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Numero do processo: 10909.721691/2015-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 30 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Sun Mar 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA
Ano-calendário: 2012
PRELIMINARES DE NULIDADE DO PROCEDIMENTO ADMINSITRATIVO. NÃO OBSERVÂNCIA DO MPF. NÃO ACARRETA NULIDADE. OBSERVÂNCIA DOS REQUITOS DO PROCESSO ADMINISTRATIVO.
Tendo sido o Auto de Infração lavrado segundo os requisitos estipulados no art. 10 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, e não incorrendo em nenhuma das causas de nulidade dispostas no art. 59 do mesmo diploma legal, encontra-se válido e eficaz. Irregularidade na emissão, alteração ou prorrogação do MPF não acarreta a nulidade do lançamento. Súmula CARF 171.
ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO. SUBFATURAMENTO. PRESUNÇÃO LEGÍTIMA DE FRAUDE. VALOR DECLARADO MANIFESTAMENTE INVEROSSÍMIL. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO.
Quando o valor declarado pelo importador se revela manifestamente incompatível com o custo da matéria-prima, com as condições de mercado e com operações idênticas de importação, resta configurada a presunção legítima de falsidade ideológica da fatura comercial, autorizando o afastamento do valor de transação e o arbitramento do valor aduaneiro, nos termos do art. 88 da MP nº 2.158-35/2001. A prova direta de conluio ou pagamento paralelo não é requisito indispensável quando o conjunto probatório demonstra a inverossimilhança econômica da operação.
IMPORTAÇÃO. DOLO. PREÇOS ARTIFICIALMENTE REDUZIDOS. PENALIDADES. MULTA DE OFÍCIO. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI N. 14.689/2023. REDUÇÃO DE 150% PARA 100%.
Nos casos em que for constatada a redução intencional dos preços declarados na operação de importação, aplica-se a multa de 150% sobre a diferença entre o valor do imposto ou contribuição recolhidos e os efetivamente devidos. Na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, seja na esfera administrativa ou judicial, tendo como origem auto de infração com base na regra geral de qualificação, a nova regra mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c” do CTN, reduzida ao patamar máximo de 100% do valor do tributo cobrado.
OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. NÃOCOMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. FATO PRESUNTIVO DA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO.
A falta de comprovação da origem e disponibilidade dos recursos utilizados na operação de importação caracteriza, por presunção, a prática da interposição fraudulenta no comércio exterior, definida no §2º do artigo 23 do Decreto-lei n. 1.455/1976, com a redação dada pelo artigo 59 da Lei n. 10.637/2002.
IMPUTAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA AO SÓCIO ADMINISTRADOR. COMPROVAÇÃO DE CONDUTA INDVIDUALIZADA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO.
Com fulcro no artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, é exigida a demonstração, além da sua condição de administrador, de conduta individualizada que tenha relação direta e específica com os fatos geradores em relação aos quais se apura o crédito tributário cuja responsabilidade solidária se imputa. Apresentando os ditames legais e perfeito enquadramento deve ser mantida.
Numero da decisão: 3302-015.542
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, (i) por unanimidade de votos, em (i.1) rejeitar as preliminares do Recurso Voluntário e da prescrição intercorrente (suscitada em sustentação oral) e, no mérito, (i.2) dar parcial provimento ao Recurso Voluntário da SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI para reduzir o percentual da multa de ofício qualificada para 100%, do que resulta, mantendo-se o percentual de agravamento em 50%, numa multa de ofício qualificada e agravada no total de 150%; (i.3) excluir da base de cálculo da autuação as Declarações de Importação duplicadas em relação ao processo nº 10909.721506/2015-71; e (i.4) dar provimento parcial ao Recurso Voluntário de TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA EPP (pessoa jurídica) e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA (pessoa física) para excluir a responsabilidade tributária; e (ii) por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário de JULIANO VANHONI SIL em relação à sua responsabilidade solidária, vencidas as Conselheiras Marina Righi Rodrigues Lara, Louise Lerina Fialho e Francisca das Chagas Lemos (relatora). Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Mário Sérgio Marinez Piccini.
Assinado Digitalmente
Francisca das Chagas Lemos – Relatora
Assinado Digitalmente
Mario Sergio Martinez Piccini – Redator Designado
Assinado Digitalmente
Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha (substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara, Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: FRANCISCA DAS CHAGAS LEMOS
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Ano-calendário: 2012 PRELIMINARES DE NULIDADE DO PROCEDIMENTO ADMINSITRATIVO. NÃO OBSERVÂNCIA DO MPF. NÃO ACARRETA NULIDADE. OBSERVÂNCIA DOS REQUITOS DO PROCESSO ADMINISTRATIVO. Tendo sido o Auto de Infração lavrado segundo os requisitos estipulados no art. 10 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, e não incorrendo em nenhuma das causas de nulidade dispostas no art. 59 do mesmo diploma legal, encontra-se válido e eficaz. Irregularidade na emissão, alteração ou prorrogação do MPF não acarreta a nulidade do lançamento. Súmula CARF 171. ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO. SUBFATURAMENTO. PRESUNÇÃO LEGÍTIMA DE FRAUDE. VALOR DECLARADO MANIFESTAMENTE INVEROSSÍMIL. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. Quando o valor declarado pelo importador se revela manifestamente incompatível com o custo da matéria-prima, com as condições de mercado e com operações idênticas de importação, resta configurada a presunção legítima de falsidade ideológica da fatura comercial, autorizando o afastamento do valor de transação e o arbitramento do valor aduaneiro, nos termos do art. 88 da MP nº 2.158-35/2001. A prova direta de conluio ou pagamento paralelo não é requisito indispensável quando o conjunto probatório demonstra a inverossimilhança econômica da operação. IMPORTAÇÃO. DOLO. PREÇOS ARTIFICIALMENTE REDUZIDOS. PENALIDADES. MULTA DE OFÍCIO. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. Fl. 3032DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 2 RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI N. 14.689/2023. REDUÇÃO DE 150% PARA 100%. Nos casos em que for constatada a redução intencional dos preços declarados na operação de importação, aplica-se a multa de 150% sobre a diferença entre o valor do imposto ou contribuição recolhidos e os efetivamente devidos. Na hipótese de existência de processo pendente de julgamento, seja na esfera administrativa ou judicial, tendo como origem auto de infração com base na regra geral de qualificação, a nova regra mais benéfica (art. 8º da Lei 14.689/2023) deve ser aplicada retroativamente, nos termos do artigo 106, II, “c” do CTN, reduzida ao patamar máximo de 100% do valor do tributo cobrado. OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. NÃO¬COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. FATO PRESUNTIVO DA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. A falta de comprovação da origem e disponibilidade dos recursos utilizados na operação de importação caracteriza, por presunção, a prática da interposição fraudulenta no comércio exterior, definida no §2º do artigo 23 do Decreto-lei n. 1.455/1976, com a redação dada pelo artigo 59 da Lei n. 10.637/2002. IMPUTAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA AO SÓCIO ADMINISTRADOR. COMPROVAÇÃO DE CONDUTA INDVIDUALIZADA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. Com fulcro no artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, é exigida a demonstração, além da sua condição de administrador, de conduta individualizada que tenha relação direta e específica com os fatos geradores em relação aos quais se apura o crédito tributário cuja responsabilidade solidária se imputa. Apresentando os ditames legais e perfeito enquadramento deve ser mantida. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, (i) por unanimidade de votos, em (i.1) rejeitar as preliminares do Recurso Voluntário e da prescrição intercorrente (suscitada em sustentação Fl. 3033DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 3 oral) e, no mérito, (i.2) dar parcial provimento ao Recurso Voluntário da SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI para reduzir o percentual da multa de ofício qualificada para 100%, do que resulta, mantendo-se o percentual de agravamento em 50%, numa multa de ofício qualificada e agravada no total de 150%; (i.3) excluir da base de cálculo da autuação as Declarações de Importação duplicadas em relação ao processo nº 10909.721506/2015-71; e (i.4) dar provimento parcial ao Recurso Voluntário de TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA EPP (pessoa jurídica) e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA (pessoa física) para excluir a responsabilidade tributária; e (ii) por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário de JULIANO VANHONI SIL em relação à sua responsabilidade solidária, vencidas as Conselheiras Marina Righi Rodrigues Lara, Louise Lerina Fialho e Francisca das Chagas Lemos (relatora). Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Mário Sérgio Marinez Piccini. Assinado Digitalmente Francisca das Chagas Lemos – Relatora Assinado Digitalmente Mario Sergio Martinez Piccini – Redator Designado Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha (substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara, Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de AUTOS DE INFRAÇÃO, lavrados em 14/07/2015, por meio do qual se exige o crédito tributário no valor total de R$ 64.998,52, referente à multa por conversão da pena de perdimento prevista no §3°, inciso V, do art. 23 do Decreto no 1.455/76, aplicada ao caso de Interposição Fraudulenta, além do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), do Imposto de Importação (II), da Contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS) e da Contribuição Social para o financiamento da Seguridade Social (COFINS), acrescidos de multa de ofício proporcional a 150% dos valores não recolhidos e juros moratórios. Fl. 3034DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 4 Além da Recorrente SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI - EPP (SPREAD), foram arrolados como responsáveis solidários tributários as seguintes pessoas físicas ou jurídicas: Nome CPF/CNPJ Juliano Vanhoni Sil 023.202.759-59 Terezinha Rodrigues da Silva 114.613.988-86 Terezinha Rodrigues da Silva EPP 11.659.178/0001-65 Zhiyoung FU 232.773.848-29 Por bem relatar a matéria, adoto parte do relatório do Acórdão 08-38.346 (30.03.2017), ora recorrido: 1. A autuação teve como origem o procedimento de revisão aduaneira iniciado em 16/04/2014, que teve como objeto 99 Declarações de Importação (DIs) registradas no período de 01/11/2011 a 31/12/2013, relativas a mercadorias diversas e exportadores variados, predominantemente estabelecidos na China; 2. Intimada, a Recorrente não apresentou documentos comprobatórios das transações comerciais, nem tampouco documentos representativos das transações comerciais, limitando-se a referir às notas fiscais de venda; 3. A Autoridade Fiscal constatou que as mercadorias haviam sido importadas já com destinação previamente definida, sendo entregues a terceiros logo após o desembaraço; 4. Houve o desdobramento do procedimento fiscal já instaurado a fim de promover a apuração das infrações relativas às operações separadamente, de acordo com as pessoas envolvidas; 5. Consta que a Autuada foi constituída em julho de 2002 sob a denominação de DHURAFITA COMÉRCIO DE FITAS E EMBALAGENS LTDA. Posteriormente, a razão social foi alterada para DHURAFITA IMPORTADORA E EXPORTADORA LTDA, permanecendo estabelecida em Balneário Camboriú e com quadro societário totalmente diverso do atual. Foi nessa época, no início de 2004, que a empresa obteve habilitação do responsável legal para operar no Siscomex; 6. Em julho de 2011 a empresa assumiu o nome SPREAD IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., em virtude da alteração total do quadro societário, pois os sócios anteriores se retiraram integralmente, ingressando FERNANDO SARAN SOLON, JULIO CESAR CARDOSO SILVA e JULIANO VANHONI SIL, cabendo a administração aos três sócios. Nessa data, domicílio fiscal foi alterado para Rua Benjamin Franklin Pereira, 295, Sala 02, Bairro São João, Itajaí/SC, o qual se manteve até o início do procedimento fiscal, e o objeto social, que passou a Fl. 3035DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 5 incluir a atividade de COMISSÁRIA DE DESPACHOS, SERVIÇOS DE ASSESSORIA ADUANEIRA E DE COMÉRCIO EXTERIOR; 7. Houve incremento nas operações de comercio exterior em meados de 2011 até 2013. Foi constatado pela Fiscalização que em site www.allcogroup.com.br, relativamente a um grupo de empresas denominado ALLCO, estavam domiciliadas no mesmo endereço da SPREAD, ou seja, Rua Benjamin Franklin Pereira nº 295. O grupo empresarial oferecia uma abrangente plataforma integrada de serviços voltados para o comercio exterior; 8. Deste modo, para a fiscalização, o grupo é PRESTADOR DE SERVIÇOS, não se declara um empreendimento comercial atuando em ramos próprios do atacado, mas sim uma “plataforma integrada”, oferecendo importação por conta e ordem de terceiros, importação por encomenda e comercio exterior terceirizado; 9. O grupo se apresentava como possuidor de TRÊS UNIDADES: JSX TRADING, SPREAD TRADING e LGX COMEX. - JSX TRADING – apresentada como "Estrategista em operações de importação por conta e ordem de terceiros”; - SPREAD TRADING – anunciava ao mercado em que atua como “ESPECIALISTA EM IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA", mas, para fins fiscais, nas declarações de importação, declarava IMPORTAR POR CONTA PRÓPRIA; - LGX COMEX – Atuando "horizontalmente ao oferecer serviços de gestão dos processos do embarque à distribuição final (door to door)". 10. O grupo não envolve apenas essas três empresas, pois, na ocasião, podiam ser identificadas ao menos CINCO PESSOA JURÍDICAS com domicílio declarado no mesmo local, pois, além da própria SPREAD, lá se declaravam estabelecidas as seguintes empresas: 11. Ao ser demandada a informar o endereço do depósito onde mantinha as mercadorias importadas, a SPREAD respondeu que utilizada os depósitos de duas empresas: ILOG SOLUÇÕES LOGÍSTICAS, de Navegantes/SC, e MULTILOG Fl. 3036DF CARF MF Original http://www.allcogroup.com.br/ D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 6 S.A, de Itajaí/SC, mas que não possui Contratos por prazo indeterminado/determinado firmados com empresas que prestam serviços de Armazenagem, porém, contrata constantemente as empresa acima relacionadas, bem como possui em seu portfólio várias empresas do segmento que lhe possam prestar os mesmos serviços; 12. Diante disso, concluiu a Fiscalização que o interessado efetuava importações em nome próprio de mercadorias previamente destinadas a terceiros, em claro indício da ocorrência de interposição fraudulenta; 13. Disse a Fiscalização que, ao ser indagado pelos bens integrantes de seu ativo imobilizado, a Autuado informou que se resumiam a um servidor, um microcomputador e softwares, sem qualquer estrutura de mesas, cadeiras e demais equipamentos compatíveis com o volume de operações. Pela DIPJ relativa ao ano de 2012, o valor do imobilizado constava ZERO, a empresa declarou que não detinha qualquer patrimônio físico; 14. O Balanço patrimonial informou a existência de bens e direitos (Ativo Total) no montante de R$ 2.214.670,04, e obrigações para com terceiros (Passivo) de R$ 2.300.983,32. Portanto, suas obrigações para com terceiros, ILOGISTICA ARMAZÉNS GERAIS E SERVIÇOS LOGÍSTICOS LTDA, CNPJ 10.996.597/0002-00, na ocasião, superavam seus bens e direitos e, a despeito de um capital integralizado declarado de R$ 100.000,00, possuía um PATRIMÔNIO LÍQUIDO NEGATIVO DE R$ 86.313,28. Diante dos registros, a Fiscalização concluiu a sociedade não detinha capacidade financeira para atuar por conta própria como empresa comercial, conforme atuava perante a Receita Federal, necessitando financiar-se de capitais de terceiros, já que a todo bem e direito existente correspondia a uma obrigação para com terceiros em montante superior. 15. Tal situação financeira correspondia a uma empresa que também não detinha patrimônio físico, e até o final de 2012 não possuía funcionários registrados, conforme GFIP por ela apresentadas. A partir de 2013 passaram a ser declarados 05 funcionários com data de admissão retroativas a 03.01.2011. Tais funcionários estavam registrados em nome de LGX COMÉRCIO EXTERIOR EIRELI, CNPJ 06.017.648/0001-57. Concluiu: “Portanto, para dar à SPREAD uma capacidade operacional ilusória, os funcionários registrados em nome de outra pessoa jurídica passaram a ser informados como se fossem funcionários da SPREAD desde sua contratação”. 16. Em alteração do contrato social de 03.06.2014 as sócias ELIANE e sua filha menor impúbere SOFIA, venderam suas cotas para o pai desta, JULIANO VANHONI SIL, que assim retornou formalmente ao comando da sociedade; o Fl. 3037DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 7 endereço foi alterado para o atual, Rua Samuel Heusi nº 463, sala 411, box 94, Centro, Itajaí/SC, o qual se refere a uma caixa postal (box 94) em uma sala comercial. No ano de 2015, a forma jurídica da sociedade e sua denominação foram alteradas, passando a se chamar SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI EPP. DAS DESTINATÁRIAS DAS MERCADORIAS Quanto às destinatárias das mercadorias no mercado interno, a fiscalização conta que: “No caso das operações de importação de que trata este relatório, foi identificado que as mercadorias, logo após o desembaraço nas alfândegas, foram imediatamente repassadas para quatro pessoas jurídicas, MARIANO & SILVA COMERCIAL LTDA, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA -BOLSAS E MALAS - EPP, DIREITA BOLSAS E ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA ME (nome atual SERGIO ALEXANDRE CANILOI - ME) e MARIA EDILA ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA EPP (nome atual MARIA EDILA GONCALVES - EPP). 4.1. MARIANO & SILVA A empresa MARIANO & SILVA COMERCIAL LTDA, CNPJ 14.050.113/0001-06, foi constituída em julho de 2011, então estabelecida na Av. Senador Queirós, 279, Centro, em São Paulo/SP, tendo por sócio administrador CLÁUDIO MARIANO DA SILVA, CPF nº 007.807.371-56, com 50% das cotas de capital, e por sócio cotista EDVALDO RANGEL DA SILVA, CPF Nº 222.557.294-15. Por meio da 2ª alteração contratual firmada em 17/12/2012 e registrada na JUCESP em 07/01/2013, CLÁUDIO MARIANO DA SILVA desligou-se da sociedade, ingressando em seu lugar SANDRA HELOISA DE SOUZA, CPF nº 034.655.897-26. A sociedade passou a ser administrada por EDVALDO e SANDRA, cada um com 50% do capital. Na ocasião também alterou seu domicílio declarado para Rua Marechal Rondon nº 46-B, bairro Vila América, em Santo André/SP. Por fim, através da 3ª alteração contratual, de 24/02/2014, registrada na JUCESP em 26/02/2014, ingressou na sociedade TIAGO CHAVES DOS SANTOS, CPF nº 031.366.425-03, que passou a administrá-la isoladamente, adquirindo 20% do capital dos demais sócios, que nela permaneceram como cotistas apenas, com 40% do capital cada. Os fatos narrados nesse relatório envolvem o período em que a sociedade foi administrada por CLÁUDIO MARIANO DA SILVA, bem como no período subsequente, quando foi administrada por EDVALDO e SANDRA. Fl. 3038DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 8 Abaixo, consta uma tabela comparativa, entre os valores das mercadorias adquiridas pela empresa (compras no mercado interno e compras diretas no mercado externo) nos períodos indicados, suas vendas e sua movimentação financeira informada pelas instituições financeiras nas DIMOF por elas apresentadas: Percebe-se que em 2012 a empresa constou como compradora de mercadorias no valor de quase três milhões de reais, mas promoveu vendas pouco mais de seis mil reais apenas. Circulou por sua conta corrente um montante de quase novecentos mil reais, muito inferior as suas compras, mas muito superior às vendas. Em 2013, suas aquisições foram de quase quatro milhões de reais, mas as vendas não alcançaram dois milhões e meio de reais. Enquanto isso, a movimentação financeira foi comparativamente irrisória, de pouco mais de quatrocentos mil reais. No primeiro semestre de 2014 o padrão é repetido. Nesse caso, porém, sequer houve a entrega de DIMOF por qualquer instituição bancária, indicando que não movimentou recursos em sua conta ou que essa movimentação foi inferior a dez mil reais. Esse perfil revela as características típicas de uma PJ (pessoa jurídica) utilizada como interposta para titularizar aquisições no mercado interno e externo a fim e ocultar os efetivos responsáveis. Não por acaso a PJ teve sua inscrição no CNPJ baixada, por ter sido apurada a inexistência de fato do empreendimento comercial, conforme processo administrativo 10925.721571/2014-17”. 4.2. TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA -BOLSAS E MALAS - EPP A empresa atualmente denominada TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA - BOLSAS E MALAS LTDA - EPP, CNPJ: 11.659.178/0001-65, foi Fl. 3039DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 9 constituída em março de 2010 na forma de empresa individual, tendo por titular TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, CPF nº 114.613.988- 86. Está domiciliada na Rua Direita nº 22, loja 05, Centro, São Paulo/SP. Em junho de 2015 foi transformada em sociedade por cotas de responsabilidade limitada, mediante o ingresso de sócio denominado FABRÍCIO GONÇALVES FERREIRA, CPF nº 133.911.086-57. A PJ é optante do SIMPLES desde o início de suas atividades e não possui e nem possuiu habilitação para operar no Siscomex. 4.3 DIREITA BOLSAS E ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA ME (nome atual SÉRGIO ALEXANDRE CANILOI - ME) A empresa então denominada DIREITA BOLSAS E ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA ME, CNPJ 10.548.938/0001-02, foi constituída em dezembro de 2008 tendo por sócios administradores LEOFREDO GONÇALVES FERREIRA, CPF nº096.722.686-45 e SÉRGIO ALEXANDRE CANILOI, CPF nº 093.772.868-32. Estava domiciliada na Rua Direita nº 189, Centro, São Paulo/SP. No mês de março de 2013 o sócio LEOFREDO retirou- se da sociedade. Em junho de 2014 sua forma jurídica alterada para empresa individual, tendo adotado o nome de seu titular SÉRGIO ALEXANDRE CANILOI - ME. Tornou-se optante do Simples em 2009. Não possui ou possuiu habilitação para operar no Siscomex. Em março de 2015 a PJ teve sua inscrição no CNPJ baixada por liquidação voluntária. 4.4 MARIA EDILA ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA EPP (nome atual MARIA EDILA GONCALVES - EPP). A empresa atualmente denominada MARIA EDILA GONCALVES - EPP, CNPJ 08.975.993/0001-29, foi inicialmente constituída sob a forma de sociedade por quotas de responsabilidade limitada no mês de julho de 2007. Tinha por sócias-administradoras MARIA EDILA GONÇALVES, CPF nº 093.772.798-95, e ANA PAULA RODRIGUES DA SILVA, CPF nº 379.460.528-47 (filha de TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, sócia da empresa que leva esse nome, já citada). Tem domicílio na Rua Direita nº 11, Centro, São Paulo/SP. No mês de fevereiro de 2013 ANA PAULA retirou-se da sociedade, ingressando em seu lugar NELSON CANELOI, CPF nº 055.750.528-34 (cônjuge de MARIA EDILA), o qual permaneceu até o mês de novembro de 2013, quando também deixou a sociedade. No mês de junho de 2014, a forma jurídica da empresa foi alterada para empresa individual. Não possui ou possuiu habilitação para operar no Siscomex. 5. DA OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO – DI N° 12/1399383-2 Fl. 3040DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 10 Em 31/07/2012 a SPREAD promoveu o registro da DI declarando promover a importação por conta própria de mercadorias descritas como malas para viagem em material têxtil e necessaires para viagem em material têxtil, na quantidade de 3.615 (três mil, seiscentas e quinze) unidades de cada gênero. O despacho aduaneiro foi instruído com a fatura comercial nº FUCV_010.12, de 20/06/2012, com valor total CFR12 de US$ 19.224,30 (fl. 1425). A fatura comercial instrutiva do despacho foi supostamente emitida por RUIAN MODENG SUITCASE & LUGGAGE CO., LTD, estabelecida na cidade de RUIAN, província de ZHEJIANG, no território continental da CHINA. (...) Observando-se o fluxo de recursos financeiros, constata-se através da escrituração contábil da SPREAD que, em 31/07/2012, data em que a DI foi registrada e os tributos foram recolhidos, a importadora NÃO EFETUOU DESEMBOLSOS. Em sua escrituração, consta que os pagamentos foram efetuados por outra empresa do grupo, a LGX COMÉRCIO EXTERIOR. (...) A SPREAD contabilizou as despesas, tendo por contrapartida a conta razão da LGX, que é uma conta do ativo, representativa de direitos oriundos de adiantamentos efetuados. Portanto, as despesas teriam sido pagas pela LGX mediante a utilização de recursos previamente adiantados pela SPREAD. Ocorre que NÃO HOUVE adiantamento prévio de recursos para essa operação, portanto a EFETIVA origem dos recursos empregados não foi revelada. Além disso, os prazos de pagamento das vendas no mercado interno declaradas nas NFs de venda também não correspondem ao contabilizado. (...) Com o objetivo de demonstrar que as diversas irregularidades identificadas na operação de importação em comento não são fatos isolados, mas praxe nas operações da SPREAD, foi elaborado um ANEXO ao presente relatório, que segue ao final deste. No ANEXO estão esmiuçadas treze importações que já foram auditadas e revelam a presença de aspectos comuns nas operações da empresa, demonstrativas da prática continuada de fraudes. Ocorre que, ao se analisar uma importação isoladamente, perde-se de vista o contexto, especialmente no que se refere ao fluxo de recursos financeiros. Ao ser intimada a esclarecer os fatos, a Recorrente informou que (fls. 2.881): “ITEM 02: As transações comerciais se deram em sua maioria através de agentes do fabricante/exportador no Brasil, ao qual se encontram indicados e qualificados, conforme relatório em anexo”. Fl. 3041DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 11 DOS AGENTES A. ZHIHONG FU - apontado como suposto agente do fabricante/exportador no Brasil, sócio administrador de uma PJ denominada FUTURA BRASIL ADMINISTRAÇÃO E INVESTIMENTOS LTDA, CNPJ 12.083.797/0001-17, domiciliado no mesmo endereço utilizado pela Empresa MARIANO & SILVA até a 2ª alteração contratual firmada em 17/12/2012. movimentação financeira em suas contas-correntes, conforme se constata por meio das DIMOF, envolveu créditos R$ 1.030.173,90 em 2012 e R$ 2.409.813,89 em 2013, no entanto, em sua declaração de renda da pessoa física, informa receber módica renda. Em 2012, teria auferido renda de apenas R$ 48.000,00; em 2013, R$ 50.000,00. Concluiu a fiscalização que se a pessoa indicada é agente do exportador, agindo em seu nome e a mando deles, devem ser apresentados os detalhes das operações comerciais e demonstrado o vínculo entre o agente e o exportador. Caso contrário, serão meras alegações sem provas, subterfúgio para ocultar a verdade de que a Recorrente não adquiriu a mercadoria, apenas promoveu o despacho em seu nome, sendo remunerada para promover importações fraudulentas. Intimada a apresentar documentação (pedidos de compra junto aos exportadores, contratos ou outros instrumentos de negociação constando preços, formas e prazo de pagamentos, além documentos expedidos pelo exportador) em resposta, limitou-se a afirmar “conforme item 02”, mas a resposta do item 02 não está acompanhada de quaisquer documentos. DA INTIMAÇÃO DA EMPRESA MARIANO & SILVA Após algumas tentativas dos Correios, a intimação retornou com a informação AUSENTE. Em nova tentativa, retornou sem entrega. Por fim, foi formalizada representação para fins de inaptidão da PJ no CNPJ por não ter sido localizado domicílio fiscal. Por fim, a representada apresentou justificativa alegando que por ocasião do envio das intimações pelo correio “encontrava-se fechada e como de fato até a presente data se encontra; por motivos de reformas para um melhor andamento de suas funções ressaltando que as intimações foram cumpridas na receita federal no porto de Itajaí, seção de fiscalização aduaneira (SAFIA), Itajaí Santa Catarina pessoalmente; segue documentação pertinente a este processo”. Trata-se de afirmação FALSA, pois a intimação jamais foi cumprida. Tampouco apresentou a documentação pertinente junto ao seu arrazoado. DA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA Entendeu a Autoridade Fiscal restar “claramente demonstrado que a empresa que se apresentou à fiscalização aduaneira como importadora é uma prestadora de serviços que jamais pretendeu adquirir a propriedade das mercadorias. Sua função foi operacionalizar as Fl. 3042DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 12 importações declarando-se compradora, permitindo a ocultação dos efetivos responsáveis. Sequer indicou os nomes das pessoas, na empresa exportadora, responsáveis pela hipotética negociação comercial, atribuindo tal responsabilidade a pessoas domiciliadas no Brasil acerca da qual não comprovou qualquer vínculo com o exportador. Na verdade, os dois supostos agentes dos exportadores são ligados às duas empresas que constaram como adquirentes das mercadorias no mercado interno. Nenhum documento comprobatório na negociação comercial foi apresentado” (fls. 2884) Aplicou multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, conforme previsto no §3º do mencionado art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455/76. DO ARBITRAMENTO DO PREÇO A Fiscalização acusa que os preços declarados em todas as operações são extremamente baixos. Considerou que a importação foi efetuada mediante interposição fraudulenta, estando devidamente caracterizada e demonstrada a prática de fraude, seguiu a recomendação da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Opiniões Consultivas, divulgadas por meio da Instrução Normativa SRF nº 318, de 4 de abril de 2003. Concluiu que no presente caso não é possível apurar o PREÇO EFETIVAMENTE PRATICADO, justamente por ter ocorrido, concomitantemente, FRAUDE e SONEGAÇÃO. Nos termos do art. 88, caput e inciso I, da Medida Provisória nº 2158-35, de 24/08/2001, promoveu o arbitramento do preço das mercadorias, a fim de apurar a base de cálculo dos tributos incidentes. DA MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA Para a Fiscalização, no presente caso, as mercadorias objeto das importações fiscalizadas estão sujeitas à aplicação da pena de perdimento, mas já foram revendidas pelo importador e pelas destinatárias no mercado interno. Desse modo, diante da impossibilidade de apreensão das mercadorias importadas, aplicou a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias. DA CLASSIFICAÇÃO INCORRETA DE PARTE DA MERCADORIA A Fiscalização constatou que, ao se buscar por importações de mercadorias similares às mercadorias declaradas, o importador informou erroneamente a classificação fiscal para dois tipos de mercadoria, envolvendo 5 operações de importação. DA DIFERENÇA DOS TRIBUTOS Fl. 3043DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 13 A Fiscalização identificou uma base de cálculo dos tributos superior àquela fornecida pelo importador. As mercadorias importadas foram devidamente comercializadas e introduzidas no mercado interno. Diante de tal fato, foram apuradas diferenças de tributos devidos, conforme detalhado nos demonstrativos de cálculo que fazem parte dos autos de infração. DA RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO Conforme demonstrado, as três empresas envolvidas, SPREAD, MARIANO & SILVA, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, DIREITA BOLSAS (atual SERGIO ALEXANDRE CANILOI - ME) e MARIA EDILA tinham evidente interesse comum nas operações de importação. No caso presente, foi constituídos créditos tributários decorrentes de interposição fraudulenta, falsidade dos documentos instrutivos do despacho e subdeclararão da base de cálculo dos tributos, infrações que somente se perfectibilizaram mediante elaborada simulação. Face ao disposto no art. 135, caput e inciso III, do CTN, há responsabilidade pessoal pelo crédito tributário, no presente caso, por ter resultado de infração de lei, praticada por aqueles que detinham o efetivo comando, a administração das empresas. Trata-se de responsabilidade solidária, nos termos do já mencionado art. 124, inciso I. Ademais, as pessoas indicadas pelo importador como “agentes dos exportadores” e que, na verdade, são ligados direta ou indiretamente aos adquirentes no mercado interno, são também responsáveis pelos créditos tributários. A pessoa indicada pelo importador como “agente do exportador”, ZHIYONG FU, CPF nº 232.773.848-29, é ligada indiretamente a Empresa MARIANO & SILVA, é responsável solidário pelos créditos relativos às operações em que foi apontado como “agente do exportador” Após tomarem ciência do Auto de Infração, as empresas SPREAD ASSESSORIA e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA EPP as pessoas físicas JULIANO VANHOLI SIL e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA apresentaram impugnações. No entanto, a pessoa física ZHIYONG FU, embora cientificado da exigência fiscal, não se manifestou. As razões de defesa constantes das Impugnações foram analisadas no Acórdão 08- 38.346, proferida pela 2ª. Turma da DRJ/FOR em 30.03.2017, em que, por maioria de votos, acordaram julgar: I) PRELIMINARMENTE, REJEITAR as alegações de nulidade suscitadas, e II) NO MÉRITO, julgar PROCEDENTE em parte a impugnação para: a) MANTER os valores lançados referentes aos TRIBUTOS e multa de 150%, relativos ao subfaturamento dos preços declarados; b) MANTER o valor lançado referente à multa isolada de 100% relativa à Interposição Fraudulenta, e Fl. 3044DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 14 c) MANTER o vínculo de responsabilidade solidária dos sujeitos passivos SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL, JULIANO VANHONI SIL, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA EPP E TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, e ainda, devido a REVELIA, manter o vínculo de ZHIYONG FU, no total do crédito tributário. Cientificados da decisão, apresentaram Recursos Voluntários SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI EPP; JULIANO VANHOLI SIL (PESSOA FÍSICA); TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA (PESSOA FÍSICA) e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA EPP. RECURSO VOLUNTÁRIO: SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI EPP Em seu Recurso Voluntário a Recorrente apresentou as seguintes razões: 2.1 NULIDADE DO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO (MATERIAL, POR VIOLAÇÃO AO DEVIDO PROCESSO LEGAL E À SEGURANÇA JURÍDICA; FORMAL, POR EXCESSO DE PRAZO); 2.2. ABUSIVIDADE DA MULTA DE OFÍCIO; 2.3. ILEGALIDADE DA MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO; 2.4. NULIDADE DO AI BASEADO, ESSENCIALMENTE, EM SUPOSIÇÕES; 2.5. NULIDADE MATERIAL DO AI QUANTO À INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA, FACE À REGULARIDADE DAS OPERAÇÕES E NÃO CONFIGURAÇÃO DO TIPO INFRACIONAL: 2.5.1 Não Preenchimento de Elemento Essencial do Tipo (Dolo) 2.5.2. Regularidade das operações de importação, segundo a realidade dos fatos 2.5.3. Conclusão quanto à “interposição fraudulenta” 2.6. NULIDADE DO AI EM RELAÇÃO À SUPOSTA FALSIDADE DOCUMENTAL; 2.7. NULIDADE E ILEGALIDADE DO ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO: 2.7.1. Violação ao AVA-GATT: as DI’s usadas como paradigma não satisfazem aos requisitos do “preço de exportação de mercadorias similares”; 2.7.2. Da normalidade dos preços de importação declarados na DI. RECURSO VOLUNTÁRIO: JULIANO VANHONI SIL Em seu Recurso Voluntário o Recorrente apresentou as seguintes razões: 2.1. NULIDADE EM RELAÇÃO AO RECORRENTE 2.2. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO RECORRENTE (AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA) 2.2.1. Ausência de responsabilidade quanto às multas 2.2.2. Ausência de responsabilidade quanto ao lançamento dos tributos 2.3. DEMAIS NULIDADES DO AUTO DE INFRAÇÃO ➢ NULIDADE DO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO ➢ ABUSIVIDADE DA MULTA DE OFÍCIO Fl. 3045DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 15 ➢ ILEGALIDADE DA MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO ➢ NULIDADE DE AUTO DE INFRAÇÃO BASEADO EM MERAS SUPOSIÇÕES ➢ NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO FACE À INOCORRÊNCIA DA INFRAÇÃO DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA (=REGULARIDADE/LEGALIDADE DA OPERAÇÃO) ➢ NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO EM RELAÇÃO À SUPOSTA FALSIDADE DOCUMENTAL ➢ NULIDADE E ILEGALIDADE DO ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO RECURSO VOLUNTÁRIO: TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA E TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA BOLSAS E MALAS LTDA Em seu Recurso Voluntário a Recorrente TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA reproduziu os mesmos argumentos apresentados pela Recorrente TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA BOLSAS E MALAS LTDA. 1. MÉRITO Afirmou que todas as operações que envolvem as empresas SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELLI, SAMA BOLSAS E ACESSÓRIOS LTDA, MARIANO & SILVA COMERCIAL LTDA., foram feitas legalmente, com emissão de notas fiscais e devidamente apurados todos os impostos. Que a imputação de sujeição passiva em seu desfavor sem comprovação de sua atuação com excesso de poderes ou infração à lei caracteriza arbitrariedade e suprime o direito de defesa. A prova é exclusivamente a Fazenda Nacional. Descumpriu o dever de motivação do ato administrativo do lançamento, nos termos do art. 114 do CTN. No que tange a responsabilidade solidária, afirmou que não existe na legislação hipótese de atribuição aos sócios administradores. E que nos termos do art. 124, 135 e 137 do CNT, há necessidade de comprovação de fato jurídico distinto da ocorrência do fato gerador, capaz de permitir a inclusão dos sócios/administradores. Pediu a anulação do Termo de sujeição passiva solidária e improcedência da ação fiscal. É o relatório. VOTO VENCIDO I - ADMISSIBILIDADE Os Recursos Voluntários são tempestivos e preenchem as demais condições de admissibilidade, por isso deles tomo conhecimento. Fl. 3046DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 16 II – DA PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE – TEMA 1.293/STJ Com o trânsito em julgado dos REsp 2.147.578/SP e 2.147.583/SP (Tema 1.293/STJ), na sistemática dos recursos repetitivos, foram firmadas as seguintes teses: 1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/1999 quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos. 2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. 3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. (Grifei). O precedente vinculante do STJ reconheceu a natureza jurídica “não tributária” do crédito correspondente a multa prevista no artigo 107, IV, “e” do Decreto-Lei 37/1966, na redação dada pela Lei 10.833/2003, trazendo a discussão quanto à natureza da multa substitutiva do perdimento, aplicável nas hipóteses em que a mercadoria sujeita a tal penalidade não seja encontrada ou tenha sido consumida ou revendida. A discussão da doutrina, ainda em evolução, interpreta que a penalidade de perdimento prevista no artigo 23 do Decreto-Lei nº 1.455/1976, e, consequentemente, a multa que a substitui, possui natureza aduaneira, mas que também não exclui a natureza tributária, pois: “para podermos afirmar que uma penalidade não tem natureza tributária, é preciso que identifiquemos o bem que está sendo ali protegido, e isso só pode visto a partir da análise de cada uma das hipóteses de perdimento previstas na legislação”1. Em estudo elaborado por DORNELLES, MEIRA e TREVISAN 2 , buscando identificar/simplificar a aplicação da prescrição intercorrente na ótica do precedente citado do STJ, resultado que passa a vincular precedentes judiciais e administrativos, destacaram dois grupos: certeza positiva e certeza negativa. Certeza positiva – em que é inequívoca a aplicação da prescrição intercorrente: 1 DORNELLES, Arnaldo. MEIRA. Liziane Angelotti. TREVISAN, Rosaldo. As multas aduaneiras e o raio simplificador. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2025-dez-02/as-multas-aduaneiras-e-o-raio-simplificador/ Acesso em 17.01.2026. 2 Idem. Fl. 3047DF CARF MF Original https://www.conjur.com.br/2025-dez-02/as-multas-aduaneiras-e-o-raio-simplificador/ D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 17 (...) podemos citar as multas relacionadas com a emissão de licenças de importação, obrigação que não se presta ao controle do pagamento dos tributos incidentes na operação, mas sim ao controle relacionado com restrições às importações, a multa pelo não recolhimento de direitos antidumping, que tributos não são (ao menos no Brasil), e a multa de R$ 1.000 pela importação de mercadoria estrangeira atentatória à moral, aos bons costumes, à saúde ou à ordem pública, cujos bens tutelados não dizem respeito aos tributos. Certeza negativa – em que é clara a não aplicação da prescrição intercorrente: podemos citar, entre outras, a multa de ofício calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, em razão de falta de pagamento, falta de declaração ou declaração inexata, a multa pelo extravio de mercadoria, cobrada do responsável pelo extravio juntamente com os tributos que seriam devidos pelo importador, e as multas pelo não emprego e pelo desvio de finalidade de mercadoria importada com isenção. No caso sob análise, a autuação teve como base os seguintes enquadramentos: 01 - Declaração inexata do valor da mercadoria (valor de transação incorreto) – fl. 14 do auto: Art. 88, inciso I, da Medida Provisória nº 2.158/35-2001. Art. 124, inciso I e 135, inciso III, da Lei nº 5.172/66, e 02 Mercadoria sujeita à pena de perdimento, não localizada, consumida ou revendida: Arts. 673, 675, inciso IV, 689, incisos VI e XXII, e §§ 1º, 3º-A e 3º-B, do Decreto nº 6.759/09. Art. 73, §§ 1º e 2º da Lei nº 10.833/03. Considerada a interpretação supra, o descritivo enquadra-se nos casos em que é clara a não aplicação da prescrição intercorrente. Deste modo, entendo que não se aplica ao caso sob análise a prescrição intercorrente, nos termos do Tema 1.293/STJ. IV – DAS RAZÕES DOS RECURCOS VOLUNTÁRIOS IV.1 RECORREENTE: SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI EPP PRELIMINARES 1. NULIDADE DO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO (MATERIAL, POR VIOLAÇÃO AO DEVIDO PROCESSO LEGAL E À SEGURANÇA JURÍDICA; FORMAL, POR EXCESSO DE PRAZO) (ITEM 2.1 – RV). A Recorrente argumentou pela existência de vício insanável no procedimento fiscal instaurado, que desobedeceu às regras da portaria regulamentadora do MPF, tendo o Fl. 3048DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 18 procedimento fiscal sido conduzido por auditor fiscal desautorizado. Afirmou que o Fiscal expressamente vedou que a empresa prestasse esclarecimentos sobre as operações de importação em específico. Em específico, evidenciou que teria ocorrido a expiração do prazo para renovação ou conclusão do procedimento, visto que se passaram mais de 60 dias entre o Termo de Intimação lavrado em 30/07/2014 (AR recebido em 01/08/2014) e o Termo de Continuidade de Fiscalização de 14/10/2014 (AR recebido em 15/10/2014). A DRJ03 observou que o Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) representa um simples recurso de controle administrativo interno das atividades de fiscalização, não se revestindo, de forma alguma, em instrumento legal capaz de levar à nulidade do lançamento. Passo a análise. Com razão a DRJ03. O CARF definiu em súmula vinculante que a irregularidade na emissão do MPF não acarreta nulidade: Súmula CARF nº 171 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 Irregularidade na emissão, alteração ou prorrogação do MPF não acarreta a nulidade do lançamento. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Voto por não acolher a preliminar. 2. NULIDADE DO AI BASEADO, ESSENCIALMENTE, EM SUPOSIÇÕES (ITEM 2.4 – RV). A Recorrente afirmou que a primeira parte da fundamentação contida no AI, constante do Item 3 do Relatório Fiscal (“DA PESSOA JURÍDICA IMPORTADORA”) está relacionada a questões subjetivas, que NÃO se vinculam CONCRETAMENTE com a DI objeto da autuação. Que tais conjecturas são meras reproduções das colocações feitas pelo Auditor Fiscal em outros processos administrativos, que tratavam da suspensão do RADAR da empresa (habilitação para operar no Siscomex). Além de não passarem de meras suposições, elas não servem como prova de interposição fraudulenta, a qual deve ser comprovada no caso concreto. Defendeu que houve clara violação ao princípio da verdade material, na medida em que a fiscalização não buscou averiguar mais a fundo as informações prestadas pela Recorrente, impossibilitando a manifestação dos interessados quanto à operação específica selecionada dentro do universo de DI’s revisadas. Que o Auditor Fiscal sequer intimou os agentes dos exportadores a prestar esclarecimentos, sob a justificava de que a resposta da Impugnante, ora Recorrente, não atendia ao solicitado. Para a DRJ03, quanto à exigência fiscal, está explícito que o direito a ampla defesa foi observado e exercido pela Autuada ao apresentar a impugnação. Que no presente caso o autuado foi regularmente cientificado, fato que lhe possibilitou apresentar suas razões e as suas Fl. 3049DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 19 provas, garantindo-lhe o direito ao contraditório e a ampla defesa, corolário do devido processo legal, ex vi do art. 16 do Decreto nº 70.235/72. Passo a análise. Pode-se constatar no Relatório Fiscal que a Recorrente foi intimada entre 16.04.2014 a 08.05.2015, a apresentar documentos e esclarecimentos listados na Intimação, vinculados a operação de importação e respectivas transações comerciais entre os exportadores e a Recorrente, que atendeu parcialmente ao não apresentar os documentos originais instrutivos dos despachos, requerendo prorrogação. O Relatório Fiscal tratou das respostas às intimações, registrando que a Recorrente foi intimada a apresentar declaração informando como se deram as transações comerciais entre ela e os exportadores e, em resposta, a Recorrente indicou: “ITEM 02: As transações comerciais se deram em sua maioria através de agentes do fabricante/exportador no Brasil, ao qual se encontram indicados e qualificados, conforme relatório em anexo”. Contudo, no relatório indicado pela Recorrente constam nomes de supostos agentes, fones e endereço de e-mails. A fiscalização continua: A importadora foi também intimada a apresentar “Identificação completa das pessoas físicas responsáveis pelas negociações comerciais, com a indicação dos respectivos endereços, telefones, faxes, e-mails”. Em resposta, se limitou a afirmar: “Conforme item 02”, o que remete a resposta ao mesmo relatório mencionado no parágrafo anterior. Considerando a convicção e motivação que levaram a Fiscalização à lavratura do Auto, foi observado o art. 50, da Lei nº 9.784/99, em que os atos deverão ser motivados de modo explícito, claro e congruente, e com a indicação dos fatos e fundamentos jurídicos que o embasaram, não havendo discricionariedade quando se trata de ato vinculado, como é o caso presente. Observa-se pela leitura do extenso Relatório Fiscal (fls. 2426 a 2502), que a partir das informações extraídas do conjunto de dados disponibilizados pela Recorrente, após reiteradas intimações, a Fiscalização formou convencimento quanto aos fatos sob investigação, propiciaram a lavratura do Auto de Infração, cujo mérito será examinado adiante. No tocante a alegada nulidade por falta de motivação, ou seja, por ser o Auto baseado em suposições, a hipótese levantada pela Recorrente se confunde com o próprio mérito. Neste sentido, o Superior Tribunal de Justiça tem posicionamento em que preliminares da contestação que se confundem com o mérito da demanda devem com este ser examinada. (STJ. RECURSO ESPECIAL Nº 1.359.501 - SP (2011/0265353-9), Relator: Ministro JOÃO OTÁVIO DE Fl. 3050DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 20 NORONHA, Data de Julgamento: 18/02/2016, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 23/02/2016). Portanto, não conheço da preliminar. 3. NULIDADE DO AI EM RELAÇÃO À SUPOSTA FALSIDADE DOCUMENTAL (ITEM 2.6 – RV) A Recorrente destacou que consta no Relatório Fiscal que as faturas comerciais foram “forjadas e cujo conteúdo é ideologicamente falso”, tendo como justificativa os pagamentos, via contrato de câmbio, em favor de outras empresas, que não a exportadora. Ocorre que o fiscal simplesmente omitiu o fato que foi a exportadora quem solicitou o pagamento na conta de outra empresa, conforme expressamente consignado na própria Fatura Comercial, ou em Carta de Autorização, assinadas pela exportadora. Passo a análise. Ora, o foco central do debate está em torno da análise das razões que fundamentaram o Auto de Infração, dentre elas, se houve ou não falsidade documental. A meu juízo, o argumento da Recorrente de que ocorreu suposta falsidade documental, acaba por inserir o tópico na matéria de mérito. Neste sentido, o Superior Tribunal de Justiça tem posicionamento em que preliminares da contestação que se confundem com o mérito da demanda devem com este ser examinada (RECURSO ESPECIAL Nº 1.359.501/SP). Portanto, não conheço da preliminar. DO MÉRITO 1. NULIDADE E ILEGALIDADE DO ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO (ITEM 2.7 – RV) 1.1. Violação ao AVA-GATT: as DI’s usadas como paradigma não satisfazem aos requisitos do “preço de exportação de mercadorias similares” 1.2. Da normalidade dos preços de importação declarados na DI Defende a Recorrente que a suposta fraude de falsidade ideológica da fatura não foi comprovada, pois nos casos de fraude de valor/subfaturamento, não basta a simples comprovação da venda com prejuízo, exigindo-se a demonstração de que o preço declarado pelo importador na DI tenha sido diferente do efetivamente praticado na operação, o que pode ocorrer por qualquer meio de prova. Que a Fiscalização teria que demonstrar, de forma concreta, que o preço efetivamente praticado foi diferente daquele constante da fatura e declarado na DI, o que não ocorreu. Que os contratos de câmbio refletem exatamente o preço cobrado pelas mercadorias Fl. 3051DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 21 pelo exportador estrangeiro, o que não foi sequer questionado pelo Agente Fiscal, mas a fiscalização se esforçou apenas em demonstrar (certamente de forma imprecisa), que a venda internacional teria se realizado com prejuízo, porquanto “as mercadorias importadas tinham preços declarados muito inferiores ao próprio custo da principal matéria-prima”. Refutou o método escolhido pela RFB, o preço de importação de mercadoria similar, de acordo com a definições do AVA-GATT (Acordo de Valoração Aduaneira), confirmada no acórdão ora recorrido, onde restou expressamente aduzido que “a autoridade fiscal observou subsidiariamente o AVA-GATT apenas para extrair o alcance das expressões ‘mercadorias idênticas’ e ‘mercadorias similares’”. Sobre o assunto, o AVA-GATT dispõe que “mercadorias similares” são aquelas que “têm características semelhantes, o que lhes permite comprimir com as mesmas funções” (art. 15, Item 2, “b”). Além disso, o fiscal não observou essas outras exigências do AVA-GATT (i-iii), não tendo se preocupado em averiguar qual o fornecedor nas importações usadas como paradigma, em que nível comercial elas foram praticadas, qual a quantidade de mercadoria foi transacionada, qual a qualidade etc. Que o Auditor Fiscal teria considerado apenas parte das disposições do AVA- GATT. Quanto aos requisitos não observados no seu cálculo (mesmo exportador, mesmo nível comercial, mesma quantidade, mesma qualidade), o agente fazendário, curiosamente, se quedou silente, informando expressamente no acórdão recorrido que “as [...] operações [usadas como paradigma] não trazem precisamente estas informações” Acerca da normalidade dos preços de importação declarados na DI, afirmou a Recorrente que estão dentro da normalidade, considerando aquele tipo, qualidade e quantidade de mercadoria, oriunda da China. Para a Recorrente, embora se reconheça que as aquisições feitas sejam resultado da compra de mercadorias a preços muito atrativos, estão dentro da normalidade, não tendo sido comprovado qualquer subfaturamento, face à identidade de valores entre a Fatura e o Contrato de Câmbio. Para a DRJ03, os indícios de falsidade das faturas, incluindo a falta de colaboração do importador em apresentar os documentos sobre as tratativas comerciais, assim como as mudanças nos prazos de pagamentos contratados e a não correspondência destes com os valores faturados, impossibilitaram a identificação do preço efetivo da mercadoria e autorizaram o arbitramento nos termos do art. 88, da Medida Provisória nº 2158-35, de 24/08/2001, mediante flexibilização do Acordo de Valoração Aduaneiro. Passo a análise. Quanto ao ponto levantado pela Recorrente sobre a não comprovação de suposta fraude de falsidade ideológica da fatura, e de que a Fiscalização teria que demonstrar, de forma Fl. 3052DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 22 concreta, que o preço efetivamente praticado foi diferente daquele constante da fatura e declarado na DI, destaco os seguintes pontos: (i) O Relatório Fiscal item “7.3 - Do uso de documento falso no despacho aduaneiro”, às fls. 2465, constatou que quem consta como exportador NÃO FOI QUEM RECEBEU O PAGAMENTO, com exceção de um caso. Logo, se quem diz vender não recebeu pelo que foi vendido, sua participação na operação, se é que existe, não é na posição de vendedor e, portanto, a fatura apresentada não tem valor comercial por não representar uma operação dessa natureza. (ii) Afirmou a Fiscalização, que diante dos fatos apresentados, tornou-se claro que as faturas instrutivas dos despachos aduaneiros são documentos FORJADOS, MATERIALMENTE FALSOS, e cujo conteúdo é IDEOLOGICAMENTE FALSO. Não se trata de mero subfaturamento, mas da apresentação de documentos montados para aparentar operações de forma totalmente enganosa, dissimulada, fraudulenta. Corroborando o seu entendimento, elencou os seguintes indícios: a) Preços declarados absurdamente baixos, irreais; b) Trata-se de faturas simuladas, pois os exportadores não receberam os respectivos pagamentos (com uma única exceção) e a Recorrente não é a efetiva compradora; c) Há um entrecruzamento entre os efetivos recebedores no exterior, um mesmo recebedor consta como tal em operações atribuídas a diversos exportadores; d) A Recorrente (importadora) sequer demonstrou ter mantido contado com qualquer dos exportadores declarados; e) Afirmou a Recorrente que todas as negociações forma informais, o que é inverossímil; f) Em nenhuma fatura consta a identificação do signatário, as assinaturas são rabiscos, tendo a Recorrente sido intimada para identificar, não o fez. Quanto aos baixos preços declarados em todas as operações, consta no Relatório Fiscal “7.4. Do arbitramento do preço das mercadorias”, às fls. 2468, que não foi possível apurar que o preço praticado por ter ocorrido FRAUDE e SONEGAÇÃO, e que o importador não apresentou nenhum documento comprovatório das negociações comerciais. Quanto ao valor aduaneiro, a Fiscalização optou por aplicar o art. 7° do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio – GATT, consoante disposição do art. 2º, inciso II, do Decreto-Lei nº 37/66, com a redação dada pelo Decreto-lei nº 2.472/88. Ao considerar a operação fraudulenta, socorreu-se da Instrução Normativa SRF nº 318, de 4 de abril de 2003. Contudo, diante do caso, entendeu que as disposições para apuração do valor aduaneiro previstas no Acordo de Valoração Aduaneira não se aplicavam nos casos comprovados de fraude, optando por aplicar a legislação nacional. Fl. 3053DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 23 Assim fazendo, buscou o artigo 88 da Medida Provisória nº 2158-35, de 24/08/2001, que determina para o caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos critérios citados no mesmo artigo. A fiscalização optou por aplicar o critério definido no inciso I, do art. 88 da MP 2158-35/2001, qual seja: o preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar. A Fiscalização procedeu com a coleta de informações das importações brasileiras registradas no SICOMEX, em busca de similaridade. O relatório fiscal consignou (fls. 3384) que foi possível identificar a importação de mercadorias similares, originárias da China, embarcadas em período próximo, e valoradas pelo 1º método de apuração do valor aduaneiro (valor da transação). Disponibilizou à Recorrente o “Relatório de arbitramento de preços n°03”, planilha com o detalhamento do procedimento adotado no arbitramento. Deste modo, observo que o apelo da Recorrente de que os preços arbitrados não espelham a realidade das operações, ainda que reconhecendo tais aquisições com preços muito atrativos, não merece prosperar. Além disso, a alegação de violação ao AVA-GATT, por não satisfazerem aos requisitos do preço de exportação de mercadorias similares, foi bem enfrentada pela Fiscalização, ao indicar que procedeu com a identificação da importação de mercadorias similares (de origem da China), em período próximo. Neste sentido caminha a jurisprudência deste CARF: TRIBUTOS ADUANEIROS. FRAUDE. SONEGAÇÃO. CONLUIO. BASE DE CÁLCULO. ARBITRAMENTO. VALOR DA TRANSAÇÃO. Constatada a fraude, a sonegação ou o conluio, a determinação da base de cálculo dos tributos aduaneiros obedece a legislação nacional, que prevê o arbitramento, ou o verdadeiro preço efetivamente praticado na importação. (Decisão 3302- 003.176, 2ª. Turma Ordinária, 3ª. Câm., 3ª. Seção, data 06.06.2016, Ricardo Paulo Rosa). Grifei VALORAÇÃO ADUANEIRA. DESCARACTERIZAÇÃO DO PRIMEIRO MÉTODO. FRAUDE. ARBITRAMENTO. TRIBUTOS. MULTAS. Nos casos de fraude, sonegação e conluio, quando o preço real praticado não puder ser identificado, a fiscalização deverá arbitrar o preço da mercadoria importada, seguindo os critérios apontados nos incisos I e II do artigo 88 da Medida Provisória n° 2.158-35/01. (Decisão 3201-002.605, 1ª. Turma Ordinária, 2ª. Câm. 3ª. Seção, data 05.05.2017, Mércia Helena Trajano DAmorim). Grifei ARBITRAMENTO ADUANEIRO. O Decreto nº 6.759/2009 prevê três hipóteses de arbitramento da base de cálculo dos tributos e demais acréscimos, sendo que duas delas tomam por base não o valor aduaneiro, Fl. 3054DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 24 mas sim o preço efetivamente praticado, devendo ser coligidas provas cabais da ocorrência dos requisitos normativos para esse procedimento específico. (Decisão 3401-005.088, 1ª. Turma Ordinária, 4ª. Câm., 3ª. Seção, data 15.01.2019, Tiago Guerra Machado). Grifei ARBITRAMENTO DO VALOR ADUANEIRO. SUBFATURAMENTO. PRESUNÇÃO LEGÍTIMA DE FRAUDE. VALOR DECLARADO MANIFESTAMENTE INVEROSSÍMIL. PROVA INDICIÁRIA ROBUSTA. MANUTENÇÃO DO LANÇAMENTO. Quando o valor declarado pelo importador se revela manifestamente incompatível com o custo da matéria-prima, com as condições de mercado e com operações idênticas de importação, resta configurada a presunção legítima de falsidade ideológica da fatura comercial, autorizando o afastamento do valor de transação e o arbitramento do valor aduaneiro, nos termos do art. 88 da MP nº 2.158- 35/2001. A prova direta de conluio ou pagamento paralelo não é requisito indispensável quando o conjunto probatório demonstra a inverossimilhança econômica da operação. (Decisão 3001-003.734, 1ª. Turma Extraordinária da 3ª. Seção, data 18.11.2025, Daniel Moreno Castillo). Grifei ARBITRAMENTO DE PREÇOS. FRAUDE. ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA AFASTADO. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, nos termos do art. 88 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, sendo afastados os métodos previstos no Acordo de Valoração Aduaneira em conformidade com IN SRF 318/2003 e as Opiniões Consultivas 10.1 e 19.1 do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira. (Decisão 3201-004.001, 1ª. Turma Ordinária, 2ª. Câm., 3ª. Seção data 15.08.2018). Grifei Ao que tudo indica, houve dificuldade por parte da Fiscalização na identificação do valor da mercadoria adquirida pela Recorrente, em vista de descrição genérica constantes nas DI fiscalizadas. Tal fato, contudo, não invalida o método adotado pela Fiscalização, descritos e colocados à disposição da Recorrente em relatório de arbitramento de preços. Tais informações permitiram, em momento oportuno, que a Recorrente refutasse com comprovação necessária, de modo a demonstrar equívocos e evidenciar o seu direito a outro tratamento que não o imputado pela Fiscalização, o que não ocorreu. Pelas razões expostas, voto pelo não provimento a este ponto do Recurso. 2. ABUSIVIDADE DA MULTA DE OFÍCIO (ITEM 2.2 – RV) Fl. 3055DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 25 Quanto a multa de ofício, a Recorrente alegou que a DRJ03 enfrentou apenas os argumentos relacionados ao afastamento de aplicação normativa sob fundamento de sua inconstitucionalidade, deixando de examinar os demais argumentos recorridos à abusividade da multa de ofício, tais como (i) não preenchimento dos requisitos do art. 44, inciso I, § 1º, da Lei n. 4.930/1996; e (ii) vulneração ao bis in idem, com fundamento, inclusive, em Acórdão proferido pelo CARF. Assim, a Recorrente reputou descabida a aplicação da multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, face ao não preenchimento dos requisitos legais para tanto, os quais se encontram previstos no art. 44, inciso I, § 1°, da Lei no 4.930/96. Entendeu que carece de comprovação da fraude, ou seja, da suposta conduta dolosa, diante da inexistência de elementos concretos para tal convicção, a qual foi auferida pelo Agente Fazendário a partir de meras suposições. Por via de consequência, a duplicação da multa de ofício há de ser afastada. A DRJ03 analisou o ponto às fls. 2918, afirmando que a fraude restou comprovada por quadro indiciatório conclusivo, autorizando a majoração da pena de 75% do tributo para 150%. Destacou também que não houve lançamento da multa de 100% sobre a diferença entre o preço declarado e o preço arbitrado. Passo a análise. A Recorrente argumentou que o Acórdão não enfrentou os argumentos da abusividade da multa qualificada. De fato, o VOTO VENCIDO (fls. 2900) tratou unicamente da impossibilidade da autoridade em afastar ou deixar de observar lei ou decreto sob o fundamento da inconstitucionalidade (art. 26-A do Decreto n°70.235/72). No entanto, o VOTO VENCEDOR tratou, detidamente, às fls. 2912 a 2916 da imputação, acerca da fraude quanto ao valor declarado, em descritivo dos indícios colacionados pela Fiscalização, fazendo a relação da falsidade ideológica e material das faturas com as informações sobre as participações dos agentes exportadores, em que concluiu às fls. 2916: “Observe-se que esta infração relacionada com fatura não implicou, por si só, em pena de perdimento ou sua substituição pela multa de 100% do valor aduaneiro, pois esta penalidade já estaria sendo aplicada pela interposição fraudulenta, restando ambos os fatos, reciprocamente, como um dos indícios das respectivas infrações”. A jurisprudência deste CARF tem acolhido este posicionamento: TRIBUTOS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. Em caso de infração praticada mediante fraude, aplicam-se as multas qualificadas por insuficiência de recolhimento, no percentual de 150% sobre as diferenças de tributos, sem prejuízo de outras penalidades cabíveis. Recurso a que se nega provimento. (Decisão 3201- 002.605, 1ª. Turma Ordinária, 2ª. Câm. 3ª. Seção, data 05.05.2017, Mércia Helena Trajano DAmorim). Grifei. Fl. 3056DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 26 MPORTAÇÃO. DOLO. PREÇOS ARTIFICIALMENTE REDUZIDOS. PENALIDADES. Nos casos em que for constatada a redução intencional dos preços declarados na operação de importação, aplica-se a multa de 100% (cem por cento) sobra diferença entre o preço efetivamente praticado ou arbitrado e o preço declarado e multa de 150% sobre a diferença entre o valor do imposto ou contribuição recolhidos e os efetivamente devidos. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido. (Decisão 3302-003.176, 2ª. Turma Ordinária, 3ª. Câm., 3ª. Seção, data 06.06.2016, Ricardo Paulo Rosa). Grifei. SIMULAÇÃO. FRAUDE. CONLUIO. MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. Estando comprovado nos autos a prática de atos simulados, com o objetivo de eximir-se do pagamento dos tributos devidos, mediante fraude, em decorrência do ajuste doloso entre as partes, torna-se cabível a aplicação da multa qualificada. (Decisão 3302-004.618, 2ª. Turma Ordinária, 3ª. Câm, 3ª. Seção, data 16.08.2017, Walker Araujo) Grifei. RECOLHIMENTO DE TRIBUTO A MENOR. COMPROVAÇÃO DA FRAUDE. MULTA PROPORCIONAL QUALIFICADA. A utilização de artifício fraudulento objetivando reduzir indevidamente a base de cálculo dos tributos incidentes na importação configura evidente intuito de fraude, impondo-se a aplicação da multa proporcional qualificada, correspondente a 150% dos valores não recolhidos. (Decisão 3201-005.284, 1ª. Turma Ordinária, 2ª. Câm. 3ª. Seção, data 20.05.2019, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade) Neste ponto, entendo que a DRJ03 está com a razão, considerando os vários indicadores de ações irregulares por parte da Recorrente, culminando na aplicação de multa agravada, com base no art. 44, inciso I, § 1°, da Lei no 9.430/96. Por outro lado, de acordo com o Relatório Fiscal, “(...) sobre os montantes que deixaram de ser recolhidos aplica-se a multa prevista no art. 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/07, e art. 725, inciso II, do Regulamento Aduaneiro, por ser cabível nos casos de evidente intuito de fraude e sonegação, definidos nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, além dos juros de mora a serem calculados até a data do efetivo pagamento”. Vejamos a legislação imputada. Lei n° 9.430/96, com a redação da Lei n° 11.488/07: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: Fl. 3057DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 27 I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Com a alteração legislativa pela Lei n° 14.689/03, vê-se que a multa aplicada, aquela do art. 44, § 1º, VII, da Lei nº 9.430/96, para os casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, a multa no percentual de 150% será aplicada nos casos em que verificada a reincidência do sujeito passivo. O Supremo Tribunal Federal ao julgar o Recurso Extraordinário n° 736.090 (trânsito em julgado em 05.02.2025), com repercussão geral (Tema 863) decidiu que multas aplicadas pela Receita Federal em casos de sonegação, fraude ou conluio devem se limitar a 100% da dívida tributária, sendo possível que o valor chegue a 150% da dívida em caso de reincidência. O STF estabeleceu que a decisão passe a produzir efeitos a partir da edição da Lei nº 14.689/23, mantidos os patamares atualmente fixados pelos entes da federação até os limites da tese. Ficam ressalvados desses efeitos (i) as ações judiciais e os processos administrativos pendentes de conclusão até a referida data; (ii) os fatos geradores ocorridos até a referida data em relação aos quais não tenha havido o pagamento de multa abrangida pelo presente tema de repercussão geral Sabe-se que em face ao art. 106, II, “c”, do CTN, lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito, no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente à época da prática da infração. Trata-se de retroatividade benigna reconhecida por este CARF (Decisão 9101-007.109, 1ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, 1ª. Seção, data 22.10.2024, Relatoria Fernando Brasil de Oliveira Pinto). É neste sentido a orientação do PARECER SEI Nº 3950/2023/MF: “(...) o inciso VI, § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 deve ser aplicado, retroativamente, tratando-se de ato não definitivamente julgado, consoante o art. 106, inciso II, alínea ‘c’, do Código Tributário Nacional;”. Quanto à aplicação da decisão do STF em repercussão geral, considerando o presente processo administrativo pendente de conclusão, voto pelo cancelamento da multa de 150% para aplicação de multa de 100%. Voto por dar parcial provimento a este ponto do Recurso. 3. ILEGALIDADE DA MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO (ITEM 2.3 – RV). Fl. 3058DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art72 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art73 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art73 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 28 A Recorrente alegou que é ilegal a aplicação da multa substitutiva da pena de perdimento sem a devida averiguação, por parte da Fiscalização, se as mercadorias haviam sido realmente revendidas pelas empresas que as adquiriram no mercado interno, pois a intimação direcionada a MARIANO & SILVA, não questionou sobre a destinação das mercadorias adquiridas da Recorrente e, ainda assim, foi afirmado que tais mercadorias teriam sido consumidas. Defendeu que aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro, constante no Auto de Infração, e ao contrário do que tentou fazer crer o Acórdão recorrido, de acordo com o art. 689 do Regulamento Aduaneiro tem como premissa a não localização das mercadorias ou a prova de que elas foram consumidas ou revendidas. Além da ilegalidade da multa, requereu a nulidade material do auto. Alternativamente, rebateu que imposição da pena equivalente ao perdimento contra a importadora, mesmo que se admita – em tese – ter ela simplesmente emprestado o seu nome aos reais adquirente, a fim de efetuar o desembaraço aduaneiro, seria descabida a multa de 100% do valor aduaneiro para a empresa que atuou (supostamente) como importadora ostensiva (Recorrente), pois a norma que impõe a multa de 100% é direcionada às empresas adquirentes (que se encontravam ocultas), existindo penalidade mais específica para o operador do comércio exterior que empresta o seu nome. Argumentou que a penalidade mais específica à sua conduta é a prevista no art. 33 da Lei n° 11.488/07, ou art. 727 do RA, qual seja, a multa de 10% do valor da operação acobertada, não inferior a R$ 5.000,00. Pugnou pela aplicação do princípio da proporcionalidade em fase da multa ser demasiada, pois não existiu má-fé por parte da Recorrente. Para a DRJ03, não prospera o pedido da Recorrente quanto a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. Fez extenso arrazoado com a respectiva legislação, demonstrando a não aplicação ao caso concreto do art. 33 da Lei no 11.488/07. Assim, o legislador decidiu penalizar de forma distinta aqueles que, em conluio, executaram a interposição fraudulenta, atribuindo nova penalidade pecuniária, equivalente a 10% do valor da operação acobertada, direcionada àquele que agiu como instrumento da irregularidade, ou seja, o importador, sem prejuízo da aplicação pena de perdimento da mercadoria ou multa substitutiva do perdimento, quando for o caso. No caso presente, para a DRJ03, a entrada em vigor da Lei nº 11.488/07 não repercutiu na aplicação da penalidade igual ao valor comercial da mercadoria, por conversão do perdimento. Assim, o importador, também, será responsável solidário com a multa por conversão do perdimento, que visa atingir o real adquirente da mercadoria. Passo a análise. Vejamos a legislação citada: Decreto-lei n°1.455/76 Art 23. Consideram-se dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) Fl. 3059DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 29 § 1o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. § 2o Presume-se interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Grifei) Lei n°11.488, 15.06.2007 Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Observo que a legislação prevê expressamente que a pena de perdimento ocorrerá quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidas nas normas aplicáveis (Art. 23, do Decreto-lei n°1.455/76), ou seja, a tese da Recorrente da necessidade de constatar se as mercadorias haviam sido realmente revendidas pelas empresas que as adquiriram no mercado interno, está entre as hipóteses legais, mas não é o único critério a ser estabelecido para a aplicação da pena. Este CARF enfrentou a matéria em julgado da Câmara Superior de Recursos Fiscais, tratando de infração por dano ao erário com interposição fraudulenta de terceiros. Constitui infração por dano ao Erário a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou do responsável pela operação. A conduta é apenada com o perdimento das mercadorias, convertido em multa equivalente ao seu valor aduaneiro, caso elas não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. A penalidade decorrente da infração por interposição fraudulenta coibi a conduta do administrado; não depende da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato nem da demonstração, pelo Fisco, da presença do elemento volitivo nos atos praticados. (...) DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. Fl. 3060DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art81 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 30 INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do Decreto-Lei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas. (Decisão 9303-008.721, 3ª. Turma da CSRF, 3ª. Seção, data 13.08.2019, Relatoria Tatiana Midori Migiyama). Grifei. No voto vencedor do Acórdão o Relator Designado, Andrada Márcio Canuto Natal, apresentou esclarecedora digressão histórica em torno do assunto, tomando por base a evolução da legislação e jurisprudência do STJ, em específico, o REsp n°954.526/PR relatado pelo Ministro Teori Zavascki em que destacou que o perdimento não prescinde de demonstração do dano, sendo o dano caracterizado pela dificuldade imposta pela conduta do importador à fiscalização. Para o relator (CARF - Decisão 9303-008.721) o tipo legal volta-se ao dano potencial, não ao prejuízo causado, mas ao risco que a conduta em si representa. Assim, “A ideia de condicionar a imputação de pena à demonstração do efetivo prejuízo ou a demonstração do elemento volitivo subtrar-lhe-ia a própria essência instrumental, como meio apto a viabilizar o monitoramento fiscal dos atos praticados pelo particular”. Para o precedente citado do CARF, quanto a penalidade instituída pela Lei nº 11.488/07, equivalente a multa de dez por cento do valor da operação, aplicável à pessoa jurídica que cede o nome, não revogou nem trouxe qualquer consequência para os casos em que é cabível a cominação da multa de conversão da pena de perdimento, prevista no artigo 23 do Decreto-Lei nº 1.455/76, com a redação introduzida pela Lei 10.637/027 (fls. 2401 – Voto): Desde logo, vê-se que os bens jurídicos tutelados por uma e por outra medida coercitiva não guardam nenhuma identidade entre si. Embora as duas infrações possam decorrer de um mesmo evento, a multa pela cessão do nome destina-se a coibir o uso abusivo da pessoa jurídica, apenando conduta à qual era antes imposta a “pena” de inaptidão do CNPJ, medida que violava os mais elementares pressupostos da ação estatal de controle da atividade privada, agindo com força desproporcional, ao impedir o particular de exercer sua atividade profissional. Já a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria importada destina-se a coibir o ingresso de mercadoria estrangeira em situação irregular no território nacional, quando o bem, sujeito à pena de perdimento, escapa ao controle aduaneiro e é internalizado. (...) Fosse essa a intenção do legislador, a primeira e obrigatória medida haveria de ser a exclusão da infração do rol de situações compreendidas no Fl. 3061DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 31 conceito de dano ao Erário, já que a este conceito está associada a ideia de penalidade gravíssima, cuja sanção é o perdimento das mercadorias. (Grifei). Concluiu o referido precedente da Câmara Superior deste CARF (Decisão 9303- 008.721) que o § 3° do art. 727 do Regulamento Aduaneiro é expresso ao determinar que a multa de 10% do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome para operações de comercio exterior de terceiros não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportada. No mesmo sentido, há o destaque de que a infração de perdimento é de perigo abstrato, desnecessária a prova de dano ao erário. PERDIMENTO. DANO AO ERÁRIO. A infração que culmina com o perdimento das mercadorias é de perigo abstrato, logo desnecessária prova de dano ao erário. PERDIMENTO. DOLO. Para aplicar a pena de perdimento necessária a presença de dolo, consistente no conhecimento da ação (fato) ilícita e na vontade de praticá-la. (Decisão 3401-011.437, 1ª. TO, 4ª. Câm., 3ª. Seção, data 06.02.2023) (Grifei). A prova direta de conluio ou pagamento paralelo não é requisito indispensável quando o conjunto probatório demonstra a inverossimilhança econômica da operação. Não cabe ao julgador substituir a valoração técnica da fiscalização por presunções de boa-fé, quando os indícios objetivos conduzem à conclusão lógica de fraude. (Decisão 3001-003.734, 1ª. Turma Extraordinária da 3ª. Seção, data 18.11.2025, Daniel Moreno Castillo). (Grifei). Quanto a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro, no Relatório Fiscal item “7.5 Da multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria”, consta que com base no art. 23, § 3° do Decreto-lei n°1.455/76: “No presente caso, as mercadorias objeto das importações fiscalizadas estão sujeitas à aplicação da pena de perdimento, mas já foram revendidas pelo importador e pelas destinatárias no mercado interno [conforme relação de notas fiscais de saída fls. 2625-2688, 2963-3006]. Desse modo, diante da impossibilidade de apreensão das mercadorias importadas, aplica-se a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias.” Como foi demonstrado, não se sustenta o argumento da Recorrente que, de acordo com o art. 689 do Regulamento Aduaneiro, tem como premissa a não localização das mercadorias ou a prova de que elas foram consumidas ou revendida, posto que a infração foi fundamentada no art. 23, § 3° do Decreto-lei n°1.455/76 que exige para caracterizar o dano ao Erário a não localização da mercadoria, ou o seu consumo ou a revenda, observados o rito estabelecido no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. Fl. 3062DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 32 Voto por não dar provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. 4. NULIDADE MATERIAL DO AI QUANTO À INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA, FACE À REGULARIDADE DAS OPERAÇÕES E NÃO CONFIGURAÇÃO DO TIPO INFRACIONAL (ITEM 2.5 – RV) a. Não Preenchimento de Elemento Essencial do Tipo (Dolo); b. Regularidade das operações de importação, segundo a realidade dos fatos e c. Conclusão quanto à “interposição fraudulenta”. A Recorrente argumentou que não houve o preenchimento de elemento essencial do tipo (dolo) previsto no art. 23, inciso V, do DL no 1.455/1976, e art. 689, inciso XXII, §§ 1º e 6º, do RA, que prevê que a pena de perdimento é caracterizada: (i) a ocultação comprovada, realizada mediante fraude ou simulação; e (ii) a ocultação presumida, por interposição fraudulenta, decorrente da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. A presunção prevista no inciso II, na perspectiva da Recorrente, não se aplica ao caso, pois devidamente comprovada a origem, disponibilidade e transferência de recursos. Para aplicação do inciso I, deve ser devidamente comprovada a ocorrência de fraude ou simulação que tenha resultado em ocultação. Os elementos objetivos devem estar presentes: ocultação do real comprador é o cerne da infração. Assim, a justificativa da Autoridade Fiscal reside no fato de que as mercadorias importadas teriam sido adquiridas no mercado interno logo após os respectivos desembaraços. No entanto, não há nenhuma previsão legal que impeça a revenda imediata e, muito menos, que reconheça esse fato como presunção de interposição fraudulenta de terceiros. Para a Recorrente não cabe ao Fisco presumir uma conduta dolosa onde, na verdade, o que existe é uma condição negocial, perfeitamente adequada aos princípios da livre iniciativa. Afirmou que houve a regularidade das operações de importação, segundo a realidade dos fatos, em conformidade com a legislação. Que o pagamento da compra e venda internacional ocorreu através de Contrato de Câmbio efetuado pela própria Recorrente. Por fim, assegurou que é NULO o Auto de Infração, face ao não preenchimento dos requisitos da interposição fraudulenta, por falta da comprovação da fraude, e à regularidade da operação segundo a realidade dos documentos instrutivos do despacho. Para a DRJ03, os indícios de falsidade das faturas, incluindo a falta de colaboração do importador em apresentar os documentos sobre as tratativas comerciais, assim como as mudanças nos prazos de pagamentos contratados e a não correspondência destes com os valores faturados, impossibilitaram a identificação do preço efetivo da mercadoria e autorizaram o arbitramento. Afirmou que o importador conhece seu produto e o mercado fornecedor mais do que a fiscalização, então cabe a ele apresentar, até o momento da impugnação, as qualidades do seu produto e as condições de negócios que ele ache importante para lhe favorecer no julgamento. Fl. 3063DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 33 Passo a análise. Pelo princípio da verdade material, que decorre do princípio da legalidade, a autoridade administrativa tem o dever de buscar a verdade, onde o processo fiscal tem por finalidade garantir a legalidade da apuração da ocorrência do fato gerador. Para tanto, deve pesquisar se de fato ocorreu a hipótese prevista na norma, tem o direito e dever de buscar todos os dados, informações, documentos a respeito da matéria tratada. Compulsado o Relatório Fiscal, a fiscalização elencou os indícios que reputou importantes para caracteriza que as operações foram acobertadas por documentos falsos e forjados, quais sejam: (i) preços declarados muito baixos, irreais; (ii) os exportadores não receberam os pagamentos (exceto em uma única operação); os prazos de pagamentos não foram cumpridos e os preços não refletem os praticados no mercado; (iii) faturas identificadas por sequencias numéricas de mesmo formato para diferentes exportadores, o que indica que foram produzidas por um ente comum; (iv) existência de um controle unificado dos recebimentos no exterior, um mesmo recebedor consta em operações atribuídas a diversos exportadores; (v) a importadora não demonstrou ter mantido contato com os exportadores declarados; (vi) intimada a informar documentos das negociais, declarou que todas foram informais, o que é inverossímil; e (vii) em nenhuma fatura consta a identificação do signatário. Quanto a questão da conduta dolosa a que se referem os arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, quais sejam, sonegação, fraude e conluio, nos termos do § 1°- C do art. 44 da Lei n° 9.430/96, temos as características: (i) Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária (a) da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; e (b) das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. (ii) Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. (iii) Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. (Grifei) Fl. 3064DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art72 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art73 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4502.htm#art73 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 34 Este colegiado possui precedentes com indicativos de elementos caracterizadores dos tipos previstas nos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, sonegação, fraude ou conluio. Veja- se: Não é o valor omitido que atrai o percentual qualificado de multa, mas a presença de elemento adicional que demonstre o evidente intuito de fraudar o Fisco, tais como documentos inidôneos, interposição de pessoas, declarações falsas, dentre outros. (Decisão1201-005.891, 1ª. Turma Ordinária, 1ª. Câm., 1ª. Seção, data 03.07.2023). Grifei Na hipótese de divergência entre a operação de importação declarada e a operação de importação efetivamente realizada, havendo ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, configura-se o dano ao erário, punido com pena de perdimento das mercadorias, penalidade convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida. (Decisão 3401- 003.984, 1ª. Turma Ordinária, 4ª. Câm., 3ª. Seção, data 17.10.2017). Grifei Quando constatado pela autoridade fiscal o descumprimento de obrigação acessória pelo importador nas operações de importação, quanto à indicação do real adquirente, com o nítido intuito de acobertar o real beneficiário da mercadoria, é cabível a pena de perdimento, podendo ser convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro. (Decisão 3401- 012.933, 1ª. Turma Ordinária, 4ª. Câm., 3ª. Seção, data 10.06.2024). Grifei SUBFATURAMENTO. A indicação de valores inferiores aos efetivamente praticados nas declarações de importação caracteriza o subfaturamento das operações, fato que rende ensejo à exigência das diferenças dos tributos vinculados à importação com os consectários do lançamento de ofício. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. Restando comprovado nos autos que o despacho aduaneiro foi instruído com documentação falsa, aplica-se o disposto no art. 105, VI, do Decreto-Lei nº 37/66 (pena de perdimento ou sua conversão em multa) e não a multa pelo subfaturamento prevista no art. 108 do referido diploma legal. (Decisão 3403-003.616, 3ª. Turma Ordinária, 4ª. Câm., 3ª. Seção, data 25.03.2015). Grifei ÔNUS DA PROVA. MEIOS DE PROVA. QUADRO INDICIÁRIO. PRESUNÇÃO. FORÇA PROBANTE. FORMAÇÃO DE CONVICÇÃO. Todos os meios de prova lícitos são aptos à comprovação dos fatos acusados pela Fiscalização Federal. Uma vez que seja apresentado um quadro indiciário suficientemente robusto, representado por relações de interdependência e confusão societária, é perfeitamente possível que o julgador se sinta Fl. 3065DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 35 convencido da ocorrência da fraude, do dolo, da simulação ou da má-fé do agente, ainda mais quando as sobejas evidências coligidas pela Fiscalização não são sequer arranhadas pelos argumentos de defesa. (Decisão 3302-003.176, 2ª. Turma Ordinária, 3ª. Câm., 3ª. Seção, data 06.06.2016, Ricardo Paulo Rosa). Grifei Outra comprovação levada a cabo pela fiscalização foi o confronto dos registros contábeis com os respectivos pagamentos. Este Conselho Administrativo, de longa data, tem acatado o registro contábil como prova a favor (ou contra) do sujeito passivo, norma jurídica individual e concreta: A regência da norma jurídica originária de registro contábil tem a sua natureza dupla: descrever um fato econômico em linguagem contábil sob forma legal e um fato jurídico imposto legal e prescritivamente. Feito o registro contábil, como determina a lei, torna-se norma jurídica individual e concreta, observada por todos, inclusive a administração, fazendo prova a favor do sujeito passivo. Caso contrário, faz prova contra. (Decisão 108-07.602, Primeiro Conselho de Contribuintes, Oitava Câmara, 05.11.2003). (Grifei). Após cuidadosa análise de todos os elementos do processo, incluindo-se as diversas intimações requerendo informações para esclarecimento dos fatos, tendo em vista o disposto no art. 142 do CTN, para a qual a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, devendo verificar aquilo que realmente é verdade, observo, dentre outros elementos, que a fiscalização tomou como referência importações similares, utilizando, ao final, declaração de importação com parâmetros (classe, tamanho e condições de importação das mercadorias) equivalentes àqueles da importação analisada, não há que se falar em irregularidade da autuação. Quanto a tese da Recorrente de que a presunção aplicada pela Fiscalização não se aplica ao caso, pois devidamente comprovada a origem, disponibilidade e transferência de recursos, destaco que às p. 3377 e seguintes, a fiscalização elencou os indícios que reputou importantes para caracterizar que as operações foram acobertadas por documentos falsos, situação que dá ensejo a aplicação de presunção prevista em lei. Sem razão a Recorrente. Voto por não dar provimento a este ponto do Recurso. IV.2 RECORREENTE: JULIANO VANHONI SIL EM PRELIMINAR - NULIDADES O Recorrente apontou que o Auto de Infração contém diversas irregularidades que ensejam nulidades e ilegalidades, apontando os vícios já apresentados pela Recorrente SPREAD, ou seja, nulidade quanto ao processo administrativo, da multa de ofício, da multa equivalente ao Fl. 3066DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 36 valor aduaneiro por ser baseado em meras suposições, pela inocorrência de infração de interposição fraudulenta, por suposta falsidade documental e pelo arbitramento do valor aduaneiro. Conforme destacado pelo Recorrente, tendo os tópicos constado do Recurso da Empresa SPREAD, tanto em sede de preliminares quanto no próprio mérito, foram enfrentados no presente voto. Tais nulidades, classificadas pela doutrina, são analisadas ao caso concreto sob a perspectiva de que: (i) serão sanadas se resultarem em prejuízo para o sujeito passivo ou quando não influírem na solução do litígio e, ainda, (ii) se caracteriza o cerceamento de defesa. Veja-se o que dispõe o Decreto nº 7.574/2011: Art. 13. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no art. 12 não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio ( Decreto nº 70.235, de 1972, art. 60 ). Confirmando esta posição, o art. 60 do Decreto nº 70.235/72 prevê a necessidade de prova de prejuízo no caso de vícios que não alcancem formalidades essenciais. Este CARF tem um direcionamento neste sentido: EMENTA: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. Rejeitada a preliminar de nulidade da Notificação de Lançamento, uma vez não caracterizado o cerceamento de defesa, na não indicação do nome da autoridade lançadora, posto que os dados nela constantes possibilitaram ao contribuinte produzir sua ampla defesa. REJEITADA A PRELIMINAR DE NULIDADE DA NOTIFICAÇÃO DE LANÇAMENTO. (Terceiro Conselho de Contribuintes, 3ª Câmara, proc. 13805.010781/96-98; decisão 303-30825, 02.07.2003). PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. É valido o despacho decisório proferido pela Autoridade Administrativa, nos termos das normas vigentes, cujo fundamento permitiu ao contribuinte exercer o seu direito de defesa. (...) (Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção, decisão 3301-010.226 proferida em 25.05.2021, Conselheira Liziane Angelotti Meira). (Grifei) Quanto as nulidades apontadas que se confundem com o mérito, o Superior Tribunal de Justiça tem posicionamento em que preliminares da contestação devem com este ser examinada (STJ. RECURSO ESPECIAL Nº 1.359.501 - SP (2011/0265353-9), Relator: Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, Data de Julgamento: 18/02/2016, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 23/02/2016). Fl. 3067DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm#art60 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm#art60 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 37 Deste modo, pelos princípios da economicidade processual e da eficiência, as análises efetuadas por ocasião do Recurso da Recorrente SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI – EPP, são aqui inteiramente aplicadas, considerando que pontos de nulidade foram também analisados no mérito. MÉRITO 2.1. NULIDADE EM RELAÇÃO AO RECORRENTE O Recorrente alegou a nulidade do Auto em relação à sua pessoa em razão da ausência de individualização da sua conduta. Destacou o entendimento do Acórdão da 2ª. Turma da DRJ/FOR (em voto vencido) que acolheu às razões apresentadas em impugnação, no sentido de que a impugnação não conseguiu demonstrar as condutas praticadas, na condição de pessoa física, que autorizaria a sua inclusão no rol dos responsáveis tributários. Defendeu que a individualização e comprovação de sua conduta, e sua subsunção a uma norma jurídica específica, era de vital importância para a eficácia e validade do processo administrativo. A Fiscalização, ao apontar, de forma clara e objetiva, qual a conduta que demonstra o dolo na imputada interposição fraudulenta, e o fundamento legal para a sua responsabilização, teria observado a ampla defesa, o que não ocorreu no caso. Trata-se de princípio da individualização, derivado do Direito Penal e integralmente aplicável à hipótese. Para a DRJ03 a responsabilidade pessoal do Recorrente pelo crédito tributário com base no art. 135, inciso III, do CTN encontra-se devidamente configurada uma vez que a própria empresa SPREAD testemunha que o Recorrente, enquanto diretor da empesa, era quem realizava os contatos e negociava com os agentes dos exportadores, informação que não foi refutada pelo Recorrente. Ao contrário, afirmou que negociava com os exportadores de forma presencial ou por telefone. Concluiu a DRJ03 que a responsabilidade por este tipo de infração não pode ser exclusiva da empresa, pois uma vez comprovado o dolo, má-fé ou mesmo culpa da pessoa física representante da empresa nas negociações deve ela responder pessoalmente pelo crédito tributário apurado. Passo a análise. Vejamos os fundamentos utilizados pela Fiscalização para caracterizar a infração (art. 135, III, do CTN: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...) III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Fl. 3068DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 38 Em sua doutrina, Luís Eduardo Schoueri compreende que a responsabilidade pessoal das pessoas arroladas no art. 135, III, do CTN não se dá em qualquer caso, mas apenas nos atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto: A doutrina considera que a questão é extremamente difícil, em face de divergência de interpretações. Para Hugo de Brito Machado a simples condição de sócio não implica responsabilidade tributária: O que gera responsabilidade, nos termos do artigo 135, III, do CTN, é a condição de administrador de bens alheios. Por isto a lei fala em diretores, gerentes ou representantes. Não em sócios. Assim, se o sócio não é diretor, nem gerente, isto é, se não prática atos de administração da sociedade, responsabilidade não tem pelos débitos tributários desta. Também não basta ser diretor, ou gerente, ou representante. É preciso que o débito tributário em questão resulte de ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. (MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário, 43ª ed., Atualizador Hugo de Brito Machado Segundo. São Paulo: Ed. Juspodivm, 2024, p. 177). Grifei. Ainda que exista controvérsias interpretativas em relação ao entendimento da matéria, um ponto é relativamente pacífico, à comprovação da responsabilidade dos diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas. De acordo com a Instrução Normativa nº 1.862, de 27.12.2018, que dispõe sobre a imputação de responsabilidade tributária no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), deverá conter a descrição dos fatos que caracterizam a responsabilidade tributária, além da reunião de provas indispensáveis à comprovação da responsabilidade: Art. 3º Na hipótese de imputação de responsabilidade tributária, o lançamento de ofício deverá conter também: I - a qualificação das pessoas físicas ou jurídicas a quem se atribua a sujeição passiva; II - a descrição dos fatos que caracterizam a responsabilidade tributária; III - o enquadramento legal do vínculo de responsabilidade decorrente dos fatos a que se refere o inciso II; e IV - a delimitação do montante do crédito tributário imputado ao responsável. Parágrafo único. O Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil deverá reunir as provas indispensáveis à comprovação da responsabilidade tributária. (Grifei). A matéria é tema constante deste Conselho. A jurisprudência tende a adotar que a responsabilidade tributária do art. 135, III, do CTN recai apenas sobre aqueles que incorreram em Fl. 3069DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 39 atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato ou estatuto, e demandam a demonstração do ilícito. Veja-se: Não basta a pessoa integrar o quadro societário, deve restar demonstrado que possui poderes de gestão, seja mediante atos de constituição da sociedade empresária (contratos sociais, estatutos, por exemplo), ou, quando se tratar de sócio de fato, em provas demonstrando a efetiva atuação em nome da empresa. A caracterização de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos demandam a demonstração de ilícito específico, que evidencie a ocorrência de uma construção artificial para se amoldar a uma hipótese de incidência tributária. Provado que os diretores da pessoa jurídica praticaram atos de gestão amparados no que lhes conferia o contrato da sociedade para criação de despesas fictícias mediante constituição de sociedade inexistente de fato para prestação de serviços, deve ser restabelecida a responsabilidade tributária que lhes foi imputada. (Decisão: 9101-006.640, 1ª. Turma da CSRF, 1ª Seção, data 04.08.2023, Relatora Livia de Carli Germano). (Grifei) Pela clareza e exposição didática da matéria constante do Acórdão 1201-007.205, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Seção, 2ª. Câmara, ao julgar o processo 10830.720.701/2020-00, em situação similar, cito trechos do voto: A responsabilidade prevista no artigo 135, III, exige três condições, uma subjetiva e outras duas objetivas. A condição subjetiva é que o responsabilizado seja sócio, acionista, gerente ou administrador. Já a primeira condição objetiva é que os sujeitos em questão pratiquem atos de gestão. Por fim, como segunda condição objetiva, a obrigação tributária deve decorrer de ato de gestão praticado com abuso de poder ou contrário às normas de regência da sociedade. O responsabilizado em questão, para a fiscalização, incidiu em tal espécie de solidariedade por ser administrador de fato da Labogen. Consoante tal raciocínio, Alberto Youssef teria agido com excesso relativo aos poderes que não tinha, conclusão que, a toda evidência, não se pode admitir. Tanto se pode afirmar porque a imputação de responsabilidade na forma do artigo 135 é tão gravosa que, antes, no artigo 134, também do CTN, o legislador cuidou de prever outras condições subjetivas que não dependem das condições objetivas do dispositivo seguinte. Fl. 3070DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 40 Assim, sabendo-se descabido falar em “excesso de poderes” de um administrador de fato – condição atribuída a Youssef pela acusação – a melhor tipificação ao caso, para responsabilizar alguém em tal função seria o artigo 134, III. E, ainda assim, sem descuidar que esse dispositivo também tem condição objetiva própria, qual seja, a “impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte”. Assim, é fundamento básico a necessidade de provas de que o diretor, gerente ou representante de pessoas jurídicas agiu com excesso de poderes para atribuição de responsabilização solidária. Neste sentido, julgados do CARF: A imputação da responsabilidade solidária ao sócio administrador, com fulcro no artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional - CTN, exige a demonstração, além da sua condição de administrador, de conduta individualizada que tenha relação direta e específica com os fatos geradores em relação aos quais se apura o crédito tributário cuja responsabilidade solidária se imputa. Ausente esta demonstração, afasta- se a imputação de responsabilidade solidária. (Decisão 2101-003.308, 1ª. Turma Ordinária, 1ª. Câm., 2ª. Seção, data 12.10.2025, Cleber Ferreira Nunes Leite). (Grifei). A imputação de responsabilidade tributária a terceiro exige expressa fundamentação legal e motivação que associe os fatos à norma apontada. A ausência de tais elementos impede o contraditório do acusado, caracterizando vício insanável que implica a nulidade do lançamento tributário para os efeitos da responsabilização laborada. (Decisão: 1201-006.266; processo: 15746.720229/2021-51; Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção de Julgamento, data 11.03.2024, Relator Neudson Cavalcante Albuquerque). (Grifei) Para que a Fiscalização possa promover a responsabilização solidária dos administradores da pessoa jurídica, nos termos do art. 135, inciso III, do CTN, necessária se faz a prova cabal de que os mesmos agiram com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Inexistindo prova de que se tenha agido com excesso de poderes, ou infração de contrato social ou estatutos, não há que se falar em responsabilidade tributária do sócio ou ex-sócio. (Decisão 1201-005.462, Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção, data 19.11.2021. Relator Jeferson Teodorovicz). (Grifei) A imputação de responsabilidade é um ato que deve ser amparado com provas robustas de modo a não deixar dúvida acerca do ato ilícito cometido pelo agente, permitindo incluí-lo no polo passivo da exigência fiscal. Tratando-se de funcionário e não de um gestor, é incabível sua inclusão no polo passivo da exigência tributária. (Decisão 1401-005.755; Fl. 3071DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 41 Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção de Julgamento, data 17.08.2021, Relator Itamar Artur Magalhães Alves Ruga) (Grifei) Analisando os argumentos da DRJ03, observo que a imputação partiu de elementos de testemunho por parte da SPREAD, que avençou ser o Recorrente o responsável pelas tratativas com os agentes exportadores e que tal informação não foi refutada pelo mesmo, que afirmou ter feito negociações de forma presencial ou por telefone. E mais, ao concluir a DRJ03 que a responsabilidade por este tipo de infração não pode ser exclusiva da empresa, uma vez comprovado o dolo, má-fé ou mesmo culpa da pessoa física representante da empresa nas negociações, deve ela responder pessoalmente pelo crédito tributário apurado. No entanto, não há o vínculo indispensável do agente à conduta, além de meros testemunhos. Em vista da doutrina e jurisprudência coletadas, em confronto com o relatório da Fiscalização, não constato nos autos a reunião de provas indispensáveis à comprovação da responsabilidade tributária do sócio Juliano Vanhoni Sil, mas descrição de condutas consideradas dolosas e reiteradas, contudo, sem o vínculo indispensável do agente que praticou tais atos, individualizado e concreto, que acarreta a imputação da infração aos sócios, não configurando o tipo que caracteriza a Responsabilidade solidária dos sócios, prevista no art. 135, III, do CTN. Voto por afastar aplicação da sujeição passiva e responsabilidade tributária de Juliano Vanhoni Sil, ora Recorrente. Voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. 2.2. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO RECORRENTE (AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA) 2.2.1. Ausência de responsabilidade quanto às multas 2.2.2. Ausência de responsabilidade quanto ao lançamento dos tributos O Recorrente defende que o sentido da norma contida no art. 137, I, do CTN, exige a vinculação direta da conduta autuado ao ilícito, para que ele possa ser responsabilizado por uma infração dessa grandeza. Não havendo NEXO CAUSAL entre a conduta do Recorrente e as infrações descritas no Auto de Infração, deve prevalecer, para todos os efeitos, a VERDADE MATERIAL, por obediência à Legalidade Estrita e até por uma questão de Moralidade Administrativa. Tais colocações valem tanto para as multas quanto para os tributos. A DRJ03, em voto vencedor, afirma o Recorrente foi o responsável pela negociação em nome do exportador e que “a negativa dos agentes sobre suas atividades, apenas reforçam os Fl. 3072DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 42 indícios de que eles efetivamente participaram das negociações e tinham controle sobre as emissões de faturas, podendo assim manipular seus dados; sendo temerário confessar o conluio com os adquirentes da mercadoria” (fls. 4182). Assim, concluiu que diante de todos estes indícios e evidências não há como aceitar a tese de que a importadora ostensiva e seu representante tenham indicado estes “agentes dos exportadores” sem qualquer embasamento fático. Passo a análise. O Acórdão da DRJ03, em voto vencido do Relator Ícaro Nonato Lopes Cezar (fls. 4172-4174), adotou a tese de que na hipótese da aplicação do inciso III, do art. 135 do CTN, afasta- se, de imediato, a possibilidade de exigência da dívida do contribuinte (pessoa jurídica), visto que, se a exigência atinge pessoalmente aquele que cometeu o ato infracional contra aquele que representava, não há que se pode falar em solidariedade entre o infrator e o contribuinte. Afirmou que seria conflitante se falar na possibilidade de coexistência de responsabilidade solidária e responsabilidade pessoal, relativa a mesma infração, sendo juridicamente impossível atribuir responsabilidade solidária entre o gerente/administrador com supedâneo no inciso III, do art. 135 do CTN. Concluiu por afastar a aplicação do art. 135, III, do CTN. O Relator passou a analisar o art. 124, I, Item “Da Solidariedade Passiva do Sr. Juliano Vanhoni Sil”, destacou duas espécies de solidariedade: a primeira (inciso I) tem como premissa básica o “interesse comum”, a segunda (inciso II), decorre da designação em lei. Concluiu que (fls. 4174-4175): Exatamente por isso, quando atua legalmente no exercício de suas funções, dentro dos limites estabelecidos nos estatutos ou no contrato social, o sócio-gerente não pode ser considerado solidário com relação ao débito tributário da empresa com fundamento no inciso I, do art. 124 do CTN, porque não é ele quem juridicamente pratica o fato gerador, mas sim a pessoa jurídica, e, embora possa possuir interesse econômico, não tem interesse jurídico no fato gerador. (...) Portanto, para que as consequências da conduta realizada em nome da empresa alcancem o sócio que agiu dentro dos limites estabelecidos no estatuto, na lei ou no contrato social, é necessário que se comprove a concorrência ou o benefício com a prática da infração por parte deste sócio, uma vez que os mesmos não podem ser presumidos pelo simples fato de ser sócio, ainda que administrador. Não restando comprovado que o Recorrente teria concorrido pessoalmente ou se beneficiado com a infração relativa às DI objeto da autuação, pois a acusação fiscal não conseguiu demonstrar quais foram as condutas praticadas por esses acusados, na condição de pessoa física, que levaram a sua inclusão no rol dos responsáveis solidários. Fl. 3073DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 43 Neste sentido tem se posicionado este CARF: A responsabilidade solidária prevista no art. 124, inciso I, do CTN, não deve ser aplicada de forma indiscriminada, sem uma delimitação clara entre a conduta praticada pelo responsável solidário e a situação que constitua o fato gerador da obrigação tributária, devendo a autoridade tributária lançadora efetuar a subsunção entre a conduta do responsável solidário no plano fático a um dos aspectos da regra-matriz de incidência tributária, demonstrando o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. A ausência dessa vinculação acarreta a exclusão do vínculo de responsabilidade solidária imputada no lançamento tributário. (Acórdão nº 1201-007.205, 1ª. Turma Ordinária, 1ª. Seção, data 22.07.2025, José Eduardo Genero Serra – Relator e Presidente). (Grifei) Pela clareza e exposição didática da matéria constante do Acórdão 1201-007.205, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Seção, 2ª. Câmara, ao julgar o processo 10830.720.701/2020-00, em situação similar, cito trechos do voto: Assim, prosseguindo na análise do feito, é preciso notar que a possibilidade de apontamento de responsabilidade tributária que restou é aquela decorrente do interesse comum na situação que constitui o fato gerador da exação tributária (CTN, art. 124, I). Trata-se, por conseguinte, de hipótese fática, prescindindo, por isso, de previsão específica na lei que regula o tributo objeto do lançamento, sendo, por tal razão, comumente referida como solidariedade de fato. Oportuno aludir ao Parecer Normativo Cosit/RFB nº 04/18, que dispõe sobre a responsabilidade tributária prevista no artigo 124, inciso I, empregado como fundamento para a imputação em questão. Para os que com seus termos comungam, sua aplicação é imediata, alcançando inclusive fatos pretéritos, já que se trata de norma infralegal interpretativa. É sabido que o CTN, ao dispor sobre a responsabilidade tributária, não o fez de forma clara em algumas modalidades ali previstas, incluindo a regra do artigo 124 inciso I, sintetizada na expressão “interesse comum”. Nesse sentido, o referido parecer traz importantes delineamentos acerca desse tema, inclusive com a fixação de entendimento segundo o qual o interesse comum deve alcançar não somente o ato lícito que gerou a obrigação tributária, mas também o ato ilícito que a desfigurou. (...) O que se extrai do didático parecer, relativamente à responsabilidade tributária solidária por força do artigo 124, I, do CTN, é o seguinte: (i) o responsável deve ter vínculo – de fato ou de direito - com o Fl. 3074DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 44 fato gerador ou com o sujeito passivo que o praticou; (ii) o exigido “interesse comum” deve ser no fato ou na relação jurídica relacionada ao fato jurídico tributário, não bastando o mero proveito econômico; (iii) ensejam a responsabilidade o cometimento de ato ilícito com abuso de personalidade jurídica envolvendo grupo econômico irregular, evasão fiscal ou planejamento tributário abusivo; (iv) o ato ilícito tem de ser praticado com dolo. (...) A partir da análise do relato dos fatos e documentos constantes nos autos, entendo correta a interpretação constante do voto vencido do Acórdão da DRJ, adotando as mesmas razões, ou seja, não foram trazidos elementos probatórios suficientes para considerar o Juliano Vanhoni Sil como responsável solidário e por consequência, reconhecer a ausência de responsabilidade quanto às multas e quanto ao lançamento dos tributos. Voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. IV.3 RECORRENTES: TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA -BOLSAS E MALAS - EPP Em seu Recurso Voluntário a Recorrente TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA reproduziu os mesmos argumentos apresentados pela Recorrente TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA BOLSAS E MALAS LTDA, razão pela qual passe à análise conjunta dos argumentos aduzidos. Afirmou que todas as operações que envolvem as empresas SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELLI, SAMA BOLSAS E ACESSÓRIOS LTDA, MARIANO & SILVA COMERCIAL LTDA., foram feitas legalmente, com emissão de notas fiscais e devidamente apurados todos os impostos. Que a imputação de sujeição passiva em seu desfavor sem comprovação de sua atuação com excesso de poderes ou infração à lei caracteriza arbitrariedade e suprime o direito de defesa. A prova é exclusivamente a Fazenda Nacional. Que a Fiscalização descumpriu o dever de motivação do ato administrativo do lançamento, nos termos do art. 114 do CTN. No que tange a responsabilidade solidária, afirmou que não existe na legislação hipótese de atribuição aos sócios administradores. E que nos termos do art. 124, 135 e 137 do CNT, há necessidade de comprovação de fato jurídico distinto da ocorrência do fato gerador, capaz de permitir a inclusão dos sócios/administradores. Pediu a anulação do Termo de sujeição passiva solidária e improcedência da ação fiscal. Passo à análise. As Recorrentes apontaram que o Auto de Infração contém irregularidades que ensejam nulidades e ilegalidades, apontando excesso de poderes e infrações à lei, caracterizando a arbitrariedade no lançamento. Fl. 3075DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 45 Conforme destacado pelo Recorrente, tendo os tópicos analisados no Recurso da Empresa SPREAD, tanto em sede de preliminares quanto no próprio mérito, todos foram enfrentados no presente voto. No que toca a nulidade, foi destacado a necessidade de se examinar se, no caso concreto, o vício prejudica a ampla defesa, ou seja, se é caso de nulidade absoluta ou nulidade relativa. Foram afastadas as preliminares de nulidade arguidas. Quanto ao mérito, a irresignação das Recorrentes se concentra em tratar o auto de infração carente de comprovação buscando descaracterizar a responsabilidade solidária a elas atribuída com base no art. 124, 135 e 137, todos do CTN. Para a DRJ03, restando caracterizada a responsabilidade tributária da empresa individual, o responsável pela sua condução deve, também, ser considerado solidário, uma vez que este não possui personalidade jurídica distinta daquela. No caso em apreço, diante das provas trazidas pela Fiscalização, como, por exemplo, os adiantamentos efetuados pela empresa na conta corrente da Spread, julgo comprovado a concorrência para a prática infração, tanto da empresa, quanto da pessoa física da Sra. Terezinha Rodrigues da Silva, conforme previsto no art. 95 do Decreto-Lei nº 37/66. Para a DRJ03, a circunstância posta no auto de infração permite manter a responsabilidade tributária, tanto da Sra. Terezinha Rodrigues da Silva, quanto da empresa Terezinha Rodrigues da Silva EPP, pressupostos fáticos, tanto do inciso III, do artigo 135 do CTN, que trata de responsabilidade pessoal ou ao inciso I, do artigo 124 do mesmo código. Vejamos. Nos termos do Relatório Fiscal n°03, às fls. 2426 a 2502, consta a participação da Empresa Terezinha Rodrigues da Silva Bolsas e Malas EPP: Fls. 2440: No caso das operações de importação de que trata este relatório, foi identificado que as mercadorias, logo após o desembaraço nas alfândegas, foram imediatamente repassadas para quatro pessoas jurídicas, MARIANO & SILVA COMERCIAL LTDA, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA -BOLSAS E MALAS - EPP, DIREITA BOLSAS E ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA ME (nome atual SERGIO ALEXANDRE CANILOI - ME) e MARIA EDILA ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA EPP (nome atual MARIA EDILA GONCALVES - EPP). Grifei Fls. 2444: A DI foi parametrizada no canal verde de conferência aduaneira e desembaraçada automaticamente, sem conferência, em 01/08/2012. No dia 06/08/2012, a SPREAD emitiu a nota fiscal (NF) de entrada nº 243 (fl. 2198). Dois dias depois, em 08/08/2012, emitiu quatro NFs de venda, de nºs. 250 a 253 (fls. 2199-2202), comercializando a TOTALIDADE da mercadoria para quatro pessoas jurídicas, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA - BOLSAS E MALAS (NF nº 250); DIREITA BOLSAS E ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA ME (NF nº 251); MARIA EDILA ARTIGOS PARA VIAGENS LTDA EPP (NF nº 252); e MARIANO & SILVA (NF nº 253). A SPREAD foi intimada a apresentar os conhecimentos de transporte rodoviários relativos às vendas efetuadas. Foram Fl. 3076DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 46 apresentados os conhecimentos nºs. 2363 a 2364, de 14/08/2012, e 2371, de 16/08/2012, da empresa BENDINI LOGÍSTICA LTDA (fls. 1459-1465). Grifei Fls. 2476: b) Um conjunto de autuações relativas a multas e diferenças de tributos proporcionais às mercadorias comercializadas para TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, tendo por autuada a importadora SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL EIRELI EPP, e por responsáveis solidários seu sócio administrador por ocasião do registro das DIs, JULIANO VANHONI SIL, CPF nº 023.202.759-59;TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA - BOLSAS E MALAS LTDA - EPP, CNPJ: 11.659.178/0001-65, e sua titular na época do registro da DI, TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA, CPF nº 114.613.988-86; além de ZHIYONG FU, CPF nº 232.773.848-29, apontado como “agente do exportador” pela SPREAD. Assim, diferentemente do que ocorreu em relação ao contribuinte SPREAD ASSESSORIA EMPRESARIAL, apesar de todo o esforço e esmero da fiscalização, não identifiquei no Relatório Fiscal comprovação da subsunção entre a conduta do responsável solidário no plano fático a um dos aspectos da regra-matriz de incidência tributária, demonstrando o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. A ausência dessa vinculação acarreta a exclusão do vínculo de responsabilidade solidária imputada no lançamento tributário. (Acórdão nº 1201-007.205), a cargo da Fiscalização, tanto para a pessoa jurídica, quanto para a pessoa físicas, ambas Recorrentes. A partir da análise do relato dos fatos e documentos constantes nos autos, entendo que não foram trazidos elementos probatórios suficientes para considerar as Recorrentes como responsável solidário e por consequência, voto por reconhecer a ausência de responsabilidade quanto às multas e quanto ao lançamento dos tributos. Voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. V - DISPOSITIVO Diante de todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares do Recurso Voluntário e da prescrição intercorrente (suscitada em sustentação oral/memorial); voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, no mérito, para reduzir o percentual de qualificação da multa de ofício para 100%, do que resulta, mantendo-se o percentual de agravamento em 50%, numa multa de ofício qualificada e agravada no total de 150%, para excluir da base de cálculo da autuação as Declarações de Importação duplicadas em relação ao processo nº 10909.721506/2015-71; e por dar provimento ao Recurso Voluntário de JULIANO VANHONI SIL, de TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA e TEREZINHA RODRIGUES DA SILVA -BOLSAS E MALAS – EPP, no sentido de afastar a responsabilidade solidária. Fl. 3077DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 47 É como voto. Assinado Digitalmente Francisca das Chagas Lemos. VOTO VENCEDOR Conselheiro Mário Sérgio Martinez Piccini, redator designado Esse Colegiado decidiu, conforme consta da ata: por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário de JULIANO VANHONI SIL em relação à sua responsabilidade solidária, vencidas as Conselheiras Marina Righi Rodrigues Lara, Louise Lerina Fialho e Francisca das Chagas Lemos (relatora). Assim, foi a mim designado para elaboração do voto vencedor. Entendeu a nobre Conselheira relatora em seu voto que, conforme seus dizeres, em dar provimento ao Recurso Voluntário de JULIANO VANHONI SIL em relação à sua responsabilidade solidária. Ouso discordar da Ilustre Conselheira no tópico em apreço. Façamos a análise. De acordo com a Instrução Normativa nº 1.862, de 27.12.2018, que dispõe sobre a imputação de responsabilidade tributária no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), deverá conter a descrição dos fatos que caracterizam a responsabilidade tributária, além da reunião de provas indispensáveis à comprovação da responsabilidade: Art. 3º Na hipótese de imputação de responsabilidade tributária, o lançamento de ofício deverá conter também: I - a qualificação das pessoas físicas ou jurídicas a quem se atribua a sujeição passiva; II - a descrição dos fatos que caracterizam a responsabilidade tributária; III - o enquadramento legal do vínculo de responsabilidade decorrente dos fatos a que se refere o inciso II; e IV - a delimitação do montante do crédito tributário imputado ao responsável. Parágrafo único. O Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil deverá reunir as provas indispensáveis à comprovação da responsabilidade tributária. (Grifei). Em seu voto a Decisão de Piso elaborou considerações esclarecedoras: Fl. 3078DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 48 Inicialmente verifica-se que a responsabilidade pessoal do Sr JULIANO VANHONI SIL pelo crédito tributário com base no art. 135, inciso III do CTN encontra-se devidamente configurada uma vez que a própria empresa SPREAD testemunha que ele, enquanto diretor da empesa, era quem realizava os contatos e negociava com os agentes dos exportadores, in verbis, “Os contatos entre a SPREAD e os agentes do exportador eram formalizados por telefone ou presencial. Com relação ao representante, nas negociações pela SPREAD, era o seu próprio Diretor Juliano V. Sil e os representantes dos exportadores, encontra-se devidamente discriminados na tabela apresentada sob o nome "agente". Tendo em vista a formalização de compra e venda internacional terem se concretizado de forma verbal, presencial ou telefone, os documentos comprobatórios das negociações são as próprias faturas comerciais, packing list e conhecimento de transporte.” Esta informação/fato não foi refutada pelo Sr. Juliano, pelo contrário, reafirmou que teria indicado à fiscalização os representantes dos exportadores no Brasil, com os quais negociava de forma presencial ou por telefone, assim, não restam dúvidas de que ele agiu com consciência de que estava cedendo o nome da empresa de forma ilegal para a prática de infrações contra o Erário mediante simulação. Evidentemente que a responsabilidade por este tipo de infração não pode ser exclusiva da empresa, pois uma vez comprovado o dolo, má-fé ou mesmo culpa da pessoa física representante da empresa nas negociações deve ela responder pessoalmente pelo crédito tributário apurado com seu próprio patrimônio, pois a infração só foi possível devido aos seus próprios atos na ocorrência da simulação. Por outro lado, não se pode responsabilizar exclusivamente a pessoa física, pois isso seria, inclusive, um incentivo à eventual prática de administrador laranja, quando na realidade também a empresa se beneficia da simulação. Daí porque a solidariedade em análise não comporta o benefício de ordem, conforme disposição legal, dando maior garantia ao crédito tributário. Os demais dispositivos legais citados pela fiscalização para fundamentar a solidariedade caminham nesta mesma linha de raciocínio, deixando mais clara a necessidade de identificação da concorrência pessoal para a prática da infração ou da identificação do beneficiário dos seus resultados, como é o caso do art. art. 95 do Decreto-Lei nº 37/66 citado pela fiscalização e que por si só já seria suficiente para enquadramento legal da responsabilidade em comento em relação às infrações. Fl. 3079DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.542 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10909.721691/2015-01 49 Percorrendo as informações acima explanadas depreende-se clara participação do Sr. JULIANO VANHONI SIL, que caracterizam a plena Responsabilidade Tributária apontada pela Autoridade Fiscal, sendo inclusive não rebatida no Recurso Voluntário. Assim deve ser mantida a Responsabilidade Solidária em debate nesse tópico. I – DISPOSITIVO Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário em relação ao item Responsabilidade Tributária do Sr. JULIANO VANHONI SIL. Assinado Digitalmente Mário Sérgio Martinez Piccini Fl. 3080DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 16306.720015/2012-35
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006
PER/DCOMP. SALDO NEGATIVO IRPJ. PARCELAS DE COMPOSIÇÃO. IRRF. APLICAÇÕES FINANCEIRAS. RENDIMENTOS DE AÇÃO JUDICIAL. PESSOA JURÍDICA ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DAS APLICAÇÕES E DA ORIGEM DOS RECURSOS. Deve-se efetuar a glosa das parcelas relativas ao IRRF, quando ausente a comprovação da individualização das aplicações financeiras efetuadas em nome da administradora, mediante identificação dos recursos de cada grupo de consórcio e correlação com o imposto retido, demonstrando a não afetação dos resultados da pessoa jurídica do administrador. O imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações dos grupos de consórcio, realizados em nome da administradora, não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. A aceitação de IRRF incidente sobre receitas obtidas perante a Justiça Federal na composição das parcelas de saldo negativo, demandam a comprovação da origem e natureza das receitas e respectivas retenções.
APLICAÇÃO DO ART. 114, §12, I DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida.
Numero da decisão: 1401-007.801
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, e, no mérito, negar-lhe provimento.
Assinado Digitalmente
Andressa Paula Senna Lísias – Relatora
Assinado Digitalmente
Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Augusto Carvalho de Souza, Daniel Ribeiro Silva, Alberto Pinto Souza Junior, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente).
Nome do relator: ANDRESSA PAULA SENNA LISIAS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006 PER/DCOMP. SALDO NEGATIVO IRPJ. PARCELAS DE COMPOSIÇÃO. IRRF. APLICAÇÕES FINANCEIRAS. RENDIMENTOS DE AÇÃO JUDICIAL. PESSOA JURÍDICA ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DAS APLICAÇÕES E DA ORIGEM DOS RECURSOS. Deve-se efetuar a glosa das parcelas relativas ao IRRF, quando ausente a comprovação da individualização das aplicações financeiras efetuadas em nome da administradora, mediante identificação dos recursos de cada grupo de consórcio e correlação com o imposto retido, demonstrando a não afetação dos resultados da pessoa jurídica do administrador. O imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações dos grupos de consórcio, realizados em nome da administradora, não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. A aceitação de IRRF incidente sobre receitas obtidas perante a Justiça Federal na composição das parcelas de saldo negativo, demandam a comprovação da origem e natureza das receitas e respectivas retenções. APLICAÇÃO DO ART. 114, §12, I DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006 PER/DCOMP. SALDO NEGATIVO IRPJ. PARCELAS DE COMPOSIÇÃO. IRRF. APLICAÇÕES FINANCEIRAS. RENDIMENTOS DE AÇÃO JUDICIAL. PESSOA JURÍDICA ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DAS APLICAÇÕES E DA ORIGEM DOS RECURSOS. Deve-se efetuar a glosa das parcelas relativas ao IRRF, quando ausente a comprovação da individualização das aplicações financeiras efetuadas em nome da administradora, mediante identificação dos recursos de cada grupo de consórcio e correlação com o imposto retido, demonstrando a não afetação dos resultados da pessoa jurídica do administrador. O imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações dos grupos de consórcio, realizados em nome da administradora, não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. A aceitação de IRRF incidente sobre receitas obtidas perante a Justiça Federal na composição das parcelas de saldo negativo, demandam a comprovação da origem e natureza das receitas e respectivas retenções. APLICAÇÃO DO ART. 114, §12, I DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. Fl. 256DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Andressa Paula Senna Lísias – Relatora Assinado Digitalmente Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Augusto Carvalho de Souza, Daniel Ribeiro Silva, Alberto Pinto Souza Junior, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra a decisão da DRJ que julgou improcedente a manifestação de inconformidade do contribuinte. Na origem, o ora Recorrente apresentou PER/DCOMP visando à homologação de compensação com créditos oriundos de saldo negativo de IRPJ do ano-calendário 2006. Foi proferido Despacho Decisório deixando de reconhecer o crédito pleiteado e não homologando as compensações, por entender que não só o contribuinte não dispunha de saldo negativo em 2006, como aliás tinha saldo de IRPJ a pagar: Fl. 257DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 3 Fl. 258DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 4 Cientificada do Despacho Decisório, a ora Recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade. Reproduzo a síntese de fundamentos bem sistematizada pela instância “ a quo”: “O contribuinte, em síntese, após relato dos fatos, alega que (fls. 76/90): I – Preliminares: a) cabimento da Manifestação de Inconformidade, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/96, e seus efeitos para fins de suspensão da exigibilidade do crédito tributário objeto de compensação; b) ausência de Intimação do sujeito passivo para apresentação de documentos para comprovação da origem das retenções na fonte (violação da verdade material). Afirma que não foi corretamente intimado para comprovar a origem das retenções do imposto de renda e que a planilha apresentada pela Autoridade Tributária, informando para cada CNPJ de fonte pagadora o montante confirmado ou não a título de IRRF, não reporta quais os documentos utilizados para elaboração dos cálculos do imposto glosado. Alega que o valor não homologado das compensações não foi devidamente justificado pela Fiscalização, não se afirmando a razão imediata para realização Fl. 259DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 5 da glosa, inexistindo sequer a menção de quais documentos foram utilizados para embasar o Despacho Decisório. Cita e transcreve doutrina e precedente de decisão administrativa que entende amparar seus argumentos. Aduz que o Despacho Decisório é nulo por ofensa ao princípio da verdade material, requerendo o seu cancelamento e o retorno dos autos à origem para que a fiscalização analise a documentação apresentada com a manifestação de inconformidade (informes de rendimento, DIPJ e extrato do Sistema Dirf), que entende suficiente para comprovar a existência do crédito do IRRF, homologando as compensações. II – Direito: Existência do Crédito Tributário e Possibilidade de Compensação. Alega que anexa informes de rendimentos emitidos pelo Banco do Brasil (R$ 28.134,45), Caixa Econômica Federal (R$ 385.785,61) e Banco GMAC S/A (R$ 15.554.761,07), respectivamente docs. 3 e 4 da manifestação de inconformidade, entendendo comprovada a origem do imposto pleiteado. Afirma que a Dirf do Banco GMAC foi apresentada com erro no valor do rendimento tributável, mas que o valor do imposto retido encontra-se correto e há precedentes de decisões administrativas que não invalidam o direito creditório quando identificado erro material na Dirf. Alega, ainda, que a Dirf do Banco GMAC foi retificada, em 13/03/2012, corrigindo- se o erro na informação relativa ao rendimento tributável.” Ato seguinte, foi proferido o acórdão n. 15-47.182 pela 5ª Turma da DRJ/SDR, julgando improcedente a Manifestação de Inconformidade, mantendo o Despacho Decisório recorrido: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2006 NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. DIREITO DE DEFESA EXERCIDO EM SUA PLENITUDE. Ausência de comprovação de hipótese capaz de ensejar a decretação de nulidade, especialmente diante do pleno exercício do direito de defesa pelo contribuinte, materializado pela Inconformidade. DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. AUSÊNCIA DE UTILIDADE PROCESSUAL. Cabe à Autoridade Julgadora examinar pedido de realização de diligência, mandando realizar apenas aquelas necessárias e indeferindo as prescindíveis ou impraticáveis. PROCEDIMENTO FISCAL. INTIMAÇÃO. REGULARIDADE. VERDADE MATERIAL. Fl. 260DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 6 Informações prestadas pelo sujeito passivo e disponibilizadas nos sistemas informatizados, bem assim, a atividade exercida pelo sujeito passivo, justificaram a busca de esclarecimentos sobre as aplicações e receitas financeiras que geraram a alegada retenção de IRRF por meio de Termo de Intimação Fiscal. SALDO NEGATIVO IRPJ. PARCELAS DE COMPOSIÇÃO. IRRF. APLICAÇÕES FINANCEIRAS. RENDIMENTOS DE AÇÃO JUDICIAL. PESSOA JURÍDICA ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DAS APLICAÇÕES E DA ORIGEM DOS RECURSOS. Deve-se efetuar a glosa das parcelas relativas ao IRRF, quando ausente a comprovação da individualização das aplicações financeiras efetuadas em nome da administradora, mediante identificação dos recursos de cada grupo de consórcio e correlação com o imposto retido, demonstrando a não afetação dos resultados da pessoa jurídica do administrador. O imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações dos grupos de consórcio, realizados em nome da administradora, não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. A aceitação de IRRF incidente sobre receitas obtidas perante a Justiça Federal na composição das parcelas de saldo negativo, demandam a comprovação da origem e natureza das receitas e respectivas retenções. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido” A DRJ, em síntese, entendeu que de fato não houve a comprovação das retenções, e que o contribuinte, na verdade, havia sido intimado (fls. 69/71) a apresentar os mais diversos esclarecimentos e comprovações, e não o fez, apesar de comprovadamente ter recebido a intimação para tanto. O contribuinte, ora Recorrente, interpôs Recurso Voluntário, reiterando o argumento inicial, anexando laudo de auditoria independente. Afinal, vieram os autos para a apreciação desta Conselheira. É o relatório do essencial. VOTO Conselheira Andressa Paula Senna Lísias, Relatora. Fl. 261DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 7 O recurso voluntário é tempestivo e atende as demais condições de admissibilidade, razão pela qual passo a analisá-lo. Há um primeiro debate do contribuinte no sentido de que ele não teria sido intimado para comprovar as retenções na fonte que estão no centro da presente discussão. Observo que há nos autos um Termo de Intimação lavrado pela RFB que toca esse ponto, e pede à empresa uma série de esclarecimentos para verificar as operações financeiras que tinham dado origem ao IR-fonte de R$ 2.723.914,10, e, entre outros, o informe de rendimentos do IR-fonte de R$ 10.047,88: A fls. 71 há um AR comprovando que a intimação acima teria sido recebida. Não houve manifestação apresentada pelo contribuinte, e por isso sobreveio o despacho decisório, em que inclusive foi consignada a inércia da empresa: ‘A empresa acima qualificada foi devidamente intimada a comprovar a origem das retenções de IRRF pleiteadas. No entanto, vencido o prazo concedido (10 dias), contado a partir da data de recebimento da mesma pelo contribuinte (20/01/2012 - comprovado em AR), não foi recebida nenhuma resposta ou manifestação da empresa. Dessa forma, tais pleitos foram indeferidos” Assim, o argumento não prospera. Além de que o contribuinte poderia ter apresentado esses documentos ao longo do contencioso administrativo, e não o fez. São praticamente 13 anos de tramitação processual e, dada a natureza do processo de PER/COMP, o contribuinte poderia ter apresentado na impugnação ou mesmo no recurso tudo o que a RFB solicitou inicialmente. Fl. 262DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 8 No mais, o Recurso reproduz literalmente o que já havia sido aduzido na defesa, fundamentos cuja análise entendo ter sido exaurida pela decisão recorrida. As retenções em questão as seguintes: Nos autos (em especial, docs. 3 e 4 da impugnação), de fato, não identifiquei os informes de rendimentos desses valores exatos. E também não há documentos alternativos idôneos que demonstrem cabalmente ao julgador que houve a retenção em questão. Assim, entendo ser o caso de manter integralmente a decisão proferida, por seus próprios fundamentos, por concordar com a valoração de provas que foi feita pela instância “a quo”. Nestes termos, cumpre ressaltar a faculdade garantida ao julgador pelo inc. I, § 12º do Art. 114 do novo Regimento Interno do CARF (aprovado pela Portaria n. 1.634 de 21 de dezembro de 2023): “Art. 114. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes, ausentes e impedidos ou sob suspeição, especificando-se, se houver, os conselheiros vencidos, a matéria em que o relator restou vencido e o voto vencedor. § 1º O relator deverá formalizar o acórdão no prazo de quinze dias, contado da movimentação dos autos para essa atividade. (...)§12. A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante: I - declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida; e II - referência a súmula do CARF, devendo identificar seu número e os fundamentos determinantes e demonstrar que o caso sob julgamento a eles se ajusta.” Fl. 263DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 9 Da análise do presente processo, entendo ser plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que não inova nas suas razões já apresentadas em sede de Impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. Assim, desde já proponho a manutenção da decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos em relação às matérias ora controversas, considerando-se como se aqui transcrito integralmente o voto da decisão recorrida: “Diferente do que alega o sujeito passivo, a Autoridade Tributária envidou esforços para o exame aprofundado do pleito de reconhecimento do direito creditório e da compensação pretendida, para além do mero exame das informações disponíveis nos sistemas informatizados da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil. Note-se que, por meio do Termo de Intimação Fiscal, lavrado em 16/01/2012, fls. 69/70, considerando as informações prestadas pelo sujeito passivo e disponibilizadas nos sistemas informatizados, bem assim, o fato de o contribuinte ter por atividade a “administração de consórcios” e, em razão disso, ter obrigações acessórias, seja perante a Receita Federal, seja perante o Banco Central do Brasil, concernentes à manutenção de registros individualizados dos recursos próprios e dos “grupos de consórcio”, buscou-se esclarecimentos sobre as aplicações e receitas financeiras que geraram a alegada retenção de IRRF, código 3426 (Receitas Financeiras), no valor pleiteado de R$ 2.723.914,10. Além disso, o sujeito passivo foi intimado a apresentar a relação de “grupos de consórcio” existentes no ano-calendário 2006, bem como demonstrações financeiras em 31/12/2006 e 31/12/2005, Balanços Patrimoniais, Demonstrações de Resultados, Demonstrações Consolidadas dos Recursos de Consórcio, Demonstrações Consolidadas das Variações nas Disponibilidades de Grupos de Consórcio, Notas Explicativas e Parecer de Auditores Independentes. Quanto à retenção de IRRF código 5928 (Rendimentos Decorrentes de Decisão da Justiça Federal), que somam o montante de R$ 10.047,88, foram solicitados Informes de Rendimento que comprovassem as receitas e respectivas retenções e demais documentos que comprovassem a origem dos processos e as respectivas receitas obtidas perante a Justiça Federal. Portanto, não procede a alegação veiculada na Inconformidade de ausência de Intimação do sujeito passivo para apresentação de documentos. O Termo de Intimação Fiscal (fls. 69/70) e o comprovante de recebimento (fl. 71) afastam qualquer alegação de inércia da Autoridade Tributária na busca da verdade material. E o Despacho Decisório, complementado pelas informações registradas no “Anexo 1”, explicita que o sujeito passivo foi devidamente intimado a comprovar a origem das retenções de IRRF pleiteadas, mas manteve-se inerte no prazo concedido. Fl. 264DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 10 Como apontado pela Autoridade Tributária, o sujeito passivo exerce a atividade de “administração de consórcios”, regulada pela Lei nº 11.795, de 8/10/2008, encontrando-se sujeito, ainda, à disciplina regulatória do Banco Central do Brasil, a exemplo do que dispõe a Circular Bacen nº 3.432, de 3/02/2009 (DOU de 4/2/2009). Administradora de consórcios é pessoa jurídica prestadora de serviços com objeto social principal voltado à administração de “grupos de consórcio”, constituída sob a forma de sociedade limitada ou sociedade anônima e os bens e direitos adquiridos pela administradora em nome do “grupo de consórcio”, inclusive os decorrentes de garantia, bem como seus frutos e rendimentos, não se comunicam com o seu patrimônio (Lei nº 11.795, de 2008, art. 5º, caput e § 5º). Nos termos da disciplina do Banco Central do Brasil, em especial o art. 6º e §§ 1º e 2º da Circular Bacen nº 3.432/2009, os recursos dos consorciados, enquanto não utilizados, devem permanecer aplicados financeiramente, junto aos recursos do fundo comum do grupo, revertendo para esse fundo o rendimento financeiro líquido dessas aplicações, as quais deverão ser efetuadas em nome da administradora, individualizando-se os recursos de cada grupo. Os rendimentos deverão ser registrados em contas individualizadas para cada consorciado a que se referirem e de modo tal que não afetem os resultados da pessoa jurídica do administrador. (...) Quanto ao tratamento tributário-fiscal a ser atribuído às aplicações financeiras, no âmbito da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil foram emitidos os Atos Declaratórios CST nº 65, de 28/10/1987 e nº 2, de 14/01/1988, textual: ADN – CST nº 65/1987 DECLARA, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal e demais interessados, que as aplicações financeiras realizadas pelas administradoras de grupos de consórcios, na forma prevista no item 28 da Portaria Ministerial nº 330, de 23 de setembro de 1987, deverão ter o seguinte tratamento: 1. As aplicações deverão ser efetuadas em nome da administradora, individualizando-se os recursos de cada grupo. 2. Os rendimentos sujeitar-se-ão à incidência do imposto de renda na fonte, se for o caso, com base nas normas aplicáveis aos rendimentos auferidos pelas pessoas jurídicas. 3. Os rendimentos serão registrados em contas individualizadas para cada grupo de consórcio a que se referirem e de modo tal que não afetem os resultados da pessoa jurídica do administrador. 4. O imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. Fl. 265DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 11 Nesse sentido, observa-se que rendimentos de aplicações financeiras realizadas por administradoras de grupos de consórcios, como o sujeito passivo, devem ser registrados em contas individualizadas para cada grupo de consórcio a que se referirem e de modo tal que não afetem os resultados da pessoa jurídica do administrador, assim como o imposto de renda retido na fonte sobre os referidos rendimentos não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica. Justificada, portanto, a iniciativa da Autoridade Tributária ao lavrar o Termo de Intimação Fiscal para buscar evidenciar, por meio da apresentação dos registros individualizados, dentre outros elementos solicitados (fls. 69/70), os recursos próprios do sujeito passivo e aqueles pertencentes aos grupos de consórcio, a fim de formar o juízo pertinente quanto à possibilidade de validação das parcelas de imposto sobre a renda retido na fonte, seja sob o código de receita código 3426 (Receitas Financeiras), seja para o código 5928 (Rendimentos Decorrentes de Decisão da Justiça Federal), estes últimos ainda sujeitos à apresentação dos documentos que comprovassem a origem dos processos judiciais e das respectivas receitas. Em sua Inconformidade, o sujeito passivo limitou-se a apontar suposta irregularidade na intimação, sem especificá-la, nem comprová-la, bem como fez a juntada de Informes de Rendimentos emitidos pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (doc. 3) e Informes de Rendimentos emitidos pelo Banco GMAC S/A, Extrato do Sistema Dirf, original e retificadora e DIPJ (doc.4), incapazes de preencher a lacuna apontada pela Autoridade Tributária que indeferiu o pedido na origem. Nada foi apresentado quanto aos elementos ressaltados pela Autoridade Tributária, conforme anotado no Termo de Intimação Fiscal, relacionados à atividade de Administradora de Consórcio. Ademais, a lacônica alegação de erro no preenchimento da Dirf pela fonte pagadora Banco GMAC S/A, que alterou os rendimentos tributáveis do sujeito passivo, reduzindo-os em mais de 25 milhões de reais, no mês de janeiro do ano- calendário 2006, não foi acompanhada de nenhuma explicação ou comprovação, apenas a Declaração de Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (Dirf) retificada. Os esclarecimentos pretendidos pela Autoridade Tributária em sua Intimação encontram também correlação com esta retificação, não justificada na Inconformidade, visto que o valor dos rendimentos tributáveis relativos a receitas financeiras originalmente utilizado pelo sujeito passivo em sua apuração não corroboram a informação prestada pela fonte pagadora em sua primeira versão de Dirf e a retificação apontada pelo sujeito passivo somente foi efetivada em 13/03/2012, posteriormente à ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pleito de compensação, em razão da glosa da parcela do crédito relativa ao imposto retido na fonte, ocorrida em 16/02/2012 (fl. 184). Fl. 266DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.801 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16306.720015/2012-35 12 Mantida, portanto, a glosa das parcelas relativas ao IRRF, conforme anotado pela Autoridade Tributária na origem, tendo em vista a ausência de comprovação da individualização das aplicações financeiras efetuadas em nome da administradora, mediante identificação dos recursos de cada grupo de consórcio e correlação com o imposto retido, demonstrando a não afetação dos resultados da pessoa jurídica do administrador, visto que o imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos das aplicações dos grupos de consórcio, realizados em nome da administradora, não poderá ser compensado com o imposto devido pela pessoa jurídica, bem assim, quanto às receitas obtidas perante a Justiça Federal, ausência de comprovação da origem e natureza das receitas e respectivas retenções. (...) ” Ademais, entendo que o laudo de auditoria independente apresentado por ocasião do recurso não supre a deficiência probatória que foi apontada anteriormente, não infirma essa posição de que os documentos que provam a existência e a certeza do crédito pleiteado, ao fim e ao cabo, não foram trazidos pelo contribuinte nem no procedimento fiscalizatório e nem mesmo neste contencioso administrativo. Assim, voto no sentido de negar provimento ao recurso. É como voto. Conclusão: Ante o exposto, voto por conhecer o Recurso Voluntário, negando-lhe provimento. Assinado Digitalmente Andressa Paula Senna Lísias Fl. 267DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16682.904146/2017-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 24 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Mar 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2013
DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Incumbe ao interessado a demonstração, com documentação comprobatória, da existência do crédito, líquido e certo, que alega possuir junto à Fazenda Nacional (art. 170 do Código Tributário Nacional).
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2013
PERÍCIA. DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE.
Sendo os documentos acostados aos autos claros, permitindo um adequado julgamento, torna-se prescindível a realização de perícia ou diligência para a solução da controvérsia.
Numero da decisão: 1301-008.123
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar e, no mérito, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator.
Assinado Digitalmente
Luis Angelo Carneiro Baptista – Relator
Assinado Digitalmente
Rafael Taranto Malheiros – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, e Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: LUIS ANGELO CARNEIRO BAPTISTA
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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-03-23T12:04:55Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-03-23T12:04:55Z; Last-Modified: 2026-03-23T12:04:55Z; dcterms:modified: 2026-03-23T12:04:55Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-03-23T12:04:55Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-03-23T12:04:55Z; meta:save-date: 2026-03-23T12:04:55Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-03-23T12:04:55Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-03-23T12:04:55Z; created: 2026-03-23T12:04:55Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 14; Creation-Date: 2026-03-23T12:04:55Z; pdf:charsPerPage: 1291; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-03-23T12:04:55Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 16682.904146/2017-91 ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 24 de fevereiro de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE BUREAU VERITAS DO BRASIL SOC CLAS E CERTIFICADORA LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2013 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao interessado a demonstração, com documentação comprobatória, da existência do crédito, líquido e certo, que alega possuir junto à Fazenda Nacional (art. 170 do Código Tributário Nacional). Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2013 PERÍCIA. DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. Sendo os documentos acostados aos autos claros, permitindo um adequado julgamento, torna-se prescindível a realização de perícia ou diligência para a solução da controvérsia. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar e, no mérito, em negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Luis Angelo Carneiro Baptista – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Fl. 1387DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, e Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO 1. Trata-se de Declaração de Compensação 02483.26315.250814.1.3.03-6074 (e-fls. 42 a 145), com direito creditório referente a Saldo Negativo de CSLL do ano calendário 2013 no valor de R$ 2.126.547,06. Foram compensados débitos na própria DCOMP referida e na DCOMP 39950.12213.250914.1.3.03-6588 (e-fls. 147 a 151). 2. Em Despacho Decisório eletrônico (e-fl. 1318 a 1339) foi reconhecido R$ 2.019.878,46 de saldo negativo de CSLL, sendo não confirmado R$ 106.232,21 de retenções de CSLL na fonte informadas em DCOMP. Em Relatório de Intervenção (e-fls. 1340 e 1341) a unidade de origem informa que intimou previamente o contribuinte a apresentar documentação comprovatória da parcela não confirmada, não obtendo resposta, o que deu causa ao Despacho Decisório em tela. 3. Irresignado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade (e-fls. 4 a 18), com anexos nas e-fls. 19 a 1204, assim sumarizado pelo julgado a quo: A interessada apresentou Manifestação de Inconformidade e juntou documentos (fls. 4 a 1.204). Após citar a legislação e julgados que entende aplicáveis ao caso, alega que a mera análise da relação de rendimentos e IRRF e a Ficha 57 da DIPJ (ambos anexados) comprovam que a RFB não considerou a integralidade das retenções, conforme tabela exemplificativa copiada (fl. 14). Com base na verdade material e Súmula nº 80 do CARF, defende a produção de prova suplementar, realização de diligência fiscal e eventual prova pericial, cujos quesitos foram listados ao final de sua Manifestação, “a fim de que não restem dúvidas quanto à inexigibilidade do crédito tributário aqui lançado em face da Manifestante”. Por fim, discorre sobre os princípios da Razoabilidade e Proporcionalidade para invocar a perquirição detalhada da existência do crédito tributário. 4. A DRJ08 exarou o Acórdão 108-035.119 – 30ª TURMA/DRJ08 (e-fls. 1343 a 1353), de 31/01/2023, onde julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade. Fl. 1388DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 3 5. O contribuinte foi cientificado do julgado acima em 19/12/2023 (e-fl. 1360). Irresignado, em 18/01/2024 (e-fl. 1363) apresentou Recurso Voluntário (e-fls. 1365 a 1380) aduzindo, em suma: a) Que as informações de retenções e a ficha 57 da DIPJ do ano-calendário 2023 comprovam que a unidade de origem não considerou a integralidade dos valores que foram retidos a título de CSLL ao proferir o despacho decisório, argumento repisado da Manifestação de Inconformidade. Traz quadro onde demonstraria que os valores considerados pelo despacho decisório seriam menores que o presente em DIRF de terceiros. b) Que a prevalência da verdade material deve nortear o processo administrativo- tributário. c) Que deve haver diligência fiscal ou prova pericial (onde elenca quesitos para possível perícia a ser realizada) para que seja possível produção de prova documental suplementar para garantir a lisura da compensação realizada. Que a DRJ indeferiu tais pedidos, sendo contrário aos princípios da verdade material, razoabilidade e proporcionalidade. 6. Este é o relatório. VOTO Conselheiro Luis Angelo Carneiro Baptista, Relator Admissibilidade 7. Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário, na forma do art. 43 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023. 8. A ciência do Acórdão 108-035.119 – 30ª TURMA/DRJ08 se deu em 19/12/2023 (e-fl. 1360), sendo o recurso voluntário apresentado em 18/01/2024 (e-fl. 1363). Logo, o recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Preliminar 9. No seu recurso, o contribuinte pleiteia possível diligência fiscal e perícia para provar o saldo negativo de CSLL informado em PERDCOMP. 10. A questão pertinente a pedido de perícias e diligências está prevista no inciso IV do artigo 16 e 18 do Decreto 70.235/72 (PAF), que assim dispõe: Fl. 1389DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 4 Art. 16. A impugnação mencionará: (...) IV - as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. (...) § 1º Considerar-se-á não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (grifo próprio) 11. No pedido, a recorrente não indica o profissional que seria o seu perito. Os requisitos de admissibilidade do pedido de perícia, previstos nesse inciso, não são meras formalidades processuais, mas elementos essenciais à análise da prescindibilidade da produção da prova pericial. Logo, com base no § 1º inciso IV do artigo 16 do Decreto 70.235/72, poder-se-ia considerar como não formulado o pedido de perícia da contribuinte. 12. Por outro lado, com base no art. 18, se poderia determinar a realização de perícia ou de diligência de ofício. Mas, no caso concreto, se percebe essa medida como absolutamente prescindível, já que constam nos autos os elementos necessários ao julgamento. 13. A perícia e a diligência são provas de caráter especial, cabíveis nos casos em que a interpretação dos fatos demanda juízo técnico. Todavia, elas não integram o rol dos direitos subjetivos do autuado, podendo o julgador, se justificadamente entendê-las prescindíveis, não acolher o pedido. 14. Além do mais, o momento de apresentação das provas pelo apelante está previsto no art. 16 do PAF: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III - os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; Fl. 1390DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 5 b) refira-se a fato ou a direito superveniente; c) destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. 15. Apesar das restrições à apresentação de provas acima citadas, este Conselho tem aceitado provas que são apresentadas somente no Recurso Voluntário, em atendimento ao princípio da verdade material, principalmente quando apontadas pelo julgamento de piso como provas necessárias para o acolhimento do direito pretendido pelo contribuinte. Ou seja, os documentos pertinentes à prova do crédito pleiteado devem ser trazidos ao processo em sede da Manifestação de Inconformidade ou Recurso Voluntário, não sendo a diligência ou a perícia capaz de alterar a realidade posta no processo quanto à liquidez e certeza do crédito presente na lide. 16. Se observa que os autos foram bem instruídos, de tal sorte que todos os elementos cognitivos necessários ao juízo de valor às imputações fiscais encontram-se acostados aos autos. 17. Dessa forma, ser rejeita os pedidos de perícia e de diligência do recorrente. Mérito 18. No mérito, observando os anexos do Despacho Decisório, se percebe que uma série de retenções de CSLL informadas na DCOMP 02483.26315.250814.1.3.03-6074 foram não confirmadas ou confirmadas parcialmente, tendo como base as DIRF informadas por terceiros (tabela nas e-fls. 1334 a 1339), perfazendo um valor total não confirmado de R$ 106.232,21, que permanece na lide. 19. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte anexou cópia do PERDCOMP onde constam a origens dos créditos (e-fls. 42 a 145), as retenções de terceiros presentes em DIRF (e-fls. 153 a 383) e a ficha 57 da DIPJ do ano-calendário 2023, onde constam as informações de valores retidos nas fontes informadas nesta declaração (e-fls. 385 a 1202). Com base nestas provas, entendeu que estaria comprovado seu direito creditório que fora parcialmente indeferido. Trouxe, ainda, um quadro onde demonstraria que os valores considerados pelo despacho decisório seriam menores que o presente em DIRF de terceiros para alguns casos: Fl. 1391DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 6 Tabela 1 20. Trouxe, então, a Súmula CARF nº 80 para convalidar seus argumentos: Súmula CARF nº 80 Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto 21. De antemão, se observa que os valores apontados na tabela 1 acima são residuais (total de R$ 493,25) frente ao valor envolvido na lide (R$ 106.232,21). De toda sorte, sua análise foi realizada pela instância de piso. 22. No mérito, os argumentos da Manifestação de Inconformidade guardam similaridade com os argumentos do Recurso Voluntário. 23. O voto da instância a quo se mostrou muito didático e robusto. Logo, será utilizado aqui neste voto amplamente para que não haja repetição de razões de decidir e por economia processual, nos termos do §1º, do art. 50, da Lei nº 9.784/99 c/c o art.114, §12, inc. I, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 1634/23: Pelo que se verifica da análise de crédito do Despacho Decisório (fls. 1.318 a 1.339 – consta na fundamentação do despacho decisório que “Informações complementares da análise do crédito estão disponíveis na página internet da Receita Federal, e integram este despacho”), no que se refere às Parcelas Confirmadas Parcialmente ou Não Confirmadas, o contribuinte declara ter retenções na fonte sob códigos de receita 5952, no valor de R$ 194.981,01, mas parte dessas retenções, no valor de R$ 106.232,21, não foram confirmadas: (...) Inicialmente, cabe relembrar que o imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente pode ser compensado na declaração de pessoa jurídica se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos e oferecer os respectivos rendimentos à Fl. 1392DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 7 tributação, conforme art. 55 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, e art. 2º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996: Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985 “Art. 55 - O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado na declaração de pessoa física ou jurídica, se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos.” Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 “Art. 2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pela pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, sobre a receita bruta definida pela art. 12 do Decreto-Lei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida mensalmente, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, observado o disposto nos §§ 1° e 2° do art. 29 e nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei n° 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) § 1º O imposto a ser pago mensalmente na forma deste artigo será determinado mediante a aplicação, sobre a base de cálculo, da alíquota de quinze por cento. § 2º A parcela da base de cálculo, apurada mensalmente, que exceder a R$ 20.000,00 (vinte mil reais) ficará sujeita à incidência de adicional de imposto de renda à alíquota de dez por cento. § 3º A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma deste artigo deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano, exceto nas hipóteses de que tratam os §§ 1º e 2º do artigo anterior. § 4º Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: I - dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os limites e prazos fixados na legislação vigente, bem como o disposto no § 4º do art. 3º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II - dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base nº lucro da exploração; III - do imposto de renda pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV - do imposto de renda pago na forma deste artigo.” A mesma exigência se aplica à Contribuição Social Retida na Fonte incidente sobre os pagamentos efetuados pelas pessoas jurídicas a outras pessoas jurídicas de direito privado, que somente pode ser compensada na declaração de pessoa Fl. 1393DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 8 jurídica se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora: Lei nº 10.833/03 “Art. 30. Os pagamentos efetuados pelas pessoas jurídicas a outras pessoas jurídicas de direito privado, pela prestação de serviços de limpeza, conservação, manutenção, segurança, vigilância, transporte de valores e locação de mão-de-obra, pela prestação de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção e riscos, administração de contas a pagar e a receber, bem como pela remuneração de serviços profissionais, estão sujeitos a retenção na fonte da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, da COFINS e da contribuição para o PIS/PASEP. (...)” Lei nº 8.981/95 “Art. 57. Aplicam-se à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (...)” De acordo com a legislação acima transcrita, não se pode concordar com a alegação defensiva (item 27 – fl. 13) de que “a mera análise das relações de rendimentos e imposto sobre a renda retido por fontes pagadoras anexos (doc. 05) e da própria Ficha 57 DIPJ 2014 (doc. 06) comprovam que a RFB não levou em consideração a integralidade dos valores que foram objeto de retenção ao proferir o despacho decisório ora combatido”. As informações dos comprovantes não apresentados podem ser supridas pelas informações prestadas pelas fontes pagadoras em Dirf, informação que já é utilizada no batimento eletrônico realizado pelos sistemas da RFB. E o fato de a fonte pagadora não apresentar o comprovante formalmente exigido em lei (Informe de Rendimentos) ou não apresentar as informações devidas em sua DIRF não inviabiliza o aproveitamento da CSRF por parte do beneficiário do rendimento, conforme Súmula Vinculante nº 143 do CARF e em seus acórdãos precedentes, entre os quais um é transcrito a título exemplificativo: “A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. (...) Fl. 1394DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 9 Porém, cabe a este beneficiário comprovar, por meio de documentos hábeis e idôneos, a percepção dos rendimentos e a sua devida contabilização, identificando o tomador do serviço em cada caso e comprovando o IRRF a que tem direito. Posto isso, podemos dizer que não é a relação de rendimentos e imposto sobre a renda retido por fontes pagadoras (em princípio, já analisada pela DRF de origem) e a Ficha 57 da DIPJ 2014 que sanarão as deficiências do Per/Dcomp transmitido pelo Contribuinte. Nesse sentido, os documentos anexados pelo Contribuinte, entre os quais a cópia da Dcomp (fls. 41 a 151), cópia da Relação de rendimentos e imposto de renda retido por fonte pagadora (fls. 152 a 383) e cópia da Ficha 57 da DIPJ 2014 (fls. 384 a 1.204) nada provam em favor do Manifestante, já que são documentos que a RFB já possuía quando da emissão do Despacho Decisório, já tendo sido considerados. Ademais, para provar que possui o direito ao saldo negativo ora contestado, não basta simplesmente juntar documentos. Deve ser apresentada ao órgão julgador, de modo detalhado, a relação entre os dados constantes dos documentos juntados e os fatos que pretende justificar, de modo a findar qualquer negativa ou sanar dúvida posta sobre os fatos originalmente apontados pelo Despacho Decisório. Disso o Manifestante não se desincumbiu. Na mesma linha de contestação do Contribuinte, no que diz respeito à tabela copiada à fl. 14, em que alega ter a Autoridade Fiscal homologado valores inferiores de crédito ao que a Manifestante faz jus, uma verificação simples em Dcomp (fls. 41 a 151) indica a correção dos valores confirmados em Despacho Decisório, contrariando a defesa acima. Conforme trechos extraídos da Dcomp transmitida pelo Contribuinte na ordem em que indicados na tabela de fl. 14, o que se verifica é que os valores inseridos em Dcomp conferem com os valores homologados pelo Despacho Decisório, em que pese a possibilidade da existência de valor pouco superior declarado em Dirf (Relação de rendimentos e imposto de renda retido por fonte pagadora - fls. 152 a 383): (...) Ou seja, o que se denota é que o Despacho Decisório tomou como limite do valor a ser deferido aquele declarado pelo Contribuinte em Dcomp. Por exemplo, para o CNPJ 34.274.233(Petrobrás), em que pese haver retenção de CSLL em Dirf no valor de R$ 144.751,89, o valor deferido em Despacho Decisório limitou-se ao valor declarado em Dcomp de R$ 144.576,18, gerando a diferença contestada pelo Manifestante. Com acerto, pois a transmissão de Dcomp implica na indicação da retenção na fonte com o correspondente tomador de serviços ou entidade financeira que pagou os rendimentos (fonte pagadora). A indicação do CNPJ correto em Dcomp, Fl. 1395DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 10 com o valor do imposto retido a ser utilizado na formação do saldo negativo, tem como contrapartida a presunção de cômputo do respectivo rendimento tributável na apuração do lucro do período analisado. Sem a indicação do CNPJ e do respectivo imposto retido, presume-se que o rendimento correspondente (a este imposto retido) não foi oferecido à tributação, em desatendimento ao disposto no inc. III do art. 231 do RIR/99, vigente à época, in verbis (art. 228 do RIR/2018): “Art. 231. Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor (Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º, § 4º): I - dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os respectivos limites, bem assim o disposto no art. 543; II - dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base nº lucro da exploração; III - do imposto pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV - do imposto pago na forma dos arts. 222 a 230.” No mesmo sentido a Súmula nº 80 do CARF, indicada pelo próprio Manifestante em suas alegações defensivas: “Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto.” O instituto da compensação é uma faculdade do contribuinte, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/96, devendo ser exercida dentro dos limites regulamentares determinados pelo órgão aludido no dispositivo: “Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002)” Assim, somente poderiam compor o saldo negativo do período as parcelas de crédito (retenções na fonte) indicadas em Dcomp, cujos rendimentos, por Fl. 1396DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 11 consequência, teriam sido oferecidos à tributação. Desse modo, não há reparos ao Despacho Decisório. A corroborar o acerto do Despacho Decisório e a linha de entendimento acima esposada, verifica-se que à Ficha 57 da DIPJ 2014 transmitida pelo Contribuinte (fls. 384 a 1.204) constam os mesmos valores declarados em Dcomp, conforme trechos abaixo: (...) Ressalte-se que o Contribuinte já havia sido intimado a apresentar documentos que embasassem as parcelas de retenções apontadas, mas permaneceu inerte, conforme trecho do “Relatório de Intervenção” que consta do PA 16682.721201/2013-85 (fls. 1.340 a 1.342), mencionado a título de Documentação Complementar na Análise de Crédito (fls. 1.318 a 1.339 - tela acima copiada), conforme trecho abaixo: (...) Nesse quesito, a invocação da verdade material ou razoabilidade e proporcionalidade para a produção de prova suplementar, realização de diligência fiscal e eventual prova pericial, cujos quesitos foram listados ao final da Manifestação de Inconformidade, não se presta a substituir a obrigatoriedade de comprovação do direito creditório negado com a apresentação da Manifestação de Inconformidade. Nos termos dos arts. 15 e 16 do Decreto nº 70.235/72, caberia ao impugnante juntar os documentos que embasam sua pretensão no momento da apresentação da contestação, conforme abaixo transcrito (grifos meus): “Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Parágrafo único. (Revogado pela Lei nº 11.941, de 2009) Art. 16. A impugnação mencionará: I - a autoridade julgadora a quem é dirigida; II - a qualificação do impugnante; III - os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) IV - as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Fl. 1397DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 12 V - se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1º Considerar-se-á não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) § 2º É defeso ao impugnante, ou a seu representante legal, empregar expressões injuriosas nos escritos apresentados no processo, cabendo ao julgador, de ofício ou a requerimento do ofendido, mandar riscá-las. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) § 3º Quando o impugnante alegar direito municipal, estadual ou estrangeiro, provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim o determinar o julgador. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) refira-se a fato ou a direito superveniente;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) (...)” (...) Assim, não faz jus à CSRF não confirmada pelo Despacho Decisório. 24. Observando o voto, que aqui se adotado, ele foi cirúrgico quando reforçou que cabe ao recorrente comprovar, por meio de documentos hábeis e idôneos, a percepção dos rendimentos, seu oferecimento à tributação e a retenção da CSLL. Contudo, os documentos acostados na Manifestação de Inconformidade não possuem este condão. Todos os documentos ali apresentados já tinham sido levados em consideração quando da lavratura do Despacho Decisório. 25. O julgado a quo ainda reforçou que caberia ao contribuinte comprovar “a percepção dos rendimentos e a sua devida contabilização, identificando o tomador do serviço em cada caso e comprovando o IRRF a que tem direito.” 26. O contribuinte ainda teve a oportunidade de trazer, no seu recurso voluntário, os documentos que comprovassem o provocado pela instância de piso como documentos faltantes (contabilidade, notas fiscais, comprovantes de pagamentos, comprovantes de retenções, etc.). Especialmente deveria ter sido observada a tabela anexa ao Despacho Decisório (tabela nas e-fls. Fl. 1398DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 13 1334 a 1339), onde constam as retenções de CSLL informadas na DCOMP 02483.26315.250814.1.3.03-6074 que foram não confirmadas ou confirmadas parcialmente pelo Despacho Decisório. Mas o contribuinte nem mencionou estas retenções não confirmadas ou confirmadas parcialmente, tanto na Manifestação de Inconformidade, quanto no Recurso Voluntário. 27. A obrigatoriedade de apresentação das provas pelo Recorrente está arrimada nº Código de Processo Civil, em seu art. 373: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. 28. Ao mesmo tempo, o art. 170 do Código Tributário Nacional estabelece a necessidade da certeza e liquidez do direito creditório pleiteado: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. 29. Em suma, instaurada a fase litigiosa do procedimento, cabe ao recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde da comprovação inequívoca de sua liquidez e da certeza. O princípio da busca da verdade material alegado pelo recorrente deve estar associado a outros princípios e diretrizes que norteiam o Processo Administrativo Fiscal, como o ônus da prova e da colaboração, sendo esse último o que impõe ao contribuinte a responsabilidade de apresentar fatos que, independentemente dos documentos dos autos, mostrem a verdade dos fatos e se destinem a solução da lide, objetivo precípuo do Processo Administrativo Fiscal. 30. Desta sorte, o Despacho Decisório em questão não merece ser reformado. Dispositivo 31. Diante do exposto, rejeito a preliminar suscitada e, no mérito, nego provimento ao Recurso Voluntário. 32. É como voto. Assinado Digitalmente Luis Angelo Carneiro Baptista Fl. 1399DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.123 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.904146/2017-91 14 Fl. 1400DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10920.720220/2016-09
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 25 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3301-001.009
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, declinar a competência à Primeira Seção de Julgamento do CARF.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira Presidente
(assinado digitalmente)
Liziane Angelotti Meira
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D' Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Winderley Morais Pereira (Presidente) e Marcos Roberto da Silva (Suplente Convocado).
Relatório
Visando à elucidação do caso, adoto e cito o relatório do constante da decisão recorrida, Acórdão no 11-054.569 - 2ª Turma da DRJ/REC (fls 2.831 e seguintes):
O processo trata dos dois Autos de Infração de fls. 2/19, o primeiro relativo ao IPI não recolhido e lançado com multa de ofício no percentual qualificado de 150%, além de juros, por ter a fiscalização apurado que o estabelecimento deixou de recolher o Imposto em decorrência da escrituração e utilização de crédito indevido, e o segundo relativo a multa regulamentar isolada equivalente a 100% (cem por cento) dos valores das mercadorias, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte autuado, mas que não correspondem à saída efetiva de produtos nelas descritos, tudo conforme descrito no Termo de Verificação de Infração (TVI) de fls. 20/64.
O montante do Auto de Infração com a multa regulamentar soma R$ 18.124.911,91, enquanto os valores do outro são os seguintes:
IMPOSTO 824.467,88
JUROS DE MORA 367.532,62
MULTA PROPORCIONAL (150%) 1.236.701,79
VALOR DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 2.428.702,29
Além do contribuinte Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, foram também autuados, na condição de responsáveis tributários, uma outra pessoa jurídica - a Evolution Comercial Exportadora Ltda, que segundo a fiscalização praticou fraude em conjunto com o contribuinte - e duas pessoas físicas - Humberto Barbosa Lima, que detém 99% do capital integralizado da empresa Dioxyl e a administra isoladamente, e Afonso Henrique Maia Bastos, que detém igual percentual do capital integralizado da Evolution e administra esta de igual modo.
Além do presente Auto de Infração, referido TVI dá conta de outros dois, decorrentes da mesma ação fiscal, de nºs 10920.720219/2016-796 e 10920.720221/2016-45. O primeiro também é relativo ao IPI, lançado com multa de ofício no percentual básico de 75% contra o contribuinte Dioxyl, mas sem os outros sujeitos passivos do Auto do presente processo, enquanto o segundo é relativo ao IRPJ e CSLL lançados com multa qualificada de 150% e os mesmos responsáveis tributários do presente.
O Termo de Verificação de Infração informa:
Considerações Iniciais
Através do Ofício n.º MP/NCCCOET n.º 495/2013 (Documento Memorando SAPAC CURITIBA) e da Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.004681-9 (Documento Notícia de Fato Ministério Público/PR), oriundos do Núcleo de Combate aos Crimes contra a Ordem Econômica e Tributária do Ministério Público do Estado do Paraná, a Delegacia da Receita Federal em Curitiba- PR foi noticiada da possível existência de esquema de empresas ou estabelecimentos comerciais nas quais possam haver lavagem de dinheiro, em razão do porte, do local e da falta de movimento nos locais ... crimes contra sistema nacional financeiro ... venda de notas fiscais frias ... sonegação de tributos federais e estaduais ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... fomento mercantil irregular ... enriquecimento ilícito..., citando diversas empresas e pessoas físicas do Paraná e de Santa Catarina.
Como algumas empresas eram desta jurisdição, a DRF/Curitiba reencaminhou-os a esta DRF/Joinville que, confirmando alguns indícios apontados, instaurou inicialmente fiscalizações contra Evolution, Arueira, Biomade e Norte Sul. Na Evolution, verificou-se que esta prestava serviço de factoring, trocando títulos (duplicatas) emitidos por diversas empresas contra Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, das quais também adquiria produtos com fim específico de exportação. Quanto a Arueira, Biomade e Norte Sul, constatou-se que não tinham movimentação financeira, não declararam receitas, não cumpriam obrigações acessórias, não efetuaram recolhimento de tributos, nem sequer as empresas ou seus sócios foram encontrados nos endereços constantes nos cadastros CNPJ e CPF. As notas fiscais emitidas por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl e Empresa X indicavam como transportador das mercadorias Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel. Procuradas, ambas negaram ter transportado mercadorias daquelas até Dioxyl.
Instauraram-se então procedimentos contra Dioxyl e Empresa X. Analisando-se suas escriturações fiscal e contábil detectaram-se operações semelhantes àquelas com outras empresas que também tinham os mesmos indícios de irregularidades Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.835 5 apresentados por Arueira, Biomade e Norte Sul. As empresas que constam na escrituração de Dioxyl são Arueira, Biomade e Norte Sul, Madesul, Ambiente, GS, MPR, Renari, Harmony, Loyl e J4, que serão referidas daqui por diante como noteiras. O sr. Afonso Henrique Maia Bastos, proprietário de Evolution, é também proprietário de Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., empresa de consultoria tributária.
Afonso, seus irmãos Luciano Maia Bastos e Suzana Paula Maia Bastos Miers, Evolution, Dioxyl, Norte Sul, entre outras diversas pessoas físicas e jurídicas são textualmente citados na denúncia e na Notícia de Fato provenientes do Ministério Público do Estado do Paraná.
Encerrados os trabalhos, comprovou-se a existência de esquema arquitetado por Evolution para emissão de notas fiscais frias por empresas noteiras para basear operações de compra e venda simuladas, com o intuito de geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para aproveitamento em dedução dos tributos devidos por Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, respeitando-se o sigilo fiscal.
A seguir são expostos os elementos que levaram a esta conclusão, as características de cada uma das noteiras envolvidas e, ao final, as infrações à legislação tributária cometidas por Dioxyl.
Funcionamento do esquema As fiscalizações e diligências efetuadas e a análise dos dados disponíveis e coletados revelou um esquema de compras e vendas simuladas de madeira, pallets e móveis orquestrado por Evolution/Maia Bastos e vendido a Dioxyl e Empresa X, para que a estas fossem gerados créditos de impostos e contribuições a fim de diminuir os valores a recolher aos cofres públicos, como noticiado pelo Ministério Público e pelo GAECO do Estado do Paraná.
Evolution Comercial Exportadora Ltda., empresa cujo objeto social é a ... exportação, importação e industrialização de mercadorias na categoria de empresa comercial exportadora, fomento comercial e mercantil, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 do Edifício Milano, Centro, São Bento do Sul-SC, com filial à avenida Pres. Affonso Camargo, 2125, loja B, bairro Cristo Rei, Curitiba-PR, pertence a Afonso Henrique Maia Bastos, que também é proprietário da empresa Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., CNPJ 07.327.085/0001-66, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 do Edifício Milano, Centro, São Bento do Sul-SC (mesmo endereço de Evolution) e não tem filiais.
(...)Os indícios levantados ao longo do amplo trabalho de fiscalização e diligências realizados apontam inequívoca e sobejamente pela existência do esquema descrito e participação das empresas indicadas.
Na parte documental, as noteiras emitiam as notas fiscais de venda comum contra Dioxyl e Empresa X, que imediatamente revendiam as mercadorias com fim específico de exportação a Evolution, no exato valor da compra descontados os créditos tributários que utilizariam. Evolution então dava entrada aos produtos faturados e emitia as notas fiscais de exportação aos clientes exterior. O infográfico abaixo sintetiza o esquema utilizado e os valores envolvidos:
Na parte financeira, as noteiras emitiam títulos (duplicatas) contra Dioxyl e Empresa X pelas suas vendas e imediatamente os descontavam junto à Evolution em operações de factoring. Dioxyl e Empresa X emitiam títulos contra Evolution referentes à suas vendas. Como Dioxyl e Empresa X eram credoras (pelas suas vendas) e devedoras (pelas compras das noteiras cujos títulos foram descontados) a Evolution, faziam-se transferências bancárias mútuas e simultâneas e as dívidas se extinguiam, exceto pela parcela dos créditos tributários gerados que poderiam ser aproveitados por Dioxyl e Empresa X em suas apurações. O infográfico abaixo sintetiza o fluxo financeiro do esquema:
(...)
Acerca dos valores informados em notas fiscais das noteiras e de Dioxyl e Empresa X, mais um fato aponta pela ficção dos documentos. Ao longo de 2011 Evolution teria adquirido R$ 11,6 milhões de Dioxyl e R$ 9,5 milhões de Empresa X em mercadorias para exportação, mas efetivamente exportou R$ 20,7 milhões, R$ 400 mil a menos que as entradas1. Evolution não possui local para estocagem. Mesmo que se leve em conta tratarem-se de valores globais e a possível variação de início e final de ano nos embarques, Evolution teria vendido 1 Segundo as fichas 23 e 25 de sua DIPJ, Evolution teria adquirido de R$ 10,7 milhões de Dioxyl e R$ 10,8 milhões de Empresa X e exportado R$ 21,5 milhões. Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.837 7 mercadorias ao exterior com prejuízo ou por preço muito próximo do custo, algo um tanto difícil de crer.
Ratificando os indícios levantados, em 30/04/2015 o representante de uma das empresas inativas, que efetivamente fabricou os produtos exportados mas encerrou de fato suas atividades logo depois sem recolher qualquer tributo devido, compareceu à Delegacia da Receita Federal em Joinville-SC e prestou declaração, firmada em Termo de Tomada de Declaração, descrevendo e confirmando o modus operandi do esquema descrito acima, relatando que Evolution era quem especificava e encomendava os produtos, que Evolution determinava o faturamento contra Dioxyl e Empresa X, que Evolution pagava pelos produtos, que Evolution trocava imediatamente todos os títulos emitidos, que Evolution contratava o transporte desde sua fábrica diretamente ao porto de embarque, que nunca teve contato comercial com Dioxyl ou Empresa X e, mais importante, que todos sabiam que os faturamentos eram feitos daquela forma para aproveitamento de créditos tributários por Dioxyl e Empresa X.
Ora, se os bens eram produzidos e destinados diretamente ao exterior por Evolution, não ocorreu a tradição dos mesmos entre noteiras e Dioxyl e Empresa X nem entre estas e Evolution. Sendo a tradição condição necessária para validade dos negócios jurídicos (arts. 1226 e 1267 da Lei n.º 10.406/2002 Código Civil) as compras e vendas indicadas nos documentos fiscais não são aptas a produzir efeitos.
As provas coletadas corroboram os elementos trazidos na denúncia feita ao GAECO (venda de notas fiscais frias ... vendas de empresas fantasmas ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... venda de créditos de ICMS ... vendas de notas fiscais para empresas (rede de pessoas que fornecem notas fiscais por 3% do valor da nota) ... fomento mercantil irregular ... emissão de duplicatas frias) e na Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.004681-9 (compra de empresas criadas regularmente, porém inativas ... transferir créditos de ICMS inexistentes, vender notas fiscais frias e fomento mercantil (factoring) irregular ... vender empresas fantasmas) como condutas em tese praticadas por Afonso Henrique Maia Bastos e suas empresas. (...)Como este Termo refere-se ao procedimento fiscal em relação a Dioxyl, a seguir são detalhados os fatos verificados apenas neste contribuinte, destacando-se que as mesmas características foram encontradas na Empresa X, também sob procedimento fiscal com conclusões constantes nos processos administrativos n.º 10920.720243/2016-13 e 10920.720244/2016-50.
Dioxyl Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda. tem como CNAE principal 2071-1-00 Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e lacas. Segundo as notas fiscais eletrônicas NF-e emitidas, ao longo de 2011 produzia e comercializava majoritariamente tintas, vernizes, corantes, resinas e solventes classificados nos capítulos 32, 38 e 39 da TIPI, utilizados por indústrias dos setores moveleiro, metal mecânico, plásticos, vidros, imobiliário e automotivo, conforme consta em seu site www.dioxyl.com.br.
As vendas dos produtos químicos fabricados pela Dioxyl foram feitas apenas no mercado interno, tendo gerado mensalmente débitos de tributos incidentes sobre o faturamento (ICMS, IPI, PIS e Cofins). Em relação a esses, por se tratar de tributos não-cumulativos, foi possível a dedução de créditos (referentes a entradas tributadas de insumos) dos débitos apurados, conta que, restando positiva, é o valor a recolher aos cofres públicos. Portanto, quanto mais créditos houver menor o valor a pagar.
Por outro lado, as operações focadas nesta auditoria referem-se a compras e vendas de madeiras, pallets e móveis, atividades totalmente diversas do objeto principal de Dioxyl, os produtos químicos. Restou claro que esta foi a grande beneficiada das operações simuladas, pois aproveitou os créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins, nas alíquotas de 17%, 5%, 1,65% e 7,6% respectivamente, para dedução dos montantes devidos decorrentes de suas reais operações.
A vantagem indevida era gerada por meio do registro das entradas no CFOP 1.102 Compra para revenda e, como os bens entrados eram diretamente revendidos a Evolution com fim específico de exportação, pelo registro das saídas sob CFOP 5.502 Remessa de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros, com fim específico de exportação, operação esta feita com suspensão de IPI (art. 43, V, a, do Decreto n.º 7.212/2010 Regulamento do IPI), isenta da Contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins (art. 5.º da Lei n.º 10.637/2002 e art. 6.º da Lei n.º 10.833/2003) e objeto de não-incidência de ICMS (art. 6.º, inciso II e §1.º inciso I, do Decreto n.º 2.870/2001 Regulamento do ICMS/SC).
(...)Verifica-se que 2380 unidades de painel de madeira... escriturados sob código DV02240 entraram por R$ 158.986,38, gerando créditos tributários de R$ 47.317,38 e resultando num custo contabilizado de R$ 111.669,00, e que 2380 unidades de mercadoria com código e descrição idênticos foram faturadas para Evolution por R$ 111.669,00, exatamente o valor da nota de entrada descontada dos tributos (70,2% da nota de entrada).
(...)Neste verifica-se que os produtos entraram por R$ 72.204,30, gerando créditos tributários de R$ 21.489,39 e resultando num custo contabilizado de R$ 50.714,91, e que produtos com código, descrição e quantidades idênticos foram faturados para Evolution por R$ 50.714,90 (70,2% da nota de entrada).
Por que motivo uma empresa com fim lucrativo efetuaria operações como as descritas acima, movimentando cerca de R$ 15 milhões na compra mercadorias para revendê-las pelo preço de custo, sem auferir lucro algum? Qual o propósito negocial ou a lógica comercial de tais operações?
Efetuaram-se cruzamentos semelhantes para as outras notas fiscais das noteiras e de Dioxyl, sintetizados na planilha Comparativo Lançamentos Contábeis Noteiras x Evolution.
Detectaram-se 127 operações similares às citadas acima, identificadas pelo código XX-YY, onde XX são as letras iniciais da noteira e YY o número sequencial, envolvendo 178 notas fiscais de entrada. Os exemplos acima estão identificados por AM-01 e NO-21. Além daquelas, outras 63 notas fiscais emitidas pelas noteiras foram escrituradas por Dioxyl, que aproveitou os créditos tributários decorrentes de tais entradas.
Sob outro aspecto, todas as notas fiscais emitidas por Dioxyl contra Evolution indicavam como transportador o próprio emitente. Inquiriu-se Dioxyl a informar sobre as formas de entrega dos produtos vendidos e, caso tivesse havido entrega de produtos com veículo próprio, para apresentar cópias dos Certificados de Registro e Licenciamento (CRLVs) ou documento equivalente dos veículos de propriedade da empresa naquele ano, bem como detalhamento da conta contábil 196 Veículos, que apresentava saldo inicial de R$ 140.984,19 e saldo final R$ 109.300,00 apenas, indícios de que a empresa não possuía frota própria.
Em resposta, Dioxyl afirmou que todas as mercadorias/produtos (objetos desta fiscalização ... sempre que comercializados, foram retirados de nossa empresa por transportadora contratada pela comercial exportadora, em contraposição ao consignado nas notas fiscais.
Também não entregou documentos dos veículos ou detalhamento da conta contábil. Ou seja, também a forma de transporte indicado nas notas fiscais aponta pela ficção dos documentos.
Este foi o procedimento fraudulento de emissão de documentos fiscais por Dioxyl.
A parte financeira do esquema iniciava-se com a emissão de títulos (duplicatas) em nome das noteiras no valor integral da nota fiscal, divididos em 3 parcelas com 70%, 25% e 5% do valor total2, imediatamente descontados em operações de factoring junto à Evolution, que escriturava todas as suas operações de factoring em totalizações mensais a débito na conta Clientes Diversos e a crédito em Caixa e Receita Financeira, como no exemplo abaixo:
2 Em algumas operações a parcela de 70% foi dividida em dois títulos.
(...)Quando Dioxyl revendia as mercadorias, emitia apenas um título contra Evolution no valor total da nota fiscal que, como demonstrado, eram os mesmos 70% da nota de entrada referente.
Evolution foi intimada a apresentar os comprovantes de pagamento pelas aquisições de mercadorias e efetivamente apresentou transferências bancárias à Dioxyl nos valores corretos. Dioxyl também foi intimada a apresentar comprovantes de pagamento pelas aquisições junto às noteiras e apresentou, para os títulos de 70% do valor, transferências bancárias à Evolution.
A análise dos comprovantes destes pagamentos não deixa dúvidas quanto ao conluio Evolution-Dioxyl. Numa incrível coincidência, as transferências bancárias de ambas as partes eram simultâneas, feitas nos mesmos valores, datas e horas, com diferença de poucos segundos, veja-se os comprovantes bancários e os lançamentos contábeis das operações AM-01 e NO-21 já citadas acima:
(...)Desta forma, Evolution dava por quitada sua compra e Dioxyl quitava a duplicata com 70% do valor devido à noteira cujo título estava em poder de Evolution.
Quanto aos títulos com 25% do valor, os comprovantes de pagamento fornecidos por Dioxyl na maioria pagamentos de boletos bancários também indicavam Evolution como beneficiária. Cerca de ¼ destes títulos tiveram vencimento naquele ano de 2011. Em sua contabilidade Dioxyl escriturava os pagamentos a débito em Bancos contra as contas das noteiras a crédito, já Evolution não fazia registro algum da entrada destes recursos, apesar das operações de factoring terem sido registradas na conta Clientes Diversos. Os ¾ restantes dos títulos venciam em 2012 e até em 2013, período fora do escopo deste trabalho.
Restavam então os títulos de 5% do valor que, pelos elementos colhidos e a informação da denúncia sobre pagamento de 3% do valor de cada nota fiscal fria, levam a crer ser a remuneração paga a Evolution/Maia Bastos pelos créditos fictícios. Aparentemente baixo, cabe ressaltar que o valor pago por Dioxyl sobre cada nota fiscal equivale em verdade a 16,67% do ganho obtido em créditos. (...)Apesar de intimada para comprovar o pagamento dos títulos de 5%, Dioxyl apresentou somente duplicatas mercantis recibadas de apenas algumas destas operações, em que também se notam semelhanças grotescas. Duplicatas emitidas por empresas distintas eram preenchidas por pessoas com grafias muito semelhantes, senão idênticas. Vejam-se abaixo recortes dos títulos 106/3 de Norte Sul e 31/3 de Arueira:
(...)Assim, na parte financeira o esquema estava concluso em Dioxyl.
Na Evolution, comprovados seus pagamentos pelas compras junto a Dioxyl e seus recebimentos de Dioxyl pelos títulos de 70% e 25% descontados, faltava a outra ponta do esquema: a aquisição por Evolution de títulos emitidos pelas noteiras.
Evolution foi intimada a comprovar os pagamentos pelas aquisições de títulos emitidos por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl. Trouxe documentos para 111 títulos com valores totais de face de R$ 4.566.688,17 e de aquisição de R$ 3.919.612,15. Os documentos entregues para comprovação de pagamento, totalizando R$ 3.315.057,25 (R$ 635.247,90 a menor), não apresentavam relação direta nem identificação com quaisquer dos títulos, das pessoas jurídicas emitentes (noteiras) ou dos sócios destas. Pelo contrário, tinham inúmeras inconsistências.
(...)Outra característica peculiar dos cheques é que na maioria foram preenchidos e assinados pela auxiliar administrativa sra. Silvana Tamanine Richter, que recebeu a fiscalização quando estivemos na Evolution, veja-se cópia de um cheque e de recebimento do Termo de Início:
(...)Segundo informações de GFIP, esta pessoa tinha salário mensal de R$ 1.090,00 em 2011. Causa no mínimo estranheza que um mero auxiliar administrativo, com rendimento de apenas dois salários mínimos vigentes à época, tivesse poderes para movimentar milhões de reais das contas bancárias da empresa.
Em sua contabilidade, Evolution escriturou todos os cheques do Bradesco e alguns cheques do Banco do Brasil (apenas os emitidos até 01/03/2011) contra a conta Caixa a débito, ou seja, reduzindo saldo de Bancos e aumentando Caixa. Não há despesas pagas via caixa a que se possam atribuir os valores provenientes de Bancos. Desta forma, não permite identificar quem foram os beneficiários dos pagamentos nem mesmo se realmente houve algum pagamento de fato. Esses elementos indicam que os cheques apresentados não representam pagamentos relativos a transações comerciais, mas somente documentos gerados com a finalidade de justificar a simulação da compra dos títulos por Evolution.
(...)Ficou claro que Evolution não dispunha de comprovação de pagamento das aquisições dos títulos, angariando documentos esparsos e sem conexão alguns de suas próprias despesas, alguns com indícios de serem pagamentos aos reais fabricantes das mercadorias na tentativa justificá-las, deixando patente a total simulação das operações de factoring com as noteiras.
Ora, diante do rol de fortes indícios apontados, a única conclusão possível é de que todas as transações entre noteiras, Dioxyl e Evolution foram simuladas em plano operado por Evolution/Maia Bastos, que vendeu a Dioxyl esquema de planejamento tributário fraudulento de compras e vendas fictícias com o único intuito de gerar créditos tributários com vistas à evasão fiscal. Em verdade, as madeiras, pallets e móveis foram produzidos a mando de e sempre pertenceram a Evolution, pois transitaram apenas documentalmente por Dioxyl.
As noteiras As empresas Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony, referidas como noteiras, tinham como papel no esquema a emissão de notas fiscais contra Dioxyl.
Segundo verificado no curso deste procedimento fiscal, Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente e Alpha Loyl não tinham qualquer atividade, seja financeira ou comercial nem mesmo sede. Também, seus sócios demonstraram não ter capacidade econômica para iniciar as atividades ou ingressar nas empresas das quais faziam parte. Assim, sua única finalidade era emitir notas fiscais a serem utilizadas na geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para Dioxyl e outras empresas. Inclusive, vislumbrado esse quadro, de forma incidental as pessoas jurídicas em apreço foram baixadas ou estão em processo de baixa de suas inscrições no cadastro CNPJ.
Por seu turno, Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato, porquanto desempenharam suas atividades. Contudo, assim como as outras pessoas jurídicas, também emitiram notas fiscais contra Dioxyl como se esta fosse compradora de suas mercadorias, o que não aconteceu, conforme demonstrado anteriormente.
As conclusões individuais dos procedimentos fiscais contra cada uma das noteiras estão detalhadas no Anexo Noteiras, do qual faz parte integrante.
Transportadoras As transportadoras Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel constam na maioria das notas fiscais emitidas pelas noteiras como transportador das mercadorias entre elas e Dioxyl. Intimada a apresentar conhecimentos de transporte relativos a elas, Dioxyl respondeu apenas que o transporte de mercadorias ... era de responsabilidade dos fornecedores, sem trazer qualquer documento.
Em 08/12/2014 e 12/02/2015 as transportadoras foram intimadas a informar se ao longo de 2011 prestaram algum serviço às noteiras e à Evolution. As respostas foram protocoladas em 16/12/2014 e 26/02/2015. Transportes Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.842 12 Rodomovel informou que não prestou serviços de transporte para a[s] empresa[s]. Rodomoveis Transportes informou que não prestou diretamente serviços de transportes para a empresa ... mas carregamos mercadorias nas dependências da empresa, através da Evolution Comercial Exportadora Ltda., a qual prestamos serviços. Por ocasião da entrega da 2.ª intimação, inquiriu-se o representante das transportadoras sobre suas operações com Evolution, sobre o que relatou que transportava contêineres diretamente de diversos produtores de móveis ao porto de Itajaí-SC, sempre a mando da própria Evolution, conforme conhecimentos de transporte anexados na resposta à intimação anterior.
Também se inquiriu sobre sua relação comercial com Dioxyl, ao que respondeu que nunca transportou mercadorias seja ela como origem ou destino e que já teve que responder pergunta semelhante ao Fisco do Estado de São Paulo. Apresentou então um Termo de Declaração à Delegacia de Polícia da Comarca de São Bento do Sul-SC (Documento Rodomóveis - Boletim ocorrência DRPC) feita em 17/11/2014 no qual informa que não encontrou nos registros da empresa nenhum transporte de mercadorias para a empresa Dioxyl Revestimentos Químicos. Não tivemos acesso ao inquérito policial, mas o relato e as circunstâncias levam a crer se tratar do mesmo tema aqui versado.
Assim, claro está que as transportadoras indicadas nas notas fiscais emitidas pelas noteiras contra Dioxyl não prestaram tal serviço. Houve apenas transporte de mercadorias entre diversos fabricantes e o porto, sob contratação de Evolution e amparado por sua nota fiscal de exportação.
Infrações verificadas Segundo a Portaria MF n.º 187/1993, art. 4.º, sempre que, no decorrer de ação fiscal, forem encontrados documentos emitidos em nome de pessoa jurídica que não exista de fato e de direito ou apesar de constituída formalmente, não possua existência de fato, o contribuinte sob fiscalização deverá ser intimado para comprovar o efetivo pagamento e recebimento dos bens, sob pena de ter glosados os custos e as despesas decorrentes do pagamento não comprovado e ter glosado o crédito fiscal originário de documento inidôneo.
A relação de todas as notas fiscais de entrada de compras fictícias das noteiras encontra-se na planilha Notas Fiscais de Entrada Noteiras, totalizando R$ 18.124.911,91, e das notas fiscais de saída com vendas simuladas para Evolution encontra-se na planilha Notas Fiscais de Saída Evolution, totalizando R$ 9.495.663,36.
As notas fiscais de entrada emitidas pelas noteiras e os respectivos comprovantes de pagamento por Dioxyl compõem o documento NFs de Entrada e Comprovantes de Pagamento. As notas fiscais de saída emitidas por Dioxyl e os respectivos comprovantes de pagamento por Evolution, o documento NFs de Saída e Comprovantes de Pagamento.
Na esfera federal importam os reflexos das compras e vendas simuladas na apuração do IPI, da Contribuição para o PIS/PASEP, da Cofins, do IRPJ e da CSLL, sobre os quais se passa a expor.
Quanto ao Imposto sobre Produtos Industrializados Segundo o livro Registro de Apuração do IPI, extraído da EFD-ICMS/IPI, Dioxyl apurou saldos devedores entre janeiro e outubro/2011, declarados corretamente Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.843 13 em DCTF, exceto do período de apuração fevereiro/2011 declarado por R$ 607,48, quando o saldo devedor do RAIPI foi R$ 105.605,67. Intimado a esclarecer esta divergência, afirmou o contribuinte que o saldo devedor de IPI correto é o informado na DCTF, a diferença verificada será corrigida através da retificação extemporânea do EFD ICMS-IPI. Esta escrituração fiscal substituta serviu então de base ao lançamento para o período fevereiro/2011.
Todas as notas fiscais de entrada da planilha Notas Fiscais de Entrada Noteiras foram creditadas de IPI, pois escrituradas na EFD-ICMS/IPI sob Código da Situação Tributária CST 00 Entrada com Recuperação de Crédito. Dessa forma, por se tratarem de créditos fraudulentos, efetuou-se a glosa dos créditos computados sobre estas entradas.
(...)Ainda em relação às operações fictícias, como se tratam de notas fiscais irregulares que não correspondiam à efetiva entrada de mercadorias e que o contribuinte registrou e utilizou, cabível ainda a imposição da multa regulamentar prevista no art. 572 do RIPI:
(...)Assim, em relação ao IPI, cabível o lançamento de ofício de R$ 824.467,88 de tributo com multa de ofício de 150% sobre o tributo devido e multa regulamentar de R$ 18.124.911,91 (somatório do valor das mercadorias, campo Valor dos Produtos, consignado nas notas fiscais), contra Dioxyl como contribuinte e Evolution, Afonso e Humberto como responsáveis solidários (vide tópico sobre responsabilidade solidária mais à frente), efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720220/2016-09.
Além destes, cabe ainda o lançamento de ofício de R$ 155.824,54 com multa de ofício de 75% pela glosa das demais aquisições para revenda, efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720219/2016-76.
(...)Imposição de multa qualificada (...)Todo o conjunto indiciário levantado ao longo deste trabalho aponta para a existência de fraude e ajuste doloso (conluio) a fim de reduzir o montante de imposto devido. É inescapável que tanto Dioxyl como Evolution, através de seus administradores, agiram com a deliberada intenção de reduzir os tributos devidos por aquela através de compras e vendas fictícias. Desta maneira, nos lançamentos de ofício decorrentes de tais operações impõe-se a aplicação de multa qualificada de 150% sobre o tributo apurado, independentemente das demais penalidades cabíveis.
Responsabilidade Solidária As constatações retroexpostas são mais que suficientes a provar o interesse comum de Dioxyl e Evolution na situação fática, qual seja, simulação de compras e vendas fictícias para redução do montante de tributos devidos. A parte financeira revelada deixa inequívoco que Evolution não só participava ativamente, mas também era mentora e administradora das transações simuladas Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.844 14 e que, pelos créditos tributários aproveitados, recebia 5% do valor de cada nota fiscal fictícia emitida pelas noteiras ou 16,67% do crédito gerado na simulação.
Os comprovantes bancários das transferências e pagamentos feitos por Dioxyl a Evolution referentes às parcelas de 70% e 25% das notas fiscais trazem expresso que as transações foram efetuadas com sucesso por Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, sócio da Dioxyl com 99% do capital social integralizado8, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e atendeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento.
Já os comprovantes bancários entregues por Evolution de pagamentos feitos a Dioxyl e de pagamentos ditos como feitos a terceiros pela compra dos títulos das noteiras trazem escrito que as transações foram efetuadas com sucesso por Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72, sócio da Evolution com 99% do capital social integralizado9, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e respondeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento.
Prova inconteste do estreito relacionamento entre ambos, Afonso Henrique Maia Bastos foi o advogado constituído por Humberto para impetrar o mandado de segurança n.º 2007.72.01.004828-6/SC junto à Justiça Federal da 4.ª Região em nome de Dioxyl a fim de discutir o direito de crédito do IPI em relação aos insumos isentos, não-tributados ou sujeitos a alíquota zero, arquivado em julho/2010 após sentença desfavorável ao contribuinte. Também representa Dioxyl nas ações de execução fiscal n.º 0005254-63.2002.8.24.0058 e 0001948-13.2007.8.24.0058 movidas pela Fazenda Nacional perante o Poder Judiciário de Santa Catarina, conforme consultas processuais (Documento Consulta Justiça).
Ora, sendo Humberto e Afonso os administradores das empresas, que efetuavam as transações bancárias e, em última instância, os reais beneficiários da fraude, ficam patentes suas participações dolosas nas operações aqui expostas.
O Código Tributário Nacional, Lei n.º 5.172/1966, dispõe que (a fiscalização transcreve os arts. 124, I, e 135, III):
(...)Assim, cabível a responsabilização solidária de Evolution Comercial Exportadora Ltda., CNPJ 05.699.094/0001-52, Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, e Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72, pelos créditos tributários ora constituídos decorrentes das operações fraudulentas.
Representação Fiscal para Fins Penais (...)As condutas dos agentes e os elementos expostos ao longo deste trabalho configuram, em tese, crimes contra a ordem tributária, razão pela qual lavrou-se Representação Fiscal para Fins Penais no âmbito do processo administrativo n.º 10920.720225/2016-23 contra Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, e de Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72.
Nas fls. 50/64, com um anexo que integra o Termo de Verificação, a fiscalização trata das empresas "noteiras", descrevendo as conclusões individuais dos Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.845 15 procedimentos fiscais contra cada uma delas, a saber: Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony.
O contribuinte, pessoa jurídica, e os três responsáveis tributários (a pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda e as duas pessoas físicas administradoras - desta e da jurídica autuada como contribuinte) foram cientificados regularmente do Auto de Infração e das responsabilidades em 11/02/2016 (ver fls. 2627/2637) e apresentaram em 14/03/2016 impugnações tempestivas, isoladamente.
O contribuinte, cuja Impugnação consta das fls. 2737/2771, alega inicialmente a decadência do lançamento, ressaltando que o prazo para constituição do crédito tributário decai em cinco anos.
Em seguida, no item 3 da peça impugnatória, argui haver "incongruência da narrativa utilizada pelo agente fiscal" e que todo o lançamento é baseado em presunção da existência de operações simuladas entre a Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, contribuinte, e as empresas denominadas noteiras. Observa que os Auditores Fiscais, apesar de considerarem as operações simuladas, "por diversas vezes reconhecem a efetiva exportação das mercadorias, ou seja, as operações existiram de fato", citando passagens do TVI no sentido de que os produtos foram fabricados por sujeitos indeterminados a mando da Evolution, foram por ela exportados e as empresas Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato.
Para o contribuinte, as operações tratam de compra e venda legítimas e os Auditores-Fiscais agiram com abuso de poder e de modo contrário às normas tributárias, afrontando o princípio da legalidade, a respeito do qual cita doutrina.
Afirma no item 4 inexistir vedação legal às operações, refutando a acusação de simulação. Segundo o contribuinte, "constata-se a ocorrência do erro da autoridade autuante, no tocante ao enquadramento legal do fato descrito (tipificação), posto que os dispositivos legais constantes da Lei Federal invocados pelos agentes fiscais, não discriminam e não se coadunam com o suporte fático concreto, de onde resulta a inocorrência de fato imputável ao Contribuinte e, como conseqüência, gera a nulidade do Auto de Infração". Entende que, "Para que se possa caracterizar a simulação é indispensável que o ato praticado, que se pretende dissimular sob o manto do ato ostensivamente praticado, não pudesse ser realizado por vedação legal ou qualquer outra razão. Como as partes realizaram o negócio não restou caracterizada a declaração enganosa de vontade, essencial na simulação". Também argui ofensa ao princípio constitucional da ampla defesa, mencionando o art. 5º, LV, da Constituição Federal, contesta "a multa de 205" (ipsis literis) e reputa nulo o Auto de Infração "por não haver penalidade sem lei anterior que a defina, nem infração sem disposição expressa que o tipifique" (final da primeira do item 4 da Impugnação do contribuinte, que possui outro tópico sob o mesmo número, intitulado "DA LEGITIMIDADE DAS OPERAÇÕES"). Continua refutando a fiscalização nos itens seguintes, até o de nº 9, onde afirma que "para que pudesse haver autuação o fisco deveria estar embasado em provas robustas e não em meras SUPOSIÇÕES e CONCLUSÕES PRÓPRIAS", concluindo o seguinte: "Torna-se pois, imperioso como medida de justiça, a anulação dos objurgados itens, uma vez que, no caso em tela, o direito líquido e certo da Impugnante, está materializado em face da constante Ilegalidade e Abusividade dos atos praticados pela autoridade fiscal."
O item 10 é dedicado especificamente aos dois Autos de Infração do presente processo, e nele o contribuinte defende o direito aos créditos do IPI, oriundo das operações que a autuação reputou simuladas (a fiscalização considerou que as empresas "noteiras" emitiam notas fiscais frias, gerando créditos do IPI e outros tributos em favor da Dioxyl).
Reportando-se ao princípio constitucional da não cumulatividade que rege o IPI e à suspensão do Imposto nas saídas de produtos destinados à exportação (menciona o art. 43, V, e § 1º, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 - RIPI/2010), afirma que "de nenhuma forma a primeira operação realizada entre a Dioxyl e a empresa produtora da mercadoria por (sic) ser considerada como fim específico para exportação, apenas a revenda do produto da Dioxyl para a Evolution" e, assim, "é assegurado a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto". Também se insurge contra a multa isolada de 100% (lançada em Auto separado, com base no art. 572, II, do RIPI/2010, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte Dioxyl), repisando que todas as operações são legítimas e foram realizadas dentro do "rigorismo fiscal". Por ter agido dentro dos ditames legais, argui que "fica de plano afastada qualquer possibilidade de sanção", além de reputar confiscatória e contrária ao princípio da capacidade contributiva a multa aplicada (no subitem 10.3 da peça impugnatória, sob o título "DA NECESSIDADE DE APURAÇÃO DO VALOR CORRETO DO IMPOSTO E DO DESCABIMENTO DE JUROS E MULTA", se refere ora à penalidade de 150% sobre os valores do IPI lançados de ofício, ora à de isolada de 100%, pois num ponto afirma que "a multa sobre os valores discutidos tem a forma de verdadeiro confisco" e, mais adiante, que "No caso concreto, a norma sancionante atribuiu uma penalidade ao hipotético 'ilícito', ou seja, a multa sobre o valor total dos créditos, legal e licitamente aproveitados, em conformidade com a legislação em vigor"). No subitem seguinte ainda considera que "Não há nenhum motivo lícito para a exigência de multa", pelo que da exigência "nasce o enriquecimento ilícito do Erário Público em detrimento do Contribuinte, vedado pela legislação e pelos princípios gerais do direito". O item 11 trata do processo nº 10920.720221/2016-45, relativo ao Auto de Infração do IRPJ e CSLL, enquanto o seguinte é dedicado ao processo nº 10920.720219/2016-76, relativo ao IPI, mas com multa de ofício no percentual de 75% (este foi julgado por esta 2ª Turma em 31/10/2016, que manteve o lançamento conforme o Acórdão nº 11-054.185).
Ao final, no item 13, o contribuinte requer o seguinte:
a) Primeiramente, o acolhimento da preliminar retro, para reconhecer a decadência dos débitos tributário (sic), com o conseqüente cancelamento (arquivamento);
b) Ainda, no mérito, reconheça a IMPROCEDÊNCIA dos presentes Autos de Infração, declarando-se extinta a pretensão fiscal, excluindo-se a aplicação das penalidades, pelos fundamentos de fato e de direito anteriormente expendidos.
A pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda, autuada na condição de responsável tributário, apresenta a Impugnação de fls. 2689/2724, onde repisa as alegações do contribuinte Dioxyl. Há pequenas diferenças, como a arguição de que "Causa Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.847 17 surpresa à Impugnante os termos utilizados que além de denegrirem a imagem da empresa e do sócio, trazem-lhes prejuízo de ordem moral" (fl. 2691), e a reiteração da informação de que a empresa responsável pela contabilidade da Evolution "foi atingida por enchente no decorrer do ano de 2014, o que ocasionou a perda de grande quantidade de documentação" (fl. 2706), ambas ausentes no texto do contribuinte, e é acrescentado um item sob o título "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA". Neste tópico é refutado o emprego do art. 124, I, do CTN, citado nos Autos de Infração em relação à Evolution (a responsabilidade das duas pessoas físicas é enquadrada no art. 135 do mesmo Código), que alega:
- a solidariedade do referido dispositivo 'somente pode existir entre sujeitos que figurem no mesmo pólo de relação obrigacional, pois só assim o interesse poderá ser considerado como comum"; - "O interesse comum não pode ser presumido em razão de um fato escolhido pelo legislador ordinário", que não pode subverter o sentido dos dispositivos do CTN;
- nem o interesse comum, requisito da solidariedade, nem esta, pode ser presumido;
- as relações entre a Dioxyl e a Evolution se restringiam a compra e venda de mercadorias para serem exportadas ou compra e venda de títulos através de fomento mercantil, inexistindo qualquer conluio visando fraudar a fiscalização, além de constituírem interesses antagônicos;
- a Evolution e a Maia Bastos Assessoria Empresarial são empresas distintas e esta prestou sim assessoria empresarial à Dioxyl;
- "Se tivesse havido operação simulada, poderia haver imputação de responsabilidade tributária ao adquirente com supedâneo no cometimento de ilícitos, mas esta jamais poderá advir do artigo 124, I, do CTN, porque o interesse comum não existe neste hipótese, e nem a solidariedade é um meio de incluir um terceiro no pólo passivo da obrigação tributária."
Ao final a Evolution requer a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade da empresa Evolution Comercial Exportadora, por inexistir operações simuladas ou interesse comum com a Dioxyl". A pessoa física Humberto Barbosa Lima também impugna os lançamentos (fls. 2787/2823), reproduzindo os termos do contribuinte Dioxyl com acréscimo de um item intitulado "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE DO SÓCIO". Neste item rejeita a responsabilidade que lhe foi atribuída com base nos arts. 124, I, e 135, III, do CTN (nos Autos de Infração é mencionado apenas o primeiro dispositivo, mas no TVI constam os dois), arguindo que, como sócio, não pode ser responsabilizado "pela infrações supostamente cometidas pela pessoa jurídica, pois sempre agiu dentro da lei e do contrato social", sendo nula a pretensão fazendária em responsabilizá-lo sem demonstrar que praticou infração à lei ou ao contrato social da sociedade. Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.848 18 No requerimento pede a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade do sócio Humberto Barbosa Lima, pois sempre agiu dentro da lei
Analisada a manifestação de inconformidade, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou improcedente a manifestação de inconformidade, com a seguinte ementa (fl. 2.831):
Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 IPI. REDUÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO MEDIANTE CRÉDITOS SIMULADOS. NOTAS FISCAIS EMITIDAS EM NOME DE EMPRESA DE FACHADA. DOLO CARACTERIZADO. MULTA QUALIFICADA.
Caracteriza fraude, ensejando o lançamento de ofício do tributo com aplicação da multa qualificada no percentual de 150%, o creditamento do IPI com base em notas fiscais emitidas por empresas de fachada, simulando aquisições que inexistiram e reduzindo o montante do Imposto devido.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. 150%. FRAUDE E CONLUIO. LEGALIDADE.
A multa de ofício no percentual qualificado de cento e cinquenta por cento, aplicada nos lançamentos de ofício quando caracterizada a fraude, é prevista na legislação do IPI e nada tem de ilegal.
MULTA REGULAMENTAR. APROVEITAMENTO DE NOTAS FISCAIS QUE NÃO CORRESPONDEM A EFETIVA SAÍDA. RIPI/2010, ART. 572, II. PENALIDADE IGUAL AO VALOR COMERCIAL DA MERCADORIA.
Nos termos do art. 572, II, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010, aos que, em proveito próprio ou alheio, utilizam ou registram nota fiscal que não corresponda à saída efetiva das mercadorias nela constantes, aplica-se a multa isolada equivalente ao valor das mercadorias.
JUROS DE MORA. SELIC. LEGALIDADE.
Nos lançamentos de ofício é cabível aplicação dos juros de mora com base na taxa Selic, nos termos da legislação vigente.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.832 2 Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CINCO ANOS. DOLO. TERMO INICIAL DO PRAZO QUINQUENAL DESLOCADO PARA O INÍCIO DO ANO SEGUINTE AO DO FATO GERADOR.
O prazo para a Fazenda constituir o crédito tributário de tributos submetidos ao lançamento por homologação, como o IPI, é de cinco anos, começando a contagem do quinquênio, regra geral, do fato gerador, na forma do art. 150, § 4º, do CTN. Todavia, no caso de dolo o termo inicial é deslocado para o primeiro dia do ano seguinte, nos termos do art. 173, I, do mesmo Código.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PESSOA JURÍDICA ENVOLVIDA EM FRAUDE. CONLUIO. ART. 124, I, DO CTN. SOLIDARIEDADE DE FATO.
A solidariedade de fato, prevista no art. 124, I, do Código Tributário Nacional, atinge a pessoa jurídica que, mediante fraude, contribui para reduzir tributo de outra empresa, com ela conluiada.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ADMINISTRADORES. DOLO CARACTERIZADO. CTN, ART. 135, III. INCLUSÃO NO POLO PASSIVO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA.
Caracterizado o dolo, por estar comprovada a utilização de notas fiscais sem a efetiva saída de mercadorias, em simulação visando reduzir o recolhimento de tributo e permitir informações inverídicas à Receita Federal, os administradores da pessoa jurídica também respondem pela obrigação tributária, de modo solidário e sem benefício de ordem, nos termos do art. 135, III, do Código Tributário Nacional.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE OU ILEGALIDADE. MATÉRIA DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA DO JUDICIÁRIO.
Argüições de inconstitucionalidade ou ilegalidade constituem matéria de competência exclusiva do Poder Judiciário, não sendo utilizadas como fundamento em decisões deste Colegiado.
AUTOS DE INFRAÇÃO CONTENDO AS MATÉRIAS TRIBUTADAS E RESPECTIVOS ENQUADRAMENTOS LEGAIS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. NULIDADE REJEITADA.
Não caracteriza a preterição do direito de defesa, a suscitar a nulidade dos lançamentos, os autos de infração que atendem ao disposto no art. 10 do Decreto nº 70.235/72, identificam as matérias tributadas e contêm os Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.833 3 enquadramentos legais correlatos, demonstrando com clareza as exigências.
Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido
Foram apresentados Recursos Voluntários, conforme se verifica às. fls. 2.880 e seguintes.
É o relatório.
Voto
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ano_sessao_s : 2018
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, declinar a competência à Primeira Seção de Julgamento do CARF. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D' Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Winderley Morais Pereira (Presidente) e Marcos Roberto da Silva (Suplente Convocado). Relatório Visando à elucidação do caso, adoto e cito o relatório do constante da decisão recorrida, Acórdão no 11-054.569 - 2ª Turma da DRJ/REC (fls 2.831 e seguintes): O processo trata dos dois Autos de Infração de fls. 2/19, o primeiro relativo ao IPI não recolhido e lançado com multa de ofício no percentual qualificado de 150%, além de juros, por ter a fiscalização apurado que o estabelecimento deixou de recolher o Imposto em decorrência da escrituração e utilização de crédito indevido, e o segundo relativo a multa regulamentar isolada equivalente a 100% (cem por cento) dos valores das mercadorias, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte autuado, mas que não correspondem à saída efetiva de produtos nelas descritos, tudo conforme descrito no Termo de Verificação de Infração (TVI) de fls. 20/64. O montante do Auto de Infração com a multa regulamentar soma R$ 18.124.911,91, enquanto os valores do outro são os seguintes: IMPOSTO 824.467,88 JUROS DE MORA 367.532,62 MULTA PROPORCIONAL (150%) 1.236.701,79 VALOR DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 2.428.702,29 Além do contribuinte Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, foram também autuados, na condição de responsáveis tributários, uma outra pessoa jurídica - a Evolution Comercial Exportadora Ltda, que segundo a fiscalização praticou fraude em conjunto com o contribuinte - e duas pessoas físicas - Humberto Barbosa Lima, que detém 99% do capital integralizado da empresa Dioxyl e a administra isoladamente, e Afonso Henrique Maia Bastos, que detém igual percentual do capital integralizado da Evolution e administra esta de igual modo. Além do presente Auto de Infração, referido TVI dá conta de outros dois, decorrentes da mesma ação fiscal, de nºs 10920.720219/2016-796 e 10920.720221/2016-45. O primeiro também é relativo ao IPI, lançado com multa de ofício no percentual básico de 75% contra o contribuinte Dioxyl, mas sem os outros sujeitos passivos do Auto do presente processo, enquanto o segundo é relativo ao IRPJ e CSLL lançados com multa qualificada de 150% e os mesmos responsáveis tributários do presente. O Termo de Verificação de Infração informa: Considerações Iniciais Através do Ofício n.º MP/NCCCOET n.º 495/2013 (Documento Memorando SAPAC CURITIBA) e da Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.004681-9 (Documento Notícia de Fato Ministério Público/PR), oriundos do Núcleo de Combate aos Crimes contra a Ordem Econômica e Tributária do Ministério Público do Estado do Paraná, a Delegacia da Receita Federal em Curitiba- PR foi noticiada da possível existência de esquema de empresas ou estabelecimentos comerciais nas quais possam haver lavagem de dinheiro, em razão do porte, do local e da falta de movimento nos locais ... crimes contra sistema nacional financeiro ... venda de notas fiscais frias ... sonegação de tributos federais e estaduais ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... fomento mercantil irregular ... enriquecimento ilícito..., citando diversas empresas e pessoas físicas do Paraná e de Santa Catarina. Como algumas empresas eram desta jurisdição, a DRF/Curitiba reencaminhou-os a esta DRF/Joinville que, confirmando alguns indícios apontados, instaurou inicialmente fiscalizações contra Evolution, Arueira, Biomade e Norte Sul. Na Evolution, verificou-se que esta prestava serviço de factoring, trocando títulos (duplicatas) emitidos por diversas empresas contra Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, das quais também adquiria produtos com fim específico de exportação. Quanto a Arueira, Biomade e Norte Sul, constatou-se que não tinham movimentação financeira, não declararam receitas, não cumpriam obrigações acessórias, não efetuaram recolhimento de tributos, nem sequer as empresas ou seus sócios foram encontrados nos endereços constantes nos cadastros CNPJ e CPF. As notas fiscais emitidas por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl e Empresa X indicavam como transportador das mercadorias Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel. Procuradas, ambas negaram ter transportado mercadorias daquelas até Dioxyl. Instauraram-se então procedimentos contra Dioxyl e Empresa X. Analisando-se suas escriturações fiscal e contábil detectaram-se operações semelhantes àquelas com outras empresas que também tinham os mesmos indícios de irregularidades Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.835 5 apresentados por Arueira, Biomade e Norte Sul. As empresas que constam na escrituração de Dioxyl são Arueira, Biomade e Norte Sul, Madesul, Ambiente, GS, MPR, Renari, Harmony, Loyl e J4, que serão referidas daqui por diante como noteiras. O sr. Afonso Henrique Maia Bastos, proprietário de Evolution, é também proprietário de Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., empresa de consultoria tributária. Afonso, seus irmãos Luciano Maia Bastos e Suzana Paula Maia Bastos Miers, Evolution, Dioxyl, Norte Sul, entre outras diversas pessoas físicas e jurídicas são textualmente citados na denúncia e na Notícia de Fato provenientes do Ministério Público do Estado do Paraná. Encerrados os trabalhos, comprovou-se a existência de esquema arquitetado por Evolution para emissão de notas fiscais frias por empresas noteiras para basear operações de compra e venda simuladas, com o intuito de geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para aproveitamento em dedução dos tributos devidos por Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, respeitando-se o sigilo fiscal. A seguir são expostos os elementos que levaram a esta conclusão, as características de cada uma das noteiras envolvidas e, ao final, as infrações à legislação tributária cometidas por Dioxyl. Funcionamento do esquema As fiscalizações e diligências efetuadas e a análise dos dados disponíveis e coletados revelou um esquema de compras e vendas simuladas de madeira, pallets e móveis orquestrado por Evolution/Maia Bastos e vendido a Dioxyl e Empresa X, para que a estas fossem gerados créditos de impostos e contribuições a fim de diminuir os valores a recolher aos cofres públicos, como noticiado pelo Ministério Público e pelo GAECO do Estado do Paraná. Evolution Comercial Exportadora Ltda., empresa cujo objeto social é a ... exportação, importação e industrialização de mercadorias na categoria de empresa comercial exportadora, fomento comercial e mercantil, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 do Edifício Milano, Centro, São Bento do Sul-SC, com filial à avenida Pres. Affonso Camargo, 2125, loja B, bairro Cristo Rei, Curitiba-PR, pertence a Afonso Henrique Maia Bastos, que também é proprietário da empresa Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., CNPJ 07.327.085/0001-66, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 do Edifício Milano, Centro, São Bento do Sul-SC (mesmo endereço de Evolution) e não tem filiais. (...)Os indícios levantados ao longo do amplo trabalho de fiscalização e diligências realizados apontam inequívoca e sobejamente pela existência do esquema descrito e participação das empresas indicadas. Na parte documental, as noteiras emitiam as notas fiscais de venda comum contra Dioxyl e Empresa X, que imediatamente revendiam as mercadorias com fim específico de exportação a Evolution, no exato valor da compra descontados os créditos tributários que utilizariam. Evolution então dava entrada aos produtos faturados e emitia as notas fiscais de exportação aos clientes exterior. O infográfico abaixo sintetiza o esquema utilizado e os valores envolvidos: Na parte financeira, as noteiras emitiam títulos (duplicatas) contra Dioxyl e Empresa X pelas suas vendas e imediatamente os descontavam junto à Evolution em operações de factoring. Dioxyl e Empresa X emitiam títulos contra Evolution referentes à suas vendas. Como Dioxyl e Empresa X eram credoras (pelas suas vendas) e devedoras (pelas compras das noteiras cujos títulos foram descontados) a Evolution, faziam-se transferências bancárias mútuas e simultâneas e as dívidas se extinguiam, exceto pela parcela dos créditos tributários gerados que poderiam ser aproveitados por Dioxyl e Empresa X em suas apurações. O infográfico abaixo sintetiza o fluxo financeiro do esquema: (...) Acerca dos valores informados em notas fiscais das noteiras e de Dioxyl e Empresa X, mais um fato aponta pela ficção dos documentos. Ao longo de 2011 Evolution teria adquirido R$ 11,6 milhões de Dioxyl e R$ 9,5 milhões de Empresa X em mercadorias para exportação, mas efetivamente exportou R$ 20,7 milhões, R$ 400 mil a menos que as entradas1. Evolution não possui local para estocagem. Mesmo que se leve em conta tratarem-se de valores globais e a possível variação de início e final de ano nos embarques, Evolution teria vendido 1 Segundo as fichas 23 e 25 de sua DIPJ, Evolution teria adquirido de R$ 10,7 milhões de Dioxyl e R$ 10,8 milhões de Empresa X e exportado R$ 21,5 milhões. Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.837 7 mercadorias ao exterior com prejuízo ou por preço muito próximo do custo, algo um tanto difícil de crer. Ratificando os indícios levantados, em 30/04/2015 o representante de uma das empresas inativas, que efetivamente fabricou os produtos exportados mas encerrou de fato suas atividades logo depois sem recolher qualquer tributo devido, compareceu à Delegacia da Receita Federal em Joinville-SC e prestou declaração, firmada em Termo de Tomada de Declaração, descrevendo e confirmando o modus operandi do esquema descrito acima, relatando que Evolution era quem especificava e encomendava os produtos, que Evolution determinava o faturamento contra Dioxyl e Empresa X, que Evolution pagava pelos produtos, que Evolution trocava imediatamente todos os títulos emitidos, que Evolution contratava o transporte desde sua fábrica diretamente ao porto de embarque, que nunca teve contato comercial com Dioxyl ou Empresa X e, mais importante, que todos sabiam que os faturamentos eram feitos daquela forma para aproveitamento de créditos tributários por Dioxyl e Empresa X. Ora, se os bens eram produzidos e destinados diretamente ao exterior por Evolution, não ocorreu a tradição dos mesmos entre noteiras e Dioxyl e Empresa X nem entre estas e Evolution. Sendo a tradição condição necessária para validade dos negócios jurídicos (arts. 1226 e 1267 da Lei n.º 10.406/2002 Código Civil) as compras e vendas indicadas nos documentos fiscais não são aptas a produzir efeitos. As provas coletadas corroboram os elementos trazidos na denúncia feita ao GAECO (venda de notas fiscais frias ... vendas de empresas fantasmas ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... venda de créditos de ICMS ... vendas de notas fiscais para empresas (rede de pessoas que fornecem notas fiscais por 3% do valor da nota) ... fomento mercantil irregular ... emissão de duplicatas frias) e na Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.004681-9 (compra de empresas criadas regularmente, porém inativas ... transferir créditos de ICMS inexistentes, vender notas fiscais frias e fomento mercantil (factoring) irregular ... vender empresas fantasmas) como condutas em tese praticadas por Afonso Henrique Maia Bastos e suas empresas. (...)Como este Termo refere-se ao procedimento fiscal em relação a Dioxyl, a seguir são detalhados os fatos verificados apenas neste contribuinte, destacando-se que as mesmas características foram encontradas na Empresa X, também sob procedimento fiscal com conclusões constantes nos processos administrativos n.º 10920.720243/2016-13 e 10920.720244/2016-50. Dioxyl Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda. tem como CNAE principal 2071-1-00 Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e lacas. Segundo as notas fiscais eletrônicas NF-e emitidas, ao longo de 2011 produzia e comercializava majoritariamente tintas, vernizes, corantes, resinas e solventes classificados nos capítulos 32, 38 e 39 da TIPI, utilizados por indústrias dos setores moveleiro, metal mecânico, plásticos, vidros, imobiliário e automotivo, conforme consta em seu site www.dioxyl.com.br. As vendas dos produtos químicos fabricados pela Dioxyl foram feitas apenas no mercado interno, tendo gerado mensalmente débitos de tributos incidentes sobre o faturamento (ICMS, IPI, PIS e Cofins). Em relação a esses, por se tratar de tributos não-cumulativos, foi possível a dedução de créditos (referentes a entradas tributadas de insumos) dos débitos apurados, conta que, restando positiva, é o valor a recolher aos cofres públicos. Portanto, quanto mais créditos houver menor o valor a pagar. Por outro lado, as operações focadas nesta auditoria referem-se a compras e vendas de madeiras, pallets e móveis, atividades totalmente diversas do objeto principal de Dioxyl, os produtos químicos. Restou claro que esta foi a grande beneficiada das operações simuladas, pois aproveitou os créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins, nas alíquotas de 17%, 5%, 1,65% e 7,6% respectivamente, para dedução dos montantes devidos decorrentes de suas reais operações. A vantagem indevida era gerada por meio do registro das entradas no CFOP 1.102 Compra para revenda e, como os bens entrados eram diretamente revendidos a Evolution com fim específico de exportação, pelo registro das saídas sob CFOP 5.502 Remessa de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros, com fim específico de exportação, operação esta feita com suspensão de IPI (art. 43, V, a, do Decreto n.º 7.212/2010 Regulamento do IPI), isenta da Contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins (art. 5.º da Lei n.º 10.637/2002 e art. 6.º da Lei n.º 10.833/2003) e objeto de não-incidência de ICMS (art. 6.º, inciso II e §1.º inciso I, do Decreto n.º 2.870/2001 Regulamento do ICMS/SC). (...)Verifica-se que 2380 unidades de painel de madeira... escriturados sob código DV02240 entraram por R$ 158.986,38, gerando créditos tributários de R$ 47.317,38 e resultando num custo contabilizado de R$ 111.669,00, e que 2380 unidades de mercadoria com código e descrição idênticos foram faturadas para Evolution por R$ 111.669,00, exatamente o valor da nota de entrada descontada dos tributos (70,2% da nota de entrada). (...)Neste verifica-se que os produtos entraram por R$ 72.204,30, gerando créditos tributários de R$ 21.489,39 e resultando num custo contabilizado de R$ 50.714,91, e que produtos com código, descrição e quantidades idênticos foram faturados para Evolution por R$ 50.714,90 (70,2% da nota de entrada). Por que motivo uma empresa com fim lucrativo efetuaria operações como as descritas acima, movimentando cerca de R$ 15 milhões na compra mercadorias para revendê-las pelo preço de custo, sem auferir lucro algum? Qual o propósito negocial ou a lógica comercial de tais operações? Efetuaram-se cruzamentos semelhantes para as outras notas fiscais das noteiras e de Dioxyl, sintetizados na planilha Comparativo Lançamentos Contábeis Noteiras x Evolution. Detectaram-se 127 operações similares às citadas acima, identificadas pelo código XX-YY, onde XX são as letras iniciais da noteira e YY o número sequencial, envolvendo 178 notas fiscais de entrada. Os exemplos acima estão identificados por AM-01 e NO-21. Além daquelas, outras 63 notas fiscais emitidas pelas noteiras foram escrituradas por Dioxyl, que aproveitou os créditos tributários decorrentes de tais entradas. Sob outro aspecto, todas as notas fiscais emitidas por Dioxyl contra Evolution indicavam como transportador o próprio emitente. Inquiriu-se Dioxyl a informar sobre as formas de entrega dos produtos vendidos e, caso tivesse havido entrega de produtos com veículo próprio, para apresentar cópias dos Certificados de Registro e Licenciamento (CRLVs) ou documento equivalente dos veículos de propriedade da empresa naquele ano, bem como detalhamento da conta contábil 196 Veículos, que apresentava saldo inicial de R$ 140.984,19 e saldo final R$ 109.300,00 apenas, indícios de que a empresa não possuía frota própria. Em resposta, Dioxyl afirmou que todas as mercadorias/produtos (objetos desta fiscalização ... sempre que comercializados, foram retirados de nossa empresa por transportadora contratada pela comercial exportadora, em contraposição ao consignado nas notas fiscais. Também não entregou documentos dos veículos ou detalhamento da conta contábil. Ou seja, também a forma de transporte indicado nas notas fiscais aponta pela ficção dos documentos. Este foi o procedimento fraudulento de emissão de documentos fiscais por Dioxyl. A parte financeira do esquema iniciava-se com a emissão de títulos (duplicatas) em nome das noteiras no valor integral da nota fiscal, divididos em 3 parcelas com 70%, 25% e 5% do valor total2, imediatamente descontados em operações de factoring junto à Evolution, que escriturava todas as suas operações de factoring em totalizações mensais a débito na conta Clientes Diversos e a crédito em Caixa e Receita Financeira, como no exemplo abaixo: 2 Em algumas operações a parcela de 70% foi dividida em dois títulos. (...)Quando Dioxyl revendia as mercadorias, emitia apenas um título contra Evolution no valor total da nota fiscal que, como demonstrado, eram os mesmos 70% da nota de entrada referente. Evolution foi intimada a apresentar os comprovantes de pagamento pelas aquisições de mercadorias e efetivamente apresentou transferências bancárias à Dioxyl nos valores corretos. Dioxyl também foi intimada a apresentar comprovantes de pagamento pelas aquisições junto às noteiras e apresentou, para os títulos de 70% do valor, transferências bancárias à Evolution. A análise dos comprovantes destes pagamentos não deixa dúvidas quanto ao conluio Evolution-Dioxyl. Numa incrível coincidência, as transferências bancárias de ambas as partes eram simultâneas, feitas nos mesmos valores, datas e horas, com diferença de poucos segundos, veja-se os comprovantes bancários e os lançamentos contábeis das operações AM-01 e NO-21 já citadas acima: (...)Desta forma, Evolution dava por quitada sua compra e Dioxyl quitava a duplicata com 70% do valor devido à noteira cujo título estava em poder de Evolution. Quanto aos títulos com 25% do valor, os comprovantes de pagamento fornecidos por Dioxyl na maioria pagamentos de boletos bancários também indicavam Evolution como beneficiária. Cerca de ¼ destes títulos tiveram vencimento naquele ano de 2011. Em sua contabilidade Dioxyl escriturava os pagamentos a débito em Bancos contra as contas das noteiras a crédito, já Evolution não fazia registro algum da entrada destes recursos, apesar das operações de factoring terem sido registradas na conta Clientes Diversos. Os ¾ restantes dos títulos venciam em 2012 e até em 2013, período fora do escopo deste trabalho. Restavam então os títulos de 5% do valor que, pelos elementos colhidos e a informação da denúncia sobre pagamento de 3% do valor de cada nota fiscal fria, levam a crer ser a remuneração paga a Evolution/Maia Bastos pelos créditos fictícios. Aparentemente baixo, cabe ressaltar que o valor pago por Dioxyl sobre cada nota fiscal equivale em verdade a 16,67% do ganho obtido em créditos. (...)Apesar de intimada para comprovar o pagamento dos títulos de 5%, Dioxyl apresentou somente duplicatas mercantis recibadas de apenas algumas destas operações, em que também se notam semelhanças grotescas. Duplicatas emitidas por empresas distintas eram preenchidas por pessoas com grafias muito semelhantes, senão idênticas. Vejam-se abaixo recortes dos títulos 106/3 de Norte Sul e 31/3 de Arueira: (...)Assim, na parte financeira o esquema estava concluso em Dioxyl. Na Evolution, comprovados seus pagamentos pelas compras junto a Dioxyl e seus recebimentos de Dioxyl pelos títulos de 70% e 25% descontados, faltava a outra ponta do esquema: a aquisição por Evolution de títulos emitidos pelas noteiras. Evolution foi intimada a comprovar os pagamentos pelas aquisições de títulos emitidos por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl. Trouxe documentos para 111 títulos com valores totais de face de R$ 4.566.688,17 e de aquisição de R$ 3.919.612,15. Os documentos entregues para comprovação de pagamento, totalizando R$ 3.315.057,25 (R$ 635.247,90 a menor), não apresentavam relação direta nem identificação com quaisquer dos títulos, das pessoas jurídicas emitentes (noteiras) ou dos sócios destas. Pelo contrário, tinham inúmeras inconsistências. (...)Outra característica peculiar dos cheques é que na maioria foram preenchidos e assinados pela auxiliar administrativa sra. Silvana Tamanine Richter, que recebeu a fiscalização quando estivemos na Evolution, veja-se cópia de um cheque e de recebimento do Termo de Início: (...)Segundo informações de GFIP, esta pessoa tinha salário mensal de R$ 1.090,00 em 2011. Causa no mínimo estranheza que um mero auxiliar administrativo, com rendimento de apenas dois salários mínimos vigentes à época, tivesse poderes para movimentar milhões de reais das contas bancárias da empresa. Em sua contabilidade, Evolution escriturou todos os cheques do Bradesco e alguns cheques do Banco do Brasil (apenas os emitidos até 01/03/2011) contra a conta Caixa a débito, ou seja, reduzindo saldo de Bancos e aumentando Caixa. Não há despesas pagas via caixa a que se possam atribuir os valores provenientes de Bancos. Desta forma, não permite identificar quem foram os beneficiários dos pagamentos nem mesmo se realmente houve algum pagamento de fato. Esses elementos indicam que os cheques apresentados não representam pagamentos relativos a transações comerciais, mas somente documentos gerados com a finalidade de justificar a simulação da compra dos títulos por Evolution. (...)Ficou claro que Evolution não dispunha de comprovação de pagamento das aquisições dos títulos, angariando documentos esparsos e sem conexão alguns de suas próprias despesas, alguns com indícios de serem pagamentos aos reais fabricantes das mercadorias na tentativa justificá-las, deixando patente a total simulação das operações de factoring com as noteiras. Ora, diante do rol de fortes indícios apontados, a única conclusão possível é de que todas as transações entre noteiras, Dioxyl e Evolution foram simuladas em plano operado por Evolution/Maia Bastos, que vendeu a Dioxyl esquema de planejamento tributário fraudulento de compras e vendas fictícias com o único intuito de gerar créditos tributários com vistas à evasão fiscal. Em verdade, as madeiras, pallets e móveis foram produzidos a mando de e sempre pertenceram a Evolution, pois transitaram apenas documentalmente por Dioxyl. As noteiras As empresas Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony, referidas como noteiras, tinham como papel no esquema a emissão de notas fiscais contra Dioxyl. Segundo verificado no curso deste procedimento fiscal, Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente e Alpha Loyl não tinham qualquer atividade, seja financeira ou comercial nem mesmo sede. Também, seus sócios demonstraram não ter capacidade econômica para iniciar as atividades ou ingressar nas empresas das quais faziam parte. Assim, sua única finalidade era emitir notas fiscais a serem utilizadas na geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para Dioxyl e outras empresas. Inclusive, vislumbrado esse quadro, de forma incidental as pessoas jurídicas em apreço foram baixadas ou estão em processo de baixa de suas inscrições no cadastro CNPJ. Por seu turno, Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato, porquanto desempenharam suas atividades. Contudo, assim como as outras pessoas jurídicas, também emitiram notas fiscais contra Dioxyl como se esta fosse compradora de suas mercadorias, o que não aconteceu, conforme demonstrado anteriormente. As conclusões individuais dos procedimentos fiscais contra cada uma das noteiras estão detalhadas no Anexo Noteiras, do qual faz parte integrante. Transportadoras As transportadoras Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel constam na maioria das notas fiscais emitidas pelas noteiras como transportador das mercadorias entre elas e Dioxyl. Intimada a apresentar conhecimentos de transporte relativos a elas, Dioxyl respondeu apenas que o transporte de mercadorias ... era de responsabilidade dos fornecedores, sem trazer qualquer documento. Em 08/12/2014 e 12/02/2015 as transportadoras foram intimadas a informar se ao longo de 2011 prestaram algum serviço às noteiras e à Evolution. As respostas foram protocoladas em 16/12/2014 e 26/02/2015. Transportes Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.842 12 Rodomovel informou que não prestou serviços de transporte para a[s] empresa[s]. Rodomoveis Transportes informou que não prestou diretamente serviços de transportes para a empresa ... mas carregamos mercadorias nas dependências da empresa, através da Evolution Comercial Exportadora Ltda., a qual prestamos serviços. Por ocasião da entrega da 2.ª intimação, inquiriu-se o representante das transportadoras sobre suas operações com Evolution, sobre o que relatou que transportava contêineres diretamente de diversos produtores de móveis ao porto de Itajaí-SC, sempre a mando da própria Evolution, conforme conhecimentos de transporte anexados na resposta à intimação anterior. Também se inquiriu sobre sua relação comercial com Dioxyl, ao que respondeu que nunca transportou mercadorias seja ela como origem ou destino e que já teve que responder pergunta semelhante ao Fisco do Estado de São Paulo. Apresentou então um Termo de Declaração à Delegacia de Polícia da Comarca de São Bento do Sul-SC (Documento Rodomóveis - Boletim ocorrência DRPC) feita em 17/11/2014 no qual informa que não encontrou nos registros da empresa nenhum transporte de mercadorias para a empresa Dioxyl Revestimentos Químicos. Não tivemos acesso ao inquérito policial, mas o relato e as circunstâncias levam a crer se tratar do mesmo tema aqui versado. Assim, claro está que as transportadoras indicadas nas notas fiscais emitidas pelas noteiras contra Dioxyl não prestaram tal serviço. Houve apenas transporte de mercadorias entre diversos fabricantes e o porto, sob contratação de Evolution e amparado por sua nota fiscal de exportação. Infrações verificadas Segundo a Portaria MF n.º 187/1993, art. 4.º, sempre que, no decorrer de ação fiscal, forem encontrados documentos emitidos em nome de pessoa jurídica que não exista de fato e de direito ou apesar de constituída formalmente, não possua existência de fato, o contribuinte sob fiscalização deverá ser intimado para comprovar o efetivo pagamento e recebimento dos bens, sob pena de ter glosados os custos e as despesas decorrentes do pagamento não comprovado e ter glosado o crédito fiscal originário de documento inidôneo. A relação de todas as notas fiscais de entrada de compras fictícias das noteiras encontra-se na planilha Notas Fiscais de Entrada Noteiras, totalizando R$ 18.124.911,91, e das notas fiscais de saída com vendas simuladas para Evolution encontra-se na planilha Notas Fiscais de Saída Evolution, totalizando R$ 9.495.663,36. As notas fiscais de entrada emitidas pelas noteiras e os respectivos comprovantes de pagamento por Dioxyl compõem o documento NFs de Entrada e Comprovantes de Pagamento. As notas fiscais de saída emitidas por Dioxyl e os respectivos comprovantes de pagamento por Evolution, o documento NFs de Saída e Comprovantes de Pagamento. Na esfera federal importam os reflexos das compras e vendas simuladas na apuração do IPI, da Contribuição para o PIS/PASEP, da Cofins, do IRPJ e da CSLL, sobre os quais se passa a expor. Quanto ao Imposto sobre Produtos Industrializados Segundo o livro Registro de Apuração do IPI, extraído da EFD-ICMS/IPI, Dioxyl apurou saldos devedores entre janeiro e outubro/2011, declarados corretamente Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.843 13 em DCTF, exceto do período de apuração fevereiro/2011 declarado por R$ 607,48, quando o saldo devedor do RAIPI foi R$ 105.605,67. Intimado a esclarecer esta divergência, afirmou o contribuinte que o saldo devedor de IPI correto é o informado na DCTF, a diferença verificada será corrigida através da retificação extemporânea do EFD ICMS-IPI. Esta escrituração fiscal substituta serviu então de base ao lançamento para o período fevereiro/2011. Todas as notas fiscais de entrada da planilha Notas Fiscais de Entrada Noteiras foram creditadas de IPI, pois escrituradas na EFD-ICMS/IPI sob Código da Situação Tributária CST 00 Entrada com Recuperação de Crédito. Dessa forma, por se tratarem de créditos fraudulentos, efetuou-se a glosa dos créditos computados sobre estas entradas. (...)Ainda em relação às operações fictícias, como se tratam de notas fiscais irregulares que não correspondiam à efetiva entrada de mercadorias e que o contribuinte registrou e utilizou, cabível ainda a imposição da multa regulamentar prevista no art. 572 do RIPI: (...)Assim, em relação ao IPI, cabível o lançamento de ofício de R$ 824.467,88 de tributo com multa de ofício de 150% sobre o tributo devido e multa regulamentar de R$ 18.124.911,91 (somatório do valor das mercadorias, campo Valor dos Produtos, consignado nas notas fiscais), contra Dioxyl como contribuinte e Evolution, Afonso e Humberto como responsáveis solidários (vide tópico sobre responsabilidade solidária mais à frente), efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720220/2016-09. Além destes, cabe ainda o lançamento de ofício de R$ 155.824,54 com multa de ofício de 75% pela glosa das demais aquisições para revenda, efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720219/2016-76. (...)Imposição de multa qualificada (...)Todo o conjunto indiciário levantado ao longo deste trabalho aponta para a existência de fraude e ajuste doloso (conluio) a fim de reduzir o montante de imposto devido. É inescapável que tanto Dioxyl como Evolution, através de seus administradores, agiram com a deliberada intenção de reduzir os tributos devidos por aquela através de compras e vendas fictícias. Desta maneira, nos lançamentos de ofício decorrentes de tais operações impõe-se a aplicação de multa qualificada de 150% sobre o tributo apurado, independentemente das demais penalidades cabíveis. Responsabilidade Solidária As constatações retroexpostas são mais que suficientes a provar o interesse comum de Dioxyl e Evolution na situação fática, qual seja, simulação de compras e vendas fictícias para redução do montante de tributos devidos. A parte financeira revelada deixa inequívoco que Evolution não só participava ativamente, mas também era mentora e administradora das transações simuladas Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.844 14 e que, pelos créditos tributários aproveitados, recebia 5% do valor de cada nota fiscal fictícia emitida pelas noteiras ou 16,67% do crédito gerado na simulação. Os comprovantes bancários das transferências e pagamentos feitos por Dioxyl a Evolution referentes às parcelas de 70% e 25% das notas fiscais trazem expresso que as transações foram efetuadas com sucesso por Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, sócio da Dioxyl com 99% do capital social integralizado8, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e atendeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento. Já os comprovantes bancários entregues por Evolution de pagamentos feitos a Dioxyl e de pagamentos ditos como feitos a terceiros pela compra dos títulos das noteiras trazem escrito que as transações foram efetuadas com sucesso por Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72, sócio da Evolution com 99% do capital social integralizado9, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e respondeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento. Prova inconteste do estreito relacionamento entre ambos, Afonso Henrique Maia Bastos foi o advogado constituído por Humberto para impetrar o mandado de segurança n.º 2007.72.01.004828-6/SC junto à Justiça Federal da 4.ª Região em nome de Dioxyl a fim de discutir o direito de crédito do IPI em relação aos insumos isentos, não-tributados ou sujeitos a alíquota zero, arquivado em julho/2010 após sentença desfavorável ao contribuinte. Também representa Dioxyl nas ações de execução fiscal n.º 0005254-63.2002.8.24.0058 e 0001948-13.2007.8.24.0058 movidas pela Fazenda Nacional perante o Poder Judiciário de Santa Catarina, conforme consultas processuais (Documento Consulta Justiça). Ora, sendo Humberto e Afonso os administradores das empresas, que efetuavam as transações bancárias e, em última instância, os reais beneficiários da fraude, ficam patentes suas participações dolosas nas operações aqui expostas. O Código Tributário Nacional, Lei n.º 5.172/1966, dispõe que (a fiscalização transcreve os arts. 124, I, e 135, III): (...)Assim, cabível a responsabilização solidária de Evolution Comercial Exportadora Ltda., CNPJ 05.699.094/0001-52, Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, e Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72, pelos créditos tributários ora constituídos decorrentes das operações fraudulentas. Representação Fiscal para Fins Penais (...)As condutas dos agentes e os elementos expostos ao longo deste trabalho configuram, em tese, crimes contra a ordem tributária, razão pela qual lavrou-se Representação Fiscal para Fins Penais no âmbito do processo administrativo n.º 10920.720225/2016-23 contra Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.249-47, e de Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.559-72. Nas fls. 50/64, com um anexo que integra o Termo de Verificação, a fiscalização trata das empresas "noteiras", descrevendo as conclusões individuais dos Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.845 15 procedimentos fiscais contra cada uma delas, a saber: Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony. O contribuinte, pessoa jurídica, e os três responsáveis tributários (a pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda e as duas pessoas físicas administradoras - desta e da jurídica autuada como contribuinte) foram cientificados regularmente do Auto de Infração e das responsabilidades em 11/02/2016 (ver fls. 2627/2637) e apresentaram em 14/03/2016 impugnações tempestivas, isoladamente. O contribuinte, cuja Impugnação consta das fls. 2737/2771, alega inicialmente a decadência do lançamento, ressaltando que o prazo para constituição do crédito tributário decai em cinco anos. Em seguida, no item 3 da peça impugnatória, argui haver "incongruência da narrativa utilizada pelo agente fiscal" e que todo o lançamento é baseado em presunção da existência de operações simuladas entre a Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, contribuinte, e as empresas denominadas noteiras. Observa que os Auditores Fiscais, apesar de considerarem as operações simuladas, "por diversas vezes reconhecem a efetiva exportação das mercadorias, ou seja, as operações existiram de fato", citando passagens do TVI no sentido de que os produtos foram fabricados por sujeitos indeterminados a mando da Evolution, foram por ela exportados e as empresas Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato. Para o contribuinte, as operações tratam de compra e venda legítimas e os Auditores-Fiscais agiram com abuso de poder e de modo contrário às normas tributárias, afrontando o princípio da legalidade, a respeito do qual cita doutrina. Afirma no item 4 inexistir vedação legal às operações, refutando a acusação de simulação. Segundo o contribuinte, "constata-se a ocorrência do erro da autoridade autuante, no tocante ao enquadramento legal do fato descrito (tipificação), posto que os dispositivos legais constantes da Lei Federal invocados pelos agentes fiscais, não discriminam e não se coadunam com o suporte fático concreto, de onde resulta a inocorrência de fato imputável ao Contribuinte e, como conseqüência, gera a nulidade do Auto de Infração". Entende que, "Para que se possa caracterizar a simulação é indispensável que o ato praticado, que se pretende dissimular sob o manto do ato ostensivamente praticado, não pudesse ser realizado por vedação legal ou qualquer outra razão. Como as partes realizaram o negócio não restou caracterizada a declaração enganosa de vontade, essencial na simulação". Também argui ofensa ao princípio constitucional da ampla defesa, mencionando o art. 5º, LV, da Constituição Federal, contesta "a multa de 205" (ipsis literis) e reputa nulo o Auto de Infração "por não haver penalidade sem lei anterior que a defina, nem infração sem disposição expressa que o tipifique" (final da primeira do item 4 da Impugnação do contribuinte, que possui outro tópico sob o mesmo número, intitulado "DA LEGITIMIDADE DAS OPERAÇÕES"). Continua refutando a fiscalização nos itens seguintes, até o de nº 9, onde afirma que "para que pudesse haver autuação o fisco deveria estar embasado em provas robustas e não em meras SUPOSIÇÕES e CONCLUSÕES PRÓPRIAS", concluindo o seguinte: "Torna-se pois, imperioso como medida de justiça, a anulação dos objurgados itens, uma vez que, no caso em tela, o direito líquido e certo da Impugnante, está materializado em face da constante Ilegalidade e Abusividade dos atos praticados pela autoridade fiscal." O item 10 é dedicado especificamente aos dois Autos de Infração do presente processo, e nele o contribuinte defende o direito aos créditos do IPI, oriundo das operações que a autuação reputou simuladas (a fiscalização considerou que as empresas "noteiras" emitiam notas fiscais frias, gerando créditos do IPI e outros tributos em favor da Dioxyl). Reportando-se ao princípio constitucional da não cumulatividade que rege o IPI e à suspensão do Imposto nas saídas de produtos destinados à exportação (menciona o art. 43, V, e § 1º, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 - RIPI/2010), afirma que "de nenhuma forma a primeira operação realizada entre a Dioxyl e a empresa produtora da mercadoria por (sic) ser considerada como fim específico para exportação, apenas a revenda do produto da Dioxyl para a Evolution" e, assim, "é assegurado a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto". Também se insurge contra a multa isolada de 100% (lançada em Auto separado, com base no art. 572, II, do RIPI/2010, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte Dioxyl), repisando que todas as operações são legítimas e foram realizadas dentro do "rigorismo fiscal". Por ter agido dentro dos ditames legais, argui que "fica de plano afastada qualquer possibilidade de sanção", além de reputar confiscatória e contrária ao princípio da capacidade contributiva a multa aplicada (no subitem 10.3 da peça impugnatória, sob o título "DA NECESSIDADE DE APURAÇÃO DO VALOR CORRETO DO IMPOSTO E DO DESCABIMENTO DE JUROS E MULTA", se refere ora à penalidade de 150% sobre os valores do IPI lançados de ofício, ora à de isolada de 100%, pois num ponto afirma que "a multa sobre os valores discutidos tem a forma de verdadeiro confisco" e, mais adiante, que "No caso concreto, a norma sancionante atribuiu uma penalidade ao hipotético 'ilícito', ou seja, a multa sobre o valor total dos créditos, legal e licitamente aproveitados, em conformidade com a legislação em vigor"). No subitem seguinte ainda considera que "Não há nenhum motivo lícito para a exigência de multa", pelo que da exigência "nasce o enriquecimento ilícito do Erário Público em detrimento do Contribuinte, vedado pela legislação e pelos princípios gerais do direito". O item 11 trata do processo nº 10920.720221/2016-45, relativo ao Auto de Infração do IRPJ e CSLL, enquanto o seguinte é dedicado ao processo nº 10920.720219/2016-76, relativo ao IPI, mas com multa de ofício no percentual de 75% (este foi julgado por esta 2ª Turma em 31/10/2016, que manteve o lançamento conforme o Acórdão nº 11-054.185). Ao final, no item 13, o contribuinte requer o seguinte: a) Primeiramente, o acolhimento da preliminar retro, para reconhecer a decadência dos débitos tributário (sic), com o conseqüente cancelamento (arquivamento); b) Ainda, no mérito, reconheça a IMPROCEDÊNCIA dos presentes Autos de Infração, declarando-se extinta a pretensão fiscal, excluindo-se a aplicação das penalidades, pelos fundamentos de fato e de direito anteriormente expendidos. A pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda, autuada na condição de responsável tributário, apresenta a Impugnação de fls. 2689/2724, onde repisa as alegações do contribuinte Dioxyl. Há pequenas diferenças, como a arguição de que "Causa Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.847 17 surpresa à Impugnante os termos utilizados que além de denegrirem a imagem da empresa e do sócio, trazem-lhes prejuízo de ordem moral" (fl. 2691), e a reiteração da informação de que a empresa responsável pela contabilidade da Evolution "foi atingida por enchente no decorrer do ano de 2014, o que ocasionou a perda de grande quantidade de documentação" (fl. 2706), ambas ausentes no texto do contribuinte, e é acrescentado um item sob o título "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA". Neste tópico é refutado o emprego do art. 124, I, do CTN, citado nos Autos de Infração em relação à Evolution (a responsabilidade das duas pessoas físicas é enquadrada no art. 135 do mesmo Código), que alega: - a solidariedade do referido dispositivo 'somente pode existir entre sujeitos que figurem no mesmo pólo de relação obrigacional, pois só assim o interesse poderá ser considerado como comum"; - "O interesse comum não pode ser presumido em razão de um fato escolhido pelo legislador ordinário", que não pode subverter o sentido dos dispositivos do CTN; - nem o interesse comum, requisito da solidariedade, nem esta, pode ser presumido; - as relações entre a Dioxyl e a Evolution se restringiam a compra e venda de mercadorias para serem exportadas ou compra e venda de títulos através de fomento mercantil, inexistindo qualquer conluio visando fraudar a fiscalização, além de constituírem interesses antagônicos; - a Evolution e a Maia Bastos Assessoria Empresarial são empresas distintas e esta prestou sim assessoria empresarial à Dioxyl; - "Se tivesse havido operação simulada, poderia haver imputação de responsabilidade tributária ao adquirente com supedâneo no cometimento de ilícitos, mas esta jamais poderá advir do artigo 124, I, do CTN, porque o interesse comum não existe neste hipótese, e nem a solidariedade é um meio de incluir um terceiro no pólo passivo da obrigação tributária." Ao final a Evolution requer a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade da empresa Evolution Comercial Exportadora, por inexistir operações simuladas ou interesse comum com a Dioxyl". A pessoa física Humberto Barbosa Lima também impugna os lançamentos (fls. 2787/2823), reproduzindo os termos do contribuinte Dioxyl com acréscimo de um item intitulado "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE DO SÓCIO". Neste item rejeita a responsabilidade que lhe foi atribuída com base nos arts. 124, I, e 135, III, do CTN (nos Autos de Infração é mencionado apenas o primeiro dispositivo, mas no TVI constam os dois), arguindo que, como sócio, não pode ser responsabilizado "pela infrações supostamente cometidas pela pessoa jurídica, pois sempre agiu dentro da lei e do contrato social", sendo nula a pretensão fazendária em responsabilizá-lo sem demonstrar que praticou infração à lei ou ao contrato social da sociedade. Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.848 18 No requerimento pede a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade do sócio Humberto Barbosa Lima, pois sempre agiu dentro da lei Analisada a manifestação de inconformidade, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou improcedente a manifestação de inconformidade, com a seguinte ementa (fl. 2.831): Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 IPI. REDUÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO MEDIANTE CRÉDITOS SIMULADOS. NOTAS FISCAIS EMITIDAS EM NOME DE EMPRESA DE FACHADA. DOLO CARACTERIZADO. MULTA QUALIFICADA. Caracteriza fraude, ensejando o lançamento de ofício do tributo com aplicação da multa qualificada no percentual de 150%, o creditamento do IPI com base em notas fiscais emitidas por empresas de fachada, simulando aquisições que inexistiram e reduzindo o montante do Imposto devido. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. 150%. FRAUDE E CONLUIO. LEGALIDADE. A multa de ofício no percentual qualificado de cento e cinquenta por cento, aplicada nos lançamentos de ofício quando caracterizada a fraude, é prevista na legislação do IPI e nada tem de ilegal. MULTA REGULAMENTAR. APROVEITAMENTO DE NOTAS FISCAIS QUE NÃO CORRESPONDEM A EFETIVA SAÍDA. RIPI/2010, ART. 572, II. PENALIDADE IGUAL AO VALOR COMERCIAL DA MERCADORIA. Nos termos do art. 572, II, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010, aos que, em proveito próprio ou alheio, utilizam ou registram nota fiscal que não corresponda à saída efetiva das mercadorias nela constantes, aplica-se a multa isolada equivalente ao valor das mercadorias. JUROS DE MORA. SELIC. LEGALIDADE. Nos lançamentos de ofício é cabível aplicação dos juros de mora com base na taxa Selic, nos termos da legislação vigente. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.832 2 Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CINCO ANOS. DOLO. TERMO INICIAL DO PRAZO QUINQUENAL DESLOCADO PARA O INÍCIO DO ANO SEGUINTE AO DO FATO GERADOR. O prazo para a Fazenda constituir o crédito tributário de tributos submetidos ao lançamento por homologação, como o IPI, é de cinco anos, começando a contagem do quinquênio, regra geral, do fato gerador, na forma do art. 150, § 4º, do CTN. Todavia, no caso de dolo o termo inicial é deslocado para o primeiro dia do ano seguinte, nos termos do art. 173, I, do mesmo Código. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PESSOA JURÍDICA ENVOLVIDA EM FRAUDE. CONLUIO. ART. 124, I, DO CTN. SOLIDARIEDADE DE FATO. A solidariedade de fato, prevista no art. 124, I, do Código Tributário Nacional, atinge a pessoa jurídica que, mediante fraude, contribui para reduzir tributo de outra empresa, com ela conluiada. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ADMINISTRADORES. DOLO CARACTERIZADO. CTN, ART. 135, III. INCLUSÃO NO POLO PASSIVO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA. Caracterizado o dolo, por estar comprovada a utilização de notas fiscais sem a efetiva saída de mercadorias, em simulação visando reduzir o recolhimento de tributo e permitir informações inverídicas à Receita Federal, os administradores da pessoa jurídica também respondem pela obrigação tributária, de modo solidário e sem benefício de ordem, nos termos do art. 135, III, do Código Tributário Nacional. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE OU ILEGALIDADE. MATÉRIA DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA DO JUDICIÁRIO. Argüições de inconstitucionalidade ou ilegalidade constituem matéria de competência exclusiva do Poder Judiciário, não sendo utilizadas como fundamento em decisões deste Colegiado. AUTOS DE INFRAÇÃO CONTENDO AS MATÉRIAS TRIBUTADAS E RESPECTIVOS ENQUADRAMENTOS LEGAIS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. NULIDADE REJEITADA. Não caracteriza a preterição do direito de defesa, a suscitar a nulidade dos lançamentos, os autos de infração que atendem ao disposto no art. 10 do Decreto nº 70.235/72, identificam as matérias tributadas e contêm os Processo 10920.720220/2016-09 Acórdão n.º 11-054.569 DRJ/REC Fls. 2.833 3 enquadramentos legais correlatos, demonstrando com clareza as exigências. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Foram apresentados Recursos Voluntários, conforme se verifica às. fls. 2.880 e seguintes. É o relatório. Voto
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, declinar a competência à Primeira Seção de Julgamento do CARF. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D' Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Winderley Morais Pereira (Presidente) e Marcos Roberto da Silva (Suplente Convocado). Relatório Visando à elucidação do caso, adoto e cito o relatório do constante da decisão recorrida, Acórdão no 11054.569 2ª Turma da DRJ/REC (fls 2.831 e seguintes): O processo trata dos dois Autos de Infração de fls. 2/19, o primeiro relativo ao IPI não recolhido e lançado com multa de ofício no percentual qualificado de 150%, além de juros, por ter a fiscalização apurado que o estabelecimento deixou de recolher o Imposto em decorrência da escrituração e utilização de crédito indevido, e o RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 20 .7 20 22 0/ 20 16 -0 9 Fl. 3030DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.031 2 segundo relativo a multa regulamentar isolada equivalente a 100% (cem por cento) dos valores das mercadorias, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte autuado, mas que não correspondem à saída efetiva de produtos nelas descritos, tudo conforme descrito no Termo de Verificação de Infração (TVI) de fls. 20/64. O montante do Auto de Infração com a multa regulamentar soma R$ 18.124.911,91, enquanto os valores do outro são os seguintes: IMPOSTO 824.467,88 JUROS DE MORA 367.532,62 MULTA PROPORCIONAL (150%) 1.236.701,79 VALOR DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 2.428.702,29 Além do contribuinte Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, foram também autuados, na condição de responsáveis tributários, uma outra pessoa jurídica a Evolution Comercial Exportadora Ltda, que segundo a fiscalização praticou fraude em conjunto com o contribuinte e duas pessoas físicas Humberto Barbosa Lima, que detém 99% do capital integralizado da empresa Dioxyl e a administra isoladamente, e Afonso Henrique Maia Bastos, que detém igual percentual do capital integralizado da Evolution e administra esta de igual modo. Além do presente Auto de Infração, referido TVI dá conta de outros dois, decorrentes da mesma ação fiscal, de nºs 10920.720219/2016796 e 10920.720221/201645. O primeiro também é relativo ao IPI, lançado com multa de ofício no percentual básico de 75% contra o contribuinte Dioxyl, mas sem os outros sujeitos passivos do Auto do presente processo, enquanto o segundo é relativo ao IRPJ e CSLL lançados com multa qualificada de 150% e os mesmos responsáveis tributários do presente. O Termo de Verificação de Infração informa: Considerações Iniciais Através do Ofício n.º MP/NCCCOET n.º 495/2013 (Documento Memorando SAPAC CURITIBA) e da Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.0046819 (Documento Notícia de Fato Ministério Público/PR), oriundos do Núcleo de Combate aos Crimes contra a Ordem Econômica e Tributária do Ministério Público do Estado do Paraná, a Delegacia da Receita Federal em Curitiba PR foi noticiada da possível existência de esquema de “empresas ou estabelecimentos comerciais nas quais possam haver lavagem de dinheiro, em razão do porte, do local e da falta de movimento nos locais ... crimes contra sistema nacional financeiro ... venda de notas fiscais frias ... sonegação de tributos federais e estaduais ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... fomento mercantil irregular ... enriquecimento ilícito...”, citando diversas empresas e pessoas físicas do Paraná e de Santa Catarina. Como algumas empresas eram desta jurisdição, a DRF/Curitiba reencaminhouos a esta DRF/Joinville que, confirmando alguns indícios apontados, instaurou inicialmente fiscalizações contra Evolution, Arueira, Biomade e Norte Sul. Na Evolution, verificouse que esta prestava serviço de factoring, trocando títulos (duplicatas) Fl. 3031DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.032 3 emitidos por diversas empresas contra Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, das quais também adquiria produtos com fim específico de exportação. Quanto a Arueira, Biomade e Norte Sul, constatouse que não tinham movimentação financeira, não declararam receitas, não cumpriam obrigações acessórias, não efetuaram recolhimento de tributos, nem sequer as empresas ou seus sócios foram encontrados nos endereços constantes nos cadastros CNPJ e CPF. As notas fiscais emitidas por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl e Empresa X indicavam como transportador das mercadorias Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel. Procuradas, ambas negaram ter transportado mercadorias daquelas até Dioxyl. Instauraramse então procedimentos contra Dioxyl e Empresa X. Analisandose suas escriturações fiscal e contábil detectaramse operações semelhantes àquelas com outras empresas que também tinham os mesmos indícios de irregularidades Processo 10920.720220/2016 09 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.835 5 apresentados por Arueira, Biomade e Norte Sul. As empresas que constam na escrituração de Dioxyl são Arueira, Biomade e Norte Sul, Madesul, Ambiente, GS, MPR, Renari, Harmony, Loyl e J4, que serão referidas daqui por diante como “noteiras”. O sr. Afonso Henrique Maia Bastos, proprietário de Evolution, é também proprietário de Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., empresa de consultoria tributária. Afonso, seus irmãos Luciano Maia Bastos e Suzana Paula Maia Bastos Miers, Evolution, Dioxyl, Norte Sul, entre outras diversas pessoas físicas e jurídicas são textualmente citados na denúncia e na Notícia de Fato provenientes do Ministério Público do Estado do Paraná. Encerrados os trabalhos, comprovouse a existência de esquema arquitetado por Evolution para emissão de notas fiscais frias por empresas noteiras para basear operações de compra e venda simuladas, com o intuito de geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para aproveitamento em dedução dos tributos devidos por Dioxyl e outra empresa desta jurisdição, também sob procedimento fiscal semelhante, doravante denominada Empresa X, respeitandose o sigilo fiscal. A seguir são expostos os elementos que levaram a esta conclusão, as características de cada uma das noteiras envolvidas e, ao final, as infrações à legislação tributária cometidas por Dioxyl. Funcionamento do esquema As fiscalizações e diligências efetuadas e a análise dos dados disponíveis e coletados revelou um esquema de compras e vendas simuladas de madeira, pallets e móveis orquestrado por Evolution/Maia Bastos e vendido a Dioxyl e Empresa X, para que a estas fossem gerados créditos de impostos e contribuições a fim de diminuir os valores a recolher aos cofres públicos, como noticiado pelo Ministério Público e pelo GAECO do Estado do Paraná. Evolution Comercial Exportadora Ltda., empresa cujo “objeto social é a ... exportação, importação e industrialização de mercadorias na categoria de empresa comercial exportadora, fomento comercial e mercantil”, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 Fl. 3032DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.033 4 do Edifício Milano, Centro, São Bento do SulSC, com filial à avenida Pres. Affonso Camargo, 2125, loja B, bairro Cristo Rei, CuritibaPR, pertence a Afonso Henrique Maia Bastos, que também é proprietário da empresa Maia Bastos Assessoria Empresarial Ltda., CNPJ 07.327.085/000166, localizada à rua Wolfgang Ammon, 87, 4.º andar, sala 44 do Edifício Milano, Centro, São Bento do SulSC (mesmo endereço de Evolution) e não tem filiais. (...)Os indícios levantados ao longo do amplo trabalho de fiscalização e diligências realizados apontam inequívoca e sobejamente pela existência do esquema descrito e participação das empresas indicadas. Na parte documental, as noteiras emitiam as notas fiscais de venda comum contra Dioxyl e Empresa X, que imediatamente revendiam as mercadorias com fim específico de exportação a Evolution, no exato valor da compra descontados os créditos tributários que utilizariam. Evolution então dava entrada aos produtos faturados e emitia as notas fiscais de exportação aos clientes exterior. O infográfico abaixo sintetiza o esquema utilizado e os valores envolvidos: Na parte financeira, as noteiras emitiam títulos (duplicatas) contra Dioxyl e Empresa X pelas suas vendas e imediatamente os descontavam junto à Evolution em operações de factoring. Dioxyl e Empresa X emitiam títulos contra Evolution referentes à suas vendas. Como Dioxyl e Empresa X eram credoras (pelas suas vendas) e devedoras (pelas compras das noteiras cujos títulos foram descontados) a Evolution, faziamse transferências bancárias mútuas e simultâneas e as dívidas se extinguiam, exceto pela parcela dos créditos tributários gerados que poderiam ser aproveitados por Dioxyl e Empresa X em suas apurações. O infográfico abaixo sintetiza o fluxo financeiro do esquema: (...) Acerca dos valores informados em notas fiscais das noteiras e de Dioxyl e Empresa X, mais um fato aponta pela ficção dos documentos. Ao longo de 2011 Evolution teria adquirido R$ 11,6 milhões de Dioxyl e R$ 9,5 milhões de Empresa X em mercadorias para exportação, mas Fl. 3033DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.034 5 efetivamente exportou R$ 20,7 milhões, R$ 400 mil a menos que as entradas1. Evolution não possui local para estocagem. Mesmo que se leve em conta trataremse de valores globais e a possível variação de início e final de ano nos embarques, Evolution teria vendido 1 Segundo as fichas 23 e 25 de sua DIPJ, Evolution teria adquirido de R$ 10,7 milhões de Dioxyl e R$ 10,8 milhões de Empresa X e exportado R$ 21,5 milhões. Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.837 7 mercadorias ao exterior com prejuízo ou por preço muito próximo do custo, algo um tanto difícil de crer. Ratificando os indícios levantados, em 30/04/2015 o representante de uma das empresas inativas, que efetivamente fabricou os produtos exportados mas encerrou de fato suas atividades logo depois sem recolher qualquer tributo devido, compareceu à Delegacia da Receita Federal em JoinvilleSC e prestou declaração, firmada em Termo de Tomada de Declaração, descrevendo e confirmando o modus operandi do esquema descrito acima, relatando que Evolution era quem especificava e encomendava os produtos, que Evolution determinava o faturamento contra Dioxyl e Empresa X, que Evolution pagava pelos produtos, que Evolution trocava imediatamente todos os títulos emitidos, que Evolution contratava o transporte desde sua fábrica diretamente ao porto de embarque, que nunca teve contato comercial com Dioxyl ou Empresa X e, mais importante, que todos sabiam que os faturamentos eram feitos daquela forma para aproveitamento de créditos tributários por Dioxyl e Empresa X. Ora, se os bens eram produzidos e destinados diretamente ao exterior por Evolution, não ocorreu a tradição dos mesmos entre noteiras e Dioxyl e Empresa X nem entre estas e Evolution. Sendo a tradição condição necessária para validade dos negócios jurídicos (arts. 1226 e 1267 da Lei n.º 10.406/2002 Código Civil) as compras e vendas indicadas nos documentos fiscais não são aptas a produzir efeitos. As provas coletadas corroboram os elementos trazidos na denúncia feita ao GAECO (“venda de notas fiscais frias ... vendas de empresas fantasmas ... recuperação de créditos de ICMS de forma irregular ... venda de créditos de ICMS ... vendas de notas fiscais para empresas (rede de pessoas que fornecem notas fiscais por 3% do valor da nota) ... fomento mercantil irregular ... emissão de duplicatas frias”) e na Notícia de Fato n.º MPPR 0046.13.0046819 (“compra de empresas criadas regularmente, porém inativas ... transferir créditos de ICMS inexistentes, vender notas fiscais frias e fomento mercantil (factoring) irregular ... vender empresas fantasmas”) como condutas em tese praticadas por Afonso Henrique Maia Bastos e suas empresas. (...)Como este Termo referese ao procedimento fiscal em relação a Dioxyl, a seguir são detalhados os fatos verificados apenas neste contribuinte, destacandose que as mesmas características foram encontradas na Empresa X, também sob procedimento fiscal com conclusões constantes nos processos administrativos n.º 10920.720243/201613 e 10920.720244/201650. Dioxyl Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda. tem como CNAE principal 2071100 Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e lacas. Segundo as notas fiscais eletrônicas NFe emitidas, ao longo de 2011 produzia e comercializava majoritariamente tintas, vernizes, corantes, resinas e Fl. 3034DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.035 6 solventes classificados nos capítulos 32, 38 e 39 da TIPI, utilizados por indústrias dos setores moveleiro, metal mecânico, plásticos, vidros, imobiliário e automotivo, conforme consta em seu site www.dioxyl.com.br. As vendas dos produtos químicos fabricados pela Dioxyl foram feitas apenas no mercado interno, tendo gerado mensalmente débitos de tributos incidentes sobre o faturamento (ICMS, IPI, PIS e Cofins). Em relação a esses, por se tratar de tributos nãocumulativos, foi possível a dedução de créditos (referentes a entradas tributadas de insumos) dos débitos apurados, conta que, restando positiva, é o valor a recolher aos cofres públicos. Portanto, quanto mais créditos houver menor o valor a pagar. Por outro lado, as operações focadas nesta auditoria referemse a compras e vendas de madeiras, pallets e móveis, atividades totalmente diversas do objeto principal de Dioxyl, os produtos químicos. Restou claro que esta foi a grande beneficiada das operações simuladas, pois aproveitou os créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins, nas alíquotas de 17%, 5%, 1,65% e 7,6% respectivamente, para dedução dos montantes devidos decorrentes de suas reais operações. A vantagem indevida era gerada por meio do registro das entradas no CFOP 1.102 Compra para revenda e, como os bens entrados eram diretamente revendidos a Evolution com fim específico de exportação, pelo registro das saídas sob CFOP 5.502 Remessa de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros, com fim específico de exportação, operação esta feita com suspensão de IPI (art. 43, V, a, do Decreto n.º 7.212/2010 Regulamento do IPI), isenta da Contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins (art. 5.º da Lei n.º 10.637/2002 e art. 6.º da Lei n.º 10.833/2003) e objeto de não incidência de ICMS (art. 6.º, inciso II e §1.º inciso I, do Decreto n.º 2.870/2001 Regulamento do ICMS/SC). (...)Verificase que 2380 unidades de “painel de madeira...” escriturados sob código DV02240 entraram por R$ 158.986,38, gerando créditos tributários de R$ 47.317,38 e resultando num custo contabilizado de R$ 111.669,00, e que 2380 unidades de mercadoria com código e descrição idênticos foram faturadas para Evolution por R$ 111.669,00, exatamente o valor da nota de entrada descontada dos tributos (70,2% da nota de entrada). (...)Neste verificase que os produtos entraram por R$ 72.204,30, gerando créditos tributários de R$ 21.489,39 e resultando num custo contabilizado de R$ 50.714,91, e que produtos com código, descrição e quantidades idênticos foram faturados para Evolution por R$ 50.714,90 (70,2% da nota de entrada). Por que motivo uma empresa com fim lucrativo efetuaria operações como as descritas acima, movimentando cerca de R$ 15 milhões na compra mercadorias para revendêlas pelo preço de custo, sem auferir lucro algum? Qual o propósito negocial ou a lógica comercial de tais operações? Fl. 3035DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.036 7 Efetuaramse cruzamentos semelhantes para as outras notas fiscais das noteiras e de Dioxyl, sintetizados na planilha Comparativo Lançamentos Contábeis Noteiras x Evolution. Detectaramse 127 operações similares às citadas acima, identificadas pelo código XXYY, onde XX são as letras iniciais da noteira e YY o número sequencial, envolvendo 178 notas fiscais de entrada. Os exemplos acima estão identificados por AM01 e NO21. Além daquelas, outras 63 notas fiscais emitidas pelas noteiras foram escrituradas por Dioxyl, que aproveitou os créditos tributários decorrentes de tais entradas. Sob outro aspecto, todas as notas fiscais emitidas por Dioxyl contra Evolution indicavam como transportador o próprio emitente. Inquiriu se Dioxyl a informar sobre as formas de entrega dos produtos vendidos e, caso tivesse havido entrega de produtos com veículo próprio, para apresentar cópias dos Certificados de Registro e Licenciamento (CRLVs) ou documento equivalente dos veículos de propriedade da empresa naquele ano, bem como detalhamento da conta contábil 196– Veículos, que apresentava saldo inicial de R$ 140.984,19 e saldo final R$ 109.300,00 apenas, indícios de que a empresa não possuía frota própria. Em resposta, Dioxyl afirmou que “todas as mercadorias/produtos (objetos desta fiscalização ... sempre que comercializados, foram retirados de nossa empresa por transportadora contratada pela comercial exportadora”, em contraposição ao consignado nas notas fiscais. Também não entregou documentos dos veículos ou detalhamento da conta contábil. Ou seja, também a forma de transporte indicado nas notas fiscais aponta pela ficção dos documentos. Este foi o procedimento fraudulento de emissão de documentos fiscais por Dioxyl. A parte financeira do esquema iniciavase com a emissão de títulos (duplicatas) em nome das noteiras no valor integral da nota fiscal, divididos em 3 parcelas com 70%, 25% e 5% do valor total2, imediatamente descontados em operações de factoring junto à Evolution, que escriturava todas as suas operações de factoring em totalizações mensais a débito na conta Clientes Diversos e a crédito em Caixa e Receita Financeira, como no exemplo abaixo: 2 Em algumas operações a parcela de 70% foi dividida em dois títulos. (...)Quando Dioxyl revendia as mercadorias, emitia apenas um título contra Evolution no valor total da nota fiscal que, como demonstrado, eram os mesmos 70% da nota de entrada referente. Evolution foi intimada a apresentar os comprovantes de pagamento pelas aquisições de mercadorias e efetivamente apresentou transferências bancárias à Dioxyl nos valores corretos. Dioxyl também foi intimada a apresentar comprovantes de pagamento pelas aquisições junto às noteiras e apresentou, para os títulos de 70% do valor, transferências bancárias à Evolution. Fl. 3036DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.037 8 A análise dos comprovantes destes pagamentos não deixa dúvidas quanto ao conluio EvolutionDioxyl. Numa incrível ‘coincidência’, as transferências bancárias de ambas as partes eram simultâneas, feitas nos mesmos valores, datas e horas, com diferença de poucos segundos, vejase os comprovantes bancários e os lançamentos contábeis das operações AM01 e NO21 já citadas acima: (...)Desta forma, Evolution dava por quitada sua compra e Dioxyl quitava a duplicata com 70% do valor devido à noteira cujo título estava em poder de Evolution. Quanto aos títulos com 25% do valor, os comprovantes de pagamento fornecidos por Dioxyl – na maioria pagamentos de boletos bancários – também indicavam Evolution como beneficiária. Cerca de ¼ destes títulos tiveram vencimento naquele ano de 2011. Em sua contabilidade Dioxyl escriturava os pagamentos a débito em Bancos contra as contas das noteiras a crédito, já Evolution não fazia registro algum da entrada destes recursos, apesar das operações de factoring terem sido registradas na conta Clientes Diversos. Os ¾ restantes dos títulos venciam em 2012 e até em 2013, período fora do escopo deste trabalho. Restavam então os títulos de 5% do valor que, pelos elementos colhidos e a informação da denúncia sobre pagamento de 3% do valor de cada nota fiscal fria, levam a crer ser a remuneração paga a Evolution/Maia Bastos pelos créditos fictícios. Aparentemente baixo, cabe ressaltar que o valor pago por Dioxyl sobre cada nota fiscal equivale em verdade a 16,67% do ganho obtido em créditos. (...)Apesar de intimada para comprovar o pagamento dos títulos de 5%, Dioxyl apresentou somente duplicatas mercantis recibadas de apenas algumas destas operações, em que também se notam semelhanças grotescas. Duplicatas emitidas por empresas distintas eram preenchidas por pessoas com grafias muito semelhantes, senão idênticas. Vejamse abaixo recortes dos títulos 106/3 de Norte Sul e 31/3 de Arueira: (...)Assim, na parte financeira o esquema estava concluso em Dioxyl. Na Evolution, comprovados seus pagamentos pelas compras junto a Dioxyl e seus recebimentos de Dioxyl pelos títulos de 70% e 25% descontados, faltava a outra ponta do esquema: a aquisição por Evolution de títulos emitidos pelas noteiras. Evolution foi intimada a comprovar os pagamentos pelas aquisições de títulos emitidos por Arueira, Biomade e Norte Sul contra Dioxyl. Trouxe documentos para 111 títulos com valores totais de face de R$ 4.566.688,17 e de aquisição de R$ 3.919.612,15. Os documentos entregues para comprovação de pagamento, totalizando R$ 3.315.057,25 (R$ 635.247,90 a menor), não apresentavam relação direta nem identificação com quaisquer dos títulos, das pessoas jurídicas emitentes (noteiras) ou dos sócios destas. Pelo contrário, tinham inúmeras inconsistências. (...)Outra característica peculiar dos cheques é que na maioria foram preenchidos e assinados pela auxiliar administrativa sra. Silvana Tamanine Richter, que recebeu a fiscalização quando estivemos na Fl. 3037DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.038 9 Evolution, vejase cópia de um cheque e de recebimento do Termo de Início: (...)Segundo informações de GFIP, esta pessoa tinha salário mensal de R$ 1.090,00 em 2011. Causa no mínimo estranheza que um mero auxiliar administrativo, com rendimento de apenas dois salários mínimos vigentes à época, tivesse poderes para movimentar milhões de reais das contas bancárias da empresa. Em sua contabilidade, Evolution escriturou todos os cheques do Bradesco e alguns cheques do Banco do Brasil (apenas os emitidos até 01/03/2011) contra a conta Caixa a débito, ou seja, reduzindo saldo de Bancos e aumentando Caixa. Não há despesas pagas via caixa a que se possam atribuir os valores provenientes de Bancos. Desta forma, não permite identificar quem foram os beneficiários dos pagamentos nem mesmo se realmente houve algum pagamento de fato. Esses elementos indicam que os cheques apresentados não representam pagamentos relativos a transações comerciais, mas somente documentos gerados com a finalidade de justificar a simulação da compra dos títulos por Evolution. (...)Ficou claro que Evolution não dispunha de comprovação de pagamento das aquisições dos títulos, angariando documentos esparsos e sem conexão – alguns de suas próprias despesas, alguns com indícios de serem pagamentos aos reais fabricantes das mercadorias – na tentativa justificálas, deixando patente a total simulação das operações de factoring com as noteiras. Ora, diante do rol de fortes indícios apontados, a única conclusão possível é de que todas as transações entre noteiras, Dioxyl e Evolution foram simuladas em plano operado por Evolution/Maia Bastos, que vendeu a Dioxyl esquema de planejamento tributário fraudulento de compras e vendas fictícias com o único intuito de gerar créditos tributários com vistas à evasão fiscal. Em verdade, as madeiras, pallets e móveis foram produzidos a mando de e sempre pertenceram a Evolution, pois transitaram apenas documentalmente por Dioxyl. As noteiras As empresas Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony, referidas como noteiras, tinham como papel no esquema a emissão de notas fiscais contra Dioxyl. Segundo verificado no curso deste procedimento fiscal, Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente e Alpha Loyl não tinham qualquer atividade, seja financeira ou comercial nem mesmo sede. Também, seus sócios demonstraram não ter capacidade econômica para iniciar as atividades ou ingressar nas empresas das quais faziam parte. Assim, sua única finalidade era emitir notas fiscais a serem utilizadas na geração de créditos de ICMS, IPI, PIS e Cofins para Dioxyl e outras empresas. Inclusive, vislumbrado esse quadro, de forma incidental as pessoas jurídicas em apreço foram baixadas ou estão em processo de baixa de suas inscrições no cadastro CNPJ. Por seu turno, Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato, porquanto desempenharam suas atividades. Contudo, assim como as outras pessoas jurídicas, também emitiram notas fiscais contra Dioxyl Fl. 3038DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.039 10 como se esta fosse compradora de suas mercadorias, o que não aconteceu, conforme demonstrado anteriormente. As conclusões individuais dos procedimentos fiscais contra cada uma das noteiras estão detalhadas no Anexo Noteiras, do qual faz parte integrante. Transportadoras As transportadoras Rodomoveis Transportes e Transportes Rodomovel constam na maioria das notas fiscais emitidas pelas noteiras como transportador das mercadorias entre elas e Dioxyl. Intimada a apresentar conhecimentos de transporte relativos a elas, Dioxyl respondeu apenas que “o transporte de mercadorias ... era de responsabilidade dos fornecedores”, sem trazer qualquer documento. Em 08/12/2014 e 12/02/2015 as transportadoras foram intimadas a informar se ao longo de 2011 prestaram algum serviço às noteiras e à Evolution. As respostas foram protocoladas em 16/12/2014 e 26/02/2015. Transportes Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.842 12 Rodomovel informou que “não prestou serviços de transporte para a[s] empresa[s]”. Rodomoveis Transportes informou que “não prestou diretamente serviços de transportes para a empresa ... mas carregamos mercadorias nas dependências da empresa, através da Evolution Comercial Exportadora Ltda., a qual prestamos serviços”. Por ocasião da entrega da 2.ª intimação, inquiriuse o representante das transportadoras sobre suas operações com Evolution, sobre o que relatou que transportava contêineres diretamente de diversos produtores de móveis ao porto de ItajaíSC, sempre a mando da própria Evolution, conforme conhecimentos de transporte anexados na resposta à intimação anterior. Também se inquiriu sobre sua relação comercial com Dioxyl, ao que respondeu que nunca transportou mercadorias seja ela como origem ou destino e que já teve que responder pergunta semelhante ao Fisco do Estado de São Paulo. Apresentou então um Termo de Declaração à Delegacia de Polícia da Comarca de São Bento do SulSC (Documento Rodomóveis Boletim ocorrência DRPC) feita em 17/11/2014 no qual “informa que não encontrou nos registros da empresa nenhum transporte de mercadorias para a empresa Dioxyl Revestimentos Químicos”. Não tivemos acesso ao inquérito policial, mas o relato e as circunstâncias levam a crer se tratar do mesmo tema aqui versado. Assim, claro está que as transportadoras indicadas nas notas fiscais emitidas pelas noteiras contra Dioxyl não prestaram tal serviço. Houve apenas transporte de mercadorias entre diversos fabricantes e o porto, sob contratação de Evolution e amparado por sua nota fiscal de exportação. Infrações verificadas Segundo a Portaria MF n.º 187/1993, art. 4.º, sempre que, no decorrer de ação fiscal, forem encontrados documentos emitidos em nome de pessoa jurídica que não exista de fato e de direito ou apesar de constituída formalmente, não possua existência de fato, o contribuinte sob fiscalização deverá ser intimado para comprovar o efetivo pagamento e recebimento dos bens, sob pena de ter glosados os custos e as despesas decorrentes do pagamento não comprovado e ter glosado o crédito fiscal originário de documento inidôneo. Fl. 3039DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.040 11 A relação de todas as notas fiscais de entrada de compras fictícias das noteiras encontrase na planilha Notas Fiscais de Entrada – Noteiras, totalizando R$ 18.124.911,91, e das notas fiscais de saída com vendas simuladas para Evolution encontrase na planilha Notas Fiscais de Saída – Evolution, totalizando R$ 9.495.663,36. As notas fiscais de entrada emitidas pelas noteiras e os respectivos comprovantes de pagamento por Dioxyl compõem o documento NFs de Entrada e Comprovantes de Pagamento. As notas fiscais de saída emitidas por Dioxyl e os respectivos comprovantes de pagamento por Evolution, o documento NFs de Saída e Comprovantes de Pagamento. Na esfera federal importam os reflexos das compras e vendas simuladas na apuração do IPI, da Contribuição para o PIS/PASEP, da Cofins, do IRPJ e da CSLL, sobre os quais se passa a expor. Quanto ao Imposto sobre Produtos Industrializados Segundo o livro Registro de Apuração do IPI, extraído da EFDICMS/IPI, Dioxyl apurou saldos devedores entre janeiro e outubro/2011, declarados corretamente Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.843 13 em DCTF, exceto do período de apuração fevereiro/2011 declarado por R$ 607,48, quando o saldo devedor do RAIPI foi R$ 105.605,67. Intimado a esclarecer esta divergência, afirmou o contribuinte que “o saldo devedor de IPI correto é o informado na DCTF, a diferença verificada será corrigida através da retificação extemporânea do EFD ICMSIPI”. Esta escrituração fiscal substituta serviu então de base ao lançamento para o período fevereiro/2011. Todas as notas fiscais de entrada da planilha Notas Fiscais de Entrada – Noteiras foram creditadas de IPI, pois escrituradas na EFD ICMS/IPI sob Código da Situação Tributária CST 00 Entrada com Recuperação de Crédito. Dessa forma, por se tratarem de créditos fraudulentos, efetuouse a glosa dos créditos computados sobre estas entradas. (...)Ainda em relação às operações fictícias, como se tratam de notas fiscais irregulares que não correspondiam à efetiva entrada de mercadorias e que o contribuinte registrou e utilizou, cabível ainda a imposição da multa regulamentar prevista no art. 572 do RIPI: (...)Assim, em relação ao IPI, cabível o lançamento de ofício de R$ 824.467,88 de tributo com multa de ofício de 150% sobre o tributo devido e multa regulamentar de R$ 18.124.911,91 (somatório do valor das mercadorias, campo Valor dos Produtos, consignado nas notas fiscais), contra Dioxyl como contribuinte e Evolution, Afonso e Humberto como responsáveis solidários (vide tópico sobre responsabilidade solidária mais à frente), efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720220/201609. Além destes, cabe ainda o lançamento de ofício de R$ 155.824,54 com multa de ofício de 75% pela glosa das demais aquisições para revenda, efetuado no âmbito do processo administrativo 10920.720219/201676. Fl. 3040DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.041 12 (...)Imposição de multa qualificada (...)Todo o conjunto indiciário levantado ao longo deste trabalho aponta para a existência de fraude e ajuste doloso (conluio) a fim de reduzir o montante de imposto devido. É inescapável que tanto Dioxyl como Evolution, através de seus administradores, agiram com a deliberada intenção de reduzir os tributos devidos por aquela através de compras e vendas fictícias. Desta maneira, nos lançamentos de ofício decorrentes de tais operações impõese a aplicação de multa qualificada de 150% sobre o tributo apurado, independentemente das demais penalidades cabíveis. Responsabilidade Solidária As constatações retroexpostas são mais que suficientes a provar o interesse comum de Dioxyl e Evolution na situação fática, qual seja, simulação de compras e vendas fictícias para redução do montante de tributos devidos. A parte financeira revelada deixa inequívoco que Evolution não só participava ativamente, mas também era mentora e administradora das transações simuladas Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.844 14 e que, pelos créditos tributários aproveitados, recebia 5% do valor de cada nota fiscal fictícia emitida pelas noteiras – ou 16,67% do crédito gerado na simulação. Os comprovantes bancários das transferências e pagamentos feitos por Dioxyl a Evolution referentes às parcelas de 70% e 25% das notas fiscais trazem expresso que as transações foram efetuadas com sucesso por Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.24947, sócio da Dioxyl com 99% do capital social integralizado8, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e atendeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento. Já os comprovantes bancários entregues por Evolution de pagamentos feitos a Dioxyl e de pagamentos ditos como feitos a terceiros pela compra dos títulos das noteiras trazem escrito que as transações foram efetuadas com sucesso por Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.55972, sócio da Evolution com 99% do capital social integralizado9, a quem competia a administração isolada da empresa, segundo cláusula nona do Contrato Social, e respondeu à Fiscalização no decorrer deste procedimento. Prova inconteste do estreito relacionamento entre ambos, Afonso Henrique Maia Bastos foi o advogado constituído por Humberto para impetrar o mandado de segurança n.º 2007.72.01.0048286/SC junto à Justiça Federal da 4.ª Região em nome de Dioxyl a fim de discutir “o direito de crédito do IPI em relação aos insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero”, arquivado em julho/2010 após sentença desfavorável ao contribuinte. Também representa Dioxyl nas ações de execução fiscal n.º 000525463.2002.8.24.0058 e 0001948 13.2007.8.24.0058 movidas pela Fazenda Nacional perante o Poder Judiciário de Santa Catarina, conforme consultas processuais (Documento Consulta Justiça). Ora, sendo Humberto e Afonso os administradores das empresas, que efetuavam as transações bancárias e, em última instância, os reais beneficiários da fraude, ficam patentes suas participações dolosas nas operações aqui expostas. Fl. 3041DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.042 13 O Código Tributário Nacional, Lei n.º 5.172/1966, dispõe que (a fiscalização transcreve os arts. 124, I, e 135, III): (...)Assim, cabível a responsabilização solidária de Evolution Comercial Exportadora Ltda., CNPJ 05.699.094/000152, Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.24947, e Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.55972, pelos créditos tributários ora constituídos decorrentes das operações fraudulentas. Representação Fiscal para Fins Penais (...)As condutas dos agentes e os elementos expostos ao longo deste trabalho configuram, em tese, crimes contra a ordem tributária, razão pela qual lavrouse Representação Fiscal para Fins Penais no âmbito do processo administrativo n.º 10920.720225/201623 contra Humberto Barbosa Lima, CPF 005.076.24947, e de Afonso Henrique Maia Bastos, CPF 743.337.55972. Nas fls. 50/64, com um anexo que integra o Termo de Verificação, a fiscalização trata das empresas "noteiras", descrevendo as conclusões individuais dos Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.845 15 procedimentos fiscais contra cada uma delas, a saber: Arueira, Biomade, Norte Sul, J4, Ambiente, Loyl, Madesul, Renari, GS e Harmony. O contribuinte, pessoa jurídica, e os três responsáveis tributários (a pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda e as duas pessoas físicas administradoras desta e da jurídica autuada como contribuinte) foram cientificados regularmente do Auto de Infração e das responsabilidades em 11/02/2016 (ver fls. 2627/2637) e apresentaram em 14/03/2016 impugnações tempestivas, isoladamente. O contribuinte, cuja Impugnação consta das fls. 2737/2771, alega inicialmente a decadência do lançamento, ressaltando que o prazo para constituição do crédito tributário decai em cinco anos. Em seguida, no item 3 da peça impugnatória, argui haver "incongruência da narrativa utilizada pelo agente fiscal" e que todo o lançamento é baseado em presunção da existência de operações simuladas entre a Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda, contribuinte, e as empresas denominadas noteiras. Observa que os Auditores Fiscais, apesar de considerarem as operações simuladas, "por diversas vezes reconhecem a efetiva exportação das mercadorias, ou seja, as operações existiram de fato", citando passagens do TVI no sentido de que os produtos foram fabricados por sujeitos indeterminados a mando da Evolution, foram por ela exportados e as empresas Madesul, Renari, GS e Harmony existiam de fato. Para o contribuinte, as operações tratam de compra e venda legítimas e os AuditoresFiscais agiram com abuso de poder e de modo contrário às normas tributárias, afrontando o princípio da legalidade, a respeito do qual cita doutrina. Afirma no item 4 inexistir vedação legal às operações, refutando a acusação de simulação. Segundo o contribuinte, "constatase a ocorrência do erro da autoridade autuante, no tocante ao enquadramento legal do fato descrito (tipificação), posto que os Fl. 3042DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.043 14 dispositivos legais constantes da Lei Federal invocados pelos agentes fiscais, não discriminam e não se coadunam com o suporte fático concreto, de onde resulta a inocorrência de fato imputável ao Contribuinte e, como conseqüência, gera a nulidade do Auto de Infração". Entende que, "Para que se possa caracterizar a simulação é indispensável que o ato praticado, que se pretende dissimular sob o manto do ato ostensivamente praticado, não pudesse ser realizado por vedação legal ou qualquer outra razão. Como as partes realizaram o negócio não restou caracterizada a declaração enganosa de vontade, essencial na simulação". Também argui ofensa ao princípio constitucional da ampla defesa, mencionando o art. 5º, LV, da Constituição Federal, contesta "a multa de 205" (ipsis literis) e reputa nulo o Auto de Infração "por não haver penalidade sem lei anterior que a defina, nem infração sem disposição expressa que o tipifique" (final da primeira do item 4 da Impugnação do contribuinte, que possui outro tópico sob o mesmo número, intitulado "DA LEGITIMIDADE DAS OPERAÇÕES"). Continua refutando a fiscalização nos itens seguintes, até o de nº 9, onde afirma que "para que pudesse haver autuação o fisco deveria estar embasado em provas robustas e não em meras SUPOSIÇÕES e CONCLUSÕES PRÓPRIAS", concluindo o seguinte: "Tornase pois, imperioso como medida de justiça, a anulação dos objurgados itens, uma vez que, no caso em tela, o direito líquido e certo da Impugnante, está materializado em face da constante Ilegalidade e Abusividade dos atos praticados pela autoridade fiscal." O item 10 é dedicado especificamente aos dois Autos de Infração do presente processo, e nele o contribuinte defende o direito aos créditos do IPI, oriundo das operações que a autuação reputou simuladas (a fiscalização considerou que as empresas "noteiras" emitiam notas fiscais frias, gerando créditos do IPI e outros tributos em favor da Dioxyl). Reportandose ao princípio constitucional da não cumulatividade que rege o IPI e à suspensão do Imposto nas saídas de produtos destinados à exportação (menciona o art. 43, V, e § 1º, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 RIPI/2010), afirma que "de nenhuma forma a primeira operação realizada entre a Dioxyl e a empresa produtora da mercadoria por (sic) ser considerada como fim específico para exportação, apenas a revenda do produto da Dioxyl para a Evolution" e, assim, "é assegurado a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto". Também se insurge contra a multa isolada de 100% (lançada em Auto separado, com base no art. 572, II, do RIPI/2010, por utilização de notas fiscais irregulares, recebidas e escrituradas pelo contribuinte Dioxyl), repisando que todas as operações são legítimas e foram realizadas dentro do "rigorismo fiscal". Por ter agido dentro dos ditames legais, argui que "fica de plano afastada qualquer possibilidade de sanção", além de reputar confiscatória e contrária ao princípio da capacidade contributiva a multa aplicada (no subitem 10.3 da peça impugnatória, sob o título "DA NECESSIDADE DE APURAÇÃO DO VALOR CORRETO DO IMPOSTO E DO DESCABIMENTO DE JUROS E MULTA", se refere ora à penalidade de 150% sobre os valores do IPI lançados de ofício, ora à de isolada de 100%, pois num ponto afirma que "a multa sobre os valores discutidos tem a forma de verdadeiro confisco" e, mais adiante, que "No caso concreto, a norma sancionante atribuiu uma Fl. 3043DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.044 15 penalidade ao hipotético 'ilícito', ou seja, a multa sobre o valor total dos créditos, legal e licitamente aproveitados, em conformidade com a legislação em vigor"). No subitem seguinte ainda considera que "Não há nenhum motivo lícito para a exigência de multa", pelo que da exigência "nasce o enriquecimento ilícito do Erário Público em detrimento do Contribuinte, vedado pela legislação e pelos princípios gerais do direito". O item 11 trata do processo nº 10920.720221/2016 45, relativo ao Auto de Infração do IRPJ e CSLL, enquanto o seguinte é dedicado ao processo nº 10920.720219/201676, relativo ao IPI, mas com multa de ofício no percentual de 75% (este foi julgado por esta 2ª Turma em 31/10/2016, que manteve o lançamento conforme o Acórdão nº 11054.185). Ao final, no item 13, o contribuinte requer o seguinte: a) Primeiramente, o acolhimento da preliminar retro, para reconhecer a decadência dos débitos tributário (sic), com o conseqüente cancelamento (arquivamento); b) Ainda, no mérito, reconheça a IMPROCEDÊNCIA dos presentes Autos de Infração, declarandose extinta a pretensão fiscal, excluindo se a aplicação das penalidades, pelos fundamentos de fato e de direito anteriormente expendidos. A pessoa jurídica Evolution Comercial Exportadora Ltda, autuada na condição de responsável tributário, apresenta a Impugnação de fls. 2689/2724, onde repisa as alegações do contribuinte Dioxyl. Há pequenas diferenças, como a arguição de que "Causa Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.847 17 surpresa à Impugnante os termos utilizados que além de denegrirem a imagem da empresa e do sócio, trazemlhes prejuízo de ordem moral" (fl. 2691), e a reiteração da informação de que a empresa responsável pela contabilidade da Evolution "foi atingida por enchente no decorrer do ano de 2014, o que ocasionou a perda de grande quantidade de documentação" (fl. 2706), ambas ausentes no texto do contribuinte, e é acrescentado um item sob o título "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA". Neste tópico é refutado o emprego do art. 124, I, do CTN, citado nos Autos de Infração em relação à Evolution (a responsabilidade das duas pessoas físicas é enquadrada no art. 135 do mesmo Código), que alega: a solidariedade do referido dispositivo 'somente pode existir entre sujeitos que figurem no mesmo pólo de relação obrigacional, pois só assim o interesse poderá ser considerado como comum"; "O interesse comum não pode ser presumido em razão de um fato escolhido pelo legislador ordinário", que não pode subverter o sentido dos dispositivos do CTN; nem o interesse comum, requisito da solidariedade, nem esta, pode ser presumido; as relações entre a Dioxyl e a Evolution se restringiam a compra e venda de mercadorias para serem exportadas ou compra e venda de títulos através de fomento mercantil, inexistindo qualquer conluio visando fraudar a fiscalização, além de constituírem interesses antagônicos; Fl. 3044DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.045 16 a Evolution e a Maia Bastos Assessoria Empresarial são empresas distintas e esta prestou sim assessoria empresarial à Dioxyl; "Se tivesse havido operação simulada, poderia haver imputação de responsabilidade tributária ao adquirente com supedâneo no cometimento de ilícitos, mas esta jamais poderá advir do artigo 124, I, do CTN, porque o interesse comum não existe neste hipótese, e nem a solidariedade é um meio de incluir um terceiro no pólo passivo da obrigação tributária." Ao final a Evolution requer a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade da empresa Evolution Comercial Exportadora, por inexistir operações simuladas ou interesse comum com a Dioxyl". A pessoa física Humberto Barbosa Lima também impugna os lançamentos (fls. 2787/2823), reproduzindo os termos do contribuinte Dioxyl com acréscimo de um item intitulado "INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE DO SÓCIO". Neste item rejeita a responsabilidade que lhe foi atribuída com base nos arts. 124, I, e 135, III, do CTN (nos Autos de Infração é mencionado apenas o primeiro dispositivo, mas no TVI constam os dois), arguindo que, como sócio, não pode ser responsabilizado "pela infrações supostamente cometidas pela pessoa jurídica, pois sempre agiu dentro da lei e do contrato social", sendo nula a pretensão fazendária em responsabilizálo sem demonstrar que praticou infração à lei ou ao contrato social da sociedade. Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.848 18 No requerimento pede a decadência e improcedência dos Autos de Infração (tal como faz o contribuinte Dioxyl), apenas acrescendo pedido específico para que "seja reconhecida a inexistência de responsabilidade do sócio Humberto Barbosa Lima, pois sempre agiu dentro da lei Analisada a manifestação de inconformidade, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou improcedente a manifestação de inconformidade, com a seguinte ementa (fl. 2.831): Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 IPI. REDUÇÃO DO IMPOSTO DEVIDO MEDIANTE CRÉDITOS SIMULADOS. NOTAS FISCAIS EMITIDAS EM NOME DE EMPRESA DE FACHADA. DOLO CARACTERIZADO. MULTA QUALIFICADA. Caracteriza fraude, ensejando o lançamento de ofício do tributo com aplicação da multa qualificada no percentual de 150%, o creditamento do IPI com base em notas fiscais emitidas por empresas de fachada, simulando aquisições que inexistiram e reduzindo o montante do Imposto devido. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. 150%. FRAUDE E CONLUIO. LEGALIDADE. A multa de ofício no percentual qualificado de cento e cinquenta por cento, aplicada nos lançamentos de ofício quando caracterizada a fraude, é prevista na legislação do IPI e nada tem de ilegal. Fl. 3045DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.046 17 MULTA REGULAMENTAR. APROVEITAMENTO DE NOTAS FISCAIS QUE NÃO CORRESPONDEM A EFETIVA SAÍDA. RIPI/2010, ART. 572, II. PENALIDADE IGUAL AO VALOR COMERCIAL DA MERCADORIA. Nos termos do art. 572, II, do Regulamento do IPI aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010, aos que, em proveito próprio ou alheio, utilizam ou registram nota fiscal que não corresponda à saída efetiva das mercadorias nela constantes, aplicase a multa isolada equivalente ao valor das mercadorias. JUROS DE MORA. SELIC. LEGALIDADE. Nos lançamentos de ofício é cabível aplicação dos juros de mora com base na taxa Selic, nos termos da legislação vigente. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.832 2 Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CINCO ANOS. DOLO. TERMO INICIAL DO PRAZO QUINQUENAL DESLOCADO PARA O INÍCIO DO ANO SEGUINTE AO DO FATO GERADOR. O prazo para a Fazenda constituir o crédito tributário de tributos submetidos ao lançamento por homologação, como o IPI, é de cinco anos, começando a contagem do quinquênio, regra geral, do fato gerador, na forma do art. 150, § 4º, do CTN. Todavia, no caso de dolo o termo inicial é deslocado para o primeiro dia do ano seguinte, nos termos do art. 173, I, do mesmo Código. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PESSOA JURÍDICA ENVOLVIDA EM FRAUDE. CONLUIO. ART. 124, I, DO CTN. SOLIDARIEDADE DE FATO. A solidariedade de fato, prevista no art. 124, I, do Código Tributário Nacional, atinge a pessoa jurídica que, mediante fraude, contribui para reduzir tributo de outra empresa, com ela conluiada. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ADMINISTRADORES. DOLO CARACTERIZADO. CTN, ART. 135, III. INCLUSÃO NO POLO PASSIVO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA. Caracterizado o dolo, por estar comprovada a utilização de notas fiscais sem a efetiva saída de mercadorias, em simulação visando reduzir o recolhimento de tributo e permitir informações inverídicas à Receita Federal, os administradores da pessoa jurídica também respondem pela obrigação tributária, de modo solidário e sem benefício de ordem, nos termos do art. 135, III, do Código Tributário Nacional. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE OU ILEGALIDADE. MATÉRIA DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA DO JUDICIÁRIO. Argüições de inconstitucionalidade ou ilegalidade constituem matéria de competência exclusiva do Poder Judiciário, não sendo utilizadas como fundamento em decisões deste Colegiado. Fl. 3046DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.047 18 AUTOS DE INFRAÇÃO CONTENDO AS MATÉRIAS TRIBUTADAS E RESPECTIVOS ENQUADRAMENTOS LEGAIS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. NULIDADE REJEITADA. Não caracteriza a preterição do direito de defesa, a suscitar a nulidade dos lançamentos, os autos de infração que atendem ao disposto no art. 10 do Decreto nº 70.235/72, identificam as matérias tributadas e contêm os Processo 10920.720220/201609 Acórdão n.º 11054.569 DRJ/REC Fls. 2.833 3 enquadramentos legais correlatos, demonstrando com clareza as exigências. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Foram apresentados Recursos Voluntários, conforme se verifica às. fls. 2.880 e seguintes. É o relatório. Voto Conselheira Liziane Angelotti Meira Relatora. Observase que, em decorrência dos mesmos fatos, foram lançados IRPJ, CSLL e IPI, conforme se verifica no Termo de Verificação Fiscal. Transcrevese trecho (fl. 20/22): Trata o presente trabalho de procedimento fiscal para verificação do cumprimento das obrigações tributárias relativas a IRPJ, CSLL, IPI, PIS e COFINS pelo contribuinte supracitado nos períodos de apuração entre janeiro e dezembro de 2011. Este procedimento individual fez parte de amplo trabalho de fiscalização que envolveu, além da empresa Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda. tratada neste Termo, as seguintes empresas: Evolution Comercial Exportadora Ltda. (CNPJ 05.699.094/000152, MPF n.' 09.2.02.00 2014003232), Arueira Madeiras Ltda. ME (CNPJ 13.006.498/000141, MPF n.' 09.2.02.002014 003240), Biomade Resíduos Florestais Ltda. EPP (CNPJ 08.149.693/000190, MPF n.' 09.2.02.00 2014003259), Norte Sul Comércio de Madeiras e Materiais de Construção Ltda. ME (CNPJ 00.557.239/000167, MPF n.' 09.2.02.002014003267), Madesul Madeira Ltda. ME (CNPJ 07.167.503/000103, MPF n.' 09.2.02.002015001101), Ambiente Indústria e Comércio de Móveis Ltda. ME (CNPJ 09.512.098/000130, MPF n.' 09.2.02.002015001110), GS Comércio e Representação de Madeira Ltda. ME (CNPJ 58.289.828/000191, MPF n.' 09.2.02.00 201500112 8), Renari Móveis Ltda. ME (CNPJ 03.838.196/000186, MPF n.' 09.2.02.002015001144), Harmony Móveis Ltda. EPP (CNPJ 83.162.966/000152, MPF n.' 09.2.02.002015001152), J4 Madeiras Ltda. ME (CNPJ 08.531.880/000134, MPF n.' 09.2.02.00201500118 7), Rodomoveis Transportes e Madeiras Ltda. (CNPJ 76.816.792/0001 39, MPF n.' 09.2.02.002014003852 e 09.2.02.002015000547) e Transportes Rodomovel Ltda. – EPP (CNPJ 07.525.465/000105, MPF n.' 09.2.02.002014003844 e 09.2.02.002015000555), além das Fl. 3047DF CARF MF Original Processo nº 10920.720220/201609 Resolução nº 3301001.009 S3C3T1 Fl. 3.048 19 pessoas físicas Humberto Barbosa Lima (CPF 005.076.24947, MPF n.' 09.2.02.002015002000) e Afonso Henrique Maia Bastos (CPF 743.337.55972, MPF n.' 09.2.02.002015002019). (...) Detectaramse diversas infrações à legislação tributária que resultaram em lançamentos de ofício contra Dioxyl Revestimentos Químicos Ltda. com responsabilidade solidária de Evolution Comercial Exportadora Ltda., Humberto Barbosa Lima e Afonso Henrique Maia Bastos, por terem interesse comum e estarem diretamente envolvidos em fatos verificados no decorrer da ação fiscal, materializados nos processos administrativos no 10920.720221/201645 (IRPJ/CSLL) e 10920.720220/201609 (IPI). Colacionamse as determinações do RICARF aplicáveis ao presente caso: Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observando se a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: I conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; (...) Art. 2º À 1ª (primeira) Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª (primeira) instância que versem sobre aplicação da legislação relativa (...) IV CSLL, IRRF, Contribuição para o PIS/Pasep ou Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB), quando reflexos do 24 IRPJ, formalizados com base nos mesmos elementos de prova; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (grifouse) Em razão do exposto, voto no sentido de declinar competência para a 1a Seção do CARF, por se tratar de processo de competência dessa Seção, nos termos dos arts. 6o e 2o, IV, do RICARF. (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Fl. 3048DF CARF MF Original
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Numero do processo: 10935.725462/2018-83
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 10 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Mar 23 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3402-004.323
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para que a unidade de origem intime a Recorrente para tomar as seguintes providências: (i) comprovar o processo produtivo indicado pela defesa, bem como a utilização das máquinas e equipamentos nos quais foram utilizados os bens e serviços que deram origem ao crédito pleiteado a título de depreciação; (ii) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, a participação dos itens identificados como bens (partes e peças) e serviços de manutenção em cada etapa do processo produtivo, bem como o tempo de vida útil de tais itens, esclarecendo sobre a necessidade de tais itens e se há alguma contribuição quanto ao aumento de vida útil das máquinas ou equipamentos aos quais são aplicados e cujas manutenções são realizadas (em quanto tempo); (iii) elaborar planilha de cálculo da depreciação equivalente a parcela de cada item, se for o caso, indicando detalhadamente a metodologia de cálculo adotada para cada bem e a respectiva fundamentação legal; (iv) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, o enquadramento das despesas (bens e serviços) que deram origem aos créditos glosados pela Fiscalização e mantidos pela DRJ, bem como a utilização em seu processo produtivo, considerando o conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade ou relevância, delimitados no r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa em julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, bem como na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, e Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018; (v) comprovar o direito creditório com relação aos fretes sobre compras sem a identificação do documento da carga, tendo em vista o argumento de rastreabilidade plena (notas fiscais correlatas, ordens de compra, registros internos de entrada, tickets de balança e mapeamento logístico interno); e (vi) comprovar as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa e as razões pelas quais ocorreram tais evoluções. Com a comprovação acima, deverá a unidade de origem elaborar Relatório Conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nesta Resolução, manifestando-se sobre os documentos apresentados pela Recorrente, bem como recalcular as apurações, caso necessário. Cumprida a diligência, a unidade de origem deverá intimar a Recorrente para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias, retornando os autos a este Colegiado, com ou sem manifestação da parte, para que se dê prosseguimento ao julgamento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3402-004.316, de 10 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10935.725494/2018-89, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, José de Assis Ferraz Neto, Larissa Cassia Favaro Boldrin (substituta integral), Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: ARNALDO DIEFENTHAELER DORNELLES
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decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para que a unidade de origem intime a Recorrente para tomar as seguintes providências: (i) comprovar o processo produtivo indicado pela defesa, bem como a utilização das máquinas e equipamentos nos quais foram utilizados os bens e serviços que deram origem ao crédito pleiteado a título de depreciação; (ii) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, a participação dos itens identificados como bens (partes e peças) e serviços de manutenção em cada etapa do processo produtivo, bem como o tempo de vida útil de tais itens, esclarecendo sobre a necessidade de tais itens e se há alguma contribuição quanto ao aumento de vida útil das máquinas ou equipamentos aos quais são aplicados e cujas manutenções são realizadas (em quanto tempo); (iii) elaborar planilha de cálculo da depreciação equivalente a parcela de cada item, se for o caso, indicando detalhadamente a metodologia de cálculo adotada para cada bem e a respectiva fundamentação legal; (iv) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, o enquadramento das despesas (bens e serviços) que deram origem aos créditos glosados pela Fiscalização e mantidos pela DRJ, bem como a utilização em seu processo produtivo, considerando o conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade ou relevância, delimitados no r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa em julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, bem como na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, e Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018; (v) comprovar o direito creditório com relação aos fretes sobre compras sem a identificação do documento da carga, tendo em vista o argumento de rastreabilidade plena (notas fiscais correlatas, ordens de compra, registros internos de entrada, tickets de balança e mapeamento logístico interno); e (vi) comprovar as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa e as razões pelas quais ocorreram tais evoluções. Com a comprovação acima, deverá a unidade de origem elaborar Relatório Conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nesta Resolução, manifestando-se sobre os documentos apresentados pela Recorrente, bem como recalcular as apurações, caso necessário. Cumprida a diligência, a unidade de origem deverá intimar a Recorrente para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias, retornando os autos a este Colegiado, com ou sem manifestação da parte, para que se dê prosseguimento ao julgamento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3402-004.316, de 10 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10935.725494/2018-89, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, José de Assis Ferraz Neto, Larissa Cassia Favaro Boldrin (substituta integral), Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
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Com a comprovação acima, deverá a unidade de origem elaborar Relatório Conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nesta Resolução, manifestando-se sobre os documentos apresentados pela Recorrente, bem como recalcular as apurações, caso necessário. Cumprida a Fl. 14469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 2 diligência, a unidade de origem deverá intimar a Recorrente para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias, retornando os autos a este Colegiado, com ou sem manifestação da parte, para que se dê prosseguimento ao julgamento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3402-004.316, de 10 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10935.725494/2018-89, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, José de Assis Ferraz Neto, Larissa Cassia Favaro Boldrin (substituta integral), Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/04/2017 a 30/06/2017 NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMO. DECISÃO DO STJ. O conceito de insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da COFINS, conforme o entendimento adotado pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços realizados pela pessoa jurídica. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA AO PROCESSO PRODUTIVO. Fl. 14470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 3 Para haver a aplicação das teses do repetitivo REsp. 1.221.170 - PR, onde foi definido o conceito de insumos para fins de creditamento nas contribuições ao PIS/Pasep e COFINS não cumulativos, é preciso que a empresa que deseja enquadrar determinado bem ou serviço como insumo: 1º) Demonstre que realiza qualquer processo produtivo de bens destinado a venda ou prestação de serviços; e 2º) Demonstre que esse bem ou serviço é aplicado direta ou indiretamente no processo produtivo ou prestação de serviços; e 3º) Demonstre que esse bem ou serviço é essencial ao processo produtivo ou prestação de serviços. Além disso, o creditamento do valor relativo ao bem ou serviço não pode ser objeto de nenhuma outra vedação ou autorização legal específicas. NÃO CUMULATIVIDADE. GASTOS POSTERIORES AO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. O processo de produção de bens encerra-se, em geral, com a finalização das etapas produtivas do bem e o processo de prestação de serviços geralmente se encerra com a finalização da prestação ao cliente, excluindo-se do conceito de insumo bens e/ou serviços utilizados posteriormente à finalização dos referidos processos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PALETES E DEMAIS PRODUTOS UTILIZADOS EM EMBALAGEM DESTINADA AO TRANSPORTE. IMPOSSIBILIDADE. As embalagens que não são utilizadas no processo produtivo, mas apenas ao final desse ciclo, destinando-se tão-somente ao transporte não geram, por conseguinte, direito ao crédito. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETES PARA FORMAÇÃO DE LOTES DE EXPORTAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os gastos com transporte para a formação de lote de exportação, não se caracterizam como insumos, por serem suportados em momento posterior à etapa da produção dos bens ou da prestação dos serviços, estando alheio ao dispositivo legal que somente autoriza o crédito de bens e serviços utilizados na produção; e não se enquadram no conceito de frete na operação de venda. NÃO CUMULATIVIDADE. BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. DEPRECIAÇÃO. O aproveitamento de créditos de PIS/Pasep e COFINS decorrente de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado restringe-se àqueles adquiridos ou construídos para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, o que não contempla a depreciação daqueles utilizados nas demais áreas. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/04/2017 a 30/06/2017 MATÉRIA NÃO ALEGADA. PRECLUSÃO. Fl. 14471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 4 A matéria que não for expressamente contestada torna-se definitiva na esfera administrativa. A Contribuinte foi intimada da decisão de primeira instância, apresentando o Recurso Voluntário solicitando o provimento para o fim de que seja revertida a integridade das glosas pleiteadas neste processo. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: Pressupostos legais de admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo, bem como preenche os requisitos de admissibilidade, resultando em seu conhecimento. Necessidade de nova conversão do julgamento em diligência Conforme relatório, versa o presente litígio sobre Pedido de Ressarcimento de crédito de COFINS referente ao 2º trimestre de 2018, reconhecido parcialmente através do Despacho Decisório proferido pela DRF Cascavel. Em controvérsia estão créditos relativos a: paletes e material de embalagem de papelão; fretes para formação de lotes de exportação; fretes sobre compras sem descrição da carga; depreciação de máquinas em unidades tidas pela DRJ como “não produtoras”; itens classificados como revendas monofásicas; armazenagem e frete na operação de venda; devoluções e máquinas em áreas de expedição. Consta nas razões recursais que a Recorrente tem como objeto social as seguintes atividades: Fl. 14472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 5 Igualmente em razões recursais, a defesa expõe a forma como desenvolve suas atividades de abate e industrialização de aves, assim sintetizado: Com relação aos créditos originados da depreciação de máquinas e equipamentos, segundo a fiscalização, foram glosados os valores referentes à depreciação de máquinas e equipamentos não utilizados na produção de bens destinados à venda, por estarem vinculados a estabelecimentos sem atividade produtiva, como supermercados, administração central e centrais de distribuição, conforme o CNAE informado pela interessada. A Contribuinte, entretanto, sustenta que os referidos bens são empregados em suas unidades recebedoras de grãos, que integram o processo industrial da cooperativa, pois nelas são realizados procedimentos de classificação, limpeza, padronização e armazenagem dos grãos recebidos dos cooperados, visando à obtenção de matéria-prima para fabricação de ração e posterior comercialização. Fl. 14473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 6 Sustenta, ainda, que essas operações não se limitam a mero beneficiamento ou logística: representam etapas essenciais do processo produtivo, agregando valor econômico e garantindo a qualidade exigida pelo mercado. Diante da especificidade da cadeia produtiva da Recorrente, bem como considerando a premissa adotada pela DRJ ao negar o direito creditório por entender que as máquinas e os equipamentos relacionados à glosa promovida pela fiscalização não são destinados à produção de bens destinados à venda e, ainda, diante dos esclarecimentos prestados pela defesa, em necessária atenção à verdade material, entendo que cabe oportunizar a apresentação de laudo pericial, comprovando as alegações com relação ao processo produtivo em referência. Da mesma forma, uma vez comprovada a utilização das máquinas e equipamentos no processo produtivo, deve a Unidade Preparadora proceder à análise acerca da natureza dos itens identificados como partes e peças integrantes do ativo imobilizado, verificando-se, ainda, o respectivo tempo de vida útil. Caberá esclarecer se tais itens efetivamente contribuem para a ampliação da vida útil ou para a manutenção das condições operacionais das máquinas e equipamentos aos quais são aplicados. Outrossim, considerando que as atividades sob análise compreende alimentos para consumo humano, passando desde a criação, abate, industrialização de produtos de origem animal, com transportes realizados até comercialização para consumidor final (ou até o porto para a posterior exportação das mercadorias) e, por sua vez, considerando a premissa adotada pela Fiscalização e exposta em Relatório Fiscal, entendo que não ocorreu detida e individualizada avaliação dos insumos próprios do segmento da empresa Recorrente, tampouco a segregação dos bens e serviços indicados como insumos em cada etapa desenvolvida. Observo que o julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, processado em sede de recurso representativo de controvérsia, pelo qual o Egrégio Superior Tribunal de Justiça concluiu que, para efeito de tomada de crédito das contribuições na forma do artigo 3º, inciso II das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, conforme a imprescindibilidade ou a importância de determinado item (bem ou serviço) para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. Para análise sobre os critérios da essencialidade e relevância, destaco o voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa, que considerou os seguintes conceitos de essencialidade ou relevância da despesa, que deve ser seguido por este Conselho: Essencialidade – considera-se o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância - considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à Fl. 14474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 7 prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. (sem destaques no texto original) Outrossim, ao tratar sobre o conceito de insumo definido pelo Eg. STJ, o Parecer Normativo Cosit/RFB nº 5/2018 abordou os gastos com frete posteriores ao processo produtivo da seguinte forma: 17. Das transcrições dos excertos fundamentais dos votos dos Ministros que adotaram a tese vencedora resta evidente e incontestável que somente podem ser considerados insumos itens relacionados com a produção de bens destinados à venda ou com a prestação de serviços a terceiros, o que não abarca itens que não estejam sequer indiretamente relacionados com tais atividades. 18. Deveras, essa conclusão também fica patente na análise preliminar que os Ministros acordaram acerca dos itens em relação aos quais a recorrente pretendia creditar-se. Por ser a recorrente uma indústria de alimentos, os Ministros somente consideraram passíveis de enquadramento no conceito de insumos dispêndios intrinsecamente relacionados com a industrialização (“água, combustível, materiais de exames laboratoriais, materiais de limpeza e (...) equipamentos de proteção individual – EPI”), excluindo de plano de tal conceito itens cuja utilidade não é aplicada nesta atividade (“veículos, ferramentas, seguros, viagens, conduções, comissão de vendas a representantes, fretes (...), prestações de serviços de pessoa jurídica, promoções e propagandas, telefone e comissões”). 19. Prosseguindo, verifica-se que a tese acordada pela maioria dos Ministros foi aquela apresentada inicialmente pela Ministra Regina Helena Costa, segundo a qual o conceito de insumos na legislação das contribuições deve ser identificado “segundo os critérios da essencialidade ou relevância”, explanados da seguinte maneira por ela própria (conforme transcrito acima): a) o “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja”: b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Fl. 14475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 8 20. Portanto, a tese acordada afirma que são insumos bens e serviços que compõem o processo de produção de bem destinado à venda ou de prestação de serviço a terceiros, tanto os que são essenciais a tais atividades (elementos estruturais e inseparáveis do processo) quanto os que, mesmo não sendo essenciais, integram o processo por singularidades da cadeia ou por imposição legal. 21. O teste de subtração proposto pelo Ministro Mauro Campbell, segundo o qual seriam insumos bens e serviços “cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes” (fls 62 do inteiro teor do acórdão), não consta da tese acordada pela maioria dos Ministros da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, malgrado possa ser utilizado como uma importante ferramenta indiciária na identificação da essencialidade ou relevância de determinado item para o processo produtivo. Vale destacar que a aplicação do aludido teste, mesmo subsidiária, deve levar em conta os comentários feitos nos parágrafos 15 a 18 quando do teste resultar a obstrução da atividade da pessoa jurídica como um todo. 22. Diante da abrangência do conceito formulado na decisão judicial em comento e da inexistência nesta de vinculação a conceitos contábeis (custos, despesas, imobilizado, intangível, etc.), deve-se reconhecer esta modalidade de creditamento pela aquisição de insumos como a regra geral aplicável às atividades de produção de bens e de prestação de serviços no âmbito da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, sem prejuízo das demais modalidades de creditamento estabelecidas pela legislação, que naturalmente afastam a aplicação da regra geral nas hipóteses por elas alcançadas. 23. Ademais, observa-se que talvez a maior inovação do conceito estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça seja o fato de permitir o creditamento para insumos do processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços, e não apenas insumos do próprio produto ou serviço comercializados, como vinha sendo interpretado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. 24. Nada obstante, salienta-se que o processo de produção de bens, em regra, encerra-se com a finalização das etapas produtivas do bem e que o processo de prestação de serviços geralmente se encerra com a finalização da prestação ao cliente. Consequentemente, os bens e serviços empregados posteriormente à finalização do processo de produção ou de prestação não são considerados insumos, salvo exceções justificadas, como ocorre com a exceção abordada na seção GASTOS APÓS A PRODUÇÃO relativa aos itens exigidos pela legislação para que o bem ou serviço produzidos possam ser comercializados. (...) 5. GASTOS POSTERIORES À FINALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO OU DE PRESTAÇÃO 55. Conforme salientado acima, em consonância com a literalidade do inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, e nos termos decididos pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, em regra Fl. 14476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 9 somente podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins bens e serviços utilizados pela pessoa jurídica no processo de produção de bens e de prestação de serviços, excluindo- se do conceito os dispêndios realizados após a finalização do aludido processo, salvo exceções justificadas. 56. Destarte, exemplificativamente não podem ser considerados insumos gastos com transporte (frete) de produtos acabados (mercadorias) de produção própria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, para centros de distribuição ou para entrega direta ao adquirente6, como: a) combustíveis utilizados em frota própria de veículos; b) embalagens para transporte de mercadorias acabadas; c) contratação de transportadoras. 57. Nada obstante, deve-se salientar que, por vezes, a legislação específica de alguns setores exige a adoção pelas pessoas jurídicas de medidas posteriores à finalização da produção do bem e anteriores a sua efetiva disponibilização à venda, como ocorre no caso de exigência de testes de qualidade a serem realizados por terceiros (por exemplo o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – Inmetro), aposição de selos, lacres, marcas, etc., pela própria pessoa jurídica ou por terceiro. 58. Nesses casos, considerando o quanto comentado na seção anterior acerca da ampliação do conceito de insumos na legislação das contribuições efetuada pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça em relação aos bens e serviços exigidos da pessoa jurídica pela legislação específica de sua área de atuação, conclui-se que tais itens são considerados insumos desde que sejam exigidos para que o bem ou serviço possa ser disponibilizado à venda ou à prestação. 59. Assim, conclui-se que, em regra, somente são considerados insumos bens e serviços utilizados pela pessoa jurídica durante o processo de produção de bens ou de prestação de serviços, excluindo-se de tal conceito os itens utilizados após a finalização do produto para venda ou a prestação do serviço. Todavia, no caso de bens e serviços que a legislação específica exige que a pessoa jurídica utilize em suas atividades, a permissão de creditamento pela aquisição de insumos estende-se aos itens exigidos para que o bem produzido ou o serviço prestado possa ser disponibilizado para venda, ainda que já esteja finalizada a produção ou prestação. Diante das razões acima, entendo que os créditos originados da aquisição de bens (paletes de madeira e material para embalagem de papelão) e serviços utilizados como insumos, entendo que deve ser oportunizado à Recorrente a comprovação da essencialidade e relevância de referidas despesas, bem como se há o enquadramento no Parecer Normativo Cosit/RFB nº 5/2018, inclusive sobre eventual exigência legal sanitária e/ou indispensabilidade para a conformidade regulatória (MAPA, SIF, DIPOA). Por fim, considerando a diligência proposta com relação aos itens acima, em homenagem à verdade material, igualmente oportuniza-se à Contribuinte a comprovação do direito creditório com relação aos fretes sobre compras sem a Fl. 14477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 10 identificação do documento da carga, tendo em vista o argumento de rastreabilidade plena (notas fiscais correlatas, ordens de compra, registros internos de entrada, tickets de balança e mapeamento logístico interno), bem como às devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa, tendo em vista o argumento de que tais devoluções ocorreram em razão de exigências sanitárias. Para tanto, nos termos permitidos pelos artigos 18 e 29 do Decreto nº 70.235/72 cumulados com artigos 35 a 37 e 63 do Decreto nº 7.574/2011, proponho a conversão do julgamento do recurso em diligência, para que a Unidade de Origem intime a Recorrente para, dentro de prazo razoável, tome as seguintes providências: (i) Comprovar o processo produtivo indicado pela defesa, bem como a utilização das máquinas e equipamentos nos quais foram utilizados os bens e serviços que deram origem ao crédito pleiteado a título de depreciação; (ii) Demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, a participação dos itens identificados como bens (partes e peças) e serviços de manutenção em cada etapa do processo produtivo, bem como o tempo de vida útil de tais itens, esclarecendo sobre a necessidade de tais itens e se há alguma contribuição quanto ao aumento de vida útil das máquinas ou equipamentos aos quais são aplicados e cujas manutenções são realizadas (em quanto tempo); (iii) Elaborar planilha de cálculo da depreciação equivalente a parcela de cada item, se for o caso, indicando detalhadamente a metodologia de cálculo adotada para cada bem e a respectiva fundamentação legal; (iv) Demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, o enquadramento das despesas (bens e serviços) que deram origem aos créditos glosados pela Fiscalização e mantidos pela DRJ, bem como a utilização em seu processo produtivo, considerando o conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade ou relevância, delimitados no r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa em julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, bem como na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, e Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018; (v) Comprovar o direito creditório com relação aos fretes sobre compras sem a identificação do documento da carga, tendo em vista o argumento de rastreabilidade plena (notas fiscais correlatas, ordens de compra, registros internos de entrada, tickets de balança e mapeamento logístico interno); (vi) Comprovar as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa e as razões pelas quais ocorreram tais evoluções; (vii) Com a comprovação acima, deverá a Unidade Preparadora elaborar Relatório Conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nesta Resolução, manifestando sobre os documentos apresentados pela Recorrente, bem como recalcular as apurações, caso necessário; (viii) Intimar a Contribuinte para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias. Após cumprida a diligência, com ou sem manifestação da parte, retornem os autos para julgamento. Fl. 14478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.323 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10935.725462/2018-83 11 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento em diligência para que a unidade de origem intime a Recorrente para tomar as seguintes providências: (i) comprovar o processo produtivo indicado pela defesa, bem como a utilização das máquinas e equipamentos nos quais foram utilizados os bens e serviços que deram origem ao crédito pleiteado a título de depreciação; (ii) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, a participação dos itens identificados como bens (partes e peças) e serviços de manutenção em cada etapa do processo produtivo, bem como o tempo de vida útil de tais itens, esclarecendo sobre a necessidade de tais itens e se há alguma contribuição quanto ao aumento de vida útil das máquinas ou equipamentos aos quais são aplicados e cujas manutenções são realizadas (em quanto tempo); (iii) elaborar planilha de cálculo da depreciação equivalente a parcela de cada item, se for o caso, indicando detalhadamente a metodologia de cálculo adotada para cada bem e a respectiva fundamentação legal; (iv) demonstrar, de forma detalhada e com a devida comprovação, o enquadramento das despesas (bens e serviços) que deram origem aos créditos glosados pela Fiscalização e mantidos pela DRJ, bem como a utilização em seu processo produtivo, considerando o conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade ou relevância, delimitados no r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa em julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, bem como na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, e Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018; (v) comprovar o direito creditório com relação aos fretes sobre compras sem a identificação do documento da carga, tendo em vista o argumento de rastreabilidade plena (notas fiscais correlatas, ordens de compra, registros internos de entrada, tickets de balança e mapeamento logístico interno); e (vi) comprovar as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa e as razões pelas quais ocorreram tais evoluções. Com a comprovação acima, deverá a unidade de origem elaborar Relatório Conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nesta Resolução, manifestando-se sobre os documentos apresentados pela Recorrente, bem como recalcular as apurações, caso necessário. Cumprida a diligência, a unidade de origem deverá intimar a Recorrente para, querendo, apresentar manifestação sobre o resultado no prazo de 30 (trinta) dias, retornando os autos a este Colegiado, com ou sem manifestação da parte, para que se dê prosseguimento ao julgamento. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator Fl. 14479DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 12448.720744/2012-16
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Mar 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS.
São dedutíveis na Declaração de Ajuste Anual - DAA os valores comprovadamente pagos, ao longo do ano-calendário, a título de despesas médicas tendo em vista os documentos de prova constantes dos autos.
MATÉRIA DE PROVA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. DOCUMENTO IDÔNEO APRESENTADO EM FASE RECURSAL.
Sendo interesse substancial do Estado a justiça, é dever da autoridade utilizar-se de todas as provas e circunstâncias que tenha conhecimento, na busca da verdade material, admitindo-se documentação que pretenda comprovar direito subjetivo dos contribuintes, ainda que apresentada a destempo, desde que reúna condições para demonstrar a verdade real dos fatos.
Numero da decisão: 2001-007.951
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para afastar a glosa relativa a despesas médicas da base de cálculo do Imposto de Renda no valor de R$ 23.889,23.
Assinado Digitalmente
Lílian Cláudia de Souza – Relatora
Assinado Digitalmente
Raimundo Cassio Gonçalves Lima – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite (substituto integral), Lílian Cláudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído pelo conselheiro Carlos Marne Dias Alves.
Nome do relator: LILIAN CLAUDIA DE SOUZA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. São dedutíveis na Declaração de Ajuste Anual - DAA os valores comprovadamente pagos, ao longo do ano-calendário, a título de despesas médicas tendo em vista os documentos de prova constantes dos autos. MATÉRIA DE PROVA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. DOCUMENTO IDÔNEO APRESENTADO EM FASE RECURSAL. Sendo interesse substancial do Estado a justiça, é dever da autoridade utilizar-se de todas as provas e circunstâncias que tenha conhecimento, na busca da verdade material, admitindo-se documentação que pretenda comprovar direito subjetivo dos contribuintes, ainda que apresentada a destempo, desde que reúna condições para demonstrar a verdade real dos fatos.
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DESPESAS MÉDICAS. São dedutíveis na Declaração de Ajuste Anual - DAA os valores comprovadamente pagos, ao longo do ano-calendário, a título de despesas médicas tendo em vista os documentos de prova constantes dos autos. MATÉRIA DE PROVA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. DOCUMENTO IDÔNEO APRESENTADO EM FASE RECURSAL. Sendo interesse substancial do Estado a justiça, é dever da autoridade utilizar-se de todas as provas e circunstâncias que tenha conhecimento, na busca da verdade material, admitindo-se documentação que pretenda comprovar direito subjetivo dos contribuintes, ainda que apresentada a destempo, desde que reúna condições para demonstrar a verdade real dos fatos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para afastar a glosa relativa a despesas médicas da base de cálculo do Imposto de Renda no valor de R$ 23.889,23. Assinado Digitalmente Lílian Cláudia de Souza – Relatora Assinado Digitalmente Fl. 215DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.951 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.720744/2012-16 2 Raimundo Cassio Gonçalves Lima – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite (substituto integral), Lílian Cláudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente). Ausente o conselheiro Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído pelo conselheiro Carlos Marne Dias Alves. RELATÓRIO Por bem relatar os fatos desde a autuação até o julgamento da impugnação, valho- me do relatório da decisão da DRJ: “Trata-se de Notificação de Lançamento acostada às fls. 8/15, lavrada em nome do contribuinte acima identificado, relativa ao Imposto de Renda Pessoa Física do ano calendário 2009, exercício 2010, formalizando a exigência de imposto suplementar no valor de R$16.898,53, acrescido de juros de mora e multa de ofício. O lançamento decorreu da constatação de omissão de rendimentos, no valor de R$9.300,00, e da glosa de dedução relativa à despesa com instrução, no valor de R$2.708,94, e à despesa médica, no importe de R$50.100,27, estas por falta de comprovação. Cientificado do lançamento em 21/12/2011 (fl. 116), o contribuinte, por intermédio de seus procuradores, apresentou a impugnação de fls. 2/7, em 21/01/2012 (fl.2). Alega nulidade do processo por cerceamento de defesa, sob o argumento de que a autuação fundamentou-se em presunções não previstas em lei, que importaram na reversão do ônus da prova, além de o relatório fiscal somente arrolar diversos artigos do Regulamento do Imposto de Renda para enquadrar a infração cometida, o que é inadmissível. No mérito, salienta que a autoridade fiscal, sob singela conclusão, impôs ao contribuinte glosas diversas, sem sequer esclarecer os motivos que poderiam dar ensejo à tamanha arbitrariedade. Diz que não foram levados em consideração os esclarecimentos, tampouco os documentos, apresentados no decorrer do procedimento fiscal. Entende que faz jus ao restabelecimento da cifra de R$8.126,82 a título de despesas com instrução de seus três filhos, conforme evidenciam os documentos fornecidos pelas Faculdades Católicas PUC, Veris Educacional S.A. (IBMEC) e The British School (Escola Britânica do Rio de Janeiro). Ressalta que a auditora fiscal não esclareceu quais as despesas de instrução foram efetivamente glosadas e o porquê de os recibos escolares entregues a ela não serviram para os fins propostos. Insurge-se, ainda, contra a glosa das despesas médicas, assegurando que os gastos foram efetivados e que, por mais uma vez, as cópias dos recibos questionados pela fiscalização estão sendo apresentadas. Enumera os valores deduzidos e os respectivos prestadores dos serviços. Adverte que também não foi especificado a origem e a data do recebimento dos rendimentos considerados omitidos, o que inviabiliza sua defesa. Requer que, ultrapassada a preliminar de cerceamento de defesa, que o presente auto de infração seja julgado insubsistente, por absoluta ausência de fundamento legal.” Fl. 216DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.951 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.720744/2012-16 3 Decisão da DRJ de fls. 124/128 julgou, por unanimidade, parcialmente procedente a impugnação em acórdão que restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2009 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Verificada a omissão de rendimentos, a autoridade tributária lançará o imposto de renda, de ofício, com os acréscimos e as penalidades legais, considerando como base de cálculo o valor da renda omitida. DESPESAS COM INSTRUÇÃO E MÉDICAS. DEDUÇÃO PARCIAL. As despesas previstas em lei, relativas ao contribuinte ou a seu dependente, acompanhadas de documentação hábil e idônea, devem ser restabelecidas até o montante comprovado dos gastos. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Recurso voluntário de fls. 141/204 se insurge apenas quanto a glosa de valores relacionados a despesas médicas, dentre eles: R$23.889,23 – valor pago ao Bradesco Seguros por meio de reembolsos ao escritório J. G. Garcia de Souza Advogados – do qual é sócio; R$ 100,00 – Dr. Paulo Gusmão – por se tratar de médico nutrólogo; Despesas relativas a 03 recibos – Dra. Maria Amélia Bogea que foram considerados ilegíveis pela decisão da DRJ; Despesas relativas ao laboratório Sérgio Franco – trouxe recibos e boletos do cartão de crédito para comprovar a realização do pagamento; Quando a despesa relativa ao profissional Dr. Michel Simoni, alega não ter localizado o original dado o tempo decorrido; Às fls. 212/214 é apresentada petição requerendo a tramitação prioritária do processo administrativo por se tratar de idoso. É o relatório. VOTO Conselheira Lílian Cláudia de Souza, Relatora I – ADMISSIBILIDADE DO RECURSO VOLUNTÁRIO Antes de adentrar ao mérito, é fundamental aferir o preenchimento dos pressupostos de admissibilidade do recurso voluntário apresentado pelo sujeito passivo. Fl. 217DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.951 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.720744/2012-16 4 Referido recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos, razão pela qual, dele conheço. II – DO MÉRITO A motivação do lançamento, mantido pela DRJ para as glosas de despesas médicas relacionadas aos pagamentos realizados pela Recorrente diz respeito a ausência de sua comprovação. É ver trecho da decisão nesse sentido: “Deve ser mantida a glosa das despesas retratadas nos recibos de fls. 67, 77 e 85, emitidos pela Dra. Maria Amélia Bogea Serra Guimarães, porque se encontram ilegíveis; no Recibo de fl. 87, porque não há previsão legal para dedução de serviços prestados por nutricionista; nos discriminativos de serviços prestados pelo Laboratório Dr. Sérgio Franco (fls. 75/76), porque tais documentos não têm valor legal como recibo e a prova do respectivo pagamento não foi apresentada; nos boletos bancários de fls. 102/105, tendo em vista a falta de identificação da prestação dos serviços; e no Informe de Gastos com Plano de Saúde, fl. 50, acompanhado das faturas de fls. 51/62, uma vez que, quanto à diferença glosada de R$23.889,23 que se quer ver aceita, não foi demonstrado que o contribuinte tenha suportado o ônus desse desembolso. A Declaração de fl. 18, por si só, não prova a efetiva transferência do citado valor para a J.G. Garcia de Souza Advogados. Quanto à despesa declarada junto ao profissional Michael Simoni, nenhum documento foi apresentado.” Com o recurso voluntário são trazidos novos documentos de fls. 160/204. Inicialmente importante frisar que os documentos trazidos pelo sujeito passivo em sede recursal devem ser conhecidos em razão dos princípios da verdade material, da ampla defesa e do contraditório que devem se sobrepor ao formalismo processual, sobretudo quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento, isso porque ao não se apreciar os documentos estaríamos embaraçando o direito do contribuinte de provar suas alegações e isso possivelmente apenas faria com que a discussão – que já se sabia ser infrutífera – seguisse na via judicial. Além disso, nos termos do Art. 149, CTN, quando a autoridade administrativa dispuser de elementos capazes de fazer com que o lançamento possa ser revisto de ofício ela poderá fazê-lo, desde que dentro do prazo decadencial. Assim, não permitir que o sujeito passivo possa, a qualquer tempo, apresentar provas de suas alegações seria, no mínimo, uma ofensa ao princípio da isonomia e da paridade de armas. No mesmo sentido, trecho de voto apresentado pelo colega e conselheiro Wilderson Botto no acórdão de nº 2001-007.705: “Nesse ponto o art. 149 do CTN, determina ao julgador administrativo realizar, de ofício, o julgamento que entender necessário, privilegiando o princípio da eficiência (art. 37, caput, CF), cujo objetivo é efetuar o controle de legalidade do lançamento fiscal, harmonizando-o com os dispositivos legais, de cunho material e processual, aplicáveis ao caso, calhando aqui, nessa ótica, por pertinente e indispensável, a análise dos documentos trazidos à colação pelo Recorrente.” Fl. 218DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.951 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.720744/2012-16 5 Assim, passemos à análise dos documentos trazidos em sede recursal. Conforme relatado, o único fundamento para a glosa dos valores deduzidos da base de cálculo do IRPF relativo a despesas médicas foi ausência de comprovação. No que tange especificamente ao valor de R$ 23.889,23 referente às despesas de plano de saúde mantido junto ao Bradesco Seguros S/A, foi comprovado, por meio dos documentos apresentados que as glosas devem ser afastadas nesse limite. Isso porque, conforme exposto em sua defesa, o recorrente é sócio do escritório J. G. Garcia de Souza Advogados – sociedade que firmou com o Bradesco Seguros o contrato de prestação de serviços médicos. A sistemática firmada foi mediante a assinatura de contrato de adesão com o Bradesco Seguros – seguro de saúde – na segmentação de reembolso de despesas médico hospitalares. Para comprovar as despesas já havia sido apresentado juntamente com a impugnação a declaração de fls. 18 – que foi novamente anexada – e às fls. 50/62 o discriminativo mensal das faturas emitidas pelo Bradesco nas quais constam o Recorrente e seus dependentes como beneficiários dos serviços médicos. Tais documentos não foram aceitos pela primeira instância sob a justificativa de que não teria restado comprovado que o contribuinte teria suportado o ônus. Assim, às fls. 160/185 foram apresentados a declaração do escritório J. G. Garcia de Souza Advogados acompanhados de documentos contábeis que comprovariam o ônus suportado: cópia do livro razão analítico da sociedade de advogados que atesta os valores pagos a título de reembolso em absoluta consonância com as faturas técnicas emitidas pelo Bradesco Saúde detalhando o uso e valores do contribuinte e de seus dependentes. Quanto às despesas relativas à profissional Maria Amélia Bogea foi mantida a glosa das despesas retratadas nos recibos de fls. 67, 77 e 85 por estarem ilegíveis. Às fls. 186/195 são novamente apresentados 10 recibos emitidos por essa profissional, sendo os 07 já aceitos pela decisão da DRJ e 03 ainda mais ilegíveis. Portanto, essas despesas não restaram comprovadas. Às fls. 196 é apresentado recibo no valor de R$ 100,00 que foi aceito pela decisão da DRJ, o que não foi aceito foi o recibo emitido pela profissional Ana Celi no valor de R$ 250,00 que expressamente menciona que os valores seriam relativos a uma consulta nutricional. O recorrente alega se tratar de médico da especialidade nutróloga, entretanto, não traz nenhuma comprovação do alegado, mantida assim a glosa. Por fim, no que concerne às despesas relativas aos serviços prestados pelo Laboratório Dr. Sérgio Franco (fls. 75/76), decisão da DRJ manteve a glosa sob a justificativa de que os documentos apresentados não teriam valor legal como recibo e a prova do respectivo pagamento não foi apresentada. Fl. 219DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.951 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.720744/2012-16 6 Às fls. 197/202 os mesmos documentos analisados pela DRJ foram apresentados. É ver que em cada um dos recibos consta a seguinte observação: “Este recibo não tem valor legal, devendo a nota fiscal ser resgatada no ato da entrega do laudo.” Assim, como nenhum outro documento foi apresentado, também deve ser mantida a glosa. III – DO DISPOSITIVO Ante o exposto, conheço do recurso, e, no mérito, DOU PARCIAL PROVIMENTO para afastar a glosa relativa a despesas médicas da base de cálculo do Imposto de Renda no valor de R$ 23.889,23. Assinado Digitalmente Lílian Cláudia de Souza Fl. 220DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 13005.720482/2010-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 10 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Mar 27 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3302-003.090
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator.
Assinado Digitalmente
Francisca das Chagas Lemos – Relatora
Assinado Digitalmente
Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a]integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara, Lazaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: FRANCISCA DAS CHAGAS LEMOS
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente Francisca das Chagas Lemos – Relatora Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mario Sergio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a]integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara, Lazaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração formalizados pelo Contribuinte, opostos em desfavor do Acórdão de Recurso Voluntário n° 3302-012.300, de 22/11/2021, cuja ementa é a que segue: REGIME NÃO-CUMULATIVO. BASE DE CÁLCULO. A base de cálculo da COFINS não-cumulativa é a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica, excluídas as receitas decorrentes de saídas isentas da contribuição, sujeitas à alíquota zero e as receitas decorrentes da venda de bens do ativo imobilizado. Fl. 936DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3302-003.090 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720482/2010-08 2 PRECLUSÃO. Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. A Embargante suscitou os seguintes vícios: (i) Omissão e obscuridade quanto à duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas – duplicidade de glosa; (ii) Omissão sobre a necessidade de lançamento para acrescer os fretes à base e que o procedimento contábil adotado está em sintonia com as diretrizes emanadas pelo CPC nº 30, bem como sobre omissão sobre as cópias do Razão juntados – acréscimo dos valores de fretes por parte da Fiscalização; (iii) Obscuridade, contradição e inexatidão material ao ignorar a jurisprudência apresentada pela embargante e o escopo do próprio CARF de revisar os atos administrativos – não observância quanto a jurisprudência. Em despacho de admissibilidade em que foram analisados os argumentos da Embargante, o Presidente da 2ª Turma Ordinária, 3ª Câmara da 3ª Seção deste CARF, deu SEGUIMENTO PARCIAL aos Embargos de Declaração opostos pelo Contribuinte para que o colegiado aprecie as matérias relativas à (a) sanar o lapso manifesto em razão da inexistência de glosa sobre créditos extemporâneos e (b) a omissão quanto à análise da duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas. Em Acórdão 3302-002.562, de 27.09.2023, a 2ª. Turma Ordinária resolveu converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem apure a duplicidade de cobrança alegada pela Embargante (duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas). Além disso, o Acórdão reconheceu correto o apontamento efetuado pela Embargante, relativamente a inexistência de glosa de créditos extemporâneos. Quanto ao vício relativo 'Omissão e obscuridade quanto à duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas', entendeu o colegiado pela conversão do julgamento em diligência, para que a unidade de origem apure a duplicidade de cobrança alegada pela Embargante. O Relatório de Diligência Fiscal de 02.07.2025 (fis. 920 a 923), emitido pela Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório – EQRAT2, analisou os tópicos “Frete na venda de bens tributados à alíquota zero” e “Rateio na apropriação dos débitos”. Fl. 937DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3302-003.090 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720482/2010-08 3 A Embargante, intimada do Relatório de Diligência Fiscal de 02/07/2025, providenciado em razão da Resolução nº 3302-002.562, apresentou MANIFESTAÇÃO em diligência, às fls.930-931. Acolhidos os Embargos, foram encaminhados para inclusão na pauta de julgamento, sob minha relatoria. É o relatório. VOTO Conselheira Francisca das Chagas Lemos, Relatora. I - Admissibilidade Conheço dos Embargos nos limites da admissibilidade, por serem tempestivos, tratarem de matéria de competência desta turma e cumprirem os demais requisitos exigidos. Na origem, o processo refere-se a pedido de ressarcimento de COFINS-não cumulativa – mercado interno, relativo ao 2º trimestre de 2008, montante de R$ 1.568.032,58. II - Dos argumentos da Embargante II.1. Omissão quanto ao lapso manifesto em razão da inexistência de glosa sobre créditos extemporâneos Em Acórdão 3302-002.562, de 27.09.2023, a 2ª. Turma Ordinária reconheceu correto o apontamento efetuado pela Embargante, relativamente a inexistência de glosa de créditos extemporâneos. Decidiu da seguinte forma (fls. 918): No que tange ao lapso manifesto decorrente da inexistência de glosa sobre créditos extemporâneos, entendo que a decisão embargada deve ser modificada para excluir o item 'II – Definitividade da decisão administrativa', considerando que não há discussão nos autos atinente à glosa de créditos extemporâneos. Portanto, correto o apontamento feito pela Embargante em sede recursal. Por outro lado, é importante consignar que a unidade de origem não deve considerar, para o cômputo dos créditos eventualmente deferidos, a glosa de crédito extemporâneo julgada pela DRJ. (Grifei) Fl. 938DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3302-003.090 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720482/2010-08 4 Portanto, o tópico arguido pela Embargante restou sanado no Acórdão 3302- 002.562, remediando o Acordão 3302-012.300, desta Turma, de 22.11.2021, que restara omisso ao adotar a decisão de piso. Em consequência, a glosa referida deve ser afastada por se tratar de crédito de competência diversa, não sendo correto a qualificação de apropriação de crédito extemporâneo. II.2. a omissão quanto à análise da duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas Conforme destacado no relatório, em face de pedido de conversão do julgamento em diligência, o Relatório de Diligência Fiscal de 02.07.2025 (fis. 920 a 923), emitido pela Equipe de Gestão do Crédito Tributário e do Direito Creditório – EQRAT2, analisou os tópicos “Frete na venda de bens tributados à alíquota zero” e “Rateio na apropriação dos débitos”. A manifestação da Embargante sobre o relatório de diligência, constante às fls.930- 931, consignou que o Auditor Fiscal estendeu o objeto da diligência para a análise da proporcionalização entre as receitas decorrentes das vendas no mercado interno e aquelas provenientes de exportação, tema que é pertinente aos demais processos objetos da diligência, mas que nesse já foi equacionado na primeira instância. De fato, a Embargante está com a razão. Assim, impõem-se o retorno à origem para que efetue a diligência requerida no Acórdão 3302-002.562, de 27.09.2023, em que a 2ª. Turma Ordinária resolveu converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem apure a duplicidade de cobrança alegada pela Embargante (duplicidade de acréscimo na base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas). III - DISPOSITIVO Em razão de todo o exposto, meu voto é no sentido de converter o julgamento em diligência para que a unidade de origem apure a duplicidade de cobrança alegada pela embargante, relativa à duplicidade de acréscimo à base de cálculo das receitas de fretes sobre revendas. É como voto. Francisca das Chagas Lemos. Fl. 939DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
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Numero do processo: 10120.733952/2018-38
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Mar 26 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015
MATÉRIAS NÃO PROPOSTAS NA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. PRECLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE DE APRECIAÇÃO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. MATÉRIAS IMPERTIENTES À DEMANDA. NÃO CONHECIMENTO.
O contencioso administrativo instaura-se com a manifestação de inconformidade, que deve ser expressa, considerando-se preclusa a matéria que não tenha sido especificamente indicada ao debate. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria nova não apresentada por ocasião da impugnação. Da mesma forma, também não devem ser conhecidas matérias impertinentes ao deslinde da controvérsia.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015
REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela contribuinte.
NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE. INSUMO SUJEITO À ALÍQUOTA ZERO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, conforme estabelecido na Súmula CARF nº 188.
CRÉDITOS DE FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. PÓS FASE DE PRODUÇÃO.
As despesas com fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte de produtos acabados, posteriores à fase de produção, não geram direito a crédito das contribuições para o PIS e a COFINS não cumulativos.
DESPESAS PORTUÁRIAS. MOVIMENTAÇÃO DE CARGAS. CRÉDITO INSUMO. IMPOSSIBILIDADE
Segundo a súmula CARF 232, as despesas portuárias na exportação de produtos acabados não configuram insumos para fins de crédito de PIS/COFINS.
Numero da decisão: 3102-002.975
Decisão: Acordam os membros do colegiado em julgar o processo da seguinte forma: i) por unanimidade, por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das matérias impertinentes à presente controvérsia (tópicos III. 3.1 Crédito sobre Despesas com Bens para Laboratório de Análises, Testes e Serviços de Análise de Solos e Qualidade, III. 3.2 Do Crédito sobre Combustíveis e Lubrificantes, III. 3.4 Do Crédito sobre Despesas com Bens Incorporados ao Ativo Imobilizado, III. 3.7 Do Crédito sobre Despesas com Partes e Peças de Reposição Utilizadas em Máquinas e Equipamentos (Outras Operações com Direito ao Crédito)e III. 3.8 Dos Créditos Vinculados às Receitas Suspensas – Saídas no Mercado Interno) e que não foram objeto de manifestação de inconformidade (tópico III. 3.9 Da Apropriação de Créditos Extemporâneos – Legalidade), e, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para o fim de reverter as glosas relativas aos gastos com: (a) armazenagem até o momento que o navio atraca no porto e toda soja/milho é transferida para dentro do navio; (b) com fretes devidamente comprovados, na aquisição de insumos sujeitos à alíquota zero; e (c) despesas com aluguel de vagões incorridas junto a Ferrolease; e ii) por voto de qualidade, para manter as glosas sobre: (a) serviços de descarregamento da soja/milho no armazém; (c) elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio; e d) fretes na transferência de produtos entre estabelecimentos. Restaram vencidos os conselheiros Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Joana Maria de Oliveira Guimarães que davam provimento ao recurso em relação a tais itens. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-002.967, de 14 de outubro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10120.733955/2018-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha (substituto[a]integral), Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Pedro Sousa Bispo (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a)Fabio Kirzner Ejchel, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha, o conselheiro(a) Jorge Luis Cabral.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 MATÉRIAS NÃO PROPOSTAS NA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. PRECLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE DE APRECIAÇÃO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. MATÉRIAS IMPERTIENTES À DEMANDA. NÃO CONHECIMENTO. O contencioso administrativo instaura-se com a manifestação de inconformidade, que deve ser expressa, considerando-se preclusa a matéria que não tenha sido especificamente indicada ao debate. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria nova não apresentada por ocasião da impugnação. Da mesma forma, também não devem ser conhecidas matérias impertinentes ao deslinde da controvérsia. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170 - PR, pelo rito dos Recursos Repetitivos, decidiu que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela contribuinte. NÃO-CUMULATIVIDADE. FRETE. INSUMO SUJEITO À ALÍQUOTA ZERO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N. 188 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, conforme estabelecido na Súmula CARF nº 188. CRÉDITOS DE FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. PÓS FASE DE PRODUÇÃO. As despesas com fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte de produtos acabados, posteriores à fase de produção, não geram direito a crédito das contribuições para o PIS e a COFINS não cumulativos. DESPESAS PORTUÁRIAS. MOVIMENTAÇÃO DE CARGAS. CRÉDITO INSUMO. IMPOSSIBILIDADE Segundo a súmula CARF 232, as despesas portuárias na exportação de produtos acabados não configuram insumos para fins de crédito de PIS/COFINS.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 MATÉRIAS NÃO PROPOSTAS NA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. PRECLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE DE APRECIAÇÃO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. MATÉRIAS IMPERTIENTES À DEMANDA. NÃO CONHECIMENTO. O contencioso administrativo instaura-se com a manifestação de inconformidade, que deve ser expressa, considerando-se preclusa a matéria que não tenha sido especificamente indicada ao debate. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria nova não apresentada por ocasião da impugnação. Da mesma forma, também não devem ser conhecidas matérias impertinentes ao deslinde da controvérsia. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. 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SÚMULA CARF N. 188 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, Fl. 654DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 2 registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, conforme estabelecido na Súmula CARF nº 188. CRÉDITOS DE FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. PÓS FASE DE PRODUÇÃO. As despesas com fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte de produtos acabados, posteriores à fase de produção, não geram direito a crédito das contribuições para o PIS e a COFINS não cumulativos. DESPESAS PORTUÁRIAS. MOVIMENTAÇÃO DE CARGAS. CRÉDITO INSUMO. IMPOSSIBILIDADE Segundo a súmula CARF 232, as despesas portuárias na exportação de produtos acabados não configuram insumos para fins de crédito de PIS/COFINS. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado em julgar o processo da seguinte forma: i) por unanimidade, por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das matérias impertinentes à presente controvérsia (tópicos III. 3.1 Crédito sobre Despesas com Bens para Laboratório de Análises, Testes e Serviços de Análise de Solos e Qualidade, III. 3.2 Do Crédito sobre Combustíveis e Lubrificantes, III. 3.4 Do Crédito sobre Despesas com Bens Incorporados ao Ativo Imobilizado, III. 3.7 Do Crédito sobre Despesas com Partes e Peças de Reposição Utilizadas em Máquinas e Equipamentos (Outras Operações com Direito ao Crédito)e III. 3.8 Dos Créditos Vinculados às Receitas Suspensas – Saídas no Mercado Interno) e que não foram objeto de manifestação de inconformidade (tópico III. 3.9 Da Apropriação de Créditos Extemporâneos – Legalidade), e, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para o fim de reverter as glosas relativas aos gastos com: (a) armazenagem até o momento que o navio atraca no porto e toda soja/milho é transferida para dentro do navio; (b) com fretes devidamente comprovados, na aquisição de insumos sujeitos à alíquota zero; e (c) despesas com aluguel de vagões incorridas junto a Ferrolease; e ii) por voto de qualidade, para manter as glosas sobre: (a) serviços de descarregamento da soja/milho no armazém; (c) elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio; e d) fretes na transferência de produtos entre estabelecimentos. Restaram vencidos os conselheiros Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues e Joana Maria de Oliveira Guimarães que davam provimento ao recurso em relação a tais itens. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102- 002.967, de 14 de outubro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10120.733955/2018-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Fl. 655DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 3 Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha (substituto[a]integral), Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Pedro Sousa Bispo (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a)Fabio Kirzner Ejchel, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Luiz Felipe de Rezende Martins Sardinha, o conselheiro(a) Jorge Luis Cabral. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 MATÉRIA NÃO QUESTIONADA No âmbito do processo administrativo fiscal não se admite a negativa geral, pois a defesa deve conter os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir, operando-se a preclusão processual relativamente à matéria que não tenha sido expressamente contestada na defesa apresentada. Assim, consideram-se consolidadas na esfera administrativa as glosas que não foram objeto de contestação específica. DECISÕES JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. As decisões judiciais e administrativas relativas a terceiros não possuem eficácia normativa, uma vez que não integram a legislação tributária de que tratam os artigos 96 e 100 do Código Tributário Nacional. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. Fl. 656DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 4 A autoridade administrativa não tem competência para apreciar alegação, ainda que indireta, de inconstitucionalidade ou ilegalidade de dispositivos que integram a legislação tributária. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMO. CONCEITO. Conforme estabelecido no Parecer Normativo Cosit RFB n.º 5, de 2018, que produz efeitos vinculantes no âmbito da RFB, o conceito de insumos, para fins de apuração de créditos da não cumulatividade do PIS/Pasep e da Cofins, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços realizados pela pessoa jurídica. ESSENCIALIDADE. RELEVÂNCIA. O critério da essencialidade, nos termos do Parecer Normativo Cosit RFB n.º 5, de 2018, requer que o bem ou serviço creditado constitua elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço realizado pela contribuinte; já o critério da relevância é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção do sujeito passivo. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. PRODUTOS EM ELABORAÇÃO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas de fretes relativos às transferências de produtos em elaboração da mesma pessoa jurídica, por serem enquadrados como insumos, geram direito ao crédito no regime não cumulativo das contribuições ao PIS/Pasep e à Cofins. Entretanto, a contribuinte não está desonerada da comprovação de tais despesas, bem como de sua não incorporação ao custo dos bens e serviços produzidos, evitando-se a duplicidade na apuração de seu direito creditório. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. PRODUTOS ACABADOS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Fretes relativos a transferências entre estabelecimentos da mesma empresa de produto acabado representam despesas operacionais da empresa, não podendo ser classificados como insumos. Igualmente, transferência de mercadorias entre seus estabelecimentos ou para estabelecimentos varejistas não constitui etapa de seu processo produtivo, razão pela qual o respectivo frete também não enseja crédito de PIS/Pasep e de Cofins não cumulativos. ALUGUEL DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS E VEÍCULOS. Os aluguéis de máquinas e equipamentos utilizados na atividade da empresa geram crédito de não-cumulatividade, não havendo restrição a que o aluguel se refira a bens utilizados no processo produtivo. Não há previsão legal para cálculo Fl. 657DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 5 do crédito em relação ao aluguel de veículos por não se incluírem nº conceito de máquinas e equipamentos. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. DESPESAS DE ALUGUÉIS DE TERRENOS. POSSIBILIDADE. A pessoa jurídica, submetida ao regime de apuração não cumulativa do PIS/PASEP e da Cofins, pode descontar créditos sobre aluguéis de terrenos utilizados nas atividades da empresa pagos a pessoa jurídica, desde que obedecidos todos os requisitos e as condições previstos na legislação. DILIGÊNCIA E PERÍCIA. Indefere-se o pedido de diligência ou perícia quando se trata de matéria passível de prova documental a ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade, bem como quando presentes elementos suficientes para a formação da convicção da autoridade julgadora. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2015 a 31/03/2015 DÉBITOS FISCAIS. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. EXIGIBILIDADE. A manifestação de inconformidade, apresentada tempestivamente contra o ato de não homologação da compensação, tem a eficácia de suspender a exigibilidade do crédito tributário, mantendo-se a suspensão da cobrança até a decisão definitiva do respectivo processo na esfera administrativa. A Agrex do Brasil S.A. interpôs Recurso Voluntário, reiterando as razões expostas em sede de manifestação de inconformidade e pleiteando, em breve síntese, pela reunião e julgamento em conjunto dos processos conexos e, quanto ao mérito, protesta pela reforma do v. acórdão recorrido, para que sejam julgadas improcedentes as glosas dos créditos efetuadas pela autoridade fiscal na análise do direito creditório pleiteado. Posteriormente, a recorrente junta petição na qual reitera que formulou uma série de PER/Dcomps relativos à mesma matéria (creditamento de insumos das contribuições ao PIS e da COFINS), que versam sobre os mesmos períodos de apuração e têm origem nas mesmas rubricas, tendo a auditoria fiscal gerado 134 (cento e trinta e quatro) processos administrativos para análise, com os respectivos despachos decisórios, sendo os créditos deferidos parcialmente. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão Fl. 658DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 6 paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever a parte vencida do voto do relator, que pode ser consultada no acórdão paradigma e deverá ser considerada, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. Quanto à tempestividade e ao mérito, ressalvado quanto à reversão da glosa de créditos calculados sobre as despesas portuárias (serviços de descarregamento da soja/milho no armazém, elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio) e ao frete na transferência de produtos entre estabelecimentos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto do relator do acórdão paradigma: O Recurso Voluntário é tempestivo e cumpre com os requisitos formais de admissibilidade, devendo, por conseguinte, ser conhecido. No que se refere ao pedido de reunião dos processos conexos, para julgamento em conjunto dos Recursos Voluntários, cumpre informar que todos os processos que se encontram neste e. CARF foram distribuídos para minha relatoria e serão julgados na mesma sessão de julgamento, seja de forma autônoma seja por estarem contemplados no lote de repetitivo. Quanto às alegações tecidas nos tópicos III. 3.1 Crédito sobre Despesas com Bens para Laboratório de Análises, Testes e Serviços de Análise de Solos e Qualidade, III. 3.2 Do Crédito sobre Combustíveis e Lubrificantes, III. 3.4 Do Crédito sobre Despesas com Bens Incorporados ao Ativo Imobilizado, III. 3.7 Do Crédito sobre Despesas com Partes e Peças de Reposição Utilizadas em Máquinas e Equipamentos (Outras Operações com Direito ao Crédito) e III. 3.8 Dos Créditos Vinculados às Receitas Suspensas – Saídas no Mercado Interno, deixo de conhecê- las em razão da total impertinência com o presente processo, uma vez que tais matérias não foram objeto do Relatório de Auditoria que embasa o Despacho Decisório, tampouco da Manifestação de Inconformidade e/ou do v. acórdão recorrido. No que se refere às alegações tecidas no tópico III. 3.9 Da Apropriação de Créditos Extemporâneos – Legalidade também deixo de conhecê-las, por se tratar de matéria que não foi objeto de manifestação de inconformidade e, por conseguinte, considera-se não impugnada, nos termos do artigo 17 do Decreto nº 70.23/72, conforme já reconhecido pelo v. acórdão recorrido. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente se limita a afirmar que “nas linhas iniciais referendou a sua discordância a esta glosa”, entretanto, não se verifica qualquer menção expressa aos créditos extemporâneos na Manifestação de Inconformidade. Por outro lado, conheço das matérias propostas nos tópicos III.3.3 Do Crédito sobre Despesas com Arrendamento Mercantil (FERROLEASE S/A), III. 3.5 Do Direito ao Crédito sobre Despesas com Fretes a) Fretes Internos e b) Fretes com Produtos Alíquota Zero, e III. 3.6 Do Crédito sobre Despesas com Serviços Portuários/Aduaneiros – Elevação Portuária, por tratar de matérias que foram Fl. 659DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 7 objeto de manifestação de inconformidade e apreciação pelo v. acórdão recorrido. No mérito, considerando que 91 processos conexos ao presente já foram julgados conjuntamente pela 2ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, da 3ª Seção, deste e. CARF, oportunidade na qual questões de mérito idênticas às atinentes a presente demanda foram devidamente dirimidas, transcrevo parcialmente os fundamentos do v. acórdão nº 3302-014.610, de lavra da i. Conselheira Marina Righi Rodrigues Lara, que bem analisaram a matéria, os quais adoto como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: [...] Antes de se adentrar especificamente em cada um dos itens mencionados, revelam- se necessárias algumas considerações iniciais sobre o tema. Recentemente, em sede de repercussão geral, na ocasião do julgamento do RE nº 841.979/PE, o STF reconheceu a autonomia do legislador ordinário para disciplinar a não-cumulatividade das contribuições sociais estabelecido no art. 195, §12, da Constituição Federal (CF/88). Paralelamente, restou decidido que o conceito de insumo para fins da não cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS não deriva de maneira estanque do texto constitucional. Nesse sentido, o Ministro Relator Dias Toffoli reconheceu que o legislador ordinário teria competência tanto para negar créditos em determinadas hipóteses, quanto para concedê-los em outras, de forma genérica ou restritiva. Diante desse contexto, concluiu pela validade das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03, à luz da não cumulatividade. Ou melhor, concluiu-se que as restrições positivamente expressas nas leis não seriam por si só inconstitucionais e deveriam ser analisadas em cada caso concreto. Especificamente sobre o conceito de insumo, previsto no art. 3º, II, das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03, destaca-se que o Ministro Relator não invalidou o julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, sob o rito dos repetitivos, de relatoria do Ministro Napoleão Nunes Maia Filho. Pelo contrário, entendeu que, por se tratar de matéria infraconstitucional, permaneceria o conceito de insumo, objeto de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça. O acórdão proferido na ocasião daquele julgamento foi publicado no dia 24/04/2018, com a seguinte ementa: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO- CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN Fl. 660DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 8 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3º., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individual- EPI. 4. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentam-se as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não- cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de terminado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. (REsp n. 1.221.170/PR, relator Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Seção, julgado em 22/2/2018, DJe de 24/4/2018.) Em síntese, restou pacificado que o conceito de insumo deve ser analisado à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Como se sabe, o Relator do citado caso acompanhou as razões sustentadas pela Ministra Regina Helena Costa, para quem os referidos critérios devem ser entendidos nos seguintes termos: “Demarcadas tais premissas, tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Fl. 661DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 9 Desse modo, sob essa perspectiva, o critério da relevância revela-se mais abrangente do que o da pertinência.” Fazendo referência aos entendimentos que vinham sendo adotados por este próprio Carf, sustentou a Ministra Regina Helena Costa, a necessidade de se analisar, casuisticamente, a essencialidade ou a relevância de determinado bem ou serviço para o processo produtivo ou à atividade desenvolvida pela empresa. Nos termos do art. 62, §2º, da Portaria MF nº 343/15, Regimento Interno do Carf (Ricarf), o referido julgado é de observância obrigatória e deve ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito deste conselho. Sobre o referido julgamento, foi publicada a NOTA SEI PGFN/MF nº 63/2018, por meio da qual a Procuradoria Geral de Fazenda Nacional (PGFN) reconheceu o conceito de insumos para crédito de PIS e Cofins fixado naquela sede. Entendo por oportuno destacar os seguintes trechos: 14. Consoante se depreende do Acórdão publicado, os Ministros do STJ adotaram a interpretação intermediária, considerando que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Dessa forma, tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. 15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente - cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. 17. Observa-se que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques.” (sem grifos no original) (...) 37. Há bens essenciais ou relevantes ao processo produtivo que nem sempre são nele diretamente empregados. O conceito de insumo não se atrela necessariamente ao produto, mas ao próprio processo produtivo. 38. Não devem ser consideradas insumos as despesas com as quais a empresa precisa arcar para o exercício das suas atividades que não estejam intrinsicamente relacionadas ao exercício de sua atividade-fim e que seriam Fl. 662DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 10 mero custo operacional. Isso porque há bens e serviços que possuem papel importante para as atividades da empresa, inclusive para obtenção de vantagem concorrencial, mas cujo nexo de causalidade não está atrelado à sua atividade precípua, ou seja, ao processo produtivo relacionado ao produto ou serviço. 39. Vale dizer que embora a decisão do STJ não tenha discutido especificamente sobre as atividades realizadas pela empresa que ensejariam a existência de insumos para fins de creditamento, na medida em que a tese firmada refere-se apenas à atividade econômica do contribuinte, é certo, a partir dos fundamentos constantes no Acórdão, que somente haveria insumos nas atividades de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. Desse modo, é inegável que inexistem insumos em atividades administrativas, jurídicas, contábeis, comerciais, ainda que realizadas pelo contribuinte, se tais atividades não configurarem a sua atividade-fim. (...) 41. Consoante se observa dos esclarecimentos do Ministro Mauro Campbell Marques, aludindo ao “teste de subtração” para compreensão do conceito de insumos, que se trata da “própria objetivação segura da tese aplicável a revelar a imprescindibilidade e a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto tal método não esteja na tese firmada, é um dos instrumentos úteis para sua aplicação in concreto. 42. Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. 43. O raciocínio proposto pelo “teste da subtração” a revelar a essencialidade ou relevância do item é como uma aferição de uma “conditio sine qua non” para a produção ou prestação do serviço. Busca-se uma eliminação hipotética, suprimindo-se mentalmente o item do contexto do processo produtivo atrelado à atividade empresarial desenvolvida. Ainda que se observem despesas importantes para a empresa, inclusive para o seu êxito no mercado, elas não são necessariamente essenciais ou relevantes, quando analisadas em cotejo com a atividade principal desenvolvida pelo contribuinte, sob um viés objetivo. 44. Decerto, sob a ótica do produtor, não haveria sentido em fazer despesa desnecessária (que não fosse relevante ou essencial do ponto de vista subjetivo, como se houvesse uma menor eficiência no seu processo produtivo), mas adotar o conceito de insumo sob tal prisma implicaria elastecer demasiadamente seu conceito, o que foi, evidentemente, rechaçado no julgado. Esse tipo de despesa – importante para o produtor – configura custo da empresa, mas não se qualifica como insumo dentro da sistemática de creditamento de PIS/COFINS. Ainda que se possa defender Fl. 663DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 11 uma importância global desse tipo de custo para a empresa, não há importância dentro do processo produtivo da atividade-fim desempenhada pela empresa.” Ademais, com o intuito de expor as principais repercussões decorrentes da definição do conceito de insumos no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR no âmbito da Receita Federal do Brasil, foi emitido o Parecer Normativo Cosit nº 5/2018, que consignou a seguinte ementa: “CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. COFINS. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO ESTABELECIDA NO RESP 1.221.170/PR. ANÁLISE E APLICAÇÕES. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Consoante a tese acordada na decisão judicial em comento: a) o “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja”: b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Dispositivos Legais. Lei nº10.637, de 2002, art. 3º, inciso II; Lei nº10.833, de 2003, art. 3º, inciso II.” Assim, à luz de tais considerações, passa-se a analisar as glosas ainda objeto de discussão nos presentes autos. [...] 2.3. Das despesas com serviços portuários/aduaneiros Quanto às despesas com serviços portuários/aduaneiros, entendeu a DRJ por manter a glosa efetuada pela fiscalização, em razão da ausência de previsão legal expressa do referido crédito no âmbito da não cumulatividade. A Recorrente, por sua vez, defende que os gastos com serviços aduaneiros para uma empresa preponderantemente exportadora são essenciais, cruciais e necessários para organização logística e para embarque com finalidade de fazer chegar as mercadorias ao consumidor final localizado em outro país. Fl. 664DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 12 Nesse contexto, a contratação de empresas nacionais para prestação de serviços de elevação portuária dentro do porto e de despachantes aduaneiros se caracterizam como verdadeiros insumos. Em suas palavras: A elevação portuária nada mais é do que uma combinação de frete destinado à venda e armazenagem, dois típicos insumos expressamente previstos nos artigos 3º das Leis do PIS e da COFINS. Para exata compreensão da essência dessa despesa suportada pela Recorrente, se faz necessário a análise do escopo e objeto do contrato. Foi firmado contrato de prestação de serviços de embarque em navios e outras avenças entre AGREX e Vale S/A (contrato nº 0248/09 apresentado em sede de fiscalização e constante nos autos), assinado em 30 de novembro de 2009, e com vigência entre 1º de janeiro de 2009 até 31 de dezembro de 2034. O referido contrato traz o objeto em sua cláusula primeira e o teor segue transcrito na íntegra na sequência: “CLÁUSULA I OBJETO: 1.1 – Constitui objeto do presente contrato a prestação de serviços, pela VALE para a CLIENTE, relacionados com a movimentação de SOJA e MILHO em grão, a granel (“Produtos”), compreendendo: (i) a descarga dos vagões ferroviários contendo o Produto no Terminal Portuário de Ponta Madeira – PDM, Estado do Maranhão (“Terminal”), (ii) a estocagem e armazenagem do Produto para formação de lotes de exportação em ARMAZÉNS GRANELEIROS específicos (conforme indicado no item 9.1), e (iii) o embarque dos Produtos em navios (“Serviços Portuários”). 1.2 – Para o atendimento do objeto deste Contrato, poderá a VALE utilizar-se de bens e serviços de terceiros ou estabelecer algum nível de relação jurídica com terceiros. Nessas hipóteses será sempre integral e exclusiva responsabilidade da VALE o pleno atendimento da CLIENTE, para os efeitos deste Contrato, assim como de sua exclusiva e integral responsabilidade todas as obrigações derivadas da eventual relação jurídica formalizada com terceiros para os fins e atendimento do presente Contrato. 1.3 – A VALE poderá atender, dentro de suas possibilidades, quaisquer outros transportes que a CLIENTE solicitar, desde que mediante prévia negociação entre as PARTES.” Em suma, conforme se afere das cláusulas acima, o contrato traz, de forma bem definida, duas modalidades de serviços, quais sejam: (i) armazenagem das mercadorias; (ii) transporte (elevação) das mercadorias para navio destinado à venda ao exterior. Adentrando na operação propriamente dita, a mercadoria (soja e milho em grãos) chega no Terminal Portuário de Ponta Madeira no Estado do Maranhão, vindo em vagões ferroviários. Na sequência, os funcionários da VALE descarregam a mercadoria e mantém a mercadoria armazenada até a data de embarque no do navio. Fl. 665DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 13 Antes da chegada navio que fará o transporte internacional das mercadorias há um alinhamento prévio entre as partes, dentro das condições previstas no contrato para cada tipo de embarcação. Definido o navio, a Recorrente deve apresentar à VALE, antes da chegada da embarcação, o número do registro de exportação (RE) referente ao SISCOMEX para a liberação do atendimento, bem como o despacho junto a Receita Federal e ao Ministério da Agricultura e a cópia do “Bill of Landing” após o embarque. Quando o navio chega no porto, a VALE executa a terceira etapa do trabalho que consiste em carregar/abastecer o navio com a soja e/ou milho vendidos pela Recorrente. Ao final, a Recorrente efetua o pagamento à VALE de acordo com as condições estabelecidas no contrato e seus anexos, considerando a quantidade de mercadoria exportada, entre outras variáveis. Em relação ao contrato analisado acima, podemos sintetizar serviços prestados em: ARMAZENAGEM E TRANSPORTE PARA O NAVIO. Através da elucidação abaixo podemos compreender ainda melhor o que dizem os contratos: Conforme se afere da ilustração acima, a mercadoria chega até o porto de destino, geralmente via malha ferroviária, e na sequência é feito o descarregamento da SOJA/MILHO no ARMAZÉM. A toneladas de commodities ficam semanas armazenadas em coisas de clima e temperaturas adequadas para não perderem sua qualidade e, quando o navio atraca no porto toda soja/milho é transferida do armazém para dentro do navio através de grandes estruturas de engenharia que fazem o serviço de elevação das mercadorias, ou seja, transportam a soja e o milho para dentro do portão do navio. Uma vez abastecido e liberado pelas autoridades aduaneiras, o navio parte com destino ao destinatário das mercadorias. Feitas tais considerações, entendo que no caso dos autos, adotando-se o entendimento empregado no já citado REsp nº 1.221.170/PR, a questão deve ser analisada sob a perspectiva do inciso II, daquele dispositivo. É que, como mencionado no voto do Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho, não há que se falar em interpretação literal do direito ao creditamento. O crédito de PIS e Cofins não consiste em benefício fiscal, tampouco é causa de suspensão ou Fl. 666DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 14 exclusão do crédito tributário, e menos ainda representa dispensa do cumprimento de obrigações acessórias. Este decorre da própria dinâmica da não-cumulatividade de tais contribuições. Nesse sentido, a possibilidade de restrição do direito creditório por parte do legislador ordinário nada tem a ver com a interpretação restritiva, nos termos do art. 111 do CTN. Assim, entendo que o mencionado inciso II, ao se referir a bens e serviços utilizados como insumo na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, reporta-se à atividade econômica de produção ou fabricação por inteiro e não apenas a um de seus estágios específicos. Em outras palavras, pode-se dizer que o processo produtivo visto de forma ampla, não corresponde a atos de produção em sentido estrito, iniciando-se em momento anterior e se consumando na iminência da venda propriamente dita. Tal entendimento dialoga com o próprio fato gerador das contribuições para o PIS e a Cofins, que não incidem sobre a produção de bens ou prestação de serviços, mas sobre o total das receitas auferidas no mês pela pessoa jurídica. A questão foi inclusive abordada no voto do Ministro Relator Dias Toffoli, no julgamento do RE nº 841.979/PE, nos seguintes trechos: “Como se viu, o texto constitucional não estipulou qual seria a técnica da não cumulatividade a ser observada no tratamento da contribuição ao PIS e da COFINS no regime não cumulativo. Também se consignou, nas passagens anteriores, que o fato gerador dessas contribuições é deveras distinto dos fatos geradores do ICMS e do IPI. Com efeito, o ICMS pressupõe a circulação de mercadorias ou a prestação de certos serviços (isso é, serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação); e o IPI, a existência de produtos industrializados. Por seu turno, a contribuição ao PIS e a COFINS pressupõem a existência de faturamento ou de receita. Cabe ainda destacar, como já o fez Marco Aurélio Greco, que o processo formativo de um produto ou de uma mercadoria muito se diferencia do processo formativo da receita, a qual, aliás, por estar vinculada a determinado contribuinte, não se submete, propriamente, a um ciclo econômico . O mesmo se aplica quanto ao faturamento. Nesse contexto, anote-se, por exemplo, que, para a formação de receita ou de faturamento, o contribuinte poderá incorrer não só em gastos relacionados com aquele processo formativo de produtos, mas também em outros quanto a bens ou serviços imprescindíveis ou importantes para o exercício de sua atividade econômica.’ Nesse cenário, por não haver outra fase entre a produção/fabricação e a venda de determinados produtos, os gastos com (i) armazenagem das mercadorias e (ii) transporte (elevação) das mercadorias para navio destinadas ao exterior, enquanto em etapa anterior àquela de venda, deve ser analisado sob a ótica do inciso II, do art. 3º, das Leis nsº 10.637/02 e 10.833/03. A venda é o momento em que o sujeito passivo aufere a receita que será tributada, de modo que, até aquele momento, os gastos essenciais e relevantes para que tal operação possa ser executada devem ser reconhecidos como insumos. A operação de venda, em sentido estrito, é tratada em um inciso próprio, qual seja, o inciso IX. É que a partir daquele momento, findar-se-ia a atividade produtiva Fl. 667DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 15 elencada no inciso II, não podendo mais os serviços de fretes serem analisados sob aquela ótica. Nessa linha, não haveria qualquer racionalidade em uma interpretação que negasse o direito ao creditamento em relação ao serviço de armazenagem das mercadorias e transporte (elevação) das mercadorias para navio destinadas ao exterior, apenas por não se enquadrar especificamente na hipótese prevista no inciso IX. Ou seja, como se o fato de se ter utilizado na legislação a expressão frete e armazenagem “na operação de venda”, excluísse a possibilidade do creditamento dos gastos com frete em qualquer outro momento anterior à venda. No entanto, o fato de se aceitar o enquadramento de determinados tipos de fretes como insumos, não implica uma leitura do inciso II como uma “cláusula de fechamento”, capaz de abarcar qualquer bem ou serviço que guarde relação com a atividade econômica produtiva desempenhada pelo contribuinte. É realmente imprescindível que se verifique, no caso concreto, a essencialidade e relevância daquele bem ou serviço. Conforme demonstrado pela Recorrente na exposição do seu processo produtivo, entendo que os serviços de (i) descarregamento da soja/milho no armazém, (ii) armazenagem até o momento que o navio atraca no porto e toda soja/milho é transferida para dentro do navio e (iii) elevação das mercadorias que transportam a soja e o milho para dentro do portão do navio são essenciais para que se proceda com a venda das mercadorias para o exterior. [...] 2.5. Despesas com frete de produtos alíquota zero Como relatado, a r. decisão recorrida manteve as glosas relativas aos fretes de produtos adquiridos à alíquota zero, uma vez que não seria permitido o cálculo de créditos sobre as aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento de contribuições, nos termos dos art. 3º, §2º, II, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. A Recorrente, por sua vez, sustenta que a essencialidade dos produtos transportados conferiria aos fretes essencialidade no processo produtivo da Recorrente. Sobre o tema, destaco que o artigo 3º, inciso II, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos insumos, vedando expressamente em seu §2º, inciso II, apenas o aproveitamento de créditos decorrente da aquisição de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições: Art. 3º. Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor: II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou Fl. 668DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 16 utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição; e Como antecipado, do teor do referido dispositivo não há dúvida de que a limitação ao direito creditório se refere tão somente aos bens/serviços não tributados ou sujeitos à alíquota zero, inexistindo na legislação qualquer vinculação entre o direito ao crédito pelo serviço de transporte prestado (frete) e a tributação do bem transportado. Assim, os serviços de transporte utilizados na aquisição de insumos, apesar de integrarem o custo de aquisição dos bens adquiridos, possuem análise autônoma e tratamento tributário independente da carga transportada (isto é, se sujeitam à incidência de tais contribuições), sendo, portanto, possível o desconto de créditos dada a sua essencialidade ao processo produtivo. Pelo exposto, entendo que devem ser revertidas as glosas relativas aos gastos, devidamente comprovados, com fretes na aquisição de insumos sujeitos à alíquota zero. 2.6. Despesas incorridas com a empresa Ferrolease; Quanto às despesas com aluguel de vagões incorridas junto a Ferrolease, entendeu a DRJ que, como vagões não são considerados máquinas, mas veículos, tais gastos não estariam aptos a gerar créditos da não-cumulatividade. A Recorrente, por sua vez, sustenta que poderia tal despesa ser classificada como aluguel de máquinas e equipamentos, já que seria óbvio que não se estaria diante de veículo, pois não há no vagão autonomia para deslocar-se sozinho ou transportar algo por si só. Por fim, sustenta que o próprio capítulo 86 da TIPI faz referência de forma segregada a “veículos e material para vias férreas ou semelhantes, e suas partes”, diferenciando, portanto, vagão de locomotiva. Com razão a Recorrente. Conforme demonstrado no Recurso Voluntário, trata-se de vagões que não possuem nenhuma autonomia para se deslocar sozinhos. O vagão é um equipamento que será acoplado a um veículo (locomotiva ou trem) para transporte de produtos e/ou pessoas. O vagão não se move sozinho e, portanto, não pode ser tratado como se veículo fosse. Vejamos algumas imagens: Ademais, entendo que a Recorrente foi capaz de demonstrar a sua utilização no processo produtivo. Sustenta que o elevado volume de suas mercadorias destinadas à exportação é escoado por meio de portos, sendo que o transporte ocorre em grande parte exatamente por meio de ferrovias. Fl. 669DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 17 O laudo técnico apresentando bem destaca a questão: Os principais serviços portuários e aduaneiros indispensáveis nas atividades de exportação dentro do contexto operacional da AGREX DO BRASIL são: i) locação de vagões de carga; e ii) a elevação portuária (Cesta de Serviços ou Box Rate). Tais serviços são indispensáveis nas atividades preponderantes da empresa, considerando o contexto de mercado externo. Para que os grãos e sementes produzidos e adquiridos pela empresa sejam exportados, estes devem percorrer as distâncias entre local de produção e local de exportação, ou seja, o porto. Considerando a AGREX DO BRASIL, são utilizados 5 portos, sendo eles São Luís, Aratu, Tubarão, Santos e Paranaguá e 3 Ferrovias, sendo elas Ferrovia Norte-Sul S.A., Ferrovia Centro-Atlântica, Estrada de Ferro Vitória a Minas e também é utilizado o transporte rodoviário. No Porto é realizado o recebimento da carga dos vagões de trem, que serão armazenados do momento que o grão chega no porto até a sua elevação aos navios Verifica-se, portanto, que os gastos com a locação de vagões advêm da necessidade de se ter o transporte ferroviário à disposição, em especial pelo elevado custo do transporte em si. Nesse contexto, sendo os vagões facilmente enquadráveis como equipamentos essenciais para o processo produtivo da Recorrente, entendo não haver dúvida a respeito da possibilidade dos gastos com aluguéis, com base no inciso V das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. Pelo exposto, entendo que também quanto a este ponto, a glosa deve ser revertida. [...] Cumpre ressaltar que a edição das Súmulas CARF nº 2171 e 2322 não interferem na conclusão adotada nos tópicos 2.3 Das despesas com serviços portuários/aduaneiros e 2.4 Das despesas com frentes interno (entre estabelecimentos), vez que, no presente caso, em razão das particularidades da atividade econômica desenvolvida não se trata de produtos acabados, mas de grãos e sementes (matéria orgânica), que se perdem, deterioram e precisam ser transportados para que não se percam no campo, sendo essencial o transporte correto, para estabelecimento adequado, no tempo e condições específicos, para que as sementes mantenham sua qualidade, germinem e se desenvolvam da maneira adequada, até a efetiva exportação, de modo que se entendeu que tais fretes e serviços portuários se enquadram na condição de insumo do processo produtivo, sendo autorizado o creditamento das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03. 1 Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. 2 As despesas portuárias na exportação de produtos acabados não se qualificam como insumos do processo produtivo do exportador para efeito de créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de COFINS não cumulativas. Fl. 670DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 18 Ainda, considerando que, no que se refere ao frete entre estabelecimentos de produtos em elaboração, o v. acórdão recorrido já havia reconhecido o direito ao aproveitamento de créditos da não-cumulatividade na condição de insumo, mas manteve a glosa no caso em concreto em razão da falta de segregação entre fretes de produtos acabados e fretes de produtos em elaboração, sendo reconhecida a condição de produtos em elaboração aos produtos transportados pela recorrente até a efetiva exportação, devem ser revertidas integralmente as glosas sobre fretes internos. Por fim, no que se refere ao tópico 2.5 Despesas com frete de produtos alíquota zero, merece referência que este e. CARF editou a Súmula CARF nº 188, estabelecendo que “[é] permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições”, o que impõe o reconhecimento do direito creditório ora pleiteado. Quanto à reversão da glosa de créditos calculados sobre as despesas portuárias (serviços de descarregamento da soja/milho no armazém, elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio) e ao frete na transferência de produtos entre estabelecimentos, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado do acórdão paradigma: Na sessão de julgamento, o Colegiado divergiu do voto do ilustre Conselheiro Relator na análise do recurso voluntário do presente processo, especificamente, por voto de qualidade, quanto a reversão da glosa de créditos calculados sobre as seguintes rubricas: despesas portuárias (serviços de descarregamento da soja/milho no armazém, elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio) e fretes na transferência de produtos entre estabelecimentos. Então, fui designado a redigir o voto vencedor, motivo pelo qual apresento abaixo as razões de decidir. Para a solução da lide, oportuno a delimitação do conceito de insumo aplicável às contribuições em comento (COFINS e PIS/PASEP), em consonância com os artigos 3º, inciso II, das Leis nº10.637/02 e 10.833/03, principalmente para saber quais são os insumos que conferem, ou não, ao contribuinte o direito de apropriar créditos sobre suas respectivas aquisições. Conceito de insumo No que concerne aos bens e serviços utilizados como insumos, a recorrente sustenta que a glosa de créditos efetuadas e ratificadas pelos julgadores da DRJ, em igual sentido, ancoraram-se em uma interpretação restritiva do conceito de Fl. 671DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 19 “insumo” para PIS e COFINS, a qual não se coaduna com o princípio da não cumulatividade previsto no parágrafo 12 do artigo 195 da Constituição Federal, a exemplo da posição de expoentes da Doutrina e dos mais recentes julgados proferidos pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF. Após intensos debates ocorridos nas turmas colegiadas do CARF, a maioria dos Conselheiros adotou uma posição intermediária quanto ao alcance do conceito de insumo, não tão restritivo quanto o presente na legislação de IPI e não excessivamente alargado como aquele presente na legislação de IRPJ. Nessa direção, a maioria dos Conselheiros têm aceitado os créditos relativos a bens e serviços utilizados como insumos que são pertinentes e essenciais ao processo produtivo ou à prestação de serviços, ainda que eles sejam empregados indiretamente. Transcrevo parcialmente as ementas de acórdãos deste Colegiado que referendam o entendimento adotado quanto ao conceito de insumo: REGIME NÃO CUMULATIVO. INSUMOS. CONCEITO. No regime não cumulativo das contribuições o conteúdo semântico de “insumo” é mais amplo do que aquele da legislação do IPI e mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo apenas os “bens e serviços” que integram o custo de produção. (Acórdão 3402-003.169, Rel. Cons. Antônio Carlos Atulim, sessão de 20.jul.2016) CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMO. CONCEITO. O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril, e, consequentemente, à obtenção do produto final. (...). (Acórdão 3403003.166, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, unânime em relação à matéria, sessão de 20.ago.2014) Essa questão também já foi definitivamente resolvida pelo STJ, no Resp nº 1.221.170/PR, sob julgamento no rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), que estabeleceu conceito de insumo que se amolda aquele que vinha sendo usado pelas turmas do CARF, tendo como diretrizes os critérios da essencialidade e/ou relevância. Reproduzo a ementa do julgado que expressa o entendimento do STJ: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE Fl. 672DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 20 PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individual-EPI. 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentam-se as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Vale reproduzir o voto da Ministra Regina Helena Costa, que considerou os seguintes conceitos de essencialidade ou relevância da despesa, que deve ser seguido por este Conselho: Essencialidade, que diz respeito ao item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g.,equipamento de proteção individual EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Dessa forma, para se decidir quanto ao direito ao crédito de PIS e da COFINS não- cumulativo é necessário que cada item reivindicado como insumo seja analisado Fl. 673DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 21 em consonância com o conceito de insumo fundado nos critérios de essencialidade e/ou relevância definidos pelo STJ, ou mesmo, se não se trata de hipótese de vedação ao creditamento ou de outras previsões específicas constantes nas Leis nºs 10.637/2002, 10.833/2003 e 10.865/2005, para então se definir a possibilidade de aproveitamento do crédito. Embora o referido Acórdão do STJ não tivesse transitado em julgado, de forma que, pelo Regimento Interno do CARF, ainda não vincularia os membros do CARF, a Procuradoria da Fazenda Nacional expediu a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF3, com a aprovação da dispensa de contestação e recursos sobre o tema, com fulcro no art. 19, IV, da Lei nº 10.522, de 2002, 4 c/c o 3 Portaria Conjunta PGFN /RFB nº1, de 12 de fevereiro de 2014 (Publicado(a) no DOU de 17/02/2014, seção 1, página 20) Art. 3º Na hipótese de decisão desfavorável à Fazenda Nacional, proferida na forma prevista nos arts. 543-B e 543-C do CPC, a PGFN informará à RFB, por meio de Nota Explicativa, sobre a inclusão ou não da matéria na lista de dispensa de contestar e recorrer, para fins de aplicação do disposto nos §§ 4º, 5º e 7º do art. 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, e nos Pareceres PGFN/CDA nº 2.025, de 27 de outubro de 2011, e PGFN/CDA/CRJ nº 396, de 11 de março de 2013. § 1º A Nota Explicativa a que se refere o caput conterá também orientações sobre eventual questionamento feito pela RFB nos termos do § 2º do art. 2º e delimitará as situações a serem abrangidas pela decisão, informando sobre a existência de pedido de modulação de efeitos. § 2º O prazo para o envio da Nota a que se refere o caput será de 30 (trinta) dias, contado do dia útil seguinte ao termo final do prazo estabelecido no § 2º do art. 2º, ou da data de recebimento de eventual questionamento feito pela RFB, se este ocorrer antes. § 3º A vinculação das atividades da RFB aos entendimentos desfavoráveis proferidos sob a sistemática dos arts. 543-B e 543-C do CPC ocorrerá a partir da ciência da manifestação a que se refere o caput. § 4º A Nota Explicativa a que se refere o caput será publicada no sítio da RFB na Internet. § 5º Havendo pedido de modulação de efeitos da decisão, a PGFN comunicará à RFB o seu resultado, detalhando o momento em que a nova interpretação jurídica prevaleceu e o tratamento a ser dado aos lançamentos já efetuados e aos pedidos de restituição, reembolso, ressarcimento e compensação. (...) 4 LEI No 10.522, DE 19 DE JULHO DE 2002. Art. 19. Fica a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional autorizada a não contestar, a não interpor recurso ou a desistir do que tenha sido interposto, desde que inexista outro fundamento relevante, na hipótese de a decisão versar sobre: (Redação dada pela Lei nº 11.033, de 2004) (...) II - matérias que, em virtude de jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal Superior do Trabalho e do Tribunal Superior Eleitoral, sejam objeto de ato declaratório do Procurador-Geral da Fazenda Nacional, aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda; (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) III -(VETADO). (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) IV - matérias decididas de modo desfavorável à Fazenda Nacional pelo Supremo Tribunal Federal, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543-B da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 - Código de Processo Civil; (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) V - matérias decididas de modo desfavorável à Fazenda Nacional pelo Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos art. 543-C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 - Código de Processo Civil, com exceção daquelas que ainda possam ser objeto de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal. (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) (...) § 4o A Secretaria da Receita Federal do Brasil não constituirá os créditos tributários relativos às matérias de que tratam os incisos II, IV e V do caput, após manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional nos casos dos incisos IV e V do caput. (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) § 5o As unidades da Secretaria da Receita Federal do Brasil deverão reproduzir, em suas decisões sobre as matérias a que se refere o caput, o entendimento adotado nas decisões definitivas de mérito, que versem Fl. 674DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 22 art. 2º, V, da Portaria PGFN nº 502, de 2016, o que vincula a Receita Federal nos atos de sua competência. Nesse mesmo sentido, a Secretaria da Receita Federal do Brasil emitiu o Parecer Normativo nº 5/2018, com a seguinte ementa: Ementa. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. COFINS. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO ESTABELECIDA NO RESP 1.221.170/PR. ANÁLISE E APLICAÇÕES. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Consoante a tese acordada na decisão judicial em comento: a) o “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja”: b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Dispositivos Legais. Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, inciso II; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, inciso II. No caso concreto, observa-se que o julgamento da DRJ se deu balizado no conceito de insumo atualmente adotado pela RFB para fins de creditamento de PIS e Cofins, que segue os parâmetros definidos pelo REsp 1.221.170/PR, os quais foram consolidados no Parecer Normativo Cosit nº 05, de 2018. De acordo com o referido Parecer Normativo, a decisão proferida pelo STJ é vinculante para a Secretaria da Receita Federal do Brasil em razão do disposto na Portaria Conjunta sobre essas matérias, após manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional nos casos dos incisos IV e V do caput. (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) § 6o - (VETADO). (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) § 7o Na hipótese de créditos tributários já constituídos, a autoridade lançadora deverá rever de ofício o lançamento, para efeito de alterar total ou parcialmente o crédito tributário, conforme o caso, após manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional nos casos dos incisos IV e V do caput. (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) Fl. 675DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 23 PGFN/RFB nº 1, de 2014, e nos termos da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF. Dito isso, passa-se à análise das glosas. Despesas aduaneiras com movimentação (serviços de descarregamento da soja/milho no armazém e elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio) Este tópico trata de despesas portuárias para a movimentação de produtos exportados. Com relação às despesas portuárias, o CARF pacificou o entendimento por meio da súmula CARF nº232, in verbis: Despesas portuárias na exportação de produtos acabados não configuram insumos para fins de crédito de PIS/COFINS. Como se sabe, as súmulas CARF são de obediência obrigatória pelos julgadores do CARF. Deve ser mantida, portanto, a glosa. Fretes na transferência de produtos entre estabelecimentos A glosa desse tópico refere-se a créditos calculados pelo contribuinte sobre despesas com fretes em transferências de bens acabados entre seus estabelecimentos. Segundo a descrição dos fatos do auto de infração, a glosa alcança as transferências de produtos acabados e para esse tipo de despesa não há previsão legal para a tomada de créditos relativamente aos serviços de transporte. A recorrente se insurge contra a conclusão do auto de infração afirmando que, na verdade, o frete da transferência do produto acabado faz parte do processo de venda. Tal situação não descaracteriza o processo de venda nem de produção como um todo, posto que no primeiro caso equivale ao custo de transporte a vencia direta. Assim, com base no inciso IX do artigo. 3º da Lei nº 10.833/03, entende que a glosa deve ser revertida. Sem razão a Recorrente. Pode-se assim resumir a possibilidade de geração de créditos na sistemática da não cumulatividade para as empresas quanto aos fretes: i) na compra de mercadorias para revenda, posto que integrantes do custo de aquisição (artigo 289 do Regulamento do Imposto de Renda Decreto n° 3.000/99) e, assim, ao amparo do inciso I do artigo. 3° da Lei n° 10.833/03; Fl. 676DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 24 ii) nas vendas de mercadorias, no caso do ônus ser assumido pelo vendedor, nos termos do inciso. IX do artigo. 3º da Lei nº 10.833/03; e iii) o frete pago quando o serviço de transporte seja utilizado como insumo na prestação de serviço ou na produção de um bem destinado à venda, com base no inc. II do art. 3° da Lei nº10.833/03. No caso concreto, observa-se, pelos documentos juntados, que as despesas com fretes tratam em parte do transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da própria empresa. Desta feita, o transporte de produtos acabados da fábrica para outros estabelecimentos da empresa não se enquadram em nenhum dos permissivos legais de crédito citados, pois não possui qualquer identidade com aquele frete que compõe o custo de aquisição dos bens destinados a revenda, não se confunde também com o frete sobre vendas, naquele que o vendedor assume o ônus o frete, tampouco pode ser considerado insumo na prestação de serviço ou na produção de um bem, já que as operações de fretes ocorrem no período pós produção. Nesse mesmo sentido, foi o voto proferido pelo Conselheiro José Fernandes, no acórdão nº 3302003.212, de 16.05.2016, conforme trecho da decisão, a seguir parcialmente transcrita: De acordo com os referidos preceitos legais, infere-se que a parcela do valor do frete, relativo ao transporte de bens a serem utilizados como insumos de produção ou fabricação de bens destinados à venda, integra o custo de aquisição dos referidos bens e somente nesta condição compõe a base cálculo dos créditos das mencionadas contribuições, enquanto que o valor do frete referente ao transporte dos bens em produção ou fabricação entre estabelecimentos fabris integra o custo produção na condição de serviços aplicados ou consumidos na produção ou fabricação de bens destinados à venda. Com a ressalva de que, pelas razões anteriormente aduzidas, há direito de apropriação de crédito sobre o valor do frete no transporte de bens utilizados como insumos, somente se o valor de aquisição destes bens gerar direito a apropriação de créditos das referidas contribuições. No âmbito da atividade de produção ou fabricação, os insumos representam os meios materiais e imateriais (bens e serviços) utilizados em todas as etapas do ciclo de produção ou fabricação, que se inicia com o ingresso dos bens de produção (matérias-primas ou produtos intermediários) e termina com a conclusão do produto a ser comercializado. Se a pessoa jurídica tem algumas operações do processo produtivo realizadas em unidades produtoras ou industriais situadas em diferentes localidades, certamente, durante o ciclo de produção ou fabricação haverá necessidade de transferência dos produtos em produção ou fabricação para os outros estabelecimentos produtores ou fabris, que demandará a prestação de serviços de transporte. Assim, em relação à atividade industrial ou de produção, a apropriação dos créditos calculados sobre o valor do frete, normalmente, dar-se-á de duas formas diferentes, a saber: a) sob forma de custo de aquisição, integrado ao custo de Fl. 677DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 25 aquisição do bem de produção (matérias-primas, produtos intermediários ou material de embalagem); e b) sob a forma de custo de produção, correspondente ao valor do frete referente ao serviço do transporte dos produtos em fabricação nas operações de transferências entre estabelecimentos industriais. Com o fim do ciclo de produção ou industrialização, há permissão de apropriação de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre o valor do frete no transporte dos produtos acabados na operação de venda, desde que o ônus seja suportado pelo vendedor, conforme expressamente previsto no art. 3º, IX, e § 1º, II, da Lei 10.833/2003, que seguem reproduzidos: (...) Em suma, chega-se a conclusão que o direito de dedução dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, calculados sobre valor dos gastos com frete, são assegurados somente para os serviços de transporte: a) de bens para revenda, cujo valor de aquisição propicia direito a créditos, caso em que o valor do frete integra base de cálculo dos créditos sob forma de custo de aquisição dos bens transportados (art. 3º, I, da Lei 10;637/2002, c/c art. 289 do RIR/1999); b) de bens utilizados como insumos na prestação de serviços e produção ou fabricação de bens destinados à venda, cujo valor de aquisição propicia direito a créditos, caso em que o valor do frete integra base de cálculo dos créditos como custo de aquisição dos insumos transportados (art. 3º, II, da Lei 10.637/2002, c/c art. 290 do RIR/1999); c) de produtos em produção ou fabricação entre unidades fabris do próprio contribuinte ou não, caso em que o valor do frete integra a base de cálculo do crédito da contribuição como serviço de transporte utilizado como insumo na produção ou fabricação de bens destinados à venda (art. 3º, II, da Lei 10.637/2002); e d) de bens ou produtos acabados, com ônus suportado do vendedor, caso em que o valor do frete integra a base de cálculo do crédito da contribuição como despesa de venda (art. 3º, IX, da Lei 10.637/2002). Enfim, cabe esclarecer que, por falta de previsão legal, o valor do frete no transporte dos produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica (entre matriz e filiais, ou entre filiais, por exemplo), não geram direito a apropriação de crédito das referidas contribuições, porque tais operações de transferências (i) não se enquadra como serviço de transporte utilizado como insumo de produção ou fabricação de bens destinados à venda, uma vez que foram realizadas após o término do ciclo de produção ou fabricação do bem transportado, e (ii) nem como operação de venda, mas mera operação de movimentação dos produtos acabados entre estabelecimentos, com intuito de facilitar a futura comercialização e a logística de entrega dos bens aos futuros compradores. O mesmo entendimento, também se aplica às transferências dos produtos acabados para depósitos fechados ou armazéns gerais. (negritos nossos) Fl. 678DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 26 Ademais, o Parecer Normativo COSIT/RFB/ nº 5, de 17/12/2018, ao delimitar os contornos do REsp 1.221.170/PR, sobre essa questão definiu esse mesmo entendimento em seu item 5 (gastos posteriores à finalização do processo de produção), o seguinte: 55. Conforme salientado acima, em consonância com a literalidade do inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, e nos termos decididos pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, em regra somente podem ser considerados insumos para fins de apuração de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins bens e serviços utilizados pela pessoa jurídica no processo de produção de bens e de prestação de serviços, excluindo-se do conceito os dispêndios realizados após a finalização do aludido processo, salvo exceções justificadas. 56. Destarte, exemplificativamente não podem ser considerados insumos gastos com transporte (frete) de produtos acabados (mercadorias) de produção própria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, para centros de distribuição ou para entrega direta ao adquirente, como: a) combustíveis utilizados em frota própria de veículos; b) embalagens para transporte de mercadorias acabadas; c) contratação de transportadoras. ... 59. Assim, conclui-se que, em regra, somente são considerados insumos bens e serviços utilizados pela pessoa jurídica durante o processo de produção de bens ou de prestação de serviços, excluindo-se de tal conceito os itens utilizados após a finalização do produto para venda ou a prestação do serviço. Todavia, no caso de bens e serviços que a legislação específica exige que a pessoa jurídica utilize em suas atividades, a permissão de creditamento pela aquisição de insumos estende- se aos itens exigidos para que o bem produzido ou o serviço prestado possa ser disponibilizado para venda, ainda que já esteja finalizada a produção ou prestação. (negritos nossos) Nesse sentido, a recentíssima súmula CARF nº 217 também veda o aproveitamento de créditos de PIS e COFINS sobre o transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa. Assim, com base nessa motivação, deve ser mantida a glosa. Diante do exposto, entendo que devem ser mantidas as glosas sobre as seguintes rubricas: despesas portuárias (serviços de descarregamento da soja/milho no armazém e elevação que transporta a soja e o milho para dentro do porão do navio) e fretes na transferência de produtos entre estabelecimentos. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui Fl. 679DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-002.975 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10120.733952/2018-38 27 adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das matérias impertinentes à presente controvérsia (tópicos III. 3.1 Crédito sobre Despesas com Bens para Laboratório de Análises, Testes e Serviços de Análise de Solos e Qualidade, III. 3.2 Do Crédito sobre Combustíveis e Lubrificantes, III. 3.4 Do Crédito sobre Despesas com Bens Incorporados ao Ativo Imobilizado, III. 3.7 Do Crédito sobre Despesas com Partes e Peças de Reposição Utilizadas em Máquinas e Equipamentos (Outras Operações com Direito ao Crédito) e III. 3.8 Dos Créditos Vinculados às Receitas Suspensas – Saídas no Mercado Interno) e que não foram objeto de manifestação de inconformidade (tópico III. 3.9 Da Apropriação de Créditos Extemporâneos – Legalidade), e, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para o fim de reverter as glosas relativas aos gastos com: (a) armazenagem até o momento que o navio atraca no porto e toda soja/milho é transferida para dentro do navio; (b) com fretes devidamente comprovados, na aquisição de insumos sujeitos à alíquota zero; e (c) despesas com aluguel de vagões incorridas junto a Ferrolease. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 680DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10480.728159/2017-47
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 18 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Mar 25 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2012
RENDIMENTOS RECEBIDOS A TÍTULO DE PENSÃO ALIMENTÍCIA. IMPOSTO DE RENDA. NÃO INCIDÊNCIA. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - ADI Nº 5422.
Não incide imposto de renda sobre valores decorrentes do direito de família percebidos pelos alimentados a título de alimentos ou de pensões alimentícias.
Numero da decisão: 2102-004.043
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao Recurso Voluntário.
Assinado Digitalmente
Carlos Eduardo Fagundes de Paula – Relator
Assinado Digitalmente
Cleberson Alex Friess – Presidente
Participaram da reunião assíncrona os conselheiros Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Jose Marcio Bittes, Vanessa Kaeda Bulara de Andrade, Yendis Rodrigues Costa, Cleberson Alex Friess (Presidente).
Nome do relator: CARLOS EDUARDO FAGUNDES DE PAULA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula – Relator Assinado Digitalmente Cleberson Alex Friess – Presidente Participaram da reunião assíncrona os conselheiros Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Jose Marcio Bittes, Vanessa Kaeda Bulara de Andrade, Yendis Rodrigues Costa, Cleberson Alex Friess (Presidente).
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IMPOSTO DE RENDA. NÃO INCIDÊNCIA. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - ADI Nº 5422. Não incide imposto de renda sobre valores decorrentes do direito de família percebidos pelos alimentados a título de alimentos ou de pensões alimentícias. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula – Relator Assinado Digitalmente Cleberson Alex Friess – Presidente Participaram da reunião assíncrona os conselheiros Carlos Eduardo Fagundes de Paula, Carlos Marne Dias Alves, Jose Marcio Bittes, Vanessa Kaeda Bulara de Andrade, Yendis Rodrigues Costa, Cleberson Alex Friess (Presidente). Fl. 83DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.043 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.728159/2017-47 2 RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por Maria Gracineide Cordeiro Mergulhão Teti, inscrita no CPF sob o nº 528.739.194-34, contra o Acórdão nº 08-43.214, proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE – 6ª Turma, que julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo integralmente o crédito tributário lançado em relação ao Imposto sobre a Renda da Pessoa Física – IRPF, referente ao ano-calendário de 2012. A autuação teve origem em procedimento de revisão da declaração de ajuste anual do exercício de 2013, no qual a autoridade fiscal constatou omissão de rendimentos de pensão alimentícia recebidos de pessoa física. Consta na Notificação de Lançamento nº 2017/0000000, que a contribuinte teria deixado de declarar valores recebidos a título de pensão alimentícia, pagos por Alexandre Carlos Cordeiro Teti (CPF nº 224.187.254-72), no montante de R$ 16.856,58, em favor dos dependentes Isabela Mergulhão Teti e Vinícius Mergulhão Teti. Diante da omissão verificada, foi constituído crédito tributário no valor de R$ 4.238,41, correspondente ao imposto suplementar apurado, acrescido dos respectivos juros de mora e multa de ofício, nos termos da legislação vigente. Regularmente notificada, a contribuinte apresentou impugnação administrativa, na qual alegou, em síntese, não ter recebido os valores que fundamentaram o lançamento. Sustentou que os montantes indicados foram pagos diretamente aos filhos, razão pela qual não integrariam sua base de cálculo do imposto de renda. Afirmou, ainda, que haveria incongruência na classificação dos rendimentos, uma vez que a descrição constante da notificação mencionava “aluguéis e outros rendimentos recebidos de pessoa física”, o que, segundo sua ótica, não corresponderia à realidade dos fatos. Juntou aos autos extratos bancários e documentos judiciais alusivos à decisão que fixou os alimentos, afirmando que tais provas comprovariam que os rendimentos não foram percebidos por si, mas sim destinados aos filhos. Argumentou, ainda, que buscaria junto à 7ª Vara de Família a substituição da titularidade da pensão relativa à filha Isabela, por ter esta atingido a maioridade, o que reforçaria a inexistência de obrigação tributária em seu nome. A DRJ de Fortaleza, ao apreciar a impugnação, consignou, inicialmente, que o sistema de processamento eletrônico classificou os rendimentos sob a rubrica “aluguéis e outros rendimentos recebidos de pessoa física”, mas que, na realidade, a autuação dizia respeito exclusivamente a valores de pensão alimentícia, conforme a descrição complementar dos fatos constante da notificação. Ao examinar o mérito, a autoridade julgadora de primeiro grau destacou que a própria impugnante, em sua manifestação, reconheceu que os rendimentos foram pagos aos Fl. 84DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.043 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.728159/2017-47 3 dependentes incluídos em sua declaração, o que enseja, por força do art. 72, § 2º, da Instrução Normativa RFB nº 1.500/2014, a tributação conjunta dos rendimentos dos dependentes na declaração do responsável. Assentou, ainda, que o art. 54 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) estabelece de forma expressa que os valores recebidos a título de alimentos ou pensões em dinheiro, fixados por decisão judicial ou acordo homologado, constituem rendimentos tributáveis. Entendeu, portanto, que, ainda que os valores tenham sido depositados diretamente em contas bancárias de filhos menores ou dependentes, tais quantias devem ser tributadas na declaração do responsável, desde que estes estejam incluídos como dependentes na DAA. Concluiu, assim, que a contribuinte não apresentou elementos capazes de afastar a presunção de veracidade da informação constante do sistema, tampouco comprovou fato impeditivo, modificativo ou extintivo da obrigação tributária, motivo pelo qual manteve integralmente o crédito tributário lançado, julgando improcedente a impugnação. Irresignada, a contribuinte interpôs o presente recurso voluntário, reiterando os argumentos anteriormente expendidos e reafirmando que os valores questionados não foram percebidos por si, mas sim pelos filhos beneficiários da pensão, razão pela qual entende não haver base legal para a tributação em seu nome. Em síntese é o relatório. VOTO Conselheiro Carlos Eduardo Fagundes de Paula, relator. Dos pressupostos de Admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, pelo que dele conheço. Do mérito A controvérsia reside na exigência de Imposto sobre a Renda da Pessoa Física – IRPF, referente ao ano-calendário de 2012, decorrente de omissão de rendimentos de pensão alimentícia recebidos de pessoa física. A contribuinte foi autuada em razão de constar em seu CPF a percepção de valores pagos por Alexandre Carlos Cordeiro Teti, a título de pensão destinada aos filhos Isabela Mergulhão Teti e Vinícius Mergulhão Teti, no montante de R$ 16.856,58, sem a correspondente declaração na DAA do exercício de 2013. Fl. 85DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2102-004.043 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.728159/2017-47 4 Em sede recursal, a contribuinte reitera os argumentos já expostos na impugnação, afirmando que os valores não foram recebidos por si, mas destinados diretamente aos filhos. Sobre o tema, cumpre mencionar que o Supremo Tribunal Federal julgou, em sede de controle concentrado de constitucionalidade, que os valores recebidos a título de pensão alimentícia não estão sujeitos à tributação pelo imposto de renda da pessoa física, conforme se depreende de trecho da ementa abaixo: Ação Direta de Inconstitucionalidade. Legitimidade ativa. Presença. Afastamento de questões preliminares. Conhecimento parcial da ação. Direito tributário e direito de família. Imposto de renda. Incidência sobre valores percebidos a título de alimentos ou de pensão alimentícia. Inconstitucionalidade. Ausência de acréscimo patrimonial. Igualdade de gênero. Mínimo existencial. (ADI nº 5422, Relator Ministro Dias Toffoli, julgado pelo Tribunal Pleno em 06/06/2022, publicado em 23/08/2022). Sendo assim, como os valores recebidos pela Recorrente não estão sujeitos ao imposto de renda da pessoa física, o provimento recursal é medida que se impõe. Conclusão Diante do exposto, conheço do recurso voluntário e, no mérito, dou-lhe provimento. Assinado Digitalmente Carlos Eduardo Fagundes de Paula Fl. 86DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10855.003100/99-02
Turma: Primeira Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu Aug 14 00:00:00 UTC 2008
Data da publicação: Thu Aug 14 00:00:00 UTC 2008
Ementa: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DÍÍ PEQUENO PORTE - SIMPLES
Ano-calendário: 2000
SIMPLES - INCLUSÃO - RETROATIVA - ATIVIDADES DE ENGENHARIA - LEI COMPLEMENTAR 123/2006. As atividades de construção de imóveis e de engenharia em geral, inclusive sob a forma de subempreitada, não são mais vedadas ao SIMPLES nos termos do artigo 17, § Io, inciso XIII, da LC 123/2006. Aplicação retroativa em virtude do artigo 106, inciso II, alínea "b", do Código Tributário Nacional.
SIMPLES. RETROATIVIDADE DE LEI NOVA. JULGAMENTOS PENDENTES. EFEITOS. A lei nova tem repercussão pretérita aos casos pendentes de julgamento, por força do caráter interpretativo da norma jurídica impeditiva anterior, revogada pela nova legislação, devendo seus efeitos se subsumirem à regra do artigo 106 do CTN.
RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO
Numero da decisão: 301-34.707
Decisão: ACORDAM os membros da Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto da relatora.
Nome do relator: IRENE SOUZA DA TRINDADE TORRES
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