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Numero do processo: 10680.006646/2005-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Sep 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2000, 2001
RECEITAS DE ATO COOPERATIVO.
As sociedades cooperativas que obedecerem ao disposto na legislação específica, relativamente aos atos cooperativos, ficam isentas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL.(Art. 39 Lei nº 10.865, de 2004), exceto as sociedades cooperativas de consumo de que trata o art. 69 da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997.
O resultado positivo obtido pelas sociedades cooperativas nas operações realizadas com seus cooperados não integra a base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, mesmo antes da vigência do art. 39 da Lei nº 10.865, de 2004 (Súmula CARF nº 83).
Numero da decisão: 1301-004.028
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Nelso Kichel - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcelo José Luz de Macedo (suplente convocado), Giovana Pereira de Paiva Leite, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça (suplente convocado), Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente).
Nome do relator: Relator Nelso Kichel
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As sociedades cooperativas que obedecerem ao disposto na legislação específica, relativamente aos atos cooperativos, ficam isentas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL.(Art. 39 Lei nº 10.865, de 2004), exceto as sociedades cooperativas de consumo de que trata o art. 69 da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997. O resultado positivo obtido pelas sociedades cooperativas nas operações realizadas com seus cooperados não integra a base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, mesmo antes da vigência do art. 39 da Lei nº 10.865, de 2004 (Súmula CARF nº 83). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Nelso Kichel Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 00 66 46 /2 00 5- 65 Fl. 631DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 632 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcelo José Luz de Macedo (suplente convocado), Giovana Pereira de Paiva Leite, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça (suplente convocado), Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente). Fl. 632DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 633 3 Relatório Tratase do Recurso Voluntário (efls. 351/368) em face do Acórdão da 4ª Turma da DRJ/Belo Horizonte (efls. 340/344) que julgou a Impugnação improcedente, ao manter o lançamento fiscal. Quantos fatos conta dos autos: que, em 20/05/2005, a Fiscalização da RFB, unidade DRF/Belo Horizonte, lavrou Auto de Infração da CSLL, anoscalendário 2000 e 2001, regime de apuração lucro real anual, imputando as seguintes infrações (efls. 04/12), in verbis: (...) 001 ADIÇÕES AO LUCRO LÍQUIDO ANTES DA CSLL PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS O contribuinte na apuração dos resultados dos exercícios considerou como despesa os valores da provisão para o Imposto de Renda e na apuração da base de cálculo da CSLL não adicionou estes valores, conforme relatado no Termo de Verificação Fiscal de fls. 11 a 15. ENQUADRAMENTO LEGAL Art. 2° e §§, da Lei n° 7.689/88; Art. 19 da Lei n° 9.249/95; Art. 28 da Lei n° 9.430/96; Art. 6° da Medida Provisória n° 1.85810/99 e suas reedições. Fl. 633DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 634 4 002 ADIÇÕES AO LUCRO LÍQUIDO ANTES DA CSLL FALTA DE ADIÇÃO DO VALOR DA CSLL REGISTRADA COMO CUSTO OU DESPESA O contribuinte na apuração dos resultados dos exercícios considerou como despesa os valores da provisão para a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido e na apuração da base de cálculo da CSLL não adicionou estes valores, conforme relatado no Termo de Verificação Fiscal de fls. 11 a 15. ENQUADRAMENTO LEGAL Art. 19 da Lei n° 9.249/95; art. 2° e §§, da Lei n° 7. 689/88; art. 1°, parágrafo único, da Lei n°9.316/96; art. 28 da Lei n° 9. 430/96; art. 6° da Medida Provisória n° 1.85810/99 e suas reedições. 003 EXCLUSÕES AO LUCRO LÍQUIDO ANTES DA CSLL SOBRE O LUCRO EXCLUSÕES INDEVIDAS Exclusões indevidas por não haver base legal, apuradas com base nos livros contábeis Diário e Razão, DIPJ correspondentes aos anoscalendário de 2000 e 2001, tudo conforme o Termo de Verificação Fiscal de fls. 11 a 15. Fl. 634DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 635 5 ENQUADRAMENTO LEGAL Art. 2° e seus §§, da Lei n° 7. 689/88; Art. 19 da Lei n° 9.249/95; Art. 28 da Lei n° 9. 430/96; Art. 6° da Medida Provisória n° 1.85810/99 e suas reedições. (...) que integra o lançamento fiscal o Termo de Verificação Fiscal TVF (efls. 13/17), no qual a Fiscalização descreve os fatos apurados e que transcrevo, no que pertinente, in verbis: (...) Em atendimento à intimação fiscal, o contribuinte disponibilizou os Livros, documentos e informações solicitados. Quanto às medidas judiciais apresentou documentação relativa ao Processo n° 1999.38.00.037.4187, Mandado de Segurança contra a exigência do PIS e da Cofins e informou que não efetuou qualquer depósito judicial relativamente a esta ação, assim como não impetrou qualquer ação contra a exigência da CSLL e não efetuou depósito judicial correspondente a esta Contribuição. 2.Conforme consta no Estatuto Social e alterações (fls. 19 a 68) a fiscalizada é uma cooperativa que tem como objetivo essencial a prestação de serviços de locação de veículos de cargas e passageiros, motociclistas, máquinas e equipamentos de terraplenagem e de fornecimento de mãodeobra em geral. Na prática pudemos verificar que a atividade preponderante é a prestação de serviços de transporte de passageiros e de cargas, na forma de cooperativa de trabalho, sendo verificado inclusive nas DCTF (fls. 154 a 161 ) o recolhimento de IRF sob o código 32801, Remuneração de Serviços Prestados por Associados de Cooperativa de Trabalho. 3.O contribuinte durante os anoscalendário de 2000 e 2001 adotou o Lucro Real como regime de tributação da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido CSLL, na forma de apuração anual, efetuando os recolhimentos por estimativa com base na Receita Bruta e Acréscimos. 4. O contribuinte nas Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica — DIPJ, correspondentes aos anos calendário de 2000 e 2001, na Ficha 17 — Cálculo da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido efetuou exclusões de Fl. 635DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 636 6 quase a totalidade do valor do Lucro Líquido do Exercício nestes anos. Intimado a justificar este procedimento através do Termo de Intimação Fiscal n° 01 (fls. 76 a 81), informou conforme resposta de fls. 82 a 84 que: "Entendemos, como entende todo o sistema cooperativista, que as sobras resultantes das atividades de ato cooperativo não estão sujeitas à tributação da CSLL, visto que essa contribuição incide sobre o lucro, o que não é o nosso caso, pois o que temos são sobras, ou seja, a diferença entre ingressos e dispêndios provenientes do trabalho cooperado. Por isso foram considerados resultados não tributáveis das sociedades cooperativas e oferecemos os rendimentos de aplicação financeira, nos termos da Lei 7.450/85." (...) A Lei n° 7.689/88 não estabeleceu qualquer isenção às sociedades cooperativas, assim como não se restringiu a tributação da CSLL sobre os resultados obtidos por estas sociedades em qualquer legislação posterior em vigor para os fatos geradores dos anoscalendário de 2000 e 2001. A fiscalizada não possui respaldo legal para apurar e recolher a CSLL diferentemente do que dispõe a Lei n° 7.689/88, com as alterações das Leis n° 9.249/95 e 9.430/96 c/c a Medida Provisória n° 1.85810 e suas reedições. A legislação não prevê, tampouco, qualquer distinção sobre a origem dos resultados, logo a Cooperativa deveria ter calculado a Contribuição Social sobre todo o resultado do período de apuração, decorrente de operações com cooperados ou nãocooperados. (...) 5. (...), verificamos que o contribuinte na apuração do resultado do exercício computou como despesa operacional os valores provisionados de Imposto de Renda e de Contribuição Social, lançados na conta Constituição de Provisões, código 3.1.1.5.27 5 (fls. 240 a 244). Estes valores foram transportados para a linha 23 — Demais Provisões da Ficha 05A — Despesas Operacionais das DIPJ. Apurouse nos períodosbase de 2000 e 2001 resultados de exercício de R$ 910.449,68 e R$ 772.335,71, que foram transferidos para a Linha 01 Lucro Liquido antes da CSLL da Ficha 17— Cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido das respectivas DIPJ. Constatamos, assim, que os valores informados na referida linha 01 da Ficha 17 referemse na verdade ao Lucro Liquido após o Imposto de Renda, com a conseqüente dedução das provisões Fl. 636DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 637 7 para o IRPJ e a CSLL, não tendo sido feito qualquer ajuste para reverter a apuração incorreta das bases de cálculo da CSLL. O contribuinte ao adotar tal procedimento não acatou os ditames do art. 2°, § 1°, alínea "a", da Lei n° 7.689/88 (...). (...) 10. Diante do exposto lavramos o presente auto de infração para constituir os créditos tributários da CSLL, nos anoscalendário de 2000 e 2001, referentes aos valores apurados de: Exclusões indevidas na apuração das bases de cálculo da CSLL; Provisões indedutiveis relativas aos valores de despesas de IRPJ; Falta de adição do valor da CSLL registrada como despesa. (...) que o crédito tributário lançado de ofício auto de infração da CSLL, anos calendário 2000 e 2001, na data de sua lavratura, perfaz o montante de R$ 341.292,83 assim discriminado: Auto de Infração Principal (R$) Juros de Mora (calculados ate) (R$) Multa de Ofício de 75% Total CSLL 140.717,33 95.037,53 105.537,97 341.292,83 Ciente do lançamento fiscal em 20/05/2005, a contribuinte apresentou Impugnação em 15/06/2005 (efls. 254/304) que está resumida no relatório da decisão recorrida, in verbis: (...) Ciente em 20 de maio de 2005 (fl. 3), a interessada apresentou, em 15 de junho de 2005, sua impugnação de fls. 251 a 300, a seguir resumida. Inicialmente, confirma acharse organizada sob a forma de cooperativa, dizendo que a totalidade de suas receitas derivaria de atos cooperativos. Tece comentários sobre sua natureza jurídica, buscando apoio no art. 146, inciso III, alínea c, da Constituição da República Federativa do Brasil e no art. 3° da Lei n° 5.764, de 16 de dezembro de 1971, que transcreve. Assevera que as cooperativas não aufeririam lucro nas atividades inter cooperados, sendo as "sobras" distribuídas em Fl. 637DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 638 8 quotas proporcionais, conforme estatuto social que anexa e a Lei n° 5.764, de 16 de dezembro de 1971. A seguir, interpretando os artigos 5º, inciso XVII, e 174, §§ 2°, 30 e 4°, ainda da Lei Maior, afirma que "o ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas" é merecedor de "tratamento tributário mais benéfico", dizendo que isto implicaria não imunidade, mas "apenas [...] que o ato cooperativo deve ser tributado a uma alíquota menor que aquela dos atos de comércio" (fl. 263). Descreve as características das cooperativas, de acordo com a Lei n° 5.764, de 1971, menciona a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), afirma que elas se encontrariam dispensadas do "IRPJ próprio" e menciona jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Primeiro Conselho de Contribuintes, juntando cópia de recurso, encaminhado por terceiros àquele colegiado administrativo. Ilustra seu arrazoado com lições doutrinárias, ementas de acórdãos judiciários e administrativos e facsímiles de noticiários. (...) Na Sessão de 03/11/2005, a 4ª Turma da DRJ/Belo Horizonte julgou a Impugnação improcedente, ao manter o auto de infração da CSLL, conforme Acórdão (efls. 340/344), cuja ementa e dispositivo transcrevo, in verbis: (...) Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Exercício: 2001, 2002 Ementa: As cooperativas encontramse obrigadas ao pagamento da CSLL, mesmo quando somente realizarem operações com seus cooperados, não importando o nomen iuris atribuído a seus resultados. Lançamento Procedente Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em epígrafe, acordam os membros da 4ª Turma da DRJ em Belo Horizonte, por unanimidade de votos, julgar procedente o lançamento, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Participaram, além do Presidente e do relator, as julgadoras Carmen Ferreira Saraiva e Nilza Maria Monteiro de Castro Casassanta. Justificada a ausência da julgadora Berenice Menezes Corrêa. Fl. 638DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 639 9 (...) Voto (...) Isto é, no que tange ao IRPJ, as cooperativas são, em parte, isentas. Entretanto, inexiste determinação similar que afaste as cooperativas da esfera de ação da CSLL. (...) Logo, se não há dispositivo legal que isente ou imunize as sociedades cooperativas da CSLL e se é vedado estenderlhes as benesses que as põem à margem do IRPJ (ao menos no que concerne ao resultado oriundo de seus atos cooperativos), então é incabível acolher a pretensão da interessada. Concluindo, assinalese que a doutrina e a jurisprudência não encontram lugar dentre as espécies legais tributárias relacionadas nos arts. 96 e 100, ambos do CTN e, portanto, não podem balizar este julgamento. Logo, o lançamento há que prosperar em toda linha. (...) Ciente desse decisum em 08/02/2006 por via postal Aviso de Recebimento AR (efls. 349/350), a contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 21/02/2006 (efls. 383 e 351/368), cujas razões, em síntese, são as seguintes: que o lançamento fiscal foi lavrado em contrariedade à lei constitucional, à Lei Complementar e à Lei específica n° 5.768 de 16/09/1971; que se trata de cooperativa, conforme prova documental anexa: estatuto registrado na JUCEMG; que a totalidade das receitas são decorrentes de atos cooperativos, inexistindo qualquer receita decorrente de operações com terceiros, ou seja, não cooperados; que anexou extratos contábeis da conta de receitas de atos cooperativos, balanços, relação dos cooperados, razão analítico das contas de receitas de 2000 e 2001; que cabe à lei complementar dispor acerca de tratamento tributário adequado ao ato cooperativo (CF/1988, art. 146, III, "c"); que grande tem sido a perplexidade com a qual vem sendo enfrentada a interpretação de que seja considerado "... adequado tratamento tributário ao ato cooperativo...". Cooperativismo, Sociedades e Ato Cooperativo; que o art. 146, III, "c" determina que o "tratamento tributário" devese adequar ao "ato praticado entre cooperativas e seus associados ou entre cooperativas"; Fl. 639DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 640 10 que há uma má percepção do fenômeno cooperativista. Nas palavras de Waldírio Bulgarelli "o cooperativismo como sistema de entreajuda cristã, concebido para unir os homens na realização das suas necessidades comuns, paga, por todo o bem que pretende fazer, a pena de ser ignorado e incompreendido".(...). que Celso Ribeiro Bastos também conceitua a cooperativa como "modalidade organizacional, que se insere.) numa autêntica doutrina consubstanciada em princípios muito específicos que deve reger o comportamento do homem integrado naquele sistema; todo ele permeado por um fundo ético muito acentuado, cuja expressão mais simples se traduz na forma "um por todos e todos por um"; que, com efeito, a Lei n° 5.764171 dispõe em seu art. 30 que nas sociedades cooperativas as partes: 'se obrigam a contribuir, com bens e serviços para o exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro"; que da simples definição, afirma Calixto Salomão Filho: "se depreende claramente a principal característica da sociedade cooperativa; a inexistência de um interesse social próprio, distinto do de seus membros. Não é por outra razão qual a posição de sócio vem definida como uma posição dúplice, de sócio e cliente a um só tempo"; que observa ainda Amador Paes de Almeida: "a sociedade cooperativa (...) não se confunde com a sociedade comum, exatamente por faltarlhe finalidade especulativa, embora não seja incompatível com sua natureza. Muito ao contrário, o lucro está para a sociedade cooperativa na mesma situação em que está para a empresa pública, constituindo se em mera decorrência de uma gestão profícua, mesmo porque, como já observamos, dificilmente manterseá uma sociedade cooperativa deficitária"; que o art. 4°, por seu turno, dispõe expressamente que "as cooperativas são sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica civil,(...) constituídas para prestar serviços aos associados..."(...); que o art. 174, § 2°, da CF, por sua vez, dispõe que "a lei apoiará e estimulará ocooperativismo..."; que a Constituição Federal visa, claramente, a favorecer a criação de cooperativas da forma mais livre possível, estando certamente consciente das vantagens econômicas e sociais que o cooperativismo traz; que o tratamento tributário benéfico ao ato cooperativo significa apenas que o ato cooperativo deve ser tributado a uma alíquota menor que aquela dos atos de comércio. Isso porém não significa imunidade até porque o art. 195 caput determina que todos deverão contribuir para a Seguridade Social; que essa mesma discricionariedade não autorizaria o legislador a conceder esse tratamento benéfico apenas para outros tributos que não a contribuição em questão; que a sociedade cooperativa está dispensada do I.R.P.J. próprio, visto exatamente o caráter específico do ato cooperado, sem objetivo de lucro; que, na mesma esteira do IRPJ, o ato cooperativo não está sujeito à CSLL; Fl. 640DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 641 11 que os dispositivos indicados no Auto de Infração são para outros tipos de sociedades, aquelas que não têm tratamento jurídico diferenciado e específico; que no caso das sociedades cooperativas não apuram lucros em atos cooperativos; que "sobras" e "lucros" não são sinônimos; que não havendo lucros, não há como pretender "exigir contribuição social sobre lucros"; que, diante das razoes de direito e de fato, com prova documental de existência de operações exclusivamente tipificadas de atos cooperativos, e que não existe na imputação do Auto de Infração qualquer operação tipificada de ato não cooperativo, então não deve prevalecer a exigência fiscal acerca do ato cooperativo; que protesta pela produção de toda espécie de prova admitida em direito. Na sessão de 03/07/2012, o CARF converteu o julgamento em Diligência, determinando o sobrestamento do processo nos termos do RICARF na época, conforme Resolução nº 1202000.120 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária/1ª Seção de Julgamento (efls. 412/415), cujo relatório e voto condutor, no que pertinente, transcrevo, in verbis: (...) Relatório Recebido o processo para relato e posterior exame detalhado dos autos para elaboração do relatório e voto demonstrou que, dentre as matérias afetas ao julgamento do presente processo, encontrase questão inerente a matéria submetida à apreciação do STF, com repercussão geral. Tratase da incidência da Contribuição sobre o Lucro Líquido sobre o produto de ato cooperado, assim, como a distinção entre Ato Cooperado Típico e Ato Cooperado Atípico, Conceitos Constitucionais de Ato Cooperativo, Receita de Atividade Cooperativa e Cooperado. Voto (...) Inicialmente, de se esclarecer que o tema do presente processo incidência da CSLL sobre os resultados positivos obtidos pelas cooperativas através de atos cooperados teve a repercussão geral reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, no RE nº 672.215/CE, cujo mérito ainda não foi apreciado: RE 672.215 – RG. Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA Julgamento: 29/03/2012. Publicação em 30/04/2012 Fl. 641DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 642 12 EMENTA: TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DA COFINS, DA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO SOCIAL E DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE O LUCRO LÍQUIDO SOBRE O PRODUTO DE ATO COOPERADO OU COOPERATIVO. DISTINÇÃO ENTRE “ATO COOPERADO TÍPICO” E “ATO COOPERADO ATÍPICO”. CONCEITOS CONSTITUCIONAIS DE “ATO COOPERATIVO”, “RECEITA DE ATIVIDADE COOPERATIVA” E “COOPERADO”. COOPERATIVA DE SERVIÇOS MÉDICOS. VALORES PAGOS POR TERCEIROS À COOPERATIVA POR SERVIÇOS PRESTADOS PELOS COOPERADOS. LEIS 5.764/1971, 7.689/1988, 9.718/1998 E 10.833/2003. ARTS. 146, III, c, 194, par. ún., V, 195, caput, e I, a, b e c e § 7º e 239 DA CONSTITUIÇÃO. Tem repercussão geral a discussão sobre a incidência da Cofins, do PIS e da CSLL sobre o produto de ato cooperativo, por violação dos conceitos constitucionais de “ato cooperado”, “receita da atividade cooperativa” e “cooperado”. Discussão que se dá sem prejuízo do exame da constitucionalidade da revogação, por lei ordinária ou medida provisória, de isenção, concedida por lei complementar (RE 598.085RJ), bem como da “possibilidade da incidência da contribuição para o PIS sobre os atos cooperativos, tendo em vista o disposto na Medida Provisória nº 2.15833, originariamente editada sob o nº 1.8586, e nas Leis nºs 9.715 e 9.718, ambas de 1998” (RE 599.362 RJ, rel. min. Dias Toffoli). Recurso extraordinário em que se discute, à luz do artigo 146, inciso III, alínea “c”; artigo 194, parágrafo único, inciso V; artigo 195, inciso I, alíneas “a”, “b” e “c” e § 7º e artigo 239, todos da Constituição Federal, a incidência da CSLL sobre o produto de ato cooperativo. À luz do artigo 26A, § 6º, I, do Decreto nº 70.235, de 1972, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, a seguir transcrito, os Conselheiros do Carf somente podem deixar de aplicar lei sob o fundamento de inconstitucionalidade após o Supremo Tribunal Federal, por seu Plenário, em controle concentrado ou difuso, por decisão definitiva, ter reconhecido a inconstitucionalidade da norma. (...) Por outro lado, quanto ao processamento e julgamento junto ao Carf, o artigo 62A, § 1º e 2º, do Regimento Interno, assim dispõe: Art. 62 [....] § 1º Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543B, do CPC. Fl. 642DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 643 13 § 2º O sobrestamento de que trata o § 1º será feito de ofício pelo relator ou por provocação das partes. O sobrestamento dos processos pendentes de julgamento nos tribunais estaduais ou regionais, nos casos de julgamentos no STF, decorre do disposto no art. 543B, do CPC: (...). (...) Diante de todo o exposto, manifestome pelo sobrestamento do julgamento do presente recurso, à luz do RICARF e nos termos do art. 2º, §1º, da Portaria CARF nº 2, de 2012. (...) O dispositivo do RICARF, que determinava o sobrestamento dos processos administrativos, foi revogado, e então os autos retornaram para julgamento. Nesse sentido, consta do despacho de encaminhamento, de 01/01/2014 (efl. 416): (...) A Portaria MF nº 545, de 28 de novembro de 2013, revogou os §§ 1º e 2º do art. 62A do Anexo II da Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Tendo em vista a edição desse ato normativo devem ser incluídos em pauta para julgamento os processos referentes às matérias que estão em repercussão geral no Supremo Tribunal Federal (STF) sem trânsito em julgado, de acordo com o rito do art. 543B do Código de Processo Civil (CPC). Em vista do exposto, o presente processo deve retornar, para prosseguimento do julgamento, em conformidade com as normas do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. (...) É o relatório. Fl. 643DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 644 14 Voto Conselheiro Nelso Kichel Relator. Conforme relatado, a lide objeto deste processo: a) envolve apenas matéria de direito: incidência ou não da CSLL sobre o produto de ato cooperativo; b) seu julgamento, anteriormente, foi sobrestado pela Resolução CARF nº 1202000.120 – 2ª Câmara/2ª Turma Ordinária/1ª Seção de Julgamento, de 03/07/2012 (efls. 412/415), no sentido de fosse aguardado o julgamento do STF do RE nº 672.215/CE repercussão geral controle de constitucionalidade da incidência de Cofins, PIS e CSLL sobre o produto do ato cooperativo e outras materialidades, como o lucro, por violação, em tese, dos conceitos constitucionais de “ato cooperado”, “receita da atividade cooperativa” e “cooperado”; c) está sendo, portanto, submetida a julgamento desta Turma, embora ainda pendente de julgamento pelo STF do citado RE com repercussão geral declarada, pois restou revogado dispositivo do RICARF que determinava o sobrestamento do julgamento de lide administrativa, sempre que matéria correta fosse objeto de repercussão geral declarada pela Suprema Corte, em controle abstrato ou concreto de constitucionalidade. O julgamento deste processo compete a este Colegiado, pois a Turma anterior foi extinta e o anterior Relator não mais faz parte do CARF e, por sorteio. o processo foi distribuído a este Relator. Nesse sentido, transcrevo o despacho (efl. 630), in verbis: (...) PROCESSO/PROCEDIMENTO: 10680.006646/200565 INTERESSADO: COOP DOS SERV AUT DE BELO HORIZONTE LTDA DESTINO: 1ª SEÇÃOCARFMFDF Distribuir / Sortear DESPACHO DE ENCAMINHAMENTO Considerando a extinção da turma e que o relator original, não mais pertence a nenhum colegiado CARF, promover novo sorteio do processo (Retorno de Resolução nº. 1202000.120 e fls. 412/415), no âmbito da 1ª Seção de Julgamento. Fl. 644DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 645 15 DATA DE EMISSÃO : 24/08/2018 Tratar Retorno de Processo / MOEMA NOGUEIRA SOUZA DIPROCOJULCARF1ªSEÇÃO2ªCÂMARA DIPROCOJUL CARF DIPROCOJULCARFMFDF COJULCARFMFDF DF CARF MF (...) Quanto à exigência da CSLL (objeto destes autos), a recorrente informou que não ajuizara ação, não há demanda judicial de autoria da contribuinte, conforme consta do Termo de Verificação Fiscal TVF. Antes, tornase necessário caracterizar a matéria objeto da Repercussão Geral no STF. Como já dito, em sede de Recuso Extraordinário, Repercussão Geral, há discussão acerca do tratamento tributário do ato cooperativo e do ato não cooperativo que, em síntese, apresento a seguir. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. TRATAMENTO TRIBUTÁRIO. ATO COOPERATIVO E ATO NÃO COOPERATIVO. Há questionamento no STF da constitucionalidade da revogação da isenção da Cofins de que tratava o art. 6º, I, da LC nº 70/91 pela MP 1.85806/1999, art. 23, II, "a", e reedições e MP 2.15835/2001, arts. 15 e 93, II, "a"; Há questionamento no STF, também, da revogação da isenção do PIS pela MP 1.858/99. Nessa esteira, ainda, há questionamento no STF acerca do tratamento tributário dispensado ao ato cooperativo pela CF, mormente sobre outras materialidades, como o lucro. Consta do Agravo Regimental no Recurso Extraordinário nº 562.086/MG, Rel. Ministro Marco Aurélio, decisão em juízo de retratação, de 22/12/2014, menção expressa do reconhecimento da repercussão geral do tema relativo à Fl. 645DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 646 16 constitucionalidade da cobrança de tributos em face das cooperativas, conforme excerto que transcrevo, in verbis: (...) JUÍZO DE RETRATAÇÃO REPERCUSSÃO GERAL RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 672.215 SOBRESTAMENTO. (...) 2. O Tribunal, no Recurso Extraordinário nº 672.215/CE, da relatoria do ministro Luís Roberto Barroso, concluiu pela repercussão geral do tema relativo à constitucionalidade da cobrança de tributos em face das atividade das cooperativas, considerada a distinção entre "ato Cooperativo típico" e a "ato cooperativo atípico". 3. Tratandose a recorrente de cooperativa de crédito, veiculando o recurso a mesma matéria do paradigma, determino o sobrestamento deste processo. (...) Na sequência, por esclarecer questões relevantes acerca do tratamento tributário das cooperativas, transcrevo ementa da decisão de 18/08/2016, Relator Min. Dias Toffoli nos Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário nº 599. 362 RJ onde se questionava a constitucionalidade da exigência de PIS faturamento das cooperativas, fixação de tese restrita ao caso concreto, in verbis: (...) Ementa: Embargos de declaração no recurso extraordinário. Art. 146, III, c, da CF/88. Possibilidade de tributação do ato cooperativo. Cooperativa. Contribuição ao PIS. Receita ou faturamento. Incidência. Fixação de tese restrita ao caso concreto. Embargos acolhidos sem efeitos infringentes. 1. A norma do art. 146, III, c, da Constituição, que assegura o adequado tratamento tributário do ato cooperativo, é dirigida, objetivamente, ao ato cooperativo, e não, subjetivamente, à cooperativa. 2. A norma do art. 146, III, c, da CF/88, não confere imunidade tributária, não outorga, por si só, isenções tributárias relativamente aos atos cooperativos, nem estabelece hipótese de não incidência de tributos, mas sim pressupõe a Fl. 646DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 647 17 possibilidade de tributação do ato cooperativo, dispondo que lei complementar estabelecerá a forma adequada para tanto. 3. O tratamento tributário adequado ao ato cooperativo é uma questão política, devendo ser resolvido na esfera adequada e competente, ou seja, no Congresso Nacional. 4. No contexto das sociedades cooperativas, verificase a materialidade da contribuição ao PIS pela constatação da obtenção de receita ou faturamento pela cooperativa, consideradas suas atividades econômicas e seus objetos sociais, e não pelo fato de o ato do qual o faturamento se origina ser ou não qualificado como cooperativo. 5. Como, nos autos do RE nº 672.215/CE, Rel. Min. Roberto Barroso, o tema do adequado tratamento tributário do ato cooperativo será retomado, a fim de dirimir controvérsia acerca da cobrança de contribuições sociais destinadas à Seguridade Social, incidentes, também, sobre outras materialidades, como o lucro, tendo como foco os conceitos constitucionais de "ato cooperativo", "receita de atividade cooperativa", e "cooperado" e, ainda, a distinção de "ato cooperativo típico" e "ato cooperativo atípico", proponho a seguinte tese de repercussão geral para o tema 323, diante da preocupação externada por alguns Ministros no sentido de adotarmos, para o caso concreto, uma tese minimalista: "A receita ou faturamento auferidos pelas Cooperativas de Trabalho decorrentes do atos (negócios jurídicos) firmados com terceiros se inserem na materialidade da contribuição para o PIS/Pasep." 6. Embargos de declaração acolhidos para prestar esses esclarecimentos, mas sem efeitos infringentes. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária, sob a presidência do Senhor Ministro Ricardo Lewandowski, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos e nos termos do voto do Relator, apreciando o tema 323 da repercussão geral, em acolher os embargos de declaração para prestar esclarecimentos, sem efeitos infringentes, fixando tese nos seguintes termos: “A receita auferida pelas cooperativas de trabalho decorrente dos atos (negócios jurídicos) firmados com terceiros se insere na materialidade da contribuição ao PIS/PASEP”. (...) Ainda, por ser esclarecedor, é oportuno transcrever a ementa do Acórdão no Recurso Extraordinário nº 599. 362 RJ (acórdão que foi objeto dos citados embargos, os quais foram julgados cuja ementa foi transcrita anteriormente), in verbis: Fl. 647DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 648 18 (...) "Recurso Extraordinário. Repercussão Geral. Art. 146, II, c, da Constituição Federal. Adequado tratamento tributário.Inexistência de imunidade ou de não incidência com relação ao ato cooperativo. Lei 5.764/71. Recepção como lei ordinária. PIS/PASEP. Incidência. MP 2.15835/2001. Afronta ao princípio da isonomia. Inexistência. 1. O adequado tratamento tributário referido no art. 146, III, c, da CF é dirigido ao ato cooperativo. A norma constitucional concerne à tributação do ato cooperativo, e não aos tributos dos quais as cooperativas possam a vir ser contribuintes. 2. O art. 146, III, c, da CF pressupõe a possibilidade de tributação do ato cooperativo ao dispor que a lei complementar estabelecerá a forma adequada para tanto. O texto constitucional a ele não garante imunidade ou mesmo não incidência de tributos, tampouco decorre diretamente da Constituição direito subjetivo das cooperativas à isenção. 3. A definição do adequado tratamento tributário ao ato cooperativo se insere na órbita da opção política do legislador. Até que sobrevenha a lei complementar que definirá esse adequado tratamento tributário, a legislação ordinária relativa a cada espécie tributária deve, com relação a ele, garantir a neutralidade e a transparência, evitando tratamento gravoso ou prejudicial ao ato cooperativo e respeitando, ademais, as peculiaridades das cooperativas com relação às demais sociedades de pessoas e de capitais. 4. A Lei nº 5.764/71 foi recepcionada pela Constituição de 1988 com natureza de lei ordinária e o seu art. 79 apenas define o que é ato cooperativo, sem nada referir quanto ao regime de tributação. Se essa definição repercutirá ou não na materialidade de cada espécie tributária, só a análise da subsunção do fato na norma de incidência específica, em cada caso concreto dirá. 5. Na hipótese dos autos, a cooperativa de trabalho, na operação com terceiros contratação de serviços ou vendas de produtos não surge como mera intermediária de trabalhadores autônomos, mas, sim, como entidade autônoma, com personalidade jurídica própria, distinta da dos trabalhadores associados. 6. Cooperativa é pessoa jurídica que, nas suas relações com terceiros, tem faturamento, constituindo seus resultados positivos receita tributável. 7. Não se pode inferir, no que tange ao financiamento da seguridade social, que tenha o constituinte a intenção de conferir Fl. 648DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 649 19 às cooperativas de trabalho tratamento privilegiado, uma vez que está expressamente consignado na Constituição que a seguridade social " será financiado por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei" (art. 195, caput, da CF/88). 8. Inexiste ofensa ao postulado da isonomia na sistemática de créditos conferida pelo art. 15 da Medida Provisória 2.158 35/2001. Eventual insuficiência de normas concedendo exclusões de deduções de receitas da base de cálculo da contribuição para o PIS não pode ser tida como violadora do mínimo garantido pelo texto constitucional. 9. É possível, senão necessário, estabeleceremse diferenciações entre cooperativas, de acordo com as características de cada segmento do cooperativismo ou com a maior ou menor necessidade de fomento dessa ou daquela atividade econômica.O que não se admite são as diferenciações arbitrárias, o que não ocorreu no caso concreto. 10. Recurso Extraordinário ao qual o Supremo Tribunal Federal dá provimento para declarar a incidência da contribuição para o PIS/PASEP sobre os atos (negócios jurídicos) praticados pela impetrante com terceiros tomadores de serviço, objeto da impetração." (RE 599.362 ED/RJ, Relator Ministro Dias Toffoli). Por fim, em face da repercussão geral acerca do tratamento tributário das cooperativas cabe transcrever, resumo geral, Noticias/STF, de 06/11/2014: (...) Incide PIS sobre a receita de cooperativas, decide Plenário O Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, deu provimento a recursos da União relativos à tributação de cooperativas pela contribuição ao Programa de Integração Social (PIS) e pela Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). A União questionava decisões da Justiça Federal que afastaram a incidência dos tributos da Unimed de Barra Mansa (RJ) e da Uniway– Cooperativa de Profissionais Liberais, em recursos com repercussão geral reconhecida. (...). O Plenário do STF reafirmou entendimento da Corte segundo o qual as cooperativas não são imunes à incidência dos tributos, e firmou a tese de que incide o PIS sobre atos praticados pelas cooperativas com terceiros tomadores de serviços, resguardadas exclusões e deduções previstas em lei. O caso da incidência do PIS sobre as receitas das cooperativas foi tratado no Recurso Extraordinário (RE) 599362, de relatoria do ministro Dias Tóffoli. No RE 598085, foi analisada a revogação da isenção Fl. 649DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 650 20 da Cofins e do PIS para os atos cooperados, introduzido pela Medida Provisória 1.858/1999. Tratamento adequado O ministro Dias Toffoli menciona em seu voto no RE 599.362 o precedente do STF no RE 141.800, no qual, afirma, reconheceu se que o artigo 146, inciso III, alínea “c”, da Constituição Federal não garante imunidade, não incidência ou direito subjetivo à isenção de tributos ao ato cooperativo. É assegurado apenas o tratamento tributário adequado, de forma que não resulte em tributação mais gravosa do que aquela que incidiria se as atividades fossem realizadas no mercado. “Não se pode inferir, no que tange ao financiamento da seguridade, que tinha o constituinte a intenção de conferir às cooperativas tratamento tributário privilegiado”, afirmou. No caso das cooperativas de trabalho, ou mais especificamente, no caso de cooperativas de serviços profissionais, a operação realizada pela cooperativa é de captação e contratação de serviços para sua distribuição entre os cooperados. Nesse caso, específico da cooperativa recorrida no RE, o ministro também entendeu haver a incidência do tributo. “Na operação com terceiros, a cooperativa não surge como mera intermediária, mas como entidade autônoma”, afirma. Esse negócio externo pode ser objeto de um benefício fiscal, mas suas receitas não estão fora do campo de incidência da tributação. Como PIS incide sobre a receita, afastar sua incidência seria equivalente a afirmar que as cooperativas não têm receita, o que seria impossível, uma vez que elas têm despesas e se dedicam a atividade econômica.“O argumento de que as cooperativas não têm faturamento ou receita teria o mesmo resultado prático de se conferir a elas imunidade tributária”, afirmou o relator, ministro Dias Toffoli. RE 598.085 No Recurso Extraordinário (RE) 598.085, de relatoria do ministro Luiz Fux, o tema foi a vigência do artigo 6º, inciso I, da Lei Complementar 70/1991, segundo o qual eram isentos de contribuição os atos cooperativos das sociedades cooperativas. Segundo o voto proferido pelo relator, são legítimas as alterações introduzidas pela Medida Provisória 1.858/1999, no ponto em que foi revogada a isenção da Cofins e do PIS concedida às sociedades cooperativas. (...) Como visto, a discussão relacionada à incidência da Cofins, PIS e CSLL sobre o produto do ato cooperativo, por violação, em tese, dos conceitos constitucionais de ato cooperado, receita da atividade cooperativa e cooperado, à luz do art. 79, parágrafo único, da Lei 5.764/71, encontrase submetida ao regime de repercussão geral perante aquela Suprema Fl. 650DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 651 21 Corte (RE nº 672.215/CE, Ministro Roberto Barroso, Tema 536), mas há algumas premissas que já estão claras quanto ao tratamento adequado às cooperativas, ou seja: O artigo 146, inciso III, alínea “c”, da Constituição Federal não garante imunidade, não incidência ou direito subjetivo à isenção de tributos ao ato cooperativo. É assegurado apenas o tratamento tributário adequado, de forma que não resulte em tributação mais gravosa do que aquela que incidiria se as atividades fossem realizadas no mercado. “Não se pode inferir, no que tange ao financiamento da seguridade social (PIS, Cofins e CSLL), que tinha o constituinte a intenção de conferir às cooperativas tratamento tributário privilegiado. Prosseguindo, frisese que no RE 672.215/CE, Rel. Ministro Luís Barroso, há preocupação de distinção do tratamento tributário para ato cooperativo típico e para ato cooperativo atípico, conforme ementa que transcrevo, in verbis: (...) TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DA COFINS, DA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRAMA DE INTEGRACÃO SOCIAL E DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE O LUCRO LÍQUIDO SOBRE O PRODUTO DE ATO COOPERADO OU COOPERATIVO. DISTINÇÃO ENTRE “ATO COOPERADO TÍPICO” E “ATO COOPERADO ATÍPICO. CONCEITOS CONSTITUCIONAIS DE “ATO COOPERATIVO, RECEITA DE ATIVIDADE COOPERATIVA” E “COOPERADO. COOPERATIVA DE SERVIÇOS MÉDICOS. VALORES PAGOS POR TERCEIROS À COOPERATIVA POR SERVIÇOS PRESTADOS PELOS COOPERADOS. LEIS 5.764/1971, 7.689/1988, 9.718/1998 E 10.833/2003. ARTS. 146, III, c, 194, par. ún. , V, 195, I, "a", "b" e "c" e § 7º e 239 DA CONSTITUIÇÃO. Tem repercussão geral a discussão sobre a incidência da Cofins, do PIS e da CSLL sobre o produto de ato cooperativo, por violação dos conceitos constitucionais de “ato cooperado, receita da atividade cooperativa” e “cooperado. Discussão que se dá sem prejuízo do exame da constitucionalidade da revogação, por lei ordinária ou medida provisória, de isenção, concedida por lei complementar (RE 598.085RG), bem como da “possibilidade da incidência da contribuição para o PIS sobre os atos cooperativos, tendo em vista o disposto na Medida Provisória nº 2.15833, originariamente editada sob o nº 1.8586, e nas Leis nºs 9.715 e 9.718, ambas de 1998” (RE 599.362RG, rel. min. Dias Toffoli). (STF RG RE: 672215 CE CEARÁ, Relator: Min. JOAQUIM BARBOSA, Data de Julgamento: 29/03/2012, Data de Publicação: DJe083 30042012) (...) Fl. 651DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 652 22 Veja. Em diversas passagens, a Constituição Federal protege e fomenta a atividade cooperativa. Essa relevância da atividade afasta do legislador infraconstitucional a liberdade irrestrita para definir conceitoschave de cooperativismo, de modo que a respectiva tributação deverá seguir o sentido constitucionalmente coerente para o "ato cooperativo", "receita da atividade cooperativa" e "cooperados". No âmbito do STF, a discussão diz respeito à possibilidade de incidência da contribuição para o PIS e da Cofins acerca dos atos cooperados próprios, tendo em vista o disposto na Medida Provisória 2.15833, originalmente, editada sob o nº 1.85806/1999 e nas Leis 9.715 e 9.718, de 1998, ou seja, ao alcance da Constituição quanto à situação jurídica das cooperativas. Os atos cooperados estão definidos no art. 79 da Lei 5.764/71. De acordo com a União, as cooperativas devem se submeter ao mesmo regime fiscal dispensado à generalidade das pessoas jurídicas de direito privado, enquanto não for editada a Lei Complementar prevista no art. 146, III, c, da CF/88. A partir da exegese constitucional do que seja o adequado tratamento tributário do ato cooperativo, o STF, para o caso concreto, até agora, firmou o entendimento de que a receita ou o faturamento auferidos pelas Cooperativas de Trabalho decorrentes dos negócios jurídicos praticados com terceiros se inserem na materialidade das exações fiscais em tela (tese minimalista). Porém, como já mencionado, nos autos do RE nº 672.215/CE, Rel. Min. Roberto Barroso, o tema do adequado tratamento tributário do ato cooperativo será retomado para dirimir controvérsia acerca da cobrança de contribuições sociais destinadas à Seguridade Social incidentes, também, sobre outras materialidades, como o lucro. LANÇAMENTO FISCAL OBJETO DOS PRESENTES AUTOS. CSLL. RESULTADO POSITIVO DA COOPERATIVA. No caso, consta do TVF, parte integrante do lançamento fiscal, anos calendário 2000 e 2001, que a Fiscalização da RFB, abstraindo se o resultado decorreu de ato cooperativo e/ou ato não cooperativo, entendeu ser irrelevante essa distinção, pois inexiste lei tratando de isenção da CSLL para cooperativas, para os anoscalendário objeto do lançamento fiscal (anoscalendário 2000 e 2001). Diante disso, a Fiscalização não acatou a exclusão do resultado positivo com ato cooperativo da base de cálculo da CSLL, pela inexistência de isenção tributária, in verbis: (...) Fl. 652DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 653 23 A Lei n° 7.689/88 não estabeleceu qualquer isenção às sociedades cooperativas, assim como não se restringiu a tributação da CSLL sobre os resultados obtidos por estas sociedades em qualquer legislação posterior em vigor para os fatos geradores dos anoscalendário de 2000 e 2001. A fiscalizada não possui respaldo legal para apurar e recolher a CSLL diferentemente do que dispõe a Lei n° 7.689/88, com as alterações das Leis n° 9.249/95 e 9.430/96 c/c a Medida Provisória n° 1.85810 e suas reedições. A legislação não prevê, tampouco, qualquer distinção sobre a origem dos resultados, logo a Cooperativa deveria ter calculado a Contribuição Social sobre todo o resultado do período de apuração, decorrente de operações com cooperados ou nãocooperados. (...) Nas razões do recurso voluntário, a recorrente irresignada com a decisão recorrida que manteve o lançamento fiscal, argumentou, em síntese: que, conforme Estatuto Social da Cooperativa, versão de 15/11/2003 (efls. 21/45), tem por objeto social, Artigo 2º: (...) Artigo 2º A Cooperativa tem por objetivo a defesa econômica social de seus associados mediante a prestação de serviços de locação de veículos de cargas e passageiros, motocicletas, máquinas e equipamentos de terraplanagem e mãode obra em geral, representada pela contratação de serviços junto a entidades públicas e privadas, repassandoos aos associados; (...) que a sociedade cooperativa está dispensada do I.R.P.J. próprio, visto exatamente o caráter específico do ato cooperado, sem objetivo de lucro; que, na mesma esteira do IRPJ, o ato cooperativo não está sujeito à CSLL, pela inexistência de lucro, mas apenas de sobras. Identificados os pontos controvertidos para a enfrentar o mérito. Primeiro, em relação à repercussão geral reconhecida pelo STF em relação à tributação das cooperativas (PIS, Cofins e CSLL), como visto anteriormente, de plano, a Corte Fl. 653DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 654 24 Suprema posicionouse, no caso concreto, pela tese restrita ou minimalista, enquanto não editada a Lei Complementar de que trata o art. 146, III, c, da CF/88. Ou seja: O artigo 146, inciso III, alínea “c”, da Constituição Federal não garante imunidade, não incidência ou direito subjetivo à isenção de tributos ao ato cooperativo. É assegurado apenas o tratamento tributário adequado, de forma que não resulte em tributação mais gravosa do que aquela que incidiria se as atividades fossem realizadas no mercado. “Não se pode inferir, no que tange ao financiamento da seguridade social (PIS, Cofins e CSLL), que tinha o constituinte a intenção de conferir às cooperativas tratamento tributário privilegiado. A partir da exegese constitucional do que seja o adequado tratamento tributário do ato cooperativo, o STF, para o caso concreto, firmou o entendimento de que a receita ou o faturamento auferidos pelas Cooperativas de Trabalho decorrentes dos negócios jurídicos praticados com terceiros se inserem na materialidade das exações fiscais em tela (tese restrita ou minimalista). Porém, como já mencionado, nos autos do RE nº 672.215/CE, Rel. Min. Roberto Barroso, o tema do adequado tratamento tributário do ato cooperativo será retomado para dirimir controvérsia acerca da cobrança de contribuições sociais destinadas à Seguridade Social incidentes, também, sobre outras materialidades, como o lucro. No caso, entendo que auto de infração da CSLL não merece prosperar. Em consonância com o entendimento do STF, deve ser aplicada a tese restrita ou minimalista: a) no caso das cooperativas de prestação de serviços profissionais, de prestação de serviços de locação de veículos, máquinas, pois a operação realizada pela cooperativa é de captação de clientela, contratação de serviços para sua distribuição entre os cooperados (prestação de serviço pelo cooperado com seu veículo ou máquina, o valor recebido pela operação é repassado pela cooperativa ao seu associado, ficando apenas com a taxa de intermediação); b) por outro lado, na operação com terceiros, quando ela presta o serviço em nome próprio, a cooperativa não surge como mera intermediária, mas como entidade autônoma. Ou seja: o negócio externo (ato negocial) pode ser objeto de um benefício fiscal, mas suas receitas não estão fora do campo de incidência da tributação. Fl. 654DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 655 25 No caso em tela, a cooperativa atua como intermediária. A cooperativa realiza captação de clientela para seus associados e repassa os clientes aos seus associados. Quem presta o serviço é o associado e não a cooperativa. Clientes demandam serviços de locação de veículos, máquinas e equipamentos, cujos serviços são prestados pelos associados e não pela cooperativa. A remuneração pelo serviço é do associado prestador do serviço e não da cooperativa. A operação de intermediação da cooperativa (captação de clientes), taxa de intermediação, não é tributada, pois tratase de ato cooperativo. Já a remuneração do serviço prestado pelo associado é tributada na pessoa física do prestador do serviço. Por outro lado, são tributáveis as receitas auferidas pelas cooperativas de prestação de serviços, de locação de veículos, máquinas e equipamentos decorrentes dos atos (negócios jurídicos) firmados com terceiros, quando atua em nome próprio, como entidade autônoma (não capta clientela para ser repassada para o cooperado prestar o serviço, mas a própria cooperativa atua em nome próprio prestando o serviço para terceiros, utilizandose de terceiros). Esse entendimento está em consonância com a Lei 10.865, de 30 de abril de 2004 (art. 39), que trata da isenção tributária do resultado positivo do ato cooperativo quanto à CSLL, in verbis: (...) Art. 39. As sociedades cooperativas que obedecerem ao disposto na legislação específica, relativamente aos atos cooperativos, ficam isentas da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL.(Vide art.48 da Lei nº 10.865, de 2004) Parágrafo único. O disposto no caput deste artigo não se aplica às sociedades cooperativas de consumo de que trata oart. 69 da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997. (...) Art. 48. Produz efeitos a partir de 1º de janeiro de 2005 o disposto no art. 39 desta Lei. (...) Esse entendimento também é sufragado pela jurisprudência mansa e pacífica do CARF, cuja matéria encontrase sumulada, conforme Súmula CARF nº 83, cujo verbete transcrevo, in verbis: Fl. 655DF CARF MF Processo nº 10680.006646/200565 Acórdão n.º 1301004.028 S1C3T1 Fl. 656 26 Súmula CARF nº 83 O resultado positivo obtido pelas sociedades cooperativas nas operações realizadas com seus cooperados não integra a base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, mesmo antes da vigência do art. 39 da Lei nº 10.865, de 2004. Acórdãos Precedentes: Acórdão nº 910100.308, de 25/08/2009 Acórdão nº 9101 00.207, de 27/07/2009 Acórdão nº 0105.645, de 27/03/2007 Acórdão nº 0101.734, de 15/08/1994 Acórdão nº 10516.587, de 04/07/2007 No Auto de Infração e no TVF, como já dito, a Fiscalização não segregou, não caracterizou, não demonstrou, que a receita ou faturamento, para os anoscalendário 2000 e 2001, objeto da lançamento fiscal, não seria decorrente de ato cooperativo. Diante do exposto, voto para dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Nelso Kichel Fl. 656DF CARF MF
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Numero do processo: 10283.006496/2005-72
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 24 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Aug 16 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 28/11/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PERDA DE OBJETO DO LITÍGIO. CANCELAMENTO DA PENALIDADE DECORRENTE.
Com o trânsito em julgado de decisão judicial proferida em favor do Contribuinte para extinção do crédito tributário, a multa de ofício decorrente da obrigação principal perde o objeto, resultando em cancelamento da penalidade.
Recurso Voluntário Provido
Crédito Tributário Exonerado
Numero da decisão: 3402-006.743
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Cynthia Elena de Campos - Relatora.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
Nome do relator: CYNTHIA ELENA DE CAMPOS
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EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PERDA DE OBJETO DO LITÍGIO. CANCELAMENTO DA PENALIDADE DECORRENTE. Com o trânsito em julgado de decisão judicial proferida em favor do Contribuinte para extinção do crédito tributário, a multa de ofício decorrente da obrigação principal perde o objeto, resultando em cancelamento da penalidade. Recurso Voluntário Provido Crédito Tributário Exonerado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Cynthia Elena de Campos Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 00 64 96 /2 00 5- 72 Fl. 379DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra Acórdão nº 0822.965, proferido pela 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Fortaleza/CE, que por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação nos seguintes termos: a) Preliminarmente, DECLARAR DEFINITIVOS, na via administrativa, os créditos tributários relativos à Declaração de Importação nº 05/12851381, correspondentes à COFINSImportação, no valor total de R$ 35.811,13, e à Contribuição para o PIS/PASEPImportação, no valor total de R$ 7.774,78, haja vista a renúncia à instância julgadora administrativa em decorrência da propositura de ação judicial na qual se discute o mesmo objeto, ressaltando se que os referidos tributos ficarão vinculados ao resultado da ação judicial correspondente; b) No mérito, NEGAR PROVIMENTO À IMPUGNAÇÃO, no que concerne à matéria diferenciada em relação ao objeto da referida ação judicial, para MANTER o lançamento das multas de ofício, na forma da legislação de regência; c) DECLARAR que o presente julgamento administrativo fica subordinado à decisão definitiva a ser proferida no processo judicial no 2005.32.00.0001679, perdendo automaticamente a validade e eficácia, total ou em parte, acaso se torne incompatível com aquela decisão, ressaltandose que, sobrevindo decisão judicial definitiva favorável à União, na cobrança do credito tributário lançado, serão computados os valores depositados que venham a ser transformados em pagamento definitivo, dandose prosseguimento à cobrança de eventual diferença de tributos, juros de mora e multas, na forma da legislação aplicável. Por bem descrever os fatos ocorridos até aquele momento, transcrevo abaixo o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de lançamentos de créditos tributários, formalizados em dois autos de infração, conforme discriminado a seguir: a) Auto de Infração de fls. 0206, através do qual foi constituído o crédito tributário relativo à Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social incidente na Importação (COFINSImportação), no total de R$ 35.811,13, acrescido de multa de ofício, no percentual de 75%; b) Auto de Infração de fls. 0711, por meio do qual foi constituído o crédito tributário relativo à Contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público incidente na Importação (PIS/PASEP Importação), no valor de R$ 7.774,78, acrescido de multa de ofício, no percentual de 75%. Fl. 380DF CARF MF Processo nº 10283.006496/200572 Acórdão n.º 3402006.743 S3C4T2 Fl. 380 3 De acordo com a descrição dos fatos, contida nos autos de infração, houve falta de recolhimento das referidas Contribuições, incidentes na importação da mercadoria amparada pela Declaração de Importação (DI) nº 05/12851381, registrada em 28/11/2005 (fls. 1621). A fiscalização relata ainda que o importador está questionando a cobrança dos tributos na via judicial (processo nº 2005.32.00.0001679), tendo efetuado, em 29/11/2005, depósito “no valor do montante integral do Crédito Tributário o qual suspende a exigibilidade do mesmo, conforme art. 151, II do Código Tributário Nacional”. Aduz que os autos de infração têm por objetivo o lançamento dos créditos tributários e que “o depósito judicial foi efetuado um dia após o registro da DI ocasionando a incidência da multa de oficio de que trata o art. 44 da Lei 9.430/1996”. Os lançamentos foram efetuados com base nos arts. 1º; 3º, inciso I; 4º, inciso I; 5º, inciso I; 7º, inciso I; 8º, inciso I; 13, inciso I; 19 e 20 da Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004; art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996. Cientificada dos lançamentos em 19/12/2005, conforme fl. 02 e 07, a empresa insurgiuse contra a exigência, apresentando, em 16/01/2006, as impugnações de fls. 4452 e 100108, nas quais expõe as seguintes razões de defesa: a) as importações dos equipamentos eram, até a edição da Lei nº 10.865/2004, isentas da incidência de PIS e COFINS, por comando inserido nos artigos 40 e 92 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, que mantiveram os incentivos fiscais peculiares a Zona Franca de Manaus até 2023; b) inconformada com a instituição das contribuições na importação, ingressou com ação declaratória de inexigibilidade, depositando judicialmente os valores correspondentes aos tributos, garantindo a suspensão da exigibilidade, conforme artigo 151, inciso II, do Código Tributário Nacional; c) não agiu de máfé nem auferiu vantagem alguma e efetuou o depósito judicial com somente um dia de atraso por força da falta de tempo hábil; d) tendo em vista a evidente inspiração do Direito Administrativo, que regula a atividade fiscalizadora tributária, no Direito Penal, deve ser invocado o princípio do minina non curat praetor ou princípio da insignificância ou da bagatela; e) atualizandose os valores das contribuições depositadas em juízo, pela taxa SELIC, de 28 de novembro de 2005 para o dia seguinte, 29 de novembro de 2005, apuramse diferenças irrisórias, para o PIS, de R$ 5,24, e para a Cofins, de R$ 24,12; f) em razão dessas diferenças, pretendese imputar à impugnante as exorbitantes multas de R$ 5.831,09 e R$ 26.858,35; g) Apesar de não constar expressamente positivado, ressalvadas algumas exceções (Código Penal Militar), o princípio da insignificância ou da bagatela, é amplamente reconhecido em nossos tribunais, de modo que “o direito penal, por sua natureza fragmentária, só vai até onde seja necessário para a proteção do bem jurídico. Não deve ocuparse de bagatelas”; h) na esfera penal existem duas espécies de insignificância: a da conduta e a do resultado, sendo que, no primeiro caso a conduta é absolutamente insignificante e não causa dano algum a quem quer que seja e, na segunda, a lesão causada é insignificante; Fl. 381DF CARF MF 4 i) em ambas as hipóteses, os fatos tornamse atípicos, pois, considerandose que o crime é o fato típico, antijurídico e culpável, faltandolhe qualquer das características, não há delito nem pena, como entende a jurisprudência pátria; j) o resultado deve ser relevante, quanto ao dano ou perigo ao bem juridicamente tutelado, ganhando relevo o princípio da insignificância, deixando de se caracterizar o delito quando o evento é irrelevante, havendo excludente da tipicidade, ou seja, o fato não se subsume à descrição legal; k) no caso, fica evidente a insignificância do dano causado, o que exclui a tipicidade da conduta, não havendo que se falar em infração nem em sanção à ora impugnante; l) por fim, requer seja declarada a total insubsistência do auto de infração, protestando pela produção de todas as provas em direito admitidas e pela posterior juntada de documentos. Conclusos, os autos foram encaminhados a este órgão julgador. O v. Acórdão recorrido foi proferido com a seguinte Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 28/11/2005 PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. DIVERGÊNCIA DE OBJETOS. INEXISTÊNCIA DE RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Em razão do Princípio da Unidade de Jurisdição, a propositura de ação judicial contra a Fazenda Pública importa renúncia ao direito de recorrer às instâncias julgadoras administrativas, no tocante à matéria objeto de discussão perante o Poder Judiciário. Em relação à referida matéria, o lançamento torna se definitivo na esfera administrativa, ficando vinculado ao que for decidido no processo judicial. Havendo divergência parcial de objetos entre o processo administrativo e a ação judicial, é cabível o julgamento administrativo da lide unicamente no que concerne à matéria diferenciada. Nesta última hipótese, havendo conexão ou interdependência entre ambos os processos, a eficácia da decisão administrativa ficará subordinada ao resultado definitivo do processo judicial, o que não obsta a cobrança do crédito tributário, exceto quando verificada hipótese suspensiva da exigibilidade (art. 151 do CTN). PRODUÇÃO DE PROVA. PROTESTO GENÉRICO. INADMISSIBILIDADE. O protesto genérico pela produção de todos os meios de prova em direito admitidos não produz efeitos no processo administrativo fiscal. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, salvo nos casos expressamente admitidos em lei. Em caso de obtenção de provas por meio de diligências ou perícias, estas providências devem ser expressamente solicitadas com especificação de seu objeto e atendendose os requisitos previstos em lei, sob pena de considerarse não formulado o pedido. Fl. 382DF CARF MF Processo nº 10283.006496/200572 Acórdão n.º 3402006.743 S3C4T2 Fl. 381 5 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 28/11/2005 AÇÃO JUDICIAL. LANÇAMENTO. A existência de ação judicial, ainda que presentes quaisquer das causas suspensivas da exigibilidade do crédito tributário, não afasta o dever da Fazenda Pública em proceder ao lançamento do crédito em litígio. DEPÓSITO JUDICIAL. MULTAS. INCIDÊNCIA. Constatado que o depósito judicial foi efetuado após o vencimento do prazo para pagamento do tributo, sem abranger os acréscimos legais, e ainda, depois de iniciado o procedimento de fiscal, é cabível o lançamento de ofício do tributo acrescido dos juros de mora e da multa no percentual de 75%, devendo ser deduzida, por ocasião da cobrança, a quantia depositada que venha a ser transformada em pagamento definitivo, na hipótese de a lide judicial ser decidida a favor da União. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. Somente a lei pode estabelecer as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de multas, sendo incabível, para a consecução dessas finalidades, a aplicação do princípio da insignificância ou da bagatela, por parte do órgão julgador administrativo. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A Contribuinte teve ciência do julgamento em primeira instância através da Intimação nº 94/2015 (efls. 246), recebida pela via postal em data de 14/09/2015, como comprova o Aviso de Recebimento de fls. 247. O Recurso Voluntário de efls. 248 a 258 foi interposto em data de 13/10/2015 (protocolo físico), pelo qual a Contribuinte pediu pela declaração de nulidade do auto de infração, o que fez com os seguintes argumentos: i) É empresa beneficiada pelos incentivos fiscais do polo fabril da Zona Franca de Manaus, atuando no segmento de produção de artefatos plásticos. ii) Para o desenvolvimento de suas atividades importa, além de insumos, diversos maquinários, peças e partes destinadas à composição de seu ativo permanente, o que ocorre com regularidade em virtude do desgaste natural e evolução tecnológica; iii) As importações dos equipamentos eram isentas de PIS/COFINS Importação por previsão dos artigos 40 e 92 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, que mantiveram os incentivos fiscais à Zona Franca de Manaus até 2023; Fl. 383DF CARF MF 6 iv) Os incentivos fiscais foram prorrogados até 2073 através da Emenda Constitucional nº 83/2014; v) Ingressou com Ação Declaratória de Inexigibilidade, passando a depositar judicialmente os valores correspondentes àqueles tributos, garantindo a suspensão da exigibilidade prevista elo artigo 151, II do Código Tributário Nacional; vi) Mesmo com os depósitos judiciais regularmente sendo efetuados, foi autuada com aplicação de multa de 75% (setenta e cinco por cento) em razão de atraso no depósito judicial dos valores correspondentes à Declaração de Importação nº 05/12851381 e sua adição 001; vii) A DRJ de origem declarou que o julgamento na seara administrativa fica subordinado a decisão definitiva a ser proferida na Ação Judicial nº 2005.32.00.0001679, pendente automaticamente a validade e eficácia na hipótese de ser tornar incompatível com a decisão na seara judicial; viii) A aplicação da multa objeto do presente processo afronta aos Princípios da Razoabilidade e Legalidade; ix) Obteve êxito na ação judicial, sendo que em 12/08/2015, o Superior Tribunal de Justiça negou provimento ao AgResp nº 742.124 interposto pela Fazenda Nacional; x) Sendo reconhecido judicialmente, com decisão transitada em julgado, que é indevida a cobrança de PIS e COFINS Importação, consequentemente a multa também é indevida, pois o acessório acompanha o principal. É o relatório. Voto Conselheira Cynthia Elena de Campos, Relatora 1. Pressupostos legais de admissibilidade Nos termos do relatório, verificase a tempestividade do Recurso Voluntário, bem como o preenchimento dos requisitos de admissibilidade, resultando em seu conhecimento. 2. Mérito Conforme relatado, a autuação teve por objeto a falta de recolhimento de PIS (R$ 7.774,78) e COFINS (R$ 35.811,13), acrescido de multa de ofício no percentual de 75%, incidentes na importação da mercadoria amparada pela Declaração de Importação (DI) nº 05/12851381, registrada em 21/11/2005 (fls. 1621), bem como pelo atraso ocorrido sobre o depósito judicial referente à data de 29/11/2005. O Acórdão proferido pela DRJ de origem declarou que o presente processo administrativo, na parte que versa sobre a exigibilidade da cobrança dos tributos, está subordinado ao julgamento da Ação Ordinária nº 2005.32.00.0001679. Como observado pelo Ilustre Julgador a quo, a matéria objeto da ação judicial impetrada contra a Fazenda Pública consiste no exame da legalidade e Fl. 384DF CARF MF Processo nº 10283.006496/200572 Acórdão n.º 3402006.743 S3C4T2 Fl. 382 7 constitucionalidade da incidência de COFINSImportação e PIS/PASEPImportação, em relação à Declaração de Importação nº 05/12851381, sendo que a autuação fiscal objeto deste litígio tem por motivação a falta de recolhimento das referidas contribuições, por ocasião do despacho aduaneiro, em decorrência da ação judicial. Com isso, a discussão travada na via judicial não alcança o exame da legalidade da aplicação da multa de 75% (setenta e cinco por cento). A DRJ de origem igualmente consignou que a Lei nº 9.703, de 17 de novembro de 1998, dispõe em seu art. 1º, § 3º, I, que, após o encerramento da lide ou do processo litigioso, o valor do depósito terá uma das seguintes destinações: a) será devolvido ao depositante, acrescido de juros de mora, quando a sentença lhe for favorável ou na proporção em que o for, ou b) será transformado em pagamento definitivo, total ou proporcionalmente à exigência do correspondente crédito tributário, inclusive seus acessórios, quando se tratar de sentença ou decisão favorável à Fazenda Nacional. Observo que foi observado na decisão recorrida que o julgamento administrativo fica subordinado à decisão definitiva a ser proferida no processo judicial, perdendo automaticamente a validade e eficácia, total ou em parte, acaso se torne incompatível com aquela decisão e, somente acaso resultasse em julgamento favorável à União, seria dado prosseguimento para efetivação da cobrança e demais previsões legais. Por sua vez, a Contribuinte informou em Recurso Voluntário que em 03/09/2015 transitou em julgado a decisão proferida na Ação Judicial em referência, resultando na declaração de seu direito, com o cancelamento das autuações, conforme dispositivo abaixo transcrito (decisão de fls. 362 a 372): Fl. 385DF CARF MF 8 A sentença de primeira instância foi confirmada pelo Tribunal Regional da 1ª Região, que negou provimento ao Recurso de Apelação e Remessa de Ofício da Fazenda Nacional, conforme Ementa abaixo: TRIBUTÁRIO — AÇÃO ORDINÁRIA — PISIMPORTAÇÃO E COFINSIMPORTAÇÃO — EMPRESA SEDIADA NA ZONA FRANCA DE MANAUS (ZFM) — ISENÇÃO — CUSTAS PELA FN: RESSARCIMENTO — HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. 1. A ZFM “é uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatores locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos” (art. 1º do DecretoLei n.º 288, de 28 FEV 1967), criada para promover e garantir o desenvolvimento nacional (art. 3º, II, da CF/88) e reduzir as desigualdades regionais (art. 170, VII, da CF/88), mantendose vigente esse DecretoLei por força dos artigos 40 e 92 dos ADCT (até 2023). 2. As vendas de produtos nacionais para a ZFM, consoante o art. 4º do DecretoLei n.º 288/1967, tem natureza de exportação e são equivalentes a uma exportação brasileira para o estrangeiro. 3. Se nas exportações de bens nacionais para a ZFM não incidem PIS/COFINS, as empresas que importam esses bens nacionais, sediadas na ZFM, também não podem ser obrigadas a recolher exação, estando, portanto, isentas do PIS/COFINS – Importação sobre suas aquisições de produtos nacionais. 4. O GATT (GATT 47 – Artigo III), do qual o Brasil e todos os países de que a autora importou (Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Itália e Áustria) são signatários, dispõe que deve aplicar se, necessariamente, aos produtos importados de países estrangeiros, as mesmas normas tributárias que se aplicam aos produtos nacionais. 5. As importações de bens estrangeiros por empresas sediadas na Zona Franca de Manaus não se sujeitam ao PISImportação e à COFINSImportação. 6. Precedente da T8/TRF1 de mesma conclusão. 7. Porque os débitos são todos posteriores à JAN/1996, aplica se a SELIC, que não se cumula com juros. 8. A FN vencida ressarcirá as custas adiantadas pela parte vencedora, consoante o art. 20 do CPC (TRF1, AC 2007.34.00.0210849). 9. A verba honorária imposta à Fazenda Pública pode ser fixada em valor certo (EREsp nº 624.356/RJ), arbitrada com a equidade prevista no § 4º do art. 20 do CPC, e, quando fixada até com retidão (10% sobre o valor da condenação – R$ 15.875,97), a não prover de razoabilidade a irresignação, não pode ser reduzida ao limiar da insignificância. Fl. 386DF CARF MF Processo nº 10283.006496/200572 Acórdão n.º 3402006.743 S3C4T2 Fl. 383 9 10. Apelação e remessa oficial não providas. 11. Peças liberadas pelo Relator, em Brasília, 10 de junho de 2013, para publicação do acórdão. Observo ainda que o trânsito em julgado da decisão do Superior Tribunal de Justiça, proferida em sede de Agravo em Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, como informado pela Recorrente, foi comprovado através da certidão de fls. 339, bem como através de consulta processual obtida diretamente pelo site do STJ. Inclusive, em consulta eletrônica realizada sobre a movimentação judicial do processo, é possível constatar que desde 14/02/2017, a Contribuinte levantou o respectivo alvará judicial para reaver os depósitos até então realizados. Com isso, considerando que o lançamento foi cancelado judicialmente, deve a extinção da obrigação tributária principal necessariamente refletir sobre a penalidade objeto deste litígio, resultando na perda do objeto da autuação. Portanto, assiste razão à Recorrente quanto ao argumento de cancelamento da multa por razão do reconhecimento judicial sobre o crédito tributário constituído para cobrança de PisImportação e COFINSImportação. 3. Dispositivo Ante o exposto, conheço e dou provimento ao Recurso Voluntário, para o fim de que sejam canceladas as autuações, exonerando o crédito tributário lançado a título de multa de ofício no percentual de 75%. É como voto. (assinado digitalmente) Cynthia Elena de Campos Fl. 387DF CARF MF
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Numero do processo: 14751.720304/2017-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 06 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Sep 18 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2014
MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. APRECIAÇÃO VEDADA.
A vedação ao confisco, como limitação ao poder de tributar, é dirigida ao legislador, não cabendo a autoridade administrativa afastar a incidência da lei. O emprego dos princípios constitucionais não autoriza o julgador administrativo a dispensar ou reduzir multas expressas na lei, não havendo desrespeito a estes princípios quando a autuação se pauta pelo princípio da legalidade.
SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. PLANO EDUCACIONAL OU BOLSA DE ESTUDO.
Os valores relativos a plano educacional ou bolsa de estudo não integram o salário-de-contribuição desde que a empresa comprove ter pago o benefício a seus empregados e ter atendido todas as condições estabelecidas na lei de custeio previdenciário.
SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. TERÇO DE FÉRIAS. RECURSO REPETITIVO STJ.
Em face da natureza eminentemente não remuneratória da verba denominadas terço constitucional de férias, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludida rubrica.
IMPUGNAÇÃO. PROCESSO TRIBUTÁRIO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE.
A apresentação da impugnação pelo Autuado implica a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos da lei.
Numero da decisão: 2301-006.323
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar e, no mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos o relator e os conselheiros Wesley Rocha, Virgílio Cansino Gil e Wilderson Botto que votaram por excluir do lançamento os valores relativos ao terço de férias. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleber Ferreira Nunes Leite.
(documento assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Marcelo Freitas de Souza Costa Relator
(documento assinado digitalmente)
Cleber Ferreira Nunes Leite.- Redator Designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Wilderson Botto (suplente convocado) e João Maurício Vital (Presidente). A Conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, em razão da ausência, foi substituída pelo Conselheiro Virgílio Cansino Gil, suplente convocado.
Nome do relator: MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA
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EFEITO CONFISCATÓRIO. APRECIAÇÃO VEDADA. A vedação ao confisco, como limitação ao poder de tributar, é dirigida ao legislador, não cabendo a autoridade administrativa afastar a incidência da lei. O emprego dos princípios constitucionais não autoriza o julgador administrativo a dispensar ou reduzir multas expressas na lei, não havendo desrespeito a estes princípios quando a autuação se pauta pelo princípio da legalidade. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. PLANO EDUCACIONAL OU BOLSA DE ESTUDO. Os valores relativos a plano educacional ou bolsa de estudo não integram o salário-de-contribuição desde que a empresa comprove ter pago o benefício a seus empregados e ter atendido todas as condições estabelecidas na lei de custeio previdenciário. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. TERÇO DE FÉRIAS. RECURSO REPETITIVO STJ. Em face da natureza eminentemente não remuneratória da verba denominadas terço constitucional de férias, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludida rubrica. IMPUGNAÇÃO. PROCESSO TRIBUTÁRIO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. A apresentação da impugnação pelo Autuado implica a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos da lei. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar e, no mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso, vencidos o relator e os conselheiros Wesley Rocha, Virgílio Cansino Gil e Wilderson Botto que votaram por excluir AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 75 1. 72 03 04 /2 01 7- 65 Fl. 3847DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 do lançamento os valores relativos ao terço de férias. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleber Ferreira Nunes Leite. (documento assinado digitalmente) João Maurício Vital - Presidente (documento assinado digitalmente) Marcelo Freitas de Souza Costa – Relator (documento assinado digitalmente) Cleber Ferreira Nunes Leite.- Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Wilderson Botto (suplente convocado) e João Maurício Vital (Presidente). A Conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, em razão da ausência, foi substituída pelo Conselheiro Virgílio Cansino Gil, suplente convocado. Relatório Trata-se de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte acima identificado relativo a contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações dos servidores vinculados ao RGPS/INSS, além de valores pagos a prestadores de serviços, pessoas físicas, não incluídos nos arquivos digitais das folhas de pagamento. De acordo com o Relatório Fiscal, constituem fatos gerados do presente lançamento: a) As discrepâncias verificadas entre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos empregados constantes das folhas de pagamentos, apresentadas em arquivos digitais no padrão MANAD, vinculados ao RGPS/INSS, e as remunerações declaradas em GFIP, tanto no caso da Prefeitura e Fundos Municipais quanto no caso do Instituto Cândida Vargas (ICV); b) As remunerações pagas, devidas ou creditas aos empregados vinculados ao RGPS/INSS, extraídas das folhas de pagamento apresentadas em arquivos digitais no padrão MANAD, da Prefeitura e Fundos Municipais, de rubricas consideradas pelo sujeito passivo como não integrantes da base cálculo: c) As divergências verificadas na contribuição dos segurados empregados vinculados ao RGPS/INSS, calculada sobre as bases de cálculo das folhas de pagamento apresentadas em arquivos digitais no padrão MANAD da Prefeitura e Fundos Municipais; d) A omissão do desconto da contribuição do segurado empregado, verificada nas folhas de pagamento apresentadas em arquivos digitais no padrão MANAD, tanto da Prefeitura e Fundos Municipais como do Instituto Cândida Vargas (ICV); e) As remunerações pagas ou creditadas aos contribuintes individuais que prestaram serviços ao Instituto Cândida Vargas (ICV); Fl. 3848DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 f) As diferenças de contribuições destinadas ao GILRAT, verificadas nas GFIPs entregues pelo Instituo Cândida Vargas (ICV), no período de 08/2013 a 12/2014; g) Os valores registrados, em folhas de pagamento, como pagos a estagiários, caracterizados pela fiscalização como empregados, em face da falta de apresentação da documentação necessária para averiguação do cumprimento dos requisitos da Lei nº 11.788/2008. Após a impugnação, o lançamento foi julgado procedente e o contribuinte apresentou recurso à este conselho alegando em síntese: Que houve cerceamento ao direito de defesa uma vez que a decisão guerreada não considerou todos os documentos anexados pelo contribuinte; Afirma que foram reconhecidos pela fiscalização, recolhimentos excedentes aos valores declarados como devidos em GFIP (quadro II de f. 30 do relatório fiscal), cabendo, assim, o abatimento destes nos crédito eventualmente apurado; Quanto ao Fundo Municipal de Meio Ambiente, os valores devidos como de segurados (anexo I de f. 3358 a 3377) foram pagos no mês subsequente, sendo desconsiderado pela decisão de primeira instância; Que existem servidores que não estão vinculados ao RGPS, como por exemplo os servidores efetivos da prefeitura ou cedidos de outros entes e por isso não estão sujeitos ao recolhimento do tributo em questão; Sobre a suposta omissão de desconto dos segurados, esclarece que estes não foram promovidos em função de os empregados já contribuírem sobre o limite máximo em outros vínculos, junta algumas declarações de contribuição por outra fonte pagadora; Entende que as rubricas 2125, 2430, 358,359 e 1006 (ajuda de custo para transporte, incentivo de deslocamento e prêmios) uma vez que não ultrapassem o valor de 50% da remuneração mensal, não devem integrar a base de cálculo por força do §2º do artigo 457 da CLT; Quanto a rubrica das "Bolsas Auxílios", não devem sofrer incidência por se tratar de bolsas de estudo, instituídas em Lei Municipal, sem caráter remuneratório e limitada ao tempo de curso do estudante; Igual sorte segue a rubrica Remuneração de 1/3 de Férias, uma vez que a contribuição previdenciária não recai sobre o valor adicional recebido pelas férias, não se incorporando à aposentadoria, conforme entendimento atual do STF e do STJ; Por fim, que a multa de 75% lançada ofende princípios constitucionais como os de razoabilidade, proporcionalidade e não-confisco sendo apenas cabível a multa máxima de 20% estabelecida no artigo 61 da Lei nº 9.430/96. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Marcelo Freitas de Souza Costa, Relator. O recurso é tempestivo e estão presentes os pressupostos de admissibilidade. DA PRELIMINAR Fl. 3849DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 Da Nulidade O recorrente argumenta a nulidade alegando que houve cerceamento ao direito de defesa uma vez que a decisão guerreada não considerou todos os documentos anexados. Sem razão ao recorrente. Segundo o artigo 59 do Decreto n° 70.235/72, que rege o Processo Administrativo Fiscal, são nulos: 1- Os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II- Os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Pelo contido no texto legal supra citado, não vislumbra este relator qualquer incidente de nulidade e não se vislumbra o alegado cerceamento de defesa, na medida em que, estão ausentes os vícios formais que pudessem enseja-los. Ao contrário do apregoado pelo recorrente, o julgador de primeira instância analisou os documentos anexados e os confrontou com as informações constantes no relatório fiscal entendendo não caber razão ao contribuinte, principalmente por se tratarem de competências/exercícios diversos da autuação. Assim, rejeito esta preliminar. NO MÉRITO Dos recolhimentos excedentes Segundo consta dos autos, o contribuinte foi devidamente intimado para explicar as discrepâncias entre valores declarados e recolhidos. Por meio de TIF nº 4 (f. 3354), o contribuinte teve ciência das diferenças encontradas na ação fiscal (Quadro II f. 30), sendo intimado para esclarecer a origem de tais recolhimentos, e , ainda assim, quedou-se inerte. Logo, sem razão quanto a sua manifestação. Do Fundo Municipal de Meio Ambiente O recorrente alega que não houve o aproveitamento de retificações e complementações de recolhimentos de valores referentes ao trabalhadores do FMMA, indicando que no anexo I de sua impugnação constam que tis contribuições foram pagas no mês subsequente através do empenho (nº 450007/2013). Ocorre que o anexo I mencionado pelo recorrente traz a identificação de trabalhadores sem a respectiva contribuição sobre os valores auferidos e o referido empenho, apenas o registro de pagamentos de tributos patronais pelo FMMA, sem demonstrar a inclusão de referidos trabalhadores. Logo, sem razão ao recorrente. Da existência de servidores não vinculados ao RGPS Afirma o recorrente que no lançamento constam servidores vinculados ao Regime Próprio de Previdência, constantes no anexo IV do relatório fiscal" e, à f. 3780, planilha do ICV, relativa a 10/2013, nominando obreiros que seriam servidores federais a ele cedidos. Fl. 3850DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 Ocorre que nas referidas listagens não há a indicação do órgão cedente, do período de cessão e desacompanhadas de quaisquer documentos comprobatórios do vínculo pretendido. Por outro lado, o recorrente anexa documentos que se referem a períodos anteriores ao do lançamento ora combatido, não servindo como provas a serem acolhidas. Enfim, não houve a efetiva comprovação da existência de vinculação de trabalhadores vinculados a regime próprio de previdência, restando por correta a autuação. Do atingimento de limite máximo de contribuição Sustenta o recorrente que o não desconto da contribuição dos segurados, se deu por conta destes já contribuírem , em outros vínculos, pelo limite de contribuição, porém, como já dito na decisão de primeira instância, a autoridade fiscal em seu anexo II de fls. 3385 a 3415, traz o detalhamento dos segurados, constantes nas folhas de pagamento, que não tiveram os competentes descontos previdenciários promovidos, tendo o recorrente apresentou justificativa de apenas 3 segurados alegando não ter obtido sucesso na busca das comprovações junto as outras fontes pagadoras. Logo, não restou comprovada as alegações do recorrente. Da rubricas que não ultrapassam 50% da remuneração Quanto a alegação de não incidência de contribuição sobre rubricas que não ultrapassam 50% da remuneração, não há amparo legal que sustente tais argumentações, não estando esta hipótese contida no 28, § 9º, da Lei 8.212/91, como também não houve demonstração da natureza indenizatória dos valores. Da Bolsa de Estudo O recorrente apenas menciona a Lei Municipal que institui o programa, porém não comprovou o cumprimento dos requisitos básicos para o recebimento do benefício, constantes inclusive na referida lei. Do Terço de Férias No que tange ao terço de férias, cumpre citar, também, o Resp 1230957/RS, julgado como recurso representativo de controvérsia, que deve ser reproduzida pelos conselheiros, posto que definitiva no âmbito do STJ, pelo qual decidiu-se que não incidiria contribuição previdenciária sobre o terço de férias e que incidiria sobre o salário maternidade, conforme tem sido decidido neste CARF: “TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS, AVISO PRÉVIO INDENIZADO E OS QUINZE DIAS QUE ANTECEDEM O AUXÍLIO-DOENÇA. NÃO INCIDÊNCIA CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. JURISPRUDÊNCIA UNÍSSONA. RECURSO REPETITIVO STJ. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA. Em face da natureza eminentemente não remuneratória das verbas denominadas terço constitucional de férias, aviso prévio indenizado e os quinze dias que antecedem o auxílio-doença, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludidas rubricas, impondo seja rechaçada a tributação imputada. Fl. 3851DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SALÁRIO- MATERNIDADE. SALÁRIO-PATERNIDADE. HORAS EXTRAS. De acordo com a Lei nº 8.212/1991, art. 28, §2º, incide contribuição previdenciária sobre o salário-maternidade. O Superior Tribunal de Justiça - STJ também se manifestou pela incidência da contribuição sobre essa verba no julgamento do Recurso Especial - REsp 1.230.957/RS, sob o rito dos recursos repetitivos. Incide contribuição previdenciária sobre o salário-paternidade, entendimento expresso na Solução de Consulta nº 122/2015 emitida pela Coordenação Geral de Tributação - COSIT. Incide contribuição previdenciária sobre as horas extras e respectivo adicional, por se tratar de verba paga em retribuição pela prestação do trabalho. O STJ também já decidiu nesse sentido no julgamento do Recurso Especial - REsp 1.358.281.” (Acórdão nº 2402-006.660, de 03/10/2018) Ademais, acerca do REsp 1230957/RS, há de se salientar que o Recurso Extraordinário interposto pela PGFN se encontrava sobrestado somente até o julgamento do RE 593068 (tema 163 da Repercussão Geral), nos seguintes termos: “Como o tema que ora se discute, apesar de similar ao RE 593068/SC, não é idêntico, pois, enquanto naquele o sujeito passivo está submetido a regime próprio de previdência social, no caso em tela é integrante do regime geral de previdência social, o feito foi admitido com fulcro no art. 543-A, § 2º, do CPC e encaminhado ao Supremo. Analisando o feito, o então relator, Min. Luiz Fux entendendo que a questão discutida na espécie seria idêntica à tratada no citado RE 593068 RG/SC, determinou, nos termos do art. 328, parágrafo único do RISTF, a devolução dos autos a esta Corte para fins de sobrestamento até o pronunciamento definitivo do Supremo Tribunal Federal. Assim, diante da decisão do STF no sentido de que o tema versado nos presentes autos é uníssono com o tratado no RE 593068 RG/SC, cuja matéria teve repercussão geral reconhecida, determino o sobrestamento do presente recurso extraordinário até o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, do mérito aludido feito, nos termos do artigo 328-A do RISTF.” Ocorre que, em 11/10/2018, o STF concluiu pela não incidência de contribuições previdenciárias nas parcelas discutidas no RE 593068 (tema 163 da Repercussão Geral), proferindo a seguinte decisão de julgamento, com ata de julgamento publicada em 22/10/2018: “Decisão: O Tribunal, por maioria, apreciando o tema 163 da repercussão geral, deu parcial provimento ao recurso extraordinário para determinar a restituição das parcelas não prescritas, nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli (Presidente), Marco Aurélio e Gilmar Mendes. Em seguida, por maioria, fixou-se a seguinte tese: “Não incide contribuição previdenciária sobre verba não incorporável aos proventos de aposentadoria do servidor público, tais como ‘terço de férias’, ‘serviços extraordinários’, ‘adicional noturno’ e ‘adicional de insalubridade’”, vencido o Ministro Marco Aurélio. Não votou o Ministro Alexandre de Moraes, sucessor do Ministro Teori Zavascki. Ausente, justificadamente, o Ministro Celso de Mello. Plenário, 11.10.2018.” Portanto, entendo haver incidência de contribuições previdenciárias sobre o terço constitucional férias, assiste razão ao recorrente, no sentido de que não incidem contribuições previdenciárias. Fl. 3852DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 Da Multa de 75% Insurge-se o contribuinte contra a aplicação da multa de 75% argumentando ser de caráter confiscatório sua aplicação. Ocorre que referida multa tem previsão legal e deve ser aplicada nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata conforme se depreende do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/96 (na redação dada pela Lei nº 11.488/07): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; Já a aplicação de multa de 20% com base no art. 61 da Lei 9.430/96, só ocorre nos casos de recolhimento espontâneo com atraso e não nos de lançamento de ofício. Ante ao exposto voto no sentido de conhecer do recurso, rejeitar a preliminar e no mérito Dar Provimento Parcial ao recurso para excluir do levantamento os valores relativos ao Terço de Férias. (documento assinado digitalmente) Marcelo Freitas de Souza Costa Voto Vencedor Cleber Ferreira Nunes Leite.- Redator Designado Divirjo do ilustre relator, exclusivamente sobre a não incidência da contribuição previdenciária sobre o terço de férias, tendo em vista decisão do STJ, em recurso repetitivo, ainda não transitado em julgado. De fato, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) no REsp 1.230.957, julgado na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil (recurso repetitivo), consolidou o entendimento da não incidência de contribuição previdenciária sobre a remuneração paga sobre o terço constitucional de férias indenizadas ou gozadas. A vinculação ao decidido na sistemática dos recursos repetitivos, contudo, demanda decisão definitiva de mérito (Regimento Interno do CARF, art. 62). O REsp 1.230.957 não transitou em julgado, por ter sido sobrestado devido ao reconhecimento de repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF), tendo por paradigma o RE n° 593.068/SC, a tratar da contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias, a gratificação natalina, os serviços extraordinários, o adicional noturno e o adicional de insalubridade (Tema 163/STF). Além disso, a natureza jurídica do terço constitucional de férias, indenizadas e gozadas, para fins de incidência da contribuição previdenciária patronal é objeto de repercussão geral no RE n° 1.072.485/PR, pendente de julgamento (Tema 985/STF). Portanto, o terço constitucional integra a base de cálculo das contribuições, conforme já decidido pela 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais: Fl. 3853DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2301-006.323 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 14751.720304/2017-65 TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO. ART. 214, §4º, DO DECRETO nº 3048/99. A remuneração de férias e seu respectivo adicional de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal possuem natureza remuneratória e, nessa condição, integram o salário de contribuição, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, nos termos expressos no §4º do art. 214 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Dec. nº 3.048/99. IMPOSSIBILIDADE DE OBSERVÂNCIA DE DECISÃO DO STJ. AUSÊNCIA DE TRANSITO EM JULGADO. Nos termos art. 62 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria 343 de 09 de junho de 2015, enquanto não transitado em Julgado decisão do STJ acerca da não incidência de contribuição previdenciária sobre um terço de férias, aviso prévio Fl. 13 do Acórdão n.º 2301-006.167 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11070.721119/2011-73 indenizado e 15 primeiros dias do auxílio doença ou auxílio acidente, não se pode afastar regra expressa do Decreto 3048/99 quanto à incidência de Contribuições Previdenciárias. (...) Acórdão 9202006.464, de 30 de janeiro de 2018. Do exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso (documento assinado digitalmente) Cleber Ferreira Nunes Leite Fl. 3854DF CARF MF
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Numero do processo: 10283.901337/2008-26
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 14 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Sep 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL)
Ano-calendário: 2003
SALDO NEGATIVO. ESTIMATIVAS DECLARADAS EM COMPENSAÇÕES NÃO HOMOLOGADAS OU HOMOLOGADAS PARCIALMENTE. COBRANÇA. DUPLICIDADE.
Na hipótese de compensação não homologada ou homologada parcialmente, os débitos serão cobrados com base em Dcomp, por conseguinte, não cabe a glosa das estimativas quitadas via compensação na apuração do saldo negativo.
Numero da decisão: 1302-003.841
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Flávio Machado Vilhena Dias - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Gustavo Guimarães da Fonseca, Ricardo Marozzi Gregório, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flávio Machado Vilhena Dias, Breno do Carmo Moreira Vieira e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (documento assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente (documento assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Gustavo Guimarães da Fonseca, Ricardo Marozzi Gregório, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flávio Machado Vilhena Dias, Breno do Carmo Moreira Vieira e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Ano-calendário: 2003 SALDO NEGATIVO. ESTIMATIVAS DECLARADAS EM COMPENSAÇÕES NÃO HOMOLOGADAS OU HOMOLOGADAS PARCIALMENTE. COBRANÇA. DUPLICIDADE. Na hipótese de compensação não homologada ou homologada parcialmente, os débitos serão cobrados com base em Dcomp, por conseguinte, não cabe a glosa das estimativas quitadas via compensação na apuração do saldo negativo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (documento assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente (documento assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Gustavo Guimarães da Fonseca, Ricardo Marozzi Gregório, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flávio Machado Vilhena Dias, Breno do Carmo Moreira Vieira e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório O presento processo administrativo fiscal teve origem no pedido de compensação transmitida pelo contribuinte Siemens Eletrônica Ltda., ora Recorrente, no qual se pretendia quitar débitos próprios de CSLL, referente ao mês de Março/2004 (vencimento 30/04/2004), no valor de R$420.931,32, com créditos de saldo negativo daquela contribuição, referente ao ano- calendário 2003. Contudo, a compensação não foi homologada (Despacho decisório 720226155 – fl. 08), porque “foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 90 13 37 /2 00 8- 26 Fl. 311DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1302-003.841 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10283.901337/2008-26 integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação”. A Recorrente, ao ser intimada da decisão que deixou de homologar o seu pedido de compensação, apresentou Manifestação de Inconformidade, na qual alegou que se equivocou no preenchimento da PerDcomp, uma vez que, ao invés de indicar o direito creditório como sendo “saldo negativo de CSLL”, apontou o crédito como sendo “pagamento indevido ou a maior” daquela contribuição. Assim, sustentando que o erro de preenchimento do pedido de compensação não poderia ser o fundamento para o não reconhecimento do seu direito creditório, argumentou pela reforma da decisão administrativa, para que o crédito indicado na PerDcomp restasse integralmente reconhecido, homologando-se, por consequência, a compensação apresentada. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belém (PA), ao analisar o apelo do contribuinte, entendeu que “mero erro na indicação da natureza do crédito (pagamento indevido ou a maior CSLL em vez de saldo negativo CSLL) não tem o condão de tornar inexistente o crédito de saldo negativo quando o contribuinte deixa claro, na própria DCOMP, o crédito que está realmente pleiteando”. Como se observa da decisão de fls. 99, contudo, aquela Delegacia de Julgamento reconheceu apenas parte do direito creditório (R$196.775,23), sob argumento de que, das estimativas que compunham o saldo negativo, duas parcelas (set/2003 e nov/2003) teriam sido quitadas através de compensações, que não foram homologadas pela administração fazendária (compensações estas analisadas no processo administrativo nº 10283.000707/2007-25). Por sua vez, o Recorrente, não concordando com a decisão proferida, apresentou Recurso Voluntário (fls. 128 e seguintes), no qual, em síntese, argumenta que deixar considerar na composição do saldo negativo as parcelas das estimativas quitadas via compensação (mesmo que não homologadas), é penalizar o contribuinte “pelo pagamento em duplicidade de um valor que ainda está sendo objeto de análise, vez que o processo administrativo 10283.000707/2007- 25 não fora devidamente julgado”. Assim, pugna pela procedência do Recurso Voluntário, com o consequente reconhecimento do direito creditório, ou o sobrestamento do feito até o julgamento definitivo do processo administrativo em que se discute as compensações (quitação) daquelas estimativas. Este é o relatório. Voto Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias, Relator. DA TEMPESTIVIDADE. Como se observa do despacho de fls. 170, o Aviso de Recebimento referente ao Acórdão 01-18.710, exarado pela 1ª Turma da DRJ/BEL, não foi localizado, sendo o Recurso Voluntário apresentado de forma espontânea (sem a comprovação da intimação). Para suprir a ausência da intimação formal, foi solicitado o comparecimento do contribuinte à repartição fazendária para dar ciência do teor do acórdão pessoalmente. Assim, Fl. 312DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1302-003.841 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10283.901337/2008-26 como consta daquele despacho, “para fins de instrução de sistema, foi utilizada como data da ciência a mesma da apresentação do Recurso Voluntário”. Portanto, sem maiores delongas, é tempestivo o Recurso Voluntário apresentado pelo Recorrente. E, por cumprir os pressupostos para o seu manejo, esse deve ser analisado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. DAS ESTIMATIVAS QUITADAS VIA COMPENSAÇÃO. Como se verifica do acórdão recorrido, ao analisar a Manifestação de Inconformidade do contribuinte, não foi reconhecida a totalidade dos valores recolhidos a título de estimativa, uma vez que estas foram pagas via compensação, que acabaram não homologadas pela autoridade administrativa. As parcelas quitadas via compensação seriam aquelas referente aos meses de setembro/2003 (R$93.192,80) e novembro/2003 (R$95.182,64), compensações estas analisadas no processo administrativo de nº 10283.000707/2007-25, que também está sob a relatoria deste Conselheiro. Ocorre que a compensação das estimativas caracteriza-se como confissão de dívida e, caso não seja provido o apelo em que se discute aquelas compensações, o contribuinte será intimado para efetuar o pagamento daqueles valores confessados. Se não fizer o pagamento espontaneamente, irá ser ajuizada execução fiscal por parte da PGFN, uma vez que, no caso de confissão de dívida, não é necessário a instauração de processo administrativo de cobrança. Assim, a glosa daquelas estimativas do saldo negativo implicaria em cobrança em duplicidade, como bem apontou o Recorrente em seu Recurso Voluntário. É que o §6º, do artigo 74, da Lei 9.430/96 caracteriza como confissão de dívida o débito declarado em pedido de compensação sendo, inclusive, prescindível a instauração de processo administrativo de cobrança em caso de não pagamento espontâneo dos valores por parte do contribuinte. Ou seja, uma vez confessada a dívida e não paga, o débito será encaminhado à PGFN para a devida inscrição em dívida ativa e ajuizamento da Execução Fiscal em face do contribuinte, nos termos dos parágrafos 7º e 8º da mencionado artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Transcreve-se abaixo a literalidade dos dispositivos legais citados: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...) 6 o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 7 o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimá-lo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 8 o Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7 o , o débito será encaminhado à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9 o . (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) Fl. 313DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1302-003.841 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10283.901337/2008-26 Por outro lado, ao não reconhecer as estimativas pagas via compensação, que foram confessadas, estará caracterizada a cobrança em duplicidade, uma vez que o contribuinte, como mencionado, será cobrado dos valores das estimativas e, ainda, não poderá incluir estes mesmos valores na composição do seu saldo negativo. Assim, não há dúvidas de que os valores das estimativas, declaradas e confessadas via pedido de compensação, estão aptos a compor o saldo negativo. E o processo administrativo em que se discute as compensações das estimativas em nada influenciará na composição do saldo negativo. Independentemente do resultado daquele processo (em que se discute as compensações das estimativas), o saldo negativo não será alterado. Se houver provimento ao apelo do contribuinte, o pagamento do valor será confirmado e, por consequência, será considerado na composição do saldo negativo. Se não houver êxito no processo administrativo, o contribuinte será cobrado, uma vez que confessou a dívida da estimativa, e, também por consequência, o saldo negativo não será afetado, já que ele se compõe, em parte, das estimativas. Pensar de forma diversa, ou seja, que o contribuinte poderá não pagar o débito da estimativa e, assim, se valer de um crédito inexistente, é trabalhar hipoteticamente, o que não se pode admitir no âmbito do direito. Se o contribuinte não pagar o débito, será executado, com todos os ônus inerentes à execução fiscal, inclusive ter seu patrimônio expropriado de forma forçada (bloqueio de bens e de contas bancárias, por exemplo). O que não se pode admitir é a cobrança em duplicidade do mesmo valor: das estimativas e da glosa destas (redução) do saldo negativo. Não se pode perder de vista que a própria Receita Federal do Brasil admite que, uma vez confessados os valores das estimativas, via Dcomp, caberá a cobrança destes valores, sem afetar a composição do saldo negativo. O trecho da Solução de Consulta Interna (SCI) Cosit nº 18/06 é neste norte. Confira-se: Os débitos de estimativas declaradas em DCTF devem ser utilizados para os fins de cálculo e cobrança de multa isoladas pela falta de pagamento e não devem ser encaminhadas para inscrição em Dívida Ativa da União. Na hipótese de falta de pagamento ou de compensação considerada não declarada, os valores dessas estimativas devem ser glosados quando da apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado em DIPJ, devendo ser exigida eventual diferença do IRPJ ou da CSLL a pagar mediante lançamento de ofício, cabendo a aplicação de multa isolada pela falta de pagamento da estimativa. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Dcomp, e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na DIPJ. O entendimento exarado pela Receita Federal do Brasil vai ao encontro do que restou consignado pela Procuradoria da Fazenda Nacional, no Parecer PGFN/CAT nº 88/2014, o qual admite a cobrança dos valores decorrentes de compensações não homologadas. Eis as conclusões do referido parecer: a) Entende-se pela possibilidade de cobrança dos valores decorrentes de compensação não homologada, cuja origem foi para extinção de débitos relativos a estimativa, desde que já tenha se realizado o fato que enseja a incidência do imposto de renda e a estimativa extinta na compensação tenha sido computada no ajuste; Fl. 314DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1302-003.841 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10283.901337/2008-26 b) Propõe-se que sejam ajustados os sistemas e procedimentos para que fique claro que a cobrança não se trata de estimativa, mas de tributo, cujo fato gerador ocorreu ao tempo adequado e em relação ao qual foram contabilizados valores da compensação não homologada, a fim de garantir maior segurança no processo de cobrança. Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já proferiu diversos julgados na linha aqui exposta. Neste sentido, veja-se as seguintes ementas: Número do Processo 10880.902887/2011-29 Nº Acórdão 1201-001.548 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2003 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. APROVEITAMENTO DE SALDO NEGATIVO COMPOSTO POR COMPENSAÇÕES ANTERIORES. POSSIBILIDADE.A compensação regularmente declarada, tem o efeito de extinguir o crédito tributário, equivalendo ao pagamento para todos os fins, inclusive, para fins de composição de saldo negativo. Na hipótese de não homologação da compensação que compõe o saldo negativo, a Fazenda poderá exigir o débito compensado pelas vias ordinárias, através de Execução Fiscal. A glosa do saldo negativo utilizado pela ora Recorrente acarreta cobrança em duplicidade do mesmo débito, tendo em vista que, de um lado terá prosseguimento a cobrança do débito decorrente da estimativa de IRPJ não homologada, e, de outro, haverá a redução do saldo negativo gerando outro débito com a mesma origem.IRRF. GLOSA EM DESPACHO DECISORIO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA.Não caracteriza cerceamento do direito de defesa a hipótese em que todas as informações necessárias para o seu exercício foram asseguradas e disponibilizadas ao contribuinte.SALDO NEGATIVO. EFETIVO PAGAMENTO. ERRO DE PREENCHIMENTO DA DCOMP. COMPENSAÇÃO.Comprovado que o contribuinte efetivamente recolheu estimativa mensal de IRPJ, e que esta somente foi utilizada como dedução na apuração anual do IRPJ sobre o lucro real sob julgamento, resta assegurado ao contribuinte o direito à utilização do respectivo saldo negativo, ultrapassando-se o mero equívoco no preenchimento da DCOMP. Número do Processo 13884.721654/2014-28 Nº Acórdão 1201-001.649 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2009 (...) .COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. APROVEITAMENTO DE SALDO NEGATIVO COMPOSTO POR COMPENSAÇÕES ANTERIORES. POSSIBILIDADE.A compensação regularmente declarada, tem o efeito de extinguir o crédito tributário, equivalendo ao pagamento para todos os fins, inclusive, para fins de composição de saldo negativo.Na hipótese de não homologação da compensação que compõe o saldo negativo, a Fazenda poderá exigir o débito compensado pelas vias ordinárias, através de Execução Fiscal.A glosa do saldo negativo utilizado pela Contribuinte acarreta cobrança em duplicidade do mesmo débito, tendo em vista que, de um lado terá prosseguimento a cobrança do débito decorrente da estimativa de IRPJ não homologada, e, de outro, haverá a redução do saldo negativo gerando outro débito com a mesma origem. Portanto, deve-se reconhecer, na composição do saldo negativo, as estimativas, quitadas via compensação, no valor R$93.192,80 (setembro/2003) e R$95.182,64(novembro/2003), no total de R$188.375,44. Fl. 315DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1302-003.841 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 10283.901337/2008-26 Por todo exposto, no mérito, vota-se por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para reconhecer, na composição do saldo negativo, as estimativas quitadas via compensação no valor total de R$188.375,44, valor este que deverá ser somado ao valor de R$196.775,23 já reconhecido pela DRJ de Belém (PA). Ato contínuo, homologa-se a compensação no limite do direito creditório reconhecido no presente processo administrativo, qual seja R$385.150,67. (documento assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Fl. 316DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.912168/2009-01
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Aug 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Data do fato gerador: 31/07/2008
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. EXIGÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. INEXISTÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO.
A demonstração da divergência jurisprudencial pressupõe estar-se diante de situações fáticas semelhantes às quais, pela interpretação da legislação, sejam atribuídas soluções jurídicas diversas. Verificando-se ausente a necessária similitude fática, tendo em vista que no acórdão paradigma não houve o enfrentamento da mesma matéria presente no acórdão recorrido, não se pode estabelecer a decisão tida por paradigmática como parâmetro para reforma daquela recorrida.
Numero da decisão: 9303-008.814
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencido o conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceu do recurso.
(documento assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício.
(documento assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal Relator.
Participaram da Sessão de Julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ANDRADA MARCIO CANUTO NATAL
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AGROINDUSTRIAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 31/07/2008 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. EXIGÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. INEXISTÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO. A demonstração da divergência jurisprudencial pressupõe estar-se diante de situações fáticas semelhantes às quais, pela interpretação da legislação, sejam atribuídas soluções jurídicas diversas. Verificando-se ausente a necessária similitude fática, tendo em vista que no acórdão paradigma não houve o enfrentamento da mesma matéria presente no acórdão recorrido, não se pode estabelecer a decisão tida por paradigmática como parâmetro para reforma daquela recorrida. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencido o conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceu do recurso. (documento assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício. (documento assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal – Relator. Participaram da Sessão de Julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 91 21 68 /2 00 9- 01 Fl. 368DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 9303-008.814 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10120.912168/2009-01 Relatório Trata-se de recurso especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional, em face do acórdão nº 3302-01626, de 24/05/2012, o qual possui a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 31/07/2008 COFINS. COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DCTF RETIFICADORA. EFEITOS. A DCTF retificadora, nas hipóteses em que é admitida pela legislação, substitui a original em relação aos débitos e vinculações declarados, sendo consequência de sua apresentação, após a não homologação de compensação por ausência de saldo de créditos na DCTF original, a desconstituição da causa original da não homologação, cabendo à autoridade fiscal apurar, por meio de despacho devidamente fundamentado, a liquidez e certeza do crédito do sujeito passivo. Recurso Voluntário Provido em Parte A divergência apontada pela Fazenda Nacional refere-se à possibilidade de o contribuinte trazer elementos novos, como retificação de declarações, após a emissão do despacho decisório que indeferiu o pedido de compensação. Os seguintes trechos do recurso especial fazendário retratam bem o objeto da divergência: (...) Entretanto, em que pese tenham enfrentado situações semelhantes, os acórdãos cotejados chegam a conclusões inteiramente distintas. Isso porque, enquanto o acórdão recorrido entendeu pela análise das compensações pela autoridade fiscal o acórdão paradigma entendeu que a alegação de existência de direito creditório deve ser comprovada de plano desde a entrega da declaração de compensação, não podendo haver posterior modificação da decisão baseado apenas em informações trazidas na manifestação de inconformidade. (...) Não se pode admitir que um suposto crédito, não informado à Administração tributária até a ciência do despacho decisório que negou a homologação das compensações seja admitido em momento tão tardio do processo. (...) O presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF deu seguimento ao recurso especial. Em contrarrazões, o contribuinte pede o não conhecimento do recurso especial e, caso conhecido, o seu improvimento. É o relatório. Fl. 369DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 9303-008.814 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10120.912168/2009-01 Voto Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal - Relator O recurso especial fazendário é tempestivo, restando verificar os demais requisitos atinentes ao seu conhecimento. O contribuinte defende o não conhecimento do recurso especial fundado em duas razões: 1) não haveria interpretação divergente da legislação tributária entre o acórdão recorrido e o paradigma, uma vez a divergência fática relevante tida entre ambos; e 2) falta de demonstração analítica da divergência. Penso estar com razão o contribuinte, quanto à primeira argumentação. Embora o acórdão paradigma tenha firmado tese supostamente contrariada pelo acórdão recorrido, as divergência fáticas existente nos dois processos são de fato relevantes ao ponto de não ser possível o conhecimento do recurso especial fazendário. Observe que o acórdão paradigma sustentou não ser mais possível ao contribuinte apresentar novos elementos de prova, inclusive retificações de declarações, após a emissão do despacho decisório da autoridade administrativa que não homologou as compesações. De fato, o acórdão recorrido acatou novos elementos, inclusive a DCTF retificadora, apresentados após a emissão do despacho decisório. Porém da leitura dos dois acórdãos, verifica-se que os pressupostos fáticos são absolutamente divergentes. A divergência fática relevante é que, no acórdão paradigma, o despacho decisório foi manual, ou seja, houve uma análise fiscal individualizada do direito creditório, tendo a autoridade fiscal exposto em detalhes as razões do indeferimento de sua declaração de compensação. Tratava-se de apuração de saldo negativo do IRPJ, envolvendo inclusive sucessão de empresas. Por sua vez, no acórdão recorrido, o despacho decisório foi emitido eletronicamente. Trata-se daqueles casos bem conhecidos de que o contribuinte apresenta sua declaração de compensação sem antes ter retificado sua DCTF que confessava integralmente o débito constante do DARF com suposto pagamento a maior. Portanto, tendo sido o DARF utilizado integralmente para a quitação do débito confessado, o sistema de cruzamento eletrônico indefere de plano a declaração de compensação. Portanto compreende-se o rigor, certo ou errado, adotado no acórdão paradigma, pois supõe-se que o contribuinte teria tido oportunidades anteriores para comprovar o seu direito creditório. Ao contrário, no recorrido, somente quando da emissão do despacho decisório eletrônico, é que o contribuinte tem a primeira oportunidade de se manifestar e, com certeza, jurisprudência pacífica do CARF, entende que ele pode trazer os elementos comprobotários que possui, inclusive mediante retificação da DCTF. Acrescente-se também que, no acórdão paradigma, havia a informação de que os créditos reclamados já tinham sido objetos de outro processo administrativo. Em seu voto o relator afirma que os documentos apresentados não permitem entender de que forma se chegou ao montante do crédito. De fato, uma simples leitura do acórdão paradigma nos leva à conclusão de que não tem elementos de interligação com o presente processo que possam sugerir que aquele colegiado teria tomado decisão diferente em relação ao acórdão recorrido. Fl. 370DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 9303-008.814 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10120.912168/2009-01 Diante do exposto, voto por não conhecer do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. (documento assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 371DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.006615/2003-68
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jul 18 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Aug 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003
MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO. RETROATIVIDADE BENIGNA. EXCLUSÃO.
Aplica-se retroativamente aos atos e fatos pretéritos não definitivamente julgados as normas legais que beneficiam o sujeito passivo, excluindo-se a multa no lançamento de oficio do crédito tributário constituído em face da não-confirmação dos pagamentos informados em DCTFs.
Com a edição da MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, não cabe mais a imposição de multa, desde que não se trate das hipóteses descritas em seu art.
18. Tal dispositivo art. 18 da Lei 10.833/03 seria aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP 135/03 em face da retroatividade benigna (art. 106, II, "c" do CTN).
No caso vertente, o instituto da compensação não foi utilizado de forma fraudulenta
Numero da decisão: 9303-009.243
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(documento assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(documento assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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ementa_s : ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003 MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO. RETROATIVIDADE BENIGNA. EXCLUSÃO. Aplica-se retroativamente aos atos e fatos pretéritos não definitivamente julgados as normas legais que beneficiam o sujeito passivo, excluindo-se a multa no lançamento de oficio do crédito tributário constituído em face da não-confirmação dos pagamentos informados em DCTFs. Com a edição da MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, não cabe mais a imposição de multa, desde que não se trate das hipóteses descritas em seu art. 18. Tal dispositivo art. 18 da Lei 10.833/03 seria aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP 135/03 em face da retroatividade benigna (art. 106, II, "c" do CTN). No caso vertente, o instituto da compensação não foi utilizado de forma fraudulenta
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (documento assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
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LANÇAMENTO. RETROATIVIDADE BENIGNA. EXCLUSÃO. Aplica-se retroativamente aos atos e fatos pretéritos não definitivamente julgados as normas legais que beneficiam o sujeito passivo, excluindo-se a multa no lançamento de oficio do crédito tributário constituído em face da não- confirmação dos pagamentos informados em DCTFs. Com a edição da MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, não cabe mais a imposição de multa, desde que não se trate das hipóteses descritas em seu art. 18. Tal dispositivo art. 18 da Lei 10.833/03 seria aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP 135/03 em face da retroatividade benigna (art. 106, II, "c" do CTN). No caso vertente, o instituto da compensação não foi utilizado de forma fraudulenta Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (documento assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 00 66 15 /2 00 3- 68 Fl. 174DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 Relatório Trata-se de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional contra o acórdão nº 3802-00.271, da 2ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento, que, por unanimidade de votos, conheceu parcialmente do recurso para dar-lhe provimento apenas para excluir a multa de ofício de 75%, consignando a seguinte ementa (Grifos meus): “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003 PRELIMINAR. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NEGATIVA DE PROVA PERICIAL. AUSÊNCIA DE REQUISITOS LEGAIS. PRESCINDIBILIDADE. Considera-se não formulado o pedido de perícia que não atenda aos requisitos legais. Ademais, o indeferimento de prova pericial prescindível guarda consonância com o ordenamento jurídico, inexistindo assim cerceamento do direito de defesa. TESES E PEDIDOS. PROCESSO DIVERSO. NÃO CONHECIMENTO. Não se toma conhecimento de teses suscitadas e pedidos formulados relativos a outro processo administrativo em curso. COMPENSAÇÃO INDEVIDA. TRIBUTO NÃO CONFESSADO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Verificada a compensação indevida de tributo ou contribuição não lançado de ofício nem confessado, deve ser promovido, consoante legislação vigente à época, o lançamento de ofício do crédito tributário, não se aplicando, no presente caso, a suspensão da exigibilidade introduzida posteriormente pela Lei nº 10.833/03 que deu nova redação ao artigo 74 da Lei nº 9.430/96. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. Afasta-se a multa de oficio, aplicada no patamar de 75%, por força do princípio da retroatividade benigna. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO” Fl. 175DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 Insatisfeita, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, trazendo, entre outros, que o novo regime instaurado pela Lei 10.833/2003, que atribuiu à DCOMP os efeitos de confissão de dívida, somente passou a viger a partir de 30/10/2003. E que, dessa maneira, só a partir de 30/10/2003, quando não homologada a DCOMP apresentada após essa data, é que se tornou possível a cobrança imediata do principal, ao mesmo tempo em que se previu o lançamento da multa isolada de que trata o art. 18 da Lei IV 10.833/2003, acaso configurados os seus pressupostos. Requer que seja dado provimento ao seu recurso para não reconhecer a retroatividade benigna, fazendo-se incidir a multa de ofício. Em Despacho às fls. 163 a 166, foi dado seguimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama – Relatora. Depreendendo-se da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, entendo que devo conhecê-lo, eis que atendidos os requisitos dispostos no art. 67 do RICARF/2015 – Portaria MF 343/2015 com alterações posteriores. Quanto à lide trazida em recurso, manifesto minha concordância com o decidido no acórdão recorrido, eis que essa turma já apreciou essa matéria – o que, peço licença para citar o acórdão 9303-004.916, que consignou a seguinte ementa: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS MULTA DE OFICIO. LANÇAMENTO. DÉBITOS DECLARADOS EM DCTF. RETROATIVIDADE BENIGNA. EXCLUSÃO. Aplica-se retroativamente aos atos e fatos pretéritos não definitivamente julgados as normas legais que beneficiam o sujeito passivo, excluindo-se a Fl. 176DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 multa no lançamento de oficio do crédito tributário constituído em face da não-confirmação dos pagamentos informados em DCTFs. Com a edição da MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, não cabe mais a imposição de multa, desde que não se trate das hipóteses descritas em seu art. 18. Tal dispositivo art. 18 da Lei 10.833/03 seria aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP 135/03 em face da retroatividade benigna (art. 106, II, "c" do CTN). No caso vertente, o instituto da compensação não foi utilizado de forma fraudulenta.” Em síntese, à época, trouxe em meu voto: “Em respeito ao art. 18 da MP n° 135/03, que foi convertida na Lei 10.833/03, houve previsão, a priori, que o lançamento de ofício decorrente de diferenças apuradas em declaração prestada pelo sujeito passivo, decorrentes de compensação, seria cabível na hipótese em que as diferenças apuradas forem decorrentes de compensação indevida quando o crédito ou o débito não for passível de compensação por expressa disposição legal; o crédito for de natureza não-tributária e às demais hipóteses em que ficar caracterizada a prática de sonegação, fraude ou conluio – infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei 4.502/64. Tal como explicitou a exposição de motivos dessa MP: “15. O art. 18 limita a aplicação do lançamento de ofício, de que trata o art. 90 da Medida Provisória n o 2.158-35, de 24 de agosto de 2001, à cobrança de multa isolada sobre o débito indevidamente compensado nas hipóteses em que as diferenças apuradas forem decorrentes de compensação indevida quando o crédito ou o débito não for passível de compensação por expressa disposição legal; o crédito for de natureza não-tributária e às demais hipóteses em que ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n o 4.502, de 30 de novembro de 1964.” Sendo assim, com o advento da MP 135/03, a não homologação da compensação decorrente de crédito ou débito não passível de compensação por expressa disposição legal, ou com crédito de natureza não tributária Fl. 177DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 (compensação não declarada), estava sujeita à multa prevista no art. 18 da MP, independentemente de ser ou não decorrente de prática de fraude ou conluio do sujeito passivo. Posteriormente, com o advento da Lei 11.488/07, que alterou o art. 18 da Lei 10.833/03 de conversão da MP 135/03, vê-se que tal dispositivo sofreu alteração em sua redação – passando a estabelecer: “Art. 18. O lançamento de ofício de que trata o art. 90 da Medida Provisória no 2.158-35, de 24 de agosto de 2001, limitar-se-á à imposição de multa isolada em razão de não-homologação da compensação quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo.” Foi suprimida, conforme exposto, da redação original as hipóteses em que as diferenças apuradas forem decorrentes de compensação indevida quando o crédito ou o débito não for passível de compensação por expressa disposição legal e o crédito for de natureza não-tributária – para a imputação da multa no lançamento de ofício. Dessa forma, a hipótese de lançamento de ofício e de aplicação da respectiva multa para autuações decorrentes de compensações indevidas, passou a ter aplicação ainda mais restrita, qual seja, apenas para os casos em que se comprovasse a falsidade da declaração do sujeito passivo, além das hipóteses de compensações "não declaradas". A restrição das hipóteses para a aplicação da multa nos lançamentos de ofício não as conduziu automaticamente à aplicação da multa tratada no art. 44 da Lei 9.430/96 – eis que esse dispositivo traz a regra geral – que não seria aplicável aos casos de compensação – como nunca foi. Com o advento da Lei 11.488/07, que alterou o art. 18 da Lei 10.833/03, houve apenas a restrição da aplicação da multa no lançamento de ofício para aqueles casos de não homologação de compensação sem comprovação de falsidade da declaração. Continuando, importante lembrar que a MP 135/03 convertida na Lei 10.833/03, que trouxe novo regramento legal para as compensações, também, dispôs sobre a operacionalização a ser observada mediante entrega da "DComp", estabelecendo, inclusive em seu art. 17 – que, por sua vez, alterou o Fl. 178DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 art. 74 da Lei 9.430/96 que tal declaração constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. Dessa forma, vê-se que com a constituição da DCOMP em confissão de dívida, perdeu-se o sentido a aplicação da multa por descumprimento da obrigação tributária – por exemplo, entrega da DCTF com inexatidão quando identificada irregularidade na compensação sem comprovação de falsidade nas informações. O que afastaria a aplicação da multa prevista no art. 44, inciso II, da Lei 9.430/96. Com efeito, é de se clarificar que o art. 44, inciso II, da Lei 9.430/96 trata da multa isolada – como regra geral, não alcançando as hipóteses de compensação referendadas no caput do art. 18 da Lei 10.833/03 que faz referência aos lançamentos de ofício de que trata o art. 90 da MP 2.158-35/01. Ora, o art. 90 da MP trata especificamente do lançamento de ofício das "diferenças apuradas, em declaração prestada pelo sujeito passivo, decorrentes de pagamento, parcelamento, compensação ou suspensão de exigibilidade, indevidos ou não comprovados, relativamente aos tributos e às contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal". Em respeito ao princípio da especialidade – lex specialis derogat legi generali - é de se aplicar o art. 18 da Lei 10.833/03. Eis que prevê processo administrativo próprio. Dessa forma, entendo ser plenamente aplicável o instituto da retroatividade benigna – tal como estabelece o art. 106 do Código Tributário Nacional: "Art. 106 . A lei aplica - se a ato o u fato pretérito: 1 - em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II - tratando - se de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de defini-lo como infração; b) quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; Fl. 179DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática ". Com a aplicação do instituto da retroatividade benigna, no caso vertente, há de ser afastada a aplicação da multa de ofício, para se adotar a multa de mora – considerando a redação do art. 18 da Lei 10.833/03 com a redação dada pela Lei 11.488/07. Assevera ainda a própria DRJ a aplicação desse entendimento. O que, para melhor elucidar, trago algumas ementas de outros acórdãos das delegacias de julgamento nesse sentido: “MINISTÉRIO DA FAZENDA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL 9 º TURMA ACÓRDÃO Nº 16-53421 de 05 de Dezembro de 2013 ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep EMENTA: MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA DO ART. 18 DA LEI Nº 10.833, DE 2003. Com a edição da Medida Provisória n.º 135, de 2003, convertida na Lei n.º 10.833, de 2003, não cabe mais imposição de multa, excetuando-se os casos mencionados em seu art. 18. Sendo tal norma aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da Medida Provisória n.º 135, de 2003, em face da retroatividade benigna (ex vi alínea “c”, inciso II do art. 106 do Código Tributário Nacional), impõe-se o cancelamento da multa de ofício lançada. Período de apuração: : 01/09/1997 a 30/09/1997” MINISTÉRIO DA FAZENDA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO EM SÃO PAULO 6 º TURMA ACÓRDÃO Nº 16-15182 de 23 de Outubro de 2007 Fl. 180DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 ASSUNTO: Normas Gerais de Direito Tributário EMENTA: MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em razão da aplicação retroativa (retroatividade benigna) do art. 18 da Lei 10.833/03, com a redação dada pelo art. 25 da Lei 11.051/04, deve ser excluída a multa de ofício imposta. Período de apuração: : 01/02/2002 a 31/05/2002, 01/08/2002 a 30/04/2003 “MINISTÉRIO DA FAZENDA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL 9 º TURMA ACÓRDÃO Nº 16-44304 de 28 de Fevereiro de 2013 ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep EMENTA: MULTA DE OFÍCIO - RETROATIVIDADE BENIGNA DO ART. 18 DA LEI Nº 10.833/2003. Com a edição da MP nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833/2003, não cabe mais imposição de multa excetuando-se os casos mencionados em seu art. 18. Sendo tal norma aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP nº 135/2003 em face da retroatividade benigna (art. 106, II, “c” do CTN), impõe-se o cancelamento da multa de ofício lançada. Período de apuração: : 01/12/1998 a 31/12/1998” MINISTÉRIO DA FAZENDA SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO EM FORTALEZA 4 º TURMA ACÓRDÃO Nº 08-23210 de 10 de Abril de 2012 ASSUNTO: Normas de Administração Tributária EMENTA: MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Tendo em conta a nova redação dada pelo art. 25 da Lei 11.051, de 2004, ao art. 18 da Lei 10.833, de 2003, em combinação com o art. 106, inciso II, alínea “c”, do Fl. 181DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 CTN, cancela-se a multa de ofício aplicada. Ano-calendário: : 01/01/1997 a 31/12/1997” Proveitoso também trazer no mesmo sentido parte da ementa da Solução de Consulta Cosit Interna nº 3, de 08 de janeiro de 2004: “Nos julgamentos dos processos pendentes, cujo crédito tributário tenha sido constituído com base no art. 90 da MP nº 2.158-35, as multas de ofício exigidas juntamente com as diferenças lançadas devem ser exoneradas pela aplicação retroativa do caput do art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003, desde que essas penalidades não tenham sido fundamentadas nas hipóteses versadas no “caput” desse artigo”. Após breves considerações, importante trazer que, depreendendo-se da análise dos autos, não vejo indícios para se coadunar com a caracterização de conduta fraudulenta pelo sujeito passivo, eis que se trata de lançamento de débitos reconhecidos pela interessadas e declarados em DCTF, efetuado nos termos da MP n° 2.158-35, de 2001, art. 90. Vê-se que a própria DRJ ao analisar os autos também obteve a mesma conclusão: “7.3. Dessa maneira, não cabe mais imposição de multa de oficio fora dos casos mencionados, sendo tal norma aplicável aos lançamentos ocorridos anteriormente à edição da MP no 135/2003 em face do princípio da retroatividade benigna, consagrado no art. 106, inc. II, "c", do CTN, havendo que se exonerar a multa de oficio aplicada, mesmo que tivesse mantido o crédito tributário. ” O que, por conseguinte, em vista de todo o exposto, resta afastar a aplicação da multa de ofício, conforme art. 18 da Lei 10.833/03 e, considerando, não se tratar de conduta dolosa à fraude praticada pelo sujeito passivo” Sendo assim, manifesto minha concordância com o colegiado a quo que deu provimento ao recurso voluntário, para determinar a exclusão da multa de oficio, por entender que, com a edição do art. 18 da Lei 10.833/2003, a imposição da penalidade ficou limitada eventual apuração de diferenças decorrentes de compensação indevida de débitos de tributos e contribuições federais, quando caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n°4.502/64 (fraude, conluio e sonegação). Fl. 182DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 9303-009.243 - CSRF/3ª Turma Processo nº 10980.006615/2003-68 Em vista de todo o exposto, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. É o meu voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 183DF CARF MF
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Numero do processo: 11020.902536/2014-53
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Aug 21 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 28/02/2011
NULIDADE. CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Não há nulidade por carência de fundamentação ou cerceamento de defesa quando, ainda que sucintamente, as decisões atacadas apresentem fundamentos de fato e de direito, tornando possível o exercício ao contraditório.
NULIDADE. DESVIO DE FINALIDADE. INEXISTÊNCIA
Não há nulidade por desvio de finalidade quando as decisões atacadas cumprem a função teleológica das normas que lhe dão suporte.
NULIDADE. DEVER DE INSTRUÇÃO. MATÉRIA DE MÉRITO.
O Dever de Instrução é matéria umbilicalmente ligada ao ônus probatório, de mérito, portanto.
PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO. ANÁLISE. DESNECESSIDADE.
Embora pleiteie juntada posterior de provas desde o protocolo da Manifestação de Inconformidade a Recorrente não colige qualquer prova acerca do thema decidendum.
COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO. CONTRIBUINTE.
É do Contribuinte a prova da liquidez e certeza de seus créditos em pedido de compensação, não sendo suficiente para tal mister a juntada de declarações retificadas.
DÉBITOS TRIBUTÁRIOS. JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF 4.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018).
NÃO CONFISCO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. NÃO CONHECIMENTO.
A violação ao PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO é matéria constitucional a qual este Conselho não tem competência pronunciar-se, por força da Súmula 2 do CARF.
Numero da decisão: 3401-006.535
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Fernanda Vieira Kotzias, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 28/02/2011 NULIDADE. CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não há nulidade por carência de fundamentação ou cerceamento de defesa quando, ainda que sucintamente, as decisões atacadas apresentem fundamentos de fato e de direito, tornando possível o exercício ao contraditório. NULIDADE. DESVIO DE FINALIDADE. INEXISTÊNCIA Não há nulidade por desvio de finalidade quando as decisões atacadas cumprem a função teleológica das normas que lhe dão suporte. NULIDADE. DEVER DE INSTRUÇÃO. MATÉRIA DE MÉRITO. O Dever de Instrução é matéria umbilicalmente ligada ao ônus probatório, de mérito, portanto. PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO. ANÁLISE. DESNECESSIDADE. Embora pleiteie juntada posterior de provas desde o protocolo da Manifestação de Inconformidade a Recorrente não colige qualquer prova acerca do thema decidendum. COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO. CONTRIBUINTE. É do Contribuinte a prova da liquidez e certeza de seus créditos em pedido de compensação, não sendo suficiente para tal mister a juntada de declarações retificadas. DÉBITOS TRIBUTÁRIOS. JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF 4. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). NÃO CONFISCO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. NÃO CONHECIMENTO. A violação ao PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO é matéria constitucional a qual este Conselho não tem competência pronunciar-se, por força da Súmula 2 do CARF.
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CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não há nulidade por carência de fundamentação ou cerceamento de defesa quando, ainda que sucintamente, as decisões atacadas apresentem fundamentos de fato e de direito, tornando possível o exercício ao contraditório. NULIDADE. DESVIO DE FINALIDADE. INEXISTÊNCIA Não há nulidade por desvio de finalidade quando as decisões atacadas cumprem a função teleológica das normas que lhe dão suporte. NULIDADE. DEVER DE INSTRUÇÃO. MATÉRIA DE MÉRITO. O Dever de Instrução é matéria umbilicalmente ligada ao ônus probatório, de mérito, portanto. PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO. ANÁLISE. DESNECESSIDADE. Embora pleiteie juntada posterior de provas desde o protocolo da Manifestação de Inconformidade a Recorrente não colige qualquer prova acerca do thema decidendum. COMPENSAÇÃO. ÔNUS PROBATÓRIO. CONTRIBUINTE. É do Contribuinte a prova da liquidez e certeza de seus créditos em pedido de compensação, não sendo suficiente para tal mister a juntada de declarações retificadas. DÉBITOS TRIBUTÁRIOS. JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF 4. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 90 25 36 /2 01 4- 53 Fl. 185DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 3 2 “A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018)”. NÃO CONFISCO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. NÃO CONHECIMENTO. A violação ao PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO é matéria constitucional a qual este Conselho não tem competência pronunciarse, por força da Súmula 2 do CARF. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Fernanda Vieira Kotzias, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da Delegacia de Julgamento que julgou improcedente a manifestação de inconformidade. Intimada da decisão acima a Recorrente interpôs o presente recurso reiterando as seguintes teses descritas em sede de Inconformidade: 1. Nulidade do despacho decisório: a) por falta de fundamentação; b) desvio de finalidade, vez que, “extrapolou sua função precípua, tornandose meio oblíquo pelo qual a Fiscalização buscou interromper o prazo de homologação da compensação declarada pela Contribuinte”; c) por ofensa ao dever de instrução; d) por prejuízo ao contraditório e a ampla defesa vez que não teve acesso aos motivos determinantes da decisão que não homologou a compensação; Fl. 186DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 4 3 2. Possibilidade de juntada de novas provas ao processo administrativo a qualquer tempo; 3. Caráter confiscatório da multa aplicada; 4. Que a autoridade tributária não pode aplicar multa que tenha a mesma base de tributos, nem por fundamento o mesmo fato gerador; 5. “A fixação da multa, não obstante a sua previsibilidade legal, fere de morte o princípio da razoabilidade e da proporcionalidade”; 6. “O CTN e a legislação civil estabeleceram como limite máximo para a instituição de juros a taxa de 1% ao mês, ou seja, 12% ao ano”. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 3401006.509, de 17 de junho de 2019, proferido no julgamento do Processo nº 11020.900029/201566. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3401006.509): "2.1.1. O devido processo legal e dois de seus corolários imediatos, o CONTRADITÓRIO E A AMPLA DEFESA, foram elevados a categoria de garantia Constitucional quer no processo judicial, quer no processo administrativo, a partir da formação da lide – para alguma doutrina litígio , conforme disciplina o artigo 5° inciso LV da Lex Maxima. 2.1.1.1. Doutrina e a Jurisprudência1 – seguindo em parte a Supreme Court – apontam como direitos imanentes ao devido processo legal e, naquilo que importa, ao contraditório e a ampla defesa, a oportunidade de deduzir defesa perante o julgador, a oportunidade de apresentar provas ao órgão julgador e o direito de contrariar as provas e argumentos utilizados contra o litigante. 2.1.1.2. A Lei n° 9.784 de 1999, seguindo a pari passu o entendimento da Suprema Corte Americana, estabeleceu em seu artigo 2° Parágrafo Único inciso X como dever da Administração Pública observar no procedimento administrativo o contraditório e a ampla defesa e, nomeadamente, a garantia aos administrados aos direitos “à comunicação, à apresentação de alegações finais, à produção de provas e à interposição de recursos, nos processos de que possam resultar sanções e nas situações de litígio” eivando de nulidade o procedimento Fl. 187DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 5 4 administrativo (na esteira do que giza o artigo 59 inciso II do Decreto 70.235 de 1972) que viole o direito de defesa. 2.1.1.3. No presente caso, a Recorrente se levanta contra suposta preterição do direito de contraditar os fundamentos da decisão administrativa (sem sombra de dúvida, em tese, preterição à ampla defesa). Todavia, as decisões nas situações de litígio no presente processo encontramse fundamentadas. 2.1.1.4. Inobstante a capacidade de síntese da autoridade responsável pela decisão da DRF é fato que nela estão dispostas tanto os fundamentos de fato (valor do DARF integralmente utilizado para quitação de outro débito) quanto os de direito (artigos 165 e 170 do CTN e artigo 74 da Lei 9.430/96). 2.1.1.5. De maneira mais densa (em comparação com o quanto decidido pela DRF), a decisão da DRJ deixou absolutamente claros os fundamentos pelos quais nega provimento à Manifestação de Inconformidade da Recorrente – todos descritos no item 1.4 desta decisão. 2.1.1.6. Desta forma, era possível à Recorrente apresentar (sem qualquer exercício de probabilidade por parte dela) argumentos e documentos que demonstrassem a inexatidão do quanto decidido pelas Instâncias Inferiores inexistindo qualquer nulidade neste ponto. Nos acompanha a Jurisprudência: NULIDADE DA DECISÃO DA DRJ. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA A manifestação da DRJ acerca dos elementos probatórios juntados aos autos que permita a clara compreensão das razões de decidir, mesmo que singela, afasta a hipótese de cerceamento de defesa e a possibilidade de declaração de nulidade da decisão a quo. (Acórdão nº 1401 003.149 – Relator: Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves) CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste cerceamento de defesa quando os relatórios integrantes do Auto de Infração oferecem as condições necessárias para que o contribuinte conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa contra o lançamento fiscal efetuado. (Acórdão nº 2202004.663 – Relatora: Conselheira Rosy Adriane da Silva Dias) 2.1.2. Ainda que possível o decreto de NULIDADE POR CARÊNCIA DE FUNDAMENTO, esta nulidade ocorre apenas nos casos em que inexiste na decisão atacada fundamentos de fato corresponde ao conjunto de circunstâncias, de acontecimentos, de situações que levam a Administração a praticar o ato ou fundamentos de direito dispositivo legal em que se baseia o ato2. Se assim ocorrer (ausência de um ou de outro fundamento) a decisão tornase nula vez que impede o conhecimento da imputação e, consequentemente, a capacidade Fl. 188DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 6 5 de refutála, i.e, o exercício do contraditório e a da ampla defesa. 2.1.2.1. A Recorrente alega nulidade vez que as decisões anteriores se limitaram a transferir a ela (Recorrente) o ônus probatório de seu direito creditório. 2.1.2.2. Todavia, como acima descrito, fundamento há; e suficiente para o pleno exercício do contraditório. O grau de correção dos fundamentos da decisão (e, em especial, seu confronto com as teses de defesa) é matéria de mérito – e na parte dedicada ao mérito será enfrentada. 2.1.2.3. Ademais, ao contrário do que alega a Recorrente, as decisões não se limitaram a negar o crédito por insuficiência probatória (vide itens 2.1.1.4); matéria, insistase, de mérito. Sendo de rigor o afastamento da nulidade como, em caso semelhante, se pronunciou a Câmara Superior de Recursos Fiscais: DESPACHO DECISÓRIO. DESCRIÇÃO COMPLETA DOS FATOS E FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. AUSÊNCIA DE NULIDADE E DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Não há nulidade do despacho decisório proferido em pedido de compensação quando descreve detalhadamente os fatos e a motivação da glosa do crédito tributário pleiteado, além de indicar a fundamentação legal para o indeferimento do pleito. Satisfazendo os requisitos da legislação que rege os atos administrativos e ausente o prejuízo de defesa às partes, razão pela qual cumpriu o ato com a sua finalidade, não há de se falar em nulidade. (Acórdão nº 9303007.657 – Relator: Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas) 2.1.3. O desvio de FINALIDADE a atrair a nulidade do processo ocorre quando há discrepância entre a função teleológica normativa da decisão e a finalidade de fato do mesmo ato, i.e., entre o resultado previsto legalmente como correspondente à tipologia do ato e a intenção no exercício da decisão3. 2.1.3.1. Tal nulidade acontece porque há um âmbito normativo de competência para a prolação de decisão atribuída aos Julgadores e, dentro deste âmbito de competência encontrase a finalidade da decisão. Portanto, em havendo desvio de finalidade legal da decisão, a consequência necessária é o transbordamento (quando não a usurpação) de competência da Autoridade4. 2.1.3.2. No entanto, a interrupção do prazo de homologação tácita é uma das finalidades (entendida como consequência ou função teleológica) previstas em Lei para a decisão que não homologa o pedido de compensação – ao contrário do que alega a Recorrente em seu arrazoado. 2.1.3.3. Sobremais, tal finalidade (de interromper o prazo de homologação tácita), embora legal, é secundária, pois, o escopo Fl. 189DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 7 6 principal dos julgadores ao indeferir o pedido de compensação foi a readequação dos fatos descritos e demonstrados pela Recorrente à Lei – como determina o artigo 142 do Código Tributário Nacional. 2.1.4. O DEVER DE INSTRUÇÃO – causa de nulidade, na forma manejada pela Recorrente – é matéria umbilicalmente ligada ao ônus probatório, de mérito, portanto, e também será tratada em tópico apartado. 2.2. O MOMENTO DA PRODUÇÃO DE PROVA documental pelo contribuinte, em regra, coincide com a data protocolo da Manifestação de Inconformidade. As exceções legais são aquelas descritas nas alíneas do § 4° do artigo 16 do Decreto 70.235/72: Art. 16 (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. 2.2.1. É evidente que o artigo 3° inciso III da Lei 9.784/99 (subsidiária ao Decreto 70.235/72) permite juntar documentos antes da decisão, porém, o mesmo artigo completa que os documentos serão objeto de consideração pelo órgão competente. Quer parecer que “tomar em consideração” difere de “decidir com fundamento em”. Com isto se quer dizer que, ao receber prova extemporânea cabe ao julgador tomala em consideração para análise da justificativa de sua extemporaneidade. Demonstrado que a justificativa de sua extemporaneidade coincide com uma das alíneas do § 4° do artigo 16 acima citado, cabe ao julgador decidir com fundamento na prova extemporânea. Neste sentido a Jurisprudência: PEDIDO GENÉRICO DE JUNTADA DE NOVAS PROVAS. PRECLUSÃO. Descabe, à luz da norma que regula o Processo Administrativo Fiscal no âmbito da União, o pedido genérico de apresentação, a qualquer tempo após a impugnação, de novos elementos de prova, sem que se demonstre a ocorrência de uma das possibilidades de exceção à regra geral de preclusão, qual sejam: (i) a impossibilidade de apresentação oportuna por motivo de força maior; (ii) a prova que se refira a fato ou direito superveniente; e (iii) a prova que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Acórdão nº 1401 003.149 – Relator: Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves) Fl. 190DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 8 7 2.2.2. Há, ainda, hipóteses de permissão de juntada extemporânea da prova criadas pela doutrina e jurisprudência que demandam análise da máfé do contribuinte ao trazer aos autos prova extemporânea5 e da carga probatória do documento coligido (grau de certeza com que o documento demonstra a afirmação). 2.2.3. A Recorrente pleiteia a juntada posterior de provas já em sede de Manifestação de Inconformidade, quando lhe era possível juntar quaisquer documentos ao processo – o que, de plano, torna o argumento algo fora de lugar, com a devida vênia. 2.2.3.1. Ademais, embora pleiteie juntada posterior de provas, a Recorrente traz aos autos i) com a Manifestação de Inconformidade apenas documentos de identificação e documentos relativos a cisão da empresa – que não guardam relação com o crédito pleiteado – e ii) com o Recurso Voluntário apenas documentos de identificação do patrono constituído. Em assim sendo, sequer é necessária análise profunda dos “documentos extemporâneos” vez que não guardam correspondência com o cerne da lide. 2.3. Aliás, a Recorrente não discorre em momento algum sobre o âmago da lide (nomeadamente, sobre o direito ao crédito); limitase a afirmar que o ÔNUS DA PROVA DO CRÉDITO A COMPENSAR no presente caso é da fiscalização. 2.3.1. Na escorreita lição de BONILHA6, para imputarse o ônus probatório como regra de julgamento devese perquirir sobre os fatos relacionados com a situação material a que se refere a relação processual. A situação material em voga é compensação de crédito, prevista no artigo 170 do CTN e artigo 74 da Lei 9.430/96: CTN Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Lei 9.430/96 Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. 2.3.2. Portanto cabe a Recorrente coligir provas do conjunto de fatos que servem a fundamentar sua pretensão (ex facto oritur Fl. 191DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 9 8 ius), nomeadamente, a liquidez e certeza de seus créditos, como descreve a primeira parte do artigo 28 do Decreto 7.574/2011: Art. 28. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e sem prejuízo do disposto no art. 29. 2.3.3. Em adendo, no presente caso não temos apenas um pedido de compensação, mas um pedido de compensação decorrente de suposto erro em Declaração anterior, logo, conforme artigo 147 § 1° do CTN, cabe ao contribuinte (no caso a Recorrente) prova do erro em que se baseou a retificação: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiros, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. 2.3.4. A Recorrente afirma em DCOMP ser titular de créditos de correntes de pagamento indevido por meio de DARF paga em 23 de março de 2012 no valor total de R$ 63.424,89. 2.3.5. Como prova do alegado pagamento indevido ou a maior, a Recorrente colige aos autos do processo apenas a DCTF retificadora de 20 de outubro de 2014, que indica débito de COFINS no valor de R$ 95.101,60. Ora, como dito acima, a prova do erro em que se funda a correção da Declaração cabe à Recorrente e não há sequer argumento a justificar a correção, quanto menos prova. 2.3.6. A fiscalização (indo além de seu dever) analisou as DACONs entregues pela Recorrente e verificou que foram retificados todos os demonstrativos no campo “créditos descontados referentes a aquisições no mercado interno”. Intimada a se manifestar acerca das razões que motivaram o pagamento indevido ou a maior, a Recorrente apresentou planilha com insumos tais como: material de higiene, material de expediente, custos e despesas de assistência médica e social, transporte pessoal e refeições prontas – supostamente adquiridos no mercado interno. 2.3.7. No entanto, a Recorrente não traz qualquer documento (nota fiscal, livros contábeis) a corroborar com a planilha apresentada. Efetivamente, a Recorrente sequer aventa nos autos seu ramo de atividade, tornando impossível uma análise aprofundada da essencialidade de cada um dos insumos. 2.3.8. Assim, por insuficiência probatória deve ser mantida a decisão da DRJ, negandose o direito ao crédito, como já se pronunciou esta Turma em casos semelhantes: Fl. 192DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 10 9 PER/DCOMP. CRÉDITO REGIME NÃO CUMULATIVO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Para que seja possível a homologação do PER/DCOMP é necessário haver nos autos documentos idôneos e capazes de justificar as alterações dos valores registrados em DCTF. A compensação de débitos somente pode ser efetuada mediante existência de créditos líquidos e certos da interessada juntos à Fazenda Pública art. 170 do CTN. 2.4. A Recorrente afirma que a autoridade fiscal não pode aplicar MULTA QUE TENHA A MESMA BASE DE TRIBUTOS, nem por fundamento o mesmo fato gerador. Entretanto, os tributos exigidos da Recorrente incidem sobre fato lícito (art. 3° do CTN). A seu turno, a multa no presente caso incide sobre ato ilícito, designadamente, pagamento de tributo a destempo, ex vi artigo 61 da Lei 9.430/96: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. 2.5. A Súmula 4 deste Conselho determina a incidência da SELIC SOBRE OS DÉBITOS ADMINISTRADOS PELA RECEITA FEDERAL a partir de 1° de abril de 1995. Portanto, descabido o debate, sob pena de perda de mandato (art. 45, inciso VI do RICARF). 2.6. De igual modo, a violação ao PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO é matéria constitucional a qual este Conselho está impedido de pronunciarse, por força da Súmula 2 do CARF. Dispositivo 3. Ante o exposto, nego provimento ao Recurso Voluntário e ao direito à compensação." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado decidiu por negar provimento ao Recurso Voluntário e ao direito à compensação. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 11020.902536/201453 Acórdão n.º 3401006.535 S3C4T1 Fl. 11 10 (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Tiago Guerra Machado Fl. 194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10680.724372/2010-57
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu May 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Aug 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2005
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INOCORRÊNCIA. MULTA DE MORA DEVIDA.
A declaração de compensação não equivale a pagamento, para fins de caracterização da denúncia espontânea o art. 138 do CTN, devendo ser mantida a exigência da multa de mora quando não há extinção do crédito tributário confessado por meio de pagamento anterior, ou pelo menos concomitante, à confissão da dívida.
Numero da decisão: 9303-008.642
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Vanessa Marini Cecconello (relatora), Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Vanessa Marini Cecconello - Relatora.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Redator designado.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício).
Nome do relator: VANESSA MARINI CECCONELLO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INOCORRÊNCIA. MULTA DE MORA DEVIDA. A declaração de compensação não equivale a pagamento, para fins de caracterização da denúncia espontânea o art. 138 do CTN, devendo ser mantida a exigência da multa de mora quando não há extinção do crédito tributário confessado por meio de pagamento anterior, ou pelo menos concomitante, à confissão da dívida.
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DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INOCORRÊNCIA. MULTA DE MORA DEVIDA. A declaração de compensação não equivale a pagamento, para fins de caracterização da denúncia espontânea o art. 138 do CTN, devendo ser mantida a exigência da multa de mora quando não há extinção do crédito tributário confessado por meio de pagamento anterior, ou pelo menos concomitante, à confissão da dívida. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Vanessa Marini Cecconello (relatora), Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Relatora. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Redator designado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 72 43 72 /2 01 0- 57 Fl. 298DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S/A, com fulcro no art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do Conselho de Contribuintes, aprovado pela Portaria MF n.º 256/2009, buscando a reforma do Acórdão nº 3301002.001, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento, em 21/08/2013, no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. MULTA DE MORA. Para caracterizar a denúncia espontânea o art. 138 do CTN exige a extinção do crédito tributário por meio de seu pagamento integral. Pagamento e compensação são formas distintas de extinção do crédito tributário. Não se afasta a exigência da multa de mora quando a extinção do crédito tributário confessado é efetuada por meio de declaração de compensação. Recurso Voluntário Negado Direito Creditório Não Reconhecido Não resignada com a decisão, a Contribuinte CEMIG GERAÇÃO E TRANSMISSÃO S/A interpôs recurso especial, suscitando divergência jurisprudencial com relação à possibilidade de equivalência dos conceitos de "compensação" e "pagamento", como forma de extinção do crédito tributário, para os efeitos de exclusão da multa de mora por aplicação do instituto da denúncia espontânea, do art. 138 do CTN. Para comprovar o dissenso interpretativo, colacionou como paradigma o acórdão n.º 340101.045. No despacho de exame de admissibilidade, de 22/04/15, foi dado seguimento ao recurso especial da Contribuinte, por ter entendido o Presidente da 3ª Câmara como comprovada a divergência jurisprudencial. De outro lado, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões requerendo a negativa de provimento ao recurso especial da contribuinte. O presente processo foi distribuído a essa Relatora, estando apto a ser relatado e submetido à análise desta Colenda 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF. É o Relatório. Fl. 299DF CARF MF Processo nº 10680.724372/201057 Acórdão n.º 9303008.642 CSRFT3 Fl. 1.463 3 Voto Vencido Conselheira Vanessa Marini Cecconello, Relatora. Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte atende aos requisitos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 (anteriormente Portaria MF n.º 256/2009), devendo, portanto, ter prosseguimento. Mérito Gravita a controvérsia em torno da possibilidade de equiparação dos conceitos de "pagamento" e "compensação" para efeitos de aplicação do instituto da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN. Pretende a Contribuinte ver excluída a aplicação da multa de mora sobre o crédito tributário pois, alega, houve a extinção por meio de compensação, anteriormente a qualquer procedimento fiscal. Com relação à aplicação da denúncia espontânea, nos termos do art. 138 do CTN, na extinção de créditos tributários sujeitos a lançamento por homologação, foi objeto de julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob o rito dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 16/03/2015, por meio do REsp nº 1.149.022/SP, que decidiu não se aplicar o instituto aos débitos declarados pelo contribuinte nas respectivas DCTF e liquidados depois das datas de seus vencimentos. Os fundamentos do julgado foram sintetizados na seguinte ementa, in verbis: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IRPJ E CSLL. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECLARAÇÃO PARCIAL DE DÉBITO TRIBUTÁRIO ACOMPANHADO DO PAGAMENTO INTEGRAL. POSTERIOR RETIFICAÇÃO DA DIFERENÇA A MAIOR COM A RESPECTIVA QUITAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retificaa (antes de qualquer procedimento da Administração Fl. 300DF CARF MF 4 Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, à vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 3. É que "a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tornandose exigível, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte" (REsp 850.423/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede à retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o benefício previsto no artigo 138, do CTN. 5. In casu, consoante consta da decisão que admitiu o recurso especial na origem (fls. 127/138): "No caso dos autos, a impetrante em 1996 apurou diferenças de recolhimento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro, anobase 1995 e prontamente recolheu esse montante devido, sendo que agora, pretende ver reconhecida a denúncia espontânea em razão do recolhimento do tributo em atraso, antes da ocorrência de qualquer procedimento fiscalizatório. Assim, não houve a declaração prévia e pagamento em atraso, mas uma verdadeira confissão de dívida e pagamento integral, de forma que resta configurada a denúncia espontânea, nos termos do disposto no artigo 138, do Código Tributário Nacional." 6. Consequentemente, merece reforma o acórdão regional, tendo em vista a configuração da denúncia espontânea na hipótese sub examine. 7. Outrossim, forçoso consignar que a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte. 8. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1149022/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/06/2010, DJe 24/06/2010) Nos termos do art. 62, § 2º, do Anexo II, do RICARF, aplicase ao presente caso essa decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), reconhecendo que o pagamento ou a Fl. 301DF CARF MF Processo nº 10680.724372/201057 Acórdão n.º 9303008.642 CSRFT3 Fl. 1.464 5 transmissão da Dcomp depois das datas de vencimentos dos débitos tributários compensados, e já declarados previamente em DCTF, visando suas extinções, não configura denúncia espontânea, nos termos do art. 138 do CTN. No caso dos autos, temse que os débitos objeto do PER/DCOMP foram confessados em DCTF apresentadas em outubro de 2008 e janeiro de 2009, sendo que o pedido de compensação foi transmitido em 03/10/2007. Portanto, conforme também assentado no acórdão recorrido, a extinção do crédito tributário pela apresentação da compensação foi efetuada concomitantemente com sua confissão, neste caso, confessados por meio da apresentação do próprio PER/DCOMP. Quando da realização da compensação, em 03/10/2007, portanto, os débitos confessados já se encontravam vencidos, sendo indubitável que o contribuinte os confessou naquela data. Na divergência apresentada pela Contribuinte, o que se verificará é a possibilidade de a realização da compensação equipararse ao pagamento para efeitos da aplicação da denúncia espontânea, prevista no art. 138 do CTN. No acórdão recorrido, prevaleceu o entendimento do Ilustre Relator no sentido de que "pagamento e compensação são formas distintas de extinção do crédito tributário, pois para o pagamento a extinção do crédito tributário não está vinculada a nenhuma condição e o art. 74, §2º da Lei n.º 9.430/96 estabelece que a compensação extingue o crédito tributário sob condição resolutória de sua ulterior homologação". Assim, restou afastada a aplicação do instituto da denúncia espontânea que excluiria a multa de mora da cobrança do crédito tributário em questão. Com a devida vênia, entendese que referido julgado merece reforma. A compensação também é forma de extinção da obrigação tributária, nos termos do art. 156, inciso II, do CTN, equivalente a pagamento, atraindo a aplicação do instituto da denúncia espontânea do art. 138 do CTN. Nesse sentido, pode ser citado o acórdão n.º 9101003.687, proferido pela 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que reconheceu a equivalência entre os institutos da compensação e do pagamento. Os fundamentos da decisão, de Relatoria do Ilustre ExConselheiro Luís Flávio Neto, deramse nos seguintes termos: [...] O presente caso exige que se compreenda a hipótese de incidência do art. 138 do CTN, especialmente quanto à exigência de extinção do crédito tributário por meio de “pagamento” ou de “compensação”. O art. 138 do CTN possui a seguinte redação: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Fl. 302DF CARF MF 6 Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. O núcleo da presente discussão consiste em saber se o termo “pagamento”, adotado pelo art. 138 do CTN (acima sublinhado), tem o sentido restritíssimo de “quitação em dinheiro” ou se contempla acepção mais ampla de adimplemento, abarcando, no caso, a compensação tributária. De início, é necessário observar que o legislador nem sempre utiliza o vocábulo “pagamento” no sentido de quitação em dinheiro, valendose deste em sua acepção mais ampla de adimplemento. É o que se verifica em variados exemplos colhidos tanto de leis ordinárias como de leis complementares, conforme se passa a analisar antes de adentrar ao mérito em si do art. 138 do CTN. Primeiramente, notese a redação do art. 150 do CTN: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. Notese que o CTN utilizou a dicção “antecipar o pagamento” no sentido de antecipar o adimplemento sem prévio exame da autoridade administrativa. Não há dúvidas que o contribuinte, mediante declaração e compensação regularmente levadas a termo, irá consumar o típico “lanca̧mento por homologação” tutelado pelo art. 150 do CTN. Nesse sentido, merecem destaque os seguintes julgados, proferidos pela Primeira e Segunda Turma do STJ, que consideram indiferente o adimplemento darse mediante pagamento em dinheiro ou compensação tributária para a incidência do art. 150 do CTN: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. ART. 74 DA LEI 9.430/96. MODIFICAÇÕES LEGISLATIVAS: LEI 10.637/02 E LEI 10.833/03. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. NOV/1998. INDEFERIMENTO ADMINISTRATIVO DA COMPENSAÇÃO. MAI/05. TRANSCURSO DE PRAZO SUPERIOR AO QUINQUÊNIO LEGAL. ART. 150, §4o, DO CTN. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. PAGAMENTO ANTECIPADO. 1. No caso concreto, o crédito tributário foi constituído na data do protocolo do pedido de compensação (10/11/1998), por força do §4o do art. 74 da Lei n. 9.430/96. Logo, como até maio de 2005, a Administração não havia se manifestado sobre o referido pleito, ocorreu a homologacã̧o tácita prevista no §4o do art. 150 do CTN. 2. Recurso especial provido. (STJ, REsp 1320994/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/10/2014, DJe 22/10/2014) TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ICMS. LANÇAMENTO SUPLEMENTAR. CREDITAMENTO INDEVIDO. Fl. 303DF CARF MF Processo nº 10680.724372/201057 Acórdão n.º 9303008.642 CSRFT3 Fl. 1.465 7 PAGAMENTO PARCIAL. DECADÊNCIA. TERMO INICIAL. FATO GERADOR. ART. 150, § 4o, DO CTN. 1. O prazo decadencial para o lançamento suplementar de tributo sujeito a homologação recolhido a menor em face de creditamento indevido é de cinco anos contados do fato gerador, conforme a regra prevista no art. 150, § 4o, do CTN. Precedentes: AgRg nos EREsp 1.199.262/MG, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Seção, DJe 07/11/2011; AgRg no REsp 1.238.000/MG, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, SEGUNDA TURMA, DJe 29/06/2012. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1318020/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 15/08/2013, DJe 27/08/2013) Prosseguindo a análise ora empreendida, verificase que o mesmo se verifica, por exemplo, em relação ao art. 9o , § 2º, da Lei n. 9.532/97. Esse enunciado prescritivo estabelece, em seu caput, que, “à opção da pessoa jurídica, o saldo do lucro inflacionário acumulado, existente no último dia útil dos meses de novembro e dezembro de 1997, poderá ser considerado realizado integralmente e tributado à alíquota de dez por cento”. Para que essa opção fosse exercida, o legislador requereu a sua manifestacã̧o mediante o adimplemento do tributo correspondente, em quota única. Não há sinais de que o legislador procurou se referir a quitação em dinheiro, mas sim às hipóteses que legitimamente conduzam ao adimplemento da obrigacã̧o, como é o caso da compensação. Esse foi precisamente o entendimento adotado por esta 1ª Turma da CSRF, em julgamento recente sobre o tema: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2003, 2004 SALDO ACUMULADO DE LUCRO INFLACIONÁRIO. REALIZAÇÃO INTEGRAL EM COTA ÚNICA. COMPENSAÇÃO. À opção da pessoa jurídica, o saldo do lucro inflacionário acumulado, existente no último dia útil dos meses de novembro e dezembro de 1997, poderia ser considerado realizado integralmente e tributado à alíquota de dez por cento (Lei n. 9.532/1997, art. 9º). Exercício da opção mediante o adimplemento do valor correspondente. A regular compensação, assim como a regular quitação em dinheiro, era meio hábil para o exercício da opção. DECADÊNCIA. SÚMULA CARF n. 10 O prazo decadencial para constituição do crédito tributário relativo ao lucro inflacionário diferido é contado do período de apuração de sua efetiva realização. (CSRF, 9101002.352, 14/06/2016) Adentrando no mérito do presente recurso, verificase que, tal como se dá com os outros dispositivos citados, incluindo o art. 150 do CTN, embora o art. 138 do CTN, textualmente adote o termo “pagamento”, não procura restringir o instituto da denúncia espontânea às hipóteses de quitação em Fl. 304DF CARF MF 8 dinheiro, requerendo o adimplemento em sentido amplo, o que inclui a compensação tributária. A Nota Técnica n. 1 COSIT, de 18.01.2012, posteriormente cancelada pela Nota Técnica no 1 COSIT, de 12.06.2012, chegou a reconhecer de ofício, com o propósito de colocar fim aos litígios sobre a matéria, o sentido amplo de “pagamento”, para abranger hipóteses de adimplemento como a “compensação”, in verbis: “18. Com relacã̧o à aplicabilidade da denúncia espontânea na compensação de tributos, não se pode perder de vista que pagamento e compensação se equivalem; ambos apresentam a mesma natureza jurídica, seus efeitos são exatamente os mesmos: a extincã̧o do crédito tributário. Como consequência, a compensação também é instrumento apto a configurar a denúncia espontânea. 18.1 Tanto é assim que o art. 28 da Lei no 11.941, de 27 de maio de 2009, ao dar nova redação ao art. 6° da Lei no 8.218, de 29 de agosto de 1991, conferiu à compensacã̧o o mesmo tratamento dado ao pagamento para efeito de redução das multas de lanca̧mento de ofício. 18.2 Essa equiparacã̧o do pagamento e compensação na denúncia espontânea resulta da aplicação da analogia, prevista como método de integracã̧o da legislação pelo art. 108, I, do CTN. 18.3 Dessa forma, respondendo às indagações formuladas nas letras h e i do item 3 desta Nota Técnica: a) se o contribuinte não declara o débito na DCTF, porém efetua a compensação desse débito na Dcomp, sendo os atos de confessar e compensar concomitantes, aplicasse o mesmo raciocínio previsto no item 10, ou seja, neste caso resta configurada a denúncia espontânea prevista no art. 138 do CTN” O entendimento esposado pela Nota Técnica n. 1 COSIT, de 18.01.2012 não merece reparo. Vale observar que a compensação efetuada pelo contribuinte possui efeito de pagamento, sob condição resolutória. Significa dizer que, se porventura a compensação não vier a ser homologada, perderá a eficácia a denúncia espontânea, com a exigência do débito tributário com a multa. Não obstante tratarse de matéria controversa, seja neste Conselho ou no e. STJ, é importante observar as decisões deste Tribunal que se alinham ao entendimento que acolho no presente voto. A Primeira e a Segunda Turma do STJ apresentam precedentes em que aplicam a norma do art. 138 do CTN de forma que o termo “pagamento” assuma a acepção de “adimplemento”. Conforme a interpretação levada a termo nos julgados a seguir, há denúncia espontânea mediante o adimplemento integral do débito tributário antes da ação fiscal, independentemente deste se dar mediante pagamento em dinheiro ou compensação: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. PRESENÇA DE OMISSÃO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ACOLHIDOS COM EFEITOS INFRINGENTES. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. RECONHECIMENTO. TRIBUTO PAGO SEM PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO ANTERIOR E ANTES DA ENTREGA DA DCTF REFERENTE AO IMPOSTO DEVIDO. Fl. 305DF CARF MF Processo nº 10680.724372/201057 Acórdão n.º 9303008.642 CSRFT3 Fl. 1.466 9 1. A decisão embargada afastou o instituto da denúncia espontânea, contudo se omitiu para o fato de que a hipótese dos autos, tratada pelas instâncias ordinárias, referese a tributo sujeito a lançamento por homologação, tendo os ora embargantes recolhido o imposto no prazo, antes de qualquer procedimento fiscalizatório administrativo. 2. Verificase estar caracterizada a denúncia espontânea, pois não houve constituição do crédito tributário, seja mediante declaracã̧o do contribuinte, seja mediante procedimento fiscalizatório do Fisco, anteriormente ao seu respectivo pagamento, o que, in casu, se deu com a compensacã̧o de tributos. Ademais, a compensação efetuada possui efeito de pagamento sob condicã̧o resolutória, ou seja, a denúncia espontânea será válida e eficaz, salvo se o Fisco, em procedimento homologatório, verificar algum erro na operacã̧o de compensação. Nesse sentido, o seguinte precedente: AgRg no REsp 1.136.372/RS, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO, PRIMEIRA TURMA, DJe 18/5/2010. 3. Ademais, inexistindo prévia declaração tributária e havendo o pagamento do tributo antes de qualquer procedimento administrativo, cabível a exclusão das multas moratórias e punitivas. 4. Embargos de declaracã̧o acolhidos com efeitos modificativos. (STJ, EDcl no AgRg no REsp 1375380/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 20/08/2015, DJe 11/09/2015) AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. COMPENSAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 557 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. INOCORRÊNCIA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA OU PUNITIVA. POSSIBILIDADE. IMPROVIMENTO. 1. Fundada a decisão na jurispruden̂cia dominante do Tribunal, não há falar em óbice para que o relator julgue o recurso especial com fundamento no artigo 557 do Código de Processo Civil. 2. Caracterizada a denúncia espontânea, quando efetuado o pagamento do tributo em guias DARF e com a compensacã̧o de vários créditos, mediante declaracã̧o à Receita Federal, antes da entrega das DCTFs e de qualquer procedimento fiscal, as multas moratórias ou punitivas devem ser excluídas. 3. Agravo regimental improvido. (STJ, AgRg no REsp 1136372/RS, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 04/05/2010, DJe 18/05/2010, O mesmo entendimento tem sido adotado por este Tribunal administrativo, como se observa desta recente decisão da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3a Seção: CRÉDITO TRIBUTÁRIO NÃO DECLARADO. DCOMP. COMPENSAÇÃO HOMOLOGADA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA CARACTERIZADA. EXCLUSÃO DA MULTA DE MORA. STJ. RECURSO REPETITIVO. REPRODUÇÃO NO CARF . Extinto, por meio de Declaracã̧o de Compensacã̧o homologada, Crédito tributário antes não declarado à Fl. 306DF CARF MF 10 administração tributária, resta caracterizada a denúncia espontânea prevista no art. 138 do Código Tributário Nacional, com exclusão da multa de mora segundo interpretação do Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos, de aplicação obrigatória no âmbito do CARF. (Acórdão 3401002.706, Sessão de 21/08/2014) Nesse cenário, a norma do art. 138 do CTN não se aplica apenas às hipóteses de pagamento em dinheiro: a norma de denúncia espontânea incide igualmente em face de outras hipóteses em que haja equivalente adimplemento, como é o caso da regular compensação tributária. Não se trata de interpretação ampliativa ou restrintiva, mas de reconhecimento do âmbito de incidência prescrito pelo legislador. Não há que se falar, por conseguinte, em ofensa ao art. 111 do CTN. [...] Também no sentido de reconhecer a equivalência entre a compensação e o pagamento, decidiu esta 3ª Turma da CSRF, no Acórdão nº 9303004.985, de 11/04/2017, de relatoria da Nobre Conselheira Tatiana Midori Migyiama, cuja ementa foi vazada com o seguinte enunciado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/1998 a 30/06/1998 DECADÊNCIA. PRAZO 05 (CINCO) ANOS. ARTIGO 150, § 4º CTN. É de se aplicar para fins de contagem do prazo decadencial a regra preceituada no art. 150, § 4º, do CTN, vez que a compensação extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação, conforme reza o art. 74, § 1º, da Lei 10.637/02, tal como o pagamento antecipado de tributos sujeitos a lançamento por homologação, que, de acordo com o art. 150, § 1º, do CTN extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. Diante do exposto, dáse provimento ao recurso especial da Contribuinte para excluir a incidência da multa de mora do crédito tributário, por aplicação do instituto da denúncia espontânea do art. 138 do CTN. É o voto. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Voto Vencedor Fl. 307DF CARF MF Processo nº 10680.724372/201057 Acórdão n.º 9303008.642 CSRFT3 Fl. 1.467 11 Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Redator designado Em que pesem a clareza e a objetividade dos fundamentos apresentados pela Ilustre Conselheira Relatora em seu voto, peço vênia para dele divergir, quanto à ocorrência do instituto da denúncia espontânea, no caso em tela. Conforme afirmado pela relatora em seu voto, no caso dos autos, "temse que os débitos objeto do PER/DCOMP foram confessados em DCTF apresentadas em outubro de 2008 e janeiro de 2009, sendo que o pedido de compensação foi transmitido em 03/10/2007". Salientese que a confissão do débito não ocorre somente na apresentação da DCTF, mas também na data da apresentação da DCOMP, conforme disposto no § 6º do art. 74 da Lei n° 9.430, de 1996: Art. 74. ... ... § 6o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. Assim, resta incontroverso que o débito estava confessado desde o início e, portanto, aplicandose a linha de raciocínio da decisão vinculante do STJ, REsp nº 1.149.022/SP, podemos considerar que o débito estava auto lançado, na data. Somente por este motivo, já podemos concluir como sendo inaplicável ao caso o instituto da denúncia espontânea, devendo ser mantida a multa de ofício em litígio. Contudo, a denúncia espontânea também deve ser afastada, ainda que não se considere o débito confessado na DCOMP como débito auto lançado, pois não houve o necessário pagamento, referido no art. 138 do CTN: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. (grifei) Ora, no caso, houve declaração de compensação, o que não se confunde com o pagamento do tributo devido. Em que pese a compensação ser uma das forma de extinção do crédito, nos termos do art. 156 do já referido CTN, ela apenas tem o condão de extinguir o crédito de forma precária, sob condição resolutória de sua ulterior homologação, nos termos do § 2° do também já citado art. 74 da Lei n° 9.430, de 1996. A Seguir, para fins de esclarecimento, encontramse reproduzidos ambos os dispositivos. Fl. 308DF CARF MF 12 (a) Art. 156 do CTN Art. 156. Extinguem o crédito tributário: I o pagamento; II a compensação; ... (b) Art. 74 da Lei n° 9.430, de 1996 Art. 74. ... ... § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Portanto, como no caso não se verifica pagamento anterior ou, pelo menos, concomitante à confissão do crédito, não há que se falar em aplicação do instituto da denúncia espontânea. Em vista do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Especial do Sujeito Passivo. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 309DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.908425/2006-44
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 15 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Sep 09 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2000
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO.
O Decreto nº 70.235/72 garante ao sujeito passivo o prazo preclusivo de 30 (trinta) dias para interposição do recurso voluntário, contado da ciência da decisão de primeira instância. O recurso intempestivo não deve ser conhecido.
Numero da decisão: 1401-003.686
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso por sua intempestividade.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Carlos André Soares Nogueira - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Carlos André Soares Nogueira (relator), Letícia Domingues Costa Braga, Eduardo Morgado Rodrigues, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (presidente).
Nome do relator: CARLOS ANDRE SOARES NOGUEIRA
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INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. O Decreto nº 70.235/72 garante ao sujeito passivo o prazo preclusivo de 30 (trinta) dias para interposição do recurso voluntário, contado da ciência da decisão de primeira instância. O recurso intempestivo não deve ser conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso por sua intempestividade. (documento assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (documento assinado digitalmente) Carlos André Soares Nogueira - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Carlos André Soares Nogueira (relator), Letícia Domingues Costa Braga, Eduardo Morgado Rodrigues, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 76 8. 90 84 25 /2 00 6- 44 Fl. 558DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1401-003.686 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10768.908425/2006-44 Relatório Trata o presente feito de Pedido de Restituição / Ressarcimento (PER), por meio do qual a contribuinte formalizou o pedido de repetição de um crédito relativo a saldo negativo de IRPJ apurado no ano-calendário 2000 no valor de R$ 540.896,55. Segundo a DIPJ entregue pela contribuinte, o saldo negativo do ano-calendário 2000 seria composto da seguinte forma: Composição do saldo negativo IRPJ devido R$0,00 IRRF -R$289.376,13 IR pago Renda Variável -R$84.638,49 Estimativas -R$166.881,93 Saldo Negativo R$540.896,55 O crédito foi utilizado para compensar débitos de responsabilidade da contribuinte por meio das seguintes DCOMP: DCOMP nº CRÉDITO ORIGINAL UTILIZADO 25660.97918.110903.1.3.02-1201 R$119.593,81 30211.71983.110903.1.7.02-9269 R$119.593,81 00093.24456.111104.1.3.02-7173 * R$243.837,49 25572.15925.210705.1.3.02-5031 R$199.111,83 Total do crédito utilizado R$438.299,45 * cancelado Em 15/08/2008, sobreveio o Despacho Decisório nº 334/08, por meio do qual a Delegacia da Receita Federal de Administração Tributária – DERAT/RJ não reconheceu o direito creditório pleiteado e não homologou as compensações declaradas. O despacho decisório da DERAT/RJ foi fundamentado no Parecer Conclusivo nº 334/08 que, em síntese, trouxe as seguintes razões para a decisão denegatória: (i) a contribuinte teria utilizado um total de R$ 360.315,47 de IRRF, sendo R$ 70.939,34 para satisfazer parte das estimativas mensais que compuseram o saldo negativo e R$ 289.376,13 para compor diretamente o saldo negativo. Entretanto, a fiscalização, em consulta às bases da DIRF, confirmou apenas R$ 292.872,83, distribuídos da seguinte forma: Rendimento IRRF Prestação de serviço R$13.370.257,56 R$190.235,05 Aplicação R$207,71 R$41,54 Juros sobre Capital Próprio R$447,53 R$67,01 Prestação de serviço - Orgão Público R$10.245,06 R$980,44 Aplicações financeiras - renda fixa R$507.746,32 R$101.548,79 Total R$13.888.904,18 R$292.872,83 Fl. 559DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1401-003.686 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10768.908425/2006-44 (ii) A contribuinte não teria reconhecido na DIPJ a receita de Juros sobre Capital Próprio no valor de R$ 447,53. (iii) A contribuinte teria declarado na DIPJ Outras receitas financeiras no valor de R$ 228.600,34. Assim, não poderia aproveitar integralmente o IRRF de R$ 101.548,79, pois não teria oferecido à tributação a totalidade dos rendimentos, que era de R$ 507.954,03. Haveria, também, uma incerteza acerca do valor, pois a rubrica Outras receitas financeiras poderia abarcar rendimentos distintos dos que constam na DIRF. (iv) A contribuinte já teria efetuado compensações do saldo negativo de IRPJ do ano-calendário 2000 com outros débitos diretamente nas DCTF no montante de R$ 338.548,63. Diante dessas irregularidades, a autoridade administrativa indeferiu integralmente o pleito creditório. Irresignada, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, por meio da qual aduziu as seguintes alegações: (i) Não estaria correta a constatação da fiscalização de que teria utilizado um total de R$ 360.315,47 de IRRF. O saldo negativo seria composto pelos seguintes valores: Rubrica Ficha – linha DIPJ Valor IRRF Ficha 12 A R$ 289.376,13 Imposto pago (ganhos no mercado de renda fixa Linha 15 R$ 84.638,49 IR pago por estimativa Linhas 11/07 + 11/08 + 11/09 + 11/10 da ficha 11 R$ R$ 87.847,60 IR estimativa – compensado com saldo negativo de 1999 (DCTF) R$ 79.034,33 (ii) A contribuinte teria comprovado um total de R$ 462.160,65 de IRRF por meio de Informes de Rendimento: Código tributário Valor R$ 1708 360.613,90 6800 101.546,75 Total 462.160,65 (iii) O valor da receita de Juros sobre Capital Próprio teria sido declarado na linha 24 da Ficha 06A. (iv) Quanto ao valor de R$ 507.734,47, este teria sido equivocadamente declarado na Linha 21 Ganhos auferidos em Mercado de Renda Variável, exceto day-trade. Fl. 560DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1401-003.686 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10768.908425/2006-44 A contribuinte apresentou uma DIPJ retificadora para ajustar os lançamentos nas linhas/fichas corretas. Ao final, pediu o reconhecimento do direito creditório e a homologação das compensações. A manifestação de inconformidade foi julgada improcedente pela autoridade julgadora a quo. A ementa do acórdão ora combatido restou consignada nos seguintes termos: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Ano-calendário: 2000 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. Faz-se mister que os créditos empregados em compensação de tributos gozem de liquidez e certeza. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro I foi calcada nos seguintes argumentos: . Quanto ao não oferecimento de receitas à tributação, o julgamento administrativo não seria o fórum adequado para a retificação da DIPJ. Ademais, a retificação da DIPJ/2001 em 05/09/2008 seria intempestiva. Portanto, as receitas a serem consideradas oferecidas à tributação seriam aquelas declaradas na DIPJ entregue em 08/08/2003. . Quanto às compensações “sem processo”, efetuadas diretamente em DCTF, a autoridade julgadora considerou que tal fato não havia sido impugnado e, portanto, seria incontroverso. . Embora a contribuinte tenha comprovado por meio dos informes de rendimento um total de R$ 462.160,65 de IRRF, não restaria crédito a reconhecer à contribuinte, uma vez que esta já teria utilizado R$ 338.548,63 em compensações “sem processo”. Diante da decisão de primeira instância que jugou improcedente a manifestação de inconformidade, a contribuinte interpôs recurso voluntário. Na peça recursal, inicialmente, a contribuinte argumentou que se trata de um crédito de valor expressivo e, por esse motivo, teria sido utilizado em diversas compensações sem exaurimento do montante e, por esse motivo, pleiteava que o saldo remanescente fosse alocado às compensações objeto das DComp sob análise. Ademais, a falta de impugnação da existência de outras compensações não poderia afetar o crédito original reclamado, mas apenas o saldo remanescente. Afinal, a RFB não teria demonstrado que o crédito houvesse sido exaurido nas compensações anteriores. A falta de demonstração das compensações alegadas pela fiscalização implicaria em lesão ao seu direito de defesa. Em relação às demais matérias, a contribuinte, em essência, reedita as alegações da manifestação de inconformidade. Fl. 561DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1401-003.686 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10768.908425/2006-44 Era o que havia a relatar. Voto Conselheiro Carlos André Soares Nogueira, Relator. Tempestividade. Inicialmente, é preciso considerar a tempestividade do recurso voluntário. O prazo para interposição do recurso voluntário é de 30 (trinta) dias contados da ciência da decisão da DRJ, conforme previsão do artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Tal prazo deve ser contado de acordo com o disposto no artigo 5º do mesmo diploma legal, ou seja, de forma contínua, excluindo-se o dia do início e incluindo-se o do vencimento. Compulsando os autos, vejo que a contribuinte foi intimada da decisão de primeira instância em 06/09/2010. Nos termos do comando legal, o dia 06 deve ser excluído da contagem do prazo. Considerando que o dia 07/09/2010 foi feriado, a contagem do prazo para interposição foi iniciada em 08/09/2010 e alcançou seu termo final em 07/10/2010. Entretanto, o recurso voluntário foi apresentado em 08/10/2010, conforme protocolo da unidade local da RFB. Impende destacar, também, que a peça recursal, embora mencione que seja tempestiva, não traz nenhuma consideração acerca da eventual razão para a tempestividade de sua interposição. Assim, o recurso é intempestivo e não deve ser conhecido. É neste sentido a jurisprudência deste Conselho, conforme se pode observar nos seguintes julgados: NORMAIS GERAIS. PAF. INTERPOSIÇÃO APÓS O PRAZO LEGAL. NÃO CONHECIMENTO. INTEMPESTIVIDADE. A tempestividade é pressuposto intransponível para o conhecimento do recurso. É intempestivo o recurso voluntário interposto após o decurso de trinta dias da ciência da decisão. Não se conhece das razões de mérito contidas na peça recursal intempestiva. (Acórdão CARF nº 2402-007.176, de 09/04/2019). _________________________________________ PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. É assegurado ao contribuinte a interposição de Recurso Voluntário no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência da decisão recorrida. Demonstrada nos autos a intempestividade da peça recursal, não se conhece das razões de mérito. (Acórdão CARF nº 3401-006.009, de 28/03/2019) __________________________________________ RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Fl. 562DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1401-003.686 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10768.908425/2006-44 Não se conhece de recurso voluntário interposto depois de esgotado o prazo de 30 (trinta) dias contados da ciência da decisão de primeira instância, previsto no art. 33 do Decreto nº 70.235/1972. (Acórdão CARF nº 1302-003.393, de 20/02/2019). Voto, portanto, por não conhecer do recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Carlos André Soares Nogueira Fl. 563DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10972.720053/2015-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 06 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Sep 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2013
CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. MULTA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA.
É dever do contribuinte informar, por meio das GFIPs, todos os dados referentes aos fatos geradores das contribuições previdenciárias. Constatada a omissão de informações na GFIP, deve ser mantida a multa.
MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO.
É vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação de lei, sob fundamento de inconstitucionalidade, salvo algumas situações específicas não configuradas no caso em tela. A autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada.
SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. CONTRIBUIINTE A constatação de interposição de pessoa jurídica, acobertando o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, enseja a autuação tendo como base a situação de fato, devendo o correspondente tributo ser exigido da pessoa que efetivamente teve relação pessoal e direta com o fato gerador.
PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada, na condição de efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços através de empresa interposta, obrigada ao recolhimento das contribuições devidas.
Numero da decisão: 2401-006.810
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier (Presidente), Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Rayd Santana Ferreira e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada). Ausente a Conselheira Marialva de Castro Calabrich Schlucking.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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ementa_s : ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2013 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. MULTA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. É dever do contribuinte informar, por meio das GFIPs, todos os dados referentes aos fatos geradores das contribuições previdenciárias. Constatada a omissão de informações na GFIP, deve ser mantida a multa. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. É vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação de lei, sob fundamento de inconstitucionalidade, salvo algumas situações específicas não configuradas no caso em tela. A autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada. SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. CONTRIBUIINTE A constatação de interposição de pessoa jurídica, acobertando o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, enseja a autuação tendo como base a situação de fato, devendo o correspondente tributo ser exigido da pessoa que efetivamente teve relação pessoal e direta com o fato gerador. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada, na condição de efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços através de empresa interposta, obrigada ao recolhimento das contribuições devidas.
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MULTA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. É dever do contribuinte informar, por meio das GFIP’s, todos os dados referentes aos fatos geradores das contribuições previdenciárias. Constatada a omissão de informações na GFIP, deve ser mantida a multa. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. É vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação de lei, sob fundamento de inconstitucionalidade, salvo algumas situações específicas não configuradas no caso em tela. A autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada. SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. CONTRIBUIINTE A constatação de interposição de pessoa jurídica, acobertando o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, enseja a autuação tendo como base a situação de fato, devendo o correspondente tributo ser exigido da pessoa que efetivamente teve relação pessoal e direta com o fato gerador. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada, na condição de efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços através de empresa interposta, obrigada ao recolhimento das contribuições devidas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 97 2. 72 00 53 /2 01 5- 00 Fl. 2050DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier (Presidente), Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Rayd Santana Ferreira e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada). Ausente a Conselheira Marialva de Castro Calabrich Schlucking. Relatório Trata-se de Recurso Voluntário interposto em face de decisão administrativa de primeira instância proferida pela DRJ/POA (Acórdão nº 7ª Turma da DRJ/ POA) que julgou procedente o lançamento tributário, consubstanciado nos seguintes Autos de Infração: a) AI n.° Debcad 51.063.912-7, no valor de R$ 5.777,43 (cinco mil, setecentos e setenta e sete reais e quarenta e três centavos), por deixar de preparar folhas de pagamento de todas as remunerações pagas, devidas ou creditadas a todos os segurados a seu serviço, de acordo com o Regulamento, infringindo, assim, o disposto no artigo 32, I, da Lei nº 8.212, de 1991, c/c o artigo 225, I e § 9º do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 1999. Informa a autoridade fiscal que a multa no valor de R$ 1.925,81 (um mil, novecentos e vinte e cinco reais e oitenta e um centavos), foi elevada em três vezes, em virtude da ocorrência da agravante do inciso II, do artigo 290, do RPS. b) AI n.° Debcad 51.063.913-5, no valor de R$ 57.773,49 (cinquenta e sete mil, setecentos e setenta e três reais e quarenta e nove centavos), por deixar a empresa de lançar mensalmente, em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as contribuições, o montante das quantias descontadas, as contribuições da empresa e os totais recolhidos, infringindo, assim, o disposto no artigo 32, II, da Lei nº 8.212, de 1991, c/c o artigo 225, II, e §§ 13 a 17, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de1999. Informa a autoridade fiscal que a multa no valor de R$ 19.257,83 (dezenove mil, duzentos e cinquenta e sete reais e oitenta e três centavos), foi elevada em três vezes, em virtude da ocorrência da agravante do inciso II, do artigo 290, do RPS. c) AI n.° Debcad 51.063.914-3, no valor de R$ 1.925,81 (um mil, novecentos e vinte e cinco reais e oitenta e um centavos), por deixar de arrecadar as contribuições a cargo dos segurados, mediante desconto de suas remunerações, infringindo, assim, o disposto no artigo 30, I, "a" e "b", da Lei nº 8.212, de 1991 (nos caso dos segurados empregados e avulsos) e artigo 4º da Lei nº 10.666, de 2003 (no caso dos segurados contribuintes individuais), ambos c/c o § 5º do artigo 33, da Lei nº 8.212, de 1991, e também o artigo 216, I, "a", do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 1999. Fl. 2051DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 d) AI n.° Debcad 51.063.915-1, no valor de R$ 523.820,32 (quinhentos e vinte e três mil, oitocentos e vinte reais e trinta e dois centavos), por deixar de inscrever o segurado empregado, infringindo, desta forma, o artigo 17, da Lei nº 8.213, de 1991, c/c o artigo 18, I e § 1º do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 1999. e) AI n.° Debcad 51.063.916-0, no valor de 14.052.701,19 (quatorze milhões, cinquenta e dois mil, setecentos e um reais e dezenove centavos), relativo ao lançamento de (a) contribuições previdenciárias patronais, inclusive aquela destinada ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho - RAT, incidentes sobre as remunerações dos segurados empregados a serviço do sujeito passivo, nas competências dezembro de 2009 a dezembro de 2013, e (b) contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre as remunerações pagas ou creditadas a segurados contribuintes individuais, nas competências dezembro de 2009 a dezembro de 2013; f) AI n.° Debcad 51.063.917-8, no valor de R$ 2.823.378,26 (dois milhões, oitocentos e vinte e três mil, trezentos e setenta e oito reais e vinte e seis centavos), referente as contribuições previdenciárias dos segurados empregados e contribuintes individuais, nas competências dezembro de 2009 a dezembro de 2013. No Relatório do Processo Fiscal, fls. 123/276, a autoridade lançadora esclarece inicialmente que, no procedimento fiscal, restou constatado que o Município de Frutal, no período de dezembro de 2009 a dezembro de 2013, utilizou-se de "empresa de fachada", no caso Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA, inscrita no CNPJ 20.549.879/0001-32, entidade filantrópica sem fins lucrativos, para formalização e pagamento de parcela expressiva de seus funcionários atuantes na rede pública municipal de saúde, em especial no Hospital Municipal Frei Gabriel/Fundação Hospital Frei Gabriel, inclusive mediante "pejotização" simulada dos médicos, deixando de declarar em suas GFIPs e de recolher as contribuições sociais previdenciárias incidentes sobre a remuneração paga aos segurados empregados e contribuintes individuais que prestaram serviços ao Município na atividade pública. Esclarece, ainda, que no âmbito do CNPJ da SAHSFA a Administração do Município de Frutal implementou, em relação aos diversos médicos que contratou para atender na rede pública municipal (Hospital Frei Gabriel e postos de Saúde), o que se pode chamar de "PJtização", que consiste no disfarce de vínculos empregatícios, mediante a contratação dos trabalhadores como se Pessoa Jurídica fossem, isto é, como se a prestação estivesse sendo realizada por uma empresa e não por empregados, que de fato são. No caso da Prefeitura Municipal de Frutal a implementação desta anomalia foi com intuito de suprimir as contribuições previdenciárias estabelecidas em Lei, mas também, ao que muito parece, por questões relacionadas à Lei de Responsabilidade Fiscal e à obrigatoriedade de contratação através de concursos públicos, segundo conclusão incisiva da Comissão Especial de Investigação - CEI, nº 001/2011, instaurada pela Câmera Municipal de Frutal para apurar a existência de eventuais irregularidades na relação existente entre a Administração Municipal, a Fundação Frei Gabriel e a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, bem como a suposta existência de pagamentos irregulares a médicos contratados pelo Município de Frutal, cujo Relatório Final foi enviado a Receita Federal do Brasil para as providências que fossem cabíveis na esfera fiscal. Destaca que, não obstante a maior parcela do montante lançado neste processo fiscal corresponda a contribuições previdenciárias sonegadas mediante utilização da SAHSFA como fachada e PJtização dos médicos, cujos fatos geradores ocorreram no âmbito do CNPJ da suposta “empresa” SAHSFA, uma pequena parte do lançamento, porém, se refere a contribuições previdenciárias não relacionadas a estas práticas, incidentes sobre fatos geradores Fl. 2052DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 verificados no âmbito do CNPJ do próprio Município de Frutal, correspondentes ao pagamento de remunerações a segurados contribuintes individuais informadas em suas DIRF, mas não declaradas em suas GFIPs. A autuada impugnou tempestivamente a exigência, através do arrazoado de fls. 1793 a 1828. A ciência do Auto de Infração - AI ocorreu em 28 de dezembro de 2015, e a protocolização da impugnação, em 27 de janeiro de 2015. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Porto Alegre/RS lavrou Decisão Administrativa textualizada no Acórdão nº 10-56.949 - 7ª Turma da DRJ/POA, às fls. 1.959/1.986, julgando improcedente a Impugnação apresentada, nos termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2009 a 31/12/2013 MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. É vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação de lei, sob fundamento de inconstitucionalidade, salvo algumas situações específicas não configuradas no caso em tela. A autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2009 a 31/12/2013 SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. CONTRIBUIINTE A constatação de interposição de pessoa jurídica, acobertando o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, enseja a autuação tendo como base a situação de fato, devendo o correspondente tributo ser exigido da pessoa que efetivamente teve relação pessoal e direta com o fato gerador. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, ficando a empresa autuada, na condição de efetiva beneficiária do trabalho dos segurados que lhe prestaram serviços através de empresa interposta, obrigada ao recolhimento das contribuições devidas. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformada com a decisão exarada, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário a fls. 2.000/2.042, repisando na íntegra suas alegações em sede de Impugnação e respaldando sua contrariedade em argumentação desenvolvida ao longo da peça recursal, alegando em síntese: - Em sede preliminar, a ilegitimidade passiva do Município de Frutal, por quanto entende que a Fundação Hospital Frei Gabriel por ter ampla autonomia, conforme artigo 1º, caput, da Lei Municipal nº 5.165/2005, tem total capacidade para ser sujeito passivo de multas e tributos, não tendo o Município responsabilidade direta e imediata por quaisquer atos que beneficiem ou estejam de qualquer forma afetos ao Hospital; - Que em decorrência desses mesmos fatos o CNPJ da SAHSFA foi suspenso pela Receita Federal do Brasil. Informa ainda que foi interposto um Agravo de Instrumento nº 001597283.2016.4.04.0000/MG, junto ao TRF da 1ª Região, para reforma da r, decisão proferida em primeiro grau, que indeferiu liminar em Mandado de Segurança, impetrado para restabelecimento do mencionado CNPJ, suspenso pela DRF de Uberaba; - Já No mérito ressalta que todo o procedimento fiscal foi baseado e fundamentado no Relatório Final de uma Comissão Especial de Investigação - CEI nº 001/2011, em face Fl. 2053DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 da ex-prefeita Municipal Maria Cecília Marchi Borges. Esta CEI buscou investigar eventuais irregularidades na gestão dos recursos repassados à entidade Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA - sociedade civil beneficente e filantrópica, pelo Município. Ressalta que a referida CEI não logrou êxito em condenar a ex-prefeita por quaisquer atos ilegais, ímprobos ou outro sequer. Diz que a CEI foi constituída diante da recusa do Poder Público e da direção da SAHSFA em fornecer documentos formalmente solicitados pela Câmara Municipal de Frutal. O requerimento de instauração diz: "apurar denúncias relativas à prestação de serviços médicos executados pela FUNDAÇÃO HOSPITAL FREI GABRIEL, e SOCIEDADE AMIGOS DO HOSPITAL SÃO FRANCISCO DE ASSIS, consistindo as denúncias em possíveis irregularidades no pagamento dos plantões médicos, recebimento de vencimentos a mais por parte de alguns médicos e nas relações do Município com a SOCIEDADE AMIGOS DO HOSPITAL SÃO FRANCISCO DE ASSIS, que recebe subsídios do Município." "Portanto não foi objeto específico das investigações a relação jurídica na gestão compartilhada celebrada entre as partes acima identificadas." O relatório final se limitou a apontar irregularidades sobre o pagamento de produtividades dos médicos e seus reflexos, o teto remuneratório, a burla a Lei de Responsabilidade Fiscal, a burla ao concurso público, entretanto, objetivamente nada se falou sobre a celebração do convênio entre o Poder Público e a entidade filantrópica. Conclui que o Município não foi alvo de investigação, e sim vários agentes políticos e seus comportamentos, não podendo ser utilizado este instrumento em procedimento fiscal para condenar administrativamente o Município de Frutal em fatos que não teve a sua participação no contraditório. Faz referência que a CEI teve caráter de perseguição política, inclusive com a utilização de argumentos negativos em face da então Prefeita na tentativa de desestabilizar ou desacreditar o seu apoio no processo político das eleições municipais do ano de 2012. Frisa que mesmo diante de inúmeras irregularidades destacadas no relatório final, apesar de não impor sanção direta, porque não tem esse poder, nenhum indiciamento foi apontado pela comissão, limitando-se ao encaminhamento do relatório final a vários órgãos públicos. Não havendo a condenação da ex-prefeita em virtude da CEI, indaga como poderia um relatório servir de lastro para a autuação de quase R$ 18.000.000,00. Não pode o Município, que tem orçamento anual estimado em algo em torno de R$ 95.000.000,00 ser apenado por um processo político que não teve por desfecho a condenação da ex- gestora desta cidade. Na sequência faz um breve histórico do atendimento hospitalar no Município de Frutal, desde seu início, no século passado, com a chegada de Antonio Machi, que na Ordem dos Frades Menores assumiu o nome de Frei Gabriel de Frazanó, até os dias atuais. Entre o legado deixado pelo Frei Gabriel está o Hospital São Francisco/Santa Casa (mantenedora Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis). Em meados de 1993, não atendendo mais as condições necessárias para uma assistência à saúde conforme vigilância sanitária, começou a ser executado o projeto de construção do "Hospital Frei Gabriel" (alteração do nome em homenagem ao Frei Gabriel já falecido), inicialmente, em 1996, aberto para consultas e exames, e, em 2005, definitivamente aberto para internações e demais serviços assistenciais ambulatoriais e hospitalares. A seguir, diz que foi firmado convênio com a entidade beneficente sem fins lucrativos - Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. E que esta opção da entidade política em firmar parcerias com a entidade filantrópica na necessidade de fomentar a atividade de saúde, mormente na prestação de serviços de administração hospitalar, além de ser legal, trouxe melhoria no atendimento à população que necessita dos Fl. 2054DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 serviços junto ao Hospital Municipal Frei Gabriel, não havendo o que questionar quanto à legalidade da relação jurídica estabelecida entre o Município de Frutal e a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. Afirma que referida entidade, com a qual foi firmado convênio, foi devidamente composta por membros das devidas entidades, como Maçonarias, Lions, Rotarys, etc., com as devidas eleições e composições, com as Atas devidamente registradas no Cartório competente. Cita a Portaria nº 529/GM/Ms, de 1º de abril de 2013, a Portaria nº 2.617/GM/MS, de 1º de novembro de 2013, a Portaria nº 3.410, de 30 de dezembro de 2013, o artigo 116 da Lei nº 8.666/93, a Súmula nº 19 do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, que dispõe que "o procedimento do qual resulte celebração de convênio referente à concessão de subvenção deve estar instruído, para fins de controle externo, com documentação apta a comprovar o atendimento às normas da Lei Complementar nº 101/00, da Lei nº 4.320/64 e das Instruções Normativas deste Tribunal e também da prova de efetivo funcionamento da entidade beneficiada". Aduz que, conforme se verifica do print do CNES (Secretaria de Atenção à Saúde) - anexo, a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis está cadastrada neste órgão desde o dia 30 de outubro de 2001, o que demonstra a existência desde esta referida data. Ressalta que a SAHSFA é uma entidade sem fins lucrativos (filantrópica), regularmente constituída, portanto, desonerada de tributação da autuação ora questionada e que há mais de cinco décadas tem prestado relevantes serviços e com amplo conhecimento em administração hospitalar, desde quando conduzia os trabalhos junto à então SANTA CASA no município de Frutal, motivo pelo qual o gestor público optou pelo modelo de gestão de co-participação, levando o Município de Frutal à celebração de um convênio com a mencionada entidade, com amparo em Leis Municipais que anexa. A seguir menciona a Lei nº 4.320/64 que estabelece diretrizes a serem seguidas quando da realização de transferência de recursos do poder Público a entidades privadas. Cita o artigo 16 da referida Lei que determina que as subvenções sociais, que devem atender despesas de manutenção de entidades sem fins lucrativos, visam à prestação de serviços nas áreas de assistência social, médica e educacional e ainda, mostrar-se mais econômica do que a atuação direta do município, razão pela qual este procedimento foi utilizado pelo Município de Frutal com a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco. Ressalta que a entidade a ser beneficiada com o recurso público há várias décadas já recebia subvenção do Município de Frutal, o que demonstra sua regular condição de funcionamento. "Não se trata de uma entidade recém criada, ela tem histórico de serviços prestados, amplo conhecimento em gestão hospitalar, por isso, não procede (sic) as afirmações contidas nos autos de infração de que o município utilizou de uma entidade 'fantasma' para beneficiar de certas obrigações fiscais." Afirma ainda que o Município de Frutal observou, com relação ao repasse de subvenção social para a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco, o disposto nos artigos 167, VIII, da Constituição Federal - CF, e 26 da Lei Complementar nº 101/00, nos quais a destinação de recursos a entidades privadas dependerá de: a) específica autorização legislativa; b) atendimento às condições estabelecidas pela lei de diretrizes orçamentárias; e c) previsão orçamentária ou através de créditos adicionais. Não procedeu a simples terceirização dos serviços de saúde, mas a "gestão compartilhada" de tais serviços junto ao Hospital Frei Gabriel. Aduz que, como a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é uma entidade filantrópica, nenhuma ilegalidade ocorreu com esta "gestão compartilhada" dos serviços de saúde no Hospital Frei Gabriel, uma vez que não houve transferência dos serviços de saúde a pessoas jurídicas de direito privado, o que não é vedado pelo artigo 199 da CF. Frisa ainda que "com o surgimento das Organizações Não-Governamentais e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, no âmbito do alcunhado 'Plano Diretor da Reforma do Estado', alvitrado pelo então Ministério da Administração e Reforma do Estado, passou-se a questionar a legalidade e, mais que isso, a Fl. 2055DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 constitucionalidade do trespasse, sic e simpliciter, de determinadas atividades fundamentais da Administração Pública ao chamado Terceiro Setor. Entretanto, com a decisão do Supremo Tribunal Federal, em abril de 2015 em decisão tomada na Ação Direta de Inconstitucionalidade ADI 1.923, entendeu ser constitucional a execução de serviços sociais considerados essenciais poderão ser feita por meio de convênios com Organizações Sociais. Portanto, o resultado de que a gestão de serviços sociais e atividades de relevância pública em parceira com o terceiro setor é um caminho necessário e constitucionalmente adequado." - Da multa de ofício com caráter confiscatório Destaca que, ainda que fossem devidas as contribuições previdenciárias, a multa aplicada de ofício é ilegal e inconstitucional, posto que o artigo 150, inciso IV da Constituição Federal não admite imposto que resulte em confisco. Frisa que o não confisco vem sempre combinado com outros princípios, quais sejam, o da proporcionalidade e da razoabilidade, e que nos presentes autos, o que se evidencia de forma gritante é a multa confiscatória de 150% aplicada, sendo evidente que se trata de confisco. Aduz que o princípio da capacidade contributiva, do mínimo vital e da pessoalidade, não foram observados. Ao final requer a exclusão da multa da autuação fiscal. - Promove ainda o requerimento de solicitação de documentos sob pena de estar ocorrendo cerceamento de defesa. Neste tópico, solicita a Receita Federal do Brasil, para que não paire dúvidas acerca da legitimidade da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, através do Delegado Fiscal que preside este feito, que faça juntar nos presentes autos os seguintes documentos referentes à Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, CNPJ nº 20.549.879/0001-32. 1. Folhas de pagamentos dos períodos (01/2001 a 11/2009) 2. Back up das GFIPS (01/2001 a 11/2009) 3. Relatório da quantidade de servidores por lotação, (01/2001 a 11/2009) 4. Pesquisa de Situação Fiscal junto à RFB 5. Consulta de Débitos na RFB e na PGFN Após juntada dos documentos retro citados, os quais diz encontrarem-se em poder da RFB, requer seja deferida vista dos autos para que possa se manifestar. Ao final requer, seja acolhido o Recurso Voluntário, para o fim de anular todos os autos de infração relativos às autuações discutidas no presente processo administrativo fiscal ou, subsidiariamente, que as multas sejam reduzidas aos patamares constantes na impugnação e entendidos como corretos pelo ente público autuado. Após, os autos foram remetidos a este Eg. Conselho É o relatório. Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa – Relatora D OS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE A Recorrente foi cientificada da r. decisão em debate, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. DO MÉRITO Fl. 2056DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 Conforme esclarecido pela instância de piso, a recorrente foi autuada pelo não recolhimento das contribuições previdenciárias das competências dezembro de 2009 a dezembro de 2013, incidentes sobre valores de remuneração de segurados empregados e segurados contribuintes individuais a seu serviço, mediante utilização de pessoa jurídica interposta, no caso Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA. Também foi autuada por descumprimento de obrigações acessórias, que é o objeto do presente lançamento. A Recorrente contesta os lançamentos fiscais, sustentando em seu arrazoado: a) Ilegitimidade passiva do Município de Frutal; b) existência real da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis e legalidade do Convênio com a Fundação Frei Gabriel; e, c) Caráter confiscatório da multa de ofício aplicada. Registre-se que a autuada não questionou expressamente as infrações objeto dos presentes autos, relativos a descumprimento de obrigações acessórias. Assim, não tendo sido expressamente questionada a matéria, há que se considerá-la não contestada e sua exigência declarada definitiva administrativamente, conforme dispõe o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, art. 17. Quanto aos questionamentos de mérito referentes aos autos de obrigações principais, embora refujam à matéria tratada na presente lide, mas, por se relacionarem com as obrigações acessórias lançadas, passo a reproduzir as razões manifestadas pela instância a quo, e adoto como razões de decidir, por refletirem meu entendimento sobre o caso concreto, a saber: Ilegitimidade passiva do Município de Frutal No tocante à eleição do sujeito passivo do auto de infração, sustenta que o Hospital Frei Gabriel é quem deveria ser autuado, pois tem ampla autonomia, conforme artigo 1º, caput, da Lei Municipal nº 5.165, de 2005, não tendo o Município de Frutal responsabilidade direta e imediata por quaisquer atos que beneficiem ou estejam de qualquer forma afetos ao referido Hospital. Razão não assiste à Recorrente. Inicialmente, cumpre esclarecer que nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional - CTN, compete à autoridade fiscal constituir o crédito tributário pelo lançamento, para isso, é preciso, dentre outros atos, verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente e identificar o sujeito passivo da obrigação tributária. Relativamente à identificação do sujeito passivo da obrigação tributária, cumpre destacar o contido nos artigos 97 e 121, do CTN - Código Tributário Nacional: Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: III - a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo. Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se: I - contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador Conforme disposto no artigo 22 da Lei 8.212/91, o fato gerador da obrigação previdenciária principal, além de outros, é a remuneração paga ou creditada, no decorrer no mês, aos segurados empregados e contribuintes individuais, pelos serviços efetivamente prestados. Logo, contribuinte será a pessoa que possui relação pessoal e direta com o referido fato gerador, ou seja, a empresa que se beneficiou dos serviços prestados, e que, em contrapartida, remunerou os segurados. Fl. 2057DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 No caso concreto, a fiscalização identificou, a partir de todos os elementos fáticos disponíveis, que o sujeito passivo do lançamento, na condição de contribuinte, é o Município de Frutal - Prefeitura Municipal, CNPJ 18.449.132/0001, na medida em que, equiparando-se à empresa para efeitos da legislação previdenciária, nos termos do artigo 15, I, da Lei nº 8.212/91, foi quem efetivamente contratou e destinou as remunerações aos segurados atuantes na rede pública municipal de saúde, em especial no Hospital Municipal Frei Gabriel, por intermédio da pessoa jurídica interposta Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA. Considerando que o CTN define como contribuinte aquele que tenha relação pessoal e direta com o fato gerador, e que todas as conclusões da autoridade fiscal, no sentido de que o Município de Frutal foi quem efetivamente contratou e remunerou segurados empregados e contribuintes individuais para atuarem na rede municipal de saúde, se confirmaram, conforme se verá nos tópicos deste voto, não se vislumbra qualquer erro na identificação do sujeito passivo. Sem reparos, portanto, o procedimento fiscal de proceder o lançamento das contribuições previdenciárias devidas atribuindo ao real empregador, verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, Município de Frutal, a responsabilidade pelo pagamento do crédito lançado. Existência real da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis e legalidade do convênio com o Município de Frutal. A autoridade fiscal, no período fiscalizado, constatou que a pessoa jurídica Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA, estabelecida, formalmente, na avenida Brasília nº 333, Bairro Jardim das Laranjeiras, na cidade de Uberaba – MG, não existe de fato, mas tão-somente no papel, não possuindo verdadeiramente estrutura empresarial própria, necessária à realização de seus objetivos sociais, tendo sido utilizada pelo Município para formalizar a contratação da maior parcela dos trabalhadores atuantes no Hospital Municipal Frei Gabriel/Fundação Hospital Frei Gabriel, no intuito único de deixar de pagar as contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações destinadas a segurados empregados e contribuinte individuais. A impugnante alega inicialmente que não poderia todo o lançamento ser fundamentado em documentos e depoimentos relativos à Comissão Especial de Investigação - CEI nº 001/2011, instaurada para "apurar denúncias relativas à prestação de serviços médicos executados pela Fundação Hospital Frei Gabriel e Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, por não ter o Município de Frutal sido alvo de investigação, e por ter sido deflagrada propositadamente para ser concluída em ano eleitoral, utilizada como forte potencial de uso político-eleitoral.” Nesse sentido importa esclarecer, primeiro, que quaisquer meios de prova, desde que legais e legítimos, que guardem pertinência com os fatos geradores de contribuições previdenciárias podem e devem ser utilizados como subsídio para o lançamento de crédito tributário; e, segundo, que o presente lançamento não se baseou unicamente no Relatório da Comissão Especial de Investigação - CEI nº 001/2011, mas foi decorrente de todo um conjunto probatório, sendo que o relatório da CEI faz parte deste conjunto. Destaca-se neste aspecto o título III, capítulo II, do Relatório do Processo Fiscal, o qual aborda em 15 seções, todos os elementos de prova relativos às conclusões da autoridade fiscal, no que diz respeito à existência da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis meramente no plano formal e sua utilização pelo Município de Frutal como fachada para contração de trabalhadores atuantes no Hospital Frei Gabriel. Na sequencia, a impugnante sustenta que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é uma sociedade civil beneficente e filantrópica, com administração própria e autônoma com finalidade não comercial nem lucrativa, que não existe somente no plano formal. Aduz que há mais de cinco décadas tem prestado relevantes serviços, desde quando conduzia os trabalhos junto a então Santa Casa no município de Frutal, motivo pelo qual o gestor público optou pelo modelo de gestão de co-participação, levando o Município de Frutal à celebração de convênio, com amparo na legislação e observação do disposto nos artigos 167, III, da Constituição Federal - CF, e 26 da Lei Fl. 2058DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 complementar nº 101/00, não procedeu a simples terceirização dos serviços de saúde, mas a "gestão compartilhada" de tais serviços junto ao Hospital Frei Gabriel, o que não é vedado pelo artigo 199 da CF. Neste contexto, passo a verificar se no caso em tela ocorreu a interposição da pessoa jurídica Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis na contratação de segurados, para tanto é necessário buscar: a) o conceito de simulação, b) as diferentes formas de simulação, c) os efeitos que sua prática acarreta e d) os meios usuais de prova da simulação. Simulação: conceito e meios de prova No Direito Brasileiro, o conceito de simulação, em que pese inserir-se na Teoria Geral do Direito, encontra-se positivado no Código Civil (Lei nº 10.406, de 11 de janeiro de 2002) em vigor: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II - contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados. § 2º Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado. Além do texto legal, é importante ter em vista a posição da doutrina a respeito do significado e do alcance do que nele está contido. Pontes de Miranda assim comenta o artigo, com sua habitual visão sistemática (Tratado de Direito Privado, 1ª ed. atualizada, Campinas: Bookseller, 2000, tomo IV, p. 442): “Em toda simulação há a divergência entre a exteriorização e a volição, quer seja quanto ao objeto, ou, melhor, quanto à matéria, de re ad rem (B vende manuscritos, dizendo vender pastas), ou quanto à pessoa, de personam ad personam (A doa a C, dizendo doar a B), ou quanto à categoria jurídica, de contractu ad contractum (A doa dizendo vender), ou quanto às modalidades, de modo ad modum (contrata sob condição de não casar, dizendo que o faz sob condição de morar em certo país), ou quanto ao tempo, de tempore ad tempus (contratou por cinco anos a casa, dizendo ser por três anos), ou quanto à quantidade, de quantitate ad quantitatem (A vende seis caixas e o contrato fala de três), ou quanto a fato, de facto ad factum (A declara que pagou, e não pagou, ou vice-versa), ou quanto ao lugar, de loco ad locum (A assina como se fora concluído no Brasil o contrato que concluíra no Uruguai; cf. Alvaro Valasco, Decisionum Consultationum, II, 369).” A seguir (p. 443, grifo no original): “A simulação supõe que se finja: há ato jurídico, que se quis, sob o ato jurídico que aparece; ou não há nenhum ato jurídico, posto que haja a aparência de algum. A cavilação pode estar à base do dolo, da fraude à lei, da simulação e da fraude contra credores. Daí as semelhanças entre as figuras, suscitando confusões.” Aduz ainda que são elementos dos atos simulados (p. 458): a) a simulação do outorgado (art. 102, 1), ou da categoria jurídica (art. 102, II), ou da data; b) o propósito de simular; c) o prejudicar ou poder prejudicar a terceiros, ou violar a lei (art. 104). Além de Pontes, outros estudiosos da Teoria Geral do Direito também se debruçaram sobre o tema. Marcos Bernardes de Mello e Francisco Ferrara sem dúvida merecem citação. O primeiro assim conceitua simulação (Teoria do fato jurídico: plano de validade, 1ª ed., São Paulo: Saraiva, 1995, p. 153, com grifos no original): Fl. 2059DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 “Simular significa, na linguagem comum, aparentar, fingir, disfarçar. Simulação é o resultado do ato de aparentar, produto do fingimento, da hipocrisia, do disfarce. O que caracteriza a simulação é, precisamente, o não ser verdadeira, intencionalmente, a manifestação de vontade. Na simulação quer-se o que não aparece, não se querendo o que efetivamente aparece. “Ostenta-se o que não se quis; e deixa-se, inostensivo, aquilo que se quis”. Do ponto de vista jurídico, no entanto, a simulação somente constitui defeito invalidante do ato jurídico quando praticada com a intenção de prejudicar terceiros, mesmo quando não havendo má-fé, efetivamente lhes cause dano. À base do ato simulado estão o seu caráter mentiroso e sua natureza danosa a terceiros.” Diferentes formas de simulação Francisco Ferrara, após conceituar simulação, é muito preciso ao explicar as diferentes formas de simulação (A simulação nos negócios jurídicos, Campinas: Red Livros, 1999, p. 49-53), verbis: “Na linguagem corrente, simular significa “fazer aparecer o que não é, mostrar uma coisa que realmente não existe” [...]Mas este significado genérico da simulação, que não chega a dar-nos uma figura própria e autônoma, não tem interesse. É preciso que estudemos o conceito em relação aos negócios jurídicos. Negócio jurídico simulado é o que tem uma aparência contrária à realidade, ou porque não existe em absoluto ou porque é diferente da sua aparência. Entre a forma extrínseca e a essência intima há um contraste flagrante: o negócio que, aparentemente, é sério e eficaz, é, em si, mentiroso e fictício, ou constitue uma máscara para ocultar um negócio diferente. Esse negócio, pois, é destinado a provocar uma ilusão no público, que é levado a acreditar na sua existência ou na sua natureza, tal como aparece declarada, quando, na verdade, ou não se realisou um negócio ou se realisou outro diferente do expresso no contrato.[...] Os requisitos do negócio jurídico simulado são, portanto, os três seguintes: 1.º - uma declaração deliberadamente não conforme com a intenção; 2.º - concertada de acordo entre as partes; 3.º - para enganar terceiras pessoas. O que existe de mais característico no negócio simulado é a divergência intencional entre a vontade e a declaração. O interno, aquilo que se quere, e o externo, o que se declarou, estão em oposição consciente. Com efeito, as partes não querem o negócio; querem somente fazê-lo aparecer e, por isso, emitem uma declaração não conforme com a sua vontade, que predetermina a nulidade do acto jurídico e, ao mesmo tempo, serve para provocar a ilusão falaz da sua existência. Os que simulam pretendem que aos olhos de terceiros apareça formada uma relação que, na realidade, não deve existir, mas da qual se quere mostrar a exterioridade enganadora, mediante uma declaração, a que falta conteúdo volitivo. [...]Esta não-conformidade entre o que se quere e o que se declara é comum a ambas as partes e concertada entre elas. Existe um acordo para emitir a declaração deliberadamente divergente. A simulação presupõe um concerto, um entendimento entre as partes; estas cooperam conjuntamente na criação do acto aparente [...] Sem concurso de todos, a simulação é impossível [...]Finalmente, como elemento integrante do negócio simulado, deve concorrer a finalidade de enganar que anima os seus autores. Isto é o que principalmente dá o seu colorido e a sua razão de ser à simulação, posto que as partes recorrem a esse artifício para fazer crer na existência dum acto não real ou na natureza diferente dum acto realisado seriamente. [...]Adiante, Ferrara cita as diferentes formas de simulação (ob.cit. p 57) “A simulação [...] apresenta diferentes formas: ou se simula a existência do negócio, ou a sua natureza, ou as pessoas dos contratantes. 1.º - As partes propõem-se produzir a aparência do acto que não querem realmente. O acto é inexistente, fictício, ilusório. Tem-se somente uma mera aparência, uma sombra vã, um corpo sem alma, segundo a expressão de Baldo (simulação absoluta). Fl. 2060DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 2.º - As partes realisam um acto embora diferente daquele que aparece exteriormente. O acto está escondido, cerrado, velado. Existe uma ocultação dum negócio verdadeiro sob uma forma mentida (simulação relativa). 3.º - As partes realisam um acto real e patenteiam a sua natureza; sómente querem enganar acêrca da pessoa do verdadeiro contratante. No negócio figura um indivíduo diferente do interessado, um titular fingido, um testa de ferro (interposição)” Segundo Alberto Xavier em sua obra Tipicidade da tributação, simulação e norma antielisiva, São Paulo, Dialética, 2001, p. 56, na simulação fiscal, o fenômeno enganatório pode incidir sobre qualquer dos elementos da obrigação tributária: fato gerador, base de cálculo ou sujeito passivo. (sem grifo no original). No caso em questão, foi constatada pela fiscalização a interposição simulada de pessoa jurídica na contratação dos trabalhadores, ou seja a simulação do sujeito passivo da obrigação tributária. Vale destacar o entendimento de Ferrara (ob. cit. P. 313-314) quanto à interposta pessoa como forma de simulação : Vejâmos agora a interposição fingida como forma especial de simulação. [...]A interposição pode dar-se, também, fingidamente: isto é o interessado pode fazer figurar uma outra pessoa em seu lugar, mas ficando ele, na realidade, na situação de verdadeiro contratante. O objetivo de ocultação dá-se na mesma, mas o modo varia. O dominus não se serve da cooperação efectiva do intermediário, o qual adquire direitos contratuais para lhos transmitir, mas unicamente da sua cooperação nominal: no contrato figura outro como celebrante, mas isto é pura aparência, porque é o dominus que, na realidade, o celebra. A interposta pessoa não intervem no contrato, finge sòmente que intervem. Não é uma parte, mas uma mera mascara de contratante. Direitos e obrigações nem um instante se detêm nela, mas nascem directamente para o patrimônio do dominus, o único que interveio no contrato, ainda que sob um falso nome. A esta espécie de interpostas pessoas são dadas, na prática, denominações um tanto grotescas, mas muito eloquentes tais como homem de palha, cabeça de pau, fantoche. Efectivamente a interposta pessoa é inactiva, passiva, sem vontade: não faz mais do que emprestar o seu nome, nomen commodat. É um empresta-nome, em sentido técnico. [...](sem grifos no original) Efeitos da simulação De acordo com Código Civil a simulação é causa de nulidade do negócio jurídico, e o reconhecimento da invalidade por nulidade do ato ou negócio jurídico deve ser feito pelo Poder Judiciário. Contudo, no campo do Direito Tributário, o art. 149, VII do Código Tributário Nacional, estabelece uma cláusula de exceção a esse procedimento, ao conferir à administração o poder de desconsiderar os atos ou negócios fictícios, fraudados ou simulados, não havendo necessidade, portanto, de demandar judicialmente a nulidade deles para propiciar o aparecimento do ato realmente praticado. Assim, constatando-se a existência de negócio jurídico viciado por simulação, dolo ou qualquer espécie de fraude, a administração tributária tem o dever de comprovar a existência do vício e efetivar o lançamento do respectivo tributo, desconsiderando o ato viciado e/ou considerando aquele efetivamente realizado e encobertado pelo dolo, fraude ou simulação. Meios de prova da simulação Conforme Mello (ob. cit., p. 162), a prova da simulação é difícil. Isso decorre da própria natureza dos atos simulados: são praticados justamente para ludibriar, buscando esconder os atos efetivos. A prova direta de atos que as partes procuram ocultar é árdua quando não impossível. Pode ser feita todavia através de documentos que demonstrem o negócio jurídico real que se procurou dissimular. Justamente por essa dificuldade, admite-se que a simulação seja provada por todos os meios admitidos em Direito, inclusive por indícios e presunções. Fl. 2061DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 Com isso concorda Francisco Ferrara (A simulação nos negócios jurídicos, Campinas: Red Livros, 1999, 430 e 432), verbis: [...] com relação a terceiros, que são alheios à simulação, a prova não sofre limitações nem restrições: todo o meio de prova é admitido para descobrir a aparência ou falsidade do negocio [...] De facto, neste caso não seria aplicável a proïbição da prova por testemunhas e presumpções, porque os terceiros encontram-se sempre na impossibilidade de obter uma prova escrita do fingimento realizados por outros e sem êles o saberem. [...] Efectivamente, os terceiros não podem ter a esperança, a não ser em casos excepcionais, de servir-se duma contra-declaração eventualmente feita pelas partes [...] Verdadeiramente eficaz e fructuosa é só a prova por presumpções, a qual é normalmente o auxílio a que recorrem terceiros para estabelecer a simulação. A simulação como divergência psicológica da intenção dos declarantes, escapa a uma prova directa. Melhor se deduz, se pode arguir, se infere por intuição do ambiente em que surgiu o contrato, das relações entre as partes, do conteúdo do negocio, das circunstâncias que o acompanham. A prova da simulação é uma prova indirecta, de indícios, conjectural (per coniecturas, signa et urgentes suspeciones), e é esta verdadeiramente que fere no coração a simulação, porque a combate no seu próprio terreno. O contrato é submetido a um exame apurado, a uma inquirição subtil e inexorável: indaga-se a causa do seu nascimento, se corresponde na realidade, a uma necessidade económica dos contratantes, e qual ela seja; se foi posto, realmente, em execução ou se continúa, ainda, o estado de facto anterior à sua conclusão, atende-se ao modo e no tempo em que se realisou, às relações respectivas das partes, à sua conducta anterior e posterior ao estabelecimento do contrato, etc. e é difícil que deste exame não transpareça a simulação, e descoberta nos seus íntimos meandros, não se revele, por vezes de modo irresistível. Ferrara, apesar de afirmar a dificuldade da prova direta da simulação, não se furta a abordar os meios probatórios indiretos, elencando-lhes os elementos, que classifica como relativos ao interesse em simular; às pessoas dos contraentes; ao objeto do negócio jurídico; à execução do negócio; à conduta das partes na realização do negócio (ob. cit., pp. 432-449). Entre os diversos elementos capazes de provar a simulação apontados por Ferrara, destacam-se alguns, que merecem ser vistos em maior detalhe pela sua pertinência com o caso em análise. Antes de mais nada, segundo Ferrara, deve-se indagar a respeito da existência de motivo para a simulação, ou seja, “o interesse que leva as partes a estabelecer um acto simulado, a razão que conduz a fazer aparecer um negócio que não existe ou a mascarar um negócio sob uma forma diferente: é o porquê do engano”. Essa causa deve ser “séria e importante (suficiens e idonea), bastante para justificar pela sua índole a realização dum contrato falso ou oculto” de forma a justificar a simulação. Segue afirmando que “estabelecido o interesse em simular, será necessário deduzir outros indícios e presunções que acompanham o acto e se conjugam para provar o seu caráter aparente”. Um dos aspectos relevantes, diz respeito às pessoas dos contratantes, é importante verificar se existe ligação entre estas. Vejamos o que diz Ferrara: [...] coniuctio sanguinis et affectio contrahentium. – Em geral, quando uma pessoa quere fingir uma diminuição do seu patrimônio, dado que deste fingimento pode decorrer um gravíssimo perigo no caso em que o testa de ferro abuse da sua qualidade aparente, procura obviar a este incoveniente escolhendo pessoa de sua confiança. Deste modo acontece que estas vendas simuladas são realisadas não a favor de um extranho, mas dum amigo íntimo, dum parente próximo, como um filho, um irmão, a esposa. É também importante o fato de co-habitação, que demonstra que se trata duma intriga combinada em família. É o caso da domestica fraus de que falam os doutores.” Fl. 2062DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 Também elemento hábil para formar a prova da simulação é a falta de execução material do contrato, a qual, afirma Ferrara, ser “circunstância decisiva para caracterizar um negócio como simulado, visto que a posição de facto dos contratantes não está em harmonia com a sua posição jurídica”. Segue afirmando que “o contrato produziu uma mutação nas relações jurídicas, mas esta mutação permaneceu só no campo do direito: de facto os contratantes continuam a comportar-se com antes; continuando a efectuar os mesmos actos de disfrute e de disposição, como se o contracto não existisse”, tratando- se da “mais clara confissão” da simulação. Ou seja, na execução apenas formal do negócio jurídico, ocorrem mutações meramente jurídicas, comportando-se os contraentes, de fato, de acordo com outro negócio jurídico ou como se não tivesse negócio algum. A prova da simulação é difícil. Isso decorre da própria natureza dos atos simulados: são praticados justamente para ludibriar, buscando esconder os atos efetivos. A prova direta de atos que as partes procuram ocultar é árdua quando não impossível. Pode ser feita todavia através de documentos que demonstrem o negócio jurídico real que se procurou dissimular. Justamente por essa dificuldade, admite-se que a simulação seja provada por todos os meios admitidos em Direito, inclusive por indícios e presunções. Verificação da ocorrência de simulação no caso concreto Motivo sério De acordo com Ferrara, primeiramente, há que se indagar a respeito de motivo sério que pudesse levar à prática da simulação. Não é difícil caracterizar esse fato, pois estava em jogo crédito tributário de alto valor Frise-se que a simulação na contratação de empregados e trabalhadores por meio de outra pessoa jurídica que formalmente os registram, notadamente quando entidade filantrópica (código FPAS 639), ocasiona a redução de encargos previdenciários e causa prejuízos à Seguridade Social. Ressalta-se que a entidade filantrópica está isenta das contribuições de que tratam os artigos 22 e 23 da Lei nº 8.212/91. Ligação entre as partes Está bastante caracterizada, tendo em vista os fortes vínculos familiares entre os responsáveis pelas empresas envolvidas. A Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis tinha como presidente o Dr. Luiz Antônio Zanto Campos Borges, esposo da então Prefeita Municipal Maria Cecília Marchi Borges, e como tesoureira a Sra. Iara Campos Macedo, prima de Luiz Antônio Zanto Campos Borges, nomeada pela Prefeita Municipal. Esclarecedora neste sentido a conclusão do Relatório Final da Comissão Especial de Investigação nº 01/2001, fls. 361/362: "Fica tudo em família. A Prefeita Municipal, que administra a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis e também preside a Fundação Hospital Frei Gabriel, repassa subvenção a essa entidade, que é presidida por seu esposo. Esse, por sua vez, e ao lado de sua prima e Tesoureira da entidade Iara Campos Macedo, nomeada pela Prefeita Municipal (fls. 539), contrata sua própria empresa sem licitação para prestar serviços, pelo valor que entende devido. É bom lembrar que a D. Iara, além de tesoureira da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, é também controladora da Fundação Hospital Frei Gabriel". Divergência entre a realidade e formalidade Neste aspecto a autoridade fiscal, conforme Relatório do Processo Fiscal, fls. 123/276, estribada em farta documentação, elenca diversas circunstâncias que levam a convicção de a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, no período fiscalizado, existiu meramente no plano formal, não possuindo estrutura empresarial própria necessária à realização de seus objetivos. A elas. a) Ausência de patrimônio O patrimônio da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é transferido integralmente para a Fundação Hospital Frei Gabriel - FHFG, em 2005, a partir de sua criação. A Lei Municipal de criação da FHFG, Lei nº 5.165, de 2005, em seu artigo 3º, inciso IV, dispõe que o patrimônio da FHFG será constituído "pelos bens móveis e imóveis, veículos, aparelhos, máquinas, materiais e equipamentos de consumo, que integram o Fl. 2063DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 patrimônio do Hospital Municipal Frei Gabriel, do Município de Frutal e da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, que serão devidamente inventariados e doados posteriormente, através de ato específico". Tal previsão de transferência do patrimônio da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis (uma entidade privada) pela Administração Municipal determinada por Lei Municipal, é forte indicativo de que aquela “empresa” já não mais existia concretamente na ocasião. b) Cessão e absorção dos trabalhadores para FHFG Nos termos do parágrafo 1º do artigo 5º, da Lei de criação da Fundação Hospital Frei Gabriel, o Poder Executivo de Frutal fica autorizado a absorver os funcionários que se fizerem necessários advindos da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, até que seja criado, por lei específica, e consequentemente concursados, os cargos de carreira da Fundação. Todos os funcionários que compõem as folhas de pagamentos/GFIPs da SAHSFA trabalham efetivamente na saúde pública municipal, sobretudo no Hospital Municipal Frei Gabriel. Referida absorção estabelecida na Lei de criação da FHFG revela ser a Prefeitura Municipal de Frutal o verdadeiro empregador destes funcionários, a despeito de serem mantidos no CNPJ da SAHSFA, na medida em que é a Prefeitura quem efetivamente contrata e paga os salários destes trabalhadores através do CNPJ da SAHSFA. c) Identidade de endereços Conforme documentação anexada aos autos nas fls 283 a 289 a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis está estabelecida no mesmo endereço do Hospital Municipal Frei Grabriel/FHFG, ambos localizados na Avenida Brasília nº 333, Jardim das Laranjeiras, Frutal-MG d) Informações prestadas no Cadastro Nacional de Estabelecimentos da Saúde - CNES As informações prestadas no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde - CNES associado ao CNPJ da SAHSFA (20.549.879/0001-32) correspondem a uma verdadeira mistura de informações das entidades citadas, ou seja, ora são relativas ao Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG, ora à suposta SAHSFA, de tal forma a caracterizar a própria confissão acerca da real inexistência de empresas distintas. Referido cadastro deixa muito claro que quando se fala em Hospital Frei Gabriel, Hospital São Francisco de Assis ou Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis está se falando de uma coisa só: Hospital Municipal Frei Gabriel/Fundação Hospital Frei Gabriel. Na ficha de identificação do citado CNES (fl. 290), é fácil constatar a confusão mencionada. No campo “Nome” está informado HOSPITAL SAO FRANCISCO DE ASSIS HOSP FREI GABRIEL; no campo “Nome Empresarial” está informado “SOCIEDADE AMIGOS HOSPITAL SAO FRANCISCO DE ASSIS”; o CNPJ informado é o da SAHSFA; os campos relativos ao endereço e telefone dizem respeito, formalmente, tanto à FHFG, como à SAHSFA. Concretamente, correspondem ao endereço e telefone do Hospital Municipal Frei Gabriel; no campo “tipo de Estabelecimento” está informado “HOSPITAL GERAL”, restando claro estar se reportando ao HOSPITAL FREI GABRIEL, uma vez que, conforme já falamos, a SAHSFA, ainda que existisse de fato, não seria um Hospital; no campo “Esfera Administrativa” está informado “PRIVADA”, alusão, portanto, à SAHSFA, enquanto no campo “Gestão” está informado “MUNICIPAL”. Na ficha “Consulta Estabelecimento - Módulo Básico” (fls. 291), novamente consta como nome do estabelecimento a informação HOSPITAL SAO FRANCISCO DE ASSIS HOSP FREI GABRIEL”. O CNPJ também se repete, ou seja, é o da SAHSFA, contudo, o e-mail informado (smsfrutal@frutal.mg.gov.br) é o da Secretaria Municipal de Saúde, assim como o Diretor Clínico informado é o ex-Secretário Municipal de Saúde (Dr. José Plínio dos Reis), informações estas, portanto, claramente associadas à FHFG, pois corresponde ela a uma Fundação Municipal. Resumindo, no CNES do Ministério da Saúde, ora analisado, constata-se que o CNPJ é da SAHSFA, o nome/nome do estabelecimento faz referência ao Hospital Municipal Frei Gabriel, assim como ao antigo Hospital São Francisco de Assis e à Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, enquanto todas as demais informações Fl. 2064DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 relativas à estrutura do estabelecimento de saúde cadastrado dizem respeito ao Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG. No caso, não há nenhuma dúvida de se tratar rigorosamente do CNES do HOSPITAL FREI GABRIEL/FHFG (uma Fundação Hospitalar Pública Municipal), informado, porém, no CNPJ da SAHSFA (supostamente uma entidade privada). e) Declarações de Imposto Retido na Fonte - DIRF As Declarações de Imposto Retido na Fonte elaboradas em nome e CNPJ da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis entregues em 01/04/2014 e 21/03/2015 foram informadas por Marília Gonçalves Martins, CPF 075.400.166-04, que não possuía, à época, vínculo com a referida entidade, seus vínculos eram com a Prefeitura Municipal de Frutal. f) Unicidade/sobreposição administrativa, operacional e financeira A autoridade fiscal constatou que a SAHSFA não possui administração própria, não tem independência financeira, nem operacional. Conforme depoimento do Dr. Luiz Antônio Zanto Campos Borges (fls. 417/419), toda a receita da SAHSFA se resume aos chamados subsídios transferidos pela Prefeitura Municipal, e a verbas do SUS. Frise-se que a autoridade fiscal constatou que todas as receitas registradas no CNPJ da SAHSFA são na verdade recursos da Administração Municipal, por ela utilizados no pagamento de despesas também verdadeiramente suas. Registra ainda que nenhuma receita foi localizada nos inúmeros balancetes analíticos da SAHSFA relativamente às receitas SUS, tendo sido identificados tão-somente a receita do tipo "subvenção prefeitura". Aduz que mesmo que tenham sido eventualmente destinadas à SAHSFA verbas do SUS, tais recursos seriam da administração municipal, pois decorrente exclusivamente dos atendimentos prestados no Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG. Os subsídios, repassados pela Prefeitura Municipal à SAHSFA, foram destinados ao pagamento de despesas pré-estabelecidas e relacionadas ao funcionamento do Hospital Municipal Frei Gabriel, abrangendo este procedimento inclusive as mais miúdas despesas. Relativamente às despesas, todas as despesas pagas no âmbito da suposta entidade referem-se ao funcionamento do Hospital Municipal Frei Gabriel A unicidade administrativa da SAHSFA e da Fundação Hospital Frei Gabriel, exercida integralmente pela Prefeitura Municipal de Frutal, é sem dúvida mais uma das marcas da efetiva sobreposição destas entidades, que deve ser entendida no presente caso com a existência formal das duas entidades citadas acima, mas, de fato, pela existência de uma única e indivisível estrutura empresarial, ou seja, pela existência de uma única entidade, qual seja, o Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG, uma Fundação Pública, submetida à administração Pública de Frutal. Também matérias jornalísticas, extraídas do veículo TV Itagipe, quanto extraídas da internet, noticiam no mesmo sentido das conclusões do auditor fiscal, conforme relatado nos itens 147 a 191 do Relatório do Processo Fiscal, fls. 123/276. g) Depoimentos prestados na Comissão Especial de Investigação Os depoimentos de diversas pessoas da administração municipal prestados na Comissão Especial de Investigação nº 01/2011 convergem para as conclusões de que a) a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, no período fiscalizado, é uma empresa inexistente de fato, sobreposta a Fundação Hospital Frei Gabriel, fachada da Prefeitura Municipal de Frutal e por esta utilizada no intuito exclusivo de subtrair as contribuições previdenciárias destinadas à seguridade social; e b) vários médicos contratados como pessoa jurídica através da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis são, na verdade, empregados da Prefeitura Municipal de Frutal. 1) Depoimento prestado por Dr. José Plínio dos Reis, na época Secretário Municipal de Saúde de Frutal (fls. 413 a 416), no qual diz: “que a Secretaria de Saúde juntamente com a Prefeitura Municipal fizeram uma análise de como funcionaria a Fundação Frei Gabriel, que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, por se tratar de uma entidade filantrópica privada foi mantida com o Fl. 2065DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 objetivo de diminuir os custos de contratação de pessoal para manutenção do Hospital Municipal Frei Gabriel”...; "que a Fundação Frei Gabriel não tem médicos contratados por ela, os médicos que atuam no Hospital Frei Gabriel ou são contratados pela Prefeitura ou pela Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis;" Este depoimento elucida que a despeito de ser a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis uma entidade supostamente privada, quem decidiu sobre a manutenção de sua existência formal foi a administração municipal. “que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis colabora com a parte de contratação de pessoal, para diminuição dos encargos patronais, sendo este o motivo de sua existência até hoje”...; “que a partir deste ano, tendo em vista a Lei de Responsabilidade Fiscal, a prefeitura para manter dentro do seu percentual de limite de gasto de pessoal teve que passar os médicos contratados para a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, se for para contratar todos os médicos pela prefeitura a mesma não consegue cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal”; “há empresas prestadoras de serviços médicos contratados pela Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, tendo em vista a impossibilidade dos contratos dos médicos serem realizados diretamente com o município diante da alta carga patronal”; Resta evidente que o motivo da existência da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis meramente no plano formal tem por objetivo, além de escapar da Lei de Responsabilidade Fiscal, reduzir a cota patronal das contribuições previdenciárias, e que os médicos contratados apenas tiveram vínculos passados formalmente para o CNPJ da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, sendo o verdadeiro contratante/empregador a Prefeitura Municipal de Frutal. “que a Fundação Hospital Frei Gabriel não tem médicos contratados por ela, os médicos que atuam no Hospital Frei Gabriel ou são contratados pela Prefeitura ou pela Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis; que o pagamento dos médicos é feito pela Prefeitura ou por prestação de serviços através da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis (...) se a contratação for direta pela prefeitura a responsabilidade da contratação é da prefeita municipal como gestora, se a contratação for de empresa, a responsabilidade é do Secretário Municipal (...); Que a contratação do Dr. Zanto foi decidida em função da necessidade de seus serviços, bem como porque ele já prestava serviços antes, foi decisão do Secretário Municipal, que o Dr. Zanto tem dois tipos de serviço, um como médico contratado pela prefeitura e outro como prestador de serviço através de sua empresa, no primeiro ele atende basicamente a zona rural nos postos de saúde, através dos serviços empresariais ele realiza cirurgias; que ele é proprietário de uma empresa jurídica que presta serviços à Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, que não recorda o nome da empresa.” "que o aumento no pedido de subvenção à Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis se dá em função da melhoria e do aumento do atendimento do Hospital Frei Gabriel, que aumenta o pedido de subvenção para a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis porque a maioria dos contratos são feitos por essa entidade; que o aumento do volume de atendimento e da qualidade do atendimento do Hospital Municipal Frei Gabriel exige aumento das subvenções" Não resta outra conclusão senão aquela evidenciada pela autoridade fiscal de que "quem efetivamente remunera os funcionários atuantes no Hospital Municipal Frei Gabriel cujos vínculos sejam formalizados através da SAHSFA é a Prefeitura Municipal de Frutal, o que se concretiza através dos subsídios que são repassados a esta suposta 'empresa'. A propósito, toda a receita registrada no CNPJ da SAHSFA se resume aos chamados subsídios transferidos pela Prefeitura Municipal e às verbas do SUS, que por sua vez são, verdadeiramente, receitas obtidas através do Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG" Assim, não se trata da existência de uma entidade/sociedade privada que mantém um hospital público através de recursos (subsídios) repassados pelo poder público municipal. Mas sim, da existência de um hospital municipal público (Hospital Municipal Frei Gabriel/FHFG) mantido integralmente pela Prefeitura Municipal de Frutal, que se utiliza do CNPJ de uma sociedade de fachada (Sociedade Amigos do Fl. 2066DF CARF MF Fl. 18 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 Hospital São Francisco de Assis), existente somente no plano formal, declarada em GFIP como isenta de contribuições previdenciárias, para formalizar a contratação e o pagamento da maior parcela dos trabalhadores que prestam serviço neste hospital municipal, tudo como meio de afastar o pagamento das contribuições previdenciárias patronais previstas na Lei nº 8.212/91. No mesmo sentido os depoimentos do então Presidente da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, Dr. Luiz Antônio Zanto Campos Borges, (fls. 417/419), do Dr. José Aparecido Gualberto (fls. 448/449); da Sra. Iara Campos Macedo (fls. 486/487); e, do Sr. Moacir Félix Sobrinho (fls. 490/491), parcialmente transcritos abaixo: Dr. Luiz Antônio Zanto Campos Borges "que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis mantém uma relação íntima com a Fundação Frei Gabriel tendo em vista a necessidade de aproveitamento do pessoal da antiga Santa Casa para funcionamento do Hospital Frei Gabriel;" "que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis tem como receitas as subvenções repassadas pela prefeitura municipal e as verbas do SUS; que a maior parte dos recursos da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é destinada ao pagamento de folha de pagamento; que os aumentos de pedidos de subvenção para a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis se dá devido ao aumento dos atendimentos e das despesas” Dr. José Aparecido Gualberto "Que é servidor contratado pelo Município de Frutal; que atua especificamente no Hospital Frei Gabriel, que não sabe precisar o ano que iniciou seu contrato, que não atende em clínica particular; que recebe pela Prefeitura de Frutal por atendimento, que o serviço de anestesia recebe pela Fundação Frei Gabriel; (...) que ele recebe parte do vencimento através da Prefeitura e outra parte através de nota fiscal emitida por uma empresa que não sabe dizer o nome; que este procedimento se dá para diminuição da carga tributária" Sra. Iara Campos Macedo (fls. 486/487) (...) "que os médicos que atuam no Hospital Frei Gabriel são contratados pela prefeitura municipal e pela Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, não há médicos contratados pela fundação” Sr. Moacir Félix Sobrinho (fls. 490/491) "que é contador da Fundação Hospital Frei Gabriel, explicando que a contabilidade é feita em conjunto com a do Município de Frutal; (...)que não tem nenhuma informação sobre a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis; que não sabe informar se há médicos contratados pela Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis; (...) que não existe folha de pagamento da Fundação Frei Gabriel, que todos os médicos são contratados pela Prefeitura Municipal; (...)Ainda neste sentido são as conclusões da CEI nº 001/2011 da Câmara Municipal de Frutal, nos termos do Relatório Final, composto de farta documentação, que demonstram a real relação entre a Prefeitura Municipal de Frutal, a Fundação Hospital Frei Gabriel e a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. Das transcrições relatadas na seção F do Relatório do Processo Fiscal, destaca-se a da página 42 do Relatório Final da CEI, abaixo. "Para burlar a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Município de Frutal liderado por sua prefeita, Maria Cecília Marchi Borges, de forma flagrante, passou a contratar médicos e suas clínicas através da entidade Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, presidida pelo seu esposo, o médico Luiz Antônio Zanto Campos Borges. Essa entidade tem como única fonte de recursos a transferência de subvenção do poder público." "Além disso, para consumação da fraude (triangulação de recursos através de entidade privada), médicos atuantes no município foram instruídos a proceder a abertura de pessoas jurídicas para prestação de serviços médicos neste incluídos o presidente da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, esposo da prefeita, e o próprio Secretário Municipal de Saúde." "O que chama a atenção é que os depoimentos indicam que a única finalidade prática da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é a de proceder o pagamento (de Fl. 2067DF CARF MF Fl. 19 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 parte) da folha salarial dos médicos e da contratação irregular das empresas prestadoras de serviço." Todas as circunstâncias acima, entre estas, a identidade de endereços; a previsão legalmente estabelecida de ser o patrimônio da FHFG constituído pela totalidade dos bens da SAHSFA; a autorização ao Poder Executivo Municipal absorver os trabalhadores da SHASFA em favor da FHFG; as inúmeras declarações contidas no Cadastro Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, no qual há o literal reconhecimento de o Hospital Frei Gabriel e a SAHSFA se confundirem; os diversos depoimentos prestados à CEI nº 01/2011, confirmam que a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA existe meramente no plano formal, tendo sido mantido o seu CNPJ formalmente ativo apenas para que a Administração Municipal de Frutal dele se utilize nas situações que lhe convier, em especial para nele formalizar/registrar parte expressiva dos trabalhadores contratados e remunerados pela Prefeitura de Frutal atuantes no Hospital Municipal Frei Gabriel, tudo com vistas a alcançar o objetivo último que é deixar de pagar a cota patronal das contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações dos aludidos trabalhadores, na medida em que as GFIPs elaboradas no CNPJ da SAHSFA, dissemos outrora, são elaboradas e apresentadas à administração tributária federal no código FPAS 639 (entidade isenta de contribuições previdenciárias). Vejamos abaixo as diversas situações nas quais o Município de Frutal utilizou o CNPJ da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis para contratar e remunerar segurados empregados e segurados contribuintes individuais a seu serviço, e consequentemente deixar de pagar as contribuições previdenciárias incidentes sobre as suas remunerações. utilização da SAHSFA para pagamento da rubrica "produtividade" para os médicos empregados do Município de Frutal Restou evidenciado nos autos que os valores pagos aos médicos vinculados a Prefeitura Municipal de Frutal, relativos a rubrica P332 - produtividade, a partir de outubro de 2011, deixaram de constar das GFIPs da prefeitura e passaram a ser pagos pela SAHSFA. demonstram a real relação entre a Prefeitura Municipal de Frutal, a Fundação Hospital Frei Gabriel e a Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. Das transcrições relatadas na seção F do Relatório do Processo Fiscal, destaca-se a da página 42 do Relatório Final da CEI, abaixo. "Para burlar a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Município de Frutal liderado por sua prefeita, Maria Cecília Marchi Borges, de forma flagrante, passou a contratar médicos e suas clínicas através da entidade Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, presidida pelo seu esposo, o médico Luiz Antônio Zanto Campos Borges. Essa entidade tem como única fonte de recursos a transferência de subvenção do poder público." "Além disso, para consumação da fraude (triangulação de recursos através de entidade privada), médicos atuantes no município foram instruídos a proceder a abertura de pessoas jurídicas para prestação de serviços médicos neste incluídos o presidente da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, esposo da prefeita, e o próprio Secretário Municipal de Saúde." "O que chama a atenção é que os depoimentos indicam que a única finalidade prática da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis é a de proceder o pagamento (de parte) da folha salarial dos médicos e da contratação irregular das empresas prestadoras de serviço." Todas as circunstâncias acima, entre estas, a identidade de endereços; a previsão legalmente estabelecida de ser o patrimônio da FHFG constituído pela totalidade dos bens da SAHSFA; a autorização ao Poder Executivo Municipal absorver os trabalhadores da SHASFA em favor da FHFG; as inúmeras declarações contidas no Cadastro Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, no qual há o literal reconhecimento de o Hospital Frei Gabriel e a SAHSFA se confundirem; os diversos depoimentos prestados à CEI nº 01/2011, confirmam que a Sociedade Amigos do Fl. 2068DF CARF MF Fl. 20 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 Hospital São Francisco de Assis - SAHSFA existe meramente no plano formal, tendo sido mantido o seu CNPJ formalmente ativo apenas para que a Administração Municipal de Frutal dele se utilize nas situações que lhe convier, em especial para nele formalizar/registrar parte expressiva dos trabalhadores contratados e remunerados pela Prefeitura de Frutal atuantes no Hospital Municipal Frei Gabriel, tudo com vistas a alcançar o objetivo último que é deixar de pagar a cota patronal das contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações dos aludidos trabalhadores, na medida em que as GFIPs elaboradas no CNPJ da SAHSFA, dissemos outrora, são elaboradas e apresentadas à administração tributária federal no código FPAS 639 (entidade isenta de contribuições previdenciárias). Vejamos abaixo as diversas situações nas quais o Município de Frutal utilizou o CNPJ da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis para contratar e remunerar segurados empregados e segurados contribuintes individuais a seu serviço, e consequentemente deixar de pagar as contribuições previdenciárias incidentes sobre as suas remunerações. utilização da SAHSFA para pagamento da rubrica "produtividade" para os médicos empregados do Município de Frutal Restou evidenciado nos autos que os valores pagos aos médicos vinculados a Prefeitura Municipal de Frutal, relativos a rubrica P332 - produtividade, a partir de outubro de 2011, deixaram de constar das GFIPs da prefeitura e passaram a ser pagos pela SAHSFA. Veja-se nesse sentido, a título ilustrativo, a situação individual do médico André Luis Mendonça Feliciano. Contratado como empregado pela Prefeitura Municipal de Frutal recebia sua remuneração sob quatro rubricas: "salários contratados", "insalubridade", "plantões", e "produtividade" (documento 43, fls. 1220/1224) até o mês de setembro de 2011; e, a partir de outubro de 2011, os valores que eram pagos na folha sob o título "produtividade" passaram a ser pagos ao Dr. André Luís Mendonça, na condição de médico autônomo, através do CNPJ da SAHSFA (documento 40, fls. 1043/1105). b) utilização da SAHSFA para pagamentos a médicos empregados do Município de Frutal informados como autônomos na folha de pagamento Destaca-se ainda que vários médicos plantonistas do Hospital Municipal Frei Gabriel receberam remuneração por intermédio da SAHSFA como se fossem profissionais autônomos. As folhas de pagamento (elaboradas em nome da SAHSFA) discriminam as remunerações pagas aos profissionais (médicos autônomos) consignando o expressivo e continuado pagamento das rubricas "plantões gerais" e "plantões específicos", assim como valores decorrentes dos atendimentos ambulatoriais realizados no Hospital Municipal Frei Gabriel e a título de produtividade (documento 40, fls. 1043/1105). Chama a atenção ainda que vários médicos informados como autônomos nas DIRF e folhas de pagamento elaboradas em nome da SAHSFA receberam no ano de 2013, 13º salário. c) utilização da SAHSFA para pagamento de médicos empregados do Município de Frutal informados como "pessoas jurídicas" na folha de pagamento A administração pública do Município de Frutal, também se utilizou da SAHSFA para contratação de médicos como se fossem pessoas jurídicas (discriminadas na fl. 447 - documento 11b) para atuarem na rede municipal de saúde, em especial no Hospital Frei Gabriel. Tais médicos recebiam suas remunerações, inclusive as decorrentes de seus plantões, através de notas fiscais emitidas pelas pessoas jurídicas das quais seriam sócios, consoante comprovado pelas folhas de pagamento elaboradas em nome da SAHSFA. Chama a atenção que as folhas de pagamento discriminavam os valores destinados a cada médico, o que não é normal em situações nas quais se tratem realmente da contratação de empresas. Vejamos a título ilustrativo os pagamentos na competência janeiro de 2011 (fls. 1044) à pessoa jurídica Desenvolvimento Cultural e Saúde de Frutal Ltda., cujos valores pagos a título de plantão geral, plantão específico estão discriminados para os sócios, Dr. José Plínio dos Reis e Dr. José Aparecido Gualberto, sendo emitida uma nota fiscal para cada médico. Alguns médicos sequer possuiam vínculos formais com as pessoas jurídicas emitentes das Notas Fiscais, simplesmente utilizaram-se de Notas Fiscais para receberem suas Fl. 2069DF CARF MF Fl. 21 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 remunerações através da SAHSFA. Cita-se neste caso, como exemplo, os pagamentos efetuados a Marcelo Ramos Ferrari, que recebeu remunerações pelos "Plantões Especialidade" prestados na rede pública municipal de saúde de Frutal, sobretudo no Hospital Frei Gabriel, nas competências março de 2011 a maio de 2011, através de notas fiscais emitidas pela pessoa jurídica Desenvolvimento Cultural e Saúde Frutal Ltda; na competência junho de 2011, através da Nota Fiscal pela pessoa jurídica Med- Saúde - Cooperativa de Serviços de Saúde de Uberaba e Região. A autoridade fiscal constatou ainda que os pagamentos referentes às "pessoas jurídicas" foram de fato destinados diretamente às contas bancárias dos médicos sócios, o que restou comprovado com os documentos anexados aos autos. Veja-se o documento 52, fl. 1405, que corresponde a cópia do cheque 850284, emitido em nome da SAHSFA, cujo beneficiário é a Clínica Imagem. Não obstante, o comprovante de depósito demonstra que o cheque foi integralmente depositado na conta do Dr. Aldo Benjamin Rodrigues Barbosa, que é um dos médicos que recebe parte de sua remuneração através da SAHSFA (através do documento mencionado) e parte diretamente pela Prefeitura Municipal de Frutal, tendo com esta, vínculo formal de emprego desde 01/07/2008. Nesse sentido vários outros exemplos citados pela autoridade fiscal nos itens 290 a 320 do Relatório do Processo Fiscal, fls. 123/276. Conforme exposto pela fiscalização e demonstrado nos autos os trabalhos prestados por esses médicos pessoas físicas preencheram todos os requisitos necessários à caracterização dos segurados como empregados, na forma do disposto inciso I do artigo 12 da Lei 8.212/91, que define como segurado empregado aquele que presta serviço de natureza urbana à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração. De fato, a não eventualidade mostrou-se presente na medida em que contínua e habitual a prestação dos serviços e em decorrência dos serviços médicos prestados serem da essência da atividade fim do Hospital Municipal Frei Gabriel. Quanto à pessoalidade, também restou evidenciada nos autos essa característica, vez que prestação dos serviços deveria se concretizar pessoalmente por um médico específico em cada caso, que não poderia ser substituído por outro profissional quando do cumprimento, por exemplo, de suas escalas de plantões, ou ainda, quando da realização de cirurgias e atendimentos ambulatoriais no Hospital Municipal Frei Gabriel. A onerosidade é inquestionável, merecendo destaque no caso concreto que os valores pagos aos médicos pela Prefeitura Municipal de Frutal, no âmbito do CNPJ da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, através das pessoas jurídica relacionadas nos documentos 40 e documento 11-b, dizem respeito a parcelas remuneratórias exclusivas de empregados regidos pela CLT, como é o caso dos valores pagos a título de plantões médicos e produtividade, restando comprovado que tais remunerações, anteriormente à utilização das pessoas jurídicas, eram pagas diretamente pela Prefeitura nos holerites dos médicos. Todos os médicos destinatários de remunerações estavam sujeitos à escala de plantões, bem como detalhado controle de atendimentos e de produtividade, a cargo da Diretoria Clínica da Fundação Hospital Frei Gabriel/Hospital Municipal Frei Gabriel. Ademais a grande maioria possui vínculo funcional com a Prefeitura Municipal de Frutal, correspondendo a remuneração recebida como pessoa jurídica apenas uma parte de suas remunerações totais decorrentes de suas atuações na rede pública municipal de saúde, sobretudo no Hospital Municipal Frei Gabriel, conforme vários depoimentos colacionados ao processo, o que demonstra de forma clara a presença do requisito da subordinação. Nesse sentido, considerando-se a prerrogativa atribuída pela legislação à autoridade fiscal, nos termos do artigo 229, § 2o do RPS, que dispõe que "se o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o Fl. 2070DF CARF MF Fl. 22 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 enquadramento como segurado empregado", correta a apuração das contribuições na forma como realizada. d) utilização da SAHSFA para pagamento de parte da folha de pagamento da Prefeitura Municipal. A autoridade fiscal constatou ainda a divisão da folha de pagamento dos trabalhadores atuantes na área de saúde, sobretudo no Hospital Municipal Frei Gabriel. Parte da remuneração dos trabalhadores migrou para a folha de pagamento da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. Nessa situação, a auditoria identificou 20 (vinte) trabalhadores, conforme documento elaborado nas fls. 495/593 (documento 18). A título exemplificativo, a situação dos empregados Ivani Aparecida, Cleonice Gonçalves e Leandro Leonel esclarece que, em que pesem existirem dois vínculos, um no CNPJ da Prefeitura e outro no CNPJ da SAHSFA, seus vínculos se davam apenas com a Prefeitura Municipal de Frutal. e) utilização da SAHSFA para pagamento a Agentes Comunitários de Saúde - ACS. As atividades de Agente Comunitário da Saúde regem-se pela Lei nº 11.350/2006, que no seu artigo 2º dispõe que o exercício das atividades dos Agentes Comunitários de Saúde dar-se-á mediante vínculo direto entre os referidos Agentes e órgão ou entidade da administração direta, autárquica ou fundacional; e em seu artigo 16 diz que é vedada a contratação temporária ou terceirizada de Agentes Comunitários de Saúde. A Prefeitura Municipal de Frutal realmente contratou e remunerou algumas dezenas destes trabalhadores, cujos vínculos foram corretamente formalizados. Contudo a utilização do CNPJ da SAHSFA pela Prefeitura Municipal para formalização de parte expressiva dos vínculos de seus empregados, acabou fazendo com que tal circunstância se verificasse com, pelo menos, 3 (três) destes agentes (documento 22). f) Utilização da SAHSFA para pagamento a pessoas físicas Foram informadas nas GFIPs da SAHSFA remunerações destinadas a segurados contribuintes individuais (profissionais autônomos) - não médicos, discriminados no quadro de fls. 1752/1756- documento 55, onde constam, por competência, os nomes e NIT dos trabalhadores autônomos. Mencionados trabalhadores e suas respectivas remunerações deveriam ser declaradas nas GFIPs elaboradas pela Prefeitura Municipal de Frutal. Como se pode ver, as alegações da autuada não condizem com a prova dos autos, que comprova sobejamente que a entidade Sociedade Amigos do Hospital São Francisco, no período fiscalizado, existe apenas formalmente, para aproveitamento – indevido – dos benefícios das isenções das contribuições previdenciárias patronais, tal qual constatado pela autoridade fiscal. A autoridade lançadora elenca no Relatório do Processo Fiscal diversos elementos e situações que, em seu conjunto, permitem concluir-se quem, no caso em apreço, efetivamente contratou e remunerou os trabalhadores que prestaram serviços na área da saúde, sobretudo no Hospital Municipal Frei Gabriel. Diante de todas as evidências e constatações, caberia à Autuada demonstrar e/ou comprovar que não ocorreram os fatos relatados, ou seja, que a entidade, no período fiscalizado, existia de fato, mediante a apresentação de provas que poderiam alterar, modificar ou anular o procedimento fiscal. Entretanto, deste ônus não se desincumbiu. Conclusão quanto à simulação no caso concreto Concluo dessa análise que restou comprovada a interposição simulada da pessoa jurídica Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis – existente meramente no plano formal - na contratação de segurados empregados e contribuintes individuais, servindo sua existência tão-somente para a contratação de trabalhadores e ocultação do verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, de forma a reduzir o valor da contribuição previdenciária. Constatada a interposição simulada de pessoa jurídica, restam prejudicadas as alegações relativas aos convênios firmados pela SAHSFA, a luz do disposto no artigo 149, VII do Código Tributário Nacional. Assim, tendo também presente o princípio da primazia da realidade, aplicável à relação previdenciária, assim como à trabalhista, e segundo o qual os fatos devem prevalecer Fl. 2071DF CARF MF Fl. 23 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 em relação à aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, é de se manter o lançamento das contribuições previdenciárias devidas em nome do Município de Frutal, incidentes sobre a remuneração dos trabalhadores que lhe prestaram serviços, ainda que formalmente vinculados a entidade Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis. Da multa de ofício de 150% No tocante à multa aplicada, a impugnante requer a sua exclusão sustentando que a multa aplicada é ilegal e inconstitucional, posto que o artigo 150, inciso IV da Constituição Federal não admite imposto que resulte em confisco, e que nos presentes autos, o que se evidencia de forma gritante é a multa confiscatória de 150% aplicada, sendo evidente que se trata de confisco. Alega ainda que o princípio da capacidade contributiva não foi observado. Quanto às alegações em referência são de todo inócuas no âmbito administrativo, considerando-se que a vedação ao confisco insere-se como cláusula integrante das limitações ao poder de tributar, ou seja, o art. 150, IV, da Constituição Federal, que prescreve comando destinado ao legislador, para que este não crie tributo que supere as forças patrimoniais do contribuinte, subtraindo-lhe, indevidamente, os recursos de que necessita à sua manutenção. Por sua vez, a autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada. Positivada a norma, é dever aplicá-la, sem perquirir acerca dos efeitos que gerou. Outrossim, nos termos do artigo 26-A do Decreto nº 70.235/72, que rege o contencioso administrativo fiscal federal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, salvo algumas situações específicas não configuradas no caso em tela. A multa de ofício de 150%, incidente sobre as contribuições lançadas, foi aplicada, conforme consta do anexo FLD, com suporte no artigo 35-A da Lei n.º 8.212, de 24 de julho de 1991, incluído pela Medida Provisória n.º 449, de 04 de dezembro de 2008, convertida na Lei n.º 11.941/2009, combinado com o artigo 44, inciso I, e seu parágrafo 1.º da Lei n.º 9.430, de 27 de dezembro de 1996, na redação dada pela Lei n.º 11.488, de 15 de junho de 2007. O artigo 44, inciso I, e seu parágrafo 1.º da Lei n.º 9.430/96 rezam que, “in verbis”: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; [...]§ 1.º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. A aplicação da multa qualificada de 150% está, portanto, relacionada à ocorrência das circunstâncias previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, que rezam, “verbis”: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir Fl. 2072DF CARF MF Fl. 24 do Acórdão n.º 2401-006.810 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10972.720053/2015-00 ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Nos presente processo, restou comprovado que a contribuinte mascarou a contratação de trabalhadores por meio da interposição simulada da pessoa jurídica Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, entidade filantrópica, existente meramente no plano formal, para ocultar o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, demonstrando o intuito doloso de fraude, tendente a impedir a ocorrência dos fatos geradores das obrigações tributárias principais, de modo a reduzir o pagamento das contribuições previdenciárias devidas. A sonegação se mostra presente, uma vez que, utilizando-se de pessoa jurídica existente meramente no plano formal, para contratação dos trabalhadores a seu serviço, a autuada não efetua a declaração dos segurados e suas respectivas remunerações em GFIPS, excluindo da Administração Fazendária o conhecimento a respeito da ocorrência de fatos geradores de contribuições previdenciárias. Nada há a reparar no tocante a multa aplicada. Do pedido de juntada de documentos Por último, quanto ao requerimento de juntada de documentos relativos a folhas de pagamento, GFIPS, Relatório de quantidade de servidores por lotação, todos do período de janeiro de 2001 a novembro de 2009, bem como pesquisa de Situação Fiscal junto à RFB e Consulta de Débitos na RFB e na PGFN, da Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, que diz encontrarem-se em poder da RFB, cumpre dizer que o presente lançamento trata de exigência de contribuições previdenciárias relativas no período de dezembro de 2009 a dezembro de 2013. Indefiro, portanto, a solicitação de juntada de documentos. Razão pela qual mantenho o decidido pela instância de piso, e nego provimento ao recurso voluntário. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, voto para CONHECER DO RECURSO e no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 2073DF CARF MF
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