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Numero do processo: 15504.725523/2014-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011
DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4°, DO CTN.
O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4°, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. DIVERGÊNCIAS DE ENQUADRAMENTO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Tendo o fisco descrito corretamente o fato que o levou a concluir pela responsabilidade solidária para as empresas integrantes de grupo econômico, não deve se afastar esse vínculo por mero erro em parte da fundamentação legal apresentada no relatório fiscal.
FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EM GFIP. AVISO PRÉVIO INDENIZADO. INEXISTÊNCIA DE CARÁTER REMUNERATÓRIO. NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES.
O pagamento do aviso prévio indenizado não tem caráter remuneratório, vez que o empregado, nessa hipótese, não presta serviço para o empregador e nem está à sua disposição.
Não se trata de rendimento pago, devido ou creditado, destinado a retribuir o trabalho que não está sendo prestado.
A contribuição não pode incidir sobre o aviso prévio indenizado, devendo a autoridade executora excluir da base de cálculo do lançamento os valores comprovadamente pagos a esse título.
FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EMGFIP. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. CONSISTÊNCIA DO LEVANTAMENTO FISCAL. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. NÃO INCIDÊNCIA SOBRE VALORES PAGOS A TÍTULO DE ALUGUEL.
Diante da consistência do levantamento fiscal, é indubitável que a recorrente deveria ter comprovado as eventuais informações prestadas em GFIP porventura desconsideradas pelo agente fazendário.
No tocante aos pagamentos comprovadamente realizados a título de aluguel, mas indevidamente informados em DIRF como rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, deve ser retificado o lançamento, diante dos contratos e demais documentos juntados na impugnação e no recurso voluntário.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. INFRINGÊNCIA LEGAL. INCIDÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES. POSSIBILIDADE.
O pagamento de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a lei de regência viabiliza a incidência das contribuições devidas à Seguridade Social, das contribuições para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, bem como das contribuições destinadas a outras entidades ou fundos.
Não atende aos requisitos legais para fins de fruição da isenção, o acordo firmado previamente ao período de apuração dos lucros e resultados quando nele não estão estabelecidas as metas a serem atingidas e os mecanismos de aferição de cumprimento do acordado.
Numero da decisão: 2201-004.551
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos em dar parcial provimento ao recurso de ofício, mantendo a sujeição passiva solidária das empresas integrantes do grupo econômico, vencido o Conselheiro Marcelo Milton da Silva Risso, que negou provimento. Em relação ao recurso voluntário, em dar-lhe provimento parcial para excluir as parcelas inerentes ao aviso prévio indenizado, vencidos os Conselheiros Daniel Melo Mendes Bezerra, Relator, e Douglas Kakazu Kushiyama, que deram provimento parcial em maior extensão, afastando a exigência fiscal relativa ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) do ano de 2010. Designado para redigir o voto vencedor a Conselheira Dione Jesabel Wasilewski.
(Assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente
(Assinado digitalmente)
Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator
(Assinado digitalmente)
Dione Jesabel Wasilewski - Redatora designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente).
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. EXISTÊNCIA DE RECOLHIMENTOS PARCIAIS. REGRA DO ART. 150, § 4°, DO CTN. O prazo decadencial para o lançamento é regido pelo art. 150, § 4°, do CTN, se, inexistindo dolo, fraude ou simulação, houver pagamento parcial. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. DIVERGÊNCIAS DE ENQUADRAMENTO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Tendo o fisco descrito corretamente o fato que o levou a concluir pela responsabilidade solidária para as empresas integrantes de grupo econômico, não deve se afastar esse vínculo por mero erro em parte da fundamentação legal apresentada no relatório fiscal. FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EM GFIP. AVISO PRÉVIO INDENIZADO. INEXISTÊNCIA DE CARÁTER REMUNERATÓRIO. NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES. O pagamento do aviso prévio indenizado não tem caráter remuneratório, vez que o empregado, nessa hipótese, não presta serviço para o empregador e nem está à sua disposição. Não se trata de rendimento pago, devido ou creditado, destinado a retribuir o trabalho que não está sendo prestado. A contribuição não pode incidir sobre o aviso prévio indenizado, devendo a autoridade executora excluir da base de cálculo do lançamento os valores comprovadamente pagos a esse título. FATOS GERADORES NÃO DECLARADOS EMGFIP. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. CONSISTÊNCIA DO LEVANTAMENTO FISCAL. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. NÃO INCIDÊNCIA SOBRE VALORES PAGOS A TÍTULO DE ALUGUEL. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 55 23 /2 01 4- 72 Fl. 4672DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.673 2 Diante da consistência do levantamento fiscal, é indubitável que a recorrente deveria ter comprovado as eventuais informações prestadas em GFIP porventura desconsideradas pelo agente fazendário. No tocante aos pagamentos comprovadamente realizados a título de aluguel, mas indevidamente informados em DIRF como rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, deve ser retificado o lançamento, diante dos contratos e demais documentos juntados na impugnação e no recurso voluntário. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. INFRINGÊNCIA LEGAL. INCIDÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES. POSSIBILIDADE. O pagamento de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a lei de regência viabiliza a incidência das contribuições devidas à Seguridade Social, das contribuições para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, bem como das contribuições destinadas a outras entidades ou fundos. Não atende aos requisitos legais para fins de fruição da isenção, o acordo firmado previamente ao período de apuração dos lucros e resultados quando nele não estão estabelecidas as metas a serem atingidas e os mecanismos de aferição de cumprimento do acordado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos em dar parcial provimento ao recurso de ofício, mantendo a sujeição passiva solidária das empresas integrantes do grupo econômico, vencido o Conselheiro Marcelo Milton da Silva Risso, que negou provimento. Em relação ao recurso voluntário, em darlhe provimento parcial para excluir as parcelas inerentes ao aviso prévio indenizado, vencidos os Conselheiros Daniel Melo Mendes Bezerra, Relator, e Douglas Kakazu Kushiyama, que deram provimento parcial em maior extensão, afastando a exigência fiscal relativa ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) do ano de 2010. Designado para redigir o voto vencedor a Conselheira Dione Jesabel Wasilewski. (Assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente (Assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator (Assinado digitalmente) Dione Jesabel Wasilewski Redatora designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Fl. 4673DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.674 3 Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pelo sujeito passivo contra o acórdão n. 0442.095 3a Turma da DRJ/CGE, que julgou procedente em parte a sua impugnação. Adoto o relatório do acórdão recorrido por sua completude e capacidade de elucidação dos fatos: Tratase de processo de Impugnação em face da obrigação tributária relativa a Contribuições Sociais Previdenciárias apurada mediante Auditoria Fiscal que resultou no lançamento de crédito fiscal lavrado na data de 12/08/2014, referente ao período de apuração de 01/01/2010 a 31/12/2011. LANÇAMENTO Em resumo, segundo o Relatório Fiscal (fl. 2052), e demais relatórios integrantes e complementares, foram consignados os seguintes pontos acerca do lançamento: VALORES TRANSITADOS EM FOLHAS DE PAGAMENTOS SUPERIORES ÀS RESPECTIVAS REMUNERAÇÕES DECLARADAS EM GFIP (PERÍODO 01/2010 A 13/2010) 17. ... na comparação dos valores transitados em folha de pagamentos, apurados através dos arquivos digitais entregues pelo contribuinte em formato ”MANAD”, com os respectivos valores declarados em GFIP (período 01/2010 A 13/2010), a fiscalização encontrou situações onde as remunerações apuradas nas folhas de pagamento estavam superiores às declaradas em GFIP. As diferenças foram motivadas por omissões na composição da base de cálculo de rubricas com inequívoca incidência de contribuições previdenciárias. Tendo recebido os arquivos digitais das folhas de pagamento do período em formato MANAD, a fiscalização efetuou a comparação das bases de cálculo apuradas com as respectivas remunerações declaras em GFIP. A análise das diferenças encontradas apontava para a omissão de algumas rubricas com incidência de contribuições previdenciárias nas bases declaradas. Em especial, as rubricas relacionadas com o aviso prévio, ainda que outras rubricas também sinalizassem divergência, porém, em uma quantidade menor de ocorrências. No caso do aviso prévio, as divergências foram encontradas nas competências de janeiro a setembro de 2010, sendo que as análises indicavam que o contribuinte passou a declarar corretamente tais rubricas a partir de outubro. Foi percebido ainda que tais omissões não aconteciam de forma sistemática, acontecendo para alguns funcionários enquanto outros tinham suas remunerações declaradas corretamente em GFIP. Fl. 4674DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.675 4 [...] No caso da CEMIG, a implementação da folha de pagamentos resultou dependente de uma complicada sistemática que faz uso do impressionante quantitativo de quase 800 rubricas (verbas), sendo ainda que muitas dessas rubricas são utilizadas tanto para transitar descontos quanto proventos, existindo ainda folhas separadas para rescisões e ajustes. Tal realidade em uma empresa que possui cerca de 2.000 funcionários torna bastante difícil a auditoria das folhas de pagamento, principalmente quando os arquivos digitais fornecidos apresentam incoerências. Uma característica peculiar do sistema SAP é o uso do chamado "retrocálculo” no processamento da folha de pagamentos, onde a ocorrência de determinados eventos induz a alterações nos valores das rubricas de competências pregressas, inviabilizando a exata reconstituição histórica dos eventos da folha de pagamentos que é a filosofia básica do padrão MANAD. Nas incoerências apresentadas pelos arquivos MANAD, foi observado que, em algumas circunstâncias, o sistema gerava registros duplicados para algumas rubricas, ainda que de maneira não sistemática, ou seja, ocorriam apenas para alguns funcionários e em certas competências, sem que se conseguisse identificar uma lógica para esses eventos. As divergências encontradas resultaram em um pedido de esclarecimento feito através do TIFn° 004/2014 (em anexo) nos seguinte s termos: "Apresentar esclarecimentos com relação às divergências apuradas entre as remunerações constantes da folha de pagamentos fornecida em formato MANAD e as declarações correspondentes em GFIP. Essas divergências estão apontadas na planilha EXCEL "2010 CEMIG DT DIVERGENCIAS.xls", entregue em meio digital, conforme instruções em anexo ao presente Termo". A CEMIG, porém, não apresentou esclarecimentos para os erros encontrados nem corrigiu os arquivos. No entanto, tais erros foram analisados conjuntamente pelo Auditor Fiscal e pelos Analistas de Recursos Humanos da CEMIG, sendo que a empresa alegou que dependeria do fornecedor do programa para a correção dos erros encontrados, ainda que intimada através do TIFn° 006/2014 (em anexo) para corrigir os erros nos arquivos digitais. Na impossibilidade de apurar o quantitativo exato das divergências encontradas no contexto supracitado, a fiscalização solicitou que a CEMIG apresentasse os resumos das folhas de pagamento TIF n°005/2014 (em anexo) nos seguintes termos: "Apresentar os resumos das folhas de pagamento do exercício 2010, contendo todas as rubricas transitadas (proventos, descontos e auxiliares) e incluindo também as folhas de rescisão e complementares". A CEMIG entregou então um conjunto de arquivos em formato PDF contendo um relatório com o resumo mensal das rubricas da folha intitulado "ZHRT0020". Fl. 4675DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.676 5 Ocorre, porém, que a fiscalização identificou que tais relatórios também apresentavam incoerências semelhantes aquelas encontradas nos arquivos MANAD, fato grave, uma vez que tais relatórios eram utilizados em procedimentos previdenciários pela CEMIG, inclusive para apuração dos valores a recolher em GPS. Porém, nesse caso, como o tal relatório era gerado por um "script", o próprio setor de informática da CEMIG providenciou as correções, entregando um novo conjunto de arquivos contendo os relatórios com os resumos corrigidos. A fiscalização então processou novamente os resumos e reconstituiu as bases de cálculo previdenciárias, tendo apresentado este cálculo ao contribuinte através do TIF n° 006/2014 (em anexo), onde era solicitado o seguinte: "A fiscalização apurou a base de cálculo das contribuições previdenciárias através dos resumos enviados. A totalização destas bases estão na planilha Excel contida no CDROM em anexo." "Considerando que o conjunto anterior dos resumos das folhas de pagamento recebidos pela fiscalização em março continha valores incorretos, solicito que a CEMIG verifique a exatidão das bases de cálculo apuradas pela fiscalização, ressaltando que tais bases apresentam valores bastante divergentes com os totais declarados em GFIP pela CEMIG no exercício 2010" Conforme afirma o texto do TIF, as bases apuradas pelos resumos corrigidos apresentavam divergências com as remunerações declaradas em GFIP, assim como tinha acontecido com aquelas apuradas nos arquivos MANAD. E ainda existiam divergências entre os valores declarados e os recolhidos, como será detalhado mais à frente. A CEMIG não se pronunciou a respeito das bases de cálculo apuradas pela fiscalização constantes do TIF n°006/2014 . Outrossim, a fiscalização também apurou que havia valores bastante divergentes entre as declarações em GFIP da CEMIG e os valores efetivamente recolhidos pela empresa em GPS, conforme o quadro comparativo abaixo: ... . [...] Ressaltese que tais valores recolhidos a maior não eram suficientes para cobrir inteiramente os valores das rubricas cujos valores foram omitidos das remunerações declaradas em GFIP, podendo, portanto, satisfazer apenas parcialmente os valores devidos. O quadro acima também inclui guias que, conforme foi verificado posteriormente, não estavam vinculadas às folhas de pagamento. Tendo intimado o contribuinte a apresentar esclarecimentos através do TIF n° 004/2014 nos seguintes termos: "A fiscalização confrontou as bases de cálculos declaradas em GFIP pela CEMIG com os respectivos valores recolhidos em GPS e constatou a existência de valores significativos recolhidos a maior." Fl. 4676DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.677 6 "Fica a CEMIG intimada a apresentar os demonstrativos das bases de cálculo inclusas nos valores recolhidos a maior acompanhados de justificativas das divergências, devendo também, se for o caso, preparar as devidas retificações das declarações em GFIP. " A CEMIG então entregou a fiscalização um conjunto de planilhas e anotações utilizadas para apuração dos valores a recolher no exercício fiscalizado. Tal conjunto, porém, abrangia apenas as guias de recolhimento vinculadas a folha de pagamentos, nada tendo sido apresentado em relação as demais guias. A fiscalização considerou os instrumentos de controle apresentados precários, considerando que não existiam anotações claras a respeito dos ajustes efetuados e da origem de números considerados. Ressaltese também que algumas das bases de cálculo usadas nesses controles vinham do supracitado relatório "ZHRT00020", que, como se sabe, continha erros. Da forma como foram apresentadas para o exame da fiscalização, tais planilhas, ajustes e anotações só seriam perfeitamente inteligíveis por quem as fez, infelizmente os funcionários responsáveis pelos recolhimentos à época não trabalhavam mais na CEMIG, o que dificultou o entendimento de como a empresa chegou em tais números, uma vez que nem os funcionários atualmente responsáveis pelo procedimento conseguiam entender perfeitamente o que tinha sido feito. Em um esforço para entender a divergência entre os valores recolhidos e os declarados em GFIP, a fiscalização consolidou as informações contidas nos demonstrativos das guias apresentados e outras fontes de informação. Este demonstrativo se encontra em anexo. As conclusões dessa análise foram as seguintes: Em janeiro, a empresa não declarou em GFIP os valores correspondentes ao aviso prévio indenizado, porém efetuou os recolhimentos; De fevereiro a junho, a empresa nem declarou e nem recolheu os valores correspondentes ao aviso prévio indenizado; Nos meses restantes não houve como chegar a conclusões exatas tomando como base os controles apresentados, possivelmente os recolhimentos ocorreram de forma parcial. Nesse ponto, considerando que: 1) foram identificadas omissões de rubricas com incidência de contribuições nas declarações em GFIP; 2) o contribuinte tinha recolhido valores a maior; 3) tais valores recolhidos a maior não eram suficientes para cobrir inteiramente os valores das rubricas cujos valores foram omitidos nas remunerações declaradas em GFIP e 4) os arquivos digitais fornecidos apresentavam incoerências que não permitiam sua utilização para apuração das bases de cálculo, a fiscalização adotou o seguinte procedimento para a apuração dos valores devidos pela CEMIG: •Considerou para o levantamento do débito as bases de cálculo apuradas através dos resumos corrigidos das folhas de pagamento, bases estas que já haviam sido submetidas a apreciação da CEMIG, Fl. 4677DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.678 7 conforme o TIF n°005/2014. Tais bases estão detalhadas no Anexo Levantamento ”E”. •Dessas bases, foram subtraídas as bases de cálculo declaradas em GFIP pela CEMIG (detalhadas no Anexo Levantamento "D"), resultando em uma diferença que corresponde aos fatos geradores apurados não declarados em GFIP. Estas diferenças estão detalhadas no Anexo Levantamento "F". •A seguir, a fiscalização separou as guias de recolhimento que estavam inequivocamente vinculadas a folha de pagamentos (conforme os demonstrativos apresentados). A relação destas guias está detalhada no demonstrativo do Anexo RDA Relação de Documentos Apresentados". •Finalmente, foi efetuada uma apropriação das guias supracitadas contra os valores declarados em GFIP. Como existiam recolhimentos a maior, estas sobras foram novamente apropriadas, desta vez contra o Levantamento "F", que corresponde aos fatos geradores apurados não declarados em GFIP. O demonstrativo dos valores apropriados das guias da previdência social consideradas se encontro no Anexo "RADA Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados "7 •As diferenças resultantes correspondem aos valores do débito ora apurado. Apesar das diferenças terem sido lançadas através de um encontro de contas global, as diferenças apuradas pela metodologia acima correspondem a rubricas que possuem inequívoca incidência de contribuições previdenciárias e ficaram fora das remunerações declaradas em GFIP, conforme demonstrado nos itens anteriores. Nesse contexto, a fiscalização constituiu o crédito referente á diferença entre a base de cálculo apurada e os valores declarados em GFIP, conforme o Art. 28, Inc Ida Lei 8.212 de 24/07/1991: [...] O levantamento "F" (2010) apresenta os valores das diferenças encontradas. PAGAMENTOS EFETUADOS A CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS NÃO DECLARADOS EM GFIP (PERÍODO 01/2010 A 13/2010): Na análise dos arquivos digitais em formato MANAD entregues pelo contribuinte, a fiscalização percebeu que não transitaram pelas folhas de pagamentos as remunerações pagas ou creditadas aos segurados contribuintes individuais. Questionada sobre a omissão, a CEMIG confirmou que realmente os pagamentos efetuados aos contribuintes individuais não transitavam pela folha sendo controlados por um procedimento à parte sob a responsabilidade da área financeira. A fiscalização então solicitou a apresentação de tais pagamentos através do TIF n° 006/2014. Fl. 4678DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.679 8 A CEMIG então entregou um conjunto de doze planilhas, uma para cada mês, onde constavam pagamentos a contribuintes individuais. Tais planilhas, no entanto, eram bastante simplificadas, não continham sequer a descrição dos serviços prestados ou a data de prestação, apenas estavam relacionados o nome do prestador, CPF, NIT e ramo de atividade , sendo que nas planilhas dos meses novembro e dezembro não constavam nem o CPF nem a atividade do prestador, ou seja, não existia uma padronização nas planilhas. A fiscalização então somou as remunerações contidas nas planilhas entregues e comparou com as remunerações efetuadas as contribuintes individuais declaradas em GFIP8, identificando então a existência de divergências entre as remunerações pagas e as declaradas, conforme o quadro abaixo. [Tabela Comparativa] despesas que registravam os serviços prestados por terceiros não apresentavam separação entre os serviços prestados por pessoas físicas e pessoas jurídicas. A fiscalização passou então a examinar as declarações em DIRF do contribuinte, investigando as retenções efetuadas sob o código ”0588” (Trabalho Sem Vínculo Empregatício), comparando com as declarações em GFIP do período e também com as planilhas de controle supracitadas. Dessa análise, foram excluídos os estagiários que tinham sido informados nas folhas de pagamento. Nesta análise foram identificadas várias remunerações a pessoas físicas declaradas em DIRF9 que não constavam nas planilhas de controle apresentadas ou nos valores declarados em GFIP, ou ainda, os valores declarados em DIRF se mostravam superiores. Diante de tal situação, a fiscalização elaborou um demonstrativo nominal das divergências apuradas e solicitou através do TIF n° 007/2014 que a CEMIG apresentasse esclarecimentos sobre as divergências nos seguintes termos: "Foi observado que alguns pagamentos efetuados a contribuintes individuais declarados na DIRF 2010 no código 0588 não transitaram pela respectivas declarações em GFIP. ” "Foram excluídos dessa análise os ESTAGIÁRIOS e aqueles cuias remunerações foram declaradas em GFIP, porém em competência diversa” "Apresentar justificativas para a ausência na GFIP para os pagamentos efetuados a pessoas físicas constantes na DIRF relacionados na planilha Excel entregue em meio digitai” No entanto, a CEMIG não apresentou nenhuma resposta para os questionamentos da fiscalização. Nesse contexto, considerando: 1) a impossibilidade de se apurar individualmente na contabilidade os pagamentos em questão; 2) a precariedade dos instrumentos de controle apresentados; 3) o nível de divergências entre declarações em GFIP e as remunerações Fl. 4679DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.680 9 constantes nas planilhas e nas DIRFs e 3) o fato da empresa não ter respondido os questionamentos da fiscalização, foi adotada a seguinte metodologia para a apuração dos créditos devidos: Foi elaborado um demonstrativo por competência contendo a relação nominal de todos os nomes de segurados contribuintes individuais que constavam das planilhas de controle apresentadas ou das DIRFs do período. Para cada contribuinte individual foi efetuada uma comparação entre o valor da remuneração constante das planilhas de controle e a remuneração constante na DIRF, tendo sido considerada então a MAIOR entre as duas. A remuneração apurada conforme o item anterior foi então comparada com a respectiva declaração em GFIP, e, estando esta a menor, a diferença foi apurada como débito. Diferentemente do que aconteceu no levantamento anterior das diferenças apuradas nas folhas de pagamento, neste levantamento não efetuada nenhuma análise quanto aos valores recolhidos, uma vez que os demonstrativos de guias de recolhimento apresentados pela empresa abrangiam apenas as guias vinculadas as folhas de pagamento, não sendo possível, portanto, vincular inequivocamente as demais guias de recolhimento aos fatos geradores pertinentes aos contribuintes individuais. Assim, a fiscalização constituiu os créditos devidos com base nos valores apurados segundo a metodologia supracitada, conforme disposto na Lei n. 8.212/91, art. 22, III e Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n. 3.048/99, art. 12, I e parágrafo único, art. 201, II, parágrafos 1., 2., 3., 5. e 8. O Levantamento “G” (2010) detalha os valores dessas diferenças apuradas, bem como os segurados contribuintes individuais associados. PAGAMENTO DE PARTICIPAÇAO EM LUCROS OU RESULTADOS (PLR) EM DESACORDO COM A LEI N° 10.101 de 19/12/2000 (PERÍODO 01/2009 A 03/2011): 19.1. De início cumpre ressaltar que, diferentemente dos fatos geradores descritos anteriormente, cujo período fiscalizado esteve restrito às competências compreendidas entre 01/2010 a 13/2010, a fiscalização das rubricas transitadas a título de participação em lucros ou resultados abrangeu o período de 01/2009 a 03/2011, conforme alteração constante do Mandado de Procedimento Fiscal n° 06.1.01.002013005448, nos termos da Portaria RFB n° de 29 de junho de 2011, assentada em 05/03/2014. [...] A documentação pertinente ao PLR 2010 apresentada pela CEMIG consistia de um instrumento de negociação coletiva (acordo coletivo) específico denominado "Acordo Coletivo Específico Relativo ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados da CEMIG", incluindo as disposições para os biênios 2009/2010 e para o biênio 2010/2011, firmado entre as empresas do grupo CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais, CEMIG Geração Fl. 4680DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.681 10 e Transmissão S/A e CEMIG Distribuição S/A) com várias entidades representativas das diversas categorias funcionais dos empregados da CEMIG. Também foi entregue documentação adicional composta de atas de reunião entre a CEMIG e os sindicatos supracitados e também cópias de boletins sindicais das correspondências entre a CEMIG e as entidades sindicais. [Relaciona as premissas do acordo coletivo] O instrumento de negociação coletiva, conforme sua data de assinatura, tinha sido firmado em 20/11/2009. Conforme se pode depreender da leitura dos dispositivos elencados acima, o pagamento do PLR para os biênios 2009/2010 e 2010/2011 estava vinculado ao atingimento de metas preestabelecidas, metas essas que eram resultado da composição de indicadores operacionais, financeiros e funcionais. Temos então uma metodologia complexa estabelecida onde o pagamento das parcelas fixas e variáveis definidas para o PLR estava vinculado a parâmetros quantitativos e qualitativos que implicavam necessariamente em medições do desempenho corporativo em suas pontas operacional e financeira e também de parâmetros individuais de desempenho. Significativa também é a cláusula que determina que um grupo de trabalho paritário, formado por representantes da CEMIG e dos empregados deveria até 31/03/2010 identificar o Indicador de Agregação de Valor e negociar a respectiva meta, definir as ausências que impactariam o índice de absenteísmo e estabelecer os mecanismos de aferição que deveriam medir o cumprimento do acordo. 19.11 O próprio parágrafo único da Cláusula 9a do acordo condiciona o pagamento da parcela "B" do PLR 2010/2011 ao estabelecimento prévio do Indicador de Agregação de Valor e de sua meta, ou seja, ao resultado do que deveria ser estabelecido pelo grupo de trabalho supracitado. 19.12. Ocorre que a CEMIG não conseguiu chegar a um acordo com os empregados nesta questão, conforme documentado nas cópias das correspondências desta com as entidades sindicais. Apesar do acordo prever que até 31/03/2010, o grupo de trabalho deveria ter concluído suas tarefas, um boletim intitulado "Informador Gerencial de Relações Trabalhistas", datado de 02/06/2010 informa o fracasso das negociações entre empresa e empregados no ponto em questão: ... . [...] Temos aqui então uma situação onde a CEMIG, diante do não cumprimento das regras previamente estabelecidas, adita o instrumento de negociação coletiva original e acorda novas regras para o pagamento do PLR 2010 aos empregados, isso na última quinzena de 2010. [...] Cabe ressaltar também a atenção demonstrada pelo legislador na questão dos prazos e de pactuação prévia das metas e resultados, Fl. 4681DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.682 11 conforme se depreende pelos grifos (nossos) no dispositivo acima. Tal preocupação é plenamente justificável, sem o conhecimento prévio das metas e índices a serem aferidos, como os trabalhadores poderiam se esforçar na direção correta para a obtenção da almejada produtividade ? Significativa também é a exigência de que a pactuação das regras aconteça previamente. Ora, no pagamento de PLR em questão fica claro que qualquer esforço adicional que tenha sido feito pelos empregados da CEMIG ocorreu em um contexto de indefinição de regras, uma vez que o estabelecimento definitivo das mesas que deveria ter ocorrido até 31/03/2010 não foi concretizado, tendo ainda a empresa simplesmente estabelecido em 16/12/2010 uma parcela adicional ”D”, não prevista no acordo original, sob novas regras e condições, apresentadas como já cumpridas. Ressaltese ainda que para o PLR 2009, as regras foram estabelecidas apenas no final deste exercício, haja vista que o instrumento de negociação coletiva, conforme sua data de assinatura, somente foi firmado em 20/11/2009. Conforme visto acima na análise da Lei N° 10.101 e também como se depreende dos indicadores de desempenho claramente descritos nos instrumentos de negociação coletiva firmados pela CEMIG, a essência de qualquer plano de participação em lucros ou resultados é a medição objetiva de indicadores de desempenho e índices de aferição. A fiscalização, conforme dito anteriormente, já havia solicitado a apresentação de "planilhas analíticas que demonstrassem o cumprimento dos objetivos traçados e a aferição das metas, globais, setoriais e individuais, com detalhamento dos indicadores para cumprimento das metas estabelecidas, com as respectivas ponderações". Ocorre que a CEMIG não apresentou nenhuma planilha ou outro instrumento de aferição que permitisse a fiscalização verificar os cumprimentos dos requisitos estabelecidos nos seus instrumentos de negociação coletiva e na Lei N° 10.101. Assim, tais instrumentos, se existem, não foram apresentados para o exame da fiscalização. Nesse momento da ação fiscal, tendo já sido identificadas irregularidades no exame do PLR 2010, o período de apuração para o presente fato gerador foi ampliado para a inclusão dos exercícios 2009 e 2011, sendo que este último exercício foi incluído para apurar a segunda parcela do PLR 2010 paga em 2011, conforme alteração constante do Mandado de Procedimento Fiscal n° 06.1.01.002013001299, nos termos da Portaria RFB n° 3.014, de 29 de junho de 2011, assentada em 05/03/2014. [...] Nesse mesmo termo, a fiscalização solicitou ainda a apresentação da documentação completa para o PLR 2009. Foi solicitado ainda que a empresa discriminasse as verbas que transitaram pela folha de pagamentos a título de PLR, vinculando as mesmas aos PLRs e suas parcelas. Fl. 4682DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.683 12 Ocorre que a CEMIG, a exemplo do que aconteceu em outros momentos da presente ação fiscal, não apresentou a documentação solicitada ou mesmo esclarecimentos para o exame da fiscalização. Não apresentou nenhuma planilha ou instrumento de controle, medição ou aferição para os PLRs dos exercícios 2009 e 2010, No caso do PLR 2009, nenhuma documentação foi apresentada, além do acordo coletivo original que englobava os biênios 2009/2010 e 2010/2011. Os arquivos digitais em formato MANAD correspondentes às folhas de pagamentos dos exercícios 2009 e 2011, solicitados no TIF n° 003/2014, foram apresentados, porém, continham também incorreções semelhantes as que tinham sido encontradas nos arquivos do exercício 2010, conforme descrito em itens anteriores. Na tentativa de suprir as informações que deveriam ser fornecidas de forma confiável através dos arquivos digitais em formato MANAD, a fiscalização emitiu o TIF n° 008/2013 onde solicitou a apresentação de dois relatórios auxiliares, um contendo o resumo das rubricas das folhas de pagamento e outro contendo a listagem nominal dos funcionários e os pagamentos de PLR do período. Ocorre que, mais uma vez, os demonstrativos entregues continham inconsistências que inviabilizavam o seu uso, bastando comparar os totais dos demonstrativos entregues para verificar que eram divergentes entre si. [...] E finalmente, cumpre ainda ressaltar a magnitude de tais pagamentos, que pode ser verificada a partir de demonstrativo preparado pela área contábil da CEMIG a pedido da fiscalização: Como um parâmetro comparativo, o exercício 2010 registra uma remuneração total da folha de pagamentos de R$ 167.742.870,95, sendo que esse número corresponde ao total da base de cálculo previdenciária, que não inclui as parcelas indenizatórias e outras exclusões. Então, se formos considerar os montantes distribuídos neste exercício a título de PLR (conforme o quadro acima), vemos que a CEMIG distribuiu a título de PLR o equivalente a cerca 40% de sua folha de pagamentos, o que corresponderia a uma média de quase 5 salários extras por ano para cada empregado. A CEMIG apresentou ainda para o exame da fiscalização um conjunto de 10 cadernos como documentação "relacionada com o PLR"11. Tais cadernos traziam apresentações relacionadas com a gestão do processo estratégico da CEMIG e iniciativas relacionadas com a gestão de riscos, qualidade, prevenção de acidentes e planejamento estratégico da companhia, descrevendo ainda dezenas de indicadores de desempenho e sua evolução. Ressaltese que tal documentação foi entregue apenas no final de julho de 2014, nos últimos dias da ação fiscal, mais de um ano após o TIF n° 001/2013, onde a documentação inicial do PLR foi solicitada e mais de 7 meses após o TIF n°002/2013, em foi que solicitada a complementação da documentação do PLR. Ainda assim, o conteúdo dos documentos entregues foi examinado e Fl. 4683DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.684 13 levado em conta pela fiscalização, conforme descrito nos próximos itens. A fiscalização não tem dúvidas de que a CEMIG tenha implementado as melhores metodologias de planejamento e gestão, afinal, é uma das maiores empresas do Brasil, com merecida reputação de excelência em sua área de atuação. Ocorre que tais cadernos apresentados não estão relacionados com o pagamento de PLR, aliás, não existe qualquer menção a PLR nos mesmos, são documentos utilizados no planejamento estratégico e na relação com os investidores da CEMIG e os indicadores ali detalhados não estão, pelo menos de forma direta, relacionados com aqueles descritos nas cláusulas dos acordos coletivos relacionadas com o pagamento de PLR e usados na apuração quantitativa do mesmo. Dessa forma, mesmo com a quantidade de informações constantes nos documentos apresentados, a CEMIG não consegue demonstrar aquilo que seria o básico para subsidiar seus pagamentos de PLR, ou seja, demonstrar que os indicadores definidos nas cláusulas dos acordos coletivos foram efetivamente medidos, acompanhados e avaliados periodicamente e que tais medições eram levadas ao conhecimento dos seus empregados para direcionar o seu esforço adicional. Qual foi o resultado final dos PLRs da CEMIG ? Todos os seus empregados receberam 100% do valor previsto ? Os indicadores definidos atingiram as metas propostas ? Qual foi a composição final do valor recebido por cada empregado ? São perguntas para as quais a fiscalização não encontrou respostas nos cadernos apresentados ou em qualquer outro documento apresentado pela CEMIG. DAS CONCLUSÕES Conforme exposto no itens anteriores, diversos problemas foram identificados com relação ao pagamento de PLR nos exercícios fiscalizados. O PLR 2009 teve suas regras estabelecidas apenas em 20/11/2009, ou seja, apenas no final do exercício em que os empregados da CEMIG deveriam através de esforço adicional contribuir para a lucratividade da empresa. O PLR 2010, contrariando as suas próprias regras, distribuiu parcela adicional não prevista nas regras inicialmente acordadas. Em nenhum desses dois exercícios foi apresentada documentação ou planilhas de controle comprobatórias de que os indicadores definidos nas cláusulas dos acordos coletivos foram efetivamente medidos e avaliados periodicamente e que tais medições eram levadas ao conhecimento dos seus empregados para direcionar o seu esforço adicional. Também não foram apresentadas planilhas demonstrativas de que os valores pagos foram fundamentados nas fórmulas acordadas e creditados de maneira individualizada. Por fim, ressaltamos que o PLR 2008 da CEMIG já tinha sido objeto de fiscalização pregressa realizada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, através do Mandado de Procedimento Fiscal n° 06.10100.2011.00635 e que considerou que tais pagamentos também foram efetuados em desacordo como a Fl. 4684DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.685 14 legislação previdenciária, constituindo os créditos correspondentes através dos lançamentos constantes dos Autos de Infração integrantes dos processos COMPROTn° 15504724.901/201158. Sendo assim, considerando a impossibilidade do exame da documentação completa pela falta de apresentação da mesma, tendo identificado ainda o não cumprimento das próprias regras acordadas no acordo coletivo firmado, a fiscalização considera que os pagamentos efetuados pela empresa a seus empregados, a título de "Participação nos Lucros ou Resultados”, ante a insubsistência dos instrumentos apresentados, não se enquadram no previsto no art. 214, § 9o, inciso X do Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n°3.048, de 06 de maio de 1999. Por todo o exposto, o benefício concedido aos seus trabalhadores, por estar em desacordo com a legislação pertinente, integra os saláriodecontribuição para todos os fins e efeitos, conforme art. 214, § 10 do já citado Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n°3.048 de 06/05/1999. DAS MULTAS APLICADAS Considerando que os créditos tributários incluídos neste Auto de Infração se verificaram após entrada em vigor da Medida Provisória n° 449, de 03/12/2008 (DOU de 04/12/2008), convertida na Lei n° 11.941, de 27/05/2009, que estipulou novos parâmetros para a aplicação de penalidades por descumprimento de obrigações acessórias e multas relativas a lançamento de ofício, aplicase ao lançamento de ofício relativo às contribuições previdenciárias as mesmas regras dos demais tributos, incluindose a multa de ofício de 75% prevista no art. 44, I, da Lei 9.430 de 27/12/1996. DAS CONSIDERAÇÕES FINAIS A situação descrita neste relatório, em tese, configura a prática de crime contra a Seguridade Social, motivo pelo qual se procedeu à formalização de Representação Fiscal para Fins Penais, acompanhada com os respectivos elementos de prova. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA Foi consignado pela Autoridade Fiscal o seguinte procedimento em face da sujeição passiva solidária: Exclusivamente para os Autos de Infração lavrados no Processo COMPROT N° 15504725.523/201472 estão sendo arroladas as empresas CEMIG DISTRIBUIÇÃO S/A CNPJ 06.981.180/000116 e COMPANHIA ENERGÉTICA DE MINAS GERAIS CEMIG CNPJ 17.155.730.000164, componentes do grupo econômico, na forma da legislação a seguir: ... . Foi lavrado termo de Sujeição Passiva Solidária em face de cada uma das pessoas identificadas como partícipes. Houve aperfeiçoamento do presente lançamento mediante a cientificação do sujeito passivo, realizada por meio pessoal (Gerente Adm. Pessoal) em 14/08/2014 (fl. 03) e de cada partícipe da Sujeição Passiva Solidária. Fl. 4685DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.686 15 Termo de sujeição passiva solidária n° 2 (fl. 9899) Companhia Energética de Minas Gerais Cemig 14/08/2014 Termo de sujeição passiva solidária n° 1 (fl. 100101) Cemig Distribuição S/A 14/08/2014 IMPUGNAÇÃO O sujeito passivo apresentou Impugnação com a juntada de documentos comprobatórios e alegação cujos pontos relevantes para apreciação do litígio são os seguintes: CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A. (fls. 26912727) PRELIMINARMENTE DA DECADÊNCIA: 14. Preliminarmente, importa ter presente que não podem ser exigidos os créditos tributários relativos ao período de 01/2009 a 07/2009 em razão da decadência do direito do Fisco de proceder ao seu lançamento, tendo em vista o decurso de mais de 5 (cinco) anos entre a data da ocorrência dos supostos fatos geradores e a data da ciência do auto de infração à IMPUGNANTE (14.08.2014). [...] 19. Após muitas discussões a respeito do tema, o Supremo Tribunal Federal, em 11.06.2008, ao julgar os RE's n°s 556664, 559882 e 560626, por unanimidade de votos, declarou a inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n° 8.212/91, oportunidade em que aprovou a Súmula Vinculante n° 08, abaixo transcrita, rechaçando de uma vez por todas a pretensão do Fisco: "Súmula n° 08: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5 do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. " [...] 21. O Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CARF), em Sessão realizada em 09.12.2013, afastou qualquer dúvida quanto ao tema, determinando em matéria previdenciária a adoção do prazo decadencial inscrito no artigo 150, § 49, do CTN, como se verifica da Súmula CARF n° 99, aprovada naquela oportunidade, com o seguinte Enunciado: Na presente autuação, tendo em vista que a própria autoridade lançadora deixou bem claro no relatório fiscal que os valores constantes do Al resultam das diferenças apuradas pela fiscalização, bem como que serviram de base para o lançamento as GPS, além de outros documentos, é evidente a existência de pagamentos parciais realizados pela IMPUGNANTE. Pelo exposto, tendo em vista a aplicação inquestionável do prazo decadencial previsto no art. 150, § 4°, do Código Tributário Nacional, necessário se faz que seja reconhecida a decadência dos supostos créditos tributários relativos aos meses de janeiro a julho de 2009. Fl. 4686DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.687 16 VALORES TRANSITADOS EM FOLHAS DE PAGAMENTOS SUPERIORES ÀS RESPECTIVAS REMUNERAÇÕES DECLARADAS EM GFIP PERÍODO DE 01/2010 A 13/2010: Ressaltese que a menor parte das divergências, apesar de não ter sua origem comprovada pelo fiscal, também se enquadram na rubrica relacionada ao pagamento de aviso prévio indenizado. Em se tratando de valores pagos a título de aviso prévio, importante destacar que a Fiscalização jamais poderia pleitear o recolhimento de contribuições previdenciárias, pois, nos termos da jurisprudência pacífica do E. Superior Tribunal de Justiça e do próprio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, tal pagamento não têm natureza remuneratória. Isso porque, o aviso prévio indenizado tem como função reparar o trabalhador por não ter sido alertado de sua dispensa e não de remunerálo pelo tempo que ficou à disposição do empregador. Com efeito, ao apreciar a questão na sistemática dos recursos repetitivos, estabelecida pelo artigo 543B, do Código de Processo Civil, o STJ pacificou definitivamente a jurisprudência para fixar o entendimento de que as verbas pagas a título de aviso prévio têm natureza indenizatório e, por isso, não estão sujeitas à incidência das contribuições previdenciárias. [Cita jurisprudência administrativa e judicial] Desse modo, considerando que as verbas pagas a título de aviso prévio não representam remuneração passível de incidência das contribuições sociais exigidas, já que possuem natureza indenizatória, requer seja o lançamento julgado improcedente neste ponto, cancelandose a autuação. Caso se entenda não ser possível aplicar tal entendimento à menor parte das rubricas não identificadas pela fiscalização, o que se admite apenas para fins de argumentação, requer, com base no princípio da verdade material, seja o julgamento convertido em diligência para que se comprove que a totalidade da divergência apontada no relatório fiscal tem origem no pagamento de verbas relacionadas ao aviso prévio indenizado de exempregados da IMPUGNANTE, não sujeitos às contribuições previdenciárias exigidas pelo auto de infração. PAGAMENTOS EFETUADOS A CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS NÃO DECLARADOS EM GFIPPERÍODO DE 01/2010 A 13/2010: Conforme verificado anteriormente, sustenta a fiscalização que as retenções relativas às remunerações pagas ou creditadas aos segurados contribuintes individuais no período de 01/2010 a 13/2010 não correspondem efetivamente aos valores declarados a título de contribuições previdenciárias. Essa divergência foi constatada pelo fiscal após a comparação das informações integrantes da DIRF apresentada pela IMPUGNANTE especialmente no que se refere às retenções realizadas sob o código ”0588” (Trabalho Sem Vínculo Empregatício) com as integrantes nas GFIPs do mesmo período. A partir dessa análise, o Fl. 4687DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.688 17 fiscal identificou remunerações declaradas na primeira que não constam da segunda, assim como valores declarados em DiRF que se mostraram superiores aos declarados em GFIP, o que comprovaria a ausência do oferecimento à tributação de verbas pagas aos prestadores de serviços que se enquadram como contribuintes individuais. Entretanto, as incongruências verificadas no demonstrativo elaborado pela fiscalização não têm origem na ausência de recolhimento das contribuições previdenciárias devidas que foram corretamente pagas , mas nas seguintes situações: (i) os valores declarados em DIRF relativos à retenção na remuneração dos contribuintes individuais não respeita o mesmo regime contábil que os declarados em GF1P, sendo o pagamento das contribuições previdenciárias realizado no mês da respectiva contratação (regime de competência) e a retenção do IR apenas no mês do efetivo pagamento do prestador (regime de caixa), o que gerou a não coincidência dos valores mencionados; e (ii) parte dos lançamentos identificados na DIRF analisada, apesar de terem sido enquadrados pela IMPUGNANTE no código ”0588” (Trabalho Sem Vínculo Empregatício), referem se, em verdade, a pagamentos de outra natureza, especialmente de alugueis de imóveis de pessoas físicas, não estando, portanto, sujeitos às contribuições previdenciárias exigidas. DIVERGÊNCIA GERADA PELA DIFERENÇA ENTRE OS REGIMES CONTÁBEIS DE APURAÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS E DA RETENÇÃO DO IMPOSTO SOBRE A RENDA No que se refere à primeira situação descrita neste tópico, é preciso esclarecer que a apuração das contribuições cobradas no auto de infração regese por um regime contábil diferente daquele que rege o IRRF. No primeiro caso, aplicase o regime de competência, devendo o pagamento realizado pela contribuinte ser efetivado no momento da contratação dos serviços. Já no segundo, o regime aplicável é o de caixa, devendo a retenção do imposto sobre a renda ser efetivada no mês em que efetivamente pago o serviço, o qual pode ser diferente daquele no qual houve a contratação. Ora, não é incomum que as empresas contratem serviços de contribuintes segurados individuais num determinado mês e realizem o respectivo pagamento em outro, após sua conclusão. Essa situação, entretanto, não foi levada em consideração pelo fiscal, o que acabou por gerar a alegada incompatibilidade entre as informações contidas na DIRF e GFIPs analisadas, cujo demonstrativo foi erroneamente efetuado num comparativo entre os mesmos meses conforme demonstra o próprio relatório de fiscalização5 , ao invés de contemplar todo o período em que a retenção poderia ter sido efetivada. A título de exemplo, é possível citar os casos das contratações realizadas no mês de dezembro de 2009 e cujos respectivos pagamentos foram efetuados apenas no mês de janeiro de 2010. Nesses casos, a DIRF referente a janeiro de 2010, na qual estão declarados os pagamentos efetuados nesse período, deveria ter sido comparada a GFIP relacionada ao mês de dezembro de 2009, na Fl. 4688DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.689 18 qual estão declaradas as contratações efetivadas nesse período, e não com aquela referente ao mesmo mês de janeiro, como foi feito. Essa comparação equivocada é que acabou por gerar a inconsistência ora demonstrada e levou o fiscal a crer, de forma infudada, na inexistência dos recolhimentos exigidos. A planilha anexa à presente impugnação, elaborada pela IMPUGNANTE (doc. 4) com base na DIRF e nas GFIPs analisadas pela fiscalização, demonstra claramente as inconsistências verificadas nas competências de janeiro a fevereiro de 2010, mas que também ocorreram em outros períodos. Nela é possível verificar com clareza, nas colunas ”F” ("Data Serviço”) e ”G” ("Data Pagamento”), uma série de pagamentos realizados em competências diferentes daquelas nas quais os contribuintes individuais foram contratados, o que, na visão do fiscal, se apresentou como a comprovação de que as contribuições lançadas não haviam sido recolhidas. A comparação por amostragem dos dados específicos constantes nas GFIPS anexadas à presente impugnação (doc. 5), referentes aos períodos de dezembro de 2009 a fevereiro de 2010, com a DIRF auditada (doc. 6), comprovam a alegação da IMPUGNANTE, pois demonstram, mesmo que por amostragem, que os pagamentos realizados aos contribuintes individuais, cuja retenção encontrase declarada na DIRF, foram, de fato, objeto de declaração e incidência das contribuições previdenciárias exigidas pelo auto de infração. Com efeito, se o fiscal tivesse corretamente comparado todos os pagamentos declarados em DIRF referentes a um determinado mês de competência (correspondente ao efetivo pagamento) com as GFIPs anteriores (correspondente à contratação), teria, sem sombra de dúvidas, verificado que as contribuições previdenciárias foram declaradas e recolhidas pela IMPUGNANTE, pelo que o auto de infração nesse ponto é insubsistente e não deve persistir. Note, por fim, que o erro incorrido pela Fiscalização, gerado pela incompatibilidade de informações entre DIRF e GFIP, é comum em casos como o presente, nos quais a empresa fiscalizada, por seu tamanho, conta com um grande número de prestadores de serviços autônomos. Tanto é assim que a própria jurisprudência administrativa já se deparou com casos semelhantes, firmandose no sentido de considerar insubsistente o lançamento; vejase: DA PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS (”PLR') NOS MOLDES DO DISPOSTO NA LEINS10.101/2000: Ou seja, a i. Fiscalização questionou no relatório fiscal o lapso temporal utilizado pela IMPUGNANTE e pelos Sindicatos para firmarem os respectivos acordos coletivos envolvendo o programa de PLR (ano de 2009 e aditivo de 2010), entendendo por bem lavrar o auto de infração ora impugnado tendo em vista que a celebração desses acordos no final dos exercícios violaria os termos da Lei n° 10.101/2000. Ademais, a i. Autoridade Autuante asseverou que em nenhum dos dois exercícios fiscalizados (PLR's de 2009 e 2010) a IMPUGNANTE havia comprovado que as metas e os indicadores Fl. 4689DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.690 19 definidos nas cláusulas dos acordos coletivos foram efetivamente (i) levados ao conhecimento de seus empregados e (ii) medidos e avaliados pela IMPUGNANTE. [...] 38. Importante ressaltar que a i. Fiscalização, ao indicar em seu relatório fiscal que os indicadores definidos nas cláusulas dos acordos coletivos não foram medidos e avaliados pela IMPUGNANTE, deixou de especificar com clareza que há diferença entre os indicadores elencados no PLR de 2009 e no PLR de 2010, ou seja, a i. Autoridade Tributária quedouse genérica em questionar e cobrar da IMPUGNANTE a suposta não medição de indicadores que, como adiante a ser comprovado, só existia nas regras do PLR de 2010 e não no PLR de 2009. DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DAS REMUNERAÇÕES PAGAS A TÍTULO DE PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS [Cita o arcabouço jurídico aplicável à PLR] 45. Sendo assim, observados os requisitos acima (artigos 29 e 39 da Lei n° 10.101/2000), os pagamentos das remunerações, a título de PLR, ficam desvinculados da remuneração, nos termos do art. 79, inciso XI, da Constituição Federal e do art. 28, § 99, alínea ”j”, da Lei n° 8.212/91, não podendo sofrer incidência das contribuições previdenciárias, sob pena de manifesta inconstitucionalidade e ilegalidade. DA OBSERVÂNCIA AOS REQUISITOS DA LEI N° 10.101/2000 PLR 2009 Em primeiro lugar, tenhase presente que foi firmado acordo entre a IMPUGNANTE e seus empregados (Sindicatos), conforme se verifica do "Acordo Coletivo Específico Relativo ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados da CEMIG” (doc. 4). Sendo assim, resta claro que a IMPUGNANTE, a priori, já cumpriu com um dos requisitos estabelecidos pela Lei n° 10.101/2000. Com efeito, sobre o segundo requisito determinado pela mencionada legislação para a devida configuração de participação dos empregados nos lucros ou resultados da empresa, a cláusula primeira (Cláusula 1°) do anexo acordo coletivo estabelece: ”I. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DAS EMPRESAS, REFERENTE A 2009, A SER PAGA EM 2010PLR 2009/2010 CLÁUSULA l°METAS E INDICADORES PARA O ANO DE 2009 As metas e indicadores préestabelecidos para o ano de 2009 são, dentre outros, aqueles definidos pelo Planejamento Estratégico Empresarial, acompanhadas através do BSC.” Nesse sentido, as metas e indicadores para o ano de 2009 foram pactuadas pela IMPUGNANTE e Sindicatos como sendo aquelas definidas pelo Planejamento Estratégico Empresarial. Sobre o Planejamento Estratégico Empresarial, desde o ano de 2004, através da Circular DFN/01/2004, (doc. 5), a IMPUGNANTE Fl. 4690DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.691 20 determinou a criação da Superintendência de Planejamento Corporativo e Participação (PP)4, órgão para cuidar especificamente do planejamento estratégico envolvendo a composição, definição, monitoramento e divulgação das metas e indicadores necessários à participação dos empregados nos lucros ou resultados da empresa. Nesses termos, a disseminação das metas e regras relativas à estratégia a ser adotada pelos empregados da IMPUGNANTE é realizada através de instrumento próprio denominado "Visão e Ação”, por meio do qual, mensalmente, (doc. 6), a Assessoria de Planejamento e Gestão da Estratégia PG (assessoria essa vinculada e hierarquicamente inferior à Superintendência de Planejamento Corporativo e Participação (PP)), envia aos Diretores (são os emails agrupados em "LPCE/DR Titulares Nível B”, Superintendentes (são os emails agrupados em "LPCE/SP Titulares e Cargos Especiais Nível D”), Gerentes (são os emails agrupados em "LPCE/GR Titulares Nível F”) e Gestores (são os emails agrupados em "LPCE GESTORES”), ou seja, para todos os níveis hierárquicos que atuam como lideranças de grupos dos empregados da IMPUGNANTE, a totalidade das informações necessárias para a compreensão e atendimento das estratégias a serem alcançadas pelos empregados e almejadas pela IMPUGNANTE. Com efeito, em posse das metas e informações consubstanciadas no ”Visão e Ação”, mensalmente, enviado para as lideranças da IMPUGNANTE, o papel desses Diretores, Superintendentes, Gerentes e Gestores, é de reunir e repassar para seus funcionários subordinados, ou seja: totalidade dos empregados da IMPUGNANTE, as diretrizes das metas e indicadores, esclarecendo, eventualmente, dúvidas e/ou questionamentos realizados. Ademais, todos os funcionários da IMPUGNANTE, através do sistema INTRANET (rede interna e privada de computadores de uso exclusivo dos empregados de uma empresa/corporação), principal veículo de comunicação da IMPUGNANTE, possuem acesso às íntegras dos citados relatórios mensais do ”Visão e Ação” enviados pela Assessoria de Planejamento e Gestão da Estratégia da IMPUGNANTE, fazendo com que essa dispersão das metas e indicadores alcance e esteja disponível para a ciência e conhecimento da totalidade dos empregados (doc. 7). Assim, 24 (vinte e quatro) horas por dia, todos os funcionários da IMPUGNANTE podem entrar no sistema (INTRANET) e encontrar informações do ”Visão e Ação ”, classificadas no próprio site como: ”Bem vindo ao site do Planejamento e Gestão da Estratégia Visão e Ação CEMIG. Neste espaço você vai encontrar informações que o ajudarão a entender melhor a estratégia da empresa. Formulando a Estratégia; Traduzindo a Estratégia; Glossário; Visão e Ação Online; Nova Visão do Futuro da Cemig; Mapas Estratégicos ”. Ainda, é mister mencionar a existência da ferramenta denominada ”GROE”, Grau de Orientação e Estratégia, através do qual os relatórios envolvendo o ”Visão e Ação” dos meses de setembro e novembro de 2009, trouxeram o resultado de uma vasta e ampla Fl. 4691DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.692 21 pesquisa realizada pela IMPUGNANTE (VOXPOPULI) junto aos seus empregados que comprovou a existência e a ciência de metas, indicadores, e do planejamento/gestão da estratégia da IMPUGNANTE (doc. 8). Portanto, evidente que a disseminação da estratégia e metas a serem atingidas pelos funcionários da IMPUGNANTE para fins de PLR, eram, em 2009, de total conhecimento dos empregados, sendo certo, ainda, que nas referidas pesquisas elaboradas pela IMPUGNANTE no próprio ano de 2009, revelase a aceitação e favorabilidade dos funcionários em (i) traduzir a estratégia em termos operacionais; (ü) mobilizar a mudança por meio de liderança executiva; (iii) alinhar a organização à sua estratégia; (iv) transformar a estratégia em processo contínuo e (v) motivar para transformar a estratégia em tarefa de todos. Por fim, conforme se verifica da leitura da cláusula segunda (CLAUSULA 29) do acordo coletivo envolvendo o PLR de 2009, a base de cálculo do valor distribuído corresponderia a 3,0% (três inteiros por cento) do Resultado da Atividade de 2009, composto de uma parcela fixa e de outra variável. A parcela fixa foi indicada pela divisão entre 50% de 3% do Resultado da Atividade de 2009 pelo número total de empregados da IMPUGNANTE. Por sua vez, a parcela variável apontou a equação entre 50% de 3% do Resultado da Atividade x Saláriobase dezembro 2009 ou mês de desligamento pela folha saláriobase da IMPUGNANTE em dezembro do ano base ou mês de desligamento. Pelo exposto, tendo em vista que o pagamento feito pela IMPUGNANTE a título de PLR de 2009 foi realizado com base em (i) negociação entre a empresa e seus empregados (Acordo Coletivo firmado entre a IMPUGNANTE e Sindicatos); (ii) houve a clara fixação de metas com mecanismos de divulgação e informações pertinentes ao cumprimento do acordado, bem como que (iü) a base de cálculo e critérios do pagamento considerou o resultado da empresa e percentual preestabelecido, evidente que a IMPUGNANTE cumpriu os requisitos de pagamento de PLR estabelecidos pela Lei n° 10.101/2000. Nesses termos, através da argumentação acima despendida e da documentação até aqui acostada, evidente a fragilidade da alegação da i. Autoridade Autuante acerca da ausência de comprovação por parte da IMPUGNANTE de que as metas e os indicadores definidos nas cláusulas do acordo coletivo do PLR do ano de 2009 não foram efetivamente levados ao conhecimento de seus empregados. Ademais, também não merece prosperar a alegação da i. Fiscalização de que o PLR de 2009 teve suas regras estabelecidas apenas em 20.11.2009, ou seja: definidas apenas no final do exercício, sendo, em razão disso, capaz de violar os termos da Lei n° 10.101/2000. Isso porque, mesmo que o acordo coletivo envolvendo o PLR de 2009 tenha sido assinado entre a IMPUGNANTE e os Sindicatos apenas em 20.11.2009, tal fato não desnatura o pagamento de PLR, eis que a Lei n° 10.101/2000 não traz qualquer limite temporal para a celebração dos acordos, o que seria mais um fator limitador de Fl. 4692DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.693 22 aplicação da norma, não podendo a Fiscalização instituir novos requisitos não previstos na legislação. Inclusive, essa suposta rigidez e excesso de formalismo temporal trazido pela Autoridade Tributária já foi rechaçada e não encontra apoio na jurisprudência administrativa do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, "CARF". Citese abaixo o trecho do voto proferido quando da prolação do Acórdão n° 280300.254, da 35 Turma Especial, nos autos do Processo Administrativo n° 14485.000196/200726 (sessão de 21.09.2010): ... . [...] Ademais, importante ressaltar que a IMPUGNANTE, por ser uma das maiores empresas do país, tem em sua base de trabalhadores, diversos Sindicatos com os quais necessário se faz o diálogo e as tratativas no intuito de melhor adequar as cláusulas do acordo coletivo de PLR aos múltiplos interesses. Assim, como bem mencionou a decisão acima transcrita, a prática de negociações acordadas no final do exercício é comum e apenas um reflexo das indispensáveis conversas com um vasto número de Sindicatos até o estabelecimento do acordo. No presente caso, como pode ser observado do acordo de PLR de 2009, mais de 10 (dez) Sindicatos, juntamente com a IMPUGNANTE, assinam o instrumento em questão, ou seja, tal delonga é resultado da total boafé da IMPUGNANTE, bem como comprova a anterioridade das negociações. Importante destacar que as metas e o próprio formato do PLR de 2009 possuíam características semelhantes com as do PLR de 2008 (doc. 9), o que por si só, gera expectativa no trabalhador, de sorte a já incentivar a sua produtividade a maior, eis que já enraizada em seu conhecimento, e, portanto, a assinatura no final do exercício não desnaturar o pagamento a título de PLR. Ademais, como visto acima, a despeito da assinatura do acordo coletivo ter ocorrido em novembro de 2009, desde janeiro de 2009 os empregados da IMPUGNANTE já vinham recebendo as diretrizes e metas necessárias através do boletim mensal "Visão e Ação”. [...] Das considerações precedentes, sendo certo que as metas e a forma de distribuição utilizada pela IMPUGNANTE no pagamento do PLR de 2009 foram, conforme acima demonstrado, claras e de acordo com o previsto na Lei n° 10.101/2000, concluise que os valores relativos à PLR de 2009 não podem ser incluídos na base de cálculo das contribuições previdenciárias haja vista que a aferição de tais valores, bem como a distribuição dos mesmos, foi precedida de prévio acordo coletivo celebrado entre a IMPUGNANTE e seus empregados, o qual encontrase em consonância com a legislação que rege a matéria. Por fim, apenas para fins argumentativos, caso as supracitadas alegações acerca do questionamento do PLR de 2009 sejam superadas, a IMPUGNANTE acosta à presente defesa as anexas Fl. 4693DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.694 23 planilhas (doc. 10) através das quais se comprova que parte dos valores pagos entre as competências de 01/2009 a 10/2009 foram referentes não ao PLR de 2009, mas aos PLR's de 2007 e 2008 em razão de rescisão complementar de empregados que foram desligados antes do pagamento total desses respectivos PLR's (2007 e 2008), pagos apenas entre 01/2009 e 10/2010. Sendo assim, em razão dos PLR's de 2007 e 2008 não serem objeto da presente fiscalização, necessários que tais valores sejam excluídos da base de cálculo de suposta incidência de contribuição previdenciária envolvendo o PLR de 2009. DA OBSERVÂNCIA AOS REQUISITOS DA LEI N° 10.101/2000 PLR 2010 Os pagamentos feitos pela IMPUGNANTE a título de PLR 2010 também foram realizados em perfeita consonância com os requisitos estabelecidos pela Lei n° 10.101/2000, de modo que esses pagamentos não podem sofrer a incidência das contribuições previdenciárias, nos termos do art. 7q, inciso XI, da Constituição Federal, e do art. 28, § 99, alínea ”j”, da Lei n° 8.212/91. Em primeiro lugar, tenhase presente que foi firmado acordo entre a IMPUGNANTE e seus empregados (Sindicatos), conforme se verifica do "Acordo Coletivo Específico Relativo ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados da CEMIG” (doc. 11). Sendo assim, resta claro que a IMPUGNANTE, a priori, já cumpriu com um dos requisitos estabelecidos pela Lei n5 10.101/2000. Com efeito, sobre o segundo requisito determinado pela mencionada legislação para a devida configuração de participação dos empregados nos lucros ou resultados da empresa, as cláusulas quinta e sexta (Cláusula 5° e Cláusula 6°) do anexo acordo coletivo estabelecem: [...] Nesse sentido, diferentemente e inovando com o que estava previsto para o PLR de 2009, o PLR de 2010 trouxe indicadores e metas próprias, distintas das definidas no Planejamento Estratégico Empresarial ("Visão e Ação ”). Entretanto, importante ressaltar que, conjuntamente com as novas metas e indicadores trazidos pelo PLR de 2010, o preâmbulo do Acordo Coletivo Específico Relativo ao Programa de Participação nos Lucros e Resultados da CEMIG biênio 2009/2010, trazia em destaque na preliminar "considerando: (...) as metas constantes do orçamento anual definidas pelo Planejamento Estratégico Empresarial (...)”. Dessa maneira, a IMPUGNANTE destaca que, assim como anteriormente ocorrido em 2009, foram enviados pela Superintendência de Planejamento Corporativo e Participação (PP), através de instrumento próprio denominado "Visão e Ação”, mensalmente, (doc. 12), informações envolvendo as diretrizes para o ano de 2010, bem como havia a devida disponibilizações desses dados na INTRANET. Fl. 4694DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.695 24 Precisamente sobre os novos indicadores trazidos pelo PLR de 2010, resta claro do acordo firmado entre a IMPUGNANTE e os Sindicatos que, para o pagamento dos valores a título de PLR, deveriam ser verificados, analisados e medidos os indicadores acerca (i) da taxa de acidentes (TFTp) dos empregados; (ii) das despesas com os materiais e serviços (MSO) pelos funcionários dia adia manuseados; bem como os indicadores (iü) da qualidade do serviço público de energia elétrica traduzidos pela continuidade DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora) e FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora). Sobre a devida medição do indicador envolvendo a Taxa de Frequência de Acidentados, a IMPUGNANTE junta o anexo resultado dessa avaliação Relatório Anual de 2010, (doc. 13), através do qual há a clara indicação dos dados do referido indicador utilizado na apuração do pagamento do PLR de 2010. A IMPUGNANTE não só comprova através do referido relatório que houve a apuração e medição da taxa de frequência de acidentados (indicador constante do PLR 2010), bem como demonstra (doc. 14) que durante todo o ano de 2010 foram realizadas diversas reuniões presenciais e por videoconferência, através das quais as áreas de Gerências da IMPUGNANTE levaram aos empregados o conhecimento e cumprimento desse indicador. Citese, por exemplo, o Informativo da Videoconferência SD/SJ de 03.11.2010, na qual foram expostos aos empregados os resultados dos indicadores referentes a outubro/2010 (Cnf Doc. 14): "O indicador TFA se encontra fora da meta em decorrência de 2 acidentes em contratados, conforme abaixo relacionado: 28/08/2010 O eletricista escalou a escada manual amarrada ao poste, posicionou abaixo do mensageiro para testar e aterrar as ferragens, ao movimentar o corpo para passar o talabarte houve torção na escada e ele escorregou do degrau e desceu deslizando pela escada até o solo, sem que o trava quedas funcionasse. Afastamento de 30 dias. 28/09/2010 Durante tarefa de substituição de pararaios, a equipe de manutenção retirou o conjunto de fixação ao suporte L para desmontagem no solo, porque o parafuso estava emperrado. O eletricista segurou o suporte e o encarregado tentou remover a porca utilizando chave inglesa, momento em que ela soltouse e sua mão atingiu a porcelana quebrada, cortando a luva de vaqueta e seu dedo polegar direito Afastamento 60 dias. Sobre o indicador MSO (despesas com materiais, serviços e outros), a IMPUGNANTE comprova através da anexa tela extraída de seu SAP (Sistema de Gestão Empresarial), (doc. 15), que houve a devida medição e comparação do resultado das despesas e gastos envolvendo a utilização de materiais e serviços entre os anos de 2009 e 2010, conferição necessária e fundamental para se chegar ao pagamento de PLR de 2010, conforme acordo coletivo firmado. Ou seja, os empregados da IMPUGNANTE, através do comprometimento e de em esforço que transcendeu ao comum e Fl. 4695DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.696 25 habitual de suas funções salariais, atingiram a meta e o indicador de economia de materiais e serviços, fazendo por merecer que esse indicador (MSO) fosse positivamente alcançado no cálculo do PLR de 2010. Por fim, sobre os indicadores DEC e FEC, também expressamente previstos no acordo envolvendo o PLR de 2010, a IMPUGNANTE ressalta que os seus empregados conseguiram atingir e manter no decorrer do ano de 2010 a continuidade e padrão de excelência dos serviços da IMPUGNANTE na qualidade da prestação do serviço público de energia elétrica. Isso porque, esses indicadores são apurados pela IMPUGNANTE e enviados periodicamente à ANEEL para verificação da continuidade do serviço prestado, representando, respectivamente, o tempo e o número de vezes que uma unidade consumidora ficou sem energia elétrica para o período considerado (mês, trimestre ou ano), o que permite a Agência avaliar a continuidade da energia oferecida à população. Assim, com base nessas informações prestadas pela IMPUGNANTE, a ANEEL disponibiliza em seu SITE da internet os valores realizados de DEC e FEC da totalidade das empresas prestadoras de serviços de energia elétrica, como a IMPUGNANTE (doc. 16). Nesses termos, a IMPUGNANTE acosta à presente defesa os indicadores de continuidade por conjunto (DEC e FEC) extraídos na página da ANEEL e que comprovam que no ano de 2010 houve a devida apuração e ciência do resultado desses indicadores indispensáveis para o cálculo dos valores pagos a título de PLR. Ademais, para comprovar de uma vez por todas que houve a correta e devida medição e obtenção por parte da IMPUGNANTE dos resultados da aferição dos indicadores constantes do PLR de 2010, a IMPUGNANTE anexa (doc. 17) seu "Relatório Anual e de Sustentabilidade 2010”, documento independentemente auditado, de caráter notório, circulante entre órgãos públicos, Comissão de Valores Mobiliários CVM, Governos de todas as esferas (Municipal, Estadual e Federal), funcionários e investidores, através do qual, além dos dados financeiros de seu Resultado ("Dimensão Econômica"), há claramente os valores expressos dos resultados de DEC e FEC; taxas de acidentes e premiação na qualidade dos materiais e serviços utilizados. Sendo assim, descabida e fragilizada a alegação da Fiscalização acerca da ausência de conhecimento dos empregados e da medição e obtenção por parte da IMPUGNANTE dos indicadores utilizados no pagamento do PLR de 2010. Ainda, a ferramenta "GROE", Grau de Orientação e Estratégia, assim como ocorreu em 2009, também trouxe para 2010, meses de agosto e outubro, o resultado de uma vasta e ampla pesquisa realizada pela IMPUGNANTE (VOXPOPULI) junto aos seus empregados que comprovou a existência e a ciência de metas, indicadores, e do planejamento/gestão da estratégia da IMPUGNANTE (doc. 18). Fl. 4696DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.697 26 Em continuidade a demonstração da real existência da análise e medição dos indicadores do PLR de 2010, a IMPUGNANTE destaca que apurou e apresentou aos seus funcionários durante o ano de 2010 um "Road Show" contendo as informações e dados necessários sobre esses indicadores (DEC; FEC, TFA, entre outros) (doc. 19). Por fim, conforme se verifica da leitura da cláusula terceira (Cláusula 3a) do acordo coletivo envolvendo o PLR de 2010, a base de cálculo do valor distribuído corresponderia a percentual do Resultado da Atividade, obedecendo a determinada fórmula de cálculo, composta pelos indicadores mencionados (CLÁUSULA 5a), ou seja, claro e factível para real ciência dos empregados que o pagamento do PLR de 2010 tinha o próprio resultado do ano, base de cálculo essa consagrada e prevista na Lei n° 10.101/2000. Pelo exposto, tendo em vista que o pagamento feito pela IMPUGNANTE a título de PLR de 2010 foi realizado com base em (i) negociação entre a empresa e seus empregados (Acordo Coletivo firmado entre a IMPUGNANTE e Sindicatos); (ii) houve a clara fixação de metas e indicadores com mecanismos de divulgação e informações pertinentes ao cumprimento do acordado, bem como que (iii) a base de cálculo e critérios do pagamento considerou o resultado da empresa e percentual préestabelecido, evidente que a IMPUGNANTE cumpriu os requisitos de pagamento de PLR estabelecidos pela Lei n° 10.101/2000. DA OBSERVÂNCIA AOS REQUISITOS DA LEI N° 10.101/2000 PARCELA ADICIONAL DO PLR 2010 Ademais, não merece prosperar a alegação da i. Fiscalização de que no PLR de 2010 a IMPUGNANTE, contrariando supostas regras do PLR, aditou o instrumento de negociação coletiva na última quinzena de 2010, distribuindo parcela adicional não prevista nas regras inicialmente acordadas. Isso porque, como já visto no tópico anterior, mesmo que tal aditamento (doc. 20), envolvendo o PLR de 2010 tenha sido assinado entre a IMPUGNANTE e os Sindicatos apenas no final do exercício, no presente caso em 16.12.2010, tal fato, com base em jurisprudência já consolidada (acima transcrita), não desnatura o pagamento de PLR, eis que a Lei n° 10.101/2000 não traz qualquer limite temporal para a celebração dos acordos, não podendo a Fiscalização instituir novos requisitos não previstos na legislação. Com efeito, apenas para fins de argumentação, caso a Fiscalização realmente tivesse êxito no questionamento da parcela adicional paga no âmbito do acordo aditivo do PLR de 2010, eis que firmada apenas em 16.12.2010, evidente que a descaracterização do PLR (com a consequente incidência de contribuição previdenciária) deveria incidir apenas para essa parcela adicional aditada (Parcela D) e não para todo PLR de 2010. Por fim, a própria Fiscalização reconhece a boafé e a reputação ilibada da IMPUGNANTE nas práticas e consecução de suas obrigações. Citese o item 18.38. do relatório fiscal: ”A fiscalização não tem dúvidas de que a CEMIG tenha implementado as melhores metodologias de planejamento e gestão, afinal, é uma das maiores Fl. 4697DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.698 27 empresas do Brasil, com merecida reputação de excelência em sua área de atuação. " Nesses termos, tendo em vista que as metas, indicadores e a forma de distribuição utilizada pela IMPUGNANTE no pagamento do PLR de 2010 foram, conforme acima demonstrado, claras e de acordo com o previsto na Lei n° 10.101/2000, concluise que os valores relativos à PLR de 2010 também não podem ser incluídos na base de cálculo das contribuições previdenciárias haja vista que a aferição de tais valores, bem como a distribuição dos mesmos, foi precedida de prévio acordo coletivo celebrado entre a IMPUGNANTE e seus empregados, o qual encontrase em consonância com a legislação que rege a matéria. PEDIDO Ante todo o exposto, pelas razões de fato e de direito apresentadas pela IMPUGNANTE, requerse sejam canceladas as exigências de contribuições previdenciárias constantes do auto de infração n° 510523889, determinandose o cancelamento dessas exigências fiscais e o conseqüente arquivamento do processo administrativo n° 15504725.722/201481 instaurado. Protesta a IMPUGNANTE pela apresentação posterior de novos documentos, provas, alegações para a perfeita elucidação dos fatos, bem como por perícia, vistoria e quaisquer outras provas necessárias ao mais amplo esclarecimento do presente processo administrativo. CEMIG DISTRIBUIÇÃO S/A (FL. 24642473) DA INEXISTÊNCIA DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA O instituto da solidariedade encontrase consagrado no Código Civil, segundo o qual "há solidariedade, quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito, ou obrigado, à dívida toda" (art. 264), acrescentando, em matéria de solidariedade passiva, o art. 275 do mesmo diploma que "o credor tem direito de exigir e receber de um ou de alguns dos devedores, parcial ou totalmente, a dívida comum; (...)". Na doutrina civilística, Antunes Varela ensina que "a obrigação com vários devedores dizse solidária, quando o credor pode exigir de qualquer deles a prestação por inteiro e a prestação efetuada por um dos devedores as libera a todos perante o credor" e que "o principal efeito da solidariedade passiva consiste no direito reconhecido ao credor de exigir de qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação"*. Características essenciais da solidariedade são, pois, a unicidade da obrigação, a pluralidade de devedores e o caráter paritário da situação jurídica em que estes se encontram perante o credor decorrente do fundamento único das obrigações em causa. [Cita legislação] Da unicidade do fundamento da obrigação (a ocorrência de um mesmo fato gerador) e da posição paritária que em face desse Fl. 4698DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.699 28 fundamento ocupam os sujeitos passivos, concluise que a figura da solidariedade passiva só pode existir entre contribuintes, isto é, entre sujeitos que tenham relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador, relação esta que se caracteriza no conceito amplo de "interesse comum" (art. 124, I) ou reveste uma outra forma peculiar, caso em que será designado, em termos didáticos ou declaratórios por lei (art. 124, II). Ao contrário do que afirmou a fiscalização, as IMPUGNANTES não são devedoras solidárias das obrigações da CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A., porque não são também contribuintes das obrigações tributárias da CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A., afastando a aplicação do inciso I do art. 124 do CTN. Com efeito, o inciso I do artigo 124 do Código Tributário Nacional referese aos co devedores de uma mesma obrigação tributária, isto é, os sujeitos que tenham relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador, relação esta que caracteriza o "interesse comum". Os sujeitos envolvidos na relação de solidariedade passiva são apenas os que podem qualificarse como contribuintes, como, por exemplo, no caso dos condomínios de um imóvel em relação ao IPTU. No presente caso, o único contribuinte das supostas obrigações tributárias é a CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A., que foi quem efetuou os pagamentos de seus funcionários e/ou obteve lucros/resultados (PLR) potencialmente sujeitos às contribuições previdenciárias. 17. Que os sujeitos envolvidos na relação de solidariedade passiva tributária são apenas os que podem qualificarse como contribuintes, não se admitindo logicamente a solidariedade entre contribuinte e terceiros, já foi confirmado pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a que se dá relevo especial, tendo em vista a profundidade doutrinária dos seus fundamentos. [Cita jurisprudência administrativa e judicial] Ou seja, não faz o mínimo sentido as IMPUGNANTES estarem, como contribuintes (responsáveis principais) se defendendo no mérito de supostas cobranças previdenciárias e, ao mesmo tempo, estarem respondendo de forma solidária pelas supostas exigências de créditos previdenciários de terceiro (CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A.) nos exatos mesmos períodos (fatos geradores 01/2009 a 03/2011). Nesses termos, caso entendesse (o que não é o caso) que a CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A. e as IMPUGNANTES tinham obrigações decorrentes de um mesmo fato gerador (sendo ambas contribuintes), a Fiscalização deveria ter lavrado apenas um auto de infração objetivando a cobrança de contribuições previdenciárias envolvendo esses fatos geradores. Não poderia, como fez, ter lavrado diversos autos de infração, e ter identificado para os mesmos fatos geradores (01/2009 a 03/2011) responsáveis Fl. 4699DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.700 29 principais diferentes e arrolados por suposta sujeição passiva solidária esses mesmos contribuintes que outrora figuram como principais contribuintes responsáveis na cobrança. Nesses termos, a própria Fiscalização concluiu que, para os mesmos fatos geradores, houve a necessidade de indicar devedores principais distintos, eis que não há no presente caso duas ou mais empresas que participem conjuntamente no mesmo fato gerador. E dessas considerações resulta que as IMPUGNANTES não são devedoras solidárias das supostas obrigações tributárias da CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S.A. PROPOSTA DE DILIGÊNCIA PRIMEIRA DILIGÊNCIA O Despacho n° 268 da 3° Turma da DRJ/CGE (41664168), exarado em 02/09/2015, propôs a diligência para elaborar informação fiscal acerca dos aspectos quantitativos contestados devido à ocorrência de fatos modificativos relacionados em documento anexo (fl. 36343685). Os sujeitos passivos foram intimados e apresentaram manifestação complementar (fl. 42994331) em que reiteram as alegações das impugnações anteriores com pedido para esclarecimento da questão suscitada na proposta de diligência. PROPOSTA DE NOVA DILIGÊNCIA Em 22/02/2016 foi proferida Informação Fiscal (41724191) pela autoridade lançadora, que por falta de destaque na proposta de diligência, não se manifestou sobre o objeto específico da diligência fiscal, avaliar se os documentos apresentados na impugnação (fl. 36343685) são pagamentos relativos aos PLR's de 2007 e 2008 e que não estariam incluídos na base de cálculo apurados no PLR de 2009. Assim foi proposta a realização de diligência para as seguintes providências: Analisar se os documentos apresentados na impugnação (fl. 3634 3685) são pagamentos relativos aos PLR's de 2007 e 2008. e que não estariam incluídos na base de cálculo apurados no PLR de 2009. embasados na documentação fiscal do sujeito passivo e elaborar informação fiscal acerca dos aspectos quantitativos contestados devido aos fatos tributários modificativos; Cientificação do sujeito passivo com reabertura de prazo de trinta (30) dias para manifestação do sujeito passivo sobre o conteúdo da informação fiscal, como complementação da impugnação. INFORMAÇÃO FISCAL Em resposta datada de 26/10/2016, a autoridade lançadora proferiu a informação fiscal (fl. 44384440), em que apresenta argumentos sobre os pontos solicitados: Fl. 4700DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.701 30 3. Na impossibilidade de associar inequivocamente os lançamentos encontrados na contabilidade com as diversas parcelas do PLR de cada exercício, haja vista os históricos contábeis genéricos, sem qualquer menção ao exercício 2008 e a não apresentação de documentos solicitados, a fiscalização considerou como base todos os lançamentos encontrados na contabilidade do período fiscalizado, apurados na forma descrita anteriormente, considerados até a competência março de 2011, quando ocorreu o pagamento da parcela final do PLR 2010. [...] Em sede de defesa, a CEMIG apresentou vários extratos contendo nomes e valores (folhas 3634 a 3685) sendo que "notas explicativas” vinculavam tais valores ao pagamento de parcelas do PLRs 2007 e 2008, correspondendo a diferenças residuais motivadas por reajustes retroativos de salários e acertos de rescisões de contratos de trabalho ocorridas antes do pagamento dos PLRs pagas através rescisão complementar, sendo ainda que a parcela mais significativa (R$ 20.139.707,99), paga em março de 2009 corresponderia ao pagamento do PLR 2008 efetuado aos funcionários ativos. Para verificar as informações apresentadas em sede de impugnação, a fiscalização emitiu Termo de Inicio de Procedimento Fiscal (em anexo), devidamente cientificado ao contribuinte em 07/06/2016 nos seguintes termos: [Rol de documentos] 6. No entanto, repetindo a mesma postura observada durante a ação fiscal, vencido o prazo, a CEMIG não apresentou nenhum dos documentos e demonstrativos solicitados, obrigando a fiscalização a fazer uma reunião com a equipe de RH e emitir um novo termo, dessa vez um Termo de Constatação e Intimação (em anexo) onde ressaltava que mais de 60 dias tinham se passado sem que os documentos tivessem sido apresentados e estabelecendo um novo prazo com mais 30 dias para a apresentação dos documentos, sendo que dessa vez a CEMIG atendeu à solicitação. [...] Considerando que os PLRs de 2009 e 2010 adotavam a sistemática de pagar uma parcela de adiantamento no exercício ao qual se referiam e uma segunda parcela de acerto final no exercício seguinte, não há por que colocar em dúvida as alegações do contribuinte de que as parcelas que foram pagas a título de PLR no período de 01/2009 a 10/2009 correspondiam a pagamentos de acertos e resíduos de PLRs anteriores, haja vista que os demonstrativos apresentados batem com os valores exatos do crédito apurado e as GFIPs do período confirmam as listagens apresentadas pela CEMIG. Nesse contexto, confirmo que os seguintes valores lançados de 01/2009 a 10/2009 no Levantamento ”I” <2G09_ANEX_LEV_I) não têm relação com o PLR 2009 e sim com o PLR 2008: Fl. 4701DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.702 31 No entanto, ressaltamos que o PLR 2008 da CEMIG foi objeto de outra ação fiscal pregressa realizada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, através do Mandado de Procedimento Fiscal n° 06.10100.2011.00635 e que considerou que tais pagamentos também foram efetuados em desacordo como a legislação previdenciária, constituindo os créditos correspondentes através dos lançamentos constantes dos Autos de Infração integrantes dos processos COMPROTn° 15504724.901/201158, porém, o lançamento pregresso não alcançou a parcela final paga em 2009. IMPUGNAÇÃO COMPLEMENTAR Os sujeitos passivos tiveram ciência da informação fiscal da diligência realizada e apresentaram impugnação complementar (fl. 44574462), na data de 20/12/2016, nos seguintes termos: Por fim, a i. Auditoria confirmou que os valores lançados de 01/2009 a 10/2009 no Levantamento I (2009 ANEX LEVI) constantes da autuação fiscal não tem relação com o PLR de 2009 e sim com o PLR de 2008, bem com que o PLR de 2008 já fora objeto de outra ação fiscal por parte da Receita Federal através do MPF n° 06.10100.2011.00635 (PA 15504 724.901/201158). Nesses termos, tendo em vista que a própria i. Auditoria da Receita Federal do Brasil confirmou que os valores lançados de 01/2009 a 10/2009 não tem relação com o PLR de 2009, necessário se faz que tais montante sejam excluídos da presente autuação. Isto porque, tais valores, pagos entre as competências de 01/2009 a 10/2009, não se referem ao PLR de 2009, mas sim ao PLR de 2008 em razão de rescisão complementar de empregados que foram desligados antes do pagamento total do PLR 2008. Pelo exposto, em razão do PLR de 2008 não ser objeto da presente fiscalização, necessário que tais valores sejam excluídos da base de cálculo de suposta incidência de contribuição previdenciária envolvendo o PLR de 2009, como acertadamente concluiu a i. Fiscalização da Receita. IV DO PEDIDO: Ante todo o exposto, nos termos da conclusão extraída do resultado da diligência fiscal em referência, as IMPUGNANTES requerem sejam canceladas as exigências de contribuições previdenciárias constantes do auto de infração 510523862 que abrangem os valores lançados de 01/2009 a 10/2009 no Levantamento ”I” (2009 ANEXLEVI) aos quais não tem relação com o PLR de 2009 e sim com o PLR de 2008, bem como, com base nas demais razões de fato e de direito apresentadas pelas IMPUGNANTES em suas impugnações administrativas, requerse que seja cancelada a totalidade da exigência de contribuições previdenciárias constantes do aludido auto de infração, com o consequente arquivamento do processo administrativo nº 15504725.523/201472. A DRJ julgou a impugnação procedente em parte (fls.4489/4530), nos termos da seguinte ementa: Fl. 4702DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.703 32 APRECIAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. Não cabe a esta instância julgadora apreciar argumentos de inconstitucionalidade e ilegalidade de norma por ser matéria reservada ao Poder Judiciário. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. É vedada a extensão administrativa dos efeitos de decisões judiciais contrárias à orientação estabelecida para a administração direta e autárquica em atos de caráter normativo ordinário. DECADÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS O direito da Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados da ocorrência do fato gerador visto que houve antecipação de pagamento parcial. GRUPO ECONÔMICO. CONFIGURAÇÃO NÃO COMPROVADA Somente são solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal ou as pessoas expressamente designadas por lei. O interesse comum é identificado quando há participação dos sujeitos da relação jurídica na ocorrência do fato gerador da obrigação. As hipóteses fáticas configuradoras da formação de grupo econômico, deve ser claramente comprovada pela autoridade fiscal. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. ISENÇÃO DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA A parcela paga aos empregados, a título de participação nos lucros ou resultados, em desacordo com as diretrizes fixadas pela legislação, integra o salário de contribuição, para efeito de cálculo das contribuições previdenciárias. AVISO PRÉVIO INDENIZADO O aviso prévio indenizado não se encontra no rol de verbas isentas, integrando, pois, a base de cálculo de incidência das contribuições sociais. DILAÇÃO PROBATÓRIA Pelo princípio da concentração das provas na contestação, que informa o processo administrativo fiscal, devem elas ser apresentadas com a impugnação, salvo quando fique demonstrada a ocorrência de motivo de força maior; decorram de fato ou direito superveniente, ou, ainda, destinemse a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. VALIDADE DO LANÇAMENTO. Fl. 4703DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.704 33 O Auto de Infração é válido e eficaz visto que foi lavrado com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme dispuser o regulamento. Em face do valor do crédito tributário exonerado foi interposto Recurso de ofício. Cientificadas do acórdão em 09/03/2017 (contribuinte e responsáveis solidárias) apenas a contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls. 4549/4582), tempestivamente, em 10/04/2017, reiterando os mesmos argumentos já apresentados por ocasião do protocolo da peça impugnatória. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Recurso de Ofício Admissibilidade O recurso de ofício deve ser conhecido, visto que a decisão recorrida exonerou o sujeito passivo de crédito tributário superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), novo valor de alçada estabelecido pela Portaria MF n. 63, de 9 de fevereiro de 2017. Decadência A declaração de decadência das contribuições contidas no Levantamento PLR, referentes às competências 01/2009 a 07/2009, com exoneração de valor principal em valor superior ao limite de alçada implicou no presente recurso de ofício. Deve ser mantida a decisão da DRJ, pois em nenhum momento a autoridade lançadora apontou a ocorrência de dolo, fraude ou simulação; e para estas competências constam recolhimentos de contribuições; de tal forma que é aplicável a regra do § 4° do art. 150 do CTN. A contribuinte foi autuada em 14/08/2014, data em que já havia transcorrido mais de cinco anos desde as citadas competências e, consequentemente, quando já havia decaído o direito de lançamento suplementar das contribuições. Destarte, nego provimento ao recurso de ofício no tocante à decadência. Caracterização de Grupo Econômico Em relação ao grupo econômico, por concordância de entendimento, utilizo como razão de decidir o voto vencedor do Conselheiro Kleber Ferreira de Araújo, exarado nos Fl. 4704DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.705 34 autos do processo n. 15504.725513/201437 (acórdão n. 2402005.2614ª Câmara / 2ª Turma Ordinária): Coubeme tratar neste voto tão somente da responsabilidade solidária atribuída às empresas CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S/A (CNPJ n° 06.981.176/000158) e COMPANHIA ENERGÉTICA DE MINAS GERAIS CEMIG (CNPJ n° 17.155.730/000163), as quais, juntamente com a autuada, são componentes de grupo econômico. Inicialmente cabe destacar que a existência de grupo econômico formado pela autuada e pelas citadas empresas é fato incontroverso, posto que mencionado no relatório fiscal, não tendo havido questionamento quanto a esse ponto nem na defesa, tampouco no recurso. A fundamentação adotada no excelente voto do I. Conselheiro João Aldinucci foi no sentido de que o fisco teria adotado o inciso I do CTN para vincular as empresas pelo laço da solidariedade, sem que, no entanto, tivesse comprovado a existência de interesse comum daquelas na formação do fato gerador. Ouso discordar do Relator, posto que apreciando relato do fisco verifico que expressamente há a referência ao inciso IX do art. 30 da Lei n.° 8.212/1991, bem como, ao art. 222 do Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n.° 3.048/1999. Estes dois dispositivos, como se pode ver do voto, tratam exatamente da responsabilidade solidária para as empresas integrantes de grupo econômico, seja de fato ou de direito. Para a mim a menção da autoridade lançadora ao inciso I do art. 124 do CTN está descontextualizada, posto que a solidariedade prevista neste dispositivo pressupõe interesse comum e este de fato não foi mencionado no relatório. Imagino que tenha constado por equívoco no relato fiscal, mas essa circunstância para mim não é suficiente para desfazer o laço de solidariedade imputado, uma vez que a autoridade mencionou a existência do grupo econômico e citou fundamentos da lei previdenciária que atribuem responsabilidade solidária neste caso. Por outro lado, vale frisar, que o autuado se defende dos fatos, pelo que a falta de indicação de dispositivo legal ou mesmo sua indicação errônea não invalida a autuação, se, de todo o conjunto probatório, se extrai a imputação. É de se ressaltar ainda que não houve qualquer prejuízo às empresas incluídas na sujeição passiva por solidariedade, posto que foram regularmente intimadas a se defenderem. É princípio consagrado no direito administrativo aquele traduzido no brocardo francês "pas de nullité sans grief', que na sua tradução literal significa que não há nulidade sem prejuízo, não havendo, Fl. 4705DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.706 35 no caso, de se afastar a imputação da solidariedade se não é identificado qualquer prejuízo às partes. Nesse sentido, encaminho pela manutenção no pólo passivo das empresas CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S/A e COMPANHIA ENERGÉTICA DE MINAS GERAIS CEMIG. Assim sendo, dou provimento ao recurso de ofício no tocante à manutenção do grupo econômico no pólo passivo, mantendo a responsabilização solidária nos termos empreendidos pela autoridade lançadora. Recurso Voluntário Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche aos demais requisitos de admissibilidade, devendo, pois, ser conhecido. Aviso prévio indenizado valores transitados em folhas de pagamentos superiores às remunerações declaradas em GFIP Muito bem pontuou a recorrente ao asseverar que a fiscalização sustentou que os valores apurados na folha de pagamentos, verificados por meio de arquivos fornecidos pela própria recorrente, são superiores aos declarados em GFIP, o que motivou a alegação de que essas diferenças teriam origem em omissões na composição da base de cálculo de contribuições previdenciárias exigidas. De acordo com o relatório fiscal, a análise das diferenças encontradas apontou para a omissão de algumas rubricas, especificamente as relativas ao aviso prévio. A análise apontou, ainda, para a existência de valores recolhidos a maior pela recorrente, mas que não seriam suficientes para cobrir inteiramente os valores omitidos, o que manteve a necessidade da exigência. Intimada a apresentar informações sobre a discrepância desses valores, a recorrente trouxe aos autos em mais de uma oportunidade uma série de documentos relacionados à sua folha de pagamentos, em arquivos digitais, nos formatos MANAD e posteriormente em PDF, os quais, após análise, levaram a fiscalização a concluir que as diferenças teriam origem nos seguintes motivos: "A análise das diferenças encontradas apontava para a omissão de algumas rubricas com incidência de contribuições previdenciárias nas bases declaradas. Em especial, as rubricas com o aviso prévio, ainda que outras rubricas também sinalizassem divergência, porém, em uma quantidade menor de ocorrências. (...) recolhimentos; De fevereiro a junho, a empresa nem declarou e nem recolheu os valores correspondentes ao aviso prévio indenizado; Nos meses restantes não houve como chegar a conclusões exatas tomando como base os controles apresentados, possivelmente os recolhimentos ocorreram de forma parcial." Fl. 4706DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.707 36 Sendo assim, considerando que as divergências constatadas teriam origem na omissão de valores pagos a título de aviso prévio indenizado aos empregados da recorrente, o fiscal, com base no artigo 28, I, da Lei n.° 8.212/91, lavrou o presente auto de infração para exigir as contribuições previdenciárias cabíveis sobre as diferenças apuradas. Não obstante a legislação de regência (Lei 9.528/97 e Decreto 6.727/2009), as importâncias pagas a título de indenização, que não correspondam a serviços prestados nem a tempo à disposição do empregador, não ensejam a incidência de contribuição previdenciária. A CLT estabelece que, em se tratando de contrato de trabalho por prazo indeterminado, a parte que, sem justo motivo, quiser a sua rescisão, deverá comunicar a outra a sua intenção com a devida antecedência. Não concedido o aviso prévio pelo empregador, nasce para o empregado o direito aos salários correspondentes ao prazo do aviso, garantida sempre a integração desse período no seu tempo de serviço (art. 487, § 1°, da CLT). Desse modo, o pagamento decorrente da falta de aviso prévio, isto é, o aviso prévio indenizado, visa a reparar o dano causado ao trabalhador que não fora alertado sobre a futura rescisão contratual com a antecedência mínima estipulada na Constituição Federal (atualmente regulamentada pela Lei 12.506/2011). Dessarte, não há como se conferir à referida verba o caráter remuneratório pretendido pela Fazenda Nacional, por não retribuir o trabalho, mas sim reparar um dano. Ressaltese que, ”se o aviso prévio é indenizado, no período que lhe corresponderia o empregado não presta A verdade é que o tema já foi objeto de julgamento no STJ em sede de recurso repetitivo no REsp. n° 1.230.957/RS, no qual se concluiu pela não incidência de Contribuições Sociais Previdenciárias sobre as verbas pagas a título de aviso prévio indenizado. Entendeuse que os valores não se referiam a contraprestação pelo trabalho, e sim que eram pagos a título de indenização ao empregado que não recebeu o aviso prévio. Eis a ementa da decisão: PROCESSUAL CIVIL. RECURSOS ESPECIAIS. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA A CARGO DA EMPRESA. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. DISCUSSÃO A RESPEITO DA INCIDÊNCIA OU NÃO SOBRE AS SEGUINTES VERBAS: TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS; SALÁRIO MATERNIDADE; SALÁRIO PATERNIDADE; AVISO PRÉVIO INDENIZADO; IMPORTÂNCIA PAGA NOS QUINZE DIAS QUE ANTECEDEM O A UXÍLIODOENÇA. (...) 2.2 Aviso prévio indenizado. A despeito da atual moldura legislativa (Lei 9.528/97 e Decreto 6.727/2009), as importâncias pagas a título de indenização, que não correspondam a serviços prestados nem a tempo à disposição do empregador, não ensejam a incidência de contribuição previdenciária. Fl. 4707DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.708 37 A CLT estabelece que, em se tratando de contrato de trabalho por prazo indeterminado, a parte que, sem justo motivo, quiser a sua rescisão, deverá comunicar a outra a sua intenção com a devida antecedência. Não concedido o aviso prévio pelo empregador, nasce para o empregado o direito aos salários correspondentes ao prazo do aviso, garantida sempre a integração desse período no seu tempo de serviço (art. 487, § 1°, da CLT). Desse modo, o pagamento decorrente da falta de aviso prévio, isto é, o aviso prévio indenizado, visa a reparar o dano causado ao trabalhador que não fora alertado sobre a futura rescisão contratual com a antecedência mínima estipulada na Constituição Federal (atualmente regulamentada pela Lei 12.506/2011). Dessarte, não há como se conferir à referida verba o caráter remuneratório pretendido pela Fazenda Nacional, por não retribuir o trabalho, mas sim reparar um dano. Ressaltese que, ”se o aviso prévio é indenizado, no período que lhe corresponderia o empregado não presta trabalho algum, nem fica à disposição do empregador. Assim, por ser ela estranha à hipótese de incidência, é irrelevante a circunstância de não haver previsão legal de isenção em relação a tal verba” (REsp 1.221.665/PR, 1a Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe de 23.2.2011). A corroborar a tese sobre a natureza indenizatória do aviso prévio indenizado, destacamse, na doutrina, as lições de Maurício Godinho Delgado e Amauri Mascaro Nascimento. Precedentes: REsp 1.198.964/PR, 2a Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe de 4.10.2010; REsp 1.213.133/SC, 2a Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJe de 1°.12.2010; AgRg no REsp 1.205.593/PR, 2a Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 4.2.2011; AgRg no REsp 1.218.883/SC, 1a Turma, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe de 22.2.2011; AgRg no REsp 1.220.119/RS, 2a Turma, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJe de 29.11.2011. (...) Acórdão sujeito ao regime previsto no art. 543C do CPC, c/c a Resolução 8/2008 Presidência/STJ. (REsp 1230957/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 26/02/2014, DJe 18/03/2014) O REsp n° 1230957/RS está suspenso por Recurso Extraordinário com repercussão geral (Tema 163 265), mas o aviso prévio indenizado, por não ter caráter remuneratório, não é salário de contribuição. Dessarte, merece provimento o voluntário no tocante ao aviso prévio indenizado. Pagamentos efetuados a contribuintes individuais não declarados em GFIP (período 01/2010 a 13/2010) Fl. 4708DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.709 38 A auditoria fiscal apurou pagamentos a contribuintes individuais que não foram declarados em GFIP. A recorrente, por sua vez, sustenta que as incongruências verificadas no demonstrativo elaborado pela fiscalização não têm origem na ausência de recolhimento das contribuições previdenciárias devidas que foram corretamente pagas , mas nas seguintes situações: (i) os valores declarados em DIRF relativos à retenção na remuneração dos contribuintes individuais não respeita o mesmo regime contábil que os declarados em GF1P, sendo o pagamento das contribuições previdenciárias realizado no mês da respectiva contratação (regime de competência) e a retenção do IR apenas no mês do efetivo pagamento do prestador (regime de caixa), o que gerou a não coincidência dos valores mencionados; e (ii) parte dos lançamentos identificados na DIRF analisada, apesar de terem sido enquadrados pela IMPUGNANTE no código ”0588” (Trabalho Sem Vínculo Empregatício), referemse, em verdade, a pagamentos de outra natureza, especialmente de alugueis de imóveis de pessoas físicas, não estando, portanto, sujeitos às contribuições previdenciárias exigidas. Os pagamentos comprovados relacionados aos "contratos de arrendamentos" foram acatados pela DRJ, pois caracterizam e provam fatos econômicos sobre os quais não incidem contribuições previdenciárias. Todavia, em relação aos pagamentos remanescentes, não se desincumbiu o recorrente do ônus de provar que não se relacionavam a fatos geradores de contribuições previdenciárias, nos termos em que apurado pela autoridade lançadora. Destarte, diante da ausência de força probante suficiente para infirmar o lançamento em relação aos contribuintes individuais, mantenho a decisão de piso pelos seus próprios e doutos fundamentos. Da Participação nos Lucros e Resultados Considerando a matéria sob julgamento, temos a observar, preliminarmente, que a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa é um direito social de matriz constitucional, e regulada no plano infraconstitucional pela Lei n° 10.101/2000, como segue: Constituição Federal 1988 Art. 7° São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) XI participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; (...) (grifos nossos) Lei n° 10.101/2000 (Texto vigente à época do Período de Apuração) Art. 1o Esta Lei regula a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7o, inciso XI, da Constituição. Fl. 4709DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.710 39 Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. § 1 oDos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dostrabalhadores. (...) Art. 3o A participação de que trata o art. 2o não substitui ou complementa a remuneração devida a qualquer empregado, nem constitui base de incidência de qualquer encargo trabalhista, não se lhe aplicando o princípio da habitualidade. (...) (grifos nossos) Embora a CF/88 assegure o direito dos empregados à participação nos lucros ou resultados das empresas, tal comando é de eficácia limitada, ou seja, depende de lei ordinária federal para sua aplicação plena. O legislador constituinte, ao estabelecer aquele direito social, desvinculado da remuneração, remeteu à lei ordinária o poder de disciplinar o acesso dos empregados àquele direito, definindo o modo e os limites de sua participação, bem como o caráter jurídico desse benefício para fins tributários, seja quanto à incidência do imposto de renda, seja para fins de incidência de contribuição previdenciária. Assim, somente com a superveniência da Medida Provisória n° 794/1994, sucessivamente reeditada e com numeração variada até a MP 1.98277, de 23 de novembro de 2000, convertida na Lei n° 10.101/2000, é que foram implementadas as condições indispensáveis ao exercício do direito dos trabalhadores àquela participação, desvinculada da remuneração. A Lei n° 10.101/2000, deixa explícito que a PLR tem como um dos seus objetivos incentivar a produtividade, e o § 1° do artigo 2° determina que as regras para o pagamento da PLR devem constar do documento que fixa os termos da negociação. Ora, a Fl. 4710DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.711 40 concessão da PLR sem a exigência de meta a ser atingida não cumpre o objetivo de incentivar a produtividade. Do instrumento de negociação firmado entre as partes devem constar regras claras e objetivas das condições a serem satisfeitas (regras adjetivas) para que ocorra o pagamento ou crédito da parcela correspondente à participação nos lucros ou resultados (direito substantivo), conforme disposto no § 1° do art. 2° da Lei n° 10.101/2000. Nesse contexto, logicamente, os trabalhadores precisam saber previamente dos critérios e condições acordados com a empresa, constantes daquele instrumento de negociação, tais como metas, resultados, índices de produtividade ou lucratividade, dentre outros, de forma que possam, de forma periódica, acompanhar e avaliar a evolução dos indicadores vinculados ao pagamento da PLR. Desta forma, na hipótese de haver outro documento detalhando as regras, ele fará parte integrante do primeiro instrumento e, da mesma forma que este, aquele também deve ser celebrado antes do início do cumprimento das condições para a PLR. Do exame dos dispositivos contidos na Lei n° 10.101/2000, temos que, afora os parâmetros nela estabelecidos, não constam regras detalhadas sobre as características dos acordos a serem celebrados, de forma que os sindicatos envolvidos ou as comissões, nos termos do art. 2°, tem liberdade para fixarem os critérios e condições para a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados. As disposições contidas na Lei n° 10.101/2000, nos permitem inferir, portanto, que o objeto do acordo não pode se limitar à simples concessão da parcela atinente à PLR, independentemente de fixação dos objetivos a serem alcançados. Os exemplos reportados na Lei em comento indicam que algum lucro ou resultado deve ser perseguido, de forma que a natureza jurídica específica de tal verba seja preservada. Assim, o pagamento da PLR não se constitui em mera gratificação legalmente prevista, mas em verdadeiro mecanismo de integração entre o capital e o trabalho, pois, atingidas as metas estabelecidas no acordo ou convenção coletiva, tanto os trabalhadores como os empregadores sairão beneficiados. Com as considerações acima, passase à análise da matéria sob o enfoque da legislação previdenciária, notadamente quanto à integração ou não da referida verba no conceito de salário de contribuição para fins de determinação da base de cálculo das contribuições previdenciárias. Nesse contexto, a Lei n° 8.212/1991, que instituiu o Plano de Custeio da Previdência Social, assim trata do conceito de salário de contribuição bem como das hipóteses de nãoincidência tributária, conforme segue: Art. 28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei n° 9.528, de 10.12.97) (...) Fl. 4711DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.712 41 § 9° Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei n° 9.528, de 10.12.97) (...) j) a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (...) (grifos nossos). Art.214. Entendese por saláriodecontribuição: (...) § 9°Não integram o saláriodecontribuição, exclusivamente: (...) X a participação do empregado nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (...) § 10. As parcelas referidas no parágrafo anterior, quando pagas ou creditadas em desacordo com a legislação pertinente, integram o saláriodecontribuição para todos os fins e efeitos, sem prejuízo da aplicação das cominações legais cabíveis. (...) (grifos nossos) Os Acordos e Convenções Coletivas de Trabalho CCT são instrumentos de negociação e previsão de direitos reconhecidos pela Constituição Federal, mas nunca podem alterar a disciplina que a lei, previamente, traz em relação a um determinado instituto. O conhecimento da lei, inescusável que é, contorna a atividade tanto do empregador quanto dos trabalhadores, de modo que se os mesmos quiserem estipular a participação, não tributável, nos lucros e/ou resultados da empresa (PLR), devem estabelecer condições que se afinem aos postulados da norma regulamentadora, no caso, a Lei n° 10.101/2000. O AuditorFiscal autuante em momento algum desconsiderou o Acordo Coletivo apresentado pela impugnante, apenas constatou que os mesmos não se coadunam com os preceitos estabelecidos pela Lei 10.101/2000 para excluir da tributação previdenciária as verbas distribuídas a título de PLR aos empregados. A Lei n° 10.101/2000 permite a livre negociação entre as partes, desde que com regras claras e objetivas quanto aos direitos substantivos (necessidade de o programa estar vinculado ao alcance do lucro ou dos resultados), e quanto às regras adjetivas (possibilidade de se aferir o cumprimento das metas da empresa, como um todo). É, portanto, um acordo prévio quanto aos direitos e quanto às obrigações. O Acórdão CARF n° 240100.545, de 19/08/2009, é nesse sentido: Como é sabido, o grande objetivo do pagamento de participação nos lucros e resultados é a participação do empregado no capital da empresa, de forma que esse se sinta estimulado a Fl. 4712DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.713 42 trabalhar em prol do empreendimento, tendo em vista que o seu engajamento resultará em sua participação (na forma de distribuição dos lucros alcançados). Assim, como falar em engajamento do empregado na empresa, se o mesmo não tem conhecimento prévio do quanto a sua dedicação irá refletir em termos de participação. É nesse sentido, que entendo que a lei exigiu não apenas o acordo prévio ao trabalho do empregado, ou seja, no início do exercício, bem como o conhecimento por parte do trabalhador de quais as regras (ou mesmo metas) que deverá alcançar para fazer jus ao pagamento. Com essas considerações, podese perceber que o objetivo do legislador é a integração do trabalhador na empresa, não de forma aleatória, mas efetiva, de modo que uma melhor produtividade, melhor eficiência, ou melhores índices alcançados pelo empreendimento resultem na participação dos empregados no capital social. Para tanto, a Lei 10.101/2000, pressupõe a existência de regras, as quais, efetivamente, devem ser cumpridas pelas partes acordantes. As partes acordantes são os empregados e o empregador, mas sempre com a participação do Sindicato dos trabalhadores, seja através de um representante indicado pela entidade (inciso I do artigo 2° da Lei n° 10.101, de 2000), seja por instrumento de Convenção ou Acordo Coletivo de trabalho (inciso II do referido artigo 2°). Resta, pois, verificar, para a situação apresentada nos autos, se foram perseguidos nos acordos celebrados os ditames estabelecidos pela lei de regência. Aqui, há uma particularidade. A decisão de piso, com base em jurisprudência desse Conselho decidiu que não há óbice quanto ao prazo de formalização do acordo de PLR. Portanto, o aspecto temporal não é matéria controvertida. A controvérsia se limita à própria existência do PLR, uma vez que várias irregularidades foram constatadas, consoante narrado pela autoridade lançadora, que aponta: O instrumento de negociação coletiva, conforme sua data de assinatura, tinha sido firmado em 20/11/2009. [...] 19.10. Significativa também é a cláusula que determina que um grupo de trabalho paritário, formado por representantes da CEMIG e dos empregados deveria até 31/03/2010 identificar o Indicador de Agregação de Valor e negociar a respectiva meta, definir as ausências que impactariam o índice de absenteísmo e estabelecer os mecanismos de aferição que deveriam medir o cumprimento do acordo. 19.11 O próprio parágrafo único da Cláusula 9a do acordo condiciona o pagamento da parcela ”B” do PLR 2010/2011 ao estabelecimento prévio do Indicador de Agregação de Valor e de sua meta, ou seja, ao resultado do que deveria ser estabelecido pelo grupo de trabalho supracitado. Fl. 4713DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.714 43 19.12. Ocorre que a CEMIG não conseguiu chegar a um acordo com os empregados nesta questão, conforme documentado nas cópias das correspondências desta com as entidades sindicais. Apesar do acordo prever que até 31/03/2010, o grupo de trabalho deveria ter concluído suas tarefas, um boletim intitulado "Informador Gerencial de Relações Trabalhistas ", datado de 02/06/2010 informa o fracasso das negociações entre empresa e empregados no ponto em questão: ... . [...] Temos aqui então uma situação onde a CEMIG, diante do não cumprimento das regras previamente estabelecidas, adita o instrumento de negociação coletiva original e acorda novas regras para o pagamento do PLR 2010 aos empregados, isso na última quinzena de 2010. A fiscalização, conforme dito anteriormente, já havia solicitado a apresentação de "planilhas analíticas que demonstrassem o cumprimento dos objetivos traçados e a aferição das metas, globais, setoriais e individuais, com detalhamento dos indicadores para cumprimento das metas estabelecidas, com as respectivas ponderações". Ocorre que a CEMIG não apresentou nenhuma planilha ou outro instrumento de aferição que permitisse a fiscalização verificar os cumprimentos dos requisitos estabelecidos nos seus instrumentos de negociação coletiva e na Lei N° 10.101. Assim, tais instrumentos, se existem, não foram apresentados para o exame da fiscalização. [...] Nesse mesmo termo, a fiscalização solicitou ainda a apresentação da documentação completa para o PLR 2009. Foi solicitado ainda que a empresa discriminasse as verbas que transitaram pela folha de pagamentos a título de PLR, vinculando as mesmas aos PLRs e suas parcelas. Ocorre que a CEMIG, a exemplo do que aconteceu em outros momentos da presente ação fiscal, não apresentou a documentação solicitada ou mesmo esclarecimentos para o exame da fiscalização. Não apresentou nenhuma planilha ou instrumento de controle, medição ou aferição para os PLRs dos exercícios 2009 e 2010, No caso do PLR 2009, nenhuma documentação foi apresentada, além do acordo coletivo original que englobava os biênios 2009/2010 e 2010/2011. 19.37. A CEMIG apresentou ainda para o exame da fiscalização um conjunto de 10 cadernos como documentação "relacionada com o PLR"11. Tais cadernos traziam apresentações relacionadas com a gestão do processo estratégico da CEMIG e iniciativas relacionadas com a gestão de riscos, qualidade, prevenção de acidentes e planejamento estratégico da companhia, descrevendo ainda dezenas de indicadores de desempenho e sua evolução. Ressaltese que tal documentação Fl. 4714DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.715 44 foi entregue apenas no final de julho de 2014, nos últimos dias da ação fiscal, mais de um ano após o TIF n° 001/2013, onde a documentação inicial do PLR foi solicitada e mais de 7 meses após o TIF n°002/2013, em foi que solicitada a complementação da documentação do PLR. Ainda assim, o conteúdo dos documentos entregues foi examinado e levado em conta pela fiscalização, conforme descrito nos próximos itens. 19.38. A fiscalização não tem dúvidas de que a CEMIG tenha implementado as melhores metodologias de planejamento e gestão, afinal, é uma das maiores empresas do Brasil, com merecida reputação de excelência em sua área de atuação. Ocorre que tais cadernos apresentados não estão relacionados com o pagamento de PLR, aliás, não existe qualquer menção a PLR nos mesmos, são documentos utilizados no planejamento estratégico e na relação com os investidores da CEMIG e os indicadores ali detalhados não estão, pelo menos de forma direta, relacionados com aqueles descritos nas cláusulas dos acordos coletivos relacionadas com o pagamento de PLR e usados na apuração quantitativa do mesmo. A fim de evitar decisões conflitantes acerca de um mesmo PLR e, primordialmente, por concordar com os termos da decisão exarada (acórdão n. 2402005.2614ª Câmara / 2ª Turma Ordinária) nos autos do processo n. 15504.725513/201437, adoto como razão de decidir em relação aos PLR dos anos de 2009 e 2010, o voto condutor do Relator João Victor Ribeiro Aldinucci proferido naquele processo, nos termos abaixo: PLR 2009: formalização e negociação entre a empresa e seus empregados O lançamento ocorreu porque o PLR 2009 teve suas regras estabelecidas apenas em novembro/2009. A recorrente defende a tese de que esse fato não desnatura o plano, eis que a Lei n° 10.101/2000 não traz qualquer limite temporal para a celebração dos acordos. Essa questão é extremamente controvertida neste Conselho, havendo posicionamentos muito bem fundamentados em ambos os sentidos. A não incidência das contribuições sobre a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa é uma imunidade, vez que é uma norma de não tributação prevista na Constituição Federal (inc. XI do art. 7°). Ao estabelecer que tal verba está desvinculada da remuneração, a Lei Maior criou norma negativa de competência, impedindo o próprio exercício de atividade legislativa para criar imposição fiscal a ela atinente. Vejase: Art. 7° São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: Fl. 4715DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.716 45 XI participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; A participação do trabalhador nos lucros ou resultados da empresa não é apenas um instrumento de integração entre o capital e o trabalho, visando a incrementar a produtividade (como costumeiramente se diz), mas sobretudo um direito social do trabalhador. Tanto o caput do artigo, como o capítulo no qual ele está inserido ("DOS DIREITOS SOCIAIS"), não deixam margem para dúvidas. Essa circunstância tem passado despercebida às vezes, mormente porque a lei regulamentadora parece têla deixado em segundo plano, nem mesmo fazendo menção à expressão direitos sociais. Por outro lado, a norma constitucional é de eficácia limitada, pois atribuiu à lei ("conforme definido em lei" ) a competência para estabelecer os pressupostos dessa não vinculação. No plano infraconstitucional, a regulamentação está na Lei n° 10.101/2000, que "dispõe sobre a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa e dá outras providências". Em seu art. 2°, a lei prevê que a participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, através, conforme o caso, de comissão paritária escolhida pelas partes, convenção coletiva ou acordo coletivo. Logo, é inquestionável que a lei prevê que essa partipação será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados. Veja se: Art.2 A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: (destacouse) Todavia, e diferentemente do que concluiu a autoridade autuante, bem como a própria DRJ, a lei realmente não estabeleceu uma data limite para a formalização dessa negociação. É compreensível que ela não o tenha feito, pois as normas de experiência comum demonstram que tais negociações não raramente levam meses para serem concluídas, sendo, por vezes, acirradas e conflituosas. No caso concreto, e como demonstrado pela recorrente, o acordo coletivo envolveu dez sindicatos diferentes, o que demonstra a plausibilidade da sua tese. Fl. 4716DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.717 46 A interpretação criativa é vedada pela tripartição dos poderes deveres prevista no art. 2° da Lei Maior, tripartição que se constitui em um verdadeiro princípio fundamental da República. Uma interpretação mais fiscalista, com criação de exigências não previstas legalmente, apenas tem o condão de dificultar a efetiva concretização do direito social do trabalhador à participação nos lucros ou resultados da empresa, em conflito com as finalidades constitucionais. Muito embora a lei regulamentadora pareça ter deixado em segundo plano a participação nos lucros ou resultados como um direito social, pois nem mesmo faz qualquer menção a esse respeito, fato é que a Constituição outorgou essa participação como um efetivo direito daquela natureza, o que deve ser levado em consideração pelo aplicador da lei, na busca da máxima eficácia da norma constitucional. Os direitos sociais visam a criar as condições materiais necessárias ao alcance da igualdade real entre o dono do capital e o trabalhador. Segundo José Afonso da Silva, "são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais" (Curso de Direito Constitucional Positivo, 12a ed., rev., Malheiros Editores, 1996, p. 277, com destaques). Buscando igualar o empregador e o trabalhador, a Constituição outorgou a este o direito à participação nos lucros ou resultados e na própria gestão da empresa. Não fosse a Constituição e a consequente regra imunizante, é óbvio que o trabalhador não teria as condições materiais necessárias para participar dos lucros ou resultados, os quais, por consectário lógico, decorrem do capital do qual ele não é dono. Toda interpretação, portanto, deve ter como norte os direitos sociais. E diante de interpretações plausíveis e alternativas, o exegeta deve adotar aquela que se amolda à Lei Maior. O ministro Luís Roberto Barroso decompõe o princípio da interpretação conforme a Constituição nos seguintes termos: 1) Tratase da escolha de uma interpretação da norma legal que a mantenha em harmonia com a Constituição, em meio a outra ou outras possibilidades interpretativas que o preceito admita. 2) Tal interpretação busca encontrar um sentido possível para a norma, que não é o que mais evidentemente resulta da leitura de seu texto. 3) Além da eleição de uma linha de interpretação, procedese à exclusão expressa de outra ou outras interpretações possíveis, que conduziriam a resultado contrastante com a Constituição. Fl. 4717DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.718 47 4) Por via de conseqüência, a interpretação conforme a Constituição não é mero preceito hermenêutico, mas, também, um mecanismo de controle de constitucionalidade pelo qual se declara ilegítima uma determinada leitura da norma legal. (Interpretação e aplicação da constituição '.fundamentos de uma dogmática constitucional transformadora. 3. ed. Saraiva, p. 181 182, com destaques) Deve ser abandonado, pois, o rigor interpretativo, para compatibilizar a leitura da Lei n° 10.101/2000 com a Constituição, a qual, lembrese, visou a igualar materialmente o trabalhador e o empregador. Ainda que a compreensão mais óbvia da lei infraconstitucional possa sugerir que o acordo deve ser formalizado antes do início do período aquisitivo, como forma de incentivar a produtividade e o comprometimento dos trabalhadores, fato é que a Constituição trouxe como critério preponderante o direito social do lado mais fraco da relação empregatícia, e não o incremento da produtividade e do seu comprometimento. A interpretação de que o acordo deve ser formalizado antes do início do período aquisitivo, assim, embora possa ser a mais evidente diante da Lei n° 10.101/2000, não é a mais legítima. Cria, também, um requisito formal não previsto (pois a lei menciona apenas a necessidade de negociação "será objeto de negociação") e que está em descompasso com a realidade negocial, podendo até mesmo desestimular a concessão da participação nos lucros ou resultados e, por conseguinte, a realização dos direitos sociais. Essa interpretação não é apenas teleológica, mas sim criativa, pois insere um requisito formal não constante da norma encimada, e que, para piorar, não está em conformidade com a Constituição. Como se vê, não se está declarando a inconstitucionalidade da Lei n° 10.101/2000, e sim, dentre as várias interpretações possíveis, elegendose aquela mais adequada ao texto constitucional. Sendo assim, deve ser acatada a tese já esboçada pelo CSRF, no acórdão n° 9202003.370, cuja ementa segue abaixo, com destaques: PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA PLR. IMUNIDADE. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. ACORDO PRÉVIO AO ANO BASE. DESNECESSIDADE. A Participação nos Lucros e Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7°, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando Fl. 4718DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.719 48 ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica, notadamente artigo 28, § 9°, alínea j, da Lei n° 8.212/91, bem como MP n° 794/1994 e reedições, c/c Lei n° 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados. A exigência de outros pressupostos, não inscritos objetivamente/literalmente na legislação de regência, como a necessidade de formalização de acordo prévio ao ano base, é de cunho subjetivo do aplicador/intérprete da lei, extrapolando os limitas das normas específicas em total afronta à lei (Interpretação e aplicação da constituição '.fundamentos de uma dogmática constitucional transformador . 3. ed. Saraiva, p. 181 182, com destaques) Deve ser abandonado, pois, o rigor interpretativo, para compatibilizar a leitura da Lei n° 10.101/2000 com a Constituição, a qual, lembrese, visou a igualar materialmente o trabalhador e o empregador. Ainda que a compreensão mais óbvia da lei infraconstitucional possa sugerir que o acordo deve ser formalizado antes do início do período aquisitivo, como forma de incentivar a produtividade e o comprometimento dos trabalhadores, fato é que a Constituição trouxe como critério preponderante o direito social do lado mais fraco da relação empregatícia, e não o incremento da produtividade e do seu comprometimento. A interpretação de que o acordo deve ser formalizado antes do início do período aquisitivo, assim, embora possa ser a mais evidente diante da Lei n° 10.101/2000, não é a mais legítima. Cria, também, um requisito formal não previsto (pois a lei menciona apenas a necessidade de negociação "será objeto de negociação") e que está em descompasso com a realidade negocial, podendo até mesmo desestimular a concessão da participação nos lucros ou resultados e, por conseguinte, a realização dos direitos sociais. Essa interpretação não é apenas teleológica, mas sim criativa, pois insere um requisito formal não constante da norma encimada, e que, para piorar, não está em conformidade com a Constituição. Como se vê, não se está declarando a inconstitucionalidade da Lei n° 10.101/2000, e sim, dentre as várias interpretações possíveis, elegendose aquela mais adequada ao texto constitucional. Sendo assim, deve ser acatada a tese já esboçada pelo CSRF, no acórdão n° 9202003.370, cuja ementa segue abaixo, com destaques: Fl. 4719DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.720 49 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA PLR. IMUNIDADE. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. ACORDO PRÉVIO AO ANO BASE. DESNECESSIDADE. A Participação nos Lucros e Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7°, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica, notadamente artigo 28, § 9°, alínea j, da Lei n° 8.212/91, bem como MP n° 794/1994 e reedições, c/c Lei n° 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados. A exigência de outros pressupostos, não inscritos objetivamente/literalmente na legislação de regência, como a necessidade de formalização de acordo prévio ao ano base, é de cunho subjetivo do aplicador intérprete da lei, extrapolando os limitas das normas específicas em total afronta à própria imunidade, deve ser interpretado de maneira ampla e não restritiva. Recurso especial negado. (CSRF, 2a Turma, Relator(a) RYCARDO HENRIQUE MAGALHÃES DE OLIVEIRA, sessão de 17 de setembro de 2014) (com destaques) Logo, o fato isolado de a formalização ter ocorrido em novembro não desnatura o PLR 2009, devendo ser analisados outros aspectos, conforme adiante se fará. A necessidade de comprovação da negociação entre a empresa e seus empregados, por exemplo, é um requisito imposto pela Lei n° 10.101/2000, que deve ser adequadamente observado. O plano não deve ser imposto pela empresa e deve realmente servir de instrumento de integração entre o capital e o trabalho. A recorrente afirma que, a despeito de a assinatura ter ocorrido em novembro, os seus empregados já vinham recebendo as diretrizes e as metas necessárias através do boletim mensal "Visão e Ação". Muito embora o recebimento das diretrizes e das metas não comprove a existência da negociação, mas sim da eventual divulgação das informações, o fato de o plano ter sido assinado perante dez sindicatos diferentes comprova efetivamente a existência prévia de discussões entre as partes interessadas. Um plano de tal importância e grandeza é sempre precedido de ajustes, como demonstram as regras de experiência comum. Nessa toada, o art. 275 do CPC preleciona que "o juiz aplicará as regras de experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece". As disposições do Código são Fl. 4720DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.721 50 aplicáveis supletiva e subsidiariamente aos processos administrativos fiscais, como determina o seu art. 15. É necessário, assim, verificar se a recorrente cometeu as demais infringências relatadas no auto e acatadas pela DRJ. 10. PLR 2009 e 2010: Medição e divulgação dos indicadores A DRJ afirma que, com relação aos PLRs 2009 e 2010, não foram apresentados documentos ou planilhas de controle comprobatórios de que os indicadores definidos nas cláusulas dos acordos coletivos foram efetivamente medidos e avaliados periodicamente e que tais medições eram levadas ao conhecimento dos seus empregados para direcionar o seu esforço adicional. A recorrente controverte afirmando que a disseminação das metas e regras era realizada por meio de instrumento próprio ("Visão e Ação"). Diz, igualmente, que todos os seus funcionários possuíam acesso aos relatórios mensais por meio da intranet. Especificamente no tocante ao PLR 2010, a recorrente afirma que os indicadores estabelecidos no acordo (Taxa de Frequência de Acidentados com Afastamento TFTp, despesas com Material, Serviços e Outros MSO, Resultado da Atividade, Número de de Valor) foram regular e efetivamente medidos. Ao contrário do que alega a recorrente, no entanto, ela não comprovou a existência dos mecanismos de aferição das cláusulas do acordo coletivo referente ao PLR 2009. A sua Cláusula 1a estabeleceu que "as metas e indicadores pré estabelecidos para o ano de 2009 são, dentre outros, aqueles definidos pelo Planejamento Estratégico Empresarial, (fls. 4418 e seguintes). Em primeiro lugar, a recorrente não demonstrou quais metas e indicadores teriam sido definidos, o que já prejudica a análise acerca da existência de mecanismos de sua aferição. Em segundo lugar, e de qualquer forma, os relatórios de fls. 4665 e seguintes ("Visão e Ação") não fazem qualquer menção ao PLR. Ficam corroboradas, portanto, as seguintes conclusões da fiscalização (item 19.30 do relatório fiscal), que se transcreve para evitar tautologia: Ocorre que tais cadernos apresentados não estão relacionados com o pagamento de PLR, aliás, não existe qualquer menção a PLR nos mesmos, são documentos utilizados no planejamento estratégico e na relação com os investidores da CEMIG e os indicadores ali detalhados não estão, pelo menos de forma direta, relacionados com aqueles descritos nas cláusulas dos acordos coletivos relacionadas com o pagamento de PLR e usados na apuração quantitativa do mesmo. Fl. 4721DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.722 51 No mesmo sentido, os relatórios de fls. 5889 e seguintes. Como se depreende do documento intitulado "Visão e Ação", ele se destina à "disseminação de temas relativos à estratégia a todos os empregados". Além de "auxiliar na comunicação da estratégia [...], permite uma troca de informações e experiências entre os empregados, tornandose um importante meio de comunicação corporativa" (vide fl. 5890). Destarte, é indubitável que tal boletim está relacionado às atividades de planejamento e gestão da estratégia da recorrente, mas não ao PLR, conclusão esta reforçada pelo seguinte trecho do documento de fl. 5898: Neste Visão e Ação OnLine iremos abordar as atividades do planejamento e gestão da estratégia previstas para o ano de 2009. Para que não restem dúvidas, vale traçar a seguinte tabela: VISÃO E AÇÃO Mês/Ano Assunto Janeiro/2010 Leilões de energia elétrica Fevereiro/2010 Comercialização de energia no mercado livre e os clientes corporativos da Cemig Março/2010 Empresas em que a Cemig detém participação Abril/2010 Panorama do movimento mundial de fusões e aquisições do setor elétrico e gás A despeito da vasta documentação juntada pela recorrente, não há como afastar as seguintes conclusões da DRJ (fls. 7039): Destarte, examinada essa documentação, chegase a mesma conclusão da autoridade lançadora, de que esses documentos, com efeito, demonstram o empenho da CEMIG em implementar metodologias de planejamento e gestão, todavia, os indicadores ali constantes não estão relacionados, diretamente, com aqueles descritos nas cláusulas dos acordos coletivos. Como frisado no relatório fiscal (fl. 36), o pagamento do PLR para os biênios 2009/2010 e 2010/2011 estava vinculado ao atingimento de metas preestabelecidas, metas essas que eram resultado da composição de indicadores operacionais, financeiros e funcionais. Temos então uma metodologia complexa estabelecida onde o pagamento das Fl. 4722DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.723 52 parcelas fixas e variáveis definidas para o PLR estava vinculado a parâmetros quantitativos e qualitativos que implicavam necessariamente em medições do desempenho corporativo em suas pontas operacional e financeira e também de parâmetros individuais de desempenho. Em terceiro lugar, a disponibilização de informações específicas do PLR 2009 através da intranet não foi comprovada. Logo, a recorrente não comprovou que divulgava aos seus empregados as informações atinentes ao atingimento das metas e dos indicadores necessários para a obtenção da participação nos lucros ou resultados de 2009. Essas informações são de suma importância para os trabalhadores, que devem ter conhecimento dos direitos substantivos da participação, das suas regras adjetivas e, ao longo do período aquisitivo, do cumprimento ou não das metas e indicadores estabelecidos no programa. A participação requer que os empregados tenham informações claras e objetivas desde a formalização do plano, durante o período de aquisição e até mesmo depois da distribuição dos lucros ou resultados. Essas exigências constantes do § 2° do art. 2° da Lei são plenamente válidas, pois igualmente visam a concretizar os direitos sociais, os quais somente podem ser eficazmente exercidos se cumpridos os deveres de informação e transparência. Diante dessa ilegalidade, a qual é suficiente para se chegar ao resultado do julgamento, pois macula todo o plano de 2009, é prescindível examinar os demais fundamentos recursais. Expressandose de outra forma, e na dicção do inc. IV, do § 1°, do art. 489, do CPC, não é necessário enfrentar os demais argumentos deduzidos no processo, pois incapazes de infirmar a conclusão do julgado. No tocante ao PLR 2010, a conclusão é diversa. através dos documentos de fls. 6384 e seguintes, a recorrente comprovou que aferia as metas e os indicadores estabelecidos no acordo. Como se vê na Cláusula 6a do instrumento (vide fl. 4422), as metas para a participação estavam diretamente vinculadas aos indicadores TFTp, número de conjuntos DEC ou FEC violados, MSO e indicador de resultado individual. O Relatório Anual 2010 (vide fls. 6384 e seguintes) contempla informações precisas acerca dos dados estatísticos dos acidentados com afastamento, dados estes relacionados ao indicador TFTp. A preocupação com esse indicador está igualmente estampada nos documentos que registram as Fl. 4723DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.724 53 reuniões presenciais e as videoconferências de fls. 6449 e seguintes. Os indicadores DEC ou FEC estão retratados nos dados estatísticos de fls. 6543 e seguintes, observandose, ainda, que tais dados estão consolidados no próprio site da ANEEL (vide fl. 6542). Já aqueles dados relacionados ao MSO estão comprovados nos documentos de fls. 6541 e seguintes, assim como nos documentos de fls. 5097, extraídos do sistema de gestão da recorrente, o qual dá conta das despesas com material, serviços e outros. Destarte, e ao contrário do que ocorreu no tocante ao PLR 2009, a recorrente fez prova de que media e avaliava os indicadores e as metas estabelecidas no acordo relativo ao ano de 2010, dando conhecimento dessa avaliação aos seus empregados. Nesse sentido, deve ser validado o PLR 2010. 11. PLR 2010: Parcela Adicional Segundo a DRJ, o PLR 2010, contrariando as suas próprias regras, distribuiu parcela adicional não prevista. Já a recorrente afirma que o seu aditamento, em dezembro/2010, com distribuição de parcela adicional não prevista nas regras iniciais, não desnatura o plano, eis que a Lei n° 10.101/2000 não traz qualquer limite temporal para a celebração dos acordos. Como argumentado no tópico 9 desta decisão, ao qual apenas se remete para evitar tautologia, tem razão a recorrente. Nessa toada, temse como inválido o PLR de 2009 e, de acordo com os ditames da Lei n. 10.101/2000, o PLR de 2010, devendo ser declarado válido. Conclusão Diante de todo o exposto, voto por conhecer dos recursos de ofício e voluntário, para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso de ofício, mantendo a sujeição passiva solidária das empresas integrantes do grupo econômico e, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para excluir as parcelas inerentes ao aviso prévio indenizado e a incidência de contribuição previdenciária sobre o Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) do ano de 2010. ( Assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Fl. 4724DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.725 54 Voto Vencedor Conselheira Dione Jesabel Wasilewski Redatora designada Apesar de o voto do relator refletir a lucidez que o caracteriza, ouso dele discordar no que diz respeito ao programa de participação nos lucros e resultados de 2010, que entendo estar em desacordo com a legislação que estabelece benefício fiscal para os pagamentos que tenham essa natureza, qual seja, a Lei nº 10.101, de 2000. Partindo do pressuposto de que a Lei nº 10.101, de 2000, estabelece uma modalidade de isenção e que uma das condições para sua fruição é a existência de instrumento instituindo o programa de participação nos lucros e resultados, há divergência na jurisprudência deste Conselho a respeito da necessidade ou não de que esse ajuste seja anterior ao período de obtenção do lucro/resultado a ser distribuído, havendo quem defenda que basta seja anterior ao pagamento. Sob o meu ponto de vista, a conclusão do ajuste deve anteceder ao período de referência para sua apuração, pois essa é uma decorrência lógica da finalidade para a qual o benefício é instituído. Com efeito, a isenção foi conferida como instrumento para estimular a integração entre capital e trabalho, o que se obtém pela fixação em comum acordo de metas a serem alcançadas e da premiação delas decorrentes. Nesse aspecto, não me sensibilizam argumentos quanto à inexistência de expressa previsão legal estabelecendo prazo para que o acordo seja firmado, pois as leis contém certa racionalidade em sua elaboração e exigem a mesma racionalidade em sua interpretação e aplicação. Ou seja, a lei não precisa estabelecer textualmente aquilo que decorre naturalmente do bom senso e da função social dos institutos regulados. Nesse diapasão, o estabelecimento de metas e critérios claros para a obtenção e aferição do direito, e que funcionem como estímulo à produtividade, só fazem sentido se estabelecidos previamente. O que constitui também uma garantia para o trabalhador. A despeito do que foi afirmado no parágrafo anterior, temse que o art. 2º da Lei nº 10.101, de 2000, em seu parágrafo primeiro estabelece que entre os critérios e condições passíveis de adoção estão "programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente". Portanto, decorre também da literalidade da norma que, se os critérios e condições consistem em metas e resultados, a pactuação deve ser prévia. Também é da literalidade da norma que está a se tratar da fixação de "critérios e condições". São critérios e são condições. Juridicamente, condição consiste em um evento futuro e incerto, de cuja ocorrência depende a aquisição ou extinção de um direito. Ou seja, a condição sempre remete a um evento de ocorrência futura e incerta. Quando os critérios são fixados segundo fatos já ocorridos, nenhuma condição está sendo estabelecida. Na verdade, neste caso, o que está se fazendo é mera escolha. Fl. 4725DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.726 55 Esse entendimento encontra eco na jurisprudência desse colegiado, do que serve como exemplo a seguinte manifestação da Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, no voto condutor do Acórdão nº 2401003.492 da 4ª Câmara/1ª TO, sessão de 15 de abril de 2014: Como é sabido, o grande objetivo do pagamento de participação nos lucros e resultados e a participação do empregado no capital da empresa (essa é a base do texto constitucional), de forma que esse se sinta estimulado a trabalhar em prol do empreendimento, tendo em vista que o seu engajamento, resultará em sua participação no capital (na forma de distribuição dos lucros alcançados). Assim, como falar em envolvimento do empregado na empresa, se o mesmo não tem conhecimento prévio do quanto a sua dedicação irá refletir em termos de participação. É nesse sentido, que entendo que a lei exigiu não apenas o acordo prévio ao trabalho do empregado, ou seja, no início do exercício, bem como o conhecimento por parte do trabalhador de quais as regras (ou mesmo metas), que deverá alcançar para fazer jus ao pagamento. Da mesma forma, vislumbrase a necessidade de critérios para que se mensure o alcance dos resultados inicialmente estipulados, assim, como descreveu a autoridade fiscal. Assim, não acato de forma alguma o argumento do recorrente de que as metas já eram conhecidas ou mesmo que não há grande alteração das mesmas razão, pela qual a pactuação, mesmo tardia, não fere o disposto na lei, pelo contrário ao adotar tal entendimento estaria o julgador violando o texto constitucional e o reconhecimento dos acordos coletivos, o que não venho a concordar. Novamente, entendo que o auditor não desconstitui o pagamento da verba, muito menos os reflexos trabalhistas ajustados entre empregado e empregador, mas tão somente não acata o acordo ali firmado para que a verba paga à título de participação nos lucros esteja excluída do conceito de salário de contribuição. Se assim, não fosse, poderseia vislumbrar que o trabalho exaustivo do empregado durante todo um ano, com a promessa por parte do empregador de uma futura participação nos lucros, resultasse no incremento ínfimo em sua remuneração. Ou seja, para que possa sentirse estimulado o empregado, tem que ter a mínima noção do quanto esse seu empenho, trarlheá de resultados, até para que o mesmo verifique seu interesse em dedicarse de forma mais profícua. Outro ponto, que merece destaque é o fato que um dos requisitos a serem apurados diz respeito a absenteísmo. Ora, em julho, ago, set ou mesmo dezembro é que o empregado saberá o quanto sua faltas irão influenciar no PLR que já está em curso??? No mesmo sentido, extraise do voto do relator do Acórdão nº 9202004.347 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos: Com relação à data de assinatura do PLR, acompanho o entendimento do voto do relator da decisão recorrida. Com Fl. 4726DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.727 56 efeito, entendo que a assinatura do acordo em data posterior à do período de apuração dos lucros ou resultados a serem distribuídos, retira da verba paga uma de suas características essenciais, a recompensa pelo esforço conjunto entre o capital e o trabalho, para alcance de metas, o que traria competitividade à empresa e, em última análise ao país. No caso dos autos, conforme esclarecido na decisão ora recorrida, todos os acordos para os anos de 2006, 2007 e 2008, foram pactuados no fim do exercício a que se referem, ou seja, o cumprimento ou não das metas já eram praticamente fatos pretéritos. Acompanho o entendimento do acórdão recorrido e, para fins de ilustração, encontrase reproduzido o entendimento do conselheiro relator do voto condutor do acórdão recorrido, nesse ponto: Não procede, portanto, a alegação de que quando a Lei nº 10.101/2000 fala de pactuação prévia, ela o faz no sentido de que o acordo deve ser negociado e celebrado previamente ao pagamento de qualquer valor, o que não implica a impossibilidade de se assinar o instrumento no início do período de apuração; Tendo a PLR a finalidade de incentivar o trabalhador a realizar e oferecer à empresa um plus de produtividade que exceda ao resultado rotineiro e ordinário decorrente do contrato de trabalho, avulta que acordo tem que ser assinado antes do início do período de apuração, para que os trabalhadores saibam, com precisão, o quê, como, quando, quanto precisam fazer, para auferir o ganho patrimonial que lhes é prometido por intermédio do plano ajustado. Antes do início do período de apuração necessitam ter o claro e preciso conhecimento de quanto e quando irão ganhar, sob que forma, e como serão avaliados, para poderem decidir se vale ou não a pena se empenhar de maneira excessiva à ordinária e comum. São as tais das REGRAS CLARAS E OBJETIVAS quanto aos direitos substantivos dos trabalhadores. Portanto, é de se negar provimento do Recurso Especial do Sujeito passivo também quanto a esta matéria. No caso em análise, o acordo coletivo específico relativo ao programa de participação nos lucros e resultados da Cemig, assinado em 20 de novembro de 2009, trata do PLR referente a 2009 a ser pago em 2010 e do PLR referente a 2010 a ser paga em 2011. À primeira vista, isso poderia levar à conclusão de que o acordo de PLR foi prévio ao período de apuração 2010. Ocorre porém, que a leitura de suas cláusulas revela que os critérios de pagamento não estão nele estabelecidos. De fato, a cláusula 9ª prevê textualmente a criação de um grupo de trabalho para: Fl. 4727DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.728 57 identificar o Indicador de Agregação de Valor e também negociar a respectiva meta para o ano de 2010, até a data de 31/03/2010; definir as ausências que impactariam no cálculo do indicador de absenteísmo; estabelecer os mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado. Ou seja, um dos componentes na formação do valor a ser pago a título de PLR não foi definido no acordo, sendo sua definição delegada a uma segunda instância. O mesmo pode ser dito em relação aos mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado. Não é demais repetir: não se pode imputar ao acordo firmado em 2009 a fixação de metas, porque ele não as estabeleceu para o ano de 2010. E, de fato, não se realizou a definição das variáveis que tinha como prazo 31 de março de 2010, de forma que se tornou necessário um termo aditivo firmado em 16 de dezembro do mesmo ano (2010), pelo qual a parcela B, prevista no acordo de 2009, deixou de ser paga e foi estabelecido um adicional chamado de parcela D. Notese que a existência de negociação prévia à assinatura do acordo não é suficiente para preencher os requisitos legais como pretende o voto vencido, isso porque lhes falta o atributo da exigibilidade. A própria demora na conclusão dessas negociações revela a existência de impasse que em nada serve como estímulo para os empregados. Na verdade encerra uma contradição afirmar que durante as negociações os empregados já teriam condições de conhecer as metas e os benefícios que receberiam em função delas, ao mesmo tempo em que justificase a demora no fechamento do acordo no fato de haver desentendimento quanto à fixação desses parâmetros. Como os empregados poderiam conhecer as metas a serem atingidas se não há consenso sobre elas? Como poderiam sentirse estimulados a empreenderem esforços para atingimento de metas quando há resistência do empregador quanto aos valores a serem pagos? Dessa forma, o acordo que se conclui quando os resultados já foram consolidados pela passagem do tempo serve apenas para legitimar o pagamento de uma parcela fixa, incompatível com a álea que deve caracterizar essas avenças. Pelas razões expostas, entendo que os valores pagos com base nos resultados do ano de 2010 não estavam suportados por instrumento de negociação que atenda às regras da Lei nº 10.101, de 2000, para fins de fruição do benefício fiscal estabelecido por essa lei. Conclusão Diante de todo o exposto e consolidando os entendimentos expressos no voto vencido e no voto vencedor, voto por conhecer dos recursos de ofício e voluntário para dar parcial provimento ao recurso de ofício, mantendo a sujeição passiva solidária das empresas integrantes do grupo econômico, e dar parcial provimento ao recurso voluntário, para excluir as parcelas inerentes ao aviso prévio indenizado. Fl. 4728DF CARF MF Processo nº 15504.725523/201472 Acórdão n.º 2201004.551 S2C2T1 Fl. 4.729 58 (assinado digitalmente) Dione Jesabel Wasilewski Fl. 4729DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10923.000159/2010-56
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006
DÉBITOS QUITADOS POR DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DOS BENEFÍCIOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE.
No caso de pagamento a destempo, mas anterior ao início de qualquer procedimento administrativo ou de fiscalização relacionado com a infração, é possível beneficiar-se da denúncia espontânea se efetuado o pagamento integral do tributo devido e dos juros de mora, nos termos do art. 138 do CTN.
Para fins de aplicação do instituto da denúncia espontânea, a quitação do débito por compensação não equivale ao pagamento, ainda que seja uma modalidade de extinção do crédito tributário.
Numero da decisão: 3002-000.397
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Alan Tavora Nem, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem.
Nome do relator: LARISSA NUNES GIRARD
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 DÉBITOS QUITADOS POR DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DOS BENEFÍCIOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. No caso de pagamento a destempo, mas anterior ao início de qualquer procedimento administrativo ou de fiscalização relacionado com a infração, é possível beneficiar-se da denúncia espontânea se efetuado o pagamento integral do tributo devido e dos juros de mora, nos termos do art. 138 do CTN. Para fins de aplicação do instituto da denúncia espontânea, a quitação do débito por compensação não equivale ao pagamento, ainda que seja uma modalidade de extinção do crédito tributário.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Alan Tavora Nem, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 DÉBITOS QUITADOS POR DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DOS BENEFÍCIOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. No caso de pagamento a destempo, mas anterior ao início de qualquer procedimento administrativo ou de fiscalização relacionado com a infração, é possível beneficiarse da denúncia espontânea se efetuado o pagamento integral do tributo devido e dos juros de mora, nos termos do art. 138 do CTN. Para fins de aplicação do instituto da denúncia espontânea, a quitação do débito por compensação não equivale ao pagamento, ainda que seja uma modalidade de extinção do crédito tributário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Alan Tavora Nem, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard – Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 3. 00 01 59 /2 01 0- 56 Fl. 171DF CARF MF Processo nº 10923.000159/201056 Acórdão n.º 3002000.397 S3C0T2 Fl. 172 2 Trata o processo de Pedido de ressarcimento de IPI referente ao 2º trimestre/2006, no valor de R$ 80.470,11, combinado com Declaração de Compensação de débitos de mesmo valor (fls. 4 a 25). A Delegacia da Receita Federal em São Bernardo do Campo reconheceu integralmente o crédito de IPI, mas homologou apenas parcialmente a compensação, pois foram compensados débitos vencidos sobre os quais incidiriam penalidades moratórias não consideradas pelo contribuinte, restando ao final R$ 7.892,33 a pagar (fls. 26 a 31). Em sua Manifestação de Inconformidade a recorrente esclareceu que, em virtude de procedimento de auditoria interna, constatou recolhimento a menor de IRPJ, PIS/Pasep e Cofins, motivo pelo qual providenciou a compensação desses débitos com créditos de IPI. Alegou que não considerou a multa moratória em seus cálculos porque entendeu estar contemplada pelo benefício da denúncia espontânea, já que a compensação se deu antes do início de procedimento administrativo ou de fiscalização pela Receita Federal (fls. 35 a 45). Instruiu sua Manifestação de Inconformidade o com contrato social, procuração, PER/Dcomp, Despacho Decisório, e DCTF original e retificadora do 2º ao 4º trimestre/2004 (fls. 46 a 138). A Delegacia de Julgamento em Ribeirão Preto proferiu o Acórdão nº 14 33.190 (fls. 139 a 142), por meio do qual decidiu pela improcedência da Manifestação de Inconformidade, tendo em vista que o PER/Dcomp foi transmitido após o vencimento do débito a ser compensado, que estaria confessado em DCTF, situação em que incide a multa de mora e os juros de mora. A multa de mora, que não tem natureza punitiva, mas indenizatória, visa a coibir o descumprimento dos prazos legais para pagamento de tributos. Admitir a exclusão dessa multa com o pagamento espontâneo fora de prazo seria plena contradição. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 COMPENSAÇÃO. DÉBITOS VENCIDOS. MULTA. JUROS. Na compensação de créditos com débitos de espécies diferentes já vencidos, cabível a imputação de multa de mora e juros de mora sobre os débitos não recolhidos nos prazos legalmente estabelecidos. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ em 24.05.2011, conforme AR constante à fl. 149, e protocolizou o Recurso Voluntário em 17.06.2011, conforme consta na primeira página da peça recursal à fl. 152. Em seu Recurso Voluntário (fls. 152 a 165), o contribuinte repisa os mesmos argumentos, relativos à exclusão da multa de mora pela denúncia espontânea, e contesta o Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10923.000159/201056 Acórdão n.º 3002000.397 S3C0T2 Fl. 173 3 fundamento da decisão da DRJ, que teria concluído que a denúncia espontânea só exclui a multa de ofício. Ressalta que os valores declarados na DCTF original foram integralmente quitados antes do vencimento e que após a auditoria foi efetuado o recolhimento das diferenças, acrescidas de juros moratórios, com a posterior retificação da DCTF, situação em que cabe a aplicação da denúncia espontânea. É o relatório. Voto Conselheira Larissa Nunes Girard Relatora O recurso voluntário é tempestivo, preenche os requisitos formais de admissibilidade, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias e, portanto, dele tomo conhecimento. A discussão que chega a este Colegiado está centrada no cabimento da multa de mora quando se aplica a denúncia espontânea, mas entendo que para a correta solução deste litígio devemos recuar para um primeiro momento, que concerne à própria existência da denúncia espontânea no caso presente. Dos autos se extrai que, ao se aperceber do recolhimento a menor de parcelas de diversos períodos de apuração, o contribuinte providenciou a sua quitação por meio de compensação – transmitiu um pedido de ressarcimento de IPI, cumulado com declaração de compensação. O PER/Dcomp foi transmitido em 30/11/2006, ao passo que os débitos se referem a diversos períodos de 2004. Incontestável que a providência saneadora foi efetuada em atraso, situação em que cabe a aplicação da multa de mora, conforme dispõe o art. 61 da Lei nº 9.430/1996 in verbis: Art.61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (grifado) Entretanto o contribuinte alega poder excluir a multa de mora de seus cálculos com fundamento no art. 138 do Código Tributário Nacional (CTN), que assim dispõe sobre a denúncia espontânea: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Fl. 173DF CARF MF Processo nº 10923.000159/201056 Acórdão n.º 3002000.397 S3C0T2 Fl. 174 4 Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. (grifado) Entendo que não cabe razão à recorrente. Há de se ter em mente que o CTN foi preciso ao elencar quais dentre as formas de extinção do crédito tributário previstas em seu art. 156 estão aptas a serem consideradas para fins de aplicação do Instituto: pagamento ou depósito administrativo, somente. De fato, mais precisamente, o mero depósito como consta do texto legal não extingue o crédito, mas sim a sua conversão em renda. Donde é possível concluir que apenas as situações em que o montante em dinheiro está disponível para a Administração foram consideradas como suficientes para a aplicação da denúncia espontânea. Corroborando esse entendimento, observese que nem a consignação judicial do pagamento, que não está sob tutela da Fazenda, consta do art. 138, devendo ser consideradas como modalidades igualmente inaptas a compensação, a remissão, etc. Não estamos diante de lacuna legal que nos permita nos socorrermos da analogia ou de interpretação extensiva, motivo pelo qual considero que não se encontra na competência de um julgador incluir outras formas de extinção para além daquelas que a lei instituiu. Dessa forma, entendo que ao procedimento saneador adotado pelo contribuinte não cabe a aplicação de denúncia espontânea, pois ele não se utilizou de pagamento, em pecúnia, mas de compensação. Por esse motivo, a inaplicabilidade da denúncia espontânea no caso em tela, tornase desnecessário discutir a natureza da multa de mora ou se cabe a multa de mora quando aplicável a denúncia espontânea. Uma vez que a compensação dos débitos se deu em atraso, está correta a exigência da multa de mora, conforme decidido pela unidade de origem em seu Despacho Decisório. De se ressaltar que o entendimento que se adota tem prevalecido nos julgamentos da 3ª Seção da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a ver os seguintes decisos: Acórdão nº 9303006.011 conselheiro Rodrigo Possas ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/03/2007 a 31032/2007 MULTA DE MORA. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO APRESENTADA EM ATRASO, MAS ANTES DO INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL. CABIMENTO, POIS AFASTADA SOMENTE EM CASO DE PAGAMENTO DE VALOR NÃO PREVIAMENTE CONFESSADO. A compensação é forma distinta da extinção do crédito tributário pelo pagamento, cuja não homologação somente pode atingir a parcela que deixou de ser paga (art. 150, § 6º, do CTN), Fl. 174DF CARF MF Processo nº 10923.000159/201056 Acórdão n.º 3002000.397 S3C0T2 Fl. 175 5 enquanto, na primeira, a extinção se dá sob condição resolutória de homologação do valor compensado. Como o instituto da denúncia espontânea do art. 138 do CTN e a jurisprudência vinculante do STJ demandam o pagamento, stricto sensu – ainda anterior ou concomitantemente à confissão da dívida (condição imposta somente por força de decisão judicial) , cabe a cobrança da multa de mora sobre o valor compensado em atraso. (grifado) Acórdão nº 9303006.010 conselheiro Demes Brito ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. BENEFÍCIOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. Por se tratar de matéria sumulada (Súmula nº 208/TRF), no presente caso, a Contribuinte deveria ter recolhido em pecúnia os valores guerreados, nos termos do artigo 138 do Código Tributário Nacional, a jurisprudência do STJ está pacificada no sentido de que os valores devem ser recolhidos integralmente, caso contrário, será exigido o valor integral do crédito tributário acrescido de juros e multas punitivas. Precedentes STJ. (grifado) Pelos motivos expostos, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Fl. 175DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.723698/2014-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2008
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL NO RESULTADO DO ACÓRDÃO
Devem ser acolhidos os embargos de declaração para correção de erro material na redação do resultado do julgamento, mediante a prolação de um novo acórdão, nos termos do artigo 66 do Anexo II da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF).
Embargos Acolhidos em Parte.
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3302-005.915
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, para corrigir o erro material alegado e rerratificar o acórdão embargado.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Vinícius Guimaraes (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL NO RESULTADO DO ACÓRDÃO Devem ser acolhidos os embargos de declaração para correção de erro material na redação do resultado do julgamento, mediante a prolação de um novo acórdão, nos termos do artigo 66 do Anexo II da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). Embargos Acolhidos em Parte. Crédito Tributário Mantido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, para corrigir o erro material alegado e rerratificar o acórdão embargado. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Vinícius Guimaraes (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
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score : 1.0
Numero do processo: 10166.911300/2009-23
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 15/09/2004
RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA.
Não deve ser conhecido recurso especial quando ausente a necessária similitude fática entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas.
Numero da decisão: 9303-007.258
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 15/09/2004 RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. Não deve ser conhecido recurso especial quando ausente a necessária similitude fática entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas.
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NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. Não deve ser conhecido recurso especial quando ausente a necessária similitude fática entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 91 13 00 /2 00 9- 23 Fl. 219DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 220 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o acórdão nº 3802001.276, de 25 de setembro de 2012 (fls. 80 a 85 do processo eletrônico), proferido pela Segunda Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento deste CARF, decisão que por unanimidade de votos, deu provimento ao recurso voluntário para homologar a compensação declarada. Cuidase o presente processo de DCOMP – Declaração de Compensação, débito próprio, com crédito decorrente de pagamento a maior ou indevido. Inconformado com a homologação parcial da compensação pela instância "a quo", o Contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, alegando, em síntese, que: o crédito não foi suficiente para quitar o débito informado porque a autoridade fiscal cobrou indevidamente multa de mora; é evidente a improcedência da penalidade, pois a multa a que se refere o art. 61 da Lei 9.430/96 somente se aplica na ocorrência de inadimplemento do tributo por culpa ou dolo do contribuinte e está claro que não houve atraso na quitação do tributo, vez que o Contribuinte, de boafé, cumpriu rigorosamente as normas emanadas do Legislativo Federal e SRF, ao tempo em que foram editadas as Lei nº 10.833/03 e 11.196/05 e as Instruções Normativas Nºs 468/2004 e 658/2006; não há que se falar em atraso de pagamento de tributo em função da compensação realizada, já que o recolhimento indevidamente a maior decorreu de incorreta interpretação dada pela SRF ao comando legal em comento, pois, à época do recolhimento, que sempre ocorreu nos seus respectivos vencimentos, a SRF houvesse interpretado corretamente o disposto na alínea “c” do inciso XI do art. 10 da Lei nº 10.833/2003, não Fl. 220DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 221 3 restaria crédito da contribuinte a compensar via PER/DCOMP e não teria levado o Contribuinte a refazer os cálculos, decorrendo daí novos valores de débitos e créditos, gerando, consequentemente, a compensação em questão; as normas tributárias de caráter interpretativo não podem retroagir para prejudicar, abrangendo aí a aplicação de multa, nos termos do art. 106 I do CTN (a lei aplicase a ato ou fato pretérito: I – em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados). Por fim, requereu que fosse homologada a compensação em sua integralidade e declarada nula a imposição de multa de mora decorrente do suposto recolhimento em atraso. A 4ª Turma da DRJ/BSB julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo Contribuinte. Irresignado com a decisão contrária ao seu pleito, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, o Colegiado por unanimidade de votos, deu provimento para homologar a compensação declarada, conforme acórdão assim ementado in verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/09/2004 COMPENSAÇÃO. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO (DCOMP). COMPROVADA CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PASSÍVEL DE RESTITUIÇÃO. INEXISTÊNCIA DE DÉBITO REMANESCENTE. HOMOLOGAÇÃO INTEGRAL. Uma vez comprovada a certeza e liquidez do crédito do crédito passível de restituição e que o valor do débito é igual ao valor crédito utilizado, homologase integralmente a compensação declarada. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 15/09/2004 Fl. 221DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 222 4 LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. NORMA INTERPRETATIVA. EFEITO RETROATIVO. EXCLUSÃO DA PENALIDADE. CABIMENTO. Em qualquer caso, deve ser excluída a penalidade por infração à norma tributária expressamente interpretativa e, portanto, com efeito retroativo, incluída, a multa de mora referente ao pagamento ou compensação realizada após o prazo de vencimento do tributo (art. 106, I, do CTN). Recurso Voluntário Provido. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência (fls. 87 a 106) em face do acordão recorrido que deu provimento ao recurso do Contribuinte, a divergência suscitada pela Fazenda Nacional diz respeito ao afastamento da multa de mora pela decisão recorrida, com o entendimento de que haveria no caso a incidência da retroatividade benigna, nos termos do art. 106 do CTN, aplicandose então o disposto no art. 109 da Lei nº 11.196/2005. Para comprovar a divergência jurisprudencial suscitada, a Fazenda Nacional apresentou como paradigmas os acórdãos de números 20219.497 e 210200.001. A comprovação do julgado firmouse pela juntada de cópias de inteiro teor dos acórdãos paradigmas, documento de fls. 107 a 150. O Recurso Especial da Fazenda Nacional foi admitido, conforme despacho de fls. 171 a 175, sob o argumento que o acórdão recorrido decidiu por dar provimento ao recurso voluntário do contribuinte, com o entendimento de que seria cabível a incidência da retroatividade benigna, nos termos do art. 106 do CTN, para então aplicar o disposto no art. 109 da Lei nº 11.196/2005. A decisão recorrida ainda destaca que tal procedimento estaria em conformidade com o que determinava a Instrução Normativa SRF nº 658, de 04 de julho de 2006. Por sua vez, o acórdão paradigma de nº 20219.497 entendeu que a forma como é praticado o reajuste do preço da energia elétrica, não se enquadra nas regras do art. 109 da Lei n° 11.196, de 2005, e tampouco nas disposições do § 3° do art. 3° da IN SRF n° 658, de 2006. Fl. 222DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 223 5 Com essas considerações, concluiuse que a divergência jurisprudencial foi comprovada. O Contribuinte apresentou contrarrazões às fls. 180 a 192, em que manifestou pelo não provimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional e que seja mantido o v. acórdão. É o relatório em síntese. Voto Conselheira Érika Costa Camargos Autran, Relatora Admissibilidade O Recurso Especial de divergência interposto pela FAZENDA NACIONAL é tempestivo, restando analisarse o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. A controvérsia posta nos autos cingese à exigência de multa de mora aplicada a compensação em atraso. Vale ressaltar que o presente processo trata de DCOMP – Declaração de Compensação, débito próprio, com crédito decorrente de pagamento a maior ou indevido, em que o Contribuinte teve uma homologação parcial da compensação. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2004 Compensação em Atraso – Exigência de Multa de Mora. O débito para com a União, decorrente de tributo e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, não compensado no prazo previsto na legislação específica, será acrescido de multa de mora. Também, vale ressaltar que no âmbito dos autos da Ação Anulatória n° 74185720104.01.3400, em curso na 21ª Vara Federal do DF, (fls 75) havia sido proferido Fl. 223DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 224 6 sentença afastando a incidência da multa moratória em compensação de débitos/créditos da Cofins, em situação semelhante ao presente recurso. Desta maneira, no julgamento do Recurso Voluntário, o Colegiado a quo deu provimento total ao recurso para excluir a penalidade por infração à norma tributária expressamente interpretativa e, portanto, com efeito retroativo, incluída, a multa de mora referente ao pagamento ou compensação realizada após o prazo de vencimento do tributo (art. 106, I, do CTN) A fundamentação do acórdão recorrido, nessa parte, deuse nos seguintes termos: [...] Da leitura do Despacho Decisório colacionado aos autos, extraise que a causa do presente litígio foi a homologação parcial do presente procedimento compensatório, em face do valor do crédito utilizado ter sido inferior ao valor do débito compensado, acrescido da multa de mora, não incluída no computo do valor total do débito informado na DComp em apreço. A Turma de Julgamento de primeira instância manteve o referido Despacho Decisório, sob o argumento de que era devida a cobrança multa mora, porque a compensação fora realizada após o prazo de vencimento do débito e não havia previsão legal para aplicação, ao presente caso, dos efeitos da retroatividade benigna previstos no art. 106, I, do CTN, alegado pela Interessada. No presente Recurso, reafirmou a Recorrente a alegação de que, em face da retroatividade benigna prevista no art. 106, I, do CTN, no caso em tela, era indevida a cobrança da multa de mora sobre o valor do débito compensado, com base no argumento de que tinham natureza interpretativa as normas que introduziram modificação nos critérios de apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre as receitas relativas aos contratos de longo prazo firmados, por preço determinado, anteriormente a 31 de outubro de 2003. De fato, por força dos esclarecimentos explicitados no art. 1091 da Lei 11.196, de novembro de 2005, a Secretaria da Receita Federal do Brasil Fl. 224DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 225 7 (RFB), por meio da Instrução Normativa SRF nº 638, de 04 de julho de 2006, alterou o critério de apuração das referidas Contribuições incidentes sobre as receitas relativas aos citados contratos, nos casos de reajuste de preços em função do custo de produção ou da variação de índice que refletisse a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, para determinar, com efeito retroativo, que fosse adotado o regime da cumulatividade, ao invés do regime da não cumulatividade, estabelecido na Instrução Normativa SRF nº 468, de 08 de novembro de 2004. Em atendimento a essa nova orientação, a Recorrente refez os cálculos dos valores das Contribuições devidos e realizou a compensação dos novos débitos apurados com os pagamentos indevidos anteriormente realizados dos débitos apurados com base no regime de apuração anteriormente determinado, ou seja, na presente DComp, a Recorrente declarou a compensação do valor do débito da Contribuição para o PIS/Pasep do mês de julho de 2004, calculo segundo os critério do regime cumulativo, com o crédito do pagamento indevido da referida Contribuição do mesmo mês, apurado de acordo com o regime não cumulativo. Com base no conteúdo do art. 109 da Lei 11.196, de 2005, entendo que ele inequivocamente introduziu no ordenamento jurídico brasileiro norma tributária de natureza interpretativa, portanto, deve ser aplicada em consonância com o disposto no art. 106, I, do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicasse a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; [...]. No presente caso, o valor do débito compensado pela Recorrente foi apurado segundo o regime de incidência cumulativa, portanto, em conformidade com a nova orientação estabelecida no referido preceito legal e em cumprimento ao que determinava a Instrução Normativa SRF nº 638, de 04 de julho de 2006. Assim, em face dessa peculiaridade, a multa de mora devida em decorrência da compensação extemporânea do referido débito deve ser excluída, sob pena de afronta ao disposto no art. 106, I, do CTN. Fl. 225DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 226 8 É oportuno esclarecer que, no caso em tela, não está em discussão a legalidade da cobrança da multa de mora nos casos de compensação de débito após o prazo de vencimento, em que, em situação normal, tanto o atraso no pagamento quanto a compensação realizada após o prazo de vencimento do tributo, obviamente, configura a mora do sujeito passivo, dando ensejo a aplicação da referida penalidade, nos termos do art. 61 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. No entanto, a situação objeto da presente lide é distinta, ou seja, aqui se discute a legalidade da cobrança da multa de mora, na hipótese em que o sujeito passivo agiu em consonância com a orientação determinada por norma tributária expedida por autoridade competente da RFB e com efeito retroativo. Veja que, no presente caso, em decorrência do efeito retroativo da novel legislação, um critério diverso de apuração das Contribuições incidentes sobre as referidas receitas foi determinado pela própria Administração Tributária, consequentemente, o cálculo dos novos valores dos débitos atinentes aos períodos anteriores a edição das referidas normas, evidentemente, só poderia ser realizado após a data do vencimento das referidas Contribuições, logo, por impossibilidade material de retroceder no tempo, obviamente, não havia como a Recorrente proceder a quitação dos novos valores no prazo de vencimento originariamente estabelecido. Assim, resta demonstrada a necessidade de obediência ao mandamento estabelecido no inciso I do art. 106 do CTN, devendo ser excluída qualquer tipo penalidade decorrente da infração à norma interpretada, inclusive, a penalidade de natureza moratório. [...] Por fim, entendo oportuno ainda destacar que, no presente procedimento compensatório, o valor do crédito utilizado foi igual ao valor do débito compensado, ou seja, com a compensação em tela não houve qualquer prejuízo ou benefício à Fazenda Nacional nem tampouco à Interessada. De fato, a compensação em apreço teve o condão de restabelecer o mesmo efeito econômico financeiro decorrente do pagamento realizado na data de Fl. 226DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 227 9 vencimento do tributo, fazendo com que a compensação não agravasse nem minorasse a situação de qualquer das partes, conferindo neutralidade ao procedimento compensatório. Com base nessas considerações, estou plenamente convencido que, no caso em tela, não cabe a aplicação da multa de mora sobre o valor do débito compensado na presente DComp, em consequência, inexiste o saldo remanescente do respectivo débito a ser compensado, conforme disposto no presente Despacho Decisório. Por todo o exposto, DOU PROVIMENTO ao presente Recurso, para homologar a compensação declarada. Depreendese da análise do acórdão recorrido que o objeto de discussão foi em torno sobre a legalidade da cobrança da multa de mora, na hipótese em que o sujeito passivo agiu em consonância com a orientação determinada por norma tributária expedida por autoridade competente da RFB e com efeito retroativo. Nesse aspecto encontrase diferença fática substancial, pois enquanto o aresto recorrido tratou da aplicação da multa, os acórdãos indicados como paradigmas tratam da questão acerca de descaracterização da condição de preço predeterminado, que as receitas decorrentes de contratos do setor elétrico não se aplicaria o disposto no art. 109 da Lei n° 11196/2005, pois cláusula de reajuste descaracterizaria o preço predeterminado que menciona o dispositivo. Ademais, o acordão recorrido trata de compensação, enquanto os acórdãos paradigmas tratam de auto de infração para exigir o pagamento de PIS e de Cofins, senão vejamos: ACÓRDÃO Nº 202-19.497 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Ano-calendário: 2004 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADES. INOCORRÊNCIA. Fl. 227DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 228 10 Inocorrendo os vícios que caracterizariam a nulidade, é de se afastar as preliminares, prosseguindo-se na apreciação do mérito. PREÇO PREDETERMINADO. CONTRATOS FIRMADOS ANTES DE 31 DE OUTUBRO DE 2003. Consideram-se contratos com preço predeterminado aqueles com preço fixado em moeda nacional, como remuneração pela totalidade do objeto do contrato, por unidade de produto ou por período de execução. As receitas relativas a contratos firmados anteriormente a 31/10/2003, com prazo superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada ou de fornecimento, a preço predeterminado, de bens ou serviços, permanecem sujeitas à incidência cumulativa da Cofins até a implementação da primeira alteração de preços decorrente da aplicação de cláusula contratual de reajuste, periódico ou não, ou de regra de ajuste para a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro do contrato, nos termos dos arts. 57, 58 e 65 da Lei n° 8.666, de 1993. Reajuste de preço, efetuado após 31/10/2003, só não descaracteriza o caráter predeterminado do preço para fins de aplicação do art. 10, XI, da Lei 10.833, de 2003, conforme prescrição do art. 109 da Lei 11.196, de 2005, e do art. 3°, §3°, da IN SRF 658/2006, se efetivado apenas em função do custo de produção ou em percentual não superior àquele correspondente à variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do § 1° do art. 27 da Lei n° 9.069, de 1995. Não sendo esta a situação, as receitas advindas destes contratos sujeitam-se, a partir da data do reajuste, ao regime de não-cumulatividade da contribuição para o PIS e da COFINS. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2004 DECORRÊNCIA. Se questão especifica não foi impugnada, ao lançamento da contribuição para o PIS aplica-se o decidido em relação à Cofins, formalizada com base na mesma motivação. Fl. 228DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 229 11 Recurso negado. (Processo nº 10380.001225/2007-94, Acórdão nº 202-19.497, 2ª Câmara do 2º Conselho de Contribuintes, sessão de 02/12/2008) ACÓRDÃO Nº 2102-00.001 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL — COFINS Período de apuração: 01/02/2004 a 31/12/2005 PIS E COFINS. PREÇO PREDETERMINADO. REAJUSTE CONTRATUAL. A partir de 01/02/2004, para fins de apuração do PIS e da Cofins, o preço predeterminado não é descaracterizado apenas quando o reajuste de preços se dá em percentual não superior ao correspondente ao acréscimo dos custos de produção ou à variação de índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados. INCONSTITUCIONALIDADE. LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de legislação tributária. Recurso voluntário negado. (Processo nº 18471.000851/2006-75, Acórdão nº 2102-00.001, 2ª Turma da 1ª Câmara da 2ª Seção do CARF, sessão de 03/03/2009) Ressalta ainda que a matéria alegada em Recurso Especial da Fazenda sequer foi tratada na manifestação de inconformidade, senão vejamos: Compensação em Atraso – Exigência de Multa de Mora. O débito para com a União, decorrente de tributo e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, não compensado no prazo previsto na legislação específica, será acrescido de multa de mora. Compensação – Observância das Condições da Lei. A compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) pode ser efetuada com crédito líquido e certo do sujeito passivo, mas nas condições estipuladas pela lei. Fl. 229DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 230 12 Fundamento de Inconstitucionalidade – Processo Administrativo Fiscal – Vedação Entendimento da SRF Expresso em Atos Normativos. É vedado ao órgão de julgamento afastar a aplicação de lei, sob o fundamento de inconstitucionalidade, no âmbito do Processo Administrativo Fiscal. O julgador deve observar o entendimento da SRF expresso em atos normativos. Ora como se depreendese da análise acima, a matéria tratada no Recurso Especial da Fazenda sequer foi mencionada em etapas anteriores ou no acórdão recorrido, tornandose até preclusa essa matéria na fase recursal. Pois, o mérito da questão de descaracterização do preço predeterminado não foi abordado no acórdão recorrido, não cabendo sua 'discussão' em face de Recurso Especial. Verificase no acordão recorrido que foi aplicado a multa de mora de acordo com o art. 61 da Lei 9.430/1996, c/c art. 28 da IN SRF 460/2004. Diante disso, o crédito não foi suficiente para quitar o débito informado porque a autoridade fiscal cobrou a multa de mora. Essa é a questão basilar do presente processo. Os acórdãos paradigmas sequer trataram do assunto. Assim, havendo situação fática diversa entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas não se pode reconhecer a existência da divergência jurisprudencial, razão pela qual não deve ter prosseguimento o Recurso Especial da Fazenda Nacional. Diante do exposto, negase seguimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional por ausência de similitude fática. É como Voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Fl. 230DF CARF MF Processo nº 10166.911300/200923 Acórdão n.º 9303007.258 CSRFT3 Fl. 231 13 Fl. 231DF CARF MF
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Numero do processo: 13851.901247/2009-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004
IRPJ. ANTECIPAÇÕES DO TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO-CALENDÁRIO. COMPENSAÇÃO. SÚMULA CARF 84.
Súmula CARF 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
Restando comprovado na DCTF que o crédito tributário foi constituído em valor menor do que o valor recolhido, é de se considerar suficiente a documentação apresentada como comprobatória do indébito. Cabe às autoridades fiscais efetuar o devido lançamento como pressuposto para a cobrança de qualquer diferença de tributo.
Numero da decisão: 1401-002.931
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, homologando-se a compensação pleiteada.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Cláudio de Andrade de Camerano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Ângelo Abrantes Nunes (Suplente convocado), Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2004 IRPJ. ANTECIPAÇÕES DO TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO-CALENDÁRIO. COMPENSAÇÃO. SÚMULA CARF 84. Súmula CARF 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Restando comprovado na DCTF que o crédito tributário foi constituído em valor menor do que o valor recolhido, é de se considerar suficiente a documentação apresentada como comprobatória do indébito. Cabe às autoridades fiscais efetuar o devido lançamento como pressuposto para a cobrança de qualquer diferença de tributo.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004 IRPJ. ANTECIPAÇÕES DO TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO CALENDÁRIO. COMPENSAÇÃO. SÚMULA CARF 84. Súmula CARF 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Restando comprovado na DCTF que o crédito tributário foi constituído em valor menor do que o valor recolhido, é de se considerar suficiente a documentação apresentada como comprobatória do indébito. Cabe às autoridades fiscais efetuar o devido lançamento como pressuposto para a cobrança de qualquer diferença de tributo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, homologandose a compensação pleiteada. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Cláudio de Andrade de Camerano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Ângelo Abrantes Nunes (Suplente convocado), Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 85 1. 90 12 47 /2 00 9- 12 Fl. 67DF CARF MF 2 Relatório Tratase de pedido de compensação por meio do qual a contribuinte pretendeu compensar débito de IRPJ com crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo. O despacho decisório não reconheceu o direito creditório ao fundamento de que não foi confirmada a existência do crédito informado, por tratarse de pagamento a titulo de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real. Apresentada manifestação de inconformidade, esta foi julgada improcedente. Cientificada da decisão, a contribuinte apresentou tempestivamente recurso voluntário. Recebi o processo em distribuição realizada em 25 de julho de 2018. Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.916, de 20/09/2018, proferido no julgamento do Processo nº 13851.900928/2009 63, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.916): O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto dele conheço. O despacho decisório, assim como a decisão recorrida, entenderam que os recolhimentos mensais por estimativa a maior efetuados durante o anocalendário não são pagamentos passíveis de compensação em cada mês, pois não representam créditos líquidos e certos. Ocorre que este CARF tem entendimento diverso, consolidado no enunciado da Súmula CARF nº 84, de seguinte teor: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Assim, a compensação não pode ser negada sob tal fundamento, devendo ser analisado se de fato houve pagamento indevido no mês em questão. Fl. 68DF CARF MF Processo nº 13851.901247/200912 Acórdão n.º 1401002.931 S1C4T1 Fl. 3 3 Pois bem. Sustenta a Recorrente que o crédito originouse de um pagamento indevido ou a maior de tributo referente a um mês específico, conforme constou de sua DCTF. Isso porque o tributo efetivamente devido no mês foi inferior, daí resultando o crédito da diferença. A Recorrente aponta, ademais, que é certo que o valor do crédito não foi utilizado na composição do saldo negativo do anocalendário, já que ela não apurou saldo negativo de IRPJ, conforme demonstra a sua DIPJ. Analisando as informações constantes dos autos, percebo que o valor do recolhimento realizado é superior ao montante de tributo autolançado no mês em questão. Em um cenário como este, não vejo razão para que se pretenda investigar se a base de cálculo do mês em questão está correta, já que mesmo que estivesse equivocada caberia às autoridades fiscais efetuar o devido lançamento como pressuposto para a cobrança de qualquer diferença de tributo. Assim, considero que as informações constantes dos autos são suficientes para concluir que resta devidamente comprovado o pagamento a maior, devendo ser homologada a compensação em questão. Dispositivo Ante o exposto, oriento meu voto para julgar procedente o recurso voluntário, homologandose a compensação pleiteada. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário, homologandose a compensação pleiteada, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 69DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10111.001132/2007-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 24/01/2008
VISTORIA ADUANEIRA. AVARIA. RESPONSABILIDADE.
Nos termos da legislação aduaneira, é responsável o transportador quando houver avaria visível por fora do volume descarregado.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.771
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS DA COSTA CAVALCANTI FILHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Importação - II Data do fato gerador: 24/01/2008 VISTORIA ADUANEIRA. AVARIA. RESPONSABILIDADE. Nos termos da legislação aduaneira, é responsável o transportador quando houver avaria visível por fora do volume descarregado. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
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AVARIA. RESPONSABILIDADE. Nos termos da legislação aduaneira, é responsável o transportador quando houver avaria visível por fora do volume descarregado. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 11 1. 00 11 32 /2 00 7- 30 Fl. 100DF CARF MF 2 Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 1664.460, proferido pela 24ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Recife. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório constante do acórdão recorrido, em parte: Trata o presente processo de notificação de lançamento decorrente de avaria apurada em Vistoria Aduaneira, de carga que se encontrava armazenada em depósito alfandegado da LOGSERVE, na cidade de Brasília. A carga era acobertada pelo Conhecimento de Transporte Aéreo HAWB 18333886451 00004281 e fatura comercial n° 0790 de 03/12/2007. A Comissão de Vistoria, com base na documentação da carga, nos controles do Recinto Alfândegado e no Termo de Apreensão e Interdição da ANVISA n° 3070200/002/2008, imputou a responsabilidade pelo extravio à transportadora LOGSERVE – LOGÍSTICA, SERVIÇOS E ARMAZENAMENTOS LTDA, CNPJ: 05.398.080/000107, fls. 18 a 24. Foram lançados pela presente notificação os tributos incidentes sobre a mercadoria extraviada (II, PIS e Cofins) bem como a multa do art. 646, III, “b” do RA de 2002. A notificação de lançamento totalizou o valor de [...]. Intimada da Notificação de Lançamento em 28/01/2008 (fl. 28), a interessada apresentou impugnação e documentos em 06/02/2008, juntados às folhas 31 e seguintes, alegando em síntese: 1. Alega que conforme o item 2 do Anexo XLI da RDC n° 350/2005, deveria ser feita a retirada de amostras da mercadoria objeto da vistoria, para realização de laudo técnico comprovando o comprometimento da carga. 2. Alega que foram constatadas irregularidades no manuseio e análise da integridade das embalagens vistoriadas. Alega que o tambor vistoriado estava invertido, com a tampa apoiada contra o chão. Alega que o invólucro plástico que contém a substância vistoriada foi retirado do tambor de forma incorreta e sem respeitar as normas técnicas. Alega que o invólucro que contendo a substância foi colocado no chão do porto seco em ambiente manchado por marca de pneu de carro. Alega que a conduta do técnico que fez a análise preliminar pode ter comprometido a sua estabilidade, grau de pureza, ocasionando alterações referentes à fotosensibilidade, a termosensibilidade além de ter comprometido os níveis de contaminação da substância. Alega que as luvas utilizadas não são adequadas ao procedimento e o ambiente onde a carga foi aberta é inadequado. Alega que houve incompetência legal e/ou incapacidade técnica do servidor de analisou a Fl. 101DF CARF MF Processo nº 10111.001132/200730 Acórdão n.º 3301004.771 S3C3T1 Fl. 101 3 substância. Alega que as avarias existentes no interior da embalagem interna podem ter sido ocasionadas pelo manuseio em indústria ou pelo próprio servidor que analisou o material vistoriado. 3. Alega que nos termos do Capítulo II, item 3.2 da RDC n° 350/2005, a interdição cautelar somente durará o prazo indispensável para a realização de testes, provas, análises ou outras providências, limitandose ao prazo assinalado para a sua execução. 4. Alega que nos termos do item 4 do Anexo XLI do referido RDC n° 350/2005, somente após o resultado da análise laboratorial adequada da substância a autoridade sanitária poderia requerer sua interdição ou apreensão definitiva. 5. Requer a conversão do julgamento em diligência. Peticiona pela indicação de perito e a realização de perícia, apontando quesitos. O citado acórdão decidiu pela improcedência da impugnação, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 24/01/2008 VISTORIA ADUANEIRA. AVARIA. RESPONSABILIDADE. Nos termos da legislação aduaneira, a responsabilidade pelos tributos apurados em relação à mercadoria avariada será de quem lhe deu causa. Inconformada com decisão de primeira instância, a contribuinte apresentou recurso voluntário, alegando, basicamente, que a avaria teria ocorrido nas etapas anteriores da operação, tendo a INFRAERO do Aeroporto de Brasília omitido informações em registro no sistema Mantra. Aduz também preliminar de cerceamento de direito de defesa por ter o julgador de piso indeferidolhe o pedido de perícia. Foime distribuído o presente processo para relatar e pautar. É o relatório. Fl. 102DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Relator. O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade1. Preliminar A recorrente alega cerceamento de defesa, por entender que o acórdão recorrido teria, sumariamente, indeferidolhe pedido de perícia. Analiso tal preliminar juntamente com o mérito. Mérito A "responsabilidade [...] pela avaria de mercadoria" núcleo da discussão " será de quem lhe deu causa", sendo do transportador no caso de "avaria visível por fora do volume descarregado" nos termos dos art. 591 e 592, III, do Decreto 4.543/2002 (Regulamento aduaneiro RA/02, então vigente), e sua base legal: Art. 591. A responsabilidade pelo extravio ou pela avaria de mercadoria será de quem lhe deu causa, cabendo ao responsável, assim reconhecido pela autoridade aduaneira, indenizar a Fazenda Nacional do valor do imposto de importação que, em conseqüência, deixar de ser recolhido, ressalvado o disposto no art. 586 (Decretolei no 37, de 1966, art. 60, parágrafo único). Art. 592. Para efeitos fiscais, é responsável o transportador quando houver (Decretolei no 37, de 1966, art. 41): [...] III avaria visível por fora do volume descarregado; Exigíveis também o IPI e as contribuições Pis e CofinsImportação, nos seguintes termos: Da Lei 10.833/2003: 1 Ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ, 1ª Seção, EDcl no MS 21.315DF, julgado de 8/6/2016, rel. Min. Diva Malerbi). Fl. 103DF CARF MF Processo nº 10111.001132/200730 Acórdão n.º 3301004.771 S3C3T1 Fl. 102 5 Art. 80. O art. 2o da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, passa a vigorar acrescido do § 3o, com a seguinte redação: "Art. 2o ........................................................................... § 3o Para efeito do disposto no inciso I, considerarseá ocorrido o respectivo desembaraço aduaneiro da mercadoria que constar como tendo sido importada e cujo extravio ou avaria venham a ser apurados pela autoridade fiscal, inclusive na hipótese de mercadoria sob regime suspensivo de tributação. [...] Da Lei 10.865/2004: Art. 3o O fato gerador será: I a entrada de bens estrangeiros no território nacional; ou [...] § 1o Para efeito do inciso I do caput deste artigo, consideramse entrados no território nacional os bens que constem como tendo sido importados e cujo extravio venha a ser apurado pela administração aduaneira. O acórdão recorrido sintetiza a sequencia dos fatos: Compulsando os autos percebese que o depositário lavrou, no momento do recebimento da mercadoria em 12/12/2007, o TERMO DE FALTAS E AVARIAS PARCIAL N° 0031307, FL. 08. Consta no referido documento que o tambor de papelão que acondicionava a mercadoria continha as seguintes avarias: amassado, furado e refitado. Anexas ao termo constam as fotografias de fl. 10 ilustrando o estado do tambor de papelão. Em 14/12/2007 a ANVISA lavrou o TERMO DE APREENSÃO, ITERDIÇÃO (sic) OU DESINTERDIÇÃO N° 3070200/002/2008, fl. 24. Tal termo constatou que a embalagem que continha a mercadoria importada estava em condições higiênico sanitárias insatisfatórias com danos na embalagem e extravasamento de matéria prima. Concluiu o termo que a mercadoria encontravase imprópria para a exposição ou ao consumo humano, sendo necessária sua inutilização conforme legislação sanitária. Dadas tais informações a consignatária da carga, a empresa E.M.S S/A solicitou a realização de vistoria aduaneira nos termos dos arts. 581 a 588 do RA de 2002. Em 16/01/2008 foi lavrado o TERMO DE VISTORIA ADUANEIRA N° 001/2008. Assim, acertou a fiscalização e o acórdão de piso ao atribuir a responsabilidade pela avaria ao transportador e, portanto, pelos tributos e multa lançados dado que o depositário a tomou a termo já na recepção da mercadoria: "avaria visível por fora do volume descarregado" [...] "tambor de papelão que acondicionava a mercadoria continha as seguintes avarias: amassado, furado e refitado". Fl. 104DF CARF MF 6 Observese que a LOGSERVE, além de depositária da mercadoria, "Porto Seco LOGOSERVE Brasília" também consta como transportador na Declaração de Trânsito Aduaneiro (DTA) constante da autuação (fl. 14), no transcurso do Aeroporto Internacional de Brasília ao Porto Seco: “ A recorrente, após expor os fatos e o trâmite do contencioso administrativo, alega que, que já havia avarias, antes de a mercadoria ser a ela entregue: E prossegue a recorrente, no capítulo que denomina "MÉRITO": Fl. 105DF CARF MF Processo nº 10111.001132/200730 Acórdão n.º 3301004.771 S3C3T1 Fl. 103 7 Ora, o que trouxe a recorrente foi uma questão entre particulares a seguradora da EMS, a LOGSERVE e a INFRAERO absolutamente alheio ao Fisco federal e à responsabilidade pelos tributos devidos, os quais bem lançou a fiscalização, nos termos da legislação de regência, como, inclusive descreve a recorrente. Na descarga, o depositário já constatou, vale repetir: "avaria visível por fora do volume descarregado" [...] "tambor de papelão que acondicionava a mercadoria continha as seguintes avarias: amassado, furado e refitado". Assim, o transportador entregou as cargas com "avaria visível por fora do volume descarregado", sendo sua a responsabilidade por força do dito art. 592, em seu inciso II. Retorno à questão posta pela recorrente como preliminar, sobre o indeferimento pedido de perícia pelo julgador de primeira instância, "para apurar se a avaria teria ocorrido nas etapas anteriores da operação". Entendeu este que "a impugnante não cumpriu os requisitos do inciso IV do art. 16 do PAF (Decreto n° 70.235/72)", especificamente "o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito". Tratase de requisito previsto em lei, que, de fato, não foi cumprido pela então impugnante. Além disso, o que dela resultasse nada acrescentaria ao presente julgado, portanto não houve prejuízo à sua defesa, posto tratar se de questão entre particulares, que não afeta a relação jurídicotributária constituída pelo lançamento. Conclusão Assim, por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Fl. 106DF CARF MF 8 Fl. 107DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.727419/2015-88
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012
LANÇAMENTO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não há que se falar em nulidade quando o lançamento observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72.
DECADÊNCIA.INOCORRÊNCIA.
Comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ainda que se trate de tributo sujeito a lançamento por homologação, o direito do fisco de constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado
SIMULAÇÃO. PESSOAS JURÍDICAS DIVERSAS. LUCRO PRESUMIDO. EMPRESA ÚNICA. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
A constituição de várias pessoas jurídicas, sem autonomia gerencial e financeira, para reduzir a carga tributária com a opção pelo lucro presumido, sendo na realidade uma única empresa com várias filiais e administração centralizada, caracteriza simulação, devendo ser aplicado multa de ofício qualificada.
RECEITA BRUTA CONHECIDA. ARBITRAMENTO.
Verificado que a fiscalizada não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos, é legítima a determinação da receita bruta a partir dos relatórios gerenciais e financeiros que revelaram o real faturamento de todo o grupo, incluindo as filiais, superiores ao limite permitido para o lucro presumido, sendo correto o seu arbitramento.
LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS EFETIVAMENTE RECOLHIDOS/CONFESSADOS. APROVEITAMENTO.
Os créditos tributários lançados devem ser reduzidos pelos montantes efetivamente recolhidos e/ou confessados pela fiscalizada e por suas filiais, relativos aos períodos do lançamento.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS -ADMINISTRADORES
São responsáveis pelos créditos tributários lançados, com base no art. 135, III, do CTN, os sócios-administradores que comprovadamente atuaram na prática das infrações tributárias apuradas, como se dá na assinatura de contratos sociais pertinentes a pessoas jurídicas constituídas por simulação, e que, ademais, auferiram benefícios econômicos decorrentes dessas infrações.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS-ADMINISTRADORES. CISÃO. LIMITAÇÃO
A responsabilidade tributária do sócio administrador é limitada até o evento da cisão, quando então não mais participa da administração, uma vez que passou a ser titular de filiais que, após o evento, não contribuíram na omissão de receita apurada.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUCESSÃO.
A falta de comprovação da continuidade do esquema fraudulento nas empresas que compõem a parte cindida impede a responsabilidade tributária por sucessão.
Numero da decisão: 1302-003.077
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência suscitadas e, no mérito em dar provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte CRC - Central de Recebimento de Cheques S/S Ltda, para reduzir os créditos tributários lançados com o aproveitamento dos tributos e contribuições efetivamente recolhidos e/ou confessados pela recorrente e pelas filiais nos períodos de apuração objetos do lançamento; em negar provimento ao recurso do responsável solidário Sr. Eloy Tuffi; em dar provimento parcial ao recurso da responsável solidária Sra. Marlene Rito Nicolau; e, ainda, em dar provimento ao recurso de MC Cursos E Recebimento De Cheques S/S Ltda e ENNT Comercio Servicos E Participações - Eireli, excluindo-as do pólo passivo, nos termos do relatório e voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maria Lucia Miceli - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique da Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flavio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca.
Nome do relator: MARIA LUCIA MICELI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 LANÇAMENTO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade quando o lançamento observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72. DECADÊNCIA.INOCORRÊNCIA. Comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ainda que se trate de tributo sujeito a lançamento por homologação, o direito do fisco de constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado SIMULAÇÃO. PESSOAS JURÍDICAS DIVERSAS. LUCRO PRESUMIDO. EMPRESA ÚNICA. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. A constituição de várias pessoas jurídicas, sem autonomia gerencial e financeira, para reduzir a carga tributária com a opção pelo lucro presumido, sendo na realidade uma única empresa com várias filiais e administração centralizada, caracteriza simulação, devendo ser aplicado multa de ofício qualificada. RECEITA BRUTA CONHECIDA. ARBITRAMENTO. Verificado que a fiscalizada não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos, é legítima a determinação da receita bruta a partir dos relatórios gerenciais e financeiros que revelaram o real faturamento de todo o grupo, incluindo as filiais, superiores ao limite permitido para o lucro presumido, sendo correto o seu arbitramento. LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS EFETIVAMENTE RECOLHIDOS/CONFESSADOS. APROVEITAMENTO. Os créditos tributários lançados devem ser reduzidos pelos montantes efetivamente recolhidos e/ou confessados pela fiscalizada e por suas filiais, relativos aos períodos do lançamento. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS -ADMINISTRADORES São responsáveis pelos créditos tributários lançados, com base no art. 135, III, do CTN, os sócios-administradores que comprovadamente atuaram na prática das infrações tributárias apuradas, como se dá na assinatura de contratos sociais pertinentes a pessoas jurídicas constituídas por simulação, e que, ademais, auferiram benefícios econômicos decorrentes dessas infrações. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS-ADMINISTRADORES. CISÃO. LIMITAÇÃO A responsabilidade tributária do sócio administrador é limitada até o evento da cisão, quando então não mais participa da administração, uma vez que passou a ser titular de filiais que, após o evento, não contribuíram na omissão de receita apurada. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUCESSÃO. A falta de comprovação da continuidade do esquema fraudulento nas empresas que compõem a parte cindida impede a responsabilidade tributária por sucessão.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência suscitadas e, no mérito em dar provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte CRC - Central de Recebimento de Cheques S/S Ltda, para reduzir os créditos tributários lançados com o aproveitamento dos tributos e contribuições efetivamente recolhidos e/ou confessados pela recorrente e pelas filiais nos períodos de apuração objetos do lançamento; em negar provimento ao recurso do responsável solidário Sr. Eloy Tuffi; em dar provimento parcial ao recurso da responsável solidária Sra. Marlene Rito Nicolau; e, ainda, em dar provimento ao recurso de MC Cursos E Recebimento De Cheques S/S Ltda e ENNT Comercio Servicos E Participações - Eireli, excluindo-as do pólo passivo, nos termos do relatório e voto da relatora. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente. (assinado digitalmente) Maria Lucia Miceli - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique da Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flavio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca.
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SIMULAÇÃO. ARBITRAMENTO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Recorrente CRC CENTRAL DE RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011, 2012 LANÇAMENTO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade quando o lançamento observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72. DECADÊNCIA.INOCORRÊNCIA. Comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ainda que se trate de tributo sujeito a lançamento por homologação, o direito do fisco de constituir o crédito tributário extinguese após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado SIMULAÇÃO. PESSOAS JURÍDICAS DIVERSAS. LUCRO PRESUMIDO. EMPRESA ÚNICA. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. A constituição de várias pessoas jurídicas, sem autonomia gerencial e financeira, para reduzir a carga tributária com a opção pelo lucro presumido, sendo na realidade uma única empresa com várias filiais e administração centralizada, caracteriza simulação, devendo ser aplicado multa de ofício qualificada. RECEITA BRUTA CONHECIDA. ARBITRAMENTO. Verificado que a fiscalizada não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos, é legítima a determinação da receita bruta a partir dos relatórios gerenciais e financeiros que revelaram o real faturamento de todo o grupo, incluindo as filiais, superiores ao limite permitido para o lucro presumido, sendo correto o seu arbitramento. LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS EFETIVAMENTE RECOLHIDOS/CONFESSADOS. APROVEITAMENTO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 74 19 /2 01 5- 88 Fl. 35412DF CARF MF 2 Os créditos tributários lançados devem ser reduzidos pelos montantes efetivamente recolhidos e/ou confessados pela fiscalizada e por suas filiais, relativos aos períodos do lançamento. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS ADMINISTRADORES São responsáveis pelos créditos tributários lançados, com base no art. 135, III, do CTN, os sóciosadministradores que comprovadamente atuaram na prática das infrações tributárias apuradas, como se dá na assinatura de contratos sociais pertinentes a pessoas jurídicas constituídas por simulação, e que, ademais, auferiram benefícios econômicos decorrentes dessas infrações. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS ADMINISTRADORES. CISÃO. LIMITAÇÃO A responsabilidade tributária do sócio administrador é limitada até o evento da cisão, quando então não mais participa da administração, uma vez que passou a ser titular de filiais que, após o evento, não contribuíram na omissão de receita apurada. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUCESSÃO. A falta de comprovação da continuidade do esquema fraudulento nas empresas que compõem a parte cindida impede a responsabilidade tributária por sucessão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e de decadência suscitadas e, no mérito em dar provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte CRC Central de Recebimento de Cheques S/S Ltda, para reduzir os créditos tributários lançados com o aproveitamento dos tributos e contribuições efetivamente recolhidos e/ou confessados pela recorrente e pelas filiais nos períodos de apuração objetos do lançamento; em negar provimento ao recurso do responsável solidário Sr. Eloy Tuffi; em dar provimento parcial ao recurso da responsável solidária Sra. Marlene Rito Nicolau; e, ainda, em dar provimento ao recurso de MC Cursos E Recebimento De Cheques S/S Ltda e ENNT Comercio Servicos E Participações Eireli, excluindoas do pólo passivo, nos termos do relatório e voto da relatora. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Maria Lucia Miceli Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique da Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flavio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Fl. 35413DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.413 3 Relatório Trata o processo de exigência fiscal formulada contra a recorrente acima identificada, por meio dos autos de infração para cobrança do imposto de renda da pessoa jurídica – IRPJ, de fls. 3567/3581, no valor de R$ 1.943.329,99, da contribuição social sobre o lucro líquido – CSLL, de fls. 3583/3598, no valor de R$ 885.298,45, da contribuição para o financiamento da seguridade social – Cofins, de fls. 3600/3608, no valor de R$ 2.459.162,48, e da contribuição para o Pis/Pasep, de fls. 3610/3618, no valor de R$ 532.818,49, todos acrescidos de multa de ofício qualificada de 150% e de juros de mora. A seguir, reproduzo o relatório do acórdão da DRJ recorrido por bem retratar o lançamento: Em ação fiscal levada a efeito no contribuinte acima identificado foi apurada omissão de receitas para todos os meses dos anos de 2010, 2011 e 2012. Ademais, por infringir o disposto nos incisos I, II, "a" e "b", IV e VII do art. 47 da Lei n° 8.981/1995, o lucro foi arbitrado para todos os trimestres dos referidos anos. Em consequência, foram lavrados os autos de infração de IRPJ (fls. 3392933982), CSLL (fls. 3398434024), PIS (fls. 3402634048) e COFINS (fls. 3405034072). Conforme descrito no "Relatório de Ação Fiscal n° 00138/14/020" de fls. 3359033701, a ação fiscal foi desenvolvida no bojo da denominada operação "AVATARIA", realizada conjuntamente entre a Receita Federal do Brasil, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, amparados por medidas judiciais obtidas junto à Justiça Federal, que autorizou a realização de diversos mandados de busca e apreensão. Relata a autoridade autuante que a Escola MICROCAMP/ABC, no desempenho de suas atividades e com a finalidade de minimizar seus riscos tributários, abriu dezenas de empresas que simulavam independência administrativa e contábil, quando de fato eram controladas por uma matriz situada na cidade de Campinas/SP. A CRC inserese no contexto da prática das infrações apuradas. Tratase de sociedade por cotas, que teve por sócios o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi, na proporção de 50% das cotas para cada um. Seu objeto social registrado são "atividades de cobranças e informações cadastrais". Nos anos de 2010, 2011 e 2012, quando optou pelo lucro presumido, constatou a autoridade autuante assombrosa discrepância entre as receitas brutas declaradas em DIPJ e a movimentação financeira, alcançando essas diferenças valores próximos a R$ 30.000.000,00 para cada um desses anos. A Polícia Federal, em 26/02/2004, em cumprimento a mandado de busca e apreensão realizado no endereço cadastral da CRC (Rua Conceição, 233 sala 2810 Centro Campinas/SP), foram Fl. 35414DF CARF MF 4 apreendidos diversos documentos de interesse para a ação fiscal e, nesta mesma data, foi dado início à ação fiscal. No curso da ação fiscal foram realizadas diversas intimações ao contribuinte solicitando documentos e esclarecimentos. Afirmou o contribuinte que a maior parte dos valores que transitaram por suas contas bancárias não são de sua propriedade, afirmando tratarse de cheques de terceiros devolvidos e reapresentados, dinheiro do próprio sócio e pagamento/devolução de empréstimos feitos pelos sócios às diversas empresas de sua propriedade. Sustenta o contribuinte que atua no campo da educação complementar e, tendo em vista as dificuldades inerentes a esse mercado, foi necessária a constituição de uma empresa para a gestão dos recursos das escolas, de modo que esses são os recursos que transitam por suas contas. Ao desempenhar a atividade de assistência financeira às escolas, CRC cobra e recebe cheques e outros títulos de crédito, correspondendo suas receitas apenas aos honorários recebidos dos créditos recuperados, que variam de 0% a 2%, receitas essas devidamente contabilizadas e para as quais foram emitidas notas fiscais. Os créditos recebidos, por sua vez, correspondem a receitas das escoladas de propriedade do sócio da CRC, Sr. Eloy Tuffi. Ademais, a CRC antecipa às escolas os valores dos cheques a serem recuperados, bem como os valores dos cheques prédatados, cobrando para tanto pequena taxa de serviço que varia de 0% a 2%. Igualmente, funciona a CRC como uma espécie de holding para o pagamento das despesas das empresas de propriedade do Sr. Eloy Tuffi. Finalmente, parte dos valores que transitam nas contas bancárias da CRC correspondem a lucros distribuídos ao Sr. Eloy Tuffi por algumas das sociedades de propriedade dele, valores esses que, em sua maioria, são destinados ao pagamento de despesas de outras empresas, também da propriedade dele, que se encontram em dificuldade financeira. Essa, em síntese, a versão apresentada pela CRC no curso da ação fiscal. O contribuinte foi intimado, dentre outros elementos, a comprovar os valores dos depósitos que ingressaram em suas diversas contas bancárias. Em 14/05/2005, apresentou resposta nos seguintes termos: Em atenção a intimação 00138/14/013, vem à presença de V. Sa, prestar os seguintes esclarecimentos: Segue anexo, planilha detalhada relativamente das contas correntes mencionadas na intimação, no qual a fiscalizada aponta individualmente a origem de cada crédito/depósito bancário. Esclarece, outrossim, que somente a conta corrente 3.894 6, cuja planilha e documentos V. Sa essa fiscalização já teve acesso, ou seja, já foram entregues em tempo oportuno, as demais contas correntes são utilizadas exclusivamente pelo sócio e diretor da fiscalizada, Sr. Eloy Tuffi, para suas atividades pessoais com as demais empresas de sua propriedade, aqui denominadas para melhor entendimento de unidades, não havendo que se falar em confusão patrimonial. Fl. 35415DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.414 5 Para melhor compreensão, esclarecese que abaixo a finalidade de cada conta corrente utilizada pelo Sr. Eloy: Conta Corrente 47309 a referida conta era utilizada pelo Sr. Eloy para o recebimento de todos os valores advindos a título de distribuição de lucros e recebimento do valor das franquias das empresas de propriedade do Sr. Eloy. Após o recebimento, alguns valores eram utilizados diretamente para pagamento de fornecedores, pagamento de alugueis em atraso de alguma unidade franqueada, reclamações trabalhistas e demais despesas correntes quando uma unidade encontravase em dificuldade financeira; Conta corrente 54135 a referida conta corrente era utilizada exclusivamente para transferência de valores referentes a recebimentos dos valores das franquias da empresa Microcamp Escola de Educação Profissional e Comércio de Livros Ltda, CNPJ 07.139.282/000151, também de propriedade do Sr. Eloy, urna vez que sua própria conta corrente encontravase bloqueada. Conta corrente 54151 a referida conta corrente era utilizada para guardar/entesourar valores remetidos pelas unidades, já devidamente tributados nas unidades, com a finalidade de formar uma reserva para pagamento das despesas com veículos, tais como manutenção e conserto dos veículos, pagamento de aluguel de veículos, compra de outros veículos, enfim, todos os eventos relacionados com os veículos de propriedade das unidades. Registrese que os valores recebidos não são de propriedade da fiscalizada, bem como não são de propriedade do Sr. Eloy, apenas formavase um fundo para despesas específicas, logo, não há que se falar em receita. Conta corrente 54178 a referida conta corrente era utilizada pelo Sr. Eloy para guardar/entesourar valores remetidos pelas unidades para as despesas com marketing, tais como pagamento de propaganda, premiações, convenções etc. Registrese que os valores recebidos não são de propriedade da fiscalizada, bem como não são de propriedade do Sr. Eloy, apenas formavase um fundo para despesas específicas. Conta corrente 73393 era utilizada pelas unidades, sempre com a administração exclusiva do Sr. Eloy, para o fim de guardar os valores remetidos pelas unidades para garantir que os alunos que eventualmente passem por dificuldade momentânea concluam o curso. Em outras palavras, as empresas do grupo depositavam um valor na mencionada conta corrente administrada pelo sócio Eloy para que os mesmos permanecessem guardados e ao final utilizado, caso necessário, para garantir o cumprimento do contrato entre o aluno e a unidade. Tal fato dependia Fl. 35416DF CARF MF 6 exclusivamente de cada contrato firmado, eis que o referido benefício não era destinado para todos os cursos; Registrese que o referido procedimento era realizado dessa forma como forma de garantir as unidades maior segurança e transparência, eis que os recursos já haviam sido tributados e estavam alocados nas contas corrente para destinação específica. Quanto a recompor a escrituração, após a análise das planilhas anexa de cada conta corrente, a fiscalizada aguarda manifestação específica dessa fiscalização quanto aos itens que geram dúvidas ou tidos como deficientes, bem como os itens que precisam ser esclarecidos, concedendo prazo razoável para as adequações e esclarecimentos necessários. Como dito linhas acima, não há confusão patrimonial, apenas as contas eram utilizadas para guardar valores das unidades para pagamentos de despesas específicas, portanto, todos os créditos/depósitos tem origem, não se tratando de despesas. Por meio do "Termo de Intimação n° 00138/14/014" (fls. 6166 6172), afirmou a autoridade autuante que informações constantes de farta documentação apreendida na sede da CRC e de emails encontrados em seus computadores revelaram que as filiais da MICROCAMP direcionaram a sua central financeira remessas de elevados montantes de recursos na forma de cheques e de dinheiro em espécie. Diante disso, e considerando os demonstrativos com os valores das remessas, nos anos de 2010, 2011 e 2012, discriminados por filial da MICROCAMP, a CRC foi instada a apresentar justificativa para essas remessas. Na resposta apresentada, o contribuinte listou um grupo de filiais, afirmando que a administração dessas unidades ficou, após a separação judicial dos sócios da CRC, sob a administração da Sra. Marlene Rito Nicolau Turffi, de modo que os documentos e esclarecimentos pertinentes a essas unidades deveriam ser solicitados diretamente a elas. Relativamente às demais unidades, afirmou a CRC que os títulos a ela entregues correspondem a cheques prédatados, cujos valores foram antecipados às unidades. Os valores depositados em espécie, por sua vez, correspondem a transferência de caixa entre as empresas de titularidade do Sr. Eloy Tuffi. Afirma a CRC, ainda, que os valores indicados pela autoridade no "Termo de Intimação" a título de "remessas" não correspondem à realidade, sendo esses valores muito superiores às efetivas remessas. Em seguida, por meio do "Termo de Intimação n° 00138/14/015", a CRC foi intimada a: 1 Elaborar planilha por filial da escola MICROCAMP/ABC que concatene e identifique por remetente todos os conjuntos de cheques prédatados recebidos como REMESSAS (arroladas através do Termo de Intimação N° 00138/14/015) em Fl. 35417DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.415 7 contraposição a todas as saídas de numerários existentes em seus extratos bancários em mesmos montantes e datas das remessas com destino às mesmas filiais que forneceram estes cheques prédatados; 2 Apresentar documentação hábil e idônea que comprove que as remessas recebidas das filiais da escola MICROCAMP/ABC foram relativas a troca de cheques prédatados por numerário destinados às mesmas filiais que enviaram estas remessas. Em 06/08/2015, a CRC apresentou resposta, nos seguintes termos: Em atenção à intimação 00138/14/015, vem à presença de V. Sa, prestar os seguintes esclarecimentos: Segue anexo planilha, em formato PDF, demonstrativa da origem dos valores creditados em conta corrente das fiscalizada, ou seja, tratase de documento no qual se especifica e se individualiza o conteúdo dos extratos bancários. Através da planilha esta fiscalização verificará que os mencionados cheques prédatados estão inseridos no campo "Saldo Caixa", sendo que os borderôs dos anos 2010 e 2011, ainda não foram localizados. Por conta disso, pedimos vênia para anexar apenas os borderôs do ano de 2012, sendo que dos anos anterior, serão anexados oportunamente. Esta fiscalização também verificará da planilha anexa todas as saídas, ou seja, pelo documento ora apresentado, comprovase o registro na contabilidade da fiscalizada de todos os títulos, ou seja, dos referidos cheques prédatados e a saída dos valores. Pede vênia para anexar também comprovantes de pagamentos de despesas das empresas relacionadas na intimação anterior, onde demonstra que em sua grande maioria o retorno dos recursos, ou seja, a antecipação de valores se dava através de pagamento pela fiscalizada de despesas das empresas mencionadas. No que tange a exigência de apresentação de planilha que concatene e identifique por remetente todos os conjuntos de cheques prédatados recebidos como remessas em contraposição a todas as saídas de numerário, REQUER a dilação de um prazo de 90 (noventa] dias. O pedido de dilação de prazo cingese por dois motivos essenciais. O primeiro decorre do fato que o contador da fiscalizada, que ora subscreve, entrou em férias no dia 01/07/2015, tendo como retorno apenas em 31/07/2015, quando então tomou conhecimento da intimação. Logo, não há tempo hábil e razoável para atendimento, não Fl. 35418DF CARF MF 8 sendo crível a empresa ser prejudicada, eis que não haverá nenhum prejuízo à fiscalização. Em segundo, a planilha solicitada na presente intimação é complexa e requer de tempo maior para seu atendimento. Esclarece que os comprovantes de pagamento anexados comprovam, em parte, as saídas referente a antecipação dos títulos, cujo sócio é de mesma titularidade da fiscalizada, demonstrando, portanto, tratarse de troca de cheque prédatado e não de receita. Documentos anexados: Planilha Extratos comentados. Conta no Bradesco da custodia de cheques 2012 (todos os borderôs) Comprovantes de pagamentos Bradesco 2012 (parte) Documento férias Ibsen. Por fim, caso entenda que as informações ora prestadas não foram suficientes, pedimos vênia para que a fiscalização aponte individualizadamente os créditos a serem comprovados, eis que são muitos os documentos, concedendo prazo razoável. Ressaltese que, a despeito do pedido de prorrogação de prazo feito pela CRC, até a lavratura do auto de infração em 10/12/2015, vale dizer, mais de quatro meses após a resposta á intimação, o contribuinte ainda não havia apresentado documentos necessários à comprovação da correlação entre os recursos recebidos das unidades da MICROCAMP e os recursos a elas retornados. Afirma a autoridade autuante que os documentos colhidos nas buscas e apreensões realizadas pela Polícia Federal, sobretudo aquela realizada na sede da CRC, revelam ser esta empresa a matriz de uma única grande empresa existente de fato, de titularidade de Eloy Tuffi e de Marlene Rito Nicolau Tuffi, constituída em unidades escolares de informática da marca MICROCAMP e de inglês da bandeira ABC. Por essa razão, a autoridade autuante intitula essa empresa, composta por matriz e filiais, considerada em seu conjunto, de Escola MICROCAMP/ABC. Relata a autoridade autuante que a matriz e as filiais foram constituídas, cada qual, com CNPJs próprios, mas não possuem independência financeira e de gestão. No contexto da Escola MICROCAMP/ABC, a CRC atua como cérebro administrativo e de gestão financeira de recursos de uma empresa complexa, composta de mais de 60 CNPJs distintos. Para gerenciar as filiais, a Escola MICROCAMP/ABC valiase de holding informais, sendo a MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS E INFORMÁTICA LTDA (doravante apenas MC CAMP) a mais freqüente. Nos documentos internos, esta empresa é identificada como holding, a despeito de não ter Fl. 35419DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.416 9 participação societária nas demais empresas, apenas representando os interesses dos sócios Eloy Tuffi e Marlene Rito Nicolau Tuffi. A MC CAMP tinha suas atividades compostas por funcionários administrativos que davam suporte técnico e administrativo às atividades da escola. Esses funcionários, conforme demonstram os documentos internos, recebiam continuamente seus salários PD ("por dentro") e PF ("por fora"). Os custos da MC CAMP eram suportados pelas remessas de recursos financeiros feitas pelas filiais, já que a liquidez financeira destas era continuamente direcionada à CRC e à MC CAMP. As filiais da Escola MICROCAMP/ABC foram constituídas por meio de contratos sociais quase idênticos, nos quais figuravam como sócios administradores o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi. Para algumas unidades, também foi registrado como administrador o filho do casal, Sr. Davi Tuffi. As filiais eram gerenciadas por prepostos nomeados como gerentes e diretores de unidade, subordinados hierarquicamente à matriz. Há, nesse sentido, documentos internos que revelam determinações da matriz acerca dos salários a serem pagos aos empregados das filiais (professor, coordenador e pedagoga). Apreendeuse, inclusive, documento subscrito pelo Sr. Eloy Tuffi, no qual há indicação, para diversas unidades, da quantidade de colaboradores a serem demitidos. Também foram encontrados nos computadores do contador da matriz todas as DIPJs das filiais e os respectivos recibos de entrega. Nos computadores do vicepresidente da Escola MICROCAMP/ABC, Sr. Edson Ferreita Lisboa, foram localizadas mensagens contendo planilhas mensais de todos os processos trabalhistas sofridos por todas as filiais da escola, além de demonstrativos detalhados do faturamento de cada unidade e das receitas projetadas. O confronto entre as DIPJs apresentadas pelas filiais e o faturamento delas constante de documentação apreendida na matriz evidencia que elas declaravam receitas em valor aproximado a 20% das mensalidades recebidas. As filiais, ademais, abriam contas correntes bancárias, nas quais depositavam também aproximadamente 20% dos valores das mensalidades recebidas. A liquidez financeira das filiais eram transferida para a matriz mediante remessas em dinheiro e em cheques ainda por compensar, ficando estes ocultos do fisco federal por aparentar operação de factoring. Essas remessas eram detalhadas em documentos denominados MICROCAMP CONCILIAÇÃO 706 707 709". O profissionalismo na sonegação atingiu tal sofisticação, que os diretores das filiais recebiam premiação, correspondente a de 10% do valor das remessas, como incentivo para que a liquidez financeira das unidades por eles geridas fosse remetida à matriz, conforme demonstram documentos apreendidos na CRC. Relata a autoridade autuante que, a partir de setembro de 2011, a Escola MICROCAMP/ABC foi cindida, em razão do divórcio entre o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Nicolau Tuffi, criandose nova matriz, localizada em São Paulo/SP, controlada por esta Fl. 35420DF CARF MF 10 última. Passou, então, a Sra. Marlene a controlar isoladamente 29 unidades da Escola MICROCAMP/ABC, localizadas fundamentalmente na Grande São Paulo e no litoral paulista, utilizando os mesmos esquemas de sonegação até então empregados. Para tanto, foram criadas as empresas MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA e ENNT COMÉRCIO SERVIÇOS E PARTICIPAÇÕES EIRELI. As demais unidades permaneceram sob o controle do Sr. Eloy Tuffi. A formalização dessa cisão passou a ocorrer apenas no ano de 2014, mediante alterações contratuais por meio das quais essas filiais passaram a pertencer direta ou indiretamente ao Sr. Eloy Tuffi, de forma exclusiva. Assim, durante os anos calendário de 2010, 2011 e 2012, embora tenha sido criada nova matriz informal em setembro de 2011, formalmente todas as filiais continuaram a pertencer indistintamente e em conjunto ao Sr. Eloy Tuffi e à Sra. Marlene Nicolau Tuffi. Os documentos apreendidos na sede da CRC demonstram os recursos financeiros remetidos por cada filial à matriz nos anos de 2010, 2011 e 2012. Após a análise da documentação constante dos autos, concluiu a autoridade autuante que a Escola MICROCAMP/ABC adotava o seguinte modus operandi: (a) A filial deveria manter contas próprias nas quais poderiam efetuar depósitos em cheques e dinheiro de um montante entre 20% e 30% do faturamento real daquela filial; (b) Valor aproximado entre 75% e 80% do faturamento real deveria ser utilizado para efetuarse o pagamento dos custos relacionados à manutenção da unidade; (c) Conforme diretriz da matriz, os valores depositados em contas correntes pelas filiais seriam utilizados para efetuar se os pagamentos e custos regularmente contabilizados; (d) A diferença entre o custo total das unidades e o valor depositado em bancos, ou seja, o custo restante a pagar pela filial, montante entre 45 e 55% de seu faturamento, seria liquidado sem registro contábil e sem que fosse informado à Receita Federal do Brasil. No caso de funcionários, seguiriam a terminologia adotada pela matriz PD (salário por dentro) e PF (salário por fora). (...) e) Quanto aos demais montantes componentes do faturamento real da unidade, um montante que girava por volta de 25% do montante total arrecadado com as matrículas seria a sobra de recursos que deveria ser carreada à matriz da escola. Ressaltese que esse valor não se enquadra necessariamente como lucros, mas poderia ser derivado de outros fatos geradores de liquidez, tais como depreciação, amortizações, pagamento antecipados, etc. Fl. 35421DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.417 11 (f) Os 20% a 25% de liquidez (em média) existentes na filial deveriam ser encaminhados a matriz durante todo o mês, à medida que fosse possível a sua obtenção e na forma de cheques prédatados e em dinheiro vivo de maneira a não deixar rastros sobre sua origem em sonegação fiscal do numerário. (g) No caso dos cheques prédatados, o fato de transitarem das filiais para uma empresa de "factoring" daria à Escola MICROCAMP/ABC a aparência de normalidade à transação, tal como um legítimo desconto de títulos a receber. Porém, conforme foi apurado, esses recursos nunca retornavam a mesma filial que havia enviado os recursos. A partir do contexto fático revelado pelas provas constantes dos autos, conclui a autoridade autuante que a Escola MICROCAMP/ABC é um todo, integrado pela CRC, centro nevrálgico que controla os recursos financeiros da empresa, pela a MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS E INFORMÁTICA LTDA, que concentrava funcionários administrativos que davam suporte técnico e administrativo às atividades da escola, e pelas mais de 60 filiais, correspondentes às unidades escolares. A constituição de cada uma dessas unidades por contratos sociais distintos configura simulação, eis que não têm elas autonomia na gestão financeira ou administrativa e esse procedimento foi adotado para a prática de infrações à legislação tributária, sobretudo a omissão de receitas, dificultando o conhecimento, por parte da autoridade administrativa, da situação fática subjacente à aparência formal artificialmente criada. Tendo em vista que o contribuinte não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos administrados pela Receita Federal do Brasil, seu lucro foi arbitrado, com fundamento no disposto no art. 47,1, II, "a", "b", IV e VII, da Lei n° 8.981/1995. O arbitramento se deu com base na receita bruta conhecida, assim apurada a partir dos controles internos e gerenciais, comprovados e fundamentados em documentação hábil e idônea apreendida na sede da CRC. Para a apuração do lucro arbitrado, foi aplicado o percentual de 38,4%, tendo em conta o disposto nos arts. 15, § Io, III, "a", 16 e 24 da Lei n° 9.249/1995, já que as atividades da Escola MICROCAMP/ABC são diversificadas, não sendo possível a identificação da atividade a que se refere a receita omitida. Esclarece a autoridade autuante que, na execução dos Mandados de Busca e Apreensão n° 15/2014 e 16/2014, foram apreendidas, na sala do vicepresidente da Escola MICROCAMP/ABC, Dr. Edson Ferreira Lisboa, pastas gerenciais referentes aos dados de todas as filiais, as quais demonstram controle mensal do faturamento de cada unidade e também as despesas e remessas de recursos à matriz. Tais pastas gerenciais tiveram o respectivo conteúdo corroborado, em procedimentos de auditoria fiscal, mediante confronto com a Fl. 35422DF CARF MF 12 documentação remetida pelas filiais para a matriz, apreendida na matriz, composta de Relatórios de Fechamento Mensais, Relatórios de Conciliação de Contas das Filiais, Relatório de Endividamento de Filiais, Extratos Bancários de Conta Corrente das filiais e Extratos de Movimento de Caixa. O real faturamento da Escola MICROCAMP/ABC também foi confirmado por uma série de emails coletados nos computadores do Sr. Edson Ferreira Lisboa, mediante os quais setores da matriz encaminhavam periodicamente os dados verdadeiros de faturamento de todas as filiais. Sobre os créditos tributários apurados foi aplicada multa qualificada, tendo em vista a criação simulada de diversas pessoas jurídicas sob o manto das quais atuavam as filiais da Escola MICROCAMP/ABC, de modo que o faturamento desta, que lhe obriga à apuração do IRPJ pelo lucro real, foi dividido em diversas parcelas, que permitiram a opção pelo lucro presumido. Esse procedimento teve por fim, ainda, isolar os riscos tributários das receitas omitidas em todas as filiais. Tais filiais não gozavam de autonomia administrativa e financeira e remetiam os recursos financeiros excedentes à CRC, uma empresa de "factoring de fachada" que atuava como matriz da Escola MICROCAMP/ABC. Os recursos financeiros carreados à CRC foram utilizados por seus controladores para o financiamento dos gastos administrativos da empresa, para sua expansão, reformas e aquisição de novos equipamentos, bem como para a consecução de gastos pessoais. A despeito de intimado a tanto, o contribuinte não logrou comprovar que os recursos financeiras carreados pelas filiais à CRC retornaram em idênticos montantes às filiais. Esses fatos se subsumem às hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/1964, razão pela qual há fundamentos fáticos e jurídicos suficientes para a qualificação da multa, com base no art. 44, § Io, da Lei n° 9.430/1996. Foi imputada à MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA responsabilidade solidária, com base no art. 124,1, do CTN pelos créditos tributários lançados. Esta pessoa jurídica, juntamente com a CRC, formava a matriz da Escola MICROCAMP/ABC, atuando a primeiro preponderantemente na gerência administrativa e a segunda na gerência financeira. Por essa razão, reputou a autoridade autuante que as duas têm a mesma motivação em que o faturamento das filiais se realize, bem como no lucro decorrente das atividades de todas as unidades. Ademais, ambas são assessoradas pelos mesmos gerentes, pelo mesmo contador e pelo mesmo advogado, além de contarem com os mesmos funcionários na consecução de suas atividades. A CRC e a MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA pertencem ao Sr. Eloy Tuffi, desempenham a mesma atividade social, no mesmo espaço físico, desfrutam do mesmo fundo de comércio, utilizam o mesmo patrimônio na consecução de suas atividades e contam com as mesmas pessoas responsáveis por sua administração. Por todas essas razões, há interesse comum de ambas nas situações que constituem os fatos geradores das obrigações tributárias que deram causa ao lançamento tributário de que trata o presente processo administrativo. Fl. 35423DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.418 13 Também foi imputada, com base nos arts. 207, III, parágrafo único, II, e 209 do Decreto n° 3.000/1999 (RIR), responsabilidade pelos créditos tributários lançados a MC CURSOS E RECEBIMENTOS DE CHEQUES S/S LTDA e a ENNT COMÉRCIO SERVIÇOS E PARTICIPAÇÕES EIRELI. Assevera a autoridade autuante que a Escola MICROCAMP/ABC sofreu uma cisão de fato em seus negócios, tendo estas empresas sido criadas a fim de atuar como nova matriz informal situada na cidade de São Paulo. Esta cisão informal foi confirmada por "Termo de Audiência em Conciliação de Divórcio Litigioso", celebrado em 23/06/2013, entre o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi. A despeito deste documento datar de 23/06/2013, outros documentos complementares apreendidos pela Polícia Federal demonstram que a divisão da Escola MICROCAMP/ABC ocorreu efetivamente a partir de 01/09/2011, quando 29 filiais da escola foram transferidos de forma informal à nova matriz. Finalmente, com base no art. 135, III, do CTN, foi imputada responsabilidade pelos créditos tributários lançados contra a CRC aos seus sóciosgerentes, Sr. Eloy Tuffi e Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi. Ressalta a autoridade autuante que são eles os principais interessados nos resultados da Escola MICROCAMP/ABC para os anoscalendário de 2010, 2011 e 2012, tendo em vista suas funções de comando direto e preponderância de decisões sobre todos os gerentes e diretores de filiais e funcionários em geral. Ambos figuraram como sócios de fato das seguintes empresas, inicialmente registradas em nome de terceiros, para as quais foram carreados e ocultos recursos consideráveis provenientes da Escola MICROCAMP/ABC: PRAVE BAR E RESTAURANTE LTDA; ESTACIONAMENTO PRAVE S/S LTDA. O casal também foi proprietário da FAZENDA MC, propriedade rural situada em Espírito Santo do Pinhal, onde era criado gado, plantado café de marca própria e mantido um "Spa & Resort". Para as pessoas jurídicas artificialmente criadas na constituição das filiais da Escola MICROCAMP/ABC o casal carreou sua frota de veículos, inclusive seus veículos de maior luxo, cujos custos de seguros eram todos gerenciados e pagos pela matriz da Escola. Além de possuir a propriedade direta e poderes de gerência nos contratos sociais das pessoas jurídicas artificialmente criadas na constituição das filiais da Escola MICROCAMP/ABC, o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi utilizavam, em proveito próprio, contas bancárias abertas em nome de pessoas jurídicas que compunham a Escola, como é o caso da conta n° 19.2088, Agência 1914, registrada em nome da ACME DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA. Tais fatos configuram prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, autorizando a imputação a eles de responsabilidade tributária, conforme comando contido no art. 135, III, do CTN. A base de cálculo dos tributos foram nos seguintes montantes: Fl. 35424DF CARF MF 14 Assim sendo, foram apurados para cada anocalendário autuado os seguintes valores a título de omissão de receitas: · Anocalendário de 2010: R$ 115.183.208,13 · Anocalendário de 2011: R$ 108.281.101,25 · Anocalendário de 2012: R$ 87.263.533,10 Em sede de julgamento de 1ª instância, por meio do Acórdão nº 1464.001, de 26 de janeiro de 2017, a 1ª Turma de Julgamento da DRJ/RPO julgou improcedente a impugnação, consubstanciada na ementa reproduzida a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 31/03/2010, 30/06/2010, 30/09/2010, 31/12/2010, 31/03/2011, 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011, 31/03/2012, 30/06/2012, 30/09/2012,31/12/2012 CONSTITUIÇÃO SIMULADA DE PESSOAS JURÍDICAS PARA OCULTAR FILIAIS ADMINISTRAÇÃO CENTRALIZADA EMPRESA ÚNICA LUCRO ARBITRADO RECEITA BRUTA CONHECIDA DEMONSTRATIVOS GERENCIAIS APREENDIDOS INDÍCIOS CONCORDANTES E CONVERGENTES MULTA QUALIFICADA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE SÓCIOS ADMINISTRADORES RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DECORRENTE DE CISÃO Uma vez demonstrado que houve constituição simulada de pessoas jurídicas para ocultar a existência de filiais, administradas de forma centralizada pela matriz, correta é a tributação conjunta das diversas unidades. Arbitramento do lucro realizado por ter se revelado a escrituração mantida pelo contribuinte imprestável para a apuração dos tributos, quer sob a sistemática do lucro presumido, quer sob a do lucro real; por não se prestar a escrituração a identificar a efetiva movimentação financeira do contribuinte, com observância do princípio da entidade; por superação do limite permitido para a opção pelo lucro presumido. Legítima a apuração da receita Fl. 35425DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.419 15 bruta a partir de detalhados demonstrativos gerenciais apreendidos na sede do contribuinte, confirmados por farta prova documental que consubstancia indícios concordantes e convergentes. É cabível a aplicação de multa qualificada (150%), quando demonstrado que as infrações foram praticadas com sonegação, fraude e conluio. São responsáveis pelos créditos tributários lançados, com base no art. 135, III, do CTN, os sóciosadministradores que comprovadamente atuaram na prática das infrações tributárias apuradas, como se dá na assinatura de contratos sociais pertinentes a pessoas jurídicas constituídas por simulação, e que, ademais, auferiram benefícios econômicos decorrentes dessas infrações. Respondem pelos créditos tributários lançados contra a pessoa jurídica cindida as pessoas jurídicas que incorporaram parcela do patrimônio daquela. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Data do fato gerador: 31/03/2010, 30/06/2010, 30/09/2010, 31/12/2010, 31/03/2011, 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011, 31/03/2012, 30/06/2012, 30/09/2012,31/12/2012 AUTO REFLEXO Quanto à impugnação de auto de infração lavrado como reflexo de fatos apurados para o lançamento do IRPJ, são aplicáveis as mesmas razões que deram fundamento à decisão acerca da impugnação a este, quando não houver alegação específica no tocante ao auto reflexo. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/01/2010, 28/02/2010, 31/03/2010, 30/04/2010, 31/05/2010, 30/06/2010, 31/07/2010, 31/08/2010, 30/09/2010, 31/10/2010, 30/11/2010, 31/12/2010, 31/01/2011, 28/02/2011, 31/03/2011, 30/04/2011, 31/05/2011, 30/06/2011, 31/07/2011, 31/08/2011, 30/09/2011, 31/10/2011, 30/11/2011, 31/12/2011, 31/01/2012, 28/02/2012, 31/03/2012, 30/04/2012, 31/05/2012, 30/06/2012, 31/07/2012, 31/08/2012, 30/09/2012, 31/10/2012, 30/11/2012,31/12/2012 DECADÊNCIA AUTO REFLEXO Uma vez demonstrada a prática de infrações com dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial segue a regra inscrita no art. 173, I, do CTN. Quanto à impugnação de auto de infração lavrado como reflexo de fatos apurados para o lançamento do IRPJ, são aplicáveis as mesmas razões que deram fundamento à decisão acerca da impugnação a este, quando não houver alegação específica no tocante ao auto reflexo. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Fl. 35426DF CARF MF 16 Data do fato gerador: 31/01/2010, 28/02/2010, 31/03/2010, 30/04/2010, 31/05/2010, 30/06/2010, 31/07/2010, 31/08/2010, 30/09/2010, 31/10/2010, 30/11/2010, 31/12/2010, 31/01/2011, 28/02/2011, 31/03/2011, 30/04/2011, 31/05/2011, 30/06/2011, 31/07/2011, 31/08/2011, 30/09/2011, 31/10/2011, 30/11/2011, 31/12/2011, 31/01/2012, 28/02/2012, 31/03/2012, 30/04/2012, 31/05/2012, 30/06/2012, 31/07/2012, 31/08/2012, 30/09/2012, 31/10/2012, 30/11/2012,31/12/2012 DECADÊNCIA AUTO REFLEXO Uma vez demonstrada a prática de infrações com dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial segue a regra inscrita no art. 173, I, do CTN. Quanto à impugnação de auto de infração lavrado como reflexo de fatos apurados para o lançamento do IRPJ, são aplicáveis as mesmas razões que deram fundamento à decisão acerca da impugnação a este, quando não houver alegação específica no tocante ao auto reflexo. A ciência da decisão de primeira instância ocorreram nas seguintes datas: Sujeito Passivo Data da Ciência CRC CENTRAL DE RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA AR 14/02/2017 MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA AR 12/05/2017 MC CURSOS E RECEBIMENTOS DE CHEQUES S/S LTDA AR 12/05/2017 ENNT COMÉRCIO SERVIÇOS E PARTICIPAÇÕES EIRELI AR 12/05/2017 Sr. Eloy Tuffi AR 12/05/2017 Marlene Rito Nicolau Tuffi. Edital 08/06/2017 A recorrente apresentou recurso voluntário em 08/03/2017, com as seguintes alegações: apresentou impugnação na qual argumentou: (a) Nulidade por cerceamento ao direito de defesa; (b) Nulidade por obtenção ilegal de documentos; (c) Nulidade por cerceamento ao direito de defesa pois a fiscalização não analisou as provas trazidas durante a fiscalização, e ainda gerou dúvidas quanto ao valor omitido; (d) Nulidade em razão da impossibilidade de arbitramento do lucro; (e) Nulidade por cerceamento ao direito de defesa em face da ausência de individualização dos documentos obtidos pela Polícia Federal; ainda na impugnação, quanto ao mérito, alegou: (f) Da autonomia e independência das empresas citadas no lançamento tributário; (g) Inexistência de sonegação, pois o lançamento foi feito apenas a partir de valores constantes em relatórios sem assinaturas e sem carimbo; (h) Erro na determinação da base de cálculo, por ausência de separação das receitas de Prestação de Serviços e das Receitas da venda; (i) Erro na eleição da base de cálculo, utilizando um relatório gerencial para apurar os créditos tributários; (j) Da ilegalidade do regime de apuração em decorrência da opção pelo Lucro Presumido e a impossibilidade do arbitramento; (k) Não cabimento da qualificação da multa; (l) Inexistência de Solidariedade dos Sócios por ausência de provas; (m) Inexistência de responsabilidade de terceiros, por ausência de provas. entretanto, a decisão recorrida julgou improcedente a impugnação, devendo ser reformada pelo provimento ao recurso ora apresentado, pelos seguintes motivos: Fl. 35427DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.420 17 a) a despeito de o auto de infração padecer de nulidade, estas serão abordadas após o mérito, haja vista a possibilidade de decisão favorável à recorrente, nos termos do § 3º do artigo 59 do Decreto n° 70.235/72. b) quando da apreciação da questão "Autonomia e Independência das empresas citadas no lançamento", a decisão incorreu em erro na análise do material coligido aos autos, chegando a omitir e distorcer informações, justificando a improcedência da impugnação por ofender o princípio contábil da Entidade, discorrendo no voto condutor várias circunstâncias. b.1) a decisão combatida ofende aos artigos 371 e 375 do novo CPC, no que concerne a natureza jurídica da atividade desenvolvida pela recorrente, a situação fática dos autos, e alguns pontos fundamentais constantes da impugnação que sequer foram mencionados. b.2) cita doutrina que afirma que não é ilegal a opção pelo Lucro Presumido quando: (i) a empresa existe, efetivamente, (ii) os sócios forem os mesmos em várias empresas, (iii) empresas localizadas em endereços diversos e em locais compatíveis com as atividades, (iv) empregados em folha de pagamento e (v) controle contábil separado. b.3) é fato que as empresas tidas como filiais já se encontravam em atividade muito antes da existência da recorrente, já possuindo independência financeira e tributária. b.4) a decisão não analisou os documentos constantes no autos comprovando a autonomia e independência das empresas. b.5) a decisão citou exemplos que não constaram do Relatório de Ação Fiscal, e foram inseridos totalmente fora do contexto, seja porque não havia relação com a recorrente, seja porque não indicou a origem dos mesmos. b.6) fato certo é que: (i) as PJs efetivamente existem e exercem suas respectivas atividades; (ii) há receita declarada e tributos recolhidos; (iii) há despesas próprias; (iv) há funcionários próprios; (v) a instituição de Centro de Serviços Compartilhados CVC para algumas atividades é permitida pela SRF; (vi) a legislação não impede que pessoas físicas sejam sócias de mais de uma empresa tributada pelo lucro presumido; e especialmente (vii) o propósito negocial para constituir diversas empresas em lugar de filais estava na facilidade de transferilas paras os FRANQUEADOS. b.7) a decisão não analisou a inexistência de cisão de empresas para fugir do lucro, e esclarece que as escolas foram surgindo a partir de demanda do mercado. b.8) o lançamento e a decisão de primeira instância partiram de premissa falsa, cabendo a nulidade desta última oportunizando à recorrente apresentar nova manifestação. c) Relativo aos fundamentos da simulação, a decisão de primeira instância acolheu de forma integral os argumentos do Relatório de Ação Fiscal, sem apontar qual o erro/ato praticado pela recorrente. c.1) contesta os fundamentos da decisão recorrida, indagando qual seria a simulação ao contratar o mesmo contador e advogado. Fl. 35428DF CARF MF 18 c.2) o auditor fiscal não provou que as "filiais" transferiam receitas omitidas à "matriz", cabendo ao fiscal, em respeito ao artigo 42 da Lei 9.430/96, intimar as 64 empresas a demonstrar a origem dos valores constantes no extrato bancário para chegar à "liquidez financeira das filiais"; afirma que a decisão recorrida contrapôs este argumento de forma frágil e totalmente fora do contexto da documentação citada. c.3) não há ilegalidade no compartilhamento de algumas atividades, e as empresas do Grupo possuíam autonomia contábil e gerencial, o que possibilita que cada diretor de unidade estabeleça os respectivos planos de ação necessários para alcançar o objetivo traçado pelo presidente do Grupo. c.4) o agente fiscal apresentou como prova dados constantes em "Relatórios Gerenciais" apreendidos na sala do advogado interno da empresa, apurando com base nestes documentos a receita bruta. c.5) em momento algum no relatório fiscal o auditor fez referência a extratos bancários, mas apenas os citou, mas sem nem confrontar com os valores dos relatórios gerenciais. c.6) o lançamento foi feito a partir dos valores constantes em relatórios sem assinatura e sem carimbo, os quais poderiam ser utilizados como indício, para então solicitar demonstrações contábeis e movimentação bancária das "filiais", podendo, inclusive, inverter o ônus da prova prevista no artigo 42 da Lei nº 9.430/96. c.7) indaga como o auditor fiscal concluiu que a filial deveria manter contas próprias nas quais poderia efetuar depósitos em cheque e dinheiro de um montante entre 20% e 30%. c.8) a sonegação não se prova através de um único email extraído fora do contexto, no qual a Administração buscava solucionar uma dúvida com o contador da empresa. c.9) não há provas de que apenas uma pequena parcela do faturamento passaria pelas contas bancárias, como afirmou a decisão recorrida. d) alegou erro da determinação da base de cálculo na impugnação, mas o entendimento do julgador, considerando que as receitas foram extraídas dos relatórios gerenciais sem qualquer discriminação quanto à atividade desenvolvida, é de que o auditor fiscal corretamente aplicou sobre a totalidade das receitas o percentual atinente à prestação de serviços, para determinar o lucro arbitrado. d.1) a decisão recorrida partiu de premissas falsas, pois não houve análise das escriturações e declarações das "filiais", verificandose cerceamento ao direito de defesa; d.2) também não foram considerados no lançamento do faturamento os tributos recolhidos pelas filiais. d.3) o relatório fiscal não menciona que a escrituração da recorrente não é confiável, sendo este termo criado pelo julgador para dar interpretação totalmente contrária prevista na legislação. d.4) poderia ter feito uma divisão proporcional entre serviço e comércio, pois o auditor tinha o conhecimento das receitas de serviço e comércio. d.5) o lançamento carece de liquidez e certeza, devendo ser cancelado. Fl. 35429DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.421 19 e) com relação ao erro na determinação do regime de apuração, requer que o lançamento seja cancelado, pois optou pelo lucro presumido, não havendo motivos para apurar os créditos tributários pelo lucro arbitrado. f) reafirma a nulidade do lançamento em função de: f.1) ausência de intimação da empresa MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS e INFORMÁTICA LTDA para participar do processo administrativo fiscal, uma vez que foi incluída como responsável solidária na qualidade de fazer parte, juntamente com a recorrente, da matriz da Escola MICROCAMP; f.2) impossibilidade do arbitramento, pois os fatos apontados pela fiscalização não apresentação da escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos não teria ocorrido; alega que o auditor fiscal não fez o confronto com os extratos bancários com os livros fiscais e contábeis para poder asseverar que a escrituração não estaria de acordo com as regras fiscais e contábeis, o que demonstra a ilegalidade do arbitramento; aduz, ainda, que não restou claro real motivo para o arbitramento. f.3) ausência de intimação para recompor a escrituração do ano de 2012; se não foi intimada e não foi apontada deficiências na escrita contábil e fiscal do ano de 2012, a defesa restou cerceada, dando ensejo à nulidade, ou ao menos a exclusão deste anocalendário do auto de infração. f.4) cerceamento de defesa, pela ausência de análise das provas e dúvida quanto ao valor omitido; a recorrente foi intimada a esclarecer transações financeiras, devendo apontar a origem de cada crédito, no montante de R$ 58 milhões, mas foi autuada com uma base de cálculo de R$ 310 milhões, sem oportunizar à recorrente qualquer manifestação. f.5) violação à prerrogativa de profissional, pois os documentos que deram suporte ao lançamento foram obtidos/apreendidos na sala e no computador de trabalho do advogado da recorrente, Dr. Edson Ferreira Lisboa, em clara ofensa ao artigo 133 da CF/88 e do artigo 2º da Lei nº 8.906/94; afirma que não há provas de que o Dr. Edson autuava como gestor que permitisse a utilização destes documentos. g) não há comprovação de dolo, fraude ou simulação, sendo impossível a qualificação da multa de oficio. g.1) não é possível encontrar os argumentos e provas contundentes, nem mesmo identificar a conduta imputada à recorrente, pois o fiscal apenas citou os artigos 71, 72 e 73 da Lei n] 4.502/64. g.2) o auditor fiscal citou apenas "omissão de receita reiterada", não sendo suficiente para qualificação da multa, haja vista as Súmulas CARF nº 14, 25 e 96. h) reconhecendose a inexistência de dolo, fraude ou simulação, o auto de infração deve ser retificado para excluir os fatos geradores, anteriores a dezembro/2010, com fundamento no artigo 150, § 4º do CTN. Fl. 35430DF CARF MF 20 i) caso a decisão de primeira instância não seja reformada, seja no mérito ou nas nulidades suscitadas, requer a retificação do lançamento para excluir: i.1) o ano de 2012, pois é incabível o arbitramento sem qualquer intimação; i.2) a multa de 150%, reduzindoa para 75%; i.3) ano de 2010 em razão da decadência do lançamento; i.4) excluir os valores que foram recolhidos a título de impostos e contribuições de todas as empresas relacionadas no Relatório de Ação Fiscal. j) requer, ainda, que a base de cálculo seja a movimentação financeira expurgando valores que dispensam demonstração de origem, como devolução de cheque. l) requer a conversão do julgamento em diligência, sob pena de cerceamento ao direito de defesa, para esclarecer os seguintes quesitos: l.1) quais os erros e falhas constantes da escrituração comercial e fiscal da Recorrente; l.2) quais os valores foram excluídos do lançamento tributário e que constaram dos extratos bancários, informando as datas respectivas; l.3) quais os créditos constantes no extrato da conta corrente que geraram dúvidas, individualizandoos; l.4) quais os valores foram transferidos à recorrente pelas empresas citadas; l.5) para excluir da autuação todos os documentos e arquivos encontrados na sala do advogado da empresa Dr. Edson Ferreira Lisboa. A responsável solidária MC CAMP Distribuidora de Livros LTDA apresentou recurso voluntário em 09/06/2017, com as seguintes alegações: o fundamento do Relatório de Ação Fiscal e da decisão recorrida seria que o Sr. Eloy Tuffi era sócio da devedora principal denominada de CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA e também da recorrente (MC CAMP Distribuidora de Livros LTDA). incorreram em erro de fato e de direito na análise do material, pois não observaram que o Sr. Eloy Tuffi não era sócio da recorrente, o que desmonta toda tese desenvolvida pela fiscalização. outro erro seria a afirmação de que a CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA e a recorrente teriam a mesma atividade social, de acordo com os contratos sociais. Fl. 35431DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.422 21 a recorrente foi constituída antes da CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA e sua única atividade realizada era a venda de livros. a fiscalização incorreu em erro de fato, pois não acessou os principais documentos da recorrente tais como Notas Fiscais, contrato social, DCTF e extratos bancários, o que levaria à conclusão diversa. estão ausentes os requisitos do artigo 124, inciso I do CTN, especialmente por conta da ausência do interesse comum no fato gerador da obrigação tributária de terceiro; ressaltando que não há identidade de sócios e de atividades sociais; em homenagem ao Princípio da Verdade Material, o presente recurso voluntário deve ser admitido e julgado com os demais. também não há que se falar em não instalação do litigioso administrativo em face da recorrente, posto que o sujeito passivo principal apresentou impugnação, fato que reflete para os demais qualquer decisão. ainda que intempestiva a impugnação, deve o julgamento ser convertido em diligência para apurar o erro de fato e de direito apontado, com base no inciso III, do art. 145 e no art. 149, do CTN. a recorrente não foi intimada para prestar qualquer esclarecimento ou mesmo apresentar documentos. ocorreu erro de fato na decisão de primeira instância uma vez que não se pronunciou quanto ao argumento de que as empresas citadas já existiam antes da recorrente, com independência financeira e gerencial. a decisão recorrida cita email que comprovaria a prática reiterada de omissão de receita, cita pessoas que não fazem parte da estrutura da recorrente; registra que a recorrente sequer foi citada no email. não é crível, por tal "prova", afirmar que a CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA orientava a suposta filial, bem como comprovaria a prática de omissão de receita, estendendo a responsabilidade solidária à recorrente. não consta do Relatório de Ação Fiscal a indicação dessas provas citadas pelo julgador, logo, além de erro de fato, estamos diante de uma nova auditora em verdadeira substituição da fiscalização no fundamento do auto de infração, motivo pelo qual deve ser anulada a decisão recorrida. o fundamento da qualificação da multa seria a estratégia da empresa CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA, dividindo suas receitas em pequenas parcelas, simulando a existência de dezenas de unidades independentes com a finalidade de enquadrarse no lucro presumido, não encontra respaldo na norma e no entendimento pacífico do CARF, não Fl. 35432DF CARF MF 22 restando comprovado o dolo, ou seja, a intenção de omitir ou retardar o conhecimento da autoridade fazendária o fato gerador. analisando o Termo de Verificação Fiscal, não é possível encontrar os argumentos e provas contundentes, nem mesmo identificar qual foi a conduta imputada à contribuinte principal, o que dirá da Responsável Solidária, pois o AuditorFiscal apenas citou os art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. só houve a citação de prática reiterada de omissão de receitas. decadência do ano de 2010; erro na base de cálculo dos tributos já recolhidos pela recorrente, devendo o julgamento ser convertido em diligência. finaliza requerendo: · afastar da imputação da responsabilidade solidária da recorrente. · a conversão do julgamento em diligência para apurar o erro de fato; · excluir a multa de ofício de 150%, reduzindoa para 75%; · excluir o período anterior a dezembro/2010 em razão da decadência do lançamento; · que a base de cálculo seja a movimentação financeira expurgando valores que dispensam demonstração de origem, como devolução de cheque O responsável solidário Eloy Tuffi apresentou recurso voluntário em 08/03/2017, com as seguintes alegações: o fundamento para responsabilização solidária constante no Relatório da Ação Fiscal decorre do fato de que os sócios tinham poder de decisão e a utilização de conta correntes para pagamento de gastos pessoais. em erro de fato na análise do material coligido aos autos, o julgador manteve o recorrente como responsável solidário por entender que o mesmo tinha ascendência no grupo econômico, alardeando que houve desvio de recursos das contas bancárias para negócios particulares, sendo demonstrada tentativa de blindagem patrimonial através de constituição de empresas em nomes de terceiros. as citadas empresas foram constituídas anteriormente ao fato gerador, não sendo crível a suposta blindagem, não havendo prova de fraude ou simulação. a responsabilidade foi imputada sem prova das condutas praticadas com excesso de poder e/ou infração à lei, devendo a mesma ser afastada. Fl. 35433DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.423 23 ainda que se mantenha a responsabilidade tributária, o lançamento não subsiste, pois é nulo em razão de (i) impossibilidade de arbitramento; (ii) cerceamento ao direito de defesa, pois a recorrente não teve acesso ao trabalho investigativo utilizado pela fiscalização; (iii) utilização de documentos obtidos na sala e computador do advogado; (iv) cerceamento ao direito defesa, pois há dúvidas quanto ao valor que teria sido omitido; (v) ausência de individualização do material apreendido pela Polícia Federal; (vi) falta de intimação da responsável solidária MC CAMP Distribuidora de Livros LTDA, o que torna a decisão recorrida nula. caso a decisão de primeira instância não seja reformada, seja no mérito ou nas nulidades suscitadas, requer a retificação do lançamento para: · afastar da imputação da responsabilidade pessoal da recorrente. · excluir o ano de 2012, pois é incabível o arbitramento sem qualquer intimação; · excluir a multa de ofício de 150%, reduzindoa para 75%; · excluir o período anterior a dezembro/2010 em razão da decadência do lançamento; · que a base de cálculo seja a movimentação financeira expurgando valores que dispensam demonstração de origem, como devolução de cheque. A responsável solidária MC Cursos e Recebimentos de Cheques S/S LTDA apresentou recurso voluntário em 13/06/2017, com as seguintes alegações: a recorrente e a empresa autuada nunca foram sócias ou tiveram qualquer relacionamento societário que pudesse caracterizar uma cisão ou uma divisão das atividades. a recorrente nunca participou da gestão administrativa da empresa autuada, tendo apenas prestados serviços de recebimentos de cheques. em decorrência do processo de divórcio, a Sra. Marlene obteve liminar que lhe conferiu a administração de 29 empresas, em abril de 2011. o critério para a partilha levou em consideração que, de fato, cada ex cônjuge era responsável por parte das empresas, ficando a recorrente sob administração da Marlene Rito Nicolau. até a separação, a Sra. Marlene era sócia apenas no papel, pois a condução dos negócios ficava com o Sr. Eloy Tuffi. Fl. 35434DF CARF MF 24 as empresas que passaram a ser administradas pela Sra. Marlene a partir de 2011 não se confundem com a empresa autuada, possuindo endereços e gestões administrativas diferentes. a fiscalização interpretou que essa operação seria uma cisão parcial, considerando que uma determinada sociedade denominada Microcamp ABC, sediada em Campinas, cindiu e criou outra sociedade em São Paulo, Microcamp ABC/SP com a denominação da recorrente. cisão possui requisitos e procedimentos próprios que não ocorreram no presente caso, mas sim uma partilha de bens de um casal, com a divisão de um patrimônio comum, sem tentativa de sonegação fiscal ou planejamento de evasão. os artigos 135 e 124, inciso I, ambos do CTN, são inaplicáveis pela falta de comprovação de fatos que permitissem esses enquadramentos. caso mantida a autuação, que a multa de ofício seja reduzida para 75%, pois a fiscalização não individualizou condutas da recorrente, não fazendo prova de nenhuma conduta que pudesse sustentar a acusação fiscal, assim como não há confusão patrimonial ou de ocorrência de gestão da empresa autuada pela recorrente. se mantida a autuação, que seja excluído o anocalendário de 2010 em razão da decadência de lançar, nos termos do artigo 150, § 4º do CTN. não houve participação da recorrente no procedimento fiscalizatório, visto que se afastou antes da fiscalização, e não tem condições de apresentar documentos da empresa autuada com vistas ao eventual questionamento das acusações fiscais, mais um motivo para afastar a multa qualificada. A responsável solidária Marlene Rito Nicolau apresentou recurso voluntário em 13/06/2017, com as seguintes alegações: a recorrente ajuizou ação de divórcio em abril de 2011. o critério para partilha levou em consideração que cada excônjuge era responsável por parte das empresas, sendo que a empresa autuada CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA era de administração exclusiva do Sr. Eloy Tuffi. a audiência de conciliação, realizada em 2013, confirmou a manutenção da empresa autuada sob a administração do Sr. Eloy Tuffi. até a separação, a recorrente era sócia apenas no papel, pois a condução dos negócios ficava com o Sr. Eloy Tuffi. as empresas que passaram a ser administradas pela recorrente não se confundem com a empresa autuada, possuindo endereços e gestões administrativas diferentes. a recorrente jamais participou da gestão administrativa, contábil e fiscal da empresa autuada, função que sempre foi desempenhado pelo Sr. Eloy Tuffi, sendo inaplicável o artigo 135 do CTN. Fl. 35435DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.424 25 o simples fato de ser sócia é insuficiente para atribuição de responsabilidade tributária, além de não ter sido comprovado qualquer ato com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. também é inaplicável o artigo 124, inciso I do CTN pela falta de comprovação do "interesse comum" na ocorrência dos fatos geradores. caso mantida a autuação, que a multa de ofício seja reduzida para 75%, pois a fiscalização não individualizou condutas da recorrente, não fazendo prova de nenhuma conduta que pudesse sustentar a acusação fiscal, assim como não há confusão patrimonial ou de ocorrência de gestão da empresa autuada pela recorrente. se mantida a autuação, que sejam excluídos os lançamentos de PIS e COFINS dos meses de janeiro a novembro de 2010 em razão da decadência de lançar, nos termos do artigo 150, § 4º do CTN, sendo fato incontroverso que a recorrente efetuou pagamentos. não houve participação da recorrente no procedimento fiscalizatório, visto que se afastou antes da fiscalização, e não tem condições de apresentar documentos da empresa autuada com vistas ao eventual questionamento das acusações fiscais, sendo mais um motivo para afastar a multa qualificada. caso mantido o lançamento, que o julgamento seja convertido em diligência para comprovar os pagamentos de PIS e COFINS dos meses de janeiro a novembro/2010, para fins de contagem do prazo decadencial previsto artigo 150, § 4º do CTN. A responsável solidária ENNT Comércio, Serviços e Participações EIRELI apresentou recurso voluntário em 13/06/2017, com as seguintes alegações: a recorrente nunca foi uma empresa prestadora de serviços às sociedades integrantes das Empresas MICROCAMP, enquanto vigorou a sociedade entre seus sócios. a recorrente foi constituída em setembro de 2011, tendo como sócios José Nabais Nicolau e Eloyse Nathalia Nicolau Tuffi; já as empresas MICROCAMP pertenciam aos pais de Eloyse, o Sr. Eloy Tuffi e a Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi. em decorrência do processo de divórcio, a Sra. Marlene obteve liminar que lhe conferiu a administração de 29 empresas, em abril de 2011. o critério para a partilha levou em consideração que, de fato, cada ex cônjuge era responsável por parte das empresas, ficando a empresa autuada CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA sob administração do Sr. Eloy Tuffi. a recorrente não é citada em momento algum seja o esboço de partilha, seja no acordo celebrado entre as partes; nem poderia, pois não pertencia à nenhuma delas. considerando a filha Eloyse ficou sob a guarda da mãe, a ora recorrente, da qual Eloyse passou a ser a única sócia, iniciou suas atividades exclusivamente para as empresas Fl. 35436DF CARF MF 26 que ficaram com MARLENE, jamais tendo prestado serviços às que permaneceram com o pai, dentre as quais a empresa autuada. a fiscalização interpretou que essa operação seria uma cisão parcial, considerando que uma determinada sociedade denominada Microcamp ABC, sediada em Campinas, cindiu e criou outra sociedade em São Paulo, Microcamp ABC/SP com a denominação da recorrente. cisão possui requisitos e procedimentos próprios que não ocorreram no presente caso, mas sim uma partilha de bens de um casal, com a divisão de um patrimônio comum, sem tentativa de sonegação fiscal ou planejamento de evasão. os artigos 135 e 124, inciso I, ambos do CTN são inaplicáveis pela falta de comprovação de fatos que permitissem esses enquadramentos. caso mantida a autuação, que a multa de ofício seja reduzida para 75%, pois a fiscalização não individualizou condutas da recorrente, não fazendo prova de nenhuma conduta que pudesse sustentar a acusação fiscal, assim como não há confusão patrimonial ou de ocorrência de gestão da empresa autuada pela recorrente. se mantida a autuação, que seja excluído o anocalendário de 2010 em razão da decadência de lançar, nos termos do artigo 150, § 4º do CTN. não houve participação da recorrente no procedimento fiscalizatório, visto que nunca participou do quadro de sócios da empresa autuada, e não tem condições de apresentar documentos da empresa autuada com vistas ao eventual questionamento das acusações fiscais, mais um motivo para afastar a multa qualificada. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões aos recursos voluntários, com os seguintes argumentos: => Nulidades arguidas. não tem cabimento a preliminar de nulidade pela falta de intimação do responsável solidário, pois restou comprovado que foi devidamente notificado do lançamento por carta com aviso de recebimento. a falta de intimação sequer seria causa de nulidade, mas sim a possibilidade, em tese, de sua exclusão do pólo passivo. também não é causa de nulidade a dedutibilidade dos tributos pagos anteriormente, pois reclama apenas possível ajuste quando da execução do julgado. esclarece que a intimação durante a Ação Fiscal não é requisito de validade do lançamento, porquanto "O procedimento fiscal é informado pelo princípio da inquisitoriedade, no qual a autoridade fiscal reúne o acervo fáticoprobatório suficiente à formação de seu convencimento acerca da infração. Desta forma, não há obrigatoriedade da notificação do responsável tributário nesta fase preparatória" também não houve cerceamento ao direito de defesa, sendo que muitas alegações suscitadas refletem discordância quanto a valoração das provas, questão afeta ao mérito. Fl. 35437DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.425 27 também não assiste razão quanto à invocada nulidade por violação de prerrogativa da advocacia, o Plenário do STF assentou que a inviolabilidade de escritório de advocacia não é absoluta, podendo ser afastada quando o próprio advogado é suspeito da prática de crime. o local de realização da medida de busca e apreensão não correspondia à escritório de advocacia, e quem possuía habilitação para exercer a profissão de advogado "atuava, na verdade, como gestor do grupo de empresas MICROCAMP". busca e apreensão foi realizada em local onde eram praticados atos voltados à sonegação fiscal, passíveis eventualmente de tipificação como crimes contra a ordem tributária, e não recaiu sobre escritório de advocacia. não se identifica a alegada "confusão" no Relatório Fiscal; os fatos apurados e os critérios legais utilizados pela Autoridade Fiscal encontramse objetivamente esclarecidos, não havendo prejuízo para a defesa. a leitura do Relatório demonstra que não há margem às dúvidas mencionadas nas razões recursais, pois ficou claro que o arbitramento se deu porque "a empresa não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, mesmo após intimada a adequar sua escrituração. carece de previsão legal a exigência de que o Fiscal instaure uma espécie de contraditório específico para desqualificar a escrituração fiscal, após cotejála com extratos bancários do contribuinte, sendo que o arbitramento realizado observou os ditames dos arts. 529 e 530 do RIR/1999. esta não é a sede apropriada à insurgência contra a ausência de individualização de todos os documentos apreendidos pela Polícia Federal; tal questão pode em tese ser arguida nos autos do procedimento criminal. => O desvirtuamento da personificação como meio para evasão de tributos. Fatos e provas da sonegação. os recorrentes sustentam que houve erro na análise do material probatório e defendem a prevalência de suposta autonomia e independência das diversas pessoas jurídicas que compõem o grupo Escola MICROCAMP/ABC. o Relatório Fiscal é resultado do exame de farta prova documental obtida mediante decisão judicial que autorizou medida de busca e apreensão e quebra de sigilo bancário, no âmbito de Inquérito Policial. a Fiscalização conseguiu demonstrar que a criação de mais de cinco dezenas de pessoas jurídicas, todas constituídas pelos mesmos sócios e tendo o mesmo objeto (atividade de ensino), não refletia a realidade e tinha único propósito de sonegar tributos. tal constatação encontrase amparada nos seguintes elementos probatórios: 1. Vinculação de todas as unidades da Escola MICROCAMP/ABC à CRC Central de Recebimento de Cheques e à MC CAMP Distribuidora de Livros e Informática Fl. 35438DF CARF MF 28 Ltda, chamada de "holding informal": a liquidez financeira dos estabelecimentos de ensino era transferida continuamente, na forma de dinheiro em espécie e de cheques, a essas duas empresas, as quais funcionavam como "matriz de fato", sendo que não há provas que estes recursos retornavam para as filiais indicando que seriam independentes. Da matriz de fato partiam ordens de funcionamento a serem executadas por gerentes e diretores das unidades, incluindo determinações sobre salários, bem como números de funcionários a serem contratados. Destaquese ainda a referência feita em email enviado por funcionário de nome João Alencar ao VicePresidente da Escola MICROCAMP/ABC, tendo como conteúdo faturamento das "filiais", nos anos de 2011 e 2012 (fl. 33.648). 2 Identidade de sócios administradores e produção em série de contratos sociais quase idênticos apresentando o mesmo objeto social: todas as unidades tinham os mesmos sócios administradores, Eloy Tuffi e Marlene Rito Nicolau Tuffi, e em algumas delas ainda figurava como administrador o filho do casal, Davi Tuffi. 3 Ao confrontar as DIPJs oriundas de cada CNPJ pertencente ao grupo com documentos apreendidos na matriz, a Autoridade Fiscal identificou a repetição da utilizar base de cálculo no valor aproximado de 20% das mensalidades auferidas para o recolhimento do IRPJ e da CSLL; 4 A Fiscalização constatou que as unidades abriam contas correntes independentes, muito embora sujeitas à movimentação a partir de critérios estabelecidos pela matriz, conforme se verifica no conteúdo de emails e no conjunto de extratos bancários associados a registros de reais faturamentos 5 Único contador para todas as unidades da Escola MICROCAMP/ABC: na matriz da MICROCAMP/ABC eram confeccionadas as DIPJs das unidades. As declarações de todas foram encontradas nos computadores do contador da matriz da Escola MICROCAMP/ABC . restou demonstrado que a segregação da Escola MICROCAMP/ABC em pessoas jurídicas sem autonomia teve como finalidade reduzir o valor dos tributos devidos, permitindo omitir receitas que superam R$ 300.000.000,00, nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012. destaca a existência de mensagens eletrônicas que evidenciam a intenção de sonegar fatos geradores, ao demonstrar a preocupação de evitar registros sobre a deliberada prática de omitir receitas. a ordem jurídica não proíbe que pessoas físicas sejam sócias de mais de uma empresa e que compartilhem despesas, mas, in casu, foi possível identificar que o fato associativo contemplava apenas propósito e objeto social únicos, os quais foram definidos e executados pelo então casal Eloy Tuffi e Marlene Rito Nicolau Tuffi. a alegada autonomia contábil e gerencial não resiste ao exame das provas colhidas, pois as diretrizes fundamentais da atuação das unidades partiam da chamada "matriz de fato", que exercia hierarquia administrativa sobre cada estabelecimento. mensagens eletrônicas fazem referência ao "faturamento, despesas e remessa das filiais", o que demonstra que havia de fato apenas uma única empresa (destacou se). a Autoridade Fiscal trouxe fundamentos suficientes para demonstrar que a prática evidenciada consiste em simulação, nos termos do art. 167 do Código Civil, uma vez Fl. 35439DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.426 29 que "os proprietários da fiscalizada sempre tiveram a intenção de fraudar a fiscalização tributária federal, criando na aparência as condições formais para que filiais de uma grande empresa aparentassem serem empresas independentes e que essa realidade simulada pudesse ser oposta à Secretaria da Receita Federal do Brasil" os motivos aparentes alegados facilidade de transferência a outros franqueados e adoção de modelo comum ao mercado não coincidem com o motivo real, o qual, conforme fartamente demonstrado, é a pulverização do negócio para facilitar a sonegação fiscal. simples referência, no Relatório Fiscal, a supostas unidades franqueadas não têm o condão de infirmar o lançamento, cujo arbitramento teve como base dados colhidos na chamada "matriz de fato", onde se concentravam as receitas das unidades pertencentes ao casal Eloy e Marlene, motivo pelo qual, por óbvio, não levou em conta possíveis unidades franqueadas. também não procede a afirmação de que a DRJ manteve o crédito tributário baseada em fatos não incluídos no lançamento, sendo evidente que os fundamentos legais (artigo 31 do Decreto nº 70.235/72) exigidos na motivação da decisão não se resumem à mera reprodução daqueles constantes no lançamento. a jurisprudência do CARF já assentou entendimento de que "A decisão de primeira instância tem sua amplitude delimitada no debate entre a impugnação e o lançamento, razão pela qual pode conter, em relação ao lançamento original, argumentos adicionais no intuito de reforçar o posicionamento do julgador ou de rebater as razões de defesa relevantes da impugnante. Tanto é assim que há previsão no processo administrativo fiscal de apresentação de prova após a impugnação que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (art. 16, § 4°, "c" do Decreto n° 70.235/72)" (Acórdão 3402004.073, Relatora MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA, julgado em 26/4/2017). não há ilegalidade na referência feita pelo órgão julgador a elementos que, embora não tenham sido mencionados expressamente no Relatório Fiscal, sejam pertinentes aos fatos nele descritos. => Base de Cálculo a autuada foi intimada a adequar sua escrituração contábil e fiscal para que fosse possível apurar os tributos de acordo com a sistemática do lucro real, contudo "a empresa não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil", o que justificou o arbitramento do lucro, nos termos do art. 47 da Lei 8.981/1995. evidenciada a simulação, artifício utilizado para que cada unidade de ensino apurasse o IRPJ e a CSLL no regime do lucro presumido, afigurase manifesta a improcedência da alegação de descabimento do arbitramento, por extrapolar o limite legal. a DRJ entendeu corretamente que o arbitramento teve como referência "pastas gerenciais referentes aos dados de todas as filiais, as quais demonstram controle mensal do faturamento de cada unidade e também as despesas e remessas de recursos à matriz. Tais pastas gerenciais tiveram o respectivo conteúdo corroborado, em procedimentos de auditoria fiscal, mediante confronto com a documentação remetida pelas filiais para a matriz, apreendida Fl. 35440DF CARF MF 30 na matriz, composta de Relatórios de Fechamento Mensais, Relatórios de Conciliação de Contas das filiais e Extratos de Movimento de Caixa" a Fiscalização teve acesso a diversos emails mediante os quais eram compartilhados os dados reais de faturamento de todos os estabelecimentos, sendo o lucro arbitrado com base na receita bruta conhecida, conforme autorizado pelo art. 532 do RIR/99. não foi possível identificar as receitas oriundas de cada atividade, especialmente a de vendas, sendo aplicado o percentual mais elevado para o arbitramento da base de cálculo (art. 24, § 1°, da Lei 9.249/1995), motivo pelo qual não há falar em vício na apuração do valor do tributo devido. os argumentos apresentados no Recurso Voluntário não passam de mera tentativa de desqualificar provas produzidas pelo próprio contribuinte, as quais atendem perfeitamente ao princípio da verdade material. não se verifica, na legislação, exigência alguma de que extratos bancários sejam o único meio de informação da receita bruta sujeita ao arbitramento => Sujeição Passiva. Responsabilidade Tributária. a sujeição passiva principal da CRC já se encontra fartamente demonstrada, pois ela figurava como centro para o qual eram direcionadas todas as receitas auferidas pelas unidades da Escola MICROCAMP/ABC, de modo que era a pessoa jurídica que possuía "relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador" (art. 121, parágrafo único, I, do CTN). a MC Camp Distribuidora de Livros Ltda formava, juntamente com a CRC, a denominada "matriz de fato", compondo em conjunto indissociável a matriz da Escola Microcamp/ABC. a MC Camp possuía "interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal", nos termos do art. 124, I, do CTN. não passa de mera alegação a afirmação de que MC Camp não tem relação alguma com os proprietários da CRC, pois, no termo de audiência do divórcio do casal constante nos autos, consta expressamente que "Pertencerá exclusivamente ao varão as seguintes empresas: (...) MC Camp Distribuidora de Livros Ltda". o fato ter sido criada antes da CRC em nada afeta a responsabilidade solidária. conforme assentado em precedente do CARF, "Demonstrado nos autos a existência de grupo de fato (...), restou caracterizado o interesse comum das empresas do grupo, dentre elas a recorrente, motivo pelo qual concluise pela procedência da atribuição da responsabilidade solidária, nos termos do art. 124, I, do CTN" (Acórdão n° 1301002.418, destacouse). tal entendimento se amolda com perfeição ao caso concreto, no qual se evidencia mais do que um simples interesse econômico entre as empresas CRC e MC Camp, visto a gestão conjunta de um grupo de fato formado por pessoas jurídicas que nada mais eram do que filiais de uma grande matriz. Fl. 35441DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.427 31 quanto às pessoas físicas, não resta dúvida de que, na condição de sócios administradores das pessoas jurídicas, praticaram atos com infração à lei, ao deliberadamente simularem determinadas situações de fato para fraudar a Administração Tributária Federal e sonegar tributos, justificando a incidência da regra de responsabilidade prevista no art. 135, III, do CTN: o modelo criado para a gestão das unidades, compartilhada por CRC e MC Camp, foi reproduzido após a separação do casal para a administração dos estabelecimentos de ensino que passaram a pertencer a Marlene Rito. a Fiscalização identificou a ocorrência de uma "cisão parcial de fato", de modo que se mostra inócua a discussão trazida pelas recorrentes de que não foram preenchidos os requisitos da Lei 6.404/76. o Relatório Fiscal é voltado à demonstração da existência de simulação, ao passo que as recorrentes MC Cursos e ENNT se atém a meros argumentos formais. a acusação fiscal é resultado de substancioso exame de documentos apreendidos por determinação da Justiça Federal, e a cisão de fato se encontra bem retratada no mencionado termo de audiência de divórcio, sendo causa de responsabilidade tributária, conforme definido pelo STJ em recurso repetitivo (REsp 923.012/MG) nesse julgado, o STJ fixou entendimento de que, na responsabilidade tributária por sucessão (arts. 132 e 133 do CTN), os tributos e as multas "acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que seu fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão" ; logo, o crédito tributário acompanha o patrimônio transferido, independentemente da prévia existência da sucessora, o que revela a improcedência dos argumentos aduzidos por MC Cursos e ENTT. => Qualificação da multa e incidência do artigo 173, I, do CTN os fatos que ensejaram a qualificação da multa já foram debatidos no tópico atinente aos fatos e provas da sonegação. é questionada a aplicação da multa de ofício qualificada, ao argumento, em síntese, de que não há motivo que justifique a penalidade. as provas trazidas pela Autoridade Fiscal comprovam que os envolvidos, de forma simulada, criaram artificialmente pessoas jurídicas que não possuíam autonomia administrativa e financeira verdadeiras filiais subordinadas a uma "matriz de fato" , com a finalidade de sonegar o pagamento de tributos. não se encontram presentes quaisquer das situações previstas no art. 112 do CTN, motivo pelo qual descabe invocar a incidência do princípio in dubio pro reo. a incidência da multa qualificada em relação aos sócios e às empresas que formam a "matriz de fato" (CRC e MC Camp) é evidente. Eloy Tuffi e Marlene Rito criaram a Escola MICROCAMP/ABC e montaram a estrutura que simulava a aparência de pessoas jurídicas em vez de "filiais de uma grande empresa". Fl. 35442DF CARF MF 32 no presente caso, é manifesta a identidade entre os elementos subjetivos das pessoas físicas e das pessoas jurídicas envolvidas, uma vez que as provas demonstram que Eloy e Marlene "possuem a propriedade direta e poderes que lhe são diretamente concedidos através de Contratos Sociais simulados, o que lhes permite comandar e controlar totalmente a Escola MICROCAMP/ABC e todas as filiais que a compõem". com a ocorrência da "cisão de fato" explicitada pela Fiscalização, Marlene Rito criou e passou a comandar as empresas MC Cursos e ENNT, as quais compõem a "matriz de fato" das 29 unidades a ela pertencentes de fato após o divórcio, de modo que essas pessoas jurídicas passaram a compor o esquema de sonegação fiscal, o que justifica a imposição de multa qualificada também a elas. consequência da simulação comprovada é que o termo inicial do prazo decadencial passa a ser regido pelo art. 173, I, do CTN. finaliza requerendo a União que seja negado provimento aos Recursos Voluntários, mantendose a decisão recorrida. É o relatório. Voto Conselheira Maria Lucia Miceli Relatora DA ADMISSIBILIDADE DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS Inicio a análise dos requisitos de admissibilidade pelo recurso voluntário apresentado pela MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA, em 09/06/2017, acostado aos autos às fls. 35.235/35.256. Deixo de conhecêlo uma vez que a responsável solidária não apresentou impugnação em face do lançamento, conforme restou consignado na decisão de primeira instância, abaixo transcrita: As impugnações apresentadas por CRC, MC CURSOS, ENNT, Eloy Tuffi e Marlene Rito Nicolau atendem aos requisitos de admissibilidade, razão pela qual delas conheço. A MC CAMP não impugnou a imputação a ela de responsabilidade tributária pelos créditos tributários lançados contra a CRC. Uma vez que a responsável solidária MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA não apresentou impugnação, ela está fora do litígio instaurado no âmbito do processo administrativo fiscal, não podendo mais se manifestar. Diferente do que alega em seu recurso, o fato de o sujeito passivo principal do lançamento apresentar impugnação, a instauração da lide fica limitada a este. Devese esclarecer que a CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA não possui legitimidade processual para defender os interesses da MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA. A falta de legitimidade da pessoa jurídica para defender os interesses de terceiros já foi objeto de julgamento por esta 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara desta Primeira Seção do CARF, por meio do Acórdão nº 1302002.570, da lavra do i. Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo, do qual transcrevo a ementa sobre a matéria: Fl. 35443DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.428 33 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. PESSOA JURÍDICA. LEGITIMIDADE PARA RECORRER. Por falta de legitimidade para representar as pessoas físicas arroladas como responsáveis tributários, não se conhecem das alegações veiculadas pelo contribuinte principal quanto à a exclusão de terceiros do pólo passivo da obrigação tributária. No citado Acórdão, o Conselheiro também cita decisão no STJ, nos autos do Recurso Especial nº 1.347.627 (Rel. Min. Ari Pargendler, DJe 21/12/2013), concluindo pela ilegitimidade da pessoa jurídica para interpor recurso em defesa de interesse de terceiros. Abaixo transcrevo parte do voto condutor: Tratouse de julgado conforme o procedimento previsto para os Recursos Repetitivos, na forma do art 543C, do Código de Processo Civil de 1973, o que atrairia o art. 62, §2º, do Regimento Interno do CARF, pelo que transcrevo a ementa: "PROCESSO CIVIL. EMBARGOS DO DEVEDOR. A pessoa jurídica não tem legitimidade para interpor recurso no interesse do sócio. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ n. 8/08." Portanto, deixo de conhecer do recurso voluntário apresentado pela responsável solidária MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA. Os demais recursos voluntários foram apresentados nas seguintes datas: Sujeito Passivo Data da Ciência Recurso Voluntário CRC CENTRAL DE RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA AR 14/02/2017 08/03/2017 MC CURSOS E RECEBIMENTOS DE CHEQUES S/S LTDA AR 12/05/2017 13/06/2017 ENNT COMÉRCIO SERVIÇOS E PARTICIPAÇÕES EIRELI AR 12/05/2017 13/06/2017 Sr. Eloy Tuffi AR 12/05/2017 08/03/2017 Marlene Rito Nicolau Tuffi. Edital 08/06/2017 14/06/2017 Demonstrado que os recursos são tempestivos, e atendem aos demais requisitos de admissibilidade, deles eu conheço. DO LANÇAMENTO Diante do extenso Relatório de Ação Fiscal, fazse necessário um resumo dos fatos verificados no âmbito da Operação "AVARITIA", ação conjunta envolvendo a Receita Federal do Brasil, a Polícia Federal e o Ministério Público, na qual constatouse que a Escola MICROCAMP/ABC utilizouse de uma estratégia de multiplicação de CNPJ para poder efetuar uma pulverização das atividades da empresa, com a finalidade de minimizar seus riscos tributários. Tratase de uma estrutura empresarial constituída de matriz e filiais, que embora tenham CNPJ próprios, não possuem independência financeira e gerencial. Para gerenciar as filiais, a matriz era formada por duas empresas "holdings informais", cujos sócios seriam Sr. Eloy Tuffi e Sra. Marlene Nicolau Tuffi, cada um com 50% de participação, a saber: Fl. 35444DF CARF MF 34 1) CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA sujeito passivo principal => responsável pelo gerenciamento financeiro, na qual concentrava os recursos financeiros recebidos das filiais, por meio de cheques ainda por compensar e dinheiro em espécie, sob a roupagem de empresa de factoring. 2) MC CAMP Distribuidora de Livros e Informática LTDA sujeito passivo solidário => tinha como função dar o suporte técnico e administrativo para as atividades da Escola MICROCAMP/ABC. Durante a operação, que incluiu Mandados de Busca e Apreensão, verificou se a existência de relatórios de controle do faturamento real de todas as filiais, bem como foi possível identificar o fluxo financeiro praticado. Os faturamentos apurados com base nestes relatórios serviram de base para determinação dos tributos devidos, tendo o lucro arbitrado e a multa de ofício qualificada. Em regra, as filiais declaravam, e depositavam em contas correntes próprias, em torno de 20% a 30% de seu faturamento, utilizando estes recursos para pagar parte de suas despesas, incluindo os tributos federais declarados na sistemática do Lucro Presumido. Outra parte, em torno de 45% a 55%, era utilizado para pagar as demais despesas não contabilizadas. O restante do faturamento era remetido para a CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA, que girava em torno de 25% do total arrecadado com as matrículas. No anocalendário de 2010, o grupo contava com 64 filiais. Em agosto de 2011, houve uma cisão com divisão das filiais entre os dois sócios, Sr. Eloy Tuffi e Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi, em função do divórcio. A autuação para os meses a partir de setembro/2011 até dezembro/2012 envolveu as 29 filiais que passaram a responder exclusivamente ao Sr. Eloy Tuffi. Além disso, também foram responsabilizados solidariamente as seguintes pessoas físicas e jurídicas: Passo à análise dos recursos voluntários. RECURSO VOLUNTÁRIO DA AUTUADA CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA Fl. 35445DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.429 35 Em que pese a recorrente iniciar a defesa com questões de mérito, inverto a ordem por entender ser a mais cabível processualmente. Portanto, passo a analisar a preliminar de nulidade do lançamento em razão de: (i) ausência de intimação da MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA; (ii) impossibilidade de arbitramento pela inexistência de decretação de desclassificação da escrituração; (iii) ausência de intimação para recompor a escrituração do anocalendário de 2012; (iv) cerceamento ao direito de defesa pela ausência de análise das provas, gerando dúvida quanto ao valor omitido e (v) violação à prerrogativa profissional. Passo a me pronunciar. A recorrente inicia a nulidade afirmando que a responsável solidária MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA não teria sido intimada do lançamento. Entretanto, é possível verificar a correta intimação do auto de infração em 17/12/2015, conforme atesta o Aviso de Recebimento acostado aos autos às fls. 34.159. Quanto ao arbitramento, no que concerne a sua suposta ilegalidade, ou até mesmo a falta de intimação para recompor a escrituração contábil e fiscal do anocalendário de 2012, seriam questões de mérito que levariam à improcedência do lançamento. Estas matérias serão analisadas em momento oportuno. Com relação à ausência da análise das provas, apresentadas para esclarecer os depósitos bancários, cumpre esclarecer que o presente lançamento não decorre de omissão de receitas com base na presunção legal prevista no artigo 42 da Lei nº 9.430/96. Conforme relatado, a base de cálculo foi obtida nos documentos apreendidos por meio de Mandados de Busca e Apreensão nº 15/2014 e 16/2014. As pastas gerenciais obtidas demonstravam controle do faturamento mensal das filiais, sendo seu conteúdo corroborado mediante confronto com a documentação remetida pelas filiais para a matriz. Portanto, em que pese a recorrente ter sido intimada a esclarecer a origem do depósitos bancários, a fiscalização optou por determinar os créditos tributários utilizando a base de cálculo obtida por meio daqueles documentos, por revelarem o real faturamento do grupo. Logo, é desnecessária a análise dos documentos apresentados em resposta às intimações para esclarecer a origem dos depósitos bancários, motivo pelo qual não ocorre qualquer cerceamento ao seu direito de defesa. Aliás, a própria recorrente questiona a discrepância entre o valor apurado nos documentos apreendidos, que demonstram um faturamento de R$ 310 milhões, com relação à movimentação financeira, de R$ 95 milhões no total. A explicação consiste no fato que as filiais remetiam cheques e dinheiro em espécie, não passando por contas bancárias e sequer lançados na contabilidade. Logo, correto o procedimento da autoridade fiscal em efetuar o lançamento tendo por base os relatórios obtidos durante a ação conjunta com Polícia Federal, acobertados pelos Mandados de Busca e Apreensão. Quanto à alegação de que não teria sido oportunizado à recorrente se manifestar quanto à base de cálculo do lançamento, ressalto que as planilhas obtidas na ação fiscal, em cumprimento de Mandados de Busca e Apreensão, são documentos de elaboração do próprio grupo Escola MICROCAMP para controle do faturamento das filiais. Abaixo, transcrevo parte do Relatório de Ação Fiscal: Fl. 35446DF CARF MF 36 Planilhas de controles mensais referentes a dados gerencias de todas as filiais foram encontrados no escritório do vice presidente da escola MICROCAMP/ABC, Dr. Edson Ferreira Lisboa, e demonstram que seus gestores tinham pleno conhecimento das remessas de recursos de suas filiais e mantinham rígido controle dessa coleta, chegando a fazer previsões precisas desses numerários captados (...). Importante frisar que os documentos foram obtidos na sala do vice presidente do grupo, Sr. Edson Ferreira Lisboa de forma absolutamente legal, sem qualquer violação à legislação como afirma a recorrente. Não houve inobservância do pedido de cautela da magistrada de verificar se no local existia escritório de advocacia. Aliás, restou consignado na decisão recorrida que " conforme consta do "Auto Circunstanciado de Busca e Arrecadação IPL n° 67/2014DPF/CAS/SP", os Mandados de Busca e Apreensão referidos foram exibidos e lidos, inclusive na presença de testemunhas, não havendo qualquer referência a suposta comunicação de que nos locais havia escritório de advocacia". Ademais, todos os documentos obtidos demonstram que o Sr. Edson Ferreira Lisboa atuava na direção do grupo, e não como advogado, estando de posse de Relatórios de Fechamento Mensais, Relatórios de Conciliação das contas da Filiais, Relatório de Endividamento de Filiais Extratos bancários de Conta Corrente das filiais e Extratos de Movimento de Caixa. Aliás, como bem asseverou a Procuradoria da Fazenda, nas contrarrazões, a inviolabilidade do escritório de advocacia não é absoluta, conforme trecho transcrito a seguir: O Plenário do STF assentou, no INQ 2.424, que a inviolabilidade do escritório de advocacia equiparado a domicílio não é absoluta, podendo ser afastada quando o próprio advogado seja suspeito da prática de crime. Extraise da ementa do referido precedente o seguinte: "Não opera a inviolabilidade do escritório de advocacia, quando o próprio advogado seja suspeito da prática de crime, sobretudo concebido e consumado no âmbito desse local de trabalho, sob pretexto de exercício da profissão" (Inq 2424, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, Tribunal Pleno, julgado em 26/11/2008, DJe 055 DIVULG 25032010 PUBLIC 26032010 EMENT VOL 0239502 PP00341). No presente caso, como bem observou a DRJ, além de o local de realização da medida de busca e apreensão não corresponder a escritório de advocacia, quem possuía habilitação para exercer a profissão de advogado "atuava, na verdade, como gestor do grupo de empresas MICROCAMP" (fl. 35.012). A busca e apreensão foi realizada em local onde eram praticados atos voltados à sonegação fiscal, passíveis eventualmente de tipificação como crimes contra a ordem tributária, e não recaiu sobre escritório de advocacia. Por fim, verifico que o lançamento foi lavrado com observação aos requisitos previstos no artigo 142 do CTN, fruto de análise minuciosa de todos os documentos apreendidos durante a ação conjunta envolvendo a Receita Federal do Brasil, a Polícia Federal e o Ministério Público, no âmbito da Operação "AVARITIA". O Relatório de Ação Fiscal contém todas as etapas levadas a efeito, análise de todos os documentos apreendidos, a Fl. 35447DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.430 37 metodologia de apuração da base de cálculo, e todos os demais elementos necessários para que a recorrente exercesse seu direito à ampla defesa e ao contraditório. Pelo exposto, afasto a preliminar de nulidade do lançamento. Ultrapassada a preliminar de nulidade, a recorrente pede a conversão do julgamento em diligência para verificar se houve erros e falhas da escrituração comercial e fiscal, quais valores foram excluídos do lançamento tributário e constavam nos extratos bancários, quais créditos bancários geraram dúvidas e quais valores foram transferidos pelas empresas citadas. Solicita, ainda, que a diligência providencie a exclusão dos documentos obtidos na sala do advogado da empresa Sr. Edson Ferreira Lisboa. A diligência deve ser negada pois a análise dos extratos bancários em nada interferem no lançamento. Como dito antes, o lançamento não decorre da presunção de omissão de receita previsto no artigo 42 da Lei nº 9.430/96. Quanto à verificação se há falhas na escrituração comercial e fiscal, também não há necessidade, pois os documentos apresentados pela recorrente durante a ação fiscal estão nos autos, sendo possível a esta conselheira formar convicção se era cabível ou não o arbitramento do lucro, que será devidamente analisado no mérito. Por fim, diligência não se presta para exclusão de documentos acostados aos autos, principalmente se obtidos de forma legal, e que se prestam para demonstração do ilícito tributário. No mérito, a recorrente afirma que as empresas são independentes, e que a decisão recorrida incorreu em erro de fato e de direito na análise do material coligido aos autos, citando exemplos que não constavam no Relatório. Não há como acatar a afirmação de que as empresas seriam autônomas, e que a recorrente teria atuado como um Centro de Serviços Compartilhados. Os documentos apreendidos demonstram justamente o contrário, e a decisão recorrida foi impecável em sua análise, não se limitando a transcrever o Relatório de Ação Fiscal, mas sim analisando todos os elementos de prova constantes nos autos. De fato, é farta a comprovação de que as filiais eram totalmente dependentes, sem qualquer autonomia gerencial ou financeira. Durante a operação, foram apreendidos: 1) documentos que comprovam os valores remetidos e apresentam detalhes sobre os numerários que eram carreados mensalmente da filiais para a matriz; 2) planilhas com controles mensais referentes a dados gerenciais de todas as filiais, com previsão dos numerários a serem arrecadados e o percentual de cumprimento das metas, com base nas quais eram distribuídos prêmios; 3) controles gerenciais demonstrando que as filiais eram divididas em time designados por cores de acordo com o faturamento anual, sendo elaborado ranking entre elas. 4) emails demonstrando rígido controle dos processos trabalhistas sofridos por todas as filiais; 5) comunicados orientando, de maneira centralizada, acerca dos salários do "Professor", "Coordenador" e "Pedagoga", bem como o número de demissões dos funcionários. Fl. 35448DF CARF MF 38 O conjunto probatório é mais que suficiente para demonstrar que o grupo, denominado na ação fiscal de Escola MICROCAMP/ABC, é gerenciado de forma centralizada pela recorrente, e também pela MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA, e que as demais empresas, ainda que (1) possuíssem CNPJ próprio, (2) tivessem apresentado DIPJ e DCTF, (3) possuíssem funcionários e (4) despesas próprias, tinham a função precípua de arrecadadores, com total subordinação à matriz, com metas a cumprir e regras a observar, condições pertinentes a filiais. Há que se destacar a análise minuciosa desta farta documentação obtida, feita pela autoridade autuante, consubstanciada no "Anexo de Documentação Comprobatória" de fls. 33.703/33.914, do qual extraio os seguintes trechos: 2 Os documentos elencados abaixo comprovam documentalmente as bases de cálculo utilizadas para constituir se os créditos tributários lançados como decorrência da presente Ação Fiscal bem como demonstram a forma de constituição de matriz e filiais da Escola MICROCAMP/ABC, cuja matriz recebeu a razão social de CRC CENTRAL DE RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA. – ME em sua atuação conjunta com a MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS E INFORMÁTICA LTDA. 3 Esses documentos também demonstram que os sócios proprietários da Escola MICROCAMP/ABC, senhor Eloy Tuffi, CPF 507.066.08887 e senhora Marlene Rito Nicolau Tuffi, CPF 116.227.99828, fruíram dos recursos omitidos através de dispêndios pessoais levados a efeito através da utilização de conta corrente mantida em empresa paralela à matriz da fiscalizada, ACME Distribuidora de Livros Ltda. 4 Os documentos enumerados de DOC 0001 a DOC 0035 contém controles gerenciais encontrados na sala do vice presidente da Escola Microcamp/ABC, Dr. Edson Ferreira Lisboa, e demonstram o faturamento da escola para os anos calendário 2010, 2011 e 2012. 5 Os documentos enumerados de DOC 0036 a DOC 0071 contém documentos contábeis que comprovam a veracidade dos controles gerenciais encontrados na sala do vicepresidente da Escola Microcamp/ABC, e demonstram detalhadamente o faturamento da escola para os anoscalendário 2010, 2011 e 2012. (...) 51) DOC 0051 MICROCAMP 065 PORTO ALEGRE 308 folhas: Rabiscos a mão demonstrando que as despesas das unidades eram assim divididas: 20% Holding, 20% Presidência, 10% Marketing e Desenvolvimento de Pessoas, 30% destinados ao Sr. Eloy Tuffi e outros negócios e 20% restante para as unidades, Fechamento Mensal, Movimento de Caixa, Relatório de Endividamento de Filial, Extratos Bancários 11/2011 a 12/2012 Protocolo de entrega de documentos 2011; Aditivo de Contrato de Locação Predial 01/08/2011; Certidão de Casamento de Eloy Tuffi com Marlene Rito Nicolau em 20/04/1999; DIRPFs 2008/2007 de Marlene Rito Nicolau Tuffi e Eloy Tuffi; Fl. 35449DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.431 39 (...) Do exposto, concluo que restou comprovado que esta estrutura empresarial tinha o objetivo de dar uma aparência de legalidade nas operações comerciais, na qual a recorrente supostamente atuaria como factoring das empresas ligadas ao grupo da Escola MICROCAMP/ABC. Entretanto, o verdadeiro objetivo seria a sonegação de cerca de 80% do faturamento das filiais, recursos que eram gerenciados pela recorrente, que efetuava o pagamento das despesas necessárias para manutenção da estrutura organizacional, pagava despesas pessoais do Sr. Eloy Tuffi e Srs. Marlene Rito Nicolau, bem como investia em outros negócios pertencentes aos sócios. Entretanto, não havia qualquer registro contábil de todas estas operações. A seguir transcrevo o item 107 do Relatório de Ação Fiscal com a conclusão da autoridade autuante: 107 No presente caso em análise, o caso da indigitada Escola MICROCAMP/ABC, embora tenha havido o registro de um número superior a 60 (sessenta) filiais nos cadastros do CNPJ e o registro de Contratos Sociais independentes na Junta Comercial, fatos concretos existentes no mundo real permitem concluir que não existem sessenta ou mais empresas envolvidas, mas apenas uma grande empresa que se utilizou da simulação para deliberadamente reduzir os tributos e contribuições que eram devidos sobre as atividades por ela desempenhadas. Pelo exposto, afasto a alegação que seriam várias empresas autônomas e independente, passando para análise da defesa quanto ao procedimento para determinação da base de cálculo dos tributos, tendo como premissa tratarse de uma única empresa. De acordo com o Relatório da Ação Fiscal, itens 110 a 112, o arbitramento do lucro foi necessário já que: 1) a receita total apurada, em cada anocalendário, ultrapassou o limite de R$ 48.000.000,00 permitido Lucro Presumido, nos termos do artigo 14 da Lei nº 9.718/98, com redação dada pela Lei nº 10.637/2002. 2) mesmo intimada para recompor a escrituração contábil para os anos calendário de 2010 e 2011, a fim de efetuar o registro detalhado de toda movimentação financeira mantida em bancos, identificando em todos os históricos de lançamentos a origem e o destino dos recursos gerenciados, a recorrente se manteve inerte. Em resposta à intimação, a recorrente informou que aguardaria manifestação específica da fiscalização quanto aos itens que geraram dúvidas ou tidos como deficientes, bem como os itens que precisariam ser esclarecidos. Concluiu a autoridade autuante que a recorrente não apresentou escrituração contábil e fiscal necessária à apuração dos tributos, o que levou ao arbitramento do lucro nos termos do artigo 47 da Lei nº 8.981/95, destacando os seguintes incisos: “Art. 47. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando: I o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real ou submetido ao regime de tributação de que trata o DecretoLei Fl. 35450DF CARF MF 40 nº 2.397, de 1987, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraude ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real. IV o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; VII o contribuinte não mantiver, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário. Com base na legislação citada, verifico que a intimação para recompor a escrituração contábil e fiscal não é condição para apurar o lucro com base no arbitramento, bastando identificar uma das situações nelas previstas. Logo, não há porque cancelar o lançamento relativo ao anocalendário de 2012. Ademais, o motivo para o arbitramento é claro. A recorrente optou indevidamente pelo lucro presumido considerando a totalidade de receitas apuradas pela Escola MICROCAMP/ABC. E, mesmo intimada a recompor a escrituração contábil para os anos calendário de 2010 e 2011, não o fez. E sua inércia sequer está justificada, já que a intimação para recompor foi clara ao determinar o que deveria ser observado para sanar as inconsistências da sua escrituração contábil: efetuar o registro detalhado de toda movimentação financeira mantida em bancos, identificando em todos os históricos de lançamentos a origem e o destino dos recursos gerenciados. E, uma vez definido que o lucro seria arbitrado, a receita bruta foi determinada utilizando os relatórios detalhados, elaborados pelo próprio grupo e apreendidos em sua sede, que davam conta do faturamento real das filiais. Diferente do que alega, foi desnecessária a análise das contas correntes das filiais. Em que pese a insistência da recorrente em apontar suposta inobservância ao artigo 42 da Lei nº 9.430/96, a base de cálculo foi obtida por prova direta. Da mesma forma, também foi desnecessária a análise da escrituração e das declarações das filiais, como afirma a recorrente. Os relatórios forneceram todas as informações necessárias para apuração dos créditos tributários, já que os faturamentos eram a nível de filial e mensal, conforme tela a seguir: Fl. 35451DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.432 41 E, por terem sido obtidos na sede da empresa, por meio de Mandados de Busca e Apreensão, o fato de que os relatórios não se encontram assinados ou carimbados não retira a confiabilidade das informações deles extraídas. Por outro lado, considerando tratarse de um controle gerencial interno, no âmbito de um esquema que visa a sonegação, seria de se estranhar que os documentos fossem impressos para obtenção de assinaturas dos responsáveis com "De acordo" ou algo que o valha. Transcrevo o trecho da decisão recorrida que bem retrata a situação: O fato de que os demonstrativos não estão assinados ou carimbados não lhes diminui o valor probatório. Não há exigência legal de que demonstrativos gerenciais sejam firmados por sócios, gerentes ou prepostos. Ademais, a falta de oficialidade dos documentos é apenas conseqüência do fato de a empresa ter forjado uma complexa estrutura com o fim praticar evasão fiscal. Não se pode pretender, em situações como a ora analisada, que o contribuinte confesse, com firma reconhecida, a prática de infrações tributárias. Do contexto cognoscitivo dos autos se infere elevada credibilidade dos referidos demonstrativos, de modo que são eles a fonte de informações mais precisa para a correta apuração dos créditos tributários lançados. Quanto ao percentual aplicado, foi correto o procedimento adotado na determinação dos tributos, considerando que o objeto social do grupo Escola MICROCAMP/ABC é essencialmente a prestação de serviços dentro da educação complementar. Se para o gerenciamento dos recursos obtidos, consignados nos relatórios, não importava se os mesmos eram derivados da prestação de serviço ou de venda de livros, este ônus não pode ser imputado ao auditor fiscal. Ademais, como bem argumentou a decisão recorrida, esta alegação não procede pois, "consoante o art. 537, parágrafo único, do Decreto n° 3.000/1999 (RIR), no caso de pessoa jurídica com atividades diversificadas, não sendo possível a identificação da atividade a que se refere a receita omitida, esta será adicionada àquela que corresponder o percentual mais elevado" Já com relação à qualificação da multa de ofício, diferente do que alega em seu recurso, restou devidamente comprovado que tratase de simulação perpetrada pelo grupo Escola MICROCAMP/ABC, com o objetivo de reduzir os tributos e contribuições que seriam devidos nas atividades desempenhadas. A Escola MICROCAMP/ABC traçou uma estratégia de dividir suas receitas em pequenas parcelas, simulando a existência de várias empresas independentes, com a finalidade de enquadrar no lucro presumido. Mas, além disso, montou um esquema no qual aproximadamente 80% do faturamento de cada filial era sonegado. O modus operandi é demonstrado no esquema a seguir: Fl. 35452DF CARF MF 42 Consta planilha no Relatório da Ação Fiscal na qual estão discriminadas todas as filiais, o seu faturamento real anual apurado com base nos documentos apreendidos, e também o faturamento declarado em DIPJ. Abaixo trago uma parte da planilha, demonstrando que a sonegação girava em torno de 80% do faturamento. Ainda comprovando o esquema no qual centralizava todos os recursos das filiais, constam relatórios e gráficos com os valores arrecadados sob várias rubricas, bem como o destino destes recursos as Saídas. Abaixo, exemplo relativo ao mês de fevereiro/2010: Análise do AFRFB: O documento revela a verdadeira estrutura de gerenciamento de recursos financeiros e funcionamento administrativo centralizado na matriz da Escola Fl. 35453DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.433 43 MICROCAMP/AC, a qual possuía uma contabilidade paralela para efetuar o controle de seus recursos financeiros. *Consta no relatório Anexo de Documentação Comprobatória, às fls. 33.715 Análise do AFRFB: O documento revela para o mês de fevereiro de 2010 que, uma vez reunidos na matriz da Escola Microcamp/ABC os recursos financeiros da empresa, estes eram destinados a investimentos das pessoas físicas sócias proprietárias de acordo com seus interesses, afrontando diametralmente o Princípio da Entidade, fundamento basilar da Ciência Contábil, confundindo os interesses das pessoas físicas com aqueles próprios da pessoa jurídica. Revela outrossim, que aproximadamente um terço dos recursos da empresa permaneciam sob a forma de numerário, dificultando sobremaneira a sua fiscalização. *Consta no relatório Anexo de Documentação Comprobatória, às fls. 33.716 Diante dos fatos constatados, concordo com a conclusão do auditor autuante, nos termos consignados no item 145 do Relatório de Ação Fiscal: 145 Os fatos ora narrados revelam a prática de sonegação fiscal sob o manto de uma documentação pretensamente legal. Tal documentação guarda as seguintes características: > Deixa a realidade dos fatos oculta ao fisco federal uma vez que, se os documentos forem analisados individualmente e em período estanque no tempo, possuem características lícitas, mas se analisados em seu conjunto e durante todo o tempo em que demoraram para ter seus fins implementados demonstram cabalmente sua ilicitude; > Estão eivados de simulação e fraude, pois ocultam em seu cerne o seu real propósito; Fl. 35454DF CARF MF 44 > Foram praticadas com o conhecimento de várias pessoas físicas com o fim específico de promover a redução do recolhimento dos tributos federais. Por fim, transcrevo trecho da decisão recorrida, como fundamento que adoto para manter a multa de ofício qualificada de 150% Todos os fatos até aqui referidos demonstram à exaustão que os créditos tributos apurados e lançados não são fruto de mero equívoco contábil e de conduta não intencional. Conforme relata a autoridade autuante (fls. 3368033691) houve prática reiterada de simulações na abertura de filiais como se fossem pessoas jurídicas autônomas da matriz, procedimento adotado para reduzir a carga tributária da empresa, por meio da omissão de receitas e da submissão das parcas receitas declaradas à sistemática de tributação do lucro presumido. Está devidamente caracterizada nos autos a prática das condutas previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/1964, quais sejam: sonegação (toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária); fraude (toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária); conluio (ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando a prática de sonegação ou fraude). Em consequência, correta a aplicação de multa qualificada (150%) sobre os tributos lançados, tal como determina o art. 44, II, § Io, da Lei n° 9.430/1996, com as alterações introduzidas pela Lei n° 11.488/2007. Uma vez mantida a multa de ofício qualificada, o prazo decadencial do lançamento deve observar o previsto no artigo 173, inciso I do CTN. Com efeito, para os fatos geradores do anocalendário de 2010, com exceção do mês de dezembro, a contagem do prazo decadencial inicia em 01/01/2011, encerrandose em 31/12/2015. Como a ciência do lançamento ocorreu em 17/12/2015, restou comprovado que não decaiu o direito ao lançamento. Por fim, falta analisar o pedido para sejam excluídos os valores que foram recolhidos a título de impostos e contribuições de todas as empresas relacionadas no Relatório de Ação Fiscal. Acerca desta questão, assim se manifestou a autoridade fiscal, no item 176 do TVF: 176 Poderão ser aproveitados os recolhimentos de tributos e contribuições efetuados pela fiscalizada utilizandose o CNPJ simulado de suas filiais a seu critério e atendendo sua expressa manifestação neste sentido. De fato, como a totalidade dos faturamentos foram objeto de lançamento, incluindo as receitas já declaradas nas DIPJ das filiais, ainda que tenha sido apurado pelo Lucro Presumido, é cabível a dedução dos créditos tributários lançados pelos valores já recolhidos. Fl. 35455DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.434 45 Por todo acima exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário da recorrente CRC Central de Recebimento de Cheques S/S, para que o crédito tributário seja reduzido, com o aproveitamento tributos e contribuições (IRPJ, CSLL, PIS e COFINS) efetivamente recolhidos ou confessados pela recorrente e pelas filiais, relativos às receitas declaradas nas respectivas DIPJ pelo Lucro Presumido, nos anos calendário de 2010, 2011, 2012. RECURSO VOLUNTÁRIO DO SR. ELOY TUFFI O recurso voluntário apresentado pelo Sr. Eloy Tuffi alega que o lançamento em é nulo em razão de (i) impossibilidade de arbitramento; (ii) cerceamento ao direito de defesa, pois a recorrente não teve acesso ao trabalho investigativo utilizado pela fiscalização; (iii) utilização de documentos obtidos na sala e computador do advogado; (iv) cerceamento ao direito defesa, pois há dúvidas quanto ao valor que teria sido omitido; (v) ausência de individualização do material apreendido pela Polícia Federal; (vi) falta de intimação da responsável solidária MC CAMP, o que torna a decisão recorrida nula A grande parte das alegações já foram analisadas no julgamento do recurso da CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA, e já devidamente afastadas, com exceção da alegação de que houve cerceamento ao direito de defesa em função da ausência de individualização do material apreendido pela Polícia Federal. Ocorre que todos os documentos necessários para o exercício do direito de defesa estão acostados aos autos, disponibilizados à recorrente. Não há qualquer prejuízo a falta de acesso a material sigiloso e a ausência de individualização do material apreendido pela Polícia Federal. Ademais, como bem lembrado pela PFN nas contrarrazões, a Súmula Vinculante nº 14 do STF estabelece que "É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. Quanto ao mérito, alega que a responsabilidade foi imputada sem provas das condutas praticadas com excesso de poder e/ou infração à lei. Afirma, ainda, que a decisão recorrida incorreu em erro, alterando o fundamento para manutenção da responsabilidade pessoal. Não assiste razão à recorrente. As provas constantes nos autos são consistentes e comprovam que houve excesso de poderes, com utilização dos recursos do grupo para gastos pessoais e outros investimentos. Os itens 167 a 174 do Relatório de Ação Fiscal citam várias situações das quais o recorrente não justifica ou nega. Da mesma forma constam, nos relatórios que analisam toda a documentação apreendida e anexada aos autos, fls. 33.703/33.915, vários outros exemplos que demonstram que o recorrente agiu com excesso de poderes e infração à lei. E nem há como refutar as provas, pois os relatórios gerenciais ratificam esses fatos, como o exemplo do gráfico já reproduzido neste voto, no qual demonstra que, em fevereiro/2010, 14,55% das saídas foram aplicados em outros negócios pertencentes à recorrente. Fl. 35456DF CARF MF 46 E a decisão recorrida, quando mencionou que teria ocorrida a tentativa de blindagem patrimonial, não inovou pois se baseou no citado Relatório de Ação Fiscal. Transcrevo o item 171 do relatório: 171 Com a finalidade de criar uma “blindagem patrimonial” e manter parte seu patrimônio afastado de possíveis pendengas judiciais causadas pela gestão fraudulenta da empresa, o Sr. Sr. Eloy Tuffi e sua exesposa Sra. Marlene Rito Nicolau Tuffi criaram dezenas de CNPJs distintos os quais passaram a simular a existência de empresas independentes nos locais em que existiam filiais da Escola MICROCAMP/ABC. Através desses CNPJs foi registrada toda a frota de veículos do casal, inclusive seus veículos de maior luxo, cujos custos de seguros eram todos gerenciados e pagos por sua matriz. Ao final de sua impugnação, a recorrente requer, ainda, a exclusão do ano calendário de 2012, redução da multa de ofício de 150% para 75%, decadência dos períodos anteriores a dezembro de 2010, e que a base de cálculo seja a movimentação financeira expurgando valores que dispensam demonstração de origem, como devolução de cheque. Estas alegações já foram devidamente afastadas quando da análise do recurso voluntário da CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA. Por todo acima exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário do Sr. Eloy Tuffi. RECURSO VOLUNTÁRIO DE SRA. MARLENE RITO NICOLAU Inicio pelo pedido de diligência para confirmar os pagamentos de PIS e COFINS. O mesmo deve ser indeferido, pois não alterará o resultado do julgamento no que concerne se ocorreu ou não a decadência do direito de o fisco efetuar o lançamento. Isto porque já formei convicção de que houve a comprovação do dolo, com aplicação de multa de ofício qualificada de 150%, que leva a contagem do prazo decadencial nos termo do artigo 173, inciso I do CTN, e não pelo artigo 150, § 4º do CTN. Logo, é desnecessária a comprovação de ocorrência de pagamento de PIS e COFINS. A recorrente alega que jamais participou da gestão administrativa, contábil e fiscal, pois a condução dos negócios era apenas do Sr. Eloy Tuffi. Afirma que são inaplicáveis os artigos 135 e 124, inciso I do CTN. Requer que seja reduzida a multa de ofício de 150% para 75% pela falta de comprovação de conduta que sustentasse a acusação fiscal. Não prospera as alegações da recorrente, diante da farta documentação trazida aos autos. Os itens 167 a 174 do Relatório de Ação Fiscal citam várias situações das quais a recorrente não justifica ou nega. Da mesma forma constam, nos relatórios que analisam toda a documentação apreendida e anexada aos autos, fls. 33.703/33.915, vários outros exemplos que demonstram que o recorrente agiu com excesso de poderes e infração à lei. E nem há como refutar as provas, pois os relatórios gerenciais ratificam esses fatos, como o exemplo do gráfico já reproduzido neste voto, no qual demonstra que, em fevereiro/2010, 14,55% das saídas foram aplicados em outros negócios. Entretanto, verifico uma situação que diferencia a recorrente do Sr. Eloy Tuffi. Conforme itens 163 e 164 do Relatório de Ação Fiscal, a partir de 01/09/2011, a recorrente ficou exclusivamente responsável por 29 filiais. Cotejando essas 29 filiais com a Fl. 35457DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.435 47 planilha de fls. 33.916 a 33.927, da qual constam todos os faturamentos mensais de cada filial dos anoscalendário de 2010 a 2012, é possível verificar que, relativo a essas 29 filiais sob exclusiva responsabilidade da recorrente Marlene Rito Nicolau, os lançamentos dos créditos tributários só consideram os valores apurados nos meses de janeiro/2010 a agosto/2011. Constatado este fato, entendo que não é possível imputar a responsabilidade à recorrente Sra. Marlene Rito Nicolau de créditos tributários apurados com base nos faturamentos das filiais que ficaram exclusivamente sob a responsabilidade do Sr. Eloy Tuffi. Para essas filiais, cujos faturamentos serviram de base de cálculo dos meses de setembro/2011 a dezembro/2012, a recorrente não tem qualquer participação societária nos termos do acordo de conciliação na ação de divórcio, ou comprovação de conduta com excesso de poderes ou infração à lei neste período. Assim, em que pese os ativos das 29 filiais terem sido transferidos, ainda que informalmente, para titularidade da recorrente, a eles só competem garantir o crédito tributário pertinente ao período em que eles faziam parte do grupo, e que contribuíram na geração das receitas omitidas, ou seja, de janeiro/2010 a agosto/2011. Pelo exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para manter a responsabilidade solidária da recorrente, Sra. Marlene Rito Nicolau, nos créditos tributários lançados para os meses de janeiro/2010 a agosto/2011. RECURSOS VOLUNTÁRIOS DE ENNT Comércio, Serviços e Participações EIRELI e MC Cursos e Recebimentos de Cheques S/S LTDA. Os recursos voluntários apresentados pelas empresas ENNT Comércio, Serviços e Participações EIRELI e MC Cursos e Recebimentos de Cheques S/S LTDA serão julgados em conjunto, pois foram responsabilizadas pelos mesmos fundamentos de fato e de direito, e apresentaram alegações semelhantes, resumidas a seguir. As recorrentes se defendem alegando que não ocorreu uma cisão, mas sim uma partilha dos bens entre os sócios Eloy Tuffi e Marlene Rito Nicolau Tuffi. Afirmam que são inaplicáveis os artigos 135 e 124, inciso I do CTN. A recorrente ENNT Comércio, Serviços e Participações EIRELI alega que só foi constituída após o divórcio, sendo sequer citada na partilha, enquanto que a outra recorrente, MC Cursos e Recebimentos de Cheques S/S LTDA, afirma que nunca participou da gestão administrativa. Requerem, se mantido a autuação, que a multa de ofício seja reduzida para 75% e que o anocalendário 2010 seja excluído em razão da decadência. Antes de me pronunciar, vejamos a fundamentação para que as recorrentes sejam incluídas no pólo passivo. De acordo com o itens 162/166 do TVF, o auditor fiscal informa que ocorreu uma cisão de fato nos negócios da Escola MICROCAMP/ABC, com a criação de uma nova matriz informal situada na cidade de São Paulo, composta pelas empresas MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA, CNPJ 11.693.962/000190 e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, CNPJ nº 14.423.288/000111. Esta nova estrutura, agora sob a direção da Sra. Marlene Rito Nicolau, repete o mesmo esquema de sonegação, e recebeu os ativos das 29 (vinte e nove) filiais que antes estavam reunidas sob a Fl. 35458DF CARF MF 48 gerência da primeira matriz, de Campinas. Assim, a partir de 01/09/2011, os ativos anteriormente pertencentes de fato à fiscalizada (CRC Central de Recebimento de Cheques S/S), foram transferidos de forma informal a nova matriz, agora em São Paulo, composta por estes dois CNPJ. Ou seja, segundo o auditor fiscal, a fiscalizada teve seu patrimônio não reconhecido formalmente transferidos a terceiros, que, na qualidade de beneficiários, deverão responder subsidiariamente pelos tributos devidos. Transcrevo o item 166 com o enquadramento legal para a sujeição passiva por responsabilidade tributária: 166 Assim, conforme previsão legal contida nos artigos 208 e 209 do RIR/99, em decorrência da CISÃO PARCIAL citada, constatase a SUJEIÇÃO PASSIVA POR RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA das empresas MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA, CNPJ 11.693.962/000190 e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, CNPJ 14.423.288/000111 pelos créditos tributários constituídos ou a constituir tendo como sujeito passivo a fiscalizada CRC CENTRAL DE RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA. – ME, CNPJ 08.831.108/000138 e, por conseguinte devendo arcar com todas as suas responsabilidades e deveres tributários nos termos da lei. Abaixo, os citados dispositivos legais: Art. 207. Respondem pelo imposto devido pelas pessoas jurídicas transformadas, extintas ou cindidas (Lei nº 5.172, de 1966, art. 132, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 5º): (...) III a pessoa jurídica que incorporar outra ou parcela do patrimônio de sociedade cindida; (...) Parágrafo único. Respondem solidariamente pelo imposto devido pela pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 5º, § 1º): (...) II a sociedade cindida e a sociedade que absorver parcela do seu patrimônio, no caso de cisão parcial; (...) Art. 209. O disposto neste Capítulo aplicase por igual aos créditos tributários definitivamente constituídos ou em curso de constituição à data dos atos nele referidos, e aos constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data (Lei nº 5.172, de 1966, art. 129). Os artigos 207 e 209 do RIR/99 tratam de responsabilidade dos sucessores. Em caso de cisão parcial, os créditos tributários da pessoa cindida, relativos aos fatos geradores Fl. 35459DF CARF MF Processo nº 10830.727419/201588 Acórdão n.º 1302003.077 S1C3T2 Fl. 35.436 49 até a data do ato, tanto podem ser exigidas dela mesma, bem como das que receberam as parcelas patrimoniais, uma vez que são solidárias estabelecidas por lei. Ainda acerca da cisão em função do divórcio entre Sr. Eloy e Sra. Marlene, e do novo esquema formalizado em São Paulo, o auditor fiscal consignou em relatório, no item 76, que: 76 Sra. Marlene Nicolau Tuffi passou a organizar as suas filiais da Escola MICROCAMP/ABC a partir de uma nova matriz informal situada na cidade de São Paulo a partir de SETEMBRO de 2011. Seguindo o procedimento de simulação que havia sido plenamente utilizado para a matriz de Campinas SP e que havia sido considerado um modelo de SUCESSO para a SONEGAÇÃO FISCAL, a nova proprietária isolada de 29 (vinte e nove) filiais passou a utilizar como matriz as seguintes empresas, as quais passaram a atuar como centro financeiro de recursos e a serem utilizadas especificamente dedicadas ao fim de gerenciar às filiais que ficaram sob seu comando: • MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA, CNPJ 11.693.962/000190, situada à Av. Rebouças, 2511 – Pinheiros – São Paulo – SP – CEP 05.401300 e; • ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, CNPJ 14.423.288/000111, situada à Avenida Paulista, 1.765 – 2º andar – Cerqueira César – São Paulo – SP – CEP 01.311930. Da leitura do TVF, verifico que a responsabilidade por sucessão das recorrentes, atribuída pelo auditor fiscal, partiu da premissa que a Sra. Marlene manteve o mesmo procedimento utilizado pela Escola Microcamp/ABC em Campinas, mas agora em São Paulo. Segundo o auditor fiscal, a nova matriz seria formada pelas duas recorrentes, MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, as quais teriam assumido as funções da CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA e MC CAMP DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA, respectivamente. Ocorre que, compulsando todos os documentos constantes nos autos, não foi possível para esta conselheira chegar a mesma conclusão. É possível verificar a existência de Mandados de Busca e Apreensão na sede das citadas empresas, em São Paulo. Entretanto, não consta nos autos qualquer documento que comprove que as duas recorrentes assumiram a função de centralização e gerência das 29 (vinte e nove) filiais que a Sra. Marlene recebeu em decorrência do divórcio. É certo que foi uma operação de grande vulto, com vários documentos analisados para entender e comprovar o planejamento tributário em curso na Escola Microcamp/ABC. Já destaquei anteriormente o imenso trabalho do auditor fiscal na comprovação do fatos que ensejaram o presente lançamento. No entanto, entendo que a imputação de responsabilidade para pagamento de créditos tributários de terceiros requer a perfeita demonstração dos fatos para que permitiriam a subsunção aos fundamentos legais aqui apontados os artigo 207 e 209 do RIR/99. No presente caso, concluo que não restou comprovado nos autos que as recorrentes MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI,, teriam Fl. 35460DF CARF MF 50 recebido os ativos das 29 (vinte e nove) filiais, assumindo a gerência da nova matriz, agora sob a responsabilidade da Sra. Marlene Rito Nicolau. Inexistindo essa comprovação, não há como imputar aos recorrentes a responsabilidade para o pagamento dos créditos tributários aqui lançados. Por todo acima exposto, voto por dar provimento aos recursos voluntários das recorrentes MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, excluindoas do pólo passivo deste auto de infração. CONCLUSÃO DO VOTO Por todo acima exposto, voto por afastar as preliminares de nulidade e decadência, e, no mérito, por: 1) dar provimento parcial ao recurso voluntário da recorrente, sujeito passivo principal CRC Central de Recebimento de Cheques S/S LTDA, para reduzir os créditos tributários lançados com o aproveitamento dos recolhimentos dos tributos e contribuições efetivamente recolhidos e/ou confessados pela recorrente e pelas filiais nos períodos de apuração objetos do lançamento; 2) negar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário Sr. Eloy Tuffi; 3) dar provimento parcial ao recurso voluntário da responsável solidária Sra. Marlene , mantendo a responsabilidade para os créditos tributários constituídos até 08/2011; 4) dar provimento aos recursos voluntários das recorrentes MC CURSOS E RECEBIMENTO DE CHEQUES S/S LTDA e ENNT COMERCIO SERVICOS E PARTICIPACOES – EIRELI, excluindoas do pólo passivo deste auto de infração. Maria Lucia Miceli Relatora Fl. 35461DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.002888/2006-47
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2002
COFINS. REGIME CUMULATIVO. LEI 9718/98. AMPLIAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. MANIFESTAÇÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. REPERCUSSÃO GERAL. EXCLUSÃO DEMAIS RECEITAS.
O Plenário do STF declarou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, afastando o alargamento pretendido por este dispositivo e assim restringindo a base de cálculo da contribuição para o PIS e da Cofins ao faturamento, assim compreendida a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e mercadorias e serviços.
NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA.
Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adota-se a decisão recorrida, mediante transcrição de seu inteiro teor. § 3º do art. 57 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 RICARF.
Numero da decisão: 3302-005.775
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir da base de cálculo das contribuições as receitas financeiras.
(assinado digitalmente)
Fenelon Moscoso de Almeida - Presidente substituto
(assinado digitalmente)
José Renato Pereira de Deus - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Vinicius Guimaraes, Walker Araujo, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Fenelon Moscoso de Almeida (Presidente Substituto). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Guilherme Deroulede.
Nome do relator: JOSE RENATO PEREIRA DE DEUS
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REGIME CUMULATIVO. LEI 9718/98. AMPLIAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. MANIFESTAÇÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. REPERCUSSÃO GERAL. EXCLUSÃO DEMAIS RECEITAS. O Plenário do STF declarou a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, afastando o alargamento pretendido por este dispositivo e assim restringindo a base de cálculo da contribuição para o PIS e da Cofins ao faturamento, assim compreendida a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e mercadorias e serviços. NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adotase a decisão recorrida, mediante transcrição de seu inteiro teor. § 3º do art. 57 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 RICARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir da base de cálculo das contribuições as receitas financeiras. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 28 88 /2 00 6- 47 Fl. 589DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 3 2 Fenelon Moscoso de Almeida Presidente substituto (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Vinicius Guimaraes, Walker Araujo, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Fenelon Moscoso de Almeida (Presidente Substituto). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Guilherme Deroulede. Relatório Por bem retratar a realidade dos fatos, transcrevo o relatório da decisão de piso: 1. DA AUTUAÇÃO Trata o presente processo de autos de infração, lavrados em procedimento de fiscalização, para a constituição de créditos tributários relativos à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS e à contribuição para o Programa de Integração Social PIS dos meses de janeiro a dezembro de 2002. Nos Termos de Verificação (fls. 59 a 61, 70 a 72), relata a fiscalização que, embora intimada e reintimada (fls. 4, 5, 17, 18, 19), a contribuinte não apresentou sua escrita fiscal e contábil. Assim, informa a fiscalização que apurou os valores devidos a título de PIS e de COFINS com base nas informações constantes da Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica — DIPJ, tendo lavrado autos de infração para a exigência dos seguintes valores (fls. 66 a 68 e 77 a 79): Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor em R$ Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) Art. 1° da Lei Complementar n° 70/91; artigos 2o, 3o e 8o da Lei n° 9.718/98, com as alterações promovidas pelas Medidas Provisórias n° 1.807/99 e reedições e 1.858/99 e reedições; artigos 2o, inciso II e parágrafo único, 3o, 10, 22 e 51 do Decreto n° 4.524/2002. 360.932,99 Juros de Mora (calculados até 31/10/2006) Art. 61, §3°, da Lei n° 9.430/96. 265.481,59 Multa Proporcional Art. 10, parágrafo único, da Lei Complementar n° 70/91 e art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/96. 270.699,70 TOTAL 897.114,28 Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor em RS Contribuição ao Programa de Integração Social (PIS) Artigos 1° e 3o da Lei Complementar n° 7/70; artigos 2o, inciso I, 8o, inciso I, e 9o da Lei n° 9.715/98; artigos 2o e 3o 83.263,07 Fl. 590DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 4 3 da Lei n° 9.718/98; artigos 2o, inciso I, alínea 'a' e parágrafo único, 3o, 10, 22 e 51 do Decreto n° 4.524/2002. Juros de Mora (calculados até 31/10/2006) Art. 61, §3°, da Lei n° 9.430/96. 60.836,31 Multa Proporcional Art. 86, §1°, da Lei n° 7.450/85, art. 2o da Lei n° 7.683/88 e art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/96 62.447,26 TOTAL 206.546,64 2. DAS IMPUGNAÇÕES Cientificada das autuações em 19/12/2006 (fls. 66 e 77), a contribuinte apresentou, em 18/01/2007, a impugnação de fls. 82 a 112, acompanhada dos documentos de fLs. 113 a 265, relativamente ao PIS, e a impugnação de fls. 266 a 294, acompanhada dos documentos de fls. 295 a 435, relativamente à COFINS. Sintetizamse, a seguir, os argumentos apresentados nas duas impugnações. 2.1. Da nulidade dos autos de infração A impugnante alega que o lançamento tributário, disciplinado no art. 142 do Código Tributário Nacional CTN, pressupõe a investigação de todas as circunstâncias que envolvem a identificação do dever jurídico de pagar o tributo: desde a verificação da ocorrência do fato tributável, até o quanto a pagar, passando pela individuação do sujeito obrigado. Assim, argumenta que, para que possa proceder ao lançamento de ofício, deve o agente fiscal ter reunido provas da ocorrência do fato gerador da respectiva obrigação, sendolhe vedado basear sua ação em meras presunções e em trabalho fiscal precário, eivado de erros e incertezas. No caso concreto, a impugnante alega contradição nos autos de infração, pois a fiscalização afirma, nos Termos de Verificação, que a impugnante não apresentou sua escrita fiscal e contábil, mas, nos Termos de Encerramento, informa que procedeu à devolução dos documentos fiscais examinados no curso da fiscalização. A impugnante sustenta que entregou à fiscalização os documentos pertinentes às exigências feitas, à exceção dos documentos destruídos por enchente que vitimou suas dependências. Acrescenta que, "apesar de não ter feito protocolo formal da entrega de tais documentos, é de rigor a constatação de que tal entrega ocorreu, consoante atestam os inclusos recibos de táxi e de motoboy, decorrentes das entregas de documentos efetivadas pela Reqte. ao Sr. Agente Fiscal." A impugnante também alega que as bases de cálculo apuradas pela fiscalização com base na DIPJ apresentam erros, o que denota a fragilidade do trabalho fiscal. Em relação às bases de cálculo, a impugnante aponta os seguintes erros: i) Em relação aos meses de agosto, setembro e outubro de 2002, a fiscalização utilizou, como receita bruta, valor diverso do informado na DIPJ, conforme quadro demonstrativo abaixo: Período DIPJ (R$) Lançamento (R$) agosto 1.905.344,47 1.572.249,38 setembro 1.572.249,38 1.779.223,20 Fl. 591DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 5 4 outubro 1.779.223,20 1.905.344,47 ii) Na planilha elaborada pela fiscalização, foram adicionados à receita bruta valores referentes a juros recebidos e descontos obtidos, os quais já integram a própria receita bruta, conforme demonstrado nas planilhas de fls. 125 e 363, resultando em dupla tributação sobre a mesma grandeza. Sustenta a impugnante que não se pode admitir a subsistência de lançamento fiscal marcado pela precariedade e erros na apuração da base de cálculo, devendo o mesmo ser declarado nulo. 2.2. Das exclusões da base de cálculo autorizadas pela legislação A impugnante alega que o art. 3o, §2°, da Lei n° 9.718/98 permite a exclusão de vendas canceladas, devoluções de vendas e descontos incondicionais concedidos na apuração das bases de cálculo do PIS e da COFINS. Entretanto, argumenta que a fiscalização não considerou essas exclusões ao apurar a matéria lançada de ofício. Assim, requer a exclusão de tais valores na apuração das contribuições em comento. A título exemplificativo, a impugnante junta cópias de notas fiscais que comprovam a concessão de descontos incondicionais e o cancelamento de vendas (fls. 133 a 169) e alega que a comprovação de tais exclusões encontrase à disposição da fiscalização em seu estabelecimento. A impugnante também alega que realiza constantes operações de vendas para empresas comerciais exportadores e para empresas situadas na Zona Franca de Manaus, cujas receitas são isentas de PIS e de COFINS, a teor do disposto nas Medidas Provisórias n° 2.11326/2000 e n° 2.15835/2001. Como exemplos de tais operações, junta cópias de notas fiscais às fls. 127 a 132. Alega que nem todos os documentos fiscais comprobatórios desse tipo de venda estão em seu poder, pois suas dependências foram vitimadas por enchente em maio/2005, destruindo boa parte de sua documentação, conforme Boletim de Ocorrência emitido em 25/05/2005 (fls. 170 a 172) e fotos do local (fls. 173 a 192). A impugnante argumenta que essa situação se enquadra nos conceitos de caso fortuito ou força maior, não podendo ser penalizada por tal fato, devendo ser considerada a exclusão das receitas decorrentes de tais vendas na apuração das bases de cálculo do PIS e da COFINS. A impugnante sustenta que, considerandose as exclusões relativas às receitas isentas, vendas canceladas, devoluções de vendas e descontos incondicionais concedidos, chegase à correta base de cálculo das contribuições em questão, utilizada Fl. 592DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 6 5 para o cálculo das contribuições declaradas na DIPJ e na DCTF e recolhidas. Em relação ao PIS, a impugnante ainda alega erro na apuração da contribuição relativa ao mês de dezembro/2002. Sustenta que a fiscalização desconsiderou o disposto na Medida Provisória n° 66/2002, que instituiu o regime nãocumulativo para a apuração do PIS. Argumenta que, se forem considerados os créditos passíveis de dedução, não , jesuíta PIS a pagar em relação a dezembro/2002. Conclui assim que deve ser cancelado o auto de infração, pois os valores recolhidos à época dos fatos geradores encontramse em consonância com a legislação de regência. 2.3. Da inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo do PIS promovida pela Lei n° 9.718/98 A impugnante alega inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo do PIS promovida pela Lei n° 9.718/98. Alega que a contribuição ao PIS foi instituída pela Lei Complementar n° 7/70, recepcionada pela Constituição Federal conforme disposto no art. 239, tendo como base de cálculo o faturamento. Sustenta que faturamento consiste no ato de emitir faturas, sendo estas documentos que refletem vendas mercantis ou prestação de serviços. Argumenta que não se pode confundir o conceito de faturamento com receitas de qualquer natureza auferidas pela pessoa jurídica. Acrescenta que faturamento abrange apenas o produto da venda de bens e serviços, não alcançando outras receitas, como por exemplo as receitas financeiras. Alega que o art. 3o, §1°, da Lei n° 9.718/98, ao pretender tributar todas as receitas auferidas pela pessoa jurídica , promoveu a alteração do conceito de faturamento, em flagrante violação ao art. 110 do CTN e modificou a base de cálculo do PIS prevista na Lei Complementar n° 7/70, recepcionada pelo art. 239 da Constituição Federal. Argumenta a impugnante que, com a alteração introduzida pela Lei n° 9.718/98, não se está mais diante do PIS previsto no art. 239 da Constituição Federal, mas diante de uma nova fonte de custeio da seguridade social. Assim, tratandose de contribuição nova, a mesma só poderia ter sido instituída mediante lei complementar, a teor do disposto no art. 195, §4°, combinado com o art. 154,1, ambos da Constituição Federal. Alega que o Plenário do Supremo Tribunal Federal já julgou inconstitucional o art. 3o, §1°, da Lei n° 9.718/98, no julgamento dos Recursos Extraordinários de números 357950, 390840 e 358273. Fl. 593DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 7 6 Assim, conclui a impugnante pela improcedência da exigência fiscal incidente sobre as receitas financeiras. 2.4. Da inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo da COFINS promovida pela Lei n° 9.718/98 A impugnante alega inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo da COFINS promovida pela Lei n° 9.718/98. Alega que, à época da publicação dessa Lei, estava em vigência o art. 195, I, da Constituição Federal em sua redação original, que permitia a criação de contribuições sociais dos empregadores incidentes sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro. Argumenta que faturamento abrange apenas as receitas relativas a vendas de mercadorias e prestação de serviços, não alcançando outras receitas da pessoa jurídica. Assim, sustenta que a Lei n° 9.718/98, ao prever a incidência da COFINS sobre a totalidade das receitas da pessoa jurídica, incorreu em flagrante inconstitucionalidade, pois o art. 195, I, da Constituição Federal, em sua redação original não previa a instituição de contribuição social sobre a receita da pessoa jurídica. Acrescenta que tal previsão somente foi inserida no texto constitucional pela Emenda Constitucional n° 20, promulgada posteriormente à Lei n° 9.718/98, a qual não teve o condão de constitucionalizar a lei que já nascera inconstitucional. Alega que o Plenário do Supremo Tribunal Federal já julgou inconstitucional o art. 3o, §1°, da Lei n° 9.718/98, no julgamento dos Recursos Extraordinários de números 357950, 390840 e 358273. Assim, conclui a impugnante pela improcedência da exigência fiscal incidente sobre as receitas financeiras. 2.5 Da taxa Selic A impugnante se insurge contra a exigência de juros moratórios calculados pela taxa Selic, argumentando que deve ser aplicada ao caso a taxa de 1% ao mês, prevista no art. 161, §1°, do CTN. Alega que esse dispositivo legal veda a cobrança de juros de mora superiores a 1% ao mês, visto que o art. 4o da Lei n° 1.521/51 proíbe a cobrança de juros superiores à taxa permitida em lei, sob pena de cometimento do crime de usura pecuniária. Acrescenta que o art. 192 da Constituição Federal limita os juros a 12% ao ano. Assim, conclui ser indevida a cobrança de juros superiores a 1% ao mês. 2.6. Do pedido Fl. 594DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 8 7 Por todo o exposto, a impugnante requer sejam julgados nulos os lançamentos face às inconsistências e erros. Caso assim não se entenda, requer sejam os lançamentos julgados improcedentes. É o relatório. Na sessão de 04 de julho de 2011, a 10ª Turma da DRJ/SP, por unanimidade de votos, julgou parcialmente as impugnações, exonerando parte do crédito tributário, acórdão nº 1428.170, o quanto recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2002 COFINS. EXCLUSÕES. COMPROVAÇÃO. Na apuração da base de cálculo da contribuição, devem ser excluídos os valores relativos a descontos incondicionais concedidos e a vendas canceladas, desde que devidamente comprovados. COFINS. RECEITAS ISENTAS. VENDAS COM O FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO PARA O EXTERIOR. A isenção relativa a vendas realizadas a empresas comerciais exportadoras regidas pelo DecretoLei n° 1.248/2002 ou a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior está restrita às vendas realizadas com o fim específico de exportação para o exterior, que pressupõe que os produtos sejam remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados por conta e ordem da empresa comercial exportadora. COFINS. RECEITAS ISENTAS. ZONA FRANCA DE MANAUS. Até a vigência da Lei n° 10.996/2004, as vendas a empresas situadas na Zona Franca de Manaus estavam sujeitas à incidência da contribuição, exceção feita às operações discriminadas no art. 14 da Medida Provisória n° 2.15835/2001. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2002 PIS. EXCLUSÕES. COMPROVAÇÃO. Na apuração da base de cálculo da contribuição, devem ser excluídos os valores relativos a descontos incondicionais concedidos e a vendas canceladas, desde que devidamente comprovados. PIS. RECEITAS ISENTAS. VENDAS COM O FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO PARA O EXTERIOR. A isenção relativa a vendas realizadas a empresas comerciais exportadoras regidas pelo DecretoLei n° 1.248/2002 ou a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior está restrita às vendas realizadas com o fim específico de exportação para o exterior, que pressupõe que os produtos sejam remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para Fl. 595DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 9 8 recintos alfandegados por conta e ordem da empresa comercial exportadora. PIS. RECEITAS ISENTAS. ZONA FRANCA DE MANAUS. Até a vigência da Lei n° 10.996/2004, as vendas a empresas situadas na Zona Franca de Manaus estavam sujeitas à incidência da contribuição, exceção feita às operações discriminadas no art. 14 da Medida Provisória n° 2.15835/2001. REGIME DE COBRANÇA. A partir de dezembro de 2002, as pessoas jurídicas, exceto as discriminadas no art. 8o da Lei n° 10.637/2002, estão sujeitas ao regime de cobrança nãocumulativa do PIS. Deve ser exonerado o crédito tributário relativo à contribuição ao PIS lançado com base no regime de cobrança cumulativa se, no período, o sujeito passivo estava legalmente obrigado ao regime de cobrança nãocumulativa. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2002 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Eventuais erros na apuração da base de cálculo tributável, que possam ser ajustados no julgamento, não importam na nulidade do auto de infração e sim na exoneração da parcela do crédito tributário indevidamente exigida em razão desses. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E DE ILEGALIDADE. Não compete à autoridade administrativa apreciar questões relacionadas à inconstitucionalidade de leis ou à ilegalidade de normas infralegais. matérias estas reservadas ao Poder Judiciário. ÔNUS DA PROVA. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVA. Cabe à impugnante trazer juntamente com suas alegações impugnatórias todos os documentos que dêem a elas força probante. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2002 DESTRUIÇÃO DE DOCUMENTOS CONTÁBEIS E FISCAIS. ENCHENTE. A alegação de destruição de documentos em decorrência de enchente não exonera a contribuinte de suas obrigações fiscais de conservação de livros e documentação de suporte se não observados os requisitos legais previstos em tais circunstâncias, quais sejam publicar, em jornal de grande circulação do local do seu estabelecimento, aviso concernente ao fato e deste dar minuciosa informação, dentro de quarenta e oito horas, ao órgãocompetente do Registro do Comércio, remetendo cópia da comunicação ao órgão da Receita Federal de sua jurisdição. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Fl. 596DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 10 9 A utilização da taxa SELIC para o cálculo dos juros de mora decorre de disposição expressa em lei, não cabendo aos órgãos do Poder Executivo afastar sua aplicação. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Inconformada com a r. decisão da qual se extraiu a ementa acima transcrita, a recorrente nos termos que lhe é garantido pela legislação que sustenta o Processo Administrativo Fiscal, interpôs o recurso voluntário, que na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro José Renato Pereira de Deus Relator. O Recurso é tempestivo, versa sobre matéria de competência desse Colegiado, por essa razão passo a analisálo. Porém, antes de adentrar à análise da presente demanda, é de bom alvitre ressaltar que a recorrente não inovou ou trouxe aos autos argumentos que pudessem infirmar o que fora decidido no acórdão recorrido, ao contrário, salvo poucas supressões, as razões do recurso voluntário são idênticas àqueles trazidas pelas impugnações. Ressalvado o tópico relacionado à inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS estabelecida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98, que por disposição expressa trazida pelo art. 62 do RICARF, os Conselheiro deste E. CARF devem aplicar as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal tomadas sob o rito da repercussão geral, todos os demais devem permanecer inalterados. Assim, considerando que a recorrente destacou diversas matérias para revisão por parte do CARF, contudo repetindo praticamente todas as mesmas disposições das impugnações não trazendo nenhuma nova razão, e em vista do disposto no § 3º do art. 57 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adoto os fundamentos da decisão recorrida nos tópicos abaixo, mediante a transcrição do teor do voto condutor do acórdão: Voto DA ADMISSIBILIDADE DA IMPUGNAÇÃO Tendo sido as impugnações apresentadas com a observância do prazo estipulado no art. 15 do Decreto n° 70.235/72 e atendidos os demais requisitos legais, delas se toma conhecimento. DA ENTREGA DOS DOCUMENTOS CONTÁBEIS E FISCAIS A impugnante alega nulidade dos autos de infração, em razão de inconsistências e erros cometidos pela fiscalização. Fl. 597DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 11 10 Primeiramente, alega contradição no procedimento fiscal, pois a fiscalização afirma, nos Termos de Verificação, que a impugnante não apresentou sua escrita fiscal e contábil, mas, nos Termos de Encerramento, informa que procedeu à devolução dos documentos fiscais examinados no curso da fiscalização. A respeito da questão, há que se esclarecer que os Termos de Encerramento (fls. 69 e 80) contêm um texto padronizado, gerado automaticamente pelo programa informatizado utilizado pela fiscalização para a lavratura dos autos de infração. Cabe destacar que, nos Termos de Encerramento, não foram especificados os livros e documentos entregues pela contribuinte, de modo que, a partir da informação genérica de que foram devolvidos os livros e documentos utilizados na fiscalização, não é possível conclui quais seriam os livros e documentos em questão. Por outro lado, os documentos constantes dos atos evidenciam que a contribuinte não apresentou à fiscalização os documentos solicitados, especialmente os Livros Diário, Razão, Registro de Saídas modelo 2 e notas discais de saída de produtos. Esses documentos foram solicitados inicialmente no Termo de Início de Fiscalização, do qual foi dada ciência pessoal ao procurador da contribuinte em 09/10/2006 (fls. 4 e 5). Em 24/10/2006, foi lavrado Termo de Verificação e Reintimação (fls. 19), cuja ciência foi dada pessoalmente ao procurador da contribuinte, no qual consta expressamente que: "1. Conforme termo lavrado em 09/10/2006, o contribuinte foi intimado a apresentar, no prazo nele estipulado, a documentação arrolada, referente ao exercício de 2003, ano calendário de 2002. 2. A empresa não cumpriu a obrigação fiscal, deixando de apresentar, no prazo estabelecido, a documentação supra referida, alegando, em breve síntese, que deixou de fazêla em razão de dificuldades operacionais na localização dos citados efeitos fiscais, solicitando prazo para cumprimento. Desta forma, reintimo o contribuinte para no prazo de cinco dias contados da ciência do presente, a oferecer ao exame da Fiscalização os elementos solicitados no citado Termo. " (g.n.) Em 06/11/2006, a contribuinte foi novamente intimada a apresentar as notas fiscais de saída, os Livros Diário, Razão e Registro de Saídas modelo 2, e os quadros demonstrativos de bases de cálculo do PIS e da COFINS conforme modelo fornecido pela fiscalização, tendo sido dada ciência pessoal ao procurador da contribuinte (fls. 17). E, em 13/11/2006, foi lavrado Termo de Verificação (fls. 18), cuja ciência foi dada pessoalmente ao procurador da contribuinte, nos seguintes termos: Fl. 598DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 12 11 "No exercício das funções de Auditor Fiscal da Receita Federal, em prosseguimentos aos trabalhos de fiscalização desenvolvidos junto à empresa supra mencionada, nos termos do MPF, verifiquei que o contribuinte não cumpriu a intimação objeto do termo lavrado em 09 de outubro de 2006, ratificado pelo instrumento datado de 24 de outubro do corrente ano, deixando de apresentar a documentação nele especificada, especialmente os Livros Diário, Razão, Registro de Saídas modelo 02 e notas fiscais de saída de produtos, referente ao ano calendário de 2002. " (g.n.) A impugnante sustenta que entregou à fiscalização os documentos pertinentes às exigências feitas, à exceção dos documentos destruídos por enchente que vitimou suas dependências. Acrescenta que, "apesar de não ter feito protocolo formal da entrega de tais documentos, é de rigor a constatação de que tal entrega ocorreu, consoante atestam os inclusos recibos de láxi e de motoboy, decorrentes das entregas de documentos efetivadas pela Reqte. ao Sr. Agente Fiscal." Cópias dos referidos recibos foram juntados às fls. 261 a 264 e 432 a 435. A respeito dessa alegação, há que se ressaltar que os recibos de táxi apresentados não se prestam a comprovar a entrega de documentos solicitados pela fiscalização. Primeiramente, esses recibos sequer identificam o tomador do serviço ou o itinerário percorrido. E ainda que contivessem tal identificação, os mesmos comprovariam, quando muito, a ida de uma pessoa da empresa à Receita Federal, mas não a entrega dos documentos solicitados pela fiscalização. O único documento que contém a indicação expressa de ida à Receita Federal na Av. Pacaembu é um recibo no valor de R$40,00, emitido pelo procurador da contribuinte, Sr. Plínio F. Souza, em 24/10/2006. De fato, o Sr. Plínio compareceu nessa data à Receita Federal para tomar ciência do Termo de Verificação e Reintimação (fls. 19), no qual consta expressamente que os documentos solicitados não foram entregues pela contribuinte à fiscalização. Ante o exposto, concluise que os documentos solicitados pela fiscalização não foram entregues pela contribuinte no curso da ação fiscal, o que confere com a informação prestada pela fiscalização nos Termos de Verificação (fls. 59, 60, 70, 71). DA VALIDADE DOS AUTOS DE INFRAÇÃO E DOS ERROS MATERIAIS APONTADOS PELA IMPUGNANTE A impugnante também alega nulidade dos autos de infração em razão de erros materiais cometidos pela fiscalização na apuração das bases de cálculo das contribuições em questão, a saber: i) Em relação aos meses de agosto, setembro e outubro de 2002, a fiscalização utilizou, como receita bruta, valor diverso do informado na DIPJ, conforme quadro demonstrativo abaixo: Fl. 599DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 13 12 Período DIPJ(R$) Lançamento (R$) agosto 1.905.344,47 1.572.249,38 setembro 1.572.249,38 1.779.223,20 outubro 1.779.223,20 1.905.344,47 ii) Na planilha elaborada pela fiscalização (fls. 61 e 72), foram adicionados à receita bruta valores referentes a juros recebidos e descontos obtidos, os quais já integram a própria receita bruta, conforme demonstrado nas planilhas de fls. 125 e 363, resultando em dupla tributação sobre a mesma grandeza. Sustenta a impugnante que não se pode admitir a subsistência de lançamentos fiscais marcados pela precariedade e erros na apuração da base de cálculo, devendo os mesmos serem declarados nulos. A respeito da questão, há que se ressaltar que a existência de erros materiais pode macular o lançamento, mas somente se tais incorreções foram de tal ordem que tornem absolutamente incompreensível ou impreciso o conteúdo da autuação fiscal. Erros que possam ser saneados sem que seja necessário reabrir a ação fiscal ou que não demandem a reformulação dos fundamentos do lançamento podem acarretar improcedência parcial ou total do lançamento, mas não implicam nulidade do auto de infração. Esse é o entendimento manifestado pelo antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: "NULIDADE Eventuais erros na determinação da exigência, ainda que ocorram, podem acarretar a improcedência total ou parcial do lançamento, mas não inquinam de nulidade o auto de infração. " ( I o Conselho de Contribuintes, 1" Câmara, acórdão 10196267, sessão de 09/08/2007) "AUTO DE INFRAÇÃO NULIDADE Eventuais erros na apuração da base de cálculo tributável, que possam ser ajustados no julgamento, desde que devidamente comprovados pelo recorrente, não importam na nulidade do auto de infração e sim na exoneração da parcela do crédito tributário indevidamente exigida em razão desses." ( I o Conselho de Contribuintes, 2" Câmara, acórdão 10247951, sessão de 18/10/2005) Feitas essas considerações, passase à análise dos erros apontados pela impugnante. Em relação às bases de cálculo apuradas nos meses de agosto, setembro de outubro de 2002, verificase, em consulta à DIPJ 2003 (fls. 27 a 29, 39 a 41), que houve equívoco da fiscalização, conforme alegado pela impugnante. Em relação ao mês de agosto de 2002, houve lançamento de valores inferiores aos devidos, devendo ser integralmente mantidas as autuações em relação a esse período. Fl. 600DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 14 13 Entretanto, houve lançamento a maior em relação aos meses de setembro e outubro de 2002, devendo ser exonerada a diferença entre a receita bruta utilizada pela fiscalização e a declarada na DIPJ, conforme demonstrativo abaixo. Receita Bruta (R$) Período Lançada Declarada Diferença setembro 1.779.223,20 1.572.249,38 206.973,82 outubro 1.905.344,47 1.779.223,20 126.121,27 Valores a exonerar (R$) Período Base de cálculo PIS COFINS setembro 206.973,82 1.345,33 6.209,21 outubro 126.121,27 819,79 3.783,64 Em relação às bases de cálculo das contribuições, alega a impugnante que a receita bruta utilizada pela fiscalização nas planilhas de fls. 61 e 72 já inclui os juros recebidos e os descontos obtidos, sendo indevidas as adições efetuadas pela fiscalização, por importarem em dupla tributação sobre os mesmos valores, conforme planilhas de fls. 125 e 363. Nessas planilhas (fls. 125 363), a contribuinte demonstra a composição da receita bruta como a soma do faturamento, dos juros recebidos e dos descontos obtidos, conforme tabela abaixo: Período Faturamento bruto Juros recebidos Descontos obtidos Receita bruta Janeiro 1.631.676,47 3.639,03 2.067,11 1.637.382,61 Fevereiro 1.326.911,99 1.469,61 1.299,52 1.329.681,12 Março 1.403.055,71 5.288,16 820,32 1.409.164,19 1° trimestre 4.361.644,17 10.396,80 4.186,95 4.376.227,92 Abril 1.514.787,33 8.939,84 11.344,72 1.535.071,89 Maio 1.663.885,77 3.975,54 6.659,41 1.674.520,72 Junho 1.603.419,76 4.702,40 11.302,95 1.619.425,11 2o trimestre 4.782.092,86 17.617,78 29.307,08 4.829.017,72 Julho 1.698.972,87 6.461,12 1.518,92 1.706.952,91 Agosto 1.878.748,22 2.211,41 24.384,84 1.905.344,47 Setembro 1.552.883,67 915,76 18.449,95 1.572.249,38 3o trimestre 5.130.604,76 9.588,29 44.353,71 5.184.546,76 Outubro 1.768.214,40 2.493,11 8.515,69 1.779.223,20 Novembro 1.940.554,80 3.256,89 4.982,45 1.948.794,14 Dezembro 1.650.042,34 4.389,91 8.945,60 1.663.377,85 4o trimestre 5.358.811,54 10.139,91 22.443,74 5.391.395,19 Nas planilhas de fls. 61 e 72, elaboradas pela fiscalização, verificase que as bases de cálculo tanto do PIS quanto da COFINS foram apuradas mediante as adições à receita bruta discriminadas abaixo. Há que se esclarecer que nesse demonstrativo já foram sanados os equívocos referentes à receita bruta de agosto, setembro e outubro: Período Receita bruta Adições Janeiro 1.637.382,61 5.706,14 Fevereiro 1.329.681,12 2.769,13 Março 1.409.164,19 6.108,48 1° trimestre 4.376.227,92 14.583,75 Abril 1.535.071,89 20.284,56 Maio 1.674.520,72 10.634,95 Junho 1.619.425,11 16.005,35 2o trimestre 4.829.017,72 46.924,86 Julho 1.706.952,91 7.980,04 Agosto 1.905.344,47 26.596,25 Setembro 1.572.249,38 19.365,71 3o trimestre 5.184.546,76 53.942,00 Outubro 1.779.223,20 11.008,80 Novembro 1.948.794,14 8.239,34 Dezembro 1.663.377,88 13.335,51 Fl. 601DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 15 14 4o trimestre 5.391.395,22 32.583,65 Comparandose os dois demonstrativos, verificase que as adições computadas pela fiscalização correspondem à soma dos juros recebidos e dos descontos obtidos informados pela impugnante. Verificase também que a receita bruta informada pela impugnante já engloba esses valores, ao passo que a fiscalização adicionou tais valores à receita bruta para a obtenção das bases de cálculo das contribuições. A fim de se elucidar a questão, foram consultadas as informações constantes da DIPJ 2003 relativas à demonstração do resultado (Ficha 06A): DIPJ 2003 Ficha 06A Demonstração do resultado Linha Linhas 06 + 07 Linha 24 Descrição Rec venda no mercado interno de prod fabr própria + receita da revenda de mercadorias Outras receitas financeiras 1° trimestre 4.376.227,92 14.583,75 2o trimestre 4.829.017,72 46.924,86 3 o trimestre 5.184.546,76 53.942,00 4o trimestre 5.382.837,49 32.583,65 Nessa consulta, constatase que os mesmos valores referentes às adições computadas pela fiscalização foram informados na Linha 24 Outras receitas financeiras. E a Soma das Linhas 06 Rec Venda do Mercado Interno de Prod. Frabric. Própria e 07 Receita da Revenda de Mercadorias coincide com a receita bruta considerada pela fiscalização (à exceção do 4º trimestre, em que há uma diferença de 8.557,73). Concluise, portanto, que os dados informados na Ficha 06A da DIPJ 2003, entregue pela impugnantes em 27/06/2003, demonstram que os valores de receita bruta utilizados pela fiscalização (informados nas fichas 19A e 20A da DIPJ 2003) não incluem as receitas financeiras, sendo correta a adição dessas receitas na apuração das bases de cálculo do PIS e da COFINS, a teor do disposto nos artigos 2º e 3º da Lei n. 9.718/98. Em suma, chegamse às seguintes conclusões em relação a este item: i) os erros na apuração das bases de cálculo não importam na nulidade dos autos de infração, mas apenas na exoneração do crédito tributários lançado indevidamente; ii) houve equívoco da fiscalização na apuração da receita bruta dos meses de agosto, setembro, e outubro, devendo ser exonerado parcialmente o crédito tributário, nos montantes de R$ 1.345,33 e R$ 819,79, relativos ao PIS de setembro de outubro de 2002, respectivamente, e nos montantes de R$ 6.209,21 e R$ 3.783,64, referentes à COFINS de setembro e outubro de 2002, respectivamente; iii) não houve dupla tributação das receitas financeiras, estando corretas as adições promovidas pela fiscalização na apuração das bases de cálculo das contribuições. Fl. 602DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 16 15 DA APURAÇÃO DO PIS REFERENTE A DEZEMBRO DE 2002 Em relação ao PIS de dezembro de 2002, verificase na planilha de fls. 72 que a fiscalização calculou a contribuição aplicando a alíquota de 0,65% sobre a base de cálculo de R$ 1.676.713,39, resultando em uma contribuição devida de R$ 10.898,63. Por sua vez, o Auto de Infração (fls. 77 e 79) traz como fundamentos legais os artigos 1º e 3º da Lei Complementar nº 7/70; artigos 2º, inciso I, 8º, inciso I, e 9º da Lei nº 9.715/98, artigos 2º e 3º da Lei nº 9.718/98; artigo 2º, inciso I, alínea 'a' e parágrafo único, 3º, 10, 22 e 51 do Decreto nº 4.524/2002. Logo, não resta dúvida de que a fiscalização efetuou o lançamento do PIS de dezembro de 202 pelo regime cumulativo previsto nos dispositivos acima citados, não havendo qualquer menção, no trabalho fiscal, do regime nãocumulativo. Entretanto, em relação a esse período, já se encontrava em vigência a Lei nº 10.637 de 30/12/2002, resultante da conversão da Medida Provisória nº 66, de 29/08/2002, que instituiu o regime nãocumulativo na cobrança da contribuição para o PIS. Esse era o regime a que estava sujeita a impugnante, visto a mesma não sc enquadrar nas hipóteses previstas no art. 8o da Lei n° 10.637/2002, que discrimina as pessoas jurídicas e as operações que permanecem sujeitas ao regime cumulativo. A base de cálculo do PIS no regime de cobrança nãocumulativa está consignada no art. Io da Lei n° 10.637/2002, como sendo "o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil", sendo permitidas as exclusões previstas no § 3o desse mesmo artigo. Por sua vez, a alíquota é de 1,65%, conforme previsto no art. 2° dessa Lei. E, do valor apurado na forma descrita no item anterior, a contribuinte pode descontar créditos na forma prevista no art. 3o da Lei n° 10.637/2002, caracterizandose assim o sistema não cumulativo. Concluise portanto que a fiscalização, em relação ao PIS de dezembro de 2002, efetuou o lançamento tributário com fundamento em legislação diversa da que estava submetida a contribuinte. Consequentemente, em relação a esse período, o auto de infração não atendeu ao disposto no art. 10 do Decreto n° 70.235/72, abaixo transcrito, face às incorreções na determinação da exigência e na indicação da disposição legal infringida. "Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; Fl. 603DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 17 16 III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumpríla ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula." Face ao exposto, deve ser exonerado o crédito tributário relativo ao PIS de dezembro de 2002, no montante de R$ 10.898,63. DAS EXCLUSÕES DA BASE DE CÁLCULO ALEGADAS PELA IMPUGNANTE Alega a impugnante que a fiscalização, ao apurar as bases de cálculo das contribuições deixou de considerar que parte das receitas por ela auferidas são isentas de PIS c de COFINS, além de não considerar exclusões expressamente previstas pela legislação, relativas a vendas canceladas, devoluções de vendas e descontos incondicionais concedidos. Em relação às receitas isentas, alega que realiza constantes operações de vendas a empresas comerciais exportadoras, sendo as receitas isentas de PIS e de COFINS a teor do disposto no art. 14, §1°, da Medida Provisória n° 2.11326/2000. Alega também que realiza vendas para empresas situadas na Zona Franca de Manaus, sendo as receitas isentas em função de decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal e em face do disposto na Medida Provisória n° 2.03725/2000 (atual Medida Provisória n° 2.15835/2001). A impugnante apresenta, a título exemplificativo, cópia das notas fiscais de números 56926, 62763 e 63105 (fls. 127 a 129). Alega que não possui todos os documentos comprobatórios dessas vendas em razão de enchente que atingiu seu estabelecimento, A respeito da matéria, há que se observar que o art. 14 da Medida Provisória n° 2.15835/2001, a seguir reproduzido, discrimina as receitas isentas de COFINS, aplicandose a isenção também ao PIS conforme disposto no §1° do mesmo artigo: "Art. 14. Em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de I o de fevereiro de 1999, são isentas da COFINS as receitas: I dos recursos recebidos a título de repasse, oriundos do Orçamento Geral da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, pela empresas públicas e sociedades de economia mista; II da exportação de mercadorias para o exterior; III dos serviços prestados a pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; Fl. 604DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 18 17 IV do fornecimento de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível; V do transporte internacional de cargas ou passageiros; VI auferidas pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação modernização, conversão e reparo de embarcações préregistradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro REB, instituído pela Lei no 9.432, de 8 de janeiro de 1997; VII de frete de mercadorias transportadas entre o País e o exterior pelas embarcações registradas no REB, de que trata o art. 11 da Lei no 9.432, de 1997; VIII de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras nos termos do DecretoLei no 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; IX de vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; X relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13. § 1o São isentas da contribuição para o PIS/PASEP as receitas referidas nos incisos I a IX do caput. § 2o As isenções previstas no caput e no § 1o não alcançam as receitas de vendas efetuadas: I a empresa estabelecida na Amazônia Ocidental ou em área de livre comércio; II a empresa estabelecida em zona de processamento de exportação; Revogado pela Lei nº 11.508, de 2007 III a estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados à exportação, ao amparo do art. 3o da Lei no 8.402, de 8 de janeiro de 1992. Por sua vez, o Decreto nº 4.524/2002, no art. 45, § 1º, esclarece que se entende por "fim específico de exportação para o exterior", expressão utilizada nos incisos VIII e IX do dispositivo supra citado: Art. 45. São isentas do PIS/Pasep e da Cofins as receitas (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 14, Lei nº 9.532, de 1997, art. 39, § 2º, e Lei nº 10.560, de 2002, art. 3º, e Medida Provisória nº 75, de 2002, art. 7º): Fl. 605DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 19 18 I dos recursos recebidos a título de repasse, oriundos do Orçamento Geral da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, pelas empresas públicas e sociedades de economia mista; II da exportação de mercadorias para o exterior; III dos serviços prestados a pessoa física ou jurídica residentes ou domiciliadas no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; IV do fornecimento de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível, observado o disposto no § 3º; V do transporte internacional de cargas ou passageiro; VI auferidas pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação, modernização, conversão e reparo de embarcações préregistradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro (REB), instituído pela Lei nº 9.432, de 8 de janeiro de 1997; VII de frete de mercadorias transportadas entre o País e o exterior pelas embarcações registradas no REB, de que trata o art. 11 da Lei nº 9.432, de 1997; VIII de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras nos termos do Decretolei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; e IX de vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. § 1º Consideramse adquiridos com o fim específico de exportação os produtos remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. § 2º As isenções previstas neste artigo não alcançam as receitas de vendas efetuadas: I a empresa estabelecida na Amazônia Ocidental ou em área de livre comércio; II a empresa estabelecida em zona de processamento de exportação; e III a estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados a exportação, ao amparo do art. 3º da Lei nº 8.402, de 8 de janeiro de 1992. Fl. 606DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 20 19 § 3º A partir de 10 de dezembro de 2002, o disposto no inciso IV do caput não se aplica à hipótese de fornecimento de querosene de aviação. § 4º O disposto nos incisos I e II do § 2º não se aplica às vendas realizadas às empresas referidas nos incisos VIII e IX do caput. De acordo com os dispositivos acima transcritos, nem todas as receitas de vendas a empresas situadas na Zona Franca de Manaus ZFM são isentas de PIS e de COFINS, mas apenas aquelas discriminadas no art. 14 da Medida Provisória n° 2.158 35/2001. Somente com a publicação da Lei n° 10.996/2004, foram reduzidas a zero as alíquotas do PIS e da COFINS incidentes sobre as receitas de vendas de mercadorias destinadas ao consumo ou à industrialização na ZFM, por pessoa jurídica estabelecida fora da ZFM . No caso, as notas fiscais apresentadas pela impugnante se referem a vendas à empresa Casa Roma Ind. Alim. Ltda, CNPJ 34.579.060/000122, localizada em Manaus — AM. Essas vendas não se enquadram em nenhum dos incisos do art. 14 da citada Medida Provisória, não podendo as respectivas receitas serem consideradas isentas de PIS e de COFINS. Assim, nem mesmo em relação às três notas fiscais apresentadas pela impugnante, restou comprovada a isenção das receitas. No que tange às vendas realizadas a empresas comerciais exportadoras regidas pelo Decretolei nº 1.248/72 e às vendas a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Comercio Exterior, ressaltase que a legislação exige que tais vendas sejam realizadas com o fim específico de exportação, que pressupõe que os produtos sejam remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recintos alfandegados, por conta e ordem da empresa comercial exportadora. No caso, a impugnante apresentou cópias das notas fiscais de números 56928, 58977, 59838 (fls. 130 a 132) relativas a vendas para a empresa Cosmos Exp. Mat. Construção Ltda., CNPJ 15.463.649/000116, de mercadorias destinadas à exportação. Todavia, nesses documentos consta como destinatária a empresa adquirente das mercadorias, no endereço Rua Paraguai, 961, Centro, Ponta Porã, MS, o que evidencia o não atendimento à condição imposta para o gozo da isenção de que os produtos sejam remetidos diretamente do estabelecimento industrial para embarque de exportação ou para recinto alfandegado. Portanto, a isenção das receitas não restou comprovada nem mesmo em relação às três notas fiscais apresentadas pela impugnante. Alega a impugnante que não possui todos os documentos comprobatórios das vendas em razão de os mesmos terem sido Fl. 607DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 21 20 destruídos por enchente que atingiu suas dependências em 24/05/2005. Para comprovar sua alegação, apresenta fotos do local (fls. 173 a 192) e cópia do Boletim de Ocorrência (fls. 171 e 172). A respeito da guarda de livros e documentos, assim dispõe o art. 264 do RIR/99 (Decreto n° 3.000/99): "Ari. 264. A pessoa jurídica é obrigada a conservar em ordem, enquanto não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, os livros, documentos e papéis relativos a sua atividade, ou que se refiram a atos ou operações que modifiquem ou possam vir a modificar sua situação patrimonial (DecretoLei n° 486, de 1969, art. 4o). § 1° Ocorrendo extravio, deterioração ou destruição de livros, fichas, documentos ou papéis de interesse da escrituração, a pessoa jurídica fará publicar, em jornal de grande circulação do local de seu estabelecimento, aviso concernente ao fato e deste dará minuciosa informação, dentro de quarenta e oito horas, ao órgão competente do Registro do Comércio, remetendo cópia da comunicação ao órgão da Secretaria da Receita Federal de sua jurisdição (DecretoLei n°486, de 1969, art. 10). § 2 o A legalização de novos livros ou fichas só será providenciada depois de observado o disposto no parágrafo anterior (DecretoLei n" 486, de 1969, art. 10, parágrafo único). § 3 o Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios (Lei n° 9.430, de 1996, art. 37). " Por conseguinte, no caso de destruição da documentação, torna se inconsistente a simples afirmação de ocorrência de enchente e a formalização de boletim de ocorrência, visando exonerarse da obrigação legal de mantêlos em ordem, visto encontrarse devidamente prevista a obrigação da contribuinte de publicar o fato em jornal de grande circulação e informar ao Registro de Comércio, bem como à unidade da Receita Federal de jurisdição de seu domicílio tributário. Ademais, caberia à contribuinte diligenciar junto aos demais pólos de suas relações comerciais no sentido buscar outras vias de seus documentos fiscais. Nesse sentido, decidiu o Primeiro Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: "IRPJ. ARBITRAMENTO DO LUCRO. EXTRAVIO DE DOCUMENTOS EM RAZÃO DE ALAGAMENTO. RECONSTITUIÇÃO DA ESCRITURAÇÃO A adoção dos procedimentos previstos no art. 264, § Io, do RIR/99, para comunicação de extravio de documentos relativos à escrituração da pessoa jurídica, deve ser seguida de reconstituição do acervo Fl. 608DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 22 21 da sua contabilidade comercial e fiscal. Eventual perda de documentação não exclui o contribuinte do seu dever acessório de reunir, guardar em boa ordem e manter à disposição do fisco os documentos que dão respaldo à apuração do imposto devido, nem tampouco pressupõe homologação dos valores informados em DIPJ." ( I o Conselho de Contribuintes, 3" Câmara, acórdão 10322974, sessão de 25/04/2007) A não observância das disposições constantes da legislação tributária, no tocante à boa guarda e conservação da documentação contábil e fiscal, bem como dos procedimentos existentes para a formalização de comunicação de extravio, não ensejam nenhum outro posicionamento, senão o de referendar o procedimento da fiscalização de não excluir da base de cálculo das contribuições as alegadas receitas isentas. Ademais, como demonstrado, os documentos apresentados pela impugnante evidenciam que tais receitas não gozam de isenção em relação ao PIS e à COFINS. A impugnante também alega que a fiscalização não deduziu da base de cálculo das contribuições as vendas canceladas, devoluções e descontos incondicionais informados nas fichas 19A — Cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep e 20A Cálculo da Cofins. A fim de comprovar a existência de tais exclusões, apresenta cópias de notas fiscais de fls. 133 a 169 (com cópias repetidas às fls. 301 a 337). Na tabela abaixo, estão resumidas as informações contidas nessas notas fiscais, relativamente aos valores dos descontos incondicionais e das vendas canceladas: N°NF Data dc emissão Descontos incondicionais / vendas canceladas Folhas 56975 07/01/02 3.504,80 139e307 56977 07/01/02 1.614,00 138 e306 56980 07/01/02 702,78 133 c 301 57161 18/01/02 345,00 134e302 Subtotal Janeiro 6.166,58 57473 01/02/02 456,00 141 e309 Subtotal Fevereiro 456,00 58093 08/03/02 6.372,00 143 e311 58155 12/03/02 2.340,00 145 e 313 Subtotal Março 8.712,00 58591 04/04/02 2.092,20 147 e 315 Subtotal Abril 2.092,20 59088 02/05/02 196,88 135 e303 59131 06/05/02 3.843,00 149 e 317 59132 06/05/02 1.679,60 151 e319 Subtotal Maio 5.719,48 59741 05/06/02 2.832,33 153 e321 Subtotal Junho 2.832,33 60316 03/07/02 505,68 157e325 60317 03/07/02 1.458,60 155 e323 Subtotal Julho 1.964,28 61051 12/08/02 3.839,28 159e327 Subtotal Agosto 3.839,28 61151 03/09/02 6.840,00 161 e329 Subtotal Setembro 6.840,00 Fl. 609DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 23 22 62230 11/10/02 1.035,00 164e332 62231 11/10/02 1.327,50 163 e331 Subtotal Outubro 2.362,50 62174 06/11/02 4.902,00 136e304 62706 06/11/02 8.405,35 166e334 Subtotal Novembro 13.307,35 63234 06/12/02 6.940,05 168e336 Subtotal Dezembro 6.940,05 Esses valores, devidamente comprovados pela impugnante, devem ser excluídos das bases de cálculo do PIS e da COFINS, conforme demonstrativo abaixo, exonerandose os créditos tributários correspondentes: Valores a exonerar (R$) Período Base de cálculo PIS COFINS Janeiro 6.166,58 40,08 185,00 Fevereiro 456,00 2,96 13,68 Março 8.712,00 56,63 261,36 Abril 2.092,20 13,60 62,77 Maio 5.719,48 37,18 171,58 Junho 2.832,33 18,41 84,97 Julho 1.964,28 12,77 58,93 Agosto 3.839,28 24,96 115,18 Setembro 6.840,00 44,46 205,20 Outubro 2.362,50 15,36 70,88 Novembro 13.307,35 86,50 399,22 Dezembro 6.940,05 - 208,20 Obs: o lançamento de PIS referente a dezembro de 2002 foi integralmente exonerado em item anterior deste voto. Cabe ressaltar que caberia à contribuinte juntar à impugnação documentos hábeis e idôneos capazes de comprovar o total das vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sendo insuficiente, para comprovar tais fatos, a alegação de que a comprovação está à disposição da fiscalização em suas dependências. Conforme disposto nos artigos 15 e 16 do Decreto nº 70.235/72, abaixo reproduzidos, cabe à contribuinte juntar à impugnação os documentos capazes de comprovar suas alegações. "Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: (■■■) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei n° 8.74S, de 1993)" (g.n.) A corroborar o exposto, citamse decisões proferidas pelos antigos Conselhos de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: "ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVAS. As alegações de recurso devem ser acompanhadas de provas que as corroborem. Alegar sem provar equivale a não alegar, quanto Fl. 610DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 24 23 aos efeitos no processo." ( I o Conselho de Contribuintes, 1" Câmara, acórdão 10196880, sessão de 14/08/2008) "ALEGAÇÃO DESACOMPANHADA DE PROVA. IN ACEITAÇÃO. Nos estritos termos do Decreto 70.235/72 impende ao recorrente apresentar as provas do que alega, não podendo o julgador acatar alegações que delas não se façam acompanhar. " (2° Conselho de Contribuintes, 4" Câmara, acórdão 204 02265, sessão de 27/03/2007) "ÔNUS DA PROVA FALTA DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL A impugnação deve estar instruída com lodos os documentos e provas que possam fundamentar as contestações de defesa. Meras alegações sem a devida produção de provas não são suficientes para infirmar a procedência do lançamento. " ( I o Conselho de Contribuintes, 5" Câmara, acórdão 10515987, sessão de 20/09/2006) Ante o exposto, concluise que devem ser excluídos das bases de cálculo do PIS e da COFINS os valores relativos aos descontos incondicionais concedidos e às vendas canceladas comprovados pela impugnante. DAS ALEGAÇÕES RELATIVAS À INCONSTITUCIONALIDADE DA AMPLIAÇÃO DAS BASES DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS PROMOVIDA PELA LEI N° 9.718/98 A inconstitucionalidade do art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98, que alargou o conceito de faturamento para a base de cálculo das contribuições para o PIS e para a COFINS, foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento dos RE nº 585.235, na sistemática da repercussão geral, tendo como leading cases os Res nºs 357.9509/ RS, 390.8405/ MG, 358.2739/ RS e 346.0846/ PR. Os fundamentos da decisão foram resumidos na seguinte ementa, in verbis: EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nºs 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (RE 585235 QORG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 10/09/2008, REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe227 DIVULG 27112008 PUBLIC 28112008 EMENT VOL0234310 PP02009 RTJ VOL0020802 PP00871) (grifouse) Fazse necessário, ainda, trazer a ementa do julgado do leading case RE nº 357.950/RS, refletindo a posição predominante na Corte Suprema confirmada em sede de repercussão geral: CONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE ARTIGO 3º, § 1º, DA LEI Nº 9.718, DE 27 DE NOVEMBRO DE 1998 EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 20, DE 15 DE DEZEMBRO DE 1998. O sistema jurídico brasileiro não contempla a figura da constitucionalidade superveniente. TRIBUTÁRIO INSTITUTOS EXPRESSÕES E Fl. 611DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 25 24 VOCÁBULOS SENTIDO. A norma pedagógica do artigo 110 do Código Tributário Nacional ressalta a impossibilidade de a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance de consagrados institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados expressa ou implicitamente. Sobrepõese ao aspecto formal o princípio da realidade, considerados os elementos tributários. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PIS RECEITA BRUTA NOÇÃO INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º DA LEI Nº 9.718/98. A jurisprudência do Supremo, ante a redação do artigo 195 da Carta Federal anterior à Emenda Constitucional nº 20/98, consolidouse no sentido de tomar as expressões receita bruta e faturamento como sinônimas, jungindoas à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. É inconstitucional o § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, no que ampliou o conceito de receita bruta para envolver a totalidade das receitas auferidas por pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas desenvolvida e da classificação contábil adotada. (RE 390840, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 09/11/2005, DJ 15082006 PP00025 EMENT VOL0224203 PP00372 RDDT n. 133, 2006, p. 214215) Conforme se depreende do dispositivo transcrito a seguir, as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal que tenham sido afetadas à sistemática da repercussão geral são de observância obrigatória por este órgão administrativo de julgamento, conforme redação do art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, atualmente em vigor e que obriga os Conselheiros à sua aplicação: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. [...] b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) [...] § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Desta forma, a declaração de inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo da COFINS estabelecida pelo art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98, em sede de repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal, estabeleceu o conceito de faturamento como decorrente da venda de mercadorias ou da prestação de serviços, ou da combinação de ambos, não sendo abrangidas outras receitas. No caso concreto, não há outra solução a não ser cumprir a determinação regimental e excluir as demais receitas, inclusive receitas financeiras, da base de cálculo da Fl. 612DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 26 25 contribuição apurada pela Fiscalização, desde que passíveis de identificação por meio da documentação acostadas aos autos. DA TAXA SELIC No que tange aos argumentos da impugnante de que a taxa SELIC seria inaplicável no presente lançamento, cabe observar que a sua utilização está expressamente prevista no artigo 13 da Lei n° 9.065/95, abaixo reproduzido, não cabendo à instância julgadora administrativa apreciar a validade dessa norma, visto que isso implicaria apreciar sua constitucionalidade, matéria afeta ao Poder Judiciário. "Art. 13. A partir de I o de abril de 1995, os juros de que tratam a alínea c do parágrafo único do art. 14 da Lei n" 8.847, de 28 de janeiro de 1994, com a redação dada pelo art. 6° da Lei n° 8.850, de 28 de janeiro de 1994, e pelo art. 90 da Lei n° 8.981, de 1995, o art. 84, inciso L e o art. 91, parágrafo único, alínea a 2, da Lei n° 8.981, de 1995, serão equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente." (g.n.). A utilização da taxa Selic para o cálculo dos juros moratórios é matéria pacífica no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, tendo sido publicada a Súmula CARF n° 4, in verbis: Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. A questão também já está pacificada no Superior Tribunal de Justiça, tendo a Primeira Seção do E. Tribunal julgado em 25/11/2009 o Resp 1.073.846/SP, relatado pelo Ministro Luiz Fux e submetido ao Colegiado segundo o rito reservado aos recursos repetitivos (CPC, art. 543C), ocasião em que se decidiu que: "A Taxa SELIC é legítima como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos débitos tributários pagos em atraso, ex vi do disposto no artigo 13, da Lei 9.065/95. " Portanto, deve ser mantida a exigência dos juros moratórios calculados com base na taxa SELIC. DAS CONCLUSÕES Por todo o exposto, voto no sentido de julgar parcialmente procedentes as impugnações, exonerando parcialmente o crédito tributário lançado, conforme demonstrativos abaixo: COFINS período Principal (RS) Multa proporcional (RS) Fl. 613DF CARF MF Processo nº 19515.002888/200647 Acórdão n.º 3302005.775 S3C3T2 Fl. 27 26 lançado exonerado mantido lançado exonerado mantido Janeiro 31.328,52 184,99 31.143,53 23.496,39 138,74 23.357,65 Fevereiro 25.039,59 13,68 25.025,91 18.779,69 10,26 18.769,43 Março 26.092,58 261,36 25.831,22 19.569,43 196,02 19.373,41 Abril 28.369,21 62,76 28.306,45 21.276,90 47,07 21.229,83 Maio 30.642,56 171,58 30.470,98 22.981,92 128,68 22.853,24 Junho 29.191,49 84,96 29.106,53 21.893,61 63,72 21.829,89 Julho 31.145,28 58,92 31.086,36 23.358,96 44,19 23.314,77 Agosto 23.882,88 115,17 23.767,71 17.912,16 86,37 17.825,79 Setembro 34.294,62 6.414,41 27.880,21 25.720,96 4.810,80 20.910,16 Outubro 36.662,06 3.854,51 32.807,55 27.496,54 2.890,88 24.605,66 Novembro 36.150,31 399,22 35.751,09 27.112,73 299,41 26.813,32 Dezembro 28.133,89 208,20 27.925,69 21.100,41 156,15 20.944,26 Soma 360.932,99 11.829,76 349.103,23 270.699,70 8.872,29 261.827,41 PIS Principal (RS) Multa proporcional (RS) período lançado exonerado mantido lançado exonerado mantido Janeiro 6.787,84 40,08 6.747,76 5.090,88 30,06 5.060,82 Fevereiro 5.424,24 2,96 5.421,28 4.068,18 2,22 4.065,96 Março 5.653,39 56,62 5.596,77 4.240,04 42,46 4.197,58 Abril 6.146,65 13,59 6.133,06 4.609,98 10,19 4.599,79 Maio 6.639,21 37,17 6.602,04 4.979,40 27,87 4.951,53 Junho 6.324,85 18,41 6.306,44 4.743,63 13,80 4.729,83 Julho 7.071,72 12,76 7.058,96 5.303,79 9,57 5.294,22 Agosto 5.174,62 24,95 5.149,67 3.880,96 18,71 3.862,25 Setembro 7.430,49 1.389,79 6.040,70 5.572,86 1.042,34 4.530,52 Outubro 7.878,87 835,14 7.043,73 5.909,15 626,35 5.282,80 Novembro 7.832,56 86,49 7.746,07 5.874,42 64,86 5.809,56 Dezembro 10.898,63 10.898,63 0,00 8.173,97 8.173,97 0,00 Soma 83.263,07 13.416,59 69.846,48 62.447,26 10.062,40 52.384,86 Ante o acima exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, dandolhe parcial provimento para excluir da base de cálculo das contribuições as receitas financeira. (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator Fl. 614DF CARF MF
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Numero do processo: 11020.003569/2009-51
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
NÃO CUMULATIVIDADE DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. AQUISIÇÃO DE INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. DIREITO AO CREDITAMENTO.
A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas - PIS/COFINS - informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição de itens e serviços que não sejam utilizados diretamente no processo de produção do produto destinado a venda.
Numero da decisão: 9303-007.295
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial, para restabelecer a glosa de crédito sobre gastos com (i) bens diversos, (ii) combustíveis e lubrificantes (iii) embalagem de transporte, (iv) serviços de manutenção de máquinas e tratores, mantendo a decisão recorrida quanto às despesas com empilhadeiras (GLP e manutenção), vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Érika Costa Camargos Autran, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CONCEITO DE INSUMO. DIREITO DE CRÉDITOS. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado RASIP ALIMENTOS LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 NÃO CUMULATIVIDADE DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. AQUISIÇÃO DE INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. DIREITO AO CREDITAMENTO. A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas PIS/COFINS informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição de itens e serviços que não sejam utilizados diretamente no processo de produção do produto destinado a venda. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial, para restabelecer a glosa de crédito sobre gastos com (i) bens diversos, (ii) combustíveis e lubrificantes (iii) embalagem de transporte, (iv) serviços de manutenção de máquinas e tratores, mantendo a decisão recorrida quanto às despesas com empilhadeiras (GLP e manutenção), vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Érika Costa Camargos Autran, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 00 35 69 /2 00 9- 51 Fl. 279DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela FAZENDA NACIONAL, com fulcro nos artigos 64, inciso II e 67, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/2009, buscando a reforma do Acórdão nº 380302.853 proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento, em 25 de abril de 2012, no sentido de dar provimento parcial ao recurso voluntário. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 Ementa: INSUMOS. ALCANCE DO TERMO. São insumos, para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam, o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser diretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço dela resultantes. CREDITAMENTO. COMBUSTÍVEIS E LUBRIFICANTES UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO. POSSIBILIDADE. Somente os gastos expendidos com combustível que efetivamente incidiram no processo produtivo darão direito ao creditamento do COFINS pleiteado. CREDITAMENTO. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. CUSTO DE VENDA DA EMPRESA. POSSIBILIDADE. Se o serviço de transporte das mercadorias faz parte da operação de venda, tendo seus custos suportados pelo produtor, as embalagens de transporte serão necessárias para a preservação da integridade dos bens durante o transporte, e geram direito a crédito. CREDITAMENTO. PRODUTOS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE. Não dará direito a crédito o valor da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota zero, isentos ou não alcançados pela contribuição. ART. 62A DO RICARF. REPRODUÇÃO PELOS CONSELHEIROS QUANDO DO JULGAMENTO DE RECURSOS NO ÂMBITO DO CARF. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Recurso Voluntário Provido em Parte. Direito Creditório Reconhecido em Parte. Fl. 280DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 4 3 O Colegiado a quo entendeu por dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o direito ao crédito e autorizar o ressarcimento tão somente quanto aos seguintes itens: (a) despesas com empilhadeiras (custos de aquisição de GLP e manutenção de empilhadeiras); (b) despesas com aquisições de combustíveis e lubrificantes desde que efetivamente comprovada pela Contribuinte sua participação no processo produtivo e feita a segregação do lançamento de combustível/lubrificante que foi contabilizado no ativo imobilizado da empresa (conta contábil 11701009); (c) despesas com materiais de limpeza e higienização, cerca para rebanhos, manutenção de laboratório; (d) despesas com serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores quanto às máquinas que comprovadamente tiveram contato direto com o produto e foram essenciais ao processo de produção; (e) despesas com embalagem de transporte (material de transporte), além de homologar a compensação no limite do crédito reconhecido. Não resignada em parte com a decisão, a Fazenda Nacional interpôs recurso especial alegando divergência jurisprudencial quanto ao conceito de insumos para fins de utilização de créditos das contribuições para o PIS e a COFINS na sistemática da não cumulatividade. Insurgiuse especificamente quanto aos seguintes itens: (1) despesas com empilhadeiras; despesas com embalagem de transporte (material de embalagem); despesas com serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores; e (2) despesas com combustíveis e lubrificantes. Visando à comprovação do dissenso interpretativo indicou, dentre outros, o Acórdão n.º 20312.448, segundo o qual apenas podem ser considerados insumos para fins de cálculo do crédito do PIS nãocumulativo aqueles elencados no art. 3º da Lei nº 10.637/2002 combinado com o art. 66 da IN SRF nº 464/2004, adotando a tese da definição de “insumos” prevista na legislação do IPI. A Recorrente aduz, em síntese, que os insumos aptos a serem considerados como créditos de PIS/Pasep e COFINS no regime nãocumulativo foram tratados de foram taxativa no art. 3º das Leis n.º 10.637/2002 e 10.833/2003, respectivamente. Portanto, para efeitos de crédito do tributo, incluemse no conceito de insumo, além de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, os itens que sejam incorporados ao bem produzido, e os bens que, mesmo não se integrando à mercadoria, sejam consumidos e/ou alterados no processo de industrialização em função da ação exercida diretamente sobre o produto, com exceção daqueles compreendidos no ativo permanente. Segundo a Fazenda Nacional, tais requisitos não são atendidos pelos itens admitidos como insumos pelo acórdão recorrido, merecendo o mesmo ser reformado. Nos termos do despacho de exame de admissibilidade do Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF, foi dado seguimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, por ter sido entendida como comprovada a divergência jurisprudencial, com base no Acórdão paradigma n.º 20312.448. Cientificada a Contribuinte, não foram apresentadas contrarrazões. É o Relatório. Fl. 281DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303007.294, de 15/08/2018, proferido no julgamento do processo 11020.720502/200985, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 9303007.294): "Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional atende aos requisitos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 (anteriormente Portaria MF n.º 256/2009), devendo, portanto, ter prosseguimento. Mérito Do Direito ao Crédito de PIS e COFINS nãocumulativos – Conceito de insumos No mérito, adentrase à análise do direito ao crédito de PIS e COFINS nãocumulativos decorrentes de: (1) despesas com empilhadeiras; despesas com embalagem de transporte (material de embalagem); despesas com materiais de limpeza e higienização, cerca para rebanhos, manutenção de laboratório (bens diversos); despesas com serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores; e (2) despesas com combustíveis e lubrificantes. De início, explicitase o conceito de insumos adotado no presente voto, para posteriormente adentrarse à análise dos itens individualmente. A sistemática da nãocumulatividade para as contribuições do PIS e da COFINS foi instituída, respectivamente, pela Medida Provisória nº 66/2002, convertida na Lei nº 10.637/2002 (PIS) e pela Medida Provisória nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833/2003 (COFINS). Em ambos os diplomas legais, o art. 3º, inciso II, autorizase a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda.1 1 Lei nº 10.637/2002 (PIS). Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; [...]. Lei nº 10.8332003 (COFINS). Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...]II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; [...] Fl. 282DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 6 5 O princípio da nãocumulatividade das contribuições sociais foi também estabelecido no §12º, do art. 195 da Constituição Federal, por meio da Emenda Constitucional nº 42/2003, consignandose a definição por lei dos setores de atividade econômica para os quais as contribuições sociais dos incisos I, b; e IV do caput, dentre elas o PIS e a COFINS. 2 A disposição constitucional deixou a cargo do legislador ordinário a regulamentação da sistemática da nãocumulatividade do PIS e da COFINS. Por meio das Instruções Normativas nºs 247/02 (com redação da Instrução Normativa nº 358/2003) (art. 66) e 404/04 (art. 8º), a Secretaria da Receita Federal trouxe a sua interpretação dos insumos passíveis de creditamento pelo PIS e pela COFINS. A definição de insumos adotada pelos mencionados atos normativos é excessivamente restritiva, assemelhandose ao conceito de insumos utilizado para utilização dos créditos do IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados, estabelecido no art. 226 do Decreto nº 7.212/2010 (RIPI). As Instruções Normativas nºs 247/2002 e 404/2004, ao admitirem o creditamento apenas quando o insumo for efetivamente incorporado ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, aproximandose da legislação do IPI que traz critério demasiadamente restritivo, extrapolaram as disposições da legislação hierarquicamente superior no ordenamento jurídico, a saber, as Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, e contrariaram frontalmente a finalidade da sistemática da nãocumulatividade das contribuições do PIS e da COFINS. Patente, portanto, a ilegalidade dos referidos atos normativos. Nessa senda, entendese igualmente impróprio para conceituar insumos adotarse o parâmetro estabelecido na legislação do IRPJ Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, pois demasiadamente amplo. Pelo raciocínio estabelecido a partir da leitura dos artigos 290 e 299 do Decreto nº 3.000/99 (RIR/99), poderseia enquadrar como insumo todo e qualquer custo da pessoa jurídica com o consumo de bens ou serviços integrantes do processo de fabricação ou da prestação de serviços como um todo. Em Declaração de Voto apresentada nos autos do processo administrativo nº 13053.000211/200672, em sede de julgamento de recurso especial pelo Colegiado da 3ª Turma da CSRF, o ilustre Conselheiro Gileno Gurjão Barreto assim se manifestou: [...] permaneço não compartilhando do entendimento pela possibilidade de utilização isolada da legislação do IR para alcançar a definição de "insumos" pretendida. Reconheço, no entanto, que o raciocínio é auxiliar, é instrumento que pode ser utilizado para dirimir controvérsias mais estritas. Isso porque a utilização da legislação do IRPJ alargaria sobremaneira o conceito de "insumos" ao equiparálo ao conceito contábil de "custos e despesas operacionais" que abarca todos os custos e despesas que contribuem para a atividade de uma empresa (não apenas a sua produção), o que distorceria a interpretação da legislação ao ponto de tornála inócua e de resultar em indesejável esvaziamento da função social dos tributos, passando a desonerar não o produto, mas sim o produtor, subjetivamente. 2 Constituição Federal de 1988. Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: [...] b) a receita ou o faturamento; [...] IV do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar. [...]§ 12. A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão nãocumulativas. (grifouse) Fl. 283DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 7 6 As Despesas Operacionais são aquelas necessárias não apenas para produzir os bens, mas também para vender os produtos, administrar a empresa e financiar as operações. Enfim, são todas as despesas que contribuem para a manutenção da atividade operacional da empresa. Não que elas não possam ser passíveis de creditamento, mas tem que atender ao critério da essencialidade. [...] Estabelece o Código Tributário Nacional que a segunda forma de integração da lei prevista no art. 108, II, do CTN são os Princípios Gerais de Direito Tributário. Na exposição de motivos da Medida Provisória n. 66/2002, in verbis, afirmase que “O modelo ora proposto traduz demanda pela modernização do sistema tributário brasileiro sem, entretanto, pôr em risco o equilíbrio das contas públicas, na estrita observância da Lei de Responsabilidade Fiscal. Com efeito, constitui premissa básica do modelo a manutenção da carga tributária correspondente ao que hoje se arrecada em virtude da cobrança do PIS/Pasep.” Assim sendo, o conceito de "insumos", portanto, muito embora não possa ser o mesmo utilizado pela legislação do IPI, pelas razões já exploradas, também não pode atingir o alargamento proposto pela utilização de conceitos diversos contidos na legislação do IR. Ultrapassados os argumentos para a não adoção dos critérios da legislação do IPI nem do IRPJ, necessário estabelecerse o critério a ser utilizado para a conceituação de insumos. Diante do entendimento consolidado deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, inclusive no âmbito desta Câmara Superior de Recursos Fiscais, o conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e do art. 3º, inciso II da Lei 10.833/2003, deve ser interpretado com critério próprio: o da essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária" construída pelo CARF, na qual, para definir insumos, buscase a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte. Conceito mais elaborado de insumo, construído a partir da jurisprudência do próprio CARF e norteador dos julgamentos dos processos, no referido órgão, foi consignado no Acórdão nº 9303003.069, resultante de julgamento da CSRF em 13 de agosto de 2014: [...] Portanto, "insumo" para fins de creditamento do PIS e da COFINS não cumulativos, partindo de uma interpretação histórica, sistemática e teleológica das próprias normas instituidoras de tais tributos (Lei no. 10.637/2002 e 10.833/2003), deve ser entendido como todo custo, despesa ou encargo comprovadamente incorrido na prestação de serviço ou na produção ou fabricação de bem ou produto que seja destinado à venda, e que tenha relação e vínculo com as receitas tributadas (critério relacional), dependendo, para sua identificação, das especificidades de cada processo produtivo. Nessa linha relacional, para se verificar se determinado bem ou serviço prestado pode ser caracterizado como insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS, impende analisar se há: pertinência ao processo produtivo (aquisição do bem ou serviço especificamente para utilização na prestação do serviço ou na produção, ou, ao menos, para tornálo viável); essencialidade ao processo produtivo (produção ou prestação de serviço depende diretamente daquela aquisição) e possibilidade de emprego indireto no processo de produção (prescindível o consumo do bem ou a prestação de serviço em contato direto com o bem produzido). Fl. 284DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 8 7 Portanto, para que determinado bem ou prestação de serviço seja considerado insumo gerador de crédito de PIS e COFINS, imprescindível a sua essencialidade ao processo produtivo ou prestação de serviço, direta ou indiretamente, bem como haja a respectiva prova. Não é diferente a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço. O entendimento está refletido no voto do Ministro Relator Mauro Campbell Marques ao julgar o recurso especial nº 1.246.317MG, sintetizado na ementa: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os Fl. 285DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 9 8 efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. (REsp 1246317/MG, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/05/2015, DJe 29/06/2015) (grifouse) Portanto, são insumos, para efeitos do art. 3º, II da Lei nº 10.637/2002 e do art. 3º, II da Lei nº 10.833/2003, todos os bens e serviços pertinentes ao processo produtivo e à prestação de serviços, ou ao menos que os viabilizem, podendo ser empregados direta ou indiretamente, e cuja subtração implica a impossibilidade de realização do processo produtivo e da prestação do serviço, objetando ou comprometendo a qualidade da própria atividade da pessoa jurídica. Ainda, no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o tema foi recentemente julgado pela sistemática dos recursos repetitivos nos autos do recurso especial nº 1.221.170 PR, no sentido de reconhecer a ilegalidade das Instruções Normativas SRF nºs 247/2002 e 404/2004 e aplicação de critério da essencialidade ou relevância para o processo produtivo na conceituação de insumo para os créditos de PIS e COFINS no regime nãocumulativo. Até a presente data da sessão de julgamento desse processo não houve o trânsito em julgado do acórdão do recurso especial nº 1.221.170PR pela sistemática dos recursos repetitivos, pois pendente de julgamento de embargos de declaração interpostos pela Fazenda Nacional. Fazse a ressalva do entendimento desta Conselheira, que não é o da maioria do Colegiado, que conforme previsão contida no art. 62, §2º do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, os conselheiros já estão obrigados a reproduzir referida decisão. No caso dos autos, conforme já afirmado, a Contribuinte RASIP AGROPASTORIL S/A é pessoa jurídica que desenvolve a atividade econômica principal do cultivo de maçãs. No seu Estatuto Social (fl. 213), art. 3º, como objeto social são listadas as seguintes atividades: "(a) a produção agrícola e pastoril, a fruticultura e apicultura; (b) a criação de rebanhos de diversas espécies; (c) a indústria, o comércio, a importação e a exportação de produtos alimentícios, de produtos da agricultura, da fruticultura e da pecuária, inclusive derivados do leite; (d) a elaboração e execução de projetos e atividades de fruticultura, florestamento e reflorestamento; (e) a produção e comercialização de produtos agrícolas, sementes e mudas; e (f) a prestação de serviços inerentes a essas atividades." Importa ter em perspectiva referida atividade econômica desenvolvida pela Recorrida, pois ao se adotar o critério da pertinência, relevância e essencialidade para a definição do conceito de insumos, tais parâmetros devem ser analisados frente ao processo produtivo do Sujeito Passivo em referência. A Fazenda Nacional, por meio de recurso especial, confronta o acórdão do recurso voluntário no que tange à possibilidade de tomada de créditos de PIS e COFINS não cumulativos pela Contribuinte decorrentes dos seguintes itens, divididos em dois grupos: (1) despesas com empilhadeiras; despesas com embalagem de transporte (material de embalagem); despesas com serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores; e (2) despesas com combustíveis e lubrificantes. Na perspectiva do conceito de insumos segundo o critério da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo, entendese não assistir razão à Recorrente quanto ao pedido de restabelecimento das glosas, pois as despesas em testilha têm relação direta com a Fl. 286DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 10 9 atividade econômica principal da empresa contribuinte – o cultivo de maçãs. Para elucidar a assertiva, passase à análise individual dos bens e serviços: (a) despesas com empilhadeiras (aquisição de GLP e manutenção): no Relatório de Verificação Fiscal (fl.96), após visitas da Fiscalização à sede da empresa, foi consignado que as empilhadeiras são utilizadas para diversos fins: “descarregamento da fruta vinda dos pomares, carregamento/descarregamento da fruta nas câmaras frias, movimentação pelo packing (local onde a maçã é selecionada, limpada e embalada), bem como no carregamento das caixas de maçãs na saída dos produtos do estabelecimento”. Entendeu a Autoridade Fiscal que, ante a falta de segregação dos custos, despesas e respectivos créditos vinculados às empilhadeiras pela Contribuinte, não haveria direito ao crédito, por inexistência de previsão legal, já que as mesmas seriam utilizadas para “mero transporte da fruta dentro do processo produtivo (não há transformação ou ação direta sobre a maçã)” e, ainda, “após a finalização do processo produtivo, em suma, no início da operação de venda – carregamento da fruta na saída do estabelecimento (expedição)”. O entendimento da Fiscalização – que também é defendido pela Fazenda Nacional – é pautado pelo critério do conceito de insumos da legislação do IPI, exigindo o contato, desgaste, modificação do bem ou serviço no processo produtivo, bem como que o mesmo entre em contato com a mercadoria a ser produzida. No entanto, à luz da posição intermediária para definição do conceito de insumos, a utilização das empilhadeiras para o transporte das frutas nos pomares e para o seu carregamento na saída do estabelecimento, denota pertinência, relevância e essencialidade, com o processo produtivo do cultivo de maçãs. As empilhadeiras foram utilizadas pela Contribuinte na produção, ainda que de forma indireta, e se mostram indispensáveis à consecução do seu objeto social de produção e venda das maçãs. Além disso, não se pode imaginar que não conte a empresa com o auxílio de máquinas para o transporte do seu produto, em grandes quantidades, ao longo da produção e na saída para a venda, pois hipótese contrária inviabilizaria o próprio cultivo e escoamento da produção. Portanto, deve ser mantido o reconhecimento do direito ao crédito de PIS e COFINS nãocumulativos com relação às despesas com empilhadeiras (aquisição de GLP e manutenção). " (...)3 "Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, mas discordo de suas conclusões, quanto ao direito de se aproveitar créditos sobre despesas que não integram o custo do produto industrializado. A discussão gira em torno do conceito de insumos para fins do creditamento do PIS e da Cofins no regime da nãocumulatividade previsto nas Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Como visto, a relatora aplicou o entendimento, bastante comum no âmbito do CARF, de que para dar direito ao crédito basta que o bem ou o serviço adquirido seja essencial para o exercício da atividade produtiva por parte do contribuinte. É uma interpretação bastante tentadora do ponto de vista lógico, porém, na minha opinião não tem respaldo na legislação que trata do assunto. Confesso que já compartilhei em parte deste entendimento, adotando uma posição intermediária quanto ao conceito de insumos. Porém, refleti melhor, e hoje entendo que a 3 Não se transcreveu, do voto da relatora do processo paradigma, a parte que analisou o direito de crédito de insumos cujos entendimentos resultaram vencidos na votação, e que, portanto, não se aplicam à solução do presente litígio. Contudo, a íntegra do voto consta do Acórdão 9303007.294. Fl. 287DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 11 10 legislação do PIS/Cofins traz uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de aceitálos dentro do conceito de insumo. O objeto de discussão no recurso da Fazenda Nacional, como bem relatado, referese ao aproveitamento de créditos assim separados: 1) Despesas com empilhadeiras 2) combustíveis e lubrificantes; 3) Bens diversos; 4) Materiais utilizados para embalagens de transporte; e 5) Serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores. Porém, como já dito, adoto um conceito de insumos bem mais restritivo do que o conceito da necessidade e da essencialidade, adotado pelo voto vencido. Nesse sentido, importante transcrever o art. 3º das Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003, que trata das possibilidades de creditamento do PIS e da Cofins: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; IX armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore Fl. 288DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 12 11 as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (...). 2o Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I de mãodeobra paga a pessoa física; e (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) § 3o O direito ao crédito aplicase, exclusivamente, em relação: I aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País; II aos custos e despesas incorridos, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País; III aos bens e serviços adquiridos e aos custos e despesas incorridos a partir do mês em que se iniciar a aplicação do disposto nesta Lei. (...). Ora, segundo estes dispositivos legais, somente geram créditos das contribuições os custos com bens e serviços utilizados como insumos na fabricação dos bens destinados a venda. Note que os dispositivos legais descrevem de forma exaustiva todas as possibilidades de creditamento. Fosse para atingir todos os gastos essenciais à obtenção da receita, não necessitariam ter sido elaborados desta forma, bastava um único artigo ou inciso. Não haveria necessidade de ter descido a tantos detalhes. No presente caso, é incontroverso que as referidas despesas são necessárias para a atividade econômica do contribuinte. Não discordo da conclusão do acórdão recorrido de que os gastos com aqueles bens e serviços estão vinculados às atividades econômicas do contribuinte. Mas o legislador restringiu a possibilidade de creditamento do PIS e da Cofins aos insumos utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda e na prestação de serviços. Portanto, considerando esse conceito de que os insumos devem ser utilizados diretamente na fabricação do produto destinado a venda, passemos à análise de cada item objeto do recurso especial. 1) Despesas com empilhadeiras (combustíveis e peças de manutenção) Nesse ponto só vou justificar as razões porque acompanhei a relatora pela possibilidade de tal creditamento. Verificase pelo relatório fiscal que essas empilhadeiras são usadas dentro do processo fabril de beneficiamento das maças, produto final do contribuinte. Ou seja, os combustíveis e as peças de manutenção, não ativáveis, são consumidas diretamente no processamento das maças, que são efetivamente os produtos destinados à venda. Fl. 289DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 13 12 2) Combustíveis e lubrificantes Na análise do direito ao crédito efetuada pela autoridade fiscal, foi negado o crédito nas aquisições de combustíveis não utilizados diretamente no processo produtivo. De acordo com a fiscalização a maior parte dos créditos pleiteados eram referentes a combustíveis e lubrificantes utilizados em tratores agrícolas. Em seu recurso voluntário, o contribuinte sustenta que o processo produtivo de maçãs é amplo e iniciase desde o cultivo da terra. Ou seja, um retorno ao conceito de essencialidade, não em relação à sua atividade produtiva direta, mas em relação à sua atividade econômica como um todo. Inclusive, como esclarecido no relatório da fiscalização, boa parte desses combustíveis eram levados ao ativo imobilizado pela própria empresa, em razão da vida útil dos pomares. Porém, como já frizado, as leis da não cumultatividade não trazem essa ampliação toda como pretende o contribuinte e como entende a ilustre relatora do presente voto. Como abordo no item seguinte, não há possibilidade legal do aproveitamento de créditos de insumos de insumos. 3) Bens Diversos Nessa rubrica, o acórdão recorrido negou o creditamento de vários itens e concedeu o crédito sobre alguns itens com a seguinte justificativa: Por sua vez, tomando por vista que a Interessada também é produtora de queijo e derivados do leite, e portanto necessita de todo um cuidado quanto ao gado, para que o produto comercializado e fornecido ao consumidor final seja de boa qualidade, despesas com materiais de limpeza e higienização, cerca para rebanhos e manutenção de laboratório dado seu contato direto com o produto e participação efetiva no processo produtivo devem ser aproveitadas pela empresa. Não concordo com essa assertiva e não vejo que são insumos, da forma como genericamente descritos, utilizados no processo industrial do produto destinado a venda. O fato, por si só, de que ele tenha a atividade de produção de queijo e leite, significa concluir o seu uso diretamente em sua fase industrial. Notoriamente a cerca para rebanhos, além de não ser insumo, pois provavelmente deve ser um item do ativo imobilizado, jamais teria alguma utilidade direta na fabricação de queijo e leite. Da mesma forma, há que ser comprovado que as despesas com limpeza e higienização não se referem à fase pré industrial. Em que momento foram aplicadas essas despesas. Manutenção de laboratório, também é um termo muito genérico para ser acatado como despesas aplicadas no processo industrial. Importante relembrar que a legislação não prevê possibilidade de creditamento de insumos de insumos e esse colegiado tem tido o entendimento de que não é possível o creditamento de insumos utilizados na fase agrícola, ou préindustrial. 4) Materiais utilizados para embalagens de transporte Tomo da transcrição de trecho do voto da decisão recorrida, sobre que elementos está se discutindo tal creditamento. Constam na glosa itens como Cantoneiras – utilizadas para evitar o amassamento das caixas de papelão pelas amarras durante o transporte do produto; Pallets e seus acessórios – pregos e etiquetas – utilizados para o empilhamento de caixas para armazenamento e transporte; Fitas/Amarras – usadas para amarrar as caixas de papelão sobre os pallets. Observe que são todos itens utilizados após o encerramento do processo produtivo. São utilizados para acondicionamento de transporte da produção. Não discordo da conclusão Fl. 290DF CARF MF Processo nº 11020.003569/200951 Acórdão n.º 9303007.295 CSRFT3 Fl. 14 13 do acórdão recorrido de que o uso da embalagem é essencial para a preservação das características dos seus produtos, durante o transporte até os pontos de venda. Penso inclusive, que em maior ou menor grau, a depender do produto final, esta é a finalidade mesmo da embalagem de transporte. Mas o legislador restringiu a possibilidade de creditamento do PIS e da Cofins aos insumos utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Portanto após o encerramento do processo produtivo não é possível tal creditamento, a não ser nas hipóteses expressamente previstas na legislação, a exemplo do aproveitamento do crédito do frete na operação de venda (situação excepcionada expressamente pela Lei) ou alguém seria capaz de dizer que o frete na operação de venda, suportado pelo contribuinte, não é um item essencial à sua atividade econômica. Se bastasse isso não seria necessária a excepcionadade constante da Lei. 5) Serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores. Pela característica dos bens, evidente que sua utilização é feita na etapa pré industrial. Na manutenção das lavouras que faz parte da etapa agrícola, em relação aos quais nego provimento pelas mesmas razões do item 3, supra analisado. Diante do exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, para reestabelecer as glosas de crédito em relação aos seguintes itens: (i) bens diversos, (ii) combustíveis e lubrificantes (iii) embalagem de transporte, (iv) serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial da Fazenda Nacional foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento parcial para reestabelecer as glosas de crédito em relação aos seguintes itens: (i) bens diversos, (ii) combustíveis e lubrificantes (iii) embalagem de transporte, (iv) serviços de manutenção de máquinas, tratores, retroescavadeiras e pulverizadores. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 291DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.015203/2007-59
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jul 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004
INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO.
Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento da COFINS geram créditos.
PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
O pagamento de COFINS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora.
COFINS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração não-cumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa.
NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE.
Na apuração de COFINS não-cumulativa, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004
INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO.
Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento do PIS geram créditos.
PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
O pagamento de PIS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora.
REGIME NÃO-CUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração não-cumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa.
NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE.
Na apuração de PIS não-cumulativo, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3301-004.982
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reverter a glosa referente à aquisição de material de segurança e proteção.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento da COFINS geram créditos. PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O pagamento de COFINS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora. COFINS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração não-cumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa. NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE. Na apuração de COFINS não-cumulativa, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento do PIS geram créditos. PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O pagamento de PIS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora. REGIME NÃO-CUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração não-cumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa. NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE. Na apuração de PIS não-cumulativo, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento. Recurso Voluntário Provido em Parte.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reverter a glosa referente à aquisição de material de segurança e proteção. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro - Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro.
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AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento da COFINS geram créditos. PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O pagamento de COFINS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora. COFINS. REGIME NÃOCUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração nãocumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa. NÃOCUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE. Na apuração de COFINS nãocumulativa, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 01 52 03 /2 00 7- 59 Fl. 700DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 701 2 existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. AQUISIÇÃO DE IMOBILIZADO USADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Aquisição do parque industrial usado de outra empresa, mesmo que ainda não totalmente depreciado, não dá direito ao crédito decorrente da depreciação, porquanto a venda do imobilizado não integra a base de cálculo da contribuição e, somente os bens ou serviços sujeitos ao pagamento do PIS geram créditos. PAGAMENTO NA IMPORTAÇÃO E AQUISIÇÕES EFETUADAS POR TERCEIRAS EMPRESAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O pagamento de PIS realizado na importação não pode ser aproveitado por terceiro, ainda que este tenha adquirido o parque industrial da importadora. REGIME NÃOCUMULATIVO. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E UNIFORMES. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com aquisição de equipamentos de proteção individual e uniformes para empregados geram direito a crédito no regime de apuração nãocumulativa, por se enquadrarem no conceito de insumos aplicados ou consumidos na prestação dos serviços pela empresa. NÃOCUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. PROVA. DISPÊNDIOS COM MANUTENÇÃO DE SOFTWARE. Na apuração de PIS nãocumulativo, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Cabe ao contribuinte comprovar a existência de elemento modificativo ou extintivo da autuação, no caso, a legitimidade do crédito alegado em contraposição ao lançamento. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reverter a glosa referente à aquisição de material de segurança e proteção. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 701DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 702 3 Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Do relatório da decisão recorrida, extraise os detalhes do litígio: Trata o presente processo de impugnações apresentadas contra Autos de Infração de COFINS e PIS nãocumulativos. Conforme descreveram os Relatórios de Verificação Fiscal, foram detectadas irregularidades que afetaram a base de cálculo da COFINS no mês de junho de 2004 e irregularidades na apropriação de créditos da nãocumulatividade que se estendem aos anoscalendário de 2004 a 2006. As irregularidades apontadas se referem à: utilização de créditos decorrentes de aquisições efetuadas por terceira empresa que não a interessada; cálculo de encargos de depreciações de bens usados em desacordo com a legislação; desconto indevido de valor pago a título de COFINS na importação por terceira empresa que não a interessada; e inclusão indevida na base de cálculo dos créditos da COFINS decorrentes da nãocumulatividade de despesas com manutenção de software e aquisição de material de segurança e proteção. Os presentes lançamentos se devem à constatação de insuficiência de recolhimento das contribuições devidas no mês de junho de 2004, quando o contribuinte deixou de recolher os valores alegando ser detentor de créditos da contribuição decorrentes da nãocumulatividade. Contudo, foi verificado que a origem de referidos créditos são aquisições efetuadas por terceira empresa, no caso a empresa Morganite do Brasil cujo CNPJ é 57.008.948/000291, conforme Notas Fiscais de entrada anexadas ao processo. Conforme relatado, o contribuinte começou suas atividades no mês de junho de 2004, tendo adquirido da referida empresa Morganite todo o seu parque industrial, sendo que os bens adquiridos eram usados. Mesmo assim, o interessado calculou créditos sobre os encargos de depreciação de tais bens em desacordo com o disposto na legislação que rege a nãocumulatividade das contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS. Verificouse, também, que o contribuinte lançou na Dacon nos meses de Junho, Julho e Agosto de 2004 valores a título de PIS e COFINS pagos na Importação, os quais na verdade foram efetivamente recolhidos pela empresa Morganite Brasil Ltda. que continuava a efetuar importações em seu próprio nome, mesmo após vender o parque industrial para o interessado. Na verificação fiscal também foi efetuada a glosa de créditos apurados sobre despesas referentes à manutenção de software e aquisição de material de segurança e prevenção, as quais não foram caracterizadas como insumos dentro da sistemática de apuração de créditos pela nãocumulatividade de PIS e COFINS. Após cientificada, a impugnante apresentou tempestivamente suas razões de inconformismo, onde alegou, preliminarmente, a necessidade da suspensão do presente Auto de Infração até o julgamento definitivo dos Processos n°s 11080.00408/200717, 11080.004406/200710, 11080.004411/200722, Fl. 702DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 703 4 11080.004417/200708, 11080.004416/200755 e 11080.004409/200753, os quais se referem às glosas de créditos que originaram o presente lançamento e foram objeto de contestação pela interessada. No mérito, defende o direito do contribuinte de utilizar créditos decorrentes de aquisições de insumos e importações efetuadas pela empresa Morganite, da qual teria adquirido a totalidade de seus direitos, titularidade e participação nos ativos comprados, conforme disposto no contrato de compra e venda celebrado, cuja cópia anexou ao presente. Entende que a autoridade fiscal teria deixado de considerar que a impugnante adquiriu a Morganite Brasil Ltda., bem como que no período envolvido já operava em seu nome, conforme estaria demonstrado no contrato referido. Alega que, em que pese tenha efetuado operações em nome da Morganite Brasil Ltda., teria o direito aos créditos das contribuições decorrentes das aquisições e importações por ela efetuadas no período discutido (junho, julho e agosto de 2004), pois seria a impugnante quem efetivamente operava, pagando os tributos devidos. Ressalta que obteve, junto à Secretaria do Estado do Rio Grande do Sul, autorização para utilizar os documentos fiscais da Morganite Brasil Ltda. pelo período de 60 (sessenta) dias e que durante o período supra, teria efetuado pagamentos de PIS e COFINS em nome da empresa adquirida, o que caracteriza, sem dúvida, que a impugnante operava em nome próprio e com recursos próprios. Ressalta que a fiscalização considerou os créditos relativos à conta de energia elétrica, já que nesta foi possível alterar a titularidade das contas no período envolvido, o que denotaria que o fiscal se ateve à mera questão formal, sem qualquer prejuízo ao Erário. Assim, não poderia ser penalizado pelo período em que aguardava as alterações internas da SRFB, sob pena de enriquecimento ilícito dos cofres públicos. Repete que foi o próprio impugnante quem operou no período com recursos próprios, utilizando notas da empresa adquirida com autorização e desta forma teria direito ao crédito de PIS e COFINS sobre as aquisições e importações realizadas. Salienta, inclusive, que o impugnante diligenciou perante a SRF no sentido de corrigir as notas e efetuar a substituição imediata, no entanto, sofreu algumas dificuldades em razão de estar em processo contínuo de produção, vindo a solucionar a problemática nos 45 (quarenta e cinco) dias subsequentes, ou seja, dentro do prazo que lhe foi concedido. No tocante aos créditos decorrentes de importações, analisandose o contrato de prestação de serviço de transição, anexado ao presente, constatarseia que, objetivando auxiliar o impugnante na continuidade e desenvolvimento de seus negócios, após a consumação das negociações contempladas no Contrato Mestre, a empresa Morganite Brasil Ltda. teria se comprometido em prestar determinados serviços, particularmente no que se refere ao suporte de importação e exportação (incluindo a real importação e exportação de produtos) durante 30 (trinta) dias a contar da data de fechamento, o que reforça a legitimidade dos créditos neste período de transição. Contesta ainda a glosa dos créditos referentes aos encargos de depreciação de bens adquiridos usados, quando da compra dos ativos da empresa Morganite. Afirma que o impugnante teria adquirido, juntamente com todo o ativo da Morganite, a totalidade dos direitos e dos deveres a ele relacionados. Dentre os direitos incidentes Fl. 703DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 704 5 sobre o ativo da empresa adquirida, está o relativo ao creditamento de PIS/COFINS sobre os encargos de depreciação dos bens incorporados ao ativo imobilizado. Alega que, segundo o art. 3º, VI e VII das Leis nº 10.637/2002 e n° 10.833/2003, a pessoa jurídica poderia descontar do valor devido de PIS e COFINS, créditos calculados em relação às aquisições de máquinas, equipamentos, construções, imóveis e outros bens incorporados ao ativo imobilizado adquiridos para utilização na produção de bens destinados à venda e em relação às edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa. Prossegue, citando que posteriormente, a Lei nº 10.865/2004 estipulou que a partir de lº de agosto de 2004 os créditos relativos à depreciação ou amortização de bens e direitos de ativos imobilizados adquiridos até 30 de abril de 2004 estarão proibidos (incidente sobre máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado adquiridos para utilização na produção de bens destinados à venda e em relação às edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa). O mesmo diploma legal possibilitou tais créditos somente em relação a bens e direitos do ativo imobilizado adquiridos a partir de lº de maio de 2004. Ademais, o auto de infração ora combatido ainda menciona que a Instrução Normativa nº 457, de 18 de outubro de 2004, da SRF, traria uma vedação a utilização de créditos na hipótese de aquisição de bens usados. Entretanto, entende que o referido ato normativo não se aplicaria ao presente caso, tendo em vista não tratamse de bens usados, mas sim de creditamento de bens novos em processo de depreciação. Novamente sustenta que a ECS do Brasil Metalurgia e Participações Ltda teria adquirido todos os direitos atinentes ao ativo da empresa Morganite do Brasil Ltda., portanto, teria passado a exercer o direito de se creditar do valor referente ao PIS e à COFINS sobre a depreciação dos bens integrantes deste ativo. Salienta que o fato de ter adquirido estes bens já em processo de depreciação não os descaracterizaria como novos para fins de creditamento. Assim, entende que restaria totalmente descabida a vedação da SRFB ao creditamento das contribuições incidentes sobre os encargos de depreciação dos bens adquiridos quando da compra dos ativos da empresa Morganite Brasil Ltda. Prossegue sua impugnação defendendo a possibilidade de utilização de créditos de PIS e COFINS nãocumulativos decorrentes de despesas com manutenção de software e aquisições de material de segurança e proteção, com base no princípio constitucional da nãocumulatividade. Acrescenta, ainda, que a restrição à tomada dos créditos das contribuições sobre os custos (despesas com manutenção de software e equipamento de proteção individual), violaria também os princípios da isonomia, da razoabilidade e da proporcionalidade. Requer, finalmente, o recebimento e acolhida da presente impugnação, para o fim de ser determinada a improcedência do lançamento fiscal, o que acarretaria a sua desconstituição e, por consequência, o arquivamento do presente auto de infração. A 2ª Turma da DRJ/POA, no acórdão n° 1039.979, manteve a integralidade da autuação, com decisão assim ementada: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Fl. 704DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 705 6 Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 Inexiste direito à apuração de créditos sobre operações de compra ou importações efetuadas em nome de terceira empresa que não a própria interessada, por absoluta falta de previsão legal. São indevidos os créditos calculados sobre encargos de depreciação de bens adquiridos usados, incorporados ao ativo imobilizado. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 Existe vedação legal para o creditamento de despesas que não podem ser caracterizadas como insumos dentro da sistemática de apuração de créditos pela nãocumulatividade de Pis e Cofins. Impugnação Improcedente Em Recurso Voluntário, a empresa reitera seus argumentos da impugnação e acrescenta preliminar de nulidade do auto de infração por ausência de capitulação legal. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Nulidade do auto de infração por ausência de capitulação legal Alega a Recorrente a nulidade do auto de infração, por falta de indicação dos dispositivos legais infringidos. Ao contrário do que sustenta, todos os enquadramentos legais constam corretamente apontados: Infração COFINS, incidência nãocumulativa, falta/insuficiência de recolhimento: art. 1°, 3° e 5° da Lei n° 10.833/03. Infração PIS, incidência nãocumulativa, falta/insuficiência de recolhimento: art. 1°, 3° e 4° da Lei n° 10.637/2002. Multa de ofício: art. 10, parágrafo único, da Lei Complementar n° 70/91; e art. 44, inciso I, da Lei n° 9.430/96. Fl. 705DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 706 7 Glosas de encargos de depreciação do ativo imobilizado, bens usados: art. 1°, § 3°, VI da Lei n° 10.637/2002 e art. 1°, § 3, II, da Lei n° 10.833/2003. Glosas, não configuração de insumo: art. 3°, II das Leis n° 10.637/2002 e Lei n° 10.833/2003. No mais, a autuação está fundamentada nos dispositivos legais que a regem e a descrição dos fatos conduz às situações jurídicas que desencadearam o lançamento, pois a narração foi clara, não deixando dúvida quanto ao fato imputado, o que permitiu à empresa identificar o fundamento da exigência fiscal. Outrossim, restando o enquadramento legal e a descrição dos fatos aptos a permitir a identificação da infração imputada ao sujeito passivo, e estando presentes nos autos todos os documentos que serviram de base para a autuação sob exame, não há que se falar em cerceamento de defesa. Portanto, não se vislumbra nulidade do auto de infração, por ausência de violação às prescrições dos art. 142 do CTN, 10 e 59 do Decreto nº 70.235/1972. O que pretende a Recorrente é a reforma do julgado da DRJ, questão de mérito que será analisada a seguir. Utilização de créditos decorrentes de aquisições efetuadas por terceiras empresas que não a interessada e desconto indevido sobre valor pago de COFINS na importação por terceiras empresas que não a interessada A empresa apurou COFINS devida no mês de junho de 2004, porém deixou de recolher os valores alegando ser detentora de créditos da COFINS decorrentes da não cumulatividade. Relata a autoridade fiscal que: 5. Ao verificar a origem dos créditos informados verifiquei que a interessada está tomando crédito sobre aquisições de efetuadas por terceiras empresas, no caso a empresa Morganite do Brasil cujo CNPJ é 57.008.948/000291, pois como podese verificar as notas fiscais de entrada estão em nome da empresa Morgante. 6. Solicitada a se manifestar a respeito, a interessada informa que adquiriu o parque industrial da empresa Morganite e que possui autorização da Secretaria de Fazenda do Estado para fazer uso dos documentos fiscais da antiga empresa por 60 (sessenta dias). 7. Analisandose a documentação, verificouse que a dita autorização diz respeito a notas fiscais de saída e não notas fiscais de entrada, não obstante isto considerava apenas os documentos fiscais em que conste um carimbo com o nome da interessada, o que não se verifica em nenhuma das notas fiscais objeto desta análise. 8. A interessada comprovou em seu nome apenas a conta de Energia Elétrica, sendo considerados os créditos referentes a Fl. 706DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 707 8 estes valores para fins de abatimento da Cofins devida conforme Dacon, os demais valores estão em nome da empresa Morganite. 9. Portanto concluise que inexiste qualquer amparo legal para que a interessada continuasse utilizando o CNPJ da filial da empresa Morganite do Brasil para realização de suas operações, sendo consequência lógica portanto que os créditos utilizados pela interessada para abatimento dos valores devidos a título de Cofins não lhe pertencem uma vez que foi terceira empresa que adquiriu os produtos que deram origem aos créditos, ficando em aberto os valores da Cofins devidos. (...) 18. A interessada lançou na Dacon nos meses de Junho, Julho e Agosto de 2004 valores título de Cofins paga na Importação valores que foram pagos por terceira empresa denominada Morganite Brasil Ltda. CNPJ n ° 57.008.948/000291, tendo esta empresa efetuado o recolhimento dos valores à título de PIS/Pasep e Cofins. 19. Em que pese a interessada ter adquirido o parque industrial da empresa supracitada, ocorre que a empresa Morganite continuou efetuando as importações em seu nome, não havendo como reconhecer qualquer tipo de crédito em favor da interessada relativamente a estes recolhimentos, uma vez que quem efetivamente recolheu o tributo foi a empresa Morganite. O governo do Rio Grande do Sul autorizou a ECS a usar os documentos fiscais não utilizados pela Morganite, desde que anotadas, mediante carimbo, as indicações modificadas. Para a ECS, com base nesta autorização, todas as notas fiscais destinadas a Morganite do Brasil neste período poderiam ser escrituradas e contabilizadas pela própria ECS, sem que houvesse nenhum lançamento em duplicidade, pois a Morganite já não possuía unidade. Entretanto, não é o que se observa, porquanto a autorização diz respeito apenas às notas fiscais de saída e não a notas fiscais de entrada. E também, não houve qualquer anotação de modificações nas referidas notas. Ademais, sustenta que pagamentos do PIS e COFINS incidentes em importações realizadas pela Morganite poderiam ser utilizados para reduzir o saldo devedor da Recorrente. Não há razão no argumento, porque tais recolhimentos, efetuados em nome da importadora (a Morganite), não podem ser aproveitados por terceiros (a Recorrente). Embora certo que houve a aquisição de ativos, a Morganite continuou operando em nome próprio e realizou as importações em virtude das quais recolheu o PIS e a COFINS, pelo que a sucessão em tela não comporta o direito alegado em prol da Recorrente. Inexiste qualquer amparo legal para que Recorrente utilize o CNPJ da Morganite em suas operações. Por sua vez, as Notas Fiscais são os documentos que legalmente amparam a compra/venda e circulação dos respectivos produtos e logicamente devem ser emitidas em nome de quem efetivamente os adquiriu. Fl. 707DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 708 9 Observese o contrato entre as empresas: Quanto aos serviços de suporte de transição, tal disposição não ampara a pretensão do interessado em se creditar sobre estas importações efetuadas em nome de terceira empresa. Confirase o acordo: Não houve cisão ou incorporação da empresa Morganite Brasil Ltda. pela ECS, pois como visto acima, o acordo entre as partes voltouse apenas à compra e venda de ativos. A empresa Morganite não foi extinta, logo é titular dos documentos fiscais. Portanto, foram corretamente aplicadas as glosas de créditos de terceiros. Cálculo de encargos de depreciação Relata a autoridade fiscal, que a Recorrente começou suas atividades no mês de junho de 2004, tendo adquirido de terceira empresa todo o seu parque industrial, sendo que Fl. 708DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 709 10 os bens adquiridos eram usados, mesmo assim a interessada calculou créditos sobre os encargos de depreciação de tais bens. Também não assiste razão à Recorrente no tocante aos créditos defendidos pela aquisição do imobilizado da empresa Morganite. É que a venda do imobilizado não integra a base de cálculo do PIS e COFINS (art. 1º, § 3º, VI, da Lei nº 10.637/2003, incluído pela Lei nº 10.684/2003, e art. 1º, § 3º, II, da Lei nº 10.833/2003), inexistindo o débito respectivo, e no regime da nãocumulatividade das duas contribuições só é concedido crédito quando há pagamento, como determina o inciso II do caput do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, cuja redação é a seguinte: Art. 3° Do valor apurado na forma do art. 2° a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2° Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I de mãodeobra paga a pessoa física; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) Como a vedação acima é aplicável a qualquer crédito, inclusive aos calculados com base na depreciação de máquinas e equipamentos incorporados ao ativo imobilizado, ainda que os bens adquiridos com uso não estivessem totalmente depreciados, restaria impossibilitado o direito ao crédito. Se esses bens usados integravam o imobilizado da vendedora e, na venda, não houve o débito da contribuição em face da exclusão da base de cálculo, inexiste o direito ao crédito para a adquirente. Manutenção de Software e Aquisição de Material de Segurança e Proteção Insumos para fins de creditamento Nãocumulatividade Foram glosados os créditos referentes a despesas com manutenção de software e aquisição de material de segurança e proteção, por entender a fiscalização que não há previsão legal para seu aproveitamento. Portanto, o ponto controvertido é o conceito de insumo para fins de creditamento no âmbito do regime de apuração nãocumulativa das contribuições do PIS e da COFINS. O conceito de insumo (restritivo) que norteou a autuação é o seguinte: 24. Dentre os bens considerados como insumos, as Instruções Normativas citam a matériaprima, o produto intermediário e o Fl. 709DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 710 11 material de embalagem. Nenhum desses casos corresponde aos materiais de segurança e proteção. 25. Cabe, contudo, verificar o quarto grupo de bens incluído na definição de insumos para a produção, que são "quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação". 26. Por óbvio que os materiais de segurança e, principalmente, os Equipamento de Proteção Individual sofrem desgaste e danos durante seu uso, isto é, botas de segurança, protetores auriculares são substituídos periodicamente por conta de seu desgaste. Para serem considerados insumos, entretanto, existe um outro requisito estabelecido pelas INs, que é a ação ter sido diretamente exercida pelo produto em fabricação. Este não é o caso dos materiais de segurança, pois eles cumprem uma função acessória no processo produtivo, não integrando efetivamente o circuito percorrido pelo produto. Não é possível, portanto, afirmar que o desgaste desses materiais seja função da ação diretamente exercida pelo produto em fabricação. 27. Assim, não há que se falar em subsunção dos materiais de segurança e proteção no conceito de insumo utilizado na fabricação ou produção de bens destinados A venda. 28. Por outro lado os serviços de Manutenção de Software também não são aplicados ou consumidos diretamente na fabricação dos produtos destinados A venda, em que pese que os softwares sejam utilizados nas mais diversas áreas da empresa, tanto para sistemas contábeis, como para controles de estoques, os serviços de manutenção de softwares não exercem nenhuma modificação ou influência sobre os produtos destinados à venda. A atividade desenvolvida pela Recorrente é a exploração do ramo de metalurgia, incluindo a importação, exportação, compra, venda e distribuição de metais em pó para a fabricação de escovas para motores elétricos em geral, anéis, contatos, buchas, selos, computadores e outros produtos sintetizados, demonstrado em seu objeto social. Logo, o insumo deve ser necessário e essencial ao processo produtivo e, por conseguinte, à execução da atividade empresarial desenvolvida pela empresa. Assim, quanto à glosa “Aquisição de Equipamento de Proteção Individual (EPI) e Uniformes” para os funcionários da Recorrente, entendo que assiste razão à empresa, devendo as glosas serem revertidas, com base no art. 3°, II, das Leis n° 10.637/2003 e 10.833/2003. Quanto à despesa com manutenção de software, por outro lado, entendo que a glosa deve ser mantida. A Recorrente, reitera que se trata de despesa essencial para a atividade. Contudo, a prova da essencialidade da prestação desses serviços para a atividade da Recorrente Fl. 710DF CARF MF Processo nº 11080.015203/200759 Acórdão n.º 3301004.982 S3C3T1 Fl. 711 12 não foi feita. Não houve a descrição pormenorizada de suas atividades e como as mesmas dependeram desses serviços de terceiros. Não foram acostados aos autos, contratos, laudos técnicos, manuais ou outros elementos para se aferir essa essencialidade. A Recorrente sustenta apenas: Logo, entendo que as glosas foram corretas, já que não se subsomem ao disposto no inciso II do art. 3º, das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003. É sabido que, na apuração de PIS e COFINS nãocumulativos, a prova da existência do direito ao crédito pleiteado incumbe ao contribuinte, de maneira que, não havendo tal demonstração, deve a Fiscalização efetuar as glosas e lançar de ofício com os dados que se encontram ao seu alcance. Isso porque não basta que uma despesa seja potencialmente insumo. Conclusão Do exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reverter a glosa referente à aquisição de material de segurança e proteção. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 711DF CARF MF
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