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Numero do processo: 10580.000413/2003-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon May 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples
Ano-calendário: 1998
OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
A presunção legal de omissão de receita prevista no art. 42 da Lei n° 9.430/1996 autoriza a tributação com base em depósitos bancários, sendo que, o art. 18 da Lei nº 9.317/96, não é incompatível com a Lei 9.430/96.
OPERAÇÕES COM VEÍCULOS USADOS.
A caracterização das operações como vendas em consignação por comissão, por abranger prestação de serviços, exige não apenas registros específicos nos livros fiscais, que devem guardar coerência com a movimentação financeira da empresa, mas também a demonstração de toda uma lógica própria, com regras que evidenciem as condições para a prestação destes serviços, os percentuais de comissão, a apuração desta etc.
Se a Contribuinte pratica a compra e venda de veículos usados, ou mesmo a consignação por venda, a base para a incidência dos tributos deve abranger o total dos valores recebidos, e não apenas uma parcela destes, a título de comissão recebida.
No caso, também não é aplicável a regra do art. 5º da Lei 9.716/1998, que permite a equiparação destas outras operações, para efeitos tributários, à operação de consignação por comissão, uma vez que a Contribuinte é optante do Simples, e, portanto, já usufrui de um tratamento tributário diferenciado. Se a sistemática do regime simplificado tivesse que abarcar as normas que tratam de isenções específicas, creditamento, reduções de base de cálculo, substituição tributária, diferimentos, etc., restaria bastante comprometida a simplificação na apuração dos tributos, e é esta a razão pela qual os benefícios obtidos com o Simples (que é opcional) excluem os outros previstos para as pessoas jurídicas que adotam os regimes normais de tributação
Numero da decisão: 1401-002.322
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o Conselheiro Daniel Ribeiro Silva que dava provimento parcial ao recurso.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves- Presidente.
(assinado digitalmente)
Letícia Domingues Costa Braga - Relator.
Participaram do julgamento do presente processo os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Letícia Domingues Costa Braga, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Lívia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto e Daniel Ribeiro Silva..
Nome do relator: LETICIA DOMINGUES COSTA BRAGA
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ementa_s : Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples Ano-calendário: 1998 OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. A presunção legal de omissão de receita prevista no art. 42 da Lei n° 9.430/1996 autoriza a tributação com base em depósitos bancários, sendo que, o art. 18 da Lei nº 9.317/96, não é incompatível com a Lei 9.430/96. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS USADOS. A caracterização das operações como vendas em consignação por comissão, por abranger prestação de serviços, exige não apenas registros específicos nos livros fiscais, que devem guardar coerência com a movimentação financeira da empresa, mas também a demonstração de toda uma lógica própria, com regras que evidenciem as condições para a prestação destes serviços, os percentuais de comissão, a apuração desta etc. Se a Contribuinte pratica a compra e venda de veículos usados, ou mesmo a consignação por venda, a base para a incidência dos tributos deve abranger o total dos valores recebidos, e não apenas uma parcela destes, a título de comissão recebida. No caso, também não é aplicável a regra do art. 5º da Lei 9.716/1998, que permite a equiparação destas outras operações, para efeitos tributários, à operação de consignação por comissão, uma vez que a Contribuinte é optante do Simples, e, portanto, já usufrui de um tratamento tributário diferenciado. Se a sistemática do regime simplificado tivesse que abarcar as normas que tratam de isenções específicas, creditamento, reduções de base de cálculo, substituição tributária, diferimentos, etc., restaria bastante comprometida a simplificação na apuração dos tributos, e é esta a razão pela qual os benefícios obtidos com o Simples (que é opcional) excluem os outros previstos para as pessoas jurídicas que adotam os regimes normais de tributação
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DEPÓSITOS BANCÁRIOS. A presunção legal de omissão de receita prevista no art. 42 da Lei n° 9.430/1996 autoriza a tributação com base em depósitos bancários, sendo que, o art. 18 da Lei nº 9.317/96, não é incompatível com a Lei 9.430/96. OPERAÇÕES COM VEÍCULOS USADOS. A caracterização das operações como vendas em “consignação por comissão”, por abranger prestação de serviços, exige não apenas registros específicos nos livros fiscais, que devem guardar coerência com a movimentação financeira da empresa, mas também a demonstração de toda uma lógica própria, com regras que evidenciem as condições para a prestação destes serviços, os percentuais de comissão, a apuração desta etc. Se a Contribuinte pratica a compra e venda de veículos usados, ou mesmo a “consignação por venda”, a base para a incidência dos tributos deve abranger o total dos valores recebidos, e não apenas uma parcela destes, a título de comissão recebida. No caso, também não é aplicável a regra do art. 5º da Lei 9.716/1998, que permite a equiparação destas outras operações, para efeitos tributários, à operação de “consignação por comissão”, uma vez que a Contribuinte é optante do Simples, e, portanto, já usufrui de um tratamento tributário diferenciado. Se a sistemática do regime simplificado tivesse que abarcar as normas que tratam de isenções específicas, creditamento, reduções de base de cálculo, substituição tributária, diferimentos, etc., restaria bastante comprometida a simplificação na apuração dos tributos, e é esta a razão pela qual os benefícios obtidos com o Simples (que é opcional) excluem os outros AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 00 04 13 /2 00 3- 15 Fl. 1666DF CARF MF 2 previstos para as pessoas jurídicas que adotam os regimes normais de tributação Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o Conselheiro Daniel Ribeiro Silva que dava provimento parcial ao recurso. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Letícia Domingues Costa Braga Relator. Participaram do julgamento do presente processo os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Letícia Domingues Costa Braga, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Lívia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto e Daniel Ribeiro Silva. . Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador/BA, que considerou procedente o lançamento realizado para a constituição de crédito tributário relativo ao Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ, à Contribuição para o Programa de Integração Social PIS, à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, à Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – COFINS e à Contribuição para Seguridade Social INSS, conforme os autos de infração de fls. 4 a 40, lavrados de acordo com o regime de tributação simplificada – SIMPLES, nos valores de R$ 66.675,00, R$ 66.675,00, R$ 108.005,91, R$ 216.011,88 e R$ 287.815,70, respectivamente, incluindose nestes montantes os juros moratórios e a multa de 75%. O lançamento abrangeu fatos geradores ocorridos ao longo do anocalendário de 1998. O Recurso Voluntário foi julgado em sessão de 23 de maio de 2011. Contudo, tendo em vista a interposição de embargos declaratórios por omissão de acolhimento sobre sobrestamento, foi cancelado o acórdão embargado até que fosse proferida decisão definitiva de mérito pelo STF. Proferida decisão definitiva quanto a constitucionalidade do artigo 6° da Lei Complementar 105/2001, que permite à Receita Federal receber dados bancários de Fl. 1667DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.667 3 contribuintes fornecidos diretamente pelos bancos, sem prévia autorização judicial, voltarem esses autos para julgamento. Este processo tem por objeto lançamento de tributos abrangidos pelo regime de tributação simplificada SIMPLES. A base de cálculo foi extraída da movimentação bancária do Contribuinte, nos termos da Lei 9.430/96 (depósitos bancários sem comprovação de origem), a partir de extratos bancários obtidos mediante expedição de Informações sobre Movimentação Financeira RMF. Por muito bem descrever os fatos, reproduzo o relatório constante da decisão de primeira instância, Acórdão nº 08731, às fls. 205 a 213: (...) 2. O lançamento é decorrente de omissão de receitas, em face de depósitos bancários não escriturados, com fundamentação nos seguintes dispositivos: arts. 226 e 229 do RIR/94; art. 24 da Lei n° 9.249, de 1995; arts. 2°, §2°, 3°, §1°, alínea “a”, 5°, 7°, §1°, e 18, da Lei n° 9.317, de 1996; art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996 (fl. 06). E mais a legislação específica das contribuições retromencionadas (vide fls. 18, 24, 30 e 36). 3. Consta no processo que o Mandado de Procedimento Fiscal foi expedido em 01/10/2002 (fl. 01), e o Termo de Início da Ação Fiscal em 14/10/2002 (fl. 62). Este solicitando que a contribuinte apresentasse a documentação contábil/fiscal necessária à realização da auditoria, e como não houve resposta, o pedido para apresentação da mesma documentação foi reiterado no Termo de Início da Ação Fiscal n° 02, de 11/11/2002 (fl. 64). O procedimento fiscal foi concluído em 17/01/2003, conforme Termo de Encerramento anexo à fl. 40, com lançamento do crédito tributário no valor acima referido, cuja ciência à autuada se deu em24/01/2003, de acordo com o Aviso de Recebimento (AR) colado à fl. 138 dos autos. 4. O autuante relata na Descrição dos Fatos (fl. 05) que os valores utilizados no lançamento foram apurados com base em levantamento dos depósitos creditados na contacorrente da autuada, n° 33.7528, agência 31739, do Bradesco S/A, conforme quadros demonstrativos dos “Extratos Bancários” (fls.41/61) e cópias dos respectivos extratos (fls. 82/136), fornecidas tanto pela contribuinte como também pela citada instituição bancária. 5. Ressalta ainda que a presente ação fiscal foi motivada pela Representação n° 032/2002, da Delegacia Federal de Julgamento em Salvador – Ba (DRJ/SDR/BA), decorrente do processo administrativo fiscal n° 10580.001866/200288 (vide cópias às fls. 76/81). Diz ainda que a contribuinte fora intimada através dos termos anexos ao presente processo, no entanto, não atendeu a nenhuma das intimações que lhe foram enviadas (fls. 62/65). 6. Ciente do feito em 24/01/2003 (fl. 138), a autuada apresenta impugnação em 25/02/2003 (fls. 139/182). A sua defesa se embasa em alusões de ilegalidade do ato, por ofensa a Fl. 1668DF CARF MF 4 dispositivos constitucionais e infraconstitucionais, e em citações de jurisprudência e doutrina, cujos tópicos estão sintetizados nos subitens abaixo. A contribuinte entrou com petição em 28/09/2005 (fls. 193/199), requerendo a esta Delegacia Federal de Julgamento (DRJ/SRD/BA) a juntada da documentação que compõe os anexos I a IV destes autos (vide fls. 193/201). 6.1 Requer a nulidade do processo, pelo fato de ser optante do Simples desde o anocalendário de 1997, de modo que não deve prosperar a tributação em preço com base no lucro arbitrado, já que não houve prévia emissão de Ato Declaratório excluindo a autuada do Simples. 6.2 Desenvolve extensa redação, mencionando doutrina, jurisprudência e artigos da Constituição Federal de 1988 – CF/88, visando convencer que a via correta pela qual o Fisco poderia obter dados bancários de contribuintes sob investigação fiscal seria através do Poder Judiciário, e não mediante requisição direta do órgão fiscal como se dá no caso vertente. 6.3 Na petição de fls. 193/199, diz ter juntado cópias de todos os cheques emitidos pela autuada no período fiscalizado, através dos quais se poderia verificar que da contacorrente fiscalizada foram transferidos, via cheque nominal, para a Concessionária REVISA, os valores relativos aos veículos vendidos no mês da emissão, ou no mês imediatamente anterior. 6.4 Reforça que, assim, os valores que circularam na conta corrente auditada não constituiriam receita operacional da empresa GOODCAR, antes sendo valores de titularidade da REVISA, que os recebia em função da revenda de carros usados dados em consignação para venda à autuada, que, pela intermediação, auferia pequena comissão. 6.5 Alega que para facilitar a confrontação dos valores transferidos da contacorrente da autuada para a REVISA, a peticionária relacionou, em separado, com a devida identificação, os veículos vendidos mês a mês, durante todo o período de autuação, bem como os cheques envolvidos nessas operações. 6.6 Diz, ainda, que para comprovar a veracidade das suas alegações, junta cópia do “LIVRO CONTA CORRENTE DOS VEÍCULOS DA REVISA COM GOODCAR”, onde estão, dia a dia, detalhadas as operações realizadas. 6.7 Ante o exposto, requer a nulidade do lançamento, ou a sua improcedência, caso seja rejeitada a preliminar argüida. Como mencionado, a DRJ Salvador/BA considerou procedente o lançamento, expressando suas conclusões com a seguinte ementa: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples Anocalendário:1998 Fl. 1669DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.668 5 Ementa: OMISSÃO DE RECEITA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. A presunção legal de omissão de receita prevista no art. 42 da Lei n°9.430, de 1996, autoriza a tributação de depósitos bancários de origem não comprovada, desde que o contribuinte tenha sido regularmente intimado. INCONSTITUCIONALIDADE. Não compete à autoridade administrativa apreciar argüições versando sobre inconstitucionalidade da legislação aplicável. Esta é uma prerrogativa reservada ao Poder Judiciário por designação Constitucional. PRELIMINAR DE NULIDADE. Não há que se cogitar de nulidade do procedimento fiscal, quando comprovado que não houve cerceamento do direito de defesa, e foram cumpridos os demais requisitos previstos no Processo Administrativo Fiscal (Decreto nº 70.235, de 1972). OPERAÇÕES COM VEÍCULOS USADOS. A equiparação das operações de venda de valores usados, adquiridos para revenda, às operações de consignação, não se aplica às empresas tributadas pelo Simples. Caso não haja um efetivo contrato de consignação por comissão, a operação deve receber o tratamento de mera compra e venda de veículo, devendo ser utilizada, como base de cálculo do montante devido, relativo ao Simples, o valor total constante das notas fiscais, que espelham o valor real das transações da pessoa jurídica. Lançamento Procedente Inconformada com essa decisão, da qual tomou ciência em 13/01/2006 o Contribuinte apresentou em 14/02/2006 o recurso voluntário de fls. 224 a 248, desenvolvendo argumentos sobre os tópicos mencionados abaixo. Dos fatos: o mencionado Mandado de Procedimento Fiscal decorreu da Representação n° 032, de 29 de maio de 2002, acatada pela i. Sra.Presidente da 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador BA, advinda do julgamento improcedente dos Autos de Infração concernentes ao Processo Administrativo Fiscal n° 10580.001866/200288, o qual se reporta ao mesmo período do exercício de 1998. Do Processo Administrativo Fiscal nº 10580.001866/200288 (anterior ao lançamento em discussão): inicialmente, cabe frisar que o Processo Administrativo Fiscal n° 10580.001866/200288 decorre de procedimento de fiscalização iniciado com o Termo de Inicio de Ação em 29 de março de 2001; em atenção à intimação do i. Auditor Fiscal da Receita Federal, a Recorrente, em 20 de junho de 2001, formalizou resposta comunicando que estava obrigada, tão somente, à apresentação dos livros contábeis e dos comprovantes de pagamentos dos Fl. 1670DF CARF MF 6 tributos. Afirmou, ainda, que não apresentaria os extratos bancários com movimentação financeira por entender que tais informações diziam respeito ao seu sigilo bancário e estavam protegidas por direito constitucionalmente assegurado; o i. Auditor Fiscal, por intermédio da Divisão de Fiscalização DIFIS, obteve os extratos bancários do Recorrente junto ao Banco Bradesco. Após, intimou a Recorrente para comprovar as origens dos valores creditados na respectiva conta bancária; no início da fiscalização, a Recorrente formalizou resposta direcionada ao i. Auditor Fiscal, Sr. Antonio Brasil Rocha, esclarecendo como exercia a sua atividade de comercialização de veículos usados, nos seguintes termos, às fls. 203/204: Esclarecimentos (...) Dirseá que, examinando as movimentações financeiras da CONTRIBUINTE, a fiscalização constatou a existência de valores creditados em sua conta corrente incompatíveis com a simples atividade de comercialização. Esse entendimento, todavia, não procede. É que, para viabilizar essa atividade de intermediação, a CONTRIBUINTE era obrigada a depositar todo o valor do veiculo em sua conta bancária, reembolsando o proprietário depois da compensação do cheque, retendo consigo o valor das comissões. Idêntico procedimento ocorria com as operações envolvendo financiamento dos veículos, a grande maioria delas. Nesses casos, os bancos ou as financeiras exigiam, como condição para o financiamento, que os valores do empréstimo fossem depositados na conta corrente da CONTRIBUINTE, o que geraria falsa compreensão de uma grande receita financeira. E justamente aí onde bate o ponto. Ainda que verdadeira fosse a alegação, não bastaria para se comprovar a omissão de rendimentos, a simples comprovação de depósitos. É imprescindível, em outras palavras, que seja comprovada a utilização desses valores depositados como renda consumida, visto que os depósitos bancários, por si só, não caracterizam disponibilidade econômica de renda e proventos e, por conseqüência, não se traduzem em fato gerador do imposto de renda. Diante deste quadro, a CONTRIBUINTE toma a liberdade de juntar à presente todo movimento de débitos da conta a que V.Sa. tiveram o indevido acesso, a fim de evidenciar que em contrapartida aos depósitos e créditos existem os cheques emitidos para pagamento dos veículos objetos destas intermediações, de modo a afastar a mais leve dúvida de qualquer ato ou fato que represente omissão de rendimento, principalmente, quando não há comprovação de sinais exteriores de riqueza. Fl. 1671DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.669 7 Sem mais para o momento aguardamos retorno. Cordialmente, GOODCAR COMERCIO DE VEICULOS LTDA. em outras palavras, a receita operacional da Recorrente é a comissão auferida na intermediação de vendas ou compras de veículos de terceiros, à medida que aproximava vendedores e compradores; neste contexto, o i. Auditor Fiscal concluiu o procedimento de fiscalização com a lavratura dos Autos de Infração constituindo créditos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, os quais tiveram a base de cálculo arbitrada com suporte na movimentação bancária; a Recorrente apresentou a devida impugnação administrativa, e os Autos de Infração foram julgados improcedentes em razão da ilegalidade da constituição dos créditos fiscais, segundo as normas de tributação normal, sem que antes ocorresse a exclusão do regime do SIMPLES por intermédio de Ato Declaratório da autoridade fiscal da Secretaria da Receita Federal que jurisdicionava o contribuinte; em observância ao disposto no art. 12 do Decreto n° 70.235/72, a i. Relatora representou à i. Dra. Presidente da 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em SalvadorBA, a qual encaminhou os autos à Delegacia da Receita Federal em SalvadorBA para as devidas providências (fls. 77 a 81); neste contexto, o i. Sr. Delegado da Receita Federal em Salvador determinou a execução do Mandado de Procedimento Fiscal n° 05.1.002002007210, que originou o presente Processo Administrativo Fiscal, visando a averiguação da apuração fiscal da Recorrente no período de janeiro a dezembro de 1998. Dos Autos de Infração contidos no presente processo: os Autos de Infração em discussão foram lavrados em razão de suposta “OMISSÃO DE RECEITAS OPERACIONAIS: DEPÓSITOS BANCÁRIOS NÃO ESCRITURADOS”, as quais foram apuradas com base em levantamento dos depósitos creditados na contacorrente da autuada n° 33.752S, agência 31739, do BRADESCO S/A; os tributos foram materialmente apurados no regime do SIMPLES. Ou seja, os tributos decorreram da aplicação das alíquotas e da base de cálculo determinada pela legislação que regulamenta o SIMPLES, qual seja a Lei n° 9.317/96; o Auditor desconsiderou que a Recorrente apenas era remunerada pela comissão nas vendas; equivocouse o i. Sr. Auditor Fiscal, assim como a Turma Julgadora, uma vez que a Recorrente não poderia se sujeitar ao regime de tributação do SIMPLES, porque, tomando como receita bruta o produto das vendas de veículos usados, a Recorrente ultrapassou os limites determinados pela legislação que permitiram tal enquadramento desde o exercício de 1997, fazendose imperioso a sua tributação no regime normal de apuração; não bastasse isso, improcedente a apuração do tributo em comento com base no produto dos valores decorrentes da comercialização dos veículos, haja vista que a atividade da Recorrente não se configura em compra e venda de veículos usados. Fl. 1672DF CARF MF 8 Da impossibilidade de sujeição da Recorrente ao SIMPLES, por ultrapassar o limite de faturamento permitido com a operação de compra e venda: sustenta a decisão recorrida que a base de cálculo de apuração do presente crédito fiscal corresponde ao “valor constante das notas fiscais, que espelham o valor real das transações da pessoa jurídica”; inequívoco, portanto, que a Recorrente não poderia se sujeitar ao regime especial do SIMPLES, posto que, ao se considerar as operações como compra e venda, e, por conseguinte, alterar completamente a base de cálculo para apuração dos respectivos tributos, é inquestionável que a Contribuinte ultrapassou o limite de R$ 720.000,00 (setecentos e vinte mil reais) desde o ano de 1997 (ano de adesão); noutro dizer, tomando como base de cálculo o valor total das vendas de veículos usados, necessário se faz a anulação do presente débito fiscal apurado, uma vez que indevida a sua apuração na sistemática do regime especial do SIMPLES; é incontroverso no presente processo de fiscalização que, ao adotar como receita bruta o produto integral da venda de veículos, a Recorrente, desde o início (1997) da vigência da Lei n° 9.317/96, ultrapassava o limite imposto pela mencionada legislação; por tal razão, não pode se sujeitar a esse regime de tributação específico no período imediatamente posterior ao ano de 1997, qual seja o exercido de 1998, objeto da autuação cm comento; o entendimento do i. Sr. Auditor Fiscal, ratificado pela Egrégia Turma de Julgamento, no sentido de que o produto das vendas dos veículos comercializados compõe base de cálculo para apuração do SIMPLES, maculou de nulidade insanável todo o Processo Administrativo; seria impossível a tributação do exercício de 1998 da Recorrente neste regime especial de tributação, uma vez que desde o exercício de 1997, ano de adesão ao SIMPLES, ela ultrapassou o limite determinado pela Lei te 9.317/96; outrossim, verificase que a autuação incorreu em novo equivoco material, na medida em que se esquivou de apurar se a Recorrente estava enquadrada em alguma hipótese impeditiva de tributação no regime do SIMPLES, conforme advertido pela decisão proferida pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em SalvadorBA no Processo Administrativo n° 10580.001866/200288 e respectiva Representação acatada pela i. Dra. Presidente daquela Turma de Julgamento, às fls. 81; desta forma, resta clara a nulidade do Auto de Infração em comento, haja vista que se encontra eivado de vícios insanáveis, que macularam todo o processo administrativo fiscal, merecendo, pois, a sua anulação, posto que o crédito fiscal em questão não poderia ser apurado no regime do SIMPLES. Da impossibilidade da operação realizada pela Recorrente configurarse em compra e venda de veículos usados: conforme documentos constantes nos presentes autos, a Recorrente não realizou operações de compra e venda de veículos; a operação de compra e venda pressupõe a transferência de propriedade de determinado bem, em contrapartida de certo preço; Fl. 1673DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.670 9 sendo o conceito de compra e venda fixado pela União, única pessoa política competente para regular a referida matéria, conforme preceitua a Constituição Federal, em seu art. 22, I, é vedada a sua alteração para fins tributários, pela Egrégia 4ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal em Salvador, como pretende fazer no presente caso, conforme disposto no art. 110 do Código Tributário Nacional; no caso em tela, conforme comprovado nos autos, a Recorrente não era proprietária dos veículos objeto das intermediações, os quais pertenciam a terceiros que figuraram como vendedores nas operações. A Recorrente não assumia nem mesmo os riscos pela operação; consoante se verifica dos documentos anexados ao presente Processo Administrativo, não constam Certificados de Registro de Veículos em nome da Recorrente, nem mesmo de Autorização para Transferência de Veículo. Isto porque a Recorrente não figurava sequer de fato, muito menos juridicamente, como proprietária dos veículos vendidos; além disso, o Código de Trânsito Brasileiro, Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, obriga “a expedição de novo Certificado de Registro de Veículo quando for transferida a propriedade”, conforme disposto no art. 123. Ou seja, ratificase que a Recorrente não dispunha da propriedade dos veículos, uma vez que não havia em seu nome Certificado de Registro de Veiculo; como muito bem observado pela r. decisão às fls. 213, a Recorrente nem mesmo expedia Nota Fiscal de saída ou de entrada autorizada pela Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, haja vista que não vendia veículos, mas unicamente intermediava sua venda. Tanto é assim, que a Recorrente não forneceu no exercício de suas atividades qualquer documento idôneo para viabilizar a expedição do Certificado de Registro de Veículo pelo órgão executivo de trânsito, conforme exigido no art. 122 do Código de Trânsito Brasileiro; sendo assim, inequívoco admitir que a Recorrente não era proprietária dos veículos usados, nem mesmo juridicamente, razão pela qual não poderia figurar como vendedora nas vendas que intermediava, e, por conseguinte, infundada a caracterização de compra e venda; neste contexto, imperioso se faz a exclusão da base de cálculo de apuração do presente crédito dos valores devidamente comprovados e repassados aos proprietários dos veículos. Da impossibilidade da operação realizada pela Recorrente, entendida como corretagem, se sujeitar ao SIMPLES: não se sustenta também que o crédito fiscal em discussão decorra de apuração de eventual atividade de corretagem enquadrada pelo i. Sr. Auditor Fiscal, ou mesmo pela Egrégia Turma Julgadora, posto que a pessoa jurídica que presta serviços de corretor não se submete à legislação do SIMPLES, consoante determina o disposto no inciso XIII do art. 9° da Lei n° 9.317/1996; inferese, portanto, que ainda que a Fiscalização caracterizasse a atividade da Recorrente como de prestação de serviços de corretor, presente crédito não poderia subsistir, tendo em vista que tal atividade não se sujeita ao regime de tributação especifico do SIMPLES; Fl. 1674DF CARF MF 10 além disso, ainda que desconsidere a impossibilidade supra mencionada, caso o i. Sr. Auditor Fiscal, bem como a Turma Julgadora, entendesse que se trata de prestação de serviços de corretagem, improcedente a presente autuação, haja vista que desconsiderou o valor a receita bruta do mencionado serviço (comissão); isto porque, nos termos do § 2° do art. 2° da Lei n° 9.3l7/96, a receita bruta na prestação de serviço consiste no preço dos serviços prestados, razão pela qual indevida a apuração da base de cálculo do tributo incluindo os valores repassados aos proprietários dos veículos usados; deste modo, cabe a anulação do presente auto de infração, para cancelar o crédito tributário constituído nos termos definidos no regime do SIMPLES por empresa vetada de se sujeitar a este regime, bem como para excluir da base de cálculo do presente tributo os valores que não correspondem a preço de serviço. Da exclusão da penalidade, juros de mora e atualização em razão da violação ao disposto no art. 100 do Código Tributário Nacional: não pode o i. Auditor Fiscal cobrar da Recorrente a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo, conforme determina o art. 100, III, c/c o seu parágrafo único, do Código Tributário Nacional; isto porque a Recorrente não recolheu o tributo no referido exercício, em razão da ausência, à época e em todos os demais períodos, de exigência do Fisco. Tal atitude caracterizou prática reiterada, nos temos do dispositivo supra, o que, por conseguinte, exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo; do contrário, seria temerário se, por cumprir as orientações do próprio credor, pudesse a Contribuinte vir a ser punida; nesse contexto, evidenciase que a Recorrente jamais poderá se sujeitar à cobrança de penalidades, juros ou correção monetária, uma vez que realizou o recolhimento dos tributos à base de prática administrativa reiterada adotada pela Secretaria da Receita Federal. Este é o Relatório. Voto Conselheira Letícia Domingues Costa Braga Relatora Conforme relatado, a matéria em litígio diz respeito a lançamento para a exigência de tributos abrangidos pelo regime de tributação simplificada Simples, no período de janeiro a dezembro de 2018. A base de cálculo foi extraída de movimentação bancária do contribuinte. A Contribuinte em seu Recurso procura demonstrar que o lançamento está maculado por vício de nulidade, alegando que a tributação não poderia ter sido realizada no regime do Simples. Fl. 1675DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.671 11 De acordo com seus argumentos, ao se considerar as operações como compra e venda e, por conseguinte, alterar completamente a base de cálculo para a apuração dos respectivos tributos, passa a ser inquestionável que a Contribuinte ultrapassou o limite de R$720.000,00 desde o ano de 1997. Assim, seria impossível a tributação no exercício de 1998 pelo regime simplificado, uma vez que desde o exercício de 1997, ano de adesão ao SIMPLES, ela teria ultrapassado o limite determinado pela Lei 9.317/96. Outro ponto que enfatiza é a impossibilidade da operação realizada pela Recorrente, entendida como corretagem, se sujeitar ao SIMPLES, uma vez que existe vedação expressa no art. 9º, XIII, da Lei 9.317/96. E, ainda que se desconsidere essa impossibilidade para os serviços de corretagem, também seria improcedente a autuação, haja vista que a tributação não recaiu sobre o valor do mencionado serviço (comissão). Segundo argumenta, nos termos do §2º do art. 2º da Lei 9.317/96, a receita bruta na prestação de serviços consiste no preço dos serviços prestados, razão pela qual seria indevida a apuração da base de cálculo do tributo incluindo os valores repassados aos proprietários dos veículos usados. A Recorrente novamente afirma que suas operações não podem ser configuradas como compra e venda de veículos usados, posto que não era a proprietária destes bens, e que, neste contexto, é imperioso excluir da base de cálculo os valores devidamente comprovados e repassados aos proprietários dos veículos. Quanto ao alegado excesso de receita no ano anterior (1997), que, segundo a Recorrente, prejudicaria a tributação pelo Simples no ano de 1998, é preciso deixar claro que a Fiscalização não adotou uma regra geral de dimensionamento de base de cálculo, a ser aplicada indistintamente a qualquer período, e que permitiria afirmar, de modo inquestionável, que a receita bruta em 1997 ultrapassou o limite permitido para o Simples. No caso, o critério adotado pela Fiscalização decorreu especificamente das circunstâncias do ano fiscalizado (1998), em relação ao qual a documentação apresentada não foi suficiente para demonstrar que boa parte dos depósitos bancários correspondia a receita de terceiros, e não da Recorrente, problema esse que não pode ser automaticamente estendido para 1997 (ano que nem mesmo foi objeto de fiscalização). Portanto, são improcedentes os argumentos que sustentam a impossibilidade de tributação em 1998 pelo Simples, em razão de excesso de receita no ano anterior. Acerca do outro aspecto que, segundo a Recorrente, também impediria a tributação pelo Simples, qual seja, a vedação expressa para os serviços de corretagem ou assemelhados, a DRJ já esclareceu que a Receita Federal, por meio do Parecer Cosit nº 45, de 17/10/2003, admitiu o enquadramento no Simples para as pessoas jurídicas que atuam no ramo de comércio de veículos usados, realizando operações em “consignação por comissão”, por entender que esta atividade não configurava mera intermediação de negócios. Deste modo, também inexiste esta outra impossibilidade para a tributação pelo Simples. Fl. 1676DF CARF MF 12 Fosse essa a atividade desenvolvida pela empresa, poderia ela estar enquadrada no Simples sem problemas, e a tributação recairia apenas sobre as comissões recebidas em razão dos serviços prestados. O grande obstáculo é que não houve comprovação de que esta foi a atividade desenvolvida pela Contribuinte no ano de 1998, e de que boa parte dos depósitos bancários correspondiam a receitas de terceiros (proprietários dos veículos), e não da Recorrente. Mesmo após a juntada de toda documentação, não há prova robusta o suficiente para se comprovar tal fato. É importante destacar, conforme contrato social às fls. 69 a 75, que o objetivo da sociedade é o “comércio varejista de veículos”. Além disso, a alegação da Recorrente de que ela recebia os carros em consignação, para vendêlos na modalidade de “consignação por comissão” não subsiste diante da detalhada análise implementada pela DRJ na documentação apresentada, conforme os fundamentos transcrito nos parágrafos anteriores, os quais também adoto na presente decisão, posto que não foram refutados em sede de recurso. A caracterização das operações como vendas em “consignação por comissão”, por abranger prestação de serviços, exigiria não apenas registros específicos nos livros fiscais, que deveriam guardar coerência com a movimentação financeira da empresa, mas também a demonstração de toda uma lógica própria, com regras que evidenciassem as condições para a prestação destes serviços, os percentuais de comissão, a apuração desta, etc., e nada disso pode ser extraído dos documentos que foram juntados aos autos. Realmente, não há qualquer evidência de que a receita da Recorrente envolvia a prestação de serviços, e que era recebida a título de comissão. Se havia algum contrato de consignação firmado com os proprietários dos veículos, conforme alegado no recurso, seria na modalidade da chamada “consignação por venda”, que atualmente está prevista no Código Civil como “contrato estimatório” (arts. 534 a 537). No contrato estimatório, o consignatário atua perante terceiros como se fosse o real proprietário das coisas, exercendo em nome próprio o poder de disposição (que lhe foi regularmente transferido), e não como representante do consignante. Além disso, as condições que o consignatário ajusta com o terceiro adquirente para a alienação da coisa consignada não podem ser recusadas ou modificadas pelo consignante, e o valor recebido pelo consignatário é preço de venda, e não pagamento/remuneração por serviços prestados (comissão). O pagamento realizado ao consignante, por sua vez, configura custo para o consignatário. Assim, ainda que houvesse um contrato de consignação, na modalidade de “consignação por venda”, a base para a incidência dos tributos abrangeria o total dos valores recebidos, e não apenas uma parcela destes, a título de comissão recebida. Devo registrar, no mesmo sentido como já mencionado pela DRJ, que no caso de operações de compra e venda de veículos usados, ou mesmo de “consignação por venda”, não seria aplicável para a Recorrente a regra do art. 5º da Lei 9.716/1998, que permite a equiparação destas operações, para efeitos tributários, à operação de “consignação por comissão”: Fl. 1677DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.672 13 Art. 5º As pessoas jurídicas que tenham como objeto social, declarado em seus atos constitutivos, a compra e venda de veículos automotores poderão equiparar, para efeitos tributários, como operação de consignação, as operações de venda de veículos usados, adquiridos para revenda, bem assim dos recebidos como parte do preço da venda de veículos novos ou usados. Parágrafo único. Os veículos usados, referidos neste artigo, serão objeto de Nota Fiscal de Entrada e, quando da venda, de Nota Fiscal de Saída, sujeitandose ao respectivo regime fiscal aplicável às operações de consignação. O sentido geral desta equiparação é que não seja computada toda a receita na base de cálculo dos tributos, inclusive daqueles que incidem sobre a receita bruta, mas somente a diferença entre o valor da venda e o custo de aquisição do bem. A IN SRF nº 152/98 deixa isso bastante evidente: Art. 1º A pessoa jurídica sujeita à tributação pelo imposto de renda com base no lucro real, presumido ou arbitrado, que tenha como objeto social, declarado em seus atos constitutivos, a compra e venda de veículos automotores, deverá observar, quanto à apuração da base de cálculo dos tributos e contribuições de competência da União, administrados pela Secretaria da Receita Federal – SRF, o disposto nesta Instrução Normativa. Art. 2º Nas operações de venda de veículos usados, adquiridos para revenda, inclusive quando recebidos como parte do pagamento do preço de venda de veículos novos ou usados, o valor a ser computado na determinação mensal das bases de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, pagos por estimativa, da contribuição para o PIS/PASEP e da contribuição para o financiamento da seguridade social – COFINS será apurado segundo o regime aplicável às operações de consignação. § 1º Na determinação das bases de cálculo de que trata este artigo será computada a diferença entre o valor pelo qual o veículo usado houver sido alienado, constante da nota fiscal de venda, e o seu custo de aquisição, constante da nota fiscal de entrada. § 2º O custo de aquisição de veículo usado, nas operações de que trata esta Instrução Normativa, é o preço ajustado entre as partes. Vêse que a regra de direito material contida no art. 5º da Lei 9.716/1998 poderia plenamente atender a pretensão da Contribuinte, desde que observadas as devidas obrigações instrumentais de escrituração etc., mas ela não é aplicável aos optantes do Simples, conforme esclarece o art. 4° da IN SRF n° 355/2003: Art. 4º Considerase receita bruta, para os fins de que trata esta Instrução Normativa, o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o Fl. 1678DF CARF MF 14 resultado nas operações em conta alheia, excluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos. § 1º Ressalvado o disposto no caput, para fins de determinação da receita bruta apurada mensalmente, é vedado procederse a qualquer outra exclusão em virtude da alíquota incidente ou de tratamento tributário diferenciado (substituição tributária, diferimento, crédito presumido, redução de base de cálculo, isenção) aplicáveis às pessoas jurídicas não optantes pelo regime tributário das microempresas e das empresas de pequeno porte, de que trata esta Instrução Normativa. Realmente, não é possível usufruir cumulativamente de todos os benefícios fiscais ou tratamentos diferenciados previstos na legislação. Se a sistemática do regime simplificado tivesse que abarcar as normas que tratam de isenções específicas, creditamento, reduções de base de cálculo, substituição tributária, diferimentos, etc., restaria bastante comprometida a simplificação na apuração dos tributos, e é esta a razão pela qual os benefícios obtidos com o Simples (que é opcional) excluem os outros previstos para as pessoas jurídicas que adotam os regimes normais de tributação. Portanto, a base de incidência do Simples deve mesmo ser composta pelo total dos valores recebidos, sem qualquer possibilidade de exclusão na base de cálculo. Finalmente, são improcedentes os argumentos de que não caberia aplicação de penalidade, juros, etc., por força da regra contida no art. 100 do Código Tributário Nacional. Com relação ao art. 18 da Lei nº 9.317/96, tal dispositivo não é incompatível com a Lei 9.430/96. Naquele dispositivo, permitese a aplicação das presunções de omissão de receitas às empresas de pequeno porte, desde que apuráveis com base nos livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas. Ele trata apenas da não penalização das pessoas sujeitas ao regime do simples, por não apresentarem escriturações às quais não estão obrigadas. Outrossim, meu ver, tal artigo reforça a aplicação da Lei 9.430/96 às pequenas empresas pois diz expressamente que a elas se aplicam TODAS as presunções de omissão de receitas. No caso, o único limite imposto para a atuação do Fisco era o prazo de decadência, e com relação a isso não houve qualquer problema. Com efeito, a não atuação imediata da Fiscalização, logo após a ocorrência do fato gerador, não tem o condão de transformar a conduta irregular da Contribuinte em “práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas”, cuja observância excluiria “a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo”. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de rejeitar as preliminares de nulidade, e, no mérito, nego provimento ao recurso. Fl. 1679DF CARF MF Processo nº 10580.000413/200315 Acórdão n.º 1401002.322 S1C4T1 Fl. 1.673 15 (assinado digitalmente) Letícia Domingues Costa Braga Fl. 1680DF CARF MF
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Numero do processo: 13884.901911/2008-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/1999 a 30/09/2000
PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO DO POSTULANTE.
Nos processos que versam a respeito de compensação ou de ressarcimento, a comprovação do direito creditório recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato, que deve apresentar elementos probatórios aptos a comprovar as suas alegações. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco.
PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA.
A carência probatória inviabiliza o reconhecimento do direito creditório pleiteado.
Numero da decisão: 3401-004.962
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Robson Jose Bayerl, Tiago Guerra Machado, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araujo Branco (Vice-Presidente) e Rosaldo Trevisan (Presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/1999 a 30/09/2000 PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO DO POSTULANTE. Nos processos que versam a respeito de compensação ou de ressarcimento, a comprovação do direito creditório recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato, que deve apresentar elementos probatórios aptos a comprovar as suas alegações. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. A carência probatória inviabiliza o reconhecimento do direito creditório pleiteado.
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Robson Jose Bayerl, Tiago Guerra Machado, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araujo Branco (Vice-Presidente) e Rosaldo Trevisan (Presidente).
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ÔNUS PROBATÓRIO DO POSTULANTE. Nos processos que versam a respeito de compensação ou de ressarcimento, a comprovação do direito creditório recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato, que deve apresentar elementos probatórios aptos a comprovar as suas alegações. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. A carência probatória inviabiliza o reconhecimento do direito creditório pleiteado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Robson Jose Bayerl, Tiago Guerra Machado, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araujo Branco (VicePresidente) e Rosaldo Trevisan (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 4. 90 19 11 /2 00 8- 65 Fl. 71DF CARF MF Processo nº 13884.901911/200865 Acórdão n.º 3401004.962 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de declaração de compensação, realizada com base em suposto crédito de contribuição social originário de pagamento indevido ou a maior. A DRF de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico de não homologação da compensação, em razão da inexistência de crédito disponível. Cientificada desse despacho, a manifestante protocolou sua manifestação de inconformidade, alegando, em síntese e fundamentalmente, que: recolheu aos cofres públicos tributos superiores aos efetivamente devidos, pois não considerou os termos do parágrafo 2°, do inciso III, do artigo 3°, da Lei no 9.718/98, quando apurou as bases de cálculos das contribuições; o único fundamento para a glosa das compensações é uma pretensa inexistência de crédito; não foi sequer solicitado ao contribuinte qualquer documento capaz de comprovar ou não o crédito; tivesse a autoridade intimado o contribuinte, teria acesso As planilhas de apuração, podendo verificar a regularidade do encontro de contas efetuado; pelas razões alegadas, deve ser anulado o despacho decisório, determinando que a autoridade efetue as diligências necessárias para comprovar a origem e existência do crédito utilizado, alternativamente, requer que seja logo homologada a compensação. Ao final pede deferimento da presente manifestação de inconformidade" . A Delegacia Regional do Brasil de Julgamento em Campinas (SP) proferiu o Acórdão DRJ nº 0530.643, em que se decidiu, por unanimidade de votos, julgar improcedente a manifestação de inconformidade, sob o fundamento de que "os valores faturados, ainda que repassados a terceiros, compõem a base tributável da contribuição social, em face da inexistência de permissivo legal para sua exclusão". Devidamente notificada desta decisão, a recorrente interpôs tempestivamente o recurso voluntário ora em apreço, no qual reitera as razões vertidas em sua impugnação. É o relatório. Fl. 72DF CARF MF Processo nº 13884.901911/200865 Acórdão n.º 3401004.962 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.923, de 21 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 13884.900342/200831, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.923): "O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Reproduzse, abaixo, a decisão recorrida proferida pelo julgador de primeiro piso: Conforme relatado, a não homologação da DCOMP em tela decorreu do fato de estar o Darf informado na DCOMP integralmente utilizado para a quitação de débitos da contribuinte. No caso, a contribuinte transmitiu sua DCOMP compensando débito com suposto crédito de contribuição social decorrente de pagamento indevido ou a maior, apontando um documento de arrecadação como origem desse crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte na DCOMP foi realizada também de forma eletrônica, cotejandoos com os demais por ela informados A. Receita Federal em outras declarações (DCTFs, DIPJ, etc), bem como com outras bases de dados desse órgão (pagamentos, etc), tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que, embora localizado o pagamento apontado na DCOMP como origem do crédito, o valor correspondente fora utilizado para a extinção anterior de débito de Cofins da interessada. Assim, o exame das declarações prestadas pela própria interessada Administração Tributária revela que o crédito utilizado na compensação declarada não existia. Fl. 73DF CARF MF Processo nº 13884.901911/200865 Acórdão n.º 3401004.962 S3C4T1 Fl. 5 4 Por conseguinte, não havia saldo disponível (é dizer, não havia crédito liquido e certo) para suportar uma nova extinção, desta vez por meio de compensação. Dai a não homologação, não havendo qualquer nulidade nesse procedimento. Sobre o motivo da não homologação, como já antes explicitado neste voto, revelase procedente, pois, de acordo com as próprias informações prestadas pela contribuinte Receita Federal, o direito creditório apontado na DCOMP era inexistente. Não obstante, agora, em sede de manifestação de inconformidade, pretende a contribuinte demonstrar que seus débitos de contribuição social antes declarados e pagos são indevidos, pois não havia considerado, quando da apuração da base de cálculos das contribuições, o disposto no parágrafo 2°, do inciso III, do artigo 3°, da Lei n° 9.718/1998. Em termos legais, significa ver excluídos da receita bruta os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para terceiros, observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo. Neste ponto, fazse necessário destacar que, por força de sua vinculação aos atos legais, assim como àqueles emanados por autoridades que lhe são hierarquicamente superiores, este colegiado está adstrito à interpretação que a própria administração pública dá legislação tributária. 110 A Secretaria da Receita Federal do Brasil, por meio do Ato Declaratório SRF n°56, de 20 de julho de 2000, já se posicionou a respeito da situação em exame: Ato Declaratório SRF n° 56, de 2000: O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso de suas atribuições, e considerando ser a regulamentação, pelo Poder Executivo, do disposto no inciso III do art. 20 do art. 3° da Lei no 9.718, de 27 de novembro de 1998, condição resolutória para sua eficácia; Considerando que o referido dispositivo legal foi revogado pela alínea b do inciso IV do art. 47 da Medida Provisória n° 1.99118, de 9 de junho de 2000; Considerando, finalmente, que, durante sua vigência, o aludido dispositivo legal não foi regulamentado, não produz eficácia, para fins de determinação da base de cálculo das contribuições para o PIS/PASEP e da COFINS, no período de I° de fevereiro de 1999 a 9 de junho de 2000, eventual exclusão da receita bruta que Fl. 74DF CARF MF Processo nº 13884.901911/200865 Acórdão n.º 3401004.962 S3C4T1 Fl. 6 5 tenha sido feita a titulo de valores que, computados como receita, hajam sido transferidos para outra pessoa jurídica" (destacouse). Esse entendimento torna sem força a argumentação alegada pela Contribuinte no sentido de que as provas dos alegados créditos, consistentes em planilhas de apuração da contribuição social, deveriam ser examinadas na busca da constatação da regularidade do encontro de contas, uma vez que o crédito calcado neste dispositivo é inexistente. Diante de tudo exposto, voto por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, ratificando o disposto no despacho decisório da unidade de origem. Ressaltase, ademais, que, nos pedidos de compensação ou de restituição, como o presente, o ônus de comprovar o crédito postulado permanece a cargo da contribuinte, a quem incumbe a demonstração do preenchimento dos requisitos necessários para a compensação, pois "(...) o ônus da prova recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato",1 postura consentânea com o art. 36 da Lei nº 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. 2 Neste sentido, já se manifestou esta turma julgadora em diferentes oportunidades, como no Acórdão CARF nº 3401 003.096, de 23/02/2016, de relatoria do Conselheiro Rosaldo Trevisan: VERDADE MATERIAL. INVESTIGAÇÃO. COLABORAÇÃO. A verdade material é composta pelo dever de investigação da Administração somado ao dever de colaboração por parte do particular, unidos na finalidade de propiciar a aproximação da atividade formalizadora com a realidade dos acontecimentos. PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. Nos processos derivados de pedidos de compensação/ressarcimento, a comprovação do direito creditório incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. 1 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; e DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros Editores, 26ª edição, 2010, p. 380. 2 Lei nº 9.784/1999 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 37. Quando o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, à obtenção dos documentos ou das respectivas cópias. Fl. 75DF CARF MF Processo nº 13884.901911/200865 Acórdão n.º 3401004.962 S3C4T1 Fl. 7 6 Verificase, portanto, a completa inviabilidade do reconhecimento do crédito pleiteado em virtude da carência probatória do pedido formulado pela contribuinte recorrente. Acrescese a tal constatação o intento da contribuinte de ver compensado seu débito com crédito fundado em quaestio jurídica que busca inaugurar em fase de instauração de contencioso administrativo posterior à apresentação de sua declaração de compensação, com a apresentação de sua impugnação, sob o pálio do argumento de que devem ser expurgados da receita bruta, ainda que assim escriturados, os valores que tenham sido transferidos para terceiros, nos termos do § 2°, do inciso III, do artigo 3°, da Lei no 9.718/1998, argumento que se encontra em contrariedade com o preceptivo normativo do Ato Declaratório SRF n° 56, de 20/07/2000. Independentemente da discussão respeitante à matéria, no entanto, o que se constata é que a compensação tem por base direito creditório ilíquido e incerto, carente de prova de sua constituição definitiva, uma vez que a contribuinte somente poderia utilizar, na compensação de débitos próprios relativos a tributos administrados pela RFB, crédito passível de restituição ou de ressarcimento. Assim, voto por conhecer e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 76DF CARF MF
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Numero do processo: 13925.720142/2012-59
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2011
JUÍZO DE INCONSTITUCIONALIDADE. MATÉRIA VEDADA À ANÁLISE DO CARF. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 02.
O CARF não é competente para emitir juízo de constitucionalidade de lei tributária, a teor do que dispõe a Súmula CARF nº 02.
MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. ENTREGA EXTEMPORÂNEA DA DIMOB. INCIDÊNCIA.
Comprovada a sujeição do contribuinte à obrigação tributária acessória, o descumprimento desta ou seu cumprimento em atraso enseja a aplicação das penalidades previstas na legislação de regência.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE ÀS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS ACESSÓRIAS. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49.
A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF n. 49. Assim, impossível aplicar-se o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de DCTF em atraso.
MULTA. SUPERVENIÊNCIA DE LEI COM PENALIDADE MENOS SEVERA. RETROATIVIDADE BENIGNA.
A superveniência de lei com aplicação de penalidade menos severa do que a vigente na data da infração atrai a incidência do art. 106, II, c, do CTN, que consagra o princípio da retroatividade benigna em matéria de multa.
Numero da decisão: 1002-000.248
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para reduzir a multa, por superveniência de leis novas (Leis 12.766/2012 e 12.873/2013) que prevêm, para a mesma infração tributária, aplicação de penalidade menos severa do que a vigente na data da infração (art. 106, II, "c", do CTN).
(assinado digitalmente)
Aílton Neves da Silva - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Aílton Neves da Silva (Presidente), Breno do Carmo Moreira Vieira, Leonam Rocha de Medeiros e Ângelo Abrantes Nunes.
Nome do relator: 05751001842 - CPF não encontrado.
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MATÉRIA VEDADA À ANÁLISE DO CARF. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para emitir juízo de constitucionalidade de lei tributária, a teor do que dispõe a Súmula CARF nº 02. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. ENTREGA EXTEMPORÂNEA DA DIMOB. INCIDÊNCIA. Comprovada a sujeição do contribuinte à obrigação tributária acessória, o descumprimento desta ou seu cumprimento em atraso enseja a aplicação das penalidades previstas na legislação de regência. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE ÀS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS ACESSÓRIAS. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF n. 49. Assim, impossível aplicarse o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de DCTF em atraso. MULTA. SUPERVENIÊNCIA DE LEI COM PENALIDADE MENOS SEVERA. RETROATIVIDADE BENIGNA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 92 5. 72 01 42 /2 01 2- 59 Fl. 65DF CARF MF 2 A superveniência de lei com aplicação de penalidade menos severa do que a vigente na data da infração atrai a incidência do art. 106, II, “c”, do CTN, que consagra o princípio da retroatividade benigna em matéria de multa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para reduzir a multa, por superveniência de leis novas (Leis 12.766/2012 e 12.873/2013) que prevêm, para a mesma infração tributária, aplicação de penalidade menos severa do que a vigente na data da infração (art. 106, II, "c", do CTN). (assinado digitalmente) Aílton Neves da Silva Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Aílton Neves da Silva (Presidente), Breno do Carmo Moreira Vieira, Leonam Rocha de Medeiros e Ângelo Abrantes Nunes. Relatório Por bem retratar os fatos até este momento processual, adoto o relatório produzido pela DRJ/RPO: Versa o presente processo sobre auto(s) de infração/notificação(ões) de lançamento (fls. 4), mediante o(s) qual(is) é exigido da contribuinte acima identificada crédito tributário relativo à multa por atraso na entrega de Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (Dimob), relativa ao anocalendário de 2011, no valor de R$ 5.000,00. Ciente do lançamento, a contribuinte ingressou com impugnação (fls. 2) na qual solicita o cancelamento da exigência tributária, sob alegação de que a entrega fora espontânea, nos termos do Código Tributário Nacional (CTN), art.138, portanto a multa seria inaplicável ao caso. A DRJ/RPO julgou improcedente a impugnação apresentada pela ora Recorrente, em decisão cuja ementa foi vazada nos seguintes termos: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2011 MULTA POR ATRASO. DECLARAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. Fl. 66DF CARF MF Processo nº 13925.720142/201259 Acórdão n.º 1002000.248 S1C0T2 Fl. 3 3 É devida a multa no caso de entrega da declaração fora do prazo estabelecido ainda que o contribuinte o faça espontaneamente. Inconformado com a decisão de primeira instância, o Recorrente apresentou recurso voluntário no qual, apresenta a argumentação a seguir sintetizada: Afirma que "O descumprimento das obrigações acessórias, portanto, não pode ser objetivamente considerado como infração. Para tanto, é necessário que esse descumprimento seja fraudulento e tenha como fim o descumprimento da obrigação tributária principal, que é pagar o tributo devido, uma vez que a sanção fiscal somente se justifica como garantia de cumprimento dessa obrigação." Acrescenta que "os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, que orientam a instituição e a aplicação das sanções, impedem que um simples descumprimento de obrigação acessória, sem que tenha ocasionado a falta de pagamento de tributo, acarrete a imposição de multa proporcional ao valor do tributo ou da operação que lhe deu causa, mormente quando o contribuinte, dandose conta de seu erro, incontinenti e voluntariamente o corrige." Reafirma que "No caso em tela, a recorrente providenciou a entrega da Dimob espontaneamente após o encerramento do prazo, sem que houvesse iniciado qualquer fiscalização por parte da Receita Federal" e que "O Código Tributário Nacional prevê o benefício da denúncia espontânea quando houver o pagamento dos tributos devidos acrescidos de juro de mora, conforme dispõe o art. 138 do referido diploma legal:" Argumenta que "pode, portanto, o contribuinte, na medida em que perceba a sua falta, voluntariamente elidir a aplicação da penalidade na medida em que a denuncie por antecipação à ação da fiscalização. Terá o contribuinte, então, para fazer jus à aplicação do benefício previsto no art. 138 do Código Tributário Nacional, de atender três requisitos: a) Denúncia Espontânea; b) Pagamento do tributo, SE FOR O CASO, com os juros e Correção Monetária; c) Ausência de procedimento Administrativo ou fiscal específico. Conclui que "É incontestável, portanto, que a denúncia espontânea aplicase tanto a infrações à obrigação tributária principal (que têm por objeto o pagamento do tributo ou penalidade pecuniária) como à obrigação tributária acessória (prestações positivas ou negativas exigidas no interesse da arrecadação e fiscalização). O texto legal não faz qualquer menção ao tipo de infração, abrangendo todos, atingindo em consequência as infrações substanciais e formais. O artigo em pauta aplicase indistintamente a qualquer infração da legislação tributária." Cita jurisprudência e doutrina que, no seu entendimento, corroboram com suas alegações, requerendo, por fim, a desconstituição da autuação e o arquivamento do presente feito. É o relatório. Voto Conselheiro Aílton Neves da Silva Relator Fl. 67DF CARF MF 4 O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Passo à análise dos pontos suscitados no Recurso. Quanto ao mérito, observo inicialmente que o atraso na entrega da DIMOB é fato ostensivo e incontroverso, eis que o Recorrente não o contesta. A exemplo do que ocorreu em primeira instância, o argumento central apresentado pelo Recorrente para afastamento da multa em questão baseiase na denúncia espontânea, haja vista ter entregue a DIMOB antes de qualquer procedimento fiscal. A questão da Denúncia espontânea já foi fundamentadamente afastada pela decisão de primeira instância, pelo que peço vênia para transcrever abaixo os principais trechos do voto condutor do acórdão recorrido, adotandoos, desde já, como razões de decidir, em cumprimento aos ditames do §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999 e em atenção ao disposto no §3º do art. 57 do RICARF: (...) Esclareçase que o CTN, art. 113, dispõe que a obrigação tributária é principal ou acessória e que a obrigação principal tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Os §§ 2º e 3º do artigo retrocitado assim dispõem: § 2º – A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º – A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal, relativamente à penalidade pecuniária. O nãocumprimento de uma obrigação acessória convertea em principal relativamente à penalidade pecuniária, e a multa pelo atraso na entrega está contida na legislação tributária como sanção pelo inadimplemento tributário, aplicada pela inobservância dos deveres acessórios. Não se pode admitir a alegação de ter havido a denúncia espontânea, pois a entrega se deu fora do prazo legal, sendo a multa fixada em lei e indenizatória da impontualidade, ou seja, constitui uma sanção punitiva da negligência. Dessa forma, com fulcro no retrocitado art. 113, tornase aplicável à penalidade pelo nãocumprimento da obrigação acessória de apresentação da DIMOB, lançada de acordo com o dispositivo legal descrito no auto de infração/notificação de lançamento. Interpretandose sistematicamente os dispositivos do CTN, tem se que o art. 138 não se desfez da multa por atraso no cumprimento de obrigação acessória. Fl. 68DF CARF MF Processo nº 13925.720142/201259 Acórdão n.º 1002000.248 S1C0T2 Fl. 4 5 Não há reparos a fazer na decisão recorrida quanto aos fundamentos legais apresentados que legitimam a cobrança da multa em questão, reforçandose que a matéria discutida nos autos já foi objeto da Súmula nº 49 do CARF, abaixo transcrita: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Como se observa a decisão expressa no acórdão de impugnação está conforme a jurisprudência dominante do CARF. Aduzo que a jurisprudência do STJ também é assente no sentido de que a denúncia espontânea não alberga o descumprimento de obrigação tributária acessória autônoma. Nesse sentido, confirase trecho do voto do o Exmo. Sr. Min. João Otávio de Noronha, relator do Voto condutor no Rec. Esp. n° 91.579 RJ (DJ 22/11/2004): O apelo merece prosperar, uma vez que a tese defendida no recurso especial encontra amparo na jurisprudência desta Corte sobre o tema. Com efeito, é pacífico o entendimento deste STJ no sentido da legalidade da exigência da multa moratória em virtude de atraso na entrega da Declaração de Contribuições de Tributos Federais (DCTF), visto que o instituto da denúncia espontânea, consagrado no art. 138 do Código Tributário Nacional, não alberga a prática de ato puramente formal, mas relacionase exclusivamente à natureza tributária de determinada exação, tendo vinculação voltada para as obrigações principais e acessórias àquela vinculadas. Ocorre que a obrigatoriedade de apresentação da DCTF é responsabilidade acessória autônoma, sendo norma de conduta do contribuinte, necessária ao exercício da atividade administrativa fiscalizadora do tributo, não se confundindo com o nãopagamento do tributo nem com as multas decorrentes de tal procedimento, uma vez que não tem relação alguma com o fato gerador do tributo, não estando, por conseguinte, alcançada pelo art. 138 do CTN. Desse modo, este STJ tem entendido que a denúncia espontânea não tem o condão de afastar a multa aplicada para punir infração de norma de conduta do contribuinte, em razão de atraso na entrega da DCTF, porquanto essa penalidade não está vinculada ao fato gerador da exação tributária. Nesse sentido, confiramse os seguintes precedentes desta Corte: «TRIBUTÁRIO. ENTREGA COM ATRASO DA DECLARAÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES E TRIBUTOS FEDERAIS DCTF. MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. É assente no STJ que a entidade 'denúncia espontânea' não alberga a prática de ato puramente formal do contribuinte de Fl. 69DF CARF MF 6 entregar, com atraso, a Declaração de Contribuições e Tributos Federais DCTF. As responsabilidades acessórias autônomas, sem qualquer vínculo direto com a existência do fato gerador do tributo, não estão alcançadas pelo art. 138, do CTN. 2. É cabível a aplicação de multa pelo atraso ou falta de apresentação da DCTF, uma vez que se trata de obrigação acessória autônoma, sem qualquer laço com os efeitos de possível fato gerador de tributo, exercendo a Administração Pública, nesses casos, o poder de polícia que lhe é atribuído. 3. A entrega da DCTF fora do prazo previsto em lei constitui infração formal, não podendo ser considerada como infração de natureza tributária. Do contrário, estarseia admitindo e incentivando o nãopagamento de tributos no prazo determinado, já que ausente qualquer punição pecuniária para o contribuinte faltoso 4. Agravo regimental desprovido» (Primeira Turma, AgRg no Ag n. 490.441/PR, relator Ministro Luiz Fux, DJ de 21/6/2004). «TRIBUTÁRIO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. DECADÊNCIA/PRESCRIÇÃO. INOCORRÊNCIA. ENTREGA COM ATRASO DE DECLARAÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES E TRIBUTOS FEDERAIS DCTF. MULTA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. PRECEDENTES. 1. Não cuidando o caso de homologação tácita, não há se falar na ocorrência da decadência (art. 150, § 4º, do CTN). O prazo prescricional incide conforme o disposto no art. 174, do CTN, id est, no qüinqüênio posterior à constituição do crédito tributário, o qual, na presente demanda, iniciase a partir do momento da efetivação da declaração por meio da entrega da Declaração de Contribuições e Tributos Federais DCTF. 2. A entidade 'denúncia espontânea' não alberga a prática de ato puramente formal do contribuinte de entregar, com atraso, a Declaração de Contribuições e Tributos Federais DCTF. 3. As responsabilidades acessórias autônomas, sem qualquer vínculo direto com a existência do fato gerador do tributo, não estão alcançadas pelo art. 138, do CTN. Precedentes. 4. Recurso não provido» (Primeira Turma, REsp n. 572.424/PR, relator Ministro José Delgado, DJ de 15/3/2004). «TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. IMPOSTO DE RENDA. DECLARAÇÃO ENTREGUE FORA DO PRAZO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ART. 138 DO CTN. NÃO CARACTERIZAÇÃO. MULTA MORATÓRIA. EXIGIBILIDADE. CONDENAÇÃO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. VIOLAÇÃO AO ARTIGO 512 DO CPC. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. APLICAÇÃO DA SÚMULA 211 DO STJ. I A entrega da declaração do Imposto de Renda fora do prazo previsto na lei constitui infração formal, não podendo ser tida como pura infração de natureza tributária, apta a atrair o Fl. 70DF CARF MF Processo nº 13925.720142/201259 Acórdão n.º 1002000.248 S1C0T2 Fl. 5 7 instituto da denúncia espontânea previsto no art. 138 do Código de Processo Civil. II Ademais, 'a par de existir expressa previsão legal para punir o contribuinte desidioso (art. 88 da Lei n° 8.981/95), é de fácil inferência que a Fazenda não pode ficar à disposição do contribuinte, não fazendo sentido que a declaração possa ser entregue a qualquer tempo, segundo o arbítrio de cada um' (REsp 243.241/RS, Rel. Min. FRANCIULLI NETTO, DJ de 21/08/2000). III A ausência de prequestionamento da matéria versada no recurso especial, embora opostos embargos declaratórios, impede a admissibilidade daquele, quanto a alegada ofensa ao art. 512 do CPC, a teor da Súmula 211 do STJ. IV Agravo regimental improvido» (Primeira Turma, AgRg no Ag n. 502.772/MG, relator Ministro Francisco Falcão, DJ de 22/3/2004). «TRIBUTÁRIO. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO DE RENDA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ART. 138 DO CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O atraso na declaração de rendas constitui infração de natureza formal e não está alcançada como conseqüência da denúncia espontânea inserta no art. 138, do Código Tributário Nacional. Precedentes. 2. Recurso especial provido» (Segunda Turma, REsp n. 363.451/PR, relator Ministro Castro Meira, DJ de 15/12/2003). De outro banda, o Recorrente aduz no Recurso Voluntário considerações sobre inconstitucionalidades e violação de Princípios de direito, supostamente derivados da aplicação da multa pelo descumprimento da obrigação acessória oriunda do atraso na entrega da DIMOB. A respeito dessa temática, é cediço que no ordenamento jurídico brasileiro as leis, depois de publicadas, gozam de presunção de constitucionalidade e que cumpre exclusivamente ao Poder Judiciário emitir juízo de constitucionalidade sobre elas, sendo defeso ao CARF qualquer pronunciamento nesse sentido, conforme entendimento também expresso em Súmula: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Por fim, o argumento do Recorrente de que o descumprimento das obrigações acessórias não pode ser objetivamente considerado como infração esbarra no artigo 136 do Código Tributário Nacional CTN, que prescreve que a responsabilidade no campo tributário independe da intenção do agente ou responsável, bem como da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Vejase o teor do dispositivo em questão: Fl. 71DF CARF MF 8 Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Referido artigo consagra a natureza objetiva da multa por infrações à legislação tributária, o que significa dizer que o caráter punitivo da reprimenda independe da ocorrência de erro, fraude, ou de eventual prejuízo derivado da inobservância de regras formais. De outro giro, observo que o artigo 57, inciso I, da Medida Provisória 2158 35/01, que constituiu a base legal do lançamento da multa em questão, foi alterado pelas leis 12.766/2012 e 12.873/2013, e atualmente tem a seguinte redação: Art. 57. O sujeito passivo que deixar de cumprir as obrigações acessórias exigidas nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, ou que as cumprir com incorreções ou omissões será intimado para cumprilas ou para prestar esclarecimentos relativos a elas nos prazos estipulados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e sujeitarseá às seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) I por apresentação extemporânea: (Redação dada pela Lei nº 12.766, de 2012) a) R$ 500,00 (quinhentos reais) por mêscalendário ou fração, relativamente às pessoas jurídicas que estiverem em início de atividade ou que sejam imunes ou isentas ou que, na última declaração apresentada, tenham apurado lucro presumido ou pelo Simples Nacional; (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) b) R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais) por mêscalendário ou fração, relativamente às demais pessoas jurídicas; (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) (...) III (...) (...) § 3o A multa prevista no inciso I do caput será reduzida à metade, quando a obrigação acessória for cumprida antes de qualquer procedimento de ofício. (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) (...) (grifos nossos) A superveniência de leis novas (Leis nº 12.766/2012 e nº 12.873/2013) que preveem, para a mesma infração tributária, aplicação de penalidade menos severa do que a vigente na data da infração atrai a incidência do art. 106, II, “c”, do CTN, que consagra o princípio da retroatividade benigna em matéria de multa: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: Fl. 72DF CARF MF Processo nº 13925.720142/201259 Acórdão n.º 1002000.248 S1C0T2 Fl. 6 9 I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. Portanto, considerando que a situação do Recorrente subsumese à previsão normativa constante da alínea "b" do Início I do artigo 57 da Medida Provisória 215835/01, o lançamento da multa em questão deve ser reduzido, conforme quadro abaixo: Valor da multa por mês em atraso (alínea "b" , I, art. 57, MP 215835/01) Número de meses ou fração em atraso Valor devido Crédito tributário constante da notificação de lançamento Crédito tributário a ser exonerado R$ 1.500,00 1 R$ 1.500,00 R$ 5.000,00 R$ 3.500,00 Para efeitos de aplicação da redução da multa prevista no § 3o do Inciso III do artigo 57 da Medida Provisória 215835/01, entendo que compete à Unidade de Origem verificar, no momento da execução do julgado, se houve procedimento de ofício anterior ao cumprimento da obrigação acessória de que trata a notificação de lançamento de efl. 4 (DIMOB). Pelo exposto, VOTO por dar PROVIMENTO PARCIAL do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Aílton Neves da Silva Relator Fl. 73DF CARF MF
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Numero do processo: 10530.904167/2009-53
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003
IRPJ. LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES.
Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, está compreendida no conceito de serviços hospitalares (art. 15, parágrafo 1º, III, "a", da Lei nº 9.249, de 1995, antes das alterações pela Lei nº 11.727, de 2008) a atividade de laboratório de análises clínicas, autorizando a incidência do percentual de 8% na apuração do lucro presumido.
Numero da decisão: 1201-002.039
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Souza (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa; ausentes justificadamente José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES. Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, está compreendida no conceito de serviços hospitalares (art. 15, parágrafo 1º, III, "a", da Lei nº 9.249, de 1995, antes das alterações pela Lei nº 11.727, de 2008) a atividade de laboratório de análises clínicas, autorizando a incidência do percentual de 8% na apuração do lucro presumido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Souza (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa; ausentes justificadamente José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 90 41 67 /2 00 9- 53 Fl. 143DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o processo de Declaração de Compensação PER/DComp em que o contribuinte requer direito creditório de recolhimento indevido ou a maior de 2089 IRPJ – Lucro Presumido, para compensar débitos. 2. O Despacho Decisório não reconheceu o crédito e não homologou a compensação declarada, determinando o prosseguimento na cobrança dos débitos indevidamente compensados, acrescidos de multa e juros de mora. 3. Regularmente cientificado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, que foi julgada improcedente, no julgamento de primeira instância. 4. Cientificado, apresentou Recurso Voluntário tempestivo ao CARF, no qual informa: Em síntese, o decisum ora atacado se baseou em duas premissas básicas, quais sejam: i) a Recorrente não constituía, à época do crédito, como uma sociedade empresária; e, ii) a não apresentação de provas para a satisfação do direito da aplicação do percentual reduzido do lucro presumido, para os fins de enquadramento como "serviços hospitalares". Quanto ao primeiro argumento, não deverá prosperar pelo simples fato de que o art. 2.031 do Código Civil permitiu que as empresas constituídas sob a égide do Código Civil anterior e demais legislações esparsas pudessem realizar as devidas adaptações do seu contrato social até 11.11.2007 na redação que foi dada pela Lei 11.127/2005. No tocante ao segundo fundamento, relativamente à apresentação das provas do efetivo exercício da atividade de "serviços hospitalares", cumpre ressaltar que não era esse o cerne da questão que motivou o despacho decisório que indeferiu ou não homologou a compensação Aliás, da leitura do próprio despacho decisório se conclui que a motivação foi exclusivamente a inexistência do direito ao crédito por não ter sido identificado, tais créditos, no confronto dos débitos e créditos informados na respectiva DCTF. Ora, se a discussão se deu exclusivamente em torno da demonstração dos créditos na respectiva DCTF, não há o que se falar da necessidade da apresentação das provas acerca do exercício da atividade de "serviços hospitalares", sob pena de preclusão. Em outras palavras, em momento algum foi questionado no respectivo despacho decisório sobre o direito da Recorrente de se utilizar dos percentuais reduzidos para os fins do lucro presumido. 5. Sobre a Natureza de Sociedade Empresária, refuta que não fosse sociedade empresária à época dos fatos, segundo o Código Civil: Fl. 144DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 4 3 Já o art. 966 define o empresário como sendo aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. O parágrafo único do mesmo artigo ressalva quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Em outras palavras, quem exerce atividade intelectual em princípio, não é empresário, mas pode ser se em sua atividade estiver presente o elemento de empresa. (...) (...) A Recorrente, que possui a atividade de Laboratório de Análises Clínicas, a exerce de forma organizada e evidenciada pela circulação de serviços, necessária para a definição do conceito de "empresário", além do aspecto da mãodeobra especializada e do fator tecnológico (equipamentos modernos, muitos deles importados). A circulação dos serviços se constata também pela necessidade de contratação de diversos profissionais qualificados (bioquímicos, farmacêuticos, enfermeiros, etc.) para a perfeita prestação dos seus serviços, os sócios, ainda que sejam profissionais, não poderiam, sozinhos, dar conta da demanda de um laboratório de análises clínicas. (...) Destarte, concluise, portanto, que é descabido o argumento invocado para negar um direito líquido e certo da Recorrente, por se enquadrar, à época da constituição do crédito a seu favor, como sociedade empresária, mediante os novos conceitos instituídos pelo Novo Código Civil, ainda que seus atos constitutivos tenham sido adaptados em 09 de julho de 2004, no prazo previsto no seu artigo 2.031. 6. Sobre a Prestação dos Serviços Hospitalares, invoca INs da RFB e Solução de Consulta que protocolou: A partir da publicação da Instrução Normativa 306 SRF, de 12 32003, publicada no DOU de 342003, a administração tributaria firmou um entendimento mais abrangente para o conceito de serviços hospitalares. Isto porque, o art. 23 do referido ato normativo disciplina que para os fins previstos no art. 15, § 1.°, inciso III, alínea "a", da Lei 9.249/95 (matriz legal do lucro presumido), poderão ser considerados serviços hospitalares aqueles prestados por pessoas jurídicas, diretamente ligadas à atenção e assistência à saúde, que possuam estrutura física condizente para a execução de uma das atividades ou a combinação de uma ou mais das atribuições relacionadas na Parte II, Capítulo 2, da Portaria GM nº 1.884/94, do Ministério da Saúde. 7. Que, posteriormente a IN SRF nº 480, de 2004, com as alterações pela IN SRF nº 539, de 27 de abril de 2005, no art. 27, apresentou nova definição, que transcreve. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 5 4 8. E relata que protocolou consulta, recebendo resposta positiva na Solução de Consulta 12, de 16 de fevereiro de 2007, cuja ementa transcreve: SOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 12 de 16 de Fevereiro de 2007 ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ EMENTA: Lucro Presumido. Percentuais. Serviços Hospitalares. A pessoa jurídica que exerça a atividade de Laboratório de análises clínicas Ligada à atenção e assistência à saúde, (atribuição 4) de que trata a Parte II da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de vigilância sanitária n$ 50, de 21 de fevereiro de 2062, alterada pela RDC nº 307, de 14 de novembro de 2002, e pela RDC nº 189, de 18 de julho de 2003, somente terá sua atividade considerada como serviço hospitalar, para os efeitos do artigo 15 do Lei n9 9.249, de 1995, se atender aos requisitos normativos. Consideramse não atendidos esses requisitos quando a pessoa jurídica enquadrar se nas exceções veiculadas no parágrafo único do artigo 9 66 do Código civil e/ou no parágrafo primeiro do artigo 27 da IN SRF n& 480, de 2904. Esse entendimento aplicase retroativamente. 9. Haja vista que o Acórdão recorrido considerou prova insuficiente a Solução de Consulta supra, anexa os seguintes documentos comprobatórios: a) Contratos de Prestação de Serviços firmados com entidades contratantes de tais serviços; b) Notas Fiscais de prestação de serviços faturados para os contratantes em que comprovam a prestação de laboratório de análises clínicas e patológicas. É o relatório. Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, Relatora O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201002.031, de 23.02.2018, proferido no julgamento do Processo nº 10530.904165/200964, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Nos presentes autos o contribuinte solicita a compensação de débito com crédito oriundo de pagamento indevido ou a maior que o devido de IRPJ do 1º trimestre de 2003. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201002.031): "10. A IN SRF nº 539, de 2005, foi revogada pela IN SRF nº 1.234, de 11 de janeiro de 2012, alterada pela IN RFB nº 1.540, de 05 de janeiro de 2015: Dos Serviços Hospitalares e Outros Serviços de Saúde Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles prestados por Fl. 146DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 6 5 estabelecimentos assistenciais de saúde que dispõem de estrutura material e de pessoal destinados a atender à internação de pacientes humanos, garantir atendimento básico de diagnóstico e tratamento, com equipe clínica organizada e com prova de admissão e assistência permanente prestada por médicos, que possuam serviços de enfermagem e atendimento terapêutico direto ao paciente humano, durante 24 (vinte e quatro) horas, com disponibilidade de serviços de laboratório e radiologia, serviços de cirurgia e parto, bem como registros médicos organizados para a rápida observação e acompanhamento dos casos. Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, prestados pelos estabelecimentos assistenciais de saúde que desenvolvem as atividades previstas nas atribuições 1 a 4 da Resolução RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, da Anvisa (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) Parágrafo único. São também considerados serviços hospitalares, para fins desta Instrução Normativa, aqueles efetuados pelas pessoas jurídicas: I prestadoras de serviços préhospitalares, na área de urgência, realizados por meio de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) móvel instalada em ambulâncias de suporte avançado (Tipo “D”) ou em aeronave de suporte médico (Tipo “E”); e II prestadoras de serviços de emergências médicas, realizados por meio de UTI móvel, instalada em ambulâncias classificadas nos Tipos “A”, “B”, “C” e “F”, que possuam médicos e equipamentos que possibilitem oferecer ao paciente suporte avançado de vida. Art. 31. Nos pagamentos efetuados, a partir de 1º de janeiro de 2009, às pessoas jurídicas prestadoras de serviços de auxilio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que as prestadoras desses serviços sejam organizadas sob a forma de sociedade empresária e atendam às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), será devida a retenção do IR, da CSLL, da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep, no percentual de 5,85% (cinco inteiros e oitenta e cinco centésimos por cento), mediante o código 6147. 11. O contribuinte, optante pelo lucro presumido, efetuou recolhimento do IRPJ apurado mediante a aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta; pleiteia que efetuou recolhimento a maior, uma vez que, como sua atividade está compreendida no conceito de serviços hospitalares, o percentual correto para a apuração é o de 8%. 12. Para comprovar a atividade, anexou contratos e notas fiscais; tratamse de contratos: de 17/08/1989, prestação de serviços de análises clínicas; 29/12/1989, patologia clinica; 08/03/2001, assistência médica; 01/02/2001, serviços de laboratório nas dependências do contratante; e contratos de 2003 e 2004, de serviços de análises clínicas, assistência médica, atendimento ambulatorial e procedimentos de diagnóstico e tratamento; e as notas fiscais são de 2004, tendo como objeto "Serviços prestados em exames, Materiais de produtos consumidos", "Exames laboratoriais automatizados", "material de consumo utilizado para a realização de exames automatizados". Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 7 6 13. Às págs. [...], consta a Alteração Contratual n° 09 e Consolidação, de 09/07/2004: SEGUNDA: O objeto da sociedade é: exploração do ramo de laboratório de análises clinicas e a importação de produtos bioquímicos para laboratórios de análises clínicas. 14. Na DIPJ 2003/2002, retificadora entregue em 18/05/2009, informou Código da Natureza Jurídica: 2062 Sociedade por Cotas de Responsabilidade Limitada Empresa Privada; Código da Atividade Econômica (CNAEFiscal): 85.146/02 Atividades dos laboratórios de análises clínicas, na qual informa a totalidade da receita bruta como sujeita ao percentual de 8%. 15. Não consta a DIPJ 2003/2002 original. 16. Esses elementos atestam as atividades de laboratório de análises clínicas, e de importação de produtos bioquímicos, embora a receita informada seja referente à primeira. 1 Atividade Empresarial 17. A antiga Sociedade Civil foi substituída, no novo Código, pela Sociedade Simples (CC, art. 982). a. Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916, Código Civil, revogado. Art. 16. São pessoas jurídicas de direito privado: I. As sociedades civis, religiosas, pias, morais, científicas ou literárias, as associações de utilidade pública e as fundações. 18. Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, Código Civil vigente desde 01/2003: Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. (...) Da Sociedade CAPÍTULO ÚNICO Disposições Gerais Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringirse à realização de um ou mais negócios determinados. Art. 982. Salvo as exceções expressas, considerase empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais. 2 Lucro Presumido. Atividades Hospitalares. 19. O CARF já sedimentou o entendimento acerca da questão: Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Data da Sessão 13/03/2014 Nº Acórdão 1201000.986 Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para: negar o pedido de restituição quanto aos créditos alcançados pela decadência, ao crédito relativo ao REDARF e ao crédito compensado em /duplicidade, nos termos do voto do relator, tendo sido reconhecido o direito ao crédito referente ao reenquadramento do coeficiente de presunção do lucro presumido de 32% para 8%. Ementa(s) Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 8 7 Anocalendário: 2000, 2001, 2002, 2003 IRPJ. LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES. Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, restam compreendidas no conceito de serviços hospitalares (artigo15, parágrafo 1º, inciso III, alínea a, da Lei nº 9.249/95, antes das alterações da Lei nº 11.727/2008) as atividades típicas de prestação de serviços de apoio diagnóstico por imagem e laboratório de análises clínicas, permitindose quanto a estas a incidência do percentual reduzido de 8%, relativamente ao IRPJ. 20. Transcrevese o teor do voto do Acórdão CARF supra, que analisou análoga situação relativamente a laboratório de análises clínicas, uma vez que retrata o entendimento do CARF, com o qual esta Relatora concorda: "Vencidos tais argumentos, cumprenos analisar a questão central dos autos, que se consubstancia na qualificação jurídica da Recorrente, que apresentou todas os pedidos de restituição e declarações de compensação até aqui mencionados ante o entendimento de que sua atividade se enquadraria no conceito de “serviços hospitalares”, nos termos da Lei n. 9.249/95. Aliás, a mudança de entendimento somente ocorreu após o trânsito em julgado (20 de março de 2007) da ação que não lhe reconheceu o direito de isenção da COFINS, com base na Lei Complementar n. 70/91. A partir da ciência de tal decisão, conforme acórdão prolatado pelo TRF da 1ª Região, o contribuinte passou a apresentar as DIPJ e DCTF retificadoras já analisadas, bem como as declarações de compensação com os créditos a que entendia fazer jus. A base legal da tributação encontrase nos artigos 15 e 20 da Lei n. 9.249/95, com a redação vigente à época dos fatos: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; (...) Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro liquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do §1º do art 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento, (grifamos) De se notar que a legislação, para os anoscalendário sob análise, fazia clara distinção entre os serviços em geral e a prestação de serviços hospitalares. Não há dúvida, em razão da dicção normativa, que o legislador considerava que os serviços prestados pelos laboratórios eram diferentes daqueles compreendidos na expressão "serviços hospitalares", até porque em 2008 o próprio texto foi alterado para incluir, a partir do anocalendário de 2009, os serviços de laboratório na faixa de tributação de 8% do lucro presumido, conforme observamos a seguir: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 9 8 bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. § 1° Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxilio diagnóstico e terapia, patologia clinica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clinicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Sacional de Vigilância Sanitária Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11. 727, de 2008) (grifamos) Portanto, atualmente é possível que um laboratório de análises clínicas seja tributado pela alíquota de 8%, observados os critérios legais, mas isso só se concretizou a partir do advento da Lei n. 11.727/2008, com para o anocalendário de 2009. Contudo, o Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento, na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil, de que mesmo antes das alterações promovidas pela Lei n° 11.727/2008, deve ser aplicada a alíquota de 8% para fins de presunção do lucro de laboratórios de análises clínicas que se enquadram em determinados requisitos. Reproduzimos, a seguir, o paradigmático acórdão: RECURSO ESPECLAL Nº 837.913 SC (200600756635) Relator: Ministro Hamilton Carvalhido Recorrente: Centro Médico São José Ltda Recorrido: Fazenda Nacional RECLUSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA. ALÍQUOTA REDUZIDA ARTIGO 15, PARAGRAFO 1O, INCISO III, ALÍNEA A, DA LEI Nº 9.249/95. SERVIÇOS HOSPITALARES. APOIO DIAGNÓSTICO POR LABORATÓRIO DE ANÀLISES CLÍNICAS. 1. Restam compreendidas no conceito de "serviços hospitalares" (artigo 15, parágrafo 1o, inciso III, alínea a, da Lei n° 9.249/95, antes das alterações da Lei n° 11.727/2008) as atividades típicas de prestação de serviços de apoio diagnóstico por imagem e laboratório de análises clinicas, permitindose quanto a estas a incidência do percentual reduzido de 8% relativamente ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ, excluídas as simples consultas médicas ou atividades de cunho administrativo (cf. REsp. n° 1.116.399/BA, julgado sob o regime do artigo 543C do Código de Processo Civil). 2. Recurso especial provido Por força de tal decisão, e ante as características da prestação de serviços laboratoriais demonstradas pela Recorrente nos autos, em razão dos diversos contratos firmados, inclusive com entidades de natureza pública, entendo forçoso reconhecer, na esteira do que decidiu o STJ, que deve ser conferido à interessada o direito ao crédito referente ao reenquadramento do coeficiente de presunção do lucro, de 32° o para 8%. Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso e, no mérito, DOULHE parcial provimento, para reconhecer o direito de reenquadramento da Recorrente no coeficiente de presunção do lucro de 8%." Conclusão Voto por DAR provimento ao recurso voluntário reconhecendo o direito creditório de 2089 – IRPJ Lucro Presumido recolhido a maior, até o limite da diferença entre os valores apurados com o percentual de 32% e o de 8% sobre a receita bruta da atividade de serviços de laboratório de análises clínicas." Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10530.904167/200953 Acórdão n.º 1201002.039 S1C2T1 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 151DF CARF MF
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Numero do processo: 10925.002519/2006-58
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jun 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 31/01/2001 a 30/11/2004
ATOS COOPERATIVOS TÍPICOS. ART. 79 LEI 5.764/71. NÃO INCIDÊNCIA DO PIS E DA COFINS.
Nos termos do artigo 62, §1º, II, 'b', do Regimento Interno do CARF, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.
No presente caso, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento realizado na sistemática do artigo 543-C do Código de Processo Civil, entendeu que não são tributados pelo PIS e pela Cofins os chamados atos cooperativos típicos. Recurso Especial nº 1.164.716 (trânsito em julgado em 22/06/2016).
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-005.283
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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DE ECONOMIA E CREDITO MUTUO DOS MEDICOS E DEMAIS PROF. DA SAUDE DE JOACABA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 31/01/2001 a 30/11/2004 ATOS COOPERATIVOS TÍPICOS. ART. 79 LEI 5.764/71. NÃO INCIDÊNCIA DO PIS E DA COFINS. Nos termos do artigo 62, §1º, II, 'b', do Regimento Interno do CARF, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No presente caso, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento realizado na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil, entendeu que não são tributados pelo PIS e pela Cofins os chamados atos cooperativos típicos. Recurso Especial nº 1.164.716 (trânsito em julgado em 22/06/2016). Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 00 25 19 /2 00 6- 58 Fl. 498DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de Auto de Infração para a cobrança da Contribuição destinada ao Programa de Integração Social PIS relativa ao período compreendido entre 31/01/2001 a 30/11/2004 sobre os valores identificados pela cooperativa ora Recorrente como atos cooperativos1. Nos termos do Relatório da Atividade Fiscal anexo ao Auto de Infração lavrado: "3.4. DA EXIGÊNCIA DO PIS SOBRE OS ATOS COOPERADOS Com a edição da Lei n° 9.718/1998, a base de cálculo do PIS passou a ser a receita bruta mensal da sociedade cooperativa sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas, cabendo somente as exclusões previstas no artigo 1° da Lei n° 9.701/98 e nos §§ 2° e 6° do artigo 3° da Lei n° 9.718, de 1998. Concluise, portanto, que a Contribuição para o Programa de Integração Social PIS, deve incidir sobre toda a receita bruta do período de apuração, independentemente de ser decorrente de operações com cooperados ou não cooperados." (efl. 24) Inconformada, a cooperativa apresentou Impugnação Administrativa, julgada integralmente improcedente pelo Acórdão 1624.124, da 8ª Turma da DRJ/SP1, ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2001 a 30/11/2004 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL (MPF). NULIDADE DE AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Constituindose o MPF em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo, eventual irregularidade formal nele detectada não enseja a nulidade do auto de infração, nem de quaisquer Termos Fiscais lavrados por agente fiscal competente para proceder ao lançamento, atividade vinculada e obrigatória nos termos da lei. PIS. DECADÊNCIA. Acatando o entendimento exposto na Súmula Vinculante n°. 8, o direito de constituição do crédito tributário relativo às contribuições sociais decai em 5 anos 1 A ação fiscal igualmente ensejou a lavratura de Auto de Infração de COFINS do mesmo período, objeto do PTA n.º 10925.002520/200682, que pelo extrato de andamento do processo neste Conselho, já foi objeto de julgamento pela Primeira Turma desta Câmara (acórdão 3401000.577) cujo teor da formalização não foi divulgado. Posteriormente o processo continuou sendo incluído em pauta naquela turma sob relatoria do Conselheiro André Lemos. Diante da ausência de informações relativas aquele processo e da existência de um posicionamento desse Conselho, não vejo prejuízo para o julgamento do presente processo por essa turma. Fl. 499DF CARF MF Processo nº 10925.002519/200658 Acórdão n.º 3402005.283 S3C4T2 Fl. 499 3 contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído, quando não se verifica o recolhimento antecipado do tributo. PIS. INCIDÊNCIA. BASE DE CÁLCULO. A partir de 1° de outubro de 1999, as sociedades cooperativas estão sujeitas à contribuição para o PIS sobre o seu faturamento, independente deste resultar de operações com cooperados e/ou com nãocooperados. Apenas as exclusões autorizadas pela legislação tributária e devidamente comprovadas devem ser consideradas para fins de apuração da base de cálculo da contribuição para o PIS. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" (efl. 458) Cientificada dessa decisão em 09/03/2010 (efl. 476), a cooperativa apresentou Recurso Voluntário em 08/04/2010 (efls. 477/488) reiterando parte das alegações trazidas na Impugnação, sustentando em síntese: (i) preliminarmente, a decadência de parte do período autuado, relativo ao período de janeiro a novembro de 2001, com fulcro no art. 150, §4º do Código Tributário Nacional CTN, vez que a cooperativa somente foi cientificada da autuação em 19/12/2006; (ii) no mérito, a não incidência do PIS sobre atos tipicamente cooperativos. Em seguida, os autos foram direcionados para este Conselho. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido, adentrando em suas razões. Como se depreende dos autos, a Recorrente é uma cooperativa de crédito mútuo que se dedica à atividade de "ajuda mutua, da economia sistemática e do uso adequado do credito" (efl. 37). A autuação foi lavrada por entender a fiscalização que os atos cooperativos por ela praticados, identificados pela Cooperativa em sua contabilidade, deveriam ser tributados pelo PIS. Vejamos novamente os termos do Relatório da Atividade Fiscal: "3.4. DA EXIGÊNCIA DO PIS SOBRE OS ATOS COOPERADOS Com a edição da Lei n° 9.718/1998, a base de cálculo do PIS passou a ser a receita bruta mensal da sociedade cooperativa sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas, cabendo somente as exclusões previstas no artigo 1° da Lei n° 9.701/98 e nos §§ 2° e 6° do artigo 3° da Lei n° 9.718, de 1998. Concluise, portanto, que a Contribuição para o Programa de Integração Social PIS, deve incidir sobre toda a receita bruta do período de apuração, Fl. 500DF CARF MF 4 independentemente de ser decorrente de operações com cooperados ou não cooperados." (efl. 24) Nesse sentido, e como se depreende da documentação contábil e fiscal anexa à autuação (efls. 74/375), todos os valores autuados se referem às receitas de atos cooperativos aferidos no exercício de sua atividade social identificada no Estatuto Social acostado aos autos (efls. 37/57), seja com a realização de empréstimos ou pelo investimento dos valores dos associados em rendas de títulos e valores mobiliários (especialmente, títulos de renda fixa). Apenas a título de exemplo, somente para buscar uma melhor visualização do objeto da autuação se referir apenas a atos cooperativos, vejamos o razão contábil da cooperativa Recorrente na competência de outubro/2003, anexado aos autos às efls. 209/212: (...) (...) (...) (...) Por sua vez, a base de cálculo autuada corresponde exatamente aos valores excluídos sob a denominação "Receitas de Atos Cooperativos". Especificamente na competência sob análise (outubro/2003), corresponde ao valor de R$ 96.300,76 como indicado no relatório fiscal (efl. 21): Fl. 501DF CARF MF Processo nº 10925.002519/200658 Acórdão n.º 3402005.283 S3C4T2 Fl. 500 5 Essencial evidenciar que em nenhum momento a fiscalização trata que os valores autuados se referem às vendas ou serviços realizados para terceiros2, indicando apenas que não caberia se falar em não incidência do PIS para os atos cooperativos. A discussão, portanto, se refere à possibilidade de tributação, pelo PIS, dos atos cooperativos típicos praticados pela Recorrente, quais sejam, de operações entre a Cooperativa e seus associados nos exatos termos identificados no art. 79 da Lei n.º 5.764/1971, recepcionada pelo art. 146, III, 'c' da Constituição Federal com o status de lei complementar, nos seguintes termos: "SEÇÃO I Do Ato Cooperativo Art. 79. Denominamse atos cooperativos os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais. Parágrafo único. O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria." (grifei) Esta matéria foi objeto de julgamento em sede de recurso repetitivo pelo Superior Tribunal de Justiça, em acórdão que deve ser devidamente aplicado por este Conselho à luz do art. 62, §1º, II, 'b' do RICARF3. Tratase do julgamento do Recurso Especial n.º 1.164.716, que abordou apenas os atos cooperativos típicos como aqueles envolvidos nos 2 As receitas decorrentes de atos realizados entre a cooperativa e terceiros foram considerados como sujeitos à incidência do PIS e da COFINS pelo Supremo Tribunal Federal nos Recursos Extraordinários com Repercussão geral n.º RE 598.085 e RE 599.362, ambos já transitados em julgado. Neste último foi firmada a tese segundo a qual "A receita ou o faturamento auferidos pelas Cooperativas de Trabalho decorrentes dos atos (negócios jurídicos) firmados com terceiros se inserem na materialidade da contribuição ao PIS/Pasep." (RE 599362 ED, Relator Min. Dias Toffoli, Tribunal Pleno, julgado em 18/08/2016, Acórdão eletrônico DJe237 Divulg. 07/11/2016 Public. 08/11/2016). No mesmo sentido, no primeiro RE, foi igualmente tratada a incidência sobre atos entre as cooperativas e terceiros: "11. Ex positis, dou provimento ao recurso extraordinário para declarar a incidência da COFINS sobre os atos (negócios jurídicos) praticados pela recorrida com terceiros tomadores de serviço, resguardadas as exclusões e deduções legalmente previstas. Ressalvo, ainda, a manutenção do acórdão recorrido naquilo que declarou inconstitucional o § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, no que ampliou o conceito de receita bruta." (RE 598085, Relator Min. Luiz Fux, Tribunal Pleno, julgado em 06/11/2014, Acórdão eletrônico Repercussão Geral Mérito DJe027 Divulg. 09/02/2015 Public. 10/02/2015 grifei) 3 "Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: II que fundamente crédito tributário objeto de: b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016)" (grifei) Fl. 502DF CARF MF 6 presentes autos, cujo acórdão transitou em julgado em 22/06/20164. Este julgado foi ementado nos seguintes termos: "TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. NÃO INCIDÊNCIA DO PIS E DA COFINS NOS ATOS COOPERATIVOS TÍPICOS. APLICAÇÃO DO RITO DO ART. 543C DO CPC E DA RESOLUÇÃO 8/2008 DO STJ. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. Os RREE 599.362 e 598.085 trataram da hipótese de incidência do PIS/COFINS sobre os atos (negócios jurídicos) praticados com terceiros tomadores de serviço; portanto, não guardam relação estrita com a matéria discutida nestes autos, que trata dos atos típicos realizados pelas cooperativas. Da mesma forma, os RREE 672.215 e 597.315, com repercussão geral, mas sem mérito julgado, tratam de hipótese diversa da destes autos. 2. O art. 79 da Lei 5.764/71 preceitua que os atos cooperativos são os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais. E, ainda, em seu parág. único, alerta que o ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria. 3. No caso dos autos, colhese da decisão em análise que se trata de ato cooperativo típico, promovido por cooperativa que realiza operações entre seus próprios associados (fls. 126), de forma a autorizar a não incidência das contribuições destinadas ao PIS e a COFINS. 4. O parecer do douto Ministério Público Federal é pelo desprovimento do Recurso Especial. 5. Recurso Especial desprovido. 6. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 8/2008 do STJ, fixandose a tese: não incide a contribuição destinada ao PIS/COFINS sobre os atos cooperativos típicos realizados pelas cooperativas." (STJ, REsp 1164716/MG, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Seção, julgado em 27/04/2016, DJe 04/05/2016 grifei) A aplicação desse precedente especificamente para as cooperativas de crédito mútuo, tal como a Recorrente, é feita de forma clara pelo Superior Tribunal de Justiça, como se depreende do julgado da Primeira Turma daquela Corte: "TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. COOPERATIVA DE CRÉDITO. PIS/COFINS. APLICAÇÕES FINANCEIRAS. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. A 1a. Seção desta Corte, ao apreciar os Recursos Especiais 1.141.667/RS e 1.164.716/MG (Rel. Min. NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, DJe 4.5.2016), julgados sob o rito do art. 543C do CPC, concluiu que não incide a contribuição destinada ao PIS/COFINS sobre os atos cooperativos típicos realizados pelas cooperativas. 2. No caso das cooperativas de crédito, o ato cooperativo envolve a captação de recursos, a realização de empréstimos efetuados aos cooperados, bem assim a movimentação financeira da cooperativa, de sorte que toda a receita das cooperativas de crédito é isenta de PIS e COFINS, segundo o entendimento do STJ. A saber, citese precedente específico da 1a. Seção: REsp. 591.298/MG, Rel. Min. TEORI ALBINO ZAVASCKI, Rel. p/acórdão Min. CASTRO MEIRA, 1a. Seção, DJ 7.3.2005, p. 136. 4 Cumpre mencionar que nessa mesma oportunidade, o STJ julgou o Recurso Especial n.º 1.141.667, que se encontra sobrestado até o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do RE 672.215. Esta mesma providência não foi tomada quanto ao Resp n.º 1.164.716, acima transcrito, que transitou em julgado em 24/06/2016, conforme extrato de andamentos disponível em https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?tipoPesquisa=tipoPesquisaNumeroRegistro&termo=200902107185 Fl. 503DF CARF MF Processo nº 10925.002519/200658 Acórdão n.º 3402005.283 S3C4T2 Fl. 501 7 3. Agravo Interno da FAZENDA NACIONAL desprovido." (STJ, AgInt no AgInt no REsp 1173577/MG, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, julgado em 21/03/2017, DJe 31/03/2017 grifei) Esse tem sido igualmente o posicionamento deste Conselho, como se depreende de julgado proferido pela Câmara Superior de Recursos Fiscais em processo relativo a uma cooperativa de crédito mútuo: "Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2002 a 30/12/2004 COOPERATIVA DE CRÉDITO. ATOS COOPERATIVOS TÍPICOS. LEI 5.764/71. NÃO INCIDÊNCIA DO PIS E DA COFINS. Nos termos do artigo 62A do Regimento Interno do CARF, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No presente caso, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento realizado na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil, entendeu que não são tributados pelo PIS e pela Cofins os chamados atos cooperativos. Recursos Especiais nºs 1.164.716 e 1.141.667. Precedentes STJ." (Número do Processo 11060.002303/200672. Data da Sessão 20/09/2017 Relator Demes Brito Nº Acórdão 9303005.786 Unânime grifei. Contribuinte COOPERATIVA DE CREDITO DE LIVRE ADMISSAO DE ASSOCIADOS DO VALE DO RIO CAMAQUA SICREDI VALE DO CAMAQUA) Cumpre mencionar que a discussão entre a diferença no tratamento tributário do ato cooperativo típico e atípico será objeto de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral, do Recurso Extraordinário n.º 672.2155. Contudo, este julgado ainda está pendente, invocando a aplicação na hipótese do julgado do STJ, já transitado em julgado, por exigência regimental. Por fim, insta salientar que por entender que cabe provimento ao Recurso no mérito, suficiente para cancelar integralmente a autuação, deixo de analisar a preliminar de decadência suscitada. 5 "EMENTA: TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DA COFINS, DA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO SOCIAL E DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE O LUCRO LÍQUIDO SOBRE O PRODUTO DE ATO COOPERADO OU COOPERATIVO. DISTINÇÃO ENTRE “ATO COOPERADO TÍPICO” E “ATO COOPERADO ATÍPICO”. CONCEITOS CONSTITUCIONAIS DE “ATO COOPERATIVO”, “RECEITA DE ATIVIDADE COOPERATIVA” E “COOPERADO”. COOPERATIVA DE SERVIÇOS MÉDICOS. VALORES PAGOS POR TERCEIROS À COOPERATIVA POR SERVIÇOS PRESTADOS PELOS COOPERADOS. LEIS 5.764/1971, 7.689/1988, 9.718/1998 E 10.833/2003. ARTS. 146, III, c, 194, par. ún., V, 195, caput, e I, a, b e c e § 7º e 239 DA CONSTITUIÇÃO. Tem repercussão geral a discussão sobre a incidência da Cofins, do PIS e da CSLL sobre o produto de ato cooperativo, por violação dos conceitos constitucionais de “ato cooperado”, “receita da atividade cooperativa” e “cooperado”. Discussão que se dá sem prejuízo do exame da constitucionalidade da revogação, por lei ordinária ou medida provisória, de isenção, concedida por lei complementar (RE 598.085RG), bem como da “possibilidade da incidência da contribuição para o PIS sobre os atos cooperativos, tendo em vista o disposto na Medida Provisória nº 2.15833, originariamente editada sob o nº 1.8586, e nas Leis nºs 9.715 e 9.718, ambas de 1998” (RE 599.362RG, rel. min. Dias Toffoli)." (RE 672215 RG, Relator(a): Min. Joaquim Barbosa, julgado em 29/03/2012, Acórdão Eletrônico DJe083 Divulg. 27/04/2012 Public. 30/04/2012 grifei) Fl. 504DF CARF MF 8 Dessa forma, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário para cancelar integralmente a exigência fiscal autuada. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Fl. 505DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.944908/2013-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jun 11 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.567
Decisão: Vistos relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência à unidade de origem para que a autoridade fiscal: 1) por ser o laudo n° 59/2018 fato novo, que se manifeste a autoridade fiscal sobre ele; 2) quanto à aquisição de leite fresco, analise os documentos indicados pela Recorrente para verificar se: a) o transporte do leite foi feito por terceiros, que não a Recorrente ou fornecedor; b) as notas fiscais indicadas contêm a informação de venda com suspensão, e c) se foram cumpridos os requisitos para suspensão, dispostos na IN nº 660/06; 3) quanto à aquisição de GÁS LIQUEFEITO DE PETRÓLEO BOT, GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO EM BOTIJÃO 45 KG e GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO BOTIJÃO 20KG EMP, verifique a possibilidade de segregação entre as aquisições para área administrativa e para o processo produtivo da Recorrente; 4) quanto à NF 013645, da Logoplaste do Brasil Ltda., verifique se essa nota foi lançada corretamente, no valor de R$ 4.663,40, em virtude do erro de preenchimento alegado pela empresa; 5) quanto à contratação de mão de obra, coteje as notas fiscais juntadas e as indicadas no recurso voluntário, no DOC. 10 e 11, e o laudo, bem como os demais elementos que constam nos autos para atestar se tal mão de obra foi aplicada no processo produtivo da Recorrente; 6) quanto às despesas de energia elétrica, faça a conciliação das notas, DOC. 13 do recurso voluntário, com a escrituração da Recorrente, com vistas a atestar a legitimidade do creditamento com base nesses documentos; 7) quanto às despesas de fretes, analise as planilhas juntadas pela Recorrente no recurso voluntário, para atestar a correta segregação entre frete de aquisição, frete de venda e frete de transferência, com apoio dos conhecimentos de transporte e notas fiscais correspondentes às operações de compra, venda e transferência; 8) caso entenda necessário, intime o sujeito passivo para prestar outros esclarecimentos, tais como planilhas ou outros documentos; 9) cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendo-lhe prazo para manifestação; e 10) retorne os 33 processos juntos ao CARF para julgamento.
José Henrique Mauri - Presidente.
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora.
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Valcir Gassen, Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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Recorrida Fazenda Nacional Vistos relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência à unidade de origem para que a autoridade fiscal: 1) por ser o laudo n° 59/2018 fato novo, que se manifeste a autoridade fiscal sobre ele; 2) quanto à aquisição de leite fresco, analise os documentos indicados pela Recorrente para verificar se: a) o transporte do leite foi feito por terceiros, que não a Recorrente ou fornecedor; b) as notas fiscais indicadas contêm a informação de “venda com suspensão”, e c) se foram cumpridos os requisitos para suspensão, dispostos na IN nº 660/06; 3) quanto à aquisição de GÁS LIQUEFEITO DE PETRÓLEO BOT, GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO EM BOTIJÃO 45 KG e GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO BOTIJÃO 20KG EMP, verifique a possibilidade de segregação entre as aquisições para área administrativa e para o processo produtivo da Recorrente; 4) quanto à NF 013645, da Logoplaste do Brasil Ltda., verifique se essa nota foi lançada corretamente, no valor de R$ 4.663,40, em virtude do erro de preenchimento alegado pela empresa; 5) quanto à contratação de mão de obra, coteje as notas fiscais juntadas e as indicadas no recurso voluntário, no DOC. 10 e 11, e o laudo, bem como os demais elementos que constam nos autos para atestar se tal mão de obra foi aplicada no processo produtivo da Recorrente; 6) quanto às despesas de energia elétrica, faça a conciliação das notas, DOC. 13 do recurso voluntário, com a escrituração da Recorrente, com vistas a atestar a legitimidade do creditamento com base nesses documentos; 7) quanto às despesas de fretes, analise as planilhas juntadas pela Recorrente no recurso voluntário, para atestar a correta segregação entre frete de aquisição, frete de venda e frete de transferência, com apoio dos conhecimentos de transporte e notas fiscais correspondentes às operações de compra, venda e transferência; 8) caso entenda necessário, intime o sujeito passivo para prestar outros esclarecimentos, tais como planilhas ou outros documentos; 9) cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo para manifestação; e 10) retorne os 33 processos juntos ao CARF para julgamento. José Henrique Mauri Presidente. Semíramis de Oliveira Duro Relatora. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 44 90 8/ 20 13 -4 5 Fl. 2812DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.813 2 Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Valcir Gassen, Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Na origem, a DRF analisou os Pedidos Eletrônicos de Ressarcimento (PER) e Declarações de Compensação (DCOMP) a eles vinculadas, por meio dos quais a empresa pretende ressarcir e compensar, neste último caso, quando houver DCOMP para o período, créditos da nãocumulatividade da COFINS e do PIS/Pasep vinculados a receitas tributadas à alíquota 0 (zero) no mercado interno e oriundos do 3º e 4º trimestres de 2007; 1º trimestre de 2009; 1º trimestre de 2010 ao 4º trimestre de 2012; bem como, no caso exclusivo dos créditos de Cofins, do 2º ao 4º trimestre de 2009, que, segundo o contribuinte, montam em R$ 146.939.599,93 (cento e quarenta e seis milhões, novecentos e trinta e nove mil, quinhentos e noventa e nove reais e noventa e três centavos). Tratase de julgamento em conjunto de 33 (trinta e três) processos conexos: 1. 10880.944897/201301; 2. 10880.944898/201348; 3. 12585.000324/201083; 4. 12585.000325/201028; 5. 12585.000326/201072; 6. 12585.000328/201061; 7. 10880.944921/201302; 8. 10880.944917/201336; 9. 10880.944918/201381; 10. 10880.944920/201350; 11. 10880.944910/201314; 12. 10880.944911/201369; 13. 10880.944902/201378; 14. 10880.944900/201389; 15. 10880.944913/201358; 16. 10880.944903/201312; 17. 10880.944906/201356; 18. 10880.944923/201393; 19. 10880.944896/201359; 20. 10880.944899/201392; 21. 12585.000327/201017; 22. 10880.944915/201347; 23. 10880.944919/201325; 24. 10880.944914/201301; 25. 10880.944916/201391; 26. 10880.944912/201311; 27. 10880.944908/201345; Fl. 2813DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.814 3 28. 10880.944909/201390; 29. 10880.944904/201367; 30. 10880.944901/201323; 31. 10880.944905/201310; 32. 10880.944907/201309 e, 33. 10880.944922/201349. Tais processos foram analisados em conjunto na origem, tendo sido emitida apenas uma informação fiscal para todos os períodos, a qual embasou os Despachos Decisórios, e neste relatório, remetese a essa informação fiscal. Na DRF, foram deferidos parcialmente os pedidos eletrônicos de ressarcimento, e, em consequência, homologadas as declarações de compensação apresentadas até o limite do direito creditório reconhecido, quando existentes. Informação Fiscal Extraise da Informação Fiscal os detalhes das glosas efetuadas pela fiscalização: DOS BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA • o sujeito passivo apurou créditos básicos de bens para revenda calculados em relação à aquisição de leite fresco in natura nos períodos de apuração julho/2007, setembro/2007 e dezembro/2007, nos seguintes montantes: Por outro lado, ao analisar a planilha enviada pela contribuinte em 15/01/2014 com a relação de todos os produtos vendidos, acompanhados de sua descrição e montante total no período, constatouse que ela obteve receitas de vendas de leite fresco in natura inferiores aos valores adquiridos no mês, conforme relação abaixo: Assim, tendo em vista que o leite fresco in natura é produto com alto grau de perecibilidade e tornase, em reduzido intervalo de tempo, impróprio para a utilização ou comercialização, é razoável concluir que os valores adquiridos que excedem as receitas de vendas desse produto certamente não foram destinados à revenda e, portanto, não devem compor o crédito básico da rubrica sob análise. Nesse sentido, desconsiderada a possibilidade de as quantidades excedentes terem perecido e, assim, sido desperdiçadas, o que anularia totalmente os créditos do sujeito passivo, é natural inferir que tenham sido utilizadas como insumos na industrialização dos laticínios que compõem a carteira de produtos do sujeito passivo. Fl. 2814DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.815 4 Por essa razão, foram realocados os valores que excedem as receitas de venda de leite fresco in natura para a rubrica créditos presumidos e mantidos sob a rubrica bens adquiridos para revenda os valores dentro dos limites das receitas acima discriminadas; • a contribuinte foi intimada a apresentar descrição sucinta de alguns itens presentes em suas planilhas de crédito, bem como a sua destinação no âmbito do processo produtivo. A explicação fornecida deixa claro que se trata de embalagem ou material de embalagem utilizados no transporte das mercadorias vendidas, não se integrando aos produtos finais vendidos. Não é de se cogitar o enquadramento desses produtos como insumo, tendo em vista que, para tanto, o material em questão deveria ser aplicado na embalagem de apresentação destinada ao consumidor final, e não de forma acessória apenas na embalagem de transporte. Por essa razão, os lançamentos referentes à aquisição de CAIXA CHAMBINHO 360 520G REFR BR, CAIXA EXPEDICAO YGT NATURAIS REFR BR, CAIXA YGT 21X200G CHBNH 26X130G REFR BR e CAIXA YGT BICAMADA 24X150 G REFR BR foram integralmente glosados; • a autuada apurou parte de seu crédito com base em operações cujas naturezas não se encaixam no conceito de bens para revenda, uma vez que descreveu essas operações como “Outra entrada de mercadoria ou prestação de serviço não especificada”, com a utilização do Código Fiscal de Operações e Prestações (CFOP) nº 1949. Dessa forma, essas operações foram integralmente glosadas; DOS BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS • de modo análogo ao caso dos bens adquiridos para revenda, as aquisições de “Leite fresco produtor granel” e “Leite fresco usina granel” para insumo são hipóteses de apuração de crédito presumido, a teor do disposto no art. 8º, § 1º, inciso II, da Lei nº 10.925, de 2004, não podendo gerar créditos com alíquota cheia. Por isso, esses valores devem ser realocados para a rubrica adequada, qual seja, “Créditos Presumidos Calculados sobre a Aquisição de Insumos de Origem Animal”; • pelas razões já acima expostas, foram glosados os créditos decorrentes da aquisição dos seguintes produtos, tendo em vista que se enquadram no conceito de embalagem ou material de embalagem de mero transporte de mercadorias, não integrados ao produto destinado ao consumidor final: CAIXA CHAMBINHO 360 520G REFR BR, CAIXA CHAMY FRUTESS T REX 1000G REFR BR, CAIXA CHANDELLE 2 E 4 POTES REFR BR, CAIXA CHBNH 38X90G YGT24X130G REFR BR, CAIXA DE GAXETA ACO, CAIXA ESPECIALIDADE LACTEA REFR BR, CAIXA EXPEDICAO MOUSSE 14X150G REFR BR, CAIXA EXPEDICAO NECTAR LARANJA 12X1L, CAIXA EXPEDICAO YGT NATURAIS REFR BR, CAIXA FRUTESS T PRISMA 12X315G REFR BR, CAIXA GAXETA TRI CLOVER PN J324B0002, CAIXA PAP ONDULADO IOG POLPA 12X400G, CAIXA PO AUTM IOG LIQ 48X180G REFR BR, CAIXA PO AUTM LEI FERM 20X450G REFR BR, CAIXA PO AUTM LEI FERM 20X720G REFR BR, CAIXA PO CHAMY SACO 12X1000G REFR BR, CAIXA PO ERCA DECOR 3 12X400G REFR BR, CAIXA PO MOCA FESTA 20X180G BR, CAIXA PO NESTLE IOG NAT 21X170G REFR BR, CAIXA PO REFR CHAMYTO BIG 22X720G BR, CAIXA PO REFR CHAMYTO CHOC 20X480G BR, CAIXA PO REFR CHANDELLE MOUSSE 14MP BR, CAIXA PO REFR ERCA DECOR 4 600G BR, CAIXA PO REFR NESTLE NINHO 100G BR, CAIXA PO REFR PTSIS 16 UNI ALTURA 32MMBR, CAIXA PO REFR PTSIS 16 UNI ALTURA 35MMBR, CAIXA PO REFR REQUEIJAO 19X220G BR, CAIXA POICAO CHAMY SACO 12X1000G REFR BR, CAIXA PUDIM MOCA 2 E 4 POTES REFR BR, CAIXA SEM ABAS CHMYT 30X4P 22X6P REFR BR, CAIXA UNICAYGT 6 BANDEJAS REFR BR, CAIXA YGT 21X200G CHBNH Fl. 2815DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.816 5 26X130G REFR BR, CAIXA YGT BAG 1 X 10KG REFR BR, CAIXA YGT BICAMADA 24X150 G REFR BR, CAIXA YGT LIQ 45X200G9X800G REFR BR, CAIXA YGT LIQUIDOS 10X850 900G REFR BR, CAIXA YGT MOLICO 21X150G REFR BR e CAIXAPO REFRCHDEL MSE INDVIDUAL 14X75GBR, ACESSORIO CONTAINER 1200KG, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413115, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413136, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413167, CONTAINER PREP FRT 1200KG, CX TRANSPORTE FRASCOS FORNECEDOR, DIVISORIA DE PAPELAO, DIVISORIA PAPELAO 1 00MX1 20M, ETIQUETA IDENTIFICACAO PALETE REFR BR, ETIQUETA PAPEL AADSV AUTOMACAO FABRICA, ETIQUETA PAPEL AUTO ADESIVA C75MM L104MM, FILME ENCOLHIVEL CHAMYTO 6P REFR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT FRTVERM 450G PRBR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT FRTVERM 720G PRBR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT LEIFERM450G PR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT LEIFERM720G PR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT TT FR 450G PR BR, FILME ENCOLHIVEL PEBD CHAMYTO 6X75G PR, FILME PEBD CHAMY MRG REFR BR, FILME PEBD PELBD NESTLE MRG REFR 900G, FILME SHRINK PEBD CHAMYTO 6X75G TT FR PR, FILME SHRINK PEBD CHAMYTO FRUTASVERMBR, FILME SHRINK PEBD CHAMYTO UVA 6X75G, FILME SHRINK PEBD CHMYT BIG FRUTASVERMBR, FILME SHRINK PEBD FCHAMYTO BIG 6X120G PR, FILME SHRINK PEBD REFR CHAMYTO 4X3G PRBR, FILME SHRINK PEBD REFR CHAMYTO BIG BR, FILME SHRINKPEBD NINHO LEI FERMENTADO BR, FILME SHRINKPEBD NINHO LEIFERMENT 7X1 BR, FILME TERMOENC CHAMYTO TT FR 6 POTES BR, FITA ARQUEAR PP VERDE C2000MX L12MM, FITA DE ARQUEAR PP C2500M L12MM, FITA DE ARQUEAR PP C2500M L12MM 2008, PAPELAO VELOMOIDE 1 64 ESPES X1 20 LARG e STRETCHFILME 500MM X 24 5UM. • os lançamentos descritos como CAPA DESCARTAVEL TAMANHO UNICO, DESINFETANTE DIVOSAN S1, DESINFETANTE ACIDO PERACET LIQ 30KG, LUVAS DESCARTAVEL 340X270X006MM, MANGOTE DESCART POLIPR BRANCO GRAM 20, MANGOTE DESCARTAVEL POLIPROPILENO, MANGOTES EM POLIPROPILENO BRANCA 30GR, PANO DE LIMPEZA ALVEJADO 60CMx35CM, PANO LIMPEZA AZUL BAINHA MED 30X40CM, PANO LIMPEZA BAINHA BRANCO MED42X75CM, PANO PARA LIMPEZA OVERLOQUE AZUL40X20CM, PAR DE LUVA DE POLITILENO TRANSPARENTE, SABONETE LIQUIDO SUMASEPT, TOUCA DESC AZUL C ELASTICO 50CM GRAM 30, TOUCA DESCARTAVEL 50CM GRAMATURA 30 e TOUCA PROT DESC PP BR UN referemse à aquisição de material de limpeza, no caso do desinfetante, e de material descartável de proteção pessoal e higiene nos demais casos, não se enquadrando, portanto, no conceito de insumo. As Instruções Normativas SRF nº 247, de 2002, e nº 404, de 2004, ao explicitarem o que se deve ter por insumo para os fins colimados pelas Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, definiram que se entende como insumo as matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado. Não é o caso, por óbvio, dos bens supramencionados, que são utilizados apenas para proteção pessoal e manutenção das condições de higiene do ambiente em que são utilizados, não sendo consumidos ou integrados ao produto final durante a fabricação, devendo, portanto, ser integralmente glosados. Igual tratamento merece a aquisição de FITA ISOLANTE, material acessório utilizado em reparos de máquinas, equipamentos ou instalações elétricas não necessariamente ligadas ao processo produtivo, que sequer é incluída quando da substituição de peças que sofrem desgaste Fl. 2816DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.817 6 em decorrência da fabricação do produto. O mesmo pode se dizer dos lançamentos descritos como 7 SERVICOS CONSULTORIA EM RH, BRINDE E RELACOES PUBLICAS e BRINDES DIVERSOS, uma vez que os serviços de consultoria em recursos humanos destinamse, preponderantemente, ao auxílio no recrutamento e gerenciamento de pessoal, não se encaixando, por óbvio no conceito de insumos. Assim como os brindes, usualmente destinados a clientes e fornecedores, e não direcionados ao processo produtivo, não ensejando apuração de créditos. As aquisições de GAS LIQUEFEITO DE PETROLEO BOT, GAS LIQUEFEITO PETROLEO EM BOTIJAO 45 KG e GAS LIQUEFEITO PETROLEO BOTIJAO 20KG EMP também foram integralmente glosadas tendo em vista que, em resposta à intimação que lhe foi feita, a contribuinte esclareceu que os referidos itens são utilizados como “combustível para empilhadeiras” ou na “preparação de alimento não se encaixando, portanto, no conceito de insumos. Por essa razão, os créditos decorrentes dos lançamentos supracitados foram integralmente glosados; • a aquisição de LEITE DESNATADO GRANEL, LEITE DESNATADO GRANEL TERCEIROS, LEITE DESNATADO INDUSTRIAL COPACKER, LEITE EM PO DESNATADO MSK, LEITE PO INTEGRAL 26 25KG, LEITE PO MSK 25KG e SORO MILK PO 25KG são operações sujeitas à alíquota zero, pois se tratam de aquisição de leite industrializado, desnatado, integral ou em pó, bem como de soro de leite, cujas alíquotas das contribuições são iguais a zero, conforme reza o art. 1º, XI e XIII, da Lei nº 10.925, de 2004. Aquisições sujeitas à alíquota zero não geram direito a crédito, nos termos do § 2º, inciso II, do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, que determinam que “não dará direito a crédito o valor da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição”. Dessa forma os referidos lançamentos foram integralmente glosados. Assim como a aquisição de leite industrializado, a aquisição no mercado interno de frutas e produtos hortícolas classificados nos capítulos 7 e 8 da TIPI também se sujeita a alíquota zero, de acordo com o art. 28, inciso III, da Lei nº 10.865, de 2004. Por essa razão, os créditos decorrentes das aquisições de produtos hortícolas e frutas, todos classificados nos capítulos 7 e 8 da TIPI, descritos como AMEIXA POLPA PASTEURIZADA 20KG, AMORA POLPA 8BRIX CONGELADA 20KG, BANANA POLPA LIQUIDA 24BRIX PAST 20KG, COCO RALADO 0JAN 004 MM 25KG, FRAMBOESA POLPA 8BRIX 10KG, KIWI POLPA 13 BRIX, MAMAO POLPA 8 11 BRIX PASTEURIZADO 210KG, MELAO POLPA 4 7BRIX CONGELADO 12KG, MORANGO POLPA SEM SMT 4 5 8 5BRIX 10KG, PERA POLPA 8 13BRIX CONGELADA 20KG, PESSEGO POLPA 8 11BRIX CONGELADO 12KG, POLPA DE MORANGO, POLPA MORANGO PAST SEM SMT 28BRIX 200KG e POLPA MORANGO PAST SEM SMT 28BRIX 210KG, foram integralmente glosados; • a contribuinte apurou parte de seu crédito com base em operações cujas naturezas não se encaixam no conceito de bens utilizados como insumos, uma vez que descreveu essas operações como “Outra entrada de mercadoria ou prestação de serviço não especificada” e “Compra de material para uso ou consumo”, com a utilização dos Códigos Fiscais de Operações e Prestações (CFOP) nº 1949, 2949, 1556 e 2556. Por conseguinte, os créditos decorrentes dessas operações foram integralmente glosados; DOS SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS • a autuada foi intimada, em 24/12/2013 e 29/04/2014 a apresentar as memórias de cálculo de todas as rubricas do Dacon. Nas referidas intimações, a Fiscalização foi expressa em indicar que a rubrica “Serviços Utilizados como Insumos” deveria conter o detalhamento das prestações em questão, contendo “Mês de Referência”; Fl. 2817DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.818 7 “Data de Apropriação do Crédito”; “Descrição da Operação”; “CFOP da Operação”; “Número da Nota Fiscal”; "Data da Nota Fiscal"; “CNPJ do Fornecedor”; “Razão Social do Fornecedor”; "Número do Item/Bem/Serviço da Nota Fiscal"; "Código do Item/Bem/Serviço"; “Classificação Fiscal TIPI do Item/Bem”; "Descrição do Item/Bem/Serviço"; “Valor da Nota Fiscal”; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável”. Nesse sentido, foram glosados os créditos decorrentes de todas as aquisições de serviços utilizados como insumos descritos como “GENERICOS” nas planilhas apresentadas pelo sujeito passivo, contratados de EMPRESA DE TRANSPORTES SOPRODIVINO S.A., NESTLE BRASIL LTDA e PLENO CONSULTORIA E SERVICOS LTDA, tendo em vista que somente com as informações fornecidas não é possível assegurar se os serviços em questão enquadram se, de fato, no conceito de insumo; • foi feito ajuste negativo no valor de R$ 4.679.264,48 da base de cálculo dos créditos apurados em relação à aquisição do serviço lastreado pelo documento fiscal nº 013645, de fevereiro/2009, emitido por LOGOPLASTE DO BRASIL LTDA, CNPJ nº 00.359.256/000513, para refletir o seu real valor de face, que monta em R$ 4.663,40, e foi erroneamente registrado pelo sujeito passivo pelo valor de R$ 4.683.927,88. Da mesma forma, foi feito ajuste negativo no valor de R$ 28.607,49 da base de cálculo dos créditos apurados em relação à aquisição do serviço lastreado pelo documento fiscal nº 000202233, de setembro de 2012, emitido por TETRA PAK LTDA, CNPJ nº 61.528.030/000160, para refletir apenas o valor dos produtos e serviços adquiridos, que montam em R$ 418.390,89, e retirar o IPI incidente, recuperável pelo sujeito passivo, e os encargos financeiros, que não compõem a base de cálculo de créditos; • conforme inciso I do § 2º do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, de idêntico teor, não darão direito a crédito os valores de mãodeobra pagos a pessoa física. É mister destacar que a referida norma não deve ser compreendida em sentido meramente literal, restrito, de modo a admitir que o pagamento a título de mãodeobra a pessoa física por intermédio de uma pessoa jurídica contratada para tal fim garanta direito a creditamento. Entender dessa forma é subverter o sentido da norma, que visa evitar que as pessoas jurídicas possam indevidamente apurar créditos sobre a folha de pagamento com utilização de empresas de mãodeobra ou contratação de autônomos. Por essa razão, glosamos as operações relativas à contratação de mão de obra temporária, descritas pelo sujeito passivo em sua memória de cálculo como “SERV DE MAO DE OBRA TEMPORARIA”, contratados preponderantemente da empresa SOCIEDADE EMPRESARIAL DE TERCEIRIZACAO E SERVICOS LTDA, CNPJ nº 04.842.349/000121; • a aquisição de LEITE DESNATADO INDUSTRIAL COPACKER é operação sujeita à alíquota zero, pois se trata de aquisição de leite industrializado desnatado, cujas alíquotas das contribuições são iguais a zero, conforme reza o art. 1º, inciso XI, da Lei nº 10.925, de 2004. Aquisições sujeitas à alíquota zero não geram direito a crédito, nos termos do § 2º, inciso II, do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Dessa forma, os créditos referentes a esses lançamentos foram integralmente glosados; • foram glosados os créditos referentes aos serviços contratados de LOCALIZA RENT A CAR SA, CNPJ nº 16.670.085/030496 e nº 16.670.085/009454, e de PAULISTANIA LOCADORA DE VEICULOS LTDA, CNPJ nº 03.339.638/0004 92, tendo em vista que ambos têm como atividade principal o serviço de locação de automóveis sem condutor, prestação que, considerada a atividade do sujeito passivo (produção de laticínios), não se encaixa no conceito de serviços utilizados como insumos; Fl. 2818DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.819 8 • a empresa MONTIN MEC MONTAGENS INDUSTRIAIS LTDA ME, CNPJ nº 15.023.132/000106, tem como objeto a instalação de máquinas e equipamentos industriais. Tomando como exemplo a nota fiscal nº 79, de dezembro de 2012, o serviço prestado é de fabricação e instalação de pórtico para manutenção das torres de resfriamento, serviço que não se integra ou agrega valor aos produtos comercializados pelo sujeito passivo, não se enquadrando como insumo, sendo integralmente objeto de glosa por parte da fiscalização os créditos decorrentes das aquisições desse fornecedor; • a empresa PASCOTTI SERVICOS DE TERRAPLENAGEM LOCACAO DE MAQUINAS E VEICULOS LTDA, CNPJ nº 03.887.120/000140, presta serviços de obras de terraplenagem, obras de urbanização em ruas, praças e calçadas, construção de redes de abastecimento de água, coleta de esgoto e construções correlatas, exceto obras de irrigação, serviços de preparação do terreno, aluguel de máquinas e equipamentos para construção sem operador, exceto andaimes, atua nos setores de terraplenagem, pavimentação asfáltica, infraestrutura em geral, locação de equipamentos e fornecimento de materiais básicos para construção civil em empreendimentos comerciais, industriais e residenciais. Nenhum desses serviços se enquadram no conceito de insumo, ao se considerar o ramo de atuação do sujeito passivo (produção de laticínios), devendo, portanto, ser glosados os créditos relativos às aquisições de serviço do fornecedor em questão; • a empresa PLENO CONSULTORIA E SERVICOS LTDA, CNPJ nº 70.059.043/ 000128, tem como atividade principal a locação de mãodeobra temporária, atuando também nos serviços de conservação e limpeza, serviços temporários e terceirização de mão de obra. Nesse sentido, em obediência ao inciso I do § 2º do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, de idêntico teor, as aquisições do referido fornecedor foram integralmente glosadas; • foram glosados os créditos decorrentes das aquisições de serviços de TITO CADEMARTORI ASSESSORIA, CNPJ nº 93.911.147/000386, que presta serviço de assessoria e gestão aduaneira, o qual não se enquadra no conceito de serviços utilizados como insumos; • foram glosados os créditos relativos às operações descritas como MATERIAIS PARA MONTAGEM ELETRICA, MEDICINA VETERINARIA E ZOOTECNIA., MOLDES, SERV USINAGEM, SERV ARMAZENAGEM E LOGISTICA (SERV FRETE), SERV ASSESSORIA ADUANEIRA, SERV CONST CIVIL MONT ELET MEC E HIDR, SERV CONSULTORIA E ADMINISTRACAO, SERV DE ASSIST TEC EM EQUIP DE FABR, SERV DE MANUT EM EQUIP DE FABR, SERV ENG CIVIL, SERV IMPR PUBLICIDADE PROMOCOES, SERV LOCACAO EQUIP TELEC, SERV SUPORTE CONSTR LOCACAO ESTRUTURAS e SERV TELEFONIA FIXA, tendo em vista que, consideradas as próprias descrições fornecidas pelo contribuinte, não se enquadram como serviços utilizados como insumos; • foram glosados os créditos relativos à aquisição do serviço lastreado pelo documento fiscal nº 9774, de novembro de 2007, contratado de outro estabelecimento da própria pessoa jurídica, DAIRY PARTNERS AMERICAS BRASIL LTDA, CNPJ nº 05.300.331/001647, no valor de R$ 8.111,59. É naturalmente vedada a apuração de créditos com base em bens e serviços adquiridos de outros estabelecimentos da pessoa jurídica justamente em função de os créditos das contribuições serem apurados de forma centralizada, pelo estabelecimento matriz da pessoa jurídica; • foram glosados os créditos decorrentes da aquisição do serviço lastreado pelo documento fiscal nº 000223, de novembro de 2012, contratado de NESTLE BRASIL Fl. 2819DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.820 9 LTDA, CNPJ nº 60.409.075/000667, no valor de R$ 216.527,07, tendo em vista ter sido lançado em duplicidade pelo contribuinte em suas memórias de cálculo; DA IMPORTAÇÃO DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS • a aquisição de LEITE PO INTEGRAL 26 25KG é operação sujeita à alíquota zero, pois se trata de leite industrializado integral, em pó, conforme o art. 1º, XI, da Lei nº 10.925, de 2004, razão pela qual foram glosados os créditos referentes a esses lançamentos; • foram glosados os créditos oriundos da nota fiscal nº 24.558, de 14/07/2010 emitida por CENTRES DE RECHERCHE ET DEVELOPPEMENT NESTLE S.A., tendo em vista ter sido ela cancelada pelo emitente, conforme os dados constantes nas planilhas do sujeito passivo; DA IMPORTAÇÃO DE BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA, DA IMPORTAÇÃO DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS E DOS CRÉDITOS CALCULADOS SOBRE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO (DEPRECIAÇÃO) ADQUIRIDOS NO MERCADO INTERNO • o contribuinte foi intimado, em 24/12/2013 e 29/04/2014 a apresentar as memórias de cálculo de todas as rubricas do Dacon. Nas referidas intimações, a fiscalização foi expressa em indicar que as rubricas em epígrafe deveriam ter suas composições demonstradas nas planilhas de cálculo a serem apresentadas. A contribuinte apresentou respostas em diversos momentos, contudo, até o fim do procedimento fiscal o contribuinte não havia apresentado nenhuma memória de cálculo referente às rubricas sob análise. Limitouse a esclarecer, em resposta apresentada no dia 23/01/2014, que os valores lançados na ficha 16A, linha 09, “créditos calculados sobre bens do ativo imobilizado (depreciação)”, e na ficha 16B, linha 01, “importação de bens para revenda”, referemse na verdade a insumos. Dessa forma, tendo em vista a não apresentação de planilhas específicas para essas duas rubricas e o esclarecimento supra, assumimos que os seus valores estão inseridos nas planilhas referentes aos créditos de aquisição de insumos do mercado interno e importação, de modo que a análise desses valores foi realizada no âmbito das referidas rubricas relativas à aquisição de insumos, e, naturalmente, realocadas para tais linhas. Nesse sentido, com o objetivo de evitar a apuração de tais créditos em duplicidade, desconsideramos a integralidade dos valores lançados na ficha 16A, linha 09, créditos calculados sobre bens do ativo imobilizado, e na ficha 16B, linha 01, importação de bens para revenda. Já os valores pleiteados pelo contribuinte a título de importações de serviços utilizados como insumos foram integralmente glosados, por falta de comprovação do crédito pleiteado, tendo em vista a não apresentação de nenhuma planilha com as memórias de cálculo dos créditos lançados nos Dacons; DAS DESPESAS DE ENERGIA ELÉTRICA • intimado em 27/05/2014 a apresentar uma amostra de notas fiscais de energia elétrica, o sujeito passivo, em 03/06/2014, apresentou a contento uma parte relevante dos documentos fiscais requeridos, deixando de apresentar, contudo, os documentos fiscais nos 999249, 1746, 774027, 873446, 527588, 6151 e 510673, emitidas por ELEKTRO ELETRICIDADE E SERVICO, CNPJ nº 02.328.280/000197; e nos 450, 464 e 293, emitidas por LIGHT SERVICOS DE ELTRICIDADE S/A, CNPJ nº 60.444.437/000146. Em consequência, foram glosados integralmente os créditos apurados com base nas aquisições de energia elétrica cujos documentos não foram apresentados, por falta de comprovação do crédito pleiteado; Fl. 2820DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.821 10 DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS • as operações firmadas com o locador Maconetto Empreendimentos Imobiliários SC Ltda, CNPJ nº 02.479.601/000154, são meramente descritas como “Serv. Leasing Locação de Imóvel” e, tendo em vista a completa ausência de informações acerca do endereço, descrição ou finalidade do imóvel locado, não permitem constatar se os valores referemse de fato a uma locação de imóvel, de modo que os créditos delas decorrentes foram integralmente glosados; • as operações firmadas com o locador Patriarca Empreendimentos e Participações Ltda, CNPJ nº 74.192.097/000118, além de incorrerem no mesmo problema anterior, de ausência de informações elementares para a identificação do imóvel locado, são descritas como “Serv. Administração Imobiliária”, restando evidente que não se referem de fato a locação de imóvel, mas sim a serviços imobiliários acessórios à locação. Por isso, os créditos referentes a essas operações também foram integralmente glosados; • as operações firmadas com o locador Nestle Brasil Ltda, CNPJ nº 60.409.075/0001 52, foram descritas como “Aluguel predial”, de modo que os correspondentes contratos de locação foram requeridos pela fiscalização, acompanhados dos demonstrativos atualizados das despesas de aluguel, bem como os respectivos comprovantes de pagamento. O contribuinte apresentou em 03/06/2014 os contratos de aluguel a contento, por meio dos quais constatamos que se referem de fato a dois imóveis locados pelo sujeito passivo. Contudo, deixou de apresentar uma parte relevante dos recibos com os comprovantes de pagamento, bem como quase que a integralidade dos demonstrativos dos valores atualizados das despesas de aluguel. Ademais, não foi possível encontrar correspondência entre quaisquer dos recibos com os comprovantes apresentados e os valores inicialmente demonstrados pelo sujeito passivo em suas memórias de cálculo, tendo em vista que os valores de face dos recibos e os informados nas planilhas não coincidiam ou sequer eram compatíveis entre si. Anexados a alguns recibos de pagamento, o contribuinte apresentou demonstrativos com a discriminação fornecida pelo locador com todas as rubricas que compõem o montante devido pelo sujeito passivo, e notase pela análise destes documentos que apenas uma parcela do valor total devido referese, de fato, à locação do imóvel. As demais rubricas se referem a despesas acessórias com energia elétrica; malote; telefone; despesas legais e impostos diversos; ginástica laboral; cantina e alimentos; serviços de manutenção em câmaras/incêndio/predial; manutenção e reparo de móveis e utensílios; serviço de manutenção e limpeza em geral; serviço de segurança ambiental; manutenção de câmaras (peças e materiais); correio; IPTU; pagamento de alvará de funcionamento; e nobreak. As despesas acima não integram o valor do aluguel e, portanto, não ensejam direito ao crédito das contribuições, de forma que, para compor a base de cálculo da rubrica em questão, consideramos exclusivamente os valores descritos como “Aluguéis Filiais” nos demonstrativos apresentados pelo sujeito passivo. Nos meses em que o contribuinte apresentou apenas o recibo, comprovante de pagamento total, sem o demonstrativo com a discriminação e individualização das rubricas componentes da despesa total de aluguel, estimamos a parcela referente ao valor do aluguel propriamente dito obtendo a média aritmética dos meses em que houve apresentação, tendo em vista que os valores mostravam pouca variação mês a mês. Vale dizer que, nos meses em que não houve apresentação do demonstrativo com a discriminação da despesa total de aluguel e do correspondente recibo, comprovante do pagamento total efetuado, a base de cálculo considerada foi nula, por falta de comprovação do crédito pleiteado. Ressaltase que, no dia 06/06/2014, o contribuinte apresentou uma série de comprovantes de transferências ou depósitos bancários em Fl. 2821DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.822 11 nome do locador que serviriam, em tese, para liquidar as despesas de aluguel. No entanto, mais uma vez os valores em questão não coincidiam ou sequer eram compatíveis com os valores apresentados nas planilhas com as memórias de cálculo, não sendo possível assegurar se, de fato, referemse à liquidação de aluguéis. Esses documentos bancários foram integralmente desconsiderados pela Fiscalização; DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS • a contribuinte foi intimada, em 24/12/2013 e 29/04/2014, a apresentar as memórias de cálculo de todas as rubricas do Dacon. Nas referidas intimações, a Fiscalização foi expressa em indicar que a rubrica Aluguéis de Máquinas e Equipamentos Locados de Pessoas Jurídicas deveria conter o detalhamento das locações em questão, contendo “CNPJ do Locador”; “Razão Social do Locador”; "Descrição do Bem Locado"; “Finalidade do Bem Locado no Processo Produtivo”; "Valor Original do Contrato de Locação"; “Valor do Aluguel Pago no Mês”; "Data do Pagamento do Aluguel"; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável”. A despeito do solicitado, nas diversas oportunidades em que trouxe como resposta às intimações as memórias de cálculo, a autuada apresentou planilhas de aluguéis de bens incompletas furtandose a apresentar na relação dados elementares como a descrição do bem locado, sua finalidade, e, em alguns casos, os dados do locador, Razão Social e CNPJ. De qualquer sorte, analisamos a planilha apresentada e constatamos que o contribuinte tem como um de seus fornecedores a empresa LOCALIZA RENT A CAR SA, CNPJ nº 16.670.085/030496 e nº 16.670.085/009454. A referida empresa tem como atividade a locação de veículos automotores, bens que, considerada a atividade do sujeito passivo, não se encaixam no conceito de bens utilizados nas atividades da empresa e, portanto, os créditos decorrentes foram integralmente glosados. Foram glosados também os créditos referentes a todas as operações em que não há a identificação do locador (CNPJ e Razão Social), tendo em vista que não é possível sequer verificar a natureza do locador – pessoa jurídica ou física. Nas referidas operações também não há a descrição do bem locado e foram identificados pela contribuinte apenas como “LEASING” ou como “N/D”, além de não ter a identificação do número do documento (nota fiscal ou contrato) que lastreia e ampara o crédito pleiteado, ou seja, não há nenhuma informação que possibilite a identificação e análise de procedência dos créditos calculados em relação a essas operações; DESPESAS DE ARMAZENAGEM E FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA • o sujeito passivo informou que possui mandado de segurança (MS nº 2008.61.00.0025770) versando sobre a possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade do PIS/Pasep e da Cofins nas operações de fretes entre estabelecimentos da pessoa jurídica, com decisão favorável ao contribuinte. Em 23/01/2014, apresentou a Certidão de Objeto e Pé relativa a esse mandado de segurança, contendo o teor da decisão judicial, que julgou procedente o pedido e concedeu a segurança postulada, assegurando ao sujeito passivo impetrante o direito de manter e deduzir integralmente os créditos calculados sobre as despesas com armazenagem e fretes nas transferências de mercadorias entre seus estabelecimentos, com vistas à posterior venda a terceiros. Essa decisão garante ao contribuinte o direito de manter e deduzir os créditos, não se estendendo o direito garantido à seara do ressarcimento e da compensação, institutos plenamente distintos daqueles; • o direito à compensação não se estende a qualquer crédito apurado com base na não cumulatividade de um tributo, como ocorre com a dedução. Pelo contrário, são garantidos única e exclusivamente nos casos expressamente previstos em lei, como o Fl. 2822DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.823 12 direito à compensação de créditos vinculados a receitas de exportação, autorizados pelas normas contidas no art. 5º, §§ 1º e 2º, da Lei n° 10.637, de 2002, e no art. 6º, §§ 1º e 2º, da Lei n° 10.833, de 2003. Sobre o assunto, vale ressaltar o disposto no art. 74, § 12, II, d, da Lei nº 9.430, de 1996, que determina que será considerada não declarada a compensação nas hipóteses em que o crédito seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado. Nesse sentido, é mister, para o presente exame, apurar se o crédito ora pleiteado engloba efetivamente as operações discutidas judicialmente ou se os valores discutidos judicialmente foram excluídos do pedido administrativo; • nas oportunidades em que apresentou resposta à intimação para esse fim, a saber, em 15/01/2014, 23/01/2014, 06/05/2014 e 16/05/2014, o contribuinte apresentou planilhas de armazenagem e fretes incompletas furtandose a apresentar alguns dados elementares à correta validação dos créditos pleiteados, quais sejam a descrição da operação. Em função da insuficiência de dados, em 29/04/2014, o sujeito passivo foi reintimado a apresentar as memórias de cálculo de todas as rubricas do Dacon, com menção expressa aos dados da rubrica “Despesas de Armazenagem e Fretes na Operação de Venda”. Novamente, na resposta de 03/06/2014, apresentou planilhas incompletas, pois não continham alguns dos dados elementares à correta validação dos créditos pleiteados. Assim, pela completa ausência de informações relativas ao CNPJ e à razão social do remetente e do destinatário do frete contratado, bem como da descrição da operação em questão, o que permitiria determinar se as operações em questão podem ou não compor o crédito destinado ao ressarcimento e à compensação, glosamos a integralidade dos créditos relativos à rubrica sob análise; DAS DEVOLUÇÕES DE VENDAS • foram glosados os créditos referentes à devolução de vendas de produtos sujeitos à alíquota zero; • foram glosados os créditos apurados em relação aos documentos fiscais nº 5062 e nº 5063, emitidos por Nestlé Brasil Ltda., tendo em vista que eles não se referem a devolução de vendas, mas sim a emissões fiscais complementares de preço, praticadas com o objetivo de realizar correções financeiras decorrentes de alteração de valor ou erro no preenchimento do documento fiscal anterior. Nas planilhas disponibilizadas pelo contribuinte, não há nenhuma informação a respeito dos itens constantes desses documentos fiscais complementares, sua descrição, classificação fiscal, alíquota aplicável, ou qualquer outra forma de identificar os itens supostamente devolvidos, de modo que não é possível assegurar que o crédito pleiteado, amparado pelos referidos documentos, é realmente procedente; DAS OUTRAS OPERAÇÕES COM DIREITO A CRÉDITO • com relação à rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, a contribuinte apurou créditos para os períodos de apuração dezembro/2007, dezembro/2010, dezembro/2011, janeiro/2012, fevereiro/2012, março/2012, abril/2012 e maio/2012. A despeito de ter sido intimado em 24/12/2013 e 29/04/2014 para detalhar essas operações, a autuada deixou de apresentar a contento os esclarecimentos solicitados, mormente aqueles relacionados à devida identificação da natureza do crédito pleiteado; • novamente intimada em 27/05/2014, a contribuinte esclareceu que os créditos de dezembro/2007 refeririamse a itens tributados em períodos anteriores à alíquota de 9,25%, quando deveriam ter sido tributados à alíquota zero, sendo, pois, um ajuste. Fl. 2823DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.824 13 Ocorre que, no período em questão, a tributação excessiva não resultou necessariamente em saldo de tributo a recolher, pois ela dispunha de saldo credor suficiente para realizar integralmente a dedução, acarretando apenas a redução indevida do saldo credor. Logo, não se trata de repetição de indébito, mas de estorno contábil de conta do ativo reduzida indevidamente. Em quaisquer das duas situações, estorno ou repetição de indébito, é inapropriada a utilização do Dacon como instrumento de anulação dos efeitos fiscais, contábeis ou financeiros da tributação indevida realizada pelo sujeito passivo. Vale dizer que o próprio contribuinte no âmbito do exame amparado pelo MPFD nº 08.1.80.002010000510 e ao MPFF nº 08.1.90.002012 002304 já havia informado sobre essa prática e reconhece que utilizou a forma errada – Dacon – para realizar os ajustes cabíveis. O estorno contábil de conta do ativo reduzida indevidamente e a repetição de indébito não estão previstas no art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, como hipóteses de apuração de créditos, não possuindo o valor lançado a esse título amparo legal para tanto. Por essa razão, os créditos decorrentes do lançamento em questão foram integralmente glosados; • os créditos de abril/2009, segundo a autuada, não seriam créditos extemporâneos, mas refeririamse a créditos de leasing, que, por conta de dificuldades sistêmicas foram lançados nessa rubrica. Sobre esse ponto, digase que ela não apurou créditos para a rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, na linha 13, para abril/2009, como se infere dos esclarecimentos prestados. Na realidade, a contribuinte apurou os referidos créditos sob a rubrica “Outros Créditos a Descontar”, linha 21, que não foram objeto de questionamento por parte da Fiscalização; • a fiscalizada informou também que os créditos de fevereiro/2012 e março/2012 referemse a diversas rubricas (aluguéis, energia elétrica, armazenagem e insumos), apurados durante o mês, que, em decorrência de dificuldades sistêmicas, foram lançados na rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, na linha 13. Apresentou na mesma ocasião planilha contendo os mesmos dados de planilhas apresentadas em 06/05/2014 e 16/05/2014, com acréscimo tão somente, para cada rubrica, da linha à qual a referida operação deveria ser imputada no Dacon (aluguéis, energia elétrica, armazenagem e insumos). Vale dizer que os dados continuavam desacompanhados de uma descrição detalhada da origem do crédito pleiteado, bem como da legislação que autorizasse a sua apropriação, como requerido nas intimações, tendo em vista que os dados de 02/2012 e 03/2012 ainda não continham a identificação da operação, bem, serviço, ou quaisquer outros dados que possibilitassem sua identificação, tais como razão social e CNPJ do fornecedor ou número da nota fiscal ou documento que desse lastro para o crédito. As planilhas nada mais eram que valores dispostos em sequência sem nenhum outro dado adicional, como em um rascunho; • devido à falta de comprovação do crédito, foram glosados integralmente os créditos lançados sob a rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, na linha 13, nos meses de 02/2012 e 03/2012, por insuficiência de dados e documentos comprobatórios do crédito pleiteado, e nos meses de 12/2010, 12/2011, 01/2012, 04/2012 e 05/2012, por ausência total de quaisquer dados, documentos ou esclarecimentos a respeito do crédito pleiteado; DOS CRÉDITOS PRESUMIDOS CALCULADOS SOBRE INSUMOS DE ORIGEM ANIMAL • intimada em 27/05/2014 a apresentar uma amostra de notas fiscais de crédito presumido, o sujeito passivo apresentou a contento os documentos fiscais requeridos, de modo que foram aceitos integralmente os valores apresentados nos Dacons do período. Ressaltese que foi realizado um ajuste positivo nos créditos presumidos decorrentes Fl. 2824DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.825 14 das operações que foram realocadas de Bens para Revenda e de Bens Utilizados como Insumos; DOS CRÉDITOS CALCULADOS A ALÍQUOTAS DIFERENCIADAS • por meio da análise da planilha de créditos da rubrica “Créditos calculados a Alíquotas Diferenciadas”, depreendese que eles se referem a aquisições de mercadorias produzidas por pessoa jurídica estabelecida na Zona Franca de Manaus, qual seja a METALMA DA AMAZONIA S.A., CNPJ nº 06.207.412/000183. A apuração de créditos das contribuições nesses casos é regrada pelo § 12 do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, no caso do PIS/Pasep, e pelo § 17 do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, no caso da Cofins. Excetuandose os casos específicos, essas normas determinam que o crédito nesses casos sejam apurados com a alíquota de 1%, no caso do PIS/Pasep, e de 4,6%, no caso da Cofins. De volta às operações apresentadas pelo contribuinte em sua planilha de cálculo, após confronto com os dados da base da Nota Fiscal Eletrônica, foram validados e aceitos os valores apresentados para base de cálculo. Sobre as referidas bases aplicaramse as alíquotas de 1% e 4,6% para apurar as contribuições devidas; DOS DEMAIS VALORES • os demais valores informados nos Dacons que não foram acima mencionados se mostraram compatíveis com os valores apresentados pela contribuinte em seus memoriais de cálculo e, por isso, foram aceitos pela fiscalização. Manifestação de Inconformidade Em manifestação de inconformidade, alegou a empresa: Preliminar • diversas rubricas foram objeto de indeferimento pela autoridade fazendária, por entender que a ora manifestante não teria logrado êxito na apresentação de planilhas de memórias de cálculo, com informações extremamente detalhadas, como se essas informações não fossem possíveis de serem verificadas em sua escrita fiscal e contábil; • possui diversas filiais e, embora a apuração do PIS/Pasep e da Cofins seja de forma centralizada, não conseguiu atender a todas as informações no grau de detalhamento estipulado. Todavia, esse fato isoladamente não poderia dar ensejo ao indeferimento do crédito referente a diversas rubricas, como se esses custos de produção e despesas operacionais não existissem. O auditor fiscal não pode glosar o crédito de determinada rubrica baseado na presunção de que se as informações não foram detalhadas como desejava é porque o crédito não existe; • a autoridade fiscal poderia ter esgotado a verdade material e, assim, examinado a liquidez e a certeza do crédito pleiteado por meio de diligência fiscal no estabelecimento da contribuinte, a fim de que fosse verificada, mediante exame de sua escrituração contábil e fiscal, a exatidão das informações prestadas, como prevê o art. 76 da Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 2012. É importante dizer que apresentou os arquivos digitais como exigido por esse mesmo art. 76, sem os quais, inclusive, não seriam admitidos seus pedidos eletrônicos de ressarcimento. Também transmite regularmente a EFD – Contribuições, após janeiro/2012, e a EFD – ICMS/IPI no período anterior. Desse modo, o auditor fiscal ainda teria outros meios para a verificação das informações a respeito da composição dos créditos pleiteados; Fl. 2825DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.826 15 • no presente caso, verificase a necessidade da aplicação do princípio da razoabilidade, eis que, para a finalidade e a eficiência da atividade fiscal e em face do volume de documentos é medida proporcional, para que a Autoridade Fiscal tenha acesso a todos os documentos pertinentes ao crédito pleiteado. A manifestante encerra suas alegações preliminares com os seguintes dizeres: Contudo, a ora Manifestante está providenciando o detalhamento das informações, porém, em razão do prazo de 30 (trinta) dias ser exíguo para adequar ao nível de informações exigidas, considerando que se tratam de trimestres de 2007 a 2012, a ora Manifestante juntará as complementações das informações das memórias de cálculo nos próximos 120 (cento e vinte) dias, que certamente irão demonstrar a legitimidade dos créditos às Vossas Senhorias, razão pela qual, requer a concessão da juntada posterior destes documentos no prazo supra referido. Ademais, se Vossas Senhorias não entenderem como suficientes, a ora Manifestante solicita que seja determinada a baixa em diligência, a fim de que em observância a verdade material, a eficiência e finalidade administrativa, seja verificada a legitimidade do crédito pleiteado com o cotejo das informações prestadas pela ora Manifestante e a análise pela Autoridade Fiscal de origem das escriturações fiscal e contábil da ora Manifestante como possibilita o art. 76 da aludida IN/RFB nº 1300/2012. Esta medida de determinação de baixa em diligência, será necessária, pois, a busca pela verdade material não pode ficar restringida ao exame das alegações de indeferimento do fiscal, mas, que se valha de outros elementos que possam influir o seu convencimento, no presente caso, através da conversão do presente julgamento em baixa em diligência. Mérito BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA Aquisição de leite fresco produtor granel em operação tributada • a aplicação da suspensão do PIS/Pasep e da Cofins não tem implicação imediata sobre a aquisição de leite fresco, estando submetida a determinados requisitos prescritos pela Instrução Normativa RFB nº 660, de 2006. O primeiro requisito é que o fornecedor exerça as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel, conforme pode ser verificado no art. 3º, inciso II, dessa instrução normativa; • a quase totalidade dos fornecedores da manifestante desempenham as atividades de resfriamento e de venda de leite a granel, contudo, não exercem a atividade de transporte de leite. Para corroborar essa alegação, juntamse aos autos a relação dos fornecedores e os cartões de CNPJ, que demonstram que a quase totalidade são pessoas jurídicas que desempenham a atividade de industrialização de leite, mas sem exercer a atividade de transporte de leite; • juntamse aos autos notas fiscais por amostragem, para demonstrar que o frete foi prestado por terceiro, reforçando o fato de que seus fornecedores não desempenham a atividade de transporte e, portanto, que a aquisição do leite in natura não é operação com tributação suspensa, mas com incidência “cheia” do PIS/Pasep e da Cofins; Fl. 2826DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.827 16 • mesmo nos poucos casos em que houve fornecedor que desempenhou as três atividades (resfriamento, venda a granel e transporte), ainda assim verificase que não seria o caso de suspensão do PIS/Pasep e da Cofins, pois, além desse requisito, a Instrução Normativa RFB nº 660, de 2006, determina que, nos casos em que se aplica a suspensão, deve constar obrigatoriamente a observação na nota fiscal de venda de que é operação com tributação suspensa. Na análise das notas fiscais emitidas pelos fornecedores que exercem as três atividades, foi constatado que não preencheram esse requisito, pois não continham a expressão obrigatória de que a venda seria com tributação suspensa. Desse modo, não havendo o preenchimento desse requisito, a operação é tributada pelas alíquotas básicas e gera direto a crédito de PIS/Pasep e Cofins ao adquirente do leite fresco. Com esse entendimento, citase o acórdão 3302 001.989 da 3ª Câmara da 2ª Turma Ordinária do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais; • além das notas fiscais que demonstram que o frete foi prestado por terceiro, de planilha demonstrando em quais casos há o preenchimento das atividades cumulativas de resfriamento, venda a granel e transporte e dos cartões do CNPJ de seus fornecedores, juntamse ainda aos autos os atos constitutivos da Nestlé, sua maior fornecedora; Aquisição de embalagem • na atividade de comercialização, a manifestante utiliza serviços de armazenagem, bem como embalagens destinadas ao transporte de seus produtos. Essas embalagens são essenciais à conservação e proteção dos produtos durante o transporte e integram o custo de venda dos produtos, fazendo parte do processo produtivo, que só se encerra com a aquisição pelo consumidor final; • apesar de a embalagem de transporte não ser a própria embalagem do produto, sem ela o produto sequer chegaria ao consumidor final em condições de ser consumido; • a embalagem para transporte tem aplicação direta no processo produtivo, sendo um gasto essencial, de forma que sua subtração importe na impossibilidade da prestação do serviço ou da produção; • por essas razões, devese considerar o material de transporte como insumo, nos termos definidos no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Esse é o entendimento dos acórdãos do CARF nº 3803003.300 e nº 3803 002.983, bem como do acórdão do Superior Tribunal de Justiça REsp nº 1125253/SC; Operações não enquadradas como aquisição de bens para revenda – entradas no CFOP 1949; • em razão de erro formal de preenchimento, foram contabilizadas no CFOP 1949 mercadorias que foram objeto de devolução dos clientes. Juntase, em anexo, a própria planilha formulada pela autoridade fiscal, demonstrando que a origem desses produtos decorre dos próprios clientes da manifestante; • como se trata de devolução de venda, é forçoso reconhecer o direito ao crédito sobre essas operações, nos termos do art. 3º, inciso VIII, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003; BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS Do conceito de insumo para a apropriação de crédito do PIS/Pasep e da Cofins Fl. 2827DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.828 17 • o legislador ordinário não definiu o conceito de insumo aplicado na apuração do PIS/Pasep e da Cofins na modalidade não cumulativa. Buscando suprir essa lacuna a Secretaria da Receita Federal do Brasil editou as Instruções Normativas nº 247, de 2002 (art. 66), e nº 404, de 2004 (art. 8º), tentando definir esse conceito. Essas instruções normativas interpretam o termo insumo em sentido estrito, amoldandoo à forma prevista no Regulamento do IPI, o que não é a melhor interpretação, pois esse entendimento não se coaduna com o critério material do PIS/Pasep e da Cofins, cujo ciclo de formação não se limita à fabricação de um produto ou à execução de um serviço, abrangendo outros elementos necessários para a obtenção de receita vinculada à atividade fim da empresa; • a jurisprudência do CARF evoluiu no sentido de que os custos e as despesas necessários para a atividade produtiva também devem ser albergados pelo conceito de insumo para a apuração do PIS/Pasep e da Cofins na modalidade não cumulativa, na forma dos art. 290 e 299 do RIR/99. Citase o processo administrativo nº 11020.001952/200622, julgado no CARF. No julgamento desse processo, o voto do conselheiro relator Gilberto de Castro Moreira Júnior, que foi acompanhado pelos demais, descreve que, para fins de classificação de insumo para o PIS/Pasep e a Cofins, devem ser considerados todos os custos e despesas necessários, usuais e normais na atividade da empresa, aproximando esse conceito ao de despesas dedutíveis para a apuração do IRPJ; • insumos são os custos e despesas que, ligados inseparavelmente aos elementos produtivos, proporcionam a existência do produto ou serviço, o seu funcionamento, a sua manutenção ou seu aprimoramento. Noutros termos, insumos são todos os bens, serviços, custos e despesas necessários à obtenção da receita proveniente da atividade econômica da pessoa jurídica. De acordo com essa concepção, o insumo pode integrar as etapas que resultam no produto ou serviço ou até mesmo as posteriores, desde que seja indispensável para a sua atividade econômica; • todos os insumos dos quais a manifestante apurou créditos são extremamente vinculados e essenciais ao exercício de sua atividade econômica com o objetivo de obter receita, de modo que também se subsome ao critério da essencialidade, recentemente invocado pela 3ª Turma do CARF, ao negar provimento aos Recursos Especiais interpostos pela Fazenda Nacional, nos autos dos processos administrativos nº 13053.000112/200518 e nº 13053.000211/200672; Aquisição de leite fresco produtor granel e leite fresco usina granel em operação tributada • a aplicação da suspensão do PIS/Pasep e da Cofins não tem implicação imediata sobre a aquisição de leite fresco, estando submetida a determinados requisitos prescritos pela Instrução Normativa RFB nº 660, de 2006. O primeiro requisito é que o fornecedor exerça as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel, conforme pode ser verificado no art. 3º, inciso II, dessa instrução normativa; • a quase totalidade dos fornecedores da manifestante desempenham as atividades de resfriamento e de venda de leite a granel, contudo, não exercem a atividade de transporte de leite. Para corroborar essa alegação, juntamse aos autos a relação dos fornecedores e os cartões de CNPJ, que demonstram que a quase totalidade são pessoas jurídicas que desempenham a atividade de industrialização de leite, mas sem exercer a atividade de transporte de leite; • juntamse aos autos notas fiscais por amostragem, para demonstrar que o frete foi prestado por terceiro, reforçando o fato de que seus fornecedores não desempenham Fl. 2828DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.829 18 a atividade de transporte e, portanto, que a aquisição do leite in natura não é operação com tributação suspensa, mas com incidência “cheia” do PIS/Pasep e da Cofins; • mesmo nos poucos casos em que houve fornecedor que desempenhou as três atividades (resfriamento, venda a granel e transporte), ainda assim verificase que não seria o caso de suspensão do PIS/Pasep e da Cofins, pois, além desse requisito, a Instrução Normativa RFB nº 660, de 2006, determina que, nos casos em que se aplica a suspensão, deve constar obrigatoriamente a observação na nota fiscal de venda de que é operação com tributação suspensa. Na análise das notas fiscais emitidas pelos fornecedores que exercem as três atividades, foi constatado que não preencheram esse requisito, pois não continham a expressão obrigatória de que a venda seria com tributação suspensa. Desse modo, não havendo o preenchimento desse requisito, a operação é tributada pelas alíquotas básicas e gera direto a crédito de PIS/Pasep e Cofins ao adquirente do leite fresco. Com esse entendimento, citase o acórdão 3302 001.989 da 3ª Câmara da 2ª Turma Ordinária do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais; • além das notas fiscais que demonstram que o frete foi prestado por terceiro, de planilha demonstrando em quais casos há o preenchimento das atividades cumulativas de resfriamento, venda a granel e transporte e dos cartões do CNPJ de seus fornecedores, juntamse ainda aos autos os atos constitutivos da Nestlé, sua maior fornecedora; Aquisição de embalagem • na atividade de comercialização, a manifestante utiliza serviços de armazenagem, bem como embalagens destinadas ao transporte de seus produtos. Essas embalagens são essenciais à conservação e proteção dos produtos durante o transporte e integram o custo de venda dos produtos, fazendo parte do processo produtivo, que só se encerra com a aquisição pelo consumidor final; • apesar de a embalagem de transporte não ser a própria embalagem do produto, sem ela o produto sequer chegaria ao consumidor final em condições de ser consumido; • a embalagem para transporte tem aplicação direta no processo produtivo, sendo um gasto essencial, de forma que sua subtração importe na impossibilidade da prestação do serviço ou da produção; • por essas razões, devese considerar o material de transporte como insumo, nos termos definidos no art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Esse é o entendimento dos acórdãos do CARF nº 3803003.300 e nº 3803 002.983, bem como do acórdão do Superior Tribunal de Justiça REsp nº 1125253/SC; Aquisição de produto enquadrado como insumo • a fiscalização glosou créditos referentes a uma série de produtos que, supostamente, seriam bens utilizados apenas para proteção pessoal e manutenção das condições de higiene do ambiente em que são utilizados, não sendo consumidos ou integrados aos produtos finais durante a fabricação. Também glosou a aquisição de fita isolante, serviços de consultoria em recursos humanos, brindes e aquisições de gás liquefeito de petróleo; • novamente o auditor fiscal utilizou o conceito de insumos conferido pela legislação do IPI, que se restringe basicamente às matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem, bem como aos produtos que são consumidos no processo de industrialização, que tenham efetivo contato com o produto. No entanto, Fl. 2829DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.830 19 no caso do PIS/Pasep e da Cofins, o legislador não restringiu a apropriação de créditos aos parâmetros adotados no IPI; • toda industrialização do leite é fiscalizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o qual, por meio da Resolução nº 10, de 2003, estabeleceu o Programa Genérico de Procedimentos – Padrão de Higiene Operacional – PPHO, a ser utilizado nos estabelecimentos de leite e derivados que funcionam sob o regime de inspeção federal. Assim, os materiais de limpeza, como por exemplo, desinfetantes e panos, bem como os demais itens glosados como mangotes, toucas, capas, luvas não são exclusivamente para a proteção dos empregados, mas especialmente para que o produto possa ser industrializado e comercializado. Por isso, as despesas com esses materiais são essenciais, sendo eles utilizados diretamente no processo produtivo, se enquadrando, pois, no conceito de insumo; • as fitas isolantes são utilizadas em reparos de máquinas e equipamentos vinculados ao processo produtivo e, portanto, dão direito a crédito na apuração do PIS/Pasep e da Cofins na modalidade não cumulativa; • o gás liquefeito de petróleo é utilizado como combustível para as empilhadeiras no processo produtivo. O art. 3º, inciso II, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, e o art. 8º, inciso I, alínea b, da Instrução Normativa SRF nº 404, de 2004, permitem expressamente o aproveitamento de créditos referentes a despesas com combustíveis utilizados no processo produtivo; Aquisição de mercadoria ou produto “sujeito à alíquota zero” e o direito à não cumulatividade • a glosa de créditos decorrentes da aquisição de leite desnatado, leite em pó, frutas e produtos hortícolas, por não serem eles sujeitos ao pagamento do PIS/Pasep e da Cofins, resulta em mitigação do princípio da nãocumulatividade, não permitindo que se deduza os custos de aquisição dessas matériasprimas utilizadas pela empresa em oposição à receita obtida com os produtos que se originam delas; • o art. 195, inciso I, alínea b, § 12, da Constituição Federal, ao promover uma incidência nãocumulativa das contribuições, faz referência a um instituto já existente no direito pátrio e, portanto, sua regulamentação por lei ordinária deve observância aos limites conceituais de tal instituto, não lhe sendo concedido o poder de restringir essa sistemática; • a sistemática criada no art. 195, § 12, da Constituição Federal deve possuir elementos suficientes para enquadrála no conceito jurídico existente de não cumulatividade. Caso contrário, a legislação em comento não encontra fundamento no referido preceito constitucional e, por conseguinte, representa apenas uma forma de majoração de tributo, ferindo o princípio do nãoconfisco, consagrado no art. 150, § 4º, da Constituição Federal; • é um dos requisitos para se promover a nãocumulatividade a neutralização da tributação, o que no presente caso não ocorre; Operações não enquadradas como aquisição de bens utilizados como insumos • em relação aos créditos decorrentes de operações com os CFOPs n° 1949 e 2949, devido a erro formal de preenchimento, foram contabilizadas nesses códigos Fl. 2830DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.831 20 mercadorias que foram objeto de devolução pelos clientes. Juntase aos autos planilha formulada pela autoridade fiscal que demonstra a origem desses produtos. Por essa razão, deve ser reconhecido o direito creditório sobre essas operações, pois a legislação é expressa ao permitir a apuração de créditos nesses casos; • em relação às operações com CFOPs n° 1556 e 2556, verificase que se trata de “compra de material para uso e consumo”, ou seja, correspondem à aquisição de partes e peças de máquinas, parafusos, graxas, mangueiras, rolamentos, molas, anéis, retentores, cilindros, termostatos, entre outras peças de reposição e materiais de consumo utilizados na manutenção do processo produtivo. Anexase planilha elaborada pelo auditor fiscal contendo o fornecedor e a descrição de cada produto objeto dessas operações, em que a simples leitura permite verificar que são utilizados como materiais consumidos no processo produtivo. Em face da essencialidade desses materiais é evidente que se consubstanciam em insumos e, como tais, devem ter o respectivo crédito reconhecido; DOS SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS Aquisição de serviços que supostamente não permitem identificálos como insumos • o auditor fiscal efetuou glosas dos créditos referentes aos serviços descritos como “genéricos” nas planilhas apresentadas, contratados com as seguintes empresas: Empresa de Transportes Soprodivino S.A., Nestlé Brasil Ltda. e Pleno Consultoria de Serviços Ltda.; • quanto aos serviços prestados pela Empresa de Transportes Soprodivino S.A., cabe elucidar que se trata de serviços de frete na aquisição de matériaprima, o qual é indiscutivelmente essencial ao processo produtivo e, como tal, enquadrase no conceito de insumo, gerando direito ao crédito pleiteado. No entanto, a autoridade fiscal relatou que a planilha da memória de cálculo na qual estavam discriminados esses serviços não estaria correta. Após isso, intimou a contribuinte a comprovar os valores apontados na referida planilha, oportunidade em que a empresa apresentou os comprovantes dos serviços, bem como os contratos que possui com a empresa. Todavia, mesmo depois disso, o auditor fiscal entendeu por não reconhecer o crédito sob o argumento de que o serviço não se trataria de insumo e as planilhas estariam incorretas. Cabe salientar que, muito embora o auditor fiscal tenha alegado que as notas fiscais nos 119851, 120030, 120047, 120087, 120109, 120142, 120173, 120187 seriam serviços genéricos, é possível verificar que nas outras notas fiscais da empresa Soprodivino, isto é, nas outras cinquenta e quatro notas fiscais apresentadas, fica claramente demonstrado que se trata de prestação de serviços de armazenagem, logística e frete; • em relação à empresa Nestlé Brasil Ltda., não houve uma exaustiva análise quanto às atividades realizadas por essa empresa à autuada. Nesse sentido, cumpre demonstrar que os serviços tidos como “genéricos” são serviços de performance industrial, engenharia de manutenção e utilidade de energia, de fornecimento de água e de tratamento de efluentes, os quais são claramente essenciais ao processo produtivo. Os serviços de performance industrial são atividades que visam a segurança para com as pessoas operantes das máquinas e de todos os equipamentos integrantes do processo produtivo e, dessa forma, são necessários à linha de produção. Quanto aos serviços de engenharia de manutenção e utilidade de energia, são atividades que visam a prevenção e manutenção dos equipamentos responsáveis por todo o processo produtivo, sem os quais seria impossível manter a produção de empresa. Quanto aos fornecimentos de Fl. 2831DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.832 21 água e tratamento de efluentes, é demasiadamente óbvia a essencialidade do serviço, tendo em vista que a matéria é regulamentada e fiscalizada pelos órgãos de vigilância sanitária, os quais devem ser atendidos sob pena de a empresa ser interditada; • com relação aos serviços prestados pela Pleno Consultoria, os correspondentes créditos foram glosados porque o auditor fiscal entendeu que se trataria de serviços de mãodeobra pagos a pessoa física. No entanto, tal serviço é pago diretamente à empresa Pleno Consultoria e a atividade consiste no recrutamento de trabalhadores para atividades temporárias. Esse serviço é obviamente essencial ao processo produtivo, gerando crédito nos termos da legislação vigente; Aquisições que sofreram ajustes negativos na base de cálculo correspondente para refletir o valor de face dos documentos fiscais • lançou corretamente o valor de R$ 4.663,40 referente à nota fiscal nº 013645 da Logoplaste do Brasil Ltda. O valor de R$ 4.682.449,79, que seria o total do reajuste negativo no Dacon, referese às anulações dos lançamentos realizados em duplicidade, em razão de erro de preenchimento; Operações relativas à contratação de mãodeobra • a autoridade fiscal glosou os valores referentes às operações de contratação de serviços de mãodeobra temporária com a empresa Sociedade Empresarial de Terceirização de Serviços Ltda., porque entendeu que se trataria de serviços de mãode obra pagos a pessoa física. No entanto, tal serviço é pago diretamente à empresa Sociedade Empresarial de Terceirização de Serviços Ltda., e a atividade consiste no recrutamento de trabalhadores para atividades temporárias. Esse serviço é obviamente essencial ao processo produtivo, gerando crédito nos termos da legislação vigente; Aquisição de mercadoria ou produto sujeito à alíquota zero e o direito à não cumulatividade • o despacho decisório efetuou a glosa do crédito referente à aquisição do leite industrial Copacker. A glosa sobre as aquisições desse produto resulta em mitigação do princípio da nãocumulatividade, não permitindo que se deduza os custos de aquisição dessa matériaprima utilizada pela empresa em oposição à receita obtida com os produtos que dela se originam; • o art. 195, inciso I, alínea b, § 12, da Constituição Federal, ao promover uma incidência nãocumulativa das contribuições, faz referência a um instituto já existente no direito pátrio e, portanto, sua regulamentação por lei ordinária deve observância aos limites conceituais de tal instituto, não lhe sendo concedido o poder de restringir essa sistemática; • a sistemática criada no art. 195, § 12, da Constituição Federal deve possuir elementos suficientes para enquadrála no conceito jurídico existente de não cumulatividade. Caso contrário, a legislação em comento não encontra fundamento no referido preceito constitucional e, por conseguinte, representa apenas uma forma de majoração de tributo, ferindo o princípio do nãoconfisco, consagrado no art. 150, § 4º, da Constituição Federal; • é um dos requisitos para se promover a nãocumulatividade a neutralização da tributação, o que no presente caso não ocorre; Fl. 2832DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.833 22 Aquisição de serviços não enquadrados como insumo • o CARF pacificou o entendimento de que o conceito mais correto para que o produto ou o serviço se torne insumo e possa gerar créditos na apuração do PIS/Pasep e da Cofins é ser considerado essencial ao processo produtivo. Por ser essencial entende se que o produto ou o serviço deve ser necessário ao processo produtivo e sem ele, no mínimo, comprometerseia a qualidade do produto, bem como a continuação da produção e, por conseguinte, a atividade econômica da empresa; • os serviços de manutenção em equipamento de fábrica são extremamente necessários e, assim sendo, essenciais para o processo produtivo da empresa. Consistem eles na montagem e manutenção das tubulações nas linhas de produção e em linhas de utilidades por onde passam água, vapor ou até mesmo ar comprimido. Sem tais serviços, resta óbvio que os equipamentos da empresa seriam danificados pelo uso intenso que sofrem, o que comprometeria toda a linha de produção; • os serviços de armazenagem e logística são essenciais ao processo produtivo, pois sem eles seria impossível continuar a produção. Tratase de serviços industriais prestados, nos quais está incluso o fornecimento de água, os tratamentos de efluentes, os quais a empresa é obrigada a realizar, e os serviços de construção civil em plataforma de manutenção de torre de resfriamento de água industrial, todos eles obviamente necessários ao processo produtivo e, portanto, geradores de crédito na apuração do PIS/Pasep e da Cofins; • os serviços de assistência técnica em equipamento de fábrica fazem a revisão preventiva, a montagem, bem como a manutenção em tubulações nas linhas de produção e em linhas de utilidades por onde passam o leite ou a água, sendo, pois, essenciais ao processo produtivo; • os serviços de mãodeobra temporária são essenciais para momentos do processo produtivo. A atividade baseiase no serviço de movimentação de produtos terminados destinados à venda e transferências (separação de produtos de acordo com o pedido de clientes e carregamentos). Dessa forma, dá direito ao crédito reclamado; • os serviços de assessoria aduaneira são essenciais ao processo produtivo, tendo em vista que consistem nos serviços de desembaraço aduaneiro, sem os quais é impossível continuar a linha de produção; • os serviços de consultoria e administração, são insumos, tendo em vista que sem eles não há como continuar a produção. As atividades de consultoria e administração são serviços industriais necessários como, por exemplo, fornecimento de água e tratamento de efluentes que, conforme já dito, é extremamente necessário e essencial à produção; • os serviços com a descrição de genéricos também tiveram os respectivos créditos glosados pelo auditor fiscal. Porém, cabe elucidar que esses são os serviços com tratamento de efluentes e fornecimento de água, que, conforme já relatado, são essenciais ao processo produtivo e, como tais, são insumos; • os serviços de medicina veterinária e zootecnia são atividades consistentes no serviço de evitar a contaminação das tubulações em linhas, por onde passa a matéria Fl. 2833DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.834 23 prima, mantendo dessa forma a higiene, a qualidade e o controle exigido pelos órgãos da vigilância sanitária; • os serviços de construção civil e montagem elétrica, mecânica e hidráulica são essenciais ao processo produtivo da empresa. Tratase dos serviços de construção civil e montagem de linhas elétricas, mecânicas e hidráulicas das plataformas de carregamento de produtos terminados. Por isso, geram direito ao crédito pleiteado; • os serviços de locação de equipamentos de telecomunicação são essenciais ao processo produtivo, pois consistem na locação de impressoras de videojet utilizadas para a datação de produtos terminados. Sem esses serviços seria impossível realizar qualquer marcação nos produtos, impossibilitando a continuação da produção; • os serviços de engenharia civil consistem na atividade em plataforma de manutenção de torre de resfriamento de água industrial, sendo, dessa forma, essencial para o processo produtivo e, portanto, deve ser considerado como insumo; • os serviços de suporte de construção e locação de estrutura, que se constituem na atividade de armazenagem de equipamentos obsoletos, ao contrário do que considerou o auditor fiscal, enquadramse como insumos, tendo em vista seu caráter essencial ao processo produtivo da empresa; • os serviços de impressão de publicidade de promoções também tiveram os respectivos créditos glosados pela autoridade fiscal. Todavia, tal serviço consiste na impressão de material publicitário da empresa, sendo atividade essencial para a promoção e divulgação dos seus produtos e, portanto, essencial para o processo produtivo, devendo, assim, dar direito ao crédito reclamado; DA IMPORTAÇÃO DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMO Aquisição de mercadoria ou produto sujeito à alíquota zero e o direito à não cumulatividade • o auditor fiscal efetuou a glosa dos créditos decorrentes da importação de leite em pó integral, por entender que na aquisição do referido produto não incidiu tributação. Essa glosa resulta em mitigação do princípio da nãocumulatividade, não permitindo que se deduza os custos de aquisição dessa matériaprima utilizada pela empresa em oposição à receita obtida com os produtos que dela se originam; • a ora manifestante está levantando diversas informações e documentos em suas filiais e, no decorrer deste processo, providenciará a juntada das Declarações de Importações, a fim de demonstrar que no desembaraço do referido leite em pó integral houve a tributação do PIS/Pasep e da Cofins, razão pela qual deve ser deferido o crédito pleiteado; • o despacho decisório ora combatido, ao negar o crédito nas aquisições de matériaprima, acaba gerando o efeito cumulativo na apuração do PIS/Pasep e da Cofins, em sentido contrário ao que prescreve o art. 195, § 12, da Constituição Federal; • a sistemática criada no art. 195, § 12, da Constituição Federal deve possuir elementos suficientes para enquadrála no conceito jurídico existente de não cumulatividade; • é um dos requisitos para se promover a nãocumulatividade a neutralização da tributação, o que no presente caso não ocorre; Fl. 2834DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.835 24 DA IMPORTAÇÃO DE BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA, DA IMPORTAÇÃO DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS E DOS CRÉDITOS CALCULADOS SOBRE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO (DEPRECIAÇÃO) ADQUIRIDOS NO MERCADO INTERNO • os créditos referentes aos bens adquiridos para revenda, a importação de serviços utilizados como insumos e os créditos calculados sobre bens do ativo imobilizado (depreciação) adquiridos no mercado interno somente foram glosados devido à não apresentação de planilhas específicas ou pela suposta falta de comprovação. Esse argumento não pode ser utilizado para embasar a glosa dos créditos pleiteados. A fiscalização deixou de examinar o mérito do pedido de ressarcimento e apenas o indeferiu com base na presunção de que o crédito não é legítimo em face de a contribuinte não ter logrado sucesso em juntar os documentos julgados necessários; • em que pese o suposto desatendimento às solicitações do auditor fiscal, é necessário dizer que ele poderia ter esgotado a verdade material e, assim, examinado a liquidez e a certeza do crédito pleiteado. Deve ficar claro que no presente caso não se trata de a ora manifestante não ter comprovado o crédito pretendido, ônus que sabidamente incumbe ao autor do pedido, e sim da impossibilidade de atender aos termos de intimação da forma como foi requerido; • devese ter em mente que se está diante de um volume de documentos gigantesco, muitos deles espalhados em diversas filiais. Em momento algum se recusou ou não quis colaborar com a fiscalização para a comprovação dos créditos pleiteados. Apenas não teve condições de cumprir as exigências feitas pela fiscalização. No entanto, isso não quer dizer que o auditor fiscal não tenha acesso aos documentos comprobatórios dos créditos, para o que seria necessário que se dispusesse a analisar a documentação no estabelecimento da manifestante, como possibilita o art. 19 da Instrução Normativa SRF nº 600, de 2005; • verificase a necessidade da aplicação do princípio da razoabilidade, pois, para a finalidade e a eficiência da atividade fiscal e em face do volume de documentos, é medida proporcional que seja concedido o prazo de cento e vinte dias, para que a contribuinte possa realizar a juntada dos documentos e planilhas de cálculos exigidas pela fiscalização ou então deve ser determinada a baixa em diligência para que a autoridade fiscal analise todos os documentos pertinentes ao crédito; DAS DESPESAS DE ENERGIA ELÉTRICA • apesar de ter aceitado a memória de cálculo, o despacho decisório não reconheceu a integralidade do crédito referente às despesas de energia elétrica, em razão de algumas notas fiscais não terem sido apresentadas, quais sejam: 999246, 1746, 774027, 873446, 527588, 6151 e 510673, emitidas por Elektro Eletricidade e Serviço, CNPJ nº 02.328.280/000197; e 450, 464 e 293, emitidas por Light Serviços de Eletricidade S.A., CNPJ nº 60.444.437/000146; • a ausência de algumas notas fiscais poderia ter sido plenamente satisfeitas com todas as notas fiscais que foram apresentadas, pela amostragem dos documentos, eis que a memória de cálculo dessas despesas foi aceita pelo auditor fiscal. Se esse não for o melhor entendimento, ainda assim, os créditos referentes a essas despesas poderão ser reconhecidos mediante a juntada dos comprovantes. Contudo, em razão de a manifestante possuir diversas filiais e não ter ainda conseguido localizar as notas fiscais em apreço, providenciará a juntada delas no decorrer do processo, em prazo não superior aos cento e vinte dias requeridos para juntar os demais documentos com os detalhes questionados no despacho decisório; Fl. 2835DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.836 25 DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS • o auditor fiscal glosou os créditos referentes às despesas com aluguéis de prédios locados das seguintes pessoas jurídicas: Maconetto Empreendimentos Imobiliários S.C. Ltda., CNPJ nº 02.479.601/000152; Patriarca Empreendimentos e Participações Ltda., CNPJ nº 74.192.097/000118; e Nestlé Brasil Ltda., CNPJ nº 60.409.075/000152, sob o fundamento de que não foram apresentados os devidos esclarecimentos sobre endereço, descrição ou finalidade do imóvel locado e que os comprovantes de pagamento não foram apresentados em sua integralidade; • a contribuinte não conseguiu preencher a memória de cálculo com todas as informações que a fiscalização entendeu como necessárias. Entretanto, entende que foram entregues outros elementos de prova que atestam a habitualidade da despesa de aluguel, tais como os contratos que foram entregues e os comprovantes de pagamento; • os próprios contratos de aluguéis demonstram a relação de locação e, sobretudo, as obrigações de pagamentos que a manifestante deve cumprir mensalmente. Por isso, não haveria necessidade de glosa se os comprovantes não estão de acordo com as quantias pagas, pois o que gera o direito ao crédito é a despesa de locação e não o seu pagamento. Pode haver pagamentos que correspondam a mais de um mês de locação. Contudo, para que essa dúvida seja afastada, está providenciando a reunião dos contratos, dos comprovantes de pagamento e das memórias de cálculos dessas informações, que irão comprovar a legitimidade desses créditos; DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS • a apropriação de créditos referentes a despesas com aluguéis de máquinas e equipamentos é amparada pelo art. 3º, inciso VI, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Contudo, o despacho decisório glosou esses créditos, por entender que eles não foram suficientemente comprovados, dizendo que as memórias de cálculo estariam incompletas, por não trazer a relação de dados complementares que seriam necessários para a legitimidade; • a fiscalização poderia ter verificado a legitimidade dos créditos e das informações fornecidas na memória de cálculo, se tivesse escolhido exaurir a verdade material por meio de diligência fiscal; • neste momento processual, a ora manifestante não se exime de que há inversão do ônus da prova e que cabe a comprovação do fundamento alegado, no entanto, em razão do volume de notas fiscais de aluguéis e de serem créditos apropriados pela matriz e pelas filiais da ora manifestante, a contribuinte irá juntar em momento posterior uma planilha com o registro dos dados (nos moldes solicitados pela fiscalização) e documentos fiscais por amostragem, a fim de que seja cabalmente demonstrada a legitimidade do seu crédito e seja consequente o reconhecimento de Vossas Senhorias acerca da sua legitimidade; DAS DESPESAS DE ARMAZENAGEM E FRETES DE AQUISIÇÃO DE INSUMOS, FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA E ARMAZENAGEM • é necessário esclarecer que na mesma linha do Dacon referente aos fretes de venda e armazenagem, a contribuinte também registrou os custos de fretes de aquisição de insumos. Desse modo, em relação a essa rubrica, aqui se está defendendo não só os créditos de despesas de frete de venda e armazenagem, mas também os fretes na aquisição de insumos; Fl. 2836DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.837 26 • os créditos de fretes entre estabelecimentos não fazem parte de seu pedido de ressarcimento, pois, conforme informado à fiscalização, esses créditos são objeto do mandando de segurança nº 2008.61.00.0025770. Logo, esses créditos não poderiam ser objeto de glosa; • o despacho decisório glosou os fretes de aquisição, os fretes de venda e as despesas de armazenagem sob o argumento de que não teriam sido preenchidas todas as informações que seriam necessárias nas memórias de cálculo e na segregação dessas despesas; • a ora Manifestante esclarece que a memória de cálculo não há segregação, pois, nela constam apenas os fretes de aquisição, os fretes de venda e as despesas de armazenagem; não havendo que se falar em fretes entre estabelecimentos por ser esta despesa objeto de reconhecimento de ação judicial; • em razão das diversas filiais e da grande quantidade de operações de fretes de aquisição e fretes de venda, a ora Manifestante não conseguiu apresentar as memórias de cálculo segregadas entre os referidos fretes de venda e de aquisição, nos moldes requeridos e com o detalhe de informações desejadas pela fiscalização. Isto não significa que a memória de cálculo não tenha sido entregue pela ora Manifestante, tampouco, que seria um óbice para a análise da Autoridade Fazendária de origem, pois, conforme foi salientado no tópico preliminar, a Autoridade Fiscal poderia ter esgotado a verdade material através de diligência fiscal no estabelecimento da ora Manifestante, conforme prevê o art. 76, da IN/RFB 1.300, de 2012. • assim que recebeu a ciência do presente despacho decisório, começou a elaborar a planilha de memória de cálculo e a separar a documentação pertinente aos créditos de frete de aquisição de insumos, frete de venda de produtos e despesas de armazenagem. Junto à presente manifestação, apresenta planilha com operações por amostragem e conhecimentos de transporte, nas operações de frete na aquisição e frete na venda, assim como de armazenagem, em razão de ainda não ter finalizado a análise de forma exauriente; • reitera os pedidos anteriores de que seja permitida a juntada da documentação comprobatória do seu crédito no decorrer da tramitação deste processo, em prazo não superior a cento e vinte dias, bem como a determinação de baixa em diligência para a confrontação da documentação juntada com a escrituração contábil, caso se entenda que as memórias de cálculos não sejam suficientes; • na linha dos fretes de venda e armazenagem, incluiu os fretes de aquisição, quando deveria inserilos na linha de bens/serviços adquiridos como insumo, por fazer parte do custo de aquisição da matériaprima. Embora tenha cometido esse lapso, em razão da verdade material, é medida razoável que os créditos de frete na aquisição sejam reconhecidos; • junta em anexo, por amostragem, notas fiscais que demonstram que arcou com despesas de fretes na aquisição de insumos, de fretes sobre vendas e de armazenagens, bem como relação das notas fiscais que estão sendo juntadas nesse primeiro momento; • em razão do volume de conhecimentos de transporte (em torno de 400.000), está fazendo a análise e separação deles, a fim de complementar as planilhas de memória de cálculo com os dados que foram solicitados pela fiscalização de origem, bem como a devida segregação e planilha de controle dos créditos de frete de transferência, que, como dito, não foi objeto do presente pedido de ressarcimento. Fl. 2837DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.838 27 DA DEVOLUÇÃO DE VENDAS Devolução de produtos sujeitos à alíquota zero • o auditor fiscal enumerou vários produtos que foram devolvidos, glosando o respectivo crédito, sob o argumento de que teriam sido vendidos com alíquota zero. Ocorre que, como se verifica nos Dacons dos períodos em exame, esses produtos (tais como: nesvita, molico tentação cassis, ninho soleil, chamyto, chambinho, chandele, entre outros) tiveram suas vendas lançadas em receita de mercado interno tributada. Dessa forma, mesmo que sejam produtos que estariam sujeitos à alíquota zero, em face da verdade material de que foram vendidos com tributação, sua devolução gera direito a crédito, nos termos do art. 3º, inciso VIII, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003; • para exemplificação, juntase o Dacon do período de apuração junho/2012 e a relação desses bens que foram vendidos com tributação (lembrando que todos os Dacons podem ser acessados pela RFB); Operações relativas à emissão de nota fiscal que seria supostamente complementar de preço • em relação às notas fiscais nos 5062 e 5063, emitidas pela Nestlé Brasil Ltda., esclarece que as mesmas não foram lançadas como notas complementares de preço, mas como estorno de lançamento de duplicidade, foram lançadas como devolução; • foram feitos, em 28/12/2007, lançamentos a crédito na conta 2062240/30, evidenciando que os valores foram provisionados para pagamento/compensação. Posteriormente, por erro de preenchimento, foram feitos novamente, poucas horas depois, os mesmos lançamentos, ou seja, em duplicidade. São lançamentos idênticos, apenas com números de controle diferentes. Para corrigir esse equívoco, verificado dentro do mesmo mês, foi efetuado, em 31/12/2007, lançamentos de estorno a débito nas contas de provisão; • quando era feito o Dacon, a massa de dados trabalhada era muito grande e, por isso, era impossível separar cada caso. Dessa forma, todos os lançamentos de estorno de provisão eram tratados como devolução e classificados na linha “Devolução de vendas” na ficha de créditos do Dacon. Em contrapartida, as provisões em duplicidade eram registradas na ficha de “Cálculo da contribuição”, na linha 01; OUTRAS OPERAÇÕES COM DIREITO A CRÉDITO • a fiscalização glosou créditos referentes a aluguéis de máquinas e equipamentos, aluguéis de prédios, energia elétrica, armazenagem, insumos e serviços de manutenção, devido à não apresentação de planilhas específicas ou pela suposta falta de comprovação dos referidos créditos; • esse argumento não pode ser utilizado para embasar a glosa dos créditos pleiteados. A fiscalização deixou de examinar o mérito do pedido de ressarcimento e apenas o indeferiu com base na presunção de que o crédito não é legítimo em face de a contribuinte não ter logrado sucesso em juntar os documentos julgados necessários. Em que pese o suposto desatendimento às solicitações do auditor fiscal, é necessário dizer que ele poderia ter esgotado a verdade material e, assim, examinado a Fl. 2838DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.839 28 liquidez e a certeza do crédito pleiteado. Deve ficar claro que no presente caso não se trata de a ora manifestante não ter comprovado o crédito pretendido, ônus que sabidamente incumbe ao autor do pedido, e sim da impossibilidade de atender aos termos de intimação da forma como foi requerida; • devese ter em mente que se está diante de um volume de documentos gigantesco, muitos deles espalhados em diversas filiais. Em momento algum se recusou ou não quis colaborar com a fiscalização para a comprovação dos créditos pleiteados. Apenas não teve condições de cumprir as exigências feitas pela fiscalização. No entanto, isso não quer dizer que o auditor fiscal não tenha acesso aos documentos comprobatórios dos créditos, para o que seria necessário que se dispusesse a analisar a documentação no estabelecimento da manifestante, como possibilita o art. 19 da Instrução Normativa SRF nº 600, de 2005; • verificase a necessidade da aplicação do princípio da razoabilidade, pois, para a finalidade e a eficiência da atividade fiscal e em face do volume de documentos, é medida proporcional que seja concedido o prazo de cento e vinte dias, para que a contribuinte possa realizar a juntada dos documentos e planilhas de cálculos exigidas pela fiscalização ou então deve ser determinada a baixa em diligência para que a autoridade fiscal analise todos os documentos pertinentes ao crédito; DA CORREÇÃO PELA TAXA SELIC • a taxa Selic, por expressa previsão legal, é o fator de correção utilizado pela Administração Pública tanto para cobrança dos valores que lhe são devidos, como também para os créditos a que fazem jus os contribuintes; • a não incidência da taxa Selic desde o protocolo dos pedidos implica em ressarcimento a menor dos créditos a que tem direito a manifestante; • não pode a contribuinte suportar o ônus decorrente do ato de a autoridade fiscal glosar seus créditos e, quando houver deferimento pela turma julgadora, os créditos lhe serem disponibilizados sem a devida correção monetária; • registre o entendimento do Superior Tribunal de Justiça consubstanciado na Súmula nº 411: É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrentes de resistência ilegítima do Fisco. • o CARF vem reconhecendo esse direito, em decorrência de recurso repetitivo no STJ, como demonstra o acórdão nº 3401.002.075. Decisão recorrida A Delegacia de Julgamento manteve a integralidade das glosas, negando provimento à manifestação de inconformidade. Recurso voluntário Em recurso voluntário, a empresa reitera seus argumentos da impugnação, para pleitear o reconhecimento de todos os créditos. No recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos) anexa aos autos novos documentos. Fl. 2839DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.840 29 Recentemente, a empresa também juntou o laudo técnico de avaliação do uso de materiais e serviços no processo produtivo, laudo n° 059/2018, produzido em 27/03/2018. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Fazse nesta oportunidade, a análise conjunta dos 33 processos de titularidade da Recorrente, por configurarem inegável unidade de julgamento. Tratamse de processos conexos, nos termos do art. 6°, §1º, I, do RICARF: 1. 10880.944897/201301; 2. 10880.944898/201348; 3. 12585.000324/201083; 4. 12585.000325/201028; 5. 12585.000326/201072; 6. 12585.000328/201061; 7. 10880.944921/201302; 8. 10880.944917/201336; 9. 10880.944918/201381; 10. 10880.944920/201350; 11. 10880.944910/201314; 12. 10880.944911/201369; 13. 10880.944902/201378; 14. 10880.944900/201389; 15. 10880.944913/201358; 16. 10880.944903/201312; 17. 10880.944906/201356; 18. 10880.944923/201393; 19. 10880.944896/201359; 20. 10880.944899/201392; 21. 12585.000327/201017; 22. 10880.944915/201347; 23. 10880.944919/201325; 24. 10880.944914/201301; 25. 10880.944916/201391; 26. 10880.944912/201311; 27. 10880.944908/201345; 28. 10880.944909/201390; 29. 10880.944904/201367; 30. 10880.944901/201323; 31. 10880.944905/201310; 32. 10880.944907/201309 e, Fl. 2840DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.841 30 33. 10880.944922/201349. Conforme relatado, foram diversos os motivos das glosas dos créditos pleiteados pela Recorrente. Ocorre que um dos pontos controvertidos nestes autos é o conceito de insumo para fins de creditamento no âmbito do regime de apuração nãocumulativa das contribuições do PIS e da COFINS. A Recorrente pleiteia todos créditos por entendêlos como essenciais para sua atividade. Entretanto, o conceito de insumo que norteou a análise fiscal na origem foi o restrito, veiculado pelas Instruções Normativas da RFB n° 247/2002 e 404/2004, segundo as quais o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente, como aqueles que, adquiridos de pessoa jurídica, efetivamente sejam aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. O mesmo critério foi utilizado no julgamento da decisão de piso. Por outro lado, para a Recorrente, o conceito de insumo é amplo, sendo aplicáveis os art. 290 e 299 do RIR/99, para “albergar os custos e despesas que se fizerem necessárias na atividade econômica da empresa”. Esta 1ª Turma de Julgamento adota a posição de que o conceito de insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS, no regime da nãocumulatividade, não guarda correspondência com o utilizado pela legislação do IPI, tampouco pela legislação do Imposto sobre a Renda. Dessa forma, o insumo deve ser necessário e essencial ao processo produtivo e, por conseguinte, à execução da atividade empresarial desenvolvida pela empresa. Em razão disso, deve haver a análise individual da natureza da atividade da pessoa jurídica que busca o creditamento segundo o regime da nãocumulatividade, para se aferir o que é insumo. As atividades desenvolvidas pela Recorrente são a fabricação, transformação, beneficiamento, conservação, distribuição comercial, importação e exportação de produtos alimentícios, produtos acabados, semiacabados e matériasprimas alimentares e alimentos in natura e alimentos refrigerados, congelados e supercongelados, principalmente leite e seus derivados, as quais, em tese, podem depender das despesas ora pleiteadas como crédito. Ressaltese que há fato novo nos autos: a juntada de laudo técnico de avaliação do uso de materiais e serviços no processo produtivo, laudo n° 059/2018, produzido em 27/03/2018. O laudo descreve o processo produtivo dos iogurtes, desde o transporte de aquisição de leite fresco até o transporte da fábrica até o ponto de comércio (vide itens 8.1 a 8.15). Fl. 2841DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.842 31 Ademais, o laudo discorre sobre a essencialidade de despesas que seriam integrantes do processo produtivo, sem os quais, sustenta, não seria possível obter o produto em condições adequadas para o consumo, bem como dispor de instalações suficientemente higienizadas, obtendo desta forma a liberação pelos órgãos fiscalizadores, pelos mercados específicos atendidos pela empresa. E o faz nos itens 9.1 a 9.21. De antemão já vislumbro a necessidade de conversão em diligência por duas razões: a) a negativa de creditamento em parte foi pela aplicação do conceito restrito de insumo, ao passo que a Recorrente busca a aplicação ampla do conceito. Sendo assim, há dúvidas a serem dirimidas sobre a comprovação da efetiva associação dessas despesas com o processo produtivo da Recorrente e b) por ser o laudo fato novo, isso demanda a manifestação da autoridade fiscal, em respeito ao princípio do contraditório. Somese a esses dois fatores, a juntada de novos documentos no recurso voluntário da Recorrente, os quais, em análise desta relatora, são aptos a afastarem algumas glosas, total ou parcialmente. Logo, analiso a seguir uma a uma das glosas para delimitar o objeto da diligência proposta por esta Relatora. DOS BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA AQUISIÇÃO DE LEITE FRESCO PRODUTOR GRANEL A Fiscalização apontou: Preliminarmente, destacamos que o sujeito passivo apurou créditos básicos de bens para revenda calculados em relação à aquisição de leite fresco in natura nos meses de julho, setembro e dezembro de 2007, nos montantes a seguir: Por outro lado, ao analisarmos a planilha enviada pelo sujeito passivo em 15/01/2014 com a relação de todos os produtos vendidos, acompanhados de sua descrição e montante total no período, constatamos que o sujeito passivo obteve receitas de vendas de leite fresco in natura inferiores aos valores adquiridos no mês, conforme relação abaixo: Fl. 2842DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.843 32 Assim, tendo em vista que o leite fresco in natura é produto com alto grau de perecibilidade e tornase, em reduzido intervalo de tempo, impróprio para a utilização ou comercialização, é no mínimo razoável concluir que os valores adquiridos que excedem as receitas de vendas do leite fresco in natura no período certamente não foram destinados à revenda e, portanto, não devem compor o crédito básico da rubrica sob análise. Nesse sentido, desconsiderando a possibilidade de as quantidades excedentes terem perecido e, assim, desperdiçadas, o que anularia integralmente os créditos do sujeito passivo, é natural inferir que tenham sido utilizadas como insumos na industrialização dos laticínios que compõem a carteira de produtos do sujeito passivo. Vale lembrar que a aquisição de leite fresco in natura, LEITE FRESCO PRODUTOR GRANEL, NCM 04011090, por pessoa jurídica que, cumulativamente, apure o imposto de renda com base no lucro real, exerça atividade agroindustrial e utilize o produto adquirido como insumo na fabricação das mercadorias de origem animal previstas na legislação tributária, entre as quais encontramse os derivados de leite, classificados no capítulo 4 da TIPI, é operação sujeita à apuração de créditos presumidos, nos termos do art. 8º, caput, e parágrafos, da Lei nº 10.925, de 2004. Por essa razão, como o sujeito passivo enquadrase nas condições acima, realocamos os valores que excedem as receitas de venda de leite fresco in natura para a rubrica créditos presumidos e mantivemos sob a rubrica bens adquiridos para revenda os valores dentro dos limites das receitas supracitadas. Vale lembrar que a apuração do crédito presumido, nas hipóteses em que é aplicável, é obrigatória e não opcional para o sujeito passivo, de modo que os lançamentos referentes a essas operações obrigatoriamente devem ser realocados para a rubrica correspondente. Segue síntese dos valores realocados para crédito presumido. (...) A Recorrente pleiteia o crédito base e não o presumido pelas seguintes razões: · a aplicação da suspensão do PIS/Pasep e da Cofins não tem implicação imediata sobre a aquisição de leite fresco, estando submetida a determinados requisitos prescritos pela Instrução Normativa RFB nº 660/2006. O primeiro requisito é que o fornecedor exerça as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel, conforme pode ser verificado no art. 3º, II, dessa instrução normativa; · a quase totalidade dos fornecedores da empresa desempenham as atividades de resfriamento e de venda de leite a granel, contudo, não exercem a atividade de transporte de leite. Para corroborar essa alegação, junta aos autos a relação dos fornecedores e os cartões de CNPJ, que demonstram que a quase totalidade são pessoas jurídicas que desempenham a atividade de industrialização de leite, mas sem exercer a atividade de transporte de leite; Fl. 2843DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.844 33 · junta aos autos notas fiscais por amostragem, para demonstrar que o frete foi prestado por terceiro, reforçando o fato de que seus fornecedores não desempenham a atividade de transporte e, portanto, que a aquisição do leite in natura não é operação com tributação suspensa, mas com incidência “cheia” do PIS/Pasep e da Cofins; · mesmo nos poucos casos em que houve fornecedor que desempenhou as três atividades (resfriamento, venda a granel e transporte), ainda assim verificase que não seria o caso de suspensão do PIS/Pasep e da Cofins, pois, além desse requisito, a Instrução Normativa RFB nº 660, de 2006, determina que, nos casos em que se aplica a suspensão, deve constar obrigatoriamente a observação na nota fiscal de venda de que é operação com tributação suspensa. Na análise das notas fiscais emitidas pelos fornecedores que exercem as três atividades, foi constatado que não preencheram esse requisito, pois não continham a expressão obrigatória de que a venda seria com tributação suspensa. Desse modo, não havendo o preenchimento desse requisito, a operação é tributada pelas alíquotas básicas e gera direto a crédito de PIS/Pasep e Cofins ao adquirente do leite fresco. · além das notas fiscais que demonstram que o frete foi prestado por terceiro, de planilha demonstrando em quais casos há o preenchimento das atividades cumulativas de resfriamento, venda a granel e transporte e dos cartões do CNPJ de seus fornecedores, junta ainda aos autos os atos constitutivos da Nestlé, sua maior fornecedora; O laudo salienta que o leite é a principal matériaprima do iogurte, que o frete é suportado pela Recorrente e que tal frete prestado por terceiro é seu próprio custo de aquisição do leite. A Recorrente juntou, nos DOC. 4 a 6 do Recurso Voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), para sustentar as suas alegações: cópia dos cartões CNPJ dos fornecedores, amostragem de notas fiscais que demonstrariam que o frete foi prestado por terceiro e, o contrato social da Nestlé, sua maior fornecedora, a qual não realiza o transporte do leite. Entendo que este ponto deve ser investigado. Logo, solicitase à autoridade fiscal a análise dos documentos indicados pela Recorrente para verificar, se: 1 O transporte do leite foi feito por terceiros, que não a Recorrente e o fornecedor. Cotejar as notas fiscais com os conhecimentos de transporte (Vide tópico FRETES); 2 As notas fiscais indicadas contêm a informação de “venda com suspensão”; 3 Se foram cumpridos os requisitos para suspensão, dispostos na IN n° 660/06. AQUISIÇÃO DE EMBALAGEM DE TRANSPORTE OU MATERIAL DE EMBALAGEM DE TRANSPORTE Fl. 2844DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.845 34 Tratase das glosas de: CAIXA CHAMBINHO 360 520G REFR BR, CAIXA EXPEDICAO YGT NATURAIS REFR BR, CAIXA YGT 21X200G CHBNH 26X130G REFR BR e CAIXA YGT BICAMADA 24X150 G REFR BR, que no entendimento da fiscalização se tratam de embalagem ou material de embalagem utilizados no transporte das mercadorias vendidas, não se integrando aos produtos finais vendidos pelo sujeito passivo. A autoridade fiscal distinguiu “embalagens de apresentação” e “embalagens de transporte”, para aplicar as instruções normativas e negar o crédito. Por sua vez, o laudo descreve a essencialidade nos itens 9.6 e 9.9. No Recurso Voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), DOC. 7, constam planilha e fotos das embalagens. Confrontando o motivo da glosa, o laudo e DOC. 7, entendo que não há razão para outros esclarecimentos em diligência. OPERAÇÕES NÃO ENQUADRADAS COMO AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA Apontou a fiscalização que o contribuinte apurou parte de seu crédito com base em operações cuja natureza não se encaixa no conceito de bens para revenda, uma vez que descreveu as referidas operações como “Outra entrada de mercadoria ou prestação de serviço". Por sua vez, a Recorrente alega que, em razão de erro formal de preenchimento, foram contabilizadas no CFOP 1949 mercadorias que foram objeto de devolução dos clientes. Prossegue, informando que indicou as notas fiscais dessas operações, que demonstrariam que a origem desses produtos decorre dos próprios clientes da empresa, razão pela qual restaria evidenciado que se tratam de devoluções de vendas. Entretanto, esta Relatora não localizou a indicação de tais notas. Ademais, foi juntado o DACON de 2012 já em impugnação, para demonstrar que em eventual devolução, haverá crédito em razão da operação de venda ter sido tributada. Diante disso, não vislumbro a necessidade de realização de diligência nesse ponto. DOS BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS AQUISIÇÃO DE LEITE FRESCO PRODUTOR GRANEL e LEITE FRESCO USINA GRANEL Tratase da mesma situação anterior, relativa ao caso dos bens adquiridos para revenda, as aquisições de LEITE FRESCO PRODUTOR GRANEL e LEITE FRESCO USINA GRANEL, que nos dizeres da fiscalização são hipóteses de apuração de crédito presumido, pois se tratam de aquisição de leite in natura, nos termos do art. 8º, § 1º, II, da Lei nº 10.925/2004, e, portanto, não podem ser enquadradas na rubrica sob análise, com crédito cheio, devendo, obrigatoriamente, ser realocadas para rubrica adequada, qual seja, “créditos presumidos calculados sobre a aquisição de insumos de origem animal”. Fl. 2845DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.846 35 Os argumentos da Recorrente são os mesmos do outro tópico. À semelhança, aqui também considero que se trata de uma questão que deve ser objeto da presente diligência, como já exposto anteriormente. AQUISIÇÃO DE EMBALAGEM DE TRANSPORTE OU MATERIAL DE EMBALAGEM DE TRANSPORTE Como mencionado anteriormente, tratase da glosa de despesas relacionadas ao transporte do produto perecível pronto. Também como já dito, para a fiscalização, não seria de se cogitar o enquadramento como insumo tendo em vista que, para tanto, o material em questão deveria ser aplicado na embalagem de apresentação, destinada à venda ao consumidor final, e não de forma acessória, na embalagem de transporte, destinada ao mero transporte da mercadoria. Nesta rubrica foram glosados: CAIXA CHAMBINHO 360 520G REFR BR, CAIXA CHAMY FRUTESS T REX 1000G REFR BR, CAIXA CHANDELLE 2 E 4 POTES REFR BR, CAIXA CHBNH 38X90G YGT24X130G REFR BR, CAIXA DE GAXETA ACO, CAIXA ESPECIALIDADE LACTEA REFR BR, CAIXA EXPEDICAO MOUSSE 14X150G REFR BR, CAIXA EXPEDICAO NECTAR LARANJA 12X1L, CAIXA EXPEDICAO YGT NATURAIS REFR BR, CAIXA FRUTESS T PRISMA 12X315G REFR BR, CAIXA GAXETA TRI CLOVER PN J324B0002, CAIXA PAP ONDULADO IOG POLPA 12X400G, CAIXA PO AUTM IOG LIQ 48X180G REFR BR, CAIXA PO AUTM LEI FERM 20X450G REFR BR, CAIXA PO AUTM LEI FERM 20X720G REFR BR, CAIXA PO CHAMY SACO 12X1000G REFR BR, CAIXA PO ERCA DECOR 3 12X400G REFR BR, CAIXA PO MOCA FESTA 20X180G BR, CAIXA PO NESTLE IOG NAT 21X170G REFR BR, CAIXA PO REFR CHAMYTO BIG 22X720G BR, CAIXA PO REFR CHAMYTO CHOC 20X480G BR, CAIXA PO REFR CHANDELLE MOUSSE 14MP BR, CAIXA PO REFR ERCA DECOR 4 600G BR, CAIXA PO REFR NESTLE NINHO 100G BR, CAIXA PO REFR PTSIS 16 UNI ALTURA 32MMBR, CAIXA PO REFR PTSIS 16 UNI ALTURA 35MMBR, CAIXA PO REFR REQUEIJAO 19X220G BR, CAIXA POICAO CHAMY SACO 12X1000G REFR BR, CAIXA PUDIM MOCA 2 E 4 POTES REFR BR, CAIXA SEM ABAS CHMYT 30X4P 22X6P REFR BR, CAIXA UNICAYGT 6 BANDEJAS REFR BR, CAIXA YGT 21X200G CHBNH 26X130G REFR BR, CAIXA YGT BAG 1 X 10KG REFR BR, CAIXA YGT BICAMADA 24X150 G REFR BR, CAIXA YGT LIQ 45X200G9X800G REFR BR, CAIXA YGT LIQUIDOS 10X850 900G REFR BR, CAIXA YGT MOLICO 21X150G REFR BR e CAIXAPO REFRCHDEL MSE INDVIDUAL 14X75GBR. E ainda, ACESSORIO CONTAINER 1200KG, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413115, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413136, ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413167, CONTAINER PREP FRT 1200KG, CX TRANSPORTE FRASCOS FORNECEDOR, DIVISORIA DE PAPELAO, DIVISORIA PAPELAO 1 00MX1 20M, ETIQUETA IDENTIFICACAO PALETE REFR BR, ETIQUETA PAPEL AADSV AUTOMACAO FABRICA, ETIQUETA PAPEL AUTO ADESIVA C75MM L104MM, FILME ENCOLHIVEL CHAMYTO 6P REFR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT FRTVERM 450G PRBR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT FRTVERM 720G PRBR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT LEIFERM450G PR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT LEIFERM720G PR BR, FILME ENCOLHIVEL CHMYT TT FR 450G PR BR, FILME ENCOLHIVEL PEBD CHAMYTO 6X75G PR, FILME PEBD CHAMY MRG REFR BR, FILME PEBD PELBD NESTLE MRG REFR 900G, FILME SHRINK PEBD Fl. 2846DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.847 36 CHAMYTO 6X75G TT FR PR, FILME SHRINK PEBD CHAMYTO FRUTASVERMBR, FILME SHRINK PEBD CHAMYTO UVA 6X75G, FILME SHRINK PEBD CHMYT BIG FRUTASVERMBR, FILME SHRINK PEBD FCHAMYTO BIG 6X120G PR, FILME SHRINK PEBD REFR CHAMYTO 4X3G PRBR, FILME SHRINK PEBD REFR CHAMYTO BIG BR, FILME SHRINKPEBD NINHO LEI FERMENTADO BR, FILME SHRINKPEBD NINHO LEIFERMENT 7X1 BR, FILME TERMOENC CHAMYTO TT FR 6 POTES BR, FITA ARQUEAR PP VERDE C2000MX L12MM, FITA DE ARQUEAR PP C2500M L12MM, FITA DE ARQUEAR PP C2500M L12MM 2008, PAPELAO VELOMOIDE 1 64 ESPES X1 20 LARG e STRETCHFILME 500MM X 24 5UM. Sobre alguns desses itens a fiscalização informou: Em resposta apresentada em 31/07/2013, o contribuinte esclareceu que o STRETCHFILME 500MM X 24 5UM é “utilizado no fracionamento de paletes para venda de produtos Não relacionado ao processo produtivo”. O sujeito passivo esclareceu também que a FITA DE ARQUEAR PP C2500M L12MM 2008 é utilizada “na amarração dos paletes de produtos terminados”. Já o ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413115 é “complemento utilizado na caixa de expedição com a finalidade de evitar o tombamento do produto” e o ACESSORIO PAPELAO ONDULADO CAIXA 413167 é “complemento utilizado com a finalidade de reforçar a caixa de expedição”. Por sua vez, a ETIQUETA IDENTIFICACAO PALETE REFR BR é utilizada “na identificação do produto paletizado” (Documentos Diversos – Outros 20130731 Resp Contr Destin Insu Exame MPF Anterior; fl. 746). O stretch filme, ou filme esticável, bem como o filme shrink, ou filme encolhível, são largamente utilizados como materiais acessórios à embalagem de transporte utilizados durante o fracionamento de paletes para remessa do produto aos clientes. Nesse mesmo grupo incluise a fita de arquear, bem como os acessórios e divisórias de papelão, utilizados durante o transporte dos produtos. Na mesma toada, a autoridade fiscal distinguiu “embalagens de apresentação” e “embalagens de transporte”, para aplicar as instruções normativas e negar o crédito. Por sua vez, o laudo descreve a essencialidade nos itens 9.6 e 9.9. E, constam planilha e fotos anexadas ao documento. Como já dito anteriormente, entendo que não há razão para outros esclarecimentos em diligência. AQUISIÇÃO DE MERCADORIA OU PRODUTO NÂO ENQUADRADO COMO INSUMO Tratase de glosas referentes à aquisição de material de limpeza, no caso do desinfetante, e de material descartável de proteção pessoal e higiene: CAPA DESCARTÁVEL TAMANHO UNICO, DESINFETANTE DIVOSAN S1, DESINFETANTE ACIDO Fl. 2847DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.848 37 PERACET LIQ 30KG, LUVAS DESCARTÁVEL 340X270X0 06MM, MANGOTE DESCART POLIPR BRANCO GRAM 20, MANGOTE DESCARTÁVEL POLIPROPILENO, MANGOTES EM POLIPROPILENO BRANCA 30GR, PANO DE LIMPEZA ALVEJADO 0 60CM 0 35CM, PANO LIMPEZA AZUL BAINHA MED 30X40CM, PANO LIMPEZA BAINHA BRANCO MED42X75CM, PANO PARA LIMPEZA OVERLOQUE AZUL40X20CM, PAR DE LUVA DE POLITILENO TRANSPARENTE, SABONETE LIQUIDO SUMASEPT, TOUCA DESC AZUL C ELÁSTICO 50CM GRAM 30, TOUCA DESCARTÁVEL 50CM GRAMATURA 30 e TOUCA PROT DESC PP BR UN. Tais itens foram glosados, nos termos das instruções normativas, por não serem consumidos ou integrados ao produto final durante a fabricação. Na mesma rubrica houve a glosa de FITA ISOLANTE, que nos dizeres da fiscalização: “aquisição de FITA ISOLANTE, material acessório utilizado em reparos de máquinas, equipamentos ou instalações elétricas não necessariamente ligadas ao processo produtivo, que sequer é incluída quando da substituição de peças que sofrem desgaste em decorrência da fabricação do produto.” Glosados também as despesas com 7 SERVIÇOS CONSULTORIA EM RH, BRINDE R RELAÇÕES PUBLICAS e BRINDES DIVERSOS, “uma vez que os serviços de consultoria em recursos humanos destinamse, preponderantemente, ao auxílio no recrutamento e gerenciamento de pessoal, não se encaixando, por óbvio no conceito de insumos. Assim como os brindes, usualmente destinados a clientes e fornecedores, e não direcionados ao processo produtivo, não ensejando apuração de créditos”. E ainda, foram glosadas as aquisições de GAS LIQUEFEITO DE PETROLEO BOT, GAS LIQUEFEITO PETROLEO EM BOTIJAO 45 KG e GAS LIQUEFEITO PETROLEO BOTIJAO 20KG EMP, pois “o contribuinte esclareceu que os referidos itens são utilizados como ‘combustível para empilhadeiras’ ou na “preparação de alimentos no restaurante não relacionado ao processo produtivo”. O laudo da Recorrente trata dessas rubricas no item 9.10. Segundo este documento: 1 a industrialização do leite é fiscalizada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento MAPA, através da Resolução n° 10, de 22 de maio de 2003, que estabelece o Programa Genérico de Procedimentos Padrão de Higiene Operacional – PPHO, a ser utilizado nos estabelecimentos de leite e derivados que funcionam sob o regime de inspeção federal; 2 as fitas isolantes são utilizadas em reparos de máquinas e equipamentos para isolar conexões e outros componentes elétricos, garantindo maior segurança para quem manuseia aparelhos elétricos ou está trabalhando com algum serviço que envolva energia elétrica e 3 o Gás Liquefeito de Petróleo é uma energia convertida em movimentos das empilhadeiras. Entendo que, de todas as glosas listadas acima, é necessária a intervenção da autoridade fiscal apenas para verificar a possibilidade de segregação entre as aquisições de GAS LIQUEFEITO DE PETROLEO BOT, GAS LIQUEFEITO PETROLEO EM BOTIJAO 45 KG e GAS LIQUEFEITO PETROLEO BOTIJAO 20KG EMP – para área administrativa e para o processo produtivo. Para as demais glosas, entendo que os elementos dos autos são suficientes para o julgamento, não sendo, portanto, necessária diligência sobre os demais itens. Fl. 2848DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.849 38 AQUISIÇÃO DE MERCADORIA OU PRODUTO SUJEITO À ALIQUOTA ZERO Tratase das glosas de bens adquiridos classificados nos capítulos 7 e 8 da TIPI, que estão sujeitos à alíquota zero das contribuições, nos termos do art. 28, III, da Lei nº 10.865/2004, bem como de leite, nos termos art. 1º, XI e XIII, da Lei nº 10.925/2004. As glosas tiveram como fundamento o § 2º, II, do art. 3º das Leis nº 10.637/2002, e nº 10.833/2003, que dispõem que as aquisições sujeitas à alíquota zero não geram direito a crédito. Assim, foram glosados LEITE DESNATADO GRANEL, LEITE DESNATADO GRANEL TERCEIROS, LEITE DESNATADO INDUSTRIAL COPACKER, LEITE EM PO DESNATADO MSK, LEITE PO INTEGRAL 26 25KG, LEITE PO MSK 25KG e SORO MILK PO 25KG, bem como frutas e produtos hortícolas, AMEIXA POLPA PASTEURIZADA 20KG, AMORA POLPA 8BRIX CONGELADA 20KG, BANANA POLPA LIQUIDA 24BRIX PAST 20KG, COCO RALADO 0JAN 004 MM 25KG, FRAMBOESA POLPA 8BRIX 10KG, KIWI POLPA 13 BRIX, MAMAO POLPA 8 11 BRIX PASTEURIZADO 210KG, MELAO POLPA 4 7BRIX CONGELADO 12KG, MORANGO POLPA SEM SMT 4 5 8 5BRIX 10KG, PERA POLPA 8 13BRIX CONGELADA 20KG, PESSEGO POLPA 8 11BRIX CONGELADO 12KG, POLPA DE MORANGO, POLPA MORANGO PAST SEM SMT 28BRIX 200KG e POLPA MORANGO PAST SEM SMT 28BRIX 210KG. A Recorrente alega que são as suas essenciais matériasprimas e que negar crédito sobre elas implica em ferir a sistemática da nãocumulatividade. No mesmo sentido, apontou o laudo. Claramente, estáse diante de questão de direito, que não será objeto da diligência. OPERAÇÕES NÃO ENQUADRADAS COMO AQUISIÇÃO DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS Aponta a fiscalização que o contribuinte apurou parte de seu crédito com base em operações cujas naturezas não se encaixam no conceito de bens utilizados como insumos, uma vez que descreveu as referidas operações como “Outra entrada de mercadoria ou prestação de serviço não especificada” e “Compra de material para uso ou consumo”, com a utilização dos Códigos Fiscais de Operações e Prestações (CFOP) nº 1949, 2949, 1556 e 2556. Quanto aos CFOP n° 1949 e 2949, “Outra entrada de mercadoria ou prestação de serviço não especificada”, aduz a Recorrente que foram escriturados erroneamente, pois contabilizou neste CFOP as mercadorias objeto de devolução de seus clientes. Da mesma forma, não indicou as notas fiscais que comprovariam tal argumento. Assim, não foram especificadas as notas que poderiam atestar se a empresa incorreu em erro formal, se se tratam de devoluções de vendas. Com relação ao CFOP 1556 e 2556, “compra de material para uso e consumo”, alega a Recorrente que são aquisições de partes e peças de máquinas, parafusos, Fl. 2849DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.850 39 peças, graxas, mangueiras, rolamentos, molas, anéis, retentores, cilindros, termostatos, entre outras peças de reposição e consumo utilizadas na manutenção do processo produtivo. O laudo, no item 9.12, trata apenas dos “materiais para uso e consumo”, afirmando que estes “elementos são essenciais para o processo de forma que seja possível efetuar o reparo da máquina, por meio de manutenções, permitindo que ela retorne ao fluxo produtivo.” A Recorrente indicou em seu recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), DOC. 9, os materiais para uso e consumo que são integrantes do processo produtivo: partes e peças de máquinas, parafusos, graxas, mangueiras, rolamentos, molas, anéis, retentores, cilindros necessários a manutenção das máquinas no processo produtivo. Por conseguinte, não vislumbro a necessidade de diligência nesses itens. DOS SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS CUJAS DESCRIÇÕES NÃO PERMITEM IDENTIFICÁLOS COMO INSUMOS Tratase das glosas de serviços utilizados como insumos descritos como “GENÉRICOS” nas planilhas apresentadas pelo contribuinte, contratados de EMPRESA DE TRANSPORTES SOPRODIVINO SA, NESTLE BRASIL LTDA e PLENO CONSULTORIA E SERVICOS LTDA. O laudo descreve os serviços no item 9.13 como essenciais: I) Empresa de Transportes Soprodivino S.A. – transportadora contratada para realizar o transporte do açúcar que é uma matéria prima do processo produtivo. Sem o transporte do produtor até a empresa, o açúcar não estaria disponível para ser adicionado ao iogurte, consequentemente não estaria apto para o consumo. II) Nestlé Brasil Ltda empresa correlacionadas com a DPA em realizar alguns serviços industrias na planta, tais como: Performance Industrial: o termo utilizado para os indicadores de performance da manutenção em uma fábrica é o KPI (em inglês, Key Performance Indicators ou KPI, Indicadores de Performance na tradução). As KPIs podem mensurar diferentes performances abrangendo desde o tempo de parada das máquinas até o processo produtivo e são atividades que visam segurança para as pessoas operantes das máquinas e todos os equipamentos integrados com o processo industrial. Sem esses indicadores o sistema fabril entraria em colapso e pane geral, paralisando a produção do produto final. Engenharia de Manutenção e utilidades de energia: são atividades que visam toda a prevenção, manutenção, confiabilidade e Fl. 2850DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.851 40 disponibilidade dos equipamentos responsáveis por todo o processo produtivo, nos quais sem eles seria impossível manter a produção da empresa; Fornecimento de água e tratamento de efluentes: efluente industrial é o despejo de resíduos líquidos poluentes oriundos de processos fabris que abrange desde rejeitos provenientes dos próprios processos industriais, até o esgoto doméstico. Ou seja, é toda água que é utilizada em uma indústria e que, depois, precisa ser descartada. Na empresa pode utilizar a água com diversas finalidades, como para a lavagem do chão de fábrica ou de algum equipamento do processo de produção, para a incorporação ao próprio produto e para o resfriamento de sistemas e geradores de vapor. Em todas essas utilizações citadas, a indústria está produzindo resíduos que precisam ser tratados, para que a água apresente as condições estabelecidas no Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal RIISPOA além de atender aos princípios e objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos – Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010, antes de serem lançados à natureza, tendo em vista que esse tratamento é regulamentada e fiscalizada pelos órgãos de vigilância sanitária, dos quais devem ser atendidos sob pena da empresa ser interditada, caracterizando crime contra o meio ambiente, conforme menciona a Lei de Crimes Ambientais n° 9605/98. III) Pleno Consultoria de Serviços Ltda: recrutamento de trabalhadores para atividades temporárias, por exemplo: quando a empresa necessita realizar embalagens de iogurte promocionais nos formatos de “pague 2 leve 3”. Nestes momentos, a empresa necessita de um contingente maior do que o normal temporariamente para que consiga atender a demanda. A Recorrente juntou no DOC. 11 do Recurso Voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), algumas notas de despesas com serviços. Mas, não constam nos autos mais documentos sobre esses serviços, tampouco a conciliação entre as notas fiscais com os referidos serviços. Assim, como a glosa foi em decorrência da falta de informações que permitissem assegurar se os serviços em questão enquadramse no conceito de insumo, entendo que não há necessidade de outros esclarecimentos por parte da autoridade fiscal em diligência. AQUISIÇÕES QUE SOFRERAM AJUSTES NEGATIVO NA BASE DE CÁLCULO CORRESPONDENTE PARA REFLETIR O VALOR DE FACE DO DOCUMENTO FISCAL Aduz a fiscalização que: Procedemos ao ajuste negativo no valor de R$ 4.679.264,48 da base de cálculo dos créditos calculados em relação à aquisição do serviço lastreado pelo documento fiscal nº 013645, de fevereiro de 2009, emitido por LOGOPLASTE DO BRASIL LTDA, CNPJ nº 00.359.256/000513, para refletir o seu real valor de face, que monta em R$ 4.663,40, e foi erroneamente registrado pelo sujeito passivo pelo Fl. 2851DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.852 41 valor de R$ 4.683.927,88 (Documentos Diversos Outros 20140603 Resposta Intimação NF13645; fl. 747). Nesse ponto alega a Recorrente que lançou corretamente o valor de R$ 4.663,40 referente a essa nota fiscal. Segundo ela, o valor de R$ 4.682.449,79, que seria o total do reajuste negativo no Dacon, referese às anulações dos lançamentos realizados em duplicidade, em razão de erro de preenchimento. A Recorrente reiterou o pleito em sede de recurso voluntário, bem como apontou no item IV.III.2 da peça recursal os registros do DACON a que se refere, dessa forma esse ponto dever ser investigado na diligência. Então, solicitase à autoridade fiscal que verifique se a NF 013645 da Logoplaste do Brasil Ltda. foi lançada corretamente, no valor de R$ 4.663,40, em virtude do erro de preenchimento alegado pela empresa. OPERAÇÕES RELATIVAS À CONTRATAÇÃO DE MÃO DE OBRA Foram glosadas as operações relativas à contratação de mão de obra temporária, descritas pelo sujeito passivo em sua memória de cálculo como “SERV DE MAO DE OBRA TEMPORÁRIA”, contratados preponderantemente da empresa SOCIEDADE EMPRESARIAL DE TERCEIRIZACAO E SERVICOS LTDA, por entender a fiscalização que o pagamento a título de mão de obra a pessoa física por intermédio de uma pessoa jurídica contratada para tal fim é vedado. Afirma a empresa que essa mão de obra é alocada no processo produtivo. Junta notas fiscais. O laudo se refere a esse item no tópico 9.14. Solicitase a autoridade fiscal que coteje as notas fiscais juntadas e as indicadas no recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), no DOC. 10 e 11, e o laudo, bem como os demais elementos que constam nos autos para atestar se tal mão de obra foi aplicada no processo produtivo da Recorrente. AQUISIÇÃO DE MERCADORIA OU PRODUTO SUJEITO À ALIQUOTA ZERO Tratase da glosa da aquisição de LEITE DESNATADO INDUSTRIAL COPACKER, por se tratar de operação sujeita à alíquota zero, já que é aquisição de leite industrializado desnatado, cujas alíquotas das contribuições são iguais a zero, conforme reza o art. 1º, XI, da Lei nº 10.925/2004. Logo, tais aquisições sujeitas à alíquota zero não geram direito a crédito. Foi tratado no laudo, no item 9.15. Outrossim, como já manifestado, tratase de questão de direito, que será oportunamente julgada, não sendo, portanto, objeto desta diligência. Fl. 2852DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.853 42 AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS A glosa referiuse a: Glosamos os serviços contratados de LOCALIZA RENT A CAR SA, CNPJ nº 16.670.085/030496 e nº 16.670.085/0094 54, e de PAULISTANIA LOCADORA DE VEICULOS LTDA, CNPJ nº 03.339.638/000492, tendo em vista que ambos têm como atividade principal o serviço de locação de automóveis sem condutor, prestação que, considerada a atividade do sujeito passivo, a produção de laticínios, não se encaixa no conceito de serviços utilizados como insumos, devendo, portanto, ser integralmente glosadas. A empresa MONTIN MEC MONTAGENS INDUSTRIAIS LTDA ME, CNPJ nº 15.023.132/000106, tem como objeto a instalação de máquinas e equipamentos industriais. Tomando como exemplo a nota fiscal nº 79, de dezembro de 2012, o serviço prestado é de fabricação e instalação de pórtico para manutenção das torres de resfriamento, serviço que não se integra ou agrega valor aos produtos comercializados pelo sujeito passivo, não se enquadrando como insumos, sendo integralmente objeto de glosa por parte da Fiscalização todas as aquisições desse fornecedor (Documentos Diversos Outros 20140603 Resposta Intimação NF 79; fl. 750). A empresa PASCOTTI SERVICOS DE TERRAPLENAGEM LOCACAO DE MAQUINAS E VEICULOS LTDA, CNPJ nº 03.887.120/000140, presta serviços de obras de terraplenagem, obras de urbanização em ruas, praças e calçadas, construção de redes de abastecimento de água, coleta de esgoto e construções correlatas, exceto obras de irrigação, serviços de preparação do terreno, aluguel de máquinas e equipamentos para construção sem operador, exceto andaimes, atua nos setores de terraplenagem, pavimentação asfáltica, infraestrutura em geral, locação de equipamentos e fornecimento de materiais básicos para construção civil em empreendimentos comerciais, industriais e residenciais. Nenhum dos serviços descritos acima se enquadram no conceito de insumo ao se considerar o ramo de atuação sujeito passivo, a produção de laticínios, devendo, nesse caso, ser glosados todas as aquisições de serviço do fornecedor em questão. A empresa PLENO CONSULTORIA E SERVICOS LTDA, CNPJ nº 70.059.043/000128, tem como atividade principal a locação de mão deobra temporária, atuando também nos serviços de conservação e limpeza, serviços temporários e terceirização de mão de obra. Nesse sentido, em obediência ao inciso I do § 2º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, de idêntico teor, as aquisições do referido fornecedor foram integralmente glosadas. Mesmo tratamento foi dispensado às aquisições de serviços de TITO CADEMARTORI ASSESSORIA, CNPJ nº 93.911.147/000386, que presta serviço de assessoria e gestão aduaneira, principalmente Classificação Fiscal de Mercadorias, Valoração Aduaneira, Efetivação de Ex tarifários e Recuperação de impostos pagos, etc. Em outras palavras, presta serviço de assessoria aduaneira, que, por óbvio, não se enquadra no conceito de serviços utilizados como insumos, devendo, Fl. 2853DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.854 43 portanto, ser integralmente glosados os créditos relacionados às aquisições desse fornecedor. Glosamos também as operações descritas como MATERIAIS PARA MONTAGEM ELETRICA; MEDICINA VETERINARIA E ZOOTECNIA.; MOLDES; SERV USINAGEM; SERV ARMAZENAGEM E LOGISTICA (SERV FRETE); SERV ASSESSORIA ADUANEIRA; SERV CONST CIVIL MONT ELET MEC E HIDR; SERV CONSULTORIA E ADMINISTRACAO; SERV DE ASSIST TEC EM EQUIP DE FABR; SERV DE MANUT EM EQUIP DE FABR; SERV ENG CIVIL; SERV IMPR PUBLICIDADE PROMOCOES; SERV LOCACAO EQUIP TELEC; SERV SUPORTE CONSTR LOCACAO ESTRUTURAS; e SERV TELEFONIA FIXA, tendo em vista que, consideradas as próprias descrições fornecidas pelo contribuinte, não se enquadram como serviços utilizados como insumos. Alega a Recorrente que são serviços essenciais, tais como: Serviços de Manutenção de equipamentos de Fábricas; Serviços de Armazenagem e Logística; Serviços de Assistência Técnica em Equipamento de Fábrica; Serviços de Mão de Obra Temporária; Serviços de Consultoria e Administração; Serviços de Medicina Veterinária e Zootecnia; Serviços de Construção Civil e Montagem Elétrica, Mecânica e Hidráulica; Serviços de Locação de Equipamentos de Telecomunicação; Serviços de Engenharia Civil; Serviços de Suporte de Construção e Locação de Estruturas e Serviços de Impressão de Publicidade de Promoções. Aduz que juntou notas fiscais por amostragem. O laudo se refere a esse item no tópico 9.16, que descreve cada serviço e sua utilização. Entretanto, não houve a interligação entre cada serviço e as respectivas notas. Diante disso, entendo desnecessária a realização de diligência nesse tópico. DA IMPORTAÇÃO DE BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS AQUISIÇÃO DE MERCADORIA OU PRODUTO SUJEITO À ALIQUOTA ZERO Tratase da glosa de aquisição de LEITE PÓ INTEGRAL 26 25KG, por ser sujeita à alíquota zero, nos termos do o art. 1º, XI, da Lei nº 10.925/2004. O laudo referese a essa aquisição no tópico 9.17. Mais uma vez, tal como já tratado acima, não é objeto desta diligência. DA IMPORTAÇÃO DE BENS ADQUIRIDOS PARA REVENDA, DA IMPORTAÇÃO DE SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS e DOS CRÉDITOS CALCULADOS SOBRE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO (DEPRECIAÇÃO) ADQUIRIDOS NO MERCADO INTERNO Relatou a fiscalização o seguinte: No caso em tela, o contribuinte foi intimado, em 24/12/2013 e 29/04/2014 a apresentar as memórias de cálculo de TODAS AS Fl. 2854DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.855 44 RUBRICAS do Dacon. Nas referidas intimações, a Fiscalização foi expressa em indicar que as rubricas em epígrafe deveriam ter suas composições demonstradas nas planilhas de cálculo a serem apresentadas (Termo de Início de Diligência Fiscal; e Termo de Intimação Fiscal Número 2 20140429; fls. 239 a 246; e fls. 496 a 501). O contribuinte apresentou respostas à Fiscalização em diversos momentos, conforme se depreende do relatório desta Informação Fiscal, contudo, até o fim do procedimento fiscal o contribuinte não havia apresentado quaisquer memórias de cálculo referentes as rubricas sob análise. Limitouse a esclarecer, em resposta apresentada no dia 23/01/2014, que os valores lançados na ficha 16A, linha 09, créditos calculados sobre bens do ativo imobilizado (depreciação), e na ficha 16B, linha 01, importação de bens para revenda, referemse na verdade a insumos (Documentos Diversos Outros 20140123 Resposta Intimação Protocolo; fl. 483). Dessa forma, em vista da não apresentação de planilhas específicas para essas duas rubricas e do esclarecimento supra, assumimos que os seus valores estão inseridos nas planilhas referentes aos créditos de aquisição de insumos do mercado interno e importação, de modo que a análise desses valores fora automaticamente realizada no âmbito das referidas rubricas relativas à aquisição de insumos, e, naturalmente, realocadas para tais linhas. Nesse sentido, com o objetivo de evitar a apuração de tais créditos em duplicidade, desconsideramos a integralidade dos valores lançados na ficha 16A, linha 09, créditos calculados sobre bens do ativo imobilizado, e na ficha 16B, linha 01, importação de bens para revenda. Já os valores pleiteados pelo contribuinte a título de importações de serviços utilizados como insumos foram integralmente glosados, por falta de comprovação do crédito pleiteado, tendo em vista a não apresentação de quaisquer planilhas com as memórias de cálculo dos créditos lançados nos Dacons. O laudo não abordou essa temática. E a Recorrente não trouxe novos elementos em recurso voluntário, apenas afirma que o auditor fiscal glosou créditos baseado na presunção de que, se as informações não foram detalhadas como solicitado, é porque o crédito não existe. Logo, esse item está fora do objeto da diligência. DAS DESPESAS DE ENERGIA ELÉTRICA Relata a fiscalização que: Intimado em 27/05/2014 a apresentar uma amostra de notas fiscais de energia elétrica, o sujeito passivo, em 03/06/2014, apresentou a Fl. 2855DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.856 45 contento uma parte relevante dos documentos fiscais requeridos, deixando de apresentar, contudo, os documentos fiscais nº 999249, 1746, 774027, 873446, 527588, 6151 e 510673, emitidas por ELEKTRO ELETRICIDADE E SERVICO, CNPJ nº 02.328.280/0001 97; e 450, 464 e 293, emitidas por LIGHT SERVICOS DE ELTRICIDADE SA,CNPJ nº 60.444.437/000146 (Termo de Intimação Fiscal Número 3 20140527; Documentos Diversos Outros 20140603 Resposta Intimação Protocolo; e Termo de Anexação de Arquivo Nãopaginável 20140603 Resposta à Intimação Mídia; fls. 540 a 573). Dessa forma, a autoridade fiscal glosou integralmente os créditos apurados com base nas aquisições de energia elétrica cujos documentos não foram apresentados. Informa a Recorrente que juntou ao seu recurso voluntário, as notas fiscais n° 999249, 1746, 774027, 873446, 527588, 6151 e 510673 emitidas por Elektro Eletricidade e Serviço (CNPJ 02.328.280/000197) e notas fiscais n° 450, 464 e 293, emitidas por Light Serviços de Eletricidade S/A (CNPJ 60.444.437/000146). A essencialidade da energia elétrica para o processo produtivo é objeto do item 9.18 do laudo. Assim, solicitase a autoridade fiscal que faça a conciliação dessas notas, DOC. 13 do recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), com a escrituração da Recorrente, com vistas a atestar a legitimidade do creditamento com base nesses documentos. DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS Relata a fiscalização que: O contribuinte foi intimado, em 24/12/2013 e 29/04/2014 a apresentar as memórias de cálculo de TODAS AS RUBRICAS do Dacon. Nas referidas intimações, a Fiscalização foi expressa em indicar que a rubrica Aluguéis de Prédios Locados de Pessoas Jurídicas deveria conter o detalhamento das locações em questão, contendo “CNPJ do Locador”; “Razão Social do Locador”; "Endereço do Imóvel Locado"; "Descrição do Imóvel Locado"; “Finalidade do Imóvel Locado”; "Valor Original do Contrato de Locação"; “Valor do Aluguel Pago no Mês”; "Data do Pagamento do Aluguel"; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável” (Termo de Início de Diligência Fiscal; e Termo de Intimação Fiscal Número 2 20140429; fls. 239 a 246; e fls. 496 a 501). Nas diversas oportunidades em que trouxe como resposta às intimações as memórias de cálculo, o contribuinte apresentou planilhas de aluguéis de prédios incompletas furtandose a apresentar na relação a identificação do imóvel locado, e dados elementares, como o endereço do imóvel locado, sua descrição e finalidade, bem como os valores originais de locação e o valor efetivamente pago. Fl. 2856DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.857 46 De qualquer sorte, analisamos a planilha apresentada em 16/05/2014 e constatamos que o contribuinte apura créditos de aluguéis de imóveis oriundos de contratos firmados com três locadores distintos, quais sejam, Maconetto Empreendimentos Imobiliários SC Ltda, CNPJ nº 02.479.601/000154; Patriarca Empreendimentos e Participações Ltda, CNPJ nº 74.192.097/000118; e Nestle Brasil Ltda, CNPJ nº 60.409.075/000152. As operações firmadas com o locador Maconetto Empreendimentos Imobiliários SC Ltda, CNPJ nº 02.479.601/000154 são meramente descritas como “Serv. Leasing Locação de Imóvel” e, tendo em vista a COMPLETA AUSÊNCIA de informações acerca do endereço, descrição ou finalidade do imóvel locado, não permitem constatar se os valores referemse de fato a uma locação de imóvel, de modo que foram integralmente glosados (Termo de Anexação de Arquivo Não paginável Memórias de Cálculo Dacon Parte 1; fl. 538). Já as operações firmadas com o locador Patriarca Empreendimentos e Participações Ltda, CNPJ nº 74.192.097/000118, além de incorrerem no mesmo problema anterior, de ausência de informações elementares para a identificação do imóvel locado, são descritas como “Serv. Administração Imobiliária”, restando evidente que não se referem de fato a locação de imóvel, e, sim, de serviços imobiliários acessórios à locação. Essas operações também foram integralmente glosadas (Termo de Anexação de Arquivo Nãopaginável Memórias de Cálculo Dacon Parte 1; fl. 538). Por outro lado, as operações firmadas com o locador Nestle Brasil Ltda, CNPJ nº 60.409.075/000152, foram descritas como “Aluguel predial”, de modo que os correspondentes contratos de locação foram requeridos pela Fiscalização acompanhados dos demonstrativos atualizados das despesas de aluguel bem como os respectivos comprovantes de pagamento (Termo de Anexação de Arquivo Não paginável Memórias de Cálculo Dacon Parte 1; e Termo de Intimação Fiscal Número 3 20140527; fl. 538; e fls. 540 a 556). O contribuinte apresentou em 03/06/2014 os contratos de aluguel a contento, por meio dos quais constatamos que se referem de fato a dois imóveis locados pelo sujeito passivo. Contudo, deixou de apresentar uma parte relevante dos recibos com os comprovantes de pagamento, bem como quase que a integralidade dos demonstrativos dos valores atualizados das despesas de aluguel (Documentos Diversos Outros 20140603 Resposta Intimação Protocolo; e Termo de Anexação de Arquivo Nãopaginável 20140603 Resposta à Intimação Mídia; fls. 557 a 573). Ademais, não foi possível encontrar correspondência entre quaisquer um dos recibos com os comprovantes apresentados e os valores inicialmente demonstrados pelo sujeito passivo em suas memórias de cálculo, tendo em vista que os valores de face dos recibos e os informados nas planilhas não coincidiam ou sequer eram compatíveis entre si. Anexados a alguns recibos de pagamento, o contribuinte apresentou demonstrativos com a discriminação fornecida pelo locador com todas as rubricas que compõem o montante devido pelo sujeito passivo ao Fl. 2857DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.858 47 locador, e notamos pela análise destes documentos que apenas uma parcela do valor total devido referese, de fato, à locação do imóvel (Documentos Diversos Outros 20140603 Demonstrativos Despesas Aluguel Mensal, fls. 697 a 722). As demais rubricas se referem a despesas acessórias com energia elétrica; malote; telefone; despesas legais e com impostos diversos; ginástica laboral; cantina e alimentos; serviços de manutenção em câmaras/incêndio/predial; manutenção e reparo de móveis e utensílios; serviço de manutenção e limpeza em geral; serviço de segurança ambiental; manutenção de câmaras (peças e materiais); correio; IPTU; pagamento de alvará de funcionamento; e nobreak (Documentos Diversos Outros 20140603 Demonstrativos Despesas Aluguel Mensal, fls. 697 a 722). As despesas acima não integram o valor do aluguel e, portanto, não ensejam direito ao crédito das contribuições, de forma que, para compor a base de cálculo da rubrica em questão, consideramos exclusivamente os valores descritos como “Aluguéis Filiais” nos demonstrativos apresentados pelo sujeito passivo. Nos meses em que o contribuinte apresentou apenas o recibo, comprovante de pagamento total, sem o demonstrativo com a discriminação e individualização das rubricas componentes da despesa total de aluguel, estimamos a parcela referente ao valor do aluguel propriamente dito obtendo a média aritmética dos meses em que houve apresentação, tendo em vista que os valores mostravam pouca variação mês a mês. Vale dizer que, nos meses em que não houve apresentação do demonstrativo com a discriminação da despesa total de aluguel e do correspondente recibo, comprovante do pagamento total efetuado, a base de cálculo considerada foi nula, por falta de comprovação do crédito pleiteado. Ressaltase que no dia 06/06/2014, o contribuinte apresentou uma série de comprovantes de transferência ou depósitos bancários em nome do locador que serviram, em tese, para liquidar as despesas de aluguel. No entanto, mais uma vez os valores em questão não coincidiam ou sequer eram compatíveis com os valores apresentados nas planilhas com as memórias de cálculo, não sendo possível assegurar se referem se, de fato, à liquidação de aluguéis. Esses documentos bancários foram integralmente desconsiderados pela Fiscalização (Documentos Diversos Outros 20140606 Resposta Intimação SVA; Documentos Diversos Outros 20140606 Resposta Intimação Comprovantes Aluguel; e Termo de Anexação de Arquivo Nãopaginável 20140606 Resposta Intimação Planilha Aluguel; fls. 574 a 685). BASE DE CÁLCULO RECONSTITUÍDA PELA FISCALIZAÇÃO DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE PRÉDIOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS Para compor a base de cálculo de créditos para a rubrica em questão, desconsideramos a planilha com a memória de cálculo inicialmente apresentada à Fiscalização e consideramos exclusivamente os valores descritos como “Aluguéis Filiais” nos demonstrativos com a Fl. 2858DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.859 48 discriminação das despesas de aluguel apresentados pelo sujeito passivo. Nos meses em que houve apresentação apenas dos comprovantes, sem a discriminação que pudesse identificar a parcela relativa, de fato ao aluguel, estimamos esse valor com a utilização da média aritmética dos valores disponíveis, tendo em vista que apresentavam pouca variação mês a mês. Seria temerário admitir e aceitar a integralidade do crédito pleiteado, tendo em vista que o sujeito passivo evidenciou, quando da apresentação dos demonstrativos com as discriminações fornecidas pelo locador, que apenas uma parte daqueles valores referese, de fato, a despesas de aluguel. Nos meses em que não houve apresentação nem da discriminação nem dos comprovantes de pagamento de aluguel, o valor considerado foi nula. Vale ressaltar que não há o que se falar em planilha de valores glosados tendo em vista que a memória de cálculo fornecida pelo sujeito passivo foi integralmente desconsiderada pela Fiscalização para apurar a base de cálculo de créditos e que a apuração se deu exclusivamente com base nos comprovantes de pagamento e demonstrativos com a discriminação das despesas de aluguel apresentados em 03/06/2014. Quanto a essas despesas, o laudo afirma: 9.19. CRÉDITOS DE ALUGUÉIS DE PRÉDIOS Em visita à empresa, verificamos que prédios locados pela empresa tiveram como finalidade a expansão do seu prédio produtivo, de modo a proporcionar o aumento da produção já realizada pela empresa. Concluímos que os prédios foram locados com autorização do o art. 3º, IV, das Leis 10.637/02 e 10.833/03, além da sua finalidade ser de proporcionar o aumento do processo produtivo. No recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), DOC. 14 e 15, a Recorrente anexou contratos e recibos de pagamento de aluguel. Apresentou o contrato de locação firmado com a empresa Maconetto Empreendimentos Imobiliários Ltda, CNPJ 02.479.601/000154, bem como os comprovantes de pagamento de aluguéis: Fl. 2859DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.860 49 Ademais, junta cópia do contrato de locação firmado com a empresa Patriarca Empreendimentos e Participações Ltda, bem como os comprovantes de pagamento: Observase que os referidos imóveis são conjuntos comerciais em edifícios comerciais. Quanto aos contratos com a Nestlé, apenas afirma o desacerto da fiscalização, sem novos elementos. Logo, não tal rubrica não compõe a presente diligência. Fl. 2860DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.861 50 DAS DESPESAS COM ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS LOCADOS DE PESSOAS JURÍDICAS Relata a fiscalização: O contribuinte foi intimado, em 24/12/2013 e 29/04/2014 a apresentar as memórias de cálculo de TODAS AS RUBRICAS do Dacon. Nas referidas intimações, a Fiscalização foi expressa em indicar que a rubrica Aluguéis de Máquinas e Equipamentos Locados de Pessoas Jurídicas deveria conter o detalhamento das locações em questão, contendo “CNPJ do Locador”; “Razão Social do Locador”; "Descrição do Bem Locado"; “Finalidade do Bem Locado no Processo Produtivo”; "Valor Original do Contrato de Locação"; “Valor do Aluguel Pago no Mês”; "Data do Pagamento do Aluguel"; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável” (Termo de Início de Diligência Fiscal; e Termo de Intimação Fiscal Número 2 20140429; fls. 239 a 246; e fls. 496 a 501). A despeito do solicitado, nas diversas oportunidades em que trouxe como resposta às intimações as memórias de cálculo, o contribuinte apresentou planilhas de aluguéis de bens incompletas furtandose a apresentar na relação dados elementares como a descrição do bem locado, sua finalidade, e, em alguns casos, os dados do locador, Razão Social e CNPJ. (...) De qualquer sorte, analisamos a planilha apresentada e constatamos que o contribuinte tem como um de seus fornecedores a empresa LOCALIZA RENT A CAR SA, CNPJ nº 16.670.085/030496 e nº 16.670.085/009454. A referida empresa tem como atividade a locação de veículos automotores, bens que, considerada a atividade do sujeito passivo, a produção de laticínios, não se encaixam no conceito de bens utilizados nas atividades da empresa e, portanto, foram integralmente glosados. Glosamos também todas as operações em que não há a identificação do locador (CNPJ e Razão Social), tendo em vista que não é possível sequer verificar a natureza do locador pessoa jurídica ou física. Nas referidas operações também não há a descrição do bem locado e foram identificados pelo contribuinte apenas como “LEASING” ou como “N/D”, além de não ter a identificação do número do documento (nota fiscal ou contrato) que lastreia e ampara o crédito pleiteado, ou seja, não há quaisquer informações que possibilitem a identificação e análise de procedência dos créditos calculados em relação a essas operações. Em recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), a Recorrente informa que juntou, por amostragem, DOC. 16, os pedidos de serviços e faturas de locação de bem móvel, em que é possível verificar com clareza o tipo de bem locado, a finalidade e valores envolvidos. Fl. 2861DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.862 51 O laudo trata da locação de máquinas, nos tópicos 9.20 e 9.21: 9.20. CRÉDITOS DE ALUGUÉIS DE MÁQUINAS Consistem na locação de impressoras da marca Markem Imaje nas quais, são utilizadas para a datação de produtos terminados. Sem as impressoras seria impossível realizar processo automático de impressão da data de fabricação, validade, código de barras e lote na embalagem em cada produto final, impossibilitando, por corolário lógico, a continuação da produção e a sua comercialização. Como no item Serviços de Locação de Equipamentos de Telecomunicação citado acima o intuito desta atividade é manter desta forma o controle exigido órgãos governamentais tais como: Departamento Nacional de Inspeção de Produtos de Origem Animal – DIPOA, da portaria 4 de 03 de janeiro de 1978 no capítulo 7 – Rotulagem e Particularidades; Portaria Inmetro n° 157, de 19 de agosto de 2002 na qual estabelece a forma de expressar a indicação quantitativa do conteúdo líquido dos produtos tais como: prémedidos, conteúdo nominal ou conteúdo líquido, indicação quantitativa, peso drenado, rotulagem e vista principal. 9.21. CRÉDITOS DE ALUGUÉIS DE MÁQUINAS – LOCAÇÃO DE AUTOMÓVEIS Conforme o fluxograma do item 8, destacamos a comercialização como a etapa do processo produtivo antecedente ao frete de venda. Em visita à empresa, verificamos que há a locação de automóveis para proporcionar visita comercial a clientes, de modo que a locação de automóveis está ligada à atividade comercial da empresa. Considerando que, sem a atividade comercial, não haveria venda da produção, concluise que faz parte do ciclo produtivo. O laudo não veio acompanhado da indicação das notas fiscais das impressoras Markem Imaje, tampouco com contratos. Já no recurso voluntário, a Recorrente junta poucas faturas da Markem Imaje e pedidos de serviço. Por outro lado, as faturas se referem ao contrato 0040013367 de 15/03/2011 que não foi juntado aos autos. Já quanto às despesas com a Localiza, essas são efetuadas para proporcionar visita comercial, desnecessários outros esclarecimentos. Logo, tal rubrica está fora do objeto da diligência. DAS DESPESAS DE ARMAZENAGEM E FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA Relata a autoridade fiscal: Fl. 2862DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.863 52 Ocorre que, em 15/01/2014, o sujeito passivo informou que possui mandado de segurança (MS nº 2008.61.00.002577 0) versando sobre a possibilidade de apuração de créditos da não cumulatividade do PIS/PASEP e da COFINS nas operações de fretes entre estabelecimentos da pessoa jurídica, com decisão favorável ao contribuinte (Documentos Diversos Outros 20140115 Resposta Intimação Info Mandado Segurança; fl. 264). Em 23/01/2014, apresentou a Certidão de Objeto e Pé relativa ao MS nº 2008.61.00.0025770 contendo o teor da decisão judicial, que julgou procedente o pedido e concedeu a segurança postulada, assegurando ao sujeito passivo impetrante o direito de manter e deduzir integralmente os créditos de PIS e COFINS calculados sobre as despesas com armazenagem e fretes nas transferências de mercadorias entre seus estabelecimentos, com vistas à posterior venda a terceiros (Documentos Diversos Outros 20140123 Certidão de Objeto e Pé Mandado Segurança; fls. 486 e 487). Sobre o teor da decisão, vale, de antemão, traçar os limites de seu alcance uma vez que garante ao contribuinte o direito de manter e deduzir os créditos de PIS de COFINS, não se estendendo o direito garantido à seara do ressarcimento e da compensação, institutos plenamente distintos daqueles. A dedução é inerente aos tributos não cumulativos e indissociável dessa sistemática, elemento básico de operacionalização da própria não cumulatividade, que permite alcançar o objetivo primário do instituto, qual seja, a anulação do quantum de tributo incidente na operação anterior, desonerando as etapas posteriores da cadeia de um produto. Diferente instituto é a compensação, que, autorizada por lei, é benefício fiscal concedido nos rigorosos limites da norma instituidora. O direito à compensação não se estende a qualquer crédito apurado com base na nãocumulatividade de um tributo, como ocorre com a dedução, pelo contrário, são garantidos única e exclusivamente nos casos expressamente previstos em lei, como o direito à compensação de créditos vinculados a receitas de exportação, autorizados pelas normas contidas no art. 5º, §§ 1º e 2º, da Lei n° 10.637, de 2002, e no art. 6º, §§ 1º e 2º, da Lei n° 10.833, de 2003. Sobre o assunto, vale ressaltar o disposto no art. 74, § 12, II, d, da Lei nº 9.430, de 1996, que determina que “será considerada não declarada a compensação nas hipóteses em que o crédito seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado”. Nesse sentido, é mister para o presente exame apurar se o crédito ora pleiteado engloba efetivamente as operações discutidas judicialmente ou se os valores discutidos judicialmente foram excluídos do pedido administrativo. Isso porque, acaso existam créditos apurados sobre transferências de mercadorias ou produtos inacabados entre estabelecimentos da pessoa jurídica, os referidos créditos, em obediência ao art. 74, § 12, II, d, da Lei nº 9.430, de 1996, devem ser excluídos da base de cálculo dos créditos em que se baseiam as compensações, ainda que, por força de decisão judicial, devam permanecer na contabilidade do sujeito Fl. 2863DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.864 53 passivo e continuar disponível para a dedução das contribuições devidas. Nesse sentido, o contribuinte foi intimado, em 24/12/2013, a apresentar as memórias de cálculo de TODAS AS RUBRICAS do Dacon. Na referida intimação, a Fiscalização foi expressa em indicar que a rubrica Despesas de Armazenagem e Fretes na Operação de Venda deveria conter o detalhamento das operações em questão, contendo “Mês de Referência”; “Data de Apropriação do Crédito”; “Descrição da Operação (Armazenagem / Frete Venda / Frete Insumos / Frete entre Estabelecimentos)”; “CFOP da Operação”; “Número da Nota Fiscal”; "Data da Nota Fiscal"; “CNPJ do Fornecedor do Frete/Armazenagem”; “Razão Social do Fornecedor do Frete/Armazenagem”; "CNPJ do Remetente"; "Razão Social do Remetente"; "CNPJ do Destinatário"; "Razão Social do Destinatário"; "Número do Item/Bem Transportado"; "Código do Item/Bem Transportado"; “Classificação Fiscal TIPI do Item/Bem Transportado”; "Descrição do Item/Bem Transportado"; “Valor da Nota Fiscal”; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável” (Termo de Início de Diligência Fiscal; fls. 496 a 501). A despeito do solicitado, nas oportunidades em que apresentou resposta à intimação supra, a saber, em 15/01/2014, 23/01/2014, 06/05/2014 e 16/05/2014, o contribuinte apresentou planilhas de armazenagem e fretes incompletas furtandose a apresentar alguns dados elementares à correta validação dos créditos pleiteados, quais sejam a “Descrição da Operação (Armazenagem / Frete Venda / Frete Insumos / Frete entre Estabelecimentos)”, bem como o "CNPJ do Remetente", a "Razão Social do Remetente", o "CNPJ do Destinatário" e a "Razão Social do Destinatário". Em função da insuficiência de dados supracitada, em 29/04/2014 reintimamos o sujeito passivo a apresentar as memórias de cálculo de TODAS AS RUBRICAS do Dacon. Na referida intimação, a Fiscalização mais uma vez foi expressa em indicar que a rubrica Despesas de Armazenagem e Fretes na Operação de Venda deveria conter o detalhamento das operações em questão, contendo “Mês de Referência”; “Data de Apropriação do Crédito”; “Descrição da Operação (Armazenagem / Frete Venda / Frete Insumos / Frete entre Estabelecimentos)”; “CFOP da Operação”; “Número da Nota Fiscal”; "Data da Nota Fiscal"; “CNPJ do Fornecedor do Frete/Armazenagem”; “Razão Social do Fornecedor do Frete/Armazenagem”; "CNPJ do Remetente"; "Razão Social do Remetente"; "CNPJ do Destinatário"; "Razão Social do Destinatário"; "Número do Item/Bem Transportado"; "Código do Item/Bem Transportado"; “Classificação Fiscal TIPI do Item/Bem Transportado”; "Descrição do Item/Bem Transportado"; “Valor da Nota Fiscal”; “Base de Cálculo para fins de Créditos”; e “Alíquota Aplicável” (Termo de Intimação Fiscal Número 2 20140429; fls.496 a 501). Novamente, a despeito do solicitado, em 03/06/2014, oportunidade em que apresentou resposta à intimação supra, o contribuinte apresentou planilhas de armazenagem e fretes igualmente incompletas, pois ainda Fl. 2864DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.865 54 não continham alguns dos dados elementares à correta validação dos créditos pleiteados, quais sejam a “Descrição da Operação (Armazenagem / Frete Venda / Frete Insumos / Frete entre Estabelecimentos)”, bem como o "CNPJ do Remetente", a "Razão Social do Remetente", o "CNPJ do Destinatário" e a "Razão Social do Destinatário". Como explicitado anteriormente, é essencial identificar em cada serviço de frete ou contratado a natureza da operação (frete sobre vendas, sobre insumos ou entre estabelecimentos) a fim de assegurar que o pedido de ressarcimento e a declaração de compensação não contemplem créditos decorrentes de operações sem amparo legal, como é o caso das transferências entre estabelecimentos da pessoa jurídica. Assim, pela completa ausência de informações relativas ao CNPJ e à Razão Social do remetente e do destinatário do frete contratado, bem como da descrição da operação em questão, o que permitiria determinar se as operações em questão podem ou não compor o crédito destinado ao ressarcimento e à compensação, glosamos a integralidade dos créditos relativos a rubrica sob análise. Informa a Recorrente que anexou ao Recurso Voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e outros processos), três planilhas, DOC. 19, relativas aos fretes de compra (aquisição), fretes entre estabelecimentos (que são objeto do mandado de segurança n° 2008.61.00.0025770 e não compõem o pedido de ressarcimento) e os fretes de venda. E ainda, que anexou cópia dos conhecimentos de transporte, bem como das notas fiscais relativas a esses conhecimentos de transportes, ao menos um jogo de documentos por mês objeto do pedido de ressarcimento em debate. No laudo, os fretes de aquisição são tratados no item 9.1, que afirma que o frete de aquisição foi tomado pela Recorrente, sendo prestado por transportadores distintos dos remetentes das mercadorias, e, para possibilitar o recebimento de insumos e embalagens adquiridos, o frete foi custado pela própria Recorrente. Já os fretes de venda foram tratados no item 9.2 do laudo, que aponta que o frete de venda foi arcado pela Recorrente, sendo prestado por transportadores distintos dos seus clientes, para possibilitar a entrega das mercadorias vendidas por ela. Sobre o frete de transferência, o laudo, no item 9.3, atesta que tais despesas não fizeram parte dos pedidos de ressarcimentos do período analisado. O laudo ratifica a planilha de segregação elaborada pela Recorrente: A empresa nos informou que produziu prova para demonstrar que os fretes de compra, os fretes de venda e os fretes de transferência estão segregados. Elaborou planilha para cada modalidade de frete, adotando os seguintes critérios: 1. Conhecimentos de frete em que terceiro consta como remetente e a DPA consta como destinatário, classificou o transporte em frete de Fl. 2865DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.866 55 compra. Em conferência da nota fiscal referenciada no conhecimento de transporte, constatou que se trata de operação de compra de insumo. 2. Conhecimentos de frete em que a DPA consta como remetente e terceiro consta como destinatário, classificou o transporte em frete de venda. Em conferência da nota fiscal referenciada no conhecimento de transporte, constatou que se trata de operação de venda de mercadoria industrializada. 3. Conhecimentos de frete em que a DPA consta como remente e como destinatária, classificou o transporte em frete entre estabelecimentos. Em conferência da nota fiscal referenciada no conhecimento de transporte, constatou que se trata de operação de mercadoria remetida em transferência. Entendo ser necessária a análise dessas planilhas, não apenas para deliberação quanto ao creditamento dos fretes de aquisição, mas também para revisar a concomitância imposta aos fretes de transferência entre estabelecimentos da Recorrente pela DRJ. Diante do descrito, solicitase à autoridade fiscal que analise as planilhas juntadas pela Recorrente no recurso voluntário, para atestar a correta segregação entre frete de aquisição, frete de venda e frete de transferência, com apoio dos conhecimentos de transporte e notas fiscais correspondentes às operações de compra, venda e transferência. DAS DEVOLUÇÕES DE VENDAS DEVOLUÇÃO DE PRODUTOS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO Em 24/12/2013, o contribuinte foi intimado a apresentar planilhas digitais em formato .xls ou equivalente referentes a todos os produtos vendidos que contenham o "Gênero do Produto", a "Descrição Produto", o "Código do Produto"; a "Classificação Fiscal do Produto", a "Alíquota Aplicável nas Vendas do Produto" e o "Valor Total Vendido do Produto". A empresa apresentou a planilha requerida em 15/01/2014, da qual a fiscalização extraiu todos os produtos comercializados à alíquota zero. Aduziu a fiscalização: As Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, permitem a apuração de créditos calculados em relação aos bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tenha sido tributada. A possibilidade de apuração de créditos sobre as devoluções de vendas tem o objetivo de anular os efeitos fiscais e financeiros das vendas realizadas anteriormente e que por alguma razão foram devolvidas ao vendedor. Decidiu o legislador que, para promover a referida anulação, os valores das vendas devolvidas não devem ser abatidos da Fl. 2866DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.867 56 receita bruta e sim lançados como créditos da não cumulatividade no Dacon. Como decorrência lógica da explanação supra, é razoável entender que somente as devoluções de vendas relacionadas a operações tributadas à sua época são passíveis de apuração de créditos. Não impor tal restrição promoveria um enriquecimento ilícito por parte do contribuinte que calcularia créditos da não cumulatividade em operações relacionadas a vendas nas quais não houve “débitos” correspondentes. Nesse sentido, os referidos diplomas legais foram expressos em condicionar a admissibilidade de apuração de créditos calculados sobre as devoluções de vendas à efetiva tributação das receitas oriundas das vendas ora devolvidas. Então, foram glosados da base de cálculo os lançamentos relacionados a devoluções dos produtos sujeitos à alíquota zero. Entende a Recorrente que, como os bens em devolução sofreram pagamento de tributo na sua venda, é legítima a apropriação dos créditos de PIS e COFINS, nos casos em que houve a devolução. Alega que o DACON demonstraria que tais bens foram tributados na venda. Não foram trazidos novos elementos em recurso voluntário, de forma que tal item não é objeto da diligência. OPERAÇÕES RELATIVAS A EMISSÃO DE NOTA FISCAL COMPLEMENTAR DE PREÇO Foram glosados os créditos calculados em relação aos documentos fiscais nº 5062 e 5063, emitidos por Nestle Brasil Ltda., tendo em vista que os mesmos não se referem a devoluções de vendas e sim a emissões fiscais complementares de preço, praticadas com o objetivo de realizar correções financeiras decorrentes de alteração de valor ou erro em preenchimento no documento fiscal anterior. A fiscalização relatou que nas planilhas disponibilizadas pelo contribuinte, não há quaisquer informações a respeito dos itens constantes desses documentos fiscais complementares, sua descrição, classificação fiscal, alíquota aplicável, ou qualquer outra forma de identificar os itens supostamente devolvidos, de modo que não é possível assegurar que o crédito pleiteado, amparado pelos referidos documentos, é realmente procedente. A Recorrente defende que essas duas notas não foram lançadas como notas complementares de preço, mas como estorno de lançamento em duplicidade, foram lançadas como devolução. Faz indicações de lançamentos contábeis que demonstrariam tal situação, contudo junta ao recurso apenas as próprias notas fiscais. Sem fatos novos, não é esse item objeto da diligência. DAS OUTRAS OPERAÇÕES COM DIREITO A CRÉDITO Foram glosados a integralidade dos créditos pleiteados pelo contribuinte sob a rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, devido à falta de comprovação do crédito, Fl. 2867DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.868 57 foram glosados integralmente os créditos lançados sob a rubrica “Outras Operações com Direito a Crédito”, na linha 13, nos meses de 02/2012 e 03/2012, por insuficiência de dados e documentos comprobatórios do crédito pleiteado, e nos meses de 12/2010, 12/2011, 01/2012, 04/2012 e 05/2012, por ausência total de quaisquer dados, documentos ou esclarecimentos a respeito do crédito pleiteado. A Recorrente culpou o grande volume dos documentos, todavia nada de novo trouxe aos autos. Dessa forma, esse item não é objeto da diligência. Conclusão Por todo o exposto e considerando: a) a unidade de julgamento dos 33 processos da Recorrente (para PIS e COFINS, bem como diversos trimestres de apuração) e b) os documentos juntados no recurso voluntário do processo n° 12585.000324/201083 (e também neste e nos outros processos conexos), voto por converter o julgamento em diligência à unidade de origem para que a autoridade fiscal: 1 Por ser o laudo n° 59/2018 fato novo, que se manifeste a autoridade fiscal sobre ele; 2 Quanto à aquisição de leite fresco, analise os documentos indicados pela Recorrente para verificar, se: a) o transporte do leite foi feito por terceiros, que não a Recorrente ou fornecedor; b) as notas fiscais indicadas contêm a informação de “venda com suspensão” e c) se foram cumpridos os requisitos para suspensão, dispostos na IN n° 660/06; 3 Quanto a aquisição de GÁS LIQUEFEITO DE PETRÓLEO BOT, GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO EM BOTIJÃO 45 KG e GÁS LIQUEFEITO PETRÓLEO BOTIJÃO 20KG EMP, verifique a possibilidade de segregação entre as aquisições para área administrativa e para o processo produtivo da Recorrente; 4 Quanto à NF n° 013645, da Logoplaste do Brasil Ltda., verifique se essa nota foi lançada corretamente, no valor de R$ 4.663,40, em virtude do erro de preenchimento alegado pela empresa; 5 Quanto à contratação de mão de obra, coteje as notas fiscais juntadas e as indicadas no recurso voluntário, no DOC. 10 e 11, e o laudo, bem como os demais elementos que constam nos autos para atestar se tal mão de obra foi aplicada no processo produtivo da Recorrente; 6 Quanto às despesas de energia elétrica, faça a conciliação das notas, DOC. 13 do recurso voluntário, com a escrituração da Recorrente, com vistas a atestar a legitimidade do creditamento com base nesses documentos; 7 Quanto às despesas de fretes, analise as planilhas juntadas pela Recorrente no recurso voluntário, para atestar a correta segregação entre frete de aquisição, frete de venda e frete de transferência, com apoio dos conhecimentos de transporte e notas fiscais correspondentes às operações de compra, venda e transferência; 8 Caso entenda necessário, intime o sujeito passivo para prestar outros esclarecimentos, tais como planilhas ou outros documentos; Fl. 2868DF CARF MF Processo nº 10880.944908/201345 Resolução nº 3301000.567 S3C3T1 Fl. 2.869 58 9 Cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo para manifestação; e 10 Retorne os 33 processos juntos ao CARF para julgamento. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 2869DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12963.000355/2008-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jun 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/09/2003 a 31/12/2006
FUNDEF. BASE DE CÁLCULO.
O fundo instituído pela Lei Federal 9.424/1996 não possui personalidade jurídica, não se qualificando como hipótese de dedução da base de cálculo da contribuição.
Numero da decisão: 3401-004.018
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
TIAGO GUERRA MACHADO - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayer, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: TIAGO GUERRA MACHADO
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BASE DE CÁLCULO. O fundo instituído pela Lei Federal 9.424/1996 não possui personalidade jurídica, não se qualificando como hipótese de dedução da base de cálculo da contribuição. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. ROSALDO TREVISAN Presidente. TIAGO GUERRA MACHADO Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayer, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 147 e seguintes), contra decisão da DRJ/JFA, que manteve íntegro o lançamento de ofício por suposta insuficiência de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 96 3. 00 03 55 /2 00 8- 65 Fl. 154DF CARF MF 2 recolhimento da Contribuição Social para o PASEP pela Recorrente entre período compreendido entre 2003 e 2006. Do Lançamento de Ofício Naquela ocasião, foi lavrado auto de infração (fls. 108 e seguintes) para a exigência da contribuição para o Pasep referente aos períodos mensais de setembro de 2003 a dezembro de 2006, em face da constatação fiscal de falta/insuficiência de recolhimento da referida contribuição porque a Recorrente teria, indevidamente, excluído da base de cálculo do PASEP os montantes relativos às destinações orçamentárias perante o FUNDEF. No entendimento da autoridade fazendária: A Lei n° 9.424, de 24 de dezembro de 1996, ao instituir o FUNDEF, estabeleceu em seu art. 1°, que se trata de um fundo de natureza contábil, gerido pelos Estados, Distrito Federal e Municípios. Esses recursos serão repassados, automaticamente, de acordo com coeficientes de distribuição estabelecidos e publicados previamente, para contas únicas e específicas dos Governos Estaduais, do Distrito Federal e dos Municípios, vinculadas ao Fundo, instituídas para esse fim e mantidas na instituição financeira de que trata o art. 93 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966. Assim, sendo o FUNDEF um Fundo de natureza contábil sem personalidade juridica própria, os valores a ele destinados não constituem em transferência, portanto, indevida a sua exclusão da base de cálculo da Contribuição para o PASEP. Diante desse entendimento, foi reconstituída a base de cálculo da contribuição social relativa ao período fiscalizado e, por fim, lançado o tributo, acrescido de multa de ofício e juros de mora, que fora recolhido a menor. Da Impugnação O Contribuinte interpôs Impugnação (fls 131 e seguintes), alegando, em síntese, a nulidade do lançamento efetuado pelas seguintes motivações: “Os valores referentes ao FUNDEF deverão ser deduzidos da base de cálculo, já que este é formado por recursos do próprio município, não havendo portanto relação jurídico tributária entre FUNDEF e PASEP”; “Que se de maneira diferente, tiverrnos o FUNDEF como transferência corrente ou receita corrente líquida, dado suas peculiaridades de repasse a retenção é de responsabilidade do STN, não havendo assim obrigação tributária do município, ex vi do art. 2° da Lei n° 9.7l5198, alterada pela Medida Provisória n° 2.15835, edição de 24.8.2001, e ainda em vigor por força do art. 2° da Emenda Constitucional n° 3212001, que através de seu artigo 19, inseriu novo parágrafo ao texto”; Da Decisão de 1ª Instância Sobreveio o Acordão 0929706 (fls. 141 e seguintes), mantendo integralmente o crédito tributário lançado nos seguintes termos: Fl. 155DF CARF MF Processo nº 12963.000355/200865 Acórdão n.º 3401004.018 S3C4T1 Fl. 155 3 Assunto: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006 PASEP. BASE DE CÁLCULO. A base de cálculo do Pasep é o valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas, como consta da legislação de regência. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Abaixo seguem as principais razões da decisão de primeiro grau: A instituição recebe transferência corrente relacionada ao FUNDEF, e essa transferência deve ser incluída na base de cálculo do Pasep, como determina o inciso III, acima transcrito. O que pode ser deduzido da citada base de cálculo, são as “transferências efetuadas a outras entidades públicas Como a Prefeitura Municipal de Monte Belo não transfere essa receita a outra entidade, obviamente não pode fazer a dedução que almeja. A Portaria 378/2001 da Secretaria do Tesouro Nacional, não excluiu os recursos destinados e oriundos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério FUNDEF da base de cálculo do Pasep, como afirma a impugnante, e nem poderia fazêlo visto que a isenção tributária só pode ser concedida por meio de lei específica. Das considerações e justificativas da citada Portaria se depreende que ela apenas criou procedimentos visando padronizar a contabilidade nos três níveis de governo de forma a garantir a consolidação das contas exigidas na Lei de Responsabilidade Fiscal e a evidenciar melhor a aplicação dos conceitos de gastos, despesas e receitas públicas. As retenções porventura efetuadas pela Secretaria do Tesouro Nacional, quando do repasse do FPE/FPM, serão deduzidas na apuração do Pasep a pagar do período respectivo, não implicando em desoneração da parcela relativa ao FUNDEF. Do Recurso Voluntário Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, reprisando os argumentos apresentados na Impugnação. É o relatório. Voto Fl. 156DF CARF MF 4 Conselheiro Tiago Guerra Machado Da Admissibilidade O Recurso é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, de modo que admito seu conhecimento. Do Mérito Entendo que o cerne do presente Recurso se resume, à definição da extensão da base de cálculo do PASEP, especialmente no que tange à possibilidade de os recursos destinados ao FUNDEF serem excluídos da sua base de cálculo. A base de cálculo do PASEP está prevista na Lei Federal 9.715/1998, em seu artigo 2º: Art. 2º A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) III pelas pessoas jurídicas de direito público interno, com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas. Ressaltese, ainda, que, à época dos fatos geradores sob análise, o parágrafo sétimo1, do mesmo artigo, não havia sido inserido ao texto original, de modo que não havia previsão de exclusões da base de cálculo que não as referenciadas no artigo 7º, da mesma Lei, abaixo transcrito. Art. 7º Para os efeitos do inciso III do art. 2º, nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. De tal sorte que é irrelevante que as receitas correntes do município estivessem “vinculadas a gastos préexistentes dentro do orçamento, que não estão sujeitas a tributação”. Da mesma forma, com relação à inteligência do artigo 7º, supramencionado, somente é possível a exclusão das “transferências efetuadas a outras entidades públicas”, sendo certo que deve se entender como “entidade pública” outra pessoa jurídica de direito público interno, de modo a ser evitar a incidência “em cascata” da contribuição, fazendoa incidir uma única vez, da origem do recurso à aplicação final do valor transferido. 1 §7º Excluemse do disposto no inciso III do caput deste artigo os valores de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. Fl. 157DF CARF MF Processo nº 12963.000355/200865 Acórdão n.º 3401004.018 S3C4T1 Fl. 156 5 Contudo, a Recorrente deseja, ainda, ter os recursos destinados ao FUNDEF excluídos da base de cálculo. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF) foi instituído pela Emenda Constitucional 14/ 1996, e regulamentado pela Lei Federal 9.424/1996. O FUNDEF foi implantado, nacionalmente, em 1° de janeiro de 1998, quando, a nova sistemática de redistribuição dos recursos destinados ao Ensino Fundamental passou a vigorar. O FUNDEF, semelhante ao seu sucessor, o FUNDEB, é caracterizado como um fundo de natureza meramente contábil, com o mesmo tratamento dispensado ao Fundo de Participação dos Estados (FPE) e ao Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Seus recursos são repassados automaticamente aos Estados e Municípios, de acordo com coeficientes de distribuição estabelecidos e publicados previamente. Portanto, o FUNDEF, é um fundo especial composto por recursos da União e dos Estados que não possui personalidade jurídica, não fazendo jus à sua inclusão no rol das deduções previstas no aludido artigo 7º. Nem se diga que a existência de registro perante o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) seria indício de que há personalidade jurídica de tais fundos, já que a legislação regulamentar do CNPJ prevê a obrigatoriedade de registro de entidades que, por sua vez, não possuem, indubitavelmente, personalidade jurídica, como os consórcios de empresas. Isto posto, somente poderão ser excluídas as rubricas expressamente previstas em lei, quais sejam, as transferências efetuadas a outras entidades públicas, de modo que a Recorrente não logrou êxito em demonstrar que a autoridade fazendária teria deixado de efetuar tal dedução. Tampouco assiste razão à Recorrente com relação ao argumento de que os valores retidos deveriam ser descontados da contribuição devida, haja vista – tal como ressaltado na decisão recorrida as retenções efetuadas quando do repasse do FPE/FPM serem deduzidas na apuração do Pasep do período respectivo, não implicando em desoneração da parcela relativa ao FUNDEF. Isto posto, nego provimento ao Recurso Voluntário. Tiago Guerra Machado Relator Fl. 158DF CARF MF 6 Fl. 159DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.725496/2011-56
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
NULIDADE. LANÇAMENTO COMPLEMENTAR. MODIFICAÇÃO DO CRITÉRIO DO LANÇAMENTO. CTN, ART. 146. ERRO DE DIREITO.
O lançamento complementar, que modifica critério jurídico de lançamento anterior para qualificar a multa de ofício e imputar responsabilidade tributária é nulo, por ofensa ao artigo 146, do Código Tributário Nacional.
ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos.
A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código.
Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE.
O ágio criado artificialmente a partir de operações celebradas exclusivamente entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico e submetidas a controle comum e sem a efetiva circulação de riquezas que justifique a contabilização de sobrepreço não se presta a produzir efeitos tributários.
Assim, não se presta o "ágio interno" a aumentar o valor patrimonial de um bem ou a reduzir/eliminar o ganho de capital auferido com a sua alienação.
GLOSA DE EXCLUSÕES NÃO AUTORIZADAS. RECEITAS DE REVERSÃO DE PROVISÃO. TRIBUTAÇÃO EM DUPLICIDADE. INOCORRÊNCIA.
Se os lançamentos relativos à glosa de despesas de amortização do ágio e à reversão de provisão relacionada ao mesmo ágio somente provocam efeitos contábeis, não é possível à Fiscalização determinar, nos autos de infração, a glosa de despesas consideradas indedutíveis.
No caso concreto, o único reflexo tributário operado pela pretensa aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 se deu por meio de exclusões promovidas diretamente na parte "B" do LALUR. Sendo assim, agiu bem a Fiscalização ao identificar a infração tributária cometida como "Exclusões Indevidas", não se podendo falar em erro no enquadramento legal, erro na descrição dos fatos ou ainda em tributação em duplicidade.
Normas Gerais de Direito Tributário
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E CSLL. COBRANÇA CONCOMITANTE COM MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO.
A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício cominada pela falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário.
Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.446
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos Recursos Especiais do Contribuinte e dos Responsáveis Tributários. No mérito, (i) por maioria de votos, acordam em acolher a preliminar de nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo (relator), que rejeitou a preliminar; (ii) por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de decadência; (iii) por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso quanto ao ágio interno e seus reflexos tributários, votando pelas conclusões a conselheira Cristiane Silva Costa, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (iv) em relação à tributação de receitas de reversão de provisão, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que deram provimento em relação aos períodos de 2007, 2008 e 2009. Por unanimidade de votos, consideraram prejudicadas as questões relativas (v) à qualificação da multa de ofício e (vi) à imputação de responsabilidade solidária aos acionistas da contribuinte; (vii) por maioria de votos, acordam em negar provimento em relação à concomitância da multa de ofício e isolada, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que deram provimento nessa matéria; e (viii) por voto de qualidade, acordam em negar provimento em relação à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar de nulidade, a conselheira Cristiane Silva Costa. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto. Entretanto, findo o prazo regimental, os Conselheiros não apresentaram as declarações de voto, que devem ser tidas como não formuladas, nos termos do § 7º do art. 63 do Anexo II da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF).
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego - Presidente
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 NULIDADE. LANÇAMENTO COMPLEMENTAR. MODIFICAÇÃO DO CRITÉRIO DO LANÇAMENTO. CTN, ART. 146. ERRO DE DIREITO. O lançamento complementar, que modifica critério jurídico de lançamento anterior para qualificar a multa de ofício e imputar responsabilidade tributária é nulo, por ofensa ao artigo 146, do Código Tributário Nacional. ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos. A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código. Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. O ágio criado artificialmente a partir de operações celebradas exclusivamente entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico e submetidas a controle comum e sem a efetiva circulação de riquezas que justifique a contabilização de sobrepreço não se presta a produzir efeitos tributários. Assim, não se presta o "ágio interno" a aumentar o valor patrimonial de um bem ou a reduzir/eliminar o ganho de capital auferido com a sua alienação. GLOSA DE EXCLUSÕES NÃO AUTORIZADAS. RECEITAS DE REVERSÃO DE PROVISÃO. TRIBUTAÇÃO EM DUPLICIDADE. INOCORRÊNCIA. Se os lançamentos relativos à glosa de despesas de amortização do ágio e à reversão de provisão relacionada ao mesmo ágio somente provocam efeitos contábeis, não é possível à Fiscalização determinar, nos autos de infração, a glosa de despesas consideradas indedutíveis. No caso concreto, o único reflexo tributário operado pela pretensa aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 se deu por meio de exclusões promovidas diretamente na parte "B" do LALUR. Sendo assim, agiu bem a Fiscalização ao identificar a infração tributária cometida como "Exclusões Indevidas", não se podendo falar em erro no enquadramento legal, erro na descrição dos fatos ou ainda em tributação em duplicidade. Normas Gerais de Direito Tributário JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E CSLL. COBRANÇA CONCOMITANTE COM MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício cominada pela falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
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Recorrente CÁLAMO DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS DE BELEZA S.A. (contribuinte); MIGUEL GELLERT KRIGSNER (responsável tributário); ARTUR NOEMIO GRYNBAUM (responsável tributário) Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 NULIDADE. LANÇAMENTO COMPLEMENTAR. MODIFICAÇÃO DO CRITÉRIO DO LANÇAMENTO. CTN, ART. 146. ERRO DE DIREITO. O lançamento complementar, que modifica critério jurídico de lançamento anterior para qualificar a multa de ofício e imputar responsabilidade tributária é nulo, por ofensa ao artigo 146, do Código Tributário Nacional. ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos. A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código. IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 54 96 /2 01 1- 56 Fl. 4935DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 3 2 Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. O ágio criado artificialmente a partir de operações celebradas exclusivamente entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico e submetidas a controle comum e sem a efetiva circulação de riquezas que justifique a contabilização de sobrepreço não se presta a produzir efeitos tributários. Assim, não se presta o "ágio interno" a aumentar o valor patrimonial de um bem ou a reduzir/eliminar o ganho de capital auferido com a sua alienação. GLOSA DE EXCLUSÕES NÃO AUTORIZADAS. RECEITAS DE REVERSÃO DE PROVISÃO. TRIBUTAÇÃO EM DUPLICIDADE. INOCORRÊNCIA. Se os lançamentos relativos à glosa de despesas de amortização do ágio e à reversão de provisão relacionada ao mesmo ágio somente provocam efeitos contábeis, não é possível à Fiscalização determinar, nos autos de infração, a glosa de despesas consideradas indedutíveis. No caso concreto, o único reflexo tributário operado pela pretensa aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 se deu por meio de exclusões promovidas diretamente na parte "B" do LALUR. Sendo assim, agiu bem a Fiscalização ao identificar a infração tributária cometida como "Exclusões Indevidas", não se podendo falar em erro no enquadramento legal, erro na descrição dos fatos ou ainda em tributação em duplicidade. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E CSLL. COBRANÇA CONCOMITANTE COM MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício cominada pela falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do anocalendário. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Fl. 4936DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 4 3 Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos Recursos Especiais do Contribuinte e dos Responsáveis Tributários. No mérito, (i) por maioria de votos, acordam em acolher a preliminar de nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento, vencido o conselheiro Rafael Vidal de Araújo (relator), que rejeitou a preliminar; (ii) por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de decadência; (iii) por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso quanto ao ágio interno e seus reflexos tributários, votando pelas conclusões a conselheira Cristiane Silva Costa, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (iv) em relação à tributação de receitas de reversão de provisão, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que deram provimento em relação aos períodos de 2007, 2008 e 2009. Por unanimidade de votos, consideraram prejudicadas as questões relativas (v) à qualificação da multa de ofício e (vi) à imputação de responsabilidade solidária aos acionistas da contribuinte; (vii) por maioria de votos, acordam em negar provimento em relação à concomitância da multa de ofício e isolada, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que deram provimento nessa matéria; e (viii) por voto de qualidade, acordam em negar provimento em relação à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar de nulidade, a conselheira Cristiane Silva Costa. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto. Entretanto, findo o prazo regimental, os Conselheiros não apresentaram as declarações de voto, que devem ser tidas como não formuladas, nos termos do § 7º do art. 63 do Anexo II da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego Presidente (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Fl. 4937DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 5 4 Relatório Tratase de recursos especiais de divergência interpostos pela contribuinte CÁLAMO DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS DE BELEZA S.A. e pelos responsáveis tributários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, todos em 12/04/2016, com fundamento no art. 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015), em que se alega a existência de divergências jurisprudenciais acerca de matérias relacionadas à lide. Os recorrentes insurgemse contra a decisão consubstanciada nos Acórdãos nº 1301001.744 e nº 1301001.905. Por meio do primeiro julgado, os membros da 1a Turma Ordinária da 3a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiram rejeitar as preliminares arguidas nos recursos voluntários dos sujeitos passivos (por unanimidade) e, no mérito, negar lhes provimento (por voto de qualidade). Já a segunda decisão administrativa veio integrar a anterior, em razão da verificação de omissões arguidas por meio de embargos de declaração opostos pelos sujeitos passivos. Como será descrito de forma mais detalhada adiante, os membros do colegiado, por unanimidade, conheceram parcialmente dos embargos e, por maioria de votos, negaramlhe provimento. A decisão recorrida manteve os autos de infração lavrados pela Fiscalização. As autuações se fundamentaram no entendimento de que a contribuinte utilizou de forma indevida, nos anoscalendário de 2007 a 2009, para fins de redução do IRPJ e da CSLL devidos, ágio oriundo de operações societárias praticadas entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico e carentes de substância econômica. Em virtude das glosas realizadas, houve acréscimo nas bases de cálculo das estimativas mensais de IRPJ e de CSLL, o que provocou também o lançamento de multas isoladas em relação a alguns meses. Registrese que as autuações foram complementadas em novo auto de infração, cuja lavratura foi instada pelo Presidente da 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) em Curitiba/PR. O auto de infração complementar promoveu a qualificação da multa de ofício aplicada, sob o argumento de que as operações societárias praticadas configurariam fraude, tipificada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964. Além disso, imputouse aos acionistas administradores MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM responsabilidade solidária pelo cumprimento das obrigações tributárias lançadas, em razão de seu interesse comum nos resultados das reestruturações societárias do grupo econômico (art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional CTN) e da prática de atos com infração de lei ou excesso de poderes (art. 135, inciso III, do CTN). As operações analisadas pela Fiscalização envolveram a contribuinte CÁLAMO DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS DE BELEZA S.A. (doravante denominada CÁLAMO) e várias empresas a ela relacionadas. O ágio indevidamente aproveitado para fins tributários no anocalendário 2007 surgiu em operação realizada em 28/11/2003. O aumento de capital da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S.A. (deste ponto em diante identificada apenas como ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS), que à época adotava outra denominação, foi integralizado pelos seus acionistas controladores MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM (mesmos sócios da fiscalizada CÁLAMO) Fl. 4938DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 6 5 por meio da conferência de ações que detinham junto ao SHOPPING ESTAÇÃO LTDA., que também tinha denominação distinta à época da operação. A ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS registrou então, em sua contabilidade, ágio no valor de R$ 1.168.982,33, correspondente à diferença entre o valor adotado para a aquisição das ações do SHOPPING ESTAÇÃO, com base em laudo de avaliação elaborado por empresa contratada para esta finalidade, e o valor patrimonial destas ações, utilizadas na operação de aumento de capital. Posteriormente, a CÁLAMO promoveu a incorporação das duas sociedades. A ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS foi incorporada em 01/09/2006 e, com isso, o ágio de R$ 1.168.982,33 registrado em seu Ativo Permanente foi absorvido pela contabilidade da contribuinte. Já em 02/05/2007, foi a vez do SHOPPING ESTAÇÃO ser incorporado pela CÁLAMO. Possuindo em sua contabilidade o patrimônio restante do SHOPPING ESTAÇÃO e o ágio gerado pela reavaliação, em 2003, do valor de suas ações, a contribuinte promoveu, ainda em 02/05/2007, a exclusão do total do ágio diretamente no seu LALUR. O procedimento teria sido adotado sob o argumento de que houve apuração de perda de capital com o encerramento das atividades da empresa investida, correspondente à diferença entre o valor contábil do investimento (incluído o ágio de R$ 1.168.982,33) e o valor do acervo líquido incorporado. Por entender que tal procedimento não tinha base legal, a Fiscalização lavrou autos de infração relativos ao IRPJ e à CSLL referentes ao anocalendário 2007. Já os lançamentos concernentes aos anoscalendário 2008 e 2009 tiveram origem no aproveitamento tributário de ágio gerado em outras operações societárias. Em 18/12/2006, a CÁLAMO tornouse subsidiária integral da G&K HOLDINGS S.A. (mencionada de agora em diante apenas como G&K), empresa constituída em 18/09/2006 pelas pessoas físicas MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, mesmos sócios controladores da contribuinte. A totalidade de suas ações foi absorvida pela holding recémcriada pelo valor aproximado de R$ 1.068.417.000,00, extraído de laudo de reavaliação que adotou o método do fluxo de caixa descontado. Como o patrimônio líquido da contribuinte valia R$ 56.679.661,07, houve o registro, na contabilidade de G&K, de ágio de R$ 1.011.690.937,33. Operações semelhantes foram perpetradas com outras empresas do grupo econômico controlado pelos mesmos sócios: BOTICA COMERCIAL FARMACÊUTICA S.A., O BOTICÁRIO FRANCHISING S.A. e EMPRESA BRASILEIRA DE LOGÍSTICA S.A.. Todas elas tiveram a totalidade de suas ações reavaliada e incorporada pela G&K. O conjunto das operações provocou o surgimento, nos registros da G&K, de um ágio total de R$ 1.776.161.561,96 (incluídos os R$ 1.011.690.937,33 do ágio referente à contribuinte). Na mesma data em que ocorreu a incorporação das ações das empresas, houve também operação de aumento de capital da G&K por meio da subscrição de 4.613.618 novas ações ordinárias nominativas, integralizadas em moeda nacional pelo IGP FUNDO DE INVESTIMENTO EM PARTICIPAÇÕES (doravante denominado apenas como IGP), cujo controle não era dos acionistas do grupo BOTICÁRIO, MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM. O preço de emissão pago foi de R$ 50.000.000,00, sendo Fl. 4939DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 7 6 que R$ 4.613.618,00 foram destinados ao capital da G&K e os R$ 45.386.382,00 restantes utilizados para constituição de reserva de capital. Já em 03/11/2008, aprovouse a cisão parcial seletiva da G&K. Das ações que a empresa possuía de suas subsidiárias integrais, 99% foram vertidos e incorporados pelas próprias. No caso da contribuinte, a G&K registrava, em novembro de 2008, um saldo aproximado de R$ 981.835.795,00 do ágio original de R$ 1.011.690.937,33 (R$ 29.855.141,92 já haviam sido amortizados, sem efeitos tributários). Do saldo restante, 99% foi transferido à CÁLAMO, o que representou R$ 972.017.437,44 de ágio registrado em sua contabilidade. Julgandose amparada pela regra insculpida no art. 386 do Regulamento do Imposto de Renda Decreto nº 3.000/1999 (RIR/1999), que reproduz os comandos legais dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, a contribuinte passou a aproveitar fiscalmente o ágio por meio de exclusões mensais no LALUR de parcelas de R$16.200.290,62 (1/60 do ágio de R$ 972.017.437,44). Além disso, promoveu também exclusões de parcelas mensais de R$ 497.585,70, correspondentes a 1/60 do valor que a G&K amortizara contabilmente, sem efeitos tributários, antes de sua cisão parcial. A Fiscalização entendeu que os procedimentos adotados pela contribuinte nos anoscalendário 2008 e 2009, a exemplo do que ocorreu em 2007, careciam de fundamento legal, razão pela qual foram glosadas todas as exclusões indevidamente realizadas. A autuação foi mantida em sede de julgamento administrativo de primeira instância, inclusive quanto à qualificação da multa de ofício e à imputação de responsabilidade solidária aos sócios controladores da contribuinte, providências determinadas em auto de infração complementar. Posteriormente, também a 1a Turma Ordinária da 3a Câmara manteve a integralidade dos lançamentos, em julgamento que culminou na prolação da decisão contra a qual ora se insurgem os recorrentes. O Acórdão nº 1301001.744, que negou provimento aos recursos voluntários manejados pela contribuinte e pelos responsáveis solidários, foi assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 FATOS CONTABILIZADOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. DECADÊNCIA. Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. SUBSTÂNCIA ECONÔMICA E PROPÓSITO NEGOCIAL. AUSÊNCIA. Se os elementos colacionados aos autos indicam que a despesa de ágio apropriada no resultado fiscal derivou de operações que, desprovidas de Fl. 4940DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 8 7 substância econômica e propósito negocial, objetivaram, tãosomente, a redução das bases de incidência das exações devidas, há de se restabelecêlas, promovendose a glosa dos referidos dispêndios. AUTO DE INFRAÇÃO COMPLEMENTAR. REGULARIDADE. Nos termos do parágrafo 3º do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, se, em exames posteriores, realizados no curso do processo, forem verificadas omissões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, deve ser lavrado auto de infração complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. MULTA QUALIFICADA. PROCEDÊNCIA. Se os fatos apurados pela Autoridade Fiscal permitem caracterizar o intuito deliberado da contribuinte de subtrair valores à tributação, é cabível a aplicação, sobre os valores apurados a título de omissão de receitas, da multa de ofício qualificada de 150%, prevista no artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. CONDIÇÕES. Presentes elementos representativos da conduta do sócio que, guardando nexo de causalidade com a subtração à tributação dos valores apurados por meio do procedimento de ofício, são capazes de demonstrar a sua efetiva participação nas infrações detectadas, cabe incluílo no pólo passivo da obrigação tributária constituída. A contribuinte tomou ciência da decisão em 19/05/2015, por meio de acesso à cópia integral do processo requerida por sua procuradora. Considerandose pessoalmente intimados, tanto a contribuinte quanto os dois responsáveis solidários opuseram, em 25/05/2015, embargos de declaração ao acórdão. Intimados por via postal a respeito do teor do Acórdão nº 1301001.744 em 02/06/2015, os três sujeitos passivos, por cautela, reiteraram os embargos de declaração já opostos, em novas petições protocoladas em 08/06/2015. Nos seus embargos de declaração, a contribuinte CÁLAMO defendeu que o acórdão proferido pela 1a Turma Ordinária da 3a Câmara teria deixado de se manifestar a respeito de uma série de questões abordadas em seu recurso voluntário, o que o teria eivado dos seguintes vícios: a) Omissão quanto ao pedido de declaração de nulidade do lançamento complementar por violação ao art. 146 do CTN; b) Omissão quanto à questão da inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, de despesas de amortização de ágio consideradas indedutíveis no lucro real; c) Omissão quanto à discussão acerca da impossibilidade de aplicação concomitante das multas isolada e de ofício; d) Omissão quanto à arguição de ilegalidade da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício; Fl. 4941DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 9 8 e) Ausência de formalização expressa na ementa do resultado do julgamento acerca da tributação da receita de reversão da provisão. Já os responsáveis solidários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM apresentaram, em seus respectivos embargos de declaração, alegações idênticas entre si em que basicamente repetiram o que a contribuinte defendeu nos itens "a" e "d" de seus embargos. Os três embargos de declaração tiveram sua admissibilidade analisada em despacho de 18/12/2015, por meio do qual o Presidente da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara os acolheu parcialmente e determinou que fossem submetidos à apreciação do colegiado somente os argumentos relacionados às matérias objeto das omissões elencadas nos itens "b", "c" e "d", há pouco relacionados. Assim, para sanar as omissões reconhecidas por seu Presidente, a 1ª Turma Ordinária prolatou, em 20/01/2016, nova decisão, materializada no Acórdão nº 1301001.905, que recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 EMBARGOS. OMISSÃO. Configurada a omissão no julgado sobre ponto que a turma deveria se pronunciar, impõese a análise da matéria com vistas a sanar a omissão. CSLL. ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. GLOSA. Comprovada a geração artificial do ágio em operações estruturadas dentro do mesmo grupo econômico sem a ocorrência de dispêndio efetivo, seus efeitos não podem afetar o resultado líquido contábil, impondose a sua glosa. No caso concreto, uma vez anulados os efeitos da despesas no resultado líquido, mediante a reversão da provisão, correta a glosa, realizada pela autoridade fiscal, da exclusão feita pelo contribuinte na base de cálculo da CSLL. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. EXIGÊNCIA EM CONCOMITÁNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. A penalidade isolada não se confunde com a multa de ofício, pois cada uma decorre de fato próprio, ocorre em momento distinto, tem base de cálculo e percentuais diferentes. Se a lei não prevê a possibilidade de aplicação de uma penalidade em detrimento da outra não cabe ao intérprete afastála ou modular sua aplicação, pois a definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, inc. V do CTN. Inaplicável a Súmula CARF nº 105 aos fatos geradores ocorridos a partir de janeiro de 2007. JUROS SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. Constituído o crédito pelo lançamento de ofício, ao tributo agregase a multa de ofício, tendo ambos a natureza de obrigação tributária principal e, sobre Fl. 4942DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 10 9 ele deve incidir integramente os juros à taxa SELIC, nos termos dos art. 139 e 161 do CTN c/c o art. 61 da Lei nº 9.430/1996. Devidamente cientificados da nova decisão em 29/03/2016, tanto a contribuinte quanto os dois responsáveis tributários interpuseram, em 12/04/2016, recursos especiais tempestivos insurgindose contra o conjunto decisório formado pela combinação dos Acórdãos nº 1301001.744 e nº 1301001.905, sob a alegação de que ele teria dado à lei tributária interpretação diversa da que tem sido adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF. O recurso especial apresentado pela contribuinte contesta a interpretação adotada pelos acórdãos recorridos em relação a um total de oito matérias: 1) nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento; 2) decadência do direito de o Fisco exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos da data do lançamento de ofício; 3) impossibilidade de tributação da receita de reversão de provisão; 4) dedutibilidade dos encargos com amortização de ágio; 5) dedutibilidade dos encargos com amortização de ágio na base de cálculo da CSLL; 6) não procedência da qualificação da multa de ofício quando ausente a comprovação de dolo e fraude; 7) impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada; e 8) descabimento da cobrança de juros de mora sobre multa de ofício. Já o recursos especiais manejados pelos responsáveis tributários questionam o posicionamento assumido pela decisão recorrida no que concerne a cinco matérias: 1) nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento; 2) necessidade de comprovação de dolo ou fraude por parte das autoridades fiscais; 3) exclusão da responsabilidade solidária nos termos do art. 124, inciso I, do CTN; 4) exclusão da responsabilidade solidária nos termos do art. 135, inciso III, do CTN; e 5) descabimento da cobrança de juros de mora sobre multa de ofício. Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2015, os recorrentes apontaram acórdãos de turmas de câmara do CARF, de câmaras do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes e ainda da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) que teriam dado aos temas debatidos interpretação diversa daquela esposada pela decisão recorrida. Por razões de clareza, serão separadamente analisadas as alegações perfiladas por cada um dos recorrentes a respeito das várias matérias combatidas. Recurso Especial da contribuinte CÁLAMO 1) Nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento A contribuinte narra que, por determinação do Presidente da 1ª Turma da DRJ em Curitiba/PR, houve a lavratura de auto de infração complementar em que foram determinadas a qualificação da multa de ofício e a atribuição de responsabilidade tributária solidária aos acionistas administradores da empresa. Pontua que as autoridades tributárias teriam afirmado no Termo de Verificação Fiscal (TVF) que o lançamento complementar seria decorrente de uma "nova avaliação da situação", sem a identificação de elemento ou fato novo nos autos (que já não Fl. 4943DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 11 10 fosse conhecido no momento da primeira autuação) ou de prova de conduta ou ato fraudulentos por parte da recorrente e seus acionistas. O "contexto maior" que, em tese, justificaria a qualificação da multa de ofício e a declaração de responsabilidade solidária dos acionistas, teria sido delineado pelas autoridades lançadoras a partir de uma "nova interpretação dos fatos e da legislação", o que direta e expressamente violaria o mandamento legal abrigado pelo art. 146 do CTN. Segundo a tese da contribuinte recorrente, não seria possível a lavratura de auto de infração complementar fundamentada no art. 149, IX, do CTN, ou no art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/1972, porque a qualificação de multa e a responsabilização solidária não podem ser caracterizadas como hipóteses de omissão, incorreção ou formalidade requeridas pela lei. Mesmo que se considere como erro de direito a ausência de tais imputações no lançamento original, ainda assim a sua implementação em sede de lançamento complementar seria vedada pelo art. 146 do CTN, por caracterizar mera modificação do critério jurídico. O Acórdão nº 1301001.744, ora recorrido, ao analisar a questão da pretensa nulidade do auto de infração complementar, teria refutado a alegação recursal com base no simples argumento de que o procedimento adotado pela Fiscalização estava amparado pelo art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/1972. A contribuinte narra que tentou obter, por meio de embargos declaratórios, declaração específica do colegiado acerca da ausência de ofensa ao art. 146 do CTN, mas não houve acolhimento do recurso em relação ao tema. A recorrente defende que, ao entender que o art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/1972 seria fundamento suficiente para a lavratura de auto de infração complementar em que se determinou a qualificação da multa de ofício e a imputação de responsabilidade solidária aos acionistas administradores, a decisão recorrida teria divergido do Acórdão nº 340300.428. Tal decisão, diante de idêntica situação fática, teria concluído que a lavratura de auto de infração complementar para exigência de multa de ofício, diante dos mesmos fatos analisados e juridicamente qualificados no primeiro auto de infração, caracteriza alteração da qualificação jurídica dos eventos, o que seria vedado pelo ordenamento jurídico. São transcritos trechos da ementa e do voto condutor do acórdão paradigma em que se afirma que a mudança de critério jurídico e a constatação de erro de direito não autorizam a alteração do lançamento. Tal alteração, depois de notificado o contribuinte, somente poderia ocorrer nas hipóteses previstas no art. 149 do CTN (revisão de ofício), entre as quais não se enquadra o caso tratado nos autos. Diante da divergência instaurada entre o acórdão recorrido e o paradigma nº 340300.428, que considera claramente caracterizada, a contribuinte pede que seu recurso especial seja admitido em relação a esta matéria preliminar. 2) Decadência do direito de o Fisco exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos da data do lançamento de ofício O recurso especial da contribuinte aborda, em seguida, questão atinente à parte do lançamento relacionada ao ágio constituído no ano de 2003, em operação de aumento de capital de empresa pertencente aos controladores do grupo BOTICÁRIO. Fl. 4944DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 12 11 Conforme já se mencionou, parte do crédito tributário lançado em face da contribuinte deveuse ao aproveitamento, ocorrido em 2007 e considerado indevido pela Fiscalização, de ágio de R$1.168.982,33 registrado originalmente na contabilidade da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS. O ágio surgiu porque as ações do SHOPPING ESTAÇÃO, dadas em conferência para fins de integralização do aumento de capital da ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, foram reavaliadas a um valor superior ao patrimonial. As duas empresas envolvidas eram controladas por MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, razão pela qual a Fiscalização caracterizou o ágio surgido na operação como sendo interno e, portanto, impassível de aproveitamento tributário. O negócio jurídico que propiciou o registro do ágio ocorreu em 28/11/2003. Em 2007, após incorporar tanto a ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS quanto o SHOPPING ESTAÇÃO, a contribuinte trouxe o ágio para a sua contabilidade e utilizouo para reduzir valores de IRPJ e CSLL devidos ao Fisco. Considerando indevido tal procedimento, a Fiscalização promoveu a glosa correspondente. A contribuinte defende que tal glosa não poderia ter sido realizada, uma vez que a lavratura dos autos de infração se deu em 2011, quase oito anos após o surgimento do ágio. A realização do lançamento após o transcurso de tanto tempo afrontaria a regra insculpida no §4º do art. 150 do CTN, que prevê o prazo decadencial de cinco anos para os tributos sujeitos a lançamento por homologação. O acórdão recorrido discordou da tese apresentada pela contribuinte, argumentando que a contagem decadencial somente se inicia na data de ocorrência dos fatos geradores em que o evento anterior produziu efeitos e não na data de seu mero registro contábil. Trouxe ainda a decisão o entendimento de que o representante do Fisco nada pode fazer a respeito dos registros contábeis dos contribuintes, devendo obrigatoriamente aguardar a ocorrência dos fatos geradores dali decorrentes, momento a partir do qual pode realizar os lançamentos tributários se os contribuintes não fizerem adequadamente a apuração e os recolhimentos devidos. Ao concluir desta forma, o Acórdão nº 1301001.744 teria, segundo a recorrente, entrado em conflito com o decidido em dois acórdãos indicados como paradigmas: nº 10197.084 e nº 10709.545. A primeira decisão paradigma, ao apreciar a glosa de variações cambiais passivas decorrentes de um negócio jurídico de assunção de dívida, entendeu que o lançamento seria indevido em razão de o Fisco não ter questionado a validade do negócio jurídico originário dentro do prazo decadencial previsto no art. 150, §4º, do CTN, ainda que seus efeitos tributários tenham repercutido em período ainda não alcançado pela decadência. Considerouse ali que a Fiscalização pretendeu promover a revisão dos fatos ocorridos e registrados anteriormente, taxandoos de irregulares, o que não mais seria possível diante da ocorrência da decadência. Assim, seria indiferente o fato de os efeitos fiscais condenados pela Fiscalização terem ocorrido em anoscalendário posteriores, ainda não decaídos. Já o Acórdão nº 10709.545, segundo paradigma apontado pela contribuinte recorrente, divergiria do acórdão recorrido por defender que o Fisco até pode examinar atos Fl. 4945DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 13 12 pretéritos, verificados em períodos já decaídos, mas não pode realizar juízo de valor a seu respeito. A recorrente defende que foi exatamente o que pretendeu fazer a Fiscalização no caso dos presentes autos: questionar, em 2011, a amortização de ágio apurado em operação de aumento de capital ocorrida em 2003. Fechando o tópico, a contribuinte pede que seu recurso seja admitido em relação à matéria e que seja aplicado ao seu caso o entendimento exposto nos acórdãos paradigmas. 3) Impossibilidade de tributação de receita de reversão de provisão A recorrente defende que a Fiscalização teria incorrido em evidente erro no enquadramento legal e na descrição dos fatos ao fundamentar o lançamento tributário referente aos anoscalendário 2008 e 2009 na tributação de receitas decorrentes da reversão de provisão relativa ao ágio e não na dedução indevida de despesas de amortização do ágio. Tal procedimento teria acarretado em tributação em duplicidade, uma vez que a provisão já havia sido tributariamente considerada no momento de sua constituição, em 18/12/2006, na empresa G&K. Assim, pede que os autos de infração sejam cancelados. Apreciando a tese da contribuinte, o acórdão recorrido concluiu que o fato de a Fiscalização ter apontado exclusões indevidas do lucro real, em que pese a irregularidade efetivamente cometida ter sido a contabilização de despesas indedutíveis, não seria motivo suficiente para o cancelamento da exigência fiscal. Para tanto, justificouse que os fundamentos legais apontados seriam os mesmos nos dois casos e que a discussão indubitavelmente gira em torno do cabimento da amortização do ágio. Apontouse ainda que a contribuinte compreendeu perfeitamente qual seria o mote da discussão (conforme se depreende de sua defesa) e que eventual jogo de palavras no momento do lançamento não tem o condão de provocar seu cancelamento se a infração for apontada com clareza, inclusive no seu aspecto temporal. O recurso especial aduz que, ao assim dispor, o acórdão recorrido teria entrado em confronto com o Acórdão nº 1402001.521. Esta decisão, trazida como paradigma, foi proferida em processo administrativo fiscal em que figura como contribuinte a empresa BOTICA COMERCIAL FARMACÊUTICA S.A., pertencente ao mesmo grupo econômico da CÁLAMO. A autuação discutida naqueles autos decorreu, segundo a recorrente, de fatos idênticos aos analisados no presente processo. Apesar disso, o acórdão erguido como paradigma teria chegado a entendimento diametralmente oposto ao abraçado pelo acórdão recorrido, ao concluir que o crédito tributário deveria ser cancelado em razão de a infração apontada pelo Fisco (exclusões indevidas do lucro real) não ter ocorrido: a exclusão realizada pela contribuinte era regular e visava justamente a manutenção da neutralidade em relação à constituição da provisão relativa ao ágio e à sua reversão. Acrescenta a recorrente que o acórdão recorrido também estaria em divergência com uma segunda decisão paradigma, o Acórdão nº 1402001.357, cuja ementa transcreve. Assim, entendendo devidamente configurada a divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os dois paradigmas indicados em relação à impossibilidade de tributação de receita de reversão de provisão, pede a recorrente a admissão do recurso especial no que tange à matéria. Fl. 4946DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 14 13 4) Dedutibilidade das despesas de amortização de ágio Na sequência, chega a recorrente ao principal objeto de discussão dos presentes autos, pelo menos no que diz respeito ao mérito: a possibilidade ou não de se deduzir do lucro real as despesas decorrentes da amortização de ágio gerado em operações internas a um grupo econômico (embora a caracterização do ágio tratado no processo como sendo "interno" também seja contestada pela contribuinte). Como já relatado, a contribuinte teve lançados contra si créditos tributários referentes aos anoscalendário 2007, 2008 e 2009. O lançamento principal relativo ao ano de 2007 deveuse à utilização fiscal (indevida, na ótica da Fiscalização) do ágio gerado em 2003, em operação de aumento de capital social da ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS por meio da conferência de ações, a valor reavaliado, do SHOPPING ESTAÇÃO. Já os créditos relacionados aos anos de 2008 e 2009 foram lançados porque a Fiscalização considerou indedutíveis as despesas de amortização de ágio gerado em operação levada a efeito pela contribuinte e pela empresa G&K em dezembro de 2006: incorporação, pela segunda, da totalidade das ações da CÁLAMO, a valor reavaliado, o que provocou a contabilização de ágio de R$1.011.690.937,33 na nova controladora da contribuinte. Em ambos os casos, as empresas envolvidas estavam submetidas, de forma direta ou indireta, ao controle das mesmas pessoas físicas: MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM. Este fato, combinado com outros verificados no caso concreto, como a inexistência de propósito negocial diverso da pura redução da carga tributária e a ausência de "custo", "desembolso" ou qualquer "sacrifício econômico" que justificasse o nascimento do ágio, levaram a Fiscalização à conclusão de que tratarseia de ágio interno, incapaz de produzir efeitos tributários que favorecessem a contribuinte. A contribuinte alega, em seu recurso especial, que o Acórdão nº 1302 001.145, diante de circunstâncias fáticas idênticas às examinadas nos presentes autos, teria concluído de forma diametralmente oposta à defendida pela decisão recorrida. Como similitudes fáticas, a recorrente aponta que ambos os casos trataram de ágio gerado em operações societárias realizadas entre empresas de um mesmo grupo econômico (ágio interno) e que a Fiscalização considerou, nas duas situações, que as despesas de amortização de tal ágio deveriam ser glosadas porque inexistiria propósito negocial nas operações e não se teria constatado custo ou desembolso algum que amparasse a criação do ágio. Assim, ambos os acórdãos tratariam de hipóteses em que a Fiscalização defendeu a impossibilidade de dedução das despesas de amortização de ágio, seja sob o enfoque contábil, societário ou tributário. Apesar de analisarem situações quase idênticas, os acórdãos contrapostos teriam alcançado conclusões diversas. Ao contrário do acórdão recorrido, o Acórdão nº 1302 001.145 considerou que o ágio resultante de operações societárias realizadas entre empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico (ágio interno) em nada difere daquele apurado em operações realizadas entre partes independentes, uma vez que a legislação aplicável ao caso não os distingue. Assim, da mesma forma que o ágio que surge em negócios celebrados entre empresas independentes, o ágio interno pode ser amortizado nos termos dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Fl. 4947DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 15 14 A contribuinte indica ainda um segundo acórdão paradigma que apresentaria entendimento divergente daquele adotado pela decisão recorrida: o Acórdão nº 110100.708. A exemplo do que fez em relação ao primeiro paradigma listado, a recorrente compara os contextos fáticos analisados nas duas decisões para concluir que são idênticos: ágio gerado dentro de um grupo econômico, lançamento tributário fundamentado na inexistência de desembolso/custo que amparasse o ágio e na ausência de propósito negocial diferente da promoção de simples economia fiscal. Apesar disso, o Acórdão nº 110100.708 teria alcançado conclusão semelhante à construída pelo primeiro paradigma e igualmente contrária ao entendimento da decisão recorrida: a legislação tributária (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997) não estabelece distinção entre o ágio interno e aquele gerado em operações promovidas por empresas independentes entre si, sendo ambos passíveis de aproveitamento tributário. Diante do que expõe, a recorrente pede a admissão do recurso também no que atine à questão da dedutibilidade do ágio interno no lucro real. 5) Dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL A próxima matéria atacada pela contribuinte diz respeito ao reflexo que a declaração de indedutibilidade das despesas de amortização do ágio interno deve ter na apuração da CSLL. A recorrente defende que, mesmo que se entenda que as despesas decorrentes da amortização do ágio interno são indedutíveis do lucro real, isso não significa que tais valores devam ser adicionados também à base de cálculo da CSLL. Para chegar a tal conclusão, a recorrente argumenta que o art. 57 da Lei nº 8.981/1995, embora fixe que devem ser aplicadas à contribuição as mesmas normas de apuração e pagamento válidas para o IRPJ, determina expressamente que sejam mantidas a base de cálculo e as alíquotas da CSLL previstas em legislação própria. Discordando de tal tese, o Acórdão nº 1301001.905, que integrou o Acórdão nº 1301001.744 sanandolhe as omissões arguidas pela contribuinte pela via de embargos declaratórios, concluiu que as despesas oriundas da amortização de ágio interno não devem compor o resultado líquido contábil, não podendo, como consequência, influenciar na apuração da CSLL (a base de cálculo da contribuição deriva do lucro líquido). A decisão recorrida ainda analisa a questão sob uma outra perspectiva, segundo a qual seria possível concluir que, mesmo em situações em que despesas de amortização do ágio são dedutíveis do lucro real, a CSLL não poderia ser afetada por tais deduções. Isso ocorreria porque inexiste previsão legal para a exclusão, da base de cálculo apurada a partir do lucro líquido, de qualquer valor que não aqueles expressamente previstos na legislação, entre os quais não estão inclusas despesas de amortização de ágio. O entendimento do acórdão recorrido teria provocado, segundo a recorrente, a ocorrência de divergência frente ao Acórdão nº 1201001.237. O primeiro paradigma indicado pela contribuinte, analisando a mesma controvérsia, teria concluído que o art. 57 da Lei nº 8.981/1995 não igualou as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, uma vez que manteve a ressalva da manutenção da base de cálculo e das alíquotas da contribuição. Assim, no que diz Fl. 4948DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 16 15 respeito à CSLL, inexistiria lei prescrevendo a adição ao lucro líquido de despesas com amortização de ágio. A decisão recorrida também estaria em conflito com um segundo acórdão paradigma, de nº 10322.749. Esta decisão, a respeito do mesmo assunto, teria defendido que despesas indedutíveis da base de cálculo do IRPJ não o são para a CSLL, já que não estão incluídas entre os ajustes previstos na Lei nº 7.689/1988 e alterações posteriores. Assim, despesas com amortização de ágio, consideradas indedutíveis do lucro real, não devem ser adicionadas à base de cálculo da CSLL. Diante da divergência comprovada entre a decisão recorrida e os dois acórdãos paradigmas trazidos à baila, defende a contribuinte que o recurso especial deve ser admitido em relação à matéria atinente à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio interno na base de cálculo da CSLL. 6) Improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude Defende a recorrente que o acórdão recorrido, diante da ausência de comprovação das condutas previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964 (sonegação, fraude e conluio) ou da presença de dolo no caso concreto (intenção e prática de ato ilícito), teria se limitado a defender a manutenção da multa de ofício qualificada com base no mero intuito da contribuinte em subtrair valores à tributação. O fato de as operações societárias realizadas pela contribuinte e por empresas de seu grupo econômico, embora praticadas com observância da legislação específica, terem provocado redução da carga tributária e benefício econômico aos acionistas (pagamento de dividendos e de juros sobre capital próprio, direitos legalmente previstos), teria sido considerado pelo acórdão recorrido como motivação suficiente para a aplicação da multa de ofício qualificada. Traz o recurso especial a afirmação de que o acórdão paradigma nº 1302 001.183, diante de situação idêntica à encontrada nos presentes autos, teria concluído que a realização de operações societárias entre empresas de um mesmo grupo econômico não justifica, por si só, a aplicação de multa de ofício em sua modalidade qualificada. Em outras palavras, entendeu a decisão paradigma que a prática de atos lícitos (reorganização societária) que venham a proporcionar economia tributária, não caracteriza uma das patologias previstas na legislação para fins de imputação da qualificação da multa de ofício. O posicionamento do acórdão recorrido também teria caracterizado dissenso jurisprudencial frente a uma segunda decisão paradigma, o Acórdão nº 910100.189. Por meio desta decisão, a CSRF teria afirmado que a multa de ofício qualificada não é aplicável quando não restarem claramente identificadas as ações e omissões dolosas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964 ou comprovada a ocorrência de dolo. Assim, a mera intenção de redução da carga tributária não seria justificativa suficiente para a qualificação da multa, sendo imprescindível a comprovação do ato ilícito, praticado pela contribuinte de forma contrária ao direito. Não tendo o Acórdão nº 1301001.744, ora recorrido, apontado qual o ato ilícito ou contrário à lei que teria sido praticado de forma dolosa pela contribuinte, restaria devidamente caracterizada a divergência, frente às decisões paradigmas, de interpretação dos Fl. 4949DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 17 16 dispositivos que justificam a aplicação da multa qualificada, razão pela qual o recurso especial também deve ser admitido em relação a esta matéria, na opinião exposta pela recorrente. 7) Impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada A penúltima matéria atacada pela contribuinte recorrente diz respeito à aplicação concomitante da multa de ofício e da multa isolada pelo não recolhimento dos tributos devidos com base na estimativa mensal. A respeito deste assunto, o Acórdão nº 1301001.905, que complementou o Acórdão nº 1301001.744 (decisão originalmente proferida pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara e embargada pelos sujeitos passivos), decidiu que a multa isolada pode ser aplicada de forma concomitante com a multa de ofício, uma vez que cada uma delas decorre de fato próprio, ocorre em momento específico e tem base de cálculo e percentual distintos. Declarou ainda o acórdão que a Súmula CARF nº 105 não se aplica a fatos geradores ocorridos a partir de janeiro de 2007. Indispõese a recorrente contra tal posicionamento indicando acórdãos paradigmas que trariam o entendimento de que não é possível a cobrança concomitante das duas multas, inclusive para períodos posteriores a 2007, ou seja, após as mudanças introduzidas pela Lei nº 11.488/2007. Tais decisões são os Acórdãos nº 1402001.894 e nº 1103000.960. Entendendo comprovado o dissídio jurisprudencial requerido pelo RICARF/2015, a recorrente pede a admissão do recurso especial em relação ao tema. 8) Impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício Por fim, a contribuinte aduz que a decisão recorrida (Acórdão nº 1301 001.905) teria divergido de outras decisões administrativas também no que diz respeito à aceitação da possibilidade de cobrança de juros de mora incidentes sobre a multa de ofício lançada. O acórdão recorrido entendeu ser legal a incidência de juros de mora, à taxa Selic, sobre a multa de ofício, com fundamento na interpretação conjunta que deu aos arts. 139 e 161 do CTN e ao art. 61 da Lei nº 9.430/1996. Entendimento diverso teriam os Acórdãos nº 910100.722 e nº 0203.133, erigidos como paradigmas no recurso especial. Tais decisões defenderiam a inexistência de previsão legal que ampare a atualização, por meio da aplicação de juros de mora, da multa de ofício. Arguida a divergência, pleiteia finalmente a recorrente que seu recurso seja conhecido também no que atine à controvérsia da incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Além de defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorridos e paradigmas em relação a todas as matérias indicadas, a recorrente apresenta também uma série de alegações que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão combatida. Em suma, argumentase que: Fl. 4950DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 18 17 A reorganização societária promovida pelas empresas do grupo BOTICÁRIO se baseou em sólidas razões empresariais: retirarse da atuação no setor de shopping centers e centros de convenções, que não vinha produzindo bons resultados; permitir que a empresa O BOTICÁRIO FRANCHISING S.A. focasse sua atuação no negócio de franquia, liberandoa do papel de holding das empresas atuantes no setor de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal; possibilitar o ingresso de um novo acionista estratégico; profissionalizar a gestão do grupo BOTICÁRIO por meio da criação de um Conselho de Administração e de uma Diretoria; O critério de avaliação (valor econômicofinanceiro) das ações da contribuinte, por ocasião de sua incorporação pela holding G&K, guardou total correspondência com os preceitos da legislação societária e resultou de um legítimo processo de negociação entre os acionistas da G&K e um terceiro independente (IGP, o novo acionista estratégico do grupo BOTICÁRIO); A cisão parcial e seletiva da G&K foi motivada por divergências na condução estratégica das operações do grupo BOTICÁRIO, entre os acionistas controladores e o acionista minoritário estratégico, no que dizia respeito à busca ou não de novas possibilidade de investimento; As incorporações reversas, pelas quatro empresas operacionais do grupo (entre as quais, a recorrente), de 99% de suas ações que foram objeto de cisão parcial na G&K ensejaram como consequência expressamente prevista na lei a possibilidade de amortização do ágio de forma dedutível e a reversão, contra o resultado do exercício, de correspondente montante da provisão do ágio; O plano de expansão e diversificação dos investimentos, que motivou a divergência que culminou na retirada do sócio minoritário da holding G&K, efetivamente foi desenvolvido após o fim da reorganização societária analisada nos autos; Não prospera qualquer argumento no sentido de que não teria havido propósito negocial e substância econômica na reorganização societária realizada pelo grupo BOTICÁRIO, apenas porque as operações teriam sido implementadas entre as empresas do grupo (mesmo com a presença de um investidor externo, IGP) e porque teriam gerado uma suposta redução na carga tributária; O auto de infração complementar, lavrado pelas autoridades fiscais em atendimento a determinação do Presidente da 1ª Turma da DRJ em Curitiba/PR, deve ter sua nulidade declarada porque o art. 18, §3º, do Decreto n° 70.235/1972, apontado como fundamento legal do procedimento, não autoriza lançamentos complementares que modifiquem o critério jurídico adotado no primeiro lançamento, o que também representa ofensa ao art. 146 do CTN; No caso concreto, o auto de infração complementar, com base apenas em uma nova interpretação dos mesmos fatos e na requalificação jurídica da conduta da contribuinte, que já era integralmente conhecida pelas autoridades fiscais por ocasião do primeiro lançamento, passou a acusar a presença de dolo e fraude, razão pela qual determinou a qualificação da multa de ofício e a responsabilização solidária dos acionistas controladores. Assim, houve também ofensa ao art. 149 do CTN, que fixa as hipóteses taxativas de possibilidade de revisão de ofício dos lançamentos tributários; Fl. 4951DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 19 18 A receita de reversão da provisão para preservação de dividendos futuros, constituída com base nas Instruções CVM nº 319 e nº 349, não pode ser objeto de tributação porque a despesa decorrente de sua criação já havia sido anteriormente adicionada ao lucro real, ainda na holding G&K que controlava a contribuinte. Assim, ao glosar valores excluídos do LALUR a título de ágio, sob o argumento de que tais exclusões não estariam autorizadas na apuração do lucro real, a Fiscalização incorreu em dupla tributação sobre os mesmos valores, o que deve provocar o cancelamento das referidas glosas; O ágio criado por ocasião da incorporação das ações da recorrente pela G&K não pode ser considerado como "interno", uma vez que as operações que o originaram envolveram o efetivo ingresso de um novo acionista estratégico para o desenvolvimento e implementação do plano de expansão, amparado em legítimo propósito negocial e com suficiente substância econômica; O novo acionista (IGP) aportou R$50.000.000,00 na holding G&K por aceitar o valor de reavaliação das quatro empresas operacionais do grupo, que afetaria diretamente o seu percentual de participação no capital de sua investida. Logo, estaria envolvida na quantificação do ágio uma "parte independente, conhecedora do negócio, livre de pressões ou outros interesses que não a essência da transação"; Não se sustenta a alegação do acórdão recorrido de ausência, no caso concreto, de custo de aquisição da participação societária que provocou o aparecimento do ágio. A referida aquisição pode ser realizada de várias formas, e, no presente caso, se deu por meio de uma incorporação de ações. Assim, o custo de aquisição foi o valor das ações conferidas aos titulares das ações incorporadas; Ainda que se considere o ágio gerado nas operações societárias analisadas como sendo "interno", esta figura não era, à época dos fatos, definida ou regulada pela legislação contábil ou tributária. O Direito Contábil Societário só passou a reconhecer a figura em 05/11/2010, quando foi aprovado o CPC nº 04/2010. Já os efeitos tributários do ágio interno só foram objeto de regulamentação a partir do advento da Lei nº 12.973/2014. Assim, antes disso, não havia impedimentos legais a que se desse ao referido ágio o mesmo tratamento dado a qualquer ágio; O negócio jurídico da incorporação de ações está previsto no art. 252 da Lei nº 6.404/1976. Neste tipo de operação, não há possibilidade de se realizar "desembolso" ou "pagamento em dinheiro", mas isso não significa que não haja custo de aquisição pela aquisição da participação societária incorporada. O custo de aquisição é o valor do capital aumentado na incorporadora das ações e entregue aos titulares das ações incorporadas; A legislação tributária não tem qualquer dispositivo restritivo às operações de incorporação de ações ou à possibilidade de avaliação destas ações com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, suportado por laudo de avaliação de empresa especializada. Assim, a incorporação de ações é operação totalmente apta a gerar ágio, com todos os seus efeitos tributários; A operação de incorporação de ações a um valor econômico superior ao contábil gera, para as pessoas físicas acionistas da incorporadora, ganho de capital tributável. Assim, deve haver também a geração do ágio na contabilidade da incorporadora, equivalente à diferença entre os valores econômico e contábil das ações incorporadas; Fl. 4952DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 20 19 Como o deságio gerado em operações internas a um grupo econômico, fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, deve ser amortizado e tributado durante os cinco anos subsequentes à incorporação, por isonomia ao ágio gerado nas mesmas condições deve ser permitida a amortização e consequente dedutibilidade; O fato de a Lei nº 12.973/2014 trazer, em seu art. 22, a vedação expressa ao aproveitamento tributário do ágio gerado entre partes dependentes, demonstra que, antes do advento desta lei, não havia vedação à amortização fiscal do ágio apurado entre empresas do mesmo grupo econômico; Não se aplica ao caso concreto a regra geral de dedutibilidade de despesas prevista no art. 299 do RIR/1999 porque existe, no art. 386 do RIR/1999, regra específica para as hipóteses de dedutibilidade de despesas decorrentes de amortização de ágio surgido a partir da incorporação, por uma pessoa jurídica, de outra (ou fração desta) em que detenha participação societária, ou viceversa (aplicação do princípio da especialidade); Inexiste na legislação atinente à CSLL previsão de adição das despesas de amortização de ágio ao lucro líquido para fins de verificação da base de cálculo da contribuição. Por força do art. 57 da Lei nº 8.981/1995, as regras aplicáveis para o lucro real não são refletidas automaticamente na base de cálculo da CSLL; No auto de infração complementar, as autoridades tributárias não comprovaram a presença de dolo ou de fraude, mas justificaram a imposição da multa de ofício qualificada com base apenas na observação de que teria havido redução da carga tributária e benefício econômico aos acionistas (distribuição de dividendos e de juros sobre capital próprio). Assim, é completamente improcedente a qualificação da multa de ofício imposta à recorrente; No caso concreto, restou configurada dúvida das autoridades fiscais a respeito da interpretação e aplicação da legislação tributária atinente à qualificação da multa de ofício, demonstrada pelo fato de o auto de infração originário ter lançado multa de ofício no percentual regular de 75% (assim como ocorreu em outro processo, em que a EMPRESA BRASILEIRA DE LOGÍSTICA S.A., pertencente ao grupo econômica da recorrente, foi autuada pelos mesmos fatos estudados nos presentes autos). Assim, havendo dúvida, a lei tributária deve ser interpretada da maneira mais favorável ao contribuinte, em atendimento ao estabelecido no art. 112 do CTN; Não é possível a aplicação concomitante da multa de ofício e da multa isolada pelo não recolhimento de estimativas mensais porque tal conduta caracterizaria bis in idem, uma vez que se estaria apenando duas vezes uma mesma infração; Tal entendimento já foi inclusive objeto de súmula aprovada pelo CARF (Súmula nº 105) que não tem, ao contrário do alegado pelo acórdão recorrido, sua aplicação restrita aos períodos anteriores a janeiro de 2007; No presente caso, a impossibilidade de aplicação concomitante das duas multas advém inclusive do fato de não haver duas infrações distintas, mas apenas uma, na visão da Fiscalização: amortização indevida de ágio. As diferenças de recolhimento do tributo, seja nas estimativas mensais, seja no ajuste anual, decorrem simplesmente da discordância da Fiscalização em relação aos procedimentos adotados pela recorrente; Fl. 4953DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 21 20 Não existe previsão legal que permita a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Tais juros só incidem sobre os tributos não pagos até a data do vencimento, não sobre penalidade decorrente do descumprimento de uma obrigação tributária; O lançamento tributário referente ao anocalendário de 2007, decorrente do aproveitamento tributário do ágio constituído em 2003 por ocasião do aumento do capital social da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS via conferência de ações do SHOPPING ESTAÇÃO, não poderia ter sido efetuado pela Fiscalização, uma vez que, à época da lavratura do auto de infração (2011), já havia ocorrido a decadência/preclusão do direito de o Fisco auditar fatos ocorridos em 2003, segundo determina o art. 150, §4º, do CTN; Ainda que a repercussão tributária do referido ágio tenha sido observada em 2007, o nascimento do ágio, no ano de 2003, é o elemento jurídicotributário que resulta no fato gerador dos tributos incidentes sobre o lucro, nos termos da legislação societária e tributária, não podendo ser dissociada de sua posterior amortização. A partir da data da apuração do ágio, as autoridades fiscais já poderiam ter questionado sua adequação para ensejar repercussões tributárias futuras; O ágio gerado nas operações societárias realizadas em 2003 efetivamente existiu e não pode ser taxado de "interno". Ele adveio do legítimo propósito negocial de reorganizar os investimentos que o grupo BOTICÁRIO tinha no segmento imobiliário (shopping centers e centros de convenções), com a subsequente alienação dos ativos das empresas que vinham apresentando resultados deficitários; Como a empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS foi incorporada pela recorrente em 01/09/2006, o ágio de R$1.168.982,33 veio, por sucessão, a compor o ativo da contribuinte. Posteriormente, em 02/05/2007, com a incorporação do SHOPPING ESTAÇÃO e sua consequente extinção, a recorrente apurou perda de capital correspondente à diferença entre o valor contábil do seu investimento (incluindo o ágio apurado em 2003) e o valor do acervo líquido incorporado, deduzindo então integralmente o montante do ágio do lucro real e da base de cálculo de CSLL do período. A contribuinte encerra seu recurso especial com o pedido de que este seja conhecido e provido para: i) preliminarmente, declarar a nulidade do auto de infração complementar por afronta aos arts. 146 e 149 do CTN; ii) ainda preliminarmente, reconhecer a decadência em relação à parte do lançamento referente ao período de 2007 (ágio constituído em 2003); iii) no mérito, cancelar integralmente o crédito tributário formalizado nos presentes autos; iv) subsidiariamente, caso não se cancelem os lançamentos concernentes ao IRPJ, cancelar os créditos relativos à CSLL; v) ainda subsidiariamente, cancelar a multa qualificada aplicada no caso concreto; vi) ainda subsidiariamente, cancelar a multa isolada aplicada em concomitância com a multa de ofício; iv) ainda subsidiariamente, cancelar a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. Recurso Especial dos responsáveis tributários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM Inicialmente, registrese que os dois acionistas majoritários da CÁLAMO, apontados pela Fiscalização como responsáveis solidários pelo cumprimento das obrigações lançadas, apresentaram recursos especiais separadamente, mas de idêntico conteúdo. Assim, suas alegações serão relacionadas de forma conjunta: Fl. 4954DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 22 21 1) Nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento Neste tópico, os responsáveis solidários recorrentes repetem as alegações já apresentadas no recurso especial da contribuinte, no sentido de que a decisão recorrida teria entrado em divergência com o Acórdão nº 340300.428 ao defender que o §3º do art. 18 do Decreto nº 70.235/1972 seria fundamento suficiente para a realização de lançamento complementar consistente na qualificação de multa de ofício e atribuição de responsabilidade solidária aos acionistas controladores. 2) Necessidade de comprovação de dolo ou fraude por parte das autoridades fiscais Os responsáveis tributários defendem neste tópico de seu recurso especial a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os Acórdãos nº 1302 001.183 e nº 910100.189, a exemplo do que fez a contribuinte quando tratou, em seu próprio recurso, da matéria "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude". A principal diferença é que a contribuinte arguiu a existência de dissenso em relação aos requisitos para a imputação de multa de ofício qualificada enquanto os seus acionistas controladores tratam especificamente das condições para a imputação de responsabilidade tributária solidária. Os recorrentes relatam que o Acórdão nº 1301001.744, ora recorrido, teria considerado como suficiente para a atribuição de responsabilidade solidária às pessoas físicas que controlavam a contribuinte CÁLAMO a constatação de sua intenção de subtrair valores à tributação. O acórdão recorrido teria considerado procedente a referida imputação feita pela Fiscalização, por considerar ter ficado patente a efetiva atuação direta dos sócios controladores em atos societários que concorreram para a criação artificial de despesas redutoras dos resultados tributáveis da empresa e para seu próprio benefício econômico, advindo da majoração da distribuição de dividendos e de juros sobre o capital próprio. No entendimento dos recorrentes, o acórdão recorrido teria erroneamente ignorado os fatos de não terem sido comprovados fraude ou dolo e ainda de todos os atos praticados serem reconhecidamente lícitos. De forma oposta teria entendido o Acórdão nº 1302001.183. Diante de uma situação semelhante à analisada pela decisão recorrida, o acórdão paradigma concluiu que a realização de operações societárias entre empresas de um mesmo grupo econômico não indica, por si só, a prática de atos com fraude e dolo. A decisão paradigma teria ainda declarado que a presença de atos fraudulentos na gestão dos administradores da empresa fiscalizada deve ser comprovada pelas autoridades fiscais e que a mera constatação de economia tributária, proporcionada por atos lícitos de reorganização societária, não configura uma das patologias previstas na legislação para fins de caracterização de dolo ou fraude. Os recorrentes arguem ainda a existência de dissídio jurisprudencial entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 910100.189. A decisão recorrida, sem apontar efetivamente qual teria sido o ato ilícito praticado pela empresa CÁLAMO ou por seus sócios administradores, considerou configurada fraude simplesmente porque as operações societárias analisadas proporcionaram redução da carga tributária e benefício econômico aos acionistas. De forma diversa teria entendido o acórdão paradigma, ao defender que as ações e omissões Fl. 4955DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 23 22 dolosas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/1964 devem ser efetivamente comprovadas pelas autoridades fiscais. Afirmando estar comprovada a divergência de entendimento entre as decisões administrativas no que tange à efetiva e necessária comprovação, nos autos, da prática de fraude e dolo por parte dos administradores da empresa, os recorrentes pleiteiam a admissão do recurso em relação à matéria. 3) Exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 124, inciso I, do CTN Os recorrentes narram que o acórdão recorrido teria decidido pela manutenção da sujeição passiva solidária que lhes foi imputada nos termos do art. 124, I, do CTN, com base no entendimento de que a atuação dos dirigentes da empresa CÁLAMO estaria revestida de dolo e seria guiada pela única e exclusiva intenção de reduzir resultados tributáveis e gerar benefícios econômicos decorrentes dos recursos desviados do erário. O entendimento exposto estaria, segundo tese exposta no recurso especial, em conflito com a posição adotada pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF no Acórdão nº 1101001.100. Frente a situação fática idêntica, a decisão indicada como paradigma teria concluído que a responsabilidade solidária prevista no inciso I do art. 124 do CTN é absolutamente inaplicável a casos como o presente por sua própria natureza e na medida em que demandaria prova inequívoca e incontestável do dolo na conduta perpetrada pelo agente enquanto pessoa física. Segundo o acórdão paradigma, o inciso I do art. 124 do CTN somente poderia ser aplicado para incluir um terceiro, estranho ao quadro societário da pessoa jurídica, no polo passivo da obrigação tributária, desde que reste devidamente comprovada a sua atuação ao lado da empresa e que haja interesse comum na situação que constitua o fato gerador do tributo. Seria o caso, por exemplo, de inclusão de sócios de fato na relação tributária, situação não vislumbrada nos casos concretos analisados pelo acórdão paradigma ou pela decisão recorrida. O acórdão recorrido também teria incorrido em divergência frente a um segundo paradigma, o Acórdão nº 1101001.239, que defende que a simples participação de sóciosgerentes nos atos de gestão de uma empresa não os põe, por si só, na condição de responsáveis solidários em razão de um suposto interesse comum na constituição do fato gerador. A atribuição de responsabilidade solidária com fundamento do art. 124, inciso I, do CTN demandaria, além da participação na gestão, a demonstração inequívoca de dolo nas condutas que levaram à suposta redução tributária. Diante da divergência jurisprudencial arguida, os responsáveis tributários recorrentes pedem a admissão do recurso especial no que atine à responsabilização solidária fundamentada no art. 124, I, do CTN. 4) Exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN O Acórdão nº 1301001.744 anuiu com a imputação de responsabilização solidária aos acionistas controladores da CÁLAMO com fundamento tanto no art. 124, I, do CTN quanto no art. 135, III, do mesmo Código. Assim, os recorrentes questionam a Fl. 4956DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 24 23 interpretação dada pelo acórdão recorrido não só ao art. 124, I, do CTN, como também ao segundo dispositivo indicado como fundamento da atribuição de responsabilidade tributária. Apontam os recorrentes que o acórdão recorrido enfrentou de maneira muito superficial a questão da atribuição de responsabilidade tributária solidária com base no art. 135, inciso III, do CTN, se limitando a afirmar que seria possível sua incidência, sem, no entanto, sequer indicar qual seria o dispositivo legal infringido pelos sócios da empresa fiscalizada. Em outras palavras, o acórdão recorrido teria entendido pela possibilidade de aplicação do dispositivo, ainda que não especificada qualquer das infrações requeridas por ele. Desta forma, teria se caracterizado dissenso jurisprudencial frente ao Acórdão nº 1101001.100 (mesmo paradigma trazido a respeito da interpretação dada ao art. 124, I, do CTN). Diferentemente do acórdão recorrido, o acórdão paradigma, diante de idêntica situação fática, teria apresentado o entendimento de que a atribuição da responsabilidade prevista no art. 135, III, do CTN, demandaria prova inequívoca e incontestável do dolo na conduta perpetrada pelos diretores enquanto pessoas físicas, ao atuar com excesso de poderes, infração à legislação societária ou contrariamente às disposições do contrato ou estatuto social da pessoa jurídica. Inexistindo a suficiente comprovação da fraude, tampouco poderia subsistir a aplicação da multa de ofício qualificada. Além disso, o acórdão paradigma teria justificado o afastamento da responsabilidade solidária baseada no art. 135, III, do CTN, em razão da divergência de entendimentos doutrinários e jurisprudenciais, existente à época dos fatos, a respeito da figura do "ágio interno". Em caso de existência de dúvida, preconiza o julgado, devese aplicar a interpretação mais favorável ao contribuinte, por força do art. 112 do CTN. Assim, não haveria que se falar em eventual crime contra a ordem tributária ou em fraude na conduta de pessoas físicas que administravam grupos econômicos que fizeram uso do referido "ágio interno", por conta da ausência de potencial consciência da ilicitude do fato. O segundo acórdão paradigma trazido pelos recorrentes em relação à matéria é o de nº 1101001.239, também apontado como segunda decisão paradigma quando se tratou da responsabilidade solidária fundada no art. 124, I, do CTN. Este acórdão ensejaria dissonância em face do acórdão recorrido também no que diz respeito à possibilidade de imputação de responsabilidade solidária com fulcro no art. 135, III, do CTN. Ao contrário da decisão recorrida, o acórdão paradigma seria claro ao exigir, para fins de declaração da aludida responsabilidade, a comprovação da prática de atos com excesso de poderes ou com infração à lei, contrato social ou estatutos da empresa administrada pela pessoa física do sóciogerente, hipóteses taxativamente fixadas pelo art. 135, III, do CTN. Inexistindo prova da existência de uma das hipóteses restritivamente estabelecidas pelo dispositivo legal, a responsabilidade solidária ali tratada não pode ser aplicada, ainda mais de forma presumida, como teria ocorrido no acórdão recorrido. Portanto, também no que atine à correta interpretação a ser dada ao art. 135, III, do CTN, os recorrentes defende o conhecimento de seu recurso. 5) Impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício Quando tratam da última matéria a respeito da qual existiria dissenso jurisprudencial apto a provocar o conhecimento do recurso especial, nos termos exigidos pelo art. 67 do Anexo II do RICARF/2015, os responsáveis solidários apresentam exatamente as Fl. 4957DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 25 24 mesmas alegações já mencionadas no recurso especial da contribuinte. Assim, defendem a admissão do seu recurso diante da configuração de divergência, no que toca à possibilidade de cobrança de juros de mora sobre multa de ofício, entre o Acórdão nº 1301001.905 (que integrou o Acórdão nº 1301001.744 neste tema) e os paradigmas de nº 910100.722 e nº 02 03.133. A exemplo do que fez a contribuinte CÁLAMO, os responsáveis solidários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, após defenderem a caracterização de divergências jurisprudenciais atinentes às matérias combatidas, apresentam outros argumentos cuja análise conduziria à reforma da decisão recorrida. No que diz respeito às matérias "nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento" e "impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício", as alegações elencadas são idênticas àquelas já apresentadas no recurso especial da contribuinte, razão pela qual não serão novamente reproduzidas. Tratando das outras matérias contestadas, os recorrentes alegam basicamente que: No auto de infração complementar, as autoridades tributárias não comprovaram a presença de dolo ou de fraude. Elas afirmaram que tais figuras estariam presentes com base apenas nos fatos de as operações societárias terem sido realizadas entre empresas de um mesmo grupo econômico e de ter havido redução da carga tributária e benefício econômico aos acionistas (distribuição de dividendos e de juros sobre capital próprio); Assim, erroneamente atribuiuse a responsabilidade solidária aos sócios controladores da empresa fiscalizada e determinouse a qualificação da multa de ofício com base em atos e condutas regulares, praticados em conformidade com a legislação, que jamais poderiam ter sido classificados como ilícitos e dolosos; Estabelecendose um paralelo com o Direito Penal, a conduta atribuída aos recorrentes não poderia ser enquadrada como crime porque não havia, em 2003 (operação de aumento de capital) ou em 2006 (operação de incorporação de ações), a tipificação de "ágio interno", instituto que só foi tratado pela legislação a partir do advento da Lei nº 12.973/2014. Assim, o dolo (figura oriunda do Direito Penal) não poderia ser caracterizado no caso concreto por inexistir a consciência de realizar comportamento ilícito previsto em lei; No caso concreto, o montante do ágio e o valor dos dividendos distribuídos aos recorrentes, na condição de acionistas da contribuinte fiscalizada, não podem ser elementos caracterizadores de qualquer fraude, uma vez que não têm qualquer relação com eventual dolo ou fraude na apuração de tributos pela pessoa jurídica; O recebimento, pelos recorrentes, de dividendos distribuídos e de juros sobre capital próprio representam o exercício de direitos previstos na legislação, não podendo ser equiparadas a atos ilícitos por força do inciso I do art. 188 do Código Civil; A pretensão de atingir um resultado (incorporar ações para centralizar participações societárias em uma holding e receber novo acionista ou promover uma cisão para segregar acionistas) não caracteriza, por si só, intuito doloso e fraudulento indispensável para a aplicação de multa qualificada e a imputação de responsabilidade solidária, mesmo que o objetivo final dos atos possa estar associado a alguma vantagem tributária; Fl. 4958DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 26 25 Todas as operações praticadas pelas empresas de que os recorrentes são acionistas foram reais e efetivas, devidamente informadas aos órgãos de registro do comércio e à Receita Federal do Brasil, além de terem sido reportadas em demonstrações financeiras publicadas em jornais de grande circulação, o que impede a caracterização de dolo ou fraude, que requer a prática de atos jurídicos divergentes da realidade, com falsa licitude; Como inexistia, à época dos fatos, legislação que tratasse explicitamente de ágio interno ou mesmo jurisprudência sobre o assunto, a interpretação dada pelos recorrentes à legislação então vigente é uma entre várias possíveis. Assim, devidamente caracterizada a dúvida, o mandamento legal abrigado pelo art. 112 do CTN determina que se aplique aos sujeitos passivos a interpretação da lei tributária que lhe seja mais favorável, sendo forçoso afastarse o dolo e a fraude da conduta atribuída aos recorrentes; As autoridades fiscais entenderam equivocadamente que o simples fato de os recorrentes serem acionistas da contribuinte CÁLAMO e dela receberem dividendos e juros sobre capital próprio seria suficiente para caracterizar o "interesse comum" requerido pelo inciso I do art. 124 do CTN para fins de atribuição de responsabilidade solidária; A responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN, não pode ser atribuída de forma presumida, simplesmente por existir "interesse econômico" entre os acionistas pessoas físicas e a pessoa jurídica. O "interesse comum" exigido pelo dispositivo legal não se confunde com o "interesse econômico" dos acionistas na lucratividade da pessoa jurídica, mas se relaciona com o "interesse jurídico" na constituição do fato gerador, ou seja, o interesse de duas ou mais pessoas que praticam conjuntamente um determinado fato gerador sendo todas elas sujeitos passivos do mesmo tributo; A incidência da regra que determina a solidariedade por interesse comum pressupõe a existência de uma relação jurídica entre o Estado e dois ou mais sujeitos passivos do mesmo tributo. Os responsáveis solidários devem ser, portanto, codevedores da obrigação tributária pela efetiva realização do fato gerador e não pela simples existência de um eventual "interesse econômico" ou por serem sócios controladores da contribuinte; O art. 124, I, do CTN, tem como objetivo a inclusão de terceiros, estranhos ao quadro societário de uma empresa, no polo passivo da obrigação tributária, a partir da prova de sua atuação ao lado da pessoa jurídica, com verdadeiro interesse comum na situação que constitua o fato gerador (caso, por exemplo, dos sócios de fato); Já o art. 135, inciso III, do CTN, estabelece a responsabilidade pessoal de diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas que atuarem com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. Portanto, a infração capaz de gerar a responsabilidade do administrador é aquela de natureza exclusivamente societária, pela prática de atos contrários aos interesses da sociedade; No caso dos presentes autos, não restou comprovada infração de lei societária, razão pela qual é inviável a atribuição de responsabilidade solidária com fulcro no art. 135, III, do CTN. Os responsáveis tributários encerram seus recursos especiais com o pedido de que estes sejam conhecidos e providos para: i) preliminarmente, declarar a nulidade do auto de infração complementar por afronta aos arts. 146 e 149 do CTN; ii) no mérito, reconhecer a ausência de dolo e fraude no caso concreto e a inaplicabilidade tanto da responsabilidade Fl. 4959DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 27 26 solidária prevista no art. 124, I, do CTN, quanto da responsabilidade pessoal fixada pelo art. 135, III, do CTN; iii) subsidiariamente, caso não se afastem as responsabilidades fundadas nos arts. 124, I, e 135, III, ambos do CTN, cancelar a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. As irresignações da contribuinte e dos responsáveis tributários foram submetidas a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar o atendimento aos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. Em 05/05/2016, foi expedido um despacho para cada um dos três recursos especiais juntados aos presentes autos. O despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial da contribuinte CÁLAMO considerou cumpridos os requisitos formais de admissibilidade e passou em seguida a analisar a existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida (Acórdão nº 1301001.744, integrado pelo Acórdão nº 1301001.905) e os vários paradigmas indicados. A este respeito, foram expostas as seguintes conclusões: Matéria "nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento": Considerouse comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão paradigma nº 340300.428; Matéria "decadência do direito de o Fisco exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos da data do lançamento de ofício": Concluiuse pela existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois paradigmas indicados pela recorrente (nº 10197.084 e nº 10709.545); Matéria "impossibilidade de tributação de receita de reversão de provisão": Entendeuse demonstrado o dissídio jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois acórdãos paradigmas trazidos pela recorrente (nº 1402001.521 e nº 1402001.357); Matéria "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio": Concluiuse pela existência de dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois paradigmas apontados pela recorrente (nº 1302001.145 e nº 110100.708); Matéria "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL": Do cotejo entre a decisão recorrida e os acórdãos paradigmas nº 1201001.237 e nº 10322.749, concluiuse que os julgados tratam de situações fáticas distintas. O acórdão recorrido trataria de glosa de exclusão feita pela contribuinte quando da apuração da CSLL, não tendo sido aplicadas as disposições do art. 57 da Lei nº 8.981/1995, enquanto as decisões paradigmas abordariam autuação fiscal pela não adição ao lucro líquido, para fins de determinação da base de cálculo da CSLL, das despesas de amortização de ágio, aplicandose o art. 57 da Lei nº 8.981/1995. Assim, diante da falta de identidade fática entre as situações contrapostas, considerouse não configurada a divergência jurisprudencial suscitada em relação à matéria; Matéria "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude": Comparando a decisão recorrida com o Acórdão nº 1302 001.183, primeiro paradigma manejado pela recorrente, concluiuse que a divergência verificada entre eles advém do livre convencimento dos julgadores, a partir da valoração dos diferentes conjuntos probatórios apresentados pela Fiscalização para qualificar as condutas, e não de interpretações dissonantes da legislação tributária. Já do confronto estabelecido entre a decisão recorrida e o segundo paradigma, de nº 9101002.189, considerouse que as situações Fl. 4960DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 28 27 fáticas analisadas não eram coincidentes, uma vez que a decisão paradigma tratou de caso em que a Fiscalização qualificou a multa com base no entendimento de configuração de simulação, o que não teria se verificado no caso dos presentes autos. Dessa forma, em relação à matéria em foco, entendeuse não caracterizado o dissídio jurisprudencial aventado; Matéria "impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada": Concluiuse pela caracterização de dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois paradigmas indicados pela recorrente (nº 1402001.894 e nº 1103000.960); Matéria "impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício": Entendeuse devidamente configurada a divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois acórdãos paradigmas (nº 910100.722 e nº 0203.133). Portanto, no que tange ao recurso especial interposto pela contribuinte, o despacho que lhe examinou a admissibilidade decidiu por darlhe seguimento parcial. O recurso foi admitido em relação a todas as matérias questionadas, com exceção de duas: "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL" e "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude". Também tiveram sua admissibilidade examinada os recursos especiais manejados pelos sócios controladores da contribuinte, apontados nos autos de infração como responsáveis solidários pelo cumprimento das obrigações tributárias. Como os recursos dos dois sujeitos passivos são idênticos, também o são os despachos de exame de admissibilidade. Depois de verificar o cumprimento dos pressupostos formais de admissibilidade dos recursos, os despachos passaram a investigar a existência das arguidas dissonâncias jurisprudenciais entre a decisão recorrida (formada pela conjugação dos Acórdãos nº 1301001.744 e nº 1301001.905) e os acórdãos paradigmas trazidos pelos recorrentes: Matéria "nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento": Considerouse devidamente demonstrada a existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão paradigma nº 340300.428; Matéria "necessidade de comprovação de dolo ou fraude pelas autoridades fiscais": Do confronto da decisão recorrida com o Acórdão paradigma nº 1302001.183, verificouse que a divergência existente entre as decisões é reflexo do livre convencimento dos julgadores, a partir da valoração de conjuntos probatórios distintos reunidos pela Fiscalização para qualificar as condutas, e não de interpretações divergentes da legislação tributária. Analisando a segunda decisão paradigma (Acórdão nº 9101002.189), concluiuse que a situação fática ali analisada não coincide com a enfrentada pela decisão recorrida, já que o paradigma tratou de caso em que a Fiscalização qualificou a multa com base no entendimento de configuração de simulação na conduta do sujeito passivo, o que não teria se observado no caso dos presentes autos para fins de imputação da responsabilidade solidária. Assim, entendeuse como não comprovada a existência de divergência jurisprudencial no que atine à matéria; Matéria "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 124, inciso I, do CTN": Concluiuse pela existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão paradigma nº 1101001.100. Já na análise do segundo paradigma, Acórdão nº 1101 001.239, verificouse que a decisão trata de interpretação dada ao art. 135, III, do CTN, e não ao art. 124, I, do mesmo Código (este dispositivo é abordado apenas em declaração de voto, Fl. 4961DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 29 28 que não se presta ao estabelecimento de divergência jurisprudencial apta a provocar a admissão de recursos especiais no âmbito do CARF). Todavia, por conta do primeiro acórdão paradigma, reconheceuse a existência de dissenso jurisprudencial; Matéria "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN": Decidiuse pela inexistência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os acórdãos paradigmas (exatamente os mesmos apontados no tópico anterior). Do cotejo entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 1101001.100, entendeuse que não havia similitude fática entre as situações contrapostas. No acórdão paradigma, o cancelamento da qualificação da multa de ofício, em razão da conclusão de que não teria havido a prática de crime contra a ordem tributária, automaticamente afastou a responsabilidade tributária fundada no art. 135, III, do CTN, enquanto a decisão recorrida manteve tanto a qualificação da multa de ofício quanto a responsabilidade motivada pelo art. 135, III, do CTN, em vista do dolo com que agiram os sócios controladores da contribuinte e do benefício patrimonial por eles obtido. Tampouco reconheceuse similitude fática entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 1101 001.239, segundo paradigma trazido pelos recorrentes. Na decisão recorrida, o Colegiado entendeu que a Fiscalização comprovou a ação dos sócios administradores em afronta à lei ou aos estatutos sociais da companhia, enquanto o paradigma considerou que tal prova não teria sido produzida pela Fiscalização; Matéria "impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício": Considerou se comprovada a divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois acórdãos paradigmas indicados pelos recorrentes (nº 910100.722 e nº 0203.133). Assim, foi dado seguimento parcial também aos recursos especiais manejados pelos responsáveis solidários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM. Os recursos foram admitidos em relação a todas as matérias contestadas, com exceção de duas: "necessidade de comprovação de dolo ou fraude pelas autoridades fiscais" e "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN". Devidamente cientificados dos despachos que deram seguimento parcial aos seus recursos especiais, os sujeitos passivos protocolaram, em 10/06/2016, de forma tempestiva e com fulcro no art. 71 do Anexo II do RICARF/2015 (com a redação dada pela Portaria MF nº 152, de 03/05/2016), agravos contra as partes dos despachos que negaram seguimento a algumas das matérias combatidas. A contribuinte CÁLAMO alegou, em seu agravo, resumidamente o seguinte: Para a configuração de dissídio jurisprudencial, o que se deve buscar entre os acórdãos recorrido e paradigma é a similaridade dos fatos ocorridos, e não a sua igualdade, ou seja, a completa identidade dos fatos/acontecimentos; No que diz respeito à matéria "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL", tanto o acórdão recorrido quanto os paradigmas nº 1201 001.237 e nº 10322.749 tratam da possibilidade de as despesas com amortização de ágio comporem ou não a base de cálculo da CSLL. O procedimento adotado pela autoridade fiscal no momento da autuação (glosa da despesa ou sua adição, a depender dos procedimentos formais de contabilização realizados pelos contribuintes), para fins de exigir a CSLL, não Fl. 4962DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 30 29 desnatura a existência de evidente similitude fática da matéria de fundo posta a julgamento e discutida em todos os casos; Neste caso, a divergência arguida diz respeito à interpretação da legislação que disciplina a base de cálculo da CSLL versus aquela relativa ao IRPJ. O que se discute é se a base de cálculo da CSLL é a mesma do IRPJ e, consequentemente, se a despesa correspondente ao ágio poderia deixar de ser adicionada ou mesmo excluída via LALUR da base de cálculo da CSLL, à luz da legislação que disciplina este tributo; O acórdão recorrido decidiu pela indedutibilidade, da base de cálculo da CSLL, dos encargos com amortização de ágio, entrando em clara divergência com os acórdãos paradigmas, que entenderam pela possibilidade de tal dedutibilidade, diante da inexistência de dispositivo legal que determinasse o contrário; Já em relação à matéria "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude", a divergência demonstrada pela contribuinte diz respeito à possibilidade de aplicação de multa qualificada mesmo sem a clara demonstração da prática de um ato ilícito, diante de situações fáticas muito semelhantes: operações societárias realizadas entre empresas de um mesmo grupo econômico, fundadas em laudo de avaliação não questionado e realizadas em conformidade com a legislação, que tiveram como um dos resultados a redução da carga tributária; A aventada divergência jurisprudencial adviria do fato de o acórdão recorrido ter mantido a qualificação da multa de ofício em razão de suposta redução de carga tributária enquanto os acórdãos nº 1302001.183 e nº 9101002.189, indicados como paradigmas, teriam sido claros ao exigir que a autoridade tributária informe, objetivamente, qual o ato ilícito que teria sido praticado pelo contribuinte. Assim, não importa se a qualificação da multa foi mantida com base em alegação da prática de simulação, de fraude, de sonegação, de conluio ou de outras patologias, mas simplesmente que nenhuma destas figuras foi comprovada no acórdão recorrido, que manteve a multa de ofício no percentual de 150% em razão de suposta vantagem econômica auferida pela agravante e seus acionistas, decorrente de redução da carga tributária. Ao final, a contribuinte pede que seu agravo seja provido a fim de reformar o despacho de admissibilidade de modo que se dê seguimento ao seu recurso especial também em relação às matérias "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL" e "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude". Os responsáveis solidários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM também apresentaram agravos, idênticos entre si, se insurgindo contra a negativa de seguimento aplicada a algumas das matérias constantes de seus recursos especiais. Em suma, alegaram o seguinte: Para a caracterização de divergência jurisprudencial, devese buscar entre os acórdãos recorrido e paradigma a similaridade dos fatos analisados, não a completa identidade entre eles; No que concerne à matéria "necessidade de comprovação de dolo ou fraude pelas autoridades fiscais", a divergência demonstrada pelos acionistas controladores da contribuinte diz respeito à possibilidade de configuração da prática de um ato ilícito em Fl. 4963DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 31 30 situações fáticas muito semelhantes: operações societárias realizadas entre empresas de um mesmo grupo, fundadas em laudo de avaliação não questionado e realizadas em conformidade com a legislação, que tiveram como resultados a redução da carga tributária para a empresa e benefícios econômicos para seus acionistas/sócios; A divergência jurisprudencial demonstrada pelos agravantes decorreria do fato de o acórdão recorrido ter convalidado a presença de dolo e fraude em razão de suposta vantagem econômica para a empresa (redução de carga tributária) e seus acionistas, sem a comprovação objetiva da prática de um ato ilícito, enquanto os acórdãos paradigmas nº 1302 001.183 e nº 9101002.189 teriam sido taxativos no entendimento de que a autoridade tributária deve informar, clara e objetivamente, qual o ato ilícito que teria sido praticado pelo contribuinte e seus gestores; Assim, não importa, para fins de caracterização de divergência, se a autoridade fiscal fundamentou a autuação na prática de simulação, de fraude, de sonegação, de conluio ou de outras patologias, mas simplesmente que houve divergência de posicionamento entre os acórdãos paradigmas (que exigem que qualquer destas figuras deve ser clara e objetivamente demonstrada) e o acórdão recorrido (que entendeu que a simples redução da carga tributária, provocada por atos em que atuaram efetivamente os acionistas/sócios da fiscalizada, e o consequente benefício econômico propiciado a estes mesmos acionistas/sócios poderiam caracterizar ato ilícito nos termos das patologias previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, apto a justificar a imputação de responsabilidade solidária); Em relação à matéria "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN", a divergência demonstrada pelos agravantes diz respeito à necessidade, para fins de atribuição da referida responsabilidade tributária às pessoas físicas gestoras da empresa fiscalizada, da indubitável indicação, pelas autoridades tributárias, da prática de atos que possam ser enquadrados como alguma das condutas tipificadas no dispositivo legal citado: excesso de poderes, infração à legislação societária ou ato contrário às disposições de contrato social ou estatuto da pessoa jurídica representada pela pessoa física responsabilizada; Em situações muito semelhantes (amortização de ágio, operações realizadas dentro de um mesmo grupo nos termos da lei, redução de carga tributária, responsabilidade de acionistas/diretores, aplicação de multa qualificada), os acórdãos paradigmas (nº 1101001.100 e nº 1101001.239) defendem que é obrigatória a indicação do ato caracterizador de excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, enquanto a decisão recorrida a teria considerado irrelevante. Os responsáveis tributários pedem, ao final, o provimento de seus agravos para fins de reforma dos despachos que analisaram a admissibilidade de seus recursos especiais e o consequente seguimento das matérias "necessidade de comprovação de dolo ou fraude pelas autoridades fiscais" e "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN". Os três agravos foram analisados por meio de despachos exarados em 15/07/2016. O despacho que examinou os argumentos trazidos pelo agravo da contribuinte CÁLAMO manteve a negativa de seguimento em relação à primeira matéria Fl. 4964DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 32 31 "barrada" no exame de admissibilidade de seu recurso especial: "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL". Concluiu o despacho, devidamente aprovado pelo Presidente da CSRF (nos termos do §5º do art. 71 do Anexo II do RICARF/2015), que, apesar de os acórdãos recorrido e paradigmas efetivamente discutirem a possibilidade de amortizar o ágio da base de cálculo da CSLL, o recorrido o faz à luz dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, enquanto os Acórdãos nº 1201001.237 e n° 10322.749 tratam de amortização promovida com fundamento no art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Assim, concluiuse que as controvérsias travadas nos processos não se resumiam ao art. 57 da Lei nº 8.981/1995, como alegado pela agravante, e decidiuse pela subsistência da negativa de seguimento do recurso quanto a este ponto. Já ao tratar da segunda matéria recursal a que se havia negado seguimento ("improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude"), o despacho reverteu a decisão tomada por ocasião da análise de admissibilidade do recurso especial da contribuinte. Considerouse devidamente caracterizada a divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e o paradigma nº 1302001.183, em razão de a decisão recorrida admitir a qualificação da multa de ofício diante de prática de atos com a intenção de reduzir a incidência tributária, ainda que não caracterizada a simulação, ao passo que o acórdão paradigma considera legítima tal intenção e defende o afastamento da multa qualificada frente à ausência de simulação nas operações ou de fraude nos documentos que deram suporte aos valores contabilizados. Apesar de considerar que o cotejo entre o acórdão recorrido e o Acórdão paradigma nº 9101002.189 realmente não demonstra a existência da divergência jurisprudencial alegada pela contribuinte (o primeiro enquadra a conduta verificada como fraude tipificada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, enquanto o segundo afasta a possibilidade de qualificação da multa de ofício em função de a "simulação" apontada no relatório fiscal não constar entre as hipóteses elencadas nos arts. 71 a 73 da mesma lei), o despacho concluiu por dar seguimento ao recurso especial quanto à matéria "improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude", em virtude da dissonância verificada frente ao primeiro paradigma reexaminado. Já os despachos que apreciaram os agravos interpostos pelos responsáveis solidários reformaram a negativa de seguimento anteriormente decidida em relação a ambas as matérias agravadas: "necessidade de comprovação de dolo ou fraude pelas autoridades fiscais" e "exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN". Quanto à primeira matéria, considerouse caracterizada a divergência jurisprudencial arguida entre o acórdão recorrido e o paradigma nº 1302001.183 porque, enquanto o primeiro admite a imputação de multa qualificada frente à prática de atos com a intenção de redução da carga tributária, mesmo que não verificada a simulação, o segundo reconhece como legítima a intenção de reduzir o pagamento de tributos e afasta a aplicação da multa qualificada por concluir que inexistiu simulação nas operações societárias ou fraude nos documentos que suportaram os valores contabilizados. O entendimento do despacho agravado de que inexistiria similitude fática entre a decisão recorrida e o segundo acórdão paradigma (nº 9101002.189) foi mantido. Ao tratar da segunda matéria a que o despacho agravado negara seguimento, os despachos que apreciaram os agravos dos acionistas controladores da empresa fiscalizada concluíram que tanto o acórdão recorrido quanto as decisões apontadas como paradigmas se Fl. 4965DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 33 32 debruçaram sobre contextos fáticos em que eram semelhantes: i) a estruturação das operações societárias.; ii) a motivação da qualificação da penalidade pela Fiscalização, decorrente de fraude; e iii) a imputação de responsabilidade aos sóciosgerentes por prática de atos fraudulentos, de acordo com o art. 135, III, do CTN. Apesar da similitude fática, os acórdãos teriam efetivamente alcançado conclusões distintas. A decisão recorrida, ao concluir que o intuito doloso requerido pelo art. 135, III, do CTN, para fins de responsabilização dos sócios administradores, estaria presente na redução indevida de tributos, sem substância econômica ou propósito negocial, adotou o mesmo entendimento expresso nos votos vencidos dos acórdãos paradigmas. Os votos vencedores de tais julgados, em sentido inverso, teriam entendido pelo descabimento da imputação de responsabilidade solidária (e de multa de ofício qualificada) nos casos concretos que analisaram. Após a análise dos agravos apresentados pelos sujeitos passivos e a definição acerca das matérias objetos dos recursos especiais que efetivamente teriam seguimento, o processo foi remetido à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) para fins de ciência dos recursos especiais e dos despachos que lhe examinaram a admissibilidade e de apresentação de contrarrazões às alegações recursais, de acordo com a previsão contida no art. 70 do Anexo II do RICARF/2015. Em resposta, a PGFN apresentou, tempestivamente, petição em que se refere às contrarrazões já opostas aos recursos voluntários anteriormente interpostos pelos sujeitos passivos, reiterandoas em sede de contrarrazões aos recursos especiais. Dessa forma, assim podem ser resumidas as alegações apresentadas pela PGFN que interessam à discussão travada nos recursos especiais: O auto de infração complementar lavrado pela Fiscalização é regular porque tratou de "incorreção" no lançamento original que levou a agravamento da exigência tributária inicial (previsão contida no art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/1972), inexistindo alteração de critério jurídico ou requalificação jurídica da conduta da contribuinte, vedadas pelo art. 146 do CTN; As Instruções Normativas CVM nº 319 e nº 349 não podem ser utilizadas para obstar a tributação da receita decorrente de reversão da provisão. A manobra contábil de constituir provisões e posteriormente revertêlas não impede a glosa fiscal porque o fato que originou a provisão (ágio cuja amortização é pretensamente dedutível) é artificial, fictício, fruto de planejamento tributário ilícito e abusivo; A reorganização societária promovida pelo grupo econômico da contribuinte teve como objetivo a criação de ágio fictício, sem qualquer propósito negocial ou substrato econômico a justificar sua existência. Sua amortização não pode, portanto, produzir despesas dedutíveis nos termos previstos pela legislação tributária; O ágio absorvido pela contribuinte após a cisão parcial da G&K não é dedutível para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, seja em razão dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), seja com base em qualquer outra norma legal; Fl. 4966DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 34 33 Para existir, o ágio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e um substrato econômico (transação comercial). Meros registros escriturais não podem ensejar o nascimento desta figura econômica e contábil; Por propósito negocial entendese a razão negocial que leva uma empresa a adquirir um investimento por valor superior àquele que originalmente custou ao alienante; O ágio deve ser originado em um negócio comutativo, onde as partes contratantes, independentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e obrigações correspondentes e proporcionais; A operação que dá origem ao ágio deve ainda ter substrato econômico, com o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e o respectivo ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição e, como consequência, em surgimento de ágio; A exigência do cumprimento de tais requisitos é reconhecida pela Comissão de Valores Mobiliários, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007; No caso das operações que envolveram o grupo econômico de que faz parte a contribuinte, de um ágio total de R$ 1.776.161.561,96 registrado na holding G&K, somente houve a insignificante circulação de riquezas de R$ 45.386.382,00, correspondente ao pagamento feito pelo investidor externo IGP que excedeu o valor patrimonial das ações adquiridas. Ou seja, apenas 2,64% do ágio registrado estaria amparado por substrato econômico; A visão geral da reestruturação societária do grupo BOTICÁRIO evidencia que seu resultado não fora a simples conformação das estruturas de capital e patrimonial, como alega a contribuinte, mas tão somente beneficiar indevidamente a CÁLAMO e as pessoas físicas controladoras do grupo, MIGUEL e ARTUR, com a amortização de ágio; Não é concebível que o próprio titular de um bem possa lhe atribuir valor superior ao de aquisição e com isso originar uma despesa que afete seu lucro tributável. No caso dos autos, a posição de "adquirente" e "alienante" no procedimento de incorporação das ações da contribuinte CÁLAMO eram ocupadas pelas mesmas pessoas (os dois sócios controladores do grupo, MIGUEL e ARTUR). Assim, descumpriuse mais um requisito para o surgimento de ágio passível de aproveitamento tributário: a independência entre as partes envolvidas; O "extratosférico" ágio que a contribuinte pretendeu amortizar não teve sua existência justificada por nenhuma efetiva aquisição de investimento. Assim, o dolo e o evidente intuito de fraude na conduta da contribuinte restaram demonstrados pela ausência de propósito negocial, pela inexistência de substrato econômico e pela constatação de que o único objetivo das operações societárias praticadas foi o de usufruir de um benefício fiscal indevido; A G&K atuou na reorganização societária como "empresa veículo". Foi constituída em 18/09/2006, incorporou a totalidade das ações das quatro empresas operacionais do grupo e, menos de 2 anos depois, desfez toda a estrutura montada; Fl. 4967DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 35 34 A contribuinte e seu grupo econômico sabiam desde o início que a G&K seria cindida e parcialmente incorporada pelas empresas operacionais do grupo. Assim, já era sabido que o investimento realizado no aumento de capital da G&K seria posteriormente extinto. Tal fato também comprova o evidente intuito fraudulento da atuação da contribuinte; No caso concreto, restou configurada a fraude porque a contribuinte, por meio de transações ardilosas, retardou parcialmente o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador de obrigação tributária. Por isso, a qualificação da multa de ofício é inevitável; A multa de ofício e a multa isolada são penalidades provocadas por infrações tributárias distintas. A multa de ofício possui o escopo de penalizar o contribuinte que omite rendimentos, enquanto a multa isolada pune o contribuinte que descumpre a sistemática de recolhimento mensal das estimativas de IRPJ e CSLL. Assim, a cobrança concomitante das duas multas não configura bis in idem, ainda que eventualmente elas possam ser calculadas sobre bases de cálculo coincidentes; A interpretação conjunta dos arts. 161, 113, §1º, e 139, todos do CTN, levam à indubitável conclusão de que a multa de ofício integra o crédito tributário, sobre o qual devem incidir juros de mora em caso de não pagamento integral no vencimento; Em relação à parcela do ágio que foi criada em 2003, por meio da operação de aumento de capital da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS via conferência de ações a valor reavaliado do SHOPPING ESTAÇÃO, aplicamse os mesmos impeditivos de aproveitamento tributário relacionados à primeira operação analisada: operações sem propósito negocial ou substrato econômico e praticadas entre empresas dependentes entre si. Aqui há ainda o agravante de que nenhum percentual do ágio, por menor que seja, foi amparado por efetivo ingresso de recursos no grupo econômico; Embora esta parcela do ágio tenha sido originalmente registrada na ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS em 2003, sua contabilização e posterior amortização pela contribuinte somente se deram no decorrer de 2007. Apenas a partir deste momento é que ocorreram os fatos geradores de IRPJ e CSLL objeto dos autos de infração integrantes deste processo. Assim, é completamente improcedente a alegação da contribuinte de que teria se operado a decadência/preclusão do direito do Fisco efetuar, em 2011, o lançamento referente ao aproveitamento tributário, ocorrido em 2007, do ágio criado em 2003; A exemplo do que ocorreu em relação ao ágio oriundo das operações celebradas entre a contribuinte e a holding G&K, também as operações que possibilitaram o posterior aproveitamento tributário do ágio gerado em 2003 foram encadeadas com o escopo principal de reduzir artificialmente a carga tributária. Assim, aplicável a multa de ofício qualificada sobre os créditos tributários lançados. Também é procedente a imputação de responsabilidade solidária aos acionistas da contribuinte, Senhores MIGUEL e ARTUR, instrumentalizada por meio do auto de infração complementar, tanto com base no art. 124, I, do CTN (interesse comum advindo do fato de que o planejamento tributário ilícito levado a efeito provocava aumento na distribuição de lucros aos acionistas) quanto no art. 135, III, do mesmo Código (os acionistas controlavam e administravam todas as empresas envolvidas nas operações caracterizadoras do planejamento tributário ilícito, que visavam à redução artificial da carga tributária, atuando de forma contrária à lei). Fl. 4968DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 36 35 Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento dos recursos especiais interpostos pela contribuinte e pelos dois responsáveis tributários solidários. É o relatório. Fl. 4969DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 37 36 Voto Voto vencido quanto ao auto de infração complementar Voto vencedor quanto às demais matérias Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Conforme relatado, tanto a contribuinte CÁLAMO quanto os responsáveis solidários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM contestaram vários pontos da decisão formada pela conjugação dos Acórdãos nº 1301001.744 e nº 1301 001.905. As matérias questionadas tiveram sua admissibilidade analisada por meio de despachos em 05/05/2016. Os recorrentes apresentaram agravos contra a negativa de seguimento imposta a algumas das matérias e tiveram seu pleito apreciado em novos despachos, exarados em 15/07/2016. Ao final de todo este processo, das oito matérias questionadas no recurso especial da contribuinte CÁLAMO, apenas uma teve efetivamente negado seu seguimento: dedutibilidade dos encargos com amortização de ágio na base de cálculo da CSLL. Dito de outra forma, seguiram para julgamento por esta CSRF as seguintes matérias: Nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento; Decadência do direito do Fisco de exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos da data do lançamento de ofício; Impossibilidade de tributação de receita de reversão de provisão; Dedutibilidade das despesas de amortização de ágio; Improcedência da qualificação da multa de ofício diante da ausência de comprovação de dolo e fraude; Impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada; Impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Já os responsáveis tributários MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM viram as cinco matérias objeto de seus recursos especiais alcançarem o seguimento almejado: Nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento; Necessidade de comprovação de dolo ou fraude por parte das autoridades fiscais; Exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 124, inciso I, do CTN; Exclusão da responsabilidade solidária fixada nos termos do art. 135, inciso III, do CTN; Fl. 4970DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 38 37 Impossibilidade de incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Não tendo sido apresentadas, pela PGFN, alegações preliminares de não conhecimento das peças recursais apresentadas pelos sujeitos passivos, adoto as razões expostas nos despachos que examinaram a admissibilidade dos recursos especiais, bem como nos despachos que analisaram os agravos interpostos, para deles CONHECER em relação aos temas acima relacionados. Existe, todavia, a necessidade de se delinear previamente a análise que será desenvolvida, em razão da repetição de matérias nos diferentes recursos especiais e da superposição temática existente entre alguns dos tópicos questionados. Assim, inicialmente serão analisadas as questões preliminares "nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento" e "decadência do direito do Fisco de exigir crédito tributário oriundo de negócio jurídico ou ato praticado há mais de cinco anos da data do lançamento de ofício". Finalizada a apreciação das preliminares, passarei à avaliação do principal ponto de controvérsia em relação ao mérito da lide: a discussão acerca da dedutibilidade das despesas de amortização de ágio. Em seguida, a questão relativa à "impossibilidade de tributação de receita de reversão de provisão" será examinada. Na hipótese de a preliminar relacionada à nulidade do auto de infração complementar não ser acolhida, as matérias que poderiam ser por ela prejudicadas serão apreciadas na sequência. Por fim, caso subsistam lançamentos tributários, o voto será finalizado com a avaliação das questões subsidiárias atinentes à impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada e ao descabimento da incidência de juros de mora sobre multa de ofício. 1) Preliminar de nulidade do auto de infração complementar por alteração do critério jurídico do lançamento Nos três recursos especiais juntados ao presente processo consta a alegação de que o auto de infração complementar teria sido lavrado com base em uma nova interpretação dos mesmos fatos já conhecidos por ocasião da primeira autuação e na requalificação jurídica da conduta da contribuinte, sem qualquer identificação de elemento ou fato novo ou de prova de dolo ou fraude que pudesse justificar a qualificação da multa de ofício e a imputação de responsabilidade solidária aos acionistas administradores da contribuinte. Assim, teria se operado inovação no critério jurídico original, em afronta aos arts. 146 e 149 do CTN. Além disso, defendem os recorrentes que seria igualmente inaplicável ao caso concreto o art. 18, §3º, do Decreto n° 70.235/1972, uma vez que a qualificação da multa e a responsabilização solidária não podem ser enquadradas como hipóteses de omissão, incorreção ou inexatidão requeridas pela norma. Diante disso, pleiteiase a declaração de nulidade do auto de infração complementar. Fl. 4971DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 39 38 Pois bem. Em virtude do pedido de declaração de nulidade, fazse relevante inicialmente o exame do art. 59 do Decreto n° 70.235/1972, diploma que estabelece as regras formais aplicáveis ao processo administrativo fiscal: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.” (...) O auto de infração pode ser enquadrado como um ato ou termo, razão pela qual submetese à regra prevista no primeiro inciso do dispositivo reproduzido. Assim, sua nulidade somente pode ser declarada se tiver sido lavrado por pessoa incompetente. No caso sob análise, é incontroverso que tal vício não verifica. A respeito de eventuais falhas que possam ser encontradas em atos e termos de processos administrativos fiscais e que não digam respeito à incompetência do agente, dispõe o art. 60 do mesmo Decreto nº 70.235/1972: Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio.” Portanto, verificase que o diploma legal que rege as regras processuais tributárias é explícito ao declarar que irregularidades, incorreções e omissões não mencionadas no seu art. 59 não importarão na nulidade dos respectivos atos processuais. O CTN, no entanto, ao fixar os requisitos formais indispensáveis ao lançamento tributário, estabeleceu de forma indireta mais uma hipótese de nulidade específica para o auto de infração: a inobservância dos pressupostos mencionados em seu art. 142: Art. 142 Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito Tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional.” Afora estas duas únicas hipóteses de nulidade do auto de infração estabelecidas pela legislação, os demais vícios e falhas são passíveis de saneamento. Uma das possibilidades de saneamento vem descrita no §3º do art. 18 do Decreto nº 70.235/1972: “Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar Fl. 4972DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 40 39 prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (...) § 3º. Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) A legislação ampara expressamente, portanto, o procedimento adotado nos presentes autos. Constatada, por ocasião de exame posterior à lavratura do auto de infração originário, incorreção ou omissão cujo reparo resulta em agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, foi lavrado auto complementar para corrigila e abriuse novo prazo para os sujeitos passivos impugnassem a matéria modificada. A lavratura de auto de infração complementar é procedimento regular, legal, vinculado e obrigatório. Verificando, em auto de infração regularmente lavrado, incorreções, omissões ou inexatidões que destoem da legislação tributária, a autoridade fiscal deve promover ou determinar o aperfeiçoamento do lançamento por meio da lavratura de auto de infração complementar, desde que ainda não tenha se operado a decadência tributária em relação ao período de apuração a que se refira o lançamento. Assim, não houve no caso sob análise qualquer irregularidade ou afronta ao art. 146 do CTN. Este dispositivo veda a alteração do critério jurídico aplicado no primeiro lançamento ou, dito de outra forma, a requalificação jurídica da conduta dos sujeitos passivos. Nos presentes autos, houve mero apontamento, pela autoridade julgadora de primeira instância, de incorreção ou omissão no primeiro lançamento, devidamente corrigida por meio de lavratura de auto complementar. Diante do exposto, entendo que não há motivos para declaração de nulidade do auto de infração complementar lavrado pela Fiscalização, razão pela qual voto por NEGAR PROVIMENTO aos recursos especiais da contribuinte e dos responsáveis solidários relativamente a esta alegação preliminar. 2) Preliminar de decadência em relação aos efeitos do ágio gerado em 2003 A contribuinte, em seu recurso especial, alega que o Fisco estaria impedido de questionar, no ano de 2011, a legalidade de ato societário praticado em 2003, em razão de tal operação já ter se consumado no tempo por conta do decurso do prazo decadencial. O ato societário em questão foi o aumento de capital da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, por meio da conferência de ações do SHOPPING ESTAÇÃO, a valor superior ao patrimonial, em 28/11/2003. Ambas as empresas eram controladas por MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, mesmos sócios da contribuinte. Fl. 4973DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 41 40 Embora os lançamentos tributários relacionados ao ágio gerado nesta operação tenham se referido ao anocalendário 2007, período em que a contribuinte recorrente deduziu do lucro real e da base de cálculo da CSLL valores que a Fiscalização entendeu como indedutíveis, o recurso especial defende que a utilização fiscal do ágio nestes anos foi mero efeito dos atos negociais perpetrados em 2003. Assim, postula a recorrente o reconhecimento da decadência/preclusão do direito do Fisco de questionar a legalidade de atos praticados em período já alcançado, no momento da autuação, pelo prazo decadencial de cinco anos previsto no art. 150, §4º, do CTN. Argumenta que os registros contábeis referentes aos atos societários praticados em 2003 já eram desde então de conhecimento do Fisco, que já poderia ter questionado sua adequação para ensejar repercussões tributárias futuras. Inicialmente, julgo relevante avaliar a adequação da utilização, pela contribuinte recorrente, do termo "preclusão" como sendo equivalente à decadência. A preclusão é um instituto eminentemente processual e consiste na impossibilidade, ou perda da faculdade, de praticar determinado ato em um processo. Tal impossibilidade pode decorrer do esgotamento do tempo hábil para a prática do ato processual (preclusão temporal), da prática anterior do próprio ato (preclusão consumativa) ou ainda de já se ter praticado ato incompatível com ele (preclusão lógica). Portanto, concluise que não há como falar em preclusão no âmbito da atividade de fiscalização tributária do Estado. O procedimento fiscal tem caráter inquisitório até a constituição do crédito tributário e a devida ciência do sujeito passivo. Antes da lavratura dos autos de infração, não há contraditório e não há devido processo legal. Não havendo processo, não se pode falar em faculdade de se praticar determinado ato processual ou na sua preclusão. A preclusão temporal não se confunde com o prazo decadencial para constituição de créditos tributários. Dentro do prazo estabelecido pela lei (art. 150, §4º, ou art. 173, inciso I, ambos do CTN), a Administração Tributária pode praticar e refazer quantas vezes forem necessárias os atos necessários ao lançamento tributário. Não existe previsão legal de preclusão de atos fiscalizatórios. De toda forma, como o instituto foi utilizado, no recurso especial da contribuinte, praticamente como sinônimo de decadência e a alegação relativa a esta será analisada em seguida, as considerações ora expostas não importam em prejuízo algum para a recorrente. O instituto da decadência tributária visa a limitar, no tempo, o direito do Fisco de constituir créditos tributários por meio do lançamento, sendo regido pelos arts. 173 e 150 do CTN. O primeiro dispositivo traz, em seu inciso I, a regra geral da decadência, que reza que o direito da Fazenda Pública de constituir o crédito tributário se extingue com o esgotamento do prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento tributário poderia ter sido efetuado. Já o §4º do art. 150 prevê a regra a que se submetem os tributos sujeitos ao lançamento por homologação: se a Fazenda Pública não se pronunciar em cinco anos a partir da ocorrência do fato gerador do tributo, o lançamento é homologado e o respectivo crédito, extinto. In verbis: Fl. 4974DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 42 41 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. (...) Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Observase que os dois dispositivos têm algo em comum: ambos baseiamse no fato gerador dos tributos para estabelecer o marco temporal inicial da contagem do prazo decadencial. No caso do art. 173, inciso I, a contagem se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a autoridade tributária já poderia ter realizado o lançamento, motivado, logicamente, pela verificação do fato gerador. Já na previsão contida no §4º do art. 150, a própria ocorrência do fato gerador inaugura o decurso do prazo decadencial. Os presentes autos tiveram origem em autos de infração referentes a dois tributos: IRPJ e CSLL. Observese o que a legislação específica estabelece para tais tributos: Decreto nº 3.000, de 26/03/1999 (Regulamento do Imposto de Renda) Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. (...) Lei nº 7.689, de 15/12/1988 Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. Fl. 4975DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 43 42 a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: (...) O fato gerador do IRPJ é, portanto, a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza. Já o fato gerador da CSLL, embora o dispositivo legal não seja explícito a este respeito, é a ocorrência de resultado ajustado positivo no exercício financeiro, antes da provisão para o imposto de renda. Assim, só há sentido em se discutir decadência de lançamento relativo ao IRPJ e à CSLL a partir do momento em que ocorrem tais fatos geradores, por determinação expressa dos arts. 150, §4º, e 173, inciso I, do CTN. A recorrente defende a tese de que a contagem do prazo decadencial se iniciaria com a operação societária ocorrida em 2003, ou com o registro do ágio decorrente de tal operação na contabilidade da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, ou ainda com a entrega ao Fisco das informações atinentes a tal contabilização. Segundo a teoria exposta, feitos os registros contábeis referentes aos atos societários que deram origem ao ágio, se estes não forem contestados pela Administração Tributária dentro de cinco anos, receberiam uma espécie de "homologação tácita" e seu aproveitamento fiscal estaria autorizado, também de forma tácita. Não existe fundamento jurídico que possa sustentar a tese desenvolvida pela recorrente. O instituto da decadência tributária tem o nobre propósito de evitar surpresas na relação entre contribuintes e Estado, homenageando o princípio da segurança jurídica. Todavia, ele não existe de forma independente, desvinculada dos fatos geradores dos tributos. Não é razoável cogitarse da existência de decadência para cada ato societário, cada registro contábil, cada transação realizada. Tais eventos indubitavelmente fazem parte da rotina das pessoas jurídicas, mas somente quando implicam na ocorrência do fato gerador de um tributo específico é que se pode falar em início da contagem de prazo decadencial. O simples registro do ágio na contabilidade da ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS (por ocasião da integralização do aumento de seu capital social via convenção das ações do SHOPPING ESTAÇÃO) ou nas contas da própria recorrente (após esta ter incorporado a ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS) não poderia ser objeto de glosa ou de lançamento tributário por parte da autoridade fiscalizadora. A presença do ágio nos livros contábeis não provoca redução de crédito tributário, majoração de prejuízo fiscal ou causa para lançamento de multa isolada. Assim, não havia obrigação de atuação por parte do Fisco que pudesse provocar a fluência de prazo decadencial contra ele. O que os arts 385 e 386 do RIR/1999 prevêem é que a pessoa jurídica que incorporar outra em que detenha participação societária (ou for por ela incorporada), com a contabilização de ágio fundamentado na expectativa de resultados futuros, passa a ter um Fl. 4976DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 44 43 potencial direito de, no futuro, caso sejam cumpridos os demais requisitos exigidos pela legislação, usufruir da possibilidade de utilização das despesas decorrentes da amortização de tal ágio como deduções na apuração do IRPJ e da CSLL devidos. Algo semelhante se dá em relação à teórica possibilidade de utilização de ágio contabilizado anteriormente para fins de integração ao valor contábil de participação societária alienada ou liquidada no futuro, conforme previsão do art. 426 do RIR/1999. Somente quando o contribuinte faz uso destes direitos que entende lhe caberem, é que surge a obrigação da autoridade tributária de verificar a correção dos procedimentos adotados e dos valores apurados a título de IRPJ e de CSLL. Se os tributos forem apurados de forma incorreta, a valor menor, em razão da utilização de ágio tributariamente imprestável ou do não cumprimento de todas as exigências legais, passa a existir um fato que demanda a atuação do Fisco. Somente a partir do momento em que ocorrem os fatos geradores destes tributos, portanto, é que se passa a discutir decadência. O prazo decadencial aplicável a esta hipótese delimita o tempo de que o Fisco dispõe para averiguar a utilização, pelos contribuintes, do ágio, contabilizado em anos anteriores, para fins de redução dos tributos relativos aos anos posteriores. No caso da presente lide, os créditos tributários lançados referemse ao anocalendário 2007 (a parte que tem relação com o ágio originado em 2003). Assim, se considerarmos aplicável ao caso o §4º do art. 150 do CTN (hipótese mais benéfica à recorrente), a autoridade tributária teria até o fim do ano de 2012 (cinco anos contados dos fatos geradores dos tributos) para verificar a utilização do ágio na apuração dos tributos relativos a 2007, homologando sua utilização ou glosando as parcelas dela decorrentes. Como a ciência da contribuinte a respeito das mencionadas glosas se deu em 2011, nenhuma irregularidade é identificada na atuação estatal. Além disso, registrese que a atuação do Fisco pode desconstituir a utilização fiscal do ágio, caso as condições legais estabelecidas pelos arts. 385, 386 ou 426 do RIR/1999 não tenham sido cumpridas, mas não a sua contabilização. O ágio contábil permanece na escrituração dos contribuintes, fato que reforça a ideia de que a atuação da autoridade tributária não afeta, efetivamente, fatos ocorridos e já alcançados pela decadência, mas apenas seus efeitos verificados em anos ainda não decaídos. O entendimento exposto neste voto é corroborado pela Lei nº 9.430/1996, na parte em que dispõe a respeito da obrigação de guarda de documentos pelos sujeitos passivos: Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. Ao determinar que os comprovantes de escrituração relativos a fatos que repercutam no futuro devem ser guardados pelos sujeitos passivos até o momento em que se opere a decadência do direito de constituição dos créditos tributários relativos a estes exercícios (os futuros), a legislação explicita que os fatos comprovados pela documentação não inauguram a contagem do prazo decadencial, mas sim os fatos geradores dos tributos que devem ser apurados e recolhidos nos exercícios posteriores. O CARF já teve oportunidade de se pronunciar acerca da tese apresentada pela recorrente. Em recente julgamento de recurso voluntário nos autos do processo nº 10183.723840/201320, a 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara apreciou alegação exatamente Fl. 4977DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 45 44 igual à levantada no recurso especial sob análise. No Acórdão nº 1301002.019, restou assim ementada a decisão relativa a tal discussão: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TERMO INICIAL. Em relação à decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da amortização. Isso porque o valor amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Do voto que prevaleceu em relação a esta matéria naquele julgamento, reproduzse o excerto: "Como preliminar, inicialmente, a recorrente insurgese contra a decisão da Turma Julgadora a quo que decidiu no sentido de que o termo inicial para a contagem do prazo decadencial seria contado a partir do início da sua amortização (anocalendário 2009) e não quando da apuração do ágio (ano calendário 2007). Com relação a decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da sua amortização. Isso porque o valor amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Assim, o prazo decadencial deve ter como referência o período de apuração onde tenha ocorrido a amortização/dedução. No caso sob exame, a amortização iniciouse no anocalendário de 2009, como a ciência dos autos deuse em 24/09/2013, rejeito a preliminar da decadência conforme suscitada." (grifouse) Diante de tudo o que foi exposto, entendo que não existe decadência a afetar o lançamento dos créditos tributários objeto dos presentes autos. Os autos de infração foram lavrados em 2011, tendo por base fatos geradores de IRPJ e de CSLL ocorridos em 2007, não o ágio registrado em 2003. Assim, relativamente à alegação preliminar de decadência, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte. 3) Aspectos relativos ao ágio interno e seus reflexos tributários O ponto central do debate desenvolvido ao longo destes autos diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela recorrente (e condenado pela Fiscalização) de Fl. 4978DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 46 45 promover, nos anoscalendário de 2007 a 2009, o aproveitamento tributário de ágio registrado em sua contabilidade. O presente processo tratou de aproveitamento tributário de ágios gerados em duas cadeias distintas de operações societárias. Ambas envolveram a contribuinte recorrente CÁLAMO e empresas a ela relacionadas. Em 28/11/2003, a empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, que tinha como acionistas controladores MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, teve seu capital aumentado e integralizado pela entrega de ações, a valor superior ao patrimonial, do SHOPPING ESTAÇÃO, controlado pelos mesmos sócios majoritários da primeira pessoa jurídica. Tal operação provocou, na ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, o registro de ágio de R$ 1.168.982,33. A contribuinte, que também é controlada majoritariamente por MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, incorporou a ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS em 01/09/2006 e trouxe para sua contabilidade o ágio registrado na empresa incorporada. Já em 02/05/2007, foi a vez do SHOPPING ESTAÇÃO ser incorporado pela contribuinte. Por conta do encerramento das atividades do SHOPPING ESTAÇÃO, a contribuinte apurou perda de capital correspondente à diferença entre o valor contábil de seu investimento (incluindo aí o ágio de R$ 1.168.982,33) e o valor do acervo líquido incorporado. Com este fundamento, promoveu, em maio de 2007, diretamente no seu LALUR, a exclusão do valor total deste ágio. Além deste primeiro ágio, cuja utilização afetou o resultado tributável da contribuinte no anocalendário 2007, houve ainda o aproveitamento tributário, nos anos calendário 2008 e 2009, de uma segunda parcela de ágio, oriunda de outro processo de reorganização societária. Tal processo teve início quando, em 18/12/2006, a contribuinte tornouse subsidiária integral da holding G&K, empresa que havia sido criada poucos meses antes pelas mesmas pessoas físicas que controlavam a CÁLAMO. Todas as suas ações foram incorporadas pela G&K por valor reavaliado superior ao patrimonial, o que provocou o registro de ágio, na holding, no valor de R$ 1.011.690.937,33. Posteriormente, em 03/11/2008, a G&K sofreu cisão parcial seletiva e 99% das ações da contribuinte foram por ela incorporadas, juntamente com 99% do correspondente saldo restante do ágio originalmente registrado (R$ 972.017.437,44). Assim, a partir de novembro de 2008, a contribuinte recorrente passou a promover o aproveitamento fiscal do ágio, excluindo mensalmente de seu LALUR parcelas equivalentes a despesas de sua amortização e reduzindo os valores de IRPJ e de CSLL devidos ao Fisco, sob a alegação de que tal procedimento estaria amparado pelo art. 386 do RIR/1999. Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Fl. 4979DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 47 46 Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): Fl. 4980DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 48 47 I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado Fl. 4981DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 49 48 o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 4982DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 50 49 I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Fl. 4983DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 51 50 Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 4984DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 52 51 Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 4985DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 53 52 art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário Fl. 4986DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 54 53 subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. Fl. 4987DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 55 54 O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 4988DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 56 55 jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária Fl. 4989DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 57 56 adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 4990DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 58 57 futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi Fl. 4991DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 59 58 de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que as parcelas de ágio que a contribuinte pretendeu aproveitar tributariamente tiveram origem em operações que envolveram a recorrente CÁLAMO e outras empresas a ela relacionadas, todas controladas direta ou indiretamente pelas pessoas físicas MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM. O ágio cujas despesas de amortização foram utilizadas como deduções do lucro tributável nos anoscalendário de 2008 e 2009 surgiu na operação de incorporação das ações da contribuinte CÁLAMO pela holding G&K, ocorrida em 18/12/2006. O valor reavaliado de tais ações ultrapassou seu valor contábil, o que levou ao registro, na incorporadora, de ágio no valor de R$ 1.011.690.937,33. Com a cisão parcial e seletiva da holding G&K em 03/11/2008, 99% das ações da CÁLAMO retornaram ao seu patrimônio, juntamente com a parcela proporcional do saldo de ágio no valor de R$ 972.017.437,44. De posse de tal ágio, a contribuinte passou a excluir diretamente de seu LALUR parcelas mensais equivalentes às despesas de sua amortização, sob o argumento de que sua situação amoldavase à previsão legal abrigada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e pelos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Ocorre que tal entendimento não tem amparo legal nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. No caso dos autos, é incontroverso que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, nas operações que originaram o ágio de R$ 1.011.690.937,33. Este número adveio simplesmente da diferença entre a reavaliação encomendada pelos controladores da recorrente e o valor nominal de suas ações que foram incorporadas pela holding G&K. Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os Fl. 4992DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 60 59 contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a operação de aproveitamento tributário do ágio por meio da exclusão de valores correspondentes às despesas de sua amortização, promovida pela contribuinte recorrente, não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliação do valor de mercado das ações da contribuinte CÁLAMO, posteriormente incorporadas pela holding G&K, não tendo sido verificado dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. O ágio inicialmente contabilizado pela holding G&K e posteriormente incorporado pela recorrente CÁLAMO foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isto só foi possível porque a CÁLAMO e a holding G&K pertenciam ao mesmo grupo econômico, tendo exatamente os mesmos acionistas controladores: MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de ambos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas integrarem um mesmo grupo econômico adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar ambas as partes. A recorrente defende que teria havido, no caso concreto, a participação de terceiros independentes (sem relação societária com as empresas controladas por MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM) na operação que culminou no surgimento do ágio de R$ 1.011.690.937,33, o que contradiria a teoria do Fisco de que tratase de ágio interno imprestável para fins fiscais. Fl. 4993DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 61 60 Ela se refere ao fundo de investimento IGP, que, na mesma data em que a G&K incorporou a integralidade das ações das empresas operacionais do grupo econômico (18/12/2006), integralizou aumento de capital daquela holding por meio do pagamento de R$ 50.000.000,00, dos quais R$ 4.613.618,00 foram destinados ao capital social da empresa (houve subscrição de 4.613.618 novas ações ordinárias ao valor unitário de R$ 1,00) e R$ 45.386.382,00 foram utilizados para constituição de reserva de capital. Segundo a tese da recorrente, o investidor externo somente teria aceitado realizar o aporte de recursos na holding do grupo BOTICÁRIO por concordar com os valores pelos quais foram reavaliadas as ações das empresas operacionais do grupo, entre elas a CÁLAMO. Assim, a operação responsável pela geração do ágio teria a participação de terceiro independente a lhe garantir a isenção necessária no tocante aos valores praticados. A tese da recorrente, embora seja interessante, não prospera. De início, identificase um claro descompasso quantitativo na justificativa apresentada. O montante despendido pelo IGP que ultrapassou o valor nominal das ações integralizadas na holding G&K foi de R$ 45.386.382,00. Já o ágio contabilizado na G&K por ocasião da incorporação das ações reavaliadas da recorrente CÁLAMO e das demais empresas operacionais do grupo econômico (BOTICA COMERCIAL FARMACÊUTICA S.A., O BOTICÁRIO FRANCHISING S.A. e EMPRESA BRASILEIRA DE LOGÍSTICA S.A.) totalizou R$ 1.776.161.561,96. Não se pode admitir que o desembolso realizado por um investidor externo justifique a criação de ágio quase quarenta vezes (!) maior. Além disso, o valor pago a maior pelo fundo de investimento IGP somente poderia repercutir em sua própria contabilidade, caso este se tratasse de uma pessoa jurídica. O montante que ultrapassou o valor nominal das ações integralizadas da holding G&K poderia ser, nesta situação hipotética, contabilizado como ágio e posteriormente aproveitado tributariamente, caso se verificasse a confusão patrimonial exigida pelo art. 386 do RIR/1999. Portanto, quanto ao aproveitamento tributário do ágio de R$ 972.017.437,44 (99% do saldo restante, em 03/11/2008, do ágio original de R$ 1.011.690.937,33), pretendido pela recorrente CÁLAMO, considero que andou bem a Fiscalização ao não permitilo e ao determinar as respectivas glosas. Conforme se verificou, tratase de ágio interno, criado de forma artificial em operações meramente contábeis realizadas entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, imprestável, portanto, para fins de utilização tributária. Melhor sorte não cabe ao outro procedimento fiscal adotado pela contribuinte e igualmente condenado pela Fiscalização. Conforme já se descreveu, ocorreu em 28/11/2003 uma operação de aumento do capital social da empresa ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, integralizado pelos seus acionistas controladores MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM por meio da conferência de ações que detinham junto ao SHOPPING ESTAÇÃO. Como as ações conferidas haviam sofrido reavaliação, foram recebidas por valor superior ao contábil, o que provocou o registro de ágio no valor de R$ 1.168.982,33 na ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS. A contribuinte CÁLAMO incorporou a ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS em 01/09/2006 e o SHOPPING ESTAÇÃO em 02/05/2007. Como os ativos desta última empresa haviam sido vendidos por seus acionistas em 28/02/2007, o patrimônio que foi Fl. 4994DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 62 61 incorporado pela recorrente constituíase basicamente de disponibilidades, créditos entre empresas e impostos diferidos. Assim, a recorrente afirma que apurou perda de capital com o encerramento das atividades do SHOPPING ESTAÇÃO, em razão de o valor de seu acervo líquido incorporado ser inferior ao valor contábil de seu investimento (aí incluso o ágio de R$ 1.168.982,33). Apontando como justificativa a alegada perda de capital, a recorrente excluiu, em maio de 2007, diretamente do resultado apurado em seu LALUR, o valor total do ágio. Muito bem. Inicialmente, registrese que a contribuinte CÁLAMO não indicou, em seu recurso especial, qual seria o dispositivo legal que ampararia o procedimento que adotou. Deuse a incorporação de duas empresas: uma controladora A e uma controlada B, sendo que a primeira registrava ágio relacionado à aquisição das ações da segunda. A pessoa jurídica que incorporou ambas as empresas encerra as atividades da controlada B e compara os valores de seu acervo líquido incorporado (já desprovido de imóveis e equipamentos, vendidos antes da incorporação) e do seu investimento (ao qual se agrega o ágio registrado na controladora A). Por fim, apurando perda de capital decorrente de tal confronto de valores, exclui diretamente do resultado do exercício o valor do ágio que julga integrado ao valor contábil da empresa encerrada B. A recorrente pode ter considerado que o aproveitamento tributário do ágio de R$ 1.168.982,33 estaria autorizado pelo art. 386 do RIR/1999 (em razão de verificar, em seu patrimônio, a confusão patrimonial entre o ágio e a participação societária cuja aquisição o originou), a exemplo do que ocorreu em relação à parcela de ágio que pretendeu utilizar nos anoscalendário de 2008 e 2009. Mas tal interpretação deveria levar à conduta de aproveitar o ágio em parcelas mensais (mínimo de 60), conforme determina o inciso III daquele dispositivo legal. E não foi assim que procedeu a contribuinte, uma vez que, como já foi mencionado, excluiu o valor do ágio de seu LALUR em parcela única, em maio de 2007. Além disso, o ágio constituído em 2003 referiuse à avaliação do valor de mercado das ações do SHOPPING ESTAÇÃO, que não se baseou na rentabilidade futura esperada da empresa. Assim, também nos termos do inciso III do art. 386 do RIR/1999, tal ágio não poderia ser aproveitado por meio da dedução das despesas decorrentes de sua amortização. Sendo assim, o mais provável é que a contribuinte tenha julgado que seu caso se enquadraria na hipótese prevista no art. 426 do RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; Fl. 4995DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 63 62 III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Ocorre que, a exemplo do que se verificou em relação à aplicabilidade dos arts. 385 e 386 do RIR/1999 (reproduções do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1977), também a regra insculpida no art. 426 do RIR/1999 (cópia do art. 33 do DecretoLei nº 1.598/1977, na redação vigente à época) exige a existência de ágio real, surgido em operações dotadas de propósito negocial e substrato econômico. Conforme já se expôs neste voto, só se pode cogitar de aproveitamento tributário de ágio que seja real. E o ágio só é real a partir do momento em que uma pessoa jurídica ou física investidora se dispõe a pagar pelo sobrepreço. O "pagamento do sobrepreço" aqui referido não tem que se dar necessariamente por meio do desembolso de valores monetários, mas exigese a existência de alguma operação que gere ganhos para o alienante e gastos proporcionais para o adquirente. Em outras palavras, exigese a ocorrência de variações patrimoniais para os envolvidos, em valores condizentes com o negócio celebrado. No caso analisado nos autos, as ações do SHOPPING ESTAÇÃO, de propriedade de MIGUEL GELLERT KRIGSNER e ARTUR NOEMIO GRYNBAUM, tiveram seu valor reavaliado e foram utilizadas para fins de integralização do aumento do capital social da ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS, controlada pelos mesmos sócios. Na operação, surgiu o registro de ágio no valor de R$ 1.168.982,33. Ou seja, o ágio inicialmente registrado na ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS e posteriormente incorporado pela recorrente CÁLAMO foi criado sem troca alguma de riquezas entre adquirente e alienante. Tratouse de um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. A exemplo do que se verificou a respeito da outra parcela de ágio fiscalmente utilizada pela recorrente, esta operação também só foi possível em razão dos laços societários que uniam as empresas envolvidas: ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS e o SHOPPING ESTAÇÃO. O ágio surgiu de forma artificial, em ambiente em que não imperava a livre concorrência. Por meio de uma ação determinada unicamente por elas, as pessoas físicas sócias controladoras das empresas envolvidas converteram um direito seu em outro, de maior valor (continuaram tendo o controle, direto ou indireto, da ESTAÇÃO EMPREENDIMENTOS e do SHOPPING ESTAÇÃO, "turbinado" por um ágio milionário). Assim, não há que se cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos sócios controladores de uma empresa, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). Portanto, concluise que tanto o ágio de R$ 1.011.690.937,33 (utilizado pela contribuinte para reduzir as bases de cálculo de IRPJ e CSLL de 2008 e 2009) quanto o de R$ 1.168.982,33 (aproveitado para apuração de perda de capital no ano de 2007) foram gerados de forma artificial por meio de operações celebradas entre partes vinculadas entre si e são imprestáveis para fins tributários. Fl. 4996DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 64 63 Este entendimento é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operações societárias envolvendo empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Fl. 4997DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 65 64 Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, aos períodos em que o grupo econômico a que pertence a recorrente praticou as operações societárias que pretensamente originaram ágio passível de aproveitamento tributário (2003 e 2006). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do Oficio Circular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à Fl. 4998DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 66 65 impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Diante de todo o exposto, concluise que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas no interior de um grupo econômico e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para este instituto, forçoso se faz concluir pela inutilidade do denominado "ágio interno" para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Diante do exposto, relativamente ao pedido de reconhecimento da legitimidade do aproveitamento tributário de ágio gerado internamente, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte. 4) Tributação de receitas de reversão de provisão O recurso especial da contribuinte CÁLAMO afirma que a Fiscalização se equivocou ao tributar a reversão da provisão relativa ao ágio, constituída em conformidade com as Instruções CVM nº 319 e nº 349, ao invés da amortização do ágio em si. Desta forma, no que diz respeito aos anoscalendário de 2008 e 2009, teria se verificado dupla tributação, uma vez que a despesa relativa à constituição da provisão já havia sido adicionada ao resultado tributável da holding G&K em 18/12/2006. Defende a recorrente que teria ocorrido evidente erro no enquadramento legal e na descrição dos fatos que fundamentaram o lançamento: a infração apontada pela Fiscalização, relativa a exclusões não autorizadas na apuração do lucro real, estaria equivocada. As exclusões promovidas pela recorrente seriam regulares e teriam o objetivo de manter a neutralidade tributária em relação à constituição da provisão e à sua posterior reversão. No primeiro momento, as despesas decorrentes da constituição da provisão foram adicionadas ao lucro líquido por serem indedutíveis; já na respectiva reversão, as receitas efetivamente devem ser excluídas do resultado tributável, mantendose toda a operação neutra do ponto de vista tributário. Com base em tais alegações, a recorrente pede o cancelamento dos créditos tributários relativos aos anos de 2008 e 2009. Fl. 4999DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 67 66 Inicialmente, para analisar as alegações da recorrente julgo ser relevante uma breve análise acerca das Instruções CVM nº 319/1999 e nº 349/2001 (a segunda promoveu alterações na primeira), que dispõem sobre as operações de incorporação, fusão e cisão envolvendo companhias abertas. O art. 6º da Instrução CVM nº 319 trata dos ajustes contábeis necessários em relação ao ágio ou deságio resultante da aquisição do controle da companhia aberta que vier a incorporar sua controladora: DO TRATAMENTO CONTÁBIL DO ÁGIO E DO DESÁGIO Art. 6º O montante do ágio ou do deságio, conforme o caso, resultante da aquisição do controle da companhia aberta que vier a incorporar sua controladora será contabilizado, na incorporadora, da seguinte forma: (...) III em conta específica do ativo diferido (ágio) ou em conta específica de resultado de exercício futuro (deságio) – quando o fundamento econômico tiver sido a expectativa de resultado futuro (Instrução CVM nº 247/96, art. 14, § 2º, alínea ‘a’). § 1º. O registro do ágio referido no inciso I deste artigo terá como contrapartida reserva especial de ágio na incorporação, constante do patrimônio líquido, devendo a companhia observar, relativamente aos registros referidos nos incisos II e III, o seguinte tratamento: a) constituir provisão, na incorporada, no mínimo, no montante da diferença entre o valor do ágio e do benefício fiscal decorrente da sua amortização, que será apresentada como redução da conta em que o ágio foi registrado; b) registrar o valor líquido (ágio menos provisão) em contrapartida da conta de reserva referida neste parágrafo; c) reverter a provisão referida na letra ‘a’ acima para o resultado do período, proporcionalmente à amortização do ágio; e d) apresentar, para fins de divulgação das demonstrações contábeis, o valor líquido referido na letra ‘a’ no ativo circulante e/ou realizável a longo prazo, conforme a expectativa da sua realização. § 2º. A reserva referida no parágrafo anterior somente poderá ser incorporada ao capital social, na medida da amortização do ágio que lhe deu origem, em proveito de todos os acionistas, excetuado o disposto no art. 7º desta Instrução. § 3º. Após a incorporação, o ágio ou o deságio continuará sendo amortizado observandose, no que couber, as disposições das Instruções CVM nº 247, de 27 de março de 1996, e nº 285, de 31 de julho de 1998. (grifouse) O art. 6º da Instrução CVM nº 319 foi transcrito acima já contemplando as alterações de redação que sofreu por força da Instrução CVM nº 349. Esta segunda Instrução CVM trouxe Nota Explicativa que continha os seguintes esclarecimentos a respeito das alterações promovidas: “A Instrução CVM nº 319/99, ao prever que a contrapartida do ágio pudesse ser registrada integralmente em conta de reserva especial (art. 6º, § 1º), Fl. 5000DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 68 67 acabou possibilitando, nos caso de ágio com fundamento econômico baseado em intangíveis ou em perspectiva de rentabilidade futura, o reconhecimento de um acréscimo patrimonial sem a efetiva substância econômica. A criação de uma sociedade com a única finalidade de servir de veículo para transferir, da controladora original para a controlada, o ágio pago na sua aquisição, acabou por distorcer a figura da incorporação em sua dimensão econômica. Esta distorção ocorre em virtude de que, quando concluído o processo de incorporação da empresa veículo, o investimento e, conseqüentemente, o ágio permanecem inalterados na controladora original. Por outro lado, a criação da empresa veículo e a transferência, para esta, do investimento original e, também, do ágio permitiram que, através desse modelo de incorporação, houvesse a possibilidade do seu aproveitamento fiscal, fazendo surgir, contabilmente, uma espécie de crédito tributário fundamentado na diminuição futura do imposto de renda e da contribuição social, em virtude da possibilidade da amortização desse ágio. Portanto, esse benefício fiscal é a única parcela do ágio que poderá ser aproveitada na controlada e que tem substância econômica. Essa é também a parcela do ágio que a CVM vem entendendo, conforme estabelecido na Instrução CVM nº 319, que pode ser capitalizada em proveito exclusivo do controlador. É, portanto, somente essa parcela com substância econômica que pode ser considerada um ativo e que poderia vir a ser capitalizada. Algumas companhias, a partir da atuação de seus auditores e com a concordância das áreas técnicas desta Comissão, constituíram uma provisão no valor integral ou parcial do valor do ágio transferido, de forma a reconhecer como ativo e como reserva especial somente o montante relativo ao benefício fiscal. A constituição dessa provisão permitiu, ainda, a essas companhias atenderem plenamente uma outra exigência da Instrução CVM nº 319 que estabelece que os dividendos dos acionistas não controladores não podem ser diminuídos pelo montante do ágio amortizado. A CVM se pronunciou formalmente a esse respeito no OFÍCIO CIRCULAR/CVM/SNC/SEP/Nº 01/2000 em que menciona que a análise quanto à recuperação do valor do ágio deve ser feita também ‘por ocasião da incorporação da controlada ou da controladora, por companhia aberta. Se, em função dessa análise, for verificado que o ágio pode não ser recuperável, parcial ou totalmente, a companhia deverá constituir provisão no montante do valor que espera não recuperar, devendo essa provisão ser apresentada por dedução da conta em que o ágio foi registrado’. Não obstante essa manifestação, tem sido argüido que a inexistência de uma norma impositiva da CVM, determinando a obrigatoriedade da constituição dessa provisão, poderia suscitar a adoção de procedimentos não homogêneos para um mesmo evento econômico, com reflexos diferenciados no patrimônio e nos resultados das companhias abertas. Em decorrência, o art. 1º da nova Instrução veio preencher essa lacuna ao determinar, em última análise, que o ágio na incorporação da controladora, cujo fundamento tenha sido perspectiva de rentabilidade futura ou mesmo direitos de concessão, seja reconhecido nas demonstrações contábeis da incorporadora apenas pelo montante do benefício fiscal esperado. O referido artigo permite também que, para fins de divulgação, esse benefício Fl. 5001DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 69 68 fiscal seja classificado, de acordo com a sua natureza e prazo de realização, em conta específica do ativo circulante e do realizável a longo prazo. Essa forma de classificação, como crédito tributário, visa registrar a essência econômica do direito realizável, qual seja, a possibilidade da sua transformação em fluxo positivo de caixa em decorrência da dedutibilidade fiscal. Deve ter, portanto, o tratamento de um Ativo Fiscal Diferido sujeito às regras de reconhecimento e divulgação previstas na Deliberação CVM nº 273/98." (grifouse) Podese concluir, portanto, que a Instrução CVM nº 319, com as alterações promovidas pela Instrução CVM nº 349, dispõe que, quando uma companhia aberta incorpora sua controladora, o ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura deve ser reconhecido nas demonstrações contábeis da incorporadora pelo valor do benefício fiscal esperado (futura redução do IRPJ e da CSLL devidos resultante da dedução, da base de cálculo destes tributos, das despesas de amortização do ágio). Para que o reconhecimento contábil se dê da forma prescrita, deve haver, na incorporada, a constituição de uma provisão, redutora da conta representativa do ágio, cujo valor equivalha à diferença entre os montantes do ágio apurado e do benefício fiscal esperado de sua amortização. Paralelamente, este mesmo valor atribuído ao benefício fiscal oriundo da amortização do ágio deve ser contabilizado no Patrimônio Líquido em conta de reserva especial de ágio na incorporação. Pois bem. Analisando o caso concreto descrito nos presentes autos, verifica se que a provisão mencionada pela contribuinte (cuja reversão estaria resultando em receitas tributadas em duplicidade, segundo suas palavras) não foi, contrariamente ao afirmado por ela, constituída segundo as orientações contidas nas Instruções CVM nº 319 e nº 349. A conta de "Provisão Instrução CVM nº 319/349 ágio investimento Cálamo" foi escriturada, em 03/11/2008, pelo exato valor que o saldo do ágio relacionado ao investimento na CÁLAMO tinha naquela data: R$ 972.017.437,44. Assim, a conta "Ágio investimento Cálamo" teve seu saldo integralmente anulado pela respectiva provisão, o que significa, nos termos das Instruções CVM nº 319 e nº 349, que não existiria parcela recuperável do ágio constituído em 18/12/2006 (data da incorporação da totalidade das ações da contribuinte CÁLAMO pela holding G&K). A forma como foi realizada a contabilização sugere, na realidade, que não teria sido reconhecido benefício fiscal esperado. No mesmo sentido depõe a ausência de registro de conta de reserva especial de ágio na incorporação, também de acordo com a inteligência das Instruções CVM nº 319 e nº 349. Mesmo que se releve tal fato, a análise da contabilidade conforme foi efetivamente registrada pelas empresas G&K e CÁLAMO tampouco comprova as alegações apresentadas no recurso especial. A "Provisão Instrução CVM nº 319/349 ágio investimento Cálamo" foi constituída, na holding G&K, com contrapartida devedora na conta de despesa "Provisão para Preservação de Dividendos Futuros". Tal despesa, quantificada em R$ 972.017.437,44, era certamente indedutível, tanto por não se referir a provisão com dedutibilidade expressamente prevista quanto pela sua própria natureza, uma vez que relacionase ao ágio constituído em Fl. 5002DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 70 69 18/12/2006, não passível de aproveitamento tributário em razão da falta de substância econômica e de substrato econômico (conforme visto no tópico anterior). A adição de seu valor na parte "A" do LALUR da holding K&G era, portanto, procedimento que efetivamente se impunha e que foi corretamente efetuado pela empresa. Paralelamente, a holding G&K registrou a provisão na parte "B" de seu LALUR, para fins de controle. A regularidade de tal registro é questionável e sua discussão se confunde com o principal ponto de controvérsia dos presentes autos: a dedutibilidade de despesas de amortização de ágio gerado internamente. De acordo com o entendimento do Fisco (do qual compartilho, conforme expus no tópico anterior), o ágio gerado por ocasião da incorporação das ações da contribuinte pela G&K é impassível de aproveitamento tributário, seja no período de apuração encerrado em 03/11/2008 (data da cisão parcial da G&K), seja em qualquer período futuro. Assim, seria descabido o controle da provisão para futuras repercussões tributárias. De toda forma, o registro foi feito e, com o advento da cisão parcial da G&K e da consequente absorção de fração do seu patrimônio pela controlada CÁLAMO, o saldo da provisão foi transferido para a parte "B" do LALUR da contribuinte, "por força da sucessão universal em direitos e obrigações relativas à parcela do patrimônio vertida na cisão da G&K para a" recorrente. Os saldos das contas contábeis que registravam o ágio e a respectiva provisão (conta redutora) na G&K, ambos no valor de R$ 972.017.437,44, também foram transferidos à incorporadora CÁLAMO. Intimada pela Fiscalização a esclarecer alguns lançamentos contábeis encontrados nos livros que fornecera (Termo de Intimação Fiscal nº 07 apresentado às fls. 262 e 263 do processo), a contribuinte informou que alguns dos questionamentos da Fiscalização referiamse "à amortização do ágio acima mencionado, com a correspondente reversão da provisão para preservação de dividendos futuros" (resposta às fls. 265 a 267). Já em manifestação de 26/08/2011 (fls. 841 a 844), a contribuinte informou que "os lançamentos nas contas 180020 e 371006 referemse à amortização exclusivamente contábil de ágios sobre investimentos em controladas, conforme as melhores práticas contábeis, portanto sem quaisquer efeitos fiscais" e que "os lançamentos na conta 364003 referemse à reversão de provisão para preservação de dividendos futuros no mesmo montante da referida amortização exclusivamente contábil dos ágios, sem que os lançamentos tenham gerado quaisquer efeitos fiscais". As informações reproduzidas permitem concluir que, pela engenharia contábiltributária elaborada pela contribuinte, o efeito tributário pretensamente advindo da aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (base legal do art. 386 do RIR/1999) se dava exclusivamente por meio das exclusões do lucro real realizadas diretamente na parte "B" do LALUR. Uma vez que a amortização do ágio somente gerava efeitos contábeis, não havia deduções indevidas na apuração do lucro real cujas glosas a Fiscalização pudesse ter determinado por ocasião da lavratura dos autos de infração. Por outro lado, como a reversão da provisão do ágio também só gerava efeitos contábeis, não há que se falar na necessidade de exclusão de valores diretamente na Fl. 5003DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 71 70 parte "B" do LALUR como forma de garantir a neutralidade tributária da reversão de uma provisão que não gerou efeitos tributários no momento de sua constituição. Como consequência, revelase descabida a alegação da contribuinte de que a forma empregada na autuação implicaria em dupla tributação. Assim, resta claro que andou bem a Fiscalização ao identificar, nos autos de infração, a infração tributária praticada pela contribuinte como "EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL EXCLUSÕES INDEVIDAS" com fundamento legal no art. 3º da Lei nº 9.249/1995 e nos arts. 247 e 250 do RIR/1999. Com base em tais considerações, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte no que diz respeito ao pedido de cancelamento dos lançamentos tributários concernentes aos anoscalendário de 2008 e 2009 por conta de uma suposta dupla tributação decorrente de erro no enquadramento legal e na descrição dos fatos caracterizadores da infração autuada. 5) Qualificação da multa de ofício Em havendo o colegiado, por maioria (embora eu tenha restado vencido), acolhido a preliminar de nulidade do auto de infração complementar, considerouse prejudicada a análise da qualificação da multa de ofício, tendo em vista que esta matéria constava do auto de infração complementar. 6) Imputação de responsabilidade solidária aos acionistas da contribuinte Em havendo o colegiado, por maioria (embora eu tenha restado vencido), acolhido a preliminar de nulidade do auto de infração complementar, considerouse prejudicada a análise da imputação de responsabilidade solidária aos acionistas da contribuinte, tendo em vista que esta matéria constava do auto de infração complementar. 7) Aplicação concomitante das multas de ofício e isolada Chegando à parte subsidiária dos pedidos elencados pelos recorrentes, temse a tese apresentada pela contribuinte CÁLAMO de que a multa isolada pelo não recolhimento dos tributos devidos com base na estimativa mensal não pode ser exigida concomitantemente com a multa de ofício proporcional. A recorrente alega que a cobrança simultânea das duas multas caracterizaria bis in idem (aplicação de duas penalidades pela mesma infração). Este entendimento inclusive seria objeto da Súmula CARF nº 105, cuja aplicação não estaria restrita a períodos anteriores a 2007. A multa isolada a que se refere a recorrente, devida por ausência de pagamento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL, tinha a seguinte redação até o advento da MP nº 351/2007 e da Lei nº 11.488/2007: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: Fl. 5004DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 72 71 I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: (...) IV isoladamente, no caso de pessoa jurídicas sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro liquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro liquido, no anocalendário correspondente; (...) Com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.488/2007, passou a dispor a mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (...) Destaquemse as alterações efetivas operadas pela mudança de redação: (i) a multa isolada não é mais calculada sobre "a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"; passando a incidir sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser pago na forma prevista no art. 2º da mesma lei; e (ii) o percentual aplicável no cálculo da multa passa de 75% para 50%. A antiga redação do art. 44 efetivamente não deixava tão clara a distinção entre as multas de ofício e isolada. A base sobre a qual as multas incidiam era prevista de forma conjunta, no caput do artigo ("calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"). O percentual aplicável para ambas as multas também era fixado no mesmo dispositivo, o inciso I do artigo ("setenta e cinco por cento"). Somente no inciso IV do §1º é Fl. 5005DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 73 72 que existia a previsão específica da exigência de multa isolada pelo não pagamento de IRPJ ou CSLL na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996 (estimativas mensais com base na receita bruta do período). A falta de clareza na antiga redação do art. 44 e o fato de parte das previsões das duas multas constarem dos mesmos dispositivos (mesma base de cálculo, inclusive) foram, em grande medida, responsáveis pela sedimentação do entendimento desta Corte no sentido da impossibilidade de cobrança simultânea das multas isolada e de ofício. Por conta disso, editou se a citada Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Com o advento da MP nº 351, de 22/01/2007, e sua posterior conversão na Lei nº 11.488, de 15/06/2007, julgo terem sido extirpadas as fontes de dúbia interpretação do art. 44 no que diz respeito à previsão das multas isolada e de ofício. A nova redação é clara em relação às hipóteses de incidência de cada uma das multas, suas bases de cálculo e percentuais aplicáveis. Acrescento que não considero razoável a ilação de que possa ter sido casual a expressa menção, pela Súmula CARF nº 105, do dispositivo que tipificou a multa isolada ali mencionada. A Súmula foi editada pela 1ª Turma da CSRF em 08/12/2014, muitos anos após as mudanças redacionais introduzidas pela Lei nº 11.488/2007. Caso a egrégia Turma quisesse se referir indiscriminadamente a qualquer multa isolada, anterior ou posterior à alteração da redação do art. 44, o teria feito simplesmente deixando de mencionar o art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996. Neste mesmo sentido já se manifestou a CSRF no Acórdão nº 910100.947, cujo voto condutor assim se pronunciou: "Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir "sobre a totalidade ou diferença de tributo", mas apenas sobre "valor do pagamento mensal" a titulo de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de oficio em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tomar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de oficio passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. Fl. 5006DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 74 73 No caso presente, em relação ao anocalendário 1998, a contribuinte foi autuada para exigir principal e multa de oficio em relação a CSLL não recolhida ao final do exercício e, concomitantemente, foi aplicada multa isolada sobre a mesma base estimada não recolhida. Como dito acima, essa dupla penalização sobre ilícitos materialmente relacionados e por força do principio da consunção, não pode subsistir." (grifouse) Interpretando a contrario sensu a referida decisão, concluise que, a partir de janeiro de 2007, quando entrou em vigência a MP nº 351/2007, não subsistem os motivos que outrora impediam a cobrança concomitante das duas multas. Diante de todo o exposto, não vislumbro óbice à cobrança cumulativa das multas isolada (art. 44, inciso II, alínea "b", da Lei nº 9.430/1996) e de ofício (art. 44, inciso I, da mesma Lei) para infrações ocorridas a partir de janeiro de 2007, caso dos presentes autos. Por esta razão, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte no que toda a este tema. 8) Incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Por fim, tanto a contribuinte quanto os responsáveis solidários se insurgem contra a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, sob o argumento de que inexiste previsão legal que a ampare. Sobre o tema, adoto as razões de decidir do Acórdão nº 910100.539, proferido em 11/03/2010 por esta 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, com a relatoria da Conselheira Viviane Vidal Wagner: "De fato, como bem destacado pelo relator, o crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto o tributo quanto a penalidade pecuniária. Em razão dessa constatação, ao meu ver, outra deve ser a conclusão sobre a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de ofício. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. E a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister Fl. 5007DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 75 74 afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." Convertese em crédito tributário a obrigação principal referente à multa de ofício a partir do lançamento, consoante previsão do art. 113, §1°, do CTN: "Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. A obrigação tributária principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de ofício proporcional. A multa de ofício é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago" (§1°). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tornandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de ofício, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, ao compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 Fl. 5008DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 76 75 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de ofício. Art. 950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação específica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61). § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, §1º). § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, § 2º). § 3º A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de oficio. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou este E. colegiado quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA MULTA DE OFÍCIO OBRIGAÇÃO PRINCIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Nesse sentido, ainda, a Súmula Carf n° 5: “São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral.” Fl. 5009DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 77 76 Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei n° 9.065, de 1995. A jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, como se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL 2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tãosomente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07).(g.n.) No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, nos seguintes termos: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais." Registro ainda uma outra decisão da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça, reiterando o entendimento de que é “legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário” (AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/12), conforme a seguinte ementa: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMAS QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.” (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min.Castro Meira, DJ Fl. 5010DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 78 77 de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. O voto que conduziu a referida decisão consignou: “[...] Quanto ao mérito, registrou o acórdão proferido pelo TRF da 4ª Região à fl. 163: ‘... os juros de mora são devidos para compensar a demora no pagamento. Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento.’ ” Na esteira dessas bem lançadas razões de decidir, concluo que sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Nestes termos, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO aos recursos especiais da contribuinte e dos responsáveis tributários quanto ao pleito, mantendo a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Analisadas todas as matérias que obtiveram seguimento para apreciação por esta CSRF, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO aos recursos especiais interpostos pelos sujeitos passivos. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 5011DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 79 78 Voto vencedor quanto ao auto de infração complementar Conselheira Cristiane Silva Costa, Redatora designada. Elaboro o presente voto vencedor relativo à nulidade do auto de infração complementar, tratada tanto no recurso do contribuinte (Cálamo) quanto no recurso especial dos responsáveis (Miguel Gellert Krigsner e Artur Noemio Grynbaum). O Ilustre Relator, em muito bem fundamentado voto, entendeu pela regularidade do lançamento complementar, no qual foi formalizada a exigência de multa qualificada e imputada a responsabilidade solidária. Com a devida vênia, ouso discordar do Relator, tendo sido acompanhada pela maioria do Colegiado. Com efeito, o artigo 146, do CTN, impede seja alterado critério jurídico do lançamento: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. A respeito do artigo 146, são as considerações de Hugo de Brito Machado: “Há mudança de critério jurídico quando a autoridade administrativa simplesmente muda de interpretação, substitui uma interpretação por outra, sem que se possa dizer que qualquer das duas seja incorreta. Também há mudança de critério jurídico quando a autoridade administrativa, tendo adotada uma entre várias alterativas expressamente admitidas pela lei, na feitura do lançamento, depois pretende alterar esse lançamento, mediante a escolha de outra das alternativas admitidas e que enseja a determinação de um crédito tributário em valor diverso, geralmente mais elevado” (Curso de Direito Tributário, 30ª ed., Malheiros, 2009, p. 176). O Código Tributário Nacional ainda autoriza a revisão de ofício de lançamento quando há erro de fato, nos termos do artigo 149, IV, c/c artigo 145, III: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de:(...) III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; (...) Fl. 5012DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 80 79 Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. Em que pese autorize a revisão do lançamento quanto ao erro de fato, o Código Tributário Nacional não autoriza a revisão do lançamento quando há – se o caso – erro de direito. A esse respeito, são as primorosas considerações de Humberto Ávila: A mudança de orientação da Administração quer com relação à prática até então adotada, quer com referência aos atos de lançamento já efetuados, só pode dizer respeito a erros de fato, nunca erros de direito. Com efeito, se a Administração, por algum motivo, entende que a legislação foi malaplicada, só pode mudar a orientação para o futuro, não para o passado, inclusive por determinação do art. 146 do Código Tributário Nacional. (Segurança Jurídica – Entre Permanência, Mudança e Realização no Direito Tributário, Malheiros, 2011, p. 458) Como também entende Ricardo Lobo Torres, reiterando a impossibilidade de revisão de lançamento por erro de direito: Enquanto o artigo 149 exclui o erro de direito dentre as causas que permitem a revisão do lançamento anterior feito contra o mesmo contribuinte, o artigo 146 proíbe a alteração do critério jurídico geral da Administração aplicável ao mesmo sujeito passivo com eficácia para os fatos pretéritos (O Princípio da Proteção da Confiança do Contribuinte, RFDT 06/09, dez/03) Nesse contexto, apurase que tampouco os artigos 145 e 149 legitimam a alteração de critério jurídico pela autoridade administrativa. Nesse sentido, e em respeito aos princípios do contraditório e ao da ampla defesa, o artigo 18, §3º, do Decreto nº 70.235/1972 assegura aos contribuintes o direito de nova impugnação administrativa, tratando da possibilidade de lançamento complementar. A despeito de tal previsão, não se admite a alteração do critério jurídico do lançamento anterior, em respeito ao artigo 146, do Código Tributário Nacional. O Decreto nº 7.574/2011 se alinha a tal diretriz legal, explicitando a possibilidade de alteração de lançamento e a necessária oportunização de contencioso desde impugnação administrativa: Art. 41. Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões, de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será efetuado lançamento complementar por meio da lavratura de auto de infração complementar ou de emissão de notificação de lançamento complementar, específicos em relação à matéria modificada (Decreto no 70.235, de 1972, art. 18, § 3o, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 1º O lançamento complementar será formalizado nos casos: Fl. 5013DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 81 80 I em que seja aferível, a partir da descrição dos fatos e dos demais documentos produzidos na ação fiscal, que o autuante, no momento da formalização da exigência: a) apurou incorretamente a base de cálculo do crédito tributário; ou b) não incluiu na determinação do crédito tributário matéria devidamente identificada; ou II em que forem constatados fatos novos, subtraídos ao conhecimento da autoridade lançadora quando da ação fiscal e relacionados aos fatos geradores objeto da autuação, que impliquem agravamento da exigência inicial. § 2º O auto de infração ou a notificação de lançamento de que trata o caput terá o objetivo de: I complementar o lançamento original; ou II substituir, total ou parcialmente, o lançamento original nos casos em que a apuração do quantum devido, em face da legislação tributária aplicável, não puder ser efetuada sem a inclusão da matéria anteriormente lançada. § 3º Será concedido prazo de trinta dias, contados da data da ciência da intimação da exigência complementar, para a apresentação de impugnação apenas no concernente à matéria modificada. § 4º O auto de infração ou a notificação de lançamento de que trata o caput devem ser objeto do mesmo processo em que for tratado o auto de infração ou a notificação de lançamento complementados. § 5º O julgamento dos litígios instaurados no âmbito do processo referido no § 4o será objeto de um único acórdão. O dispositivo do Decreto nº 7.574/2011 novamente trata de erro de fato, ao possibilitar tal alteração do lançamento por: (a) apuração incorreta da base de cálculo (inciso I, alínea a), (b) não inclusão de matéria devidamente identificada no crédito tributário (inciso I, alínea b) ou (c) fatos novos, desconhecidos pela autoridade lançadora original (inciso II). O artigo 41, portanto, está devidamente alinhado às normas do Código Tributário Nacional. O Superior Tribunal de Justiça também acena pela impossibilidade de mudança no critério jurídico de lançamento anterior, por eventual erro de direito: (...) 4. Destarte, a revisão do lançamento tributário, como consectário do poderdever de autotutela da Administração Tributária, somente pode ser exercido nas hipóteses do artigo 149, do CTN, observado o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário. 5. Assim é que a revisão do lançamento tributário por erro de fato (artigo 149, inciso VIII, do CTN) reclama o Fl. 5014DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 82 81 desconhecimento de sua existência ou a impossibilidade de sua comprovação à época da constituição do crédito tributário. 6. Ao revés, nas hipóteses de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), o ato administrativo de lançamento tributário revelase imodificável, máxime em virtude do princípio da proteção à confiança, encartado no artigo 146, do CTN, segundo o qual "a modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução". 7. Nesse segmento, é que a Súmula 227/TFR consolidou o entendimento de que "a mudança de critério jurídico adotado pelo Fisco não autoriza a revisão de lançamento". 8. A distinção entre o "erro de fato" (que autoriza a revisão do lançamento) e o "erro de direito" (hipótese que inviabiliza a revisão) é enfrentada pela doutrina, verbis: "Enquanto o 'erro de fato' é um problema intranormativo, um desajuste interno na estrutura do enunciado, o 'erro de direito' é vício de feição internormativa, um descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta. Assim constitui 'erro de fato', por exemplo, a contingência de o evento ter ocorrido no território do Município 'X', mas estar consignado como tendo acontecido no Município 'Y' (erro de fato localizado no critério espacial), ou, ainda, quando a base de cálculo registrada para efeito do IPTU foi o valor do imóvel vizinho (erro de fato verificado no elemento quantitativo). 'Erro de direito', por sua vez, está configurado, exemplificativamente, quando a autoridade administrativa, em vez de exigir o ITR do proprietário do imóvel rural, entende que o sujeito passivo pode ser o arrendatário, ou quando, ao lavrar o lançamento relativo à contribuição social incidente sobre o lucro, mal interpreta a lei, elaborando seus cálculos com base no faturamento da empresa, ou, ainda, quando a base de cálculo de certo imposto é o valor da operação, acrescido do frete, mas o agente, ao lavrar o ato de lançamento, registra apenas o valor da operação, por assim entender a previsão legal. A distinção entre ambos é sutil, mas incisiva." (Paulo de Barros Carvalho, in "Direito Tributário Linguagem e Método", 2ª Ed., Ed. Noeses, São Paulo, 2008, págs. 445/446) "O erro de fato ou erro sobre o fato darseia no plano dos acontecimentos: dar por ocorrido o que não ocorreu. Valorar fato diverso daquele implicado na controvérsia ou no tema sob inspeção. O erro de direito seria, à sua vez, decorrente da escolha equivocada de um módulo normativo inservível ou não mais aplicável à regência da questão que estivesse sendo juridicamente considerada. Entre nós, os critérios jurídicos (art. 146, do CTN) reiteradamente aplicados pela Fl. 5015DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 83 82 Administração na feitura de lançamentos têm conteúdo de precedente obrigatório. Significa que tais critérios podem ser alterados em razão de decisão judicial ou administrativa, mas a aplicação dos novos critérios somente pode darse em relação aos fatos geradores posteriores à alteração." (Sacha Calmon Navarro Coêlho, in "Curso de Direito Tributário Brasileiro", 10ª Ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2009, pág. 708) "O comando dispõe sobre a apreciação de fato não conhecido ou não provado à época do lançamento anterior. Dizse que este lançamento teria sido perpetrado com erro de fato, ou seja, defeito que não depende de interpretação normativa para sua verificação. Frisese que não se trata de qualquer 'fato', mas aquele que não foi considerado por puro desconhecimento de sua existência. Não é, portanto, aquele fato, já de conhecimento do Fisco, em sua inteireza, e, por reputálo despido de relevância, tenhao deixado de lado, no momento do lançamento. Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma 'relevância jurídica', a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, com fulcro no artigo 146, do CTN, (...). Neste art. 146, do CTN, prevêse um 'erro' de valoração jurídica do fato (o tal 'erro de direito'), que impõe a modificação quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua ocorrência. Não perca de vista, aliás, que inexiste previsão de erro de direito, entre as hipóteses do art. 149, como causa permissiva de revisão de lançamento anterior." (Eduardo Sabbag, in "Manual de Direito Tributário", 1ª ed., Ed. Saraiva, pág. 707) 9. In casu, restou assente na origem que: "Com relação a declaração de inexigibilidade da cobrança de IPTU progressivo relativo ao exercício de 1998, em decorrência de recadastramento, o bom direito conspira a favor dos contribuintes por duas fortes razões. Primeira, a dívida de IPTU do exercício de 1998 para com o fisco municipal se encontra quitada, subsumindose na moldura de ato jurídico perfeito e acabado, desde 13.10.1998, situação não desconstituída, até o momento, por nenhuma decisão judicial. Segunda, afigurase impossível a revisão do lançamento no ano de 2003, ao argumento de que o imóvel em 1998 teve os dados cadastrais alterados em função do Projeto de Recadastramento Predial, depois de quitada a obrigação tributária no vencimento e dentro do exercício de 1998, pelo contribuinte, por ofensa ao disposto nos artigos 145 e 149, do Código Tribunal Nacional. Considerando que a revisão do lançamento não se deu por erro de fato, mas, por erro de direito, visto que o recadastramento no imóvel foi posterior ao primeiro lançamento no ano de 1998, tendo baseado em dados Fl. 5016DF CARF MF Processo nº 10980.725496/201156 Acórdão n.º 9101003.446 CSRFT1 Fl. 84 83 corretos constantes do cadastro de imóveis do Município, estando o contribuinte notificado e tendo quitado, tempestivamente, o tributo, não se verifica justa causa para a pretensa cobrança de diferença referente a esse exercício." 10. Consectariamente, verificase que o lançamento original reportouse à área menor do imóvel objeto da tributação, por desconhecimento de sua real metragem, o que ensejou a posterior retificação dos dados cadastrais (e não o recadastramento do imóvel), hipótese que se enquadra no disposto no inciso VIII, do artigo 149, do Codex Tributário, razão pela qual se impõe a reforma do acórdão regional, ante a higidez da revisão do lançamento tributário. 10. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial nº 1130545, DJe 22/02/2011). Em sentido similar, decidiu esta Turma da CSRF pela impossibilidade de alteração do critério jurídico do lançamento (acórdãos nº 9101003.157 e 9101002.961), como também outros Colegiados deste Conselho (acórdão nº 1402002.603). Assim, lançamento complementar que modifica critério jurídico do Auto de Infração anteriormente lavrado, como no caso destes autos, é nulo, por ofensa direta ao artigo 146, do Código Tributário Nacional. Diante disso, voto por dar provimento ao recurso especial do contribuinte e ao recurso dos responsáveis quanto à nulidade do lançamento complementar. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 5017DF CARF MF
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Numero do processo: 13839.901198/2014-43
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/05/2009 a 31/05/2009
PIS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ.
Transitou em julgado decisão do STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática de recurso repetitivo, que deu pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, de observância obrigatória por este Conselho, nos termos do seu Regimento Interno.
Já o STF, entendeu pela não inclusão, no Recurso Extraordinário nº 574.706, que tramita sob a sistemática da repercussão geral, mas de caráter não definitivo, pois pende de decisão embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional, elemento necessário à vinculação deste CARF.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.418
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria qualificada de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. O Conselheiro Ari Vendramini votou pelas conclusões.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: JOSE HENRIQUE MAURI
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ICMS NA BASE DE CÁLCULO. Recorrente QUÍMICA AMPARO LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/05/2009 a 31/05/2009 PIS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ. Transitou em julgado decisão do STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática de recurso repetitivo, que deu pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, de observância obrigatória por este Conselho, nos termos do seu Regimento Interno. Já o STF, entendeu pela não inclusão, no Recurso Extraordinário nº 574.706, que tramita sob a sistemática da repercussão geral, mas de caráter não definitivo, pois pende de decisão embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional, elemento necessário à vinculação deste CARF. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por maioria qualificada de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. O Conselheiro Ari Vendramini votou pelas conclusões. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 90 11 98 /2 01 4- 43 Fl. 114DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 06051.735, proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba. Por meio de Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal de Jundiaí foi indeferido o pleito constante do Pedido Eletrônico de Restituição – PER transmitido pela contribuinte, em razão da realização de pagamento a maior. Em referido ato administrativo, a autoridade fiscal indeferiu o pleito da interessada tendo em vista que o DARF discriminado no PER estava integralmente utilizado para quitação do débito de PIS cumulativa/o, não restando saldo de crédito disponível para o reconhecimento do crédito solicitado. A contribuinte foi cientificada do citado despacho decisório e apresentou, tempestivamente, a Manifestação de Inconformidade cujo conteúdo é resumido a seguir. A interessada defende, em apertada síntese, o direito ao crédito solicitado com a alegação de ter incluído de forma indevida o ICMS na base de cálculo da contribuição recolhida. Diz que o ato administrativo foi proferido de forma precipitada e com flagrante desrespeito à legislação tributária, notadamente a que trata da necessidade de lançamento tributário (art. 142 do Código Tributário Nacional). Sustenta a legitimidade do indébito tributário informado no pedido de restituição alegando que no presente caso não existe óbice à restituição, nos termos do art. 165, do Código Tributário Nacional, uma vez que houve um erro na composição da base de cálculo da contribuição e que a vinculação do DARF, pago indevidamente, a um débito declarado em DCTF, constituise em uma mera informação. Relata que está juntando ao processo planilha por meio da qual se pode constatar a existência do pagamento a maior do que o devido e que este documento faz a prova necessária para confirmar o indébito alegado. Acrescenta que em caso de dúvida quanto ao crédito o julgamento pode ser convertido em diligência para que a interessada seja intimada a demonstrar, através de outros elementos, o crédito vindicado. Defende a tese relativa a improcedência da inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição alegando que referido tributo não integra o conceito de faturamento (receita bruta), pois tratase de mero ingresso de recursos, os quais devem ser repassados ao fisco estadual, e que o Supremo Tribunal Federal – STF, consoante o voto proferido pelo Ministro Marco Aurélio no Recurso Extraordinário nº 240.785/MG, entendeu que o valor do ICMS não pode compor a base de cálculo das contribuições Fl. 115DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 4 3 (PIS e Cofins). Sustenta que a interpretação da autoridade tributária relacionada com a questão da inclusão do ICMS nas receitas dos contribuinte (interpretação do art. 3º da Lei 9.718, de 1988) é contrária ao art. 110 do CTN, uma vez que não se caracteriza como juízo de inconstitucionalidade, mas sim como controle administrativo interno dos atos administrativos. Aduz, por fim, que a declaração de inconstitucionalidade (exclusão do ICMS da base de cálculo da contribuição) em referido RE é iminente e que o proferimento dela pelo Supremo Tribunal Federal tornará sua observância obrigatória pela Administração Tributária. Diante do exposto, requer a interessada o acolhimento da manifestação para o fim de afastar o Despacho Decisório questionado e deferir integralmente o pedido de restituição. O citado acórdão decidiu pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob o fundamento, em síntese, que falece ao julgador da esfera administrativa competência para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária e pela impossibilidade de exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo da contribuição. Inconformada com a improcedência da manifestação de inconformidade, a contribuinte interpôs recurso voluntário, basicamente, repetindo os argumentos trazidos em sede de manifestação. Ao final, pugna pela reforma do acórdão recorrido. É o relatório. Fl. 116DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro José Henrique Mauri, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301004.397, de 22 de março de 2018, proferido no julgamento do processo 13839.900183/201204, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301004.397): "O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade1. O núcleo da discussão em pauta é a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da Cofins. O acórdão recorrido enumera diplomas legais de regência, concluindo não haver previsão legal para a exclusão do ICMS da base de cálculo da Cofins: Pelas argumentações trazidas em sua manifestação de inconformidade, vêse, de pronto, que a pretensão da contribuinte implica negar efeito a disposição expressa de lei. Nesse contexto, cumpre registrar que não há na legislação de regência previsão para a exclusão do valor do ICMS das bases de cálculo do PIS e da Cofins, na forma aduzida pela interessada, já que esse valor é parte integrante do preço das mercadorias e serviços vendidos, exceção feita para o ICMS recolhido mediante substituição tributária, pelo contribuinte substituto tributário. De fato. A Lei Complementar nº 7, de 1970, a Lei Complementar nº 70, de 1991, a Lei nº 9.715, de 1998 (que resultou da conversão da Medida Provisória nº 1.212, de 1995 e suas reedições), a Lei nº 9.718, de 1998, e, mais recentemente, as Leis 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, ao longo de seus dispositivos, definem expressamente todos os aspectos das hipóteses de incidência vinculadas ao PIS e à Cofins. As citadas normas definem os sujeitos passivos da relação tributária, os casos de nãoincidência, a alíquota, a base de cálculo, o prazo de recolhimento, etc., e submetem as contribuições às normas do processo administrativo fiscal, além do que, para os casos de atraso de pagamento e penalidades, as 1 Ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ, 1ª Seção, EDcl no MS 21.315DF, julgado de 8/6/2016, rel. Min. Diva Malerbi). Fl. 117DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 6 5 subordina, de forma subsidiária, à legislação do imposto de renda. Como se percebe, nada resta a definir. Os atos legais descrevem expressamente todas as feições das exações instituídas, nada deixando ao alvedrio do intérprete. Quando remetem atribuições a normas de outro tributo, o fazem estabelecendo com precisão os limites da remissão; limites estes, aliás, que, in concreto, jamais se estendem sobre a definição das bases de cálculo das contribuições. O conceito de faturamento tem sua extensão perfeitamente delimitada pela explicitação de seu conteúdo e pela expressa enumeração das exclusões passíveis de serem efetuadas, não havendo dentre essas, como se vê, qualquer referência ao ICMS devido pela venda de mercadorias. Caso pretendesse o legislador excluir o ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins, estaria a hipótese expressamente prevista como uma das exclusões da receita bruta. Sobre o tema, o STJ decidiu, em recurso especial sob a sistemática de recurso repetitivo, pela inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições, já com trânsito em julgado. Já o STF entendeu pela sua não inclusão, em recurso extraordinário sob a sistemática da repercussão geral, mas em caráter não definitivo, pois pende de decisão sobre embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional. É o que detalha decisão recente deste Conselho: PIS/COFINS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ. TRÂNSITO EM JULGADO. CARF. REGIMENTO INTERNO. Decisão STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática do recurso repetitivo, art. 543C do CPC/73, que firmou a seguinte tese: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendose à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações", a qual deve ser reproduzida nos julgamentos do CARF a teor do seu Regimento Interno. Em que pese o Supremo Tribunal Federal ter decidido em sentido contrário no Recurso Extraordinário nº 574.706 com repercussão geral, publicado no DJE em 02.10.2017, como ainda não se trata da "decisão definitiva" a que se refere o art. 62, §2º do Anexo II do Regimento Interno do CARF, não é o caso de aplicação obrigatória desse precedente ao caso concreto. Recurso Voluntário Negado (CARF, 3º Seção, 4º Câmara, 2º Turma Ordinária, Ac. 3402 004.742, de 24/10/2017, rel. Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire). Fl. 118DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 7 6 Assim, transitada em julgado decisão do STJ, em recurso especial, sob a sistemática de recurso repetitivo, pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, deve este Conselho observála, nos termos do seu Regimento Interno, descabendo analisar argumentos trazidos aos autos sobre o tema. A decisão do STF, em sentido contrário, em recurso extraordinário de repercussão geral, mas de caráter não definitivo, não tem o mesmo efeito. Nos ditos embargos, a Fazenda Nacional requer a modulação dos efeitos da decisão embargada, para que produza efeitos ex nunc, apenas após o julgamento dos embargos. Ora, se há pedido de modulação dos efeitos, tratase de atividade satisfativa, incluíndose na solução de mérito nos termos do art. 487 do atual CPC. E se assim é, podese afirmar que não houve ainda decisão definitiva de mérito, independentemente do transito em julgado. A embargante ainda suscita, entre outras questões, haver erro material ou omissão, por ter a corrente vencedora prestado ao art. 187 da Lei 6.404/76 efeito que ele não possui: estabelecer conceito de receita bruta: 7. Observese que, no caso dos autos, alguns votos da corrente vencedora2 [...] concederam grande relevância ao fundamento de que “receita bruta”, expressão a que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao longo de inúmeros julgados, equiparou ao vocábulo “faturamento” (art. 195, I, b, da Constituição), possui um sentido próprio no direito privado, definido no art. 187, I, da Lei 6.404/76. 8. No entanto, cumpre destacar que há um equívoco evidente em tal linha de argumentação: o mencionado dispositivo legal não estabelece qualquer conceito para receita bruta. Apenas disciplina que, na demonstração do resultado do exercício, deverá estar descrita a “receita bruta das vendas e serviços, as deduções das vendas, os abatimentos e os impostos”. A assertiva, simplesmente, permite concluir que tais expressões se referem a grandezas diferentes, mas não afirma que uma não esteja contida na outra. Levanta também, na mesma toada que os votos vencedores "deixaram de considerar o disposto no art. 12 do DecretoLei 1.598/77, reiteradamente citado pelos votos vencidos", que dá pela inclusão dos tributos na receita bruta: art. 12. A receita bruta compreende: I o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II o preço da prestação de serviços em geral; III o resultado auferido nas operações de conta alheia; e IV as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. § 1o A receita líquida será a receita bruta diminuída de: (...) III tributos sobre ela incidentes; e Fl. 119DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 8 7 (...) § 4o Na receita bruta não se incluem os tributos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de mero depositário. § 5o Na receita bruta incluemse os tributos sobre ela incidentes e os valores decorrentes do ajuste a valor presente, de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, das operações previstas no caput, observado o disposto no § 4o. (Grifos do original). Ainda que sejam três os pilares da argumentação da corrente vencedora, apenas um deles tratando do conceito de receita, tratase evidentemente de questão meritória. A recorrente traz aos autos planilha na qual recalcula a base de cálculo da Cofins "sem o ICMS", com a qual, juntamente como os documentos mencionados na seqüência, pretende provar o seu direito ao crédito em discussão: (...) Instrui o recurso voluntário com relatórios "NOVA GIA" a demonstrarem a apuração do ICMS, referente apenas a novembro de 2011, como também o balancete referente apenas a este período. O acordão recorrido assim se manifestou quando lhe fora levada dita planilha: "não sendo hábil para a comprovação do direito à repetição do indébito, uma simples planilha, desacompanhada de documentação contábil e fiscal que lhe conceda suporte e validade.A planilha segue abaixo". Tais elementos não demonstram o direito ao crédito sem que a questão de direito que defende, de não inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição, prospere. A planilha mencionada também não se fez acompanhar de documentos que lhe fizessem prova, para todos os períodos. Assim, também, a diligência que requer, para, eventualmente, "atestar in loco a regularidade da escrituração e do crédito", somente mereceria provimento, em caso de demonstração da exclusão do ICMS da base de cálculo da Cofins. Insurgese a recorrente contra a afirmação do acórdão de piso de que "o débito de Cofins cumulativa, do período de apuração de nov/2002 (para o qual consta alocado o pagamento objeto do pedido de restituição), foi constituído, nos termos do art. 142 do CTN, através de [...] DCTF apresentada pela interessada, posto que essa declaração constituí confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito tributário, conforme prevê o § 1º do art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984". Ainda que se apliquem tais normas, há decisões deste Conselho que têm entendido pela relativização de tal meio de prova, com as quais concordo, privilegiandose o princípio da verdade material: Fl. 120DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 9 8 COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. INFORMAÇÕES CONSTANTES DA DOCUMENTAÇÃO SUPORTE. LIQUIDEZ E CERTEZA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. O direito creditório pleiteado não pode ser vinculado a requisitos meramente formais, nos termos do art. 165 do Código Tributário Nacional. Assim, ainda que a DCTF seja instrumento de confissão de dívida, a comprovação por meio de outros elementos contábeis e fiscais que denotem erro na informação constante da obrigação acessória, acoberta a declaração de compensação, em apreço ao princípio da verdade material Recurso Voluntário Provido (CARF, 3º Seção, 3º Câmara, 1º Turma Ordinária, Ac. 3301 002.678, de 08/12/2015, rel. Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas). O acórdão de piso entendeu não ter se configurado qualquer das hipóteses do art. 165 do CTN, aquele que estabelece o direito à restituição de tributo, especialmente por que "não existe a comprovação de que tenha ocorrido, em face da legislação aplicável, pagamento da contribuição em valor a maior do que o devido"; como também porque "não foi demonstrada a existência de decisão judicial transitada em julgado reconhecendo a existência de indébito tributário (relativamente ao pagamento apontado no pedido de restituição – PER) que diga respeito à inclusão indevida do ICMS na base de cálculo da contribuição. não havendo decisão". Argumenta a recorrente ter havido erro na composição da base de cálculo da Cofins, visto que "a Recorrente considerou inadvertidamente o ICMS como componente de sua receita bruta", nos termos do inciso II, do dito artigo. Mais uma vez, somente com a demonstração do direito ao crédito, o que não ocorre, poderseia falar no dito erro. Assim, pelo exposto voto por negar provimento ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Fl. 121DF CARF MF Processo nº 13839.901198/201443 Acórdão n.º 3301004.418 S3C3T1 Fl. 10 9 Fl. 122DF CARF MF
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Numero do processo: 13830.000741/2003-11
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2000
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. POSSIBILIDADE DE ANÁLISE DE NOVOS ARGUMENTOS E PROVAS EM SEDE RECURSAL. PRECLUSÃO.
A manifestação de inconformidade e os recursos dirigidos a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais seguem o rito processual estabelecido no Decreto nº 70.235/72.
Os argumentos de defesa e as provas devem ser apresentados na manifestação de inconformidade interposta em face do despacho decisório de não homologação do pedido de compensação, precluindo o direito do Sujeito Passivo fazê-lo posteriormente, salvo se demonstrada alguma das exceções previstas no art. 16, §§ 4º e 5º do Decreto nº 70.235/72.
Numero da decisão: 1001-000.545
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a proposta de diligência suscitada pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues, vencido também o conselheiro José Roberto Adelino da Silva, que votou pela diligência. Acordam, ainda, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues, que lhe deram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues.
(Assinado Digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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POSSIBILIDADE DE ANÁLISE DE NOVOS ARGUMENTOS E PROVAS EM SEDE RECURSAL. PRECLUSÃO. A manifestação de inconformidade e os recursos dirigidos a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais seguem o rito processual estabelecido no Decreto nº 70.235/72. Os argumentos de defesa e as provas devem ser apresentados na manifestação de inconformidade interposta em face do despacho decisório de não homologação do pedido de compensação, precluindo o direito do Sujeito Passivo fazêlo posteriormente, salvo se demonstrada alguma das exceções previstas no art. 16, §§ 4º e 5º do Decreto nº 70.235/72. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a proposta de diligência suscitada pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues, vencido também o conselheiro José Roberto Adelino da Silva, que votou pela diligência. Acordam, ainda, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues, que lhe deram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 00 07 41 /2 00 3- 11 Fl. 494DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Tratase de Declaração de Compensação, de 14/05/2003, efl. 03) através da qual o contribuinte pretende compensar débitos de sua responsabilidade com créditos decorrentes de pagamentos indevidos de Cofins (código de receita: 2172), PIS (código de receita: 8109) e IRPJ (código de receita: 2362), efetuados em 13/12/2002, 13/12/2002 e 31/10/2000, nos valores de R$ 1.000,00, R$ 500,00 e R$ 2.108,28, respectivamente (fl. 02). O pedido foi deferido parcialmente, conforme Despacho Decisório (efl. 07), que analisou as informações e reconheceu parcialmente o direito creditório (créditos decorrentes de pagamentos indevidos de Cofins e PIS). O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, a qual foi analisada pela Delegacia de Julgamento (DRJ Ribeirão preto) (e fl. 337/347). Pela precisão na descrição dos fatos seguintes, reproduzo a seguir o Relatório constante do Acórdão da DRJ Ribeirão Preto (efls. 337/347): Tratase de Manifestação de Inconformidade interposta em face de Despacho Decisório, em que foi apreciada a Declaração de Compensação (DCOMP) de fl. 01, protocolizada em 14/05/2003, por intermédio da qual a contribuinte pretende compensar débitos de sua responsabilidade com créditos decorrentes de pagamentos indevidos de Cofins (código de receita: 2172), PIS (código de receita: 8109) e IRPJ (código de receita: 2362), efetuados em 13/12/2002, 13/12/2002 e 31/10/2000, nos valores de R$ 1.000,00, R$ 500,00 e R$ 2.108,28, respectivamente (fl. 02). A análise da liquidez e certeza dos créditos utilizados na DCOMP, bem como a sua suficiência para a extinção dos débitos nela declarados, foi efetuada pela DRF em Marilia/SP, no Despacho Decisório n° 2007/352, fls. 27/34, através do qual a autoridade competente reconheceu parcialmente o direito creditório, no valor de R$ 1.500,00, homologando, até o limite do crédito reconhecido, as compensações efetuadas As fls. 84/86, restando saldo devedor conforme documento de fl. 93 dos autos. Cientificada do Despacho Decisório, em 19/10/2007 (fl. 101), a contribuinte ingressou, tempestivamente, com a manifestação de inconformidade de fls. 102/105, acompanhada dos documentos de fls. 106/163, na qual alega, em síntese, que: a) o direito creditório quanto ao PIS e a Cofins foi totalmente homologado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil; b) já o direito creditório do IRPJ foi reconhecido parcialmente, sendo intimada a recorrente a recolher o restante aos cofres públicos no prazo de 30 dias após a intimação; c) a requerente efetuou, em 13/12/2002, o pagamento de PIS (código: 8109), no valor de R$ 146.733,01, sendo que o devido era R$ 146.233,01, resultando uma diferença no montante de R$ 500,00; d) a requerente Fl. 495DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 495 3 efetuou, em 13/12/2002, o pagamento de Cofins (código: 2172), no valor de R$ 675.921,57, quando o devido era R$ 674.921,57, resultando pagamento a maior na cifra de R$ 1.000,00; e) conforme DCTF do 3° trimestre de 2000, o total do débito principal apurado de IRPJ estimativa foi de R$ 40.643,95. Desse total, R$ 7.229,09 foi depositado judicialmente em 31/10/2000. A contribuinte compensou também R$ 5.348,93, relativo ao pagamento a maior de DARF, referente à competência de setembro/2000, conforme demonstrativo de DCTF. Dessa subtração, a requerente teria de recolher aos cofres públicos, via DARF, o valor de R$ 28.065,93. No entanto, foi recolhido o valor de R$ 35.295,02, ou seja, um valor a maior de R$ 7.229,09; f) a requerente recolheu o valor de R$ 7.229,09, mas não a titulo de IRPJ estimativa para ser levado A apuração anual do IRPJ; g) o contribuinte ficou com um saldo de DARF pago a maior no montante de R$ 7.229,09, contudo, a partir de outubro do mesmo ano, o resultado fiscal e contábil da requerente passou a ser negativo, permanecendo o saldo a compensar do DARF pago a maior. Ao final, manifesta sua inconformidade, alegando ter um crédito apto a compensar de R$ 3.009,36, relativo ao IRPJ de março de 2003, código: 2362, com vencimento em 30/04/2003. É o relatório. A decisão de primeira instância (efl. 337/347) julgou a manifestação de inconformidade improcedente, por entender que no caso do recolhimento com valor superior àquele determinado pela legislação, estaria caracterizado um pagamento a maior, cabendo a sua restituição, se comprovado que não tivesse sido utilizado posteriormente. Como o contribuinte não trouxe aos autos as provas de que não teria utilizado contabilmente este excedente, não haveria como deferir a restituição de IRPJ seguida da compensação. Julgou imprescindível que viessem aos autos as provas, notadamente contábeis, tendose em vista que a contribuinte é pessoa jurídica sujeita ao regime do Lucro Real, para a qual a lei exige contabilidade regular. Conforme legislação acima, a interessada deveria, considerando que é optante pelo lucro real, apuração anual, pagar mensalmente imposto devido por estimativa com base na receita bruta, com a aplicação de um percentual determinado. Poderia também suspender o pagamento desde que procedesse aos balancetes mensais, demonstrando que o valor acumulado já pago excedesse o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. No final do ano, o imposto apurado deveria ser deduzido dos pagamentos recolhidos sob esta sistemática.; Do exposto, verificase que os pagamentos por estimativa de IRPJ são calculados conforme prevê a legislação. A despeito de terem natureza de antecipação do imposto de renda, fato gerador que só ocorrerá no final do período, a pessoa jurídica não pode fazer seus recolhimentos conforme bem entender, de acordo com sua disponibilidade econômica. Há uma legislação especifica para seu cálculo, bem como previsão de multa isolada no caso do seu recolhimento a menor, nos termos do artigo 44 da Lei n° 9.430/96. Fl. 496DF CARF MF 4 No caso do recolhimento com valor superior àquele determinado pela legislação, estaria caracterizado um pagamento a maior, cabendo a sua restituição, se comprovado que não tivesse sido utilizado posteriormente. De acordo com a DCTF do 3° trimestre de 2000, o total do débito principal apurado de IRPJ estimativa foi de R$ 40.643,95. Desse total, a cifra de R$ 7.229,09 foi depositada judicialmente em 31/10/2000. A contribuinte, ainda, compensou o montante de R$ 5.348,93, relativo ao pagamento a maior de DARF, referente à competência de agosto/2000, conforme demonstrativo de DCTF (fl. 120). Dessa subtração, a requerente teria de recolher aos cofres públicos, via DARF, o valor de R$ 28.065,93. No entanto, foi recolhido o valor de R$ 35.295,02, ou seja, um valor a maior de R$ 7.229,09 (fl. 116). Contudo, é preciso insistir que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoo com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente e análise da situação Mica, de modo a se conhecer qual seria o montante de tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. Em razão disso, a contribuinte deveria trazer, por ocasião do presente contencioso, justificativas lastreadas em documentos e lançamentos contábeis que identificassem, inequivocamente, que o valor pago a maior, relativo a estimativa do mês de setembro de 2000, não foi utilizado posteriormente em autocompensações, observese que, à época dos fatos, a contribuinte poderia proceder à autocompensação (sem requerimento à autoridade fiscal), desde que envolvidos tributos da mesma espécie e os débitos fossem posteriores aos indébitos, ou na própria composição do saldo negativo de IRPJ do ano calendário de 2000. Dai porque seria imprescindível que viessem aos autos as provas, notadamente contábeis, mesmo porque a contribuinte é pessoa jurídica sujeita ao regime do Lucro Real, para a qual a lei exige contabilidade regular. Dentre outras provas, destacamse: os registros contábeis do IRRF sob exame em conta do ativo "Imposto de Renda a recuperar", a expressão deste direito em Balanços ou Balancetes, a Demonstração do Resultado do Exercício, o oferecimento à tributação das receitas que ensejaram as retenções, os Livros Diário e Razão, etc., e ainda os registros no Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), tudo a dar sustentação à veracidade do saldo negativo de IRPJ declarado. Esclareçase que a escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, conforme dispõe o artigo 923 do RIR 999: Fl. 497DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 496 5 "Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei n2 1.598, de 1977, art. 92)" Registrese que nos autos não constam os registros contábeis relativos às compensações do IRPJ devido nos períodos subseqüentes à apuração do pagamento indevido sob exame (a partir de outubro de 2000). Destarte, a juntada de documentos que demonstrem a efetividade e liquidez do crédito que a interessada aduz possuir e a comprovação de que referido crédito foi apurado e não tenha sido já utilizado em períodos subseqüentes, de acordo com as normas legais, é obrigação da pretendente. A par disso, assim dispõe o Código de Processo Civil, art. 333: "Art. 333. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor". (grifei) (...) Cientificada da decisão de primeira instância em 14/11/2008 (efl. 357) a Interessada interpôs recurso voluntário, protocolado em 15/012/2008 (efl. 360), em que alega, em resumo, que o Acórdão ainda mantém a linha de raciocínio do Despacho Decisório citado anteriormente, apegandose em compensação de saldo de IRPJ negativo, o que não procede; mas que anexa todos os documentos necessários à comprovação de seu direito creditório: (...) vii. Visto então que o pressuposto da compensação de créditos tributários deriva da certeza e liquidez daqueles, reforçase então o direito creditório reconhecido pelo DARE pago e anexado, bem como sua contabilização em Diário e Razão, bem como comprovado todo o seu montante de compensação via PER/DCOMP's, temos então a clareza, e sua conseqüente certeza e liquidez, gerando então todo o direito ao crédito RECORRENTE, que então, não compensou nenhum indébito conforme alegado no Acórdão. (...) (...) viii. Notamos novamente que o Acórdão ainda mantém a linha de raciocínio do Despacho Decisório citado anteriormente, apegandose em compensação de saldo de IRPJ negativo, o que não procede, e mesmo a RECORRIDA entendendo ser o crédito tributário um saldo negativo de IRPJ, a RECORRENTE ainda permanece com direito creditório, podendo compensálo ainda em exercícios subseqüentes. A compensação da RECORRENTE fundamentase tão somente em compensação de saldo de DARF pago à maior, por pagamento errôneo, sendo liquido e certo o seu direito, bem como liquido e certo a sua compensação. Fl. 498DF CARF MF 6 (...) x. Em seu Acórdão, a RECORRIDA em suma, felizmente reconhece o saldo de DARF, de pagamento a maior, na ordem de R$ 7.229,09. Porém ainda insiste que para o reconhecimento do direito creditório contra a Fazenda Nacional, é exigido a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento à maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações, confrontandoo com registros contábeis e fiscais, com base na documentação pertinente e análise da situação Mica, de modo a se conhecer qual seria o montante de tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado, trazendo ao contencioso, justificativas lastreadas em documentos e lançamentos contábeis que identificasse, inequivocadamente, o valor pago 5 maior. xi. Pois bem, visando apensar provas fiscais e contábeis no contencioso, para definitivamente provar o direito creditório da RECORRENTE, conforme Livro Diário em anexo, ficam evidenciados os lançamentos contábeis de pagamento do IRPJ judicial (R$ 7.229,09), e o pagamento do DARF de IRPJ R$ 35.295,02 que originou o crédito devido ao pagamento maior. • xii. Têmse também, os lançamentos contábeis no dia 31/12/2000, no Diário e Razão, o saldo da conta IRPJ à Recuperar, num saldo de R$ 479.560,96 no anocalendário de 2000, sendo R$ 7.229,09 como saldo de DARE pago a maior e, R$ 12.578,02 referente à depósitos judiciais não utilizados em compensações, restando um saldo negativo de IRPJ de R$ 459.753,85, compensado o valor de R$ 148.113,58 em 09/2001 e R$ 311.640,27 em 01/2003, referente ao Processo n° 13830.000050/200317. xiii. No Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), tornase claro na apuração do IRPJ em 12/2000, que há saldo de IRPJ a recuperar, evidenciando os saldos negativos de IRPJ. Consoante à isso, segue controle da época comprovando tais fatos. xvii. A RECORRIDA ainda intima a RECORRENTE a provar que o crédito tributário apurado não tenha sido utilizado total ou parcialmente, garantindo o efetivo saldo de DARE para suportar a compensação dos débitos não homologados por Despacho Decisório e Acórdão. Com isso, provase o valor do lucro real em 12/2000, de R$ 2.296.712,37 com cópias do LALUR e sua respectiva apuração de IRPJ, bem como sua respectiva contabilização no Livro Diário e Razão. (...) Voto Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator O recurso ao CARF é tempestivo, e portanto dele conheço. Fl. 499DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 497 7 Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo (art. 74 da lei 9.430/96), fazendose necessário verificar a exatidão das informações referentes ao crédito alegado e confrontar com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual o tributo devido no período de apuração e comparálo ao pagamento declarado e comprovado. Nesse sentido o pedido de restituição de crédito não continha (no ato da apresentação da PERDcomp transmitida em 14/05/2003, efl. 03, e nem quando da apresentação da manifestação de inconformidade) os atributos necessários de liquidez e certeza, os quais são imprescindíveis para reconhecimento pela autoridade administrativa de crédito junto à Fazenda Pública, sob pena de haver reconhecimento de direito creditório incerto, contrário, portanto, ao disposto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN). Neste sentido, com base no artigo art. 170 do CTN e art. 74 da lei 9.430/96 o pedido de restituição/compensação cujo crédito não foi comprovado deve ser indeferido. No mesmo sentido, assim ficou consolidado no Parecer COSIT n. 2/2015: As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário.(Destaquei) Observo que no caso em apreciação nesta segunda instância o recorrente pretende trazer pela primeira vez documentos que comprovariam, segundo alega, seu crédito. Conforme disposto nos artigos 16 e 17 do Decreto nº 70.235/1972, não se pode apreciar as provas que no processo administrativo o contribuinte se absteve de apresentar na impugnação/manifestação de inconformidade, pois operase o fenômeno da preclusão. O texto legal está assim redigido: Art. 16. A impugnação mencionará: I a autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. V se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. Fl. 500DF CARF MF 8 § 1º Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. § 2º É defeso ao impugnante, ou a seu representante legal, empregar expressões injuriosas nos escritos apresentados no processo, cabendo ao julgador, de ofício ou a requerimento do ofendido, mandar riscálas. § 3º Quando o impugnante alegar direito municipal, estadual ou estrangeiro, provarlheá o teor e a vigência, se assim o determinar o julgador. § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância. Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Assim, no caso em tela, o efeito legal da omissão do Sujeito Passivo em trazer na manifestação de inconformidade e/ou antes da decisão de primeiro grau todos os argumentos contra a não homologação do pedido de compensação e juntar os documentos hábeis a comprovar a liquidez e certeza do crédito pretendido compensar, é a preclusão, impossibilidade de o fazer em outro momento. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Declaração de Voto Fl. 501DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 498 9 Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues Na sessão de julgamento do processo em epígrafe, o D. Relator rejeitou em seu voto os documentos apresentados pela Contribuinte por ocasião de seu Recurso Voluntário sob o argumento de que o direito à produção probatória estaria precluído, em estrita aplicação do art. 16, §4º e §5º, do Decreto 70.235/72. Com a devida vênia, discordo do Voto do Relator. Razão pela qual, entendi por bem declarar meu voto, especificando as razões que me levaram a divergir do posicionamento do ilustre Relator. Pois bem, conforme cediço, em nosso sistema jurídico pátrio nenhuma norma paira sozinha no universo, mas, sim, se concilia com todas as demais perfazendo um ordenamento uno, coeso e harmônico. Quer isto dizer que nenhuma norma pode ser interpretada apenas de forma isolada, devendo o hermeneuta, em seu trabalho, extrair de todas as acepções possíveis de determinado texto legal aquelas que permitam aplicação harmoniosa com as demais disposições pertinentes à mesma matéria. Em outras palavras, dentre as várias interpretações possíveis de um dispositivo legal, devese buscar aquela que não entre em conflito com outra norma igualmente válida, sob pena de subversão da ordem jurídica. Fixada essas premissas, cabe voltar a análise as normas vigentes relacionadas à questão da produção probatória. O permissivo legal que fundamentou o Voto do Relator, art. 16 do Decreto 70.235/72, possui a seguinte redação: Art. 16. A impugnação mencionará: I a autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. V se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. § 1º Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. § 2º É defeso ao impugnante, ou a seu representante legal, empregar expressões injuriosas nos escritos apresentados no Fl. 502DF CARF MF 10 processo, cabendo ao julgador, de ofício ou a requerimento do ofendido, mandar riscálas. § 3º Quando o impugnante alegar direito municipal, estadual ou estrangeiro, provarlheá o teor e a vigência, se assim o determinar o julgador. § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância. (grifouse) Uma analise literal e isolada deste dispositivo permitiria concluir rigidamente que haveria a preclusão do direito à produção probatória após a apresentação da Impugnação, salvo nas hipóteses taxativas do §5º. Contudo, tal interpretação não deve ocorrer desta forma, vez que há outros elementos normativos atinentes a matéria que também devem ser considerados. A Constituição Federal, norma de maior hierarquia em nosso ordenamento, estabelece no inciso LV de ser art. 5º os princípios do contraditório e da ampla defesa, nos seguintes termos: LV aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes; Ao incluir o direito ao contraditório e a ampla defesa "com os meios e recursos a ela inerentes" no rol de direitos e garantias fundamentais, o legislador constituinte elevaos ao mais alto grau de importância dentro de nosso ordenamento, restando claro a preponderância que tais direitos devem ter. E, assim, devem ser observados e operacionalizados pelas demais normas infraconstitucionais. Não por acaso, tais princípios foram observados pela Lei 9.784/99, responsável por regular o Processo Administrativo Federal, que trouxe no bojo de seu art. 2º as seguintes disposições: Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, Fl. 503DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 499 11 proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: I atuação conforme a lei e o Direito; (...) VI adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público; VII indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão; VIII – observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados; IX adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados; X garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações finais, e à produção de provas à interposição de recursos, nos processos de que possam resultar sanções e nas situações de litígio; (...)(grifouse) Conforme se extrai, o legislador infraconstitucional não só incorporou expressamente os princípios constitucionais da legalidade, ampla defesa, contraditório e ouros, como elencou uma série de critérios a serem observados na regulamentação e condução dos processos administrativos. Desses critérios expressos acima, temse de forma bastante clara que as formalidades e restrições devem ser limitados ao estrito necessário para garantir a efetividade do processo em atender a finalidade pública. Ora, as regras processuais formais visam dar ordem ao processo, permitindo que este cumpra com seus objetivos de forma eficiente, isto é, dentro da moralidade e proporcionando segurança jurídica no cumprimento do interesse público. Contudo, a norma processual não pode se sobrepor ao próprio objetivo do processo, qual seja, a promoção da legalidade. Por oportuno esclarecese que não se está a sugerir que as regras formais postas sejam mitigadas, mas sim que a interpretação do texto legal seja feita de forma a considerar a finalidade maior do processo, as regras formais não devem ser interpretadas de forma rigorosa a ponto de prejudicar o cumprimento de seu escopo. Ainda, cumpre trazer a colação os termos do art. 38 da mesma Lei 9.784/99, que trata especificamente da produção probatória nos Processos Administrativos Federais: Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer Fl. 504DF CARF MF 12 diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. § 1o Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. § 2o Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. Notese que o texto legal diz expressamente que é permitido ao interessado apresentar ou requerer a produção de material probatório não só na fase instrutória, mas também antes da tomada da decisão. Outrossim estabelece taxativamente que a prova só poderá ser recusadas quando ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. Pois bem, retornando a ideia inicialmente tratada neste Voto de que as normas jurídicas devem ser interpretadas da forma mais harmônica possível, me parece que a interpretação restritiva do art. 16 do Decreto 70.235/72, para recusar de plano toda e qualquer prova apresentada pelo contribuinte após o protocolo da Impugnação/Manifestação de Inconformidade não se coaduna com as demais normativas já expostas. Em verdade, a aplicação tão restrita assim da norma, não só implica na frontal negativa de vigência aos disposto da mais moderna Lei 9.784/99, como destoa até mesmo dos objetivos maiores do Processo Administrativo Federal que é a revisão do ato administrativo fiscal e a garantia de que este se encontra dentro da legalidade. Alias, fazse oportuno lembrar que o Processo Administrativo Fiscal também se rege pelo princípio da busca pela verdade material, ou seja, a preponderância no interesse público é a solução jurídica mais adequada ao caso, independente dos excessos de formalidade. Assim, ao meu ver, a melhor interpretação extraída da conjugação dos disposto quanto ao tema na Constituição Federal, Lei. 9.784/99 e Decreto 70.235/702 é aquela que não impõe óbice na apresentação de provas junto ao Recurso Voluntário, ou até mesmo em momento posterior prévio ao julgamento, desde que as provas não sejam ilícitas ou manejadas de má fé. De forma semelhante tem decidido a 1ª Câmara Superior de Recursos Fiscais, em recentes julgados, conforme se colaciona: PROVAS. RECURSO VOLUNTÁRIO. APRESENTAÇÃO. POSSIBILIDADE. SEM INOVAÇÃO E DENTRO DO PRAZO LEGAL. Da interpretação sistêmica da legislação relativa ao contencioso administrativo tributário, art. 5º, inciso LV da Lei Maior, art. 2º da Lei nº 9.784, de 1999, que regula o processo administrativo federal, e arts. 15 e 16 do PAF, evidenciase que não há óbice para apresentação de provas em sede de recurso voluntário, desde que sejam documentos probatórios que estejam no contexto da discussão de matéria em litígio, sem trazer inovação, e dentro do prazo temporal de trinta dias a contar da data da ciência da decisão recorrida. (Processo: 10880.004637/9929. Rel. ANDRE MENDES DE MOURA. Data da Sessão: 14/09/2017) Fl. 505DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 500 13 PROVAS. RECURSO VOLUNTÁRIO. APRESENTAÇÃO. POSSIBILIDADE. SEM INOVAÇÃO E DENTRO DO PRAZO LEGAL. Da interpretação sistêmica da legislação relativa ao contencioso administrativo tributário, art. 5º, inciso LV da Lei Maior, art. 2º da Lei nº 9.784, de 1999, que regula o processo administrativo federal, e arts. 15 e 16 do PAF, evidenciase que não há óbice para apresentação de provas em sede de recurso voluntário, desde que sejam documentos probatórios que estejam no contexto da discussão de matéria em litígio, sem trazer inovação, e dentro do prazo temporal de trinta dias a contar da data da ciência da decisão recorrida. (Processo: 16327.001227/200542. Rel. ADRIANA GOMES REGO. Data da Sessão: 08/08/2017) RECURSO VOLUNTÁRIO. JUNTADA DE DOCUMENTOS. POSSIBILIDADE. DECRETO 70.235/1972, ART. 16, §4º. LEI 9.784/1999, ART. 38. É possível a juntada de documentos posteriormente à apresentação de impugnação administrativa, em observância ao princípio da formalidade moderada e ao artigo 38, da Lei nº 9.784/1999. (Processo: 14098.000308/200974. Rel. GERSON MACEDO GUERRA. Data da Sessão: 19/06/2017 ) Para melhor ilustrar, peço vênia para transcrever a parte final da fundamentação do Voto deste último julgado colacionado, de autoria da ilustre Conselheira Cristiane Silva Costa, designada Redatora para o Voto Vencedor: "Os processos administrativos, portanto, devem atender a formalidade moderada, com a adequação entre meios e fins, assegurandose aos contribuintes a produção de provas e, principalmente, resguardandose o cumprimento à estrita legalidade, para que só sejam mantidos lançamentos tributários que efetivamente atendam à exigência legal. (...) Ao tratar do artigo 16, §4º, do Decreto nº 70.235/1972, são as pertinentes considerações de Marcos Vinicius Neder e Maria Teresa Martínez López: Ao se levar às últimas consequências, as regras atualmente vigentes para o Decreto nº 70.235/72, estarseia mitigando a aplicação de um dos princípios mais caros ao processo administrativo que é o da verdade material. (...) Fl. 506DF CARF MF 14 Assim, revela destacar que a depender da situação é possível flexibilizar a norma, desde que evidentemente, a prova apresentada seja inconteste e nesse sentido independa da análise de uma instância inferior, eis que a preclusão ligase ao princípio do impulso processual. (...) Na prática, quer nos parecer que, o direito à parte à produção de provas comporta graduação a critério da autoridade julgadora, com fulcro em seu juízo de valor acerca da utilidade e necessidade, de modo a assegurar o equilíbrio entre a celeridade desejável e a segurança indispensável na realização da justiça. (Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado, 3ª edição, Dialética, 2010, fls. 305 e 306.) Diante de tais razões, voto por dar provimento ao recurso especial do contribuinte, determinando a baixa dos autos para que a Turma a quo aprecie os documentos apresentados pelo contribuinte." Destarte, diante de todos os argumentos expedindos, entendo que as provas apresentadas em momento posterior ao da Impugnação/Manifestação de Inconformidade, podem, e devem, ser conhecidas, desde que não acarretem qualquer prejuízo processual as partes ou ao bom trâmite processual. Ressalvase que o Julgador ao analisar o recebimento de provas que eventualmente entenda serem ilícitas, meramente protelatórias, ou que sejam manejadas com o intuito de lesar a parte adversa tem o poder e o dever de recusálas. Ou, ainda que não vislumbre qualquer má fé, mas tema por eventual supressão de instância ou direito ao contraditório, sempre pode recorrer a prerrogativa de baixar os autos em diligência para que seja oportunizada as providências necessárias para o resguardo do direito. Nesta linha, considerando que no caso em tela as provas oferecidas pela Recorrente por ocasião do Recurso Voluntário não foram sequer analisadas pelo digno Relator, tampouco pela DRJ de origem, entendo por bem que seja os autos baixados em diligência para que a d. Autoridade Fiscal se pronuncie a respeito. Desta feita, diante de tudo o que foi exposto, peço vênia ao Ilustre Conselheiro Relator para discordar de suas e encaminhar o meu VOTO no sentido de converter o presente julgamento em DILIGÊNCIA para que a unidade de origem proceda ao exame dos argumentos e da documentação apresentada junto com o Recurso Voluntário, confrontandoa com os demais já constante dos autos e, ainda, com outros dados disponíveis. Para efetividade desse exame, a contribuinte poderá ser intimada a apresentar livros e documentos, sem prejuízo de outras providências, a juízo da autoridade diligenciante, assim como consultas a dados e sistemas disponíveis à fiscalização. Ao final, deverá ser elaborado relatório circunstanciado explicitando suas conclusões a respeito da matéria em litígio, do qual se dará ciência à contribuinte para que no prazo de trinta dias, querendo, se manifeste. Decorrido o prazo, com ou sem manifestação da contribuinte, os autos devem retornar ao CARF para julgamento. Fl. 507DF CARF MF Processo nº 13830.000741/200311 Acórdão n.º 1001000.545 S1C0T1 Fl. 501 15 (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues. Fl. 508DF CARF MF
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