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Numero do processo: 10380.014873/2008-91
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu May 11 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007
FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA MENSAL. MULTA ISOLADA. BASE DE CÁLCULO. PRAZO.
A sanção imposta pelo descumprimento da apuração e pagamento da estimativa mensal do lucro real anual é a aplicação de multa isolada incidente sobre percentual do imposto que deveria ter sido antecipado. O lançamento, sendo de ofício, submete-se a limitador temporal estabelecido por regra decadencial do art. 173, inciso I do CTN, não havendo óbice que se seja efetuado após encerramento do ano-calendário.
Numero da decisão: 9101-002.816
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro José Eduardo Dornelas Souza.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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MULTA ISOLADA. BASE DE CÁLCULO. PRAZO. A sanção imposta pelo descumprimento da apuração e pagamento da estimativa mensal do lucro real anual é a aplicação de multa isolada incidente sobre percentual do imposto que deveria ter sido antecipado. O lançamento, sendo de ofício, submetese a limitador temporal estabelecido por regra decadencial do art. 173, inciso I do CTN, não havendo óbice que se seja efetuado após encerramento do anocalendário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 01 48 73 /2 00 8- 91 Fl. 647DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 648 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, Andre Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Especial interposto por JOSÉ ABRAHÃO OTOCH E CIA LTDA (efls. 557/567) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1202000.731 (efls. 507/511), pela 2ª Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção, na sessão de 16/03/2012, no qual foi negado ao recurso voluntário. Resumo Processual Foram lançados os autos de infração de multa isolada por insuficiência no recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL (efls. 03/14). Após apreciar a impugnação (efls. 261/281) apresentada pela Contribuinte, a primeira instância (DRJ) julgou a impugnação improcedente (efls. 355/362). Foi interposto recurso voluntário pela Contribuinte. A turma ordinária do CARF negou provimento ao recurso voluntário (efls. 507/511). Foram opostos embargos de declaração (efls. 519/530) pela Contribuinte, que foram rejeitados (efls. 547/550). A Contribuinte interpôs recurso especial (efls. 557/567) que foi admitido por despacho de exame de admissibilidade (efls. 617/620). A PGFN apresentou contrarrazões (e fls. 622/629). A seguir, maiores detalhes da fase contenciosa. Da Fase Contenciosa. A contribuinte apresentou impugnação (efls. 261 e segs.). A impugnação foi julgada improcedente pela 3ª Turma da DRJ/Fortaleza, nos termos do Acórdão nº 0815.989, de 20/08/2009 (efls. 355 e segs.), conforme ementa a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. Constatado que o contribuinte deixou de efetuar ou efetuou a menor os recolhimentos das estimativas devidas, correta é a exigência da multa isolada sobre a parcela não recolhida. Fl. 648DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 649 3 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA E JUDICIAL. NÃO VINCULAÇÃO. As referências a entendimentos proferidos em acórdãos do Conselho de Contribuintes ou em manifestações Judiciais não vinculam os julgamentos administrativos emanados em primeiro grau pelas Delegacias da Receita Federal de Julgamento. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. A exclusão de penalidade pela alegada denúncia espontânea pressupõe o pagamento do principal e, quando for o caso, dos acréscimos legais devidos, anteriormente a qualquer procedimento fiscal de oficio, hipótese não comprovada nos autos. MULTA DE OFÍCIO LANÇADA. Estando a multa lançada devidamente prevista em lei, não cabe a discussão administrativa sobre uma suposta infringência ao princípio de vedação ao confisco Foi interposto recurso voluntário pela Contribuinte (efls. 459/489), apreciado pela 2ª Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção, na sessão de 16/03/2012, que, no Acórdão nº 1202000.731 (efls. 507/511), decidiu negar provimento ao recurso voluntário, nos termos da ementa a seguir: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 Ementa: MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. Constatado que o contribuinte deixou de efetuar ou efetuou a menor os recolhimentos das estimativas devidas, correta é a exigência da multa isolada sobre a parcela não recolhida. Foram opostos embargos de declaração (efls. 519/530) pela Contribuinte, que foram rejeitados pela 2ª Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção, na sessão de 12/03/2014, no Acórdão nº 1202001.123, conforme ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 EMBARGOS. Inexistindo omissão, contradição, dúvida no acórdão embargado, é de se manter a decisão consubstanciada no mesmo. Fl. 649DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 650 4 A Contribuinte interpôs recurso especial (efls. 557/567), discorrendo que é incabível a exigência de multa isolada por meio de lançamento realizado após o período de apuração e no caso em que o valor recolhido é suficiente para quitar o valor do tributo devido, caso dos autos. Apresenta paradigmas no sentido de que a multa isolada em debate só pode ser lançada no decorrer do próprio anocalendário e que, só caberia após o encerramento do ano calendário caso a irregularidade praticada resultar em prejuízo ao fisco, o que não ocorre quando se apura base de cálculo negativa no período. Registra que, nos autos, os valores recolhidos a título de IRPJ foram suficientes para quitar o IRPJ efetivamente devido. Destaca que o fato de a autoridade fiscal ter lavrado auto de infração para exigir apenas a multa isolada demonstra que, durante o período da ação fiscal, verificouse que os valores recolhidos pela pessoa jurídica foram suficientes para quitar o tributo. Requer pela reforma de decisão recorrida. O recurso especial da Contribuinte foi admitido por despacho de exame de admissibilidade (efls. 617/620). A PGFN apresentou contrarrazões (efls. 622/629), aduzindo que a lei não restringiu a aplicação da multa isolada ao lançamento efetuado antes do término do ano calendário. Entende que a multa isolada prevista no artigo 44, § 1º, inciso IV da Lei nº. 9.430, de 1996 (atual art. 44, II, b, da mesma lei, na redação dada pela Lei n.º 11.488/07), decorre do descumprimento da obrigação de recolher a estimativa apurada no mêscalendário, independentemente de se apurar ou não resultado anual tributável, e é devida mesmo após o encerramento do anocalendário, e não tem nenhuma relação com a multa devida pela falta de recolhimento do tributo apurado com base no lucro real anual ou trimestral. Pugna pela manutenção da decisão recorrida. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Em relação à admissibilidade, adoto as razões do Despacho de Admissibilidade de efls. 617/620, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999 1, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, para conhecer o Recurso Especial da Contribuinte. Passo ao exame do mérito. 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 650DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 651 5 Tratase de autuação fiscal exclusivamente tratando de lançamento de multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal do regime do lucro real anual. O lucro real é um dos regimes de tributação existentes no sistema tributário, atualmente regido pela Lei nº 9.430, de 1996, aplicado a partir do anocalendário de 1997: Capítulo I IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA Seção I Apuração da Base de Cálculo Período de Apuração Trimestral Art. 1º A partir do anocalendário de 1997, o imposto de renda das pessoas jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada anocalendário, observada a legislação vigente, com as alterações desta Lei. (grifei) No lucro real, podese optar pelo regime de apuração trimestral ou anual. Vale reforçar que é uma opção do contribuinte aderir ao regime anual ou trimestral. E, no caso do regime anual, a lei é expressa ao dispor sobre a apuração de estimativas mensais. Transcrevo redação vigente à época dos fatos geradores objeto da autuação: Lei nº 9.430, de 1996 Art. 2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. ................................................................................ Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 Art. 35. A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto devido em cada mês, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. § 1º Os balanços ou balancetes de que trata este artigo: a) deverão ser levantados com observância das leis comerciais e fiscais e transcritos no livro Diário; Fl. 651DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 652 6 b) somente produzirão efeitos para determinação da parcela do Imposto de Renda e da contribuição social sobre o lucro devidos no decorrer do anocalendário. § 2º Estão dispensadas do pagamento de que tratam os arts. 28 e 29 as pessoas jurídicas que, através de balanço ou balancetes mensais, demonstrem a existência de prejuízos fiscais apurados a partir do mês de janeiro do anocalendário. Observase, portanto, com base em lei, a obrigatoriedade de a contribuinte optante pelo regime de lucro real anual, apurar, mensalmente, imposto devido, a partir de base de cálculo estimada com base na receita bruta, ou por balanço ou balancete mensal, esta que, inclusive, prevê a suspensão ou redução do pagamento do imposto na hipótese em que o valor acumulado já pago excede o valor de imposto apurado ao final do mês. Contudo, a hipótese de não pagamento de estimativa deve atender aos comandos legais, no sentido de que os balanços ou balancetes deverão ser levantados com observância das leis comerciais e fiscais e transcritos no livro Diário. Tratase de obrigação imposta ao contribuinte que optar pelo regime do lucro real anual. E o legislador, com o objetivo de tutelar a conduta legal, dispôs penalidade para o seu descumprimento. No caso, a prevista no art. 44 da mesma Lei nº 9.430, de 1996 (redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (grifei) A sanção imposta pelo sistema é claríssima: caso descumprido o pagamento da estimativa mensal, cabe imputação de multa isolada, sobre a totalidade (caso em que não se pagou nada a título de estimativa mensal) ou diferença entre o valor que deveria ter sido pago e o efetivamente pago, apurado a cada mês do anocalendário. Penalizase a conduta de descumprimento de obrigação tributária, de pagamento de tributo de maneira antecipada conforme determinação expressa da legislação. A sanção tem base legal. E mais: expressamente dispõe que é cabível ainda que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. Fl. 652DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 653 7 E se trata de multa, gênero, isolada, espécie, a ser lançada de ofício e cujo prazo decadencial é regido pelo art. 173, inciso I do CTN. Pode sim ser efetuado lançamento após o anocalendário, naturalmente dentro do período não atingido pela decadência. E não há que se falar em falta de prejuízo ao Fisco, conforme aduz a Contribuinte. Pelo contrário. O descumprimento de norma que determina o pagamento do tributo em regime de antecipação proporciona, sim, prejuízo, por permitir uma liberalidade no ordenamento jurídico sem base legal, por fomentar um tratamento desigual entre os contribuintes, e por implicar em não ingresso de recursos aos cofres do Estado. Consumarseia situação de exceção, e um prêmio para as pessoas jurídicas que descumprissem deliberadamente a lei tributária. Por qual razão a pessoa jurídica que descumpre conduta prevista em lei deve receber tratamento diferente (e vantajoso) daquela que cumpriu com suas obrigações, apurou mensalmente a estimativa mensal a pagar e efetuou os recolhimentos? Como acolher conduta de contribuinte que ignorou a legislação tributária vigente, e se considerou apto a receber um tratamento especial, diferente das demais pessoas jurídicas que cumpriram com suas obrigações? Não se trata de legalidade por legalidade. O sistema jurídicotributário deve ser respeitado, assim como os contribuintes que seguem suas determinações. Não se deve fomentar lacunas para se ignorar a lógica do sistema, para conceder tratamentos vantajosos para condutas lesivas, em afronta à proporcionalidade e razoabilidade. Enfim, não há que se falar em concomitância, tendo em vista que a matéria em debate diz respeito exclusivamente a lançamento de multa isolada sobre insuficiência de estimativa mensal. Portanto, não há reparos a fazer na decisão recorrida. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso da Contribuinte. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 653DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 654 8 Declaração de Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Na sessão de julgamento deste processo, embora vencido, solicitei declaração de voto no tocante à concomitância das multas, aproveitandose das discussões que ocorreram em plenário, em torno deste assunto, e demais discussões que participo na 1ª Turma Ordinária, 3ª Câmara, da 1ª Seção do CARF. Esta matéria vem sendo debatida no âmbito deste Conselho, encontrandose decisões favoráveis e contrárias à aplicação simultânea da multa isolada pelo não pagamento de estimativas apuradas no curso do anocalendário e da multa proporcional concernente à falta de pagamento do tributo devido apurado no balanço final do mesmo anocalendário. A própria Câmara Superior de Recursos Fiscais, em outra composição, rejeitava a aplicação simultânea das referidas multas, sob o argumento de que o não pagamento das estimativas seria apenas uma etapa preparatória da execução da infração. Como estimativas caracterizam meras antecipações dos tributos devidos, a concomitância significaria dupla imposição de penalidade sobre a mesma infração, qual seja, o descumprimento de uma obrigação principal a pagar. Nesse sentido, peço vênia para reproduzir trecho do voto proferido pela ilustre Conselheira Karem Jureidini Dias no julgamento realizado em 15/08/2012 (Acórdão nº 910101.455): A MULTA ISOLADA POR NÃO RECOLHIMENTO DAS ANTECIPAÇÕES A multa isolada, aplicada por ausência de recolhimento de antecipações, é regulada pelo artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, verbis2: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (...) 2 Redação Original: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente. Fl. 654DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 655 9 II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica.” A norma prevê, portanto, a imposição da referida penalidade quando o contribuinte do IRPJ e da CSLL, sujeito ao Lucro Real Anual, deixar de promover as antecipações devidas em razão da disposição contida no artigo 2º da Lei nº 9.430/96, verbis: “Art.2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. §1º O imposto a ser pago mensalmente na forma deste artigo será determinado mediante a aplicação, sobre a base de cálculo, da alíquota de quinze por cento. §2º A parcela da base de cálculo, apurada mensalmente,que exceder a R$ 20.000,00 (vinte mil reais)ficará sujeita à incidência de adicional de imposto de renda à alíquota de dez por cento. §3º A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma deste artigo deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano, exceto nas hipóteses de que tratam os §§1º e 2º do artigo anterior. §4º Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: I dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os limites e prazos fixados na legislação vigente, bem como o disposto no § 4º do art. 3º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base no lucro da exploração; III do imposto de renda pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV do imposto de renda pago na forma deste artigo.” A natureza das antecipações, por sua vez, já foi objeto de análise do Superior Tribunal de Justiça, que manifestou entendimento no sentido de considerar que as antecipações se referem ao pagamento de tributo, conforme se depreende dos seguintes julgados: Fl. 655DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 656 10 “TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE RENDA. CSSL. RECOLHIMENTO ANTECIPADO. ESTIMATIVA. TAXA SELIC. INAPLICABILIDADE. 1. "É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96" (AgRg no REsp 694278RJ,relator Ministro Humberto Martins, DJ de 3/8/2006). 2. A antecipação do pagamento dos tributos não configura pagamento indevido à Fazenda Pública que justifique a incidência da taxa Selic. 3. Recurso especial improvido.” (Recurso Especial 529570 / SC Relator Ministro João Otávio de Noronha Segunda Turma Data do Julgamento 19/09/2006 DJ 26.10.2006 p. 277) “AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA IRPJ E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSSL APURAÇÃO POR ESTIMATIVA PAGAMENTO ANTECIPADO OPÇÃO DO CONTRIBUINTE LEI N. 9430/96. É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96. Precedentes: REsp 492.865/RS, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ25.4.2005 e REsp 574347/SC, Rel. Min. José Delgado, DJ 27.9.2004. Agravo regimental improvido.” (Agravo Regimental No Recurso Especial 2004/01397180 Relator Ministro Humberto Martins Segunda Turma DJ 17.08.2006 p. 341) Do exposto, inferese que a multa em questão tem natureza tributária, pois aplicada em razão do descumprimento de obrigação principal, qual seja, falta de pagamento de tributo, ainda que por antecipação prevista em lei. Debates instalaramse no âmbito desse Conselho Administrativo sobre a natureza da multa isolada. Inicialmente me filiei à corrente que entendia que a multa isolada não poderia prosperar porque penalizava conduta que não se configurava obrigação principal, tampouco obrigação acessória. Ou seja, mantinha o entendimento de que a multa em questão não se referia a qualquer obrigação prevista no artigo 113 do Código Tributário Nacional, na medida em que penalizava conduta que, a meu ver à época, não podia ser considerada obrigação principal, já que o tributo não estava definitivamente apurado, tampouco poderia ser considerada obrigação acessória, pois evidentemente não configura uma obrigação de caráter meramente administrativo, uma vez que a relação jurídica prevista na norma primária dispositiva é o “pagamento” de antecipação. Nada obstante, modifiquei meu entendimento, mormente por concluir que tratase, em verdade, de multa pelo não pagamento do tributo que deve ser antecipado. Ainda que tenha o contribuinte declarado e recolhido o montante devido de IRPJ e CSLL ao final do exercício, fato é que caberá multa isolada quando o contribuinte não efetua a antecipação deste tributo. Tanto assim que, até a alteração promovida pela Lei nº 11.488/07, o caput do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, previa Fl. 656DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 657 11 que o cálculo das multas ali estabelecidas seria realizado “sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”. Destaco trecho do voto proferido pelo Ilustre Conselheiro Marcos Vinícius Neder de Lima, no julgamento do Recurso nº 105139.794, Processo n° 10680.005834/200312, Acórdão CSRF/0105.552, verbis: “Assim, o tributo correspondente e a estimativa a ser paga no curso do ano devem guardar estreita correlação, de modo que a provisão para o pagamento do tributo há de coincidir com valor pago de estimativa ao final do exercício. Eventuais diferenças, a maior ou menor, na confrontação de valores geram pagamento ou devolução do tributo, respectivamente. Assim, por força da própria base de cálculo eleita pelo legislador – totalidade ou diferença de tributo – só há falar em multa isolada quando evidenciada a existência de tributo devido”. É bem verdade que melhor seria se a penalidade em comento fosse tratada como uma pena aplicada pela postergação do pagamento de imposto ou contribuição, mas existe regra específica para o caso de ausência de pagamento ou pagamento a menor de antecipação devida de IRPJ e CSLL, sobrepondose, portanto, à regra da postergação. Adotada a premissa de que a imputação da multa isolada tem por fundamento norma primária sancionadora, em cuja hipótese está o descumprimento de obrigação principal, então a multa isolada é prevista para as hipóteses de não recolhimento ou recolhimento a menor do tributo na forma antecipada. Entendo que não há como se admitir que o valor da antecipação seja, após o encerramento do ano calendário, um tributo isolado. A antecipação não é inconstitucional, nem ilegal. Isto porque, como o próprio nome enseja, é mera antecipação de tributo – IRPJ e CSLL – apurado de forma definitiva após o encerramento do anocalendário, no caso de apuração na forma de lucro real anual. O disposto no artigo 44, inciso II, alínea “b” da Lei nº 9.430/96 veicula norma que estabelece a imputação de penalidade isolada pelo não recolhimento de IRPJ e CSLL, de forma antecipada. Dado o fato do não recolhimento do tributo no prazo estipulado para sua antecipação, deve ser imputada a multa isolada. No conseqüente desta norma resta claro que, como critério pessoal, temse de um lado o contribuinte sujeito ao pagamento da antecipação, de outro a União como sujeito ativo. Como critério quantitativo temse o percentual atual de 50% do tributo devido e não pago. Utilizase o termo tributo porque a sanção é aplicada sobre o descumprimento de obrigação principal. Neste passo, até o encerramento do anocalendário o que se tem por tributo devido é o IRPJ e a CSLL, apurados conforme cálculo previsto para antecipação. Já após o encerramento do anocalendário e apuração do IRPJ e CSLL pelo lucro real, não há como negar que o montante do tributo devido é aquele definitivamente apurado, após as adições, exclusões e compensações previstas em lei. Considerando que o IRPJ e a CSLL são auferidos ao final do ano calendário, sendo provisório o montante calculado nas antecipações, concluise que: i) Quando a multa isolada é aplicada durante o anocalendário, a base é o tributo até então apurado, conforme cálculo das antecipações, já que outro não existe a substituílo por definitividade naquele momento. Fl. 657DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 658 12 ii) Quando a multa isolada é imputada após o encerramento do ano calendário e apuração definitiva do tributo devido, sem dúvida a hipótese de aplicação é a mesma, falta de recolhimento das antecipações, não obstante, sua base de incidência terá por limite o valor do tributo definitivamente apurado. Nem há que se imaginar que se nega vigência à norma em questão. O que ocorre é a eliminação, pela interpretação, de eventual contrariedade. Ressalte se que não se trata sequer de contradição, mas de mera e aparente contrariedade. Isto porque, tanto a multa isolada, quanto a multa de ofício têm seu lugar, bem como a multa isolada pode ser aplicada inclusive após o encerramento do anocalendário, mas, em se tratando de multa de natureza tributária, a base é o tributo que deixou de ser recolhido. Este tributo – IRPJ e CSLL – é aquele apurado conforme cálculo de antecipação até o encerramento do período e é aquele apurado pelo lucro real após o encerramento do período. Neste ponto, peço vênia para novamente transcrever trecho do voto do brilhante Conselheiro Marcos Vinícius Neder de Lima, proferido no julgamento do recurso nº 105139.794, já mencionado anteriormente, verbis: “(...) Vale dizer, após o encerramento do período, o balanço final (de dezembro) é que balizará a pertinência do exigido sob a forma de estimativa, pois esse acumula todos os meses do próprio anocalendário. Nesse momento, ocorre juridicamente o fato gerador do tributo e podese conhecer o valor devido pelo contribuinte. Se não há tributo devido, tampouco há base de cálculo para se apurar o valor da penalidade.(...).” Se o lançamento é efetuado antes do fim do exercício – portanto antes dos ajustes / apuração do lucro, base de cálculo do IRPJ e da CSLL devidos – a base para imposição da sanção é aquela devida por antecipação e calculada até aquele momento. Naquele momento, inclusive, não há autorização para constituição de obrigação principal definitiva – tributo – especialmente porque o mesmo ainda não se quantificou definitivamente porque não concluído o fato gerador. Nestes termos dispõe o caput do artigo 15 da Instrução Normativa nº 93/97, verbis: “Art. 15. O lançamento de ofício, caso a pessoa jurídica tenha optado pelo pagamento do imposto por estimativa, restringirseá à multa de ofício sobre os valores não recolhidos.” De outra feita, em momento posterior ao encerramento do anocalendário, já existe quantificação do tributo devido definitivamente pelos ajustes determinados em legislação de regência, então esta é a limitação ao critério quantitativo da imposição de multa isolada. Vale destacar a lição de Marco Aurélio Greco a respeito do tema, verbis: “(...) mensalmente o que se dá é apenas o pagamento por imposto determinado sobre base de cálculo estimada (art. 2º, caput), mas a materialidade tributada é o lucro real apurado em 31 de dezembro de cada ano (art. 3º do art. 2º). Portanto, imposto e contribuição verdadeiramente devidos, são apenas aqueles apurados ao final do ano. O recolhimento mensal não resulta de outro fato gerador distinto do relativo período de apuração anual; ao contrário, corresponde a mera antecipação provisório de um recolhimento, em contemplação de um fato gerador e uma base de cálculo positiva que se estima venha ou possa vir a ocorrer no final do período. Tanto é provisória e em contemplação de evento futuro que se reputa em formação – e que dele não pode se distanciar – que, mesmo durante o Fl. 658DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 659 13 período de apuração, o contribuinte pode suspender o recolhimento se o valor acumulado pago exceder o valor calculado com base no lucro real do período em curso (art. 35 da Lei n° 8.891/95)”. (In:“Multa Agravada em Duplicidade” São Paulo, Revista Dialética de Direito Tributário n° 76, p. 159). Tampouco é de se questionar esta interpretação com base no fato de que a multa em questão é aplicável até mesmo em casos de apuração de base negativa da CSLL e de prejuízo fiscal no anocalendário correspondente, conforme dispõe a alínea “b”, do inciso II, do artigo 44, da Lei nº 9.430/96, anteriormente capitulado no § 1º do citado artigo. O direito, in casu, deve ser analisado à luz da relação de coordenação existente entre a norma veiculada pelo artigo 44, inciso II, alínea “b” da Lei nº 9.430/96 e aquela veiculada pelo artigo 39, parágrafo segundo, da Lei nº 8.383/91, verbis: “Art. 39. As pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real poderão optar pelo pagamento, até o último dia útil do mês subseqüente, do imposto devido mensalmente, calculado por estimativa, observado o seguinte: (...) § 2° A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto mensal estimado, enquanto balanços ou balancetes mensais demonstrarem que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto calculado com base no lucro real do período em curso.(...)” Referido dispositivo, conforme é possível constatar, autoriza que o contribuinte interrompa ou reduza os pagamentos devidos por antecipação desde que demonstre, por meio de balancete mensal, que o valor da estimativa anteriormente paga e, portanto, acumulada no período, excede o valor do tributo apurado com base no lucro ajustado no período em curso. (G.N) Assim, encerrado o anocalendário não há o que se falar em recolhimento de estimativa, mas sim no efetivo imposto devido. Aqui, diferentemente das estimativas, temse infração que diz respeito ao não pagamento de tributo e, portanto, cominada com penalidade mais grave. Nestes casos a multa devida é a de ofício incidente sobre o tributo devido e não pago. Não sendo apurado tributo devido não há o que se falar em multa isolada. Quando se fala em multa isolada esta só pode estar relacionada ao não recolhimento das estimativas devidas durante o anocalendário. É devida até o momento previsto para apuração do imposto devido. Verificado o fato gerador sem que o sujeito ofereça lucros à tributação, não há o que se falar em multa isolada, mas sim em exigência dos tributos devidos com multa de 75%. Por esta razão, não subsiste o argumento de que a multa isolada deve ser exigida após o encerramento do período de apuração, ainda que em concomitância com a multa de ofício, em virtude de estar prevista em norma autônoma e por não ter o sujeito passivo adimplido a obrigação na data do vencimento. Fl. 659DF CARF MF Processo nº 10380.014873/200891 Acórdão n.º 9101002.816 CSRFT1 Fl. 660 14 Não se pode interpretar um dispositivo legal desconsiderando as demais normas que integram o sistema. Se assim fosse, pressupondo atraso do sujeito passivo em relação ao vencimento do tributo, chegaríamos ao ponto de formar raciocínio equivocado cumulando multa de ofício com multa moratória. Para tal, bastaria dizer que sendo a multa moratória devida nos casos de atraso no pagamento e que nos casos de omissão há atraso, ter seia situação em que ambas as multas seriam devidas. Mais, sempre que uma conduta de menor gravidade se constituir em pressuposto para que ocorra uma infração punida com penalidade mais grave, esta absorve a menor. Neste sentido basta observar o princípio da consunção, expresso na súmula 17 do STJ. Ainda em relação à multa isolada, na interpretação do artigo 44, II, alíneas “a” e “b” da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação atribuída pela Lei nº 11.488, de 2007, resultante da conversão da Medida Provisória 351, de 2007, não se pode desprezar a exposição de motivos que ao tratar da necessidade de alteração da lei apresentou a seguinte justificativa: 8. A alteração do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, efetuada pelo art. 14 do Projeto, tem o objetivo de reduzir o percentual da multa de ofício, lançada isoladamente, nas hipóteses de falta de pagamento mensal devido pela pessoa física a título de carnêleão ou pela pessoa jurídica a título de estimativa, bem como retira a hipótese de incidência da multa de ofício no caso de pagamento do tributo após o vencimento do prazo, sem o acréscimo da multa de mora. Pelo que se depreende da exposição de motivos, ao usar as expressões “multa de ofício, lançada isoladamente”, se está a falar de uma única multa, pois se assim não fosse não teria usado as expressões “lançada isoladamente”, mas sim, “lançada em concomitância com a multa de ofício. Desta forma, é incabível a exigência de multa isolada pelo não recolhimento de estimativas, e, por isso, entendo que deve ser mantida a multa de ofício e excluída a multa isolada. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 660DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11686.000077/2008-08
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007
CRÉDITO. FRETE NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA.
Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e da Cofins sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo.
Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 - eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda - quais sejam, os fretes na operação de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo frete na operação de venda, e não frete de venda - quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-005.119
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Andrada Márcio Canuto Natal e Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CRÉDITO. FRETE. TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Recorrente SLC ALIMENTOS LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007 CRÉDITO. FRETE NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e da Cofins sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na “operação” de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo “frete na operação de venda”, e não “frete de venda” quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições. Recurso Especial do Contribuinte Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Andrada Márcio Canuto Natal e Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 68 6. 00 00 77 /2 00 8- 08 Fl. 900DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 3302002.788, que, no tocante à matéria de interesse, não reconheceu o direito de crédito das contribuições não cumulativas sobre os fretes de produtos acabados transportados entre estabelecimentos da mesma empresa. Cientificada, a Fazenda Nacional não apresentou recurso à Câmara Superior de Recursos Fiscais. Irresignado, o contribuinte interpôs apelo suscitando divergência quanto ao direito à tomada dos créditos em foco, argumentando, em resumo, que: · O objeto do presente recurso especial diz respeito ao direito de apuração de créditos de PIS e de Cofins, atinentes aos fretes de transferência de produtos acabados entre os estabelecimentos; · É pessoa jurídica de direito privado, dos ramos de indústria, comércio, importação e exportação de alimentos, em especial, o arroz, estando sujeita ao recolhimento de tributos, dentre as quais se destacam o PIS e a Cofins na sistemática não cumulativa; · As despesas ora em discussão são desdobramentos do frete de venda; · Para o regular desempenho de sua atividade, transfere os seus produtos para Centros de Distribuição de sua propriedade, com o intuito de se obter melhores resultados, visto que devido às exigências do mercado, em não havendo estes centros, tornarseia inviável a venda de seus produtos para compradores das Regiões Sudeste, CentroOeste e Nordeste do país; · Os grandes consumidores dos produtos industrializados e comercializados pelo sujeito passivo, possuem uma logística que não mais comporta grandes estoques, devido à extensa diversidade de produtos necessários para abastecer suas unidades, bem como devido ao custo que lhes geraria a manutenção de locais com o fito exclusivo de estocagem, visto a alta rotatividade dos produtos em seus estabelecimentos; · O sujeito passivo, que possui sede em Porto Alegre, se viu obrigada a manter Centros de Distribuição em pontos estratégicos do país, visto que seus grandes clientes, adquirentes de seus produtos, situamse, em sua grande maioria, na Região Sudeste e necessitam do produto à pronta entrega quase que diariamente; Fl. 901DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 4 3 · Tendo em vista que a maioria dos fretes são destinados ao Centro de Distribuição da empresa, para que se torne viável a remessa dos produtos, os fretes são realizados por transporte ferroviário, como desdobramentos do frete de venda – o que demora 15 dias; · Para conseguir atender a sua demanda de pedidos, remete grandes quantidades por trem que, devido à demora no trânsito das mercadorias, quando chegam ao destino já estão vendidos; · A mercadoria, em muitos casos, já é vendida em trânsito, para quando chegar ao Centro de Distribuição já sair para a pronta entrega ao adquirente, descaracterizando, assim, um frete para mero estoque com venda posterior. Em Despacho do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção do CARF, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. Contrarrazões foram apresentadas pela Fazenda Nacional, contemplando, entre outros argumentos, que não é todo frete que pode ser considerado para fins de crédito da contribuição para fins de diminuição do débito ou ressarcimento. E que o entendimento administrativo somente permite o frete quando é feito diretamente para a venda do bem ou produto. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.116, de 17/05/2017, proferido no julgamento do processo 11686.000082/200811, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão, quanto à admissibilidade do recurso e quanto ao mérito (Acórdão 9303005.116): "Eis que, pela leitura do acórdão recorrido e do indicado como paradigma, é de se constatar a divergência jurisprudencial, pois, no acórdão recorrido, entendeuse que não há previsão legal para crédito de PIS e Cofins não cumulativos sobre valores de fretes de produtos acabados realizados entre os estabelecimentos da mesma empresa, somente tendo direito de crédito o frete contratado para entrega de mercadorias aos clientes, na venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. Fl. 902DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 5 4 Enquanto, no acórdão indicado como paradigma, concluiuse que as despesas com fretes para transporte de produtos em elaboração e, ou produtos acabados entre estabelecimentos, pagas e/ou creditadas às pessoas jurídicas, mediante conhecimento de transporte ou de notas fiscais de prestação de serviços, geram créditos de PIS e Cofins, passiveis de dedução da contribuição devida e/ou de ressarcimento/compensação. Quanto às Contrarrazões apresentadas, não se devem ignorálas, pois foram apresentadas tempestivamente pela Fazenda Nacional. Ventiladas tais considerações, importante, a priori, discorrer sobre os critérios a serem observados para a conceituação de insumo para a constituição do crédito de PIS e de Cofins trazida pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03, bem como para a aplicação do art. 3º, inciso IX, das referidas Leis (“IX – armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor”). Em relação ao conceito de insumo, para fins de fruição do crédito de PIS e da COFINS não cumulativos, não é demais enfatizar que se trata de matéria controvérsia. Eis que a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. O que, por conseguinte, concluo que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas pelo contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Importante elucidar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins nãocumulativo, não se restringe aos conceitos de matéria prima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Fl. 903DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 6 5 Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Ademais, notase que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, é de se constatar que o entendimento predominante considera o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo o que, em respeito a segurança jurídica das jurisprudências emitidas pelo Conselho e pelo Tribunal Superior, é de se atestar a observância do princípio da essencialidade para a adoção do conceito de insumo, afastando o entendimento restritivo dado pela autoridade fazendária na IN SRF 247/02. Não obstante a esses pontos, ressurgindome à questão posta, passo a discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou Fl. 904DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 7 6 entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. É de se lembrar ainda que o IPI é um imposto que onera efetivamente o consumo, diferentemente do PIS e da Cofins que são contribuições que incidem sobre a receita, nos termos da legislação vigente. E nessa senda, haja vista que o IPI onera efetivamente o consumo, a não cumulatividade relacionase ao conceito de insumo como sendo o de bens que são consumidos ou desgastados durante a fabricação de produtos. Enquanto a sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS e a Cofins está diretamente relacionada às receitas auferidas com a venda desses produtos. Sendo assim, resta claro que a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, constatase que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admitese também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis Fl. 905DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 8 7 10.637/2002 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Frisese que o raciocínio do ilustre Prof. Marco Aurélio Greco traz, para tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: · O art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep nãocumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) Fl. 906DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 9 8 I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) a. Matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) b. Os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) [...]” · art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matériaprima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. [...]” Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. A Receita Federal do Brasil extrapolou sua competência administrativa ao “legislar” limitando o direito creditório a ser apurado pelo sujeito passivo. Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; Fl. 907DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 10 9 b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Nesse ínterim, cabe trazer que a observância do critério de se aplicar o conceito de “despesa necessária” para a definição de insumo, tal como preceituado no art. 299 do RIR/99 não seria a mais condizente, pois direciona a sistemática da não cumulatividade das referidas contribuições à sistemática de dedutibilidade aplicada para o imposto incidente sobre o lucro. O que, entendo que não há como se conferir que os custos ou despesas destinadas à aferição e lucro possam ser considerados como insumos necessários para o aferimento da receita. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: · Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; Fl. 908DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 11 10 · Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a Fl. 909DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 12 11 atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. ” Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS N. 10.637/2002 E 10.833/2003. 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos. ” Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos. Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Fl. 910DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 13 12 Dessa forma, para fins de se elucidar a atividade do sujeito passivo, importante recordar que é pessoa jurídica de direito privado, dos ramos de indústria, comércio, importação e exportação de alimentos, em especial, o arroz. Os fretes de produtos acabados em discussão, para sua atividade de comercialização, são essenciais para a sua atividade de “comercialização”, eis que: · Sua atividade impõe a transferência de seus produtos para Centros de Distribuição de sua propriedade; caso contrário, tornarseia inviável a venda de seus produtos para compradores das Regiões Sudeste, CentroOeste e Nordeste do país; · Os grandes consumidores dos produtos industrializados e comercializados pelo sujeito passivo, possuem uma logística que não mais comporta grandes estoques, devido à extensa diversidade de produtos necessários para abastecer suas unidades, bem como devido ao custo que lhes geraria a manutenção de locais com o fito exclusivo de estocagem, visto a alta rotatividade dos produtos em seus estabelecimentos; O que, impõese para fins de comercialização e sobrevivência da empresa, os Centros de Distribuição; · O sujeito passivo, que possui sede em Porto Alegre, se viu obrigada a manter Centros de Distribuição em pontos estratégicos do país, considerando a localidade dos maiores demandantes de seus produtos. Considerando, então, a atividade do sujeito passivo, devese considerar os fretes como essenciais e, aplicandose o critério da essencialidade, é de se dar provimento ao recurso interposto pelo sujeito passivo. Não obstante à essa fundamentação e ignorandoa, cabe trazer que, tendo em vista que: · A maioria dos fretes são destinados ao Centro de Distribuição da empresa, para que se torne viável a remessa dos produtos e são realizados com a demora usual de 15 dias até a chegada do produto, para conseguir atender a sua demanda de pedidos, o sujeito passivo, devido à demora no trânsito das mercadorias, já transacionou as mercadorias, sendo que ao chegarem as mercadorias ao destino muitas já se encontram vendidas; · A mercadoria já é vendida em trânsito, para quando chegar ao Centro de Distribuição já sair para a pronta entrega ao adquirente, descaracterizando, assim, um frete para mero estoque com venda posterior. É de se entender que, em verdade, se trata de frete para a venda, passível de constituição de crédito das contribuições, nos termos do art. 3º, inciso IX, das Lei 10.833/03 e Lei 10.637/02 – pois a inteligência desse Fl. 911DF CARF MF Processo nº 11686.000077/200808 Acórdão n.º 9303005.119 CSRFT3 Fl. 14 13 dispositivo considera o frete na “operação” de venda. A venda de per si para ser efetuada envolve vários eventos. Por isso, que a norma traz o termo “operação” de venda, e não frete de venda. Inclui, portanto, nesse dispositivo os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda, dentre as quais o frete ora em discussão. Em vista de todo o exposto, voto por conhecer o Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, dandolhe provimento." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial do contribuinte e, no mérito, doulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 912DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.903508/2010-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Exercício: 1999
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO.
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Aplicação da Súmula CARF nº 91.
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PROVA DO DIREITO ALEGADO. ÔNUS DA PROVA.
O ônus da prova recai sobre quem alega o direito. No caso concreto, não restou comprovada, nos autos, a identidade entre a pessoa jurídica interessada no processo administrativo e aquela que figurava como litisconsorte no processo judicial, nem a existência de eventos societários que permitissem considerar a primeira como sucessora da segunda em direitos e obrigações.
Numero da decisão: 1301-002.334
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
[assinado digitalmente]
Waldir Veiga Rocha Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha.
Nome do relator: WALDIR VEIGA ROCHA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Exercício: 1999 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Aplicação da Súmula CARF nº 91. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PROVA DO DIREITO ALEGADO. ÔNUS DA PROVA. O ônus da prova recai sobre quem alega o direito. No caso concreto, não restou comprovada, nos autos, a identidade entre a pessoa jurídica interessada no processo administrativo e aquela que figurava como litisconsorte no processo judicial, nem a existência de eventos societários que permitissem considerar a primeira como sucessora da segunda em direitos e obrigações. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. [assinado digitalmente] Waldir Veiga Rocha – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 90 35 08 /2 01 0- 07 Fl. 174DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 3 2 BANCO VOLKSWAGEN S.A., já devidamente qualificada nestes autos, recorre a este Conselho contra a decisão prolatada pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo I / SP, que indeferiu os pedidos veiculados através de manifestação de inconformidade apresentada contra a decisão da DEINF/SP. Trata a lide de Pedido de Restituição (PER/DCOMP), no qual o alegado direito creditório é decorrente de pagamento indevido ou a maior da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Posteriormente, o contribuinte usou esse alegado direito creditório para a compensação com débito de sua titularidade, mediante a Declaração Eletrônica de Compensação (PER/DCOMP), transmitida em 2008. Consta dos autos intimação, informando ao contribuinte que o DARF por ele especificado não teria sido localizado nos sistemas da RFB e instandoo à regularização. Não consta do processo qualquer resposta ou providência do contribuinte. A unidade administrativa que primeiro analisou os pedidos formulados pela empresa (DEINF/SP) negou homologação à compensação. O motivo foi a não localização do DARF nos sistemas da RFB, mesmo após a intimação acima referida. Em sua manifestação de inconformidade contra o Despacho Decisório, a interessada, inicialmente, junta comprovante de arrecadação obtido no sítio eletrônico da Receita Federal. Na sequência, esclarece: Esse recolhimento foi indevidamente efetuado pelo Recorrente, uma vez que ele dispunha de decisão judicial definitiva, proferida nos autos do Mandado de Segurança n° 89.00112058, que o exonerava do recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, no período de 1988 a 09/1997 (data do trânsito em julgado da decisão judicial). Nem se alegue que o pagamento foi efetuado após o trânsito em julgado da decisão judicial exoneratória e com os benefícios previstos na Lei n° 9779/99, tendo em vista que, além desses fatos não servirem de fundamento para a negativa do pedido de restituição, o recolhimento se deu porque a própria Secretaria da Receita Federal, mesmo em face da decisão judicial favorável ao Recorrente, insistia na cobrança de tais valores, ao argumento de que os efeitos da decisão judicial alcançavam apenas a CSLL relativa ao exercício de 1989. Apenas com a decisão do 1º Conselho de Contribuintes (acórdão n° 101 93.610), proferida em 19/09/01, com acórdão formalizado em 11/12/01, que reconheceu expressamente o direito de um dos litisconsortes do ora Recorrente, no Mandado de Segurança n° 89.00112058, de não recolher a CSLL, no período de 1990 a 1997, ou seja, desde a propositura da medida judicial até o trânsito em julgado da decisão favorável, o que se deu em 02/09/97, é que o Recorrente obteve a comprovação de que também estava desobrigado do recolhimento da CSLL nesse período e que, portanto, tinha direito de reaver os montantes indevidamente recolhidos: "Ementa: IRPJ Normas Gerais. Lançamento Tributário. Sentença Judicial. Trânsito em Julgado. Efeitos. A sentença judicial reconhecendo a inconstitucionalidade dos artigos 1º, 2º, 3º e 8º, da Lei n° 7689, de 1988, e, de consequência, desobrigando a pessoa jurídica do recolhimento da CSLL, irradia seus efeitos jurídicos até o período no qual tenha ocorrido seu trânsito em julgado. Fl. 175DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 4 3 Recurso conhecido e provido. Trecho do Voto do Conselheiro Sebastião Rodrigues Cabral — Relator: Nesta linha de raciocínio, e considerando que no presente caso: i) A sentença judicial que acolheu a pretensão da Recorrente, no sentido de desobrigála do recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido instituída pela Lei n° 7689, de 1988, transitou em julgado em 02 de setembro de 1997, tal qual atestado na Certidão fornecida pela 10ª Vara Federal, anexa aos autos às fls.; ii) O Mandado de Segurança interposto pela Recorrente, em 1989, objetivou a dispensa do recolhimento da referida Contribuição sob alegação de inconstitucionalidade da lei que a instituiu (n° 7689, de 1988), o que foi integralmente reconhecido pela referida sentença transitada em julgado; iii) O auto de infração guerreado no presente processo pretende exigir da Recorrente a Contribuição Social relativa aos períodosbase de 1990 a 1994, portanto, anteriores ao trânsito em julgado da sentença judicial; só nos resta concluir que referidos períodos estão albergados pela 'coisa julgada', sendo defeso ao Fisco exigir a Contribuição em causa relativamente àqueles períodosbase." Assim, deve ser prontamente revisto o despachodecisório, ora recorrido, ante a comprovação do recolhimento indevido, a ensejar o direito à restituição, nos termos do artigo 165, I, do Código Tributário Nacional. A 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo I / SP analisou a manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte e indeferiu a solicitação. Ciente da decisão de primeira instância e com ela inconformada, a interessada apresentou recurso voluntário, mediante o qual oferece, em apertada síntese, os seguintes argumentos: Acerca do prazo para pleitear o indébito, a recorrente se reporta ao Pedido Eletrônico de Restituição, ao Pedido de Restituição protocolado na Deinf e sustenta que estaria plenamente respeitado, no caso, o prazo prescricional de cinco anos, previsto no art. 168, I, do CTN. A recorrente afirma ter anexado aos autos cópia do Mandado de Segurança nº 89.00112058, em que foi proferida a decisão transitada em julgado que a exonerava do recolhimento da CSLL de 1988 até 09/1997 (data do trânsito em julgado). Da mesma forma, anexa documentos que comprovam ser a recorrente a sucessora de Autolatina Financiadora S/A, que foi parte no processo judicial. A interessada reitera, ainda, os argumentos trazidos na Manifestação de Inconformidade, acerca da decisão proferida pelo 1º Conselho de Contribuintes em 2001. Conclui com o pedido de provimento de seu recurso e homologação da compensação declarada. É o Relatório. Voto Fl. 176DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 5 4 Conselheiro Waldir Veiga Rocha, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 1301002.287, de 12/04/2017, proferido no julgamento do processo 16327.900370/201248, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 1301002.287): O recurso voluntário e tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Gira a lide em torno de pedido de restituição, posteriormente cumulado com declaração de compensação. No atual estágio da discussão administrativa, o alegado direito creditório não foi reconhecido por dois fundamentos autônomos, ou seja, cada um deles é suficiente, por si só, para o não reconhecimento do direito creditório. O primeiro fundamento adotado pelo julgador de primeira instância, de caráter preliminar, foi o transcurso do prazo para pleitear o indébito. Alega a recorrente que deveria ter sido considerado o período transcorrido entre a data do recolhimento, em 1999, e a data do protocolo do pedido de restituição, em 2004. Com isso, restaria atendido o prazo de cinco anos de que trata o art. 168, I, do CTN. Examinando a decisão recorrida, constatase que, efetivamente, houve um equívoco do julgador ao não considerar o pedido de restituição originalmente formulado em 2004. Isso fica evidenciado na afirmação de que “... observase que somente em 2008 veio pleitear compensação do referido crédito, ou seja, cerca de sete anos após ‘obter a comprovação’, e nove após a extinção do débito, pelo pagamento”. Ora, a declaração de compensação é datada de 2008, mas reportase ao anterior pedido de restituição, e é esse pedido que deve ser considerado, para fins da contagem do prazo para a repetição de indébito. No entanto, como se verá a seguir, a correção desse equívoco não trará modificação na conclusão. Esse prazo, se de cinco ou dez anos, bem assim a determinação dos termos inicial e final para a contagem, já foram objeto de acirrados debates, tanto no âmbito administrativo quanto no judicial. A inovação legislativa (arts. 3º e 4º da Lei Complementar nº 118/2005) tentou pacificar a questão, mas somente aumentou as divergências, tanto doutrinárias quanto jurisprudenciais. Finalmente, a questão foi pacificada pelo Poder Judiciário. De especial interesse, o Recurso Especial nº 1.002.932, de 25/11/2009, prolatado pelo STJ no regime do art. 543C do CPC então vigente, e o Recurso Extraordinário nº 566.321, de 04/08/2011, proferido pelo STF no regime do art. 543B do mesmo diploma legal. A reiterada aplicação administrativa dessas decisões conduziu à aprovação, em 09/12/2013, pelo Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, da súmula CARF nº 91, a seguir reproduzida. Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 6 5 As súmulas CARF são de observância obrigatória pelos membros deste órgão administrativo, a teor do art. 72 do Anexo II do Regimento Interno, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 e alterações supervenientes. No caso concreto, o pedido de restituição foi protocolado em 2004, antes da data limite prevista na súmula, aplicandose, portanto, o prazo prescricional de dez anos. O termo inicial da contagem é, também nos termos da súmula, a data do fato gerador. O fato gerador foi fixado pela própria interessada no pedido de restituição. Desta forma, para fatos geradores completados anteriormente a 12/02/1994 o prazo prescricional já se encontrava encerrado no momento do pedido de restituição. Observese que a data do recolhimento não é considerada para este fim, muito menos a circunstância alegada pela interessada acerca do julgamento administrativo de um auto de infração no qual o sujeito passivo seria um dos litisconsortes na ação judicial. Não se vislumbra qual a relação entre aquele julgamento administrativo e o prazo para a formulação do pedido de restituição aqui discutido. A constatação que se impõe é de que o decurso do prazo prescricional impede que seja atendido o pleito da interessada, independentemente de quaisquer considerações de mérito, negandose provimento ao recurso voluntário. O segundo fundamento adotado pelo julgador de primeira instância para o indeferimento do pleito foi a falta de comprovação do direito. O seguinte excerto do voto condutor do acórdão recorrido é elucidativo: Observese que a empresa não trouxe a petição inicial e nenhuma peça do processo judicial que afirma amparala, de forma a se poder verificar a correção de sua alegação central de mérito, o que, como demonstrado acima, seria ônus da empresa. E, em consulta ao sítio do TRF da 3ª Região, utilizandose do número de processo judicial fornecido pela Interessada, na opção “Consulta Processual – Visualizar Processo” a empresa não aparece como parte, mas sim as seguintes empresas: Consórcio Nacional Ford Ltda., Autolatina S/A, Autolatina Financiadora S/A Crédito Financiamento e Investimentos e Ford Brasil S/A. Junto com o recurso voluntário, a interessada faz acostar aos autos peças do processo judicial, e documentos que, segundo ela, comprovariam ser a recorrente sucessora da Autolatina Financiadora S/A, que foi parte no processo judicial. Compulsando os autos, especialmente as peças processuais do Mandado de Segurança nº 89.112058, constato que a impetrante foi Consórcio Nacional Ford Ltda., e que posteriormente foram admitidos como litisconsortes: (i) Autolatina S/A; (ii) Autolatina Financiadora S/A – Crédito, Financiamento e Investimentos; e (iii) Ford Brasil S/A. Prosseguindo na análise, encontro Ata da AGE de 31/05/1996 de Banco Autolatina S.A., na qual se registra a cisão parcial dessa pessoa jurídica, com a versão de parcela de seu patrimônio para o Banco Ford S/A e a mudança do nome da parcela remanescente da cisão do Banco Autolatina S/A para Banco Volkswagen S/A (a interessada). Na sequência, encontro também o Protocolo da cisão e versão do patrimônio. No entanto, não encontro prova de que Banco Autolatina S/A fosse parte da ação judicial. No documento datado de 17/02/2004, dirigido à DEINF/SP, a interessada se identifica como “BANCO VOLKSWAGEN S/A., atual denominação de BANCO AUTOLATINA S.A., anteriormente denominado AUTOLATINA Fl. 178DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 7 6 FINANCIADORA S.A., ...”. Mas tratase de mera afirmação, da qual não encontro prova documental nos autos. Apesar de saber que esse ponto foi um dos fundamentos adotado pelo julgador de primeira instância para negar seu pedido, a interessada apresentou apenas o documento da cisão parcial de Banco Autolatina S/A e posterior mudança de nome da parcela remanescente para Banco Volkswagen S/A, não se preocupando em rastrear e comprovar os eventos societários desde a litisconsorte na ação judicial (Autolatina Financiadora S/A – Crédito, Financiamento e Investimentos) até a atual pessoa jurídica, nem os direitos que teriam sido transmitidos em cada um desses eventos. Em se tratando de pedido de restituição, é ônus de quem alega o direito creditório comprovar o que alega, especialmente, no caso sob análise, que a pessoa jurídica que efetuou o recolhimento seria a sucessora em todos os direitos e obrigações da pessoa jurídica que foi parte na ação judicial. Ao não se encontrar nos autos essa comprovação, também por esse motivo o recurso voluntário há que ser negado. Os dois fundamentos autônomos anteriormente discutidos já seriam (e são) suficientes para que o recurso voluntário seja desprovido. Penso, entretanto, que uma consideração adicional há de ser feita. É que o pagamento em questão foi feito em 1999, ao amparo do art. 17 da Lei nº 9.779/1999. Confirase seu teor (grifos não constam do original): Art.17.Fica concedido ao contribuinte ou responsável exonerado do pagamento de tributo ou contribuição por decisão judicial proferida, em qualquer grau de jurisdição, com fundamento em inconstitucionalidade de lei, que houver sido declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, em ação direta de constitucionalidade ou inconstitucionalidade, o prazo até o último dia útil do mês de janeiro de 1999 para o pagamento, isento de multa e juros de mora, da exação alcançada pela decisão declaratória, cujo fato gerador tenha ocorrido posteriormente à data de publicação do pertinente acórdão do Supremo Tribunal Federal.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) §1oO disposto neste artigo estendese:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 2158 35, de 2001) Iaos casos em que a declaração de constitucionalidade tenha sido proferida pelo Supremo Tribunal Federal, em recurso extraordinário;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIa contribuinte ou responsável favorecido por decisão judicial definitiva em matéria tributária, proferida sob qualquer fundamento, em qualquer grau de jurisdição;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIIaos processos judiciais ajuizados até 31 de dezembro de 1998, exceto os relativos à execução da Dívida Ativa da União.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Fl. 179DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 8 7 §2oO pagamento na forma do caput deste artigo aplicase à exação relativa a fato gerador:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Iocorrido a partir da data da publicação do primeiro Acórdão do Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Federal, na hipótese do inciso I do § 1o;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIocorrido a partir da data da publicação da decisão judicial, na hipótese do inciso II do § 1o;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIIalcançado pelo pedido, na hipótese do inciso III do § 1o.(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) §3oO pagamento referido neste artigo:(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Iimporta em confissão irretratável da dívida;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) IIconstitui confissão extrajudicial, nos termos dos arts. 348, 353 e 354 do Código de Processo Civil;(Vide Medida Provisória nº 1.807, de 1999)(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) [...] Insisto: os pagamentos nesses termos são confissão irretratável da dívida e confissão extrajudicial. Ou seja, ainda que pudessem ser superados os dois fundamentos anteriormente expostos, o pedido de restituição encontraria obstáculo inarredável na disposição expressa da lei acima transcrita. Supondose, como hipótese argumentativa, que a interessada fosse, como afirma, sucessora da litisconsorte na ação judicial, o fato é que espontaneamente decidiu abrir mão do direito conquistado na ação judicial (possivelmente por vêlo ameaçado por reiteradas manifestações do STF no sentido da inconstitucionalidade da CSLL apenas para o primeiro ano de sua vigência) e parcelar o valor da contribuição para os anos subsequentes. A recorrente afirma que somente fez os pagamentos porque a Receita Federal insistia na cobrança, mesmo em face da decisão judicial que havia obtido. Ora, esse era o entendimento administrativo à época, atualmente ainda mais reforçado, tanto pelo sucesso obtido em ações rescisórias diversas propostas perante o Poder Judiciário, quanto por Pareceres da douta PGFN. Se a interessada tivesse plena convicção de seu direito, seu procedimento teria sido o de aguardar o lançamento e discutilo administrativa e judicialmente, nunca o de se antecipar, confessando a dívida de forma irretratável e recolhendo o tributo. A recorrente reclama, ainda, que esse aspecto não teria sido fundamento para a negativa do pedido de restituição, pelo que não poderia, agora, ser abordado. Observese que a DEINF/SP originalmente negou o pedido porque o pagamento (DARF) não foi identificado nos sistemas da RFB. Apesar de intimada, a interessada não se preocupou em trazer aos autos os esclarecimentos que Fl. 180DF CARF MF Processo nº 16327.903508/201007 Acórdão n.º 1301002.334 S1C3T1 Fl. 9 8 permitissem essa correta identificação. Essa questão foi plenamente superada em primeira instância. Somente então foi possível avançar e questionar outros aspectos, a saber, o prazo para pleitear o indébito e a comprovação do direito alegado. Quanto a este último aspecto, o julgador a quo se deteve na falta das peças do processo judicial e na falta de comprovação de que a interessada no processo administrativo fosse também uma das partes do processo judicial. Penso que as considerações aqui tecidas sobre esse ponto nada mais são do que um aprofundamento acerca da análise de mérito do pedido. Seriam, talvez, dispensáveis, como dito anteriormente, mas em nada prejudicam, antes reforçam a conclusão. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. [assinado digitalmente] Waldir Veiga Rocha Fl. 181DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.722021/2014-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 02 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1302-000.467
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, em CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Alberto Pinto Souza Junior e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, que votavam pela nulidade parcial do lançamento correspondente ao item 4.1 do Termo de Verificação Fiscal.
(assinado digitalmente)
LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente e Redator Ad Hoc.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Relatório
Designado como Redator Ad Hoc para fins de formalização desta Resolução, transcrevo abaixo a íntegra do relatório apresentado pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 14 de fevereiro de 2017, verbis:
"CVC BRASIL OPERADORA E AGÊNCIA DE VIAGENS S/A, empresa que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e exterior, insurge-se contra a cobrança de crédito tributário de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de lançamento lavrado em 18/07/2014 e cientificação ocorrida, pessoalmente, em 31/07/2014, cujo crédito tributário totaliza o montante de R$ 50.834.812,03, de materialidade relativa a dezembro de 2009.
Em seu relatório, a decisão recorrida assim descreveu o caso:
Em 18/07/2014, foram lavrados os sete autos de infração objeto deste processo, nos quais se formaliza a exigência do crédito tributário no valor total de R$ 50.834.812,03, conforme a seguir indicado:
Tributo
Juros
de Mora
Multa
Proporcional
Multa
Regulamentar
IRPJ
9.705.992,37
4.053.222,41
7.279.494,28
CSLL
3.494.157,26
1.459.160,08
2.620.617,94
Cofins
8.422.009,96
3.517.031,36
6.316.507,47
PIS
1.824.768,82
762.023,46
1.368.576,62
Multa Regulamentar
11.250,00
Descrição das infrações imputadas
O autuante, reportando-se ao termo de verificação fiscal a fls. 1556/1618, atribui à autuada as seguintes infrações:
Autos de infração de IRPJ e reflexos (CSLL, Cofins e PIS) fls. 1620/1643
0001.OMISSÃO DE RECEITAS DE VENDAS E SERVIÇOS. Omissão de receitas relativas a contratos (recibos) complementares, conforme item 2 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 143.321,22. Multa: 75%.
Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, inciso II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639.
0002.EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA. Valor referente a custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta, a título de repasses a fornecedores, glosados pelo fato de não obedecerem ao princípio da competência ou por não terem sido comprovados, conforme item 4 e respectivos subitens do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 37.489.065,28. Multa: 75%.
Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639.
0003.PASSIVO FICTÍCIO PELA NÃO COMPROVAÇÃO INTEGRAL DO SALDO EXISTENTE NA CONTA IRPJ A RECOLHER. Vide item 7 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 175.000,00. Multa: 75%.
Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280, 281, III, e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639.
0004.DEDUÇÃO DE PIS E COFINS NÃO COMPROVADOS. Vide item 5 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 426.239,69. Multa: 75%.
Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634.
0005.DEDUÇÃO DE IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS (ISS) NÃO COMPROVADO. Vide item 6 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 590.343,27. Multa: 75%.
Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634.
Auto de infração de multa regulamentar fls. 1644/1647
0001.APRESENTAÇÃO EXTEMPORÂNEA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL (ECD). O sujeito passivo apresentou extemporaneamente a ECD exigida nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779/99, ensejando a aplicação de multa no valor de R$ 1.500,00 por mês-calendário ou fração de atraso, uma vez que, na última declaração apresentada, apurou lucro real, conforme termo de verificação fiscal. Datas dos fatos geradores: 30/07/2010 (multa de R$ 9.000,00) e 30/06/2011 (multa de R$ 2.250,00).
Enquadramento legal: art. 16 da Lei nº 9.779/99; art. 57, I, b, e §§ 2º e 3º, da Medida Provisória nº 2.158-35/01, com redação dada pela Lei nº 12.766/12.
Auto de infração de Cofins fls. 1648/1652
0001.INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À COFINS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo da Cofins, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%.
Enquadramento legal: art. 8º da Lei nº 9.718/1998; art. 1º da Lei Complementar nº 70/91; art. 2º da Lei nº 9.718/98, art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09.
Auto de infração de PIS fls. 1653/1657
0001.INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo do PIS, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%.
Enquadramento legal: art. 1º da Lei Complementar nº 7/70; arts. 2º, I, e 9º da Lei nº 9.715/98; art. 2º da Lei nº 9.718/98; art. 8º, I, da Lei nº 9.715/98; art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 79 da Lei nº 11.941/2009; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09.
Ciência dos lançamentos
Em 31/07/2014, conforme termo a fls. 1661, a autuada tomou ciência, pessoalmente, dos lançamentos.
Impugnação
Em 29/08/2014, foi apresentada a impugnação a fls. 1681/1725, cujo teor pode ser assim resumido:
I. Tempestividade
A impugnação é tempestiva.
II. O auto de infração
Com relação ao item 2 (omissão de receitas relativas a recibos complementares), ao item 5 (dedução de PIS e de Cofins não comprovada) e ao item 6 (dedução de ISS não comprovada), todos do termo de verificação fiscal, a requerente informa que incluiu os débitos no Refis. Vide documento nº 5 (fls. 1820/1823).
Com relação ao item 4 (glosa de exclusões da receita bruta), ela informa que efetuou o pagamento de todos os débitos constantes dos subitens 4.2 e 4.4, com a redução no valor da multa em razão de o pagamento ter sido efetuado no prazo de até 30 dias contados da lavratura do auto de infração. Vide documento nº 6 (fls. 1824/1825).
Informa-se ainda o pagamento integral do débito do item 8 (multa por atraso de entrega da ECD). Vide documento nº 6 (fls. 1826).
O entendimento fiscal está equivocado no que diz respeito ao item 3 (exclusões indevidas da base de cálculo do PIS e da Cofins receita de intermediação), ao item 4.1 (custos com transporte aéreo), ao item 4.3 (deduções de despesas com pagamento de comissões não comprovadas) e ao item 7 (passivo fictício).
III. Supostas exclusões indevidas da receita bruta (item 3): a não incidência de PIS e de Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos
O item 3 da autuação exige PIS/Cofins em razão da suposta falta de tributação sobre valores repassados a terceiros, fornecedores de serviços turísticos e agências de turismo (lojas).
Conforme se verifica do termo de verificação fiscal (fls. 1581), em dezembro de 2009, a requerente teria auferido receita bruta de R$ 349.788.292,00 e indevidamente excluído de tal montante o valor de R$ 331.303.424,00, relativo aos repasses a fornecedores e a Tx. Serviços Agências.
No entanto, tais valores, por se tratarem de receitas de terceiros, foram corretamente desconsiderados para fins de determinação da base de cálculo do PIS/Cofins.
III.1. A atividade de intermediação de serviços turísticos
(a) As atividades desenvolvidas pela requerente e a intermediação de serviços turísticos
A requerente é empresa brasileira que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior.
Na condição de intermediadora de serviços turísticos, a requerente está sujeita ao recolhimento do ISS, e a sua atividade está prevista no item 9 da lista de serviços anexa à LC 116/2003.
A requerente mantém uma rede de contatos e acordos com os fornecedores dos serviços turísticos (hotéis, companhias aéreas etc), realizando a organização, estruturação e oferecimento dos serviços turísticos prestados por tais fornecedores aos clientes/passageiros tomadores dos serviços, de forma individual ou em pacotes (conjunto de serviços turísticos de diferentes naturezas).
A requerente atua por intermédio de agências filiais (lojas filiais) ou agências terceirizadas (lojas terceirizadas), com as quais firmou contratos de franquia empresarial, responsáveis pela comercialização de pacotes turísticos previamente estruturados ou serviços turísticos individuais prestados pelos fornecedores aos clientes/passageiros.
As lojas filiais são detidas por outra empresa do grupo, denominada CVC Serviços Agência de Viagens Ltda. e, pois, representam pessoa jurídica diversa da requerente.
Originalmente, a CVC firmou contratos de cooperação comercial e operacional com as agências terceirizadas. Mais recentemente, visando reestruturar as suas operações, estreitar as relações comerciais existentes e fidelizar as agên1cias terceirizadas, a CVC firmou contratos de franquia com tais agências.
A natureza e extensão do serviço de intermediação realizado pela requerente é definido, de forma precisa, pelo artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 (Lei Geral do Turismo - LGT).
O art. 27 da Lei n° 11.771/2008 prevê que a agência de turismo é a pessoa jurídica que:
realiza a intermediação entre fornecedores e consumidores de serviços turísticos; ou
fornece os serviços turísticos diretamente aos consumidores.
O § 3º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece que as atividades de intermediação das agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a comercialização dos serviços turísticos fornecidos por terceiros aos consumidores.
A agência de turismo que fornece diretamente os serviços turísticos aos clientes é aquela que disponibiliza e comercializa os serviços em seu próprio nome, ou seja, ela própria é responsável pelo fornecimento/realização/execução dos serviços turísticos aos clientes/passageiros.
Um bom exemplo é a assessoria de embarque/desembarque, serviço prestado na origem, no local de destino e/ou nas escalas de viagens, com o objetivo de recepcionar, instruir, informar e auxiliar os clientes/passageiros em relação às suas viagens, serviço normalmente prestado por funcionários das próprias agências (ou seja, diretamente por elas).
Outro exemplo são os serviços de guias turísticos no destino, que em algumas localidades são prestados por funcionários das próprias agências de viagens locais (ou seja, e mais uma vez, diretamente por elas).
A Lei n° 12.974, de 15/05/2014, previu dois diferentes tipos de agências de turismo:
agência de viagens, que realiza tão somente a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos; e
agência de viagens e turismo, que, além de realizar a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos, realiza de forma privativa o assessoramento, planejamento e organização das atividades relacionadas às viagens e/ou a organização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens (inclusive educacionais ou culturais) e intermediação remunerada na sua execução e comercialização.
O § 2° do art. 5º da Lei n° 12.974/2014 estabelece, de forma clara, que a agência de viagens e turismo que realiza o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens pode denominar-se operadora turística.
A previsão legal mencionada apenas reflete a prática já adotada no mercado e igualmente refletida na legislação anterior que tratava da matéria.
Na linguagem comum e na sistemática legal até então em vigor, a agência de viagens operadora é e sempre foi aquela que organiza e contrata os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, com o objetivo de que sejam oferecidos aos turistas, enquanto a agência de viagens, em regra, não organiza ou contrata estes serviços em favor dos clientes/passageiros, mas apenas os comercializa nos pontos de venda ou pela internet.
Na literatura de Carlos Alberto Tomelin, é possível identificar tal conceituação:
Agências operadoras (conhecidas no mercado nacional como operadoras) elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes) com seus próprios equipamentos ou subcontratação de operadores terrestres locais, e podem vender seus produtos às agências detalhistas e ao público em geral através de seus escritórios locais.
As operadoras, que elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes), podem vendê-los diretamente ao consumidor final, através de seus escritórios locais, ou indiretamente, através das agências de viagens.
Mas sempre mantendo seu papel de intermediação entre os fornecedores e os consumidores finais. Além disso, podem operar com seus próprios equipamentos e pessoal e/ou podem subcontratar agências receptivas locais.
No caso de comercialização através das agências (detalhistas) e de subcontratação das receptivas, pagam comissão sobre o produto/serviço comercializado/prestado.
Agências de viagens detalhistas (conhecidas no mercado nacional como agências de viagens ou agências varejistas) geralmente não elaboram seus próprios produtos, mas principalmente comercializam viagens com roteiros preestabelecidos (pacotes), organizados por agências maioristas ou operadoras de turismo, e podem ou não oferecer serviços de receptivo.
Mas agências detalhistas podem montar pacotes customizados para clientes específicos, incluindo todos os tipos de serviços turísticos.
Algumas optam por trabalhar com segmentos de mercado específicos (ex: agências de intercâmbio), além de atender o público em geral.
A operadora turística se diferencia da simples agência ao negociar e contratar com os fornecedores os serviços turísticos, individuais ou na forma de pacotes, realizando a comercialização de tais serviços diretamente ou, como é mais comum, por intermédio de agências filiais ou terceirizadas.
Portanto, haja vista os conceitos previstos nas Leis ns. 11.771/2008 e 12.974/2014, bem como na legislação anterior que tratava da matéria, para se caracterizar como agência de turismo, a pessoa jurídica deve realizar a intermediação ou oferecer os serviços turísticos ela própria (diretamente, em seu nome) e, dependendo da natureza e extensão da atividade específica desenvolvida, a agência poderá denominar-se agência de turismo ou agência de viagens e turismo / operadora turística.
O fato de determinado contribuinte caracterizar-se como agência de viagens e turismo / operadora turística não significa, diferentemente da errônea classificação defendida pelo agente fiscal, que tal empresa oferece os serviços turísticos diretamente aos clientes/passageiros.
Pelo contrário, o mínimo conhecimento do mercado de que ora se cuida demonstra que as agências de viagens e turismo / operadoras turísticas, na esmagadora maioria de suas operações, realizam a intermediação entre os fornecedores e passageiros, ainda que comercialize os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, por meio de outras Agências.
Seja agência de viagens ou agência de viagens e turismo / operadora turística, a caracterização da espécie de serviço por ela realizado não é determinável a priori, mas sim com base nas atividades que são, de fato, realizadas.
Se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística prestar determinados serviços de forma direta (e não por intermédio dos terceiros fornecedores), não restará configurada a atividade de intermediação.
Por outro lado, se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística tiver como propósito a organização e oferecimento de serviços turísticos prestados por terceiros aos clientes/passageiros (passagens áreas, hospedagem etc), estará realizando a atividade de intermediação de que trata a legislação do setor.
(b) Enquadramento da requerente como agência de viagens que realiza a atividade econômica de intermediação remunerada
A requerente é uma agência de viagens e turismo/operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros.
A requerente sabidamente não presta serviços turísticos diretamente.
De outra sorte, estaria também listada entre as companhias aéreas ou redes hoteleiras e não somente entre as agências de viagem.
No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante alega que a operadora de turismo, conforme se depreende da leitura do caput do art. 27 da LGT, é empresa que fornece os serviços diretamente em seu nome e conclui que o sujeito passivo CVC Brasil atua sempre como operadora de turismo.
O autuante aponta que enquanto a requerente atuou como operadora de turismo, pois comprou e revendeu, em seu nome, diárias de hotéis, as lojas atuaram como agências de viagens (de turismo em sentido estrito) (...) que representaram o sujeito passivo e realizaram as vendas diretamente junto ao cliente.
O esforço em descaracterizar a requerente como agência de turismo se justifica para fundamentar a errônea premissa de que os valores referentes aos repasses aos fornecedores e as comissões às lojas seriam custos dela e não receitas de terceiros.
O fato de a requerente também realizar atividades próprias de operadora turística não afasta a sua caracterização como agência de viagem que tem como atividade principal a intermediação remunerada de serviços turísticos.
A requerente reserva, negocia e contrata os serviços turísticos junto aos fornecedores e, na maior parte das vezes, os organiza/estrutura na forma de pacotes para facilitar as viagens dos clientes/passageiros, disponibilizando-os por intermédio das lojas (filiais ou terceirizadas).
A requerente não presta ela própria os serviços turísticos aos clientes/passageiros. A sua atividade é de mera intermediação destes serviços.
Para fornecer diretamente os serviços (e, pois, ter a obrigação de oferecer os valores totais recebidos pelos clientes/passageiros à tributação), a requerente teria que prestar diretamente os serviços turísticos comercializados, afastando qualquer atuação por parte dos terceiros fornecedores (companhias áreas, hotéis etc), o que não é o caso.
A lógica fiscal leva à absurda e impossível conclusão de que a requerente estaria prestando serviços aéreos, de hospedagem, de transporte de passageiros por via terrestre etc.
Seria ela, pois, uma companhia aérea, capaz de transportar passageiros entre os aeroportos brasileiros e internacionais?
Estaria, portanto, atuando no ramo hoteleiro, em estabelecimentos próprios?
Utilizando-se, então, de veículos próprios para percorrer as estradas pelo mundo?
A atividade desenvolvida pela requerente é a de intermediação de serviços turísticos, englobando a oferta, a reserva e a venda desses serviços, que serão prestados pelos fornecedores e tomados pelos clientes/passageiros.
III.2. A não incidência de PIS/Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos e comissões repassadas às lojas
O autuante entendeu que a requerente realizaria compra e venda de serviços turísticos.
Portanto, os valores repassados aos fornecedores e as comissões repassadas às lojas seriam verdadeiros custos de suas operações, não sendo passíveis de exclusão da base de cálculo do PIS/Cofins, por ausência de previsão legal.
Contudo, a requerente presta serviço de intermediação de serviços turísticos.
Tais valores não compõem a base de cálculo das contribuições em questão; são, na verdade, receitas de outras empresas.
(a) O conceito de receita para fins de PIS/Cofins e a impossibilidade de tributação das receitas de terceiros
A requerente está sujeita ao regime cumulativo de PIS/Cofins, regulado pela Lei n° 9.718/1998. O seu art. 1º prevê que tais contribuições incidirão sobre o faturamento mensal da pessoa jurídica, que corresponde à sua receita bruta.
É possível identificar receita como um ingresso que se incorpore de maneira positiva e definitiva ao patrimônio de uma empresa, decorrente de remuneração ou contraprestação de suas atividades sociais, isto é, proveniente da venda de bens e prestação de serviços (fls. 1691).
Apenas os valores que efetivamente modificam o patrimônio líquido da empresa, de forma a incrementá-lo, e que ingressam nas contas da empresa de forma definitiva e incondicional, em decorrência das atividades sociais desenvolvidas pela empresa, devem ser considerados receita para fins de cômputo da base das contribuições.
Os valores que não se enquadrem nesse conceito e não possuam estas específicas características (positividade, definitividade e causalidade) não podem assim ser caracterizados.
A doutrina mais abalizada afirma que as receitas de terceiros devem ser desconsideradas para fins de determinação da receita tributável, justamente por não integrarem o patrimônio da empresa que as recebe (fls. 1692).
Segundo tanto o antigo Conselho de Contribuintes como o atual Carf, os valores recebidos e repassados a terceiros não devem ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins (fls. 1692/1693).
No âmbito contábil, as receitas de terceiros também não são consideradas como receitas próprias da empresa que as recebe, como demonstram o CPC n° 30/2012 e a Resolução CFC n° 1.255/2009 (fls. 1693/1694).
As receitas transferidas a terceiros não podem ser caracterizadas juridicamente como receita, uma vez que não representam um acréscimo patrimonial efetivo e definitivo e não decorrem de uma atividade desenvolvida pela empresa, o que indica a inexistência da natureza causal que legitime a exigência.
E nem se diga que a revogação do inciso III do § 2º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, que expressamente permitia a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins de valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, seria capaz de alterar essa conclusão.
Tal revogação não pode implicar tributação das receitas de terceiros.
O texto do referido inciso III (como, aliás, de todas as hipóteses de exclusão previstas naquele dispositivo) tinha função meramente didática, pedagógica, visando instruir os contribuintes que haviam, indevidamente, incluído como receita própria valores que tivessem sido transferidos para outra empresa (fls. 1694).
Como aponta José Antonio Minatel, as previsões do § 2º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 seja na sua redação anterior ou na atualmente em vigor revelam realidades desprovidas de conteúdo material que permita qualificá-las como receitas,sendo, portanto, inócua a pretensão de excluí-las de conjunto no qual nunca estiveram incluídas (fls. 1694).
A expressa autorização para excluir as receitas de terceiros contida no referido inciso III é irrelevante para determinar a tributação ou não sobre receitas de terceiros. Tais valores com ou sem essa previsão não constituem receita.
(b) A determinação da receita auferida pela requerente e a correta não tributação dos valores repassados a terceiros/fornecedores
O conceito jurídico de receita abarca apenas os valores que representam acréscimos patrimoniais efetivos e definitivos e que resultam diretamente da atividade econômica desenvolvida pela empresa.
A legislação específica do turismo confirma que a receita da agência de turismo não pode abarcar a integralidade dos valores recebidos, mas apenas a verdadeira remuneração auferida pela atividade de intermediação.
O § 2° do art. 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece qual é a receita (preço do serviço) auferida pela agência de turismo: O preço do serviço de intermediação é a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultando-se à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados.
O preço do serviço de intermediação das agências de turismo é e somente pode ser a comissão recebida dos fornecedores e/ou o valor agregado ao preço de custo desses fornecedores, e não o valor total dos ingressos.
Não obstante, o autuante faz verdadeiro exercício interpretativo para justificar que o § 2° do referido art. 27 não poderia ser analisado em sua literalidade e, com isso, defender a tributação sobre o valor bruto recebido pela requerente da venda de pacotes turísticos.
Conforme relatório fiscal (fls. 1587), o autuante entende que ao se fazer uma interpretação teleológica, percebe-se que o legislador não teve por objetivo, no artigo 27 da LGT, a exclusão dos custos (repasse a fornecedores, segundo o sujeito passivo) das bases de cálculo do PIS e da Cofins.
Para sustentar o seu teratológico posicionamento sobre a inexistente obrigação de submeter à tributação o valor total recebido dos clientes em remuneração à aquisição de pacotes turísticos, que inviabilizaria a atividade de toda e qualquer agência de turismo no Brasil, o autuante, além de partir de premissas equivocadas quanto à natureza das atividades da requerente, utiliza quatro argumentos principais:
a requerente não realiza repasse de valores aos fornecedores, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio;
as notas fiscais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente;
o art. 46 da Lei n° 11.771/2008, que permitira a tributação exclusiva das receitas de intermediação de forma expressa, foi vetado pelo Poder Executivo; e
as orientações emitidas pela RFB, por meio de soluções de consulta, determinam a tributação integral dos valores recebidos pela requerente.
Contudo, conforme será detalhado abaixo, nenhum destes argumentos se sustenta.
(b.l) Intermediação versus compra e venda
O primeiro argumento fiscal está embasado na equivocada premissa de que a requerente não realiza atividade de intermediação de serviços turísticos, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio.
O agente fiscal alega que a requerente não realizaria repasses de receitas a terceiros (no caso, os fornecedores) e que os valores a eles remetidos configurariam custo da sua atividade.
A requerente é agência de viagens e turismo / operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e cliente/passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros.
O fato de ser uma operadora turística não afasta a caracterização da sua atividade principal de intermediação de serviços turísticos.
A requerente julga pertinente tecer breves observações sobre as evidentes diferenças técnicas e jurídicas sobre as operações de intermediação e compra e venda.
Na operação de compra e venda, prevista no art. 481 do CC/2002, a empresa adquire determinada mercadoria de seu fornecedor e a revende ao consumidor, cobrando uma margem de lucro.
O ganho da empresa provém do próprio cliente, que acaba pagando um valor maior pelas mercadorias adquiridas.
É o típico caso dos supermercados, que compram mercadorias e as revendem aos consumidores, agregando um valor adicional ao preço.
No que se refere à compra e venda, a empresa adquire a titularidade da mercadoria que será revendida.
O principal aspecto do negócio jurídico de compra e venda é a efetiva transferência de titularidade/propriedade sobre o bem em questão.
Diferentemente, no caso da intermediação, a empresa efetua o contato entre os participantes da cadeia (no caso, o fornecedor e consumidor), atuando como verdadeiro elo.
A empresa intermediadora é remunerada em função do serviço desenvolvido.
Na intermediação, o elemento da remuneração decorre da existência da prestação do serviço e não se verifica a transferência de titularidade/propriedade para a empresa que realiza a intermediação.
É possível citar, além da intermediação de serviços turísticos, uma série de atividades de natureza análoga:
representação comercial, em que determinada empresa realiza a mediação para realização de negócios mercantis, em nome do representado;
planos de saúde e assistência médica, em que a administradora do plano disponibiliza a rede de médicos e hospitais e laboratórios aos conveniados;
administração de cartão de crédito/débito, em que a empresa administradora recebe os pagamentos e os transfere para os vendedores credenciados;
corretagem de imóveis, em que a corretora realiza a intermediação para possibilitar a compra/venda ou a locação de imóveis;
agenciamento de publicidade, em que a agência de publicidade promove a divulgação de serviços/produtos em nome do anunciante, entre outros.
Em nenhuma dessas atividades se verifica o negócio de compra e venda, uma vez que a intermediadora apenas realiza o elo entre as partes envolvidas.
Todas as atividades estão previstas como serviços na lista anexa à LC 116/2003. É o caso da intermediação de serviços turísticos (item 9.01 da lista).
A atividade desenvolvida pela requerente é a efetiva prestação de serviço de intermediação.
Ela não compra passagens e hospedagens e as revende em seu nome, mas sim organiza, reserva e contrata os serviços turísticos prestados pelos fornecedores e os oferece e comercializa aos clientes/passageiros.
A prestação de serviços no caso concreto envolve obrigação de fazer, ou seja, realizar o contato entre os fornecedores e os passageiros, viabilizando as viagens que serão por estes últimos usufruídas.
A prestação de serviços no direito brasileiro envolve, essencialmente, obrigações de fazer as quais se opõem às obrigações de dar, em que uma das partes cede um bem à outra.
Prestar serviço é disponibilizar um bem imaterial, uma utilidade, que se produz mediante o esforço humano, físico ou intelectual, que é colocado à disposição do tomador.
É desarrazoado pensar na hipótese de compra e venda no caso concreto.
A requerente realiza verdadeira obrigação de fazer, consubstanciada na reserva e oferta aos clientes/passageiros de serviços turísticos (individuais ou por meio de pacotes) prestados por fornecedores habilitados para tanto.
Logo, é incorreta e jurídica e taticamente impossível a premissa adotada pelo autuante.
Os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos não podem ser caracterizados como custos.
A requerente não compra e revende serviços turísticos, mas atua na intermediação entre fornecedores e clientes/passageiros.
O conceito de custo abarca os dispêndios básicos da empresa, necessários à manutenção da atividade e comercialização, conforme se depreende da legislação do imposto de renda.
Não podem ser caracterizados como custos os valores referentes aos repasses efetuados aos fornecedores e às lojas em relação aos serviços que serão prestados aos clientes/passageiros.
Tais montantes não correspondem a insumos ou qualquer outra espécie de ativo/bem/direito adquirido pela requerente, necessários ao desenvolvimento de suas atividades operacionais.
Os serviços turísticos são reservados, negociados e contratados pela requerente em nome e benefício dos clientes/passageiros, seus verdadeiros tomadores.
Portanto, a pretensão do autuante não se sustenta sob qualquer óptica.
Os valores referentes aos repasses não refletem custos da requerente, mas receitas de terceiros recebidas dos clientes/passageiros e remetidas aos verdadeiros titulares, os efetivos fornecedores dos serviços turísticos.
(b.2.) A irrelevância do destinatário indicado nas notas fiscais para determinar a natureza das operações e a caracterização da receita tributável
O segundo argumento fiscal para sustentar a tributação da receita bruta da venda de pacotes turísticos é o de que as notas fiscais e/ou faturas comerciais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente.
No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante busca reforçar a tese de que a requerente não presta serviço de intermediação, mas sim realiza a compra e revenda de serviços turísticos.
Ele aponta que os hotéis não emitiram as faturas/notas fiscais em nome do hóspede, mas sim em nome do sujeito passivo, CVC Brasil e ainda foram juntadas cópias das faturas emitidas pelas cias aéreas em face do sujeito passivo CVC Brasil.
O fato de os fornecedores (efetivos prestadores dos serviços aos clientes) emitirem as notas fiscais e/ou faturas comerciais contra a requerente, por razões legais, estritamente operacionais e/ou alheias à sua vontade, não desnatura a essência da atividade de intermediação dela.
A requerente realiza intermediação de serviços turísticos, o que por si só afasta a possibilidade de que a simples emissão de documentos fiscais ou comerciais pelos fornecedores altere a natureza de suas atividades e, consequentemente, da sua tributação.
Exemplo desta circunstância são os faturamentos relacionados às passagens aéreas.
As companhias aéreas não emitem notas fiscais contra os passageiros por expressa determinação legal.
Os bilhetes aéreos as substituem e são considerados, para todos os efeitos legais, como documentos fiscais válidos.
A título exemplificativo, no Estado de São Paulo, tal sistemática está regulada nos arts. 124 e 171 do Regulamento do ICMS (fls. 1700/1701).
As faturas comerciais emitidas pelas companhias aéreas contra a requerente apenas formalizam os valores que deverão ser repassados por ela aos efetivos prestadores dos serviços de transporte aéreo usufruídos pelos clientes/passageiros.
Concomitantemente, os bilhetes aéreos, que substituem as notas fiscais, são emitidos contra cada um dos passageiros, tomadores de tais serviços.
As alegações do agente fiscal não passam de ilações desarrazoadas que ignoram o mercado e a própria legislação de regência.
No âmbito do procedimento de fiscalização, a requerente apresentou uma série de documentos contábeis e fiscais que atestam a regularidade dos procedimentos adotados.
Conforme exigido pela fiscalização, para determinadas operações, a requerente apresentou descrição completa de todos os lançamentos realizados, comprovando que os valores recebidos dos clientes não alteram positivamente o seu patrimônio e são regularmente repassados aos fornecedores dos serviços turísticos (Doc. n° 7 fls. 1827/1871).
A requerente demonstrou que os valores a serem remetidos a terceiros são lançados em uma conta específica e transitória e são efetivamente transferidos aos verdadeiros titulares.
Os documentos que suportam tal procedimento contratos firmados com os passageiros, extratos bancários que atestam os valores recebidos e repassados aos fornecedores, faturas emitidas pelos fornecedores e notas fiscais emitidas com o valor da intermediação da requerente foram apresentados na fiscalização (Doc. n° 8 fls. 1872/1938).
A despeito do destinatário indicado nas faturas / boletos / notas fiscais, não há como desconsiderar a real natureza das operações e entender que a requerente é a tomadora dos serviços turísticos prestados pelos fornecedores quando a sua atividade é nitidamente de intermediação.
A premissa adotada pelo autuante ao lavrar a presente autuação está incorreta.
A receita auferida pela requerente não abarca a totalidade dos valores pagos pelos clientes/passageiros na aquisição dos serviços turísticos, mas tão somente as comissões a que faz jus, apuradas mediante a diferença entre os valores recebidos e os repassados a terceiros (fornecedores e lojas).
(b.3.) O veto ao artigo 46 da Lei n° 11.771/2008
O terceiro argumento para defender a exigência fiscal se refere ao veto do art. 46 da Lei n° 11.771/2008.
A redação inicial do projeto de lei que deu origem à Lei n° 11.771/2008 trazia artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo.
Indicava-se que deveria ser considerada receita apenas a comissão recebida dos fornecedores ou o valor agregado ao preço de custo.
O artigo foi vetado sob a justificativa de que o dispositivo, supostamente:
deformaria o conceito de lucro e faturamento/receita bruta;
ofenderia o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal, por ausência de estudo de impacto nas finanças públicas e previsão orçamentária; e
principalmente, seria contrário ao interesse público, por aumentar a complexidade do sistema tributário.
O veto foi efetuado de maneira genérica e pouco aprofundada, levando em consideração razões políticas que não se coadunam com o sistema de tributação do PIS e da Cofins.
O veto não é capaz de gerar obrigação tributária, ainda mais sobre valores que não podem ser configurados como receita.
O STF já reconheceu que as razões de veto correspondem a ato de natureza eminentemente política, não podendo servir como parâmetro interpretativo das normas de Direito Tributário.
Consequentemente, são insuficientes para justificar qualquer incidência tributária.
A aplicação do Direito Tributário deve se pautar na legislação tributária, que compreende as leis, os tratados e as convenções internacionais, os decretos e as normas complementares (arts. 96 e 100 do CTN).
Os atos legais que tratam do tema não permitem a tributação de valores que não incrementam o patrimônio da requerente de forma definitiva e que são posteriormente repassados aos fornecedores de serviços turísticos
O fato de o artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo ter sido vetado, por razões estritamente políticas, não significa que o PIS/Cofins deve incidir sobre a totalidade dos valores recebidos.
O conceito jurídico de receita não abarca os valores recebidos e repassados a terceiros.
A interpretação teleológica do autuante, embasada no veto, não altera essa conclusão.
A análise teleológica e sistemática das normas que cuidam do tema levam a conclusão oposta.
Os valores repassados a terceiros pelas agências de turismo devem ser desconsiderados na determinação da receita própria passível de tributação, o que é corroborado pela doutrina pátria e pela jurisprudência dominante.
(b.4.) A correção dos procedimentos adotados pela requerente com base nas soluções de consulta editadas pela RFB
Como último argumento, o autuante baseia-se em supostas soluções de consulta que estabeleceriam a impossibilidade das agências de turismo de excluir receitas de terceiros da base de cálculo do PIS/Cofins.
A interpretação dada pelo autuante às soluções de consulta se embasa na equivocada premissa de que a requerente não realizaria intermediação de serviços turísticos.
Na verdade, as soluções de consulta da RFB confirmam os procedimentos da requerente.
Mesmo antes da edição da Lei n° 11.771/2008, a RFB já havia editado várias soluções de consulta admitindo que os valores repassados a terceiros não integram a receita bruta das agências de turismo, conforme ementas transcritas a fls. 1704/1705.
A Solução de Divergência n° 2, de 21/03/2007, mencionada pelo autuante a fls. 1588, de fato determina a incidência do PIS/Cofins sobre a totalidade das receitas auferidas, impedindo a exclusão dos valores repassados a terceiros.
Mas ela reflete posicionamento isolado e que logo foi modificado.
Conforme ementas transcritas a fls. 1705/1707, desde 2008 a RFB vem proferindo uma série de soluções de consulta no sentido de que apenas as comissões auferidas ou adicional percebido em razão da intermediação pelas agências deverão ser objeto de tributação.
O autuante se reporta à Solução de Divergência n° 3, de 30/04/012, e à Solução de Consulta n° 17, de 13/03/013, para respaldar a sua autuação.
Mas conclusões ali delineadas confirmam os procedimentos da requerente.
Nas referidas soluções, é consignado que, no caso de agência de turismo que realiza a atividade de intermediação, como é o caso da requerente, a receita corresponderá à comissão ou ao adicional por ela recebido.
O trecho final das mencionadas soluções indica que caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes.
O autuante alega que esse trecho vai ao encontro da tese da fiscalização que veda a exclusão dos custos (repasses aos fornecedores) das bases de cálculo do PIS e da Cofins.
Ainda segundo o atuante, o sujeito passivo atua sempre como operadora de turismo, na medida em que restou comprovado (...) que todos os serviços turísticos, mesmo diárias de hotel e bilhetes aéreos vendidos isoladamente, sempre são vendidos em nome do sujeito passivo, representado por uma loja credenciada (agência de viagem ou turismo em sentido estrito).
Não obstante, a requerente não fornece serviços turísticos diretamente, mas realiza a atividade de intermediação a eles relacionada.
A requerente atua como elo entre os fornecedores e os clientes tomadores de tais serviços, o que exclui a possibilidade de aplicação da parte final da solução de consulta.
O entendimento de que a receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes se aplica exclusivamente no caso em que a agência de viagens prestar/executar ela própria os serviços aos clientes/passageiros (e.g., realizar o serviço de assessoramento de embarque/desembarque, proceder ao transporte de passageiros etc), o que não se verifica no caso.
O fato de a requerente ser caracterizada como operadora turística, por proceder à organização dos serviços turísticos, oferecidos isolada ou conjuntamente, na forma de pacotes, não tem o condão de afastar ou desnaturar a essência da atividade de intermediação empreendida.
As soluções de consulta citadas comprovam que os procedimentos da requerente para a determinação da sua base tributável pelo PIS e pela Cofins foram absolutamente regulares.
(b.5) A orientação da jurisprudência a respeito da não tributação das receitas de terceiros relacionadas às agências de turismo
O Carf entendeu que, tratando-se de atividade de intermediação de serviços turísticos, é indevida a tributação sobre os valores recebidos e repassados a terceiros, conforme decisões transcritas a fls. 1709/1710.
Os nossos tribunais superiores também têm reconhecido que as agências de turismo intermediadoras têm direito de computar na sua receita somente as comissões auferidas, conforme ementa transcrita a fls. 1710.
O Órgão Especial do TJ/SP, ao analisar a constitucionalidade de lei municipal de Barueri, reconheceu que os valores que ingressam nos cofres da empresa para serem repassados a terceiros não correspondem ao preço do serviço. O voto vencedor valeu-se expressamente do exemplo das agências de turismo, conforme excerto transcrito a fls. 1711.
Quando se discute o tema de receitas de terceiros em relação às atividades de turismo ou situações análogas, a jurisprudência vem repetidamente afirmando que tais valores não compõem a receita tributável.
Exemplo disso são as atividades relacionadas às agências de propaganda e publicidade, nas quais a jurisprudência vem admitindo de forma unânime a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins dos valores por elas repassados aos veículos de divulgação (i.e., terceiras empresas, tais como as de televisão, rádio, jornais etc), conforme acórdãos do Carf citados a fls. 1711/1712.
Os TRFs vêm reconhecendo que os valores objeto de repasse a terceiros pelas agências de publicidade (e, via de consequência, em quaisquer outras atividades em que exista sistemática de repasse de receitas equivalentes) não devem ser integrados à receita para fins de tributação.
A mesma orientação é seguida pelos tribunais no caso de empresas agenciadoras de mão-de-obra, que também recebem determinados valores, referentes aos salários e encargos, que são repassados a terceiros e que, portanto, não devem compor a receita para fins de tributação.
O STJ também já entendeu que a empresa agenciadora de mão-de-obra tem o direito de recolher os impostos apenas sobre os valores de suas comissões, indicando que as receitas de terceiros não caracterizam preço do serviço.
Os nossos tribunais também afastaram a tributação integral sobre os valores recebidos pelas operadoras de planos de saúde, ressaltando que os valores referentes aos repasses feitos aos prestadores de serviços de saúde (tais como hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc.) não consistem em receita própria da operadora.
Ali também, a exemplo do que ocorre com as agências de turismo, existe mera intermediação entre os fornecedores (em um caso, hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc; em outro, hotéis, passagens etc) e os clientes finais, beneficiários e tomadores efetivos destes serviços (na primeira hipótese, os pacientes; na segunda, os turistas).
Os exemplos são múltiplos e a conclusão sempre idêntica.
Valores recebidos por terceiros intermediários, cuja atividade, pela sua natureza, implique no recebimento de valores que serão posteriormente repassados a terceiros, sem afetar o seu patrimônio de forma positiva, não podem ser tributados pelo PIS/Cofins.
Os tribunais administrativos e judiciais têm reiteradamente afastado a tributação sobre os valores relativos a receitas de terceiros, tanto no caso de agência de viagens como em outras situações envolvendo empresas intermediadoras.
III.3. A exclusão das comissões pagas e dos valores relacionados aos navios fretados
Em seu relatório (fls. 1590), o autuante admite a hipótese de um julgamento favorável à tese do sujeito passivo, no sentido de permitir a exclusão dos custos (repasses a fornecedores).
Nessa eventualidade, o autuante requer, ao menos, seja mantida a exigência fiscal em relação ao:
valor de R$ 39.207.736,00 pago às lojas a título de comissão pelas vendas dos pacotes turísticos; e
valor de R$ 44.307.221,00 referente aos gastos com navios.
No que tange às comissões remetidas às lojas, tais valores correspondem às remunerações devidas em contrapartida ao serviço de intermediação não da requerente, mas das próprias lojas prestado aos passageiros.
Da mesma forma como a requerente é remunerada pela intermediação realizada entre os fornecedores de serviços turísticos e os clientes/passageiros, as agências que realizam a intermediação comercial destes produtos também são remuneradas pela prestação de serviços que realizam.
Não existe dúvida quanto à impossibilidade de exigência de tributação destes valores pela requerente.
Eles se referem a comissões devidas pelos passageiros diretamente às lojas que comercializam os serviços / pacotes turísticos e que, inclusive, são objeto de emissão de notas fiscais diretamente por elas aos passageiros, no exato valor de suas remunerações.
No caso de pagamento em espécie ou cheque, em regra os clientes/passageiros pagam a totalidade dos serviços turísticos adquiridos às lojas. Estas retêm as parcelas relativas às respectivas taxas de serviço/comissões e remetem os valores remanescentes à requerente que, por sua vez, repassará os valores devidos aos fornecedores de serviços turísticos.
Tais valores sequer ingressam na requerente, razão pela qual, além de todos os motivos já expostos, não se pode considerar tais montantes como sua receita própria.
Não há que se falar em exclusão indevida dos valores relativos às comissões, por se tratar de receitas próprias das lojas e não da requerente, formalizadas por notas fiscais emitidas diretamente contra os clientes/passageiros.
No que tange aos gastos com navios, a requerente esclarece que no período de 2009 estava em vigor o contrato de afretamento firmado com a empresa Pullmantur Cruises S.L., domiciliada na Espanha.
Mencionado contrato previa que a Pullmantur coordenaria e administraria os cruzeiros, enquanto a requerente seria responsável por oferecer e disponibilizar os pacotes turísticos aos passageiros.
Por razões logísticas e visando facilitar as operações, a requerente realizou o pagamento, em nome da Pullmantur e no âmbito do contrato de afretamento, de determinadas despesas, como combustível, encargos portuários, serviços a bordo, shows e animações etc.
Contudo, tal fato não impacta nem modifica a natureza da atividade desenvolvida pela requerente nessa situação particular, qual seja, intermediação de serviços marítimos, de modo que a receita de intermediação auferida pela requerente continua sendo a sua comissão recebida e o valor agregado aos serviços.
IV. Glosa de despesas com pagamento de comissões (item 4.3)
A fiscalização desconsiderou determinados repasses efetuados a título de comissões e exigiu o IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, no valor total de R$ 88.926,79.
A requerente apresenta a comprovação relativa a cada uma das glosas efetuadas, conforme tabela a fls. 1715 e documentos a fls. 1939/1967.
Tendo em vista a documentação apresentada, deve o presente auto de infração ser cancelado neste ponto.
Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99.
V. Glosa de despesas com transporte aéreo (item 4.1)
Os fatos
Na consecução de suas atividades, a requerente recebe recursos e repassa para terceiros em razão da intermediação de transporte aéreo em benefício de seus clientes.
Estes repasses não são considerados na base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins.
Ao examinar a documentação entregue pela requerente, o autuante entendeu equivocadamente que:
57.420 bilhetes aéreos, no montante de R$ 32.410.000,04, não diziam respeito a embarques ou desembarques ocorridos em dezembro de 2009; e
885 bilhetes aéreos, no montante de R$ 972.286,74, diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009.
A conclusão da fiscalização está pautada em amostra de 30 bilhetes obtidos mediante diligência junto ao sujeito passivo.
Destes 30 bilhetes, 28 diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009 e 2 bilhetes eram relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (mas que não constavam dos relatórios de despesas do mês entregues pela requerente).
A fiscalização glosou os repasses relativos a 58.305 bilhetes aéreos tendo como fundamento uma amostragem de 30 bilhetes.
O autuante toma como base uma amostragem correspondente a 0,051% do total dos recibos aéreos deduzidos pela requerente, para materializar uma exigência de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins no valor total de R$ 27.243.330,98.
Deve o presente auto de infração ser reconhecido nulo neste ponto.
Caso assim não se entenda, o que se admite apenas para fins de argumentação, a requerente apresenta a comprovação de que a integralidade das despesas cujo repasse foi registrado em dezembro de 2009 corresponde a passageiros que embarcaram no mês.
Nulidade do auto de infração - amostragem insignificante
A requerente invoca os seguintes dispositivos: art. 10 do Decreto nº 70.235/72; art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99; art. 142 do CTN.
A autoridade administrativa deve efetivamente verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação, determinar a matéria tributável e calcular o montante do imposto devido.
Trata-se de obrigação funcional, não sendo cabível a exigência genérica com base em análise de amostragem ínfima.
Não se nega a possibilidade de utilização da amostragem como um critério técnico válido para a determinação de probabilidades ou até mesmo para imputar aos contribuintes o ônus de comprovar as alegações da fiscalização.
Não obstante, a amostragem deve ser relevante e ter validade estatística que justifique a sua utilização.
De acordo com o item 11.2.9 do Manual de Princípios Fundamentais de Contabilidade e Normas Brasileira de Contabilidade, editado pelo CFC, os auditores podem empregar técnicas de amostragem para determinar a extensão de um teste de auditoria ou método de seleção de itens a serem testados (fls. 1718).
Todavia, a amostra selecionada deve guardar uma relação direta com o volume das transações relacionadas e objeto da pesquisa.
O auto de infração é nulo neste ponto, em razão da ausência de apuração, indicação e descrição pormenorizada dos fatos praticados pela requerente, supostamente tidos como irregulares pela fiscalização.
A utilização de mera presunção com base em amostragem ínfima não se coaduna com os comandos normativos contidos nos art. 142 do CTN e art. 10 do Decreto n° 70.235/72.
(c) A comprovação da efetividade das despesas
De forma a comprovar a legitimidade dos repasses efetuados às companhias aéreas, a requerente junta à sua impugnação:
relação de 153.490 bilhetes relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 14 fls. 1970/5319); e
amostragem de aproximadamente 800 bilhetes efetivamente embarcados no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 15 fls. 5320/6309).
Estes bilhetes constam dos relatórios apresentados pela requerente durante o procedimento de fiscalização (recibos com embarque em dez/09) e atestam a legitimidade do registro dos repasses no mês de dezembro de 2009.
A amostragem apresentada pela requerente é suficiente para afastar a presunção da fiscalização no sentido de que a empresa registrou o repasse de bilhetes aéreos relativos a embarques de outros meses.
Fica comprovado que os valores cujos repasses às companhias aéreas foram registrados em dezembro de 2009 são referentes a repasses efetuados no próprio mês.
Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99.
V. Passivo fictício (item 7)
Exige-se IRPJ, CSLL, PIS e Cofins sobre suposto passivo não comprovado e registrado na contabilidade da empresa.
O passivo decorre da diferença entre o valor provisionado a título de imposto de renda e o valor efetivamente pago na DIPJ, de R$ 175.000,00.
Ora, se a própria fiscalização esclarece a origem do passivo, não há que se falar na existência de passivo não comprovado.
Trata-se apenas de provisão para pagamento de IRPJ efetuada em valor superior ao efetivamente devido.
No momento em que foi apurado o tributo devido no período, a requerente baixou a provisão no valor do IRPJ devido, permanecendo um saldo de R$ 175.000,00.
Este saldo deveria ter sido baixado à época, mas permaneceu registrado nos livros da requerente por um lapso do seu departamento contábil.
A constituição da provisão não gera qualquer impacto na apuração dos tributos da requerente, uma vez que o lançamento é efetuado abaixo da linha do lucro real.
Tanto a constituição da provisão, quanto a sua baixa, podem ser efetuadas sem qualquer impacto fiscal.
O passivo possui origem e a razão da sua constituição foi devidamente comprovada.
A requerente pode baixar o passivo a qualquer momento (como efetivamente foi efetuado), sem que seja verificado qualquer impacto fiscal.
Considerando que o passivo pode ser liquidado a qualquer momento sem qualquer impacto fiscal, não há que se falar na presunção de omissão de receitas.
VI. A multa de ofício e os juros aplicados
a impossibilidade de incidência de juros Selic sobre a multa
Para assegurar que, diante de um futuro resultado desfavorável, a atualização do débito não será feita com a incidência de juros pela taxa Selic sobre a multa aplicada, a requerente esclarece o quanto segue.
Os débitos tributários exigidos através do auto de infração em referência são acrescidos de multa, agravada ou de ofício.
Na prática, após a lavratura dos autos de infração, essas multas passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros Selic.
Essa atualização é realizada pelas autoridades fiscais com amparo não na lei, mas no Parecer MF n° 28, de 02/04/1998, emitido pela Cosit (fls. 1720).
Mas o artigo 61 da Lei 9.430/96, utilizado pela Cosit para sustentar a incidência de juros sobre as multas, trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo menção às multas de ofício aplicadas pela RFB.
O dispositivo que embasa o entendimento do fisco é expresso no sentido de que apenas os débitos decorrentes de tributos e contribuições são atualizáveis.
Foi pela ausência de base legal que o Carf já pacificou o entendimento de que tais multas não são atualizáveis, conforme decisões citadas a fls. 1721.
A CSRF, no julgamento do recurso de divergência n° 202-131.351, pacificou a questão acerca da ilegalidade da incidência dos juros moratórios sobre a multa aplicada (fls. 1722).
Evidencia-se a impossibilidade de cobrança de juros à taxa SELIC sobre a multa aplicada no presente caso.
(b) A improcedência dos juros Selic
A jurisprudência tem reconhecido a inaplicabilidade da taxa Selic aos créditostributários, uma vez que essa taxa não foi criada por lei para fins tributários.
Transcreve-se decisão do STJ nos autos do RE n° 450.422/PR.
Não obstante a posição sumulada pelo Primeiro Conselho de Contribuintes, e tendo em vista a possibilidade de a taxa Selic vir a ser considerada inconstitucional para fins tributários pelo Poder Judiciário, requer-se sua desconsideração no cômputo do crédito tributário principal.
VII. A conclusão e o pedido
A impugnação é tempestiva e deve ser apreciada e acolhida em suas preliminares e razões de fato e de direito, que demonstram a improcedência da exigência fiscal.
Em relação ao item 3 do auto de infração, a requerente demonstrou que:
a requerente se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior, conforme o item 9 da lista de serviços anexa à LC nº 116/2003;
de acordo com o art. 27 da Lei n° 11.771/2008 e com os arts. 2°, 3° e 5º da Lei n° 12.974/2014, a requerente se caracteriza como agência de viagens e turismo / operadora turística, por realizar o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens;
o fato de ser denominada de operadora não significa que a requerente realiza o fornecimento direto de serviços turísticos. Pelo contrário, ela apenas reserva e contrata os serviços turísticos, que serão prestados pelos fornecedores diretamente aos clientes/passageiros, realizando nítida atividade de intermediação;
os valores coletados e posteriormente repassados a terceiros (efetivos fornecedores dos serviços turísticos) não compõem a receita tributável da requerente, na medida em que não se incorporam ao seu patrimônio de maneira positiva e definitiva (sequer transitam por resultado, aliás), nem advém de suas atividades operacionais. Tal posicionamento é confirmado pelo § 2º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008, que expressamente determina que o preço do serviço das agências de turismo é a comissão recebida dos fornecedores e/ou a taxa de serviços cobrada dos clientes, e não o valor total dos ingressos; e
a jurisprudência tem afastado a tributação em relação a valores repassados a terceiros pelas agências de turismo, justamente por reconhecer que os repasses não integram o patrimônio das agências. Aliás, analisando o caso específico da própria requerente, recentemente o Carf afastou a pretensão fiscal de tributar a totalidade das receitas recebidas dos clientes, indicando de forma expressa que apenas os valores correspondentes às comissões ou taxas cobradas pela requerente poderiam ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins.
No que diz respeito ao item 4.1 (despesas com passagens aéreas), restou comprovado que o auto de infração é nulo, em razão da ínfima amostragem utilizada pela fiscalização. Além disso, caso o auto de infração seja válido, o que se admite apenas para argumentar, restou comprovado que a requerente apenas registrou repasses às companhias aéreas relativos a embarques efetivamente ocorridos em dezembro de 2009.
Especificamente quanto ao item 4.3 (glosa de despesa com pagamento de comissões), a requerente apresentou a documentação que comprova o efetivo pagamento das despesas, de forma que a glosa pretendida não deve ser admitida.
Além disso, no que diz respeito ao item 7 (passivo fictício), foi comprovada a origem do passivo (provisão de IRPJ) e a inexistência de impactos fiscais para a sua baixa. Por este motivo, não há que se falar na existência de presunção de omissão de receitas.
Por fim, foi demonstrado que a taxa Selic não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária.
Pelo exposto, a requerente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do auto de infração, bem como o equívoco cometido autoridade fiscal ao interpretar os fatos e o direito a eles aplicável neste caso, razão pela qual pleiteia o acolhimento da impugnação e o cancelamento do auto de infração, com o arquivamento do presente processo administrativo.
A requerente protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 4º, a do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal.
É o relatório.
Ao apreciar a impugnação apresentada, a 3a Turma da DRJ/BHE proferiu o Acórdão de Impugnação n. 02-63.599 (fls. 6.460/6.514), em sessão realizada em 28/01/2015, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação, para indeferir o pedido de juntada posterior de documentos, rejeitar a alegação de nulidade e manter integralmente o crédito tributário em discussão, cuja ementa restou assim redigida:
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2009
AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA.
A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2009
AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA.
A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA.
Correta a glosa de custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta a título de repasses a fornecedores, nos casos de não comprovação da sua efetiva existência ou de inobservância do princípio da competência.
OMISSÃO DE RECEITA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO PASSIVO.
Caracteriza-se como omissão no registro de receita, ressalvada ao contribuinte a prova da improcedência da presunção, a manutenção no passivo de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada.
LANÇAMENTOS DECORRENTES. CSLL. PIS. COFINS.
O decidido para o lançamento de IRPJ estende-se aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento factual e para os quais não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
JUROS DE MORA. TAXA SELIC.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - Selic para títulos federais.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista pelos artigos 43 e 61, § 3º, ambos da Lei nº 9.430, de 1996.
Impugnação improcedente.
Crédito Tributário Mantido.
Irresignado com a referida decisão, o sujeito passivo interpõe Recurso Voluntário reiterando todos os argumentos trazidos na impugnação, acrescentando apenas: (i) o pleito pela procedência do pedido de perícia, ora rejeitado, e; (ii) a nulidade do processo devido a ocorrência de supressão de instância, tendo em vista, que a 3a Turma da DRJ/BHE não procedeu à análise de todos os pedidos contidos na peça impugnatória.
Vale ressalvar que as infrações descritas nos itens 2, 5, 6 e subitens 4.2 e 4.4 foram integralmente quitadas pela contribuinte, razão pela qual não serão objeto de abordagem nesta instância recursal.
É como relato."
Nome do relator: TALITA PIMENTA FELIX
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, em CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Alberto Pinto Souza Junior e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, que votavam pela nulidade parcial do lançamento correspondente ao item 4.1 do Termo de Verificação Fiscal. (assinado digitalmente) LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Designado como Redator Ad Hoc para fins de formalização desta Resolução, transcrevo abaixo a íntegra do relatório apresentado pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 14 de fevereiro de 2017, verbis: "CVC BRASIL OPERADORA E AGÊNCIA DE VIAGENS S/A, empresa que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e exterior, insurge-se contra a cobrança de crédito tributário de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de lançamento lavrado em 18/07/2014 e cientificação ocorrida, pessoalmente, em 31/07/2014, cujo crédito tributário totaliza o montante de R$ 50.834.812,03, de materialidade relativa a dezembro de 2009. Em seu relatório, a decisão recorrida assim descreveu o caso: Em 18/07/2014, foram lavrados os sete autos de infração objeto deste processo, nos quais se formaliza a exigência do crédito tributário no valor total de R$ 50.834.812,03, conforme a seguir indicado: Tributo Juros de Mora Multa Proporcional Multa Regulamentar IRPJ 9.705.992,37 4.053.222,41 7.279.494,28 CSLL 3.494.157,26 1.459.160,08 2.620.617,94 Cofins 8.422.009,96 3.517.031,36 6.316.507,47 PIS 1.824.768,82 762.023,46 1.368.576,62 Multa Regulamentar 11.250,00 Descrição das infrações imputadas O autuante, reportando-se ao termo de verificação fiscal a fls. 1556/1618, atribui à autuada as seguintes infrações: Autos de infração de IRPJ e reflexos (CSLL, Cofins e PIS) fls. 1620/1643 0001.OMISSÃO DE RECEITAS DE VENDAS E SERVIÇOS. Omissão de receitas relativas a contratos (recibos) complementares, conforme item 2 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 143.321,22. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, inciso II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0002.EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA. Valor referente a custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta, a título de repasses a fornecedores, glosados pelo fato de não obedecerem ao princípio da competência ou por não terem sido comprovados, conforme item 4 e respectivos subitens do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 37.489.065,28. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0003.PASSIVO FICTÍCIO PELA NÃO COMPROVAÇÃO INTEGRAL DO SALDO EXISTENTE NA CONTA IRPJ A RECOLHER. Vide item 7 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 175.000,00. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280, 281, III, e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0004.DEDUÇÃO DE PIS E COFINS NÃO COMPROVADOS. Vide item 5 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 426.239,69. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634. 0005.DEDUÇÃO DE IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS (ISS) NÃO COMPROVADO. Vide item 6 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 590.343,27. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634. Auto de infração de multa regulamentar fls. 1644/1647 0001.APRESENTAÇÃO EXTEMPORÂNEA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL (ECD). O sujeito passivo apresentou extemporaneamente a ECD exigida nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779/99, ensejando a aplicação de multa no valor de R$ 1.500,00 por mês-calendário ou fração de atraso, uma vez que, na última declaração apresentada, apurou lucro real, conforme termo de verificação fiscal. Datas dos fatos geradores: 30/07/2010 (multa de R$ 9.000,00) e 30/06/2011 (multa de R$ 2.250,00). Enquadramento legal: art. 16 da Lei nº 9.779/99; art. 57, I, b, e §§ 2º e 3º, da Medida Provisória nº 2.158-35/01, com redação dada pela Lei nº 12.766/12. Auto de infração de Cofins fls. 1648/1652 0001.INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À COFINS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo da Cofins, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%. Enquadramento legal: art. 8º da Lei nº 9.718/1998; art. 1º da Lei Complementar nº 70/91; art. 2º da Lei nº 9.718/98, art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09. Auto de infração de PIS fls. 1653/1657 0001.INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo do PIS, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%. Enquadramento legal: art. 1º da Lei Complementar nº 7/70; arts. 2º, I, e 9º da Lei nº 9.715/98; art. 2º da Lei nº 9.718/98; art. 8º, I, da Lei nº 9.715/98; art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 79 da Lei nº 11.941/2009; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09. Ciência dos lançamentos Em 31/07/2014, conforme termo a fls. 1661, a autuada tomou ciência, pessoalmente, dos lançamentos. Impugnação Em 29/08/2014, foi apresentada a impugnação a fls. 1681/1725, cujo teor pode ser assim resumido: I. Tempestividade A impugnação é tempestiva. II. O auto de infração Com relação ao item 2 (omissão de receitas relativas a recibos complementares), ao item 5 (dedução de PIS e de Cofins não comprovada) e ao item 6 (dedução de ISS não comprovada), todos do termo de verificação fiscal, a requerente informa que incluiu os débitos no Refis. Vide documento nº 5 (fls. 1820/1823). Com relação ao item 4 (glosa de exclusões da receita bruta), ela informa que efetuou o pagamento de todos os débitos constantes dos subitens 4.2 e 4.4, com a redução no valor da multa em razão de o pagamento ter sido efetuado no prazo de até 30 dias contados da lavratura do auto de infração. Vide documento nº 6 (fls. 1824/1825). Informa-se ainda o pagamento integral do débito do item 8 (multa por atraso de entrega da ECD). Vide documento nº 6 (fls. 1826). O entendimento fiscal está equivocado no que diz respeito ao item 3 (exclusões indevidas da base de cálculo do PIS e da Cofins receita de intermediação), ao item 4.1 (custos com transporte aéreo), ao item 4.3 (deduções de despesas com pagamento de comissões não comprovadas) e ao item 7 (passivo fictício). III. Supostas exclusões indevidas da receita bruta (item 3): a não incidência de PIS e de Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos O item 3 da autuação exige PIS/Cofins em razão da suposta falta de tributação sobre valores repassados a terceiros, fornecedores de serviços turísticos e agências de turismo (lojas). Conforme se verifica do termo de verificação fiscal (fls. 1581), em dezembro de 2009, a requerente teria auferido receita bruta de R$ 349.788.292,00 e indevidamente excluído de tal montante o valor de R$ 331.303.424,00, relativo aos repasses a fornecedores e a Tx. Serviços Agências. No entanto, tais valores, por se tratarem de receitas de terceiros, foram corretamente desconsiderados para fins de determinação da base de cálculo do PIS/Cofins. III.1. A atividade de intermediação de serviços turísticos (a) As atividades desenvolvidas pela requerente e a intermediação de serviços turísticos A requerente é empresa brasileira que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior. Na condição de intermediadora de serviços turísticos, a requerente está sujeita ao recolhimento do ISS, e a sua atividade está prevista no item 9 da lista de serviços anexa à LC 116/2003. A requerente mantém uma rede de contatos e acordos com os fornecedores dos serviços turísticos (hotéis, companhias aéreas etc), realizando a organização, estruturação e oferecimento dos serviços turísticos prestados por tais fornecedores aos clientes/passageiros tomadores dos serviços, de forma individual ou em pacotes (conjunto de serviços turísticos de diferentes naturezas). A requerente atua por intermédio de agências filiais (lojas filiais) ou agências terceirizadas (lojas terceirizadas), com as quais firmou contratos de franquia empresarial, responsáveis pela comercialização de pacotes turísticos previamente estruturados ou serviços turísticos individuais prestados pelos fornecedores aos clientes/passageiros. As lojas filiais são detidas por outra empresa do grupo, denominada CVC Serviços Agência de Viagens Ltda. e, pois, representam pessoa jurídica diversa da requerente. Originalmente, a CVC firmou contratos de cooperação comercial e operacional com as agências terceirizadas. Mais recentemente, visando reestruturar as suas operações, estreitar as relações comerciais existentes e fidelizar as agên1cias terceirizadas, a CVC firmou contratos de franquia com tais agências. A natureza e extensão do serviço de intermediação realizado pela requerente é definido, de forma precisa, pelo artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 (Lei Geral do Turismo - LGT). O art. 27 da Lei n° 11.771/2008 prevê que a agência de turismo é a pessoa jurídica que: realiza a intermediação entre fornecedores e consumidores de serviços turísticos; ou fornece os serviços turísticos diretamente aos consumidores. O § 3º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece que as atividades de intermediação das agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a comercialização dos serviços turísticos fornecidos por terceiros aos consumidores. A agência de turismo que fornece diretamente os serviços turísticos aos clientes é aquela que disponibiliza e comercializa os serviços em seu próprio nome, ou seja, ela própria é responsável pelo fornecimento/realização/execução dos serviços turísticos aos clientes/passageiros. Um bom exemplo é a assessoria de embarque/desembarque, serviço prestado na origem, no local de destino e/ou nas escalas de viagens, com o objetivo de recepcionar, instruir, informar e auxiliar os clientes/passageiros em relação às suas viagens, serviço normalmente prestado por funcionários das próprias agências (ou seja, diretamente por elas). Outro exemplo são os serviços de guias turísticos no destino, que em algumas localidades são prestados por funcionários das próprias agências de viagens locais (ou seja, e mais uma vez, diretamente por elas). A Lei n° 12.974, de 15/05/2014, previu dois diferentes tipos de agências de turismo: agência de viagens, que realiza tão somente a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos; e agência de viagens e turismo, que, além de realizar a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos, realiza de forma privativa o assessoramento, planejamento e organização das atividades relacionadas às viagens e/ou a organização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens (inclusive educacionais ou culturais) e intermediação remunerada na sua execução e comercialização. O § 2° do art. 5º da Lei n° 12.974/2014 estabelece, de forma clara, que a agência de viagens e turismo que realiza o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens pode denominar-se operadora turística. A previsão legal mencionada apenas reflete a prática já adotada no mercado e igualmente refletida na legislação anterior que tratava da matéria. Na linguagem comum e na sistemática legal até então em vigor, a agência de viagens operadora é e sempre foi aquela que organiza e contrata os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, com o objetivo de que sejam oferecidos aos turistas, enquanto a agência de viagens, em regra, não organiza ou contrata estes serviços em favor dos clientes/passageiros, mas apenas os comercializa nos pontos de venda ou pela internet. Na literatura de Carlos Alberto Tomelin, é possível identificar tal conceituação: Agências operadoras (conhecidas no mercado nacional como operadoras) elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes) com seus próprios equipamentos ou subcontratação de operadores terrestres locais, e podem vender seus produtos às agências detalhistas e ao público em geral através de seus escritórios locais. As operadoras, que elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes), podem vendê-los diretamente ao consumidor final, através de seus escritórios locais, ou indiretamente, através das agências de viagens. Mas sempre mantendo seu papel de intermediação entre os fornecedores e os consumidores finais. Além disso, podem operar com seus próprios equipamentos e pessoal e/ou podem subcontratar agências receptivas locais. No caso de comercialização através das agências (detalhistas) e de subcontratação das receptivas, pagam comissão sobre o produto/serviço comercializado/prestado. Agências de viagens detalhistas (conhecidas no mercado nacional como agências de viagens ou agências varejistas) geralmente não elaboram seus próprios produtos, mas principalmente comercializam viagens com roteiros preestabelecidos (pacotes), organizados por agências maioristas ou operadoras de turismo, e podem ou não oferecer serviços de receptivo. Mas agências detalhistas podem montar pacotes customizados para clientes específicos, incluindo todos os tipos de serviços turísticos. Algumas optam por trabalhar com segmentos de mercado específicos (ex: agências de intercâmbio), além de atender o público em geral. A operadora turística se diferencia da simples agência ao negociar e contratar com os fornecedores os serviços turísticos, individuais ou na forma de pacotes, realizando a comercialização de tais serviços diretamente ou, como é mais comum, por intermédio de agências filiais ou terceirizadas. Portanto, haja vista os conceitos previstos nas Leis ns. 11.771/2008 e 12.974/2014, bem como na legislação anterior que tratava da matéria, para se caracterizar como agência de turismo, a pessoa jurídica deve realizar a intermediação ou oferecer os serviços turísticos ela própria (diretamente, em seu nome) e, dependendo da natureza e extensão da atividade específica desenvolvida, a agência poderá denominar-se agência de turismo ou agência de viagens e turismo / operadora turística. O fato de determinado contribuinte caracterizar-se como agência de viagens e turismo / operadora turística não significa, diferentemente da errônea classificação defendida pelo agente fiscal, que tal empresa oferece os serviços turísticos diretamente aos clientes/passageiros. Pelo contrário, o mínimo conhecimento do mercado de que ora se cuida demonstra que as agências de viagens e turismo / operadoras turísticas, na esmagadora maioria de suas operações, realizam a intermediação entre os fornecedores e passageiros, ainda que comercialize os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, por meio de outras Agências. Seja agência de viagens ou agência de viagens e turismo / operadora turística, a caracterização da espécie de serviço por ela realizado não é determinável a priori, mas sim com base nas atividades que são, de fato, realizadas. Se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística prestar determinados serviços de forma direta (e não por intermédio dos terceiros fornecedores), não restará configurada a atividade de intermediação. Por outro lado, se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística tiver como propósito a organização e oferecimento de serviços turísticos prestados por terceiros aos clientes/passageiros (passagens áreas, hospedagem etc), estará realizando a atividade de intermediação de que trata a legislação do setor. (b) Enquadramento da requerente como agência de viagens que realiza a atividade econômica de intermediação remunerada A requerente é uma agência de viagens e turismo/operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros. A requerente sabidamente não presta serviços turísticos diretamente. De outra sorte, estaria também listada entre as companhias aéreas ou redes hoteleiras e não somente entre as agências de viagem. No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante alega que a operadora de turismo, conforme se depreende da leitura do caput do art. 27 da LGT, é empresa que fornece os serviços diretamente em seu nome e conclui que o sujeito passivo CVC Brasil atua sempre como operadora de turismo. O autuante aponta que enquanto a requerente atuou como operadora de turismo, pois comprou e revendeu, em seu nome, diárias de hotéis, as lojas atuaram como agências de viagens (de turismo em sentido estrito) (...) que representaram o sujeito passivo e realizaram as vendas diretamente junto ao cliente. O esforço em descaracterizar a requerente como agência de turismo se justifica para fundamentar a errônea premissa de que os valores referentes aos repasses aos fornecedores e as comissões às lojas seriam custos dela e não receitas de terceiros. O fato de a requerente também realizar atividades próprias de operadora turística não afasta a sua caracterização como agência de viagem que tem como atividade principal a intermediação remunerada de serviços turísticos. A requerente reserva, negocia e contrata os serviços turísticos junto aos fornecedores e, na maior parte das vezes, os organiza/estrutura na forma de pacotes para facilitar as viagens dos clientes/passageiros, disponibilizando-os por intermédio das lojas (filiais ou terceirizadas). A requerente não presta ela própria os serviços turísticos aos clientes/passageiros. A sua atividade é de mera intermediação destes serviços. Para fornecer diretamente os serviços (e, pois, ter a obrigação de oferecer os valores totais recebidos pelos clientes/passageiros à tributação), a requerente teria que prestar diretamente os serviços turísticos comercializados, afastando qualquer atuação por parte dos terceiros fornecedores (companhias áreas, hotéis etc), o que não é o caso. A lógica fiscal leva à absurda e impossível conclusão de que a requerente estaria prestando serviços aéreos, de hospedagem, de transporte de passageiros por via terrestre etc. Seria ela, pois, uma companhia aérea, capaz de transportar passageiros entre os aeroportos brasileiros e internacionais? Estaria, portanto, atuando no ramo hoteleiro, em estabelecimentos próprios? Utilizando-se, então, de veículos próprios para percorrer as estradas pelo mundo? A atividade desenvolvida pela requerente é a de intermediação de serviços turísticos, englobando a oferta, a reserva e a venda desses serviços, que serão prestados pelos fornecedores e tomados pelos clientes/passageiros. III.2. A não incidência de PIS/Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos e comissões repassadas às lojas O autuante entendeu que a requerente realizaria compra e venda de serviços turísticos. Portanto, os valores repassados aos fornecedores e as comissões repassadas às lojas seriam verdadeiros custos de suas operações, não sendo passíveis de exclusão da base de cálculo do PIS/Cofins, por ausência de previsão legal. Contudo, a requerente presta serviço de intermediação de serviços turísticos. Tais valores não compõem a base de cálculo das contribuições em questão; são, na verdade, receitas de outras empresas. (a) O conceito de receita para fins de PIS/Cofins e a impossibilidade de tributação das receitas de terceiros A requerente está sujeita ao regime cumulativo de PIS/Cofins, regulado pela Lei n° 9.718/1998. O seu art. 1º prevê que tais contribuições incidirão sobre o faturamento mensal da pessoa jurídica, que corresponde à sua receita bruta. É possível identificar receita como um ingresso que se incorpore de maneira positiva e definitiva ao patrimônio de uma empresa, decorrente de remuneração ou contraprestação de suas atividades sociais, isto é, proveniente da venda de bens e prestação de serviços (fls. 1691). Apenas os valores que efetivamente modificam o patrimônio líquido da empresa, de forma a incrementá-lo, e que ingressam nas contas da empresa de forma definitiva e incondicional, em decorrência das atividades sociais desenvolvidas pela empresa, devem ser considerados receita para fins de cômputo da base das contribuições. Os valores que não se enquadrem nesse conceito e não possuam estas específicas características (positividade, definitividade e causalidade) não podem assim ser caracterizados. A doutrina mais abalizada afirma que as receitas de terceiros devem ser desconsideradas para fins de determinação da receita tributável, justamente por não integrarem o patrimônio da empresa que as recebe (fls. 1692). Segundo tanto o antigo Conselho de Contribuintes como o atual Carf, os valores recebidos e repassados a terceiros não devem ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins (fls. 1692/1693). No âmbito contábil, as receitas de terceiros também não são consideradas como receitas próprias da empresa que as recebe, como demonstram o CPC n° 30/2012 e a Resolução CFC n° 1.255/2009 (fls. 1693/1694). As receitas transferidas a terceiros não podem ser caracterizadas juridicamente como receita, uma vez que não representam um acréscimo patrimonial efetivo e definitivo e não decorrem de uma atividade desenvolvida pela empresa, o que indica a inexistência da natureza causal que legitime a exigência. E nem se diga que a revogação do inciso III do § 2º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, que expressamente permitia a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins de valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, seria capaz de alterar essa conclusão. Tal revogação não pode implicar tributação das receitas de terceiros. O texto do referido inciso III (como, aliás, de todas as hipóteses de exclusão previstas naquele dispositivo) tinha função meramente didática, pedagógica, visando instruir os contribuintes que haviam, indevidamente, incluído como receita própria valores que tivessem sido transferidos para outra empresa (fls. 1694). Como aponta José Antonio Minatel, as previsões do § 2º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 seja na sua redação anterior ou na atualmente em vigor revelam realidades desprovidas de conteúdo material que permita qualificá-las como receitas,sendo, portanto, inócua a pretensão de excluí-las de conjunto no qual nunca estiveram incluídas (fls. 1694). A expressa autorização para excluir as receitas de terceiros contida no referido inciso III é irrelevante para determinar a tributação ou não sobre receitas de terceiros. Tais valores com ou sem essa previsão não constituem receita. (b) A determinação da receita auferida pela requerente e a correta não tributação dos valores repassados a terceiros/fornecedores O conceito jurídico de receita abarca apenas os valores que representam acréscimos patrimoniais efetivos e definitivos e que resultam diretamente da atividade econômica desenvolvida pela empresa. A legislação específica do turismo confirma que a receita da agência de turismo não pode abarcar a integralidade dos valores recebidos, mas apenas a verdadeira remuneração auferida pela atividade de intermediação. O § 2° do art. 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece qual é a receita (preço do serviço) auferida pela agência de turismo: O preço do serviço de intermediação é a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultando-se à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados. O preço do serviço de intermediação das agências de turismo é e somente pode ser a comissão recebida dos fornecedores e/ou o valor agregado ao preço de custo desses fornecedores, e não o valor total dos ingressos. Não obstante, o autuante faz verdadeiro exercício interpretativo para justificar que o § 2° do referido art. 27 não poderia ser analisado em sua literalidade e, com isso, defender a tributação sobre o valor bruto recebido pela requerente da venda de pacotes turísticos. Conforme relatório fiscal (fls. 1587), o autuante entende que ao se fazer uma interpretação teleológica, percebe-se que o legislador não teve por objetivo, no artigo 27 da LGT, a exclusão dos custos (repasse a fornecedores, segundo o sujeito passivo) das bases de cálculo do PIS e da Cofins. Para sustentar o seu teratológico posicionamento sobre a inexistente obrigação de submeter à tributação o valor total recebido dos clientes em remuneração à aquisição de pacotes turísticos, que inviabilizaria a atividade de toda e qualquer agência de turismo no Brasil, o autuante, além de partir de premissas equivocadas quanto à natureza das atividades da requerente, utiliza quatro argumentos principais: a requerente não realiza repasse de valores aos fornecedores, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio; as notas fiscais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente; o art. 46 da Lei n° 11.771/2008, que permitira a tributação exclusiva das receitas de intermediação de forma expressa, foi vetado pelo Poder Executivo; e as orientações emitidas pela RFB, por meio de soluções de consulta, determinam a tributação integral dos valores recebidos pela requerente. Contudo, conforme será detalhado abaixo, nenhum destes argumentos se sustenta. (b.l) Intermediação versus compra e venda O primeiro argumento fiscal está embasado na equivocada premissa de que a requerente não realiza atividade de intermediação de serviços turísticos, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio. O agente fiscal alega que a requerente não realizaria repasses de receitas a terceiros (no caso, os fornecedores) e que os valores a eles remetidos configurariam custo da sua atividade. A requerente é agência de viagens e turismo / operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e cliente/passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros. O fato de ser uma operadora turística não afasta a caracterização da sua atividade principal de intermediação de serviços turísticos. A requerente julga pertinente tecer breves observações sobre as evidentes diferenças técnicas e jurídicas sobre as operações de intermediação e compra e venda. Na operação de compra e venda, prevista no art. 481 do CC/2002, a empresa adquire determinada mercadoria de seu fornecedor e a revende ao consumidor, cobrando uma margem de lucro. O ganho da empresa provém do próprio cliente, que acaba pagando um valor maior pelas mercadorias adquiridas. É o típico caso dos supermercados, que compram mercadorias e as revendem aos consumidores, agregando um valor adicional ao preço. No que se refere à compra e venda, a empresa adquire a titularidade da mercadoria que será revendida. O principal aspecto do negócio jurídico de compra e venda é a efetiva transferência de titularidade/propriedade sobre o bem em questão. Diferentemente, no caso da intermediação, a empresa efetua o contato entre os participantes da cadeia (no caso, o fornecedor e consumidor), atuando como verdadeiro elo. A empresa intermediadora é remunerada em função do serviço desenvolvido. Na intermediação, o elemento da remuneração decorre da existência da prestação do serviço e não se verifica a transferência de titularidade/propriedade para a empresa que realiza a intermediação. É possível citar, além da intermediação de serviços turísticos, uma série de atividades de natureza análoga: representação comercial, em que determinada empresa realiza a mediação para realização de negócios mercantis, em nome do representado; planos de saúde e assistência médica, em que a administradora do plano disponibiliza a rede de médicos e hospitais e laboratórios aos conveniados; administração de cartão de crédito/débito, em que a empresa administradora recebe os pagamentos e os transfere para os vendedores credenciados; corretagem de imóveis, em que a corretora realiza a intermediação para possibilitar a compra/venda ou a locação de imóveis; agenciamento de publicidade, em que a agência de publicidade promove a divulgação de serviços/produtos em nome do anunciante, entre outros. Em nenhuma dessas atividades se verifica o negócio de compra e venda, uma vez que a intermediadora apenas realiza o elo entre as partes envolvidas. Todas as atividades estão previstas como serviços na lista anexa à LC 116/2003. É o caso da intermediação de serviços turísticos (item 9.01 da lista). A atividade desenvolvida pela requerente é a efetiva prestação de serviço de intermediação. Ela não compra passagens e hospedagens e as revende em seu nome, mas sim organiza, reserva e contrata os serviços turísticos prestados pelos fornecedores e os oferece e comercializa aos clientes/passageiros. A prestação de serviços no caso concreto envolve obrigação de fazer, ou seja, realizar o contato entre os fornecedores e os passageiros, viabilizando as viagens que serão por estes últimos usufruídas. A prestação de serviços no direito brasileiro envolve, essencialmente, obrigações de fazer as quais se opõem às obrigações de dar, em que uma das partes cede um bem à outra. Prestar serviço é disponibilizar um bem imaterial, uma utilidade, que se produz mediante o esforço humano, físico ou intelectual, que é colocado à disposição do tomador. É desarrazoado pensar na hipótese de compra e venda no caso concreto. A requerente realiza verdadeira obrigação de fazer, consubstanciada na reserva e oferta aos clientes/passageiros de serviços turísticos (individuais ou por meio de pacotes) prestados por fornecedores habilitados para tanto. Logo, é incorreta e jurídica e taticamente impossível a premissa adotada pelo autuante. Os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos não podem ser caracterizados como custos. A requerente não compra e revende serviços turísticos, mas atua na intermediação entre fornecedores e clientes/passageiros. O conceito de custo abarca os dispêndios básicos da empresa, necessários à manutenção da atividade e comercialização, conforme se depreende da legislação do imposto de renda. Não podem ser caracterizados como custos os valores referentes aos repasses efetuados aos fornecedores e às lojas em relação aos serviços que serão prestados aos clientes/passageiros. Tais montantes não correspondem a insumos ou qualquer outra espécie de ativo/bem/direito adquirido pela requerente, necessários ao desenvolvimento de suas atividades operacionais. Os serviços turísticos são reservados, negociados e contratados pela requerente em nome e benefício dos clientes/passageiros, seus verdadeiros tomadores. Portanto, a pretensão do autuante não se sustenta sob qualquer óptica. Os valores referentes aos repasses não refletem custos da requerente, mas receitas de terceiros recebidas dos clientes/passageiros e remetidas aos verdadeiros titulares, os efetivos fornecedores dos serviços turísticos. (b.2.) A irrelevância do destinatário indicado nas notas fiscais para determinar a natureza das operações e a caracterização da receita tributável O segundo argumento fiscal para sustentar a tributação da receita bruta da venda de pacotes turísticos é o de que as notas fiscais e/ou faturas comerciais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente. No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante busca reforçar a tese de que a requerente não presta serviço de intermediação, mas sim realiza a compra e revenda de serviços turísticos. Ele aponta que os hotéis não emitiram as faturas/notas fiscais em nome do hóspede, mas sim em nome do sujeito passivo, CVC Brasil e ainda foram juntadas cópias das faturas emitidas pelas cias aéreas em face do sujeito passivo CVC Brasil. O fato de os fornecedores (efetivos prestadores dos serviços aos clientes) emitirem as notas fiscais e/ou faturas comerciais contra a requerente, por razões legais, estritamente operacionais e/ou alheias à sua vontade, não desnatura a essência da atividade de intermediação dela. A requerente realiza intermediação de serviços turísticos, o que por si só afasta a possibilidade de que a simples emissão de documentos fiscais ou comerciais pelos fornecedores altere a natureza de suas atividades e, consequentemente, da sua tributação. Exemplo desta circunstância são os faturamentos relacionados às passagens aéreas. As companhias aéreas não emitem notas fiscais contra os passageiros por expressa determinação legal. Os bilhetes aéreos as substituem e são considerados, para todos os efeitos legais, como documentos fiscais válidos. A título exemplificativo, no Estado de São Paulo, tal sistemática está regulada nos arts. 124 e 171 do Regulamento do ICMS (fls. 1700/1701). As faturas comerciais emitidas pelas companhias aéreas contra a requerente apenas formalizam os valores que deverão ser repassados por ela aos efetivos prestadores dos serviços de transporte aéreo usufruídos pelos clientes/passageiros. Concomitantemente, os bilhetes aéreos, que substituem as notas fiscais, são emitidos contra cada um dos passageiros, tomadores de tais serviços. As alegações do agente fiscal não passam de ilações desarrazoadas que ignoram o mercado e a própria legislação de regência. No âmbito do procedimento de fiscalização, a requerente apresentou uma série de documentos contábeis e fiscais que atestam a regularidade dos procedimentos adotados. Conforme exigido pela fiscalização, para determinadas operações, a requerente apresentou descrição completa de todos os lançamentos realizados, comprovando que os valores recebidos dos clientes não alteram positivamente o seu patrimônio e são regularmente repassados aos fornecedores dos serviços turísticos (Doc. n° 7 fls. 1827/1871). A requerente demonstrou que os valores a serem remetidos a terceiros são lançados em uma conta específica e transitória e são efetivamente transferidos aos verdadeiros titulares. Os documentos que suportam tal procedimento contratos firmados com os passageiros, extratos bancários que atestam os valores recebidos e repassados aos fornecedores, faturas emitidas pelos fornecedores e notas fiscais emitidas com o valor da intermediação da requerente foram apresentados na fiscalização (Doc. n° 8 fls. 1872/1938). A despeito do destinatário indicado nas faturas / boletos / notas fiscais, não há como desconsiderar a real natureza das operações e entender que a requerente é a tomadora dos serviços turísticos prestados pelos fornecedores quando a sua atividade é nitidamente de intermediação. A premissa adotada pelo autuante ao lavrar a presente autuação está incorreta. A receita auferida pela requerente não abarca a totalidade dos valores pagos pelos clientes/passageiros na aquisição dos serviços turísticos, mas tão somente as comissões a que faz jus, apuradas mediante a diferença entre os valores recebidos e os repassados a terceiros (fornecedores e lojas). (b.3.) O veto ao artigo 46 da Lei n° 11.771/2008 O terceiro argumento para defender a exigência fiscal se refere ao veto do art. 46 da Lei n° 11.771/2008. A redação inicial do projeto de lei que deu origem à Lei n° 11.771/2008 trazia artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo. Indicava-se que deveria ser considerada receita apenas a comissão recebida dos fornecedores ou o valor agregado ao preço de custo. O artigo foi vetado sob a justificativa de que o dispositivo, supostamente: deformaria o conceito de lucro e faturamento/receita bruta; ofenderia o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal, por ausência de estudo de impacto nas finanças públicas e previsão orçamentária; e principalmente, seria contrário ao interesse público, por aumentar a complexidade do sistema tributário. O veto foi efetuado de maneira genérica e pouco aprofundada, levando em consideração razões políticas que não se coadunam com o sistema de tributação do PIS e da Cofins. O veto não é capaz de gerar obrigação tributária, ainda mais sobre valores que não podem ser configurados como receita. O STF já reconheceu que as razões de veto correspondem a ato de natureza eminentemente política, não podendo servir como parâmetro interpretativo das normas de Direito Tributário. Consequentemente, são insuficientes para justificar qualquer incidência tributária. A aplicação do Direito Tributário deve se pautar na legislação tributária, que compreende as leis, os tratados e as convenções internacionais, os decretos e as normas complementares (arts. 96 e 100 do CTN). Os atos legais que tratam do tema não permitem a tributação de valores que não incrementam o patrimônio da requerente de forma definitiva e que são posteriormente repassados aos fornecedores de serviços turísticos O fato de o artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo ter sido vetado, por razões estritamente políticas, não significa que o PIS/Cofins deve incidir sobre a totalidade dos valores recebidos. O conceito jurídico de receita não abarca os valores recebidos e repassados a terceiros. A interpretação teleológica do autuante, embasada no veto, não altera essa conclusão. A análise teleológica e sistemática das normas que cuidam do tema levam a conclusão oposta. Os valores repassados a terceiros pelas agências de turismo devem ser desconsiderados na determinação da receita própria passível de tributação, o que é corroborado pela doutrina pátria e pela jurisprudência dominante. (b.4.) A correção dos procedimentos adotados pela requerente com base nas soluções de consulta editadas pela RFB Como último argumento, o autuante baseia-se em supostas soluções de consulta que estabeleceriam a impossibilidade das agências de turismo de excluir receitas de terceiros da base de cálculo do PIS/Cofins. A interpretação dada pelo autuante às soluções de consulta se embasa na equivocada premissa de que a requerente não realizaria intermediação de serviços turísticos. Na verdade, as soluções de consulta da RFB confirmam os procedimentos da requerente. Mesmo antes da edição da Lei n° 11.771/2008, a RFB já havia editado várias soluções de consulta admitindo que os valores repassados a terceiros não integram a receita bruta das agências de turismo, conforme ementas transcritas a fls. 1704/1705. A Solução de Divergência n° 2, de 21/03/2007, mencionada pelo autuante a fls. 1588, de fato determina a incidência do PIS/Cofins sobre a totalidade das receitas auferidas, impedindo a exclusão dos valores repassados a terceiros. Mas ela reflete posicionamento isolado e que logo foi modificado. Conforme ementas transcritas a fls. 1705/1707, desde 2008 a RFB vem proferindo uma série de soluções de consulta no sentido de que apenas as comissões auferidas ou adicional percebido em razão da intermediação pelas agências deverão ser objeto de tributação. O autuante se reporta à Solução de Divergência n° 3, de 30/04/012, e à Solução de Consulta n° 17, de 13/03/013, para respaldar a sua autuação. Mas conclusões ali delineadas confirmam os procedimentos da requerente. Nas referidas soluções, é consignado que, no caso de agência de turismo que realiza a atividade de intermediação, como é o caso da requerente, a receita corresponderá à comissão ou ao adicional por ela recebido. O trecho final das mencionadas soluções indica que caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. O autuante alega que esse trecho vai ao encontro da tese da fiscalização que veda a exclusão dos custos (repasses aos fornecedores) das bases de cálculo do PIS e da Cofins. Ainda segundo o atuante, o sujeito passivo atua sempre como operadora de turismo, na medida em que restou comprovado (...) que todos os serviços turísticos, mesmo diárias de hotel e bilhetes aéreos vendidos isoladamente, sempre são vendidos em nome do sujeito passivo, representado por uma loja credenciada (agência de viagem ou turismo em sentido estrito). Não obstante, a requerente não fornece serviços turísticos diretamente, mas realiza a atividade de intermediação a eles relacionada. A requerente atua como elo entre os fornecedores e os clientes tomadores de tais serviços, o que exclui a possibilidade de aplicação da parte final da solução de consulta. O entendimento de que a receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes se aplica exclusivamente no caso em que a agência de viagens prestar/executar ela própria os serviços aos clientes/passageiros (e.g., realizar o serviço de assessoramento de embarque/desembarque, proceder ao transporte de passageiros etc), o que não se verifica no caso. O fato de a requerente ser caracterizada como operadora turística, por proceder à organização dos serviços turísticos, oferecidos isolada ou conjuntamente, na forma de pacotes, não tem o condão de afastar ou desnaturar a essência da atividade de intermediação empreendida. As soluções de consulta citadas comprovam que os procedimentos da requerente para a determinação da sua base tributável pelo PIS e pela Cofins foram absolutamente regulares. (b.5) A orientação da jurisprudência a respeito da não tributação das receitas de terceiros relacionadas às agências de turismo O Carf entendeu que, tratando-se de atividade de intermediação de serviços turísticos, é indevida a tributação sobre os valores recebidos e repassados a terceiros, conforme decisões transcritas a fls. 1709/1710. Os nossos tribunais superiores também têm reconhecido que as agências de turismo intermediadoras têm direito de computar na sua receita somente as comissões auferidas, conforme ementa transcrita a fls. 1710. O Órgão Especial do TJ/SP, ao analisar a constitucionalidade de lei municipal de Barueri, reconheceu que os valores que ingressam nos cofres da empresa para serem repassados a terceiros não correspondem ao preço do serviço. O voto vencedor valeu-se expressamente do exemplo das agências de turismo, conforme excerto transcrito a fls. 1711. Quando se discute o tema de receitas de terceiros em relação às atividades de turismo ou situações análogas, a jurisprudência vem repetidamente afirmando que tais valores não compõem a receita tributável. Exemplo disso são as atividades relacionadas às agências de propaganda e publicidade, nas quais a jurisprudência vem admitindo de forma unânime a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins dos valores por elas repassados aos veículos de divulgação (i.e., terceiras empresas, tais como as de televisão, rádio, jornais etc), conforme acórdãos do Carf citados a fls. 1711/1712. Os TRFs vêm reconhecendo que os valores objeto de repasse a terceiros pelas agências de publicidade (e, via de consequência, em quaisquer outras atividades em que exista sistemática de repasse de receitas equivalentes) não devem ser integrados à receita para fins de tributação. A mesma orientação é seguida pelos tribunais no caso de empresas agenciadoras de mão-de-obra, que também recebem determinados valores, referentes aos salários e encargos, que são repassados a terceiros e que, portanto, não devem compor a receita para fins de tributação. O STJ também já entendeu que a empresa agenciadora de mão-de-obra tem o direito de recolher os impostos apenas sobre os valores de suas comissões, indicando que as receitas de terceiros não caracterizam preço do serviço. Os nossos tribunais também afastaram a tributação integral sobre os valores recebidos pelas operadoras de planos de saúde, ressaltando que os valores referentes aos repasses feitos aos prestadores de serviços de saúde (tais como hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc.) não consistem em receita própria da operadora. Ali também, a exemplo do que ocorre com as agências de turismo, existe mera intermediação entre os fornecedores (em um caso, hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc; em outro, hotéis, passagens etc) e os clientes finais, beneficiários e tomadores efetivos destes serviços (na primeira hipótese, os pacientes; na segunda, os turistas). Os exemplos são múltiplos e a conclusão sempre idêntica. Valores recebidos por terceiros intermediários, cuja atividade, pela sua natureza, implique no recebimento de valores que serão posteriormente repassados a terceiros, sem afetar o seu patrimônio de forma positiva, não podem ser tributados pelo PIS/Cofins. Os tribunais administrativos e judiciais têm reiteradamente afastado a tributação sobre os valores relativos a receitas de terceiros, tanto no caso de agência de viagens como em outras situações envolvendo empresas intermediadoras. III.3. A exclusão das comissões pagas e dos valores relacionados aos navios fretados Em seu relatório (fls. 1590), o autuante admite a hipótese de um julgamento favorável à tese do sujeito passivo, no sentido de permitir a exclusão dos custos (repasses a fornecedores). Nessa eventualidade, o autuante requer, ao menos, seja mantida a exigência fiscal em relação ao: valor de R$ 39.207.736,00 pago às lojas a título de comissão pelas vendas dos pacotes turísticos; e valor de R$ 44.307.221,00 referente aos gastos com navios. No que tange às comissões remetidas às lojas, tais valores correspondem às remunerações devidas em contrapartida ao serviço de intermediação não da requerente, mas das próprias lojas prestado aos passageiros. Da mesma forma como a requerente é remunerada pela intermediação realizada entre os fornecedores de serviços turísticos e os clientes/passageiros, as agências que realizam a intermediação comercial destes produtos também são remuneradas pela prestação de serviços que realizam. Não existe dúvida quanto à impossibilidade de exigência de tributação destes valores pela requerente. Eles se referem a comissões devidas pelos passageiros diretamente às lojas que comercializam os serviços / pacotes turísticos e que, inclusive, são objeto de emissão de notas fiscais diretamente por elas aos passageiros, no exato valor de suas remunerações. No caso de pagamento em espécie ou cheque, em regra os clientes/passageiros pagam a totalidade dos serviços turísticos adquiridos às lojas. Estas retêm as parcelas relativas às respectivas taxas de serviço/comissões e remetem os valores remanescentes à requerente que, por sua vez, repassará os valores devidos aos fornecedores de serviços turísticos. Tais valores sequer ingressam na requerente, razão pela qual, além de todos os motivos já expostos, não se pode considerar tais montantes como sua receita própria. Não há que se falar em exclusão indevida dos valores relativos às comissões, por se tratar de receitas próprias das lojas e não da requerente, formalizadas por notas fiscais emitidas diretamente contra os clientes/passageiros. No que tange aos gastos com navios, a requerente esclarece que no período de 2009 estava em vigor o contrato de afretamento firmado com a empresa Pullmantur Cruises S.L., domiciliada na Espanha. Mencionado contrato previa que a Pullmantur coordenaria e administraria os cruzeiros, enquanto a requerente seria responsável por oferecer e disponibilizar os pacotes turísticos aos passageiros. Por razões logísticas e visando facilitar as operações, a requerente realizou o pagamento, em nome da Pullmantur e no âmbito do contrato de afretamento, de determinadas despesas, como combustível, encargos portuários, serviços a bordo, shows e animações etc. Contudo, tal fato não impacta nem modifica a natureza da atividade desenvolvida pela requerente nessa situação particular, qual seja, intermediação de serviços marítimos, de modo que a receita de intermediação auferida pela requerente continua sendo a sua comissão recebida e o valor agregado aos serviços. IV. Glosa de despesas com pagamento de comissões (item 4.3) A fiscalização desconsiderou determinados repasses efetuados a título de comissões e exigiu o IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, no valor total de R$ 88.926,79. A requerente apresenta a comprovação relativa a cada uma das glosas efetuadas, conforme tabela a fls. 1715 e documentos a fls. 1939/1967. Tendo em vista a documentação apresentada, deve o presente auto de infração ser cancelado neste ponto. Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99. V. Glosa de despesas com transporte aéreo (item 4.1) Os fatos Na consecução de suas atividades, a requerente recebe recursos e repassa para terceiros em razão da intermediação de transporte aéreo em benefício de seus clientes. Estes repasses não são considerados na base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Ao examinar a documentação entregue pela requerente, o autuante entendeu equivocadamente que: 57.420 bilhetes aéreos, no montante de R$ 32.410.000,04, não diziam respeito a embarques ou desembarques ocorridos em dezembro de 2009; e 885 bilhetes aéreos, no montante de R$ 972.286,74, diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009. A conclusão da fiscalização está pautada em amostra de 30 bilhetes obtidos mediante diligência junto ao sujeito passivo. Destes 30 bilhetes, 28 diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009 e 2 bilhetes eram relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (mas que não constavam dos relatórios de despesas do mês entregues pela requerente). A fiscalização glosou os repasses relativos a 58.305 bilhetes aéreos tendo como fundamento uma amostragem de 30 bilhetes. O autuante toma como base uma amostragem correspondente a 0,051% do total dos recibos aéreos deduzidos pela requerente, para materializar uma exigência de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins no valor total de R$ 27.243.330,98. Deve o presente auto de infração ser reconhecido nulo neste ponto. Caso assim não se entenda, o que se admite apenas para fins de argumentação, a requerente apresenta a comprovação de que a integralidade das despesas cujo repasse foi registrado em dezembro de 2009 corresponde a passageiros que embarcaram no mês. Nulidade do auto de infração - amostragem insignificante A requerente invoca os seguintes dispositivos: art. 10 do Decreto nº 70.235/72; art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99; art. 142 do CTN. A autoridade administrativa deve efetivamente verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação, determinar a matéria tributável e calcular o montante do imposto devido. Trata-se de obrigação funcional, não sendo cabível a exigência genérica com base em análise de amostragem ínfima. Não se nega a possibilidade de utilização da amostragem como um critério técnico válido para a determinação de probabilidades ou até mesmo para imputar aos contribuintes o ônus de comprovar as alegações da fiscalização. Não obstante, a amostragem deve ser relevante e ter validade estatística que justifique a sua utilização. De acordo com o item 11.2.9 do Manual de Princípios Fundamentais de Contabilidade e Normas Brasileira de Contabilidade, editado pelo CFC, os auditores podem empregar técnicas de amostragem para determinar a extensão de um teste de auditoria ou método de seleção de itens a serem testados (fls. 1718). Todavia, a amostra selecionada deve guardar uma relação direta com o volume das transações relacionadas e objeto da pesquisa. O auto de infração é nulo neste ponto, em razão da ausência de apuração, indicação e descrição pormenorizada dos fatos praticados pela requerente, supostamente tidos como irregulares pela fiscalização. A utilização de mera presunção com base em amostragem ínfima não se coaduna com os comandos normativos contidos nos art. 142 do CTN e art. 10 do Decreto n° 70.235/72. (c) A comprovação da efetividade das despesas De forma a comprovar a legitimidade dos repasses efetuados às companhias aéreas, a requerente junta à sua impugnação: relação de 153.490 bilhetes relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 14 fls. 1970/5319); e amostragem de aproximadamente 800 bilhetes efetivamente embarcados no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 15 fls. 5320/6309). Estes bilhetes constam dos relatórios apresentados pela requerente durante o procedimento de fiscalização (recibos com embarque em dez/09) e atestam a legitimidade do registro dos repasses no mês de dezembro de 2009. A amostragem apresentada pela requerente é suficiente para afastar a presunção da fiscalização no sentido de que a empresa registrou o repasse de bilhetes aéreos relativos a embarques de outros meses. Fica comprovado que os valores cujos repasses às companhias aéreas foram registrados em dezembro de 2009 são referentes a repasses efetuados no próprio mês. Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99. V. Passivo fictício (item 7) Exige-se IRPJ, CSLL, PIS e Cofins sobre suposto passivo não comprovado e registrado na contabilidade da empresa. O passivo decorre da diferença entre o valor provisionado a título de imposto de renda e o valor efetivamente pago na DIPJ, de R$ 175.000,00. Ora, se a própria fiscalização esclarece a origem do passivo, não há que se falar na existência de passivo não comprovado. Trata-se apenas de provisão para pagamento de IRPJ efetuada em valor superior ao efetivamente devido. No momento em que foi apurado o tributo devido no período, a requerente baixou a provisão no valor do IRPJ devido, permanecendo um saldo de R$ 175.000,00. Este saldo deveria ter sido baixado à época, mas permaneceu registrado nos livros da requerente por um lapso do seu departamento contábil. A constituição da provisão não gera qualquer impacto na apuração dos tributos da requerente, uma vez que o lançamento é efetuado abaixo da linha do lucro real. Tanto a constituição da provisão, quanto a sua baixa, podem ser efetuadas sem qualquer impacto fiscal. O passivo possui origem e a razão da sua constituição foi devidamente comprovada. A requerente pode baixar o passivo a qualquer momento (como efetivamente foi efetuado), sem que seja verificado qualquer impacto fiscal. Considerando que o passivo pode ser liquidado a qualquer momento sem qualquer impacto fiscal, não há que se falar na presunção de omissão de receitas. VI. A multa de ofício e os juros aplicados a impossibilidade de incidência de juros Selic sobre a multa Para assegurar que, diante de um futuro resultado desfavorável, a atualização do débito não será feita com a incidência de juros pela taxa Selic sobre a multa aplicada, a requerente esclarece o quanto segue. Os débitos tributários exigidos através do auto de infração em referência são acrescidos de multa, agravada ou de ofício. Na prática, após a lavratura dos autos de infração, essas multas passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros Selic. Essa atualização é realizada pelas autoridades fiscais com amparo não na lei, mas no Parecer MF n° 28, de 02/04/1998, emitido pela Cosit (fls. 1720). Mas o artigo 61 da Lei 9.430/96, utilizado pela Cosit para sustentar a incidência de juros sobre as multas, trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo menção às multas de ofício aplicadas pela RFB. O dispositivo que embasa o entendimento do fisco é expresso no sentido de que apenas os débitos decorrentes de tributos e contribuições são atualizáveis. Foi pela ausência de base legal que o Carf já pacificou o entendimento de que tais multas não são atualizáveis, conforme decisões citadas a fls. 1721. A CSRF, no julgamento do recurso de divergência n° 202-131.351, pacificou a questão acerca da ilegalidade da incidência dos juros moratórios sobre a multa aplicada (fls. 1722). Evidencia-se a impossibilidade de cobrança de juros à taxa SELIC sobre a multa aplicada no presente caso. (b) A improcedência dos juros Selic A jurisprudência tem reconhecido a inaplicabilidade da taxa Selic aos créditostributários, uma vez que essa taxa não foi criada por lei para fins tributários. Transcreve-se decisão do STJ nos autos do RE n° 450.422/PR. Não obstante a posição sumulada pelo Primeiro Conselho de Contribuintes, e tendo em vista a possibilidade de a taxa Selic vir a ser considerada inconstitucional para fins tributários pelo Poder Judiciário, requer-se sua desconsideração no cômputo do crédito tributário principal. VII. A conclusão e o pedido A impugnação é tempestiva e deve ser apreciada e acolhida em suas preliminares e razões de fato e de direito, que demonstram a improcedência da exigência fiscal. Em relação ao item 3 do auto de infração, a requerente demonstrou que: a requerente se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior, conforme o item 9 da lista de serviços anexa à LC nº 116/2003; de acordo com o art. 27 da Lei n° 11.771/2008 e com os arts. 2°, 3° e 5º da Lei n° 12.974/2014, a requerente se caracteriza como agência de viagens e turismo / operadora turística, por realizar o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens; o fato de ser denominada de operadora não significa que a requerente realiza o fornecimento direto de serviços turísticos. Pelo contrário, ela apenas reserva e contrata os serviços turísticos, que serão prestados pelos fornecedores diretamente aos clientes/passageiros, realizando nítida atividade de intermediação; os valores coletados e posteriormente repassados a terceiros (efetivos fornecedores dos serviços turísticos) não compõem a receita tributável da requerente, na medida em que não se incorporam ao seu patrimônio de maneira positiva e definitiva (sequer transitam por resultado, aliás), nem advém de suas atividades operacionais. Tal posicionamento é confirmado pelo § 2º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008, que expressamente determina que o preço do serviço das agências de turismo é a comissão recebida dos fornecedores e/ou a taxa de serviços cobrada dos clientes, e não o valor total dos ingressos; e a jurisprudência tem afastado a tributação em relação a valores repassados a terceiros pelas agências de turismo, justamente por reconhecer que os repasses não integram o patrimônio das agências. Aliás, analisando o caso específico da própria requerente, recentemente o Carf afastou a pretensão fiscal de tributar a totalidade das receitas recebidas dos clientes, indicando de forma expressa que apenas os valores correspondentes às comissões ou taxas cobradas pela requerente poderiam ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins. No que diz respeito ao item 4.1 (despesas com passagens aéreas), restou comprovado que o auto de infração é nulo, em razão da ínfima amostragem utilizada pela fiscalização. Além disso, caso o auto de infração seja válido, o que se admite apenas para argumentar, restou comprovado que a requerente apenas registrou repasses às companhias aéreas relativos a embarques efetivamente ocorridos em dezembro de 2009. Especificamente quanto ao item 4.3 (glosa de despesa com pagamento de comissões), a requerente apresentou a documentação que comprova o efetivo pagamento das despesas, de forma que a glosa pretendida não deve ser admitida. Além disso, no que diz respeito ao item 7 (passivo fictício), foi comprovada a origem do passivo (provisão de IRPJ) e a inexistência de impactos fiscais para a sua baixa. Por este motivo, não há que se falar na existência de presunção de omissão de receitas. Por fim, foi demonstrado que a taxa Selic não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária. Pelo exposto, a requerente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do auto de infração, bem como o equívoco cometido autoridade fiscal ao interpretar os fatos e o direito a eles aplicável neste caso, razão pela qual pleiteia o acolhimento da impugnação e o cancelamento do auto de infração, com o arquivamento do presente processo administrativo. A requerente protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 4º, a do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. É o relatório. Ao apreciar a impugnação apresentada, a 3a Turma da DRJ/BHE proferiu o Acórdão de Impugnação n. 02-63.599 (fls. 6.460/6.514), em sessão realizada em 28/01/2015, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação, para indeferir o pedido de juntada posterior de documentos, rejeitar a alegação de nulidade e manter integralmente o crédito tributário em discussão, cuja ementa restou assim redigida: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2009 AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2009 AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009 EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA. Correta a glosa de custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta a título de repasses a fornecedores, nos casos de não comprovação da sua efetiva existência ou de inobservância do princípio da competência. OMISSÃO DE RECEITA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO PASSIVO. Caracteriza-se como omissão no registro de receita, ressalvada ao contribuinte a prova da improcedência da presunção, a manutenção no passivo de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada. LANÇAMENTOS DECORRENTES. CSLL. PIS. COFINS. O decidido para o lançamento de IRPJ estende-se aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento factual e para os quais não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009 JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - Selic para títulos federais. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista pelos artigos 43 e 61, § 3º, ambos da Lei nº 9.430, de 1996. Impugnação improcedente. Crédito Tributário Mantido. Irresignado com a referida decisão, o sujeito passivo interpõe Recurso Voluntário reiterando todos os argumentos trazidos na impugnação, acrescentando apenas: (i) o pleito pela procedência do pedido de perícia, ora rejeitado, e; (ii) a nulidade do processo devido a ocorrência de supressão de instância, tendo em vista, que a 3a Turma da DRJ/BHE não procedeu à análise de todos os pedidos contidos na peça impugnatória. Vale ressalvar que as infrações descritas nos itens 2, 5, 6 e subitens 4.2 e 4.4 foram integralmente quitadas pela contribuinte, razão pela qual não serão objeto de abordagem nesta instância recursal. É como relato."
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OMISSÃO DE RECEITAS Recorrente CVC BRASIL OPERADORA E AGÊNCIA DE VIAGENS S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, em CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Alberto Pinto Souza Junior e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, que votavam pela nulidade parcial do lançamento correspondente ao item 4.1 do Termo de Verificação Fiscal. (assinado digitalmente) LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO – Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Talita Pimenta Félix e Luiz Tadeu Matosinho Machado. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 05 .7 22 02 1/ 20 14 -8 1 Fl. 6895DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.896 2 Relatório Designado como Redator Ad Hoc para fins de formalização desta Resolução, transcrevo abaixo a íntegra do relatório apresentado pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 14 de fevereiro de 2017, verbis: "CVC BRASIL OPERADORA E AGÊNCIA DE VIAGENS S/A, empresa que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e exterior, insurgese contra a cobrança de crédito tributário de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de lançamento lavrado em 18/07/2014 e cientificação ocorrida, pessoalmente, em 31/07/2014, cujo crédito tributário totaliza o montante de R$ 50.834.812,03, de materialidade relativa a dezembro de 2009. Em seu relatório, a decisão recorrida assim descreveu o caso: Em 18/07/2014, foram lavrados os sete autos de infração objeto deste processo, nos quais se formaliza a exigência do crédito tributário no valor total de R$ 50.834.812,03, conforme a seguir indicado: Tributo Juros de Mora Multa Proporcional Multa Regulamentar IRPJ 9.705.992,37 4.053.222,41 7.279.494,28 CSLL 3.494.157,26 1.459.160,08 2.620.617,94 Cofins 8.422.009,96 3.517.031,36 6.316.507,47 PIS 1.824.768,82 762.023,46 1.368.576,62 Multa Regulamentar 11.250,00 Descrição das infrações imputadas O autuante, reportandose ao termo de verificação fiscal a fls. 1556/1618, atribui à autuada as seguintes infrações: Autos de infração de IRPJ e reflexos (CSLL, Cofins e PIS) – fls. 1620/1643 0001. OMISSÃO DE RECEITAS DE VENDAS E SERVIÇOS. Omissão de receitas relativas a contratos (recibos) complementares, conforme item 2 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 143.321,22. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, inciso II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0002. EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA. Valor referente a custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta, a título de “repasses a fornecedores”, glosados pelo fato de não obedecerem ao princípio da competência ou por não terem sido comprovados, conforme item 4 e respectivos subitens do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 37.489.065,28. Multa: 75%. Fl. 6896DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.897 3 Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280 e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0003. PASSIVO FICTÍCIO PELA NÃO COMPROVAÇÃO INTEGRAL DO SALDO EXISTENTE NA CONTA IRPJ A RECOLHER. Vide item 7 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 175.000,00. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, II, 251, 277, 278, 279, 280, 281, III, e 288 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1633. Enquadramento legal para a Cofins: vide fls. 1628. Enquadramento legal para a contribuição para o PIS: vide fls. 1639. 0004. DEDUÇÃO DE PIS E COFINS NÃO COMPROVADOS. Vide item 5 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 426.239,69. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634. 0005. DEDUÇÃO DE IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS (ISS) NÃO COMPROVADO. Vide item 6 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 590.343,27. Multa: 75%. Enquadramento legal para o IRPJ: art. 3º da Lei nº 9.249/95; arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR/99. Enquadramento legal para a CSLL: vide fls. 1634. Auto de infração de multa regulamentar – fls. 1644/1647 0001. APRESENTAÇÃO EXTEMPORÂNEA DE ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL DIGITAL (ECD). O sujeito passivo apresentou extemporaneamente a ECD exigida nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779/99, ensejando a aplicação de multa no valor de R$ 1.500,00 por mêscalendário ou fração de atraso, uma vez que, na última declaração apresentada, apurou lucro real, conforme termo de verificação fiscal. Datas dos fatos geradores: 30/07/2010 (multa de R$ 9.000,00) e 30/06/2011 (multa de R$ 2.250,00). Enquadramento legal: art. 16 da Lei nº 9.779/99; art. 57, I, “b”, e §§ 2º e 3º, da Medida Provisória nº 2.15835/01, com redação dada pela Lei nº 12.766/12. Auto de infração de Cofins – fls. 1648/1652 0001. INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À COFINS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo da Cofins, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%. Enquadramento legal: art. 8º da Lei nº 9.718/1998; art. 1º da Lei Complementar nº 70/91; art. 2º da Lei nº 9.718/98, art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.15835/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09. Fl. 6897DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.898 4 Auto de infração de PIS – fls. 1653/1657 0001. INCIDÊNCIA CUMULATIVA PADRÃO. OMISSÃO DE RECEITA SUJEITA À CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS. Omissão de receitas por exclusões indevidas da base de cálculo do PIS, conforme item 3 do termo de verificação fiscal. Data do fato gerador: 31/12/2009. Valor apurado: R$ 242.926.278,72. Multa: 75%. Enquadramento legal: art. 1º da Lei Complementar nº 7/70; arts. 2º, I, e 9º da Lei nº 9.715/98; art. 2º da Lei nº 9.718/98; art. 8º, I, da Lei nº 9.715/98; art. 24, § 2º, da Lei nº 9.249/95, com as alterações introduzidas pelo art. 29 da Lei nº 11.941/09; art. 79 da Lei nº 11.941/2009; art. 3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Medida Provisória nº 2.15835/01, pelo art. 41 da Lei nº 11.196/05 e pelo art. 15 da Lei nº 11.945/09. Ciência dos lançamentos Em 31/07/2014, conforme termo a fls. 1661, a autuada tomou ciência, pessoalmente, dos lançamentos. Impugnação Em 29/08/2014, foi apresentada a impugnação a fls. 1681/1725, cujo teor pode ser assim resumido: I. Tempestividade · A impugnação é tempestiva. II. O auto de infração · Com relação ao item 2 (omissão de receitas relativas a recibos complementares), ao item 5 (dedução de PIS e de Cofins não comprovada) e ao item 6 (dedução de ISS não comprovada), todos do termo de verificação fiscal, a requerente informa que incluiu os débitos no Refis. Vide documento nº 5 (fls. 1820/1823). · Com relação ao item 4 (glosa de exclusões da receita bruta), ela informa que efetuou o pagamento de todos os débitos constantes dos subitens 4.2 e 4.4, com a redução no valor da multa em razão de o pagamento ter sido efetuado no prazo de até 30 dias contados da lavratura do auto de infração. Vide documento nº 6 (fls. 1824/1825). · Informase ainda o pagamento integral do débito do item 8 (multa por atraso de entrega da ECD). Vide documento nº 6 (fls. 1826). · O entendimento fiscal está equivocado no que diz respeito ao item 3 (exclusões indevidas da base de cálculo do PIS e da Cofins – receita de intermediação), ao item 4.1 (custos com transporte aéreo), ao item 4.3 (deduções de despesas com pagamento de comissões não comprovadas) e ao item 7 (passivo fictício). III. Supostas exclusões indevidas da receita bruta (item 3): a não incidência de PIS e de Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos · O item 3 da autuação exige PIS/Cofins em razão da suposta falta de tributação sobre valores repassados a terceiros, fornecedores de serviços turísticos e agências de turismo (lojas). · Conforme se verifica do termo de verificação fiscal (fls. 1581), em dezembro de 2009, a requerente teria auferido receita bruta de R$ 349.788.292,00 e indevidamente excluído de tal montante o valor de R$ 331.303.424,00, relativo aos “repasses a fornecedores” e a “Tx. Serviços – Agências”. Fl. 6898DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.899 5 · No entanto, tais valores, por se tratarem de receitas de terceiros, foram corretamente desconsiderados para fins de determinação da base de cálculo do PIS/Cofins. III.1. A atividade de intermediação de serviços turísticos (a) As atividades desenvolvidas pela requerente e a intermediação de serviços turísticos · A requerente é empresa brasileira que se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior. · Na condição de intermediadora de serviços turísticos, a requerente está sujeita ao recolhimento do ISS, e a sua atividade está prevista no item 9 da lista de serviços anexa à LC 116/2003. · A requerente mantém uma rede de contatos e acordos com os fornecedores dos serviços turísticos (hotéis, companhias aéreas etc), realizando a organização, estruturação e oferecimento dos serviços turísticos prestados por tais fornecedores aos clientes/passageiros tomadores dos serviços, de forma individual ou em pacotes (conjunto de serviços turísticos de diferentes naturezas). · A requerente atua por intermédio de agências filiais (lojas filiais) ou agências terceirizadas (lojas terceirizadas), com as quais firmou contratos de franquia empresarial, responsáveis pela comercialização de pacotes turísticos previamente estruturados ou serviços turísticos individuais prestados pelos fornecedores aos clientes/passageiros. · As lojas filiais são detidas por outra empresa do grupo, denominada CVC Serviços Agência de Viagens Ltda. e, pois, representam pessoa jurídica diversa da requerente. · Originalmente, a CVC firmou contratos de cooperação comercial e operacional com as agências terceirizadas. Mais recentemente, visando reestruturar as suas operações, estreitar as relações comerciais existentes e fidelizar as agên1cias terceirizadas, a CVC firmou contratos de franquia com tais agências. · A natureza e extensão do serviço de intermediação realizado pela requerente é definido, de forma precisa, pelo artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 (Lei Geral do Turismo LGT). · O art. 27 da Lei n° 11.771/2008 prevê que a agência de turismo é a pessoa jurídica que: o realiza a intermediação entre fornecedores e consumidores de serviços turísticos; ou o fornece os serviços turísticos diretamente aos consumidores. · O § 3º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece que as atividades de intermediação das agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a comercialização dos serviços turísticos fornecidos por terceiros aos consumidores. · A agência de turismo que fornece diretamente os serviços turísticos aos clientes é aquela que disponibiliza e comercializa os serviços em seu próprio nome, ou seja, ela própria é responsável pelo fornecimento/realização/execução dos serviços turísticos aos clientes/passageiros. · Um bom exemplo é a assessoria de embarque/desembarque, serviço prestado na origem, no local de destino e/ou nas escalas de viagens, com o objetivo de recepcionar, instruir, informar e auxiliar os clientes/passageiros em relação às suas viagens, serviço normalmente prestado por funcionários das próprias agências (ou seja, diretamente por elas). Fl. 6899DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.900 6 · Outro exemplo são os serviços de guias turísticos no destino, que em algumas localidades são prestados por funcionários das próprias agências de viagens locais (ou seja, e mais uma vez, diretamente por elas). · A Lei n° 12.974, de 15/05/2014, previu dois diferentes tipos de agências de turismo: o agência de viagens, que realiza tão somente a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos; e o agência de viagens e turismo, que, além de realizar a venda comissionada ou a intermediação na comercialização de serviços turísticos, realiza de forma privativa o assessoramento, planejamento e organização das atividades relacionadas às viagens e/ou a organização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens (inclusive educacionais ou culturais) e intermediação remunerada na sua execução e comercialização. · O § 2° do art. 5º da Lei n° 12.974/2014 estabelece, de forma clara, que a agência de viagens e turismo que realiza o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens pode denominarse operadora turística. · A previsão legal mencionada apenas reflete a prática já adotada no mercado e igualmente refletida na legislação anterior que tratava da matéria. · Na linguagem comum e na sistemática legal até então em vigor, a agência de viagens operadora é – e sempre foi – aquela que organiza e contrata os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, com o objetivo de que sejam oferecidos aos turistas, enquanto a agência de viagens, em regra, não organiza ou contrata estes serviços em favor dos clientes/passageiros, mas apenas os comercializa nos pontos de venda ou pela internet. · Na literatura de Carlos Alberto Tomelin, é possível identificar tal conceituação: o “Agências operadoras (conhecidas no mercado nacional como operadoras) elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes) ‘com seus próprios equipamentos ou subcontratação de operadores terrestres locais’, e podem vender seus produtos às agências detalhistas e ao público em geral através de seus escritórios locais”. o “As operadoras, que elaboram e operam seus próprios programas de viagens (pacotes), podem vendêlos diretamente ao consumidor final, através de seus escritórios locais, ou indiretamente, através das agências de viagens”. o “Mas sempre mantendo seu papel de intermediação entre os fornecedores e os consumidores finais. Além disso, podem operar com seus próprios equipamentos e pessoal e/ou podem subcontratar agências receptivas locais”. o “No caso de comercialização através das agências (detalhistas) e de subcontratação das receptivas, pagam comissão sobre o produto/serviço comercializado/prestado”. o “Agências de viagens detalhistas (conhecidas no mercado nacional como agências de viagens ou agências varejistas) geralmente ‘não elaboram seus próprios produtos’, mas principalmente comercializam ‘viagens com roteiros preestabelecidos’ (pacotes), organizados por agências maioristas ou operadoras de turismo, e podem ou não oferecer serviços de receptivo”. o “Mas agências detalhistas podem montar ‘pacotes’ customizados para clientes específicos, incluindo todos os tipos de serviços turísticos”. o “Algumas optam por trabalhar com segmentos de mercado específicos (ex: agências de intercâmbio), além de atender o público em geral”. Fl. 6900DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.901 7 · A operadora turística se diferencia da simples “agência” ao negociar e contratar com os fornecedores os serviços turísticos, individuais ou na forma de pacotes, realizando a comercialização de tais serviços diretamente ou, como é mais comum, por intermédio de agências filiais ou terceirizadas. · Portanto, haja vista os conceitos previstos nas Leis ns. 11.771/2008 e 12.974/2014, bem como na legislação anterior que tratava da matéria, para se caracterizar como agência de turismo, a pessoa jurídica deve realizar a intermediação ou oferecer os serviços turísticos ela própria (diretamente, em seu nome) e, dependendo da natureza e extensão da atividade específica desenvolvida, a agência poderá denominarse agência de turismo ou agência de viagens e turismo / operadora turística. · O fato de determinado contribuinte caracterizarse como agência de viagens e turismo / operadora turística não significa, diferentemente da errônea classificação defendida pelo agente fiscal, que tal empresa oferece os serviços turísticos diretamente aos clientes/passageiros. · Pelo contrário, o mínimo conhecimento do mercado de que ora se cuida demonstra que as agências de viagens e turismo / operadoras turísticas, na esmagadora maioria de suas operações, realizam a intermediação entre os fornecedores e passageiros, ainda que comercialize os serviços turísticos, individuais ou em pacotes turísticos, por meio de outras Agências. · Seja agência de viagens ou agência de viagens e turismo / operadora turística, a caracterização da espécie de serviço por ela realizado não é determinável a priori, mas sim com base nas atividades que são, de fato, realizadas. · Se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística prestar determinados serviços de forma direta (e não por intermédio dos terceiros fornecedores), não restará configurada a atividade de intermediação. · Por outro lado, se a agência de viagens ou a agência de viagens e turismo / operadora turística tiver como propósito a organização e oferecimento de serviços turísticos prestados por terceiros aos clientes/passageiros (passagens áreas, hospedagem etc), estará realizando a atividade de intermediação de que trata a legislação do setor. (b) Enquadramento da requerente como agência de viagens que realiza a atividade econômica de intermediação remunerada · A requerente é uma agência de viagens e turismo/operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros. · A requerente sabidamente não presta serviços turísticos diretamente. · De outra sorte, estaria também listada entre as companhias aéreas ou redes hoteleiras e não somente entre as agências de viagem. · No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante alega que “a operadora de turismo, conforme se depreende da leitura do caput do art. 27 da LGT, é empresa que fornece os serviços diretamente em seu nome” e conclui que “o sujeito passivo CVC Brasil atua sempre como operadora de turismo”. · O autuante aponta que enquanto a requerente “atuou como operadora de turismo, pois comprou e revendeu, em seu nome, diárias de hotéis”, as lojas “atuaram como agências de viagens (de turismo em sentido estrito) (...) que representaram o sujeito passivo e realizaram as vendas diretamente junto ao cliente”. · O esforço em descaracterizar a requerente como agência de turismo se justifica para fundamentar a errônea premissa de que os valores referentes aos repasses aos fornecedores e as comissões às lojas seriam custos dela e não receitas de terceiros. Fl. 6901DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.902 8 · O fato de a requerente também realizar atividades próprias de operadora turística não afasta a sua caracterização como agência de viagem que tem como atividade principal a intermediação remunerada de serviços turísticos. · A requerente reserva, negocia e contrata os serviços turísticos junto aos fornecedores e, na maior parte das vezes, os organiza/estrutura na forma de pacotes para facilitar as viagens dos clientes/passageiros, disponibilizandoos por intermédio das lojas (filiais ou terceirizadas). · A requerente não presta ela própria os serviços turísticos aos clientes/passageiros. A sua atividade é de mera intermediação destes serviços. · Para fornecer diretamente os serviços (e, pois, ter a obrigação de oferecer os valores totais recebidos pelos clientes/passageiros à tributação), a requerente teria que prestar diretamente os serviços turísticos comercializados, afastando qualquer atuação por parte dos terceiros fornecedores (companhias áreas, hotéis etc), o que não é o caso. · A lógica fiscal leva à absurda e impossível conclusão de que a requerente estaria prestando serviços aéreos, de hospedagem, de transporte de passageiros por via terrestre etc. · Seria ela, pois, uma companhia aérea, capaz de transportar passageiros entre os aeroportos brasileiros e internacionais? · Estaria, portanto, atuando no ramo hoteleiro, em estabelecimentos próprios? · Utilizandose, então, de veículos próprios para percorrer as estradas pelo mundo? · A atividade desenvolvida pela requerente é a de intermediação de serviços turísticos, englobando a oferta, a reserva e a venda desses serviços, que serão prestados pelos fornecedores e tomados pelos clientes/passageiros. III.2. A não incidência de PIS/Cofins sobre os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos e comissões repassadas às lojas · O autuante entendeu que a requerente realizaria “compra e venda de serviços turísticos”. · Portanto, os valores repassados aos fornecedores e as comissões repassadas às lojas seriam verdadeiros custos de suas operações, não sendo passíveis de exclusão da base de cálculo do PIS/Cofins, por ausência de previsão legal. · Contudo, a requerente presta serviço de intermediação de serviços turísticos. · Tais valores não compõem a base de cálculo das contribuições em questão; são, na verdade, receitas de outras empresas. (a) O conceito de receita para fins de PIS/Cofins e a impossibilidade de tributação das receitas de terceiros · A requerente está sujeita ao regime cumulativo de PIS/Cofins, regulado pela Lei n° 9.718/1998. O seu art. 1º prevê que tais contribuições incidirão sobre o faturamento mensal da pessoa jurídica, que corresponde à sua receita bruta. · É possível identificar receita como um ingresso que se incorpore de maneira positiva e definitiva ao patrimônio de uma empresa, decorrente de remuneração ou contraprestação de suas atividades sociais, isto é, proveniente da venda de bens e prestação de serviços (fls. 1691). · Apenas os valores que efetivamente modificam o patrimônio líquido da empresa, de forma a incrementálo, e que ingressam nas contas da empresa de forma definitiva e incondicional, em decorrência das atividades sociais desenvolvidas pela empresa, devem ser considerados receita para fins de cômputo da base das contribuições. Fl. 6902DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.903 9 · Os valores que não se enquadrem nesse conceito e não possuam estas específicas características (positividade, definitividade e causalidade) não podem assim ser caracterizados. · A doutrina mais abalizada afirma que as receitas de terceiros devem ser desconsideradas para fins de determinação da receita tributável, justamente por não integrarem o patrimônio da empresa que as recebe (fls. 1692). · Segundo tanto o antigo Conselho de Contribuintes como o atual Carf, os valores recebidos e repassados a terceiros não devem ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins (fls. 1692/1693). · No âmbito contábil, as receitas de terceiros também não são consideradas como receitas próprias da empresa que as recebe, como demonstram o CPC n° 30/2012 e a Resolução CFC n° 1.255/2009 (fls. 1693/1694). · As receitas transferidas a terceiros não podem ser caracterizadas juridicamente como “receita”, uma vez que não representam um acréscimo patrimonial efetivo e definitivo e não decorrem de uma atividade desenvolvida pela empresa, o que indica a inexistência da natureza causal que legitime a exigência. · E nem se diga que a revogação do inciso III do § 2º do art. 3º da Lei n° 9.718/98, que expressamente permitia a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins de “valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica”, seria capaz de alterar essa conclusão. · Tal revogação não pode implicar tributação das receitas de terceiros. · O texto do referido inciso III (como, aliás, de todas as hipóteses de exclusão previstas naquele dispositivo) tinha função meramente didática, pedagógica, visando instruir os contribuintes que haviam, indevidamente, incluído como receita própria valores que tivessem “sido transferidos” para outra empresa (fls. 1694). · Como aponta José Antonio Minatel, as previsões do § 2º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 – seja na sua redação anterior ou na atualmente em vigor – revelam “realidades desprovidas de conteúdo material que permita qualificálas como receitas”,sendo, portanto, “inócua a pretensão de excluílas de conjunto no qual nunca estiveram incluídas” (fls. 1694). · A expressa autorização para excluir as receitas de terceiros contida no referido inciso III é irrelevante para determinar a tributação ou não sobre receitas de terceiros. Tais valores – com ou sem essa previsão – não constituem receita. (b) A determinação da receita auferida pela requerente e a correta não tributação dos valores repassados a terceiros/fornecedores · O conceito jurídico de “receita” abarca apenas os valores que representam acréscimos patrimoniais efetivos e definitivos e que resultam diretamente da atividade econômica desenvolvida pela empresa. · A legislação específica do turismo confirma que a receita da agência de turismo não pode abarcar a integralidade dos valores recebidos, mas apenas a verdadeira remuneração auferida pela atividade de intermediação. · O § 2° do art. 27 da Lei n° 11.771/2008 esclarece qual é a receita (preço do serviço) auferida pela agência de turismo: “O preço do serviço de intermediação é a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultandose à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados”. · O preço do serviço de intermediação das agências de turismo é – e somente pode ser –a comissão recebida dos fornecedores e/ou o valor agregado ao preço de custo desses fornecedores, e não o valor total dos ingressos. · Não obstante, o autuante faz verdadeiro “exercício interpretativo” para justificar que o § 2° do referido art. 27 não poderia ser analisado em sua literalidade e, com Fl. 6903DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.904 10 isso, defender a tributação sobre o valor bruto recebido pela requerente da venda de pacotes turísticos. · Conforme relatório fiscal (fls. 1587), o autuante entende que “ao se fazer uma interpretação teleológica, percebese que o legislador não teve por objetivo, no artigo 27 da LGT, a exclusão dos custos (repasse a fornecedores, segundo o sujeito passivo) das bases de cálculo do PIS e da Cofins”. · Para sustentar o seu teratológico posicionamento sobre a – inexistente – obrigação de submeter à tributação o valor total recebido dos clientes em remuneração à aquisição de pacotes turísticos, que inviabilizaria a atividade de toda e qualquer agência de turismo no Brasil, o autuante, além de partir de premissas equivocadas quanto à natureza das atividades da requerente, utiliza quatro argumentos principais: o a requerente não realiza repasse de valores aos fornecedores, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio; o as notas fiscais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente; o o art. 46 da Lei n° 11.771/2008, que permitira a tributação exclusiva das receitas de intermediação de forma expressa, foi vetado pelo Poder Executivo; e o as orientações emitidas pela RFB, por meio de soluções de consulta, determinam a tributação integral dos valores recebidos pela requerente. · Contudo, conforme será detalhado abaixo, nenhum destes argumentos se sustenta. (b.l) Intermediação versus compra e venda · O primeiro argumento fiscal está embasado na equivocada premissa de que a requerente não realiza atividade de intermediação de serviços turísticos, mas sim a compra e (re)venda de serviços turísticos em nome próprio. · O agente fiscal alega que a requerente não realizaria repasses de receitas a terceiros (no caso, os fornecedores) e que os valores a eles remetidos configurariam custo da sua atividade. · A requerente é agência de viagens e turismo / operadora turística que realiza a intermediação entre fornecedores e cliente/passageiros, por meio da estruturação e disponibilização/comercialização, pelas lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros. · O fato de ser uma operadora turística não afasta a caracterização da sua atividade principal de intermediação de serviços turísticos. · A requerente julga pertinente tecer breves observações sobre as evidentes diferenças técnicas e jurídicas sobre as operações de intermediação e compra e venda. · Na operação de compra e venda, prevista no art. 481 do CC/2002, a empresa adquire determinada mercadoria de seu fornecedor e a revende ao consumidor, cobrando uma margem de lucro. · O ganho da empresa provém do próprio cliente, que acaba pagando um valor maior pelas mercadorias adquiridas. · É o típico caso dos supermercados, que compram mercadorias e as revendem aos consumidores, agregando um valor adicional ao preço. · No que se refere à compra e venda, a empresa adquire a titularidade da mercadoria que será revendida. · O principal aspecto do negócio jurídico de compra e venda é a efetiva transferência de titularidade/propriedade sobre o bem em questão. Fl. 6904DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.905 11 · Diferentemente, no caso da intermediação, a empresa efetua o contato entre os participantes da cadeia (no caso, o fornecedor e consumidor), atuando como verdadeiro elo. · A empresa intermediadora é remunerada em função do serviço desenvolvido. · Na intermediação, o elemento da remuneração decorre da existência da prestação do serviço e não se verifica a transferência de titularidade/propriedade para a empresa que realiza a intermediação. · É possível citar, além da intermediação de serviços turísticos, uma série de atividades de natureza análoga: o representação comercial, em que determinada empresa realiza a mediação para realização de negócios mercantis, em nome do representado; o planos de saúde e assistência médica, em que a administradora do plano disponibiliza a rede de médicos e hospitais e laboratórios aos conveniados; o administração de cartão de crédito/débito, em que a empresa administradora recebe os pagamentos e os transfere para os vendedores credenciados; o corretagem de imóveis, em que a corretora realiza a intermediação para possibilitar a compra/venda ou a locação de imóveis; o agenciamento de publicidade, em que a agência de publicidade promove a divulgação de serviços/produtos em nome do anunciante, entre outros. · Em nenhuma dessas atividades se verifica o negócio de “compra e venda”, uma vez que a intermediadora apenas realiza o elo entre as partes envolvidas. · Todas as atividades estão previstas como serviços na lista anexa à LC 116/2003. É o caso da intermediação de serviços turísticos (item 9.01 da lista). · A atividade desenvolvida pela requerente é a efetiva prestação de serviço de intermediação. · Ela não compra passagens e hospedagens e as revende em seu nome, mas sim organiza, reserva e contrata os serviços turísticos prestados pelos fornecedores e os oferece e comercializa aos clientes/passageiros. · A prestação de serviços no caso concreto envolve obrigação de fazer, ou seja, realizar o contato entre os fornecedores e os passageiros, viabilizando as viagens que serão por estes últimos usufruídas. · A prestação de serviços no direito brasileiro envolve, essencialmente, obrigações de fazer — as quais se opõem às obrigações de dar, em que uma das partes cede um bem à outra. · Prestar serviço é disponibilizar um bem imaterial, uma utilidade, que se produz mediante o esforço humano, físico ou intelectual, que é colocado à disposição do tomador. · É desarrazoado pensar na hipótese de compra e venda no caso concreto. · A requerente realiza verdadeira obrigação de fazer, consubstanciada na reserva e oferta aos clientes/passageiros de serviços turísticos (individuais ou por meio de pacotes) prestados por fornecedores habilitados para tanto. · Logo, é incorreta – e jurídica e taticamente impossível — a premissa adotada pelo autuante. · Os valores repassados aos fornecedores de serviços turísticos não podem ser caracterizados como “custos”. · A requerente não compra e revende serviços turísticos, mas atua na intermediação entre fornecedores e clientes/passageiros. Fl. 6905DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.906 12 · O conceito de “custo” abarca os dispêndios básicos da empresa, necessários à manutenção da atividade e comercialização, conforme se depreende da legislação do imposto de renda. · Não podem ser caracterizados como custos os valores referentes aos repasses efetuados aos fornecedores e às lojas em relação aos serviços que serão prestados aos clientes/passageiros. · Tais montantes não correspondem a insumos ou qualquer outra espécie de ativo/bem/direito adquirido pela requerente, necessários ao desenvolvimento de suas atividades operacionais. · Os serviços turísticos são reservados, negociados e contratados pela requerente em nome e benefício dos clientes/passageiros, seus verdadeiros tomadores. · Portanto, a pretensão do autuante não se sustenta sob qualquer óptica. · Os valores referentes aos repasses não refletem custos da requerente, mas receitas de terceiros recebidas dos clientes/passageiros e remetidas aos verdadeiros titulares, os efetivos fornecedores dos serviços turísticos. (b.2.) A irrelevância do destinatário indicado nas notas fiscais para determinar a natureza das operações e a caracterização da receita tributável · O segundo argumento fiscal para sustentar a tributação da receita bruta da venda de pacotes turísticos é o de que as notas fiscais e/ou faturas comerciais foram emitidas pelos fornecedores dos serviços turísticos (companhias aéreas, hotéis etc) em nome da requerente. · No relatório fiscal (fls. 1583/1584), o autuante busca reforçar a tese de que a requerente não presta serviço de intermediação, mas sim realiza a compra e revenda de serviços turísticos. · Ele aponta que “os hotéis não emitiram as faturas/notas fiscais em nome do hóspede, mas sim em nome do sujeito passivo, CVC Brasil” e ainda “foram juntadas cópias das faturas emitidas pelas cias aéreas em face do sujeito passivo CVC Brasil”. · O fato de os fornecedores (efetivos prestadores dos serviços aos clientes) emitirem as notas fiscais e/ou faturas comerciais contra a requerente, por razões legais, estritamente operacionais e/ou alheias à sua vontade, não desnatura a essência da atividade de intermediação dela. · A requerente realiza intermediação de serviços turísticos, o que por si só afasta a possibilidade de que a simples emissão de documentos fiscais ou comerciais pelos fornecedores altere a natureza de suas atividades e, consequentemente, da sua tributação. · Exemplo desta circunstância são os faturamentos relacionados às passagens aéreas. · As companhias aéreas não emitem notas fiscais contra os passageiros por expressa determinação legal. · Os bilhetes aéreos as substituem e são considerados, para todos os efeitos legais, como documentos fiscais válidos. · A título exemplificativo, no Estado de São Paulo, tal sistemática está regulada nos arts. 124 e 171 do Regulamento do ICMS (fls. 1700/1701). · As faturas comerciais emitidas pelas companhias aéreas contra a requerente apenas formalizam os valores que deverão ser repassados por ela aos efetivos prestadores dos serviços de transporte aéreo usufruídos pelos clientes/passageiros. · Concomitantemente, os bilhetes aéreos, que substituem as notas fiscais, são emitidos contra cada um dos passageiros, tomadores de tais serviços. · As alegações do agente fiscal não passam de ilações desarrazoadas que ignoram o mercado e a própria legislação de regência. Fl. 6906DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.907 13 · No âmbito do procedimento de fiscalização, a requerente apresentou uma série de documentos contábeis e fiscais que atestam a regularidade dos procedimentos adotados. · Conforme exigido pela fiscalização, para determinadas operações, a requerente apresentou descrição completa de todos os lançamentos realizados, comprovando que os valores recebidos dos clientes não alteram positivamente o seu patrimônio e são regularmente repassados aos fornecedores dos serviços turísticos (Doc. n° 7 – fls. 1827/1871). · A requerente demonstrou que os valores a serem remetidos a terceiros são lançados em uma conta específica e transitória e são efetivamente transferidos aos verdadeiros titulares. · Os documentos que suportam tal procedimento – contratos firmados com os passageiros, extratos bancários que atestam os valores recebidos e repassados aos fornecedores, faturas emitidas pelos fornecedores e notas fiscais emitidas com o valor da intermediação da requerente – foram apresentados na fiscalização (Doc. n° 8 – fls. 1872/1938). · A despeito do destinatário indicado nas faturas / boletos / notas fiscais, não há como desconsiderar a real natureza das operações e entender que a requerente é a tomadora dos serviços turísticos prestados pelos fornecedores quando a sua atividade é nitidamente de intermediação. · A premissa adotada pelo autuante ao lavrar a presente autuação está incorreta. · A receita auferida pela requerente não abarca a totalidade dos valores pagos pelos clientes/passageiros na aquisição dos serviços turísticos, mas tão somente as comissões a que faz jus, apuradas mediante a diferença entre os valores recebidos e os repassados a terceiros (fornecedores e lojas). (b.3.) O veto ao artigo 46 da Lei n° 11.771/2008 · O terceiro argumento para defender a exigência fiscal se refere ao veto do art. 46 da Lei n° 11.771/2008. · A redação inicial do projeto de lei que deu origem à Lei n° 11.771/2008 trazia artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo. · Indicavase que deveria ser considerada receita apenas a comissão recebida dos fornecedores ou o valor agregado ao preço de custo. · O artigo foi vetado sob a justificativa de que o dispositivo, supostamente: o deformaria o conceito de lucro e faturamento/receita bruta; o ofenderia o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal, por ausência de estudo de impacto nas finanças públicas e previsão orçamentária; e o principalmente, seria contrário ao interesse público, por aumentar a complexidade do sistema tributário. · O veto foi efetuado de maneira genérica e pouco aprofundada, levando em consideração razões políticas que não se coadunam com o sistema de tributação do PIS e da Cofins. · O veto não é capaz de gerar obrigação tributária, ainda mais sobre valores que não podem ser configurados como receita. · O STF já reconheceu que as razões de veto correspondem a ato de natureza eminentemente política, não podendo servir como parâmetro interpretativo das normas de Direito Tributário. · Consequentemente, são insuficientes para justificar qualquer incidência tributária. Fl. 6907DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.908 14 · A aplicação do Direito Tributário deve se pautar na legislação tributária, que compreende as leis, os tratados e as convenções internacionais, os decretos e as normas complementares (arts. 96 e 100 do CTN). · Os atos legais que tratam do tema não permitem a tributação de valores que não incrementam o patrimônio da requerente de forma definitiva e que são posteriormente repassados aos fornecedores de serviços turísticos · O fato de o artigo específico sobre a tributação das receitas de intermediação das agências de turismo ter sido vetado, por razões estritamente políticas, não significa que o PIS/Cofins deve incidir sobre a totalidade dos valores recebidos. · O conceito jurídico de “receita” não abarca os valores recebidos e repassados a terceiros. · A “interpretação teleológica” do autuante, embasada no veto, não altera essa conclusão. · A análise teleológica e sistemática das normas que cuidam do tema levam a conclusão oposta. · Os valores repassados a terceiros pelas agências de turismo devem ser desconsiderados na determinação da receita própria passível de tributação, o que é corroborado pela doutrina pátria e pela jurisprudência dominante. (b.4.) A correção dos procedimentos adotados pela requerente com base nas soluções de consulta editadas pela RFB · Como último argumento, o autuante baseiase em supostas soluções de consulta que estabeleceriam a impossibilidade das agências de turismo de excluir receitas de terceiros da base de cálculo do PIS/Cofins. · A interpretação dada pelo autuante às soluções de consulta se embasa na equivocada premissa de que a requerente não realizaria intermediação de serviços turísticos. · Na verdade, as soluções de consulta da RFB confirmam os procedimentos da requerente. · Mesmo antes da edição da Lei n° 11.771/2008, a RFB já havia editado várias soluções de consulta admitindo que os valores repassados a terceiros não integram a receita bruta das agências de turismo, conforme ementas transcritas a fls. 1704/1705. · A Solução de Divergência n° 2, de 21/03/2007, mencionada pelo autuante a fls. 1588, de fato determina a incidência do PIS/Cofins sobre a totalidade das receitas auferidas, impedindo a exclusão dos valores repassados a terceiros. · Mas ela reflete posicionamento isolado e que logo foi modificado. · Conforme ementas transcritas a fls. 1705/1707, desde 2008 a RFB vem proferindo uma série de soluções de consulta no sentido de que apenas as comissões auferidas ou adicional percebido em razão da intermediação pelas agências deverão ser objeto de tributação. · O autuante se reporta à Solução de Divergência n° 3, de 30/04/012, e à Solução de Consulta n° 17, de 13/03/013, para respaldar a sua autuação. · Mas conclusões ali delineadas confirmam os procedimentos da requerente. · Nas referidas soluções, é consignado que, no caso de agência de turismo que realiza a atividade de intermediação, como é o caso da requerente, a receita corresponderá à comissão ou ao adicional por ela recebido. · O trecho final das mencionadas soluções indica que “caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes”. · O autuante alega que esse trecho “vai ao encontro da tese da fiscalização que veda a exclusão dos custos (repasses aos fornecedores) das bases de cálculo do PIS e da Cofins”. Fl. 6908DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.909 15 · Ainda segundo o atuante, “o sujeito passivo atua sempre como operadora de turismo, na medida em que restou comprovado (...) que todos os serviços turísticos, mesmo diárias de hotel e bilhetes aéreos vendidos isoladamente, sempre são vendidos em nome do sujeito passivo, representado por uma loja credenciada (agência de viagem ou turismo em sentido estrito)”. · Não obstante, a requerente não fornece serviços turísticos diretamente, mas realiza a atividade de intermediação a eles relacionada. · A requerente atua como elo entre os fornecedores e os clientes tomadores de tais serviços, o que exclui a possibilidade de aplicação da parte final da solução de consulta. · O entendimento de que a “receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes” se aplica exclusivamente no caso em que a agência de viagens prestar/executar ela própria os serviços aos clientes/passageiros (e.g., realizar o serviço de assessoramento de embarque/desembarque, proceder ao transporte de passageiros etc), o que não se verifica no caso. · O fato de a requerente ser caracterizada como operadora turística, por proceder à organização dos serviços turísticos, oferecidos isolada ou conjuntamente, na forma de pacotes, não tem o condão de afastar ou desnaturar a essência da atividade de intermediação empreendida. · As soluções de consulta citadas comprovam que os procedimentos da requerente para a determinação da sua base tributável pelo PIS e pela Cofins foram absolutamente regulares. (b.5) A orientação da jurisprudência a respeito da não tributação das receitas de terceiros relacionadas às agências de turismo · O Carf entendeu que, tratandose de atividade de intermediação de serviços turísticos, é indevida a tributação sobre os valores recebidos e repassados a terceiros, conforme decisões transcritas a fls. 1709/1710. · Os nossos tribunais superiores também têm reconhecido que as agências de turismo intermediadoras têm direito de computar na sua receita somente as comissões auferidas, conforme ementa transcrita a fls. 1710. · O Órgão Especial do TJ/SP, ao analisar a constitucionalidade de lei municipal de Barueri, reconheceu que os valores que ingressam nos cofres da empresa para serem repassados a terceiros não correspondem ao preço do serviço. O voto vencedor valeuse expressamente do exemplo das agências de turismo, conforme excerto transcrito a fls. 1711. · Quando se discute o tema de receitas de terceiros em relação às atividades de turismo ou situações análogas, a jurisprudência vem repetidamente afirmando que tais valores não compõem a receita tributável. · Exemplo disso são as atividades relacionadas às agências de propaganda e publicidade, nas quais a jurisprudência vem admitindo de forma unânime a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins dos valores por elas repassados aos veículos de divulgação (i.e., terceiras empresas, tais como as de televisão, rádio, jornais etc), conforme acórdãos do Carf citados a fls. 1711/1712. · Os TRFs vêm reconhecendo que os valores objeto de repasse a terceiros pelas agências de publicidade (e, via de consequência, em quaisquer outras atividades em que exista sistemática de repasse de receitas equivalentes) não devem ser integrados à receita para fins de tributação. · A mesma orientação é seguida pelos tribunais no caso de empresas agenciadoras de mãodeobra, que também recebem determinados valores, referentes aos salários e encargos, que são repassados a terceiros e que, portanto, não devem compor a receita para fins de tributação. Fl. 6909DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.910 16 · O STJ também já entendeu que a empresa agenciadora de mãodeobra tem o direito de recolher os impostos apenas sobre os valores de suas comissões, indicando que as receitas de terceiros não caracterizam “preço do serviço”. · Os nossos tribunais também afastaram a tributação integral sobre os valores recebidos pelas operadoras de planos de saúde, ressaltando que os valores referentes aos repasses feitos aos prestadores de serviços de saúde (tais como hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc.) não consistem em receita própria da operadora. · Ali também, a exemplo do que ocorre com as agências de turismo, existe mera intermediação entre os fornecedores (em um caso, hospitais, clínicas, laboratórios, médicos etc; em outro, hotéis, passagens etc) e os clientes finais, beneficiários e tomadores efetivos destes serviços (na primeira hipótese, os pacientes; na segunda, os turistas). · Os exemplos são múltiplos e a conclusão sempre idêntica. · Valores recebidos por terceiros intermediários, cuja atividade, pela sua natureza, implique no recebimento de valores que serão posteriormente repassados a terceiros, sem afetar o seu patrimônio de forma positiva, não podem ser tributados pelo PIS/Cofins. · Os tribunais administrativos e judiciais têm reiteradamente afastado a tributação sobre os valores relativos a receitas de terceiros, tanto no caso de agência de viagens como em outras situações envolvendo empresas intermediadoras. III.3. A exclusão das comissões pagas e dos valores relacionados aos navios fretados · Em seu relatório (fls. 1590), o autuante admite a hipótese de um julgamento favorável à tese do sujeito passivo, no sentido de permitir a exclusão dos custos (repasses a fornecedores). · Nessa eventualidade, o autuante requer, ao menos, seja mantida a exigência fiscal em relação ao: o valor de R$ 39.207.736,00 pago às lojas a título de comissão pelas “vendas dos pacotes turísticos”; e o valor de R$ 44.307.221,00 referente aos gastos com navios. · No que tange às comissões remetidas às lojas, tais valores correspondem às remunerações devidas em contrapartida ao serviço de intermediação – não da requerente, mas das próprias lojas – prestado aos passageiros. · Da mesma forma como a requerente é remunerada pela intermediação realizada entre os fornecedores de serviços turísticos e os clientes/passageiros, as agências que realizam a intermediação comercial destes produtos também são remuneradas pela prestação de serviços que realizam. · Não existe dúvida quanto à impossibilidade de exigência de tributação destes valores pela requerente. · Eles se referem a comissões devidas pelos passageiros diretamente às lojas que comercializam os serviços / pacotes turísticos e que, inclusive, são objeto de emissão de notas fiscais diretamente por elas aos passageiros, no exato valor de suas remunerações. · No caso de pagamento em espécie ou cheque, em regra os clientes/passageiros pagam a totalidade dos serviços turísticos adquiridos às lojas. Estas retêm as parcelas relativas às respectivas taxas de serviço/comissões e remetem os valores remanescentes à requerente que, por sua vez, repassará os valores devidos aos fornecedores de serviços turísticos. · Tais valores sequer ingressam na requerente, razão pela qual, além de todos os motivos já expostos, não se pode considerar tais montantes como sua receita própria. Fl. 6910DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.911 17 · Não há que se falar em exclusão indevida dos valores relativos às comissões, por se tratar de receitas próprias das lojas e não da requerente, formalizadas por notas fiscais emitidas diretamente contra os clientes/passageiros. · No que tange aos gastos com navios, a requerente esclarece que no período de 2009 estava em vigor o contrato de afretamento firmado com a empresa Pullmantur Cruises S.L., domiciliada na Espanha. · Mencionado contrato previa que a Pullmantur coordenaria e administraria os cruzeiros, enquanto a requerente seria responsável por oferecer e disponibilizar os pacotes turísticos aos passageiros. · Por razões logísticas e visando facilitar as operações, a requerente realizou o pagamento, em nome da Pullmantur e no âmbito do contrato de afretamento, de determinadas despesas, como combustível, encargos portuários, serviços a bordo, shows e animações etc. · Contudo, tal fato não impacta nem modifica a natureza da atividade desenvolvida pela requerente nessa situação particular, qual seja, intermediação de serviços marítimos, de modo que a receita de intermediação auferida pela requerente continua sendo a sua comissão recebida e o valor agregado aos serviços. IV. Glosa de despesas com pagamento de comissões (item 4.3) · A fiscalização desconsiderou determinados repasses efetuados a título de comissões e exigiu o IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, no valor total de R$ 88.926,79. · A requerente apresenta a comprovação relativa a cada uma das glosas efetuadas, conforme tabela a fls. 1715 e documentos a fls. 1939/1967. · Tendo em vista a documentação apresentada, deve o presente auto de infração ser cancelado neste ponto. · Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99. V. Glosa de despesas com transporte aéreo (item 4.1) (a) Os fatos · Na consecução de suas atividades, a requerente recebe recursos e repassa para terceiros em razão da intermediação de transporte aéreo em benefício de seus clientes. · Estes repasses não são considerados na base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. · Ao examinar a documentação entregue pela requerente, o autuante entendeu equivocadamente que: o 57.420 bilhetes aéreos, no montante de R$ 32.410.000,04, não diziam respeito a embarques ou desembarques ocorridos em dezembro de 2009; e o 885 bilhetes aéreos, no montante de R$ 972.286,74, diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009. · A conclusão da fiscalização está pautada em amostra de 30 bilhetes obtidos mediante diligência junto ao sujeito passivo. · Destes 30 bilhetes, 28 diziam respeito a embarques ocorridos após dezembro de 2009 e 2 bilhetes eram relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (mas que não constavam dos relatórios de despesas do mês entregues pela requerente). Fl. 6911DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.912 18 · A fiscalização glosou os repasses relativos a 58.305 bilhetes aéreos tendo como fundamento uma amostragem de 30 bilhetes. · O autuante toma como base uma amostragem correspondente a 0,051% do total dos recibos aéreos deduzidos pela requerente, para materializar uma exigência de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins no valor total de R$ 27.243.330,98. · Deve o presente auto de infração ser reconhecido nulo neste ponto. · Caso assim não se entenda, o que se admite apenas para fins de argumentação, a requerente apresenta a comprovação de que a integralidade das despesas cujo repasse foi registrado em dezembro de 2009 corresponde a passageiros que embarcaram no mês. (b) Nulidade do auto de infração amostragem insignificante · A requerente invoca os seguintes dispositivos: art. 10 do Decreto nº 70.235/72; art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99; art. 142 do CTN. · A autoridade administrativa deve efetivamente verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação, determinar a matéria tributável e calcular o montante do imposto devido. · Tratase de obrigação funcional, não sendo cabível a exigência genérica com base em análise de amostragem ínfima. · Não se nega a possibilidade de utilização da amostragem como um critério técnico válido para a determinação de probabilidades ou até mesmo para imputar aos contribuintes o ônus de comprovar as alegações da fiscalização. · Não obstante, a amostragem deve ser relevante e ter validade estatística que justifique a sua utilização. · De acordo com o item 11.2.9 do Manual de Princípios Fundamentais de Contabilidade e Normas Brasileira de Contabilidade, editado pelo CFC, os auditores podem empregar técnicas de amostragem para determinar a extensão de um teste de auditoria ou método de seleção de itens a serem testados (fls. 1718). · Todavia, a amostra selecionada deve guardar uma relação direta com o volume das transações relacionadas e objeto da pesquisa. · O auto de infração é nulo neste ponto, em razão da ausência de apuração, indicação e descrição pormenorizada dos fatos praticados pela requerente, supostamente tidos como irregulares pela fiscalização. · A utilização de mera presunção com base em amostragem ínfima não se coaduna com os comandos normativos contidos nos art. 142 do CTN e art. 10 do Decreto n° 70.235/72. (c) A comprovação da efetividade das despesas · De forma a comprovar a legitimidade dos repasses efetuados às companhias aéreas, a requerente junta à sua impugnação: o relação de 153.490 bilhetes relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 14 – fls. 1970/5319); e o amostragem de aproximadamente 800 bilhetes efetivamente embarcados no mês de dezembro de 2009 (doc. n° 15 – fls. 5320/6309). · Estes bilhetes constam dos relatórios apresentados pela requerente durante o procedimento de fiscalização (recibos com embarque em dez/09) e atestam a legitimidade do registro dos repasses no mês de dezembro de 2009. · A amostragem apresentada pela requerente é suficiente para afastar a presunção da fiscalização no sentido de que a empresa registrou o repasse de bilhetes aéreos relativos a embarques de outros meses. Fl. 6912DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.913 19 · Fica comprovado que os valores cujos repasses às companhias aéreas foram registrados em dezembro de 2009 são referentes a repasses efetuados no próprio mês. · Caso os bilhetes sejam referentes a meses distintos de dezembro de 2009, o que se admite apenas para argumentar, eventual exigência deve se limitar ao valor dos juros em razão de suposta antecipação no reconhecimento do repasse, em linha com o art. 273 do RIR/99. V. Passivo fictício (item 7) · Exigese IRPJ, CSLL, PIS e Cofins sobre suposto passivo não comprovado e registrado na contabilidade da empresa. · O passivo decorre da diferença entre o valor provisionado a título de imposto de renda e o valor efetivamente pago na DIPJ, de R$ 175.000,00. · Ora, se a própria fiscalização esclarece a origem do passivo, não há que se falar na existência de passivo não comprovado. · Tratase apenas de provisão para pagamento de IRPJ efetuada em valor superior ao efetivamente devido. · No momento em que foi apurado o tributo devido no período, a requerente baixou a provisão no valor do IRPJ devido, permanecendo um saldo de R$ 175.000,00. · Este saldo deveria ter sido baixado à época, mas permaneceu registrado nos livros da requerente por um lapso do seu departamento contábil. · A constituição da provisão não gera qualquer impacto na apuração dos tributos da requerente, uma vez que o lançamento é efetuado abaixo da linha do lucro real. · Tanto a constituição da provisão, quanto a sua baixa, podem ser efetuadas sem qualquer impacto fiscal. · O passivo possui origem e a razão da sua constituição foi devidamente comprovada. · A requerente pode baixar o passivo a qualquer momento (como efetivamente foi efetuado), sem que seja verificado qualquer impacto fiscal. · Considerando que o passivo pode ser liquidado a qualquer momento sem qualquer impacto fiscal, não há que se falar na presunção de omissão de receitas. VI. A multa de ofício e os juros aplicados (a) a impossibilidade de incidência de juros Selic sobre a multa · Para assegurar que, diante de um futuro resultado desfavorável, a atualização do débito não será feita com a incidência de juros pela taxa Selic sobre a multa aplicada, a requerente esclarece o quanto segue. · Os débitos tributários exigidos através do auto de infração em referência são acrescidos de multa, agravada ou de ofício. · Na prática, após a lavratura dos autos de infração, essas multas passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros Selic. · Essa atualização é realizada pelas autoridades fiscais com amparo não na lei, mas no Parecer MF n° 28, de 02/04/1998, emitido pela Cosit (fls. 1720). · Mas o artigo 61 da Lei 9.430/96, utilizado pela Cosit para sustentar a incidência de juros sobre as multas, trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo menção às multas de ofício aplicadas pela RFB. · O dispositivo que embasa o entendimento do fisco é expresso no sentido de que apenas os débitos decorrentes de tributos e contribuições são atualizáveis. Fl. 6913DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.914 20 · Foi pela ausência de base legal que o Carf já pacificou o entendimento de que tais multas não são atualizáveis, conforme decisões citadas a fls. 1721. · A CSRF, no julgamento do recurso de divergência n° 202131.351, pacificou a questão acerca da ilegalidade da incidência dos juros moratórios sobre a multa aplicada (fls. 1722). · Evidenciase a impossibilidade de cobrança de juros à taxa SELIC sobre a multa aplicada no presente caso. (b) A improcedência dos juros Selic · A jurisprudência tem reconhecido a inaplicabilidade da taxa Selic aos créditos tributários, uma vez que essa taxa não foi criada por lei para fins tributários. · Transcrevese decisão do STJ nos autos do RE n° 450.422/PR. · Não obstante a posição sumulada pelo Primeiro Conselho de Contribuintes, e tendo em vista a possibilidade de a taxa Selic vir a ser considerada inconstitucional para fins tributários pelo Poder Judiciário, requerse sua desconsideração no cômputo do crédito tributário principal. VII. A conclusão e o pedido · A impugnação é tempestiva e deve ser apreciada e acolhida em suas preliminares e razões de fato e de direito, que demonstram a improcedência da exigência fiscal. · Em relação ao item 3 do auto de infração, a requerente demonstrou que: o a requerente se dedica à prestação do serviço de intermediação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização e a contratação de programas, roteiros e itinerários no Brasil e no exterior, conforme o item 9 da lista de serviços anexa à LC nº 116/2003; o de acordo com o art. 27 da Lei n° 11.771/2008 e com os arts. 2°, 3° e 5º da Lei n° 12.974/2014, a requerente se caracteriza como agência de viagens e turismo / operadora turística, por realizar o assessoramento, planejamento e organização de atividades associadas às viagens e/ou a organização e comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens; o o fato de ser denominada de operadora não significa que a requerente realiza o “fornecimento direto” de serviços turísticos. Pelo contrário, ela apenas reserva e contrata os serviços turísticos, que serão prestados pelos fornecedores diretamente aos clientes/passageiros, realizando nítida atividade de intermediação; o os valores coletados e posteriormente repassados a terceiros (efetivos fornecedores dos serviços turísticos) não compõem a receita tributável da requerente, na medida em que não se incorporam ao seu patrimônio de maneira positiva e definitiva (sequer transitam por resultado, aliás), nem advém de suas atividades operacionais. Tal posicionamento é confirmado pelo § 2º do artigo 27 da Lei n° 11.771/2008, que expressamente determina que o preço do serviço das agências de turismo é a comissão recebida dos fornecedores e/ou a taxa de serviços cobrada dos clientes, e não o valor total dos ingressos; e o a jurisprudência tem afastado a tributação em relação a valores repassados a terceiros pelas agências de turismo, justamente por reconhecer que os repasses não integram o patrimônio das agências. Aliás, analisando o caso específico da própria requerente, recentemente o Carf afastou a pretensão fiscal de tributar a totalidade das receitas Fl. 6914DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.915 21 recebidas dos clientes, indicando de forma expressa que apenas os valores correspondentes às comissões ou taxas cobradas pela requerente poderiam ser objeto de tributação pelo PIS/Cofins. · No que diz respeito ao item 4.1 (despesas com passagens aéreas), restou comprovado que o auto de infração é nulo, em razão da ínfima amostragem utilizada pela fiscalização. Além disso, caso o auto de infração seja válido, o que se admite apenas para argumentar, restou comprovado que a requerente apenas registrou repasses às companhias aéreas relativos a embarques efetivamente ocorridos em dezembro de 2009. · Especificamente quanto ao item 4.3 (glosa de despesa com pagamento de comissões), a requerente apresentou a documentação que comprova o efetivo pagamento das despesas, de forma que a glosa pretendida não deve ser admitida. · Além disso, no que diz respeito ao item 7 (passivo fictício), foi comprovada a origem do passivo (provisão de IRPJ) e a inexistência de impactos fiscais para a sua baixa. Por este motivo, não há que se falar na existência de presunção de omissão de receitas. · Por fim, foi demonstrado que a taxa Selic não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária. · Pelo exposto, a requerente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do auto de infração, bem como o equívoco cometido autoridade fiscal ao interpretar os fatos e o direito a eles aplicável neste caso, razão pela qual pleiteia o acolhimento da impugnação e o cancelamento do auto de infração, com o arquivamento do presente processo administrativo. · A requerente protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 4º, “a” do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. É o relatório. Ao apreciar a impugnação apresentada, a 3a Turma da DRJ/BHE proferiu o Acórdão de Impugnação n. 0263.599 (fls. 6.460/6.514), em sessão realizada em 28/01/2015, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação, para indeferir o pedido de juntada posterior de documentos, rejeitar a alegação de nulidade e manter integralmente o crédito tributário em discussão, cuja ementa restou assim redigida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2009 AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2009 AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA BRUTA. Fl. 6915DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.916 22 A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o valor correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Contudo, em se tratando de operadora turística que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 EXCLUSÕES INDEVIDAS DA RECEITA BRUTA. Correta a glosa de custos e despesas excluídos diretamente da receita bruta a título de “repasses a fornecedores”, nos casos de não comprovação da sua efetiva existência ou de inobservância do princípio da competência. OMISSÃO DE RECEITA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO PASSIVO. Caracterizase como omissão no registro de receita, ressalvada ao contribuinte a prova da improcedência da presunção, a manutenção no passivo de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada. LANÇAMENTOS DECORRENTES. CSLL. PIS. COFINS. O decidido para o lançamento de IRPJ estendese aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento factual e para os quais não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia Selic para títulos federais. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista pelos artigos 43 e 61, § 3º, ambos da Lei nº 9.430, de 1996. Impugnação improcedente. Crédito Tributário Mantido. Irresignado com a referida decisão, o sujeito passivo interpõe Recurso Voluntário reiterando todos os argumentos trazidos na impugnação, acrescentando apenas: (i) o pleito pela procedência do pedido de perícia, ora rejeitado, e; (ii) a nulidade do processo devido a ocorrência de supressão de instância, tendo em vista, que a 3a Turma da DRJ/BHE não procedeu à análise de todos os pedidos contidos na peça impugnatória. Vale ressalvar que as infrações descritas nos itens 2, 5, 6 e subitens 4.2 e 4.4 foram integralmente quitadas pela contribuinte, razão pela qual não serão objeto de abordagem nesta instância recursal. É como relato." Fl. 6916DF CARF MF Erro! A origem da referência não foi encontrada. Fls. 6.917 ___________ Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Redator Ad Hoc para fins de formalização da Resolução. Designado como Redator Ad Hoc para fins de formalização desta Resolução, transcrevo abaixo a íntegra do voto proferido pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 14 de fevereiro de 2017, verbis: "1. PRELIMINARMENTE 1.1 Da Tempestividade Conforme enuncia o art. 33 do Decreto nº 70.235/72, o Recurso Voluntário formalizado por escrito e instruído com os documentos em que se fundamentar, será apresentado no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. A destinatária (CVC Brasil Operadora e Agência de Viagens S.A), via “Termo de Registro de Mensagem de Ato Oficial na Caixa Postal DTE”, datado de 03/02/2015, recebeu mensagem em que constam os seguintes documentos: (i) Intimação de Resultado de Julgamento, (ii) Acórdão de Impugnação n. 0263.599 da 3a Turma da DRJ/BHE, e (iii) Darf. Temse que a “data da ciência, para fins processuais, será a data em que o destinatário efetuar consulta à mensagem na sua Caixa Postal ou, não o fazendo, o 15o dia após a data de entrega acima informada” (fls. 6.541). Em 20/02/2015, via eCAC, foi acessado o “Termo de Abertura de Documento” (fls. 6.542) e, consequentemente considerado aberta a mensagem (“Termo de Ciência por Abertura de Mensagem”, fls. 6.543), com isto, o prazo final para interposição recursal seria em 24/03/2015. Uma vez que protocolizou seu recurso em 23/02/2015 (fls. 6.545/6.737), nos termos do art. 23, parágrafo 2o, inciso III, alínea “b”, do Decreto n. 70.235/72, cumprese o requisito da tempestividade (fls. 6.748), motivo pelo qual deve ser conhecida e processada. Nestes termos, o recurso voluntário é tempestivo e atende aos pressupostos legais e regimentais, assim, dele conheço. 1.2 Da Produção Probatória – e seu momento Após a interposição do Recurso Voluntário, a Recorrente peticiona nos autos fazendo juntada de um Parecer Técnico de Natureza Contábil. Ocorre que tal comportamento, apresentação de prova a destempo, não se coaduna com o disposto no art. 16 do PAT (Decreto n. 70.235/1972), vide: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III – os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (...) Fl. 6917DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.918 24 § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente apresentadas aos autos; § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância. Em consonância com o prescrito neste dispositivo, decidiu a 3a Turma da DRJ/BHE, ao se pronunciar sobre o fato, conforme se depreende: Quanto ao protesto pela juntada posterior de documentos, vale observar que, nos termos do art. 16, III, do Decreto nº 70.235, de 1972, a impugnação mencionará os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que o impugnante possuir. Já o § 4º do mesmo artigo dispõe que a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; ou c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. No presente caso, a impugnante não demonstrou a ocorrência de nenhuma dessas condições excetivas. Com efeito, ela se limita a invocar em seu favor o princípio da verdade material. Cabe lembrar, porém, que, nos termos do art. 7º, V, da Portaria MF nº 341, de 12 de julho de 2011, é dever do julgador observar o disposto no art. 116, III, da Lei nº 8.112, de 1990, o qual dispõe, por sua vez, que é dever do servidor observar as normas legais e regulamentares. Acolher a pretensão da impugnante configuraria inobservância das normas, já citadas, que prescrevem, de forma categórica, a preclusão temporal do direito de produzir a prova documental. Cumpre, pois, indeferir o pedido de juntada posterior de documentos. Pois bem. Quanto à apresentação de prova extemporânea, e por bem sintetizar as perspectivas, respectivamente, passada (2010) e atual (2016) deste Conselho, cito estudo realizado por Maria Teresa Martínez Lopes e Marcela Cheffer Bianchini1, e reiterado por Maria Rita Ferragut2, donde revelam, nas palavras desta última, que: (...) encontramos três grandes correntes: (i) a que não aceita a apresentação de provas após a impugnação; (ii) a que aceita, desde que apresentadas até o julgamento em 1Fls. 34/51. Todos os comentários dessas autoras estão compreendidos neste intervalo de páginas. 2As provas e o direito tributário: teoria e prática como instrumentos para a construção da verdade jurídica Fl. 6918DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.919 25 primeira instância (se as informações forem complementares); e, (iii) a que aceita a apresentação de documentos em qualquer fase do julgamento administrativo, inclusive em segunda instância. Com o intuito de representar o mais fielmente os pensamentos de Lopes e Bianchini, quanto à terceira corrente, registro que falam em apresentação de provas até a fase recursal. Diverso do apontado por Ferragut, que a retrata até a segunda instância. Ponto que não será enfrentado nestes autos. Dito isto, após registrar cada uma das três correntes, Ferragut conclui por entender de modo semelhante ao segundo posicionamento, ou seja, que as provas apresentadas depois da impugnação podem ser aceitas – com ressalvas. Já as primeiras autoras, Lópes e Bianchini, defendem a produção probatória em um modelo mais flexível de análise temporal. E para explicar tal elasticidade, irretocável são suas palavras, segue: Parecenos, portanto, que a tendência das decisões da Câmara de Recursos Fiscais está na aplicação de critérios de pertinência e utilidade na aceitação da documentação apresentada (...). Acertadas estão as decisões que, a depender da documentação juntada pelo contribuinte, se posicionem alternativamente, ora no sentido de aplicarem a literalidade da restrição do artigo 16 do PAF, ora no sentido de caracterizarem a inocorrência da preclusão, adequando a situação como excepcionais e em conformidade com as exceções elencadas no dispositivo legal e, para tanto, deve existir uma prévia análise dos documentos juntados, mesmo que para se recusar a documentação, em respeito a livre convicção do julgador na apreciação das provas, conforme determina o artigo 29 do Decreto n. 70/235/72. (Sem grifo no original) Neste momento, tocam em ponto peculiar desta análise, referemse ao conhecimento/cabimento de tais provas. Em outras linhas, seria a ‘abertura do envelope’, para somente após, ser possível tomar conhecimento do que dentro consta. Com isto, temse que para as duas últimas correntes, nas palavras das duas juristas, “ainda que o contribuinte faça a juntada de documentos após o prazo legal, parece inconteste que deve existir uma prévia análise destes, mesmo que para se recusar a documentação, já que determinados documentos comprobatórios podem ser aceitos a qualquer momento por se referirem a fatos que permitem o fácil e rápido convencimento do julgador” (sem grifo no original). Não parece logicamente possível realizar a desconstrução deste raciocínio, para ambas as correntes. Raciocínio contrário implicará no entendimento de ser possível aferir os documentos, sem deles se conhecer, ou, em outras palavras, conhecer o teor da carta, sem abrir o envelope. Uma consequência, nada irrelevante, diz respeito à – possibilidade de influência da prova, na formação de uma posição, independente do conhecimento de tal dado pelo corpo de julgadores. Não há como se negar tal fato. Claro que esta abordagem comporta restrições, em razão do teor do anexo juntado, o que não parece ser o caso dos autos, seja pela procedência ou improcedência deste crédito tributário. Ainda quanto à formação da convicção do julgador, temse que a lei prescreve (art. 29) a possibilidade de este solicitar a realização de diligências. Pois bem. Aqui falase em oportunidade de o julgador solicitar diligências com o fito de sanar eventuais dúvidas, sempre com fins a proceder a uma decisão segura; e noutro giro tem Fl. 6919DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.920 26 se a preclusão temporal (art. 16), que pode ser compreendida como uma norma de comportamento, que, voltada à regulação da conduta da contribuinte, estabelece prazos rígidos à apresentação de provas. Seria possível entender aqui, que há uma “preclusão” para a contribuinte, e outra para a “autoridade julgadora”? Não parece um absurdo pensar assim, já que tal premissa, neste caso, toma como referência partes do processo. No entanto, não seria mais compatível com o ordenamento jurídico entender que o enfoque não deve, necessariamente, estar nas partes, mas sim no objeto que se pretende conhecer? Por hora, parece o caminho mais viável. Retornando à necessidade de comunicação entre os artigos 16 e 29, tem se que sua ausência poderia levar à situação em que a contribuinte apresenta uma prova que o julgador entende necessária à sua convicção, porém, ele não poderia fazêlo, já que fora do prazo legal, e esta é rejeitada; em contrapartida, tal prova poderia ser requerida pelo julgador, por este entendêla indispensável. Tal ocorrência é perfeitamente possível, o que poderia, inclusive, ser o caso dos autos. Assim sendo, adoto a forma de sistematização dos dispositivos legais defendida por Lópes e Bianchini, ou seja, que a análise da pertinência probatória deve ser realizada caso a caso. Outra especificidade há de ser esclarecida, o documento em questão é um parecer técnico contábil, ou seja, “apesar de ainda ser entendimento majoritário no julgamento em segunda instância a aplicação do prazo de preclusão para a apresentação de provas, verificase a tendência de atenuar os rigores da norma, afastando a preclusão em alguns casos excepcionais, como exemplo a apresentação de laudo ou de parecer jurídico, considerando que estes não podem ser tidos como ‘prova’ no conceito estabelecido pelo parágrafo 4o do artigo 16 do PAF, por ser complemento da impugnação ou dos argumentos apresentados nesta”3. No caso em tela, não há como negar a possível influência exercida pela juntada do parecer técnico, seja para confirmar, ou infirmar a imputação debatida. Nestes termos, se tal documento é hábil a permitir a formação da convicção, sabendose possível a extensão dessa discussão via Poder Judiciário, não parece – juridicamente – coerente não conhecer e acolhêlas. Ainda segundo López e Bianchini, “na prática, quer nos parecer que, cada caso vai requerer uma análise mais apurada. Como dissemos, o direito à parte à produção de provas comporta graduação a critério da autoridade julgadora, com fulcro em seu juízo de valor acerca da utilidade e da necessidade, de modo a assegurar o equilíbrio entre a celeridade desejável e a segurança indispensável na realização da justiça. Parecenos ser esta a tendência a ser aplicada nas decisões da Câmara Administrativa de Recursos Fiscais atualmente”4 (s.g.). Assim, entendo plenamente possível a apresentação de documentos, como no caso em tela, antes do julgamento em segunda instância, de acordo com o solicitado pela contribuinte. Nestes termos, voto por conhecêlos. Ademais, mesmo para 3Alguns doutrinadores entendem que falarse em “complemento” da impugnação seria uma representação da preclusão material. 4Ressalvo que, ainda que tenham publicado tal artigo em 2010, os critérios que foram adotados nas duas pesquisas são atuais, apenas com a distinçãode que para Ferragut a aceitação de provas poderia ocorrer até a impugnação, e para as outras duas, até a fase recursal. Ainda, com tal apontamento não nego a possibilidade de apresentação de provas/documentos até a fase recursal, o que se pretende aqui é apenas a descrição do que disseram as autoras. Fl. 6920DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.921 27 aqueles que tenham numa leitura mais restrita e entendam precluso o direito de juntar novos documentos, a missão do conselheiro transborda a de mero julgador para também exercer o devido controle de legalidade do lançamento. Desta forma, mesmo não conhecendo na acepção mais processual da palavra ainda assim entendo que devam ser analisados e considerados, caso revelem qualquer ilegalidade no procedimento fiscalizatório. Da Proposta de Resolução5 No presente caso, ao examinar os argumentos trazidos pela Recorrente, em cotejo com as alegações da Autoridade Fiscal, entendo necessária a conversão do julgamento em diligência com vistas a aclarar a situação que passo a descrever. Pois bem, dentre as autuações impostas à contribuinte, o Item 4.1 do Termo de Verificação Fiscal (fls. 1.591) referese à glosa de exclusões da receita bruta, por dedução indevida de custos com transporte aéreo, e tal fato fundamentase na compreensão de que a Recorrente não teria o direito de deduzir de sua receita bruta passagens aéreas cujos embarques ou desembarques não tenham ocorrido no mês de dezembro de 2009. São essas as palavras da Autoridade Fiscal (fls. 1.591/1.594): 4) GLOSAS DE EXCLUSÕES DA RECEITA BRUTA: De acordo com o relatado nos itens 01 e 03 deste termo, o sujeito passivo considera indevidamente os custos como exclusão da receita bruta. Contabiliza os custos a débito Tal distorção de tratamento contábil gera redução indevida das bases de cálculo do PIS e da Cofins, conforme relatado no item 03 deste termo; mas não produz efeito na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, exceto nos casos em que não haja comprovação fática dos custos excluídos. 5 Nos termos do “Manual de elaboração de atos administrativos” do CARF, 1a Ed., Brasília: 2012, temse que: “Resolução é o ato decisório, interlocutório, expedido por colegiado, que não conclui o julgamento. É adotado quando for cabível à turma pronunciarse sobre o mesmo recurso em momento posterior, como nos casos de sobrestamento ou de conversão do julgamento do litígio em diligência. Como a resolução não conclui o exame da matéria, as questões preliminares ou prejudiciais já examinadas são reapreciadas quando do julgamento do recurso”. (Sem grifo no original). Bem como, de acordo com o “Manual do Conselheiro”, Versão 1.0, Brasília: 2016, dispõe tal documento que: “O voto proferido com vistas à realização de diligência ou perícia, seja pelo relator ou por redator designado, deve conter os motivos que fundamentam a solicitação e que demonstram que o processo não esta em condições de ser julgado sem que as providências sejam atendidas. Além disso, deve conter de forma clara e precisa as providências requeridas e quem as executará, se a unidade de origem, a Câmara a quo, a Secretaria de Câmara etc. No caso de diligência a ser cumprida pela unidade de origem, a resolução deve inclusive especificar os elementos que devam ser solicitados ao interessado no processo, com vistas à obtenção das informações necessárias ao deslinde do feito, ou mesmo especificar o que precisa ser esclarecido nos autos. Recomendase que seja determinada à unidade de origem a elaboração de relatório fiscal conclusivo sobre as apurações, novos documentos juntados aos autos e levantamentos realizados. O parágrafo único do art. 35 do Decreto n. 7.574, de 2011, determina que o sujeito passivo deverá ser cientificado do resultado da realização de diligências e perícias, sempre que novos fatos ou documentos sejam trazidos ao processo, hipótese em que deverá ser concedido prazo de trinta dias para sua manifestação. Fl. 6921DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.922 28 Por isso, mediante os TIFs 10, 11, 13, 15, 19 e 20, intimouse, por amostragem, o sujeito passivo a apresentar documentação comprobatória dos custos excluídos da receita bruta no mês de dez/09. Após analisar as respostas do sujeito passivo, apurouse as deduções indevidas da receita bruta listadas nos itens 4.2 a 4.4, e respectivos sub itens, a seguir deste termo. Porém, antes dessa análise, apurouse a dedução indevida descrita no item 4.1 a seguir: Nota: O sujeito passivo poderá alegar, eventualmente, que muitos dos custos (repasses) excluídos, que não se referem a receitas auferidas em dez/09, como aqueles mais expressivos glosados no item 4.1 a seguir, referemse a receitas ocorridas antes de dez/09 e que, dessa forma, não houve prejuízo ao fisco, na medida que a dedução dos mesmos foi feita após o mês em que poderia ter sido feita. No entanto, se contrapõe a esse possível argumento o fato do sujeito passivo ter iniciado suas atividades operacionais em dez/09, sendo que os custos ocorridos antes desse mês foram suportados pela CVC TUR, CNPJ 44.191.666/000140; pessoa jurídica antecessora que explorou o negócio e marca CVC até 30/11/09. Portanto, para esses casos, somente essa pessoa jurídica é que poderia excluir custos diferidos do lucro real do AC de 2009. 4.1) DEDUÇÃO INDEVIDA DE CUSTOS COM TRANSPORTE AÉREO: Mediante carta entregue em 28/08/13, em resposta ao TIF 06, reratificada por carta entregue em 11/09/13, o sujeito passivo entregou o relatório 4.2.1, sub relatório do relatório 4.2, onde são relacionados custos de transporte aéreo, tratados pelo sujeito passivo como repasses a fornecedores, deduzidos da receita bruta de dez/09, no montante de R$67.091.292,34. Posteriormente, em 29/10/13, em resposta ao item 2 do TIF 09, o sujeito passivo entregou arquivo do referido relatório em planilha eletrônica formato Excel: Relatório R4.2.1.xlsx. Com base nesse arquivo, gravado no CD ROM entregue pelo sujeito passivo, procedeuse a um cruzamento de dados pelo qual foi possível apurar o relatório "421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09.xls", no montante de R$35.114.231,49; onde constam 60.990 bilhetes aéreos, cujas datas de embarque ou de desembarque dos respectivos recibos (contratos), não ocorreram em dez/09. Isto porque os recibos (contratos) relativos a esses bilhetes não constam dos seguintes relatórios entregues pelo sujeito passivo: Relatório R1 R2 R3, entregue pelo sujeito passivo em 24/10/13, em formatos PDF e Excel (xlsx); em resposta ao item 2 do TIF 08, DE 17/10/13; e Relatório constante do arquivo "ANEXO TIF 21.xlsx", gravado em CD ROM entregue pelo sujeito passivo em 21/3/14; em resposta ao TIF 21, de 11/3/14. Fl. 6922DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.923 29 Conforme já informado nos itens 01 e 03 deste termo, no Relatório R1 R2 R3 são relacionados todos os recibos (contratos) em que a data de embarque da excursão tenha ocorrido em dez/09, para os quais houve o reconhecimento de receita em dez/09. Já, no relatório constante do arquivo "ANEXO TIF 21.xlsx" são relacionados recibos relativos às 10.969 NFs, cujos desembarques ocorreram em dez/09, para os quais deveria ter ocorrido o reconhecimento de receita em dez/09, mas não o foi, conforme relatado no item 01 deste termo. Analisandose o relatório "421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09.xls", no montante de R$35.114.231,49; foi possível verificar diversos bilhetes aéreos para os quais o campo "recibo" estava em branco. Por isso, referido relatório foi desdobrado nos seguintes sub relatórios: 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09COM RECIBO.xls, contendo 57.420 bilhetes, no montante de R$32.410.000,04; e 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBO.xls, contendo 3.570 bilhetes, no montante de R$2.704,231,45. Para os 57.420 bilhetes aéreos constantes do relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09COM RECIBO.xls será glosado o montante de R$32.410.000,04; pois, conforme já dito, os recibos (contratos) relativos a eles não constam do relatório R1 R2 R3 (recibos com embarques em dez/09) ou do relatório constante do arquivo "ANEXO TIF 21.xlsx" (recibos com desembarques em dez/09). Já, para o relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBO.xls foi possível verificar, mediante amostragem em diligência junto ao sujeito passivo, que as datas assinaladas na coluna DT Competência conferem com as datas de embarques constantes dos bilhetes, obtidas mediante pesquisas junto aos sistemas de controle interno do sujeito passivo. Em função disso, desdobrouse o relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBO.xls nos seguintes sub relatórios: 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP DEZ_09.xls, contendo 2.685 bilhetes cuja data de competência (embarque) ocorreu em dez/09, no montante de R$1.731.944,71; e 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP A PARTIR DE JAN_10.xls, contendo 885 bilhetes cuja data de competência (embarque) ocorreu a partir de jan/10, no montante de R$972.286,74. Também para os 885 bilhetes aéreos constantes do relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP A PARTIR DE JAN_10.xls será glosado o montante de R$972.286,74; pois as datas de competência (embarques) dos bilhetes ocorreram a partir de jan/10, não podendo ser deduzidos das receitas que tiveram como data de embarque ou de desembarque o mês de dez/09. Portanto, para que os valores dos bilhetes aéreos relacionados no Relatório 4.2.1 possam ser deduzidos das receitas de dez/09, é necessário que os recibos relativos a eles tenham como data de desembarque (critério inicial de Fl. 6923DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.924 30 reconhecimento de receitas) ou de embarque (novo critério, item 01 deste termo) o mês de dez/09. Além dos relatórios e arquivos entregues pelo sujeito passivo, mencionados neste termo, para comprovar a presente infração foram juntados ao PAF, como anexos, arquivos contendo os seguintes documentos: Relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09.xls; Relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09COM RECIBO.xls; Amostra de 30 bilhetes, no valor de R$82.656,81; constantes do relatório 421 NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09COM RECIBO.xls; obtidos mediante diligência junto ao sujeito passivo. Observese que 28 bilhetes foram emitidos em dez/09, mas o vôo de ida (embarque) só ocorreu em 2010. Para 02 casos, consta no bilhete que o embarque ocorreu em dez/09, mas os recibos não constam dos relatórios R1 R2 R3 ou do arquivo ANEXO TIF 21.xlsx, sendo um dos recibos emitido em 2010; Amostra de 21 recibos, relativos aos 30 bilhetes relacionados na amostra do item anterior; Relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBO.xls; Relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP DEZ_09.xls; Relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP A PARTIR DE JAN_10.xls; e Amostra de 08 bilhetes, constantes do relatório 421NAO EMB OU DESEMB EM DEZ09SEM RECIBOCOMP A PARTIR DE JAN_10.xls; obtidos mediante diligência junto ao sujeito passivo. Em outras linhas, teria a Recorrente (CVC S/A), sucessora de CVC LTDA, deduzido de sua receita bruta, no mês de dezembro de 2009, despesas com a aquisição de passagens aéreas, cujos embarques ou desembarques de seus clientes não tenham ocorrido no mês em tela, razão pela qual, no entender da fiscalização, a glosa seria devida. Antes de avançar, cabe mencionar que, independentemente da eleição da principal premissa a ser adotada neste voto, se atua a Recorrente como intermediadora ou prestadora direta de serviços turísticos ao consumidor, a correta compreensão dos valores que devem (ou não) ser glosados no mês de dezembro de 2009 precisa ser melhor investigada. Tal fato se afirma, pois, nos dois casos há que se esclarecer os valores devidos no mês de dezembro, em razão de seus reflexos em outras infrações. Assim, sendo considerada intermediadora, os valores repassados aos fornecedores de transporte aéreo deverão ser excluídos, com fins a formar base em que se compreenda apenas o valor relativo à intermediação, já descontados tais repasses; agora, acaso se entenda ser a Recorrente uma prestadora direta de serviços turísticos, há que se atestar, com segurança, qual o montante correspondente à totalidade dos bilhetes aéreos poderia ser deduzido de sua base tributável. Com isto notase que, independente, do fundamento base adotado, a correta aferição deste dado é imprescindível. Fl. 6924DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.925 31 Do Contexto Fático Durante o procedimento de fiscalização a contribuinte forneceu à Autoridade Fiscal alguns relatórios (4.2.1 e R.4.2.1), cujo conteúdo se referiria aos custos de transporte aéreos, tratados pelo sujeito passivo como repasses a fornecedores, os quais foram deduzidos da receita bruta de dez/09, no montante de R$ 67.091.292,34. Respectivos relatórios serviram como base material para a fiscalização pautar a autuação em tela, uma vez que ao cruzar estes dados, a RFB apurou que 60.990 bilhetes aéreos não possuíam data de embarque ou desembarque em dez/09, o que impediria a Recorrente de proceder à dedução dos custos glosados. Vale registar que a Recorrente anexa, aos autos, relação com registro de 153.490 bilhetes relativos a embarques ocorridos no mês de dezembro de 2009. Dois fatos, até o momento, sob a perspectiva desta Conselheira, merecem melhor elucidação por apresentaremse conflitantes: primeiro, utilização do critério do embarque e do desembarque para validar a dedução dos custos com passagens, e, (ii) segundo, amostragem que representa percentual irrisório ao total de bilhetes aéreos registrados. Assim, temse que no primeiro caso as partes adotaram critérios distintos para apurar o montante devido a título de dedução com custos de repasse às cias. aéreas, pela emissão de bilhetes de viagem. Melhor elucidando, a Recorrente adotou como parâmetro para registro destas receitas, quando da venda de bilhetes aéreos, a data do embarque de seus clientes, e não a data do desembarque. Porém, sua antecessora, CVC TUR, adotava como critério para reconhecimento de suas receitas o momento do desembarque dos passageiros. Já, quanto à fiscalização, notase, que posicionase no sentido de que o reconhecimento da receita possa ocorrer, tanto no momento do embarque, como no momento do desembarque, conforme se depreende: Já, no relatório constante do arquivo "ANEXO TIF 21.xlsx" são relacionados recibos relativos às 10.969 NFs, cujos desembarques ocorreram em dez/09, para os quais deveria ter ocorrido o reconhecimento de receita em dez/09, mas não o foi, conforme relatado no item 01 deste termo. (...) Portanto, para que os valores dos bilhetes aéreos relacionados no Relatório 4.2.1 possam ser deduzidos das receitas de dez/09, é necessário que os recibos relativos a eles tenham como data de desembarque (critério inicial de reconhecimento de receitas) ou de embarque (novo critério, item 01 deste termo) o mês de dez/09. Neste ponto vale mencionar que a Recorrente afirma haver, no início de suas atividades, cometido alguns equívocos de escrituração, registrando algumas receitas/vendas levando em consideração as datas de desembarque. Porém, informa que tal erro foi corrigido antes do início da fiscalização, ou seja, logo após o mês de dezembro de 2009, período autuado. Este dado é, extremamente, relevante para os fins de compreensão desta infração, uma vez que, além de ser imprescindível que se estabeleça um parâmetro Fl. 6925DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.926 32 legal, esse critério é o ponto de partida para se considerar (ou não) dedutíveis tais custos do mês de dezembro de 2009. Pois bem, ao realizar o confronto entre as informações apresentadas pela contribuinte, a fiscalização desdobrou o relatório (421 – NÃO EMB OU DESEM EM DEZ09), no montante de R$ 35.114.231,49, em duas partes, uma referindose aos não embarques e desembarques em dez/09 com recibo, e outra, aos não embarques e desembarques em dez/09 sem recibo. Percebese que o referencial adotado, neste momento, é o fato de o documento possuir (ou não) recibo, ou melhor, contrato. O relatório pode ser assim delimitado: (i) não embarcados ou desembarcados em dez/09 com recibo, contendo 57.420 bilhetes aéreos, no montante de R$ 32.410.000,04, glosados por não se comprovar que os embarques e desembarques ocorreram neste mês, pois os contratos não constavam no relatório R1, R2 e R3 (recibos com embarques em dez/09) ou do relatório constante do arquivo ANEXO TIF 21 (recibos com desembarques em dez/09), valor glosado. Neste caso, a fiscalização realizou amostragem com 30, dos 57.420 bilhetes/recibos, e; (ii) não embarcados ou desembarcados em dez/09 sem recibo, competência dezembro de 2009, 3.570 bilhetes, no valor de R$ 2.704,231,45, montante não glosado. Em momento posterior, em diligência realizada junto ao sujeito passivo, a fiscalização aferiu que “as datas assinaladas na coluna DT Competência conferem com as datas de embarques constantes dos bilhetes, obtidas mediante pesquisas junto aos sistemas de controle interno do sujeito passivo”. Fato este que conduziu a novo desdobramento, uma vez que foi possível suprir algumas lacunas constantes do subrelatório (421 – NÃO EMB OU DESEM EM DEZ09SEM RECIBO). Com isto, foi produzida uma nova divisão, agora, relatório 421NAO EMB OU DESEM EM DEZ09 SEM RECIBO, adotandose como critério de discrímen (deste relatório) o mês de embarque, restando assim subdvidido: (i) 2.685 bilhetes cuja data de competência (embarque) ocorreu em dez/09, no montante de R$ 1.731.944,71, valor não glosado; (ii) 885 bilhetes cuja data de competência (embarque) ocorreu a partir de jan/10, no montante de R$ 972.286,74, os quais foram glosados “pois as datas de competência (embarques) dos bilhetes ocorreram a partir de jan/09, não podendo ser deduzidos das receitas que tiveram como data de embarque ou de desembarque o mês de dez/09”, valor glosado. Aqui, a fiscalização realizou amostragem com 21, dos 885 bilhetes/recibos. Após respectiva descrição, a fiscalização conclui que, para que os valores dos bilhetes aéreos relacionados nestes relatórios possam ser deduzidos das receitas de dez/09, é necessário que os recibos relativos a eles tenham como data de desembarque, ou de embarque, o mês de dez/09. Neste ponto encerro os esclarecimentos necessários à primeira divergência presente nos autos. Elucidação imprescindível à proposta de diligência, que se refere ao segundo dado a ser esclarecido. Fl. 6926DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.927 33 Em relação ao segundo aspecto, que diz sobre a amostragem realizada pela fiscalização, temse que esta procedeu de modo a considerar apenas 51 bilhetes aéreos, de um total de 58.305, percentual que equivaleria à, aproximadamente, 0,05% do total de contratos glosados. Em parecer técnico colacionado aos autos, a Recorrente apresenta uma contra prova, donde conclui que dos 1.453 bilhetes aéreos auditados (por escritório de auditoria terceirizado), aqui considerando como total a quantidade de 57.420 bilhetes glosados pela fiscalização, verificou que: i) 48.243 bilhetes, 84,9%, referemse a eventos ocorridos em dezembro de 2009; ii) 8.686 bilhetes, 15,1%, são relativos a eventos posteriores. Com isto, concluo que a Recorrente concorda, ainda que indiretamente, com o glosa de, pelo menos, 15% do total de (1.453) bilhetes aéreos (auditados). Porém, desde a apresentação de sua Impugnação requer a realização de diligência para sanar a deficiência apresentada na amostragem realizada pela fiscalização. Realizados tais esclarecimentos fáticos e apontadas as dúvidas que surgiram durante a análise deste processo, voto no sentido de converter este julgamento em diligência para que a fiscalização proceda à seguinte verificação: 1. ao fazer contraprova, a DRJ diz que a Recorrente juntou bilhetes distintos dos quais foram realizados as glosas, isso procede? A contribuinte colaciona os bilhetes os quais fez a amostragem? 2. Os documentos anexados pela Recorrente (fls. 1.970/6.309), comprovam (ou não) os repasses efetuados às companhias aéreas, quando de embarques realizados no mês de dezembro de 2009? A fiscalização deverá confrontar os dados e elementos apresentados e apresentar relatório conclusivo sobre as comprovações solicitadas. Em caso de comprovação parcial, quantificar tais valores. Após a finalização de seu trabalho, a Recorrente deve ser intimada para, desejando, manifestarse no prazo de 30 dias. Após, devem os autos retornar ao CARF para julgamento. É como voto." Este foi o voto proferido pela Conselheira Relatora, Talita Pimenta Félix. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Redator Ad Hoc para fins de formalização da Resolução. Fl. 6927DF CARF MF Processo nº 10805.722021/201481 Resolução nº 1302000.467 S1C3T2 Fl. 6.928 34 Fl. 6928DF CARF MF
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Numero do processo: 10976.000061/2010-83
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 23 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. AJUSTE NA BASE DE CALCULO. No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequar-se à realidade dos fatos.
COFINS MONOFÁSICO. FABRICANTE DE VEÍCULOS NOVOS. CONTRIBUINTE DE DIREITO. ARTIGO 1º A 3º DA LEI Nº 10.485/2002. A subsunção como contribuinte de direito da COFINS e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual.
MULTA DE OFICIO. JUROS DE MORA. EXCLUSÃO. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 100, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CTN.
Nos casos em que o contribuinte - que figure como terceiro em processo judicial - seja compelido a não recolher o tributo em virtude de tutela jurisdicional provisória obtida pelo autor da ação, ficam excluídos os consectários do lançamento de ofício, por aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. AJUSTES NA BASE DE CÁLCULO. No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequar-se à realidade dos fatos.
PIS MONOFÁSICO. FABRICANTE DE VEÍCULOS NOVOS. CONTRIBUINTE DE DIREITO. ARTIGO 1º A 3º DA LEI Nº 10.485/2002. A subsunção como contribuinte de direito da COFINS e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual.
MULTA DE OFICIO. JUROS DE MORA. EXCLUSÃO. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 100, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CTN.
Nos casos em que o contribuinte - que figure como terceiro em processo judicial - seja compelido a não recolher o tributo em virtude de tutela jurisdicional provisória obtida pelo autor da ação, ficam excluídos os consectários do lançamento de ofício, por aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN.
Recurso de Ofício Negado e Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3402-004.119
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, que: (1) por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso de Oficio; e (2) dar provimento parcial ao Recurso voluntário da seguinte forma: (a) pelo voto de qualidade, manter o lançamento de ofício dos tributos (PIS e a COFINS) em relação ao Contribuinte FCA FIAT. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowics, Renato Vieira de Avila e Carlos Augusto Daniel Neto; e, (b) por maioria de votos, excluir a multa de ofício com os mesmos fundamentos adotados pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim na declaração de voto apresentada no Acórdão nº 3403-003.538. Vencidos, nesta parte, os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra e Maria Aparecida Martins de Paula. Designado o Conselheiro Antonio Carlos Atulim. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentou declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos Atulim - Presidente e redator designado
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Renato Vieira de Avila, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Esteve presente ao julgamento o Dr. Marco Túlio Fernandes Ibraim, OAB nº 110.372 (MG).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, que: (1) por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso de Oficio; e (2) dar provimento parcial ao Recurso voluntário da seguinte forma: (a) pelo voto de qualidade, manter o lançamento de ofício dos tributos (PIS e a COFINS) em relação ao Contribuinte FCA FIAT. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowics, Renato Vieira de Avila e Carlos Augusto Daniel Neto; e, (b) por maioria de votos, excluir a multa de ofício com os mesmos fundamentos adotados pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim na declaração de voto apresentada no Acórdão nº 3403-003.538. Vencidos, nesta parte, os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra e Maria Aparecida Martins de Paula. Designado o Conselheiro Antonio Carlos Atulim. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentou declaração de voto. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim - Presidente e redator designado (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Relator Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Renato Vieira de Avila, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Esteve presente ao julgamento o Dr. Marco Túlio Fernandes Ibraim, OAB nº 110.372 (MG).
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. AJUSTE NA BASE DE CALCULO. No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequarse à realidade dos fatos. COFINS MONOFÁSICO. FABRICANTE DE VEÍCULOS NOVOS. CONTRIBUINTE DE DIREITO. ARTIGO 1º A 3º DA LEI Nº 10.485/2002. A subsunção como contribuinte de direito da COFINS e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual. MULTA DE OFICIO. JUROS DE MORA. EXCLUSÃO. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 100, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CTN. Nos casos em que o contribuinte que figure como terceiro em processo judicial seja compelido a não recolher o tributo em virtude de tutela jurisdicional provisória obtida pelo autor da ação, ficam excluídos os consectários do lançamento de ofício, por aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. DECADÊNCIA. AJUSTES NA BASE DE CÁLCULO. No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 97 6. 00 00 61 /2 01 0- 83 Fl. 2019DF CARF MF 2 gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequarse à realidade dos fatos. PIS MONOFÁSICO. FABRICANTE DE VEÍCULOS NOVOS. CONTRIBUINTE DE DIREITO. ARTIGO 1º A 3º DA LEI Nº 10.485/2002. A subsunção como contribuinte de direito da COFINS e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual. MULTA DE OFICIO. JUROS DE MORA. EXCLUSÃO. APLICAÇÃO ANALÓGICA DO ART. 100, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CTN. Nos casos em que o contribuinte que figure como terceiro em processo judicial seja compelido a não recolher o tributo em virtude de tutela jurisdicional provisória obtida pelo autor da ação, ficam excluídos os consectários do lançamento de ofício, por aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN. Recurso de Ofício Negado e Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, que: (1) por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso de Oficio; e (2) dar provimento parcial ao Recurso voluntário da seguinte forma: (a) pelo voto de qualidade, manter o lançamento de ofício dos tributos (PIS e a COFINS) em relação ao Contribuinte FCA FIAT. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowics, Renato Vieira de Avila e Carlos Augusto Daniel Neto; e, (b) por maioria de votos, excluir a multa de ofício com os mesmos fundamentos adotados pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim na declaração de voto apresentada no Acórdão nº 3403003.538. Vencidos, nesta parte, os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra e Maria Aparecida Martins de Paula. Designado o Conselheiro Antonio Carlos Atulim. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentou declaração de voto. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim Presidente e redator designado (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Renato Vieira de Avila, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Esteve presente ao julgamento o Dr. Marco Túlio Fernandes Ibraim, OAB nº 110.372 (MG). Relatório Fl. 2020DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.020 3 O presente litígio decorre de processo de Auto de Infração (fls. 05/43), lavrado contra a empresa FCA FIAT CHRYSLER AUTOMÓVEIS DO BRASIL LTDA (nova denominação de FIAT AUTOMÓVEIS S/A), doravante denominada de FCA FIAT, mediante o qual foi efetuado o lançamento tributário relativo à falta ou insuficiência de recolhimento da Contribuição para o Programa de Integração Social PIS e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, correspondentes aos períodos de apuração de janeiro a dezembro de 2005, conforme abaixo discriminado: (i) Auto de infração relativo à Contribuição para o PIS, multa de ofício e juros de mora, no montante de R$ 5.315.571,56 (fls. 9/17); (ii) Auto de infração relativo à Contribuição para o PIS e juros de mora, no montante de R$ 6.682.172,58 (fls. 18/26); (iii) Auto de infração relativo à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins, multa de ofício e juros de mora, no montante de R$ 25.671.795,05 (fls. 36/43); e (iv) Auto de infração relativo à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins e juros de mora, no montante de R$ 32.527.348,54 (fls. 27/35). Segundo o TVF Termo de Verificação Fiscal de fls. 44/73, a ação fiscal teve início em razão da constatação da existência de ações judiciais intentadas pelas concessionárias revendedoras da marca FIAT, questionando a incidência monofásica do PIS e da COFINS para veículos novos (zero km), nos termos da Lei nº 10.865, de 2004. Nas diversas ações judiciais, as revendedoras buscavam a declaração judicial de inconstitucionalidade do regime de tributação do PIS e da COFINS sobre veículos automotores, estabelecido pelos artigos 1º a 3º, da Lei n° 10.485, de 2002, alterada pelo artigo 36, da Lei n° 10.865/2004 e, regra geral, a inserção das concessionárias nos regimes não cumulativos das citadas contribuições previstas pelas Leis n°s 10.637/2002 e 10.833/2003. Com o intuito de elucidar os fatos e os argumentos trazidos pelas partes transcrevese o Relatório constante da decisão de primeira instância administrativa, in verbis: Foram lavrados contra o contribuinte acima identificado os presentes Autos de Infração, relativos à falta/insuficiência de recolhimento da Contribuição para o Programa de Integração Social PIS (fls. 09/26) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins (fls. 27/43), correspondentes aos períodos de apuração de janeiro a dezembro de 2005, nos montantes de R$ 5.315.571,56 (incluindo multa de ofício e juros de mora) e R$ 6.682.172,58 (incluindo juros de mora) para o PIS, e de R$ 32.527.348,54 (incluindo juros de mora) e R$ 25.671.795,05 (incluindo multa de ofício e juros de mora) para a Cofins. As autuações de PIS e Cofins ocorreram em virtude da ausência de declaração em DCTF e de recolhimento dos valores das contribuições vinculados a ações judiciais promovidas pelas concessionárias da Fiat Automóveis S/A, que buscam a declaração de inconstitucionalidade do regime de tributação do PIS e da Cofins sobre veículos automotores estabelecido pela Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, alterada pela Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004 (regime monofásico) e, regra geral, a inserção das concessionárias nos regimes nãocumulativos das contribuições previstos pelas Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, Fl. 2021DF CARF MF 4 de 29 de dezembro de 2003. Em atendimento às postulações, diversos juízos passaram a conferir em provimentos liminares o direito de as concessionárias não se submeterem ao pagamento do PIS e da Cofins estabelecidos pelas Leis nº 10.485, de 2002, e 10.865, de 2004, por ocasião da venda de veículos novos, impondo à montadora o dever de se abster de promover a retenção e recolhimento do percentual “estimado” de 5,13%, que deveria ser afastado dos 11,6% estabelecidos pela Lei nº 10.865, de 2004. Assim, os percentuais não retidos pela Fiat Automóveis S/A são 0,88% do PIS e 4,25% da Cofins, em obediência às determinações judiciais. No Termo de Verificação Fiscal (TVF), de fls. 44/70, encontramse analisadas detalhadamente a situação das ações judiciais para as quais a Fiat Automóveis S/A deu cumprimento (parcial ou total) no ano de 2005. O crédito tributário relativo às ações judiciais nºs 2004.61.000342215 (fls. 48/50), 2004.61.00.0233104 (fls. 55/59) e 2004.38.00.0361060 (fls. 60/64) foi constituído para prevenir a decadência e, portanto, sem multa e com a exigibilidade suspensa, tendo em vista a existência de decisão judicial favorável às concessionárias vigente quando do lançamento. No caso da ação judicial nº 2004.61.00.0235241 (fls. 50/54), em que não havia decisão favorável vigente, o crédito tributário foi lançado com os acréscimos decorrentes do procedimento de ofício, excluídos os valores efetivamente depositados. As bases de cálculo foram extraídas do banco de dados eletrônico de notas fiscais de saídas apresentado pela Fiat Automóveis S/A. A apuração das contribuições em relação a cada concessionária está discriminada nos demonstrativos elaborados que se encontram no TVF. Os dispositivos legais infringidos constam na Descrição dos Fatos e Enquadramento(s) Legal(is) dos referidos Autos de Infração (fls. 11, 21, 30 e 38). Irresignado, tendo sido cientificado em 26/02/2010, o contribuinte apresentou, em 29/03/2010, acompanhadas dos documentos de fls. 564/633, 670/739, 772/824 e 860/910, as suas razões de defesa (fls. 531/563, 637/669, 740/771 e 825/859), a seguir resumidas. Inicialmente, no item “Notas introdutórias”, aduz ser tempestiva a sua defesa e informa que a matéria objeto de impugnação não foi submetida à apreciação judicial, atendendo ao disposto no art. 16, V, do Decreto nº 70.235, de 1972. No item “Advertência inicial: o naufrágio do crédito tributário”, argumenta que a constatação da sua ilegitimidade passiva é medida indispensável à validação da autuação e o seu reconhecimento tardio trará enorme prejuízo à União. Assim, com base no art. 149 do CTN e no art. 53 da Lei nº 9.784, de 1999, o lançamento deve ser revisto pela autoridade lançadora, a fim de se resguardar a possibilidade de cobrança do crédito tributário. A manutenção do lançamento significará negar vigência às manifestações da própria RFB, em soluções de consultas, e a precedentes do STJ e da doutrina. No tópico “Contexto fático”, explica que nunca se voltou contra o regime monofásico instituído pela Lei nº 10.485, de 2002, ao contrário de algumas concessionárias integrantes de sua rede de distribuição, que ingressaram com Mandados de Segurança ou Ações Ordinárias para que pudessem apurar e recolher o PIS e a Cofins pela sistemática não cumulativa, nas operações com veículos automotores novos, declarandose a inconstitucionalidade do regime monofásico. Requereram, ainda, a compensação dos valores indevidamente “retidos” pelo impugnante e pediram que a Fiat fosse notificada a se abster de “reter” e recolher o percentual “estimado” de 5,13% sobre o valor total do veículo, bem como para que não repasse esse percentual às concessionárias. Os pleitos das concessionárias foram integralmente atendidos pelo Poder Judiciário. Fl. 2022DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.021 5 Mesmo não compondo os polos da relação processual que se formou entre as concessionárias e a União Federal, teve que suportar os mandamentos (obrigações de “não fazer”) oriundos do Poder Judiciário, o qual afastou toda e qualquer responsabilidade sua perante a Administração Tributária Federal, decorrente do cumprimento das ordens judiciais. Ressalta que sofreu com os efeitos das decisões judiciais, já que isso gerou desconforto perante o restante da rede de concessionárias em virtude da concorrência desleal. Posteriormente, interveio em cada ação judicial, sem assumir a qualidade de “parte processual”, e obteve autorização para proceder ao depósito judicial da quantia envolvida no litígio. Aduz que estava proibido e impedido de realizar determinada conduta e agora é chamado a responder, com o seu patrimônio, por aquilo a que nunca deu causa. Ressalta que a exigência do tributo indevido caracteriza excesso de exação. No item “Preliminarmente: decadência parcial do crédito tributário lançado pela fiscalização”, alega que decaiu o direito da fiscalização de efetuar o lançamento do crédito tributário relativo aos fatos geradores ocorridos antes do período de fevereiro/2005, já que foi cientificado do lançamento somente em 26/02/2010. Tratandose de tributo sujeito a lançamento por homologação, deve ser aplicado o art. 150, §4º, do CTN, conforme jurisprudência do Carf que transcreve. No tópico “Exame minucioso das ações judiciais aforadas pelas concessionárias, no que interessa ao desate da presente controvérsia”, aduz ser imprescindível a delimitação dos efeitos das medidas antecipatórias (liminares) deferidas a favor das concessionárias, afastando a aplicação da sistemática monofásica, e das consequências derivadas de sua eventual cassação/reforma. Isso envolve a análise de elementos conceituais tanto do Direito Tributário quanto do Direito Processual Civil, que devem ser examinados conjuntamente. No presente caso, as concessionárias pleitearam e conseguiram a completa mudança do regime tributário a que estavam submetidas, o que implicou, necessariamente, a modificação de todos os elementos da norma tributária de incidência. Caso o provimento judicial seja favorável, questiona sobre a responsabilidade que recairá sobre o sujeito passivo escolhido pela lei, que nunca compôs os polos da ação, ou seja, se poderá ser chamado a responder, com o seu patrimônio, por aquilo a que nunca deu causa. E se o provimento favorável for posteriormente cassado ou reformado, questiona se seria lícito defender a retroação dos efeitos da decisão contrária para quem quer que seja ou apenas às partes que compuseram a lide. Cita o art. 811 do CPC, afirmando que na situação em apreço o prejuízo causado à União corresponde exatamente ao pagamento do tributo que deixou de ser recolhido pelo sujeito passivo legal. As normas individuais criadas pelo Poder Judiciário que orientarão a solução da controvérsia, e, por isso, a sua extensão, devem ser analisadas com prudência. Em seguida, sintetiza a situação das diversas ações judiciais intentadas pelas concessionárias em relação às quais deu cumprimento, no ano de 2005, às decisões nelas proferidas. No caso da Ação Ordinária nº 2004.61.00.0235241, referente às concessionárias DHJ Comércio de Veículos Ltda. e CMJ Comércio de Veículos Ltda., foi concedida liminar e prolatada sentença confirmando os efeitos da liminar e afastando sua responsabilidade pelo cumprimento da ordem judicial. O recurso de apelação interposto pela União foi recebido no duplo efeito decisão publicada em 08/06/2005 e ainda está pendente de julgamento. Afirma que a exigência do crédito tributário com a aplicação da multa de ofício decorre de entendimento equivocado de que a decisão que recebeu o recurso de apelação no duplo efeito Fl. 2023DF CARF MF 6 teria o condão de revogar a antecipação de tutela confirmada por sentença. Isto é, são equivocadas as conclusões da fiscalização de que, durante o período em que vigeu a antecipação da tutela, a responsabilidade pelo não recolhimento do crédito tributário é do impugnante, mesmo que tenha cumprido ordem judicial, e de que o recebimento do recurso no duplo efeito é capaz não apenas de suspender o comando executório da sentença dali em diante, como também de produzir efeitos para o passado. Em relação às demais ações judiciais (Ação Ordinária nº 2004.61.00.0342215 GPV Veículos e Peças Ltda.; Ação Declaratória nº 2004.61.00.023310 4 Itavema Rio Veículos e Peças Ltda. e Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda.; e Ação Ordinária nº 2004.38.00.0361060 Roma Automóveis e Serviços Ltda.), cujo crédito tributário foi constituído para prevenir a decadência (sem multa e com exigibilidade suspensa),a fiscalização autuou o impugnante mesmo diante do provimento judicial que exonerou, integralmente, a sua responsabilidade pelo cumprimento da ordem mandamental. Ressalta, no caso da última ação judicial, que o afastamento de sua responsabilidade foi baseada no art. 1º da IN nº 104, de 2000. Em todas as ações judiciais aforadas, embora as normas individuais criadas pelos magistrados tenham quebrado o regime monofásico de tributação, essas mesmas normas exoneram o impugnante de ter que vir a responder pelo PIS e pela Cofins que foram parcialmente adimplidos. Acolhidos os pleitos das concessionárias para que a Fiat não “retenha” e não recolha 5,13% sobre o faturamento do veículo novo , passou a existir, no mundo jurídico, um ato judicial específico e dirigido contra o impugnante, que, se não observado, resultaria em crime de desobediência. Assim, se as concessionárias sucumbirem na ação judicial, é contra elas que o Fisco deve se voltar, porque o impugnante estava protegido e exonerado de qualquer responsabilidade. E não se pode admitir que o efeito suspensivo aplicado à apelação, no caso da Ação Ordinária nº 2004.61.00.0235241, tenha a possibilidade de alcançar o passado, apagando todas as consequências oriundas do deferimento da tutela antecipada. No item “Razões para o afastamento da responsabilidade da impugnante perante o fisco federal”, afirma que, se a norma de incidência prescrita na lei estava parcialmente inibida, não há se falar em descumprimento de dever legal e em sua responsabilidade para responder pelo crédito tributário. A suspensão de exigibilidade obtida pelas concessionárias em ação judicial por elas ajuizada não pode deflagrar efeitos contra terceiros que nunca se voltaram contra o cumprimento da lei e que sequer são partes, ou seja, durante o período de vigência das liminares, não há uma suspensão de exigibilidade para o impugnante, mas sim para elas próprias, que a requereram e dela se beneficiaram. Derrubada a causa suspensiva, os efeitos daí decorrentes se propagarão contra quem a pleiteou, o qual será responsável pela restauração do status quo ante, pela inteligência do art. 151 do CTN. Cita e examina o teor dos arts. 811, 472 e 475O do CPC, baseandose em entendimento doutrinário. Afirma que a reparação do prejuízo (tributo que deixou de ser recolhido pelo impugnante) advindo do aproveitamento de uma medida precária, ainda que confirmada por sentença, mas posteriormente cassada ou reformada pelo Tribunal, incumbe à parte requerente (no caso, as concessionárias). E se houve a exoneração de sua responsabilidade pelo provimento do Poder Judiciário, dali em diante as concessionárias assumiram a posição de “potenciais devedoras” perante o Fisco, obrigandose a reparálo na eventualidade de insucesso das ações intentadas. As normas processuais mencionadas ou responsabilizam as partes envolvidas ou limitam a extensão dos provimentos proferidos em ações judiciais, impossibilitando atingir a esfera de terceiros que delas não participaram. Fl. 2024DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.022 7 Afirma que há diversas normas da RFB que confirmam o seu entendimento, no sentido de não responsabilização de quem cumpriu ordens judiciais, quando não compunha os polos da relação processual. Lembra do art. 1º da IN nº 104, de 2000, que determina a responsabilização do substituído tributário, já que o substituto não figura como requerente ou requerido da medida judicial. Esse raciocínio deve ser aplicado ao caso subjacente, pois tanto na substituição tributária como no regime monofásico o legislador elege um único sujeito passivo que deverá responder pelo adimplemento do crédito tributário. E o entendimento atual, nos termos da posição doutrinária que apresenta, é de que a sujeição passiva do substituto é direta, isto é, ele fica no lugar do contribuinte. Em ambas situações (substituição tributária e regime monofásico) descabe dizer que o sujeito passivo eleito pela lei teria, de algum modo, causado prejuízo ao erário, pois não tomou qualquer iniciativa, limitandose cumprir a ordem judicial, e não cometeu infração. Transcreve algumas Soluções de Consulta e o Parecer Normativo nº 1, de 2002, expedido pela Cosit, sobre a impossibilidade de a fonte pagadora efetuar a retenção do IR em virtude de decisão judicial. Frisa que o regime monofásico, sob o ângulo da sujeição passiva, se identifica com os regimes de substituição tributária e de retenção exclusiva, de modo que, em qualquer um deles, havendo decisão judicial que impeça o sujeito passivo legal de cumprir sua obrigação, não há se falar em sua responsabilização pelo crédito inadimplido. No mesmo sentido, cita também jurisprudência do STJ. Sintetiza as suas razões, afirmando que a sua responsabilização ofende as regras tributárias e processuais aplicáveis, o entendimento da RFB manifestado em normas complementares e a decisão do STJ apresentada, e conclui ser parte ilegítima para responder pelos créditos tributários exigidos nos Autos de Infração. No item “Consequências decorrentes do recebimento do recurso de apelação da União Federal no duplo efeito. Impossibilidade de aplicação da multa de ofício”, que está presente apenas nas impugnações referentes aos Autos de Infração sem exigibilidade suspensa, esclarece, de início, sobre a impossibilidade de que o recurso de apelação seja recebido no duplo efeito. Isso porque, havendo tutela antecipada confirmada por sentença, o recurso é recebido apenas no efeito devolutivo, nos termos do art. 520, VII, do CPC. Dessa forma, é inócua a decisão que aplicou o duplo efeito no recebimento do recurso da União e, enquanto não julgada a apelação, a tutela permanece a produzir suas regulares consequências. Ressalta que cumpriu a decisão que suspendeu os efeitos da sentença por precaução, não havendo que se falar em aplicação da multa e ofício. Sobre o assunto, transcreve jurisprudência do STJ. Acrescenta que o recebimento do recurso de apelação no duplo efeito obsta a executoriedade da sentença atacada, ou seja, essa sentença não estará apta a produzir efeitos daquela data em diante. Assim, não se pode dizer que a tutela antecipada anteriormente concedida tenha perdido a capacidade de produzir as suas consequências enquanto vigeu. Não se pode sustentar que o efeito suspensivo de que se revestiu o recurso de apelação equivaleu a uma decisão revogadora da tutela antecipada anteriormente concedida. Podese afirmar apenas que esse provimento não continuará a ter eficácia a partir do recebimento do recurso de apelação no duplo efeito não havendo, dali em diante, causa suspensiva da exigibilidade , mas não se pode dizer que tal provimento nunca teve eficácia no tempo, em virtude de uma decisão que faz cessar o comando executório da sentença. É, portanto, totalmente indevido o lançamento do tributo acompanhado da multa de 75%. Fl. 2025DF CARF MF 8 No item “Erros nos cálculos da fiscalização”, destaca que os trabalhos fiscais foram permeados por erros que comprometem a liquidez dos créditos tributários constituídos. Isso porque o agente fiscal esqueceuse de fazer uma análise qualitativa do banco de dados de notas fiscais eletrônicas do qual diz ter extraído a base de cálculo dos tributos exigidos. O auditor fiscal procedeu à soma de todas as notas fiscais emitidas no período, não levando em consideração se tais notas retratavam uma efetiva venda de veículo. As principais inconsistências levantadas foram: inclusão, na base de incidência, das devoluções ocorridas no período; inclusão, na base de cálculo, de valores correspondentes a CFOPs que não correspondem à venda de veículos (CFOPs 1.556, 1.949, 2.949, 6.908, 6.912 e 6.949), conforme documento em anexo; e desconsideração da existência do “abatimento dos 5,13%” e da realização de depósito judicial em um mesmo mês. No caso das devoluções, o valor apurado deverá ser excluído duas vezes para se chegar à correta base de cálculo, já que o auditor fiscal, além de não ter “estornado” o respectivo valor, acabou adicionandoo na apuração da base de cálculo. Em seguida, elabora planilhas e explica a origem das diferenças entre a base eleita pela fiscalização e aquela que entende correta em relação a cada concessionária. Pede a realização de diligência e/ou perícia técnica, conforme os quesitos que anexa e o assistente técnico que indica, nos casos em que a identificação não foi possível, a fim de comprovar que a fiscalização não se valeu de critérios corretos para a composição da base de cálculo dos tributos. Aduz, como já mencionado anteriormente, que a fiscalização se equivocou ao ter somado à base de cálculo as eventuais devoluções realizadas pela concessionária e ao ter considerado valores relativos a CFOPs que não correspondem a uma receita tributável, por não se amoldarem ao fato gerador do tributo autuado. Tais equívocos ocorreram em relação às concessionárias: GPV Veículos e Peças Ltda. (CNPJ 67.452.128/000167), Itavema Rio Veículos e Peças Ltda. (CNPJ 27.132.497/000158), Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda. (CNPJs 47.696.711/0001005 e 47.696.711/000610), Roma Automóveis Ltda. (CNPJs 16.620.114/000417 e 16.620.114/000506), DHJ Comércio de Veículos Ltda. (CNPJ 03.974.905/000150) e CMJ Comércio de Veículos Ltda. (CNPJs 05.026.792/000197 e 05.026.792/000430). Especificamente quanto à concessionária GPV Veículos e Peças Ltda. (CNPJ 67.452.128/000167), afirma que o “desconto” efetuado no ano de 2005 levou em conta o percentual de 3,65% e não de 5,13%, conforme considerou o auditor fiscal. Assim, os cálculos deverão ser refeitos para que o crédito seja constituído com o percentual efetivamente utilizado no cumprimento da respectiva decisão judicial, em anexo. O contribuinte afirma, ainda, que o valor efetivamente recolhido nas vendas de veículos novos para essa concessionária levou em conta a alíquota de 7,95%. Ressalta, também em relação à concessionária em questão, que é significativa a diferença não identificada nas bases de cálculo, especialmente se comparados os meses de outubro e novembro com os demais meses de 2005. Somente nesses meses a diferença entre a base que apurou e a base da fiscalização chega ao montante aproximado de R$ 20 milhões, em nítido descompasso com as aquisições efetuadas ao longo de 2005, sendo que a concessionária não poderia mais que duplicar o volume de suas compras de veículos novos nesses dois meses. Em relação à concessionária Itavema Rio Veículos e Peças Ltda. (CNPJ 27.132.497/000158), indica na planilha elaborada que houve uma inclusão indevida do valor de R$ 2.860.000,94 na base de cálculo do período de abril/2005, Fl. 2026DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.023 9 porque até 10/04/2005 o faturamento de veículos novos para tal concessionária obedeceu à sistemática monofásica (alíquota total de 11,6%), e somente a partir de 11/04/2005 foi procedido o “abatimento de 5,13%”. Assim, a diferença apontada já foi devidamente recolhida. Para a concessionária Itavema Itália Veículos e Máquinas (CNPJ 47.696.711/0006 10), acrescenta que a diferença de R$ 99.457,15, indicada para o período de janeiro/2005, referese a alocação equivocada feita pelo agente fiscal, pois tal receita é de titularidade da concessionária Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda. matriz (CNPJ 47.696.711/000106). Com referência às concessionárias DHJ Comércio de Veículos Ltda.(CNPJ 03.974.905/000150), CMJ Comércio de Veículos Ltda. (CNPJ 05.026.792/000197) e CMJ Comércio de Veículos Ltda. (CNPJ 05.026.792/000430), os valores indicados na coluna “suspensão da liminar” das planilhas que elabora devem ser excluídos da base de cálculo das contribuições, porque a decisão que suspendeu o afastamento do regime monofásico foi publicada em 08/06/2005, sendo que até essa data considerou o “abatimento de 5,13%”. A partir de 09/06/2005 o faturamento de veículos novos obedeceu à sistemática monofásica (alíquota total de 11,6%), de onde se conclui que a diferença apontada já foi recolhida. Informa que a partir de dezembro/2005 realizou depósitos judiciais no valor correspondente ao percentual de 5,13%. Acrescenta, por fim, que a multa aplicada no lançamento relativo às concessionárias citadas deve ser excluída da autuação, pelas razões sustentadas em outros tópicos de sua defesa. Por fim, requer seja revisto o lançamento, com a sua consequente exclusão do polo passivo da autuação. Ultrapassado esse pedido, requer seja julgado totalmente improcedente o crédito lançado, em virtude da decadência e da sua manifesta ilegitimidade passiva. Em caráter sucessivo, requer a realização de diligência/perícia técnica para a comprovação dos equívocos nos valores apurados. É o relatório. Com vistas a sanar as irregularidades na apuração dos valores lançados, conforme apontado pela Recorrente, os autos foram, então, baixados em diligência pela Turma julgadora da DRJ em Belo Horizonte (MG), nos termos da Resolução nº 1.261, de 24/05/2010 (fls. 916 e ss). A fiscalização da DRF de Contagem efetuou a diligência solicitada e lavrou o “Termo de Encerramento de Diligência” (fls. 923/ss), onde apresentou as planilhas contendo os valores lançados, com o demonstrativo dos ajustes devidos. A Recorrente, devidamente cientificado sobre o resultado da diligência, manifestouse no sentido de estar ciente e de acordo com a reformulação do crédito resultante dos cálculos e planilhas elaboradas pela fiscalização da DRF de Contagem (MG), requerendo o regular prosseguimento às impugnações apresentadas (fls. 983/984). A 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte proferiu o Acórdão nº 0234.274, de 29/08/2011 (fls. 1010/1032), o qual recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 Fl. 2027DF CARF MF 10 No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. A subsunção como contribuinte de direito do PIS e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual. Na ausência de causa suspensiva da exigibilidade do crédito tributário na época do lançamento, cabe a aplicação da multa de ofício. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequarse à realidade dos fatos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 No caso em que há pagamento antecipado, deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do CTN. A subsunção como contribuinte de direito da Cofins e o seu dever de cumprir a obrigação tributária decorrem de regra de direito material tributário ligada ao implemento da situação definida como fato gerador da contribuição, não podendo ser afastada por regra de direito processual. Na ausência de causa suspensiva da exigibilidade do crédito tributário na época do lançamento, cabe a aplicação da multa de ofício. Os equívocos cometidos quando do lançamento devem ser corrigidos, a fim de que esse possa adequarse à realidade dos fatos. Impugnação Procedente em Parte Desse modo, o voto condutor da decisão de primeira instância exonerou parcialmente o crédito tributário lançado, em relação ao mês de janeiro de 2005, em virtude de sua extinção por decadência (artigo 156, VII, CTN), conforme planilhas constantes do acórdão às folhas 1.030/1.031. Em relação ao valor exonerado pela decisão de Piso, foi apresentado Recurso de Ofício, nos termos do disposto no artigo 34 do Decreto nº 70.235/72. A Recorrente cientificada do Acórdão em 14/11/2011 (fls. 1.033/1.034), interpôs seu Recurso Voluntário em 14/12/2011 (fls. 1.036/1.068), onde repisa os mesmos argumentos trazidos em sua Impugnação, acrescentando argumentações sobre a decisão recorrida, os quais podem ser assim sintetizados: Fl. 2028DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.024 11 (i) a DRJ em Belo Horizonte (MG) acolheu os argumentos trazidos na impugnação quanto à decadência (período de janeiro/2005) e, também, procedeu ao ajuste do lançamento em conformidade com as novas planilhas elaboradas pela Delegacia de origem; (ii) em relação aos demais pontos da impugnação, a DRJ não acolheu os argumentos da Recorrente, basicamente sob dois fundamentos: (a) a impossibilidade de decisões judiciais alterarem a chamada “relação jurídicotributária” e (b) ausência de vinculação, da Delegacia de Julgamento, às manifestações administrativas e do STJ a respeito da matéria aqui tratada; (iii) a decisão recorrida nada disse quanto ao fato de as decisões proferidas nas Ações judiciais propostas pelas concessionárias terem expressamente proibido o Fisco Federal de exigir a contribuição não recolhida da ora Recorrente e que a observância de uma ordem judicial não pode causar tamanho dano ao jurisdicionado. Afirma que nas medidas propostas pelas concessionárias, o Judiciário afastou “(...) toda e qualquer responsabilidade tributária dos respectivos fabricantes e importadores pelo encargo tributário das contribuições do PIS e da COFINS”, e assim teria ordenado expressamente que a RFB não cobrasse essas contribuições da ora Recorrente". Por fim, requer o provimento do seu Recurso Voluntário para, em reforma parcial do acórdão recorrido, cancelar o auto de infração lavrado. O processo digitalizado, então, foi encaminhado para ser analisado por este CARF na forma regimental. Em 26/11/2013, os membros da 2ª Turma Ordinária/2ª Câmara da 3ª Sejul, resolvem converter o julgamento em DILIGÊNCIA, conforme Resolução nº 3202 000.172, nos seguintes termos (fls. 1.175/1.185): "(...) Compulsandose os autos do processo verificase que ainda restam dúvidas em relação a fatos relatados pelas partes, especificamente em relação a dois pontos: a) A legitimidade da Recorrente para figurar no polo passivo da autuação fiscal; b) A conexão existente entre o processo administrativo e os processos judiciais citados na auto de infração (Ação Ordinária nº 2004.61.00.0342215 GPV Veículos e Peças Ltda.; Ação Declaratória nº 2004.61.00.0233104 Itavema Rio Veículos e Peças Ltda. e Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda.; e Ação Ordinária nº 2004.38.00.0361060 Roma Automóveis e Serviços Ltda.; Ação Ordinária nº 2004.61.00.0235241, referente às concessionárias DHJ Comércio de Veículos Ltda. e CMJ Comércio de Veículos Ltda.)." "(...) Em face do acima exposto, nos termos dos artigos 18 e 29 do Decreto n° 70.235/72, os autos devem retornar a DRF Contagem (MG) para que tome as seguintes providências: (i) Intime a Recorrente a: (a) apresentar Certidão de Objeto e Pé em relação às quatro ações judiciais acima citadas (Ação Ordinária nº 2004.61.00.0342215; Ação Declaratória nº 2004.61.00.0233104; Ação Ordinária nº 2004.38.00.0361060; Ação Ordinária nº 2004.61.00.0235241); (b) apresentar Certidão de Objeto e Pé em relação a todos os Mandados de Segurança impetrados relacionadas à matéria em litígio, inclusive quanto ao MS nº 2002.61.00.0259868 e MS nº 2005.03.00.0262531; Fl. 2029DF CARF MF 12 (c) esclarecer, detalhadamente, qual a sua relação processual em cada uma das ações judiciais citadas nos itens (a) e (b) acima, assim como juntar documentação probante capaz de demonstrar os esclarecimentos prestados; (d) juntar cópias de todas as decisões (de 1º e 2º graus) relativas aos processos judiciais acima citados. (ii) Diligencie junto às unidades da Receita Federal de jurisdição das concessionárias de veículos (GPV Veículos e Peças Ltda.; Itavema Rio Veículos e Peças Ltda.; Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda.; Roma Automóveis e Serviços Ltda.; DHJ Comércio de Veículos Ltda. e CMJ Comércio de Veículos Ltda.) para que informem se as contribuições objeto de discussão judicial foram recolhidas por elas (concessionárias de veículos), de alguma forma, ao fim das citadas ações judiciais. Após o atendimento a todos os itens da intimação acima, por parte da Recorrente, a fiscalização da DRF Contagem MG, poderá manifestarse, em Relatório Fiscal, sobre os fatos apurados e as provas apresentadas em decorrência da diligência. Ao fim da instrução processual a Recorrente deverá ser intimada para manifestarse no prazo de 30 (trinta) dias sobre os documentos juntados aos autos em decorrência da diligência. Após a manifestação da Recorrente, os autos deverão ser remetidos à Procuradoria da Fazenda Nacional para ciência e manifestação, notadamente em relação ao andamento das mencionadas ações judiciais". Desta forma, o processo foi encaminhado à DRF Contagem (MG) para cumprimento da referida Resolução (fl. 1.236). Visando o atendimento da diligência solicitada na Resolução, a DRF promoveu às intimações necessárias a todas as partes citadas, inclusive a FCA FIAT (fl. 1.238). Após a conclusão dos trabalhos o Fisco prolatou o Relatório de Diligência Fiscal de fls. 1.947/1.966, que deixou consignado as seguintes considerações finais: "Em resumo, a presente diligência resultou nas seguintes conclusões: 1 o contribuinte das Contribuições para o PIS e para a Cofins é a FCA Fiat; 2 a FCA Fiat permitiu a concorrência desleal entre concessionárias da sua marca; 3 a montadora foi beneficiada com o aumento de receita em função da oferta de automóveis a preços mais baixos; 4 a legislação em regência do regime monofásico não foi alterada por decisões judiciais transitadas em julgado nos casos aqui analisados; 5 inexistem alterações nos valores mantidos nos autos de infração após o julgamento da Delegacia de Julgamento." Cientificada da conclusão da Diligência (Termo de Intimação Fiscal nº 001/2016 e cópia do Relatório à fl. 1.945), a Recorrente manifestouse, apresentando suas contrarrazões, conforme o contido no documento de fls. 1.971/1.974, que conclui seus argumentos da seguinte forma: Fl. 2030DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.025 13 Na sequência dos atos, em 18/07/2016, a Procuradoria da Fazenda Nacional foi intimada do resultado da diligência e também protocolou suas contrarrazões que se encontra acostadas aos autos às fls. 1.997/2.017, a qual conclui nos seguintes termos: "(...) Pelo exposto, não merece ser acolhida a pretensão da recorrente, devendo ser mantido na integralidade o entendimento do acórdão recorrido, visto que, de fato, a recorrente é parte legítima para figurar no pólo passivo da exação". Assim, após serem dados cumprimento a todos os dispositivos da Resolução nº 3202000.172, verificouse que as partes se manifestaram, o processo retornou a este CARF e foi sorteado para este Conselheiro para prosseguimento. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Waldir Navarro Bezerra Relator 1 Da admissibilidade dos Recursos (de Ofício e Voluntário) O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. No presente caso, em razão da decisão de 1ª instancia que deu provimento parcial a impugnação, estão em julgamento os Recurso de Oficio e o Recurso Voluntário. A motivação do Recurso de Ofício efetuado pela DRJ em Belo Horizonte (MG), foi por ter considerado procedente em parte a impugnação, entendendo que o crédito tributário de PIS e da COFINS constituído no respectivo Auto de Infração (ciência em 26/02/2010) referente ao período de apuração PA de janeiro/2005 encontrase extinto, nos termos do art. 156, VII, do CTN, devendo ser cancelado, bem como ajustes efetuados nas bases de cálculo das Contribuições. 2. Do Recurso de Ofício Como visto nos autos, são totalmente procedentes os argumentos apresentados no voto condutor da decisão a quo, em que a Recorrente argumenta, preliminarmente, a decadência do direito de lançar as contribuições (PIS e da Cofins) dos períodos anteriores a fevereiro/2005. Foram também analisandas as razões suscitadas pela Recorrente, assim como os documentos por ela carreados aos autos, a DRJ em Belo Horizonte (MG) entendeu por bem baixar o processo em diligência, (fls. 860/864) a fim de que fossem verificados os argumentos do contribuinte quanto à existência de incorreções na base de cálculo e na apuração dos valores devidos das contribuições. Quanto a decadência, em face da edição pelo STF da Súmula Vinculante nº 8, foi elaborado o Parecer PGFN/CAT nº 1.617/2008, aprovado pelo Ministro da Fazenda em 18 de agosto de 2008, determinando que “e) para fins de cômputo do prazo de decadência, tendo havido pagamento antecipado, aplicase a regra do §4º do art. 150 do CTN.” Assim, no caso em tela, ficou definido que deve ser observado o prazo de homologação quinquenal, Fl. 2031DF CARF MF 14 contado a partir da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, previsto no art. 150, §4º, do Código Tributário Nacional (CTN). Nesse diapasão, na decisão de Piso restou desta forma consignado, "(...) Portanto, o crédito tributário de PIS e de Cofins constituído no respectivo Auto de Infração (ciência em 26/02/2010) referente ao período de apuração de janeiro/2005 encontrase extinto, nos termos do art. 156, VII, do CTN, devendo ser cancelado". Quanto as incorreções nas bases de cálculo das Contribuições, em resposta, a autoridade fiscal responsável pela diligência elaborou Termo de Encerramento de Diligência, no qual reconhece a inclusão indevida de valores na apuração da base de cálculo, efetuando as devidas correções. O contribuinte foi devidamente intimado do resultado da diligência, apresentando, em 01/08/2011, a manifestação de fls. 983/984, na qual informa estar ciente da reformulação do crédito, requerendo seja dado regular prosseguimento às impugnações. Concluindo, a autoridade de primeira instância acolheu a preliminar de decadência para o período de apuração de janeiro de 2005, com base no art. 150, § 4º, do CTN e determinou o ajustamento do lançamento conforme as planilhas elaboradas na diligência. No mérito, julgou improcedente a impugnação. Considerando que o crédito tributário exonerado superou o valor de alçada, interpôs Recurso de Ofício, nos termos do art. 34 do Decreto 70.235/72. Por tais razões, com base no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999, adoto na integra os argumentos da decisão de 1° grau para o caso, e assim voto por considerar improcedente o Recurso de Oficio. 3. Do Recurso Voluntário O objeto da presente lide é a falta de recolhimento de PIS e da COFINS devidos pelo setor automotivo (vendas de carro novo). Como relatado, tratamse de Autos de Infração lavrados para a exigência das Contribuições, com fatos geradores ocorridos entre 31/01/2005 a 31/12/2005, nos quais se imputa ao contribuinte autuado a falta ou insuficiência do recolhimento das referidas Contribuições. 3.1 Contextualização Conforme consta do TVF Termo de Verificação Fiscal de fls. 44/73, a ação fiscal teve início em razão da constatação da existência de ações judiciais intentadas pelas concessionárias revendedoras da marca FIAT, questionando a incidência monofásica do PIS e da COFINS para veículos novos (zero km), nos termos da Lei nº 10.485/2004. Em atendimento às postulações das revendedoras, o Poder Judiciário passou a conferir, em provimentos liminares (liminares em mandado de segurança, antecipações de tutela, etc), o direito de as concessionárias não se submeterem ao pagamento do PIS e da COFINS estabelecidos conforme a legislação por ocasião da venda da montadora de veículos novos, impondo à montadora o dever de se abster de promover a retenção e recolhimento do percentual "estimado" e "relativo à venda futura da concessionária", inserido nas alíquotas fixadas de PIS e da COFINS pelas Leis n°s 10.485/2002 e 10.865/2004. A respeito dessa questão, em 24/04/2014, a FIAT, em resposta ao Termo de Intimação Fiscal da DRF em Contagem (MG), que deu ciência das exigências contidas na Resolução n° 3202000.172, manifestouse nos seguintes termos (fls.1.256/1.315): Fl. 2032DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.026 15 "(...) As ações ordinárias descritas no item "a", supra, como sabido, são as demandas ajuizadas pelas concessionárias de veículos, integrantes da rede de distribuição da Recorrente, com o objetivo de "quebrar" o regime monofásico de recolhimento do PIS e da COFINS (na vigência da Lei n° 10.485/04), transformandoo num regime plurifásico, em que cada elo da cadeia apuraria e recolheria a própria contribuição. Conforme amplamente demonstrado no decorrer da presente lide, as concessionárias obtiveram liminares e sentenças favoráveis, as quais impuseram à Recorrente obrigação de não fazer, concernente à não retenção de 5,13% do valor das notas de venda de veículos novos. Estas mesmas decisões, vale destacar, consignavam de forma expressa a ausência de responsabilidade da Recorrente, perante o Fisco, pelo crédito tributário que estava deixando de ser recolhido em estrita observância aos comandos judiciais". Em suma, o cerne da lide, é que a FIAT requer essencialmente, que seja reconhecida a sua ilegitimidade passiva, tendo em vista o afastamento, pelos provimentos judiciais, da sua responsabilidade, perante o Fisco, pelo encargo tributário, ou seja, as ordens judiciais determinaram o não recolhimento, pela Recorrente, do percentual de 5,13% sobre o faturamento dos veículos novos contra as concessionárias, impedindo o cumprimento integral da Lei nº 10.865, de 2004. Ressalta também em sua defesa, que a sua responsabilização ofende as regras tributárias e processuais aplicáveis (art. 151 do CTN e arts. 811, 472 e 475O do CPC), o entendimento da RFB manifestado em soluções de consulta e em normas complementares e precedente do STJ, que transcreve em seu recurso. 3.2. Da legislação do PIS e da COFINS Fabricante de veículos Está sob análise a Contribuição do PIS e da COFINS devida pelo setor Automotivo (fabricação de veículos). Para esse segmento econômico, o tributo era recolhido (a partir de junho de 2000) sob o regime de substituição tributária. Os fabricantes e os importadores dos produtos relacionados no art. 44 da Medida Provisória n° 1.99115 ficaram obrigados a pagar, na condição de contribuintes substitutos, as contribuições sociais devidas pelos comerciantes varejistas, relativamente às vendas de veículos novos realizadas a partir de 11.06.2000. O regime de substituição tributária perdurou somente até a entrada em vigor em 01.10.2002, pela entrada em vigor da Lei n° 10.485/2002. Com a edição da Lei nº 10.485, de 2002, em seu artigo 1º, com a redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, estabelece a tributação da receita decorrente da venda dos veículos, nas alíquotas concentradas de 2% para o PIS e de 9,6% para a Cofins. Notese que o contribuinte, sujeito passivo da relação jurídico tributária, é o fabricante ou importador de máquinas e veículos. Vejase: “Art. 1º. As pessoas jurídicas fabricantes e as importadoras de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados TIPI, aprovada pelo Decreto nº 4.070, de 28 de dezembro de 2001, relativamente à receita bruta decorrente da venda desses produtos, ficam sujeitas ao pagamento da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, às alíquotas de 2% (dois por cento) e 9,6% (nove inteiros e seis Fl. 2033DF CARF MF 16 décimos por cento), respectivamente. (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)” (grifouse). A cobrança do PIS e da COFINS em relação aos produtos especificados em lei é realizada mediante a técnica de arrecadação denominada incidência monofásica, ou, mais propriamente, concentrada, que consiste em aplicar alíquotas diferenciadas, mais elevadas, em pontos estratégicos da sua cadeia econômica e em desonerar os demais pontos. A tributação denominada de "concentrada", estipulada aos fabricantes e importadores de veículos e autopeças, do §2º do art. 3º da mesma lei atribui a incidência de alíquota zero para a receita de venda dos mesmos veículos e de autopeças, quando apurada por comerciantes atacadistas e varejistas: “Art. 3º (...) §2º Ficam reduzidas a 0% (zero por cento) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, relativamente à receita bruta auferida por comerciante atacadista ou varejista, com a venda dos produtos de que trata:(Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) I o caput deste artigo; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II o caput do art. 1º desta Lei, exceto quando auferida pelas pessoas jurídicas a que se refere o art. 17, §5º, da Medida Provisória no 2.18949, de 23 de agosto de 2001. (Redação dada pela Lei nº 10.925, de 2004)” (grifouse). Esse dispositivo legal foi regulamentado pela Instrução Normativa SRF nº 594, de 26 de dezembro de 2005, em seu art. 14, para as máquinas e veículos: “Art. 14. Na determinação do valor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, incidentes sobre a receita bruta auferida nas operações de venda das máquinas e dos veículos, de que trata o inciso IX do art. 1º, aplicamse as alíquotas de: I 2% (dois por cento) e 9,6% (nove inteiros e seis décimos por cento), respectivamente, para a venda efetuada por fabricante, por importador ou por empresa comercial atacadista de que trata o §5º do art. 17 da Medida Provisória nº 2.18949, de 2001; e II 0% (zero por cento), no caso de venda efetuada por comerciante atacadista e varejista, exceto na venda efetuada por empresa comercial atacadista de que trata o §5º do art. 17 da Medida Provisória nº 2.18949, de 2001.” Como se vê, a partir de 01/10/2002, data em que entrou em vigor os referidos preceitos legais, a cobrança das Contribuição para o PIS e da COFINS sobre a receita de venda de veículos novos passou a ser realizada de forma concentrada, nos fabricantes e as importadoras, com alíquotas majoradas de 2% (dois por cento) e 9,6% (nove inteiros e seis décimos por cento), respectivamente. Em compensação, as receitas auferidas pelo atacadista ou varejista ficaram desoneradas da cobrança das referidas Contribuições, com exceção das pessoas jurídicas a que se refere o art. 17, § 5º, da Medida Provisória no 2.18949, de 23 de agosto de 2001, situação em que não inclui a Recorrente. Após a vigência da referido regime de cobrança monofásica, foram editadas as Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, que introduziram, respectivamente, o regime não cumulativo de cobrança da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. A partir da vigência desses novos diplomas legais, ao lado dos regimes de cobrança cumulativo, monofásico e de substituição tributária, anteriormente vigentes, passou a existir o regime não Fl. 2034DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.027 17 cumulativo de cobrança das Contribuições para o PIS/PASEP e da COFINS, porém, mantendo se para cada um desses regimes regramento próprio de incidência das referidas Contribuições. É oportuno ressaltar que as regras de um regime não podem ser aplicadas aos outros, a menos que haja ressalva expressa em lei. Em consequência dessa independência, as regras do regime cumulativo não se aplicam ao regime de substituição tributária, assim como as regras do regime monofásico não se aplicam ao regime não cumulativo. 3.3. Das autuações x Ações Judiciais Os Autos de Infração referente ao PIS/PASEP e da COFINS foram lavrados em virtude da ausência de declaração em DCTF e de recolhimento dos valores das contribuições vinculados a ações judiciais promovidas pelas Concessionárias da FIAT, que buscam a declaração de inconstitucionalidade do regime de tributação do PIS/PASEP e da COFINS sobre veículos automotores estabelecido pela Lei nº 10.485, de 2002, alterada pela Lei nº 10.865, de 2004 (regime monofásico) e, regra geral, a inserção das concessionárias nos regimes nãocumulativos das contribuições previstos pelas Leis nºs 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003. Em atendimento às postulações, diversos juízos passaram a conferir em Ações judiciais (liminares em mandado de segurança, antecipações de tutela, etc), o direito de as concessionárias não se submeterem ao pagamento do PIS/PASEP e da COFINS estabelecidos pelas referidas Leis, por ocasião da venda de veículos novos, impondo à montadora o dever de se abster de promover a retenção e recolhimento do percentual “estimado de 5,13%" (e relativo à venda futura da concessionária), que deveria ser afastado dos 11,6% estabelecidos pela Lei nº 10.865, de 2004. Assim, os percentuais não retidos pela FIAT Automóveis S/A são de 0,88% de PIS e 4,25% da COFINS, em obediência às determinações judiciais. Às fls. 47, no Termo de Verificação Fiscal, encontramse listadas as Ações Judiciais analisadas no bojo destes autos (nº do processo Judicial, nome da Concessionária, o nº do CNPJ e se houve, ou não, cumprimento da Ação Judicial em 2005). Às fls. 48 e ss., o Fisco, compulsando os andamentos processuais de cada uma delas, observou que, em uma delas, inexistia decisão favorável vigente, lançando, nesses casos, o crédito tributário com os acréscimos decorrentes do procedimento de ofício, sempre levandose em consideração os valores de eventuais depósitos judiciais efetuados. Em outras, constatou a existência de decisão favorável, efetuando o lançamento, sem os acréscimos legais, apenas para prevenir decadência, conforme se verifica às fls. 1.028/1.031. 3.4 Do objeto das petições das concessionárias É fato que a Recorrente nunca questionou o regime monofásico. Contudo, algumas concessionárias integrantes de sua rede de distribuição ingressaram com medidas judiciais com pedido para que pudessem apurar e recolher o PIS/COFINS pela sistemática não cumulativa nas operações com veículos automotores novos ("quebra" do regime monofásico). Conforme informado nos autos pela própria FIAT, nos termos da argumentação desenvolvida em cada uma das ações judiciais, sustentaram as Concessionárias que, sob a égide da Lei n° 10.485/2002, a alíquota concentrada, no fabricante, era de 8,26% (1,47% para o PIS/PASEP e 6,79% para a COFINS), ao passo que as demais empresas, sujeitas ao regime "normal" de apuração, recolhiam os tributos a uma alíquota de 3,65% (0,65% para o Fl. 2035DF CARF MF 18 PIS/PASEP e 3% para a COFINS). Verificouse que a relação proporcional entre a alíquota concentrada (8,26%) e a alíquota "normal" (3,65%) correspondia a 44,19% (isto é, os 3,65% equivalem a 44,19% de 8,26%). Transpondo esta relação proporcional para a nova alíquota diferenciada instituída pela Lei n° 10.865/04 (11,6%, sendo 2% para o PIS/PASEP e 9,6% para COFINS), chegase a um montante de 5,13% (= 44,19% de 11,6%), representativo da carga tributária que, em tese, caberia às concessionárias. O pedido formulado nessas ações foi, então, para que o Poder Judiciário reconhecesse a inconstitucionalidade do regime monofásico, afastando, por conseguinte, as disposições da Lei n° 10.485/2004, e autorizasse às concessionárias que apurassem o PIS/PASEP e a COFINS segundo as normas da sistemática nãocumulativa. Requereram, ainda, que fossem autorizadas a compensar os valores indevidamente "retidos" pela Recorrente quando da vigência dos diplomas que instituíram a tributação diferenciada. Não bastasse isso, pediram, por fim, fosse a Recorrente notificada para que se abstivesse de "reter" e recolher o percentual "estimado" de 5,13% sobre o valor total do veículo novo (0 km), bem como para que não repassasse dito percentual às concessionárias. 4. Das Ações Judiciais x Relação Processual com a FIAT Primeiramente, informa a Recorrente que o único meio à disposição para se voltar contra essas Ações seria a adoção da via Judicial, eis que, de acordo com a Lei n° 6.729, de 1979, denominada Lei Ferrari, em seu art. 16, é expressamente vedado aos fabricantes de veículos intervir na gestão das concessionárias, seja uma ingerência administrativa, econômica ou jurídica. Isto posto, passase à análise detalhada de sua relação processual em cada uma destas demandas Judiciais (item "c" da Resolução solicitada pelo CARF informações prestadas pela Recorrente às fls. 1.256/1.315), bem como, verificase que foi juntado aos autos toda documentação correlata, conforme o determinado no item "a, b e d" da solicitação de Diligência (fls. 1.270/1.810). Tudo conforme restou consignado no "Relatório de Diligência Fiscal" elaborado pelo Fisco às fls. 1.947/1.966, que doravante passo a reproduzir: (i) Ação Ordinária n° 2004.38.00.0361060, ajuizada pela concessionária Roma Automóveis e Serviços Ltda. e Mandado de Segurança n° 2005.01.0378676. Ação Ordinária autuada sob número 2004.38.00.0361060, cuja antecipação dos efeitos da tutela foi deferida nos seguintes termos: "Defiro, com estas considerações, a antecipação, dos efeitos da tutela para enquadrar as operações da contribuinte, com veículos zeroquilômetro no regime de apuração não cumulativo, nos termos das Leis n° 10.637, de 30/12/2002, e n° 10.833, de 29/12/2003, afastando por conseguinte, o regime monofásico previsto na Lei n° 10.485, de 03/07/2002, alterada pela Lei n° 10.865, de 30/04/2004, determinando seja intimada pessoalmente a montadora, na qualidade de substituto tributário para que deduza do preço total da nota fiscal emitida contra a contribuinte o percentual de 5,13 referente ao valor do PIS e da Cofins embutido na cobrança monofásica". Contra essa decisão, a Recorrente, na qualidade de terceira interessada, opôs Embargos de Declaração, à fim de que fosse esclarecida a extensão de sua responsabilidade, perante o Fisco, em razão do cumprimento da decisão liminar. Os embargos foram rejeitados pelo magistrado, que, no entanto, esclareceu a necessidade de a Secretaria da Receita Federal observar o contido na Instrução Normativa nº 104/00. É dizer, a Recorrente não poderia vir a ser responsabilizada por eventual tributo devido, caso fosse cassada a decisão favorável às concessionárias. Sobreveio sentença que confirmou os efeitos da antecipação da tutela. Fl. 2036DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.028 19 A Recorrente, irresignada com o seu teor, impetrou Mandado de Segurança perante o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (MS nº 2005.01.00.0378676), para que fossem sustados os efeitos do comando judicial. Em que pesem seus fundamentos, a segurança pleiteada foi denegada, sob o argumento de que faltavalhe interesse processual, justamente porque sua responsabilidade em face da Administração Tributária Federal já havia sido afastada pelo juízo de primeira instância. Este entendimento foi reafirmado pelo Relator. Veja se trecho abaixo reproduzido: "Ocorre, porém, que, ainda quando a Impetrante tenha, a seu favor, a presunção de constitucionalidade da Lei n° 10.485/02, alterada pela Lei n° 10.865/04, é certo que não preenche ela o requisito do art. 3º do CPC, eis que lhe falta interesse processual, seja porque, na decisão dos embargos de declaração por ela opostos contra a decisão que antecipou a tutela, o MM. Juiz a quo deixou clara a impossibilidade de ser ela molestada com a exigência da Contribuição, por estar dando cumprimento à decisão judicial concessiva da antecipação dos efeitos da tutela, eis que é de se presumir que os agentes do fisco têm pleno conhecimento dos atos normativos complementares à legislação tributária (CTN, art. 100, I) editados pela própria Secretaria da Receita Federal (fl. 72); seja porque a providência pleiteada no presente mandado de segurando, ou seja a atribuição ao verdadeiro contribuinte do dever de responsabilizarse pelo recolhimento do tributo, no caso de vir a autora (ROMA AUTOMÓVEIS E SERVIÇOS LTDA. matriz e filial) a sucumbir na ação, já e medida expressamente prevista no art. Io da INSRF104. de 19/09/00". Diante da decisão desfavorável, e não obstante a declaração expressa de inexistência de sua responsabilidade pelo crédito tributário, a Recorrente solicitou ao juízo autorização para efetuar o depósito dos montantes controvertidos. Este pedido acabou sendo lhe negado, num primeiro momento, sob o fundamento de que lhe faltava legitimidade para o pleito. Vejase a seguinte passagem da decisão: "Verifica este Juízo que a empresa Fiat Automóveis S/A não figura como parte no processo em epígrafe. Aliás, noutro pronunciamento (fls. 136/138), já se averbou a ilegitimidade daquela requerente. Destarte, não poderia pleitear providência como depósito judicial. Ademais, proferida a r. sentença de fis. 232/257, somente o Egrégio TRF1ª Região poderá modificar o seu comando. Admitir o depósito do importe de tributo, questionado seria alterar o r. decisório, o que é defeso ex vi legis" . Diante do entrave para a realização dos depósitos, o mesmo só foi deferido judicialmente após a concordância expressa da concessionária Roma neste sentido. Da sentença que julgou procedente o feito, a União Federal interpôs Apelação perante o TRF da 1ª Região. Submetido o feito a julgamento, foi negado provimento ao Recurso e à remessa oficial, nos termos do voto da Des. MARIA DO CARMO CARDOSO. Em seguida,decisão monocrática da Desembargadora Relatora atendeu ao pleito aduzido pelas concessionárias, para que estas pudessem levantar valores depositados pela Recorrente até o momento. Em face do acórdão, a Fazenda Nacional e a Recorrente interpuseram os Recursos cabíveis, mas não obtiveram êxito. Restou assentado, então, que a Recorrente deveria cumprir a decisão judicial. Isto é, deixar de reter os 5,13% a título de PIS/COFINS das notas de vendas de veículos e, além disso, as concessionárias foram autorizadas a levantar o montante depositado até o momento. Irresignada, a Recorrente peticionou nos autos com vistas a. impedir o levantamento dos depósitos. A decisão, todavia, foi mantida, o que ensejou a interposição de Fl. 2037DF CARF MF 20 Medida Cautelar perante o TRF da Ia Região, com o objetivo de suspender a eficácia da decisão que determinou a dedução do percentual de 5,13% das notas fiscais e, ato contínuo, permitir que a Recorrente pudesse continuar depositando o valor do crédito controvertido. Em que pese o esforço empenhado, a petição inicial foi indeferida, por suposta inadequação da medida judicial adotada. Assim, a Recorrente intentou medida cautelar junto ao STJ, que houve por bem deferir a liminar pleiteada, suspendendo a decisão de levantamento dos valores depositados pela concessionária. Relação processual da Recorrente Como visto, a Recorrente apresentou inúmeras petições e medidas judiciais na qualidade de terceira interessada/prejudicada, sempre objetivando combater a decisão obtida pela concessionária. Ou, em não obtendo êxito neste intento, em solicitar o depósito judicial dos valores como medida acautelatória. Contudo, nem mesmo esta tarefa não se mostrou tranqüila: o magistrado indeferiu seu pleito, que só pôde. ser atendido mediante a anuência expressa da concessionária. Só então é que o depósito foi autorizado. Aliás, da decisão que deferiu a realização dos depósitos, destacandose o seguinte trecho, que define expressamente a condição processual da FIAT na lide: "Observo, inicialmente, que, apesar de constar da autuação do presente feito o nome da aqui requerente, FIAT AUTOMÓVEIS S/A, como apelada, a mesma não figura como parte neste feito, embora tenha nele peticionado como 3 o interessado, pedindo vista dos autos, que não lhe foi concedida, e, posteriormente, requerendo o depósito dos valores descontados, o que lhe foi indeferido (fl. 337), tendo interposto, dessa decisão, agravo de instrumento, ao qual lhe foi denegada^ a antecipação da pretensão recursal (fls. 328/383). Assim, determinou que se proceda à correção da autuação, para que seu nome seja dela excluído". Em segunda instância, a decisão que havia deferido os depósitos foi reformada, além de terse autorizado as concessionárias a procederem ao levantamento dos depósitos realizados até o momento. A Recorrente, então, interpôs os recursos cabíveis, além de ter se valido de uma ação cautelar para cassar o referido comando judicial. Não há dúvida, portanto, que a parte envidou todos os esforços possíveis, fazendo tudo o que estava ao seu alcance para permanecer depositando as quantias controvertidas e, ainda, obstar que a concessionária levantasse os valores depositados. Assim, percebese que a Recorrente não se manteve silente em relação às decisões obtidas pelas concessionárias, em que pese o fato de sua responsabilidade pelo crédito tributário ter sido excluída de modo expresso pelos juizes de primeira e segunda instâncias. (ii) Ação Ordinária n° 2004.61.00.0342215, ajuizada por GPV Veículos e Peças Ltda. e Venice Veículos e Peças Ltda; Mandado de Segurança n° 2002.61.00.025986 8, também impetrado pelas concessionárias. Ação Ordinária aforada em dezembro de 2004, tombada sob número 2004.61.00.0342215, com decisão liminar concedida no início de 2005. Logo após o deferimento da tutela antecipada, as concessionárias requerem a citação da .Recorrente, para figurar na condição de LITISCONSORTE PASSIVA (RÉ). Este pedido foi formulado justamente em observância ao trâmite das ações que já haviam sido intentadas pelas demais concessionárias, em relação às quais a Recorrente ajuizava novas Fl. 2038DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.029 21 demandas (mandados de segurança) objetivando cassar as decisões proferidas em favor destas. Confirase trecho da petição requerendo a citação da Recorrente: "Com o deferimento da antecipação de tutela, foi requerida a expedição e cumprimento da carta precatória à Montadora FIAT Automóveis S/A, estabelecida na comarca de Betim/MG. Contudo, em casos análogos ao da presente ação a'referida montadora tem alegado prejuízo em sua participação no processo, distribuindo, posteriormente, à intimação dos atos dos processos, ações autônomas, por vezes originariamente no Tribunal competente, mesmo após o proferimento da sentença, motivo pelo qual requerer a parte autora a devolução da carta precatória desentranhada, para análise do pedido a seguir formulado. A fim de evitar futuras alegações de prejuízo, bem como impedir, quaisquer tumultos processuais e garantir a celeridade do processo, requer seja deferida a inclusão da montadora (...), como listisconsorte passivo, a fim de compor a lide (...). Requer, ainda, seja determinada a suspensão da antecipação de tutela concedida nos autos, até a citação e manifestação da montadora sobre os argumentos despendidosna petição inicial. " Regularmente citada, a Recorrente requisitou "autorização para que seja realizado o depósito judicial das quantias controvertidas, com vistas a se eximir de eventuais efeitos da mora (...)". Em seguida, foi proferida sentença que deu total provimento aos pedidos formulados pelas empresas autoras e extinguiu o feito em relação à Recorrente, por ilegitimidade passiva. Segue a transcrição da parte dispositiva: "Julgo procedente o pedido formulado para afastar a tributação monofásica prevista na Lei n° 10.485/2002, alterada pela Lei n° 10.865/04, relativamente a veículos,x zero quilômetro das autoras (...), assegurandolh.es o direito de recolher o PIS e a COFINS sobre o faturamento, assim compreendida a diferença entre o valor do veículo repassado à montadora e o valor de venda ao consumidor final, tudo nos termos da fundamentação desta decisão, que fica fazendo parte integrante do dispositivo. Por conseqüência, deverá a montadora absterse de recolher o percentual de 5,13% sobre o valor do veículo repassado à impetrante (sic), ficando ela, montadora, exonerada de qualquer responsabilidade perante o Fisco por força de cumprimento desta decisão judicial" (sem destaque no original) Apesar de a Recorrente ter sido excluída da lide, notase que o magistrado afastou, de forma expressa, sua responsabilidade perante o crédito sub judice, exonerandoa de qualquer encargo perante o Fisco. Conquanto a Recorrente não tenha se voltado contra a sentença, por medida de cautela passou a efetuar o depósito mensal da exação questionada. Em segunda instância a sentença foi reformada, restabelecendose o regime monofásico de tributação, sendo que, atualmente, aguardase o julgamento dos Recursos Especial e Extraordinário interpostos pelas concessionárias. Relação processual da Recorrente A partir da exposição supra, identificase que a Recorrente, inicialmente incluída como Ré, requereu autorização judicial para realização dos depósitos, ainda que a decisão liminar tenha afastado de forma expressa sua. responsabilidade pelo crédito tributário. Fl. 2039DF CARF MF 22 Sua condição de Ré na demanda é facilmente extraída da movimentação do processo, extraída do sítio eletrônico do Tribunal, bem como da certidão de inteiro teor da ação, emitida pelo juízo. Destacase que mesmo após a sentença que a excluiu da lide, e reafirmou à impossibilidade de sua responsabilização perante o montante controvertido, a Recorrente requereu nova autorização para o depósito, desta vez deferida pelo juízo. É certo que diante da liminar e sentença, que eximiram sua responsabilidade em relação ao Fisco, a Recorrente poderia quedarse inerte, eis que resguardada pelas decisões judiciais. Todavia, no interesse da própria União Federal, procedeu de maneira diversa, realizando o depósito judicial do tributo questionado, o que revela a lisura de seu comportamento perante a Administração Pública. Do Mandado de Segurança 2002.61.00.0259868, impetrado por GPV Veículos e Peças Ltda. e Venice Veículos e Peças Ltda. Em relação ao Mandado de Segurança n° 2002.61.00.0259868, destacado no despacho retro (item b), tratase de ação ajuizada pelas concessionárias, que também tinha por objetivo afastar o regime monofásico de recolhimento das contribuições para o PIS e a COFINS. Contudo, nesta demanda questionouse o citado regime apenas no período de vigência da Lei n° 10.485/02, não abarcando, portanto, o interregno autuado, que compreende o ano de 2005, quando já estava em vigor a Lei n° 10:865/04. Nos autos da ação ordinária n° 2004.61.00.0342215, tratada no tópico anterior, é que se discutiu o regime monofásico sob a égide da Lei n° 10.865/04, que teve efeito de majorar as alíquotas do PIS e da COFINS. De todas as formas, conforme se verifica da certidão de inteiro teor, vale destacar que a Fiat sempre combateu, ao lado da União Federal, a prática das concessionárias, apresentando Agravos e Recursos de Apelação. Neste sentido, confirase a passagem abaixo, extraída da citada certidão: "A montadora (Fiat Automóveis S/A) interpôs recurso de agravo de instrumento com pedido de antecipação dos efeitos da tutela recursal (...)" (...) em face da referida decisão a Fiat Automóveis S/A e. a União Federal apresentaram recurso de apelação. Tendo sido recebida a apelação da Fiat Automóveis S/A recebida por despacho de fls. 242/243, determinando ainda fosse oficiada para cumprir a decisão de imediato, sob pena de aplicação de multa diária de R$ 30.000,00. Em face da referida decisão, a montadora interpôs recurso de agravo de instrumento (n° 2003.03.00.0370562) distribuído por dependência ao Agravo de Instrumento n° 2002.03.00.0514051.". (iii). Ação Ordinária n° 200461.00.0233104, ajuizada por Itavema Rio Veículos e Peças Ltda. e. Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda. e Mandado de Segurança n° 2005.03.00.0262531, impetrado pela Recorrente. Ajuizada em agosto de 2004, a Ação Declaratória n° 2004.61.00.0233104 teve a tutela antecipada deferida em decisão prolatada em setembro de 2004: "Face ao exposto, verificando a presença dos pressupostos que autorizam a antecipação da tutela (art. 273 CPC), defiro em parte a tutela postulada para o efeito de (a) afastar o regime de antecipação tributária, estabelecido pela Lei n° 10.865/04, intitulado de . regime monofásico de recolhimento tributário, pela aparente incompatibilidade com a eleição constitucional do sujeito passivo da obrigação tributária, no tocante aos tributos de natureza pessoal, a saber, o PIS e a Fl. 2040DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.030 23 COFINS e, .* ainda, pela aparente violação ao postulado da igualdade,, em função do díscrimen do setor econômico que as autoras apresentaram e, por conseguinte, (b) determinar às fabricantes e às importadoras que se abstenham de promover à retenção e recolhimento do percentual estimado de faturamento das autoras, no percentual de 5,13% sobre o valor total do veículo, afastandose, por conseguinte, toda e qualquer responsabilidade tributária dos respectivos fabricantes pelo encargo tributário, em razão do aqui decidido, até a solução final do feito". A medida liminar foi confirmada por sentença proferida em novembro de 2004, que manteve o afastamento "de toda e qualquer responsabilidade tributária dos respectivos fabricantes e importadores pelo encargo tributário das contribuições do PIS e da COFINS", bem como a abstenção de se proceder à retenção de 5,13% sobre o valor das notas fiscais emitidas contra as autoras. Na condição de terceira interessada, a Recorrente opôs Embargos de Declaração em face da sentença, requerendo esclarecimento acerca de qual comando judicial deveria cumprir: a sentença embargada, ou a decisão exarada na ação ordinária n° 2003.61.00.0296584, na qual as concessionárias discutiam o regime monofásico durante a vigência da Lei n° 10.485/02. Os Embargos foram acolhidos para esclarecer que, a partir daquele instante, deveria ser observada a nova decisão. Fixada a decisão em vigor, a Recorrente impetrou mandado de segurança junto ao TRF da 3ª Região (2005.03.00.0262531), na qualidade de terceira interessada, pugnando, liminarmente, pela suspensão de seus efeitos, para que, ao fim, fosse reconhecido o direito de continuar recolhendo contribuições, em discussão no regime monofásico. Subsidiariamente, requereu autorização para realizar o depósito, das quantias controvertidas, de modo a se eximir de eventuais efeitos decorrentes da mora. A medida antecipatória foi concedida, mas logo em seguida decidiuse pela decadência do direito à impetração, o que levou à interposição de Agravo Regimental por parte da Recorrente. As concessionárias, por sua vez, renunciaram ao direito sobre o qual fundava a ação ordinária, para fins de adesão ao programa de parcelamento instituído pela Lei n° 11.941/09. A Recorrente, então, diante da extinção da ação ordinária, desistiu do mandado de segurança, já que perdeu seu objeto. Relação processual da Recorrente Com base na exposição acima, verificase que, em relação à ação ordinária, ajuizada pelas concessionárias, a intervenção da Recorrente nos autos se limitou à oposição de Embargos de Declaração, como terceira interessada, a fim de que fosse esclarecido o alcance da decisão proferida, que lhe impôs uma obrigação de não fazer. Por outro, no mandado de segurança a Recorrente voltouse contra a mencionada decisão, buscando suspender seus efeitos, para que lhe fosse assegurado o direito de recolher as contribuições no regime monofásico. Na ocasião, a Recorrente ainda solicitou autorização para proceder ao depósito das quantias antecipadas. Constatase, assim, que a relação processual da Recorrente, em ambos os feitos, jamais se coadunou com os interesses das concessionárias. Com efeito, quanto à ação, a Recorrente tratou de aclarar o comando, judicial para, então, buscar afastar seus efeitos nos autos do mandado de segurança. Fl. 2041DF CARF MF 24 Concluise, assim, que a Recorrente sempre buscou afastar os efeitos dos provimentos obtidos pelas concessionárias ou, quando menos, neutralizar seus efeitos, mediante o depósito judicial, ainda que estas decisões já fossem isoladamente suficientes para afastar sua responsabilidade pelo tributo discutido, eis que eximiram sua obrigação expressamente. (iv). Ação Ordinária n° 2004.61.00.0235241, ajuizada pelas concessionárias DHJ Comércio de Veículos Ltda., CMJ Comércio de Veículos Ltda. e Forte Veículos Ltda. e Mandado de Segurança n° 2005.03.00.0267899, impetrado pela Recorrente. Ação Ordinária intentada em agosto de 2004, registrada sob número 2004.61.00.023.5241, com decisão liminar concedida em setembro de 2004, no seguinte teor: "Isto posto, defiro parcialmente a antecipação da tutela para afastar a aplicação do art. 1º da Lei n° 10.485/02, com redação dada pela Lei n° 10.865/04, a fim de possibilitar às autoras FORTE VEÍCULOS LTDA. e sua filial, DHJ COMÉRCIO DE VEÍCULOS e CMJ COMÉRCIO DE VEÍCULOS LTDA e suas duas filiais, o recolhimento do PIS e da COFINS nas operações de veículos zeroquilômetro com base na diferença do valor de alienação do veículo ao consumidor final e do valor repassado às montadoras, na forma das Leis n° 10.637/02 e10.833/03. Por conseqüência, deverá a montadora absterse de recolher o percentual de 5.13% sobre o valor do veículo repassado às concessionárias, ficando ela, montadora, exonerada de qualquer responsabilidade perante o Fisco por forca do cumprimento. desta decisão judicial." (sem destaques no original) Na seqüência, sobreveio sentença prolatada pelo magistrado confirmando os efeitos da liminar e, novamente, afastando de forma expressa a responsabilidade da Recorrente, perante o Fisco, pelo cumprimento da ordem judicial. Não se conformando com a sentença, a União Federal ingressou com recurso de Apelação. Em maio de 2005, a Recorrente impetrou mandado de segurança, junto ao TRF da 3aRegião, para cassar a sentença de procedência proferida na citada ação ordinária. O pedido foi formulado nos seguintes termos:.' "(...) a concessão em definitivo da segurança para garantir seu direito líquido e certo de efetuar o recolhimento do crédito tributário da contribuição ao PIS e da COFINS, nos moldes estipulados no art. 1º da Lei n° 10.485/02, com redação dada pela Lei n° 10.865/04 ou, ao menos, realizar o depósito judicial das quantias controvertidas com vistas a se eximir de eventuais efeitos de mora". A inicial do mandado de segurança foi indeferida de plano, uma vez que o Recurso de Apelação interposto pelo ente público foi recebido no duplo efeito, suspendendo se, dessa forma, a eficácia do ato que se buscava impugnar. A partir desse momento, a Recorrente passou a efetuar o depósito mensal do valor controvertido nos autos da ação ordinária e, para que estes depósitos fossem viabilizados, foi necessário o peticionamento em conjunto entre a Recorrente e as concessionárias, para que estas anuíssem expressamente como procedimento. Veja trecho da petição: "A montadora de veículos tem interesse em proceder ao depósito dos valores, ao invés de realizar o desconto de 5,13% sobre as notas fiscais relativas ao veículos zeroquilômetros, emitidas em face das concessionárias. Diante da concordância da Autora com referido procedimento, requer sejam formados autos apartados ao presente (...)" . Fl. 2042DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.031 25 Posteriormente, as concessionárias renunciaram à ação e o processo foi extinto, remanescendo a discussão entre as concessionárias, e a União Federal a respeito do montante dos depósitos a ser convertido em renda/levantado. Relação processual da Recorrente Nos autos da ação ordinária, a Recorrente atuou como terceira interessada, com o fim de solicitar autorização para efetuar o depósito dos valores em discussão. Importante destacar que, antes de sua intervenção no citado feito a Recorrente impetrou mandado de segurança, com o objetivo precípuo de afastar o comando da sentença que concedeu a segurança às concessionárias. Subsidiariamente, requereu que fosse autorizado o depósito da exação questionada. Em resumo, ainda que a Recorrente tivesse responsabilidade resguardada pela decisão/sentença proferidas na ação ordinária, suas intervenções judiciais sempre revelaram medida de cautela, seja para afastar o comando da sentença, que lhe impunha uma obrigação de não fazer (não reter o tributo questionado), seja para efetuar o depósito do quantum em discussão. 4.1 Da Síntese Conclusiva elaborada pela Fiat A partir da análise da relação processual da Recorrente em cada uma das 4 (quatro) ações ordinárias ajuizadas pelas concessionárias, bem como o objeto dos mandados de segurança por ela impetrados, é possível extrair as seguintes conclusões: a) a Recorrente jamais se beneficiou das decisões obtidas pelas concessionárias de veículos. É dizer, em momento algum ela foi favorecida pelas liminares e sentenças que afastaram o regime monofásico de recolhimento do PIS e da COFINS; b) a confirmar esta assertiva, verificase que em todos os casos a Recorrente jamais quedouse inerte, não obstante o fato de estas mesmas decisões terem afastado, expressamente, sua responsabilidade pelo crédito tributário que se estava a discutir; c) neste sentido, aliás, as condutas adotadas pela Recorrente sempre tiveram o objetivo de cassar estas decisões, ou, quando menos, neutralizar seus efeitos, mediante o depósito dos valores questionados. Por precaução, a todo momento, a Recorrente buscou resguardar os efeitos de mora, caso os provimentos liminares obtidos pelas concessionárias viessem a ser cassados; d) por fim, uma última constatação que, apesar de soar óbvia, merece ser destacada: a Recorrente e as concessionárias sempre tiveram interesses antagônicos em relação a estes feitos: se para estas, era vantajoso conseguir o desconto equivalente a 5,13% sobre o valor das notas, a título de PIS/COFINS; para aquela, tal não trazia qualquer vantagem; pelo contrário: além de (i) impor uma nova sistemática de apuração e recolhimento dos tributos, e (ii) acarretarlhe uma série de entraves de ordem operacional, a quebra do regime monofásico ainda (iii) gerou desconforto perante as demais concessionárias que integravam sua rede de distribuição, em virtude da concorrência desleal ( preços diferenciados). Enfim, a Recorrente fez tudo que estava ao seu alcance para garantir a preservação de seus direitos, sempre se pautando pela boa fé e pelos contornos impostos pela Fl. 2043DF CARF MF 26 legislação de regência, especialmente as disposições da Lei Ferrari (art. 16 da Lei n° 6.729, de 1979), que disciplina a concessão comercial entre fabricantes e distribuidores de veículos automotores. Conforme já adiantado, segundo este diploma, é vedado ao concedente (a Recorrente, no caso) a prática de atos tendentes a interferir na gestão dos negócios do concessionário, que possui total liberdade para a gerência de seus empreendimentos, não podendo ser submetido a uma relação de subordinação por parte das concedentes, seja ela de cunho econômico, jurídico ou administrativo. Confirase a redação do dispositivo legal pertinente (art. 16, inc. I): Art. 16. A concessão compreende ainda o resguardo de integridade da marca e dos interesses coletivos do concedente e da rede de distribuição, ficando vedadas: I prática de atos pelos quais o concedente vincule o concessionário a condição de subordinação econômica, jurídica ou administrativa ou estabeleça interferência na gestão de seus negócios; Vale dizer, portanto, que a decisão a respeito do ajuizamento das ações ordinárias pelas concessionárias, com o fito de questionar o regime monofásico, estava completamente fora da alçada da Recorrente, que não poderia intervir neste ato por expressa determinação legal. Lado outro, a Recorrente certamente fez uso de todos os meios lícitos que estavam à sua disposição , não sendo justo que, neste momento, tenha que arcar com um ônus tributário que não deu causa a que foi expressamente afastado pelo Judiciário. Pelo contrário, apenas observou a determinação judicial, o que, por razões lógicas, não pode causarlhe tamanho dano. 5. Das Informações prestadas pelas CONCESSIONÁRIAS Conforme consta do resultado da Resolução n° 3202000.172 (Relatório de Diligência Fiscal fls. 1.950/1.963), houve a necessidade de diligenciar junto as diversas concessionárias tratadas neste processo e o mesmo teve que ser encaminhado à diversas DRF de circunscrição das mesmas. A todas as Concessionárias, forma indagadas a responderem os quesitos abaixo, considerando as respectivas ações Judiciais propostas: 1 Se em razão das decisões emanadas nos autos da ação ordinária nº (...), houve a partir de janeiro/2005, apuração de PIS e Cofins nas operações de veículos zero quilômetro com base na diferença entre o valor do de alienação do veículo ao consumidor e valor repassado as montadoras, na forma das Leis n°s. 10.637/2002 e 10.833/2003; 2 Tendo havido apuração na forma do item 1, destacar mês a mês a partir dos Dacons apresentados, em coluna própria, os componentes relativos a apuração do PIS e da Cofins decorrentes da ação judicial em comento, e 3 Tendo em vista a desistência da presente ação pelo contribuinte, informar se houve, de alguma forma, recolhimento de PIS e Cofins ao fim da citada ação." Consta à fl. 1.960, que a Derat SP intimou, a CMJ Comércio de Veículos Ltda, às fls. 1.240 do citado processo, através do Termo de Intimação Fiscal n° 01, a apresentar os seguintes documentos e esclarecimentos (...): Em resposta, ao Termo de Intimação Fiscal n° 01, a CMJ, às fls. 1249/1.250 informou: Fl. 2044DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.032 27 "Item 1 Nas operações de veículos zero quilômetros não houve apuração de PIS e Cofins com base na diferença do valor de alienação do veículo ao consumidor e o valor repassado às montadoras, ria forma das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; Item 2 Não aplicável; Item 3 Não houve, de nenhuma forma, recolhimento de PIS e Cofins da citada ação." A Derat SP emitiu o TIF n° 02/2014 para a GPV Veículos e Peças Ltda/Paulo Gaspar Lemos, conforme fls. 1242 e 1243, no qual são solicitadas as seguintes informações: Entretanto, a correspondência foi devolvida com a informação de mudouse, conforme fls. 1.245/1.246 do presente processo. A Derat SP juntou, às fls. 1.251/1.253 do processo, extratos de recolhimentos, a título.de PIS e Cofins de 2007, entretanto não pertencentes ao período fiscalizado. Houve encaminhamento do processo à DRF de Santo André (SP) para complementação da diligência, conforme despacho de fls. 1.254. A Delegacia da Receita Federal de Santo André, em cumprimento às determinações da já citada Resolução CARF, enviou o Termo de Intimação Fiscal (TIF) n° 188/2014 para a concessionária Fiat Itavema Itália Veículos e Máquinas Ltda, conforme cópia a seguir (...). Em 02/09/2014 a Itavema apresentou termo de resposta à intimação n° 188/2014, conforme destacado abaixo: "Diante dos questionamentos acima, a contribuinte esclarece que no que tange ao ITEM 1, nas operações de venda de veículos zero quilômetros não houve apuração de PIS e COFINS com base na diferença do valor, de alienação do veículo ao consumidor e o valor repassado às montadoras, na forma das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Por fim, no que tange ao ITEM 3, informa a empresa ora peticionária que no curso da ação (Processo n° 2004.61.00.0233104) foi realizado depósito judicial pela montadora Fiat no que se refere ao PIS/COFINS monofásico objeto da discussão." Às folhas 1.842 deste processo encontrase a intimação fiscal n° 126/2014 para que a Itavema Rio Veículos e Peças Ltda, apresente as seguintes informações: A resposta à intimação n° 126/2014 encontrase às fls. 1844 e 1845, com a seguinte declaração: "Diante dos questionamentos acima, a contribuinte esclarece que nó que tange ao ITEM 1, nas operações de venda de veículos zero quilômetros não houve apuração de PIS e COFINS com base na diferença do valor de alienação do.veículo ao consumidor e o valor repassado às montadoras, na forma das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003.. Em conformidade com a resposta dada no ITEM 1 a pergunta ITEM 2 resta prejudicada. Por fim, no. que tange ao ITEM 3, informa a empresa ora peticionária que no curso da ação (Processo n° 2004.61.00.0233104) foi realizado depósito judicial pela montadora Fiat no que se refere ao PIS/CÓFINS monofásico objeto da discussão." Fl. 2045DF CARF MF 28 Às fls. 1.865 do presente processo, encontrase o Termo de Intimação Fiscal (TIF) n° 31/2014, com as seguintes exigências à DHJ Comércio de Veículos Ltda.: "A intimada não foi cientificada da intimação fiscal por não estar mais funcionando no local indicado, conforme informação fiscal de fls. 1868. Tentouse, ainda, localizar a DHJ Comércio de Veículos em São Paulo, conforme Termos de Intimação Fiscal n° 945/2015 (fls. 1876), n ° 947/2015 (fls. 1877)e n° 948/2015 (fls. 1878). Às fls. 1.894 deste processo administrativo encontrase o Termo de Intimação Fiscal encaminhado a concessionária Fiat Roma Automóveis e Serviços Ltda, com as seguintes exigências: A resposta à intimação de fls. 1.894, encontrase às fls. 1.896 deste processo nos seguintes termos: "Diante dos questionamentos acima, a contribuinte esclarece que no que tange ao ITEM 1, nas operações de veículo zeroquilômetro não houve apuração de PIS e Cofins com base na diferença do valor de alienação do veículo ao consumidor e o valor repassado às montadoras, na forma das leis 10.637/2002 e 10.833/2003. "(...) Por fim, no que tange ao ITEM 2, informa a empresa, ora peticionária que ho curso da ação (processo n° 2004.38.00.0361060) foi realizado depósito judicial pela montadora Fiat no que confere ao PIS/COFINS monofásico objeto de discussão." 6. Da conclusão da Diligência realizada pelo Fisco Em seu relatório, o Fisco desta forma conclui a diligência: "Esta fiscalização, no cumprimento da diligência proposta pelo Carf, após análise dos documentos apresentados pela FCA Fiat e suas concessionárias, conclui que inexiste alteração de valores lançados ou entendimento quanto ao contribuinte das contribuições para o PIS e a COFINS monofásicos, sendo corretos os valores mantidos pelo julgamento da Delegacia de Julgamento". 7. Do Regime de Tributação para os Fabricantes de Veículos Na Constituição Federal, notase que a instituição da nãocumulatividade foi ratificada pelo §12 do art. 195, acrescido pela Emenda Constitucional nº 42, de 19 de dezembro de 2003, publicada no Diário Oficial da União de 31.12.2003. Tal dispositivo permite ao legislador ordinário definir os setores de atividade econômica para os quais serão não cumulativas as contribuições de seguridade social incidentes sobre a receita bruta ou o faturamento e as incidentes nas importações. Já no §4º do art. 149 da CF, acrescido pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001, determina que a Lei definirá as hipóteses em que as contribuições incidirão uma única vez. Tal dispositivo permite ao legislador ordinário definir em que hipóteses a tributação será "concentrada" em uma só etapa da cadeia produçãoconsumo (tributação monofásica). O dispositivo é relevante para as contribuições que tenham por base econômica o consumo (como é o caso da Contribuição para o PIS e da COFINS incidentes sobre a receita bruta). Ele permite ao legislador, ao invés de tributar todas as etapas do ciclo produçãoconsumo (tributação plurifásica), concentrar toda a tributação em uma determinada etapa (ou produção, ou atacado, ou varejo tributação monofásica). Concluise que tais dispositivos constitucionais permitem ao legislador racionalizar a tributação que pode, considerando as características do produto, concentrar a tributação em uma determinada etapa da cadeia de produçãoconsumo (tributação monofásica) Fl. 2046DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.033 29 ou distribuir a tributação ao longo da cadeia de produçãoconsumo (tributação plurifásica), independente de o tributo ser cumulativo ou nãocumulativo. Na verdade, por determinação constitucional, o desenho jurídico da nãocumulatividade e da tributação monofásica para as contribuições ficou ao encargo do legislador ordinário. No plano infraconstitucional, a incidência nãocumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep foi introduzida em nosso ordenamento jurídico pela Lei nº 10.637, de 2002. No mesmo plano, a incidência nãocumulativa da COFINS foi introduzida em nosso ordenamento jurídico pela Lei nº 10.833, de 2003. Em ambos os casos, a tributação na forma cumulativa foi mantida para algumas situações, de forma que os dois sistemas de tributação (cumulativo e nãocumulativo) passaram a conviver, tanto no caso da Contribuição para o PIS/Pasep, como no caso da COFINS. No caso sob exame, como bem registra o acórdão recorrido, foi apurada a falta/insuficiência de recolhimento de PIS e COFINS nas modalidades de incidência monofásica, para fatos geradores de janeiro a dezembro de 2005, incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda de veículos automotivos novos, nos termos da citada Lei nº 10.485, de 2002. Repisase que o período de apuração de janeiro/2005 encontrase extinto, nos termos do art. 156, VII, do CTN (pela decadência). Não resta dúvida, portanto, que o legislador ordinário fez a opção em tributar pelo PIS e pela COFINS (incidência monofásica) a receita bruta dos fabricantes e importadores de veículos novos, exonerando os comerciantes atacadistas e varejistas do recolhimento destas contribuições ao fazer incidir alíquota zero sob as receitas decorrentes da venda desses produtos. 8. Da Legitimidade Passiva por parte da FCA FIAT Aduz a Recorrente em sua defesa, com base quase que exclusivamente, no argumento de que "seria parte ilegítima para figurar no pólo passivo do lançamento tributário", considerando que se viu impedida de fazer o recolhimento do tributo por força de ordem judicial que não deu causa. "(...) Portanto, no caso específico destas concessionárias que ingressaram em juízo, o panorama que se instaurou foi o seguinte: o Poder Judiciário acabou por criar um novo mecanismo de apuração e recolhimento do PIS/PASEP e da COFINS para os comerciantes varejistas, relativamente à recita bruta auferida com a venda de veículos automotores novos. Nestas hipóteses, a norma individual: (a) afastou o regime monofásico para que entrasse em seu lugar o regime nãocumulativo, alterando, dessa forma, a sujeição passiva prevista na lei, as alíquotas, a forma de apuração e todos os demais elementos da norma tributária de imposição; (b) permitiu que as concessionárias compensassem os valores que foram indevidamente "retidos" pela Recorrente sob a vigência da Lei n° 10.865/04 (como SE houvesse algum tipo de "retenção" no regime monofásico); e (c) determinou que a Recorrente se abstivesse (obrigação de "nãofazer") de proceder à "retenção" e ao "recolhimento" do percentual "estimado" de 5,13% sobre o faturamento do veículo zero quilômetro, bem como se abstivesse de repassálo, no preço, às concessionárias". Repisa que mesmo não compondo os pólos da relação processual que se formou entre as concessionárias e a Fazenda Federal, teve que suportar os mandamentos (obrigações de "não fazer") oriundos do Poder Judiciário. No entanto e é aqui que surge um dado de relevância ignorada pelo Fisco, quando da autuação objeto do presente recurso , este mesmo Poder Judiciário, em cada uma das demandas, afastou toda e qualquer responsabilidade da Recorrente perante a Administração Tributária, decorrente do cumprimento das aludidas Fl. 2047DF CARF MF 30 ordens judiciais. Cita o seguinte excerto, "... por conseqüência, deverá a montadora absterse de recolher o percentual de 5,13% sobre o valor do veículo repassado à impetrante, ficando ela, montadora, exonerada de qualquer responsabilidade perante o Fisco por força do cumprimento desta decisão judicial" (Ação Ordinária n° 2004.61.00.0342215). Afirma que afastada a sua responsabilidade, e obrigada ao cumprimento da Ordem judicial sob pena de incorrer em ilícito penal (crime de desobediência), a Recorrente, durante certo período de tempo, recolheu as contribuições sociais com a alíquota de 6,47% (= 11,6% 5,13%, ou seja, carga tributária instituída pela Lei n° 10.865/04 subtraída da carga tributária que "caberia" às concessionárias). Nesse ponto, cabe ressaltar que a Recorrente, assim como a União Federal, sofreu com os efeitos das decisões judiciais que autorizaram o afastamento do regime monofásico, já que isso gerou desconforto perante o restante da rede de concessionárias em virtude da concorrência desleal (preços diferenciados). Posteriormente, a Recorrente interveio, em cada ação judicial sem assumir a qualidade de "parte processual" e obteve autorização para proceder ao depósito judicial da quantia envolvida no litígio (5,13%). Foi dessa situação que adveio o Auto de Infração ora discutido, que se refere ao exercício de 2005. Alega a Recorrente em seu recurso que "(...) Com o intuito de cobrar "de alguém" os citados 5,13%, o Fisco Federal autuou a Recorrente para": (i) em relação ao primeiro período citado, isto é, ao período em que a Recorrente se absteve de recolher e de repassar o equivalente a 5,13% sobre o valor do veículo zeroquilômetro faturado contra as concessionárias, exigiu esses valores, além dos consectários legais cabíveis; e (ii) quanto ao período em que foram realizados os depósitos judiciais, limitouse a lançar a diferença decorrente da divergência da base de cálculo por ele considerada e a base de cálculo utilizada pela Recorrente para a realização dos mencionados depósitos. Por fim, argumenta que "(...) no estrito cumprimento de ordens judiciais expedidas em ações das quais nunca fez parte, estava proibida e impedida de realizar determinada conduta (prescrita na Lei n° 10.485/02 e na Lei n° 10.865/04). Mesmo diante disso, foi chamada pelo Fisco para responder, com o seu patrimônio, por aquilo a que nunca deu causa". Em fim, sintetiza as suas razões, afirmando que a sua responsabilização ofende as regras tributárias e processuais aplicáveis, o entendimento da RFB manifestado em normas complementares e a decisão do STJ apresentada, e conclui ser parte ilegítima para responder pelos créditos tributários exigidos nos Autos de Infração. Por outro giro, contrários a tais argumentos, pode ser verificado na decisão a quo (DRJ em Belo Horizonte MG), que o lançamento está correto, sustentado pelos seguintes motivos (resumo): entendeu, pela legitimidade da Recorrente para figurar no pólo passivo da obrigação tributária em análise, sob dois fundamentos centrais: (a) a impossibilidade de decisões judiciais alterarem a chamada "relação jurídicotributária" e (b) ausência de vinculação, da Delegacia de Julgamento, às manifestações administrativas e do STJ, a respeito da matéria. Na sequência, destacase os seguintes trechos extraídos do acórdão, abaixo reproduzidos: "(...) À medida que o impugnante desenvolve atividade de fabricação de automóveis (contrato social fl. 99), ostenta a qualidade de contribuinte de direito, nos termos das Leis nºs 10.637, de 2002, 10.833, de 2003 e 10.485, de 2002, alterada pela Lei nº 10.865, de 2004, porquanto o contribuinte de fato será aquele que suportar, ao final da cadeia produtiva, o custo do tributo inserido Fl. 2048DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.034 31 no preço, ou, se destinatário final, o consumidor (cf. TRF 5a Região AMS n° 86994/AL processo n° 200380000058653 Rel. Des. Federal Francisco Cavalcanti DJU de 20/10/2004p. 952/970). Assim, não ostentando quer a qualidade de contribuintes de direito, quer a qualidade de contribuintes de fato, resta a impossibilidade jurídica de constituição do crédito tributário nas concessionárias, uma vez que estas não detêm a qualidade de sujeitos passivos do tributo" (fl. 1.021 sem destaque no original). E prossegue, no que concerne ao art. 811 do CPC (antigo), sustentando que "(...) A interpretação do artigo 811 do CPC, em situações como a que ora se analisa, conduziria, quando muito, ao reconhecimento de uma responsabilidade solidária entre as fabricantes de veículos (estas teriam sua responsabilidade calcada em norma tributária que lhes atribui a qualidade de contribuinte de direito) e as concessionárias (estas com responsabilidade calcada no artigo 811 do CPC). Já em uma relação jurídicotributária, afeta ao âmbito do direito tributário, de natureza jurídica pública, não se mostra possível admitir para os citados artigos do CPC interpretação da responsabilidade agora não mais civil, mas tributária da forma excludente acima mencionada. Isso porque as regras do CPC possuem, obviamente, natureza processual, instrumental, não tendo o condão de afastar ou modificar prescrições adstritas ao direito material tributário (...). (...) Assim, no âmbito do direito material tributário, como já dito, o máximo a ser admitido com fulcro no art. 811 do CPC seria uma responsabilidade solidária do terceiro não contribuinte de direito da Cofins e do PIS que, amparado por uma medida de caráter precário, provisório, como são as liminares e antecipações de tutela, tivesse obstado o dever de cumprimento da obrigação tributária principal pelo contribuinte de direito" (fls. 1.022/1.023)". E, sobre essa relação jurídico tributária, deixa consignado no Acórdão que "(...) Assim, não obstante proferidas decisões judiciais impedindo o impugnante de efetuar o recolhimento da Cofins e do PIS, tal circunstância não tem o condão de excluir sua qualidade de contribuinte de direito do tributo, nem de excluir o direito de a União, enquanto sujeito ativo, proceder a seu lançamento e cobrança. Isso porque as decisões judiciais não modificam a qualidade e a responsabilidade dos sujeitos passivos envolvidos na relação tributária, em especial pelo caráter de provisoriedade de que se revestem os provimentos liminares" (fl. 1.023). Quanto as decisões proferidas pelo STJ citadas na impugnação, analisou da seguinte forma, "(...) Sobre o precedente do STJ trazido pelo contribuinte, acerca do regime de substituição tributária do ICMS, esclareçase que as decisões judiciais são vinculantes para a Administração Tributária Federal somente nas hipóteses especificadas pelo Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997. O que não é o caso da jurisprudência citada, a qual, dessa forma, não possui força no sentido de vincular a autoridade julgadora administrativa" (fls. 1.023/1.024). Em relação ao posicionamento da RFB, exemplificado nas normas complementares citadas pela Recorrente (art. 100 do CTN), como a Instrução Normativa n° 104/2000, o Parecer COSIT n° 01/2002 e algumas Soluções de Consulta sobre a matéria, a DRJ escorouse no argumento de sua nãovinculação a elas (as quais adoto como fundamentos, nos termos do art. 50, §1º da Lei nº 9.784/99), uma vez que a IN e ao Parecer, por cuidarem de tributo diverso (o IRRF), e às Soluções de Consulta, por não terem sido respondidas diretamente à Recorrente. Trechos abaixo reproduzidos das fls. 1.024/1.025. "(...) Ressaltese que não há notícia de formulação de consulta pelo impugnante especificamente sobre a situação tratada nos autos do presente processo, ou seja, acerca de sua responsabilidade pelo adimplemento do crédito tributário no caso de ação judicial interposta por concessionária da sua rede de distribuição de veículos. Fl. 2049DF CARF MF 32 Já a IN SRF nº 104, de 16 de novembro de 2002, e o Parecer Normativo Cosit nº 1, de 25 de setembro de 2002, que vinculam o julgador administrativo, nos termos do art. 7º da Portaria MF nº 341, de 2011, tratam, respectivamente, da retenção e recolhimento, pelo responsável tributário, de tributo ou contribuição administrado pela Receita Federal, e da retenção na fonte do Imposto de Renda Retido na Fonte. Situações distintas, como se viu acima, do recolhimento do PIS e da Cofins no regime monofásico instituído pela lei para a venda de veículos novos. "(...) Observese que há, no caso de retenção na fonte, a distinção clara entre o contribuinte e o responsável tributário. No caso do regime monofásico, existe apenas o contribuinte de direito eleito pela lei (no presente caso, o fabricante ou importador de automóveis), que responde exclusivamente pelo recolhimento do tributo, não lhe aproveitando, pois, os citados atos normativos". Em tópico específico mais adiante, este assunto voltará a ser analisado. 9. Do regramento da sujeição passiva tributária O art. 121 do CTN, definiu que o sujeito passivo poderia ser contribuinte ou responsável, nos seguintes termos: Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal dizse: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Assim, temos que o sujeito passivo de uma relação jurídica é aquele que tem o dever de satisfazer do direito do sujeito ativo da mesma relação. Nessa esteira, o art. 121 do CTN, definiu o sujeito passivo da relação jurídica tributária como sendo “a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária”. Em suma, será contribuinte o sujeito passivo que realize a ação (materialidade) da hipótese de incidência. As contribuições para o PIS e a Cofins têm duas sistemáticas de apuração, a cumulativa e a não cumulativa. Não obstante isso, alguns produtos estão obrigados a uma modalidade diferenciada de cálculo denominada “incidência monofásica”. Este regime se consubstancia na imputação da responsabilidade tributária ao fabricante/importador dos produtos mencionados (no caso veículos), de recolher o PIS e a COFINS à uma alíquota especial e majorada, de modo a estabelecer um ônus tributário incidente sobre toda a cadeia produtiva. Vale dizer, neste regime a carga tributária fica quase toda concentrada na fase inicial do ciclo produtivo. O regime monofásico é "similar" à substituição tributária, uma vez que o ônus de toda a cadeia de comercialização é suportado pelo fabricante/importador, que aplica sobre a receita auferida na venda de tais produtos alíquotas maiores que as usuais. Por outro lado, ocorre a fixação de alíquota zero de PIS e para a COFINS sobre a receita auferida com a venda dos “produtos monofásicos” pelos demais participantes da cadeia produtiva (distribuidores, atacadistas e varejistas). Vale dizer, todos os demais elos da cadeia produtiva dos produtos submetidos ao regime monofásico, à exceção do produtor ou importador (responsáveis pelo recolhimento do tributo à uma alíquota diferenciada maior) ficam desonerados do recolhimento do PIS e da Fl. 2050DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.035 33 COFINS, porquanto sobre a receita por eles auferida aplicase a alíquota zero. Em suma, a tributação é concentrada no produtor ou importador, razão pela qual esse tipo de exigência ficou conhecida como “incidência monofásica”. Como já dito, o regime monofásico, também conhecido como tributação monofásica ou concentrada, consiste em mecanismo semelhante à substituição tributária, pois atribui a um determinado contribuinte a responsabilidade pelo tributo devido em toda cadeia de um produto ou serviço. No caso sob análise, alega a Recorrente que as concessionárias de veículos que obtiveram decisões liminares favoráveis seriam os sujeitos passivos legítimos do presente auto de infração. Num exercício interpretativo, tenta fazer crer que a legitimidade passiva se deslocou para os chamados contribuintes de fato, por se tratar de tributo indireto. Observase que na decisão recorrida, a DRJ consignou que não ostentando as concessionárias a qualidade de sujeito passivo da relação jurídicotributária em questão, não teriam, sob a ótica da legitimação ordinária que vigora no processo civil (art. 6° do CPC), legitimidade para propor ações judiciais com a finalidade de ver afastado o recolhimento da COFINS e do PIS. A legitimidade seria apenas do sujeito passivo da obrigação tributária principal, definido no art. 121 do CTN como “a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária” ou seja, especificamente, a pessoa jurídica obrigada ao pagamento do PIS e da COFINS devido em decorrência do fato gerador faturamento mensal proveniente da receita obtida pela venda de veículos (Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, art. 1º). Assim, não ostentando, quer a qualidade de contribuintes de direito, quer a qualidade de contribuintes de fato, resta a impossibilidade jurídica de constituição do crédito tributário nas concessionárias, uma vez que estas não detêm a qualidade de sujeitos passivos do tributo. No entanto, a Recorrente reitera em seu recurso a questão do risco de "naufrágio do crédito tributário", expressão de que se utilizou desde a peça impugnatória. Desde então, a Recorrente vem fazendo a advertência de que a preservação da cobrança contra si poderá levar à caducidade dos créditos tributários ora exigidos. Não apenas pela consumação da decadência, mas igualmente pela prescrição do direito da Fazenda Nacional de executar esses valores, dos sujeitos passivos legítimos (corretos), nos próprios processos judiciais intentados pelas concessionárias. Com efeito, o erro de foco, que aqui se percebe, poderá fazer com que o erário público deixe de recolher quantia de relevantíssima monta. Pois bem. Verificase na lei que instituiu a incidência monofásica do PIS e da COFINS sobre veículos e autopeças, nela constatamos que somente podem figurar no pólo passivo dessa relação jurídica tributária “as pessoas jurídicas fabricantes e as importadoras de máquinas e veículos”, na condição de contribuintes, e não de substitutos. Neste diapasão, mais uma vez peço licença para adotar as considerações muito bem elaboradas pela PGFN em suas contrarrazões, asseverando que "(...) repisase que conforme esse regime de tributação de natureza monofásica, optase pela incidência do PIS e da COFINS em apenas uma etapa da cadeia plurifásica de receitas auferidas pelas pessoas jurídicas, sendo que isso ocorre na primeira etapa, em que figuram como contribuintes os fabricantes e importadores de veículos novos. Fl. 2051DF CARF MF 34 Por conseguinte, em relação às demais etapas da cadeia plurifásica, como não poderia ser diferente, em se tratando de regime de tributação de natureza monofásica, não se verificam as incidências do PIS e da COFINS, por força das alíquotas zero. Admitir a aplicação da solidariedade do art. 124, I, do CTN de forma tão larga como apontado pela Recorrente implicaria no menoscabo das garantias constitucionais do contribuinte, permitindo a tributação inclusive por analogia. Se o que vale é o interesse econômico da situação, imaginese que, numa cadeia produtivomercantil, o Fisco poderia escolher qualquer pessoa da cadeia para cobrar os tributos devidos em qualquer das operações dessa cadeia, pois evidente o interesse nos fatos geradores que ocorrem durante a mesma (repercussão tributária). Ora, os adquirentes dessas mercadorias da FIAT (as Concessionárias, autores das ações judiciais) não são nem fabricantes e nem importadoras das mesmas. Não integram a relação jurídico tributária, seja como contribuintes, seja como responsáveis. Estes apenas participam da operação de comercialização das mercadorias como adquirentes. Estender a eles a sujeição passiva tributária por serem (se é que são) meros “contribuintes” de fato implicaria numa tributação por analogia. Tal forma de pensar é inconcebível e inconstitucional, pois extrapola e destrói qualquer moldura que a RMI (Regra Matriz) do PIS e da COFINS possa ter, tributando por analogia, ao arrepio do art. 108, §1º do CTN". 10. Do lançamento de Ofício x Suspensão e aplicação da IN SRF nº 104/00 Informa a Recorrente que afastada a sua responsabilidade, e obrigada ao cumprimento da ordem judicial sob pena de incorrer em ilícito penal, durante certo período de tempo, recolheu as contribuições sociais com a alíquota de 6,74% (= 11,6% 5,13%, ou seja, a carga tributária instituída pela Lei nº 10.865/04 subtraída da carga tributária que "caberia" às concessionárias). Posteriormente, a Recorrente interveio, por cautela, em cada ação judicial sem assumir a qualidade de "parte processual" e obteve autorização para proceder ao depósito judicial da quantia envolvida no litígio (5,13%). No entanto, verificada a queda das decisões judiciais, houve automaticamente uma mudança da relação jurídica tributária (já existente), devendo a Recorrente (contribuinte) ter formalizado o crédito (já que se está diante de tributo sujeito a lançamento por homologação) e realizado o recolhimento dos tributos no prazo legal nos termos do art. 63, §2º, da Lei nº 9.430, de 1996. Tendo em vista a ausência dessas iniciativas, houve a necessidade de, o Fisco, formalizar o crédito tributário por meio de lançamento de ofício em face do único e possível sujeito passivo, qual seja, a FCA FIAT. Nos termos do parágrafo único do art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Assim, tendo ocorrido o fato gerador com a comercialização de veículos e não estando mais vigente ordem judicial que impeça a cobrança do PIS e da COFINS, na qualidade de contribuinte de direito (art. 1º, da Lei nº 10.485/02), cabe ao interessado responder pelas dívidas relativas às contribuições que deixaram de ser recolhidas. Ao autuar, no entanto, a Fiscalização fez uma diferenciação: naqueles casos em que, no momento da autuação, a antecipação de tutela ainda vigia, exigiu apenas o tributo (autuou para prevenir a decadência); já naqueles outros casos, em que a tutela antecipada, por Fl. 2052DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.036 35 ocasião da lavratura do auto, já não mais vigorava, a Fiscalização lançou tributo acrescido dos consectários, conforme demonstrativos de fls. 1.028/1.031. A empresa FIAT alega em seu recurso que "(...) em vista das razões alinhadas ao longo do Recurso Voluntário, restou evidente que a responsabilização da Recorrente pelo crédito tributário ofende, a um só tempo o entendimento da Secretaria da Receita Federal do Brasil, com base na Instrução Normativa nº 104/002 e do Parecer COSIT nº 01/02, além de uma série de Soluções de Consulta sobre a matéria", podese afirmar que, para o Fisco, quando houver a cassação de medida judicial que tenha impedido o recolhimento do tributo pelo sujeito passivo legal, em virtude de provimentos obtidos em ações nas quais não compôs os pólos, a responsabilidade pelo adimplemento caberá ao autor da medida, bem como o posicionamento consolidado do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal nos termos, por exemplo, do voto condutor do acórdão proferido no julgamento do RESP nº 767.928. "(...) em nosso sistema, o risco de reposição do status quo ante, em face do cumprimento de liminares ou sentenças posteriormente modificadas, revogadas ou anuladas, é parte que requer e que se beneficia da medida". Sobre essa matéria, observase a manifestação nos autos da Procuradoria da Fazenda Nacional, a qual me filio e reproduzo os trechos abaixo: "(...) Nos termos do parecer do Eminente exMinistro do STF Otávio Gallotti, quer o contribuinte fazer aplicar, erroneamente, a IN SRF nº 104 ao caso concreto. O referido Ato normativo, em seu art. 1º, consigna que: Art. 1º Salvo disposição em contrário expressa em lei, na hipótese de cassação de medida judicial que haja impedido a retenção e o recolhimento, pelo responsável tributário, de tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, o pagamento do débito deverá ser efetuado pelo próprio contribuinte. Essa hipótese é em tudo diversa da do caso em tela. Primeiramente, apenas se aplica ao caso de responsável tributário, ou seja, conforme vimos, aquele que se encontra por determinação legal na sujeição passiva tributária, sem contudo ter realizado a hipótese de incidência tributária: o fato signo presuntivo de riqueza é de outro, não do responsável. É o caso do imposto de renda retido na fonte. Nesta hipótese há uma situação evidente e clara de substituição tributária (repercussão jurídica do tributo) na modalidade retenção. O substituído (em tese contribuinte) não é, inicialmente, sujeito passivo da relação jurídica, apesar de realizar a hipótese de incidência do imposto sobre a renda e proventos: a renda é do substituído, porém a obrigação de recolhimento (sujeição passiva) é do substituto tributário, ao qual a lei garante a repercussão jurídica, isto é, a retenção do valor do tributo a ser recolhido. Vejase: o substituto não realizou a hipótese de incidência, portanto não teve sua capacidade contributiva aferida pela incidência tributária. Por isso, em face dos princípios da capacidade contributiva, da isonomia e da proibição do confisco, a substituição tributária apenas será válida se garantir ao substituto o direito de reaver do substituído o valor recolhido. Em razão disso é que se aplica o art. 1º da IN SRF nº 104/2000 às hipóteses em que haja cassação de medida judicial que haja impedido a retenção e recolhimento do tributo pelo responsável tributário. Salvo disposição contrária de lei (que seria de constitucionalidade duvidosa), nesta hipótese, a responsabilidade do contribuinte (substituído) é subsidiária à do responsável tributário: o tributo tornase exigível do contribuinte, quem de fato teve sua capacidade contributiva mensurada pela RMI". Fl. 2053DF CARF MF 36 Ora, pelas mesmas razões, é inadmissível, nem mesmo por analogia, a aplicação do Parecer Normativo nº 1, de 24 de setembro de 2002, que diz respeito a tradicional hipótese de retenção de imposto de renda na fonte, onde o beneficiário do rendimento é o contribuinte, posto que se qualifica como a pessoa que aufere a disponibilidade da renda, e a fonte pagadora, o responsável, inclusive no que concerne à responsabilidade tributária no caso de não retenção do imposto por força de decisão judicial. Portanto, a IN SRF nº 104, de 2002, e o Parecer Normativo Cosit nº 1, de 2002, tratam, respectivamente, da retenção e recolhimento, pelo responsável tributário, de tributo ou contribuição administrado pela RFB, e da retenção na fonte do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF). Situações distintas, como se viu acima, do recolhimento do PIS e da COFINS no regime monofásico instituído pela lei para a venda de veículos novos. Ressaltase ainda sobre esse tema, que o mesmo encontrase muito bem fundamentado na decisão da DRJ, já reproduzidos em tópico anterior (fls. 1.024/1.025). Sobre os precedentes do STF e do STJ trazido pela Recorrente, esclareçase que as decisões judiciais são vinculantes para este Tribunal Administrativo (CARF), somente nas hipóteses especificadas no Regimento Interno (RICARF). O próprio CARF tem regramento nesse sentido, uma vez que o art. 62, II, da Portaria MF nº 343, de 2015, prevê que as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543 C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos Conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. 11. Da inaplicabilidade do artigo 811, do CPC Verificase que no principal argumento da defesa, sustenta que a sua responsabilização ofende as regras tributárias e processuais aplicáveis do art. 151 do CTN e os arts. 472, 475O e 811 do CPC, que retira do contribuinte de direito a responsabilidade pelo pagamento do tributo e a transfere ao contribuinte de fato, "situação que teria sido corroborada pela Administração Tributária, com base na Instrução Normativa nº 104/002 e do Parecer COSIT nº 01/02, além de uma série de Soluções de Consulta sobre a matéria". Afirma que o disposto no art. 151 do CTN, dispositivo que arrola as causas da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, parte da premissa de que a suspensão somente poderá beneficiar quem a requereu. Com efeito, no caso em tela, não há uma suspensão de exigibilidade do crédito tributário para a Recorrente, mas sim para as concessionárias, o que significa que são elas que deverão restaurar a situação ao seu estado anterior, caso caia a causa suspensiva. Por outro lado, o Fisco entende que com a revogação das ações propostas, as coisas retornaram ao status quo anterior, como se a ação judicial jamais houvesse existido, passando o imposto a ser exigível do contribuinte de direito no período em que seu destaque esteve vedado por aquele provimento judicial. Também não há como concordar com a tese da recorrente quanto aos efeitos do art. 811 do CPC, pois o referido dispositivo legal estabelece uma hipótese de responsabilidade processual objetiva e em momento algum retira do contribuinte de direito a condição de sujeito passivo direto da obrigação tributária. Com relação a essa matéria, subscrevo alguns trechos (com as adaptações necessárias ao presente caso) das considerações tecidas no Acórdão nº 3403003.538, de 24/02/2015, de lavra do Conselheiro Antonio Carlos Atulim, que peço licença para adotálas Fl. 2054DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.037 37 como razões de decidir, com forte no §1º do art. 50 da Lei no 9.784, de 1999, passando as mesmas a fazer parte integrante desse voto: "Neste ponto, não há como concordar com a tese da recorrente e tampouco com a interpretação da Administração Tributária quanto aos efeitos do art. 811 do CPC, pois o referido dispositivo legal estabelece uma hipótese de responsabilidade processual objetiva e em momento algum retira do contribuinte de direito a condição de sujeito passivo direto da obrigação tributária. O STJ já fixou a interpretação a ser dada ao referido dispositivo legal, conforme ementas a seguir transcritas: (...) 5. O art. 811 do CPC trata de hipótese de responsabilidade processual objetiva do requerente da medida cautelar, derivada, por força de texto expresso de lei, do julgamento de improcedência do pedido deduzido na ação principal. 6. Para a satisfação de sua pretensão, basta que a parte lesada promova a liquidação dos danos imprescindível para identificação e quantificação do prejuízo , nos autos do próprio procedimento cautelar. (...) . (RESP 1.327.056/PR ,24/09/2013, in:www.stj.jus.br/jurisprudencia) (...) 2. Recurso especial interposto por Mozariém Gomes do Nascimento: 2.1. Os danos causados a partir da execução de tutela antecipada (assim também a tutela cautelar e a execução provisória) são disciplinados pelo sistema processual vigente à revelia da indagação acerca da culpa da parte, ou se esta agiu de má fé ou não. Basta a existência do dano decorrente da pretensão deduzida em juízo para que sejam aplicados os arts. 273, § 3º, 475O, incisos I e II, e 811 do CPC. Cuidase de responsabilidade objetiva, conforme apregoa, de forma remansosa, doutrina e jurisprudência. 2.2. A obrigação de indenizar o dano causado ao adversário, pela execução de tutela antecipada posteriormente revogada, é consequência natural da improcedência do pedido, decorrência ex lege da sentença e da inexistência do direito anteriormente acautelado, responsabilidade que independe de reconhecimento judicial prévio, ou de pedido do lesado na própria ação ou em ação autônoma ou, ainda, de reconvenção, bastando a liquidação dos danos nos próprios autos, conforme comando legal previsto nos arts. 475O, inciso II, c/c art. 273, § 3º, do CPC. Precedentes. (...) (RESP 1.101.262/DF, 25/09/2012, in:www.stj.jus.br/jurisprudência) Fl. 2055DF CARF MF 38 Tratandose de dispositivo legal que atribui responsabilidade processual objetiva ao contribuinte de fato, no caso, às Concessionárias da marca FIAT, o art. 811 do CPC não pode ser tomado como um dispositivo legal que altera a sujeição passiva tributária, como quer entender a Recorrente. Em outras palavras: em que pese o fato de as Concessionárias da marca FIAT estarem obrigadas a indenizar o prejuízo causado à União pela execução provisória da tutela antecipada, tal fato não retira do contribuinte de direito, no caso a FCA FIAT, a condição de sujeito passivo direto das Contribuições para o PIS e COFINS". A obrigação de indenizar prevista no art. 811 do CPC é autônoma e independente da obrigação tributária principal. A obrigação de indenizar do art. 811 do CPC vincula o contribuinte de fato à União. A obrigação tributária principal vincula o contribuinte de direito à União. São coisas completamente distintas e incomunicáveis. Ainda que o contribuinte de fato venha a indenizar a União pelo dano causado, persiste a obrigação tributária principal do contribuinte de direito. E esta obrigação legal decorre do disposto no art. 1º da Lei nº 10.485, de 2002, com a redação da Lei nº 10.865, de 2004. E, não tendo a FCA FIAT tomado as providências legais que lhe competiam, sujeitouse à exigência das Contribuições (PIS e COFINS) pela via do lançamento de ofício. Portanto, o fato de o art. 811 do CPC determinar que o requerente da medida repare o prejuízo ao requerido, não decorre logicamente a conclusão de que o contribuinte de direito não pode ser alvo do lançamento de ofício. Ele pode sim ser objeto da exigência das Contribuições, pois continua sendo o contribuinte de direito. 12. Conclusão Ante ao todo exposto e com base nos elementos probatórios contidos nos autos, VOTO no sentido de conhecer dos Recursos, para no mérito, julgar IMPROCEDENTE os recursos de Ofício e Voluntário, restando, assim, legítima a constituição da exação em comento, estando escorreita a subsunção dos fatos à norma aplicada, mantendose, portanto, a decisão recorrida. É como voto. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra. Fl. 2056DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.038 39 Voto Vencedor Conselheiro Antonio Carlos Atulim, redator designado para o voto vencedor relativo à exclusão da multa de ofício. Acompanhei o ilustre relator, Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, quanto à manutenção do lançamento dos tributos contra o contribuinte FCA por entender que o art. 142, parágrafo único, do CTN1 constitui óbice intransponível a qualquer tentativa de inibir a atividade de fiscalização, ainda que o Meritíssimo Juiz tenha consignado nas tutelas provisórias que a FCA não seria responsabilizada pelo pagamento dos tributos. E isso é assim porque o fato de a fiscalização ter constituído o crédito tributário por meio do lançamento de ofício, não implica a ocorrência de cobrança efetiva e imediata dos tributos, pelo menos em relação aos processos judiciais em andamento, uma vez que quanto a essa parcela do crédito tributário não existe a certeza jurídica, que é um dos requisitos legais para a execução do título judicial representativo da dívida. A cobrança do crédito tributário pendente de decisão judicial só poderá ser efetuada quando sobrevier o desfecho dos referidos processos e, mesmo assim, se tal desfecho for desfavorável às concessionárias. (a FCA nessas ações é terceiro afetado pela solução do litígio instaurado entre as concessionárias e a União). Portanto, em relação aos processos judiciais em andamento, o lançamento de ofício contra o contribuinte de direito FCA não violou as normas individuais e concretas vertidas nas tutelas provisórias. E como em relação a essa parcela do crédito tributário não foi lançada a multa de ofício, não existe nenhum reparo a fazer no ato administrativo de lançamento. Por outro lado, relativamente aos processos judiciais findos, seja naqueles com decisão desfavorável às concessionárias, seja naqueles em que não houve julgamento de mérito, em virtude de desistência das concessionárias, não há como prevalecer a exclusão da responsabilidade da FCA que constava das tutelas provisórias, pois com o término dos processos judiciais, as coisas retornaram ao status quo ante , não se podendo dar sobrevida àquelas tutelas provisórias para deixar de efetuar o lançamento contra o contribuinte eleito por disposição expressa de lei (no caso a FCA). Portanto, foi correto o lançamento de ofício dos tributos contra a FCA, pois ela própria se considerou contribuinte, uma vez que em alguns casos conseguiu obter autorização do juízo para depositar o crédito tributário que deveria ter sido por ela recolhido, caso não tivesse sido compelida pelo juízo a afastar o regime monofásico para essas operações. 1 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Fl. 2057DF CARF MF 40 A minha divergência em relação ao voto do ilustre relator reside na manutenção da multa de ofício contra um contribuinte que não cometeu nenhuma infração à legislação tributária, como se passa a demonstrar. É fato incontroverso nos autos que o contribuinte FCA foi compelido pelo Poder Judiciário a afastar o regime monofásico em relação às concessionárias que ajuizaram as ações judiciais mencionadas neste processo. Assim, o contribuinte FCA deixou de recolher a parcela do crédito tributário relativo ao regime monofásico por imposição do Poder Judiciário e não porque simplesmente não desejava cumprir a lei. O contribuinte foi impedido pelo Poder Judiciário de cumprir a lei. Ora, senhores Conselheiros, o art. 74, I, da Lei nº 9.430/962 na redação vigente na época dos fatos geradores penalizava uma conduta omissiva do contribuinte, que consistia em não recolher o tributo devido. Não recolher o tributo previsto em lei, ou recolhêlo em montante inferior ao devido, constitui uma infração à lei punível com uma multa que no caso de lançamento de ofício alcança o patamar de 75% do valor não recolhido. Ora, mas no caso concreto não houve nenhuma infração à lei, pois foi o Poder Judiciário guardião da mesma lei que o fisco alegou ter sido descumprida quem disse que o contribuinte não deveria recolher a parcela referente ao regime monofásico. Então é evidente que a FCA não praticou infração alguma, pois não tinha outra alternativa senão cumprir as tutelas antecipadas que determinaram que sua conduta fosse omissiva em relação ao recolhimento dos tributos pelo regime monofásico. E por esse singelo motivo, não poderia ela ter sofrido a inflição multa de ofício de 75% do tributo não recolhido. Da mesma forma, ao contrário do entendimento de alguns, não é correto o enquadramento deste caso na disposição do art. 63, § 2º, da Lei nº 9.430/963, pois esse dispositivo legal somente é aplicável ao autor da ação e não ao terceiro (FCA), que nunca foi favorecido pela interposição das medidas judiciais. A FCA só foi prejudicada pela interposição dessas ações, pois ela foi compelida pelas concessionárias a deixar de cumprir a lei. Concluise, portanto, que a FCA também não violou o art. 63, § 2º, da Lei nº 9.430/96, pois ela não foi a autora das "ações judiciais favorecidas com medidas liminares", ela foi o terceiro que sofreu as consequências impostas pelas tutelas antecipadas obtidas pelas concessionárias, essas sim os verdadeiros favorecidos pelas ações judiciais. Conforme a declaração de voto que apresentei no Acórdão nº 340303.538, o afastamento da multa de ofício no caso concreto é de rigor, por aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN4, uma vez que se esse dispositivo legal exonera o contribuinte da 2 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; 3 § 2º A interposição da ação judicial favorecida com a medida liminar interrompe a incidência da multa de mora, desde a concessão da medida judicial, até 30 dias após a data da publicação da decisão judicial que considerar devido o tributo ou contribuição. 4 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: Fl. 2058DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.039 41 multa e dos juros de mora quando ele agiu de acordo com as normas complementares à legislação tributária. Leciona Maria Helena Diniz5 : "A analogia é, portanto, um método quaselógico que descobre a norma implícita existente na ordem jurídica. É tãosomente um processo revelador de normas implícitas. Requer a aplicação analógica que: 1) o caso sub judice não esteja previsto em norma jurídica; 2) o caso não contemplado tenha com o previsto, pelo menos, uma relação de semelhança; 3) o elemento de identidade entre eles não seja qualquer um, mas sim essencial, ou seja, deve haver verdadeira semelhança e a mesma razão entre ambos." Ora, no caso dos autos estão presentes os três requisitos autorizadores da aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN, a saber: 1) a exclusão dos consectários do lançamento de ofício por observância de decisão judicial, não consta do rol do art. 100 do CTN. Se constasse não seria necessário recorrer à analogia, bastaria aplicar diretamente a disposição legal; 2) existe semelhança entre a conduta prevista na norma (agir conforme preceituam as normas complementares à legislação tributária) e a conduta não expressamente contemplada (agir conforme uma ordem judicial). E o elemento que denota essa semelhança reside no fato de que tanto as normas complementares, quanto as decisões judiciais são normas cogentes (de cumprimento obrigatório); e 3) a ratio que determina a exclusão da penalidade nos casos de observância das normas complementares é a mesma ratio que determina tal exclusão quando da observância de decisões judiciais, qual seja: a inexistência de infração à lei. O contribuinte que age conforme dispõem as normas complementares ou as decisões judiciais não pode ser acusado de cometer infração à legislação tributária, uma vez que essas normas são cogentes. O contribuinte não tem escolha, ele é obrigado a cumprir as normas complementares e as decisões judiciais. Além da presença desses três requisitos necessários à aplicação analógica da lei, no caso concreto não existe nenhum dos impedimentos legais previstos no art. 108 do I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II a IV omissis... Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. 5 Curso de Direito Civil Brasileiro. Vol. 1. São Paulo: Saraiva, 10ª ed., 1994, pp.54/55. Fl. 2059DF CARF MF 42 CTN6, pois não se está dispensando o tributo devido, mas apenas e tãosomente os consectários do lançamento de ofício. A exclusão da multa de ofício e dos juros de mora neste processo não é uma dádiva que está sendo concedida pelo colegiado ao contribuinte FCA, mas sim um direito desse contribuinte, pois o art. 108, caput, do CTN emprega o verbo "utilizar" conjugado no futuro do presente, o que significa que a aplicação analógica da lei tributária não é uma faculdade do operador do direito, mas sim um dever. Com esses fundamentos, divirjo do ilustre relator na parte em que manteve os consectários do lançamento de ofício, e voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir a multa de ofício e os juros de mora, com base na aplicação analógica do art. 100, parágrafo único, do CTN. Antonio Carlos Atulim 6 Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: I a analogia; II os princípios gerais de direito tributário; III os princípios gerais de direito público; IV a eqüidade. § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. § 2º O emprego da eqüidade não poderá resultar na dispensa do pagamento de tributo devido. Fl. 2060DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.040 43 Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia ao Ilustre Relator para divergir do seu voto exclusivamente a respeito do entendimento alinhavado quanto às razões do Recurso Voluntário do Contribuinte, aderindo à divergência inaugurada pelo Conselheiro Diego Diniz Ribeiro, na ocasião do início do julgamento deste processo. Explico sucintamente as razões da minha divergência. O art. 121 do Código Tributário Nacional definiu que o sujeito passivo poderia ser contribuinte ou responsável, nos seguintes termos: Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal dizse: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. O minucioso tratamento de nosso Código Tributário a esse respeito prossegue durante os artigos seguintes, passando ao trato específico da responsabilidade tributária a partir do art. 128, no qual traz disposição complementar àquela presente no art. 121, p.u., II, a título de disposição geral, verbis: Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindoa a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação. O tema é antigo na doutrina tributária como bem relata o saudoso Professor Alcides Jorge Costa (ICMS e Substituição Tributária in OLIVEIRA, Ricardo M. de; COSTA, Sérgio F. (org). Diálogos Póstumos com Alcides Jorge Costa. São Paulo: IBDT, 2017, p.177 179), perpetuandose entre a melhor doutrina o entendimento já consolidado na 1ª edição do Schweizerisches Steuerrecht, do mestre Ernst Blummenstein, onde sustentava que a razão da instituição da substituição tributária decorreria do fato do substituto poder dispor do substrato econômico do objeto do imposto. No Brasil, o artigo 128 vem corroborar a conceituação que há muito a doutrina adota, salientando o Professor Alcides, argutamente, que o substituto não será qualquer terceiro que o legislador escola arbitrariamente, devendo ser terceiro que tenha relação com o fato gerador, e pontua: O que se deve entender por pessoa vinculada [ao fato gerador]? A resposta só pode ser uma: é vinculada a pessoa que tem ligação com o fato gerador ou com o contribuinte (aqui entendido no sentido do art. 121 do CTN) que lhe permita algum tipo de controle do fato gerador e que lhe permita, como Fl. 2061DF CARF MF 44 substituto, verse reembolsado do imposto que pago. (ob.cit., p.179) Pois bem. A edição da Lei nº 10.485, de 2002, em seu artigo 1º, com a redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, estabeleceu a tributação da receita decorrente da venda dos veículos, nas alíquotas concentradas de 2% para o PIS e de 9,6% para a Cofins, estabelecendo as fabricantes e importadoras como sujeitos passivos das contribuições. Senão vejamos: “Art. 1º. As pessoas jurídicas fabricantes e as importadoras de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados TIPI, aprovada pelo Decreto nº 4.070, de 28 de dezembro de 2001, relativamente à receita bruta decorrente da venda desses produtos, ficam sujeitas ao pagamento da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, às alíquotas de 2% (dois por cento) e 9,6% (nove inteiros e seis décimos por cento), respectivamente. (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)” (grifouse). Como ressaltado pelo relator em seu voto, a cobrança do PIS e da COFINS em relação aos produtos especificados em lei é realizada mediante a técnica de arrecadação denominada incidência monofásica, ou, mais propriamente, concentrada, que consiste em aplicar alíquotas diferenciadas, mais elevadas, em pontos estratégicos da sua cadeia econômica e em desonerar os demais pontos. A utilização da técnica de tributação "concentrada", estipulada aos fabricantes e importadores de veículos e autopeças, tem como corolário natural o disposto no §2º do art. 3º da mesma lei, que atribui a incidência de alíquota zero para a receita de venda dos mesmos veículos e de autopeças, quando apurada por comerciantes atacadistas e varejistas: “Art. 3º (...) §2º Ficam reduzidas a 0% (zero por cento) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, relativamente à receita bruta auferida por comerciante atacadista ou varejista, com a venda dos produtos de que trata:(Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) I o caput deste artigo; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) Com a Instrução Normativa SRF nº 594/2005, a interpretação da Receita Federal para estes dispositivos restou clara em seu art. 14: “Art. 14. Na determinação do valor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, incidentes sobre a receita bruta auferida nas operações de venda das máquinas e dos veículos, de que trata o inciso IX do art. 1º, aplicamse as alíquotas de: I 2% (dois por cento) e 9,6% (nove inteiros e seis décimos por cento), respectivamente, para a venda efetuada por fabricante, por importador ou por empresa comercial atacadista de que trata o §5º do art. 17 da Medida Provisória nº 2.18949, de 2001; e II 0% (zero por cento), no caso de venda efetuada por comerciante atacadista e varejista, exceto na venda efetuada por empresa comercial atacadista de que trata o §5º do art. 17 da Medida Provisória nº 2.18949, de 2001.” Fl. 2062DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.041 45 É preciso deixar claro, neste ponto, que a tributação concentrada através da técnica de incidência monofásica é distinta da substituição tributária. Enquanto esta consiste no deslocamento da sujeição passiva para uma pessoa que não aquela que realiza o fato gerador do tributo, a incidência monofásica pressupõe a combinação da aplicação de uma alíquota elevada em determinada etapa da cadeia de produção/circulação, e de alíquota zero para as demais ocorrências do fato gerador nas demais etapas. Conquanto sejam técnicas distintas, a finalidade é exatamente a mesma: concentrar a cobrança e fiscalização do tributo em apenas um sujeito, para simplificar a atividade tributária do Estado, ao mesmo tempo que garante a arrecadação do tributo ou pelo menos o seu conteúdo econômico (haja vista que a incidência monofásica não impede a incidência do tributo, mas esvazia o seu conteúdo através de uma exoneração quantitativa) no ponto mais cômodo da cadeia. Tanto as técnicas são análogas que se submetem à mesma regra do art. 128 do CTN, ao exigir que aquele sujeito escolhido para ser o substituto tributário ou para arcar com a carga tributária total da cadeia deverá ser vinculado ao fato gerador da obrigação, ou os fatos geradores que ocorrerem posteriormente. Daí a opção pelo fabricante ou o importador para concentração da tributação, visto que o mesmos podem facilmente repassar no preço da mercadoria a carga tributária com a qual arcaram, ressarcindose do custo sob sua responsabilidade, atendendo assim ao requisito de vinculação relativo à possibilidade de reembolso do tributo pago. Esse ponto é enfrentado de forma ímpar por Marco Aurélio Greco (Substituição Tributária: antecipação do Fato Gerador. São Paulo: Malheiros, 2001) ao explicar que a possibilidade de sujeição patrimonial de terceiro que não realizou o fato gerador decorre da adoção, no Direito Tributário pátrio, da teoria dualista da obrigação, separandose a relação de débito ou dívida da correspondente responsabilidade, e atribuindo esta ao terceiro, que passa a ser sujeito passivo de obrigação tributária própria, não sendo o recolhimento mero cumprimento de obrigação acessória, mas autêntico adimplemento obrigacional. A situação do caso em tela é justamente aquela do responsável tributário (em uma perspectiva econômica, como frisado anteriormente, mas que não destoa do mesmo regime a ser aplicado à substituição tributária) que se encontra tolhido de recolher o tributo na "alíquota concentrada" e, por conseguinte, se encontra impossibilitado também de repassar a carga econômica desse recolhimento no seu preço, para reembolso, por força de decisão judicial liminar em Mandados de Segurança impetrados pelas concessionárias que ocupam posições posteriores na cadeia de circulação dos veículos. Todas as decisões liminares foram categóricas, conforme preciso apanhado pelo I. Relator em fls. 1825 deste Acórdão: a Recorrente não poderia vir a ser responsabilizada por eventual tributo devido, caso fosse cassada a decisão favorável às concessionárias. Isso dá pelo fato de que uma vez recolhido o tributo à alíquota "não concentrada" por parte da Recorrente, por força da decisão judicial, não haveria como a mesma, posteriormente e frente a uma eventual cassação da liminar, recolher o tributo devido e reembolsar ou recuperar o valor pago na incidência concentrada. Ora, em não podendo recuperar o tributo antecipado ou pago de forma concentrada, a Recorrente que fosse cobrada após a cassação da liminar seria obrigada a arcar com uma carga tributária decorrente de fatos geradores de terceiros, à qual não poderia se Fl. 2063DF CARF MF 46 ressarcir economicamente, o que implicaria na quebra da vinculação exigida pelo artigo 128 do CTN, o que impediria a cobrança da diferença do tributo posteriormente. Mais do que isso, configurariase ofensa direita ao princípio da capacidade contributiva, pois a impossibilidade de ressarcimento implicaria na necessidade da Recorrente de arcar integralmente com carga tributária que somente lhe caberia por razões de simplificação tributária, e que por isso deveria lhe ser possível a recuperação desse valor. É dizer: de norma tributária com função prioritariamente simplificadora, passarseia a ter a regra da incidência monofásico com uma função estritamente fiscal, de aumento da carga tributária pura e simplesmente sobre os fabricantes e importadores. Parecenos que constituiria clara inversão do sentido da técnica de incidência concentrada. A Instrução Normativa SRF nº 104/2000, em seu artigo primeiro, é de rara clareza a este respeito, ao dispor sobre o pagamento de tributos e contribuições administrados pela SRF, que não tenham sido recolhidas pelo responsável por força de decisão judicial, verbis: Art. 1º Salvo disposição em contrário expressa em lei, na hipótese de cassação de medida judicial que haja impedido a retenção e o recolhimento, pelo responsável tributário, de tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, o pagamento do débito deverá ser efetuado pelo próprio contribuinte. No mesmo sentido, tratando da análoga situação do IRRF, nas hipóteses em que a fonte pagadora é impossibilitada de recolher o tributo por força de medida judicial, determina o Parecer COSIT nº 1/2002: DECISÃO JUDICIAL. NÃO RETENCÃO DO IMPOSTO. RESPONSABILIDADE. Estando a fonte pagadora impossibilitada de efetuar a retenção do imposto em virtude de decisão judicial, a responsabilidade deslocase, tanto na incidência exclusivamente na fonte quanto na por antecipação, para o contribuinte, beneficiário do rendimento, efetuandose o lançamento, no caso de procedimento de oficio, em nome deste. A similitude dos casos é patente, pois a obrigação da fonte pagadora de "reter" o Imposto de Renda é, em rigor, obrigação própria e pessoal, tanto que mesmo nas hipóteses em que não tenha feito a retenção, é responsável pelo recolhimento do imposto, nos termos do art. 103 do DecretoLei nº 5844/1943. O Prof. Ricardo Mariz de Oliveira (Fundamentos do Imposto de Renda. São Paulo: Quartier Latin, 2008, p.447 e ss.) explica, com razão, que na sistemática da substituição tributária, a fonte pagadora tem um dever pagar o tributo, por força da lei que lhe impôs tal ônus, mas por outro lado, especialmente em razão do art. 128 do CTN, tem o direito de efetuar a retenção, como forma de se ressarcir economicamente do tributo pago por fato gerador realizado por outrem. Da mesma forma, a Recorrente tem o dever de pagar as contribuições com a alíquota concentrada, por força do art. 1º da Lei nº 10.485/2002, mas ao mesmo tempo tem o direito de repassar esse ônus aos demais membros da cadeia de circulação, na composição do preço da mercadoria, ressarcindose dessa carga tributária pelos fatos geradores a serem realizados posteriormente. Fl. 2064DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.042 47 O dever e o direito mencionados acima encontramse em orgânica vinculação por força do artigo 128 do CTN, que exige que ambos subsistam concretamente apenas de forma conjunta, nunca isoladamente. A conclusão é sobremaneira óbvia, pois a exigência do dever sem o correspondente direito seria simples aumento de tributação sobre as fábricas e importadores, e não substituição tributária ou tributação monofásica. Explica o Ricardo Mariz, analisando expressamente a hipótese de suspensão do regime de substituição por força de decisão judicial liminar: destarte, se antes da ocorrência do fato sobre o qual incide a norma que acarreta o nascimento do poderdever tiver sido concedida uma liminar que suspenda a aplicação da norma em questão, e tendo a liminar determinado a não execução do poder de cobrar, tal decisão judicial inibe a incidência da norma de substituição, neutralizandoa; a decisão é norma individual, pela qual incidiu uma norma de não cobrança, ficando o substituto proibido de agir e cobrar o imposto do beneficiário; nestas circunstâncias, suspendese todo o mecanismo de substituição tributária; a cassação da liminar não produz a incidência retroativa da norma de substituição; o fato ocorreu na vigência da liminar que afastava a norma determinante do dever de agir como agente de percepção; mesmo havendo eficácia retroativa da decisão final, não é possível atribuir a responsabilidade pelo recolhimento do tributo ao substituto, por faltar o elemento relacionado ao fato gerador, que já ocorreu no passado, não mais existindo as circunstâncias materiais que permitiriam proceder a cobrança do tributo pelo substituto junto ao substituído; se não há como cumprir o poderdever que caberia ao substituto, seja porque não há incidência retroativa da norma de substituição, seja porque o tempo é irreversível e os fatos que permitiriam operacionalizar a substituição já ocorreram no passado, não há também como falar em descumprimento do dever; sendo assim, por consequência, não há como falar em responsabilidade por esse descumprimento; o prejuízo que o fisco tenha sofrido somente pode acarretar a exigência do ressarcimento perante o requerente da medida judicial, conforme o disposto no art. 811 do Código de Processo Civil para os procedimentos cautelares; portanto, a recomposição do dano, que correspondente à cobrança do tributo, somente pode ser exigida do requerente da ordem judicial; terceiro proibido de realizar determinada conduta cumpriu a ordem recebida; os efeitos desse cumprimento é matéria a ser debatida entre aqueles que foram partes na demanda judicial; Fl. 2065DF CARF MF 48 a Súmula n. 405 é inaplicável porque: (1) ela se refere às consequências para o impetrante, e não se refere a terceiros; (2) a retroação se refere aos efeitos ligados à relação jurídica de que está investido o impetrante, e não aos efeitos de outras relações de terceiros; (3) a retroação é de efeitos jurídicos da medida, e não dos efeitos de fato, especialmente quando se trata de uma situação em que a prática da conduta determinada implica em situação de fato materialmente irreversível; a medida liminar suspende uma relação de dívida, que se restaura plenamente com a revogação da liminar; mas, tratandose de uma relação de responsabilidade, ela não tem condições materiais de ser atuada no momento presente, pois não existem mais condições fáticas em que deveria ter sido atuada, nem existe o objeto sobre o qual incidir, tendose esgotado materialmente o seu suporte fático. (Fundamentos do Imposto de Renda. São Paulo: Quartier Latin, 2008, p.469470) A cita do Prof. Ricardo Mariz é longa, mas toca precisamente o cerne da questão. A existência de liminar impedindo o recolhimento com a alíquota concentrada quebra a vinculação que o art. 128 do CTN pressupõe que exista entre o responsável e o fato gerador, que lhe permita cumprir a obrigação sem a perda do direito de ressarcir o tributo pago perante o contribuinte. Uma vez que a fábrica recolheu o tributo na alíquota comum, por força da decisão judicial, não há mais como voltar no tempo e embutir retroativamente no preço já pago a diferença entre a alíquota paga e a alíquota concentrada que passou a ser cobrada após a perda de efeitos da liminar. Tratase de fato consumado, que impede o reestabelecimento do regime de tributação monofásica em relação às operações realizadas sob o pálio da medida judicial. Mais ainda, o entendimento da Fiscalização se baseia na aplicação incorreta do teor da Súmula nº 405 do Supremo Tribunal Federal, que diz "Denegado o mandado de segurança pela sentença, ou no julgamento do agravo, dela interposto, fica sem efeito a liminar concedida, retroagindo os efeitos da decisão contrária". A literalidade dela poderia conduzir ao entendimento propugnado pela autuação mas, conforme o art. 489, §1º, V do Código de Processo Civil, o teor normativo da súmula é condicionado pelos fundamentos determinantes de sua criação. Em erudito artigo sobre o tema, Arnoldo Wald e Rodrigo Kaufmann abordam especificamente a origem da súmula e expõem a aplicação tímida da mesma pelo STF, que reconhece os riscos inerentes à cassação dos efeitos de liminares. Sobre a criação dela e seus fundamentos determinantes, aduzem: (a) a liminar concedida pelo juiz de primeira instância se prestava a conservar uma exceção à aplicação da lei ao ampliar, mesmo que provisoriamente, o âmbito de incidência da lei da isenção; (b) dessa forma, a parte provisoriamente beneficiada com a liminar, não constituía uma situação a ser protegida pelo princípio da segurança jurídica: sua situação já era excepcional diante da regra de que todos devem pagar impostos; Fl. 2066DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.043 49 (c) tratavase, em realidade, de casos que suscitavam o tema da hierarquia judiciária, e não propriamente da tese da vigência da liminar no tempo para garantir a segurança; (d) tratavase ainda de processo que discutia o tema dos efeitos de um recurso de competência do STF, instância essa extraordinária e que pela sua própria dignidade não poderia considerar as variáveis do caso concreto para realizar sua prestação jurisdicional. (WALD, A.; KAUFMANN, R. O. A Súmula 405 do STF e a segurança jurídica in R.TRF1 Brasília v. 28 n. 7/8 jul./ago. 2016, p. 66) Portanto, se verifica que a súmula se refere à transição de uma situação de normalidade, imposta pela lei, para outra de excepcionalidade, por força da medida liminar, caso absolutamente oposto ao enfrentado aqui, no qual a situação de exceção (incidência monofásica), estabelecida pela lei, foi afastada para constituição do regime ordinário (incidência plurifásica), pela decisão judicial. Além disso, a súmula tratava de situação jurídica que era exaurida entre as partes do processo, não implicando em efeitos sobre terceiros, razão pela qual ficava claro que todo o ônus da cassação da liminar recairia apenas sobre o beneficiado por ela. Sobre isto, inclusive, manifestouse com muita propriedade o saudoso Ministro Teori Zavascki, no julgamento do RE 608.482, em 2014, última manifestação do STF sobre o conteúdo da súmula 405: Com efeito, é decorrência natural do regime das medidas cautelares antecipatórias que a sua concessão se cumpra sob risco e responsabilidade de quem as requer, que a sua natureza é precária e que a sua revogação opera automáticos efeitos ex tunc. Em se tratando de mandado de segurança, há até mesmo súmula do STF a respeito (Súmula 405: ‘Denegado o mandado de segurança pela sentença, ou no julgamento do agravo, dela interposto, fica sem efeito a liminar concedida, retroagindo os efeitos da decisão contrária.’ A matéria tem, atualmente, disciplina legal expressa, aplicável a todas as medidas antecipatórias, sujeitas que estão ao mesmo regime da execução provisória (CPC, art. 273, § 3º). Isso significa que a elas se aplicam as normas do art. 475O do Código: o seu cumprimento corre por conta e responsabilidade do requerente (inciso I), que, portanto, tem consciência dos riscos inerentes; e, se a decisão for revogada, ‘ficam sem efeito’, ‘restituindose as partes ao estado anterior’ (inciso II). O mesmo ocorre em relação às medidas cautelares, cuja revogação impõe o retorno das partes ao status quo ante, ficando o requerente responsável pelos danos oriundos da indevida execução da medida (art. 811 do CPC). Além disso, há farta quantidade de precedentes do STF e do STJ no qual a súmula 405 é afastada nas hipóteses de boafé da parte, e nas hipóteses em que o cumprimento da liminar levou a situações consumadas, que não poderiam ser reestabelecidas ao status quo ante, como no REsp 944.325RS e no REsp 950.382. Assim, não exercido o direito do fabricante de se ressarcir do tributo pago na incidência concentrada, por força de medida judicial, a vigência do regime plurifásico para as Fl. 2067DF CARF MF 50 operações realizadas se coloca como fato consumado, situação que não pode ser revertida e que, portanto, por força do art. 128 do CTN, não se pode cobrar do Recorrente o diferencial da alíquota normal para a concentrada. Portanto, para as operações realizadas durante a vigência da liminar, operou se regime de incidência plurifásica, devendo o tributo ser cobrado exclusivamente das concessionárias, e não da Recorrente. Subsidiariamente, verificase que há, nos autos, cobrança de juros e multa de ofício que não devem prosperar. Em primeiro lugar, por se tratar de uma ordem judicial, a Recorrente não teria qualquer opção em cumprir ou não tal medida, visto que o seu desrespeito implicaria no crime de desobediência, tipificado no art. 330 do Código Penal, verbis: Artigo 330. Desobedecer a ordem legal de funcionário público: Pena – detenção, de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses, e multa. Assim, não havendo qualquer resquício de vontade do Recorrente no descumprimento da obrigação que a fiscalização entende que lhe era cabida, não haveria que se impor qualquer espécie de punição ou sanção, visto que não existe responsabilidade objetiva por infrações no Direito Tributário brasileiro. Não procede a leitura do artigo 136 do Código Tributário no sentido de que o mesmo tornaria a responsabilidade tributária por infrações objetiva. Vejamos seu teor: Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. A responsabilidade independente, certamente, da presença de uma elemento doloso para configurar a responsabilidade, salvo nas hipóteses em que o dolo seja elemento do próprio tipo penal, por opção do legislador. Explica a melhor exegese deste dispositivo Schoueri: Com efeito, o artigo 136 constitui importante variação da disciplina do Direito Tributário Penal, em relação ao Direito Penal. Neste, nos termos do parágrafo único do artigo 18 do Código Penal, "salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente". Em síntese: se para o Direito Penal Tributário, a forma culposa é exceção, devendo vir expressamente prevista em lei, na matéria tributária penal a regra é a infração meramente culposa, não se exigindo a presença do dolo, exceto se a lei assim o previr. Não tem cabimento, por outro lado, imposição de penalidade se que sequer se evidencie a culpa do agente. Ao contrário, viuse acima que até mesmo o Princípio da Pessoalidade da Pena foi absorvido pelo Direito Tributário Penal. Inexistindo culpa ou dolo, não surge a pretensão punitiva do Estado, pelo mero fato de que não há o que punir. (Direito Tributário, 7ªed. São Paulo: Saraiva, 2017, p.859860) Fl. 2068DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.044 51 A mesma interpretação é dada, também, por Luciano Amaro, ao consignar: "Quando cometo uma infração por engano, um erro material que não dependeu da minha vontade, que pode ter decorrido da minha imperícia, da minha negligência, mas não decorreu da minha intenção, a coisa parece que muda um pouco de figura. O Código não está aqui dizendo que todos podem ser punidos independentemente de culpa. Ele está dizendo que a aplicação penal independe de intenção, o que libera o Fisco de obter a prova diabólica de que, em cada situação de infração fiscal, o indivíduo queria mesmo descumprir a lei. O Fisco não precisa fazer essa prova." (Direito Tributário Brasileiro, São Paulo: Saraiva, 2003, p.) O que o artigo 136 dispensa para as infrações tributárias é a presença de dolo, invertendo assim a lógica do Direito Penal, no âmbito sancionador tributário, mas sem que se possa, propriamente, falar em responsabilidade objetiva aliviase, por razões de implementação das sanções tributárias e praticidade dessa imputação, a necessidade de comprovação da intenção do agente, mas daí a implicar na punição independente de prova ou não da existência de algum grau de culpa, há um salto lógico não comportado pelo artigo 136 do CTN. Em rigor, falar em responsabilidade objetiva para fins de imputação de norma sancionatória de natureza punitiva configura um evidente desconhecimento do surgimento dessa teoria de responsabilização. Cabe aqui um breve adendo. As teorias sobre a responsabilidade objetiva despontaram na necessidade de reparar os danos sofridos pelos empregados, com o desenvolvimento industrial e tecnológico ocorrido na Europa durante o século XVIII e XIX, especialmente em razão das dificuldades existentes no processo de demonstração de intenção da empresa por conta dos danos ocorridos. Foi da lavra de civilistas consagrados, como Victor Mataja, na Alemanha, e Josserand e Saleilles, na França, o desenvolvimento dos fundamentos teóricos da responsabilidade objetiva. Mataja, especificamente, escreveu preciosa monografia datada de 1888 (Das Recht des Schadensersatzes vom Standpunkte der Nationalökonomie "O Direito da Responsabilidade Civil sob o ponto de vista da economia política"), na qual trata dos efeitos de incentivo na legislação de responsabilidade civil e antecipando as discussões tratadas no âmbito da escola do Law and Economics, que foram a base da consolidação da chamada "teoria do risco", no século XX. Salleiles escreveu, em 1897, trabalho em que abordava a desnecessidade de comprovação de culpa para reparação dos danos sofridos por empregados decorrentes de acidentes de trabalho (Les Accident de Travail et la Responsabilité Civile), incluindo a responsabilidade civil nos riscos da atividade, sob fundamento de que por tirar proveito dela, a empresa deveria arcar com o danos cuja causa material tenha sido essa atividade (LIMA, Alvino. Culpa e Risco. São Paulo: RT, 1960, p.122). Até esse momento, a teoria preponderante para fundamentar a responsabilidade objetiva é a do riscoproveito, que vincula o benefício econômico à responsabilidade civil. Todavia, a existência de diversas outras hipóteses de criação de riscos desvinculados à atividade empresarial demandou um desenvolvimento nessa fundamentação, evoluindose para a teoria do riscocriado. O exemplo do dano decorrente de acidente de Fl. 2069DF CARF MF 52 trânsito ilustra bem essa transição visto que existem acidentes que não decorrem de dolo nem de culpa: o motorista só poderia ser responsabilizado, dentro da teoria do riscoproveito, se ele dirigisse profissionalmente, nunca a lazer, ao passo que com a teoria do riscocriado a responsabilidade decorreria do risco inerente a guiar um automóvel (Cf. MÁRIO, Caio. Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001, p.285). A teoria do risco, eventualmente, sofreu críticas e foi substituída por uma ideia de garantia, relacionada a um direito à reparação dos danos sofridos. Isso é bem sintetizado por Facchini Neto nos seguintes termos: O fato é que a teoria da responsabilidade civil comporta tanto a culpa como o risco. Um como o outro devem ser encarados não propriamente como fundamentos da responsabilidade civil, mas sim como meros processos técnicos de que se pode lançar mão para assegurar às vítimas o direito à reparação dos danos injustamente sofridos. Onde a teoria subjetiva não puder explicar e basear o direito a indenização, devese socorrer da teoria objetiva. Isto porque, numa sociedade realmente justa, todo dano deve ser reparado. (FACCHINI NETO, Eugênio. “Da responsabilidade civil no novo Código”, in: SARLET, Ingo Wolfgang (org). O novo Código Civil e a Constituição. Porto Alegre: Liv. do Advogado, 2003. P.160161) Pois bem. Esse brevíssimo resumo dos fundamentos da responsabilidade objetiva deixa absolutamente claro que ela só tem cabimento quanto a reparação ou indenização, nunca para punição. E podese dizer ser acima de qualquer dúvida que as multas tributárias cobradas de ofício não tem natureza indenizatória em rigor, as sanções tributárias tem duas funções: i) antes da sua aplicação, de desestimular o descumprimento de regras impositivas, e ii) após sua aplicação, de golpear (colpire) o autor do ilícito pelo comportamento que assumiu (DUS, Angelo. Teoria Generale Dell'illecito Fiscale. Milano: Giuffrè, 1957, p.1920). Isso deixa em evidência o contrassenso que é pugnar pela existência de uma responsabilidade objetiva no Direito Tributário Penal, independente de dolo ou culpa, em um sistema punitivo voltado a retribuição do descumprimento de regras tributárias pelo contribuinte. Novamente, é preciso se ater ao que efetivamente diz o artigo 136 do CTN: independe da intenção do agente. Intenção é dolo, e não culpa ao se excluir a necessidade de um, a exclusão do outro não é consequência, muito pelo contrário. A sistemática do próprio Código deixa claro que há relevância normativa para a boafé e a ausência de culpa do contribuinte, basta que se compulse, por exemplo, o artigo 172, II, verbis: Art. 172. A lei pode autorizar a autoridade administrativa a conceder, por despacho fundamentado, remissão total ou parcial do crédito tributário, atendendo: II ao erro ou ignorância excusáveis do sujeito passivo, quanto a matéria de fato; Como se vê, o Código reconhece a possibilidade de extinção do crédito tributário nos casos em que aquele crédito decorreu de conduta na qual restou comprovado erro ou ignorância excusável do sujeito passivo o que implica em um reenvio direto à teoria do erro de tipo no Direito Penal. Fl. 2070DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.045 53 A teoria do erro, no âmbito do direito sancionado, assume papel de materialização do chamado princípio da culpabilidade. Dentre as espécies de erro, existem duas modalidades: o erro vencível (ou inescusável) e o invencível (excusável). Este último será aquele que não puder ser evitado pela pessoa cuidadosa, mesmo que atue com todo o zelo, enquanto o primeiro será aquele que, com zelo, possa ser evitado (OLIVÉ, Juan Carlos Ferré et al. Direito penal brasileiro: parte geral, 2ªed. São Paulo: Saraiva, 2017, p.340). Diante do erro, o artigo 20 do Código Penal determina que "art. 20 O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei". Todavia, há que se relembrar, dos bancos da graduação jurídica, que o art. 18, II do mesmo código determina que a infração será culposa apenas "quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia". Ora, o erro excusável é aquele que, mesmo que o agente atue com toda a diligência devida, não é possível de ser evitado, o que implica dizer que tampouco há que se falar em culpa diante dessa espécie de erro. É a lição de Zaffaroni e Nilo Batista: "Quando o agente, empenhando a diligência cabível nas circunstâncias concretas, não tinha possibilidade de adquirir consciência sobre os elementos típicos objetivos, a ação será atípica quanto ao tipo doloso e quanto ao tipo culposo" (ZAFFARONI, Eugenio. BATISTA, Nilo. Direito Penal Brasileiro, Volume II, tomo I. Rio de Janeiro: Revan, 2010, p.190). Na seara punitiva, mesmo a tributária (ou melhor dizendo: especialmente na tributária, por força do artigo 136 do CTN), é preciso pelo menos a culpa para que haja a responsabilização do agente. Não se estamos aqui pretendendo inovar de qualquer forma, mas apenas alinhavando a compreensão da legislação posta sob análise que a doutrina do Direito Sancionatório e, mais ainda, com a jurisprudência do STJ, a exemplo do REsp 777.732/MG, cuja ementa é absolutamente clara a este respeito: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. SUPOSTA OFENSA AO ART. 535 DO CPC. INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. TRIBUTÁRIO. ICMS. MULTA APLICADA POR CANCELAMENTO DE NOTAS FISCAIS. AFASTAMENTO PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. DISCUSSÃO ACERCA DA INCIDÊNCIA DO ART. 136 DO CTN. 1. Não viola o art. 535 do CPC o acórdão que, mesmo sem se ter pronunciado sobre todos os temas trazidos pelas partes, manifestouse de forma precisa sobre aqueles relevantes e aptos à formação da convicção do órgão julgador, resolvendo de modo integral o litígio. 2. Tratandose de infração tributária, a sujeição à sanção correspondente impõe, em muitos casos, o questionamento acerca do elemento subjetivo, em virtude das normas contidas no art. 137 do CTN, e da própria ressalva prevista no art. 136. Assim, ao contrário do que sustenta a Fazenda Estadual, "não se tem consagrada de nenhum modo em nosso Direito positivo a responsabilidade objetiva enquanto sujeição à sanção penalidade" (MACHADO, Hugo de Brito. "Comentários ao Código Tributário Nacional", Volume II, São Paulo: Atlas, 2004, pág. 620). Fl. 2071DF CARF MF 54 No mesmo sentido: REsp 494.080/RJ, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 16.11.2004; REsp 699.700/RS, 1ª Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ de 3.10.2005; REsp 278.324/SC, 2ª Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ de 13.3.2006. 3. Recurso especial desprovido. (REsp 777.732/MG, Rel. Ministra DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 05/08/2008, DJe 20/08/2008) No mesmo sentido é o REsp 743.839/SP, relatado pelo Min. Luiz Fux, de eloquente ementa: TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS DO DEVEDOR. CRÉDITOS DE ICMS REFERENTES À SUBCONTRATAÇÃO DE FRETES, INCLUSIVE OS COM CLÁUSULA CIF. MULTA. AUSÊNCIA DE PROVA DE MÁFÉ, FALSIFICAÇÃO OU DE ADULTERAÇÃO. ERRO DE DIREITO CONFIGURADO. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONTRIBUINTE. JUROS MORATÓRIOS. ALEGAÇÃO DE SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. SÚMULA 7/STJ. (...) 6. A multa moratória distinguese dos juros moratórios e a sua oscilação expressiva, como, in casu, de 200% (duzentos por cento) para 120% (cento e vinte por cento) recomenda, ao ângulo da Justiça Tributária, a aplicação da lei mais benéfica, que fixou o patamar inferior, com fulcro não só no artigo 106, II, do CTN, com também por concluir o juízo singular e o Tribunal local que o proceder do contribuinte "não revelou máfé; não houve qualquer busca de ocultação de dados, tanto que os creditamentos foram feitos em seus livros contábeis, ensejando a glosa dos referidos creditamentos". 7. Deveras, o erro de direito, assim inferido das conclusões do aresto recorrido, impede a aplicação acrílica do artigo 136, do CTN, porquanto, na atividade de concreção, o magistrado há de pautar a sua conclusão iluminado pela regra de hermenêutica do artigo 112, do CTN, verbis: "Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação." 8. In casu, as circunstâncias materiais do fato exibição da escrita e erro de direito, acrescido da carência probatória, conduziram o Tribunal a quo a preconizar a minimização da multa. 9. Outrossim, a responsabilidade objetiva e gravosa, preconizada pelo recorrente, não encontra respaldo na justa aplicação do direito tributário, nem na doutrina sobre o tema, que leciona: "=> Culpa. "... o que o art. 136, em combinação com o item III do art. 112, deixa claro.é que para a matéria da autoria, imputabilidade ou punibilidade, somente é exigida a intenção ou dolo para os casos das infrações fiscais mais graves e para as quais o texto da lei tenha exigido esse Fl. 2072DF CARF MF Processo nº 10976.000061/201083 Acórdão n.º 3402004.119 S3C4T2 Fl. 2.046 55 requisito. Para as demais, isto é, não dolosas, é necessário e suficiente um dos três graus de culpa. De tudo isso decorre o princípio fundamental e universal, segundo o qual se não houver dolo nem culpa. não existe infração da legislação tributária." (Ruy Barbosa Nogueira, Curso de Direito Tributário, 14' edição, Ed. Saraiva, 1995, p. 106/107)(...) "Se ficar evidenciado que o indivíduo não quis descumprir a lei, e o eventual descumprimento se deveu a razões que escaparam a seu controle, a infração ficará descaracterizada, não cabendo, pois, falarse em responsabilidade." (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro, 2ª ed., Ed. Saraiva, 1998, p. 418) 11. Recurso especial conhecido e parcialmente provido para acolher o pedido de incidência dos juros moratórios. (REsp 743.839/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/11/2006, DJ 30/11/2006, p. 154) E mais, o próprio CARF já reconheceu seja de forma vinculante por súmula como de forma não vinculante pela sua jurisprudência, a impossibilidade de se responsabilizar objetivamente o contribuinte, sem qualquer traço de culpa. Exemplo disso são as decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais nos acórdãos CSRF/01.0.217 e CSRF/0195.032, que afastaram a sanção por erro de preenchimento nos casos que o contribuinte foi induzido a erro pelo informe de rendimentos emitido pela fonte pagadora. A consolidação desse entendimento gerou a Súmula CARF nº 73 que diz: Súmula CARF nº 73: Erro no preenchimento da declaração de ajuste do imposto de renda, causado por informações erradas, prestadas pela fonte pagadora, não autoriza o lançamento de multa de ofício. Compulsando os precedentes que originaram esta súmula e sua motivação, verificase claramente a assunção dos fundamentos apresentados acima, como se vê no Acórdão CSRF/0400.409: Ora, fosse a responsabilidade objetiva, haveria que se penalizar o contribuinte independente da presença ou ausência de culpa o que não se verifica na súmula apontada. Em rigor, não vejo óbices à aplicação dessa súmula ao presente caso, em vista de seus fundamentos determinantes serem universalizáveis, e não restritos apenas à hipótese da declaração inexata, sendo portanto aptos a fundamentar a decisão com base no artigo 489, §1º, V do CPC, verbis: Fl. 2073DF CARF MF 56 Art. 489. São elementos essenciais da sentença: § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: V se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; Portanto, é que se afastar, por incabível no Direito Tributário brasileiro, a ideia de responsabilidade objetiva despida de dolo ou culpa pelas infrações, por ausência de fundamento legal para tanto, e pela circunstância da responsabilidade objetiva ser adequada à hipótese de reparação, mas não de punição, conforme jurisprudência do STJ e do CARF, bem como a melhor doutrina sobre a matéria. À guisa de conclusão, voto por dar PROVIMENTO INTEGRAL ao Recurso Voluntário do Contribuinte. É como voto. Fl. 2074DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11020.910088/2012-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 31/07/2006
COFINS. REPETIÇÃO/COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA.
Não se reconhece o direito à compensação quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova sobre a liquidez e certeza dos créditos que alega possuir na sistemática da não-cumulatividade.
Recurso voluntário negado.
Numero da decisão: 3402-004.038
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
ANTÔNIO CARLOS ATULIM - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Renato Vieira de Avila (suplente), Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 31/07/2006 COFINS. REPETIÇÃO/COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à compensação quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova sobre a liquidez e certeza dos créditos que alega possuir na sistemática da não-cumulatividade. Recurso voluntário negado.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/07/2006 COFINS. REPETIÇÃO/COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à compensação quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova sobre a liquidez e certeza dos créditos que alega possuir na sistemática da nãocumulatividade. Recurso voluntário negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) ANTÔNIO CARLOS ATULIM Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Renato Vieira de Avila (suplente), Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Versam os autos sobre pedido de reconhecimento de direito creditício de COFINS, informado como oriundo de recolhimento efetuado a maior, cumulado com declaração de compensação (PER/DCOMP). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 91 00 88 /2 01 2- 08 Fl. 116DF CARF MF Processo nº 11020.910088/201208 Acórdão n.º 3402004.038 S3C4T2 Fl. 3 2 No Despacho Decisório, a autoridade local da RFB indeferiu o pleito da interessada, uma vez que o DARF informado como origem do crédito estava integralmente utilizado para quitação de débitos da própria contribuinte, "não restando crédito disponível para restituição". Inconformada com a decisão proferida, a empresa apresentou manifestação de inconformidade, na qual alega, após ter "efetuado revisão completa retroativa de suas últimas bases de cálculo de COFINS", possuir créditos oriundos de suas seguintes contas, discorrendo acerca da legislação que em tese respaldaria os mesmos: A DRJ/RPO, nos termos do Acórdão 14046.801, julgou improcedente a manifestação de inconformidade. Inconformado, o contribuinte interpôs o presente recurso voluntário, no qual, em suma, restringese a afirmar que o "processo já dispõe dos documentos comprobatórios dos créditos apurados", e nada mais! É o relatório. Voto Conselheiro Antônio Carlos Atulim Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402004.034, de 25 de abril de 2017, proferido no julgamento do processo 11020.910095/201200, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão, (Acórdão 3402004.034): "Alega o contribuinte, de forma genérica, ter créditos para fins de apuração da COFINS a pagar no sistema nãocumulativo. Tais créditos seriam oriundos de valores constantes nas contas especificadas no relatório. Feita essa apuração, a posteriori, sem qualquer liquidez e certeza já saiu a se compensar com débitos de tributos administrados pela RFB. Ou seja, não há prova específica a respaldar os alegados créditos. Acostou cópia do livro razão onde constam tais contas contábeis, sem qualquer documento fiscal e referência a seu processo produtivo em que se pudesse constatar de quais insumos se tratam e, mais, se efetivamente são utilizados na produção das mercadorias que produz. Demais disso, em tese, em análise superficial, valores referente à manutenção e reparos, fretes com vendas (nas quais não se sabe quem arcou com os valores), despesas diversas (que não se sabe do que se tratam), e mão de obra de terceiros (que em tese podem ser feitas por pessoas física, o que afastaria qualquer direito a crédito) não dão direito a crédito. Fl. 117DF CARF MF Processo nº 11020.910088/201208 Acórdão n.º 3402004.038 S3C4T2 Fl. 4 3 Assim, sendo firme a jurisprudência desse Colegiado no sentido de que recai sobre o contribuinte o onus probandi dos créditos que alega ter, mormente em relação a valores que já se compensou, que pressupõe sua certeza e liquidez, constatase que ele não provou por todos os meios e de forma específica (não há um documento fiscal nos autos) os créditos declarados. CONCLUSÃO Portanto, ante a falta de prova dos declarados créditos, ônus seu de produzir, deve ser negado seu pleito. Ante o exposto, nego provimento ao recurso voluntário." Ressaltese que, neste processo, as contas especificadas como origem dos créditos (indicadas no relatório) são as mesmas que as tratadas no caso do paradigma, e que o contribuinte, nestes autos, também "não provou por todos os meios e de forma específica (não há um documento fiscal nos autos) os créditos declarados". Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Antônio Carlos Atulim Fl. 118DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10283.721692/2012-08
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jun 12 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO MAIS BENÉFICO. OPÇÃO DO SUJEITO PASSIVO.
Impõe-se a escolha do ajuste mais benéfico ao sujeito passivo quando este apura, por mais de um método, o preço parâmetro de importação, sem que a Fiscalização se escore em fundamentação válida para recusar o maior preço.
Numero da decisão: 1301-002.403
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício.
Waldir Veiga Rocha - Presidente.
(assinado digitalmente)
Flávio Franco Corrêa - Relator.
(digitalmente assinado)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Gustavo Guimarães da Fonseca (suplente convocado).
Nome do relator: FLAVIO FRANCO CORREA
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conteudo_txt : Metadados => date: 2017-05-28T00:16:44Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2017-05-28T00:16:15Z; Last-Modified: 2017-05-28T00:16:44Z; dcterms:modified: 2017-05-28T00:16:44Z; dc:format: application/pdf; version=1.4; xmpMM:DocumentID: uuid:d2fd86c5-931a-4774-b42b-6b7635eb7b98; Last-Save-Date: 2017-05-28T00:16:44Z; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2017-05-28T00:16:44Z; meta:save-date: 2017-05-28T00:16:44Z; pdf:encrypted: true; modified: 2017-05-28T00:16:44Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2017-05-28T00:16:15Z; created: 2017-05-28T00:16:15Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 13; Creation-Date: 2017-05-28T00:16:15Z; pdf:charsPerPage: 1407; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2017-05-28T00:16:15Z | Conteúdo => S1C3T1 Fl. 490 1 489 S1C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10283.721692/201208 Recurso nº De Ofício Acórdão nº 1301002.403 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 12 de abril de 2017 Matéria PREÇO DE TRANSFERÊNCIA Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado NOKIA DO BRASIL TECNOLOGIA LTDA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO MAIS BENÉFICO. OPÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. Impõese a escolha do ajuste mais benéfico ao sujeito passivo quando este apura, por mais de um método, o preço parâmetro de importação, sem que a Fiscalização se escore em fundamentação válida para recusar o maior preço. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. Waldir Veiga Rocha Presidente. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Relator. (digitalmente assinado) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Gustavo Guimarães da Fonseca (suplente convocado). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 72 16 92 /2 01 2- 08 Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 491 2 Tratase de recurso de ofício contra acórdão da DRJ/Belém, que julgou procedente a impugnação apresentada por NOKIA DO BRASIL TECNOLOGIA LTDA contra exigências de IRPJ e de CSLL, relativamente ao anocalendário de 2008, no valor total de R$ 18.567.533,98, incluindo multa de ofício e juros de mora. Por bem retratar os fatos, reproduzo o relatório da DRJ, adotandoo: “De acordo com os fatos narrados pela autoridade lançadora, o sujeito passivo incorreu na(s) seguinte(s) infração(ões): Falta de adição ao lucro líquido da parcela do custo de bens importados que excede ao preço parâmetro de transferência. Extraise ainda dos autos que: • O sujeito passivo declarou na DIPJ um ajuste de preço de transferência no valor de R$ 11.483.213,17 • No curso da ação fiscal, observouse que os ajustes de preço de transferência foram feitos com base na metodologia de cálculo dos Preços Independentes ComparadosPIC e Preços de Revenda Menos LucroPRL (20% e 60%); • A documentação apresentada pelo sujeito passivo revelava os seguintes ajustes: PICR$ 25.934,83; PRL20 – R$ 277.483,19; PRL60– R$ 1.215.775,85; • Em relação ao ajuste do PRL60, o sujeito passivo não observou as disposições preconizadas pelo § 11 e incisos do art. 12 da IN SRF 243/2002, mas sim a IN SRF 32/2001; • Na forma da IN SRF 243/2002, o ajuste pelo método PRL60 deveria ser de R$ 37.184.641,68; • Mesmo diante da falta de apresentação da documentação de suporte do ajuste declarado na DIPJ, os valores ali registrados foram deduzidos do ajuste apurado na ação fiscal; Sobre a exigência principal foi aplicada a multa de ofício de 75 %. [...] O sujeito passivo tomou ciência do lançamento em 19/12/2012 (fls. 311 e 319) e apresentou sua impugnação em 17/01/2013 (fls. 336376), na qual alegou em síntese que: Da ilegalidade da IN SRF 243/002 1. A IN SRF 243/002 ao regulamentar a apuração do PRL60, desconsiderou variáveis contidas na Lei nº 9.430/96 e considerou outras não previstas nesta lei; Fl. 491DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 492 3 2. Dessa forma a IN SRF 243/2002 incorre em afronta ao princípio da legalidade, revelandose carente de validade; 3. A ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 já foi reconhecida pelo Conselho Administrativo de Recursos FiscaisCARF (processo nº 16643.000043/200914 e 16561.000185/200711); 4. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região também já se manifestou acerca da ilegalidade da IN SRF 243/2002 (Apelação Civil nº 003404852.2007.4.03.6100); 5. A ilegalidade também é confirmada pela edição da MP 563/2012, convertida na Lei nº 12.715/12, que introduziu o critério de proporcionalização previsto no inciso II, §11, art. 12, da IN SRF 243/2002; Do método mais favorável 6. Ao apurar o preço parâmetro PRL60, a fiscalização deixou de observar o método mais favorável ao sujeito passivo, na forma do art 18, caput, e § 4º da Lei nº 9.430/96; 7. Analisando as planilhas anexas ao Auto de Infração, em especial o Valores Calculados Pelo Contribuinte e os Valores Calculados Pela Fiscalização, verifica se que o preço PRL60 é inferior ao preço PRL20 ou PIC; 8. A título de exemplo cita os códigos 4373511 e 9857217, conforme quadro abaixo: 9. O mesmo erro ocorreu em relação a diversos itens das planilhas anexas ao Auto de Infração; 10. Mesmo nos casos em que o contribuinte não aponta o método de apuração, a fiscalização deve demonstrar e utilizar o método mais favorável ao sujeito passivo. Nesse sentido os Acórdãos nº 10322017 e 10709411; Da incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício 11. A cobrança dos juros de mora sobre a multa aplicada é ilegal, eis que o art. 161 do CTN somente autoriza a cobrança de juros sobre os valores decorrentes da obrigação tributária principal; 12. O art. 61 da Lei nº 9.430/96 também só autoriza a cobrança de juros sobre o valor de tributos e contribuições; 13. O mesmo sentido também é extraído do art. 43 da Lei nº 9.430/96; Fl. 492DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 493 4 14. A jurisprudência do CARF reconhece o não cabimento da exigência de juros de mora sobre o valor da multa de ofício (Acórdãos 10196008, 10196601, 105472, 20178718, 20216397e 910100722). É o relatório.” No voto, o relator da instância a quo assim se manifestou, quanto ao que interessa ao presente reexame: “Preço de Transferência. Da escolha do método. No que diz respeito à escolha do método de cálculo do preço parâmetro, a recorrente alega que a fiscalização tinha o dever de escolher o menos oneroso ao contribuinte, de acordo com o artigo 18, § 4º, da Lei nº 9.430/96 e art. 4º, § 2º, da IN SRF nº 243/2002, ipsis litteris: Lei nº 9.430/96 Art.18.Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: ... §4º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente. … IN SRF nº 243/2002 Art. 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, não residente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica importadora poderá optar por qualquer dos métodos de que tratam os arts. 8º a 13, exceto na hipótese do § 1º, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. § 2º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, devendo o método adotado pela empresa ser aplicado, consistentemente, por bem, serviço ou direito, durante todo o período de apuração. [grifouse] Todavia, numa leitura mais acurada dos dispositivos, percebese que a utilização do método mais benéfico só é possível quando o contribuinte apurou, por mais de um método, o preço parâmetro na importação (art. 4, §2º, primeira parte). Eis que a lei foi expressa ao destacar o uso do método mais benéfico “Na hipótese de utilização de mais de um método” [grifouse]. Mas não é só a utilização de mais de um método por parte do contribuinte que pode ensejar a escolha do mais favorável. Para tanto, o contribuinte deve ainda oferecer ao fisco todos os elementos necessários para aferição dos métodos utilizados. Fl. 493DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 494 5 Caso contrário, verificado que o contribuinte utilizou apenas um método de cálculo do preço de transferência ou que os documentos apresentados por ele são insuficientes ou imprestáveis para formar a convicção quanto ao preço de transferência utilizado, é legítima escolha, pela fiscalização, de qualquer método com base nos elementos que dispuser. Nesse sentido o parágrafo único do art. 40 da IN SRF nº 243/2002, verbis: Art. 40. A empresa submetida a procedimentos de fiscalização deverá fornecer aos AuditoresFiscais da Receita Federal (AFRF), encarregados da verificação: I a indicação do método por ela adotado; II a documentação por ela utilizada como suporte para determinação do preço praticado e as respectivas memórias de cálculo para apuração do preço parâmetro e, inclusive, para as dispensas de comprovação, de que tratam os arts. 35 e 36. Parágrafo único. Não sendo indicado o método, nem apresentados os documentos a que se refere o inciso II, ou, se apresentados, forem insuficientes ou imprestáveis para formar a convicção quanto ao preço, os AFRF encarregados da verificação poderão determinálo com base em outros documentos de que dispuserem, aplicando um dos métodos referidos nesta Instrução Normativa [grifou se] Por meio da planilha Cálculo do Ajuste às folhas 325329, que é parte integrante do Auto de Infração, verificase que os custos de alguns insumos levados ao ajuste de preço de transferência pelo método PRL60, na forma da IN SRF 243/2002, também tiveram seu preço PIC informado pelo sujeito passivo (coluna “PIC Comp Internas em R$”). Tais valores foram extraídos da planilha “Ajuste Fiscal de Importação” (fls. 215220), fornecida pelo sujeito passivo no curso da ação fiscal. Todavia, não há nos autos qualquer manifestação da autoridade lançadora acerca do preço PIC dos insumos cujos custos foram levados ao ajuste de preço de transferência no lançamento (planilha Cálculo do Ajuste às fls. 325329). A única manifestação diz respeito àqueles cálculos em que o método eleito pelo sujeito passivo foi o próprio PIC, in verbis: [...] Pela documentação disponibilizada pelo sujeito passivo, verificouse ter sido apurado um valor de R$ 25.934,83, a título de ajuste PIC, e de R$ 1.438.259,04 referente ao PRL, sendo R$ 277.483,19 referente ao PRL 20% e R$ 1.215.775,85, relativo ao PRL 60%. [...] A Fiscalização então passou a centrar esforços, mais detidamente na apuração do PRL, pelo significativo valor das importações dos itens em que foram aplicados este método, visto não ter o PIC, em um exame superficial, apresentado maiores problemas. Concluise então que a autoridade lançadora tinha conhecimento da existência de um preço parâmetro PIC, para os custos dos insumos levados ao ajuste de preço Fl. 494DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 495 6 de transferência, todavia não justificou o motivo da recusa deste preço, mormente nos casos em que o preço PIC era mais favorável ao sujeito passivo. Nestes termos, a escolha do preço PRL60, nas hipóteses que o preço PIC é mais favorável, não é legítima porque não há nos autos qualquer manifestação no sentido de desqualificar o preço PIC. Isto posto, um novo cálculo de ajuste deve ser efetuado, levando em consideração o melhor preço parâmetro, na forma do artigo 18, §4º, da Lei nº 9.430/96 e art. 4º, § 2º, da IN SRF nº 243/2002. [...] Da apuração do crédito tributário Feitas as considerações acima, passase a apurar o crédito do processo. Tabela 1 Apuração do ajuste de preço de transferência (valores em R$) Fl. 495DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 496 7 Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 497 8 Fl. 497DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 498 9 Fl. 498DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 499 10 O ajuste apurado de preço de transferência, para os itens acima, foi de R$ 8.635.854,66, que somados aos apurados pelo sujeito passivo, nos métodos PIC e PRL20, perfaz um total de ajuste de preço de transferênica na importação de R$ 8.939.272,68 (8.635.854,66+25.934,83+277.483,19). O valor declarado pelo sujeito passivo em DIPJ, a título de ajuste de preço de transferência, na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, foi de R$ 11.483.213,77 (fls. 9 e 21). A autoridade lançadora considerou, no lançamento, que tais valroes dizem respeito ao ajuste no custo da importação. De efeito, considerando que o valor do ajuste declarado é maior que o apurado, não resta ajuste de preço de transferência a ser efetuado neste processo. Da conclusão Ante tudo exposto, voto no sentido de julgar a IMPUGNAÇÃO PROCEDENTE, cancelando os créditos tributários do processo.” É o relatório. Voto Conselheiro Flávio Franco Corrêa, Relator. O presente recurso reúne os requisitos de recorribilidade. Dele conheço. Fl. 499DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 500 11 Tal é a apuração realizada pela Fiscalização, consoante a descrição no auto de infração às fls. 313: “O procedimento fiscal instaurouse tendo por escopo, a averiguação da correta aplicação, pela pessoa jurídica, dos métodos de apuração dos preços de transferência, relativos às importações de pessoas jurídicas estrangeiras ligadas. O desenvolvimento da ação fiscal permitiu constatar que a sociedade empresária fiscalizada, optou por utilizar no cálculo dos preços de transferência (PT) referente ao anocalendário de 2008, os métodos PRL Preço de Revenda menos Lucro, 60% e 20%, e PIC Preços Independentes Comparados, o que, em principio, estaria de acordo com o informado na DIPJ/2009, ficha 32. Pela documentação disponibilizada pelo sujeito passivo, verificouse ter sido apurado um valor de R$ 25.934,83, a título de ajuste do PIC, e de R$ 1.438.259,04 referente ao PRL, sendo R$ 277.483,19 referente ao PRL 20% e R$ 1.215.775,85, relativo ao PRL 60%. Devese assinalar que a pessoa jurídica informou na DIPJ/2009, ficha 09A, linha 10 e ficha 17, linha 10, o valor de R$ 11.483.213,77, como adição ao resultado do exercício, referente aos ajustes decorrentes dos métodos dos preços de transferência, na apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social, mas que segundo informações dos prepostos da Fiscalizada, não espelhava aquele valor, o real montante dos ajustes do PT, vez que foi encontrado com base em estimativa, sem lastro documental e sem fundamentação jurídicocontábil. A Fiscalização então passou então a centrar esforços, mais detidamente na apuração do PRL, pelo significativo valor das importações dos itens em que foram aplicados este método, visto não ter o PIC, em um exame superficial, apresentado maiores problemas. Pois bem. Examinando as planilhas e memórias de cálculo disponibilizadas pelo contribuinte, podese constatar não ter o mesmo seguido, na apuração do PRL 60%, a forma preconizada no parág. 11 e incisos, do art. 12, da IN SRF nº 243/2002, mas sim a maneira prevista na revogada IN SRF nº 32/2001. Por conseguinte, chegou ele, contribuinte, a um valor de ajuste especificamente do PRL 60%, de R$ 1.215.775,85. Considerando que no caso do PRL 20%, não se deparou o fisco, como (sic) irregularidades atinentes ao cálculo do método, resolveram os auditores fiscais refazer a apuração concernente ao PRL 60%, visto encontrarse a mesma, em total desacordo com a legislação tributária vigente e regente da matéria sob apreciação. Destarte, após o recálculo procedido pelas autoridades fiscais, à luz do estabelecido no parág. 11 e incisos, do art. 12 da IN SRF nº 243/2002, chegouse a um valor total de ajustes concernentes ao PRL 60, no montante de R$ 37.184.641,68, conforme demonstra as planilhas anexas nas colunas que se referem aos "valores calculados pela fiscalização". Levando em conta que a pessoa jurídica informou, consoante frisado acima, na DIPJ/2009, ficha 09A, linha 10 e ficha 17, linha 10, o valor de R$ 11.483.213,77, a título de ajustes dos preços de transferência, como adição na demonstração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, mesmo não tendo ela apresentado a documentação que teria dado suporte para o cálculo daquele montante, entenderam as autoridades fiscais, em observância ao princípio da razoabilidade, ser justo considerálo como dedução do valor a ser adicionado de ofício, para efeito de Fl. 500DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 501 12 apuração das bases de cálculo das exações fiscais envolvidas no cálculo do PT. Até pelo fato daquele valor ($ 11.483.213,77) ter impactado os cálculos originais das bases imponíveis do IRPJ e da CSLL, apesar de não sido (sic) apurado valores a pagar relativos a estes tributos. Por conseguinte, a parte quantitativa do presente lançamento de oficio se consubstancia no valor de R$ 25.701.427,91 (37.184.641,68 11.483.213,77), que ora se adiciona (sic) as base de cálculo do IRPJ e da CSLL, consoante determina a legislação tributária em vigor.” Portanto, depreendese dos autos que a Fiscalização, com a pretensão de determinar o valor a ser adicionado em obediência às regras do preço de transferência, na apuração do IRPJ e da CSLL, refez os cálculos elaborados para tais ajustes, quando o fiscalizado adotou o método PRL60. Os casos em que o fiscalizado aplicou métodos diversos do PRL60 não foram objeto do recálculo efetuado pela Fiscalização. No entanto, segundo a DRJ, a Fiscalização equivocouse, ao refazer o citado cálculo, porque, embora tendo conhecimento dos preços parâmetros fornecidos pelo método PIC já apurados pelo fiscalizado, preferiu ignorálos nas situações em que estes valores eram superiores aos preços determinados pelo método PRL60, assim contrariando o disposto no artigo 18, § 4º, da Lei nº 9.430/1996, verbis: “Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: [...] § 4º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, observado o disposto no parágrafo subseqüente.” A planilha “Cálculo do Ajuste”, às fls. 325/329, concebida e preenchida pela Fiscalização, consolida os recálculos por ela efetuados para os casos em que o fiscalizado adotou o método PRL60. Para acrescentar clareza, a Fiscalização também incluiu, nessa planilha, a revelação dos preços parâmetros apurados pelo fiscalizado com base nos métodos PRL20 e PIC. Com efeito, a planilha “Cálculo do Ajuste” traz a evidência de que o fiscalizado apresentara à auditoria do Fisco federal preços parâmetros determinados pelo método PIC. A despeito disso, a Fiscalização não expôs os motivos por que desprezara o método PIC, quando o preço parâmetro calculado com base nesse método superava o preço parâmetro calculado com base no PRL60. Nas circunstâncias aventadas, o relator da instância a quo refez os cálculos da Fiscalização, apresentando outra tabela, ao fim de seu voto, mediante a qual comparou o preço parâmetro calculado pelo fiscalizado, com base no método PIC, com o preço parâmetro calculado pela Fiscalização, com base no método PRL60. Desse modo, a instância a quo concluiu que o total do ajuste ao lucro líquido por ela apurado é inferior ao montante já adicionado pelo fiscalizado. Sendo assim, não há qualquer alteração a ser feita, na Fl. 501DF CARF MF Processo nº 10283.721692/201208 Acórdão n.º 1301002.403 S1C3T1 Fl. 502 13 determinação do IRPJ e da CSSL correspondente ao anocalendário de 2008, considerando as provas reunidas aos autos e as conclusões da DRJ. Em face do exposto, não há outra alternativa a não ser a de negar provimento ao recurso de ofício. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Fl. 502DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.911454/2011-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jul 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005
CREDITAMENTO DE IPI. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS DESONERADOS. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STF E SÚMULA 18 DO CARF.
A aquisição de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem desonerados do IPI não enseja o direito a crédito, conforme precedente vinculativo do STF proferido em sede de repercussão geral (RE n. 398.365), bem como súmula CARF n. 18.
EFICÁCIA NORMATIVA DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS. INEXISTÊNCIA DE LEI. PENALIDADE. EXIGÊNCIA. ART. 76, II, a, DA LEI nº 4.502/1964.
É incabível a exclusão de penalidade com fundamento em acórdão do CARF, proferido em processo em que o interessado não seja parte, tendo em vista que as decisões do referido Órgão carecem de caráter normativo.
Recurso Voluntário Negado.
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3402-004.279
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designado redator do voto vencedor o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra.
(assinado digitalmente)
Jorge Freire - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro - Relator.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Pedro Sousa Bispo, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designado redator do voto vencedor o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra. (assinado digitalmente) Jorge Freire - Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro - Relator. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Pedro Sousa Bispo, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005 CREDITAMENTO DE IPI. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS DESONERADOS. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STF E SÚMULA 18 DO CARF. A aquisição de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem desonerados do IPI não enseja o direito a crédito, conforme precedente vinculativo do STF proferido em sede de repercussão geral (RE n. 398.365), bem como súmula CARF n. 18. EFICÁCIA NORMATIVA DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS. INEXISTÊNCIA DE LEI. PENALIDADE. EXIGÊNCIA. ART. 76, II, “a”, DA LEI nº 4.502/1964. É incabível a exclusão de penalidade com fundamento em acórdão do CARF, proferido em processo em que o interessado não seja parte, tendo em vista que as decisões do referido Órgão carecem de caráter normativo. Recurso Voluntário Negado. Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designado redator do voto vencedor o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 91 14 54 /2 01 1- 64 Fl. 466DF CARF MF 2 Jorge Freire Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Relator. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Pedro Sousa Bispo, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório 1. Tratase de pedido de compensação retratado pela DCOMP n. 17377.57456.270906.1.3.015111, por meio do qual o contribuinte pleiteou créditos de IPI acumulado ao final do 3o trimestre calendário de 2005. 2. Referido pleito, todavia, foi indeferido, ao fundamento que o Recorrente se creditou do IPI na aquisição de produtos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus. 3. Devidamente notificada, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade de fls. 75/95, a qual foi julgada improcedente pela DRJJuiz de Fora (acórdão n. 0941.261 fls. 404/427) no termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005 DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA E INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. NÃO OCORRÊNCIA Demonstrados no despacho decisório, com absoluta clareza, os fatos que ensejaram a nãohomologação da DCOMP e a sua correta fundamentação legal, é de se rejeitar a preliminar argüida, por total falta de fundamento. Da mesma forma rejeitase a preliminar de nulidade quando se constata a competência da autoridade administrativa para o exame do direito creditório. PROVA PERICIAL E APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS Indeferese o pedido de apresentação de prova pericial e de documentos quando a autoridade julgadora as entende desnecessárias e prescindíveis em face dos dispositivos legais em vigor e dos elementos constantes dos autos. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considerase não impugnada a matéria que, especificamente abordada pelo Fisco, não tenha sido objetivamente refutada na Fl. 467DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 467 3 manifestação de inconformidade apresentada pela interessada. É o caso, no presente processo, das glosas dos créditos do IPI nas aquisições de MP, PI,e ME cujas notas fiscais foram emitidas por fornecedores optantes pelo simples e por fornecedores que estavam, na época, com os respectivos CNPJs cancelados. DCOMP NÃO HOMOLOGADA. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. A apresentação de manifestação de inconformidade ou de recurso contra a parcela não homologada de débito objeto de compensação declarada em DCOMP suspende a exigibilidade desse débito, nos termos do § 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005. CRÉDITO DO IPI. AQUISIÇÕES DESONERADAS DO IPI. O princípio da não cumulatividade do IPI é implementado pelo sistema de compensação do débito ocorrido na saída de produtos tributados do estabelecimento contribuinte com o crédito relativo ao imposto cobrado nas operações anteriores, referentes às entradas oneradas de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem (MP, PI,e ME) a serem utilizados no processo industrial do adquirente. Não tendo havido IPI cobrado nessas operações anteriores de aquisição, porquanto isentas, não haverá valor algum a ser creditado pelo adquirente. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005 DCOMP. PENALIDADES. CONSECTÁRIOS MORATÓRIOS. Na análise da DCOMP, sobre os débitos discriminados cuja compensação não foi homologada incidem os consectários legais atinentes à multa de mora e aos juros de mora, não havendo se falar em aplicação do disposto no art. 76 da Lei nº 4.502/64 c/c o art. 100,II e parágrafo único, do CTN, pela inexistência de lei que atribua eficácia normativa às decisões administrativas em processos nos quais um terceiro não seja parte. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido. 4. Devidamente intimada, a Recorrente interpôs o Recurso Voluntário de fls. 431/455. 5. Diante do teor da Resolução n. 3402000.822, veiculada as fls. 1.865/1.870 dos autos n. 10660.722269/201191, o presente processo administrativo foi anexado àquele mencionado alhures, de modo a evitar o advento de decisões contraditórias. Fl. 468DF CARF MF 4 6. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro 7. O recurso voluntário interposto é tempestivo e atende os demais pressupostos de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento. I. Da suspensão do presente processo 8. Um dos pedidos formulados pelo Recorrente em sede de recurso voluntário é o de suspensão do julgamento do presente caso até que haja ulterior e definitiva decisão para o Recurso Extraordinário autuados sob os números 592.891, pendente de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal e com repercussão geral reconhecida nos seguintes termos: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI. NÃOCUMULATIVIDADE. DIREITO AO CREDITAMENTO NA ENTRADA DE INSUMOS PROVENIENTES DA ZONA FRANCA DE MANAUS. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. (STF; RE 592.891 RG, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, julgado em 21/10/2010, DJe226 DIVULG 24112010 PUBLIC 25112010 EMENT VOL0243802 PP00339 ). 9. Tecidas tais considerações, insta desde já destacar que, ao meu ver, o presente caso pode ser albergado por duas decisões possíveis, porém excludentes entre si, as quais serão devidamente detalhadas a seguir. (i) Da aplicação subsidiária do CPC/2015 e o sobrestamento do feito 10. A primeira decisão possível para o presente caso é a de sobrestar seu julgamento até que haja decisão definitiva do RE n. 592.891, haja vista o caráter vinculante do precedente que se formará em tal julgamento. 11. Para alcançar tal conclusão, convém registrar que não é de hoje que o legislador nacional, sob o pretexto de buscar uma pretensa aproximação de um distante modelo de Common Law, tem criado inúmeros dispositivos legislativos no sentido de prestigiar a figura do precedente, em especial quando tal precedente é vinculado por um Tribunal Superior. Daí, e.g., a criação da repercussão geral, por intermédio da Emenda Constitucional n. 45/04. 12 Referida valorização – ainda que aparente – de um modelo de stare decisis é renovada com o advento do CPC/2015, em especial com o disposto no seu art. 9261, norma que oferece importantes vetores para a busca de uma verdadeira valorização dos precedentes. Não obstante, o art. 927 do citado Codex2 densifica tais valores, na medida em que prescreve os tipos formais de decisão aptos a veicular um precedente de caráter vinculante. 1 "Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantêla estável, íntegra e coerente." 2 "Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão: I as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II os enunciados de súmula vinculante; Fl. 469DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 468 5 13. Logo, o que se observa é que o reconhecimento quanto à repercussão geral do RE nº 592.891 já denota que o advento do precedente a ser formado apresentará um caráter transubjetivo e vinculante, o que obrigará que a ratio decidendi a ser dele extraída seja seguida pelos demais órgãos judiciais e também pela Administração Pública, exatamente como prevê o caput do citado art. 927 do CPC. Buscase, com isso, salvaguardar a unidade material das decisões de caráter judicativo e, consequentemente, o tratamento igualitário entre jurisdicionados que se encontrem em situações análogas e, por fim, uma segurança jurídica de índole substancial. 14. Aliás, é exatamente em razão de tais valores que o CPC/2015 prescreve que, na hipótese de recurso extraordinário afetado por repercussão geral, todos os demais processos (sem distinção entre processos administrativos e judiciais) deverão ser sobrestados, até que haja decisão no chamado leading case. É o que prevê o art. 1.035, §5° do CPC3. 15. A questão, todavia, que deve ser aqui debatida é se tal dispositivo deve ou não se convocado no âmbito dos processos administrativos tributários. Para tanto, insta analisar o que dispõe o art. 15 do CPC4. Segundo referido dispositivo, as disposições do CPC devem ser aplicadas de forma supletiva e subsidiária, ou seja, atribuemse às normas do CPC, respectivamente, uma função normativosubstitutiva e também uma função normativo integrativa. 17. Para a questão aqui analisada, o que interessa é o caráter subsidiário do CPC/2015 e, consequentemente, sua função normativointegrativa, que pode ser vista por duas perspectivas. 18. A primeira delas com base na embolorada ideia de que o direito se perfaz pelo intermédio exclusivo da lei, calcada, pois, na concepção de um divinal legislador que não deixa comportamentos sociais sem prescrições normativas e que, quando isso eventualmente ocorre, o próprio direito legislado cria mecanismos no sentido suplantar tais buracos, o que se dá por intermédio de institutos como a analogia, os princípios gerais do direito e a equidade. Aí então a função integrativa clássica do CPC/2015 em face de uma lacuna legislativa referente ao processo administrativo tributário. 19. Todavia, uma visão mais moderna deste caráter subsidiário da lei parte do pressuposto de que tal norma integrativa deverá ser convocada de modo a potencializar os valores que lhes são próprios, bem como os valores do próprio Direito enquanto método de resolução, com justiça, de problemas de convivência humana. Nesse sentido, quando se fala no caráter subsidiário do CPC, sua convocação no processo administrativo, inclusive o tributário, deve ser no sentido de potencializar os princípios constitucionais do processo civil, dentre os III os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados." 3 “Art. 1.035. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso extraordinário quando a questão constitucional nele versada não tiver repercussão geral, nos termos deste artigo. (...). § 5o Reconhecida a repercussão geral, o relator no Supremo Tribunal Federal determinará a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que versem sobre a questão e tramitem no território nacional.” 4 “Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente.” Fl. 470DF CARF MF 6 quais destacamse os seguintes: integridade, unidade e coerência das decisões de caráter judicativo, de modo a também tutelar, reflexamente, igualdade de tratamento a jurisdicionados em situações análogas e, por fim, segurança jurídica. 20. Assim, com base em tais premissas, na hipótese de recurso extraordinário afetado por repercussão geral, o sobrestamento prescrito no já citado art. 1.035, §5° do CPC, também deve se estender aos processos administrativos de caráter tributário, pois, dessa forma, estarseá prestigiando os sobreditos valores jurídicos, tão caros para o Direito. 21. Não obstante, mesmo que se empregue a função integrativa de uma norma subsidiária em um sentido clássico, ainda sim a solução aqui proposta (sobrestamento do processo administrativo tributário) seria a única resposta cabível para o caso em tela. E isso porque, ao se analisar as disposições legais que tratam do processo administrativo tributário (Decreto n. 70.235 e lei n. 9.784/99), é impossível encontrar qualquer prescrição normativa que trate do problema aqui enfrentado, qual seja, o que fazer com processo administrativo que apresente recurso com causa de pedir autônoma e cujo teor está pendente de julgamento no âmbito judicial, em sede de processo com caráter transindividual. Não havendo disposições legais nas leis que tratam o processo administrativo tributário, deve ser aplicado de forma subsidiária o CPC. 22. Nem se alegue que o RICARF deu solução para essa questão, uma vez que a hipótese aqui tratada (sobrestamento de casos afetados por repercussão geral no STF) foi propositadamente suprimida do atual Regimento Interno deste Tribunal, o que demonstraria a pretensa intenção deste ato normativo regimental em afastar o citado sobrestamento. Não é crível imaginar que a omissão do veiculador do RICARF seja capaz de, positivamente, criar norma jurídica e, o que é pior, criar uma suposta norma que gritantemente conflita com os valores de igualdade e segurança jurídica que devem conformar toda e qualquer decisão de caráter judicativo. 23. Ademais, também não há que se falar que o disposto no art. 62, §§ 1º e 2º do RICARF5 resolveriam essa questão. Primeiramente pela falta de subsunção, já que o citado dispostivo fala de vinculação deste Tribunal na hipótese de decisão já proferida pelo STF ou pelo STJ, o que não é o caso dos autos. Não obstante, ainda que fosse possível convocar 5 "Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; d) Parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, nos termos dos arts. 40 e 41 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993; e e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1973. e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1993. (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016)." Fl. 471DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 469 7 analogamente tais dispositivos, o que se cogita aqui apenas de forma hipotética, ainda sim restaria impossível o afastamento do art. 15 do CPC no caso em concreto. E isso porque um regimento interno, passível de veiculação autocrática ou antimajoritária por parte de um circunstancial Presidente de um Tribunal Administrativo ou Ministro da Fazenda não pode se sobrepor ao que estabelece uma legislação federal fruto de longo e exaustivo debate democrático promovido no âmbito das casas do Congresso Nacional, sob pena de, em última ratio, simplesmente esvaziar o art. 15 do CPC de qualquer conteúdo, ou seja, indevidamente admitir que mero regimento interno, regularmente veiculado por simples portaria ministerial, tenha a aptidão de revogar lei federal. 24. Aliás, em 23/02/2017, caso em tudo semelhante ao presente foi decidido no sentido da suspensão do processo administrativo que tramita neste Conselho: no curso do Recurso Extraordinário nº 566.622/RS, de relatoria do Ministro Marco Aurélio Mello, oportunidade em que procedeuse à suspensão dos processos que tramitam neste Conselho acerca de matéria idêntica, decidida de maneira favorável à contribuinte pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal em decisão pendente de publicação: A Fundação Armando Álvares Penteado, admitida no processo como interessada, requer a comunicação, mediante ofício, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF acerca da suspensão dos processos que versem a mesma matéria do extraordinário. (...). Relata a ausência de implementação da medida no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, vinculado ao Ministério da Fazenda, responsável pelo exame dos recursos contra atos formalizados no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB. Afirma que a recusa do Órgão decorre da falta de previsão regimental a respaldar a suspensão dos processos. Ressalta a iminência de julgamento, no CARF, de processo administrativo relevante para a entidade. Noticia a expedição de ofício, pela Secretaria Judiciária, a todos os tribunais do território nacional, não tendo havido comunicação aos órgãos administrativos. (...) Em se tratando de processo sob repercussão geral, surgem conseqüências danosas. Uma vez admitida, dáse o fenômeno do sobrestamento de processos que, nos diversos Tribunais do País, versem a mesma matéria, sendo que hoje há previsão no sentido do implemento da providência requerida § 5º do artigo 1.035 do Código de Processo Civil. (...) A entrega da prestação jurisdicional deve ocorrer conciliandose celeridade e conteúdo. Daí a necessidade de atentarse para o estágio atual dos trabalhos do Plenário. Dificilmente conseguese julgar, fora processos constantes em listas, mais de uma demanda, o que projeta no tempo, em demasia, o desfecho de inúmeros conflitos de interesse. No caso, temse quatro votos proferidos no sentido da inconstitucionalidade do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991. Fl. 472DF CARF MF 8 Enquanto isso, o Poder Público continua aplicandoo, gerando dificuldades de toda ordem para entidades beneficentes. (...) Implemento a medida acauteladora, suspendendo, nos termos do artigo 1.035, § 5º, do Código de Processo Civil, o curso de processos que veiculem o tema, obstaculizando o acionamento, pela Administração Pública, do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991" (seleção e grifos nossos). 25. Em 07/03/2017 foi expedido o Ofício nº 594/R endereçado ao Presidente deste Conselho com cópia da decisão do Ministro Marco Aurélio Mello, que exarou ordem para suspender os processos administrativos que tratam da matéria. Logo, não há dúvida quanto à aplicação subsidiária do art. 1.035, §5° do CPC no caso em comento. 26. Diante deste quadro, voto pelo sobrestamento do presente processo administrativo até que haja ulterior e defintiva decisão no RE n. 592.891, a ser julgado pelo STF. 27. Caso, todavia, a proposta de sobrestamento alhures desenvolvida não seja acolhida por esse colegiado, mister se faz a análise do mérito da lide aqui desenhada, o que resultaria em suma segunda decisão possível para o caso em comento. Vejamos. II. Da nulidade do lançamento pela suposta glosa de créditos decorrentes de devoluções de mercadorias e entradas oneradas regularmente 28. Preliminarmente, o contribuinte protesta pela nulidade integral do presente lançamento, ao fundamento que parte da glosa seria indevida, uma vez os créditos tomados seriam decorrentes da devolução de mercadorias ou do aproveitamento de crédito com operações oneradas pelo IPI. 29. Acontece quem diferentemente do que alega o contribuinte, não há que se falar na existência desta suposta mácula a atingir o presente lançamento. Isso porque, ao se analisar o trabalho fiscal, é possível constatar que o auditorfiscal autuante não glosou créditos decorrentes da devolução de mercadorias ou na hipótese de operações oneradas pelo imposto. 30. Nesse sentido, insta destacar o trecho do relatório fiscal que trata da glosa aqui perpetrada (fls. 26//40). Nesta oportunidade o fiscal deixa claro que, após a análise do Livro de Registro de Apuração do IPI para o período fiscalizado, foram glosados apenas aqueles créditos decorrentes de operações desoneradas do imposto. Nesse sentido, inclusive, o fiscal aponta uma a uma as notas fiscais cujo crédito foi objeto de glosa, notas essas que estão acostadas aos autos (fls. 43/659) e que sempre apresentam em seu campo descrição a informação de que tratam de operações não tributadas. 31. Diferentemente, pois, do que alega o contribuinte, não há qualquer glosa de crédito decorrente de operações de devoluções de mercadorias ou sujeitas à incidência do IPI, motivo pelo qual a defesa processual aqui desenvolvida deve ser afastada. III. Do creditamento do IPI decorrente de operações desoneradas 32. Não obstante, quanto ao mérito do crédito glosado e que suscitou na presente autuação, a Recorrente alega que o creditamento aqui perpetrado estaria em sintonia com entendimento consagrado do STF e exarado quando do julgamento do Recurso Extraordinário n. 212.484. Acontece que, como é sabido, referido entendimento foi superado pelo próprio Pretório Excelso quando do julgamento do Recurso Extraordinário n. 398.365, cuja ementa segue abaixo transcrita: Fl. 473DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 470 9 Recurso extraordinário. Repercussão geral. 2. Tributário. Aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 3. Creditamento de IPI. Impossibilidade. 4. Os princípios da não cumulatividade e da seletividade, previstos no art. 153, § 3º, I e II, da Constituição Federal, não asseguram direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Precedentes. 5. Recurso não provido. Reafirmação de jurisprudência. (STF; RE 398.365 RG, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, julgado em 27/08/2015, PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe188 DIVULG 2109 2015 PUBLIC 22092015). 33. O sobredito julgamento foi submetido à repercussão geral, o que implica a vinculação deste Tribunal em relação à decisão então exarada pelo STF, nos termos do art.62 do RICARF. Não é por acaso, inclusive, que há súmula deste Tribunal tratando do assunto, in verbis Súmula CARF n° 18 A aquisição de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem tributados à alíquota zero não gera crédito de IPI. 34. Forte em tais premissas, nego provimento ao recurso neste tópico em particular, haja vista a vinculação deste Tribunal administrativo às decisões proferidas pelo STF em sede de repercussão geral. III. Da exclusão da multa em razão do disposto no art. 76, inciso II da lei n. 4.502/64 35. Por fim, de forma subsidiária o contribuinte protesta pela exclusão da multa que lhe fora imposta na presente exigência fiscal, o que faz com fundamento no art. 76, inciso II da lei n. 4.502/64. 36. Referida questão não é nova nesta turma julgadora que, em sua antiga composição, possui precedente no sentido de, em casos análogos ao aqui tratado, exonerar a multa em questão. É o que se observa do voto vencedor do Conselheiro Antonio Carlos Atulim, externado no acórdão n. 3402002.993, in verbis: (...). Embora o art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64 realmente autorizasse a dispensa da penalidade em relação àqueles que agiram "(...) de acôrdo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado; (...)", ele não mais pode ser aplicado porque encontrase em desarmonia com o art. 100, II, do CTN, que passou a disciplinar de maneira diversa a questão relativa à dispensa ou redução de penalidades. Fl. 474DF CARF MF 10 O art. 100, II, do CTN tratou de modo totalmente diferente a dispensa de penalidade, em razão da observância de decisões administrativas, passando a exigir que essas decisões possuam eficácia normativa, o que não ocorre com os julgados da Câmara Superior de Recursos Fiscais. A defesa alegou que o art. 97, VI, do CTN autoriza a lei a estabelecer hipóteses de dispensa ou de redução de penalidades, o que legitimaria sua pretensão em aplicar o art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64. Ora, o art. 97, VI, do CTN em nada altera a conclusão de que o art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64 não foi recepcionado pelo CTN. Isso porque uma lei complementar tem a função de impedir que o legislador ordinário regule certas matérias ao seu bel prazer. Admitir que o art. 97, VI, do CTN possa permitir que uma lei ordinária disponha de forma contrária ao que está estabelecido no art. 100, II, do CTN é transformar esse dispositivo em letra morta. Dessa forma, não resta nenhuma dúvida de que o art. 100, II, do CTN subtraiu do legislador ordinário a possibilidade de dispor sobre dispensa ou redução de multas em desconformidade com o que nele está previsto. Por tais motivos é que nos mantemos firmes na convicção de que o art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64 não foi recepcionado pelo ordenamento jurídico a partir do advento do CTN. Entretanto, conforme bem apontou a defesa, os Regulamentos do IPI têm considerado que o art. 76, II, "a", da Lei nº 4.502/64 está vigente e eficaz, conforme se pode conferir no art. 567, II, do RIPI 2010 e também no art. 486, II do RIPI 2002. Sendo assim, embora os regulamentos dos outros tributos não tenham contemplado a vigência do art. 76, II, "a" da Lei nº 4.502/64, é fora de dúvida que tal disposição foi mantida por meio dos decretos que instituíram os regulamentos do IPI, devendo tais decretos serem observados de forma obrigatória pelo CARF, a teor do que dispõe o art. 26A do Decreto nº 70.235/72. Afinal de contas, este colegiado aplicou a vinculação contida no art. 26A do Decreto nº 70.235/72 no julgamento dos Acórdãos 3402002.856 e 3402002.928, para fazer cumprir a letra dos arts. 169, II, b, e 388, ambos do RIPI/2002, a fim de condicionar o direito de crédito do IPI por devoluções e retornos à escrituração do livro modelo 3 ou do controle permanente de estoque. Igualmente, no Acórdão 3402002.929, este colegiado fez prevalecer o disposto no art. 10 do Decreto nº 4.195/2002, para manter a autuação da CIDE TECNOLOGIA sobre contratos que não envolviam transferência de tecnologia. Agora se trata de aplicar a mesma vinculação estabelecida no art. 26A do Decreto nº 70.235/72 para fazer valer a letra do art. 486, II, do RIPI/2002 e do art. 567, II, do RIPI/2010, ainda que pessoalmente este relator considere que seu suporte legal não foi recepcionado pelo CTN. Nesse passo, cumpre a este colegiado verificar se existia decisão irrecorrível da CSRF reconhecendo o direito de crédito de IPI Fl. 475DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 471 11 pela aquisição de produtos isentos na época dos fatos geradores abrangidos por este processo. Em pesquisa na página de jurisprudência do CARF na internet constatei que no Acórdão CSRF/021.212, de 11/11/2002, a Câmara Superior de Recursos Fiscais reconheceu o direito ao crédito ficto com base na extensão administrativa dos efeitos do RE 212.484 a um caso concreto semelhante ao ora analisado, ou seja, crédito ficto de IPI decorrente da aquisição de matérias primas produzidas na Zona Franca de Manaus (DL nº 288/67). Naqueles tempos, a CSRF, por maioria de votos, realmente estendia os efeitos do RE 212.484 a todos os contribuintes para reconhecer o direito de crédito sobre aquisição de qualquer insumo isento. Esse reconhecimento ocorria de forma ampla, tanto para insumos adquiridos da ZFM, quanto para qualquer outro insumo produzido em qualquer ponto do território nacional. No que concerne ao direito ao crédito ficto pela aquisição de insumos em geral, a partir de 2008 houve alteração no entendimento da CSRF, cessando a prolação de acórdãos que reconheciam esse direito com base na extensão administrativa dos efeitos do RE 212.484, conforme se pode comprovar pelo exame dos seguintes julgados: CSRF/0202.979, de 29/01/2008; CSRF/0203.029, de 05/05/2008; CSRF/0203.071, de 05/05/2008 e CSRF/0203.585, de 25/11/2008; 930301.274 e 930300.854, ambos de 2010; 9303001.617, 9303001.612, e 9303001.448, todos de 2011; e 9303002.188, de 2013. No que tange ao caso específico do crédito ficto sobre matérias primas isentas originárias da Zona Franca de Manaus, a CSRF somente alterou seu entendimento no Acórdão nº 9303003.293, de 24 de março de 2015, que foi proferido especificamente em relação à isenção concedida para empresa localizada na Zona Franca. Desse modo, se entre novembro de 2002 e março de 2015 vigeu o entendimento estampado no Acórdão CSRF/0201.212, de 11/11/2002, no sentido de que os contribuintes poderiam tomar o crédito ficto de IPI com base na interpretação contida no RE 212.484, então deve ser aplicada a restrição à imposição de penalidades previstas nos arts. 567, II, do RIPI 2010 e art. 486, II do RIPI 2002, in verbis: "(...) Não serão aplicadas penalidades: I omissis... II aos que, enquanto prevalecer o entendimento, tiverem agido ou pago o imposto: a) de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado (Lei nº 4.502, de 1964, art. 76, II); Fl. 476DF CARF MF 12 (...)." (grifos nosso). 37. Considerando que no caso concreto o período em análise está compreendido entre : 01/06/2006 a 31/05/2008, voto por afastar a multa imposta em prejuízo do Recorrente. Dispositivo 38. Ex positis, voto por (i) suspender o julgamento do presente processo até que haja decisão em definitivo do RE n. 592.891 ou, caso essa proposta de julgamento seja superada por este colegiado, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte para afastar a multa imposta em seu desfavor. 39. É como voto. Relator Diego Diniz Ribeiro Relator. Fl. 477DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 472 13 Voto Vencedor Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Redator designando Não obstante as sempre bem fundamentadas razões do ilustre Conselheiro Relator, peço vênia para manifestar entendimento divergente, por vislumbrar na hipótese vertente conclusão diversa da adotada quanto o posicionamento do Recurso Voluntário, devendo ser mantida a decisão a quo, como passarei a demonstrar. 1. Da suspensão do presente processo Um dos pedidos formulados pelo Recorrente em sede de recurso voluntário é o de suspensão do julgamento do presente caso até que haja ulterior e definitiva decisão para o Recurso Extraordinário autuados sob os números 592.891 (RS), pendente de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e com repercussão geral reconhecida nos seguintes termos: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI. NÃOCUMULATIVIDADE. DIREITO AO CREDITAMENTO NA ENTRADA DE INSUMOS PROVENIENTES DA ZONA FRANCA DE MANAUS. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. (STF; RE 592.891 RG, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, julgado em 21/10/2010, DJe226 DIVULG 24112010 PUBLIC 25112010 EMENT VOL0243802 PP00339 ). Aduz que a primeira decisão possível para o presente caso é a de sobrestar o julgamento destes autos até que haja decisão definitiva do RE nº 592.891, haja vista o caráter vinculante do precedente que se formará em tal julgamento, para tanto, aplicandose subsidiariamente o CPC/2015. No entanto, há que se indeferir tal solicitação, uma vez que este CARF não encontra respaldo legal no seu Regimento Interno (RICARF), aprovado pela Portaria do MF nº 343, de 09 de junho de 2015, atualmente vigente. Portanto, a proposta de sobrestamento alhures desenvolvida não pode ser acolhida por esse Colegiado. 2. Da nulidade do lançamento suposta glosa de créditos A Recorrente, alega preliminarmente, pela nulidade integral do presente lançamento, ao fundamento que parte da glosa seria indevida, uma vez os créditos tomados seriam decorrentes da devolução de mercadorias ou do aproveitamento de crédito com operações oneradas pelo IPI. Essa matéria já foi muito bem tratada em tópico próprio do voto do Conselheiro relator destes autos, concluída nos seguintes termos: "Diferentemente, pois, do que alega o contribuinte, não há qualquer glosa de crédito decorrente de operações de devoluções de mercadorias ou sujeitas à incidência do IPI, motivo pelo qual a defesa processual aqui desenvolvida deve ser afastada". Fl. 478DF CARF MF 14 3. Do creditamento do IPI decorrente de operações desoneradas Quanto ao mérito do crédito glosado e que suscitou na presente autuação, a Recorrente alega que o creditamento aqui perpetrado estaria em sintonia com entendimento consagrado do STF e exarado quando do julgamento do Recurso Extraordinário n. 212.484. Como bem pontuado no voto vencido, "(...) como é sabido, referido entendimento foi superado pelo próprio Pretório Excelso quando do julgamento do Recurso Extraordinário n. 398.365", cuja ementa se encontra transcrita. O sobredito julgamento foi submetido à repercussão geral, o que implica a vinculação deste Tribunal em relação à decisão então exarada pelo STF, nos termos do art.62 do RICARF. Não é por acaso, inclusive, que há súmula deste Tribunal tratando do assunto, in verbis Súmula CARF n° 18 A aquisição de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem tributados à alíquota zero não gera crédito de IPI. Com base em tais premissas, nego provimento ao recurso neste tópico em particular, haja vista a vinculação deste Tribunal administrativo às decisões proferidas pelo STF em sede de repercussão geral. 4. Da exclusão da multa aplicada disposto no art. 76, inciso II da lei n. 4.502/64 De forma subsidiária a Recorrente protesta pela exclusão da multa que lhe fora imposta na presente exigência fiscal, o que faz com fundamento no art. 76, inciso II da lei n. 4.502/64. Como colocado pelo ilustre Relator em seu voto, essa questão não é nova nesta turma julgadora que, em sua antiga composição, possui precedente no sentido de, em casos análogos ao aqui tratado, exonerar a multa em questão. No entanto, tenho, para o caso, entendimento diferente. O argumento da Recorrente consiste, em síntese, na alegação de que a Câmara Superior de Recursos Fiscais teria reconhecido o direito ao crédito de IPI relativo à aquisição de insumos isentos (com benefício da isenção subjetiva), utilizados na fabricação de produtos sujeitos ao IPI, em observância ao entendimento Plenário do STF no julgamento do RE 212.484 e que assim não caberia a aplicação de penalidade (multa de ofício), nos termos do art. 76, II, “a”, da Lei nº 4.502, de 1964, que dispõe: “Art . 76. Não serão aplicadas penalidades: I (...). II enquanto prevalecer o entendimento, aos que tiverem agido ou pago o imposto: a) de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado; ...” Fl. 479DF CARF MF Processo nº 10880.911454/201164 Acórdão n.º 3402004.279 S3C4T2 Fl. 473 15 Ocorre que posteriormente à edição da Lei nº 4.502/1964, foi editado o Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172, de 1966), recepcionado como Lei Complementar pela Constituição Federal de 1988, que assim dispôs no seu art. 100, incs. I e II e parágrafo único: (Grifei) Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Ou seja, a partir da vigência do CTN, a exclusão de penalidades com fundamento em decisões do CARF, sem que o contribuinte seja parte nos processos específicos, só é possível caso exista lei atribuindo eficácia normativa às referidas decisões, o que, até o presente momento, não existe. Nesse sentido, vale também relembrar que o Parecer Normativo COSIT nº 23/2013, mencionado no início deste Voto, já pacificou a questão ao esclarecer que os acórdãos do CARF não constituem normas complementares da legislação tributária, porquanto não possuem caráter normativo nem vinculante. Nada obstante, essa é a multa prescrita pelo art. 569 do RIPI/2010, com espeque no art. 80 da Lei 4.502/64, com redação dada pelo art. 13 da Lei 11.488, de 15/06/2007, vazada nos seguintes termos: Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Logo, carece de fundamento a argumentação que visa afastar a aplicação de penalidade, devendo ser mantida a exigência de multa de ofício. A meu juízo, o artigo 76 da Lei nº 4.502/64 foi derrogado pela nova redação do art. 80 da mesma Lei, de redação de 2007. 5. Dispositivo Em face de todo o exposto, nego provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Waldir Navarro Bezerra Fl. 480DF CARF MF 16 Fl. 481DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.720486/2011-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. NOVO PRONUNCIAMENTO PARA SUPRIR OMISSÕES.
Constatado que há omissão no acórdão embargado, prolata-se nova decisão para sanar tal vício.
PRECLUSÃO DECLARADA EQUIVOCADAMENTE PELA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. MATÉRIA SUPERADA EM RAZÃO DE ARGUMENTOS DA RECORRENTE.
Constatado o equívoco na decisão de primeira instância sobre a ocorrência de preclusão, não há que se falar em supressão de instância se há argumentos adicionais na decisão recorrida que confirmam o procedimento adotado pela autoridade fiscal.
Numero da decisão: 1402-002.507
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento aos embargos de declaração para sanar a omissão, sem efeitos infringentes.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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NOVO PRONUNCIAMENTO PARA SUPRIR OMISSÕES. Constatado que há omissão no acórdão embargado, prolatase nova decisão para sanar tal vício. PRECLUSÃO DECLARADA EQUIVOCADAMENTE PELA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. MATÉRIA SUPERADA EM RAZÃO DE ARGUMENTOS DA RECORRENTE. Constatado o equívoco na decisão de primeira instância sobre a ocorrência de preclusão, não há que se falar em supressão de instância se há argumentos adicionais na decisão recorrida que confirmam o procedimento adotado pela autoridade fiscal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento aos embargos de declaração para sanar a omissão, sem efeitos infringentes. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 04 86 /2 01 1- 75 Fl. 1719DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.720 2 Relatório Tratase de embargos de declaração opostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional. Transcrevo excertos da informação em embargos prestadas por este relator e acatadas pelo ilustre Presidente deste colegiado quando da admissão parcial dos embargos: Tratase de embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional em face do acórdão nº 1402002.198 julgado na sessão de 07 de junho de 2016. O processo foi encaminhado digitalmente à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional em 12 de julho de 2016, uma terçafeira (fl. 1.707). Nos termos do art. 79, § 2º, do Anexo II do RICARF/2015 os Procuradores da Fazenda Nacional serão considerados intimados pessoalmente das decisões do CARF com o término do prazo de 30 (trinta) dias contado da data em que os respectivos autos forem entregues à PGFN por meio digital. Portanto, o 30º dia a ser considerado como data de intimação da PGFN foi o dia 11 de agosto de 2016, uma quintafeira. Logo, o primeiro dia de contagem do prazo de cinco dias para oposição dos embargos foi o dia 12 de agosto de 2016 (sextafeira). Os embargos foram opostos em 27 de julho de 2016 (fl. 1.713), portanto, manifestamente tempestivos. Tratase de declaração de compensação relativa a saldo negativo de IRPJ do ano calendário de 2006. Ocorre que em relação ao mesmo período de apuração foi lavrado auto de infração de IRPJ cobrandose R$ 188.636.543,13 de principal (processo 12897.000193/201011). Tanto a decisão da unidade de origem, quanto o julgado de primeira instância, entenderam por bem computar o IRPJ lançado de ofício no cálculo do IRPJ devido no período, implicando a redução substancial do direito creditório reconhecido. Por meio do Acórdão 1402002.198 este colegiado, por unanimidade de votos, deu provimento parcial ao recurso para reconhecer o direito de crédito adicional de 188.636.553,73, uma vez que, no lançamento de ofício em questão (processo 12897.000193/201011), a autoridade fiscal não deduziu, no momento do lançamento, o saldo negativo objeto da declaração de compensação atrelada ao saldo negativo de IRPJ referente ao mesmo período de apuração. O não reconhecimento do direito creditório nos presentes autos implicaria a dupla cobrança da RFB em relação ao mesmo crédito: a primeira, via auto de infração, e a segunda em razão do não reconhecimento do direito creditório nos presentes autos. Para a Fazenda Nacional, a questão da dedução de tal parcela seria matéria preclusa, uma vez que “o próprio contribuinte havia considerado essa parcela ilíquida e incerta, o que impede qualquer compensação. O acórdão ora embargado não afasta tal preclusão antes de adentrar no mérito, o que configura clara omissão.” Fl. 1720DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.721 3 Aduz ainda a Fazenda Nacional que “o Processo nº 12.897.000193/201011 encontrase no CARF, tendo sido recentemente julgado recurso especial pelo CSRF em sentido desfavorável ao contribuinte. A falta de decisão final quanto ao Auto de Infração e o fato de o processo caminhar no sentido da constituição definitiva do crédito só confirmam o caráter ilíquido e incerto do valor”. Aponta ainda a Fazenda Nacional haver uma segunda omissão no acórdão: Cabe asseverar que diante da preclusão reconhecida pela DRJ, a PGFN sequer se viu motivada a contraarrazoar quanto ao mérito do valor em discussão, já que acreditava não estar a matéria em debate. Sem essa oportunidade, podemos até mesmo falar em violação aos direitos do contraditório e da ampla defesa, em ofensa ao devido processo legal. Ainda que se considere a possibilidade de a Turma afastar a preclusão, o que se admite ad argumentandum tantum, teria que devolver a matéria à DRJ, sob pena de supressão da instância. Estamos aqui diante de uma segunda omissão. Além de simplesmente ignorar a preclusão da questão relativa ao caráter ilíquido da matéria, deixa o acórdão de remeter a questão para que seja julgada, quanto ao mérito, pela vez primeira na DRJ. Por fim, assevera haver uma terceira omissão no acórdão, pois deveria ainda analisar a necessidade de se apensar o pedido de compensação ao auto de infração (Processo nº 12897.000193/201011, em trâmite nesse CARF), situação que fora requerida pelo próprio contribuinte em sua manifestação de inconformidade. Passo à análise do preenchimento dos pressupostos para sua admissibilidade. DOS PRESSUPOSTOS PARA ADMISSIBILIDADE DOS EMBARGOS Nos termos do art. 65, § 2º, do Regimento Interno do CARF – RICARF (Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015) fui designado para me pronunciar sobre a admissibilidade dos embargos opostos. Pois bem, dispõe o art. 65 do RICARF que “Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma.” Os embargos opostos mostramse tempestivos, conforme já abordado. Para a Fazenda Nacional, a questão da dedução da parcela de R$ 188.636.543,13 referente ao lançamento de IRPJ no processo 12897.000193/201011 seria matéria preclusa, uma vez que “o próprio contribuinte havia considerado essa parcela ilíquida e incerta, o que impede qualquer compensação. O acórdão ora embargado não afasta tal preclusão antes de adentrar no mérito, o que configura clara omissão.” De fato, no acórdão embargado, deixouse de analisar se a matéria era ou não preclusa, o que implica omissão que deve dar ensejo à nova manifestação do colegiado a seu respeito. No que diz respeito à segunda omissão, qual seja, a devolução do tema ao exame da DRJ em caso de superação da preclusão, entendo também ser matéria que deva ser Fl. 1721DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.722 4 apreciada pelo colegiado quando da análise da existência, ou não, de preclusão em relação ao cômputo do valor lançado de ofício na quantificação do saldo negativo. Em relação à suposta terceira omissão (deveria ter sido analisada a necessidade de se apensar o pedido de compensação ao auto de infração referente ao processo nº 12897.000193/201011), entendo não assistir razão à embargante, uma vez que o colegiado entendeu que por não ter a autoridade fiscal utilizadose do saldo negativo no momento da realização do lançamento, ou seja, o desfecho de auto de infração era irrelevante para a análise do mérito do saldo negativo pleiteado pela então Recorrente. Desse modo, as alegações da Embargante mostramse parcialmente corretas, devendo o colegiado se manifestar sobre as omissões constatadas. PROPOSTA Desse modo, constatada a ocorrência de duas omissões das três apontadas pela Embargante, entendo que todos os embargos devem ser PARCIALMENTE ADMITIDOS, uma vez que as alegações da Embargante mostramse procedentes em parte. Isso posto, proponho ao Presidente da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF que os embargos opostos pela FAZENDA NACIONAL sejam PARCIALMENTE ADMITIDOS, devendo o colegiado se manifestar única e exclusivamente sobre a ocorrência de preclusão e, caso superada essa questão, sobre a necessidade do retorno dos autos à turma julgadora de primeira instância. Por meio do despacho de fl. 1718 o M.D. Presidente deste colegiado aprovando na íntegra a proposta de admissão parcial, devolvendome os autos para relato. É o relatório. Fl. 1722DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.723 5 Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE Os embargos já foram parcialmente admitidos pelo Presidente do colegiado (fl. 1718). 2 DAS OMISSÕES Conforme já relatado, a lide trata de declaração de compensação relativa a saldo negativo de IRPJ do anocalendário de 2006. E relação ao mesmo período de apuração foi lavrado auto de infração de IRPJ cobrandose R$ 188.636.543,13 de principal (processo 12897.000193/201011). Tanto a decisão da unidade de origem, quanto o julgado de primeira instância, entenderam por bem computar o IRPJ lançado de ofício no cálculo do IRPJ devido no período, implicando a redução substancial do direito creditório reconhecido. Por meio do Acórdão 1402002.198 este colegiado, por unanimidade de votos, deu provimento parcial ao recurso para reconhecer o direito de crédito adicional de 188.636.553,73, uma vez que, no lançamento de ofício em questão (processo 12897.000193/201011), a autoridade fiscal não deduziu, no momento do lançamento, o saldo negativo objeto da declaração de compensação atrelada ao saldo negativo de IRPJ referente ao mesmo período de apuração. Entendeu este colegiado que o não reconhecimento do direito creditório nos presentes autos implicaria a dupla cobrança da RFB em relação ao mesmo crédito: a primeira, via auto de infração, e a segunda em razão do não reconhecimento do direito creditório nos presentes autos. Para a Fazenda Nacional, a questão da dedução de tal parcela seria matéria preclusa, uma vez que “o próprio contribuinte havia considerado essa parcela ilíquida e incerta, o que impede qualquer compensação. O acórdão ora embargado não afasta tal preclusão antes de adentrar no mérito, o que configura clara omissão.” Aduz ainda a Fazenda Nacional que “o Processo nº 12.897.000193/201011 encontrase no CARF, tendo sido recentemente julgado recurso especial pelo CSRF em sentido desfavorável ao contribuinte. A falta de decisão final quanto ao Auto de Infração e o fato de o processo caminhar no sentido da constituição definitiva do crédito só confirmam o caráter ilíquido e incerto do valor”. De fato, no acórdão embargado, deixouse de analisar se a matéria era ou não preclusa, o que implica omissão que justificou a submissão destes autos à nova manifestação do colegiado. Contudo, no mérito, não há que se falar em preclusão. Embora a decisão de primeira instância tenha afirmado que a matéria seria preclusa, no recurso voluntário apresentado a Recorrente atacou com propriedade tal conclusão da turma julgadora a quo (fls. 13751382), demonstrando o equívoco da unidade de origem quanto à suposta aceitação do contribuinte da dedução dos valores lançados em auto de infração. Compulsando o recurso voluntário, resta evidente que o contribuinte tratou os valores exigidos no auto de infração e Fl. 1723DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.724 6 deduzidos no cálculo do saldo negativo como ilíquidos e incertos. Além disso, na planilha elaborada no tópico IVC de sua impugnação, em que incluiu o valor da autuação na exigência, à toda evidência, além de tratarse de argumentação alternativa, fica claro que fazia parte de sua argumentação de que a inclusão dos valores dos autos de infração não surtiriam efeitos no indébito a ser reconhecido em razão do suposto crédito que teria em razão das estimativas compensadas. Portanto, além de a conclusão da DRJ a respeito da “preclusão” estar incorreta, a matéria foi objeto de recurso voluntário. E, em razão disso, a segunda omissão apontada pela Fazenda Nacional a respeito de supressão de instância, não faz sentido, porque a DRJ, de algum modo, procedeu à análise do tema, questão de mérito já superada no acórdão embargado. Ademais, tratandose de controvérsia envolvendo restituição de tributos (ainda que cumulada com compensação), o retorno dos autos à primeira instância após o CARF já ter decidido o mérito a favor do contribuinte mostrase contrário ao princípio da duração razoável do processo, porque se a nova decisão viesse ser favorável ao contribuinte, não haveria interposição de recurso de ofício (art. 27, inciso I e IV, da Lei nº 10.522, de 2002), e, em caso contrário, em relação a novo recurso voluntário a ser interposto, o mérito da exigência já foi alvo de análise no acórdão embargado. Ou seja, de qualquer modo, o resultado viria a ser favorável ao Recorrente. Nesse cenário, retornar os autos para exame de mérito, na primeira instância, para matéria que o CARF já analisou o caso concreto desafia não só o princípio da duração razoável do processo, mas também o da eficiência. A respeito do argumento de impossibilidade de contraarrazoar o recurso voluntário em razão da suposta preclusão, conforme já destacado, o recurso voluntário já atacara tal conclusão da DRJ, possibilitando sim à Fazenda Nacional que oferecesse as contrarrazões a respeito do tema, inclusive quanto ao mérito, prerrogativa não exercida nos autos. No que atine à suposta incerteza e iliquidez do lançamento, o acórdão embargado esclarece que por não ter a autoridade fiscal se utilizado do saldo negativo no momento da realização do lançamento, o desfecho do julgamento do auto de infração era irrelevante para a análise do mérito do saldo negativo pleiteado pela Recorrente. Fl. 1724DF CARF MF Processo nº 16682.720486/201175 Acórdão n.º 1402002.507 S1C4T2 Fl. 1.725 7 3 CONCLUSÃO Isso posto, voto por acolher os embargos para sanar omissão no acórdão 1402002.198, e no mérito, rejeitálos. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 1725DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15374.928035/2009-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 14/11/2002
DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO.
A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material.
VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA.
As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.734
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, José Luiz Feistauer de Oliveira, Marcelo Giovani Vieira, Mércia Helena Trajano D'Amorim, Cássio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Tatiana Josefovicz Belisário.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. Recurso Voluntário Negado ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, José Luiz Feistauer de Oliveira, Marcelo Giovani Vieira, Mércia Helena Trajano D'Amorim, Cássio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Tatiana Josefovicz Belisário. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 92 80 35 /2 00 9- 81 Fl. 64DF CARF MF Processo nº 15374.928035/200981 Acórdão n.º 3201002.734 S3C2T1 Fl. 3 2 ABW FACTORING FOMENTO MERCANTIL LTDA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição social (PIS ou Cofins). A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico não homologando a compensação, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação declarada. Em Manifestação de Inconformidade, a contribuinte alegou, em síntese, que parte do pagamento declarado era indevido, sem, contudo, trazer aos autos qualquer elemento probatório do crédito pleiteado, como a escrita fiscal ou notas fiscais. A Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, nos termos do Acórdão 1332.518. A DRJ fundamentou sua decisão no fato de que o recolhimento alegado como origem do crédito encontravase integralmente alocado para a quitação de débito confessado, não se tendo por caracterizado o alegado pagamento indevido ou a maior, dada a inexistência de comprovação de erro no preenchimento da DCTF. Em seu recurso voluntário a Recorrente alega, em resumo, que a legislação não se encontra autorizada a alterar conceitos adotados na Constituição Federal, não sendo possível, por conseguinte, a ampliação da base de cálculo das contribuições sociais (PIS e Cofins), uma vez que, no período de apuração sob comento, a base de cálculo se restringia ao faturamento, ou seja, ao resultado das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, dada a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo das contribuições promovido pela Lei 9.718/1998. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.640, de 30/03/2017, proferido no julgamento do processo 13558.901073/200911, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.640): O Recurso Voluntário é tempestivo, e não verificando outros óbices, tomo conhecimento dele. A recorrente alega que a parcela do Darf que considera indevida seria referente à ampliação da base de cálculo da Cofins, promovida pela Lei 9.718/98. Dois obstáculos impedem o provimento solicitado. Fl. 65DF CARF MF Processo nº 15374.928035/200981 Acórdão n.º 3201002.734 S3C2T1 Fl. 4 3 O primeiro é que toda a argumentação quanto à base de cálculo da Cofins não foi feita na Manifestação de Inconformidade, e por isso, tal matéria encontrase atingida por preclusão, conforme art. 17 do PAF – Decreto 70.235/721, combinado com art. 74, §§ 9º, 10 e 11 da Lei 9.430/962. O segundo obstáculo é que o crédito pretendido não foi demonstrado e provado. Com efeito, o débito de Cofins, no valor integral do Darf, foi confessado em DCTF. A DCTF é o instrumento formal para confissão de débito, no lançamento por homologação (Decretolei 2.124/84), de modo que o crédito tributário representado pelo valor integral do Darf foi formalmente constituído. Estando o crédito tributário formalmente constituído, para que se pudesse retificálo seria necessária prova de sua inexatidão. Seria preciso demonstrar, documentalmente, a composição da Base de Cálculo e as deduções permitidas em lei, com os livros oficiais, tais como Diário, Razão, ou qualquer escrituração ou documento legal que se revista do caráter de prova. Ora, o ônus da prova cabe ao interessado (art. 36 da Lei 9.784/993, art. 373,I do CPC4). Sem tais elementos, se mostra impossível desconstituir o que formalmente foi constituído. Também considero inaplicável o pedido de diligência. Com efeito, a recorrente já teve duas oportunidades para demonstrar seu direito material: 1 – após a ciência do Despacho Decisório, e 2 – após a ciência do Acórdão de manifestação de inconformidade. Permitir agora uma terceira oportunidade malfere o art. 16, § 4º do PAF Decreto 70.235/72: §4º – A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; 1 Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. 2 § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7º, apresentar manifestação de inconformidade contra a nãohomologação da compensação. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 10. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9º e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação. 3 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. 4 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 66DF CARF MF Processo nº 15374.928035/200981 Acórdão n.º 3201002.734 S3C2T1 Fl. 5 4 c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Não se verificando nenhuma dessas exceções, não pode agora o processo ser submetido a nova fase probatória, nas quais se mostrariam necessárias verificações fiscais, batimentos, etc, que não tiveram lugar no tempo próprio. Desse modo, e ainda por homenagem aos princípios da preclusão probatória, do ônus probatório, da impulsão oficial do processo e da celeridade, não vislumbro espaço para determinação de diligência. Assim, o crédito solicitado não pode ser deferido, em vista dos dois fundamentos expostos, cada um per se suficiente para o desprovimento. Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Destaquese que, neste processo, não houve preclusão de matéria, situação que ocorreu no paradigma, dado que a recorrente já havia informado na Manifestação de Inconformidade que a origem do direito creditório alegado era a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98. Todavia, da mesma forma que no caso do paradigma, nos presentes autos a contribuinte não demonstrou, "documentalmente, a composição da Base de Cálculo e as deduções permitidas em lei, com os livros oficiais, tais como Diário, Razão, ou qualquer escrituração ou documento legal que se revista do caráter de prova", o que, por si só, impede o reconhecimento do direito creditório em litígio. Dessa forma, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio e manter a não homologação das compensações. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 67DF CARF MF
score : 1.0
