002.149 S3C4T2 Fl. 4 3 A empresa acima identificada transmitiu o PER/DCOMP, pelo qual solicitou o ressarcimento de créditos vinculados às receitas de exportação com base no disposto no art. 5º da Lei nº 10.637/2002 e no art. 6º da Lei nº 10.833/2003, relativo a PIS/Cofins. A Delegacia da Receita Federal do Brasil em Porto Alegre emitiu Despacho Decisório Eletrônico reconhecendo parcialmente o direito creditório. Não foram admitidos créditos da Contribuição referente às aquisições de mercadorias destinadas à revenda, efetuadas pelos fornecedores com alíquota zero, com o fim específico de exportação ou com suspensão nos termos do art. 9º da Lei 10.925/2004 e art. 2º, § 2º da IN 660/2006. Como relatado, a Contribuinte apresenta os seguintes argumentos de defesa: Foram equivocadamente destacados por alguns de seus fornecedores como passíveis de aproveitamento da suspensão prevista no artigo 9º, III, da Lei nº 10.925/2004, visto que a empresa efetivamente utiliza tais produtos para revenda, o que impede a fruição da regra de suspensão pelo fornecedor segundo a legislação de regência; Não exerce atividade agroindustrial e não utiliza ou utilizou os produtos adquiridos como insumo na fabricação de quaisquer produtos; Os créditos solicitados decorrem, principalmente, das aquisições de soja de pessoas jurídicas para revenda (mercado interno e exportação), sendo que tais aquisições seriam parte das operações que realiza e que decorreriam da disponibilidade de grãos durante a safra e da sua capacidade de armazenagem, uma vez que sua estrutura não atende a demanda existente, surgindo a necessidade de operações de venda imediata do produto por incapacidade de escoamento (interno e externo). A Lei n.º 10.925/2004 dispõe sobre a suspensão das contribuições para o PIS e a COFINS, condicionandoa ao processo industrial, como prevê o artigo 9º, abaixo colacionado: Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: I de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou Fl. 600DF CARF MF Processo nº 11080.903874/201317 Resolução nº 3402002.149 S3C4T2 Fl. 5 4 cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I aplicase somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6º e 7º do art. 8º desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicarseá nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) (sem destaque no texto original) Observo que a improcedência do pedido pela DRJ de origem teve por principal motivação a ausência de provas da liquidez e certeza do crédito invocado. O Ilustre julgador de primeira instância consignou que em nenhum momento a Contribuinte comprovou suas alegações, tampouco acostou qualquer documentação para demonstrar que as operações glosadas de fato não teriam ocorrido com suspensão. No entanto, o Recurso Voluntário foi instruído com Notas fiscais de Entrada e Saída, reiterando a Recorrente que as operações se referem à revenda de mercadorias adquiridas de terceiros. Da análise de tais documentos, de fato constam as operações classificadas pelos seguintes códigos fiscais: CFOP 5102: Classificamse neste código as vendas de mercadorias adquiridas ou recebidas de terceiros para industrialização ou comercialização, que não tenham sido objeto de qualquer processo industrial no estabelecimento. Também serão classificadas neste código as vendas de mercadorias por estabelecimento comercial de cooperativa destinadas a seus cooperados ou estabelecimento de outra cooperativa. CFOP 5117: Classificamse neste código as vendas de mercadorias adquiridas ou recebidas de terceiros, que não tenham sido objeto de qualquer processo industrial no estabelecimento, quando da saída real da mercadoria, cujo faturamento tenha sido classificado no código "5.922 – Lançamento efetuado a título de simples faturamento decorrente de venda para entrega futura". CFOP 5922: Classificamse neste código os registros efetuados a título de simples faturamento decorrente de venda para entrega futura. Diante de tais documentos anexados com o Recurso Voluntário, entendo que há dúvida razoável no presente processo acerca do direito creditório, imperando a necessária busca pela verdade material para possibilitar a correta apreciação das provas e averiguação do direito invocado, nos termos permitidos pelos artigos 18 e 29 do Decreto nº 70.235/72 cumulados com artigos 35 a 37 e 63 do Decreto nº 7.574/2011. Fl. 601DF CARF MF Processo nº 11080.903874/201317 Resolução nº 3402002.149 S3C4T2 Fl. 6 5 Com isso, fazse necessário verificar se as mercadorias adquiridas dos fornecedores não foram objeto de recolhimento das contribuições, bem como comprovar a efetiva atividade exercida pela Recorrente, de forma a avaliar o cumprimento dos requisitos da IN SRF 660/2006. Para tanto, proponho a conversão do julgamento em diligência para que a equipe de fiscalização da Unidade de Origem proceda às seguintes providências: a) Diligencie junto ao estabelecimento da empresa, de forma a constatar a atividade efetivamente exercida, especialmente se a Recorrente exerce atividade agroindustrial, bem como se as mercadorias adquiridas poderiam ser classificadas como insumo na fabricação de produtos, ou se as atividades são apenas de revenda de mercadorias; b) Analise os documentos apresentadas pela Recorrente em Recurso Voluntário, apurando eventual direito creditório invocado; c) Caso necessário, intimar a Contribuinte para prestar esclarecimentos e documentos adicionais que se fizerem necessários; d) Confirme se houve recolhimento de PIS e COFINS nas operações vinculadas às Notas Fiscais objeto das glosas efetuadas; e) Elaborar Relatório Conclusivo sobre as apurações e resultado da diligência; f) Intimar a Contribuinte para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias. Cumprida a diligência acima, com ou sem resposta da parte, retornem os autos a este Colegiado para julgamento. É a proposta de resolução. Importante frisar que as situações fática e jurídica presentes no processo paradigma encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado decidiu por determinar a conversão do julgamento em diligência para que a equipe de fiscalização da Unidade de Origem proceda às seguintes providências: a) Diligencie junto ao estabelecimento da empresa, de forma a constatar a atividade efetivamente exercida, especialmente se a Recorrente exerce atividade agroindustrial, Fl. 602DF CARF MF Processo nº 11080.903874/201317 Resolução nº 3402002.149 S3C4T2 Fl. 7 6 bem como se as mercadorias adquiridas poderiam ser classificadas como insumo na fabricação de produtos, ou se as atividades são apenas de revenda de mercadorias; b) Analise os documentos apresentadas pela Recorrente em Recurso Voluntário, apurando eventual direito creditório invocado; c) Caso necessário, intimar a Contribuinte para prestar esclarecimentos e documentos adicionais que se fizerem necessários; d) Confirme se houve recolhimento de PIS e COFINS nas operações vinculadas às Notas Fiscais objeto das glosas efetuadas; e) Elaborar Relatório Conclusivo sobre as apurações e resultado da diligência; f) Intimar a Contribuinte para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias. Cumprida a diligência acima, com ou sem resposta da parte, retornem os autos a este Colegiado para julgamento. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Fl. 603DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11634.720671/2016-26
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 14 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jul 08 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2011, 2012
LUCRO REAL. DESPESAS E CUSTOS. CONDIÇÕES PARA DEDUÇÃO.
Custos e despesas dedutíveis são aqueles necessários à atividade da pessoa jurídica, relativos à efetiva contraprestação de algo recebido, corroborados por documentação própria e devidamente registrados na contabilidade.
DESPESAS COM PESQUISAS. LEGITIMAS. GLOSA IMPROCEDENTE.
Devidamente comprovado que a despesa incorrida com pesquisa de novos produtos é normal, usual e necessária às atividades da pessoa jurídica, restabelece-se a sua dedução.
PRESUNÇÃO LEGAL DE DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS (DDL). NEGÓCIO EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. DEDUÇÃO NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. VEDAÇÃO.
A comprovação da realização de negócio em condições de favorecimento entre o contribuinte e pessoa jurídica na qual sua controladora tenha interesse direto ou indireto autoriza a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DDL), não sendo dedutíveis na apuração do lucro real as importâncias pagas ou creditadas que caracterizam as condições de favorecimento.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
A decisão relativa ao auto de infração matriz deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração conexo, decorrente ou reflexo, uma vez que ambos os lançamentos, matriz e reflexo, estão apoiados nos mesmos elementos de convicção.
Numero da decisão: 1401-003.402
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida. No mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar tão somente a glosa de despesas relativas à empresa Vox Populi, vencidos os Conselheiros Abel Nunes de Oliveira Neto, Claudio de Andrade Camerano (relator) e Luiz Augusto de Souza Gonçalves, que negaram provimento ao recurso in totum; igualmente foram vencidos os Conselheiros Daniel Ribeiro Silva e Eduardo Morgado Rodrigues que também deram provimento ao recurso para o afastamento da glosa das despesas com o BTG Pactual. Votou pelas conclusões em relação aos demais pontos do recurso o Conselheiro Daniel Ribeiro Silva. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Cláudio de Andrade Camerano - Relator
(assinado digitalmente)
Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin Redatora designada.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Carlos André Soares Nogueira, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: CLAUDIO DE ANDRADE CAMERANO
1.0 = *:*
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2011, 2012 LUCRO REAL. DESPESAS E CUSTOS. CONDIÇÕES PARA DEDUÇÃO. Custos e despesas dedutíveis são aqueles necessários à atividade da pessoa jurídica, relativos à efetiva contraprestação de algo recebido, corroborados por documentação própria e devidamente registrados na contabilidade. DESPESAS COM PESQUISAS. LEGITIMAS. GLOSA IMPROCEDENTE. Devidamente comprovado que a despesa incorrida com pesquisa de novos produtos é normal, usual e necessária às atividades da pessoa jurídica, restabelece-se a sua dedução. PRESUNÇÃO LEGAL DE DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS (DDL). NEGÓCIO EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. DEDUÇÃO NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. VEDAÇÃO. A comprovação da realização de negócio em condições de favorecimento entre o contribuinte e pessoa jurídica na qual sua controladora tenha interesse direto ou indireto autoriza a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DDL), não sendo dedutíveis na apuração do lucro real as importâncias pagas ou creditadas que caracterizam as condições de favorecimento. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão relativa ao auto de infração matriz deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração conexo, decorrente ou reflexo, uma vez que ambos os lançamentos, matriz e reflexo, estão apoiados nos mesmos elementos de convicção.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida. No mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar tão somente a glosa de despesas relativas à empresa Vox Populi, vencidos os Conselheiros Abel Nunes de Oliveira Neto, Claudio de Andrade Camerano (relator) e Luiz Augusto de Souza Gonçalves, que negaram provimento ao recurso in totum; igualmente foram vencidos os Conselheiros Daniel Ribeiro Silva e Eduardo Morgado Rodrigues que também deram provimento ao recurso para o afastamento da glosa das despesas com o BTG Pactual. Votou pelas conclusões em relação aos demais pontos do recurso o Conselheiro Daniel Ribeiro Silva. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano - Relator (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin Redatora designada. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Carlos André Soares Nogueira, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues.
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DESPESAS E CUSTOS. CONDIÇÕES PARA DEDUÇÃO. Custos e despesas dedutíveis são aqueles necessários à atividade da pessoa jurídica, relativos à efetiva contraprestação de algo recebido, corroborados por documentação própria e devidamente registrados na contabilidade. DESPESAS COM PESQUISAS. LEGITIMAS. GLOSA IMPROCEDENTE. Devidamente comprovado que a despesa incorrida com pesquisa de novos produtos é normal, usual e necessária às atividades da pessoa jurídica, restabelece-se a sua dedução. PRESUNÇÃO LEGAL DE DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS (DDL). NEGÓCIO EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. DEDUÇÃO NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. VEDAÇÃO. A comprovação da realização de negócio em condições de favorecimento entre o contribuinte e pessoa jurídica na qual sua controladora tenha interesse direto ou indireto autoriza a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DDL), não sendo dedutíveis na apuração do lucro real as importâncias pagas ou creditadas que caracterizam as condições de favorecimento. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão relativa ao auto de infração matriz deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração conexo, decorrente ou reflexo, uma vez que ambos os lançamentos, matriz e reflexo, estão apoiados nos mesmos elementos de convicção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida. No mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar tão somente a glosa de despesas relativas à empresa Vox Populi, vencidos os Conselheiros Abel Nunes de Oliveira Neto, Claudio de Andrade Camerano (relator) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 63 4. 72 06 71 /2 01 6- 26 Fl. 42563DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 e Luiz Augusto de Souza Gonçalves, que negaram provimento ao recurso in totum; igualmente foram vencidos os Conselheiros Daniel Ribeiro Silva e Eduardo Morgado Rodrigues que também deram provimento ao recurso para o afastamento da glosa das despesas com o BTG Pactual. Votou pelas conclusões em relação aos demais pontos do recurso o Conselheiro Daniel Ribeiro Silva. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano - Relator (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin Redatora designada. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Carlos André Soares Nogueira, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Trata o presente processo de Recurso Voluntário ao Acórdão de nº 11-55.859, proferido pela 4ª Turma da DRJ/REC, em 28/04/2017, que julgou, por maioria de votos, improcedente a impugnação apresentada pela Contribuinte. O Termo de Verificação Fiscal contém 180 páginas, com minuciosa descrição dos procedimentos fiscais, sendo realizada diligências em várias empresas, com apresentação de dezenas de planilhas e extensas descrições das situações que conduziram a autoridade autuante em seu trabalho. Desnecessário seria, aqui, reproduzir inteiro teor deste relatório fiscal, até porque, como adiante irá se demonstrar, a questão central do litígio posto resume-se, basicamente, a uma questão de direito. De modo que a seguir far-se-á um resumo da autuação, centralizando-se naquilo que foi apresentado (contestado) no recurso voluntário, cujas argumentações repetem, basicamente, aquelas apresentadas junto à instância de piso. Na eventualidade de algum novo posicionamento que dele puder influenciar na lide posta, será oportunamente objeto de comentário neste Voto. DOS AUTOS DE INFRAÇÃO Fl. 42564DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 O presente processo trata de Autos de Infração de IRPJ – imposto de renda pessoa jurídica (fls. 41.090), apurado segundo o regime de tributação pelo lucro real anual nos anos-calendário 2011 e 2012, e, como tributação reflexa, de CSLL – contribuição social sobre o lucro líquido (fls. 41.102), com incidência de juros de mora e imposição da multa de ofício de 75% prevista no art. 44, I, da Lei 9.430/1996. A infração foi indicada no Auto de Infração principal (IRPJ) como: "CUSTO DOS BENS VENDIDOS E/OU SERVIÇOS PRESTADOS INFRAÇÃO: COMPROVAÇÃO INIDÔNEA DE CUSTOS Contabilização de custos com base em documentos inidôneos, conforme relatório fiscal em anexo. Fato Gerador Valor Apurado Multa (%) 31/01/2011 R$ 2.113.674,57 75,00 [...] 31/12/2012 R$ 1.530.984,77 75,00 Enquadramento Legal Fatos geradores ocorridos entre 01/01/2011 e 31/12/2012: art. 3º da Lei nº 9.249/95. Arts. 217, 247, 248, 249, inciso I, 251, 256, 277, 278, 289 e 290 do RIR/99 DO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL No item 1. Do início do procedimento fiscal e dos atos e termos lavrados, a autoridade fiscal informa que o ano calendário de 2010 também foi objeto de lançamento, mas que consta em outro processo, além de discorrer sobre as intimações feitas à fiscalizada e também sobre situações com outras empresas, notadamente transferências bancárias e/ou adiantamentos à empresa RIO TIBAGI SERVIÇOS DE OPERAÇÕES E APOIO RODOVIÁRIO LTDA., além de citações à empresa TPI TRIUNFO PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTOS S/A, esta controladora da Recorrente e da RIO TIBAGI. Que, por meio de intimação fiscal, de 24/02/2015, foram entregues fotocópias de 10 (dez) contratos de prestação de serviços firmados no ano de 2011 com a empresa RIO TIBAGI, sendo solicitado posteriormente à Recorrente a "...comprovação de que os serviços que lhe foram prestados pela empresa RIO TIBAGI o foram em condições comutativas, dentro dos valores e condições que seriam executados por qualquer outra pessoa jurídica." Transcrevo excertos do TVF: Com o encerramento parcial do procedimento fiscal em 22/12/2015, com referência ao ano-calendário 2010, foram emitidas outras intimações fiscais ao longo do ano-calendário 2016, a serem aqui analisadas à medida em que os Fl. 42565DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 fatos suscitados nas mesmas requeiram nossa atenção. Destacaremos, por ora, apenas a intimação lavrada em 29/11/2016 em que requeremos esclarecimentos acerca da prestação de serviços contratada com a RIO TIBAGI, apontando-lhe os indícios de irregularidades detectados em alguns dos fornecedores de materiais e serviços, indagando se sua contratação deu-se em condições comutativas (artigo 464, §4º, RIR/99), e requerendo sua manifestação sobre as informações prestadas pelo BANCO BTG, com referência à despesa que contabilizou na rubrica Serviços de consultoria (312304022). Em reposta, arguiu sua isenção acerca das despesas incorridas pela RIO TIBAGI na execução dos contratos mantidos entre as duas empresas, cuja contratação deu-se no estrito interesse de suas atividades empresariais. Acerca dos fornecedores contratados pela RIO TIBAGI na execução dos serviços, tem a esclarecer somente que são de exclusiva responsabilidade da mesma, e, embora estejam ambas sob o mesmo controle societário, são possuidoras de administrações independentes. No que tange à despesa contratada com o Banco BTG Pactual, afirmou que se trata de uma relação de direito privado, em razão do que “confirma a questão apresentada’. No item 2. Da prestação de serviços contratada com terceiros - grupos contábeis 3122/Conservação de rodovias e 3125/Serviços de operação rodovia, a autoridade fiscal, além de outras informações, atestou que: As notas fiscais relativas à prestação de serviços realizados pela empresa RIO TIBAGI foram obtidas com essa mesma empresa, em maio de 2015, no curso da diligência fiscal então em curso (TDPF 0910200.2015.00514-4). Nos três anos-calendário alcançados pelo procedimento fiscal, a numeração é sequencial, sem interrupção, o que possibilita concluir que presta serviços exclusivamente à ECONORTE. No item 2.1 Dos procedimentos fiscais em face da empresa Rio Tibagi Serviços de Operações e Apoio Rodoviário Ltda. e de seus registros contábeis, a autoridade fiscal informa que esta empresa foi também fiscalizada e que apresentava DIPJ pelas regras do Lucro Presumido. Ainda, que sua receita operacional decorre unicamente da prestação de serviços à Recorrente (ECONORTE). Em exame dos documentos de prestação de serviços contratada pela RIO TIBAGI com a empresa POWER MARKETING, o relato fiscal: No que tange à prestação de serviços contratada com a empresa POWER MARKETING, consoante contrato que juntou na oportunidade, seu objeto consistiria na “assessoria/consultoria especializada na elaboração de procedimentos de rotina e na tomada de decisões que possam impactar sua imagem perante clientes, funcionários e demais pessoas direta ou indiretamente afetadas pelas suas atividades”. [...] Reiteramos, em 11/11/2016, a solicitação das informações relativas aos serviços executados pela empresa POWER MARKETING, e requeremos a entrega de seu último balanço patrimonial, que apontasse a destinação dada aos recursos Fl. 42566DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 financeiros sacados por inúmeros cheques, contabilizados a débito da conta Caixa, e a identificação dos contratos de prestação de serviços firmados com a ECONORTE em cuja execução encontra-se inserido o serviço prestado pela POWER MARKETING. Atendendo à solicitação apresentou os documentos e informações solicitadas, mas limitou-se, no que diz respeito à empresa POWER MARKETING, a alegar que, dado o lapso temporal, não localizara os documentos comprobatórios indicados na intimação fiscal, afiançando, todavia, que a principal medida adotada com a execução desses serviços foi a alteração de seu nome empresarial de OSR para RIO TIBAGI. Não apontou em qual dos contratos firmados com a ECONORTE estaria englobada a despesa contratada com a empresa POWER MARKETING, concluindo com a indicação de diversas notas fiscais que teriam sido liquidadas por meio dos cheques contabilizados na forma citada no ato fiscal. [...] 2.1.2 Da quebra do sigilo bancário da empresa RIO TIBAGI e das informações obtidas: A representação fiscal encartada no processo administrativo fiscal 11634.720110/2016-27, de 28/03/2016, foi formulada visando à consecução da quebra do sigilo bancário da empresa RIO TIBAGI, por meio da propositura de medida judicial de natureza cível. O processo tramitou perante a Primeira Vara da Justiça Federal de Londrina, e culminou com a sentença prolatada em 25/10/2016, por meio da qual aquele juízo acatou o pedido formulado pela Procuradoria da Fazenda Nacional em Londrina, julgando extinto o processo com resolução do mérito (artigo 487, inciso III, alínea “a”, CPC/2015), e concedeu a quebra do sigilo bancário na forma requerida. Ao oferecer sua impugnação ao feito, a ré concordou com o pedido e apresentou seus extratos bancários. Os documentos bancários apresentados pelo banco HSBC, por força dessa decisão judicial, em atendimento aos ofícios expedidos pelo juízo, consistiram na planilha demonstrativa da origem e destinação dos recursos financeiros, na forma da Carta Circular Bacen 3.454/2010. De posse desses demonstrativos, logramos verificar que parte substancial dos pagamentos realizados pela RIO TIBAGI em favor de alguns dos fornecedores de bens e serviços diligenciados, tiveram, na verdade, outra destinação, já que foram creditados em contas bancárias de titularidade de terceiros. No transcorrer do presente documento, discorreremos sobre essas operações à medida em que as partes intervenientes sejam abordadas. No item 3. Da prestação de serviços contratada com a empresa Rio Tibagi Serviços de Operações e Apoio Rodoviário Ltda., autoridade fiscal informa que a Recorrente em sua DIPJ dos anos calendário de 2011 e 2012, declarou, em Custo dos bens e serviços vendidos, as importâncias de R$ 47.927.992,48 e R$ 41.598.586,33, respectivamente, aí incluído os registros à empresa RIO TIBAGI. Transcrevo excertos do Termo Fiscal: Tal valor provém das notas fiscais de serviços que essa prestadora de serviços emitiu em benefício da contratante (Econorte). A empresa ora fiscalizada, em sua manifestação do dia 10/03/2015, quando procurou atender exigência contida Fl. 42567DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 na Intimação Fiscal lavrada em 24/02/2015, procedeu à juntada de cópia de dez contrato de prestação de serviços que firmou a empresa Rio Tibagi Serviços de Operações e Apoio Rodoviário Ltda., vigentes no ano-calendário 2011. Os objetos de cada um desses dez contratos, que se repetem nos instrumentos contratuais confeccionados para vigência em 2012, estão apontados a seguir: 1. Contrato para prestação de SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE ENGENHARIA POR EMPREITADA NA RECOMPOSIÇÃO, RECONSTRUÇÃO E CONSERVAÇÃO DE RODOVIAS; 2. Contrato para prestação de serviços especializados de OPERAÇÃO DE SISTEMAS DE PESAGEM; 3. Contrato para prestação de serviços especializados de OPERAÇÃO E GERENCIAMENTO DAS “CASAS DO MOTORISTA”; 4. Contrato para prestação de serviços especializados de FORNECIMENTO E MANUTENÇÃO DE ÁREA PARA VIVEIRO DE MUDAS; 5. Contrato para prestação de serviços especializados de ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR; 6. Contrato para prestação de serviços especializados de ATENDIMENTO A INCIDENTES (RECOLHIMENTO DE ANIMAIS, CAMINHÃO PIPA E LIMPEZA DE PISTA 7. Contrato para prestação de serviços especializados de APOIO AO CONTROLE DE TRÁFEGO; 8. Contrato para prestação de serviços especializados de SOCORRO MECÂNICO (RESGATE E GUINCHO); 9. Contrato para prestação de serviços especializados de INSPEÇÃO E FISCALIZAÇÃO DE TRÁFEGO; 10. Contrato para prestação de serviços especializados de LIMPEZA E CONSERVAÇÃO. Pode-se assim perceber que, nos dois anos-calendário ainda sob análise, persiste a proporção encontrada em 2010 entre o valor total dos serviços registrados pela ECONORTE em sua escrituração com o montante pago à RIO TIBAGI. Passaremos agora a analisar os pagamentos feitos pela fiscalizada e as despesas reais relacionadas a cada um dos dez contratos listados nesse subitem, transcrevendo as evidências colhidas nas inúmeras diligências encetadas, seja em face de terceiros que concorreram diretamente na prestação de serviços à ECONORTE, mediante a venda de produtos ou serviços, seja em desfavor de outros contribuintes que, embora não tenham efetuado a venda de bens e serviços relacionados à atividade operacional da RIO TIBAGI, beneficiaram-se de recursos financeiros que a mesma desembolsou, como ficará claro ao longo da explanação. Em seguida a autoridade fiscal discorre sobre cada contrato, com apresentação de planilhas indicando as notas fiscais emitidas pela RIO TIBAGI que acobertaram os pagamentos, discorrendo longamente sobre várias situações acerca dos contratos examinados, que deixa-se aqui de relatar os detalhes trazidos, tendo em vista que, tanto na Impugnação quanto no recurso Fl. 42568DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 voluntário, a Recorrente direciona sua argumentação apoiando-se em questões de direito. Eventuais citações a dados dos contratos que necessitarem algum esclarecimento e/ou que possam influenciar na solução da lide serão comentadas no Voto. 3.1 Contrato de atendimento pré-hospitalar: [...] 3.2 Contrato de serviços especializados de conservação, recuperação e manutenção de rodovias: [..] 3.3 Socorro mecânico (resgate e guincho) [...] 3.4 Dos demais contratos [...] Aqui se repete o que já se verificara nos três subitens anteriores, relativos aos contratos de prestação de serviços pré-hospitalar, conservação de rodovias e socorro mecânico (resgate e guincho), em que se percebe que a medida adotada pela ECONORTE, consistente na interposição da empresa interligada RIO TIBAGI para a contratação de serviços de terceiros, foi um meio urdido com a finalidade de elevação dos custos operacionais e, por consequência, da redução do lucro tributável, assunto que será mais bem abordado nos tópicos subsequentes. 3.5 Das demais despesas relativas à prestação de serviços executada pela RIO TIBAGI Foram identificadas despesas incorridas pela RIO TIBAGI e que compuseram o custo da execução de mais de um dos contratos de prestação de serviços contratados com a ECONORTE, como doravante exposto. 3.5.1 Power Marketing Assessoria e Planejamento Ltda.: Pessoa jurídica domiciliada na cidade de Curitiba/Pr, que executou serviços de assessoria empresarial de marketing. Em atendimento à intimação fiscal de 13/11/2015, apresentou o contrato relativo a esses serviços, asseverando que se tratou de “assessoria especializada na tomada de decisões que possam impactar a sua imagem perante clientes, funcionários e demais pessoas direta ou indiretamente afetadas pelas suas atividades”. O contrato que subsidiou a prestação de serviços foi elaborado em julho de 2007, estabelecendo o prazo de vigência por sessenta meses, prorrogável por idêntico período. Sua cláusula primeira estabelece o objeto da prestação de serviços, que deverá ser implementada mediante as seguintes condutas: orientação direita quanto à rotina de procedimentos; representação em processos de negociação perante entidades ligadas à sua área de atuação; elaboração de trabalhos e rotinas de procedimento para subsidiar as ações da contratante na formação de políticas de desenvolvimento de marketing e de imagem, e pesquisa e promoção de intercâmbio de informações perante congêneres. Fl. 42569DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Os valores atinentes a esses serviços estão registrados na rubrica contábil 3310402 (Consultoria), totalizando a importância de R$ 240.000,00 em cada um dos anos-calendário. Verificando-se os lançamentos contábeis, constatamos também que as notas fiscais são de numeração sequencial, ou seja, nesses dois anos-calendário os únicos serviços executados pela presente empresa foram prestados à RIO TIBAGI. Intimada, em sede de diligência fiscal instaurada em 20/09/2016, a pessoa jurídica prestadora dos serviços respondeu que os serviços foram executados pelos sócios da empresa, em sua sede na cidade de Curitiba, e que inexistem relatórios e comprovantes dos custos e materiais incorridos e consumidos na prestação de serviços. Alegou ainda que a empresa estaria inativa, mas que, por ora, não se pretende realizar sua baixa. Da análise de sua escrituração contábil que apresentou, pode se ver que os únicos serviços prestados, nos anos-calendário 2011 e 2012, foram para a RIO TIBAGI, e que as despesas apropriadas dizem respeito aos tributos incidentes sobre a receita e à distribuição de lucros aos sócios no encerramento do período de apuração. A ausência de despesas na escrituração da contratada e a inexistência de qualquer documento que atestasse a prestação dos serviços levaram-nos a indagar, mais uma vez, da empresa RIO TIBAGI acerca dessa despesa, em especial para que comprovasse a materialidade dos serviços prestados, seu local de prestação, e o documento em que se consubstanciou. Em atendimento, mediante manifestação colacionada em 22/11/2016, invocou o longo tempo transcorrido que a impossibilitou de localizar quaisquer outros documentos e comprovantes dos serviços em questão. Afirmou que a prestação de serviços foi realizada em suas próprias dependências, que integrou o custo da prestação de serviços à ECONORTE e que a única medida que tomou com a contratação da empresa POWER MARKETING foi a mudança de seu nome de OSR para RIO TIBAGI. De maior gravidade ainda é a situação com que nos deparamos na situação em tela, em que a RIO TIBAGI, prestadora exclusiva de serviços à ECONORTE, apropriou em sua remuneração por tais préstimos os pagamentos realizados à empresa POWER MARKETING, com os claros contornos de pagamentos sem causa e sem qualquer vínculo com seu objeto social. É cristalino que, se houve alguma prestação de serviços, não o foi para a empresa pagadora, e muito menos nos moldes que procurou apresentar, já que, de concreto, nada existe, tão-somente o pagamento, o contrato e nenhum indício de despesas por parte da prestadora dos serviços que pudesse ao menos sugerir a realização de qualquer esforço físico ou intelectual voltado à consecução do contrato que firmou. 4. Das despesas da ECONORTE com outros fornecedores A auditoria tributária atuou também no levantamento e análise da demais despesas registradas na contabilidade da ECONORTE, carreadas à apuração de seu resultado tributável, destacando, sob a ótica tributária (efetividade, necessidade e pertinência com o objeto social), aquelas que passaremos a abordar. 4.1 Banco BTG Pactual Fl. 42570DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 A empresa ECONORTE contabilizou, em 2011, na rubrica 312304022 (Serviço de consultoria) uma despesa contratada com o Banco BTG Pactual, consoante registros contábeis a seguir transcritos: Data Valor Rubrica de contrapartida histórico 04/07/2011 1.100.000,00 Serviços de consultoria nota fiscal 51236 BTG 01/08/2011 1.100.000,00 Serviços de consultoria nota fiscal 51237 BTG 01/09/2011 1.100.000,00 Serviços de consultoria nota fiscal 51238 BTG O contrato firmado entre as partes que acobertou a prestação de serviços foi apresentado pela ECONORTE no dia 18/12/2015, em atendimento à intimação fiscal lavrada em 08/12/2015, alegando, na oportunidade, que seu objeto consistia na possibilidade de venda de parte de sua participação societária a um grupo empresarial de Cingapura, incumbindo-se a instituição financeira de realizar a “prospecção de investidores nesse sentido”. Retornamos a esse instrumento contratual quando da confecção da intimação fiscal do dia 15/04/2016, ocasião em que requeremos os comprovantes das despesas reembolsadas ao Banco BTG Pactual provenientes de viagens, transportes, hospedagens, alimentação, ligações telefônicas e demais despesas, como estabelecido no item nº 02 do instrumento contratual lavrado entre as partes no dia 28/06/2011. Respondendo a esse ato fiscal, a empresa fiscalizada aludiu à inexistência de qualquer despesa reembolsada, a esse título, àquela instituição financeira. Buscamos da instituição financeira em questão informações relativas à prestação de serviços à ECONORTE, por meio da intimação fiscal do dia 21/10/2016. Em atenção, requereu a prorrogação do prazo para prestação das informações por mais trinta dias, ao que respondemos lhe assinalando um prazo adicional de dez dias. Por força disso, manifestou-se em documento que chegou nesta Delegacia em 28/11/2016, esclarecendo que a prestação de serviços visou à elaboração de um estudo pormenorizado e atualizado sobre o setor de concessão de rodovias, consubstanciado no documento, de cinco laudas, apresentado em anexo. Adicionalmente, afirmou que a única despesa que incorreu na execução dos serviços foi com pessoal (funcionário). Da análise do documento que apresentou como resultado do contrato firmado com a ECONORTE não conseguimos extrair nenhuma conclusão, dada sua ínfima dimensão, o fato de encontrar-se, nas partes legíveis, grafado na língua inglesa, e os gráficos e mapas esparsos ao longo das cinco folhas serem de difícil compreensão, interpretação e leitura. Ainda para dirimir eventuais dúvidas sobre esse documento e a prestação de serviços, requeremos da ECONORTE, por meio da intimação fiscal de 29/11 próximo passado, que se manifestasse sobre o mesmo, ao que respondeu que a contratação do Banco BTG Pactual decorreu de orientação de sua controladora, tratando-se de um negócio jurídico de direito privado, inexistindo o que possa acrescentar além das informações já prestadas anteriormente. Fl. 42571DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Diante disso, não há como se negar a inexistência de uma prestação de serviços que possa, minimamente, guardar alguma relação com o objeto social da ECONORTE. O documento apresentado pela instituição financeira BTG, aparentando tratar-se de uma compilação de dados, em nada se coaduna com os serviços executados pela contratante, e muito menos pode ser reputada uma despesa necessária para fins tributários. Esses pagamentos, portanto, apropriados como despesas, serão excluídos do resultado tributável nos respectivos períodos. 4.2 Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. Registrada na mesma rubrica 312304025 (Propaganda e publicidade), há uma despesa contratada com a empresa epigrafada, domiciliada na cidade de Belo Horizonte/MG, no valor de R$ 250.000,00, conforme nota fiscal nº 2011, de 10/01/2011. Instamos a empresa tomadora dos serviços a manifestar-se sobre a contratação dessa despesa e sua correlação com seu objeto social, conforme item nº 01 da intimação fiscal expedida em 08/12/2015, ao que respondeu, em apertada síntese, que sua atividade é influenciada pela estrutura política e administrativa do Poder Público, sendo necessário manter-se atualizada das condições e oportunidades do mercado. A necessidade das despesas é comprovada já que os produtos apresentados permitem a identificação de cenários que lhe possibilitam a captação de recursos. Em que pesem as justificativas, permeadas de conceitos genéricos ou imprecisos, apresentadas pela fiscalizada, é claramente incontroverso que mais uma vez estamos perante a realização de uma despesa desnecessária à consecução de seu objeto social. É difícil, senão impossível, vislumbrar-se qualquer nexo de causalidade entre a confecção de pesquisas eleitorais e a exploração de pedágios em rodovias, o que, obviamente, não logrou êxito em demonstrar a pessoa jurídica objeto deste procedimento de fiscalização, por meio de suas manifestações. O tratamento a ser dispensado a essa despesa será o mesmo citado no item anterior. No item 5. Do conjunto probatório relativo a negócios em condições de favorecimento entre pessoas ligadas (artigo 464, inciso VI, RIR/99), a autoridade fiscal informou, dentre outras situações, os seguintes fatos: que em alteração societária arquivada em 17/06/2015, a RIO TIBAGI apresentava o capital social de R$ 10.000,00 (1000 quotas), com 999 quotas pertencentes à empresa TRIUNFO PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTO S/A; que sua gestão é atribuída aos administradores não-sócios LEONARDO GUERRA e ROGÉRIO DE MORAES, que a exercem desde 2011; que ROGÉRIO DE MORAES foi declarado em GFIP da empresa TRIUNFO PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTO S/A, então admitido em 2010, com o cargo de "Gerente de pesquisa e desenvolvimento"; que a RIO TIBAGI e a Recorrente (ECONORTE) são controladas pela TRIUNFO PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTO S/A, desde 2007; Fl. 42572DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 que o único cliente da RIO TIBAGI era a ECONORTE, conforme constatado pela sequência das notas fiscais emitidas por aquela empresa, cujo faturamento com a ECONORTE atingiu o montante de R$ 114.695.873,80, nos anos de 2010, 2011 e 2012; Transcrevo excertos do Termo Fiscal, ainda neste item 5: Dados extraídos do sistema previdenciário CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais) possibilitaram localizar expressivas movimentações de empregados entre as duas pessoas jurídicas, como passaremos a discorrer. No período analisado, compreendido entre janeiro/2005 e dezembro/2011, a ECONORTE manteve vínculo empregatício com 388 trabalhadores. Nesse mesmo lapso temporal, a segunda empresa teve vínculo empregatício com 594 trabalhadores. Constata-se também que mais da metade dos empregados contratados pela ECONORTE (195 do total de 388) tiveram seus vínculos empregatícios formais transferidos para a RIO TIBAGI. [...] É inegável que a movimentação de funcionários entre as empresas RIO TIBAGI e ECONORTE a que acabamos de aludir, pelas especificidades apontadas, vai muito além de corriqueiras mudanças de emprego realizadas espontaneamente pelos empregados. O que têm ínsita é a clara determinação das empresas em realizarem essas mudanças, exercendo, inclusive, a faculdade prevista na legislação de não serem encerrados os vínculos empregatícios, mas sim transferidos de um para outro empregador. Ressalte-se também que essas alterações foram decisões que, para serem adotadas, naturalmente pressupõem a atuação conjunta dos administradores de ambas as empresas. [...] Temos ainda que destacar a realização de investimentos em comum por administradores de ambas as empresas, consistente na aquisição de imóveis vendidos pela empresa ENGEOPE. Relembre-se que essa empresa pertence a familiares do diretor-presidente da ECONORTE, e efetuou a aquisição de imóveis com recursos financeiros que lhe foram mutuados pela empresa SINATRAF, prestadora de serviços à RIO TIBAGI, contratada pela ECONORTE. Ademais, LEONARDO GUERRA, administrador não sócio da RIO TIBAGI, valeu-se de empresas sem capacidade operacional ou inexistentes de fato para acobertar a retirada de recursos, auferidos na prestação de serviços à ECONORTE, em proveito próprio, revertidos na compra de bens imóveis e na realização de despesas pessoais. É inconcebível que esse conjunto de fatos passe despercebido pelo sócio- proprietário das duas empresas, TRIUNFO PARTICIPAÇÕES, e demonstra também que a propalada independência na gestão das duas empresas não passa de um arroubo retórico, empregado como tentativa de arrostar as inúmeras irregularidades tributárias que apontamos no curso dos procedimentos fiscais. A interligação entre as empresas RIO TIBAGI e ECONORTE não decorre apenas dos fatos ora narrados, mas também de expresso dispositivo legal, contido no artigo 466 do RIR/99, que ora transcrevemos: "Artigo 466. Se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica presumir-se-á distribuição disfarçada de lucros ainda que os negócios Fl. 42573DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 de que tratam os incisos I a VI do artigo 464 sejam realizados com a pessoa ligada por intermédio de outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta ou indiretamente, interesse (Decreto-lei nº 1.598/77, artigo 64, e Decreto-lei nº 2.065/83, artigo 20, inciso VI)." As consequências da realização de negócios com pessoa jurídica ligada, mesmo por intermédio de outra pessoa jurídica na qual tenha interesse, contida no dispositivo legal que acabamos de citar, tem suas consequências, para fins da legislação tributária, no que se convencionou denominar despesas indedutíveis para apuração do lucro real, o que será analisado com mais detença em tópico adiante. 6. Das infrações à legislação tributária: [...] 6.1 Dos custos excessivos na prestação de serviços pela empresa RIO TIBAGI à ECONORTE: Apontamos anteriormente a interligação entre as empresas ECONORTE e RIO TIBAGI, discorrendo acerca do conjunto fático-jurídico que demonstra à saciedade essa conclusão. Pode-se perceber que não se trata, obviamente, de um fato estranho às empresas, tendo em vista os notórios dispositivos taxativos da legislação tributária acerca dessa temática (artigos 384 e 465 do RIR/99). Dentre outros elementos, restou comprovado que: • As empresas ECONORTE e RIO TIBAGI estão sob controle acionário da mesma empresa– TPI TRIUNFO E INVESTIMENTO LTDA; • A empresa RIO TIBAGI presta seus serviços para sua única e exclusiva cliente que não é outra senão a ECONORTE; • As GFIP´s (guias de informações previdenciárias) obrigação acessória relacionada à declaração mensal da folha de salários, contratação e dispensa de trabalhadores com vínculo empregatício formal, demonstraram, exaustivamente, a existência de inúmeros intercâmbios dos trabalhadores que atuam nessas duas empresas, em seus mais diversos setores, tanto na parte gerencial quanto na parte operacional; • A empresa RIO TIBAGI possui capital social diminuto e não dispõe de patrimônio nem capacidade operacional para a realização dos serviços para os quais foi contratada pela ECONORTE, o que motivou a subcontratação de outras pessoas jurídicas para o desempenho dessa incumbência; • A Econorte valeu-se da RIO TIBAGI para efetuar um empréstimo à sua controladora TPI PARTICIPAÇÕES, com recursos oriundos da emissão de debêntures realizada no ano-calendário 2011. A importância de destacarmos esses fatos justifica-se pelas implicações, na seara tributária, da opção exercida pela ECONORTE em valer-se de uma pessoa jurídica interligada para a realização de serviços necessários à manutenção de sua atividade operacional. A análise que efetuamos das condições em que os contratos de prestação de serviços foram cumpridos pela RIO TIBAGI permitiu detectar outras empresas executando os serviços que eram de responsabilidade contratual dessa segunda pessoa jurídica, o que, a despeito de não desnaturar o Fl. 42574DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 instrumento particular que firmaram, denota claramente o papel de mera intermediária, exercido pela contratada, na prestação de serviços executada predominantemente por terceiros. Registramos também a contratação, pela RIO TIBAGI, de empresas para a aquisição de materiais ou prestação de serviços em condições pouco usuais, em que não restaram efetivamente comprovadas a realização dos serviços ou a entrega das mercadorias; para fins tributários, mister se faz que a comprovação de tais operações dê-se pelos meios usuais e razoáveis de prova, que haja uma relação de pertinência com o objeto social e que se trate de uma despesa necessária. Porém, valendo-nos do rastreamento dos recursos financeiros destinados ao pagamento dos fornecedores da RIO TIBAGI, mediante a quebra judicial do sigilo bancário, fato abordado no item 2.1.2, percebemos que parte dos recursos financeiros destinaram-se, na verdade, a terceiros, em especial à empresa FLORICULTURA GUERRA, pertencente a LEONARDO GUERRA e seus familiares. Ademais, a realização de empréstimos pela empresa SINATRAF em favor da empresa ENGEOPE, em cujo quadro societário figuram familiares do administrador da ECONORTE, que se perpetuam no tempo, desprovidos, a despeito da formalização de instrumentos contratuais, de qualquer vínculo com suas respectivas atividades operacionais, e sem formalização de garantias, fugindo, inclusive ao objeto social da mutuante, denota a concessão de benesses financeiras à empresa mutuária, arcados com recursos financeiros oriundos da prestação de serviços à RIO TIBAGI, e, por via de consequência, à ECONORTE. Em parágrafos anteriores, registrou-se que o faturamento da RIO TIBAGI advém exclusivamente da prestação de serviços à ECONORTE. Os contratos de prestação de serviços celebrados entre as partes têm contornos que sugerem tratar-se apenas de um simulacro, burlando as legislações tributária, previdenciária e trabalhista, não podendo, por conseguinte, alterar ou extinguir definições instituídas por dispositivos da legislação federal, especificamente quando se trata de determinar fatos geradores de obrigações tributárias. Dessa forma, como é cediço, as disposições dos acordos efetuados entre as partes não vinculam terceiros estranhos ao negócio realizado, especialmente quando o exercício da liberdade contratual, tem limitações impostas pela legislação tributária. A situação ora narrada pode ser resumida como uma contratação de serviços realizada pela empresa ECONORTE, na qualidade de tomadora final, por meio de uma pessoa jurídica interligada (RIO TIBAGI), os quais foram, em sua maioria, executados por terceiros. A motivação para sua concretização, fundada naturalmente na liberdade contratual existente no ordenamento jurídico pátrio, encontra, todavia, limites impostos pela legislação tributária, justamente para coibir situação como a com que ora defrontamos. É inarredável a conclusão de que a contratação nos moldes realizados, além de implicar um custo maior na prestação dos serviços, demonstra não possuir outra motivação senão justamente esse resultado ora apontado. Isso está patente não só, v. g., na coincidência de cláusulas dos instrumentos contratuais, como já Fl. 42575DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 apontado na abordagem do contrato de serviços pré-hospitalares, que nos trazem a convicção de terem sua origem no mesmo ato intelectivo, mas em especial pela interligação entre as empresas, a exclusividade de prestação de serviços pela RIO TIBAGI, seu diminuto capital social e sua ausência de capacidade operacional para a realização dos serviços, esta última denunciada pela prática de repassá-los a terceiros. Deve ser relembrada a operação de emissão de debêntures realizada pela ECONORTE no ano de 2011, que abordamos no início do presente Termo, mediante a qual repassou a quantia de R$ 46.500.000,00 à RIO TIBAGI, a título de adiantamento. Ora, numa simples análise da rubrica passiva em que registra suas dívidas para com essa empresa (212101055), pode se perceber que, após o trânsito desses valores por essa conta, prosseguiu realizando pagamentos antecipados a essa mesma empresa, que chegavam a deixar o saldo dessa rubrica devedor ao longo do mês. Portanto, é patente que não se tratou de um adiantamento a fornecedor, mas sim uma forma deliberada de ocultar o fato de que tais recursos destinavam-se à empresa controladora, TPI PARTICIPAÇÕES, já que o registro do mútuo contábil é encontrado apenas na escrituração da empresa RIO TIBAGI. Vê-se, mais uma vez, que ambas as empresas possuem uma gestão conjunta, prestando-se a RIO TIBAGI até mesmo a executar operações financeiras em que formalmente deveria figurar como parte a ECONORTE. Por isso, é impositiva a conclusão de que a medida adotada pela ECONORTE, consistente na contratação da empresa RIO TIBAGI, que, por sua vez, promoveu, na execução da maioria dos contratos de prestação de serviços, a subcontratação de outras pessoas jurídicas para a consecução do objeto dos mesmos, foi um meio que teve por motivação e consequência o aumento dos custos operacionais e a correlata redução do lucro tributável. Os demais efeitos e a formalidade jurídica adotados na contratação em questão não têm seu valor ora atacado, e muito menos o poderia, vez que nos cingimos unicamente à verificação das consequências tributárias da contratação e realização dos serviços na forma em que se deu. A legislação tributária permite a realização de despesas como sacrifício dos recursos para o auferimento da receita operacional, e que com a mesma se relacionem, constituindo o que se convencionou denominar 'despesa necessária'. O artigo 299 do RIR/99 estabelece que as despesas operacionais são aquelas necessárias à manutenção da atividade exercida pela pessoa jurídica. Outro conceito necessário que temos que trazer a lume é o de valor de mercado, que seria a importância em dinheiro que o vendedor pode obter mediante negociação do bem no mercado - parágrafo quarto, art. 60, Decreto-Lei 1.598/77. Ainda, há de se considerar que a transação seja em condições normais envolvendo partes conhecedoras e independentes. Esse conceito, portanto, reside na razoabilidade do preço contratado, que se traduz essencialmente nos custos de venda/prestação de serviços proporcionais à receita auferida. Isso se agrava quando estamos perante uma situação em que as empresas – tomadora e prestadora dos serviços – possuem vínculos que, por sua natureza, as tornam sujeitas a normas específicas da legislação tributária instituídas justamente para coibir que se valham de subterfúgios para modificação dos resultados tributáveis. Fl. 42576DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Já foi mencionado que a empresa RIO TIBAGI presta serviços única e exclusivamente à ECONORTE, o que implica, talvez não por uma coincidência arbitrária, a impossibilidade de comparação direta entre o preço que cobra dessa pessoa jurídica interligada em confronto com aquele que cobraria de terceiros, com os quais não possuiria relação de interdependência. Mas, por outro lado, essa exclusividade na prestação de serviços não deixa dúvidas da interdependência entre ambas, naturalmente denunciada pelos custos dos serviços prestados, que contêm embutido, via de regra, valores elevados decorrentes unicamente da intermediação na contratação de terceiros, verdadeiros prestadores dos serviços, sem falarmos dos pagamentos que efetuou em contrapartida de notas fiscais inidôneas, que reverteram em benefício do administrador não sócio da RIO TIBAGI. É natural que uma pessoa jurídica que procura buscar uma prestadora de serviços no mercado, numa economia da livre concorrência, se acautelaria em escolher a que lhe apresentasse a melhor relação custo/benefício, prática consentânea àqueles que almejam a maximização de seus lucros, espinha dorsal de toda atividade empresarial, evitando, deveras, a realização de dispêndios vultosos, como os aqui apontados. É de fácil inferência que a ECONORTE, agindo na contramão de toda atividade empresarial, que sempre visa à otimização de seu lucro, valeu-se de uma prestadora de serviços, submetida ao mesmo controle societário/acionário, para contratar despesas em valores acima daqueles que facilmente obteria no mercado, ou até mesmo explorando diretamente os serviços. Relativamente ao contrato de prestação de serviços pré-hospitalares, esse quadro fica mais cristalino pois a pessoa jurídica em comento efetuou, em anos anteriores, transações de compra e venda de veículos, como anteriormente citado, com a empresa Enseg Serviços de Engenharia e Segurança, interligada à empresa que lhe prestou os serviços de socorro médico no período sob análise. Isso reforça a conclusão de que a ECONORTE não ignorava a identidade de quem efetivamente lhe prestava os serviços de atendimento pré-hospitalar, e muito menos seu custo real. Idêntica constatação se obtém ao analisarmos os preços excessivos envolvendo os serviços de roçada e construção de aceiros que abordados no subitem 6.1.1 seguinte. Essa despesa excessiva, todavia, não deve recair sobre a sociedade, na forma da diminuição dos tributos, mas sim ser arcada pela própria empresa que é a única responsável pela gestão de seus recursos financeiros, empregados na satisfação de despesas em valores vultosos, mas não ignorados, já que se trata, como dito, de uma prestação de serviços efetuada entre pessoas jurídicas interligadas. Não há dúvidas, repisemos, de que se tratou de uma medida deliberadamente tomada com o intuito de diminuir seus resultados tributáveis, valendo-se da censurável prática de contratar serviços de uma empresa interligada, em valores e em condições extremamente privilegiadas. Certo é, portanto, que a ECONORTE poderia prover a todos serviços sem a necessidade de delegá-los a uma empresa desprovida de capacidade operacional e que só tem sua existência justificada por sua dependência econômica de seu único cliente. O tratamento que a legislação tributária outorga à presente situação é encontrado nos artigos 249, inciso I, 464, inciso VI, e 467, inciso V, do RIR/99, que ora transcrevemos: Fl. 42577DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 "Artigo 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (Decreto-lei nº 1.598/77, art 6º, §2º): I – os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, não sejam dedutíveis na determinação do lucro real; ... Artigo 464. Presume-se distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (Decreto-Lei nº 1.598//77, art 60, e Decreto-Lei nº 2.065/83, artigo 20, inciso II): ... VI – realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. .... Artigo 467. Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica (Decreto- lei nº 1.598/77, artigo 62, e Decreto-lei nº 2.065/83, artigo 20, incisos VII e VIII): ... V – no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis." .... Já se mencionou que a exclusividade da prestação de serviços pela RIO TIBAGI impede que sejam cotejados com o custo cobrado de outros tomadores de seus serviços. Diante desse obstáculo, só nos resta nos valermos dos demonstrativos apresentados pela RIO TIBAGI em 31/07/2015, e que foram minudenciados em duas oportunidades- 31/08 e 18/12/2015. Tais demonstrativos compõem-se de colunas em que se encontram discriminados os custos para a prestação de serviços (mão-de-obra, materiais, infra, impostos e despesas). O meio mais adequado de obtenção do custo dos serviços, na hipótese de execução pela própria contratante, ante a impossibilidade de comparação com os valores cobrados a outros clientes da RIO TIBAGI, que não existem, é nos valermos dos custos transcritos nas planilhas apresentadas pela contratada, expurgando-se apenas as importâncias relativas aos impostos, que não são reputados custos para apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Esse é o único meio de enfrentarmos a dificuldade em se identificar o custo verdadeiro incorrido para a prestação dos serviços, o que também se justifica pela íntima relação existente entre as empresas, que encontra supedâneo não só no fato de serem interligadas, mas também pela existência de alguma confusão patrimonial Fl. 42578DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 entre as mesmas, denunciada pela utilização de bens em comum (ex: veículos), abastecimento de veículos em desacordo com cláusulas contratuais e pela locação em comum de bens (ex: veículo locado à empresa AUTO SOCORRO GOMES LTDA, conforme notas fiscais nº 26 e 27, de 11/07/2012, obtidas no curso da diligência fiscal nº 0910200.2015.0198-5). Desse modo, são obtidos os valores estampados nas duas planilhas em anexo, integrantes do presente termo, intituladas 'Custos mensais apurados' e 'Glosa de Custos Declarados-serviços pagos a Rio Tibagi Serv. Op. Rod. Ltda.; a primeira planilha contém a demonstração dos valores que compõem os custos efetivamente necessários à execução dos serviços; na segunda, confrontamos os valores cobrados pelos serviços, nas notas fiscais emitidas pela RIO TIBAGI, com os valores totalizados na outra planilha (custos/despesas mensais apurados na prestação dos serviços). Serão adicionadas ao lucro líquido na apuração do lucro real as despesas consubstanciadas nos pagamentos mensais efetuados pela ECONORTE à RIO TIBAGI, na execução dos dez contratos de prestação de serviços firmados entre essas duas partes, nos valores que excederem seus custos como afirmado no parágrafo anterior, somadas às despesas destacadas nos itens 6.2 e 6.3 adiante, e àquelas satisfeitas com recursos da Construtora Garra, como a seguir abordado no subitem 6.1.1. Assim, obtém-se o valor das despesas reputadas indedutíveis, a serem adicionadas na apuração do lucro real anual da ECONORTE nos anos- calendário 2011 e 2012, que totalizam, respectivamente, R$ 25.415.501,42 e R$ 16.300.429,77. 6.1.1 Custos de roçada e construção de aceiros – observações e critérios para confirmação do preço excessivo: Como já abordado, a ECONORTE efetuou, em 20/05/2011, um adiantamento para a prestadora RIO TIBAGI, com lastro na segunda emissão de debêntures. Essa operação de adiantamento encontra-se registrada na conta contábil 121501001/ Ativo Não Circulante –Longo Prazo – RIO TIBAGI SERVIÇOS e também é visualizada na conta contábil do Passivo Circulante 212101055 RIO TIBAGI CONSERVAÇÃO RODOVIAS, em que foi inicialmente escriturado como 'adiantamento de despesas futuras' pelo valor original de R$ 46.500.000,00. A amortização dessa dívida ocorre por lançamentos com o histórico de 'NOTAS FISCAIS DO MÊS' que compõem o custo mensal da ECONORTE e estão vinculadas aos serviços de conservação, recuperação e manutenção de rodovias decorrentes do contrato intitulado 'CONTRATO PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE ENGENHARIA POR EMPREITADA NA RECOMPOSIÇÃO, RECONSTRUÇÃO E CONSERVAÇÃO DE RODOVIAS'. Por meio da resposta apresentada em 10/03/2015, a ECONORTE disponibilizou cópia desse instrumento contratual, assinado em 28/12/2010. A fiscalização do contrato é prevista na cláusula quarta na qual restou estipulado que a contratante ECONORTE procederá às análises dos serviços executados para constatar sua quantidade e qualidade, emitindo medições e aprovações mensais. Na cláusula quinta, esse contrato pactua pagamentos mensais mediante notas fiscais emitidas pela contratada, as quais são confrontadas com os relatórios de medições e aprovações geradas pelo sistema de controle da contratante. Fl. 42579DF CARF MF Fl. 18 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Essas medições mensais também são convencionadas no parágrafo primeiro da cláusula sexta, a qual textualmente dispõe: '§1º, A ECONORTE efetuará medições mensais apurando as quantidades reais executadas dos serviços, e aceitas pela fiscalização, aplicando-se a planilha de preços unitários do anexo III. Eventuais acréscimos ou decréscimos de serviços poderão ser solicitados pela ECONORTE com bases nos parâmetros e preços unitários do presente contrato. No caso de ocorrência de serviços não previstos nesta pactuação, as partes se comprometem a estabelecer seus preços na forma consensual.' Atendendo as intimações fiscais que lavramos em 02/06/2015 e 13/11/2015, a fiscalizada ECONORTE disponibilizou-nos cópias desses documentos de medição mensal, que são intitulados 'BOLETIM DE MEDIÇÃO'. Esses boletins são emitidos mensalmente e assinados pelos gerentes e engenheiros da contratante e pelo administrador não sócio LEONARDO GUERRA, que representa a contratada. Os totais mensais apontados nesses boletins são idênticos às notas fiscais de prestação de serviços, emitidas mensalmente pela prestadora RIO TIBAGI, discriminadas na tabela adiante: (...) Esses boletins mensais contemplam a discriminação dos serviços realizados, a extensão ou medida realizada dentro do mês e o valor pago por cada unidade de medida. Multiplicando-se a medida realizada pelo valor unitário, obtém-se o valor mensal e individual a ser pago por cada serviço. Esse valor individual por serviço também é demonstrado no boletim em coluna própria, que contém valor acumulado no ano, para cada serviço mensurado. Nesse contexto, chamou-nos inicialmente a atenção os valores envolvendo os serviços de roçada manual, construção de aceiros e roçada mecanizada. Nos anos-calendário alcançados pela fiscalização (2010, 2011 e 2012), a soma dos pagamentos pela prestação desses serviços representam, respectivamente, 37%, 26% e 22% de todos os pagamentos envolvendo serviços de conservação de rodovias, discriminados, mês a mês, na tabela anterior. De acordo com esses boletins de medições, os montantes anuais, medidos e pagos, em virtude da realização desses três serviços, foram os seguintes: (...) Também extraímos desses boletins os valores pagos por unidade de medida, que foram: (...) Em uma análise meramente perfunctória, esses valores destoam daqueles previstos na tabela de custos referenciais do Sistema de Custos de Obras Rodoviárias – SICRO; nessa tabela, os valores apontados para os serviços em comento foram os seguintes: [...] O Sistema de Custos de Obras Rodoviárias – SICRO - é o custo referencial para obras e serviços rodoviários previsto no artigo 127 da Lei de Diretrizes Fl. 42580DF CARF MF Fl. 19 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Orçamentárias (LDO) nº 12.309 (de 09/08/2010). Esse dispositivo legal postula que, para as obras e serviços rodoviários, o custo global de obras e serviços de engenharia, contratados e executados com recursos do orçamento da União, será obtido a partir de composições de custos unitários previstos no projeto, menores ou iguais à mediana de seus correspondentes na tabela do Sistema de Custos de Obras Rodoviárias – SICRO. Os custos unitários da tabela SICRO correspondem a valores médios e não aos menores preços disponíveis no mercado, e correspondem apenas a uma unidade de cada produto/serviço, ou seja, não leva em consideração os tradicionais descontos concedidos pelos fornecedores na compra/contratação de grandes quantidades. Nesses preços já estão inclusos todos os custos diretos e indiretos, tais como margens de lucro, margens de risco, carga tributária, custos administrativos e custos financeiros. Corroborou essa constatação inicial o PARECER TÉCNICO Nº 172/2015, elaborado pela quinta Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, que teve por objeto verificar a compatibilidade de preços de mercado de serviços descritos em contratos de empresas concessionárias de rodovias, elencadas em Informação Fiscal emitida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Nesse parecer técnico restou demonstrado que os valores pagos pela fiscalizada ECONORTE, para a empresa RIO TIBAGI, no ano-calendário 2010, tiveram sobrepreço de 158,10% para os serviços de roçada manual e construção de aceiros e 228,80% para os serviços de roçada mecanizada. Com isso, premidos pela necessidade de apurar os reais custos envolvidos na prestação desses três serviços, exigimos da prestadora RIO TIBAGI, por meio da intimação fiscal lavrada em 08/12/2015, a identificação, por escrito, de todos os fornecedores (nome, CPF/CNPJ, endereço, etc.), dos serviços de roçagem (mecânica e manual), construção de aceiros e varrição, contratados ou pagos, envolvendo os anos-calendário 2010, 2011 e 2012, apresentando os contratos existentes. Em sua resposta, protocolada nesta Seção de Fiscalização em 18/12/2015, subscrita pelo administrador não sócio LEONARDO GUERRA, limitou-se a informar que seu único prestador de serviços de roçagem, construção de aceiros e varrição é a empresa Terezinha Sabino Gomes (CNPJ 01.213.794/0001-34), com endereço em Jacarezinho/PR. Esclareceu que também presta, diretamente, por meio de seus funcionários, os referidos serviços para terceiros. Essa empresa terceirizada já havia sido identificada na contabilidade digital da empresa RIO TIBAGI, e, por meio da intimação fiscal que lavramos em 24/09/2015, instamo-la a detalhar, por escrito, todos os serviços prestados por essa terceirizada, acobertados por vinte e sete notas fiscais emitidas no decorrer dos anos 2011 e 2012, indicando inclusive a classificação na Nomenclatura Brasileira de Serviços, intangíveis e outras operações (NBS), apresentando os relatórios, laudos e demais documentos comprobatórios. Na resposta apresentada em 15/10/2015, esclareceu que os serviços contratados com a empresa TEREZINHA SABINO GOMES ME são de engenharia com fornecimento de equipamentos e materiais visando especificamente a conservação, restauração e manutenção dos elementos de sinalização de Fl. 42581DF CARF MF Fl. 20 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 rodovias e reparos de obras de artes correntes, especiais e de trincas em rodovias. Encaminhou cópia de três contratos de prestação de serviços acompanhados de diversas notas fiscais, dentre as quais aquelas que havíamos citado na intimação fiscal. Nesses contratos identificamos que essa empresa prestadora de serviços foi representada por IVO DONIZETE GOMES e a contratante RIO TIBAGI por LEONARDO GUERRA. Dentre as notas fiscais disponibilizadas, percebe- se que as de maiores valores, reproduzidas na tabela abaixo, discriminaram os serviços como sendo 'fornecimento de equipamento caminhão carroceria – incluso combustível' e 'fornecimento de mão de obra especializada incluso motoristas e operadores'. (...) As notas fiscais de número 426, 464 e 455 vieram acompanhadas de um demonstrativo intitulado 'DISTRIBUIÇÃO DO ISS – LOTE 01'. Anexamos a seguir a imagem de um desses demonstrativos: [...] Por meio desse documento, conclui-se que os serviços prestados alcançam a área de 152,575 quilômetros, distribuídos pelos municípios de Cornélio Procópio, Santo Antônio da Platina, Santa Mariana, Bandeirantes, Andirá, Cambará e Jacarezinho. Com base nos valores das notas fiscais e a unidade de medida apresentada nos três demonstrativos intitulados 'DISTRIBUIÇÃO DO ISS – LOTE 01' (152,575 quilômetros), verifica-se que o valor dos serviços prestados por essa empresa foi de R$ 819,92 por quilômetro para o ano-calendário 2010, R$ 852,69 para o ano- calendário 2011 e R$ 886,80 para o ano-calendário 2012. A empresa TEREZINHA SABINO GOMES ME esteve sob procedimento de fiscalização objeto do TDPF/F nº 0910200-2015-01144-6, conduzido por esses auditores fiscais, fato anteriormente exposto. No curso da ação fiscal, que também se restringe aos anos-calendário 2010, 2011 e 2012, verificamos que recebeu pagamentos, patrocinados pela empresa RIO TIBAGI, que somaram o montante de R$ 5.299.637,22. Esses recursos representam 70,18% de todos os créditos que essa empresa prestadora de serviços recebeu no período, e foram geridos pelo engenheiro civil IVO DONIZETE GOMES, esposo de TEREZINHA SABINO GOMES, única sócia da empresa. Como dito, restou demonstrado que esses recursos eram rotineiramente transferidos para as contas bancárias de outra empresa, de nome CONSTRUTORA GARRA S/S LTDA ME (CNPJ 04.722.257/0001-08), também domiciliada em Jacarezinho/Pr, e gerida por IVO DONIZETE GOMES, na qualidade de sócio-administrador. Durante os anos-calendário 2010, 2011 e 2012, recebeu, por meio de rotineiras transferências de valores (teds), recursos enviados pela empresa TEREZINHA SABINO GOMES ME, que somaram a importância de R$ 3.303.800,00. Esse montante equivale a 34,07% do total de débitos verificados nas contas bancárias da empresa remetente. O administrador das contas bancárias da empresa TEREZINHA SABINO GOMES ME, IVO DONIZETE GOMES manteve sociedade na CONSTRUTORA GARRA, em coparticipação com o contribuinte Fl. 42582DF CARF MF Fl. 21 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 LEONARDO GUERRA, no interregno que vai de 14/06/2006 (1ª alteração contratual) até 18/07/2008 (2ª alteração contratual), período em que a empresa adotara a denominação de CONSTRUTORA GUERRA S/C LTDA. Esses dois contribuintes - IVO DONIZETE GOMES e LEONARDO GUERRA - foram os responsáveis pela contratação e assinaram os contratos de prestação de serviços firmados entre as empresas TEREZINHA SABINO GOMES e RIO TIBAGI. O primeiro como representante da empresa contratada e o segundo como representante da empresa contratante. Como já citado, o objeto desses contratos eram os serviços de conservação, restauração e manutenção de rodovias. A fiscalização levada a cabo em face da empresa CONSTRUTORA GUERRA (TDPF nº 0910200.2015.00022-7) apontou outros vínculos envolvendo esses dois contribuintes - IVO DONIZETE GOMES e LEONARDO GUERRA - ocorridos mesmo após o desligamento desse último do quadro societário dessa empresa. Cabe mencionar que não tivemos acesso à escrituração contábil e fiscal dessa empresa, devido à sua renitente postura em não a entregar a estes auditores-fiscais, o que impossibilitou verificarmos a que título estariam contabilizadas as operações que passamos a discorrer nos parágrafos subsequentes. A primeira constatação que salta aos olhos reside no fato de que despesas pessoais de LEONARDO GUERRA, são, rotineiramente, debitadas na conta bancária de titularidade da CONSTRUTORA GARRA, movimentada na agência do Banco do Brasil em Jacarezinho/PR. Analisando somente os lançamentos que ocorreram no período de janeiro/2011 a dezembro/2012, identificamos oitenta e quatro pagamentos em benefício de LEONARDO GUERRA, que somaram R$ 218.012,25. [...] 6.2 Da glosa de despesas desnecessárias: Foi exposto que a empresa ECONORTE contratou a realização de serviços prestados pelo BANCO BTG PACTUAL e VOX POPULI, computados em seu resultado operacional, ou seja, não foram adicionados na apuração do lucro real. Quando discorremos sobre essas despesas, apontamos a inexistência de qualquer vínculo com sua atividade operacional, e que não restou comprovada, apesar de intimada, sua necessidade. Assim, são reputadas para fins tributários despesas desnecessárias, que deveriam ter sido adicionadas ao lucro líquido quando da apuração do lucro real, medida que adotamos por meio do lançamento de ofício. Sorte idêntica alcança a despesa contratada pela RIO TIBAGI com a empresa POWER MARKETING, nos anos-calendário 2011 e 2012, como exposto anteriormente, e que não se logrou comprovar qualquer relação com seu objeto social, e muito menos sua necessidade na prestação de serviços à ECONORTE. Desse modo, excluiremos os valores dessa despesa –incorrida na execução dos contratos de manutenção da rodovia e socorro mecânico - do custo da prestação de serviços cobrado à ECONORTE, adicionando-a na apuração de seu lucro líquido. 6.3 Dos custos/inexistentes na contabilidade da RIO TIBAGI: Fl. 42583DF CARF MF Fl. 22 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Dentre os fornecedores de materiais e serviços à empresa RIO TIBAGI, empregados na execução dos contratos de prestação de serviços à ECONORTE, abordados anteriormente, constatamos pagamentos a essas empresas que tiveram por destino a conta bancária da FLORICULTURA GUERRA & ROSA e do DEPÓSITO GRANDE SUL, ou que não se logrou comprovar o pagamento, o que se deu com algumas notas fiscais emitidas pela empresa SINATRAF. Os documentos fiscais emitidos por essas empresas, citadas na intimação fiscal de 02/12/2016, devem ser reputados, para todos os fins, tributariamente inidôneos, que representaram um custo inexistente na execução dos serviços. É contundente, para corroborar essa conclusão, o desvio dos recursos financeiros para as duas empresas que acabamos de apontar, em especial a FLORICULTURA ROSA que, como já destacado, pertenceu a LEONARDO GUERRA e atualmente é propriedade de sua irmã. A partir do ingresso nas contas bancárias da pessoa jurídica em comento, os recursos tiveram por destino a satisfação de despesas pessoais do administrador não sócio da RIO TIBAGI, como comprovado pelas diligências fiscais e documentos bancários já pormenorizadamente analisados no presente Termo. A empresa GRANDE SUL beneficiou-se de recursos financeiros escriturados pela RIO TIBAGI como destinados ao pagamento de notas fiscais emitidas pela empresa Alessandra M Toledo & Oliveira Ltda (CNPJ 05.603.107/0001-48), W M Moreira Materiais de Construção (CNPJ 11.517.911/0001-07), Casa Nova Comércio de Materiais Ltda. (CNPJ 14.810.328/0001-88) e Claudio Salles Cia Ltda (CNPJ 00.607.613/0001-91). Quando discorremos sobre essa empresa demonstramos sua vinculação com VALDOMIRO RODACKI, empregado da ECONORTE. A propósito, da análise da fotocópia de alguns cheques emitidos pela RIO TIBAGI contra sua conta no Banco HSBC, liquidados mediante depósito na conta bancária da FLORICULTURA GUERRA E ROSA, pudemos constatar que algumas das cártulas encontram-se nominais à empresa ALESSANDRA MORAIS TOLEDO DE OLIVEIRA LTDA, cuja assinatura aposta em seu verso, a título de endosso, diverge, num simples lance de olhos, daquela que a contribuinte homônima, responsável por essa empresa, apôs a título de ciência na reintimação fiscal de 15/12/2015. Outro cheque que traz informações de extrema importância é o de número 014785, no valor de R$ 32.035,00, liquidado mediante depósito na conta da mesma empresa citada no início desse parágrafo, em 01/11/2012, por conter a peculiaridade de encontrar-se nominal à empresa ELIZABETH FAGA, mas conter carimbos de endosso, em seu verso, das empresas CASA NOVA COM DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO LTDA e SÃO MIGUEL ARCANJO COMÉRCIO DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO LTDA. Isso naturalmente demonstra que o documento esteve sob a custódia de alguém que detinha a posse dos carimbos em questão, o que demonstra, deveras, a interligação entre as empresas, todas emitentes de notas fiscais de venda de mercadorias à RIO TIBAGI. Cabe também destacar o cheque de número 14743, no valor de R$ 58.696,40, também levado a depósito na conta no banco Itaú da empresa FLORICULTURA GUERRA & ROSA, que se encontra nominal à empresa CASA NOVA COM DE MAT P/ CONST.LTDA, embora contenha em seu Fl. 42584DF CARF MF Fl. 23 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 verso o endosso da empresa Alessandra M Toledo, que também diverge daquele aposto pela sócia dessa empresa na reintimação fiscal de 15/12/2015. O que sobreleva registrar é que a cópia desse cheque foi apresentada pela RIO TIBAGI em 01/09/2015, em atendimento ao Termo de Início de Fiscalização, cujo verso, todavia, encontrava-se em branco. O verdadeiro documento apresentado agora pelo Banco HSBC possui, em seu verso, além do endosso prefalado, a identificação da conta bancária no Banco Itaú da verdadeira destinatária dos recursos. Essa atitude da RIO TIBAGI foi claramente uma tentativa de ocultar os dados bancários dessa empresa e o fato de que o cheque não se destinou ao pagamento pela compra de mercadorias registrada em sua contabilidade. Concluindo, os valores representativos dos pagamentos realizados pela RIO TIBAGI, acobertados por notas fiscais emitidas pelas empresas que destacamos no tópico relativo ao contrato de manutenção de rodovias (item 3.2), que caracterizam custos inexistentes, passíveis, por conseguinte, de adição na apuração do resultado tributável da empresa ECONORTE, pelas razões já expostas, encontram-se demonstrados na planilha “CUSTOS/DESPESAS INEXISTENTES CONTABILIZADOS PELA RIO TIBAGI LTDA”. 6.4 Da composição final da base de cálculo (custos inexistentes/inidôneos): À guisa de consolidação, consolidamos na tabela a seguir, segregando-se por espécie, os custos e despesas reputados inexistentes ou desnecessários, incorridos pela RIO TIBAGI e pela ECONORTE, base de cálculo do presente lançamento de ofício. Fl. 42585DF CARF MF Fl. 24 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 7. Dos Acréscimos Legais e da tributação reflexa: A infração à legislação tributária citada no item antecedente repercute também na legislação de regência da contribuição social sobre o lucro (CSLL), ocasionando, por conseguinte, insuficiência na determinação da base de cálculo dessa contribuição, matéria ora também imputada ao sujeito passivo na forma de lançamento decorrente da fiscalização do Imposto de Renda Pessoa Jurídica. Seu detalhamento está estampado no “DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO - Contribuição Social”, que passa a integrar o auto de infração de constituição do crédito tributário apurado. [...] 8. Do encerramento da ação fiscal e outras providências: [...] No que tange à presença de indícios da prática de crime contra a ordem tributária, considerando-se que a Procuradoria da República no Paraná solicitou a realização de procedimentos de fiscalização em face das concessionárias de pedágio no estado do Paraná, consoante Ofício nº 01/2013, de 06/09/2013, deixamos de formalizar representação fiscal para fins penais, cumprindo as determinações contidas nos § 3º e §4º, do artigo 3º, da Portaria/RFB nº 2.439/2010. [...] Fl. 42586DF CARF MF Fl. 25 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 DA IMPUGNAÇÃO - que no que concerne aos serviços contratados junto à Rio Tibagi, o entendimento do Fisco é que a Autuada teria realizado negócios com pessoa ligada em condições de favorecimento, razão pela qual glosou parcialmente as despesas; que esta glosa seria ilegal, porque a Rio Tibagi não se qualifica como pessoa ligada à Autuada, também não havendo provas de que os negócios com a Rio Tibagi foram realizados nas mesmas condições que a Autuada contrataria com terceiros; - II.1 Dos serviços contratados junto à Rio Tibagi - que como concessionária de rodovias, está sujeita às disposições da Lei 8.987/95, do contrato de concessão 071/97 (doc.05) e do Programa de Exploração Rodoviária - PER (doc.06); que o contrato impõe à Autuada responsabilidade pela prestação de uma série de outros serviços, como operação, conservação e manutenção, enfim tratam-se de inúmeras atividades que faz com que a Autuada contrate terceiro para a execução dessas atividades (com base no art.25 da Lei nº 8.987/95; - que a opção da Autuada, assim, foi a de transferir para uma empresa especializada não apenas a execução de serviços relacionados à operação, conservação e manutenção das rodovias, mas também a gestão de fornecedores contratados para a execução de parte desses serviços; nesse contexto é que a Autuada celebrou 10 contratos de prestação de serviços com a Rio Tibagi; que os contratos autorizam a Rio Tibagi a subcontratar; II.1.2. A inaplicabilidade dos artigos 464, VI, 465, 466 e 467, V do RIR/99 Neste item, inicialmente a Contribuinte transcreve várias passagens do TVF que abordam estes dispositivos que fundamentaram a glosa das despesas, onde arremata que tais dispositivos não poderiam embasar tal autuação, seja porque a Rio Tibagi não se qualifica como pessoa ligada (ou interligada), seja porque não ficou provado a existência de condições de favorecimento para a Rio Tibagi; - transcreve o art.465 do RIR/99, citado pelo Fisco: - que pela leitura deste dispositivo, percebe-se que a Rio Tibagi não é pessoa ligada à Autuada, pois (i) não é sócia ou acionista da Autuada (hipótese do inciso I); (ii) não é administradora e nem titular da Autuada (hipótese do inciso II); também não é (e nem poderia ser, pois trata-se de pessoa jurídica) cônjuge ou parente da Autuada ou de seus sócios (hipótese do inciso III); Fl. 42587DF CARF MF Fl. 26 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 -que para tentar superar esse intransponível obstáculo, a Auditoria Fiscal alega que "a interligação entre as empresas RIO TIBAGI e ECONORTE...decorre...de expresso dispositivo legal, contido no artigo 466 do RIR/99", que assim dispõe: - que o transcrito art.466 do RIR/99 também não se presta para fundamentar a pretensão da Auditoria Fiscal, pois o dispositivo somente se aplica "Se a pessoa jurídica for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica", o que não é o caso, pois ela não é sócia e muito menos controladora da Autuada, nem direta e nem indiretamente, por meio de outra sociedade; - que o fato de a Rio Tibagi estar sob o mesmo controle acionário da Autuada poderia no máximo evidenciar que ambas as empresas integram um mesmo grupo econômico, o que não é suficiente para qualificar a Rio Tibagi como pessoa ligada à Autuada; traz ementas de julgados de 1ª instância que entende seria favoráveis ao que ora defende; - ainda que se admitisse que a Rio Tibagi fosse pessoa ligada à Autuada, de toda a forma as regras de DDL não poderiam fundamentar a glosa efetuada pela Auditoria Fiscal, seja em razão da inexistência de comprovação de condições de favorecimento, seja em razão da existência de prova - inequívoca - de que os negócios entre a Autuada e a Rio Tibagi foram realizados nas mesmas condições em que a Autuada contrataria com terceiros; - Da inexistência de comprovação das condições de favorecimento - que a Auditoria Fiscal alega que a Rio Tibagi (empresa supostamente ligada ou "interligada") teria sido favorecida pela Autuada, na medida em que esta contratou serviços daquela "em valores acima daqueles que facilmente obteria no mercado" e em condições extremamente privilegiadas"; transcreve os artigos de DDL citados no TVF; - que a aplicação do art.464, inciso VI do RIR/99 pressupõe a apuração do valor de mercado do negócio realizado, pois é este o parâmetro essencial e indispensável para se verificar se a contratação foi realizada em condições de favorecimento; traz ementas de julgados do extinto Conselho de Contribuintes que entende seriam favoráveis ao que ora defende; - que a Auditoria Fiscal, mesmo tendo confessado que deixou de apurar o valor de mercado do negócio, ainda alegou ser "de fácil inferência que a ECONORTE ...valeu-se de uma Fl. 42588DF CARF MF Fl. 27 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 prestadora de serviços...para contratar despesas em valores acima daqueles que facilmente obteria no mercado." que se a Auditoria Fiscal não apurou o valor de mercado do negócio, como poderia concluir - como de fato concluiu - que a Autuada contratou "despesas em valores acima daqueles que facilmente obteria no mercado?"; - Os negócios foram realizados nas mesmas condições que a Autuada contrataria com terceiros; transcreve o parágrafo 3º do art.464 do RIR/99 : - neste sentido entende que essa prova existe, trata-se do relatório elaborados pela auditoria independente (docs.30 e 31 anexos); - que, em auditoria realizada na Rio Tibagi, a própria Receita Federal não contestou os preços praticados nos negócios realizados com a Autuada (doc.32 anexo); II.1.3 A infundada desconsideração da Rio Tibagi - que de acordo com entendimento da Auditoria Fiscal, os custos incorridos pela Rio Tibagi seriam o meio mais adequado para determinação do montante das despesas dedutíveis para a Autuada, pois esses custos seriam os mesmos caso os serviços contratados fossem executados pela própria Autuada; Nesse sentido, verifique-se as seguintes passagens do TVF: Fl. 42589DF CARF MF Fl. 28 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 - em face desse inusitado entendimento, a Auditoria Fiscal considerou que o montante excedente aos custos incorridos pela Rio Tibagi para a prestação dos serviços contratados seriam "custos excessivos" da Autuada e, portanto, indedutíveis; - que o critério adotado pela Auditoria Fiscal para a glosa das despesas da Autuada é flagrantemente ilegal, pois representa, por via transversa, a desconsideração da Rio Tibagi como prestadora de serviços, sem que o TVF tenha invocado qualquer fundamento legal para tanto; II .1.4. O erro no critério para quantificação dos tributos - que, uma vez que a Rio Tibagi tenha sido desconsiderada como prestadora de serviços, os tributos (IRPJ e CSLL) por ela recolhidos nos anos-calendário 2011 e 2012 sobre as receitas decorrentes dos contratos celebrados com a Autuada deveriam ser integralmente deduzidos dos débitos fiscais apurados; II.2 Dos serviços contratados junto ao BTG e a Vox Fl. 42590DF CARF MF Fl. 29 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 - Além da ilegal glosa de parte das despesas incorridas pela Recorrente em relação aos serviços contratados junto a Rio Tibagi, a Auditoria Fiscal também procedeu à glosa da totalidade das despesas relacionadas aos serviços contratados pela Recorrente junto ao BTG e a Vox. - Porém, ao contrário do que ocorreu em relação à Rio Tibagi, no caso do BTG e da Vox o fundamento legal da glosa das despesas foi o artigo 299 do RIR/99, que trata da regra geral de dedutibilidade; II.2.1 Dos serviços contratados junto ao BTG - A Recorrente contratou o Banco BTG Pactual para prestar serviço de consultoria relacionada ao setor de concessão de rodovias, especialmente para efetuar uma análise do setor e de seus agentes, a fim de auxiliá-la na tomada de decisões empresariais, dentre elas a realização de novos investimentos e reestruturação de suas atividades; - Verifique-se, a propósito, o escopo do serviço contratado: “1. SERVIÇOS A SEREM PRESTADOS PELO BTG PACTUAL O BTG Pactual realizará um estudo de forma a analisar, de maneira isenta e idônea, o setor de concessões rodoviárias, assim como seus principais agentes (‘Setor’), de forma a buscar propiciar às Sociedades uma visão atualizada acerca do Setor, de forma que as Sociedades estejam providas de informações úteis para a análise de potenciais novos investimentos e estruturação de suas atividades (‘o Estudo’). Dentro do estudo também serão consideradas variáveis macroeconômicas que digam respeito ao Setor.” (destacamos) - Os serviços foram efetivamente prestados pelo BTG e ao final foi elaborado um relatório com 51 páginas, no qual são abordados diversos pontos relevantes, tais como a qualidade das rodovias sob regime de concessão, o potencial de crescimento do setor rodoviário, a projeção de crescimento da indústria automobilística (fator que influencia diretamente no aumento de tráfego nas rodovias e no incremento da receita de pedágio), os riscos regulatórios do setor rodoviário, além de informações financeiras detalhadas dos principais concorrentes da Recorrente; - As informações constantes desse relatório – decorrente dos serviços prestados pelo BTG – auxiliaram a Recorrente na tomada de importantes decisões empresariais, especialmente no que concerne aos investimentos realizados (ou que se deixou de realizar) nos anos subsequentes; - Não obstante a nítida relação de pertinência do serviço contratado (estudo relacionado ao setor de concessão de rodovias) com a atividade exercida pela Recorrente (concessionária de rodovias), ainda assim a Auditoria Fiscal entendeu que as despesas incorridas pela Recorrente não seriam dedutíveis, (expõe as razões do TVF e do voto condutor da DRJ), onde conclui: Com o devido respeito, condicionar a dedutibilidade da despesa à apresentação de “documentos relativos às tratativas realizadas para a negociação com o grupo empresarial de Cingapura” é exigência completamente descabida, pois o estudo não foi elaborado em razão da pretensão de alienação de um ativo. A pretensão de alienação de um ativo foi apenas um meio vislumbrado pela Fl. 42591DF CARF MF Fl. 30 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Recorrente para viabilizar a captação de recursos e realizar investimentos programados a partir do estudo realizado pelo BTG. Com efeito, a apresentação dos referidos documentos como condição para o reconhecimento da dedutibilidade da despesa só faria sentido se o objeto do estudo tivesse sido a análise de um ativo para venda e/ou determinação do preço de venda de um ativo, o que não é o caso. Definitivamente o argumento dos Auditores Fiscais julgadores não se presta para validar a glosa da despesa! II.2.2 Dos serviços contratados junto a Vox - Logo de plano já se verifica que a interpretação da Auditoria Fiscal foi flagrantemente equivocada, pois não se tratou de “pesquisa eleitoral”, voltada a colher a opinião de voto dos entrevistados, até porque a eleição presidencial acabará de ocorrer (em 2010). Conforme mencionado acima, o objetivo era o de conhecer a opinião dos entrevistados sobre quais deveriam ser as prioridades do novo governo em diversos segmentos, especialmente no segmento de transporte e infraestrutura rodoviária; - O acórdão recorrido não reconheceu a dedutibilidade da despesa em razão do valor gasto (R$ 250.000,00) quando comparado com a parcela da pesquisa diretamente relacionada a privatizações, mas não foi essa a motivação adotada pela Auditoria Fiscal para a prática dos lançamentos. - Com efeito, a glosa da despesa ocorreu exclusivamente porque a Auditoria Fiscal entendeu – equivocamente – que se tratou de uma “pesquisa eleitoral”, independentemente do valor que tenha sido gasto com a pesquisa. - A pretensão do acórdão recorrido (de validar a glosa da despesa em razão do valor gasto) representa flagrante alteração do critério jurídico adotado para a prática dos lançamentos, o que não se pode conceber, sob pena de afronta ao artigo 146 do CTN, além de ensejar cerceamento de defesa (a Recorrente não se defendeu dessa acusação na sua impugnação). - Com efeito, se o acórdão recorrido reconheceu que não se tratou de “pesquisa eleitoral”, o único caminho possível seria o reconhecimento da improcedência dos lançamentos, e não a sua validação com base em motivação nova, não utilizada para a prática dos lançamentos. DO ACÓRDÃO DA DRJ Acórdão 11-55.859 - 4ª Turma da DRJ/REC Sessão de 28 de abril de 2017 De se reproduzir o voto condutor do referido Acórdão, naquilo que se refere especificamente à infração denominada de Excesso de custos - DDL (Títulos 6.1 e 6.1.1 do TVF): Fl. 42592DF CARF MF Fl. 31 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Aloysio José Percínio da Silva – Relator [...] Percebe-se o uso no TVF dos termos "ligada" e "interligada", alternada e indistintamente, para designar a Rio Tibagi. Como o presente exame está vinculado à aplicação da legislação própria de distribuição disfarçada de lucros (DDL), adotarei unicamente "ligada" neste voto, em razão de ser esse o conceito referido na disciplina legal acerca do assunto. No mérito, vê-se que o lançamento não está baseado em negação da possibilidade de contratação de terceiros para execução dos serviços inerentes à exploração das rodovias, hipótese legal e contratualmente prevista. Excesso de custos - DDL (Títulos 6.1 e 6.1.1 do TVF): Houve glosa parcial de custos motivada por suposta ligação entre a Autuada (Econorte), ora Impugnante, e Rio Tibagi, contratada para prestação de serviços no âmbito da concessão para exploração de rodovias e que teve a Autuada como única cliente no período fiscalizado. Na visão da Autoridade Fiscal, houve interposição da Rio Tibagi para a contratação de serviços de terceiros, caracterizando um expediente com a finalidade de elevação dos custos operacionais e, por conseqüência, a redução do lucro tributável. A matéria foi objeto de exame por esta Turma em recente julgamento no âmbito do processo nº 11634.720544/2015-46, que trata de Autos de Infração de IRPJ e CSLL relativos ao ano-calendário 2010, lavrados contra o mesmo sujeito passivo deste processo. Na ocasião, foi proferido o Acórdão nº 11-55.578, de 07/04/2017, assim ementado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010 PRESUNÇÃO LEGAL DE DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS (DDL). NEGÓCIO EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. DEDUÇÃO NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. VEDAÇÃO. A comprovação da realização de negócio em condições de favorecimento entre o contribuinte e pessoa jurídica na qual sua controladora tenha interesse direto ou indireto autoriza a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DDL), não sendo dedutíveis na apuração do lucro real as importâncias pagas ou creditadas que caracterizam as condições de favorecimento." O referido Acórdão consta destes autos (fls. 42.412). Naquele julgamento, votei pela procedência da Impugnação, como Relator, em razão da ausência de caracterização da Rio Tibagi como empresa ligada para fins da legislação específica de DDL. A Turma rejeitou tal entendimento e resolveu adotar o do Julgador Luciano Valença, que passou à condição de orientador do Acórdão, como Voto Vencedor. Assim decidiu a Turma: "Acordam os membros da 4ª Turma de Julgamento julgar a impugnação improcedente, por maioria, vencido o Relator. Designado para Redator do voto vencedor o Julgador Luciano de Oliveira Valença." Fl. 42593DF CARF MF Fl. 32 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Prevaleceu o seguinte entendimento exposto no Voto Vencedor: "A partir do relatório e do voto do relator do processo, extrai-se que a autoridade fiscal, através de diversos elementos probatórios, caracterizou a existência de ligação entre o contribuinte e a empresa Rio Tibagi. Assim, diante da comprovação de que foram realizados negócios com a Rio Tibagi em condições mais vantajosas para esta do que as que prevaleceriam no mercado, foi imputada a presunção legal de distribuição disfarçada de lucros nos termos do art. 464, VI do RIR/99. O relator do processo entendeu que a situação descrita nos autos não permite o referido enquadramento, haja vista que a Rio Tibagi não se adequa às hipóteses legais estabelecidas no art. 465 do RIR/99 para definição de pessoa ligada. Ressaltou que o fato de terem em comum a sócia Triunfo Participações e Investimentos S/A não eleva a Rio Tibagi à condição de pessoa ligada por falta de previsão legal; Avançando em sua análise, considerou não ser aplicável ao caso o art. 466 do RIR/99, que, a seu ver, amplia o alcance do art. 465 para abranger negócios realizados por intermédio de terceiros. Para tanto, apresentou as seguintes considerações: - tal disposição fixa como pressuposto para presunção a condição de a pessoa ligada (Rio Tibagi) ser sócia ou acionista controladora do contribuinte (Econorte) e realizar negócio por intermédio de uma terceira, o que não ocorreu no presente caso; - não pode ser aplicado o entendimento de que a pessoa ligada seria a Triunfo, controladora de ambas, e que a terceira pessoa, não ligada, seria a Rio Tibagi. Isto porque a autoridade fiscal indicou como ligada a Rio Tibagi e não a controladora. E foi desta vinculação que o contribuinte se defendeu. A sua alteração na fase de julgamento implica cerceamento do direito de defesa. Peço licença ao ilustre relator para divergir do seu entendimento pelas razões que passo a expor. De início é devido registrar que não difiro de seu posicionamento quanto ao fato de que a Rio Tibagi não se enquadra nas hipóteses de pessoa ligada fixadas no art. 465 do RIR/99, em que pese a autoridade fiscal ter reiteradamente feito tal consideração ante os elementos obtidos durante a fiscalização. A discordância surge em relação ao enquadramento do caso concreto na hipótese descrita no art. 466 do RIR/99, que, a meu ver, teve por objetivo estender a presunção da distribuição disfarçada de lucros para negócios realizados com favorecimento com pessoa não ligada (na conceituação do art. 465) no interesse de controladores diretos ou indiretos, atendidas certas condições. Transcreve-se o referido dispositivo, cuja base legal é o art. 61 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, com redação dada pelo Decreto-lei nº 2.065, de 1983: Art. 466. Se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica, presumir-se-á distribuição disfarçada de lucros ainda que os negócios de que tratam os incisos I a VI do art. 464 sejam realizados com a pessoa Fl. 42594DF CARF MF Fl. 33 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 ligada por intermédio de outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta ou indiretamente, interesse. Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, sócio ou acionista controlador é a pessoa física ou jurídica que, diretamente ou através de sociedade ou sociedades sob seu controle, seja titular de direitos de sócio ou acionista que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria de votos nas deliberações da sociedade. (grifou-se) A partir da simples literalidade do dispositivo é possível extrair que se presume distribuição disfarçada de lucros também no caso (i) de o negócio ser realizado entre uma pessoa jurídica A e outra pessoa jurídica B (não ligada), desde que (ii) a pessoa jurídica C ligada da pessoa jurídica A (sócio controlador direto ou indireto) (iii) tenha direta ou indiretamente interesse na pessoa jurídica B. Vejamos se o caso presente se subsume nesta hipótese de presunção: (i) a Econorte fez negócio com a Rio Tibagi, que não é pessoa ligada (no conceito do art.465); e (ii) o sócio controlador da Econorte, qual seja, Triunfo, (iii) tem interesse direto na Rio Tibagi vez que é sua controladora. Fl. 42595DF CARF MF Fl. 34 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Não resta dúvida, pois, que o caso concreto se subsume à hipótese de distribuição disfarçada de lucros do art. 466 do RIR/99. Não poderia ser outro o entendimento, vez que ao contratar serviços prestados da Rio Tibagi por valor notoriamente superior ao mercado, a Econorte está em realidade transferindo lucro para esta e, ao fim, por equivalência patrimonial, para a Triunfo, beneficiário final e interessado direto na operação irregular. Não prospera a interpretação dada pelo i. relator ao dispositivo, ao estabelecer como pressuposto para presunção a condição de a Rio Tibagi ser pessoa ligada à Econorte, sua sócia ou acionista controladora, e realizar negócio por intermédio de uma terceira. Na realidade, ele deixou de atentar para o fato de que o artigo é composto por duas partes, abordando dois tipos de transações, haja vista a presença da conjunção alternativa "OU". As transações são as seguintes: uma que estabelece que a pessoa jurídica A deve ser ligada à pessoa jurídica B, sendo seu sócio controlador, e que esta pessoa jurídica B realiza negócio com a pessoa jurídica A, tendo como intermediário outra empresa C não ligada (no conceito do art.465); a outra, distinta, e adotada neste voto vencedor, é aquela em que o negócio é realizado entre uma pessoa jurídica A e outra pessoa jurídica B (não ligada no conceito do art. 465), e a pessoa jurídica C ligada da pessoa jurídica A (sócio controlador) tem interesse direto ou indireto na pessoa jurídica B. Nesta transação, está evidente a interligação entre as empresas A e B haja vista que ambas estão sob interesse direto ou indireto de uma mesma empresa. Ou seja, para considerar que o dispositivo não se aplicava ao caso presente o relator baseou sua interpretação na primeira operação prevista no dispositivo. Mesmo nesta hipótese, entendo que a interpretação não foi adequada, vez que não seria necessária a ligação entre a Rio Tibagi e a Econorte, bastando que o negócio tivesse sido feito entre a Econorte e a Triunfo (sua pessoa ligada, sócia controladora), por intermédio da Rio Tibagi. Fl. 42596DF CARF MF Fl. 35 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Não merece prevalecer também o entendimento de que tal dispositivo (art. 466) não seria aplicável pois a autoridade fiscal não indicou a Triunfo como ligada, mas sim a Rio Tibagi. Ora, não seria necessário a autoridade fiscal mencionar que a Triunfo é pessoa ligada, vez que a condição de sócia controladora já pressupõe tal qualificação. A conclusão da maioria dos membros deste colegiado pela distribuição disfarçada de lucro a partir da interpretação do art. 466 do RIR/99 não caracteriza, a meu ver, cerceamento do direito de defesa, vez que o próprio contribuinte contestou a aplicação do art. 466, exercendo plenamente seu direito. Ao discorrer que tal enquadramento somente se aplicaria se a Rio Tibagi fosse seu sócio, condição para a caracterização da ligação entre as empresas, o contribuinte expôs sua inconformidade em relação à consideração da autoridade fiscal quanto à interligação entre as empresas. [...] Concordo com o relator no sentido de que a autoridade fiscal aprofundou sua investigação a tal ponto que seria possível se cogitar a hipótese de simulação baseada em um planejamento voltado unicamente para economia tributária mediante elevação artificial de custos com utilização de empresa tributada pelo regime do lucro presumido, no caso, a Rio Tibagi, o que ensejaria uma desconsideração da personalidade jurídica da Rio Tibagi e tratamento das duas pessoas jurídicas como uma única. Nesta hipótese, não seria o caso de distribuição disfarçada de lucros, mas de glosas de custos e despesas. Inclusive, conforme bem lembrado em seu voto, o relator mencionou o processo nº 11080.728364/2013-54, já apreciado anteriormente por esta turma, com o lançamento mantido, onde, em situação similar, a autoridade fiscal adotou o caminho da despersonalização. Todavia, a possibilidade de lançamento com despersonalização da pessoa jurídica Rio Tibagi, que, destaque-se, seria mais prejudicial ao contribuinte e ao grupo econômico, ensejando qualificação de multa e representação fiscal para fins penais, não é motivo para afastar o fato de que o caso concreto se subsume à hipótese legal do art.466 do RIR/99, sendo esta uma via legal possível para a imputação ao contribuinte de infração à legislação tributária. Então, ante o exposto, houve no caso concreto a subsunção do fato ao disposto no art. 466 do RIR/99." No tocante à condição de favorecimento, concluí que estava devidamente caracterizada, verbis: "Não há no texto legal fixação de precedência de um parâmetro em relação ao outro. Os dois – condições de mercado e de contratação com terceiros – são, de fato, complementares, ou mesmo semelhantes, para fins de identificação de ocorrência da condição de favorecimento. O critério adotado reflete precisamente as condições de contratação com terceiros não vinculados, em razão de utilizar os contratos firmados entre Rio Tibagi e terceiros dela desvinculados (e também da Autuada), o que veio revelar as reais condições que seriam encontradas pela Autuada ao se lançar no mercado para contratação dos serviços de empresas sem ligação consigo. Fl. 42597DF CARF MF Fl. 36 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Não houve desconsideração da Rio Tibagi como prestadora de serviços na lógica adotada pela Autoridade Fiscal, com o conseqüente enquadramento segundo as normas da DDL. Haveria no caso de opção pela situação 'real' anteriormente aventada, com a unificação das duas empresas para fins tributários, não adotada no lançamento em questão, ..." Como visto, o tema já foi devidamente examinado e julgado pela Turma no processo nº 11634.720544/2015-46. Assim, quanto à parcela do crédito tributário decorrente da DDL, aplico neste Voto o mesmo entendimento contido no Voto Vencedor do Acórdão nº11-55.578 (fls. 42.412), sem prejuízo da minha convicção pessoal, que se mantém inalterada. Voto Vencedor Conforme consta do relatório e do voto do relator do processo, foram glosadas as despesas da autuada com serviços prestados pelo Banco BTG Pactual e por Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda (Vox Populi) que tinham sido computadas em seu resultado operacional. A autoridade fiscal considerou tais despesas como desnecessárias. 2. Por sua vez, o relator do processo entendeu que os documentos carreados aos autos pelo contribuinte são suficientes para comprovar a necessidade das referidas despesas. 3. Peço licença ao ilustre relator para divergir do seu entendimento pelas razões que passo a expor. Da despesa com o Banco BTG Pactual 4. De acordo com proposta de assessoria financeira apresentada pelo Banco BTG Pactual (contratado) às fls. 42217 a 42221, devidamente firmada pela autuada (e pela empresa Concepa - Concessionária da Rodovia Osório - Porto Alegre; contratantes), o serviço a ser prestado pelo contratado consistiu em "estudo de forma a analisar, de maneira isente e idônea, o setor de concessões rodoviárias, assim como seus principais agentes ('Setor'), de forma a buscar propiciar as Sociedades uma visão atualizada acerca do Setor de forma que as Sociedades estejam providas de informações úteis para análise de potenciais novos investimentos e estruturações de suas atividades (o 'Estudo'). Dentro do Estudo também serão consideradas variáveis macroeconômicas que digam respeito ao Setor.' 5. De início é devido registrar que o relatório apresentado (fls. 42222 a 42272) está redigido em quase sua totalidade na língua inglesa, o que impede a este julgador uma análise mais detalhada do teor do estudo apresentado e, por conseguinte, uma adequada verificação da relação deste com a atividade da empresa. O referido documento somente teria valor probatório se acompanhado de tradução juramentada, o que não ocorreu no presente caso. 6. Não obstante isso, e em que pese a autoridade fiscal ter destacado a grafia na língua inglesa e a difícil compreensão do documento, a motivação da glosa não foi a falta de comprovação da efetividade da despesa, mas a sua desnecessidade, o que se passa a apreciar, sem valoração quanto à validade do relatório apresentado como prova suficiente. Ademais, o relator obteve aparente êxito na leitura do relatório de consultoria, tendo destacado seus pontos principais. Fl. 42598DF CARF MF Fl. 37 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 7. Atentando unicamente para o teor da proposta de trabalho apresentada pelo Banco BTG Pactual, acima transcrita, e para os tópicos levantados pelo relator, poder-se-ia, a princípio, considerar que o estudo apresentado teria interesse para fins de planejamento empresarial da autuada, permitindo uma visão do mercado de concessões e análise de viabilidade de novos investimentos. Em assim sendo, a despesa realizada com tal consultoria atenderia a condição de necessidade para a atividade do contribuinte. 8. Acontece que, em resposta apresentada pela autuada à intimação fiscal, protocolada em 18/12/2015, foi dito que o estudo não serviu como ferramenta empresarial de planejamento de novos investimentos para os gestores da autuada, mas teve objetivo especifico e exclusivo de viabilizar alienação de participação societária não dominante para um grupo empresarial de Cingapura (vide trecho copiado abaixo). Tal fato foi destacado pela autoridade fiscal no TVF, conforme pode ser visto na transcrição feita pelo relator do processo. 9. Ante este quadro, os demais membros do colegiado (inclusive este redator do voto vencedor) entenderam ser imprescindível para a demonstração da necessidade da despesa a apresentação de documentos relativos às tratativas realizadas para a negociação com o grupo empresarial de Cingapura (e-mails, correspondências, propostas negociais, despesas com viagens, hospedagem etc), que permitissem vincular o gasto realizado com o negócio pretendido, independentemente se este chegou a ser concretizado ou não. 10. Ressalte-se o equívoco de compreensão do ilustre relator quanto ao entendimento dos demais membros do colegiado, pois em momento algum a ausência da realização do negócio com o grupo empresarial de Cingapura foi colocado em sessão como um fator motivador da conclusão pela desnecessidade da despesa com a consultoria. Como dito, bastaria a comprovação das tratativas com tal grupo para que se demonstrasse que o gasto realizado teve o fim empresarial mencionado pelo contribuinte. 11. Todavia, tais documentos não foram juntados aos autos, restando considerar não comprovada a alegação do contribuinte, e, por consequência, não comprovada a necessidade do gasto realizado. Da despesa com a Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. (Vox Populi) 12. Segundo cláusula primeira do contrato firmado entre a autuada (contratante) e a Vox Populi (contratada), às fls. 42273 a 42277, analisada juntamente com o Anexo I ao contrato, às fls. 42278 a 42281, o serviço encomendado foi uma pesquisa de opinião quantitativa e consultoria para análise dos resultados obtidos, tendo por objetivo avaliar e mensurar as opiniões e expectativas da Fl. 42599DF CARF MF Fl. 38 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 população brasileira para com a presidente eleita Dilma Rousseff nos quatro anos seguintes ao do contrato. 13. O contribuinte argumentou durante a fiscalização que sua atividade é influenciada pela estrutura política e administrativa do Poder Público, sendo necessário manter-se atualizada das condições e oportunidades do mercado, razão pela qual contratou os serviços referidos que permitiriam uma identificação de cenários que lhe possibilitariam a captação de recursos. Em sua impugnação esclarece que os subsídios a serem obtidos na pesquisa realizada visavam demonstrar à Presidente Dilma a necessidade de realizar investimentos no seguimento de transportes, especialmente na infraestrutura de rodovias, mediante sua privatização, o que poderia criar oportunidades de novos negócios. Em que pese o resultado da pesquisa ter sido desfavorável, entende que a despesa foi necessária em razão da pertinência do serviço com a atividade exercida. 14. Não resta dúvida de que uma pesquisa de interesse da população quanto à privatização de rodovias pode ser uma ferramenta capaz de influenciar decisões políticas no segmento de transportes, razão pela qual, a despesa respectiva pode ser considerada como necessária à atividade da pessoa jurídica, haja vista a possibilidade de novos negócios que dela podem advir. 15. Todavia, o valor gasto de R$ 250.000,00 foi aplicado em pesquisa muito mais abrangente (fls. 42282 a 42407), envolvendo, em quase sua totalidade, assuntos não relacionados com a área de interesse da empresa, tais como: eleições presidenciais de 2010 (comparecimento, votos, e opiniões sobre a presidente), cujo cabimento se estranha, já que as eleições já estavam finalizadas quando da contratação - dezembro de 2010; prioridades do próximo governo; educação (Enem, investimentos, cotas, conhecimento do Enem, etc.); expectativas de governo (economia, bolsa família, erradicação da miséria, legislação trabalhista, atuação do PMDB); comparação do governo Lula e Dilma; homossexuais (união civil, adoção, direitos da união civil); aborto (discriminalização); drogas (descriminalização). Apenas um tópico foi relativo a privatização, sendo uma parte avaliando privatização de empresas em geral, e apenas uma abordando, entre outras, privatização de rodovias (fls. 42366 a 42368). 16. Não se vislumbra qualquer utilidade das informações acima para a prospecção de novos negócios na área de concessão. Apenas a pesquisa relativa a privatizações teria utilidade para o contribuinte, mas a mesma representou uma parcela ínfima do serviço prestado pela contratada. 17. Ao contrário desse entendimento, o ilustre relator considerou que a ampla pesquisa de opinião permitiu "a identificação do horizonte (cenário futuro) da atividade desenvolvida" pelo contribuinte, complementando que no seu ramo de negócios é relevante "o conhecimento das expectativas da população acerca das ações do governo, especialmente na parte referente à privatização da gestão de rodovias". 18. Porém, percebe-se que o julgador somente conseguiu destacar a parte da pesquisa relativa à privatização da gestão de rodovias, limitando-se, em relação aos demais tópicos, a mencionar a importância da pesquisa de forma genérica. Não poderia ser de outra forma, pois não há como extrair dos demais assuntos Fl. 42600DF CARF MF Fl. 39 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 abordados na pesquisa qualquer contribuição efetiva no planejamento estratégico da empresa, em sua gestão e em projeções de investimentos. Como explicar que o assunto aborto tem algum vínculo, por mais tênue que seja, com a atividade de exploração de concessões de rodovias? O que dizer então dos assuntos relativos a drogas, homossexuais, Enem, cotas para entrada em universidades públicas, atuação do PMDB, comparação do governo Lula e Dilma, erradicação da miséria, e outros? 19. Como não é possível desmembrar o valor pago entre cada tópico da pesquisa, vez que não há no contrato qualquer especificação nesse sentido, há que se considerar a integralidade da despesa realizada como não necessária. Voto Vencido Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano Preenchido os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário, dele se conhece. Relativamente à questão central do litígio posto, a Recorrente entende que "cai por terra a interpretação adotada pelos Auditores fiscais", pois a Rio Tibagi não seria uma empresa ligada à Recorrente e o art.466 só seria aplicável "se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica." A autoridade fiscal por várias vezes utilizou-se da denominação "pessoa ligada" quando se referia à Recorrente, algo que já foi inclusive comentado na decisão da instância de piso, mas, em verdade, tal situação não tem o condão que lhe atribui a Recorrente. De se reproduzir excertos do voto condutor da DRJ (integralmente transcrito no relatório deste Voto), que detalha e bem explica os fundamentos da autuação, que acato e adoto como razão de decidir: Transcreve-se o referido dispositivo, cuja base legal é o art. 61 do Decreto-lei nº 1.598, de 1977, com redação dada pelo Decreto-lei nº 2.065, de 1983: Art. 466. Se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica, presumir-se-á distribuição disfarçada de lucros ainda que os negócios de que tratam os incisos I a VI do art. 464 sejam realizados com a pessoa ligada por intermédio de outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta ou indiretamente, interesse. Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, sócio ou acionista controlador é a pessoa física ou jurídica que, diretamente ou através de sociedade ou sociedades sob seu controle, seja titular de direitos de sócio ou acionista que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria de votos nas deliberações da sociedade. (grifou-se) Fl. 42601DF CARF MF Fl. 40 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 A partir da simples literalidade do dispositivo é possível extrair que se presume distribuição disfarçada de lucros também no caso (i) de o negócio ser realizado entre uma pessoa jurídica A e outra pessoa jurídica B (não ligada), desde que (ii) a pessoa jurídica C ligada da pessoa jurídica A (sócio controlador direto ou indireto) (iii) tenha direta ou indiretamente interesse na pessoa jurídica B. Vejamos se o caso presente se subsume nesta hipótese de presunção: (i) a Econorte fez negócio com a Rio Tibagi, que não é pessoa ligada (no conceito do art.465); e (ii) o sócio controlador da Econorte, qual seja, Triunfo, (iii) tem interesse direto na Rio Tibagi vez que é sua controladora. Não resta dúvida, pois, que o caso concreto se subsume à hipótese de distribuição disfarçada de lucros do art. 466 do RIR/99. Não poderia ser outro o entendimento, vez que ao contratar serviços prestados da Rio Tibagi por valor notoriamente superior ao mercado, a Econorte está em realidade transferindo lucro para esta e, ao fim, por equivalência patrimonial, para a Triunfo, beneficiário final e interessado direto na operação irregular. Fl. 42602DF CARF MF Fl. 41 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Não prospera a interpretação dada pelo i. relator ao dispositivo, ao estabelecer como pressuposto para presunção a condição de a Rio Tibagi ser pessoa ligada à Econorte, sua sócia ou acionista controladora, e realizar negócio por intermédio de uma terceira. Na realidade, ele deixou de atentar para o fato de que o artigo é composto por duas partes, abordando dois tipos de transações, haja vista a presença da conjunção alternativa "OU". As transações são as seguintes: uma que estabelece que a pessoa jurídica A deve ser ligada à pessoa jurídica B, sendo seu sócio controlador, e que esta pessoa jurídica B realiza negócio com a pessoa jurídica A, tendo como intermediário outra empresa C não ligada (no conceito do art.465); a outra, distinta, e adotada neste voto vencedor, é aquela em que o negócio é realizado entre uma pessoa jurídica A e outra pessoa jurídica B (não ligada no conceito do art. 465), e a pessoa jurídica C ligada da pessoa jurídica A (sócio controlador) tem interesse direto ou indireto na pessoa jurídica B. Nesta transação, está evidente a interligação entre as empresas A e B haja vista que ambas estão sob interesse direto ou indireto de uma mesma empresa. Ou seja, para considerar que o dispositivo não se aplicava ao caso presente o relator baseou sua interpretação na primeira operação prevista no dispositivo. Mesmo nesta hipótese, entendo que a interpretação não foi adequada, vez que não seria necessária a ligação entre a Rio Tibagi e a Econorte, bastando que o negócio tivesse sido feito entre a Econorte e a Triunfo (sua pessoa ligada, sócia controladora), por intermédio da Rio Tibagi. Não merece prevalecer também o entendimento de que tal dispositivo (art. 466) não seria aplicável pois a autoridade fiscal não indicou a Triunfo como ligada, mas sim a Rio Tibagi. Ora, não seria necessário a autoridade fiscal mencionar que a Triunfo é pessoa ligada, vez que a condição de sócia controladora já pressupõe tal qualificação. A conclusão da maioria dos membros deste colegiado pela distribuição disfarçada de lucro a partir da interpretação do art. 466 do RIR/99 não caracteriza, a meu ver, cerceamento do direito de defesa, vez que o próprio contribuinte contestou a aplicação do art. 466, exercendo plenamente seu direito. Ao discorrer que tal enquadramento somente se aplicaria se a Rio Tibagi fosse seu sócio, condição para a caracterização da ligação entre as empresas, o contribuinte expôs sua inconformidade em relação à consideração da autoridade fiscal quanto à interligação entre as empresas. [...] Concordo com o relator no sentido de que a autoridade fiscal aprofundou sua investigação a tal ponto que seria possível se cogitar a hipótese de simulação baseada em um planejamento voltado unicamente para economia tributária mediante elevação artificial de custos com utilização de empresa tributada pelo regime do lucro presumido, no caso, a Rio Tibagi, o que ensejaria uma desconsideração da personalidade jurídica da Rio Tibagi e tratamento das duas pessoas jurídicas como uma única. Nesta hipótese, não seria o caso de distribuição disfarçada de lucros, mas de glosas de custos e despesas. Fl. 42603DF CARF MF Fl. 42 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Inclusive, conforme bem lembrado em seu voto, o relator mencionou o processo nº 11080.728364/2013-54, já apreciado anteriormente por esta turma, com o lançamento mantido, onde, em situação similar, a autoridade fiscal adotou o caminho da despersonalização. Todavia, a possibilidade de lançamento com despersonalização da pessoa jurídica Rio Tibagi, que, destaque-se, seria mais prejudicial ao contribuinte e ao grupo econômico, ensejando qualificação de multa e representação fiscal para fins penais, não é motivo para afastar o fato de que o caso concreto se subsume à hipótese legal do art.466 do RIR/99, sendo esta uma via legal possível para a imputação ao contribuinte de infração à legislação tributária. Então, ante o exposto, houve no caso concreto a subsunção do fato ao disposto no art. 466 do RIR/99." No tocante à condição de favorecimento, concluí que estava devidamente caracterizada, verbis: "Não há no texto legal fixação de precedência de um parâmetro em relação ao outro. Os dois – condições de mercado e de contratação com terceiros – são, de fato, complementares, ou mesmo semelhantes, para fins de identificação de ocorrência da condição de favorecimento. O critério adotado reflete precisamente as condições de contratação com terceiros não vinculados, em razão de utilizar os contratos firmados entre Rio Tibagi e terceiros dela desvinculados (e também da Autuada), o que veio revelar as reais condições que seriam encontradas pela Autuada ao se lançar no mercado para contratação dos serviços de empresas sem ligação consigo. Não houve desconsideração da Rio Tibagi como prestadora de serviços na lógica adotada pela Autoridade Fiscal, com o conseqüente enquadramento segundo as normas da DDL. Haveria no caso de opção pela situação 'real' anteriormente aventada, com a unificação das duas empresas para fins tributários, não adotada no lançamento em questão, ..." Como visto, o tema já foi devidamente examinado e julgado pela Turma no processo nº 11634.720544/2015-46. Assim, quanto à parcela do crédito tributário decorrente da DDL, aplico neste Voto o mesmo entendimento contido no Voto Vencedor do Acórdão nº11-55.578 (fls. 42.412), sem prejuízo da minha convicção pessoal, que se mantém inalterada. Cotejando a situação ora examinada nos autos com a hipótese do art.466 do RIR/99, forçoso reconhecer que, apesar de a Rio Tibagi ter contratado empresas para execução de serviços junto à Autuada, notório que a controladora TPI Triunfo Participações e Investimentos S/A detinha o interesse nas operações, pois era a controladora de ambas as empresas. Assim como não procede a alegação no recurso de nulidade da decisão da DRJ, de que esta teria inovado no critério jurídico da autuação, ao considerar que a Triunfo é que seria a empresa ligada. Ora, tal situação foi devidamente explicada no voto da DRJ, não acarretando, em absoluto, a nulidade pretendida. De se repetir o decidido na instância de piso: Fl. 42604DF CARF MF Fl. 43 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Não merece prevalecer também o entendimento de que tal dispositivo (art. 466) não seria aplicável pois a autoridade fiscal não indicou a Triunfo como ligada, mas sim a Rio Tibagi. Ora, não seria necessário a autoridade fiscal mencionar que a Triunfo é pessoa ligada, vez que a condição de sócia controladora já pressupõe tal qualificação. A conclusão da maioria dos membros deste colegiado pela distribuição disfarçada de lucro a partir da interpretação do art.466 do RIR/99 não caracteriza, a meu ver, cerceamento do direito de defesa, vez que o próprio contribuinte contestou a aplicação do art. 466, exercendo plenamente seu direito. Ao discorrer que tal enquadramento somente se aplicaria se a Rio Tibagi fosse seu sócio, condição para a caracterização da ligação entre as empresas, o contribuinte expôs sua inconformidade em relação à consideração da autoridade fiscal quanto à interligação entre as empresas. Conforme trecho da impugnação transcrito abaixo, o próprio contribuinte destaca que a autoridade fiscal fez uso do art. 466 na descrição dos fatos, a fim de demonstrar a interligação entre as empresas Rio Tibagi e a Econorte. Relativamente à outra questão alegada de que não teria havido a utilização de valor de mercado, um dos requisitos para fins de aplicação da DDL, mister que apresentemos o modo como foi obtido o denominado custo excessivo, que foi objeto de tributação. BASE DE CÁLCULO DO LANÇAMENTO DE OFÍCIO No item 6.4 Da composição final da base de cálculo (custos inexistentes/inidôneos), no TFV, temos o quadro demonstrativo (reproduzido no relatório deste voto) da base de cálculo do IRPJ, ora apurado de ofício. Importante demonstrar como foi apurada a matéria tributável relativamente ao item 6.1 - Custos Excessivos - 10 contratos, até porque tal apuração foi questionada pela Recorrente. De se transcrever novamente o já relatoriado texto, do TVF, em que a autoridade fiscal manifestou-se quanto ao procedimento adotado. Já se mencionou que a exclusividade da prestação de serviços pela RIO TIBAGI impede que sejam cotejados com o custo cobrado de outros tomadores de seus serviços. Diante desse obstáculo, só nos resta nos valermos dos demonstrativos apresentados pela RIO TIBAGI em 31/07/2015, e que foram minudenciados em duas oportunidades- 31/08 e 18/12/2015. Tais demonstrativos compõem-se de colunas em que se encontram discriminados os custos para a prestação de serviços (mão-de-obra, materiais, infra, impostos e despesas). O meio mais adequado de obtenção do custo dos serviços, na hipótese de execução pela própria contratante, ante a impossibilidade de comparação com os valores cobrados a outros clientes da RIO TIBAGI, que não existem, é nos valermos dos custos transcritos nas planilhas apresentadas pela contratada, Fl. 42605DF CARF MF Fl. 44 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 expurgando-se apenas as importâncias relativas aos impostos, que não são reputados custos para apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Esse é o único meio de enfrentarmos a dificuldade em se identificar o custo verdadeiro incorrido para a prestação dos serviços, o que também se justifica pela íntima relação existente entre as empresas, que encontra supedâneo não só no fato de serem interligadas,... Desse modo, são obtidos os valores estampados nas duas planilhas em anexo, integrantes do presente termo, intituladas 'Custos mensais apurados' e 'Glosa de Custos Declarados-serviços pagos a Rio Tibagi Serv. Op. Rod. Ltda.; a primeira planilha contém a demonstração dos valores que compõem os custos efetivamente necessários à execução dos serviços; na segunda, confrontamos os valores cobrados pelos serviços, nas notas fiscais emitidas pela RIO TIBAGI, com os valores totalizados na outra planilha (custos/despesas mensais apurados na prestação dos serviços). Serão adicionadas ao lucro líquido na apuração do lucro real as despesas consubstanciadas nos pagamentos mensais efetuados pela ECONORTE à RIO TIBAGI, na execução dos dez contratos de prestação de serviços firmados entre essas duas partes, nos valores que excederem seus custos como afirmado no parágrafo anterior, ... Tendo como exemplo o mês de janeiro de 2011, vejamos como se apurou a matéria tributável neste mês, no caso relativa aos Custos Excessivos - 10 contratos (item 6.1), como consta no demonstrativo. Conforme supra transcrito, a autoridade fiscal verificou, por meio das notas fiscais emitidas pela Rio Tibagi, o montante dos serviços pagos pela Recorrente, então demonstrados no quadro Glosa de Custos Declarados-serviços pagos a Rio Tibagi Serv. Op. Rod. Ltda, em Planilha de Cálculo, fls.40878 a 40886. Neste quadro, a autoridade fiscal considerou como custo excessivo, para o mês de janeiro/2011, a importância de R$ 1.589.195,67, a qual foi assim apurada: Nota Fiscal Nº Discriminação do Serviço/Contrato Valor (R$) 873 serviços pre hospitalares mediação 01/2011 400.846,12 874 serviços atendimento mecânico 01/2011 213.046,39 875 serviços de operação de balança de pesagem 01/2011 106.360,00 876 serviços de recolhimento de animais soltos rodovia 60.315,00 877 serviços de inspeção de tráfego 01/2011 97.556,73 878 serviços de gerenciamento casa do motorista 01/2011 29.802,00 879 serviços de manutenção viveiro 01/2011 9.757,00 Fl. 42606DF CARF MF Fl. 45 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 880 serviços de apoio ao tráfego 01/2011 17.778,14 881 serviços de limpeza de conservação 01/2011 13.010,00 882 serviços de conservação de rodovias 01/2011 1.976.736,05 SOMA MÊS/CUSTOS DECLARADOS 2.925.207,43 CUSTO MENSAL APURADO 1.336.011,76 GLOSA NO MÊS 1.589.195,67 A autoridade fiscal demonstra os custos mensais apurados, que seriam os custos efetivamente necessários à execução dos serviços, na Planilha de Cálculo às fls.40868 a 40877, intitulada "Custos mensais apurados - serviços prestados pela empresa Rio Tibagi Serviços de Operações e Apoio Rodoviário Ltda." Em janeiro de 2011, temos a seguinte configuração do custo mensal, que agrega o custo de materiais/insumos, mão de obra, INFRA, demais despesas, os quais estão totalizados na coluna Custos Considerados: SERVIÇO/CONTRATO CUSTOS CONSIDERADOS Valores pagos à RIO TIBAGI apoio ao tráfego 4.300,31 17.778,14 atendimento mecânico (resgate e guincho) 111.566,78 213.046,39 conservação de rodovias 885.240,28 1.976.736,05 gerenciamento casa do motorista 24.428,67 29.802,00 inspeção de tráfego 42.466,07 97.556,73 limpeza e conservação 15.550,86 13.010,00 manutenção viveiro de mudas 505,09 9.757,00 operação de balança de pesagem 34.118.05 106.360,00 recolhimento de animais 13.747,30 60.315,00 serviços atendimentos pré hospitalares 204.088,35 400.846,12 Janeiro/2011 1.336.011,76 2.925.207,43 Fl. 42607DF CARF MF Fl. 46 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 E assim, para todos os demais contratos, a autoridade fiscal procedeu a um exame minucioso dos valores pagos pela Recorrente tendo apurado que, na verdade, os valores pagos estavam acima dos custos efetivamente necessários à execução dos serviços contratados. A profunda investigação fiscal e suas constatações encontram-se descritas no Termo de Verificação Fiscal, item 3.1 Contrato de atendimento pré-hospitalar (fls.21 a 32), item 3.2 Contrato de serviços especializados de conservação, recuperação e manutenção de rodovias (fls.32 a 122), item 3.3 Socorro mecânico (resgate e guincho) - fls.123 a 130 e item 3.4 Dos demais contratos (fl.130 a 135), onde foram objeto de análise as várias despesas que compunham os contratos firmados entre a Rio Tibagi e as subcontratadas, tendo sido concluído que a Recorrente pagou, em todos os contratos examinados, valores acima do custo efetivo, apurado pela Fiscalização. Neste aspecto, a Recorrente menciona que a aplicação do art.464, inciso VI do RIR/99 pressupõe a apuração do valor de mercado do negócio realizado, pois este é o parâmetro essencial e indispensável para se verificar se a contratação foi realizada em condições de favorecimento. Que, no caso, se adotou os custos da Rio Tibagi como limite de dedutibilidade em relação aos serviços executados, e que tal somente seria possível se a Rio Tibagi tivesse sido desconsiderada como pessoa jurídica, o que não foi o caso. Conclui a Recorrente: Não há dúvidas, portanto, de que o artigo 464, inciso VI do RIR/99 não poderia ser aplicado ao caso vertente, ante a existência de prova cabal e irrefutável de que os negócios celebrados com a Rio Tibagi foram realizados nas mesmas condições que a Recorrente contrataria com terceiros. De se transcrever tal dispositivo: Art.464. Presume-se distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoas jurídica (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art.60, e Decreto-Lei º 2.065, de 1983, art.20, inciso II). I. [...] VI. realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Ora, de se dizer que o procedimento adotado e as conclusões decorreram de uma análise criteriosa das despesas demonstradas pela Rio Tibagi, a qual era a prestadora exclusiva dos serviços prestados à Recorrente, o que somente permitiu à autoridade fiscal um caminho: O meio mais adequado de obtenção do custo dos serviços, na hipótese de execução pela própria contratante, ante a impossibilidade de comparação com os valores cobrados a outros clientes da RIO TIBAGI, que não existem, é nos valermos dos custos transcritos nas planilhas apresentadas pela contratada, expurgando-se apenas as importâncias relativas aos impostos, que não são reputados custos para apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Esse é o Fl. 42608DF CARF MF Fl. 47 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 único meio de enfrentarmos a dificuldade em se identificar o custo verdadeiro incorrido para a prestação dos serviços, o que também se justifica pela íntima relação existente entre as empresas, que encontra supedâneo não só no fato de serem interligadas, mas também pela existência de alguma confusão patrimonial entre as mesmas [...]. Ainda, este não foi o único dispositivo legal citado no TVF: Essa despesa excessiva, todavia, não deve recair sobre a sociedade, na forma da diminuição dos tributos, mas sim ser arcada pela própria empresa que é a única responsável pela gestão de seus recursos financeiros, empregados na satisfação de despesas em valores vultosos, mas não ignorados, já que se trata, como dito, de uma prestação de serviços efetuada entre pessoas jurídicas interligadas. Não há dúvidas, repisemos, de que se tratou de uma medida deliberadamente tomada com o intuito de diminuir seus resultados tributáveis, valendo-se da censurável prática de contratar serviços de uma empresa interligada, em valores e em condições extremamente privilegiadas. Certo é, portanto, que a ECONORTE poderia prover a todos serviços sem a necessidade de delegá-los a uma empresa desprovida de capacidade operacional e que só tem sua existência justificada por sua dependência econômica de seu único cliente. O tratamento que a legislação tributária outorga à presente situação é encontrado nos artigos 249, inciso I, 464, inciso VI, e 467, inciso V, do RIR/99, que ora transcrevemos: "Artigo 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (Decreto-lei nº 1.598/77, art 6º, §2º): I – os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, não sejam dedutíveis na determinação do lucro real; ... Artigo 464. Presume-se distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (Decreto-Lei nº 1.598//77, art 60, e Decreto-Lei nº 2.065/83, artigo 20, inciso II): ... VI – realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. .... Artigo 467. Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica (Decreto- lei nº 1.598/77, artigo 62, e Decreto-lei nº 2.065/83, artigo 20, incisos VII e VIII): ... V – no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis." Fl. 42609DF CARF MF Fl. 48 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 .... Mantenho, portanto, a glosa efetivada e nego provimento ao recurso. Das despesas com o Banco BTG Pactual: As alegações trazidas no recurso são praticamente as mesmas da impugnação. Adoto como razão de decidir a decisão da DRJ: 4. De acordo com proposta de assessoria financeira apresentada pelo Banco BTG Pactual (contratado) às fls. 42217 a 42221, devidamente firmada pela autuada (e pela empresa Concepa - Concessionária da Rodovia Osório - Porto Alegre; contratantes), o serviço a ser prestado pelo contratado consistiu em "estudo de forma a analisar, de maneira isente e idônea, o setor de concessões rodoviárias, assim como seus principais agentes ('Setor'), de forma a buscar propiciar as Sociedades uma visão atualizada acerca do Setor de forma que as Sociedades estejam providas de informações úteis para análise de potenciais novos investimentos e estruturações de suas atividades (o 'Estudo'). Dentro do Estudo também serão consideradas variáveis macroeconômicas que digam respeito ao Setor.' 5. De início é devido registrar que o relatório apresentado (fls. 42222 a 42272) está redigido em quase sua totalidade na língua inglesa, o que impede a este julgador uma análise mais detalhada do teor do estudo apresentado e, por conseguinte, uma adequada verificação da relação deste com a atividade da empresa. O referido documento somente teria valor probatório se acompanhado de tradução juramentada, o que não ocorreu no presente caso. 6. Não obstante isso, e em que pese a autoridade fiscal ter destacado a grafia na língua inglesa e a difícil compreensão do documento, a motivação da glosa não foi a falta de comprovação da efetividade da despesa, mas a sua desnecessidade, o que se passa a apreciar, sem valoração quanto à validade do relatório apresentado como prova suficiente. Ademais, o relator obteve aparente êxito na leitura do relatório de consultoria, tendo destacado seus pontos principais. 7. Atentando unicamente para o teor da proposta de trabalho apresentada pelo Banco BTG Pactual, acima transcrita, e para os tópicos levantados pelo relator, poder-se-ia, a princípio, considerar que o estudo apresentado teria interesse para fins de planejamento empresarial da autuada, permitindo uma visão do mercado de concessões e análise de viabilidade de novos investimentos. Em assim sendo, a despesa realizada com tal consultoria atenderia a condição de necessidade para a atividade do contribuinte. 8. Acontece que, em resposta apresentada pela autuada à intimação fiscal, protocolada em 18/12/2015, foi dito que o estudo não serviu como ferramenta empresarial de planejamento de novos investimentos para os gestores da autuada, mas teve objetivo especifico e exclusivo de viabilizar alienação de participação societária não dominante para um grupo empresarial de Cingapura (vide trecho copiado abaixo). Tal fato foi destacado pela autoridade fiscal no TVF, conforme pode ser visto na transcrição feita pelo relator do processo. Fl. 42610DF CARF MF Fl. 49 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 9. Ante este quadro, os demais membros do colegiado (inclusive este redator do voto vencedor) entenderam ser imprescindível para a demonstração da necessidade da despesa a apresentação de documentos relativos às tratativas realizadas para a negociação com o grupo empresarial de Cingapura (e-mails, correspondências, propostas negociais, despesas com viagens, hospedagem etc), que permitissem vincular o gasto realizado com o negócio pretendido, independentemente se este chegou a ser concretizado ou não. 10. Ressalte-se o equívoco de compreensão do ilustre relator quanto ao entendimento dos demais membros do colegiado, pois em momento algum a ausência da realização do negócio com o grupo empresarial de Cingapura foi colocado em sessão como um fator motivador da conclusão pela desnecessidade da despesa com a consultoria. Como dito, bastaria a comprovação das tratativas com tal grupo para que se demonstrasse que o gasto realizado teve o fim empresarial mencionado pelo contribuinte. 11. Todavia, tais documentos não foram juntados aos autos, restando considerar não comprovada a alegação do contribuinte, e, por consequência, não comprovada a necessidade do gasto realizado. Da despesa com a Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. (Vox populi) As alegações trazidas no recurso são praticamente as mesmas da impugnação. Adoto como razão de decidir a decisão da DRJ: Da despesa com a Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. (Vox Populi) 12. Segundo cláusula primeira do contrato firmado entre a autuada (contratante) e a Vox Populi (contratada), às fls. 42273 a 42277, analisada juntamente com o Anexo I ao contrato, às fls. 42278 a 42281, o serviço encomendado foi uma pesquisa de opinião quantitativa e consultoria para análise dos resultados obtidos, tendo por objetivo avaliar e mensurar as opiniões e expectativas da população brasileira para com a presidente eleita Dilma Rousseff nos quatro anos seguintes ao do contrato. 13. O contribuinte argumentou durante a fiscalização que sua atividade é influenciada pela estrutura política e administrativa do Poder Público, sendo necessário manter-se atualizada das condições e oportunidades do mercado, razão pela qual contratou os serviços referidos que permitiriam uma identificação de cenários que lhe possibilitariam a captação de recursos. Em sua impugnação esclarece que os subsídios a serem obtidos na pesquisa realizada Fl. 42611DF CARF MF Fl. 50 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 visavam demonstrar à Presidente Dilma a necessidade de realizar investimentos no seguimento de transportes, especialmente na infraestrutura de rodovias, mediante sua privatização, o que poderia criar oportunidades de novos negócios. Em que pese o resultado da pesquisa ter sido desfavorável, entende que a despesa foi necessária em razão da pertinência do serviço com a atividade exercida. 14. Não resta dúvida de que uma pesquisa de interesse da população quanto à privatização de rodovias pode ser uma ferramenta capaz de influenciar decisões políticas no segmento de transportes, razão pela qual, a despesa respectiva pode ser considerada como necessária à atividade da pessoa jurídica, haja vista a possibilidade de novos negócios que dela podem advir. 15. Todavia, o valor gasto de R$ 250.000,00 foi aplicado em pesquisa muito mais abrangente (fls. 42282 a 42407), envolvendo, em quase sua totalidade, assuntos não relacionados com a área de interesse da empresa, tais como: eleições presidenciais de 2010 (comparecimento, votos, e opiniões sobre a presidente), cujo cabimento se estranha, já que as eleições já estavam finalizadas quando da contratação - dezembro de 2010; prioridades do próximo governo; educação (Enem, investimentos, cotas, conhecimento do Enem, etc.); expectativas de governo (economia, bolsa família, erradicação da miséria, legislação trabalhista, atuação do PMDB); comparação do governo Lula e Dilma; homossexuais (união civil, adoção, direitos da união civil); aborto (discriminalização); drogas (descriminalização). Apenas um tópico foi relativo a privatização, sendo uma parte avaliando privatização de empresas em geral, e apenas uma abordando, entre outras, privatização de rodovias (fls. 42366 a 42368). 16. Não se vislumbra qualquer utilidade das informações acima para a prospecção de novos negócios na área de concessão. Apenas a pesquisa relativa a privatizações teria utilidade para o contribuinte, mas a mesma representou uma parcela ínfima do serviço prestado pela contratada. 17. Ao contrário desse entendimento, o ilustre relator considerou que a ampla pesquisa de opinião permitiu "a identificação do horizonte (cenário futuro) da atividade desenvolvida" pelo contribuinte, complementando que no seu ramo de negócios é relevante "o conhecimento das expectativas da população acerca das ações do governo, especialmente na parte referente à privatização da gestão de rodovias". 18. Porém, percebe-se que o julgador somente conseguiu destacar a parte da pesquisa relativa à privatização da gestão de rodovias, limitando-se, em relação aos demais tópicos, a mencionar a importância da pesquisa de forma genérica. Não poderia ser de outra forma, pois não há como extrair dos demais assuntos abordados na pesquisa qualquer contribuição efetiva no planejamento estratégico da empresa, em sua gestão e em projeções de investimentos. Como explicar que o assunto aborto tem algum vínculo, por mais tênue que seja, com a atividade de exploração de concessões de rodovias? O que dizer então dos assuntos relativos a drogas, homossexuais, Enem, cotas para entrada em universidades públicas, atuação do PMDB, comparação do governo Lula e Dilma, erradicação da miséria, e outros? Fl. 42612DF CARF MF Fl. 51 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 19. Como não é possível desmembrar o valor pago entre cada tópico da pesquisa, vez que não há no contrato qualquer especificação nesse sentido, há que se considerar a integralidade da despesa realizada como não necessária. Relativamente às despesas glosadas por supostos serviços prestados pela empresa Power Marketing Assessoria e Planejamento Ltda., assim se manifestou o voto condutor da DRJ: No Título "3.5.1" do TVF, a Autoridade Fiscal indicou como desnecessária despesa de assessoria empresarial de marketing executada por Power Marketing Assessoria e Planejamento Ltda (CNPJ 03.542.067/0001-46), registrada na escrituração da Rio Tibagi. Essa parcela do lançamento não foi expressamente contestada. Considera-se não impugnada, portanto, nos termos do art. 17 do Decreto 70.235/1972. No recurso voluntário, a Recorrente alegou que teria sido tal matéria, sim, impugnada, pois em seu entendimento: Conforme mencionado na passagem acima transcrita, a despesa com a Power Marketing, glosada por supostamente ser desnecessária, estava “registrada na contabilidade da Rio Tibagi”. Para a Recorrente (que não é parte na relação comercial entre Rio Tibagi e Power Marketing) o reflexo dessa glosa se deu por meio da aplicação das regras de DDL, pois não se tratou de uma despesa registrada na contabilidade da Recorrente (a glosa não ocorreu com base no artigo 299 do RIR/99). Assim, na medida em que a Recorrente impugnou a aplicação das regras de DDL, pelas mais variadas razões, conforme amplamente demonstrado acima, significa que a glosa referente as despesas com a Power Marketing também foi impugnada, pois uma vez que as regras de DDL venham a ser consideradas inaplicáveis ao caso vertente, a glosa das despesas da Rio Tibagi (como é o caso da despesa com a Power Marketing) não terá nenhum reflexo para a Recorrente e nenhum tributo será devido (especialmente o IRPJ e a CSLL). A afirmação de que “essa parcela do lançamento não foi expressamente contestada” é um engano do acórdão recorrido, que precisa ser registrado, a fim de evitar a cobrança indevida de tributos (IRPJ e CSLL) antes do encerramento da fase administrativa, especialmente do julgamento do presente recurso. Assim não há de se entender, uma vez que tal matéria não foi objeto de tributação pelas regras de DDL, a exemplo dos custos excessivos glosados (diferenças entre os valores pagos pela Recorrente e os custos efetivamente apurados). De se reproduzir o que consta no TVF: 3.5.1 Power Marketing Assessoria e Planejamento Ltda.: Pessoa jurídica domiciliada na cidade de Curitiba/Pr, que executou serviços de assessoria empresarial de marketing. Em atendimento à intimação fiscal de 13/11/2015, apresentou o contrato relativo a esses serviços, asseverando que se tratou de “assessoria especializada na tomada de decisões que possam impactar Fl. 42613DF CARF MF Fl. 52 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 a sua imagem perante clientes, funcionários e demais pessoas direta ou indiretamente afetadas pelas suas atividades”. O contrato que subsidiou a prestação de serviços foi elaborado em julho de 2007, estabelecendo o prazo de vigência por sessenta meses, prorrogável por idêntico período. Sua cláusula primeira estabelece o objeto da prestação de serviços, que deverá ser implementada mediante as seguintes condutas: orientação direita quanto à rotina de procedimentos; representação em processos de negociação perante entidades ligadas à sua área de atuação; elaboração de trabalhos e rotinas de procedimento para subsidiar as ações da contratante na formação de políticas de desenvolvimento de marketing e de imagem, e pesquisa e promoção de intercâmbio de informações perante congêneres. Os valores atinentes a esses serviços estão registrados na rubrica contábil 3310402 (Consultoria), totalizando a importância de R$ 240.000,00 em cada um dos anos-calendário. Verificando-se os lançamentos contábeis, constatamos também que as notas fiscais são de numeração sequencial, ou seja, nesses dois anos-calendário os únicos serviços executados pela presente empresa foram prestados à RIO TIBAGI. Intimada, em sede de diligência fiscal instaurada em 20/09/2016, a pessoa jurídica prestadora dos serviços respondeu que os serviços foram executados pelos sócios da empresa, em sua sede na cidade de Curitiba, e que inexistem relatórios e comprovantes dos custos e materiais incorridos e consumidos na prestação de serviços. Alegou ainda que a empresa estaria inativa, mas que, por ora, não se pretende realizar sua baixa. Da análise de sua escrituração contábil que apresentou, pode se ver que os únicos serviços prestados, nos anos-calendário 2011 e 2012, foram para a RIO TIBAGI, e que as despesas apropriadas dizem respeito aos tributos incidentes sobre a receita e à distribuição de lucros aos sócios no encerramento do período de apuração. A ausência de despesas na escrituração da contratada e a inexistência de qualquer documento que atestasse a prestação dos serviços levaram-nos a indagar, mais uma vez, da empresa RIO TIBAGI acerca dessa despesa, em especial para que comprovasse a materialidade dos serviços prestados, seu local de prestação, e o documento em que se consubstanciou. Em atendimento, mediante manifestação colacionada em 22/11/2016, invocou o longo tempo transcorrido que a impossibilitou de localizar quaisquer outros documentos e comprovantes dos serviços em questão. Afirmou que a prestação de serviços foi realizada em suas próprias dependências, que integrou o custo da prestação de serviços à ECONORTE e que a única medida que tomou com a contratação da empresa POWER MARKETING foi a mudança de seu nome de OSR para RIO TIBAGI. De maior gravidade ainda é a situação com que nos deparamos na situação em tela, em que a RIO TIBAGI, prestadora exclusiva de serviços à ECONORTE, apropriou em sua remuneração por tais préstimos os pagamentos realizados à empresa POWER MARKETING, com os claros contornos de pagamentos sem causa e sem qualquer vínculo com seu objeto social. É cristalino que, se houve alguma prestação de serviços, não o foi para a empresa pagadora, e muito menos nos moldes que procurou apresentar, já que, de concreto, nada existe, tão-somente o pagamento, o contrato e nenhum indício de despesas por parte da Fl. 42614DF CARF MF Fl. 53 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 prestadora dos serviços que pudesse ao menos sugerir a realização de qualquer esforço físico ou intelectual voltado à consecução do contrato que firmou. Equivoca-se, portanto, a Recorrente ao tratar tal matéria como sendo pertencente à uma tipificação (na autuação) que não aquela considerada no Auto de Infração e detalhada no TVF (supra), nos termos do item 6.2 Da glosa de despesas desnecessárias. Por fim, tanto o TVF quanto a decisão de piso destacam claramente que não houve desconsideração da Rio Tibagi como prestadora de serviços e nem questionamento da legitimidade na contratação de terceiros prestadores de serviços, de forma que não há de se cogitar, como fez a Recorrente, de eventual "dedução do montante dos tributos pagos pela Rio Tibagi nos anos calendário 2011 e 2012." Conclusão Ante tudo que foi exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Voto Vencedor Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin – Redatora Designada. De se destacar que o presente voto vencedor refere-se tão somente à exclusão da glosa da despesa valor de R$ 250.000,00, conforme nota fiscal nº 2011, de 10/01/2011, relativa a pagamento realizado à empresa Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda para a elaboração de uma pesquisa de opinião quantitativa e consultoria para análise dos resultados obtidos. De maneira que, resta acatado o que foi decidido pelo Relator e ratificado por esta Turma Ordinária, relativamente às demais questões trazidas no Recurso. Em sua decisão o Relator manteve a glosa, por concordar com os fundamentos do acórdão DRJ, transcritos ao seu voto, por entender que as alegações trazidas no recurso foram as mesmas da impugnação, entendimento do qual, data vênia, discordo. Nos termos da legislação do imposto de renda, vigente à época, as despesas operacionais, para serem consideradas legítimas, devem guardar natural e íntima relação com a atividade da empresa e com a manutenção da respectiva fonte produtora, tal como dispõem os arts. 277 e 299 do RIR/99, in verbis: Art. 277. Será classificado como lucro operacional o resultado das atividades, principais ou acessórias, que constituam objeto da pessoa jurídica (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 11) [....]. Fl. 42615DF CARF MF Fl. 54 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 [...] Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Desses dispositivos se depreende que, para fins de dedutibilidade da despesa na apuração do resultado tributável, são exigidos os requisitos de necessidade e usualidade ou normalidade. São necessárias as despesas essenciais para a consecução dos objetivos sociais, ainda que secundários, desde que vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos; são normais as despesas ordinariamente realizadas nas atividades e operações destinadas à manutenção da fonte produtora; e são usuais aquelas realizadas de maneira frequente ou habitual em determinado tipo de atividade ou operação. Por sua vez, o Parecer Normativo CST nº 32/1981, previu que “o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos”. Os Tribunais pátrios não destoam deste entendimento, como se observa do julgado, cuja ementa segue transcrita abaixo, proferido pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSLL. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA IRPJ. DEDUÇÃO DE DESPESAS TIDAS COMO OPERACIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. CONDENAÇÃO EM VERBA HONORÁRIA QUE SE MANTÉM 1 Quanto ao agravo retido, é remansoso o entendimento de que a realização de perícia se revela como o meio de prova oneroso e causador da delonga procedimental, cabendo quando devem ser esclarecidas questões que não possam ser verificadas sem o conhecimento técnico. A não realização de perícia contábil não caracteriza cerceamento de defesa, vez que a matéria tratada na inicial era de direito, possibilitando assim o julgamento da lide. Com efeito, o CPC/2015 permite o julgamento, dispensando a produção de provas, quando a questão for unicamente de direito e os documentos acostados aos autos forem suficientes ao exame do pedido. Também, o art. 370 do CPC/2015 permite ao juiz a possibilidade de indeferir diligências inúteis ou meramente protelatórias, assim como determinar a realização das provas que entenda necessárias à instrução do processo, mesmo sem requerimento da parte.Na hipótese, o que se discute é a possibilidade de descontos concedidos a clientes como despesas operacionais e despesas de viagem e estadia de médicos e cirurgiões cardiologistas e técnicos, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, Fl. 42616DF CARF MF Fl. 55 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 sendo totalmente desnecessária a realização de prova pericial, pelo que rejeito o agravo retido interposto. 2. Despesas operacionais são as pagas ou incorridas para vender produtos ou serviços e administrar a empresa. A legislação de regência prescreve restrições quanto à dedução de despesas efetivamente incorridas e regularmente escrituradas. 3. O Parecer Normativo CST nº 32/81 declara que gasto necessário é o essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos. 4. Na determinação da base de cálculo do IRPJ, a legislação considera dedutíveis as despesas operacionais, aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. 5. Na hipótese, no tocante a dedução dos prejuízos operacionais como despesa, não foram cumpridos os requisitos legais, de forma que não se pode simplesmente acolher o argumento genérico de que estão presentes as condições do artigo 299, do RIR/1999. 6. A autoridade fiscal efetuou a glosa dos valores referentes às despesas efetuadas com pessoas não vinculadas a empresa, como viagens, transporte, estadia de médicos para participação em congressos, exposições e conferências, bem como descontos concedidos a clientes. 7. As notas acostadas aos autos, por si só, não demonstram a finalidade, o relacionamento com a atividade desenvolvida pela autora. As viagens ao exterior deveriam estar devidamente escrituradas e de encontro com a atividade da empresa. 8. Embora útil ou vantajoso o emprego do valor, caracteriza-se um incremento, mas não uma despesa necessária ou operacional. 9. Quanto à verba honorária, esta deve ser mantida, conforme fixada na r. sentença. 10. Agravo retido rejeitado. Apelação não provida. (AC 00089632520114036100, DESEMBARGADOR FEDERAL NERY JUNIOR, TRF3 TERCEIRA TURMA, eDJF3 Judicial 1 DATA:18/01/2017 ..FONTE_REPUBLICACAO:.) Fl. 42617DF CARF MF Fl. 56 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 Em seu recurso, a recorrente esclarece que contratou a Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. para avaliar a expectativa da população em relação ao governo da então eleita Presidente de República (Dilma Roussef), especialmente sobre quais deveriam ser as prioridades do novo governo na área de transporte, infraestrutura e privatização. Aponta que sua intenção com a pesquisa contratada era a de obter subsídios materiais (documentais) capazes de demonstrar ao novo governo a necessidade de realizar investimentos no segmento de transportes, especialmente na infraestrutura rodoviária, mediante a privatização de rodovias, o que poderia propiciar novos negócios e incremento de receitas para a Recorrente. Segue mencionando que, embora o resultado da pesquisa tenha não confirmando a expectativa da Recorrente, especialmente no que concerne a opinião da população sobre a privatização de rodovias (a maioria opinou por manter as rodovias sob a responsabilidade do governo). Não obstante o resultado da pesquisa tenha sido desfavorável aos interesses da Recorrente, não há dúvidas acerca da relação de pertinência do serviço contratado (pesquisa de mercado relacionada ao setor de infraestrutura rodoviária) com a atividade exercida pela Recorrente (concessionária de rodovias). Como descrito no relatório, a fiscalização, entendeu de modo diverso, ao consignar que, apesar justificativas, é claramente incontroverso que as pesquisas implementas pela Recorrente, representariam a realização de uma despesa desnecessária à consecução de seu objeto social, uma vez que entendeu tratar-se da confecção de pesquisas eleitorais. Entendimento de certa maneira respaldado pelo Acórdão DRJ, sob o argumento de que: "o valor gasto de R$ 250.000,00 foi aplicado em pesquisa muito mais abrangente (fls. 42282 a 42407), envolvendo, em quase sua totalidade, assuntos não relacionados com a área de interesse da empresa, tais como: eleições presidenciais de 2010 (comparecimento, votos, e opiniões sobre a presidente), cujo cabimento se estranha, já que as eleições já estavam finalizadas quando da contratação dezembro de 2010; prioridades do próximo governo; educação (Enem, investimentos, cotas, conhecimento do Enem, etc.); expectativas de governo (economia, bolsa família, erradicação da miséria, legislação trabalhista, atuação do PMDB); comparação do governo Lula e Dilma; homossexuais (união civil, adoção, direitos da união civil); aborto (discriminalização); drogas (descriminalização). Apenas um tópico foi relativo a privatização, sendo uma parte avaliando privatização de empresas em geral, e apenas uma abordando, entre outras, privatização de rodovias (fls. 42366 a 42368)". Contudo, nota-se no próprio argumento, o reconhecimento da abrangência da pesquisa, no sentido de que embora ampla, acabou por contemplar os objetivos propostos pela Recorrente, de forma coincidente aos seus objetivos sociais, não havendo como negar que elas realmente foram realizadas nas atividades e operações destinadas à manutenção da fonte produtora, conforme mencionado pelo Parecer Normativo CST nº 32/81. Feitas essas considerações e diante dos elementos de prova constantes nos autos, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, especificamente no que diz respeito à Fl. 42618DF CARF MF Fl. 57 do Acórdão n.º 1401-003.402 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11634.720671/2016-26 exclusão valor gasto de R$ 250.000,00 foi aplicado em pesquisa promovida pela empresa Vox Mercado Pesquisas e Projetos Ltda. Conclusão O presente voto, portanto, é por dar provimento ao recurso em relação à exclusão da glosa do valor de R$ 250.000,00 aplicado em pesquisa promovida pela empresa Vox Populi. (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin. Fl. 42619DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10970.000551/2009-04
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Jun 27 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 2402-000.756
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem da Secretaria da Receita Federal do Brasil preste as informações solicitadas, nos termos do voto que segue na resolução, consolidando o resultado da diligência em Informação Fiscal que deverá ser cientificada à contribuinte para que, a seu critério, apresente manifestação em 30 (trinta) dias.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente
(assinado digitalmente)
Luís Henrique Dias Lima - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Paulo Sérgio da Silva, João Victor Ribeiro Aldinucci, Maurício Nogueira Righetti, Gabriel Tinoco Palatnic (suplente convocado), Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Júnior e Denny Medeiros da Silveira.
Relatório
Nome do relator: LUIS HENRIQUE DIAS LIMA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem da Secretaria da Receita Federal do Brasil preste as informações solicitadas, nos termos do voto que segue na resolução, consolidando o resultado da diligência em Informação Fiscal que deverá ser cientificada à contribuinte para que, a seu critério, apresente manifestação em 30 (trinta) dias. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Paulo Sérgio da Silva, João Victor Ribeiro Aldinucci, Maurício Nogueira Righetti, Gabriel Tinoco Palatnic (suplente convocado), Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Júnior e Denny Medeiros da Silveira. Relatório Tratase de embargos de declaração cumulados com requerimento de retificação de inexatidão material (efls. 369/378) opostos pelo Delegado da Receita Federal do Brasil em Uberlândia (MG) em face do Acórdão de Recurso Voluntário n. 2402004.072 sessão de julgamento de 16/04/2014 (efls. 339/344), da lavra da 2ª. Turma Ordinária da 4ª. Câmara da 2ª. Seção, que decidiu, por unanimidade de votos. conhecer em parte do recurso RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 70 .0 00 55 1/ 20 09 -0 4 Fl. 506DF CARF MF Processo nº 10970.000551/200904 Resolução nº 2402000.756 S2C4T2 Fl. 507 2 para, na parte conhecida, dar provimento parcial para declarar a nulidade do lançamento por vício material na fundamentação. Na essência, o Embargante alega que o acórdão embargado é omisso, não especificando e justificando, de maneira fundamentada, qual é a matéria discutida em sede de processo judicial (MS n. 1999.38.02.0019688) que é concomitante com o recurso administrativo apresentado. bem assim que o acórdão incorre em contradição quando deixa de conhecer do recurso voluntário "... no que se refere à matéria discutida em sede de processo judicial..." e em seguida, sob o subtítulo 'Em Preliminar Da nulidade do Auto de Infração por vício material', declara que há respaldo na alegação do recorrente de que o auto de infração é nulo". Todavia, nos termos do Despacho de Admissibilidade (efls. 487/490), os embargos foram parcialmente admitidos apenas em relação à omissão apontada, restando assim delineado o escopo desta análise. É o relatório. Voto Conselheiro Luís Henrique Dias Lima Relator. Em sede de juízo de admissibilidade dos embargos em apreço, o Presidente da 2ª. Turma/4ª. Câmara/2ª. Seção entendeu tempestivos e opostos por autoridade legítima: O processo foi encaminhado para a DRF/Uberlândia/MG, sendo o titular da unidade cientificado em 27/2/2014 (fl. 368), o qual interpôs tempestivamente "embargos de declaração cumulados com requerimento de retificação de inexatidão material" (fls. 369/378) na data de 3/3/2014 (fl. 379). Todavia, nas suas contrarrazões (efls. 433/484), o embargado denuncia, preliminarmente, questões de ordem pública, a saber: intempestividade e a ilegitimidade e incompetência da autoridade subscritora dos embargos de declaração. De plano, há de se destacar que os embargos são tempestivos, vez que este foi encaminhado para ciência e análise do titular da Unidade da RFB em 27/02/2015 (efl. 368) e foram opostos em 03/03/2015. Superada a tempestividade, cabe apreciar a legitimidade do signatário dos embargos em tela. Pois bem. Os embargos foram assinados pela DelegadaAdjunta da DRF/Uberlândia/MG Sra. Magaly Souza Carvalho Hamade na data de 03/03/2015. Ocorre que o art. 65, §1°., V, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF n. 343, de 9 de junho de 2015, e alterações posteriores, estabelece que a competência para opor embargos de declaração é do titular da unidade da Administração Tributária encarregada da liquidação e execução do acórdão. Fl. 507DF CARF MF Processo nº 10970.000551/200904 Resolução nº 2402000.756 S2C4T2 Fl. 508 3 Assim, considerandose que a signatária dos embargos de declaração é DelegadaAdjunta, prima facie, tal requisito não restaria preenchido. É relevante destacar que não resta caracterizado nos autos se a Delegada Adjunta, na data de 03/03/2015, detinha competência para opor embargos de declaração, mediante portaria específica ou, se, na referida data, havia ausência ou impedimento do DelegadoTitular, de forma a legitimar a sua atuação como substituta. Nessa perspectiva, impõese averiguar junto à DRF/Uberlândia/MG, nos contornos acima definidos, a legitimidade da DelegadaAdjunta da DRF/Uberlândia/MG Sra. Magaly Souza Carvalho Hamade para opor embargos de declaração. Ante o exposto, voto por converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem da Secretaria da Receita Federal do Brasil (DRF/Uberlândia/MG) informe se a DelegadaAdjunta da DRF/Uberlândia/MG Sra. Magaly Souza Carvalho Hamade detinha, na data de 03/03/2015, competência prevista em portaria específica para opor embargos de declaração, ou se, na referida data, havia ausência ou impedimento do Delegado Titular, a legitimar a sua condição de signatária dos referidos embargos., observandose que o resultado da diligência ora solicitada deverá ser consolidado em Informação Fiscal que deverá ser cientificada à contribuinte para, a seu critério, apresentar manifestação no prazo de trinta dias. (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Fl. 508DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10183.000173/2007-65
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Jul 09 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2003
RENDIMENTOS. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE.
Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Súmula CARF nº63.
Numero da decisão: 2002-001.161
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2003 RENDIMENTOS. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Súmula CARF nº63.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1387; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C0T2 Fl. 93 1 92 S2C0T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10183.000173/200765 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2002001.161 – Turma Extraordinária / 2ª Turma Sessão de 17 de junho de 2019 Matéria IRPF. MOLÉSTIA GRAVE. Recorrente MANOEL SATURNINO ALVES DA CUNHA FILHO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2003 RENDIMENTOS. ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Súmula CARF nº63. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 00 01 73 /2 00 7- 65 Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10183.000173/200765 Acórdão n.º 2002001.161 S2C0T2 Fl. 94 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (fls. 4/9), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a alterações na declaração de ajuste anual do contribuinte acima identificado, relativa ao exercício de 2004. A autuação implicou na alteração do resultado apurado de saldo de imposto a restituir declarado de R$412,97 para saldo de imposto a pagar de R$3.673,07. A notificação noticia a compensação indevida de IRRF, no valor de R$4.086,04. Impugnação Cientificada ao contribuinte em 22/12/2006, a NL foi objeto de impugnação, em 15/1/2007, às fls. 2/24 dos autos, na qual o contribuinte alegou que seus rendimentos seriam isentos de IR, por ser ele portador de moléstia grave A impugnação foi apreciada na 4ª Turma da DRJ/CGE que, por unanimidade, julgou a impugnação improcedente, em decisão assim ementada (fls. 58/64): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2004 GLOSA IRRF. Deve ser mantida a glosa de IRRF não contestada pelo contribuinte. ISENÇÃO MOLÉSTIA GRAVE. SERVIÇO MÉDICO OFICIAL Somente são isentos os rendimentos de aposentadoria quando a doença houver sido reconhecida mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da Unido, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Os documentos trazidos pelo interessado se referem a anocalendário diverso. 0 atestado médico fornecido por profissional vinculado ao Sistema Único de Saúde não tem equivalência ao laudo pericial emitido por serviço médico oficial da Unido, dos Estados e dos Municípios. Recurso voluntário Ciente do acórdão de impugnação em 19/6/2009 (fl. 73), o contribuinte, em 9/7/2009 (fl. 79), apresentou recurso voluntário, às fls. 79/85, no qual alega, em síntese: conta com 74 anos e estaria aposentado desde 1987, como comprovaria o comprovante de sua fonte pagadora. a neoplasia maligna está entre as moléstias que isentariam seus rendimentos da tributação pelo IR. Fl. 94DF CARF MF Processo nº 10183.000173/200765 Acórdão n.º 2002001.161 S2C0T2 Fl. 95 3 em caso de erro cometido por sua fonte pagadora, caberia a ela a responsabilidade. seria incabível a cobrança de impostos e acréscimos decorridos mais de cinco anos do fato gerador. o laudo juntado teria sido emitido por profissional médico vinculado à Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura Municipal de Cuiabá. Voto Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Relatora O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. A autuação consignou a compensação indevida de IRRF, matéria não contestada pelo contribuinte, como apontado na decisão recorrida: Primeiramente, cumpre esclarecer que o interessado apresentou DIRPF declarando rendimentos tributáveis de R$ 77.518,19 e IRRF de R$ 12.258,12. O auto de infração em epígrafe originouse da glosa de parte do IRRF declarado. Em sua impugnação, o interessado nada questiona sobre a glosa do IRRF declarado. Alega, no entanto, ser beneficiário da isenção prevista no artigo 6°, inciso XIV da lei 7.713 de 1988. Em seu recurso, o recorrente reitera a alegação de que seus rendimentos seriam isentos do IR. Logo, não cabe pronunciamento deste colegiado acerca do IRRF. Na apreciação do argumento de defesa, o colegiado de primeira instância consignou: Portanto, a lei 7.713/88 impõe dois requisitos para que os rendimentos sejam considerados isentos: 1. Que os rendimentos sejam de proventos de aposentadoria ou reforma ou pensão; 2. a doença esteja dentro do rol especificado no inciso XIV, artigo 6°. Dos rendimentos recebidos O interessado deveria ter trazido prova de que no ano calendário 2003 recebeu rendimentos de aposentadoria. Fl. 95DF CARF MF Processo nº 10183.000173/200765 Acórdão n.º 2002001.161 S2C0T2 Fl. 96 4 Porém, não há provas nos autos de que no ano base 2003 o interessado esteja aposentado e a DIRF (folha 33) embora apresentada por uma Caixa de Previdência foi apresentada no código 0561( Rendimentos do Trabalho Assalariado). Assim, o interessado deveria ter trazido aos autos documentos que comprovassem que o rendimento foi de aposentadoria. Portanto, não comprovado o primeiro requisito. Da doença tipificada no rol do artigo 6°, inciso XIV da Lei n° 7.713, de 1988 No oficio de folha 05 diz que o interessado somente faz jus à isenção a partir de 06/05/2004 e o ano calendário em questão é 2003. Quanto ao segundo requisito, o artigo 30 da Lei n° 9.250, de 1995 especificou a forma como deve ser comprovada a moléstia, requisito essencial para comprovação da isenção: Art. 30. A partir de 1° de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6° da Lei n° 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei n°8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municipios. § 1° 0 serviço médico oficial lizard o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. Consta nos autos um despacho (folha 05) assinado pela Gerente Estadual da CASSI/MT informando que o interessado faz jus à isenção a partir de 06/05/2004. Os laudos trazidos (folha 09) dizem que o interessado é portador de uma moléstia desde 06/05/2004. O presente processo referese ao anocalendário 2003. Assim, não há provas nos autos de que o interessado tenha direito à isenção no ano de 2003. Desta forma, o lançamento deve ser declarado procedente. Do laudo médico apresentado. Serviço Médico Oficial Definição Observase que a legislação do imposto de renda elegeu o laudo médico emitido por serviço médico oficial(ou laudo pericial) como instrumento hábil para comprovação do estado clinico do paciente que irá trazer reflexos junto à administração tributária. Tal escolha devese ao fato de o mesmo ser um instrumento mais preciso, mais detalhado, tornandose um meio hábil para formar a convicção do seu destinatário, no caso, a Secretaria da Receita Federal. Fl. 96DF CARF MF Processo nº 10183.000173/200765 Acórdão n.º 2002001.161 S2C0T2 Fl. 97 5 ... No caso em testilha, o interessado trouxe os seguintes documentos: 1. Atestado do médico Joao Bosco A. Duarte (folha 09). Tal atestado não se enquadra em serviço médico oficial pois não foi emitido por Hospital Universitário mas sim por médico que também é professor assistente da Clinica Cirúrgica da Universidade Federal de Mato Grosso e diz que a doença foi contraída a partir de 06/05/2004. 2. Atestado do médico Luiz Carlos de Arruda, vinculado ao SUS (folha 09). Conforme verificado acima, o atestado médico fornecido por profissional vinculado ao SUS não tem equivalência ao laudo pericial emitido por serviço médico oficial e diz que a doença foi contraída a partir de 06/05/2004; 3. Laudo do exame Histológico (folha 10). Não se trata de laudo emitido por serviço médico oficial; 4. Laudo Médico da Clinica São Nicolau (folha 11). Não se trata de laudo emitido por serviço médico oficial; Verificase que, mesmo que se referissem ao anocalendário em testilha, os laudos e atestados trazidos pelo interessado não equivalem ao laudo pericial emitido por serviço médico oficial da Unido, dos Estados e dos Municípios. Assim, para fazer jus à isenção pleiteada, o interessado deveria trazer aos autos um laudo emitido por junta médica oficial nos termos da legislação. (destaques acrescidos) Em sede de recurso voluntário o contribuinte juntou novos documentos aos autos. O art. 16, § 4º, c do Decreto 70.235/72 prevê que a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que a nova prova se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Verificase que os documentos apresentados pela parte encaixamse nesta previsão, visto que destinamse a contrapor razões trazidas aos autos pela DRJ que fundamentou sua decisão de improcedência da impugnação na falta de comprovação da natureza dos rendimentos e da existência da moléstia grave. Diante disso, a nova documentação será analisada. Quanto à natureza dos rendimentos declarados (fl.53), à vista do comprovante de rendimento do anocalendário 2000 (fl. 81), da correspondência de fl. 83 e pelo fato de constar parcela isenta de aposentadoria informada na declaração de ajuste (fl.53), entendo que resta confirmado que os rendimentos decorrem de aposentadoria. No entanto, quanto à existência da moléstia no anocalendário 2003 e à apresentação de laudo médico emitido por serviço médico oficial, o recorrente nada juntou. Dessa forma, sem reparos a se fazer à decisão de piso, a qual adoto, conforme trechos destacados acima. Registro que o receituário de fl. 85 apesar de consignar Prefeitura Municipal de Cuiabá, não consigna qual seria o estabelecimento de saúde ao qual o profissional estaria Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10183.000173/200765 Acórdão n.º 2002001.161 S2C0T2 Fl. 98 6 vinculado, de forma a se verificar se preencheria os requisitos legais. Como consignado na decisão recorrida, estabelecimentos credenciados pelo SUS não se configuram em serviço médico oficial. Quanto à cobrança do crédito, não há que se falar em irregularidade na sua cobrança. Nos termos do art. 174 da Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional CTN), o prazo prescricional é de cinco anos e começa a contar a partir da data da constituição definitiva do crédito tributário, ou melhor, desde o momento em que o titular do direito (a Fazenda Pública) pode exigir, do devedor, a prestação tributária. Isto se dá quando esgotado o prazo para pagamento ou apresentação de recurso administrativo sem que eles tenham ocorrido ou, ainda, decidido o último recurso administrativo interposto pelo contribuinte. As impugnações e recursos na instância administrativa suspendem a exigibilidade do crédito tributário, não correndo, neste período, o prazo de prescrição. Assim, tendo havido impugnação e recurso voluntário, fica postergado o começo da fruição do prazo prescricional até a decisão do último recurso administrativo interposto pelo contribuinte. No caso, dada a apresentação de impugnação e de recurso voluntário, o crédito tributário encontravase com a exigibilidade suspensa, na forma do disposto no art. 151, inciso III, do CTN, assim como encontravase suspensa a fluência do prazo prescricional, que só começa a fluir depois de decidido o último recurso administrativo. No tocante à responsabilidade da fonte pagadora, observo que está em discussão o rendimento tributável informado pelo próprio recorrente em sua declaração de ajuste (fl.53), não havendo que se falar em responsabilidade da fonte pagadora. Em um primeiro momento ocorre a retenção e o recolhimento do imposto de renda na fonte, que é de exclusiva responsabilidade da fonte pagadora. O tributo é calculado à medida que os rendimentos são percebidos e consiste em mera antecipação do imposto efetivamente devido pelo contribuinte. Em um segundo momento, procedese ao acerto definitivo do imposto, apurado anualmente na declaração de ajuste sob inteira responsabilidade do beneficiário dos rendimentos. Portanto, também nesse tocante, não pode prosperar a alegação do recorrente. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 98DF CARF MF
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Numero do processo: 10680.934097/2016-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Jul 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 25/04/2011
COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO. DISCORDÂNCIA DO CONTRIBUINTE. CRÉDITO TRIBUTÁRIO COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA NOS TERMOS DO ART. 151 DO CTN. RETENÇÃO DO VALOR A SER RESSARCIDO. IMPOSSIBILIDADE. COMPENSAÇÃO VOLUNTÁRIA. HOMOLOGAÇÃO. STJ. RECURSO REPETITIVO. ART. 62, §2º DO RICARF.
Não se pode impor compensação de ofício ou reter valores passíveis de ressarcimento, nos termos do parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, quando os débitos do contribuinte para com o Fisco estiverem com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Deve ser homologada a compensação voluntária declarada. Reprodução do entendimento firmado pelo STJ no Resp n°1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, por força do §2° do art. 62 do RICARF.
Numero da decisão: 3401-006.465
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Fernanda Vieira Kotzias, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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DISCORDÂNCIA DO CONTRIBUINTE. CRÉDITO TRIBUTÁRIO COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA NOS TERMOS DO ART. 151 DO CTN. RETENÇÃO DO VALOR A SER RESSARCIDO. IMPOSSIBILIDADE. COMPENSAÇÃO VOLUNTÁRIA. HOMOLOGAÇÃO. STJ. RECURSO REPETITIVO. ART. 62, §2º DO RICARF. Não se pode impor compensação de ofício ou reter valores passíveis de ressarcimento, nos termos do parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, quando os débitos do contribuinte para com o Fisco estiverem com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Deve ser homologada a compensação voluntária declarada. Reprodução do entendimento firmado pelo STJ no Resp n°1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, por força do §2° do art. 62 do RICARF. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Fernanda Vieira Kotzias, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 93 40 97 /2 01 6- 73 Fl. 51DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da Delegacia de Julgamento em Curitiba que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, conforme ementa abaixo transcrita: (...) DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. NÃO HOMOLOGAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE RECONHECIDO EM PER. DISCORDÂNCIA QUANTO À COMPENSAÇÃO EM PROCEDIMENTO DE OFÍCIO. Correta a não homologação da declaração de compensação vinculada a pedido de restituição deferido parcialmente e a manifesta discordância do contribuinte quanto aos procedimentos de compensação de ofício, tendo em vista que o direito creditório reconhecido encontrase retido até que os débitos existentes em nome do contribuinte para com a Fazenda Pública sejam liquidados. Cientificada do acórdão de piso, a empresa interpôs Recurso Voluntário, sustentando que: a) o crédito utilizado na compensação já foi reconhecido pela autoridade administrativa, como consta expressamente da decisão recorrida; b) o crédito não deve ser objeto de retenção, com fundamento no parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, em razão da discordância da Recorrente quanto à realização da compensação de ofício, pois os débitos estão com exigibilidade suspensa conforme a certidão positiva com efeitos de negativa apresentada; c) as normas que preveem a retenção de créditos em razão da negativa de se proceder à compensação de ofício de débitos com exigibilidade suspensa contrariam o art. 151 do Código Tributário Nacional e o art. 146, III, ‘b’ da Constituição, que confere a tal código a competência para dispor sobre crédito tributário; d) deve ser reproduzida pelo Conselho a tese formulada pelo STJ no REsp n° 1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, que considera ilegal a compensação de ofício de débitos com exigibilidade suspensa na forma do art. 151 do CTN, por força do §2° do art. 62 do RICARF. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevsan, Relator Fl. 52DF CARF MF Processo nº 10680.934097/201673 Acórdão n.º 3401006.465 S3C4T1 Fl. 3 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 3401006.346, de 17 de junho de 2019, proferido no julgamento do Processo nº 10680.925847/201616. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3401006.346): "A controvérsia posta nos autos, acerca da não homologação da compensação declarada no PER/DCOMP nº 17327.68767.220416.1.3.040501, reside especificamente na possibilidade de o Fisco reter os créditos que a Recorrente pretende compensar em razão da discordância desta quanto à realização de sua compensação de ofício com outros débitos da empresa, os quais se encontram com exigibilidade suspensa, nos termos do art. 151 do CTN. A fiscalização aplicou à espécie o parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, a seguir reproduzidos: Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996 (...) Art. 73. A restituição e o ressarcimento de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil ou a restituição de pagamentos efetuados mediante DARF e GPS cuja receita não seja administrada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil será efetuada depois de verificada a ausência de débitos em nome do sujeito passivo credor perante a Fazenda Nacional. (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) I (revogado); (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) II (revogado). (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) Parágrafo único. Existindo débitos, não parcelados ou parcelados sem garantia, inclusive inscritos em Dívida Ativa da União, os créditos serão utilizados para quitação desses débitos, observado o seguinte: (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) I o valor bruto da restituição ou do ressarcimento será debitado à conta do tributo a que se referir; (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) II a parcela utilizada para a quitação de débitos do contribuinte ou responsável será creditada à conta do respectivo tributo. (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) Instrução Normativa RFB nº 1.717 de 2017 (...) Da Compensação de Ofício Fl. 53DF CARF MF 4 Art. 89. A restituição e o ressarcimento de tributos administrados pela RFB ou a restituição de pagamentos efetuados mediante DARF e GPS cuja receita não seja administrada pela RFB será efetuada depois de verificada a ausência de débitos em nome do sujeito passivo credor perante a Fazenda Nacional. § 1º Existindo débito, ainda que consolidado em qualquer modalidade de parcelamento, inclusive de débito já encaminhado para inscrição em Dívida Ativa da União, de natureza tributária ou não, o valor da restituição ou do ressarcimento deverá ser utilizado para quitálo, mediante compensação em procedimento de ofício. § 2º A compensação de ofício de débito parcelado restringese aos parcelamentos não garantidos. § 3º Previamente à compensação de ofício, deverá ser solicitado ao sujeito passivo que se manifeste quanto ao procedimento no prazo de 15 (quinze) dias, contados do recebimento de comunicação formal enviada pela RFB, sendo o seu silêncio considerado como aquiescência. § 4º Na hipótese de o sujeito passivo discordar da compensação de ofício, a autoridade da RFB competente para efetuar a compensação reterá o valor da restituição ou do ressarcimento até que o débito seja liquidado. (grifo nosso) Assim, verificada a existência de débitos e ante a discordância da Recorrente quanto à realização da compensação de ofício, os valores a serem restituídos foram retidos até a liquidação dos débitos em aberto e, com isso, indeferido o pedido de compensação por ausência de saldo disponível, procedimento que veio a ser confirmado pela decisão recorrida. A Recorrente se insurge contra tal procedimento, sob a alegação de que seus débitos em aberto estariam com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN, fazendo prova do alegado mediante juntada de certidão positiva com efeitos de negativa. Deste modo, procederse à compensação de ofício de créditos tributários com exigibilidade suspensa significaria extinguir compulsoriamente créditos sequer exigíveis, tendo a Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017 exorbitado de seu poder regulamentar ao contrariar o art. 151 do CTN e a própria Constituição Federal em seu art. 146, III, b, que atribui competência à lei complementar para dispor sobre crédito tributário. Sobre o tema, o STJ já se manifestou, sob a sistemática dos recursos repetitivos (tema 484), no Resp. n° 1.213.082/PR, cujo ementa reproduzo: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA (ART. 543C, DO CPC). ART. 535, DO CPC, AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO. COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO PREVISTA NO ART. 73, DA LEI N. 9.430/96 E NO ART. 7º, DO DECRETOLEI N. 2.287/86. CONCORDÂNCIA TÁCITA E RETENÇÃO DE VALOR A SER RESTITUÍDO OU RESSARCIDO PELA SECRETARIA DA Fl. 54DF CARF MF Processo nº 10680.934097/201673 Acórdão n.º 3401006.465 S3C4T1 Fl. 4 5 RECEITA FEDERAL. LEGALIDADE DO ART. 6º E PARÁGRAFOS DO DECRETO N. 2.138/97. ILEGALIDADE DO PROCEDIMENTO APENAS QUANDO O CRÉDITO TRIBUTÁRIO A SER LIQUIDADO SE ENCONTRAR COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA (ART. 151, DO CTN). 1. Não macula o art. 535, do CPC, o acórdão da Corte de Origem suficientemente fundamentado. 2. O art. 6º e parágrafos, do Decreto n. 2.138/97, bem como as instruções normativas da Secretaria da Receita Federal que regulamentam a compensação de ofício no âmbito da Administração Tributária Federal (arts. 6º, 8º e 12, da IN SRF 21/1997; art. 24, da IN SRF 210/2002; art. 34, da IN SRF 460/2004; art. 34, da IN SRF 600/2005; e art. 49, da IN SRF 900/2008), extrapolaram o art. 7º, do DecretoLei n. 2.287/86, tanto em sua redação original quanto na redação atual dada pelo art. 114, da Lei n. 11.196, de 2005, somente no que diz respeito à imposição da compensação de ofício aos débitos do sujeito passivo que se encontram com exigibilidade suspensa, na forma do art. 151, do CTN (v.g. débitos inclusos no REFIS, PAES, PAEX, etc.). Fora dos casos previstos no art. 151, do CTN, a compensação de ofício é ato vinculado da Fazenda Pública Federal a que deve se submeter o sujeito passivo, inclusive sendo lícitos os procedimentos de concordância tácita e retenção previstos nos §§ 1º e 3º, do art. 6º, do Decreto n. 2.138/97. Precedentes: REsp. Nº 542.938 RS, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 18.08.2005; REsp. Nº 665.953 RS, Segunda Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 5.12.2006; REsp. Nº 1.167.820 SC, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 05.08.2010; REsp. Nº 997.397 RS, Primeira Turma, Rel. Min. José Delgado, julgado em 04.03.2008; REsp. Nº 873.799 RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 12.8.2008; REsp. n. 491342/PR, Segunda Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 18.05.2006; REsp. Nº 1.130.680 RS Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 19.10.2010. 3. No caso concreto, tratase de restituição de valores indevidamente pagos a título de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ com a imputação de ofício em débitos do mesmo sujeito passivo para os quais não há informação de suspensão na forma do art. 151, do CTN. Impõese a obediência ao art. 6º e parágrafos do Decreto n. 2.138/97 e normativos próprios. 4. Recurso especial parcialmente provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C, do CPC, e da Resolução STJ n. 8/2008. (REsp 1213082/PR, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/08/2011, DJe 18/08/2011) Fl. 55DF CARF MF 6 No julgado, a Corte reconheceu a ilegalidade da imposição de compensação de ofício aos débitos com exigibilidade suspensa por força do art. 151 do CTN e, in casu, verificase que a certidão apresentada às fls. 27/28 menciona expressamente que os débitos da Recorrente estão com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Desta feita, impende a aplicação do §2° do art. 62 do RICARF para reproduzir o entendimento do STJ, a fim de possibilitar a compensação pleiteada, ressalvandose a necessidade de renovação da certidão positiva com efeitos de negativa por ocasião da liquidação deste julgado para se verificar a permanência do requisito de suspensão da exigibilidade dos débitos. Ante o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário e, no mérito, DAR PROVIMENTO ao mesmo." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado decidiu por CONHECER do Recurso Voluntário e, no mérito, DAR PROVIMENTO ao mesmo. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevsan Fl. 56DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15765.000200/2008-53
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Jun 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
AUTO DE INFRAÇÃO. FALTA DE REGISTRO NA CONTABILIDADE.
A empresa é obrigada a lançar na sua contabilidade todos os pagamentos efetuados a prestadores de serviço - autônomos- que lhe preste serviço.
AUTÔNOMOS. A empresa é obrigada a contribuir sobre o valor pago relativamente a serviços que lhe são prestados por segurados autônomos
Numero da decisão: 2301-006.188
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer parcialmente do recurso, não conhecendo do pedido de aplicação da penalidade mais branda em face da primariedade, e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO.
João Mauricio Vital - Presidente.
Cleber Ferreira Nunes Leite - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Mauricio Vital (presidente), Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza, Cleber Ferreira Nunes Leite, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Virgilio Cansino Gil (suplente convocado) e Wilderson Botto (suplente convocado). Ausente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
Nome do relator: CLEBER FERREIRA NUNES LEITE
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FALTA DE REGISTRO NA CONTABILIDADE. A empresa é obrigada a lançar na sua contabilidade todos os pagamentos efetuados a prestadores de serviço autônomos que lhe preste serviço. AUTÔNOMOS. A empresa é obrigada a contribuir sobre o valor pago relativamente a serviços que lhe são prestados por segurados autônomos Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer parcialmente do recurso, não conhecendo do pedido de aplicação da penalidade mais branda em face da primariedade, e, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO. João Mauricio Vital Presidente. Cleber Ferreira Nunes Leite Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Mauricio Vital (presidente), Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza, Cleber Ferreira Nunes Leite, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Virgilio Cansino Gil (suplente convocado) e Wilderson Botto (suplente convocado). Ausente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato. Relatório Tratase de Auto de Infração (AI) , lavrado em 20/08/2007, que constituiu crédito tributário por descumprimento de obrigação acessória relativo a Recibos de Pagamentos a Autônomos RPA, não registrados na contabilidade da empresa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 76 5. 00 02 00 /2 00 8- 53 Fl. 2329DF CARF MF 2 Após tomar ciência da autuação, a recorrente apresentou impugnação, na qual apresentou argumentos similares aos constantes do recurso voluntário. Na Decisão Notificação Nº 21434.4/0038/2007, a DRP/São Bernardo do Campo, concluiu pela procedência integral do lançamento, tendo a recorrente sido cientificada do decisório. No recurso voluntário, a recorrente apresentou argumentos conforme a seguir resumimos: Entende que o prazo decadencial a ser aplicado é do § 4ª do art 150 e não do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, ou seja de cinco anos e não dez. Afirma que os lançamentos efetuados pela fiscalização, não se referem a prestadores de serviço (autônomos) Solicita que seja aplicada pena mais branda por ser primário Requer que a pena aplicada seja convertida em advertência Solicita novamente a produção de prova oral É o relatório Voto Conselheiro Cleber Ferreira Nunes leite Relator Reconheço a tempestividade do recurso e dele tomo conhecimento Do prazo decadencial a ser aplicado No caso em análise, é inadequada a aplicação do parágrafo 4º do artigo 150 do CTN, para fins de cálculo do prazo de decadência, uma vez que o caput da referida norma de regência remete o intérprete à antecipação do pagamento, e que o descumprimento de obrigação tributária acessória não é instância procedimental que se equipare à antecipação do pagamento Da qualidade de autônomos dos prestadores de serviço De acordo com a documentação anexada pelo fiscal autuante, mormente os RPA, bem como as explicações na Decisão Notificação, resta claramente demonstrado que se trata de prestadores de serviço na qualidade de autônomo, cujos recibos de pagamento RPA não foram contabilizados Da aplicação da multa mais branda pela primariedade Ora, de acordo com o Relatório Fiscal de Aplicação da Multa (fls4), a multa aplicada foi a mais branda tendo em vista que não há agravantes e a empresa nunca tinha sido autuada pela mesma infração. Portanto, a empresa já foi beneficiada com a pena mais branda por ser primária. Portanto, não do pedido não conheço, por já ter sido atendido. Do pedido de conversão de multa para advertência A aplicação da multa pela autoridade fiscal, a definição do valor, os atenuantes e agravantes, prazo para pagamento/parcelamento ou impugnação, constituemse em atividades administrativas plenamente vinculadas, ou seja, somente se previstas em lei. No presente caso, não há na legislação vigente, nenhum comando que possibilite a conversão da pena pecuniária decorrente de descumprimento de obrigação acessória, em pena de advertência. Fl. 2330DF CARF MF Processo nº 15765.000200/200853 Acórdão n.º 2301006.188 S2C3T1 Fl. 2.330 3 Portanto, não há que se falar em conversão de pena de multa por pena advertência, por falta de previsão legal para tal. Do pedido de apresentação de prova oral A recorrente requer a possibilidade de produção de prova oral. da mesma forma que tinha requerido na impugnação, o que foi negado, conforme reproduzimos abaixo: 38. A impugnante solicitou a produção de prova documental, pericial e depoimentos de seus representantes e prova testemunhal. 39. A impugnante, por ocasião do recebimento do Auto de Infração, recebeu as INSTRUÇOES PARA O CONTRIBUINTE IPC (fls. 06 e 07), a qual afirma que são elementos essenciais à instrução da defesa (item 2.5.1 do IPC): a) a qualificação do contribuinte impugnante; b) os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; c) as diligências ou perícias que o contribuinte impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação de quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional de seu perito; (...) 40. O art. 9° da PORTARIA N° 520, de 19 de maio de 2004, do Ministro da Previdência Social, reitera o que foi mencionado acima, acrescentando o seguinte: § 1° A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a Impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. § 2° A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. 41. No caso em tela, a impugnante já teve duas oportunidades para juntar os documentos necessários a sua defesa. Assim, mantemos o entendimento exarado na DecisãoNotificação de que, de acordo com a legislação especifica da época, o momento de produção das provas seria o da apresentação da defesa/impugnação, não cabendo portanto, produção de provas orais. Pelo exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso e no mérito por negar lhe provimento Cleber Ferreira Nunes Leite Relator Fl. 2331DF CARF MF 4 Fl. 2332DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10280.903576/2012-27
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Jul 30 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3301-001.104
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, requerendo à unidade de origem que: a) com base nos correspondentes dados contidos nos arquivos da RFB, confirme que as cópias das notas fiscais de venda anexadas ao recurso voluntário (fls. 87 a 640) correspondem às efetivamente emitidas no mês de junho de 2007 e as concilie com o demonstrativo de notas fiscais de venda (fls. 641 a 650); b) concilie os somatórios das notas fiscais de venda e valores devidos da COFINS indicados no demonstrativo de notas fiscais de vendas com os DACON e DCTF originais e retificadores e guia de recolhimento; c) a partir das descrições dos produtos contidas nas notas fiscais de venda e das autorizações do Ministério da Agricultura, confirme que os produtos vendidos poderiam ser enquadrados no rol de bebidas lácteas e então gozar do benefício da alíquota zero previsto no inciso XI do art. 1° da Lei n° 10.925/04; d) prepare demonstrativo, contendo as vendas de produtos lácteos realizadas entre os dias 15/06/07 e 30/06/07, e aplique a alíquota da COFINS sobre o somatório, para que então seja conhecido o valor pago a maior, passível de compensação; e e) emita relatório conclusivo, dê ciência ao contribuinte e abra prazo de 30 dias para manifestação.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira Relator e Presidente
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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(assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira – Relator e Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Relatório Trata o presente processo de contestação contra Despacho Decisório, por meio do qual a DRJ não homologou compensação declarada por meio da Dcomp, devido à inexistência do direito creditório pretendido, vez que o DARF apontado pela contribuinte estaria integralmente utilizado para quitação de outro débito. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 02 80 .9 03 57 6/ 20 12 -2 7 Fl. 938DF CARF MF Fl. 2 da Resolução n.º 3301-001.104 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10280.903576/2012-27 Regularmente cientificada do referido Despacho Decisório, a interessada apresentou Manifestação de Inconformidade, onde expõe que apurou e recolheu mensalmente valores indevidos de PIS/Pasep e de Cofins, utilizando esses pagamentos para compensação com débitos próprios. Mas, com o despacho de não homologação da compensação, se deu conta que não havia sido retificada a DCTF, estando o débito da contribuição confessado, ainda que indevido, bem como o valor informado no Dacon. Constatada essa irregularidade, diz que retificou a DCTF e o Dacon. Em relação a seu direito, aduz que o art. 32 da Lei nº 11.488, de 15/06/2007, alterando os arts. 1º e 8º da Lei nº 10.925, de 2004, inseriu os produtos “leite fermentado, bebidas e compostos lácteos e fórmulas infantis, assim definidas conforme previsão legal específica, destinados ao consumo humano ou utilizados na industrialização de produtos...”, que são por ela produzidos, no rol dos produtos com alíquota zero da contribuição ao PIS e à Cofins incidentes sobre a receita bruta de venda no mercado interno. Acredita, assim, que a não homologação por parte da autoridade fiscal se deu apenas em virtude de inconsistências formais, mas, uma vez sendo sanadas mediante a retificação da DCTF, não haveria mais impedimento para fruição do direito ao crédito compensado. Por seu turno, a DRJ em Curitiba (PR) julgou a Manifestação de Inconformidade improcedente, firmando o entendimento de que o Despacho Decisório que estaria correto, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Sustentou que a retificação de declaração já apresentada à RFB somente é válida quando acompanhada dos elementos de prova que demonstrem a ocorrência de erro de fato no preenchimento da declaração original. Irresignada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, em que repete os argumentos apresentados na manifestação de inconformidade e traz novos documentos, dos quais destaco: notas fiscais de venda; demonstrativo de vendas e correspondentes valores devidos de PIS/COFINS, cujos totais de receita e de PIS/COFINS devidos estão conciliados com DCTF e DACON originais e retificadores; e PER/DCOMP. É o relatório. VOTO Conselheiro Winderley Morais Pereira - Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica-se o decidido no Acórdão 3301-001.101, de 26 de setembro de 2017, proferido no julgamento do processo 10280.903573/2012-93, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcreve-se, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301-001.101). Fl. 939DF CARF MF Fl. 3 da Resolução n.º 3301-001.104 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10280.903576/2012-27 O recuso voluntário preenche os requisitos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. A discussão gira em torno da comprovação da legitimidade do direito creditório (pagamento a maior da COFINS de junho de 2007) que instruiu o Pedido de Compensação (PER/DCOMP) não homologado pela RFB (Despacho Decisório, fl. 7). A recorrente teria recolhido a COFINS de junho de 2007 por valor maior do que o devido, por não ter observado que a alíquota da contribuição incidente sobre as bebidas lácteas que comercializava havia sido reduzida a zero pelo art. 32 da Lei n° 11.488/07, que alterou a redação do inciso XI art. 1° da Lei n° 10.925/04, a saber: "Art. 1o Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta de venda no mercado interno de: (. . .) XI - leite fluido pasteurizado ou industrializado, na forma de ultrapasteurizado, leite em pó, integral, semidesnatado ou desnatado, leite fermentado, bebidas e compostos lácteos e fórmulas infantis, assim definidas conforme previsão legal específica, destinados ao consumo humano ou utilizados na industrialização de produtos que se destinam ao consumo humano; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (. . .)" Na manifestação de inconformidade, a recorrente trouxe os seguintes documentos (fls. 15 e 16): i) Despacho Decisório/Processo de Cobrança; ii) Recibo de Entrega e DACON Retificador do 1° semestre de 2007; iii) DCOMP; e iv) Recibo de entrega e DCTF Retificadora do 1° semestre 2007. O conteúdo foi considerado insuficiente pela DRJ, que ratificou o Despacho Decisório. No recurso voluntário, complementou o conjunto probatório com o seguinte: i) notas fiscais de venda do mês de junho de 2007; ii) demonstrativo das notas fiscais que compõem a base de cálculo da COFINS; iii) DACON; iv) DARF; e v) autorizações do Ministério da Agricultura para a Produção/Fabricação apenas de bebidas lácteas. Passo ao exame da contenda. Inicio, consignando que, em homenagem ao "Princípio da Verdade Material", fundado no "Princípio Constitucional da Legalidade", supero a preclusão do direito de carrear provas documentais aos autos (§ 4° do art. 16 do Decreto n° 70.235/72) e conheço dos documentos anexados ao recurso voluntário. De uma forma geral, verifica-se que as alegações da recorrente encontram respaldo na documentação acostada nos autos e na legislação aplicável, exceto quanto ao seguinte aspecto: a redução a zero da alíquota entrou em vigor em 15/06/07, de acordo com o art. 41 da Lei n° 11.488/07. Desta forma, os eventuais recolhimentos a maior apenas se verificaram nas vendas realizadas a partir de então. Sobre a documentação juntada pela recorrente, verifiquei que o somatório das vendas e dos valores devidos da COFINS conferem com os indicados nos DACON e DCTF originais e retificadores. E conciliei algumas notas fiscais com o demonstrativo de notas fiscais de venda e não encontrei divergências. Com efeito, o relator da decisão de piso reconheceu que havia evidências acerca da existência do direito, não o acatando, todavia, em razão de não ter sido comprovado que todas as vendas de junho de 2007 eram de bebidas lácteas, o que a recorrente procurou sanar, por meio da juntada das notas fiscais de venda e das que alegou serem as únicas autorizações para fabricação de produtos. Abaixo, trecho do voto condutor da decisão da DRJ (fls. 74 e 75): "(. . .) Fl. 940DF CARF MF Fl. 4 da Resolução n.º 3301-001.104 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10280.903576/2012-27 No presente caso, como alegado pela contribuinte, é fato que o art. 32 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, incluiu nova redação ao art. 1º da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004, nos seguintes termos: (. . .) Mas também é fato que, de acordo com a Consolidação de Contrato Social apresentada, em sua Cláusula 3ª, a empresa tem como objetivo social: “FABRICAÇÃO DE LATICÍNIOS; FABRICAÇÃO DE SUCOS DE FRUTAS (REFRESCOS DE FRUTAS); COMÉRCIO ATACADISTA DE LATICÍNIOS (IOGURTE); E FABRICAÇÃO DE SORVETES E OUTROS GELADOS COMESTÍVEIS”. Assim, apesar dos indícios trazidos pela interessada em relação ao pagamento a maior da contribuição, particularmente em relação à alteração legislativa, não restou demonstrado que toda ou qual parte de sua receita decorreria da venda de produtos sujeitos à alíquota zero. Isso porque, além dos produtos relacionados aos itens XI a XIII, acima transcritos, a empresa também desenvolve em sua atividade a fabricação e o comércio de outros produtos, que não os derivados lácteos. É preciso, portanto, para acatar a liquidez do crédito pretendido, a comprovação inequívoca do erro cometido quando da declaração do débito na DCTF originalmente apresentada, mediante a apresentação da escrituração contábil-fiscal, bem como de documentos que demonstrem que, de fato, o pagamento realizado foi indevido. (. . .)" Assim, proponho a conversão do julgamento em diligência, para que a unidade de origem realize o seguinte: a) com base nos correspondentes dados contidos nos arquivos da RFB, confirme que as cópias das notas fiscais de venda anexadas ao recurso voluntário (fls. 87 a 640) correspondem às efetivamente emitidas no mês de junho de 2007 e as concilie com o demonstrativo de notas fiscais de venda (fls. 641 a 650); b) concilie os somatórios das notas fiscais de venda e valores devidos da COFINS indicados no demonstrativo de notas fiscais de vendas com os DACON e DCTF originais e retificadores e guia de recolhimento; c) a partir das descrições dos produtos contidas nas notas fiscais de venda e das autorizações do Ministério da Agricultura, confirme que os produtos vendidos poderiam ser enquadrados no rol de bebidas lácteas e então gozar do benefício da alíquota zero previsto no inciso XI do art. 1° da Lei n° 10.925/04; d) prepare demonstrativo, contendo as vendas de produtos lácteos realizadas entre os dias 15/06/07 e 30/06/07, e aplique a alíquota da COFINS sobre o somatório, para que então seja conhecido o valor pago a maior, passível de compensação; e e) emita relatório conclusivo, dê ciência ao contribuinte e abra prazo de 30 dias para manifestação. Cumpridas as etapas, os autos devem retornar conclusos ao CARF para julgamento. Importante frisar que as situações fática e jurídica presentes no processo paradigma encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicando-se a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem realize o seguinte: a) com base nos correspondentes dados contidos nos arquivos da RFB, confirme que as cópias das notas fiscais de venda anexadas ao recurso voluntário correspondem às Fl. 941DF CARF MF Fl. 5 da Resolução n.º 3301-001.104 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10280.903576/2012-27 efetivamente emitidas no período informado e as concilie com o demonstrativo de notas fiscais de venda; b) concilie os somatórios das notas fiscais de venda e valores devidos do PIS/COFINS indicados no demonstrativo de notas fiscais de vendas com os DACON e DCTF originais e retificadores e guia de recolhimento; c) a partir das descrições dos produtos contidas nas notas fiscais de venda e das autorizações do Ministério da Agricultura, confirme que os produtos vendidos poderiam ser enquadrados no rol de bebidas lácteas e então gozar do benefício da alíquota zero previsto no inciso XI do art. 1° da Lei n° 10.925/04; d) prepare demonstrativo, contendo as vendas de produtos lácteos realizadas entre no período informado, e aplique a alíquota da COFINS sobre o somatório, para que então seja conhecido o valor pago a maior, passível de compensação; e e) emita relatório conclusivo, dê ciência ao contribuinte e abra prazo de 30 dias para manifestação. Cumpridas as etapas, os autos devem retornar conclusos ao CARF para julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Relator Fl. 942DF CARF MF
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Numero do processo: 10840.903870/2012-46
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jul 08 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2001
LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADE HOSPITALAR. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DE 8%.
Comprovado exercício de atividades hospitalares de assistência a saúde, faz jus o Contribuinte ao percentual de 8% na determinação de sua base tributável sob o Regime do Lucro Presumido.
Numero da decisão: 1401-003.439
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito de R$15.962,55. Vencidos os Conselheiros Carlos André Soares Nogueira e Luiz Augusto de Souza Gonçalves que lhe negarm provimento.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Eduardo Morgado Rodrigues - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Carlos André Soares Nogueira, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Eduardo Morgado Rodrigues, Letícia Domingues Costa Braga, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2001 LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADE HOSPITALAR. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DE 8%. Comprovado exercício de atividades hospitalares de assistência a saúde, faz jus o Contribuinte ao percentual de 8% na determinação de sua base tributável sob o Regime do Lucro Presumido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito de R$15.962,55. Vencidos os Conselheiros Carlos André Soares Nogueira e Luiz Augusto de Souza Gonçalves que lhe negarm provimento. (documento assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (documento assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Carlos André Soares Nogueira, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Eduardo Morgado Rodrigues, Letícia Domingues Costa Braga, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). Relatório Trata-se de Recurso Voluntário (fls. 120 a 143) interposto contra o Acórdão nº 12- 60.441, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Rio de Janeiro/RJ (fls. 109 a 116), que, por unanimidade, julgou improcedente a Manifestação de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 84 0. 90 38 70 /2 01 2- 46 Fl. 147DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 Inconformidade apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2001 MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. ÔNUS DA PROVA. As alegações apresentadas na manifestação de inconformidade devem vir acompanhadas das provas documentais correspondentes, sob risco de impedir sua apreciação pelo julgador administrativo. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido." Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: "O presente processo trata de Manifestação de Inconformidade contra o Despacho Decisório nº rastreamento 038113007 emitido eletronicamente em 01/10/2012, fl. 5, referente ao pedido de restituiçãoPER nº 39259.41212.130406.1.2.043822 transmitido com o objetivo de pleitear a restituição de R$ 15.962,55, decorrente de recolhimento de IRPJ, código 2089, em 29/06/2001. 2. De acordo com o Despacho Decisório a partir das características do DARF descrito no PER acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos sem saldo reconhecido. Conforme informações complementares da análise de crédito, fl.6, o interessado está classificado como plano de saúde, CNAE 655020, não fazendo jus à aplicação da alíquota de 8% incidente sobre a receita bruta para efeito do cálculo do IRPJ, razão pela qual não restou comprovada a existência de pagamento indevido ou a maior. 3. Diante do disposto, o pedido de restituição foi indeferido com fundamento nos arts. 165 e 170, da Lei nº 5.172 de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN). 4. Cientificado da decisão em 10/10/2012, conforme documento de fl.12, o interessado apresentou a manifestação de inconformidade de fls.13/19, em 07/11/2012, alegando, em síntese, que: - o recolhimento a maior de R$ 15.962,55 foi efetuado em virtude de aplicar a alíquota de 32% na apuração do lucro presumido quando faz jus à aplicação da alíquota de 8%, pois presta serviços assemelhados aos serviços hospitalares segundo o art. 15 da Lei nº 9.249, de 1995, e Instrução Normativa SRF nº 480,de 2004. - no processo de consulta nº 13891.000109/2004-33 comprovou as atividades exercidas, quadro de pessoal, estrutura e demais exigências para usufruir de tratamento semelhante aos serviços hospitalares; Fl. 148DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 - pela leitura da Solução de Consulta nº 218, de 31/07/2006, respondida pela Superintendência Regional da Receita Federal da 8ª Região Fiscal, entende que faz jus a aplicação da alíquota de 8%; - a partir da alteração contratual registrada em 10/05/2004 na JUCESP acresceu em suas atividades a existência de plano de saúde por exigência da Agência Nacional de Saúde/ANS, sem ter se desviado de sua atividade fim que são os serviços médicos; - além disso, a restituição ora pleiteada é de pagamento realizado em 30/03/2001, ou seja, anterior a data da alteração contratual; - se houve deferimento da compensação de outros pedidos relativos a pagamentos a maior de IRPJ em razão da utilização indevida de alíquota de 32% pode também haver o deferimento da restituição. Como exemplo cita as compensações objeto das Dcomp 00539.53071.141106.1.3.046161, 0812579580.151206.1.3.040672, 0157.88987.281206.1.3.043442 e 17918.90910.150107.1.3.046022." O acórdão de primeira instância rechaçou os argumentos da Interessada com a seguinte fundamentação: (i) - Que a Solução de Consulta exarada pela Administração Fazendária e acostadas aos autos não determinou o enquadramento ou não da atividade da Recorrente como serviços hospitalar, mas apenas delineou os requisitos legais que devem ser comprovados, caso a caso, por cada interessado; e (ii) - A Recorrente não trouxe aos autos qualquer documentação que atestasse a efetiva realização de serviços hospitalares, nos termos dos requisitos legais propostos pela Solução de Consulta. Inconformada com a decisão de primeiro grau que indeferiu a sua Manifestação de Inconformidade, a ora Recorrente apresentou o recurso sob análise nos seguintes termos: (i) - Defendeu a natureza de serviço hospitalar das atividades por ela prestadas, juntando documentos que comprovassem tal características; (ii) - Alega deter estrutura física típica destes serviços, tais como ambulância, corpo clínico com médicos plantonistas e profissionais de enfermagem, máquinas para exames de raio-x, ultrassonogradia, eletrocardiograma e ecocardiograma, bem como 07 apartamentos para internação. Igualmente juntou documentos visando tal demonstração; e (iii) - Por fim, cita outros processos de PER/DCOMP em que já teriam sido homologadas compensações semelhantes a esta, onde fora reconhecido seu direito creditório face a aplicação de alíquota de 8% pela prestação de serviços médicos. É o relatório. Fl. 149DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues, Relator. Em que pese tempestivos, o presente Recurso Voluntário possuía irregularidade de representação, vez que todos os atos haviam sido assinados por apenas uma sócia, enquanto da leitura do estatuto social constante nos autos extrai-se, de sua seção XVII "DA ADMINISTRAÇÃO", que a representação jurídica da sociedade é sempre realizada em conjunto por dois diretores, sem preferência de ordem entre eles, ou por um destes e um procurador devidamente nomeado, ou, ainda, por dois procuradores nomeados, dentro de suas atribuições. Contudo, por ocasião da presente sessão de julgamento o patrono constituído pela Recorrente apresentou procuração e petição, de fls. 148 a 188 nos autos de nº 10840.903871/2012-91, regularmente subscrita por dois sócios convalidando todos os atos realizados até então no presente processo. Desta forma, restou sanado os vícios de representação existentes no Recurso, portanto dele conheço. Passo ao mérito. Versam os presentes autos sobre PER indeferido face ao não reconhecimento do crédito de IRPJ pleiteado. Conforme defende, a Recorrente tem sua renda tributada pelo regime do Lucro Presumido. Ao proceder a sua tributação, equivocadamente, aplicou a alíquota de 32% para a presunção do montante tributável, e não a de 8% referente aos serviços hospitalares, os quais entende que presta, dando assim origem ao crédito ora requerido. Tais previsões se encontram insculpidas no art. 15 da Lei nº9.249/95, que transcrevo: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do Decreto-Lei n o 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995 (...) III - trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (...). Fl. 150DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 Visando elucidar o conceito de "serviço hospitalar", à época dos fatos vigia a Instrução Normativa SRF nº 480/04 que trazia em seu bojo as seguintes definições: Art. 27. Para fins do disposto nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles diretamente ligados à atenção e assistência à saúde, de que trata o subitem 2.1 da Parte II da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, alterada pela RDC nº 307, de 14 de novembro de 2002, e pela RDC nº 189, de 18 de julho de 2003, prestados por empresário ou sociedade empresária, que exerça uma ou mais das: § 1º Para os efeitos deste artigo, consideram-se estabelecimentos hospitalares, aqueles estabelecimentos com pelo menos 5 (cinco) leitos para internação de pacientes, que garantam um atendimento básico de diagnóstico e tratamento, com equipe clínica organizada e com prova de admissão e assistência permanente prestada por médicos, que possuam serviços de enfermagem e atendimento terapêutico direto ao paciente, durante 24 horas, com disponibilidade de serviços de laboratório e radiologia, serviços de cirurgia e/ou parto, bem como registros médicos organizados para a rápida observação e acompanhamento dos casos. I - seguintes atribuições: a) prestação de atendimento eletivo de promoção e assistência à saúde em regime ambulatorial e de hospital-dia (atribuição 1); b) prestação de atendimento imediato de assistência à saúde (atribuição 2); ou c) prestação de atendimento de assistência à saúde em regime de internação (atribuição 3); II - atividades fins da prestação de atendimento de apoio ao diagnóstico e terapia (atribuição 4). § 2º Para efeito de enquadramento do estabelecimento como hospitalar levar-se-á, ainda, em conta se o mesmo está compreendido na classificação fiscal do Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), na classe 8511-1 - Atividades de Atendimento Hospitalar. § 1° A estrutura física do estabelecimento assistencial de saúde deverá atender ao disposto no item 3 da Parte II da Resolução de que trata o caput, conforme comprovação por meio de documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal. § 2° São também considerados serviços hospitalares, para fins do disposto nesta Instrução Normativa, os seguintes serviços prestados por empresário ou sociedade empresária: I - pré-hospitalares, na área de urgência, realizados por meio de UTI móvel, instaladas em ambulâncias de suporte avançado (Tipo "D") ou em aeronave de suporte médico (Tipo "E"); II - de emergências médicas, realizados por meio de UTI móvel, instaladas em ambulâncias classificadas nos Tipos "A", "B", "C" e "F", que possuam médicos e equipamentos que possibilitem oferecer ao paciente suporte avançado de vida. Fl. 151DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 Por fim, insta salientar que a Solução de Consulta nº 218/2006 prolatada pela RFB reportou-se ao artigo supra colacionado e estabeleceu idênticos requisitos para a caracterização de serviço hospitalar. A decisão de piso, em similar orientação, negou provimento à Manifestação de Inconformidade apresentada sob alegação de inexistir nos autos qualquer comprovação tanto das atividades prestadas pela Recorrente, quanto da existência de estrutura física necessária. Pois bem, primeiramente, é importante tecer alguns comentários sobre as exigências realizadas à época para a definição de serviço hospitalar, por via da Instrução Normativa citada. O Superior Tribunal de Justiça, em data de 24/02/2010, exarou decisão em sede de Recurso Repetitivo (de observação obrigatória por parte deste CARF, por força dos dispostos do art. artigo 62, § 2º, Anexo II, do RICARF) estabelecendo a impossibilidade de a Administração Pública estabelecer requisitos para a concessão de benefício fiscal que não previstos em lei, conforme seguinte ementa: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AOS ARTIGOS 535 e 468 DO CPC. VÍCIOS NÃO CONFIGURADOS. LEI 9.249/95. IRPJ E CSLL COM BASE DE CÁLCULO REDUZIDA. DEFINIÇÃO DA EXPRESSÃO "SERVIÇOS HOSPITALARES". INTERPRETAÇÃO OBJETIVA. DESNECESSIDADE DE ESTRUTURA DISPONIBILIZADA PARA INTERNAÇÃO. ENTENDIMENTO RECENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. RECURSO SUBMETIDO AO REGIME PREVISTO NO ARTIGO 543-C DO CPC. 1. Controvérsia envolvendo a forma de interpretação da expressão "serviços hospitalares" prevista na Lei 9.429/95, para fins de obtenção da redução de alíquota do IRPJ e da CSLL. Discute-se a possibilidade de, a despeito da generalidade da expressão contida na lei, poder-se restringir o benefício fiscal, incluindo no conceito de "serviços hospitalares" apenas aqueles estabelecimentos destinados ao atendimento global ao paciente, mediante internação e assistência médica integral. 2. Por ocasião do julgamento do RESP 951.251-PR, da relatoria do eminente Ministro Castro Meira, a 1ª Seção, modificando a orientação anterior, decidiu que, para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Na mesma oportunidade, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal referentes aos dispositivos legais acima mencionados não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício. Daí a conclusão de que "a dispensa da capacidade de internação hospitalar tem supedâneo diretamente na Lei 9.249/95, pelo que se mostra irrelevante para tal intento as disposições constantes em atos regulamentares". Fl. 152DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 3. Assim, devem ser considerados serviços hospitalares "aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde", de sorte que, "em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindo-se as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos". 4. Ressalva de que as modificações introduzidas pela Lei 11.727/08 não se aplicam às demandas decididas anteriormente à sua vigência, bem como de que a redução de alíquota prevista na Lei 9.249/95 não se refere a toda a receita bruta da empresa contribuinte genericamente considerada, mas sim àquela parcela da receita proveniente unicamente da atividade específica sujeita ao benefício fiscal, desenvolvida pelo contribuinte, nos exatos termos do § 2º do artigo 15 da Lei 9.249/95. 5. Hipótese em que o Tribunal de origem consignou que a empresa recorrida presta serviços médicos laboratoriais (fl. 389), atividade diretamente ligada à promoção da saúde, que demanda maquinário específico, podendo ser realizada em ambientes hospitalares ou similares, não se assemelhando a simples consultas médicas, motivo pelo qual, segundo o novel entendimento desta Corte, faz jus ao benefício em discussão (incidência dos percentuais de 8% (oito por cento), no caso do IRPJ, e de 12% (doze por cento), no caso de CSLL, sobre a receita bruta auferida pela atividade específica de prestação de serviços médicos laboratoriais). 6. Recurso afetado à Seção, por ser representativo de controvérsia, submetido ao regime do artigo 543-C do CPC e da Resolução 8/STJ. 7. Recurso especial não provido. Extrai-se do acórdão acima que o art. 15 da Lei 2.949/95, ao estabelecer a alíquota de 8% aos serviços hospitalares, não faz qualquer alusão quanto a estrutura física ou as características do contribuinte em si, mas apenas a natureza do serviço prestado. Concluí esse entendimento que, para fins de tributação pelo lucro presumido, deve-se tomar por "serviços hospitalares" aqueles afeitos a atividade desenvolvida pelos hospitais visando a assistência à saúde, ainda que realizado fora do ambiente interno destes, excluindo-se apenas as simples consultas médicas, por serem atividades típicas de consultórios médicos. Tendo este norte, de plano afastamos as exigências apontadas pela decisão de piso quanto a necessidade de se comprovar a estrutura física da Recorrente, nos termos da Solução de Consulta e da Instrução Normativa anteriormente mencionada. Adiante, observo que em seu recurso a Interessada apresenta peças de sua publicidade (fls. 130 a 134) onde oferta aos clientes os seguintes serviços: (i) Plantão médico para atendimentos de urgência e emergência; (ii) Raio-x (iii) Ultrassonografia Fl. 153DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 (iv) Eletrocardiograma (v) Ecocardiograma; (vi) Enfermagem; e (vii) Serviços de medicina preventiva. Ainda, estas publicidades possuem fotos de diversas salas equipadas para exames, internações e atendimento médico, bem como da existência de ambulância. A existência de ambulância, bem como de outros dois veículos de propriedade da Recorrente, se confirma pelas consultas RENAVAM junto ao Detran apresentadas às fls. 136 a 138. Por fim, a Recorrente apresenta o alvará de funcionamento expedido pela Secretaria Municipal de Saúde (fls 140 a 142), onde consta como atividade da empresa a "PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE SAÚDE". Outrossim, já se encontravam nos autos desde a primeira instância a Relação Anual de Informações Sociais - RAIS entregues ao Ministério do Trabalho e Emprego, confirmando a existência de 28 vínculos empregatícios em nome da Recorrente, dentre eles os seguintes profissionais: vendedor em domicílio, recepcionista de consultório médico ou dentário, pintor de obras, auxiliar de enfermagem, trabalhador de serviços de limpeza e conservação de áreas públicas, analista de transporte em comércio exterior, auxiliar de escritório, gerente de produção e operações aquicolas, almoxarife, digitador, enfermeiro, médico ortopedista e traumatologista. Ademais, se faz oportuno dizer que, conforme Contrato Social de fls. 28 a 46, a própria Recorrente é composta por 21 sócios, todos médicos habilitados ao exercício da profissão. De toda documentação apresentada, em especial aquelas que demonstram a existência de, não apenas profissionais da medicina, mas corpo funcional próprio para atividades complementares tais como conservação e limpeza, auxiliares de escritório, enfermeiros e técnicos de enfermagem, bem como equipamentos e espaço físico para a condução de tratamentos intensivos, exames e pequenos procedimentos cirúrgicos, parece a este julgador que a Recorrente ultrapassa a mera atividade de consultório médico, se configurando, verdadeiramente, um empresa hospitalar desenvolvendo efetivamente as atividades que lhes são afeitas. Desta forma, uma vez demonstrada a natureza dos serviços prestados pela Recorrente, VOTO por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, reconhecendo o direito a restituição do valor de R$15.962,55 pleiteado. É como voto. (documento assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Fl. 154DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 1401-003.439 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10840.903870/2012-46 Fl. 155DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13888.913786/2011-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Jul 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Data do fato gerador: 27/02/2003
RECOLHIMENTO EXTEMPORÂNEO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA MORATÓRIA. RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE
Restando comprovado que a contribuinte, antecipadamente a qualquer procedimento fiscal, ou mesmo antes de proceder à declaração efetuou a apuração e pagamento de tributos, legítimo seu direito de pleitear a restituição das multas moratórias incidentes sobre mencionados recolhimentos, ainda que feitos a destempo, posto que ao abrigo da espontaneidade prevista no artigo 138, do CTN, conforme sólida jurisprudência firmada pelo STJ, em sede de recurso repetitivo (Recurso Especial nº. 962.379 RS 2007/ 01428689 Trânsito: 30/04/2009), sendo tal dispositivo aplicável inclusive aos casos em que o sujeito passivo efetua o pagamento do débito antes de constituí-lo previamente em DCTF.
Numero da decisão: 2401-006.601
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Cleberson Alex Friess e Miriam Denise Xavier, que negavam provimento ao recurso. Solicitou fazer declaração de voto o conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13888.913788/2011-91, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. A relatoria é atribuída ao presidente do colegiado, apenas como uma formalidade exigida para a inclusão dos recursos em pauta, podendo ser formalizado por quem o substituir na sessão.
(documento assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Matheus Soares Leite, Jose Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier (Presidente).
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA MORATÓRIA. RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE Restando comprovado que a contribuinte, antecipadamente a qualquer procedimento fiscal, ou mesmo antes de proceder à declaração efetuou a apuração e pagamento de tributos, legítimo seu direito de pleitear a restituição das multas moratórias incidentes sobre mencionados recolhimentos, ainda que feitos a destempo, posto que ao abrigo da espontaneidade prevista no artigo 138, do CTN, conforme sólida jurisprudência firmada pelo STJ, em sede de recurso repetitivo (Recurso Especial nº. 962.379 RS 2007/ 01428689 Trânsito: 30/04/2009), sendo tal dispositivo aplicável inclusive aos casos em que o sujeito passivo efetua o pagamento do débito antes de constituí-lo previamente em DCTF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Cleberson Alex Friess e Miriam Denise Xavier, que negavam provimento ao recurso. Solicitou fazer declaração de voto o conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13888.913788/2011-91, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. A relatoria é atribuída ao presidente do colegiado, apenas como uma formalidade exigida para a inclusão dos recursos em pauta, podendo ser formalizado por quem o substituir na sessão. (documento assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Matheus Soares Leite, Jose Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 91 37 86 /2 01 1- 00 Fl. 132DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2401-006.590, de 04 de junho de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, proferido no âmbito do processo n° 13888.913788/2011-91, paradigma deste julgamento. “Trata-se de Recurso Voluntário interposto em face da decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, entendendo que a denúncia espontânea não restou caracterizada, não havendo que se falar em exclusão da multa moratória. O presente processo trata do pedido de restituição declarado em PER/DCOMP apresentada pelo Contribuinte no qual pretende restituir-se do crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo (IRRF - código de arrecadação: 0561), concernente ao período de apuração indicado. A DRF emitiu Despacho Decisório não reconhecendo o direito creditório pleiteado porque o pagamento localizado foi integralmente utilizado para extinguir débito do Contribuinte, não restando crédito disponível para restituir. O Contribuinte tomou ciência do Despacho Decisório e, inconformado com a decisão proferida, tempestivamente, apresentou sua Manifestação de Inconformidade, instruída com os documentos indicados nos autos. O Processo foi encaminhado para a DRJ que considerou IMPROCEDENTE a MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. O Contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ e, inconformado com o Acórdão prolatado, tempestivamente, interpôs seu Recurso Voluntário, instruído com os documentos adunados aos autos. Em seu Recurso Voluntário o Contribuinte, em síntese, aduz que: 1. Realizou o pagamento, com atraso, do IRRF relativo ao período indicado, antes da entrega da DCTF original correlata, transmitida após o pagamento, e antes que fossem iniciados quaisquer atos fiscalizatórios; 2. Diante disto, faz jus ao benefício da denúncia espontânea, prevista no art. 138 do CTN, havendo, portanto, indébito tributário a ser restituído, correspondente ao valor da multa de mora paga indevidamente; 3. O STJ já firmou posicionamento favorável à tese do Contribuinte, portanto, é inevitável a aplicação ao presente caso do disposto no art. 62-A do Regimento Interno do CARF; 4. O Acórdão recorrido baseou-se em entendimento equivocado, oposto àqueles entendimentos consolidados na Nota Técnica 01 COSIT de 18/01/2012, na Fl. 133DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Jurisprudência firmada pelo STJ no Julgado do REsp nº 1.149.022/SP e na Jurisprudência consolidada no CARF. Finaliza o Recurso Voluntário requerendo seu conhecimento e provimento a fim de reformar o Acórdão recorrido de modo a reconhecer o direito creditório pleiteado. O Contribuinte anexou aos Autos nova Petição onde reafirma os argumentos aduzidos no RV e requer que seja concedida preferência aos presentes autos, com imediata distribuição do Recurso Voluntário interposto. É o relatório.” Voto Conselheira Miriam Denise Xavier, Relatora. Este processo foi julgado na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica-se o decidido no Acórdão nº 2401-006.590, de 04 de junho de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, proferido no âmbito do processo n° 13888.913788/2011-91, paradigma deste julgamento. Transcreve-se, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido na susodita decisão paradigma, a saber, Acórdão nº 2401-006.590, de 04 de junho de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária: Acórdão nº 2401-006.590 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária “Juízo de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado dentro do prazo legal e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Mérito A presente demanda administrativa se refere a pedido de restituição objetivando reaver os valores pagos indevidamente a título de multa de mora, em razão da aplicação do instituto da denúncia espontânea, nos termos previstos no art. 138 do CTN. A discussão trazida aos autos restringe-se em definir se restou caracterizada a denúncia espontânea, o que renderia ensejo à restituição do valor recolhido de multa de mora. Conforme já explicitado na decisão de piso, o contribuinte efetuou o pagamento de DARF, relativo à IRRF (código de receita: 0561). O respectivo débito foi declarado em DCTF original, com transmissão posterior ao pagamento. O recolhimento efetuado compõe-se de principal e de multa de mora. Assim, por entender ser indevido o valor relativo à multa de mora, transmitiu o PER/DCOMP para pleitear apenas a restituição do valor da multa de mora. Fl. 134DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 No entanto, a DRJ entendeu que, o fato do prazo regulamentar para apresentação da DCTF ser posterior ao do vencimento do débito de declaração obrigatória não significa que a multa de mora, na hipótese de pagamento a destempo, não seja devida até a data limite para apresentação da DCTF, pois nesse caso não haveria inovação da atividade do contribuinte passível de denúncia espontânea. Pois bem. O instituto da denúncia espontânea está previsto no Código Tributário Nacional da seguinte forma: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. Desta feita, após inúmeras discussões judiciais acerca do caso tela, o Superior Tribunal de Justiça assentou entendimento de que, se o crédito foi previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea, nos termos do art. 138 do CTN, o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. Assim, foi editada a Súmula 360 que estabelece que “o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo”, o que, por outro lado, corrobora exatamente a situação de denúncia espontânea no caso em apreço em que ocorreu primeiro o pagamento antes da constituição do crédito tributário pela declaração. O fundamento é o total desconhecimento da autoridade administrativa. Importante destacar a decisão proferida no REsp 886.462/RS e REsp 962.379/RS, ambos sujeitos ao regime do art. 543-C do CPC, conforme abaixo se vê: TRIBUTÁRIO. ICMS. EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE E NÃO PAGO NO PRAZO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. SÚMULA 360/STJ. 1 Nos termos da Súmula 360/STJ, "O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo". É que a apresentação de Guia de Informação e Apuração do ICMS? GIA, de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais? DCTF, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. 2. Recurso especial parcialmente conhecido e, no ponto, improvido. Recurso sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (REsp 886.462/RS, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe 28/10/2008) Fl. 135DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Do voto do Ministro Relator, extrai-se o seguinte trecho extraído dos EDcl no REsp 541.468, 1ª Turma, Min. José Delgado: Não se pode confundir nem identificar denúncia espontânea com recolhimento em atraso do valor correspondente a crédito tributário devidamente constituído. O art. 138 do CTN, que trata da denúncia espontânea, não eliminou a figura da multa de mora, a que o Código também faz referência (art. 134, par. único). A denúncia espontânea é instituto que tem como pressuposto básico e essencial o total desconhecimento do Fisco quanto à existência do tributo denunciado. Da mesma forma se destaca da decisão no REsp 962.379/RS abaixo transcrita: TRIBUTÁRIO. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE E PAGO COM ATRASO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. SÚMULA 360/STJ. 1. Nos termos da Súmula 360/STJ, "O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo". É que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais ? DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS ? GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. 2. Recurso especial desprovido. Recurso sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (REsp 962.379/RS, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe 28/10/2008) Assim, para que ocorra a denúncia espontânea não pode ocorrer a declaração anterior, pois, ocorrendo, estará constituído o crédito tributário, sendo que o pressuposto básico e essencial é o total desconhecimento do Fisco quanto à existência do tributo denunciado. Pois bem. No caso da declaração parcial, com relação a parte que não foi declarada, subsiste a possibilidade de denúncia espontânea, que ocorre muitas vezes com a quitação concomitante à retificação da declaração, o que também foi aceito pelo STJ, conforme RESP nº 1.149.022-SP, julgado na sistemática do artigo 543-C do CPC de 1973 (artigo 1036, CPC/2015), no sentido de que, para o contribuinte abrigar-se ao manto do artigo 138 do CTN, deve haver recolhimento do tributo devido – acompanhado dos juros e eventual correção – antes de uma ação fiscalizadora, conforme acórdão assim ementado: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543-C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IRPJ E CSLL. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECLARAÇÃO PARCIAL DE DÉBITO TRIBUTÁRIO ACOMPANHADO DO PAGAMENTO INTEGRAL. POSTERIOR RETIFICAÇÃO DA DIFERENÇA A MAIOR COM A RESPECTIVA QUITAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retifica-a (antes de Fl. 136DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, à vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 543-C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 3. É que "a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tornando-se exigível, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte" (REsp 850.423/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede à retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o benefício previsto no artigo 138, do CTN. 5. In casu, consoante consta da decisão que admitiu o recurso especial na origem (fls. 127/138): "No caso dos autos, a impetrante em 1996 apurou diferenças de recolhimento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro, ano-base 1995 e prontamente recolheu esse montante devido, sendo que agora, pretende ver reconhecida a denúncia espontânea em razão do recolhimento do tributo em atraso, antes da ocorrência de qualquer procedimento fiscalizatório. Assim, não houve a declaração prévia e pagamento em atraso, mas uma verdadeira confissão de dívida e pagamento integral, de forma que resta configurada a denúncia espontânea, nos termos do disposto no artigo 138, do Código Tributário Nacional." 6. Consequentemente, merece reforma o acórdão regional, tendo em vista a configuração da denúncia espontânea na hipótese sub examine. 7. Outrossim, forçoso consignar que a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte. 8. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543-C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1149022/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/06/2010, DJe 24/06/2010) Destarte, a jurisprudência consolidada no RESP nº 1.149.022-SP deixa claro que o benefício da denúncia espontânea aplicável aos casos em que o crédito tributário não tenha sido constituído pelo contribuinte por meio da entrega da sua declaração (DCTF) também é estendido aos casos de entrega da declaração retificadora, pois é justamente a parte da declaração retificadora não declarada originalmente que poderá ser objeto de denúncia. Destaque-se ainda a decisão proferida no EDcl no AgInt no REsp 1229965/RJ, em que destaca que, "o que importa para a caracterização da denúncia espontânea é o fato de que os recolhimentos foram efetuados antes da constituição do crédito Fl. 137DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 tributário, mediante ação fiscalizatória ou por meio de declaração do contribuinte"; e que "o benefício previsto no art. 138 do CTN impõe a exclusão da multa moratória, inexistindo na legislação pertinente qualquer distinção entre o referido encargo e a multa punitiva, concluindo assim que não é devida a multa de mora quando caracterizada a denúncia espontânea, o que se verifica na hipótese em que a embargada efetuou o pagamento dos tributos e contribuições anteriormente à apresentação da DCTF: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. TRIBUTÁRIO. RECONHECIMENTO DE DENÚNCIA ESPONTÂNEA. AFASTAMENTO DA MULTA MORATÓRIA. OMISSÃO E CONTRADIÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. 1. Os embargos declaratórios são cabíveis quando houver contradição nas decisões judiciais ou quando for omitido ponto sobre o qual se devia pronunciar o juiz ou tribunal, ou mesmo correção de erro material, na dicção do art. 1.022 do CPC/2015. 2. O acórdão impugnado não foi omisso nem contraditório, pois decidiu expressamente que não é devida a multa de mora quando caracterizada a denúncia espontânea, o que se verifica na hipótese em que a embargada efetuou o pagamento dos tributos e contribuições anteriormente à apresentação da DCTF. 3. Como assinalado no acórdão embargado, ao julgar o REsp 1.149.022/SP sob o rito dos recursos repetitivos, concluiu o e. Ministro Luiz Fux que "a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte". 4. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no AgInt no REsp 1229965/RJ, Rel. Ministra DIVA MALERBI (DESEMBARGADORA CONVOCADA TRF 3ª REGIÃO), SEGUNDA TURMA, julgado em 18/08/2016, DJe 29/08/2016) No Tribunal Administrativo é pacífica a jurisprudência nesse sentido, conforme se verifica do acórdão da Câmara Superior de Recursos Fiscais: DENÚNCIA ESPONTÂNEA. TRIBUTO EXIGIDO DE OFÍCIO OU CONFESSADO EM GFIP E NÃO RECOLHIDO. IMPOSSIBILIDADE. O instituto da denúncia espontânea, previsto no artigo 138 do Código Tributário Nacional, somente exclui a responsabilidade pela infração e impede a exigência de multa de mora, quando o tributo devido for pago, com os respectivos juros de mora, antes do início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização e em momento anterior à entrega de DCTF, GFIP ou outra declaração que tenha a função de confissão de dívida (Resp nº 1.149.022, julgado nos termos do art. 543C, do CPC). Por força do art. 62, § 2º, do Anexo II, do RICARF, a citada decisão do STJ deve ser reproduzida nos julgamentos dos recursos no âmbito do CARF. (Acórdão CSRF nº 9202007.492, de 30/01/2019) Dessa forma, tendo em vista que no presente caso ocorreu exatamente o pagamento do tributo devido antes de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização e em momento anterior à entrega da DCTF, restou clara a subsunção à regra do artigo 138 do CTN, conforme interpretação consolidada pelo STJ, com a caracterização da denúncia espontânea, razão porque deve ser reconhecido o direito creditório da contribuinte. Conclusão Fl. 138DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário e DOU-LHE PROVIMENTO para reconhecer o direito ao crédito pleiteado, em razão da caracterização da denúncia espontânea.” Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário e DOU-LHE PROVIMENTO para reconhecer o direito ao crédito pleiteado, em razão da caracterização da denúncia espontânea. (documento assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Declaração de Voto Transcreve-se o inteiro teor da declaração de voto proferida na susodita decisão paradigma, a saber, Acórdão nº 2401-006.590, de 04 de junho de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária: Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro. “A Relatora votou pelo provimento ao recurso por considerar como aplicável ao presente caso concreto o RESP nº 1.149.022-SP, bem como a definição de denúncia espontânea veiculada na Nota Técnica COSIT n° 01, de 2012. O Conselheiro Cleberson Alex Friess votou por negar provimento ao recurso. Em seu voto, explicitou as seguintes premissas: (1) no REsp n° 1.149.022, o contribuinte declara a menor, paga integralmente o débito declarado e depois retifica a declaração para maior e concomitantemente quita o débito; (2) no REsp 962.379, há crédito previamente declarado e constituído pelo contribuinte e posterior recolhimento fora do prazo; (3) no caso dos autos, houve pagamento em atraso dentro do prazo de apresentação da DCTF e posterior apresentação de DCTF tempestiva e o REsp n° 1.149.022 e o REsp 962.379 não tratam dessa situação; (4) a jurisprudência da Câmara Superior do CARF aplica os REsp n° 1.149.022 e REsp 962.379 ao pagamento em atraso dentro do prazo de apresentação da DCTF, mas não fundamenta a razão para aplicá-los a tal situação diversa das havidas nos REsp n° 1.149.022 e o REsp 962.379; (5) a Nota Técnica COSIT n° 01, de 2012, foi revogada pela Nota Técnica COSIT n° 19, de 2012, por ter sido muito abrangente e a decisão do STJ não estabelecer haver denúncia espontânea quando o sujeito passivo paga o débito, mas não apresenta declaração ou outro ato que dê conhecimento da infração para a fiscalização; (6) para a caracterização da denúncia espontânea, a jurisprudência do STJ exige dois atos do contribuinte, reconhecer a infração e o pagamento, tomando por pressuposto desconhecer o fisco a existência do tributo denunciado; e (7) a denúncia espontânea tem por finalidade evitar qualquer providência da administração e, no caso concreto, ao tempo do Fl. 139DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 pagamento com atraso a fiscalização estava impedida de atuar por estar em aberto o prazo para a declaração. A partir dessas premissas, concluiu ser admissível no presente julgamento a adoção do entendimento de que, para haver denúncia espontânea, impõe-se a ausência de conhecimento da infração pela fiscalização e a possibilidade de a fiscalização atuar para que possa haver efetiva denúncia de infração, sob pena de a denúncia espontânea perder sua razão de ser e de se negar vigência ao art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996. O Conselheiro Matheus Soares Leite votou com a Relatora, tendo destacado que houve o pagamento integral da dívida e também a confissão do crédito tributário em DCTF antes de qualquer ato do fisco e a tornar desnecessária qualquer providência tendente ao lançamento do crédito tributário, restando caracterizada a denúncia espontânea. Durante a sessão, efetuei rápida pesquisa na base de acórdãos disponibilizada na página do CARF na internet, tendo localizado Acórdãos unânimes da 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais com ementas aparentemente contraditórias em relação ao caso concreto: Processo nº 10950.900828/2008-40 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9303-006.588 – 3ª Turma Sessão de 10 de abril de 2018 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. TRIBUTOS NÃO DECLARADOS EM DCTF. PAGAMENTO EM ATRASO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. OCORRÊNCIA. MULTA DE MORA. EXCLUSÃO. O instituto da denúncia espontânea aproveita àqueles que recolhem a destempo o tributo sujeito ao lançamento por homologação, nos casos em que não tenha havido prévia declaração do débito em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DECISÃO EM REGIME DE RECURSOS REPETITIVOS. CONSELHEIROS DO CARF. OBSERVAÇÃO. OBRIGATORIEDADE As decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça STJ em regime de recursos repetitivos deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte, por força do disposto no artigo 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Portaria 343/2015 e alterações. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 140DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Processo nº 13819.002681/97-19 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9303-008.204 – 3ª Turma Sessão de 21 de fevereiro de 2019 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/1992 a 30/09/1995 RECURSO ESPECIAL. CONTRARIEDADE À LEI. NÃO CONHECIMENTO. (...) DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. O beneficio da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo, situação que corresponde, inclusive, a pagamento efetuado fora do vencimento e dentro do prazo da apresentação da DCTF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente apenas quanto a denuncia espontânea do Recurso Especial e, no mérito, na parte conhecida dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas. Processo nº 10980.014665/2006-61 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9303-008.369 – 3ª Turma Fl. 141DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Sessão de 20 de março de 2019 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/12/2000 a 31/12/2000 DCTF. DÉBITO DECLARADO. PAGAMENTO ANTES DA APRESENTAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA DE MORA. INEXIGIBILIDADE. No julgamento do REsp 1.149.022, sob o regime do art. 543-C do CPC, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que o pagamento de débito tributário declarado em DCTF e pago, em data anterior à da transmissão da respectiva declaração, configura denúncia espontânea, nos termos da legislação tributária e, consequentemente, afasta a incidência da multa moratória. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello. (...) VOTO (...) No presente caso, o contribuinte pagou o débito da Cofins do mês de dezembro de 2000, vencida em 15/01/2001, a destempo, em 23/04/2002, com o acréscimo da multa de mora, no percentual de 2,0 %, conforme cópia do DARF às fls. 35e, quando o correto seria multa no percentual de 20,0 %. Posteriormente, declarou o débito na respectiva DCTF, cópia às fls. 42e, que foi apresentada/transmitida na data de 10/10/2002, conforme prova o extrato às fls. 40e. Já o lançamento para a constituição do crédito tributário correspondente à multa de mora foi efetuado em 17/11/2006 e o contribuinte intimado dele em 01/12/2006. Dessa forma, por força da referida decisão do STJ, aplica-se ao presente caso o instituto da denúncia espontânea, para excluir do lançamento em discussão a multa de mora, no valor de R$42.763,72 (quarenta e dois mil setecentos e sessenta e três reais e setenta e dois centavos). Diante desse contexto, pedi vista do processo para verificar de forma detalhada a situação concreta dos autos e a veiculada nos processos acima citados, bem como das havidas nos REsp 1.149.022 e REsp 962.379. No REsp 962.379 e no REsp 886.462, decidiu-se não haver denúncia espontânea em relação ao crédito declarado e, após tal constituição, recolhido, ou seja, tratou-se da hipótese da Súmula STJ n° 360. Os votos nos REsp´s 962.379 e 886.462 não diferem, logo transcrevo do voto do Relator no REsp 962.379: 2. Sobre a questão da denúncia espontânea, esta 1ª Seção editou a Súmula 360, nos seguintes termos: "O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo". (...) Fl. 142DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 3. Realmente, a jurisprudência sedimentada na 1ª Seção é no sentido de que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, que dispensa, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. (...) 4. À luz dessas circunstâncias, fica evidenciada mais uma importante consequência, além das já referidas, decorrentes da constituição o crédito tributário: a de inviabilizar a configuração de denúncia espontânea, tal como prevista no art. 138 do CTN. A essa altura, a iniciativa do contribuinte de promover o recolhimento do tributo declarado nada mais representa que um pagamento em atraso. E não se pode confundir pagamento atrasado com denúncia espontânea. Com base nessa linha de orientação, a 1ª Seção firmou entendimento de que não resta caracterizada a denúncia espontânea, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos declarados, porém pagos a destempo pelo contribuinte, ainda que o pagamento seja integral. (...) 4. Importante registrar, finalmente, que o entendimento esposado na Súmula 360/STJ não afasta de modo absoluto a possibilidade de denúncia espontânea em tributos sujeitos a lançamento por homologação. A propósito, reporto-me às razões expostas em voto de relator, que foi acompanhado unanimente pela 1ª Seção, no AgRG nos EREsp 804785/PR, DJ de 16.10.2006: "(...) 4. Isso não significa dizer, todavia, que a denúncia espontânea está afastada em qualquer circunstância ante a pura e simples razão de se tratar de tributo sujeito a lançamento por homologação. Não é isso. O que a jurisprudência afirma é a não- configuração de denúncia espontânea quando o tributo foi previamente declarado pelo contribuinte, já que, nessa hipótese, o crédito tributário se achava devidamente constituído no momento em que ocorreu o pagamento. A contrario sensu, pode-se afirmar que, não tendo havido prévia declaração do tributo, mesmo o sujeito a lançamento por homologação, é possível a configuração de sua denúncia espontânea, uma vez concorrendo os demais requisitos estabelecidos no art. 138 do CTN. Nesse sentido, o seguinte precedente: "PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. ART. 545 DO CPC. RECURSO ESPECIAL. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. CTN, ART. 138. PAGAMENTO INTEGRAL DO DÉBITO FORA DO PRAZO. IRRF. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DIFERENÇA NÃO CONSTANTE DA DCTF. POSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. 1. É cediço na Corte que 'Não resta caracterizada a denúncia espontânea, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento.' (REsp n.º 624.772/DF, Primeira Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 31/05/2004) 2. A inaplicabilidade do art. 138 do CTN aos casos de tributo sujeito a lançamento por homologação funda-se no fato de não ser juridicamente admissível que o contribuinte se socorra do benefício da denúncia espontânea para afastar a imposição de multa pelo atraso no pagamento de tributos por ele próprio declarados. Precedentes: REsp n.º 402.706/SP, Primeira Turma, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ de 15/12/2003; AgRg no REsp n.º 463.050/RS, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ de 04/03/2002; e EDcl no AgRg no REsp n.º 302.928/SP, Primeira Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de 04/03/2002. 3. Não obstante, configura denúncia espontânea, exoneradora da imposição de multa moratória, o ato do contribuinte de efetuar o pagamento integral ao Fisco do débito principal, corrigido monetariamente e acompanhado de juros moratórios, antes de iniciado qualquer procedimento fiscal com o intuito de apurar, lançar ou cobrar o referido montante, tanto mais quando este débito resulta de diferença de Fl. 143DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 IRRF, tributo sujeito a lançamento por homologação, que não fez parte de sua correspondente Declaração de Contribuições e Tributos Federais. 4. In casu, o contribuinte reconhece a existência de erro em sua DCTF e recolhe a diferença devida antes de qualquer providência do Fisco que, em verdade, só toma ciência da existência do crédito quando da realização do pagamento pelo devedor. 5. Ademais, a inteligência da norma inserta no art. 138 do CTN é justamente incentivar ações como a da empresa ora agravada que, verificando a existência de erro em sua DCTF e o consequente auto lançamento de tributos aquém do realmente devido, antecipa-se a Fazenda, reconhece sua dívida, e procede ao recolhimento do montante devido, corrigido e acrescido de juros moratórios." (AgRg no Ag 600.847/PR, 1ª Turma, Min. Luiz Fux, DJ de 05/09/2005"". Note-se que o Relator dos REsp´s 962.379 e 886.462 ressalvou expressamente em seu voto que a Súmula n° 360 não afasta a possibilidade de denúncia espontânea dos tributos sujeitos a lançamento por homologação, sendo que, não tendo havido prévia declaração do tributo, é possível a configuração da denúncia espontânea nos termos do art. 138 do CTN. No REsp 1.149.022, decidiu-se haver denúncia espontânea quando o contribuinte declara a menor, paga integralmente o débito declarado e depois retifica a declaração para maior e concomitantemente quita o débito. Destaque-se que os REsp´s 962.379 e 886.462 não admitem a denuncia espontânea para o pagamento após a declaração e o REsp 1.149.022 põe em relevo que até o momento da declaração (pagamento concomitante) se admite a configuração da denúncia espontânea, observado o art. 138 do CTN. O REsp 1.149.022 consagrou em parte a ressalva constante do voto do relator no REsp 962.379 e no REsp 886.462, ou seja, de que pode haver denúncia espontânea sem a prévia declaração do tributo, o que se dá justamente em relação à diferença a maior, eis que para ela não havia declaração prévia, passando a haver quando da declaração concomitantemente ao pagamento. No Acórdão nº 9303-008.204 (o com ementa destoante/contraditória em relação aos outros dois dentre os três Acórdãos da 3ª Turma da Câmara Superior acima transcritos), de 21 de fevereiro de 2019 (Processo nº 13819.002681/97-19), a ementa não guarda pertinência com as razões de decidir, tendo o voto da relatora, após transcrição dos REsp´s 962.379 e 1.149.022, consignado (grifos do original): Portanto, conclusão inequívoca dos citados julgados é que não havendo declaração prévia do tributo e tendo o contribuinte efetuado o seu pagamento sem qualquer ação prévia do ente tributante, deve ser aplicado ao caso a denúncia espontânea, inclusive em relação à multa de mora. Retomando os fatos do presente processo, tem-se que: (...) Aqui, não vejo que há declaração prévia do tributo e o contribuinte não efetuou pagamento antes qualquer ação prévia do ente tributante, não devendo ser aplicado ao caso a denúncia espontânea. Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. Logo, o Acórdão nº 9303-008.204, de 21 de fevereiro de 2019, não destoa da jurisprudência da 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais evidenciada no Acórdão nº 9303-006.588, de 10 de abril de 2018 (Processo nº 10950.900828/2008-40), e posteriormente reiterada no Acórdão nº 9303-008.369, de 20 de março de 2019 (Processo nº 10980.014665/2006-61). Fl. 144DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Note-se que, curiosamente, a redação da ementa do Acórdão nº 9303-008.204, de 21 de fevereiro de 2019, veicula o mesmo texto constante da ementa do Acórdão n° 3803-002.806, de 25 de abril de 2012, reformado pelo Acórdão nº 9303-006.588 (primeiro dentre os três Acórdãos da 3ª Turma da Câmara Superior acima transcritos), de 10 de abril de 2018, estes referentes ao Processo nº 10950.900828/2008-40. A seguir, transcrevo as ementas do Acórdão n° 3803- 002.806: Processo nº 10950.900828/2008-40 Recurso nº 900.435 Voluntário Acórdão nº 3803002.806 – 3ª Turma Especial Sessão de 25 de abril de 2012 Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 DECISÕES DO STJ. SISTEMÁTICA DO ART. 543-C DO CPC. APLICAÇÃO NOS JULGAMENTO DO CARF. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelo artigo 543-C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 MULTA DE MORA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. O beneficio da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo, situação que corresponde, inclusive, a pagamento efetuado fora do vencimento e dentro do prazo da apresentação da DCTF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. Vencido(s) o(s) Conselheiro(s) Hélcio Lafetá Reis, Juliano Eduardo Lirani e Jorge Victor Rodrigues, que deram provimento. Apesar de o Acórdão n° 3803-002.806 sustentar estar a aplicar o REsp 1.149.022, parece-me que até certo ponto esse Acórdão alinhava a mesma linha de argumentação do Conselheiro Cleberson Alex Friess para o pagamento efetuado fora do vencimento e dentro do prazo de apresentação da DCTF, do Voto do Conselheiro Relator do Acórdão n° 3803-002.806 extrai-se: Da decisão paradigmática do Superior Tribunal de Justiça, penso ser errôneo captar a permissão para recolher tributos com atraso, sem multa de mora antes de transmissão regular da DCTF, fazendo-se tábula rasa de norma específica de incidência dessa multa, segundo os termos do art. 63 da Lei nº 9.430/96. Veja-se o teor da sua ementa: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IRPJ E CSLL. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECLARAÇÃO PARCIAL DE Fl. 145DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 DÉBITO TRIBUTÁRIO ACOMPANHADO DO PAGAMENTO INTEGRAL. POSTERIOR RETIFICAÇÃO DA DIFERENÇA A MAIOR COM A RESPECTIVA QUITAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retifica-a (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, à vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 54-3C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, Dje 28.10.2008). 3. É que "a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tornando-se exigível, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte" (REsp 850.423/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede à retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o benefício previsto no artigo 138, do CTN. RESP 1149022, Min. Luiz Fux Do item “1” ementa, acima, destaco que a denúncia espontânea somente “resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário [...]”. Dessa posição extrai-se que antes de regularmente transmitida a DCTF não há que se falar em denúncia espontânea. Simples assim. Além de estar expresso desse modo na decisão, essa conclusão deve ser vista como a escorreita, sob pena de se fazer letra morta o art. 63 da Lei nº 9.430/96 e não haver sentido contribuinte não ser submetido a recolhimento de multa de mora, ainda que atrase em até sete meses o seu pagamento. Isso, porque há regulamentações que concederam prazo semestral para apresentação da DCTF, a exemplo da IN SRF nº 482/2004 e da IN SRF nº 583/2005. Isso significa, no mínimo, sete meses de defasagem entre o encerramento do primeiro mês do período do semestre e a apresentação da DCTF, reduzindo-se em um mês a defasagem dos períodos subsequentes. É descabido entender que a decisão do Superior Tribunal de Justiça esteja a permitir a constância de pagamentos com atraso, sem incidência da multa de mora, até que a DCTF seja apresentada. Que razão haveria para a definição de data de recolhimento de tributos, se todos podem fazê-lo com apenas os juros de mora, até a data da apresentação da DCTF? Que estímulo positivo haveria para se adimplir o pagamento dos tributos no vencimento, ante a enorme vantagem de não fazê-lo e financiar o capital de giro com os juros básicos da economia (embora não ainda os menores), bem abaixo dos juros praticados nos descontos bancários? Do item “2” da ementa ressalto que “a denúncia espontânea não resta caracterizada... nos casos de tributos... declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento... ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco”. Ora, não pode haver procedimento fiscal que enseje lançamento para tributos que ainda estejam dentro do prazo de espontaneidade do contribuinte de declarar. Assim, impossibilitado o Fl. 146DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Fisco de incluir em procedimento fiscal aberto lançamento abarcando períodos sob a espontaneidade do contribuinte, não há que se falar em o contribuinte antecipar-se a uma ação juridicamente impossível, e oferecer à tributação débito ainda não conhecido pelo Fisco, porém antes do seu devido tempo, com exclusão da multa de mora. Dentro do prazo de espontaneidade a ação é do contribuinte, ex legis, substituindo o próprio ente tributante, no regime de lançamento por homologação. Daí que a denúncia só se pode proceder após esgotado o prazo de apresentação da DCTF, e funciona, a meu ver, como um resgate da espontaneidade, motu próprio do contribuinte, do que, então, decorre o benefício da exclusão da multa de mora, em valorização do seu gesto e pela economia do custo da ação fiscal. Resgate impossível, segundo o mesmo item “2”, acima destacado, relativamente a débito declarado e não pago, porquanto esta (a declaração do contribuinte) sela o débito confessado e a espontaneidade quanto a ele. Firmado o entendimento, volvamos ao caso concreto. Neste, o crédito de R$ 4.537,50, corresponde à multa de mora incidente sobre o pagamento de Cofins, no valor de R$ 25.000,00, referente ao período de apuração maio/2001, vencida em 15 de junho de 2001 e paga em 09 de agosto de 2001, fl. 03, e DCTF transmitida em 15 de agosto de 2001, fl. 31. O prazo para entrega da DCTF no período do recolhimento do DARF gerador do crédito era trimestral, segundo regramento da IN SRF 126/98. Como se vê o recolhimento foi efetuado fora do vencimento, porém dentro do prazo da entrega da DCTF, fato que não configura a denúncia espontânea, na linha do entendimento expendido supra, que se coaduna com o do Superior Tribunal de Justiça, devendo este ser aplicado no presente julgamento, por força do art. 62-A do RICARF. A decisão em questão, como já dito, foi, por unanimidade, reformada pelo Acórdão 9303-006.588, de 10 de abril de 2018, transcrevo do voto do Relator do Acórdão 9303-006.588: Mérito A matéria em litígio não é novidade para este Colegiado. Pelo menos por meio dos acórdãos n°s 9303-004.191, 9303-003.489, 9303-003.490. 9303-003.364, 9303- 003.220,9303-003.203,9303-003.202, o assunto foi discutido e decidido no mérito. Como é de sabença, o Superior Tribunal de Justiça, na pessoa do então Ministro Teori Albino Zavascki, decidiu, nos autos do processo n° 2007/0142868-9, sobre a aplicação do instituto da denúncia espontânea nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação previamente declarados pelo contribuinte e pagos a destempo, nos seguintes termos. EMENTA 1. Nas termos da Súmula 360/STJ, "O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo". E que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais - DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS - GIA, OU de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. (REsp 962379 RS, ReL Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe 28/10/2008) Fl. 147DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Mais tarde, no REsp 1149022, da relatoria do Ministro Luiz Fux, ficou consignado o entendimento de que a denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do tributos sujeito a lançamento por homologação, acompanhado do respectivo pagamento integral, retifica a declaração. A intelecção induvidosa da decisão acima transcrita é no sentido de que o pagamento que não fora previamente declarado em DCTF está albergado pela denúncia espontânea quando pago antes de qualquer procedimento fiscal. Noutro giro, é translúcido o entendimento de que a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja. as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte (item 7 da ementa a seguir transcrita). EMENTA 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito Tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral retifica-a (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a conseqüente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, ã vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 543-C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rei. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rei Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 3. E que "a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tomando-se exigível independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte" (REsp 850.423/SP, Rei Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede ã retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o beneficio previsto no artigo 138, do CTN. 5. In casu, consoante consta da decisão que admitiu o recurso especial na origem (fls. 127/138): "No caso dos autos, a impetrante em 1996 apurou diferenças de recolhimento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro, ano-base 1995 e prontamente recolheu esse montante devido, sendo que agora, pretende ver reconhecida a denúncia espontânea em razão do recolhimento do tributo em atraso, antes da ocorrência de qualquer procedimento fiscalízatòrio. Assim, não houve a declaração prévia e pagamento em atraso, mas uma verdadeira confissão de dívida e pagamento integral de forma que resta configurada a denúncia espontânea, nos termos do disposto no artigo 138, do Código Tributário Nacional" 6. Conseqüentemente, merece reforma o acórdão regional, tendo em vista a configuração da denúncia espontânea na hipótese sub examine. 7. Outrossim, forçoso consignar que a sanção premiai contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte. Fl. 148DF CARF MF Fl. 18 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 (REsp 1149022 SP, Rei Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/06/2010, DJe 24/06/2010) O artigo 62, § 2 o , do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria 343/2015 e alterações, determina que as matérias de Repercussão Geral sejam reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pela contribuinte. Em acréscimo, destaca-se que, por força do disposto no art. 21 da Lei n° 12.844,-2013, que deu nova redação ao art. 19 da Lei n° 10.522/2002, a própria Procuradoria da Fazenda Nacional, com base nas disposições do art. 2 o , inciso VIL da Portaria PGFN N° 502/2016, especifica em seu site uma relação de temas que não devem mais ser objeto de recurso. Dentre eles está elencado a denúncia espontânea, nos seguintes termos. 1.13 - Denúncia espontânea a) Declaração parcial - Diferença a maior - Multa moratória REsp 1.149.022/SP (tema n° 385 de recursos repetitivos) Resumo: (i) A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral retifica-a (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente; e (ii) A denúncia espontânea exclui a multa moratória. Vide Atos Declaratórios n° 08/2011 e n° 04/2011. Ressalta-se que ambas as Turmas que compõem a Primara Seção do STJ entendem, de maneira pacífica, que, ainda que se trate de tributo sujeito a lançamento por homologação, se o crédito não foi previamente declarado pelo contribuinte, mas foi pago, pode-se configurar a denúncia espontânea, desde que ocorram as demais hipóteses do art. 138 do CTN (REsp U55146/AM, AgRg nos EDcl no Ag 100977/'/SP, AgRg no REsp 1046285/MG eAgRg no REsp 1046285/MG). Todavia, isso não afasta a tese firmada no tema n° 61 de recursos repetitivos (REsp's n° 962.379/RS e n° 886.462/RS), no sentido de que "Não resta caracterizada a denúncia espontânea, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos declarados, porém pagos a destempo pelo contribuinte, ainda que o pagamento seja integral". Vide, ainda, a Súmula 360/STJ. I (grifos meus) Neste mesmo sentido, recente decisão tomada por meio do acórdão nº 9303-004.431, de 07 de dezembro de 2016, da relatoria do i. Conselheiro Rodrigo da Costa Possas. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 30/12/2003 a 31/07/2007 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ART. 138 CTN. AFASTAMENTO DA MULTA MORATÓRIA. POSSIBILIDADE. A denúncia espontânea, em relação aos tributos sujeitos a lançamento por homologação, se aplica aos casos em que não houve a declaração do tributo, porém houve o pagamento antes de iniciado qualquer procedimento administrativo fiscal visando sua exigência. No caso concreto, é incontroverso que o pagamento do contribuinte não foi precedido de declaração, razão pela qual não está sujeito â incidência de multa moratória. Diante do exposto voto por dar provimento ao recurso especial do contribuinte. Fl. 149DF CARF MF Fl. 19 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Destarte, a decisão acima transcrita considera que a hipótese do pagamento fora do vencimento e dentro do prazo de apresentação da DCTF estaria abrangida pelo decidido no REsp 962.379, na Súmula STJ n° 360 e no REsp 1.149.022. Pagar em atraso e posteriormente declarar tempestivamente em DCTF (situação no caso concreto) não se confunde com, após declarar, pagar em atraso (situação dos REsps 962.379 e 886.462 e da Súmula 360 do STJ). Logo, não são aplicáveis ao caso concreto as conclusões dos REsps 962.379 e 886.462, embora deva ser aplicada a ressalva constante do voto do relator nos REsps 962.379 e 886.462 por força do REsp n° 1.149.022, ou seja, limitada pela exigência de haver declaração e pagamento concomitante. Esse ponto foi destacado pela própria PGFN na Lista de Dispensa de Contestar e Recorrer (Art.2º, V, VII e §§ 3º a 8º, da Portaria PGFN Nº 502/2016) no item 1.13, letra a: 1.13 - Denúncia espontânea a) Declaração parcial - Diferença a maior - Multa moratória REsp 1.149.022/SP (tema nº 385 de recursos repetitivos) Resumo: (i) A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retifica-a (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente; e (ii) A denúncia espontânea exclui a multa moratória. Vide Atos Declaratórios nº 08/2011 e nº 04/2011. Ressalta-se que ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ entendem, de maneira pacífica, que, ainda que se trate de tributo sujeito a lançamento por homologação, se o crédito não foi previamente declarado pelo contribuinte, mas foi pago, pode-se configurar a denúncia espontânea, desde que ocorram as demais hipóteses do art. 138 do CTN (REsp 1155146/AM, AgRg nos EDcl no Ag 1009777/SP, AgRg no REsp 1046285/MG e AgRg no REsp 1046285/MG). Todavia, isso não afasta a tese firmada no tema nº 61 de recursos repetitivos (REsp's nº 962.379/RS e nº 886.462/RS), no sentido de que "Não resta caracterizada a denúncia espontânea, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos declarados, porém pagos a destempo pelo contribuinte, ainda que o pagamento seja integral". Vide, ainda, a Súmula 360/STJ. Em outras palavras, para pagar em atraso e posteriormente declarar tempestivamente em DCTF, é pertinente a ressalva constante do voto do relator nos REsps 962.379 e 886.462 de que a Súmula n° 360 não afasta a possibilidade de denúncia espontânea dos tributos sujeitos a lançamento por homologação, pois, não tendo havido prévia declaração do tributo, seria possível a configuração da denúncia espontânea nos termos do art. 138 do CTN. Ressalva essa que aflora em parte na questão de direito definida no REsp 1.149.022. Fl. 150DF CARF MF Fl. 20 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Ainda que anterior ao no REsp 1.149.022, o voto da Ministra Eliana Calomon no REsp 1.094.945 é extremamente didático para a compreensão da questão em tela, transcrevo ementa e excertos do relatório e voto: TRIBUTÁRIO - PROCESSO CIVIL - DENÚNCIA ESPONTÂNEA - CASO LÍDER - REsp 962.379/RS - INAPLICABILIDADE - COFINS - DÉBITO RECOLHIDO COM JUROS DE MORA ANTES DA APRESENTAÇÃO DA DCTF - CONFIGURAÇÃO - PRECEDENTES - RECURSO PROVIDO PELA VIOLAÇÃO À LEGISLAÇÃO FEDERAL E PELA DIVERGÊNCIA. 1. O REsp 962.379/RS, caso líder na sistemática prevista no art. 543-C do CPC, é inaplicável ao presente caso porque aqui se questiona a configuração da denúncia espontânea pelo pagamento a destempo, mas antes da entrega da DCTF, enquanto que lá se discutia a existência de denúncia espontânea de crédito já declarado e pago a destempo. 2. Esta Corte entende que não se mostra espontâneo o pagamento efetuado após a declaração do fato gerador, pois neste caso o contribuinte age em função de dever legal, além de que o procedimento de constituição do crédito já se iniciou. 3. Inexistindo prévia declaração e ocorrendo o pagamento integral da dívida com os juros de mora, configurada esta a denúncia espontânea, devendo ser excluída a sanção pela infração tributária: a multa, moratória ou punitiva. Precedentes. 4. Recurso especial provido pelo duplo fundamento. (...) RELATÓRIO (...) No recurso especial, aponta-se violação do art. 138 do CTN porque a Cofins foi apurada em fevereiro de 1999, tendo por vencimento a data de 10 de março de 1999, e foi recolhida em 30 de maio de 1999, antes de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização. Alega que, nos termos da Instrução Normativa 126/1998 (DOU 02.11.1998), a DCTF deve ser entregue na unidade da Secretaria da Receita Federal - SRF até o último dia útil da primeira quinzena do segundo mês subsequente ao trimestre da ocorrência dos fatos geradores, de modo que quando houve o pagamento não havia qualquer declaração da ocorrências dos respectivos fatos geradores. (...) VOTO (...) Inicialmente, insta justificar a inaplicabilidade das conclusões exaradas no REsp 962.379/RS, rel. Min. Teori Zavascki, caso líder na sistemática do art. 543-C do CPC quanto à possibilidade de se configurar a denúncia espontânea de créditos decorrentes do Pis/Cofins quando o contribuinte declara a dívida, mas não a paga a tempo. O acórdão acima referido obteve a seguinte ementa: (...) A situação ocorrida nos autos difere do caso-líder, pois na presente hipótese inexistiu a prévia declaração, veiculada pela DCTF, embora o tributo tenha sido pago a destempo, fora do prazo de vencimento, mas antes da declaração, que constitui o crédito tributário nos tributos sujeitos ao regime do lançamento por homologação. Esta Corte entende inviável o reconhecimento da denúncia espontânea sempre que o contribuinte declara a ocorrência do fato gerador, pois tal fato não se mostra espontâneo, nos termos do art. 138 do CTN, já que se opera por dever legal (art. 113, § 2º, do CTN). Fl. 151DF CARF MF Fl. 21 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 Diversa é a conclusão quando inexiste declaração ou quando esta se opera após o pagamento. Aqui houve a espontaneidade porque a obrigação de declarar ainda não era exigível do contribuinte, mas o crédito fora pago anteriormente a ela em sua integralidade, acompanhado dos juros moratórios. (...) (REsp 1094945/MG, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 09/12/2008, DJe 26/02/2009) Em resumo, declarar a menor, pagar integralmente o débito declarado e depois retificar a declaração para maior e concomitantemente quitar a diferença a maior originalmente não declarada se confunde com pagar sem ter declarado e posteriormente declarar, ao se compreender como pagamento concomitante o realizado até o momento da declaração em DCTF. Frise-se que não trato da hipótese de pagamento com inexistência de declaração. Caso se entenda que a concomitância demanda o pagamento no momento da DCTF (dia, hora, minuto e segundo da transmissão), a situação de pagar até o momento da transmissão da DCTF valor não declarado previamente em DCTF também ensejaria a denúncia espontânea, mas não pelo item 6.b2 da Nota Técnica COSIT n° 19, de 2012, mas pelo item 6.b1: 6. Em consequência, conclui-se: a) pelo cancelamento da Nota Técnica Cosit nº 1, de 18 de janeiro de 2012; b) que se considera ocorrida a denúncia espontânea, para fins de aplicação do artigo 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002: b1) quando o sujeito passivo confessa a infração, inclusive mediante a sua declaração em DCTF, e até este momento extingue a sua exigibilidade com o pagamento, nos termos do Ato Declaratório PGFN nº 4, de 20 de dezembro de 2011 1 ; b2) quando o contribuinte declara a menor o valor que seria devido e paga integralmente o débito declarado, e depois retifica a declaração para maior, quitando-o, nos termos do Ato Declaratório PGFN nº 8, de 20 de dezembro de 2011; Em última análise, o caso concreto objeto do presente processo administrativo não difere fundamentalmente do veiculado no REsp 1.149.022, Isso porque, no REsp 1.149.022, em relação à diferença a maior não havia declaração prévia, sendo justamente o crédito pertinente à diferença a maior o objeto de declaração e concomitante quitação, a caracterizar a denúncia espontânea. Logo, sendo a questão de direito idêntica, deve ser adotada a tese de direito decidida no REsp 1.149.022, tese que já havia sido evidenciada em parte na ampla 1 ATO DECLARATÓRIO No- 4, DE 20 DE DEZEMBRO DE 2011 A PROCURADORA-GERAL DA FAZENDA NACIONAL, no uso da competência legal que lhe foi conferida, nos termos do inciso II do art. 19, da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, e do art. 5º do Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997, tendo em vista a aprovação do Parecer PGFN/CRJ/Nº 2113/2011, desta Procuradoria- Geral da Fazenda Nacional, pelo Senhor Ministro de Estado da Fazenda, conforme despacho publicado no DOU de 15/12/2011, declara que fica autorizada a dispensa de apresentação de contestação, de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante: "com relação às ações e decisões judiciais que fixem o entendimento no sentido da exclusão da multa moratória quando da configuração da denúncia espontânea, ao entendimento de que inexiste diferença entre multa moratória e multa punitiva, nos moldes do art. 138 do Código Tributário Nacional". JURISPRUDÊNCIA: REsp 922.206, rel. min. Mauro Campbell Marques; REsp 1062139, rel. min. Benedito Gonçalves; REsp 922842, rel. min. Eliana Calmon; REsp 774058, rel. min. Teori Albino Zavascki. Fl. 152DF CARF MF Fl. 22 do Acórdão n.º 2401-006.601 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 13888.913786/2011-00 ressalva do voto do relator nos REsps 962.379 e 886.462, embora estes não tivessem tal questão como a controvérsia a ser por eles definida. Vencido o prazo para pagamento antes do prazo da DCTF, o sujeito passivo não está obrigado a declarar e o fisco não está obrigado a agir, mas o fisco também não está impedido de exercer o poder dever de fiscalizar e lançar. O fato gerador já ocorreu e vencido o prazo para pagamento, está o fisco legitimado a agir, ainda que na prática se espere o posterior transcurso do prazo da declaração. No caso concreto, o pagamento em atraso se deu acompanhado da multa de mora, a se reconhecer o pagamento a destempo. Destaque-se que, desde o vencimento do prazo de pagamento, poderia o fisco lançar e para tanto seria aplicável o prazo decadencial do parágrafo único do art. 173 do CTN. Além disso, houve posterior declaração. Logo, até a declaração o recorrente pagou e antes de qualquer providência do fisco. Por conseguinte, a declaração constituiu o crédito tributário e tornou desnecessária eventual constituição por parte do fisco. Ao assim agir, atendeu às regras (CTN, art. 138) e à finalidade da denúncia espontânea (promoção da auto regularização, a tornar desnecessária ação do fisco), fazendo jus à sanção premial estabelecida pelo legislador. Logo, diante da declaração e do pagamento concomitantes (= pagar até a declaração) e antes de qualquer procedimento da fiscalização, a multa moratória recolhida transmuta-se em indevida por força do disposto no art. 138 do CTN e da tese de direito fixada no REsp 1.149.022, não se podendo considerar a incidência do art. 138 do CTN (cuja natureza jurídica é de lei complementar) como violação aos art. 61 ou 63 da Lei n° 9.430, de 1996. Acerca das alegações veiculadas no Acórdão n° 3803-002.806 de que se perderia a razão para a fixação de uma data de vencimento dos tributos e de que poderia haver uma defasagem de sete meses entre o encerramento do período do semestre e a apresentação da DCTF, devemos ponderar que tais questões são estranhas ao processo administrativo fiscal, por dizerem respeito à política legislativa. Portanto, apesar de as circunstâncias fáticas do presente caso concreto não serem totalmente idênticas às circunstâncias do REsp n° 1.149.022, a questão de direito presente em ambos é idêntica, a se justificar a reprodução da decisão nele veiculada por força do disposto no art. 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF. Nos termos expostos, acompanho o voto da Relatora.” (documento assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Fl. 153DF CARF MF
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