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Numero do processo: 16682.722760/2016-55
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012
DECISÃO DE PISO. NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO.
É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA.
O valor tributável mínimo - VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes.
A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação).
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA".
O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídico-tributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de um signo jurídico em matéria tributária deve socorrer-se da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitando-se ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido.
Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante.
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO.
Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter cabalmente demonstrado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela.
Numero da decisão: 3402-005.599
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do redator designado Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes e Pedro Sousa Bispo, que negavam provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Ávila (suplente convocado).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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NULIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. É válido o lançamento efetuado de conformidade com as normas legais que regem o procedimento administrativo fiscal. Não merece guarida a alegação de nulidade, uma vez que não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. NORMA ANTIELISIVA ESPECÍFICA. O valor tributável mínimo VTM é típica norma antielisiva específica para operações com produtos industrializados e tem por objetivo evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM implica precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. CONCEITO DE "PRAÇA DO REMETENTE" E DE "MERCADO ATACADISTA". O fato da lei não promover a delimitação semântica de determinado signo na esfera jurídicotributária não redunda em negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de conteúdo. Assim, o preenchimento semântico de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 27 60 /2 01 6- 55 Fl. 2522DF CARF MF 2 um signo jurídico em matéria tributária deve socorrerse da própria lei. Nesse sentido, os inúmeros dispositivos legais que empregam o termo "praça" o fazem no sentido de domicílio, i.e., limitandose ao recorte geográfico de um Município, nos termos do art. 70 do Código Civil. Logo, a regra antielisiva a ser aqui convocada é aquela prescrita no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010. Precedentes administrativos e judiciais neste sentido. Ademais, estender o conceito de praça ao de região metropolitana, além de não ter sustentação legal nem econômica, implicaria ainda em tornar a regra do art. 195, inciso I do RIPI/2010 um sem sentido jurídico, já que a tornaria redundante. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS PROBATÓRIO DA FISCALIZAÇÃO. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com o conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter cabalmente demonstrado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente, o que não ocorreu no caso em tela. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do redator designado Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Vencidos os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes e Pedro Sousa Bispo, que negavam provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Ávila (suplente convocado). Relatório Trata o presente processo de Auto de Infração (fls. 1.685/1.691), lavrado contra a empresa PROCOSA PRODUTOS DE BELEZA LTDA. (doravante denominada de PROCOSA), com exigência do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), referente aos meses de janeiro a dezembro de 2012, no montante de R$ 594.148.235,28, a título de IPI, juros de mora e multa proporcional, motivado em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao Valor Tributável Mínimo Fl. 2523DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.523 3 (VTM) nas saídas de produtos industrializados para empresa com a qual a Recorrente mantém relação de interdependência. O fundamento do lançamento foi a violação aos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente e que estabeleciam, ainda, que o VTM deveria ser calculado com base na média ponderada dos preços de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. Por trazer uma clara síntese do processo até o julgamento da Impugnação administrativa, peço vênia para transcrever o relatório do Acórdão nº 1469.925, da 2ª Turma da DRJ em Ribeirão Preto/SP (fls. 2.290/2.315): Conforme podemos verificar no Termo de Verificação de Infração Fiscal, fls 1.663/1.683, a autoridade fiscal relata que a empresa fiscalizada, industrial, vende seus produtos exclusivamente para a empresa L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA (doravante denominada L’ORÉAL BRASIL), inscrito no CNPJ sob o nº 30.278.428/000595, a preços muito abaixo daqueles que seriam praticados entre empresas não relacionadas. Verificase nos autos trataremse de empresas interdependentes, fato não contestado pela interessada. Consta, ainda, que ambas empresas situamse em uma mesma região metropolitana, qual seja, do Rio de Janeiro, possuindo domicílios na cidade do Rio de Janeiro RJ (PROCOSA), e no município de Duque de CaxiasRJ (L'OREAL BRASIL). Intimada, a autuada esclarece que os preços praticados nas operações de saída de produtos industrializados da fiscalizada para a Comercial observaram o disposto no artigo 196 do RIPI/10. A fiscalização concluiu que as operações de saída da unidade Industrial, segregando as funções de comercialização, a cargo da empresa L'OREAL BRASIL visou a redução artificial do valor da base de cálculo. "Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)." 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista Fl. 2524DF CARF MF 4 interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: • ANEXO I Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo VTM • ANEXO II Relação das Notas Fiscais utilizadas na Apuração da Média Ponderada dos Preços (Notas de saída do estabelecimento ATACADISTA) • ANEXO III Relação de Códigos de Mercadorias • ANEXO IV Demonstrativo de Cálculo do IPI Devido. A impugnante apresenta, em síntese, os seguintes argumentos em sua defesa: 1. que a existência de Consulta Formal formulada pela Impugnante, em sentido contrário ao realizado pela Fiscalização, é suficiente para o cancelamento do Auto de Infração; 2. que é improcedente a afirmação por parte da autoridade fiscal que houve "subfaturamento" ou saída de produto com valor abaixo do valor tributável mínimo VTM; conforme demonstração empírica do item 28 de sua Impugnação; 3. que a Fiscalização deveria ter demonstrado que o preço praticado não seria suficiente para que a Requerente fizesse frente a seus custos, despesas e ainda tivesse uma margem de lucro normal; 4. que as empresas industrial (PROCOSA) e comercial (L'OREAL BRASIL) estão realmente segregadas e tal estrutura operacional é legítima e admitida no Brasil; 5. que a mudança de entendimento formulado em consulta formal deve ser exercido por meio de prévia notificação ou publicação pela imprensa oficial; 6. que o conceito de "praça" é o estabelecido em atos normativos, qual seja, o município; 7. Que houve erro material no cálculo do valor tributável mínimo por desconsiderar as vendas praticadas pelo estabelecimento industrial; Fl. 2525DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.524 5 8. Impossibilidade de exigência de tributos a partir de presunção; 9. que há erro no valor lançado, pois a Fiscalização "a D. Fiscalização determinou a base de cálculo do IPI supostamente devido pelo Estabelecimento Industrial: (i) com base exclusivamente nas vendas efetuadas pela L’Oréal Brasil, desconsiderando as vendas efetuadas pela Requerente; (ii) considerou o preço de venda praticado pela L’Oréal Brasil até 3 (três) meses anteriores ao fato gerador do IPI, para fins de cálculo da média ponderada; e (iii) não excluiu da base de cálculo os valores concedidos a título de descontos incondicionais pela L’Oréal Brasil para seus clientes."; 10. que a formação da base de cálculo do IPI em operações envolvendo estabelecimentos interdependentes foi regular; 11. que "praça" deve ser entendido como sendo a cidade em que se localiza o estabelecimento do remetente como acolhido em alguns julgados administrativos; 12. que as autoridades fiscais não podem alterar o conceito de "praça"; 13. que a interpretação da Solução de Consulta COSIT nº 08/12 não pode ser aplicada ao presente caso, pois o estabelecimento comercial atacadista não se encontra localizado na mesma praça do estabelecimento industrial; 14. que não se pode alterar conceito jurídico de "praça" por ato infralegal; 15. que a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/12 não pode aplicarse ao caso, pois promove uma cobrança majorada (Art. 150, III, "a", CF/88; 16. que os atos normativos sobre a matéria definem o conceito de "praça" e este não pode ser alterado pelas autoridades fiscais; 17. que nos cálculos da média ponderada devem ser considerados os preços do estabelecimento industrial; 18. que nos cálculos da média ponderada não foram considerados os descontos incondicionais; 19. requer diligência para "reapurar" o valor da base de cálculo do IPI, considerando os erros apontados pela impugnante; 20. que não há incidência de juros sobre as multas aplicadas por falta de embasamento legal; Concluindo, conforme abaixo: 233. Inicialmente foi demonstrado que não houve qualquer subfaturamento nas vendas feitas pela Requerente para a L’Oréal Brasil. Além disso, a D. Fiscalização não fez qualquer Fl. 2526DF CARF MF 6 prova ou demonstração de que os preços praticados pela Requerente não mereciam fé. 234. Da mesma forma, foi demonstrado de forma clara e objetiva, que as duas empresas possuem segregação física, econômica, empresarial e estrutural. Ademais, ambas as sociedades tiveram em 2012 margem de lucro compatíveis com suas atividades e em percentual próximo ao exigido pela legislação federal do imposto de renda. 235. Não houve qualquer acusação, alegação ou insinuação de existência de indícios de simulação, dolo ou fraude, tendo sido respeitada a validade jurídica de todos os fatos e atos descritos ao longo do TVF e desta Impugnação. 236. É portanto, neste contexto fático e jurídico, que devem ser analisados os argumentos preliminares e de mérito apresentados nesta Impugnação. 237. Em vista de todo o exposto, requerse que a presente Impugnação seja integralmente acolhida em suas razões de fato e de Direito, para que seja reconhecida: (i) em sede preliminar, que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o comercial atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Requerente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Requerente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Requerente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco a Solução COSIT 8/12 foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento das autoridades fiscais para os casos em que a referida Solução COSIT 8/12 poderia ter sido aplicada; (ii) em sede preliminar, existência de erro por adotar novo conceito jurídico de praça, diferente daquele previsto na Consulta Formal, sem prévia notificação da Requerente e com base em ato normativo (Solução COSIT 8/12) não publicado na imprensa oficial e que não tratou do conceito jurídico de praça; (iii) ainda em sede preliminar, houve erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora impugnada, não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil; (iv) a nulidade do Auto de Infração pelo fato de a D. Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas; Fl. 2527DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.525 7 (v) subsidiariamente, a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a D. Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) não excluiu da base de cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil; (vi) no mérito, seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a D. Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido pelo Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasil; (vii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal na forma do inciso II do Parágrafo Único do artigo 196 do RIPI/10 (i.e. aplicação do VTM custo) e da Solução de Consulta colacionada aos autos na forma do doc. nº 07 hipótese em que todos os custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade a serem considerados para fins do referido recálculo sejam exclusivamente aqueles já incorridos pelo Estabelecimento Industrial; (viii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal, de maneira a excluir tanto os valores indicados no item “v” acima quanto, também, para que o VTM seja calculado de maneira a incluir preço praticado pelo próprio Estabelecimento Industrial em suas operações com a L’Oréal Brasil. Caso fosse aplicada a nova fórmula de cálculo, em observância do princípio da irretroatividade da norma tributária, é evidente que o novo cálculo não poderia retroagir a fatos geradores ocorridos antes de 90 dias após a disponibilização do conteúdo da Solução COSIT 8/12. Caso seja feito o cálculo pela média ponderada, os cálculos devem ser refeitos para que apenas as vendas na cidade do Rio de Janeiro sejam incluída na média ponderada. Além disso, o valor cobrado não poderá ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN; e (ix) por fim, seja afastada a incidência dos juros SELIC sobre as multas de ofício aplicadas. 238. Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela D. Fiscalização para calcular o IPI devido, a Requerente requer, Fl. 2528DF CARF MF 8 com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, a realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo I desta Impugnação. 239. Pelo exposto, a Requerente tem por comprovada a exatidão dos procedimentos adotados e a total improcedência do Auto de Infração, bem como o equívoco cometido pela D. Fiscalização ao interpretar os fatos e o Direito a eles aplicável neste caso. 240. Assim sendo, a Requerente pleiteia que a presente Impugnação seja integralmente acolhida, a fim de que seja reconhecida a insubsistência integral do Auto de Infração ora questionado, com o consequente cancelamento da exigência fiscal (principal, multa e juros), determinandose ao final o arquivamento do presente processo administrativo. Esta é a síntese do Relatório. Os argumentos aduzidos pelo sujeito passivo, no entanto, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito (fl. 2.290): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE. Provado nos autos a relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo, há de ser observado pelo sujeito passivo o valor tributável mínimo, previsto no regulamento do IPI. COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA. Provada a participação do estabelecimento interdependente no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010. EXCLUSÃO DE OUTROS PRODUTOS Provado nos autos que os produtos da Impugnante, em virtude de suas características próprias, constituem produtos únicos a ensejar a exclusão dos produtos de seus concorrentes, somente os preços de seu estabelecimento comercial atacadista se mostra apto a compor o valor tributável mínimo, previsto no Art. 136, I do RIPI. EXCLUSÃO DO VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO Tendo em vista que os preços praticados nas saídas de produtos da Impugnante para sua comercial atacadista interdependente não correspondem ao preço de mercado atacadista, impõese sua exclusão na composição do valor tributável mínimo do Art. 195, I do RIPI/10, conforme orientações do Ato Declaratório Normativo CST nº 05/1982, PN CST nº 44/81 e Solução de Consulta Interna nº 08/2012. Impõemse, igualmente, a exclusão de produtos que não sejam plenamente compatíveis com os produtos objeto das operações com o estabelecimento interdependente na quantificação do valor tributável mínimo, tais como: mercadorias de uso e consumo, matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem. Fl. 2529DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.526 9 DEDUÇÃO DA BASE CÁLCULO. DESCONTOS INCONDICIONAIS.IMPOSSIBILIDADE. É expressamente vedada a dedução da base de cálculo do IPI dos valores dos descontos incondicionais, nos termos do art. 190, § 3º, do RIPI/2010. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A empresa PROCOSA tomou ciência do Acórdão prolatado pela DRJ em 05/09/2017, através de sua Caixa Postal (DTE), Módulo eCAC no Site da RFB, conforme consta do documento de fl. 2.321. Em 02/10/2017, apresentou Recurso Voluntário de fls. 2.324/2.401, alegando, de forma resumida que: i) preliminarmente, requer a NULIDADE da decisão da DRJ, que teria alterado os fundamentos jurídicos do lançamento, argumentando que houve cerceamento de defesa e ilegalidade na alteração dos critérios jurídicos do lançamento; que estes autos sejam remetidos à DRJ/RPO para novo julgamento, oportunidade em que as Autoridades Julgadoras deverão efetivamente enfrentar a linha de argumentação específica trazida nestes autos, e manifestar sua opinião sobre elementos concretos do presente processo; ii) em preliminar, que seja reconhecido que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o Comercial Atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Recorrente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Recorrente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Recorrente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco da Solução COSIT nº 08/12, foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento das autoridades fiscais para os casos em que a referida Solução COSIT, poderia ter sido aplicada; (iii) em preliminar, existência de erro por adotar novo conceito jurídico de conceito de praça, diferente daquele previsto na Consulta Formal, sem prévia notificação da Recorrente e com base em ato normativo (Solução COSIT nº 8/12), não publicado na imprensa oficial e que não tratou do conceito jurídico de praça; (iv) ainda também em preliminar, que houve erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora questionada, não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil; (v) seja decretada a NULIDADE do Auto de Infração pelo fato de a Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas; Fl. 2530DF CARF MF 10 (vi) subsidiariamente, seja decretada a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) no excluiu da base de cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil; (vii) no Mérito, que seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido no Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasi1; (viii) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal na forma do inciso II do Parágrafo Único do artigo 196 do RIPI/10 (i.e. aplicação do VTM custo) e da Solução de Consulta colacionada aos autos, hipótese em que todos os custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade a serem considerados para fins do referido recálculo sejam exclusivamente aqueles já incorridos pelo Estabelecimento Industrial; (ix) subsidiariamente, no mérito e na hipótese de o pedido anterior não ser acatado, seja determinado o recálculo da exigência fiscal, de maneira a excluir tanto os valores indicados no item acima quanto, também, para que o VTM seja calculado de maneira a incluir preço praticado pelo próprio Estabelecimento Industrial em suas operações com a L’Oréal Brasil. Caso fosse aplicada a nova fórmula de cálculo, em observância do princípio da irretroatividade da norma tributária, é evidente que o novo cálculo no poderia retroagir a fatos geradores ocorridos antes de 90 dias após a disponibilização do conteúdo da Solução COSIT nº 8/12. Caso seja feito o cálculo pela média ponderada, os cálculos devem ser refeitos para que apenas as vendas na cidade do Rio de Janeiro sejam incluída na média ponderada. Além disso, o valor cobrado não poderá ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN; e (x) por fim, seja afastada a incidência dos juros SELIC sobre as multas de ofício aplicadas. Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela Fiscalização para calcular o IPI devido, a Recorrente renova seu pedido, com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, pela realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo 1 deste Recurso Voluntário. Protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 40, alínea “a” do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. Das Contrarrazões da Fazenda Nacional Conforme Despacho de fl. 2.521, informando que "Não tendo havido requisição dos autos para apresentação de contrarrazões pela PGFN, conforme dossiê 10040.000014/101622, encaminhese o processo ao SEDIS para inclusão em lote/sorteio". Fl. 2531DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.527 11 Posto isto, o processo, então, foi distribuído para este Conselheiro proceder a análise do Recurso Voluntário interposto. É o relatório Voto Vencido Conselheiro Waldir Navarro Bezerra 1. Da admissibilidade do Recurso Cuidase de recurso tempestivo e que preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. 2. Objeto da lide Tratase de lançamento do IPI, sobre o Valor Tributável Mínimo (VTM) e o conceito de praça. Versa sobre remessas de mercadorias efetuadas à empresa com a qual mantém relação de interdependência. A relação de interdependência é fato incontroverso nos autos. Em síntese, a Fiscalização considerou que o Estabelecimento Industrial, localizado no Município do Rio de Janeiro/RJ, descumpriu as regras de determinação do VTM previstas no artigos 195, inciso 1, e 196, caput, do RIPI/lO (“VTM_Praça”), aplicáveis às operações realizadas entre estabelecimentos interdependentes localizados na mesma praça, quando deu saída a produtos com destino ao estabelecimento comercial atacadista da L’Oréal Brasil, localizado no Município de Duque de Caxias, no anocalendário de 2012. 3. Do Auto de Infração motivação e fundamentos Tratase de Auto de Infração lavrado para a cobrança de IPI referente ao ano calendário de 2012, em razão da insuficiência no recolhimento daquele tributo, gerado por conta da inobservância das regras relativas ao Valor Tributável Mínimo (VTM, art. 195 e 196 do RIPI/2010), nas saídas de produtos industrializados efetuadas pela Recorrente para estabelecimento comercial interdependente. Consta do Termo de Verificação Fiscal (TVF fls. 1.663/1.681), que a Fiscalização verificou, no caso, que a empresa PROCOSA, possui 99,99% do total de quotas que compõem o capital social da L’OREAL BRASIL COMERCIAL DE COSMÉTICOS LTDA, CNPJ nº 30.278.428/000161, doravante denominada de L’OREAL, sociedade para a qual vende, no mercado interno, todos os seus produtos. No caso sob análise, a Recorrente (CNPJ nº 33.306.929/000445), é estabelecimento da empresa matriz PROCOSA, e tem como objeto social: indústria, comércio, importação, exportação de produtos, especialmente de produtos de beleza, cosméticos e/ou toucador, artigos de higiene, para cabeleireiros, perfumes e/ou essências, e outros como descrito no artigo 2º do seu Contrato Social. Fl. 2532DF CARF MF 12 Informa o Fisco no TVF (fls. 3.093/3.109), que no ano de 2012, todas as vendas no mercado interno atacadista de produtos fabricados ou importados pela PROCOSA, por meio do estabelecimento de CNPJ nº 33.306.929/000445 (FISCALIZADO), foram destinados ao estabelecimento L’OREAL, CNPJ nº 30.278.428/000595, por meio de notas fiscais em que o IPI foi destacado mediante aplicação das alíquotas vigentes na TIPI (Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados). Este estabelecimento opera como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço de todo o país, sendo considerado ATACADISTA, conforme conceito definido no artigo 14, inciso I do RIPI, aprovado pelo Decreto nº 7.212, de 2010 (RIPI/2010). O fundamento para o lançamento foi a violação aos arts. 195, I e 196, caput do RIPI/2010 (conforme fl. 1.686, do Auto de Infração), vigente à época dos fatos geradores, que determinavam que o VTM deveria corresponder ao preço praticado no mercado atacadista da praça do remetente, sempre que o produto fosse destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma interdependente. Estabeleciam também, que o VTM deveria ser calculado com base na "média ponderada dos preços" de cada produtos, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente. 4. Preliminares 4.1 Da Nulidade do Acórdão DRJ A Recorrente requer, preliminarmente, a NULIDADE da decisão da DRJ, alegando que teria sido alterado os fundamentos jurídicos do lançamento, com isso houve cerceamento do seu direito defesa. Aduz em seu recurso que, (...) Fica evidente, portanto, que a decisão recorrida INOVOU quanto aos fundamentos jurídicos do lançamento, bem como não realizou análise detida e pormenorizada do caso concreto dos autos, valendose de “minuta” de outra decisão sobre caso análogo que, como se pode verificar, abordava discussões jurídicas distintas daquelas objeto da presente lide, o que implica a NULIDADE da referida decisão". Afirma que o Fisco simplesmente ignoram a contribuição da L’Oreal Brasil para o negócio como um todo, assumindo que apenas a atividade fabril agregaria valor ao produto vendido quando, na verdade, a etapa fabril (transformação de matérias primas com baixo valor agregado em produtos de beleza) é a mais simples e menos custosa. Que nenhum levantamento desse tipo foi realizado. Não obstante, mesmo confrontada com a ausência desses elementos de prova, a DRJ/RPO teve por bem utilizar afirmações categóricas sobre o modelo de negócios, a formação de preços, e a realidade de mercado da Recorrente, todas sem esteio em efetiva comprovação documental, para manter a autuação. Não se verifica qualquer análise aprofundada acerca da efetiva segregação (ou não) das atividades industriais e comerciais, simplesmente não produziu prova sobre a maneira como as empresas do Grupo L’Oreal de fato operam. Sustenta que além desse expediente se mostrar um mero exercício retórico por parte da DRJ/RPO, temse que tais afirmações, dissociadas de provas concretas trazidas aos autos pela Fiscalização, acabam por efetivamente alterar a fundamentação jurídica do lançamento ora combatido e, por conseguinte, implicam a nulidade do Acórdão recorrido, por cerceamento do Direito de Defesa, que não teve a oportunidade de se defender dessas alegações ou produzir prova em contrário na Impugnação, até porque não eram essas as acusações que fundamentaram o lançamento. Pois bem. Alega a Recorrente que o Acórdão prolatado pela DRJ não se ateve estritamente a parte do Auto de Infração e Termo de Verificação Fiscal que originou o Fl. 2533DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.528 13 processo administrativo em referência quando de seu julgamento, de modo que utilizou argumentos não consignados pela Fiscalização. Desse modo, teria a DRJ extrapolado o limite da acusação fiscal contido nos autos que originou a presente lide (citando dados econômicos, avaliação de mercados de cosméticos, nº de empregados da empresa, etc), bem como se equivocado no tocante a análise de alguns dos documentos comprobatórios apresentados. Neste aspecto, concordo que o julgador deve restringir sua análise nos termos da exação fiscal contida no Auto de Infração e no TVF. Portanto, não conheço dos fundamentos estranhos à presente lide. Todavia, entendo que a decisão recorrida não deixou de se posicionar sobre os argumentos inerentes ao demonstrado no TVF objeto da presente lide, demonstrando o raciocínio empregado que levou a formar sua convicção, no sentido de manter o lançamento. Ademais, vejamos as hipóteses de nulidade dos atos e termos lavrados, de acordo com o art. 59 do Decreto nº 70.235/72, a saber: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...) Observase, pois, que este dispositivo não é aplicável ao presente caso. Primeiramente, cabe ressaltar que conforme disposto nos arts. 59 c/c 60 do Decreto n.º 70.235/72, a notificação e demais termos do processo administrativo fiscal somente serão declarados nulos quando se tratar de ato/decisão lavrado ou proferido por pessoa incompetente e resultar em inequívoco cerceamento de defesa à parte. No caso sob exame, nenhum desses vícios, entretanto, é verificado no presente procedimento, que foi conduzido por autoridade competente e com total observância ao direito de defesa da Recorrente. Verificase que o Auto de Infração foi lavrado por autoridade competente e teve origem em auditoria realizada pela Fiscalização da RFB, fartamente detalhada em Relatório Fiscal, onde consta a motivação para o lançamento e as provas que conduziram a autoridade fazendária a sua lavratura. A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou Impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, a Recorrente protocolou recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, uma vez que todo o procedimento previsto no Decreto nº 70.235/72, foi observado, tanto no lançamento tributário, como no curso do devido processo administrativo fiscal. Fl. 2534DF CARF MF 14 Além disso, nem mesmo a suposta inovação alegada pela Recorrente é verificada no caso. Com efeito, a decisão atacada não altera o fundamento do lançamento, mas analisa os mesmos fatos e aplica a mesma legislação, apenas corroborando a prática da infração constatada pela autoridade autuante, qual seja, de não utilização do VTM nas operações de venda realizadas com empresa comercial interdependente. Assim, a decisão recorrida trata da relação de interdependência entre as partes e da necessidade de aplicação dos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010; da existência de preço corrente no mercado atacadista da remetente (sendo aquele praticado pela comercial interdependente); da individualização dos produtos da autuada e, ainda, da necessidade de se dar ao termo “praça” um conceito mais amplo do que meramente a noção de "cidade ou município", no mesmo sentido aplicado pela Fiscalização, como detalhado no TVF. Em relação aos princípios constitucionais, ao contrário do entendimento da Recorrente, o lançamento não vedou e/ ou alterou sua atividade econômica, foi efetuado com base na legislação tributária vigente e não contrariou entendimento ou determinação do Fisco. Deste modo, não merece guarida a alegação de nulidade da decisão recorrida, não houve mudança de critério jurídico e foram cumpridos todos os preceitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Por todo o acima exposto, rejeito esta preliminar de nulidade. 4.2 Nulidade do AI alegado erro de direito conceito de praça apuração VTM Sustenta a Recorrente que seja reconhecido que houve erro de direito em razão da não aplicação da Consulta Formal, a qual define o conceito de praça como cidade e a forma de cálculo do VTM, para os casos em que o Estabelecimento Industrial e o Comercial Atacadista estejam localizados no mesmo município, e possui efeitos vinculantes tanto para a Administração Pública, quanto para a Recorrente no ano de 2012. De se notar, que as determinações da Consulta Formal emitida em favor da Recorrente estavam plenamente em vigor em 2012, uma vez que a Recorrente jamais foi notificada de nova orientação editada pelas autoridades fiscais, nem tampouco a Solução COSIT nº 08/12 foi publicada na imprensa oficial para sequer formalizar o novo entendimento. Alega ainda que, "(...) não pode deixar de destacar que tal orientação, no sentido de o termo “praça comercial” ser sinônimo de Município, foi repetido em Resposta à Consulta Formal endereçada a outro contribuinte em situação essencialmente semelhante àquela da ora Recorrente (doc. n° 08 da impugnação), o que só faz confirmar a procedência dessa interpretação: “12. Deslindando a questão, verificamos que da legislação aplicável à matéria não tem aplicabilidade ao caso em apreço o disposto no inciso 1 do caput do artigo 136 do RIPI, em face de não se ter o preço praticado pela distribuidora interdependente da consulente, pelo simples fato de a mesma não proceder a venda por atacado na praça do município onde ambas estão localizadas. Em face disso, movese a interpretação do IPI, para fins de aplicação do valor mínimo, do artigo 136 para o artigo 137, todos do RIPI.” (Grifei). A Recorrente entende que, considerando o teor da reposta à Consulta Formal, temse que tanto a DRJ/RPO quanto a Fiscalização incorreram em erro de direito (material) ao deixar de aplicar a interpretação determinada pela própria RFB com relação ao disposto no parágrafo 5° do artigo 68 do RIPI/82 (atual artigo 196, caput, do RIPI/10). Tal erro de direito, Fl. 2535DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.529 15 enseja o imediato cancelamento do Auto de Infração, haja vista que o teor da resposta à Consulta Formal da Recorrente é vinculante à Administração Pública. Como se vê, no entender da Recorrente, o conceito jurídico de "praça" está materializado nos atos normativos que tratam da matéria, o que não procede, e que as autoridades fiscais não poderiam alterálo. Tais normas complementares (Consulta Formal) não fixaram expressamente o conceito "jurídico" de praça. Quando muito a ela se referiu, de modo que, tanto as autoridades fiscais, quanto a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/12, não estabeleceram alteração alguma. Vejase que a Solução de Consulta Interna da COSIT nº 08/12, como o próprio nome sugere, tratase de Ato Normativo que tem por finalidade aclarar as dúvidas suscitadas pelos órgãos internos da RFB. Logo, tal ato tem efeito vinculante restrito ao âmbito da RFB, embora sirva de respaldo ao procedimento do sujeito passivo que adote sua orientação. Dada essa característica, o fato de o referido ato não ter sido publicado externamente (na imprensa oficial, por exemplo), certamente, não desobriga a fiscalização de aplicar a sua orientação na execução da atividade vinculada do lançamento. Ao contrário, a simples publicação interna, dada o alcance do seu efeito vinculante, já é suficiente para que autoridade fiscal autuante observe o disposto no referido ato na atividade de lançamento, como ocorreu no caso em tela. E mais. Da leitura dos excertos extraídos da referida SCI, fica claro que ela apenas consolidou os entendimentos exarados nos PN CST 44/1981 e PN CST 89/1970, que tratam dos procedimentos de apuração VTM relativos ao mercado atacadista concorrencial e monopolista, respectivamente. Logo, fica demonstrado que os procedimentos de apuração do VTM são diferentes para cada uma das referidas modalidades de mercado atacadista. Dessa forma, fica evidenciado a improcedência da alegação da Recorrente de que a referida SCI, configura alteração de práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas e que introduziu novo critério jurídico, o que implicaria violação ao art. 146 do CTN, haja vista que, em relação ao mercado atacadista monopolista, ela apenas reafirmou entendimento exarado no PN CST 89/1970, e nada mais. Na verdade, no processo interpretativo, tais atos normativos e Solução de Consulta Interna nada mais fizeram que descortinar facetas do mesmo objeto, partes do mesmo fenômeno. E por esta mesma razão, não há que se falar em afronta ao princípio da segurança jurídica e que houve erro de direito. Quanto a alegação suscitada pela Recorrente, no âmbito do recurso voluntário, de que a ausência de publicidade externa do referido ato retiravalhe a natureza de norma complementar e a característica de ato administrativo normativo, e que, portanto, não integrava a legislação tributária, referida no art. 96 e art. 100, I, do CTN, obviamente, tratase de alegação que diz respeito a natureza normativa da referida SCI, matéria essa que é estranha aos autos. Quanto ao existência de erro material em razão da falta de aplicação da Consulta Formal quando da apuração do VTM, uma vez que, na autuação ora questionada, Fl. 2536DF CARF MF 16 não foram considerados os preços praticados pelo Estabelecimento Industrial em suas vendas para o estabelecimento comercial da L’Oréal Brasil, tal fato será enfrentado em tópico seguinte, quando analisado o mérito. Portanto, não procede as alegações da Recorrente que houve erro de direito/material no caso dos autos. 4.3 Nulidade do Auto de Infração presunção de suposto Subfaturamento Aduz a Recorrente que seja decretada a nulidade do Auto de Infração pelo fato de a Fiscalização ter realizado o lançamento baseada apenas em mera presunção de suposto subfaturamento, tendo em vista que não carreou aos presentes autos quaisquer evidências documentais que comprovem a realização de pagamentos complementares de preço nas operações com a L’Oréal Brasil, bem como que não demonstrou qualquer indício de simulação, fraude ou outro defeito jurídico, que possa colocar em dúvida a verdade material refletida nos documentos fiscais emitidos pelas referidas empresas. Isto porque no TVE a Fiscalização concluiu que as operações de saída da unidade Industrial, segregando as funções de comercialização, a cargo da empresa L'OREAL Brasil, visou a redução artificial do valor da base de cálculo (fls. 1.666/1.669/1.670): "(...) 3.2. Mais especificamente, foram constatados indícios de subfaturamento nas vendas efetuadas pelo FISCALIZADO ao ATACADISTA, em função da análise comparativa das receitas de vendas de ambas as pessoas jurídicas, sendo que a quase totalidade das receitas da pessoa jurídica atacadista (L’ORÉAL BRASIL) decorre de revendas de mercadorias adquiridas da pessoa jurídica industrial (PROCOSA)". "Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)." 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. Quanto a expressão "subfaturamento" utilizada pela Fiscalização em seu Termo de Verificação Fiscal, como bem observou a Recorrente, entendo que referese a situação de saída de produto cujo valores apurados estão abaixo do VTM. Vejase que a Fiscalização consigna em seu Relatório que em razão de todas as informações levantadas no curso do procedimento fiscal, apurou o preço corrente do mercado atacadista com base somente nas vendas efetuadas pelo interdependente do remetente (ATACADISTA) porque o fabricante/importador não efetuou vendas diretas para destinatários atacadistas com as quais não tinha relação de interdependência, e não existiam outros remetentes a considerar. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da "média ponderada", uma vez que tais preços, representam os valores que se pretende corrigir, não podendo, ao Fl. 2537DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.530 17 mesmo tempo, constituirse em base de cálculo, pois geraria um círculo vicioso, já que o novo valor ajustado tornaria a recompor aquela base. Nesse contexto, há que ressaltar, primeiramente, o conceito de subfaturamento: "SUBFATURAMENTO (Dir. Pen.) Prática ilícita de fazer constar, de uma fatura, mercadorias ou serviços por preço inferior ao real, no intuito de fraudar o fisco. CP, art. 299, L 4729, de 14.7.1965." (Academia Brasileira de Letras Jurídicas, Dicionário Jurídico, 5ª edição, 1998, Forense Universitária Biblioteca Jurídica, pág. 793). Assim, neste aspecto, entendo que assiste razão à Recorrente quanto ao termo e a forma que foi utilizado pela Fiscalização (digase que foi repetido por duas vezes no TVE), pois a prática de subfaturamento representa características ou práticas de conduta fraudulenta, o que acarretaria, se fosse constatado no caso sob exame, a aplicação de penalidades qualificadas (multas duplicadas) no Auto de Infração, o que poderia acarretar tipificação de falsidade ideológica por prática de crime contra a ordem tributária sujeito às sanções da Lei nº 8.137/91, o que não restou concretizado a multa aplicada pelo Fisco. Tanto é fato, que a multa aplicada foi de 75%, conforme definida pelo art. 80, caput, da Lei nº 4.502/64, com a redação dada pelo art. 13 da Lei nº 11.488/07. Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Portanto, não se verifica evidências nos autos de que a Recorrente (PROCOSA), tenha emitido nota fiscal fatura com preço inferior ao efetivamente recebido da L'OREAL. Conforme pode ser observado no item 4.18 do TVF: "4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo:"...)" (Grifei) A meu sentir, o termo utilizado pela fiscalização esta relacionado sobre a formação do preço das mercadorias que foram vendidas ao estabelecimento interdependente (ATACADISTA), com os valores referenciais sendo inferiores, objetivando a formação da base cálculo para a incidência do IPI, com o qual, a fiscalização não concorda. Por isso, não vislumbrase, no caso, a nulidade do Auto de Infração. 4.4 Nulidade do Auto de Infração erro na 'quantia devida' Requer subsidiariamente, que seja decretada a nulidade do Auto de Infração por erro no quantum debeatur, já que a Fiscalização: (a) não considerou o preço de venda do Estabelecimento Industrial no cálculo da média ponderada; (b) utilizou preço de venda da L’Oréal Brasil de até três meses antes do fato gerador do IPI; e (c) no excluiu da base de Fl. 2538DF CARF MF 18 cálculo do tributo os valores concedidos a título de descontos incondicionais concedidos pela L’Oréal Brasil. Não assiste razão à Recorrente, pois não há qualquer erro ou dúvida em relação à matéria tributável, ao cálculo da média ponderada realizada pela Fiscalização (art. 196, do RIPI/10), bases de cálculos e em relação aos descontos incondicionais. Frizese que o enquadramento legal utilizado não merece reparos. Está plenamente adequado ao caso concreto e quanto a este entendimento a Recorrente ofertou ampla oposição em sua Impugnação e agora em sede de recurso. Ademais, essas alegações serão enfrentadas e debatidas nos tópicos seguintes, quando será analisado o mérito do recurso. 5. Do Mérito No mérito, alega a Recorrente que seja reconhecida a insubsistência do lançamento, e cancelado o Auto de Infração, uma vez que a Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido no Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasi1. 5.1 Sobre o conceito de "PRAÇA" para efeitos da apuração do VTM Toda a tese desenvolvida em seu recurso, a Recorrente assentase na consideração de que o termo “praça” ou “localidade”, apesar de não contar com definição específica na legislação tributária, possui abrangência especificamente limitada à circunscrição territorial do município ou cidade. Defende a Recorrente que, "(...) primeiro verificou, com fundamento na legislação de regêncïa e precedentes administrativos e judiciais sobre o assunto, que o termo “praça” deve ser entendido como “Município” e, assim, constatou a impossibilidade de apurar o IPI pela sistemática do VTM Praça previsto no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010, dado que é a única empresa atacadista vendedora de seus produtos que está instalada no Município do Rio de Janeiro/RJ e, em seguida, não podendo aplicar o VTM Praça, nem tampouco considerar os preços praticados pela empresa comercial atacadista L’Oreal Brasil na apuração do imposto, dado que o estabelecimento daquela empresa se localiza em “praça” distinta (i.e. Município de Duque de Caxias/RJ), a Recorrente apurou o IPI devido no ano de 2012 segundo o método do VTM Custo". Continua asseverando que pelo fato de a L’Oréal Brasil efetuar vendas ao município do Rio de Janeiro/RJ, não seria suficiente para colocar a Recorrente e aquela sociedade na “mesma praça comercial”. Na verdade, ainda que a L’Oréal Brasil efetue determinadas vendas a adquirentes localizados no município do Rio de Janeiro/RJ, isso não faz com que tal empresa possua praça nesse Município. Esse ponto é central, pois, o centro de distribuição L’Oreal Brasil tanto possui domicílio (ou seja, está localizado para fins práticos e jurídicos) quanto atua (ou seja, opera uma planta comercial e pratica seus negócios) no Município de Duque de Caxias/RJ, o qual constitui praça diversa do Município do Rio de Janeiro/Ri, no qual o Estabelecimento Industrial atua e possui domicílio. Fl. 2539DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.531 19 Afirma que o termo "praça" designa território de um município ao informar que “mercado atacadista", segundo o PN/CST nº 44/81 e do ADN/CST nº 5/82, significa o conjunto (i) das vendas efetuadas por um estabelecimento industrial, ou equiparado, a estabelecimentos comerciais atacadistas localizados no mesmo município e (ii) das revendas de mercadorias idênticas efetuadas por estabelecimentos atacadistas a outros estabelecimentos atacadistas e varejistas, mas também localizados naquele município.” Ou seja, para a Recorrente, o conceito de praça, para fins de determinação do VTM, deve ser entendido como “município ou cidade”, no seu entender, nos termos do PN CST 44/81, do Ato Declaratório Normativo 5/82 e de decisões administrativas da RFB. Considerando que a Recorrente (Industrial) está situada no Município do Rio de Janeiro/RJ e a Comercial situada em Duque de Caxias/RJ, não haveria, mercado atacadista na praça do remetente, razão pela qual a empresa teria observado, para o cálculo do "VTM Custo", previsto no inciso II, do artigo 196 do RIPI/2010. Por outro lado a Fiscalização utiliza um outro critério para apurar a base de cálculo do IPI devido naquele ano calendário, pois procedeu à apuração do IPI devido pela Recorrente a partir dos preços exclusivamente praticados nas saídas do estabelecimento da L’Oréal Brasil, em aplicação do VTM Praça ao caso dos autos. Que não existe na legislação tributária, a limitação espacial do conceito de praça (ou mesmo de localidade), como sendo a área de um município ou cidade. Esse mesmo critério foi adotado pelo Acórdão recorrido que, em linhas gerais, considerou que a inexistência de outros estabelecimentos comerciais atacadistas no Município do Rio de Janeiro/RJ não impediria a apuração do VTM Praça a partir dos preços praticados pela empresa L’Oreal Brasil. Pois bem. Conforme disposto nos arts. 195 e 196 do RIPI/2010, que traz normas claras, visando impedir que os fabricantes se utilizem de firmas interdependentes para reduzir a Base de Cálculo do IPI, considerar o termo “praça”, previsto na legislação tributária, como sendo limitado ao espaço geográfico de um único município (nos termos defendido pela Recorrente), afastaria da incidência do tributo (IPI), os contribuintes que elegessem uma estrutura entre interdependentes que se situam em cidades distintas, exatamente para se livrarem da tributação regulamentar. Para enfrentar essa matéria, doravante subscrevo varias considerações tecidas por este Relator (faço adaptações pontuais), no PAF nº 16682.722461/201530 (Acórdão nº 3402004.341, de 29/08/2017), desta mesma empresa (PA 2011), adotandoas como razão de decidir, com forte no § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784, de 1999, passando as mesmas a fazer parte integrante desse voto. Primeiramente, cumpre esclarecer que o conceito de “praça”, em virtude das orientações lançadas no tópico antecedente, em nada altera o enquadramento jurídicotributário e as suas consequências, devidamente descritos no lançamento de ofício em tela. Travase o debate, simplesmente, para se colocar luzes aos argumentos da Recorrente acerca da concepção do que seja “praça”, os quais, no juízo deste Relator, não são os mais razoáveis e compatíveis com o ordenamento jurídico em vigor. Na análise conceitual de “praça”, há de se ter o cuidado em se formular conceito que venha a atender a finalidade da norma (art. 195 do RIPI/2010), qual seja, garantir Fl. 2540DF CARF MF 20 que a tributação do IPI recaia sobre valor que se aproxime do valor da operação, evitando, assim, o recolhimento do imposto sobre uma base de cálculo em dimensão econômica muito distante dos preços praticados. No caso de empresas interdependentes, garantir que as saídas dos produtos entre a fabricante/importadora e a sua comercial interdependente sejam tributados, no mínimo, pelo valor do mercado atacadista. Há de se perceber, inicialmente, tratarse de norma antielisão e não de uma norma que estabelece um favor fiscal ou um tratamento mais benéfico. Aceitar o argumento da Recorrente de que o conceito de praça restringese à dimensão geográfica correspondente ao território de município e que não haveria “mercado atacadista da praça do remetente” (e, consequentemente, preço de atacado naquele território) por estarem localizados em municípios diversos os estabelecimentos do remetente/impugnante e do comercial atacadista interdependente, implica interpretar que a localização de empresas interdependentes é fundamental para conferir um determinado tratamento tributário aos diversos sujeitos passivos. Ou seja, se estiverem domiciliados no mesmo município, um tratamento jurídico e, se domiciliados em municípios diferentes, outro mais favorável, em total desconformidade com a finalidade da norma do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010. Como vimos, esse tipo de interpretação, assentada num conceito reducionista de “praça”, circunscrita a município, desprestigia os princípios da uniformidade tributária e da isonomia, uma vez que, em situações idênticas, operações de saída de produtos entre empresas interdependentes estariam sujeitas à aplicação de regras distintas em razão da localização de cada estabelecimento, possibilitando a prática de concorrência desleal e ofendendo a ordem econômica". E, continua argumentando a Recorrente que, (...) Assim, considerando a definição da lei comercial vigente ao tempo da edição da Lei n° 4.502, de 30.11.1964 (“Lei 4.502/64”), o entendimento expresso pelas autoridades fiscais e os precedentes administrativos e judiciais sobre a matéria (que não é “parco,” como afirma o v. Acórdão recorrido na fl. 2.309), é evidente que o conceito jurídico de praça somente pode ser entendido como sendo equivalente a “município”, ou localidade específica do estabelecimento industrial". Conforme descrito na Impugnação, em 2O8.1985 a Recorrente formulou Consulta Formal (Processo n° 13709.001891/8595) (doc. n° 07 da impugnação) à Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil no Estado do Rio de Janeiro, para questionar sobre a interpretação da legislação do IPI no tocante à determinação (i) do correto entendimento do conceito de praça; e (ii) da base de cálculo nas vendas para estabelecimento com a qual mantinha relação de interdependência. Como nota, a Recorrente não pode deixar de ressaltar que o próprio Acórdão recorrido reconhece que o conceito jurídico de praça atualmente vigente, relacionado à idéia de território ou município, estaria “ultrapassado” e careceria de uma revisão". Por final, destaca que "a Solução COSIT nº 8/12 não modificou a definição do termo “praça” dada pela Ato Declaratório Normativo n° 5, de 1982 (“ADN/5/82”) e pelo Parecer Normativo n° 44, de 19 de novembro de 1981 ("PN 44/81”). Na verdade, a referida Solução COSIT tratou apenas de interpretar as normas relativas à base de cálculo do IPI, pois nem possuía competência para analisar questão relativa a conceitos estabelecidos em atos normativos". Fl. 2541DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.532 21 No entanto, entendo que não assiste razão à Recorrente. O termo "praça" não significa necessariamente município, como também pela menção contida no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, de que deve ser considerado “o universo das vendas realizadas naquela localidade” e não das vendas realizadas “para aquela localidade”, o que a meu sentir, levaria à conclusão de que não haveria mercado atacadista em determinada localidade se ali não houvesse compradores dos produtos vendidos no atacado, ainda que estabelecimento industrial (ou equiparado) e atacadistas se situassem nessa mesma localidade. Vejase que o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. De outro lado, interpretando sistematicamente o art. 195, inciso I do RIPI/2010, firmase a convicção, com fundamento no artigo 32 do Código Comercial, em princípios constitucionais e no conteúdo de Direito Administrativo, de que “praça” é a localidade ou região, circunscrita ou não ao território de um município, onde tem atuação o comerciante nos seus atos negociais em sentido amplo. Assim sendo, como o conceito de “praça” está diretamente relacionado ao campo de atuação do comerciante, os preços por ele praticados nos locais onde mantém atuação mercantil caracterizam os seus “preços da praça”. Há que se destacar ainda, que a fiscalização deixou consignado no TVF, que em relação aos fatos em questão, os estabelecimentos remetente (FISCALIZADO) e destinatário (ATACADISTA) estão localizados nos municípios do Rio de Janeiro (RJ) e de Duque de Caxias (RJ), ambos pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro (RJ). Que essa região, também conhecida como "Grande Rio", foi instituída pela Lei Complementar nº 20, de 1º de julho de 1974, após a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e Grande Niterói, e é constituída por 19 municípios. Vejase trecho reproduzido (fl. 1.675): "(...) Como se vê, o mapa acima revela que os municípios de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro são limítrofes (números 1 e 3), ao passo que os mapas abaixo denunciam que ambos os estabelecimentos se situam na fronteira entre essas cidades, de forma que, mais do que vizinhos, eles se encontram bem mais próximos entre si do que em relação às suas sedes administrativas que se situam no mesmo ponto do centro da cidade do Rio de Janeiro. Vide as distâncias a seguir destacadas: Distância entre o estabelecimento FISCALIZADO (A) e sua Sede Adm. (B) = 24,6Km; Distância entre estabelecimentos FISCALIZADO (A) e ATACADISTA (B) = 9,8Km; Distância entre o ATACADISTA (B) e sua sede administrativa (A) = 21,4Km: Considerandose o fato de que mesmo a PROCOSA e a L'OREAL Brasil, se situarem em municípios diversos, podese afirmar que (para efeito de aplicação do art. 195, inciso I do RIPI/2010), no caso em questão, esses estabelecimentos situamse na mesma localidade, não somente por pertencerem à mesma região metropolitana (do Rio de Janeiro), Fl. 2542DF CARF MF 22 mas, sobretudo, em face da grande proximidade entre estabelecimentos, maior até do que entre muitos bairros do próprio município do Rio de Janeiro. Desta forma, o conceito de "praça" adotado pelo Fisco assegura a justiça da apuração e respeita a finalidade da norma. E isto porque o fato de duas cidades serem municípios vizinhos não pode afastar a definição de praça, ainda mais no caso de Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, por exemplo, tratado nos autos, que além de serem municípios limítrofes, que compõem uma mesma região metropolitana, são cidades que apresentam índices sócioeconômicos bem equivalentes, sendo certo, portanto, que as vendas realizadas pela L'OREAL Brasil, em Duque de Caxias, não podem ser ignoradas. Por fim, no caso analisado, restou comprovado nos autos, que existe um único vendedor atacadista que opera não só no mercado atacadista do remetente/recorrente, mas em todo o mercado nacional, que é justamente a Comercial atacadista interdependente. Notese que não há, no art. 195, inciso I, do RIPI/2010, qualquer menção ou restrição ao local do destino das vendas do estabelecimento integrante do mercado atacadista da praça do remetente. Vejase o dispositivo: Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e DecretoLei nº 34, de 1966, art. 2º); Como se vê, a luz do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, o preço do mercado atacadista do estabelecimento remetente/Recorrente é aquele praticado pela comercial atacadista interdependente, sua única representante. 6. Do Enquadramento Legal do Auto de Infração Verificase no Auto de Infração à fl. 1.686, que foram os seguintes os enquadramentos nos dispositivos legais, para os fatos geradores do IPI, ocorridos entre o período de 01/01/2012 e 31/12/2012: Art. 195, inciso I, e art. 196 do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 24, inciso II, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 24, inciso III, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Arts. 35, inciso II, 181, 182, inciso I, alínea "b" e inciso II, alínea "c", 186, §§ 2º e 3º, 189, 259, 260, inciso IV, 262, inciso III, do Decreto nº 7.212/10 (RIPI/10); Art. 1º da Lei 8.850/94, com as alterações introduzidas pelo art. 7º da Lei 11.774/08. 7. Da apuração do valor da base cálculo do IPI Em relação a formação da base de cálculo do IPI em operações envolvendo estabelecimentos interdependentes VTM como norma antielisiva, informa a Recorrente em seu recurso que, "(...) No Auto de Infração, a Fiscalização procedeu à apuração do IPI supostamente devido pela Recorrente a partir dos preços praticados nas saídas do estabelecimento da L’Oréal Brasil (CNPJ n° 30.278.428/000595). Entretanto, tal critério adotado pela Fiscalização para apurar o valor do IPI supostamente devido nas saídas realizadas pela Recorrente para estabelecimento interdependente não encontra respaldo na legislação fiscal". E prossegue afirmando que a apuração da base de cálculo nas saídas realizadas por estabelecimentos industriais com destino a estabelecimentos com os quais Fl. 2543DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.533 23 mantenha relação de interdependência, na forma do artigo 612 do RIPI/10, está sujeita às regras previstas no inciso I do artigo 195 (VTM Praça) e no artigo 196 (VTM Custo), ambos do RIPI/10. Vejase: Art. 195. O valor tributável no poderá ser inferíor: 1 ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...) Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos 1 e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: 1 (...). II no caso de produto nacional, o custo de fabricaçüo, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado” (Grifei) Vejase que da leitura dos artigos transcritos acima o entendimento dos dispositivos é simples. (i) Se existir um preço corrente no mercado atacadista na praça do remetente, então a base de cálculo do IPI deve ser calculada com base na média ponderada dos preços praticados neste mercado (VTM Praça), e (ii) se não existir um preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, então a base de cálculo do IPI deve ser calculada com base nos custos incorridos, acrescidos de uma margem de lucro normal (VTM Custo). Assim, a definição de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM perpassa, portanto, em precisar qual o significado do termo “praça do remetente” para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista. Como visto, a Recorrente afirma que primeiro verificou, com fundamento na legislação de regêncïa e precedentes administrativos e judiciais sobre o assunto, que o termo “praça” deve ser entendido como “Município” e, assim, constatou a impossibilidade de apurar o IPI pela sistemática do "VTM Praça" previsto no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010, dado que é a única empresa atacadista vendedora de seus produtos que está instalada no Município do Rio de Janeiro/RJ e em seguida, não podendo aplicar o "VTM Praça", nem tampouco considerar os preços praticados pela empresa comercial atacadista L’Oreal Brasil na apuração do imposto, dado que o estabelecimento daquela empresa se localiza em “praça” distinta (Município de Duque de Caxias/RJ), a Recorrente apurou o IPI devido no ano de 2012 segundo o método do "VTM Custo" previsto no inciso II do artigo 196 do RIPI/2010. No entanto o Fisco discordou desse entendimento. Como pode ser extraído dos autos, a partir da concentração das atividades dos estabelecimentos comerciais atacadista da L’ORÉAL Brasil no estabelecimento instalado no município de Duque de Caxias, abandonou o valor tributável mínimo, calculado com base no preço médio ponderado de venda no mercado atacadista praticado no município do Rio de Janeiro/RJ (VTM Praça), e passou Fl. 2544DF CARF MF 24 adotar novo VTM, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação (VTM Custo). Por sua vez, o motivo apresentado pela Fiscalização para rejeitar o novo valor tributável mínimo (VTM Custo), utilizado pela Recorrente como base de cálculo do IPI, foi a constatação de que os custos, as despesas e a margem de lucro por ela apresentados foram artificialmente manipulados, para fim de reduzir a base de cálculo do IPI. Vejase trecho reproduzido do TVF (fl. 1.670): "4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo" (...). Muito embora a Recorrente tenha alegado em seu recurso que a reengenharia econômica e de logística operacional não tenha sido implantada com fim puramente econômico e não com finalidade de planejamento tributário, destinado a obter menor pagamento do IPI, os fatos noticiados nos autos, corroborados com elementos probatórios idôneos, contrariam e infirmam tal alegação. É fato que, sob ponto vista empresarial, a Recorrente tem toda liberdade para adotar o modelo gerencial que lhe mais conveniente e adequado para obtenção de melhores resultados econômicos, por meio da redução de custos e despesas e, conseqüentemente, elevação da taxa de lucro. Entretanto, dentro desse objetivo, não se pode esquecer que há exigências na legislação tributária não podem ser desconsideradas. No caso, ainda que não tenha sido o propósito da Recorrente, as diferenças de preços praticadas entre os estabelecimentos industrial e distribuidor interdependentes destoam enormemente dos preços praticados entre estabelecimento industrial e distribuidor em ambiente comercial normal, sem interdependência. Por essas e as demais razões trazidas no Termo de Verificação Fiscal, entendo que o Fisco agiu com acerto ao desconsiderar o valor tributável mínimo (VTM Custo) adotado pela Recorrente, calculado com base no “custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, bem assim do seu lucro normal, além das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação. 8. Da Interdependência entres as empresas Fl. 2545DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.534 25 Analisase aqui, a questão atinente à apuração do valor da base cálculo do IPI, utilizada pela fiscalização no presente lançamento, especificamente, quanto ao Valor Tributável Mínimo (VTM) aplicado aos produtos vendidos com exclusividade, pela Recorrente, ao estabelecimento atacadista, inscrito no CNPJ sob nº 30.278.428/000595, pertencente a pessoa jurídica L’OREAL, interdependente da autuada e a vendedora (PROCOSA), que detém 99,99% do total das quotas de capital da referida empresa. A relação de interdependência é fato incontroverso nos autos. Conforme informações fornecidas pela própria Recorrente, as referidas empresas integram o conglomerado econômico, controlado pela sociedade francesa L'ORÉAL S/A., uma das líderes mundiais no ramo de perfumes, cosméticos e produtos de toucador. Nos termos do art. 612, I, do RIPI/2010, a interdependência entre duas empresas, verificase sempre que uma delas tiver participação no capital social da outra de quinze por cento ou mais, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges. É fato que a empresa PROCOSA encontrase localizada no bairro da Pavuna, pertencente ao município do Rio de Janeiro/RJ, enquanto o estabelecimento da empresa L'ORÉAL BRASIL (denominado estabelecimento ATACADISTA), está situado no município de Duque de Caxias/RJ, em área limítrofe ao município do Rio de Janeiro/RJ. Consta dos autos que as sedes administrativas das referidas pessoas jurídicas estão localizadas em um mesmo prédio, situado na Rua São Bento, n° 8, no centro da cidade do Rio de Janeiro e que o estabelecimento atacadista operava como centro de distribuição de mercadorias para revendedores e prestadores de serviço (salões de beleza, cabeleireiros em geral) de todo o país, sendo considerado atacadista conforme conceito definido no art. 14, I, do Decreto nº 7.212, de 2010, que veicula o Regulamento do IPI de 2010 (RIPI/2010). Portanto, conforme demonstrado e provado nos autos, a Recorrente mantém relação de interdependência com a empresa adquirente de seus produtos, cujas operações foram objeto do lançamento em discussão. 9. Da aplicação do Valor Tributável Mínimo VTM Analisando as informações acima, resta incontroverso que as operações de venda dos produtos objeto da presente autuação foram realizadas, com exclusividade, para estabelecimento atacadista interdependente, conforme definido no art. 612, I e IV, do RIPI/2010. Aliás, esse fato é incontroverso no caso em tela, o que exige do estabelecimento vendedor a adoção de um Valor Tributável Mínimo (VTM), como base de cálculo do IPI, conforme determinado nos arts. 195, I e 196 do RIPI/2010. Por outro giro, o Fisco verificou que a Recorrente industrializou os produtos de sua marca, bem como os importou de outras empresas do Grupo L’OREAL, e vendeu tais mercadorias para a L’OREAL Brasil, que por sua vez as comercializou e distribuiu, com exclusividade, para revendedoras e prestadores de serviços (salões de beleza, cabeleireiros, etc), sendo, assim, nos termos do art. 14, I, "c" do RIPI/2010, considerada como estabelecimento (comercial) ATACADISTA, sendo este o fato (presença de valores de saídas artificialmente manipulados) que motivou a recusa, pelo Fisco, do Valor Tributável Mínimo (VTM custo) calculado pela Recorrente. Fl. 2546DF CARF MF 26 Cabe destacar aqui, que a fiscalização constatou que os preços praticados pela L’OREAL Brasil, na revenda dos produtos, eram significativamente superiores àqueles praticados na operação de aquisição dos mesmos, entre ela e a PROCOSA (industrial), segundo apontado pela fiscalização, que identificou diferenças da ordem de até 500% nos preços dos produtos adquiridos e vendidos pela L’OREAL Brasil (comercial). Vejase trecho do TVE: "4.15. Na sequência, o FISCALIZADO passa a tratar da questão da diferença entre seus preços e os preços praticados pelo ATACADISTA. Aquele alega que a substancial diferença entre os preços praticados pelos dois estabelecimentos provém das particularidades da atividade econômica de cada um deles, sendo que um realiza produção industrial enquanto o outro se dedica à distribuição. O estabelecimento da PROCOSA (FISCALIZADO), sendo responsável pela industrialização dos produtos, arcaria com os custos fabris, enquanto a L’ORÉAL, responsável pela comercialização e distribuição, arcaria com outros custos, como os de estocagem, transporte, propaganda e publicidade, o que por sua vez justificaria a maior margem agregada pelo ATACADISTA na comercialização de seus produtos, “sob pena de auferir seguidos prejuízos fiscais”. 4.16. Devemos lembrar aqui, conforme constatado e demonstrado no item 4.5, que a diferença entre os preços praticados pelo estabelecimento industrial remetente (FISCALIZADO) e o estabelecimento atacadista é de mais de 500% (quinhentos por cento)". Neste caso, há que se levar em conta que o fato de estabelecimentos interdependentes praticarem entre si preços diferentes daqueles negociados no mercado, quando da comercialização entre partes não relacionadas, caracteriza o favorecimento entre elas o que, por si só, já autoriza a conclusão de que a Recorrente, de fato, praticou a infração que lhe foi imputada. Isto porque, conforme definido no Regulamento do IPI, existindo mercado atacadista na praça do remetente, o preço do produto negociado entre elas deveria corresponder ao preço corrente naquele mercado, calculado com base na média ponderada dos preços de cada produto, vigorantes no mês antecedente ao da saída do estabelecimento remetente ou ao mês imediatamente anterior. Nesse mesmo sentido, foi decido por este CARF, pelo Acórdão do 2º CC n° 20216.152, de 22/02/2005: "(...) Em havendo a interdependência, a legislação exige que nas remessas de produtos tributados de uma para outra empresa seja observado o valor tributável mínimo, in casu, o preço do mercado atacadista da praça do remetente. Essa exigência não foi cumprida pela reclamante, que deu saída aos produtos para sua interdependente pelo mesmo preço que os importou (preço de custo), sem observar o preço corrente no mercado atacadista de sua praça" (...). Também nesse mesmo diapasão, foi decido pelo Acórdão n° 3301001.847, de 22/05/2013, da 1ªTO, 3ª Câmara da 3ª Sejul: "BASE DE CÁLCULO. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Comprovada a relação de interdependência entre as empresas, adotase como base de cálculo do IPI incidente nas saídas dos produtos do estabelecimento industrial da interdependente o valor tributável mínimo. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. APURAÇÃO. O valor tributável mínimo corresponde à média ponderada dos preços de cada produto, vigente no mês precedente ao da saída dos produtos do estabelecimento industrial remetente, e, ainda, não pode ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça daquele, no caso de remessa para empresa interdependente. Fl. 2547DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.535 27 Há que se ressaltar ainda que no julgamento da Primeira Turma da Segunda Câmara da Terceira Sejul, negouse provimento ao recurso (Acórdão 3201001204), sob o fundamento de que "na saída de produtos tributados pelo IPI para firma interdependente, o valor tributável não pode ser inferior ao preço corrente dos produtos no mercado atacadista do remetente". E que existe preço corrente no mercado atacadista da remetente, ainda que se trate de um mercado monopolista. O preço praticado pela distribuidora interdependente nas vendas para terceiros independentes, equivale ao preço de mercado, por abranger os custos do produto. No caso dos autos, é importante frisar, que o Fisco estabeleceu a “média ponderada”, com base nas vendas realizadas pela L'OREAL, único atacadista, conforme define os arts. 195, I e 196 caput, do RIPI/2010, anteriormente reproduzido. É importante se destacar que, apenas no caso de inexistir mercado atacadista, o que se dá, por exemplo, quando somente houver vendas feitas no varejo, é que se utilizaria a regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010 (como pleiteia a Recorrente), o que, como já abordado neste voto, não é o caso desses autos. Há de se considerar também que, diante da impossibilidade de adotar o critério alternativo de apuração da base cálculo do IPI, previsto no art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, revestese de todo razoável e em consonância com as normas de proteção da base de cálculo do IPI a utilização, pela fiscalização, do VTM calculado com base no preço no atacado médio praticado pelo estabelecimento atacadista interdependente da L’ORÉAL BRASIL, localizado no município de Duque de Caxias, limítrofe com o município do Rio de Janeiro, onde se situa o estabelecimento industrial da recorrente, especialmente tendo em conta que ambos os municípios integram a mesma região metropolitana. Além disso, por utilizar o único preço por atacado idôneo praticado na comercialização dos referidos produtos fabricados pela recorrente e objeto da presente autuação, certamente, tratase de critério objetivo que está em perfeita consonância com o critério de apuração do VTM estabelecido no PN CST 89/1970 e na SCI Cosit nº 8/2012. Por fim, como se sabe, o IPI não é um imposto pessoal (de modo a considerar os custos da pessoa do industrial ou da pessoa do distribuidor), mas sim um imposto real, devendose no caso, ser levados em conta todos os custos da mercadoria (de produção, de vendas, de publicidades, etc). Nesse sentido, importa registrar que o preço praticado pelo destinatário (no caso, pela LOREAL Brasil) é o que efetivamente abrange, além dos custos de fabricação, também os demais elementos que devem ser considerados na fixação do VTM. 10. Da Base de Cálculo Média Ponderada Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) que a D. Fiscalização não pode alterar o conceito do termo praça livremente, sem que para isso haja a expedição de uma nova norma, alterando o antigo conceito. Dessa forma, devese manter o conceito atualmente em vigor de praça, limitada a município e, por isso, não haveria que se falar em aplicação da média ponderada do preço de venda dos produtos L’Oréal Brasil no mercado atacadista para fins determinação da base de cálculo do IPI a ser recolhido pelo Estabelecimento Industrial nas vendas para a L’Oréal Brasil". (Grifei) Fl. 2548DF CARF MF 28 Por outro lado, a Fiscalização entende que, embora conhecendo os preços no mercado atacadista praticados pelo seu distribuidor comercial atacadista exclusivo e interdependente, a Recorrente não observou os comandos normativos e utilizou, indevidamente, para definir a base de cálculo do IPI nas suas operações de saída, o inciso II, do art. 196 do RIPI/2010. Desta forma procedendo, recolheu valor de imposto (IPI) muito abaixo do valor tributável mínimo (VTM) previsto pelo inciso I, do art. 195 do RIPI/2010. Pois bem. Como bem asseverado pela decisão de piso, "No mundo jurídico, a lógica jurídica nos revela que, igualmente, o preço do mercado atacadista da praça do remetente, no caso concreto, é o mesmo praticado pelo estabelecimento Comercial Interdependente". Verificase que no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, dispôs em determinado trecho que “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada”. Portanto, cabe esclarecer a existência de mercado atacadista na região considerada, uma vez que, no caso, há apenas um único estabelecimento atacadista. Nesse sentido, não foi outra a conclusão a que chegou a Administração Tributária por meio da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT nº 8, de 13 de junho de 2012, cuja ementa e excertos pertinentes ora reproduzimos: (Grifei). “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI O valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a estabelecimento distribuidor interdependente do estabelecimento industrial fabricante. O valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial fabricante, e que tenha na sua praça um único estabelecimento distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto. Dispositivos Legais: Decreto no 7.212, de 15 de junho de 2010 –Regulamento do IPI; Parecer Normativo CST nº 44, de 1981.” "(...) 9. Ou seja, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’. 9.1. Agora, se ‘o mercado atacadista de determinado produto, como um todo’, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um ‘mercado atacadista’, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. Fl. 2549DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.536 29 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao ‘universo das vendas’ a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 (Grifei). Quando se observa o inciso I, do art. 195 do RIPI/2010, tal dispositivo legal não faz qualquer referência ao número mínimo de ofertantes que devem atuar no mercado para que este seja caracterizado como um “mercado atacadista”. Tampouco faz qualquer distinção entre mercados monopolizados, oligopolizados ou livre de concorrência. Desse modo, deve ser aplicada a regra prevista (inciso I, do art. 195 do RIPI/2010), sempre que o produto for destinado a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. Já no Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs sobre “mercado atacadista”, in verbis: 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente do mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. Em resumo, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento; devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. Por outro lado, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas e nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Como os produtos da PROCOSA são perfeitamente caracterizados e identificados por marca (L’OREAL), tipo, modelo, espécie e qualidade, o mercado atacadista da praça do remetente é composto por um único vendedor, que atua nesse mercado, qual seja, a sua própria comercial atacadista interdependente, pois esta é a única e exclusiva distribuidora dos produtos da Recorrente para a sua praça (seja ela o município ou não). Assim, sobre os preços desse único atacadista, a conformar o preço corrente no mercado atacadista do remetente/Recorrente é que deverá incidir o IPI, conforme o Ato Declaratório Normativo (ADN) CST nº 05, de 1982 e o Parecer Normativo (PN) CST nº 44, de 1981, bem como a exata orientação emanada da Solução de Consulta Interna (SCI) COSIT n° 08, de 2012, bem como na estrita interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Vejase o trecho da Conclusão da referida SC nº 8: Fl. 2550DF CARF MF 30 Conclusão (Negritei) 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto.” A fiscalização informa em seu Termo de Verificação Fiscal, que a norma em sua correta interpretação, busca alcançar uma base de cálculo composta por uma média de preços praticados por agentes (compradores ou vendedores) atacadistas (no caso, há apenas um vendedor atacadista: L’ORÉAL Brasil) circunscritos à mesma realidade de mercado do estabelecimento remetente, ou, no dizer da norma, à mesma praça (localidade) comercial. Como no caso sob análise, no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010, existe um único distribuidor (o estabelecimento 0005 da L’ORÉAL Brasil), interdependente de estabelecimento industrial fabricante (o estabelecimento 0004 da PROCOSA) de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo (VTM) aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados, pelo distribuidor único, nas vendas por atacado do citado produto. Por óbvio, não foram consideradas as vendas efetuadas pelo estabelecimento FISCALIZADO para o ATACADISTA no cálculo da média ponderada, uma vez que tais preços, representam os valores que se pretendia corrigir, não podendo, ao mesmo tempo, constituirse em Base de Cálculo, sob pena de macular esta BC. Por entender que os preços dos produtos da PROCOSA no mercado atacadista, consistem nos mesmos preços praticados pela sua comercial atacadista, interdependente e exclusiva, encontra respaldo no ADN CST nº 05, de 1982, no PN CST nº 44, de 1981, na SCI COSIT nº 08, de 2012, e na interpretação do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010, apontado no lançamento tributário. Além disso, há de se levar em consideração os preços praticados pelo estabelecimento comercial atacadista interdependente, distribuidor exclusivo da Recorrente, porquanto este atua naquela praça, conforme disposto nos atos acima citados. Como se trata de produtos perfeitamente caracterizados e identificados por marca, tipo, modelo, espécie e qualidade, são os preços da comercial atacadista interdependente, a única representante/distribuidora de tais produtos no atacado, que podem ser utilizados para se determinar o preço atacadista na praça da Recorrente/remetente. Nessa esteira, a fiscalização em relação a determinação do VTM, com base na "média ponderada" dos preços correntes do mercado atacadista da praça do remetente, desta forma consignou em seu TVF: "(...) Com base nos arquivos digitais de Notas Fiscais Eletrônicas, e tomandose os dados das Notas Fiscais de Saída emitidas pelo ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595), esta Fiscalização elaborou Demonstrativo de Apuração da Média Ponderada Mensal (art. 196, caput, RIR/2010) dos preços unitários dos produtos que o atacadista recebeu do remetente (FISCALIZADO), e comercializou por meio de notas fiscais emitidas na condição de atacadista, para adquirentes localizados dentro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (apesar de, como visto, o local de destino das vendas do atacadista não importar para fins de determinação do Valor Tributável Mínimo, mas no intuito de abarcar os compradores, por atacado, da mesma praça do remetente)". Fl. 2551DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.537 31 Portanto, a Fiscalização deixou claro que foram selecionadas para o cálculo do Valor Tributável Mínimo (VTM) apenas as Notas Fiscais de Saída do estabelecimento 0005 da L’ORÉAL BRASIL que correspondiam a operações de venda de mercadorias por atacado a pessoas jurídicas localizadas em municípios integrantes da Região Metropolitana do Rio de Janeiro/RJ. Desta forma não integraram a apuração do VTM os produtos vendidos pelo ATACADISTA na condição de varejista, bem como os produtos destinados a adquirentes localizados fora da praça comercial em questão (Região Metropolitana do Rio de Janeiro). Ressalta o Fisco que, "Os valores obtidos no demonstrativo de apuração das médias de preços praticados nas saídas do ATACADISTA (CNPJ 30.278.428/000595) devem ser utilizados para determinação dos valores tributáveis mínimos a serem observados pelo FISCALIZADO. Portanto, faz parte do presente Termo o “Demonstrativo de Apuração do Valor Tributável Mínimo VTM” (ANEXO I), bem como A “Relação das Notas Fiscais utilizadas na Apuração da Média Ponderada dos Preços” (ANEXO II)". As médias apuradas nos demonstrativos, constituem o Valor Tributável Mínimo, sendo que quando da utilização deste para cálculo do tributo devido pelo FISCALIZADO foi utilizada sempre, conforme determina o artigo 196 do RIPI/2010, a média ponderada dos preços do ATACADISTA calculada no mês precedente ao período de apuração do IPI no FISCALIZADO ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior. Portanto, não procede os argumentos da Recorrente que, para determinar o VTM, a fiscalização se afastou por completo do critério comandos pelo artigo 195 e no caput do artigo 196 do RIPI/2010. Também, entendo que não caberia a autoridade julgadora apurar ou determinar margem de lucro do sujeito passivo. Especialmente, no caso em tela, em que a base de cálculo do imposto lançado não foi calculada com base lucro ou resultado obtido pela Recorrente, mas com base no VTM. Além disso, também não cabe autoridade julgadora determinar critérios de apuração da base de cálculo do tributo lançado. Essa atividade, induvidosamente, é privativa da autoridade fiscal lançadora, nos termos do art. 142 do CTN. À autoridade julgadora, certamente, cabe se pronunciar sobre legalidade do critério de apuração adotado pela fiscalização, o que no meu entender foi feito apropriadamente, em que restou demonstrado que o VTM apurado pela fiscalização foi feito em perfeita consonância com o disposto no art. 195, I, e 196 do RIPI/2010 (Decreto nº 7.212/2010). 11. Da alegada não exclusão dos Descontos incondicionais Aduz a Recorrente que, "(...) 284. Como segundo equívoco, verificase que a D. Fiscalização desconsiderou os descontos incondicionais (previstos na nota fiscal) concedidos pela L’Oréal Brasil aos seus clientes ao proceder ao cálculo da média ponderada de preços praticados por esta empresa. Contudo, se o desconto é parte integrante do preço de venda, não fazendo parte da base de cálculo do IPI, então a média ponderada, para fins de determinação do VTM, também deve ser calculada a partir do preço líquido, ou seja, excluindo os descontos". No caso dos descontos incondicionais, existe vedação normativa expressa no § 3º do art. 190 do RIPI/2010 à dedução dos descontos incondicionais na base de cálculo do IPI: Vejase Fl. 2552DF CARF MF 32 Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, inciso II, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). (...) § 3º Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 2º, DecretoLei nº 1.593, de 1977, art. 27, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15). (Grifei) Portanto, as fundamentações suscitadas pela Recorrente não merecem acato no presente julgamento administrativo. No entanto, a Recorrente, continua em recurso argumentando que, "(...) Neste sentido, vale destacar que o Supremo Tribunal Federal (“STF”), no julgamento do Recurso Extraordinário n° 567.935, sob a sistemática de repercussão geral, proferiu decisão vinculante no sentido de que descontos incondicionais, como os concedidos pela L’Oréal Brasil, não integrariam a base de cálculo do IPI". Como se vê, alegou o cumprimento da regra prevista no artigo 62, § 2º, do RICARF/2015, que estabelece a obrigatoriedade da reprodução, pelos julgadores deste Conselho, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo plenário do STF nos julgamentos, sob regime de repercussão geral, no caso a aplicação do entendimento esposado no RE nº 567.935/SC: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS BASE DE CÁLCULO INCLUSÃO ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL LEI COMPLEMENTAR EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional. Para bem resolvermos o caso, peço licença para reproduzir trechos do voto de lavra do Conselheiro Jose Fernandes do Nascimento (PAF nº 16682.720009/201371), que para uma melhor compreensão do alcance da referida decisão do STF, especialmente, em relação ao preceito legal atingido pela mácula da inconstitucionalidade formal, cabe transcrever o teor do dispositivo do julgado: O Tribunal, por unanimidade e nos termos do voto do Relator, conheceu e negou provimento ao recurso, declarando a inconstitucionalidade do § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/89, apenas quanto à previsão de inclusão dos descontos incondicionais na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). [...]. (Grifei). Fazendo uma leitura do dispositivo do referido RE, extraise que o preceito legal, parcialmente, declarado inconstitucional (apenas na parte que trata dos descontos Fl. 2553DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.538 33 incondicionais) foi o § 2º do art. 14 da Lei 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 15 da Lei 7.798/1989, a seguir transcrito: Art. 14. Salvo disposição em contrário, constitui valor tributável: (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] II quanto aos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...] § 2º. Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989) [...]. (grifos não originais) Porém, na presente autuação, a base de cálculo do IPI não foi calculada com base no valor total da operação, previsto no art. 14, II, da Lei 4.502/1964, mas sim, com base no VTM, definido no art. 15, I, do mesmo diploma legal, que segue transcrito: Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto fôr remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro incluído no artigo 42 e seu parágrafo único; (Redação dada pelo Decreto Lei nº 34, de 1966) (...). Portanto, diferentemente do alegado pela Recorrente, o fundamento da decisão consignada no citado RE, não se aplica à autuação em apreço, pois o enquadramento legal da base de cálculo da autuação foi feito em preceito legal distinto do que fora declarado inconstitucional no citado Recurso Especial. Assim, por expressa vedação legal determinada pelo § 3º, II, do art. 190 do RIPI/2010, não há como ser acatado o pedido de dedução da base de cálculo do IPI dos supostos valores a título de descontos incondicionais. 12. Da aplicação da Solução Consulta Interna Cosit (SCI) nº 08/2012 Argumenta a Recorrente em seu recurso que a Solução de Consulta Interna COSIT nº 08/2012 é ilegal, representa violação ao art. 146 do CTN, por trazer novo critério jurídico e por isso não pode ser aplicada retroativamente a fatos geradores ocorridos em 2012. "(...) Contudo, tal pretensão de buscar amparo na Solução COSIT 8/12 para justificar o critério de cobrança adotado não merece prosperar por três principais razões: (i) a orientação descrita na Solução COSIT 8/12 literalmente não se aplica à Recorrente; (ii) impossibilidade de se alterar o conceito jurídico de “praça” por meio de norma infralegal; e (iii) a Solução COSIT 8/12 só pode ser aplicada a partir de sua publicação (princípio da irretroatividade)". Vejase que a Solução de Consulta Interna da COSIT, como o próprio nome sugere, tratase de Ato Normativo que tem por finalidade aclarar as dúvidas suscitadas pelos Fl. 2554DF CARF MF 34 órgãos internos da RFB. Logo, tal ato tem efeito vinculante restrito ao âmbito da RFB, embora sirva de respaldo ao procedimento do sujeito passivo que adote sua orientação. Dada essa característica, o fato de o referido Ato não ter sido publicado externamente (na imprensa oficial, por exemplo), certamente, não desobriga a Fiscalização de aplicar a sua orientação na execução da atividade vinculada do lançamento. Ao contrário, a simples publicação interna, dada o alcance do seu efeito vinculante, já é suficiente para que autoridade fiscal autuante observe o disposto no referido ato na atividade de lançamento, como ocorreu no caso em tela. E mais. Da leitura dos excertos extraídos da referida SCI, fica claro que ela apenas consolidou os entendimentos exarados nos PN CST 44/1981 e PN CST 89/1970, que tratam dos procedimentos de apuração VTM relativos ao mercado atacadista concorrencial e monopolista, respectivamente. Logo, fica demonstrado que os procedimentos de apuração do VTM são diferentes para cada uma das referidas modalidades de mercado atacadista. Dessa forma, fica evidenciado a improcedência da alegação da Recorrente de que a referida SCI, configura alteração de práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas e que introduziu novo critério jurídico, o que implicaria violação ao art. 146 do CTN, haja vista que, em relação ao mercado atacadista monopolista, ela apenas reafirmou entendimento exarado no PN CST 89/1970, e nada mais. E por esta mesma razão, não há que se falar em afronta ao princípio da segurança jurídica. 13. Das penalidades, juros aplicáveis Alega a Recorrente que "(...) caso seja admitida a mudança do conceito jurídico de “praça” com base em um mero ato infralegal, e prevaleça a exigência do IPI conforme pretende a D. Fiscalização (com exclusão dos preços praticados pelo Estabelecimento Industrial), o que efetivamente se admite apenas para argumentar, certo é que o valor cobrado não poderia ser acrescido de penalidades, juros de mora e atualizações monetárias em razão do disposto no parágrafo único do artigo 100 do CTN". O argumento da impugnante consiste, em síntese, na alegação de que, no caso em análise, a Recorrente baseou seu procedimento nas disposições do PN 44/81, no ADN 5/82, nas decisões do próprio CARF e na resposta a sua Consulta Formal. Não havia um só caso ou dispositivo normativo que indicava que praça deveria ser interpretada como algo diferente do que cidade/localidade. Pelo contrário, existia uma resposta em Consulta Formal que confirmava justamente o entendimento adotado pela Recorrente, e que assim não caberia a aplicação de penalidade (multa de ofício), nos termos do art. 76, II, “a”, da Lei nº 4.502/1964, que dispõe: “Art . 76. Não serão aplicadas penalidades: II enquanto prevalecer o entendimento, aos que tiverem agido ou pago o imposto: a) de acordo com interpretação fiscal constante de decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal, inclusive de consulta, seja ou não parte o interessado; ...” Ocorre que posteriormente à edição da Lei nº 4.502/1964, foi editado o Código Tributário Nacional [Lei nº 5.172, de 1966], recepcionado como Lei Complementar pela Constituição Federal de 1988, que assim dispôs no seu art. 100, incs. I e II e parágrafo único: Fl. 2555DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.539 35 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; ... Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Ou seja, a partir da vigência do CTN, a exclusão de penalidades, sem que o contribuinte seja parte nos processos específicos, só é possível caso exista lei atribuindo eficácia normativa às referidas decisões, o que, até o presente momento, não existe nos autos. Nada obstante, no caso, a multa prescrita foi dada pelo art. 569 do RIPI/2010, com espeque no art. 80 da Lei 4.502/64, com redação dada pelo art. 13 da Lei 11.448, de 15/06/2007, vazada nos seguintes termos: Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal ou a falta de recolhimento do imposto lançado sujeitará o contribuinte à multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido. Logo, carece de fundamento a argumentação que visa afastar a aplicação de penalidade, devendo ser mantida a exigência de multa de ofício. 14. Dos Juros (SELIC) sobre a Multa de Ofício Em que pese as razões e dos fundamentos legais contidos no recurso para que seja afastada à incidência dos juros Selic sobre a Multa de Ofício, entendo que não assiste razão à Recorrente. Matéria recorrente neste Colegiado, sendo minha posição conhecida no sentido de sua pertinência. Em seu recurso, defende a Recorrente ser incabível a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por ausência de dispositivo legal. Contudo, pareceme induvidoso que a multa de ofício integra o conceito de obrigação tributária esposado pelo artigo 113 do Código Tributário Nacional. Como é cediço, o conceito de crédito tributário no Brasil engloba tributo e multa, como expressamente estabelece o artigo 43 da Lei nº 9.430/96: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o §3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (grifei) Fl. 2556DF CARF MF 36 O artigo 5º, §3º, da Lei nº 9.430/96: As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. (grifei) No mesmo sentido, impõe o Código Tributário Nacional que: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária.(grifei) Do exposto podemos concluir que há disposição expressa para a cobrança de juros sobre multas, porque incluídas no conceito de crédito tributário, e que a taxa aplicável à espécie é a referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC. Esse também é o entendimento do STJ sobre o assunto, conforme se observa da ementa a seguir transcrita (AgRgnoREsp1335.688/PR DJe de 10/12/2012): PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1.Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel.Min.Teori Albino Zavascki, DJde2/6/2010. (grifei). E no CARF, a matéria vem sendo debatida exaustivamente, razão pelaqual colaciono alguns de seus julgados a respeito: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional.Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdãonº 9101002.180, CSRF, 1ª Turma) JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu inadimplemento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão nº 9202003.821,CSRF 2ª Turma) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até Fl. 2557DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.540 37 o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão nº 9303003.385, CSRF, 3ª Turma). Assim, devem ser mantidos os juros de mora sobre a multa de ofício. 15. Do Pedido de Diligência Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) Para fins de demonstrar as irregularidades no cálculo da média ponderada do preço de venda adotado pela Fiscalização para calcular o IPI devido, a Recorrente renova seu pedido, com fulcro no artigo 16 do Decreto 70.235/72, pela realização de diligência para reapurar o valor da base de cálculo do IPI, nos termos dos quesitos formalizados no Anexo I deste Recurso Voluntário". Sobre o pleito de realização de diligência formulado pela Recorrente, mostra se prescindível pelas razões que foram expendidas ao longo deste voto, cujo arrimo consta do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, combinado com o princípio basilar da livre convicção do julgador presente no art. 29 do citado Decreto. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) No caso sob análise, considerase desnecessária a diligência proposta pela Recorrente, por entendêla dispensável para o deslinde do presente julgamento. A realização de diligência/perícia pressupõe que o fato a ser provado necessite de conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador, o que não é o caso dos presentes autos. No auto de Infração e no TVF (demonstrativos de cálculos anexos), a Fiscalização aponta com vasta análise que houve infringência do art. 195, I, do Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados RIPI (Decreto nº 7.212/2010). Para tanto, encontrase reproduzidos os artigos 195 e 196 do RIPI/10, em virtude de a discussão estar centrada na interpretação destes dispositivos. Posto isto, com base no art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, entendo que a Diligência requerida é dispensável, já que os relatórios, demonstrativos apensados aos autos e as informações nelas contidas são suficientes para apuração do valor tributável mínimo (VTM) e outras apurações que são objeto desta lide. Posto isto, indefiro o pedido de diligência para juntada de novos documentos. 16. Dispositivo Diante dos fundamentos expostos, rejeito as suscitadas preliminares de nulidade da decisão de piso, indefiro a diligência solicitada e, no mérito, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, mantendose a decisão recorrida em TODOS os seus termos e fundamentos. É como voto. (assinado digitalmente) Fl. 2558DF CARF MF 38 Waldir Navarro Bezerra Voto Vencedor 1. Com a devida vênia ao douto Relator do caso, ouso dele discordar, o que passo a fazer nos seguintes termos. 2. Conforme se observa dos autos, a presente discussão gravita em torno da adequada interpretação dos artigos 195, inciso I e 196, parágrafo único, inciso II, ambos do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (RIPI/2010), dispositivos esses que assim prescrevem: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: (...). II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. 3. Tal discussão interpretativa, todavia, não pode ser considerada de forma divorciada da realidade fática apurada no presente lançamento e que aqui se retoma sumariamente: · a empresa recorrente tem por objeto social, dentre outras atividades, a industrialização, importação e exportação de produtos de beleza, cosméticos e toucador; · a empresa recorrente era a controladora da empresa L'oréal Brasil Comercial de Cosméticos Ltda. ("L'oréal"), empresa comercial atacadista para quem se destinaram todos os produtos produzidos pela recorrente no ano de 2011; · há, portanto, uma relação de interdependência entre as citadas empresas, o que é incontroverso nos autos; Fl. 2559DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.541 39 · a empresa recorrente está situada na cidade do Rio de Janeiro, enquanto que a empresa L'oréal está situada na cidade de Duque de Caxias, na área metropolitana da cidade carioca; · por se tratar de empresas interdependentes, a recorrente sujeitou tais operações à incidência do IPI nos termos do que dispõe o art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010; · a fiscalização, por seu turno, entendeu que o método de apuração do IPI para tais operações não seria o adotado pelo contribuinte, uma vez que a regra determinante no presente caso seria aquela disposta no art. 195, inciso I do mesmo RIPI/2010. 4. Feitas tais considerações de ordem fática, cabe agora voltarse aos dispositivos legais aqui tratados para a sua devida interpretação, mas não sem antes fixar algumas premissas essenciais para o alcance das conclusões que serão externadas ao longo do presente voto. I. Os limites interpretativos no direito tributário 5. É desnecessário aqui me alongar nas considerações acerca da estrita submissão das exigências exacionais ao princípio da legalidade, haja vista a importância deste princípio na seara tributária assim como ocorre no direito penal ao ponto do constituinte originário, não satisfeito com a previsão geral do art. 5o, inciso II da Magna Lex1, reiterar tal norma jurídica no específico nicho tributário (art. 150, inciso I da Constituição Federal2). 6. Tal importância, entretanto, não imuniza a lei tributária de problemas, em especial aqueles de caráter semânticojurídico. O emprego, por parte do legislador, de expressões vagas, de conceitos jurídicos indeterminados e, até mesmo, a ausência de conceituações legais, levam a interpretações dúbias de um mesmo texto legislativo o que, em matéria tributária, pode originar sérios problemas para o sujeito passivo de uma relação jurídica deste jaez, já que tal sujeito pode depararse com a mitigação do seu patrimônio3 a pretexto de uma suposta interpretação normativa. 7. Daí a importância de dispositivos como os artigos 108, § 1º e 110 do Código Tributário Nacional4, na medida em que estabelecem limites interpretativos ao 1 "Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...). II ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei; (...)." 2 "Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; (...)." 3 Para uma perspectiva da relação jurídicotributária, o ato de tributar nada mais é do que uma autorização constitucional para que o Estado mitigue o direito de propriedade do indivíduo. 4 "Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: (...). § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. Fl. 2560DF CARF MF 40 aplicador do direito tributário legislado no plano da concretude, densificando, pois, o princípio da legalidade. Logo, mesmo na ausência de uma delimitação semântica por parte da lei ao empregar um determinado signo na esfera jurídicotributária, ainda sim não seria possível negar a existência, para tal signo, de um conteúdo jurídico próprio, sob pena do princípio da legalidade em matéria tributária ser esvaziado de sentido. No mesmo diapasão, destacamos o já clássico voto do Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Galotti, proferido no RE nº 71.758 (Rel. Min. Thompson Flores, DJ de 31.08.1973), in verbis: (...). Se a lei pudesse chamar de compra o que não é compra, de importação o que não é importação, de exportação o que não é exportação, de renda o que não é renda, ruiria todo o sistema tributário inscrito na Constituição. (...). 8. Esta conclusão foi reforçada pelo mesmo STF quando do julgamento da inconstitucionalidade da lei n. 9.718/98, conforme se observa de trecho do voto da lavra do Ministro Cezar Peluso, in verbis: (...) Quando não haja conceito jurídico expresso, tem o intérprete de se socorrer, para a reconstrução semântica, dos instrumentos disponíveis no próprio sistema do direito positivo, ou nos diferentes corpos de linguagem. Como já exposto, não há, na Constituição Federal, prescrição de significado do termo "faturamento". Se se escusou a Constituição de o definir, tem o intérprete de verificar, primeiro, no próprio ordenamento, não havia então algum valor semântico a que pudesse filiarse o uso constitucional do vocábulo, sem explicitação de sentido particular, nem necessidade de futura regulamentação por lei inferior. É que, se há correspondente semântico na ordem jurídica, a presunção é de que a ele se refere o uso constitucional. Quando u'a mesma palavra, usada pela Constituição sem definição expressa nem contextual, guarde dois ou mais sentidos, um dos quais já incorporado ao ordenamento jurídico, será esse, não outro, seu conteúdo semântico, porque seria despropositado supor que o texto normativo esteja aludindo a objeto extrajurídico. (...) (STF – Supremo Tribunal Federal; Rec. Extraordinário 346.084 6 – PR; Tribunal Pleno (grifos nosso). 9. Este recurso empregado pelo ordenamento jurídico e evidentemente limitador do processo hermenêutico na esfera tributária tem um objetivo muito claro: criar um filtro jurídicoracional para preservar a autonomia do direito sem, todavia, fechálo para o (...). Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias." Fl. 2561DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.542 41 novo. Procurase, com isso, evitar que o direito seja incapaz de se diferenciar e de se especificar funcionalmente em relação ao seu ambiente5. 10. Tais considerações, a título de premissas, são essenciais para o deslinde da presente demanda, uma vez que, ao meu ver, a lide gravita em torno do conteúdo semântico jurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente", estabelecidas no art. 195, inciso I do RIPI/2010 e, mais do que isso, qual o conteúdo semântico de tais expressões à época do advento do citado Regulamento de IPI. Antes, todavia, é fundamental aqui precisar qual a razão de ser de tal dispositivo e as regras daí extraídas. II. O valor tributário mínimo como uma regra antielisiva específica para o IPI 11. A regra do valor tributável mínimo ("VTM") para o IPI não é uma novidade na legislação brasileira. Ao contrário, foi inauguralmente prevista no ordenamento jurídico nacional há mais de 50 anos, uma vez que veiculada na própria lei nº 4.502/646, instituidora do então imposto sobre o consumo. Tratase, em verdade, de norma antielisiva específica7 para operações com produtos industrializados com o fito de evitar uma manipulação artificial da base de cálculo do tributo quando da realização de operações entre empresas interdependentes. 5 CAMPILONGO, Celso Fernandes. Política, sistema jurídico e decisão judicial. São Paulo: Max Limonad. 2002. p. 21. 6 "Art . 15. o valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto fôr remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42); (...)." 7 Já tive a aoportunidade de me manifestar no âmbito acadêmico que: "Essas normas ou cláusulas antielisivas podem ser de dois tipos distintos, conforme o grau de detalhe com o qual é feito seu pressuposto de aplicação: a) cláusulas gerais, dotadas de pressuposto aberto e prevista para ser aplicada em um número indefinido de casos; e b) cláusulas específicas, voltadas a tutelares negócios e situações bastante particulares. Falamse, também, em um tipo híbrido, as cláusulas setoriais, que são dotadas de alguma generalidade, mas se direcionam a um âmbito delimitado de contribuintes e de operações, estando mais próximo do modelo específico1. As regras gerais antielisivas têm origem no ordenamento alemão2, não sendo direcionadas a certos contribuintes ou situações específicas – pelo contrário, normalmente atribuem à Administração Fiscal o poder de classificar como elisiva determinadas condutas e impor o pagamento do tributo elidido3. (..). Por outro lado, têmse as cláusulas antielisivas específicas ou "ad hoc", que apresentam uma estrutura normativa baseada em um pressuposto fático rígido, detalhado e taxativo5. Elas são utilizadas sempre posteriormente à constatação, pela fiscalização de um campo aberto à elisão, através da alteração do direito positivo visando fechar aquela lacuna específica6, a exemplo do que foi feito com as regras de preços de transferência e o regime de CFC (“Controlled Foreign Corporation”). Elas atuam, usualmente, por meio do estabelecimento de ficções e presunções relativas aos elementos da regra matriz tributária, seja quanto aos caracteres do fato gerador, seja quanto àqueles da relação jurídica tributária, a depender da técnica normativa utilizada pelo legislador. Em razão disso, o legislador deve ser excepcionalmente cuidadoso na sua elaboração, visto que a regra deverá ser interpretada sempre de forma restrita, de modo a não ter a sua sistemática ampliada, diferentemente do alcance amplo das regras antielisivas gerais, que procuram abarcar todos os contribuintes. Parecenos, pois, que as cláusulas específicas, por dependerem de presunções e ficções nos elementos essenciais da norma tributária, são dotadas de uma excepcionalidade que lhe imprime um grau elevado de restrição na sua interpretação e aplicação às situações concretas, estando próximas da sua literalidade. (...). (DANIEL NETO, Carlos Augusto; RIBEIRO, Diego Diniz. O Valor Tributável Mínimo (VTM) e o Conceito de 'Praça' na sua Apuração. "In": DIREITO TRIBUTÁRIO ATUAL, v. 39, p. 3655, 2018.). Fl. 2562DF CARF MF 42 12. Assim, em hipóteses como a tratada nos autos, há a possibilidade do VTM ser apurado com base em duas metodologias distintas e excludentes entre si. Caso exista mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado com base no preço corrente no mercado pelo cálculo da média ponderada de preços das empresas atacadistas da referida localidade. Por sua vez, na hipótese de inexistir mercado atacadista na praça do remetente, o VTM será apurado como base em uma cesta de elementos objetivamente traçados pelo legislador, quais sejam, custos de produção, outras despesas e margem de lucro normal. 13. Com tais disposições, o legislador quis evitar que empresas interdependentes criassem estruturas com o fito de esvaziar a base de cálculo do IPI nas operações promovidas pela industrial para inflála na operação com a empresa comercial atacadista. 14. Pois bem. A delimitação de um dos dois métodos possíveis de apuração do VTM perpassa, portanto, em precisar qual o conteúdo semântico da expressão "praça do remetente" para então identificar se, naquela praça, há ou não um mercado atacadista, de modo a permitir a apuração do VTM com base em uma comparação mercadológica (preço médio das empresas da localidade do remetente) ou com base em ficção jurídica (levando em consideração como elementos mínimos os custos de produção, as despesas e a margem de lucro ordinária naquele tipo de operação). III. O conteúdo semânticojurídico das expressões "mercado atacadista" e "praça do remetente" 15. Fixadas as premissas alhures desenvolvidas, convém agora precisar o conceito de "praça do remetente". 16. Para cumprir com tal mister, insta desde já fixar a ideia que "praça do remetente" quer significar uma localidade, ou seja, um local determinado onde se realizam operações empresariais. Aliás, nesse sentido, é bastante elucidativo o parecer juntado aos autos pela recorrente e da lavra do Professor Fábio Ulhoa Coelho (fls.), o qual fora ofertado para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Assim afirma o citado professor: (...). 6. Praça é conceito jurídico com dois significados diferentes. 7. O primeiro significado é o de reunião de comerciantes que realizam trocas mercantis de determinado produto num certo lugar. Tratase, nesse caso, de referência à organização típica dos comerciantes. (...). 16. As praças entendidas nesse primeiro significado de reunião de comerciantes tinham importância no passado. Atualmente, podese dizer que desapareceram. Se até as primeiras décadas do século anterior, existiam vigorosas praças no Brasil como a de Santos, Rio de Janeiro ou Belém , hoje em dia foram substituídas, em parte, pelas Câmara de Comércio, Associações Comerciais etc. 17. Por isso, quando a lei fala em praça atualmente, ela só pode estar se referindo à segunda acepção que o conceito apresenta Fl. 2563DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.543 43 no direito comercial, a de um lugar onde se costumam realizar negócios comerciais. 18. Por esse segundo significado jurídico de praça, fazse referência invariavelmente a uma localidade. Tratase de expressão destinada a delimitar um espaço. Praça é, portanto, um conceito por assim dizer geográfico, um recorte no território nacional. (...) (grifos constantes no original). 17. Diante de tais considerações, fica claro que a questão a ser aqui definida é precisar qual a extensão deste recorte geográfico dentro do território nacional, de modo a delimitar a sua amplitude territorial. 18. Um dos primeiros diplomas legais a tratar do assunto foi a antiga lei do cheque (Decreto n. 2.591/1912), que em seu art. 4o assim prescrevia: Art. 4º O cheque deve ser apresentado dentro de cinco dias, quando passado na praça onde tem de ser pago, e de oito dias, quando em outra praça. 19. Referido dispositivo estabelecia prazos diferentes para a apresentação do cheque emitido a depender da referida ordem de pagamento ser da mesma "praça" ou de "praça" distinta da instituição bancária na qual seria apresentado. Na legislação atual (art. 33 da lei n. 7.357/85) falase em "lugar onde houver de ser pago", sem que se perca, todavia, a referência espacial quanto ao local da emissão e o local em que situada a agência bancária responsável pelo cumprimento da ordem. Em ambas as hipóteses resta clara a referência, ainda que implícita, a um Município, tanto que, ao emitir o cheque, o emitente deve indicar em campo próprio a cidade de emissão da cártula. 20. No mesmo sentido, é o Parecer Normativo n. 44/81, que assim prevê: (...) 5. A norma superveniente determina, pois, ser 'o preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente (...) a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. (...) (g.n.). 21. É o que também prevê o ADN CST n. 5/82: (...). Fl. 2564DF CARF MF 44 a) "o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do artigo 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI)"; e b) "do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o artigo 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser considerados as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. (...) (g.n.). 22. Ademais, o próprio art. 197 do RIPI/2010, inserido na mesmíssima Seção II em que se encontram os analisados artigos 195 e 196, ao estabelecer os procedimentos para o arbitramento da base de cálculo do IPI, textualmente fala em domicílio, o que, por sua vez, obrigatoriamente nos remete a ideia de Município. Vejamos o inteiro teor da regra: Art. 197. Ressalvada a avaliação contraditória, decorrente de perícia, o Fisco poderá arbitrar o valor tributável ou qualquer dos seus elementos, quando forem omissos ou não merecerem fé os documentos expedidos pelas partes ou, tratandose de operação a título gratuito, quando inexistir ou for de difícil apuração o valor previsto no art. 192 (Lei nº 5.172, de 1966, art. 148, e Lei no 4.502, de 1964, art. 17). §1o Salvo se for apurado o valor real da operação, nos casos em que este deva ser considerado, o arbitramento tomará por base, sempre que possível, o preço médio do produto no mercado do domicílio do contribuinte, ou, na sua falta, nos principais mercados nacionais, no trimestre civil mais próximo ao da ocorrência do fato gerador. (...). (g.n.). 23. Ao empregar o termo domicílio é claro que o legislador está se referindo ao limite geográfico de um município, exatamente como se depreende do disposto no art. 70 do Código Civil, in verbis: Art. 70. O domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. 24. Nem se alegue, ainda que o art. 197 do RIPI/2010 teria usado o termo domicílio em um sentido diferente do signo praça, empregado no art. 195 do mesmo Regulamento, sob pena de vaticinarse a existência de uma legislação patológica, dotada de uma esquizofrenia ou bipolaridade, já que tal assertiva equivaleria a admitir a existência de artigos presentes em uma mesma lei, em uma mesma seção e tratando de um mesmíssimo tema (arbitramento da base de cálculo do IPI), porém com conteúdos semânticos distintos. 25. Não obstante, seguindo esta linha de orientação, i.e., de que praça é sinônimo de município, também encontramos farta jurisprudência deste Tribunal Fl. 2565DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.544 45 Administrativo. É o que se observa, por exemplo, da decisão exarada pelo Conselheiro Antonio Carlos Atulim e veiculada no acórdão n. 3403002.285, in verbis: Ementa Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 31/03/2008 a 31/12/2010 VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos. (...). (CARF; Acórdão n. 3403002.285; Relator: Antonio Carlos Atulim) (g.n.) 23. Ainda no mesmo sentido: Ementa ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 10/01/1999 a 31/12/2001 IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTAVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. Recurso Provido. (CARF; Acórdão n. 340100.768; Relator: Dalton Cesar Cordeiro De Miranda) (g.n.). Trecho do voto do Relator (Acórdão n. 340100.768), acompanhado por unanimidade pela Turma julgadora: (...). Como muito bem observado nestes autos, a resposta a este quesito é de extrema valia, uma vez que o Ato Declaratório CST nº 5/82, o Parecer Normativo CST nº 44/81 e os artigos 68 do Fl. 2566DF CARF MF 46 RIPI/82 e 123, I, do RIPI/98 determinam que o valor tributável do IPI – base de cálculo do IPI nas operações entre empresas interdependentes – será o preço corrente no mercado atacadista na praça do remetente, ou seja, na praça da cidade onde está localizada a autuada, in casu, cidade de São Paulo. Que fique bem claro, por oportuno, que tais dispositivos afastam quaisquer hipóteses de inclusão na média ponderada de preços praticados por empresas atacadistas localizadas em outras praças que não a do remetente. E em face desta afirmativa, temse que a recorrente não atua como atacadista de seus produtos na praça da cidade de São Paulo, onde está localizada a Avon Industrial, local sim de sua sede administrativa. (...) (g.n.). Ementa IPI. BASE DE CALCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o artigo 68, inciso I, alínea "a", do RIPI/82, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não pode ser considerado como o praticado por um único estabelecimento. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20310.133; Rel. Emanuel Carlos Dantas de Assis) (g.n.). Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. (CARF; Acórdão n. 20218.215; Rel. Maria Teresa Martínez López) (g.n.). 26. Este também é o entendimento consagrado pelo Superior Tribunal de Justiça, quando analisa o conceito de praça para fins de ação de cobrança com base em cheque prescrito: Fl. 2567DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.545 47 DIREITO COMERCIAL. RECURSO ESPECIAL. CHEQUES. BENEFICIÁRIA DOMICILIADA NO EXTERIOR. PRAÇA DE EMISSÃO. OBSERVÂNCIA AO QUE CONSTA NA CÁRTULA. AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO SEM CAUSA DE NATUREZA CAMBIAL. TRANSCURSO DO PRAZO PREVISTO NO ARTIGO 61 DA LEI 7.357/85. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DE AÇÃO DE COBRANÇA, COM DESCRIÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO SUBJACENTE, OU DE AÇÃO MONITÓRIA, CUJO PRAZO PRESCRICIONAL É DE 5 ANOS. 1. O cheque é título de crédito que se submete aos princípios cambiários da cartularidade, literalidade, abstração, autonomia das obrigações cambiais e inoponibilidade das exceções pessoais a terceiros de boafé, por isso deve ser considerado como local de emissão o indicado no título. [...] 4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora. (...) (STJ; REsp n. 1.190.037/SP, Relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe de 27/9/2011.) (g.n.). 27. Diante deste quadro normativo e jurisprudencial, não resta dúvida que praça e município são tratados como sinônimos o que, por conseguinte, implica no presente caso a convocação do disposto no art. 196, parágrafo único, inciso II do RIPI/2010 e não o prescrito no art. 195, inciso I do mesmo Regulamento. Isto porque, nos termos empregados pelo Professor Humberto Ávila em parecer também desenvolvido para a Associação Brasileira de Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (fls. 3.284/3.322): ...a escolha expressa pela delimitação geográfica para fins de verificação da média de preços do mercado atacadista precisa ser obrigatoriamente respeitada. O aplicador não tem competência para alterar os termos da lei, nem mesmo através de uma interpretação extensiva não comportada pelo texto legal. A definição legal vinculase às noções de previsibilidade, estabilidade e segurança jurídica, que seriam violadas se o intérprete pudesse, conforme a sua conveniência, alterar o significado corrente das expressões escolhidas pelo legislador. Por essas razões, estes dispositivos legais não admitem interpretações elásticas, extensivas ou ampliativas conforme o interesse da autoridade fazendária, sendo exigida a rigorosa observância dos limites fixados de forma expressa e inequívoca pelo Poder Legislativo, a quem compete fixar critérios, e delimitadas pelo Poder Executivo, a quem compete especificar os mandamentos legais. Fl. 2568DF CARF MF 48 (...). 28. Apesar da conclusão aqui já externada, convém ainda examinar, para fins de motivação (art. 489, §1o, inciso IV, c.c. o art. 15, ambos do CPC89), os pretensos fundamentos adotados pela fiscalização no caso decidendo. IV. A equivocada fundamentação fazendária para a convocação do disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 29. Conforme se observa do Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização equivocadamente trata o conceito de praça como sinônimo de mercado. Nesse sentido, mister se faz esclarecer o conceito de mercado para distinguilo da ideia de praça. 30. Logo, insta desde já esclarecer que o termo mercado comporta diferentes abordagens, o que pode redundar em diferentes resultados semânticos, a depender da sua análise ser feita sob uma perspectiva econômica, social, jurídica etc. Mesmo limitando este escopo, ainda sim é possível identificar diferentes espécies de mercados (permanente e temporário; relevante e irrelevante; dentre outras classificações). A classificação, por sua vez, empregada pela fiscalização no caso decidendo leva em consideração o aspecto geográfico como elemento classificatório, o que também pode gerar em diferentes subclassificações (mercados nacionais, regionais, locais etc.). Tratase, portanto, de um conceito ambíguo e que, por conseguinte, merece a devida delimitação em concreto. 31. No presente caso, a fiscalização atrelou a ideia de praça à de mercado, o qual, por sua vez, estaria geograficamente circunscrito ao conceito de região metropolitana. Daí concluiu que, apesar de situadas em cidades distintas, a empresa industrial e a recorrente compunham um único mercado porque situadas em uma mesma "praça" (aqui empregado no sentido da fiscalização), já que ambas PJ's estão situadas na região metropolitana do Rio de Janeiro. 32. Acontece que, com o devido respeito ao trabalho da fiscalização, tal mister padece de dois problemas: um de natureza conceitual e outro de caráter metodológico. 33. Sob uma perspectiva jurídica, ainda que de forma singela, mercado pode ser conceituado como o conjunto de operações empresariais relacionadas a determinados bens ou serviços em um determinado limite geográfico. E está exatamente aí o problema a ser aqui resolvido: as limitações geográficas para a definição do conceito de praça são as mesmas para conformação de um conceito de mercado? A resposta para tal questionamento é uma só: um sonoro não. 34. A limitação geográfica para fins de definição de mercado é dinâmica, na medida em que varia de acordo com o tipo de produto comercializado, bem como os tipos de operações comerciais praticadas. Quando se fala, por exemplo, em um "mercado" de padarias, é possível, a depender do contexto, restringilo a um bairro (v.g., o bairro do Sumaré, na cidade de São Paulo) ou a uma região (a região oeste, também na capital paulista). Já quando se fala, 8 "Art. 489. São elementos essenciais da sentença: (...). § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...). IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; (...)." 9 "Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente." Fl. 2569DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.546 49 por exemplo, no mercado calçadista, é possível ampliar sensivelmente esta extensão territorial, o que pode redundar em delimitação por Estado ou até mesmo por Região do Brasil (Sul, Sudeste, Norte etc.)10. O que se percebe, portanto, é que esta delimitação geográfica do conceito de mercado é dinâmica ou fluida, assim como é a economia, área do saber que fortemente influencia a delimitação semântica deste signo. 35. Por sua vez, a delimitação geográfica que influi na conformação do conceito de praça é estática, uma vez que, como visto, o signo praça é, por diferentes legislações, atrelado a ideia de domicílio, isto é, de cidade. Ora, quando se pensa em domicílio fiscal, por exemplo, o que se afigura é um lugar precisamente delimitado, de modo que o contribuinte possa ser fácil e eficazmente encontrado para fins de comunicação com a Receita Federal do Brasil. Aliás, a indicação do domicílio fiscal é a indicação de um endereço em uma cidade. 36. Percebese, pois, que a primeira diferença entre mercado e praça é conceitual, o que, digase de passagem, foi muito bem pontuado pelo Professor Fábio Ulhoa Coelho no parecer alhures citado: (...). "Praça" não é sinônimo de "mercado". Em nenhuma doutrina ou decisão judicial, afeta ao direito comercial, encontrase qualquer noção assertiva que pudesse levar a tal sinonímia. Mercado não se confunde com praça. Mercado é o conjunto de relações econômicas associado a algum elemento de relevância, que pode ser determinado produto ("mercado de cosméticos"), um segmento econômico ("mercado varejista"), certa base territorial ("mercado nacional") ou outros. Praça, por sua vez, não é um conjunto de operações econômicas. 51. Enquanto "mercado" é conceito que reporta algo dinâmico (relações econômicas), o de "praça" reporta algo estático (lugar ou organização). Não existe nada que se pudesse denominar por praça de cosméticos, mas existe claramente um conjunto de operações que se liga a noção de mercado de cosméticos. Não há nada a que se pudesse referir pela expressão praça varejista, mas visualizase, sem dificuldade, um conjunto de operações econômicas identificável pela locução mercado varejista. Inexiste algo passível de se chamar de praça nacional, mas o conjunto de operações econômicas realizadas internamente num certo país chamase, corretamente, de mercado nacional. (...) (grifos constantes no original). 37. E nem poderia ser diferente, até porque, se considerado o conceito de praça empregado pela fiscalização, i.e., como sinônimo de conjunto de operações empresariais, o disposto no art. 195, inciso I do RIPI/2010 tornaseia um sem sentido jurídico. Referido dispositivo assim prescreve: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: 10 Com segurança é possível afirmar que, por questões climáticas, econômicas e de costumes, o mercado calçadista na região Sul do país apresenta particularidades que o diferem deste mesmo mercado na região do extremo Norte e Nordeste do país. Fl. 2570DF CARF MF 50 I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 38. Partindo dos conceitos empregados pela fiscalização poderia ser assim reescrito: Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente do conjunto de operações empresariais do conjunto de operações empresariais do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; (...). 39. Neste mesmo diapasão conclui o Professor Fábio Ulhoa Coelho: (...). 103. De outro lado, a tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça desqualificando o elemento territorial que lhe é peculiar, mostrase igualmente uma distorção. quando se tenta conceituar praça como um conjunto de operações mercantis, confundese este conceito com o de mercado. 104. Aliás, esta segunda tentativa de conferir maior abrangência ao conceito de praça, aproximandoo ao de mercado, torna a lei e os regulamentos do IPI incompreensíveis. Tratando estas normas do "mercado de praças do remetente", se tanto mercado como praça forem considerados conjuntos de operações mercantis, as normas legais e regulamentares estariam dizendo algo totalmente ininteligível como "conjunto de operações mercantis do conjunto de operações mercantis do remetente". (...). (grifos constantes no original). 40. Outro equívoco da fiscalização ao equiparar o conceito de praça ao conceito de mercado é metodológico. Antes, entretanto, de justificar tal assertiva, é importante não perder de vista que o caso analisado é fruto de um auto de infração, fato este de extrema relevância para a resolução da presente demanda, à medida que é justamente a iniciativa do processo administrativo que determina o ônus probatório, nos termos do que prevê o art. 373 Código de Processo Civil11. Assim já decidiu este colegiado, conforme se observa do seguinte trecho do acórdão n. 3402002.881, da lavra do Conselheiro Antonio Carlos Atulim: (...) É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou 11 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Fl. 2571DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.547 51 de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de provar o direito de crédito oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade. (...). 41. Pois bem. Ao afirmar que o conceito de praça é sinônimo de mercado e que este, por seu turno, se identifica com conceito legal de região metropolitana, deveria a fiscalização ter feito prova neste sentido. Em outros termos, deveria a fiscalização ter provado que a região metropolitana é, economicamente falando, um "mercado de cosméticos" no âmbito de atuação da recorrente. Nesse sentido, perguntase: quais são os fatos econômicos trazidos pela fiscalização que atestam tal assertiva? Quais os índices econômicos que permitem afirmar que de fato os produtos produzidos pelo recorrente não apresentam um mercado mais amplo (estadual, regional ou até mesmo nacional)? 42. Não há uma única linha sequer no TVF que justifique o discricionário recorte geográfico feito pela fiscalização. Em verdade, o único e suposto fundamento trazido pelo fisco nesse sentido é a aproximação física das empresas em questão, separadas por uma distância inferior a 10 km, o que, sob a equivocada ótica fiscal, seria suficiente para definir o mercado de cosméticos na região metropolitana do Rio de Janeiro. 43. Com o devido respeito ao trabalho fiscal, mas tal recorte geográfico não encontra qualquer subsídio jurídico e nem mesmo econômico. Aliás, quando se analisa a justificativa posta no TVF tal conclusão fica ainda mais patente. Vejamos o que diz a fiscalização: (...). 6.8. Adequandose a essa realidade, alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA, apurados com base nos preços correntes de determinada área, hoje são calculados com base no mercado consumidor de determinada região metropolitana: · INPC Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e oito salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente, e é Fl. 2572DF CARF MF 52 divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. É o índice mais utilizado. · IPCA Índice de Preços ao Consumidor Ampliado. É calculado pelo IBGE nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Mede a variação nos preços de produtos e serviços consumidos pelas famílias com rendas entre um e quarenta salários mínimos. O período de coleta de preços vai do primeiro ao último dia do mês corrente, e é divulgado aproximadamente após o período de oito dias úteis. (...). 44. De forma genérica a fiscalização afirma que alguns índices econômicos, como o INPC e o IPCA são medidos dentro dos limites geográficos de uma região metropolitana, o que, por conseguinte, também deveria ser levado em consideração no caso em comento. O que a fiscalização ignora, todavia, é que os índices citados acima (INPC e IPCA) são determinantes para a apuração de preços para o consumidor, ou seja, leva em consideração o mercado de varejo e não o mercado atacadista, sendo este último o foco da presente fiscalização. Logo, a delimitação geográfica do mercado varejista em regiões metropolitanas não se aplica, necessariamente, para outros mercados mais concentrados, como ocorre no caso dos mercados industrial e atacadista. 45. Ademais, o esforço da fiscalização em demonstrar a proximidade física entre os estabelecimentos da recorrente e o atacadista não comove esTe julgador. Tratase de retórica12 vazia de qualquer conteúdo jurídico ou mesmo econômico. Ora, se proximidades geográficas fossem delimitadoras de critérios jurídicos poderíamos, por exemplo, alterar a competência territorial de uma demanda ajuizada na capital paulista, de acordo com a conveniência do réu, situado em uma extremidade da urbe e mais próximo do Fórum de Santo André, para que a demanda fosse automaticamente transferida para a cidade do ABC. O mesmo poderia ser levado em conta para a delimitação do dever de pagar ISS e assim por diante. Ademais, se o recorrente estivesse em outro ponto da cidade do Rio de Janeiro, com uma distância superior a 50 quilômetros da atacadista Lóreal, isso seria suficiente para afastar a interpretação da fiscalização? Qual seria o limite quilométrico suficiente para tanto? Tal delimitação pode ficar a mercê do subjetivismo fiscal? 46. O que se quer afirmar com esses exemplos e indagações é que nem o aplicador do direito nem o destinatário da norma podem inventar critérios, arbitrariamente, para fins de alterar a incidência de normas jurídicas, em especial quando se está diante de questões tributárias, afinal, tal nicho do direito deve profundo respeito ao princípio da legalidade, como já destacado no presente voto. 47. Por fim, nem se alegue, como pretende a fiscalização, que a Súmula 06, X do Tribunal Superior do Trabalho, ao interpretar o art. 461 da CLT, teria o condão de vaticinar o entendimento fiscal. Vejamos o que diz o citado dispositivo legal e o correlato enunciado sumular: Art. 461 Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, 12 Expressão que não é aqui empregada nos entido aristotélico do termos, mas sim sofistico. Fl. 2573DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.548 53 corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade. (g.n.) Súmula nº 06 TST X O conceito de "mesma localidade" de que trata o art. 461 da CLT referese, em princípio, ao mesmo município, ou a municípios distintos que, comprovadamente, pertençam à mesma região metropolitana. (g.n.) 48. Primeiramente, convém desde já destacar que a citada súmula afirma, textualmente, que a expressão "localidade" deve, como regra, ser interpretada como sinônimo de município, o que, como já desenvolvido no presente voto, não é nenhuma novidade. Segue a referida súmula adiante para afirmar que, excepcionalmente, referido signo também pode ser visto como sinônimo de região metropolitana. 49. Percebese, pois, que para chegar a tal conclusão o TST cria uma exceção não prevista em lei mediante uma interpretação extensiva, o que, levando em consideração o tipo de direito material tutelado e quem se pretende prestigiar com tal regra, é perfeitamente compreensível. Ora, o referido enunciado sumular versa sobre relações jurídicas de emprego, as quais apresentam em um dos seus polos o empregado, parte hipossuficiente na referida relação. Logo, é louvável que o TST, em situações excepcionais e de forma justificada, estenda a interpretação do art. 461 da CLT em favor do trabalhador. 50. Já no caso em comento a lógica é completamente inversa, já que a parte hipossuficiente da relação é o sujeito passivo da relação jurídicotributária. Não é por acaso, portanto, que a Constituição Federal prevê uma Seção inteira (Seção II) com o título "Das Limitações do Poder de Tributar". Assim, permitir uma interpretação extensiva do conceito de praça, criada ficcionalmente pelo realizador do direito e, o que é pior, mediante a convocação analógica de um enunciado sumular de um Tribunal afeto às relações trabalhistas é, no mínimo, absurdo. 51. Patente está, portanto, os equívocos das premissas fiscal, o que levou a indevida exigência exacional. V. Das circunstâncias fáticas do presente caso 52. Por fim, resta ainda detalhar um pouco mais as premissas fáticas que antecederam a presente discussão, de modo a afastar qualquer dúvida acerca da legitimidade da estrutura operacional realizada pelo recorrente. 53. Para tanto, insta registrar que, embora não afirme textualmente, a fiscalização induz a interpretação de que a estrutura empresarial tomada pela recorrente teria sido assim arquitetada com um único propósito: reduzir a base de cálculo do IPI na operação realizada pela recorrente, o que se daria mediante a redução dos preços dos produtos negociados nesta fase da cadeia econômica, conforme se observa do seguinte trecho do TVF: (...). 4.17. Como demonstrado, a prática do GRUPO L’ORÉAL nada mais é do que um planejamento tributário ilícito, cujo único objetivo é reduzir consideravelmente a tributação de seus produtos pelo IPI, mediante subfaturamento dos mesmos quando Fl. 2574DF CARF MF 54 da saída do estabelecimento da PROCOSA (estabelecimento industrial remetente – FISCALIZADO), o que acaba por transferir para a L’ORÉAL (estabelecimento atacadista interdependente, que não é industrial e nem equiparado a industrial, e portanto não é sujeito passivo do IPI) a quase totalidade da margem de lucro que deveria compor o preço do produto industrializado. 4.18. Considerando a análise de todas as informações apresentadas pelos estabelecimentos industrial remetente (FISCALIZADO) e destinatário (estabelecimento ATACADISTA interdependente), e ainda, a legislação aplicável, resta evidente que a estrutura criada pelo grupo empresarial visou resguardar o resultado econômico e, ao mesmo tempo, obter um menor pagamento de IPI, situação esta prevista e rechaçada pelo legislador ao impor, para tais casos, a necessidade de determinação do Valor Tributável Mínimo conforme a regra positivada pelo art. 195, I e 196, caput, todos do RIPI 2010, cujo resultado para os produtos vendidos pelo FISCALIZADO pode ser verificado nos seguintes demonstrativos anexos ao presente termo: (...) (grifos constantes no original). 54. Como dito acima, a fiscalização textualmente afirma que a forma da estrutura tomada pela recorrente teria por escopo a redução de tributos, mediante o emprego de um "planejamento tributário". O que a fiscalização ignora, todavia, é que este tipo de segregação de atividades (industrial e atacadista) é explicitamente admitida no caso de operações sujeitas com o IPI, afinal de contas, os artigos 195 e 196 do RIPI/2010 só existem no ordenamento jurídico por partirem da premissa de que este tipo de estruturação empresarial é válida sob o ponto de vista legal. 55. Outrossim, chega a ser pueril a ideia da fiscalização no sentido de que o "planejamento tributário" por ela questionado restaria configurado pela diferença das margens de lucro apuradas pela recorrente e pela atacadista, partindo do pressuposto, equivocado, de que a margem de lucros de um produtor/industrial deve ser a mesma ou muito próxima daquela auferida por um distribuidor. 56. A fiscalização ignora, pois, que a as atividades em questão (industrial e atacadista) são distintas, com características que lhes são próprias, o que torna absolutamente inviável essa pretensa "planificação" de margens de lucro. A recorrente vende os produtos por ela industrializados no atacado, enquanto que a L'oréal vende tais bens no varejo, o que redunda em uma logística simplificada e uma inadimplência minorada para a recorrente, em contraposição a uma logística mais sofisticada/pulverizada e um risco maior de inadimplência para a L'oréal, o que, por óbvio, se traduz em uma menor margem de lucro para a recorrente e uma maior margem para a L'oréal. Caso, todavia, fosse válida a assertiva fiscal, o que se cogita aqui apenas de forma hipotética, perguntase: qual seria a margem de lucro aceitável para validar a presente operação? Este parâmetro deveria ser fixado em lei ou poderia ficar ao arbítrio da fiscalização? Aliás, levando em consideração o caso em concreto, quais as diferenças percentuais de margem de lucro entre a recorrente e a empresa atacadista? Tais indagações também permanecem sem respostas no presente caso, o que se só reforçam a fragilidade da acusação fiscal. 57. Não obstante, em momento algum a fiscalização acusa a operação praticada pela recorrente de deficitária. Ao contrário, parte do pressuposto que é lucrativa, mas Fl. 2575DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.549 55 com uma margem minorada quando comparada com a operação perpetrada pela empresa atacadista. Afastase, com isso, uma característica muito comum em casos de pretenso subfaturamento ou planejamentos abusivos: de que o preço praticado pelo contribuinte na operação de venda do seu produto é incapaz de arcar com o custo da sua operação. Não é o que ocorre no caso em tela, já que a aqui a própria fiscalização repitase reconhece a existência de lucro. 58. Ademais, outro elemento de prova muito empregado para atestar a existência de planejamentos abusivos é a identificação do momento da criação das empresas empregadas neste tipo de estratagema. Neste sentido, este Tribunal tem entendido que a criação de empresas logo após o advento da lei que altera a tributação é um forte indício de um planejamento sem propósito negocial, ou seja, com o fito exclusivo de redução de tributos. Não é esse, entretanto, o caso dos autos, podendo a estrutura operacional da recorrente ser assim sumarizada: · 1959: início das atividades do Grupo L’Oréal no Brasil (em 1960 foi inaugurada a primeira fábrica brasileira); · 1969: inauguração da fábrica da Procosa na Via Dutra (estabelecimento ora autuado no Rio de Janeiro); · 1979: segregação das atividades industrial e comercial com a criação de nova empresa (Belocap Produtos Capilares Ltda. – atual L’Oréal Brasil Comercial de Cosméticos), ambas na cidade do Rio de Janeiro, seguindo o modelo internacional de organização da Companhia; · 2001: aquisição de novo estabelecimento industrial pela Procosa na cidade de São Paulo; · 200104: operação da L’Oreal Brasil com 2 CDs (um em Caxias e outro no Rio de Janeiro) recebendo as compras das Procosas no Rio de Janeiro e em São Paulo; · 2004: mudança definitiva de endereço da L’Oréal Brasil para o município de Duque de Caxias, como parte de uma estratégia de redesenho logístico para ganhos de eficiência e de capacidade adequada ao volume de vendas. 59. Aliás, a necessidade da transferência da empresa atacadista para o município de Duque de Caxias foi bem explicada pela recorrente em suas manifestações, conforme se observa do seguinte trecho dos memoriais entregues aos membros deste colegiado e que também consta de suas peças impugnatórias: (...). 5.2. Com efeito, até o ano de 2000, (i) a RECORRENTE possuía um único estabelecimento fabril, na Cidade do Rio de Janeiro, no qual estava concentrada toda a fabricação dos produtos da marca L’ORÉAL no Brasil, e (ii) a L’ORÉAL um único estabelecimento, também nesta cidade, na Auto Estrada Rio D´Ouro nº 800, Pavuna, com galpão de 14.055 m2 para armazenagem (vide doc. 4 à Impugnação), no qual concentrava Fl. 2576DF CARF MF 56 a distribuição no atacado, para todo o território nacional, desses produtos e de outros, adquiridos no mercado interno. (...). 5.6. Nesse momento, surgiu como único disponível com tais dimensões, em condições de preço razoáveis, o prédio situado no Loteamento Internacional Business Park, lotes 4 e 3, parte, também na Cidade de Duque de Caxias, com área total construída de 48.109,70 m2, alugado ao Carrefour Comércio e Indústria Ltda., que lhe sublocou 25.000 m2, conforme contrato juntado aos autos (doc. 08 à Impugnação). (...). 5.8. Diversamente, essa decisão empresarial, da maior relevância para o futuro daquela empresa, foi motivada por necessidade econômica imperiosa e interesse legítimo em gerir seu negócio da forma mais eficaz possível, sendo um despautério negar essa conclusão, mormente quando a fiscalização não trouxe aos autos comprovação alguma da disponibilidade, na Cidade do Rio de Janeiro, de imóvel com características equivalentes, para ser alugado em condições financeiras mais vantajosas, que justificasse as alegações que fez no TVF. (...). 60. Percebese, portanto, que a motivação da empresa atacadista em mudarse definitivamente para a cidade de Duque de Caxias foi econômica e logística, tanto que o novo galpão que passou a ser utilizado nesta cidade possuía 5.000 m2 a mais do que a somatória da metragem dos seus estabelecimentos anteriores [no bairro de Pavuna, na cidade do Rio de Janeiro (14.055 m2) e na cidade de Duque de Caxias (5.200 m2)]. 61. Todo estes fundamentos afastam a acusação de que a recorrente teria arquitetado um planejamento tributário abusivo com o fito de furtarse de obrigações tributárias, o que implica a exoneração da presente exigência fiscal. Aliás, assim tem entendido este CARF em casos semelhantes ao aqui tratado (segregação de atividades empresarias em casos de monofasia de PIS e COFINS): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2000, 2001, 2002, 2003 PIS. REGIME MONOFÁSICO. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. SIMULAÇÃO ABSOLUTA. DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS. ART. 116, P.U. DO CTN. UNIDADE ECONÔMICA. ART. 126, III, DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Não se configura simulação absoluta se a pessoa jurídica criada para exercer a atividade de revendedor atacadista efetivamente existe e exerce tal atividade, praticando atos válidos e eficazes que evidenciam a intenção negocial de atuar na fase de revenda dos produtos. A alteração na estrutura de um grupo econômico, separando em duas pessoas jurídicas diferentes as diferentes atividades de Fl. 2577DF CARF MF Processo nº 16682.722760/201655 Acórdão n.º 3402005.599 S3C4T2 Fl. 2.550 57 industrialização e de distribuição, não configura conduta abusiva nem a dissimulação prevista no art. 116, p.u. do CTN, nem autoriza o tratamento conjunto das duas empresas como se fosse uma só, a pretexto de configuração de unidade econômica, não se aplicando ao caso o art. 126, III, do CTN. Recurso voluntário provido. Recurso de ofício prejudicado. (Acórdão n. 3403002.519 grifos nosso). Ementa Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 31/10/2001 a 31/12/2003 COFINS ALÍQUOTA PRODUTOS DE HIGIENE E BELEZA ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAL E COMERCIAL ARTS. 1º E 2º DA LEI Nº 10.147/00 Para o cálculo da Cofins incidente sobre a receita de venda dos produtos de higiene e beleza aplicase a alíquota de 10,3% no caso de receita auferida por pessoa jurídica que proceda à industrialização ou importação dos citados produtos sendo que a alíquota é reduzida a zero, no caso de receita de revenda dos referidos produtos, auferida por pessoa jurídica não enquadrada na condição de industrial ou importador. COFINS DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS E NEGÓCIOS JURÍDICOS CISÃO PARCIAL DESMEMBRAMENTO DE ATIVIDADE SIMULAÇÃO INOCORRÊNCIA ART. 116, § ÚNICO DO CTN. Embora não se ignore que a autoridade administrativa pode desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, a Lei Complementar somente autoriza a desconsideração, desde que observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária (art. 116, § único do CTN). Assim o contrato só se transmuda em forma dissimulada quando ocorrer violação da própria lei e da regulamentação que o rege, donde decorre que a descaracterização do contrato só pode ocorrer quando fique devidamente evidenciada uma das situações previstas em lei, sendo que fora desse alcance legislativo, impossível ao Fisco tratar um determinado contrato privado como outro de natureza diversa, para fins tributários. Não há simulação na cisão parcial através da qual se efetua o desmembramento de atividades em várias empresas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária, não sendo lícita a pretensão fiscal de desconsiderar as distintas atividades e respectivas receitas segregadas em diferentes empresas do mesmo grupo, para tributálas unificadamente. (Acórdão n. 3402001.908). Fl. 2578DF CARF MF 58 62. Ressaltese, inclusive, que o contexto fático dos precedentes aqui invocados eram muito mais graves em desfavor do contribuinte, uma vez que as empresas em questão (industrial e atacadista) encontravamse no mesmo local físico e partilhavam os mesmos funcionários, o que não ocorre no presente caso. 63. Assim, diante de tudo o que fora exposto e do vasto e elucidativo acervo probatório produzido pelo recorrente, não há que se cogitar a existência de um planejamento tributário abusivo, mas sim operações empresariais válidas e com o nítido propósito econômico, em perfeita sintonia, portanto, com o princípio constitucional da livre iniciativa privada. Dispositivo 64. Diante do exposto, voto pelo provimento total do recurso voluntário interposto pelo contribuinte, o que faço com a devida vênia ao ilustre Relator do caso. 65. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro. Fl. 2579DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.007935/2004-22
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 1999
DECISÃO DE JUSTIÇA DO TRABALHO. NÃO RETENÇÃO DO IRRF. COISA JULGADA PERANTE A ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA. INOCORRÊNCIA.
A sentença somente faz coisa julgada entre as partes (art. 472 do CPC/1.973 e art. 506 do CPC/2015). A homologação, pela Justiça do Trabalho, de acordo entre empregador e empregado com cláusula de não incidência de imposto sobre verbas pagas, não impede a constituição do crédito tributário do imposto incidente sobre essas verbas.
Numero da decisão: 9202-007.232
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
Assinado digitalmente
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente.
Assinado digitalmente
Pedro Paulo Pereira Barbosa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA
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NÃO RETENÇÃO DO IRRF. COISA JULGADA PERANTE A ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA. INOCORRÊNCIA. A sentença somente faz coisa julgada entre as partes (art. 472 do CPC/1.973 e art. 506 do CPC/2015). A homologação, pela Justiça do Trabalho, de acordo entre empregador e empregado com cláusula de não incidência de imposto sobre verbas pagas, não impede a constituição do crédito tributário do imposto incidente sobre essas verbas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. Assinado digitalmente Maria Helena Cotta Cardozo Presidente. Assinado digitalmente Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 00 79 35 /2 00 4- 22 Fl. 281DF CARF MF 2 Relatório Cuidase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2102001.131, proferido na sessão de 16 de março de 2011, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 1999 RECOLHIMENTO DO IMPOSTO DE RENDA. ACORDO HOMOLOGADO PELA JUSTIÇA DO TRABALHO. IMPOSSIBILIDADE DE REANÁLISE EM SEDE DE PROCESSO ADMINISTRATIVO. Nos termos do art. 28, § 1 0, da Lei n° 10.833/2003, compete ao Juízo do Trabalho calcular o imposto de renda na fonte incidente sobre os rendimentos pagos em cumprimento de decisões da Justiça do Trabalho. Sendo assim, é válido entendimento firmado pelo o Juízo do trabalho quando este consigna expressamente que não incide o imposto de renda sobre os valores pagos em decorrência de acordo firmado pelas partes. Tendo o Poder Judiciário já analisado a matéria e decidido pela não recolhimento do imposto de renda, não é possível reanalisar a incidência ou não do tributo em processo administrativo. A decisão está assim registrada: ACORDAM os membros da lª Câmara/2a Turma Ordinária da Segunda Seção de Julgamento, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Nubia Matos Moura e Rubens Mauricio Carvalho. 0 Conselheiro Giovanni Christian Nunes Campos acompanhou o relator pelas conclusões. O recurso visa rediscutir a seguinte matéria: Possibilidade de reanálise da incidência do Imposto sobre verbas recebidas em decorrência de ação trabalhista, quando o Juiz do Trabalho decide pelo não desconto do imposto pela fonte pagadora. Em exame preliminar de admissibilidade, o Presidente da Primeira Câmara, da Segunda Seção do CARF deu seguimento ao apelo da Fazenda Nacional, nos termos do Despacho de efls. nº 270 a 271. Em suas razões recursais a Fazenda nacional aduz, em síntese, que a decisão homologatória da Justiça do Trabalho, que considerou intributáveis os rendimentos não produz efeitos perante a União (fazenda Nacional), tendo em vista que esta não foi chamada a integrar a lide; que o artigo 472 do Código de Processo Civil determina que a sentença somente faz coisa julgada entre as partes que integram a lide, não beneficiando, nem prejudicando terceiros; que somente com a edição da Lei nº 11.457/2007, que alterou a redação do art. 832, § 4º da CLT, tornouse obrigatória a intimação da União acerca de decisões homologatória de acordos que contenham parcela indenizatória, facultandolhe a interposição de recurso relativo aos tributos que lhe forem devidos; que antes dessa alteração, as decisões homologatórias não poderia produzir efeitos perante a União; que isenção depende de lei, inexistindo previsão legal Fl. 282DF CARF MF Processo nº 11080.007935/200422 Acórdão n.º 9202007.232 CSRFT2 Fl. 3 3 de que verbas salariais pagas em decorrência de acordo trabalhista homologado judicialmente não estejam sujeitas à incidência do imposto. O Contribuinte foi intimado do Acórdão Recorrido, do Recurso da Fazenda Nacional e do Despacho que lhe deu seguimento em 26/03/2013 (AR, fls. 276) e não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. Dele conheço. Quanto ao mérito, a questão em litígio está muito bem delimitada: tendo o Juiz do Trabalho homologado acordo trabalhista em que se consigna a não incidência do imposto de renda na fonte, pode o Fisco pleitear a tributação desses rendimentos, exigindolhe do contribuinte quando do ajuste anual? Penso que sim. Primeiramente, o Magistrado não está decidindo litígio envolvendo matéria tributária, mas trabalhista. Portanto, a Fazenda Nacional não figura como parte. Precisa, todavia, definir os descontos a serem processados nos pagamentos consignados ao reclamante, daí ter que decidir sobre a retenção ou não do imposto. É o que faz qualquer fonte pagadora quando paga rendimentos sem que com isso tal decisão se torne definitiva e oponível ao Fisco. Sendo assim, a sentença faz coisa julgada apenas entre as partes, dentre as quais, repitase, não figura a União. É o que reza, aliás, como ressaltado no recurso, o art. 472 do Código de Processo Civil vigente à época. Confirase: Art. 472. A sentença .faz coisa julgada as partes entre as quais ("! dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros. Registrese, inclusive, que o atual CPC reitera esse comando no artigo 506. Notese também, como ressaltado pela Recorrente, que a Fazenda Nacional sequer foi ouvida, providência que passou a ser exigível a partir 2008, com a edição da Lei nº 11.457/2007, que alterou o art. 832, § 4º da CLT. Nessas condições, como pretender que a decisão singular de um juízo, sem competência específica para decidir em matéria tributária e da qual, por não ser a União parte no processo e, portanto, sem legitimidade para questionar o que decidido, possa ser definitiva? Fl. 283DF CARF MF 4 O lançamento tributário, neste caso, não representa afronta a uma decisão judicial, pois esta não é oponível a Fazenda Nacional. Ante o exposto, conheço do recurso e, no mérito, doulhe provimento, determinado o retorno dos autos à turma a quo para a apreciação do mérito quanto à incidência do tributo. Assinado digitalmente Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator Fl. 284DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12326.000521/2010-53
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
RECURSO ESPECIAL. CONTEXTOS FÁTICOS DIFERENTES. COMPROVAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE.
O Recurso Especial da Divergência somente deve ser conhecido se restar comprovado que, em face de situações equivalentes, a legislação de regência tenha sido aplicada de forma divergente, por diferentes colegiados.
Hipótese em que o acórdão recorrido se fundamenta em situação jurídica não existente quando do julgamento do acórdão paradigma.
Numero da decisão: 9202-007.077
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Pedro Paulo Pereira Barbosa e Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2008 RECURSO ESPECIAL. CONTEXTOS FÁTICOS DIFERENTES. COMPROVAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE. O Recurso Especial da Divergência somente deve ser conhecido se restar comprovado que, em face de situações equivalentes, a legislação de regência tenha sido aplicada de forma divergente, por diferentes colegiados. Hipótese em que o acórdão recorrido se fundamenta em situação jurídica não existente quando do julgamento do acórdão paradigma.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Pedro Paulo Pereira Barbosa e Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
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CONTEXTOS FÁTICOS DIFERENTES. COMPROVAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE. O Recurso Especial da Divergência somente deve ser conhecido se restar comprovado que, em face de situações equivalentes, a legislação de regência tenha sido aplicada de forma divergente, por diferentes colegiados. Hipótese em que o acórdão recorrido se fundamenta em situação jurídica não existente quando do julgamento do acórdão paradigma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Pedro Paulo Pereira Barbosa e Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 32 6. 00 05 21 /2 01 0- 53 Fl. 144DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra acórdão que deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte para determinar o cancelamento do lançamento por meio do qual exigese IRPF sobre rendimentos recebidos de pessoa jurídica acumuladamente, decorrentes de ação trabalhista. O acórdão recorrido recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Ano calendário: 2007 LANÇAMENTO. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO. INEXISTÊNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. A ação fiscal foi conduzida por servidor competente, que concedeu ao recorrente os prazos legais para a apresentação de documentos e prestação de esclarecimentos; a Notificação de Lançamento Imposto de Renda Pessoa Física foi devidamente motivada e foi concedido ao sujeito passivo o prazo legal para a formulação de impugnação; a Notificação ainda contém clara descrição do fato gerador da obrigação, da matéria tributável, do montante do tributo devido, da identificação do sujeito passivo e da penalidade aplicável; não houve nenhum prejuízo para os direitos de defesa e do contraditório do recorrente, que puderam ser exercidos na forma e no prazo legal. GLOSA DE IRRF. RECURSO VOLUNTÁRIO. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA NA FASE RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO. São definitivas as decisões de primeira instância na parte que não for objeto de recurso voluntário, o que importa não conhecimento da matéria não impugnada. IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA, REFORMA OU PENSÃO. 1. Para fazer jus à isenção do IRPF, o contribuinte deve demonstrar, cumulativamente, que os proventos são oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão e que é portador de uma das moléstias graves arroladas no art. 39, inc. XXXIII, do RIR/2005, de conformidade com laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. 2. Embora o recorrente tenha comprovado ser portador de moléstia grave definida na legislação vigente, o que foi reconhecido pela própria decisão recorrida, ele não se dignou Fl. 145DF CARF MF Processo nº 12326.000521/201053 Acórdão n.º 9202007.077 CSRFT2 Fl. 145 3 de trazer aos autos qualquer documento que comprovasse a natureza dos rendimentos, o que inviabiliza a aplicação da regra isentiva. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. RENDIMENTOS PERCEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos. Precedentes do STF e do STJ na sistemática dos artigos 543B e 543C do CPC. INCOMPETÊNCIA DO CARF PARA REFAZER O LANÇAMENTO. RENDIMENTOS PERCEBIDOS ACUMULADAMENTE. COMPETÊNCIA PRIVATIVA DA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. CANCELAMENTO DA EXIGÊNCIA. O lançamento adotou critério jurídico equivocado e dissonante da jurisprudência do STF e do STJ, impactando a identificação da base de cálculo, das alíquotas vigentes e, consequentemente, o cálculo do tributo devido. Não compete ao CARF refazer o lançamento com outros critérios jurídicos, mas apenas cancelar a exigência. Recurso Voluntário Provido. Inconformada com a decisão, a Fazenda Nacional apresentou o presente recurso. A recorrente requer a aplicação ao caso do entendimento externado no acórdão paradigma nº 2201.002.588 o qual encaminhou pela manutenção do auto de infração, apenas determinando a retificação do montante do crédito tributário com a aplicação das tabelas progressiva vigentes à época da aquisição dos rendimentos regime de competência. No curso do processo, o Presidente da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara desta Seção rejeitou, por inexistência de omissão, os embargos de declaração opostos pela respectiva Delegacia Fiscal. Intimado o contribuinte apresentou contrarrazões com conteúdo semelhante aqueles constantes das peças de impugnação e recurso voluntário. É o relatório. Voto Fl. 146DF CARF MF 4 Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Do Conhecimento: Antes de analisarmos o mérito, pertinente tecer algumas considerações acerca do conhecimento do recurso. Conforme exposto no relatório, por meio do Recurso Especial a Fazenda Nacional devolve a este Colegiado a discussão acerca do critério utilizado para o cálculo do IRPF incidente sobre rendimento recebidos acumuladamente, mais especificamente sobre a possibilidade de retificação de lançamento que na origem utilizouse do critério de caixa para o cálculo do imposto. Discutese sobre a possibilidade ou não do órgão julgador refazer o lançamento na tentativa de corrigir o equívoco perpetrado pela autoridade lançadora. Lembramos que o recurso é baseado no art. 67 do Regimento Interno (RICARF), o qual define que caberá Recurso Especial de decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais. Tratase de recurso com cognição restrita não podendo a CSRF ser entendida como uma terceira instância, ela é instância especial, responsável pela pacificação de conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica. Assim, para caracterização de divergência interpretativa exigese como requisito formal que os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas sejam suficientemente semelhantes para permitir o 'teste de aderência', ou seja, deve ser possível avaliar que o entendimento fixado pelo Colegiado paradigmático seja perfeitamente aplicável ao caso sob análise, assegurando assim o provimento do recurso interposto. No presente caso entendo que este requisito não foi cumprido. Embora a tese enfrentada nos acórdãos envolva o critério de apuração do IRPF sobre rendimentos recebidos acumuladamente, discutindose pela aplicação do regime de caixa ou de competência e divergindo sobre a possibilidade de se manter o lançamento com o mero recálculo dos valores, entendo que a fundamentação das decisões são diversas. Me refiro ao fato de o acórdão recorrido ter aplicado para solução da lide o art. 62A do RICARF em razão da decisão do Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário nº 614.406, julgado sob a sistemática da Repercussão Geral, cujo acórdão transitou em julgado em 09.12.2014. O acórdão indicado como paradigma acórdão 2201.002.588 de 05.11.2014 foi proferido em contexto diverso. Na ocasião ainda não tínhamos a decisão vinculante do STF sobre o tema, razão pela qual aquele Colegiado não fez qualquer consideração sobre sua aplicação ao caso. O Colegiado paradigmático, embora tenha entendido pela possibilidade de refazimento do lançamento do IRPF sob o regime de competência o fez exclusivamente com base no entendimento externado pelo Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.118.429. Assim, considerando que o Colegiado paradigmático não analisou a matéria sob o mesmo prisma da turma a quo pela completa impossibilidade de se debruçar sobre Fl. 147DF CARF MF Processo nº 12326.000521/201053 Acórdão n.º 9202007.077 CSRFT2 Fl. 146 5 decisão ainda não existente no mundo jurídico, entendo que estamos diante de situações fáticas distintas o que impede o conhecimento do presente recurso especial. Vale destacar que quando da interposição do Recurso Especial, em 05.09.2016, já era possível encontrar no sítio do CARF acórdãos proferidos após a decisão do Supremo Tribunal Federal os quais melhor fundamentariam o conhecimento da pretensão da Fazenda Nacional. Diante de todo o exposto, deixo de conhecer do recurso interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 148DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.950621/2008-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 15/10/1999
DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA.
O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado.
DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE
Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-004.117
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 15/10/1999 DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 15/10/1999 DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 95 06 21 /2 00 8- 97 Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório FARGON ENGENHARIA E INDÚSTRIA LTDA. apresentou Declaração de Compensação (DCOMP) relativa a pagamento a maior da contribuição (Cofins/PIS), declaração essa que restou não homologada pela repartição de origem. Cientificado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade e requereu a anulação do despacho decisório, ou sua reforma, bem como a realização de diligência para se comprovar o direito creditório, alegando que recolhera aos cofres públicos valores superiores aos efetivamente devidos, pois desconsiderara os termos do art. 3º, inciso III, § 2º da Lei nº 9.718/1998. Arguiu, também, que o Fisco concluíra pela inexistência do crédito sem ao menos solicitar qualquer documento capaz de comprovar ou não a existência e suficiência do valor compensado. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento, por meio do acórdão nº 16 032.430, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, em razão da não comprovação da liquidez e certeza do crédito pleiteado, afastandose o pedido de realização de diligência por falta de apresentação de qualquer documento indicativo do direito alegado. Cientificado da decisão da DRJ, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário de forma hábil e tempestiva, repisando os mesmos argumentos de defesa, destacandose os seguintes argumentos: (i) a Delegacia de Julgamento invocou a ausência da prova de liquidez e certeza dos créditos para rejeitar a manifestação de inconformidade, sendo que, se tivesse ocorrido a intimação para se demonstrar o crédito, o Fisco teria tido acesso às planilhas de apuração e poderia ter verificado a regularidade do encontro de contas efetuado; (ii) enquanto não for realizada a efetiva mensuração dos créditos utilizados é precipitada qualquer consideração a respeito da existência ou não de créditos passíveis de compensação; (iii) se a autoridade responsável pelo exame da declaração de compensação tivesse cumprido o dever de fiscalizar a existência do crédito declarado e não simplesmente glosado mecanicamente o encontro de contas teria verificado que o Requerente é legitimo credor da União Federal; e (iv) não se permitiu a produção de provas necessárias e, com base nessa decisão, julgouse pela improcedência por falta de provas. É o relatório. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201004.096, de 25/07/2018, proferido no julgamento do processo 10880.910725/200869, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201004.096): No caso em apreço há a imperiosa necessidade de se comprovar a existência do direito creditório de modo inconteste, o que, pela análise dos elementos probatórios não ocorreu. Da decisão recorrida temse: "No caso em apreço, o Contribuinte declarou em débito de COFINS e apontou um documento de arrecadação como origem do crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que não foi localizado o pagamento indicado no PER/DCOMP como origem do crédito. De fato, tal constatação decorre da não localização do DARF indicado pelo Contribuinte no PER/DCOMP nos sistemas da Secretaria da Receita Federal. Observase que antes do Despacho Decisório, de 12/08/2008, o Contribuinte foi informado da não localização do DARF e intimado, em 15/12/2006 conforme A.R., às fls. 07, a verificar e conferir os dados da ficha DARF informados no PER/DCOMP com os dados do DARF original, bem como a sanar as irregularidades apontadas, tendolhe sido informado na mesma oportunidade que a consequência da falta de saneamento no prazo poderia acarretar o indeferimento/não homologação do PER/DCOMP em análise. Portanto, ao contrário do alega a Manifestante, foi lhe dado a oportunidade para comprovar ou não a existência e suficiência do crédito compensado. No entanto, antes da ciência do despacho decisório, o interessado conservouse silente e inerte no tocante à integralidade das informações declaradas perante a RFB, as quais acabaram servindo de parâmetro para a continuidade da análise da matéria e respaldando a referida decisão administrativa. Pelo exposto, resta devidamente demonstrado que não procede o argumento da requerente de que recolheu aos cofres públicos tributos superiores aos efetivamente devidos por não ter considerado os termos do § 2º, do inciso III, do artigo 3º, da lei 9.718/98, quando apurou a base de Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 5 4 cálculo das contribuições do PIS/COFINS, para o período de apuração constante neste PER/DCOMP, pois o contribuinte não conseguiu comprovar a existência do alegado indébito neste período, ou seja, o DARF supra mencionado que poderia demonstrar que de fato teria ocorrido "o pagamento indevido ou a maior" gerandolhe crédito, não foi localizado, e a empresa quando intimada a sanar tal irregularidade não se manifestou, e consequentemente, a compensação declarada não foi homologada. Cabe observar ainda que, mesmo se o referido DARF tivesse sido localizado, o art. 170 do CTN fixa como pressuposto para que possa ser feito o encontro de contas com a Fazenda Nacional: que os créditos estejam revestidos de liquidez e certeza comprovada pela demonstração do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal do contribuinte, a comprovar a efetiva natureza da operação, a ocorrência do fato gerador do tributo, a base de cálculo e a alíquota aplicável, para o fim de se conferir a existência e o valor do indébito tributário. No entanto, a interessada não trouxe aos autos documentos que pudessem vir a comprovar a apuração incorreta nas bases de cálculo do COFINS, para o período em que alega o direito creditório, motivo pelo qual não se operaria, mesmo nesta hipótese, a liquidez e certeza desses pretensos créditos." Temse, então, que a decisão recorrida julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório em face de a recorrente, não ter comprovado a existência e liquidez do crédito apontado, mesmo tendo sido oportunizada a produção de prova. Não logrou êxito a recorrente em desconstituir o fundamento decisório através de prova apta para tanto. Mesmo em sede recursal não trouxe a recorrente qualquer elemento de prova válido a confirmar suas alegações. Devese levar em consideração que a necessidade de liquidez e certeza dos créditos é condição imperiosa, para que se proceda a compensação de valores. Não é devida a autorização de compensação quando os créditos estão pendentes de certeza e liquidez. Nos processos administrativos que tratam de restituição/compensação ou ressarcimento de créditos tributários, é atribuição do sujeito passivo a demonstração da efetiva existência do indébito. Nesses casos, quando a DRF nega o pedido de compensação/restituição/ressarcimento que aponta para a inexistência ou insuficiência de crédito, cabe ao manifestante, caso queira contestar a decisão a ele desfavorável, cumprir o ônus que a legislação lhe atribui, trazendo ao contraditório os elementos de prova que demonstrem a existência do crédito. Documentos comprobatórios são os que possibilitam aferir, de forma inequívoca, a origem e a quantificação do crédito, visto que, sem tal comprovação, o pedido de repetição fica prejudicado. Humberto Teodoro Júnior sobre a prova ensine que: "Não há um dever de provar, nem à parte contrária assiste o direito de exigir a prova do adversário. Há um simples ônus, de modo que o litigante assume o risco de perder a causa se não provar os fatos alegados Fl. 89DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 6 5 dos quais depende a existência de um direito subjetivo que pretende resguardar através da tutela jurisdicional. Isto porque, segundo máxima antiga, fato alegado e não provado é o mesmo que fato inexistente.” (Humberto Teodoro Junior, in Curso de Direito Processual Civil, 41ª ed., v. I, p. 387) A própria recorrente confessa que não trouxe elementos probatórios aos autos para confirmar sua pretensão, tanto que, solicita a realização de diligências. Ocorre que, conforme já referido, sequer indícios do seu direito foram colacionados ao processo administrativo, razão pela qual não há como se converter o julgamento em diligência. Sobre a necessidade de se provar o direito creditório em pedidos de restituição ou compensação, é uníssona a jurisprudência deste Colegiado, conforme precedentes a seguir elencados: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do Fato Gerador: 20/06/2006 COFINS. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas. COFINS IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Recurso Voluntário Negado." (Processo 10930.903684/201206; Acórdão 3402003.651; Relator Conselheiro Antônio Carlos Atulim; Sessão de 13/12/2016) "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Data do fato gerador: 31/01/2008 CRÉDITO NÃO RECONHECIDO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. O pagamento indevido, assim como a certeza e liquidez do crédito, precisam ser comprovados pelo contribuinte nos casos de solicitações de restituições e/ou compensações. Fundamento: Art. 170 do Código Tributário Nacional e Art. 16 do Decreto 70.235/72." (Processo 10865.905444/201269; Acórdão 3201002.880; Relator Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima; sessão de 27/06/2017) "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 30/06/2011 Fl. 90DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 7 6 DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado.Recurvo Voluntário Negado." (Processo 10805.900727/201318; Acórdão 3201003.103; Relator Conselheiro Marcelo Giovani Vieira; sessão de 30/08/2017) "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2005 DIREITO CREDITÓRIO. RESTITUIÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. Correta decisão que julgou improcedente a manifestação de inconformidade por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito está integral e validamente alocado para a quitação de outro débito está integral e validamente alocado para a quitação de outro débito." (Processo nº 11080.930940/201160; Acórdão 3201003.499; Relator Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade; Sessão de 01/03/2018) Ademais, a Recorrente, em casos análogos, teve seus recursos julgados improcedentes conforme decisões a seguir transcritas: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 20/10/2005 COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Compete ao contribuinte à apresentação de livros de escrituração comercial e fiscal e de documentos hábeis e idôneos à comprovação do alegado sob pena de acatamento do ato administrativo realizado, em momento processual previsto em lei. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis." (Processo Fl. 91DF CARF MF Processo nº 10880.950621/200897 Acórdão n.º 3201004.117 S3C2T1 Fl. 8 7 nº 10880.950624/200821; Acórdão 3803003.786; Relator Conselheiro João Alfredo Eduão Ferreira; sessão de 29/11/2012) "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 20/10/2005 COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Compete ao contribuinte à apresentação de livros de escrituração comercial e fiscal e de documentos hábeis e idôneos à comprovação do alegado sob pena de acatamento do ato administrativo realizado, em momento processual previsto em lei. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis." (Processo nº 10880.950622/200831; Acórdão 3803003.785; Relator Conselheiro João Alfredo Eduão Ferreira; sessão de 29/11/2012) Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário interposto. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Cofins, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 92DF CARF MF
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Numero do processo: 15463.720229/2014-06
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2008
RECURSO VOLUNTÁRIO. TEMPESTIVIDADE. AÇÃO JUDICIAL. MATÉRIA DISTINTA. CONHECIMENTO.
1. O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade.
2. A propósito, a ação judicial tem matéria distinta da deduzida no presente processo administrativo.
IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA, REFORMA OU PENSÃO. GLOSA DE IRRF. AÇÃO JUDICIAL.
1. Para fazer jus à isenção do IRPF, o contribuinte deve demonstrar, cumulativamente, que os proventos são oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão e que é portador de uma das moléstias graves arroladas no art. 39, inc. XXXIII, do RIR/1999, de conformidade com laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.
2. A natureza dos rendimentos recebidos pelo sujeito passivo é incontroversa, além de estar documentalmente comprovada: proventos de aposentadoria.
3. A cardiopatia isquêmica é uma cardiopatia grave, conforme afirmado no laudo médico oficial.
4. Muito embora pudessem ser eventualmente aplicáveis as orientações constantes da SCI 09/13 quando da entrega da declaração de ajuste anual, as quais poderiam demonstrar um certo equívoco por parte do recorrente quando da informação dos rendimentos e da retenção na fonte na sua declaração, o fato é que a isenção do IRPF, a retenção do imposto na fonte, o depósito da retenção em juízo e a sua conversão em renda da afastam a acusação de compensação indevida de IRRF, devendo ser determinado o recálculo da restituição dos valores devidos ao sujeito passivo.
Numero da decisão: 2402-006.455
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE IRRF Recorrente SEBASTIAO JOSE MARTINS SOARES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2008 RECURSO VOLUNTÁRIO. TEMPESTIVIDADE. AÇÃO JUDICIAL. MATÉRIA DISTINTA. CONHECIMENTO. 1. O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade. 2. A propósito, a ação judicial tem matéria distinta da deduzida no presente processo administrativo. IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA, REFORMA OU PENSÃO. GLOSA DE IRRF. AÇÃO JUDICIAL. 1. Para fazer jus à isenção do IRPF, o contribuinte deve demonstrar, cumulativamente, que os proventos são oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão e que é portador de uma das moléstias graves arroladas no art. 39, inc. XXXIII, do RIR/1999, de conformidade com laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. 2. A natureza dos rendimentos recebidos pelo sujeito passivo é incontroversa, além de estar documentalmente comprovada: proventos de aposentadoria. 3. A cardiopatia isquêmica é uma cardiopatia grave, conforme afirmado no laudo médico oficial. 4. Muito embora pudessem ser eventualmente aplicáveis as orientações constantes da SCI 09/13 quando da entrega da declaração de ajuste anual, as quais poderiam demonstrar um certo equívoco por parte do recorrente quando da informação dos rendimentos e da retenção na fonte na sua declaração, o fato é que a isenção do IRPF, a retenção do imposto na fonte, o depósito da retenção em juízo e a sua conversão em renda da afastam a acusação de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 46 3. 72 02 29 /2 01 4- 06 Fl. 115DF CARF MF 2 compensação indevida de IRRF, devendo ser determinado o recálculo da restituição dos valores devidos ao sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório Tratase de Notificação de Lançamento de IRPF, anocalendário 2008, sem saldo de imposto a pagar/restituir, em face da constatação de infração à legislação tributária: compensação indevida de imposto de renda retido na fonte, no valor de R$ 100.772,19. A glosa deveuse ao fato de o contribuinte ter efetuado a compensação de imposto de renda retido na fonte, cuja exigibilidade encontravase suspensa diante da existência de depósito integral em juízo. O contribuinte apresentou impugnação acompanhada de documentos, alegando, em síntese, que: (a) é engenheiro aposentado do BNDES e participante assistido da Fundação de Assistência e Previdência Social do BNDES (FAPES); (b) em março de 2007, foi diagnosticado com cardiopatia isquêmica multiarterial e submetido à revascularização do miocárdio, moléstia grave em razão da qual faz jus à isenção do imposto; (c) somente em janeiro de 2012, solicitou e obteve deferimento de tal isenção pela fonte pagadora; Fl. 116DF CARF MF Processo nº 15463.720229/201406 Acórdão n.º 2402006.455 S2C4T2 Fl. 3 3 (d) o benefício legal ainda não se concretizou no que se refere ao período março/2007 a dezembro/2011, pois a Receita Federal ainda não se pronunciou sobre as retificadoras apresentadas; (e) a retificadora relativa ao anocalendário 2008 motivou a notificação de lançamento objeto desta impugnação; (f) embora o comprovante de rendimentos fornecido pela FAPES informe que o IRRF foi depositado judicialmente, o atendimento a sua solicitação “(...) independe de qualquer decisão judicial a ser proferida, uma vez que o fundamento de seu pedido é a condição de portador de moléstia grave (...)”; (g) o total de rendimentos relacionado a este caso foi declarado no campo destinado a Rendimentos Isentos e Não Tributáveis; (h) requer reconsideração da glosa e restituição do IRRF em questão, no valor de R$ 100.772,19; (i) requer prioridade na análise, com base no art. 71 do Estatuto do Idoso. A DRJ julgou a impugnação improcedente, conforme decisão assim ementada: COMPENSAÇÃO DE IRRF. IMPOSSIBILIDADE. EXISTÊNCIA DE DEPÓSITO JUDICIAL. O valor correspondente a imposto de renda retido na fonte cuja exigibilidade esteja suspensa e depositado judicialmente não pode ser compensado na Declaração de Ajuste de Anual. ISENÇÃO. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. PORTADOR DE MOLÉSTIA GRAVE. A isenção relativa a proventos de aposentadoria ou reforma depende da comprovação de que o beneficiário é portador de uma das patologias previstas na legislação, mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. A legislação tributária enumera de forma taxativa as patologias que dão ensejo à isenção pleiteada e deve ser objeto de interpretação literal. O contribuinte foi intimado da decisão em 15/04/2015 (fl. 53) e interpôs recurso voluntário em 11/05/2015 (fls. 56/59), no qual basicamente reiterou os termos da sua impugnação, anexando, ainda, a "CERTIDÃO DE OBJETO E PÉ" dos autos da ação cautelar inominada 001117670.2001.4.02.5101, que daria conta da existência de decisão judicial determinando a transformação em pagamento definitivo da União dos valores dos depósitos judiciais. Em sessão de julgamento realizada em 15 de junho de 2016, este Colegiado editou a Resolução de fls. 75/77, na qual solicitou que a Delegacia de origem verificasse: Fl. 117DF CARF MF 4 (a) se os valores depositados nos autos 001117670.2001.4.02.5101 já foram definitivamente convertidos em renda da União; (b) se os valores convertidos correlacionamse com aqueles objeto da compensação glosada neste PAF, além de totalizar o montante de R$ 100.772,19, glosado pela fiscalização. Em cumprimento à resolução, a fiscalização informou que os valores foram transformados em pagamento definitivo e que são atinentes à glosa efetuada em sede de lançamento (fl. 97). O sujeito passivo apresentou manifestação, na qual reiterou seu pedido de restituição e reafirmou o pedido de prioridade de tramitação, este em caráter de acentuada urgência, tendo em vista que ele contaria com mais de oitenta anos. Os autos foram distribuídos a este conselheiro. Sem contrarrazões ou manifestação da Procuradoria. É o relatório. Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento Conforme já julgado em sede de Resolução, o recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. A propósito, é importante afirmar que a ação judicial tem matéria distinta da deduzida no presente processo administrativo, não incidindo o óbice retratado na Súmula CARF nº 1. Com efeito, (i) o presente lançamento não é meramente preventivo da decadência; (ii) a ação judicial trata da não incidência, de forma genérica, do imposto sobre a complementação de aposentadoria ou pensão; (iii) o recorrente contraiu a moléstia grave anos depois da data da propositura da ação; (iv) a própria DRJ julgou a impugnação, tendo em vista a existência de matéria distinta. 2 Da glosa de IRRF Conforme já relatado, o presente lançamento decorre da acusação de compensação indevida de imposto de renda retido na fonte, no valor de R$ 100.772,19. Este valor foi inclusive confirmado na informação fiscal de fl. 97: Conforme (fls. 18) pela Fonte Pagadora Fundação de Assistência e Previdência Social do BNDES, CNPJ: 00397695/000197, são informados valores depositados judicialmente sob o processo judicial 200151010111763 (001117670.2001.4.02.5101), com a soma perfazendo R$ Fl. 118DF CARF MF Processo nº 15463.720229/201406 Acórdão n.º 2402006.455 S2C4T2 Fl. 4 5 100.772,19. Ou seja, o valor que fora glosado como IRRF (fls. 09) é idêntico ao que fora informado pela fonte pagadora como objeto de depósito judicial (fls. 18); Também houve a juntada de tela da DIRF anocalendário 2008 (fls. 38) onde fica evidenciado esse valor no somatório da coluna Depósito Judicial (destacouse). É que o sujeito passivo declarou a quantia de R$ 100.772,19 a título de IRRF, mesmo estando esse valor com exigibilidade suspensa oriunda de depósito judicial, e ainda não declarou os rendimentos correspondentes a essa retenção como rendimentos tributáveis, mas sim como rendimentos isentos. No entender da DRJ, e de acordo com a Solução de Consulta Interna SCI nº 09, de 18/03/2013: 27. Na hipótese de o contribuinte não incluir os rendimentos com exigibilidade suspensa entre os rendimentos tributáveis da DAA, mas mesmo assim compensar o IRRF depositado judicialmente, devese tão somente efetuar a glosa do IRRF. Em sendo assim, e como se vê na notificação de lançamento, o imposto a restituir foi reajustado de R$ 116.496,98 para R$ 15.724,79. Na impugnação e no recurso, o contribuinte alega que os rendimentos correspondentes a tal retenção seriam isentos, por se tratar de proventos de aposentaria recebidos por portador de moléstia grave. Quanto a essa questão particular da isenção, a DRJ entendeu que a cardiopatia isquêmica multilateral não seria uma cardiopatia grave. Pois bem. A isenção do imposto de renda pessoa física sobre os proventos de aposentadoria, reforma ou pensão recebidos por portadores de moléstia grave tem fundamento no art. 39, incs. XXXI e XXXIII, do RIR/1999. Para o gozo da isenção, o § 4º do citado artigo determina que a moléstia grave deve ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Vejase com destaques: Art. 39. Não entrarão no cômputo do rendimento bruto: XXXI os valores recebidos a título de pensão, quando o beneficiário desse rendimento for portador de doença relacionada no inciso XXXIII deste artigo, exceto a decorrente de moléstia profissional, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída após a concessão da pensão (Lei nº 7.713, de 1988, art. 6º, inciso XXI, e Lei nº 8.541, de 1992, art. 47); XXXIII os proventos de aposentadoria ou reforma, desde que motivadas por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, Fl. 119DF CARF MF 6 nefropatia grave, estados avançados de doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência adquirida, e fibrose cística (mucoviscidose), com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma (Lei nº 7.713, de 1988, art. 6º, inciso XIV, Lei nº 8.541, de 1992, art. 47, e Lei nº 9.250, de 1995, art. 30, § 2º); 4º Para o reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII, a partir de 1º de janeiro de 1996, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, devendo ser fixado o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle (Lei nº 9.250, de 1995, art. 30 e § 1º). Portanto, para fazer jus à isenção, o contribuinte deve cumprir determinados requisitos, tais como: (i) ser portador de uma das moléstias arroladas no inc. XXXIII; (ii) receber proventos de aposentadoria, reforma ou pensão, visto que a regra isentiva não se aplica a outros rendimentos porventura tributáveis; (iii) ter laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. De conformidade com o § 5º, a isenção se aplica aos rendimentos recebidos a partir (i) do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; (ii) do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta foi contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão; ou (iii) da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial. Portanto, e de conformidade com a regra do § 5º, importa a data em que foram recebidos os rendimentos, conclusão esta reforçada pelo art. 6º, § 4º, inc. II, da IN RFB 1500/2014 (que revogou a IN RFB 15/2001, sem alteração do conteúdo do texto), segundo o qual a isenção é aplicável "aos rendimentos recebidos acumuladamente por portador de moléstia grave, desde que correspondam a proventos de aposentadoria, reforma ou pensão, ainda que se refiram a período anterior à data em que foi contraída a moléstia grave". Veja se: RIR/1999: art. 39. [...] § 5º As isenções a que se referem os incisos XXXI e XXXIII aplicamse aos rendimentos recebidos a partir: I do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; II do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão; III da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial. IN RFB 1500/2014: Art. 6º São isentos ou não se sujeitam ao imposto sobre a renda, os seguintes rendimentos originários pagos por previdências: Fl. 120DF CARF MF Processo nº 15463.720229/201406 Acórdão n.º 2402006.455 S2C4T2 Fl. 5 7 § 4º As isenções a que se referem os incisos II e III do caput, desde que reconhecidas por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios, aplicamse: II aos rendimentos recebidos acumuladamente por portador de moléstia grave, desde que correspondam a proventos de aposentadoria, reforma ou pensão, ainda que se refiram a período anterior à data em que foi contraída a moléstia grave; No caso in concreto, a natureza dos rendimentos recebidos pelo sujeito passivo é incontroversa, além de estar documentalmente comprovada: proventos de aposentadoria. Com efeito, e a rigor, não houve lançamento com base em omissão de rendimentos e a divergência inaugurada pelo acórdão de impugnação é atinente à moléstia de que o recorrente é portador. No entender da DRJ, a cardiopatia isquêmica multilateral não seria uma cardiopatia grave. Todavia, e em primeiro lugar, essa afirmação tem pouco validade jurídica quando confrontada com o laudo médico oficial de fl. 17, firmado e elaborado por profissional da medicina, que, nessa qualidade, tem mais conhecimento técnico e científico para afirmar se a cardiopatia isquêmica é ou não uma cardiopatia grave. Tal laudo, ademais, assevera que a moléstia tem caráter definitivo. Por outro lado, e em segundo lugar, curiosamente as diretrizes transcritas no voto condutor do acórdão recorrido dão sim conta de que a cardiopatia isquêmica é grave. Vejase com destaques: Nesse mesmo ano, “uma comissão multidisciplinar de médicos enunciou o conceito de Cardiopatia Grave como doença que leva, em caráter temporário ou permanente, à redução da capacidade funcional do coração (...)”. Cardiopatia grave não é uma doença específica, mas um conceito que “(...) engloba tanto doenças cardíacas crônicas, como agudas (...). [...] O quadro clínico bem como os recursos complementares, com os sinais e sintomas que permitem estabelecer o diagnóstico de cardiopatia grave, estão relacionados às seguintes cardiopatias: cardiopatia isquêmica, cardiopatia hipertensiva, miocardiopatias, valvopatias, cardiopatias congênitas, arritmias, pericardiopatias, aortopatias e cor pulmonale crônico. Portanto, está documentalmente comprovado que os rendimentos correspondentes à glosa do imposto na fonte são relativos à aposentadoria (complementação) recebidos por portador de moléstia grave, valendo ser citado o seguinte precedente jurisprudencial: Fl. 121DF CARF MF 8 ISENÇÃO. RENDIMENTOS PROVENIENTES DA APOSENTADORIA PORTADOR DE MOLÉSTIA GRAVE. Para gozo da isenção dos portadores de moléstia grave deve ser comprovado nos autos que os rendimentos são proventos de aposentadoria, pensão ou reforma e a existência da moléstia grave descrita no inciso XIV do art. 6º da lei 7.713/1988 deve ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estado, do Distrito Federal ou dos Municípios que identifique a data de início da doença. [...] (Número do Processo 10166.721421/201108, Recurso Voluntário, Data da Sessão 11/02/2015, Relator(a) GERMAN ALEJANDRO SAN MARTIN FERNANDEZ, Acórdão nº 2201 002.683) Em sendo assim, muito embora pudessem ser eventualmente aplicáveis as orientações constantes da SCI 09/13 quando da entrega da declaração de ajuste anual, as quais poderiam demonstrar um certo equívoco por parte do recorrente quando da informação dos rendimentos e da retenção na fonte na sua declaração, o fato é que a isenção do IRPF, a retenção do imposto na fonte, o depósito da retenção em juízo e a sua conversão em renda da União (circunstâncias essas confirmadas na informação fiscal prestada em sede de diligência) afastam a acusação de compensação indevida de IRRF, devendo ser determinado o recálculo da restituição dos valores devidos ao sujeito passivo. Logo, o recurso voluntário deve ser provido. 3 Conclusão Diante do exposto, votase no sentido de CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 122DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13149.720205/2017-29
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2016
DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO.
São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos, clínicas e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei.
Há de ser afastada a glosa, quando o contribuinte apresenta, no processo, documentação suficiente para sua aceitação.
Numero da decisão: 2001-000.671
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Ricardo Moreira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes (Presidente), Fernanda Melo Leal, José Alfredo Duarte Filho e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE RICARDO MOREIRA
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Numero do processo: 10830.007808/2008-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 19 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 2402-000.685
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique se i) as contas do Banco Bradesco nº 26.594-2 (ag. 1200-9) e 5.040-7 (ag. 2917-3) eram de co-titularidade do Autuado e de sua esposa, Sra. Maria de Fatima Lopes Garcia Costa, CPF 794.728.008-82, nos anos-calendário 2003, 2004 e 2005; e ii) a conta do Banco do Brasil nº 8033-0 era de titularidade da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia no ano-calendário 2004.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gregório Rechmann Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Recorrente OSCAR CAMARGO COSTA FILHO Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique se i) as contas do Banco Bradesco nº 26.5942 (ag. 12009) e 5.0407 (ag. 29173) eram de cotitularidade do Autuado e de sua esposa, Sra. Maria de Fatima Lopes Garcia Costa, CPF 794.728.00882, nos anos calendário 2003, 2004 e 2005; e ii) a conta do Banco do Brasil nº 80330 era de titularidade da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia no anocalendário 2004. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. RELATÓRIO Tratase de recurso voluntário em face da decisão da 4ª Tuma da DRJ/SPOII, consubstanciada no Acórdão nº 1730.200 (fls. 597/612), que julgou procedente em parte a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Por bem descrever os fatos, transcrevo o relatório da decisão recorrida: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 30 .0 07 80 8/ 20 08 -6 4 Fl. 702DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 3 2 Contra o contribuinte acima identificado foi lavrado auto de infração de fls. 05 a 08, acompanhado dos demonstrativos de fls. 09 a 12 e Termo de Verificação Fiscal de fls. 14 a 31 (planilhas de fls. 32/49), relativo ao imposto sobre a renda das pessoas físicas anoscalendário de 2003, 2004 e 2005, por meio do qual foi apurado crédito tributário no montante de R$ 811.276,25, dos quais, R$ 275.886,02 são referentes a imposto, R$ 413.829,02 são cobrados a título de multa proporcional e R$ 121.561,21 correspondem a juros de mora calculados até 30/06/2008. Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal de fls. 06/08, a exigência decorreu da omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em contas correntes mantidas em instituições financeiras, em relação aos quais o sujeito passivo regularmente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, conforme explicado no Termo de Verificação Fiscal anexo. Os valores tributáveis, data dos fatos geradores e enquadramento legal encontramse descritos As fls. 06/08. A multa de oficio foi aplicada no percentual de 150%, com base no artigo 44, inciso II, da Lei n° 9.430/1996. Cientificado do lançamento em 01/08/2008, na pessoa de sua procuradora (documento de fl. 248), o contribuinte apresentou, em 02/09/2008, a impugnação de fls. 508 a 545, subscrita por procuradores (documento de fl. 248), acompanhada dos documentos de fls. 546 a 548, na qual alega, após breve relato dos fatos, em síntese, que: PRELIMINARMENTE 1. DA IRREGULAR QUEBRA DE SIGILO a quebra de sigilo bancário deferida pela MM. Juíza da 1ª Vara Criminal da 5ª Subseção Judiciária da Justiça Federal do Estado de São Paulo, em Campinas, nos autos do Procedimento Investigatório n° 2006.61.05.0099313 é inconstitucional por ofensa ao artigo 5°, incisos X e XII e 93, inciso IX, todos da Constituição Federal; em primeiro lugar porque se o impugnante não está sob ação fiscal o Ministério Público Federal somente pode instruir o pedido de quebra de sigilo com informações da DIRPF após realizar a quebra de sigilo fiscal de forma ilegal e inconstitucional; em segundo lugar porque o ato jurisdicional que decretou a quebra de sigilo, fundouse em mera presunção, vez que inexiste qualquer indicio ou prova de que o fiscalizado tivesse praticado qualquer infração criminal nos anos de 2003, 2004 e 2005, além do fato de que em relação ao período de 1999 (existência da conta conjunta mantida com César Herman Rodriguez) nada foi formalizado e, assim sendo, a MM. Juíza poderia ter decretado a quebra de sigilo bancário apenas para o ano de 1999, nunca para os anos subsequentes (cita doutrina e jurisprudência); informa que sem prejuízo da responsabilização do Ministério Público e Receita Federal pela quebra do sigilo fiscal, está tomando as medidas judiciais cabíveis Fl. 703DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 4 3 buscando anulação do ato judicial que decretou a quebra de sigilo bancário pelo Poder Judiciário solicitando a suspensão da presente fiscalização até pronunciamento definitivo do Poder Judiciário; 2. DECADÊNCIA PARCIAL DOS MESES DE JANEIRO A JULHO DE 2003 já que o impugnante deve ser equiparado à pessoa jurídica e que o período de apuração do IRPJ é trimestral com vencimento até o último dia útil do mês subsequente ao do encerramento do período, tendo ocorrido a intimação do auto de infração em 01/08/2008, encontramse extintos pela decadência os supostos créditos do 1RPJ de 1° e 2° trimestres do ano de 2003, nos termos do artigo 173, inciso I, combinado com o artigo 156, inciso V, do Código Tributário Nacional; por outro lado, não obstante tratarse inequivocamente de atividade empresarial com o dever do Fisco em tributar o impugnante como pessoa jurídica, caso mantido o entendimento de que deve ser tributado como pessoa física, também encontramse extintos pela decadência os supostos débitos de IRPF do período de janeiro a julho de 2003, nos termos do 173, inciso I, combinado com o artigo 156, inciso V, do Código Tributário Nacional, posto que o período de apuração do IRPF é mensal nos termos do artigo 10 da Lei n°7.713/88 (transcreve jurisprudência do STJ e do Conselho de Contribuintes); 3. DA IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAR DEPÓSITOS COMO RENDA AUFERIDA a utilização como critério único para definição de renda de valores depositados em conta bancária afronta o Código Tributário Nacional e a Constituição Federal (transcreve doutrina sobre conceito de renda e a liberdade do legislador ordinário para definilo); a leitura harmônica da Constituição Federal e o enunciado do CTN leva o intérprete e jurista A. conclusão de que apenas a "renda nova ou aquisição de acréscimo patrimonial" são hipóteses de incidência do imposto de renda (transcreve doutrina e jurisprudência), sendo que na autuação em tela não há provas de que o contribuinte tenha auferido renda nova ou acrescido seu patrimônio, baseandose a autuação em valores constantes de extratos bancários, depósitos, sem levar em conta a existência ou não de renda nova (transcreve jurisprudência do Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais); a tributação com base exclusiva em depósitos bancários extrapola o fato gerador e a base de cálculo possíveis determinados pelo artigo 43 do CTN e ainda a própria Constituição Federal no seu artigo 145, §1°, o princípio da capacidade contributiva, devendo, portanto, ser suficientes para aferição do quantum de renda (acréscimo patrimonial) auferida, a identificação clara e precisa da atividade do impugnante, bem como a efetiva remuneração do seu negócio; requer o cancelamento do auto de infração, ou a conversão do mesmo em diligência para que o mesmo seja feito em conformidade com o ordenamento jurídico; Fl. 704DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 5 4 4. DOS RENDIMENTOS DECORRENTES DO EXERCÍCIO DA ADVOCACIA EM SOCIEDADE INFORMAL os depósito bancários decorreram do exercício empresarial sistemático e habitual, até então informal (foi oficializada apenas em 25/10/2007), de serviços advocatícios de sociedade de advogados mantida com o Dr. João Rosisca, nos moldes do artigo 16, da Lei n° 8.906/1994 (Estatuto da OAB) e artigo 146, §3°, do Decreto n° 3.000/1999; comprovado o exercício profissional através de sociedade de advogados mediante juntada de diversos documentos entregues oportunamente à fiscalização, o impugnante tem direito de ser tributado de forma equiparada A pessoa jurídica, nos termos do artigo 150 do RIR/99, não se aplicando ao caso o disposto no §2° do mesmo artigo (transcreve jurisprudência do Conselho de Contribuintes e Solução de Consulta da SRRF/9a Região Fiscal); requerse seja o auto de infração anulado no tocante aos rendimentos omitidos e dito como não justificados, considerandoos justificados como honorários advocatícios obtidos em Sociedade de Advogados, tributandoos segundo as normas aplicáveis As demais pessoas jurídicas, sob ofensa ao princípio da verdade real; 5. DOS RENDIMENTOS JÁ JUSTIFICADOS E NÃO CONSIDERADOS PELA FISCALIZAÇÃO devem ser excluídos os seguintes lançamentos por estarem plenamente justificados: a) transferências entre familiares — 1. item XLIV do AI, os depósitos caracterizados como "Doação Sra. Ida Lopes Garcia — sogra do Sr. Oscar, referemse às doações feitas em virtude da doadora residir conjuntamente com o fiscalizado e sua esposa reembolsandoos dos gastos com medicamentos, alimentação e outros cuidados, tais depósitos estão identificados nas planilhas e nos extratos e DIRPF da Sr. Ida — 2. item XLIII do AI, doação da Sra. Maria Beatriz Camargo Costa Varca efetuada no dia 25/01/2005 comprovada pela declaração firmada por esta e juntada em 22/04/2008 — 3. item XLIII do AI, o crédito do dia 31/01/2005 além de estar plenamente justificado no extrato bancário, comprovase a doação juntando cópia autenticada da declaração do Sr. Pedro Camargo Costa, irmão do fiscalizado, decorrente do reembolso de despesas em uma viagem realizada em conjunto, decorrendo o erro do nome no extrato de erro de digitação (requer prazo para juntada do original do documento); b) conta Banco de Brasília (item XXVI) — o crédito no valor de R$ 17.000,00 de 17/11/2003, decorreu de pagamento de débito com o Banco de Brasília, oriundo de rendimento do próprio impugnante, e negociado com o Banco, cuja operação pode ser facilmente comprovada através dos documentos entregues à Fiscalização oportunamente em 31/08/2007 e 22/04/2008; c) transferências entre contas — o alto valor recolhido pelo impugnante a título de CPMF decorreu da intensa movimentação financeira realizada entre suas próprias contas, principalmente com depósitos em dinheiro realizados em caixas eletrônicos provenientes de dinheiro sacado de suas contas correntes até o limite permitido, Fl. 705DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 6 5 acrescido de dinheiro transferido para as contas dos filhos e devolvido para depósito na conta do impugnante, evitandose a permanência nas filas das agências, portanto dinheiro do próprio fiscalizado e, no tocante às movimentações da conta n° 5.0407, mantida no Bradesco (relaciona dez depósitos), tem origem em cheques oriundos da Conta Corrente n° 23.732612 do Bank Boston; 6. DA NÃO OBSERVÂNCIA DA EXISTÊNCIA DE CONTA CONJUNTA COM SUA ESPOSA. DA NECESSIDADE DE REDUÇÃO DO VALOR. a exceção da Conta Corrente n° 15.9050, agência 37907, do Banco do Brasil e da Conta Corrente n° 2141791132, agência 0214 do Banco Regional de Brasília, as demais contas bancárias são contas conjuntas com sua esposa, devendo o valor dos supostos rendimentos omitidos serem repartidos pelo número de titulares, conforme dispõe o §6° do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, incluído pela Lei n° 10.637/2002 (transcreve ementa de acórdão proferido pela DRJ de Campo Grande); requer a divisão dos rendimentos não justificados entre ele e seu cônjuge; 7. DA NECESSIDADE DA REDUÇÃO DA MULTA AGRAVADA — INAPLICABILIDADE a multa de oficio deve ser reduzida para 75% não podendo a Fazenda Pública considerar ocorrido um fato por mera presunção, independentemente da efetiva verificação e comprovação dos fatos; o fisco deveria comprovar o dolo do impugnante, constitucionalmente presumido inocente, na ocorrência da fraude, para aplicar a multa de 150% (transcreve jurisprudência do Conselho de Contribuintes); tratase, o caso dos autos, de tributo não declarado e não pago enquadrandose na hipótese tipificada no inciso I, do artigo 44, da Lei n° 9.430/96 e, se houvesse dúvida quanto A. capitulação, deverse ia aplicar a mais favorável ao contribuinte nos termos do artigo 112 do CTN, ademais o contribuinte não omitiu qualquer fato da fiscalização (transcreve acórdãos de Delegacias de Julgamento da Receita Federal); aplicar penalidade com base em presunções afronta todos os princípios constitucionalmente consagrados de legitima defesa, do devido processo legal e da presunção de inocência; houve, de fato, infrações A legislação tributária pelo impugnante passíveis de autuação, por descumprimento de obrigação principal e acessória, sem qualquer intuito fraudulento, motivo pelo qual requer a aplicação do artigo 44, inciso I, reduzindose a multa de oficio para 75%. A DRJ julgou procedente em parte a impugnação, tendo concluindo, em resumo, que: Fl. 706DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 7 6 DECADÊNCIA: tendo a ciência ao Auto de Infração ocorrido em 01/08/2008 (fl. 248), constatase que não ocorreu o instituto da decadência quanto ao direito de lançar a omissão de rendimentos relativa aos anoscalendário de 2003 a 2005; DO SIGILO BANCÁRIO: a quebra do sigilo bancário do recorrente, neste procedimento fiscal, foi feita pela autoridade judicial, dentro dos ritos e condições próprias daquele poder judicante. Não tem a esfera administrativa competência para entrar no mérito de tal medida. Cabelhe tão somente acatála e cumprila. DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS: o legislador estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos com base nos depósitos bancários condicionada apenas à falta de comprovação da origem dos recursos que transitaram, em nome do contribuinte, em instituições financeiras, ou seja, temse a autorização para considerar ocorrido o fato gerador quando o contribuinte não logra comprovar a origem dos créditos efetuados em sua conta bancária, não havendo a necessidade do fisco juntar qualquer outra prova. Ao contrário da alegação do contribuinte de que o depósito extrapola o fato gerador do imposto de renda definido pelo artigo 43 do CTN e artigo 145, §1° da Constituição Federal, após a vigência da Lei n° 9.430/96, o depósito, quando não comprovada sua origem, é, por expressa disposição legal, omissão de receita ou rendimentos. Não há mais a necessidade de se comprovar acréscimo patrimonial e/ou sinais exteriores de riqueza. DA MULTA QUALIFICADA: a ação reiterada do contribuinte, nos anos calendário fiscalizados, de reduzir a base de cálculo do imposto de renda, pela omissão de rendimentos evidenciados pela análise de sua movimentação bancária mantidos à margem da tributação constitui sonegação e de acordo com os artigos citados, tal prática, em tese, constitui ilícito penal, tendo o fiscal autuante aplicado corretamente a multa majorada prevista na legislação. DA JURISPRUDÊNCIA. DA DOUTRINA: quanto às decisões administrativas, mesmo as proferidas pelos Conselhos de Contribuintes, e às judiciais, excetuandose as proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. Em relação às doutrinas transcritas na peça impugnatória cumpre informar que mesmo a mais respeitável doutrina, ainda que dos mais consagrados tributaristas, não pode ser oposta ao texto explicito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade. Cientificado dessa decisão, o contribuinte interpôs recurso voluntário de fls. 620/670, reiterando os termos da impugnação apresentada. É o relatório. VOTO Conselheiro Gregório Rechmann Junior Relator Fl. 707DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 8 7 O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deve ser conhecido. Preliminarmente, pugna o contribuinte em sua peça recursal pela nulidade do lançamento, em face da não intimação da sua esposa, cotitular das contas bancárias fiscalizadas, para prestar esclarecimentos. No caso vertente, verificase que as seguintes contas bancárias foram objeto da ação fiscal: BANCO AGÊNCIA CONTA Banco do Brasil 37907 15.9050 Banco do Brasil 40398 5.5166 Bradesco 12009 26.5942 Bradesco 04847 89.8929 Bradesco 29173 5.0407 BRB 0214 2141791132 BankBoston Campinas 23.7326.12 Em sua peça recursal, aduz o contribuinte que, com exceção da Conta Corrente no 15.9050, Agência 37907 do Banco do Brasil, existente para recebimento dos proventos de aposentadoria (antiga contasalário), as demais contas bancárias são contas conjuntas com sua esposa. Assim, impõese verificar (i) se a há comprovação nos autos de que as referidas contas são, de fato, contas conjuntas mantidas pelo Recorrente com a sua esposa à época dos fatos geradores e, caso positivo, (ii) se houve intimação da cotitular, no curso da fiscalização, para prestar esclarecimentos. Dessa forma, com vistas a demonstrar as conclusões alcançadas em relação a cada uma das contas bancárias, com exceção, por certo, daquela já reconhecida pelo contribuinte como conta corrente individual, existente para recebimento dos proventos de aposentadoria, reproduzse a tabela supra com os devidos acréscimos e informações: Fl. 708DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 9 8 BANCO AGÊNCIA CONTA Documentos Apresentados Fls. Conclusão (há comprovação de que se trata de conta conjunta?) Banco do Brasil 40398 5.5166 Extratos 129 a 174 Não. Os extratos apresentados não contém essa informação Extratos 178 a 198 Declaração da Instituição Bancária 672 Bradesco 12009 26.5942 Cheque 673 Sim, nos termos da Declaração das Instituição Bancária Bradesco 04847 89.8929 Extratos 176 a 177 Não. Os extratos apresentados não contém essa informação Extratos 200 a 233 237 a 276 Cheque (em branco) 594 Bradesco 29173 5.0407 Declaração da Instituição Bancária 672 Sim, nos termos da Declaração das Instituição Bancária BRB 0214 2141791132 Extratos 78, 79 Não. Os extratos apresentados não contém essa informação Extratos 81 a 106 BankBoston Campinas 23.7326.12 Cheques 680 a 697 Sim, já reconhecida pela DRJ Da análise do Quadro Resumo acima, verificase que o Recorrente logrou comprovar, pelo menos a princípio, a natureza de conta conjunta das seguintes contas: BANCO AGÊNCIA CONTA Bradesco 12009 26.5942 Bradesco 29173 5.0407 BankBoston Campinas 23.7326.12 * JÁ RECONHECIDA PELA DRJ Fl. 709DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 10 9 Ocorre que, tratandose de matéria conhecida de ofício pela DRJ e considerando que a Declaração de fls. 672, informando que as contas do Bradesco nº 26.5942 (ag. 12009) e 5.0407 (ag. 29173) se tratam de contas conjuntas, foi apresentada somente em sede de recurso voluntário, propõese a conversão do julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique se as referidas contas do Bradesco são de titularidade do Autuado e de cotitulariedade da sua esposa, Sra. Maria de Fatima Lopes Garcia Costa, CPF 794.728.00882, nos anoscalendário 2003, 2004 e 2005 (período fiscalizado). Outro ponto que merece análise e manifestação da Unidade de Origem diz respeito às doações realizadas pela Sra. Ida Lopes Garcia, sogra do Recorrente. Analisando o TVF, verificase que o Fisco realizou as seguintes glosas: No recurso apresentado, destaca o sujeito passivo que o Sr. AFRF, este entendeu por bem restarem justificadas todas as transferências resultantes da Conta Corrente no 80349, Agência 1910, do Banco do Brasil, vez que tal conta encontrase, inclusive, destacada na Declaração de Imposto de Renda da Sra. Ida. Porém, entendeu não restar comprovado que as demais transferências, oriundas da Conta no 80330, Agencia 01910, também eram de titularidade da Sra. Ida, vez que não foi apresentada documentação comprobatória. A DRJ manteve a autuação, sob argumentação da ausência de comprovação de que a Conta no 80330 da Agencia 01910 pertencia à Sra. Ida. Irresignado, o Recorrente destacou que razão não assiste ao Sr. AFRF e aos Julgadores, vez que basta uma análise cuidadosa da Declaração de Imposto de Renda da Sra. Ida, juntada aos autos em petição de 22/04/2008, para verificar que referida conta encontrase descrita na Declaração de Bens e Direitos. Às fls. 474 e seguintes dos autos, encontrase acostada a Declaração de Ajuste Anual Simplificada da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia, referente ao anocalendário 2003, na qual se encontram declaradas tanto a conta 80349 (cujos depósitos com origem nesta conta foram acatados pela fiscalização), quanto a conta 80330 (cujos depósitos com origem nesta conta não foram acatados pela fiscalização, sob a fundamentação de que não seria da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia). Fl. 710DF CARF MF Processo nº 10830.007808/200864 Resolução nº 2402000.685 S2C4T2 Fl. 11 10 Neste contexto, considerando que, de acordo com a Declaração de Ajuste Anual Simplificada da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia, referente ao anocalendário 2003. Constante às fls. 474 e parcialmente reproduzida acima, tanto a conta 80349 (cujos depósitos com origem nesta conta foram acatados pela fiscalização), quanto a conta 80330 (cujos depósitos com origem nesta conta não foram acatados pela fiscalização), pertencem à Sra. Ida Augusta Lopes Garcia, propõese a conversão do julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique, também, se a referida conta do banco do brasil nº 80330 era de titularidade da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia no anocalendário 2004. Conclusão Em face do acima exposto, propõese o julgamento do presente processo em diligência para que a Unidade de Origem verifique (i) se as contas do Bradesco nº 26.5942 (ag. 12009) e 5.0407 (ag. 29173) são de titularidade do Autuado e de cotitulariedade da sua esposa, Sra. Maria de Fatima Lopes Garcia Costa, CPF 794.728.00882, nos anoscalendário 2003, 2004 e 2005 e se (ii) a conta do Banco do Brasil nº 80330 era de titularidade da Sra. Ida Augusta Lopes Garcia no anocalendário 2004. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior. Fl. 711DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10820.900306/2008-23
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2004
DCOMP. ERRO DE PREENCHIMENTO. DARF COMPENSANDO DÉBITO EXTINTO POR PAGAMENTO.
Constatado efetivo erro de fato no preenchimento da DCOMP, com informação de DARF compensando débito extinto por pagamento, é de se reconhecer o crédito relativo ao pagamento indevido ou a maior apurado bem como a prévia extinção do débito.
Numero da decisão: 1003-000.219
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Sérgio Abelson - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: SERGIO ABELSON
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ERRO DE PREENCHIMENTO. DARF COMPENSANDO DÉBITO EXTINTO POR PAGAMENTO. Constatado efetivo erro de fato no preenchimento da DCOMP, com informação de DARF compensando débito extinto por pagamento, é de se reconhecer o crédito relativo ao pagamento indevido ou a maior apurado bem como a prévia extinção do débito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Sérgio Abelson Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 0. 90 03 06 /2 00 8- 23 Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10820.900306/200823 Acórdão n.º 1003000.219 S1C0T3 Fl. 59 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra o acórdão de primeira instância (folhas 36/40) que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada contra o despacho decisório à folha 09, que homologou parcialmente a compensação, ali mencionada, de crédito correspondente a pagamento indevido ou a maior. A recorrente, às folhas 43/51, em síntese, alega erro no preenchimento das seis DCOMP relacionadas à folha 01, nas quais equivocadamente informou como crédito os valores dos DARF pagos a maior relativos respectivamente aos períodos de março a agosto de 2004, e como débito os próprios montantes retificados dos débitos quitados pelos mesmos DARF. Demonstra, mediante a Declaração Anual Simplificada à folha 03, transmitida em 31/05/2005, bem como pela planilha à folha 51, que pretendia compensar os débitos de outubro, novembro e dezembro de 2004 com os valores pagos a maior pelos referidos DARF. Por fim, solicita o cancelamento dos débitos indevidamente confessados por meio das DCOMP preenchidas equivocadamente. É o relatório. Voto Conselheiro Sérgio Abelson, Relator O Recurso voluntário é tempestivo, portanto dele conheço. Na DCOMP retificadora nº 28370.64780.300505.1.7.044002 (folhas 12/16), com original transmitida em 11/10/2004, constam, como origem do crédito, o DARF de período de apuração 31/08/2004, código de receita 6106, data de arrecadação 10/09/2004 e valor principal e total de R$ 4.263,16 (folha 14), bem como débito de código de receita 61060, período de apuração agosto de 2004, data de vencimento 10/09/2004 e valor principal e total de 2.842,11 (folha 15). Observase, de pronto, tratarem, débito e crédito, de mesmo código de receita e período de apuração, com data de vencimento coincidente com a de arrecadação. Na Declaração Anual Simplificada à folha 03, transmitida em 31/05/2005, cujos valores não foram contestados por fiscalização, consta como Simples Devido relativo a agosto de 2004 o montante de R$ 2.842,11, o exato valor do débito informado como a compensar na DCOMP, cuja diferença de R$ 1.421,05 em relação ao DARF informado como crédito corresponde ao valor de crédito reconhecido no referido despacho decisório. Observe se que o débito indicado na DCOMP encontrase extinto por pagamento. O pagamento informado como crédito é, portanto, DARF pago a maior relativo ao próprio débito informado como objeto de compensação na DCOMP. Pelo exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso, para manter o reconhecimento do crédito original, de 10/09/2004, no valor de R$ 1.421,05, ressaltando que o débito de Simples, código de receita 61060, período de apuração agosto de 2004, data de Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10820.900306/200823 Acórdão n.º 1003000.219 S1C0T3 Fl. 60 3 vencimento 10/09/2004 e valor principal e total de 2.842,11, encontrase extinto por pagamento efetuado com o próprio DARF origem do crédito reconhecido. É como voto. (assinado digitalmente) Sérgio Abelson Fl. 61DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10882.902899/2008-38
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 10 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001
NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA.
Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito elencadas no despacho decisório.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO.
Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia.
PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA.
Até julho de 2004 não há ato legal específico que conceda isenção ou outra forma de desoneração de PIS e COFINS nas vendas à Zona Franca de Manaus, a isso não bastando o art. 4º do Decreto-Lei nº 288/67.
Numero da decisão: 3402-005.423
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) que davam provimento em conformidade com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no AgRg no Ag 1.420.880/PE.
(assinado com certificado digital)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz de Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais de Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado), Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito elencadas no despacho decisório. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA. Até julho de 2004 não há ato legal específico que conceda isenção ou outra forma de desoneração de PIS e COFINS nas vendas à Zona Franca de Manaus, a isso não bastando o art. 4º do Decreto-Lei nº 288/67.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) que davam provimento em conformidade com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no AgRg no Ag 1.420.880/PE. (assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz de Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais de Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado), Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/05/2001 a 31/05/2001 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito elencadas no despacho decisório. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários adequada solução da lide, indeferese, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA. Até julho de 2004 não há ato legal específico que conceda isenção ou outra forma de desoneração de PIS e COFINS nas vendas à Zona Franca de Manaus, a isso não bastando o art. 4º do DecretoLei nº 288/67. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) que davam provimento em conformidade com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no AgRg no Ag 1.420.880/PE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 90 28 99 /2 00 8- 38 Fl. 146DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 3 2 (assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz de Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais de Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado), Waldir Navarro Bezerra (Presidente). Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 4 3 Relatório Tratase de Declaração de Compensação (DCOMP) mediante a qual a contribuinte pretendeu extinguir débito com pretenso crédito com origem em pagamento indevido de contribuição social. A Delegacia da Receita Federal de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico de não homologação da compensação face a inexistência de crédito disponível para compensação. Cientificada do despacho, a contribuinte manifestou sua irresignação arguindo em síntese que o crédito utilizado na compensação teria origem em pagamento da contribuição na parcela calculada sobre vendas realizadas à Zona Franca de Manaus. Argumenta que as vendas à Zona Franca de Manaus (ZFM) no período em tela estavam imunes à incidência do PIS e da Cofins e, portanto, o pagamento teria sido feito a maior. Iniciando essa linha de argumentação, assevera que o art. 4° do DecretoLei (DL) n° 288, de 1967, equiparou, para todos os efeitos fiscais, as vendas realizadas a Zona Franca de Manaus a uma operação de exportação. Tal disposição, a seu ver, possui envergadura de norma de caráter complementar, e nesse nível de hierarquia teria sido incorporado ao ordenamento jurídico pela recepção que lhe deu a Constituição Federal de 1988, pelo artigo 40 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). Defende que o mesmo tratamento dado às exportações, aplicável às vendas realizadas à Zona Franca de Manaus, seria também extensível às vendas efetuadas para destinatários sediados nos municípios integrantes das Areas de Livre Comércio. Ao fim, requer o recebimento da presente manifestação de inconformidade com o seu regular efeito suspensivo da exigibilidade do crédito. Pleiteia ainda o reconhecimento do direito credit6rio referente aos recolhimentos indevidos ou a maior a titulo de PIS e Cofins incidentes sobre as receitas de vendas de mercadorias à Zona Franca de Manaus e a consequente a homologação da compensação.” Por meio do acórdão nº 0529.866, a DRJ não acolheu as razões de defesa da manifestante, mantendo a não homologação da compensação. Regularmente cientificado, o contribuinte tempestivamente apresentou seu Recurso Voluntário, repisando os argumentos apresentados em sua Manifestação de Inconformidade, acrescentando que não foi intimado pela fiscalização, em nenhum momento, a apresentar comprovantes da origem dos seus créditos e que, no despacho eletrônico proferido, também não foi apresentado nenhum argumento para que os créditos pleiteados fossem indeferidos. Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 5 4 Argumenta ainda que trouxe aos autos planilha comprovando que os créditos indicados no pedido de compensação são originados de pagamento indevido ao a maior, uma vez que efetuou vendas destinadas à Zona Franca de Manaus. O processo foi encaminhado a este Conselho para julgamento e posteriormente distribuído a este Relator. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra , Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402005.398, de 24 de julho de 2018, proferido no julgamento do processo 10882.900443/200833, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402005.398): "O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. A questão trazida a este colegiado cingese sobre direito creditório não reconhecido pela constatação de utilização integral do pagamento na quitação de débitos do contribuinte. Também se discute, a partir das alegações trazidas na Manifestação de Inconformidade, o direito ao crédito do PIS e da COFINS nas operações com empresas situadas na Zona Franca de Manaus, que poderia lastrear o pleito inicial da interessada. Ainda que o Despacho Decisório nada tenha se manifestado acerca de qualquer documento probatório, o sujeito passivo, além de contestar a vinculação do pagamento, também argumentou quanto às razões pela qual entendia que parte do recolhimento seria indevido, por se referir a vendas realizadas à Zona Franca de Manaus. Segundo seu entendimento, tais vendas estariam imunes à incidência das contribuições, resultando em saldo recolhido à maior. A 3ª Turma da DRJ em Campinas não acolheu as razões de defesa do sujeito passivo, entendendo que o pretendido pagamento indevido teria origem no período de apuração 01/09/2002 a 30/09/2002, em relação ao qual a isenção em comento alcançaria apenas as receitas de vendas enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos IV, VI, VIII e IX, do artigo 14 Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 6 5 da MP n°2.15835, de 2001. Segundo a turma julgadora, os autos não trazem comprovação suportada por documentação contábilfiscal da inclusão das receitas decorrentes das mencionadas operações isentas na base que serviu para o cálculo do pagamento formador do apontado indébito, não se podendo reconhecer o pretendido direito de crédito aproveitado na compensação. Preliminarmente, a recorrente alega nulidade do processo administrativo em razão da ausência de diligências na documentação que comprovaria o indébito tributário. Não assiste razão à recorrente. Conforme disposto no artigo 29 do PAF, as diligências são determinadas pela autoridade julgadora, na apreciação da prova, caso entenda necessárias, o que não é o caso. A recorrente não apresentou qualquer documento comprobatório do crédito pleiteado, nem na fase de impugnação, nem nesta fase recursal, em descumprimento do artigo 15 do PAF que determina a instrução dos documentos comprobatórios juntamente com a impugnação. Apenas uma planilha intitulada “VENDAS PARA A ZONA FRANCA DE MANAUS E AREAS DE LIVRE COMÉRCIO UNIDADE SUMARÉ SETEMBRO DE 2002” (fls.43) foi apresentada, sem nenhum documento comprobatório. A prova deve ser feita nos autos, não fora dele, e no momento oportuno. Destacase que o indeferimento do direito creditório foi motivado pela utilização do(s) pagamento(s) na quitação de outros débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Nenhuma prova contrária à tal constatação fiscal foi apresentada. Portanto, não resta configurada qualquer nulidade quanto à ausência de diligência. Em consequência, rejeitase o pedido de diligência. A recorrente alega cerceamento de seu direito de defesa, por entender que a decisão de primeira instância teria inovado o lançamento inicial. Segundo seu entendimento, o Despacho Decisório eletrônico não mencionou qualquer documento (físico ou eletrônico) que embasasse a glosa da compensação, limitandose apenas a mencionar que o crédito não existiria, imputando penalidade a Recorrente, sem qualquer análise da materialidade do crédito compensado. Também neste ponto não assiste razão à recorrente. Nenhuma inovação foi trazida aos autos pelo julgador de primeiro grau na apreciação da matéria, que apenas trouxe os fundamentos necessários para rechaçar as alegações do sujeito passivo trazidas na Manifestação de Inconformidade. Tratase Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 7 6 do pleno exercício do contraditório, que exige a plena fundamentação das decisões na apreciação de todos os pontos levantados pela defesa do contribuinte. A motivação do indeferimento do direito creditório continua sendo a inexistência de crédito. Dessa forma, também não está configurado qualquer cerceamento do direito de defesa da recorrente, visto que a questão foi por ela trazida e por ela novamente repisada em sua peça recursal. No mérito, a recorrente alega o direito ao crédito do PIS e da COFINS nas operações com empresas situadas na Zona Franca de Manaus. O tema foi objeto de julgamento repetitivo na 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em processos cujo interessado foi a própria recorrente. Dessa forma, adoto no presente voto os fundamentos do Acórdão nº 9303003.934, de 07 de junho de 2016, da lavra do i. Conselheiro Júlio César Alves Ramos, a seguir reproduzido: “Fui incumbido de apontar as razões que levaram o colegiado, por voto de qualidade, a negar provimento ao recurso do contribuinte, sob o entendimento de que, até a redução a zero da alíquota da contribuição efetuada em julho de 2004, não havia qualquer dispositivo legal que concedesse isenção de COFINS às vendas para aquela área. O argumento inicial em sentido contrário buscaa na própria norma que criou a Zona Franca de Manaus. Segundo tal entendimento, o art. 4º do Decretolei 288, ao afirmar que as remessas para aquela região equiparavamse a exportação para o exterior, deveria ser estendido à COFINS, embora, cediço, ela somente tenha sido posteriormente criada. E isso porque tal extensão somente caberia se o citado decreto tivesse afirmado que as remessas de produtos para a Zona Franca de Manaus são exportação. Nesse caso, a equiparação valeria mesmo para outros efeitos, não fiscais. Poderia, para o que interessa, restringila a “todos os efeitos fiscais”. Se o tivesse feito, dúvida não haveria de que qualquer mudança posterior na legislação que viesse a afetar as exportações, no que tange a tributos, afetaria do mesmo modo e na mesma medida aquela zona. Mas já foi repetidamente assinalado que o artigo 4º daquele ato legal, embora traga de fato a expressão acima, apôs a ressalva “constantes da legislação em vigor”. Não vejo como essa restrição possa ser entendida de modo diverso do que tem sido Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 8 7 interpretado pela Administração: apenas os incentivos às exportações que já vigiam em 1 de fevereiro de 1967 estavam “automaticamente” estendidos à ZFM por força desse comando. E ponho a palavra entre aspas porque nem mesmo o Poder Executivo – e vale assinalar que estamos falando de um período de exceção, em que o Poder executivo quase tudo podia pareceu estar tão seguro desse automatismo, visto que fez editar, na mesma data, o Ato Complementar 35, cujo artigo 7º assegurou aquela extensão ao ICM. Pretendem alguns que ele teria alçado ao patamar de lei complementar a equiparação já prevista no decretolei. A meu ver, porém, tudo o que faz é definir com maior precisão o que se entende por produtos industrializados para efeito da não incidência de ICM nas exportações já prevista na Constituição de 67. Defineos no parágrafo 1º, recorrendo à tabela do então criado imposto sobre produtos industrializados (tabela anexa à Lei 4.502). No parágrafo segundo, estende, também para efeito de ICM, aquela imunidade às vendas a zonas francas. Essa interpretação me parece forçosa quando se sabe que, segundo a boa técnica legislativa, os parágrafos de um dado artigo não acrescentam matéria ao disposto no caput, apenas esclarecem sobre o alcance daquela matéria. E ao esclarecer podem impor uma definição restritiva, como no parágrafo primeiro, ou extensiva, como no segundo. O que não pode um simples parágrafo é tratar de matéria que não esteja contida no caput e nos seus incisos. E não parece haver dúvida de que aí apenas se cuida da imunidade do ICM. Assim, o ato legal nem previu imunidade genérica, nem estendeu ao IPI a imunidade do ICM. Ora, se a previsão do decretolei deveria alcançar “todos os efeitos fiscais” e já havia previsão de imunidade de ICM sobre produtos industrializados, para que tal parágrafo no ato complementar? Há, contudo, razões mais profundas do que a mera literalidade. É que a zona franca de Manaus não é meramente uma área livre de restrições aduaneiras, característica das chamadas zonas francas comerciais. O que se buscou com a sua criação foi induzir a instalação naquele distante rincão nacional de empresas de caráter industrial, que gerassem emprego Fl. 152DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 9 8 e renda para a região Norte. Para tanto, definiu se um conjunto de incentivos fiscais que, à época de sua criação, seria suficiente, no entender dos seus formuladores, para gerar aquela atração. Tais incentivos, e apenas eles, configuram diferenciação em favor dos produtos importados e industrializados naquela área. Foi essa diferença tributária que induziu a criação do parque industrial que ali se veio a instalar e, assim, é apenas a retirada de algum daqueles incentivos que pode ser tachada de “quebra de contrato”. A contrário senso, novos incentivos fiscais que se venham a instituir podem ou não ser a ela estendidos conforme entenda útil o legislador por ocasião de sua instituição. Isso não se dá automaticamente com os incentivos genéricos à exportação cujo objetivo comum tem sido a geração das divisas imprescindíveis ao pagamento dos compromissos internacionais durante tanto tempo somente alcançáveis por meio das exportações. Por óbvio, a ninguém escapa que vendas à ZFM não geram divisas. Diferentes, pois, os objetivos, nenhum automatismo se justifica. Prova desse raciocínio é que dois anos apenas após a criação da ZFM, inventaram os “legisladores executivos” de então novo incentivo à exportação, o malsinado “crédito prêmio” posteriormente tão combatido nos acordos de livre comércio a que o País aderia. Sua legislação expressamente incluiu a Zona Franca. Fêlo, no entanto, apenas para os casos em que, após serem “exportados” para lá, fossem dali efetivamente exportados para o exterior (“reexportados”, na linguagem do declei). Em outras palavras, já em 1969 dava o executivo provas de que aquela extensão nem era automática, nem tinha que se dar sem qualquer restrição. Logo, ainda que se avance na interpretação da norma, ultrapassando o método literal e adentrandose o histórico e o teleológico, se chega à mesma conclusão: o decretolei 288 apenas determinou a adoção dos incentivos fiscais à exportação já existentes e acresceu incentivos específicos voltados a promover o desenvolvimento da região menos densamente povoada de nosso território. Nessa linha de raciocínio, portanto, há de se buscar na legislação específica do PIS e da COFINS, Fl. 153DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 10 9 tributos somente instituídos após a criação da ZFM, dispositivo que preveja alguma forma de desoneração nas vendas àquela região, seja a não incidência, alíquota zero ou isenção. E não se precisa ir longe para ver que ela somente começa a existir em julho de 2004, com a edição da Medida Provisória 202. De fato, a “exclusão das receitas de exportação” da base de cálculo do PIS tratada na Lei 7.714 e a isenção da COFINS sobre receitas de exportação prevista na Lei Complementar 70 e objeto da Lei complementar 85 não incluíram expressamente as vendas à ZFM ainda que tenham estendido o benefício a outras operações equiparadas a exportação. Um exame cuidadoso dessas extensões vai revelar o que se disse acima: todas elas geram, imediata ou mediatamente, divisas internacionais. A conclusão que se impõe, assim, é que não havia, até o surgimento da Medida Provisória 1.858 qualquer benefício fiscal que desonerasse de PIS e de COFINS as receitas obtidas com a venda de produtos para empresas sediadas na ZFM. É certo que esse entendimento não era uníssono, muita peleja tendo se travado entre o fisco e os contribuintes que pretendiam estarem tais vendas amparadas pelos atos legais mencionados. E essas divergências somente se agravaram com a edição da MP, cuja redação padece de diversas inconsistências. Com efeito, tal MP, que revogou a Lei 7.714 e a Lei Complementar 85, disciplinando por completo a isenção das duas contribuições nas operações de exportação trouxe dispositivo expresso “excluindo” as vendas à ZFM. Isso, por óbvio, aguçou a interpretação de que já havia dispositivo isentivo e que esse dispositivo estava sendo agora revogado. Defendo que não, embora seja forçoso reconhecer que o dispositivo apenas criou desnecessário imbróglio. É que, nos termos constitucionais, a concessão de isenção requer lei específica1 , de modo que, ou se aceita que seja ela o decretolei ou ela não existe. Não se pode inferir que haja uma lei simplesmente porque um parágrafo em artigo de lei posterior a "exclua". Em outras palavras, há apenas dois caminhos interpretativos. O primeiro: se considera que o decretolei 288 fez uma equiparação genérica das Fl. 154DF CARF MF Processo nº 10882.902899/200838 Acórdão n.º 3402005.423 S3C4T2 Fl. 11 10 vendas àquela região a exportação e, portanto, qualquer ato posterior que concedesse benefício (isenção ou outro) a operações de exportação se aplicava imediatamente e automaticamente às vendas para lá. Nesse caso, a isenção concedida pela Lei Complementar 85 a elas se estende, mesmo não tendo ela sido expressamente referida no dispositivo. Essa interpretação contraria, a meu ver, o art. 150, § 6º da Constituição. Ou, como entendo eu, considerase que não havia dispositivo que concedesse isenção ou qualquer outra forma de desoneração àquelas vendas até a redução a zero de sua alíquota, promovida em 2004. Não contemplo um terceiro caminho. Com tais considerações, negouse provimento ao recurso do contribuinte.” Também não prospera qualquer argumento que aponte a obrigatoriedade do acatamento do entendimento do STF, exceto nos casos de repercussão geral reconhecida, conforme determina o RICARF, o que não é o caso. Ante o exposto, nego provimento ao recurso voluntário do sujeito passivo." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Fl. 155DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.003755/2008-28
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 08 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
Ementa:
CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. ALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO IN NATURA. SEM ADESÃO AO PAT. AUSÊNCIA DE NATUREZA SALARIAL. NÃO INCIDÊNCIA.
O fornecimento de alimentação aos empregados não sofre a incidência da contribuição previdenciária, por não constituir natureza salarial, esteja o empregador inscrito ou não no Programa de Alimentação do Trabalhador PAT.
Numero da decisão: 2301-005.538
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Junior (Presidente), Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, João Maurício Vital, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Reginaldo Paixão Emos e Wesley Rocha. Ausente justificadamente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 Ementa: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. ALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO IN NATURA. SEM ADESÃO AO PAT. AUSÊNCIA DE NATUREZA SALARIAL. NÃO INCIDÊNCIA. O fornecimento de alimentação aos empregados não sofre a incidência da contribuição previdenciária, por não constituir natureza salarial, esteja o empregador inscrito ou não no Programa de Alimentação do Trabalhador PAT.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior - Presidente. (assinado digitalmente) João Maurício Vital - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Junior (Presidente), Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, João Maurício Vital, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Reginaldo Paixão Emos e Wesley Rocha. Ausente justificadamente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1542; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C3T1 Fl. 306 1 305 S2C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 15504.003755/200828 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2301005.538 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 9 de agosto de 2018 Matéria ALIMENTAÇÃO IN NATURA SEM INCRIÇÃO NO PAT Recorrente CONSTRUTORA ITAMARACÁ LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 Ementa: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. ALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO IN NATURA. SEM ADESÃO AO PAT. AUSÊNCIA DE NATUREZA SALARIAL. NÃO INCIDÊNCIA. O fornecimento de alimentação aos empregados não sofre a incidência da contribuição previdenciária, por não constituir natureza salarial, esteja o empregador inscrito ou não no Programa de Alimentação do Trabalhador PAT. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Presidente. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Junior (Presidente), Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, João Maurício Vital, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Reginaldo Paixão Emos e Wesley Rocha. Ausente justificadamente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 00 37 55 /2 00 8- 28 Fl. 305DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD), Debcad nº 37.160.0790, para a cobrança de contribuições previdenciárias (empregador, empregados, terceiros e SAT) incidentes sobre valores pagos a título de salário in natura no período de 01 a 12 de 2004. Consta do Relatório Fiscal (efl. 50) que a empresa não comprovou, para o período, a adesão ao Programa de Alimentação ao Trabalhador (PAT), nos termos da Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976. Por essa razão, não poderia deixar de incluir, no salário de contribuição, os valores de alimentação paga in natura. O sujeito passivo apresentou impugnação (efls. 74 a 84) em que alegou, em síntese, que: a) está filiada ao PAT, e b) o fornecimento de cestas básicas decorre da Convenção Coletiva de Trabalho, decorrentes de acordo coletivo, e que tais intrumentos têm força de lei, descabendo o seu questionamento pelo Fisco. O colegiado de origem manteve integralmente o lançamento (efls. 178 a 186). Foi interposto recurso voluntário (efl. 196 a 212) no qual os argumentos da impugnação foram reiterados. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital Relator O recurso é tempestivo e dele conheço. O lançamento teve por supedâneo fático o fornecimento de refeições e cestas básicas sem que a empresa estivesse inscrita, no período, no PAT. Embora a recorrente tenha afirmado sua filiação ao programa, não logrou apresentar qualquer comprovante de que nele estava regularmente inscrita no ano se 2004, quando ocorreram os fatos geradores do presente lançamento tributário. A ausência de inscrição no PAT também deu sustento à decisão recorrida, que assim se pronunciou (efl. 184): Nesse sentido, as parcelas pagas de acordo com programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho, nos termos da Lei n.° 6.321, DE 14.04.76 (D.O.U. 19.04.76), não integram o salário de contribuição, conforme descrito na Lei 8.212/91, artigo 28, § 9.0, alínea 'c'. Contudo, se a alimentação, mesmo que in natura, é concedida em desacordo com o Programa de Alimentação do Trabalhador — PAT (como, por exemplo, Fl. 306DF CARF MF Processo nº 15504.003755/200828 Acórdão n.º 2301005.538 S2C3T1 Fl. 307 3 quando a empresa não se encontra formalmente inscrita no mesmo), o valor correspondente a esta alimentação integra o salário de contribuição.(Sem grifo no original.) Assim, embora a própria defendente afirme que possui inscrição no Programa de Alimentação ao Trabalhador, juntando comprovação de sua inscrição para o presente exercício, não demonstrou que no ano de 2004, objeto desta autuação, estava inscrita no mesmo e, desta forma, é indiscutível a natureza salarial das referidas parcelas pagas. Pois bem. Esta turma já se deparou com a matéria outras vezes, em composições anteriores do colegiado, e vem decidindo no sentido de aplicar o entendimento exposto no Ato Declaratório nº 3, de 2011, da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, que estabelece: (...) fica autorizada a dispensa de apresentação de contestação e de interposição de recursos, bem como a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante: “nas ações judiciais que visem obter a declaração de que sobre o pagamento in natura do auxílioalimentação não há incidência de contribuição previdenciária”. JURISPRUDÊNCIA: Resp nº 1.119.787SP (DJe 13/05/2010), Resp nº 922.781/RS (DJe 18/11/2008), EREsp nº 476.194/PR (DJ 01.08.2005), Resp nº 719.714/PR (DJ 24/04/2006), Resp nº 333.001/RS (DJ 17/11/2008), Resp nº 977.238/RS (DJ 29/11/2007). (Grifos do original.) Como razões de decidir, reproduzo parte do Acórdão nº 9202005.190, da Câmara Superior de Recursos Fiscais, no qual a matéria foi unanimemente resolvida: Por meio de despacho, publicado em 24.11.2011, o Ministro da Fazenda aprovou o citado Ato Declaratório nº 03/2011, fato de grande importância para desfecho da lide na medida em que nestas circunstâncias tratase de entendimento que vincula os integrantes deste Colegiado por força do art. 62, §1º, II, c da Portaria MF nº 343/15, que aprovou o Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: (Grifo do original.) Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: ... II que fundamente crédito tributário objeto de: Fl. 307DF CARF MF 4 ... c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; Diante do exposto, dou provimento ao recurso do Contribuinte para, aplicando o Ato Declaratório da PGFN nº 03/2001 excluir da base de cálculo da contribuição previdenciária devida pelo Contribuinte os valores despendidos com o fornecimento de refeições dentro do seu estabelecimento, mesmo na ausência de adesão ao PAT. Superada a necessidade de inscrição no PAT para excluir, do salário de contribuição, os valores de alimentos pagos in natura, nada mais sustenta o lançamento. Deixo, pois, de analisar a natureza da verba, suscitada no recurso, por se tratar de questão prejudicada. Conclusão Voto por DAR PROVIMENTO ao recurso. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator Fl. 308DF CARF MF
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