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Numero do processo: 10530.727171/2014-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2011
ITR. IMÓVEL RURAL. ÁREA CONTÍNUA.
Para o fim de apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR, considera-se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município, ainda que sujeitas a mais de uma matrícula no Registro de Imóveis competente.
LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. ANULAÇÃO DA AUTUAÇÃO INDEVIDA. CORREÇÃO DA FALTA.
Constatado a existência de lançamento voltado para imóvel rural abrangido no Auto de Infração, a anulação daquela autuação mostra-se suficiente para a correção da falta apontada.
AUTUAÇÃO. INTIMAÇÃO IMPROFÍCUA. EDITAL VALIDADE.
Resultado improfícua a intimação de autuação por via postal, essa poderá ser efetuada por via postal no domicílio tributário do sujeito passivo
ITR. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. MUNICÍPIO DE LOCALIZAÇÃO DO IMÓVEL.
O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro.
ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO.
Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal.
ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO.
A dedução da Área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR está condicionada à sua averbação, à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador.
DO VALOR DA TERRA NUA - VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO PELO SIPT.
Caracterizada a subavaliação no VTN/ha informado na DITR e constatado que o valor apurado pelo contribuinte, mediante laudo de avaliação, é superior ao aferido pela Fiscalização com base no no Sistema de Preços de Terras - SIPT, deve ser mantido VTN/ha indicado no Auto de Infração, sob pena de agravamento da exigência fiscal.
Numero da decisão: 2402-006.514
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Gregório Rechmann Junior que reconheceram a existência de APP e área de floresta nativa em relação ao imóvel denominado Fazenda Salto da Lontra
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator.
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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IMÓVEL RURAL. ÁREA CONTÍNUA. Para o fim de apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município, ainda que sujeitas a mais de uma matrícula no Registro de Imóveis competente. LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. ANULAÇÃO DA AUTUAÇÃO INDEVIDA. CORREÇÃO DA FALTA. Constatado a existência de lançamento voltado para imóvel rural abrangido no Auto de Infração, a anulação daquela autuação mostrase suficiente para a correção da falta apontada. AUTUAÇÃO. INTIMAÇÃO IMPROFÍCUA. EDITAL VALIDADE. Resultado improfícua a intimação de autuação por via postal, essa poderá ser efetuada por via postal no domicílio tributário do sujeito passivo ITR. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. MUNICÍPIO DE LOCALIZAÇÃO DO IMÓVEL. O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 71 71 /2 01 4- 59 Fl. 366DF CARF MF 2 ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO. A dedução da Área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR está condicionada à sua averbação, à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador. DO VALOR DA TERRA NUA VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO PELO SIPT. Caracterizada a subavaliação no VTN/ha informado na DITR e constatado que o valor apurado pelo contribuinte, mediante laudo de avaliação, é superior ao aferido pela Fiscalização com base no no Sistema de Preços de Terras SIPT, deve ser mantido VTN/ha indicado no Auto de Infração, sob pena de agravamento da exigência fiscal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Gregório Rechmann Junior que reconheceram a existência de APP e área de floresta nativa em relação ao imóvel denominado Fazenda Salto da Lontra (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho – Presidente e Relator. Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 03069.398, da 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília/DF – DRJ/BSA (fls. 163/183) que julgou improcedente impugnação apresentada em face de Auto de Infração de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), exercício de 2011, cujo objeto foi o imóvel denominado “Fazenda 3 Barras”, cadastrado na RFB sob o nº 1.089.9014, com área declarada de 1.330,0 ha, localizado no Município de Riachão das Neves/BA. A seguir reproduzse trechos do relatório da decisão recorrida, que retratam adequadamente o contexto em que se deu a autuação, bem assim as razões trazidas na impugnação: Ação Fiscal A ação fiscal, proveniente dos trabalhos de revisão das DITR/2011 incidentes em malha valor, iniciouse com o Termo de Intimação Fiscal nº 3825/00036/2014 de Fl. 367DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 3 3 fls. 15/17, lavrado em 22.07.2014 e recepcionado em 31.07.2014, às fls. 18, para o contribuinte apresentar, no prazo de 20 dias a contar da sua ciência, o seguinte documento de prova: Laudo de Avaliação do Valor da Terra Nua emitido por engenheiro agrônomo/florestal, conforme estabelecido na NBR 14.653 da ABNT com grau de fundamentação e de precisão II, com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados e planilhas de cálculo e preferivelmente pelo método comparativo direto de dados do mercado. Alternativamente, o contribuinte poderá se valer de avaliação efetuada pelas Fazendas Públicas Estaduais (exatorias) ou Municipais, assim como aquelas efetuadas pela Emater, apresentando os métodos de avaliação e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. Tais documentos devem comprovar o VTN na data de 1º de janeiro de 2011, a preço de mercado. A falta de comprovação do VTN declarado ensejará o arbitramento do VTN, com base nas informações do SIPT, nos termos do art. 14 da Lei nº 9.393/96, pelo VTN/ha do município de localização do imóvel para 1º de janeiro de 2011 no valor de R$: outras R$2.000,00. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal, o contribuinte apresentou, em 07.08.2014, a correspondência de fls. 19, na qual solicitou cópia do processo. O contribuinte, em 20.08.2014, requereu a prorrogação do prazo por mais 30 (trinta) dias, por meio da correspondência de fls. 24, para o atendimento ao Termo de Intimação Fiscal. A fiscalização lavrou, em 27.08.2014, o Termo de Prorrogação de Prazo de fls. 29, no qual foi prorrogado o prazo para resposta ao Termo de Intimação Fiscal por mais 20 (vinte) dias. O Termo de Prorrogação de Prazo foi recepcionado pelo contribuinte em 09.09.2014, às fls. 30. Em 09.09.2014, o contribuinte apresentou a correspondência de fls. 31, para juntar aos autos a cópia das Matrículas do Imóvel, às fls. 37/43. Por meio da correspondência de fls. 44, protocolada em 26.09.2014, o contribuinte requereu a prorrogação do prazo para atendimento ao Termo de Intimação Fiscal por mais 90 (noventa) dias. Tal requerimento foi indeferido por meio do Termo de fls. 48, lavrado em 28.10.2014 e recepcionado pelo contribuinte em 05.11.2014, às fls. 49. A fiscalização lavrou, em 29.10.2014, o Termo de Constatação e Intimação Fiscal nº 38725/00100/2014, às fls. 50/53, que foi enviado para o mesmo endereço para o qual foram encaminhados os Termos anteriores, contudo os Correios devolveram o Aviso de Recebimento (AR) ao remetente, às fls. 54/55. Posteriormente, esse mesmo Termo foi reencaminhado ao mesmo endereço e encaminhado para um segundo endereço do contribuinte, sendo esses Termos recepcionados pelo contribuinte em 04.12.2014, às fls. 60/61, nos dois endereços. Por não ter sido apresentado o documento de prova exigido e procedendose a análise e verificação dos dados constantes na DITR/2011 e nas Matrículas do Imóvel, às fls. 37/43, apresentadas pelo contribuinte, a fiscalização resolveu alterar a área total declarada do imóvel de 1.330,0 ha para 1.468,4 ha e o Valor da Terra Nua (VTN) declarado de R$0,00 para o arbitrado de R$2.936.800,00 (R$2.000,00/ha), com base em valor constante no SIPT, com consequente aumento do VTN Fl. 368DF CARF MF 4 tributável, e disto resultando imposto suplementar de R$252.554,80, conforme demonstrado às fls. 06. A descrição dos fatos e os enquadramentos legais da infração, da multa de ofício e dos juros de mora constam às fls. 04/05 e 07. Impugnação Cientificado do lançamento, em 04.04.2015, às fls. 12/14, ingressou o contribuinte, em 04.05.2015, às fls. 64, com sua impugnação de fls. 64/74, instruída com os documentos de fls. 75/153, alegando e solicitando o seguinte, em síntese: considera que a fiscalização preferiu promover a Notificação de Lançamento por Edital, mesmo dispondo da informação do seu domicílio e já tendo utilizado o mesmo endereço para intimações anteriores e sendo assim tal fato é inconcebível, gerando nulidade, e cita e transcreve Ementa de Decisão Judicial para embasar sua tese; acentua que a intimação editalícia caracterizase como modalidade extraordinária de intimação, apenas devendo ser aplicada quando comprovado que houve o esgotamento das vias ordinárias, o que exige para tanto prova de que pessoa esteja efetivamente em lugar incerto e desconhecido; destaca que, no caso, tanto o Termo de Intimação Fiscal como o envelope em que foi postado e os pedidos de prorrogação revelam que o Fisco tinha totais condições de dispor do seu endereço para promover a regular notificação do lançamento via postal, bastava verificar no sistema informatizado da RFB o endereço atualizado do contribuinte; entende ser imperioso, diante dos fatos, reconhecer que houve precipitação da Administração, de modo a evidenciar a nulidade da via editalícia, posto que, à míngua de qualquer justificativa, é patente a nulidade do Edital pela falta de prova das razões da frustração da notificação anterior; considera que, além do exposto, a publicação do Edital foi feita na cidade de Riachão das Neves/BA, quando teria que ser realizada em Brasília/DF, que é a circunscrição do seu domicílio; registra que o art. 23, § 4º, I, do Decreto nº 70.235/72 é inequívoco ao dispor que considerase o domicílio tributário o endereço postal por ele fornecido; acentua que, ainda que se legitimasse a intimação pela via do Edital, por eventual frustração da tentativa de intimação pela via postal, esta via apenas seria válida se tivesse sido procedida no domicílio tributário do sujeito passivo; destaca que não pode haver dúvida de que o Fisco tem que adotar por domicílio tributário aquele local constante no cadastro do contribuinte, conforme deixa claro o entendimento do CARF, e transcreve Ementas desse Colegiado, para embasar sua tese, e da mesma forma Ementa de Decisão Judicial, enfatizando que, por isso, deve ser considerada nula de pleno direito a notificação promovida por Edital fora do domicílio fiscal do contribuinte; entende que o ocorrido, no caso, implica em patente violação ao seu direito de defesa, violando o princípio constitucional da ampla defesa e, também, o disposto no art. 2º, VII e X, da Lei nº 9.784/99; enfatiza que o art. 26, § 5º, da Lei nº 9.784/99 dispõe que “as intimações serão nulas quando feitas sem observância das prescrições legais”; considera que a motivação central do Auto de Infração (sic) se ancorou na suposta falta de prestação de esclarecimento pelo contribuinte, o que não pode prevalecer diante do fato de que Fl. 369DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 4 5 a sua notificação para apresentar defesa é nula de pleno direito, por ter sido promovido pela via editalícia e fora do seu domicílio fiscal, sendo de rigor, pois, que se anule o Auto de Infração (sic); entende que houve ilegalidade do Auto de Infração (sic) por erro na determinação da matéria tributável, isso porque foi lavrado um único lançamento fiscal em relação a dois imóveis distintos, tal como se tratasse de um mesmo fato gerador, ou seja, como se fosse um único imóvel supostamente com área de 1.468,4 ha, o que não corresponde à realidade dos fatos; transcreve excerto da “Descrição dos Fatos” e diz ser patente nas declarações que não houve “unificação” de dois imóveis, mesmo porque isso não seria possível, visto tratarse de imóveis de proprietários diferentes e, como visto, a fiscalização tinha ciência de que se trata de dois imóveis distintos; diz que a Fazenda Salto do Lontra e a Fazenda São Joaquim são duas propriedades distintas, cada qual com a sua respectiva matrícula e com proprietários diferentes e que não pode a fiscalização promover o lançamento unificando as duas fazendas como se tratasse de um único imóvel; considera que a Fazenda Três Barras é a antiga denominação da Fazenda Salto do Lontra, que estava matriculada no Cartório de Barreiras e foi posteriormente averbada no Cartório de Riachão das Neves, localizado no município de Riachão das Neves/BA; reitera que a fiscalização lavrou o Auto de Infração (sic) tributando toda a área como se fosse um único imóvel, não levando em consideração que são dois imóveis distintos e com proprietários diferentes; entende que deve ser anulado o Auto de Infração (sic), diante do erro na apuração da matéria tributável, que conduziu ao erro na determinação da alíquota aplicável e, também, da base de cálculo, tornando imprestável o lançamento; diz que o lançamento toma como suporte fático a confusão de dois imóveis distintos, de proprietários distintos, o que o torna imprestável e mesmo que se cogitasse em mantêlo em relação a um dos imóveis, deveria ser ajustado o valor para a realidade do imóvel Fazenda Três Barras, hoje denominada Salto da Lontra; informa que, pelo levantamento constante no Laudo técnicopericial, o imóvel, na verdade, tem área de 285,815 ha (item 2.4 do Laudo anexo – doc. 5) e que foi identificado equívoco no georreferenciamento anterior, conforme explica o Laudo, cujos fundamentos se requer sejam considerados parte integrante da impugnação; entende que deve ser tomada como área total de 285,815 ha, bem como as áreas de preservação permanente e reserva legal apuradas no Laudo; destaca que, sendo a área efetiva do imóvel de 285,815 ha, a alíquota aplicável é de, no máximo, 3,30%, por força de lei (art. 11 da Lei nº 9.393/1996); enfatiza que os VTN arbitrados são absurdos e não correspondem à realidade e diz que em recente pesquisa aos Cartórios de Notas e Registro de Imóveis, não houve sequer uma operação de compra e venda nesse valor/ha, para as terras da região; entende que a fiscalização não demonstrou a configuração de hipótese de arbitramento do valor do imóvel e salienta que o arbitramento da base de cálculo dos Fl. 370DF CARF MF 6 tributos é procedimento previsto no art. 148 do CTN, que dispõe que somente poderá arbitrar ou o preço dos bens em duas hipóteses: (a) se o contribuinte omitir tal informação, ou (b) se demonstrado que a declaração do contribuinte não merece fé; registra que o art. 10, § 1º, I, da Lei nº 9.393/96 especifica, para efeitos de apuração do ITR, como será considerado o VTN e o seu art. 14 não pode ser interpretado em sentido que extravase os limites delineados pelo art. 148 do CTN, posto que o art. 14 não diz que o valor do SIPT passaria a ser considerado como valor mínimo para a base de cálculo; acentua que a subavaliação não pode ser presumida pelo simples fato do valor indicado pelo contribuinte for inferior ao valor do SIPT; diz que o art. 148 do CTN exige que o arbitramento aconteça por meio de um “processo regular”, o que significa que devem ser respeitados o contraditório e a ampla defesa e cita e transcreve ementa de Decisão Judicial para referendar seu argumento; salienta que o arbitramento é medida excepcional cabível em razão da omissão ou da infidelidade do contribuinte e deverá ser realizado em processo administrativo próprio, garantidos o contraditório e a ampla defesa do contribuinte e que no caso concreto não pode ser aplicado, pois não houve omissão alguma por parte do contribuinte; considera que o fato de não ter conseguido apresentar a tempo, para a fiscalização, o Laudo de Avaliação, não configura omissão e nem afasta a idoneidade das informações prestadas; requer, seja pela não configuração das hipóteses de arbitramento ou pela ausência do respectivo processo regular, requer a anulação da exigência fiscal; pelo exposto, requer o reconhecimento da nulidade da notificação feita por Edital em local diferente do seu domicílio, anulandose o Auto de Infração (sic); ou, caso superada a nulidade, requer que seja integralmente cancelada a exigência fiscal, em razão do erro na apuração da matéria tributável, da ilegalidade do arbitramento, bem como em razão do erro na determinação da alíquota; ou, caso não se entenda pela anulação, requer que o ITR seja apurado exclusivamente em relação ao imóvel Fazenda Três Barras (Fazenda Salto da Lontra), tomando como critério os dados constantes no Laudo de Avaliação anexo. Decisão de Primeira Instância A DRJ/BSA considerou o lançamento procedente, conforme se depreende a ementa da decisão recorrida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL – ITR Exercício: 2011 DA NULIDADE DO LANÇAMENTO. DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Tendo o contribuinte compreendido a matéria tributada e exercido de forma plena o seu direito de defesa, não há que se falar em NULIDADE do lançamento, que contém todos os requisitos obrigatórios previstos no Processo Administrativo Fl. 371DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 5 7 Fiscal (PAF). A intimação feita por Edital é o procedimento legal previsto nos casos em que não é possível intimar o interessado pessoalmente ou por via postal, não sendo razão para a nulidade do lançamento, por cerceamento do direito de defesa. DA REVISÃO DE OFÍCIO. DO ERRO DE FATO A revisão de ofício de dados informados pelo contribuinte na sua DITR somente cabe ser acatada quando comprovada nos autos, com documentos hábeis, a hipótese de erro de fato, observada a legislação aplicada a cada matéria. DA ÁREA TOTAL DO IMÓVEL Incabível a redução da área total do imóvel tendo em vista a ausência de documentação hábil para tanto, qual seja, Certidão ou Matrícula do Registro de Imóveis na qual conste, para o imóvel em questão, a retificação da área total. DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, DE RESERVA LEGAL E COBERTA POR FLORESTAS NATIVAS As áreas de preservação permanente, de reserva legal e cobertas por florestas nativas, para fins de exclusão do ITR, cabem ser reconhecidas como de interesse ambiental pelo IBAMA, ou pelo menos, que seja comprovada a protocolização, em tempo hábil, do requerimento do competente Ato Declaratório Ambiental (ADA), além da averbação tempestiva da área de reserva legal à margem da matrícula do imóvel. DO VALOR DA TERRA NUA (VTN). SUBAVALIAÇÃO Para fins de revisão do VTN arbitrado pela fiscalização, com base no VTN/ha apontado no SIPT, exigese que o Laudo de Avaliação, emitido por profissional habilitado, com ART devidamente anotada no CREA, atenda a integralidade dos requisitos das Normas da ABNT, demonstrando, de maneira inequívoca, o valor fundiário do imóvel, a preço de mercado, e a existência de características particulares desfavoráveis em relação aos imóveis circunvizinhos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Recurso Voluntário Inconformado o contribuinte apresentou recurso voluntário, cujas alegações são resumidas na referida peça nos seguintes termos: I. é grosseiro o erro da Fiscalização em aglutinar dois imóveis distintos, de proprietários distintos, no mesmo lançamento fiscal, quando a DITR apenas se referia a um único imóvel (doe. 2); e ainda por cima realizando a Fiscalização um segundo lançamento em relação ao mesmo imóvel ! (doe. 3), o que implica na Fl. 372DF CARF MF 8 nulidade da exigência fiscal por falta de segurança na definição da matéria tributável; II. ainda que se cogitasse da manutenção do lançamento fiscal, a área total efetiva do imóvel em questão era de 285,82 hectares, conforme já fazia o Laudo Técnico apresentado nestes autos (fl. 97), e também o Cadastro Ambiental Rural CAR (fl. 153 e doe. 4), bem como o Certificado de Inscrição no Inema CEFIR (fl. 151) sendo que recentemente o imóvel foi objeto de georeferenciamento, já homologado pelo Sigef/Incra sem nenhuma ressalva (doe. 5), por meio do qual se comprova que a verdade material é de que a área tem 286,01 hectares, conforme apurado por instrumentos de alta precisão, o que também já foi objeto de emissão do Certificado CCIR pelo INCRA com efeito inclusive para 2010 (doe. 6) transcrição na Matrícula do Imóvel (doe. 7), também levando o contribuinte a realizar novo levantamento, ajustando o Laudo Técnico para este parâmetro (doe. 8) razão pela qual, por força da verdade dos fatos, tem de ser considerada a área real do imóvel para a apuração do imposto; III. não se pode ignorar que a integralidade da área do imóvel é coberta por floresta nativa que configura a hipótese alínea "e" do art. 10, §1°, II, da Lei n° 9.393/96, para o efeito de apuração do imposto, conforme aferido de forma objetiva e categórica pelo Laudo Técnico; IV. a área de Reserva Legal (RL) é aferida de forma objetiva tanto pelo Laudo Técnico quanto pela inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) a qual já foi, aliás, averbada na matrícula do imóvel , o que tem de ser considerado para fins de apuração do ITR; V. o Laudo Técnico é categórico em demonstrar a existência, dimensão e localização da Área de Preservação Permanente (APP) no imóvel sob fiscalização, de tal modo que recusar sua existência também é recusar a verdade dos fatos; VI. a Medida Provisória n° 2.16667/2001, que incluiu no art. 10 da Lei n° 9.393/96 o parágrafo 7o, não exigia nenhuma comprovação prévia de RL e APP nas declarações apresentadas até o ano de 2012 (quando o dispositivo foi revogado pela Lei n° 12.651/2012), razão pela qual devem ser reconhecidas as áreas de RL e APP conforme demonstra o contribuinte; VII é ilegal o arbitramento da base de cálculo quando ausente o respectivo processo regular para demonstrar a configuração da hipótese de arbitramento do valor do imóvel, de modo que tal ausência macula o lançamento, razão pela qual devese anular a exigência fiscal; VIII. é nula de pleno direito a intimação editalícia quando realizada em local diverso do domicílio do contribuinte constante no cadastro da RFB. Requer, por fim que seja o recurso voluntário provido para que a exigência fiscal seja cancelada a) em razão: do reconhecimento da existência de vício material no lançamento, por erro na determinação da matéria tributável, que conduziu ao erro na determinação da base de cálculo e do montante devido, em flagrante violação aos arts. 142 e 145 do CTN; nulidade do lançamento por ilegalidade no arbitramento da base de cálculo; da nulidade do edital publicado em local diverso do domicílio eleito pelo Contribuinte; Fl. 373DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 6 9 da efetiva existência de RL e de APP conforme aferido de maneira conclusiva por meio de Laudo Técnico b) ou ainda, na hipótese de subsistir o lançamento, seja o ITR apurado sobre o tamanho efetivo do imóvel e que seja considerado o VTN apurado conforme o Laudo Técnico de Avaliação. É o relatório Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho – Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço. Nulidade por Erro na Determinação da Matéria Tributável Sobre esse ponto, o reclamante aduz que “foi lavrado um único lançamento fiscal em relação a dois imóveis distintos, tal como se se tratasse de um mesmo fato gerador e de uma mesma base de cálculo”, ou seja, de um único imóvel supostamente com a área de 1.468,40 ha – o que não corresponderia à realidade dos fatos. Ainda de acordo com a peça recursal, a motivação trazida no Auto de Infração é falsa, pois a DITR/2011 referese a um único imóvel, sem que conste nenhuma agregação de área contígua e que seria impossível realizar esse tipo de anexação, visto que os imóveis rurais pertencem a coproprietário diversos. De acordo com a peça recursal: Conforme se verifica dos autos, a matrícula n° 2854 (fl. 38) trata de imóvel de propriedade de Romildo Sousa Ribeiro, Ueliton Baltasar Caetano e Artur Ribeiro Jarnalo, cuja averbação AV 52854 (fl. 39) informa que o nome da Fazenda é Salto da Lontra. Já a matrícula n° 2855 (fl. 41) tratase de imóvel de propriedade de Ueliton Baltasar Caetano, Selma Resende Jornal e Romildo Sousa Ribeiro, cuja averbação AV2 2855 (fl. 42) informa que o nome da Fazenda é São Joaquim. Segundo informa o recorrente a DITR/2011 não foi por ele apresentada, mas por outro dos coproprietário e apenas com relação a um dos imóveis. Argumenta ainda o sujeito passivo que a DRJ/BSA teria alterado a fundamentação do Auto de Infração. Segundo infere: A motivação do Auto de Infração, como visto, foi de que os imóveis teriam sido unificados na DITR2011, o que, como é patente, é falso. Fl. 374DF CARF MF 10 A DRJ, agora, pretende sustentar o lançamento unificado dos dois imóveis a pretexto de que seriam áreas contíguas de um mesmo proprietário. Examinandose os documentos de fls. 37/43 constatase que o argumento de que os imóveis objeto do lançamento pertenceriam a proprietários diferentes, não se sustenta. Vejase que o recurso voluntário informa que, com relação o imóvel de matrícula n° 2854 figuram com os coproprietários as seguintes pessoas físicas: Romildo Sousa Ribeiro, Ueliton Baltasar Caetano e Artur Ribeiro Jarnalo. Já os coproprietários do imóvel matriculado sob o número 2855 são Ueliton Baltasar Caetano, Selma Resende Jarnalo e Romildo Sousa Ribeiro. Ocorre que as informações insertas no registro R42854 (fl. 38) do imóvel de matrícula nº 2854 dão conta de que Artur Ribeiro Jarnalo e Selma Resende Jarnalo são casados. Confirase: Com isso, em razão da sociedade conjugal, Artur e Selma Jarnalo têm a propriedade em comum de um terço de cada um dos imóveis. E isso pode ser facilmente verificado a partir da averbação efetuada em 15/08/2013 na matrícula de ambos os imóveis, conforme trechos a seguir transcrito, onde Selma Jarnalo figura, em relação a esses dois imóveis, entre os coproprietária (fls. 39 e 42): Fl. 375DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 7 11 Verificase, pois, a improcedência do argumento recursal de que os imóveis rurais em relação aos quais foi realizado o lançamento do tributo pertencem a coproprietários diversos. Sobre a asserção recursal de que os imóveis não seriam contíguos, também não há como conferir razão ao recorrente, pois os dados registrados na matrículas dos dois imóveis são absolutamente claros no sentido de que as propriedades rurais fazem limite entre si. De modo a espancar qualquer dúvida a esse respeito, reproduzo, mais uma vez, trechos das matrículas dos imóveis: Dessarte, ainda que a informação contida na DITR/2011 dissesse respeito a apenas um dos imóveis, como alegado no recurso voluntário, o lançamento deveria ser feito em relação a ambos, em vista dos disposto § 2º do art. 1º da Lei nº 9.393/1996 Art. 1º O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, de apuração anual, tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel por natureza, localizado fora da zona urbana do município, em 1º de janeiro de cada ano. § 1º O ITR incide inclusive sobre o imóvel declarado de interesse social para fins de reforma agrária, enquanto não transferida a propriedade, exceto se houver imissão prévia na posse. § 2º Para os efeitos desta Lei, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município. § 3º O imóvel que pertencer a mais de um município deverá ser enquadrado no município onde fique a sede do imóvel e, se esta não existir, será enquadrado no município onde se localize a maior parte do imóvel. (Grifouse) Do mesmo modo, a assertiva de que a decisão de primeira instância administrativa teria alterado os fundamentos do lançamento não resiste a uma análise, ainda Fl. 376DF CARF MF 12 que superficial, das razões trazidas no Auto de Infração e na decisão de piso. Esclareçase que o Auto de Infração traz como fundamento o inciso I do § 1º do art. 10 e o art. 14 da Lei nº 9.393/1996, ou seja, encontrase pautado no fato de o Valor da Terra Nua – VTN declarado pelo contribuinte para os imóveis de matrícula 2854 e 2855 está em desacordo com o que estabelece a legislação e de que a área dos imóveis (somadas por serem contíguas e terem sido declaradas de forma unificada na DITR/2011) ser maior do que o informado nessa declaração. Asseverese que, em momento algum, a DRJ afastouse de tais fundamentos ao proferir sua decisão. Além do que, tivesse o representante da recorrente analisado de forma mais detida a decisão atacada, perceberia que o argumento trazido pelo Fisco foi inclusive reproduzido na decisão fustigada nos seguintes termos: Quantos às alegações de ilegalidade da autuação porque a fiscalização teria promovido o lançamento unificando duas fazendas (Fazenda Salto do Lontra e a Fazenda São Joaquim) como se tratasse de um único imóvel, afirmando que seriam duas propriedades distintas, cada qual com a sua respectiva Matrícula e com proprietários diferentes, e que a Fazenda Três Barras é a antiga denominação da Fazenda Salto do Lontra, verificase nos autos que elas não procedem, como observou, inclusive, a Autoridade Fiscal, às fls. 155, posto que as Matrículas nº 2854 e nº 2855 referemse a imóveis contínuos, de propriedade do impugnante, com áreas totais, respectivamente de 728,17 ha, às fls. 39, e 740,29 ha, às fls. 42, que perfazem um imóvel, para fins de ITR, de área total de 1.468,4 ha, como apurado corretamente pela fiscalização. Registrese que não foi a fiscalização que unificou os imóveis de propriedade do impugnante, como fazem prova as referidas Matrículas, já que foi o próprio contribuinte que o fez corretamente, com erro apenas na soma da área total, que foi declarada equivocadamente como de 1.330,0 ha. (Grifouse) Ademais, ainda que o recorrente tivesse alguma razão com relação a esse ponto, é absolutamente pacífico na jurisprudência deste Conselho que o julgador não está adstrito às razões invocadas pelas partes, podendo, à luz dos elementos fáticos e da legislação afeta à matéria objeto de litígio, formar livremente sua convicção. Sobre a indicação de que a DITR/2011 fora apresentada não pelo autuado, mas por outro coproprietário dos imóveis relacionados ao Auto de Infração, não vejo em que isso possa interferir no litígio. É que o recorrente e os demais proprietários dos imóveis rurais, por terem interesse comum na situação que constitui o fato gerador tributo, são solidários entre si. Implica dizer que, independentemente de quem tenha apresentado a DITR/2011, o lançamento pode ser efetuado contra qualquer dos coproprietários, sem benefício de ordem, de conformidade com o art. 124 do CTN, in verbis: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; [...] Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Fl. 377DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 8 13 Outra questão apresentada em sede de recurso voluntário é de que também houve lançamento de ITR voltado especificamente para a Fazenda São Joaquim (matrícula 2855), referente ao exercício 2011, o que configuraria bis in idem e macularia o lançamento, reclamando a decretação de sua nulidade. De fato, a autoridade autuante incorreu em equívoco ao formalizar o presente lançamento, além de um outro voltado para um dos imóveis já abragido na presente Notificação de Lançamento. Porém, como visto no início deste tópico, para fim de tributação pelo ITR, o § 2º do art. 1º da Lei nº 9.393/1996 estatui que, para o fim de apuração do ITR, considerase imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras. Desse modo, não há qualquer vício que seja apto a invalidar o presente lançamento. Além disso, como bem sabe o recorrente, a Notificação de Lançamento voltada exclusivamente para a Fazenda São Joaquim (matrícula nº 2855) para o exercício 2011 (Processo nº 10530.725774/201505) foi anulada, pela decisão consubstanciada no Acórdão nº 03072.276, da 1ª Turma da DRJ/BSA, nos seguintes termos: Acordam os membros da 1ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, considerar procedente a impugnação apresentada pelo Contribuinte, acolhendo a preliminar de nulidade, por duplicidade, do lançamento consubstanciado na Notificação nº 3825/00124/2015 de fls. 03/08, desconsiderandose a exigência, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Por essa razão, resta insubsistente a alegação do recorrente quanto a eventual lançamento em duplicidade ou ainda de ofensa a princípios como o da legalidade ou da moralidade administrativa Assim sendo, afasto essa preliminar de nulidade. Intimação Editalícia e a Nulidade do Edital Publicado em Local Diverso do Domicílio do Contribuinte A despeito de toda a cantilena apresentada no apelo recursal, de que a notificação feita por edital seria nula, o que implicaria a nulidade do Auto de Infração, e de que a “Administração dispondo da informação do domicílio do contribuinte – e já tendo utilizado este mesmo endereço para notificações anteriores –, preferiu promover a Notificação de Lançamento por edital”, o fato é que tais alegações não encontram suporte na verdade dos autos. É que, diferentemente do se aduz no apelo, foram feitas três tentativas de entrega da notificação de lançamento no endereço informado para tal pelo contribuinte, conforme se depreende do Aviso de Recebimento de fl. 11, que a seguir se reproduz: Fl. 378DF CARF MF 14 Por outro lado, como restou esclarecido na decisão a quo, o parágrafo único do art. 4º da Lei nº 9.393/1996 é taxativo no que diz respeito a domicílio tributário em se tratando de ITR, apontando ser esse o município de localização do imóvel. Confirase: Art. 4º [...] Parágrafo único. O domicílio tributário do contribuinte é o município de localização do imóvel, vedada a eleição de qualquer outro. Em virtude disso, carece de razão a alegação trazida em sede de recurso quanto à nulidade do edital que deu ciência ao recorrente do lançamento fiscal. Além do mais, o recorrente apresentou impugnação tempestiva, defendendo se de todos fatos arrolados na autuação. Desta feita, ainda que se verificasse qualquer irregularidade no procedimento de notificação, temse que a apresentação da peça impugnatória supriria eventuais nulidades da citação, a teor do § 1º do art. 239 do Código de Processo Civil, aplicável subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal: Art. 239. Para a validade do processo é indispensável a citação do réu ou do executado, ressalvadas as hipóteses de indeferimento da petição inicial ou de improcedência liminar do pedido. § 1º O comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a falta ou a nulidade da citação, fluindo a partir desta data o prazo para apresentação de contestação ou de embargos à execução. Quanto as decisões administrativas e judiciais acostadas aos autos, essas, além de não vincularem o julgador administrativo, retratam contextos fáticos diversos do ora analisado. Desse modo, acolho os argumentos suscitados na decisão de piso, adotando os como razão de decidir, o que impõe o afastamento da presente preliminar. Fl. 379DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 9 15 Erro da Área Tributável Outra questão aventada no recurso é que o laudo inicialmente apresentado atestaria ser a área total do imóvel de 285,82 ha. Inferese ainda que, “conforme aferido em georeferenciamento por meio de instrumentos de alta precisão, verificouse que a área real do imóvel é de 286,0077 ha”. Referido georeferenciamento, informa, encontrase homologado pelo Incra/Sigef e registrado na matrícula do Imóvel, tendo ainda demandado a atualização do laudo técnico, acosta às fls. 242/301. De início, importa rememorar que o lançamento em questão se reporta a dois imóveis rurais contíguos, matriculados no Registro de Imóveis sob os números 2854 e 2855. Contudo, as informações aferidas no georeferenciamento e reproduzidas no novo laudo apresentado fazem referência somente ao imóvel de matrícula 2854, denominado atualmente “Fazenda Salta da Lontra”, onde foi gravada a informação acerca da área aferida, de acordo com o documento de fls. 237/241 (Av62854). Asseverese que não houve qualquer alteração nos registros da fazenda São Joaquim (matrícula nº 2855), cuja área totaliza 740,2988 ha. De outra parte, não cabe ao julgador administrativo retificar a área do imóvel rural registrada na DITR do contribuinte, tal providência deveria ter sido adotada pelo próprio sujeito passivo e antes da perda da espontaneidade em razão do início do procedimento fiscal. Não obstante, mesmo tendo sido apresentados somente por ocasião do recurso voluntário, como os documentos trazidos aos autos, inclusive com o registro efetuado no cartório competente, reduzindo a área total de um dos imóveis abragidos na autuação, decorreu de manifestação contida no acórdão recorrido, entendo pela possibilidade de restabelecer a informação contida na DITR/2011, reduzindo a área total dos imóveis para 1330 ha. Sobre a alíquota aplicável, para a área aqui considerada, essa permanece em 8,60%, de conformidade com o Anexo à Lei nº 9.393/1996, não cabendo atender a solicitação do recorrente, de redução para 3,30%. Áreas Não Tributáveis pelo ITR O sujeito passivo apresenta diversas considerações a respeito de áreas de floresta nativa (área de interesse ecológico), reserva legal e de preservação permanente que, no seu entender, deveriam ser excluídas do cômputo da área tributável. Cabe esclarecer, de início, que não foram informadas quaisquer dessas áreas quando da apresentação da DITR/2011, consoante se pode observar do quadro extraído da Notificação de Lançamento, denominado “Distribuição da Área Utilizada pela Atividade Rural (ha)”, de fl. 6: Fl. 380DF CARF MF 16 Desta feita, o lançamento está fundado exclusivamente no fato de a DITR/2011 do contribuinte apresentar área inferior à incluída nas matrículas dos imóveis e de o VTN mostrarse subavaliado. Vejase que questões relacionadas a áreas não tributáveis não têm nenhuma relação com o lançamento e, consequentemente, não seriam objeto de litígio e não deveriam, no meu entender, sequer ter sido conhecidas pela DRJ. Contudo, como o acórdão recorrido traz considerações a esse respeito, entendo que tais matérias também devem ser debatidas pela segunda instância de julgamento administrativo. A respeito desse assunto, o caput e o § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393/1996, na redação vigente à época do fato gerador, estabelecem: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; [...] e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006) [...] Fl. 381DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 10 17 § 7º A declaração para fim de isenção do ITR relativa às áreas de que tratam as alíneas "a" e "d" do inciso II, § 1º, deste artigo, não está sujeita à prévia comprovação por parte do declarante, ficando o mesmo responsável pelo pagamento do imposto correspondente, com juros e multa previstos nesta Lei, caso fique comprovado que a sua declaração não é verdadeira, sem prejuízo de outras sanções aplicáveis. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) (Grifouse) No apelo recursal asseverase que o § 7º art. 10 da Lei nº 9.393, de 1996, com as alterações promovidas pela Medida Provisória nº 2.16667/ 2001, teria dispensado qualquer comprovação prévia para fins de sua exclusão de áreas ambientais, como APP e ARL, da tributação pelo ITR. Entretanto, dito dispositivo legal não teve tal escopo, visando tãosomente sedimentar a alteração da modalidade de lançamento anterior do ITR (por declaração, conforme a Lei nº 8.847/1994) para lançamento por homologação. Assim, a dispensa de comprovação prévia nada tem a ver com dispensa de ADA ou de averbação, e sim com a sistemática de lançamento, igualandoo à modalidade dos demais tributos administrados pela Receita Federal. De mais a mais, as disposições acima destacadas deixam claro que, independentemente de comprovação prévia, as áreas de preservação permanente e de reserva legal, além daquelas cobertas por florestas nativas, estão excluídas da tributação pelo ITR. Nada obstante, a partir do exercício 2001, com a inclusão do art. 17O na Lei nº 6.938/1981, para se beneficiar das isenções previstas no § 1º do art. 10 da Lei nº 9.393/1996, fazse necessário, via de regra, a informação tempestiva das áreas respectivas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por meio do ADA, nos prazos definidos na legislação. Vejamos o teor do dispositivo: Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria. (Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) [...] § 1º A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) (Grifouse) [...] A seguir, serão analisadas se áreas em questão podem ou não ser excluídas da tributação. Área de Floresta Nativa e Área de Preservação Permanente (APP) Segundo já se esclareceu, não foram especificadas na DITR/2011 áreas suscetíveis de exclusão da área tributável, em particular “áreas ambientais de preservação permanente” e “áreas de florestas nativas”, fato evidenciado no quadro “Distribuição da Área Utilizada pela Atividade Rural (ha)”, reproduzido alhures. Ainda assim, à luz dos normativos Fl. 382DF CARF MF 18 acima referenciados, a decisão de primeira instância administrativa realizou um minucioso exame acerca da postulação dessas áreas (requeridas somente na fase contenciosa), com fundamento em Laudo Técnico e Cadastro Ambiental Rural apresentado pelo contribuinte, relativo a apenas um dos imóveis abrangidos no lançamento. Referida decisão foi expressa quanto à não comprovação do cumprimento da exigência legalmente prevista para justificar a exclusão APP e da área de floresta nativa do cálculo do ITR/2011. Porém, o recorrente insiste na tese de que o laudo técnico seria suficiente para comprovar a existência das indigitadas áreas, sendo desnecessária a apresentação de Ato Declaratório Ambiental – ADA para sua exclusão da área total tributável do imóvel. Portanto, neste ponto, a discussão gira em torno da possibilidade de, em sede de recurso voluntário, admitir a exclusão da área tributável pelo ITR no exercício de 2011 aquelas descritas como APP área coberta por floresta nativa, com base nos documentos acostados aos autos, quais sejam: Cadastro Ambiental Rural – CAR (fls. 228/230); Certificado do georeferencimento (fls. 231/234); Certificado de Cadastro de Imóvel Rural – CCIR (fl. 235); Matrícula atualizada do Imóvel (fls. 237/241); e Laudo Técnico atualizado (fls. 242/301). Convém reiterar que, conquanto inexistisse, até o exercício de 2000, qualquer fundamento para a exigência do ADA como requisito para a fruição da isenção, com o advento da Lei n° 10.165/2000, e a respectiva alteração do § 1º do art. 17O da Lei nº 6.938/1981, o gozo benefício fiscal ficou condicionado à entrega dessa declaração. Apercebase que, como o lançamento se reporta à data de ocorrência do fato gerador do tributo (art. 144 do CTN) e, no que tange ao ITR, esta foi fixado em 1º de janeiro de cada ano (art. 1º da Lei nº. 9.393, de 1996), resta claro que a fruição do benefício está condicionada à preservação da APP, bem assim da área de floresta nativa, quando for o caso, em referida data. Nessa perspectiva, a Secretaria da Receita Federal do Brasil, utilizandose da prerrogativa de regulamentar a forma e os prazos para cumprimento de obrigações acessórias consubstanciada na entrega do ADA, especificou para tanto o prazo de seis meses após a data de entrega da DITR. Nada obstante, a jurisprudência consolidada no âmbito desse Conselho é no sentido de aceitar o ADA protocolado antes do início da ação fiscal, em respeito à espontaneidade do Contribuinte. Senão vejamos decisões da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais nesse sentido: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2005 ITR. ISENÇÃO. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA). OBRIGATORIEDADE A PARTIR DE LEI 10.165/00. TEMPESTIVIDADE. INÍCIO DA AÇÃO FISCAL A partir do exercício de 2001, tornouse requisito para a fruição da redução da base de cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural a apresentação de Ato Declaratório Ambiental – ADA, protocolizado junto ao Ibama. A partir de uma interpretação teleológica do dispositivo instituidor, é de se Fl. 383DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 11 19 admitir a apresentação do ADA até o início da ação fiscal. No caso em questão o ADA foi apresentado em 21/12/2007, assim, após o início da ação fiscal, ocorrido em 04/10/2007. Destarte, não é possível a exclusão da área de APP declarada da base de cálculo do ITR. (Acórdão nº 9202005.679, de 27/07/2017) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2002 [...] APP ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. GLOSA. ADA ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL TEMPESTIVO. Cabível o acolhimento de Área Preservação Permanente cujo ADA foi protocolado antes do início da ação fiscal. [...]. (Acórdão nº 9202005.606, de 29/06/2017) (Grifouse) Temse ainda, com relação a APP e área de florestas nativas, dentre outras, a seguinte decisão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2007 ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE RESERVA LEGAL. ÁREA DE FLORESTAS NATIVAS . ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. Para ser possível a dedução de áreas de preservação permanente, de reserva legal e de florestas nativas da base de cálculo do ITR, a partir do exercício de 2001, é necessária a comprovação de que foi requerido tempestivamente ao IBAMA a expedição de Ato Declaratório Ambiental (ADA) até o início da ação fiscal. (Acórdão nº 9202005.598, de 29/07/2017) (Grifouse) Asseverese a jurisprudência administrativa colacionada pelo recorrente a esse respeito, além de não vincular o julgador administrativo, traz entendimento semelhante do aqui esposado, não o acudindo em suas pretensões recursais. No caso concreto, a despeito do disposto no art. 17O da Lei nº 6.938/1981, que condiciona a exclusão da APP e das áreas cobertas por vegetação nativa à apresentação de ADA com informações a seu respeito, e da jurisprudência pacífica no âmbito deste Conselho quanto à necessidade de que, para o fim de gozo do benefício fiscal, o Ato Declaratório tenha sido protocolado no órgão ambiental competente até o início da ação fiscal, não se tem notícias sobre a existência de tal documento. Em virtude das considerações encimadas, e tendo em vista a não apresentação de ADA até o presente momento, nego provimento ao recurso em relação à APP e áreas de florestas nativas. Fl. 384DF CARF MF 20 Área de Reserva Legal (ARL) A respeito desse tema, impende ressaltar que, consoante § 8º do art. 16 do antigo Código Florestal (vigente à época da ocorrência do fato gerador), há requisito específico quanto a exclusão da ARL na determinação do valor do ITR, qual seja, a averbação no registro de imóveis competente. Confirase: Art. 16. As florestas e outras formas de vegetação nativa, ressalvadas as situadas em área de preservação permanente, assim como aquelas não sujeitas ao regime de utilização limitada ou objeto de legislação específica, são suscetíveis de supressão, desde que sejam mantidas, a título de reserva legal, no mínimo:(Redação dada pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) [...] § 8º A área de reserva legal deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, sendo vedada a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, de desmembramento ou de retificação da área, com as exceções previstas neste Código.(Grifouse) De se esclarecer que, diferentemente da APP, a Reserva Legal não se trata de área préexistente, ao revés disso, consiste em um percentual legalmente estabelecido do imóvel rural cuja localização é sugerida pelo seu proprietário e aprovada pelo órgão ambiental competente. Vejase que, até que seja averbada no registro competente, a ARL sequer pode ser tida como existente, ou seja, somente após a efetiva averbação é que determinada área pode ser considerada, de fato, como Reserva Legal. Portanto, a averbação é ato constitutivo em relação à ARL e, tendo sido efetuada antes da ocorrência do fato gerador do ITR, supre, no meu entender, a necessidade de apresentação de ADA. Ademais, é também nesse sentido que a jurisprudência administrativa tem se consolidado. Vejase: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2002 [...] ARL ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO TEMPESTIVA. ATO CONSTITUTIVO. A averbação da Área de Reserva Legal à margem da matrícula do imóvel, antes da ocorrência do fato gerador, autoriza a sua exclusão da tributação do ITR, independentemente do protocolo do ADA. (Acórdão nº 9202005.606, de 29/06/2017) (Grifouse) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Anocalendário: 2003 [...] ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO NO REGISTRO DE IMÓVEIS ANTES DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. Fl. 385DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 12 21 NECESSIDADE. APRESENTAÇÃO TEMPESTIVA DE ADA. DISPENSÁVEL. Para ser possível a dedução da área de reserva legal da base de cálculo do ITR, basta sua averbação à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, antes da ocorrência do fato gerador do tributo, sendo dispensável a apresentação tempestiva de Ato Declaratório Ambiental ADA. No caso, a averbação ocorreu antes da ocorrência do fato gerador, assim, não é de se manter a glosa. (Acórdão nº 9202 006.824, de 19/04/2018) (Grifouse) Sobre asserção trazida no apelo do sujeito passivo de que “de que já consta averbada na matrícula do imóvel a alteração da área total da Fazenda Salto da Lontra para 286,0077 ha”, talvez o representante do recorrente ainda não tenha conseguido compreender, mas não é qualquer registro que está apto a excluir a Reserva Legal da área tributável do imóvel. Somente quando o registro atesta que determinada área tratase efetivamente de ARL é que essa área pode ser considerada como tal. Não é necessário grande esforço interpretativo para se concluir que a averbação referenciada no recurso (Av62854 – fl. 240) não faz referência a ARL. Uma leitura, mesmo que perfunctória, de citado registro leva qualquer um a essa compreensão. Referida averbação prestase tãosomente a ajustar a área total do imóvel. Ainda que se estivesse diante da averbação de ARL, o registro foi efetuado somente em relação a um dos imóveis envolvidos na autuação e apenas em 12 de janeiro de 2016, ou seja, muito depois de ocorrido o fato gerador da exação. Implica dizer que mesmo que se tratasse de registro de ARL, com base na legislação de regência e na jurisprudência do CARF, a averbação não teria o condão de suplantar o lançamento, posto que o fato gerador do imposto ocorreu em 1º de janeiro de 2011. O mesmo se pode dizer do registro efetuado Cadastro Ambiental Rural – CAR que, além de não atestar a existência de ARL, reportase a fato ocorrido em data posterior à de surgimento da exigência fiscal. Neste ponto, cabe esclarecer, por oportuno, que uma norma publicada em 2012 (como é o caso da Lei nº 12.651/2012 que possibilita a substituição do registro da ARL na matrícula do imóvel pela informação prestada no CAR) não retroage para alcançar fatos ocorridos em 2011 como devaneia o recorrente. Dito isso, nego provimento ao apelo também neste ponto. Ilegalidade do Arbitramento da Base de Cálculo Recalcitrase o apelante em razão de, no seu entender, a DRJ/BSA ter desconsiderado o VTN apresentado no laudo técnico sob o fundamento de que tal valor seria superior ao que foi arbitrado pela Autoridade Fiscal. Segundo infere, “o VTN/ha arbitrado pela fiscalização somente foi inferior ao VTN/ha demonstrado no Laudo pois baseouse em uma área surreal de 1.468,4 ha”, mas que a área do imóvel é de 286,0077 ha. Reitera que o VTN por hectare corresponde a R$ 1.332,93, de acordo com o a laudo técnico. Adverte que, com base no art. 148 do CTN, “o Fisco somente poderá arbitrar o valor ou o preço dos bens em duas hipóteses: (a) se o contribuinte omitir tal informação, ou (b) se demonstrado que a declaração do contribuinte não merece fé” e que a autoridade autuante “não logrou demonstrar a configuração de hipótese de arbitramento do valor do imóvel”. Fl. 386DF CARF MF 22 Segundo afirma: “Não se pode aplicar no caso concreto o arbitramento, pois não houve omissão alguma por parte do contribuinte”. Consigna que o fato de não ter conseguido apresentar a tempo, para a Fiscalização, o laudo de avaliação, não configura omissão nem afasta a idoneidade das informações prestadas. Inicialmente, cumpre evidenciar que o apelo em exame não faz oposição ao Valor da Terra Nua por hectare (VTN/ha) aferido pelo Fisco, até porque, como muito bem evidenciado na decisão vergastada, a Fiscalização considerou que o VTN/ha equivaleria a R$ 1.307,50 e o valor estabelecido nos laudos técnicos foi superior, ou seja, R$ 1.332,93. Esclareçase que o Sistema de Preços de Terras – SIPT, utilizado pelo Fisco para o cálculo do tributo, fornece o VTN por hectare, ou seja, as ruidosas inferências ostentadas pelo recorrente de que o dispositivo legal a respeito desse tema “não diz que o valor do sistema de preços passaria a ser considerado como o valor mínimo para a base de cálculo” não têm nenhuma razão de ser, pois, em hipótese alguma lhe favorecem. Além do mais, restou fartamente esclarecido em tópico específico que, em razão do disposto no art. 1º da Lei nº 9.393/1996, para o fim de incidência de ITR, “considera se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de terras, localizada na zona rural do município”. Do mesmo modo, tendo em conta que os imóveis registrados sob as matrículas 2804 (Fazenda Salto da Lontra) e 2805 (Fazenda São Joaquim) são contíguos e pertencem aos mesmos coproprietários (o que também já se atestou em item próprio deste voto), o que deve ser considerado para fins de incidência do imposto é o somatório das áreas dos dois imóveis, consoante declarado na DITR/2011, que corresponde a 1.330,0 ha e não de 286,0077 ha (área somente da Fazenda Salto da Lontra, de conformidade com o laudo apresentado conjuntamente com o recurso voluntário). No que respeita as asserções exibidas pelo sujeito passivo de que o arbitramento do VTN não encontraria amparo na legislação de regência, os documentos acostados aos autos, inclusive os laudos técnicos trazidos na impugnação e no recurso voluntário, demonstram exatamente o contrário. Restou patente nos autos que sujeito passivo, de forma absolutamente deliberada, e com o fim específico de reduzir o valor do tributo devido, ao arrepio das normas que disciplinam a matéria, declarou que o imóvel de sua propriedade valia R$ 0,00. O Documento de Informação e Apuração do ITR, integrante da DITR/2011 (fl. 218) registra esse fato: Fl. 387DF CARF MF Processo nº 10530.727171/201459 Acórdão n.º 2402006.514 S2C4T2 Fl. 13 23 Verificase, portanto, que a informação prestada na DITR/2011 não tem credibilidade alguma. Aliás, reiterese, os próprios laudos técnicos apresentados pelo recorrente corroboram a tese de que o sujeito passivo, ao incluir tal informação na declaração do imposto, laborou no intuito de dissimular o valor do tributo visto que tais documentos atribuíram R$ 1.332,93 a cada a cada hectare de um dos imóveis em questão, e não R$ 0,00 como consta da declaração. Não restam dúvidas de que o comportamento reprovável adotado pelo contribuinte justificou o arbitramento levado a efeito pelo Fisco, o qual está em absoluta consonância com o art. 148 do CTN, a seguir transcrito: Art. 148. Quando o cálculo do tributo tenha por base, ou tome em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançadora, mediante processo regular, arbitrará aquele valor ou preço, sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judicial. O caput e o § 2º do art. 8º da Lei nº 9.393/1996, impõem ao contribuinte o dever de entregar o Documento de Informação e Apuração do ITR – DIAT anualmente, declarando VTN que deve refletir o preço de mercado das terras: Art. 8º O contribuinte do ITR entregará, obrigatoriamente, em cada ano, o Documento de Informação e Apuração do ITR DIAT, correspondente a cada imóvel, observadas data e condições fixadas pela Secretaria da Receita Federal. § 1º O contribuinte declarará, no DIAT, o Valor da Terra Nua VTN correspondente ao imóvel. § 2º O VTN refletirá o preço de mercado de terras, apurado em 1º de janeiro do ano a que se referir o DIAT, e será considerado autoavaliação da terra nua a preço de mercado. § 3º O contribuinte cujo imóvel se enquadre nas hipóteses estabelecidas nos arts. 2º e 3º fica dispensado da apresentação do DIAT. (Grifouse) Por seu turno, a falta da declaração ou a subavaliação dos valores constantes da declaração, mediante informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, como se verificou no presente caso, dão ensejo à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constante do SIPT, consoante expressamente previsto no art. 14 da mesma lei: Art. 14. No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como de subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal procederá à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização. § 1º As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, Fl. 388DF CARF MF 24 de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios. § 2º As multas cobradas em virtude do disposto neste artigo serão aquelas aplicáveis aos demais tributos federais. (Grifou se) Verificase, pois, estar correto o procedimento adotado pelo Fisco, visto que em absoluta consonância com a legislação que rege a matéria, razão pela qual não acolho as pretensões recursais neste ponto. CONCLUSÃO Por todo o exposto voto por afastar as preliminares e, no mérito, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário exclusivamente para reduzir a área aproveitável do imóvel rural para 1330,0 ha. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 389DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10600.720019/2017-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2012, 2013, 2014, 2015
NULIDADE. HIPÓTESES.
Os lançamentos passíveis de nulidade são os realizados por autoridade incompetente, nos termos do art. 59, I, do Decreto nº 70.235/72 (PAF), ou com ausência de algum dos requisitos essenciais do auto de infração e dos lançamentos em geral, fixados no art. 10 do PAF e art. 142 do CTN, respectivamente. Tais situações não ocorreram nos lançamentos contestados.
DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS.
Caracterizam-se como desnecessárias e, portanto, indedutíveis do Lucro Real, as despesas com juros relativas a empréstimo entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico em que não houve efetivo fluxo financeiro e a operação poderia ter sido realizada de forma diversa. Ademais, não se considera como usual ou normal a despesa financeira na situação fática dos autos.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2012, 2013, 2014, 2015
CSLL. EXTENSÃO LEGAL. INDEDUTIBILIDADE. DECORRÊNCIA LÓGICA.
Cabível a extensão da glosa de despesas indedutíveis à base de cálculo da CSLL por conta do disposto no artigo 57 da Lei 8.981/95, que tem por intento evitar a repetição desnecessária de comandos legais para disciplinar a metodologia de determinação das bases imponíveis das duas exações, naquilo em que as sistemáticas têm de comum. Uma vez considerado inoponível ao Fisco a constatação de despesas desnecessárias tendente a reduzir a base de cálculo do IRPJ, por decorrência lógica estas não podem ser validadas para fins de CSLL.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. NÃO CABIMENTO.
O TVF fundamenta a qualificação na suposta obrigatoriedade de o contribuinte ter realizado a operação de forma diversa. Entretanto, havendo dois caminhos possíveis e lícitos, cabe ao particular a escolha da decisão que entender mais adequada. Entretanto, no caso concreto, a despesa foi considerada indedutível. Sendo este o fundamento do lançamento. Outrossim, a própria dificuldade de conceituação da usualidade, normalidade e necessidade impõem, no caso concreto, a necessidade de aplicação de entendimento mais benéfico ao contribuinte, nos termos do que dispõe o art. 112 do CTN.
APLICAÇÃO DO ART. 57 § 3º DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR.
Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida.
BASE DE CÁLCULO DA CSLL. CORREÇÃO DO VALOR LANÇADO.
É correta a decisão que observando erros na apuração do crédito, promove aos devidos ajustes. Recurso de Ofício não deve ser provido.
Numero da decisão: 1401-002.825
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as arguições de nulidade e negar provimento ao Recurso de Ofício. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário no que diz respeito ao mérito da autuação do IRPJ. Vencidos os Conselheiros Lívia De Carli Germano e Letícia Domingues Costa Braga. Por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário em relação à exigência da CSLL. Vencidos os Conselheiros Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a qualificação da multa de ofício dos autos de infração de IRPJ e CSLL. A Conselheira Lívia De Carli Germano não apresentou a declaração de voto, em face do prazo estabelecido no parágrafo 6º do art.63 do Regimento Interno do CARF. Designado o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Daniel Ribeiro Silva- Relator.
(assinado digitalmente)
Cláudio de Andrade Camerano - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Livia de Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: DANIEL RIBEIRO SILVA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012, 2013, 2014, 2015 NULIDADE. HIPÓTESES. Os lançamentos passíveis de nulidade são os realizados por autoridade incompetente, nos termos do art. 59, I, do Decreto nº 70.235/72 (PAF), ou com ausência de algum dos requisitos essenciais do auto de infração e dos lançamentos em geral, fixados no art. 10 do PAF e art. 142 do CTN, respectivamente. Tais situações não ocorreram nos lançamentos contestados. DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS. Caracterizam-se como desnecessárias e, portanto, indedutíveis do Lucro Real, as despesas com juros relativas a empréstimo entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico em que não houve efetivo fluxo financeiro e a operação poderia ter sido realizada de forma diversa. Ademais, não se considera como usual ou normal a despesa financeira na situação fática dos autos. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2012, 2013, 2014, 2015 CSLL. EXTENSÃO LEGAL. INDEDUTIBILIDADE. DECORRÊNCIA LÓGICA. Cabível a extensão da glosa de despesas indedutíveis à base de cálculo da CSLL por conta do disposto no artigo 57 da Lei 8.981/95, que tem por intento evitar a repetição desnecessária de comandos legais para disciplinar a metodologia de determinação das bases imponíveis das duas exações, naquilo em que as sistemáticas têm de comum. Uma vez considerado inoponível ao Fisco a constatação de despesas desnecessárias tendente a reduzir a base de cálculo do IRPJ, por decorrência lógica estas não podem ser validadas para fins de CSLL. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. NÃO CABIMENTO. O TVF fundamenta a qualificação na suposta obrigatoriedade de o contribuinte ter realizado a operação de forma diversa. Entretanto, havendo dois caminhos possíveis e lícitos, cabe ao particular a escolha da decisão que entender mais adequada. Entretanto, no caso concreto, a despesa foi considerada indedutível. Sendo este o fundamento do lançamento. Outrossim, a própria dificuldade de conceituação da usualidade, normalidade e necessidade impõem, no caso concreto, a necessidade de aplicação de entendimento mais benéfico ao contribuinte, nos termos do que dispõe o art. 112 do CTN. APLICAÇÃO DO ART. 57 § 3º DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. BASE DE CÁLCULO DA CSLL. CORREÇÃO DO VALOR LANÇADO. É correta a decisão que observando erros na apuração do crédito, promove aos devidos ajustes. Recurso de Ofício não deve ser provido.
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HIPÓTESES. Os lançamentos passíveis de nulidade são os realizados por autoridade incompetente, nos termos do art. 59, I, do Decreto nº 70.235/72 (PAF), ou com ausência de algum dos requisitos essenciais do auto de infração e dos lançamentos em geral, fixados no art. 10 do PAF e art. 142 do CTN, respectivamente. Tais situações não ocorreram nos lançamentos contestados. DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS. Caracterizamse como desnecessárias e, portanto, indedutíveis do Lucro Real, as despesas com juros relativas a empréstimo entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico em que não houve efetivo fluxo financeiro e a operação poderia ter sido realizada de forma diversa. Ademais, não se considera como usual ou normal a despesa financeira na situação fática dos autos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2012, 2013, 2014, 2015 CSLL. EXTENSÃO LEGAL. INDEDUTIBILIDADE. DECORRÊNCIA LÓGICA. Cabível a extensão da glosa de despesas indedutíveis à base de cálculo da CSLL por conta do disposto no artigo 57 da Lei 8.981/95, que tem por intento evitar a repetição desnecessária de comandos legais para disciplinar a metodologia de determinação das bases imponíveis das duas exações, naquilo em que as sistemáticas têm de comum. Uma vez considerado inoponível ao Fisco a constatação de despesas desnecessárias tendente a reduzir a base de cálculo do IRPJ, por decorrência lógica estas não podem ser validadas para fins de CSLL. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. NÃO CABIMENTO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 60 0. 72 00 19 /2 01 7- 17 Fl. 7274DF CARF MF 2 O TVF fundamenta a qualificação na suposta obrigatoriedade de o contribuinte ter realizado a operação de forma diversa. Entretanto, havendo dois caminhos possíveis e lícitos, cabe ao particular a escolha da decisão que entender mais adequada. Entretanto, no caso concreto, a despesa foi considerada indedutível. Sendo este o fundamento do lançamento. Outrossim, a própria dificuldade de conceituação da usualidade, normalidade e necessidade impõem, no caso concreto, a necessidade de aplicação de entendimento mais benéfico ao contribuinte, nos termos do que dispõe o art. 112 do CTN. APLICAÇÃO DO ART. 57 § 3º DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. FACULDADE DO JULGADOR. Plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que a Recorrente não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. BASE DE CÁLCULO DA CSLL. CORREÇÃO DO VALOR LANÇADO. É correta a decisão que observando erros na apuração do crédito, promove aos devidos ajustes. Recurso de Ofício não deve ser provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as arguições de nulidade e negar provimento ao Recurso de Ofício. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário no que diz respeito ao mérito da autuação do IRPJ. Vencidos os Conselheiros Lívia De Carli Germano e Letícia Domingues Costa Braga. Por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário em relação à exigência da CSLL. Vencidos os Conselheiros Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Por unanimidade de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a qualificação da multa de ofício dos autos de infração de IRPJ e CSLL. A Conselheira Lívia De Carli Germano não apresentou a declaração de voto, em face do prazo estabelecido no parágrafo 6º do art.63 do Regimento Interno do CARF. Designado o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Daniel Ribeiro Silva Relator. (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Livia de Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Fl. 7275DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.274 3 Relatório Tratamse de Recursos Voluntário e de Ofício interpostos em face do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal em Belo Horizonte (MG), que julgou procedente em parte a impugnação administrativa apresentada pelo contribuinte em virtude de supostas infrações a legislação tributária, exigindose o Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ, e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, cumulados com multa de ofício no percentual de 150% e juros de mora, lavrados para formalização e exigência de crédito tributário no montante de R$ 215.738.264,42, conforme tabela abaixo indicada: TRIBUTO PRINCIPAL JUROS MULTA TOTAL IRPJ R$ 52.624.005,13 R$ 16.887.790,17 R$ 78.936.007,68 R$ 148.447.802,98 CSLL R$ 24.484.510,27 R$ 6.079.185,78 R$ 36.726.765,39 R$ 67.290.461,44 De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, às fls. 51/152 (1ª parte), contatouse: 1. “de início, que o processo de reorganização societária se deu no curso do anocalendário de 2012, com profundas alterações em sua estrutura societária”; 2. “a formação de ambas as sociedades, empresária e simples, está adstrita ao ânimo do exercício de atividade econômica e se este não existir fica caracterizada a ausência de propósito societário, não originando, assim, a motivação para a própria celebração do contrato de sociedade. Subsidiariamente, neste caso, devese ponderar que não haveria nem mesmo quaisquer resultados a serem partilhados”; 3. “em 06/06/2012 retirouse da sociedade BD PANAMA, representada pela procuradora Sra. Fátima Aparecida Carr, CPF nº 001.933.68889, transferindo suas cotas a BLACK & DECKER LIMITED S.A.R.L que passou a integrar o quadro social”; 4. “no mesmo ato, retirouse da sociedade BLACK & DECKER MANIFACTURING, DISTRIBUTION & GLOBAL PURCHASING HODINGS L.P., representada pelo procurador Sr. Carlos Alberto de Souza, CPF nº 669.071.79849, transferindo suas cotas a BD LUX que passou a integrar o quadro social”; 5. “de acordo com o Termo de Solicitação e Esclarecimentos, o procurador da empresa consignou que a função da holding belga era: “uma administradora de caixa da Stanley BD. A Holding detinha as ações das subsidiárias. A BD Brasil, com o processo de reorganização, resolveu adquirir a holding e a holding, por sua vez, era dona das subsidiárias da América latina, por isso resolveu comprar a holding”; Fl. 7276DF CARF MF 4 6. “de todos os documentos relativos ao mútuo, identificouse que a operação havia sido estruturada em moeda nacional, não cabendo, portanto, a apropriação de variação cambial”; 7. “no processo de formação do capital de uma empresa, temse, basicamente, duas possibilidades de financiamento das atividades empresariais, quais sejam: (i) os recursos podem ser investidos pelos sócios, mediante capitalização ou endividamento; (ii) ou os recursos podem advir de terceiros. Procuramos, deixando o subjetivismo na apreciação de estruturações internacionais abusivas, considerar critérios objetivos e instruídos com os necessários elementos probantes”; 8. “que o ordenamento jurídico repele é adoção de condutas ilícitas dos contribuintes o que não significa que não assista direito ao contribuinte de auto organizar suas atividades. Por certo tal direito existe, contudo, não é ilimitado sob o escudo do princípio da legalidade ou tipicidade fechada, há de ser mitigado pelos princípios da capacidade contributiva e isonomia, sem se olvidar da solidariedade social a ser observada na hodierna concepção de Estado”; 9. “há que se aplicar penalidade específica (multa de oficio) às diferenças tributárias ora levantadas; cuja redução ilícita se dera por conta da fiscalizada, o que clama pela aplicação de multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento) prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96, sob redação atualizada pelo artigo 14 da lei 11.488/07 (...)”; O principal fundamento da autoridade administrativa é que “as despesas financeiras do empréstimo obtido pela Impugnante não eram necessárias, por não serem usuais, normais e compatíveis com a sua atividade ou à manutenção da sua fonte produtora, nos termos do art. 299 combinado com o art. 374 do Decreto nº 3.000/1999 – Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99)”. Ciente da autuação em 30/03/2017 o interessado apresenta IMPUGNAÇÃO ADMINISTRATIVA (fls. 4.377/4.471) em 28/04/2017, na qual alegou em síntese: 1. Preliminar. DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO EM DECORRÊNCIA DA AUSÊNCIA DE ENQUADRAMENTO ESPECÍFICO DA INFRAÇÃO COMETIDA PELA IMPUGNANTE. AUSÊNCIA DE REQUALIFICAÇÃO DOS FATOS PELA FISCALIZAÇÃO: Afirma que “a fiscalização da Receita Federal descreveu a restruturação societária pela qual passou o Grupo Stanley e seus efeitos sobre a estrutura do grupo na América Latina, para concluir que foi feito todo um planejamento com o intuito único e exclusivo de, mediante a adoção de “outra modalidade de endividamento abusivo” (parágrafo 131, página 70 do Termo de Verificação Fiscal – doc. 04), corroer a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, para passar da geração de lucro para o prejuízo fiscal e de bases de cálculo negativas da CSLL”. (...) No entanto, a fiscalização Fl. 7277DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.275 5 não aponta um dispositivo legal ou norma que tenha sido violado, como exigem o inciso IV do art. 10 do Decreto nº 70.235/1972 e o inciso IV do art. 39 do Decreto nº 7.574/2011. Ora, o Fisco é obrigado a comprovar as razões da prática do seu ato administrativo de lançamento tributário e, consequentemente, provar a ocorrência dos fatos que o levaram a constituir uma obrigação tributária até então inexistente ou de valor pecuniário menor, não lhe sendo permitido, portanto, trabalhar no plano das ilações”. 2. Não se pode admitir um ato administrativo sem a sua respectiva motivação, ocorrendo o mesmo com o ato administrativo de lançamento tributário, onde a motivação é justamente a própria existência de prova, que deve ser incontroversa, sob pena de nulidade do ato administrativo, razão pela qual não há que se admitir a utilização de mera presunção ou indícios. Neste sentido, já decidiu o extinto Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que “indício ou presunção não podem por si só caracterizar o crédito tributário”. 3. Diz que “considerando que a fiscalização não indica quais são os dispositivo violados pela Impugnante (pelo contrário, afirma no Termo de Verificação Fiscal que observou os termos da legislação em vigor); não requalifica juridicamente os fatos da reorganização societária do Grupo Stanley; não prova a ocorrência de qualquer tipo de fraude; evidentemente o auto de infração ora combatido é nulo e deve ser cancelado sem sequer se analisar o mérito da presente Impugnação”. 4. DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO EM DECORRÊNCIA DE ERRO NA INDICAÇÃO DE ELEMENTOS ESSENCIAIS. O ERRO NA APURAÇÃO DO VALOR SUPOSTAMENTE DEVIDO A TÍTULO DE CSLL: Afirma que verificando a base adotada para fins de cálculo do IRPJ, percebese claramente que o valor indicado é de R$ 98.702.149,00, que é o valor dos juros devidos pela Impugnante no contrato de mútuo celebrado com a sua controladora no exterior, conforme consta de fls. 14 do Auto de Infração de IRPJ(...). E que, considerando que o valor tributável correto era de R$ 98.702.149,00 para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, caso a autuação estivesse correta e tivesse a devida fundamentação, após a compensação com a base de cálculo negativa existente para o período, o valor tributável da CSLL para 2015 seria de R$ 51.118.779,47 e não de R$149.820.928,44, como constou no cálculo da CSLL supostamente devida”. 5. DO HISTÓRICO DA REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA DO GRUPO ECONÔMICO DO QUAL A IMPUGNANTE É INTEGRANTE: Diz que “no dia 2 de fevereiro de 2010, a administração da Stanley e da Black & Decker, companhias residentes nos Estados Unidos, oficializaram um acordo de combinação estratégica das duas companhias por meio de uma fusão, Fl. 7278DF CARF MF 6 a qual foi aprovada pelos acionistas das duas companhias. Por se tratar de duas companhias de capital aberto no momento desses eventos societários, vários informes aos acionistas e a apresentação de formulários à CVM daquele país (SEC U.S. Securities and Exchange Commission) fizeram com que esta fusão fosse notoriamente noticiada pelo mundo todo. Como resultado dessa fusão, a administração global do Grupo Stanley iniciou um plano de integração dos negócios das duas companhias. Desta forma, foram analisados meios para aprimorar o modelo de gestão operacional, financeiro e administrativo das empresas do grupo ao redor do mundo, incluindo a delimitação de regiões específicas, como a América do Sul, com vistas a promover uma estrutura adequada para suportar os planos de crescimento do grupo no mundo. 6. Adicionalmente, o Grupo Stanley estabeleceu precisamente como meta aumentar a sua participação em mercados emergentes, com foco na América do Sul,particularmente no Brasil. Outro importante objetivo global do Grupo Stanley era aumentar a capacidade de distribuição de dividendos para os seus acionistas. Portanto, o grupo procurou meios de incrementar seus lucros, o que os conduziu a uma revisão de seus ativos imobilizados e de seu patrimônio líquido no Brasil e no restante da América do Sul. A este respeito, uma estrutura mais verticalizada parecia ser mais apropriada financeiramente como forma de aumentar seus ativos líquidos, o que viabilizaria o aumento de sua capacidade de endividamento”. 7. Além dos benefícios naturais em termos de gestão, reporte, controles e planejamento que esta unificação poderia trazer, conforme referido acima, verificouse, também, que esta nova forma organizacional unificada, capitaneada pela Impugnante, poderia também propiciar o fortalecimento de seu perfil financeiro, em decorrência do aumento de seu patrimônio líquido, conforme demonstrado anteriormente, o que a colocaria numa posição privilegiada para negociar junto a instituições financeiras, aumentando consideravelmente sua capacidade de obter empréstimos”. 8. Diz que “permitindose uma expansão da capacidade financeira da Impugnante, seriam também propiciados os meios para a aquisição de empresas no território brasileiro, para a expansão da infraestrutura fabril e para o financiamento da expansão das operações sem a necessidade de o Grupo Stanley valerse apenas de recursos próprios neste processo, favorecendo o fluxo de caixa”. 9. Que “para a Impugnante, o reflexo do mercado brasileiro foi a queda das vendas, com o crescimento dos custos de mão de obra em razão da espiral inflacionária e dos pedidos de recomposição dos salários dos trabalhadores, o que acabou por ocasionar prejuízo para a empresa, como demonstrado pela própria fiscalização no relatório de fiscalização. Para demonstrar que o posicionamento da Impugnante como uma holding foi constante, mesmo durante o período de crise, a Impugnante adquiriu a empresa M. Hart do Brasil Ltda., CNPJ nº 03.311.848/000120, com sede em São Paulo/SP (doc. 07), em 2014, operação da qual resultou o recolhimento de tributos no valor de R$ Fl. 7279DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.276 7 3,9 milhões para os cofres da União Federal (doc. 08). Posteriormente, em 2016, a Impugnante adquiriu a sociedade Spiralock do Brasil Ltda., CNPJ nº 03.997.959/000131, também com sede em São Paulo/SP (doc. 09). Na remessa de recursos ao exterior a Impugnante ainda pagou mais R$ 776.076,49 a título de IOF (doc. 10). Neste ano de 2017, a M. Hart do Brasil Ltda. e a Spiralock do Brasil Ltda., duas sociedades do grupo da Impugnante, adquirem a empresa Newell Rubbermaid Brasil Ferramentas e Equipamentos Ltda., CNPJ nº 02.877.632/000163, com sede em Cachoeirinha/RS (doc. 11). O contrato de câmbio demonstra que ainda foram pagos R$ 434.983,15 a título de IOF (doc. 12)”. 10. DA LIBERDADE DO CONTRIBUINTE DE ESTRUTURAR SEUS NEGÓCIOS: Afirma que “para a fiscalização, “o contribuinte, sob os critérios orientadores do arm´s lenght, caso desejasse atingir o objetivo alegado, deveria ter promovido uma subscrição de capital da empresa Black & Decker do Brasil Ltda., integralizando com ações decorrentes da Holding Belga, sem necessariamente adotar qualquer modalidade que envolvesse qualquer fluxo financeiro” (fls. 94 do Termo de Verificação Fiscal). Claramente esta opinião desconsidera que a Constituição Federal garante os princípios da “livre iniciativa” (CF/88, arts. 1º, IV e 170), da “propriedade privada” (CF/88, art. 5º, XXII e 170, II), da “livre concorrência” (CF/88, art. 170, IV) e do “livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgão públicos” (CF/88, art. 170, § único). Não há preceito legal que obrigue o contribuinte a adotar a forma jurídica que lhe acarrete o maior ônus fiscal. O contribuinte pessoa jurídica procura maximizar seus lucros e valor de mercado para gerar ganhos aos seus acionistas (e dessa forma gera mais empregos e recolhe mais tributos, apesar da visão limitada do fisco). O CARF reconhece esse direito das empresas (...) Também a jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais, ao analisar casos que já passaram pela esfera administrativa, reconhece o direito dos contribuintes de optarem pela via que seja menos onerosa sob o aspecto tributário (...)”. 11. Diz que A operação da Impugnante pode ser vista como uma forma de elisão fiscal, o que é permitido, porém jamais vista como simulação e muito menos como fraude, eis que evidente a existência de propósito negocial. Ademais, não há que falar que a Impugnante deveria ter escolhido outra forma de financiamento (unicamente através de aumento de capital) em sua reorganização societária, como quer a fiscalização, sob pena de violação aos princípios constitucionais da “livre iniciativa”, da “propriedade privada”, da “livre concorrência” e do “livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgão públicos”. 12. DO NEGÓCIO JURÍDICO REALIZADO PELA IMPUGNANTE OBSERVA TODAS AS NORMAS LEGAIS SOBRE A OBTENÇÃO DE EMPRÉSTIMOS COM EMPRESAS DO MESMO GRUPO ECONÔMICO: Afirma que “a fiscalização do Banco Central Fl. 7280DF CARF MF 8 só admitia o registro de mútuo entre sociedades coligadas em que a mutuante controladora era residente no exterior quando entendia que os juros foram fixados em patamar razoável (...) (...) uma vez feito o registro no Banco Central, a Receita Federal não pode questionar os termos do referido contrato, ou simplesmente desconsiderálos, sem robustos elementos de prova de que o ato está viciado com simulação ou fraude. A este respeito, o Superior Tribunal de Justiça já assentou o dever da Receita Federal de respeitar o posicionamento dos outros órgãos técnicos da administração pública federal, não sendo válida a desconsideração simplesmente para efeitos de obter mais tributos. 13. DA NECESSIDADE DA IMPUGNANTE CONTRATAR FINANCIAMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO INVESTIMENTO (AQUISIÇÃO DE OUTRAS UNIDADES NA AMÉRICA LATINA):Afirma que “é inegável que despesas relacionadas a aquisições de empresas que se enquadram no objeto social da sua adquirente (i.e., investimentos em outras sociedades ou relacionadas ou complementares ao objeto social industrial da Impugnante) são despesas necessárias, pouco importando se são empresas do mesmo grupo econômico ou não. E mais, estão no mesmo contexto dos juros. Entre tais despesas necessárias temos, além dos juros, honorários de advogados, contadores, avaliadores, auditores, profissionais responsáveis pelo registro das transações no Banco Central, etc., que foram incorridas pela Impugnante e não sofreram qualquer questionamento do fiscal ao serem deduzidas junto com os juros objeto da autuação. A inexistência de glosa das demais despesas demonstra uma inconsistência na autuação fiscal, logo os juros tomados para adquirir novas empresas também são dedutíveis”. Se a Impugnante tivesse contratado este financiamento com algum banco brasileiro, com taxas de juros significativamente maiores, a fiscalização teria lavrado a mesma autuação indicando que a despesa de juros era maior ainda e desnecessária? A resposta, ao que tudo indica, seria negativa”. 14. DA COMPROVAÇÃO DE QUE A CHESAPEAKE INVESTMENTS NÃO É UMA EMPRESA VEÍCULO: Afirma que “a foto do Google Maps apresentada pela fiscalização no Termo de Verificação Fiscal nada prova, em primeiro lugar porque é uma foto da sede de outra empresa, a Chesapeake Holdings, que não se confunde com a Chesapeake Investments, além disso é uma foto do lado de fora do prédio sem a identificação de quando teria sido fotografada. O trabalho da fiscalização se revelou pouco cuidadoso quando confundiu duas empresas diferentes, a Chesapeake Holdings, sociedade residente no exterior com pouco tempo desde que foi criada, e a Chesapeake Investments, controladora da Impugnante e criada muito tempo antes de toda a reorganização societária ora tratada. Nesse contexto, a Impugnante ora apresenta a prestação de contas elaborada pela Ernst Young S.A. para os exercícios de 2000 (doc. 17) e 2001 (doc. 18); bem como os relatórios de auditoria dos exercícios de 2005 (doc. 19) e 2009 (doc. 20) com o intuito de demonstrar que a Chesapeake Investments não foi criada de uma hora para outra, simplesmente para justificar a operação ora em comento, que tem um histórico como uma empresa financeira do grupo que não Fl. 7281DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.277 9 pode ser desconsiderado por simples ‘querer’ da Receita Federal. Ora, se a Chesapeake Investments é uma holding com eventuais operações financeiras, não há que se esperar outra coisa senão uma estrutura enxuta, com pouco ou mesmo nenhum funcionário, sendo que nem mesmo no direito brasileiro tal figura é desconhecida (...)”. 15. DA AVALIAÇÃO DA HOLDING BELGA E A QUESTÃO DO PRÊMIO DE EMISSÃO DE AÇÕES: Diz que “por se tratar de uma avaliação que dependia apenas da análise do valor contábil das quotas da Holding Belga, a ACAL informou no item V da sua Carta Proposta que “o prazo de execução do trabalho é estimado em até 05 (cinco) dias úteis da data da disponibilização dos documentos”. 16. “Nada mais razoável, visto que o laudo de avaliação da Holding Belga, conforme se observa do anexo (doc. 23), foi elaborado pela ACAL pelo método de avaliação patrimonial (valor líquido contábil). Ou seja, a avaliação realizada levou em consideração apenas os valores indicados nas demonstrações contábeis da Holding Belga e suas subsidiárias, portanto, não foi necessário qualquer análise de mercado, que demandaria mais tempo para sua elaboração. Importante esclarecer que, antes de a Impugnante adquirir as ações da Holding Belga, esta última passou por outras operações societárias (descritas no item III da presente Impugnação), as quais fizeram com que as suas demonstrações contábeis indicassem um valor relevante de “prêmio de emissão de ações”. 17. DA INAPLICABILIDADE DO PRECEDENTE DO CARF (ACÓRDÃO Nº 910100.287) CITADO NA FISCALIZAÇÃO NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL AO PRESENTE CASO: Diz que “em operações como essa, o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo, decidiu que havia incidência da CPMF simplesmente porque havia lançamentos de entrada e saída de recursos (ainda que fictícia), reforçando o argumento de que houve, no presente caso, o ingresso de capitais do exterior (...) Da mesma forma, não se pode olvidar que não houve utilização de operações estruturadas em sequência e empresa veículo, uma vez que, conforme já mencionado a Chesapeake Holding não era sócia da Impugnante, razão pela qual não tem qualquer utilidade a sua indicação como empresa veículo no Termo de Verificação Fiscal. Assim, temse a segunda diferença deste caso concreto com aquele, uma vez que no Acórdão nº 910100287, era fato incontroverso a utilização de empresas no exterior para viabilização da aquisição da empresa brasileira”. 18. ALTERNATIVAMENTE: DA DIFERENÇA ENTRE A APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA E DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO. TRATAMENTO ESPECÍFICO PARA CSLL: Diz que (...) “dentre as disposições relativas ao IRPJ que se estendem à forma de tributação da CSLL, por determinação do art. 28 da Lei nº 9.430/96, Fl. 7282DF CARF MF 10 nenhuma dispõe sobre a possibilidade de dedução de despesas da base de cálculo do IRPJ, na forma do art. 299 do RIR/99, o que demonstra que em relação a este instituto jurídico, as premissas de tributação de IRPJ não se aplicam à legislação da CSLL. Inclusive esse é o entendimento adotado pela 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF”. 19. SUBSIDIARIAMENTE: DA INAPLICABILIDADE DA MULTA QUALIFICADA AO CASO. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE QUALQUER TIPO DE DOLO: Diz que é “importante destacar que a fiscalização que culminou com a lavratura do auto de infração ora impugnado teve início em julho de 2013, quando a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Uberaba/MG intimou a Impugnante para apresentar a escrituração do primeiro trimestre de 2013, LALUR e balancetes, relativos ao exercício de 2012. Logo, é possível indicar que nos exercícios subsequentes a 2012 o aproveitamento da despesa dos juros do mútuo contratado com a controladora no exterior foi feito concomitantemente com a fiscalização da Receita Federal, razão pela qual não é possível que esta alegue a ocorrência de sonegação. Também não há qualquer evidência de fraude, pois todos os atos declarados foram efetivamente realizados e declarados para os órgãos reguladores, não houve prejuízo para nenhum terceiro, pelo contrário, a Impugnante passou a ter maior capacidade financeira para a realização de outras compras no País”. 20. Requereu o acolhimento da impugnação para cancelar a exigência fiscal na sua totalidade. 21. Requereu a “juntada de documentos e laudos que não puderam ser juntados no lapso temporal para a apresentação da presente Impugnação, tendo em vista que parte deles está no exterior e necessita de tradução juramentada ou não puderam ser finalizados neste ínterim”. O Acórdão ora Recorrido (0276.804 10ª Turma da DRJ/BHE) recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Anocalendário: 2012, 2013, 2014, 2015 NULIDADE. HIPÓTESES. Os lançamentos passíveis de nulidade são os realizados por autoridade incompetente, nos termos do art. 59, I, do Decreto nº 70.235/72 (PAF), ou com ausência de algum dos requisitos essenciais do auto de infração e dos lançamentos em geral, fixados no art. 10 do PAF e art. 142 do CTN, respectivamente. Tais situações não ocorreram nos lançamentos contestados. DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS. Fl. 7283DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.278 11 Caracterizamse como desnecessárias e, portanto, indedutíveis do Lucro Real, as despesas com juros relativas a empréstimo entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico cuja única finalidade é a redução artificial do lucro. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO E ABUSO DE DIREITO. Revestese do caráter de planejamento tributário abusivo, em prejuízo à Fazenda Pública, a dedução de juros decorrentes de empréstimos desnecessários, contraídos com as pessoas jurídicas sócias (mutuantes) e deduzidos como despesas do lucro pelo sujeito passivo (mutuário). MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. A multa de ofício será qualificada, no percentual de 150%, conforme estabelece a lei, sempre que houver fraude e sonegação, devidamente caracterizado em procedimento fiscal, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A exigência decorrente deve seguir a orientação decisória adotada para o tributo principal, tendo em vista ser fundada nos mesmos fatos, mormente em face de norma prevendo, para a CSLL, iguais hipóteses e condições de dedutibilidade de juros em relação ao IRPJ. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Anocalendário: 2012, 2013, 2014, 2015. BASE DE CÁLCULO DA CSLL. CORREÇÃO DO VALOR LANÇADO. Tendo em vista que o valor tributável considerado nos cálculos da CSLL devida diverge do valor efetivamente lançado pela Fiscalização, fazse necessária a retificação do valor lançado para a correta apuração dessa contribuição. Impugnação Procedente em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. Isto porque, segundo entendimento da Turma “mesmo respeitando e reconhecendo o direito do grupo Stanley de proceder às reestruturações internas na forma que bem entender, respeitando os preceitos legais, não é aceitável e muito menos racional que mera reorganização crie despesas que reduzam o lucro da empresa e, conseqüentemente, os tributos a pagar. Como bem disse a Fiscalização no TVF, liberalidade não se confunde com necessidade. Não se trata de adotar a forma jurídica que acarreta o maior ônus fiscal. Pelo contrário, tratase de impedir a redução indevida da base tributária. Não se pode admitir a criação de despesas dedutíveis em virtude de operações sem nenhum propósito negocial. Vale lembrar que, atualmente, o Código Civil, no seu art. 187, veda o abuso de direito”. Afirma a Turma que “a própria impugnante diz que não houve desembolso ou reembolso em dinheiro, que os contratos de câmbio foram firmados para atender normas regulamentares do Bacen e que o ingresso e reenvio dos recursos financeiros foram simbólicos. E ainda: mesmo se houvesse qualquer interesse em se transferir a Holding Belga e Fl. 7284DF CARF MF 12 todas as empresas sulamericanas sob seu comando para a BD Brasil, o empréstimo em si, que não resultou em efetivo fluxo financeiro e não foi utilizado em qualquer operação fora do grupo econômico, não tinha nenhum propósito senão a criação de despesas com juros para tentar reduzir indevidamente a tributação. Ou seja, havia meios de se estabelecer tal reestruturação (pela integralização de capital, por exemplo) sem afetar, de forma artificial, a apuração do lucro da BD Brasil. A impugnante e o grupo Stanley o qual ela faz parte, contudo, escolheram um caminho pelo qual os juros foram, de forma desnecessária, criados e deduzidos como despesas na apuração do lucro”. Com isso, rejeitouse as preliminares suscitadas, mantendo integralmente a exigência do IRPJ e da CSLL, conforme tabela indicada: Ciente da decisão do Acórdão em 17/11/2017 (fls.7.132), o contribuinte interpõe Recurso Voluntário em 15/12/2017 às fls. 7.135/7.257, trazendo em seu bojo praticamente as mesmas razões discorridas em sede de impugnação administrativa às fls. (fls. 4.377/4.471) dos autos, trazendo apenas a inclusão de dois tópicos, quais sejam: · VIII – DA INEXISTÊNCIA DE TRIBUTAÇÃO CONSOLIDADA DO GRUPO ECONÔMICO NO BRASIL: Afirma que “o regime jurídico tributário no Brasil segue o referido padrão societário ao tributar individualmente as pessoas jurídicas, não admitindo a consolidação com base no grupo econômico, ou seja, a transferência de ativos intragrupo sem tributação e a consolidação de seus resultados para fins de tributação, o que resulta na existência de normas sobre distribuição disfarçada de lucros e preços de transferência aplicáveis em operações intragrupo”. (...) Nesse contexto, “as personalidades jurídicas das empresas envolvidas na transação objeto do auto não podem ser desconsideradas sem que o fisco questione o contribuinte, investigue e comprove a falta de substância dessas pessoas jurídicas. Na operação em questão todas as empresas possuem a substância necessária para a realização de suas atividades e foram constituídas, muito antes da reorganização empresaria analisada, com propósito negocial”. Fl. 7285DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.279 13 · Diz que “a aquisição de uma nova participação societária pela Recorrente (ainda que de outra empresa do mesmo grupo econômico) representa um novo investimento e é necessária para as suas atividades, com os juros do financiamento para a sua aquisição resultando em despesas necessárias e, consequentemente, dedutíveis. E que este próprio E. CARF decidiu nesse sentido em caso onde uma subsidiária tomou empréstimo para a aquisição de ações de emissão de sua controladora (depois a subsidiária ainda foi incorporada pela controladora que passou a deduzir os juros). E que “o fisco pretende utilizar o regime jurídico brasileiro apenas a seu favor, ou seja, na dedução de despesas e operações de compra por empresas brasileira intragrupo pretende desconsiderar os efeitos fiscais da transação e glosar a dedutibilidade das despesas. Todavia, no caso de eventual venda desses mesmos ativos, buscará a sua tributação”. · IX – DO EXEMPLO HIPOTÉTICO DA CAPITALIZAÇÃO – DEDUTIBILIDADE DE JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO: Diz que “a capitalização da Holding Belga na Recorrente resultaria no aumento do seu patrimônio líquido, que é base para a distribuição de juros sobre capital próprio (JCP). A legislação (art. 9º da Lei nº 9.249/95) permite que até 50% dos lucros do exercício ou acumulados sejam pagos aos acionistas como JCP, ao invés de dividendos, e sejam dedutíveis do IRPJ e da CSLL”. E que “este próprio E. CARF decidiu dessa forma em dois julgados recentes. O caso concreto dos acórdãos 1302001.945 (2016) e 1402002.443 (2017) também tratou de transação onde a empresa autuada obteve empréstimo de sua controladora e utilizou tais recursos para adquirir participação societária em uma outra empresa que já era controlada pelo grupo. O fisco glosou as despesas do empréstimo, alegando que o montante deveria ter sido capitalizado. Todavia, este E. CARF reconheceu que em caso de capitalização seria possível o pagamento de JCP, que por sua vez, seria dedutível assim como dos juros glosados. Os JCP ainda são tributados pelo IRRF, assim como os juros autuados”. Em 27/07/2018 a Recorrente promoveu a juntada da petição de fls. 7265 7262 em que requer o adiamento do julgamento do presente processo alegando, em suma: 1. Que o presente caso trata de uma completa reestruturação tributária, e que a fiscalização levou quase 04 (quatro) anos para concluir o trabalho fiscal, que foi conduzido pela Delegacia de Fiscalização dos Maiores Contribuintes; 2. Aduz que o auto de infração foi lavrado em 24/03/2017 e, tendo tomado ciência em 30/03/2017 impugnou o lançamento em 28/04/2017, antes mesmo do prazo fatal; Fl. 7286DF CARF MF 14 3. Que a impugnação foi julgada em 24/10/2017 e a Recorrente intimada da decisão da DRJ em 16/11/2017, apresentando o presente Recurso Voluntário em 15/12/2017; 4. O processo foi recebido pelo CARF em 26/12/2017 e distribuído a este Relator em 17/05/2017; 5. Que o processo ainda não foi incluído em pauta de julgamento; 6. Que o presente processo andou em velocidade acima da média para processos dessa complexidade, e que levou aproximados 14 meses entre a lavratura e recepção pelo CARF; 7. Que com o intuito de robustecer os argumentos e o debate do caso, contratou um parecer jurídico do Prof. Luis Eduardo Shoueri, conforme correspondência datada de 20/07/2018 (que anexa), onde solicita 60 (sessenta dias) para conclusão dos trabalhos; 8. Que tendo em vista o rápido andamento do processo comparado a uma fiscalização que durou quase 4 anos, aguardar um prazo de 60 dias em nada prejudicará o crédito em discussão. A correspondência anexa à referida petição, elaborada pelo Ilmo. Prof. Shoueri, apresenta análises superficiais e preliminares no sentido de entender que o lançamento careceria de fundamentação legal. Ressalto que, cumprindo as determinações internas do CARF, este Relator indicou o presente processo para pauta de julgamento em 23/07/2018, portanto, antes da juntada da petição. Por certo, se tivesse ciência antecipada do requerimento, este Relator ponderaria a substituição da indicação por outro processo. A pauta de julgamento foi publicada no dia 03/08/2017, em 06/08/2018 a Recorrente apresentou novo pedido de retirada de pauta, o qual foi indeferido pelo Presidente de Turma em razão da ausência de previsão regimental para a retirada com base nos elementos apresentados pela parte. É o relatório do essencial. Voto Vencido Conselheiro Daniel Ribeiro Silva Relator. Observo que as referências a fls. feitas no decorrer deste voto se referem ao eprocesso. Os recurso são tempestivos e preenchem os requisitos de admissibilidade, por isso deles conheço. Fl. 7287DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.280 15 No que se refere ao pedido de adiamento do julgamento, sendo de competência do presidente desta TO a referida análise, e já tendo sido indeferido o pedido por inexistência de previsão regimental, considero prejudicado o pleito. Ademais, entendo que a Recorrente teve tempo suficiente para produzir as provas necessárias para sua defesa, e o fato de o processo administrativo ter tido um curso supostamente mais célere (o que é o ideal para todos os processos), não pode ser justificativa para não ter produzido as provas que entendia necessárias antecipadamente. Passo a analisar inicialmente os novos argumentos trazidos em sede de recurso voluntário. Quanto ao questionamento a respeito da inexistência de tributação consolidada de grupo econômico, a Recorrente afirma que o regime jurídico tributário no Brasil segue o referido padrão societário ao tributar individualmente as pessoas jurídicas, não admitindo a consolidação com base no grupo econômico, ou seja, a transferência de ativos intragrupo sem tributação e a consolidação de seus resultados para fins de tributação, o que resulta na existência de normas sobre distribuição disfarçada de lucros e preços de transferência aplicáveis em operações intragrupo. Diz que na operação em questão todas as empresas possuem a substância necessária para a realização de suas atividades e foram constituídas, muito antes da reorganização empresaria analisada, com propósito negocial. Defendeu que a aquisição de uma nova participação societária pela Recorrente (ainda que de outra empresa do mesmo grupo econômico) representa um novo investimento e é necessária para as suas atividades, com os juros do financiamento para a sua aquisição resultando em despesas necessárias e, conseqüentemente, dedutíveis. Aduz que este próprio E. CARF decidiu nesse sentido em caso onde uma subsidiária tomou empréstimo para a aquisição de ações de emissão de sua controladora (depois a subsidiária ainda foi incorporada pela controladora que passou a deduzir os juros). Diz ainda que a capitalização da Holding Belga na Recorrente resultaria no aumento do seu patrimônio líquido, que é base para a distribuição de juros sobre capital próprio (JCP). A legislação (art. 9º da Lei nº 9.249/95) permite que até 50% dos lucros do exercício ou acumulados sejam pagos aos acionistas como JCP, ao invés de dividendos, e sejam dedutíveis do IRPJ e da CSLL. E que “este próprio E. CARF decidiu dessa forma em dois julgados recentes. O caso concreto dos acórdãos 1302001.945 (2016) e 1402002.443 (2017) também tratou de transação onde a empresa autuada obteve empréstimo de sua controladora e utilizou tais recursos para adquirir participação societária em uma outra empresa que já era controlada pelo grupo. O fisco glosou as despesas do empréstimo, alegando que o montante deveria ter sido capitalizado. Todavia, este E. CARF reconheceu que em caso de capitalização seria possível o pagamento de JCP, que por sua vez, seria dedutível assim como dos juros glosados. Os JCP ainda são tributados pelo IRRF, assim como os juros autuados. Em que pese concorde com parte dos argumentos aduzidos pela Recorrente, entendo que a ela não aproveitam. Fl. 7288DF CARF MF 16 Veja que, o TVF apontou indícios de simulação e ausência de propósito negocial em parte das operações de reorganização societária, entretanto, o agente fiscal não desconsidera a personalidade jurídica das empresas envolvidas. Não há tributação de grupo econômico, mas simples glosa de uma despesa que, de forma absolutamente fundamentada, entendeu ser desnecessária e, portanto, indedutivel. Não se questiona o resultado jurídico das operações de reorganização societária, mas sim a desnecessidade do referido empréstimo, que não teve efeitos financeiros práticos já que não houve efetivo ingresso, para aquisição indireta de um investimento que já era da própria controladora. Vejam que na Ata de Reunião de Sócios Quotistas, apresentadas pelo contribuinte, datada em 05 de junho de 2012, foi autorizado que os administradores da Sociedade negociassem os termos da aquisição da Holding Belga, incluindo o preço e a forma de pagamento, que poderá ser à vista ou parcelada e poderá envolver negociação de crédito ou financiamento ou conferência de participação societária na Sociedade, bem como para assinar todos e quaisquer documentos necessários e a tomar as medidas necessárias para formalizar tal aquisição. Assim, a própria reunião de sócios autorizou que tal aquisição pudesse ser feita, também, através de incorporação de ações. Ademais, grande parte da reestruturação societária realizada pelo grupo se deu através do instrumento de incorporação e integralização de participações societárias. Desta feita, não há sentido de se entender como normal e usual um empréstimo de aproximadamente 800 milhões (que financeiramente não ingressou no caixa da Recorrente), firmado pela sua controladora para aquisição da Holding Belga que também era sua controlada. Não se questiona a possibilidade de uma controladora firmar empréstimos com controlada, até porque não seria razoável exigir que a controlada buscasse empréstimo em mercado com disponibilidade financeira dentro do próprio grupo. Entretanto, no caso concreto, analisando o contexto fático, e sem invalidar o empréstimo feito, o autuante entendeu que a operação não era necessária para se transferir a Holding Belga para a BD, e por isso glosou os efeitos tributários de tal despesa. Ademais, a análise de usualidade, normalidade e necessidade é fática e deve ser analisada em cada caso, razão pela qual precedentes como o indicado pela Recorrente não podem ser aplicáveis. Por sua vez, quanto à necessidade de capitalização ou não, tal discussão é infrutífera na medida em que a capitalização efetivamente não ocorreu, e tal fundamento foi utilizado de forma subsidiária e complementar pelo agente fiscal. Desta feita, o ponto principal está na análise da necessidade ou não da despesa, para fins de dedução da BC do IRPJ e CSLL. Assim, não há como acolher tais argumentos. No mais, quanto aos demais termos, da análise dos autos é fácil constatar que o Recurso Voluntário apresentado, a exceção dos tópicos já analisados, constituise de repetição dos argumentos utilizados em sede de impugnação e, em verdade, acabam por repetir Fl. 7289DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.281 17 e reafirmar a tese sustentada pelo contribuinte, as quais foram detalhadamente apreciadas pelo julgador a quo. Nestes termos, cumpre ressaltar a faculdade garantida ao julgador pelo § 3º do Art. 57 do Regimento Interno do CARF: Art. 57. Em cada sessão de julgamento será observada a seguinte ordem: I verificação do quórum regimental; II deliberação sobre matéria de expediente; e III relatório, debate e votação dos recursos constantes da pauta. § 1º A ementa, relatório e voto deverão ser disponibilizados exclusivamente aos conselheiros do colegiado, previamente ao início de cada sessão de julgamento correspondente, em meio eletrônico. § 2º Os processos para os quais o relator não apresentar, no prazo e forma estabelecidos no § 1º, a ementa, o relatório e o voto, serão retirados de pauta pelo presidente, que fará constar o fato em ata. § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017). Da análise do presente processo, entendo ser plenamente cabível a aplicação do respectivo dispositivo regimental uma vez que não inova nas suas razões já apresentadas em sede de impugnação, as quais foram claramente analisadas pela decisão recorrida. Assim, desde já proponho a manutenção da decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos, considerandose como se aqui transcrito integralmente o voto da decisão recorrida, com exceção da parte relativa à qualificação da multa e da CSLL que serão analisadas posteriormente: 1 DA ADMISSIBILIDADE A impugnação apresentada em 28/04/2017 é tempestiva e apresentase nosmoldes do Decreto nº 70.235/72. Sendo assim, comporta apreciação de mérito. Por seu turno, os documentos apresentados em 21/07/2017 encontram se intempestivos, pois, de acordo com o que dispõe o art. 16, §4º do Decreto nº Fl. 7290DF CARF MF 18 70.235/1972, “A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnantefazêlo em outro momento processual (...)”. 2 PRELIMINARES 2.1 NULIDADE. INEXISTÊNCIA. A impugnante solicita a declaração de nulidade por ausência de enquadramento específico da infração cometida pela impugnante, como exige o art. 10, inciso IV do Decreto nº 70.235/1972. Também suscita nulidade por erro na apuração da CSLL, que estaria com a base de cálculo errada. O erro em um dos elementos essenciais do lançamento violaria o art. 142 do CTN, tornandoo nulo. Inicialmente, cabe esclarecer que, no âmbito do processo administrativo fiscal, os pressupostos legais para a validade do auto de infração são determinados pelo art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, que trata do Processo Administrativo Fiscal, a seguir transcrito: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de 30 (trinta) dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. O citado art. 142 do Código Tributário Nacional – CTN – dispõe o seguinte: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Já as hipóteses de nulidade são taxativamente previstas nos arts. 59 e 60 do mesmo decreto: “Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Fl. 7291DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.282 19 Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (Grifouse). Analisandose as peças que compõem o processo, não se vislumbra a ocorrência de nenhuma das hipóteses de nulidade, ou seja, os autos de infração foram lavrados por servidor competente e não houve cerceamento do direito de defesa. Também foram cumpridas as formalidades contidas no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972 e no art. 142 do CTN, tais como a suficiente descrição dos fatos que ensejaram a autuação, a disposição legal infringida e os cálculos dos tributos devidos. De acordo com o art. 60 do Decreto nº 70.235, de 1972, possíveis irregularidades, incorreções e omissões cometidas nos autos de infração diferentes das do art. 59 não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Com relação à alegada ausência de motivação e descrição dos dispositivos legais, houve uma mera glosa de despesas com juros, considerados indedutíveis pela Autoridade Fiscal, por serem desnecessários às atividades da empresa. O enquadramento legal foi o art. 299 do Regulamento do Imposto de Renda: Art.299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). §1ºSão necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §1º). §2ºAs despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §2º). O fato de a impugnante discordar dos argumentos trazidos pela Fiscalização não torna o ato nulo. Da mesma maneira, com relação ao alegado erro no cálculo da CSLL, a questão será analisada em seu mérito, sendo devido o respectivo ajuste, caso a defesa tenha razão. Mera inexatidão nos cálculos não enseja nulidade. Assim, não há que se falar em nulidade no presente lançamento. 3 MÉRITO 3.1 RESUMO DA LIDE No dia 2 de fevereiro de 2010, a administração da Stanley e da Black & Decker oficializaram um acordo de combinação estratégica das duas companhias por meio de uma fusão, formando o grupo Stanley. Fl. 7292DF CARF MF 20 Já em 2012, houve a seguinte reorganização societária na BD Brasil: Após uma série de transferência de cotas, o quadro societário da impugnante passou a ser o seguinte: A única sócia da Chesapeake era a BD Lux. A Chesapeake se tornou sócia não só da BD Brasil, mas também de várias subsidiárias do grupo Stanley na América Latina. Isso por meio do aumento de capital, com transferências de cotas de empresas, promovido por sua sócia, a BD Lux. Por meio de outras reorganizações societárias, as demais sociedades do Grupo na América Latina (Chile, Equador, Costa Rica, Venezuela e Argentina) teriam sido transferidas para a Holding Belga (Stanley Black & Decker Latin American Holding B.V.B.A), que pertencia à Chesapeake. No dia 06/06/2012, a Chesapeake aumentou o capital social da BD Brasil em R$187.078.900,00, transferindo 19,77% (7.600 ações) da Holding Belga. O valor das ações foi avaliado pela ACAL AUDITORES INDEPENDENTES S/S, CNPJ nº 07.377.136/000164, com sede no Rio de Janeiro/RJ. Conforme esclarecimentos prestados pela impugnante, a BD Brasil adquiriu a integralidade das ações da Holding Belga, sendo 19,77% por meio do já referido aumento de capital e 80,23% (30.841 ações) por meio de um empréstimo concedido por sua própria sócia (Chesapeake). Esse empréstimo, no valor de R$759.247.300,00, teria a duração de 25 anos, com juros anuais de 13% ao ano: Fl. 7293DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.283 21 Da análise do “Contrato de Venda e Transferência de Ações”, firmado em 06/06/2012, entre Chesapeake (Vendedora) e BD Brasil (Compradora), temos que: Vendedora e compradora são sociedades subsidiárias indiretas da SBD e pertencem ao grupo sob o controlador comum das sociedades; Vendedora é acionista majoritária e detém 38.441 ou 99,995% das ações emitidas e em circulação da Holding Belga e também é acionista majoritária e detém 174.706.738 cotas ou 99,9995% da BD Brasil. Concluise, portanto, que a Chesapeake vendeu, indiretamente, seus ativos para si mesma, haja vista que é sócia majoritária da compradora. Em relação aos valores transacionados, foram apresentados os seguintes documentos: ∙ Contrato de Câmbio de compra nº 105338701, de 06/06/2012, tendo como pagador no exterior CHESAPEAKE, relativo a empréstimo direto a residentes no Brasil – longo prazo, ROF NR. TA618850, no valor de R$759.247.300,00; ∙ Contrato de Câmbio de compra nº 105336834, de 06/06/2012, tendo como pagador no exterior CHESAPEAKE, relativo a Investimentos diretos no Brasil – Aumento de Capital, RDE IED: IA092117, no valor de R$187.078.900,00; ∙ Contrato de Câmbio de venda nº 105339115, de 06/06/2012, relativo a remessa de recursos para investimento direto no exterior – participação em empresas, tendo como recebedor CHESAPEAKE, no valor de R$759.247.300,00; Fl. 7294DF CARF MF 22 ∙ Contrato de Câmbio de venda nº 105336833, de 06/06/2012, relativo a remessa de recursos para investimento direto no exterior – participação em empresas, tendo como recebedor CHESAPEAKE; no valor de R$187.078.900,00; ∙ Cópia do Registro de Operação Financeira no Sisbacen relativo ao empréstimo ROF NR.TA618850, objeto do contrato de câmbio 105338701, com data de 20/06/2012, 10:13h. Até o anocalendário de 2015, a BD Brasil deduziu as despesas com esses juros de seu lucro da seguinte maneira: R$ 56.246.704,08 em 2012, R$ 98.702.149,00 em 2013, R$ 98.702.149,00 em 2014 e R$ 98.702.149,00 em 2015. A Fiscalização clonsiderou essas despesas indedutíveis, não necessárias, pois a aquisição das ações da Holding Belga não seria necessária à atuação da impugnante, não caracterizando novo investimento ou empreendimento do Grupo Econômico. A reestruturação perpetrada pelo Grupo SBD, estaria camuflando um planejamento tributário que visaria exclusivamente à erosão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, mediante o endividamento abusivo realizado da forma descrita, e a expatriação de lucros sem a devida tributação. A BD Brasil, utilizando o texto legal como suporte (arts. 24 e 25 da MP 472/2009, convertida na Lei nº 12.249/2010), praticou atos isoladamente legais, com o intuito de se enquadrar na previsão legal e apropriar despesas consideradas dedutíveis nos parâmetros da mesma Lei. A Autoridade Autuante afirma, em tópico sobre o planejamento tributário e fraude fiscal, que a contribuinte tem o direito de se autoorganizar. Contudo, esse direito não é absoluto, encontrando o seu contraponto em um valor social no exercício desse direito, para que este não seja distorcido, observandose os princípios da capacidade contributiva e isonomia. Acrescenta ainda que no entendimento da melhor doutrina, o ordenamento jurídico não defenderia essas condutas meramente formais do contribuinte, desprovidas de conteúdo, de motivo/finalidade, praticadas com o inequívoco intuito de obter exclusiva vantagem tributária (de eximirse total ou parcialmente do pagamento de tributo), ou seja, sem nenhum motivo extra tributário. Em sua defesa, a impugnante afirma que: a fiscalização não aponta um dispositivo legal ou norma que tenha sido violado, além de não fazer qualquer esforço para demonstrar que o negócio jurídico realizado era desprovido de um motivo; a fiscalização quando olha somente a queda de arrecadação com os pagamentos de IRPJ e CSLL da Impugnante, como uma única foto, deixando de lado todo um filme que começa em 2010, com o objetivo da Impugnante e seus controlares de aumentar o investimento no Brasil. Se houve uma queda momentânea de arrecadação, foi em decorrência de fatores econômicos que implicaram lento ritmo de crescimento das vendas e crescimento dos custos dos insumos importados; Fl. 7295DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.284 23 a base de cálculo da CSLL está errada, e que, sendo um dos elementos essenciais do lançamento, tal erro deve resultar no cancelamento por violação ao art. 142 do CTN; o Grupo Stanley estabeleceu precisamente como meta aumentar a sua participação em mercados emergentes, com foco na América do Sul, particularmente no Brasil. Outro importante objetivo global era aumentar a capacidade de distribuição de dividendos para os seus acionistas: objetivando aprimorar sua plataforma de negócios, o Grupo Stanley deu início a um processo de reorganização societária, orientado para sua organização e simplificação, reduzindo assim custos desnecessários, decorrentes de estruturas infladas e pouco eficientes. No contexto deste processo, concluiuse que seria benéfico ao Grupo Stanley a consolidação das atividades desenvolvidas na América do Sul por meio da criação de uma holding regional; esta nova forma organizacional unificada poderia também propiciar o fortalecimento de seu perfil financeiro, em decorrência do aumento de seu patrimônio líquido, o que a colocaria numa posição privilegiada para negociar junto a instituições financeiras, aumentando consideravelmente sua capacidade de obter empréstimos. Isso propiciaria meios para a aquisição de empresas no território brasileiro (houve aquisição das empresas M. Hart do Brasil Ltda, Spiralock do Brasil Ltda, Newell Rubbermaid Brasil Ferramentas e Equipamentos Ltda e Irwin Industrial Tool Ferramentas do Brasil Ltda); estas aquisições após o ano de 2012 comprovam que a operação de aquisição de Holding Belga não foi unicamente para fins de redução de IRPJ e CSLL; não há preceito legal que obrigue o contribuinte a adotar a forma jurídica que lhe acarrete o maior ônus fiscal; A operação da Impugnante pode ser vista como uma forma de elisão fiscal, o que é permitido, porém jamais vista como simulação e muito menos como fraude, eis que evidente a existência de propósito negocial. Ademais, não há que falar que a Impugnante deveria ter escolhido outra forma de financiamento (unicamente através de aumento de capital) em sua reorganização societária, como quer a fiscalização, sob pena de violação aos princípios constitucionais da “livre iniciativa”, da “propriedade privada”, da “livre concorrência” e do “livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgão públicos”; a Impugnante observou todas as determinações legais para o registro do seu contrato de mútuo com a controladora no exterior, devidamente avaliado pelo Banco Central para o registro do contrato; despesas relacionadas a aquisições de empresas que se enquadram no objeto social da sua adquirente (i.e., investimentos em outras sociedades ou relacionadas ou complementares ao objeto social industrial da Impugnante) são despesas necessárias, pouco importando se são empresas do mesmo grupo econômico ou não; Fl. 7296DF CARF MF 24 diferentemente do caso julgado no Acórdão nº 910100287, os recursos financeiros, ainda que simbolicamente, ingressaram no país e depois foram remetidos para o exterior, para a aquisição das demais empresas do Grupo Stanley na América Latina; nos exercícios subsequentes a 2012 o aproveitamento da despesa dos juros do mútuo contratado com a controladora no exterior foi feito concomitantemente com a fiscalização da Receita Federal, razão pela qual não é possível que esta alegue a ocorrência de sonegação; também não há qualquer evidência de fraude, pois todos os atos declarados foram efetivamente realizados e declarados para os órgãos reguladores, não houve prejuízo para nenhum terceiro, pelo contrário, a Impugnante passou a ter maior capacidade financeira para a realização de outras compras no País, conforme demonstrado anteriormente; o conluio é absolutamente inaplicável ao caso, tendo em vista que não houve a reunião de duas ou mais pessoas para a redução do tributo supostamente devido, em primeiro lugar porque a única pessoa jurídica relacionada é a própria Impugnante, não há outra pessoa jurídica do Grupo Stanley com residência no Brasil que tenha sido apontada no Termo de Verificação Fiscal. Após o destaque dos pontos de maior relevância dos extensos textos apresentados, passemos agora a análise das divergências apontadas pela defesa. 3.2 – DOS DISPOSITIVOS LEGAIS UTILIZADOS PARA A AUTUAÇÃO E DA INDEDUTIBILIDADE DAS DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS. A empresa autuada deduziu as despesas com juros declarandoos nas DIPJ e ECF como “Juros Pagos Decorrentes de Empréstimos com Pessoas Vinculadas ou Situadas em País com Tributação Favorecida (Lei nº 12.249/2010, arts. 24 e 25)”. O art. 24 da Lei nº 12.249/2010 dispõe o seguinte: Art. 24. Sem prejuízo do disposto no art. 22 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à pessoa física ou jurídica, vinculada nos termos do art. 23 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, residente ou domiciliada no exterior, não constituída em país ou dependência com tributação favorecida ou sob regime fiscal privilegiado, somente serão dedutíveis, para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, quando se verifique constituírem despesa necessária à atividade, conforme definido pelo art. 47 da Lei no 4.506, de 30 de novembro de 1964, no período de apuração, atendendo aos seguintes requisitos: I no caso de endividamento com pessoa jurídica vinculada no exterior que tenha participação societária na pessoa jurídica residente no Brasil, o valor do endividamento com a pessoa vinculada no exterior, verificado por ocasião da apropriação dos juros, não seja superior a 2 (duas) vezes o valor da participação da vinculada no patrimônio líquido da pessoa jurídica residente no Brasil; II no caso de endividamento com pessoa jurídica vinculada no exterior que não tenha participação societária na pessoa jurídica residente no Brasil, o valor do endividamento com a pessoa vinculada no exterior, verificado por ocasião da Fl. 7297DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.285 25 apropriação dos juros, não seja superior a 2 (duas) vezes o valor do patrimônio líquido da pessoa jurídica residente no Brasil; III em qualquer dos casos previstos nos incisos I e II, o valor do somatório dos endividamentos com pessoas vinculadas no exterior, verificado por ocasião da apropriação dos juros, não seja superior a 2 (duas) vezes o valor do somatório das participações de todas as vinculadas no patrimônio líquido da pessoa jurídica residente no Brasil. § 1o Para efeito do cálculo do total de endividamento a que se refere o caput deste artigo, serão consideradas todas as formas e prazos de financiamento, independentemente de registro do contrato no Banco Central do Brasil. § 2o Aplicase o disposto neste artigo às operações de endividamento de pessoa jurídica residente ou domiciliada no Brasil em que o avalista, fiador, procurador ou qualquer interveniente for pessoa vinculada. § 3o Verificandose excesso em relação aos limites fixados nos incisos I a III do caput deste artigo, o valor dos juros relativos ao excedente será considerado despesa não necessária à atividade da empresa, conforme definido pelo art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964, e não dedutível para fins do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. § 4o Os valores do endividamento e da participação da vinculada no patrimônio líquido, a que se refere este artigo, serão apurados pela média ponderada mensal. § 5o O disposto no inciso III do caput deste artigo não se aplica no caso de endividamento exclusivamente com pessoas vinculadas no exterior que não tenham participação societária na pessoa jurídica residente no Brasil. § 6o Na hipótese a que se refere o § 5o deste artigo, o somatório dos valores de endividamento com todas as vinculadas sem participação no capital da entidade no Brasil, verificado por ocasião da apropriação dos juros, não poderá ser superior a 2 (duas) vezes o valor do patrimônio líquido da pessoa jurídica residente no Brasil. § 7o O disposto neste artigo não se aplica às operações de captação feitas no exterior por instituições de que trata o§ 1odo art. 22 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991, para recursos captados no exterior e utilizados em operações de repasse, nos termos definidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Em seu TVF, a Fiscalização demonstrou os dispositivos legais utilizados na análise da necessidade ou não de uma despesa. O conceito de despesas necessárias foi trazido pelo artigo 47, da Lei n° 4.506/64, e foi consolidado no RIR/99, Decreto n° 3.000/99, como abaixo transcrito: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei n"4.506, de 1964, art. 47) Fl. 7298DF CARF MF 26 § I o São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei n° 4.506, de 1964, art. 47, § 1°). § 2o As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei n" 4.506, de 1964, art. 47, § 2º) (...) Despesas operacionais dedutíveis na apuração do lucro real são aquelas que, pela previsão legal, enquadramse na observância de que os gastos efetuados sejam estritamente necessários à atividade da pessoa jurídica, sendo, portanto, usuais, normais e compatíveis com o tipo de transação, operação, ou atividade produtora e geradora de receita. Para as despesas financeiras serem consideradas dedutíveis, devem ser necessárias para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Por meio do Parecer Normativo – CST nº 32/81, a Receita Federal do Brasil detalhou o seu entendimento sobre a necessidade das despesas, consignando que “o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras dos rendimentos”. Ao tratar de despesa normal, o parecer normativo afirma que “é aquela que se verifica comumente no tipo de operação ou transação efetuada e que, na realização do negócio, se apresenta de forma usual, costumeira ou ordinária. O requisito de usualidade deve ser interpretado na acepção de habitualidade na mesma espécie de negócio”. A Autoridade Fiscal cita ainda o art. 374 do RIR/99, que traria outras condições para que os juros pagos possam ser considerados como despesa: Art.374.Os juros pagos ou incorridos pelo contribuinte são dedutíveis, como custo ou despesa operacional, observadas as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 17, parágrafo único): Ios juros pagos antecipadamente, os descontos de títulos de crédito, e o deságio concedido na colocação de debêntures ou títulos de crédito deverão ser apropriados,pro rata temporis,nos períodos de apuração a que competirem; IIos juros de empréstimos contraídos para financiar a aquisição ou construção de bens do ativo permanente, incorridos durante as fases de construção e préoperacional, podem ser registrados no ativo diferido, para serem amortizados. Parágrafo único. Não serão dedutíveis na determinação do lucro real, os juros, pagos ou creditados a empresas controladas ou coligadas, domiciliadas no exterior, relativos a empréstimos contraídos, quando, no balanço da coligada ou controlada, constar a existência de lucros não disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil (Lei nº 9.532, de 1997, art. 1º, §3º). Combinando os transcritos dispositivos legais, os juros pagos ou incorridos são dedutíveis, como despesa operacional, desde que necessários (art. 299 do RIR/1999) e atendam às normas específicas (art. 374 do RIR/1999). Fl. 7299DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.286 27 Também transcreveu o texto contendo a exposição de motivos dos arts. 24 e 25 da MP 472/2009, convertida na Lei nº 12.249/2010: “29. O art. 24 visa evitar a erosão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL mediante o endividamento abusivo realizado da seguinte forma: a pessoa jurídica domiciliada no exterior, ao constituir subsidiária no País, efetua uma capitalização de valor irrisório, substituindo o capital social necessário à sua constituição e atuação por um empréstimo, que gera, artificialmente, juros que reduzem os resultados da subsidiária brasileira. 29.1. A dedução desses juros da base de cálculo do IRPJ (alíquota de 15% mais adicional de 10%) e da CSLL (alíquota de 9%) gera uma economia tributária de 34% do seu valor. Mesmo considerando que as remessas para pagamento de juros são tributadas pelo Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF) à alíquota de 15%, resta uma economia tributária de 19%. 29.2. A medida torna os juros considerados excessivos indedutíveis, segundo critérios e parâmetros legais. O objetivo é controlar o endividamento abusivo junto a pessoa vinculada no exterior, efetuado exclusivamente para fins fiscais 30. O art. 25 segue o mesmo princípio do art. 24, entretanto, é aplicado na hipótese de a pessoa jurídica domiciliada no Brasil contrair empréstimos com pessoa jurídica domiciliada em país ou dependência com tributação favorecida, ou que goze de regime fiscal privilegiado. Da mesma forma, esses empréstimos geram juros que reduzem, artificialmente, o resultado tributável no Brasil e, ao mesmo tempo, geram lucros que não serão tributados de maneira representativa no exterior. A medida restringe a dedutibilidade das despesas de juros de pessoas jurídicas residentes no Brasil quando pagos a entidades "offshore", independentemente de vínculo societário.” Concluise que essa lei veio impor limites a uma determinada forma abusiva de endividamento, perpetrada para reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Os juros pagos ou creditados decorrentes de empréstimos entre empresas vinculadas devem ser necessários à atividade e respeitar limites em relação ao patrimônio líquido da empresa no Brasil para serem dedutíveis. A Autoridade Fiscal conclui que a impugnante criou outra modalidade de endividamento abusivo e que o investimento realizado pela contribuinte BLACK & DECKER DO BRASIL LTDA não foi necessário à sua atuação, não caracterizando portanto, novo investimento ou empreendimento do Grupo Econômico. Tal reestruturação estaria camuflando um planejamento tributário que visa exclusivamente à erosão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e a expatriação de lucros sem a devida tributação. A Fiscalização também trouxe um acórdão da Câmara Superior de Recursos Fiscais do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – Carf, que considerou como desnecessárias as despesas de juros e variações cambiais relativas a empréstimo de sócia em detrimento à integralização de capital: DESPESAS NAO NECESSÁRIAS. Caracterizamse como desnecessárias e, portanto, indedutiveis do Lucro Real, as despesas de juros e variações cambiais relativas a empréstimo efetuado por meio de um contrato de mútuo, em que a mutuante é sóciaquotista que detém 99,99% do capital social da mutuaria e dispunha de Fl. 7300DF CARF MF 28 recursos para integralizar o capital. (Acórdão n° 910100.287 — 1ª Turma, Sessão de 24 de agosto de 2009) A defesa aponta algumas diferenças entre a decisão listada pela Fiscalização e o caso em análise. Mesmo com as especificidades de cada caso, a conclusão de que as despesas com juros entre empresas de um mesmo grupo econômico são desnecessárias quando realizadas em detrimento à integralização de capital é ponto comum nas duas situações. Embora a Fiscalização tenha feito algumas alegações sobre o objeto social da Chesapeake e sua sede, a utilização de empresas veículo e o valor das empresas reorganizadas e a impugnante tenha destacado o cumprimento dos aspectos legais do contrato de mútuo e das outras operações relacionadas à reestruturação, vale frisar que o cerne do debate é a análise sobre a necessidade ou não das despesas com juros decorrentes de empréstimo entre empresas que fazem parte do mesmo grupo econômico. Com a exposição dos dispositivos legais relacionados, passemos então à apreciação da questão. 3.3 – DA AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL DAS DESPESAS COM JUROS. A análise dos fatos narrados pela Fiscalização nos permite concluir que a transferência da Holding Belga da Chesapeake para a impugnante se tratou de mera organização societária do grupo Stanley. Não houve qualquer aquisição ou movimentação financeira externa a esse grupo. Por esse motivo, a Fiscalização acertadamente afirmou que a aquisição da Holding Belga não caracterizou novo investimento ou empreendimento do grupo econômico. Também fez questão de frisar que as empresas têm o direito de se auto organizar, mas essa liberdade no exercício desse direito não seria absoluta. Afinal, a geração artificial de juros por meio da reorganização de sociedades dentro de um grupo econômico tornaria essas despesas com juros usuais, necessárias e dedutíveis? A impugnante, no intuito de comprovar que as operações tiveram propósito negocial, descreve o interesse do grupo em reorganizar suas empresas e investir em mercados emergentes, e que tal aquisição pela impugnante propiciou meios para a aquisição de empresas no território brasileiro. Acrescenta que não há preceito legal que a obrigue a adotar a forma jurídica que lhe acarrete o maior ônus fiscal. No entanto, mesmo respeitando e reconhecendo o direito do grupo Stanley de proceder às reestruturações internas na forma que bem entender, respeitando os preceitos legais, não é aceitável e muito menos racional que mera reorganização crie despesas que reduzam o lucro da empresa e, conseqüentemente, os tributos a pagar. Como bem disse a Fiscalização no TVF, liberalidade não se confunde com necessidade. Não se trata de adotar a forma jurídica que acarreta o maior ônus fiscal. Pelo contrário, tratase de impedir a redução indevida da base tributária. Fl. 7301DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.287 29 Não se pode admitir a criação de despesas dedutíveis em virtude de operações sem nenhum propósito negocial. Vale lembrar que, atualmente, o Código Civil, no seu art. 187, veda o abuso de direito, nos seguintes termos: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes. Nesse sentido, a falta de propósito negocial macula os negócios jurídicos, notadamente nos planejamentos tributários feitos unicamente no intuito de obter vantagens fiscais, como abusivos dos direitos, o que é, hodiernamente, ato ilícito, implicando evasão fiscal, e não elisão. Mais ainda, os negócios jurídicos pactuados com abuso de direito ferem o princípio constitucional da capacidade contributiva, o que afeta a justiça fiscal. Em seu Relatório Fiscal, a Fiscalização já havia destacado a ilicitude e a configuração do abuso de direito das operações em análise, citando a posição da doutrina. Segue abaixo parte dessas citações: HERMES MARCELO HUCK, “Evasão e Elisão: Rotas Nacionais e Internacionais do Planejamento Tributário. São Paulo: Saraiva, 1997”, p. 328/329 e 331: Nada deve impedir o indivíduo de, dentro dos limites da lei, planejar adequadamente seus negócios, ordenandoos de forma a pagar menos impostos. Não lhe proíbe a lei, nem tampouco se lhe opõem razões de ordem social ou patriótica. Entretanto, essa fórmula de liberdade não pode ser levada ao paroxismo, permitindose a simulação ou o abuso de direito. A elisão abusiva deve ser coibida, pois o uso de formas jurídicas com a única finalidade de fugir ao imposto ofende a um sistema criado sobre as bases constitucionais da capacidade contributiva e da isonomia tributária. ... uma relação jurídica sem qualquer objetivo econômico, cuja única finalidade seja de natureza tributária, não pode ser considerada como comportamento lícito. Seria fechar os olhos à realidade e desconsiderar a presença do fato econômico na racionalidade da norma tributária. Uma interpretação jurídica atenta à realidade econômica subjacente ao fato ou negócio jurídico, para efeitos de tributação, é a resposta justa, equitativa e pragmática. Nesse ponto, é da maior utilidade a análise do business pourpose test do direito tributário norteamericano, que aceita como lícita a economia fiscal quando decorrente de uma formulação jurídica que, além da economia de imposto, tenha um objetivo negocial explícito. (...) Países definitivamente comprometidos com as liberdades individuais, como os Estados Unidos e a França, não toleram a elisão abusiva, reprimindoa severamente. Espanha e Alemanha editaram normas genéricas, que autorizam ao Estado desconsiderar a forma jurídica para ir buscar o objetivo econômico do ato ou negócio e, se for o caso, sujeitálo à tributação. Nem abuso de direito pelo contribuinte nem abuso de poder pelo Fisco é a resposta moderna que oferece o direito comparado. ” Fl. 7302DF CARF MF 30 MARY ELBE QUEIROZ (“O Planejamento Tributário: Procedimentos Lícitos, o Abuso, A Fraude e a Simulação. ”, estudo de pósdoutoramento publicado no livro Novos Horizontes da Tributação, Um Diálogo Luso Brasileiro): O comportamento dos particulares somente estará ao arrepio da lei e será rejeitado e considerado como infringente de normas tributárias se existir uma deformação, uma atipicidade ou anormalidade na forma jurídica e na respectiva exteriorização sob, a qual a conduta se apresenta, mesmo que ela se revista de licitude no tocante ao Direito Privado, ou quando não houver correspondência entre a forma e a substância, ou o seu conteúdo fático real, ou, ainda, quando houver manipulação do fato gerador que resulte em distorções de efeitos tributários. [...]. Não se encontram alcançados pelo conceito de planejamento tributário os comportamentos que tenham na sua configuração qualquer nota ou elemento que revele artifício, manobra ou subterfúgio que resultem na manipulação de negócios ou mesmo que, apesar de revestidos de aparência lícita, no seu âmago contenham intenções comprovadas de fraudar, evitar ou disfarçar a ocorrência do verdadeiro fato gerador e o nascimento da obrigação tributária. Posicionamento do conselheiro MÁRIO JUNQUEIRA FRANCO JÚNIOR no Acórdão nº 10196.087, sessão em 29/03/2007: Já defendi esta posição no Acórdão 10194.741, no qual destaquei: O ordenamento jurídico tem suas bases muito mais ligadas a interpretações sistemáticas e finalísticas, a ensejar um conjunto sustentado em cena axiologia, ainda que mutável no tempo, do que a restritivas interpretações literais, que insistem em produzir a falácia de que tudo deve estar minuciosamente escrito, como se a tanto o ser humano fosse capaz. Tais interpretações restritivas, que se apoiam, indevidamente, no dito princípio da legalidade estrita e da segurança jurídica, levando ambos ao extremo e deturpando seu conteúdo, apenas fazem sucumbir, como num passe de mágica, a verdadeira capacidade contributiva, e eliminam, com ares de juridicidade, um dever de contribuir, inerente ao convívio em sociedade. Para que seja lícita a economia fiscal decorrente de um conjunto de atos os mesmos devem possuir conteúdo próprio, com riscos assumidos inerentes aos institutos adotados, e propósito diverso de simplesmente driblar a aplicação de norma tributária impositiva, conforme nos ensina ONOFRE ALVES BATISTA JÚNIOR, in O Planejamento Fiscal e a Interpretação no Direito Tributário, ed. Mandamentos, p.69: Com relação ao investimento em mercados emergentes e aquisição de outras empresas, não foi possível perceber qualquer correlação de tais interesses com a operação que gerou as despesas com juros. O grupo Stanley poderia realizar esses investimentos e aquisições sem qualquer modificação da estrutura das empresas que já faziam parte do grupo. Em adição, não houve aporte algum no caixa da BD Brasil. A transferência da Holding Belga resultou em 4 contratos de câmbio: 2 em que a Chesapeake enviou à impugnante os valores relativos ao aumento de capital (19,77% R$ 187.078.900,00) e ao empréstimo (80,23% R$759.247.300,00) e outros 2 pelos quais a BD Brasil devolveu os mesmos valores a sua sócia (Chesapeake), pela venda da Holding Belga. Isso no mesmo dia! A própria impugnante afirma que não houve desembolso ou reembolso em dinheiro, que os contratos de câmbio foram firmados para atender normas Fl. 7303DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.288 31 regulamentares do Bacen e que o ingresso e reenvio dos recursos financeiros foram simbólicos. E ainda: mesmo se houvesse qualquer interesse em se transferir a Holding Belga e todas as empresas sulamericanas sob seu comando para a BD Brasil, o empréstimo em si, que não resultou em efetivo fluxo financeiro e não foi utilizado em qualquer operação fora do grupo econômico, não tinha nenhum propósito senão a criação de despesas com juros para tentar reduzir indevidamente a tributação. Ou seja, havia meios de se estabelecer tal reestruturação (pela integralização de capital, por exemplo) sem afetar, de forma artificial, a apuração do lucro da BD Brasil. A impugnante e o grupo Stanley o qual ela faz parte, contudo, escolheram um Processo 10600.720019/201717 caminho pelo qual os juros foram, de forma desnecessária, criados e deduzidos como despesas na apuração do lucro. Como já foi dito, o grupo do qual a impugnante faz parte tem o direito de se reestruturar, mas os meios escolhidos para concretizar essa reestruturação não têm o condão de tornar necessários os juros criados entre empresas do grupo econômico advindos de um empréstimo sem qualquer finalidade. Fica claro, pelo exposto, que não restou demonstrada a necessidade de se efetuar a aquisição da Holding Belga pela impugnante por meio desse empréstimo. Concluise, portanto, que os juros decorrentes do empréstimo realizado da Chesapeake para a impugnante nas operações de reestruturação do grupo Stanley não são dedutíveis, por serem desnecessários. 3.4 DOS EFEITOS DAS JURISPRUDÊNCIAS ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. A impugnante traz, em diversas partes de sua defesa, julgados da esfera administrativa e judicial para fundamentar seus argumentos. Em relação às decisões administrativas proferidas pelos Conselhos de Contribuintes e pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, inseridas pela impugnante no contexto de sua defesa, cumpre ressaltar que são improfícuas as jurisprudências administrativas ora apresentadas, tendo em conta a ausência de base legal que atribua aos acórdãos, proferidos pelos órgãos de julgamento, a devida eficácia normativa, não se constituindo em normas complementares do Direito Tributário, nos termos do art. 100, inciso II, do CTN. Portanto, depreendese que não são passíveis de serem estendidos genericamente ao caso concreto, eis que são estritamente aplicáveis ao contencioso administrativo dos processos administrativos relacionados aos referidos acórdãos e tão somente se vinculam aos fatos e as partes envolvidas naqueles litígios. Sob este aspecto, o Parecer Normativo CST nº 390, de 1971, já se manifestou com relação a esse assunto, nos seguintes termos: “3. Necessário esclarecer, na espécie, que, embora o Código Tributário Nacional, em seu art. 100, inciso II, inclua as decisões de órgãos colegiados Fl. 7304DF CARF MF 32 na relação das normas complementares à legislação tributária, tal inclusão é subordinada à existência de lei que atribua a essas decisões eficácia normativa. Inexistindo, entretanto, até o presente, lei que confira a efetividade de regra geral às decisões dos Conselhos de Contribuintes, a eficácia de seus acórdãos limitase especificamente ao caso julgado e às partes inseridas no processo de que resultou a decisão. 4. Entendase aí que, não se constituindo em norma geral a decisão em processo fiscal proferida por Conselho de Contribuintes, não aproveitará seu acórdão em relação a qualquer outra ocorrência se não aquela objeto da decisão, ainda que de idêntica natureza, seja ou não interessado na nova relação o contribuinte parte no processo de que decorreu a decisão daquele colegiado.” No que concerne às jurisprudências judiciais prolatadas pelos Tribunais Superiores, também reportados pela contribuinte na íntegra de sua impugnação, cumpre esclarecer que, nos termos do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06/03/1972, cabe aos órgão de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, nos casos listados no §6º do referido artigo: Art. 26A.No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo:(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal;(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de:(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no10.522, de 19 de julho de 2002;(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no73, de 10 de fevereiro de 1993; ou(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma doart. 40 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993.(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Assim sendo, não estando enquadradas nesta hipótese, as sentenças judiciais só produzem efeitos em relação às matérias e às partes envolvidas na lide, não se aplicando a terceiros, nos moldes do art. 472 do CPC. Fl. 7305DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.289 33 Nesse sentido, impõese não conhecer os julgados mencionados no desenvolvimento da impugnação, visto que a contribuinte não figura nas respectivas lides como parte interessada. 3.5 DA INDEDUTIBILIDADE DAS DESPESAS NÃO NECESSÁRIAS DA BASE DE CÁLCULO DA CSLL. A Impugnante, citando a jurisprudência, defende que “a legislação sobre os critérios de despesa dedutível para IRPJ não se aplica para a referida contribuição”. Entretanto, concluímos de maneira diversa. A CSLL é originalmente prevista pela Lei nº 7.689/88 que, em seu artigo 2º, estabelece que a base de cálculo da contribuição será o resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda: Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: a)será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; O comando acima aproxima a estrutura da CSLL à do IRPJ, tema bastante discutido desde a criação da contribuição e que, de forma majoritária, tem receptividade na doutrina e na jurisprudência dos tribunais superiores. Na esteira de tais manifestações não podemos olvidar, ainda no plano normativo, o comando exarado pelo artigo 57 da Lei n. 8.891/95, com a redação dada pela Lei n. 9.065/95: Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (grifamos) A leitura do dispositivo nos leva a concluir que a metodologia e as regras de apuração para o imposto de renda são aplicáveis ao cálculo da CSLL (o que se infere da dicção "mesmas normas de apuração") e que o preceptivo só perderia eficácia se houvesse norma específica, relativa à contribuição, em sentido diverso. Aliás, os demais parágrafos do artigo 57 corroboram a tese de semelhança entre as duas figuras: § 3º A pessoa jurídica que determinar o Imposto de Renda a ser pago em cada mês com base no lucro real (art. 35), deverá efetuar o pagamento da contribuição social sobre o lucro, calculandoa com base no lucro líquido ajustado apurado em cada mês. Fl. 7306DF CARF MF 34 § 4º No caso de pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, a contribuição determinada na forma dos §§ 1º a 3º será deduzida da contribuição apurada no encerramento do período de apuração. Igual raciocínio se aplica, ainda, para fins de compensação, conforme dispõe o artigo 58 do mesmo diploma legal: Art. 58. Para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, o lucro líquido ajustado poderá ser reduzido por compensação da base de cálculo negativa, apurada em períodosbase anteriores em, no máximo, trinta por cento. Além de fixar idêntica trava para a compensação das bases negativas (em relação ao IRPJ), o comando expressamente menciona que a base de cálculo será o lucro líquido ajustado, ou seja, o legislador estabelece para a CSLL o mesmo ponto de partida previsto para o cálculo do lucro real, afinal o lucro é "ajustado" pelas adições e exclusões previstas na legislação do Imposto de Renda (artigos 250 e 510 do Decreto n. 3.000/99). A regra veiculada pelo artigo 28 da Lei nº 9.430/96 também fortalece a semelhança das bases de cálculo do IRPJ e CSLL. O citado dispositivo legal evidencia o sentido amplo do termo “normas de apuração” do artigo 57 da Lei nº 8.891/95 quando relaciona ao termo “apuração da base de cálculo” a aplicação de regras de dedutibilidade (o art. 22, por exemplo, se refere à dedutibilidade de juros pagos a pessoas vinculadas), não sendo correto, portanto, afirmar que apuração se resume apenas à sistemática de tributação: Art. 28. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24B, 26, 55 e 71. (Redação dada pela Lei nº 12.715, de 2012) Ao contrário do entendimento exposado pela impugnante, o art. 28 não precisaria explicitamente incluir o dispositivo que prevê a dedutibilidade de despesas na forma do art. 299 do RIR/99, tendo em vista que o art. 57 da Lei nº 8.891/95 já o havia incluído. Por ser norma posterior, o art. 28 simplesmente convalidou a regra até então vigente (“Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente”) e especificou, para os dispositivos que surgiram com a nova lei, os artigos que teriam aplicação para os dois tributos. Convém ainda salientar que o artigo 24 da Lei nº 12.249/2010, dispositivo legal utilizado pela empresa para a dedução dos juros, é bem claro ao expor que apenas as despesas de juros necessárias à atividade serão dedutíveis da base de cálculo da CSLL: O art. 24 da Lei nº 12.249/2010 dispõe o seguinte: Art. 24. Sem prejuízo do disposto no art. 22 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996,os juros pagos ou creditados por fonte situada no Brasil à pessoa física ou jurídica, vinculada nos termos do art. 23 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, residente ou domiciliada no exterior, não constituída em país ou dependência com tributação favorecida ou sob regime fiscal privilegiado, somente serão dedutíveis, para Fl. 7307DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.290 35 fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, quando se verifique constituírem despesa necessária à atividade, conforme definido pelo art. 47 da Lei no4.506, de 30 de novembro de 1964, no período de apuração, atendendo aos seguintes requisitos: (...) Reforçase ainda, conforme já dito nesse acórdão, as manifestações dos antigos Conselhos de Contribuintes, bem como do atual CARF, não vinculam o julgador administrativo. Deste modo, tendo em conta que o lançamento de CSLL decorre dos mesmos fatos que ensejaram a autuação de IRPJ, impõese a adoção da mesma orientação decisória, mantendose integralmente o lançamento. 3.6 BASE DE CÁLCULO DA CSLL. VALOR DIVERGENTE DO TVF NA APURAÇÃO. AJUSTE DEVIDO. A impugnante requer o ajuste da base de cálculo da CSLL para o ano calendário de 2015, tendo em vista que o valor tributável correto era de R$ 98.702.149,00. Após a compensação com a base de cálculo negativa existente para o período, o valor tributável seria de R$ 51.118.779,47 e não de R$ 149.820.928,44. Comparandose a base de cálculo indicada pela Autoridade Autuante no TVF (fl. 150) com a indicada nos cálculos do Auto de Infração da CSLL, verificamos que assiste razão à impugnante: TVF: Fl. 7308DF CARF MF 36 Embora a Autoridade Autuante tenha informado o montante de R$ 98.702.149,00 como a base de cálculo para o anocalendário de 2015, inclusive no texto do próprio Auto de Infração, esse valor foi indevidamente considerado duas vezes no cálculo do imposto devido (2x 98.702.149,00 = R$ 197.404.298,00). Tendo em vista que houve mero erro de cálculo, o valor tributável da CSLL deve ser ajustado para que coincida com os valores apurados pela Fiscalização. A planilha contendo os ajustes efetuados será apresentada no final desse acórdão. 3.7 DA MULTA QUALIFICADA O lançamento impôs a sanção prevista no art. 44, inciso I, c/c o § 1º, da Lei nº 9.430, de 1996, segundo o qual, nos lançamentos de ofício, será aplicada multa de 75%, que será duplicada para 150%, nos casos de evidente intuito de fraude, sonegação e conluio, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30/11/1964: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei no 11.488, de 15 de junho de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de Fl. 7309DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.291 37 declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei no 11.488, de 15 de junho de 2007) (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei no 11.488, de 15 de junho de 2007).” (Grifos acrescentados) Lei 4.502, de 1964: Art . 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Fundamentalmente, entendeu a Fiscalização que “o ordenamento jurídico repele a adoção de condutas ilícitas dos contribuintes o que não significa que não assista direito ao contribuinte de autoorganizar suas atividades. Por certo tal direito existe, contudo, não é ilimitado sob o escudo do princípio da legalidade ou tipicidade fechada, há de ser mitigado pelos princípios da capacidade contributiva e isonomia, sem se olvidar da solidariedade social a ser observada na hodierna concepção de Estado.” Acrescenta também que “De todo o exposto ao longo deste Relatório Fiscal, instruído com o conjunto probatório, não restando dúvidas, quanto à intenção deliberada em se cometer, em tese, os ilícitos tributários acima tipificados; pelo que, sob prática dolosa, promovera e fizera uso da reestruturação perpetrada pelo Grupo SBD, na verdade camufla um planejamento tributário que visa à erosão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL mediante o endividamento abusivo realizado da forma descrita, e a expatriação de lucros sem a devida tributação”. A impugnante se defende, argumentando que não houve qualquer tipo de abuso de direito por parte da Impugnante a justificar a imposição de multa agravada. Fl. 7310DF CARF MF 38 Ficou evidente que a reestruturação e compra da Holding Belga pela BD Brasil por meio de empréstimo foi motivada simplesmente pela economia tributária. Já foram tecidos todos os argumentos sobre a falta de propósito negocial dos juros e do empréstimo concedido e da caracterização do abuso de direito no tópico 3.3 desse acórdão. Não fosse a ação fiscal, os atos sem propósito negocial que caracterizaram o abuso de direito e visaram a omitir a correta apuração dos fatos geradores não teriam chegado ao conhecimento da administração tributária. É evidente que as práticas descritas visaram a impedir o conhecimento dos fatos geradores e a modificar as suas características essenciais, e que elas são suficientes para manter a qualificação da penalidade imposta no presente lançamento. No presente caso, a Fiscalização evidenciou satisfatoriamente a conduta dolosa do contribuinte, caracterizadora de fraude e sonegação, quando demonstrou que a aquisição da Holding Belga pela impugnante por meio de um empréstimo, tudo isso em operações dentro do mesmo grupo econômico, só ocorreu por um único motivo: criar um subterfúgio para a geração de juros no intuito de reduzir, de forma indevida, a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. As operações perpetradas pela impugnante com a única finalidade de fugir ao imposto caracterizaram a elisão abusiva, ofendendo às bases constitucionais da capacidade contributiva e da isonomia tributária, caracterizando comportamento ilícito. Portanto, é procedente, no caso vertente, a aplicação da multa qualificada, no percentual de 150%. 3.8 SOLICITAÇÃO DE JUNTADA DE DOCUMENTOS A POSTERIORI A impugnante protesta pela posterior juntada de documentos e laudos que não puderam ser juntados no lapso temporal para a apresentação da presente Impugnação, tendo em vista que parte deles estaria no exterior e necessitaria de tradução juramentada. Cumpre observar que, de acordo com o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, a prova documental deve ser entregue na impugnação: Art. 16 (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que:(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) b) refirase a fato ou a direito superveniente;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) Fl. 7311DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.292 39 c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos.(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) Quanto aos documentos apresentados intempestivamente (notas fiscais de aquisição de equipamento adquiridos e traduções juramentadas registradas em cartório), constatase que não trariam qualquer informação relevante a ponto de modificar o presente voto. Pelo exposto, não merece ser acatado o pedido da impugnante. 4 DA CONCLUSÃO Ante o exposto e o contido nos autos, voto no sentido de considerar PROCEDENTE EM PARTE a IMPUGNAÇÃO, para: REJEITAR as preliminares de nulidade invocadas pela defesa. MANTER, integralmente, a exigência do IRPJ, acrescida de multa de ofício e dos juros de mora cabíveis. MANTER, parcialmente, a exigência da CSLL, conforme tabela apresentada a seguir, acrescida de multa de ofício e dos juros de mora cabíveis. Da análise da decisão recorrida, com exceção da parte relativa à qualificação da multa, entendo que a mesma não merece reparos. Como já me referi, em que pese a sustentação fática do TVF se firme em indícios e conclusões de inexistência de propósito negocial, abuso de direito e simulação, nenhuma das operações societárias foram desconsideradas. Fl. 7312DF CARF MF 40 A personalidade jurídica de cada empresa envolvida na reestruturação foi mantida e respeitada, resumindose o debate à necessidade ou não das despesas financeiras, isso para se concluir acerca da sua dedutibilidade da BC do IRPJ e CSLL. Já me manifestei diversas vezes sobre a impossibilidade de ingerência do Fisco na administração e decisões gerenciais dos contribuintes. Entendo que, no caso concreto, poderia a Recorrente efetuar a operação de reestruturação da forma que entendesse correta, desde que lícita. E assim o fez. O fato de ter efetuado um empréstimo da Controladora para a controlada não é ilegal ou vedado por lei. Pelo contrário, há expresso permissivo legal. Entretanto, isso não impede que o Fisco avalie a usualidade, normalidade e necessidade da referida despesa para delimitar seus efeitos tributários. Em outras palavras, entendo que poderia a Recorrente ter contraído empréstimos nos montantes que bem entendesse perante sua controladora. Tratase de decisão negocial que não me cabe analisar ou aprovar. Entretanto, a possibilidade de deduzir as despesas financeiras passa pela necessidade de se avaliar os demais requisitos para sua dedutibilidade. Entretanto, a análise perpetrada pela fiscalização e DRJ acerca da ausência de propósito negocial da operação, pode servir de subsídios e embasamento para análise acerca da efetiva necessidade da despesa. A necessidade de usualidade, normalidade e necessidade foi trazido pelo artigo 47, da Lei n° 4.506/64, e foi consolidado no RIR/99, Decreto n° 3.000/99, como abaixo transcrito: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei n"4.506, de 1964, art. 47) § I o São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei n° 4.506, de 1964, art. 47, § 1°). § 2o As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei n" 4.506, de 1964, art. 47, § 2º) As despesas operacionais dedutíveis na apuração do lucro real são aquelas que, pela previsão legal, enquadramse na observância de que os gastos efetuados sejam estritamente necessários à atividade da pessoa jurídica, sendo, portanto, usuais, normais e compatíveis com o tipo de transação, operação, ou atividade produtora e geradora de receita. Para as despesas financeiras serem consideradas dedutíveis, devem ser necessárias para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Por meio do Parecer Normativo – CST nº 32/81, a Receita Federal do Brasil detalhou o seu entendimento sobre a necessidade das despesas, consignando que “o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras dos rendimentos”. Fl. 7313DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.293 41 Ao tratar de despesa normal, o parecer normativo afirma que “é aquela que se verifica comumente no tipo de operação ou transação efetuada e que, na realização do negócio, se apresenta de forma usual, costumeira ou ordinária. O requisito de usualidade deve ser interpretado na acepção de habitualidade na mesma espécie de negócio”. Embora a tentativa do próprio Parecer Normativo de objetivar tais conceitos, não posso negar que sua definição objetiva é tarefa de difícil realização, isto porque, sempre haverá a necessidade de se avaliar, caso a caso, a situação fática. E no caso concreto, em que pese entenda que a opção adotada pela Recorrente é legal, não posso deixar de concluir que, diante da situação fática e todo o contexto da reestruturação, a despesa financeira não atende ao requisito da necessidade para fins de permissão de sua dedutibilidade. Como bem assinalado na decisão recorrida, o grupo Stanley poderia realizar esses investimentos e aquisições sem qualquer modificação da estrutura das empresas que já faziam parte do grupo. Em adição, não houve aporte algum no caixa da BD Brasil. A transferência da Holding Belga resultou em 4 contratos de câmbio: 2 em que a Chesapeake enviou à impugnante os valores relativos ao aumento de capital (19,77% R$ 187.078.900,00) e ao empréstimo (80,23% R$759.247.300,00) e outros 2 pelos quais a BD Brasil devolveu os mesmos valores a sua sócia (Chesapeake), pela venda da Holding Belga. Isso no mesmo dia! A Recorrente confirmou que não houve desembolso ou reembolso em dinheiro, que os contratos de câmbio foram firmados para atender normas regulamentares do Bacen e que o ingresso e reenvio dos recursos financeiros foram simbólicos. E ainda: mesmo se houvesse qualquer interesse em se transferir a Holding Belga e todas as empresas sulamericanas sob seu comando para a BD Brasil, o empréstimo em si, não resultou em efetivo fluxo financeiro e não foi utilizado em qualquer operação fora do grupo econômico. Ademais, haviam meios de se estabelecer tal reestruturação (pela integralização de capital, por exemplo) sem afetar, de forma artificial, a apuração do lucro da BD Brasil. Não se está aqui a exigir que, diante de 2 caminhos possíveis a contribuinte seja obrigada a adotar o mais custoso. Não é isso que defendo. Ocorre que, no caso concreto, diante da falta de usualidade e normalidade de se efetuar um empréstimo de tal monta para que uma controlada adquira outra controlada da mesma controladora, e em havendo outras formas não onerosas de se obter o mesmo resultado, não há como se classificar tal despesa como necessária para fins de permitir sua dedução da base de cálculo tributável. Digase ainda, que o próprio acordo de acionistas permitiu que a aquisição fosse feita por incorporação ou integralização de ações, e diversas operações feitas no âmbito da reestruturação societária do grupo foram feitas dessa forma. Desta feita, a opção pelo empréstimo não era necessária. Como já foi dito, o grupo do qual a Recorrente faz parte tem o direito de se reestruturar, mas os meios escolhidos para concretizar essa reestruturação não têm o condão de Fl. 7314DF CARF MF 42 tornar necessários os juros criados entre empresas do grupo econômico advindos de um empréstimo que seria dispensável. Assim, não vejo como divergir das conclusões da autoridade fiscal e DRJ ao entender que não sendo tais despesas necessárias, a glosa deve ser mantida. Em razão disso, voto pelo não provimento do Recurso Voluntário propondo a manutenção da decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos quanto às preliminares e o mérito recursal. Entretanto, divirjo da decisão recorrida quanto à qualificação da multa e a indedutibilidade das despesas da base da CSLL. Necessário se faz verificar a definição da base de cálculo da CSLL através da análise das expressas disposições do art. 2 da Lei 7.689/88, que, ao instituíla, assim especificamente destacou: Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: (...) c) O resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) pelo valor de patrimônio líquido; (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) 1 adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) 2 adição do valor de reserva de reavaliação, baixada durante o períodobase, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do períodobase; (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) 3 adição do valor das provisões não dedutíveis da determinação do lucro real, exceto a provisão para o Imposto de Renda; (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) 4 exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; (Redação dada pela Lei n 8.034, de 1990) 5 exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita; (Incluído pela Lei n 8.034, de 1990) 6 exclusão do valor, corrigido monetariamente, das provisões adicionadas na forma do item 3, que tenham sido baixadas no curso de períodobase. (Incluído pela Lei n 8.034, de 1990) As disposições contidas no caput do Art. 57 da Lei 8.981/95, por sua vez, especificamente destacou: Fl. 7315DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.294 43 Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei n 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38,mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei n 9.065, de 1995) Ora, conforme se verifica da leitura dessas disposições, o mencionado art. 57 da Lei 8.981/95 não autoriza, de forma alguma, a aplicação indiscriminada das disposições regentes do Imposto de Renda na verificação dos contornos de incidência da CSLL, mas preserva, expressamente, os ditames próprios da definição de sua base de cálculo, da forma como realizado pelas disposições até então vigentes, mantendo, assim, as normas contidas na mencionada Lei 7.689/88, nos termos ali então especificamente apontados. Por sua vez, o art. 2º, parágrafo 1º, alínea ‘c’ da Lei 7.689/88, expressamente faz referência aos específicos ajustes (exclusões e adições) a serem aplicados ao resultado do períodobase, apurado a partir da aplicação das expressas disposições da legislação comercial, distinguindo a composição da base de cálculo da Contribuição em questão, assim, às regras próprias da legislação do Imposto sobre a Renda. Assim, para admitir como valida qualquer exclusão e/ou adição na apuração da base de cálculo da CSLL, fazse necessária a existência de legislação expressa, sem a qual, estarseia admitindo a possibilidade de interpretação ampliativa de normas restritivas de direito. Assim é que, as regras de dedutibilidade de despesas que sejam aplicáveis na apuração do lucro real, não podem ser estendidas, sem a existência de previsão legal, à apuração da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Em razão disso, dou provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. QUanto à qualificação da multa, repetindo o que já afirmei, em que pese a sustentação fática do TVF se firme em indícios e conclusões de inexistência de propósito negocial, abuso de direito e simulação, nenhuma das operações societárias foram desconsideradas. Em que pese a grande qualidade do trabalho fiscal e do TVF que foi produzido após uma fiscalização que levou aproximados 4 anos, ao analisar o fundamento para qualificação exposto no TVF (fl. 93), entendo que o mesmo não se sustenta. Primeiro, não houve desconsideração dos negócios societários realizados. Segundo, o fundamento central para qualificação se resume em um parágrafo do TVF: Fl. 7316DF CARF MF 44 O contribuinte, sob os critérios orientadores do arm´s lenght, caso desejasse atingir o objetivo alegado, deveria ter promovido uma subscrição de capital na empresa Black & Decker do Brasil Ltda, integralizando com ações decorrentes da Holding Belga, sem necessariamente adotar qualquer modalidade que envolvesse qualquer fluxo financeiro. De fato, vêse que o agente fiscal produziu um trabalho excelente para defender o mérito da autuação, mas parece não ter centrado suas atenções da fundamentação para qualificação da multa aplicada, tendo se dedicado apenas a 3 páginas (de 103), onde praticamente faz citações a legislação e, em resumo, na parte que deveria justificar o dolo necessário para a qualificação resume tudo ao parágrafo acima citado. Ora, discordo integralmente da afirmação que fundamentou a qualificação. A Recorrente não deveria e nem seria obrigada a promover a subscrição de capital para se atingir a finalidade objetivada. Ela tem a liberdade empresarial de, amparada por lei, chegar ao resultado que busca através de qualquer dos caminhos possíveis. E o empréstimo para aquisição é um caminho possível. Entretanto, a conclusão a que se chegou é a de que tal empréstimo não era usual e nem necessário, razão pela qual os seus encargos financeiros não podiam afetar a base de cálculo tributável. É nisso em que se funda o lançamento. A possibilidade de se alcançar o resultado através da subscrição de capital é apenas fundamento complementar, para se justificar a falta de necessidade para o empréstimo. Ademais, como também já me manifestei, os próprios conceitos de normalidade, usualidade e necessidade são extremamente subjetivos, e precisam ser analisados concretamente em cada caso. Assim é que, havendo uma dificuldade interpretativa, também entendo que não poderia ser majorada a penalidade, por ser necessária a aplicação do art. 112 do CTN para assegurar tratamento mais benéfico ao contribuinte. Desta feita, seja pela fragilidade da fundamentação do TVF, seja pela dificuldade interpretativa dos conceitos de normalidade, usualidade e necessidade, voto por reduzir a multa aplicada para 75%. No que se refere ao Recurso de Ofício, entendo que o mesmo não merece ser provido. A desoneração decorreu de um ajuste na base de cálculo em razão de erro na apuração do crédito exigido. Embora a Autoridade Autuante tenha informado o montante de R$ 98.702.149,00 como a base de cálculo para o anocalendário de 2015, inclusive no texto do próprio Auto de Infração, esse valor foi indevidamente considerado duas vezes no cálculo do imposto devido (2x 98.702.149,00 = R$ 197.404.298,00). Tal ajuste era devido e foi feito corretamente pela DRJ, razão pela qual não há o que se reformar. Fl. 7317DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.295 45 Assim, face a tudo o quanto exposto, voto pelo não provimento do Recurso de Ofício e por prover parcialmente o Recurso Voluntário, tão somente para reduzir a multa qualificada e permitir a dedutibilidade das despesas para a base de cálculo da CSLL. É como voto. (assinado digitalmente) Daniel Ribeiro Silva Fl. 7318DF CARF MF 46 Voto Vencedor Claudio de Andrade Camerano Redator Designado. De se destacar que o presente voto vencedor referese apenas à manutenção do lançamento da CSLL. Neste item, por maioria de votos (voto de qualidade), foi negado provimento ao Recurso Voluntário. Assim, de se acatar o que foi decidido pelo Relator e ratificado por esta Turma Ordinária, relativamente às demais questões trazidas no Recurso, com exceção do lançamento da CSLL, objeto deste voto vencedor. Em resumo, assim se posicionou o conselheiro relator em seu voto acerca da indedutibilidade da CSLL: "Assim, para admitir como valida qualquer exclusão e/ou adição na apuração da base de cálculo da CSLL, fazse necessária a existência de legislação expressa, sem a qual, estarseia admitindo a possibilidade de interpretação ampliativa de normas restritivas de direito. Assim é que, as regras de dedutibilidade de despesas que sejam aplicáveis na apuração do lucro real, não podem ser estendidas, sem a existência de previsão legal, à apuração da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido". Com a devida vênia, divirjo de tal entendimento. De se reproduzir as disposições contidas no caput do Art. 57 da Lei 8.981/95: Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei n 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38,mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei n 9.065, de 1995) A despeito do entendimento do nobre Relator, segundo o qual não se poderia utilizar o artigo 57 da Lei 8.981/95 para justificar a adição de despesas tidas como indedutíveis perante a legislação do IRPJ, na base de cálculo da CSLL, é de se reconhecer exatamente o contrário. Ora, o citado dispositivo reflete a intenção do legislador de evitar a repetição desnecessária de comandos legais para disciplinar a metodologia de determinação das bases imponíveis das duas exações, naquilo em que as sistemáticas tinham de comum. Por exemplo: como as bases imponíveis do IRPJ e da CSLL partem do lucro líquido ou o resultado contábil do período de apuração tornase dispensável repetir os conceitos de receita bruta, receita líquida, custos e despesas operacionais, etc, aplicáveis à CSLL, se os mesmos estão devidamente definidos na legislação do IRPJ. No que tange à CSLL, a exigência fiscal apurada no IRPJ ocasiona insuficiência na determinação da base de cálculo desta contribuição, o que ensejou a lavratura do respectivo auto de infração. Fl. 7319DF CARF MF Processo nº 10600.720019/201717 Acórdão n.º 1401002.825 S1C4T1 Fl. 7.296 47 A exigência fiscal relativa a esta contribuição é mera decorrência dos fatos apurados no auto de infração do imposto de renda pessoa jurídica (IRPJ). Subsistindo a matéria fática que ensejou o lançamento matriz (IRPJ), igual sorte deve colher aquele auto de infração lavrado por mera decorrência, tendo em vista o nexo causal entre eles. Pelo exposto, é procedente o auto de infração de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, portanto, de se negar provimento ao recurso voluntário, naquilo que se refere ao lançamento de CSLL. (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Fl. 7320DF CARF MF
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Numero do processo: 12268.000032/2008-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/06/2001 a 30/11/2004
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. INCONSTITUCIONALIDADE DOS ARTS. 45 E 46 DA LEI 8212/91. SÚMULA VINCULANTE 8.
A inaplicabilidade dos arts. 45 e 46 da Lei 8212/91, que tratavam da prescrição e decadência do crédito tributário, é objeto da Súmula Vinculante nº 8.
DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4º, DO CTN.
1. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4º, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial.
2. O critério de determinação da regra decadencial (art. 150, § 4º ou art. 173, inc. I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. INEXISTÊNCIA DE COMPROVAÇÃO.
Intimado em sede de fiscalização, para apresentar os documentos que comprovassem os créditos utilizados para compensação, a recorrente apresentou meras planilhas de controles (documentos unilaterais, portanto, que não servem de prova dos fatos alegados), mas não os documentos específicos solicitados, tais como sentenças transitadas em julgado, acordos homologados judicialmente, petição inicial, etc, que pudessem demonstrar as origens dos pagamentos indevidos ou maiores do que os devidos.
Numero da decisão: 2402-006.474
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar para declarar a decadência das contribuições até a competência novembro de 2002 e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Votou pelas conclusões, em relação à decadência, o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti. Declarou-se impedida a Conselheira Renata Toratti Cassini. Participou de Julgamento o conselheiro Virgílio Cansino Gil (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Virgílio Cansino Gil e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/06/2001 a 30/11/2004 CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. INCONSTITUCIONALIDADE DOS ARTS. 45 E 46 DA LEI 8212/91. SÚMULA VINCULANTE 8. A inaplicabilidade dos arts. 45 e 46 da Lei 8212/91, que tratavam da prescrição e decadência do crédito tributário, é objeto da Súmula Vinculante nº 8. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4º, DO CTN. 1. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4º, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial. 2. O critério de determinação da regra decadencial (art. 150, § 4º ou art. 173, inc. I, do CTN) é a existência de pagamento antecipado do tributo, ainda que parcial, mesmo que não tenha sido incluída na sua base de cálculo a rubrica ou o levantamento específico apurado pela fiscalização. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. INEXISTÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Intimado em sede de fiscalização, para apresentar os documentos que comprovassem os créditos utilizados para compensação, a recorrente apresentou meras planilhas de controles (documentos unilaterais, portanto, que não servem de prova dos fatos alegados), mas não os documentos específicos solicitados, tais como sentenças transitadas em julgado, acordos homologados judicialmente, petição inicial, etc, que pudessem demonstrar as origens dos pagamentos indevidos ou maiores do que os devidos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 26 8. 00 00 32 /2 00 8- 19 Fl. 485DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar para declarar a decadência das contribuições até a competência novembro de 2002 e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Votou pelas conclusões, em relação à decadência, o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti. Declarouse impedida a Conselheira Renata Toratti Cassini. Participou de Julgamento o conselheiro Virgílio Cansino Gil (suplente convocado). (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Virgílio Cansino Gil e Gregorio Rechmann Junior. Relatório A DRJ/CTA fez um relato preciso do lançamento e da impugnação, que passa a integrar, em parte, o presente relatório: Tratase de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD (DEBCAD 37.148.0400), cadastrada no COMPROT sob n° 12268.000032/200819, lavrada contra BANCO BANESTADO S/A, com a finalidade de apurar e constituir o crédito destinado Seguridade Social, relativo à glosa de compensações efetuadas indevidamente pelo notificado, no período de junho de 2001 a novembro de 2004, totalizando a importância de R$ 3.819.396,06 (três milhões, oitocentos e dezenove mil, trezentos e noventa e seis reais e seis centavos). 2. O Relatório Fiscal de fls. 41/42 informa que, no decorrer da ação fiscal, o Contribuinte apresentou apenas planilhas de controle das compensações efetuadas, deixando de apresentar as sentenças transitadas em julgado e/ou acordos homologados e demais documentos dos processos trabalhistas que comprovassem tais compensações, tendo ficado evidente que, para cumprimento do art. 43 da Lei n° 8.212, de 1991, o Notificado efetuava o recolhimento pelos valores das ações Fl. 486DF CARF MF Processo nº 12268.000032/200819 Acórdão n.º 2402006.474 S2C4T2 Fl. 3 3 trabalhistas e posteriormente procedia sua compensação no recolhimento sobre as folhas de pagamento seguintes. 3. O crédito lançado (valor originário, juros e multa) encontra se fundamentado na legislação constante do relatório Fundamentos Legais do Débito — FLD (fls. 18/20), com os respectivos períodos de vigência, e os valores apurados estão devidamente discriminados no relatório Discriminativo Analítico de Débito — DAD (fls. 04/09). 4. Cientificado pessoalmente em 28/12/2007, veio o notificado impugnar tempestivamente o lançamento, por meio do instrumento de fls. 410/417, alegando, em síntese: 4.1. Decadência: Ante a inaplicabilidade do prazo previsto no art. 45 da Lei n° 8.212/91, já afastada pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, deve ser reconhecida a decadência de parte dos créditos tributários questionados (junho de 2001 a novembro de 2002), uma vez que o Impugnante foi intimado do lançamento em 28/12/2007, portanto após o transcurso do prazo de 5 anos contados da ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4°, do CTN); 4.2. Cancelamento de desligamento com encargos sociais recolhidos: O Impugnante calcula o desligamento do empregado e efetua o recolhimento dos encargos sociais, sendo que na hipótese de cancelamento do desligamento ocorre estorno das verbas pagas, gerando um crédito em relação à contribuição recolhida; 4.3. Recolhimento em duplicidade relativo a reclamatórias trabalhistas: Nas reclamatórias trabalhistas em que realiza acordo, efetuase o recolhimento da contribuição sobre tal valor. Porém, quando o valor é alterado para maior quando da homologação do acordo o Impugnante recolhe a contribuição sobre a totalidade do novo valor, gerando um crédito; 4.4. Compensação de recolhimentos efetuados para o beneficio da MP 38, que não produziram efeito: Com a finalidade de beneficiarse da anistia concedida pela MP n° 38, efetuou o recolhimento de alguns valores já lançados em NFLD. Como não preencheu os requisitos necessários para usufruir dos benefícios da anistia, tais pagamentos não produziram efeito, gerando um crédito para o Impugnante; 4.5. Ação de consignação e pagamento: O Impugnante calcula as parcelas de desligamento e efetua o recolhimento dos encargos, sendo que na hipótese de recusa de homologação desses valores pelo empregado desligado, os mesmos são depositados em juízo. Resolvido o impasse, é exigida a prova do recolhimento dos encargos, o que é inviável diante da quantidade de documentos a serem apresentados, motivo pelo qual o Impugnante efetua novo recolhimento, gerando crédito em razão de duplicidade de recolhimento da exação; Fl. 487DF CARF MF 4 4.6. Requer a realização de perícia para verificação da existência de crédito de contribuição à Seguridade Social e o montante do valor passível de compensação, a improcedência do lançamento e ajuntada dos meios de prova que se fizerem necessários. A DRJ/CTA julgou a impugnação improcedente, conforme decisão assim ementada: LANÇAMENTO FISCAL. COMPENSAÇÃO. CONDIÇÕES LEGAIS. GLOSA. PROVA. PRECLUSÃO TEMPORAL. PERÍCIA. INDEFERIMENTO. Serão objeto de glosa os valores compensados pela empresa sem a observância das condições legais. O momento para produção de provas documentais é juntamente com a impugnação, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual, salvo se fundada nas hipóteses expressamente previstas. À autoridade julgadora de primeira instância cabe indeferir, motivadamente, a perícia que considerar prescindível. Como não consta da ementa a matéria relativa à decadência, cabe relatar que a DRJ rejeitou a preliminar, por ter entendido que o prazo seria de dez anos. Vejase, fl. 460: 6.6. Destarte, As contribuições previdenciárias não se aplicam os prazos decadencial e prescricional (5 anos), previstos no Código Tributário Nacional. Não prospera, portanto, a preliminar argüida pelo Impugnante. Intimado da decisão em 08/05/2008, fl. 467, o sujeito passivo interpôs recurso voluntário em 05/06/2008, fls. 469 e seguintes, no qual apenas reafirmou os mesmos fundamentos da sua impugnação. Sem manifestação ou contrarrazões pela Procuradoria. É o relatório. Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2 Da decadência A DRJ entendeu que seria aplicável o art. 45 da Lei 8212/91, segundo o qual a fazenda pública teria dez anos para constituir o crédito tributário, e não o prazo previsto no CTN (fl. 460): Fl. 488DF CARF MF Processo nº 12268.000032/200819 Acórdão n.º 2402006.474 S2C4T2 Fl. 4 5 6.6. Destarte, às contribuições previdenciárias não se aplicam os prazos decadencial e prescricional (5 anos), previstos no Código Tributário Nacional. Não prospera, portanto, a preliminar argüida pelo Impugnante. Todavia, a inaplicabilidade dos arts. 45 e 46 da Lei 8212/91, que tratavam da prescrição e decadência do crédito tributário, é objeto da Súmula Vinculante nº 8, de forma que há um equívoco na decisão recorrida, que rejeitou a preliminar apenas com bases nesses dispositivos inconstitucionais: Súmula Vinculante 8: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do DecretoLei nº 1.569/1977e os artigos 45e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam da prescrição e decadência do crédito tributário. Pois bem. Ocorre que, na sessão de julgamento realizada em 05/07/2018, esta relatoria estava votando por reconhecer a decadência nos seguintes termos: A par disso, a compensação é regulada pelo art. 74 da Lei 9430/96. Em seu § 2º, o art. 74 preleciona que a compensação extingue o crédito tributário, sob condição de sua ulterior homologação, de tal forma que aquele procedimento extintivo do crédito (inc. II do art. 156 do Código) tem os mesmos efeitos do pagamento, atraindo a obrigação de o fisco homologálo de forma expressa ou tácita. Já o § 5º expressamente determina que o prazo para homologação da compensação declarada será de cinco anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. Vejase com destaques: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002)(Vide Decreto nº 7.212, de 2010) (Vide Medida Provisória nº 608, de 2013) (Vide Lei nº 12.838, de 2013) § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 2002) § 5o O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação.(Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) Logo, o prazo decadencial deve ser contado a partir da data da compensação, quando, inclusive, o fisco passa a ter elementos para homologála ou para proceder ao lançamento de ofício. Segue abaixo o entendimento deste Conselho a respeito da matéria: INTIMAÇÃO. AR. COMPROVAÇÃO. OCORRÊNCIA. Fl. 489DF CARF MF 6 Consta dos autos intimação via postal, não havendo que se falar em ausência de intimação. COMPENSAÇÃO. DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA.O prazo para homologação da compensação, declarada pelo sujeito passivo, será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. PROVA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRECLUSÃO. O artigo 16, do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê a manifestação de inconformidade como o momento processual para apresentar o pedido de diligência e produção probatória, após tal prazo, sem considerar as exceções do §4º do referido decreto, tais manifestações encontramse preclusas.Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido. (PAF 10880.900042/201361, Recurso Voluntário, Sessão de 29/01/2018, Relatora SARAH MARIA LINHARES DE ARAUJO PAES DE SOUZA, acórdão nº acórdão 3302004.934, por unanimidade) ......................................................................................................... PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. DECADÊNCIA DOS DÉBITOS COMPENSADOS Transcorrido prazo superior a 05 (cinco) anos entre o pedido de compensação formulado pelo contribuinte e a homologação realizada pelo fisco, a compensação perpetrada considerase homologada tacitamente, tornado indevida eventual glosa e cobrança dos débitos compensados. (PAF 10726.000535/200148, Recurso Voluntário, Sessão de 01/12/2016, Relator(a)DIEGO DINIZ RIBEIRO, acórdão nº 3402003.523, por unanimidade) No caso concreto, e conforme já relatado, tratase de lançamento decorrente de glosas de compensações, sendo inteiramente aplicável o § 5º do art. 74 da Lei 9430/96, assim como as orientações jurisprudenciais retro mencionadas. A título de registro, vale consignar que o STJ, em sede de embargos de divergência, já havia decidido que a compensação constitui um incidente do lançamento por homologação, no qual o sujeito passivo, ao invés de antecipar o pagamento, registra o crédito oponível perante o fisco, que tem cinco anos contados do fato gerador para fazer eventual lançamento de ofício (vide abaixo). É bem verdade que este conselheiro não está aplicando tal entendimento de forma literal, diante da regra específica traçada no § 5º encimado, mas o fato é que tal intelecção demonstra que não se pode contar o lustro decadencial a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, porque o sujeito passivo realizou, ainda que mediante compensação, o denominado auto lançamento (expressão criticada por grande parte da doutrina), o que teve o efeito de propiciar a fiscalização e o eventual lançamento suplementar desde a data da compensação. Fl. 490DF CARF MF Processo nº 12268.000032/200819 Acórdão n.º 2402006.474 S2C4T2 Fl. 5 7 TRIBUTARIO. COMPENSAÇÃO. TRIBUTOS LANÇADOS POR HOMOLOGAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL. NOS TRIBUTOS SUJEITOS AO REGIME DO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO (CTN, ART. 150), A COMPENSAÇÃO CONSTITUI UM INCIDENTE DESSE PROCEDIMENTO, NO QUAL O SUJEITO PASSIVO DA OBRIGAÇÃO TRIBUTARIA, AO INVES DE ANTECIPAR O PAGAMENTO, REGISTRA NA ESCRITA FISCAL O CREDITO OPONIVEL A FAZENDA, QUE TEM CINCO ANOS, CONTADOS DO FATO GERADOR, PARA A RESPECTIVA HOMOLOGAÇÃO (CTN, ART. 150, PAR. 4.); ESSE PROCEDIMENTO TEM NATUREZA ADMINISTRATIVA, MAS O JUIZ PODE, INDEPENDENTEMENTE DO TIPO DA AÇÃO, DECLARAR QUE O CREDITO E COMPENSAVEL, DECIDINDO DESDE LOGO OS CRITERIOS DA COMPENSAÇÃO (V.G., DATA DO INICIO DA CORREÇÃO MONETARIA). EMBARGOS DE DIVERGENCIA ACOLHIDOS. (EREsp 78.301/BA, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 11/12/1996, DJ 28/04/1997, p. 15803) Logo, como o lançamento foi notificado ao sujeito passivo em 28/12/2007, realmente estavam decaídas as competências junho de 2001 a novembro de 2002, razão pela qual deve ser acolhida a preliminar de decadência. Melhor refletindo sobre a questão, entretanto, deve ser reconhecida a decadência parcial, mas com base em outro fundamento. É que o art. 74 não era aplicável às contribuições devidas à seguridade social e aí reside o equívoco da fundamentação supra transcrita. De forma expressa, o parágrafo único do art. 26 da Lei 11457/2007 determinava que "o disposto no art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, não se aplica às contribuições sociais a que se refere o art. 2º desta Lei" (exatamente as contribuições lançadas nesta NFLD). Tal sistemática somente veio a ser alterada agora, em maio de 2018, quando da edição da Lei 13670/18, que revogou o parágrafo único supra mencionado e realmente unificou as compensações entre os tributos e contribuições administrados pela RFB. Isso explica porque a fiscalização constituiu o presente débito através de notificação de lançamento, ao invés de proferir despacho não homologando as compensações ou considerandoas não declaradas. Se fosse aplicável, à época do lançamento, a regra do art. 74 da Lei 9430/96, seria prescindível o lançamento e a autoridade administrativa proferiria um despacho decisório não homologando a compensação ou considerandoa não declarada. Sob aquele outro regime, as compensações das contribuições eram feitas em GFIP, como determinava o art. 44, § 7º, da IN RFB 900/08. Agora, sob a égide da nova lei, as compensações são feitas por meio do programa PER/DCOMP, e a IN RFB 1717/17, já com atualizada pela IN RFB 1810/2018, preleciona o seguinte: Art. 65. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive o crédito decorrente de decisão judicial transitada em julgado, relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição ou de Fl. 491DF CARF MF 8 ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos administrados pela RFB, ressalvadas as contribuições previdenciárias, cujo procedimento está previsto nas Seções VII e VIII deste Capítulo, e as contribuições recolhidas para outras entidades ou fundos. Art. 65. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive o crédito decorrente de decisão judicial transitada em julgado, relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos administrados pela RFB, ressalvada a compensação de que trata a Seção VII deste Capítulo. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1810, de 13 de junho de 2018) Vejase que, da redação originária do art. 65 supra mencionado, foi excluída a expressão "ressalvas as contribuições previdenciárias", uma vez que, pelo regime da nova lei (Lei 13670/18), as contribuições passaram a ser compensáveis com os demais tributos administrados pela RFB, observadas as restrições ali tratadas. De toda forma, à época dos fatos geradores e do lançamento, as compensações das contribuições eram feitas em GFIP e era imprescindível eventual lançamento para glosa de compensações, não sendo aplicável, até então, o regime do art. 74 da Lei 9430/96. Nesse contexto, e como defendido pela contribuinte, o prazo para o lançamento era regido pelo art. 150, § 4º, do CTN. A propósito, não há notícia de que a recorrente tenha agido com dolo, fraude ou simulação; e a existência de recolhimentos parciais em GPS, a par de expressamente admitida no seguinte trecho de relatório fiscal (vide abaixo), está documentada nos comprovantes de fls. 49 e seguintes, que integram a própria autuação: Logo, como o lançamento foi notificado ao sujeito passivo em 28/12/2007, realmente estavam decaídas as competências junho de 2001 a novembro de 2002, razão pela qual deve ser acolhida a preliminar de decadência. 3 No mérito No mérito propriamente, o recurso deve ser desprovido. Fl. 492DF CARF MF Processo nº 12268.000032/200819 Acórdão n.º 2402006.474 S2C4T2 Fl. 6 9 Intimado em sede de fiscalização, para apresentar os documentos que comprovassem os créditos utilizados para compensação, a recorrente apresentou meras planilhas de controles (documentos unilaterais, portanto, que não servem de prova dos fatos alegados), mas não os documentos específicos solicitados, tais como sentenças transitadas em julgado, acordos homologados judicialmente, petição inicial, etc, que pudessem demonstrar as origens dos pagamentos indevidos ou maiores do que os devidos. O sujeito passivo que apurar créditos em face do fisco federal, passíveis de restituição, poderá utilizálos para compensação, mas essa restituição está atrelada a pagamentos indevidos ou maiores do que os devidos (art. 89 da Lei 8212/91 vide abaixo), os quais, portanto, devem ser comprovados por quem os alega possuir. Art. 89. As contribuições sociais previstas nas alíneas a,b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, as contribuições instituídas a título de substituição e as contribuições devidas a terceiros somente poderão ser restituídas ou compensadas nas hipóteses de pagamento ou recolhimento indevido ou maior que o devido, nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Destarte, a decisão recorrida foi incensurável quando afirmou que: "dessa forma, no caso presente, diante dessa regulamentação legal especifica e, tendo em vista a não apresentação de documentos que comprovem o crédito e a legitimidade do procedimento adotado pelo Contribuinte, encontrase correta a glosa realizada pela Fiscalização". Por fim, não é cabível a produção de prova pericial para a demonstração de fatos ou de circunstâncias que não demandariam conhecimento técnico especializado, mas que poderiam ser demonstrados apenas através da juntada de documentos. No caso vertente, e como afirmado, a recorrente sequer apresentou, nem mesmo na impugnação ou no recurso, os documentos que poderiam demonstrar os fatos constitutivos do seu direito, sendo incabível a realização de exame pericial. 4 Conclusão Diante do exposto, votase no sentido de conhecer do recurso voluntário, para acolher a preliminar e declarar a decadência das contribuições até a competência novembro de 2002 e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 493DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13831.720040/2012-82
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
DEDUÇÃO INDEVIDA -DESPESA MÉDICA - DEPENDENTES DOCUMENTAÇÃO HÁBIL
As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 - Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99).
Numero da decisão: 2002-000.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para afastar a glosa da despesa médica relativa a LUCIANA ÁLVARES DE GODOY PINHATA, no importe de R$ 4.165,00; (ii) por maioria de votos, em dar provimento parcial para afastar a glosa das despesas médicas relativas (ii.1) à JULIANA A. SPILLER, no valor de R$ 5.000,00, vencida a conselheira Fábia Marcília Ferreira Campêlo que negou provimento, (ii.2) à VANESSA RIBEIRO HOMEM, no importe de R$ 5.000,00, vencida a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que negou provimento, (ii.3) e à ALESSANDRA RIBEIRO HOMEM, no valor de R$ 11.500,00, vencida a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que negou provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Fábia Marcília Ferreira Campêlo e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para afastar a glosa da despesa médica relativa a LUCIANA ÁLVARES DE GODOY PINHATA, no importe de R$ 4.165,00; (ii) por maioria de votos, em dar provimento parcial para afastar a glosa das despesas médicas relativas (ii.1) à JULIANA A. SPILLER, no valor de R$ 5.000,00, vencida a conselheira Fábia Marcília Ferreira Campêlo que negou provimento, (ii.2) à VANESSA RIBEIRO HOMEM, no importe de R$ 5.000,00, vencida a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que negou provimento, (ii.3) e à ALESSANDRA RIBEIRO HOMEM, no valor de R$ 11.500,00, vencida a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que negou provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Fábia Marcília Ferreira Campêlo e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 1. 72 00 40 /2 01 2- 82 Fl. 161DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (efls. 104 a 112), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a glosa de despesas médicas indevidamente deduzidas, além de omissão de rendimentos do trabalho com vínculo e/ou sem vínculo empregatício. Tal autuação gerou lançamento de imposto de renda pessoa física suplementar de R$ 11.718,53, acrescido de multa de ofício no importe de 75%, bem como juros de mora Impugnação A notificação de lançamento foi objeto de impugnação, às efls. 02 a 92 dos autos, que, conforme decisão da DRJ: o contribuinte e seus dependentes são portadores de doenças que justificam os tratamentos continuados, conforme relatório constante da impugnação e documentos anexados aos autos, os quais já haviam sido apresentados para a autoridade fiscal; exigência de comprovação da forma de pagamento é indevida, visto que o contribuinte dispunha de R$ 150.300,00 em caixa, conforme declaração de bens, não sendo obrigado a utilizar serviços bancários; os documentos anexados comprovam a necessidade de tratamento intensivo, justificando as despesas médicas, entretanto referidos documentos foram rejeitados pela autoridade fiscal sem a análise de um perito na respectiva área de saúde. A impugnação foi apreciada na 7ª Turma da DRJ/BSB que por unanimidade, em 27/08/2014, no acórdão 0363.364, às efls. 120 a 124, julgou a impugnação improcedente. Recurso Voluntário Ainda inconformado, a contribuinte, apresentou Recurso Voluntário, às efls. 133 a 154, no qual alega, em resumo: Fl. 162DF CARF MF Processo nº 13831.720040/201282 Acórdão n.º 2002000.287 S2C0T2 Fl. 162 3 · pede desmembramento do processo quanto aos valores de R$18.864,97, recebidos da fonte pagadora Hospital Santa Casa Jesus Maria José, confirmando a omissão de rendimentos; · que os documentos juntados são hábeis a comprovação das despesas médicas próprias e de seus dependentes; · informa que declarou a importância de R$150.300,00 em dinheiro, e que esta quantia seria suficiente para arcar com as despesas médicas; · pede o cancelamento da autuação. É o relatório. Voto Conselheiro Thiago Duca Amoni Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo, já que o contribuinte foi intimado do teor do acórdão da DRJ em 17/07/2015, efls. 132, e interpôs o presente Recurso Voluntário em 12/05/2015, efls. 133, posto que atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. Como consta no relatório, o contribuinte concorda com a autuação pela omissão de rendimentos recebidos da fonte pagadora Hospital Santa Casa Jesus Maria José no valor R$18.864,97. Desta forma, conforme artigo 14 do Decreto nº 70.235/72, não há lide quanto este ponto. O contribuinte foi autuado pela dedução indevida das seguintes despesas médicas, conforme transcrevese da decisão da DRJ: Dedução Indevida a Título de Despesas Médicas – glosa de dedução de despesas médicas, pleiteadas indevidamente pelo contribuinte na Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física do exercício 2010, anocalendário 2009. Valor: R$ 28.985,00. Motivo da glosa: Glosa de R$ 4.165,00 declarados como pagos a Luciana Alvares de Godoy Pinhata, R$ 11.500,00 declarados como pagos a Alessandra Ribeiro Homem, R$ 5.000,00 declarados como pagos a Vanessa Ribeiro Homem, R$ 5.000,00 declarados como pagos a Juliana Spiller e R$ 3.320,00 declarados como pagos a Jefferson Ribeiro, por falta de comprovação do efetivo pagamento. As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99): Fl. 163DF CARF MF 4 Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; : Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"). §1ºO disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, §2º): I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento (grifos nossos) O trecho em destaque é claro quanto a idoneidade de recibos e notas fiscais, desde que preenchidos os requisitos legais, como meios de comprovação da prestação de serviço de saúde tomado pelo contribuinte e capaz de ensejar a dedução da despesa do montante de IRPF devido, quando da apresentação de sua DAA. O dispositivo em comento vai além, permitindo ainda que, caso o contribuinte tomador do serviço, por qualquer motivo, não possua o recibo emitido pelo profissional, a comprovação do pagamento seja feita por cheque nominativo ou extratos de conta vinculados a alguma instituição financeira. Fl. 164DF CARF MF Processo nº 13831.720040/201282 Acórdão n.º 2002000.287 S2C0T2 Fl. 163 5 Assim, como fonte primária da comprovação da despesa temos o recibo e a nota fiscal emitidos pelo prestador de serviço, desde que atendidos os requisitos legais. Na falta destes, pode, o contribuinte, valerse de outros meios de prova. Ademais, o Fisco tem a sua disposição outros instrumentos para realizar o cruzamento de dados das partes contratantes, devendo prevalecer a boafé do contribuinte. Nesta linha, no acórdão 2001000.388, de relatoria do Conselheiro deste CARF José Alfredo Duarte Filho, temos: (...) No que se refere às despesas médicas a divergência é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pela contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. (...) É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (dedução tributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os Fl. 165DF CARF MF 6 honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagador recebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma." Ainda, há várias outras jurisprudências deste Conselho que corroboram com os fundamentos até então apresentados: Processo nº 16370.000399/200816 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.387 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 18 de abril de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FLÁVIO JUN KAZUMA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Fl. 166DF CARF MF Processo nº 13831.720040/201282 Acórdão n.º 2002000.287 S2C0T2 Fl. 164 7 Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Processo nº 13830.000508/200923 Recurso nº 908.440 Voluntário Acórdão nº 220201.901 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 10 de julho de 2012 Matéria Despesas Médicas Recorrente MARLY CANTO DE GODOY PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006 DESPESAS MÉDICAS. RECIBO. COMPROVAÇÃO. Recibos que contenham a indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem prestou os serviços são documentos hábeis, até prova em contrário, para justificar a dedução a título de despesas médicas autorizada pela legislação. Os recibos que não contemplem os requisitos previstos na legislação poderão ser aceitos para fins de dedução, desde que seja apresenta declaração complementando as informações neles ausentes. Feitas estas considerações, às efls. 22 e 23 há declaração da profissional LUCIANA ÁLVARES DE GODOY PINHATA, confirmando a prestação de serviços de fisioterapia ao contribuinte. Ainda, às efls. 24 e 25 encontramse os recibos emitidos pela profissional, de forma que a afasto a glosa da presente despesa médica no valor de R$ 4.165,00. Às efls. 46 a 49 há recibos de serviços de fisioterapia prestados pela profissional JULIANA A. SPILLER ao contribuinte, que perfazem a quantia de R$ 5.000,00. Ainda, às efls. 35 há declaração da profissional; às efls. 36 e 37 há avaliação clínica do paciente e; às efls. 38 a 45 há o histórico de acompanhamento da fisioterapeuta ao paciente. Logo, pelas provas colacionadas, afasto a glosa das despesas médicas relativas a profissional. Como se vê na Declaração de Ajuste Anual (DAA) do contribuinte, às efls. 95, referente ao ano calendário de 2009, contam como seus dependentes Isabela Yoneda, Vitor Yoneda e Nicole Yoneda, à época, todos menores de idade. Fl. 167DF CARF MF 8 Em que pese na declaração assinada pela profissional ALESSANDRA RIBEIRO HOMEM, efls. 26, conste, aparentemente um erro material, já que a profissional é dentista e atesta que prestou serviços de fisioterapia, os recibos e os orçamentos juntados aos autos são hábeis a afastar a glosa de R$ 11.500,00, nos seguintes termos: · Vitor Yoneda: R$ 3.000,00 recibo (efls. 34); orçamento do serviço (efls. 33); · Isabela Yoneda: R$ 2.800,00 recibo (efls. 30); orçamento do serviço (efls. 29); · Alexandre Yoneda: R$ 3.000,00 recibo (efls. 28); orçamento do serviço (fls. 27); · Nicole Yoneda: R$ 2.700,00 recibo (efls. 32); orçamento do serviço (fls 31). Às efls. 89 a 92 há recibos de serviços prestados pela profissional VANESSA RIBEIRO HOMEM, no importe de R$ 5.000,00, aos dependentes Vítor e Isabela Yoneda. Ainda, às efls. 69 há declaração da profissional ratificando a prestação de serviços e às efls. 70 a 88 há avaliação clínica e acompanhamento da paciente. Logo, pelas provas colacionadas, afasto a glosa das despesas médicas relativas a profissional. Contudo, os recibos juntados às efls. 60 a 68, emitidos pelo profissional JÉFERSON RIBEIRO, não atendem aos requisitos legais, pois ausente o carimbo do profissional constando o registro no órgão representante da categoria. Reforço que, às efls. 99 o contribuinte declara a importância de R$150.300,00 em espécie. Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, darlhe parcial provimento para afastar a glosa das despesas médicas relativas a LUCIANA ÁLVARES DE GODOY PINHATA, no importe de R$ 4.165,00, JULIANA A. SPILLER, no valor de R$ 5.000,00, VANESSA RIBEIRO HOMEM, no importe de R$ 5.000,00 e ALESSANDRA RIBEIRO HOMEM, R$ 11.500,00. Mantenho a glosa de JÉFERSON RIBEIRO, no valor de R$ 3.320,00. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Fl. 168DF CARF MF
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Numero do processo: 19395.720078/2012-28
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL.
O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos a título de pensão alimentícia está vinculado aos termos determinados na sentença judicial ou acordo homologado judicialmente. Requerida a comprovação dos pagamentos efetuados aos beneficiários em atendimento a legislação tributária. Reconhecimento do direito à dedução quando cumpridos os requisitos.
Numero da decisão: 2001-000.585
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos a título de pensão alimentícia está vinculado aos termos determinados na sentença judicial ou acordo homologado judicialmente. Requerida a comprovação dos pagamentos efetuados aos beneficiários em atendimento a legislação tributária. Reconhecimento do direito à dedução quando cumpridos os requisitos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 39 5. 72 00 78 /2 01 2- 28 Fl. 239DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de dedução de pensão alimentícia judicial. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 15.361,50, a título de imposto de renda pessoa física suplementar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2009. O fundamento que lastreou o lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura o fato de que os documentos apresentados pelo Recorrente não seriam suficientes para a comprovação do pagamento da pensão alimentícia aos beneficiários e, embora tivesse apresentado o termo de acordo de separação consensual homologado judicialmente entendeu o Fisco não assegurada a permanência de sua validade no tempo. Também entendeu a Autoridade Fiscal ter se caracterizado pagamento por liberalidade e sem direito a dedução em razão da mudança da fonte de recursos do Contribuinte. A constituição do acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente no que considera comprovação insuficiente aos moldes do que entende legalmente apropriado, mesmo que com decisão judicial expedida sobre a pensão alimentícia e juntada da cópia da disponibilidade financeira em nome dos beneficiários, nos termos que segue: Em decorrência de procedimento de revisão levado a efeito pela DRF Macaé/RJ tendo por objeto a Declaração de Ajuste Anual de IRPF apresentada pelo interessado em epígrafe referente ao Exercício 2010 – AnoCalendário 2009, foi emitida, em 02/04/2012, a Notificação de Lançamento nº 2010/421845705631377 (fl. 08/12), para exigência do crédito tributário abaixo discriminado: Imposto de Renda Pessoa Física – Suplementar – cód. DARF 2904 . R$ 15.361,50 (...) Na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fl. 10), parte integrante da Notificação de Lançamento nº 2010/421845705631377 ora em exame, consta que, em decorrência de procedimento de revisão levado a efeito pela DRF Macaé/RJ tendo por objeto a Declaração de Ajuste Anual de IRPF apresentada referente ao Exercício 2010 – AnoCalendário 2009, foi apurada dedução indevida de pensão alimentícia judicial e/ou por escritura pública no valor de R$ 55.860,00. Sobre dedução de pensão alimentícia judicial e/ou por escritura pública, os art. 4°, II e 8º, II, f, da Lei nº 9.250, de 1995, assim estabelecem: (...) De acordo com os dispositivos legais anteriormente transcritos são requisitos para a dedutibilidade da pensão alimentícia: a) que o pagamento tenha a natureza de alimentos; b) que sejam fixados em Fl. 240DF CARF MF Processo nº 19395.720078/201228 Acórdão n.º 2001000.585 S2C0T1 Fl. 240 3 decorrência das normas do Direito de Família; e c) que seu pagamento decorra do cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente. Insta registrar ainda que, além da existência de determinação judicial obrigando o pagamento, é necessário demonstrar o efetivo desembolso dos valores. Isto porque o contribuinte está obrigado a comprovar, de forma inequívoca e mediante documentação hábil e idônea, a realização de todas as despesas informadas na declaração de ajuste anual. No caso dos autos, conforme Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fl. 10), a glosa da dedução foi assim motivada: “Luiz Arthur Moreira Bon, CPF: 108.578.17710: Os recibos foram assinados pelo próprio beneficiário. O Acordo Homologado Judicialmente informa que as quantias deveriam ter sido depositadas na conta bancária da Sra. Solange Mariquito; Maria Ângela da Silva Bon, CPF: 003.026.08761: O Acordo Homologado Judicialmente informa que o contribuinte contribuiria com 40% (quarenta por cento) do prólabore na firma Grua Construtora Ltda. Durante o anocalendário de 2009 não foi informado nenhum rendimento desta fonte pagadora.” Relativamente à pensão alimentícia de Luiz Arthur Moreira Bon, o interessado não elide os fatos apurados pela fiscalização considerando os termos constantes no acordo homologado judicialmente datado de 1996 (cópia às fl. 20/21), uma vez que não apresenta comprovantes dos depósitos efetuados na conta bancária da Sra. Solange Mariquito. No que tange à pensão alimentícia da Sra. Maria Ângela da Silva Bon, conforme acordo homologado judicialmente datado de 1986 (cópia às fl. 26/30), temse que: • O cônjugevarão contribuiria mensalmente a título de pensão alimentícia com 40% de sua retirada prólabore da firma Grua Construtora Ltda., valor este equivalente a 8 salários mínimos mensais. Deste modo, já que o Sr. Luiz Adilson Bon havia se retirado da firma Grua à época dos fatos, a teor do acordo apresentado, a pensão devida a Sra. Maria Ângela corresponderia à importância de 3,2 salários mínimos (40% de 8 salários mínimos). Assim, tendo em vista que, de acordo com as Leis 11.709/2008 e 11.944/2009, o salário mínimo vigente em janeiro de 2009 foi de R$ 415,00 e de fevereiro a dezembro de 2009 foi de R$ 465,00, o valor devido a título de pensão alimentícia correspondeu no anocalendário de 2009 a R$ 17.696,00 [(R$ 415,00 x 3,2 x 1) + (R$ 465,00 x 3,2 x 11] e não ao montante de R$ 22.980,00 declarado (fl. 83). Fl. 241DF CARF MF 4 Ademais, não foram juntadas aos autos cópias das transferências dos valores para a conta bancária da Sra. Maria Ângela, tal como acordado. Por fim, não é relevante ao caso dos autos a alegação de que os valores emquestão teriam sido declarados pelo alimentado na DIRPF correspondente, uma vez que apresente lide versa sobre a comprovação do preenchimento dos requisitos para que o interessado possa usufruir do benefício da exclusão de tais montantes da base de cálculo do imposto. Deste modo, deve ser mantida a glosa da dedução a título de pensão alimentícia judicial no valor de R$ 55.860,00, tendo em vista não ter sido apresentado elemento de prova capaz de elidila. Do exposto, concluise por negar provimento à impugnação, mantendo o lançamento do imposto suplementar no valor de R$ 15.361,50, montante este acrescido da multa de ofício de 75% e dos juros de mora cabíveis, na forma da legislação vigente. Assim, conclui o acórdão vergastado pela improcedência da impugnação para manter a exigência do Lançamento em R$ 15.361,50, como imposto suplementar, mais acréscimos legais. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: (...) No anocalendário de 2009, exercício 2010, período a que se refere o lançamento, o recorrente pagou pensão alimentícias judiciais a seu filho – Luiz Arthur Moreira Bom e a sua exesposa – Maria Ângela da Silva Bom. Ambas as prestações foram estipuladas/acordadas em Juízo por decisão judicial na 3ª Câmara Cível do Tributal de Justiça do Rio de Janeiro e na 2ª Vara de Família de Niterói, referindose a primeira à pensão para o filho do Recorrente e a segunda para a exesposa. Os documentos probatórios compõem o anexo nº 01. (...) A exigência fundouse em dois aspectos: Não aceitação dos recibos firmados pelo beneficiário Luiz Arthur Moreira Bom, pois os valores mensais da pensão deveriam ter sido depositados na conta bancária de sua genitora Solange Marquito; Não aceitação dos valores pagos à exesposa – Maria Ângela da Silva Bom – pois o montante acordado equivaleria a percentual de 40% sobre o prólabore que o Recorrente receberia da empresa Grua Construtora. Não havendo pagamento de prólabore, indevido ou incomprovado o dispêndio. Fl. 242DF CARF MF Processo nº 19395.720078/201228 Acórdão n.º 2001000.585 S2C0T1 Fl. 241 5 Como adiante iremos demonstrar, tanto a notificação de lançamento quanto a R. Decisão ora recorrida adotaram entendimento antagônicos com os preceitos legais e com as provas dos autos, entendimentos esses que são insustentáveis à manutenção do crédito tributário exigido, devendo ser restabelecida a dedução glosada. O acordo judicial relativo à pensão paga pelo Recorrente para seu filho foi firmada em 1996, quando o alimentado tinha apenas 7 (sete) anos de idade e, portanto, totalmente incapaz para a prática de atos da vida civil. O depósito em conta corrente bancário de sua genitora revestiuse apenas de elemento facilitador do cumprimento do dever de sustento do, à época, menor. Tratase de prática comum a indicação de conta bancária para o depósito do quantum de pensão devido, especialmente quando não há desconto em folha. Depósito em conta corrente, pagamento em cheque ou em espécie são apenas formas de cumprimento do dever a que estava obrigado o Recorrente, não sendo cabível que, embora tenha cumprido o dever de pagar, seja penalizado por adotar a forma mais conveniente para si, para o beneficiário, seu filho, e para a mãe deste. No ano calendário de que trata a Notificação e de que resultou a R. Decisão recorrida, o senhor Luiz Arthur Moreira Bom já era capaz de praticar os atos da vida civil e, principalmente, ser sujeito de obrigação tributária, sendo irrelevante a arguição de que a verba do pensionamento devesse ser depositada na conta de sua genitora. Os montantes pagos pelo Recorrente para seu filho preenchem, indubitavelmente, as condições do artigo 78 do Regulamento do Imposto de Renda citado, bem como estão plenamente justificadas e comprovadas a teor do artigo 73 do mesmo diploma legal, a saber: a) Há acordo judicial firmado pelo Recorrente que lhe obriga a pagar a pensão alimentícia e; b) Os valores foram efetivamente pagos como fazem prova os recibos anexados por ocasião da Impugnação, a declaração firmada pelo beneficiário com firma reconhecida, que ora anexamos, e a cópia da Declaração de Ajuste Anual do beneficiário. Em relação à pensão paga à exesposa do Recorrente – Senhora Maria Ângela da Silva Bom – assim se posiciona a Decisão a quo: (...) A Decisão não tratou dos termos posto no lançamento. Nesse, a alegação para a indedutibilidade das verbas pagas a Sra. Maria Ângela Bon situase na inexistência de rendimentos, informados na declaração de Ajuste Anual do Recorrente, oriundos da firma Grua Construtora Ltda. da qual o Recorrente se retirara em 1994. Entendera o ilustre Autuante que, como não teriam sido declarados os rendimentos dessa fonte, cessara a obrigação de pagar a pensão determinada pela Justiça, tipificandose o pagamento como mera liberalidade. Fl. 243DF CARF MF 6 Além disso, ele não se dera ao cuidado de verificar que a pensão acordada em relação a sua exexposa equivaleria a 3,2 salários mínimos (40% de oito salários mínimos) como consta da cláusula 8ª do acordo judicial. (...) Para bem demonstrar a fragilidade da R. Decisão, há o reconhecimento, sob a ótica dos Julgadores, de que o Recorrente faria jus a dedução de R$ 17.696,00 com base no acordo firmado, entretanto, nem essa parcela foi admitida como comprovada, pois não estaria demonstrada a fatídica transferência bancária e nem foram aceitos os recibos apresentados. Mais absurdo ainda o fato de reconhecer como direito à dedução, apenas sob a ótica dos Julgadores, parcela significativa da dedução, mas não concedêla ao Recorrente, em razão de os recibos apresentados não conterem firma reconhecida. Para ratificar as comprovações já apresentadas por ocasião da Impugnação, juntamos declaração/recibo firmado pela beneficiária, com firma reconhecida, de que a beneficiária recebeu no ano calendário de 2009 a quantia de R$ 22.980,00 e cópia de sua Declaração de Ajuste Anual, constituindose tais documentos no anexo nº 03. DO QUE REQUER O Recorrente possui acordo judicial que atesta a obrigação de pagar as pensões, cujos montantes foram glosados, bem como a natureza dos valores deduzidos como Pensão Alimentícia Judicial; As verbas devidas a título da citada Pensão Alimentícia foram efetivamente pagas aos beneficiários; Os documentos acostados na Impugnação provam, categoricamente, as transferências financeiras dos valores homologados em sentença judicial para as pessoas beneficiárias das pensões; A jurisprudência Administrativa milita pacificamente em favor do Recorrente; REQUER Seja recebido o presente Recurso Voluntário e provido inteiramente para reformar a Decisão recorrida e restabelecer as deduções glosadas. É o relatório. Voto Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator Fl. 244DF CARF MF Processo nº 19395.720078/201228 Acórdão n.º 2001000.585 S2C0T1 Fl. 242 7 O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. A divergência estabelecida na lide se limita a comprovação dos valores levantados pela Fiscalização como referentes à pensão alimentícia da exesposa Maria Ângela da Silva Bom e do filho Luiz Arthur Moreira Bom, motivo da glosa das deduções a este título no anocalendário de 2009, cuja comprovação não satisfez a fiscalização na oportunidade do lançamento e do julgamento de piso na DRJ. Também entendeu o Fisco que os documentos comprobatórios da homologação judicial dos pactos para pagamento da pensão alimentícia deveriam fixar prazo para sua vigência, e que a ausência de data fim dos compromissos os tornou insubsistentes. O litígio é que de um lado há o rigor na interpretação restritiva da legislação pela Autoridade Fiscalizadora, e de outro, a busca do direito, pelo Contribuinte, de ver reconhecido o que entende plenamente comprovado mediante documentação que apresentou por ocasião do lançamento, documentos agora novamente disponibilizados, de forma a satisfazer as exigências da legislação tributária. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, art. 4º e alínea “f” inciso II, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados no art. 78 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, como segue: Lei nº 9.250/95. Art. 4º. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto de renda poderão ser deduzidas: (...) II – as importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008). (...) Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: (...) f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere Fl. 245DF CARF MF 8 o art. 1.124A da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008). (...) Decreto nº 3.000/99 Art. 78. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderá ser deduzida a importância paga a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, inclusive a prestação de alimentos provisionais (Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, inciso II). § 1º A partir do mês em que se iniciar esse pagamento é vedada a dedução, relativa ao mesmo beneficiário, do valor correspondente a dependente. A autoridade fiscal fundamentou a recusa da dedução do valor da pensão do filho do Recorrente em razão de que não reconhecia suficiente o termo de acordo juntado pelo interessado, mesmo que acompanhado da homologação do acordo de alimentos com a decisão judicial que a oficializou. Quanto à pensão da exexposa a glosa do valor deduzido do imposto ocorreu em razão da juntada de cópia da separação consensual do casal, com a respectiva homologação judicial, em que não constava documento atualizador emitido pelo Poder Judiciário de que permanecia a obrigação de pagar pensão alimentícia à beneficiária no anocalendário de 2009. Tratase, tão somente neste caso, do direito à dedução do imposto de renda por pagamentos de pensão alimentícia em que a exigência fica condicionada a ter sido objeto de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente e prova do efetivo pagamento do valor declarado como pago aos pensionistas, conforme inciso II, art. 4º, da Lei nº 9.250/95 e art. 78 do Decreto nº 3.000/99. Com efeito, o Recorrente acostou ao processo cópia do acordo homologado judicialmente que define o valor da pensão com base no valor recebido a época pelo obrigado no acordo, como parâmetro do quantitativo a ser pago como alimento. Na cláusula 8ª está fixado percentual de 40% sobre o referido valor que representava o equivalente a oito salários mínimos, sendo que o percentual aplicado sobre o total resulta no valor da pensão correspondente a 3,2 salários mínimos. Também juntou ao processo certidão da Junta Comercial do RJ e o contrato social que regista sua saída da sociedade Grua Construtora Ltda. Ressaltese que a determinação da pesão, por sua finalidade, não poderia ficar somente amparada no prólabore recebido pelo pagante, referente exclusivamente àquela fonte pagadora, de vez que poderia este passar não mais receber tal remuneração da empresa citada, como de fato aconteceu. Assim que a vinculação ao quantitativo de salários mínimos veio a dar caráter permanente para o valor e para obrigação, independente do vínculo com a empresa na qual mantinha participação societária naquele momento. Inadmissível seria desobrigar o pagante da pensão de alimentos se este não mais recebesse o referido prólabore que foi utilizado somente como parâmetro para a fixação do valor do benefício. Da mesma forma, seria inconcebível obrigar as partes a fazer novo acordo judicial para continuação do pagamento da pensão alimentícia a cada vez que o Recorrente trocasse de vínculo empregatício ou de tipo de remuneração. Assim que a mudança de fonte de recursos do Recorrente não torna a pensão alimentícia ato de liberalidade no pagamento porque Fl. 246DF CARF MF Processo nº 19395.720078/201228 Acórdão n.º 2001000.585 S2C0T1 Fl. 243 9 permanece a obrigação contributiva de sustento por decisão judicial, com validade até que ocorram as condições previstas para seu término, quando definido. A Autoridade Fiscal também recusou a comprovação do efetivo pagamento da pensão alimentícia fixada no documento judicial, valor que foi utilizado como redutor do imposto de renda a pagar por parte do Recorrente, não reconhecendo como verdadeira a comprovação de transferência dos valores que se destinaram as partes beneficiadas no acordo. Contudo, a legislação não especifica que tipo de comprovação tem força probatória ou qual comprovação é insuficiente para o caso. A Súmula CARF nº 98 determina que seja permitida a dedução de pensão alimentícia da base de cálculo do imposto de renda pessoa física, na condição de que tenha decorrido de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente e quando comprovado seu efetivo pagamento. Súmula CARF nº 98: A dedução de pensão alimentícia da base de cálculo do Imposto de Renda Pessoa Física é permitida, em face das normas do Direito de Família, quando comprovado o seu efetivo pagamento e a obrigação decorra de decisão judicial, de acordo homologado judicialmente, bem como, a partir de 28 de março de 2008, de escritura pública que especifique o valor da obrigação ou discrimine os deveres em prol do beneficiário. (grifei) Cabe destacar que o dispositivo que mais se aproxima de uma definição dos condicionantes para obtenção do benefício da dedução diz que o segundo elemento se fará presente “quando comprovado o seu efetivo pagamento”, sem lhe especificar a forma. A legislação não obriga que o pagamento da pensão alimentícia deva ser realizado por uma ou outra forma de meios de pagamento. E, mesmo que conste no acordo judicial um determinado meio de pagamento outro pode ser utilizado, de comum acordo das partes, para facilitar a quitação da obrigação e satisfação do beneficiário de forma mais simplificada e ágil. Nenhum obstáculo fiscal pode ser considerado para quem pagar a pensão alimentícia em espécie mesmo que antes tenha se proposto em fazêlo por depósito bancário, se a parte beneficiada aceita, e para isso, entendo despiciendo mudar o acordo judicial somente por essa particularidade. Se há comprovante de quitação da obrigação, por qualquer forma, a decisão judicial está comprida. Por ocasião deste recurso voluntário foi novamente juntado ao processo a comprovação do acordo judicial homologado que se referem ao processo definidor da pensão alimentícia de Maria Ângela da Silva Bom e de Luiz Arthur Moreira Bom, o que reafirma com consistência a ocorrência da obrigação assumida do pagamento e, vez que comprovados os pagamentos mediante recibos/declarações assinados e com firma reconhecida, há que se considerar cumprida a obrigação do pagamento da pensão alimentícia. Neste sentido, motivo não há para recusa da utilização da dedução na declaração do imposto sobre a renda do Recorrente, vez que permitida pela legislação tributária nas condições em que foram formalizadas. De outra banda, a decisão a quo inova ao trazer cálculos de valor do que seria o valor correto da pensão alimentícia segundo o acordo homologado judicialmente, visto que não consta do lançamento como motivo da glosa o quesito quantitativo financeiro correspondente aos 3,2 salários mínimos. Ressaltese que o motivo da glosa, como inclusive constou do voto da DRJ, referemse tão somente à ausência de depósito na conta da genitora, Fl. 247DF CARF MF 10 desconhecendo os recibos assinados pelo filho alimentado e que os 40% do prólabore provindos da empresa Grua Construtora Ltda., não constavam como rendimentos desta fonte pagadora na declaração do Recorrente, sem considerar que ele não fazia mais parte daquela sociedade. Assim que, no exame da documentação acostada ao processo, verificase que o Recorrente apresentou material probante do acordo judicial e comprovação do pagamento das pensões a que se comprometeu judicialmente, podendo assim se beneficiar da utilização da dedução do imposto a esse título, fazendose imperioso que se conceda o direito pleiteado pelo Contribuinte, dando provimento ao recurso no que se refere ao restabelecimento das deduções. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito DAR PROVIMENTO, excluindose o crédito tributário no valor de R$ 15.361,50, que era o que correspondia ao valor lançado. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 248DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.925531/2009-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3201-001.400
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinícius Toledo de Andrade, Laércio Cruz Uliana Júnior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinícius Toledo de Andrade, Laércio Cruz Uliana Júnior. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 25 53 1/ 20 09 -4 9 Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10880.925531/200949 Resolução nº 3201001.400 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de não homologar a compensação de créditos da contribuição (Cofins/PIS), decisão essa lastreada na ausência de direito creditório disponível, uma vez que os pagamentos declarados já haviam sido integralmente utilizados na quitação de débitos do contribuinte. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte havia alegado que o crédito pleiteado decorrera do recolhimento indevido da Contribuição e que a Administração tributária tinha o dever de retificar de ofício a DCTF em face do princípio da verdade material. A Delegacia de Julgamento (DRJ) julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade por falta de comprovação do direito creditório pleiteado. Em seu Recurso Voluntário, o contribuinte requereu a declaração de nulidade da decisão de primeira instância ou sua reforma, bem como a realização de diligência, arguindo cerceamento do direito de defesa, por falta de demonstração por parte do julgador a quo do motivo para declarar a insuficiência dos documentos acostados aos autos (DARF, DIPJ, Balancete e DCTFs), e inobservância do princípio da verdade material. No mérito, requereu o Recorrente, com base nos documentos acostados aos autos, a reforma do despacho decisório em face do recolhimento indevido, justificandose que, por um lapso, não procedera à retificação tempestiva da DCTF. Junto ao recurso, o Recorrente apresentou cópia de parte do Razão Contábil. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido na Resolução nº 3201001.393, de 29/08/2018, proferida no julgamento do processo nº 10880.913528/200982, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 3201001.393): O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10880.925531/200949 Resolução nº 3201001.400 S3C2T1 Fl. 4 3 A seguir passo a análise do Recurso Voluntário. Cerceamento do Direito de Defesa e da Inobservância do Princípio da Verdade Material Afastase a preliminar de cerceamento do direito de defesa. A recorrente teve garantido o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa nas duas instâncias administrativas. A recorrente teve assegurado, inclusive, o direito de juntar documentos, razão contábil, no presente recurso de segunda instância. Nesse sentido, observese jurisprudência do CARF. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Acórdão nº 3301003.976 do Processo 15586.001130/200788 Data 30/08/2017 CERCEAMENTO DE DEFESA. CONTRADITÓRIO. AMPLA DEFESA. NULIDADE Não há nulidade quando se constata em todas as fases processuais o exercício do direito ao contraditório e de ampla defesa, não caracterizando o cerceamento de defesa. Em referência a argumentos fundados nos princípios constitucionais, aplicase a Súmula CARF nº 2: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” Cabe ainda indeferir o pedido de diligência genérico, sem comprovação de sua necessidade e da impossibilidade da produção da prova pelo contribuinte. Preliminares indeferidas. Mérito A fundamentação do despacho decisório denegatório seria a inexistência de crédito disponível, tendo sido o DARF discriminado na DCOMP integralmente utilizado para a quitação de débitos do contribuinte, que estavam declarados em DCTF. A DCTF originária representou uma confissão de dívida. Assim, quando da manifestação de inconformidade, a documentação apresentada em primeira instância, DARF de pagamento, DIPJ, Balancete e DCTF´s foram considerada insuficientes. Citase trechos do relatório da DRJ: Ressaltese que a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, instituída pela Instrução Normativa SRF n° 126, de 30 de outubro de 1998, 6. O documento apresentado pelo contribuinte para prestar à autoridade fazendária as informações relativas aos valores devidos dos tributos e contribuições federais, e os respectivos valores de créditos vinculados (pagamento, parcelamento, compensação, etc.), constituindose cm confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito, na forma do disposto pelo § 1 0, do art. 5° do Decreto lei n° 2.124, de 8 de março de 1984. (efl. 92) (...) Deste modo, a DIPJ não se configura como documento suficiente a comprovação de erro nas informações prestadas em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, para fins de homologação da compensação efetivada pelo contribuinte. (efl. 92) No mérito, o cerne da lide consiste em verificar se a documentação contábil e/ou fiscal apresentada após o despacho decisório seria prova suficiente para a compensação. Sobre o assunto existe jurisprudência do CARF. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10880.925531/200949 Resolução nº 3201001.400 S3C2T1 Fl. 5 4 Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Acórdão nº 3002000.234 do Processo 10880.674831/200954 Data 13/06/2018 COMPENSAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DCTF APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. PROVA INSUFICIENTE QUANDO DESACOMPANHADA DE DOCUMENTAÇÃO PROBATÓRIA. A retificação da DCTF após despacho decisório que nega a homologação da compensação não impede o reconhecimento do direito ao crédito desde que acompanhada de documentação contábil e/ou fiscal que comprove o erro cometido no preenchimento da declaração original. Em sendo apresentada isoladamente, não constitui prova suficiente. A retificação da DCTF, depois de prolatado o despacho decisório não impede o deferimento do pedido de compensação, quando acompanhada de provas comprovando o erro cometido no preenchimento da declaração original. Tal entendimento está fundamentado no § 1º do art. 147 do CTN. Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. Existe jurisprudência do CARF sobre o assunto. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Acórdão nº 9303006.266 do Processo 13896.902360/200818 Data: 25/01/2018 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/08/2003 a 31/08/2003 COMPENSAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DCTF POSTERIOR AO DESPACHO DECISÓRIO. PROVAS DO ERRO COMETIDO. A retificação da DCTF depois de prolatado o despacho decisório não impede o deferimento do pedido, quando acompanhada de provas documentais comprovando a erro cometido no preenchimento da declaração original (§ 1º do art. 147 do CTN). Na retificação, a DCTF sofreu alteração para menor, cabendo a interessada comprovar o erro. Tal comprovação pode ser feita de diversas formas, inclusive por meio de planilhas, documentos contábeis, cópias de documentos, cupons, recibos e tantos outros. O princípio da verdade material, alegado pela recorrente, exige provas que compete a mesma trazer aos autos. Agora, em segunda instância, a recorrente junta aos autos o razão contábil provisão COFINS a recolher em 31/07/2004, onde demonstra de janeiro a dezembro de 2004 a provisão de recolhimento da COFINS. De fato, verificase que o valor a recolher, relativo a COFINS, em julho de 2004, seria de R$29.775,70 e não de R$42.341,83 (doc. 09 do recurso efls. 182/183). A escrituração do razão contábil em conjunto com o balancete são documentos contábeis/fiscais oficiais que fazem prova de verdade. Os documentos deixam claro a existência de saldo creditório e são suficientes para garantir o direito. A recorrente também alega que efetuou a retificação na DCTF original. Demonstrada a composição da base de cálculo da contribuição por meio de documentos contábeis/fiscais resta demonstrado o valor devido do tributo e, Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10880.925531/200949 Resolução nº 3201001.400 S3C2T1 Fl. 6 5 consequentemente, o indébito decorrente do recolhimento em valor maior que o devido. Finalmente, cabe repetir que o artigo 151, III do Código Tributário Nacional determina que as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo suspendem a exigibilidade do crédito. Somente com o encerramento da fase administrativa é que se pode, se for o caso, inscrever o crédito cm dívida ativa, efetuar a cobrança judicial e incluir o contribuinte no Cadastro Informativo de Débitos não quitados de Órgãos e Entidades Federais — CADIN. Em vista da apresentação de documentos adicionais, dentro do princípio da verdade material, que possivelmente pode lastrear direito de crédito presumido, entendo que o julgamento deva ser convertido em diligência, a fim de que o Fisco se manifeste sobre a prova referida, o razão contábil. Após, deve a recorrente ser instada a manifestarse, se o desejar, com o retorno do processo ao CARF para continuidade do julgamento. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Cofins, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu converter o julgamento em diligência para que o Fisco se manifeste sobre a prova carreada aos autos em sede de recurso voluntário, a saber, o Razão Contábil. Após, deve o Recorrente ser instado a se manifestar, se assim o desejar, com o retorno do processo ao CARF para continuidade do julgamento. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 195DF CARF MF
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Numero do processo: 10855.003512/2006-24
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002
NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. DISSIMILITUDE FÁTICA.
Em respeito ao art. 63, § 8º, do RICARF/2015, cabe refletir o entendimento manifestado pela maioria desse Colegiado. Sendo assim, tem-se que a maioria desse Colegiado votou pelas conclusões, vez que entendeu que a situação fática considerada no acórdão indicado como paradigma é distinta da situação apreciada no acórdão recorrido, não se prestando o aresto referenciado, por conseguinte, à demonstração de dissenso jurisprudencial.
A maioria desse Colegiado, portanto, ultrapassou a discussão envolvendo decisões proferidas por Turma, Câmara e Seção de Julgamento de mesma denominação e de mesmo prefixo, pois entende que se um dos acórdãos em confronto foi proferido antes de 10/06/2015 e o outro depois, o paradigma pode ser aceito, já que se considera que os Colegiados são distintos, independentemente de terem a mesma denominação e de os respectivos números exibirem o mesmo prefixo.
NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Nos termos do art. 60 do Decreto 70.235/72, eventuais incorreções do lançamento, não importarão em nulidade e serão sanadas na análise de mérito do lançamento. Não ocorrência de cerceamento do direito de defesa, pois os fatos foram descritos de forma suficiente a que o contribuinte pudesse exercê-lo de forma ampla. A acusação fiscal foi bem compreendida pelo autuado, tanto que a decisão recorrida afastou parte do lançamento em decorrência das provas apresentadas pelo sujeito passivo.
Numero da decisão: 9303-007.358
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que não conheceu. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
(Assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. DISSIMILITUDE FÁTICA. Em respeito ao art. 63, § 8º, do RICARF/2015, cabe refletir o entendimento manifestado pela maioria desse Colegiado. Sendo assim, tem-se que a maioria desse Colegiado votou pelas conclusões, vez que entendeu que a situação fática considerada no acórdão indicado como paradigma é distinta da situação apreciada no acórdão recorrido, não se prestando o aresto referenciado, por conseguinte, à demonstração de dissenso jurisprudencial. A maioria desse Colegiado, portanto, ultrapassou a discussão envolvendo decisões proferidas por Turma, Câmara e Seção de Julgamento de mesma denominação e de mesmo prefixo, pois entende que se um dos acórdãos em confronto foi proferido antes de 10/06/2015 e o outro depois, o paradigma pode ser aceito, já que se considera que os Colegiados são distintos, independentemente de terem a mesma denominação e de os respectivos números exibirem o mesmo prefixo. NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Nos termos do art. 60 do Decreto 70.235/72, eventuais incorreções do lançamento, não importarão em nulidade e serão sanadas na análise de mérito do lançamento. Não ocorrência de cerceamento do direito de defesa, pois os fatos foram descritos de forma suficiente a que o contribuinte pudesse exercê-lo de forma ampla. A acusação fiscal foi bem compreendida pelo autuado, tanto que a decisão recorrida afastou parte do lançamento em decorrência das provas apresentadas pelo sujeito passivo.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que não conheceu. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Relatora (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
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DISSIMILITUDE FÁTICA. Em respeito ao art. 63, § 8º, do RICARF/2015, cabe refletir o entendimento manifestado pela maioria desse Colegiado. Sendo assim, temse que a maioria desse Colegiado votou pelas conclusões, vez que entendeu que a situação fática considerada no acórdão indicado como paradigma é distinta da situação apreciada no acórdão recorrido, não se prestando o aresto referenciado, por conseguinte, à demonstração de dissenso jurisprudencial. A maioria desse Colegiado, portanto, ultrapassou a discussão envolvendo decisões proferidas por Turma, Câmara e Seção de Julgamento de mesma denominação e de mesmo prefixo, pois entende que “se um dos acórdãos em confronto foi proferido antes de 10/06/2015 e o outro depois, o paradigma pode ser aceito, já que se considera que os Colegiados são distintos, independentemente de terem a mesma denominação e de os respectivos números exibirem o mesmo prefixo. NULIDADE DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Nos termos do art. 60 do Decreto 70.235/72, eventuais incorreções do lançamento, não importarão em nulidade e serão sanadas na análise de mérito do lançamento. Não ocorrência de cerceamento do direito de defesa, pois os fatos foram descritos de forma suficiente a que o contribuinte pudesse exercê lo de forma ampla. A acusação fiscal foi bem compreendida pelo autuado, tanto que a decisão recorrida afastou parte do lançamento em decorrência das provas apresentadas pelo sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 00 35 12 /2 00 6- 24 Fl. 1739DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que não conheceu. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Jorge Olmiro Lock Freire, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Erika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional ao acórdão 3302004.084, da 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que, por unanimidade de votos: · Na Reunião de fevereiro/2017, em rejeitar a preliminar de nulidade do auto de infração e por maioria de votos, em rejeitada a preliminar de nulidade da decisão recorrida, · Na reunião de março/2017, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para determinar o cancelamento da cobrança do valor do IPI, referentes aos seguintes produtos saídos/comercializados no ano de 2002: a) Brandy Conservador de 1.000 ml; b) Aguardente Composta com Gengibre Fl. 1740DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 4 3 Dreher de 450 ml; c) Aguardente Composta com Gengibre Dreher de 900 ml; d) Uísque Cortado Tipo Escocês Old Eight de 1.000 ml; e) Bebida Alcoólica Mista Cinzano Rosso de 900 ml; f) Bebida Alcoólica Mista Cinzano Bianco de 900 ml; g) Amargo Bitter Campari de 900 ml; e h) Aperitivo de Ervas Aromáticas Jägermeister de 720 ml; e b) proceder o cálculo dos juros, tendo como termo inicial da data vencimento do imposto, nos termos do art. 185, II, do RIPI/1998. Foi consignada, assim, a seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 BEBIDAS ALCOÓLICAS. CLASSES DE VALORES DO IPI. INEXISTÊNCIA DE ENQUADRAMENTO ESPECÍFICO OU DEFINITIVO NA RESPECTIVA CLASSE. FALTA DE INFORMAÇÃO PRESTADA PELO CONTRIBUINTE. ENQUADRAMENTO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. Os produtos classificados nas posições 2204, 2205, 2206 e 2208 da TIPI (bebidas alcoólicas, exceto cervejas) serão enquadrados em classes de valores do IPI, por ato do Secretário da Receita Federal do Brasil, a pedido do contribuinte ou de ofício. O enquadramento de ofício será realizado se o contribuinte não prestar as informações necessárias ao enquadramento específico ou definitivo do produto nas correspondentes classes de valores do imposto, sendo cabível a cobrança da diferença de imposto apurada, acrescida dos encargos legais. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 MULTA DE OFÍCIO. FALTA LANÇAMENTO DO IPI. APLICAÇÃO SOBRE A DIFERENÇA DO IPI COBRADO. POSSIBILIDADE. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do IPI na respectiva nota fiscal, sujeitará o contribuinte a multa de ofício 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado. Fl. 1741DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 5 4 JUROS MORATÓRIOS. IPI SOBRE BEDIDAS. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DATA DE VENCIMENTO. Para fins de cálculo dos juros moratórios, inclusive na hipótese de cobrança mediante lançamento de ofício, o valor do IPI a recolher, calculado sobre os produtos classificados no Capítulo 22 da TIPI (bebidas), saídos do estabelecimento no período de 01/01/2002 a 31/12/2002, considerase vencido no terceiro dia útil do decênio subsequente ao de ocorrência dos respectivos fatos geradores, data que deve utilizada como termo inicial no cálculo dos referidos gravames. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. CERCEAMENTO DIREITO DEFESA NÃO CONFIGURADO. NULIDADE DA DECISÃO. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, por ofensa ao direito de defesa, a decisão do órgão de julgamento de primeiro grau que se pronuncia de forma clara e suficiente sobre as razões de defesa posta nos autos, cujo decisum revela se devidamente fundamentado, ainda que dissonante dos fundamentos aduzidos na autuação. AUTO DE INFRAÇÃO. ATENDIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. É considerado em boa e devida forma, o Auto de Infração lavrado por autoridade competente, com observância dos requisitos legais, e não demonstrado que houve prejuízo ao direito de defesa do sujeito passivo. Recurso Voluntário Provido em Parte.” Irresignada, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, trazendo, entre outros, que: · Consta nos autos que a autuação se deu diante da constatação de que o contribuinte deu saída a produtos tributados (bebidas) com insuficiência de lançamento do imposto. Tal insuficiência decorre do fato de o contribuinte ter deixado de solicitar o enquadramento/reenquadramento de produtos de sua fabricação e de ter adotado, nas saídas desses produtos, classes de valor de IPI Fl. 1742DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 6 5 menores que as calculadas em conformidade com as regras previstas no art. 150 do RIPI/2002 (Lei nº 7.798/89, arts. 2º e 3º). · Constatada a inexistência de Ato Declaratório Executivo (ADE) para os referidos produtos, procedeuse ao enquadramento de ofício por meio do ADE nº 51, de 13/11/2006 nas letras definitivas das bebidas comercializadas nos anos de 2002 e 2003. · o art. 150 do RIPI/2002 estabelece enquadramento pessoal e por produto (bebida). O enquadramento feito pelo Ministro da Fazenda, por meio de ato declaratório, aproveita unicamente o contribuinte e o produto referidos no respectivo ato. Por sua natureza, o Ato Declaratório de enquadramento não alcança outros contribuintes, mesmo que fabricados por outras unidades fabris da mesma empresa. · Não se trata, em absoluto, de um comando permissivo, capaz de autorizar que um contribuinte específico se aproveite de informações prestadas por outro sujeito passivo, que não ele, ainda que os produtos por eles fabricados sejam os mesmos. · Na hipótese dos autos o que se verifica é que, para os produtos incluídos na peça impositiva, não havia Ato Declaratório de enquadramento fiscal específico editado para a empresa autuada, ainda que incorporadora. Em Despacho às fls. 1537 a 1538, foi negado provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. A Fazenda Nacional, assim, interpôs agravo e, face da decisão proferida que negou seguimento ao recurso. Em Despacho às fls. 1548 a 1551, o agravo foi acolhido e foi dado seguimento ao recurso especial relativamente à matéria “Exclusão do IPI sobre a saída dos produtos com enquadramentos definidos por ADE emitidos em nome da empresa incorporada pelo contribuinte”. Fl. 1743DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 7 6 Contrarrazões ao recurso foram apresentadas pelo sujeito passivo, trazendo, entre outros, que: · Ainda que a ausência de similitude fática e de divergência na interpretação de normas jurídicas seja suficiente para que o recurso não seja conhecido, devese acrescentar que apenas o fundamento 1 (inexistência de obrigação de formular novos pedidos de enquadramento na hipótese de incorporação) foi objeto do Recurso Especial interposto pela PFN, de modo que restou inatacado o trecho do acórdão que, autonomamente, cancelou as exigências em razão da existência de registro especial e pedidos de enquadramento pendentes de exame pela RFB (fundamento 2), com fundamento nas disposições da IN SRF 73/2001; · Ainda que o acórdão fosse reformado quanto à suposta obrigatoriedade de se requerer o enquadramento em função da incorporação, tornouse preclusa a discussão acerca (i) do conteúdo normativo da IN SRF 73/01; (ii) do seu atendimento pela recorrida e, à vista desse ponto; (iii) da irretroatividade do ADE 51/06. · A ausência de impugnação de todos os pontos autônomos torna impossível a mudança do decisum recorrido, a Fazenda Nacional carece de interesse recursal; · Em relação ao mérito, sustenta a PFN que seriam inaproveitáveis os enquadramentos deferidos pela Receita Federal à época em que a produção e comercialização de parte dos produtos da autuação eram realizados pela “Uited Distillers & Vintners Ltda” – UDV, posteriormente incorporada pelo sujeito passivo; · Traz a Fazenda que, embora os enquadramento tenham sido objeto de ADEs expedidos em favor da UDV, deveria o sujeito passivo ter pleiteado novo enquadramento, conforme art. 150 do RIRPI/02; · No entanto, esse fundamento é improcedente, pois à época dos fatos não havia norma que obrigasse o sujeito passivo a solicitar o reenquadramento na hipótese de sucessão; · O ato de enquadramento de determinada bebida passa a ser irrelevante, pois atinge o produto, e não o sujeito passivo – vez que Fl. 1744DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 8 7 os elementos que impõem a aplicação de determinada classe são o tipo de bebida, o preço e a capacidade do recipiente, todos eles ligados ao produto, e não ao sujeito passivo; · O art. 150, § 2º, do RIPI/02 não trata da hipótese de sucessão por incorporação, mas, apenas e tão somente, que deva o contribuinte informar ao Ministro da Fazenda “as características de fabricação e os preços de venda, por espécie e marca do produto e por capacidade do recipiente”, o que foi integral e regularmente atendido no caso concreto; · Não há qualquer disposição estabelecendo que as informações devessem ser novamente apresentadas no caso de incorporação da pessoa jurídica que já as havia prestado e obtido os enquadramentos; · Ausente determinação que tivesse sido desatendida, não há como pretender punir o contribuinte com fulcro no § 4º do r. art. 150, aplicável apenas a quem “não prestar as informações, ou (que) prestálas de forma incompleta ou com incorreções”. Insatisfeito também, o sujeito passivo interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, trazendo, entre outros, que: · Em relação à divergência jurisprudencial, o colegiado a quo, assim como essa Turma, analisando caso absolutamente idêntico ao presente, relativo ao período de 01/2003 a 06/2006, envolvendo o próprio sujeito passivo, adotaram entendimento oposto ao consignado pelo acórdão recorrido quanto à existência de vício material (de motivação) no lançamento; · O Acórdão 9303004.582, examinando Recurso Especial interposto pela própria Campari em função do Acórdão 310100.653 ter equivocadamente qualificado o vício como de natureza formal, essa Turma afirmou que “Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de Fl. 1745DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 9 8 lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal” (Acórdão n. 9303004.582, Contr. CAMPARI DO BRASIL LTDA., Rel. Cons. Rodrigo da Costa Pôssas, 3ª Turma da CSRF, sessão de 24/01/2017); · O Auto de Infração foi lavrado porque teria o sujeito passivo, conforme afirma a autoridade autuante, comercializado bebidas sem a existência de Ato Declaratório Executivo; · Tal afirmação não corresponde à verdadeira situação fática envolvida, tendo sido omitido fato relevante e essencial à compreensão da questão, qual seja, a existência de enquadramentos anteriores para todos os produtos; · Conforme já comprovado nos autos, todos os produtos de que se cuida foram objeto de ADEs; tanto é assim, que a DRJ e o acórdão recorrido precisaram mudar a fundamentação do lançamento original; · Não é dado ao julgador manter a autuação impugnada com base em situação fática distinta daquela ali relatada, sob pena de não saber o contribuinte contra o que, afinal, deva se defender, vez que ficaria sujeito a, indefinidamente, ser surpreendido por novas inovações na fundamentação fática e/ou jurídica da acusação. Vale dizer, a cada comprovação de improcedência dos fundamentos da acusação novos argumentos seriam apresentados para mantêla, contrariando a verdade material e suprimindo instâncias recursais, em evidente cerceamento do direito de defesa do contribuinte. · Inovando na fundamentação da exigência fiscal, embora tenha reconhecido a existência de ADEs para todos os produtos comercializados pela Recorrente, entendeu o acórdão recorrido que os ADEs relativos à parcela mantida da autuação somente seriam válidos caso comprovado que existiam pedidos de enquadramento Fl. 1746DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 10 9 pendentes de análise pela SRF, inobstante tais documentos terem sido tempestivamente apresentados pela Recorrente (fls. 633 e seguintes), o que foi ignorado pelo acórdão recorrido; · Ainda que a DRJ ou a Turma a quo pudessem alterar o critério jurídico do lançamento, o que se admite apenas para argumentar, o ato apenas teria eficácia quanto a fatos geradores ocorridos após a sua introdução, assim como reconhece a jurisprudência deste Conselho; Em Despacho às fls. 1718 a 1722, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo – que ressurgiu com a discussão acerca da nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa. Contrarrazões ao recurso foram apresentadas pela Fazenda Nacional, que trouxe, entre outros, que, ainda que considerada deficiência na motivação do lançamento fica claro que não houve qualquer prejuízo para o exercício da ampla defesa do autuado. Seja porque a contribuinte demonstrou pleno conhecimento da autuação, defendendose mediante a apresentação de substanciosa defesa e recurso e seja porque o ato alcançou a sua finalidade. É o relatório. Fl. 1747DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 11 10 Voto Vencido Conselheira Tatiana Midori Migiyama Relatora Depreendendose da análise dos recursos interpostos pela Fazenda Nacional e pelo sujeito passivo, passo a discorrer sobre meu direcionamento em relação ao conhecimento de cada recurso. Primeiramente, quanto ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, entendo que o recurso não deva ser conhecido, vez que não atendidos, para tanto, os critérios definidos pelo art. 67 do RICARF/2015. Para melhor elucidar, importante recordar a pretensão exposta de se ressurgir com a cobrança do valor do IPI dos produtos saídos/comercializados no ano de 2002: · Brandy Conservador de 1.000 ml; · Aguardente Composta com Gengibre Dreher de 450 ml; · Aguardente Composta com Gengibre Dreher de 900 ml; · Uísque Cortado Tipo Escocês Old Eight de 1.000 ml; · Bebida Alcoólica Mista Cinzano Rosso de 900 ml; · Bebida Alcoólica Mista Cinzano Bianco de 900 ml; · Amargo Bitter Campari de 900 ml; e · Aperitivo de Ervas Aromáticas Jägermeister de 720 ml. Conforme consta do acórdão recorrido, o Colegiado a quo, por unanimidade de votos, deu provimento nessa parte. E, nos termos do voto do relator do acórdão recorrido, temse que para tal direcionamento, considerouse as seguintes fundamentações: · Por meio dos ADEs 4 e 5 emitidos pela DRF/Sorocaba, foi concedido o registro especial dos produtos anteriormente fabricados pela incorporada, que continham enquadramento Fl. 1748DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 12 11 definitivo nas classes de valores do IPI, conforme estabelecido nos respectivos ADEs SRF a seguir relacionados: · Diferentemente do que afirmado no voto condutos do acórdão da DRJ, na data em que ocorreu a mencionada incorporação, não havia determinação legal ou em ato normativo da RFB que obrigasse a incorporadora a solicitar um novo reenquadramento do produto na classe de valores do IPI; · As orientações sobre enquadramento/reenquadramento extraídas do sítio da RFB e reproduzidas no corpo do referido voto da DRJ faz referência as exigências da IN 451/04 – que ainda não trata da obrigatoriedade da formulação de novos pleitos de reenquadramento nos casos de sucessão empresarial e ainda que tratasse, certamente os seus efeitos normativos não poderiam retroagir para alcançar fatos pretéritos.; · Uma vez deferido o registro especial, o sujeito passivo estava autorizado a produzir e comercializar os produtos da incorporada e a utilizar o enquadramento definitivo atribuído aos referidos produtos pelos respectivos ADEs; · Em relação à alteração do enquadramento inicial, prevê o art. 2º, § 4º, da Lei 7.778/1989, que este poderá ser alterado, observados os limites constantes do Anexo I da referida lei; · Na época da sucessão empresarial, vigia o RIPI/1998, que no seu art. 1273, § 2º, em consonância com o referido preceito legal, Fl. 1749DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 13 12 previa alteração do enquadramento inicial de ofício ou a pedido do próprio contribuinte. A mesma previsão também constava do art. 150, § 5º, do RIPI/2002. · Somente a partir da vigência do Decreto 6.501/2008, que acrescentou os §§ 9º e 10 ao art. 1504 do RIPI/2002, é que passou a ser obrigatório o reenquadramento das marcas de produtos já comercializadas em razão das alterações nos seus preços, caso esta alteração resulte em modificação na classe de valores do IPI em que enquadrado o produto. · Portanto, fica demonstrado que, diferentemente do entendimento exarado no voto condutor do julgado da DRJ, no período do lançamento (ano de 2002), não havia obrigatoriedade de solicitação de reenquadramento das bebidas comercializadas pela recorrente, seja em decorrência da alteração de preços, seja em razão da sucessão empresarial; · Verificase ainda que há comprovação da existência de enquadramento definitivo, nas respectivas classes de valores do IPI em relação aos produtos “Amargo Bitter Campari”, capacidade 900 ml, e “Aperitivo de Ervas Aromáticas Jägermeister”, capacidade 720 ml, conforme ADEs. Sendo assim, em síntese, temse que a decisão recorrida considerou as seguintes fundamentações: · O procedimento adotado pelo sujeito passivo foi suportado por ADEs vigentes em nome da incorporada; · Os ADEs vigentes tem caráter de definitividade; · À época, inexistia determinação legal ou ato normativo da RFB que obrigasse a incorporadora a solicitar novo enquadramento dos produtos na classe de valores do IPI. O acórdão 3302001.766 indicado como paradigma, por sua vez, traz: · Como Descrição dos Fatos: Fl. 1750DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 14 13 ü Não foram prestadas as informações para o enquadramento inicial de bebidas tributadas pelo sistema de classes de valores (diferentemente do acórdão recorrido – que enfatizou que a incorporadora detinha os ADEs das respectivas bebidas); ü Não houve o evento da incorporação no presente caso – sendo assim, nem foi aventada a utilização de informações por sucessão universal, tal como preceitua a Lei das S/As; ü Foi provado que a recorrente deixou de prestar as informações quanto aos produtos objeto da autuação e, portanto, o enquadramento de ofício aplicase retroativamente; ü Não houve o enquadramento inicial. · Como Fundamentos: ü O enquadramento feito pelo Ministro da Fazenda aproveita unicamente o contribuinte e o produto referidos no respectivo ato declaratório. Pela sua natureza, o Ato Declaratório de enquadramento não alcança outros contribuintes, mesmo que estabelecimentos da mesma empresa, ou outros produtos, mesmo que fabricados por outras unidades fabris da mesma empresa. (NÃO TRATOU DE INCORPORADORA, que sucede em todos os direitos e obrigações a empresa sucedida. O acórdão recorrido, no presente caso, tratou dessa matéria). ü No caso dos autos, está sobejamente provado que o sujeito passivo deixou de prestar as informações quanto aos produtos objeto da autuação e, portanto, o enquadramento de ofício aplicase retroativamente; ü Também são impróprias as alegações do sujeito passivo sobre reenquadramento de seus produtos objeto da autuação porque sequer existe o enquadramento inicial para os mesmos. (DIFERENTE DO ACÓRDÃO RECORRIDO, que no presente caso, detinha os ADEs dos Fl. 1751DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 15 14 produtos, fornecendo todas as informações nos autos do processo); ü Quanto ao formulário anexado à fls. 261 (anexo 4 da impugnação), além das razões da decisão recorrida, o mesmo referese ao estabelecimento localizado na cidade de Jundiaí SP e a autuação foi em estabelecimento localizado na cidade de Vinhedo SP (ou seja, não foram prestadas as informações). Em vista de todo o exposto, resta claro que não há similitude fática entre os acórdãos recorrido e indicado como paradigma, vez que o aresto paradigma considerou que não houve prestação de informação, enquadramento inicial, e nem tratou de empresa incorporada, mas sim de estabelecimentos individuais. Tampouco trouxe o efeito da incorporação – qual seja a sucessão universal, tal como expos o acórdão recorrido. Ademais, ignorando os fatos dissemelhantes, com a descrição dos fundamentos contemplados nos arestos, é de se constatar o aresto paradigma não refutou todos os fundamentos considerados no acórdão recorrido. Ora, o paradigma apenas tratou da suposta obrigação de requerem os reenquadramentos na hipótese de comercialização de bebidas cujos atos de enquadramento tivessem sido expedidos para estabelecimentos de outras empresas e para o estabelecimento matriz da empresa recorrente. Em vista de todo o exposto, considerando o teste de aderência, não conheço o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, o que concordo com o Despacho de Admissibilidade analisado pelo nobre exconselheiro José Adão Vitorino de Morais. Ressaltando ainda, que o despacho de agravo não trouxe menção aos fatos dissemelhantes dos acórdãos recorrido e indicado no paradigma tal como fez o 1º despacho. Independentemente dessas razões, entendo que há ainda outra razão para o não conhecimento do recurso, é de se constatar que o acórdão indicado como paradigma foi proferido pela mesma turma da mesma Câmara e da mesma Seção de Julgamento. Fl. 1752DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 16 15 E não há como se conhecer o Recurso Especial da Fazenda somente porque os acórdãos foram proferidos por “colegiados” diversos (e não turmas diversas), considerando o caput do art. 67 do RICARF/2015 (Grifos meus): “Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. [...]” Ademais, cabe elucidar que não se aplicaria à essa análise o § 2º do art. 67 para se conhecer o presente Recurso, eis o que traz o dispositivo: “[...] Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. (...) § 2º Para efeito da aplicação do caput, entendese que todas as Turmas e Câmaras dos Conselhos de Contribuintes ou do CARF são distintas das Turmas e Câmaras instituídas a partir do presente Regimento Interno. Vêse que o art. 67, § 2º, do RICARF/2015 traz somente que as Turmas e Câmaras do CARF devem ser consideradas distintas das Turmas e Câmaras INSTITUÍDAS A PARTIR DO PRESENTE REGIMENTO INTERNO. Vêse que a 2ª turma ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção não precisou ser instituída após o advento do Novo Regimento Interno do Conselho, vez que sua estrutura se manteve inerte ao compararmos com a estrutura dada pelo antigo regimento (Portaria MF 256/09). A 2ª turma da 3ª Câmara se manteve inerte, pois somente foram extintas pelo Novo Regimento, nos termos do art. 6º: Fl. 1753DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 17 16 · As turmas especiais; · As Turmas Ordinárias da 1ª Câmara das Seções de Julgamento do CARF; e · As 3ªs Turmas Ordinárias das 4ªs Câmaras da 2ª e 3ª Seções de Julgamento do C A R F. Como poderia a 2ª turma ordinária da 3ª Câmara ser instituída/criada após o novo regimento se nunca foram extintas? Somente foram instituídas após o novo regimento do CARF as Turmas Extraordinárias. Tais turmas foram instituídas após a Portaria MF 343/2015, conforme Portaria MF 359/17: “Art. 23A. Ficam criadas, no âmbito das seções de julgamento, turmas extraordinárias, de caráter temporário, integradas por 4 (quatro) conselheiros suplentes, sendo 2 (dois) representantes da Fazenda Nacional e 2 (dois) representantes dos Contribuintes.” E as decisões daquela turma extraordinária, conforme reza o art. 67, § 12, do RICARF/2015, não servirá como paradigma. Sendo assim, ressurgindo aos autos, resta claro que o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional não deva ser conhecido, eis que se tratam de decisões prolatadas pela 2ª turma ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – turma que se manteve inerte em sua estrutura, considerando o Novo Regimento do CARF (Portaria MF 343/2015). OU seja, não há como se demonstrar a divergência de interpretações se o acórdão indicado como paradigma é da mesma turma, câmara e seção de julgamento. E, esclarecendo novamente, não se trata de turma INSTITUÍDA APÓS O NOVO REGIMENTO. Ou seja, criada/fundada após o novo regimento, pois essa se manteve inerte. Fl. 1754DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 18 17 Eis informação IMPORTANTE dada pelo item 3.2 Origem dos Paradigmas constante do Manual de Admissibilidade – Versão 1.0 de Março2016: “Importante: Para fins de verificação da origem dos paradigmas, considerase que todas as Turmas e Câmaras dos Conselhos de Contribuintes ou do CARF são distintas das Turmas e Câmaras instituídas a partir de 10 de junho de 2015 (art. 67, § 2º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015).” Evidente que a razão de ser do art. 67, § 2º, do RICARF/2015 considerou a possibilidade de ressuscitar as turmas extintas posteriormente ao novo regimento. Ou seja, ressuscitar as Turmas Ordinárias da 1ª Câmara das Seções de Julgamento do CARF e as 3ªs Turmas Ordinárias das 4ªs Câmaras da 2ª e 3ª Seções após a sua extinção. O que ressuscitando, ou seja, instituindo essas turmas no CARF novamente e após a Portaria MF 343/15 que as extinguiu, teríamos que considerar que as decisões prolatadas por elas deveriam ser admitidas como proferidas por turmas diferentes daquelas instituídas (e extintas) com a mesma designação anteriormente ao novo regimento. Apenas para clarificar, temse ainda que não há que se considerar que as decisões foram dadas por “turmas diferentes” somente porque os integrantes do Colegiado daquela turma da mesma Câmara se alterou pela dinâmica do tempo, pela ausência de conselheiro ou por motivos de dispensa ou exoneração, eis que se assim fosse – todos os recursos que trouxessem paradigmas prolatados pela mesma turma quando houvesse alteração de entendimento em decorrência desses eventos deveriam ser conhecidos – o que afrontaria o disposto no caput do art. 67 do RICARF/2015 que, por sua vez, faz menção a turma, e não “integrantes” do Colegiado/Turma. Frisese tal entendimento, o art. 37, § 2º, do Decreto 70.235/72 – que traz: “Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. § 2o Caberá recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, no prazo de 15 (quinze) dias da ciência do acórdão ao interessado: Fl. 1755DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 19 18 [...] II – de decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Câmara, turma de Câmara, turma especial ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais [...]” Sendo assim, em respeito ao art. 37 do Decreto 70.235/72 e art. 67, caput e § 2º, da Portaria MF 343/2015 – não há que se conhecer o Recurso Especial. Cabe elucidar que, ainda que a nova versão do Manual de Admissibilidade excedesse na aplicação do art. 67 do RICARF e art. 37 do Decreto 70.235/72, ainda assim não se deveria conhecer o Recurso Especial, pois tal orientação seria dada sem previsão legal. Ademais, não se pode considerar a mudança do Colegiado na turma ou o aumento do número de julgadores, a partir de julho/2015, como motivo para considerar como sendo de turmas diferentes, vez que ambas as Portarias regulamentaram dispositivos da mesma lei original – a Lei 11.941/09. E as decisões consideraram o Colegiado à época. E recordando novamente – tratamse de decisões proferidas pelas mesma turma, Câmara e Seção, eis que essa em específico se manteve inerte e não foi extinta pelo novo regimento. E, se assim considerássemos, se tivéssemos decisões de mesmas turmas com colegiados contemplando números de julgadores diversos (por ausência justificada, por exemplo), mas com quórum para julgamento, deveríamos considerar como decisões dadas por turmas diversas. Apenas trago, em respeito aos colegas, que, independentemente da exposição de meu entendimento, aprecio as orientações dadas pelo Manual de Admissibilidade e admiro o trabalho exposto, vez que diversas vezes clarificou várias dúvidas que surgiram nesse Colegiado. Não obstante, em respeito ao disposto no “caput” do art. 67 do RICARF/2015 e art. 34 do Decreto 70.235/72, e por falta de previsão legal dispondo o contrário, o recurso especial interposto pela Fazenda não deve ser conhecido. Fl. 1756DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 20 19 Em vista de todo o exposto, não conheço o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Não obstante ao meu entendimento, considerando o art. 63, §8º, da Portaria MF 343/2015, in verbis (Grifos meus): “Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. [...] § 8º Na hipótese em que a decisão por maioria dos conselheiros ou por voto de qualidade acolher apenas a conclusão do relator, caberá ao relator reproduzir, no voto e na ementa do acórdão, os fundamentos adotados pela maioria dos conselheiros.[...]” É de se expor, em respeito ao art. 63, § 8º, do RICARF/2015, que a maioria desse Colegiado votou pelas conclusões, vez que entendeu que as situações fáticas consideradas no acórdão indicado como paradigma são distintas da situação tratada no acórdão recorrido, não se prestando o aresto referenciado, por conseguinte, à demonstração de dissenso jurisprudencial. A maioria desse Colegiado, portanto, ultrapassou a discussão envolvendo decisões proferidas por Turma, Câmara e Seção de Julgamento de mesma denominação e de mesmo prefixo, pois entende que “se um dos acórdãos em confronto foi proferido antes de 10/06/2015 e o outro depois, o paradigma pode ser aceito, já que se considera que os Colegiados são distintos, independentemente de terem a mesma denominação e de os respectivos números exibirem o mesmo prefixo”. Ventiladas tais considerações, passando a analisar o Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que devo conhecêlo – eis que o aresto recorrido e o indicado como paradigma trata da mesma situação e reflete posicionamentos Fl. 1757DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 21 20 divergentes. Ademais, é do mesmo contribuinte. Sendo assim, conheço o recurso especial para ressurgir com a discussão acerca da nulidade do lançamento. Passando a analisar a discussão trazida em Recurso Especial do sujeito passivo, por entender que houve vício que decorreu na deficiência do lançamento e, por conseguinte, o cerceamento do direito de defesa do sujeito passivo, antecipo meu entendimento por considerar o que restou decidido em acórdão 9303004.582 de relatoria do estimado Conselheiro Presidente Rodrigo Possas, vez que, a meu sentir, envolveu os mesmos fatos e deficiência do auto de infração, bem como o mesmo sujeito passivo e esse colegiado acordou, por unanimidade de votos, em conhecer o recurso do sujeito passivo para darlhe provimento. Foi consignada a seguinte ementa (Grifos meus): “ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/01/2003 a 30/06/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Recurso Especial do Contribuinte Provido.” No caso vertente, recordase que a motivação fática veiculada pelo Auto refletiu fato diverso, vez que constavam dos itens 4 e 5 do “Termo de Constatação Fiscal”: “4Analisando os documentos e os arquivos magnéticos fornecidos, relativamente aos anos calendários de 2002 e 2003, constatei que o contribuinte deu saídas de produtos do capítulo 22 da TIPI, os quais estão sujeitos ao imposto por classes, nos termos do artigo 149 do RIPI/2002 (Decreto nº 4544, de 26/12/2002). O enquadramento dos Fl. 1758DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 22 21 produtos nacionais nas classes de valores será feito por ato do Ministro da Fazenda, nos termos do artigo 150 do RIPI/2002 (Decreto nº 4544, de 26/12/2002. 5 Em pesquisa no sistema denominado “SELECON” da Secretaria da Receita Federal, constatei que não há Ato Declaratório Executivo de enquadramento dos produtos do contribuinte, relativamente aos anos calendários de 2002 e 2003. Assim sendo, solicitei enquadramento de ofício dos produtos, nos termos do artigo 150, inciso IV, §4º do RIPI/2002”. A motivação fática do lançamento considerou que o sujeito passivo havia comercializado bebidas sem a existência de Ato Declaratório Executivo. O que não corresponde com a situação do processo, vez que foi efetivamente comprovado pelo sujeito passivo a existência de enquadramentos anteriores para todos os produtos em questão. Cabe elucidar que o Auto de Infração deve ser lavrado com a demonstração dos fatos envolvidos e de sua subsunção à lei que justifiquem a exigência do tributo e da respectiva penalidade. Eis o art. 10 do Decreto 70.235/72 (Grifos meus): “Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula.” E o art. 2º, parágrafo único, inciso VII, da Lei 9.784/99: Fl. 1759DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 23 22 Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: [...] VII indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão;” Sendo assim, equívocos na descrição dos fatos implicam a nulidade absoluta do ato, razão pela qual a jurisprudência administrativa tem sido rigorosa quanto à necessidade de observação da motivação fática e legal como pressuposto de validade de Auto de Infração. Ora, a preterição do direito de defesa é inequívoca, neste caso, pois por evidente que a autuação fiscal ao narrar que teria havido comercialização de produtos sem prévio enquadramento, fez o sujeito passivo se defender, comprovando a improcedência do auto. Não obstante aos fatos trazidos inicialmente não existirem, houve o cerceamento de defesa, vez que o sujeito passivo foi surpreendido por inovações fáticas no decorrer do processo. Em vista de todo o exposto, voto por: · Não conhecer o Recurso Especial da Fazenda; · Conhecer o Recurso Especial do sujeito passivo, dandolhe provimento. É o meu voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 1760DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 24 23 Voto Vencedor Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, redator designado. Fui designado somente para redigir o voto vencedor em relação ao recurso especial do contribuinte. Com todo o respeito ao voto da ilustre relatora, não vislumbro que tenha havido qualquer tipo de nulidade do lançamento. A alegação do contribuinte é que houve nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa. A principal linha de defesa é que houve descrição de fatos deficiente e incorreta no auto de infração, fato que estaria comprovado nos autos e que teria como consequência o cerceamento do seu direito de defesa ensejador da nulidade do lançamento. Esse argumento foi levado a julgamento no acórdão recorrido e abaixo transcrevo excertos do voto: (...) Da preliminar de nulidade do auto de infração. Ainda em preliminar, a recorrente alegou nulidade da autuação por preterição do direito de defesa, em razão da deficiência na fundamentação legal e fática. Em relação à fundamentação legal, a recorrente argumentou que o Decreto 4.544/2002 RIPI/2002, indicado pela autoridade fiscal, era inaplicável aos fatos geradores ocorridos no período de janeiro a dezembro de 2002, pois não se encontrava vigente no referido período. Sem razão a recorrente. A uma, porque, ao contrário do alegado, o enquadramento legal, consignado no questionado auto de infração (fl. 995), consta também menção expressa ao Decreto 2.637/1998 (RIPI/98), vigente em relação aos fatos geradores ocorridos no ano de 2002. A duas, porque, sabidamente, a matriz legal dos dispositivos regulamentares, tanto do RIPI/1998, quanto do RIPI/2002, estava vigente no período da autuação, ou seja, a Lei 4.502/1964 e os demais diplomas legais, que embasaram a autuação, especialmente, a Lei 7.798/1989, que instituiu o regime de cobrança do IPI, para determinados produtos, incluídas as bebidas alcoólicas, com base na alíquota específica, segundo a classe de enquadramento do respectivo produto. A três, porque, revelase de todo desnecessária a menção, simultânea, dos dispositivos do RIPI/2002 e dos correspondentes dispositivos do RIPI/1998, de igual teor, como deu a entender a recorrente. No que tange a deficiência na fundamentação fática, a recorrente argumentou que era confusa e ilógica a acusação consignada no auto de infração de que não existia ADE para as bebidas comercializadas, já que a recorrente não tinha a incumbência de editar o ADE, mas apenas prestar as informações, para que a Administração tributária pudesse expedir o referido ato. Fl. 1761DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 25 24 Com a devida vênia, o que parece confuso e contraditório são os argumentos apresentados pela recorrente, especialmente, tendo em conta que, desde as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória, ela demonstrou pleno conhecimento do motivo da autuação, inclusive, no presente recurso, alegou nulidade da decisão recorrida porque nesta havia sido alterada a motivação apresentada pela fiscalização no auto de infração. Ora, se fosse confusa e ilógica a motivação fática consignada na autuação, certamente, não havia como ser cotejada com a motivação apresentada na decisão recorrida. Porém, conforme já ressaltado, os argumentos aduzidos nas duas peças defensivas colacionadas aos autos demonstram exatamente o contrário, ou seja, que a recorrente compreendeu a motivação fática da autuação e dela se defendeu adequadamente, inclusive, mediante apresentação de adequados elementos probatórios. Corrobora o asseverado, o excerto extraído da peça recursal que segue transcrito: O Auto de Infração lavrado contra a Recorrente tem por fundamento o ADE n° 51/06, que reenquadrou de oficio os produtos por ela comercializados, sob o fundamento de que tais bebidas não teriam sido enquadradas no passado. Esse foi exatamente o motivo da autuação. Ao constatar que a recorrente não dispunha de ADE específico para o enquadramento nas classes de valores do IPI, fixadas para os produtos por ela comercializados, a fiscalização solicitou a enquadramento de ofício e, ao constatar que os valores declarados eram inferiores, procedeu a autuação das diferenças apuradas. No caso, se a motivação fática apresentada não corresponde a verdade dos fatos provados nos autos, ou a fundamentação legal apresentada não corresponde às infrações imputadas à recorrente, obviamente, essas são questões que dizem respeito ao mérito da lide, a ser apreciado a seguir. Por todas essas razões, rejeitase a presente preliminar nulidade do auto de infração, por ausência de vício que possa conspurcar a sua higidez. (...) Concordo e adoto também como razões de decidir tudo que foi exposto no acórdão recorrido. Antes porém, é preciso ressaltar que o objeto do recurso especial recebido por esse colegiado é específico em relação à nulidade do lançamento em face de suposto cerceamento do seu direito de defesa. Faço essa referência, pois ao longo do seu recurso especial, o defendente reclama de suposta nulidade das decisões recorridas por terem inovado as razões do lançamento. Não concordo que tal fato tenha acontecido, mas por não ser objeto do presente recurso especial, deixase de analisar especificamente esta matéria, concentrando nas questões atinentes à nulidade do auto de infração. Veja o que dispõe o Decreto nº 70.235/72, a respeito das nulidades: “Art. 59. São nulos: Fl. 1762DF CARF MF Processo nº 10855.003512/200624 Acórdão n.º 9303007.358 CSRFT3 Fl. 26 25 I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio”. [sublinhouse]. Da leitura de sua impugnação e demais peças de defesa, denotase claramente que o contribuinte compreendeu completamente a acusação fiscal, não tendo sido evidenciado qualquer elemento que pudesse caracterizar preterição do seu direito de defesa. O contribuinte defendeuse tão bem que trouxe provas e elementos suficientes a descaracterizar boa parte da acusação fiscal. E foi exatamente o que aconteceu no acórdão recorrido pela aplicação do art. 60 do PAF acima transcrito. O acórdão recorrido retirou as incorreções ocorridas no lançamento e manteve somente a parte em que a acusação fiscal foi procedente. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso especial apresentado pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 1763DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10882.001353/2004-34
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 30/04/1999, 31/05/1999, 31/08/1999, 30/09/1999, 31/12/1999, 31/01/2000, 31/05/2000, 30/06/2000, 30/09/2000, 31/01/2001, 31/05/2001, 30/09/2001, 31/01/2002, 31/05/2002, 30/09/2002, 31/01/2003, 31/05/2003, 31/10/2000, 28/02/2001, 30/06/2001, 31/10/2001, 28/02/2002, 30/06/2002, 31/10/2002, 28/02/2003, 30/06/2003, 28/02/1999, 30/06/1999, 31/10/1999, 29/02/2000, 31/07/2000, 30/11/2000, 31/03/2001, 31/07/2001, 30/11/2001, 31/03/2002, 31/07/2002, 30/11/2002, 31/03/2003, 31/07/2003, 31/03/1999, 31/07/1999, 30/11/1999, 31/03/2000, 31/08/2000, 31/12/2000, 30/04/2001, 31/08/2001, 31/12/2001, 30/04/2002, 31/08/2002, 31/12/2002, 30/04/2003, 31/08/2003, 30/09/2003, 31/10/2003, 30/11/2003, 31/12/2003, 31/01/2004, 29/02/2004, 31/03/2004
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO DE CRÉDITO RELATIVO A TRIBUTO COM LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRAZO PRESCRICIONAL. SÚMULA 91 DO CARF.
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
COFINS. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA OPERACIONAL. INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, § 1º, DALEI Nº 9.718/1998.
Reconhecida a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998, a base de cálculo da contribuição deve ser determinada a partir do caput do art. 2º da Lei Complementar nº 70/1991. A Cofins, portanto, deve incidir sobre o faturamento mensal, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza.
Numero da decisão: 3301-004.828
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira
(assinado digitalmente)
Liziane Angelotti Meira - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira.
Nome do relator: LIZIANE ANGELOTTI MEIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira.
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PRAZO PRESCRICIONAL. SÚMULA 91 DO CARF. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. COFINS. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA OPERACIONAL. INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 3º, § 1º, DALEI Nº 9.718/1998. Reconhecida a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998, a base de cálculo da contribuição deve ser determinada a partir do caput do art. 2º da Lei Complementar nº 70/1991. A Cofins, portanto, deve incidir sobre o faturamento mensal, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 00 13 53 /2 00 4- 34 Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 488 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório elaborado no Acórdão nº 05 17.706 4a Turma da DRJ/CPS (fls. 303/321): Tratase do Auto de Infração relativo à Contribuição para o Programa de Integração Social PIS , lavrado em 30/06/2004, que formalizou o crédito tributário contra a contribuinte em epígrafe no valor total de R$ 103.290,41, incluindo multa de ofício e juros de mora calculados até 31/05/2004, devido às irregularidades assim discriminadas na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fls. 197/200: "001 — PIS FATURAMENTO DIFERENÇA APURADA ENTRE O VALOR ESCRITURADO E O DECLARADO/PAGO (VERIFICAÇÕES OBRIGATÓRIAS) Durante o procedimento de verificações obrigatórias foram constatadas divergências entre os valores declarados e os valores escriturados... [demonstrativo com Valor Tributável ou Contribuição e Multa (75%), em relação aos fatos geradores de 28/02/1999 a 31/03/2000 e 31/05/2000 a 31/03/2004]. Enquadramento legal: Art. 77, inciso III, do Decretolei n° 5.844/43; art. 149 da Lei n° 5.172/66; arts. 1° e 3°, alínea "b", da Lei Complementar n° 07/70, art. 1°, parágrafo único, da Lei Complementar n° 17/73, Título 5, capítulo 1, seção I, alínea "b", itens I e II, do Regulamento do PIS/PASEP, aprovado pela Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 489 3 Portaria MF n° 142/82; arts. 90, da Lei n° 9.715/98; art. 30 da MP 2.15835/2001." O Termo de Verificação de Infração, constante de fls. 176/182, detalha as irregularidades constatadas, do seguinte modo: "No exercício das funções de Auditor(es)Fiscal(is) da Receita Federal, em procedimentos de fiscalização realizados no sujeito passivo, instaurados mediante Mandado de Procedimento Fiscal — Fiscalização (MPFF), acima referenciado, no exame das verificações obrigatórias previstas nas "Verificações Preliminares", CONSTATAMOS as irregularidades a seguir descritas. Preliminarmente, ressaltamos que a Receita Bruta do sujeito passivo é proveniente da venda dos produtos que fabrica, os quais são classificados nos códigos 7009.10.00 e 8708.99.00 da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados «is.). A partir de 01/11/2002, passou a beneficiarse da redução da alíquota para 0% (zero por cento) para fins de incidência das contribuições para o PIS/PASEP e COFINS, de acordo com o art. 3° da Lei n°10.485/2002, pois seus produtos se encontram relacionados no Anexo I da mesma Lei (lis.). (negrejouse) Do cotejo entre os valores declarados em DIPJ e DCTF com os valores apurados com base em sua escrituração contábil e fiscal, em relação às contribuições para o PIS/PASEP e COFINS, abrangendo o período de apuração de 30/06/1998 a 31/03/2004, verificamos: • Que, a partir de 01/02/1999, não foram incluídos na base de cálculo das referidas contribuições, as receitas financeiras, descumprindo desta forma o disposto no art. 9° da Lei n° 9.718/98; • Que, a partir de 01/02/2000, não foram incluídos na base de cálculo das referidas contribuições, no momento da baixa dos direitos de crédito ou das obrigações, as variações cambiais ativas acumuladas, conforme alteração introduzida pelo art. 30 da Medida Provisória 2.15835/2001 ao disposto no art. 90 da Lei n° 9.718/98.(negrejouse) • Que os valores das receitas financeiras são os discriminados a seguir, com o respectivo período de apuração, extraídos do Razão e Balancetes Mensais da empresa «is.) e consolidados no "Demonstrativo das Variações Cambiais Ativas Realizadas" de fls. : De fevereiro/1999 a janeiro/2000 (art. 9° da Lei n°9.718/98) [demonstrativo das Receitas Financeiras de fev/99 a jan/00, contas envolvidas: descontos obtidos, var. monetária ativa comi., v.cambial ativa não realizada comi., v.cambial ativa não Fl. 489DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 490 4 realizada finan., rendimentos s/ aplicações, juros ativos, juros passivos, despesas bancárias, v.cambial passiva não realizada coml.] A partir de fevereiro de 2000 (art. 9° da Lei n° 9.718/98 e art. 30 da Medida Provisória 2.158 35/2001) [demonstrativo das Receitas Financeiras de fev/00 a mar/04, contas envolvidas: descontos obtidos, var. monetária ativa coml., v.cambial ativa não realizada comi., v.cambial ativa não realizada finan., rendimentos s/ aplicações, juros ativos, despesas com cobrança, despesas com corretagem, juros passivos, despesas bancárias, v.cambial passiva comi., v.cambial passiva não realizada finan., v.cambial passiva não realizada comi., gastos extraordinários] Fonte: Balancetes Mensais, Razão das Contas Clientes e Fornecedores e Demonstrativo das Variações Cambiais Ativas Realizadas, em anexo. Os valores das contribuições devidas ao PIS/PASEP e COFINS e calculados com base nas receitas financeiras serão exigidos através da lavratura do competente Auto de Infração contra o sujeito passivo, do qual este Termo é parte integrante e indissociável." A contribuinte foi cientificada dos autos em 30/06/2004 (fls. 196). Inconformada, a interessada apresentou, em 29/07/2004, por intermédio de seu representante legal, impugnação de fls. 204/227, acompanhada de documentos de fls. 228/287. Após breve resumo da ação fiscal, afirma que o Auto de Infração foi lavrado com base em premissas equivocadas, acarretando erro na planilha apresentada e, por conseguinte, no valor apurado pela fiscalização, como passa a demonstrar. Antes, porém, alega que a fiscalização foi além do mandado de procedimento fiscal, incluindo competências que extrapolaram o objeto da ação fiscal, delimitado no período de jun/98 a out/2002. Entende que deveria ter sido autorizada abertura de novo termo de verificação, englobando os períodos subseqüentes àqueles delimitados. Nestes termos, julga necessária a exclusão dos períodos posteriormente incluídos, por falta de amparo legal, fato que evidencia erro formal no lançamento. Na seqüência, com fundamento nas disposições constantes do art. 173, I, do CTN, protesta pela decadência do crédito Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 491 5 tributário relativo aos períodos de fev/99 a mai/99, tendo em vista o decurso do prazo de cinco anos. Cita jurisprudência, inclusive no sentido de afastar a aplicação das disposições constantes do art. 45 da Lei n° 8.212, de 1991, face sua inconstitucionalidade. No mérito, inicia dizendo que constitui equívoco a inclusão da variação cambial ativa não realizada na base de cálculo apurada. Fundamentase nas disposições constantes do art. 30 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001, que transcreve. Em suas palavras: "O artigo supra transcrito dispõe expressamente que servirão como base de cálculo as variações monetárias quando estas forem liquidadas; portanto, as variações ainda não realizadas não compõem a base de cálculo da citada contribuição Cumpre ressaltar que todas as bases de cálculo a seguir apresentadas pela Impugnante têm respaldo nos livros diário e razão da empresa, livros estes devidamente registrados na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP".(grifos do original) Reportandose ao período de fev/99 a jan/00, o qual julga em parte atingido pela decadência, alega a inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo instituída pela Lei n° 9.718, de 1998, que determinou a inclusão da totalidade das receitas auferidas pela contribuinte, dizendo que tal erro ocorreu nos períodos de "junho e dezembro de 1999 e janeiro de 2000", face o cômputo dos juros passivos e variação cambial ativa não realizada (financeira e comercial). Cita jurisprudência. No que concerne aos juros passivos, argúi que são despesas decorrentes do pagamento em atraso, portanto, não podem ser considerados como receitas integrantes da base de cálculo do Pis, pois seria o mesmo que penalizar a contribuinte duas vezes. Já com relação à variação cambial ativa não realizada, a despeito da inconstitucionalidade de sua inclusão, determinada pela Lei n° 9.718, de 1998, entende que esta não poderia ter sido inserida na base de cálculo, pois não foi ainda liquidada. E continua dizendo que "tanto é inconstitucional que a Medida Provisória 215835/2001 alteroua, excluindo as variacões cambiais ativas não realizadas". Aponta os valores indevidamente incluídos a este título, no período de abr/99 a jan/00. Passando ao período de fev/00 a jan/03, aqui também alega a inclusão indevida das variações cambiais ativas não realizadas, sob o mesmo fundamento antes exposto. Fl. 491DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 492 6 Atacando a planilha feita pelo Fisco, aduz, em suas palavras: "Explicando em detalhes, no momento da elaboração da planilha a Impugnada deveria ter apurado a variação cambial ativa realizada, os juros ativos e os descontos obtidos. No entanto, o que fez a Impugnada: somou os descontos obtidos, a variação cambial ativa realizada, os juros ativos e a variação cambial ativa não realizada, encontrando um determinado subtotal. Após, ela diminuiu o valor da variação cambial ativa não realizada e somou, DE FORMA EQUIVOCADA, um montante apurado com base nas contrapartidas dos fornecedores e clientes. Ou seja, para que a planilha ficasse correta, a Impugnada deveria ter se limitado à soma da variação cambial ativa, dos juros ativos e dos descontos obtidos, pois, assim, encontraria a correta base de cálculo. E não somar os valores das contrapartidas dos fornecedores e clientes!" (grifos do original) Refazendo os cálculos do Fisco relativamente ao mês de maio/2000, conforme acima explicitado, acusa que a diferença entre a base de cálculo do Auto de Infração e o valor correto apurado é de R$ 4.875,48, reforçando que a inclusão indevida da variação cambial ativa não realizada ocorreu em todos os meses autuados, como demonstra nos exemplos apontados (out/2001, out/2002 e nov/2002). Elabora, às fls. 216/217, planilha cujas bases de cálculo julga corretas. Relativamente ao período de jan/03 a mar/04, aponta outro equívoco, agora em seu desfavor: "No período acima destacado, os valores referentes aos descontos obtidos estão devedores, quando, na verdade, deveriam estar credores. Ou seja, os valores estão diminuindo o montante da base de cálculo, quando deveriam aumentála. Tal erro foi constatado após o término da fiscalização, pela Impugnante. Ou seja, após o recebimento do auto de infração, a Impugnante, durante o preparo da presente defesa, constatou o equívoco na planilha do período em destaque, aproveitando esta oportunidade para apontálo. No período a partir de janeiro de 2004, não foram incluídos valores na base de cálculo, quando, na verdade, estes montantes existem. Fl. 492DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 493 7 Passando à multa, argúi ser abusiva no percentual aplicado (75%), dizendo nítido o caráter confiscatório. Fundamenta se nas disposições dos arts. 50, XXII, e 150, IV, da Constituição Federal — CF, de 1988. Faz ampla dissertação acerca do conceito de confisco, citando doutrina e jurisprudência, concluindo ser inconstitucional a penalidade imputada, por violar os princípios da capacidade contributiva, da propriedade, do nãoconfisco, da igualdade e da proporcionalidade, pretendendo, quando menos, a redução do valor da multa aplicada. Quanto à cobrança de juros à taxa Selic, refuta a exigência, dizendo ser totalmente ilegal e inconstitucional, face ausência de lei na sua criação. E sendo aplicada na correção de tributos, conclui ter aumento de tributo sem lei específica, em afronta ao disposto no art. 150, I, da CF, de 1988. Cita jurisprudência. Ressalta que "a 20 Câmara Temporária do E. Tribunal de Impostos e Taxas, em decisão recente, entendeu que os juros de mora aplicados sobre os débitos do contribuinte com a Fazenda não podem se basear na variação da taxa Selic, substituindoa pelos juros moratórios de 1% ao mês." Encerra com o seguinte pedido: "Assim sendo, serve a presente para requerer seja julgada procedente a presente impugnação, para o fim de afastar o cálculo apresentado pela Impugnada, diante de todos os equívocos apontados, e, conseqüentemente, constituir o crédito tributário no montante originário de R$ 11.162,81 (onze mil cento e sessenta e dois reais e oitenta e um centavo), valor este sem a imputação da multa, por ser abusiva e sem a incidência da Selic (dada sua inconstitucionalidade) conforme planilhas apresentadas pela ora Impugnante." (grifos do original) A DRJ/FOR considerou a manifestação de inconformidade procedente em parte, com a seguinte Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Fl. 493DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 494 8 Data do fato gerador: 30/04/1999, 31/05/1999, 31/08/1999, 30/09/1999, 31/12/1999, 31/01/2000, 31/05/2000, 30/06/2000, 30/09/2000, 31/01/2001, 31/05/2001, 30/09/2001, 31/01/2002, 31/05/2002, 30/09/2002, 31/01/2003, 31/05/2003, 31/10/2000, 28/02/2001, 30/06/2001, 31/10/2001, 28/02/2002, 30/06/2002, 31/10/2002, 28/02/2003, 30/06/2003, 28/02/1999, 30/06/1999, 31/10/1999, 29/02/2000, 31/07/2000, 30/11/2000, 31/03/2001, 31/07/2001, 30/11/2001, 31/03/2002, 31/07/2002, 30/11/2002, 31/03/2003, 31/07/2003, 31/03/1999, 31/07/1999, 30/11/1999, 31/03/2000, 31/08/2000, 31/12/2000, 30/04/2001, 31/08/2001, 31/12/2001, 30/04/2002, 31/08/2002, 31/12/2002, 30/04/2003, 31/08/2003, 30/09/2003, 31/10/2003, 30/11/2003, 31/12/2003, 31/01/2004, 29/02/2004,31/03/2004 DECADÊNCIA. PRAZO O prazo decadencial para a constituição do crédito tributário relativo ao Pis é de dez anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído, conforme determina a legislação de regência. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF A suposta inobservância de ato regulamentar que visa ao controle interno não implica nulidade dos trabalhos praticados sob sua égide, tendentes à apuração e lançamento do crédito tributário, cuja atividade é vinculada à lei e obrigatória, nos termos do art. 142 do CTN. Somente a lei pode modificar a competência originária para o lançamento do crédito tributário. Não obstante, in casu, verificase que a inclusão dos períodos de apuração abrangidos na ação fiscal está de acordo com a legislação vigente. PIS. FALTA DE RECOLHIMENTO É devida a exigência da contribuição apurada no confronto dos valores declarados e aqueles escriturados pela contribuinte. VARIAÇÕES MONETÁRIAS ATIVAS A partir do período de apuração de fevereiro de 1999, o Pis incide sobre a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, nelas se incluindo as advindas de aplicações financeiras, inclusive as variações monetárias ativas e os juros ativos, uma vez que inexiste dispositivo legal que possibilite suas exclusões da base de cálculo. VARIAÇÕES CAMBIAIS ATIVAS A partir de 1°/02/00, as variações cambiais ativas passaram a compor a base de cálculo da contribuição segundo o regime de caixa, podendo ser adotado o regime de competência, a critério da contribuinte. Fl. 494DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 495 9 Se tributadas pelo regime de competência, devem ser reconhecidas a cada mês, independentemente da efetiva liquidação das operações correspondentes. In casu, depreendese dos autos que a fiscalização admitiu a tributação das referidas receitas segundo o regime de caixa, ou seja, no momento da baixa dos direitos de crédito ou das obrigações (realização). DESPESAS FINANCEIRAS Seja qual for a denominação adotada, os ingressos de valores na empresa compõem a base de cálculo do Pis, não havendo que se falar em despesa financeira para efeito de determinação da respectiva contribuição, ao contrário do que se dá na apuração do Imposto de Renda e da CSLL. Retificase a exigência para excluir as despesas indevidamente computadas na base de cálculo da contribuição, bem como as variações cambiais consideradas a débito. LEI 9.718/98. MULTA DE OFÍCIO. JUROS À TAXA SELIC. INCONSTITUCIONALIDADE. INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS.COMPETÊNCIA. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade, restringindose a instância administrativa ao exame da validade jurídica dos atos praticados pelos agentes do fisco. Lançamento Procedente em Parte Foi apresentado Recurso Voluntário, fls 358/400, do qual constam os seguintes pedidos: (i) nulidade do Auto de Infração em relação ao período de novembro/2002 a março/2004, já que tal período não é objeto da ação fiscal que deu origem à autuação fiscal; (ii) decadência do direito de a União Federal efetuar o lançamento em relação aos fatos, geradores ocorridos entre fevereiro e maio/1999; (iii) improcedência do lançamento fiscal objeto do Auto de Infração em relação aos fatos geradores ocorridos entre fevereiro/1999 e novembro/2002, diante da exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Contribuição ao PIS em razão da flagrante inconstitucionalidade do artigo 3°, parágrafo 1°, da Lei n° 9.718/98, já reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e Conselho de Contribuintes, e recentemente revogado pela Lei n° 11.941/2009; (iv) a exclusão dos valores lançados nas contas "Clientes" e "Fornecedores" como receitas financeiras para apuração da Contribuição ao PIS em relação aos fatos geradores ocorridos a Fl. 495DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 496 10 partir de dezembro/2002 até março/2004; e,em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de dezembro/2002 até março/2004; e, (v) caso não seja afastada a aplicação do artigo 3°, parágrafo 1°, da Lei n' 9.718/98: a) a improcedência do lançamento fiscal em relação aos fatos geradores ocorridos de fevereiro/1999 a janeiro/2000, em razão da aplicação dos artigos 30 e 31 da Medida Provisória n° 1.858 10/1999 (MP n° 2.15835/2001) para as competências a partir de 1999, que impõem a exclusão das variações cambiais ativas não realizadas da base de cálculo da Contribuição ao PIS em razão da tributação com base no regime de caixa; e, b) a retificação da receita financeira no mês de janeiro de 2000 para R$ 0,01 (um centavo), excluindose referente realizada, em razão da aplicação do artigo 30 da Medida Provisória n° 1.858 10/1999 (MP n° 2.15835/2001) já a partir de 01.01.2000, abrangendo, portanto, o período de apuração de janeiro de 2000; c) a exclusão dos valores lançados nas contas "Clientes" e "Fornecedores" como receitas financeiras para apuração da Contribuição ao PIS entre fevereiro/2000 e março/2004. É o relatório. Voto Conselheira Liziane Angelotti Meira O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. Quanto à nulidade do Auto de Infração em relação ao período de novembro/2002 a março/2004, já que tal período não é objeto da ação fiscal que deu origem à autuação fiscal, mantémse a decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos e também por entender que a Recorrente teve plena ciência do período abrangido no Auto de Infração e amplas condições de exercer o seu direito de defesa. Em relação à arguição de decadência do direito de a União Federal efetuar o lançamento em relação aos fatos, geradores ocorridos entre fevereiro e maio/1999, assiste razão à Recorrente. O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, devendo ser observadas as regras do Código Tributário Nacional CTN. Além disso, o enunciado da Súmula CARF nº 99 dispõe que: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 497 11 pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. Quanto ao mérito, defende a Recorrente a improcedência do lançamento fiscal objeto do Auto de Infração em relação aos fatos geradores ocorridos entre fevereiro/1999 e novembro/2002, diante da exclusão das receitas financeiras da base de cálculo da Contribuição ao PIS em razão da flagrante inconstitucionalidade do artigo 3°, parágrafo 1°, da Lei n° 9.718/98, já reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e Conselho de Contribuintes, e recentemente revogado pela Lei n° 11.941/2009. Defende também a exclusão dos valores lançados nas contas "Clientes" e "Fornecedores" como receitas financeiras para apuração da Contribuição ao PIS em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de dezembro/2002 até março/2004; e,em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de dezembro/2002 até março/2004. Mister consignar que a Lei Complementar nº 70/91, no seu art. 2º, restringia a materialidade do tributo ao faturamento “mensal, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza”. Não havia previsão para incidência sobre outras receitas, o que somente ocorreu com o advento da Lei nº 9.718/98, a qual, no seu art. 3º, § 1°, ampliou o âmbito normativo da contribuição, de modo a compreender a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica. O § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 foi julgado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 346.084/PR: CONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE – ARTIGO 3º, § 1º, DA LEI Nº 9.718, DE 27 DE NOVEMBRO DE 1998 – EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 20, DE 15 DE DEZEMBRO DE 1998. O sistema jurídico brasileiro não contempla a figura da constitucionalidade superveniente. TRIBUTÁRIO – INSTITUTOS – EXPRESSÕES E VOCÁBULOS – SENTIDO. A norma pedagógica do artigo 110 do Código Tributário Nacional ressalta a impossibilidade de a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance de consagrados institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados expressa ou implicitamente. Sobrepõese ao aspecto formal o princípio da realidade, considerados os elementos tributários. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL – PIS – RECEITA BRUTA – NOÇÃO – INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º DA LEI Nº 9.718/98. A jurisprudência do Supremo, ante a redação do artigo 195 da Carta Federal anterior à Emenda Constitucional nº 20/98, consolidouse no sentido de tomar as expressões receita bruta e faturamento como sinônimas, jungindoas à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. É inconstitucional o § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, no que ampliou o conceito de receita bruta para envolver a totalidade das receitas auferidas por pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas desenvolvida e da classificação contábil adotada. (STF. T. Pleno. RE 346.084/PR. Rel. Min. ILMAR GALVÃO. Rel. p/ Acordão. Min. MARCO AURÉLIO. DJ 01/09/2006). Esse entendimento foi reafirmado no julgamento do RE nº 585.235/RG, decidido em regime de repercussão geral (CPC, art. 543B), no qual também foi deliberada e edição de súmula vinculante sobre a matéria: Fl. 497DF CARF MF Processo nº 10882.001353/200434 Acórdão n.º 3301004.828 S3C3T1 Fl. 498 12 RECURSO Extraordinário. Tributo. Contribuição Social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.09.2006; Res n º 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (STF. RE 585235 RGQO. Rel. Min. CESAR PELUSO. DJ 28/11/2008). Nesse sentido, é de se concluir que assiste razão à Recorrente quando defende a inconstitucionalidade da no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98, e consequentemente, defende ser indevida no período em pauta a inclusão na base de cálculo da contribuição para a Cofins de valores estranhos ao conceito de faturamento constante da Lei Complementar nº 70/91. Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário. Liziane Angelotti Meira Relatora Fl. 498DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720611/2016-09
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 10 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
NULIDADE. ACÓRDÃO.
Não é nulo, por falta de motivação, o acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento que cita, como razões de decidir, julgados proferidos pelo CARF e, por consequencia, indefere o pedido do contribuinte, que defendia em sua Impugnação um posicionamento contrário ao que restou decido.
NULIDADE. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO FISCAL
Rejeitam-se as preliminares de nulidade suscitadas contra o procedimento administrativo fiscal, quando o processo administrativo fiscal obedece as determinações legais e garante ao contribuinte o contraditório e a ampla defesa, e não foi provada nenhuma violação aos arts. 10 e 59 do Decreto nº 70.235, de 1972.
PEDIDO DE SOBRESTAMENTO DO PROCESSO. INDEFERIMENTO.
Não há embasamento legal para se sobrestar processo em razão da existência de outros processos administrativos em julgamento que podem afetar o presente processo, por envolverem prejuízo fiscal e base de cálculo negativa, ainda mais quando o contribuinte não comprova nos autos as discussões travadas nos processos invocados.
DECADÊNCIA. ARTIGO 150, § 4º DO CTN.
Nos termos da jurisprudência consolidada dos Tribunais, em especial do Superior Tribunal de Justiça, havendo pagamento parcial do tributo, a contagem do prazo decadencial se inicia na data do fato imponível, nos termos previstos no art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional.
IRPJ E CSLL. DESPESAS DEDUTÍVEIS. REQUISITOS. ÔNUS DA PROVA. GLOSA.
Para as despesas incorridas pelo contribuinte serem dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL há que se comprovar o pagamento ou, na ausência deste, a despesa deve ser ao menos incorrida/reconhecida (regime de competência) e os gastos devem ser úteis ou necessários para a manutenção da empresa e relacionados ao seu objeto social.
O dever de comprovar que a despesa é inexistente, indedutível ou a falsidade do documento que suportou o lançamento contábil é da fiscalização.
Contudo, uma vez comprovada a indedutibildiade, o ônus para desconstruir a acusação fiscal passa a ser do contribuinte, que deve carrear aos autos documentos comprobatórios das suas alegações. Não o fazendo, impõe-se a manutenção do lançamento fiscal.
CSLL. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO.
Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplica-se ao lançamento reflexo alusivo à CSLL o que restar decidido no lançamento do IRPJ.
COEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO SEM CAUSA E PRESTAÇÃO DE SERVIÇO COM AUSÊNCIA DAS RETENÇÕES DE CONTRIBUIÇÕES. IMPOSSIBILIDADE.
Se for considerado pagamento sem causa por falta de efetividade do serviço prestado, não cabe a cobrança de multa e juros por ausência das retenções das contribuições desses pagamentos.
MULTA QUALIFICADA. PROCEDÊNCIA.
É cabível a qualificação da multa de ofício quando comprovada a fraude, consistente na modificação das características essenciais do fato gerador visando a redução do tributo devido.
Numero da decisão: 1302-003.010
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade, votando o conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Luiz Tadeu Matosinho Machado pela conclusões do relator quanto a alegação de mudança de critério jurídico pela autoridade lançadora, e, no mérito, por unanimidade de votos: 1- em negar provimento ao recurso quanto às glosas de despesas da base de cálculo do IRPJ e CSLL, votando o conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca pelas conclusões do relator quanto à glosa das despesas com serviços; 2- em dar provimento ao recurso quanto ao lançamento de IRRF, votando pelas conclusões do relator os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Maria Lucia Miceli e Luiz Tadeu Matosinho Machado; e 3- em negar provimento ao recurso quanto à incidência de juros sobre a multa; e, ainda, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso quanto às multas isoladas de estimativas de IRPJ e CSLL, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Gustavo Guimarães da Fonseca. Quanto ao recurso de ofício, por unanimidade de votos em negar provimento quanto à multa isolada e juros aplicados pela falta de retenção e recolhimento de contribuições sociais e, por maioria, em dar provimento parcial ao recurso quanto à multa qualificada aplicada em face das glosas de despesas junto às empresas ligadas: Ozcorp Serviços SC Ltda, Port Serv SC Ltda e M. Tadeu Di Giorgio Informática Ltda ME, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho.
(assinado digitalmente)
LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente.
(assinado digitalmente)
FLÁVIO MACHADO VILHENA DIAS - Relator.
(assinado digitalmente)
CARLOS CESAR CANDAL MOREIRA FILHO - Redator desidnado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 52; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1995; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C3T2 Fl. 1.091 1 1.090 S1C3T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16327.720611/201609 Recurso nº De Ofício e Voluntário Acórdão nº 1302003.010 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 15 de agosto de 2018 Matéria IRPJ Recorrentes COMPANHIA MUTUAL DE SEGUROS FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 NULIDADE. ACÓRDÃO. Não é nulo, por falta de motivação, o acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento que cita, como razões de decidir, julgados proferidos pelo CARF e, por consequencia, indefere o pedido do contribuinte, que defendia em sua Impugnação um posicionamento contrário ao que restou decido. NULIDADE. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO FISCAL Rejeitamse as preliminares de nulidade suscitadas contra o procedimento administrativo fiscal, quando o processo administrativo fiscal obedece as determinações legais e garante ao contribuinte o contraditório e a ampla defesa, e não foi provada nenhuma violação aos arts. 10 e 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. PEDIDO DE SOBRESTAMENTO DO PROCESSO. INDEFERIMENTO. Não há embasamento legal para se sobrestar processo em razão da existência de outros processos administrativos em julgamento que podem afetar o presente processo, por envolverem prejuízo fiscal e base de cálculo negativa, ainda mais quando o contribuinte não comprova nos autos as discussões travadas nos processos invocados. DECADÊNCIA. ARTIGO 150, § 4º DO CTN. Nos termos da jurisprudência consolidada dos Tribunais, em especial do Superior Tribunal de Justiça, havendo pagamento parcial do tributo, a contagem do prazo decadencial se inicia na data do fato imponível, nos termos previstos no art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional. IRPJ E CSLL. DESPESAS DEDUTÍVEIS. REQUISITOS. ÔNUS DA PROVA. GLOSA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 06 11 /2 01 6- 09 Fl. 1091DF CARF MF 2 Para as despesas incorridas pelo contribuinte serem dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL há que se comprovar o pagamento ou, na ausência deste, a despesa deve ser ao menos incorrida/reconhecida (regime de competência) e os gastos devem ser úteis ou necessários para a manutenção da empresa e relacionados ao seu objeto social. O dever de comprovar que a despesa é inexistente, indedutível ou a falsidade do documento que suportou o lançamento contábil é da fiscalização. Contudo, uma vez comprovada a indedutibildiade, o ônus para desconstruir a acusação fiscal passa a ser do contribuinte, que deve carrear aos autos documentos comprobatórios das suas alegações. Não o fazendo, impõese a manutenção do lançamento fiscal. CSLL. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplicase ao lançamento reflexo alusivo à CSLL o que restar decidido no lançamento do IRPJ. COEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO SEM CAUSA E PRESTAÇÃO DE SERVIÇO COM AUSÊNCIA DAS RETENÇÕES DE CONTRIBUIÇÕES. IMPOSSIBILIDADE. Se for considerado pagamento sem causa por falta de efetividade do serviço prestado, não cabe a cobrança de multa e juros por ausência das retenções das contribuições desses pagamentos. MULTA QUALIFICADA. PROCEDÊNCIA. É cabível a qualificação da multa de ofício quando comprovada a fraude, consistente na modificação das características essenciais do fato gerador visando a redução do tributo devido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade, votando o conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Luiz Tadeu Matosinho Machado pela conclusões do relator quanto a alegação de mudança de critério jurídico pela autoridade lançadora, e, no mérito, por unanimidade de votos: 1 em negar provimento ao recurso quanto às glosas de despesas da base de cálculo do IRPJ e CSLL, votando o conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca pelas conclusões do relator quanto à glosa das despesas com serviços; 2 em dar provimento ao recurso quanto ao lançamento de IRRF, votando pelas conclusões do relator os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Maria Lucia Miceli e Luiz Tadeu Matosinho Machado; e 3 em negar provimento ao recurso quanto à incidência de juros sobre a multa; e, ainda, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso quanto às multas isoladas de estimativas de IRPJ e CSLL, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Gustavo Guimarães da Fonseca. Quanto ao recurso de ofício, por unanimidade de votos em negar provimento quanto à multa isolada e juros aplicados pela falta de retenção e recolhimento de contribuições sociais e, por maioria, em dar provimento parcial ao recurso quanto à multa qualificada aplicada em face das glosas de despesas junto às empresas ligadas: Ozcorp Serviços SC Ltda, Port Serv SC Ltda e M. Tadeu Di Giorgio Informática Ltda ME, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho. Fl. 1092DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.092 3 (assinado digitalmente) LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente. (assinado digitalmente) FLÁVIO MACHADO VILHENA DIAS Relator. (assinado digitalmente) CARLOS CESAR CANDAL MOREIRA FILHO Redator desidnado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase, o presente processo, de autuações lavradas em face do ora Recorrente, Companhia Mutual de Seguros Em liquidação extrajudicial, através do qual foram constituídos créditos tributários de IRPJ, CSLL, IRRF, além da constituição de multas isoladas por ausência de recolhimento de contribuições, nos anos calendários de 2011 a 2014. No Termo de Verificação Fiscal de fls. 379 a 404, o agente autuante, após discorrer sobre o processo de fiscalização, sobre as intimações enviadas ao contribuinte e acerca das respostas por este elaboradas, afirma que: Identificados pagamentos e deduções de despesas a título de “Comissões” e de prestação de serviços realizados a pessoas jurídicas vinculadas – OZCORP, PORT SERV e M TADEU DI GIORGIO, sociedades estas com mesmos sócios e/ou dirigentes da MUTUAL – sem comprovação da efetiva prestação de serviços. Identificadas ainda despesas de serviços gráficos/material de expediente – DIÁRIO DE SOROCABA, GRÁFICA KAROLL, D'CALE e ELZA DE ROSSI, de honorários EMBRAFISA e de viagens, todas também sem comprovação de efetiva prestação de serviços, bem como despesas de condomínio de imóvel não pertence ao seu imobilizado. Caracterizadas a indedutibilidade das despesas mencionadas, bem como o fato de em alguns casos não ter havido a devida retenção na fonte de Contribuições Sociais, lavra se a apresente autuação, pelas razões de direito a seguir expostas. Posteriormente, no TVF, o agente fiscal discorre sobre cada uma das infrações cometidas pelo contribuinte e que motivaram a lavratura do Auto de Infração, em especial o caráter da despesas incorridas pelo contribuinte, que, aos olhos da fiscalização, não teriam sido comprovadas e, por isso, não seriam dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da Fl. 1093DF CARF MF 4 CSSL. Despesas estas relativas a "comissões", "prestação de serviços" e "despesas operacionais", cuja fundamentação da autuação será melhor explorada no voto abaixo. A acusação fiscal, com base na suposta indedutibilidade das despesas, entendeu também pela constituição de crédito tributário relativo ao IRRF, à alíquota de 35%, argumentando, em síntese, que: Conforme acima descrito, além da glosa de sua dedutibilidade na apuração do Lucro Real – IRPJ – e da base de cálculo da CSLL se aplica a todos os pagamentos identificados também a penalidade de ausência de retenção na fonte devida por seu enquadramento como “pagamentos sem causa”, à alíquota de 35% sujeita à recomposição da base de cálculo. (destacouse) Por fim, foram aplicadas penalidades pela ausência de retenção de contribuições, não recolhimento das estimativas, considerando a base de cálculo apurada sem as despesas que foram desconsideradas no trabalho de fiscalização, além de a multa de ofício ter sido qualificada, em virtude de suposta conduta dolosa do contribuinte. Ao final, no TVF, assim a fiscalização conclui a autuação: Encerramos parcialmente nesta data, a ação fiscal junto ao sujeito passivo acima identificado, com lançamento de ofício, por meio de auto de infração, de crédito tributário de IRPJ e CSLL dos anoscalendário 2011 a 2014, IRF e multa e juros isolados por ausência de retenção de contribuições sociais e insuficiência de recolhimento de estimativas mensais, conforme resumo a seguir: IRPJ 24.328.044,20 CSLL 14.743.116,44 IRF 75.137.817,79 MULTA/JUROS ISOLADOS 1.548.048,68 TOTAL 115.757.027,11 Os valores lançados relativos à CSLL são reflexo da apuração do IRPJ. Ainda em função do presente lançamento são recompostos os valores de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas de CSLL dos anoscalendário 2011 a 2014, conforme formulários FAPLI e FACS. Os lançamentos estão sendo efetuados com base nos dispositivos legais e regulamentares citados no presente Termo, bem como naqueles citados no Auto de Infração e folhas de continuação dos quais este termo é parte integrante e indissociável. Em decorrência da presente autuação, a MUTUAL fica intimada a alterar, no que couber, seus registros contábeis, Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) e Demonstrativo de Apuração da Base de Cálculo da CSLL dos anoscalendário 2011 a 2014. Fl. 1094DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.093 5 A auditoria fiscal se ateve aos fatos e documentos descritos, ressalvado o direito de a Fazenda Nacional proceder a novos exames, caso surjam elementos novos que os justifiquem. Este Termo de Verificação Fiscal é parte integrante e inseparável do Auto de Infração lavrado, PAF 16327.720.611/201609. Também formalizada Representação Fiscal para Fins Penais, processo administrativo fiscal de nº 16327.720.830/201680, apenso a este. Devidamente intimado, o Recorrente apresentou Impugnação administrativa, cujos os argumentos de defesa foram assim sintetizados pelo acórdão proferido pela DRJ de Curitiba (PR): IPreliminares 19.1. Pediu o cancelamento ou extinção das exações por afronta ao art. 146 do CTN. Alegou que a fiscalização adotou critérios jurídicos distintos, porque os processos administrativos fiscais nº 16327.001681/201061(AC 2007) e nº 16327.721266/2013 70(AC 2008,2009 e 2010) tratam dos mesmos fatos analisados no presente processo, que é relativo ao lançamento para cobrança do crédito tributário devido em razão da susposta ausência de comprovação do pagamento e efetividade de serviços prestados, mas que naquelas autuações não houve a cobrança da multa de ofício qualificada à alíquota de 150%, a exigência do imposto retido na fonte e o lançamento de multa e juros isolados pela suposta ausência de retenção na fonte. Afirmou que é defeso à Autoridade Administrativa alterar os critérios jurídicos consubstanciados nos lançamentos de ofício, para um mesmo sujeito passivo, com relação a fatos geradores já ocorridos, nos estritos termos do que dispõe o artigo 146 do Código Tributário Nacional. Citou princípio da proteção à confiança de Leandro Paulsen. Citou ainda doutrinas, relativas ao artigo 146 do CTN, de Ricardo Lobo torres, de Misabel Derzi e Luís Eduardo Schoueri. Por fim citou os acórdãos CARF nº 3401002.537 e 320200.023, relacionados com a questão. 19.2. Alegou que a fiscalização ao apurar o lucro real e a CSLL não compensou com o prejuízo fiscal e com a base de cálculo negativa da CSLL dos exercícios anteriores. Aduziu que falta o requisito de liquidez e certeza ao lançamento, considerando que os valores devidos de IRPJ e CSLL seriam menores com a compensação dos prejuízos fiscais e da base de cálculo negativa de CSLL, e isso tornaria esse lançamento nulo. Citou a doutrina de Aurélio Pitanga Seixas Filho sobre a exigência de certeza e liquidez para lançamento de crédito tributário. Citou também decisões do CARF acerca de liquidez e certeza. Disse que é inadmissível o ajuste de ofício que zerou o saldo de prejuízo fiscal e a base de cálculo negativo, em virtude dos lançamentos controlados nos processos administrativos nº 16327.720464/201073, 16327.720463/201029 e 16327.001681/201061, os quais encontramse pendentes de Fl. 1095DF CARF MF 6 decisão definitiva. Argumentou que como os valores apurados de IRPJ e CSLL são ilíquidos e incertos, o lançamento deve ser cancelado ou, ao menos em respeito ao princípio da verdade material, o sobrestamento do presente processo até o encerramento dos processos administrativos citados acima. Citou decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais que trata da verdade material. Citou ainda decisões do CARF que trata de sobrestamento do feito até a resolução de questão prejudicial, acórdão de nº 930300.136 e nº 106141.211. 19.3. Argumentou a impossibilidade da coexistência do lançamento de IRRF incidente sobre pagamento sem causa e do lançamento da multa e juros isolados em decorrência da ausência das retenções das contribuições sobre pagamento da prestação de serviços, porque esses lançamentos seriam mutuamente excludentes. Afirmou que houve de fato a prestação de serviço, conforme a exigência feita pelo auditorfiscal pelo lançamento da multa e juros pela ausência de retenção das contribuições sobre pagamento pela prestação de serviços, e, portanto, infundado seria o lançamento de IRRF decorrente de pagamento indevido. Por outro lado, disse que, considerando apenas a título argumentativo, caso se entenda que os pagamentos realizados pela impugnante forem sem causa, seria inadmissível a exigência da retenção de contribuições sociais, já que não teria ocorrido a prestação de serviços. IIDireito 19.4. Aduziu que parte do lançamento referente a IRRF à alíquota de 35% está decaído, posto que o imposto está sujeito a lançamento por homologação, no qual a contagem do prazo decadencial de 5 anos contase do fato gerador, conforme §4º do artigo 150 do CTN, e decorreram mais de 5 anos entre fato gerador e o lançamento. Alegou que para fins de considerar se houve ou não pagamento antecipado do imposto de renda na fonte, basta examinar a existência de recolhimento genérico do IR/Fonte, dispensando o recolhimeno de fonte da mesma espécie. Trouxe acórdão do CARF nesse sentido. Argumentou que o fato gerador do IRRF em questão é diário, e que o crédito tributário relativo aos períodos anteriores a 5 anos do lançamento, que foi em 11/12/2016, está decaído. 19.5. Teceu considerações sobre a regra geral de dedutibilidade de despesas para comprovar que a suas despesas glosadas se enquadram no conceito de despesas dedutíveis. Afirmou que de acordo com a regra geral contida no artigo 299 do RIR/99, despesas operacionais são aquelas necessárias, usuais e normais à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. E para fundamentar a sua posição, citou doutrina de Bulhões Pedreira, Ricardo Mariz de Oliveira, citou também trecho do Parecer Normativo CST nº 32, de 17 de agosto de 1981, e citou ainda o Acórdão nº CSRF/010.834 da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Ao final, pediu o cancelamento das glosas de despesas. 19.6. Ressaltou que a contabilidade faz prova em favor da impugnante, motivo pelo qual não se pode admitir o entendimento da fiscalização no sentido de que não foram Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.094 7 apresentados elementos de prova. Citou em seu favor o artigo 276 do RIR/99, o art. 122 do então vigente Código Comercial, bem como os arts. 417 a 420 do Código de Processo Civil. Trouxe doutrina de Alberto Xavier, na qual defende que os livros comerciais devidamente escritos provam em favor de seus autores. Juntou também acórdãos do antigo Conselho de Contribuintes, nesse sentido, de nº 10318620 e 10705282. Aduziu que como não houve a comprovação da inveracidade dos registros contábeis e fiscais pela fiscalização, as autuações devem ser canceladas. 19.7. Aduziu que o ônus da prova no processo administrativo tributário cabe ao fisco, e que eventual ato administrativo tendente a desconsiderar as informações contabilizadas e declaradas pelo contribuinte, caso não esteja calçado por uma prova, mas apenas baseado em mera suposição, carecerá de motivo e será nulo de pleno direito. Afirmou que o sr. agente fiscal em momento algum demonstrou os alegados vícios e falhas da documentação apresentada, muito menos explicou o que seriam tais defeitos de ordem material ou ideológica. Citou a doutrina de José Souto maior Borges acerca do dever do fisco. Citou ainda decisões do antigo Conselho de Contribuintes acerca do ônus da prova do fisco de nº 10807508 e CSRF/01 01.445. Pela não apresentação das provas concretas da ocorrência das infrações, afirmou que é fator suficiente para o cancelamento integral das glosas em questão. 19.8. Em relação às despesas de comissões, serviços de terceiros, despesas de viagemoperacional, despesas com material de expedientelocalização e despesas de condomínio que foram glosadas pelo fisco, a impugnante alegou que a assunção e o pagamento dessas despesas encontramse cabalmente comprovadas por meio de contratos, notas fiscais e comprovantes de pagamento. Em sua argumentação, citou decisões do antigo Conselho de Contribuintes de nº AC 1º CC107206/93 e AC. 1º CC 1054.624/90. 19.9. Alegou que é indevida a glosa das despesas de comissões com a empresa Port Serv S/C Ltda, porque celebrou contrato com ela, em 03/01/2007, para serviços de administração das rotinas mensais inerentes às apólices de seguros, estando os pagamentos a essa empresa comprovados e as despesas de prestação de serviço de acordo com o art. 299 do RIR/99. Argumentou que em atenção ao Princípio da Verdade Material, é completamente irrelevante o nome da conta em que foi registrada a despesa na contabilidade, se como despesa de comissões ou despesas de administração. Juntou documento bancário de transferência de R$ 299.126,74 à empresa Port Serv S/C Ltda para comprovação de pagamento correspondente a uma das glosas de despesa efetuada pela fiscalização. 19.10. A impugnante aduziu que celebrou contrato com a Embrafisa, em 28/06/2012, para receber prestação de serviços de consultoria e assessoria, estando os pagamentos a essa empresa comprovados e as despesas de prestação de serviço de Fl. 1097DF CARF MF 8 acordo com a regra geral contida no artigo 299 do RIR/99, e que, portanto, as glosas de serviços de terceiros devem ser canceladas. Citou acórdão CARF nº 1101001.204 e 1402 001.786. Juntou nota fiscal e documento bancário correspondente a R$ 377.277,00 relativo a empresa Embrafisa, para comprovação da efetividade e pagamento da despesa glosada. 19.11. Alegou a insubsistência da glosa de despesas de material de expedientelocalização, correspondente ao serviço prestado pela D’ Cale Artes Gráficas Ltda, no valor de R$ 41.250,00. Afirmou que o pagamento e a efetividade da despsa estão comprovados. Juntou Recibo da baixa de Borderô e conta corrente do HSBC. 19.12. Rebateu as glosas de despesas de viagemoperacional, alegando que com o comprovante de pagamento emitido pelo banco HSBC, o dispêndio de R$ 175.000,0, resta cabalmente comprovado. Afirmou que as despesas com viagens estão de acordo com a regra geral contida no artigo 299 do RIR/99. 19.13. Aduziu que as glosas de despesas de condomínio devem ser canceladas, porque a contabilidade faz prova em favor da impugnante, e porque não houve comprovação da inveracidade dos registros contábeis pela fiscalização. 19.14. Alegou a inexistência de previsão legal para adição, à base de cálculo da CSLL, das despesas consideradas indedutíveis pela fiscalização. Citou jurisprudência administrativa de AC nº 10194286, nº 10707610 e nº 101 96.056. 19.15. Pugnou pela impossibilidade de cobrança do IRRF à alíquota de 35% por ausência de pagamento sem causa. Aduziu que o agente fiscal não fez a motivação, não esclarecendo a razão que o levou a caracterizar os pagamentos realizados aos beneficiários como sem causa, limitandose a citar o artigo da lei que prevê a cobrança do IRRF, sem demonstrar a subsunção dos fatos à referida legislação. Afirmou que sem a devida fundamentação, o sujeito passivo encontrase impossibilitado de exercer seu direito de defesa, tendo em vista que não está clara a conduta que levou à tributação. Sustentou que a cobrança do IRRF à alíquota de 35% existe para assegurar a tributação em casos em que existam pagamentos feitos a terceiros não identificados ou em operações em que não se tenha conhecimento da sua causa, de modo a evitar a evação de recursos provenientes destas operações, o que não conteceu no presente caso. Citou decisão do CARF acórdão nº 2403002.879, 3403003.267 e 20600164. Citou ainda o art. 5º, LV, da Carta Magna e o art. 142 do CTN. Citou também decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais nº 9202002.604. 19.16. Argumentou a impossibilidade de cobrança do IRRF à alíquota de 35% simultaneamente com a tributação do IRPJ e da CSLL em razão da glosa de despesas. Em sua fundamentação citou jurisprudência administrativa acórdão CSRF nº 9202 00.986 e nº 0401.094, bem como o acórdão nº 1101000.767 e 140200.193. Mencionou ainda a revogação do artigo 44 da Lei Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.095 9 nº 9.541/92 pela Lei nº 9.249/95 para justificar a impossibilidade da cobrança simultânea. 19.17. Afirmou a impossibilidade do reajustamento da base de cálculo – erro na composição da base de cálculo do IR/fonte, multa e juros isolados. Argüiu afronta aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Citou o princípio da razoabilidade do processor Celso Antônio Bandeira de Melo. Citou ainda o artigo 2º da lei 9.784/99 que trata dos princípios que devem ser respeitados pela Administração Pública. Citou também a doutrina de Helenilson Cunha Pontes. Argumentou ainda que a fiscalização não considerou em seus cálculos o imposto de renda retido por ela. 19.18. Argüiu a ausência de previsão legal para a exigência de multa isolada decorrente da suposta ausência de retenção das contribuições sociais na fonte. Disse que o lançamento de multa isolada com fundamento no artigo 9º da Lei nº 10.426/2002 deve ser cancelado de plano em razão da ausência de previsão legal para sua constituição. Em sua defesa citou acórdão CSRF nº 920202.288 e CSRF nº 9202001.886. Citou ainda o acórdão CARF nº 280200.184 e nº 2401004.065. 19.19. Alegou a impossibilidade de cobrança de juros isolados decorrentes da suposta ausência de retenção das contribuições sociais na fonte. Afirmou que o agente fiscal não fundamentou devidamente a cobrança dos juros isolados no presente caso, limitandose apenas a citar as disposições genéricas dos arts. 43 e 61, §3º, da Lei 9.430/96 e Parecer Normativo Cosit nº 01/2002. Citou acórdão do CARF nº 2202002.200, nº 10615.416. Citou ainda voto proferido pelo conselheiro relator Odmir Fernandes no acórdão nº 2202002.214. 19.20. Aduziu a inaplicabilidade da multa isolada decorrente da insuficiência no recolhimento de estimativas em razão do encerramento do anocalendário quando da lavratura do auto de infração. Trouxe a doutrina de Marco Aurélio Greco acerca do recolhimento por estimativa do lucro real. Afirmou que a multa isolada, diferentemente do que entendeu a autoridade fiscal, somente pode ser exigida caso o fisco verifique a falta de recolhimento do tributo, ou recolhimento insuficiente, com base em estimativas mensais, antes do término do anobase. Citou decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais nesse sentido, acórdãos de nº 110300.200, nº 1402001.211 e nº 9101001.854. Citou também a Súmula nº 82 do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. 19.21. Pugnou pela impossibilidade de cumulação da multa isolada decorrente da insuficiência no recolhimento de estimativas com a multa de ofícioduplicidade de cobrança. Citou acórdão Câmara Superior de Recursos FiscaisCSRF nº 9101001.820 e 910100.966, nº 9101001.642, nº 9101001.043, nº 9101.00.135, nº 9101002.125. Citou também a doutrina de Tercio Sampaio Ferraz Junior e Edmar Oliveira Andrade Filho. Citou ainda a Súmula CARF nº 105, bem como acórdãos CARF Fl. 1099DF CARF MF 10 nº 1202001.228, nº 1402001.489, nº 1202001.228. Juntou ainda decisão recente da segunda turma do STJ favorável à posição da impugnante. 19.22. Afirmou a ausência de fundamentação para imposição da multa qualificada. Alegou que não praticou condutas de sonegação e fraude, tendo em vista que prestou informações e forneceu documentos à fiscalização, sem retardar, impedir, atrapalhar, nem confundir o trabalho fiscal. Disse ainda que declarou suas operações à Receita Federal, por meio de DIRF e DIPJ, de modo que jamais se poderia falar em intuito fraudulento. Citou doutrina de De Plácido e Silva, Lourival Vilanova, Pontes de Miranda. Citou acórdãos do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes nº 10709.169 e nº 108 09.037. 19.23. Alegou natureza punitiva do IRRF cobrado e a impossibilidade de cumulação com a multa agravada, ocorrência de “Bis in Iden”. Afirmou que a previsão de cobrança do IRRF sobre pagamentos realizados a beneficiários não identificados ou sem causa, do artigo 61 da Lei nº 8.981/95 configura, na verdade, uma hipótese de punição ao contribuinte, afastandose do conceito legal de tributo estabelecido pelo artigo 3º do CTN. Citou doutrina de Luiz Martins Valero e Vanessa Pereira Rodrigues Domene. 19.24. Argumentou a impossibilidade de exigência da multa em caso de dúvida. Afirmou que há dúvida quanto à ocorrência da infração, quando o julgamento é decidido pelo voto de qualidade. Citou o artigo 112 do CTN. Citou ainda o entendimento de Luís Eduardo Schoueri. 19.25. Argüiu a vedação ao confisco, insurgindo contra a multa de ofício de 150%. Citou julgados do STF, bem como a doutrina de Sacha Calmon Navarro Coelho. 19.26. Requereu a conversão do julgamento em diligência, caso não se entenda pelo cancelamento das autuações. 19.27. Alegou a necessidade do restabelecimento dos saldos de prejuízo fiscal e base negativa. 19.28. Pugnou pela ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício. Afirmou que o artigo 13 da Lei nº 9.065/95, que prevê a cobrança dos juros de mora com base na taxa SELIC, remete ao artigo 84 da Lei nº 8.981/95, que, por sua vez, estabelece a cobrança de tais acréscimos apenas sobre tributos. Citou acórdão CSRF nº 0203.133. IIIDo pedido 19.29. Ao final a impugnante requereu o cancelamento dos autos de infração, com a extinção da totalidade dos créditos tributários exigidos. Em análise aos argumentos apresentados pelo contribuinte em Impugnação administrativa, aquela Delegacia de Julgamento entendeu por bem dar parcial provimento ao apelo do Recorrente, tendo o acórdão proferido recebido a seguinte ementa: Fl. 1100DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.096 11 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 NULIDADE. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO FISCAL Rejeitamse as preliminares de nulidade suscitadas contra o procedimento administrativo fiscal, quando o processo administrativo fiscal obedece as determinações legais e garante ao contribuinte o contraditório e a ampla defesa, e não foi provada nenhuma violação aos arts. 10 e 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. Não sendo necessário para o deslinde do litígio, o pedido de diligência será indeferido. PEDIDO DE SOBRESTAMENTO DO PROCESSO. INDEFERIMENTO. O pedido de sobrestamento do processo em razão da existência de outros processos administrativos em julgamento que podem afetar o presente processo, por envolverem prejuízo fiscal e base de cálculo negativa do CSLL, será indeferido por falta de previsão legal. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 LUCRO REAL. DESPESAS NÃO COMPROVADAS. GLOSA. Cabe a glosa de despesas contabilizadas que não são confirmadas por documentação hábil e idônea. MULTA ISOLADA. RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS. CABIMENTO. É cabível o lançamento de multa isolada de ofício pela falta de recolhimento das estimativas devidas de IRPJ e CSLL, após o encerramento do anocalendário, de pessoas jurídicas que apuram pelo regime do lucro real anual por previsão no art. 44, II, “b”, do CTN. MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE. A multa isolada, devida pela insuficiência de recolhimento da estimativa mensal do imposto, e a multa de ofício devida pela insuficiência de recolhimento do imposto apurado na data do fato gerador, têm hipóteses de incidência distintas. Portanto, cabível o lançamento concomitante destas penalidades. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora, conforme Súmula CARF nº 5. DESPESAS. DEDUTIBILIDADE. EXIGÊNCIA DA NECESSIDADE, DA USUALIDADE E DA NORMALIDADE. Fl. 1101DF CARF MF 12 COMPROVAÇÃO POR MEIO DE DOCUMENTOS HÁBEIS E IDÔNEOS. IMPRESCINDIBILIDADE. Para dedutibilidade de uma despesa, exigese que seja necessária, útil e normal, comprovada não só pela contabilidade, mas também por meio de documentos hábeis e idôneos. CSLL. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplicase ao lançamento reflexo alusivo à CSLL o que restar decidido no lançamento do IRPJ. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. FALTA DE PAGAMENTO. INOCORRÊNCIA. Na falta de pagamento de tributos sujeitos a lançamentos por homologação, o início da contagem do prazo decadencial é a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, consoante o art. 173, inciso I, do CTN. VALOR PROBANTE DA CONTABILIDADE. A contabilidade regular, ou seja, aquela respaldada por documentos hábeis e idôneos, faz prova a favor do contribuinte. O simples registro, sem respaldo documental, não tem valor probante. DESPESAS. EFETIVIDADE. ÔNUS DA PROVA. O ônus da prova cabe a quem ela aproveita, logo é do sujeito passivo o encargo de comprovar a efetividade da despesa utilizada na apuração do lucro real. MULTA QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA. A duplicação de multa de ofício requer a comprovação inconteste da conduta dolosa do sujeito passivo. Em caso de dúvida quanto à ocorrência do dolo, devese aplicar a multa de ofício regulamentar. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 IRRF. PAGAMENTO SEM CAUSA. NÃO COMPROVAÇÃO DA EFETIVIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS. Nos casos em que o sujeito passivo, regularmente intimado, não comprova por meio de documentos hábeis e idôneos a efetividade dos serviços prestados, é legítimo o lançamento que enquadrou as operações como pagamentos sem causa, sujeitandose à incidência do imposto retido na fonte, à alíquota de 35%. IRPJ SOBRE DESPESAS INDEDUTÍVEIS E IRRF SOBRE PAGAMENTO. INEXISTÊNCIA DE “BIS IN IDEM”. Não há “bis in idem” quando a tributação incide sobre fatos jurídicos diversos. Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.097 13 REAJUSTAMENTO DA BASE DE CÁLCULO DO IRRF DOS PAGAMENTOS SEM CAUSA. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO. VEDAÇÃO. Não compete à autoridade administrativa manifestarse quanto à inconstitucionalidade ou ilegalidade das leis, por ser essa prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Ano calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 COEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO SEM CAUSA E PRESTAÇÃO DE SERVIÇO COM AUSÊNCIA DAS RETENÇÕES DE CONTRIBUIÇÕES. IMPOSSIBILIDADE. Se for considerado pagamento sem causa por falta de efetividade do serviço prestado, não cabe a cobrança de multa e juros por ausência das retenções das contribuições desses pagamentos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2011, 2012, 2013, 2014 DESPESAS GLOSADAS. ADIÇÃO AO LUCRO LÍQUIDO PARA DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DA CSLL. PREVISÃO LEGAL. PROCEDÊNCIA. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente para apuração do IRPJ. Logo, é procedente a adição na base de cálculo da CSLL das despesas glosadas. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Ao ser intimado do acórdão, o Recorrente apresentou extenso Recurso Voluntário, no qual repisa os argumentos lançados em sua Impugnação, acrescentando, contudo, uma preliminar de nulidade da decisão proferida, uma vez que supostamente faltou a esta motivação nas razões de decidir. Tendo em vista que a decisão da DRJ reduziu as multas de ofício aplicadas de 150% para 75% para todos os períodos e, ainda, exonerou totalmente o lançamento da multa por falta de retenção na fonte das contribuições, também foi apresentado Recurso de Ofício a este colegiado Este é o relatório. Voto Vencido Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias DA TEMPESTIVIDADE Fl. 1103DF CARF MF 14 Como se denota dos autos, o Recorrente foi intimado do teor do acórdão recorrido, via AR, em 05/07/2017 (fl. 946), apresentando o Recurso Voluntário ora analisado no dia 02/08/2017 fl. 948), ou seja, dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, sem maiores delongas, uma vez que cumpre os demais requisitos de admissibilidade, o Recurso Voluntário deve ser analisado por este colegiado. DAS PRELIMINARES DA NULIDADE DO ACÓRDÃO PROFERIDO Em sede preliminar, o Recorrente alega que o acórdão proferido pela DRJ de Curitiba seria nulo, uma vez que, em suas palavras, "percebese que não houve um efetivo posicionamento da DRJ quanto a presente matéria". Alegação do Recorrente é de que o acórdão não analisou, em sua totalidade, os argumentos de defesa, em especial, porque, ao enfrentar o argumento suscitado quanto à impossibilidade de aplicação de multa de ofício pela estimativas que não foram recolhidas tempestivamente, em razão do encerramento do anobase, se ateve a citar julgado proferido no pelo CARF e, por consequencia, indeferir o pedido do contribuinte, que entendia pela inaplicabilidade da sanção. Assim, aos olhos do Recorrente, como não houve argumentação (posicionamento) para rebater os fundamentos lançados em sede de Impugnação, o acórdão teria infringido o artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72. Para fundamentar a nulidade sustentada, o Recorrente cita dispositivos do NCPC e julgado proferido pelo STJ. De fato, o Novo Código Processo Civil, que é aplicado de forma subsidiária e supletiva ao processo administrativo fiscal, preceitua a impossibilidade de o julgador "invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão" (§1º do artigo 489). Contudo, no presente caso, não se vislumbra qualquer vício na decisão, no ponto em que foi abordado pelo Recorrente e tão pouco a afronta ao dispositivo do NCPC citado acima. O que houve, em verdade, é que o acórdão proferido se valeu, como razões de decidir, de um julgado proferido pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que é contrário às pretensões do Recorrente, mas cuja discussão era idêntica à travada nos autos. Não se pode perder de vista que, no tópico seguinte, o acórdão recorrido enfrenta mais uma vez a discussão e fundamenta o indeferimento do pedido do Recorrente (então, Impugnante) neste ponto, inclusive quanto à inaplicabilidade da Súmula CARF nº 105 ao presente caso. Ainda, apenas para argumentar, devese destacar que o Regimento Interno da CARF autoriza o Conselheiro Relator a utilizar dos fundamentos da decisão proferida pela DRJ, sem que haja a necessidade de "apresentar juízo de valor próprio a respeito dos argumentos de defesa expostos", como argumentou o Recorrente. Neste sentido, é a redação do § 3, do artigo 57 do RICARF. Vejase: Art. 57. Em cada sessão de julgamento será observada a seguinte ordem: Fl. 1104DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.098 15 I verificação do quórum regimental; II deliberação sobre matéria de expediente; e III relatório, debate e votação dos recursos constantes da pauta. § 1º A ementa, relatório e voto deverão ser disponibilizados exclusivamente aos conselheiros do colegiado, previamente ao início de cada sessão de julgamento correspondente, em meio eletrônico. § 2º Os processos para os quais o relator não apresentar, no prazo e forma estabelecidos no § 1º, a ementa, o relatório e o voto, serão retirados de pauta pelo presidente, que fará constar o fato em ata. § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. (destacouse). Ora, se o próprio Regimento Interno do CARF admite a utilização das razões de decidir do acórdão proferido pela DRJ, por qual motivo seria nula a decisão que utilizase das razões de decidir de julgado proferido pelo CARF? Data venia, não há nulidade no acórdão recorrido como apontado pelo Recorrente. Portanto, REJEITO A PRELIMINAR de nulidade apresentada. DA MUDANÇA DO CRITÉRIO JURÍDICO PELA AUTORIDADE FISCAL. No Recurso Voluntário apresentado, o Recorrente invoca, em sede preliminar, a nulidade da autuação, uma vez que teriam sido alterados critérios jurídicos por parte da fiscalização, em flagrante afronta ao disposto no artigo 146 do Código Tributário Nacional. Em extenso argumento lançado, o Recorrente alega, em síntese, que em outras autuações, que constituíram créditos tributários sobre os fatos ocorridos em períodos anteriores, o entendimento da fiscalização foi diverso ao que restou concluído no Auto de Infração ora em debate. Afirma, assim, que por se tratar da mesma condição fática, a fiscalização não poderia alterar o anterior entendimento. Em suas palavras, alega que "as mesmas operações foram avaliadas pela Fiscalização em diferentes momentos, tendose chegado a diferentes conclusões a seu respeito", em flagrante violação ao artigo 146 do Código Tributário Nacional. De fato, o artigo 146 do CTN preceitua que a mudança do critério jurídico, introduzida de ofício ou em consequência de decisão de autoridade administrativa ou judicial, só pode ser realizada para fatos geradores ocorridos após a alteração do entendimento. Vejase a redação do dispositivo: Fl. 1105DF CARF MF 16 Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução Contudo, com toda venia, entendese como mais restritiva a aplicação do mencionado dispositivo, não tendo o alcance pretendido pelo Recorrente. É que, como consta da declaração de voto nos autos do processo nº Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão nº 1302002.631, se o agente fiscal, em face de uma decisão judicial ou administrativa, alterasse os critérios jurídicos de um lançamento considerado, por exemplo, nulo e efetivasse novo lançamento, sobre os mesmo fatos geradores, mas com critérios distintos, estarseia em flagrante ofensa ao que preceitua o artigo 146 do CTN citado acima. Os ensinamentos de Alberto Xavier são neste Norte: O Artigo 146 nada mais é, pois, que simples corolário do princípio da não retroatividade, extensível às normas complementares, limitandose a esclarecer que os lançamentos já praticados à sombra de 'velha interpretação' não podem ser revistos com fundamento em 'nova interpretação'. Reparese que o artigo 146 pressupõe que, antes da modificação operada nos critérios jurídicos, tenha sido previamente praticado um ato individualizado de lançamento, caso contrário não se justificaria a referência a 'um mesmo sujeito passivo' . O que o artigo 146 pretende é precisamente que os atos administrativos concretos já praticados em relação a um sujeito passivo não possam ser alterados em virtude de uma alteração dos critérios genéricos da interpretação da lei já aplicada. Assim, como corolário da garantia genérica em favor de todos os sujeitos passivos de não aplicação retroativa da lei e de interpretação superveniente, constante do artigo 144, o artigo 146 explicita a garantia subjetiva em favor de cada sujeito passivo individualmente considerado de que a interpretação superveniente não pode conduzir à modificação do lançamento que o tenha como destinatário. Esta é também a solução consagrada pela LPAF (Lei 9.784/98), que dispõe no seu art. 2º, inciso XIII, ser 'vedada aplicação retroativa de nova interpretação (Xavier, Alberto. Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro, p. 277) Neste sentido, não se pode perder de vista que a imutabilidade do lançamento é decorrente do princípio da segurança jurídica, que, para alguns autores, dentre eles o professor Paulo de Barros Carvalho, é um sobreprincípio que deve nortear todo o ordenamento jurídico. Contudo, no presente caso, se houve mudança no critério jurídico, esta foi feita para valorar fatos geradores posteriores aos que anteriormente haviam sido analisados pela fiscalização. Não houve aplicação pretérita, tampouco aplicação de entendimentos distintos para os mesmo fatos geradores. Não se está perante de uma nulidade da autuação por mudança de critérios jurídicos, como argumenta o Recorrente. Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, inclusive, já se manifestou no que é aqui defendido. Confirase: Fl. 1106DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.099 17 Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico CIDE Anocalendário: 2007 (...). ARTIGO 146 DO CTN. PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO DA COFIANÇA. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. LANÇAMENTOS TRIBUTÁRIOS DISTINTOS CONTRA O MESMO CONTRIBUINTE. INEXISTÊNCIA.O fato de existir uma fiscalização pretérita sinalizando interpretação da Fiscalização não tem o condão de vincular institucionalmente a Administração Fiscal para posterior lançamento, impedindo a cobrança de tributos. Isto porque o artigo 146 do CTN tem aplicação restrita à revisão de um mesmo ato administrativo, cujos elementos de direito veiculados pela autoridade fiscal no momento da lavratura não poderão ser posteriormente alterados de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial. Tratase de norma que visa proteção da confiança legítima dos contribuintes, porém adstrita aos termos em que foi positivada pelo legislador complementar. (...) 5.Recurso voluntário parcialmente provido.( Número do Processo 13896.722157/201165 Nº Acórdão 3402004.391 Data da sessão 26/09/2017) E mais: como o Recorrente alega que, no presente Auto de Infração, a fiscalização entendeu pela aplicação de penalidades diversas daquelas aplicadas anteriormente, eventuais vícios no lançamento poderão ser corrigidos em âmbito administrativo (como ocorreu no caso da multa qualificada, que foi afastada pela própria DRJ) ou até mesmo junto ao Poder Judiciário. Não é caso de nulidade e, sim, se for o caso, de necessidade de reparos de eventuais excessos e/ou equívocos cometidos pela fiscalização. Portanto, REJEITO a preliminar de nulidade da autuação, uma vez que, no lançamento feito pela fiscalização, não houve afronta ao artigo 146 do Código Tributário Nacional. DA NULIDADE DO LANÇAMENTO POR AFRONTA AO ARTIGO 142 DO CTN. DA BASE DE CÁLCULO NEGATIVA E PREJUÍZO FISCAL. DO PEDIDO DE SOBRESTAMENTO. Em outra preliminar levantada no Recurso Voluntário, o Recorrente alega a nulidade da autuação, com base no artigo 142 do CTN, uma vez que a fiscalização, quando efetuou cálculo do crédito tributário devido, "deixou de realizar a compensação de prejuízos fiscais e base negativa de CSLL originários dos exercícios anteriores". Neste sentido, aduz que "a base de cálculo originário do crédito tributário controlado nos presentes autos carece de liquidez e certeza". Assim, requer o cancelamento da autuação por suposta nulidade. Em caráter subsidiário, requer "o sobrestamento do presente feito até o encerramento dos processos administrativos nºs 16327.720464/201373, 16327.720463/201029 e 16327.001681/201061." Fl. 1107DF CARF MF 18 Pois bem. No que se refere ao primeiro ponto levantado falta de liquidez e certeza do crédito tributário , entendese que não há nulidade no Auto de Infração a ensejar o seu cancelamento. É que, quando da constituição do crédito tributário, como o próprio contribuinte afirma, a fiscalização já havia ajustado, de ofício, a base de cálculo negativa e o prejuízo fiscal, mesmo que este ajuste tivesse sido objeto de contestação administrativa por parte do Recorrente. Verificase que à época do lançamento não existia saldo negativo ou prejuízo fiscal para serem compensados e, por isso, não foram considerados no cálculos dos créditos tributários lançados de ofício pela fiscalização. Por outro lado, em que pese ter alegado, o contribuinte não comprovou, data venia, qual o objeto das discussões travadas naqueles processos administrativos. Como se observa da documentação juntada aos autos, quando da apresentação da Impugnação (fls. 738 e seguintes), o Recorrente se limitou a apresentar a movimentação dos processos administrativos, sem, contudo, demonstrar que, efetivamente, naqueles autos, se discutia eventual equívocos nos ajustes do prejuízo fiscal ou da base de cálculo negativa. Inclusive, como se denota do acórdão recorrido, em um daqueles processos autos de nº 16327.720463/201029 a discussão é referente à contribuição previdenciária e, a princípio, decisão favorável ao contribuinte não terá nenhum impacto na recomposição de eventual saldo negativo ou prejuízo fiscal. Assim, não se pode acatar a simples alegação de ausência de liquidez e certeza do crédito tributário, sem que haja qualquer esforço probatório por parte do contribuinte. Caberia ao Recorrente comprovar as suas alegações neste caso, até mesmo para que, com base nas provas apresentadas, o julgador administrativo pudesse, se fosse o caso, buscar a verdade material. Não se pode admitir uma alegação, sem qualquer elemento probante. Quanto ao pedido de sobrestamento do feito, para que seja aguardado o trânsito em julgado daqueles processos administrativos, como consta no acórdão recorrido, não se vislumbra qualquer dispositivo legal que imponha este sobrestamento. Assim, por falta de embasamento legal, entendese pelo indeferimento deste pedido também. Por tudo aqui exposto, também REJEITO a preliminar arguida pelo Recorrente e INDEFIRO o pedido de sobrestamento do presente feito. DO MÉRITO DAS PREMISSAS QUANTO A POSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO DE DESPESAS PELAS EMPRESAS QUE APURAM O IRPJ E CSLL PELO LUCRO REAL. Antes de adentrar no mérito de cada glosa realizada pela fiscalização, cumpre, neste momento, discorrer de forma breve acerca das despesas dedutíveis na apuração do lucro real. Neste contexto, devese esclarecer que o dispêndio feito pela entidade ou toda obrigação incorrida para aquisição de bens, serviços ou utilidades, deve ser considerado dedutível se for feito com o propósito de manter em funcionamento a fonte produtora de rendimentos. Nessa linha, confirase os ensinamentos de Hiromi Higuchi em sua obra “Imposto de Renda das Empresa: Interpretação e Prática”: Fl. 1108DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.100 19 As despesas efetuadas pelas pessoas jurídicas podem ser dedutíveis ou indedutíveis na apuração do lucro real. Importante é também o momento em que a despesa operacional é dedutível na determinação do lucro real. A despesa é dedutível pelo regime de competência, ou seja, no momento em que a despesa é considerada incorrida. As despesas operacionais dedutíveis na determinação do lucro real são aquelas que se encaixam nas condições fixadas no art. 299 do RIR/99, isto é, despesas necessárias à atividade da empresa e à respectiva fonte produtora de receitas. As despesas necessárias, ainda de acordo com a legislação fiscal, são as despesas pagas ou incorridas e que sejam usuais e normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (HIGUCHI, Hiromi, Imposto de Renda das empresas: interpretação e prática: atualizado até 10012015 – 40º ed. – São Paulo: IR Publicações, 215, p.279) (detacouse). Os conceitos de despesas necessárias, usuais ou normais estão contidos no artigo 299, do RIR/99. Verificase: Art.299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). §1ºSão necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §1º). §2ºAs despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §2º). Por sua vez, o Parecer Normativo CST nº 32/1981, previu que “o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos”. Os Tribunais pátrios não destoam deste entendimento, como se observa do julgado, cuja ementa segue transcrita abaixo, proferido pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCROCSLL. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICAIRPJ. DEDUÇÃO DE DESPESAS TIDAS COMO OPERACIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. CONDENAÇÃO EM VERBA HONORÁRIA QUE SE MANTÉM 1 Quanto ao agravo retido, é remansoso o entendimento de que a realização de perícia se revela como o meio de prova oneroso e causador da delonga procedimental, cabendo quando devem ser esclarecidas questões que não possam ser verificadas sem o conhecimento técnico. A não realização de perícia contábil não caracteriza cerceamento de defesa, vez que a matéria tratada na inicial era de direito, possibilitando assim o julgamento da lide. Com efeito, o CPC/2015 permite o julgamento, dispensando a Fl. 1109DF CARF MF 20 produção de provas, quando a questão for unicamente de direito e os documentos acostados aos autos forem suficientes ao exame do pedido. Também, o art. 370 do CPC/2015 permite ao juiz a possibilidade de indeferir diligências inúteis ou meramente protelatórias, assim como determinar a realização das provas que entenda necessárias à instrução do processo, mesmo sem requerimento da parte.Na hipótese, o que se discute é a possibilidade de descontos concedidos a clientes como despesas operacionais e despesas de viagem e estadia de médicos e cirurgiões cardiologistas e técnicos, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, sendo totalmente desnecessária a realização de prova pericial, pelo que rejeito o agravo retido interposto. 2. Despesas operacionais são as pagas ou incorridas para vender produtos ou serviços e administrar a empresa. A legislação de regência prescreve restrições quanto à dedução de despesas efetivamente incorridas e regularmente escrituradas. 3. O Parecer Normativo CST nº 32/81 declara que gasto necessário é o essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos. 4. Na determinação da base de cálculo do IRPJ, a legislação considera dedutíveis as despesas operacionais, aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. 5. Na hipótese, no tocante a dedução dos prejuízos operacionais como despesa, não foram cumpridos os requisitos legais, de forma que não se pode simplesmente acolher o argumento genérico de que estão presentes as condições do artigo 299, do RIR/1999. 6. A autoridade fiscal efetuou a glosa dos valores referentes às despesas efetuadas com pessoas não vinculadas a empresa, como viagens, transporte, estadia de médicos para participação em congressos, exposições e conferências, bem como descontos concedidos a clientes. 7. As notas acostadas aos autos, por si só, não demonstram a finalidade, o relacionamento com a atividade desenvolvida pela autora. As viagens ao exterior deveriam estar devidamente escrituradas e de encontro com a atividade da empresa. 8. Embora útil ou vantajoso o emprego do valor, caracterizase um incremento, mas não uma despesa necessária ou operacional. 9. Quanto à verba honorária, esta deve ser mantida, conforme fixada na r. sentença. 10. Agravo retido rejeitado. Apelação não provida. (AC 00089632520114036100, DESEMBARGADOR FEDERAL NERY JUNIOR, TRF3 TERCEIRA TURMA, eDJF3 Judicial 1 DATA:18/01/2017 ..FONTE_REPUBLICACAO:.) Devese ressaltar, ainda, que, tendo em vista o regime de competência, mesmo aquelas despesas ainda não efetivamente pagas, mas já reconhecidas na contabilidade (incorridas), podem ser deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como, inclusive, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça. Vejase: DIREITO TRIBUTÁRIO. IRPJ. LUCRO REAL. DESPESA OPERACIONAL. FÉRIAS. EMPREGADOS. REGIME DE COMPETÊNCIA. AQUISIÇÃO DO DIREITO. CONCEITO DE DESPESA INCORRIDA. 1. Cuidase, na origem, de Ação Declaratória proposta com a finalidade de obter provimento jurisdicional que reconheça o direito à dedutibilidade de despesas incorridas pela aquisição do Fl. 1110DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.101 21 direito às férias dos empregados, na apuração do IRPJ do ano base de 1978 (fl. 12). 2. A controvérsia posta, desde a inicial, diz respeito ao período em que essa dedução é possível, e não propriamente à existência desse direito, o que se tornou inquestionável. 3. Uma vez adquirido o direito às férias, a despesa em questão corresponde a uma obrigação líquida e certa contraída pelo empregador, embora não realizada imediatamente. Dispõe o art. 134 da CLT que "As férias serão concedidas por ato do empregador, em um só período, nos 12 (doze) meses subsequentes à data em que o empregado tiver adquirido o direito". 4. De acordo com o § 1° do art. 47 da Lei 4.506/1964, são necessárias as despesas pagas ou incorridas para realizar as transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Tais despesas são consideradas operacionais e a legislação autoriza seu abatimento na apuração do lucro operacional (art. 43 da Lei 4.506/1964). 5. Se a lei permite a dedução das despesas pagas e das incorridas, não só as que já foram efetivamente adimplidas são dedutíveis. Despesa incorrida é aquela que existe juridicamente e possui os atributos de liquidez e certeza. 6. Na legislação tributária, prevalece a regra do regime de competência, de modo que as despesas devem ser deduzidas no lucro real do períodobase competente, ou seja, quando jurídica ou economicamente se tornarem devidas. 7. Com a aquisição do direito às férias pelo empregado, a obrigação de concedêlas juntamente com o pagamento das verbas remuneratórias correspondentes passa a existir juridicamente para o empregador. Nesse momento, a pessoa jurídica incorre numa despesa passível de dedução na apuração do lucro real do anocalendário em que se aperfeiçoou o direito adquirido do empregado. 8. Recurso Especial não provido. (REsp 1313879/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/02/2013, DJe 08/03/2013) (destacouse) Dessa forma, são requisitos básicos para os gastos com despesas serem dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL: (i) a comprovação do pagamento ou, na ausência deste, a despesa deve ser ao menos incorrida/reconhecida (regime de competência); (ii) os gastos devem ser úteis ou necessários para a manutenção da empresa e relacionados ao seu objeto social. Fl. 1111DF CARF MF 22 Esses são os requisitos básicos para a dedutibilidade das despesas pelo contribuinte e é com essa premissa que se analisará as ilações da fiscalização e os argumentos apresentados pelo Recorrente. DO ÔNUS DA PROVA. Antes, contudo, em se tratando de Auto de Infração, em que a administração constituiu créditos tributários de ofício, quando identificou incorreções e/ou omissões nos lançamentos contábeis e fiscais previamente realizados pelo contribuinte, há que se entender de quem é o ônus probatório: do fisco ou do contribuinte? No presente contexto, afastase, de pronto, os casos de presunção relativa, como, por exemplo, o de omissão de receitas por depósitos bancários (artigo 42, da Lei 9.430/96). Nestes casos, em que pese a sua discutível constitucionalidade, o legislador entendeu que o ônus probatório é do contribuinte. Assim, sendo devidamente intimado acerca das informações levantadas pela fiscalização e caso não haja comprovação em contrário por parte do fiscalizado, a ele será presumida determinada conduta. Mesmo nestes casos, entretanto, não pode a fiscalização, de forma unilateral, afirmar a existência de renda omitida, por exemplo, sem que seja dada a oportunidade ao contribuinte de fazer prova em contrário. Fabiana Del Padre Tomé, refutando de forma veemente a possibilidade de existência, no ordenamento, das chamadas presunções absolutas ou mistas, assim se pronuncia sobre as chamadas presunções relativas: Apesar de caracterizarem importante instrumento de que dispõe a Administração, auxiliandoa nas tarefas fiscalizatória e arrecadatória, as presunções têm seu emprego delimitado por normas constitucionais que traçam os contornos da competência tributária, além das que asseguram direitos dos contribuintes. Por tal razão, não encontram guarida em nosso ordenamento as presunções absolutas nem as chamadas presunções mistas. As primeiras são obstadas pela rígida repartição constitucional das competências para instruir tributos, bem como pelos princípios da estrita legalidade tributária, da tipicidade e da capacidade contributiva. Quanto às presunções mistas, violam não apenas os primados da tipicidade e capacidade contributiva, mas também o direito à ampla defesa, já que restringem as provas possíveis de serem utilizadas para ilidir o fato presumido. As presunções susceptíveis de serem empregadas pelo Fisco são apenas as relativas, por possibilitarem ao contribuinte a livre produção probatória em sentido contrário. (TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 301 e 302) Contudo, excetuado os casos de presunção relativa (as únicas presunções que se pode admitir em direito tributário, digase), o dever de provar é da fiscalização. Há que se entender que, nos termos do artigo 142, do Código Tributário Nacional, a competência para apurar, constituir e calcular o crédito tributário, dentre outras, é da autoridade administrativa, de forma privativa, em especial quando é promovida a constituição de ofício do crédito tributário, quando presentes umas das hipóteses listadas no artigo 149 do mesmo Código. Fl. 1112DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.102 23 Assim, salvo naqueles casos em que há uma presunção relativa de determinadas condutas, reiterese, é dever da administração tributária comprovar as suas alegações. Mais uma vez, se vale dos ensinamentos de Fabiana Del Padre Tomé que, após discorrer sobre as diferenças entre ônus, dever e faculdade na produção das provas, assim se manifesta: "(...) A existência do ônus pressupõe um direito subjetivo disponível, que pode ou não ser exercido, situação que não se verifica na esfera tributária, tendo em vista que os atos de lançamento e de aplicação de penalidades pelo descumprimento de obrigações tributárias e deveres instrumentais competem ao Poder Público, de modo privativo e obrigatório, tendo de fazêlo com base nos elementos comprobatórios do fato jurídico e do ilícito tributário. Daí por que não tem a autoridade administrativa mero ônus de provar o fato jurídico ou o ilícito tributário que dá suporte aos seus atos, mas verdadeiro dever, (...)"(TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 236 e 237) (destacouse) E arremata a festejada professora: "Caso o ato de lançamento não se fundamente em provas, estará irremediavelmente maculado, devendo ser retirado do ordenamento. Na hipótese de o contribuinte deixar de apresentar os documentos comprobatórios do fato enunciado no antecedente da norma individual e concreta por ele emitida, sujeitarseá ao ato de lançamento a ser realizado pela autoridade administrativa e à aplicação das penalidades cabíveis, como adverte Geraldo Ataliba: 'o sistema de legislação vigente, quanto ao assunto, é claro: omissão do contribuinte, a sua falta de colaboração ou a colaboração maliciosa ou danosa, além de serem criminalmente reprimidos, não inibem o fisco no lançamento'. Opostamente, se o contribuinte fornecer os documentos que se referem ao objeto fiscalizado, as informações nele contidas farão prova a seu favor. Devidamente provado o fato enunciado pelo Fisco ou pelo contribuinte, as alegações que pretendam desconstituílo devem, igualmente, estar fundadas em elementos probatórios. Tudo, na esteira da regra segundo a qual o ônus/dever da prova cabe a quem alega, não se admitindo, na esfera tributária, convenções que alterem essa forma de distribuição. "(...) A existência do ônus pressupõe um direito subjetivo disponível, que pode ou não ser exercido, situação que não se verifica na esfera tributária, tendo em vista que os atos de lançamento e de aplicação de penalidades pelo descumprimento de obrigações tributárias e deveres instrumentais competem ao Poder Público, de modo privativo e obrigatório, tendo de fazêlo com base nos elementos comprobatórios do fato jurídico e do ilícito tributário. Daí por que não tem a autoridade administrativa mero ônus de provar o fato jurídico ou o ilícito tributário que dá suporte aos seus atos, mas verdadeiro dever, (...)"(TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 239 e 240) Fl. 1113DF CARF MF 24 Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já se posicionou quanto a impossibilidade de se inverter o ônus probatório, quando a fiscalização tinha o dever de provar as ilações lançadas em Auto de Infração. Vejase julgado neste sentido: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2000 USUFRUTO DE AÇÕES. RECEITAS AUFERIDAS EM RAZÃO DA CESSÃO DOS DIREITOS DE FRUIÇÃO DOS ATIVOS. RECEITAS QUE NÃO SE CONFUNDEM COM A PERCEPÇÃO DE LUCROS E DIVIDENDOS. TRIBUTAÇÃO. APROPRIAÇÃO PRO RATA DA RECEITA. A celebração de contrato oneroso de usufruto de ações importa na transferência, ao usufrutuário, do direito, inerente à posição acionária, de percepção de juros e dividendos. A remuneração estabelecida em decorrência da cessão do direito de fruição das ações não se confunde com a percepção de juros e dividendos, constituindo receita do cedente obrigatoriamente submetida à tributação pelo Imposto sobre a Renda. Nessas condições, a receita deve ser apropriada pro rata, durante o período do contrato. RATEIO DE CUSTOS GLOSA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO. Provado, pelos elementos constantes da escrituração mercantil, que a recorrente contabilizara despesas recebidas em rateio de sua controladora, pratica usual em se tratando de grupos financeiros, caberia à fiscalização provar a inexistência ou a não dedutibilidade das despesas que assumira, não simplesmente ter promovido a sua glosa, mediante ilegal inversão do ônus da prova. PERDAS DE CRÉDITO. DEDUÇÃO INDEVIDA. A dedução de perdas no recebimento de créditos está condicionada ao atendimento aos requisitos legais para a sua dedutibilidade, além da comprovação documental inequívoca da sua ocorrência. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Anocalendário: 2000 DECADÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES PARA A SEGURIDADE SOCIAL Consoante Súmula Vinculante do STF é de cinco anos o prazo de decadência para o Fisco efetuar o lançamento das contribuições para custear a Seguridade Social (art. 45 da Lei nº 8.212/1991). PIS, CSLL E COFINS LANÇAMENTOS DECORRENTES Aplicamse aos lançamentos decorrentes o decidido em relação ao principal. Mantida parcialmente as exigências de CSLL e exoneradas integralmente as exigências de PIS/Pasep e COFINS MULTAS ISOLADAS DECADÊNCIA E PROVIMENTO NO MÉRITO DA MATÉRIA PRINCIPAL As multas isoladas por falta ou insuficiência de estimativas mensais sujeitamse ao prazo decadencial previsto no art. 150, § 4º do CTN. Dado provimento, no mérito, ao recurso na parte relativa ao IRPJ que motivou a aplicação de multa isolada, cancelase a exigência remanescente da decadência. (Número do Processo 19740.000004/200656 Acórdão 10709.588 Data da sessão: 17/12/2008) Por outro lado, como se verifica da ementa acima, inclusive, não se pode desprezar o "peso" da prova dos lançamentos contábeis do contribuinte. Desde que lastreados por documentação hábil e idônea que comprove eventual lançamento, a contabilidade feita nos ditames da legislação tem o condão de provar a ocorrência do evento escriturado. Fl. 1114DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.103 25 Não é por outro motivo que o Decreto 3.000/99 é categórico ao afirmar que os lançamentos contábeis fazem prova em favor do contribuinte, sendo dever da autoridade administrativa comprovar eventuais inveracidades. Neste sentido é a redação dos artigos 923, 924 e 925 do RIR/99. Vejase: Art.923.A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º). Art.924.Cabe à autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância do disposto no artigo anterior (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §2º). Art.925.O disposto no artigo anterior não se aplica aos casos em que a lei, por disposição especial, atribua ao contribuinte o ônus da prova de fatos registrados na sua escrituração Portanto, o dever de comprovar despesa inexistente, indedutível ou a falsidade de documento que suportou o lançamento contábil é da fiscalização. Não se pode admitir a transferência desse ônus ao contribuinte, quando a legislação assim não autoriza. Sendo apresentada documentação que comprove e sustente os lançamentos na contabilidade, a fiscalização deve empreender as diligências necessárias para comprovar suas alegações. Feitas estas considerações iniciais, passase a analisar, uma a uma, as glosas efetuadas pela fiscalização, para se verificar se as despesas glosadas poderiam, de fato, serem deduzidas da base cálculo do IRPJ e da CSSL devidos pelo Recorrente. DA ANÁLISE DAS DESPESAS GLOSADAS PELA FISCALIZAÇÃO 1) OZCORP SERVIÇOS S/C LTDA – CNPJ 05.208.982/000125 – LINHA 14 DA FICHA 04 C – DESPESAS DE COMISSÕES. Como se denota do Termo de Verificação Fiscal, o agente que promoveu a autuação, entendeu que os pagamentos realizados à empresa Ozcorp Serviços S/C Ltda. não poderiam ser deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A motivação para esta glosa pode ser observada no seguinte trecho do TVF: Conforme DIPJ dos anoscalendário 2011 a 2013 se observa que a MUTUAL e a OZCORP são empresas ligadas, pertencentes ao mesmo sócio, senhor Paulo Rogério Marchi –CPF 040.692.298 50, detentor de participação no capital social de ambas empresas igual a 99,83% e 95% AC 2011 e 99,89% e 95% AC 2012 e 2013, respectivamente. Compulsando as DIPJ apresentadas, constatouse a OZCORP possuir capital social de apenas R$ 1.000,00, ausência de empregados nos períodos em análise e opção pela tributação em regime trimestral pelo Lucro Presumido, tendo apurado receita s originárias exclusivamente da MUTUAL , da ordem de R$ 4.171.193,29 e IRRF de R$ 62.567,91 em 2011, R$ 947.288,84 e IRRF de R$ 14.209,33 em 2012 e valores zerados em 2013. Fl. 1115DF CARF MF 26 (...) Regularmente intimada a apresentar as notas fiscais, contrato de prestação de serviços, memórias de cálculo e demais documentação comprobatória da efetiva prestação dos serviços deduzidos como despesa – item 9 do TIF nº 06 relativa a amostragem no AC 2012 e item 10 do TIF nº 07 relativa a totalidade dos valores deduzidos nos anoscalendário 2011 a 2015 limitouse a trazer aos autos os razões contábeis dos períodos de apuração em análise e comprovantes de pagamentos de cinco maiores valores no anocalendário 2012, não apresentando contrato de prestação de serviços, notas fiscais, memórias de cálculo e nenhuma documentação comercial que comprovasse a efetiva prestação de serviços. (destacouse) O Recorrente, por sua vez, quando da apresentação da Impugnação, que deu início a este procedimento administrativo, se ateve a juntar aos autos os documentos que já haviam sido apresentados à fiscalização, ou seja, apresentou apenas os comprovantes da contabilização das despesas e o respectivo comprovante da transferência bancária realizada, nada mais. Contudo, no presente caso, apesar de o contribuinte ter trazido aos autos os elementos para configurar a dedução das despesas e não ter sido objeto da acusação fiscal o fato da despesa ser indedutível por sua característica, ou seja, não houve afirmação de que aquela despesa não seria útil e necessária para a realização do objeto social do contribuinte, o fiscal demonstrou a estreita relação entre as sociedades, que tem o mesmo sócio majoritário e, o que é mais relevante aos olhos deste julgador, que a empresa OZCORP não tinha nenhum empregado registrado no período fiscalizado. Entendese, neste caso, que a fiscalização comprovou, em especial, quando fala da ausência de empregados na prestadora dos serviços, que a despesa não poderia ser dedutível. Assim, caberia, ao contribuinte, fazer prova em contrário, mas este quedouse silente. Por outro lado, não se pode desprezar o vínculo entre as empresas, que, como mencionado, tem no quadro social o mesmo sócio majoritário. Não há, ressaltese, na legislação, qualquer óbice de empresas tão próximas fazerem negócios e incorrem em despesas com o pagamento de eventuais prestações de serviços. Entretanto, quando dos questionamentos da fiscalização e principalmente após a acusação fiscal, o Recorrente poderia, pela proximidade, ter diligenciado junto à empresa prestadora de serviços e comprovado a efetiva prestação destes, o que não foi feito em nenhum momento. Assim, no que tange à glosa da despesa incorrida junto à empresa OZCORP Serviços S/C Ltda., voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. 2) PORT SERV S/C LTDA. – CNPJ 03.270.070/000158 – LINHA 14 DA FICHA 04 C – DESPESAS DE COMISSÕES.. No que tange à glosa das despesas incorridas junto à empresa Port Serv S/C Ltda., a motivação da fiscalização para desconsiderála é muito semelhante à glosa acima analisada. Vejase, neste sentido, o que consta do TVF: Fl. 1116DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.104 27 Conforme respectivas DIPJ e ECF dos anoscalendário 2012 a 2014 se observa que a MUTUAL e a PORT SERV são empresas vinculadas, pertencentes ao mesmo sócio, senhor Paulo Rogério Marchi – CPF 040.692.29850, detentor de participação no capital social de ambas empresas igual a 99,83% e 95% AC 2012, 99,89% e 95% AC 2013 e 99,91% e 95% AC 2014, respectivamente. Observase que a PORT SERV, com capital social de apenas R$ 1.000,00, não possuía empregados nos períodos em análise e ainda que optou pela tributação em regime trimestral pelo Lucro Presumido, tendo apurado receita s originárias exclusivamente da MUTUAL de R$ 9.813.677,05 e IRRF de R$ 135.585,48 em 2012, receita de R$ 10.839.278,84 e IRRF de R$ 162.598,17 em 2013 e receita de R$ 1.552.490,59 e IRRF de R$ 23.287,35 em 2014. (...) Regularmente intimada a apresentar as notas fiscais, contrato de prestação de serviços, memórias de cálculo e demais documentação comprobatória da efetiva prestação dos serviços deduzidos como despesa – item 9 do TIF nº 06 relativa a amostragem no AC 2012 e item 11 do TIF nº 07 relativa a totalidade dos valores deduzidos nos anoscalendário 2011 a 2015 limitouse a trazer aos autos os razões contábeis dos períodos de apuração em análise e comprovantes de pagamentos de cinco maiores valores no anocalendário 2012, apresentando cópia simples contrato de prestação de serviços, 3 notas fiscais relativas aos meses de junho, julho e agosto de 2012 e nenhuma documentação comercial que comprovasse a efetiva prestação de serviços. (destacouse) O Recorrente, por sua vez, quando da apresentação da Impugnação, que deu início a este procedimento administrativo, juntou aos autos contrato de prestação de serviços firmado com aquela empresa, os comprovantes dos registros contábeis e, por amostragem, algumas notas fiscais emitidas e os respectivos comprovante de transferência bancária, argumentado que a despesa seria dedutível, nos termos da legislação. Eis os argumentos lançados pela Recorrente em Impugnação, que foram repisados no Recurso Voluntário ora analisado: Por fim, apesar de não ser tema de questionamento pelo Sr. Agente Fiscal no TVF que acompanhou os autos de infração originários do presente processo administrativo, as despesas com serviços de administração e comissão estão de acordo com o disposto no art. 299 do RIR/99 e, portanto, são plenamente dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Com efeito, no referido exemplo, a Recorrente firmou contrato de prestação de serviços com a Port Serv, por meio do qual esta se compromete a prestar serviços de administração das rotinas mensais inerentes às apólices de seguros que fazem parte da carteira da Recorrente. Fl. 1117DF CARF MF 28 Desde já, em consonância ao explorado no “Item III.2.1” do presente recurso, fica claramente evidenciada a operacionalidade da referida despesa, visto que ela está diretamente ligada à atividade desenvolvida pela Recorrente e à otimização de seus negócios. Nesse contexto, nos termos do artigo 299 do RIR/99, a necessidade da referida despesa está comprovada na medida em que ela é empregada na otimização dos negócios exigidos pela atividade que constitui o objeto social da Recorrente. A usualidade, por sua vez, configurase pela habitualidade da despesa na realização das atividades da Recorrente. Ademais, reiterase que a referida despesa ainda é usual uma vez que se justifica sob o ponto de vista gerencial da Recorrente ou seja, é normal ao tipo do negócio por ela praticado. A normalidade, por sua vez, configurase com a pertinência da despesa com a realização das atividades negociais da Recorrente. Dessa forma, concluise que a Recorrente incorreu na despesa com serviço prestado pela Port Serv no valor de R$ 299.126,74, diretamente ligada à sua atividade operacional, e que a referida despesa foi devidamente comprovada e contabilizada; está cabalmente demonstrado o pagamento e a efetividade da despesa. Como demonstrado acima, o ônus da prova quanto a indedutibilidade das despesas, smj, é da fiscalização, sendo dever do contribuinte promover a correta escrituração, comprovar os pagamentos ou o reconhecimento da despesa. Contudo, no presente caso, apesar de o contribuinte ter trazido aos autos os elementos para configurar a dedução das despesas e não ter sido objeto da acusação fiscal o fato da despesa ser indedutível por sua característica, o fiscal demonstrou a estreita relação entre as sociedades, que tem o mesmo sócio majoritário e, o que é mais relevante aos olhos deste julgador, que a empresa Port Serv não tinha nenhum empregado registrado no período fiscalizado. E, pelo o que se denota do contrato formalizado entre as partes, data venia, não há como se realizar "rotinas mensais inerentes às apólices de seguros de quebra de garantia SQG e de vida em grupo prestamista que fazem parte da carteira" do Recorrente sem que houvesse um quadro de funcionários aptos a realizar tais tarefas. A ilação fiscal foi de que não houve a prestação dos serviços contratados. Por isso, houve a intimação do contribuinte para prestar esclarecimentos e acostar documentos comprobatórios da suposta prestação dos serviços. Mas nada além do contrato, TED e comprovação das escriturações contábeis foi juntado. Entendese, neste caso, que a fiscalização comprovou, em especial, quando fala da ausência de empregados na prestadora dos serviços, que a despesa não poderia ser dedutível, por não ter sido prestada. Assim, caberia, ao contribuinte, fazer prova em contrário, mas este quedouse inerte. Por outro lado, não se pode desprezar o vínculo entre as empresas, que, como mencionado, tem o mesmo sócio majoritário. Não há, como ressaltado acima, na legislação, Fl. 1118DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.105 29 qualquer óbice de empresas tão próximas fazerem negócios e incorrem em despesas com o pagamento de eventuais prestações de serviços. Entretanto, quando dos questionamentos da fiscalização, pela proximidade, o Recorrente poderia ter diligenciado junto à empresa prestadora de serviços e comprovado a efetiva prestação destes, o que não foi feito em nenhum momento. Assim, no que tange à glosa da despesa incorrida junto à empresa Port Serv, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. 3) M. TADEU DI GIORGIO INFORMÁTICA LTDA. ME CNPJ 09.514.226/000185 – SERVIÇOS DE TERCEIROS LINHA 03 DA FICHA 05C No que concerne a glosa de despesas da empresa M. Tadeu di Giorgio Informática, o agente fiscal motivou a autuação nos seguintes termos: Conforme respectivas DIPJ e pesquisa no CNPJ e Ficha Cadastral da JUCESP dos anoscalendário 2011 a 2014 se observa que a MUTUAL e a M Tadeu di Giorgio Informática são empresas vinculadas, uma vez que o seu sócio titular, senhor Maurício Tadeu di Giorgio, CPF nº 595.504.22887 exerceu desde 30/09/2005 cargos diretivos na MUTUAL – Diretor AdministrativoFinanceiro conforme AGE de 30/09/2005, passando a Diretorpresidente em 31/03/2008 conforme AGO/AGE, cargo este que ocupou até a data da liquidação decretada pela SUSEP em 13/11/2015. Observase que a M Tadeu di Giorgio Ltda é empresa optante pelo Simples Nacional, entretanto não apresentou as devidas Declarações Simplificadas, conforme pesquisa no sistema DIPJ, bem como não aparece como beneficiário no sistema DIRF. As despesas da M Tadeu di Giorgio foram apuradas a partir da conta 35211529.01.0000– OUTROS HONORÁRIOS – PESSOA JURÍDICA, que tem como contrapartida os valores efetivamente pagos – contas de disponibilidades e bancos, em especial a conta 11131115.01.00 –BCO. CONTA PAÍS SP – HSBC – 1074823: estes foram os valores efetivamente pagos nos períodos de apuração em análise. Regularmente intimada a apresentar as notas fiscais, contrato de prestação de serviços, memórias de cálculo e demais documentação comprobatória da efetiva prestação dos serviços deduzidos como despesa – item 8 do TIF nº 06 relativa a amostragem no AC 2012 e item 4 do TIF nº 07 relativa a totalidade dos valores deduzidos nos anoscalendário 2011 a 2015 limitouse a apresentar os razões contábeis dos períodos de apuração em análise, notas fiscais e comprovantes de pagamentos do anocalendário 2012, cópia simples contrato de prestação de serviços e nenhuma documentação comercial que comprovasse a efetiva prestação de serviços. O objeto do contrato de prestação de serviços firmado em 30 de maio de 2008 pelo próprio senhor Maurício tanto pela MUTUAL como pela M Tadeu di Giorgio previa apenas a “prestação, pela Fl. 1119DF CARF MF 30 CONTRATADA, de serviços de assessoria em tecnologia da informação para negócios comerciais e administrativos inerentes a atividades da CONTRATANTE. “, atividade por si só incompatível com a função de direção exercida pelo senhor Maurício na MUTUAL. O Recorrente, por sua vez, não trouxe, seja na Impugnação, seja no Recurso Voluntário, qualquer argumentação acerca da despesa incorrida com a referida empresa, se limitando a acostar aos autos (fls. 798 e seguintes), os mesmo documentos apresentados à fiscalização, quais sejam: notas fiscais e comprovantes de pagamento relativos ao ano de 2012 e cópia do contrato de prestação de serviços. Como se observa da acusação fiscal, houve a demonstração, por parte da fiscalização, da relação próxima entre as empresas, na medida em que o proprietário da empresa M Tadeu di Giorgio Informática era também diretorpresidente da Recorrente, cargo que assumiu em 2008, perdurando até a data da liquidação da Mutual, em 2015. Apesar de não haver impedimento legal para prestação de serviços entre empresas que tem uma relação tão próxima, a fiscalização conseguiu demonstrar que, em que pese terem sido escrituradas corretamente as despesas, estas não foram efetivamente prestadas, já que não se identificou nenhum elemento que pudesse levar a esta conclusão E o Recorrente, mais uma vez, se limitou a juntar documentação relativa ao anocalendário de 2012, sendo o período fiscalizado/autuado compreendido entre 2011 e 2014. Por outro lado, não trouxe qualquer argumentação para ao menos justificar como se deu a prestação dos serviços. Mais uma vez devese reiterar que temse o entendimento de que o ônus probatório para justificar a glosa de determinada despesa é da fiscalização. Entretanto, no presente caso, é patente que, com os elementos que apurou (confusão na administração das empresas, ausência de comprovação dos pagamentos realizados em todo o período fiscalizado e falta de apresentação elementos que pudessem comprovar a realização dos serviços supostamente prestados), a fiscalização comprovou que a despesa não poderia ser deduzida, uma vez que não houve a prestação dos serviços contratados. A aparente legalidade das escriturações contábeis e a comprovação de pequena parte dos pagamentos realizados no período não são suficientes para desconstruir toda o trabalho de acusação fiscal. Portanto, também no que tange à glosa das despesas incorridas junto à empresa M Tadeu di Giorgio Informática Ltda., voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. 4) EMBRAFISA SERV DE ASSES. E CONSULT EMPRESARIAL LTDA. – CNPJ 02.137.435/000108 – LINHA 03 FICHA 05 C SERVIÇOS DE TERCEIROS. Da mesma forma do que foi feito acima, também se inicia a análise da glosa das despesas incorridas com a empresa Embrafisa Serv. de Asses e Consultoria Empresarial Ltda., com os argumentos lançados pelo agente fiscal no TVF. Vejase que, no Termo de Verificação Fiscal, após descrever o contrato firmado com a referida empresa, a fiscalização assim motiva a glosa das despesas incorridas pelo Recorrente: A EMBRAFISA se dispunha a manter uma equipe de atendimento de no mínimo 15(quinze) profissionais – item 3.8 do Fl. 1120DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.106 31 contrato – sendo a remuneração mensal acordada, estabelecida no item 7, equivalente a R$ 201.000,00 mensais – 15 funcionários x 200 horas/mês x R$ 67,00 por hora. Regularmente intimada a apresentar as notas fiscais, contrato de prestação de serviços, memórias de cálculo e demais documentação comprobatória da efetiva prestação dos serviços deduzidos como despesa – item 9 do TIF nº 06 relativa a amostragem no AC 2012 e item 07 do TIF nº 07 relativa a totalidade dos valores deduzidos nos anoscalendário 2011 a 2015 limitouse a trazer aos autos os razões contábeis dos períodos de apuração em análise e comprovantes de pagamentos dos dois valores pagos no anocalendário 2012, apresentando cópia simples contrato de prestação de serviços, 2 notas fiscais relativas aos meses de novembro e dezembro de 2012 e nenhuma documentação comercial que comprovasse a efetiva prestação de serviços. No anocalendário 2012 foram efetuados dois pagamentos brutos no valor de R$ 402.000,00 cada, total de R$ 804.000,00, sendo R$ 754.554,00 líquidos e retenções de R$ 12.060,00 de IRRF, R$ 8.040,00 de CSLL, R$ 24.120,00 de COFINS e R$ 5.226,00 de PIS: (...) Cabe observar que a despesa da EMBRAFISA de novembro e dezembro foram inicialmente apuradas a partir da conta de pagamento 21111102.01.0000 SERVIÇOS DE TERCEIROS, sendo que o valor de dezembro foi reclassificado para a conta de despesa 35211122.01.0000 – PESSOA JURÍDICA HONORÁRIOS, ambas com contrapartida os valores efetivamente pagos – contas de disponibilidades e bancos, em especial a conta 11131115.01.00 – BCO. CONTA PAÍS SP – HSBC – 1074823. O total pago em 2013 foi de R$ 2.613.000,00, sendo líquidos R$ 2.452.300,50 e, ao contrário da OZCORP e PORT SERV, retidos na fonte R$ 39.195,00 de IRRF, R$ 26.130,00 de CSLL, R$ 78.390,00 de COFINS e R$ 16.984,50 de PIS e registrados como despesa na conta 35211529.01.0000 OUTROS HONORÁRIOS – PESSOA JURÍDICA, não tendo apresentado qualquer documentação comprobatória. Da mesma forma em 2014 o total pago em 2013 foi de R$ 2.211.000,00, sendo líquidos R$ 2.075.023,50 e retidos na fonte R$ 33.165,00 de IRRF, R$ 22.110,00 de CSLL, R$ 66.330,00 de COFINS e R$ 14.371,50 de PIS e registrados como despesa na conta 35211529.01.0000 OUTROS HONORÁRIOS – PESSOA JURÍDICA, não tendo apresentado qualquer documentação comprobatória. Nos apelos apresentados Impugnação e Recuso Voluntário o Recorrente se ateve a comprovar duas daquelas despesas, que foram pagas em 30/11/2012 e 12/12/2012, no valor bruto de R$402.000,00 cada, em que, na especificação das Notas Fiscais, consta como Fl. 1121DF CARF MF 32 descrição a "prestação de serviço de assessoria". Além destas NF's e do contrato firmado entre as empresas (que digase, também foram apresentados à fiscalização), não houve a juntada de nenhum outro documento, inclusive para comprovar as despesas incorridas nos anos de 2013 e 2014. Mesmo com a premissa fixada alhures, no sentido de que, sendo apresentada documentação que comprove e sustente os lançamentos na contabilidade, é dever da fiscalização trazer as provas necessárias para refutar os lançamentos realizados, entendese que, no presente ponto, o Recorrente não trouxe comprovação suficiente dos seus lançamentos contábeis. Não se pode desprezar, neste ponto, no que tange aos pagamentos realizados no ao anocalendário de 2012, o que constou do acórdão recorrido. Vejase: No curso da fiscalização, em relação às despesas com a empresa Embrafisa Serv de Asses. e Consult Empresarial Ltda, apesar de intimada a apresentar documentos comprobatórios de todas as despesas, foram apresentadas apenas 2 notas fiscais relativos aos meses de novembro e dezembro de 2012, as quais por não especificar os serviços prestados, foram desconsideradas. O que se verifica é que a fiscalização entendeu que as Notas Fiscais apresentadas, por serem genéricas, sem a especificação correta da prestação dos serviços, não eram suficientes para embasar os lançamentos contábeis. Entretanto, mesmo com base nesta ilação do agente fiscal, o Recorrente não trouxe aos autos qualquer outro elemento para comprovar a efetiva prestação dos serviços. Portanto, também no que tange à glosa das despesas incorridas junto à empresa Embrafisa Serv. de Asses e Consultoria Empresarial Ltda., voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. 5) DESPESAS DE VIAGENS – OPERACIONAL – OUTRAS – GLOBAL TÁXI AÉREO – LOCALIZAÇÃO E FUNCIONAMENTO LINHA 06 DA FICHA 05C AC 2012. No que se refere as despesas de viagem, incorridas junto à empresa Global Táxi Aéreo que foram contabilizadas no anocalendário de 2012, ao verificar o lançamento de dois pagamentos realizados pelo contribuinte em 30/11/2012 e em 21/12/2012 no valor de R$175.000,00 cada, a fiscalização emitiu intimação para que o Recorrente comprovasse, com Notas Fiscais, relatórios de viagens, dentre outros documentos, que as despesas eram de fato dedutíveis. Contudo, como se depreende do TVF, o Recorrente informou que não tinha maiores informações a serem dadas. Confirase trecho do Termo de Verificação Fiscal neste sentido: Em expediente resposta recepcionado em 13 de setembro de 2016 informou apenas “Não temos informações adicionais”, ou seja, não apresentou qualquer comprovação relativa a estes dois pagamentos, o primeiro de 30/11/2012 em contrapartida à contacorrente do Banco Itau 11131128.01.0000 e o segundo em contrapartida à contacorrente do Banco HSBC – 11131115.01.0000. Fl. 1122DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.107 33 No histórico de ambos pagamentos conta apenas ”PAGAMENTO DESP. VIAGEM –OUTRAS – GLOBAL TAXI AÉREO LTDA.”. Restou não comprovado os dois pagamentos de R% 175.000,00 cada e a dedução de despesa no valor total de R$ 375.000,00. Em sua Impugnação, o Recorrente acostou aos autos TED, que, supostamente, comprovaria um dos pagamentos (realizado em 21/12/2012), se limitando a argumentar que: Ademais, não se pode duvidar que as despesas com viagens estão de acordo com a regra geral contida no artigo 299 do RIR/99, posto que constituem despesas operacionais (necessárias, usuais e normais), estando intimamente ligadas à atividade operacional da Impugnante. Ressaltase que a dedutibilidade desta despesa nos termos do art. 299 do RIR/99 não foi objeto de questionamento por parte do Sr. Agente Fiscal. No Recurso Voluntário, o Recorrente se ateve a repisar os argumentos lançados em sua Impugnação. Não foi apresentado nenhum outro documento para comprovar qual a motivação das viagens, em que circunstancias foram realizadas, por quem foram realizadas, o que torna impossível verificar, neste momento processual, se eram de fato dedutíveis ou não. Não houve, data venia, apresentação de documentos capazes de sustentar o lançamentos contábeis, mesmo sendo dada mais de uma oportunidade ao contribuinte de comprovar a veracidade dos seus lançamentos. Poderia ter apresentado os documentos quando da intimação da fiscalização, em Impugnação administrativa ou, em virtude do princípio da Verdade Material, até mesmo no Recurso Voluntário, mas nada foi acostado aos autos. Assim, sem maiores delongas, neste ponto, no que se refere à glosa das despesas relativas aos pagamentos realizados à empresa Global Taxi Aéreo, também NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. 6) DESPESAS DE MATERIAL DE EXPEDIENTE– LOCALIZAÇÃO E FUNCIONAMENTO LINHA 06 DA FICHA 05C. A acusação fiscal, no TVF, assim se pronunciou acerca das glosas de despesas relativas aos pagamentos realizados às empresas D'Cale Artes Gráficas Ltda.; Diário de Sorocaba Jornal e Editora Ltda., Gráfica Karoll Sorocaba Ltda. e Elza de Rossi Sorocaba Ltda.: Selecionada para auditoria a conta 35312101.01.0000 “MATERIAL DE EXPEDIENTE”, cujos valores foram deduzidos na Linha 06 da Ficha 05C da DIPJ AC 2012 “Localização e Funcionamento”, inicialmente relativas a despesas pagas e deduzidas das empresas “D'CALE ARTES GRÁFICAS LTDA. ME CNPJ 04.524.303/000164”, “DIÁRIO DE SOROCABA JORNAL E EDITORA LTDA. – CNPJ 48.333.652/000174” e posteriormente– itens 8 e 9 do TIF nº 07 incluídas as empresas "GRÁFICA KAROLL SOROCABA Fl. 1123DF CARF MF 34 LTDA.– CNPJ 06.988.202/000107" e "ELZA DE ROSSI SOROCABA LTDA.– CNPJ 12.976.128/0001 74". Em relação a D'Cale e Diário de Sorocaba apresentou notas fiscais – com indicação no campo "Descrição dos Serviços" apenas a expressão "SERVIÇOS" e comprovantes de pagamentos – cheques, ordens bancárias de casos amostrados, porém sem comprovação da efetiva prestação de serviços. Em relação a Gráfica Karoll e Elza de Rossi limitouse a apresentar apenas a escrituração contábil – razões. O valor pago, deduzido como despesa a título de "Material de Expediente", inserido na linha 06 da Ficha 05C – "Localização e Funcionamento" e não comprovado no AC 2012 é igual a R$ 1.011.851,82. No anocalendário 2013 ainda foram identificados pagamentos a D'Cale, Diário de Sorocaba e Gráficas Karoll, deduzidos na mesma conta de “Material de Expediente” e em contrapartida à conta de “Bancos”: o valor total no anocalendário 2013, apurado com base nos razões apresentados e sem comprovação adicional, importou em R$ 229.418,40. Em 2011, a favor de D'Cale o valor de R$ 151.596,55, O Recorrente, por sua vez, no atendimento às intimações recebidas e nos apelos apresentados, se limitou a juntar Notas Fiscais, cópias de cheque, TED, todos por amostragem, defendendo que as despesas eram comprovadas pelo simples lançamento contábil e que: Ainda, apesar de mais uma vez não ser tema de questionamento pela Sr. Agente Fiscal no TVF que acompanhou os autos de infração originários do presente processo administrativo, as despesas com material de expediente estão de acordo com a regra geral contida no artigo 299 do RIR/99, posto que também constituem despesas operacionais (necessárias, usuais e normais), estando intimamente ligadas à manutenção da respectiva fonte produtora da Recorrente. Contudo, não houve, em nenhum momento, qualquer comprovação dos serviços que supostamente teriam sido prestados. Como se denota das Notas Fiscais emitidas, por exemplo, pela empresa D'Dale Artes Gráficas, consta apenas "serviços" na descrição do objeto do pagamento. Não há nenhuma menção de qual serviço foi prestado e de que forma. Ainda, devese ressaltar que, em que pese as despesas terem sido lançadas na conta "Material de Expediente", em vários recibos juntados aos autos (que estão todos apócrifos, digase), verificase que o Favorecido dá quitação à Companhia Mutual de Seguros, "referente a liquidação total/parcial de indenização de sinistro do segurado acima citado". Ou seja, se houvesse qualquer comprovação por parte do Recorrente, esta não seria relativa à despesas de material de expediente passíveis de dedução da base de cálculo do IRPJ e da CSSL. Por tudo, NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, na parte em que combate a glosa de despesas incorridas com as D'Cale Artes Gráficas Ltda.; Diário de Sorocaba Jornal e Editora Ltda., Gráfica Karoll Sorocaba Ltda. e Elza de Rossi Sorocaba Ltda. Fl. 1124DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.108 35 7) DESPESAS DE CONDOMÍNIO – IMÓVEL ED BALMORAL PARK ALIENADO NO ANOCALENDÁRIO 2011. Por fim, analisase, neste ponto, as últimas glosas realizadas pela fiscalização, que são relativas às despesas incorridas com o condomínio dos imóveis do Ed. Balmoral Park. Vejase a acusação fiscal: Com base em pesquisa em DOI se verificou alienação de imóveis da MUTUAL no anocalendário 2012, sem registro das transações bem como sem indicação de ganho de capital. Regularmente intimado a esclarecer o assunto – itens 1 a 3 do TIF nº 06, informou que a alienação dos imóveis ocorreu no anocalendário 2011, em 21/10/2011 com o efetivo registro do ganho de capital no valor de R$ 3.674.366,63 razão conta 38111201.01.0000 e Linha 41 da Ficha 06 C da respectiva DIPJ. De nosso interesse o imóvel localizado no Ed. Balmoral Park, para o qual a MUTUAL continuou arcando, de forma indevida, com as despesas de condomínio nos anos calendário 2012 a 2014, conforme lançamentos individualizados nos razões apresentados e relacionados no item 4 do presente TVF. Em suas defesas, sem juntar qualquer documento comprobatório, o Recorrente afirma, tãosomente, que as despesas foram regularmente contabilizadas e que, por isso, podem ser deduzidas. Nada fala, o Recorrente, acerca da informação de que ele mesmo prestou, no sentido de que os imóveis foram vendidos em 2011 e o motivo pelo qual continuou arcando com as despesas de condomínio nos de 2012 a 2014. Não há argumentação, nem provas (inclusive comprovantes de pagamentos e ou contratos) para demonstrar a dedutibilidade das despesas. A esta mesma conclusão chegou o acórdão recorrido. Confirase: Por fim, na constestação das glosas de despesas de condomínio, a contribuinte apenas alegou que a contabilidade faz prova em seu favor, e nada juntou de documentos. Conforme informações contidas no Termo de Verificação Fiscal, no período em que houve as glosas, a contribuinte já não era mais proprietária do imóvel, o edifício Balmoral Park, porque a alienação ocorreu em 21/10/2011. Assim, ela deveria apresentar algum documento que comprovasse a necessidade de estar arcando com as despesas de condomínio do imóvel já alienado. Como as despesas contabilizadas não estão amparadas por documentos hábeis e idôneos considerase não comprovada. Assim, NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, no que se refere às despesas incorridas condomínio dos imóveis do Ed. Balmoral Park. DA ADIÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL DAS DESPESAS CONSIDERADAS INDEDUTÍVEIS PELA FISCALIZAÇÃO. Em argumento subsidiário, o Recorrente argumenta, em síntese, "que em razão da inexistência de previsão legal que permita a adição de despesa, considerada indedutível, na base de cálculo da CSLL, e da comprovação pela Recorrente dos efetivos Fl. 1125DF CARF MF 36 pagamentos das referidas despesas indevidamente glosadas no curso do procedimento fiscal, não pode prevalecer o acórdão recorrido." Neste ponto, primeiramente, como se observa do que restou analisado ao longo deste voto, não foi comprovado, pelo contribuinte, todos os pagamentos realizados. Pelo contrário, na maioria das glosas, o contribuinte trouxe documentação por amostragem e, em alguma delas, como no caso das despesas com condomínio, por exemplo, o Recorrente não apresentou nenhum documento. De toda forma, não há razão nos argumentos do Recorrente neste ponto do Recurso Voluntário. A legislação, mais especificamente a Lei nº 9.430/96, é clara no sentido de que à CSLL aplicamse as formas de apuração do Lucro Real do IRPJ, inclusive as adições e exclusões da base de cálculo. Vejase: Lei 9.430/1996 Art. 1º A partir do anocalendário de 1997, o imposto de renda das pessoas jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada anocalendário, observada a legislação vigente, com as alterações desta Lei. Art. 28. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24B, 26, 55 e 71. (Redação dada pela Lei nº 12.715, de 2012) Portanto, NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, com relação ao argumento subsidiário de não aplicação das regras do IRPJ à CSLL. DA COBRANÇA DO IRRF À ALÍQUOTA DE 35% SIMULTANEAMENTE COM A TRIBUTAÇÃO DO IRPJ E DA CSLL EM RAZÃO DA GLOSA DE DESPESAS. Em tópicos específicos, o Recorrente se insurge com relação à constituição do IRRF, sob dois argumentos, em síntese: (i) que não houve motivação clara e precisa da presente cobrança do IRRF, sendo, portanto ilíquido o crédito tributário, o que imporia, por consequencia, na anulação do Auto de Infração e (ii) que não se pode admitir a tributação do IRRF de forma simultânea com a tributação do IRPJ e CSLL em razão da glosa de despesas. No que tange ao primeiro argumento, entendese que não assiste razão ao Recorrente. Como se depreende do TVF, o agente fiscal deixou bem claro o motivo da constituição do IRRF, qual seja: pagamentos realizados sem causa. Vejase o que constou daquele Termo: Além da indedutibilidade das despesas em questão por ausência de comprovação da efetiva prestação dos serviços pretendidos conforme descrito no item 2 deste TVF e comprovado que os valores acima indicados e individualizados no item 4 deste TVF a favor de todos os beneficiários primariamente identificados foram efetivamente caracterizados como pagamentos sem causa, incorreu a MUTUAL na infração prevista no parágrafo 1º do artigo 674 do RIR/99 Fl. 1126DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.109 37 Pelo leitura do trecho transcrito se tem como cristalina a motivação do agente fiscal, sendo plenamente factível a possibilidade de defesa por parte do contribuinte. Tanto que, em tópico seguinte, como mencionado, o contribuinte se insurgiu contra a cobrança do IRRF, justamente por ele ter sido cobrado de forma simultânea com o IRPJ e CSSL, que foram constituídos em razão da glosa das despesas. Contudo, quanto ao segundo argumento, de fato, o Recorrente tem razão em seu apelo. Explicase. O embasamento legal para tributação do IRRF, como consta do TVF, está arrimado no artigo 674, do RIR, que reproduz a redação do artigo 61 da Lei nº 8.981/95. Veja se o que consta dispositivo: “Art. 674: Está sujeito à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais (Lei nº 8.981, de 1995, art.61). § 1º A incidência prevista neste artigo aplicase também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa (Lei nº 8.981, de 1995, art.61, § 1º). § 2º Considerase vencido o imposto no dia do pagamento da referida importância (Lei nº 8.981, de 1995, art.61, § 2º). § 3º O rendimento será considerado líquido, cabendo o reajustamento do respectivo rendimento bruto sobre o qual recairá o imposto (Lei nº 8.981, de 1995, art.61, § 3º)”. (destacouse) Entretanto, é fácil perceber que a aplicação do artigo 61, da Lei nº 8.981/95 (art. 674 do RIR), está reservada apenas para aqueles casos em que há comprovação por parte do fisco de um pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, mas que não enseje na tributação do IRPJ e da CSLL, como no caso aqui analisado. E essa interpretação fica mais clara com a edição da Lei nº 9.249/95, uma vez que, por opção legislativa, o rendimento tributado na pessoa jurídica não será mais tributado na pessoa física ou em outra pessoa jurídica, que seriam beneficiárias daquele rendimento. Não se pode olvidar, ainda, que a Lei nº 9.249/95 revogou expressamente o artigo 44 da Lei nº 8.541/92, que previa a tributação na fonte, à alíquota de 25%, das situações em que se presumisse a distribuição aos sócios da receita omitida ou da parcela redutora do lucro líquido pela pessoa jurídica. Assim, o artigo 61, da Lei nº 8.981/95 não pode ser aplicado às situações que anteriormente eram acobertadas pelo revogado artigo 44, da Lei nº 8.541/92. Portanto, como mencionado, só se pode admitir a aplicação do artigo 61 para aquelas situações em que o fisco prove a existência de um pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, não se admitindo, contudo, que aqueles valores relativos ao pagamento dito sem causa, também tenham impacto na apuração do IRPJ e da CSLL, como nos casos de glosa de despesas. Fl. 1127DF CARF MF 38 Como mencionando no Recurso Voluntário, há, inclusive, precedente da Câmara Superior deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais neste sentido. Confirase a ementa do julgado: IRFONTE PAGAMENTO SEM CAUSA ART. 61 DA LEI N°8.981, DE 1995 LUCRO REAL REDUÇÃO DE LUCRO LIQUIDO MESMA BASE DE CÁLCULO INCOMPATIBILIDADE. A aplicação do art. 61 da Lei n° 8.981, de 1995, está reservada para aquelas situações em que o Fisco prova a existência de um pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, desde que a mesma hipótese não enseje tributação por redução do lucro líquido, tipicamente caracterizada por omissão de receita ou glosa de custos/despesas, situações próprias da tributação do IRPJ pelo lucro real. Precedente da CSRF. Acórdão n° CSRF/0401 094. Jul. 03/11/2008 Rel. Conselheira Ivete Malaquias Pessoa Monteiro. No caso concreto, por presunção, foi considerado omissão de receita o dinheiro creditado em conta bancária da empresa no dia 18/02/97. Assim, se houve receita omitida aumentouse o lucro e exigiuse IRPJ, CSLL, COFINS, PIS. Todavia, quando o dinheiro saiu do caixa da empresa para pagar, com juros, o valor que foi considerado receita omitida, tal importância não pode ser considerada pagamento sem causa, sob pena de efetivamente confirmar que não se tratava de receita omitida, mas sim empréstimo com obrigação de restituição dos valores. Recurso especial negado. (Acórdão nº 920200.686 Número do Processo 10730.004442/200212 Sessão de 13/04/2010). Desta feita, o lançamento de ofício deve ser anulado quanto ao IRRF, em face da evidente impossibilidade de concomitância com a tributação decorrente da glosa de custos e despesas por parte da fiscalização. Por todo o exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário relativamente à exigência do IR/Fonte sobre pagamentos considerados como sem causa pela fiscalização, quando já houve a glosa dos despesas e a consequente tributação do IRPJ e da CSLL destes valores. Em que pese o entendimento ora exarado, o colegiado, com voto de qualidade, entendeu pelo erro da fiscalização quando do cálculo do suposto IRRF e, por isso, decotouse da autuação os valores relativos ao Imposto de Renda Retido na Fonte, por vício insanável do lançamento tributário. DA INAPLICABILIDADE DA MULTA ISOLADA DECORRENTE DA INSUFICIÊNCIA NO RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS EM RAZÃO DO ENCERRAMENTO DO ANOBASE QUANDO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO. CUMULATIVIDADE DE PENALIDADES. Em seu Recurso Voluntário, o Recorrente se insurge, também, com relação à aplicação de multa isolada em face do não recolhimento de estimativas, uma vez que houve o encerramento do anocalendário, bem como pela impossibilidade de cobrança desta penalidade de forma concomitante com a penalidade pelo não recolhimento do IRPJ e da CSLL. Fl. 1128DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.110 39 Argumenta, neste sentido, que as despesas glosadas, no entendimento da fiscalização, resultaram "na diminuição indevida das estimativas mensais devidas no período supracitado", mas que o não recolhimento destas estimativas não pode ser penalizado, quando há o encerramento do anocalendário autuado, na medida em que já se está cobrando o tributo supostamente devido, com a aplicação das penalidades decorrentes. Assiste razão ao Recorrente. Depreendese dos autos o Recorrente sofreu a cobrança de multa de ofício no percentual de 150% (posteriormente reduzida pela DRJ para 75%) em virtude do suposto não recolhimento do IRPJ e CSLL no final dos anos calendários de 2011, 2012, 2013 e 2014, concomitantemente com a cobrança de multa isolada no percentual de 50% pelo não recolhimento de estimativas mensais a título de tais exações. O enquadramento legal das penalidades aplicadas contra o Recorrente – multas de ofício e isolada – é o artigo 44, I e II da Lei nº. 9.430/96, cujas redações foram alteradas pela Lei nº 11.488/07, que assim dispõe: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8oda Lei no7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. De acordo com o dispositivo acima transcrito, mencionadas penalidades serão aplicadas em razão das seguintes infrações: (i) Será aplicada multa de ofício (75%) sobre o valor do tributo não recolhido, não declarado ou declarado com inexatidão; e (ii) Será aplicada multa de ofício (50%) exigida isoladamente sobre o valor do pagamento mensal do IRPJ e da CSLL Estimativa Mensal, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente. A denominada multa isolada tem como finalidade garantir a penalização do contribuinte pela ausência dos recolhimentos de estimativa mensal, independentemente de, ao Fl. 1129DF CARF MF 40 final do anocalendário, restar constatado que naquele ano nada era devido a título de IRPJ e CSLL. Ocorre, contudo, que, tanto a multa de ofício, quanto a multa isolada penalizam uma mesma infração, qual seja o não recolhimento do tributo. É que o regime de recolhimento por estimativa representa mero mecanismo de adiantamento de valores ao fisco. Ou seja, a antecipação do pagamento mensal estimado de IRPJ e de CSLL aos cofres públicos não representa a liquidação definitiva desses tributos, que somente se dará depois de realizado o ajuste ao final do exercício. Por outro lado, depois de findado o exercício e realizado o ajuste anual, não há mais razão para se falar em pagamento de estimativas mensais, diante da sua provisoriedade e em face do caráter definitivo do pagamento realizado a partir do ajuste anual. Inclusive, este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF já consolidou o entendimento, por meio de sua súmula 82, que “após o encerramento do ano calendário, é incabível o lançamento de ofício de IRPJ e CSLL, para exigir estimativas não recolhidas.” Esse entendimento, a propósito, foi confirmado pelo Parecer PGFN/CAT nº 88/2014, conforme se verifica: O IRPJ e a CSLL substituem as estimativas, contudo, é possível que os valores relativos à estimativa tenham sido compensados e computados como pagamento no momento do ajuste anual, contudo, essa compensação pode não ser homologada, ocorrendo a decisão após a apuração do lucro real. Assim, tratarseiam de valores referentes a tributo consolidados com o ajuste anual, não mais de mera estimativa do imposto de renda e da contribuição sobre o lucro. Esse entendimento já é aplicado pela Receita Federal do Brasil, vejamos trecho da Nota Cosit nº 31/2013, a qual serve de lastro à consulta: “Portanto, ao apurar, em 31 de dezembro, o valor total do imposto devido em todo o anocalendário, o sujeito passivo há de pagar esse valor, não havendo porque a RFB manter a cobrança de um débito (estimativa) que foi incorporado por outro (imposto a pagar). Isso é pacífico. A RFB não cobra estimativa não paga no anocalendário: aplica multa de ofício e cobra o imposto devido na forma de saldo a pagar.” A leitura do trecho acima deixa claro que a RFB tem consciência da inviabilidade de cobrança das estimativas, pelo menos até a ocorrência do fato jurídico que enseja a incidência do IRPJ e CSLL na modalidade anual. Ocorre que, após o ajuste, a estimativa é substituída pelo tributo, portanto, a estimativa extinta por meio de compensação foi incorporada ao ajuste, como explicado pela própria Receita Federal do Brasil na Nota Cosit n.º 31/2013: “21.Ocorre que não se está tratando de estimativa não paga no anocalendário, mas de estimativa extinta por meio da compensação, cujo efeito legal é o mesmo do pagamento, Fl. 1130DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.111 41 conforme se depreende da leitura do art. 156, Incisos I e II, do CTN e do art. 6º da Lei nº 8.212, de 29 de agosto de 1991. 21.1.Por sua vez, a Lei n.º 9.430, de 1996, não previa – e não foi atualizada nesse ponto – a hipótese de que o valor devido fosse antecipado por forma diversa do pagamento, in casu, a compensação, cujas regras próprias possibilitam a contestação dessa antecipação por meio da nãohomologação, que ocorre, via de regra, apenas depois de 31 de dezembro, ou seja, depois de a Declaração de Informações EconômicoFiscais (DIPJ) ser entregue e o imposto pago ou o saldo negativo apurado. 21.2.Ora, enquanto não homologada a compensação, extinto está o débito declarado a título de estimativa e, portanto, corretamente deduzido do total do imposto devido no ano e demonstrado no DIPJ. Essa extinção, entretanto, não é definitiva, mas se submete a condição resolutória de a RFB homologála ou não no prazo de cinco anos. 21.3 Assim, ao compor o imposto de renda apurado e devido ao final do anocalendário, e ser declarado extinto por meio de estimativa, temse que esse valor informado na DIPJ como compensado já não é mais estimativa, mas imposto sobre a renda, crédito tributário definitivamente constituído por apuração e confissão do sujeito passivo. Tal caráter de confissão tanto se encontra assentado na informação do valor estimado e compensado prestada na DCTF, como na DComp. O entendimento que podemos extrair do excerto acima é de que tratamos de tributo em si, não mais de estimativas, cuja existência se encerra com o ajuste anual, consoante exposto nos Pareceres PGFN/CAT nº 1.658/2011 e 193/2013, razão pela qual podemos ter uma conclusão diferente daqueles constantes nos pareceres mencionados, contudo, sem modificarlhes em nenhum ponto, apenas por considerar que no caso estamos tratando de tributo propriamente dito (...). Do cotejo do acima exposto, não há dúvidas de que as multas de ofício e isolada tem como finalidade penalizar uma mesma infração, qual seja: o não recolhimento do IRPJ e da CSLL devidos em determinado exercício, de modo que a sua aplicação concomitante tornase inadequada. A impossibilidade da aplicação concomitante de multas isolada e de ofício, foi confirmado pelo CARF por meio da edição da súmula nº 105. Confirase: Súmula CARF nº 105 A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. E aqui vale ressaltar que, a despeito da nova redação do artigo 44 da Lei nº 9.430/96 introduzida pela Lei nº 11.488/07, a cobrança concomitante das multas isolada e de oficio permanece inadmissível, uma vez que essas multas continuam penalizando o mesmo fato, tendo aquela lei alterado apenas a base de cálculo de tais penalidades. Fl. 1131DF CARF MF 42 Isso porque, mesmo após a edição da Lei nº 11.488/07, em nada foi alterado o caráter provisório dos recolhimentos do IRPJ e CSLL por estimativa, o que enseja na absorção da multa isolada pela multa de ofício relativa ao não recolhimento do IRPJ e da CSLL calculados após o ajuste anual, como bem demonstrado pelo Recorrente. O Superior Tribunal de Justiça já proferiu entendimento neste sentido, afastando a aplicação concomitante das multas previstas no artigo 44 da Lei nº 9.430/96. Confirase a ementa de dois julgados proferidos: TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44, I E II, DA LEI 9.430/1996 (REDAÇÃO DADA PELA LEI 11.488/2007). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTES. 1. A Segunda Turma do STJ tem posição firmada pela impossibilidade de aplicação concomitante das multas isolada e de ofício previstas nos incisos I e II do art. 44 da Lei 9.430/1996 (AgRg no REsp 1.499.389/PB, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28/9/2015; REsp 1.496.354/PR, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 24/3/2015). 2. Agravo Regimental não provido. (STJ AgRg no REsp 1576289/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/04/2016, DJe 27/05/2016) (destacouse) TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44 DA LEI N. 9.430/96 (REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 11.488/07). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTE. 1. A Segunda Turma desta Corte, quando do julgamento do REsp nº 1.496.354/PR, de relatoria do Ministro Humberto Martins, DJe 24.3.2015, adotou entendimento no sentido de que a multa do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 somente poderá ser aplicada quando não for possível a aplicação da multa do inciso I do referido dispositivo. 2. Na ocasião, aplicouse a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente, de forma que não se pode exigir concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobra se apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo. 3. Agravo regimental não provido. (STJ AgRg no REsp 1499389/PB, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/09/2015, DJe 28/09/2015) (destacouse) Portanto, não deve prevalecer, no presente caso, a aplicação concomitante das multas isolada e de ofício, devendose excluir a primeira pelas razões acima apontadas. Neste ponto, DOU PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO, para decotar da autuação a multa isolada pelo não recolhimento das estimativas mensais. DOS JUROS SOBRE A MULTA Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.112 43 O Recorrente também se insurge com relação à incidência de juros sobre as multas aplicadas de ofício pela fiscalização. Aduz, neste sentido, que "(i) multa não é tributo; e (ii) só há previsão legal para que os juros calculados à taxa SELIC incidam sobre tributo (e não sobre multa), a cobrança de juros sobre a multa desrespeita o princípio constitucional da legalidade, expressamente previsto nos artigos 5º, II, e 37 da Constituição Federal, o que não pode ser admitido por esse E. CARF". Contudo, este colegiado e boa parte das Turmas deste Conselho vem, cada vez mais, fixando o entendimento de que a exigência de juros sobre a multa de ofício é licita. Neste sentido, são inúmeras as decisões, conforme se extrai das ementas abaixo reproduzidas, que adotase como razões de decidir: JUROS SOBRE MULTA. As multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa Selic (Acórdão: 1301002.233 Número do Processo: 16561.720184/201335 Data de Publicação: 22/06/2017). JUROS SOBRE MULTA. As multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa Selic (Acórdão: 1301002.278 Número do Processo: 10830.016637/200945 Data de Publicação: 20/06/2017). Ressaltese que o Superior Tribunal de Justiça,em entendimento consolidado na 1ª seção (que engloba as duas turma de Direito Público do Tribunal), também tem este mesmo posicionamento, como se observa da ementa do julgado transcrita abaixo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. Fl. 1133DF CARF MF 44 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1335688/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 04/12/2012, DJe 10/12/2012) Diante deste entendimento, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário neste ponto. DO RECURSO DE OFÍCIO Como se depreende do acórdão recorrido, a decisão final que prevaleceu no colegiado da DRJ de Curitiba foi a seguinte: Acordam os membros da 2ª Turma de Julgamento, por unanimidade, rejeitar a preliminar de decadência e nulidade, rejeitar o pedido de realização da diligência, e julgar parcialmente procedente a impugnação para: a) manter as multas isoladas por falta de pagamento de estimativas de IRPJ e CSLL; b) manter as exigências de IRPJ, CSLL e IRRF, e reduzir suas respectivas multas de ofício de 150% para 75% para todos os períodos; c) exonerar totalmente o lançamento da multa por falta de retenção na fonte das contribuições de R$ 1.548.048,68, referente ao auto de infração “Outras Multas Administradas pela RFB”. Assim, o órgão julgador a quo entendeu por (i) reduzir de 150% para 75% a multa de ofício aplicada e (ii) exonerar, na totalidade, a multa pela falta de retenção na fonte das contribuições. Em face da exoneração de parte do crédito tributário pelo acórdão recorrido, houve a interposição de Recurso de Ofício. Como o valor exonerado supera o valor de alçada de R$2.500.000,00, nos termos da Portaria MF nº 63/2017, esse deve ser conhecido. DA FALTA DE RETENÇÃO E RECOLHIMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS EM FACE DOS PAGAMENTOS REALIZADOS. Como se depreende do Termo de Verificação Fiscal, o agente autuante, após considerar que as despesas registradas na contabilidade do Recorrente não foram incorridas (ou seja, que os serviços não foram prestados) e, por isso, não poderiam ser deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL do contribuinte, aplicou penalidade pela não retenção e não recolhimento das Contribuições Sociais devidas quando aqueles pagamentos foram realizados. No TVF, assim se manifestou a fiscalização quanto à aplicação desta penalidade: Uma vez que as contribuições sociais não foram retidas nem recolhidas conforme previsto em lei, há incidência da multa de ofício prevista no art. 9º da Lei nº 10.426/2002. Cabe notar que o IRRF e a CSRF tem natureza de antecipação do imposto devido pelo beneficiário do rendimento. Assim, em razão de a falta de retenção ter sido verificada após o encerramento do período de apuração do imposto, será exigido da fonte pagadora a multa de ofício e os juros de mora isolados, conforme o Parecer Normativo (PN) nº 1/2002. Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.113 45 Referente à falta de retenções de IR e contribuições sociais o contribuinte está sujeito a multa de ofício e juros de mora isolados, nos termos do Parecer Normativo Cosit n° 1/2002, (...) Em sua Impugnação, o Recorrente, contudo, alegou, em síntese, que não se pode admitir a aplicação de uma penalidade pela não retenção e recolhimento de tributos devidos pelo pagamento de um determinado serviço, quando se parte da premissa de que não houve prestação de serviços. E, no acórdão recorrido, proferido pela DRJ de Curitiba (PR), este argumento foi acatado de forma acertada, nos seguintes termos: 32. Por outro lado, tem razão a contribuinte, de que os lançamentos são mutuamente excludentes. O auditorfiscal glosou as despesas com o fundamento de que não houve comprovação da prestação de serviços. Logo, se está afirmando que não houve prestação de serviços, não poderia aplicar a multa e juros sob alegação de que a contribuinte deveria ter retido contribuições sociais sobre os pagamentos às empresas referentes às despesas glosadas, porque não sendo prestação de serviços, não há essa obrigatoriedade das retenções. 33. Dessa forma, a totalidade do lançamento do auto de infração “Outras Multas Administradas pela RFB” no montante de R$ 1.548.048,68 deve ser exonerado. Não há reparos a se fazer nesse ponto do acórdão da DRJ. De fato, não se pode admitir que um serviço não foi prestado, sendo os pagamentos realizados sem causa e, ao mesmo tempo, penalizar o contribuinte por ter deixado de reter e recolher tributos quando do pagamento de um "serviço". É no mínimo ilógica, data venia, a conclusão do agente fiscal. De duas, uma: ou consideravase os serviços como prestados e, por consequencia, se chegava a conclusão de que não houve a retenção e recolhimento dos tributos, ou se considerava que esses não foram prestados e, por isso, não haveria necessidade de retenção e recolhimento dos tributos nos pagamentos realizados. Desta feita, não há reparos a se fazer, neste ponto, ao acórdão proferido pelo colegiado a quo, pelo o que NEGO PROVIMENTO ao Recurso de Ofício. DA MULTA QUALIFICADA A turma julgadora a quo, no acórdão recorrido, quando da análise da qualificação da multa qualificada impetrada pela autoridade fiscal, após citar trecho do TVF, assim se manifestou: 78. A não comprovação da efetiva prestação de serviço é causa para considerar como pagamento sem causa, sujeitando ao pagamento de imposto de renda de 35% sobre base de cálculo reajustada. Porém este mesmo fato não poderia ter sido utilizado para qualificar a multa em razão da existência da dúvida quanto ao dolo, a qual deve favorecer a impugnante. Fl. 1135DF CARF MF 46 79. Foi mencionado pelo auditorfiscal de que as empresas OZCORP, PORT SERV e M TADEU di GIORGIO são vinculadas à contribuinte, mas não há informação de que essas empresas são de fachada e provas de que nada foi prestado por essas empresas. Para glosa das despesas e para exigência do imposto de renda de 35% sobre pagamento sem causa, basta que a contribuinte não comprove a efetividade dos serviços prestados, mas para aplicação da multa qualificada exigese a comprovação do dolo de sonegação, fraude ou conluio. 80. Assim, considero procedente a alegação da contribuinte para reduzir a multa qualificada de 150% para multa de ofício de 75%. Como se observa, a única motivação do agente fiscal para qualificar a multa foi o fato de o Recorrente ter deduzido despesas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, que, aos olhos da fiscalização, não poderiam terem sido deduzidas, uma vez que constatouse que os serviços não foram efetivamente prestados ou melhor: que o contribuinte não apresentou documentos suficientes para embasar os seus lançamentos contábeis. Para não se ter dúvidas quanto às alegações do agente fiscal, citase trecho do TVF que traz a motivação da qualificação da multa: As ações/omissões da MUTUAL ensejaram à multa de ofício em 150 % em razão de não ter apresentado nem mesmo notas fiscais de prestação de serviços, no caso da OZCORP e ainda se beneficiado de notas fiscais com identificações genéricas da natureza dos serviços prestados para os demais casos, ou seja, deduzir despesas com base em operações fictícias bem como pagamentos sem causa relacionadas às contratações de serviços fictos. (...) A fim de se prevenir possível questionamento de ser indevida a multa qualificada acrescida da cobrança do tributo. Considera se que o contribuinte é obrigado a cumprir a obrigação tributária como qualquer pessoa jurídica quando se apurar tributo devido, sendo que o não cumprimento da legislação tributária enseja a aplicação da multa qualificada. Cabe destacar que a Lei nº 9.430/96, em seu artigo 44, não prevê nenhuma exceção à aplicação da penalidade. Para qualquer lançamento de ofício, prevê o referido dispositivo legal que “serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”. No presente caso, a multa qualificada foi aplicada por ter sido constatado pela fiscalização a incidência das hipóteses previstas na Lei nº 4.502/64, sendo o montante da penalidade aplicada sobre o valor apurado dos tributos, nos termos do artigo 44, §1º da Lei nº 9.430/96: Pelo o que se percebe do trecho transcrito (e esta é a única fundamentação para a qualificação da multa, ressaltese) e de toda a documentação carreada nos autos, não houve, por parte da fiscalização, imputação e/ou comprovação de condutas dolosas praticadas pelo contribuinte, na pessoa de seus representantes, a ensejar a qualificação da multa, tanto que Fl. 1136DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.114 47 não houve a responsabilização dos administradores do Recorrente pelo pagamento dos créditos tributários constituídos. Como sabido, o parágrafo 1º do artigo 44, da Lei nº 9.430/96, determina a aplicação da penalidade qualificada quando constatada a prática de alguma das condutas previstas no artigos 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964. Citase: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Por sua vez, os dispositivos da Lei nº 4.502/64 que autorizam a qualificação da multa são os seguintes: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72 Repisese: não há nos autos qualquer imputação e/ou comprovação de condutas dolosas praticadas de acordo com os dispositivos acima transcritos. É fato, é claro, que o contribuinte deduziu, de forma indevida, despesas da base de cálculo do IRPJ e CSLL, mas não se pode olvidar que este mesmo contribuinte apresentou à fiscalização todos os elementos para que estas despesas pudessem ser identificadas, as escriturando, inclusive. Assim, a única conclusão a que se pode chegar é que não comprovação de conduta dolosa. Fl. 1137DF CARF MF 48 Portanto, não merece reparo o acórdão recorrido também neste ponto, pelo o que NEGO PROVIMENTO ao Recurso de Ofício. DAS CONCLUSÕES Pelo tudo o que foi aqui exposto, concluise o presente voto da seguinte forma: NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, quanto às preliminares levantadas. No mérito: NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, quanto às glosas das despesas que foram deduzidas da base de cálculo do IRPJ e CSLL, mantendose a constituição dos créditos tributários combatida pelo Recorrente. NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, com relação ao argumento subsidiário de não aplicação das regras do IRPJ à CSLL DOU PROVIMENTO ao Recurso Voluntário relativamente à exigência do IR/Fonte sobre pagamentos considerados como sem causa pela fiscalização, quando já houve a glosa dos despesas e a consequente tributação do IRPJ e da CSLL, votando pelas conclusões os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Maria Lucia Miceli e Luiz Tadeu Matosinho Machado, que decotaram da autuação os valores relativos ao IRRF, tendo em vista o erro do Auto de Infração no cálculo do tributo. DOU PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO, para decotar da autuação a multa isolada pelo não recolhimento das estimativas mensais. NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, no ponto em que o Recorrente se insurge quanto à incidência de juros sobre as multas aplicadas de ofício pela fiscalização. NEGO PROVIMENTO, na totalidade, ao Recurso de Ofício. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator Fl. 1138DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.115 49 Voto Vencedor Conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho Redator designado Em que pese o brilhantismo do Ilustre Relator, entendo de forma diferente quanto a dois aspectos do presente julgado: (i) sobre a manutenção da multa isolada lançada após o término do anocalendário e concomitantemente com a multa de ofício; (ii) sobre a qualificação da multa de ofício nos casos de glosa de despesas das empresas Ozcorp Serviços SC Ltda, Port Serv SC Ltda e M. Tadeu Di Giorgio Informática Ltda ME. No primeiro caso, faço minhas as palavras do Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior no acórdão 1302001.080, exarado na sessão de 20 de junho de 2013: Das condutas infracionais diferentes Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimentosobre bases estimadas. Ressaltese que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixarde recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei nº 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. Temos, então, duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas também diferentes. O art. 44 da Lei no 9.430/96 (na sua redação vigente à época do lançamento) já albergava várias normas, das quais vale pinçar as duas sub examine: a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1o aplicável por falta de pagamento do tributo; e a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do § 1º – aplicável pela não observância das normas do regime de recolhimento por estimativa. Ora, a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1º do art. 44 jamais poderia ser aplicada pela falta de recolhimento do IRPJ sobre a base estimada, então, como se falar em consunção, para que esta absorva a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o incisoIV do mesmo § 1º. Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art.44 e, consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos expendidos no acórdão recorrido, os quais concluem que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do Fl. 1139DF CARF MF 50 regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, alem dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal obrigatório (carnêleão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondose igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJ estimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Das diferentes bases para cálculos das multas A tese de que as multas isolada e de ofício, no presente caso, estariam incidindo sobre a mesma base, também, não deve prosperar, seja porque as bases não são idênticas, seja porque, ainda que idênticas, o bis in idem só ocorreria se as duas sanções fossem aplicadas pela ocorrência da mesma conduta, o que já ficou demonstrado que não ocorre, se não vejamos. A multa isolada corresponde a um percentual do IRPJ calculado sobre a base estimada, na qual o valor das despesas e custos decorrem de uma estimativa legal, ou seja, o legislador quando determina a aplicação de um percentual sobre a receita bruta, para o cálculo da base estimada, está, em verdade, estimando custos e despesas. A multa de ofício, in casu, corresponde a um percentual sobre o IRPJ calculado sobre o lucro real, na qual se leva em conta as despesas e custos efetivamente incorridos. Em suma, se a base estimada difere do lucro real, se são valores distintos, inclusive com previsões legais distintas, os impostos delas resultantes são também valores distintos e, consequentemente, as multas ad valorem que incidem sobre elas, também, são valores que não se confundem. Todavia, ainda que as multas isolada e de ofício fossem calculadas sobre o IRPJ incidente sobre a mesma base de cálculo, isso não significaria um bis in idem, pois, como já asseverado acima, a ocorrência de uma infração não importa necessariamente na ocorrência da outra, o que torna irrefutável que as infrações decorrem de condutas diversas. O contribuinte pode ter recolhido todo o IRPJ devido sobre a base estimada em cada mês do anocalendário e não recolher a diferença calculada ao final do período, ficando sujeito assim a multa de ofício, mas não a multa isolada. Ao contrário, pode deixar de recolher o Fl. 1140DF CARF MF Processo nº 16327.720611/201609 Acórdão n.º 1302003.010 S1C3T2 Fl. 1.116 51 IRPJ sobre a base estimada, mas pagar, ao final do ano, todo o IRPJ sobre o lucro real, hipótese na qual só ficará sujeito à multa isolada. A definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, V do CTN, não cabendo ao intérprete questionar se a dosimetria aplicada em tal e qual caso é adequada ou excessiva, a não ser que adentre a seara da sua constitucionalidade, o que está expressamente vedado pela Súmula CARF nº 2. Da redação original do art. 44, § 1º, IV, da Lei 9430/96 Aditese ainda, que o legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1º do art. 44, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro, assim, que: a) primeiro, que estava se referindo ao imposto ou contribuição calculado sobre a base estimada, já que em caso de prejuízo fiscal e base negativa, não há falar em tributo devido no ajuste; e b) segundo, que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada; e c) terceiro, que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do anocalendário, já que pode ser lançada mesmo após apurado prejuízo fiscal ou base negativa. Da negativa de vigência de lei federal Peço vênia aos meus pares, para expressar minha profunda discordância com as referidas posições adotadas por este Colegiado: Entendo que tais posicionamentos têm, em verdade, por via oblíqua, negado vigência a uma lei federal, pois afrontam literalmente o disposto nos art. 2º e 44, § 1º , IV, da Lei no 9.430/96 (vigente à época do lançamento) e no art. 35 da Lei 8.981/95. É demais imaginar que se coaduna com os mais comezinhos princípios do direito a permissão dada ao contribuinte, por tais decisões, para, em janeiro de um determinado ano calendário, decidir se obedece ou não o art. 2º e segs. da Lei no 9.430/96. Em outras palavras, os referidos posicionamentos deste Colegiado desnaturam a norma tributária tornandoa uma norma facultativa, já que a sua não observância não traz, à luz de tais posicionamentos, qualquer consequência jurídica. Levando em conta que os fatos geradores ocorreram em 2011, 2012, 2013 e 2014 e que prevalece nesta Turma Ordinária, se não também nas demais, o entendimento que a alteração da norma operada pela Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 1.488, de 2007, afasta a obrigatoriedade de aplicação da súmula CARF nº 105, adoto o entendimento acima, que aplico, mutatis mutandis, ao presente processo, e nego provimento o recurso voluntário quanto à multa isolada. No tocante ao recurso de ofício, em razão do afastamento da qualificação da multa de ofício, entendo, conjuntamente com a maioria da Turma, que em relação à glosa de despesas das empresas vinculadas Ozcorp Serviços SC Ltda, Port Serv SC Ltda e M. Tadeu Di Giorgio Informática Ltda ME está plenamente caracterizada a fraude, pois, sob a mesma batuta, foram criadas despesas com o evidente intuito (dolo) de modificara a características essenciais do fato gerador, reduzindo o tributo devido. Fl. 1141DF CARF MF 52 Assim, quanto a estas despesas, dou provimento ao recurso de ofício para restabelecer a multa qualificada. Pelo exposto, nego provimento ao recurso voluntário no que se refere à multa isolada e dou provimento ao recurso de ofício quanto à qualificação da multa sobre a glosa de despesas das empresas Ozcorp Serviços SC Ltda, Port Serv SC Ltda e M. Tadeu Di Giorgio Informática Ltda ME. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Cesar Candal Moreira Filho Redator designado Fl. 1142DF CARF MF
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Numero do processo: 13811.001263/98-11
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1003-000.024
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que a DRF verifique a comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor do direito creditório pleiteado em relação ao saldo negativo de IRPJ no valor de R$ 70.528,72 do ano calendário de 1996..
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Bárbara Santos Guedes - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: BARBARA SANTOS GUEDES
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que a DRF verifique a comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor do direito creditório pleiteado em relação ao saldo negativo de IRPJ no valor de R$ 70.528,72 do ano calendário de 1996.. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Tratase de recurso voluntário contra acórdão de nº 05743, de 18 de agosto de 2004, da 10ª Turma da DRJ/SPO, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade da contribuinte, não reconhecendo o direito creditório. Por economia processual e em razão de concordar com as colocações constantes na decisão do Ilmo. Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, destacase, abaixo, o Relatório da sua decisão: Tratase de Recurso Voluntário contra decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo/SP, que manteve a RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 11 .0 01 26 3/ 98 -1 1 Fl. 238DF CARF MF Processo nº 13811.001263/9811 Resolução nº 1003000.024 S1C0T3 Fl. 3 2 negativa parcial em relação a Pedido de Restituição de saldo negativo de IRPJ no anocalendário de 1997, cumulado com Pedidos de Compensação, nos mesmos termos em que já havia decidido anteriormente a Delegacia de origem. Por muito bem descrever os fatos, reproduzo o relatório constante da decisão de primeira instância, Acórdão n° 05.743, às fls. 185 a 189: Trata o presente processo de pedido de restituição do imposto de renda credor apurado na declaração de rendimentos entregue em 1998, relativamente ao ano calendário de 1997, conjugado com pedidos de compensação de impostos federais. 0 saldo credor apurado na declaração do ano calendário de 1997 perfaz o valor de R$ 172.868,25, conforme cópia da declaração de rendimentos as fls.33, a titulo de Imposto de Renda Mensal por Estimativa. Apreciado o pedido da requerente, o mesmo foi deferido parcialmente no valor de R$ 102.339,53, conforme Despacho Decisório de fls. 105 a 108, valor esse que corresponde a somatória das antecipações cujos recolhimentos foram confirmados ffls.104). A ciência dáse em 21/11/2003, conforme AR (fis.113 verso). Por sua vez, o interessado insurgese contra tal Despacho Decisório, em manifestação protocolizada em 03/12/2003, expondo que (fls.152 e fis.153): 1) o valor da diferença apresentada representa as compensações das antecipações do IRPJ do ano base de 1997, com crédito referente das antecipações a maior do 1RPJ do ano base de 1996, conforme planilha (anexo 1) já apresentada anteriormente (fls.85), e que o referido crédito do ano de 1996 encontrase pendente de apreciação de recurso no processo de n° 13811.000969/9701; 2) as compensações das antecipações do IRPJ do período de março, abril, maio, junho e julho, todas do ano base de 1997, constam das DCTFs respectivas (anexo 3); 3) o valor do crédito apurado no ano de 1997 de R$ 172.868,25 é referente somente às antecipações do IRPJ, sendo que o crédito total deverá ser apurado mediante a soma dos valores retidos na fonte referente às receitas Financeiras no montante de R$ 37.706,08. Por todo o exposto, solicita revisão do despacho decisório e homologação do crédito tributário no valor de RS 210.574,33, referente a R$ 172.868,25 de antecipações do IRRJ ano base 1997 e R$ 37.706,08 de IRRF sobre receitas financeiras do ano de 1997, bem como a correção monetária de lei. Como mencionado, a DRJ São Paulo/SP indeferiu a solicitação da Contribuinte, mantendo o que foi decidido pela DERAT São Paulo/SP, nos seguintes termos: Fl. 239DF CARF MF Processo nº 13811.001263/9811 Resolução nº 1003000.024 S1C0T3 Fl. 4 3 Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fome IRRF Ano calendário. 1997 Ementa: Pedido de restituição de Imposto Pago a Maior.Antecipações. Apreciado corretamente o pedido de restituição de antecipações de IRPJ pela autoridade de jurisdição do interessado, improcede a manifestação de inconformidade. Solicitação Indeferida. Quanto às antecipações (estimativas) em 1997 que foram objeto de pedido de compensação com crédito de IRPJ do ano anterior, e que estão pendentes de apreciação no processo n° 13811.000969/9701, a Delegacia de Julgamento consignou que tais valores não devem compor a restituição a ser apreciada no presente processo, uma vez que devem integrar as compensações vinculadas àquele outro, e nele devem ser apreciadas. Assim, estaria correto o Despacho Decisório de fls.105 a 108 que reconheceu o direito creditório no exato valor das antecipações efetivamente recolhidas relativamente ao ano calendário de 1997. Em relação ao reconhecimento adicional de direito credit6rio, a titulo de IRRF, no valor de RS 37.706,08, dirigido diretamente à DRJ, os julgadores de primeira instância consignaram que esse pedido não foi objeto de apreciação pela autoridade competente (no caso, a Delegacia de origem DERAT/SP), pelo que não poderia ser objeto de apreciação pelo órgão encarregado do julgamento de processos. Inconformada com essa decisão, da qual tomou ciência em 30/06/2005, a Contribuinte apresentou em 11/07/2005 o recurso voluntário de fls. 191 a 194, onde reitera as mesmas razões de sua primeira manifestação, conforme descrito nos parágrafos anteriores, acrescentando, em síntese, os seguintes argumentos: a) equivocase o relatório de manifestação de improcedência do pedido de reconhecimento de Crédito Tributário cumulado com pedido de compensação, uma vez que conclui precipitadamente o direito em questão, vez que o mesmo tem sua formação no ano imediatamente anterior e que o mesmo aguarda homologação por parte da SRF; b) ressaltese aqui, que o processo de no 13811.000969/9701 não discute compensação e sim a formação do Crédito Tributário para sua posterior compensação, alvo deste processo; c) ratificando tudo já exposto, a compensação é uma "espécie" das modalidades de Extinção do Crédito Tributário, da mesma forma que o pagamento, portanto não há possibilidade de se dar tratamento diferenciado aos efeitos das duas situações, devendo o Crédito Tributário ser formado pela soma das parcelas efetivamente recolhidas aos cofres públicos com as parcelas compensadas; d) Por fim, não analisar nosso pedido de homologação do crédito tributário referente ao IRRF fere o principio Constitucional da ampla defesa e da moralidade que deve nortear os atos públicos, vez que a Secretaria da Receita Federal além de possuir diversos mecanismos de Fl. 240DF CARF MF Processo nº 13811.001263/9811 Resolução nº 1003000.024 S1C0T3 Fl. 5 4 averiguação deste valor como é o caso do extrato nomeado de "IRFCONS" já apresentado a nós como ferramenta de cobrança de impostos no processo de n° 13811.000969/9701 movido por este mesmo Departamento, não solicitou em momento algum prova da constituição deste crédito. Se este instrumento é competente para avaliar o Crédito Tributário e sua Compensação também deverá ser competente para avaliar a e xistência de Créditos oriundos de Retenções na Fonte. Este é o Relatório Aos 31/08/2010, o Conselheiro Relator José de Oliveira Ferraz Corrêa proferiu decisão nos presentes autos declinando da competência para julgar o presente processo e encaminhando o mesmo à 1ª Câmara da 1ª Seção, visto que a turma entendeu haver relação de dependência entre esse processo e o de nº 13811.000969/9701. O processo de nº 13811.000969/9701 foi julgado em 31 de janeiro de 2012 acórdão de nº 1101000.660 e, por unanimidade de votos, foi dado provimento ao recurso voluntário, reconhecendo a existência de crédito e efetuando a homologação das compensações pleiteadas. É o Relatório. VOTO Conselheira Bárbara Santos Guedes, Relatora O recurso é tempestivo e cumpre com os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual deles tomo conhecimento e passo a apreciar. O cerne da questão objeto deste processo trata de parcela não reconhecida do saldo negativo do IRPJ/ano calendário 1997. A Recorrente informa que o valor do crédito apurado no ano de 1997 de R$ 172.868,25 é referente às antecipações de IRPJ, sendo que o crédito total deverá ser apurado mediante a soma dos valores retidos na fonte referente às Receitas Financeiras no montante de R$ 37.706,08. Valor total do crédito R$ 210.574,33. Em despacho decisório foi reconhecido o crédito no valor de R$ 102.339,53 referente às antecipações de IRPJ, que faz referência ao ano calendário de 1997, visto que o valor das antecipações de IRPJ do ano de 1996 (R$ 70.528,72) estavam sendo analisadas em outro processo, qual seja o de nº 13811.000969/9701. O crédito apontado em relação às antecipações de IRPJ do ano de 1996 foi reconhecido em 2ª instância com o provimento do recurso, cuja ementa, segue abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:1996 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. EXISTÊNCIA DE CRÉDITO Fl. 241DF CARF MF Processo nº 13811.001263/9811 Resolução nº 1003000.024 S1C0T3 Fl. 6 5 Reconhecido o direito creditório em favor da contribuinte, bem como as respectivas retenções do Imposto de Renda na Fonte, impõese, por decorrência, a homologação das compensações pleiteadas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. (Processo nº 13811.000969/9701 acórdão nº 1101000.660) O inteiro teor do acórdão acima destacado foi colacionado aos autos deste processo como documento comprobatório (fls.229 a 237) e é parte integrante deste julgado. Conforme declarado no despacho do Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, a matéria daquele processo era prejudicial para a análise dos presentes autos, visto que o processo nº 13811.000969/9701 discute a formação de crédito tributário, sendo reconhecido o crédito e as conseqüentes compensações, haverá repercussão em relação a esse processo, visto que restaria reconhecido o crédito de R$ 70.528,72 das antecipações de IRPJ. E, em razão do provimento do recurso voluntário no processo nº 13811.000969/9701, consubstanciado no acórdão de nº 1101000.660, o crédito lá apontado foi, em tese, reconhecido na sua totalidade. Isto posto, voto por converter o presente julgamento em diligência, para que os autos retornem à DRF a fim de que possa ser informado o que segue: certificação do andamento e pé através de emissão e um relatório detalhado em relação ao processo de nº 13811.000969/9701; confirmar se as estimativas de 1997, no valor total de R$ 70.528,72, estão extintas pela modalidade compensação com o saldo negativo de 1996; confirmar se as compensações estão indicadas na DCTF. Após manifestação da DRF, deve ser a Recorrente intimada para se manifestar sobre as novas informações juntadas. (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Fl. 242DF CARF MF
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