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Numero do processo: 19515.723053/2012-72
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO.
O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica.
APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO.
São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão).
DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO.
A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade.
DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS.
Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica.
CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO.
A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica.
AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE.
Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial.
CSLL. DECORRÊNCIA.
Aplica-se à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS. RECURSO ESPECIAL. ADMISSIBILIDADE E MÉRITO. ETAPAS DISTINTAS. MOMENTO DE APRECIAÇÃO DE PRELIMINAR.
O mérito do recurso especial, e eventual nulidade, só podem ser apreciados caso seja superado o exame de admissibilidade, primeira etapa e estreito filtro processual. Caso não seja demonstrada divergência na interpretação da legislação tributária nos termos do regimento interno, consolida-se coisa julgada administrativa, fazendo com que não seja possível reconhecer a nulidade de ofício durante a etapa do exame de admissibilidade. Por sua vez, superando-se a primeira etapa, passa-se ao exame do mérito e eventuais preliminares, quando se aplica o direito, em que o julgador tem plena liberdade de firmar sua convicção e não fica restrito aos fundamentos das partes, tanto que pode, ao identificar a situação de vício insanável, reconhecer eventual nulidade ou aplicar entendimento sumular.
Numero da decisão: 9101-002.592
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e em rejeitar a arguição de inépcia do recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e acolheram a inépcia como preliminar. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial a fim de que a autuação fiscal seja restabelecida, com retorno dos autos à Unidade de Origem para analisar as matérias não apreciadas no Acórdão nº 16-47.176, de 29/05/2013, da 1ª Turma da DRJ/SP1, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 30 53 /2 01 2- 72 Fl. 6171DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.172 2 A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. CSLL. DECORRÊNCIA. Aplicase à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010, 2011 CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS. RECURSO ESPECIAL. ADMISSIBILIDADE E MÉRITO. ETAPAS DISTINTAS. MOMENTO DE APRECIAÇÃO DE PRELIMINAR. O mérito do recurso especial, e eventual nulidade, só podem ser apreciados caso seja superado o exame de admissibilidade, primeira etapa e estreito filtro processual. Caso não seja demonstrada divergência na interpretação da legislação tributária nos termos do regimento interno, consolidase coisa julgada administrativa, fazendo com que não seja possível reconhecer a nulidade de ofício durante a etapa do exame de admissibilidade. Por sua vez, superandose a primeira etapa, passase ao exame do mérito e eventuais preliminares, quando se aplica o direito, em que o julgador tem plena liberdade de firmar sua convicção e não fica restrito aos fundamentos das partes, tanto que pode, ao identificar a situação de vício insanável, reconhecer eventual nulidade ou aplicar entendimento sumular. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 6172DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.173 3 Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e em rejeitar a arguição de inépcia do recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e acolheram a inépcia como preliminar. No mérito, acordam, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial a fim de que a autuação fiscal seja restabelecida, com retorno dos autos à Unidade de Origem para analisar as matérias não apreciadas no Acórdão nº 1647.176, de 29/05/2013, da 1ª Turma da DRJ/SP1, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional PGFN (efls. 5941/5959) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1401001.240 (efls. 5899/5938), pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 26/08/2014, no qual foi negado provimento ao recurso de ofício. Resumo Processual A autuação fiscal tratou de (1) glosa de amortização do ágio e (2) qualificação da multa de ofício. A primeira instância (DRJ) julgou a impugnação procedente, e em razão do montante de crédito tributário exonerado, foi efetuada remessa necessária (recurso de ofício). A segunda instância (1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção) manteve a decisão da DRJ e julgou o recurso de ofício improcedente. A PGFN interpôs recurso especial e a contribuinte apresentou contrarrazões. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade. Fl. 6173DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.174 4 A seguir, maiores detalhes sobre a autuação fiscal e a fase contenciosa. Da Autuação Fiscal O Termo de Verificação Fiscal (efls. 5076/5103) discorre sobre operações empreendidas pelas pessoas jurídicas NACIONAL MINÉRIOS S/A ("NAMISA"), COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL ("CSN") e BIG JUMP ENERGY PARTICIPAÇÕES S/A ("BIG JUMP"). Relata a autoridade autuante que a CSN comunicou a concretização de parceria estratégica com investidores japoneses (grupo "BRAZIL JAPAN IRON") e coreanos (grupo "POSCO"), que adquiriram o capital da sua subsidiária, NAMISA, por US$ 3,12 milhões. A operação deuse na seguinte ordem cronológica: 1º) A CSN, que controlava a NAMISA (99,99%), criou a empresa BIG JUMP; 2º) a BIG JUMP recebeu em 30/12/2008 o valor de R$7,40 bilhões das empresas BRAZIL JAPAN IRON e POSCO; 3º) no mesmo dia, a BIG JUMP repassou R$86,56 milhões para a CSN, a título de compra de 0,7907% do capital da NAMISA, e repassou R$7,28 bilhões para a NAMISA, a título de capitalização da empresa; 4º) parcela do preço correspondente a R$4.093.701.875,14 foi registrada pela BIG JUMP como ágio fundamentado em rentabilidade futura, amparado em laudo, decorrente da aquisição com sobrepreço de participação de 40% da participação societária da NAMISA; 5º) no mesmo dia, a NAMISA transferiu os R$7,28 bilhões para a CSN, a título de "antecipações de pagamentos referentes à aquisição futura de minério de ferro e de serviços portuários de embarque de minério de ferro para exportação"; 6º) em 30/07/2009, a NAMISA incorporou a BIG JUMP; 7º) a NAMISA passou a amortizar despesa de amortização de ágio. Discorreu ainda a Fiscalização que teria havido simulação na constituição da BIG JUMP, vez que nunca teria existido de fato, vez que não tinha endereço ficto e não possuía capacidade operacional, tendo enquadrado a empresa como "pessoa jurídica inexistente de fato", com base no art. 41 da IN RFB nº 748, de 2007. Concluiu a autoridade fiscal: 6. Após elaborar todos os documentos para incorporação da BIG JUMP, empresa cuja existência foi simulada, a NAMISA, ao longo dos anos 2009, 2010 e 2011, reduziu, em centenas de milhões de reais, seu lucro real e sua base de cálculo da CSLL, a título de dedução de despesas de amortização do ágio irregularmente constituído pela BIG JUMP. A multa de ofício foi qualificada (150%): Fl. 6174DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.175 5 3. Conduta do sujeito passivo: Todos os documentos societários e contratos que envolveram a BIG JUMP, documentos assinados por várias pessoas, indicam para ela um endereço que nunca existiu. Ou seja, fazem parte de um engenhoso mecanismo de simulação praticado com o envolvimento de mais de duas pessoas para intencionalmente reduzir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL devidos pela CSN e pela NAMISA. 4. Consciência de conduta ilícita: As pessoas que assinaram os documentos societários da BIG JUMP tinham consciência de que fizeram declarações não verdadeiras nesses documentos, pois neles informaram ter realizado reuniões em endereço inexistente. Da mesma forma, dirigentes da CSN e da NAMISA declararam em diversos documentos que iriam fazer a venda de 40% do capital da mineradora, demonstrando saber que não se tratava da venda de apenas 0,7907% do capital de sua controlada, como, depois de efetivar a operação, declararam à Secretaria da Receita Federal do Brasil. Esses mesmos dirigentes também sabiam, portanto, que o ágio gerado na contabilidade da BIG JUMP era irregular, não podendo ser utilizado para reduzir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL da NAMISA nos anos subsequentes. 5. Resultado produzido: a simulação praticada efetivamente reduziu irregularmente as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL da CSN, no quarto trimestre de 2008, e da NAMISA nos anos calendário 2009, 2010 e 2011, com a decorrente redução do montante dos tributos e contribuições recolhidos pelas duas empresas. 6. Conclusão: a conduta das contribuintes, que envolveu atos praticados intencionalmente por várias pessoas, enquadrase perfeitamente nos tipos descritos nos artigos 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. Consequentemente, as infrações apuradas foram penalizadas com a multa qualificada de 150%. Foram lavrados autos de infração de IRPJ e CSLL para os anoscalendário de 2009, 2010 e 2011. Da Fase Contenciosa A contribuinte apresentou impugnação (efls. 5228 e segs.), que foi julgada improcedente pela 1ª Turma da DRJ/São Paulo I, nos termos do Acórdão nº 1647.176 (efls. 5710 e segs.), conforme ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/09/2009, 31/12/2009, 31/12/2010, 31/03/2011, 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA SOB A FORMA JURÍDICA DE INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL. CARACTERIZAÇÃO. RECHAÇO DA IMPUTAÇÃO DE GANHO DE CAPITAL. ÁGIO. “EMPRESA VEÍCULO”. NÃO Fl. 6175DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.176 6 COMPROVAÇÃO DE ELEMENTO CONDUCENTE À SIMULAÇÃO, FRAUDE, OU ABUSO DE DIREITO. POSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO DO ÁGIO. Se (i) aquisição de participação societária na pessoa jurídica A (impugnante nos autos sob nº 19515.723053/201272)houve, mas sob as vestes de subscrição/aumento de capital por parte de pessoa jurídica B; se (ii) dita pessoa jurídica (B), observada a densidade de sua concretude negocial/operativa, à testa de muitos (desde entes privados a até entes governamentais, que dela receberam influxos de sua própria vida), não pode ser tomada como peça engendrada a produzir o falso, a escamotear o real; se (iii), enfim, sob tais balizas, a pessoa jurídica A (controlada) e a pessoa jurídica C (impugnante nos autos sob nº 19515.723039/201279; controladora de A), e mais sete atores estrangeiros,partes independentes entre si, no espaço do princípio da autonomia de vontades, firmam contratos (de fornecimento de minério de ferro e prestação de serviços de porto) que, de per si considerados, e até então executados, merecem fé; se tudo assim consta dos autos sob atenção, não há espaço para a caracterização da simulação, da fraude, do abuso de direito, ou qualquer outra figura de estraneidade ao direito que possa vingar sobre os Contribuintes A ou C aqui considerados. Afastadas, pois, a imputação de ganho de capital contra a pessoa jurídica C, bem que a glosa de amortização de despesa de ágio contra a pessoa jurídica A, tudo ao limite do que presentemente investigado. Em razão de o crédito tributário exonerado ter ultrapassado o limite de alçada, foi efetuada remessa necessária. A 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção negou provimento ao recurso de ofício, nos termos do Acórdão nº 1401001.240 (efls. 5899/5938): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 ÁGIO GERADO A PARTIR DO AUMENTO E INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL DE EMPRESA NO BRASIL. INVESTIDOR ESTRANGEIRO. EMPRESA VEÍCULO DE INVESTIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO, FRAUDE OU ABUSO DE DIREITO. Quando um grupo de investidores estrangeiros consolida os investimentos em uma sociedade holding no Brasil para, a partir dela, promover os investimentos que pretende no país, o ágio gerado a partir dessa operação é real, não havendo que se falar em simulação por inexistência de referida holding. O ágio consolidado na holding, que posteriormente é incorporada pela empresa investida, é passível de dedução nos termos da lei. FRAUDE. SOCIEDADE HOLDING. ESTRUTURA OPERACIONAL. Fl. 6176DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.177 7 Não revela falta de capacidade operacional a ausência de estrutura, com conta de luz, água e telefone, para a sociedade que tem por objeto a atividade de holding, uma vez que o seu objeto social é o gerenciamento de investimentos em outras sociedades, o que não demanda, a princípio, estruturas normais às sociedades industriais e comerciais. DELIMITAÇÃO DA LIDE. INOVAÇÃO JURÍDICA DO LANÇAMENTO. O lançamento, enquanto ato administrativo que formaliza o crédito tributário, pode ser revisto durante o processo administrativo que o questiona, nos limites dos fundamentos em que foi lavrado. Não é possível, em sede recursal, inovar os fundamentos jurídicos que sustentam o lançamento. A PGFN interpôs recurso especial (efls. 5941/5959), discorrendo sobre o art. 386 do RIR/99 e que o ágio sempre deve ter como origem um propósito negocial, aquisição de investimento, e um substrato econômico, transação comercial. Assim, somente registros escriturais não seriam suficientes para lastrear a despesa, entendimento que seria corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários CVM por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007. Sobre o caso concreto, entende que o ágio amortizado pela NAMISA foi criado artificialmente, que as empresas que formam o consórcio estrangeiro que foram as reais adquirentes das ações da NAMISA, e que por isso não ocorreu a confusão patrimonial entre investida e investidora. O Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 5962/5967 deu seguimento ao recurso. Foram apresentadas contrarrazões pelo contribuinte (efls. 5974 e segs). Discorre que, como a PGFN, que não teria se insurgido contra a qualificação da multa de ofício, a matéria não poderia ser objeto de apreciação do recurso especial. Em seguida, protesta pela inépcia do recurso especial, que estaria se valendo de argumentos que não foram suscitados no TVF, vez que a acusação fiscal teria se restringido à inexistência de fato da BIG JUMP, enquanto que a PGFN pretende restabelecer o lançamento valendose de alegação diversa, qual seja, de que as reais adquirentes das ações da NAMISA seriam as empresas que formavam o capital estrangeiro e que a BIG JUMP seria uma "ponte" para concretizar a operação. Ou seja, estaria a PGFN incorrendo em inovação jurídica do lançamento. A seguir, entende que o recurso não poderia ser conhecido, por falta de demonstração analítica da divergência, por inconsistência no despacho de admissibilidade e pela ausência de similitude fática entre decisão recorrida e paradigma. No mérito, discorre que o ágio efetivamente existiu, que houve propósito negocial, que as partes envolvidas na operação eram independentes, que ocorreu efetivo dispêndio econômico, que as alegações da PGFN não foram acatadas pela turma recorrida porque implicariam em inovação do lançamento, que a BIG JUMP efetivamente existiu e teve finalidade, situação reconhecida tanto pela DRJ quanto pela turma ordinária do CARF. Ao final, discorre que, caso seja dado provimento ao recurso, que a matéria seja devolvida para a turma a quo apreciar a matéria "juros de mora sobre multa de ofício". É o relatório. Fl. 6177DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.178 8 Voto Conselheiro André Mendes de Moura A princípio, cumpre um registro, que apresento nas linhas seguintes, em razão dos intensos e saudáveis debates na sessão de julgamento, que inclusive ensejaram o pedido de declaração de voto da i. Conselheira Cristiane Silva Costa. Na sustentação oral, tomouse considerável tempo na arguição da inépcia do recurso especial da PGFN. Discorreu o patrono da Contribuinte que a PGFN estaria de valendo de argumentos que não foram apresentados pelo Termo de Verificação Fiscal, e que estaria incorrendo em inovação jurídica do lançamento. Manifesteime sobre o assunto, durante os debates empreendidos pelo Colegiado, inicialmente, suscitando uma questão de ordem processual. E, como os debates realizados na sessão de julgamento não são reduzidos a termo, considero relevante o registro no presente voto. Disse na sessão de julgamento que o mérito do recurso especial, e eventual nulidade, só podem ser apreciados caso seja superado o exame de admissibilidade, primeira etapa e estreito filtro processual, previsto no Regimento Interno do CARF, Anexo II, art. 67: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. § 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar a legislação tributária interpretada de forma divergente. (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) Sem se olvidar que o regimento interno do CARF tem previsão no art. 37 do Decreto nº 70.235, de 1972 (que dispõe sobre o processo administrativo fiscal): Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. Nesse contexto, caso não seja demonstrada divergência na interpretação da legislação tributária nos termos do regimento interno, consolidase coisa julgada administrativa, fazendo com que não seja possível reconhecer a nulidade de ofício durante a etapa do exame de admissibilidade. Apenas se superado o estreito filtro da admissibilidade, a cognição para a apreciação do mérito, e eventuais preliminares, se amplia. O art. 1034 do Código de Processo Civil dispõe com clareza: Fl. 6178DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.179 9 Art. 1.034. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial, o Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça julgará o processo, aplicando o direito. Parágrafo único. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial por um fundamento, devolvese ao tribunal superior o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado. (grifei) Na realidade, conforme a abalizada doutrina de NELSON NERY JÚNIOR e ROSA MARIA DE ANDRADE NERY 1, o dispositivo vem consagrar a súmula do STF nº 456 (O Supremo Tribunal Federal, conhecendo do recurso extraordinário, julgará a causa, aplicando o direito à espécie) e o Regimento Interno do STJ, art. 257 (No julgamento do recurso especial, verificarseá, preliminarmente, se o recurso é cabível. Decidida a preliminar pela negativa, a Turma não conhecerá do recurso; se pela afirmativa, julgará a causa, aplicando o direito à espécie). Demandouse, nos debates, pela aplicação do art. 330 do Código de Processo Civil: Art. 330. A petição inicial será indeferida quando: I for inepta; (...) De fato, tratase de dispositivo que discorre sobre regras gerais do processo de conhecimento. Ocorre que, em se tratando de recurso especial e extraordinário, o mesmo código estabelece, com clareza, que são recursos de natureza única, que guardam peculiaridades próprias, com exame de admissibilidade específico, não aplicável à petição inicial e tampouco aos recursos ordinários. A petição inicial submetese a requisitos de recebimento gerais, aplicáveis a todos as peças inaugurais de uma fase processual. Da mesma forma, os recursos ordinários submetemse a requisitos de admissibilidade gerais. Contudo, os recursos de natureza extraordinária tem requisitos de admissibilidade específicos, próprios à sua natureza. E o conhecimento dos recursos de natureza extraordinária tem que superar, inevitavelmente, a apreciação de tais quesitos. Assim, disse que, apenas se, superado o exame de admissibilidade, adentrandose na etapa seguinte, quando se aplica o direito, em que o julgador tem plena liberdade de firmar sua convicção, tanto que não fica restrito aos fundamentos das partes, que se pode, ao identificar a situação de vício insanável, reconhecer eventual nulidade (como a inépcia). Voltando para o contencioso administrativo, de rito mais simplificado do que o civil, são de menor quantidade os requisitos de admissibilidade a serem cumpridos. 1 JÚNIOR, Nelson Nery. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 2173. Fl. 6179DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.180 10 No recurso voluntário, interposto junto às turmas ordinárias do CARF, pode se dizer que o requisito de admissibilidade para sua devida interposição é a tempestividade, e a não ocorrência de preclusão processual (matéria não discutida na primeira instância, DRJ, que por isso transitou em julgado). E observese que, caso o recurso seja intempestivo, o colegiado não conhece do recurso, ainda que se tenha arguição de nulidade. Veja: o requisito de admissibilidade prevalece, na ordem de apreciação, sobre a preliminar de nulidade. Repito: não se conhece do recurso por intempestividade, aplicação preponderante de requisito de admissibilidade sobre preliminar de nulidade. Situação ainda mais nítida no caso do recurso especial, em que, além dos requisitos aplicáveis no recurso voluntário, tem requisito especial. Disse que o Colegiado da CSRF não poderia reconhecer, para o recurso especial, de ofício, nulidade, antes que se demonstrasse o atendimento do requisito especial para a admissibilidade: apresentação de acórdão paradigma com interpretação da legislação tributária divergente daquela da decisão recorrida. Isso porque o Colegiado da CSRF não é terceira instância administrativa. Tratase de instância especial, que vai dizer o direito em relação a matéria cujo entendimento tenha sido divergentes nas turmas ordinárias. Por isso, antes de tudo, cabe a apreciação do requisito de admissibilidade próprio da natureza do recurso especial interposto ao CARF: divergência de entendimento entre decisões de turmas ordinárias. Apenas se superado tal exame, exclusivo para o recurso especial, aí sim, cabe a apreciação de eventual preliminar de nulidade e, depois, do mérito. Passo à análise, portanto, da admissibilidade do recurso especial da PGFN. Admissibilidade. No recurso especial a PGFN apresenta como acórdão paradigma o de nº 1402001.404. A Contribuinte em contrarrazões aduz que não teria sido demonstrada a divergência entre decisão recorrida e paradigma. No caso tratado pelo paradigma, tratase da aquisição da TECVAL pelo grupo LUPATECH. Transcrevo o contexto apresentado nas contrarrazões (efls. 5994): De fato, é a realidade retratada no relatório do acórdão apontado pela recorrente como paradigma, do qual consta: i) que a TCV foi "criada formalmente por Lupatech em 05/08/2008, tendo sido seu Contrato Social arquivado na Junta Comercial do RS em 11/09/2008"; ii) que em 20/11/2008 "a TCV adquiriu formalmente Tecval, que se tornou subsidiária integral daquela"; Fl. 6180DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.181 11 iii) que "com a incorporação de TCV por Tecval, também em 20/11/2008, Tecval transformouse em subsidiária integral de Lupatech". Como se pode observar, foi criada a empresa TCV, de duração efêmera, sem funcionários, sem sede, para se consumar a aquisição da TECVAL. Vale transcrever maiores detalhes da operação, disponíveis no voto vencedor da decisão recorrida (efls. 4290), que reproduz na íntegra as conclusões do voto da DRJ (efls. 4092): Os argumentos trazidos pela Impugnante não se mostram consistentes a ponto de alterar minha convicção sobre sua total inoperância. Os fatos são evidentes: TCV não possuía sede, estrutura operacional, empregados e tampouco atividade operacional. A Impugnante alega que teria operado e a comprovação seria a aquisição de Tecval! Ora, não é crível que se possa crer nessa versão. Os valores aportados na constituição de TCV foram justamente os necessários para a aquisição de Tecval. Nenhum centavo a mais. Aliás, alguns recursos não entregues diretamente por TCV na aquisição de Tecval tiveram caminho sui generis. Após saírem de Lupatech, transitarem por MNA, chegaram às mãos dos sócios de Tecval e posteriormente foram contabilizados em Tecval como empréstimos de sócios. Tudo absolutamente garantido por Lupatech, em negociação complexa, mas que, mediante inúmeros contratos de mútuos, penhor e outros negócios jurídicos, demonstram que a realidade foi uma só: Lupatech adquiriu Tecval e, por algum motivo, decidiu fazer um longo caminho de seus recursos até as mãos dos sócios de Tecval Vale registrar: Lupatech cria TCV, a TCV mediante aporte faz aquisição da TECVAL com sobrepreço, consumando estrutura societária no qual Lupatech controla TCV, TCV controla TECVAL. Na sequência, TECVAL incorpora TCV. A TECVAL passa a ser aproveitar de ágio decorrente da valorização de suas próprias ações (efls. 3720 do Relatório da Ação Fiscal): O protocolo e Justificação da Incorporação fez referência ao ágio que Tecval possuía com fundamento em sua própria rentabilidade futura (decorrente da incorporação de TCV em 20/11/2008), o qual estava sendo amortizado pela mesma, e que fora transferido para Lupatech em decorrência da incorporação. No caso em debate nos presentes autos, apesar de não ser idêntico ao paradigma, guarda determinadas semelhanças que não podem ser desconsideradas. A CSN cria a BIG JUMP. A BIG JUMP, mediante aporte recebido dos investidores estrangeiros, adquire participação da NAMISA, com sobrepreço, consumando estrutura societária no qual CSN controla BIG JUMP, BIG JUMP controla NAMISA. Na sequência, NAMISA incorpora BIG JUMP. A NAMISA passa a ser aproveitar de ágio decorrente da valorização de suas próprias ações. Em ambos os casos, discorrese sobre a artificialidade de uma empresa, considerada como holding: no recorrido, BIG JUMP, no paradigma, TCV. Fl. 6181DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.182 12 Os baluartes de ambas as autuações, recorrido e paradigma, pautaramse em suporte fático e em argumentos consonantes, na perspectiva da cognição da aplicação dos art. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. E a interpretação dada à legislação tributária pelo acórdão recorrido e pelo acórdão paradigma foi divergente. Vale transcrever excerto do voto do acórdão recorrido (efls. 5926/5927): A Autoridade Fiscal fundamenta a inexistência da Big Jump pelo fato de não existir a sala 85A no 3º andar do edifício situado no número 247 da Rua da Consolação (endereço constante do seu contrato social) no período em que a Big Jump existiu. A inexistência da referida sala revelaria, portanto, falta de capacidade operacional, já que não tendo sequer uma sede real, a empresa não tinha capacidade operacional para realizar seu objeto social, o que faz com que ela pudesse ser considerada ‘pessoa jurídica inexistente de fato’ (fl. 5.076). É, portanto, por esses fundamentos que foram glosadas as despesas de ágio. Notase que o incômodo da Autoridade fiscal é em virtude de ter sido a Big Jump a personalização de um contrato, com o simples propósito de agrupar os investidores estrangeiros e estruturar as participações societárias da ora Recorrida por aqueles sócios. Neste momento, fazse a mesma indagação do julgador a quo: algum problema? Alguma dificuldade no fato de a Big Jump não ter propósito operacional (vejase bem, dissese propósito operacional e não propósito negocial)? Enfim, quanto à referência feita pela PGFN quanto ao "acórdão 1202 001.100", do qual protesta a Contribuinte, basta uma leitura atenta do recurso especial para perceber que se trata de um erro de transcrição, que não tem o condão de prejudicar a interposição da peça recursal. No decorrer do recurso, resta evidente que o acórdão paradigma em evidência é o de nº 1402001.404, com ementa devidamente transcrita atendendo aos requisitos do RICARF. Nesse sentido, não há reparos a fazer no Despacho de Admissibilidade de e fls. 5962/5967, razão pela qual voto no sentido de conhecer o recurso da PGFN. Superado o exame da admissibilidade, faço exame de preliminar de inépcia suscitada pela Contribuinte, decorrente do fato de que a PGFN, no recurso especial, não teria feito menção em relação à empresa considerada como veículo, BIG JUMP, aspecto suscitado pela Fiscalização. Mais uma vez, em razão dos debates realizados na sessão de julgamento sobre o assunto, teço considerações complementares àquelas apresentadas no voto, para registrar minha posição externada durante a sessão de julgamento, vez que, como já dito, não há transcrição dos debates no Colegiado. Fl. 6182DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.183 13 A Contribuinte extraiu do Termo de Verificação Fiscal interpretação própria, endossa pela decisão recorrida, no qual o único fundamento da autuação seria no sentido de que teria havido simulação na constituição da empresa BIG JUMP. Com a devida vênia, discordo frontalmente. O Termo de Verificação Fiscal (efls. 5076/5103) de vinte e oito páginas não pode ser interpretado de maneira tão superficial. Discorre com profundidade sobre todos os fatos da reorganização societária, contesta a criação da BIG JUMP, e conclui que a operação não se enquadrou nos requisitos previstos no art. 385 e 386 do RIR/99 (prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997). O que se observa, com clareza, é que a autoridade autuante destaca que a transação, de fato, não envolveu a BIG JUMP, que, por ser empresa sem substância, de "papel", foi utilizada para mera passagem dos recursos necessários à aquisição do investimento, tendo sido simulada a sua constituição e funcionamento, e que os recursos foram direcionados, na realidade, para a CSN. Por outro lado, discorre a PGFN que não se consumou a necessária confusão patrimonial entre a real investidora (BRAZIL JAPAN IRON e POSCO), e o investimento (NAMISA). Ora, precisamente pelo fato de a BIG JUMP não ter participado do processo de reorganização societária, que não se consumou a confusão patrimonial entre real investidora (BRAZIL JAPAN IRON e POSCO) e investida (NAMISA). Não há que se falar em inépcia, cujas hipóteses estão previstas no CPC: Art. 330. (...) I for inepta; acórdão(...) § 1º Considerase inepta a petição inicial quando: I lhe faltar pedido ou causa de pedir; II o pedido for indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico; III da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV contiver pedidos incompatíveis entre si. Não há falta de pedido ou causa de pedir, tampouco pedido indeterminado, tampouco pedidos incompatíveis, e muito menos se falar em narração de fatos que não decorre logicamente da conclusão. Dos fatos narrados pelo Termo de Verificação Fiscal, apresentou a PGFN sua interpretação, que, definitivamente, não incorreu em nenhum conflito lógico com a conclusão. Enfatizei que a matéria que se discute é a glosa de despesas de amortização de ágio prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, e é precisamente o que discorre a PGFN em sua peça processual. Fl. 6183DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.184 14 Enfim, o fato de a decisão recorrida ter interpretado a autuação fiscal de maneira diferente, no sentido de que o único fundamento da autuação teria sido a simulação da empresa BIG JUMP, em nada altera o conteúdo das peças presentes nos autos e o Termo de Verificação Fiscal. Isso porque as interpretações dadas pelas partes ou pela decisão recorrida não vinculam o presente Colegiado. E, mediante apreciação do caso concreto, tem liberdade o julgador de apreciar os fundamentos da autuação e sua evolução do decorrer da fase contenciosa. Não fica limitado estritamente aos fundamentos aduzidos pelas partes. Pelo contrário, pode e deve aplicar o direito, o que lhe permite, inclusive, interpretar as razões do Termo de Verificação Fiscal e a legislação tributária de maneira diversa daquela defendida pelas partes ou pela decisão recorrida. Precisamente sob tal perspectiva, supero a preliminar processual. Passo ao exame do mérito. Mérito 1. Conceito e Contexto Histórico Podese entender o ágio como um sobrepreço pago sobre o valor de um ativo (mercadoria, investimento, dentre outros). Tratandose de investimento decorrente de uma participação societária em uma empresa, em brevíssima síntese, o ágio é formado quando uma primeira pessoa jurídica adquire de uma segunda pessoa jurídica um investimento em valor superior ao seu valor patrimonial. O investimento em questão são ações de uma terceira pessoa jurídica, que são avaliadas pelo método contábil da equivalência patrimonial. Ou seja, a empresa A detém ações da empresa B, avaliadas patrimonialmente em 60 unidades. A empresa C adquire, junto à empresa A, as ações da empresa B, por 100 unidades. A empresa C é a investidora e a empresa B é a investida. Interessante é que emergem dois critérios para a apuração do ágio. Adotandose os padrões da ciência contábil, apesar das ações estarem avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, deveriam ainda ser objeto de majoração, ao ser considerar, primeiro, se o valor de mercado dos ativos tangíveis seria superior ao contabilizado. Assim, supondose que, apesar do patrimônio ter sido avaliado em 60 unidades, o valor de mercado seria de 70 unidades, considerase para fins de apuração 70 unidades. Segundo, caso se constate a presença de ativos intangíveis sem reconhecimento contábil no valor de 12 unidades, temse, ao final, que o ágio, denominado goodwill, seria a diferença entre o valor pago (100 unidades) e o valor de mercado mais intangíveis (60 + 10 + 12 = 82 unidades). Ou seja, o ágio passível de aproveitamento pela empresa C, decorrente da aquisição da empresa B, mediante atendimento de condições legais, seria no valor de 18 unidades. Fl. 6184DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.185 15 Ocorre que o legislador, ao editar o DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, resolveu adotar um conceito jurídico para o ágio próprio para fins tributários. Isso porque positivou no art. 20 do mencionado decretolei que o denominado ágio poderia ter três fundamentos econômicos, baseados: (1) no sobrepreço dos ativos; e/ou (2) na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido e/ou (3) no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, posteriormente, os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, autorizaram a amortização do ágio nos casos (1) e (2), mediante atendimento de determinadas condições. Na medida em que a lei não determinou nenhum critério para a utilização dos fundamentos econômicos, consolidouse a prática de se adotar, em praticamente todas as operações de transformação societária, o reconhecimento do ágio amparado exclusivamente no caso (2): expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. O ágio passou a ser simplesmente a diferença entre o custo de aquisição e o valor patrimonial do investimento. Assim, voltando ao exemplo, a empresa C, investidora, ao adquirir ações da empresa investida B avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, pelo valor de 100 unidades, poderia justificar o sobrepreço de 40 unidades integralmente com base no fundamento econômico de expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. Na realidade, a legislação tributária ampliou o conceito do goodwill. E como darseia o aproveitamento do ágio? Em duas situações. Na primeira, quando a empresa C realizasse o investimento, por exemplo, ao alienar a empresa B para uma outra pessoa jurídica. Assim, se vendesse a empresa B para a empresa D por 150 unidades, apuraria um ganho de 50 unidades. Isso porque, ao patrimônio líquido da empresa alienada, de 60 unidades, seria adicionado o ágio de 40 unidades. Assim, a base de cálculo para apuração do ganho de capital seria a diferença entre 150 e 100 unidades, perfazendo 50 unidades. Na segunda, no caso de a empresa C (investidora) e a empresa B (investida) promoverem uma transformação societária (incorporação, fusão ou cisão), de modo em que passem a integrar uma mesma universalidade. Por exemplo, a empresa B incorpora a empresa C, ou, a empresa C incorpora a empresa B. Nesse caso, o valor de ágio de 40 unidades poderia passar a ser amortizado, para fins fiscais, no prazo de sessenta meses, resultando em uma redução na base de cálculo do IRPJ e CSLL a pagar. Naturalmente, no Brasil, em relação ao ágio, a contabilidade empresarial pautouse pelas diretrizes da contabilidade fiscal, até a edição da Lei nº 11.638, de 2007. O novo diploma norteouse pela busca de uma adequação aos padrões internacionais para a contabilidade, adotando, principalmente, como diretrizes a busca da primazia da essência sobre a forma e a orientação por princípios sobrepondose a um conjunto de regras detalhadas baseadas em aspectos de ordem escritural 2. Nesse contexto, houve um realinhamento das normas contábeis no Brasil, e por consequência do conceito do goodwill. Em síntese, ágio contábil passa (melhor dizendo, volta) a ser a diferença entre o valor da aquisição e o valor 2 IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de contabilidade das sociedades por ações: (aplicável às demais sociedades), 1ª ed. São Paulo : Editora Atlas, 2008, p. 31. Fl. 6185DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.186 16 patrimonial justo dos ativos (patrimônio líquido ajustado pelo valor justo dos ativos e passivos). E recentemente, por meio da Lei nº 12.973, de 13/05/2014, o legislador promoveu uma aproximação do conceito jurídicotributário do ágio com o conceito contábil da Lei nº 11.638, de 2007, além de novas regras para o seu aproveitamento, que não são objeto de análise do presente voto. Enfim, resta evidente que o conceito do ágio tratado para o caso concreto, disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, alinhase a um conceito jurídico determinado pela legislação tributária. Tratase, portanto, de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. 2. Aproveitamento do Ágio. Hipóteses Apesar de já ter sido apreciado singelamente no tópico anterior, o destino que pode ser dado ao ágio contabilizado pela empresa investidora merece uma análise mais detalhada. Há que se observar, inicialmente, como o art. 219 da Lei nº 6.404, de 1.976 trata das hipóteses de extinção da pessoa jurídica: Art. 219. Extinguese a companhia: I pelo encerramento da liquidação; II pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. E, ao se tratar de ágio, vale destacar, mais uma vez, os dois sujeitos, as duas partes envolvidas na sua criação: a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida, sendo a investidora é aquela que adquiriu a investida, com sobrepreço. Não por acaso, são dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). Podese dizer que os eventos (1) e (2) guardam correlação, respectivamente, com os incisos I e II da lei que dispõe sobre as Sociedades por Ações. 3. Aproveitamento do Ágio. Separação de Investidora e Investida No primeiro evento, tratase de situação no qual a investidora aliena o investimento para uma terceira empresa. Nesse caso, o ágio passa a integrar o valor patrimonial do investimento para fins de apuração do ganho de capital e, assim, reduz a base Fl. 6186DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.187 17 de cálculo do IRPJ e da CSLL. A situação é tratada pelo DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Assim, o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa foi objeto de alienação ou liquidação. 4. Aproveitamento do Ágio. Encontro entre Investidora e Investida Já o segundo evento aplicase quando a investidora e a investida transformaremse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). O ágio pode se tornar uma despesa de amortização, desde que preenchidos os requisitos da legislação e no contexto de uma transformação societária envolvendo a investidora e a investida. Contudo, sobre o assunto, há evolução legislativa que merece ser apresentada. Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Fl. 6187DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.188 18 Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão 3. 3 Ver Acórdão nº 1101000.841, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara do CARF, da relatora Edeli Pereira Bessa., p. 15. Fl. 6188DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.189 19 Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 1997 4, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI5 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. 4 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 5 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 6189DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.190 20 Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista 6 que trabalhou na edição da MP 1.602, de 1997: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.602, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. E qual foram as novidades trazidas pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997? 6 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18024, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 6190DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.191 21 Primeiro, há que se contextualizar a disciplina do método de equivalência patrimonial (MEP). Isso porque o ágio aplicase apenas em investimentos sociedades coligadas e controladas avaliado pelo MEP, conforme previsto no art. 384 do RIR/99. O método tem como principal característica permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. As variações no patrimônio líquido da pessoa jurídica investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela investidora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) Resta nítida a separação dos patrimônios entre investidora e investida, inclusive as repercussões sobre os resultados de cada um. A investida, pessoa jurídica independente, em razão de sua atividade econômica, apura rendimentos que, naturalmente, são por ela tributados. Por sua vez, na medida em que a investida aumenta seu patrimônio líquido em razão de resultados positivos, por meio do MEP há uma repercussão na contabilidade da investidora, para refletir o acréscimo patrimonial realizado. A conta de ativos em investimentos é debitada na investidora, e, por sua vez, a contrapartida, apesar de creditada como receita, é excluída na apuração do Lucro Real. Com certeza, não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. E esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da Fl. 6191DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.192 22 aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). (grifei) Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, conforme já dito, por ser a motivação adotada pela quase totalidade das empresas, todos os holofotes dirigemse ao fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. Fl. 6192DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.193 23 E, finalmente, passamos a apreciar os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, consolidados no art. 386 do RIR/99. Como já dito, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. 5. Amortização. Despesa. Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). Fl. 6193DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.194 24 § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99 7. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. 6. Despesa Em Face de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. 7 Art. 324. Poderá ser computada, como custo ou encargo, em cada período de apuração, a importância correspondente à recuperação do capital aplicado, ou dos recursos aplicados em despesas que contribuam para a formação do resultado de mais de um período de apuração (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 15, § 1º). § 1º Em qualquer hipótese, o montante acumulado das quotas de amortização não poderá ultrapassar o custo de aquisição do bem ou direito, ou o valor das despesas (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 2º). § 2º Somente serão admitidas as amortizações de custos ou despesas que observem as condições estabelecidas neste Decreto (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 5º). § 3º Se a existência ou o exercício do direito, ou a utilização do bem, terminar antes da amortização integral de seu custo, o saldo não amortizado constituirá encargo no período de apuração em que se extinguir o direito ou terminar a utilização do bem (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 4º). § 4º Somente será permitida a amortização de bens e direitos intrinsecamente relacionados com a produção ou comercialização dos bens e serviços (Lei nº 9.249, de 1995, art. 13, inciso III). Fl. 6194DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.195 25 Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especialmente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, envolvendo aportes de substanciais recursos para, em questão de dias ou meses, serem objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial do suporte fático, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. 7. Hipótese de Incidência Prevista Para a Amortização Realizada análise do ágio sob perspectiva do gênero despesa, cabe prosseguir com a apreciação da legislação específica que trata de sua amortização. Vale recapitular os dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida (investida) com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). E repetir que estamos, agora, tratando da segunda situação. Cenário que se encontra disposto nos arts. 7º e 8º da Lei n° 9.532, de 1997, e nos arts. 385 e 386 do RIR/99, do qual transcrevo apenas os fragmentos de maior interesse para o debate: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): Fl. 6195DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.196 26 I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) (grifei) Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 8. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. 8 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 6196DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.197 27 Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. Fl. 6197DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.198 28 A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre o real investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI9, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. 9 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 6198DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.199 29 Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveita se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Registrese que a consumação do aspecto temporal não se confunde com o termo inicial do prazo decadencial. Isso porque, partindose da construção da norma conforme operação no qual "Se A é, B deveser", onde a primeira parte é o antecedente, e a segunda é o consequente, a consumação da hipótese de incidência localizase no antecedente. Ou seja, "Se A é", indica que a hipótese de incidência, no caso concreto, mediante aperfeiçoamento dos aspectos pessoal, material e temporal, concretizouse em sua plenitude. Assim, passase para a etapa seguinte, o consequente ("B deveser"), no qual se aplica o regime de tributação a que encontra submetido o contribuinte (lucro real trimestral ou anual), efetuase o lançamento fiscal com base na repercussão que as glosas despesas de ágio indevidamente amortizadas tiveram na apuração da base de cálculo, e, por consequência, determinase o termo inicial para contagem do prazo decadencial. 8. Consolidação Considerandose tudo o que já foi escrito, entendo que a cognição para a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos pela norma encontramse atendidos e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado. A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Fl. 6199DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.200 30 Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Caso superada a primeira verificação, cabe prosseguir com a segunda verificação, relativa a aspectos de ordem formal, qual seja, se a demonstração que o contribuinte arquivar como comprovante de escrituração prevista no art. 20, § 3º do Decreto Lei nº 1.598, de 27/12/1977 (1) existe e (2) se mostra apta a justificar o fundamento econômico do ágio. Há que se verificar também (3) se ocorreu, efetivamente, o pagamento pelo investimento. Enfim, referese a terceira verificação a constatar se toda a operação ocorreu dentro de padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes, distante de situações que possam indicar ocorrência de negociações eivadas de ilicitude, que poderiam guardar repercussão, inclusive, na esfera penal, como nos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990. 9. Sobre o Caso Concreto Feitas as considerações, passo a analisar o caso concreto. O contexto trata de negociação no qual investidores japoneses (grupo BRAZIL JAPAN IRON) e coreanos (grupo POSCO) adquiriram o capital NAMISA (Contribuinte), subsidiária da CSN. Vale apreciar a sequência dos fatos: 1º) A CSN, que controlava a NAMISA (99,99%), criou a empresa BIG JUMP; 2º) a BIG JUMP recebeu em 30/12/2008 o valor de R$7,40 bilhões das empresas BRAZIL JAPAN IRON e POSCO; 3º) no mesmo dia, a BIG JUMP repassou R$86,56 milhões para a CSN, a título de compra de 0,7907% do capital da NAMISA, e repassou R$7,28 bilhões para a NAMISA, a título de capitalização da empresa; 4º) parcela do preço correspondente a R$4.093.701.875,14 foi registrada pela BIG JUMP como ágio fundamentado em rentabilidade futura, amparado em laudo, decorrente da aquisição com sobrepreço de participação de 40% da participação societária da NAMISA; Fl. 6200DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.201 31 5º) no mesmo dia, a NAMISA transferiu os R$7,28 bilhões para a CSN, a título de "antecipações de pagamentos referentes à aquisição futura de minério de ferro e de serviços portuários de embarque de minério de ferro para exportação"; 6º) em 30/07/2009, a NAMISA incorporou a BIG JUMP; 7º) a NAMISA passou a amortizar despesa de amortização de ágio, escriturada no valor de R$4,1 bilhões. São os fatos. Diante de todo o escrito no presente voto, a operação em análise não passa pela primeira verificação (vide item 8 do voto). Quanto ao aspecto pessoal, cabe verificar quem é efetivamente a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida. No pólo da pessoa jurídica investidora, encontramse os grupos BRAZIL JAPAN IRON e POSCO, que efetuaram o aporte de R$7,40 bilhões na BIG JUMP, para que a BIG JUMP viesse a adquirir a NAMISA, com pagamento de sobrepreço, por ter sido realizado em valor superior ao do patrimônio líquido. É incontestável que foram os grupos BRAZIL JAPAN IRON e POSCO que efetivamente acreditaram na mais valia do investimento (NAMISA), coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura do investimento a ser adquirido e desembolsou os recursos para a aquisição (vide item 7 do voto). Por sua vez, a pessoa jurídica investida foi a NAMISA, cuja participação societária foi adquirida em valor superior ao do patrimônio líquido. Ocorre que o evento de incorporação deuse entre a BIG JUMP e NAMISA. Ou seja, sem a presença do BRAZIL JAPAN IRON e POSCO, os reais investidores. Por consequência, tampouco se consumou o encontro de contas entre a investidora (BRAZIL JAPAN IRON e POSCO) e a investida (NAMISA), não atendido, portanto, aspecto material (vide item 7 do voto). Nesse sentido, o aproveitamento da despesa de amortização de ágio promovido pela Contribuinte deuse sem respaldo legal, vez que não se consumou a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8·da Lei nº 9.532, de 1997. Vale registrar que a autuação fiscal relatou que a operação deuse, de fato, entre CSN (alienante) e BRAZIL JAPAN IRON e POSCO (adquirentes), e discorre sobre a artificialidade da BIG JUMP. Vale transcrever excertos do Relatório de Verificação Fiscal: 3. A NAMISA, através de esclarecimentos prestados e de documentos apresentados alega, em síntese, que as empresas fizeram o seguinte (Anexos 1 a 14): a) A BRAZIL JAPAN IRON e a POSCO entregam, em 30 de dezembro de 2008, recursos em moeda estrangeira imediatamente convertidos para R$ 7,40 bilhões na BIG JUMP. A BIG JUMP, no mesmo dia: repassa R$ 86,56 milhões à CSN, alegando se tratar da compra de apenas 0,7907% das ações da Fl. 6201DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.202 32 NAMISA; e repassa R$ 7,28 bilhões à NAMISA, supostamente a título de capitalização (Anexo 4, fls. 19 a 23, Anexo 12, fls. 52 a 71 e Anexo 13, fls. 1 a 16); b) A NAMISA, ainda no mesmo dia, transfere os R$ 7,28 bilhões recebidos, para a CSN (Anexo 4, fls. 19 a 23) a título de "antecipações de pagamentos referentes à aquisição futura de minério de ferro e de serviços portuários de embarque de minério de ferro para exportação". 4. Essa transferência imediata feita pela NAMISA para sua controladora, por si só, demonstra que, na verdade, quem se capitalizou de fato foi a CSN, eis que o capital recebido dos compradores estrangeiros não permaneceu sequer um dia na conta da NAMISA. (...) 3.4 CONCLUSÃO 1. Os documentos, fatos e fotos que fazem parte dos Anexos ao presente termo demonstram que: a) A CSN, em 2008, demonstrou publicamente sua intenção de venda de 40% da participação que detinha na NAMISA. Além disso, anunciou que havia efetivado tal venda por US$ 3,12 bilhões exatamente para os investidores que declarou que estavam interessados na compra da participação que pretendia vender. b) A BIG JUMP, cuja criação e existência foi simulada, foi a peça central na engenhosa operação desenvolvida para gerar irregularmente ágio que, depois, seria utilizado para reduzir significativamente as bases de cálculo de IRPJ e da CSLL da NAMISA em 2009, 2010, 2011, 2012 e 2013, e para esconder o real valor do ganho de capital obtido pela CSN na venda que ela mesma anunciou que realizou. c) A NAMISA assinou contratos que, além de terem sido contaminados pela simulação praticada na constituição e operação da BIG JUMP, apresentam nítido desequilíbrio em favor da CSN, sua controladora. Em outras palavras, os contratos assinados como "antecipações de compra de minério de ferro e de serviços portuários de embarque de minério de ferro para exportação", por prazos que chegam a 34 anos, foram também componentes do engenhoso processo dissimulante criado. (grifei) Observase, com clareza, que a autoridade autuante destaca que a transação, de fato, não envolveu a BIG JUMP, que, por ser empresa sem substância, de "papel", foi utilizada para mera passagem dos recursos necessários à aquisição do investimento, e que os recursos foram direcionados, na realidade, para a CSN. Vale repetir as constatações do Termo de Verificação Fiscal: Fl. 6202DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.203 33 4. Após ser criada, apenas no papel, a BIG JUMP foi utilizada para: a) Receber, em 30 de dezembro de 2008, R$ 7,40 bilhões entregues pelas empresas japonesa BRAZIL JAPAN IRON e coreana POSCO, para nesse mesmo dia: repassar R$ 86,56 milhões à CSN, alegando se tratar da compra de apenas 0,7907% do capital da NAMISA; e repassar R$ 7,28 bilhões à NAMISA, supostamente por estar lhe capitalizando. b) Ser, em 2009, incorporada documentalmente pela NAMISA. 5. Depois de receber a transferência bancária da BIG JUMP, a NAMISA, no mesmo dia 30 de dezembro de 2008, transferiu todos os R$ 7,28 bilhões para a CSN, como "antecipações de pagamentos referentes à aquisição futura de minério de ferro e de serviços portuários de embarque de minério de ferro para exportação", sem sequer requisitar garantias, fiança bancária ou seguro para o risco de perda desse enorme montante de capital. Constatase, com nitidez, a construção artificial do suporte fático, mediante utilização de empresa de caráter estritamente formal, para que a operação societária pudesse se amoldar à hipótese de incidência de despesa de amortização do ágio (item 6 do voto). Movimentações na mesma data ou em datas próximas, utilização de empresa sem nenhuma substância (BIG JUMP), com o deliberado intuito de fabricar uma despesa com repercussão na base tributável. O recurso para aquisição da NAMISA, no mesmo dia 30 de dezembro de 2008, "passeou", primeiro, pela BIG JUMP, segundo, para a NAMISA e, terceiro, finalmente, foi para quem deveria ter sido destinado, a CSN, a alienante. Ocorre que o "passeio" que não se presta a materializar uma despesa dedutível. Completamente desvirtuada situação no qual a NAMISA, investida, aproveitase, ela mesma, do sobrepreço pago por suas próprias ações, para deduzir despesa. Repito a observação registrada no início do voto: não há que se falar em inovação do critério jurídico, ou inépcia do recurso especial, suscitada pela Contribuinte em contrarrazões, porque a PGFN não discorreu especificamente sobre a empresa BIG JUMP. O que se observa, com clareza, é que a autoridade autuante destaca que a transação, de fato, não envolveu a BIG JUMP, que, por ser empresa sem substância, de "papel", foi utilizada para mera passagem dos recursos necessários à aquisição do investimento, e que os recursos foram direcionados, na realidade, para a CSN. Tratase de fundamento que acolho no presente voto, independente de ter sido suscitado pela PGFN, porque o julgador não se encontra vinculado aos argumentos das partes do processo. Nesse sentido, deve ser restabelecida a autuação fiscal em relação à glosa de despesa de amortização de ágio. Como a turma a quo negou provimento ao recurso de ofício, não foram apreciadas matérias dependentes da manutenção da autuação principal, como qualificação de multa de ofício e inaplicabilidade de juros de mora sobre multa de ofício. Portanto, cabe o retorno dos autos à turma a quo, para apreciar tais questões. Enfim, cabe registro a respeito das alegações da Contribuinte, em contrarrazões, a respeito da matéria qualificação da multa de ofício. Fl. 6203DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.204 34 Isso porque, da mesma maneira que a Contribuinte, em contrarrazões, pugna pelo retorno dos autos para a turma a quo para que seja apreciada a matéria sobre aplicação de juros de mora sobre multa de ofício, sob pena de supressão de instância, cabe a mesma lógica para determinar a apreciação da qualificação de multa de ofício. Como a matéria qualificação de multa de ofício não foi apreciada pela turma a quo, vez que foi dado provimento ao recurso de ofício, a matéria não poderia ser devolvida ao presente Colegiado. Só depois de consumada a decisão da turma a quo sobre a matéria qualificação de multa de ofício, aí sim, poderá ser devolvida ao presente Colegiado, momento em que caberá à parte sucumbente (PGFN ou Contribuinte), se lhe for conveniente, interpor recurso especial sobre a questão. Portanto, diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento parcial ao recurso da PGFN, para restabelecer a autuação fiscal e determinar o retorno dos autos para a DRJ para analisar as matérias não apreciadas no Acórdão nº 16 47.176. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa Com a devida vênia, divirjo do entendimento do Relator com relação ao conhecimento e mérito do recurso especial, razão pela qual apresento declaração de voto. Conhecimento O recurso especial da Procuradoria não merece conhecimento por duas principais razões, devidamente questionadas pela Recorrida em suas contrarrazões, quais sejam: (i) inépcia do recurso e (ii) falta de similitude fática. Fl. 6204DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.205 35 Conhecimento: Inépcia do recurso especial Lembro que o lançamento tributário teve o seguinte fundamento a “simulação” de existência da BIG JUMP, conforme Termo de Verificação Fiscal que acompanhou o Auto de Infração: 4.2 – DA NULIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO SIMULADO 1. O artigo 167, da Lei nº 10.406/2002 – Código Civil Brasileiro – determina que: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma (...) 2. Os contratos e documentos citados no presente termo contêm a declaração não verdadeira da existência da BIG JUMP, centro de toda a operação de venda de ações da NAMISA. Assim, de acordo com o artigo 167 do Código Civil, são nulos todos os negócios jurídicos praticados com o envolvimento da BIG JUMP, subsistindo o que se dissimulou, ou sejam o real ganho de capital obtido pela CSN e a inexistência de ágio a ser deduzido pela NAMISA depois da incorporação documental da BIG JUMP. 4.3 – DA GLOSA DA DESPESA REFERENTE AO ÁGIO CONSTITUÍDO IRREGULARMENTE (...) 2. É claro que o benefício previsto no artigo 386 do RIR/99 só pode ser usufruído quando uma empresa incorpora outra regularmente constituída. Ele não se aplica à incorporação de uma empresa cuja criação e existência foi simulada, como foi o caso da BIG JUMP. 3. Diante disso, cabe à Secretaria da Receita Federal do Brasil glosar as despesas de amortização do ágio constituído através da criação e existência simulada da BIG JUMP e cobrar, com multa e juros, o IRPJ e a CSLL que deixaram de ser recolhidas pela NAMISA. Diante destes fatos, a Delegacia da Receita Federal (DRJ) cancelou o lançamento, ao constatar que: (i) não houve qualquer irregularidade na constituição da Holding (BIG JUMP), sendo legítima sua criação, tanto pelo objetivo buscado, quando pela própria redação dos artigos 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997 que autorizaria empresas não operacionais; (ii) não foi provada, pelo meio procedimental correto, a inexistência da BIG JUMP, e, por fim, (iii) identifica a existência de “vida empresarial” desta Holding (BIG JUMP), arrolando dezenas de operações desta pessoa jurídica. É o teor da decisão da DRJ: 30. Ou seja, Big Jump haveria de ser tãosó a efêmera personificação d’um contrato. Viria ao mundo sem propósito operacional (considerada a ambiência, algo afeto à extração, ao beneficiamento, à distribuição de minério de ferro, e/ou à fabricação/comercialização de produtos daí derivados, como se vê da caracterização de cada um dos atores estrangeiros que, enfim, figuraram como seus acionistas, e relativamente à própria CSN ou à NAMISA; fls. 4.223/4.225 do caso CSN). Em uma Fl. 6205DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.206 36 linha, a pessoa jurídica Big Jump seria, apenas, pedaço de papel, como sói acontecer com o meio físico dos contratos, papel também. 31. Perguntase: algum problema? Alguma dificuldade em Big Jump não ter propósito operacional (vejase bem, dissese propósito operacional, e não propósito negocial)? 32. O que normalmente se nomeia por empresa veículo, de papel, de prateleira, de per si, não é ponto de partida para a construção d’um discurso tendente a desaguar na conclusão da simulação, do abuso de direito, da fraude à lei, e locuções correlatas. (...) O argumento da empresa veículo, de papel, de prateleira vem, se o caso, para confirmar, ainda mais confirmar, uma história que se está a contar (e, obviamente, a demonstrar) no sentido do engodo. E engodo, até a presente linha desse Voto, não se teve. E assim se crê por uma singela razão, a dizer: é a própria legislação, melhor e mais preciso ainda, é a própria Lei, que estimulou e estimula a criação de um talvez fantasma que responde pelo epíteto de empresa veículo, de papel, de prateleira. Ou vaise negar que a discussão que se coloca nesses autos, pela via do permissivo posto nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997 (...)? 33. Isso considerado, estimase que empresas veículo, de papel, de prateleira, não estão a cumprir qualquer atividade operacional, a demandar, de ordinário, a articulação de fatores de produção (mão de obra, capital, recursos naturais, capacidade tecnológica, capacidade empresarial), articulação essa voltada para resolver o clássico problema econômico fundamental (combinar recursos que são escassos para a satisfação de necessidades humanas ilimitadas, isso na cadeia produçãodistribuiçãoconsumo). Empresas veículo servem, isto sim e de imediato, à causa dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (normativos afirmados à época das privatizações e também confirmados depois). O abuso pode permear a espécie? Até pode (e essa Turma de Julgamento já enfrentou casos que tais). Ocorre que, presentemente, há legitimidade no expediente: justificase operacionalmente a criação d’uma empresa nacional que, aqui no país, está a coordenar/integrar a vontade, o interesse d’outros sete investidores estrangeiros para, em uníssono, firmar tratativas (aí incluída a consequente produção de documentário técnicocontratualburocrático) em face de NAMISA e CSN, e mais outros particulares e entes governamentais (verseá na sequência, aliás). 34. De toda forma e particularmente, mesmo que se jogue às traças o argumento de linhas acima – que, com venia, se crê um evidente teleológico pulsante nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, se nada, com consistência, estimula algum senão –, sobre Big Jump, acresçase: 34.a. Se, sem disputa, Fiscalização e Contribuinte (CSN), assentam sobre a data de encerramento de Big Jump em julho/2009, quando essa última foi incorporada pela NAMISA, e o respectivo procedimento fiscal inaugurouse com a ciência do termo de fl. 02 (caso CSN), assim havida em 25/11/2010 (fl. 03 Fl. 6206DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.207 37 do caso CSN), então e de fato, quando da diligência de que resultaram nas fotos de fls. 4.930/4.951 (caso CSN), nada se prova sobre uma possível inexistência d’uma sala 85A à época da vida de Big Jump (de passagem, ditas fotos não estão datadas). Demais disso, constatouse a existência do nº 247 à rua Consolação, do edifício aí presente (Henrique Toledo Lara), d’um seu terceiro andar, onde, não menos relevante dizer, operava/opera o escritório de advocacia Machado Meyer, Sendacz e Opice Advogados que, de seu turno, detinha poderes de representação de Big Jump. É a própria Fiscalização que o diz (fl. 5.076 do caso CSN): (...) Considerada uma tal circunstância, não seria muito, já que se foi a tanto, considerarse a hipótese de abertura de diligência com o só fito de se intimar dito escritório de advocacia a responder por Big Jump. Isso tudo sem dizer ainda que o escopo do art. 41 da Instrução Normativa RFB nº 748, de 2007, chamado a lume pela Fiscalização, rende espaço processual próprio (leiase, contraditório) para se chegar à conclusão da pessoa jurídica inexistente de fato. E contraditório sobre esse específico ponto dele não se tem notícia nos presentes autos. Note e por inteiro a subseção III, arts. 41 a 44, da IN RFB nº 748, de 2007, e retirese de lá a conclusão da necessidade d’um contraditório específico e voltado ao objeto pessoa jurídica inexistente de fato (um obrigatório, quando da cassação; outro facultativo, se aprouver ao Contribuinte a reabilitação da inscrição junto ao CNPJ): 34.b. A revelar vida empresária, Big Jump (os documentos referenciados a seguir o são por cópia, e estão relacionados na ordem em que aparecem nos autos do caso CSN): i. Em fevereiro/2009, recebe “Proposta para prestação de serviços profissionais de finanças” por parte de “Experience – gestão empresarial”, cujo objeto seria a “elaboração em planilhas Excel do balanço patrimonial e da demonstração do resultado da Big Jump de cada um dos períodos a findar em 31 de março, 30 de Junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de 2009 [e, também, aquele findo em 31 de dezembro de 2008, mas em outra proposta] em conformidade com os US GAAP”. (fls. 1.447/1.457, caso CSN); ii. Em junho/2009, contrata “Itochu Brasil S.A.” para, grande linha, prestarlhe serviço de assessoria contábilfinanceirojurídicoadministrativa (fls. 1.459/1.464, caso CSN); iii. Em abril/2009 e junho/2009, recebe “Proposta de serviços profissionais” de “KPMG Auditores Independentes” (fls. 1.465/1.500, caso CSN); iv. Em março/2009, fecha contrato com “Libercon Consultoria para Estrangeiros Ltda.” pela prestação de serviço “consistente na elaboração de pedido de autorização de trabalho estrangeiro em caráter permanente a favor de HIRONORI MAKANAE” (fls. 1.501/1.503); v. Em junho/2009, qualificada como parte interessada, figura em contrato firmado entre, d’um lado, “Machado, Meyer, Sendacz e Opice – Advogados” e, d’outro, “Itochu Corporation, JFE Steel Corporation, Kobe Steel, Ltd., Nippon Steel Corporation, Nisshin Steel Co., Ltd., Nissin Steel Co., Ltd., Sumitomo Metal Industries, Ltd., Pohang Iron and Fl. 6207DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.208 38 Steel Company – POSCO”, o qual teve por objeto a prestação de assessoria legal “related to the acquisition of the stake into NAMISA, acquisition of Casa da Pedra mine and other related matters as evidenced by engagement letters dated May 27, 2008 and January 27, 2009 […]” (fls. 1.504/1.507, caso CSN); vi. Em março/2009, contrata “NK Auditoria e Consultoria Contábil S/C Ltda.” para lhe prestar serviços contábilfiscais (escrituração, cumprimento de obrigações fiscais em face da RFB e municípios; fls. 1.508/1.510, caso CSN); (...) 35. Isso tudo considerado, e nem o figurino de empresa veículo, de papel, de prateleira bem caberia para Big Jump. Difícil mesmo seria exigir mais concretude negocial/operativa do que aquela acima listada. Diante da remessa de ofício ao CARF, foi confirmada a decisão da DRJ, por entender a Turma que o único fundamento do Auto de Infração seria a inexistência da BIG JUMP, fundamento já rechaçado pela primeira instância. Nesse sentido, reproduzo trecho do voto do então Relator, acolhido por maioria de votos no Colegiado: As questões analisadas no presente recurso de ofício serão adstritas aos fundamentos do auto de infração e da decisão que cancelou o mesmo. Vêse que o fundamento da glosa do ágio está intrinsicamente relacionado com a premissa da inexistência da Big Jump, que decorre da suposta simulação na alienação das participações societárias da Recorrida para a CSN, conforme foi melhor detalhado na análise do PTA nº 19515.723039/201279 (...) A Autoridade Fiscal fundamenta a inexistência da Big Jump pelo fato de não existir a sala 85A no 3º andar do edifício situado no número 247 da Rua da Consolação (endereço constante de seu contrato social) no período em que a Big Jump existiu. A inexistência da referida sala revelaria, portanto, falta de capacidade operacional, já que não tendo sequer uma sede real, a empresa não tinha capacidade operacional para realizar seu objeto social, o que faz com que ela pudesse ser considerada ‘pessoa jurídica inexistente de fato’ (fl. 5.076) É, portanto, por esses fundamentos que foram glosadas as despesas de ágio. Notase que o incômodo da Autoridade Fiscal é em virtude de ter sido a Big Jump a personalização de um contrato, com o simples propósito de agrupar os investidores estrangeiros e estruturar as participações societárias da ora Recorrida por aqueles sócios. (...) Com a devida vênia, não me parece que a falta revelar falta de capacidade operacional a ausência de estrutura, como conta de luz, água e telefone, para a sociedade que tem por objeto a atividade de holding. Fl. 6208DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.209 39 Pareceme ter razão a autoridade julgadora a quo quando relaciona documentos que revelam a vida empresária da Big Jump. (fls. 5.2562.5290) (...) À ocasião, diante de memoriais apresentados pela Procuradoria da Fazenda Nacional, a Turma explicitou que não conhecia do argumento Procuradoria a respeito da ausência de confusão patrimonial, conforme voto do Relator, acolhido pela maioria do Colegiado. Vale colacionar trecho deste voto do Relator, exConselheiro Alexandre Antonio Alkmin Teixeira: Finalmente, salientase que os argumentos trazidos pela Procuradoria da Fazenda Nacional em contrarrazões apresentadas (recebidas por este relator como memorial, por tratarse de Recurso de Ofício), acerca da ausência de confusão patrimonial entre investidora e investida e a intempestividade do laudo apresentado não serão objeto de análise desse relator, já que tais argumentos não constam no Auto de Infração ora analisado. Assim, sob pena de se refazer o Auto de Infração em fundamento diverso, tais questionamentos acerca da dedutibilidade do ágio ora discutido não podem ser analisados. Não obstante a clareza do voto do Relator, a Procuradoria insistiu – em razões de recurso especial – no enfrentamento de tema que não foi objeto de lançamento tributário (não podendo se inovar posteriormente a tal ato administrativo), como tampouco analisado pela Turma Ordinária (justamente porque não era fundamento do Auto de Infração). Reproduzo trechos do recurso especial, demonstrando a desconexão deste recurso com o quanto julgado pela Turma Ordinária e, ainda, com o próprio lançamento que originou o processo administrativo, verbis: Com efeito a fiscalização demonstrou que as reais adquirentes das ações da NAMISA foram as empresas que formavam o consórcio estrangeiro e que a BIG JUMP serviu apenas como uma “ponte” na concretização dessa operação. (...) (fls. 4 do recurso) Assim, a transferência do ágio para empresa veículo somente admite a dedutibilidade do ágio quando houver a confusão patrimonial entre a investida e a real investidora. Como se verifica, no que se refere à indevida amortização de ágios artificialmente gerados com exclusivo propósito de economia tributária, não há reparos a serem feitos no lançamento. (fls. 18 do recurso) (grifamos) A eventual falta de confusão patrimonial com “reais investidoras” não foi causa do lançamento tributário, como tampouco analisada pelo acórdão recorrido. Diante disso, a inovação pretendida pela Recorrente não pode ser conhecida por esta Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, vislumbrandose a inépcia do recurso especial, preliminar impeditiva do seu conhecimento. Pondero que a inépcia é tratada pelo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015) como causa de indeferimento da petição inicial, verbis: Fl. 6209DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.210 40 Art. 330. A petição inicial será indeferida quando: I for inepta; acórdão(...) § 1o Considerase inepta a petição inicial quando: I lhe faltar pedido ou causa de pedir; II o pedido for indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico; III da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV contiver pedidos incompatíveis entre si. A falta de lógica entre a narração dos fatos e a conclusão é evidente causa de inépcia da petição inicial, conforme artigo 330, §1º, inciso III, supra colacionado. No caso destes autos, há evidente incompatibilidade entre as razões do recurso especial e seu pedido (reforma do acórdão recorrido), decorrendo a necessário reconhecimento de sua inépcia, para que lhe seja negado conhecimento. Ora, se o acórdão recorrido não conheceu da alegação da “ausência de confusão patrimonial”, como é possível a reforma deste acórdão com fundamento nesta matéria (“confusão patrimonial”). Mais ainda: não há sequer uma linha no recurso especial tratando do único tema que teria originado o lançamento tributário, que é a inexistência da BIG JUMP. O tema “inexistência da BIG JUMP” foi o fundamento do lançamento tributário e, exatamente por isso, compõe as decisões de primeira instância (DRJ) e segunda instância (Turma Ordinária do CARF). A alteração do fundamento – por meio de recurso especial pela Procuradoria implica em ilegítima modificação do fundamento do Auto de Infração, o que é defeso por meio de decisões administrativas. Acrescento que é aplicável o CPC de forma supletiva e subsidiária ao processo administrativo fiscal, como expressamente dispõe o artigo 15 deste diploma processual: Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. A inexistência de norma especial no regramento de processo administrativo que regule a inépcia do recurso especial autoriza a aplicação do CPC para negativa de seguimento ao recurso. Sobreleva considerar, ainda, que a inépcia do recurso é usualmente enfrentada pelo Superior Tribunal de Justiça como causa de seu não conhecimento, como no acórdão cuja ementa transcrevemos a seguir: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INÉPCIA. HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA RECURSAL. MAJORAÇÃO. ART. 1.021, § 4º, CPC/2015. INCIDÊNCIA. Fl. 6210DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.211 41 1. O agravo em recurso especial, interposto contra decisão denegatória de processamento de recurso especial, que não impugna, especificamente, os fundamentos por ela utilizados não deve ser conhecido. 2. Agravo interno no agravo em recurso especial não conhecido, com majoração de honorários e aplicação de multa nos termos do art. 1.021, § 4º, do CPC/2015. (Superior Tribunal de Justiça, Agravo Interno no Agravo em Recurso Especial nº 776.545, Relatora Ministra Nancy Andrighi, DJe de 16/03/2017) O Supremo Tribunal Federal também reconhece a inépcia de recursos para negarlhes seguimento, como se verifica em algumas ementas a seguir reproduzidas: Embargos de declaração em embargos de declaração em agravo regimental em recurso extraordinário com agravo. 2. Recurso extraordinário intempestivo. Incidência da Súmula 284. 3. Razões desconexas e dissociadas dos fundamentos do acórdão embargado. Inépcia. 4. Caráter protelatório. Reiteração. Elevação da multa imposta. 5. Embargos de declaração rejeitados. (STF, ARE 944.777, DJe 10/03/2017) EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. OMISSÃO, OBSCURIDADE E CONTRADIÇÃO NÃO DEMONSTRADOS. EMBARGOS DECLARATÓRIOS NÃO CONHECIDOS. I – Petição de embargos declaratórios na qual não se aponta a existência de omissão, obscuridade ou contradição no acórdão embargado. Consequência: não conhecimento da impugnação. II – Revelase inepto o recurso no qual não são observados os pressupostos processuais indispensáveis à interposição ou as razões se dirigem contra decisão formal e substancialmente diversa do que decidido (RE 142.466AgR, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 26/6/1992). III – Embargos de declaração não conhecidos. (STF, Tribunal Pleno, Rel. Ministro Ricardo Lewandowski, DJe de 17/05/2016) Em sentido similar, a ilegitimidade de eventual recorrente autoriza seja negado seguimento ao recurso especial – por esta Câmara Superior de Recursos Ficais – com a aplicação das normas do CPC no processo administrativo tributário. Tal fato confirma a necessária aplicação do CPC na hipótese dos autos, para não conhecimento do recurso especial, diante da sua inépcia. Fl. 6211DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.212 42 Por tais razões, entendo que há inépcia do recurso especial, concluindo pela negativa de seu conhecimento. Conhecimento: Falta de Similitude Fática O recurso especial ainda não deveria ser conhecido diante da falta de similitude fática entre os acórdãos paradigma e recorrido. Com efeito, a Recorrente indicou como paradigma o acórdão nº 1402001.404. Há questões principais que distinguem a situação fática analisada pelo acórdão recorrido e aquela julgada pelo paradigma, distinções que foram bastante relevantes para justificar a diferença na aplicação da lei tributária e, assim, impedem o conhecimento do recurso especial. As distinções são as seguintes: (i) o lançamento no caso dos presentes autos teve por fundamento a inexistência da BIG JUMP (Holding), inexistência que foi totalmente afastada pela DRJ e Turma Ordinária; (ii) a existência da Holding (BIG JUMP) foi justificada pela consolidação do investimento de 7 empresas estrangeiras – como decidiram a DRJ e Turma prolatora do acórdão recorrido; e, finalmente, (iii) a BIG JUMP – mesmo sendo uma Holding teve “vida empresarial”, conforme operações descritas pela DRJ, em decisão reproduzida pela Turma Ordinária. Em contrapartida, o acórdão paradigma está fundado em situação em que (i) a Holding (TCV) só teve recursos aportados por uma pessoa jurídica (Lupatech), sem justificativa para sua criação; (ii) esta Holding não teve “vida empresarial”, pois, como identifica a Turma julgadora, só realizou uma operação, que foi a aquisição da Tecval. Passo a reproduzir os trechos dos acórdãos para elucidar a distinção fática sintetizada acima. A existência da BIG JUMP, mencionada pelo acórdão recorrido, foi tratada no tópico anterior, ao qual ora me reporto. Acrescento, nesse sentido, trechos da decisão da DRJ reproduzida no acórdão recorrido: “De fato, quando da diligência de que resultaram as fotos e fls. 4.930/4.951 (caso CSN) nada se prova sobre uma possível inexistência d’uma sala 85ª à época da vida da Big Jump (de passagem, ditas fotos não estão datadas). Demais disso, constatouse a existência do nº 247 à Rua da Consolação (...) d’um terceiro andar, onde, não menos relevante dizer, operava/opera o escritório de advocacia Machado Meyer, Sendacz e Opice Advogados que, de seu turno, detinha poderes de representação de Big Jump. É a própria Fiscalização que o diz(...) Isso tudo sem dizer ainda que o escopo do art. 41 da Instrução Normativa RFB nº 748, de 2007, chamado a lume pela Fiscalização, rende espaço processual próprio (leiase, contraditório) para chegar à conclusão da pessoa jurídica inexistente de fato. E contraditório sobre esse específico ponto dele não se tem notícia nos presentes autos” Fl. 6212DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.213 43 Além disso, lembro trecho da ementa do acórdão recorrido, que trata da necessidade de consolidação do investimento – de 7 empresas estrangeiras na BIG JUMP: ÁGIO GERADO A PARTIR DO AUMENTO E INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL DE EMPRESA NO BRASIL. INVESTIDOR ESTRANGEIRO. EMPRESA VEÍCULO DE INVESTIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO, FRAUDE OU ABUSO DE DIREITO. Quando um grupo de investidores estrangeiros consolida os investimentos em uma sociedade holding no Brasil para, a partir dela, promover os investimentos que pretende no país, o ágio gerado a partir dessa operação é real, não havendo que se falar em simulação por inexistência de referida holding. O ágio consolidado na holding, que posteriormente é incorporada pela empresa investida, é passível de dedução nos termos da lei. Com efeito, no caso destes autos, foi identificado que uma Holding (BIG JUMP) consolidou o investimento de 7 empresas estrangeiras, o que justificaria a sua existência. Consta da decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento, conforme trecho devidamente reproduzido no acórdão recorrido (fls. 5928 dos autos) – e, que compõe o decisório da Turma Ordinária nos termos do artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/1999: Empresas veículo servem, isto sim e de imediato, à causa dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (...) O abuso pode permear a espécie? Até pode (e esta Turma de Julgamento já enfrentou casos que tais). Ocorre que, presentemente, há criação d’uma empresa nacional que, aqui no país, está a coordenar/integrar a vontade, o interesse d’outros sete investidores estrangeiros para, em uníssono, firmar tratativas (aí incluída a consequente produção de documentário técnicocontratual burocrático) em face da NAMISA e CSN, e mais outros particulares e entes governamentais. (grifamos) Por fim, e não menos relevante, o acórdão recorrido reproduzi trechos da decisão da DRJ que identificam dezenas de operações que atestariam a “vida empresarial” da BIG JUMP. O item 34.b da decisão da DRJ enumera estes fatos, sendo integralmente reproduzido pelo acórdão Recorrido: 34.b. A revelar vida empresária, Big Jump (os documentos referenciados a seguir o são por cópia, e estão relacionados na ordem em que aparecem nos autos do caso CSN): (...) Nesse contexto, conclui a DRJ que a BIG JUMP não seria uma empresa veículo de papel, pois “difícil memso seria exigir mais concretude negocial”: 35. Isso tudo considerado, e nem o figurino de empresa veículo, de papel, de prateleira bem caberia para Big Jump. Difícil mesmo seria exigir mais concretude negocial/operativa do que aquela acima listada. Como acima citado, o acórdão paradigma (1402001.404) trata de situação distinta, eis que a TCV (Holding) teve a integralidade de seus recursos aportados por uma pessoa jurídica (Lupatech), sem que a Turma Ordinária tenha vislumbrado a justificativa para a criação da Holding. Ademais, esta Holding só realizou uma operação, que foi a aquisição da Tecval A esse respeito, destaquese do voto vencedor, lavrado pelo Conselheiro Frederico Augusto Gomes Alencar: Fl. 6213DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.214 44 Da análise das peças dos autos, particularmente do relatório fiscal, da impugnação e do recurso apresentados, alguns fatos são incontroversos a respeito da TCV: i) teve vida efêmera, mais precisamente 108 dias (de 05/08/2008 a 20/11/2008); ii) a única operação realizada foi a aquisição de Tecval, tendo sido, ao final, por esta incorporada; iii) não possuía empregados; iv) não possuía sede própria, estabelecendose no mesmo endereço de Lupatech; v) identidade de diretores entre TCV e Lupatech; vi) os recursos para aquisição de Tecval foram oriundos, em sua totalidade, de Lupatech, ainda que por meio indireto, utilizandose da controlada Metalúrgica Nova Americana (MNA). O voto vencedor, no acórdão paradigma, revela as razões pelas quais entende pela manutenção do lançamento: Outro aspecto merece destaque. Percebese que TCV foi criada com o único intuito de adquirir Tecval e logo em seguida ser por esta incorporada. Aliás, a citação de TCV no Memorando de Entendimentos antes mesmo de sua constituição demonstra que sua existência, de fato, era irrelevante, uma vez que a aquisição, na realidade, seria realizada por Lupatech, dirigida e representada pelos mesmos diretores que constariam como tais na futura constituição de TCV. Não há como aceitar os argumentos contrários trazidos pela Impugnante no sentido de ser necessária a criação de TCV para, depois de 108 dias, justificar a extinção dessa mesma empresa, por incorporação, baseada no objetivo de simplificação da estrutura societária do grupo econômico. (...) Ademais, em nenhum momento a Impugnante esclarece o porquê da criação de TCV. A pseudo justificativa trazida aos autos pode ser considerada um argumento sem conteúdo. Explico. O que vem a significar uma empresa veículo para aquisição de participação? Tratase, a meu ver, de explicação que nada esclarece. A Impugnante deveria demonstrar algo bem simples: por que não fez a aquisição de Tecval diretamente por Lupatech, sem a criação de TCV? A alegação de que necessitava manter as operações segregadas em nada interfere em minha conclusão: bastaria adquirir Tecval diretamente, sem contudo, incorporála! Repisese: não há um só elemento objetivo trazido pela Impugnante que justifique o porquê da criação de TCV, empresa efêmera, que realizou um único negócio durante sua existência (a aquisição de Tecval), servindo, sem sombra de dúvidas, para antecipar a amortização de ágio. Outra finalidade deveria ser comprovada pela Impugnante, que não se desincumbiu de seu ônus probatório. (grifamos) Percebase que no acórdão paradigma a inexistência de justificativa para criação da TCV (Holding) foi determinante para manutenção do lançamento. Nos termos da decisão da DRJ – reproduzida no acórdão paradigma : “não há um só elemento objetivo trazido pela Impugnante que justifique o porquê da criação de TCV, empresa efêmera, que realizou um único negócio durante sua existência (a aquisição da Tecval) (...)” Nesse contexto, vislumbro que inexiste similitude fática que possa justificar o conhecimento do recurso especial. A decisão final divergente das Turmas prolatoras do acórdão recorrido e paradigma se justifica diante dos absolutamente distintos elementos analisados pelos Colegiados. Portanto, voto pelo não conhecimento do recurso especial. Mérito Fl. 6214DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.215 45 Mesmo que se superasse as preliminares de não conhecimento, para enfretamento da dedutibilidade do ágio por razões distintas daquela constante em lançamento tributário e decisões administrativas destes autos, não há como ser provido o recurso especial da Procuradoria. Afinal, os autos tratam de ágio efetivamente dedutível, por cumprir todos os requisitos legais. Nesse sentido, primorosa a declaração de voto do Conselheiro Antonio Bezerra Neto, em acórdão recorrido: Quando se está diante de uma sociedade que tem por objeto a atividade de Holding a capacidade operacional é de menos relevante que o autuante deveria se apegar. O propósito negocial da criação da empresa, sim, isso é relevante. Mas de fato, o propósito negocial existiu como bem colocou a decisão de piso (...) Posto isso, cabe salientar que tenho tomado alguns critérios objetivos e relevantes para admissão da existência / aproveitamento do ágio, entre eles se destacam: as partes serem não relacionadas, como é o caso; haver dispêndio econômico na formação da aquisição do ágio, como foi o caso; em relação a situação de ser ou não empresa veículo, tenho tomado nos meus votos a seguinte linha de orientação que muito se assemelha com a linha também muito bem conduzida pela DRJ: não é pelo simples fato de ser efêmera que a operação estará a priori “contaminada”, mas ser efêmera gera uma necessidade maior do contribuinte explicar o motivo relevante dessa transitoriedade (...) e como se viu (...) tinha também como propósito negocial o de assegurar a todos os investidores (que eram muitos) que os outros participariam nas condições previamente acordadas (...) outra condição importante que costumo adotar é que a dedução autorizada pelo artigo 386 do RIR/99 decorre de haver um encontro no mesmo patrimônio da participação societária adquirida com ágio pago por esta participação. (...) Também considero atendida essa condição no caso concreto, uma vez que foi a BIG Jump que fez o aporte de capital a partir do qual surgiu o ágio e ao tempo em que foi incorporada posteriormente. Portanto, também com relação ao mérito, divirjo do Relator por reconhecer a legitimidade do ágio para fins de sua dedutibilidade. Conclusão Por tais razões, conduzo meu voto por não conhecer do recurso especial da Procuradoria. Voto, ainda, por negarlhe provimento, mantendo o acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 6215DF CARF MF Processo nº 19515.723053/201272 Acórdão n.º 9101002.592 CSRFT1 Fl. 6.216 46 Declaração de Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araújo Não tendo sido apresentada no prazo regimental10, considerase não formulada a declaração de voto. 10 RICARF, Anexo II, art. 63: (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 6216DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10480.900736/2012-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 06 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3401-001.023
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
(assinado digitalmente)
Robson José Bayerl - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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decisao_txt : Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
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COMPENSAÇÃO. ALARGAMENTO. Recorrente RODOBENS CAMINHÕES PERNAMBUCO LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Trata o presente processo administrativo de PER que pretende obter reconhecimento de direito creditório das contribuições por suposto pagamento a maior. O sistema informatizado da Receita Federal emitiu o Despacho Decisório em processamento automatizado indeferindo o pedido, afirmando que o valor do DARF de onde viria o crédito já estava totalmente comprometido em quitação de débito constante de declaração prestada pelo contribuinte ao Fisco. A contribuinte manifestou inconformidade, explicando que: 1. A autoridade de administração e a autoridade fiscal não tomaram conhecimento das razões da contribuinte para seu direito, nem se aprofundaram em sua análise, nem buscaram investigar os fatos; a contribuinte não foi intimada a explicar os fundamento do seu pedido antes do despacho decisório; RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 80 .9 00 73 6/ 20 12 -2 0 Fl. 236DF CARF MF Processo nº 10480.900736/201220 Resolução nº 3401001.023 S3C4T1 Fl. 3 2 2. seu direito repousa no fato de que ela indevidamente tinha incluído na base de cálculo do tributo receitas (tais como receitas financeiras, e outras), face a declaração de inconstitucionalidade pelo STF para o § 1º do artigo 3º da Lei 9.718/1998; pois a base de tributação deve se cingir às receitas de faturamento pela venda de mercadorias e da prestação de serviços. 3. Pede a reunião dos vários processos administrativos que tratam da mesma matéria/tributo, mudando apenas os períodos de apuração, para serem julgados na mesma ocasião. Os Julgadores de 1º piso não acolheram o pedido de reunião dos vários processos. Eles também consideraram improcedente o recurso da contribuinte, entendendo pela insuficiência de provas pelo alegado. Seria da contribuinte o ônus de provar o direito objeto do seu pedido, no momento da interposição da Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão, ressalvadas as exceções legalmente previstas, nos termos do art. 16, caput, III e §4°, do Decreto 70.235/72, conforme consta do voto da decisão recorrida. Concluíram, os Julgadores a quo, pelo não reconhecimento do direito creditório, nos termos do Acórdão 11041.899. Inconformada, a contribuinte ingressou com recurso voluntário por meio do qual repisou as alegações apresentadas na manifestação de inconformidade, e acrescentou as seguintes: ● não é verdade que houve insuficiência de provas, pois apresentou planilha, balancete e livro obrigatório da contabilidade da contribuinte; ● a autoridade fiscal não questionou a efetividade dos pagamentos em discussão; ● não pode prevalecer o entendimento esposados pelos julgadores de 1º piso de que houve preclusão para a juntada de provas; isso fere o disposto na letra "c" do § 4º do artigo 16 do Decreto n. 70.235, de 1972 (apresentar provas que se destine a contrapor fatos e razões posteriormente trazidas aos autos). Cita doutrina, acórdãos e jurisprudências; ● a falta de retificação da DCTF não deve servir de justificativa para não se analisar e se deferir o direito da contribuinte; ● Não procede o entendimento dos Julgadores a quo de que a declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei n. 9.718/1998 proferida pelo STF não seja de observação obrigatória no processo administrativo fiscal; ● a Verdade Material deve prevalecer, e a autoridade deve realizar um exame completo dos fatos. É o relatório Fl. 237DF CARF MF Processo nº 10480.900736/201220 Resolução nº 3401001.023 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Robson José Bayerl, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3401000.984, de 25 de janeiro de 2017, proferida no julgamento do processo 10480.900040/201201, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela Resolução (3401000.984): "Tempestivo o Recurso e atendidos os demais requisitos de admissibilidade. Temos diante de nós mais um caso de despacho decisório processado automaticamente, sem que haja qualquer intervenção humana para rever o seu teor e a eventual existência de razões para questionar sua conclusão. É freqüente, nessas situações, que a contribuinte somente compreenda totalmente a situação quando recebe a decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento mantendo o indeferimento eletrônico inicial, geralmente por falta de provas ou de contra argumentações por parte da contribuinte. Nessa toada, há os que se escudam no instituto da preclusão probatória para justificar a impossibilidade de reverter as negativas até então impostas à contribuinte. Coerente com minhas propostas de votação anteriores em situações semelhantes, baseado no argumento de que o princípio da verdade material deve prevalecer, relativizando as formalidades e os institutos preclusivos e assemelhados, e no argumento de que não é do interesse público maior praticar a injustiça fiscal qual seja, a manutenção no Tesouro do pagamento indevido , é que proponho que se tome providências para garantir substantivamente o contraditório (e não apenas formalmente) e para se verificar a verdade do alegado pelas partes. As teses que esposo divergem das postas no acórdão de 1º piso: (a) para uma visão absoluta do ônus probatório e do instituto da preclusão probatória, argumento em favor de que prevaleça a Verdade Material, e que os julgadores do processo administrativo possam agir e determinar providências nessa direção, aliás como expus em outros votos quando fiz alusão aos modelos trazidos pelo novo CPC; (b) que a negativa em pedidos de restituição e/ou compensações motivada pela inexistência de créditos líquidos e certos passe a considerar que a liquidez e certeza possam ser demonstradas ao longo do processo administrativo, não se limitando ao que o instruiu antes de sua chegada à instância de julgamento. Ressalto que a contribuinte, segundo que foi relatado, em sua primeira contestação havia juntado balancetes e planilhas, o que poderia ser no mínimo considerado princípio de prova. Fl. 238DF CARF MF Processo nº 10480.900736/201220 Resolução nº 3401001.023 S3C4T1 Fl. 5 4 Por isso, tendo em vista que a administração tributária de jurisdição não apreciou as razões do suposto direito creditório, proponho a este Colegiado a conversão do julgamento em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo. Que se dê ciência à contribuinte desta decisão e também do relatório conclusivo e da informação fiscal resultantes da diligência, e prazo de 30 dias para ela se manifestar em cada uma dessas intimações." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, converto o julgamento deste processo em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl Fl. 239DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10070.000362/89-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 18 00:00:00 UTC 1994
Ementa: IRPJ - LUCRO LÍQUIDO - NÃO INCLUSÃO DO
SALDO CREDOR DA CORREÇÃO MONETÁRIA E DAS VARIAÇÕES MONETÁRIAS ATIVAS
É de manter-se a tributação imposta quando, constatada a falta de inclusão no lucro líquido do exercício do saldo credor da conta de Correção Monetária, bem assim das variações monetárias ativas - decorrentes de empréstimos concedidos - quando a Empresa não logra comprovar que, achando-se, real e efetivamente, em fase pré-operacional, fazia jus aos benefícios concedidos. pela Portaria 475/78.
Recurso a que se nega provimento
Numero da decisão: 107-01.635
Decisão: ACORDAM os Membros da Sétima Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em NEGAR PROVIMENTO ao Recurso interposto, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Nome do relator: Mariangela Reis Varisco
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Recorrida : Delegacia da Receita Federal em Cuiabá -MT IRPJ - LUCRO LÍQUIDO - NÃO INCLUSÃO DO SALDO CREDOR DA CORREÇÃO MONETÁRIA E DAS VARIAÇÕES MONETÁRIAS ATIVAS Éde manter-se a tributação imposta quando, consta- tada a falta de inclusão no lucro líquido do exercício do saldo credor da conta de Correção Monetária, bem assim das variações monetárias ativas - decor- rentes de empréstimos concedidos - .quando a Empresa não logra comprovar que, achando-se, real e efetivamente, em fasepré-operacional, fazia jus aos beneficios concedidos. pela Portaria 475/78. Recurso a que se nega provimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes Autos de Recurso interposto por MINE- RAÇÃO SANTA MARTHA S/A. -RELATORA Sala das Sessões - ACORDAM os Membros da Sétima Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em NEGAR PROVIMENTO ao Recurso interposto, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. ) • •......•.•. ------------------------------------. ,..,.. PROCESSO N°.: 10070/000.362/89-90 MINISTÉRIO DA FAZENDA PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Acórdão nO107-1,635 ~l~~(O£4 LUCIANA DE CASTRO CORTEZ - PROCURADORA DA FAZENDA NACIONAL 2 Visto em: Sessão de: 2 7 JAN 1995 Participaram, ainda, do presente julgamento os seguintes Conselheiros: CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES, JONAS FRANCISCO DE OLIVEIRA, NATANAEL MARTINS e DÍCLER DE ASUNÇÃO. Ausentes o Conselheiro MAXIMINO SOTERO DE ABREU e, por motivo justificado, o Conselheiro EDUARDO OBINO CIRNE LIMA .JT PROCESSO N°.: 10070/000.362/89-90 MINISTÉRIO DA FAZENDA PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Acórdão nO107-1.635 Recurso nO.: 105.066 Recorrente: MINERAÇÃO SANTA MARTHA S/A. RELATÓRIO 3 MINERAÇÃO SANTA MARTHA S/A., empresa jurisdicionada à DRF de Cuiabá - MT, recorre a este Conselho da Decisão do Titular da Delegacia da Receita Federal naquela Cidade, que indeferiu integralmente seu pleito contido na Impugnação de fls. 95/1O1. Contra a epigrafada lavrou~se o.Auto de Infração de fls. 02 e seguintes, para exigência de crédito tributário relativo aos exercícios de 1985 e 1986 - periodos-base de 1984 e 1985 -, proveniente da constatação de irregularidades em sua escrita contábil, conforme registrado no Termo de Consta- tação e Encerramento, às fls. 07 dos Autos. Os documentos que respaldam o feito fiscal podem ser vistos às fls. 08/55 do processo. Em Impugnação tempestiva - nos moldes do art. 15 c/c o art. 6°., I do Decreto nO. 70.235/72 - a Empresa se defendeu, inicialmente, segundo os argumentos expostos às fls. 59 e, após, de acordo com as razões trazidas às fls. 95/101. Em socorro do alegado, apresenta os documentos colacionados às fls. 60170 e 102/111, quais sejam, cópias do Extrato da Ata de Reunião do Conselho de Administração, do Estatuto Social, e de publicações da Imprensa Oficial (Diário). Pela Informação de fls. 90/92, o AFTN Autuante propugna pela manutenção integral do feito, arrimando-se, para tanto, no arrazoado cuja leitura efetuo em Plenário. Assim, o Julgador de Primeiro Grau, através da Decisão de fls. 113/118, prestigia a posição adotada pelo Autor da ação, dando-a por procedente. A Contribuinte dela foi cientificada aos 19.jan.93, conforme AR às fls. 122. No Apelo voluntário a este Colegiado (fls. 123/132), a Recorrente - ao tempo em que postula pela decretação da nulidade da Peça Básica, se insurge contra as exigências ratificadas pelo Decisum a quo -, traz à lide, à guisa de robustecimento das razões ora aduzidas - e lidas a seguir -, os documentos colacionados às fls. 133/167. Este orelatÓrio.~: PROCESSO N°.: 10070/000.362/89-90 MINISTÉRIO DA FAZENDA PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Acórdão nO107-1.635 VOTO Conselheira MARIANGELA REIS VARlSCO, Relatora. 4 o Recurso vem ao amparo da legislação de regência. Há, pois, que ser conhecido. Em que pese a indignação da Apelante, não vejo como dar-lhe razão em seu pleito. Como, aliás - com propriedade e acerto raros -, bem destacou o Julgador Singular no Decisumora atacado. Senão, veja-se, em seus próprios termos. Da análise. Mantém a tributação do Saldo credor da Conta Correção Monetária e das Variações Monetárias, não incluídos na apuração de seus resultados das Declarações de Rendimentos dos exercícios de 1985 e 1986; conforme demons- trado no Termode Constatação defolha 07 dopresente processo, bem como da sustentação das capitulações .legaisaos artigos mencionados do RIR/80, apro- vadoPelo Decreto 85.450/80; pelo que se segue. Quanto ao fato da não inclusão da Correção Monetária na apuração dos resultados, impõe-se observar se as atividades realizadas Pela empresa Geoplex Mineração Ltda., antecessora da Mineração Santa Martha S/A,se referem a fase pré-operacional, e assim se poderia ou não aproveitar o beneficio da Portaria MP. 475/78; a) Conforme declaração apresentada de folha (sic) 09 e 18 dos exercícios em litígio, o código de atividade consta como 69.99 e a descrição como Investi. gaçãoe Pesquisa deMinérios eMinerais. Também a Receita apresentada nos dois exercícios trata-se exclusivamente de Receita da Prestação de Serviços e sua contra partida consta nos exercícios em referência dos Custos de Serviços prestados. Assim, não há que caracterizar a atividade de outra forma, a não ser como Prestadora de Serviço. Assim, não existe fase pré-OPeracionalpara este tipo de Atividade devendo, pois, corrigir os bensPertencentes ao ativo imobilizado. A fase pré-operacional existiria se a empresa de Mineração tivesse como ativi- dade principal a lavra e consequente industrialização, sendo pesquisa como condição necessária, bem assim no período de implantação das instalações de terraplanagem, construção das estruturas e maquinaria.$'J-~ PROCESSO N'.: 10070/000.362/89.;90 MINISTÉRIO DA FAZENDA PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Acórdão n° 107-1.635 5 No presente caso trata-se tão somente de empresa prestadora de servições de investigação, pesquisa e levantamento do potencial de minério. Àfolha 97, no quarto parágrafo da impugnação a empresa afirma que o objeto social era a prospecção de minério e não prestação de serviço qualquer; esta afirmação consta no Estatuto Social da empresa Mineração Santa Martha, eleborado em 20/04/1988, constante afolha (sic) 61 a 70 do presente processo. Cabe aqui salientar que a autuação foi lavrada em nome da empresa Santa Martha S/A em virtude de ser sucessora da Geoplex Mineração Ltda. Por sua vez a Geoplex Mineração Ltda, nos exercícios fiscalizados era prestadora de serviços, conforme consta nas cópias das Declarações de Rendimentos anexo àsfolhas 09 e 18, exercícios 1985 e 1986; apresentando nesse período apenas pedido de autorização de pesquisa de Minério. Assim, descabe totalmente as alegaçoes da interessada. consequentemente, mt/J1tém-se a tributação do Saldo Credor da Correção Monetária e Variação Monetária não incluídos no Lucro Real dos exercícios fiscalizados. Isto posto, e CONSIDERANDO que a caracterização da infração está perfeitamente decli- nada no Termo de Constatação e Encerramento. CONSIDERANDO que o enquadramento legal capitulou artigos 157, 9 JO.; 164; 167; 168; 171, inciso lI, 254, 347, 361, 387, inciso 11; 676, inciso IlI; 704, 728, inciso lI, definindo as infrigências, penalidades aplicadas e demais encargos legais; CONSIDERANDO que as sucessoras são solidariamente responsáveis pelas obrigações das sucedidas, e que a infraçãofoi cometida pela empresa sucedida nos exercícios de 1985 e 1986, anos bases de 1984 e 1985; CONSIDERANDO que pelas documentações anexas ao presente processo, no período em litígio, a empresa Geoplex Mineração Ltda' atividade de Investi- gação e Pesquisa de Minério e Minerais, código 69.66 (prestação de serviços). portanto, caracterizando essa atividade como OPeracional e não pré-operacional; CONSIDERANDO que o Estatuto Social da empresa Mineração Santa Martha S/A é de 20/04/88, assim não servindo como prova a confirmar o seu ramo de atividade nos exercícios de 1985 e 1986; CONSIDERANDO desta forma que no período em litígio a empresa não estava em fase pré-operacional, descabendo o gozo ao benefício da Portaria MP 475/78; CONSIDERANDO tudo mais que do processo consta,~: . . PROCESSO N°.: 10070/000.362/89-90 MINISTÉRIO DA FAZENDA PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Acórdão n° 107-1.635 6 DECIDO JULGAR PROCEDENTE A AÇÃO FISCAL, para determinar que se prossiga na cobrança do débito para com a Fazenda Nacional, estamPado no auto de infração de fi. 02, no valor originário de NCZ$ 1.026.003,73, acresci- do da multa de ofício e demais encargos legais. Mais a mais, ressaltem-se - por relevantes - os seguintes pontos: 1) por tudo que nos Autos se contém, a Recorrente não logra. comprovar que, efetiva- mente, se encontrava em fase pré-operacional como desde sempre alegou, impossibilitando, por via de conseqüência, a utilização dos beneficios contidos na Portaria 475/78: a) sua receita provém exclusivamente da prestação de serviços, haja vista o estampa- do no Quadro 10 das Declarações de Rendimentos concernentes aos períodos- base sob exame, além do espelhado pelas Demonstrações de Resultado do Exercício, constantes às.fls. 41 e 48; b) As DIRPJs já referenciadas (exercícios de 1985 e 1986) identificam como ativida- de desenvolvida pela Empresa apenas a de pesquisa, sem mencionar qualquer outra; c) Ao tempo em que a autuação se reporta aos períodos-base de 1984 e 1985, o Estatuto trazido por cópia, como prova irrefutável do segundo objeto social da Contribuinte - qual seja, o direito à lavra - data de 1988. 2) A Apelante deveria, então, ter apurado resultados tributáveis e recolhido o Imposto de Renda eventualmente devido, referentemente às receitas de prestação de serviços que foram por Ela declaradas. Em assim, inegável a conclusão de que a Correção Monetária credora, bem como as Variações Monetárias Ativas deveriam ter composto o Lucro Líquido dos exercícios, com vistas ao posterior cálculo do tributo devido. Correto, pois, o crédito tributário exigido. Nessa conformidade, entendo incensurávela Decisão hostilizada, razão porque conheço do Recurso por tempestivo para, em seu mérito, negar-lhe provimento. É como voto. Brasília~DF,em 18 de outubro de 1994. 00000001 00000002 00000003 00000004 00000005 00000006
score : 1.0
Numero do processo: 16327.721136/2013-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2008, 2009
ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA NORMA.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008, 2009
DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO.
A dedução dos gastos com despesas operacionais não é vinculada apenas à necessidade, usualidade e normalidade. Cabe verificar se efetivamente o ônus foi do sujeito passivo e, mais ainda, se a assunção desse ônus não feriu cláusulas contratuais.
AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO IMPUTADA À SUCESSORA.
Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico (Súmula CARF nº 47)
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2008, 2009
DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO.
Demonstrado nos autos que os valores glosados foram computados pelo sujeito passivo na apuração do lucro líquido, aplica-se o decidido quanto à exigência do IRPJ.
ALTERAÇÃO DE ALÍQUOTA. APLICABILIDADE.
O aumento de alíquota da contribuição não se aplica aos fatos geradores ocorridos antes da alteração.
Numero da decisão: 1402-002.391
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário quanto à alegação de inconstitucionalidade da norma e, na parte conhecida, dar-lhe provimento parcial para excluir da exigência da CSLL no ano-calendário de 2008 o valor de RS 40.821,32, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
ASSINADO DIGITALMENTE
Leonardo de Andrade Couto Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2008, 2009 ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA NORMA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO. A dedução dos gastos com despesas operacionais não é vinculada apenas à necessidade, usualidade e normalidade. Cabe verificar se efetivamente o ônus foi do sujeito passivo e, mais ainda, se a assunção desse ônus não feriu cláusulas contratuais. AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO IMPUTADA À SUCESSORA. Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico (Súmula CARF nº 47) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO. Demonstrado nos autos que os valores glosados foram computados pelo sujeito passivo na apuração do lucro líquido, aplica-se o decidido quanto à exigência do IRPJ. ALTERAÇÃO DE ALÍQUOTA. APLICABILIDADE. O aumento de alíquota da contribuição não se aplica aos fatos geradores ocorridos antes da alteração.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2008, 2009 ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA NORMA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO. A dedução dos gastos com despesas operacionais não é vinculada apenas à necessidade, usualidade e normalidade. Cabe verificar se efetivamente o ônus foi do sujeito passivo e, mais ainda, se a assunção desse ônus não feriu cláusulas contratuais. AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO IMPUTADA À SUCESSORA. Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico (Súmula CARF nº 47) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. PERDAS. DEDUÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 11 36 /2 01 3- 37 Fl. 3276DF CARF MF 2 Demonstrado nos autos que os valores glosados foram computados pelo sujeito passivo na apuração do lucro líquido, aplicase o decidido quanto à exigência do IRPJ. ALTERAÇÃO DE ALÍQUOTA. APLICABILIDADE. O aumento de alíquota da contribuição não se aplica aos fatos geradores ocorridos antes da alteração. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário quanto à alegação de inconstitucionalidade da norma e, na parte conhecida, darlhe provimento parcial para excluir da exigência da CSLL no anocalendário de 2008 o valor de RS 40.821,32, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. ASSINADO DIGITALMENTE Leonardo de Andrade Couto – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto Fl. 3277DF CARF MF Processo nº 16327.721136/201337 Acórdão n.º 1402002.391 S1C4T2 Fl. 3.277 3 Relatório Tratamse de autos de infração para cobrança do IRPJ e da CSLL referentes aos anoscalendário de 2008 e 2009 nos montantes de R$ 2.943.350,62 e R$ 17.916.758,73; respectivamente, aí incluídos multa de ofício no percentual de setenta e cinco por cento (75%) e juros de mora. As irregularidades apuradas foram, em resumo: 1) Inobservância do regime de competência na conta do passivo denominada “outras contas a pagar” com diversos lançamentos a crédito em 31/12/2008 e contrapartida em diversas contas de despesas com características de provisão (R$ 2.095.754,10). Todos os lançamentos foram revertidos em 01/01/2009 com histórico de reversão de provisão. As provisões que foram constituídas em 2008 não foram adicionadas na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, assim como as reversões, realizadas em 2009, não foram excluídas das suas apurações, com redução indevida do resultado em 2008 e aumento indevido em 2009; 2) Glosa de valores deduzidos a título de reembolso de ligações telefônicas sem previsão contratual referentes a pagamentos feitos às empresas SystemCred (R$ 429.644,35) e Senarc (R$ 277.064,81) contabilizados respectivamente nas contas “despesas com serviços de cobrança” e “honorários advocatícios”. De acordo com cláusula no contrato formalizado com essas empresas, todas as despesas de cobrança seriam de responsabilidade das prestadoras do serviço; 3) Dedução indevida com perdas referentes ao seguro “compra tranquila” (R$ 648.238,59; em 2008 e R$ 620.386,79; em 2009) tendo em vista que, conforme informado pelo próprio sujeito passivo, a administração desse seguro havia sido transferida para a empresa Primos Participações Ltda. com repasse das receitas respectivas e, portanto, dos custos com perdas a ele referentes; 4) Dedução indevida de descontos concedidos (R$ 3.039.947,73), eis que referentes a créditos anteriormente baixados integralmente como perda. A interessada poderia conceder um desconto sobre um crédito baixado como perda, mas jamais poderia considerar este desconto como uma nova despesa, pois o crédito sequer existe mais na escrituração; 5) Aplicação indevida da alíquota da CSLL pois a interessada apurou a contribuição sem levar em consideração o aumento de 9% para 15% ocorrido em maio de 2008; 6) Compensação indevida de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL em 2009, tendo em vista as irregularidades apuradas nesse anocalendário e a autuação formalizada nos autos do processo 16327.721523/201292 que, dentre outras infrações, glosou o valor de R$ 2.373.450,75 título de compensação indevida de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa de CSLL naquele anocalendário. Fl. 3278DF CARF MF 4 A interessada apresentou impugnação onde, em síntese, traz as seguintes alegações para cada um dos itens acima mencionados: Para o item 1, afirma que os documentos apresentados demonstram a regularidade dos valores glosados que se referem a despesas efetivas e não a provisões. Defende ainda que o cálculo da postergação estaria equivocado pois não teria sido feita a recomposição do IRPJ e da CSLL mas a simples aplicação da alíquota sobre a despesa postergada. Finaliza esse item dizendo que só poderiam ser exigidos do sujeito passivo os juros de mora; Em relação ao item 2, sustenta que as despesas se incluem no conceito de necessidade, usualidade e normalidade, previsto no artigo 299 do RIR/99, além do que foram apresentados documentos hábeis e suficientes para a demonstração da efetividade da prestação de serviços e o correlato pagamento. No que se refere à cláusula contratual estabelecendo que tais despesas seriam de inteira responsabilidade da Senarc e SystemCred, sem direito a reembolso, ressalta que a impugnante assumiu essa responsabilidade em tratativas verbais; Quanto ao item 3, além dos valores em questão serem dedutíveis por operacionais, nos termos do artigo 299 do RIR/99, a dedutibilidade destas perdas deve ser admitida, pois seriam todos abaixo de R$5.000,00 (incluindo as perdas relativas ao seguro “compra tranquila”), e, portanto, dedutíveis nos termos dispostos no artigo 9º, §1°, II, “a” da Lei n° 9.430/96; No que tange ao item 4, defende que descontos concedidos no valor de R$3.039.947,73 são operacionais à atividade da Impugnante e, portanto, plenamente dedutíveis da apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, já que, sem a concessão de descontos aos clientes inadimplentes, não é possível à impugnante reaver os créditos registrados contabilmente, decorrentes do não pagamento das faturas de cartão de créditos de seus clientes; O aumento da alíquota da CSLL tratado no item 5 só poderia ser aplicado aos fatos geradores ocorridos a partir de maio/2008 conforme IN/RFB nº 810/2008. Afirma também que a alteração da alíquota é inconstitucional, e: Em relação ao item 6, a fiscalização não poderia reduzir o saldo de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa da CSLL detido pela impugnante, sob o fundamento de que este saldo teria sido afetado de ofício pelas autuações fiscais originárias do processo administrativo n° 16327.721523/201292, uma vez que o referido processo administrativo está pendente de julgamento. Sustenta ainda a impossibilidade de exigência da multa sobre a sucessora e a não incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo – SP prolatou o Acórdão 1657.425 considerando a impugnação totalmente improcedente, em decisão consubstanciada na seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 ERRO NA ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL. ESTORNO DE PROVISÕES. INOBSERVÂNCIA DO REGIME DE COMPETÊNCIA. Fl. 3279DF CARF MF Processo nº 16327.721136/201337 Acórdão n.º 1402002.391 S1C4T2 Fl. 3.278 5 O erro na escrituração do sujeito passivo, relativo ao estorno de provisões que só veio a ocorrer em ano calendário subsequente à data dos registros contábeis, ocasiona a inobservância do regime de competência, segundo o qual os efeitos financeiros das transações e eventos são reconhecidos nos períodos nos quais ocorrem, independentemente de terem sido recebidos ou pagos. REEMBOLSO DE DESPESAS SEM PREVISÃO CONTRATUAL. CARACTERIZAÇÃO DE MERA LIBERALIDADE. DESPESAS INDEDUTÍVEIS. Ao assumir, como se fossem próprias, despesas expressamente atribuídas a terceiros por intermédio de previsão contratual, fica caracterizada a mera liberalidade do contribuinte, o que torna as despesas indedutíveis para a apuração do lucro real, visto que tais despesas competiriam exclusivamente à execução do objeto contratual por parte da empresa contratada, devidamente remunerada para tanto, e não à contribuinte contratante. DESCONTO CONDICIONAL. PERDA DE CRÉDITO. DEDUÇÃO. O desconto concedido como condição para a recuperação de crédito é dedutível, exceto se já deduzido como perda para o recebimento do valor inadimplido pelo devedor. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 CSLL.BASE DE CÁLCULO. NORMAS DE APURAÇÃO. PERDAS NO RECEBIMENTO DE CRÉDITOS. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro as mesmas normas de apuração para o Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas. CSLL. PERÍODO ENCERRADO EM 31/12/2008. ALÍQUOTA VIGENTE. No momento do encerramento do fato gerador da CSLL, em 31/12/2008, estava vigente a alíquota de 15% para as instituições financeiras. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008, 2009 MULTA DE OFÍCIO. INCORPORAÇÃO. RESPONSABILIDADE DA SUCESSORA. Fl. 3280DF CARF MF 6 A pessoa jurídica incorporadora é responsável pelo crédito tributário da incorporada, respondendo tanto pelos tributos e contribuições como por eventual multa de ofício e demais encargos legais decorrentes de infração cometida pela empresa sucedida, mesmo que formalizados após a alteração societária, mormente se incorporadora e incorporada encontravamse sob controle comum. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008, 2009 ALEGAÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. O exame de alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade é de exclusiva competência do Poder Judiciário. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SOBRESTAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal para o sobrestamento do processo administrativo, que se rege pelo princípio da oficialidade, impondo à Administração impulsionar o processo até o seu término. Devidamente cientificado, o sujeito passivo apresentou recurso voluntário a este colegiado, ratificando as razões expedidas na peça impugnatória. É o relatório. Fl. 3281DF CARF MF Processo nº 16327.721136/201337 Acórdão n.º 1402002.391 S1C4T2 Fl. 3.279 7 Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto O recurso é tempestivo e foi interposto por signatário devidamente legitimado, motivo pelo qual dele conheço. Seguindo a ordem estabelecida no relatório: 1) Inobservância do regime de competência (R$ 2.095.754,10): Sustenta a recorrente que não haveria que se falar em inobservância do regime de competência eis que os valores em questão representariam despesas efetivas e não provisão. Tal alegação vai de encontro aos próprios lançamentos contábeis e aos esclarecimentos prestados pelo sujeito passivo durante o procedimento fiscal. O histórico da contabilidade informa que se referem a provisões e demonstra claramente o lançamento a título de estorno no início do anocalendário seguinte. Conforme bem ressaltado pela decisão recorrida, a resposta do sujeito passivo ao pedido de esclarecimentos do Fisco admite o equívoco e trata os valores como provisões. Improcedente, portanto, o argumento. Em relação à postergação, será demonstrado abaixo que o único equívoco da apuração fiscal ocorreu no cálculo do adicional do IRPJ, mas tal erro foi benéfico ao sujeito passivo. Quanto à despesa que gerou a postergação temse: Cálculo do imposto......................................2.095.754,10 x 15% = 314.363,12 2.095.754,10 – 240.000,00 = 1.855.754,10 Calculo do adicional.....................................1.855.754,10 x 10% = 185.575,41 Total do imposto..................................314.363,12 + 185.575,41 = 499.938,53 Esse é o valor do imposto que deveria ter sido pago em 30/01/2009, mas só foi “recolhido” em 29/01/2010. Como esse “recolhimento’ foi feito com atraso, cabem juros e multa de mora apurados mediante imputação. Considerando VP como valor do principal pago, 20% de multa e 9,45% de juros temse: VP + 0,20VP + 0,0945 VP = 499.938,53 1,2945VP = 499.938,53 VP = 386.202,03 O montante de R$ 386.202,03 deveria ser excluído do imposto apurado na exigência. Ao apurar o imposto adicional no cálculo acima, o Fisco chegou ao valor de R$ Fl. 3282DF CARF MF 8 209.575,41 o que implicou na exclusão de R$ 404.742,00. O equívoco foi favorável ao sujeito passivo. Vêse que a diferença de imposto tem origem justamente da correta incidência dos juros e multa de mora, como decorrência do “pagamento em atraso” em função da postergação, nos termos previstos na norma. Por outro lado, como dito acima, em sentido diverso ao suscitado pela defesa esse valor (R$ 404.742,00) foi excluído da exigência no auto de infração: A cobrança no procedimento de ofício atinge apenas o imposto não pago correspondente a R$ 95.196,53 (R$ 499.938,53 – R$ 404.742,00). Na verdade o valor cobrado deveria ser de R$ 113.736,50 (R$ 499.938,53 – R$ 386.202,03). A cobrança a menor deriva do equívoco na apuração do adicional pelo Fisco, conforme supra explicado. Negase provimento ao recurso nesse item. 2) Glosa de valores deduzidos a título de reembolso de ligações telefônicas sem previsão contratual referentes a pagamentos feitos às empresas SystemCred (R$ 429.644,35) e Senarc (R$ 277.064,81): A defesa tece longo arrazoado no intuito de demonstrar a necessidade, usualidade e normalidade das despesas em questão. Registrese ser fato incontroverso que as despesas ocorreram e foram assumidas pela interessada. Entretanto, as razões da autuação dirigemse à cláusula contratual pela qual as despesas de cobrança seriam de exclusiva responsabilidade das contratadas. Sem que houvesse a retificação ou revogação de tal cláusula, a assunção da despesa pela recorrente constituiuse em liberalidade, impossibilitando a dedução. Os extensos argumentos apresentados pelo sujeito passivo no que se refere à necessidade, usualidade e normalidade das despesas passam ao largo desse fato, qual seja: por disposição contratual as despesas seriam de responsabilidade das contratadas. Repitase, para evitar qualquer alegação de omissão ou contradição: não há argumento passível de aceitação no sentido de que a despesa seria necessária, usual e normal às atividades da pessoa jurídica se, por disposição contratual, o ônus não lhe pertence. Nessa situação, a assunção desse ônus é mera liberalidade. A única contestação que se poderia admitir como relacionada à razão da autuação foi a afirmativa que de que a cláusula teria sido revogada verbalmente, argumento esse absolutamente despropositado e sem qualquer demonstração. Fl. 3283DF CARF MF Processo nº 16327.721136/201337 Acórdão n.º 1402002.391 S1C4T2 Fl. 3.280 9 Recurso a que se nega provimento nesse item. 3) Dedução indevida com perdas referentes ao seguro “compra tranquila” (R$ 648.238,59; em 2008 e R$ 620.386,79; em 2009): A interessada defendese nesse item afirmando que cumpriu todos os requisitos para dedução da perdas, estabelecidos no art. 9º, da Lei nº 9.430/96. Entretanto, a razão da autuação não envolveu o descumprimento dessa norma, mas sim a admissão pelo próprio sujeito passivo de que a administração dos valores referentes ao seguro “compra tranqüila” seria de responsabilidade da empresa Primos Participações o que abrangeu o repasse das receitas e conseqüentemente do ônus das despesas. Tendo em vista que não houve contestação à razão da autuação, rejeitase o recurso neste item. 4) Dedução indevida de descontos concedidos (R$ 3.039.947,73), eis que referentes a créditos anteriormente baixados integralmente como perda: A defesa manifestase pela improcedência da glosa tendo em vista que as despesas referemse a descontos concedidos aos cliente inadimplentes e, por esse motivo, regularmente dedutíveis. Da mesma forma que no item anterior, aqui também a linha de defesa passou ao largo da acusação fiscal. A despesa foi glosada pelo fato de se referir a crédito que já havia sido baixado como perda e, posteriormente, foi objeto de acordo para pagamento com desconto Esse desconto foi considerado indedutível por se referir a um crédito que já não constava mais da escrituração. A concessão do desconto não é irregular em si, mas não poderia o valor correspondente não poderia ser tratado como uma nova despesa. Recurso negado neste item. 5) Aplicação indevida da alíquota da CSLL: Nesse item foi exigida a diferença de CSLL decorrente da não aplicação, pela interessada, do aumento de alíquota da contribuição de 9% para 15%, a partir de maio de 2008. A defesa sustenta que a nova alíquota não poderia ser aplicada aos fatos geradores anteriores a maio/2008, como ocorreria com os valores referentes às despesas pagas às empresas Senarc e SystemCred. Em tese, tem razão a interessada pois não se justifica a cobrança da alíquota majorada a fatos geradores anteriores. A Receita Federal do Brasil (RFB) demonstrou preocupação em evitar tal circunstância, e editou alguns normativos estabelecendo mecanismos de proporcionalidade no cálculo da contribuição para o anocalendário de 2008. Ainda que essa proporcionalidade, no caso de apuração anual, envolva fundamentalmente as receitas auferidas com vistas à apuração das estimativas, é inegável que memso no caso de glosa de despesas o sujeito passivo não pode ser indevidamente onerado. Fl. 3284DF CARF MF 10 a decisão recorrida abraça esse raciocínio, mas sustenta ter sido demonstrada a inocorrência da fatos geradores da CSLL antes do mês de abril/2008 que justificassem a aplicação da alíquota de 9%. Pelo exame dos autos, constatase que o sujeito passivo tem razão em parte no que se refere às despesas junto à SystemCred e à Senarc. No caso da Senarc, as notas fiscais 368, 376 e 393 indicam que as despesas a que se referem (R$ 277.064,81) foram incorridas antes de 02/05/2008 e, portanto, submetidas à alíquota de 9%. Em relação à SystemCred, com exceção das notas fiscais 1339 e 1378, as demais no valor total de R$ 403.290,55 indicam despesas incorridas antes de maio/2008. Sendo assim, o valor de R$ 680.355,36 (R$ 403.290,55 + 277.064,81) deve ser tributado pela CSLL com alíquota de 9%. Excluise do valor da CSLL apurada (e não do valor tributável) no ano calendário de 2008 o valor de R$ 40.821,32 (R$ 680.355,36 x 6%). 6) Compensação indevida de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL em 2009: A Fiscalização apurou compensação indevida de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da CSLL no anocalendário de 2009 como decorrência das irregularidades apuradas neste procedimento fiscal e também nos autos do processo 16327.721523/201292. No que se refere a este procedimento, a matéria tributável apurada pela Fiscalização foi integralmente mantida. Quanto ao processo 16327.721523/201292, foi julgado nesta Corte através do Acórdão 1302001.528 pelo qual o recurso voluntário do sujeito passivo não foi conhecido por perempção e o processo foi encerrado na esfera administrativa. Pelo exposto, deve ser mantida a autuação neste item. Em relação aos demais argumentos de defesa, no que se refere à falta de previsão legal para adição de despesas indedutíveis na base de cálculo da CSLL reitero o pronunciamento da decisão recorrida quanto à aplicação do art. 57, da Lei nº 8.981/95 que adotou para a CSLL o mesmo regramento contido na legislação do IRPJ. Ainda nessa questão, é de se reconhecer a existência de valores que são adicionados ou excluídos ao lucro líquido (base de cálculo da CSLL) exclusivamente para apuração do lucro real. Entretanto, nos termos do exposto no parágrafo anterior, a regra geral é que as despesas indedutíveis para o IRPJ também o são para a CSLL. Sob essa ótica, não socorre o sujeito passivo a argüição genérica sobre tal questão. Caberia indicar com precisão qual parcela da glosa não se aplicaria à CSLL. Além do mais, a defesa mostrase contraditória pois sustenta em relação aos valores glosados que representam despesas operacionais dedutíveis. Ora, como despesas operacionais, afetam o lucro líquido (base de cálculo da CSLL) e o lucro real (base de cálculo do IRPJ). Para corroborar esse argumento, o exame das DIPJs revela que o sujeito passivo indicou o mesmo valor de despesas operacionais que considerou indedutíveis para a CSLL e para o IRPJ (R$ 3.353.845,85; em 2008 e R$ 1.966.623,29; em 2009). Fl. 3285DF CARF MF Processo nº 16327.721136/201337 Acórdão n.º 1402002.391 S1C4T2 Fl. 3.281 11 Quanto ao argumento de que o aumento da alíquota da CSLL ofendeu a princípios constitucionais é matéria em relação a qual falece competência ao CARF para apreciação, nos termos da Súmula CARF nº 2 de Enunciado: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Em relação à imputação de multa na sucessora, tratandose de empresa do mesmo grupo econômico (Grupo Marisa) é correta a aplicação dessa penalidade conforme estabelecido na Súmula CARF nº 47, de Enunciado: Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. Quanto à incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, cabe simplesmente registrar que o acórdão apresentado pela interessada para reforçar a defesa contém entendimento superado e a jurisprudência atual desta Corte é unânime em reconhecer a incidência dos juros de mora sobre a multa, como se pode ver abaixo em julgados recentíssimos de todas as turmas da CSRF: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão 9101002.180, CSRF, 1ª Turma) JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu inadimplemento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão 9202003.821, CSRF 2ª Turma) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão 9303003.385, CSRF, 3ª Turma). É como voto. Leonardo de Andrade Couto Relator Fl. 3286DF CARF MF 12 Fl. 3287DF CARF MF
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Numero do processo: 10073.721650/2014-04
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 01 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009
Ementa:
FALTA DE PAGAMENTO DE TRIBUTO E DECLARAÇÃO DE DÉBITOS EM DCTF. PROVIMENTO JUDICIAL EM FAVOR DO CONTRIBUINTE. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DAS CONDUTAS DE SONEGAÇÃO OU FRAUDE. INAPLICABILIDADE.
É incabível a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, se inexistentes sonegação ou fraude tributária. A conduta do contribuinte de não recolher tributo e não declará-lo em DCTF porque detinha decisão judicial que lhe permitia dessa forma agir não pode ser entendida como caracterizadora de quaisquer dos crimes, devendo, por conseguinte, ser reduzida a multa de ofício para o montante de 75%.
PRAZO DE DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. REsp 973733/SC.
Segundo entendimento do Superior Tribunal de Justiça, em se tratando de tributo sujeito ao lançamento por homologação e não havendo má-fé do contribuinte (dolo, fraude ou simulação), o prazo de decadência deve ser contado nos termos do art. 150, §4º, do CTN.
REPRODUÇÃO DAS DECISÕES DEFINITIVAS DO STJ, NA SISTEMÁTICA DO ART. 543-C, DO CPC.
No julgamento dos recursos no âmbito do CARF devem ser reproduzidas pelos Conselheiros as decisões definitivas de mérito proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça, em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigo 543-C, da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, em conformidade com o que estabelece o art. 62, §2º do Regimento Interno.
DEPÓSITO JUDICIAL. CONVERSÃO EM RENDA DA UNIÃO. EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO.
Comprovado nos autos que depósitos judiciais foram convertidos em renda da União, extinto está o respectivo crédito tributário que estava em discussão na ação judicial e foi objeto de lançamento tributário, nos termos do artigo 156, inciso VI do CTN.
Recurso de ofício negado.
Numero da decisão: 3402-003.857
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. Sustentou pela recorrida a Dra. Bianca Xavier, OAB/RJ 121.112.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 Ementa: FALTA DE PAGAMENTO DE TRIBUTO E DECLARAÇÃO DE DÉBITOS EM DCTF. PROVIMENTO JUDICIAL EM FAVOR DO CONTRIBUINTE. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DAS CONDUTAS DE SONEGAÇÃO OU FRAUDE. INAPLICABILIDADE. É incabível a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, se inexistentes sonegação ou fraude tributária. A conduta do contribuinte de não recolher tributo e não declarálo em DCTF porque detinha decisão judicial que lhe permitia dessa forma agir não pode ser entendida como caracterizadora de quaisquer dos crimes, devendo, por conseguinte, ser reduzida a multa de ofício para o montante de 75%. PRAZO DE DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. REsp 973733/SC. Segundo entendimento do Superior Tribunal de Justiça, em se tratando de tributo sujeito ao lançamento por homologação e não havendo máfé do contribuinte (dolo, fraude ou simulação), o prazo de decadência deve ser contado nos termos do art. 150, §4º, do CTN. REPRODUÇÃO DAS DECISÕES DEFINITIVAS DO STJ, NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C, DO CPC. No julgamento dos recursos no âmbito do CARF devem ser reproduzidas pelos Conselheiros as decisões definitivas de mérito proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça, em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigo 543C, da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 07 3. 72 16 50 /2 01 4- 04 Fl. 16819DF CARF MF 2 Processo Civil, em conformidade com o que estabelece o art. 62, §2º do Regimento Interno. DEPÓSITO JUDICIAL. CONVERSÃO EM RENDA DA UNIÃO. EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. Comprovado nos autos que depósitos judiciais foram convertidos em renda da União, extinto está o respectivo crédito tributário que estava em discussão na ação judicial e foi objeto de lançamento tributário, nos termos do artigo 156, inciso VI do CTN. Recurso de ofício negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. Sustentou pela recorrida a Dra. Bianca Xavier, OAB/RJ 121.112. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente. (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recurso de ofício apresentado em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Curitiba/PR, que julgou procedente em parte a impugnação oferecida pela Contribuinte sobre a cobrança de Contribuição para o Programa de Integração Social (“PIS”) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (“COFINS”), consubstanciada nos autos de infração em questão (relativos período de 01/01/2009 a 31/12/2009), compreendendo principal, juros de mora e multa qualificada no percentual de 150%. Por bem consolidar os fatos ocorridos até a decisão da DRJ, com riqueza de detalhes, colaciono os principais trechos do acórdão recorrido in verbis: Em decorrência de ação fiscal desenvolvida junto à empresa qualificada, foram lavrados os seguintes autos de infração: de fls. 16.542/16.550, em que são exigidos R$ 14.489.744,80 de Cofins não cumulativa, além de multa de ofício de 150% e encargos legais, em face da insuficiência de recolhimento da Fl. 16820DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 112 3 contribuição, relativamente aos períodos de apuração de 01/2009 a 12/2009; de fls. 16.533/16.541, em que são exigidos R$ 2.938.066,13 de PIS/Pasep não cumulativo, além de multa de ofício de 150% e encargos legais, em face da insuficiência de recolhimento da contribuição, relativamente aos períodos de apuração de 01/2009 a 12/2009. Conforme informa o Termo de Verificação Fiscal, de fls. 16.519/16.532, a fiscalizada é fabricante e importadora de veículos automotores, classificados no capítulo 87 da TIPI, estando obrigado à incidência do PIS/Cofins pelo regime monofásico de tributação, instituído pela Lei n° 10.485/2002, com as alterações da Lei n° 10.865/2004. Segundo o referido termo, o procedimento fiscal foi motivado pela queda substancial na arrecadação de PIS/Cofins no ano de 2009 em relação ao de 2008, apesar de ter havido aumento do faturamento no mesmo período. Relata que as justificativas da contribuinte para tal queda foi que houve em 2009 um aumento das compras, o que gerou um acréscimo substancial de créditos. Relata que a interessada entregou planilha, na qual discrimina os créditos de PIS/Cofins dos anos de 2008 e 2009, informa os valores das contribuições a recolher e os valores pagos, compensados ou suspensos por ação judicial. A autoridade fiscal então explica que, analisando a planilha de créditos e a Escrituração Contábil Digital (ECD), constatou que a contribuinte informou como créditos oriundos do mercado interno em jan/2009 os montantes de R$ 133.820.054,40 (Cofins) e R$ 29.053.038,13 (PIS), mas que nas contas do Ativo Circulante, controladoras destes créditos, apurou que a importâncias escrituradas eram bem inferiores. Diz que apurou que a impugnante realizou vários lançamentos a débito nas contas “Cofins a pagar” (44912000) e “PIS a pagar”, vinculados a históricos que se referiam a diversas ações judiciais. Por isso, o sujeito passivo foi intimado a justificar as divergências de créditos encontradas, assim como a comprovar a origem dos lançamentos efetuados a débito nas contas de provisionamento das referidas contribuições. Informa que, em resposta datada de 31/01/2014, a contribuinte alegou que as divergências apuradas nos créditos de PIS/Cofins em jan/2009 ocorreram devido a equívoco no preenchimento do respectivo Dacon e que não havia carregado os valores dos créditos para o mês de fev/2009. Diz que a interessada apresentou, ainda, cópias de partes de ação judicial que move contra a União, na qual visa excluir da base de cálculo do PIS e da Cofins a parcela incidente referente ao ICMS, e cópias de diversos depósitos judiciais realizados por 03 (três) concessionárias, depósitos que coincidiam com os valores dos diversos lançamentos efetuados a débito nas contas de provisão. Informa que apresentou também cópias de sentenças de 1a instância referentes a 02 (duas) das concessionárias. Fl. 16821DF CARF MF 4 Explica que a contribuinte justificou os lançamentos a débito nas contas de provisionamento do PIS/Cofins com ação judicial própria e com ações judiciais que foram impetradas por 03 (três) concessionárias, através das quais elas obtiveram sentença de 1a instância favorável, no sentido de reconhecer a inconstitucionalidade do art. 1o da Lei n° 10.485/2002 (Regime Monofásico de Tributação) e de que a PEUGEOTCITROEN se abstivesse de promover a retenção antecipada da parcela atinente ao PIS/Cofins instituído pela mesma lei, nas vendas efetuadas para essas concessionárias. Na sequência, a autoridade a quo faz breves relatos sobre as ações judiciais que deram amparo aos lançamentos a débito nas contas de provisionamento do PIS/Cofins. Ação judicial de n° 2006.51.09.0004127: tratase de ação ordinária com pedido de depósito judicial, movida pela PEUGEOTCITROEN, tendo por objetivo a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins. Encontrase suspensa, aguardando decisão do STF na Ação Declaratória de Constitucionalidade n° 18; Ação judicial de n° 2004.61.00.0289134: movida pela Concessionária Automobiles de Paris Ltda., tratase de uma ação ordinária com pedido de tutela antecipada, que tinha por objetivo o reconhecimento da inconstitucionalidade do art. 1o da Lei n° 10.485/2002, com as alterações da Lei n° 10.865/2004, lei que criou o Regime Monofásico de Tributação do PIS/Cofins para os fabricantes e importadores de veículos automotores. A sentença de 1a instância julgou procedente o pedido, reconhecendo o direito da autora em ser tributada nos termos das Leis n°s 10.637/2002 e 10.833/2003, afastando a aplicação da Lei n° 10.485/2002. Informa que, em recurso de apelação da União, o TRF da 3a Região, em 26/03/2014, deu provimento à apelação da União, reformando a decisão de 1o grau. Constatou ainda que em 16/05/2014 ocorreu o decurso de prazo para a interposição de recurso cabível sem que a autora se manifestasse, motivo pelo qual foi solicitada a baixa definitiva na Vara de origem; Ação judicial de n° 2006.61.00.0079124: movida pela Concessionária Victoire Automóveis Ltda., diz respeito a uma ação ordinária com pedido de tutela antecipada, que foi deferida, tendo por objetivo o não recolhimento do PIS/Cofins pelo Regime Monofásico. A autora pretendeu recolher o PIS/Cofins na forma das Leis n° 10.637/2002 e n° 10.833/2003, solicitando ainda que a montadora se abstivesse de reter o percentual de faturamento estimado de 5,13% sobre o valor do veículo. Verificou que a sentença de 1a instância julgou procedente o pedido, declarando a inconstitucionalidade da sistemática de recolhimento das contribuições da Lei n° 10.485/2002, declarando, ainda, a inexistência de relação jurídicatributária que obrigava a autora a se submeter a esse regime de tributação. Determinou também que a PEUGEOTCITROEN se abstivesse de reter o percentual estimado de faturamento da autora de 5,13% sobre o valor total do veículo. Porém, em apelação da Fl. 16822DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 113 5 União, foi proferido acórdão, em 20/09/2009, no qual a Terceira Turma do TRF da 3a Região, por unanimidade, julgou improcedente a ação. Na sequência, os Embargos de Declaração interpostos pela autora foram rejeitados por unanimidade, em 27/05/2010. A interessada interpôs Recurso Extraordinário, ainda pendente de julgamento; Ação judicial de n° 2005.61.00.0190705: movida pela Concessionária Super France Veículos Ltda., tratase de ação ordinária com pedido de tutela antecipada, que foi deferida, tendo por objetivo a exclusão do IPI da base de cálculo do PIS/Cofins no Regime de Substituição Tributária, com o fim de se declarar a ilegalidade da IN SRF n° 54/2000, com a compensação dos valores indevidamente pagos, assim como afastar o regime monofásico instituído pela Lei n° 10.485/2002. Diz que a autora pretendeu não só recolher o PIS/Cofins sem a inclusão do IPI em suas bases de cálculo, mas também afastar o recolhimento monofásico. A tutela antecipada foi deferida em parte para afastar o regime de antecipação tributária estabelecido pela Lei n° 10.485/2002 e determinar que a montadora PEUGEOT CITROEN se abstivesse de reter o percentual estimado de faturamento da autora de 5,13% sobre o valor total do veículo. A sentença de 1a instância julgou procedente o pedido, mas foi dado provimento à apelação da PGFN para reformar a sentença (Acórdão de 2a instância em 07/05/2009), Acórdão que foi confirmado em julgamento dos Embargos de Declaração em 15/10/2009. Constatou que a autora, após interpor recursos especial e extraordinário, protocolou pedido de desistência da referida ação judicial em razão de adesão ao parcelamento instituído pela Lei n° 11.491/2009, requerendo a conversão em renda dos depósitos judiciais efetuados para fins de pagamento à vista dos débitos, nos termos do art. 10 da Lei n° 11.491/2009 e o levantamento do saldo remanescente. Diz que, em função disso, a ação judicial transitou em julgado em 21/01/2011. Informa que foi negado recurso no Agravo de Instrumento interposto pela autora (29/12/2011). Diz que em 26/07/2012 foi negado provimento ao Agravo Inominado em que a autora solicitava o levantamento da remuneração que foi aplicada aos valores dos depósitos judiciais. Na sequência, a autoridade fiscal faz algumas observações sobre as ações judiciais: 1. Informa que a PEUGEOTCITROEN efetuou diversos lançamentos a débito em suas contas de provisão do PIS (44913000 PIS a pagar) e da Cofins (44912000 Cofins a pagar), ou seja, diminuindo o montante de recolhimento de ambos os tributos, com históricos que fazem referência às ações judiciais acima discriminadas; 2. Relata que a interessada alegou que os valores dos lançamentos que deixaram de ser provisionados foram depositados judicialmente, ou por ele, ou pelas respectivas concessionárias, apresentando cópias das guias de Fl. 16823DF CARF MF 6 recolhimento junto à Caixa Econômica Federal. Diz que na ação de n° 2005.61.00.0190705 (Super France Veículos Ltda.) já houve decisão favorável à União, determinando a conversão em renda dos depósitos judiciais; 3. Narra que, em relação a dois depósitos judiciais, escriturados em jan./2009 e pertencentes à ação judicial movida por ela própria, não foram recolhidos e sequer foram declarados em DCTF (R$ 4.058.182,59 Cofins e R$ 847.404,66 PIS); 4. Diz que os demais depósitos judiciais pertencentes às ações judiciais movidas pelas Concessionárias, embora tenham sido recolhidos, não aparecem informados nas DCTF da PEUGEOT CITROEN, ou seja, não há qualquer tipo de controle sobre os respectivos débitos, uma vez ser ela a contribuinte do PIS/Cofins e não as concessionárias. Frisa que os depósitos judiciais foram realizados pelas Concessionárias que não são contribuintes das referidas contribuições; 5. Explica que por meio da análise de extrato de todas as partes das ações judiciais movidas pelas Concessionárias, acima descritas, verificase que a PEUGEOTCITROEN, em nenhum momento, se fez representar nas mesmas. Após, passa a relatar sobre os crimes praticados pela contribuinte. Inicialmente, diz que a interessada deixou de declarar/informar em suas DCTF parte dos débitos relativa ao PIS/Cofins que estava sendo discutida nas 03 (três) ações judiciais movidas pelas Concessionárias contra a União, assim como também não declarou, e sequer recolheu, dois valores debitados nas contas de provisionamento do PIS (R$ 847.404,66) e da Cofins (R$ 4.058.182,59), relativos a depósitos judiciais que deveriam ter sido recolhidos em jan./2009, e que estavam vinculados à ação judicial por ela movida (2006.51.09.0004127). Afirma que este procedimento demonstra que “está clara a intenção do contribuinte em reduzir o montante dos tributos a recolher, pois as respectivas deduções contábeis só foram apuradas através da análise de sua ECD. Ou seja, como não havia qualquer tipo de informação em suas DCTF's sobre os valores discutidos judicialmente (Ações das Concessionárias), caso não houvesse um procedimento fiscal como este ora realizado, jamais se saberia sobre a ocorrência destas deduções”. Aduz que, agindo desta maneira, a contribuinte praticou crime contra a ordem tributária definido pelos arts. 1o, I, e 2o, I, ambos da Lei n° 8.137/90, assim como incorreu no crime de sonegação fiscal definido pelo art. 71 da Lei n° 4.502/65. Após, afirma que a impugnante “realizou, de forma reiterada e habitual (JAN/09 a DEZ/09), lançamentos contábeis a débito nas contas de provisão do PIS (44913000) e da Cofins (44912000), vinculados a depósitos judiciais executados pelas Concessionárias já acima identificadas, que não são contribuintes das referidas contribuições, com o intuito de diminuir o montante do PIS/Cofins a recolher, sem que Fl. 16824DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 114 7 informasse tais situações em nenhuma DCTF apresentada no AC/2009”. Reitera que dois depósitos judiciais referentes à sua ação judicial (R$ 847.404,66 PIS e R$ 4.058.182,59 Cofins) não foram recolhidos e nem declarados em DCTF, revelando, em decorrência, “a real intenção de omitir a declaração de um fato contábil”. Entende que outro fato corrobora a tese de que havia a intenção da contribuinte em esconder os lançamentos efetuados a débito nas contas de provisionamento do PIS/Cofins, já que, ao ser intimada a justificar a queda em seus recolhimentos das contribuições no ano de 2009, ela argumentou que, embora tenha ocorrido um aumento das vendas, as compras também aumentaram muito, apresentando uma planilha com valores de créditos que não condizem com os créditos escriturados em sua ECD. Em função destas considerações, assevera que a interessada “incorreu no crime de sonegação fiscal previsto no art. 71 da lei n° 4.502/64”. Identificou, em consequência, insuficiência do recolhimento do PIS e da Cofins, já que a contribuinte declarou e recolheu a menor seus débitos no ano de 2009, se utilizando de lançamentos a débito nas contas de provisão das respectivas contribuições. Informa que os valores de PIS (R$ 847.404,66) e da Cofins (R$ 4.058.182,59), “cujos lançamentos ocorreram em 31/01/2009 (Razão das contas PIS 44913000 e Cofins 44912000 anexados ao presente processo), deixaram de ser recolhidos e tão pouco foram declarados em DCTF. Segundo o histórico escriturado e informação obtida do próprio contribuinte eles referiramse a depósitos judiciais que deveriam ter sido efetuados em garantia do crédito tributário discutido através da ação judicial n° 2006.51.09.0004127, através da qual o contribuinte vislumbra que o ICMS seja excluído da base de cálculo do PIS/Cofins”. Relata que “os demais valores que foram lançados a débito referiramse a valores discutidos judicialmente pelas 03 (três) Concessionárias” e que foram depositados judicialmente pelas mesmas. Explica que as concessionárias solicitaram que fosse afastada a aplicação do Regime Monofásico de Tributação, impedindo que a PEUGEOTCITROEN retivesse o PIS/Cofins sobre parte de seus faturamentos estimados, fato que não impedia que os referidos débitos fossem declarados em DCTF à RFB. A autoridade fiscal faz, ainda, duas ressalvas: 1. Diz que, conforme art. 1o, c/c § 2o do art. 3o, da Lei n° 10.485/2002, foi transferida responsabilidade da tributação do PIS/Cofins na cadeia de produção para o fabricante de veículos automotores, de modo que, no caso em tela, a PEUGEOT Fl. 16825DF CARF MF 8 CITROEN, é a contribuinte das referidas contribuições. Informa que foi reduzida a zero as alíquotas do PIS/Cofins incidente sobre as vendas dos atacadistas de veículos automotores (concessionárias), razão pela qual “tornase clara a ilegitimidade das Concessionárias em discutir judicialmente sobre os tributos PIS/Cofins (Regime Monofásico) uma vez que elas sequer são contribuintes das referidas contribuições”; 2. Em segundo lugar, aduz que nenhuma sentença de 1a instância foi mantida. Faz, então, os seguintes questionamentos: “Como ficariam os depósitos judiciais que foram realizados pelas Concessionárias que não são contribuintes das contribuições? Em que sistema estariam controlados todos estes débitos e onde seriam dadas as baixas dos mesmos pela suposta conversão em renda da União destes depósitos judiciais, uma vez que não houve a declaração dos mesmos em nenhuma DCTF apresentada pela PEUGEOTCITROEN? O que garante que a conversão em renda da União será efetuada uma vez que os depósitos foram realizados pelas Concessionárias que não são contribuintes do PIS/Cofins?” Conclui que “não há dúvida de que a única maneira de tornar exigível estes débitos é através da constituição dos mesmos pelo lançamento de ofício, uma vez que o contribuinte não fez o autolançamento através da declaração dos mesmos em DCTF, conforme previsão legal estabelecida no art. 149 do CTN, e no art. 841, incisos III e IV, do RIR/99”. Diz, ainda, que ficou caracterizada a evidente intenção de sonegação fiscal, definida pelo art. 71 da Lei n° 4.502/64, devendo ser aplicada a multa de 150%, conforme prevê o art. 44, § 1o, da Lei n° 9.430/96, já alterado pelo art. 14, da Lei n° 11.488/07. Informa que foram anexados ao processo os seguintes documentos: Razão das contas PIS 44913000 e Cofins – 44912000; Partes das ações judiciais; Intimação fiscal de 27/01/2014; Planilha de lançamento, contendo os valores que foram debitados do PIS/Cofins provisionados. Por fim, disserta sobre a decadência. Aduz que “nas situações em que esteja caracterizada a ocorrência do dolo previsto no art. 71 da Lei n° 4.502/64, como no presente caso, o direito da autoridade administrativa de constituir o crédito tributário extinguese após cinco anos, contados a partir do primeiro dia do exercício financeiro da União (coincidente com o ano civil) seguinte àquele em que o sujeito passivo já poderia ter tomado a iniciativa do lançamento, conforme estipulado no art. 150, § 4o e 173, inciso I, do CTN”. Aduz que, no presente caso, “o prazo para a contagem da ocorrência da decadência começou a contar a partir de 01/01/2010 e se encerrará em 31/12/2014”. Informa, por fim, que os créditos tributários apurados, com os respectivos demonstrativos de apuração e demonstrativos de multas e juros de mora aplicados, encontramse anexos ao presente termo (Autos de Infração). Fl. 16826DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 115 9 Cientificada em 27/08/2014, a empresa apresentou manifestação de inconformidade em 26/09/2014, alegando, em síntese, o seguinte. Inicialmente, diz que a impugnação é tempestiva. Após, no tópico “II. Dos fatos”, faz um breve relato das ações judiciais. Diz que nessas ações não só houve depósito integral do tributo questionado como também houve liminar, confirmada por sentença de 1o grau, para que a impugnante deixasse de submeter as operações das concessionárias ao regime de tributação monofásica, previsto na Lei n° 10.485/2002, e observasse o regime de tributação plurifásico e não cumulativo previsto nas Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003. Afirma que para a Ação de n° 2006.51.09.0004127, que postula a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins, foi feito o depósito judicial. Diz que embora tenha liminar favorável, essa ação encontrase suspensa, aguardando a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADC de n° 18. Entende que, em função disso, agiu em estrita observância às decisões judiciais, deixando de recolher o PIS/Cofins referentes às ações em comento, mas que, por cautela, incluiu os valores que seriam devidos em virtude da receita auferida na conta de provisionamento do PIS e da Cofins, conforme evidenciado pela própria fiscalização. Aduz que forneceu todas as explicações sobre tais ações judiciais e que apresentou a documentação fiscal e contábil, justificando o recolhimento a menor das contribuições, mas que mesmo assim a fiscalização lavrou o auto de infração em litígio e, de forma equivocada, agravou a multa imposta com base em suposto crime de sonegação. No tópico “III PRELIMINARMENTE: DA NULIDADE POR ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO E DA PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA”, diz que é nulo o auto de infração por erro na identificação do sujeito passivo e pela consequente preterição do direito de defesa, pois foi impedida de efetuar o recolhimento do PIS e da Cofins exigidos por força de ordem judicial obtida pelas concessionárias, onde foram depositados integralmente os tributos exigidos. Explica que o regime monofásico do PIS e da Cofins para veículos foi estabelecido pela Lei n° 10.485/2002 que, em seu art. 1o, trouxe as alíquotas de 2% para o PIS e 9,6% para a Cofins sobre a receita bruta decorrente de venda desses produtos. Destaca que o regime de tributação monofásica implicou em um significativo aumento de alíquota dos referidos tributos, nos termos das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03. Diz que houve a transferência da responsabilidade pelo recolhimento dos tributos para um único contribuinte, já que os demais ficaram sujeitos à alíquota zero, o que se assemelha ao regime da substituição tributária. Lembra que a substituição tributária pode ser definida como uma técnica de tributação na qual um Fl. 16827DF CARF MF 10 dos elos da cadeia produtiva é responsável pelo recolhimento do tributo incidente sobre os outros integrantes da cadeia, sendo mais utilizada nos tributos plurifásicos (que incidem nas várias etapas da cadeia produtiva), como é o caso do IPI e do ICMS. Na sequência, disserta sobre o tema da substituição tributária, traz importante doutrina sobre o tema e transcreve a exposição de motivos do projeto de lei que culminou na Lei n° 10.485/2002. Conclui que, como as empresas submetidas ao lucro real devem apurar o PIS e a Cofins na sistemática não cumulativa, a criação do regime monofásico, concentrando toda a tributação em um único contribuinte, impediu às demais o direito de abaterem créditos do montante a pagar das contribuições. Diz que foi por isso que as concessionárias distribuíram as ações ordinárias. Relata que no curso das ações judiciais, foram proferidas decisões liminares, determinando que a impugnante, na qualidade de responsável por toda a tributação da cadeia, se abstivesse de recolher o PIS e a Cofins pelo regime monofásico, nos termos da Lei n° 10.485/2002. Diz que foi conferida à parte autora (concessionárias) a “tutela antecipada, a fim de determinar que a autora seja submetida ao regime de apuração nãocumulativo, nos termos das Leis n°s 10.637/02 e 10.833/03, afastando os ditames das Leis n°s 10.485/2002 e 10.865/2004, nas operações com veículos zero quilômetro”. Informa que, posteriormente, as liminares foram confirmadas em sentença de mérito. Aduz que a partir do momento que o regime monofásico foi afastado por ordem judicial que restabeleceu o regime plurifásico, a responsabilidade pelo recolhimento do tributo foi redistribuída por todos os contribuintes da cadeia econômica, cada qual com sua própria apuração de PIS/Cofins nos termos das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003. Assevera que as decisões judiciais transferiram a sua responsabilidade tributária para as concessionárias, o que implica na assunção dos bônus e dos ônus decorrentes daqueles litígios, ou seja, no caso de êxito, as concessionárias estariam exoneradas em definitivo da tributação majorada pelo regime monofásico, mas, no caso de sucumbência, as concessionárias assumiriam o recolhimento da diferença tributária. Alega que a situação relatada se amolda perfeitamente na disposição dos artigos 1o e 3o da Instrução Normativa de n° 104/2000 da Secretaria da Receita Federal, segundo os quais, o sujeito passivo que houver sido impedido, com amparo em medida judicial, que o responsável por determinado tributo efetuasse seu recolhimento, passa a responder pela exação em caso de cassação da tutela judicial. Argumenta que, no mesmo sentido, o Parecer Normativo n° 01/2002, da CoordenaçãoGeral do Sistema de Tributação, expõe que, “em consonância com o princípio da capacidade contributiva, não há como retornar a responsabilidade pelo recolhimento da exação a quem, embora inicialmente responsável por tal recolhimento, tenha deixado de efetuálo em obediência a ordem judicial proferida em favor de outrem”. Fl. 16828DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 116 11 Argumenta que, por cumprir as ordens judiciais, não pode suportar a autuação, que, em ultimo grau, além do tributo supostamente devido, culmina em multa, juros e representação fiscal para fins penais. Aduz que o sistema jurídico está permeado por valores como a segurança jurídica que garante aos administrados o direito de não penalização pela mudança repentina de práticas reiteradas do Estado. Afirma que a proteção da confiança legítima está manifesta no art. 100, inciso III, do CTN, que equipara as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas às normas complementares do Direito Tributário para fins de exclusão das penalidades, da cobrança de juros de mora e da atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Com base nessa disposição legal, alega que, como anos se passaram entre as liminares que determinaram a suspensão do recolhimento de PIS/Cofins monofásico nas vendas para as concessionárias mencionadas e a reforma dessas decisões de mérito pelo 2o grau judicial, sempre estave de boafé, confiando nos provimentos jurisdicionais. Conclui que não pode ser penalizada por isso. Aduz que os lançamentos tributários podem e devem ser realizados pela Receita Federal para fins de impedir a decadência, contudo, tais lançamentos devem ser realizados em nome das autoras das referidas ações, no âmbito das quais foram proferidas decisões que a proibiram de cobrarlhes o PIS e a Cofins que repassaria ao Fisco. In casu, afirma caber às concessionárias arcarem com os prejuízos causados pelas tutelas jurisdicionais, posteriormente cassadas, que pleitearam e chegaram a obter, na forma do art. 811 do CPC. Entende que está “deslocada a responsabilidade da tributária da Impugnante para as concessionárias por força de ordem judicial, o auto de infração ora guerreado fica despido de qualquer fundamento lógico ou jurídico. Em última análise, é completamente nulo”. Argumenta, outrossim, que o art. 142 do CTN determina a precisa identificação do sujeito passivo como requisito de validade do lançamento tributário. Afirma que não tem legitimidade passiva para suportar a exação tributária. Sustenta, apenas por argumentação, que a autoridade fiscal deveria ter incluído as concessionárias como corresponsáveis pela obrigação tributária em tela. Cita, por fim, o art. 59 do Decreto 70.235/72 para alegar “que a não inclusão das concessionárias no polo passivo da autuação importaria em clara preterição ao direito de defesa”. Enfim, diz ser nulo o auto de infração por ilegitimidade ativa ou por erro na identificação dos sujeitos passivos. Fl. 16829DF CARF MF 12 No tópico “IV DO DIREITO: IV.1 DA DECADÊNCIA PARCIAL DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO”, afirma que “tratandose de tributo lançado por homologação em que o contribuinte apresentou suas declarações relativas ao PIS e a Cofins, tendo recolhido tais tributos nos respectivos períodos autuados, a regra decadencial aplicável é a prevista no art. 150, §4° do CTN, cuja norma determina que seja considerada homologada a declaração do contribuinte no prazo de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador acarretando, por consequência, a extinção do crédito tributário se a Fazenda Pública se quedar inerte durante o citado interregno legal, como ocorreu no presente caso”. Assevera que a aplicação do art. 150, §4° do CTN, pode ser excetuada em apenas duas hipóteses: o não pagamento do valor declarado e a existência de fraude, dolo ou simulação. Esclarece que o próprio Termo de Verificação de Infração Fiscal consignou que a contribuinte declarou e recolheu a menor seus débitos de PIS/Cofins, durante todo o ano de 2009, se utilizando de lançamentos a débito nas contas de provisão das contribuições. Aduz, assim, que houve o recolhimento dos valores declarados, ainda que a menor. Argumenta que não há qualquer comprovação do Fisco sobre a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, ônus que lhe cabe exclusivamente. Por tal razão, afirma que o prazo decadencial a ser considerado deverá ser o do art. 150, §4°, do CTN. Traz decisões do CARF sobre o tema. Destaca que a jurisprudência do STJ é pacífica nesse sentido, conforme se depreende da leitura do Acórdão proferido no RESP/SC 973.733, julgado na sistemática do art. 543C do CPC, segundo o qual o prazo decadencial dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação é de cinco anos, contados a partir do fato gerador do tributo, quando o pagamento é antecipado e não há provas de dolo, fraude ou simulação. Conclui que “considerando que os fatos geradores da autuação fiscal ocorreram no lapso temporal de janeiro a dezembro de 2009, e, que a ciência do contribuinte ocorreu eu 27/08/2014, encontrase claramente decaído o direito do fisco de realizar lançamento para os períodos de apuração anteriores a 27/08/2009, uma vez ultrapassados mais de cinco anos do fato gerador”. No tópico “IV.2 – DOS VALORES DEPOSITADOS NAS AÇÕES MOVIDAS PELAS CONCESSIONÁRIAS E DOS EFEITOS DA CONVERSÃO EM RENDA EM FAVOR DA UNIÃO”, a interessada aduz que a autoridade fiscal, mesmo reconhecendo a existência dos depósitos judiciais, preferiu ignorálos sem sequer averiguar os seus efeitos. Entende que tais depósitos têm reflexo determinante na autuação. Aduz que o auto de infração está, de forma absurda, cobrando créditos tributários já extintos pela conversão em renda de depósito judicial. Alega que a partir do momento em que as concessionárias efetuaram os depósitos nas ações judiciais ajuizadas, nasceu ali uma relação jurídica nova e própria. Fl. 16830DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 117 13 Salienta que os valores depositados foram postos à disposição do juízo para quitar as contribuições integralmente, caso as concessionárias não lograssem êxito na demanda. Ressalta que, efetuado o depósito integral do débito discutido em ação judicial, e não oferecida qualquer resistência por parte da Fazenda Nacional, o controle da tributação é transferido para o Poder Judiciário. Citando decisão da 1a Seção do Superior Tribunal de Justiça, aduz que o depósito judicial é faculdade do contribuinte e, ao mesmo tempo, garantia do Fisco, cuja destinação dependerá da decisão que põe fim ao litígio. Argumenta que a concordância com o entendimento da fiscalização importa em ignorar a existência dos depósitos judiciais e o poder de cautela do Poder Judiciário evocado nas ações ordinárias ajuizadas pelas concessionárias. Entende que somente poderia ser exigido no auto de infração o saldo das contribuições que porventura as autoridades fazendárias considerassem não depositado. Diz que não assiste razão à cobrança de multa sobre os montantes depositados, já que se socorrer de tutela jurisdicional não é ato ilícito. Assevera que agiu corretamente ao efetuar lançamentos a débito nas contas de provisionamento de PIS e da Cofins em 2009, já que as contribuições foram objeto de depósitos judiciais. Alega que na Ação Ordinária n° 2006.61.00.0079124, da VICTOIRE AUTOMÓVEIS LTDA, que ainda não transitou em julgado, o depósito judicial importa na suspensão da exigibilidade de tais créditos tributários de acordo com o art. 151, II, do CTN; na Ação Ordinária n° 2004.61.00.0289134, de AUTOMOBILES DE PARIS LTDA e na Ação n° 2005.61.00.0190705, distribuída por SUPER FRANCE VEÍCULOS LTDA, os depósitos judiciais implicam na extinção do crédito tributário, nos termos do art. 156, VI, do CTN. No tópico “IV. 3 DO NECESSÁRIO SOBRESTAMENTO DO CASO CONCRETO ATÉ O TRÂNSITO EM JULGADO DA ADC N° 18”, aduz que em 10/10/2007 a Advocacia Geral da União apresentou no STF a ADC n° 18, com o objetivo de discutir a constitucionalidade do artigo 3o, §2°, inciso I da Lei n° 9.718/1998, em face do dispositivo constitucional previsto no artigo 195, inciso I, da Constituição Federal. Explica que o STF deferiu medida cautelar para suspender a tramitação de processos que envolvam a aplicação do art. 3o, § 2o, I, da Lei n° 9.718/1998 até o julgamento final da citada ADC. Entende, em consequência, que a Ação Ordinária n° 2006.09.0004127, movida pela PEUGEOTCITROEN contra a União Federal, foi suspensa, como inclusive reconhecido no Termo de Verificação Fiscal. Ressalta que as decisões do STF vinculam toda à Administração Pública, conforme se depreende da leitura do § 1o do art. 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, por analogia, deve ser aplicado ao presente caso. Fl. 16831DF CARF MF 14 Conclui que, em consequência, o processo administrativo em análise deve ser suspenso até decisão final do STF. Traz diversas decisões do CARF sobre a questão. No tópico “IV.4 DA AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO”, destaca que não restou configurada ocorrência de dolo, fraude ou simulação no recolhimento do PIS e da Cofins, não havendo que se falar em crime e nem em agravamento da multa proporcional aplicada. Aduz que, nos termos do art. 71 da Lei n° 4.502/64, a sonegação fiscal tem o dolo como requisito essencial. Alega que o dolo não se presume e que a mera ausência do recolhimento do tributo não é elemento suficiente para caracterizar a infração subjetiva, devendo o Fisco comprovar a conduta dolosa. Traz importante doutrina sobre o tema para afirmar que para que se configure o dolo é “essencial que houvesse a utilização de expedientes fraudulentos, ou seja, a intenção de promover uma redução do pagamento de tributo”. Diz, todavia, que isso não ocorreu no caso em tela, pois somente não recolheu o tributo exigido por força de ordem judicial que deslocou a responsabilidade pelo recolhimento para as concessionárias, mas porque registrou todas as operações na contabilidade, o que foi reconhecido pela própria fiscalização. Aduz que as concessionárias depositaram integralmente o valor exigido e que tais informações foram prestadas à fiscalização desde o início do procedimento fiscal. Argumenta, outrossim, que “fraude é, de acordo com os princípios presentes no Direito Brasileiro, a manobra executada com a intenção de prejudicar terceiros”. Cita o art. 72 da Lei n° 4.502/64 para afirmar que a fraude fiscal tem características próprias sendo qualificada em razão de um propósito firme, pré determinado e claro do agente no sentido de impedir ou retardar a ocorrência do fato imponível, de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento, ou seja, somente se configura a fraude na hipótese de ter sido comprovado o dolo. Diz que como não existe dolo no presente caso, não há que se falar em fraude, por conseguinte. Por fim, aduz que a simulação ocorre quando há a prática de ato ou negócio jurídico que visa esconder o real intuito dos agentes que encobertam, mediante adulteração de documentos, sua intenção. Diz que tal artifício possui como principal característica a divergência intencional entre a vontade e a declaração. Argumenta que para que a simulação ocorra é necessário que duas pessoas atuem juntamente com a intenção de enganar a vítima, no presente caso, a Fazenda Pública. Em função disso, sustenta que não há que se falar em simulação, porque tais operações não foram tributadas sob o regime monofásico de PIS/Cofins por determinação judicial e porque sua contabilidade retrata os fatos, estando contabilizados, em sua provisão, os depósitos judiciais efetuados nas ações judiciais correlatas com todos os elementos corretos. Entende não haver sequer indícios de que agiu dolosamente, considerando que as contribuições estavam provisionadas corretamente. Fl. 16832DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 118 15 Conclui que não há que se falar em dolo, fraude ou simulação, de modo que deve ser julgado improcedente a imputação dos crimes contra a ordem tributária e de sonegação, bem como, também é improcedente a aplicação da multa agravada. No tópico “V DO PEDIDO”, requer que: 1. a nulidade do auto de infração por ilegitimidade passiva; 2. se ultrapassada a preliminar de nulidade, que seja declarada a decadência dos fatos geradores ocorridos antes de 27/08/2009 e a improcedência do auto de infração na parte restante; 3. se superada a decadência, que seja intimada a Caixa Econômica Federal para apresentar o saldo atualizado das contas judiciais das Ações Judiciais n°s 2004.61.00.0289134, 2006.61.00.0079124 e 2005.61.00.0190705; 4. seja determinada a perícia para que seja respondido se os depósitos judiciais realizados nas Ações Judiciais n°s 2004.61.00.0289134, 2006.61.00.0079124 e 2005.61.00.0190705 são suficientes para satisfazer o valor do crédito principal exigido no auto de infração. Por fim, indica como assistente técnico o Dr. Darien Pessoa Ramos, advogado, inscrito na OAB/RJ n° 68.076, Gerente de Assessoria e Contencioso Fiscal. É o relatório. Sobreveio então o Acórdão 0653.206, da 3ª Turma da DRJ/CTA, dando provimento parcial à impugnação da Contribuinte, cuja ementa foi lavrada nos seguintes termos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. DESCABIMENTO. Incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo das contribuições ao PIS/Pasep e à Cofins, pois aludido valor é parte integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados, exceto quando for cobrado pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de substituto tributário. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. DESCABIMENTO. Incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo das contribuições ao PIS/Pasep e à Cofins, pois aludido Fl. 16833DF CARF MF 16 valor é parte integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados, exceto quando for cobrado pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de substituto tributário. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. Apenas quando reste comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação é que o termo inicial de contagem do prazo decadencial do direito de a Fazenda Nacional formalizar a exigência tributária deslocase para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito tributário poderia ter sido constituído. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. DOLO. AUSÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA. Não há que se falar em conduta dolosa e frauduluenta, quando os débitos não declarados do regime monofásico de PIS/Cofins estavam sendo discutidos judicialmente e a contabilidade retrata os fatos como ocorreram, estando registrados os depósitos judiciais efetuados nas ações judiciais correlatas. PROCEDIMENTO FISCAL. AUSÊNCIA DE CAUSA DE NULIDADE. Constatado que o procedimento fiscal foi realizado com observância das normas de regência e demonstrando a contribuinte total compreensão da infração imposta, fica afastada a alegação de preterição do direito de defesa e a hipótese de nulidade do procedimento fiscal. DEPÓSITO JUDICIAL. CONVERSÃO EM RENDA DA UNIÃO. EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A conversão de depósitos judiciais em renda da União extingue o respectivo crédito tributário. PEDIDO DE PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Indeferese, por prescindível, o pedido de perícia, nos termos do art. 18 do Decreto n° 70.235/72. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte A Contribuinte foi intimada do teor da decisão a quo em 11/08/2015, conforme o Temo de ciência por abertura de mensagem – comunicado (fls 16800), não tendo apresentado recurso voluntário contra a parte da decisão em que foi sucumbente. Assim, foi lavrado o Termo de perempção de fls 16808 e o Termo de transferência de crédito tributário, deste para o processo nº 13784720.327/201568, para envio à Procuradoria da Fazenda Nacional e consequente cobrança executiva. É o relatório. Fl. 16834DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 119 17 Voto Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz O presente julgamento deve cingirse ao crédito cancelado, em razão de a impugnação contra o lançamento tributário apresentada pela Contribuinte ter sido julgada parcialmente procedente pela DRJ de Curitiba, dando origem ao acórdão que traz a este C. Conselho a necessidade de apreciação do recurso de ofício. Quanto ao recurso de ofício, ele continua sendo passível de conhecimento, mesmo depois do advento da Portaria MF n. 63, de 9 de fevereiro de 2017, que aumentou o limite de alçada para R$2.500.000,00 (dois milhões e meio de reais). Pela análise do acórdão recorrido, constato que a parte em que a impugnação foi julgada procedente diz respeito ao cancelamento da qualificação da multa de ofício, de modo que foram mantidos os débitos com a incidência da penalidade no patamar de 75%. Isto porque a DRJ entendeu que não ficou demonstrada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação in casu. Ademais, e via de consequência, acordaram os membros da 3ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, em admitir a preliminar de decadência no período compreendido entre 01/01/2009 a 31/07/2009. Finalmente, foram exonerados certos valores, uma vez que a instância a quo entendeu que os mesmos haviam sido depositados judicialmente e foram convertidos em renda da União, extinguindo o crédito tributário. 1. Da inexistência de intuito doloso, fraude ou simulação A fiscalização aplicou a multa qualificada de 150% pelo o fato de o contribuinte ter omitido informações em DCTF a respeito da Contribuição ao PIS e da COFINS devidos em função dos fatos geradores ocorridos em todos os meses do ano calendário de 2009, bem como pelo fato de o contribuinte não ter recolhido os respectivos valores a título das Contribuições. Tais parcelas dos débitos eram relativas à Contribuição ao PIS e à Cofins discutidos em três ações judiciais das concessionárias ligadas à Contribuinte, sendo que esta última também não declarou dois valores debitados nas contas de provisionamento do PIS (R$ 847.404,66) e da Cofins (R$ 4.058.182,59), relativos a depósitos judiciais referentes à jan./2009 e que estavam vinculados à ação judicial própria. Como bem salientado pelo acórdão de primeiro grau, a fiscalização: Afirma ainda que a impugnante realizou, de forma reiterada e habitual (JAN/09 a DEZ/09), lançamentos contábeis a débito nas contas de provisão do PIS (44913000) e da Cofins (44912000), vinculados a depósitos judiciais executados pelas concessionárias, com o intuito de diminuir o montante do PIS/Cofins a recolher, sem que informasse tais situações em nenhuma DCTF apresentada no ano de 2009. Todavia, entendo que não é possível concordar com a caracterização sonegação fiscal, tampouco de crime contra a ordem tributária por omissão de declaração ou falsa declaração (artigo 1º, inciso I e artigo 2º. Inciso II da Lei n. 8.137/90) in casu, como pretende a autoridade lançadora. Fl. 16835DF CARF MF 18 É tranquila a jurisprudência deste Conselho sobre a necessidade de demonstração da conduta dolosa do contribuinte pela Fiscalização, quando da lavratura o auto de infração, para fins de subsunção aos tipos previstos pelos artigos os artigos. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64 (sonegação fiscal e fraude). Vale dizer, a ação ou omissão dolosa “tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente”, ou ainda “tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”, deve ser cabalmente provada pelo Fisco no momento do lançamento tributário. Não há dolo presumido. A fraude ou sonegação tem que sem comprovada. Contudo, nada próximo da comprovação de condutas fraudulentas, objetivando a sonegação das Contribuições encontramse nestes autos. Entendo que não está provado que houve a intenção de praticar o ilícito, afinal o contribuinte não falsificou ou adulterou informações, tentando ludibriar o fisco, por exemplo. A contribuinte, isto sim, agiu em observância às decisões judiciais que lhe amparavam, deixando de recolher a Contribuição ao PIS e a Cofins na sistemática monofásica e com a inclusão do ICMS em sua base de cálculo, incluindo os valores que seriam devidos em virtude da receita auferida na conta de provisionamento do PIS e da Cofins. Outrossim, constato que a Contribuinte forneceu todas as explicações sobre as ações judiciais em questão, bem como apresentou a documentação fiscal e contábil, justificando o recolhimento a menor das contribuições. Ainda nesse ponto, destaco que o próprio fato da Contribuinte e suas concessionárias levarem toda a discussão ao Poder Judiciário, efetuando depósitos judiciais e promovendo o provisionamento de valores demonstra, em verdade, o escancaramento de suas obrigações tributárias e sua boafé em adimplilas, nos termos que entendia como mais próprios da lei. Com efeito, nas ações descritas no relato acima, houve depósito das Contribuições objeto de questionamento judicial (alguns por concessionárias e outros pelas própria Contribuinte), assim como houve liminares em favor da empresa, confirmadas por sentença de 1º grau, para que a impugnante deixasse de submeter as operações das concessionárias ao regime de tributação monofásica, previsto na Lei n° 10.485/2002, e observasse o regime de tributação plurifásico e não cumulativo previsto nas Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003. O objeto de tal ação inclusive faz ser ilógica a estranheza apresentada pela autoridade fiscal, de “que os demais depósitos judiciais pertencentes às ações judiciais movidas pelas Concessionárias, embora tenham sido recolhidos, não aparecem informados nas DCTF da PEUGEOTCITROEN, ou seja, não há qualquer tipo de controle sobre os respectivos débitos, uma vez ser ela a contribuinte do PIS/Cofins e não as concessionárias.” Ora, se a discussão judicial era justamente a respeito da aplicação ou não do regime monofásico à tributação, é de todo evidente que as declarações foram realizadas pelas Concessionárias, que no entender da empresa e das inicias decisões judiciais, eram sim contribuintes das referidas Contribuições, uma vez que deveria ser utilizada a sistemática não cumulativa plurifásica das Contribuições. Na Ação de n° 2006.51.09.0004127, que postulava a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins, foi feito o depósito judicial. A própria Fiscalização tinha ciência de todos esses dados (como se vê no TFV de fls 16519 a 16529), que foram confirmados pela decisão recorrida. Ou seja, a Contribuinte tinha respaldo jurídico para não recolher os tributos e as declarações apareceram em nome das concessionárias. Fl. 16836DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 120 19 Sobre a falta de declaração em DCTF referente à ação da própria Contribuinte, saliento ainda que este Conselho já decidiu que nem mesmo a falta de apresentação da DCTF seria o suficiente para per se culminar na conclusão pela máfé, como se verifica do Processo n° 10907.002420/200411, Acórdão n° 10709.350, do qual destaco os seguintes trechos da ementa e do voto vencedor: MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO EVIDENTE INTIUITO DE FRAUDE. A qualificação da multa de oficio exige a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo, que não se verifica pela falta de atendimento a intimação fiscal para apresentação de livros e documentos, nem pela omissão na entrega da DCTF. (...) A falta de apresentação de DCTF é descumprimento de obrigação acessória, mas não traz a demonstração inequívoca do indício fraudulento. Ademais, a autuada apresentou as DIPJ de todos os exercícios fiscalizados, como se vê na tela do sistema de informações da Receita Federal, à fl. 529, com base nas quais o Fisco poderia verificar o crédito tributário devido e exigilo da recorrente, com multa de oficio de 75%. O que poderia dar motivo à aplicação da multa de 150% seria, por exemplo, o caso de, nas DIPJ apresentadas, ter a autuada, reiteradamente, declarado receitas em valores substancialmente inferiores às efetivamente recebidos, com o que estaria, intencionalmente, prestando informações incorretas, com o evidente intuito de esconder da autoridade administrativa a ocorrência do fato gerador do tributo. Mas isso não foi, no caso, aventado pela autoridade lançadora. Assim, a ausência de recolhimento e a declaração inexata em DCTF não podem ser entendidas como motivo para qualificação da multa. A simples falta de pagamento de tributo não implica necessariamente na ocorrência de sonegação, muito menos quando tal ausência de recolhimento é amparada em discussões judiciais. Ao caso se aplica, isto sim, o que dispõe o artigo 44, inciso I da Lei nº 9.430/96: "Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; Concluo, portanto, ser de fato indevida a qualificação da penalidade originalmente aplicada à Recorrente, devendo ser mantida sua redução para o patamar de 75%. 2. Decadência Analisando o presente processo, verificase que i) tratase de tributo sujeito ao lançamento por homologação (Contribuição ao PIS e COFINS); ii) houve pagamento dos Fl. 16837DF CARF MF 20 tributos nos termos determinados pelas decisões judiciais que amparavam a Contribuinte e não há prova nos autos da ocorrência de dolo, fraude ou simulação (conforme descrito no item 1 acima); iii) a Contribuinte tomou ciência do auto de infração em 27/08/2014; iv) a autuação se refere a fatos ocorridos entre 01/01/2009 a 31/12/2009. Desse modo, deve ser reconhecida a decadência do direito do Fisco de exigir parte dos créditos tributários em discussão (período anterior a 27/08/2009), uma vez que, não havendo conduta dolosa por parte da Contribuinte, o prazo de decadência tem como termo a quo a data do do fato gerador do tributo. Com efeito, o Superior Tribunal de Justiça, valendose da sistemática prevista no art. 543, “c”, do CPC, pacificou, no REsp 973.733/SC, o entendimento de que, em se tratando de tributo sujeito ao lançamento por homologação, havendo pagamento antecipado e inexistindo conduta dolosa, o prazo de decadência deve ser contado a partir da realização do fato gerador do tributo (artigo 150, §4º do CTN); do contrário, o prazo deve ser contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele que poderia ser cobrado (artigo 173, inciso I do CTN): PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE.1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (...). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e). (REsp 973733/SC, Rel. Min. LUIZ FUX, 1ª Seção, DJ 18/09/09 – Recurso Repetitivo) Por conta disso, devese aplicar ao presente caso o art. 62, §2º do Regimento Interno do CARF, o qual prescreve a necessidade de reprodução, pelos Conselheiros, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça, na sistemática dos recursos repetitivos: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Fl. 16838DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 121 21 Por conseguinte, confirmo a conclusão do acórdão a quo, de decadência com relação aos débitos oriundos dos fatos geradores do período compreendido entre 01/01/2009 a 31/07/2009. 3. Valores depositados que foram convertidos em renda Com relação aos valores depositados nas ações movidas pelas concessionárias e dos efeitos da conversão em renda em favor da União, não merece qualquer reparo o acórdão recorrido, que tratou cuidadosamente da questão. Assim, adoto os seus dizeres como razões de decidir nesse julgamento, nos moldes do artigo 50, §2º da Lei n. 9.784/99: Primeiramente, há de se ressaltar que apenas na ação ordinária movida pela Concessionária Super France Ltda. (2005.61.00.0190705) houve a conversão em renda da União dos depósitos judiciais, conforme a própria interessada demonstra no “Doc. 6” (fl. 16.717/16.758). (...) Em segundo lugar, ressaltese que houve determinação judicial para o levantamento dos depósitos judiciais efetuados por esta empresa, conforme decisões de fls. 16.406/16.460. (...) Por outro lado, observase que, em 30/11/2009, a concessionária Super France Ltda. retificou as DCTF de janeiro a setembro de 2009. Em todas essas DCTF retificadoras foram declarados os débitos de PIS e Cofins suspensos pela ação judicial de n° 20056.100019/0705. Quanto à DCTF original de outubro/2009, entregue em 31/10/2009, esta já foi informada com as devidas suspensões. No quadro abaixo demonstrase as informações de PIS e Cofins prestadas pela referida empresa nas DCTF retificadoras: É oportuno fazer algumas observações quanto às informações acima demonstradas: os valores do PIS e da Cofins nas DCTF originais de janeiro a setembro de 2009 é exatamente o valor pago, o que demonstra que a interessada retificou as DCTF, informando o valor discutido judicialmente; os valores suspensos pelas ações judiciais são exatamente os montantes lançados; relativamente ao mês de agosto de 2009, houve a suspensão de PIS pela ação judicial em análise no valor de R$ 81.996,41 (informação da DCTF retificadora), mas o valor lançado foi de R$ 35.392,23, conforme fl. 16.531 (Anexo ao Termo de Verificação Fiscal) e fl. 16.536 (Auto de Infração do PIS); relativamente ao mês de setembro de 2009, houve lançamento de Cofins, mas não houve de PIS, embora a contribuinte tenha, também, realizado a suspensão da parcela discutida Fl. 16839DF CARF MF 22 judicialmente. Observe a ausência do lançamento referido à fl. 16.531 (Anexo ao Termo de Verificação Fiscal) e à fl. 16.536 (Auto de Infração do PIS); a informação do PIS suspenso é do código 6912, relativo à sistemática não cumulativa; a informação da Cofins é do código 2172, relativo à sistemática cumulativa. Tal situação é incoerente, mas não é decisiva para a análise realizada. Analisandose, por sua vez, se os depósitos convertidos em renda foram utilizados para extinguir os valores de PIS e Cofins suspensos, temse que, segundo informações do Sief Fiscalização Eletrônica (Fiscel), que os débitos suspensos de PIS e Cofins foram tratados em processo específico, o de n° 10880.729484/201218. Em consulta a este processo, constatase que ele diz respeito a 24 débitos de PIS e Cofins, que englobam os períodos de apuração de 11/2008 a 10/2009. Portanto, todos os débitos relacionados neste auto de infração foram nele analisados. Verificase, outrossim, as seguintes informações: (...) Constatase, portanto, que assiste razão à interessada. Primeiramente, pelo fato de que a maior parcela dos débitos de PIS e Cofins sujeitos à tributação monofásica foi extinta pela conversão do depósito em renda da União na pessoa jurídica da concessionária Super France. Por outro lado, a pequena parcela dos valores dos débitos não extinta foi enviada à PFN, segundo informações do processo de n° 10880.729484/201218, em 19/08/2014, antes da ciência dos Autos de Infração em análise, que ocorreu em 27/08/2014. Ademais, estes débitos enviados à PFN são da Super France e não da contribuinte em epígrafe, PEUGEOUTCITROEN que, por força de determinação judicial transitada em julgado, foi afastada da relaçãojurídica tributária neste ano de 2009. Sendo assim, cancelase os seguintes valores de PIS e a Cofins lançados, com a respectiva multa de ofício, considerando que os meses anteriores ao período de apuração completado em 31/08 estão decaídos: Dessarte, restando comprovado nos autos que os depósitos judiciais foram convertidos em renda da União, extinto está o respectivo crédito tributário que estava em discussão na ação judicial e foi objeto de lançamento tributário, nos termos do artigo 156, inciso VI do CTN. 4. Dispositivo Por tudo quanto exposto, voto pela improcedência do recurso de ofício, mantendo o cancelamento parcial da exigência formalizada no auto de infração. Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 16840DF CARF MF Processo nº 10073.721650/201404 Acórdão n.º 3402003.857 S3C4T2 Fl. 122 23 Fl. 16841DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.736150/2011-46
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2006, 2009
OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. DUPLICIDADE DE CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS.
Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, seguida de incorporação reversa e nova capitalização, em inobservância da correta interpretação a ser conferida ao art. 135 do Decreto no 3.000, de 1999, devem ser expurgados os acréscimos indevidos com a consequente tributação do novo ganho de capital apurado.
TAXA SELIC. JUROS DE MORA INCIDENTE SOBRE MULTA DE OFICIO. APLICABILIDADE.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 9202-005.235
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva (relatora), Ana Paula Fernandes e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva (relatora), Ana Paula Fernandes e Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Heitor de Souza Lima Júnior.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva Relatora
(assinado digitalmente)
Heitor de Souza Lima Junior Redator-Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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DUPLICIDADE DE CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, seguida de incorporação reversa e nova capitalização, em inobservância da correta interpretação a ser conferida ao art. 135 do Decreto no 3.000, de 1999, devem ser expurgados os acréscimos indevidos com a consequente tributação do novo ganho de capital apurado. TAXA SELIC. JUROS DE MORA INCIDENTE SOBRE MULTA DE OFICIO. APLICABILIDADE. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva (relatora), Ana Paula Fernandes e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva (relatora), Ana Paula Fernandes e Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Heitor de Souza Lima Júnior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 73 61 50 /2 01 1- 46 Fl. 1253DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Patrícia da Silva – Relatora (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior – RedatorDesignado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de Recursos Especiais, de efls. 1.111/1.120 e 1.143/1.178, interposto pela Fazenda Nacional e pelo Contribuinte, em face do acórdão nº 2202002.259, julgado na sessão do dia 16 de abril de 2013, pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção, o qual deu parcial provimento ao Recurso Voluntário. A decisão restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006, 2009 OMISSÃO DO GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. MAJORAÇÃO ARTIFICIAL DO CUSTO DE AQUISIÇÃO. CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS DE LUCROS REFLETIDOS NAS EMPRESAS HOLDINGS PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. É indevida a majoração do custo de aquisição na capitalização de lucros ou reservas de lucros apurados na empresa investidora pelo Método de Equivalência Patrimonial refletidos nas empresas holdings investidoras, do mesmo lucro da sociedade investida, disponível para capitalização ou retiradas. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societário alienada, mediante a capitalização indevida de lucros e reservas refletidos da investidora, decorrentes dos ganhos avaliados pelo método da equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, devem ser expurgados os acréscimos indevidos, ou apurado o custo de aquisição da participação societária em função do patrimônio liquido da sociedade alienada, com a conseqüente tributação do efetivo ganho de capital. MULTA QUALIFICADA. DOLO OU FRAUDE Incabível a multa qualificada quando não restar comprovado de forma firme e estreme de dúvidas o dolo especifico ou fraude do sujeito passivo no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente Fl. 1254DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.254 3 a ocorrência do fato gerador, de excluir ou modificar as suas características essenciais. Incabível a incidência de juros sobre a multa de ofício por falta de previsão legal. Na origem, trata o presente processo de Auto de Infração relativo a IRPF, anoscalendário 2006 e 2009. A fiscalização apurou omissão de ganhos de capital na alienação de ações/quotas não negociadas em bolsa, com aplicação da multa qualificada de 150%. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, efls. 71/110: A ação fiscal teve como objeto a análise da operação de alienação das ações do Banco Pactual S/A, CNPJ n° 30.306.294/000145, de propriedade do sócio Sr. André Fernandes Lopes Dias, precedida por reorganização societária ocorrida entre sociedades holdings, as quais detinham todas as ações do Banco Pactual. A referida reorganização consistiu na extinção das holdings que detinham participação societária no Banco, por meio de sucessivas incorporações às avessas, culminando com a alienação das ações do Banco Pactual diretamente pelos acionistas pessoas físicas da instituição. Por meio da reorganização societária foi adotado um planejamento tributário inconsistente, por meio do qual se verificou a majoração ilícita do custo das ações alienadas, gerando, como conseqüência, a redução indevida do ganho de capital tributável obtido pelo acionista pessoa física. Verificouse um acréscimo no custo das ações alienadas do Banco Pactual ó/A pertencentes ao acionista André Fernandes Lopes Dias da ordem de 199,83%, na data da alienação em dezembro de 2006, enquanto o aumento de patrimônio líquido do Banco Pactual S/A, entidade que concentrava toda a riqueza efetiva do grupo, no mesmo período, foi de 89% conforme Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica DIPJ da instituição financeira relativa ao anocalendário de 2006. Constatouse, assim, uma total discrepância entre a evolução da riqueza da instituição financeira alienada com o acréscimo patrimonial do custo das respectivas ações pertencentes a um dos seus acionistas. Tais processos de reorganizações societárias não teriam como produzir efeitos econômicos que justificassem o acréscimo patrimonial da pessoa física, tendo como objeto tãosomente a majoração irregular do custo de aquisição das ações alienadas do Banco Pactual S/A e, consequentemente, a supressão de tributos devidos pela pessoa física relativos à operação de alienação do Banco. Através de contrato firmado em 09/05/2006, entre a pessoa jurídica UBS AG, a pessoa jurídica Pactual S.A (controladora direta do Banco Pactual S.A.) e as pessoas físicas que possuíam participação indireta sobre o patrimônio do Banco Pactual S.A., Fl. 1255DF CARF MF 4 ficou definido, entre outras cláusulas, que as holdings detentoras de todas as ações do Banco Pactual S.A seriam extintas mediante a reorganização, para que os sócios pessoas físicas assumissem a condição de proprietários diretos das ações negociadas. O pagamento pela compra das ações do Banco Pactual S.A. foi dividido em parcelas, sendo a primeira paga na data de "Fechamento" da compra e venda das ações, ocorrido em dezembro de 2006, e a segunda em data posterior denominada de "Pagamento Diferido". Além desses pagamentos, os alienantes das ações receberiam ainda outros valores denominados "Pagamentos Especiais; Usufruto". Os sócios pessoas físicas providenciaram uma reestruturação societária no anocalendário 2006, mediante incorporações às avessas das holdings controladoras do Banco, para permitir que a transferência das ações do Banco Pactual S.A. ao UBS AG fosse feita diretamente pelos sócios pessoas físicas. Em 28/12/2004 e em 31/12/2005, foram realizados os aumentos do capital social de Pactual Participações Ltda nos montantes de R$ 210.000.000,00 e R$ 130.000.000,00, respectivamente, passando de R$ 125.000.321,05 para R$ 335.000.321,71 em 28/12/2004 e R$ 465.000.320,61 em 31/12/2005, mediante capitalização de parte dos lucros retidos na conta lucros acumulados da sociedade. Em 31/12/2005 a Pactual Participações Ltda é incorporada por Pactual Participações S/A, cujo capital social passou de R$ 26.969.514,00 para R$ 70.118.786,40 (aumento de R$ 43.149.272,40). Posteriormente, a Pactual Participações S/A transformouse em Nova Pactual Participações Ltda. Em 13/10/2006, foi realizado o aumento do capital social da Nova Pactual Participações Ltda no montante de R$ 686.000.000,00, passando de R$ 70.118.786,40 para R$ 756.1, mediante capitalização dos créditos detidos pelos sócios quotistas contra a sociedade. Em 13/10/2006 a Pactual Holdings S/A, aumentou seu capital social em R$ 202.500.000,00, mediante a capitalização de créditos detidos contra a sociedade e a capitalização da reserva legal da Companhia. Em 13/10/2006 a Pactual Holdings S/A é incorporada por Pactual S/A, passando o capital social da incorporadora de R$ 34.498.190,25 para R$ 64.248.147,47. Também nesta data, a Nova Pactual Participações Ltda é incorporada por Pactual S/A, cujo capital social passou de R$ 64.248.147,47 para RS 97.841.295,93. Em 01/11/2006, o capital social da Pactual S/A foi aumentado em R$ 3.862.542,92, passando para R$ 101.698.838,85, com a conseqüente emissão de duas ações preferenciais subscritas pelos acionistas André Santos Esteves e Gilberto Sayão da Silva e integralizadas mediante a capitalização de créditos por eles detidos contra a sociedade. Fl. 1256DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.255 5 Em 03/11/2006 a Pactual S/A aumenta seu capital social em R$ 996.087.876,00, passando este para R$ 1.097.786.714,85, mediante a capitalização de créditos detidos pelos acionistas contra a Companhia. Em 01/12/2006 a Pactual S/A é incorporada pelo Banco Pactual S/A, sendo vertido para o incorporador o patrimônio líquido da incorporada, de R$ 1.149.597.660,18. A partir deste último evento societário, os acionistas pessoas físicas passaram a ter participação direta no Banco Pactual S/A, detendo as ações que, posteriormente, foram alienadas. Observase um padrão nos eventos societários. Após o incremento dos respectivos Patrimônios Líquidos das companhias em decorrência dos ajustes de equivalência patrimonial originados pelo lucro do Banco Pactual S/A, todas as companhias Investidoras (Nova Pactual Participações Ltda, Pactual Holdings S/A e Pactual S/A) tiveram seus lucros e reservas capitalizados e posteriormente foram incorporadas pelas suas Investidas, operações essas inversas ao processo normal que é o da Investidora incorporar a Investida. Nos processos de incorporação reversa houve majoração irregular no custo das ações alienadas, tendo em vista que o processo de extinção das holdings Pactual Participações Ltda, Nova Pactual Participações Ltda e Pactual Holdings S/A, com a anterior capitalização de dividendos nos valores de R$ 210.000.000,00, R$ 130.000.000,00, R$ 43.149.272,40, R$ 202.500.000,00, R$ 686.000.000,00, não poderiam gerar o aumento no custo das ações alienadas do Banco Pactual S/A, uma vez que, posteriormente, houve acréscimo cumulativo do custo das aludidas ações alienadas com a incorporação do acervo líquido da Pactual Holdings S/A e da Nova Pactual Participações Ltda e, mais tarde, a capitalização dos dividendos da companhia Pactual S/A, anteriormente à sua incorporação pelo Banco Pactual S/A, no montante de R$ 1.063.293.524,60, que representa a soma das parcelas R$ 29.749.957,22, RS 33.593.148,46, RS 3.862.542,92 e R$ 996.087.876,00. Com o evento de incorporação, todo o acervo líquido da Pactual S/A (PL), no montante de RS 1.149.610.206,41, foi incorporado pelo Banco Pactual S/A. As ações ou quotas recebidas pelo sócio ou acionista, em decorrência do aumento de capital subscrito pela sociedade fundida, incorporada ou cindida, continuam sendo basicamente as mesmas de antes, ainda que qualitativamente tenha sofrido alteração, da mesma forma como se aceitaria indiscutivelmente como inalterada a participação societária dos sócios ou acionistas que participavam em uma sociedade que tenha incorporado patrimônio de outra. Concluise que o custo da ação alienada por cada acionista tem como base a participação de cada um deles no capital social da Pactual S/A, em 01/12/2006. Todavia, o contrato firmado na compra e venda do Banco Pactual S/A determinava que, entre a Fl. 1257DF CARF MF 6 data da celebração do negócio e a data da efetivação do mesmo os lucros auferidos seriam objeto de distribuição aos antigos proprietários, de tal forma, que em 22/02/2007, os acionistas alienantes, àquela época exacionistas, receberam de dividendos o montante de R$ 290.754.000,06. Tal montante, portanto, referese a lucros auferidos até 01/12/2006 e, para que pudessem ser distribuídos deveriam estar incluídos no patrimônio líquido da Pactual S/A. Por isso, esta parcela deve ser deduzida do custo de aquisição apurado. Com isso, chegase ao custo das ações alienadas pelo Contribuinte, que é de R$ 855.014,67, correspondente a 0,10% do total da sociedade. O que evidencia a irregularidade é que o sujeito passivo recebeu novas ações em troca das extintas, por ocasião da extinção da Nova Pactual Participações Ltda, mantendo assim, em sua propriedade a mesma parcela que detinha indiretamente do Banco Pactual S/A, entidade que concentrava a efetiva riqueza econômica e financeira do grupo empresarial, como também aumentou o custo de aquisição de tais ações por meio de dividendos não distribuídos. Os dividendos capitalizados são os mesmos, na medida em que as Reservas e Lucros capitalizados por Nova Pactual Participações Ltda e Pactual S/A nada mais são do que o Resultado da Equivalência Patrimonial do Banco Pactual S/A. As operações engendradas pelas citadas sociedades empresariais (uma autêntica cadeia de repercussões de equivalência patrimonial), no que concerne à questão da incorporação de lucros e dividendos, somente encontra lastro jurídico contábilfinanceiro no que se refere àqueles gerados pelo Banco Pactual S/A, com repercussão na controladora Pactual S/A. Com efeito, eventuais ajustes promovidos pelo Banco Pactual S/A em função de acréscimos patrimoniais ocorridos nas sociedades Pactual Participações Ltda e Nova Pactual Participações Ltda nada mais eram do que a própria riqueza gerada pelo Banco Pactual S/A, as quais já haviam sido consignadas no patrimônio de Pactual S/A. A capitalização cumulativa dos lucros de equivalência patrimonial para aumentar o custo de aquisição das ações acima do cabível não pode ser admitida por causa de sua ilicitude, além do que deve ser inibida, para que, futuramente, não só comprometa a eficácia de toda tributação do ganho de capital sobre participações societárias, uma vez que o estratagema contábil viabilizaria a utilização de "empresas de papel" (holdings) tãosomente para não pagar imposto de renda sobre ganho de capital, distorcendo gravemente a percepção do Fisco acerca da capacidade contributiva dos sócios pessoas físicas. Com os procedimentos adotados pelos exacionistas, estes informaram no Demonstrativo de Ganho de Capital de suas Declarações de Ajuste Anual o custo majorado de suas ações, inserindo, dessa forma, elementos inexatos com o fim de pagar menos imposto de renda, conduta que se insere no contexto de fraude à fiscalização tributária, sendo o tipo doloso (art.72, da Lei 4.502/64). Todo o arcabouço montado foi no sentido de Fl. 1258DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.256 7 prejudicar o direito do Fisco, configurando, em tese, crime contra a Ordem Tributária definido no inciso I, dos artigos Io e 2o da Lei 8.137/90. O ato praticado vai contra as palavras e espírito da lei (art. 135 do RIR/99), apesar de o contribuinte fiscalizado afirmar que nela se baseou. Mesmo que isso fosse verdade, o ato preservaria a letra da lei, mas ofenderia o espírito dela, envolvendo o abuso do direito, intimamente ligado à idéia segundo a qual não há direito ilimitado. O abuso do direito pode ser definido como o exercício egoístico, normal do direito, sem motivos legítimos, com excessos intencionais ou voluntários, dolosos ou culposos, nocivos a outrem, contrários ao critério econômico e social do direito em geral. Foi aplicada a multa de 150% com base no art. 957, n, do RIR/99, tendo em vista a intenção do fiscalizado de majorar o custo de suas ações e permanecer com esse valor de custo majorado, mesmo após o recebimento de dividendos previstos no contrato de compra e venda das ações do Banco Pactual S/A em fevereiro de 2007, momento em que deveria recalcular o imposto apurado referente à primeira parcela, deduzindose tal valor do custo. Foi formalizada Representação Fiscal para Fins Penais Processo n° 12448.738757/201161, a qual se encontra em anexo, para comunicação ao Ministério Público da prática de fatos que, em tese, configuram crime contra a ordem tributária. Diante de tal lançamento, a Contribuinte apresentou impugnação de efls. 917/951, alegando a insubsistência do Auto de Infração. A 21ª Turma da DRJ de Rio de Janeiro/RJ, conforme acórdão nº 1247.758, de efls. 958/985, julgou procedente o lançamento. Intimado de tal decisão, houve a interposição de Recurso Voluntário, efls. 987/1.031, que foi julgado pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção, na sessão do dia 16 de abril de 2013, sendo dado parcial provimento ao recurso para desqualificar a multa de ofício, reduzindoa ao percentual de 75% e excluir da exigência a taxa Selic incidente sobre a multa de ofício. Após a decisão que deu parcial provimento ao Recurso Voluntário, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de efls. 1.111/1.120, requerendo a reforma do acórdão recorrido para que seja restabelecida a qualificação da multa de ofício bem como a incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício. Acórdãos ns. 10196446 e 910100.539, utilizados como paradigmas, apresentam as seguintes ementas: NULIDADE SIGILO BANCÁRIO – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR 105/2001INOCORRÊNCIA Não cabe alegação de quebra de sigilo bancário no caso de entrega Fl. 1259DF CARF MF 8 espontânea à fiscalização de extratos das respectivas contas obtidos pelo sujeito passivo diretamente dos bancos de que é cliente. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS Caracterizam omissão de rendimentos os valores creditados em conta corrente de depósitos ou investimentos, mantida junto a instituição financeira, quando o contribuinte, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. PROVAS As provas somente alcançadas após a impugnação devem ser consideradas em grau de recurso, e sua confirmação pela fiscalização produz o efeito de reduzir a matéria tributável. MÚTUO. COMPROVAÇÃO A efetividade da realização de mútuo há que ser comprovada mediante prova da transferência dos recursos financeiros mutuados. LANÇAMENTOS CONEXOS. EFEITOS DA DECISÃO RELATIVA AO LANÇAMENTO PRINCIPAL Em razão da vinculação entre o lançamento principal e os que lhe são conexos, as conclusões relativas ao lançamento do IRPJ devem prevalecer na apreciação da CSLL, do PIS e da COFINS, exceto quanto às argüições ou elementos de prova específicos. PIS E COFINS BASE DE CÁLCULO FATURAMENTO Para poder pleitear a exclusão, da base de cálculo, das receitas omitidas, cumpre ao contribuinte provar que não são oriundas da atividade fim da empresa. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. É aplicável a multa de ofício qualificada de 150 %, naqueles casos em que restar constatado o evidente intuito de fraude. A conduta ilícita reiterada ao longo do tempo, descaracteriza o caráter fortuito do procedimento, evidenciando o intuito doloso tendente à fraude. JUROS DE MORA SELIC A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula 1º CC nº 4) ASSUNTO:IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2005,2006,2007,2008,2009 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Inadmissível a formação de ágio por meio de operações internas,sem a intervenção de partes independentes e sem o pagamento de preço. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, Fl. 1260DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.257 9 incluindo a multa de oficio,incidem juros de mora,devidos à taxa SELIC. Recurso especial negado. (Acórdão referente ao processo nº 16643.000421/201095) Conforme despacho de efls. 1.122/1.126, o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional foi parcialmente admitido, para que seja rediscutida a exclusão dos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício. Conforme termo de vista/cópia (efls. 1.135), através da DRF da 7ª Região Fiscal, o Contribuinte deuse por intimado e dentro do prazo legal, interpôs Recurso Especial e apresentou Contrarrazões ao Recurso Especial da PGFN. Em seu Recurso Especial de efls. 1.143/1.178, o Contribuinte pretende rediscutir: (i) a forma de apuração do custo de aquisição a ser considerado no cálculo do ganho de capital, relativamente à operação de alienação da participação societária do Contribuinte no Banco Pactual S/A a empresa do Grupo UBS. De acordo com o despacho de efls. 1.222/1.225 foi dado seguimento ao Recurso Especial do Contribuinte. As Contrarrazões apresentadas pelo Contribuinte, efls. 1.208/1.214, requer que o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional seja julgado improcedente. Por sua vez, a Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões, efls. 1.227/1.234, requerendo que seja negado provimento ao Recurso Especial do Contribuinte. Assim, está em análise as seguintes matérias: (i) a forma de apuração do custo de aquisição a ser considerado no cálculo do ganho de capital, relativamente à operação de alienação da participação societária do Contribuinte no Banco Pactual S/A a empresa do Grupo UBS; (ii) juros de mora sobre a multa de ofício. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Patrícia da Silva Relatora Fl. 1261DF CARF MF 10 Para fins de análise deste colegiado informo: a) Recurso Especial do Contribuinte. O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade razão pela qual o conheço. Conforme Exame de admissibilidade de efls. 1.222/1.225, O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte pretende a rediscussão da seguinte matéria: (i) a forma de apuração do custo de aquisição a ser considerado no cálculo do ganho de capital, relativamente à operação de alienação da participação societária do Contribuinte no Banco Pactual S/A a empresa do Grupo UBS; Assim, passo a análise da questão levantada pelo Contribuinte. (I) a forma de apuração do custo de aquisição a ser considerado no cálculo do ganho de capital, relativamente à operação de alienação da participação societária do Contribuinte no Banco Pactual S/A a empresa do Grupo UBS. Fl. 1262DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.258 11 Essa matéria não é nova no âmbito dessa E. CSRF, a título exemplificativo destaco os seguintes acórdãos: 9202003.699, 9202003.700 e os mais recentes 9202003.960 e 9202003.961. Nas sessões passadas, cito os acórdãos 9202003.699 e 9202003.700, acompanhava o voto do ilustre Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira, porém, recentemente conforme acórdãos 9202003.960 e 9202003.961, acompanhei o posicionamento da ilustre Conselheira Ana Paula Fernandes no caso envolvendo a mesma operação. Assim, reproduzo o voto da ilustre conselheira Ana Paula Fernandes proferido no acórdão 9202003.961, como forma de manter o meu posicionamento em relação a matéria em questão. 1 RECURSO DO CONTRIBUINTE. DA FORMA DE APURAÇÃO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO A SER CONSIDERADO NO CÁLCULO DO GANHO DE CAPITAL. DO ARBITRAMENTO. DA MANUTENÇÃO DO AUTO DE INFRAÇÃO. Em sessão passada acompanhei o brilhante voto do eminente conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, contudo, com o passar as sessões, analisando detidamente os recursos de cada um dos processos que vêm sendo julgado nesta turma, bem como as sustentações orais proferidas, fui definindo um entendimento divergente. Observando os casos já julgados, os quais são análogos ao processo que hora passo a julgar, não posso deixar de demonstrar minha enorme preocupação com a pacificação social. Afinal, a regras num Estado Democrático de Direito são definidas para serem cumpridas, mas para isso elas precisam ser claras, objetivas e não levantarem dúvidas a respeito de seu cumprimento. Isso garante a segurança jurídica e demonstra a seriedade de nossas Instituições. No caso em tela, observo dois pontos a serem analisados no tocante ao auto de infração que deu origem a este processo. Primeiramente a utilização do artigo 135 (RIR) para ganhos advindos do Método de Equiparação Patrimonial MEP, e em segundo momento a forma de constituição do auto de infração pela via do Arbitramento. Quanto ao primeiro tópico, observo que há uma discrepância entre a interpretação dada pelo contribuinte e a que foi dada pela fiscalização, no tocante a regra do Imposto de Renda Pessoa Física, que define o que deve e o que não deve ser tributado nestas operações. E isso sim gerou grande dúvida a respeito de sua aplicabilidade. Entendeu a Receita Federal que a extinção das sociedades holdings por meio de incorporações acompanhadas de capitalizações de lucros e reservas de lucros acumulados teria gerado uma majoração artificial dos custos de aquisição de investimentos detidos pelas pessoas físicas alienantes. E em Fl. 1263DF CARF MF 12 razão disso, tratou a Administração Pública por desconsiderar o efeito das capitalizações dos lucros advindos pelo Método de Equivalência Patrimonial. Observo, portanto, que toda problemática reside na possibilidade ou não de capitalização de lucros advindos da aplicação do Método de Equivalência Patrimonial. A questão levanta dúvidas. Tanto é verdade que a própria Administração Pública no momento de fiscalizar o imposto devido autuou os contribuintes com cinco teses distintas de interpretação da legislação fiscaltributária para fins de cálculo do custo de aquisição. Ora, se a mesma legislação, no caso em tela, especificamente os mesmos dispositivos legais, levou os fiscais, auditores da Receita Federal, a cinco interpretações distintas, isso nos leva a crer que não se trata de simples equívoco interpretativo, mas sim de dúvida razoável causada pela impropriedade do texto legal. A celeuma citada se refere ao artigo 135 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto n° 3.000, de 1999), cuja regra matriz é o artigo 10 da Lei 9.249/95. Vejamos o que diz o comando legal, no trecho que interessa a lide: Lei 9.249/95 Art. 10 Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. (...)Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Seguindo entendimento esposado por esta Turma anteriormente, o referido artigo não se aplicaria às bonificações decorrentes da capitalização de lucros formados com ganhos provenientes da aplicação do método de equivalência patrimonial, pois os lucros, cuja capitalização seria apta a gerar acréscimo e custo para o investidor, seriam aqueles capazes de atingir o patrimônio da pessoa física (o que excluiria aqueles advindos pelo MEP). Contudo, o contribuinte alega que esta interpretação está dissociada da lei e dos conceitos de receita e lucro da legislação vigente, e que, ainda que fosse necessário que este atingisse o patrimônio da pessoa física, pois os ganhos do MEP são possíveis de chegar ao seu patrimônio, só não são obrigatórios dependendo de um fato de natureza exclusivamente financeira – disponibilidade de caixa ou da vontade da companhia. Compulsando os autos e toda legislação aplicável, reconheço que assiste razão ao contribuinte. A literalidade da norma leva a Fl. 1264DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.259 13 conclusão de que a capitalização de lucros implica um aumento do custo da correspondente participação societária. Observese que a lei fala em capitalização, logo isso se aplica a qualquer capitalização, uma vez que a lei não traz exceções. Isso decore do fato de que a norma positiva não faz qualquer distinção quanto a forma ou modo que deve ser operacionalizada esta "capitalização" para que esse aumento corresponda a participação societária. Entender assim gera incoerências no sistema jurídico e disfuncionalidades na tributação de operações? Pode ser que sim. Contudo isso decorre de impropriedade legal, não cabendo a Administração Pública dar a interpretação que lhe assiste para corrigir a impropriedade de um texto de lei, utilizandose de fundamentos outros que não aqueles que se encontram no comando legal do dispositivo em apreço. Para esclarecer, quando um investimento é contabilizado pelo Método de Equivalência Patrimonial, os lucros da sociedade investida traduzemse em receitas da sociedade investidora. E o que são estas receitas? São resultados positivos ou ganhos de equivalência, que não configuram propriamente lucro da investidora, mas se consubstanciam como elemento positivo na formação deste, que a rigor, segundo a explicação de diversos especialistas contábeis, podem vir a existir ou não dependendo do conjunto de receitas de despesas desta sociedade. Os ganhos advindos do MEP advêm de um ativo classificado como investimento, e por esta razão realizamse financeiramente num prazo mais longo que as demais receitas. Então se os ganhos de MEP representam uma receita efetiva da investidora porque não estão sujeitas a incidência de imposto de renda e outros tributos? Isso ocorre por que a lei permite sua exclusão da base de cálculo dos mesmos, exclusão essa que não ocorre na base de cálculo do imposto de renda, quando o lucro provém de investimentos em controladas ou coligadas sediadas no exterior (Art. 74 da MP 2.15335/2001). Assim, as receitas de MEP não apenas integram o resultado do exercício da investidora como também devem ser distribuídos (Art. 202, §6º da Lei 6.404/76), embora em alguns casos haja autorização legal para que não o seja feito. E para o bom deslinde desta questão é fundamental compreender, o que isso significa. Ou seja, como regra, os ganhos advindos pelo MEP devem ser distribuídos, mas, como estes correspondem a lucros não realizados, a Lei que regula o funcionamento das Sociedades Anônimas, faculta as companhias que estes lucros sejam mantidos em uma reserva específica, o que o contribuinte aduz ser possível com a finalidade de preservar a saúde financeira destas Sociedades. Logo, se os ganhos de equivalência são suscetíveis de distribuição (prevista em lei), leva a conclusão que poderiam também gerar aumento de custo, quando capitalizados. Fl. 1265DF CARF MF 14 E sua ocorrência vai depender de fatores como Situação financeira da Sociedade ou até mesmo sua conveniência, uma vez que a distribuição de dividendos em bens é uma possibilidade legal prevista na Lei das Sociedades Anônimas. A doutrina do Direito tributário também compreende deste modo. Vejamos o que diz o ilustre professor Heleno Taveira Torres: Ao tempo que o instituto da capitalização de lucros corresponde, legalmente, ao acréscimo do custo da participação dos sócios que decidem por não distribuílos, apenas a diferença entre o novo custo (majorado) e o valor recebido, quando da venda de participação societária, gerará ganho de capital. a ser tributado pelo Imposto de Renda. Entendimento diverso fere a legalidade, a condicional', no país, o exame da capacidade contributiva. Importa considerar que o caso em tela não envolve a utilização artificial de "empresas veículo", com vistas ao aumento irreal dos custos de aquisição das participações societárias detidas pelo Consulente. Embora meu entendimento pessoal seja de que o artigo 135 do RIR seja uma forma inadequada de tratar os ganhos advindos do MEP, justamente pela possibilidade de admitir a duplicidade (a meu ver imoral) de aproveitamento de custos, que foi muito bem demonstrada no voto que acompanhei em sessões anteriores, ainda assim é uma forma legal, cujas distorções econômicas foram geradas pela literalidade do texto de lei, cujo regimento interno deste Conselho me impede de afastar vigência. Ou seja, por mais imoral ou excessiva que seja a duplicidade de aproveitamento de custos realizada pelo contribuinte, não cabe a este conselho administrativo, alterar o texto da lei por meio de construções interpretativas, com a finalidade de corrigir impropriedades, com as quais deveria ter sido mais cauteloso o legislador. É princípio basilar do Direito Administrativo o respeito a legalidade. Assim, enquanto a Administração Pública só pode fazer o que está previsto em lei, ao Administrado, no caso em tela Contribuinte, é possível fazer tudo aquilo que não é proibido. Ainda, para Hely Lopes Meirelles: Na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza” (MIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 30. Ed. São Paulo: Malheiros, 2005). A Legalidade é intrínseca a idéia de Estado de Direito, pensamento este que faz que ele próprio se submeta ao direito, fruto de sua criação, portanto esse é o motivo desse princípio ser tão importante, um dos pilares do ordenamento. É na legalidade que cada indivíduo encontra o fundamento das suas prerrogativas, assim como a fonte de seus deveres. A administração não tem fins próprios, mas busca na lei, assim Fl. 1266DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.260 15 como, em regra não tem liberdade, escrava que é do ordenamento. O Princípio da Legalidade é uma das maiores garantias para os gestores frente o Poder Público. Ele representa total subordinação do Poder Público à previsão legal, visto que, os agentes da Administração Pública devem atuar sempre conforme a lei. Assim, o administrador público não pode, mediante mero ato administrativo, conceder direitos, estabelecer obrigações ou impor proibições aos cidadãos. A criação de um novo tributo, por exemplo, dependerá de lei. Do mesmo modo, a limitação de direitos não poderá ser feita por via de interpretação mais gravosa que aquela propriamente estabelecida na norma. Na fiscalização, o Princípio da Legalidade possui atividade totalmente vinculada, ou seja, a falta de liberdade para a autoridade administrativa. A lei define as condições da atuação dos Agentes Administrativos, determinando as tarefas e impondo condições excludentes de escolhas pessoais ou subjetivas. Por fim, esse princípio é vital para o bom andamento da Administração Pública, sendo que ele coíbe a possibilidade do gestor público agir por conta própria, tendo sua eficácia através da execução jurídica dos atos de improbidade, evitando a falta de vinculação à norma e, principalmente, a corrupção no sistema. Essa preocupação se faz constante para que seja atingido o objetivo maior para o país, o interesse público, através da ordem e da justiça. Voltando para análise do caso concreto, vemos que os ganhos advindos do Método de Equivalência Patrimonial representam meras receitas da investidora, integram sua conta de resultados e são responsáveis pela formação de seu lucro. E não há qualquer menção na redação do artigo 135 do RIR que afaste seus efeitos do ganho de MEP, não há sequer dúvida a respeito, ao contrário, o artigo não coloca isso em discussão, não gerando, portanto, nenhuma dúvida de que o Contribuinte então possa fazêlo. Até por que em diversos casos a Receita Federal permitiu isso. E não é admitido que a permissão ou proibição seja definida com base em quem tem vantagem com a conduta, pois, conforme já foi dito anteriormente, a Administração só cabe fazer aquilo que está previsto em Lei, não podendo interpretar a norma a seu bel prazer de acordo com o que lhe traga vantagem. Por melhor que seja a construção jurídica utilizada pela Receita Federal, compreender e aplicar a lei diferente desse entendimento, consiste em tentar mudar por força de ato administrativo interpretativo, previsão disposta em lei, impondo ao particular uma proibição que não se encontra no texto legal. Seja por omissão ou vontade do legislador, o fato é que ele nada disse sobre isso. Nesse ponto cabe citar o parecer jurídico do Professor Heleno Taveira Torres: Fl. 1267DF CARF MF 16 À guisa de complementação, as operações de aumento de capital social, mediante capitalização de lucros, devidamente garantida pelo método da equivalência patrimonial, caro à contabilização das pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, como se verá adiante, bem conduziram, no caso. o Consulente ao aumento do valor nominal da participação societária. Tratase de efeito civil de instituto de direito privado (Lei n. 6.404/1976, art. 169) precisamente mantido, nos mesmos moldes e sem quaisquer ressalvas, pelo legislador fiscal. nos termos do art. 135 do RIR/1999. Por força do art. 109 do CTN, tão relembrado neste Parecer. afiguramse juridicamente impossíveis in casu quaisquer ajustes promovidos, em via interpretativa, pela Administração Fazendária. No que toca aos atos e negócios jurídicos praticados de acordo com as normas existentes, a função social dos contratos (CC/2002, art. 421), garantida constitucionalmente, ao lado da liberdade de iniciativa econômica, impedem a desconsideração e a requalificação na situação sob exame. pelos agentes fiscais, sem observância do art, 149, VII do CTN. Resta evidente que a Receita Federal já se deu conta da problemática que reside na literalidade do texto legal, contudo não cabe ao Poder Executivo, por meio de atos interpretativos da Administração Pública, Fiscalização e Conselho de Recursos Fiscais, corrigir eventuais distorções econômicas advindas da aplicação da lei. Observo, inclusive, que tal necessidade já chegou ao conhecimento do Poder Legislativo, que, por meio da MP n. 694/2015, tenciona tal ajuste. Contudo, até que ele ocorra, não poderá ser imputado ao Contribuinte proibições, sanções ou quaisquer atos mais gravosos que aqueles “estritamente” constantes no texto de lei. Motivo pelo qual, em função da redação original da Lei (nunca alterada) julgo ser plenamente possível a sua utilização para ganhos advindos do emprego do método de equiparação patrimonial. Por fim, impossível ignorar os apontamentos como muito bem ponderados pelo Professor Heleno Taveira Torres, ao analisar os fatos atinentes ao caso da reestruturação operada entre as sociedades holdings, que detinham investimentos do BANCO PACTUAL S/A, no qual pontua estarem devidamente escriturados todos os efeitos contábeis e fiscais, a exemplo da capitalização de lucros, decorrentes dos mencionados atos, os quais foram corretamente levados não só ao conhecimento do Fisco, mas, igualmente, do Banco Central do Brasil. Desse modo, não restaria, à Administração Fazendária, outra opção, senão reconstituir o efetivo custo de aquisição do investimento detido pelo contribuinte na aludida instituição financeira, louvandose nos elementos idôneos aos quais teve acesso, caso pretendesse validamente questionar a base de cálculo por este utilizada em auto lançamento, quando do cômputo do ganho de capital. A alegação dada por àqueles que insistem em defender o contrário é a de que a adoção do método de interpretação sistemática proibiria a aplicação do artigo 135 do RIR aos Fl. 1268DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.261 17 ganhos de MEP, o que elidiria a possibilidade de dupla capitalização, como a utilizada pelo contribuinte. Contudo, isso significaria permitir que a Fazenda Nacional desse a interpretação que lhe agrada ao dispositivo com fundamento de que este seria o interesse do Ordenamento Jurídico Tributário Nacional, quando analisado como um todo. Pensar desse modo justificaria que normas positivadas fossem interpretadas sempre no sentido que melhor aprouver à administração, o que não é aceitável num estado que preza pela segurança jurídica e pela repartição dos poderes. Caso contrário a Administração Pública poderá legislar por via transversa, alterando a aplicação do texto de lei toda vez que lhe for conveniente, alegando adoção da interpretação sistemática, o que denota nítida e inaceitável interferência do Poder Executivo no Legislativo. “É princípio de hermenêutica que não pode o intérprete excepcionar quando a lei não excepciona, sob pena de violar o dogma da separação dos Poderes”. (REsp 1499898/RS, Rel. Min. HUMBERTO MARTINS, Segunda Turma, DJe 24/03/2015) Desse modo, em respeito ao princípio razoabilidade e segundo o princípio da legalidade art.37, caput da Constituição Federal – “a Administração está, em toda a sua atividade, adstrita aos ditames da lei, não podendo dar interpretação extensiva ou restritiva, se a norma assim não dispuser. Desta forma, a lei funciona como balizamento mínimo e máximo na atuação estatal" (REsp 603.010/PB, Rel. Min. GILSON DIPP, Quinta Turma, DJ 8/11/2004). Contudo, se não forem estas as razões para anulação do auto de infração em comento, ainda existe um segundo ponto que preciso analisar para concluir meu voto. No tocante ao arbitramento de Imposto de Renda Pessoa Física sobre a alienação de participação societária do contribuinte, observo que a utilização do arbitramento, previsto no artigo 529 e seguintes do Decreto 3000/99 (RIR), gera dúvidas sobre a assertividade de sua aplicação no caso concreto. O arbitramento é devido somente nos casos em que o contribuinte impede a fiscalização de ter acesso aos seus dados. Contudo não é o que ocorreu no caso em tela, pois verifico total transparência do contribuinte com os atos por ele levados a cabo na alienação de sua participação societária. A Receita Federal não tem como afirmar com as provas dos autos que houve qualquer ato por parte do contribuinte capaz de justificar a opção pelo arbitramento, conforme a previsão do RIR. No Brasil, segundo Maria Rita Ferragut, “a tipificação dos fatos passíveis de serem tributados é rígida, não permitindo qualquer extensão infraconstitucional, estando a competência residual da União Federal (artigo 154,I, da Constituição Federal) excepcionada dessa regra desde que exercida obedecendose os limites impostos pela Carta Magna”(FERRAGUT, M. R. Presunções no Direito Tributário, 2001). Fl. 1269DF CARF MF 18 O agente administrativo detém competência para estabelecer critérios especiais para a prática de lançamento, por via do arbitramento, espécie do gênero lançamento de ofício, tendente a avaliar preços, bens, serviços ou atos jurídicos, sempre que inexistam documentos ou declarações do contribuinte, ou que, embora existentes não mereçam fé. Contudo, nas palavras da especialista citada “a impossibilidade de comprovação direta da base originária é condição necessária para a aplicação de arbitramento”. Observo aqui que, não há nos autos qualquer situação de SIMULAÇÃO. A análise de fatos concretos denota estarmos diante de uma estrutura previamente existente, que opta pela adoção de um caminho que lhe confere menor custo tributário, para levar a cabo seu intuito de permitir a distribuição desproporcional de lucros, entre os sócios na medida de contribuição de cada um para o êxito da atividade da instituição financeira sob consideração, o que consistiu em efetivo planejamento tributário, constituído dentro das normas legais. E por isso, especificamente no que diz respeito à técnica jurídica do arbitramento, tratase de GRANDE EQUÍVOCO utilizado nestes casos. Registrese, mais uma vez, que o aumento do custo de aquisição decorrente da capitalização de lucros e reservas, prevista no art. 169 da LSA, foi recepcionado, sem ressalvas, pelo legislador tributário, no art. 135 do RIR/1999, o que autoriza concluir que a Administração Fazendária infringiu o art. 109 do CFN. E esse aumento de custo de aquisição decorre de operação aritmética de subtração entre o patrimônio final de um contribuinte, consistente em valores recebidos quando da alienação de ativos em dado espaço de tempo, e o Custo de aquisição destes. E, no cômputo deste custo de aquisição, não podem ser desconsiderados, repitase, os acréscimos legalmente admitidos no direito tributário vigente, ainda que por ficção jurídica; especialmente quando estes acréscimos decorrem de disposições legais expressas, mediante regular utilização de técnicas jurídicocontábeis, como é o Método de Equivalência Patrimonial em operação de reestruturação societária válida e, ademais, referendada pelo Banco Central do Brasil. Tratase de acréscimos decorrentes da recepção expressa de institutos privados, a exemplo da capitalização de lucros e reservas, prevista, sem quaisquer ressalvas, no art. 169 da LSA e arts. 135 e 383 do RIR/1999. Estáse, portanto, diante de Auto de Infração que consigna crédito tributário (IRPF, somado a multa e juros) ilíquido, incerto e inexigível, por dois motivos: 1) Há permissão legal para que o contribuinte tenha seu custo de aquisição majorado por capitalização de lucros oriundos da aplicação de MEP. Fl. 1270DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.262 19 2) Tendo em vista que os critérios jurídicos para formação da base de cálculo do imposto ora cobrado não foram respeitados no ato de lavratura do auto de infração entendo este estar eivado de vício material, devendo este restar cancelado. Assim, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte. b) Recurso Especial da Fazenda Nacional O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade razão pela qual o conheço. Conforme Exame de admissibilidade de efls. 1.122/1.126, O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional pretende a rediscussão de uma matéria: (i) a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. (i) juros de mora sobre a multa de ofício. De acordo com julgamentos anteriores, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, para reconhecer a ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, em face da falta de previsão expressa em lei para tanto. Como fundamento, adoto o voto da ilustre conselheira Cristiane Silva Costa no acórdão nº 9101002.471: Como manifestado em julgamentos anteriores, acolho o recurso especial para reconhecer a ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, em face da falta de previsão expressa em lei para tanto. Isto porque o caput do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, trata apenas dos débitos de tributos e contribuições administradas pela Secretaria da Receita Federal, verbis: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no Fl. 1271DF CARF MF 20 mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) O caput acima colacionado, ao dispor sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições tratou dos débitos decorrentes dos fatos geradores que originam a cobrança destes tributos e contribuições, isto é, os débitos dos tributos. Não tratou, assim, das penalidades decorrentes do descumprimento da obrigação tributária. Acrescentese que o §3º deste dispositivo legal trata da possibilidade de incidência de juros de mora sobre os débitos a que se refere o citado artigo, isto é, débitos de tributos e contribuições devidas à Receita Federal do Brasil expressamente tratados pelo caput , confirmando que não há previsão para incidência de juros sobre a multa de ofício. Ressaltese que os parágrafos de um artigo expressam aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo, ou exceções à regra por ele estabelecidas, conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998: Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: (...)III para a obtenção de ordem lógica: (...)c) expressar por meio dos parágrafos os aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida; Assim, a disposição do §3º, do artigo 61 deve se conformar ao caput deste dispositivo, regulando, assim, os débitos de tributos, contribuições e multa de mora. É oportuno lembrar que o legislador expressamente previu a incidência de juros sobre multas isoladas, como se depreende do artigo 43, da mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Ao regular a multa de ofício, em sentido contrário, o artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 não estabeleceu expressamente a incidência de juros. Nesse sentido, destacase a , redação do citado dispositivo, com redação vigente ao tempo do fato gerador tratado nestes autos (2007): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: Fl. 1272DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.263 21 I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; Ressaltese que o Código Tributário Nacional trata de crédito tributário com dois sentidos diferentes, em alguns dispositivos tratando da obrigação tributária e a penalidade pelo descumprimento desta obrigação, como se observa dos artigos 121, 139, 142, em outros apenas como a obrigação tributária principal, como se verifica dos artigos 161 e 164. Colacionase o artigo 164, do Código Tributário Nacional: Art. 164. A importância de crédito tributário pode ser consignada judicialmente pelo sujeito passivo, nos casos: I de recusa de recebimento, ou subordinação deste ao pagamento de outro tributo ou de penalidade, ou ao cumprimento de obrigação acessória; II de subordinação do recebimento ao cumprimento de exigências administrativas sem fundamento legal; III de exigência, por mais de uma pessoa jurídica de direito público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. § 1º A consignação só pode versar sobre o crédito que o consignante se propõe pagar. Ao dispor que cabe a consignação na hipótese de recusa ao pagamento "outro tributo ou de penalidade" evidencia que no crédito tributário tratado pelo artigo 164 não está incluída penalidade. No mesmo sentido, dispõe o artigo 161, do Código Tributário Nacional: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. Notese que o artigo 161, do Código Tributário Nacional, define a incidência de juros de mora, "sem prejuízo das penalidades", revelando que estas penalidades não compõe o crédito tributário na acepção expressa por este dispositivo. O §1º do artigo 161 expressa "aspectos complementares à norma enunciada no caput" (conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998) e, portanto, não infirma a conclusão Fl. 1273DF CARF MF 22 que a penalidade não está incluída no crédito como definido por este dispositivo. Assim, voto em negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 1274DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.264 23 Voto Vencedor Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior, RedatorDesignado Com a devida vênia ao voto da nobre Relatora, ouso divergir daquele, tanto quanto ao mérito do Recurso Especial do Contribuinte quanto ao mérito do pleito fazendário. Inicio a análise pelo pleito do contribuinte, por haver, ali, litígio acerca do montante principal sobre o qual incidiriam os juros sobre multa de ofício, objeto do pleito fazendário, constituindose assim o primeiro em prejudicial à análise deste último. a) Quanto ao Recurso Especial do Contribuinte: Continuo a entender, a propósito, que a correta interpretação do dispositivo legal em questão, a saber o art. 135 do RIR/99, deve privilegiar a consistência do arcabouço normativo como um todo, a partir da adoção do método de interpretação sistemática, em detrimento da adoção de uma interpretação literal, que causa, in casu, relavantes e inaceitáveis inconsistências ("disfuncionalidades") no sistema tributário, permitindo, notese, que se admita que uma série de capitalizações seguida de incorporações reversas multiplique o custo de aquisição de determinada participação societária, de forma a reduzir ou até a eliminar totalmente o ganho de capital apurado, quando de sua posterior alienação. O assunto foi perfeitamente explorado pelo voto vencedor do Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos no âmbito do Acórdão 9.202003.700, ao qual continuo a aceder, reproduzindoo, em parte, a seguir, de forma a esclarecer o que aqui se defende e adotando o excerto a seguir aqui também como razões de decidir, verbis: "(...) Com efeito, a capitalização de lucros nada mais é do que uma operação que substitui o seguinte procedimento: (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Por outro lado, o método da equivalência patrimonial tem por objetivo refletir no patrimônio de uma pessoa jurídica controladora (ou coligada) de outra, o patrimônio e consequentemente o resultado da investida. Com efeito, ele serve para refletir a situação da investida no patrimônio da investidora. (...) Fl. 1275DF CARF MF 24 Realizaremos, agora, a análise jurídica da legislação, sem perder de vista essas características ontológicas (a) da operação de capitalização de lucros e (b) do método da equivalência patrimonial. Para fins de contextualização histórica da questão, cumpre referir que, nos termos da legislação anteriormente vigente, a capitalização de lucros, assim como a distribuição de ações bonificadas, não tinha qualquer efeito na determinação do custo de aquisição da participação societária dos proprietários da pessoa jurídica. Com efeito, naquele período: o lucro distribuído era passível de tributação; e consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias não era alterado quando da capitalização de lucros pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado como igual a zero. Nesse sentido, cabe referência aos arts. 727 e 810 do Decreto 1.041, de 1994. (a) Art. 727 – lucros distribuídos até 1988 eram tributados: Art. 727. Os dividendos, bonificações em dinheiro, lucros e outros interesses, apurados em balanço de períodobase encerrado até 31 de dezembro de 1988, pagos por pessoa jurídica, inclusive sociedade em conta de participação, a pessoa física residente ou domiciliada no País, estão sujeitos à incidência de imposto exclusivamente na fonte, à alíquota de (DecretosLeis n°s 1.790/80, art. 1°, 2.065/83, art. 1°, I, a, e 2.303/86, art. 7° parágrafo único): ... (b) Art. 810 – o custo de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucro era igual a zero: Art. 810. O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital ... § 2° O custo é considerado igual a zero (Lei n° 7.713/88, art. 16, § 4°): a) no caso de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros ou reservas, apurados até 31 de dezembro de 1988;... Reparase aqui a coerência dos dispositivos acima referidos. Como, na época, a distribuição de lucros era tributada, a capitalização do lucro não alterava o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro capitalizado seria alcançado pelo ganho de capital. Ora, a partir de 1996, temos uma clara mudança de tratamento na distribuição de lucro, que passou a não ser tributada, nem na fonte, nem na declaração de ajuste, nos termos do disposto no art. 10, da Lei n° 9.249, de 1995. Assim: Fl. 1276DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.265 25 o lucro distribuído deixou de ser tributado; e consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias passou a ser alterado quando da capitalização de lucros distribuíveis pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado igual ao desse lucro capitalizado. A seguir, encontrase reproduzido o caput do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, e seu respectivo parágrafo. Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Reparase, da mesma forma que no sistema vigente anteriormente, a coerência dos dispositivos acima referidos. Como a distribuição de lucros deixou de ser tributada, a capitalização do lucro distribuível passou a alterar o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro (distribuível isento e capitalizado) não seria alcançado pelo ganho de capital. Portanto, conhecendo a razão histórica do surgimento da legislação, (que foi a alteração de tributação para não tributação da distribuição de lucros), para compreensão da legislação, (a) afastamos a aplicação da interpretação literal e (b) entendemos como mandatória a aplicação da interpretação histórico/teleológica (acima discutida) e, sobretudo, da interpretação sistemática dos dispositivos relativos ao método da equivalência patrimonial, à distribuição e à capitalização de lucros. Ressaltese aqui que todos esses métodos de interpretação convergem. Especificamente quanto à interpretação sistemática é muito fácil perceber que não se deve considerar somente a leitura do parágrafo, mas também (e sobretudo) a leitura do caput do próprio artigo 10 da Lei n° 9.249, de 1995. Aliás, essa é uma regra hermenêutica básica, o parágrafo deve sempre se referir ao caput, sendo que sua consideração em separado gera problemas de contexto e, o que é pior, gera a famosa falácia de ênfase em que, se acentuando um aspecto da realidade, acabase por negar a própria realidade. Ora, no caput, é referido que os lucros ou dividendos pagos ou creditados é que não estarão Fl. 1277DF CARF MF 26 sujeitos à incidência do imposto de renda. Portanto, interpretando o parágrafo nos limites do que dispõe o caput, concluímos facilmente que a capitalização de lucros que tem o condão de alterar o custo de aquisição de participações societárias é aquela referente a lucros passíveis de efetiva distribuição aos sócios ou acionistas sem tributação. Por seu turno, conforme já colocado no início desse voto, temos que o método da equivalência patrimonial teve por objetivo o reconhecimento de lucros de investidas, mesmo antes de sua distribuição. Não se está aqui negando a existência de um lucro decorrente do ajuste de equivalência patrimonial, mas não podemos deixar de levar em conta o fato de o lucro não é efetivamente distribuído mais de uma vez. Com efeito, o lucro decorrente do ajuste por equivalência patrimonial, é somente o reflexo do lucro auferido pela pessoa jurídica operacional (investida), esse último sim, passível de efetiva distribuição. Comprovando a conclusão acima, sabemos que a distribuição de lucro, registrado em decorrência do ajuste de equivalência patrimonial implica a necessidade de contratação de empréstimos ou distribuição de recursos aportados a título de capital. Pois bem, devemos nos lembrar de que a própria operação de capitalização de lucros foi concebida como um atalho para substituição do complexo procedimento de (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Agora, a partir do que se encontra acima colocado, é possível chegarmos a uma conclusão quanto ao procedimento de aplicação da legislação, no tocante à atualização do custo da participação societária, em função da capitalização de lucros pela pessoa jurídica. Considerando que a efetiva distribuição de lucros deve se dar a partir da pessoa jurídica operacional, essa distribuição, seguida de subscrição de aumento de capital nas empresas componentes de um grupo econômico (a pessoa jurídica operacional e suas holdings) deve ter por efeito patrimonial o aumento de capital em toda a cadeia de entidades relacionadas societariamente. Por óbvio não é possível distribuir mais de uma vez o mesmo lucro (o lucro e seus reflexos por equivalência patrimonial), portanto também não deve ser aceitável, pelo menos para fins fiscais, capitalizálo mais de uma vez. A conclusão acima é inevitável, porque: as disponibilidades passíveis de distribuição estão no patrimônio da pessoa jurídica operacional, que somente pode distribuir o lucro para sua proprietária direta, a holding; Fl. 1278DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.266 27 já, a holding, somente pode distribuir o lucro aos acionistas, pessoas físicas, após o recebimento dos recursos da pessoa jurídica operacional; os acionistas, por sua vez, somente podem aumentar capital na holding, em que possuem participação direta; e por fim, a holding, com os recursos recebidos, poderá aumentar capital da pessoa jurídica operacional. Ora, consequentemente, somente haverá capitalização de lucros efetivamente distribuíveis caso todas as pessoas jurídicas da cadeia societária (holdings e empresa operacional) realizem a capitalização. Ao contrário, caso ocorra apenas a capitalização dos lucros de holdings, o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, não incide, devendo ser mantido o valor da participação societária pelos proprietários, até mesmo porque os efetivos lucros da pessoa jurídica operacional ainda poderão ser distribuídos sem tributação (para os próprios sócios) ou para futuros adquirentes. E, ainda, quando houver holdings mistas, com operações próprias, a capitalização de seus lucros, sem que tenha ocorrido a correspondente capitalização dos lucros das investidas, somente poderá ter efeito parcial na atualização do custo da participação societária de seus sócios. Isso é facilmente calculado com base na memória de cálculo abaixo: ( ) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding (‐) Lucro/Reservas Existentes na Investida (*) % de participação (=) Lucro passível de distribuição pela Holding (/) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding (=) Percentual aceitável para aumento do custo da participação (*) Valor do aumento de custo considerando o total do lucro capitalizado pela Holding (=) Valor aceitável para aumento do custo Reparase que a memória de cálculo acima é simples, utilizando somente as quatro operações matemáticas e os dados constantes dos balancetes da holding e da correspondente investida, na data da capitalização de lucros. Ela atende a aplicação do disposto no Art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, tanto no caso de holdings mistas (com operações próprias), como no caso de distribuição diferenciada de lucros (em percentual diferente daquele da participação societária do acionista). (...)" Notese que não se está, aqui, nesta linha de interpretação, se violando o princípio da legalidade ou se afastando a vigência de texto legal, mas, sim, interpretandose o Fl. 1279DF CARF MF 28 dispositivo em análise de forma sistemática, a fim de que o arcabouço legal tributário permaneça sem inconsistências, de forma coerente, ainda, com uma interpretação teleologicamente adequada, sendo de se rechaçar que tenha o legislador tencionado criar inconsistências ou disfuncionalidades na tributação em questão (tais como a possibilidade de eliminação do ganho de capital pela realização de um ciclo de capitalizações e incorporações reversas), quando da edição do dispositivo em apreço. Aplicandose tal interpretação ao caso em questão, concluise que não deveriam ser considerados nenhum dos dois aumentos de custo computados pelo autuado decorrentes das capitalizações ocorridas em 2006, em Nova Pactual Participações S/A (no valor de R$ 1.567.362,00), e de Pactual S/A (no valor de R$ 996.089,00), uma vez que, note se, o lucro da pessoa jurídica operacional (Banco Pactual S/A) permaneceu passível de distribuição isenta mesmo após tais operações, tendo assim permanecido até o momento da alienação da referida participação. Considerando, todavia, ter a autuação se limitado a glosar parcela inferior ao somatório de ambas as capitalizações e vedada a esta altura a reformatio in pejus, entendo, assim, que é de se manter o custo concedido pela fiscalização, no valor de R$ 855.014,67 (vide TVF à efl. 98). Por fim inteiramente cabíveis ao caso em questão também as seguintes considerações adicionais, ainda constantes do referido voto condutor do Acórdão 9.202 003.700 e também aqui adotadas como razões de decidir, verbis: " Tenho plena convicção de que não se está aqui alterando critério jurídico, porque no lançamento e na respectiva impugnação encontramse claramente fixados os limites da lide e não foram alterados. Com efeito, o fato e a acusação em debate estão perfeitamente descritos no termo de verificação fiscal e, na decisão, é precisamente esse fato que se analisa: i. o fato é a alienação de participações societárias, ii. a acusação é de insuficiência do recolhimento do tributo por erro na apuração do ganho de capital, por se entender que a capitalização de lucros refletidos em sociedades investidoras, pelo método da equivalência patrimonial, não teria o condão de alterar o custo da participação societária alienada. iii. o que se apresenta aqui, sem qualquer inovação quanto ao fato analisado e a acusação originalmente feita, é o fundamento que este conselheiro entende ser suficiente para julgamento da acusação, em face das alegações do sujeito passivo. Diferente seria o caso em que há uma acusação verificada insubsistente mas, por conta de outra infração, fosse mantido o tributo lançado, situação que não ocorre aqui. Cumpre lembrar que o julgador não está vinculado ao fundamento das partes, somente não pode exarar uma decisão extrapetita, o que, conforme acima esclarecido, não ocorreu. Finalmente, quanto ao pedido subsidiário da recorrente de não aplicação de penalidade e juros de mora, a partir do disposto no parágrafo único do art. 100 do Código Tributário Nacional e da Fl. 1280DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.267 29 observância à Instrução Normativa SRF no 84, de 11 de outubro de 2001, é de se ressaltar que, em nenhum momento, tal normativo dá suporte à interpretação do art. 135 do RIR/99 defendida pela autuada, a qual, na forma acima disposta, se entende aqui como totalmente equivocada. Assim, é de se manter a multa de ofício aplicada pela autoridade lançadora, bem como os juros de mora incidentes sobre o principal e sobre a multa de ofício, neste último caso em linha com o explicitado a seguir quando da análise do recurso especial de iniciativa da Fazenda Nacional. (...)" Notese, por fim, também, que, em meu entendimento, não se está, aqui, diante de caso de arbitramento da base de cálculo, uma vez que, em nenhum momento, no caso em questão, se adotou critério especial ou substitutivo ao legalmente estabelecido para fins de determinação do custo de aquisição a ser computado quando da apuração do ganho de capital (base de cálculo do IRPF). O que se discute aqui é: na situação fática em questão que abrange aumentos de capital de reservas oriundas do método de equivalência patrimonial, seguidos de incorporações reversas, quais parcelas podem ou não compor este custo, notese, sempre mantido o critério de apuração da base de cálculo do tributo legalmente estabelecido, sem adoção de critérios alternativos ou substitutivos. Rejeito, assim, se tratar, na situação fática, de arbitramento e, ainda, a ocorrência de vício material no auto, uma vez que, o critério jurídico para apuração da base de cálculo legalmente estabelecido foi plenamente obedecido, cabendose tão somente discussão acerca da valoração feita pela fiscalização e pelo autuado, para fins de aplicação do referido critério. Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, mantendose o custo de aquisição concedido pela autoridade lançadora de R$ 855.014,67, dada a impossibilidade de reformatio in pejus, bem como mantida, também, a incidência da multa de ofício no patamar de 75%, consoante decisão a quo, acrescida esta última, também, de juros de mora calculados com base na taxa SELIC, consoante decisão que se segue acerca do pleito fazendário. b) Quanto ao Recurso Especial da Fazenda Nacional: Uma vez tendo me posicionado pela negativa de provimento ao pleito do contribuinte, me manifesto agora quanto ao pleito fazendário. Quanto ao conhecimento do recurso da Fazenda, pelo que consta no processo quanto à sua tempestividade e às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. Adentrando o mérito quanto à matéria que permanece a esta altura em litígio (incidência de juros de mora sobre a multa de ofício), entendo inexistir, in casu, dúvida sobre a mencionada incidência, adotando como razões de decidir aquelas brilhantemente expostas pela ilustre conselheira Viviane Vidal Wagner, em seu voto vencedor na 1a. Câmara Superior de Recursos Fiscais no Acórdão 910100.539, de 11 de março de 2010, verbis: Fl. 1281DF CARF MF 30 “ (...) Com a devida vênia, ouso discordar do ilustre relator no tocante à questão da incidência de juros de mora sobre a multa de oficio. De fato, como bem destacado pelo relator, o crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto o tributo quanto a penalidade pecuniária. Em razão dessa constatação, ao meu ver, outra deve ser a conclusão sobre a incidência dos juros de mora sobre a multa de oficio. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de oficio. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode Fl. 1282DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.268 31 exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." Convertese em crédito tributário a obrigação principal referente à multa de oficio a partir do lançamento, consoante previsão do art. 113, §1o, do CTN: "Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1o A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente." A obrigação tributária principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de oficio proporcional. A multa de oficio é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago" (§10). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tomandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de oficio, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, ao compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Fl. 1283DF CARF MF 32 Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de oficio: Art. 950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação especifica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei no 9.430, de 1996, art. 61). §1o. A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei no 9.430, de 1996, art. 61,§ 1o). § 2o O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei no 9.430, de 1996, art. 61, § 2o). § 3o A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de oficio. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou este E. colegiado quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: "JUROS DE MORA — MULTA DE OFÍCIO — OBRIGAÇÃO PR1NICIPAL — A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic.(g.n.) Nesse sentido, ainda, a Súmula Carf n° 5: "São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral." Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei no 9.065, de 1995. A jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, corno se vê no exemplo abaixo: Fl. 1284DF CARF MF Processo nº 12448.736150/201146 Acórdão n.º 9202005.235 CSRFT2 Fl. 1.269 33 "REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL 2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tão somente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07)." Ainda, quanto à taxa a ser utilizada para fins de aplicação dos referidos juros sobre a multa de ofício, em que pese o sólido posicionamento de alguns Conselheiros desta casa, no sentido de necessidade de adoção do art. 161, §1o. da Lei no. 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN) em detrimento do art. 61 da Lei no. 9.430, de 27 de dezembro de 1996, entendo que, no âmbito administrativo deste Conselho, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal (dos quais não vislumbro se poder excluir os valores a título de multa de ofício) já foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, nos seguintes termos: Súmula CARF n° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórias incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. (...) Cediço que de forma a se cogitar a aplicação do art. 161, §1o. do CTN, haveria de se afastar a aplicabilidade da referida Súmula à multa de ofício lançada, o que rejeito não só por se tratar, em meu entendimento, a multa de espécie do gênero "débito tributário", mas também, e especialmente, por verificar que dentre os Acórdãos que deram origem à referida Súmula, há situações em que a multa de ofício havia sido aplicada (e.g. Acórdãos 10418.935 e 20211.760), sem que se tenha, porém, ali, se afastado a aplicação de juros SELIC sobre referida multa de ofício, em detrimento da aplicação da multa no patamar de 1% ao mês, na forma proposta pelo entendimento alternativo ao aqui adotado. Assim, concluo pela incidência dos juros de mora calculados pela taxa SELIC sobre a multa de ofício constante do lançamento e, destarte, dou provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional quanto à matéria que permanece em litígio no pleito. Fl. 1285DF CARF MF 34 Diante do exposto voto por negar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte e dar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. É como voto. (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Fl. 1286DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10140.003416/2003-90
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2000 a 30/06/2003
ADESÃO AO PARCELAMENTO ESPECIAL (PAES). CONFISSÃO IRRETRATÁVEL E IRREVOGÁVEL. CANCELAMENTO DA PARCELA DOS DÉBITOS INCLUÍDOS NO AUTO DE INFRAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Se na data da conclusão da autuação, a totalidade ou parte dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003 encontravam-se incluídos no Programa de Parcelamento Especial (Paes) e, portanto, confessados, em caráter irrevogável e irretratável, logo, era dispensável o lançamento dos respectivos valores, cuja cobrança, nos presente autos, deve ser cancelada.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2000 a 31/07/2003
DECISÃO RECORRIDA. INDEFERIMENTO FUNDAMENTADO DA PROVA PERICIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE.
O indeferimento da produção da prova pericial não configura vício de nulidade da decisão de primeiro grau, por cerceamento ao direito de defesa, se a autoridade julgadora, fundamentadamente, demonstra que tal prova era prescindível para a formação de sua convicção sobre os fatos controversos objeto da lide.
AUTO DE INFRAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU MATERIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade por cerceamento do direito de defesa, o auto de infração que atende todos requisitos formais, apresenta pormenorizada e clara descrição dos fatos e a correta capitulação legal da norma geral e abstrata de incidência tributária, especialmente, se ao sujeito passivo foi oportunizado e exercido, adequadamente, o contraditório e o direito defesa, na forma da legislação vigente.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3302-003.744
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e o pedido de perícia e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para determinar o cancelamento da cobrança do crédito tributário da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003 incluídos no Paes, resguardado o direito à exigência de multa de ofício reduzida em relação aos créditos parcelados depois do início do procedimento fiscal.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Ricardo Paulo Rosa, Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2000 a 30/06/2003 ADESÃO AO PARCELAMENTO ESPECIAL (PAES). CONFISSÃO IRRETRATÁVEL E IRREVOGÁVEL. CANCELAMENTO DA PARCELA DOS DÉBITOS INCLUÍDOS NO AUTO DE INFRAÇÃO. POSSIBILIDADE. Se na data da conclusão da autuação, a totalidade ou parte dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003 encontravam-se incluídos no Programa de Parcelamento Especial (Paes) e, portanto, confessados, em caráter irrevogável e irretratável, logo, era dispensável o lançamento dos respectivos valores, cuja cobrança, nos presente autos, deve ser cancelada. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2000 a 31/07/2003 DECISÃO RECORRIDA. INDEFERIMENTO FUNDAMENTADO DA PROVA PERICIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. O indeferimento da produção da prova pericial não configura vício de nulidade da decisão de primeiro grau, por cerceamento ao direito de defesa, se a autoridade julgadora, fundamentadamente, demonstra que tal prova era prescindível para a formação de sua convicção sobre os fatos controversos objeto da lide. AUTO DE INFRAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU MATERIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade por cerceamento do direito de defesa, o auto de infração que atende todos requisitos formais, apresenta pormenorizada e clara descrição dos fatos e a correta capitulação legal da norma geral e abstrata de incidência tributária, especialmente, se ao sujeito passivo foi oportunizado e exercido, adequadamente, o contraditório e o direito defesa, na forma da legislação vigente. Recurso Voluntário Provido em Parte.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2000 a 30/06/2003 ADESÃO AO PARCELAMENTO ESPECIAL (PAES). CONFISSÃO IRRETRATÁVEL E IRREVOGÁVEL. CANCELAMENTO DA PARCELA DOS DÉBITOS INCLUÍDOS NO AUTO DE INFRAÇÃO. POSSIBILIDADE. Se na data da conclusão da autuação, a totalidade ou parte dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003 encontravamse incluídos no Programa de Parcelamento Especial (Paes) e, portanto, confessados, em caráter irrevogável e irretratável, logo, era dispensável o lançamento dos respectivos valores, cuja cobrança, nos presente autos, deve ser cancelada. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2000 a 31/07/2003 DECISÃO RECORRIDA. INDEFERIMENTO FUNDAMENTADO DA PROVA PERICIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. O indeferimento da produção da prova pericial não configura vício de nulidade da decisão de primeiro grau, por cerceamento ao direito de defesa, se a autoridade julgadora, fundamentadamente, demonstra que tal prova era prescindível para a formação de sua convicção sobre os fatos controversos objeto da lide. AUTO DE INFRAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO FORMAL OU MATERIAL. NULIDADE POR CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade por cerceamento do direito de defesa, o auto de infração que atende todos requisitos formais, apresenta pormenorizada e clara AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 14 0. 00 34 16 /2 00 3- 90 Fl. 663DF CARF MF 2 descrição dos fatos e a correta capitulação legal da norma geral e abstrata de incidência tributária, especialmente, se ao sujeito passivo foi oportunizado e exercido, adequadamente, o contraditório e o direito defesa, na forma da legislação vigente. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e o pedido de perícia e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para determinar o cancelamento da cobrança do crédito tributário da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003 incluídos no Paes, resguardado o direito à exigência de multa de ofício reduzida em relação aos créditos parcelados depois do início do procedimento fiscal. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Ricardo Paulo Rosa, Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo. Relatório Tratase de auto de infração (fls. 177/190), em que formalizada a exigência de crédito tributário no valor total de R$ 2.794.998,91, referente aos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a julho de 2003, acrescidos de juros moratórios e multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento). De acordo com a descrição dos fatos que integra o referido auto de infração (fls. 6/7), o motivo da autuação foi a apuração de diferença entre os valores declarados a menor nas DIPJ e DCTF ou os valores efetivamente pagos/recolhidos (nos casos de ausência de declaração) em cotejo com os valores da receita (base de cálculo da contribuição) escriturados a maior nos livros fiscais e contábeis da autuada (livros Razão e de Registro de Prestação de Serviços). As diferenças apuradas encontramse demonstradas nas planilhas “BASE DE CALCULO (TRIBUTO COFINS)”, “APURAÇÃO DE DÉBITO” e “DEMONSTRATIVO DE SITUAÇÃO FISCAL APURADA” de fls. 191/210, integrantes do citado auto de infração. A fiscalização informou ainda que, em momento posterior ao início do procedimento fiscal, que ocorreu no dia 11/6/2003, a autuada entregou DIRPJ retificadoras e das DCTF, cuja entrega ainda não havia sido feita, relativamente aos períodos objeto da fiscalização; e que parte dessas DCTF somente foram entregue após a autuada ter sido regularmente intimada a fazêlo, em 07/10/2003. Fl. 664DF CARF MF Processo nº 10140.003416/200390 Acórdão n.º 3302003.744 S3C3T2 Fl. 664 3 Em sede de impugnação (fls. 226/241), a autuada apresentou as razões defesa a seguir sumariadas: 1) em preliminar, a recorrente alegou nulidade da autuação por erro de enquadramento legal, sob o argumento de que o art. 77 do Decretolei 5.844/1943 não tinha o inciso III indicado, nem fora indicado em qual dos 9 (nove) incisos do art. 149 do CTN enquadravase o lançamento, o que havia deixado dúvida e prejudicado o exercício da ampla defesa; 2) no mérito, a recorrente alegou que: a) houve erro material no preenchimento dos Darf, referente aos pagamentos dos do IRPJ e da CSLL dos anos calendários de 2000 a 2003, pois, embora hovesse optado pela sistemática de tributação pelo lucro real, havia procedido o recolhimento dos citados tributos com os códigos do regime de lucro presumido. Entretanto, ao perceber o erro, formalizara o pedido de retificação de Darf (Redarf), que fora indeferido, sob a alegação de que “seria contrário ao Regulamento do IR, bem como à norma especifica de Redarf; b) optara pelo Parcelamento Especial (Paes), logo, era indevida a inclusão no auto de infração dos débitos incluídos no referido programa de parcelamento especial, uma vez que estava com a exigibilidade suspensa; c) se não fosse excluída a multa de ofício imposta, em relação aos débitos dos anos de 1998 e 1999, ela deveria ser reduzida em 50% (cinquenta por cento), conforme previa o art. 1º, § 7º, da Lei 10.684/2003. No final, apresentou protesto por todos os meios de prova em direito admitidos, em especial, a produção de prova pericial, inclusive formulou quesitos e indicou perito, conforme exige o art. 16, IV, do Decreto 70.235/1972. Sobreveio a decisão primeira instância (fls. 533/541), em que, por unanimidade de votos, a preliminar de nulidade do auto de infração foi rejeitada, o pedido de perícia foi indeferido e, no mérito, o lançamento foi julgado improcedente, com base nos fundamentos resumidos nos enunciados das ementas que seguem transcritos: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2000 a 31/07/2003 Ementa: ENQUADRAMENTO LEGAL DEFICIENTE. NULIDADE. INOCORRÊNCIA A exposição suficiente dos fatos elaborada pelo autuante, com a demonstração inequívoca dos valores submetidos a cobrança, assim como a oferta de um apelo impugnatório em que o direito de defesa é plenamente exercido, suprem as falhas existentes na capitulação legal da infração. PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indeferese, por prescindível, a perícia requerida. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Fl. 665DF CARF MF 4 Período de apuração: 31/01/2000 a 31/07/2003 Ementa: LUCRO PRESUMIDO OU LUCRO REAL. OPÇÃO. A opção pela apuração com base no Lucro Presumido ou Lucro Real é irrelevante para a apuração da COFINS dos períodos em tela. ADESÃO A PROGRAMA DE PARCELAMENTO ESPECIAL (PAES). SUSPENSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ADEQUAÇÃO QUANTO À MULTA APLICÁVEL. Tendo a contribuinte aderido ao PAES após ter sido intimada do início do procedimento fiscalizatório, deverá ser formalizado o Auto de Infração (AI), não se aplicando ao caso o instituto da denúncia espontânea. Os créditos tributários só poderão ser suspensos após o procedimento próprio de lançamento (AI) e se ocorrida alguma das hipóteses previstas na legislação. Contudo, há que se reduzir a multa de ofício conforme prevê a legislação de regência da matéria. ADESÃO A PROGRAMA DE PARCELAMENTO ESPECIAL (PAES). CONFISSÃO IRRETRATÁVEL E IRREVOGÁVEL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Os débitos objeto da Declaração PAES consideramse confessados em caráter irrevogável e irretratável. Lançamento Procedente Em 13/5/2004 (fl. 552), a autuada foi cientificada da decisão de primeira instância. Inconformada, em 14/6/2004 (fl. 633), postou o recurso voluntário de fls. 563/541, em que reafirmou os argumentos apresentados na peça impugnatória. Em aditamento, a recorrente alegou nulidade da decisão de primeiro grau por cerceamento do direito de defesa, sob o argumento de que o indeferimento da realização da prova pericial requerida havia prejudicado o exercício do seu direito defesa, consagrado no art. 5º, LV, da CF/1988. Na Sessão de 17 de maio de 2005, os membros da Quarta Câmara do extinto Segundo Conselho de Contribuintes, por meio do acórdão nº 20400.106, não tomaram conhecimento do citado recurso voluntário, sob o fundamento de que ele havia sido interposto após decorrido o prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto 70.235/1972. Tempestivamente, em 10/4/2006, a recorrente interpôs embargos de declaração em face do referido acórdão, em alegou erro material quanto a data de apresentação do recurso voluntário, pois, embora tenha sido entregue na na unidade da Receita Federal em 18/06/2004, o citado recurso voluntário teria sido postado em 14/6/2004, consoante carimbo posto no Aviso de Recebimento de fl. 633. Enfim, ao acatar os argumentos aduzidos pela embargante, na Sessão de 28 de janeiro de 2014, por meio do acórdão nº 3402002.290, os membros da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara deste Conselho, por unanimidade votos, conheceram e acolheram os referidos embargos para anular o acórdão embargado. É o relatório. Voto Fl. 666DF CARF MF Processo nº 10140.003416/200390 Acórdão n.º 3302003.744 S3C3T2 Fl. 665 5 Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. Conforme delineado no relatório precedente, a lide envolve questões preliminares e de mérito, que serão a seguir analisadas. I Das Questões Preliminares Em sede de preliminar, a recorrente alegou nulidade da decisão recorrida por cerceamento do direito de defesa, nulidade da autuação por erro de enquadramento legal e pedido de produção de prova pericial ou realização de diligência. Da nulidade da decisão recorrida. A recorrente alegou nulidade da decisão recorrida por cerceamento do direito de defesa, sob o argumento de que o indeferimento da realização da prova pericial requerida havia prejudicado o exercício do seu direito defesa, consagrado no art. 5º, LV, da CF/1988. Tratase de alegação sem procedência, posto que a decisão quanto ao deferimento ou não da produção da prova pericial constitui prerrogativa da autoridade julgadora. Dada essa característica, a produção do referido tipo de prova somente será deferido se, para dita autoridade, ela se revelar necessária ao esclarecimentos dos fatos controversos, caso contrário, indeferirá o pedido. Neste caso, sendo suficiente que apresente a fundamentação adequada para sua decisão. Esse é o entendimento que se extrai da leitura combinada dos arts. 18, 28 e 29 do Decreto 70.235/1972, com as alterações posteriores, que seguem transcritos. Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. [...] Art. 28. Na decisão em que for julgada questão preliminar será também julgado o mérito, salvo quando incompatíveis, e dela constará o indeferimento fundamentado do pedido de diligência ou perícia, se for o caso. Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Além disso, da simples leitura do voto condutor da decisão recorrida, verificase que foram apresentadas de forma clara e suficiente as razões pelas quais a Turma de Julgamento de primeiro grau considerou desnecessária a realização da realização da prova pericial requerida pela recorrente, ou seja, que o esclarecimento solicitado pela recorrente contrariava o disposto no art. 30, § 1º, do Decreto 70.235/1972. Fl. 667DF CARF MF 6 Assim, uma vez que fora devidamente fundamentado o indeferimento da realização da referida prova pericial, não procede o alegado cerceamento do direito de defesa suscitado pela recorrente. Com efeito, da leitura dos fundamentos do voto condutor do julgado extraise que, embora atendesse os requisitos formais, o referido pedido de perícia foi indeferido porque os esclarecimentos pretendidos pela autuada cingiamse a questões atinentes à opção pelo lucro real, o que, no período da autuação, sabidamente, não tinha qualquer relevância para definição do regime de apuração da Cofins, haja vista tais regras eram as mesmas tanto para as pessoas jurídicas optantes pelo lucro real, quanto para aquelas optantes pelo lucro presumido. E decidiu com acerto o Colegiado de primeiro grau, pois, além da demonstração da irrelevância da referida prova para o deslinde da presente controvérsia, os quesitos formulados pela recorrente são facilmente respondíveis, com base na análise da documentação fiscal coligida aos autos, o que revela ser dispensável, por ser notoriamente prescindível, a produção da prova pericial requerida. Não se pode olvidar que a produção da prova pericial somente se revela imprescindível se o fato a ser provado depende de conhecimento técnico especializado, o que, certamente, não se vislumbra no caso em tela, em que as respostas aos quesitos formulados pela recorrente podem ser facilmente extraídas dos documentos colacionados aos autos, bastando que tenha conhecimento elementares sobre a sistemática de tributação das pessoas jurídicas. Com base nessas considerações, rejeitase a preliminar de nulidade da decisão recorrida, por não restar configurado o alegada cerceamento do direito de defesa. Da nulidade do auto de infração. A recorrente alegou nulidade da autuação por erro de enquadramento legal, sob o argumento de que o art. 77 do Decretolei 5.844/1943 não tinha o inciso III indicado, nem fora indicado em qual dos 9 (nove) incisos do art. 149 do CTN, que enquadrava o lançamento, o que havia deixado dúvida e prejudicado o exercício da ampla defesa. Só na falta de argumento relevante de defesa se justifica a apresentação dessa alegação. Os referidos artigos tratam das hipóteses de lançamento de ofício e dada natureza das infrações apuradas pela fiscalização, por força do disposto no art. 142 do CTN, a realização do lançamento em destaque era obrigatória, sob pena responsabilidade de funcional da autoridade fiscal. Cabe ainda ressaltar, que, o referido art. 77 do Decretolei 5.844/1943, não foi recepcionado pela CF/1988, conforme disposto no seu art. 146, III, “b”, que, expressamente, atribuiu a lei complementar a exclusividade da disciplina da matéria relativa ao lançamento do crédito tributário. E sabidamente, esta função é exercida pela Lei 5.172/1966, denominada de Código Tributário Nacional (CTN). Portanto, a simples indicação do art. 149 do CTN revelase suficiente para caracterizar a natureza do lançamento realizado, ou seja, que a questionada autuação tratase de lançamento de ofício. Embora, para a validade do presente auto de infração, tal menção fosse despicienda. Com efeito, diferentemente do alegado pela recorrente, “a disposição legal infringida e a penalidade aplicável”, requisito do auto de infração, fixado no art. 10, IV, do Decreto 70.235/1972, referese ao enquadramento legal atinente à matéria tributável (fato gerador), base de cálculo e alíquota, isto é, os elementos relevantes da norma de incidência do Fl. 668DF CARF MF Processo nº 10140.003416/200390 Acórdão n.º 3302003.744 S3C3T2 Fl. 666 7 tributo, que foram corretamente especificados no auto de infração e sobre o qual não houve qualquer questionamento da parte da recorrente. Além disso, os fatos e as infrações motivadoras da autuação foram descritos em detalhes e com clareza na descrição dos fatos que integrante do auto de infração, bem como a base de cálculo, alíquota, diferença devida e não declarara/recolhida foram discriminada de forma clara nas citadas planilhas integrantes do referido auto infração. E diante da clareza da apresentação desses elementos, se alguma dúvida ou incompreensão existiu ou ainda existe, certamente, tal circunstância evidencia ser mais um problema de deficiência cognitiva da matéria tributária do que, propriamente, a presença de alguma mácula relevante no bojo da questionada autuação, que foi lavrado em conformidde com o disposto no art. 142 do CTN e atende todos os requisitos determinados no art. 10 do Decreto 70.235/1972. Por todas essas razões, rejeitase a presente preliminar de nulidade do auto de infração. Do reiterado pedido de perícia e diligência. No presente recurso, a recorrente reiterou o pedido de produção prova pericial, para que, após a análise de toda documentação contábil da recorrente, fossem respondidos aos seguinte quesitos, in verbis: a) Qual foi a opção da recorrente para pagamento do IR (anos de 2000 a 2003)? Lucro Real ou Lucro Presumido? b) Na hipótese de se concluir que a recorrente optou pelo Lucro Real, perguntase: Houve lucro ou prejuízo fiscal? c) Caso seja apurado um lucro, perguntase: Qual é o valor devido a título de COFINS? Embora tenha formulado os quesitos, a recorrente não indicou o nome, o endereço e a qualificação profissional do perito, o que fizera na peça impugnatória, logo não se encontra atendido os requisitos formais determinados no art. 16, IV, do Decreto 70.235/1972. Porém, ainda que atendidos os requisitos formais, rejeitase o presente pedido de produção de prova pericial, por se revelar total prescindível para o deslinde da controvérsia. De fato, os dois primeiros quesitos, além de ser matéria estranha ao autos, são facilmente respondíveis, sem a necessidade do concurso de conhecimento especializado na matéria. Aliás, uma simples consulta aos tipos das DIPJ apresentadas pela recorrente nos anos da autuação obtémse facilmente as respostas aos referidos quesitos, o que torna evidente ser desnecessário o concurso de perito. Ademais, causa estranheza a formulação do primeiro quesito, posto que, no âmbito do referido recurso, a própria recorrente afirmou que optara pela tributação pelo lucro real. No que tange à última questão, embora pertinente ao objeto da autuação, ela já se encontra devidamente respondida nos autos. Uma rápida leitura das planilhas “BASE DE CALCULO (TRIBUTO COFINS)”, “APURAÇÃO DE DÉBITO” e “DEMONSTRATIVO DE SITUAÇÃO FISCAL APURADA” de fls. 191/210, integrantes do citado auto de infração Fl. 669DF CARF MF 8 extraise a resposta pretendida. Se a recorrente discorda da resposta consignada nos referidos documentos, era ônus seu trazer aos autos documentos e demonstrativos adequados para contraditar os dados apresentados nas citadas planilhas, o que não foi feito no curso do procedimento fiscal nem após a instauração do contraditório. Cabe ainda consignar, que, no período da autuação, a forma de tributação da Cofins independia da forma de tributação do IRPJ fosse pelo lucro real, presumido ou arbitrado. Por essas razões, com respaldo nos art. 18 e 29 do Decreto 70.235/1972, por entender prescindíveis, rejeitase o pedido de conversão do julgamento em diligência, para fim de elaboração do laudo pericial. II Das Questões de Mérito No mérito, a recorrente alegou (i) erro material no preenchimento dos Darf, referente aos pagamentos dos IRPJ e da CSLL dos anos calendários de 2000 a 2003; (ii) era indevida a inclusão, no auto de infração, dos débitos da Cofins do período da autuação, porque eles foram incluídos no programa de Parcelamento Especial (Paes); e (iii) se não fosse excluída a multa de ofício imposta, ela deveria ser reduzida a 50% (cinquenta por cento), conforme previa o art. 1º, § 7º, da Lei 10.684/2003. Em relação a primeira alegação, a recorrente argumentou que, embora houvesse optado pela sistemática de tributação pelo lucro real, havia procedido o recolhimento dos citados tributos com os códigos do regime de lucro presumido. Entretanto, ao perceber o erro, formalizara o pedido de retificação de Darf (Redarf), que fora indeferido, sob a alegação de que “seria contrário ao Regulamento do IR, bem como à norma especifica de Redarf." Evidentemente, tratase de alegação estranha aos autos. Com efeito, a presente autuação trata da cobrança dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a junho de 2003, enquanto que a alegação da recorrente diz respeito ao IRPJ e a CSLL, que não foram objeto da presente autuação. A recorrente alegou que, na data da conclusão da autuação, ocorrida no dia 9/12/2003, data ciência do auto de infração, os débitos objeto da presente autuação estavam suspensos, porque se encontravam incluídos no Paes. De acordo com as cópias da Ficha 3.06 da Declaração Paes (fls. 510/519) e dos extratos da Consulta Declaração Paes (fls. 530/532), verificase que a autuada incluiu no Paes a totalidade ou parte dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003. Embora a inclusão no Paes tenha ocorrido antes da conclusão da autuação em apreço, os débitos nele incluídos devem ser tratados como confissão de dívida, de forma irretratável e irrevogável, nos termos do art. 1º, §§ 1º e 2º, da Lei 10.684/2003, a seguir transcritos Art. 1º Os débitos junto à Secretaria da Receita Federal ou à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, com vencimento até 28 de fevereiro de 2003, poderão ser parcelados em até cento e oitenta prestações mensais e sucessivas. § 1º O disposto neste artigo aplicase aos débitos constituídos ou não, inscritos ou não como Dívida Ativa, mesmo em fase de execução fiscal já ajuizada, ou que tenham sido objeto de Fl. 670DF CARF MF Processo nº 10140.003416/200390 Acórdão n.º 3302003.744 S3C3T2 Fl. 667 9 parcelamento anterior, não integralmente quitado, ainda que cancelado por falta de pagamento. § 2º Os débitos ainda não constituídos deverão ser confessados, de forma irretratável e irrevogável. [...] (grifos não originais) Por força do disposto nos referidos preceitos legais, em relação ao valor integral ou a parcela dos débitos incluídos no Paes não cabe qualquer consideração a respeito no âmbito deste julgado, logo a cobrança e liquidação dos referidos valores deverá ser feita em conformidade com as regras que regem o Paes, incluindo a redução da multa prevista no art. 1°, § 7º, da Lei 10.684/2003, a seguir reproduzido: Art. 1º Os débitos junto à Secretaria da Receita Federal ou à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, com vencimento até 28 de fevereiro de 2003, poderão ser parcelados em até cento e oitenta prestações mensais e sucessivas. [...] § 7º Para os fins da consolidação referida no § 3o, os valores correspondentes à multa, de mora ou de ofício, serão reduzidos em cinqüenta por cento. Em relação a parcela dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003, excedentes ao valores incluídos no Paes, bem como os débitos dos meses de fevereiro a junho de 2003, a cobrança deverá prosseguir nos presentes autos, conforme determinado no questionado auto de infração. III Da Conclusão Por todo o exposto, votase pelo PROVIMENTO PARCIAL do recurso, para determinar o cancelamento da cobrança dos débitos da Cofins dos meses de janeiro de 2000 a janeiro de 2003, incluídos no Paes e, portanto, confessados em caráter irretratável e irrevogável pelo recorrente antes da conclusão da auto de infração, observada, em havendo perda de espontaneidade, a cobrança de multa de ofício reduzida em 50% (cinquenta por cento), nos termos do art. 1°, § 7º, da Lei 10.684/2003. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 671DF CARF MF 10 Fl. 672DF CARF MF
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Numero do processo: 18471.001911/2005-96
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 23 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2001
ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. DOAÇÃO.
Quando da apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, a alegação de origem de recursos a título de doação deve ser comprovada através de documento hábil e idônea, mesmo no caso de doador e donatário serem parentes próximos. O fato de a doação estar consignada na declaração do doador e do donatário, não é meio suficiente de prova. In casu, não foi comprovada a efetiva transferência dos recursos.
Numero da decisão: 9202-004.556
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Heitor de Souza Lima Junior.
. (assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora.
(assinado digitalmente)
Heitor de Souza Lima Júnior - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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DOAÇÃO. Quando da apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, a alegação de origem de recursos a título de doação deve ser comprovada através de documento hábil e idônea, mesmo no caso de doador e donatário serem parentes próximos. O fato de a doação estar consignada na declaração do doador e do donatário, não é meio suficiente de prova. In casu, não foi comprovada a efetiva transferência dos recursos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Heitor de Souza Lima Junior. . (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 1. 00 19 11 /2 00 5- 96 Fl. 276DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Júnior Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Recursos Especial do Contribuinte, interposto contra Acórdão nº 210101.528, julgado na sessão do dia 13 de março de 2012, pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 2ª Seção, que por maioria de votos negou provimento ao Recurso Voluntário. A decisão restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2001 ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. TRIBUTAÇÃO. Consideramse tributáveis os montantes correspondentes ao acréscimo patrimonial da pessoa física quando este não for justificado pelos rendimentos declarados. DOAÇÃO. COMPROVAÇÃO. Comprova a doação recebida o efetivo ingresso dos recursos no patrimônio do donatário. A alegação de recebimento de doação deve vir acompanhada de provas inequívocas da operação, com a comprovação da efetiva transferência do numerário envolvido, além da informação tempestiva na Declaração de Ajuste Anual das partes. Na hipótese, a contribuinte não logrou comprovar que os valores declarados como recebidos em doação saíram do patrimônio do seu irmão e foram para ela transferidos. Contra a Contribuinte foi lavrado Auto de Infração de fls. 116/119 (e processo), para exigência de IRPF no valor de R$ 92.756, 40 (noventa e dois mil, setecentos e cinquenta e seis reais e quarenta centavos), acrescidos de juros de mora e multa de lançamento de ofício perfaz um valor total exigido de R$ 237.818, 13 (duzentos e trinta e sete mil, oitocentos e dezoito reais e treze centavos). Na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fls. 117) a RFB informa ter apurado omissão de rendimentos, tendo em vista a variação patrimonial a descoberto. Fl. 277DF CARF MF Processo nº 18471.001911/200596 Acórdão n.º 9202004.556 CSRFT2 Fl. 277 3 Verificouse excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados / comprovados. Inconformada, a contribuinte apresentou impugnação às fls. 141 a 144, cujas razões que em síntese foram: “• apesar de terminar o referido exercício com uma disponibilidade de R$ 208.374,91, a fiscalização lhe atribuiu acréscimo a descoberto nos meses de março e setembro de 2000,nos valores de R$ 199.301,13 e de R$ 153.703,98,respectivamente ; • em 31/12/1999, possuía, no Fundo de Investimento Persona EX RF 30 do Banco Sudameris, saldo no valor de R$ 49.283,91, em conjunto com a irmão, o qual deve, na proporção de 50%, ser considerado como recurso; • recebeu doação no valor de R$ 400.000,00 do irmão José Francisco Franco de Oliveira, CPF 274.533.16715,tempestivamente consignada nas declarações de ajuste de ambos; • jurisprudência do Conselho de Contribuintes ampara seus argumentos. A 5ª Turma da DRJ de Belo Horizonte/MG que julgou procedente em parte, mediante o Acórdão n.º 0223.913, passou a exigir da contribuinte pagamento de imposto suplementar no valor de R$ 85.979,86 (oitenta e cinco mil, novecentos e setenta e nove reais, oitenta e seis centavos). Ciente da decisão em 28 de abril de 2011 (fls. 175), a contribuinte interpôs, em 17 de maio do mesmo ano, Recurso Voluntário (fls. 176 a 181), no qual alega, em síntese, que: a) nas relações familiares impera a informalidade, não existindo recibo de doação feita de irmã; e que o Conselho de Contribuintes vem decidindo que as doações feitas entre familiares apresentadas em tempo hábil em declaração de ajuste anual, contudo, comprovado o suporte financeiro do doador, deve ser considerada no quadro de “fluxo de caixa” para apuração do valor tributável no exercício, conforme ementas de julgados que transcreve. b) durante a fiscalização, foi entregue, juntamente com os documentos referentes à compra do apartamento 201 do edifício situado na Rua Jaime Bittencourt, n.º 179, Camboinhas, Niterói, RJ, cópia do cheque citado na promessa de compra e venda, emitido por seu irmão, que também complementou os pagamentos dos imóveis por meio de doações de numerário nos meses de março e setembro de 2000, conforme declarações de rendimentos apresentadas tempestivamente, na qual ficou comprovado o suporte financeiro do doador. Pedindo, ao final, a reforma do acórdão recorrido e a extinção do crédito tributário remanescente. Fl. 278DF CARF MF 4 Com isso, tomando ciência do acórdão em 06/08/2013 (efl. 202) a contribuinte tempestivamente apresentou Recurso Especial em 21/08/2013 (efls. 205/210), em que alega divergência jurisprudencial em relação ao entendimento manifestado na decisão recorrida a respeito do cômputo no fluxo financeiro da adoção realizada entre irmãos. Indica acórdãos paradigmas nº 10249.321 e 10423.086 . Acórdão nº 10249.321 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 1996, 1997, 1998 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO DOAÇÃO DE NUMERÁRIO DE PAI PARA FILHO COMPROVAÇÃO Tratandose de doação de pai para filho, onde impera a informalidade, e verificandose que a operação foi consignada nas declarações de rendimentos do doador e do donatário e que o primeiro tinha suporte financeiro para tanto, o valor doado deve constar no "fluxo de caixa". (grifos do recurso) Recurso provido. Acórdão nº 10423.086 Assunto: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício. 2001, 2002, 2003, 2004 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO DOAÇÃO DE NUMERÁRIO DE PAI PARA FILHO COMPROVAÇÃO Tratandose de doação de pai para filho, onde impera a informalidade, e verificandose que a operação foi consignada nas declarações de rendimentos do doador e do donatário e que o primeiro tinha suporte financeiro para tanto, o valor doado deve constar no"fluxo de caixa". (grifos do recurso). OMISSÃO DE RENDIMENTOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA ARTIGO 42, DA LEI N° 9.430, DE 1996 – Caracteriza omissão de rendimentos a existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Recurso parcialmente provido. Fl. 279DF CARF MF Processo nº 18471.001911/200596 Acórdão n.º 9202004.556 CSRFT2 Fl. 278 5 Com fundamento nos arts. 67 e 68, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pela Contribuinte. Cientificada a PFN do despacho de admissibilidade proferido assegurando lhe o prazo legal para oferecer Contrarrazões ao Recurso Especial da Contribuinte. A Fazenda nas fls. 269/272, apresenta CONTRARRAZÕES ao Recurso Especial da Contribuinte, em que pugna que seja negado provimento ao recurso mantendose a decisão do colegiado da 1ª Turma Ordinária da 1ªCâmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF. É o Relatório. Voto Vencido Conselheira Patrícia da Silva, Relatora O Recurso Especial interposto pela Contribuinte é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele conheço. No presente caso, resta apenas a discussão sobre a comprovação da doação recebida e o efetivo ingresso dos recursos no patrimônio do donatário, cuja informação consta na Declaração de Ajuste Anual das partes. A Câmara a quo entendeu que a simples apresentação de Declaração de Ajuste Anual das partes não é prova suficiente para comprovar a doação suscitada pela Recorrente, não afastando a autuação em relação ao acréscimo patrimônio a descoberto, tendo voto vencido o Conselheiro ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA. Em Declaração de Ajuste Anual de 2001 (fls. 66), informou a contribuinte como rendimentos isentos e não tributáveis a quantia de R$ 400.000,00, justificando o acréscimo patrimonial com a doação em espécie que recebeu de seu irmão durante o ano calendário de 2000, cuja prova para respaldar tais operações são as DIRPF do doador (fl. 147/157) e da donatária referente ao período. Efetivamente, comprova a recorrente por meio dos documentos, que tais doações constavam em ambas as DIRPF's, não restando comprovado pela fiscalização qualquer irregularidade ou mesmo a inexistência documental. No caso, tratandose de doação efetuada de um irmão para uma irmã, imperou a informalidade. Deste modo, resta demonstrado que o doador possuía recursos suficientes para efetuar a doação a sua irmã, comprovado pela DIRPF. Assim, tratandose a doação, de ato isento de imposto de renda, nos termos do art. 6º, inciso XVI da Lei 7.713/88, não há que se falar em tributação da mesma: Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas (...) XVI valor dos bens adquiridos por doação ou herança; Fl. 280DF CARF MF 6 Nosso entendimento se alinha com o entendimento já esposado pelo CARF, relativamente à informalidade das doações entre parentes, bastando que se exija a declaração da DIRPF: Processo nº 18471.000456/200773 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2202002.497 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 16 de outubro de 2013 Matéria IRPF Recorrente LUIZ MANOEL QUINTELLA DA SILVA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Ano calendário: 2007 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. DOAÇÃO DE NUMERÁRIO ENTRE PARENTES DE 1° GRAU. INFORMALIDADE ACEITÁVEL. COMPROVAÇÃO. Tratandose de doações de mãe para filho, na qual impera a informalidade, e verificando que as operações foram consignadas nas declarações de rendimentos da doadora e do donatário, bem como a primeira possuía suporte financeiro para tanto, pela venda comprovada de imóvel, consideramse comprovadas documentalmente as doações informadas. Precedentes. Quanto ao crédito a receber, houve a comprovação do mesmo, por documentos hábeis e idôneos, quais sejam Instrumento Particular de Confissão de Dívida e Nota Promissória devidamente registrada no Registro de Títulos e Documentos, indicando a natureza, o valor e a data de sua ocorrência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (Acórdão nº 2202002.497, referente ao processo nº 18471.000456/200773, julgado na sessão do dia 16 de outubro de 2013) Assim sendo, entendo estar devidamente comprovado por parte da contribuinte suas alegações de defesa. Diante todo exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da Contribuinte. Patrícia da Silva Fl. 281DF CARF MF Processo nº 18471.001911/200596 Acórdão n.º 9202004.556 CSRFT2 Fl. 279 7 Voto Vencedor Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior, Redator designado Com a devida vênia ao entendimento esposado pela Relatora, ouso discordar. Faço notar a propósito, inicialmente, que não entendo como suficiente a simples declaração de valores doados nas declarações das pessoas físicas doadoras e donatárias, para fim de validação de eventual acréscimo patrimonial observado no curso de determinado anocalendário. Perfeitamente factível que, uma vez observada pela autoridade fiscal a existência de valores de rendimentos não tributáveis a título de doação declarados, sejam solicitados esclarecimentos adicionais, tal como foi feito in casu, consoante termos de efls. 09 e 61, em plena observância ao disposto no art. 806 e 835 do RIR/99. (...) Art.806.A autoridade fiscal poderá exigir do contribuinte os esclarecimentos que julgar necessários acerca da origem dos recursos e do destino dos dispêndios ou aplicações, sempre que as alterações declaradas importarem em aumento ou diminuição do patrimônio (Lei nº 4.069, de 1962, art. 51, §1º) (...) Art.835.As declarações de rendimentos estarão sujeitas a revisão das repartições lançadoras, que exigirão os comprovantes necessários (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 74).. Solicitados tais esclarecimentos, entendo como elemento estritamente necessário para comprovar a referida doação, além da presença do valor nas declarações do doador e donatário, também a comprovação do efetivo fluxo financeiro entre ambos, através de documentação hábil e idônea, em linha com posicionamento já adotado aqui neste CARF em outros Acórdãos e muito bem resumido pelo Conselheiro Eduardo Tadeu Farah no âmbito do Acórdão 2201002.897, de 17 de fevereiro de 2016 e ao qual me alinho integralmente, adotandoo aqui como razão de decidir, verbis. (...) É preciso esclarecer, primeiramente, que uma doação, para poder ser considerada como origem de recursos deve preencher alguns requisitos. Além de ser necessário seu registro nas declarações de rendimentos do doador e do donatário, é imprescindível que a transferência do numerário esteja cabalmente demonstrada. Não obstante a doação constar na declaração da recorrente, fl. 173, essa informação, isoladamente, não pode ser considerada como meio suficiente de prova. A questão se resume, portanto, na comprovação de que o doador efetivamente entregou o numerário ao donatário. A falta de comprovação da transferência do recurso, na qualidade de doação, para que haja a indicação correta da entrada do recurso no fluxo financeiro, é fator determinante para a desconsideração dos mesmos. Fl. 282DF CARF MF 8 Impende deixar assentado que a informalidade dos negócios entre parentes próximos não pode eximir o contribuinte de apresentar prova da efetividade das transações. Tal informalidade diz respeito, apenas, a garantias mútuas que deixam de ser exigidas em razão da confiança entre as partes (um empréstimo sem nota promissória, por exemplo), mas não se pode querer aplicar a mesma informalidade ou vínculo de confiança na relação do contribuinte com a Fazenda Pública, já que a relação entre fisco e contribuinte é formal e vinculada à lei. (grifos não presentes no original) Logo, o grau de parentesco com o doador ou a forma convencionada entre as partes diz respeito somente às partes; não exime o contribuinte de apresentar a prova do recebimento do dinheiro, e não pode ser oposta à Fazenda Pública. Esse tem sido o entendimento deste Órgão, conforme ementas abaixo transcritas: DOAÇÃO A justificativa do acréscimo patrimonial, seja por doação ou qualquer outro meio, deve ser comprovada através de documento hábil para tal. O fato de a doação estar consignada na declaração do doador e do donatário não é meio suficiente de prova. (Ac. 1047.314/ 90) DOAÇÃO Não se considera justificado o acréscimo patrimonial pela alegação de percepção de doação de valor significativo, quando não formalizada segundo as regras jurídicas pertinentes ou comprovada a efetiva transferência do valor correspondente. (Ac. 10611619, sessão de 10/11/2000, e Ac.CSRF/01748/ 87) (grifei) (...)" Ainda a propósito, a suportar tal entendimento, noto a pouca razoabilidade da hipótese de que a transferência de montante relevante, como o do caso sob análise (R$ 400.000,00, em moeda do anocalendário 2000), se tivesse cursado sem qualquer evidência bancária a suportála (cheques, transferências, ..), não tendo, porém, o contribuinte carreado aos autos qualquer elemento que comprovasse a efetiva saída financeira de recursos do doador e a consequente entrada no patrimônio da alegada donatária( fiscalizada). Verifico que se limitou a autuada a anexar as referidas DIRPFs de doador e donatário e apontar um cheque referente ao anocalendário de 1999 (sendo que o lançamento se refere à APD apurado no ano calendário de 2000), consoante resposta de efls. 63 e seguintes. Assim, considero escorreito o lançamento realizado, uma vez não comprovada mediante documentação hábil e idônea a alegada origem de recursos em questão (supostamente rendimentos não tributáveis recebidos a título de doação) e, assim, voto por negar provimento ao Recurso Especial da Contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Fl. 283DF CARF MF Processo nº 18471.001911/200596 Acórdão n.º 9202004.556 CSRFT2 Fl. 280 9 Fl. 284DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10855.000403/2005-74
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 01 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano calendário:2001
SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES.
INCLUSÃO RETROATIVA.
POSSIBILIDADE. ATIVIDADE NÃO VEDADA EM LEI.
A prestação de serviço técnico de instalação elétrica e manutenção não se equipara a serviço prestado por engenheiro eletricista, segundo Resolução da própria entidade de Classe CONFEA. Assim, não há impedimento ao ingresso ou permanência da pessoa jurídica no SIMPLES.
Recurso Provido
Numero da decisão: 1803-001.193
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado.
Nome do relator: Meigan Sack Rodrigues
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INCLUSÃO RETROATIVA. POSSIBILIDADE. ATIVIDADE NÃO VEDADA EM LEI. A prestação de serviço técnico de instalação elétrica e manutenção não se equipara a serviço prestado por engenheiro eletricista, segundo Resolução da própria entidade de Classe CONFEA. Assim, não há impedimento ao ingresso ou permanência da pessoa jurídica no SIMPLES. Recurso Provido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) SELENE FERREIRA DE MORAES Presidente. (Assinado Digitalmente) Meigan Sack Rodrigues Relatora. Fl. 72DF CARF MF Impresso em 20/03/2012 por SELENE FERREIRA DE MORAES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 20/03/201 2 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 10855.000403/200574 Acórdão n.º 180301.193 S1TE03 Fl. 112 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Selene Ferreira de Moraes (Presidente), Sérgio Rodrigues Mendes, Walter Adolfo Maresch, Sérgio Luiz Bezerra Presta, Meigan Sack Rodrigues e Victor Humberto da Silva Maizman. Relatório Tratase da exclusão da Recorrente do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples, mediante o Ato Declaratório Executivo (ADE) DRF/Sorocaba n° 14 de 22 de novembro de 2007, fl. 22, com fundamento no artigo 9°, V e §4° da Lei 9.317, em razão do exercício de "prestação de serviços de construção civil", atividade econômica que não permite a opção pela sistemática do SIMPLES, referente ao período compreendido pelo ano de 2001. Devidamente cientificada a empresa recorrente apresenta impugnação em que aduz de forma sintética que nunca exerceu atividade específica de construção civil e que sua atividade preponderante é de venda de material elétrico, com pouca ênfase em instalação elétrica e manutenção. Refere que a atividade de instalação elétrica não é atividade exclusiva de engenheiro civil e que por essa razão não encontrase vedada pela norma disciplinadora da sistemática do SIMPLES, estando pois amparada sua inclusão na mesma. Prossegue a recorrente questionando, de igual modo, os efeitos da exclusão, posto não concordar com a retroatividade da cobrança. Cita legislação em que expõe que os valores a serem cobrados somente podem incidir no momento da exclusão para adiante não com efeitos “ex tunc”. A autoridade de primeira instância entendeu que o lançamento era procedente, vez que a atividade exercida pela recorrente realmente encontrase nas vedações previstas pelo artigo 9° da Lei 9.317/96 e assim o transcreve. Completa seu entendimento referindo e citando o Ato Declaratório Normativo n° 30, de 14 de outubro de 1999, da Coordenação do Sistema de Tributação — Cosit, em que disciplina a vedação ao exercício da opção pelo SIMPLES, aplicável à atividade de construção de imóveis, abrangente também às obras e serviços auxiliares e complementares da construção civil, tais como: I a construção, demolição, reforma e ampliação de edificações; II sondagens, fundações e escavações; (...) VI pintura, carpintaria, instalações elétricas, hidráulicas, aplicação de tacos e azulejos, colocação de vidros e esquadrias; e Fl. 73DF CARF MF Impresso em 20/03/2012 por SELENE FERREIRA DE MORAES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 20/03/201 2 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 10855.000403/200574 Acórdão n.º 180301.193 S1TE03 Fl. 113 3 VII — quaisquer outras benfeitorias agregadas ao solo ou subsolo. Em suma, entende o julgador de primeira instância que a atividade desenvolvida pela empresa recorrente, qual seja: serviços de instalação elétrica, caracterizase como serviço complementar ou auxiliar de construção civil, encontrandose vedada ou impedida de exercer a opção pelo SIMPLES. Cientificada da decisão proferida pela primeira instância, a recorrente apresenta recurso voluntário em que argumenta de forma simplificada o já disposto na inicial. É o relatório. Voto Conselheira Meigan Sack Rodrigues. O Recurso Voluntário preenche as condições de admissibilidade e dele tomo conhecimento. Depreendese da decisão de primeira instância que, no entendimento da DRJ, a questão se resume ao fato de a atividade exercida pela Recorrente ser de prestação de serviço de instalação elétrica e manutenção, ou seja, serviços auxiliares e complementares da construção civil, o que invalidaria sua opção pelo SIMPLES. Em confronto à aludida decisão, a Recorrente sustenta que a maior parte da sua receita é oriunda da venda de equipamento de material elétrico, muito embora preste serviço de instalação elétrica e manutenção. Em ato contínuo, a recorrente também se defende alegando que a instalação elétrica e sua manutenção não é atividade preponderante de engenheiro civil e que portanto não estaria abrangida pelas vedações da norma. Neste ponto, concordo com a recorrente, haja vista que as instalações elétricas não são atividades que prescindam de acompanhamento de engenheiro, já que estes são responsáveis pelos projetos tão somente e são os técnicos eletricistas os responsáveis que realizam as instalações e as manutenções elétricas. Tudo segundo as determinações dispostas pela Resolução 218/73 do CONFEA (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). O fundamento da decisão de primeiro grau não merece prosperar, posto que o lançamento foi fundamentado sob o enquadramento de prestação de serviço de construção civil, atividade esta que não vislumbro, ainda que analisada sob o aspecto da ADN n. 30/99 Cosit. Isso porque a atividade descrita pela norma referida embasa seus fundamentos na instalação elétrica em imóvel agregada à construção civil. Frente a essa situação, entendo que a empresa recorrente é praticante de atividade não vedada pela sistemática do SIMPLES, além de não ser a sua atividade preponderante. E nesse sentido, não posso deixar de citar uma das inúmeras jurisprudências que guarnecem esse Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: “ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Fl. 74DF CARF MF Impresso em 20/03/2012 por SELENE FERREIRA DE MORAES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 20/03/201 2 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 10855.000403/200574 Acórdão n.º 180301.193 S1TE03 Fl. 114 4 Anocalendário: 2002 Simples Ingresso e permanência A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Recurso Provido.(Rel. Marcelo Fonseca Vicentini)” Diante das considerações expostas, voto por DAR provimento ao recurso voluntário interposto. É como voto. (assinado digitalmente) Meigan Sack Rodrigues Fl. 75DF CARF MF Impresso em 20/03/2012 por SELENE FERREIRA DE MORAES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 20/03/201 2 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 19/03/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES
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Numero do processo: 10480.910526/2012-40
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/02/2007 a 28/02/2007
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. ERRO EM DECLARAÇÃO.
O contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado mediante a apresentação de escrituração contábil e fiscal, lastreada em documentação idônea que dê suporte aos seus lançamentos. As informações prestadas unicamente na DIPJ não têm o condão de provar o direito creditório que o contribuinte alega possuir.
Recurso Voluntário Negado.
Direito Creditório Não Reconhecido.
Numero da decisão: 3302-003.689
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente Substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Orlando Rutigliani Berri, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 01/02/2007 a 28/02/2007 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. ERRO EM DECLARAÇÃO. O contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado mediante a apresentação de escrituração contábil e fiscal, lastreada em documentação idônea que dê suporte aos seus lançamentos. As informações prestadas unicamente na DIPJ não têm o condão de provar o direito creditório que o contribuinte alega possuir. Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido.
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ÔNUS DA PROVA. Recorrente ARMAZÉM CORAL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/02/2007 a 28/02/2007 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. ERRO EM DECLARAÇÃO. O contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado mediante a apresentação de escrituração contábil e fiscal, lastreada em documentação idônea que dê suporte aos seus lançamentos. As informações prestadas unicamente na DIPJ não têm o condão de provar o direito creditório que o contribuinte alega possuir. Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente Substituto e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Orlando Rutigliani Berri, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 91 05 26 /2 01 2- 40 Fl. 214DF CARF MF Processo nº 10480.910526/201240 Acórdão n.º 3302003.689 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de PER/DCOMP em que a Contribuinte informa ter efetuado recolhimento a maior que o devido. A DRF/Recife proferiu Despacho Decisório indeferindo o pleito sob o fundamento de que o DARF discriminado no PER/DCOMP foi localizado, mas encontrase integralmente utilizado para quitação de débitos declarados do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição/compensação. Cientificada da decisão, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade alegando, em síntese, que houve mera falha em não retificar a DCTF, mas que devem ser reconhecidas as informações de sua DIPJ retificadora, que atesta a ocorrência de pagamento a maior. Em análise dos argumentos apresentados pela Recorrente, a DRJ/Recife julgou improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 11049.560. O Colegiado a quo entendeu que a Contribuinte não havia comprovado o suposto pagamento a maior. Cientificada da decisão de piso, a Recorrente interpôs recurso voluntário sustentando, em síntese: (i) que o erro cometido pela Recorrente de não retificar as DCTFs não anula a existência dos créditos, vez que decorrem da realização de pagamento efetuados a maior; e (ii) que a existência de pagamento a maior é constatada pela simples verificação das DIPJs retificadoras, onde constam os ajustes necessários para atestar a existência do crédito pleiteado. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulede, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302003.657, de 22 de fevereiro de 2017, proferido no julgamento do processo 10480.910482/201258, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302003.657): "I Tempestividade Fl. 215DF CARF MF Processo nº 10480.910526/201240 Acórdão n.º 3302003.689 S3C3T2 Fl. 4 3 A Recorrente foi intimada da decisão de piso 25.06.2013 e protocolou Recurso Voluntário em 01.07.2013, dentro do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33, do Decreto 70.235/721. Desta forma, considerando que o recurso preenche os requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. II Questões de Mérito Conforme exposto anteriormente, a Recorrente alega (i) que o erro cometido pela Recorrente de não retificar as DCTFs não anula a existência dos créditos, vez que decorrem da realização de pagamento efetuados a maior; e (ii) que a existência de pagamento a maior é constatada pela simples verificação das DIPJs retificadoras, onde constam os ajustes necessários para atestar a existência do crédito pleiteado. Com todo respeito aos argumentos explicitados pela Recorrente, não concordo com suas alegações. Isto porque, a alegação de que a existência do crédito poderia ser facilmente comprovado por meio das Declarações de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (DIPJ) em nada socorre a Recorrente, posto que além da DIPJ não se constituir em confissão de dívida como é o caso da DCTF, não consta dos autos qualquer documento, a exemplo de livros e documentos fiscais e contábeis, que viesse evidenciar a apuração da contribuinte na sua DIPJ retificadora. Com efeito, a DIPJ contêm dados e informações declarados pelo próprio contribuinte que devem ser lastreados com a correspondente documentação fiscal que comprove os lançamentos contábeis, do contrário, o direito ao crédito não deve ser reconhecido. Ora, a simples apresentação de cópias das referidas declarações são insuficientes para comprovar a origem do pretenso crédito almejado pela Recorrente, inviabilizando a confirmação dos valores registrados nas declarações. Não bastasse isso, os argumentos apresentados pela Recorrente não fazem prova de crédito algum, sequer demonstram qual a composição e/ou origem do crédito que ela alegar possuir. Mais uma vez, repitase, que é necessário que sejam colacionados aos autos excertos da escrituração contábil e fiscal do contribuinte, lastreados em documentação idônea que dê suporte a tais lançamentos. Logo, dúvida não há quanto a inexistência do direito creditório perseguido pela Recorrente. Diante deste cenário, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário." No que diz respeito à tempestividade, o recurso apresentado neste processo também é tempestivo (ciência em 24/04/2015, apresentação do RV em 21/05/2015). E, da mesma forma que no processo paradigma, a Contribuinte também não juntou nestes autos "excertos da escrituração contábil e fiscal do contribuinte, lastreados em documentação idônea" capaz de comprovar a legalidade e materialidade do direito creditório alegado. 1 Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. Fl. 216DF CARF MF Processo nº 10480.910526/201240 Acórdão n.º 3302003.689 S3C3T2 Fl. 5 4 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 217DF CARF MF
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