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Numero do processo: 10880.689994/2009-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2007
NULIDADE. DECISÃO COM TERMOS IGUAIS AOS DE OUTRAS PROFERIDAS EM PROCESSOS ADMINISTRATIVOS DO MESMO CONTRIBUINTE. CERCEAMENTO DE DEFESA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO. INOCORRÊNCIA.
A simples verificação da existência de decisões de mesmo teor e termos em processos administrativos distintos, mas de um mesmo contribuinte, não configura, objetivamente, cerceamento de defesa.
A verificação de nulidade das decisões administrativas pela constatação de ocorrência de cerceamento de defesa depende, primeiramente, da demonstração clara, concreta e específica de como o decisório causou prejuízo às prerrogativas postulatórias da parte e seu direito.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007
CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. DÉBITO DECLARADO EM DCTF. AUSÊNCIA DE RETIFICADORA. NECESSIDADE DE PROVA HÁBIL.
O reconhecimento de direito creditório oriundo pagamento utilizado para a quitação de débito declarado e constituído pelo próprio o contribuinte demanda a comprovação, mediante documentação adequada, hábil e pertinente, da ocorrência de recolhimento a maior ou indevido.
Numero da decisão: 1402-002.872
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Julio Lima Souza Martins, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2007 NULIDADE. DECISÃO COM TERMOS IGUAIS AOS DE OUTRAS PROFERIDAS EM PROCESSOS ADMINISTRATIVOS DO MESMO CONTRIBUINTE. CERCEAMENTO DE DEFESA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. A simples verificação da existência de decisões de mesmo teor e termos em processos administrativos distintos, mas de um mesmo contribuinte, não configura, objetivamente, cerceamento de defesa. A verificação de nulidade das decisões administrativas pela constatação de ocorrência de cerceamento de defesa depende, primeiramente, da demonstração clara, concreta e específica de como o decisório causou prejuízo às prerrogativas postulatórias da parte e seu direito. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007 CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. DÉBITO DECLARADO EM DCTF. AUSÊNCIA DE RETIFICADORA. NECESSIDADE DE PROVA HÁBIL. O reconhecimento de direito creditório oriundo pagamento utilizado para a quitação de débito declarado e constituído pelo próprio o contribuinte demanda a comprovação, mediante documentação adequada, hábil e pertinente, da ocorrência de recolhimento a maior ou indevido.
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DECISÃO COM TERMOS IGUAIS AOS DE OUTRAS PROFERIDAS EM PROCESSOS ADMINISTRATIVOS DO MESMO CONTRIBUINTE. CERCEAMENTO DE DEFESA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. A simples verificação da existência de decisões de mesmo teor e termos em processos administrativos distintos, mas de um mesmo contribuinte, não configura, objetivamente, cerceamento de defesa. A verificação de nulidade das decisões administrativas pela constatação de ocorrência de cerceamento de defesa depende, primeiramente, da demonstração clara, concreta e específica de como o decisório causou prejuízo às prerrogativas postulatórias da parte e seu direito. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. DÉBITO DECLARADO EM DCTF. AUSÊNCIA DE RETIFICADORA. NECESSIDADE DE PROVA HÁBIL. O reconhecimento de direito creditório oriundo pagamento utilizado para a quitação de débito declarado e constituído pelo próprio o contribuinte demanda a comprovação, mediante documentação adequada, hábil e pertinente, da ocorrência de recolhimento a maior ou indevido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 68 99 94 /2 00 9- 31 Fl. 2451DF CARF MF Processo nº 10880.689994/200931 Acórdão n.º 1402002.872 S1C4T2 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Julio Lima Souza Martins, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra v. Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento a quo, que negou provimento à Manifestação de Inconformidade apresentada pela Contribuinte, mantendo o r. Despacho Decisório que expressamente deixou de homologar suposto crédito de IRPJ, declarado em DCOMP, por não ter sido constatada qualquer monta de recolhimento a maior ou indevido. Em sua Manifestação de Inconformidade, em suma, alegou a ora Recorrente que apurou novos valores para seus débitos de PIS e de COFINS do período, verificando que havia recolhido tais tributos indevidamente ou a maior sobre receitas derivadas da venda de alguns produtos sujeitos à alíquota zero e por não ter excluído o ICMS sobre vendas das bases de cálculo dessas contribuições. Também afirma que teve reconhecido em Ação Declaratória cumulada com Repetição de Indébito n° 94.00116799, créditos de FINSOCIAL compensados com débitos da mesma espécie. Tal suposto recolhimento indevido ou a maior teria gerado uma base de cálculo de IRPJ e CSLL (lucro) maior e incorreta, devido ao estornos dos créditos de PIS e de COFINS sobre receitas sujeitas a alíquota zero, gerando um aumento do custo. Assim, procedeu o Contribuinte a dezenas de compensações de PIS, COFINS, IRPJ e CSLL, incluindo a presente. Também relata que fora indevidamente autuada (Processo Administrativo n° 19515.000772/200754), sendo na ocasião alertada pelo próprio Agente Fiscal que estava recolhendo tributos sobre uma base de cálculo majorada, especificamente em relação àquelas contribuições. Alega que procedeu à retificação das DACONs correspondentes, mas não foi possível retificar a DCTF pois estava sob fiscalização naquela época. Afirma que o processo deve ser baixado em diligência para que seja confirmada a regularidade das compensações efetuadas e, ao final, requer a homologação integral da compensação em tela. Ao seu turno, a DRJ a quo proferiu o v. Acórdão, ora recorrido, negando provimento integral à defesa, por não ter a Contribuinte logrado êxito na comprovação da sua pretensão creditória. Diante de tal revés, a Contribuinte interpôs o Recurso Voluntário, agora sob análise, alegando, preliminarmente, a nulidade do v. Acórdão recorrido e de outros, pelo fato destas decisões possuírem termos idênticos em suas razões. No mérito, em suma, limitase a repetir as razões da Manifestação de Inconformidade. Fl. 2452DF CARF MF Processo nº 10880.689994/200931 Acórdão n.º 1402002.872 S1C4T2 Fl. 4 3 Ainda, acostou complementos ao Recurso Voluntário, referentes a estudo e Laudo emitido por Auditores Independentes, acostandoos aos autos, bem como noticiando o julgamento do E. Supremo Tribunal Federal referente à exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS. Na sequência, os autos foram encaminhados para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto Relator Nos presentes autos o contribuinte solicita a restituição do pretenso pagamento indevido de IRPJ. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402002.855, de 26.01.2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.689993/200997. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402002.855): O Recurso Voluntário é manifestamente tempestivo e sua matéria se enquadra na competência desse N. Colegiado. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. Preliminarmente, alega a Recorrente ser nulo o v. Acórdão recorrido (bem outros decisórios de mesma instância, proferidos em feitos atinentes a outras de suas DCOMPs noticiadas nestes autos) pelo fato destes repetirem ipsis litteris seus termos, denotando teor idêntico. O ocorrido implicaria em cerceamento de defesa. Primeiramente, temos que atualmente, no processamento e julgamento de causas, administrativas e judiciais, a adoção de decisões repetitivas, ou mesmo de minutas padrão, é a inquestionável realidade, erigida sobre os corolários da praticidade, da racionalidade, da economia processual e da duração razoável do processo. Per si, o fato de decisões possuírem semelhante ou até igual teor não é capaz de representar, objetivamente, cerceamento de defesa do contribuinte (ou mesmo da Fazenda Nacional). Para tanto seria necessária a demonstração, concreta e específica, pela parte, da ocorrência de prejuízo ao seu direito, explicando e apontando como tal repetição feriu a defesa empreendida na demanda. Fl. 2453DF CARF MF Processo nº 10880.689994/200931 Acórdão n.º 1402002.872 S1C4T2 Fl. 5 4 Posto isso, ausente tal demonstração, deve ser rejeitada a preliminar alegada pela Recorrente. Ainda, deve anteceder a devida apreciação do mérito a decisão sobre o conhecimento da nova documentação acostada pela Recorrente, inclusive após seu Recurso Voluntário, tratandose de Laudos emitidos por Auditores Independentes. Este Conselheiro entende que o § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72 deve ser interpretado à luz do princípio da busca pela verdade material, vez que na esfera administrativa de jurisdição não pode prevalecer o prestígio da instrumentalidade do processo em detrimento do materialidade dos direitos alegados no curso do processo. Também deve ser feita uma interpretação sistemática do referido Decreto, que não só veicula exceções ao determinado no § 4º de seu art. 16, assim como autoriza o Julgador a solicitar diligências quando mostramse necessários outros elementos e providências para a formação da sua livre convicção. Assim, apresentase viável o conhecimento de documentação após a apresentação da Impugnação ou da Manifestação de Inconformidade. Porém, cabe ao Julgador, nesse caso, uma verificação prévia de pertinência, necessidade e colaboração dos elementos novos acostados com o desfecho técnico da demanda. Tais Laudos acostados neste feito resumemse a planilhas elaboradas pelos Auditores Independentes, com breves e poucos comentários, sem conter qualquer documentação contábil ou fiscal, bem como, expressamente, versam sobre cálculos referente a apuração de PIS e COFINS. Nada se menciona sobre o IRPJ e eventuais reflexos. Primeiramente, tabelas elaboradas pelo próprio contribuinte, ou mesmo por terceiros, têm valor probante extremamente relativo (ou nenhum, digase) se desacompanhados da documentação contábil e fiscal em que foram baseados. Não obstante e principalmente, o processo administrativo em tela tem como origem suposto crédito de IRPJ, o qual não fora homologado por ausência de verificação e comprovação da existência de recolhimento a maior ou indevido em relação ao documento de arrecadação apontado. Dessa forma, o novo cálculo de apuração de PIS e COFINS devidos no período, seja por exclusão de operações sujeitas à alíquota zero ou pela exclusão do ICMS da sua base de cálculo, não possui qualquer relevância ou conexão direta para a demonstração de que o recolhimento de IRPJ, que especificamente teria dado origem ao crédito pretendido, foi efetuado a maior ou indevidamente. Posto isso, não se conhece da documentação acostada após a interposição do Recurso Voluntário. No que tange ao mérito, assim como procedido pela DRJ a quo, todas as matérias alheias a esta demanda, referentes as informações e alegações trazidas pela Recorrente acerca de Fl. 2454DF CARF MF Processo nº 10880.689994/200931 Acórdão n.º 1402002.872 S1C4T2 Fl. 6 5 supostos créditos de FINSOCIAL, de PIS e de COFINS, Autuações e Ações Judiciais relacionadas a tais tributos, que não são objeto do DCOMP apreciado, serão devidamente desconsideradas e não conhecidas, inclusive colaborando para uma decisão mais hígida e clara. O que fora alegado pela Contribuinte que realmente se relaciona com seu pleito compensatório é que, ao constatar que considerou indevidamente créditos de PIS e COFINS sobre produtos tributadas sob alíquota zero, efetuou o estorno desses créditos em sua contabilidade, o que teria resultado na redução do lucro e, consequentemente, ao pagamento de IRPJ e CSLL a maior no mesmo período, dando margem, então, ao seu pretendido crédito. É certo que tal alegação é plausível. Todavia, o Recorrente não procedeu a qualquer demonstração de como, efetivamente, teria se operado tal redução em sua apuração do IRPJ e muito menos produzido qualquer prova sobre tal ocorrência contábil, com reflexos tributários. Em suas razões consta apenas tal afirmação, abstrata e genérica, de redução das bases tributáveis do IRPJ pelo estorno de crédito de PIS e COFINS. Ora, a simples afirmação textual em peças de defesas da ocorrência de um fato que levou à redução da apuração de um determinado tributo, claramente, não basta para configurar e provar um recolhimento a maior ou indevido, sobretudo quando confirmada pela Unidade de Fiscalização a precisão quantitativa do débito que o recolhimento em questão extinguiu. Nos processos administrativos referente a restituição e compensação é ônus do contribuinte a prova de seu crédito, devendo trazer aos autos demonstrações precisas e conjunto fáticoprobatório que ateste cabalmente sua existência, certeza e liquidez, desconstruindo, assim, os fundamentos de sua não homologação. Em acréscimo, frisese que a própria Contribuinte afirma que não teria procedido à retificação da DCTF em que o débito de IRPJ, saldado com o DARF que teria dado origem ao crédito agora perquirido (vez que supostamente alterada a monta de tal débito, revelando pagamento a maior/indevido). Em momento algum foi acostada sua versão retificadora. Por sua vez, a entrega de DCTF constitui confissão de débito tributário. E, como já mencionado, o pagamento supostamente a maior/indevido que gerou o crédito ora pleiteado foi precisamente alocado para saldar tal obrigação constituída, perfeitamente no seu valor. Assim, juridicamente e para todos os fins fiscais, não foi apresentado nenhum elemento (DCTF retificadora ou provas contábeis) que possa desconstituir ou alterar tal débito, devido e exigível monta pela qual declarado na DCTF do período. Desse modo, não foi devidamente comprovada a existência crédito de IRPJ alegado na DCOMP em tela. Fl. 2455DF CARF MF Processo nº 10880.689994/200931 Acórdão n.º 1402002.872 S1C4T2 Fl. 7 6 E digase que, ainda que a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS possa, em alguns casos, ter reflexos diretos na apuração do IRPJ, não foi devidamente alegado, demonstrado ou mesmo provado pela Contribuinte como tal redução teria, também, culminado no recolhimento a maior/indevido que originou crédito especificamente pleiteado na DCOMP objeto do presente feito. Por fim, frisese que não há qualquer necessidade da realização de diligência, vez que presentes e demonstrados todos elementos necessários ao convencimento motivado e à devida fundamentação do presente voto, observado o disposto no art. 18 do Decreto nº 70.235/72. Diante de todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo o v. Acórdão recorrido, para não reconhecer o crédito pretendido. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Fl. 2456DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720086/2013-06
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO.
O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica.
APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO.
São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, incorporação e fusão).
DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO.
A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade.
DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS.
Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica.
CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO.
A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica.
AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE.
Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial.
QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO.
Operações empreendidas com utilização de empresa de papel, sem substância econômica, visando construir deliberadamente o suporte fático para aproveitamento do ágio demonstram flagrante artificialidade. Evidencia-se a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício.
DESPESA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. REPERCUSSÃO DOS AJUSTES NO LUCRO REAL PARA A BASE DE CÁLCULO DA CSLL. MOMENTOS DA EXISTÊNCIA DO INVESTIMENTO. AQUISIÇÃO. DESENVOLVIMENTO. DESFAZIMENTO.
I - Construção empreendida pelo Decreto-lei nº 1.598, de 1977, encontra-se em consonância com a edição no ano anterior (1976) da Lei nº 6.404 ("lei das S/A"), no qual se buscou modernizar os conceitos de contabilização de investimentos decorrentes de participações societárias, inclusive com a adoção do método de equivalência patrimonial (MEP). Foram delineados três momentos cruciais para o investidor: nascimento, desenvolvimento e fim do investimento, assim tratados: (1º) o da aquisição do investimento, normatizando-se a figura do "ágio", que consiste no sobrepreço pago na aquisição, (2º) o momento em que o investimento gera frutos para o investidor, ou seja, a empresa adquirida gera lucros; e (3º) e desfazimento do investimento.
II - O segundo momento operacionalizou sistema no qual os resultados de investimentos em participações societárias pudessem ser devidamente refletidos no investidor, por meio do MEP, e ao mesmo tempo, não fossem objeto de bitributação. De um lado, os resultados da investida seriam refletidos no investidor, fazendo com que tanto na investida quando no investidor fossem apuradas receitas operacionais que, em tese, integrariam o lucro líquido e a base de cálculo tributável. De outro, determinou-se que o investidor poderia efetuar ajuste, no sentido de excluir da base de cálculo tributável os resultados positivos auferidos pela investida, viabilizando-se a neutralidade do sistema e a convergência para fins fiscais das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.
III - A mesma premissa deve ser considerada para o primeiro (aquisição) e terceiro (desfazimento) momentos. No desfazimento, o ágio deve ser considerado na apuração da base de cálculo do ganho de capital. Na aquisição, o sobrepreço contabilizado só poderá ser objeto da amortização se ocorridas as hipóteses de aproveitamento previstas expressamente na legislação.
IV - Nítida e transparente a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, no que concerne às operações decorrentes de participações societárias e os correspondentes resultados auferidos, em seus diferentes momentos: aquisição, desenvolvimento e desfazimento.
REGRAS GERAIS DE DEDUTIBILIDADE. ÁGIO. DESPESA.
Ágio é despesa, submetida a amortização, submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 47, da Lei nº 4.506, de 1964, e com repercussão tanto na apuração do IRPJ quando da CSLL, conforme art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 e art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995.
CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA.
A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Essa cobrança é válida para períodos de apuração ocorridos após a alteração da Lei 9.430/96, pela MP 351/07, convertida na Lei 11.488/07, ou seja, períodos de apuração ocorridos de 2007, inclusive, em diante.
Numero da decisão: 9101-003.275
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo, que conheceu parcialmente do recurso. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (i) qualificação da multa de ofício e, no mérito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento e acordam, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (ii) aplicação da multa isolada, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que não conheceram do recurso. No mérito da aplicação da multa isolada, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões, quanto à repercussão do Ágio na CSLL, o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Gerson Macedo Guerra - Relator
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Rodrigo da Costa Pôssas. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego.
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010, 2011 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, incorporação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. Operações empreendidas com utilização de empresa de papel, sem substância econômica, visando construir deliberadamente o suporte fático para aproveitamento do ágio demonstram flagrante artificialidade. Evidencia-se a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício. DESPESA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. REPERCUSSÃO DOS AJUSTES NO LUCRO REAL PARA A BASE DE CÁLCULO DA CSLL. MOMENTOS DA EXISTÊNCIA DO INVESTIMENTO. AQUISIÇÃO. DESENVOLVIMENTO. DESFAZIMENTO. I - Construção empreendida pelo Decreto-lei nº 1.598, de 1977, encontra-se em consonância com a edição no ano anterior (1976) da Lei nº 6.404 ("lei das S/A"), no qual se buscou modernizar os conceitos de contabilização de investimentos decorrentes de participações societárias, inclusive com a adoção do método de equivalência patrimonial (MEP). Foram delineados três momentos cruciais para o investidor: nascimento, desenvolvimento e fim do investimento, assim tratados: (1º) o da aquisição do investimento, normatizando-se a figura do "ágio", que consiste no sobrepreço pago na aquisição, (2º) o momento em que o investimento gera frutos para o investidor, ou seja, a empresa adquirida gera lucros; e (3º) e desfazimento do investimento. II - O segundo momento operacionalizou sistema no qual os resultados de investimentos em participações societárias pudessem ser devidamente refletidos no investidor, por meio do MEP, e ao mesmo tempo, não fossem objeto de bitributação. De um lado, os resultados da investida seriam refletidos no investidor, fazendo com que tanto na investida quando no investidor fossem apuradas receitas operacionais que, em tese, integrariam o lucro líquido e a base de cálculo tributável. De outro, determinou-se que o investidor poderia efetuar ajuste, no sentido de excluir da base de cálculo tributável os resultados positivos auferidos pela investida, viabilizando-se a neutralidade do sistema e a convergência para fins fiscais das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. III - A mesma premissa deve ser considerada para o primeiro (aquisição) e terceiro (desfazimento) momentos. No desfazimento, o ágio deve ser considerado na apuração da base de cálculo do ganho de capital. Na aquisição, o sobrepreço contabilizado só poderá ser objeto da amortização se ocorridas as hipóteses de aproveitamento previstas expressamente na legislação. IV - Nítida e transparente a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, no que concerne às operações decorrentes de participações societárias e os correspondentes resultados auferidos, em seus diferentes momentos: aquisição, desenvolvimento e desfazimento. REGRAS GERAIS DE DEDUTIBILIDADE. ÁGIO. DESPESA. Ágio é despesa, submetida a amortização, submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 47, da Lei nº 4.506, de 1964, e com repercussão tanto na apuração do IRPJ quando da CSLL, conforme art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 e art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995. CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Essa cobrança é válida para períodos de apuração ocorridos após a alteração da Lei 9.430/96, pela MP 351/07, convertida na Lei 11.488/07, ou seja, períodos de apuração ocorridos de 2007, inclusive, em diante.
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INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, incorporação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 86 /2 01 3- 06 Fl. 4645DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.646 2 A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. Operações empreendidas com utilização de empresa de papel, sem substância econômica, visando construir deliberadamente o suporte fático para aproveitamento do ágio demonstram flagrante artificialidade. Evidenciase a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício. DESPESA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. REPERCUSSÃO DOS AJUSTES NO LUCRO REAL PARA A BASE DE CÁLCULO DA CSLL. MOMENTOS DA EXISTÊNCIA DO INVESTIMENTO. AQUISIÇÃO. DESENVOLVIMENTO. DESFAZIMENTO. I Construção empreendida pelo Decretolei nº 1.598, de 1977, encontrase em consonância com a edição no ano anterior (1976) da Lei nº 6.404 ("lei das S/A"), no qual se buscou modernizar os conceitos de contabilização de investimentos decorrentes de participações societárias, inclusive com a adoção do método de equivalência patrimonial (MEP). Foram delineados três momentos cruciais para o investidor: nascimento, desenvolvimento e fim do investimento, assim tratados: (1º) o da aquisição do investimento, normatizandose a figura do "ágio", que consiste no sobrepreço pago na aquisição, (2º) o momento em que o investimento gera frutos para o investidor, ou seja, a empresa adquirida gera lucros; e (3º) e desfazimento do investimento. II O segundo momento operacionalizou sistema no qual os resultados de investimentos em participações societárias pudessem ser devidamente Fl. 4646DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.647 3 refletidos no investidor, por meio do MEP, e ao mesmo tempo, não fossem objeto de bitributação. De um lado, os resultados da investida seriam refletidos no investidor, fazendo com que tanto na investida quando no investidor fossem apuradas receitas operacionais que, em tese, integrariam o lucro líquido e a base de cálculo tributável. De outro, determinouse que o investidor poderia efetuar ajuste, no sentido de excluir da base de cálculo tributável os resultados positivos auferidos pela investida, viabilizandose a neutralidade do sistema e a convergência para fins fiscais das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. III A mesma premissa deve ser considerada para o primeiro (aquisição) e terceiro (desfazimento) momentos. No desfazimento, o ágio deve ser considerado na apuração da base de cálculo do ganho de capital. Na aquisição, o sobrepreço contabilizado só poderá ser objeto da amortização se ocorridas as hipóteses de aproveitamento previstas expressamente na legislação. IV Nítida e transparente a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, no que concerne às operações decorrentes de participações societárias e os correspondentes resultados auferidos, em seus diferentes momentos: aquisição, desenvolvimento e desfazimento. REGRAS GERAIS DE DEDUTIBILIDADE. ÁGIO. DESPESA. Ágio é despesa, submetida a amortização, submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 47, da Lei nº 4.506, de 1964, e com repercussão tanto na apuração do IRPJ quando da CSLL, conforme art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995 e art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995. CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Essa cobrança é válida para períodos de apuração ocorridos após a alteração da Lei 9.430/96, pela MP 351/07, convertida na Lei 11.488/07, ou seja, períodos de apuração ocorridos de 2007, inclusive, em diante. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo, que conheceu parcialmente do recurso. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (i) qualificação da multa de ofício e, no mérito, por voto de qualidade, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento e acordam, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à (ii) aplicação da multa isolada, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Fl. 4647DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.648 4 Rodrigues Amadio, que não conheceram do recurso. No mérito da aplicação da multa isolada, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões, quanto à repercussão do Ágio na CSLL, o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Relator (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Rodrigo da Costa Pôssas. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego. Relatório Tratase de Recursos Especiais de divergência interpostos pela Fazenda Nacional e pelo Contribuinte em epígrafe, contra o Acórdão nº 1401001.569, onde se analisou a legitimidade do lançamento do IRPJ e CSLL e multas de 150% e isolada, por entender a fiscalização ser indedutível das bases dos referidos tributos a amortização fiscal do ágio gerado em operação de aquisição de participação societária de terceiros, através da constituição de empresa chamada "veículo". Na origem, foi lavrado auto de infração pela constatação de indevida redução da base de cálculo do IRPJ e da CSLL pela amortização de ágio decorrente de incorporação reversa mediante o uso de empresa veículo. Faticamente, verificouse o seguinte: 1. Em 02/07/2008, foi constituída a empresa P.R.C.S.P.E. EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S/A, tendo como sócias as senhoras Linéia Martins e Sueli de Fátima Ferreti; Fl. 4648DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.649 5 2. Em 18/12/2008, as sócias da P.R.C.S.P.E. se retiraram da sociedade, oportunidade em que assumiram como sócios a empresa MAN AG (sediada na Alemanha), que posteriormente passou a denominarse MAN SE e, Mauro César Leschziner (detentor de apenas uma ação); 3. Em 12/03/2009, por meio do Instrumento Particular de Alteração do Contrato Social da VWCO (atual MAN Ltda), os únicos sócios VIF e Eduardo de Azevedo Barros transferiram a totalidade de suas participações no capital social para a P.R.C.S.P.E. passando a ser esta última a única sócia da empresa VWCO; 4. em 16/03/2009 a empresa MAN AG remete para a sua controlada (P.R.C.S.P.E) a quantia de R$ 4.000.240.848,00, da qual R$ 3.792.097.965,38 foi repassado, ato contínuo, para a empresa VIF da Holanda, em pagamento pela aquisição da VWCO, conforme contratos de câmbio datados de 17/03/2009. O imposto retido na fonte sobre o ganho de capital obtido pela empresa VIF foi retido e recolhido aos cofres públicos pela empresa MAN S/A (então P.R.C.S.P.E), no importe de R$ 177.488.953,24. Toda essa movimentação pode ser comprovada analisandose os extratos bancários da P.R.C.S.P.E. Ainda, em 16/03/2009, a sociedade P.R.C.S.P.E passou a denominarse MAN S/A; 5. em 30/11/2009 ocorre a incorporação da controladora MAN S/A pela controlada MAN LTDA (antiga VWCO); 6. de dezembro de 2009 a dezembro de 2011 houve a amortização fiscal do ágio glosada pela fiscalização. A autoridade fiscal concluiu que formalmente, a VWCO foi adquirida pela MAN S/A (antiga PRCSPE), todavia, de fato, a aquisição da sociedade VWCO se deu pela MAN AG (posteriormente MAN SE), a qual utilizou a empresa veículo MAN S/A (antiga PRCSPE) para efetuar o repasse do dinheiro. Portanto, a verdadeira adquirente foi a MAN AG. Nesse contexto, entendeu a fiscalização que no caso não houve a requerida unificação patrimonial, nos termos do artigo 386, do RIR/99. Continuou existindo a sociedade investidora de fato MAN AG (posterior MAN SE) e o seu investimento que era a sociedade MAN LTDA. Apenas fabricouse na MAN LTDA o ágio. Tudo não passou de um estratagema para se tentar conseguir, logo após a incorporação reversa da sociedade veículo MAN S/A pela MAN LTDA, deduzir as despesas de amortização de ágio para obter ganho tributário em prejuízo do Fisco Federal. Entendeu a fiscalização que a transação de compra da VWCO formalmente realizada pela PRCSPE não teve propósito negocial algum, uma vez que a aquisição da VWCO e o seu respectivo pagamento foram de fato realizados pela MAN AG. Asseverou que a operação apesar de formalmente lícita, é desprovida de substância essencial ao negócio. Entendeu tratar de ato intrinsecametne vazio, cuja única intenção foi contornar norma impositiva tributária, em prejuízo específico dos princípios tributários da capacidade contributiva e da isonomia e, em linhas gerais, dos direitos e garantias que norteiam a Carta Magna. Assim, atos ou negócios jurídicos formalmente praticados, mas Fl. 4649DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.650 6 carentes de elementos essenciais, que revelam ter por fim colimado exclusivamente o de esquivarse ao Fisco, afrontando princípios sociais e tributários superiores não são oponíveis ao Estado, sendo a eles aplicável o tratamento tributário que o verdadeiro ato produziria. Entendeu o fisco tratarse de uma hipótese de abuso de direito, nos termos do artigo 187, do Código Civil. Para qualificar a multa a fiscalização entendeu que o contribuinte, ao formalizar seus registros contábeis, societários e fiscais de forma a dar uma aparência de correção ao montante do ágio amortizado tributariamente pretendeu induzir a fiscalização a avalizar uma operação inoponível ao Fisco. Assim, agiu com dolo, justificando a qualificação da multa nos termos da Lei 9.430/96. Aplicouse, ainda, a multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas mensais. Impugnado o Auto de Infração, a DRJ decidiu pela improcedência dos argumentos de defesa. Assim,, tempestivamente foi aviado Recurso Voluntário, dandose parcial provimento ao Recurso do Contribuinte para manter a glosa da maortização do ágio do IRPJ e da CSLL, reduzir a multa qualificada e afastar a cobrança de multa isolada. A Turma a quo, ao analisar o Recurso Voluntário do Contribuinte entendeu, no que interessa ao presente julgamento, que a aquisição de participação societária por empresa veículo é inoponível ao Fisco quando sua causa real, preponderante sobre a causa negocial, é a geração do ágio para o subsequente aproveitamento. Para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, entendeu ser vedada a amortização do ágio contabilizado com um item do ativo diferido, na conformidade do § 2º, "a", do artigo 7º, da Lei nº 9.532/97, por não se tratar de despesa intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Com relação à qualificação da multa, entendeuse que na simulação por vício de causa, inexiste o falseamento ou a manipulação de aspectos relevantes dos negócios jurídicos. As partes deixam às claras as formas jurídicas empregadas, de modo a ser incabível a qualificação da multa aplicada porque não se concretizam condutas como a sonegação ou a fraude penais. Decidiuse, ainda, ser incabível a aplicação simultânea sobre a mesma infração da multa isolada pelo não pagamento de estimativas apuradas no curso do ano calendário e da multa proporcional concernente à falta de pagamento do tributo devido apurado no balanço final do mesmo anocalendário. Isso porque o não pagamento das estimativas é apenas uma etapa preparatória da execução da infração. Como as estimativas caracterizam meras antecipações dos tributos devidos, a concomitância significaria dupla imposição de penalidade sobre o mesmo fato, qual seja, o descumprimento de uma obrigação principal de pagar tributo. Vale a transcrição da ementa da referida decisão: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009, 2010, 2011 Fl. 4650DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.651 7 PLANEJAMENTOS TRIBUTÁRIOS. OPONIBILIDADE AO FISCO. Os planejamentos tributários são inoponíveis ao Fisco quando formados por negócios jurídicos de propósito preponderantemente marcado pela economia tributária. SIMULAÇÃO POR VÍCIO DE CAUSA. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. Na simulação por vício de causa, inexiste o falseamento ou a manipulação de aspectos relevantes dos negócios jurídicos. As partes deixam às claras as formas jurídicas empregadas. É incabível a qualificação da multa aplicada porque não se concretizam condutas como a sonegação ou a fraude penais. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIOS. REORGANIZAÇÕES SOCIETÁRIAS. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA. IMPOSSIBILIDADE. É impossível promover uma interpretação extensiva das hipóteses expressamente previstas em lei para a amortização do ágio por se tratar de um benefício fiscal caracterizado como isenção. ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. GERAÇÃO POR EMPRESA VEÍCULO. PLANEJAMENTO INOPONÍVEL. A aquisição de participação societária por empresa veículo é inoponível ao Fisco quando sua causa real, preponderante sobre a causa negocial, é a geração do ágio para o subsequente aproveitamento. ESTIMATIVAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA PROPORCIONAL. Incabível a aplicação simultânea sobre a mesma infração da multa isolada pelo não pagamento de estimativas apuradas no curso do anocalendário e da multa proporcional concernente à falta de pagamento do tributo devido apurado no balanço final do mesmo anocalendário. Isso porque o não pagamento das estimativas é apenas uma etapa preparatória da execução da infração. Como as estimativas caracterizam meras antecipações dos tributos devidos, a concomitância significaria dupla imposição de penalidade sobre o mesmo fato, qual seja, o descumprimento de uma obrigação principal de pagar tributo. ROYALTIES. PROVISÃO. INDEDUTIBILIDADE. Fl. 4651DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.652 8 É indedutível a parcela de provisão para pagamento de royalties que foi indevidamente incluída como custo na apuração da base de cálculo do tributo. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009, 2010, 2011 ÁGIO. ATIVO DIFERIDO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. Para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, é vedada a amortização do ágio contabilizado com um item do ativo diferido, na conformidade do § 2º, "a", do artigo 7º, da Lei nº 9.532/97, por não se tratar de despesa intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em dar provimento parcial ao recurso, nos seguintes termos: I) por unanimidade de votos, negar provimento em relação à glosa do ágio; II) por unanimidade de votos, negar provimento em relação à glosa dos royalties; III) por unanimidade de votos, dar provimento parcial para desqualificar a multa de ofício; e IV) por maioria de votos, dar provimento parcial para cancelar as multas isoladas. Vencidos os Conselheiros Antonio Bezerra Neto e Fernando Luiz Gomes de Mattos que as mantiveram. Cientificada dessa decisão a Fazenda Nacional, tempestivamente, apresentou Recurso Especial de divergência, objetivando discutir a desqualificação da multa e o cancelamento da multa isolada. Em sua peça recursal a Fazenda pugna pelo conhecimento de seu apelo com base nos acórdãos de nº 1101000.899 e 1101000.913. Alega que os fatos analisados nos acórdãos confrontados são idênticos, quais sejam: utilização de empresaveículo com o único propósito de adquirir (com ágio) participação em outra empresa operacional; enquanto que os efeitos jurídicos são divergentes, na medida em que nos paradigmas foi mantida a qualificação da multa, pela constatação da fraude e/ou sonegação no recorrido a qualificação da multa foi afastada pela não demonstração da ocorrência da fraude ou sonegação. Com relação à aplicação da multa isolada, a Fazenda pugna pelo conhecimento com base nos acórdãos 1202000.964 e 1302001080. Alega a Fazenda que, devergentemente do recorrido, nos paradigmas a aplicação da multa isolada em concomitância com a multa de ofício foi considerada legítima, por penalizarem condutas distintas. O Recurso da Fazenda foi integralmente conhecido pelo despacho de admissibilidade às efls. 4205. Em suas razões, alega a Fazenda, em suma: Fl. 4652DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.653 9 ü Que o Contribuinte praticou atividade fraudulenta comprovada, observada a partir da realização de operações artificiais, sem propósito negocial e valendose de empresa veículo, sem nehuma atividade operacional, com exclusivo escopode antecipar os efeitos da amortização do ágio, motivo pelo qual foi devidamente justificada a multa de 150%; ü Como resultado da conduta dolosa, houve diminuição do efetivo valor da obrigação tributária; ü a conduta foi sempre resultado da vontade, livre e consciente, já que realizada de forma deliberada, objetivando modificar a característica essencial do fato gerador da obrigação tributária principal; ü a conduta demonstrou desprezo ao cumprimento da obrigação fiscal, ao princípio da solidariedade da matriz constitucional e ao dever legal de participação, indicando a intensidade do dolo; ü Assim deve ser revista a decisão no que se refere à desqualificação da multa de ofício; ü As infrações apenadas pela chamada multa de ofício e pela multa isolada são diferentes. A Multa de ofício decorre da falta ou insuficiência de pagamento de tributo, já a multa isolada decorre do descumprimento do regime de estimativa; ü Além disso, a multa de ofício e a multa isolada não incidem sobre a mesma base de cálculo. ü A multa de ofício deve incidir sobre o tributo efetivamente devido ao final do período de apuração; já a multa isolada incide sobre o valor do pagamento mensal; ü Nesse contexto, também merece reforma a decisão quanto ao afastamento da multa isolada. Regularmente intimado da decisão e do Recurso da Fazenda, o Contribuinte apresentou Embargos de Declaração e contrarrazões. Os Embargos apresentados foram rejeitados, de modo que regularmente o contribuinte apresentou seu Recurso Especial. Em suas contrarrazões alega o Contribuinte, em suma: ü Que os acórdãos paradigmas selecionados pela Recorrente não demonstram efetiva divergência jurisprudencial. Desta feita, incabível a via recursal eleita; ü Nenhum dos julgados colacionados pela Recorrente se presta a fundamentar a divergência, porquanto desconsidera a ratio decidendi do acórdão recorrido e os diferentes escopos fáticos envolvidos – no caso do acórdão recorrido supostamente há a utilização de “empresa Fl. 4653DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.654 10 veículo”, enquanto que os acórdãos 1101000.899 e 1101000.913 versam sobre operação simulada, inclusive, com “ágio interno”; ü No presente caso a Turma julgadora entendeu que faltaria à qualificação da penalidade o dolo “no seu mais puro sentido penal” a tipificar fraude, sonegação ou conluio. Isto, pois, a hipótese descrita configuraria “simulação por vício de causa” – conceito diverso da “simulação por vício da vontade”. Aquela estaria presente porque “inexistem condutas maculadas pelo falseamento ou manipulação de aspectos relevantes dos negócios jurídicos”; ü De maneira diversa, no julgamento do acórdão 1101000.899, “as partes declaram algum aspecto que seja falso, portanto, uma vontade aparente ou simulada (simulação absoluta), ou algum aspecto que tem por objeto encobrir outro de natureza diversa”; ü Ou seja, entendeu a Turma paradigmática que no caso houve declaração de situação falsa, inexistente; ü O mesmo ocorreu no caso do paradigma 1101000.913, o caso versa sobre ágio interno produzido por meio de operação patentemente simulada, a caracterizar o tipo do artigo 72, Lei 4.502/1964 e, portanto, a multa qualificada; ü A par do exposto já ser suficiente a concluir pela ausência de atendimento dos pressupostos de admissibilidade, a desconstituição do raciocínio supradesenvolvido, se possível fosse, dependeria da reapreciação da integralidade dos elementos probatórios a demonstrar o caráter simulado da operação. No entanto, não se presta a Câmara Superior para reapreciar os elementos fáticos do caso; ü Quanto à multa isolada, constitui premissa para o entendimento exarado em ambos os casos paradigmáticos o fato de as bases de cálculo das multas isolada e de ofício não se justaporem, ou seja,restar uma diferença de tributo em aberta. ü A Turma julgadora que prolatou a decisão recorrida afastou a multa isolada sobre as estimativas, pois no caso em questão, considerando o encerramento do período de apuração, a base de cálculo aplicada à multa pelo não pagamento de tributo (multa de ofício) equivale àquela da multa isolada, não restando quaisquer diferenças devidas a título de estimativas; ü Não há, por conseguinte, a divergência entre o acórdão recorrido e os acórdãos 1202000.964 e 1302001.080. Nestes as respectivas bases de cálculo das multas de ofício e isolada divergiam, ou seja, restava uma diferença a ser submetida à última espécie de penalidade, algo que não se tem no caso da Recorrida; ü A multa majorada de 150% supõe uma dupla falta: o não recolhimento do tributo devido e o uso de instrumento fraudulento Fl. 4654DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.655 11 para evitar a tributação. Faltando quaisquer destes elementos, não se caracteriza o pressuposto da penalidade. Isto é, o tipo da infração é qualificado, há um agravante: além da falta de pagamento do tributo, deve haver a vontade de ludibriar, de enganar, de falsificar (dolo); ü A penalidade agravada, por ter como premissa a existência das situações constantes dos artigos 71 a 73 da Lei 4.502/64, não se aplica aos casos em que o sujeito passivo age de acordo com suas convicções, deixando todo o seu procedimento às claras, ainda que implique tributação inferior à considerada correta pelo Fisco. Nesta hipótese, não há dolo, caracterizado na tentativa de enganar quem quer que seja, pressuposto a autorizar a sanção no percentual de 150%. O que pode haver é divergência na interpretação da lei tributária aplicável; ü Como exaustivamente demonstrado, MAN AG, VIF, MAN S/A e MAN LTDA (Recorrida) agiram às claras, cumprindo com todo o discloure previsto na legislação. Todos os atos praticados foram regularmente formalizados e produziram suas naturais consequências jurídicas tanto no País quanto no exterior. Foram registrados, auditados por profissionais competentes e amplamente divulgados perante os órgãos cabíveis. No Brasil, isto compreendeu o BACEN, a JUCESP e a Receita Federal (apresentação de declarações). Na Alemanha, envolveu as demonstrações financeiras de MAN AG, as quais são auditadas por terceiros independentes; ü O lançamento de multas isoladas, quando os valores sobre os quais são calculadas foram igualmente apenados com multas de ofício (impostas com a exigência de tributos), afigurase em desacordo com a legislação. Isto porque equivale a exigir duas multas para uma única e mesma infração que se acusa a Recorrida de ter cometido, procedimento evidentemente vedado. O Recurso Especial apresentado pelo contribuinte objetivou a discussão de duas matérias, quais sejam, possibilidade de utilização de holding (“empresa veículo”) detida por investidor estrangeiro para amortização do ágio e inexistência de determinação legal de adição da amortização do ágio à base da CSLL. Inicialmente, o Recurso do Contribuinte foi parcialmente conhecido pelo Presidente da Câmara, sendo, então, apresentado agravo, que foi recebido e acolhido para dar seguimento quanto à matéria inexistência de determinação legal de adição da amortização do ágio à base da CSLL. Nas razões de recurso, vale destacar: ü MAN S/A pagou mais de R$ 3 bilhões em dinheiro pelas quotas de MAN LTDA (houve, portanto, aquisição). O montante era superior proporcionalmente ao PLC das ações adquiridas. O sobrepreço foi classificado como ágio por rentabilidade futura. Por fim, houve confusão patrimonial a partir da incorporação da adquirente – MAN Fl. 4655DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.656 12 S/A – pela adquirida MAN Ltda.. Logo, impõese como decorrência a aplicação das regras que autorizam a amortização do ágio; ü A formação de MAN S/A nada tem a ver com o resultado tributário (amortização do ágio). Até porque, caso não tivesse sido formada, o resultado fiscal seria o mesmo. Bastaria MAN AG ser cindida e a parcela do investimento na MAN LTDA ser nela incorporada, com a consequente amortização do ágio. Tal, aliás, também provocaria reflexos na investidora, com redução do custo no investimento via equivalência; ü Houve propósito extra fiscal na criação da MAN S/A; ü A constituição de pessoa jurídica destinada a servir de instrumento para a compra de outra sociedade e a posterior extinção por incorporação não só não são ilegais, como estão previstos na legislação e são amplamente utilizados nas transações entre diferentes conglomerados econômicos; ü Para efeito de CSLL, não há norma fiscal que estabeleça tratamento especial à amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura após a operação de fusão, cisão ou incorporação. Em consequência, aplicamse as normas relacionadas à apuração do lucro líquido vigentes até 31/12/2007; ü Nem se alegue, outrossim, que a exigência da CSLL teria fundamento no artigo 57 da Lei 8.981/95, citado como embasamento legal aos autos de infração. O dispositivo é expresso em ressalvar na sua parte final que, embora as normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas sejam aplicáveis à CSLL, no que diz respeito à base de cálculo e à alíquota, deve ser observada a legislação específica da própria CSLL; ü Aplicar à CSLL as mesmas normas de apuração e pagamento estabelecidas para o IRPJ não significa aplicar as mesmas normas relativas à determinação da base de cálculo (deduções, exclusões e adições). Tanto que, quando o legislador pretende que uma regra fiscal produza efeitos tanto na base de cálculo do IRPJ, quanto da CSLL, assim o determina expressamente. Regularmente intimada do Recurso do Contribuinte a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões e contrarrazões adicionais após análise do Agravo. Dessas peças vale destacar: ü com base na origem dos recursos utilizados pelo Grupo MAN para a aquisição das quotas da VWCO é possível aferir a real adquirente dessa empresa: a MAN AG. Com supedâneo nesse importante aspecto, vêse que tal empresa estrangeria fora a real responsável por sacrificar o seu patrimônio em troca das referidas quotas; Fl. 4656DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.657 13 ü Tendo apurado que a real adquirente das quotas da VWCO foi a empresa estrangeira MAN AG, a Fiscalização, com base na interpretação literal da Lei nº 9.532/1997, constatou que a incorporação da MAN S/A pela VWCO (antiga denominação do ora recorrente) não torna o ágio passível de dedução; ü Todavia, para que haja esse encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem, é imprescindível que a “mais valia” contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participa da confusão patrimonial. O REAL INVESTIDOR, portanto, deve se confundir com o investimento que adquiriu; ü No caso da apuração da base de cálculo da CSLL, como não há norma expressa que autoriza a dedução da despesa com amortização de ágio, não há que se falar nessa renúncia fiscal. ü Assim, ao contrário do que defende o recorrente, a dedutibilidade na CSLL da despesa com a amortização de um ágio não é assegurada em face da ausência de norma que preveja a adição dessa rubrica, a despesa com a amortização de um ágio, mesmo dedutível para fins de IRPJ, não é dedutível para a CSLL porque não há previsão legal a autorizando. ü Como toda a espécie de renúncia fiscal, eventual dedução de uma despesa deve ser expressamente autorizada por lei, não pode ser realizada em face do seu silêncio. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Gerson Macedo Guerra, Relator CONHECIMENTO Com relação à admissibilidade do Recurso do Contribuinte, entendo não haver reparos a serem feitos no despacho e na decisão de agravo, de modo que dele conheço. Diante o questionamento da admissibilidade do Recurso Especial da Fazenda pelo Contribuinte, fazse importante sua análise. Em relação à discussão acerca da multa qualificada, alega o Contribuinte a ausência de similitude fática entre o recorrido e os paradigmas. De fato, com relação ao acórdão 1101000.912 assiste razão ao Contribuinte. Neste caso, a operação analisada consubstanciase em operação de criação de ágio interno, gerado no âmbito de um grupo econômico, sem a ocorrência de pagamento pela suposta aquisição da participação. Fl. 4657DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.658 14 Por bem descrever essa operação, importante trazer o seguinte trecho do referido acórdão: " As autoridades fiscais promoveram a glosa das amortizações de ágio gerado internamente, no intervalo de 40 (quarenta) dias – entre 18/04/2005 e 31/05/2005 –, mediante criação de Holplan Participações S/A (Holplan), que incorporou as ações do capital social da autuada avaliadas a mercado (R$ 335.797.070,00), superior ao valor contábil de R$ 89.946.682,00, assim constituindo o ágio que passou a ser amortizado após a incorporação da Holplan pela autuada. Os autuantes expõem seus fundamentos acerca da inaceitabilidade do ágio gerado internamente do ponto de vista contábil, bem como afirmam a falta de propósito negocial, acrescentando que o laudo de avaliação foi feito por empresa criada apenas com esse intuito, assim concluindo:" Nesse contexto, de fato não há similitude fática, tampouco jurídica entre o caso julgado nesse paradigma e no presente. Desse modo, não conheço do Recurso da Fazenda com base em tal acórdão. A situação fática discutida no acórdão 1101000.899, por sua vez, de fato gera confusão. No relatório do referido acórdão, ao ser exposto trecho do TVF, há clara impressão que a autuação ocorreu pela identificação de criação de ágio interno, ou seja, originado de operação entre empresas do mesmo grupo econômico. Destaquese o seguinte trecho do TVF reproduzido no relatório: declara, ainda, a fiscalização: "do acima disposto, concluímos que a apuração do ágio ocorreu em circuito fechado, isto é, entre empresas do mesmo grupo. Concluímos também que a aquisição da LISTEL pela APENINA e MKV não se revestiu das formalidades necessárias, o que acabou por invalidar o valor do ágio calculado na aquisição desta participação societária"; Entretanto, ao tratar da impugnação do contribuinte em seu relatório o Relator descreve uma operação em que terceiros, não residentes no Brasil, adquiriram participação em sociedade brasileira através de empresas aqui constituídas, com essa finalidade (chamada veículo). Mais claro ainda ficam os fatos no voto vencedor, da então Conselheira Edeli Pereira Bessa, o qual tomo a liberdade de transcrever o seguinte trecho: Interpreto a acusação fiscal de forma distinta do I. Relator, pois observo que a autoridade lançadora fez referência à Nota Explicativa à Instrução CVM nº 349, de 06/03/2001, destacando que operações desta espécie acabam por ensejar o reconhecimento de um acréscimo patrimonial se a efetiva substância econômica, mediante a criação de uma sociedade veículo que transfere da controladora original para a controlada o ágio pago na sua aquisição, e ao final do processo de Fl. 4658DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.659 15 incorporação, o investimento e, conseqüentemente, o ágio permanecem inalterados na controladora original. E, ao longo de todo seu arrazoado, a autoridade lançadora destacou que a AVERDIN criou nas empresas veículo APENINA e MKV o patrimônio necessário para que estas adquirissem a LISTEL e nelas restasse registrado o ágio pago nesta operação. Nas palavras da Fiscalização, em 01/06/1999 a AVERDIN detinha, direta ou indiretamente, controle de 100% do capital da LISTEL. Assim, com os recursos aportados por AVERDIN, as empresas veículo APENINA e MKV realizam a operação que gera o ágio aqui amortizado, após a extinção, apenas, de APENINA e MKV, incorporadas pela autuada. A investidora original, AVERDIN, que efetivamente adquiriu a LISTEL, subsistiu ativa e, inclusive, mantendo em seu patrimônio o investimento feito na LISTEL, por seu valor majorado pelo ágio pago. Esta a razão, portanto, para a Fiscalização concluir que a operação entre LISTEL, APENINA e MKV ocorreu em circuito fechado. O adquirente, terceiro estranho à investida, nesta operação, é a AVERDIN, representante no Brasil do Grupo BellSouth, como demonstrado no organograma societário de fl. 1256, citado pelo I. Relator. Pois bem. Tanto no presente caso, como nesse segundo paradigma é possível identificar uma determinada sociedade aportando capital em sociedade(s) holding(s), que posteriormente adquire(m) a participação societária de terceiros, com ágio e, após tal aquisição é incorporada pela sociedade adquirida, que passa a aproveitar fiscalmente o ágio. Assim sendo, entendo que há aqui a identidade fática requerida para o conhecimento do Recurso. Quanto à identidade jurídica, é bem verdade que no julgamento do paradigma não se entrou no mérito da argumentação trazida no presente acórdão recorrido no sentido de vício de causa não ser considerado sonegação ou fraude. Porém, apesar de não ter sido discutido o argumento especificamente, o fato é que uma situação fática muito semelhante à presente foi analisada e entendeuse presentes os elementos configuradores das hipóteses em que se admite a qualificação da multa de ofício, enquanto que no presente caso entendeuse de forma distinta, pela ausência dos referidos elementos. Portanto, vejo divergência de interpretação da legislação. Importante frisar que não entendo que o conhecimento do Recurso trará a necessidade de revolver os fatos do caso, questão vedada a esse colegiado. Na verdade, entendo que a discussão gira em torno do critério jurídico de análise dos fatos, não os fatos em si. Nesse contexto, entendo que merece ser conhecido o Recurso da Fazenda. Fl. 4659DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.660 16 Quanto à segunda matéria, inaplicabilidade da multa pelo não recolhimento integral das antecipações mensais, alega o contribuinte que não há a divergência entre o acórdão recorrido e os acórdãos 1202000.964 e 1302001.080. Isso porque, constituiu premissa para o entendimento exarado em ambos os casos paradigmáticos o fato de as bases de cálculo das multas isolada e de ofício não se justaporem. Por outro lado, a decisão recorrida afastou a multa isolada sobre as estimativas, pois no caso em questão, considerando o encerramento do período de apuração, a base de cálculo aplicada à multa pelo não pagamento de tributo (multa de ofício) equivale àquela da multa isolada, não restando quaisquer diferenças devidas a título de estimativas. Pois bem. Da análise do acórdão paradigma nº 1202000.964 é possível perceber que ali analisouse duas teses: (i) a possibilidade de lançamento da multa isolada após o encerramento do anocalendário; e (ii) a exigência em conjunto da multa isolada e da multa de ofício. É o que se extrai do seguinte trecho do voto: A recorrente alega que a multa isolada sobre a falta de recolhimento de estimativa não poderia ser exigida após o fim do período anual, quando já se conhece o lucro real; e que não poderia haver a exigência de multa isolada e multa de oficio de 75% exigida juntamente com o tributo, sob pena de haver cumulação de penalidades em decorrência do mesmo fato jurídico. Sem razão, como se demonstrará. É bem verdade que se menciona no voto a diferença entre a base de cálculo da multa isolada e da multa de ofício. Essa menção ocorreu ao se tratar, em tese, das diferentes formas de apuração da antecipação do imposto e do imposto em si. Logo, não se estava discutindo que no caso houve diferença entre a base da multa de ofício efetivamente aplicada e a multa isolada também efetivamente aplicada. Vejamos a transcrição do referido trecho: Entendo que não há que se confundir a base de cálculo da multa isolada e a base de cálculo de eventual multa de ofício, já que, em caso de opção pela sistemática das estimativas, o tributo não é apurado trimestralmente, mas anualmente, e a base de cálculo da multa isolada é a estimativa mensal calculada a partir da receita bruta. A multa de ofício, por sua vez, incide sobre o imposto ou contribuição efetivamente devidos ao final do período de apuração. Da leitura acurada do voto, percebese que o que restou ali decidido foi pela possibilidade de se exigir multa de isolada após o encerramento do anocalendário e pela possibilidade de se exigir multa isolada em conjunto com multa de ofício, por penalizarem condutas distintas. Para demonstrar tal conclusão vale a transcrição do seguinte trecho do voto: Ademais, a legislação possibilita o não recolhimento de antecipação, desde que apresentado o balancete mensal que comprove que as antecipações recolhidas superam o valor do tributo até aquele momento apurado, o que não implica dizer que a multa isolada prevista no art. 44, inciso II, alínea “b” da Lei nº 9.430/96 não é devida após o encerramento do período. A determinação legal é clara nesse sentido, ao reafirmar que a multa é devida “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou Fl. 4660DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.661 17 base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente”. Em outras palavras, a regra é clara: o descumprimento do dever de antecipação deve ser sancionado na forma da lei, independentemente do valor do imposto ou contribuição calculada ao final do exercício, ou mesmo da existência de prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa. Fica ressalvada, apenas, a hipótese de apresentação de balancetes de suspensão ou redução que demonstrem que o valor pago já seria maior do que o devido, o que não se verificou no presente caso. Percebam que expressamente se mencionou que a sanção pela inobservância das regras de antecipação dos tributos deve ser imposta independentemente do valor do imposto ou contribuição calculados no fim do período de apuração. Ou seja, engloba qualquer hipótese, inclusive quando tributos e antecipações são equivalentes. No presente caso, a Turma a quo entendeu ser incabível a aplicação simultânea sobre a mesma infração da multa isolada pelo não pagamento de estimativas apuradas no curso do anocalendário e da multa proporcional concernente à falta de pagamento do tributo devido apurado no balanço final do mesmo anocalendário. A justificativa para tal conclusão foi que o não pagamento das estimativas é apenas uma etapa preparatória da execução da infração. Como as estimativas caracterizam meras antecipações dos tributos devidos, a concomitância significaria dupla imposição de penalidade sobre o mesmo fato, qual seja, o descumprimento de uma obrigação principal de pagar tributo. A meu ver há divergência entre as decisões, enquanto no caso paradigma entendeuse tratar de duas condutas infracionais, no presente caso entendeuse tratar de uma etapa de uma conduta infracional, qual seja a falta de pagamento do tributo. Logo, entendo que deve ser conhecido o Recurso da Fazenda também nesse ponto. MÉRITO A) RECURSO DO CONTRIBUINTE A.1) POSSIBILIDADE DE AMORTIZAÇÃO FISCAL DO ÁGIO EM OPERAÇÕES COM EMPRESA VEÍCULO No entender da fiscalização a grande razão a justificar a invalidação da amortização fiscal do ágio realizada pelo Contribuinte em questão foi a ausência de propósito negocial na criação de empresa holding, cujo único objetivo de nascimento foi de servir como meio para cumprimento de requisito legal para aproveitamento fiscal do ágio, mediante incorporação de sociedades. Penso que não assiste razão à fiscalização nessa interpretação dos fatos e das normas em análise. Fl. 4661DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.662 18 Em minha concepção o instituto doutrinário chamado propósito negocial vem sendo indiscrimidamente utilizado pelas fiscalizações, sem se observar os pormenores de cada situação. O propósito negocial, cuja discussão no Brasil foi inicialmente atribuída ao Professor Marco Aurélio Greco, teve seus contornos delimitados, com o fito de tratar qualquer operação que tivesse como objetivo principal a economia de tributos como inoponível ao fisco, admitindose a desconsideração de seus efeitos e a consequente cobrança dos tributos. Penso que essa posição deve ser vista com ressalvas, principalmente ao se considerar que essa teoria é oriunda de países da comon law. Um exemplo clássico que entendo que essa doutrina deve ser reavaliada é no caso de operações societárias que admitem a utilização fiscal do ágio. A possibilidade de amortização fiscal do ágio gerado por rentabilidade futura, após absorção de patrimônio de uma sociedade por outra, mediante incorporação, fusão ou cisão, inclusive da investidora (chamada operação reversa), surgiu em nosso ordenamento jurídico com o advento da Lei 9.532/97, artigos 7º e 8º, abaixo transcritos: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. Fl. 4662DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.663 19 Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Referida Lei veio ao mundo jurídico num contexto histórico de privatizações ocorridas no país. Como amplamente divulgado na época em que publicada a norma, o objetivo da permissão contida em seu inciso III, de amortização do ágio gerado com base em rentabilidade futura, era o de incentivar a aquisição de empresas públicas e sociedades de economia mista pelos investidores privados. Logo, no cálculo do retorno de seu investimento, no âmbito de sua análise de viabilidade, os investidores já contavam com o benefício fiscal. E nesse contexto, tal norma é tida como indutora de comportamentos dos contribuintes, na medida em que incentivou as operações de aquisições de empresas públicas, bem como as aquisições de participações em âmbito privado, tanto por investidores não residentes, que se interessaram enormemente por um mercado em recente abertura, como por investidores residentes no Brasil. E é aí que a teoria do propósito negocial deve ser repensada, afinal, como um investidor não residente poderia se valer de tal incentivo, sem se fazer presente no país através de uma sociedade aqui residente? Como sociedades nacionais reguladas por órgãos específicos poderiam usufruir do incentivo diante de proibição legal de incorporação de sociedades com outras atividades? Ora, excluir a possibilidade dessas pessoas e possibilitar outras a terem benefício fiscal seria ferir a isonomia. Logo, essas e outras sociedades tiveram que planejar a forma como seria possível investir no país e aproveitar o incentivo da amortização do ágio, nas mesmas condições que sociedades nacionais sem restrições assim o poderiam. Foi nesse contexto que se utilizaram de sociedades holdings, que lhes permitia organizar a etapa pré aquisição, bem como posteriormente se valer do incentivo de amortização fiscal do ágio. Tais sociedade foram informalmente denominadas "empresas veículo". Mas a questão que se põe é: a criação de empresas veículos para utilização de incentivos fiscais é um ato de evasão fiscal ou é lícita a economia fiscal mediante planejamento realizado previamente à ocorrência do fato gerador do tributo e estimulado por norma legal? Em minha concepção, mesmo dentro da teoria do propósito negocial a economia de tributos é permitida, desde que realizada mediante atos e negócios lícitos. E para mim não há qualquer ilicitude em se criar uma sociedade, efetuar sua capitalização, adquirir participação societária de terceiros e, posteriormente realizar as operações societárias induzidas pela lei para se obter a economia de tributos. Fl. 4663DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.664 20 Economia de tributos é sim algo legitimamente objetivado pelos empresários, que buscam a maximização de lucros em seus negócios, desde que obtida mediante atos e negócios lícitos. O negócio jurídico pretendido, qual seja a aquisição de participação societária de fato ocorreu, ou seja, não há que se falar em simulação, seja ela absoluta, seja ela relativa. E aliese a isso, no caso de ingresso no país de sociedades não residentes, como o presente, o objetivo de explorar o mercado brasileiro e outros vizinhos, eventualmente. Não há como negar que o principal interesse de empresas multinacionais é a exploração de diversos mercados ao redor do mundo e, acessoriamente, havendo a possibilidade, de maximização de lucros através de utilização de incentivos fiscais, assim proceder. Sobre a legitimidade da utilização de "empresas veículos" para fins de amortização de ágio sabias foram as palavras do Conselheiro Marcelo Cuba Netto, proferidas no acórdão 1201001.267, que abaixo tomo a liberdade de transcrever: São, como visto acima, duas as razões pelas quais o auditor se convenceu da ilegalidade do aproveitamento do ágio pela fiscalizada: (i) falta de propósito negocial, e; (ii) emprego de empresa veículo. Quanto à falta de propósito negocial, há que se distinguir dentre as operações levadas a efeito pelos interessados, aquelas que tiveram por objetivo ocultar o ganho de capital auferido pelos alienantes, daquelas cujo objeto foi a transferência do ágio para a autuada. As primeiras não interessam ao presente processo, e são objeto do PA nº 10380.726.493/201018, que trata do ganho de capital. As últimas foram realizadas com o propósito do aproveitamento do ágio na aquisição da participação societária, e estão amparadas na interpretação que esta Turma vem emprestando aos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, qual seja, a de que a finalidade daquelas normas é incentivar a absorção do patrimônio de empresas nacionais por outras, sejam nacionais, sejam estrangeiras. Em outras palavras, o propósito negocial foi exatamente o aproveitamento do ágio, propósito esse amparado pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Repare que a abusividade do planejamento tributário pode ter como característica (desde que não seja a única) justamente a ausência de propósito negocial. Entretanto, quando exista uma norma jurídica incentivando, sob o ponto de vista fiscal, a realização de um negócio jurídico, seria absurdo imaginarse que além do propósito de economia fiscal deveria haver também algum outro propósito. Esse é exatamente o caso dos presentes autos. Em relação ao emprego da chamada "empresa veículo" cumpre destacar que tal expressão tem sido utilizada pela fiscalização de uma maneira pejorativa, no sentido de um "mal em si mesmo". No entanto, como é cediço, não é possível sustentarse uma autuação fiscal lastreada na simples acusação de emprego de Fl. 4664DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.665 21 "empresa veículo", até porque o simples emprego de "empresa veículo" não é tipificado como infração à legislação tributária. Caberia então à fiscalização apontar a relação entre o emprego da "empresa veículo" e a prática de alguma infração à legislação tributária. E, no caso dos autos, como o autor da ação fiscal não se desincumbiu de seu ônus, isso já seria razão suficiente para afastarse, de pronto, a autuação. Todavia, tendo em vista que existem algumas decisões do CARF mantendo a glosa da amortização do ágio justamente pelo emprego de "empresa veículo" (vide, por exemplo, o Acórdão 1101001.113), entendo cabível o exame da matéria. Em breve síntese, aqueles que defendem a impossibilidade do aproveitamento do ágio nestas condições sustentam que o emprego de empresa veículo, que ao fim incorpora ou é incorporada pela investida, “oculta” o verdadeiro investidor, qual seja, aquele que fornece os recursos para que a empresa veículo faça o investimento. Desse modo, dizem eles, não há incorporação entre o “verdadeiro investidor” e a investida, sendo portanto inaplicável os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Pois bem, quanto a este argumento devese ter em conta que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram originalmente criados com a finalidade de incentivo à aquisição de empresas públicas ou sociedades de economia mista por particulares, no âmbito do chamado Programa Nacional de Desestatização (Lei nº 9.491/97). E uma vez que pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras têm direito a adquirir até 100% das ações ou quotas da empresa nacional objeto de desestatização (vide art. 12 da referida Lei nº 9.491/97), é de se perguntar: como poderia um investidor estrangeiro se beneficiar dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 senão por meio da constituição e capitalização de uma pessoa jurídica nacional que fizesse o investimento na empresa objeto da desestatização? Esse foi, de fato, o caminho adotado pelos investidores estrangeiros (vide também caso Celpe, Acórdão nº 120100.689). Ocorre que, de acordo com a teoria da "empresa veículo", ora sob exame, nem assim os investidores estrangeiros poderiam se beneficiar dos disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois a pessoa jurídica nacional por eles constituída e capitalizada não seria considerada o "verdadeiro investidor" na empresa objeto de desestatização. Na mesma situação de impossibilidade de aproveitamento do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 estaria, por exemplo, um grupo de pessoas físicas nacionais que desejasse adquirir as ações ou quotas de uma empresa objeto de desestatização. Se fizessem o investimento diretamente, as pessoas físicas não Fl. 4665DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.666 22 poderiam se beneficiar das referidas normas (por óbvio, pessoa física não incorpora nem é incorporada por pessoa jurídica). A solução seria, novamente, a constituição e capitalização de uma pessoa jurídica justamente para que esta fizesse o investimento. Entretanto, de acordo com a aludida teoria da "empresa veículo", nem assim a pessoa jurídica criada pelo grupo de pessoas físicas poderia se beneficiar do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois não seria considerada o "verdadeiro investidor" na empresa objeto de desestatização. Também em idêntica situação de impossibilidade de aproveitamento do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 estariam as pessoas jurídicas nacionais que em razão de vedação contida em norma legal ou infralegal estejam impedidas de exercer atividades econômicas diversas daquelas previstas naquelas normas. Seria o caso, por exemplo, de um banco comercial adquirir as ações ou quotas de uma concessionária de energia elétrica. Tal aquisição é possível, desde que autorizada pelo Banco Central. O que não é juridicamente possível é a absorção do patrimônio da concessionária pelo banco comercial (ou viceversa) uma vez que o Banco Central proíbe que os bancos comercias exerçam atividades distintas daquelas previstas em Regulamento. A solução, mais uma vez, seria o banco comercial constituir e capitalizar uma pessoa jurídica a fim de que esta adquira as ações ou quotas da empresa objeto de desestatização. Ocorre que, segundo a mencionada teoria da "empresa veículo", nem assim a pessoa jurídica criada pelo banco comercial poderia se beneficiar do disposto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois não seria considerada o "verdadeiro investidor". Os exemplos acima, que a outros poderiam se somar, demonstram que a propalada teoria da "empresa veículo" aplicada aos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ensejaria uma interpretação restritiva dessas normas no tocante à idéia de "verdadeiro investidor". Todavia, a interpretação restritiva, tal como as demais espécies interpretativas, não é fruto da vontade do intérprete. Ao contrário, deve ser juridicamente fundamentada. No caso dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 tal interpretação restritiva reduziria significativamente as hipóteses de aproveitamento fiscal da amortização do ágio ali prevista, algo que vai de encontro (e não ao encontro) à finalidade do Programa Nacional de Desestatização, o qual, como dito antes, incentiva a aquisição de empresas públicas ou sociedades de economia mista por particulares. Em outras palavras, a teoria da "empresa veículo" defendida por alguns é frontalmente contrária à finalidade para à qual foram criados os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, daí porque não pode ser acolhida. Por tais razões, entendo que o ágio gerado no presente caso o foi de forma legítima. Fl. 4666DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.667 23 A.2) POSSIBILIDADE DE AMORTIZAÇÃO FISCAL DO ÁGIO NA BASE DA CSLL Decidiu a Turma a quo que para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, é vedada a amortização do ágio contabilizado com um item do ativo diferido, na conformidade do § 2º, "a", do artigo 7º, da Lei nº 9.532/97, por não se tratar de despesa intrinsecamente relacionada com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Tal decisão fundouse na suposta vedação contida no artigo 13, III, da Lei 9.249/95, conforme se pode depreender do seguinte trecho do voto do Relator: Assim sendo, cumpre investigar se seria possível considerar como dedutível a amortização de um item do ativo diferido, contabilizado a título de ágio exclusivamente por determinação da regra contida no § 2º, "a", do artigo 7º, da mesma Lei nº 9.532/97. Para isso, há que se invocar o comando que consolidou a questão da dedutibilidade em matéria de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, o artigo 13 da Lei nº 9.249/95: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: (...) III de despesas de depreciação, amortização, manutenção, reparo, conservação, impostos, taxas, seguros e quaisquer outros gastos com bens móveis ou imóveis, exceto se intrinsecamente relacionados com a produção ou comercialização dos bens e serviços; (grifei) Tratase, assim, de uma vedação de caráter geral, aplicável no caso presente à CSLL, na medida em que não se pode considerar que a amortização do item do ativo diferido, contabilizado como condição de aproveitamento de um benefício fiscal, seja intrinsecamente relacionado com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Pois bem. Como já me pronunciei em outras ocasiões, não concordo com esse posicionamento. Avaliando a exceção contida na parte final do inciso III, do artigo 13 em questão vejo a permissão para a dedução das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL, inclusive na ausência de operação societária exigida para amortização no âmbito do IRPJ. Penso que o ágio gerado na aquisição de um investimento tem sim intrínseca relação com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Ora, não se pode discutir que o adquirente de participação societária busca, com a operação de aquisição, ingressar ou ampliar sua participação no mercado em que a sociedade adquirida atua. Esse nicho pode ser o mesmo que o do adquirente ou não. Mas Fl. 4667DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.668 24 dúvida não há de que a empresa adquirida realiza a produção ou comercialização de bens ou serviços. Assim sendo, o ágio tem relação direta com a produção ou comercialização de bens ou serviços. Logo, dedutível da base da CSLL. É por essa razão que o ágio pago pela rentabilidade futura deve contabilmente ser contraposto com o rendimento esperado, por respeito ao regime de competência. É isso que determina a Instrução CVM 247/96: Art. 14. O ágio ou deságio computado na ocasião da aquisição ou subscrição do investimento deverá ser contabilizado com indicação do fundamento econômico que o determinou. § 2º O ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor pago na aquisição do investimento e o valor de mercado dos ativos e passivos da coligada ou controlada, referido no parágrafo anterior, deverá ser amortizado da seguinte forma: a) o ágio ou o deságio decorrente de expectativa de resultado futuro – no prazo, extensão e proporção dos resultados projetados, ou pela baixa por alienação ou perecimento do investimento, devendo os resultados projetados serem objeto de verificação anual, a fim de que sejam revisados os critérios utilizados para amortização ou registrada a baixa integral do ágio; e Mesmo com a incorporação da investida ou da investidora a amortização do ágio deve ser deduzida da base da CSLL, pois o ágio registrado assume característica de despesa préoperacional, devendo, então, ser contraposto com a receita de venda ou prestação de serviços correlatos. Logo, vejo que há permissão legal para a amortização fiscal do ágio da base da CSLL. Portanto, voto DAR provimento ao recurso do Contribuinte. B) RECURSO DA FAZENDA NACIONAL B.1) DESQUALIFICAÇÃO DA MULTA No presente caso, para qualificar a multa de ofício a fiscalização entendeu que o Contribuinte agiu com objetivo de provocar um juízo errôneo por parte da autoridade fiscal, conforme se pode depreender da seguinte passagem do TVF: Fl. 4668DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.669 25 A turma a quo, entendeu que a aplicação da multa em valor duplicado pela fiscalização não foi correta. Para os julgadores as operações analisadas nos presentes autos não foram tidas como simuladas ou inexistentes, sendo que a conduta do Contribuinte apenas impede a dedução fiscal do ágio, mas não autoriza a qualificação da penalidade. Vale aqui a transcrição do respectivo trecho do voto do relator: Portanto, a qualificação (duplicação) da multa não decorre de nova infração. Ela surge quando a falta de pagamento ou recolhimento, a falta de declaração ou a declaração inexata estiver associada a uma das condutas típicas definidas como sonegação, fraude ou conluio. Tais condutas supõem a inequívoca constatação de dolo, elemento essencial do tipo, no seu mais puro sentido penal. Nas palavras de Marco Aurélio Greco: Se não houve intuito de enganar, esconder, iludir, mas se, pelo contrário, o contribuinte agiu de forma clara, deixando explícitos seus atos e negócios, de modo a permitir a ampla fiscalização pela autoridade fazendária, e se agiu na convicção e certeza de que seus atos tinham determinado perfil legalmente protegido que levava ao enquadramento em regime ou previsão legal tributariamente mais favorável, não se trata de caso regulado pelo § 1º do artigo 44, mas de divergência na qualificação jurídica dos fatos; hipótese completamente distinta da fraude e da sonegação a que se referem os dispositivos para os quais o § 1º remete. A fraude penal não se confunde com a fraude à lei (ou fraude civil) acima invocada. Nesta última, o contribuinte enquadra sua conduta numa norma, mas vem o Fisco e o faz em outra. É um problema de qualificação jurídica. Por sua vez, a fraude penal, assim como a sonegação, são condutas típicas do direito penal também caracterizadas como crimes contra a ordem tributária (artigos 1º e 2º, I, da Lei nº 8.137/90). Tanto é que o § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/96 ressalva a aplicação de outras penalidades criminais. Fl. 4669DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.670 26 Quanto à sonegação, não há dúvidas. Só se concretiza depois de ocorrido o fato gerador da obrigação tributária. Isso porque sua hipótese prevê uma conduta voltada para impedir ou retardar o “conhecimento”, pelo Fisco, “da ocorrência do fato gerador” ou “das condições pessoais de contribuinte”. A fraude, por outro lado, suscita mais dúvidas. A redação do artigo 72 da Lei nº 4.502/64 pode ser dividida em duas partes. Na primeira parte, temse as condutas de impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. “Impedir ou retardar” é diferente de “não realizar”. Nos casos de planejamentos tributários, o contribuinte julga que sua conduta é alcançada por outro enquadramento legal e não pela hipótese do fato gerador. Como ensina Marco Aurélio Greco, essa parte do dispositivo legal tem sua aplicação restrita às situações em que “tiverem sido realizados atos que, substancialmente, representem o núcleo da definição do fato gerador, de modo que a sua ‘ocorrência’ seja mera etapa subsequente, e quase que inexorável, a introdução pelo contribuinte (ou outrem) de atos ou omissões que não permitam o aperfeiçoamento daquele fato gerador que iria ocorrer”. Afinal, só se impede ou se retarda algo que está em curso. Na segunda parte, quando há alusão a excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador, novamente, temse condutas que só se concretizam depois que este tenha ocorrido. É que só se pode excluir ou modificar algo que já exista. Há poucas linhas, firmouse que o conceito de simulação pode ser orientado pelo vício de vontade ou pelo vício de causa. São duas situações claramente distintas. Na simulação por vício de vontade, há o requisito do falseamento ou manipulação de aspectos relevantes dos negócios jurídicos. As partes declaram algum aspecto que seja falso, portanto, uma vontade aparente ou simulada (simulação absoluta), ou algum aspecto que tem por objeto encobrir outro de natureza diversa, portanto, uma vontade aparente ou simulada que encobre uma vontade real ou dissimulada (simulação relativa ou dissimulação). Tratase, com efeito, das hipóteses em que se concretizam condutas como a sonegação ou a fraude penais. Estamos fora do campo dos planejamentos tributários propriamente ditos. Por outro lado, na simulação por vício de causa, situações em que se verificam os planejamentos tributários inoponíveis ao Fisco, inexistem condutas maculadas pelo falseamento ou manipulação de aspectos relevantes dos negócios jurídicos. As partes deixam às claras as formas jurídicas empregadas. No presente caso, a fiscalização sustenta a qualificação da multa com base na imputação de conduta dolosa ao planejamento tributário engendrado. Mas, não aponta qualquer falseamento ou manipulação de aspectos relevantes nessa situação. Fl. 4670DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.671 27 Nada obstante, como já exposto, se isso não aconteceu, não posso concordar com a qualificação da conduta nas figuras da sonegação ou da fraude penais. A aquisição de participação societária pela empresa veículo está maculada pelo vício da causa. Mas daí não decorre que houve falsidade material na sua execução. Muito menos que houve conduta concretizada após a ocorrência do fato gerador (sonegação ou segunda parte da fraude) ou conduta concretizada no iter formativo do fato gerador (primeira parte da fraude). Por tais razões, afasto a qualificação das multas aplicadas. Penso que bem decidiu a Turma em relação à não qualificação da multa. Penso que as condutas passíveis de serem enquadradas como fraude, nos termos do artigo 72, da Lei 4.502/64 são aquelas eivadas de dolo, pautadas em ações ou omissões que visem ocultar fatos ocorridos ou simular a ocorrência de fatos inexistentes, bem como na falsificação de informações. No presente caso não se põe em questão a efetiva ocorrência da compra de participação societária, bem como o pagamento do preço respectivo. Também não se põe em dúvida o valor efetivo do negócio realizado, o que demonstra que ágio de fato houve. Em minha concepção o instituto doutrinário chamado propósito negocial vem sendo indiscrimidamente utilizado pelas fiscalizações, sem se observar os pormenores de cada situação. O propósito negocial, cuja discussão no Brasil foi inicialmente atribuída ao Professor Marco Aurélio Greco, teve seus contornos delimitados com o fito de tratar qualquer operação que tivesse como objetivo principal a economia de tributos como inoponível ao fisco, admitindose a desconsideração de seus efeitos e a consequente cobrança dos tributos e multas. Penso que essa posição deve ser vista com ressalvas, notadamente na presente hipótese em que o Contribuinte é induzido à organizar seu investimento através de uma sociedade brasileira, para competir em condições de igualdade com outros Contribuintes. E é aí que a teoria do propósito negocial deve ser repensada, afinal, como um investidor não residente poderia se valer de tal incentivo, sem se fazer presente no país através de uma sociedade aqui residente? Como sociedades nacionais reguladas por órgãos específicos poderiam usufruir do incentivo diante de proibição legal de incorporação de sociedades com outros propósitos? E mais, como sociedades já atuantes no país, em determinado seguimento, que procuram ganhar mercado através de ampliação de seu portifólio de produtos e serviços, sem que tenha que integrar esse novo negócio numa mesma personalidade jurídica, poderiam aproveitar o nenefício. Logo, essas e outras sociedades tiveram que planejar a forma como seria possível investir e aproveitar o incentivo da amortização do ágio, nas mesmas condições que sociedades sem restrições assim o poderiam. Fl. 4671DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.672 28 Nesse contexto, penso que a economia de tributos é argumento válido para suportar o propósito negocial da operação. Importante perceber que no presente caso, houvesse a empresa estrangeira sido incorporada pela brasileira a amortização do ágio não seria contestada. Logo não há que falar sequer em dissimilação no presente caso, já que o negócio supostamente dissimulado teria os mesmos efeitos tributários do negócio realizado. Por essas razões, entendo ser descabida a aplicação da multa qualificada, nos termos do artigo 44, §1º, da Lei 9.430/96. Nesse contexto, voto por negar provimento ao Recruso da Fazenda Nacional, quanto à essa matéria. B.2) APLICAÇÃO DA MULTA ISOLADA Com relação ao mérito da multa isolada, entendo que merece reforma o Acórdão a quo. Primeiro, porque temos duas punições para duas condutas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento antecipado sobre bases estimadas. Segundo, porque a tese de que as multas isolada e de ofício, no presente caso, estariam incidindo sobre a mesma base, também, não deve prosperar, seja porque as bases não são idênticas, seja porque, ainda que idênticas, o bis in idem só ocorreria se as duas sanções fossem aplicadas pela ocorrência da mesma conduta, o que já ficou demonstrado que não ocorre. Terceiro, porque considerando que a multa isolada é devida ainda que o Contribuinte apure prejuízo fiscal, ela é devida mesmo após encerrado o período de apuração. Nesse contexto, adoto como razões de decidir, mutatis mutandis, o voto do Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior, proferido no acórdão 1302001.080, que ouso transcrever: Das condutas infracionais diferentes Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento sobre bases estimadas. Ressaltese que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixar de recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal Fl. 4672DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.673 29 sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei nº 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. Temos, então, duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas também diferentes. O art. 44 da Lei no 9.430/96 (na sua redação vigente à época do lançamento) já albergava várias normas, das quais vale pinçar as duas sub examine: a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1o aplicável por falta de pagamento do tributo; e a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do § 1º – aplicável pela não observância das normas do regime de recolhimento por estimativa. Ora, a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1o do art. 44 jamais poderia ser aplicada pela falta de recolhimento do IRPJ sobre a base estimada, então, como se falar em consunção, para que esta absorva a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do mesmo § 1º. Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art. 44 e, consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos expendidos no acórdão recorrido, os quais concluem que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, alem dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal obrigatório (carnêleão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondose igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Fl. 4673DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.674 30 Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJ estimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Das diferentes bases para cálculos das multas A tese de que as multas isolada e de ofício, no presente caso, estariam incidindo sobre a mesma base, também, não deve prosperar, seja porque as bases não são idênticas, seja porque, ainda que idênticas, o bis in idem só ocorreria se as duas sanções fossem aplicadas pela ocorrência da mesma conduta, o que já ficou demonstrado que não ocorre, se não vejamos. A multa isolada corresponde a um percentual do IRPJ calculado sobre a base estimada, na qual o valor das despesas e custos decorrem de uma estimativa legal, ou seja, o legislador quando determina a aplicação de um percentual sobre a receita bruta, para o cálculo da base estimada, está, em verdade, estimando custos e despesas. A multa de ofício, in casu, corresponde a um percentual sobre o IRPJ calculado sobre o lucro real, na qual se leva em conta as despesas e custos efetivamente incorridos. Em suma, se a base estimada difere do lucro real, se são valores distintos, inclusive com previsões legais distintas, os impostos delas resultantes são também valores distintos e, consequentemente, as multas ad valorem que incidem sobre elas, também, são valores que não se confundem. Todavia, ainda que as multas isolada e de ofício fossem calculadas sobre o IRPJ incidente sobre a mesma base de cálculo, isso não significaria um bis in idem, pois, como já asseverado acima, a ocorrência de uma infração não importa necessariamente na ocorrência da outra, o que torna irrefutável que as infrações decorrem de condutas diversas. O contribuinte pode ter recolhido todo o IRPJ devido sobre a base estimada em cada mês do anocalendário e não recolher a diferença calculada ao final do período, ficando sujeito assim a multa de ofício, mas não a multa isolada. Ao contrário, pode deixar de recolher o IRPJ sobre a base estimada, mas pagar, ao final do ano, todo o IRPJ sobre o lucro real, hipótese na qual só ficará sujeito à multa isolada. A definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, Fl. 4674DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.675 31 V do CTN, não cabendo ao intérprete questionar se a dosimetria aplicada em tal e qual caso é adequada ou excessiva, a não ser que adentre a seara da sua constitucionalidade, o que está expressamente vedado pela Súmula CARF nº 2. Da redação original do art. 44, § 1º, IV, da Lei 9430/96 Aditese ainda, que o legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1º do art. 44, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro, assim, que: a) primeiro, que estava se referindo ao imposto ou contribuição calculado sobre a base estimada, já que em caso de prejuízo fiscal e base negativa, não há falar em tributo devido no ajuste; e b) segundo, que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada; e c) terceiro, que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do anocalendário, já que pode ser lançada mesmo após apurado prejuízo fiscal ou base negativa. Da negativa de vigência de lei federal Peço vênia aos meus pares, para expressar minha profunda discordância com as referidas posições adotadas por este Colegiado: Entendo que tais posicionamentos têm, em verdade, por via oblíqua, negado vigência a uma lei federal, pois afrontam literalmente o disposto nos art. 2º e 44, § 1º , IV, da Lei no 9.430/96 (vigente à época do lançamento) e no art. 35 da Lei 8.981/95. É demais imaginar que se coaduna com os mais comezinhos princípios do direito a permissão dada ao contribuinte, por tais decisões, para, em janeiro de um determinado anocalendário, decidir se obedece ou não o art. 2º e segs. da Lei no 9.430/96. Em outras palavras, os referidos posicionamentos deste Colegiado desnaturam a norma tributária tornandoa uma norma facultativa, já que a sua não observância não traz, à luz de tais posicionamentos, qualquer consequência jurídica. Nesse contexto, voto por dar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional, para manutenção da multa para períodos de apuração ocorridos após a alteração da Lei 9.430/96, pela MP 351/07, convertida na Lei 11.488/07, ou seja, períodos de apuração ocorridos de 2007, inclusive, em diante. Nesse contexto, voto por dar parcial provimento ao Recurso da Fazenda Nacional, para entender como válida a cobrança da multa isolada. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 4675DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.676 32 Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto o I. conselheiro, peço vênia para discordar em relação ao mérito, sobre as matérias: despesa de amortização de ágio utilização de holding (“empresa veículo”) detida por investidor estrangeiro para amortização do ágio recurso especial da Contribuinte; qualificação da multa de ofício recurso especial da PGFN; repercussão da glosa de despesa de amortização de ágio na Base de Cálculo da CSLL recurso especial da Contribuinte. Passo ao exame. I Despesa de Amortização de Ágio RE da Contribuinte Para a devida apreciação da matéria despesa de amortização de ágio utilização de holding (“empresa veículo”) detida por investidor estrangeiro para amortização do ágio, propõese, inicialmente, discorrer sobre uma análise histórica e sistêmica sobre o tema, para depois tratar do caso concreto. 1. Conceito e Contexto Histórico Podese entender o ágio como um sobrepreço pago sobre o valor de um ativo (mercadoria, investimento, dentre outros). Tratandose de investimento decorrente de uma participação societária em uma empresa, em brevíssima síntese, o ágio é formado quando uma primeira pessoa jurídica adquire de uma segunda pessoa jurídica um investimento em valor superior ao seu valor patrimonial. O investimento em questão são ações de uma terceira pessoa jurídica, que são avaliadas pelo método contábil da equivalência patrimonial. Ou seja, a empresa A detém ações da empresa B, avaliadas patrimonialmente em 60 unidades. A empresa C adquire, junto à empresa A, as ações da empresa B, por 100 unidades. A empresa C é a investidora e a empresa B é a investida. Interessante é que emergem dois critérios para a apuração do ágio. Adotandose os padrões da ciência contábil, apesar das ações estarem avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, deveriam ainda ser objeto de majoração, ao ser considerar, primeiro, se o valor de mercado dos ativos tangíveis seria superior ao contabilizado. Assim, supondose que, apesar do patrimônio ter sido avaliado em 60 unidades, o valor de mercado seria de 70 unidades, considerase para fins de apuração 70 unidades. Segundo, caso se constate a presença de ativos intangíveis sem reconhecimento contábil no valor de 12 unidades, temse, ao final, que o ágio, denominado goodwill, seria a diferença entre Fl. 4676DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.677 33 o valor pago (100 unidades) e o valor de mercado mais intangíveis (60 + 10 + 12 = 82 unidades). Ou seja, o ágio passível de aproveitamento pela empresa C, decorrente da aquisição da empresa B, mediante atendimento de condições legais, seria no valor de 18 unidades. Ocorre que o legislador, ao editar o DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, resolveu adotar um conceito jurídico para o ágio próprio para fins tributários. Isso porque positivou no art. 20 do mencionado decretolei que o denominado ágio poderia ter três fundamentos econômicos, baseados: (1) no sobrepreço dos ativos; e/ou (2) na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido e/ou (3) no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, posteriormente, os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, autorizaram a amortização do ágio nos casos (1) e (2), mediante atendimento de determinadas condições. Na medida em que a lei não determinou nenhum critério para a utilização dos fundamentos econômicos, consolidouse a prática de se adotar, em praticamente todas as operações de transformação societária, o reconhecimento do ágio amparado exclusivamente no caso (2): expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. O ágio passou a ser simplesmente a diferença entre o custo de aquisição e o valor patrimonial do investimento. Assim, voltando ao exemplo, a empresa C, investidora, ao adquirir ações da empresa investida B avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, pelo valor de 100 unidades, poderia justificar o sobrepreço de 40 unidades integralmente com base no fundamento econômico de expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. Na realidade, a legislação tributária ampliou o conceito do goodwill. E como darseia o aproveitamento do ágio? Em duas situações. Na primeira, quando a empresa C realizasse o investimento, por exemplo, ao alienar a empresa B para uma outra pessoa jurídica. Assim, se vendesse a empresa B para a empresa D por 150 unidades, apuraria um ganho de 50 unidades. Isso porque, ao patrimônio líquido da empresa alienada, de 60 unidades, seria adicionado o ágio de 40 unidades. Assim, a base de cálculo para apuração do ganho de capital seria a diferença entre 150 e 100 unidades, perfazendo 50 unidades. Na segunda, no caso de a empresa C (investidora) e a empresa B (investida) promoverem uma transformação societária (incorporação, fusão ou cisão), de modo em que passem a integrar uma mesma universalidade. Por exemplo, a empresa B incorpora a empresa C, ou, a empresa C incorpora a empresa B. Nesse caso, o valor de ágio de 40 unidades poderia passar a ser amortizado, para fins fiscais, no prazo de sessenta meses, resultando em uma redução na base de cálculo do IRPJ e CSLL a pagar. Naturalmente, no Brasil, em relação ao ágio, a contabilidade empresarial pautouse pelas diretrizes da contabilidade fiscal, até a edição da Lei nº 11.638, de 2007. O novo diploma norteouse pela busca de uma adequação aos padrões internacionais para a contabilidade, adotando, principalmente, como diretrizes a busca da primazia da essência sobre a forma e a orientação por princípios sobrepondose a um conjunto de regras detalhadas Fl. 4677DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.678 34 baseadas em aspectos de ordem escritural 1. Nesse contexto, houve um realinhamento das normas contábeis no Brasil, e por consequência do conceito do goodwill. Em síntese, ágio contábil passa (melhor dizendo, volta) a ser a diferença entre o valor da aquisição e o valor patrimonial justo dos ativos (patrimônio líquido ajustado pelo valor justo dos ativos e passivos). E recentemente, por meio da Lei nº 12.973, de 13/05/2014, o legislador promoveu uma aproximação do conceito jurídicotributário do ágio com o conceito contábil da Lei nº 11.638, de 2007, além de novas regras para o seu aproveitamento, que não são objeto de análise do presente voto. Enfim, resta evidente que o conceito do ágio tratado para o caso concreto, disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, alinhase a um conceito jurídico determinado pela legislação tributária. Tratase, portanto, de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. 2. Aproveitamento do Ágio. Hipóteses Apesar de já ter sido apreciado singelamente no tópico anterior, o destino que pode ser dado ao ágio contabilizado pela empresa investidora merece uma análise mais detalhada. Há que se observar, inicialmente, como o art. 219 da Lei nº 6.404, de 1.976 trata das hipóteses de extinção da pessoa jurídica: Art. 219. Extinguese a companhia: I pelo encerramento da liquidação; II pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. E, ao se tratar de ágio, vale destacar, mais uma vez, os dois sujeitos, as duas partes envolvidas na sua criação: a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida, sendo a investidora é aquela que adquiriu a investida, com sobrepreço. Não por acaso, são dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). Podese dizer que os eventos (1) e (2) guardam correlação, respectivamente, com os incisos I e II da lei que dispõe sobre as Sociedades por Ações. 1 IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de contabilidade das sociedades por ações: (aplicável às demais sociedades), 1ª ed. São Paulo : Editora Atlas, 2008, p. 31. Fl. 4678DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.679 35 3. Aproveitamento do Ágio. Separação de Investidora e Investida No primeiro evento, tratase de situação no qual a investidora aliena o investimento para uma terceira empresa. Nesse caso, o ágio passa a integrar o valor patrimonial do investimento para fins de apuração do ganho de capital e, assim, reduz a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A situação é tratada pelo DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Assim, o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa foi objeto de alienação ou liquidação. 4. Aproveitamento do Ágio. Encontro entre Investidora e Investida Já o segundo evento aplicase quando a investidora e a investida transformaremse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). O ágio pode se tornar uma despesa de amortização, desde que preenchidos os requisitos da legislação e no contexto de uma transformação societária envolvendo a investidora e a investida. Fl. 4679DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.680 36 Contudo, sobre o assunto, há evolução legislativa que merece ser apresentada. Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de Fl. 4680DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.681 37 mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão 2. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 1997 3, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI4 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de 2 Ver Acórdão nº 1101000.841, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara do CARF, da relatora Edeli Pereira Bessa., p. 15. 3 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 4681DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.682 38 dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista 5 que trabalhou na edição da MP 1.602, de 1997: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.602, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. 5 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18024, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 4682DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.683 39 E qual foram as novidades trazidas pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997? Primeiro, há que se contextualizar a disciplina do método de equivalência patrimonial (MEP). Isso porque o ágio aplicase apenas em investimentos sociedades coligadas e controladas avaliado pelo MEP, conforme previsto no art. 384 do RIR/99. O método tem como principal característica permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. As variações no patrimônio líquido da pessoa jurídica investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela investidora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) Resta nítida a separação dos patrimônios entre investidora e investida, inclusive as repercussões sobre os resultados de cada um. A investida, pessoa jurídica independente, em razão de sua atividade econômica, apura rendimentos que, naturalmente, são por ela tributados. Por sua vez, na medida em que a investida aumenta seu patrimônio líquido em razão de resultados positivos, por meio do MEP há uma repercussão na contabilidade da investidora, para refletir o acréscimo patrimonial realizado. A conta de ativos em investimentos é debitada na investidora, e, por sua vez, a contrapartida, apesar de creditada como receita, é excluída na apuração do Lucro Real. Com certeza, não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. E esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio Fl. 4683DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.684 40 líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). (grifei) Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, conforme já dito, por ser a motivação adotada pela quase totalidade das empresas, todos os holofotes dirigemse ao fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração Fl. 4684DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.685 41 devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. E, finalmente, passamos a apreciar os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, consolidados no art. 386 do RIR/99. Como já dito, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. 5. Amortização. Despesa. Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Fl. 4685DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.686 42 Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99 6. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. 6. Despesa Em Face de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. 6 Art. 324. Poderá ser computada, como custo ou encargo, em cada período de apuração, a importância correspondente à recuperação do capital aplicado, ou dos recursos aplicados em despesas que contribuam para a formação do resultado de mais de um período de apuração (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 15, § 1º). § 1º Em qualquer hipótese, o montante acumulado das quotas de amortização não poderá ultrapassar o custo de aquisição do bem ou direito, ou o valor das despesas (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 2º). § 2º Somente serão admitidas as amortizações de custos ou despesas que observem as condições estabelecidas neste Decreto (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 5º). § 3º Se a existência ou o exercício do direito, ou a utilização do bem, terminar antes da amortização integral de seu custo, o saldo não amortizado constituirá encargo no período de apuração em que se extinguir o direito ou terminar a utilização do bem (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 4º). § 4º Somente será permitida a amortização de bens e direitos intrinsecamente relacionados com a produção ou comercialização dos bens e serviços (Lei nº 9.249, de 1995, art. 13, inciso III). Fl. 4686DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.687 43 Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especialmente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, envolvendo aportes de substanciais recursos para, em questão de dias ou meses, serem objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial do suporte fático, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. 7. Hipótese de Incidência Prevista Para a Amortização Realizada análise do ágio sob perspectiva do gênero despesa, cabe prosseguir com a apreciação da legislação específica que trata de sua amortização. Vale recapitular os dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida (investida) com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). E repetir que estamos, agora, tratando da segunda situação. Cenário que se encontra disposto nos arts. 7º e 8º da Lei n° 9.532, de 1997, e nos arts. 385 e 386 do RIR/99, do qual transcrevo apenas os fragmentos de maior interesse para o debate: Fl. 4687DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.688 44 Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) (grifei) Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. Fl. 4688DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.689 45 A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 7. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). 7 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 4689DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.690 46 Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre o real investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI8, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. 8 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 4690DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.691 47 Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveita se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Registrese que a consumação do aspecto temporal não se confunde com o termo inicial do prazo decadencial. Isso porque, partindose da construção da norma conforme operação no qual "Se A é, B deveser", onde a primeira parte é o antecedente, e a segunda é o consequente, a consumação da hipótese de incidência localizase no antecedente. Ou seja, "Se A é", indica que a hipótese de incidência, no caso concreto, mediante aperfeiçoamento dos aspectos pessoal, material e temporal, concretizouse em sua plenitude. Assim, passase para a etapa seguinte, o consequente ("B deveser"), no qual se aplica o regime de tributação a que encontra submetido o contribuinte (lucro real trimestral ou anual), efetuase o lançamento fiscal com base na repercussão que as glosas despesas de ágio indevidamente amortizadas tiveram na apuração da base de cálculo, e, por consequência, determinase o termo inicial para contagem do prazo decadencial. 8. Consolidação Considerandose tudo o que já foi escrito, entendo que a cognição para a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos pela norma encontramse atendidos e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado. A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Fl. 4691DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.692 48 Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Caso superada a primeira verificação, cabe prosseguir com a segunda verificação, relativa a aspectos de ordem formal, qual seja, se a demonstração que o contribuinte arquivar como comprovante de escrituração prevista no art. 20, § 3º do Decreto Lei nº 1.598, de 27/12/1977 (1) existe e (2) se mostra apta a justificar o fundamento econômico do ágio. Há que se verificar também (3) se ocorreu, efetivamente, o pagamento pelo investimento. Enfim, referese a terceira verificação a constatar se toda a operação ocorreu dentro de padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes, distante de situações que possam indicar ocorrência de negociações eivadas de ilicitude, que poderiam guardar repercussão, inclusive, na esfera penal, como nos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990. 9. Sobre o Caso Concreto Feitas as considerações, passo a analisar o caso concreto. Tratase da alienação do investimento VWCO, pela alienante VIF (sede na Holanda), para a adquirente MAN AG (sede na Alemanha). Em 16/03/2009, foi efetuada a transação. A MAN AG, investidora, valeuse de empresa "holding" situada no Brasil, MAN S/A, transferindo recursos para a aquisição da VWCO, no qual foi apurado ágio no montante de 2,5 bilhões de reais. Consolidouse estrutura societária no qual a MAN AG era controladora da MAN S/A, e a MAN S/A controladora da VWCO. Na sequência, 30/11/2009, a VWCO incorpora a MAN S/A, e passa a amortizar o ágio, porque entendeu a Contribuinte que se consumaria a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. Fl. 4692DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.693 49 O que se observa é que tal interpretação não encontra amparo na legislação. Diante de todo o escrito no presente voto, a operação em análise não passa pela primeira verificação (vide item 8 do voto). Quanto ao aspecto pessoal, cabe verificar quem é efetivamente a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida. A pessoa jurídica investidora é a MAN AG que efetuou o aporte de recursos para aquisição do investimento (participação societária da Contribuinte) com pagamento de sobrepreço, por ter sido realizado em valor superior ao do patrimônio líquido. Independente de a empresa estar localizada no Brasil ou no exterior (como é o caso concreto), fato é que deveria ter participado do evento de incorporação. Registrese que o fato de os recursos para aquisição do investimento terem passado de maneira efêmera pela MAN S/A ("holding" no Brasil) não lhe conferem a condição de investidora exigida pela legislação. É incontestável que foi a MAN AG a empresa que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura do investimento a ser adquirido e desembolsou os recursos para a aquisição (vide item 7 do presente tópico). E, como visto, o evento de incorporação não contou com a participação da MAN AG, ou seja, não estava presente a pessoa jurídica investidora. O evento contou com a presença da MAN S/A ("holding", denominada "empresa veículo") e da VWCO (investimento). Na mesma medida, deixou de ocorrer a comunicação do patrimônio entre investidor e investida, razão pela qual não se consumou o aspecto material. O que se observa é que a utilização da empresa MAN S/A tornou impossível a concretização da hipótese de incidência da norma, pois afastou a pessoa jurídica investidora (MAN AG) do evento de incorporação. Nesse sentido, o aproveitamento da despesa de amortização de ágio promovido pela Contribuinte deuse sem respaldo legal, vez que não se consumou a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8·da Lei nº 9.532, de 1997. Tal aspecto já justifica na integralidade, por si só, a manutenção da autuação fiscal. Mas vale dizer que o caso em tela retrata, com nitidez, a construção artificial do suporte fático, para que se pudesse amoldar à hipótese de incidência de despesa de amortização do ágio (item 6 do presente tópico). Resta evidente o deliberado intuito de fabricar uma despesa com repercussão na base tributável. As transações ocorreram mediante utilização de empresa sem substância, de "prateleira", a MAN S/A. Vale transcrever excerto do voto da DRJ (efls. 3498): 129. As apurações feitas pela fiscalização demonstram que todas as etapas do processo foram antecipada e cuidadosamente planejadas, tendo sido constituída uma empresa veículo especificamente para permitir a amortização do ágio. Resta Fl. 4693DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.694 50 claro que as pessoas envolvidas nas operações, incluindo a impugnante, agiram com a intenção livre e consciente de se eximir da tributação, promovendo alterações contratuais apenas sob aspecto formal, sem qualquer propósito negocial. 130. As operações foram estruturadas de modo a criar artificialmente situações que se enquadrariam nos artigos 385 e 386 do RIR/99, possibilitando a amortização do ágio na impugnante. 131. O motivo primordial da incorporação da MAN S/A pela impugnante (MAN Ltda) e das etapas que a precederam, situase no campo tributário. A aquisição da empresa veiculo MAN S/A, antiga PRCSPE ("holding"), para a realização da aquisição e pagamento formal, com ágio, pelo controle da empresa operacional VWCO (atual MAN LTDA). Posteriormente, a MAN S/A foi incorporada pela empresa operacional MAN LTDA. Tudo isso apenas para fornecer uma aparência de conformidade ao direito, quando o contexto evidencia o fim prático a que o negócio se destinava: a internalização de um ágio transacionado entre empresas localizadas no exterior pago de fato pela sociedade MAN AG (alemã) à VIF (holandesa) e transferido para a subsidiária integral MAN LTDA (nacional) objetivando uma redução do pagamento de tributos através da posterior dedução da amortização desse ágio e a conseqüente capitalização da economia tributária alcançada. Os motivos extratributários alegados não são suficientes para afastar o fim a que o conjunto das operações realizadas visava, que era a dedução das despesas relativas à amortização do ágio. Portanto, deve ser mantida a autuação fiscal em relação ao ágio. A utilização de empresa intermediária (MAN S/A) afasta a possibilidade de atendimento dos aspectos pessoal e material da norma. Nesse sentido, devese negar provimento ao recurso especial da Contribuinte. II Qualificação da Multa de Ofício RE da PGFN Em razão das operações descritas no tópico anterior, protesta a PGFN pelo restabelecimento da qualificação da multa de ofício (150%) imputado pela autoridade fiscal. Como já visto no item anterior, a utilização da MAN S/A, empresa sem substância, deuse de maneira deliberada para construir artificialmente a hipótese de incidência que permitiria o aproveitamento da despesa. Vale reproduzir excertos do Termo de Verificação Fiscal (efls. 3189/3140): No caso presente, a intenção das operações realizadas foi, claramente, o aproveitamento indevido do ágio nos resultados na MAN LTDA com a dedução dos encargos de amortização desse ágio, através de atos elaborados em curso espaço de tempo, os quais tiveram a função de distorcer o resultado fiscal Fl. 4694DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.695 51 que se daria naturalmente caso as partes não engendrassem elaborado planejamento. O que se verificou na prática acima exposta é que o contribuinte, de forma elaborada, buscou uma construção artificial e que teve como intuito dificultar a análise por parte da fiscalização do real motivo para a reorganização societária. (...) A fiscalizada, ao formalizar seus registros contábeis, societários e fiscais de forma a dar uma aparência de correção ao montante do ágio amortizado tributariamente, pretende induzir a fiscalização a avalizar uma operação que, nessas circunstâncias, é inoponível à Fazenda. Age, portanto, com dolo (...) O plus na conduta é evidente, com eventos mediante utilização de empresa artificial e em breve lapso temporal, ultrapassando o tipo objetivo da norma tributária. Não se trata de mero descumprimento do dispositivo legal. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo, consumandose o dolo, cuja definição é apresentada com clareza por CEZAR ROBERTO BITENCOURT9: O dolo, elemento essencial da ação final, compõe o tipo subjetivo. Pela sua definição, constatase que o dolo é constituído por dois elementos: um cognitivo, que é o conhecimento do fato constitutivo da ação típica; e um volitivo, que é a vontade de realizála. O primeiro elemento, o conhecimento, é pressuposto do segundo, a vontade, que não pode existir sem aquele. Sobre o elemento cognitivo, BITENCOURT 10 discorre com didática: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada Sobre o elemento volitivo, são claros os ensinamentos 11: A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente. Presentes, sem sombra de dúvidas, os elementos volitivo e cognitivo. Flagrante se mostra o dolo. Cabe, portanto, ser restabelecida a qualificação da multa de ofício. 9 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal : parte geral, volume 1, 11ª ed. São Paulo : Saraiva, 2007, p. 267. 10 BITENCOURT, 2007, p. 269. 11 BITENCOURT, 2007, p. 269. Fl. 4695DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.696 52 Assim, deve ser dado provimento ao recurso especial da PGFN. III Repercussão da Glosa de Despesa de Amortização de Ágio na Base de Cálculo da CSLL. RE da Contribuinte. Protesta a Contribuinte sobre a repercussão de glosa de despesa de amortização de ágio na Base de Cálculo da CSLL. Há que se buscar a interpretação sistêmica da legislação tributária, sob pena de incorrer em contradições. Toda a construção empreendida pelo Decretolei nº 1.598, de 1977, encontra se em consonância com a edição no ano anterior (1976) da Lei nº 6.404 ("lei das S/A"), no qual se buscou modernizar os conceitos de contabilização de investimentos decorrentes de participações societárias, inclusive com a adoção do método de equivalência patrimonial (MEP). Foram tratados três momentos cruciais para o investidor, nascimento, desenvolvimento e fim do investimento, respectivamente delineados: (1) o da aquisição do investimento, normatizandose a figura do "ágio", que consiste no sobrepreço pago na aquisição, e (2) o momento em que o investimento gera frutos para o investidor, ou seja, a empresa adquirida gera lucros; e (3) e desfazimento do investimento. Em relação ao segundo momento (desenvolvimento do investimento), a interpretação integrada dos dois diplomas normativos consolidou a construção de sistema no qual os resultados de investimentos em participações societárias pudessem ser devidamente refletidos no investidor, por meio do MEP, e ao mesmo tempo, não fossem objeto de bitributação. Isso porque, em se considerando estritamente os lançamentos contábeis, os resultados da investida seriam refletidos no investidor, fazendo com que tanto na investida quando no investidor fossem apuradas receitas operacionais que, em tese, integrariam o lucro líquido e a base de cálculo tributável. Por isso, determinouse que o investidor poderia efetuar ajuste, no sentido de excluir da base de cálculo tributável os resultados positivos auferidos pela investida. É o que prescreve o art. 22 do Decretolei nº 1.598, de 1977, quando determina o procedimento a ser adotado pelo investidor ao final de cada exercício: o valor do investimento na data do balanço (...), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento. Caso tenha apurado resultado positivo, lançamento a débito na conta de investimento e a crédito em conta de resultado (receitas de equivalência patrimonial), com repercussão na base tributável. Tal repercussão é neutralizada logo no artigo seguinte (art. 23), ao predicar que a contrapartida do ajuste por aumento do valor de patrimônio líquido do investimento não será computada no lucro real (...). Assim, o crédito em conta de resultado seria excluído na apuração do lucro real. Com a criação da CSLL, a Lei nº 7.689, de 1988, discorreu sobre ajuste na base de cálculo para fins fiscais, e determinou pela exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido (art. 2º, § 1º, alínea "c", item 1). Fl. 4696DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.697 53 Restou, nesse momento, nítida, clara e transparente, a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, no que concerne às operações decorrentes de participações societárias e os correspondentes resultados auferidos. A preocupação do legislador em compatibilizar a apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, mediante a operacionalização de ajustes no lucro líquido, é evidente. Portanto, não há nenhum sentido entender que, para as operações societárias relativas ao primeiro momento (aquisição do investimento) e o terceiro momento (desfazimento do investimento), poderseia aplicar um entendimento diferente daquele relativo ao segundo momento (desenvolvimento do investimento). Em relação ao terceiro momento (desfazimento do investimento), predica a norma que na alienação do investimento, o valor do ágio deverá ser considerado, na apuração da base de cálculo tributável (art. 25 e 33 do Decretolei nº 1.598, de 1977). E, em conexão indissociável com o segundo momento (desenvolvimento do investimento) e o terceiro momento (desfazimento do investimento), o primeiro momento (nascimento do investimento) trata da aquisição do investimento que, se for realizada com sobrepreço, implica na contabilização desse valor a maior em conta específica. É o que diz o art. 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, ao determinar nos incisos I e II que o custo de aquisição deveria ser desdobrado em (I) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (II) ágio ou deságio na aquisição. Por isso que, apesar da disposição no art. 25 do Decretolei nº 1.598, de 1977, ser no sentido de que as contrapartidas da amortização do ágio não seriam computadas na determinação do lucro real, não há nenhum sentido em se considerar que tal ajuste não se aplica para fins de apuração da Base de Cálculo da CSLL. Repito: o que se observa é a convergência entre as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Os motivos apresentados até o momento são suficientes para demonstrar que a glosa de despesa de amortização do ágio tem repercussão tanto para a apuração da base de cálculo do IRPJ quanto da CSLL. Contudo, caso ainda haja alguma contestação sobre tal entendimento, cabem considerações complementares. Não se pode esquecer que o ágio é despesa, submetida a amortização. Logo, encontrase a despesa do ágio submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 47, da Lei nº 4.506, de 1964, base legal para o art. 299 do RIR/99: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). Fl. 4697DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.698 54 § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Por sua vez, o art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: (Grifei) A interpretação dada ao dispositivo pelo Conselheiro Marcos Pereira Valadão, no Acórdão nº 9101002.396, é didática e esclarecedora: Assim, o texto legal acima transcrito evidencia claramente o vínculo entre a apuração da base cálculo da CSLL e os referidos requisitos para a dedutibilidade de despesas, do contrário não faria nenhum sentido a ressalva contida no texto. Com efeito, se o texto diz que para uma determinada situação deve se aplicar "A" independentemente de "B", é porque "B" também é aplicável àquela mesma situação. Nessa perspectiva, as regras de dedutibilidade de despesas previstas no art. 47 da Lei nº 4.506, de 1964, aplicamse tanto ao IRPJ quanto à CSLL. A redação do art. 13 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe claramente sobre hipóteses de despesas indedutíveis tanto para o IRPJ quanto para a CSLL, incluindo expressamente as situações previstas no art. 47 da Lei nº 4.506, de 1964. Sendo a despesa de amortização de ágio submetida ao regramento geral das despesas operacionais, não há que se falar em ausência de previsão normativa para a sua adição à Base de Cálculo da CSLL. No mesmo contexto, encontrase a redação do art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995, mencionada pela autoridade fiscal: Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. Pela expressão normas de apuração entendese o cômputo do quantum tributável, o procedimento consistente em determinar a base de cálculo do tributo, mediante operações de soma e diminuição de valores. Ou seja, precisamente a discussão dos presentes autos. Pelo dispositivo, resta mais evidente que repercussão dos ajustes efetuados para apuração da base de cálculo do IRPJ para a CSLL. Nesse contexto, entendo não haver reparos ao procedimento adotado pela autoridade fiscal ao promover a glosa de despesa de amortização de ágio tanto para o IRPJ quanto para a CSLL. Fl. 4698DF CARF MF Processo nº 16561.720086/201306 Acórdão n.º 9101003.275 CSRFT1 Fl. 4.699 55 Portanto, deve ser negado provimento ao recurso especial da Contribuinte em relação à matéria. IV. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de (i) negar provimento ao recurso especial da Contribuinte, e (ii) dar provimento ao recurso especial da PGFN. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 4699DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10825.000674/2008-20
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 23 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Mon Apr 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2008
NORMAS PROCESSUAIS. COMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO.
Nos termos do art. 2°, inc. V, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e alterações posteriores, é da competência da Primeira Seção o julgamento de recursos acerca de questões relativas ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (SIMPLES-Nacional).
Numero da decisão: 3201-001.634
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros da 1ª Turma, da 2ª Câmara, da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso e declinar competência para 1ª Seção de Julgamento para novo julgamento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
JOEL MIYAZAKI - Presidente.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
DANIEL MARIZ GUDIÑO - Relator.
EDITADO EM: 04/09/2014
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Joel Miyazaki, Ana Clarissa Masuko Araújo, Adriene Maria de Miranda Veras, Daniel Mariz Gudiño, Winderley Morais Pereira e Carlos Alberto Nascimento e Silva.
Nome do relator: Daniel Mariz Gudiño
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COMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO. Nos termos do art. 2°, inc. V, do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e alterações posteriores, é da competência da Primeira Seção o julgamento de recursos acerca de questões relativas ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (SIMPLESNacional). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros da 1ª Turma, da 2ª Câmara, da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso e declinar competência para 1ª Seção de Julgamento para novo julgamento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (ASSINADO DIGITALMENTE) JOEL MIYAZAKI Presidente. (ASSINADO DIGITALMENTE) DANIEL MARIZ GUDIÑO Relator. EDITADO EM: 04/09/2014 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 00 06 74 /2 00 8- 20 Fl. 62DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Joel Miyazaki, Ana Clarissa Masuko Araújo, Adriene Maria de Miranda Veras, Daniel Mariz Gudiño, Winderley Morais Pereira e Carlos Alberto Nascimento e Silva. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto por João Victor Cocito Correa Me, doravante apenas Recorrente, em razão do Acórdão nº 1435.268, de 15/09/2011, proferido pela 9ª Turma da Delegacia de Julgamento Ribeirão Preto (SP). Por bem descrever os fatos ocorridos até o julgamento da instância a quo, transcrevese abaixo o sintético relatório do acórdão recorrido: Tratase de manifestação de inconformidade apresentada pelo contribuinte acima identificado, em relação ao Despacho Decisório proferido pela Seção de Orientação e Análise Tributária – SAORT da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Bauru, que indeferiu o seu pedido de opção retroativa ao Simples. O contribuinte aduz que tinha a intenção de optar pelo Simples Nacional desde a abertura da empresa, mas por possível erro no sítio da RFB na internet sua opção não foi concluída; que acreditava que a sua opção houvesse sido efetivada, uma fez que foi gerado para ele um código de acesso, passando a emitir guias de pagamento no modelo DARFSIMPLES e a recolher os tributos também nesse regime; e que apenas tomou conhecimento de que não era optante meses após, quando houve restrição na emissão da guia DARFSIMPLES. Aduz haver comprovado a intenção inequívoca de optar pelo Simples Nacional e que a opção só não foi realizada em decorrência de “erro de fato”, devendo ser autorizada a sua inclusão no Simples Nacional com efeitos retroativos, sendo equivocado o entendimento de que a inclusão retroativa só se aplica ao Simples Federal. Transcreve ementas de Acórdãos proferidos pelo Conselho de Contribuintes. Requer a reforma da decisão para que seja deferida a sua inclusão retroativa no Simples Nacional. A instância a quo julgou improcedente a manifestação de inconformidade nos termos do já citado acórdão, que restou assim ementado: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2008 SIMPLES NACIONAL. OPÇÃO. FORMA. PRAZO. A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10825.000674/200820 Acórdão n.º 3201001.634 S3C2T1 Fl. 249 3 A opção pelo Simples Nacional deverá ser realizada no mês de janeiro, até seu último dia útil, produzindo efeitos a partir do primeiro dia do anocalendário da opção. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio Inconformada com a manutenção do lançamento, a Recorrente interpôs recurso voluntário tempestivamente, reiterando, em suma, os argumentos suscitados em sua defesa original. O processo foi distribuído e sorteado a este Conselheiro, seguindo o rito regimental. É o relatório. Voto Conselheiro Daniel Mariz Gudiño Como indicado no relatório, a matéria versada no recurso não é da competência desta Terceira Seção, mas sim da Primeira Seção deste Conselho. Com efeito, o artigo 2º, inciso V, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF n° 256, de 2009, e alterações posteriores, assim dispõe: Artigo 2º À Primeira Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de primeira instância que versem sobre aplicação da legislação de: (...) V exclusão, inclusão e exigência de tributos decorrentes da aplicação da legislação referente ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (SIMPLES) e ao tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte no âmbito dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na apuração e recolhimento dos impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, mediante regime único de arrecadação (SIMPLESNacional); (...) Como se vê, cabe àquela Seção a apreciação de recursos versando a legislação do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (SIMPLESNacional). Fl. 64DF CARF MF 4 Diante do exposto, NÃO CONHEÇO do recurso voluntário, que deve ser redirecionado à Primeira Seção do CARF para novo julgamento, conforme determinação regimental. (ASSINADO DIGITALMENTE) Daniel Mariz Gudiño Relator Fl. 65DF CARF MF
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Numero do processo: 10580.726433/2009-13
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. Compõem a renda auferida, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional, por caracterizarem rendimentos do trabalho.
Numero da decisão: 9202-006.381
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, para afastar a natureza indenizatória da verba, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento.O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº 10580.726430/2009-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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NATUREZA. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. Compõem a renda auferida, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional, por caracterizarem rendimentos do trabalho. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, para afastar a natureza indenizatória da verba, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento.O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo nº 10580.726430/200971, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 64 33 /2 00 9- 13 Fl. 407DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 3 2 Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, tendo por paradigma o processo n° 10580.726430/200971. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo apresentou contrarrazões onde pugna pela manutenção da decisão recorrida, que , em seu entendimento reflete a melhor interpretação jurídica quanto à aplicação do art. 106, II, "c" ao caso sob análise. Tratase de lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Física decorrente da omissão de rendimentos recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”. Referidos rendimentos correspondem à diferença entre a transformação de Cruzeiros Reais para Unidade Real de Valor – URV, reconhecidas e pagas entre janeiro de 2004 e dezembro de 2006, com base na Lei Complementar do Estado da Bahia no 20, de 08 de setembro de 2003. Consoante tese esposada pela autoridade autuante, as diferenças recebidas teriam natureza eminentemente salarial, pois decorreram de diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para URV em 1994 e, conseqüentemente, estariam sujeitas à incidência do imposto de renda, sendo irrelevante a denominação dada ao rendimento. O sujeito passivo apresentou impugnação, que restou integralmente indeferida. Regularmente cientificado da decisão de 1a instância, interpôs Recurso Voluntário, tendo o Colegiado a quo dado provimento ao Recurso, por entender que os valores recebidos possuem natureza indenizatória, ao considerar o teor da Lei no. 9.655, de 02 de junho de 1998, Lei no. 10.477, de 27 de junho de 2002, da Resolução no. 245, de 2002, do Supremo Tribunal Federal e, ainda, da referida Lei Complementar do Estado da Bahia no 20, de 2003, concluindo, assim, pela não incidência de IRPF sobre as verbas sob análise. Enviados os autos à Fazenda Nacional para fins de ciência do Acórdão, sua Procuradoria apresentou, tempestivamente, Recurso Especial, com fulcro no art. 67 do Anexo II ao Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF no. 256, de 22 de julho de 2009. O recurso contém alegação de existência de divergência interpretativa somente quanto à já referida nãoincidência do IRPF (mais especificamente quanto à natureza indenizatória ou não, declarada pela Turma a quo) sobre as (das) diferenças em discussão, Fl. 408DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 4 3 tendo restado integralmente admitido quando da realização do respectivo exame de admissibilidade. Requer a Fazenda Nacional que seja conhecido e provido o presente Recurso Especial, para reformar o acórdão recorrido, restabelecendose o lançamento em sua integralidade. Encaminhados os autos ao sujeito passivo para fins de ciência do recorrido e do despacho de admissibilidade recursal, este apresentou contrarrazões tempestivas, onde requer que se mantenha integralmente o acórdão recorrido, em virtude deste encontrarse em perfeita consonância com o ordenamento jurídico pátrio, não havendo violação ao princípio da legalidade tributária, conforme demonstrado em suas razões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.367, de 29/01/2018, proferido no julgamento do processo 10580.726430/200971, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.367): Pelo que consta no processo quanto à sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigma consistente e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade. Ainda, faço notar que o Acórdão paradigmático apresentado não se trata de jurisprudência superada ou ultrapassada, visto não ter sido objeto de reforma nem contrariar Súmula ou Resolução do Pleno deste Conselho. Noto que eventual mudança de posicionamento do Colegiado paradigmático decorrente de sua alteração de composição ou de qualquer outra motivação não se confunde com o conceito de jurisprudência superada. Assim, conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Passandose à análise de mérito, noto que a matéria que permanece sob litígio é a não incidência do IRPF, a partir da natureza supostamente indenizatória das verbas recebidas, à luz da possível aplicação da Lei Complementar Estadual no. 20, de 2003, e da Resolução STF no. 245, de 2002. A propósito, reitero aqui, inicialmente, considerações que teci quando do julgamento de feito semelhante no âmbito da 1a. Turma Ordinária da 1a. Câmara da 2a. Seção deste CARF (Acórdão no. 2.101002.724), mantendo de forma integral meu posicionamento acerca do assunto, que assim se resume: Fl. 409DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 5 4 1) Da natureza das verbas recebidas e da Lei Complementar Estadual 20, de 2003. Cumpre, primeiramente, salientar que os rendimentos de que trata o presente processo foram recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia, a título de "Valores Indenizatórios de URV", em atendimento ao disposto pela Lei Complementar do Estado da Bahia n° 20, de 2003, a qual, dentre outras disposições, preceitua que a verba em questão é de natureza indenizatória. Para melhor entendimento, transcrevemos, a seguir, os artigos 2° e 3° da referida Lei Complementar Estadual: Art. 2° As diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV, objeto da Ação Ordinária de n° 140.975921531, julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, e em consonância com os precedentes do Supremo Tribunal Federal, especialmente nas Ações Ordinárias nos. 613 e 614, serão apuradas mês a mês, de 1° de abril de 1994 a 31 de agosto de 2001, e o montante, correspondente a cada Procurador e Promotor de Justiça, será dividido em 36 parcelas iguais e consecutivas para pagamento nos meses de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. Art. 3° São de natureza indenizatória as parcelas de que trata o art. 2° desta Lei. Com efeito, da leitura dos dispositivos acima reproduzidos, é possível concluir, tal como concluiu a parte recorrente, que foi atribuída, pelo Estado da Bahia, natureza indenizatória às diferenças decorrentes de erro na conversão da remuneração dos membros do Ministério Público, de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV, objeto da Ação Ordinária em questão. Todavia, do exame desses dispositivos isoladamente, é impertinente inferir que se tratam de rendimentos isentos do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física. Em primeiro lugar, a competência para legislar sobre o imposto sobre a renda é da União, e a lei acima transcrita é estadual. Assim, não se trata, aqui, de invasão de competência do STF pela União para declarar inconstitucional a referida Lei Complementar Estadual, mas, sim, interpretar o diploma de acordo com a competência tributária constitucionalmente estabelecida, de forma que os efeitos da referida Lei Complementar, no que tange ao caráter indenizatório das verbas recebidas, se limitem a matérias cuja competência seja do Estado da Bahia, visto que, de outra forma, se estaria a validar a possibilidade de invasão de competência tributária da União por este mesmo Estado. Assim, imprescindível a análise da natureza dessas verbas, no contexto de todo o direito positivo, para se concluir pela sua tributação ou não pelo Imposto sobre a Renda da Pessoa Física. Chama a atenção o fato de que as diferenças de URV pagas à contribuinte pelo Ministério Público do Estado da Bahia não se Fl. 410DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 6 5 destinam à recomposição de um prejuízo, ou dano material por ela sofrido. Diferentemente, as verbas recebidas pela contribuinte repõem a atualização monetária dos salários do período considerado. Nesse sentido, observase que o artigo 2° da Lei Complementar do Estado da Bahia n° 20, de 2003, deixa claro que se trata de diferenças de remuneração quando da conversão de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor URV. É incontornável a constatação que tais diferenças integram a remuneração mensal percebida pela contribuinte, em decorrência do seu trabalho, constituindo parte integrante de seus vencimentos. As verbas assim auferidas integram, sim, portanto, a definição de renda, nos termos do artigo 43 do Código Tributário Nacional. De se reproduzir aqui a jurisprudência do STJ, que sustenta tal posicionamento, no sentido de se rejeitar o caráter indenizatório das verbas em questão. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE. IMPORTÂNCIAS PAGAS EM DECORRÊNCIA DE SENTENÇA TRABALHISTA. NATUREZA REMUNERATÓRIA. RESPONSABILIDADE PELA RETENÇÃO E RECOLHIMENTO DO IMPOSTO. FONTE PAGADORA. ALÍQUOTA APLICÁVEL. EXCLUSÃO DA MULTA. 1. O recebimento de remuneração em virtude de sentença trabalhista que determinou o pagamento da URP no período de fevereiro de 1989 a setembro de 1990 não se insere no conceito de indenização, constituindose complementação de caráter nitidamente remuneratório, ensejando, portanto, a cobrança de imposto de renda. (...) 5. Recurso especial parcialmente provido (REsp 383.309/SC, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU de 07.04.06); Eram, portanto, as verbas em questão tributáveis, independentemente da denominação a elas conferida pela Lei Complementar do Estado da Bahia n° 20, de 2003, conclusão em perfeita consonância e respaldada pelos dispositivos legais mencionados no enquadramento legal do auto de infração à efl. 07, os quais devem ser respeitados de forma a se guardar obediência ao princípio da legalidade tributária, vedado seu afastamento, in casu, por dispositivo outro que não a lei, na forma do art. 97 do CTN . 2) Da Resolução n.° 245 do STF Baseiase a decisão recorrida, ainda, na Resolução n.° 245 do STF, que, uma vez estendida aos membros do Ministério Público da União, por força do artigo 2°. da Lei n°. 10.477, de 2002, de despacho do PGR no âmbito do Processo Administrativo 1.00.000.011735/2002 e Pareceres PGFN nos. 529 e 923, de Fl. 411DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 7 6 2003, aplicarseia também aos membros do Ministério Público dos Estados, de forma a que se afastasse a incidência do IRPF sobre as verbas em discussão. A respeito, verifico que a questão da aplicabilidade da Resolução n° 245 do STF aos valores recebidos a título de diferenças de URV foi exaustivamente analisada pelo Conselheiro Alexandre Naoki Nishioka no voto condutor da decisão proferida pela mesma 1a. Turma Ordinária da 1a Câmara da Segunda Seção de Julgamento deste Conselho, no Acórdão n° 2101002.388, de 18 de fevereiro de 2014. Por se aplicar integralmente ao caso que aqui se analisa, e por refletir o entendimento deste Relator, adotase o quanto manifestado naquele voto. Vejase: “(...) Buscando reforçar o argumento, requer a contribuinte a aplicação da Resolução n.° 245 do STF, assim como de consulta administrativa realizada pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, os quais disporiam acerca da remuneração dos magistrados. No entanto, mencionadas normas não se aplicam ao fim pretendido pela Recorrente. Inicialmente, cumpre salientar que a dita resolução dispôs acerca da forma de cálculo do abono salarial variável e provisório de que trata o art. 2° e parágrafos da Lei n.° 10.474/2002, considerandoo como de natureza indenizatória. Neste sentido, o inciso I do art. 1° trouxe a forma de cálculo deste abono: "I. apuração, mês a mês, de janeiro/98 a maio/2002, da diferença entre os vencimentos resultantes da Lei n° 10.474, de 2002 (Resolução STF n° 235, de 2002), acrescidos das vantagens pessoais, e a remuneração mensal efetivamente percebida pelo Magistrado, a qualquer título, o que inclui, exemplificativamente, as verbas referentes a diferenças de URV, PAE, 10,87% e recálculo da representação (194%)". A própria redação da Resolução excluiu do valor integrante do abono as verbas referentes à diferença de URV, de onde se interpreta que esta não tem natureza indenizatória, mas de recomposição salarial. Tal tema inclusive já foi enfrentado Egrégio Superior Tribunal de Justiça, tendo este reconhecido as diferenças entre a abono salarial tratado pela norma e a diferença da URV, conforme se verifica de voto da Ministra Eliana Calmon: "Na jurisprudência desta Casa, colho os seguintes precedentes, que sempre distinguiram as hipóteses de percepção das diferenças remuneratórias da URV do abono identificado na Resolução 245/STF: (...)" (STJ, Recurso Especial n.° 1.187.109/MA, Segunda Turma, Ministra Relatora Eliana Calmon, julgado em 17/08/2010)" E tal também foi o entendimento do Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, em decisão monocrática proferida Fl. 412DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 8 7 nos autos do Recurso Extraordinário n.° 471.115, do qual se colaciona o seguinte excerto: "Os valores assim recebidos pelo recorrido decorrem de compensação pela falta de oportuna correção no valor nominal do salário, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. As parcelas representativas do montante que deixou de ser pago, no momento oportuno, são dotadas dessa mesma natureza jurídica e, assim, incide imposto de renda quando de seu recebimento. No que concerne à Resolução n° 245/02, deste Supremo Tribunal Federal, utilizada na fundamentação do acórdão recorrido, tem se que suas normas a tanto não se aplicam, para o fim pretendido pelo recorrido (...)" (STF, Recurso Extraordinário n.° 471.115, Ministro Relator Dias Toffoli, julgado em 03/02/2010)" Adicionalmente, ainda que se tenha leitura diversa da Resolução STF no. 245, de 2002, entendo de se aceder, ainda, à argumentação da PGFN, no sentido de se cingirem os efeitos dos referidos Despacho do PGR e dos Pareceres PGFN em questão aos membros das carreiras mencionadas no âmbito das Leis no. 10.474 e 10.477, ambas de 27 de julho de 2002 (às quais, ressaltese, não pertence, a recorrente), vedados, repitase: a) o estabelecimento de isenção por analogia a partir do disposto nos arts. 97, VI e 111, I e II do CTN e 150 §6o. da CRFB; b) o afastamento da hipótese de incidência, delineada pelos dispositivos legais de efl. 07, por violação ao princípio constitucional da isonomia, uma vez que é expressamente vedado a este Conselho afastar a aplicação da lei tributária com base em argumentação de violação a preceitos constitucionais, consoante dispõe o art. 62 do Regimento já mencionado e a Súmula CARF no. 02. Concluise, portanto, pelo caráter salarial dos valores recebidos acumuladamente pela Recorrente, razão pela qual deverão compor a base de cálculo do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física, nos termos do art. 43 do Código Tributário Nacional e dos dispositivos legais que fundamentaram o auto de infração, descartado o afastamento da incidência do IRPF seja pelo disposto na Lei Complementar do Estado da Bahia no. 20, de 2003, seja pelo teor da Resolução STF no. 245, de 2002. Finalmente, ressalvo que, quanto às alegações da contribuinte, no sentido de não incidência do IRPF sobre os juros de mora, tratase de matéria estranha ao presente pleito recursal e, que, ainda, notese, não restou apreciada pelo Colegiado recorrido, dada a tese ali adotada de nãoincidência. Destarte, esta matéria deve ser objeto de apreciação quando do retorno do presente feito à Turma a quo, proposto no âmbito do Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10580.726433/200913 Acórdão n.º 9202006.381 CSRFT2 Fl. 9 8 presente voto, visto que imprescindível, sob pena de supressão de instância quanto a esta e também quanto a qualquer outra matéria não apreciada pelo inicial reconhecimento do caráter indenizatório das verbas em questão. Conclusivamente, diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para afastar a natureza indenizatória da verba, com retorno do feito ao Colegiado a quo, para exame das matérias ainda não apreciadas por força da adoção inicial da tese, aqui reformada, de não incidência do IRPF pelo caráter indenizatório das verbas em questão. É como voto. Em face ao exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento, para afastar a natureza indenizatória da verba, com retorno do feito ao Colegiado a quo, para exame das matérias ainda não apreciadas por força da adoção inicial da tese, aqui reformada, de não incidência do IRPF pelo caráter indenizatório das verbas em questão. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 414DF CARF MF
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Numero do processo: 13116.720855/2014-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 2401-000.637
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Rayd Santana Ferreira. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 31 16 .7 20 85 5/ 20 14 -1 7 Fl. 496DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratam os presentes de Auto de Infração de fls. 3/9, acompanhado do Relatório Fiscal de fls. 12/25, relativo ao imposto sobre a renda de pessoa física do anocalendário 2010, por meio do qual foi apurado crédito tributário no montante de R$ 1.440.715,04, composto da seguinte forma: R$ 690.143,27 relativo ao Imposto; R$ 232.964,31 de Juros de mora (calculados até 06/2014); e R$ 517.607,46 de Multa Proporcional. Consta da Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fl. 5), que o lançamento é decorrente de ganhos de capital obtidos na alienação de bens e direitos (ações e quotas não negociadas em bolsa de valores), cujos fatos geradores ocorreram em 27/08/2010 e 15/10/2010. Consta do Relatório Fiscal (fls. 87/97): “13. Consoante dispõe o Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças, o Contribuinte alienou, no mês de agosto de 2010, parte de suas quotas do capital social da Pessoa Jurídica INDÚSTRIA FARMACÊUTICA MELCON DO BRASIL LTDA. 14. A referida alienação foi informada na Declaração de Ajuste Anual do anocalendário 2010 (folhas nos 29 a 44). Segundo a DIRPF (AC 2010), o imposto devido e pago na operação corresponde a R$ 199.959,39 (cento e noventa e nove mil, novecentos e cinquenta e nove reais e trinta e nove centavos). 15. O recolhimento no valor de R$ 199.975,00 foi encontrado no Sistema Informatizado da Secretaria da Receita Federal do Brasil (folha n° 46). 16. A seguir será analisada a correção do valor apurado diretamente pelo Fiscalizado. III.1.1 – Custo de Aquisição das Quotas 17. O Contribuinte adquiriu as quotas da INDÚSTRIA FARMACÊUTICA MELCON DO BRASIL LTDA da seguinte forma: I) de acordo com a 8ª alteração contratual datada de 0903 2010, registrada na JUCEG em 22062010 (folhas nos 120 a 137), o Sr. Wilson Constante adquiriu 5.000.000 quotas do capital social da Pessoa Jurídica, com valor nominal de R$ 1,00 cada uma, totalizando R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais). 18. Do que foi relatado no parágrafo anterior, depreendese que o custo unitário (e médio) das quotas pertencentes ao Fiscalizado antes da alienação é de R$ 1,00 (um real). Fl. 497DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 4 3 III.1.2 – Quantidade de Quotas Alienadas 19. De acordo com o Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças, o Contribuinte alienou, em 26 de agosto de 2010, 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentas mil) quotas do capital social da INDÚSTRIA FARMACÊUTICA MELCON DO BRASIL LTDA à ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A (CNPJ n° 60.659.463/000191). 20. Em diligência anterior realizada junto à ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A (MPFDiligência n° 0120100.2013.008393) foi obtida a cópia da Ata da Assembléia Geral Extraordinária da MELCON, realizada em 20 de dezembro de 2010 (folhas nos 160 a 167). No mencionado documento foi registrada a retificação do número de quotas alienadas pelo Contribuinte: 1.289.167 (um milhão, duzentas e oitenta e nove mil e cento e sessenta e sete) quotas, com valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma. 21. Importante salientar que a ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A adquiriu, no total, 3.867.501 (três milhões, oitocentas e sessenta e sete mil, quinhentas e uma) quotas da MELCON, com valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma. Ou seja, apenas um terço do total das quotas foram adquiridas do ora Fiscalizado. III.1.3 – Valor de Alienação 22. O instrumento contratual por meio do qual foi realizada a negociação da alienação / transferência de parte das quotas da INDÚSTRIA FARMACÊUTICA MELCON DO BRASIL LTDA à ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A foi lavrado em 26 de agosto de 2010 (folhas nos 168 a 213). 23. Do referido documento consta a forma de pagamento das quotas (folhas nos 171 e 172): 2.3 Forma de Pagamento do Preço de Compra. O Preço de Compra será pago pela Compradora aos Vendedores da seguinte forma: (i) o total de R$ 20.072.000,00 (vinte milhões e setenta e dois mil reais) será pago na presente data mediante transferência eletrônica disponível – TED, com recursos imediatamente disponíveis, para as contas correntes dos Vendedores indicadas no Anexo 2.3 (i), de acordo com os percentuais nele indicados; (ii) observadas as disposições da Cláusula 2. 4 abaixo, o valor remanescente de R$ 12.000.000,00 (doze milhões de reais) será pago mediante transferência eletrônica disponível – TED, com recursos imediatamente disponíveis, para as contas correntes dos Vendedores indicadas no Anexo 2.3 (i), de acordo com os percentuais nele indicados, quando da ocorrência dos seguintes eventos: (a) o valor de R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais) será pago no 15° dia útil após a data da publicação, no Diário Fl. 498DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 5 4 Oficial da União, do registro na ANVISA do último dos seguintes Produtos: Hora H, Hora H Uno e Melisse, ou seus genéricos, o que for publicado primeiro. Sendo considerado como prazo limite para publicação 2 (dois) anos da previsão de lançamento indicados na Cláusula 2.2. (b); (b) o valor de R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais), corrigido anualmente, a partir da data de assinatura do presente instrumento, pelo Índice de Reajuste de Preços de Medicamentos, será pago 15 (quinze) dias após a aferição do VPL do Fluxo de MC2 Realizado Deflacionado acumulado até o 18° (décimo oitavo) mês contados do lançamento de cada Produto, em uma ou mais parcelas conforme os respectivos lançamentos ocorrerem na mesma data ou em datas distintas, observadas as proposições aplicáveis a cada Produto (Anexo 2.3 (b) (i)), tendo por referência a “Parcela Variável 1” do “VPL do Fluxo de MC2 Base dos Produtos” (Anexo 2.3 (b(ii)). As aferições mencionadas neste item serão efetuadas mensalmente até o 15° dia após o fechamento do mês. (c) o valor de R$ 4.000.000,00 (quatro milhões de reais), corrigido anualmente, a partir da data de assinatura do presente instrumento, pelo Índice de Reajuste de Preços de Medicamentos, será pago 15 (quinze) dias após a aferição do VPL do Fluxo de MC2 Realizado Deflacionado acumulado até o 36° (trigésimo sexto) mês contados do lançamento de cada Produto, em uma ou mais parcelas conforme os lançamentos ocorrerem na mesma data ou em datas distintas, observadas as proposições aplicáveis a cada Produto (Anexo 2.3 (b) (i)), tendo por referência a “Parcela Variável 2” do VPL do Fluxo de MC2 Base dos Produtos (Anexo 2.3 (b) (ii)). As aferições mencionadas neste item serão efetuadas mensalmente até o 15° dia após o fechamento do mês. 24. Conforme visto acima, na resposta ao Termo de Início do Procedimento Fiscal, o Contribuinte apresentou cópia de extrato bancário do qual consta o recebimento do valor de alienação das quotas, no montante informado na DIRPF (folhas nos 43 e 256). 25. O valor de R$ 6.690.666,67 (seis milhões, seiscentos e noventa mil, seiscentos e sessenta e seis reais e sessenta e sete centavos), pago um dia após a celebração do contrato, equivale a em terço (são três vendedores) da primeira parcela do pagamento, correspondente a R$ 20.072.000,00 (vinte milhões e setenta e dois mil reais). 26. O pagamento do valor correspondente a R$ 6.690.666,67 (seis milhões, seiscentos e noventa mil, seiscentos e sessenta e seis reais e sessenta e sete centavos) também foi confirmado pela ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A, em resposta ao Termo de Diligência Fiscal n° 01, por meio da apresentação da cópia do documento de transferência bancária (folha n° 294). 27. Na mesma oportunidade, a respeito dos esclarecimentos requeridos acerca do pagamento realizado ao Fiscalizado, no mês de outubro de 2010, no valor de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, Fl. 499DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 6 5 seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), a Diligenciada informou o seguinte (folha n° 264): c) Conforme celebrado no “Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças”, firmado entre as empresas Aché e os sócios da empresa Melcon: Sérgio Paulo Carrijo Elias, Jairo de Melo e Wilson Constante, ficou estabelecido no item iv “Das Considerações”, que o capital social da Companhia seria reduzido com o intuito de ajustar o caixa para R$ 3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil reais), composto por R$ 1.750.000,00 (Um milhão, setecentos e cinquenta mil reais) por parte dos vendedores e R$ 1.750.000,00 (Um milhão, setecentos e cinquenta mil reais) por parte da Compradora, vez que a presente negociação, entre as partes, considerava saldo de caixa zero. Sendo assim, caberia aos Vendedores efetuarem a redução do capital social e para isso, seria necessário efetuar a baixa de aplicações bancárias, o que geraria uma perda de rentabilidade do montante aplicado. Diante do exposto, os sócios resolveram manter o valor total aplicado e acordaram que a Compradora faria o depósito dos R$1,750MM (Um milhão, setecentos e cinquenta mil reais), diretamente aos sócios fundadores. Ainda, quando do pagamento, foram efetuados alguns ajustes (relacionados a encontro de contas), reduzindo o valor de R$ 1.750.000,00 (Um milhão, setecentos e cinquenta mil reais) para R$ 1.597.866,36 (Um milhão, quinhentos e noventa e sete mil, oitocentos e sessenta e seis reais e trinta e seis centavos), o que justifica o depósito de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), para cada sócio vendedor das cotas. 28. A ACHÉ enviou cópia do comprovante de transferência bancária relativo ao valor de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), datado de 15 de outubro de 2010 (folha n° 325). 29. Depreendese da análise dos esclarecimentos prestados pela Diligenciada que: I) o preço de venda no valor de R$ 32.072.000,00 (trinta e dois milhões e setenta e dois mil reais = R$ 20.072.000,00 + 12.000.000,00) foi ajustado para saldo de caixa igual a zero; II) para que fossem obtidas as condições equivalentes às pactuadas no contrato de transferência das quotas, os sócios da MELCON deveriam reduzir o capital social da Pessoa Jurídica; III) mas a referida redução do capital social não foi realizada, pois, segundo informado, seria necessário resgatar aplicações financeiras, o que geraria perda de rentabilidade; Fl. 500DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 7 6 IV) consequentemente foi realizado um depósito adicional na conta de cada sócio, no valor de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), para compensar a “não redução” do capital social da MELCON; V) ou seja, o preço de venda correspondente a R$ 32.072.000,00 é relativo a um capital social menor do que aquele efetivamente transferido à ACHE e, para fins de ajuste, foi realizado um depósito adicional no valor total de 1.597.866,36 (um milhão, quinhentos e noventa e sete mil, oitocentos e sessenta e seis reais e trinta e seis centavos); VI) em outras palavras, o depósito realizado na conta corrente do Contribuinte, na data de 15102010, no valor de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), corresponde a complemento do preço de venda de suas respectivas quotas. 30. Ao encontro da conclusão apresentada acima, apresentase a escrituração do fato contábil pela ACHÉ LABORATÓRIOS FARMACÊUTICOS S/A, consoante informação obtida por meio do “download” da Escrituração Contábil Digital referente ao ano calendário 2010, apresentada pelo Pessoa Jurídica junto ao sítio SPED. A Empresa informou no histórico do lançamento contábil que o pagamento a WILSON CONSTANTE, em 15102010, no valor de R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos) se refere a integralização de capital: 31. Observase que o pagamento das outras parcelas do preço de venda das quotas (R$ 12.000.000,00 – doze milhões de reais) está submetido a uma condição suspensiva: o lançamento do(s) produto(s). 32. Os artigos nos 116 e 117 do Código Tributário Nacional dispõem sobre fatos geradores associados a tais circunstâncias: [...] 33. Assim, de acordo com o art. 117, inciso I, do CTN, quando da celebração do contrato, as parcelas do preço de venda submetidas à condição suspensiva não podem ser consideradas no cômputo do preço de alienação para efeito do cálculo do gando de capital. Significa dizer que o preço de alienação deve ser composto pelas parcelas não submetidas a tal condição. Posteriormente, à medida do recebimento (se ocorrer), as parcelas submetidas à condição suspensiva serão tributadas como ganho de capital, sem abatimento de custo de aquisição (todo utilizado anteriormente). 34. O preço de alienação das quotas (pertencentes ao Sr. Wilson Constante) relativas ao capital social da INDÚSTRIA Fl. 501DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 8 7 FARMACÊUTICA MELCON DO BRASIL LTDA corresponde à soma das seguintes parcelas: I) R$ 6.690.666,67 (seis milhões, seiscentos e noventa mil, seiscentos e sessenta e seis reais e sessenta e sete centavos), pagos em 27 de agosto de 2010; II) R$ 532.622,12 (quinhentos e trinta e dois mil, seiscentos e vinte e dois reais e doze centavos), pagos em 15 de outubro de 2010. [...] 40. Consoante o exposto nos itens III.1.1 a III.1.4 acima, é demonstrado abaixo o cálculo do imposto de renda sobre o ganho de capital: [...]" Por fim, a autoridade fiscal atribui a responsabilidade solidária a Senhora Mariamárcia Melo Constante (esposa do contribuinte), inscrita no CPF sob o n° 498.265.571 53, casados sob o regime da comunhão parcial de bens, com fundamento no artigo 124, I, do CTN, tendo em vista que o bem alienado foi adquirido após a contração de núpcias. Devidamente cientificado, o Interessado apresentou, tempestivamente, impugnação (fls.332/338), alegando, resumidamente, o que segue: (i) O Impugante e os seus dois sócios celebraram contrato de compra e venda de quotas (antes da sua transformação em sociedade por ações) com a empresa Aché Laboratórios Farmacêuticos, por meio do qual foi realizada a alienação de 50% das quotas do capital social da empresa Industria Farmacêutica Melcon do Brasil Ltda.; (ii) O Capital social subscrito e integralizado da empresa à época da alienação era de R$ 15.000.000,00 (quinze milhões), distribuídos igualmente entre os três sócios (33,33%) e o valor nominal da respectiva quota de R$ 1,00 (um real); (iii) Nos termos da avença, restou convencionado como preço da venda das 7.500.000 cotas o valor total de R$ 32.072.000,00 (trinta e dois milhões e setenta e dois mil reais), conforme descrito na cláusula 2.2 do contrato, definindo as condições de pagamento no item 2.3 e demais disposições nos itens 2.4 e 2.5; Fl. 502DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 9 8 (iv) Restou estipulado que o pagamento seria realizado da seguinte forma: R$ 20.072.000,00 pagos à vista, uma parcela intermediária de R$ 4.000.000,00 quando da entrada em comercialização dos produtos ali destacados pela aprovação junto a ANVISA, e o saldo remanescente, ou seja, R$ 8.000.000,00, baseado no cumprimento de metas de desempenho; (v) Informa que cada sócio recebeu o valor de R$ 6.690.066,67 em 27/08/2010, correspondente a 2,5 milhões de cotas de cada um vendidas; (vi) Dessa forma, defende que a base de cálculo do IR sobre o ganho de capital desta venda de 50% é o preço pago (R$ 6.690.066,67) pela Aché, subtraído o que cada sócio possuía de cotas (2,5 milhões) no momento da ocorrência do fato gerador. Isto é, da formalização do contrato e do pagamento do preço por parte do Aché, o que ocorreu no dia 27/08/2010; (vii) Sendo assim, assegura que o IR apurado na competência de setembro de 2010 (mês subsequente à venda) é de R$ 628.599,99 e não de R$ 890.118,27, como pretende o fisco federal; (viii) Destaca que a venda e o pagamento ocorreram em agosto de 2010. Explica que nesta data as cotas valiam R$ 5 milhões (50%, então, R$ 2,5 milhões). Contudo, segundo o defendente, erroneamente, ao elencar como valor das cotas negociadas R$ 1.289.167,00, o representante do fisco (aumentando assim a base de cálculo) entendeu que a redução de capital ocorrida em momento posterior retroagiu à data da venda, o que, para o autuado, não é o correto. Ou seja, a venda foi em agosto/10, ao passo que a redução do capital foi efetivada em dezembro/10; (ix) Sustenta que não pode o fiscal querer considerar que o capital social foi reduzido na data da venda, quando tal evento só teria ocorrido 3 meses depois, quando já realizada a venda e já ocorrido o fato gerador da tributação sobre o ganho de capital; (x) Nesse rumo, informa que, para comprovar suas alegações, anexou a ata realizada em 20/12/2010 que formalizou a cessão à Aché de R$ 3.867.501 de capital social do total de R$ 15 milhões existentes, sendo certo que cada um dos três sócios cedeu R$ 1.289.167; (xi) Prossegue, alegando que, consoante consta da ata de 22/12/2010, houve a redução de capital da empresa para R$ 9.485.001,00 e a Aché (quarta sócia) deveria, em consequência, repassar o total dessa redução ocorrida somente nas ações dos três sócios (total de R$ 5.514.999,00) para estes sócios (a título de retorno de capital), ou seja, R$ 1.838.330,00 per capita; (xii) Cita também a Ata de 02/12/2011, em que teria ficado deliberado o aumento de capital de R$ 9.485.001,00 para R$ 11.235.000,00 com a subscrição da Aché de R$ 1.750.000,00; (xiii) Assim, segundo o autuado, restou formatado o cenário atual do capital social: R$ 1.872.500,00 para cada sócio, somando R$ 5.617.500,00, e R$ 5.617.500,00 para a Aché (R$ 3.867.000,00 + R$ 1.750.000,00), totalizando R$ 11.235.000,00; (xiv) Com base nas considerações feitas, aduz que auditorfiscal entendeu que estas mesmas cotas teriam um custo de R$ 1.289.167,00, por considerar que no momento da Fl. 503DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 10 9 ocorrência do fato gerador já teria ocorrido a redução de capital que, na verdade, somente ocorreu em dezembro de 2010; (xv) Não bastasse isso, pondera o impugnante que o auditor cometeu outro erro no tocante à competência do recolhimento do tributo no caso da alienação das cotas; (xvi) Explica que a venda foi realizada em agosto de 2010, com pagamento à vista, logo, a seu ver, o imposto de renda sobre o ganho de capital deveria ser apurado no mês subsequente, ou seja, setembro de 2010; (xvii) Em outro plano, discorda também do entendimento por parte da fiscalização de que o valor de R$ 532.622,12 recebido em conta pelo impugnante em 15/10/2010, referese à parcela da venda, afirmando que tal importância não está prevista em contrato, nem como parcela com vencimento posterior; (xviii) Assim, assevera que tal parcela não integrou o valor da venda das cotas, razão por que não há que se falar em ganho de capital, visto que de alienação de patrimônio não se tratou; (xix) Por fim, requer a procedência da impugnação para determinar o cancelamento integral do Auto de Infração e o cancelamento da multa aplicada. Ademais, pleiteia a exclusão da responsável solidária, sob a justificativa de que não teve participação nenhuma nos presentes atos, bem como deles pouco sabe e participou. Assim, como deles não se beneficiou ou se prejudicou, de modo que o suposto beneficio exposto pela autoridade fiscal é completamente baseada em suposições e achismos, o que não estabelece ou justifica a solidariedade apontada. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis (SC) lavrou Decisão Administrativa textualizada no Acórdão nº 0736.896 da 6ª Turma da DRJ/FNS, às fls. 403/413, julgando improcedente a impugnação apresentada em face do lançamento, mantendo o crédito tributário exigido em sua integralidade. Recordese: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010 GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. PRIMAZIA DA REALIDADE. O custo de aquisição, para fins de apuração de ganho de capital, deve ser aferido com base real venda realizada, devendo prevalecer a realidade fática sobre a realidade formal. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CÔNJUGE BEM COMUM DO CASAL. CARACTERIZAÇÃO. O Cônjuge casado sob o regime de comunhão parcial de bens é considerado responsável solidário em relação ao débito de imposto de renda em nome do consorte decorrente da alienação de bem comum, Fl. 504DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 11 10 por estar presente o interesse comum na situação jurídica que constitui o fato gerador do tributo. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIAS DAS DRJ. As Delegacias de Julgamento não são competentes para apreciar arguições de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” O contribuinte foi cientificado da decisão de 1ª instância em 08/04/2015, conforme Aviso de recebimento (AR) de fl. 420. Inconformado com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, o Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 422/440), alegando o que segue: (i) É sabido que não existe legalidade alguma em autuação por presunção como ocorreu no presente caso. A jurisprudência administrativa e judicial não permitem presunção como forma de autuação. Cita jurisprudência a corroborar a sua tese e defende que não existe obrigação do contribuinte em fazer prova negativa, prova de que não sonegou, de que não incorreu em determinado fato gerador do tributo, cabendo ao Fisco provar o que alega. Assim, a simples alegação de presunção de certeza e liquidez não pode afastar a necessidade da Administração Pública de provar, mediante documentação hábil, o fato supostamente tido como infrator, não podendo, de forma alguma, permitir sob o véu de tal presunção, a arbitrariedade de seus atos; (ii) Da verdade fática e documental Em 26/08/2010, o primeiro Recorrente e os seus dois sócios celebraram contrato de compra e venda de quotas (antes da sua transformação em sociedade por ações) com a empresa Aché Laboratórios Farmacêuticos, por meio do qual foi realizada a alienação de 50% das quotas do capital social da empresa Industria Farmacêutica Melcon do Brasil Ltda., à Aché, pelo preço ajustado de R$ 32.072.000,00, sendo R$ 20.072.000,00 pagos à vista e o restante sob resultados operacionais a serem apurados nos anos seguintes. O Capital social subscrito e integralizado da empresa à época da alienação era de R$ 15.000.000,00 (quinze milhões), distribuídos igualmente entre os três sócios (33,33%) e o valor nominal da respectiva quota de R$ 1,00 (um real). Cada sócio recebeu o valor de R$ 6.690.066,67 em 27/08/2010, correspondente a 2,5 milhões de cotas de cada um vendidas. Dessa forma, defende que a base de cálculo do IR sobre o ganho de capital desta venda de 50% é o preço pago (R$ 6.690.066,67) pela Aché, subtraído o que cada sócio possuía de cotas (2,5 milhões) no momento da ocorrência do fato gerador. Isto é, da formalização do contrato e do pagamento do preço por parte do Aché, o que ocorreu no dia 27/08/2010. Fl. 505DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 12 11 Sendo assim, assegura que o IR apurado na competência de setembro de 2010 (mês subsequente à venda) é de R$ 628.599,99 e não de R$ 890.118,27, como pretende o fisco federal. Narra que a prova do capital social à época, para fins de certificação dos valores, é, além do contrato já anexado na defesa, a demonstração da mutação de patrimônio líquido e sua publicação no Diário Oficial de 29/04/2013, documento que ora se junta; À par de elucidar todos os pontos controversos, anexa o “Acordo de Acionistas – Anexo 3.1 (V) do “Contrato de Compra e Venda de Quotas”, que trata dos seguintes pontos: (i) Alteração Contratual; (v) Assinatura do Acordo de Acionistas da Sociedade; 3.11. Registro de Alteração Contratual. Destaca que à folha 03 do documento referido acima, consta expressamente que: “O capital social da Companhia, totalmente subscrito e integralizado nesta data é de R$ 15.000.000,00, dividido em 15.000.000 de ações, todas nominativas e sem valor nominal, assim distribuídas entre os acionistas: Aché 7.500.000 de ações, equivalentes a 50% do capital social da Companhia, Sérgio detém 2.500.000 ações, equivalente a 16,66% do capital social da Companhia ... sendo certo que o capital social poderá ser reduzido para ajustar o saldo de caixa da companhia, que deverá ser de R$ 3.500.000,00, sendo R$ 1.750.000,00 por parte dos acionistas fundadores e R$ 1.750.000,00 por parte do Aché, vez que a negociação efetivada considera saldo de caixa zero. Esclarece que no próprio contrato de compra e venda (anexo 3.1) ficou prevista a possibilidade da redução de capital, diferente do que entendeu a decisão recorrida. Para melhor elucidar a questão, destaca que, em atendimento ao item dos “Considerandos” do Acordo de Acionistas (Anexo 3.1 do Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças), foi promovida, em 31/08/2010, a transferência de R$ 2.000.000,00, sendo um terço desse valor para cada sócio vendedor (Recorrente), originada da baixa de aplicações financeiras da Companhia no Banco do Brasil (doc. 03), como efetivação de parte da redução do capital social, prevista no acordo de acionistas. Afirma que ocorreu uma manutenção das aplicações financeiras, conforme demonstra o Razão de agosto/10 (doc. 04), no valor aproximado de R$ 3.208.000,00, visando tão somente que se evitasse de “baixar” esses valores aplicados há mais de dois anos, o que poderia gerar prejuízos tributários por conta dos impostos sobre rendimentos em aplicações financeiras, e assim atender o acordo relativo ao valor do caixa inicial da empresa, à partir do início da nova sociedade, de R$ 3.500.000,00, após o caixa zero. Argumenta que a parte que cabia ao Aché, no valor de R$ 1.750.000, correspondente a 50% de sua participação no valor acordado, foi depositada diretamente na conta dos sócios vendedores, em 15/10/2010, conforme documentos 05 e 06 anexados ao recurso, resultando em valores depositados de R$ 532.622,12 para cada. Ainda, o valor de R$ 152.133,70, referese tão somente a ajustes de responsabilidade societárias relativos a eventos anteriores à aquisição, para atender a decisão conjunta da nova sociedade de não mexer nas aplicações financeiras, cujos valores muito se aproximavam do valor total do caixa inicial de R$ 3.500.000,00 – o restante se completaria com os saldos em conta corrente da Companhia existentes à época. Fl. 506DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 13 12 Ato contínuo, diz que na Ata de 20/12/2010 ocorreu a aprovação de ajustes para promover a equalização dos capitais, de acordo com as participações de cada sócio, a partir da redução do capital social de R$ 15.000.000,00 da data da referida aquisição, para 11.235.000,00, como pode ser comprovado pelas Demonstrações Financeiras – Balanços Patrimoniais, publicados no D.O.U., referentes aos exercícios findados em 31/12/2010 e 31/12/2011. Informa que o objetivo dos ajustes foi promover a redução do capital em R$ 3.765.000,00, conforme demonstrado no balanço patrimonial de 31/12/2010, como “Adiantamento aos sócios”, sendo um terço para cada sócio vendedor. Assim, de acordo com o alega, o novo quadro de capital deveria ficar, mantendo a igualdade de participações (50% para cada parte), da seguinte forma: Assevera que após a redução do capital de R$ 3.765.000,00, ocorrida através da transferência para os sócios vendedores em 31/08/2010 pela empresa de R$ 2.000.000,00 e de depósitos efetuados pela Aché aos sócios vendedores em 15/10/2010 de R$ 532.622,12, correspondendo aos R$ 1.750.000,00, relativos à sua obrigação de 50% no caixa inicial da sociedade. Assim, como a Aché precisava formalizar sua parte relativa aos 50% na formação do caixa inicial de R$ 3.500.000,00, restou decidido entre as partes que a Aché faria uma subscrição de R$ 1.750.000 de ações, no valor de R$ 1.750.000,00, da seguinte forma: A Melcon depositaria a importância de R$ 1.750.000,00 (doc 06) na conta corrente dos três sócios vendedores, sendo R$ 583.333,33 para cada, e estes, por sua vez, transfeririam a referida quantia para a Aché, que, ao final, depositaria na conta corrente da Melcon, caracterizando e oficializando a subscrição. Para registrar e oficializar tudo o quanto foi dito acima, foi elaborada a Ata de 21/12/2010 com um quadro de capitais onde os três sócios vendedores (fundadores) “receberiam” uma quantidade de ações que, multiplicada por três e deduzidas do capital social de R$ 15.000.000,00, registrado quando da aquisição de R$ 50% da empresa pelo Aché em 26/08/2010, encontrarseia um número saldo de ações que, somado à subscrição de R$ 1.750.000,00 a ser efetuada pelo Aché posteriormente, para a regularização da formalização da sua obrigação de R$ 50% na formação do caixa inicial de R$ 3.500.000,00, levaria à sua Fl. 507DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 14 13 participação no novo capital social, já reduzido para R$ 11.235.000,00, a 5.617.500 ações, ou R$ 5.617.500,00, isto é, 50% do mesmo. Contudo, informa que para continuidade e formalização dos atos que regularizariam e fixariam, em definitivo, as participações corretas, como assim foi feito, de acordo com o percentual de participação de cada acionista na sociedade, viuse a necessidade de promover uma redução do capital superior a R$ 3.765.000,00, ou seja, de R$ 5.515.000 – unicamente por parte dos sócios vendedores, para quando o Aché integralizasse, através da referida subscrição, o valor de R$ 1.750.000,00, este ato traria a igualdade entre as partes (50% para a Aché e 50% aos três sócios vendedores). Com isso, foram então decididos os atos constantes da Ata 22/12/2010, onde o novo quadro de capitais ficaria com a seguinte distribuição de ações: Destaca, ainda, a Ata de 02/12/2011, cujo objetivo era formalizar em definitivo a participação de 50% no caixa inicial de R$ 3.750.000,00, e de oficializar o capital social reduzido em 2010, em termos reais e categóricos (sem prejuízo e sem maiores riscos jurídicos e fiscais às duas partes), conforme a movimentação financeira ocorrida naquele ano de 2010, de forma inadequada do ponto de vista formal, a respeito dos atos tomados quando da criação do Acordo de Acionistas, foram aprovados outros atos que tornariam, como o fez, o Capital Social para R$ 11.235.000,00 e todas as suas responsabilidades conseqüentes, inclusive com algumas alterações do Estatudo Social. Com essas considerações entende que resta comprovado que: 1º O valor das cotas/ações quando da venda de 50% da Melcon ao Aché era de R$ 5.000.000,00 para cada sócio, tendo então sido alienadas R$ 2.500.000,00, ou seja, a metade, e, portanto, o valor base para cálculo do ganho de capital; 2º A redução do capital ocorreu após a entrada do comprador e, por consequência, reduziu o valor da participação remanescente de cada acionista vendedor, de R$ 2.500.000,00 (saldo após a venda de 50%) para R$ 1.872.500,00 e de R$ 7.500.000,00 (correspondente a 50% das cotas/ações adquiridas pelo comprador quando das assinaturas do Contrato de Compra e Venda) para R$ 5.617.500,00. Alega que a venda ocorreu em agosto de 2010, e a redução do capital social somente em dezembro/2010, ou seja, no momento da ocorrência do fato gerador as cotas valiam R$ 2.500.000,00 Fl. 508DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 15 14 Em outro plano, discorda também do entendimento por parte da fiscalização de que o valor de R$ 532.622,12 recebido em conta pelo impugnante em 15/10/2010, referese à parcela da venda, afirmando que tal importância não está prevista em contrato, nem como parcela com vencimento posterior. Assim, assevera que tal parcela não integrou o valor da venda das cotas, razão por que não há que se falar em ganho de capital, visto que de alienação de patrimônio não se tratou. (iii) Requer a exclusão da responsável solidária ao fundamento de que esta não teve participação nenhuma nos presentes atos. (iv) Requer a exclusão da multa de ofício aplicada, ou, alternativamente, a sua redução Ao final requer o provimento do Recurso Voluntário para julgar improcedente a ação fiscal. Juntamente com o Recurso Voluntário, o Recorrente juntou os documentos de fls. 441/490. É o relatório. Fl. 509DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 16 15 Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1.1. DA TEMPESTIVIDADE O Recorrente foi cientificado da r. decisão em debate no dia 08/04/2015 conforme Aviso de Recebimento (AR) à fl. 420, e o Recurso Voluntário foi interposto, TEMPESTIVAMENTE, no dia 17/04/2015, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DA NECESSIDADE DE DILIGÊNCIA Conforme relatado, juntamente com o Recurso Voluntário, o Recorrente juntou os documentos de fls. 441/490, que servem de embasamento às suas teses de defesa, com as quais busca a improcedência do lançamento fiscal objeto de discussão nos presentes autos. Via de regra, a prova documental deve ser apresentada em sede de impugnação, sob pena de preclusão. No entanto, em razão do Princípio da Verdade Material, devese analisar os documentos apresentados pelo Contribuinte após a impugnação, uma vez que tal documentação visa reforçar seu direito em face da argumentação apresentada pelo julgador a quo. Em seu recurso, o Recorrente defende a redução do capital social para ajustar o saldo de caixa da Companhia, que deverá ser de R$ 3.500.000,00, sendo R$ 1.750.000,00 por parte dos acionistas fundadores e R$ 1.750.000,00 por parte do Aché, vez que a negociação efetivada considera saldo de caixa zero. Narra que a prova do capital social à época, para fins de certificação dos valores, é, além do contrato já anexado na defesa, a demonstração da mutação de patrimônio líquido (fl.441) e sua publicação no Diário Oficial de 29/04/2013 (fl. 442). Com o objetivo de elucidar os pontos controvertidos, junta o “Acordo de Acionistas” (fls. 453/476) que trata dos seguintes pontos: “(i) Alteração Contratual; (v) Assinatura do Acordo de Acionistas da Sociedade; 3.11. Registro de Alteração Contratual”. Com efeito, verificase do documento referido acima, que consta expressamente o seguinte: “III. O capital social da Companhia, totalmente subscrito e integralizado nesta data é de R$ 15.000.000,00, dividido em 15.000.000 de ações, todas nominativas e sem valor nominal, assim distribuídas entre os acionistas: (i) Aché 7.500.000 de ações, equivalentes a 50% do capital social da Companhia; (ii) Sérgio detém 2.500.000 ações, equivalente a 16,66% do capital social da Companhia; (iii) Jairo detém 2.500.000 ações, equivalente a 16,66% do capital social da Companhia; e (iv) Wilson detém 2.500.000 ações, Fl. 510DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 17 16 equivalente a 16,66% do capital social da Companhia, sendo certo que o capital social poderá ser reduzido para ajustar o saldo de caixa da companhia, que deverá ser de R$ 3.500.000,00, sendo R$ 1.750.000,00 por parte dos Acionistas Fundadores e R$ 1.750.000,00 por parte do Aché, vez que a negociação efetivada considera saldo de caixa zero; Em razão disso, sustenta que em atendimento ao item transcrito acima, foi promovida, em 31/08/2010, a transferência de R$ 2.000.000,00, sendo um terço desse valor para cada sócio vendedor, incluindo o Recorrente, originada da baixa de aplicações financeiras da Companhia no Banco do Brasil (fl. 483/486), como efetivação de parte da redução do capital social, prevista no acordo de acionistas. Sendo assim, alega que ocorreu uma “manutenção das aplicações financeiras”, conforme demonstra o Razão de agosto de 2010, no valor aproximado de R$ 3.208.000,00, “visando tão somente que se evitasse de ‘baixar’ esses valores aplicados há mais de dois anos, o que poderia gerar prejuízos tributários por conta dos impostos sobre rendimentos em aplicações financeiras, e assim atender o acordo relativo ao valor do caixa inicial da empresa, à partir do início da nova sociedade, de R$ 3.500.000,00, após o caixa zero”. Ademais, argumenta que “a parte que cabia ao Aché, no valor de R$ 1.750.000, correspondente a 50% de sua participação no valor acordado, foi depositada diretamente na conta dos sócios vendedores em 15/10/2010 (docs. 05 e 06 – consulta extratos bancários), resultando em valores depositados de R$ 532.622,12 para cada. Ainda, o valor de R$ 152.133,70, referese tão somente a ajustes de responsabilidade societárias relativos a eventos anteriores à aquisição, para atender a decisão conjunta da nova sociedade de não mexer nas aplicações financeiras, cujos valores muito se aproximavam do valor total do caixa inicial de R$ 3.500.000,00 – o restante se completaria com os saldos em conta corrente da Companhia existentes à época”. Ato contínuo, diz que na Ata de 20/12/2010 ocorreu a aprovação de ajustes para promover a equalização dos capitais, de acordo com as participações de cada sócio, a partir da redução do capital social de R$ 15.000.000,00 da data da referida aquisição, para 11.235.000,00, como pode ser comprovado pelas Demonstrações Financeiras – Balanços Patrimoniais, publicados no D.O.U., referentes aos exercícios findados em 31/12/2010 e 31/12/2011 (fl. 442). Informa que o objetivo dos ajustes foi promover a redução do capital em R$ 3.765.000,00, conforme demonstrado no balanço patrimonial de 31/12/2010, como “Adiantamento aos sócios”, sendo um terço para cada sócio vendedor. Ocorre, todavia, que a Fiscalização não tomou conhecimento da referida documentação. Após a atenta leitura às razões recursais do contribuinte, em cotejo com a documentação apresentada (fls. 441/490), considero imprescindível ao deslinde da controvérsia, que os autos sejam baixados em diligência para que a unidade de origem, cotejando a documentação da Mutação do Patrimônio Líquido (fl. 441) com o Diário Oficial (fl.442) e as Demonstrações Financeiras (fls. 481/490) se manifeste de forma conclusiva em relação aos documentos citados, informando: (i) se é possível identificar a alegada Redução do Capital Social da empresa Industria Farmacêutica Melcon, para ajustar o Saldo de Caixa da Companhia, nos termos do “Acordo de Acionistas” (fls. 453/476); e (ii) se as transações Fl. 511DF CARF MF Processo nº 13116.720855/201417 Resolução nº 2401000.637 S2C4T1 Fl. 18 17 bancárias realizadas (fls. 481/490) foram utilizadas com essa finalidade (Redução do Capital Social), dandose ciência ao contribuinte, após retornem os presentes autos conclusos para julgamento. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, CONVERTO O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, nos termos do relatório e voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 512DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13708.002157/2008-10
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2007
DESPESAS MÉDICAS E COM INSTRUÇÃO. DEDUÇÃO.
A dedução das despesas realizadas é condicionada a que os pagamentos sejam devidamente comprovados, com documentação hábil e idônea que atenda aos requisitos legais.
ARGUMENTOS DESPROVIDOS DE PROVAS.
O art. 15 do Decreto 70.235/72, que rege o processo administrativo fiscal federal, dispõe que a impugnação deve estar instruída com os documentos em que se fundamentar.
Numero da decisão: 2001-000.168
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernanda Melo Leal - Relatora.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: FERNANDA MELO LEAL
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2007 DESPESAS MÉDICAS E COM INSTRUÇÃO. DEDUÇÃO. A dedução das despesas realizadas é condicionada a que os pagamentos sejam devidamente comprovados, com documentação hábil e idônea que atenda aos requisitos legais. ARGUMENTOS DESPROVIDOS DE PROVAS. O art. 15 do Decreto 70.235/72, que rege o processo administrativo fiscal federal, dispõe que a impugnação deve estar instruída com os documentos em que se fundamentar.
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DEDUÇÃO. A dedução das despesas realizadas é condicionada a que os pagamentos sejam devidamente comprovados, com documentação hábil e idônea que atenda aos requisitos legais. ARGUMENTOS DESPROVIDOS DE PROVAS. O art. 15 do Decreto 70.235/72, que rege o processo administrativo fiscal federal, dispõe que a impugnação deve estar instruída com os documentos em que se fundamentar. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 70 8. 00 21 57 /2 00 8- 10 Fl. 40DF CARF MF 2 Relatório Contra o contribuinte acima identificado foi emitida Notificação de Lançamento, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2007, anocalendário de 2006, por meio do qual foram glosadas despesas médicas no valor total de R$ 34.389,28,00 , por falta de comprovação de pagamento bem como dedução indevida com despesas com instrução no valor total R$ 2.373,84 devido a falta de comprovação, gerando um crédito tributário de imposto de renda suplementar de R$18.883,19. O interessado foi cientificado da notificação e apresentou impugnação, alegando, em síntese, que teria protocolado junto à DERAT/RIOCAC MEIER, em resposta à intimação, justificativa com documentação pertinente, dentro do prazo determinado de cinco dias úteis. Contudo, verificou que tal procedimento teria sido em vão já que não foram consideradas as justificativas e os documentos apresentados, tendo em vista a notificação de lançamento, sem maiores informações. Pelos fatos expostos, sentindose prejudicado, requer a análise dos fatos. A DRJ Rio de Janeiro I, na análise da peça impugnatória, manifestou seu entendimento no sentido de o contribuinte não logrou êxito em comprovar suas alegações, tampouco juntou qualquer prova para fundamentar seus argumentos. Em sede de Recurso Voluntário, alega o contribuinte apenas que seja considerada como tempestiva a impugnação e analisados os argumentos nela expostos. Não traz mais nenhum argumento adicional. É o relatório. Voto Conselheira Fernanda Melo Leal Relatora. O entendimento desta julgadora segue a mesma linha daquela apresentada pela DRJ Rio de Janeiro I. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72. Assim, dele tomo conhecimento. Alega o Contribuinte em sede recursal, que, em resposta ao Termo de Intimação Fiscal, protocolou, dentro do prazo de cinco dias úteis, justificativa acompanhada de documentação pertinente às despesas realizadas. Apesar de alegar que apresentou os documentos solicitados, não acostou aos autos qualquer documento que comprovasse sua alegação. De acordo com o art. 15 do Decreto 70.235/72, a impugnação deverá estar instruída com os documentos que embasem sua fundamentação. Vejamos: Fl. 41DF CARF MF Processo nº 13708.002157/200810 Acórdão n.º 2001000.168 S2C0T1 Fl. 3 3 “Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência.” Como bem registrou a DRJ Rio de Janeiro I, as glosas das despesas com instrução, de Previdência Privada e Médicas foram apuradas devido à falta de comprovação por parte do Contribuinte. Também não foram apresentados pelo Contribuinte em sua impugnação quaisquer documentos comprobatórios referentes às despesas glosadas. Estabelece o Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR – Regulamento do Imposto de Renda) no “caput” de seu art. 73, como segue. Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). Neste diapasão, o sujeito passivo está obrigado a comprovar, de forma inequívoca e mediante documentação hábil e idônea, a realização de todas as deduções informadas em sua Declaração de Ajuste Anual, conforme preceitua a legislação aplicável. Dessa forma, tendo em vista que o Contribuinte não comprovou a realização das despesas discriminadas na Declaração de Ajuste Anual, bem como a ausência de apresentação de documentos comprobatórios, entendo também por manter as glosas efetuadas. Por tudo o quanto exposto, voto pela IMPROCEDÊNCIA do recurso voluntário, mantendose o crédito tributário apurado. CONCLUSÃO: Diante tudo o quanto exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal. Fl. 42DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.908436/2011-06
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES.
De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindo-se, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar.
Numero da decisão: 1401-002.266
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES. De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindo-se, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
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ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES Recorrente LAB HORMON LABORATÓRIO ESPECIALIZADO EM DOSAGENS HORMONAIS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. ALÍQUOTA DE PRESUNÇÃO. EQUIPARAÇÃO A SERVIÇOS HOSPITALARES. De acordo com a definição dada pelo STJ por meio do Recurso Repetitivo nº 217, são enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde, independentemente do local de prestação, excluindose, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 90 84 36 /2 01 1- 06 Fl. 77DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DRJ/BSB), que, por meio do Acórdão 03054.242, de 22 de agosto de 2013, julgou improcedente a manifestação de inconformidade da empresa. Reproduzo, por oportuno, o teor do relatório constante no acórdão da DRJ: (início da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) Trata o presente processo de despacho decisório eletrônico (fl. 15), no qual a compensação realizada no Per/Dcomp nº 14397.98340.310107.1.3.046471, pela empresa acima identificada, não foi homologada por inexistência do crédito compensado, haja vista o pagamento relativo ao DARF ali discriminado, foi integralmente utilizado para quitar débito do IRPJ, PA 30/06/2001, não restando saldo disponível. A contribuinte tomou ciência do despacho decisório em 17/09/2010 (AR fl. 18). Inconformada, por intermédio de seu procurador (Francisco Ferreira Neto), apresentou manifestação de inconformidade (fls. 21 a 27) em 19/10/2010, na qual transcreve os fatos, dispositivos da legislação tributária e escorandose em jurisprudenciais e manifestações doutrinárias, em síntese, argumenta o seguinte: vinha apurando normalmente o IRPJ e a CSLL com base no lucro presumido aplicando 32% sobre a receita bruta para as prestadoras de serviços em geral. Com a nova redação dada pela Lei n° 10.684/2003, alterou a alíquota de 12% para 32%, exceto para "serviços hospitalares", para a apuração da CSLL; após a edição da IN SRF n° 539/2005 e da resposta a Solução de Consulta (anexa), verificouse que havia pago a maior os tributos de Código 2089 e 2372, nos períodos de 30/10/2000 a 28/07/2005. Em 19/01/2006, formulou vários pedidos de restituição, um para cada pagamento indevido ou a maior. Se valendo da faculdade do contribuinte, ao invés de aguardar o depósito em conta bancária do valor a restituir optou pela compensação; a forma da apuração do IRPJ e da CSLL, nos períodos de 2000 em diante, foram externadas nas DCTF relativas à época, no entanto, como a IN/SRF e a Solução de consulta só foram dadas em 2005/2006, mas de conteúdo interpretativo e retroativo, as DCTF não mais condizem com a verdade dos fatos; com a edição da IN/SRF n° 539 de 25/04/2009, que deu nova redação ao artigo 27, da IN/SRF n° 480/2004, a interessada foi equiparada a "serviços hospitalares". Assim, começou a apurar o seu IRPJ e a CSLL pela alíquota de 8% e de 12%, respectivamente; os impostos e as contribuições já pagas foram recalculadas e se verificou pagamentos maior os tributos devidos. Assim, providenciou o Pedido de Restituição por meio do programa Per/DComp, devidamente informado em suas Declarações de compensação; uma vez que a IN/SRF n° 539/2005 atribuiu nova interpretação a lei em vigor, o entendimento deve retroagir no espaço e surtir os efeitos desde a vigência da lei em questão; uma vez que já havia pago os respectivos DARF e lançado em DCTF o valor recolhido, bem como o valor apurado, segunda a legislação na época, o sistema da Receita Federal do Brasil não foi capaz de identificar o pagamento a maior; Fl. 78DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 4 3 para se verificar o pagamento a maior, a fiscalização deverá examinar a aplicação das novas alíquotas nas bases de cálculos já conhecidas pela RFB, onde se constatará que cada pedido de restituição realizado corresponde a um DARF pago à maior. Por ultrapassar o qüinqüênio, está impedida de prestar estas informações através de retificadora de DCTF; não bastasse toda a legislação que dá amparo legal para que procedesse a compensação com estes novos créditos apurados, resta ainda trazer à baila o Comunicado SEORT n° 831/2006, que dá ciência da SOLUÇÃO DE CONSULTA, elaborado especialmente pela interessada (anexo), no Processo Administrativo n° 10805.000720/200403; a resposta ofertada à consulta contém uma interpretação autorizada que garante a segurança jurídica da consultante. A própria solução apresentada orienta o contribuinte a proceder com o novo enquadramento e reconhece o pagamento a maior efetuado ao longo do tempo; o Ato de NãoHomologação deve ser anulado e a fiscalização deve oportunizar a interessada em prestar esclarecimentos quanto ao montante apurado, com os devidos documentos fiscais que podem ser livremente exigidos por intimação; a 1N/SRF nº 791, de 10/12/2007, revogou a redação dada pela IN/SRF nº 539/2005, do artigo 20, da IN/SRF nº 480/2004. Ocorre que a nova interpretação só surtirá efeito após 10.12.2007, enquanto os pedidos de restituição foram realizados antes da nova interpretação e na vigência da resposta a consulta; outro não é o entendimento do Conselho de Contribuintes que conclui assim, certo de ter demonstrado que mesmo diante de uma infinidade de normas tributárias que cercam a interessada, esta não procurou obter vantagem indevida ou se aproveitar do instituto da restituição e da compensação para se livrar de suas obrigações tributárias. Pelo contrário, formulou o pedido de consulta e só depois da orientação dada pela autoridade competente é que procedeu aos pedidos eletrônicos de restituição e as declarações de compensação. Por fim, requer seja conhecida e julgada procedente esta interposição, anulando a decisão administrativa que nãohomologou as compensações realizadas, restaurar e manter os efeitos da extinção do crédito tributário compensado. (término da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) A DRJ, por meio do Acórdão 03054.242, de 22 de agosto de 2013, julgou improcedente a manifestação de inconformidade da empresa, conforme a seguinte ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2002 PRESTADOR DE SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE LUCRO PRESUMIDO. REQUISITOS. Para serem considerados serviços hospitalares, as atividades dos contribuintes que desejem usufruir do benefício legal de redução de alíquota, em face da legislação tributária de regência e orientação traçada pela Administração tributária, devem atender cumulativamente todas às exigências e/ou requisitos previstos nos normativos, devidamente comprovada mediante documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 79DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 5 4 Cientificada da decisão da DRJ na data de 03/12/2013 via ARECF de efls. 60 e não satisfeita com a decisão da delegacia de piso, apresentou recurso voluntário em 04/12/2013 (efls. 62 a 71), conforme protocolo de efl. 62, repetindo basicamente os argumentos apresentados na impugnação, mas precipuamente atacando a decisão da DRJ nos seguintes pontos: É ausente, no v. acórdão, qualquer menção, ainda que de passagem, de que a recorrente não teria direito à aplicação dos coeficientes de 8% e 12%, respectivamente para a determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, por não atender aos requisitos exteriorizados. E nesse ponto, peca a decisão, que deixou de analisar concretamente o caso para apenas expor a legislação tributária de caráter geral. Noutras palavras, para exemplificar, é como negar um pedido à uma empresa sob o fundamento de que somente indústria pode formular tal pedido, sem se perguntar se a empresa é, ou não, indústria. Outrossim, a recorrente reproduz a ementa da DRJ, que indica que o fundamento para indeferir o direito creditório pautase na falta de apresentação de documento expedido pela vigilância sanitária estadual e municipal. E conclui com o seguinte: Nobres Julgadores, o direito creditório deve ser reconhecido exatamente pelos mesmos fundamentos que o negaram, e para comprovar, segundo restou consignado na decisão hostilizada, que o fato se subsume à norma, faz juntar os documentos expedidos pelos órgãos de vigilância sanitária, responsáveis pela fiscalização e controle de cada um dos estabelecimentos da recorrente. Assim, não havendo divergência quanto ao direito invocado e aplicado, a questão se resume à matéria de fato, cuja prova conduz à reforma da decisão combatida. No CARF, coube a mim a relatoria do processo. É o Relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.246, de 22.02.2018, proferido no julgamento do Processo nº 10805.902133/201091. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.246): O recurso preenche os requisitos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. No presente processo, devese avaliar se a atividade exercida pela empresa se enquadra no conceito de atividades hospitalares, para que possa tributar o IRPJ e a CSLL se servindo da base de presunção de tais atividades. Fl. 80DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 6 5 Para tanto, convém reproduzir a legislação vigente à época dos fatos geradores apurados, incluídas suas alterações posteriores, aplicada às empresas que exercem atividades hospitalares (Lei nº 9.249/1995): IRPJ Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 (Vide Lei nº 11.119, de 205) Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: ................... III trinta e dois por cento, para as atividades de: (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) ......... CSLL Art. 20. A partir de 1º de janeiro de 1996, a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do ano calendário. Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas Fl. 81DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 7 6 jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada pela Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 205) Base de cálculo da CSLL Estimativa e Presumido Art. 20. A base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral a que se referem os arts. 2º, 25 e 27 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014 (Vigência) Como se pode ver, a redação contemporânea à realização dos fatos geradores permitia que os serviços hospitalares poderiam se enquadrar nas alíquotas de presunção de 8% (oito por cento) e 12% (doze por cento) para o IRPJ e CSLL, respectivamente. É de se notar, também, que não havia nenhuma outra condição para tal enquadramento. Em resposta à consulta formulada por meio do processo administrativo nº 10805.000720/200403, a Receita Federal estabeleceu as seguintes condições para que a empresa pudesse se enquadrar nas atividades de serviços hospitalares. Veja as conclusões da Solução de Consulta SRRF/8ª RF/DISIT/Nº 273, de 15 de agosto de 2006 (efls. 46 a 53): (início do trecho da conclusão da Solução de Consulta) 19. Diante do exposto e com base nos atos legais citados, solucionase presente consulta informando à consulente o seguinte: 19.1. à prestação de serviços hospitalares aplicamse os percentuais de 8% e 12% sobre a receita bruta para fins de determinação das bases de calculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sabre o Lucre Liquido, respectivamente; 19.2. serviços hospitalares são aqueles prestados por empresário ou sociedade empresaria que exerça uma ou mais das atribuições elencadas pelo art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, na redação dada pela IN SRF nº 539, de 2005, tratadas pela RDC nº 50, de 2002, e que possua estrutura física condizente com o disposto no Item 3 da Parte II da retrocitada resolução, devidamente comprovada por meio de documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal; (destaquei) 19.3. não se consideram serviços hospitalares aqueles prestados exclusivamente pelos sócios da pessoa jurídica ou referentes unicamente ao exercício de atividade intelectual, de natureza cientifica, dos profissionais envolvidos, ainda que envolvam o Fl. 82DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 8 7 concurso de auxiliares ou colaboradores, e, também, quando a pessoa jurídica, prestadora do serviço, não possuir estrutura física condizente para desempenhar suas atividades. Neste caso, para a tributação com base no lucro presumido aplicarseá o percentual de 32% (trinta e dois por cento) para a determinação das bases de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido. (destaquei) (término do trecho da conclusão da Solução de Consulta) Como visto, para que a empresa pudesse ter o direito ao enquadramento nas alíquotas de 8% (oito por cento) e 12% (doze por cento), além de exercer uma ou mais das atribuições elencadas pelo art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, na redação dada pela IN SRF nº 539, de 2005, tratadas pela Resolução RDC nº 50, de 2002, entendeu a Receita Federal que também deveria possuir estrutura física condizente com o disposto no Item 3 da Parte II da retrocitada resolução, devidamente comprovada por licença sanitária estadual ou municipal. Independentemente das atividades exercidas pela recorrente, vejo que a licença sanitária municipal mais remota apresentada licença nº 0208/2003 remete aos idos de 2003 (10/06/2003), período posterior ao crédito aqui solicitado. Desta forma, se fosse seguir o que dispõe a solução de consulta, não haveria como atestar que, no período objeto dos créditos solicitados, a recorrente se enquadrava nas condições estabelecidas pela Receita Federal. Não obstante o entendimento exarado pela Receita Federal, todavia, não posso compartilhar com tal decisão. O STJ, por meio da resolução constante no Recurso Repetitivo nº 217, entendeu que a atividade hospitalar caracterizase tão somente pela prestação de serviços de atendimento à saúde, e independe do local de prestação, excluindose desta regra, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar, veja: Para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão 'serviços hospitalares', constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), devendo ser considerados serviços hospitalares 'aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde', de sorte que, 'em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos'. 1 Dentre forma, os serviços de diagnóstico, tratamento, internação, desenvolvidos nos hospitais ou (inclusive) fora deles, enquadramse como serviços hospitalares nos termos do art. 15, III, "a" e art. 20, ambos da Lei nº 9.249/1995. 1 extraído do seguinte endereço eletrônico: http://www.stj.jus.br/repetitivos/temas_repetitivos/pesquisa.jsp Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10805.908436/201106 Acórdão n.º 1401002.266 S1C4T1 Fl. 9 8 Como a alegação da Receita Federal e da DRJ para o indeferimento do crédito pleiteado pela empresa pautouse na falta de apresentação de licença sanitária contemporânea aos fatos geradores e, uma vez vencida tal proposição pelo STJ, concluo que a referida empresa se enquadra no conceito de serviços hospitalares, podendo usufruir das alíquotas de presunção de 8% (oito por cento) e de 12% (doze por cento), para o IRPJ e CSLL, respectivamente, razão pela qual proponho dar provimento ao recurso voluntário. Conclusão Diante do exposto, voto por DAR provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 84DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11050.001506/2009-11
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 24/09/2004
MULTA ADMINISTRATIVA. ATRASO E/OU ERRO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE VEÍCULO OU CARGA NELE TRANSPORTADA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. NÃO CABIMENTO.
O benefício da denúncia espontânea não se aplica ao descumprimento de obrigações acessórias, como é exemplo a prestação de informações sobre veículo ou carga transportada.
Numero da decisão: 9303-006.499
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Érika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 24/09/2004 MULTA ADMINISTRATIVA. ATRASO E/OU ERRO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE VEÍCULO OU CARGA NELE TRANSPORTADA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. NÃO CABIMENTO. O benefício da denúncia espontânea não se aplica ao descumprimento de obrigações acessórias, como é exemplo a prestação de informações sobre veículo ou carga transportada.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Érika Costa Camargos Autran.
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OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado SAMPAYO NICKHORN S/A ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 24/09/2004 MULTA ADMINISTRATIVA. ATRASO E/OU ERRO NA PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE VEÍCULO OU CARGA NELE TRANSPORTADA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. NÃO CABIMENTO. O benefício da denúncia espontânea não se aplica ao descumprimento de obrigações acessórias, como é exemplo a prestação de informações sobre veículo ou carga transportada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 05 0. 00 15 06 /2 00 9- 11 Fl. 126DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Érika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela Procuradoria da Fazenda Nacional PFN contra o Acórdão nº 3803004.313, de 27/06/2013, proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 24/09/2004 MULTA. INTEMPESTIVIDADE NO CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. REGISTRO DO EMBARQUE. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. Aplicase o instituto da denúncia espontânea às obrigações acessórias de caráter administrativo cumpridas intempestivamente, após o desembaraço da mercadoria mas antes do início de qualquer atividade fiscalizatória, relativamente ao dever de informar, no Siscomex, os dados referentes ao embarque anteriormente declarado em Declaração de Despacho de Exportação (DDE). ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 24/09/2004 LANÇAMENTO. FUNDAMENTAÇÃO. INOVAÇÃO NO JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. No julgamento de atos administrativos, no âmbito do Processo Administrativo Fiscal (PAF), apreciase a validade ou não do lançamento de ofício lavrado por servidor competente, não se inserindo na competência do órgão julgador a alteração da fundamentação legal da exigência inicial. Irresignada, a Recorrente interpôs recurso especial, por meio do qual suscita divergência quanto à inaplicabilidade do instituto da denúncia espontânea, no caso de infrações a obrigações acessórias aduaneiras. Alega divergência com relação ao que decidido nos Acórdãos nº 380200.570. O exame de admissibilidade do recurso encontrase às fls. 118/119. Intimada, a contribuinte não apresentou contrarrazões ao recurso. É o Relatório. Voto Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial interposto pela PFN deve ser conhecido. Fl. 127DF CARF MF Processo nº 11050.001506/200911 Acórdão n.º 9303006.499 CSRFT3 Fl. 127 3 De fato, os acórdãos recorrido e paradigma divergiram sobre a mesma matéria: a aplicação da denúncia espontânea sobre obrigação acessória, a de registrar, no Sistema Integrado de Comércio Exterior Siscomex, os dados de embarque de exportação, o que bem caracteriza a divergência de interpretação, em ordem a permitir a admissibilidade do recurso especial. No mérito, discordamos da tese adotada na Câmara baixa. O fundamento da decisão foi o de que o art. 102 do Decretolei nº 37, de 1966, na redação conferida pela Medida Provisória nº 497, de 2010, posteriormente convertida na Lei nº 12.350, de 2010, passou a prever que a denúncia espontânea excluiria a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, de modo que, no caso tratado nos autos, a penalidade seria inexigível. Confirase: Art.102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º Não se considera espontânea a denúncia apresentada: (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) b) após o início de qualquer outro procedimento fiscal, mediante ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, tendente a apurar a infração. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2o A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) (g.n.) Todavia, é entendimento consolidado que os efeitos da denúncia espontânea não se estendem às penalidades pelo descumprimento de obrigações acessórias autônomas. Portanto, o dispositivo acima só alcançaria a obrigação tributária principal e a administrativa, motivo por que editado o Verbete de jurisprudência nº 49, segundo o qual “A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega da declaração.” No caso em análise, a nosso juízo, a penalidade aplicada não tem natureza “aduaneira”, no sentido de constituirse uma outra modalidade, diversa das tributárias ou administrativas. O que se quer dizer com isso é que a penalidade aplicada pela legislação aduaneira, seja ela qual for, apresentase, conforme o caso, com a natureza tributária ou a administrativa. Assim, a multa por falta de licenciamento não automático, quando o produto importado o requer, é administrativa, porque não tem por objeto prestações, positivas ou negativas, no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos (art. 113, § 2º, do CTN), senão que ao controle administrativo das importações. Fl. 128DF CARF MF 4 Diversa, contudo, é a penalidade aplicada nos autos, pois a finalidade de sua instituição é a de permitir o controle das operações de comércio exterior pelo Fisco, mas não pelos órgãos intervenientes, o caso antes referido. Ademais, é cediço, as normais gerais em Direito Tributário são matéria reservada a lei complementar (como as que estabelecem os contornos da denúncia espontânea), tanto que o Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula Vinculante nº 8, pacificou o entendimento de que são inconstitucionais o parágrafo único do art. 5º do DecretoLei nº 1.569/1977 e os arts. 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam da prescrição e decadência do crédito tributário. A matéria, como se sabe, já foi apreciada nesta mesma Turma, em decisão que restou assim ementada: PENALIDADE ADMINISTRATIVA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO OU PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A modificação introduzida pela Lei 12.350, de 2010, no § 2º do artigo 102 do Decretolei 37/66, que estendeu às penalidades de natureza administrativa o excludente de responsabilidade da denúncia espontânea, não se aplica nos casos de penalidade decorrente do descumprimento dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira. Recurso Especial do Contribuinte Negado. (Acórdão nº 9303 003.648, de 26/04/2016). Ante o exposto, conheço do recurso especial da Procuradoria e, no mérito, doulhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 129DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.908089/2009-61
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/11/2005 a 30/11/2005
DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO APÓS O DESPACHO DECISÓRIO.
A apresentação de DCTF retificadora, ainda que após a prolação de despacho decisório, desde que em hipótese não vedada pela legislação, substitui a original, constituindo-se em indício da certeza e liquidez do crédito tributário.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. APRESENTAÇÃO DE NOVOS ELEMENTOS DE PROVA APÓS A APRECIAÇÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. POSSIBILIDADE.
Novos elementos de prova apresentados no âmbito do recurso voluntário podem, excepcionalmente, ser apreciados nos casos em que fique prejudicado o amplo direito de defesa do contribuinte ou em benefício do princípio da verdade material.
Numero da decisão: 3001-000.275
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com retorno dos autos à Unidade de Origem para análise da DCTF retificadora e demais documentos probatórios juntados em fase recursal, vencido o conselheiro Renato Viera de Avila que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente.
(assinado digitalmente)
Cássio Schappo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cássio Schappo, Renato Vieira de Avila e Cleber Magalhães.
Nome do relator: CASSIO SCHAPPO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/11/2005 a 30/11/2005 DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. A apresentação de DCTF retificadora, ainda que após a prolação de despacho decisório, desde que em hipótese não vedada pela legislação, substitui a original, constituindo-se em indício da certeza e liquidez do crédito tributário. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. APRESENTAÇÃO DE NOVOS ELEMENTOS DE PROVA APÓS A APRECIAÇÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. POSSIBILIDADE. Novos elementos de prova apresentados no âmbito do recurso voluntário podem, excepcionalmente, ser apreciados nos casos em que fique prejudicado o amplo direito de defesa do contribuinte ou em benefício do princípio da verdade material.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/11/2005 a 30/11/2005 DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. A apresentação de DCTF retificadora, ainda que após a prolação de despacho decisório, desde que em hipótese não vedada pela legislação, substitui a original, constituindose em indício da certeza e liquidez do crédito tributário. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. APRESENTAÇÃO DE NOVOS ELEMENTOS DE PROVA APÓS A APRECIAÇÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. POSSIBILIDADE. Novos elementos de prova apresentados no âmbito do recurso voluntário podem, excepcionalmente, ser apreciados nos casos em que fique prejudicado o amplo direito de defesa do contribuinte ou em benefício do princípio da verdade material. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com retorno dos autos à Unidade de Origem para análise da DCTF retificadora e demais documentos probatórios juntados em fase recursal, vencido o conselheiro Renato Viera de Avila que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente. (assinado digitalmente) Cássio Schappo Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 90 80 89 /2 00 9- 61 Fl. 112DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cássio Schappo, Renato Vieira de Avila e Cleber Magalhães. Relatório Tratam os autos de recurso voluntário apresentado contra decisão proferida pela 4ª Turma da DRJ/BSB, que não reconheceu o direito creditório, considerando improcedente a Manifestação de Inconformidade. Dos Fatos O Contribuinte buscou via PER/DCOMP a compensação de débito de COFINS (cód.2172) do período de apuração 09/2006 com crédito de PIS/PASEP, por recolhimento a maior que o devido, via DARF, do período de apuração 11/2005, arrecadado na data de 15/12/2005. Do Despacho Decisório A DRF de Brasília em apreciação ao pleito da contribuinte proferiu Despacho Decisório (efls.3), pela não homologação da compensação pretendida, em face de inexistência de crédito disponível, pois o valor do DARF discriminado na PER/DCOMP já havia sido integralmente utilizado para quitação de débito declarado para a competência 11/2005. Da Manifestação de Inconformidade Não satisfeito com a resposta, o interessado apresentou Manifestação de Inconformidade (efls.2), justificando o ocorrido da seguinte forma: 1. que parte de sua receita, no período de janeiro de 2004 a fevereiro de 2006, estaria sujeita a alíquota zero de incidência do PIS e da COFINS, correspondente a produtos tributados no sistema monofásico, em face de grande volume de suas vendas serem Chopp, cervejas e refrigerantes; 2. por ter ocorrido a tributação normal de seu faturamento no período acima mencionado, efetuou o recolhimento de PIS e COFINS em valores maior que o devido; 3. constatado o erro na apuração dos impostos fez a retificação da DIPJ e passou a realizar as compensações a partir de março/2006 através de PER/DCOMP; 4. ao tomar conhecimento do Despacho Decisório procurou o Plantão Fiscal da Receita Federal e foi orientado a apresentar DCTF retificadora, para demonstrar o correspondente crédito passível de compensação; 5. ao final pede deferimento da compensação praticada; Do Julgamento de Primeiro Grau Encaminhado os autos à 4ª Turma da DRJ/BSB, esta julgou improcedente a manifestação de inconformidade, cujos fundamentos encontramse sintetizados na ementa assim elabora: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 4 3 Anocalendário: 2005 APRESENTAÇÃO DE DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAISDCTF RETIFICADORA. PROVA INSUFICIENTE PARA COMPROVAR EXISTÊNCIA DE CRÉDITO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Para se comprovar a existência de crédito decorrente de pagamento a maior, comparativamente com o valor do débito devido a menor, é imprescindível que seja demonstrado na escrituração contábilfiscal, baseada em documentos hábeis e idôneos, a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração. A simples entrega de DCTF retificadora, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento indevido ou a maior. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CRÉDITO. A compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) só pode ser efetuada com crédito líquido e certo do sujeito passivo, sendo que a compensação somente pode ser autorizada nas condições e sob as garantias estipuladas em lei; no caso, o crédito pleiteado é inexistente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Do Recurso Voluntário O sujeito passivo ingressou tempestivamente com recurso voluntário (efls. 33) contra a decisão de primeiro grau, com o intuito de ver seu pedido atendido, repisa os fatos e apela para busca da verdade material no processo administrativo; menciona outros julgados do CARF condescendentes a juntada de novos documentos probatórios com o recurso voluntário; que em face de ter havido o pagamento a maior que o devido, como bem demonstra as planilhas anexadas, tem o direito de realizar compensações do tributo e espera a compensação do crédito informado em PER/DCOMP. Do julgamento do Recurso Voluntário A 3ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do CARF, no acórdão de nº 3803003.488, sessão de 25/09/2012, negou provimento por unanimidade de votos, ratificando a decisão de piso. Do Recurso Especial Fl. 114DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 5 4 Cientificado da decisão de Segundo Grau a interessada tempestivamente ingressou com Recurso Especial. Primeiramente expôs os pressupostos de admissibilidade e com base no formalismo moderado (Lei nº 9.784/99), também, no princípio da razoabilidade que se aplicado com cautela, equilíbrio, moderação e harmonia, bem pode conduzir aos efeitos desejados. Esclarece ainda, “que a juntada de novos documentos no Recurso Voluntário tem respaldo sim no processo administrativo fiscal, no princípio da legalidade e o da verdade material que orienta e autoriza a Administração Pública a aceitar e buscar as provas que venham a demonstrar, a posteriori, a existência de vícios que tornem ilegal o ato administrativo. Os processos administrativos de que resultem sanções ao contribuinte poderão ser revistos, a qualquer tempo, a pedido ou de ofício”. Adota como paradigma decisões da 2ª Seção de Julgamento do CARF que demonstram divergência de entendimento, com relação a possibilidade de juntada de novos documentos com o recurso voluntário, onde se destaca o seguinte trecho: “Não sendo suficientes os documentos juntados com a impugnação, mas vindo o contribuinte a trazêlos na fase recursal, é de se acatar a prova apresentada, em homenagem ao princípio da instrumentalidade do processo e da busca da verdade material que orienta o processo administrativo tributário”. Em suas razões finais pede para declarar nulo o Acórdão da 3ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do CARF, por ofensa aos princípios da busca da verdade material e do formalismo moderado. Do exame de Admissibilidade do Recurso Especial Presentes os pressupostos de admissibilidade o Recurso Especial foi admitido, pois “a matéria foi prequestionada no acórdão recorrido, os paradigmas apresentados foram proferidos por colegiados distintos do da decisão recorrida e não sofreram reforma, restou demonstrada a divergência alegada e não foi constatado que as teses paradigmas tenham sido superadas pela CSRF”. Com base no fundamento do RICARF o exame de admissibilidade foi submetido ao Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF, que aprovou e encaminhou à Câmara Superior de Recursos Fiscais (3ª Turma) para prosseguimento. Da ciência do Despacho pela PFN Cientificada a PFN, a mesma apresentou contra razões ao recurso especial, requerendo que seja negado provimento, uma vez que o contribuinte não se desincumbiu do ônus probatório a seu encargo, é imperiosa a manutenção do acórdão recorrido. Da decisão do Recurso Especial Levado a julgamento o presente Recurso Especial pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, na data de 16/05/2017, Acórdão nº 9303005.095, por unanimidade de votos, dele tomou conhecimento e no mérito deulhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem para análise do mérito do recurso voluntário, afastando a preclusão das provas. Dandose prosseguimento ao feito o presente processo foi objeto de sorteio e distribuição à minha relatoria. É o relatório. Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 6 5 Voto Conselheiro Relator Cássio Schappo O recurso voluntário atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Com base nas decisões acima apresentadas, incorridas no presente processo, ficou superada a preclusão de provas no processo administrativo tributário na forma como conduzido pela recorrente em seu recurso voluntário. Da mesma forma é de se reconhecer como válida a DCTF retificadora para fins de análise e posterior homologação dos créditos pretendidos. Portanto, em cumprimento ao dispositivo de sentença prolatada pela CSRF, procedese a análise de mérito do recurso voluntário, que restou prejudicada na decisão contida no acórdão proferido pela 3ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do CARF. Em primeiro plano surgiu a apresentação de DCTF retificadora que tratou de acertar os corretos valores devidos de PIS e COFINS para o período de janeiro de 2004 a fevereiro de 2006. Por ter sido apresentada, a DCTF retificadora, em data posterior a emissão do Despacho Decisório, a DRJ/BSB – 4ª Turma sustentou que essa simples entrega, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento indevido ou a maior; que incumbe ao sujeito passivo fazer a demonstração das provas que alega possuir, para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. Esse fato relacionado a apresentação de DCTF retificadora em data posterior a emissão de Despacho Decisório, já tem entendimento assentado na jurisprudência deste Conselho. Citase, por exemplo, o julgado da 3ª Turma da CSRF no acórdão nº 9303005.396, de 25/07/2017, que analisando caso semelhante manteve decisão proferida no acórdão da 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário. De onde se extrai: “que a DCTF retificadora, nas hipóteses admitidas por lei, tem os mesmos efeitos da original, podendo ser admitida para comprovação da certeza e liquidez do crédito, ainda que transmitida após a prolação do despacho decisório”. Por outro lado “O crédito tributário da Contribuinte e seu direito à restituição/compensação não nascem com a apresentação da DCTF retificadora, mas sim com o pagamento indevido ou a maior”. A administração tributária nos dá orientação sobre o tema, através do Parecer Cosit nº 02/2015,de 28 de agosto de 2015, cuja ementa se deu nos seguintes termos: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 7 6 força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. (...) Como antes dito, a liquidez e certeza do crédito tributário não se encerra com a simples DCTF retificadora, há outros indicativos a serem seguidos, sendo, por exemplo, os livros contábeis e fiscais, DIPJ, que de acordo com as razões recursais foram parâmetros utilizados para atestar o erro de declaração cometido. Nesse sentido, em respeito ao princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa, na busca da verdade real no processo administrativo tributário, é cabível oportunizar à Recorrente uma melhor análise pela unidade de origem quanto ao crédito pleiteado. Ademais, não pode o CARF suprir deficiência instrutória ainda que em sede de compensação, pois à luz do art. 10 da IN RFB nº 903/2008: "Os valores informados na DCTF serão objeto de procedimento de auditoria interna". De se observar que procedimento algum fora realizado em relação à apuração dos valores da compensação, sejam débitos ou créditos. Não podem as autoridades administrativas omitirse de analisar a materialidade dos débitos e créditos em compensação, eis que do contrário comprometem a regularidade do processo administrativo de restituição e compensação de tributos, cuja implicação é a manifesta nulidade nos termos do art. 59, II do PAF. A premissa menor que compõe a ementa do acórdão do Recurso Especial, tratado nesse processo, resume com precisão a questão que envolve a apresentação de prova no processo administrativo tributário, “verbis”: Novos elementos de prova apresentados no âmbito do recurso voluntário, após o julgamento de primeira instância administrativa, podem excepcionalmente ser apreciados nos casos em que fique prejudicado o amplo direito de defesa do contribuinte ou em benefício do princípio da verdade material. Situação que se apresenta comum quando o indeferimento da compensação é efetuado por meio de Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 8 7 despacho decisório eletrônico no qual não são apresentadas ao contribuinte orientações completas quanto aos documentos necessários à comprovação do direito de crédito. Merece ser reproduzido aqui, por oportuno, parte em destaque dos fundamentos do acórdão do Recurso Especial que determinou a análise de mérito nos presentes autos: A análise da compensação operada pelo contribuinte da qual resulta o despacho decisório, bem poderia conformarse ao mesmo modelo do procedimento de determinação e exigência de crédito tributário, caso fosse precedido de Termo de Verificação Fiscal, em procedimento manual, em que ficassem evidenciados os erros em que incorrera o contribuinte e a forma e providências necessárias que deveria suprir para elidir a apuração fiscal. É evidente que o despacho decisório eletrônico não cumpre esse desiderato, sendo sintética a formatação da decisão e o teor da sua intimação para a apresentação de defesa, não fornece ao contribuinte todos os elementos de que deve o interessado valerse, e exigíveis pela Administração, para subsidiála. Somente na decisão de primeira instância é que o julgador levanta a exigência das provas, por vezes apenas de forma genérica, diferentemente do que se deu no acórdão ora recorrido, que especificou ser este respaldo a escrita contábil/fiscal. Desse modo, o art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72 deve ser interpretado com parcimônia para este modelo de rito processual administrativo, sobretudo quando o conteúdo da sua letra “c” permite o enquadramento desta situação, quando sobreleva o risco de cerceamento da ampla defesa do contribuinte, quando irrelevase o princípio da verdade material, que informa o PAF, e o da moralidade, que rege os atos da Administração, a impedir a exigência de tributo já quitado ou não repetir o indébito. O fato material que resultou em revisão de base de cálculo do PIS/COFINS, diz respeito a não exclusão do total de suas vendas mensais realizadas no período de janeiro de 2004 a fevereiro de 2006, dos valores correspondentes às saídas de produtos enquadrados no regime MONOFÁSICO de tributação, instituído pela Lei 10.147/2000. Tal regime consiste em mecanismo semelhante à substituição tributária, pois atribui a um determinado contribuinte a responsabilidade pelo tributo devido em toda cadeia produtiva ou de distribuição subsequente. O art. 2º da Lei 10.147/2000 define que: “São reduzidas a zero as alíquotas da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda dos produtos tributados na forma do inciso I do art. 1o, pelas pessoas jurídicas não enquadradas na condição de industrial ou de importador”. Com respaldo nessa previsão legal a recorrente sustentou em sua manifestação de inconformidade, que realizou grande volume de vendas de Chopp, cervejas e refrigerantes, sujeitos ao regime monofásico e que efetivamente foram tributados pelo regime normal de incidência do PIS/COFINS. A revisão de cálculo dessas contribuições é que Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10166.908089/200961 Acórdão n.º 3001000.275 S3C0T1 Fl. 9 8 redundou em saldo credor pelo pagamento a maior que o devido e objeto dos pedidos de compensação via PER/DCOMP. As DCTFs retificadoras nada mais representam, conforme os argumentos de defesa, do que o repasse ao fisco dos corretos valores devidos de PIS e COFINS do período antes mencionado. Caso a unidade julgadora de primeiro grau tivesse remetido os autos a unidade de origem para que promovesse a análise das DCTFs retificadoras, talvez o deslinde do litígio tivesse outro rumo. As razões recursais reforçam essa tese com a juntada de provas que evidenciam as operações com produtos enquadrados no regime monofásico, planilhas e livros fiscais, plenamente vinculados ao objeto da recorrente. Não reconhecer a análise de mérito de todas as operações realizadas pelo sujeito passivo para o período que deu causa ao levantamento do crédito pleiteado, é incorrer em cerceamento do amplo direito de defesa, desrespeito ao princípio da verdade material e o da moralidade que rege os atos da Administração Pública, em não impedir exigência de tributo já quitado ou não repetir o indébito. Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, para que a unidade de origem aprecie a DCTF retificadora com relação ao crédito pleiteado, juntamente com as provas disponibilizadas pela recorrente ou requerendo outras que entender pertinente e lhe confira liquidez e certeza para a realização da compensação requerida. (assinado digitalmente) Cássio Schappo Fl. 119DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.725659/2012-81
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jan 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO.
A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2007, 2008
MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO.
A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2007, 2008
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.368
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial do Contribuinte, apenas em relação à qualificação da multa relativa ao ágio interno e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora) e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora) e Luís Flávio Neto, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008 MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2007, 2008 MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2007, 2008 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
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MULTA QUALIFICADA. RReeccoorrrreenntteess BRAFER CONSTRUÇÕES METÁLICAS S.A. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. A constatação de evidente intuito de fraudar o Fisco, pela intencional prática de atos simulados, enseja a qualificação da multa de ofício. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008 MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do anocalendário. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 56 59 /2 01 2- 81 Fl. 2857DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial do Contribuinte, apenas em relação à qualificação da multa relativa ao ágio interno e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora) e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora) e Luís Flávio Neto, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Fl. 2858DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 4 3 Relatório Tratamse de autos de infração (Efls. 03 ss.) lavrados para a exigência de IRPJ e CSLL relativos aos anos calendário de 2007 e 2008, decorrente de glosa (i) da amortização de ágio considerado inexistente, porque originado de operações fictas intragrupo, (ii) de despesas não comprovadas registradas como serviços de assessoria prestados à contribuinte por empresa formada por seus próprios sócios – do que também resultou (iii) a cobrança do IRRF em função de pagamentos sem causa –, acrescidos de (iv) multa qualificada de 150% e (v) multa isolada pelo não recolhimento de estimativas. O conteúdo do Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal (E fls. 1325 ss.), ao qual se remete para uma leitura mais detalhada, foi sitentizado pelo relatório do acórdão recorrido: “Na ação fiscal, a autoridade fiscal identificou a ocorrência de três infrações tributárias: 1ª) amortização de ágio inexistente (IRPJ e CSLL); 2ª) despesas operacionais não comprovadas (IRPJ e CSLL); 3ª) pagamentos sem causa ou referentes a operação não comprovada (IRRF). Na fase inquisitória foram analisadas as operações de reorganização societária realizadas entre a contribuinte (Brafer Construções Metálicas S/A – Brafer S/A), a pessoa jurídica Brafer Indústria e Construções Ltda – Brafer LTDA e a pessoa jurídica MAG Administração e Participações Ltda – MAG. No anocalendário de 2000, a Brafer Ltda tinha como quotistas a Brafer S/A (557.489 quotas de R$1,00) e Marino Garofani (1 quota de R$1,00). Para os anos calendário de 2001 a 2004, informou na DIPJ que estava inativa. A Brafer S/A, conforme DIPJ/2005, tinha no quadro social em 31/12/2004 os sócios acionistas Marino Garofani (69,94%), Luiz C. Caggiano Santos (20%), Suzely Olsen Garofani (10%) e outros (0,06%). A MAG (DIPJ/2005), em 31/12/2004, tinha como quotistas Marino Garofani (315.000 quotas), Luiz C. Caggiano Santos (90.000 quotas) e Suzely Olsen Garofani (45.000 quotas). Em 20/10/2005, na 2ª Alteração Contratual, a composição da MAG foi alterada, para Marino Garofani (8.934.821 quotas), Luiz C. Caggiano Santos (2.554.570 quotas) e Suzely Olsen Garofani (1.277.285 quotas). O aumento do capital social deuse mediante a entrega de 14.993.133 ações da empresa Brafer S/A para a MAG pelo valor de R$12.271.676,00. Assim, consolidouse situação no qual a MAG detinha 14.993.133 ações da Brafer S/A, o que correspondia a 99,95% do patrimônio líquido da investida. O investimento estava contabilizado no valor de R$ 30.517.208,85. Em 31/10/2005, na 3ª Alteração Contratual da Brafer Ltda: 1) a Brafer S/A cede a título gratuito as 557.489 quotas para Fl. 2859DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 5 4 Marino Garofani; 2) a MAG integraliza capital na Brafer Ltda, mediante entrega das 14.993.133 ações que detinha na Brafer S/A, avaliadas em R$60.817.145,00. Foi registrado ágio no valor de R$30.299.936,15. Em 21/11/2005, Laudo de Avaliação apresentado pelos contadores José Henrique Alves Ospedal, Emerson Ernesto Maures, Josilei Lopes de Oliveira, concluiu que o patrimônio líquido da Brafer Ltda era de R$62.019.611,29 na database 31/10/2005. Na mesma data, em 21/11/2005, na 38ª Assembléia Geral Extraordinária, a Brafer S/A incorpora a Brafer Ltda. Constatou a autoridade fiscal que o ágio decorrente da incorporação foi amortizado pela Brafer S/A, nos anos calendário de 2007 e 2008, valores de R$6.345.172,44 e R$17.389.777,69, respectivamente. Intimada, a contribuinte justificouse: ... em 21/11/2005, a Brafer Construções Metálicas S.A. incorporou a Brafer Indústria e Construções Ltda, sucedendo neste direito a partir deste ato. A baixa do valor do ágio de R$30.299.936,15 foi levado a despesa em 60 parcelas, como regulamenta a legislação, sem qualquer desembolso financeiro. Diante dos fatos apresentados, a Fiscalização discorreu sobre as seguintes conclusões, no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal (TVEAF) de fls. 1325/1347: (fl. 1330 do TVEAF) Em 21/11/2005, no instrumento particular: Proposta, Justificativa e Protocolo de Incorporação da BRAFER INDUSTRIA E CONSTRUÇÕES LTDA,. pela BRAFER CONSTRUÇÕES METÁLICAS S/A fica claro o vínculo entre incorporada e incorporadora. Quer seja pela participação em sociedades do mesmo grupo, quer seja por administradores em comum. Ora pois, o Sr. Marino Garofani é o representante legal das duas empresas, onde assina o mesmo ato no mesmo momento. Fls.92. A justificativa da incorporação, assim está descrita no item abaixo: "...I –Justificativas: ..:reestruturação das atividades operacionais e administrativas; unificação das rotinas administrativas, principalmente aquelas contábeis e fiscais... " A justificativa para a incorporação da BRAFER Ltda, é meramente formal e não merece crédito. Como demonstrado no item 2.2 Ágio Interno, fica comprovado que o contribuinte quis utilizarse desse meio para gerar ágio sobre investimento no montante de R$30.299.936,15 e assim reduzir so reu (sic) resultado tributável pelo IRPJ e CSLL. Fl. 2860DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 6 5 Laudo de Avaliação de 21/11/2005 apresentado pelos contadores: José Henrique Alves Ospedal, Emerson Ernesto Maurer, Josilei Lopes de Oliveira, todos residentes em CuritibaPR, concluíram que o Patrimônio Líquido contábil da BRAFER INDUSTRIA E CONSTRUÇÕES LTDA era de RS 62.019.611,29 na database de 31 de outubro de 2005. Fls.88. No Laudo de Avaliação, temos outro conflito de interesses. Ora pois, o Sr. Josilei Lopes de Oliveira era e continua sendo o contador da empresa que incorporou a empresa por ele avaliado. E, continua representando, aqui nestes atos, a empresa incorporadora................................................................... (fls. 1332/1333 do TVEAF) O contribuinte afirmou que levou à despesa o ágio gerado, à razão de um sessenta avos, no máximo, conforme regulamenta a legislação. Como o total do ágio gerado é de R$ 30.299.936,15 então teríamos R$ 504.998.94 para ser apropriado mensalmente, caso fossem preenchidos os requisitos legais. Contudo, podemos observar no item 02.2 Do Agio Interno, que foi apropriado valor bem superiores, citamos como exemplo o mês de dezembro/2008 onde foi contabilizado e apropriado como despesa o valor de R$ 6.066.888.33. A geração de ágio de forma interna, ou seja, dentro do mesmo grupo econômico, originado de operações efetuadas pelos mesmos detentores e controladores das participações societárias, sem a movimentação de recurso financeiro e sem efeito econômico, constitui prova da artificialidade do ágio. Eventuais amortizações efetuadas em função de ágio efetuado nessas condições, devem ser glosadas. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. Desta forma, os ágios amortizados em 2007 e 2008, que são correspondentes à incorporação de 2005, não são dedutíveis como despesas na apuração do IRPJ e da CSLL, por trataremse de ÁGIO INTERNO conforme já mencionado acima. Assim, a primeira infração tipificada pela autoridade autuante foi a glosa das amortizações de ágio promovidas pela contribuinte no decorrer dos anoscalendário de 2007 e 2008. Por sua vez, a segunda infração tratou da glosa de despesas referentes a serviços prestados pela MAG. Constatou a autoridade fiscal que a contribuinte contratou a sua controladora MAG para prestação de serviços de gestão, desde o suprimento de materiais, controle de produção, produtividade, busca de novos negócios até o aumento do faturamento e lucratividade da sua holding. De acordo com o contrato os serviços seriam executados exclusivamente e pessoalmente pelos diretores da contratada, a MAG. A contribuinte apresentou notas fiscais decorrentes da prestação Fl. 2861DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 7 6 de serviços. Por sua vez, a MAG foi intimada por meio de diligência a prestar esclarecimentos sobre os serviços prestados à contribuinte, e respondeu que a empresa não possuía funcionários e que as atividades eram executadas pelos sócios. Relata a autoridade fiscal que a MAG não justificou e nem informou como teriam sido recebidos os valores correspondentes à sua receitas de prestação de serviços, e não comprovou que os serviços teriam sido efetivamente prestados e tampouco a forma de recebimento. Por outro lado, ao analisar a contabilidade da contribuinte, constatou a Fiscalização lançamentos de contas a pagar referentes à assessoria prestada pela MAG. Destaca ainda a autoridade autuante que os sócios da MAG em 2007 e 2008 (Marino Garofani, Luiz Carlos Caggiano Santos e Suzely Olsen Garofani), participavam com 99,90% do capital social da contribuinte (Brafer S/A). Sobre a situação, concluiu a autoridade autuante: (Fl.1337 do TVEAF) Conforme Contrato, a remuneração dos serviços prestados, sera de 3,5 % (três virgula cinco por cento) sobre o faturamento bruto mensal da contratante. A remuneração por serviços prestados na ordem de 3,5% é um absurdo, se compararmos com a rentabilidade da empresa (...) Mesmo que fosse devidamente demonstrado a efetividade dos serviços prestados, a remuneração na ordem de 3,5% da Receita Bruta é desproporcional ao resultado apresentado. O contribuinte com todos os riscos inerentes à sua atividade, é remunerado na ordem de 9%. Então seria, no mínimo, imprudente destinar quase a metade desse lucro para remunerar serviços de consultoria. ......................................................................... (Fl.1340 do TVEAF) Ou seja, a BRAFER S/A prestou serviços de assessoria para si mesma, cobrando para tanto R$ 5.999.636,98 em 2007 e RS 9.776.300,44 em 2008. Estes valores tiveram como fundamento os serviços de consultoria técnica, aplicando o seu vasto conhecimento técnico, na busca de novos mercados e de novos negócios... Conforme Contrato de Prestação de serviços, de 15 de janeiro de 2007, cláusula primeira. Fls.1242. O Contrato de Prestação de serviços foi assinado por Luiz Carlos Caggiano Santos e por Suzely Olsen Garofani, representando a BRAFER S/A, e por Marino Garofani, representando a MAG Ltda. Ou seja, as partes são as mesmas, com os mesmos interesses.(grifos originais) ......................................................................... (Fl.1341 do TVEAF) Ora pois, os sócios não podem vender seus serviços para si mesmos. Já recebem prólabore e ao final do exercício, ainda recebem dividendos do resultado da empresa. Fl. 2862DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 8 7 Nesse sentido, foram glosadas pela autoridade fiscal as despesas lançadas pela contribuinte na contabilidade, pela ausência de prova da origem e efetividade das operações, com fulcro no art. 302, inciso II do RIR/99. Enfim, foi também tipificada a terceira infração, prevista no art. 674, § 1º, do RIR/99, referente à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, dos pagamentos efetuados e os recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não restar comprovada a operação ou a sua causa. A multa de ofício foi qualificada (150%) para a primeira e segunda infrações, conforme entendimento exposto no TVEAF (fls. 1344/1345): Numa análise objetiva dos fatos aqui apurados frente aos dispositivos legais em comento, não há como não deixar de enquadrar a conduta acima descrita nas definições contidas na Lei 4.502/64, abaixo transcrita. O contribuinte, ao gerar de forma artificial uma despesa com ágio sabidamente inexistente, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco, além das reais circunstâncias materiais do fato gerador, já que tudo isso que foi feito teve o propósito de iludir o Fisco, pois deu o nome de "Ágio sobre Investimentos" a fatos sabidamente desprovidos de quaisquer características que o compõe. Não basta o fato de estar tudo informado em DIPJ ou em Notas Explicativas, ou então, os Atos Formais registrados nos Órgãos competentes. O fato é que tudo isso foi feito para ' informar ao Fisco algo que inexistia e, que, portanto, produziu o retardamento do conhecimento das verdadeiras circunstâncias. Ademais, houve a modificação de característica essencial do fato gerador, uma vez que os montantes de IRPJ e CSLL devidos foram reduzidos (usou despesas sabidamente inexistentes). A FISCALIZADA não praticou estes fatos de forma involuntária, ou incorreu em erro em sua conduta, restando caracterizada a atitude dolosa. Desta forma, a conduta sob análise amoldase às hipóteses previstas nos artigos da Lei 4.502/64 abaixo citados. O fundamento para a qualificação da multa reside na utilização de uma série de instrumentos com o intuito de criar uma roupagem legal capaz de dar uma aparência legítima às operações de reorganização societária cujo único fundamento era o aproveitamento do ágio como despesa dedutível. Nessa construção, utilizouse a contribuinte da confecção de laudos de avaliação capazes de sustentar a existência do ágio e da celebração de protocolo de incorporação para justificar a incorporação efetivada, pela autuada, que nada mais foi do que uma série de modificações societárias de forma a se colocar em situação de aproveitamento do ágio. O conjunto dos atos levados a efeito pela autuada corresponderia à uma prática deliberada, consciente dos riscos envolvidos, com o objetivo de alcançar, por meio da criação Fl. 2863DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 9 8 fictícia de ágio e de uma estrutura societária artificial, vantagem fiscal indevida. O conjunto dos fatos verificados no caso sob exame colocam em evidência o propósito de construção de uma pretensa realidade formal destinada a mascarar, senão a ocultar, o que de fato se pretendia, o que de fato se buscava. É dizer, todas as ações envolvidas tinham por fim único a criação de um ágio fictício a ser transformado em benefício fiscal por força de um arranjo societário artificial. (...) E o mesmo enquadramento legal deve ser aplicado para a "fabricação" de despesas de assessoria, onde o contribuinte, contratou ele mesmo e ainda pagou 3,5% (três ponto cinco percentuais) de seu faturamento mensal. A prestadora de serviços MAG Ltda, detinha 99,90% do capital do contribuinte BRAFER S/A. Os valores pagos tiveram como fundamento os serviços de consultoria técnica, onde a MAG Ltda, que é uma empresa de Administração e Participações, cujo CNAE fora informado como sendo 64.620/00 Holding de instituições nãofinanceira, iria aplicar o seu vasto conhecimento técnico, na busca de novos mercados e de novos negócios... Conforme Contrato de Prestação de serviços, de 15 de janeiro de 2007, cláusula primeira. O Contrato de Prestação de serviços foi assinado por Luiz Carlos Caggiano Santos e por Suzely Olsen Garofani, representando a BRAFER S/A, e por Marino Garofani, representando a MAG Ltda. Ou seja, as partes são as mesmas, com os mesmos interesses. Como demonstrado, o contribuinte estava "fabricando" despesas para poder reduzir o lucro real da BRAFER S/A, transferindo a receita para a MAG Ltda que é uma empresa tributada pelo Lucro Presumido, reduzindo assim a sua carga tributária. Com a revisão da base de cálculo, em razão das infrações identificadas pela Fiscalização, foram apuradas estimativas mensais a recolher de IRPJ e CSLL, razão pela qual foram lançadas de ofício as multas isoladas incidentes sobre insuficiência de recolhimento. Foram lavrados os autos de infração de IRPJ, CSLL e IRRF de fls. 1282/1324, acompanhados do Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal de fls. 1333/1347, cuja ciência foi dada à contribuinte em 20/08/2012.” Insurgindose, a contribuinte apresentou impugnação às Efls. 1352 ss, julgada improcedente pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belo Horizonte/MG proferiu o acórdão n. 0246.228 (Efls. 1633 ss.) mantendo o lançamento, pelas razões resumidas na seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 2864DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 10 9 Anocalendário: 2007, 2008 ÁGIO FUNDAMENTADO EM EXPECTATIVA DE RESULTADOS FUTUROS DEDUTIBILIDADE DA AMORTIZAÇÃO. A pessoa jurídica que, em virtude de incorporação, absorver patrimônio de sua controladora, a qual tinha desdobrado o valor da participação em seu capital em valor patrimonial e em ágio fundamentado em expectativa de resultados futuros, somente poderá deduzir a despesa com a amortização desse ágio se observadas as seguintes condições: demonstração do fundamento do ágio mediante documentação hábil e tempestiva; existência de substância econômica e propósito negocial nas operações de reorganização societária; independência entre si e possibilidade de livre negociação quanto a todas as pessoas jurídicas envolvidas na operação; ônus efetivo na aquisição do ágio para a pessoa jurídica que o registrar em sua contabilidade e cujo patrimônio for absorvido; reunião numa só pessoa jurídica do patrimônio que tiver sofrido o encargo do ágio e o patrimônio que presumivelmente gerará os lucros que justificaram o seu pagamento. DESPESAS NÃO COMPROVADAS. Na apuração do lucro real, não se admite computar gastos ou despesas que não estejam comprovados com documentação hábil e idônea. Os pagamentos, de qualquer natureza, a titular, sócio ou dirigente da pessoa jurídica, poderão ser impugnados pela autoridade lançadora, se o contribuinte não provar a origem e a efetividade da operação ou transação. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008 APURAÇÃO DA CSLL. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2007, 2008 PAGAMENTO SEM CAUSA. Está sujeito à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas, contabilizado ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2007, 2008 MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA. Fl. 2865DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 11 10 Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as multas de ofício determinadas pela legislação de regência, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição. A lei estabelece que, nos lançamentos de ofício, será aplicada multa exigida isoladamente, no percentual de 50%, sobre os valores devidos, e não recolhidos, a título das estimativas mensais, estando o contribuinte sujeito à apuração do lucro real anual, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da CSLL, no anocalendário correspondente. As multas de ofício e isolada não decorrem da mesma infração e não incidem sobre a mesma base de cálculo, são inteiramente diversas e previstas em lei. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. A multa de ofício será qualificada no percentual de 150%, quando restar devidamente caracterizado em procedimento fiscal, o evidente intuito de fraude, nos termos da lei. JUROS DE MORA. Sobre todos os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, incidirão juros de mora calculados à taxa a Selic. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008 DECADÊNCIA. A contagem da decadência tem por referência o fato gerador da obrigação tributária. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008 NULIDADE. São nulos apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. PROVAS. A prova documental será apresentada na impugnação. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerer prescindíveis ou impraticáveis. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Acórdão Acordam os membros da 4ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, INDEFERIR o pedido de diligência, Fl. 2866DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 12 11 REJEITAR as preliminares de nulidade e de decadência do lançamento e, no mérito, julgar IMPROCEDENTE a impugnação, mantendo integralmente o crédito tributário exigido.” Em face de referida decisão, a contribuinte interpôs recurso voluntário (E fls. 1678 ss.), cujas razões foram relatadas pelo acórdão recorrido, que ora se aproveita: “Nulidade. Caso o Fisco constate a amortização de despesa indevida, forçosamente deve efetuar o lançamento somente caso comprovada a postergação do imposto, ou a redução indevida do lucro real, conforme dispõe o art. 273 do RIR/99. O art. 36 da Lei nº 10.637, de 2002, que embasa o procedimento combinado com os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, estabeleceu uma forma de reavaliação do investimento, cuja tributação correspondente seria diferida. Assim, a rigor, não houve desoneração do ganho patrimonial gerado pela reavaliação, mas sim, tão somente a postergação dos respectivos tributos. Portanto, no caso concreto, ao se analisar o quadro formado para a utilização do ágio, constatase que o efeito é o de postergação do imposto, situação também tratada no Parecer Normativo Cosit nº 02, de 1996. Ainda, na apuração do IRPJ elaborada pelo Fisco, deve ser levada em consideração quando ocorreu a atividade da contribuinte que deu causa ao ágio, qual seja, anocalendário de 2005, para se determinar o fato gerador. Na autuação não foi assim que se procedeu, e tampouco a autoridade fiscal levou em consideração a existência de prejuízo fiscal que poderia ser compensado com eventual resultado positivo. Decadência. O lançamento de ofício encontrase fulminado pela decadência, vez que o registro do ágio ocorreu em 2005 e a lavratura dos autos de infração em 2012, ou seja, já decorreu o prazo previsto no art. 150, § 4º do CTN. Mérito. A autuação fiscal criou condições inexistentes na legislação tributária para fundamentar a glosa da amortização do ágio. A desoneração integral dos tributos é possível por meio da combinação do § 2º do art. 36 da Lei nº 10.637, de 2002, com o art. 7º da Lei nº 9.532, de 1997. De fato, o § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1997, determina ser obrigatória a indicação do fundamento econômico para o lançamento do ágio, com base em um dos critérios, (i) valor de mercado de ativos, (ii) expectativa de rentabilidade futura ou (iii) fundo de comércio, intangíveis ou outras razões econômicas. A intenção da recorrente é expressa no momento da aquisição, pelo fundamento escolhido. E o dispositivo do art. 7º, inciso II da Lei nº 9.532, de 1997, condicionou a amortização do ágio apenas e tão somente à absorção do patrimônio da investida pela investidora e viceversa, absorção esta que só pode ocorrer mediante a incorporação, cisão ou fusão, precisamente o que ocorreu no caso em tela. Há que se observar que todos os atos da recorrente foram efetivados na mais estrita legalidade. Toda a operação foi declarada e contabilizada, conforme Fl. 2867DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 13 12 constatado pelo Fisco. Não ocorreu a simulação acusada pela autoridade autuante, prevista no art. 167 do Código Civil. Portanto, o tipo de operação efetuada pela recorrente, tão comum em reorganizações societárias ocorridas no passado, como é o caso da privatização de empresas de telecomunicações, não é abusive nem simulada, vez que atende ao disposto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. Lucro Líquido x Lucro Real. Ainda que seja considerada a amortização do ágio para fins de apuração do IRPJ, o mesmo não se pode aplicar à CSLL, cuja base de cálculo é o lucro líquido, e não o lucro real. Despesas com Assessoria. O Fisco incorreu em equívoco ao interpretar os requisitos de dedutibilidade face as atividades contratadas pela recorrente. Foi firmado contrato com a MAG ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES LTDA para prestação de serviços de gestão de todas as atividades da recorrente. A autoridade fiscal não tem competência para exigir aquilo que a lei não determinada, conforme art. 112, inciso II do CTN. O Parecer Normativo CST nº 10. de 1976, predica que a comprovação de despesas pode ser feita por meio de quaisquer documentos (notas fiscais, conhecimentos, contratos, recibos, etc). Assim, em matéria de despesas devidamente contabilizadas e suportadas em documentos idôneos e não sendo posto em causa a questão do pagamento, como no caso concreto, cabe à auditoria fiscal a demonstração de que as despesas não seriam dedutíveis, seja porque realmente não seriam usuais ou necessárias ou porque os documentos que as embasaram não seriam hábeis e idôneos. O direito de o Fisco indagar da efetiva prestação de serviços só ocorre quando a fiscalização reunir provas, ou mesmo indícios, de que os serviços não foram ou não poderiam ter sido prestados. E, se a autoridade fiscal tem dúvida quanto à efetiva prestação do serviço, deveria promover diligências junto ao prestador de serviços para verificar a ocorrência de possível irregularidade. No caso em análise, foi completamente desconsiderado o Contrato de Prestação de Serviços de Consultoria, Assessoria e Gestão de Negócios celebrado, que identifica as partes envolvidas, a espécie do serviço e a condições de prestação. Ademais, em nenhum momento foram ocultadas as informações fiscais e contábeis do Fisco. IRRF. O enquadramento legal, arts. 674 e 675 do RIR/99, não apontou com precisão qual seria a acusação do Fisco, vez que o art. 674 trata do beneficiário não identificado, e o art. 675 da não incorporação ao salário dos beneficiários. A correta inteligência do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995 ainda não foi feita, e esta sendo construída a partir dos casos conhecidos e pela reflexão que o tempo impõe. No rigor jurídico, o mencionado artigo não criou mais uma modalidade de tributação exclusiva na fonte, já que o fato tomado para essa tributação, o pagamento, não tem signo de renda, como exige o art. 43 do CTN. Na realidade, o art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995 parece instituir uma efetiva penalidade, dissimulada como imposto de renda retido na fonte, o que é problemático, vez que o Fl. 2868DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 14 13 art. 3º do CTN veda a utilização do tributo como substituto de penalidade. Portanto, ainda que mantido o IRRF, a recorrente observa que seria impossível aplicar a multa de ofício, sob pena de incorrer em bis in idem. Ainda, registerse que já foi recolhido IRRF, que deve ser descontado na eventualidade de subsistir o lançamento de ofício. Multa de Ofício. No decorrer de toda a auditoria fiscal, a Recorrente foi transparente e coerente em seus esclarecimentos, sobretudo no que diz respeito a seu entendimento quanto ao amparo legal para aproveitar o ágio. A criação de empresa para este fim era prática normal à época, tanto que foi objeto de normatização pela CVM (Instrução CVM 349/2001). Por seu turno, a própria Lei 9.732/97, em seu artigo 8º, versou sobre aspectos relativos a incorporação da controlada pela controladora. Assim, reside dúvida em saber se, num caso como o presente, em que todos os atos praticados pela Recorrente, apesar de terem sido considerados sem intenção negocial no primeiro momento, e com simulação, no segundo momento, mas mediante ampla publicidade de todo o processado, permitiria a identificação do chamado evidente intuito de fraude ou a prática de sonegação fiscal. Isso por que a sonegação importa necessariamente em práticas de encobrir o fato realizado, de forma a que a conduta do contribuinte tenha necessariamente de vir acobertada por um doloso véu de ocultação. E, no caso dos autos, toda a operação, pela sua própria natureza e pelas partes envolvidas, incluindo empresa de capital aberto, foram divulgadas, em atendimento às prescrições das normas comerciais e da CVM, tendo as atas de assembléia sido devidamente registradas. Assim, apesar de o negócio ter sido considerado simulado afastandose os seus efeitos para fins de tributação, identificandose ser o tributo devido, resta evidente que a Recorrente agiu certa de que estaria praticando o chamado negócio jurídico indireto, de forma absolutamente pública, respaldado por entendimentos abalizados de que negócio estaria abarcado pela chamada elisão fiscal. Não há, portanto, que se falar em dolo específico previsto no caput dos artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 1964, elemento essencial para se promover a qualificação da multa de oficio. Multa Isolada. Jurisprudência do CARF é no sentido de que não é devida multa isolada, posto que incide sobre a mesma base da multa de ofício. Ainda, há que se observar que, tendo o ágio como desdobramento a postergação do imposto, outro efeito da postergação é de que o lançamento de ofício é efetuado sem imposição de multa. Não Incidência da SELIC sobre Multa de Ofício. Não há previsão legal para exigir os juros calculados com base na taxa SELIC sobre a multa de ofício lançada. Provas. Requerse a produção de provas complementares e produção de diligência, caso necessário.” Do julgamento do recurso pela Terceira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção resultou o acórdão n. 1103001.170 (Efls. 1783 ss.), que manteve Fl. 2869DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 15 14 praticamente todo o lançamento, com exceção da dedução da exigência de IRRF dos valores pagos mediante os Darf de fls. 1.552/1.556 e da multa isolada imposta em razão da falta de pagamentos sobre estimativas mensais. Leiase a sua ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano calendário: 2007, 2008 NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Tendo a descrição dos fatos e o enquadramento legal da autuação sido cirúrgicos, tratando precisamente da glosa das amortizações efetuadas pela recorrente no decorrer dos anoscalendário de 2007 e 2008, que tiveram como desdobramento uma nova apuração na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, não há que se falar em nulidade. DECADÊNCIA. CIÊNCIA DOS LANÇAMENTOS DE OFÍCIO ANTES DA CONSUMAÇÃO DO PRAZO. Mesmo aplicandose a contagem mais favorável à recorrente, art. 150, § 4º do CTN, não restou consumada a decadência, tendo em vista que o fato gerador do ano calendário de 2007 (lucro real anual) aperfeiçoouse em 31/12/2007. Isso porque, tendo a ciência dos autos de infração ocorrido em 20/08/2012, o prazo decadencial restaria consumado apenas em 31/12/2012. FORMAÇÃO DO ÁGIO. Investimento avaliado pelo Método de Equivalência Patrimonial (MEP) adquirido por valor superior ao contabilizado no patrimônio líquido constitui ágio que, em regra geral, não é objeto de aproveitamento para fins fiscais, salvo em casos específicos dispostos na legislação tributária, como alienação, liquidação ou transformação societária envolvendo controlador e controlada ou coligada. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. NORMA TRIBUTÁRIA. ASPECTOS DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA. Os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, nos casos de transformação societária (incorporação, fusão ou cisão) envolvendo o investimento objeto da mais valia, com repercussão direta na base de cálculo do tributo, o que permite a sua análise sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, mediante verificação dos aspectos pessoal, temporal e material. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. ASPECTO TEMPORAL. Devese verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. ASPECTO PESSOAL. Fl. 2870DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 16 15 Os arts. 385 e 386 do RIR/99 se dirigem à sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, sendo ela, e apenas ela a destinatária da prerrogativa de amortização do sobrepreço. A partir do momento em que o ágio é transferido ou repassado para outras pessoas (de A para B, de B para C, de C para D e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora, a subsunção à norma tributária não se concretiza por incompatibilidade do aspecto pessoal. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. ASPECTO MATERIAL. Devese consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). FUNCIONALIDADE DO SISTEMA TRIBUTÁRIO. Os fatos do mundo real, para se amoldarem perfeitamente à hipótese de incidência definida pela norma tributária, devem surgir naturalmente, decorrente de atuação isenta dos agentes envolvidos e de negociação imparcial, mediante conciliação dos interesses econômicos e financeiros. Incorre em afronta à normalidade a construção de um suporte fático artificial, entre agentes não relacionados, que celebram entre si negócios que desafiam a lógica empresarial, com aquisição de investimentos sem contrapartida, valoração de sobrepreço sem fundamentação econômica, e reorganizações intragrupo desprovidas de substância. A ocorrência de comportamentos “fora da curva” provocam a desfuncionalidade do sistema. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA ARTIFICIAL. Ágio construído a partir de uma reorganização societária artificial, partindo de um grupo de empresas com administração em comum, para viabilizar um sobrepreço no investimento sem fundamento econômico, especificamente para produzir despesas com o intuito deliberado de reduzir a base de cálculo dos tributos, não repercute na esfera tributária. GLOSA DE DESPESAS. Prestação de serviços, fruto de situação artificial criada pela contribuinte, não se mostra dedutível, tendo em vista que nasceu a partir de um fato fictício e inexistente. Despesas criadas, sem substância, apenas para lastrear os pagamentos efetuados e justificar a dedução na base de cálculo do IRPJ e da CSLL a título de despesas operacionais, devem ser glosadas. QUALIFICAÇÃO DE MULTA. Demonstrado que os atos praticados pela recorrente tiveram o intuito doloso, o plus na conduta, aspecto subjetivo que vai além do tipo tributário previsto na infração tributária, extrapolando o contorno delineado pela moldura da norma, a consequência é a Fl. 2871DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 17 16 qualificação da multa de ofício. CSLL. DECORRÊNCIA. Diante do mesmo suporte fático e matéria tributável, aplicase à CSLL o decidido no IRPJ. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Ano calendário: 2007, 2008 PAGAMENTOS SEM CAUSA. A hipótese de incidência delineada no art. 674 do RIR/99 comporta pagamentos efetuados ou recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa. Trata se de situação no qual, partindose do pressuposto de que o prestador de serviços não ofereceu os rendimentos à tributação, a sujeição passiva é transferida para o tomador de serviços. Assim, restando comprovada a ocorrência de pagamentos para lastrear situação forjada pela contribuinte, que concebeu uma ficção com o intuito de produzir despesas operacionais dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e CSLL, e a artificialidade da prestação de serviços, não há que se falar em causa que pudesse justificar os pagamentos, razão pela qual cabe a incidência do imposto de renda exclusivo na fonte sobre os correspondentes recolhimentos. IRRF. RECOLHIMENTOS EFETUADOS. Pagamentos efetuados de IRRF devidamente comprovados, com correspondência em notas fiscais emitidas, devem ser aproveitados e deduzidos do tributo apurado no lançamento de ofício. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2007, 2008 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa isolada, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTOS DE ESTIMATIVAS MENSAIS. MULTA ISOLADA. É ilegal a cumulação de multa isolada (art. 44, II, “b”, Lei nº 9.430/96), com a multa de ofício (art. 44, I, Lei nº 9.430/96), sobre a mesma base tributável. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência, por unanimidade, e, no mérito, dar provimento parcial para (i) deduzir da exigência de IRRF os Fl. 2872DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 18 17 valores pagos mediante os Darf de fls. 1.552/1.556, por unanimidade, e (ii) excluir as multas isoladas impostas em razão da falta de pagamentos sobre estimativas mensais, por maioria, vencidos os Conselheiros Eduardo Martins Neiva Monteiro e André Mendes de Moura (Relator). Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Fábio Nieves Barreira. Em primeira votação, o Conselheiro Marcos Shigueo Takata entendeu ser improcedente a exigência de IRRF, no que foi vencido. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício foi mantida por maioria, vencidos os Conselheiros Breno Ferreira Martins Vasconcelos e Marcos Shigueo Takata, e a qualificação da multa de ofício no percentual de 150% foi mantida por unanimidade. Os Conselheiros Fábio Nieves Barreira e Marcos Shigueo Takata acompanharam o voto do Relator pelas conclusões quanto às matérias relativas a ágio e glosa de despesas e o Conselheiro Breno Ferreira Martins Vasconcelos acompanhou o Relator pelas conclusões quanto ao ágio. Assinado Digitalmente Aloysio José Percínio da Silva Presidente Assinado Digitalmente André Mendes de Moura Relator. Assinado Digitalmente Fábio Nieves Barreira – Redator Designado” Contra o referido acórdão, inicialmente, a Fazenda Nacional interpôs recurso especial (Efls. 1824 ss.), pretendendo fosse restabelecida a multa isolada, diante da defendida possibilidade de sua cumulação com a multa de ofício, pelas diferentes razões que desenvolve, para o que apresentou os acórdãos n. 1101001.057 e n. 1802001.592 como paradigmas da divergência. O recurso foi recepcionado por despacho de admissibilidade (Efls. 1845 ss.) e, intimada, primeiramente a contribuinte apresentou contrarrazões (Efls. 1861) defendendo a insustetabilidade da concomitância entre as multas de ofício e isolada e requerendo a não aplicação da multa de ofício em função da postergação. Em continuidade, a contribuinte opôs embargos de declaração (Efls. 1892 ss.) visando sanar omissão relativa à não apreciação do tema da postergação do IRPJ, com a consequente declaração de nulidade do auto de infração, que não foram admitidos pelo despacho às Efls. 1907 ss. A contribuinte também interpôs recurso especial (Efls. 1947 ss.), suscitando divergência para enfrentar as seguintes matérias, com os respectivos paradigmas: (i) nulidade: recomposição dos exercícios pretéritos (acórdãos n. 1301002.111 e CSRF/0105.936); (ii) decadência (acórdãos n. 10809.501); (iii) ágio (acórdãos n. 1201001.242 e 1301001.852); (iv) lucro líquido x lucro real – aplicação da dedutibilidade do ágio da base da CSLL (acórdão n. 10707.315); (v) despesas com assessoria (acórdãos n. 1101001.204 e 1301001.646); (vi) IRRF (Acórdão n. 1402001.343); (vii) multa qualificada de 150% (Acórdãos n. 1401001.584 e 2102003.014). No entanto, o despacho de admissibilidade (Efls. 2321 ss.) recepcionou o Fl. 2873DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 19 18 recurso somente com relação à dedutibilidade do ágio da base da CSLL e à qualificação da multa, mas apenas no que disse respeito ao ágio interno e com base no primeiro paradigma (Acórdã n. 1401001.584), não se prestando a configurar divergência quanto à parcela das despesas de assessoria. Sequencialmente, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Curitiba, acatanda a representação às Efls. 2353 opôs embargos de declaração (Efls. 2354 ss.) visando sanar inexatidão por lapso manifesto quanto ao nome da recorrente constante do despacho de admissibilidade, o que foi corrigido por outro depacho, às Efl. 2357. A contribuinte interpôs agravo (Efls. 2368 ss.) objetivando que fossem admitidos os pontos do recurso especial aos quais foi negado seguimento, contudo, foi rejeitado por decisão às Efls. 2774 ss. Por fim, a Fazenda Nacional ofereceu contrarrazões (Efls. 2802 ss.), manifestandose quanto ao mérito dos dois pontos admitidos do recurso especial. Passase, assim, à apreciação dos recursos. Fl. 2874DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 20 19 Voto Vencido Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora I. Recurso da contribuinte: CONHECIMENTO O conhecimento do Recurso Especial condicionase ao preenchimento de requisitos enumerados pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho, que exigem analiticamente a demonstração, no prazo regulamentar do recurso de 15 dias, de (1) existência de interpretação divergente dada à legislação tributária por diferentes câmaras, turma de câmaras, turma especial ou a própria CSRF; (2) legislação interpretada de forma divergente; (3) prequestionamento da matéria, com indicação precisa das peças processuais; (4) duas decisões divergentes por matéria, sendo considerados apenas os dois primeiros paradigmas no caso de apresentação de um número maior, descartandose os demais; (5) pontos específicos dos paradigmas que divirjam daqueles presentes no acórdão recorrido; além da (6) juntada de cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, da publicação em que tenha sido divulgado ou de publicação de até 2 ementas, impressas diretamente do sítio do CARF ou do Diário Oficial da União quando retirados da internet, podendo tais ementas, alternativamente, serem reproduzidas no corpo do recurso, desde que na sua integralidade. Observase que a norma ainda determina a imprestabilidade do acórdão utilizado como paradigma que, na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie (1) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal (art. 103A da Constituição Federal); (2) decisão judicial transitada em julgado (arts. 543B e 543C do Código de Processo Civil; e (3) Súmula ou Resolução do Pleno do CARF. Voltandose então ao caso sob exame, observase primeiramente, com relação à dedutibilidade do ágio da base da CSLL, que não se atendeu ao requisito do prequestionamento, apenas sendo tratada a matéria no recurso da contribuinte, motivo pelo qual este não pode ser conhecido neste ponto. De outro lado, com relação à qualificação da multa, entendese preenchidos as exigências enumeradas acima para o conhecimento, ressaltandose que o despacho de admissibilidade apenas deu seguimento à questão da com base no primeiro paradigma (Acórdão n. 1401001.584) e com relação ao tema do ágio interno. Com efeito, dispôs o despacho de admissibildiade quanto a este tema: “Com relação ao primeiro paradigma (Acórdão 1401001.584), contudo, entendo que a recorrente logrou êxito em demonstrar a existência de divergência jurisprudencial, muito embora apenas no que diz respeito às despesas com a amortização do ágio. De fato, consoante ao norte já exaustivamente exposto, para a demonstração de divergência jurisprudencial, necessário se faz que se esteja tratando de contextos fáticos idênticos ou substancialmente semelhantes. E, no caso, o Acórdão 1401001.584, apresentado como paradigma, efetivamente trata de autuação relativa à glosa de despesas com a amortização de ágio interno, o qual foi Fl. 2875DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 21 20 considerado ter sido artificialmente criado pela contribuinte (à semelhança do que se deu no caso do acórdão recorrido), tendo sido inclusive mantida a glosa, portanto, de sua amortização (assim como também o foi no caso do acórdão recorrido). Entretanto, a multa de ofício foi desqualificada, ao entendimento de que as operações haviam sido feitas às claras, e de que a própria jurisprudência do CARF era vacilante a respeito do tema, o que evidenciaria a boa fé do contribuinte e a sua legítima expectativa de que tais operações viessem a ser mesmo chanceladas pela Receita Federal, pelo CARF ou pelo Poder Judiciário. Os seguintes excertos de sua ementa sintetizam o quanto acima afirmado: “ÁGIO INTERNO. ÁGIO DE SI MESMO. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL NA CRIAÇÃO DA RECORRENTE. ARTIFICIALIDADE. Apesar de não ter havido configuração de empresa veículo, a Recorrente foi criada para gerar o ágio, pois a empresa incorporada por ela, ou mesmo a empresa uruguaia, poderia ter se tornado o tal Centro de Serviços Compartilhados. A criação da Recorrente no mesmo endereço da incorporada, com transferência de ativos, operações e funcionários desta para aquela, revela uma estratégia, sem propósito negocial, traçada para gerar a redução da tributação. MULTAS DE 150%. DESQUALIFICAÇÃO. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO SEM FRAUDE OU SIMULAÇÃO. O contribuinte tentou realizar operações de uma forma que mais lhe beneficiassem do ponto de vista tributário, entendo que elas poderiam vir a ser aceitas pela Receita Federal, pelo CARF ou mesmo pelo Judiciário. A jurisprudência do CARF sobre o tema do ágio era vacilante em 2006 e ainda é até hoje. Devem ser desqualificadas as multas de ofício, retornando ambas a 75%.” Portanto, diante de situações fáticas substancialmente equivalentes, com a constatação de ágio interno gerado artificialmente por meio de operações societárias, o acórdão recorrido manteve a multa qualificada, enquanto o acórdão paradigma a reduziu ao percentual de 75%. Demonstrada, assim, a divergência jurisprudencial. Não é possível, entretanto, aproveitarse o mesmo acórdão 1401 001.584, com a devida vênia, como paradigma de divergência com relação à aplicação da multa qualificada sobre as despesas com a prestação de serviços não comprovados.” Com essas observações, VOTASE POR CONHECER PARCIALMENTE o recurso especial da contribuinte, apenas no que tange à qualificação da multa relacionada ao ágio interno. MÉRITO De acordo com a análise de conhecimento procedida, devolvese ao julgamento desta instância, então, apenas a matéria relativa à desqualificação da multa quanto à Fl. 2876DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 22 21 infração referente ao ágio interno, diferentemente do que decidido no acórão recorrido, o qual se transcreve: “(...) QUALIFICAÇÃO DE MULTA. Demonstrado que os atos praticados pela recorrente tiveram o intuito doloso, o plus na conduta, aspecto subjetivo que vai além do tipo tributário previsto na infração tributária, extrapolando o contorno delineado pela moldura da norma, a consequência é a qualificação da multa de ofício. (…) Sobre a multa de ofício, observase que foi qualificada (150%) para as duas primeiras infrações. Entendo que não poderia ser diferente. Notase a consciência da recorrente em engendrar uma construção, partindo de um grupo de empresas com administração em comum, especificamente para produzir despesas com o intuito deliberado de reduzir a base de cálculo dos tributos. No caso concreto, restou demonstrada a presença de dois elementos inerentes ao dolo: o cognitivo, que é o conhecimento do fato constitutivo da ação típica, e o volitivo, a vontade de realizar a conduta. Cezar Roberto Bitencourt esclarece, com clareza peculiar, in verbis: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada (...) A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente (...) É indispensável uma determinada relação de vontade entre o resultado e o agente e é exatamente esse elemento volitivo que distingue o dolo da culpa. Não há que se falar em desconhecimento ou ignorância da norma por parte da recorrente. A formação do ágio decorreu de uma reorganização societária artificial, que viabilizou uma reavaliação no investimento, registro de ágio e posterior amortização. Sequer ocorreu pagamento à investidora pela suposta valorização das ações. A própria recorrente, sem nenhum constrangimento, respondeu à Fiscalização, em resposta à intimação realizada em 18/05/2012: Em 21/11/2005, a Brafer Construções Metálicas S.A. incorporou a Brafer Indústria e Construções Ltda., sucedendo neste direito a partir deste ato. A baixa do valor de ágio R$30.299.936,15, foi levado a despesa em 60 parcelas, como regulamenta a legislação, sem qualquer desembolso financeiro. Fl. 2877DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 23 22 O mesmo se pode dizer a respeito do contrato de prestação de serviços celebrado entre a recorrente e a MAG. Restou evidente a manipulação entre as duas empresas administradas pelo mesmo grupo, para fabricar despesas operacionais. As conclusões descritas no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal são precisas: O contribuinte, ao gerar de forma artificial uma despesa com ágio sabidamente inexistente, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco, além das reais circunstâncias materiais do fato gerador, já que tudo isso que foi feito teve o propósito de iludir o Fisco, pois deu o nome de "Ágio sobre Investimentos" a fatos sabidamente desprovidos de quaisquer características que o compõe. Não basta o fato de estar tudo informado em DIPJ ou em Notas Explicativas, ou então, os Atos Formais registrados nos Órgãos competentes. O fato é que tudo isso foi feito para ' informar ao Fisco algo que inexistia e, que, portanto, produziu o retardamento do conhecimento das verdadeiras circunstâncias. Ademais, houve a modificação de característica essencial do fato gerador, uma vez que os montantes de IRPJ e CSLL devidos foram reduzidos (usou despesas sabidamente inexistentes). A FISCALIZADA não praticou estes fatos de forma involuntária, ou incorreu em erro em sua conduta, restando caracterizada a atitude dolosa. Desta forma, a conduta sob análise amoldase às hipóteses previstas nos artigos da Lei 4.502/64 abaixo citados. O fundamento para a qualificação da multa reside na utilização de uma série de instrumentos com o intuito de criar uma roupagem legal capaz de dar uma aparência legítima às operações de reorganização societária cujo único fundamento era o aproveitamento do ágio como despesa dedutível. Nessa construção, utilizouse a contribuinte da confecção de laudos de avaliação capazes de sustentar a existência do ágio e da celebração de protocolo de incorporação para justificar a incorporação efetivada, pela autuada, que nada mais foi do que uma série de modificações societárias de forma a se colocar em situação de aproveitamento do ágio. O conjunto dos atos levados a efeito pela autuada corresponderia à uma prática deliberada, consciente dos riscos envolvidos, com o objetivo de alcançar, por meio da criação fictícia de ágio e de uma estrutura societária artificial, vantage fiscal indevida. O conjunto dos fatos verificados no caso sob exame colocam em evidência o propósito de construção de uma pretensa realidade formal destinada a mascarar, senão a ocultar, o que de fato se pretendia, o que de fato se buscava. É dizer, todas as ações envolvidas tinham por fim único a criação de um ágio fictício a ser transformado em benefício fiscal por força de um arranjo societário artificial. (...) Fl. 2878DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 24 23 A série de atos praticados pela recorrente caracterizam o intuito doloso, o plus na conduta, aspecto subjetivo que vai além do tipo tributário previsto na infração tributária. Restou evidente a intenção de enganar o Fisco, mediante ardil, malícia, em conduta reprovável. Portanto, deve ser mantida a qualificação de multa de ofício.” Retornandose ao Termo de Verificação Fiscal delimitase que a infração em tratamento da amortização de valores de ágio inexistente, porque criado artificialmente, uma vez decorrente de operação intragrupo. Leiase “A geração de ágio de forma interna, ou seja, dentro do mesmo grupo econômico, originado de operações efetuadas pelos mesmos detentores e controladores das participações societárias, sem a movimentação de recurso financeiro e sem efeito econômico, constitui prova da artificialidade do ágio. Eventuais amortizações efetuadas em função de ágio efetuado nessas condições, devem ser glosadas. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. Desta forma, os ágios amortizados em 2007 e 2008, que são correspondentes à incorporação de 2005, não são dedutíveis como despesas na apuração do IRPJ e da CSLL, por trataremse de ÁGIO INTERNO conforme já mencionado acima. Assim, a primeira infração tipificada pela autoridade autuante foi a glosa das amortizações de ágio promovidas pela contribuinte no decorrer dos anoscalendário de 2007 e 2008.” Desse artificialismo, pela sequência de operações descritas no início do referido termo de verificação fiscal, entendeuse aplicável a qualificação da multa, porque consciente a contribuinte de que estaria praticando atos tendentes a evitar o fato gerador da obrigação tributária, caracterizado o dolo necessário à imposição da multa qualificada. Dentro dessa demarcação quanto ao ágio haver sido gerado intragrupo e independentemente da oponibilidade dessas operações ao fisco, não vislumbro a possibilidade de se imputar penalidade qualificada pela operação praticada, justamente porque entendo não se estar no campo da ilicitude, uma vez que a legislação vigente à época dos fatos não vedava essa espécie de transação, o que demandaria uma maior trabalho fiscal para se comprovar atos que maculassem a causa do negócio jurídico e o evidente intiuito fraudulento necessário à qualificação, cujo dolo de fraudar é essencial. Ocorre que, muito embora o fiscal tenha tratado fartamente do artificialismo das operações e mencionado a existência de conluio, fraude ou simulação, o fez de maneira genérica, capitulando a infração nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 4502/64, sem individualizar as condutas, procedendo à competente subsunção. É até admissível que se compreenda dizer ter havido a escolha de um caminho fiscal menos oneroso, mas que por fugir à causa do negócio jurídico, admitiria a Fl. 2879DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 25 24 requalificação dos negócios, sendo o caso, com a exigência do tributo e a multa pelo seu não recolhimento. No entanto, além da ausência de previsão legal que vedasse a dedutibildiade do ágio interno à época dos fatos, a jurisprudência desse colegiado também não se mostrava consistente em inquinar a operação controversa como inválida. Como, então, imputar ilicitude à conduta da contribuinte, se nem este órgão se posicionava assim em todos os casos? Penso que não se pode atribuir, desse modo, peremptoriamente essa consciência do ilícito e dolo à contribuinte. Assim sendo, votase por DAR PROVIMENTO ao recurso da contribuinte. II. Recurso da Fazenda Nacional: CONHECIMENTO Assim como realizado em relação ao recurso da contribuinte, antes que se adentre ao mérito é importante se verificar o preenchimento dos mesmos requisitos enumerados quando da análise de conhecimento acima, os quais não se reproduzirá nesta oportunidade para se evitar repetição. Objetivamente, como a matéria recorrida corresponde à concomitância entre multas de ofício e isolada pelo não recolhimento de estimativas nos anos calendário de 2007 e 2008, entendese pela impossibilidade de conhecimento do recurso especial por ir de encontro ao disposto na Súmula CARF n. 105, que se entende aplicável por esta relatora inclusive a períodos posteriores a 2007: “Súmula CARF nº 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” (grifouse) Assim sendo, votase por NÃO CONHECER o recurso da Fazenda Nacional. MÉRITO Na eventualidade de o recurso especial da Fazenda Nacional ser conhecido, a matéria de mérito posta a julgamento restringese à definição da possibilidade de cominação da multa isolada por não pagamento do IRPJ e CSLL calculada com base no regime de estimativas mensais concomitantemente com a multa de ofício aplicada pelo não recolhimento do tributo ao final dos anos calendário 2007 e 2008, fundamentadas nos artigos 44, inciso I e parágrafo 1o., IV, da Lei n. 9430/96., cuja redação original assim versava: “Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I – de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de Fl. 2880DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 26 25 declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; §1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; (...) IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente. (…)” Muito embora o veículo introdutor dessa norma seja posterior à edição da Súmula n. 105, editada por este conselho no ano de 2004 e aplicável aparentemente de forma pacífica para os anos calendários até 2006, entendese que a norma jurídica, enquanto significação que pode ser construída a partir do enunciado do artigo 44, II, b da Lei n. 9.430/96, em sua nova redação, não difere em sua substância daquela que deu origem à referida súmula e, portanto, continuase a aplicála: “Súmula CARF nº 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” (grifouse) Contudo, ainda que assim não fosse, vale dizer, ainda que não houvesse súmula editada nesse sentido ou que se estivesse referindo a períodos posteriores à mencionada alteração legislativa, a visão que se possui sobre o tema não se modificaria, pois, no posicionamento adotado, não se discorda da existência de dois fatos jurídicos distintos, embora ambos tendo como objeto central o não recolhimento do IRPJ e como obrigação o pagamento de multa pelo seu descumprimento. Entendese cuidar, sim, de dois fatos jurídicos, porque quando se altera qualquer um de seus critérios, a exemplo do temporal, tornase o fato diferente de um outro que não possua a mesma condição. Ocorre que se vê proximidade tanto no objeto de suas hipóteses de incidência – originadas do descumprimento de normas que se referem à obrigação tributária de recolhimento do IRPJ e CSLL –, seja em caráter antecipatório ou definitivo, como na consequência imputada correspondentes às penalidades, diferenciadas sim pela grandeza considerada, nos diferentes incisos do mencionado artigo 44 da Lei n. 9.430/96. Vêse como elemento de diferenciação, portanto, o caráter antecipatório da obrigação, cujo descumprimento gera como consequência a imputação da multa isolada – como, afinal, se vislumbra em diversas regras da sistemática do Imposto sobre a Renda, a exemplo da substituição tributária que antecipa o pagamento no regime de retenção na fonte –, mas, uma vez se encerrando o período de apuração, temse a identificação precisa da base de cálculo do tributo devido e a determinação da multa efetiva pelo seu não recolhimento, não mais devendo prevalecer aquilo que era calculado com base em estimativas, assim como a multa pela não não pagamento neste regime. Fl. 2881DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 27 26 O fato de haver estimativas para o cômputo do IRPJ que será adiantado mensalmente não pode significar que a sua base de cálculo – ou seja, aquilo que juntamento com a hipótese de incidência diferencia um tributo, numa linha há muito ensinada por Rubens Gomes de Sousa – seja desvirtuada daquele montante que deve sofrer os necessários ajustes para se alcançar a renda objeto da competência da União Federal, o que muito provavelmente não é o que se encontra a partir, como o próprio nome sugere, das estimativas verificadas ao longo do período de apuração. Daí porque não se considera a possibilidade de imputação de multas distintas sob a justificativa de possuírem diferentes bases de cálculo, quando se chega ao final do período e se identifica a efetiva base de cálculo do tributo e, então, se impõe uma multa pelo seu não recolhimento – ainda que isso pareça esvaziar o conteúdo do artigo 44, inciso II, alínea b, da Lei n. 9430/96, a não ser para se penalizar quando a autuação ocorra no decorrer do período de apuração ou não gerar um tratamento não equânime entre os contribuintes que, diligentes, recolhessem o tributo antecipadamente, em relação aos que não procederiam a tal adiantamento e, ao final, verificando haver prejuízo fiscal ou saldo negativo, não se sujeitariam a qualquer penalidade. Dizer ser o IRPJ no regime mensal recolhido sobre bases estimadas não infirma a proximidade substancial das obrigações, mas justamente confirma que, se se está tratando de adiantamento, apenas se pode estar estimando aquilo que ainda não foi mensurado em caráter definitivo e que, o sendo, prevalece sobre as presunções efetuadas, assim como prevalece a multa pelo seu não recolhimento, por identificarse, afinal, com a que pune igualmente o não recolhimento do tributo, mas de forma antecipada. Por essa linha, não se precisaria também buscar no Direito Penal o princípio da consunção (vide acórdãos n. 9101001.307, 1803001.263, 9101001.261), muito embora se coincidam quanto ao resultado alcançado, embora nesse caso não se possa sofrer as críticas de que não haveria previsão para aplicação da espécie na legislação fiscal. De todo modo, esse é um dos argumentos que sustentam os precedentes administrativos da referida Súmula n. 105 do CARF, assim como as duas decisões que se encontram proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça sobre a matéria, retratadas por trecho do voto do Ministro Humberto Martins no REsp 1496354, do qual se transcreve trecho representativo, em que também se orientou o acórdão do AgRg no REsp 1499389: “(…) Sistematicamente, notase que a multa do inciso II do referido artigo somente poderá́ ser aplicada quando não possível a multa do inciso I. Destacase que o inadimplemento das antecipações mensais do imposto de renda não implicam, por si só, a ilação de que haverá tributo devido. Os recolhimentos mensais, ainda que configurem obrigações de pagar, não representam, no sentido técnico, o tributo em si. Este apenas será apurado ao final do ano calendário, quando ocorrer o fato gerador. As hipóteses do inciso II, "a" e "b", em regra, não trazem novas hipóteses de cabimento de multa. A melhor exegese revela que não são multas distintas mas apenas formas distintas de aplicação da multa do art. 44, em consequência de, nos caso ali descritos, não haver nada a ser cobrado a títul de obrigação tributária principal. Fl. 2882DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 28 27 As chamadas "multas isoladas", portanto, apenas servem aos casos em que não possam ser as multas exigidas juntamente com o tributo devido (inciso I), na medida em que são elas apenas formas de exigência das multas descritas no caput. Esse entendimento é corolário da lógica do sistema normative tributário que pretende prevenir e sancionar o descumprimento de obrigações tributárias. De fato, a infração que se pretende repreender com a exigência isolada da multa (ausência de recolhimento mensal do IRPJ e CSLL por estimativa) é completamente abrangida por eventual infração que acarrete, ao final do ano calendário, o recolhimento a menor dos tributos, e que dê azo, assim, à cobrança da multa de forma conjunta. Em se tratando as multas tributárias de medidas sancionatórias, aplicase a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente. O princípio da consunção (também conhecido como Princípio da Absorção) é aplicável nos casos em que há uma sucessão de condutas típicas com existência de um nexo de dependência entre elas. Segundo tal preceito, a infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Sob este enfoque, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo. (…)” Assim sendo, considerandose a linha ora adotada ou os próprios fundamento dos precedentes da Súmula n. 105 do CARF, que neste caso se pautaram na compreensão da base de cálculo da multa isolada pela multa de ofício ou na aplicação do princípio da consunção, não se vê as alterações promovidas pela Lei n. 11.488 como capazes de alterar tais circunstâncias e sustentar questionamentos quanto à aplicação da súmula a períodos posteriores a 2007, ano em que publicada a lei. Portanto, além de se poder estar aplicando o entendimento da Súmula CARF n. 105 para se afastar a imputação da multa isolada mesmo fundamentada no artigos 44, inciso II, alínea b, da Lei n. 9430/96, em função de sua concomitância com a multa de ofício pevista no inciso I do mesmo dispositivo, as razões para se decidir desta maneira caberiam ainda que não houvesse referido enunciado sumulado e que a autuação se referisse a ano calendário posterior à Lei n. 11.488/2007. Assim sendo, seja porque não se aceita a sua concomitância com a multa de ofício, somada ao fato de se compreender não haver limitação temporal para a aplicação da Súmula CARF n. 105, entendese que deva ser mantido o acórdão recorrido. Por essas razões, votase por NEGAR PROVIMENTO ao recurso da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Fl. 2883DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 29 28 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Redator designado Abordo neste voto os pontos a respeito dos quais divirjo dos entendimentos tão bem expostos pela i. Conselheira Relatora, sempre com a devida vênia. A nobre Relatora restou vencida quanto: (i) ao não conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional; (ii) à negativa de provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, no que diz respeito à única matéria ali contestada, relacionada à cobrança concomitante das multas isolada e de ofício; e (iii) ao provimento dado ao recurso especial da contribuinte, no que toca à multa de ofício qualificada, única matéria recorrida que foi conhecida. I) Conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional O recurso especial da PGFN narra que o acórdão recorrido teria cancelado a exigência da multa isolada relativa à falta de recolhimento de estimativas por considerar ilegítima sua cobrança em concomitância com a multa de ofício. Assim teria se inaugurado dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e os acórdãos paradigmas nº 1101001.057 e nº 1802001.592, que defenderiam a possibilidade de cobrança da multa isolada por falta de recolhimento de estimativas juntamente com a multa de ofício, por caracterizarem penalidades diferentes e se referirem a infrações distintas. A i. Conselheira Relatora deste julgamento votou pelo não conhecimento do recurso especial fazendário porque a matéria "cobrança concomitante das multas isolada e de ofício", única recorrida, já teria sido sumulada no âmbito do CARF, em sentido oposto ao defendido pela recorrente. Como a Súmula CARF nº 105 já teria estabelecido a impossibilidade de lançamento concomitante das citadas multas, a nobre Relatora afirma que o conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional iria de encontro ao teor da Súmula, provavelmente fazendo referência à regra insculpida no § 3º do art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015), equivalente ao § 2º do art. 67 do Anexo II do RICARF vigente à época da interposição do recurso (RICARF/2009), que veda a apresentação de recurso especial contra decisão que adote entendimento de súmula de jurisprudência do CARF. O voto da nobre Conselheira Relatora menciona, para fundamentar sua decisão pelo não conhecimento do recurso, que considera a tese exposta na Súmula CARF nº 105 aplicável inclusive a períodos posteriores a 2007. Divirjo de tal entendimento. A Súmula CARF nº 105 é explícita ao mencionar a impossibilidade de cobrança concomitante da "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996" com a "multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual". Observese que o dispositivo legal que fundamenta a cobrança da multa de ofício não é mencionado. Fl. 2884DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 30 29 Sendo assim, é bastante provável que a intenção da 1ª Turma da CSRF tenha sido exatamente a de delimitar a vedação de aplicação concomitante à multa isolada fundamentada especificamente no inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996. Caso a menção ao dispositivo legal tivesse sido feito de forma despretensiosa, apenas com a intenção de identificar de que multa isolada a Súmula estaria tratando, provavelmente a referência à multa de ofício também viria acompanhada da identificação do dispositivo legal que a fundamenta. Além disso, tendo sido a Súmula editada pela 1ª Turma da CSRF apenas em 08/12/2014, muito tempo após a revogação do inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996 e o início da vigência da Lei nº 11.488/2007, seria esperado que ela fizesse alguma referência genérica como "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas não pode ser exigida (...)" caso não desejasse se referir especificamente à multa isolada prevista no dispositivo revogado em 2007. A previsão legal da multa aplicada isoladamente foi significativamente alterada em janeiro de 2007. Na redação anterior, contida no art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430/1996, previase a exigência de multa isolada, calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição, no caso de a pessoa jurídica sujeita ao pagamento do IRPJ e da CSLL, na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996, deixar de fazêlo, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no anocalendário correspondente. O percentual da multa aplicável era de 75%. Já com a redação introduzida pela MP nº 351/2007 e pela Lei nº 11.488/2007, prevêse no art. 44, inciso II, alínea "b" da Lei nº 9.430/1996 a cobrança de multa isolada de 50%, calculada sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no anocalendário correspondente. Verificase, portanto, que houve alterações expressas e significativas na base de cálculo e nos percentuais aplicáveis à multa isolada. Desta forma, não é possível afirmar, em sede de análise do conhecimento do recurso e sem adentrarmos no mérito da discussão, que a Súmula CARF nº 105 abrangeria também períodos posteriores a 2007. Diante do exposto, entendo inaplicável ao caso sob análise a restrição tipificada no art. 67, § 3º, do Anexo II do RICARF/2015 (art. 67, § 2º, do Anexo II do RICARF/2009), razão pela qual CONHEÇO do recurso especial da PGFN em relação às multas isoladas relacionadas aos anoscalendário 2007 e 2008. II) Mérito do recurso especial da Fazenda Nacional cobrança concomitante das multas isolada e de ofício A Fazenda Nacional contesta, em seu recurso, a conclusão do acórdão recorrido de que deve ser excluída a aplicação das multas isoladas no caso concreto por ser ilegal a exigência de duas penalidades sobre uma mesma base de cálculo. Esta foi a única matéria em que restou vencido o Conselheiro Relator daquele julgado. O voto vencedor do acórdão recorrido é bastante econômico na fundamentação de sua decisão, citando apenas que o entendimento estaria em consonância com a jurisprudência do CARF, conforme decisão administrativa exarada nos autos do processo administrativo nº 10510.000679/200219, cuja ementa parcialmente transcrita declara: "a aplicação concomitante da multa isolada (inciso III, do § 1º, do art. 44, da Lei nº 9430, de Fl. 2885DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 31 30 1996) e da multa de ofício (incisos I e II, do art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996) não é legítima quando incide sobre uma mesma base de cálculo". Divirjo do entendimento exposto, inclusive por entender que, em relação aos anoscalendário 2007 e posteriores, não se verifica a incidência das multas isolada e de ofício sobre uma mesma base de cálculo. Até o advento da MP nº 351/2007 e da Lei nº 11.488/2007, a multa isolada devida por ausência de pagamento das estimativa mensais de IRPJ e de CSLL tinha a seguinte previsão: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: (...) IV isoladamente, no caso de pessoa jurídicas sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro liquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro liquido, no ano calendário correspondente; (...) Com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.488/2007, passou a dispor a mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Fl. 2886DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 32 31 (...) Observemse as alterações efetivas operadas pela mudança de redação: (i) a multa isolada não é mais calculada sobre "a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição", passando a incidir sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser pago na forma prevista no art. 2º da mesma lei; e (ii) o percentual aplicável no cálculo da multa passa de 75% para 50%. A antiga redação do art. 44 efetivamente não deixava tão clara a distinção entre as multas de ofício e isolada. A base sobre a qual as multas incidiam era prevista de forma conjunta, no caput do artigo ("calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"). O percentual aplicável para ambas as multas também era fixado no mesmo dispositivo, o inciso I do artigo ("setenta e cinco por cento"). Somente no inciso IV do § 1º é que existia a previsão específica da exigência de multa isolada pelo não pagamento de IRPJ ou CSLL na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996 (estimativas mensais com base na receita bruta do período). A falta de clareza na antiga redação do art. 44 e o fato de parte das previsões das duas multas constarem dos mesmos dispositivos (mesma base de cálculo, inclusive) foram, em grande medida, responsáveis pela sedimentação do entendimento desta Corte no sentido da impossibilidade de cobrança simultânea das multas isolada e de ofício. Por conta disso, editou se a multicitada Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Com o advento da MP nº 351, de 22/01/2007, e sua posterior conversão na Lei nº 11.488, de 15/06/2007, julgo terem sido extirpadas as fontes de dúbia interpretação do art. 44 no que diz respeito à previsão das multas isolada e de ofício. A nova redação é clara em relação às hipóteses de incidência de cada uma das multas, suas bases de cálculo e percentuais aplicáveis. Conforme declarei no voto pelo conhecimento do recurso especial da PGFN, não considero razoável se considerar que tenha sido casual a expressa menção, pela Súmula CARF nº 105, do dispositivo que tipificou a multa isolada ali mencionada. A Súmula foi editada pela 1ª Turma da CSRF em 08/12/2014, muitos anos após as mudanças redacionais introduzidas pela Lei nº 11.488/2007. Caso a Egrégia Turma quisesse se referir indiscriminadamente a qualquer multa isolada, anterior ou posterior à alteração da redação do art. 44, o teria feito simplesmente deixando de mencionar o art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996. Neste mesmo sentido já se manifestou a CSRF no Acórdão nº 910100.947, cujo voto condutor assim se pronunciou: "Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir "sobre a totalidade ou diferença de tributo", mas apenas sobre "valor do pagamento mensal" a titulo de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano Fl. 2887DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 33 32 que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de oficio em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tomar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de oficio passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. No caso presente, em relação ao anocalendário 1998, a contribuinte foi autuada para exigir principal e multa de oficio em relação a CSLL não recolhida ao final do exercício e, concomitantemente, foi aplicada multa isolada sobre a mesma base estimada não recolhida. Como dito acima, essa dupla penalização sobre ilícitos materialmente relacionados e por força do principio da consunção, não pode subsistir." (grifouse) Interpretando a contrario sensu a referida decisão, concluise que, a partir de janeiro de 2007, quando entrou em vigência a MP nº 351/2007, não subsistem os motivos que outrora impediam a cobrança concomitante das duas multas. Diante de todo o exposto, não vislumbro óbice à cobrança cumulativa das multas isolada (art. 44, inciso II, alínea "b", da Lei nº 9.430/1996) e de ofício (art. 44, inciso I, da mesma Lei) para infrações ocorridas a partir de janeiro de 2007. Portanto, relativamente ao pedido de restabelecimento da exigência das multas isoladas lançadas em vista do não recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL apuradas ao longo dos anoscalendário 2007 e 2008, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional. III) Mérito do recurso especial da contribuinte qualificação da multa de ofício A autoridade tributária considerou que o grupo econômico de que faz parte a contribuinte BRAFER CONSTRUÇÕES METÁLICAS S.A. (doravante mencionada apenas como BRAFER S.A.) praticou uma sequência de operações societárias com o único intuito de criar, de forma interna e artificial, ágio cuja posterior amortização se pretendeu dedutível, de forma que foram indevidamente reduzidos os montantes de IRPJ e CSLL recolhidos aos cofres públicos, relativos aos anoscalendário 2007 e 2008. A primeira etapa destas operações societárias ocorreu em 31/10/2005, quando a empresa MAG PARTICIPAÇÕES LTDA (deste ponto em diante citada como MAG) promoveu o aumento do capital social de sua controlada BRAFER INDUSTRIA E CONSTRUÇÕES LTDA (de agora em diante, denominada apenas de BRAFER LTDA), de R$ 557.490,00 para R$ 61.374.635,00, mediante a entrega de 14.993.133 ações da BRAFER S.A. avaliadas a R$ 60.817.145,00. Fl. 2888DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 34 33 Como o valor patrimonial das ações dadas em conferência era de R$ 30.517.208,85, houve o registro, na contabilidade da BRAFER LTDA, de ágio no valor de R$ 30.299.936,15, correspondente à diferença entre o valor atribuído às ações da BRAFER S.A. (R$ 60.817.145,00) e seu valor patrimonial. Já em 21/11/2005, a BRAFER S.A. incorporou sua então controladora BRAFER LTDA, cujo patrimônio líquido contábil estaria avaliado, segundo laudo de avaliação elaborado por contadores, em R$ 62.019.611,29, na data base de 31/10/2005. Com isso, passou a integrar a contabilidade da BRAFER S.A. o ágio originalmente registrado na BRAFER LTDA. A partir de então, a contribuinte BRAFER S.A. passou a aproveitar tributariamente tal ágio para reduzir as bases de cálculo de IRPJ e CSLL, sob a alegação de que tal prática estaria autorizada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (base legal do art. 386 do RIR/1999). Foram aproveitados R$ 6.345.172,44 no anocalendário 2007 e R$ 17.389.777,69 no anocalendário seguinte. A Fiscalização entendeu como indevido o aproveitamento tributário do ágio (considerado artificial e internamente gerado) e determinou a glosa das despesas indevidamente deduzidas nos dois anoscalendário, constituindo créditos tributários correspondentes à diferença entre os valores devidos e os recolhidos no período. Além disso, determinou a Fiscalização a aplicação, sobre a parte do crédito tributário que se relaciona à indevida amortização do ágio interno (como se sabe, os autos de infração apontaram também outras infrações), de multa de ofício em sua modalidade qualificada, no percentual de 150%, com base na seguinte fundamentação: "04.1 Multa de Ofício A penalidade aplicada é aquela autorizada pelo parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488, de 2007: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por centro) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; ... § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Numa análise objetiva dos fatos aqui apurados frente aos dispositivos legais em comento, não há como não deixar de enquadrar a conduta acima descrita nas definições contidas na Lei 4.502/64, abaixo transcrita. O contribuinte, ao gerar de forma artificial uma despesa com ágio sabidamente inexistente, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual Fl. 2889DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 35 34 retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco, além das reais circunstâncias materiais do fato gerador, já que tudo isso que foi feito teve o propósito de iludir o Fisco, pois deu o nome de "Ágio sobre Investimentos" a fatos sabidamente desprovidos de quaisquer características que o compõe. Não basta o fato de estar tudo informado em DIPJ ou em Notas Explicativas, ou então, os Atos Formais registrados nos Órgãos competentes, O fato é que tudo isso foi feito para informar ao Fisco algo que inexistia e, que, portanto, produziu o retardamento do conhecimento das verdadeiras circunstâncias. Ademais, houve a modificação de característica essencial do fato gerador, uma vez que os montantes de IRPJ e CSLL devidos foram reduzidos (usou despesas sabidamente inexistentes). A FISCALIZADA não praticou estes fatos de forma involuntária, ou incorreu em erro em sua conduta, restando caracterizada a atitude dolosa. Desta forma, a conduta sob análise amoldase às hipóteses previstas nos artigos da Lei 4.502/64 abaixo citados. O fundamento para a qualificação da multa reside na utilização de uma série de instrumentos com o intuito de criar uma roupagem legal capaz de dar uma aparência legítima às operações de reorganização societária cujo único fundamento era o aproveitamento do ágio como despesa dedutível. Nessa construção, utilizouse a contribuinte da confecção de laudos de avaliação capazes de sustentar a existência do ágio e da celebração de protocolo de incorporação para justificar a incorporação efetivada, pela autuada, que nada mais foi do que uma série de modificações societárias de forma a se colocar em situação de aproveitamento do ágio. O conjunto dos atos levados a efeito pela autuada corresponderia a uma prática deliberada, consciente dos riscos envolvidos, com o objetivo de alcançar, por meio da criação fictícia de ágio e de uma estrutura societária artificial, vantagem fiscal indevida. O conjunto dos fatos verificados no caso sob exame colocam em evidência o propósito de construção de uma pretensa realidade formal destinada a mascarar, senão a ocultar, o que de fato se pretendia, o que de fato se buscava. É dizer, todas as ações envolvidas tinham por fim único a criação de um ágio fictício a ser transformado em benefício fiscal por força de um arranjo societário artificial. Residem aí os fundamentos para a qualificação da multa de ofício, cujos fundamentos legais fazse importante evidenciar. O art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, ao prever a majoração do percentual normal da multa de ofício, toma como referência os comportamentos descritos nos artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, que têm a seguinte redação: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: Fl. 2890DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 36 35 I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstãncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Como está expresso, a multa mais gravosa de 150% de que trata o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488, de 2007), tem aplicação sempre que em ação fiscal constatasse a ocorrência de sonegação, fraude ou conluio. Vêse que, para enquadrar determinado ilícito fiscal nos dispositivos dessa lei, há necessidade que esteja caracterizado o dolo. O dolo, que se relaciona com a consciência e a vontade de agir, é elemento que se encontra nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, ou seja, se caracteriza pela vontade de praticar a conduta, para a subsequente obtenção do resultado. Deve ficar demonstrada que a conduta praticada teve o intuito consciente voltado a suprimir ou reduzir o pagamento do tributo ou contribuição devidos.." (grifouse) Verificase, assim, que a autoridade tributária entendeu que a contribuinte, ao lado das demais empresas que integravam seu grupo econômico, praticou ação dolosa, intencional e consciente, utilizando intrumentos para dar uma aparência legítima a operações de reorganização societária cujo único propósito era criar artificialmente ágio fictício a ser transformado em benefício fiscal indevido. Entendeuse que a ação da contribuinte contribuiu para retardar o conhecimento, por parte do Fisco, dos fatos reais e promoveu alterações nas verdadeiras circunstâncias do fato gerador, ao dar o nome de ágio ao que sabidamente não o era. Diante disso, a autoridade tributária considerou que a situação verificada subsumiase às previsões legais contidas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964, o que demandava a qualificação do percentual aplicável à multa de ofício, nos termos do art. 44, § 1º da Lei nº 9.430/1996. Provocada pela impugnação manejada pela contribuinte, a 4ª Turma da DRJ em Belo Horizonte/MG manteve a aplicação da multa qualificada, conforme se depreende dos seguintes trechos retirados do acórdão por ela exarado: "O Termo de Verificação Fiscal apresenta a seguinte fundamentação para a exigência da multa de ofício qualificada: (...) Fl. 2891DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 37 36 À vista dos documentos juntados aos autos, que evidenciam a falta de propósito negocial da reorganização societária implementada e a exclusiva intenção de economia tributária, constatase que assiste razão à autoridade fiscal ao afirmar que os atos praticados foram apenas artificial e formalmente revelados na documentação e na escrituração da interessada, tendo havido na realidade uma simulação de reestruturação societária para justificar a amortização do ágio constituído sobre o seu próprio patrimônio líquido, em operações sem substância econômica e realizada mediante utilização de empresa veículo. De igual modo, está inequivocamente evidenciado o registro doloso de despesas de assessoria, com o objetivo de reduzir os tributos devidos e de transferir renda para outra pessoa jurídica pertencente ao mesmo grupo econômico. Assim, considerando que as reestruturações societárias, assim como contabilização de despesas com consultoria, assessoria e gestão, tiveram por único objetivo impedir dolosamente a ocorrência de parte do fato gerador da obrigação tributária principal, de modo a reduzir o montante do imposto devido, está caracterizada a situação tipificada no artigo 72 da Lei nº 4.502, de 1964: Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Por tais razões, voto por manter a qualificação da multa de ofício." (grifouse) O acórdão prolatado pela 4ª Turma da DRJ em Belo Horizonte/MG corroborou, portanto, o entendimento da Fiscalização de que fazse necessária a aplicação, ao caso concreto, da multa de ofício em seu percentual qualificado de 150%. Entendeu aquele Colegiado que a contribuinte simulou uma reorganização societária para justificar a amortização do ágio constituído sobre o seu próprio patrimônio líquido, em operações sem propósito negocial, sem substância econômica e realizadas mediante utilização de empresa veículo. Considerando que as reestruturações societárias tiveram o único objetivo de impedir dolosamente a ocorrência de parte do fato gerador da obrigação tributária principal, reduzindo o montante dos tributos devidos, concluiu a Turma da DRJ que estaria caracterizada a fraude tipificada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, devendo, pois, ser mantida a qualificação da multa de ofício. Por fim, a 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF foi instada a se manifestar acerca do assunto em razão da interposição de recurso voluntário. O voto condutor do Acórdão nº 1103001.170, ora recorrido, traz as seguintes considerações a respeito do cabimento da qualificação da multa de ofício no caso concreto: Fl. 2892DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 38 37 "Sobre a multa de ofício, observase que foi qualificada (150%) para as duas primeiras infrações. Entendo que não poderia ser diferente. Notase a consciência da recorrente em engendrar uma construção, partindo de um grupo de empresas com administração em comum, especificamente para produzir despesas com o intuito deliberado de reduzir a base de cálculo dos tributos. No caso concreto, restou demonstrada a presença de dois elementos inerentes ao dolo: o cognitivo, que é o conhecimento do fato constitutivo da ação típica, e o volitivo, a vontade de realizar a conduta. Cezar Roberto Bitencourt esclarece, com clareza peculiar, in verbis: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada (...) A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente (...) É indispensável uma determinada relação de vontade entre o resultado e o agente e é exatamente esse elemento volitivo que distingue o dolo da culpa. Não há que se falar em desconhecimento ou ignorância da norma por parte da recorrente. A formação do ágio decorreu de uma reorganização societária artificial, que viabilizou uma reavaliação no investimento, registro de ágio e posterior amortização. Sequer ocorreu pagamento à investidora pela suposta valorização das ações. A própria recorrente, sem nenhum constrangimento, respondeu à Fiscalização, em resposta à intimação realizada em 18/05/2012: Em 21/11/2005, a Brafer Construções Metálicas S.A. incorporou a Brafer Indústria e Construções Ltda., sucedendo neste direito a partir deste ato. A baixa do valor de ágio R$30.299.936,15, foi levado a despesa em 60 parcelas, como regulamenta a legislação, sem qualquer desembolso financeiro. O mesmo se pode dizer a respeito do contrato de prestação de serviços celebrado entre a recorrente e a MAG. Restou evidente a manipulação entre as duas empresas administradas pelo mesmo grupo, para fabricar despesas operacionais. As conclusões descritas no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal são precisas: (...) A série de atos praticados pela recorrente caracterizam o intuito doloso, o plus na conduta, aspecto subjetivo que vai além do tipo Fl. 2893DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 39 38 tributário previsto na infração tributária. Restou evidente a intenção de enganar o Fisco, mediante ardil, malícia, em conduta reprovável. Portanto, deve ser mantida a qualificação de multa de ofício." (grifouse) Constatase que o posicionamento do i. Conselheiro Relator do acórdão recorrido, que prevaleceu entre seus pares, foi no sentido de que teria restado demonstrada nos autos, em relação à conduta da contribuinte e das demais empresas submetidas à administração dos mesmos sócios, a presença dos dois elementos necessários à caracterização do dolo: o cognitivo (conhecimento do fato constitutivo da ação típica) e o volitivo (vontade de realizar a conduta). A conduta analisada, que tinha o propósito específico de redução da base de cálculo de tributos, consistiu de reorganização societária artificial, que viabilizou uma reavaliação de investimento, registro de ágio e sua posterior amortização, sem sequer ter havido pagamento pela suposta valorização das ações reavaliadas. Concluiu o Colegiado, portanto, que a conduta da contribuinte caracterizou intuito doloso, aspecto subjetivo que vai além do tipo tributário previsto na infração tributária, sendo impossível falarse em desconhecimento ou ignorância da norma. Assim, diante da evidente intenção de enganar o Fisco, mediante ardil, mantevese a aplicação da multa de ofício qualificada. Como se sabe, a contribuinte se insurgiu, pela via do recurso especial, contra as conclusões construídas pelo Acórdão nº 1103001.170 em relação a vários temas, entre eles a possibilidade da qualificação da multa de ofício relativa às glosas de despesas de amortização de ágio indevidamente deduzidas. Ao cabo, esta matéria foi a única que logrou ser admitida em sede de exame preliminar e conhecida por esta 1ª Turma da CSRF. Além disso, registrese que a contribuinte contestava também a aplicação da multa de ofício qualificada sobre o crédito oriundo de outra infração fiscal (despesas não comprovadas), matéria que não foi admitida. A nobre Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, sorteada para atuar como Relatora no presente julgamento, votou por desqualificar a multa de ofício imputada à contribuinte, por considerar que não se pode atribuirlhe de forma peremptória o dolo e a consciência do ilícito. A conclusão se baseou nos argumentos de que a legislação tributária vigente à época dos fatos não vedava o tipo de operação societária praticada pela contribuinte e de que não havia sequer jurisprudência firmada deste CARF (ou dos extintos Conselhos de Contribuintes) a respeito do tema. O voto da i. Conselheira Relatora restou, entretanto, vencido quanto ao mérito da discussão relatíva à qualificação da multa de ofício, razão pela qual fui designado para redigir o voto vencedor explicitando o entendimento que prevaleceu no julgamento. Muito bem. Inicialmente, julgo importante ressaltar que não serão retomados no presente voto os argumentos pela indedutibilidade das despesas de amortização do ágio gerado internamente pelas empresas do grupo a que perntencia a contribuinte BRAFER S.A.. Como se mencionou há poucas linhas, a contribuinte contestou o posicionamento adotado pelo Acórdão nº 1103001.170 a respeito do assunto, mas a matéria não foi admitida em razão do descumprimento de requisitos de admissibilidade recursais fixados pelo art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. Fl. 2894DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 40 39 A respeito do tema da qualificação da multa de ofício, examinados os argumentos e as teses expostas por ambas as partes e os posicionamentos das decisões anteriormente proferidas nos presentes autos, concluo pelo seu cabimento no caso sob análise. Acompanho o entendimento exposto no Acórdão recorrido, no sentido de que a reorganização societária promovida pelo grupo da BRAFER S.A. tinha um único objetivo traçado desde seu início: a fabricação artificial de ágio que pudesse ser objeto de aproveitamento fiscal para fins de redução da carga tributária da contribuinte. Assim, verifica se a dissociação entre a vontade declarada pela contribuinte e sua vontade real, configurandose hipótese de simulação apta a caracterizar a fraude tipificada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964. As operações societárias que envolveram a contribuinte foram desacompanhadas de qualquer circulação ou troca de riquezas ou recursos com o mundo exterior ao seu grupo econômico. O ágio milionário que surgiu nos registros contábeis da BRAFER LTDA em 31/10/2005 não foi amparado por qualquer pagamento ou sacrifício patrimonial que pudesse justificálo. Conforme já se mencionou, tal ágio surgiu em decorrência de uma reavaliação do valor de mercado das ações da contribuinte BRAFER S.A., promovida unilateralmente pela sua controladora MAG (e pelas pessoas físicas que controlavam todas as empresas envolvidas, como será destacado mais adiante). Sem amparo de qualquer laudo ou documento que comprovasse o valor de mercado das ações da contribuinte com base na expectativa de sua rentabilidade futura, a controladora MAG atribuiu a elas, de forma unilateral, o valor de mercado de R$ 60.817.145,00, praticamente o dobro do seu valor patrimonial. Como se sabe, a legislação exige que seja apresentada documentação comprobatória do fundamento econômico do ágio, para fins de seu aproveitamento tributário previsto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Como bem apontou o i. Conselheiro Relator do acórdão recorrido, o único laudo de reavaliação que consta dos autos é datado de 21/11/2005 e se refere não ao valor de mercado das ações da BRAFER S.A., com base na expectativa de sua rentabilidade futura, mas ao valor do patrimômio líquido contábil da BRAFER LTDA, empresa que estava prestes a ser extinta por conta de sua incorporação pela contribuinte, sua então controlada. Segundo tal laudo, o valor do patrimônio que viria a ser incorporado pela BRAFER S.A. era de R$ 62.019.611,29. Tal laudo não serve, portanto, como fundamentação da reavaliação unilateral do valor de mercado da BRAFER S.A., promovida pela MAG. Além de não se referir a expectatia de rentabilidade futura ou mesmo à própria empresa que foi reavaliada, o laudo apresenta ainda uma característica que fere de morte sua credibilidade: entre seus signatários, está o Sr. JOSILEI LOPES DE OLIVEIRA, contador da BRAFER S.A.. Ou seja, o laudo está comprometido por evidente conflito de interesses. Além disso, outro aspecto que demonstra o intuito doloso dos atores envolvidos na geração artificial do ágio é o fato de a empresa BRAFER LTDA ter funcionado como típica empresa veículo, figura utilizada em planejamentos tributários apenas para carrear recursos ou ágio entre empresas de um mesmo grupo econômico. No caso concreto, a BRAFER LTDA permaneceu inativa entre os anos calendário 2001 e 2004 (informação constante nas suas DIPJ), voltando a atuar no final de 2005 especificamente para possibilitar a reorganização societária artificial engendrada pelos controladores do grupo econômico. Em 31/10/2005, a empresa teve seu capital social Fl. 2895DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 41 40 aumentado em mais de 110 vezes (!) e, menos de um mês depois, em 21/11/2005, foi extinta. Não existe lógica negocial capaz de justificar tal sequência de operações fora do contexto de um planejamento tributário tendente a criar artificialmente um milionário ágio fictício. O ágio criado em uma operação assim realizada é completamente desprovido de propósito negocial. Finalizada a reorganização societária, o único efeito relevante que restou foi o ágio de R$ 30.299.936,15 registrado na contabilidade da contribuinte. Tal fato comprova, por si só, que a criação do ágio era, desde o início, o único propósito das operações realizadas. Existe ainda um fator que, no meu ponto de vista, representa prova cabal da falta de substância econômica da reorganização societária promovida e do real objetivo desejado de mera economia fiscal: nenhuma alteração de fato ocorreu, entre o início e o encerramento das operações societárias analisadas, no controle societário da empresa fiscalizada, cuja rentabilidade futura teria, em tese, justificado o surgimento do ágio. Ao final do ano de 2004, antes do início da reorganização societária, a BRAFER S.A. tinha suas ações distribuídas entre os seguintes sócios: MARINO GAROFANI (69,94%), LUIZ CARLOS CAGGIANO SANTOS (20%), SUZELY OLSEN GAROFANI (10%) e outros (0,06%). No breve período entre 31/10/2005 e 21/11/2005, a BRAFER S.A. foi controlada pela BRAFER LTDA, que teve o aumento de seu capital social integralizado por meio da entrega de ações da contribuinte a valor reavaliado. Durante estes vinte dias, a BRAFER LTDA tinha 99,1% de suas quotas detidas pela empresa MAG e os 0,9% restantes, por MARINO GAROFANI. Já a MAG tinha suas quotas assim distribuídas: MARINO GAROFANI (70%), LUIZ CARLOS CAGGIANO SANTOS (20%), SUZELY OLSEN GAROFANI (10%). Por fim, após a incorporação da BRAFER LTDA pela BRAFER S.A., em 21/11/2005, a contribuinte viu suas ações concentraremse em posse da MAG (99,9% de participação societária). Constatase, portanto, que o controle, direto ou indireto, das ações da contribuinte sempre esteve nas mãos de três pessoas físicas: MARINO GAROFANI, LUIZ CARLOS CAGGIANO SANTOS, SUZELY OLSEN GAROFANI. Também as demais pessoas jurídicas envolvidas nas operações societárias, BRAFER LTDA e MAG, sempre estiveram submetidas ao controle das mesmas pessoas físicas citadas. Nunca houve, portanto, figuras distintas de alienante e adquirente que pudessem protagonizar um negócio jurídico apto a provocar o legítimo aparecimento de ágio. Diante de todo o exposto, não se pode alcançar outra conclusão a não ser que a atuação da contribuinte (e das demais empresas que integravam seu grupo econômico) caracterizou simulação e foi desenvolvida com evidente intuito de fraude. De forma livre, consciente e deliberada, a contribuinte buscou reduzir irregularmente os tributos devidos ao Fisco, por meio da criação artificial de ágio em operação carente de propósito negocial e de substrato econômico. Assim, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte e manter a multa de ofício ao seu percentual qualificado de 150%. Desse modo, sumariando os entendimentos expostos, voto no sentido de: Fl. 2896DF CARF MF Processo nº 10980.725659/201281 Acórdão n.º 9101003.368 CSRFT1 Fl. 42 41 CONHECER do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional em relação à única matéria recorrida: "cobrança concomitante de multas isolada e de ofício"; DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN, para restabelecer a cobrança das multas cobradas isoladamente em razão da falta de recolhimento de estimativas mensais nos anoscalendário de 2007 e 2008; NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte, mantendo a qualificação da multa de ofício relativa à glosa das despesas de amortização de ágio interno indevidamente deduzidas das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL referentes aos anos calendário 2007 e 2008. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 2897DF CARF MF
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