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Numero do processo: 10945.004992/2007-12
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 10/08/2002 a 20/12/2004
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. SIMILITUDE FÁTICA.
O recurso especial de divergência, interposto nos termos do art. 67 da Portaria MF nº 256, de 2009, só se justifica quando há interpretação divergente para a mesma legislação tributária.
Recurso Especial do Contribuinte não conhecido.
Numero da decisão: 9303-005.272
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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INCIDÊNCIA Recorrente EMPRESA DE ÁGUA MINERAL ITAIPU LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 10/08/2002 a 20/12/2004 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. SIMILITUDE FÁTICA. O recurso especial de divergência, interposto nos termos do art. 67 da Portaria MF nº 256, de 2009, só se justifica quando há interpretação divergente para a mesma legislação tributária. Recurso Especial do Contribuinte não conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 94 5. 00 49 92 /2 00 7- 12 Fl. 1101DF CARF MF 2 Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 3801001.640, de 29/01/2013, proferido pela 1ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 10/08/2002 a 20/12/2004 Ementa: IPI IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS Industrialização. Envazamento. Água Mineral. Incidência do IPI. Ausência de comprovação de que o produto não é sujeito ao Imposto. Imunidade não comprovada. Recurso Voluntário Negado. No Recurso Especial, por meio do qual pleiteou, ao final, a reforma do decisum, a Recorrente insurgese contra a incidência do IPI sobre a água mineral. Alega divergência com relação ao que decidido nos Acórdãos nº 30134500, 39300001 e 30238300. O exame de admissibilidade encontrase às fls. 1085/1086. A Procuradoria apresentou contrarrazões ao recurso (fls. 1088/1094). É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial não deve ser conhecido. É de fácil percepção, o acórdão recorrido concluiu pela manutenção do lançamento, ao argumento de que a Recorrente não comprovou que os produtos por ela fabricados eram classificados na TIPI com a notação "NT" ou mesmo que eram imunes à tributação pelo IPI. Eis os parágrafos em que o tema foi enfrentado: Não se desconhece que a Tabela TIPI traz hipótese de NT para as “águas minerais naturais”. Contudo, a Recorrente não se preocupou em comprovar que o produto por ela comercializado faz juz à Não Tributação do IPI. A fiscalização, pelo contrário, demonstrou que os produtos comercializados pela Recorrente Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 10945.004992/200712 Acórdão n.º 9303005.272 CSRFT3 Fl. 1.097 3 são caracterizados pelos NCM’s 2201.10.00 (Agua mineral com gás) e 2201.90.00 (água mineral sem gás). Importante destacar que a própria Recorrente informou à fiscalização os códigos de NCM dos produtos por ela comercializados. Já com relação à imunidade arguida pela Recorrente, cumpre destacar que, mais uma vez, não há comprovação nos autos de que o comando constitucional, que limita a competência do ente tributante, se aplica aos produtos comercializados pela Recorrente. Não há nos autos qualquer comprovação neste sentido, muito menos decisão judicial favorável à Recorrente. (grifamos) A ratio decidendi, portanto, foi a falta de provas. Já os acórdãos paradigmas apenas afirmaram que um certo produto, aquele que a Recorrente afirma fabricar, não é tributado pelo IPI. Confiramse as ementas de cada qual: Acórdão 30134500: SIMPLES. REINCLUSÃO. ENGARRAFAMENTO DE ÁGUA MINERAL NATURAL. A atividade de engarrafamento de água mineral natural não é tributada pelo IPI e, portanto, não se enquadra na condição impeditiva prevista no inciso XIX, art. 9º da Lei nº. 9.317/96. Acórdão 39300001: SIMPLES. REINCLUSÃO. ENGARRAFAMENTO DE ÁGUA MINERAL NATURAL. A atividade de engarrafamento de água mineral natural não é tributada pelo IPI e, portanto, não se enquadra na condição impeditiva prevista no art. 9º, inciso XIX da Lei nº. 9.317/96. Acórdão 30238300: SIMPLES. EXCLUSÃO. ENGARRAFAMENTO DE ÁGUA MINERAL NATURAL. A atividade de engarrafamento de água mineral natural não é tributada pelo IPI, e portanto, não se enquadra na condição impeditiva prevista no inciso XIX, art. 9º da Lei nº 9.317/96. Não resta, pois, comprovada a alegada divergência. Não basta, como se sabe, que se tenham mantido, nas decisões confrontadas, classificações ou regimes tributários diversos para o mesmo produto, senão que os Fl. 1103DF CARF MF 4 fundamentos que as embasa sejam opostos, uma vez que o recurso especial só cabe quando há interpretação divergente para a mesma legislação tributária. Ante o exposto, e sem maiores delongas, não conheço do recurso especial. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 1104DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10950.003964/2001-13
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/04/2001 a 30/06/2001
NORMAS REGIMENTAIS. OBRIGATORIEDADE DE REPRODUÇÃO DO CONTEÚDO DE DECISÃO PROFERIDA PELO STJ NO RITO DO ART. 543-C DO CPC.
Consoante art. 62-A do Regimento Interno do CARF, As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543¬B e 543¬C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.
RESSARCIMENTO DE IPI. AQUISIÇÕES A NÃO CONTRIBUINTES DO PIS E COFINS. APLICAÇÃO DAS DECISÕES DO STJ PROFERIDAS NO RITO DO ART. 543-C.
Na forma de reiterada jurisprudência oriunda do STJ, é cabível a inclusão na base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei nº 9.363/96 das aquisições efetuadas junto a pessoas físicas e cooperativas.
Numero da decisão: 9303-005.416
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: DEMES BRITO
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OBRIGATORIEDADE DE REPRODUÇÃO DO CONTEÚDO DE DECISÃO PROFERIDA PELO STJ NO RITO DO ART. 543C DO CPC. Consoante art. 62A do Regimento Interno do CARF, “As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543¬B e 543¬C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. RESSARCIMENTO DE IPI. AQUISIÇÕES A NÃO CONTRIBUINTES DO PIS E COFINS. APLICAÇÃO DAS DECISÕES DO STJ PROFERIDAS NO RITO DO ART. 543C. Na forma de reiterada jurisprudência oriunda do STJ, é cabível a inclusão na base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei nº 9.363/96 das aquisições efetuadas junto a pessoas físicas e cooperativas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Demes Brito Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 00 39 64 /2 00 1- 13 Fl. 332DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 333 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional com fundamento no artigo 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, aprovado pela Portaria MF 256, de 22 de junho de 2009, contra acórdão nº3802000.303, proferido pela 2º Turma Especial do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que decidiu em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para incluir na base de cálculo do crédito presumido de IPI as aquisições de insumos de pessoas físicas. Transcrevo, inicialmente, excerto do relatório da decisão de primeiro grau: "Tratase de recurso voluntário interposto contra decisão da 2ª Turma da DRJ Ribeirão Preto(fls. 207/sgs.), a qual, por unanimidade de votos, indeferiu a solicitação da recorrente, nos termos do Acórdão nº 1421.292, proferido em 5 de novembro de 2008, abaixo transcrito: ACORDAM os membros da 2' Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, indeferir a solicitação. A contribuinte solicitou o ressarcimento de crédito presumido de IPI (f1.01) de que trata a Lei n° 9.363 de 1996, e a Portaria MF n° 38/97, no valor total de R$ 158.089,93, relativamente ao 2° trimestre de 2001. Posteriormente retificou o valor pedido para R$ 170.303,86 (fls. 87/88). Apresentou também, pedidos de compensação de tributos. O pedido foi deferido parcialmente, tendo sido reconhecido o direito creditório de R$ 104.969,26, mediante o Despacho Decisório de fls. 104/107, no qual foram efetuadas as seguintes retificações no cálculo do crédito da interessada: 1.Exclusão das matériasprimas adquiridas de pessoas fisicas; 2. Exclusão das devoluções de compras para industrialização ocorridas nos meses do trimestre em referência; Em razão do deferimento parcial do pedido foi proferido também o Despacho Decisório de fls. 131/134, homologando parcialmente as compensações pleiteadas. O acórdão recorrido restou assim ementado: CONEXÃO PROCESSUAL. Processos que tratam de pleitos individualizados, assim formulados pela requerente, concernentes a saldos credores de IPI apurados em trimestrescalendários distintos, ensejam Fl. 333DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 334 3 análises igualmente individualizadas e distintas dos órgãos administrativos competentes. ERRO DE CÁLCULO NA APURAÇÃO DO CRÉDITO PRESUMIDO. Deduções efetuadas em duplicidade. Não há controvérsia a ser examinada já que este ponto já foi atacado em 1a. instância. IPI. RESSARCIMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES AO PIS E COFINS MEDIANTE CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE NÃO CONTRIBUINTES. O incentivo corresponde a um crédito que é presumido, cujo valor deflui de fórmula estabelecida pela lei, a qual considera que é possível ter havido sucessivas incidências das duas contribuições, mas que, por se tratar de presunção "juris et de jure", não exige nem admite prova ou contraprova de incidências ou não incidências, seja pelo fisco, seja pelo contribuinte. Os valores correspondentes às aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem de não contribuintes do PIS e da COFINS (pessoas fisicas, cooperativas) podem compor a base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei n° 9.363/96. Não cabe ao intérprete fazer distinção nos casos em que a lei não o fez. INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. O incentivo denominado "crédito presumido de IPI" somente pode ser calculado sobre as aquisições, no mercado interno, de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, sendo indevida a inclusão, na sua apuração, de custos de serviços de industrialização por encomenda. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. Incabível a atualização do ressarcimento pela taxa Selic, por se tratar de hipótese distinta da repetição de indébito. Inconformada com tal decisão, a Fazenda Nacional interpõe o presente Recurso, sustentando o seguinte: "o objetivo do legislador foi ressarcir as contribuições do PIS e da Cofins incidentes sobre as aquisições de insumos aplicados na industrialização de produtos exportados, não havendo no referido texto legal qualquer restrição sobre a origem das aquisições. Como o intuito da norma é, sob certo aspecto, desonerar as aquisições daquelas contribuições sociais, minimizando, assim, o seu impacto no custo das exportações, forçoso concluir que deve haver a pressuposição da sua incidência na etapa anterior. Se tal não ocorre, como no caso em debate, não há que se falar na inclusão destes valores no cálculo do benefício fiscal". Por fim, pugna para que o Recurso seja conhecido, reformandose o acórdão recorrido, na parte objeto de irresignação, para excluir as aquisições de pessoas físicas no cálculo do crédito presumido de IPI. Para respaldar a dissonância jurisprudencial, a Fazenda Nacional aponta como paradigma o acórdão nº 20179.254, de 23/05/2006. Em seguida, por sido comprovada a divergência jurisprudencial, o Presidente da 2º Câmara da 3º Seção de Julgamento deu seguimento ao recurso, com os seguintes fundamentos: Fl. 334DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 335 4 "comparandose os fundamentos dos Acórdãos recorrido e paradigma, entendo que restou caracterizado o dissídio jurisprudencial, sendo inequívoca a divergência manifestada: o Acórdão recorrido manifestase pelo cabimento da inclusão, no cálculo do crédito presumido de IPI, pelo produtor exportador, das aquisições de insumo de pessoas físicas e cooperativas não contribuintes da contribuição para o PIS e da COFINS; já o Acórdão paradigma, em sentido oposto, entende não ser cabível a inclusão dessas aquisições no cálculo do crédito presumido do IPI, visto não haver incidência dessas contribuições sociais nas referidas aquisições, fls. 327." A Contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Demes Brito Relator O Recurso foi tempestivamente apresentado e atende os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. A matéria divergente posta a esta E.Câmara Superior, diz respeito ao cabimento ou não da inclusão, no cálculo do crédito presumido de IPI, pelo produtor exportador nas aquisições de pessoas físicas e cooperativas não contribuintes da contribuição para o PIS e da COFINS. Com efeito, a matéria foi tratada nos autos do REsp nº 993.164MG, de Relatoria do Ministro Luiz Fux, cuja controvérsia foi submetida ao rito previsto no artigo 543 C do CPC, cuja ementa transcrevese abaixo: "PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. O crédito presumido de IPI, instituído pela Lei 9.363/96, não poderia ter sua aplicação restringida por força da Instrução Normativa SRF 23/97, ato normativo secundário, que não pode inovar no ordenamento jurídico, subordinandose aos limites do texto legal. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 336 5 2. A Lei 9.363/96 instituiu crédito presumido de IPI para ressarcimento do valor do PIS/PASEP e COFINS, ao dispor que: "Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos sete, de sete de setembro de 1970, 8, de três de dezembro de 1970, e de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, nos casos de venda a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação para o exterior.”. 3. O artigo 6º, do aludido diploma legal, determina, ainda, que "o Ministro de Estado da Fazenda expedirá as instruções necessárias ao cumprimento do disposto nesta Lei, inclusive quanto aos requisitos e periodicidade para apuração e para fruição do crédito presumido e respectivo ressarcimento, à definição de receita de exportação e aos documentos fiscais comprobatórios dos lançamentos, a esse título, efetuados pelo produtor exportador". 4. O Ministro de Estado da Fazenda, no uso de suas atribuições, expediu a Portaria 38/97, dispondo sobre o cálculo e a utilização do crédito presumido instituído pela Lei 9.363/96 e autorizando o Secretário da Receita Federal a expedir normas complementares necessárias à implementação da aludida portaria (artigo 12). 5. Nesse segmento, o Secretário da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 23/97 (revogada, sem interrupção de sua força normativa, pela Instrução Normativa 313/2003, também revogada, nos mesmos termos, pela Instrução Normativa 419/2004), assim preceituando: "Art. 2º Fará jus ao crédito presumido a que se refere o artigo anterior à empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais. § 1º O direito ao crédito presumido aplicase inclusive: I ¬ Quando o produto fabricado goze do benefício da alíquota zero; II ¬ nas vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação. § 2º O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições PIS/PASEP e COFINS.”. 6. Com efeito, o § 2º, do artigo 2º, da Instrução Normativa SRF 23/97, restringiu a dedução do crédito presumido do IPI (instituído pela Lei 9.363/96), no que concerne às empresas produtoras e exportadoras de produtos oriundos de atividade rural, às aquisições, no mercado interno, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas às contribuições destinadas ao PIS/PASEP e à COFINS. 7. Como de sabença, a validade das instruções normativas (atos normativos secundários) pressupõe a estrita observância dos limites impostos pelos atos normativos primários a que se subordinam (leis, tratados, convenções internacionais, etc.), sendo certo que, se vierem a positivar em seu texto uma exegese que possa irromper a hierarquia normativa sobrejacente, viciarse ão de ilegalidade e não de inconstitucionalidade (Precedentes do Supremo Tribunal Federal: ADI 531 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Fl. 336DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 337 6 Pleno, julgado em 11.12.1991, DJ 03.04.1992; e ADI 365 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 07.11.1990, DJ 15.03.1991). 8. Consequentemente, sobressai a "ilegalidade" da instrução normativa que extrapolou os limites impostos pela Lei 9.363/96, ao excluir, da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI, as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/PASEP e pela COFINS (Precedentes das Turmas de Direito Público: REsp 849287/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.08.2010, DJe 28.09.2010; AgRg no REsp 913433/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 04.06.2009, DJe 25.06.2009; REsp 1109034/PR, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 16.04.2009, DJe 06.05.2009; REsp 1008021/CE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01.04.2008, DJe 11.04.2008; REsp 767.617/CE, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12.12.2006, DJ 15.02.2007; REsp 617733/CE, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.08.2006, DJ 24.08.2006; e REsp 586392/RN, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 19.10.2004, DJ 06.12.2004). 9. É que: (i) "a COFINS e o PIS oneram em cascata o produto rural e, por isso, estão embutidos no valor do produto final adquirido pelo produtor exportador, mesmo não havendo incidência na sua última aquisição"; (ii) "o Decreto 2.367/98 do Regulamento do IPI, posterior à Lei 9.363/96, não fez restrição às aquisições de produtos rurais"; e (iii) "a base de cálculo do ressarcimento é o valor total das aquisições dos insumos utilizados no processo produtivo (art. 2º), sem condicionantes" (REsp 586392/RN). 10. A Súmula Vinculante 10/STF cristalizou o entendimento de que: "Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no todo ou em parte." 11. Entrementes, é certo que a exigência de observância à cláusula de reserva de plenário não abrange os atos normativos secundários do Poder Público, uma vez não estabelecido confronto direto com a Constituição, razão pela qual inaplicável a Súmula Vinculante 10/STF à espécie. 12. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI (decorrente da aplicação do princípio constitucional da não cumulatividade), descaracteriza referido crédito como escritural (assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil), exsurgindo legítima a incidência de correção monetária, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Aplicação analógica do precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1035847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 24.06.2009, DJe 03.08.2009). 13. A Tabela Única aprovada pela Primeira Seção (que agrega o Manual de Cálculos da Justiça Federal e a jurisprudência do STJ) autoriza a aplicação da Taxa SELIC (a partir de janeiro de 1996) na correção monetária dos créditos extemporaneamente aproveitados por óbice do Fisco (REsp 1150188/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20.04.2010, DJe 03.05.2010). Fl. 337DF CARF MF Processo nº 10950.003964/200113 Acórdão n.º 9303005.416 CSRFT3 Fl. 338 7 14. Igualmente, a apontada ofensa ao artigo 535, do CPC, não restou configurada, uma vez que o acórdão recorrido pronunciase de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Salientese, ademais, que o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão, como de fato ocorreu na hipótese dos autos. 15. Recurso especial da empresa provido para reconhecer a incidência de correção monetária e a aplicação da Taxa Selic. 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Quanto à questão da incidência de taxa Selic sobre os valores dos créditos presumidos de IPI, neste caso, não subiu para apreciação desta E. Câmara Superior. Sem embargo, estou submetido ao artigo 62A, caput, do Regimento Interno do CARF (Portaria MF n° 256, de 22 de junho de 2009, alterada pela Portaria MF n° 586, de 21 de dezembro de 2010) o qual determina que: "As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei n° 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF". De tudo que foi exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional. É como voto. (assinado digitalmente) Demes Brito Fl. 338DF CARF MF
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Numero do processo: 13116.900004/2014-48
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 30/11/2008
PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE.
A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário.
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA.
O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.888
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
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ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 00 04 /2 01 4- 48 Fl. 41DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição para o PIS. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico indeferindo o Pedido de Restituição, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante informou que o direito creditório tinha por fundamento a isenção da contribuição para o PIS decorrente da adesão ao Programa Universidade para Todos ProUni, nos termos da Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009, em que se reafirmou o direito à isenção durante o período de vigência do Termo de Adesão (art. 5º da Medida Provisória nº 213/2004). Nos termos do Acórdão nº 14053.529, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de inexistir comprovação, por meio de documentação contábil e fiscal, do direito creditório pleiteado e por não ter havido a comprovação da adesão da instituição ao ProUni, nos termos do art. 8º da Lei nº 11.096/2005. Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de solução de consulta da Receita Federal assegurando o direito à isenção, o que, segundo ela, tornava "legalmente desnecessária" a exigência de comprovação de sua adesão ao programa. Argumenta, ainda, que, nos casos da espécie, é "faticamente impossível" a apresentação de documentos, por se tratar o pedido de restituição de procedimento eletrônico. Na sequência, sustenta a absoluta desnecessidade dos elementos de prova exigidos pela Delegacia de Julgamento, quais sejam, folhas de salário e contabilidade, por se tratar de questão aperfeiçoada e superada ante a homologação da base de cálculo da contribuição por parte da Fiscalização, tendo em vista que constou do despacho decisório que o valor declarado encontravase exato e perfeito. Supletivamente, pugna, caso o CARF entenda necessário, pela realização de diligência junto à repartição de origem, para que a autoridade administrativa oficie o Ministério da Educação com vistas a elucidar os termos no quais se manteve a sua adesão ao ProUni no período sob comento. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator Fl. 42DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.885, de 28/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 13116.900001/201412, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.885): O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. O dispositivo legal que trata da isenção de impostos e contribuições às instituições de ensino que aderirem ao Prouni é o art. 8º da Lei nº 11.096/2005, reproduzido no que se aplica ao caso (grifei): Art. 8o A instituição que aderir ao ProUni ficará isenta dos seguintes impostos e contribuições no período de vigência do termo de adesão: (Vide Lei nº 11.128, de 2005) (...) III Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991; e IV Contribuição para o Programa de Integração Social, instituída pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. § 1° A isenção de que trata o caput deste artigo recairá sobre o lucro nas hipóteses dos incisos I e II do caput deste artigo, e sobre a receita auferida, nas hipóteses dos incisos III e IV do caput deste artigo, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2° A Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda disciplinará o disposto neste artigo no prazo de 30 (trinta) dias. § 3° A isenção de que trata este artigo será calculada na proporção da ocupação efetiva das bolsas devidas. (Incluído pela Lei nº 12.431, de 2011). A Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.493, de 18/07/2005, com os dispositivos que se aplicam ao caso transcritos (grifei): Art. 1o O Programa Universidade para Todos PROUNI, de que trata a Lei no 11.096, de 13 de janeiro de 2005, destinase à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de cinqüenta por cento ou de vinte e cinco por cento, para estudantes de cursos de graduação ou seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos, que tenham aderido ao PROUNI nos termos da legislação aplicável e do disposto neste Decreto. Parágrafo único. O termo de adesão não poderá abranger, para fins de gozo de benefícios fiscais, cursos que exijam formação prévia em nível superior como requisito para a matrícula. Art. 2o O PROUNI será implementado por intermédio da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Fl. 43DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 5 4 § 1o A instituição de ensino superior interessada em aderir ao PROUNI firmará, em ato de sua mantenedora, termo de adesão junto ao Ministério da Educação. (...) Art. 12. Havendo indícios de descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão, será instaurado procedimento administrativo para aferir a responsabilidade da instituição de ensino superior envolvida, aplicandose, se for o caso, as penalidades previstas. (...) A Secretaria da Receita Federal em cumprimento ao disposto no § 2º do art. 8º acima, editou a Instrução Normativa SRF nº 456/2004, posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.394/2013, que dispunha, no que se aplica ao caso (grifei): Art. 1º A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (ProUni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, das seguintes contribuições e imposto: I Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); II Contribuição para o PIS/Pasep; (...) § 1º A isenção de que trata o caput recairá sobre o lucro na hipótese dos incisos III e IV, e sobre o valor da receita auferida na hipótese dos incisos I e II, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2º Para fins do disposto nos incisos III e IV do caput a instituição de ensino deverá apurar o lucro da exploração referente às atividades sobre as quais recaia a isenção, observado o disposto no art. 2º e na legislação do imposto de renda. (...) Art. 3º Para usufruir da isenção, a instituição de ensino deverá demonstrar em sua contabilidade, com clareza e exatidão, os elementos que compõem as receitas, custos, despesas e resultados do período de apuração, referentes às atividades sobre as quais recaia a isenção segregados das demais atividades. (...) O termo de adesão foi previsto no art. 5º da Lei nº 11.096/2005, in verbis (grifei): Art. 5o A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, poderá aderir ao Prouni mediante assinatura de termo de adesão, cumprindolhe (...) § 1o O termo de adesão terá prazo de vigência de 10 (dez) anos, contado da data de sua assinatura, renovável por iguais períodos e observado o disposto nesta Lei. Fl. 44DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 6 5 (...) Art. 7o As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: (...) Art. 9o O descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão sujeita a instituição às seguintes penalidades: (...) Art. 16. O processo de deferimento do termo de adesão pelo Ministério da Educação, nos termos do art. 5o desta Lei, será instruído com a estimativa da renúncia fiscal, no exercício de deferimento e nos 2 (dois) subseqüentes, a serusufruída pela respectiva instituição, na forma do art. 9o desta Lei, bem como o demonstrativo da compensação da referida renúncia, do crescimento da arrecadação de impostos e contribuições federais no mesmo segmento econômico ou da prévia redução de despesas de caráter continuado A recorrente alega a desnecessidade de apresentação de qualquer documento que comprove sua regular adesão ao Prouni sob o fundamento de que o documento é totalmente eletrônico e a própria Lei nº 11.096/2005 em seu art. 11, § 1º, remete a competência para tais verificações e exigências ao Ministério da Educação. Não é o que se extrai da leitura dos dispositivos acima. O termo de adesão é documento a ser firmado no qual se inserem requisitos de participação no referido Programa. Os diversos dispositivos transcritos (Lei, Decreto e Instrução Normativa) apontam para vários elementos a serem inseridos no Termo que permitiram não somente a adesão da instituição de ensino, mas o controle de sua permanência, enquanto regular e vigente, a aplicação de penalidade, e, principalmente ao que interessa ao presente litígio, a isenção de contribuições. Dessa forma, a exibição do documento "Termo de Adesão" é essencial ao gozo do benefício fiscal de isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Ao contrário do que alega a recorrente, o termo de Adesão, ainda que eletrônico, prevê o ato de sua assinatura, para que se dê a devida validade e autenticidade. Realmente é emitido no âmbito do Ministério da Educação, o que demonstra não estar nos sistemas internos (informatizados) da Secretaria da Receita Federal; e, se de fato materializado apenas em formato eletrônico em razão de sua essencialidade, é de se presumir a possibilidade de sua impressão, típica das emitidas por órgãos públicos, com chave de segurança para confirmação da autenticidade. Ademais, documento oficial, que confere benefícios tributários de outra ordem, e firmado entre partes Ministério da Educação e instituição de ensino privada há de ser mantido pela parte interessada para o gozo dos benefícios previstos no Termo. Fl. 45DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 7 6 Nada obstante, o que a recorrente argumenta para a não apresentação do Termo de adesão ao Prouni outros recorrentes em situação idêntica não se escusaram do cumprimento de singelo mister. Vejase exemplo de julgado proferidos neste Conselho em que se demonstrou a possibilidade fática de apresentar e comprovar a adesão e mantença no Programa (grifei): Autoridade Julgadora de 1ª Instância bem observou ainda que o contribuinte em questão comprovou nos autos (fls. 3.325) a adesão ao Programa Universidade para Todos, trecho que merece ser reproduzido por ser de extrema valia: "60. Para comprovar a adesão ao PROUNI o contribuinte anexou aos autos cópia do correio eletrônico do MEC (fls. 3.118) e cópia do Termo de Adesão (fls. 3.119 a 3.273). (Acórdão nº 3402001.704, processo nº 19515.000260/200879, relatoria do cons. João Carlos Cassuli Junior, sessão de 22/03/2012) Não se pode concluir de outra forma, senão a que a recorrente não se dignou a comprovar a existência e aposição de assinatura no Termo de Adesão e a regular fruição do Programa que aderiu. Tenho que este fundamento é suficiente para negar provimento ao recurso voluntário; contudo, há de se tecer ainda argumentos pertinentes ao ônus probatório a cargo a de quem pleiteia direito seu. Antes, porém, analisase as demais teses suscitadas no recurso voluntário que visam seu provimento Sustenta ainda a desnecessidade de apresentação das folhas de salário e respectivamente contabilidade pois entende que no despacho decisório há o reconhecimento expresso de que a base de cálculo encontrase "exata e perfeita", além de "devidamente homologada". Quanto à exigência de apresentação de documentos fiscais e contábeis, assentou o voto condutor do acórdão recorrido que deveria também ter juntado a folha de salários, a fim de demonstrar a base de cálculo do PIS, e os livros fiscais que demonstrassem os lançamentos relativos a ela. Ora, em que pese a ressaltava da DRJ, com a qual concordo, que a isenção do PIS prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 não alcança a parcela que incide sobre a folha de salários, a Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009 proferiu entendimento cuja interpretação errônea da contribuinte adiante será enfrentado lhe é favorável quanto à isenção do PISfolha de salários. Ad argumentandum tantum, justamente firmada no entendimento favorável que extraiu do ato expedido pela autoridade, a recorrente pleiteia a restituição do PISfolha de salários, código de receita "8301". Se há o entendimento de que faz jus à esta isenção deveras tem o ônus de fazer prova documental de seu pretenso direito, qual seja, a apresentação dos documentos e livros atinentes à rubrica "salários" para que se comprove qual sua dimensão (quantificação) na base de cálculo. Fl. 46DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 8 7 Por fim, assevera que a controvérsia quanto ao direito à isenção está superado pela conclusão da indigitada Solução de Consulta, que entende terlhe assegurado a isenção do PIS sobre folha de salários. Mais uma vez, sem razão a contribuinte. A Solução de Consulta expressamente consignou que a isenção alcança a Contribuição para o PIS, nada dispondo acerca do PIS folha de salários. Digase que na elaboração da peça a consulente, ora recorrente, apenas informou ter realizada a adesão ao Prouni, sem qualquer comprovação naquele autos de consulta, e apresenta seu entendimento de que a isenção alcançaria o PIS folha de salários, para ao final requerer a manifestação do Órgão quanto ao seu entendimento. Eis a cartaconsulta: Entendo que ao fundamentar a solução da consulta, a autoridade que a proferiu fez constar em seus fundamentos a legislação que trata da incidência do PIS sobre a folha de salários, à alíquota de 1%, deixando assente a tributação sobre esta rubrica, com a transcrição do art. 13 e incisos III e IV, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Colacionou os dispositivos que tratam da isenção do PIS sobre a receita auferida pela instituição de educação que aderir e assim se mantém no Prouni. Transcreveu os arts. 8º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º da Lei nº 11.096/2005; arts. 1º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º, e 3º caput e parágrafo único da IN SRF nº 456/2004, para em seguida enunciar no mesmo tópico "fundamentos" que: " 5. Ante os dispositivos acima expostos, verificase que a instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória n° 213, de 2004, Fl. 47DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 9 8 ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS." Conclui a solução da consulta com o enunciado: Conclusão 6. Em face do exposto, concluise que a instituição privada de ensino superior com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao programa Universidade para Todos (prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Completase os fatos com a apresentação da ementa da Solução de Consulta SRRF/1ªRF/Disit nº 86, de 2 de junho de 2009: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: PIS. PROUNI. INCIDÊNCIA. A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5o da Medida Provisória nº 213. de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Dispositivos Legais: art.13 da Medida Provisória n° 2.15835/2001; art.8° da Lei n° 11.096/2005; arts. 1º e 3o da Instrução Normativa nü 456/2004. Não vislumbro imprecisão no Ato que poderia dar a interpretação de que toda e qualquer incidência do PIS a que se sujeitam as entidades aderentes ao Prouni estaria isenta. A uma, os dispositivos legais da ementa da solução de consulta informam a legislação aplicada, primeiro, a que dispõe acerca do Pis folha de salários tributado à alíquota de 1% e após, a que trata do PIS alcançado pela isenção; a duas, porque nos fundamentos, a autoridade trouxe a legislação que faz distinção entre PISfolha de salário tributada à alíquota de 1%, e o PIS sobre receitas isentos nos termos e requisitos das legislação; a três, a omissão do termo "PIS sobre folha de salários" não tem o condão de fazêlo incluir na isenção pelo motivo a seguir; a quatro, nos termos do art. 111 caput e inciso II do CTN, "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção"; a cinco, não caberia a autoridade fiscal ou administrativa contrariar preceito legal. Por fim, sacramentando o entendimento do não alcance da isenção ao PIS sobre folha de salários, o Órgão Central da Secretaria da Receita Federal editou a Solução de Divergência Cosit nº 1, de 2015, publicada no D.O.U de 24/12/2015, com a ementa: SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA Nº 1, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2015. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP EMENTA: INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR. PROUNI. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE A FOLHA Fl. 48DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 10 9 DE SALÁRIOS. A isenção de que trata o art. 8º da Lei nº 11.096, de 2005, não se aplica à Contribuição para o PIS/Pasep incidente sobre a folha de pagamentos da pessoa jurídica que adere ao Prouni. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 9.532, de 1997, art. 12; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 9º e 46; Lei nº 11.096, de 2005, art. 8º; DecretoLei nº 5.172 (CTN), de 1966, art. 111,II; Instrução Normativa RFB nº 1.394, de 2013 e Medida Provisória (MP) nº 2.15835, de 2001. O último argumento da recorrente referese à eventual realização de diligência, oficiandose ao Ministério da Educação acerca da sua manutenção no Prouni, acaso não seja superada os fundamentos ante aduzidos que entende suficiente ao direito à restituição pleiteada decorrente do pagamento indevido da Contribuição. Primeiramente, desnecessária a providência pois como assentado neste voto os fundamentos antecedentes são suficientes para negar provimento ao recurso. Não há dúvidas intransponíveis nos autos que necessitam de serem completadas para decidir o litígio. Nos processos, como o presente, que tratam de solicitação de restituição e compensação, a comprovação do direito aos créditos incumbe ao postulante. É seu dever carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, em especial quando necessário à fruição de benefício tributário de isenção. Caso essa comprovação houvesse sido feita, e ainda restasse dúvida ao julgador quanto a permanência regular e temporal no Programa, cabível seria a diligência. Assim, incabível a solicitação de diligência dirigida ao Ministério da Educação para apresentação do Termo de Adesão, documento primário e essencial ao compromisso assumido e firmado pela instituição educacional que requer o gozo dos benefícios do Prouni e que não se dignou a apresentar aos autos. Até esse ponto, restou assente que a recorrente não apresentou o Termo de Adesão ao Prouni, folhas de salário e escrituração contábil; e não permaneceu silente quanto às exigências. Em todas as peças recursais impugnação e recurso voluntário sustentou a desnecessidade desse dever, pois entendeu que o despacho decisório e a solução de consulta reconheceram expressamente seu direito à isenção do PIS relativo ao Programa, sem colacionar qualquer documento seu aos autos. A ausência de elementos probantes viola a regra jurídica adotada pelo direito pátrio de que a prova compete à pessoa que alega o fato, conforme se depreende do abaixo transcrito artigo 16, caput, III, do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), que regulamenta o processo administrativo fiscal no âmbito federal, e do artigo 373, do Código de Processo Civil,verbis: Decreto n° 70.235, de 1972: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Lei nº 13.105/2015 CPC Fl. 49DF CARF MF Processo nº 13116.900004/201448 Acórdão n.º 3201002.888 S3C2T1 Fl. 11 10 "Art. 373. 0 ônus da prova incumbe: I — ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II — ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor." Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. As Declarações (DCTF, DCOMP e DACON, PER/DCOMP), os documentos fiscais e contábeis e aqueles pertinentes a benefícios tributários, celebrados com órgãos públicos, são produzidos e celebrados pelo próprio contribuinte ou com sua participação, de sorte que, havendo inconsistências ou omissões, impõe a obrigação da recorrente em comprovar os fatos mediante a escrituração contábil e fiscal, sustentada em documentos, tendo em vista que, apenas os créditos líquidos e certos comprovados inequivocamente pelo contribuinte são passíveis de compensação tributária, conforme preceituado no artigo 170 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional/CTN). Conclusão Por todo o exposto a recorrente não se desincumbiu do ônus de provar o alegado direito líquido e certo, decorrente de suposto pagamento a maior ou indevido de PIS. Assim, não encontro razão para modificar a decisão a quo e VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO e NÃO RECONHECER O DIREITO CREDITÓRIO. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 50DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.001087/2009-41
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jun 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004, 2005
CONHECIMENTO. NECESSIDADE DE DIVERGÊNCIA ENTRE ACÓRDÃOS RECORRIDO E PARADIGMA.
Tanto no acórdão recorrido quanto no paradigma entendeu-se aplicável a multa qualificada quando comprovado o evidente intuito de fraude do sujeito passivo, ou seja, não divergiram. O que ocorreu é que numa situação concreta entendeu-se existir comprovação do dolo e na outra não. E isso não é a divergência de posicionamento que se requer para efeitos de conhecimento do recurso especial - confirmando que o papel do colegiado refere-se à solução de um conflito de interpretações, na busca por uma uniformização de jurisprudência. Daí porque, para se verificar se o tratamento seria diferente, se precisaria estar diante de situações fácticas bastante aproximadas e mesmo assim o critério em tese utilizado não poderia ser o de haver ou não comprovação do dolo para a aplicação da multa.
Numero da decisão: 9101-002.942
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de intempetividade do Recurso Especial e em não conhecê-lo. Votaram pelas conclusões os conselheiros Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que não reconheceram a similitude fática dos paradigmas. A matéria juros de mora sobre multa de ofício restou prejudicada.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão - Presidente
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão, Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2004, 2005 CONHECIMENTO. NECESSIDADE DE DIVERGÊNCIA ENTRE ACÓRDÃOS RECORRIDO E PARADIGMA. Tanto no acórdão recorrido quanto no paradigma entendeu-se aplicável a multa qualificada quando comprovado o evidente intuito de fraude do sujeito passivo, ou seja, não divergiram. O que ocorreu é que numa situação concreta entendeu-se existir comprovação do dolo e na outra não. E isso não é a divergência de posicionamento que se requer para efeitos de conhecimento do recurso especial - confirmando que o papel do colegiado refere-se à solução de um conflito de interpretações, na busca por uma uniformização de jurisprudência. Daí porque, para se verificar se o tratamento seria diferente, se precisaria estar diante de situações fácticas bastante aproximadas e mesmo assim o critério em tese utilizado não poderia ser o de haver ou não comprovação do dolo para a aplicação da multa.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004, 2005 CONHECIMENTO. NECESSIDADE DE DIVERGÊNCIA ENTRE ACÓRDÃOS RECORRIDO E PARADIGMA. Tanto no acórdão recorrido quanto no paradigma entendeuse aplicável a multa qualificada quando comprovado o evidente intuito de fraude do sujeito passivo, ou seja, não divergiram. O que ocorreu é que numa situação concreta entendeuse existir comprovação do dolo e na outra não. E isso não é a divergência de posicionamento que se requer para efeitos de conhecimento do recurso especial confirmando que o papel do colegiado referese à solução de um conflito de interpretações, na busca por uma uniformização de jurisprudência. Daí porque, para se verificar se o tratamento seria diferente, se precisaria estar diante de situações fácticas bastante aproximadas e mesmo assim o critério “em tese” utilizado não poderia ser o de haver ou não comprovação do dolo para a aplicação da multa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de intempetividade do Recurso Especial e em não conhecêlo. Votaram pelas conclusões os conselheiros Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão, que não reconheceram a similitude fática dos paradigmas. A matéria juros de mora sobre multa de ofício restou prejudicada. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 10 87 /2 00 9- 41 Fl. 866DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão, Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela FAZENDA NACIONAL em face do Acórdão n. 140200.498 (Efl. 01 ou efl. 537), proferido pela 2a Turma Ordinária da 4a Câmara da 1a Seção de Julgamento, que decidiu pela (i) insubsistência da multa qualificada diante da inexistência do dolo na operação de emissão de debêntures, reduzindo o percentual da multa de ofício de 150 para 75%, e (ii) incidência dos juros de mora de 1% sobre a multa, desde que a sua aplicação, entre o termo inicial e a data do pagamento, resultasse em valor menor que os juros calculados com base da Taxa Selic, para que não ocorresse reforma da decisão em prejuízo do sujeito passivo. A exigência em questão decorre de autuação fiscal (Efl. 393) que glosou despesas com a remuneração de debêntures consideradas emitidas apenas formalmente, entendendoas indedutíveis na apuração do IRPJ e CSLL porque mera liberalidade da empresa, aplicandose ainda, além da multa qualificada de 150% prevista no artigo 44, II, da Lei n. 9430/96 diante da acusão de sonegação, aquela isolada fixada em seu parágrafo 1o., IV, pelo não recolhimento das estimativas mensais, nos anos calendário 2004 e 2005. Formalizouse Representação fiscal para fins penais, sob o n. 11065.001088/200995. Como alternativa ao resumo dos pontos autuados, pedese licença para se trazer uma transcrição bastante extensa do relatório fiscal (efls 372 a 392), no intuito de facilitar o acesso ao texto àqueles interessados numa leitura mais detalhada de seus fundamentos, certamente importante para a investigação sobre a prova do evidente intuito fraudulento da contribuinte, que, adiantase, será o objeto do recurso especial mais à frente: “III. AS DEBÊNTURES EMITIDAS PELA FISCALIZADA 3.1 A la Emissão de Debêntures Em conformidade com a Ata da Assembléia Geral Extraordinária N° 20 (f Fl. 867DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 4 3 olhas 146 a 148), realizada às 14:30 horas do dia 31/08/2001, os acionistas da fiscalizada, com o objetivo de alocar recursos para otimizar as operações da empresa, bem como evitar a descapitalização da mesma em decorrência do vencimento das contas correntes dos acionistas, deliberaram e autorizaram a emissão de 500.000 debêntures, com as seguintes características: a) Valor nominal unitário de R$ 1,00. Portanto, o valor nominal da totalidade das debêntures emitidas corresponde a R$ 500.000,00; b) Prazo das debêntures de 24 meses, com vencimento em 31/08/2003; c) Fixação do preço total de subscrição e integralização das debêntures em R$ 4.566.626,32. Portanto, as debêntures foram subscritas com "ágio" (tecnicamente deveria ter sido chamado de prêmio) de R$ 4.066.626,32, ou seja, 813,33% do valor nominal. O motivo alegado para o "ágio" foi a perspectiva de rentabilidade futura da empresa; d) lntegralização das debêntures subscritas realizada através da conversão do passivo que a empresa tinha para com acionistas; e) Estabelecida remuneração para as debêntures de 50% dos lucros da empresa, antes dos impostos, excluídos os resultados da equivalência patrimonial; f) Remuneração devida mensalmente, no período de 1° de setembro de 2001 até 31 de agosto de 2003, com previsão de pagamento no 20° dia útil após a Assembléia Geral Ordinária de apreciação dos resultados do exercício anterior. 3.2 A 2a Emissão de Debêntures Inicialmente, cabe destacar que as debêntures objeto da 1a emissão, com vencimento em 31/08/2003, foram resgatadas de forma antecipada, em dezembro de 2002, conforme decisão tomada em reunião de Diretoria realizada em 03/12/2002 e posteriormente homologada pela Assembléia Geral de 29/04/2003 (Ata N° 23, fls. 152 a 157). De acordo com a Ata da referida Reunião de Diretoria (Ata de Reunião de Diretoria n° 154, de 03/12/02, constante das folhas 168), foi aprovado o resgate antecipado das debêntures objeto da 1a emissão, mediante pagamento do saldo não amortizado e de lucros remuneratórios devidos na data do resgate, totalizando R$ 7.539.504,35. A ata não faz qualquer referência ao motivo que levou a diretoria a decidir pelo resgate antecipado das debêntures. Foi, ainda, decidido que os créditos decorrentes do resgate antecipado das debêntures poderiam ser utilizados para conversão em novas debêntures, o que acabou, posteriormente, sendo efetivado. Em conformidade com a Ata da Assembléia Geral Extraordinária N°22 (folhas 149 a 151), realizada as 14:30 horas do dia 20/12/2002, os acionistas da fiscalizada, com o objetivo de alocar recursos para otimizar as operações da empresa, bem como evitar a descapitalização da mesma em decorrência do pagamento de juros sobre o capital próprio e do saldo da 1a emissão de debêntures, deliberaram e autorizaram a emissão de 1.000.000 debêntures, com as seguintes características: a) Valor nominal de cada debênture de R$ 1,00. Portanto, o valor nominal da totalidade das debêntures emitidas corresponde a R$ 1.000.000,00; b) Prazo das debêntures de 36 meses, com vencimento em 31/12/2005; c) Fixação do preço total de subscrição e integralização das debêntures em R$ 8.931.030,95. Portanto, as debêntures foram subscritas com "ágio" Fl. 868DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 5 4 (tecnicamente deveria ter sido chamado de prêmio) de R$ 7.931.030,95, ou seja, 793% do valor nominal. O motivo alegado para o "ágio" seria a perspectiva de rentabilidade futura da empresa; d) Integralização das debêntures subscritas através da conversão do passivo que a empresa tinha com acionistas e debenturistas credores; e) Remuneração estabelecida para as debêntures de 50% dos lucros da empresa, antes dos impostos, excluídos os resultados da equivalência patrimonial; f) Remuneração devida mensalmente, no período de 1° de dezembro de 2002 até 30 de novembro de 2005, com previsão de pagamento no 20° dia útil após a Assembléia Geral Ordinária de apreciação dos resultados do exercício anterior. 3.3 A Subscricão e Inteqralizacão das Debêntures Emitidas Tanto a 1a emissão como a 2a emissão de debêntures foi privada, sendo as debêntures subscritas, na sua integralidade, por acionistas da fiscalizada. Além disto, a quantidade de debêntures subscritas individualmente foi proporcional à participação de cada um dos acionistas no capital social da fiscalizada. Portanto, as debêntures emitidas pela fiscalizada foram subscritas exclusivamente pelos seus acionistas, observada a participação societária que cada um deles detinha. Em relação à 1a emissão, para integralização das debêntures subscritas e do prêmio ("ágio") pago, no valor total de R$ 4.566.626,32, os acionistas utilizaram "créditos" que detinham junto à própria fiscalizada. Esses "créditos" referiamse a dividendos a receber (num total de R$ 3.879.095,29) e a juros sobre o capital próprio a receber (num total de R$ 687.531,03). No que se refere à 2a emissão de debêntures, a integralização e o pagamento do prêmio ("ágio"), no valor total de R$ 8.931.000,00, se deu, mais uma vez, com a utilização de "créditos" dos subscritores junto à fiscalizada. Estes "créditos" se referiam a juros sobre o capital próprio a receber (R$ 1.391.526,61) e a liquidação das debêntures da 1 a emissão (R$ 7.539.504,34). Portanto fica evidenciado que por ocasião da intgralização das debentures emitidas pela fiscalizada, não houve o efetivo ingresso de "novos" recursos financeiros no ativo da empresa tendo em vista que a integraliza não se deu com "créditos" dos acionistas junto à fiscalizada. 3.4 As Despesas com a Remuneração das Debêntures nos anoscalendário 2004 e 2005 Em atendimento ao Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 01 (fls. 93 a 94), a fiscalizada relacionou os valores relativos à remuneração das debêntures nos anoscalendário 2004 e 2005 (fls. 95 a 98). Anexou, ainda, cópias do Livro Diário e do Livro Razão onde foram escriturados tais valores (fls.99 a 133). Examinando a documentação apresentada pela fiscalizada, constatamos que as remunerações foram contabilizadas a débito de conta de resultado — "1366 Remuneração de Debêntures" — e a crédito de conta do passivo Fl. 869DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 6 5 circulante — "1360 Debêntures a Pagar". (…) 3.5 O Resgate das Debêntures As debêntures a que se refere a 1a emissão foram resgatadas, de forma antecipada, em 20/12/2002. Tal decisão foi tomada pela Diretoria da fiscalizada, em 03/12/02, conforme Ata de Reunião de Diretoria n° 154, de 03/12/02 (fls. 168). Por ocasião deste "resgate antecipado" não foi feito qualquer pagamento aos subscritores das debêntures objeto da 1 a emissão, pois, na mesma data, foi efetivada a 2a emissão de debêntures para cuja integralização foram utilizados os "créditos" decorrentes do "resgate antecipado", no valor de R$ 7.539.504,34. No que se refere à 28 emissão, o resgate das debêntures ocorreu em 04/0412006, conforme deliberação na Assembléia Geral Extraordinária realizada nesta data. Em conformidade com a Ata n° 26 (fls. 160 a 162), de 04/04/2006, os acionistas da fiscalizada, em função (da Exposição Justificativa da Diretoria datada de 03/04/2006 (fls. 238 e 239) aprovaram por unanimidade o aumento do capital social de R$ 18.000.000,00 para R$ 34.000.000,00. Este aumento de capital social foi realizado mediante a incorporação dos seguintes recursos sociais: Reserva de Ágio na Subscrição de Debêntures R$ 7.931.030,95 Debêntures a Pagar R$ 7.931.028,41 Reserva Legal R$ 137.764,61 Lucros Acumulados R$ 176,03 Total do Aumento de Capital Social R$ 16.000.000,00 Verificase, portanto, que parcela do aumento do capital social (R$ 7.931.028,41) se deu por intermédio da quitação de obrigações que a fiscalizada tinha para com os subscritores das debêntures. Conforme demonstra o razão da rubrica contábil "001360 — Debêntures a Pagar" (fls.100), o saldo desta conta era de R$ 7.931.028,41, tendo sido baixado em 04/04/2006. Cabe destacar que este saldo era composto pelo somatório do valor nominal das debêntures emitidas em 20/12/2002 (R$ 1.000.000,00) e da remuneração destas debêntures (R$ 6.931.030,95). Portanto, no resgate das debêntures (tanto as da 1a emissão como as da 28 emissão), não houve qualquer fluxo financeiro. 3.6 Pagamento da Remuneração das Debêntures De acordo com as Atas das AGE analisadas (folhas 146 a 151), a remuneração aos subscritores das debêntures seria devida mensalmente, a medida em que os lucros da fiscalizada fossem sendo auferidos. O pagamento desta remuneração deveria ser efetuado até o 20° dia útil após a Assembléia Geral Ordinária que apreciasse os resultados do exercício anterior. Considerando que as AGO que apreciaram os resultados dos anoscalendário 2002, 2003, 2004 e 2005 já ocorreram, conforme comprovam as atas Fl. 870DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 7 6 constantes das folhas 152 a 165, os subscritores deveriam ter efetivamente recebido os valores relativos às remunerações em tela. Todavia, analisando a escrituração contábil da fiscalizada, constatamos que tais pagamentos não ocorreram, tendo sido contabilizados a crédito da conta patrimonial (passivo circulante) "001360 — Debêntures a Pagar". Em 04/04/2006, o saldo da conta do passivo "Debêntures a Pagar" (R$ 7.931.028,41) foi utilizado para aumento do capital social da fiscalizada. Fica, portanto, caracterizando o descumprimento daquilo que fora pactuado, sendo que os subscritores das debêntures não receberam qualquer parcela a título de remuneração e nem a fiscalizada fez qualquer pagamento. Tão somente foram realizados registros contábeis, sem que tenha havido qualquer fluxo financeiro. IV — AUTUAÇÃO ANTERIOR RELATIVAMENTE À REMUNERAÇÃO DAS DEBÊNTURES NOS ANOS DE 2001, 2002 e 2003 A glosa de despesas com remuneração de debêntures, contabilizadas pela fiscalizada nos anoscalendário 2001, 2002 e 2003 foi objeto da autuação consubstanciada no Auto de Infração lavrado em 20/05/2005, integrante do processo n° 11065.001117/200595. Posteriormente, em 11/12/2006, houve a lavratura de Auto de Infração complementar em função da qualificação da multa de ofício para o percentual de 150%, conforme processo n° 11065.003615/200653. Ambas autuações foram impugnadas tempestivamente pelo contribuinte. A 5a Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Porto Alegre apreciou tais impugnações, em conformidade com os Acórdãos n° 1010530, de 08/11/2006 (fls. 90) e n° 1011689, de 13/04/2007 (fls.91). Transcrevemos, abaixo, parte das ementas dos referidos Acórdãos: Acórdão n° 1010530, de 08 de Novembro de 2006. DESPESAS COM REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. Restando caracterizado o caráter de liberalidade dos pagamentos aos sócios, decorrentes de operações formalizadas apenas "no papel" e que transformaram lucros em remuneração de debêntures, consideramse indedutíveis as despesas contabilizadas, que reduziram artificialmente a base de cálculo dos tributos. Os elementos trazidos aos autos revelam que a operação foi simulada e, assim, seus efeitos não podem ser opostos ao fisco. À Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) aplicamse as mesmas conclusões, sobre a indedutibilidade das despesas contabilizadas, aplicáveis ao IRPJ. Acórdão n° 1011689, de 13 de Abril de 2007. PRESENÇA DE DOLO NA ATUAÇÃO DO CONTRIBUINTE. AGRAVAMENTO DA MULTA. Verificada a presença de dolo do sujeito passivo, não podendo ser reputado a mero erro a incompatibilidade entre a vontade declarada e aquela revelada pelas características dos atos realizados, concluise pela intenção de enganar o fisco, quanto à ocorrência do fato gerador do imposto, e, em especifico, no que se refere à base de cálculo. Assim, resta necessário o agravamento da multa. Portanto, a DRJ Porto Alegre entendeu que são indedutiveis, para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, as despesas com a Fl. 871DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 8 7 remuneração das debêntures, cabendo o agravamento da multa de oficio para 150% em dercorrência da presença de dolo. Em função de recurso ao Conselho de Contribuintes interposto pela fiscalizada e pela DRJ em Porto Alegre, os processos n°s 11065.001117/200595 e 11065.003615/200653 encontramse, atualmente, na 7a Câmara do 1° Conselho de Contribuintes, aguardando sorteio para relator (fls. 92). V CONCEITUAÇÃO DE DEBÊNTURES E CARACTERÍSTICAS DESTES TÍTULOS DE CRÉDITO (…) VI ANÁLISE DAS OPERAÇÕES ENVOLVENDO AS DEBÊNTURES Por ocasião da emissão de debêntures, em 31/08/2001, o motivo alegado pela fiscalizada para a emissão dos títulos foi a necessidade de alocar recursos para otimizar as operações da empresa, bem como evitar a descapitalização da mesma em decorrência do vencimento das contas correntes dos acionistas. Cabe, então, analisar a origem destas "dívidas" para com acionistas (contas correntes) que, em função do seu vencimento, levariam a descapitalização da empresa. Estas "dívidas" referemse a Dividendos e a Juros sobre o Capital Próprio a serem pagos aos acionistas da fiscalizada. Ambas obrigações foram constituídas no dia 31/08/2001 (mesma data da primeira emissão de debêntures), na Assembléia Geral Extraordinária realizada as 9:30 horas, conforme fica evidenciado pela leitura da Ata N° 19 constan e das folhas 144 e 145. Inicialmente, deve ser reconhecido que, mesmo anteriormente a 31/08/2001, já existia a preocupação em evitar a descapitalização da empresa. Isto fica evidenciado pelas deliberações dos acionistas em relação à destinação dos lucros da empresa. A título exemplificativo, podemos citar a Assembléia Geral Ordinária realizada em 24/04/2001 (Ata n° 18 constante das folhas 141 a 143). Nesta Assembléia, os acionistas deliberaram a respeito da destinação do lucro líquido do anocalendário 2001, tendo sido decidido que apenas uma pequena parcela do lucro (12%) seria distribuído aos acionistas. O restante do lucro apurado (88%) seria destinado à constituição de reserva (Reserva Legal e Reserva para Aumento do Capital). Portanto, ao destinar parcela significativa do lucro da empresa para constituição de Reserva para Aumento Capital, a fiscalizada e seus acionistas demonstraram, claramente, a intenção de evitar a descapitalização da empresa. Assim, é de se estranhar que, na manhã do dia 31/08/2001, os acionistas da fiscalizada mudem radicalmente de idéia e decidam pagar Juros sobre Capital Próprio e, até mesmo, "desfazer" parcela da Reserva para Futuro Aumento de Capital e distribuir dividendos, por não haver mais intenção de aumentar o capital social da companhia (Ata da AGE n° 19 constante das folhas 144 e 145). E mais. Na tarde do dia 31/08/2001, os acionistas mudam de idéia, mais uma vez, e decidem emitir debêntures, subscritas e integralizadas pelos próprios acionistas, para evitar a descapitalização da empresa (Ata de AGE N°20, Fl. 872DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 9 8 constante das fls.146 a 148). Portanto, a justificativa utilizada pela fiscalizada para a emissão das debêntures alocar recursos para otimizar as operações da empresa, bem como evitar a descapitalização da mesma em decorrência do vencimento das contas correntes dos acionistas — é, no mínimo, questionável. Cabe analisar, também, a questão do ingresso de recursos financeiros no ativo que permitiram a "otimização de suas operações". Do visto no tópico relativo as características das debêntures, restou claro que, em sua essência, estes títulos correspondem a um empréstimo em que existe, em regra, a necessidade do efetivo ingresso de recursos financeiros no ativo da emissora, sob pena de que, não existindo tal ingresso, fique descaracterizada tal operação. A análise detalhada de toda a operação permite concluir que, no caso em tela, tal ingresso de "novos recursos" não se efetivou, pois, para a integralização das debentures subscritas, os acionistas utilizaram "créditos" que detinham junto à fiscalizada, sem que houvesse a entrega efetiva de recursos financeiros. Tratase de operação formalizada apenas "no papel". Sendo assim, não houve a captação efetiva de recursos e nem o ingresso, no ativo da fiscalizada, de recursos financeiros em função da emissão das debêntures. Ainda em relação à 1a emissão de debêntures, cabe destacar o expressivo prêmio ("ágio" como é denominado pela fiscalizada) pago pelos subscritores. Debêntures com valor nominal de R$ 500.000,00 foram subscritas por R$ 4.566.626,32, com "ágio" de R$ 4.066.626,32, ou seja, os acionistas aceitaram "pagar" um ágio de 813% !!! E qual foi a justificativa para o pagamento de tão expressivo "ágio"? A expectative de rentabilidade futura da empresa, supostamente "comprovada" através de laudo produzido pela empresa Audit Consultores S/C Ltda.. Analisando referido laudo, percebese que se trata de documento que nem ao menos demonstra, em termos quantitativos, qual seria esta "rentabilidade futura". Mais um aspecto importante merece ser destacado. Poderia ser aventada a hipótese de que a motivação para o pagamento do "ágio" de 813% na subscrição das debêntures fosse a expectativa dos acionistas receberem uma remuneração excepcional em função da futura rentabilidade da fiscalizada. Isto porque as debêntures previam remuneração equivalente a 50% dos lucros futuros da fiscalizada. Todavia, cabe recordar que para a integralização deste "ágio" foram utilizados "créditos" que os acionistas possuíam junto à própria fiscalizada e que a parcela mais expressiva destes "créditos" tinha origem em lucros anteriores da companhia que estavam destinados a futuro aumento do capital social (Reserva para Aumento de Capital Social). Ou seja, se referidos recursos tivessem sido efetivamente utilizados no aumento do capital social e a fiscalizada apresentasse futuramente a rentabilidade esperada, os acionistas 41) poderiam ser remunerados com 100% dos lucros futuros, não se justificando o pagamento do "ágio" na subscrição das debêntures. Para a emitente das debêntures — a empresa fiscalizada — o expressivo valor "recebido" a título de "ágio", sob o aspecto contábil, não resultou em alterações significativas na sua estrutura patrimonial. Isto porque o "ágio", no valor de R$ 4.066.626,32, foi escriturado a crédito da conta patrimonial Fl. 873DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 10 9 "Reserva Ágio na Subscrição de Debêntures", integrante do Patrimônio Líquido. Até o momento anterior à emissão das debêntures, parcela significativa (R$ 3.879.095,29) dos recursos utilizados no pagamento do "ágio" estava registrada, igualmente, em conta do Patrimônio Liquido da fiscalizada, na rubrica "Reserva para Aumento de Capital". Portanto, para a fiscalizada, sob o aspecto patrimonial, houve a "substituição" de uma Reserva por outra: A Reserva para Aumento de Capital foi substituída pela Reserva de Ágio na Subscrição de Debêntures. Cabe inclusive destacar que a "nova" Reserva foi, posteriormente, utilizada pela fiscalizada com a mesma destinação que receberia a "antiga" Reserva, ou seja, foi utilizada para aumento do capital social da fiscalizada. Isto fica evidenciado pela leitura da Ata da Assembléia Geral Ordinária N°23 realizada em 29/04/2003 (folhas 152 a 154), na qual foi deliberado que a "Reserva de Ágio na Subscrição de Debêntures", no valor de R$ 4.066.626,32, seria utilizada para aumento do capital social. Por oportuno, cabe resgatar que, em 31/08/2001 (Ata de AGE N° 19, fls. 144 e 145), os acionistas da fiscalizada decidiram distribuir, a título de dividendos, parcela dos lucros que, anteriormente, haviam sido destinados à constituição de "Reserva para Aumento de Capital", sob a justificativa de não haver mais intenção de aumentar o capital social da fiscalizada. Na mesma data (31/08/01), para evitar a "descapitalização"da empresa, foram emitidas debêntures com "ágio" (Ata de AGE N° 20, fls. 146 a 148), o que gerou a "Reserva de Ágio" utilizada justamente para aumentar o capital social da fiscalizada. Ora, se a intenção dos acionistas era aumentar o capital social da fiscalizada, por que distribuir dividendos, emitir debêntures, subscrevêlas com "ágio" e então utilizar a "Reserva de Ágio" para aumentar o capital social, em vez de simplesmente utilizar a "Reserva para Aumento de Capital" que já estava constituída anteriormente? O motivador destes procedimentos descortinase por completo ao analisarmos a "operação" de emissão de debêntures sob o ângulo tributário. O "ágio" recebido pela fiscalizada por ocasião da emissão das debêntures (R$ 4.066.626,32) não é passível de tributação em relação ao IRPJ e à CSLL, em função do disposto no art. 442, III do RIR/99. Por outro lado, a título de remuneração das debêntures, a fiscalizada passa a escriturar despesas, o que reduz o seu lucro contábil e, conseqüentemente, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Portanto, haveria uma "redução" da carga tributária de 34% para a fiscalizada (15% de IRPJ + 10% de Adicional do IRPJ + 9% de CSLL). Em dezembro de 2002, a fiscalizada decide antecipar o resgate das debêntures, cujo vencimento se daria somente em 31/08/2003. Tal decisão foi tomada pela Diretoria da fiscalizada, em 03/12/02 (Ata de Reunião de Diretoria n° 154, de 03/12/02, constante das folhas 168), sendo que a ata relativa a esta reunião não faz qualquer referência ao motive da decisão. Por ocasião deste "resgate antecipado" não foi feito qualquer pagamento aos subscritores das debêntures objeto da 1 a emissão, pois, na mesma data, foi efetivada a 2a emissão de debêntures para cuja integralização foram utilizados os "créditos" decorrentes do "resgate antecipado". Analisando a operação relativa a 2a emissão de debêntures, constatamos, mais uma vez, características já observadas na 1 a emissão, quais sejam: Fl. 874DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 11 10 a)As debêntures foram subscritas exclusivamente por acionistas da fiscalizada, tendo sido observado, na subscrição, a proporcionalidade da participação dos acionistas no capital social da fiscalizada; b) As debêntures teriam sido emitidas com o objetivo de alocar recursos para otimizar as operações da empresa, bem como evitar a descapitalização da mesma em decorrência do pagamento de juros sobre o capital próprio e do saldo da 1 a emissão de debêntures; c) Por ocasião da subscrição das debêntures, os acionistas da fiscalizada pagaram "ágio" bastante expressivo (793% do valor nominal das debêntures) por conta de perspectiva de rentabilidade futura da empresa; d) A integralização das debêntures subscritas se deu através da conversão de "dívidas" que a fiscalizada tinha para com os seus acionistas, em função da antecipação do resgate das debêntures objeto da 1 a emissão, dos rendimentos relativos a tais títulos e da decisão de remunerar os acionistas através de Juros sobre o Capital Próprio; e) Não houve, em função das debêntures emitidas, a captação efetiva de recursos junto a terceiros ou o ingresso de "novos" recursos financeiros no ativo da fiscalizada. Cabe, ainda, destacar alguns aspectos adicionais envolvendo as debentures emitidas pela fiscalizada. Analisando as Atas das Assembléias Gerais Extraordinárias que autorizaram a emissão das debêntures (folhas 146 a 151), verificamos que, tanto na 1 a como na 2a emissão, não existe a previsão de juros remuneratórios aos subscritores das debêntures. A remuneração se daria exclusivamente através da participação dos lucros futuros obtidos pela fiscalizada. A respeito do assunto, conforme destacado no item anterior do presente Relatório, Modesto Carvalhosa, assegura que a remuneração das debêntures deve, necessariamente, incluir juros fixos, por se tratar de um título que não possui caráter de incerteza, devendo, assim, ser remunerado através de juros. Para o autor, os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso. Portanto, em mais este aspecto, as debêntures emitidas pela fiscalizada apresentam características conflitantes com as que normalmente são apresentadas por tais títulos. A falta de previsão de pagamento de juros e a remuneração vinculada à apuração de lucro pela sociedade, tornam o investimento realizado pelos acionistas uma operação de risco, não coincidindo com o real conceito de debêntures. Ainda no que tange à remuneração das debêntures outro aspecto chama a atenção: a falta de pagamento das remunerações aos subscritores nos prazos estabelecidos. De acordo com a Ata das AGE analisadas (folhas 146 a 151), a remuneração aos subscritores das debêntures seria devida mensalmente, a medida em que os lucros da fiscalizada fossem sendo auferidos. O pagamento desta remuneração deveria ser efetuado até o 200 dia útil após a Assembléia Geral Ordinária que apreciasse os resultados do exercício anterior. Considerando que as AGO que apreciaram os resultados dos anoscalendário 2002, 2003, 2004 e 2005, já ocorreram (Atas constantes das folhas 152 a 162), os subscritores deveriam ter efetivamente recebido os valores relativos às remunerações em tela. Fl. 875DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 12 11 Todavia, analisando a escrituração contábil da fiscalizada (fls.100), constatamos que os subscritores das debêntures não receberam qualquer parcela a título de remuneração e nem a fiscalizada fez qualquer pagamento. Tão somente foram realizados registros contábeis, sem que tenha havido qualquer fluxo financeiro. Conforme já frisado anteriormente, os valores referentes a remuneração das debêntures objeto da 1° emissão foi "paga" em dezembro de 2002, por ocasião do "resgate antecipado" destas debêntures. Neste evento não foi feito qualquer pagamento aos subscritores das debêntures objeto da 1 a emissão, pois, na mesma data, foi efetivada a emissão de debêntures para cuja integralização foram utilizados os "créditos" decorrentes do "resgate antecipado". Também não houve "pagamento" de remuneração aos subscritores das debentures da 2a emissão. Isto porque, em 04/04/2006, o saldo da conta "Debêntures a Pagar", no valor de R$ 7.931.028,41 foi utilizado para aumento do capital social da fiscalizada. Em conformidade com a Ata n° 26 (fls.160 a 162), na Assembléia Geral Extraordinária realizada em 04/04/2006 os acionistas da fiscalizada aprovaram por unanimidade o aumento do capital social de R$ 18.000.000,00 para R$ 34.000.000,00. Este aumento de capital social foi realizado mediante a incorporação dos seguintes recursos sociais: Reserva de Ágio na Subscrição de Debêntures R$ 7.931.030,95 Debêntures a Pagar R$ 7.931.028,41 Reserva Legal R$ 137.764,61 Lucros Acumulados R$ 176,03 Total do Aumento de Capital Social R$ 16.000.000,00 Portanto, as "obrigações" que a fiscalizada tinha para com os subscritores das debêntures decorrentes da subscrição e da remuneração destas debêntures foram "liquidadas" através de aumento do capital social. Cabe ainda destacar que a Reserva de Ágio na Subscrição de Debêntures, no valor de R$ 7.931.030,95, constituída em 20/12/2002, quando da subscrição das debêntures da 2a emissão, também foi utilizada para aumento do capital social em 04/04/2006. Todas esses aspectos nos permitem concluir que se trata de operações formalizadas apenas "no papel", não existindo qualquer fluxo financeiro (entrada ou saída de recursos), mas apenas uma série de papéis e assinaturas (atas de assembléias de acionistas, atas de reuniões de diretoria, lançamentos contábeis, etc.). VII— A INDEDUTIBILIDADE DAS DESPESAS COM REMUNERAÇÃO DAS DEBÊNTURES Feita a análise minuciosa das operações de emissão das debêntures, podese passar à avaliação da dedutibilidade das despesas decorrentes da remuneração dos referidos títulos. De acordo com o art. 462 do RIR/99, são dedutíveis na apuração do Lucro Real as participações nos lucros das pessoas jurídicas asseguradas a debêntures de sua emissão. Em função deste dispositivo legal, a partir de uma interpretação mais apressada e superficial, poderia se concluir pela dedutibilidade das despesas em tela. Fl. 876DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 13 12 Todavia, a legislação tributária precisa ser sempre interpretada de forma sistemática. O cerne da questão em análise demanda, sobretudo, o habitual exame acerca da necessidade e normalidade da despesa com debêntures de emissão da fiscalizada. Para tanto, em harmonia com a legislação que rege o IRPJ, não há que se contemplar como dedutível qualquer despesa com debêntures contabilizada pela empresa, mas tãosomente aquelas despesas que estejam revestidas dos predicados de usualidade e normalidade e que guardem uma natural e íntima relação com atividade da empresa e com a manutenção da respectiva fonte produtora, conforme dispõe o art. 299 do RIR/99. Portanto, para ser admitido como despesa dedutível, o gasto precisa atender, simultaneamente, aos requisites de necessidade, normalidade e usualidade. No que se refere à necessidade, o art. 299 do RIR/99 estabelece que o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos. No caso em tela, não se podem admitir como necessárias despesas para remunerar debêntures que apresentam as seguintes características: a) Os recursos "captados" através das debêntures geraram despesas que consumiram a metade do lucro da empresa; b) Imediatamente antes da emissão das debêntures, parcela expressiva dos recursos utilizados pelos subscritores para a integralização das mesmas já pertencia a fiscalizada e estava destinada a futuros aumentos do capital social e, se fossem utilizados com esta finalidade, não gerariam qualquer custo ou despesa para a fiscalizada; c) Os recursos "captados" através da emissão de debêntures foram utilizados para aumento do capital social da fiscalizada. No que se refere à normalidade e usualidade, ainda de acordo com o art. 299 do RIR/99, despesas normais e usuais são aquelas que se verificam comumente no tipo de operações ou transações desenvolvidas pela empresa e que se apresentam de forma costumeira ou ordinária neste tipo de atividade. Consideramos que, de um modo geral, a utilização da emissão de debêntures para captação de recursos pelas companhias até possa ser considerada usual e normal, desde que presentes os requisitos e características comuns a este tipo de títulos, como, por exemplo: a) Resultar no efetivo ingresso de "novos" recursos financeiros externos; e) Utilização dos recursos captados em consonância com os objetivos pelos quais a emissão foi autorizada pela Assembléia de acionistas; c) A fixação de juros, fixos ou variáveis, para remunerar os subscritores das debêntures; e, d) Gastos, para a fiscalizada, com a remuneração dos recursos captados através das debêntures em montante inferior ao que seria devido caso houvesse a utilização de financiamentos ou empréstimos bancários. No caso em exame, nada disto ocorreu! A emissão de debêntures com as características que foram constatadas no curso da ação fiscal, já apresentadas e comentadas em itens anteriores do presente Relatório, afastam qualquer possibilidade de poder considerálas como usuais ou normais, nos termos definidos pelo art. 299 do RIR/99. Assim, pelas razões expostas, podese concluir que as despesas relativas à Fl. 877DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 14 13 remuneração de debêntures formalizadas "apenas no papel", relacionadas na (…) VII— DA CARACTERIZAÇÃO DE SONEGAÇÃO De acordo com o art. 71 da Lei n° 4.502/64, sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. Examinando os procedimentos adotados pela fiscalizada constatamos que fica evidenciada a sonegação. Isto porque, para reduzir o lucro líquido e, conseqüentemente, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, a fiscalizada utilizouse de despesas geradas com a remuneração de debêntures cuja emissão esteve cercada de artificialismo. A emissão de debêntures sem uma justificativa plausível e sem a captação de novos recursos, com o intuído de gerar despesas em decorrência da remuneração destes títulos evidencia a intenção da fiscalizada de reduzir os tributos devidos. Analisando as operações como um todo, verificase que o que realmente ocorreu ao final do processo foi o aumento do capital social com a utilização da reserva de ágio na emissão das debêntures e do saldo da conta do passivo "debêntures a pagar". Esse aumento/ de capital, no entanto, poderia ter sido realizado diretamente com a reserva para aumento de capital já existente, sem a necessidade de emissão das debêntures, as quais não trouxeram nenhum recurso novo para a sociedade. Tal procedimento caracteriza sonegação, tendo em vista que se trata de ação intencional (dolosa), caracterizada pela adoção de providências administrativas, societárias e contábeis que tiveram por intuito impedir o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador de obrigação tributária. Os atos realizados — contabilização de despesas decorrentes de operações ormalizadas apenas "no papel" indicam a presença de dolo e a clara intenção de enganar o fisco quanto à ocorrência do fato gerador do imposto e, em específico, sua efetiva base de cálculo. VIII INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS (…) IX — DAS MULTAS APLICADAS (…)” Insurgindose contra o lançamento de ofício, a Recorrida apresentou Impugnação (Efl. 418), alegando, preliminarmente, (a) a decadência para a constituição da multa isolada relativa ao período de 01 a 04/2004 e (b) a nulidade do lançamento porque a prescrição genérica do artigo 299 do RIR/99 não se aplicaria à questão, já que existiria a regra específia do seu artigo 462, I, para a dedutibilidade das debêntures. Fl. 878DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 15 14 Na sequência, esclarece, com relação aos fatos, que as debêntures foram emitidas com o objetivo de a companhia não se descapitalizar, permitindo uma novação da dívida que possuía com seus acionistas relativa à distribuição de lucros (1a. emissão), seguida de uma segunda emissão para a quitação deste novo débito surgido com a primeira e o pagamento de juros sobre o capital próprio. Nesse sentido, adentra ao mérito para afirmar que, seguindo o que autorizado em lei, (c) a operação teve como objetivo negocial a novação da dívida, evitandose descapitalizar a empresa, e assim, sem a necessidade de ingresso financeiro de novos valores; (d) não competiria à fiscalização determinar que a companhia optasse por contrair empréstimo ou financiamento no mercado, sobretudo porque na emissão de debêntures não exisiria prazo de carência, não se exigiria garantia e haveria maior flexibilidade no momento da negociaçãoo ou renovação com os acionistas; (e) no lugar de juros, a remuneração dos debenturistas foi feita por vinculação à lucratividade da empresa, com o que teria anuido o auditor fiscal, ao exigir o IRRF da pessoa física, de que resultou o processo administrativo n. 11065.001116/200541. Por fim, defendeuse a (f) inocorrência de sonegação fiscal que permitisse a qualificação da multa de ofício, (g) impossibilidade de sua aplicação concomitante com a multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas e (h) a não incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício. O posicionamento da Administração Tributária, no entanto, foi mantido por unanimidade pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Porto Alegre, em decisão bastante detalhada (Efl. 450), que resumidamente (a) afastou a alegação de nulidade e entendeu que o artigo 299 do RIR/99 seria aplicável às despesas de debêntures, que no presente caso não se enquadrariam nas condições de necessidade, normalidade e usualidade exigidas pelo dispositivo, consistindo em liberalidade da empresa a sua assunção; e considerou (b) caracterizado o “dolo em artifício sonegatório praticado pelo sujeito passivo” que justificasse a imputação de multa qualificada; (c) possível a concomitância das multas isolada e de ofício; (d) bem como que a autuação não teria tratado dos juros de mora sobre a multa de ofício, que só incidiriam após o seu vencimento. Em face dessa decisão, a DAIBY S.A interpôs Recurso Voluntário (Efl. 475), basicamente apresentado a mesma linha de argumentação de sua impugnação administrativa, acrescentando um pedido de baixa do processo em diligência para a realização de perícia, a fim de verificar a regularidade da operação. Na sequência, em 26 de fevereiro de 2010, a empresa protocolizou petição informando a sua adesão ao programa de parcelamento de débitos instituído pela Lei n. 11.941/2009, incluindo “os créditos tributários referentes ao imposto principal, juros e multa isolada de 50% que consta no item 9.1 do relatório fiscal. Portanto, Fl. 879DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 16 15 permanecerá em discussão (...) a multa de ofício qualificada de 150% aplicada pela fiscalização, conforme item 9.2 do relatório fiscal”, do que resultou o apartamento dos autos em função da desistência parcial do recurso voluntário (Efl. 525). Em 03 de setembro de 2010, a DAIBY S.A apresentou nova petição (Efl. 530) registrando que teve conhecimento de que a parcela relativa à multa isolada que pensava estar incluída no parcelamento não foi aceita, porque teria seu vencimento em 24.06.2009, ao passo que o IRPJ e a CSLL cobrados refeririamse aos anos calendários de 2004 e 2005 (artigo 5o, III, da Instrução Normativa n. 1049/2010 que regulamentou a referida lei). No seu entendimento, muito embora as multas isoladas possuíssem os seus vencimentos, de acordo com a RFB, na data mencionada, encontrarseiam vinculadas aos débitos de IRPJ e CSLL referentes aos anos calendários de 2004 e 2005. Assim, “como o art. 10, §2°, da Lei n.° 11.941/09 dispõe apenas que as dívidas sejam vencidas até 30/11/2008, logo, entendese que a Instrução Normativa n.° 1.049/10, superveniente a data da adesão ao parcelamento e a desistência parcial do presente processo administrativo, não pode restringir as multas isoladas de serem incluídas no parcelamento em questão”, explica. Requereu, então, que a multa isolada de 50% fosse reincluída no parcelamento ou voltasse a ser apreciada por este Conselho. O recurso voluntário foi julgado pelo Acórdão n. 120100.336, em que prevaleceu um voto vencedor a respeito da (a) insubsistência da multa qualificada por ausência da comprovação do dolo na operação de emissão de debêntures, reduzindo o percentual da multa de ofício de 150 para 75%, mantendo os demais termos do voto da Relatora, Conselheira Albertina Silva Santos de Lima, quanto (b) à incidência do juros de mora de 1% sobre a multa, desde que da sua aplicação, entre o termo inicial e a data do pagamento, resultasse valor menor que os juros calculados com base da Taxa Selic, para que não ocorresse reforma da decisão em prejuízo do sujeito passivo, e (c) à matéria objeto do conhecimento, considerando os débitos incluídos no programa de parcelamento, nos seguintes parâmetros: “De inicio devese delimitar o litígio, dado que a contribuinte parcelou parte dos débitos consubstanciados neste processo. A contribuinte se expressou no Anexo I do requerimento de desistência do recurso administrativo: Em relação aos créditos tributários lavrados no presente Auto de Infração, a requerente incluirá no parcelamento os créditos tributários referentes ao imposto principal, juros e multa isolada de 50% que consta no item 9.1 do relatório fiscal. Portanto, permanecerá em discussão e aguardando o julgamento da impugnação ao auto de infração a multa de oficio qualificada de 150% aplicada pela fiscalização, conforme item 9.2 do relatório fiscal. Fl. 880DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 17 16 Portanto, a glosa das despesas com remuneração de debêntures não mais está em discussão. A exigência da multa isolada por falta de recolhimento de estimativas também não está em litígio. Embora a contribuinte discuta a qualificação da multa de oficio, ainda está sob controle deste processo a totalidade da multa aplicada, ou seja, 150%. Tendo a contribuinte parcelado o IRPJ e a CSLL e tratandose de lançamento de ofício, incide ao menos a multa de 75%, nos termos do art. 44, I, da Lei 9.430/96. Estaria em litígio a aplicação dos juros sobre a totalidade da multa de ofício? Sim, porque permanece sob controle do presente processo a totalidade da multa de oficio. Estaria em discussão a aplicação concomitante da multa de ofício e da multa isolada por falta ou insuficiência de recolhimento de estimativas, de 50%? Entendo que não, pois, a contribuinte já concordou com a multa por falta de recolhimento de estimativas, ao parcelar o correspondente débito, sendo que no recurso voluntário argumentava que era indevida. Delimitado o litígio, passo inicialmente, à apreciação da qualificação da multa de oficio. A Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial (Efl. 586) salientando (a) a inaplicabilidade da Súmula n. 14 do CARF, e defendendo (a) a manutenção da multa qualificada e da incidência da Taxa Selic sobre a multa de ofício, apresentando os Acórdãos n. 10194095 e 10323613 como paradigmas do primeiro tema e 10616.949 e CSRF/0400.651 do segundo. O Recurso Especial foi recepcionado por Despacho de Admissibilidade (Efl. 599) que, no que tange à qualificação da multa, entendeu aceitável o segundo acórdão como paradigma, excluindo o primeiro, e também admitiu as duas decisões apresentadas quanto à aplicação dos juros, não obstante tenha consignado “que a interpretação posta no acórdão recorrido não contemplou a tese esposada nos paradigmas, de cálculo dos juros de mora com base na taxa Selic, mas de aplicação do percentual de 1% (um por cento) ao mês”. O juízo exposto pode ser verificado na seguinte análise realizada no despacho: “No primeiro paradigma, a aplicação do percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) decorreu da declaração reiterada de valores inferiores aos efetivamente escriturados: ‘(...) A infração apontada nestes autos diz respeito à falta ou insuficiência de recolhimento de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e esta irregularidade foi apurada pela autoridade lançadora com base no confronto Fl. 881DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 18 17 entre a escrituração fiscal e comercial e a declaração de rendimentos. A multa de lançamento de ofício de 150% que a fiscalização aplicou e a autoridade julgadora de 1° grau confirmou, por entender que a prática reiterada de redução da receita bruta na declaração de rendimentos caracteriza conduta dolosa e justifica a multa qualificada, está consoante com a legislação tributária em vigor e jurisprudência administrativa predominante.’ Percebese que o contexto fático distinguese daquele de que cuidou o acórdão recorrido, como visto acima, não relacionado à constatação de diferenças entre valores escriturados e declarados, não havendo, portanto, se falar em dissídio jurisprudencial. No tocante ao segundo paradigma, a exasperação da penalidade decorreu basicamente do registro de operações fictícias (títulos do Tesouro americano) com o intuito de empregar tais valores como custos. Vejamos: ‘(...) Relevante o fato de o documento 26 (Laudo de Auditoria), reproduzir informações que se mostraram inverídicas, como a data de vencimento e o número dos títulos do Tesouro Americano, bem como a informação de que os títulos eram custodiados pela corretora situada no Uruguai. Assim, do conjunto dos autos, bem se vê que a recorrente, na verdade, registrou operações fictícias, com títulos inexistentes, na sua escrita contábil, o que desautoriza a sua aceitação para fins de dedução como custos. Por sua vez, reputo comprovada falsidade das operações descritas nos autos, fato que constitui prova direta do ‘evidente intuito de fraude’, requisito para aplicação da multa qualificada, no percentual de 150%, de que trata o art. 44, II, da Lei 9.430/96.’ À luz de tal decisão, podese concluir, neste juízo de cognição sumária, pela divergência de interpretação suscitada. Apesar de o acórdão recorrido não tratar de títulos emitidos pelo governo norte americano, cuidou da emissão, também supostamente fictícia, de debêntures com a consequente dedução de tais valores da apuração. Observe se que no próprio voto vencedor acima transcrito a conclusão da fiscalização, de que o contribuinte teria forjado operações com debêntures apenas para obter redução das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, não foi infirmada pela maioria do colegiado, que conferiu destaque, para reduzir a penalidade, ao elemento subjetivo, de não haver provas nos autos de que a sociedade, no ato daquela emissão dos títulos societários, agira para impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador. A recorrente ainda se insurge contra o cálculo dos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício, tendo acostado os seguintes paradigmas: ‘JUROS DE MORA TAXA SELIC INCIDÊNCIA SOBRE O PRINCIPAL LANÇADO E SOBRE A MULTA DE OFÍCIO POSSIBILIDADE Na forma do art. 61, §3º, da Lei n° 9.430/96, incide juros de mora, à taxa Selic, sobre o imposto lançado a partir do mês seguinte ao vencimento Fl. 882DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 19 18 ordinário da obrigação, que serão capitalizados de forma simples, sendo acrescido de 1% no mês do pagamento. Em relação à multa de oficio, os juros de mora incidirão à taxa Selic a partir do mês seguinte ao trintídio contado da ciência do auto de infração, capitalizados de forma simples, e acrescido de 1% no mês do pagamento (...)” (1ºCC, 6ª Câmara, Acórdão nº 10616.949, de 25/06/08) JUROS DE MORA MULTA DE OFICIO OBRIGAÇÃO PRINCIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (CSRF, Quarta Turma, Acórdão nº 0400.651, de 18/09/07) Considerando que a interpretação posta no acórdão recorrido não contemplou a tese esposada nos paradigmas, de cálculo dos juros de mora com base na taxa Selic, mas de aplicação do percentual de 1% (um por cento) ao mês, nos termos do art. 161, §1º, do Código Tributário Nacional, resta também caracterizado o dissídio jurisprudencial quanto à matéria.” Intimada do acórdão que julgou o recurso voluntário e da interposição do recurso especial pela Fazenda Nacional, a empresa opôs Embargos de Declaração (Efl. 611) em face dessa decisão com o intuito de que restasse esclarecido que parte da multa qualificada de 150%, correspondente aos 75% de ofício (art. 44, II, da Lei n.9430/96), já havia sido objeto de inclusão no parcelamento e, portanto, não mais estaria em discussão neste processo, mas com a ressalva de que, caso não se entendesse que a lide apenas se estaria restringindo aos 75% do majoramento (art. 44, parágrafo 1o., da Lei n. 9430/96), nesta oportunidade a contribuinte estaria formalizando sua desistência dessa parte. O apartamento do valor solicitado foi deferido em despacho de fls. 767. Os Embargos de Declaração (Efl. 777) foram admitidos e providos para considerar que a multa se dividiria na parte de ofício que acompanhou os débitos incluídos no parcelamento e foi transferida para o processo n. 10065.725082/201211 e na parcela referente ao agravamento em mais 75%, que foi afastada pelo acórdão do recurso voluntário, de modo que não caberia a intimação do sujeito passivo para pagar a multa. Esclareceuse, também que o pedido deduzido com relação à reinclusão da multa isolada no parcelamento ou retorno para discussão nesse processo, que não havia sido apreciado, foi equacionado com sua inclusão manual naquele programa pela contribuinte. Por fim, a DAIBY S.A ofereceu contrarrazões (Efl. 791) ao recurso especial, alegando, preliminarmente, que (a) o acórdão recorrido, ao afastar a multa qualificada com base na ausência de comprovação do evidente intuito de fraude, proferiu decisão com base na farta jurisprudência do CARF que deu origem à sua Súmula n. 14 e, Fl. 883DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 20 19 por essa razão, o recurso especial não poderia ser reconhecido, de acordo com o art. 67, parágrafo 2o., do Regimento Interno do órgão. Ainda em sede preliminar, argumentouse que o recurso especial também não poderia ser conhecido (i) porque versa sobre matéria fáctica e não divergência de interpretação, (ii) por falta de cotejo analítico que demonstre a divergência entre o acórdão recorrido e os paradigmas apresentados, justamente por não haver similitude fáctica entre as situações julgadas, tampouco divergência, já que os dois acórdão tiveram resultados diversos em função da prova feita da fraude nos dois casos. O mesmo se disse quanto à falta de cotejo também em relação aos juros aplicados sobre a multa. Com relação ao mérito, requereu fosse negado provimento ao recurso especial da PGFN, no que se refere à multa qualificada, (i) em face da ausência de prova material de que teria agido com o dolo de sonegar tributos, em consonância com a Súmula n. 14 do CARF, e relativamente à aplicação dos juros sobre multa, (ii) para afastálos ou mantêlos nos patamater fixados no acórdão recorrido, sob pena de reformar a decisão para pior – o que tiraria o direito recursal da PGFN. Passase, então, à apreciação do recurso. Voto Conselheira DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO Relatora PRELIMINARES Tempestividade do Recurso Especial Anteriormente à análise do mérito, verificarseá a tempestividade do recurso e o preenchimento dos requisitos para o seu conhecimento. Consta na efl. 578 (a) um Termo de Intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional de 06.07.2011, (b) uma assinatura sobre a ciência em 03.08.2011, sem o nome do procurador e (c) uma anotação manuscrita da Procuradora Mirza Andreina Portela de Sena Sousa, com os seguintes dizeres: “Ciente do Acórdão 140200498 em ‘28/09/2011’. Segue o Recurso Especial. Registrase que a assinatura acima não partiu da Procuradoria da Fazenda Fl. 884DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 21 20 Nacional, pois a RM de fls. 403 comprova que o processo foi enviado à PGFN em 30.08.2011. Presumindose a validade dessa certidão, que não foi inquinada pela Recorrida, como não se verifica nos autos registro da intimação pessoal do Procurador da Fazenda Nacional, entendese configurada a premissa necessária ao deslocamento da aplicação para a regra 79 do Regimento Interno do CARF. Desse modo, contandose o prazo de 15 dias (cf. artigo 68 do Regimento Interno) da intimação ocorrida 30 dias após o recebimento dos autos por meio digital (v. artigo 79), em 15.02.2011, e o extrato de movimentação do processo da PGFN para o CARF em 29.09.2011, como o recebimentodo recurso, no dia 03.10.2011, considerase o presente recurso tempestivo. Conhecimento do Recurso Especial O conhecimento do Recurso Especial condicionase ao preenchimento de requisitos enumerados pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho, que exigem analiticamente a demonstração, no prazo regulamentar do recurso de 15 dias, de (1) existência de interpretação divergente dada à legislação tributária por diferentes câmaras, turma de câmaras, turma especial ou a própria CSRF; (2) legislação interpretada de forma divergente; (3) prequestionamento da matéria, com indicação precisa das peças processuais; (4) duas decisões divergentes por matéria, sendo considerados apenas os dois primeiros paradigmas no caso de apresentação de um número maior, descartandose os demais; (5) pontos específicos dos paradigmas que divirjam daqueles presentes no acórdão recorrido; além da (6) juntada de cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, da publicação em que tenha sido divulgado ou de publicação de até 2 ementas, impressas diretamente do sítio do CARF ou do Diário Oficial da União quando retirados da internet, podendo tais ementas, alternativamente, serem reproduzidas no corpo do recurso, desde que na sua integralidade. Observase que a norma ainda determina a imprestabilidade do acórdão utilizado como paradigma que, (1) na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie (i) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal (art. 103A da Constituição Federal); (ii) decisão judicial transitada em julgado (arts. 543B e 543C do Código de Processo Civil; (iii) Súmula ou Resolução do Pleno do CARF; ou (2) de sua interposição, tenha sido reformado na matéria que aproveitaria ao recorrente. Pois bem, voltandose ao caso concreto, delimitase que o recurso especial apresenta dois temas para a análise de seu conhecimento: (1) aplicação da multa qualificada correspondente aos 75% não inclusos no parcelamento, afastada pelo acórdão recorrido por Fl. 885DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 22 21 se entender não estar comprovado o dolo de sonegar e (2) inciência da Taxa Selic sobre a multa, substituído na decisão recorrida pela taxa de 1%, ou a que for menor das duas. 1. Ausência de cotejo analítico entre os acórdãos recorrido e paradigmas Primeiramente, e de forma bastante direta, talvez justamente pela ausência da divergência apontada – já se adiantando o próximo tópico – impede o conhecimento do recurso o fato de a Procuradora da Fazenda Nacional não ter procedido ao devido cotejo analítico entre o acórdão recorrido e os paradigmas apresentados, conforme estabelecido como requisito formal pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho. Compulsandose o recurso especial, vêse que a Procuradora da Fazenda Nacional limitouse a fazer a seguinte digressão a título desse cotejo para fins de conhecimento do recurso. Com relação à MULTA QUALIFICADA: “O acórdão proferido pela 2a. Turma Ordinária da 4 a. Camara da 1a. Seção de Julgamento do CARE determinou a redução da multa de oficio ao percentual de 75%, apesar de restar claro nos autos os requisitos para a aplicação da multa disposta no art. 44, §1o. da Lei no. 9.430/96. Diferente foi o entendimento de outras Câmaras deste Tribunal Administrativo em julgamento de casos semelhantes. Vejamos: ‘Acórdão 10194095: PRELIMINAR. LANÇAMENTO. NULIDADE. Rejeição da preliminar de nulidade por cerceamento do direito de defesa quando o Auto de Infração e seus anexos descrevem minuciosamente as irregularidades cometidas pelo sujeito passivo e indicam os dispositivos legais infringidos. IRPJ/CSLL. FALTA DE RECOLHIMENTO. MULTA QUALIFICADA. A prática reiterada de infrações definidas como falta de recolhimento e/ou de declaração inexata, por diversos anos seguidos, caracteriza indício veemente da ocorrência de irregularidades definidas nos artigos 71 72 e 73 da Lei no. 4.502/64 e justifica a aplicação da multa qualificada. JUROS DE MORA. TAXA SEEIC. Os juros de mora, a taxa SELIC, está prevista no artigo 13 da Lei no. 9.065/95 e enquanto o dispositivo legal não for julgado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal e suspensa a sua execução pelo Senado Federal, as autoridades administrativas devem zelar pelo seu fiel cumprimento. Preliminar rejeitada. Negado provimento, no mérito. (Grifos nossos) (Doc. 01)’ Fl. 886DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 23 22 ‘Acórdão 10323613: "DESPESAS DE DEBÊNTURES — DEDUTIBILIDADE A dedução das despesas decorrentes das obrigações relativas a debêntures esta condicionada, entre outras, efetiva captação de novos recursos financeiros inerente à emissão desses títulos, circunstancia não verificada no presente caso. MULTA ISOLADA — MULTA DE OFICIO CONCOMITANCIA IMPOSSIBILIDADE A coexistência da multa de lançamento de oficio com a multa isolada no mesmo lançamento somente é possível quando as suas bases de cálculo forem distintas, o que é o caso dos autos. MULTA QUALIFICADA OPERAÇÕES COM TITULOS INEXISTENTES Comprovada a inexistência da operação de emissão de debêntures que deveriam ser integralmente subscritas por empresa estrangeira mediante a transferência de Títulos do Tesouro Americano é prova direta do evidente intuito de fraude, requisito para aplicação da multa qualificada, no percentual de 150%, de que trata o art. 44, II, da Lei 9.430/96. TRIBUTAÇÃO REFLEXA A decisão relativa ao auto de infração matriz deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração decorrente ou reflexo, uma vez que ambos os lançamentos, matriz e reflexo, estão apoiados nos mesmos elementos de convicção. Ementário publicado no DOU n" 13 de 20/01/2009. Págs. 05/09". (Grifos nossos) (Doc. 02)’ Sendo assim, a decisão recorrida diverge dos acórdãos paradigmas, cujos entendimentos retratam que é aplicável para a reiterada conduta ilícita da contribuinte, a imposição prevista no art. 44, §1o. da Lei no. 9.430/96. Dessa forma, demonstrada a divergência jurisprudencial diante das ementas anexas, encontramse presentes Os requisitos de admissibilidade do presente recurso especial.” Com relação à incidência dos JUROS SOBRE A MULTA: “Ao contrario do entendimento apresentado pela c. 2a. Turma, outras Câmaras decidiram que, em relação à multa de oficio, os juros de mora incidirão à taxa SELIC, conforme se extrai das ementas abaixo destacadas: Acórdão 10616.949: ‘Assunto: Imposto sobre a Renda dc Pessoa Física IRPF Exercício: 1999 Ementa: JUROS DE MORA TAXA SELIC INCIDÊNCIA SOBRE PRINCIPAL LANÇADO E SOBRE A MULTA DE OFÍCIO POSSIBILIDADE Na forma do art. 61, § 3o., da Lei n° 9.430/96, incide juros de mora, à taxa selic, sobre o imposto lançado a partir do mês seguinte ao vencimento ordinário da obrigação, que serão capitalizados de forma simples sendo acrescido de 1% no mês do pagamento. Em relação à multa de oficio, os juros de mora incidirão à taxa Selic a partir do mês seguinte ao trintídio contado da ciência do auto de infração, capitalizados de forma simples, e acrescido de 1% no mês do pagamento. Fl. 887DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 24 23 MULTA DE OFICIO PERCENTUAL DE 75% CONFISCO INOCORRÊNCIA — Incabível se falar em confisco no âmbito das multas pecuniárias. O principio constitucional do nãoconfisco se aplica, apenas, aos tributos. PRECARIEDADE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA DA RECORRENTE — MEIO PARA ELIDIR A EXAÇÃO LANÇADA — IMPOSSIBILIDADE — A pretensão da recorrente somente poderia ser atendida se o instituto da remissão estivesse disciplinado por lei ordinária. Assim, não há base legal para deferir a pretensão vindicada. Recurso voluntário negado’. (g.n) (Doc. 03) Acórdão CSRF/0400.651: ‘JUROS DE MORA — MULTA DE OFICIO OBRIGAÇÃO MUNICIPAL — A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O credito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Recurso não provido’. (g.n) (Doc. 04) Verificase, que diante de molduras fáticas similares, as quais se submetem à mesma disciplina jurídica, órgão recorrido e órgãos prolatores dos paradigmas chegaram a conclusões diversas. Ressaltese que em todos os casos analisados houve lançamento, acompanhado da multa de oficio. Não obstante, enquanto a Câmara a quo entendeu que se aplicava aos juros de mora incidents sobre a multa de oficio, a taxa de 1% ao mês nos termos do art. 161, §1o. do CTN, as outras Câmaras concluíram que caberia o emprego dos juros corn amparo na taxa selic. Dessa forma, demonstrada a divergência jurisprudencial diante das ementas anexas, encontramse presentes os requisitos de admissibilidade do presente recurso especial.” Acreditase que a simplicidade das colocações deduzidas no recurso especial não as torna capazes de configurar o cotejo analítico exigido para o seu conhecimento, haja vista todo o trabalho comparativo que teve que ser realizado neste voto para a verificação da existência ou não de divergência entre os acórdão recorrido e paradigmas, realizado a seguir. 2. Ausência de divergência entre o acórdãos recorrido e os paradigmas apresentados e a questão da Súmula CARF n. 14 Com relação à MULTA QUALIFICADA: Fl. 888DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 25 24 O acórdão recorrido teve como realidade fáctica a aplicação de multa qualificada em operação de emissão de debêntures realizada pela contribuinte para seus acionistas para novação de dívida, desconsiderada pela fiscalização para fins de dedutibilidade das respectivas despesas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e tomada como prática de sonegação fiscal, uma vez que em seu entender teria acontecido apenas formalmente, pelos motivos enumerados no relatório acima. Como solução à lide, no que interessa ao objeto do recurso, a turma a quo decidiu afastar a qualificação da multa sob o fundamento de que essa espécie de penalidade dependeria da efetiva comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo, não se podendo presumilo, o que não teria logrado fazer a fiscalização no caso concreto. O primeiro paradigma apresentado, acórdão n. 10194095, já havia sido afastado no exame de admissibilidade do recurso, não se vislumbrando nem aproximação entre as situações fácticas que levaram à aplicação da multa qualificada, tampouco e por via de consequência, paralelo que pudesse ser estabelecido entre as soluções conferidas nos dois casos, tornandose imprestável como paradigma para a fixação de divergência com a decisão recorrida a ser dirimida por este colegiado. Da mesma maneira, entendese que o acórdão n. 10323613 também não pode ser aceito como paradigma, desta vez porque, além de tratar de situação que num primeiro momento pudesse parecer semelhante, mas que se melhor verificada é diversa, se fossem similares, o resultado seria o mesmo, pois não há divergência entre os entendimentos de ambos os acórdãos: tanto num quanto noutro se entende aplicável a multa qualificada quando comprovado o evidente intuito de fraude do sujeito passivo, ou seja, não divergem em momento algum. O que acontece é que numa situação concreta entendeuse existir comprovação do dolo e na outra não. E isso não é a divergência de posicionamento que se requer para efeitos de conhecimento do recurso especial – confirmando que o papel do colegiado referese à solução de um conflito de interpretações, na busca por uma uniformização de jurisprudência. Daí porque, para se verificar se o tratamento seria diferente, se precisaria estar diante de situações fácticas bastante aproximadas e mesmo assim o critério “em tese” utilizado não poderia ser o de haver ou não comprovação do dolo para a aplicação da multa. Imaginese que diante (i) de duas situações fácticas próximas que se entendesse haver prova do dolo, o resultado seria a aplicação da multa qualificada e (ii) duas situações fácticas diferentes, se o critério fosse a existência de prova do dolo, o resultado também seria a aplicação da multa. A divergência existiria então, se se entendesse, de um lado, essencial a demonstração do intuito fraudulento e de outro que a aplicação da penalidade prescindiria dessa comprovação. Fl. 889DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 26 25 Outra possibilidade seria se analisar – caso se entendesse isso possível para fins de conhecimento do recurso especial – que duas situações fácticas aproximadas foram compreendidas de formas diferentes por duas decisões. Por exemplo, duas operações de emissão de debêntures com as mesmas características, que num julgamento tenha sido considerada fraudulenta pela fiscalização e no outro válida. No entanto, ainda que se admitisse esse raciocínio – o que inclusive foi questionado pela contribuinte em suas contrarrazões ao recurso especial –, também não caberia no caso em exame, porque os fatos relatados no acórdão n. 10323613, embora num primeiro momento possam sugerir o contrário, não se assemelham em tudo à operação realizada pela DAIBY S.A e julgada pelo acórdão recorrido. Leiase os trechos da decisão paradigma que tratam da emissão das debêntures e da multa aplicada: “Relatam as autoridades lançadoras que a contribuinte, que tem por objeto social a exploração de planejamento e assessoria de marketing, reduziu indevidamente o resultado dos períodos fiscalizados, para fins de determinação do IRPJ e da CSLL, haja vista ter registrado em sua contabilidade despesas a título de remuneração de debêntures, cuja emissão teria se dado com o fim específico de fraudar a legislação tributária, no sentido de reduzir os montantes dos tributos devidos.” “Em 30/04/1997, a contribuinte deliberou, em Assembléia Geral Extraordinária, por emissão de debêntures, no montante de R$ 10.000.000,00, com remuneração decorrente exclusivamente de seus lucros, que foram integralmente subscritas pela empresa Choy Sing Investments, com sede nos Estados Unidos, por meio da transferência de títulos do Tesouro Americano. Da data da emissão das debêntures (1997) até o final do anocalendário de 2005, a empresa subscritora foi remunerada com R$116.233.231,69, valor este que representa cerca de 86% do lucro líquido da fiscalizada. Em outras palavras, o lucro líquido da contribuinte ficou reduzido a cerca de 14% daquele efetivamente apurado. Não satisfeita com o desfecho do julgamento, a recorrente maneja o Recurso Ordinário, aonde, em síntese, repete os argumentos expendidos em sua impugnação, quais sejam: Defende a regularidade da operação, apontando como provas os documentos examinados pela fiscalização, como o laudo de auditoria emitido por P.M.P. Consultoria Contábil S/C Ltda, confirmando a validade e existência dos títulos do Tesouro Americano e o documento expedido pela empresa Choy Sing por meio dos qual autorizou o corretor Ignácio Rospide de Leon, sediado no Uruguai, a adquirir os 10.000 T'Bills em seu nome e repassálos à recorrente (fls. 491 e 492). Fl. 890DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 27 26 Também alega que fez endosso escritural (ordem de transferência) desses títulos para integralizar capital na empresa Brasilpar Investimentos e Participações, sediada na cidade de Funchal, Zona Franca da Madeira (fl. 496). Afirma, ainda, que os sócios da Brasilpar deliberaram sobre a aceitação do investimento e ratificação da regularidade dos títulos americanos a serem integralizados, no importe de 10.000 T'Bills, ficando o investimento pendente até que fosse feita a avaliação por um Revisor Oficial de Contas em Portugal (fls. 509 a 511 e 513 a 518). Discorre acerca da emissão das debêntures com participação em seus lucros e sobre o investimento que teria realizado na empresa Brasilpar, com o propósito de demonstrar a regularidade da operação, afirmando ter cumprido todas as formalidades legais pertinentes, e rebate as inconsistências apontadas pela fiscalização quando da análise dos documentos apresentados relativos à operação de lançamento das debêntures. Assevera não ser possível a desconsideração do ato jurídico face à ausência de lei ordinária permissiva (fl. 411), pois o parágrafo único do art. 116 do CTN, dispositivo que trata dessa possibilidade está condicionado à edição de lei ordinária ainda não editada. Além disso, referido dispositivo foi incluído no ordenamento jurídico em 11/01/2001, por meio da publicação da Lei Complementar n° 104, enquanto o ato tido como fraudulento ocorreu em 1997.” “A glosa das despesas está fundamentada no fato do fisco haver entendido que a, ora recorrente, teria agido com a intenção dolosa de reduzir tributo quando engendrou uma operação fraudulenta que envolveu a emissão de debêntures no valor de R$ 10.000.000,00 que foram integralmente subscritas pela empresa Choy Sing Investiments, com sede nos EUA, mediante a transferência de Títulos do Tesouro Americano, que provou não existirem. A análise dos autos denota inicialmente, que a recorrente, intimada e reintimada que foi para comprovar com documentos hábeis e idôneos a existência dos referidos Títulos, não logrou fazêlo. Da atenta leitura dos autos aflora que fiscalização produziu, com os documentos disponibilizados pela própria recorrente, uma análise bastante esclarecedora acerca da realidade fática que permeia o presente lançamento, tocando em pontos importantes, como é o caso do reconhecimento das assinaturas do documento 27, por meio do qual é solicitada a transferência de titularidade dos títulos do Tesouro Americano para a Brasilpar, meses depois da suposta efetivação do fato. Com isso foi constituído um conjunto indiciário robusto, como se vê no Termo de Verificação Fiscal, fl. 287 e seguintes, de onde extraio algumas passagens: ‘A contribuinte apresentou somente os documentos DOC 25, DOC 26, DOC 27, DOC 28 e DOC 29 durante o procedimento de fiscalização, com a tentativa de comprovar a operação da transferência dos títulos do Tesouro Americano, e conseqüentemente tentar comprovar o ingresso de recursos que justificasse a emissão de debêntures. Fl. 891DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 28 27 Esses documentos, que serão descritos e analisados, não deixam qualquer margem de dúvida de que o único motivo, ou a única intenção da contribuinte, bem assim, também, o único efeito que produziu tal operação artificial de emissão de debêntures, foi a redução ilegal dos tributos devidos. O documento 25 é uma correspondência enviada pela contribuinte a Corretora de Bolsa "Ignácio Rospide de Leon", no Uruguai, onde afirma ter recebido títulos do Tesouro Americano — ISIN US9127945433, com vencimento em 30 de junho de 1997, pelo preço unitário de 995,7129, perfazendo um total de U$10.000.000,00. Esta afirmação é falsa, visto que não existem títulos do Tesouro Americano com vencimento em 30 de junho de 1997 e muito menos existe titulo emitido pelo Tesouro Americano com o código CUS1P 912794543. De acordo com pesquisa (DOC 40) feita no "site" do Departamento do Tesouro Americano (vvvvw.publicdebt.treas.gov), somente foram emitidos títulos Treasury Bills com vencimento em 26 de junho de 1997 (CUSIP 9 I 27942R4) e 3 de julho de 1997 (CUS1P 9127945D2,). Realizando pesquisa pelo código CUSIP (DOC 41), verificamos também que não existe titulo emitido com o código CUSIP 912794543. O documento 26 é um Laudo de Auditoria, emitido por PMP Consultoria Contábil, que afirma que o montante registrado de U$10.000.000,00 corresponde ao saldo de 10.000 Treasury Bills, com vencimento em 30 de junho de 1997, 1SIN US9 I 27945433 e que os títulos estão custodiados junto a lgnácio Rospide de Leon, corretora de bolsa sediada no Uruguai. Este laudo contém as mesmas informações falsas do document anterior, ou seja, não existem títulos emitidos pelo Tesouro Americano com vencimento em 30 de junho de 1997 e com o código CUSIP 912794543. Alem disso, uma corretora sediada no Uruguai não pode custodiar títulos do Tesouro Americano. O documento 27 tratase de uma correspondência enviada pela contribuinte a Corretora de Bolsa Igná cio Rospide de Leon, solicitando a transferência da titularidade dos títulos do Tesouro Americano (T'Bills) para a empresa Brasilpar. Este documento possui diversas incoerências. A primeira diz respeito a data em que as assinaturas foram reconhecidas pelo I°. Tabelionato de Notas: 14 de novembro de 1997. Como a data poderia ser posterior ao pedido de transferência, 30 de maio de 1997? A segunda diz respeito a menção que a correspondência faz a um "Contrato de Compra e Venda de Notas do Tesouro Americano''. A contribuinte já informou, atendendo a Termo de Intimação Fiscal, que não existe tal contrato. A terceira incoerência é a inexistência na correspondência do código (et CUSIP/ISIN dos títulos do Tesouro Americano. Como a corretora poderia realizar a transferência dos títulos sem ter conhecimento dos códigos e sem receber um contrato? A quarta diz respeito ao valor atribuído aos títulos: U$10.043.055,00 e R$ 10.000.000,00. Fl. 892DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 29 28 Isto é impossível, uma vez que no dia 30/05/1997, U$1,00 equivalia a R$1,017. Cabe lembrar ainda que os documentos 25 e 26 mencionam um valor de R$10.000.000,00 para o titulo. O documento 29 é uma Nota de corretagem emitida pela Corretora Ignácio Rospide De Leon referente a uma ordem de compra, feita pela empresa Choy Sing, de títulos do Tesouro Americano. Este documento novamente faz menção a títulos do Tesouro Americano (T Bills) com vencimento em 30 de junho de 1997. Conforme já mencionado anteriormente, não existem títulos com vencimento nesta data. Resta claro que toda a documentação apresentada pela contribuinte não consegue comprovar a operação de transferência dos títulos do Tesouro Americano. O mais grave é que, alem de não comprovar, apresentou documentos com informações falsas. Em primeiro lugar porque não existem títulos 7 Bills com vencimento em 30 de junho de 1997 (DOC 40), em segundo lugar porque não existe título emitido pelo Tesouro Americano com o código CUS1P 912794543 (DOC 41) e por último porque nem mesmo o dígito verificador do código informado é correto.’ Como se vê não se trata de uma inconsistência isolada, mas de diversos pontos que ficam sem resposta na operação supostamente realizada pela recorrente. Relevante o fato de o documento 26 (Laudo de Auditoria), reproduzir informações que se mostraram inverídicas, como a data de vencimento e o número dos títulos do Tesouro Americano, bem como a informação de que os títulos eram custodiados pela corretora situada no Uruguai. Assim, do conjunto dos autos, bem se vê que a recorrente, na verdade, registrou operações fictícias, com títulos inexistentes, na sua escrita contábil, o que desautoriza a sua aceitação para fins de dedução como custos. Por sua vez, reputo comprovada falsidade das operações descritas nos autos, fato que constitui prova direta do "evidente intuito de fraude", requisito para aplicação da multa qualificada, no percentual de 150%, de que trata o art. 44, II, da Lei 9.430/96.” Essas transcrições são para se demonstrar que ainda que se adotasse a linha de que a divergência pudesse pautar na forma de qualificação dos fatos, as operações autuadas num e noutro caso revelamse distintas. Embora tenham alguns pontos comuns e igualmente questionados, envolvendo glosa de despesas decorrente da remuneração de debêntures, forma de remuneração dos debenturistas, dentre outros, no acórdão paradigma parece se destacar a inexistência dos títulos americanos emitidos para a subscrição, fornecimento de informações inverídicas e acusações de falsidade documental, com análise específica de vários documentos que registraram a operação. Fl. 893DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 30 29 Portanto, não se pode concluir que num caso o acórdão recorrido compreendeu não haver prova do dolo e afastou a multa qualificada e, no outro, a decisão paradigma reconheceu haver referida comprovação e manteve a penalidade, porque se tratam de situações fácticas com pontos comuns, mas peculiaridades que substancialmente as diferenciam e inquinam essa proximidade. Mais do que isso, o critério que define as decisões é absolutamente o mesmo: necessidade de demonstração do evidente intuito de fraude para incidência da multa qualificada, o que já é determinante para impedir a configuração da divergência necessária ao conhecimento do recurso especial, revelando, ao contrário, uma convergência de interpretações. Assim sendo, no que diz respeito à qualificação da multa, entendese não configurada a divergência para o conhecimento do recurso especial. É preciso se acrecentar que a inexistência de divergência ainda traz implicações diretas para a aplicação da Súmula CARF n. 14, tema trazido pelas duas partes no recurso especial e contrarrazões, para fins de seu conhecimento. Com efeito, dispões o verbete que “Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo.” Relendose todos os acórdãos eleitos precedentes seus (Acórdãos n. 101 94258, 10194351, 10419384, 10419806 e 10419855), extraise que, não obstante tenham como situação fática casos de omissão de receitas/depósitos bancários, mais expressa ainda na redação da súmula que numa verificação imediatista parece restringir a sua aplicação, trazem uma interpretação geral quanto à produção da prova nos casos de sonegação fiscal, nos moldes em que tipificada a conduta da DAIBY S.A. nestes autos. Vejase, ilustrativamente, trechos dos seguintes acórdãos precedentes: Acórdão n. 10194258: “Entendo que para que a multa de lançamento de ofício seja transformada de 75% para 150%, é imprescindível que se configure o evidente intuito de fraude. Nesse caso, devese ter como princípio o brocado de direito que prevê que ‘fraude não de presume’, ‘se prova’. Ou seja, há que se ter provas sobre o evidente intuito de fraude praticado pela empresa. Não é razoável se querer, simplesmente, presumir a ocorrência de fraude, ainda mais que se trata de exigência constituída a partir de receitas tempestivamente declaradas ao fisco. Agindo assim, aplicou incorretamente a multa de ofício qualificada, pois não pode prevalecer a imposição, tendo em vista que na espécie de que se cuida, a infração não denota o evidente intuito de fraudar. A prova neste aspecto deve Fl. 894DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 31 30 ser material, evidente, como diz a lei.” Acórdão n. 10419.806: “SANÇÕES TRIBUTÁRIAS MULTA QUALIFICADA JUSTIFICATIVA PARA APLICAÇÃO EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE Qualquer circunstância que autorize a exasperação da multa de lançamento de ofício de 75%, prevista como regra geral, deverá ser minuciosamente justificada e comprovada nos autos. Além disso, para que a multa qualificada seja aplicada, exigese que o contribuinte tenha procedido com evidente intuito de fraude, nos casos definidos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. A não inclusão como rendimentos tributáveis, na Declaração de Imposto de Renda, de valores depositados em contas correntes ou de investimentos pertencentes ao contribuinte fiscalizado, sem comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações, caracteriza falta simples de presunção de omissão de rendimentos, porém, não caracteriza evidente intuito de fraude, nos termos do art. 992, inciso II, do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n 1.041, de 1994.” Acórdão n. 10419.855: “IRPF MULTA QUALIFICADA FRAUDE A simples omissão de receitas não representa, por si só, fato relevante para a caracterização de fraude, que não se presume, devendo ser comprovada conduta material suficiente para sua caracterização.” Entendendose que a norma jurídica contida nessa Súmula que exige que a sonegação não seja presumida, seja provada, justamente como decidiu o acórdão recorrido, se aplicaria também o artigo 67 do Regimento Interno que determina a imprestabilidade do paradigma que, na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie Súmula ou Resolução do Pleno do CARF. Ocorre que, apesar dessa adequação, como dizer que o segundo paradigma contrariou súmula do CARF se ele se mostra justamente convergente com essa orientação? Isso seria possível se o paradigma fosse válido ao que se presta e, indo de encontro com a orientação do acórdão recorrido, se encaixaria na hipótese da súmula, impedindo o conhecimento do recurso. Mas, tal como está, impede até mesmo esse tipo de verificação, o que se entende ratificar a impossibilidade de conhecimento do recurso por inexistência de divergência. Assim sendo, pela ausência de cotejo analítico, similitude fáctica entre os acórdãos recorrido e paradigma e confronto deste com súmula do CARF, VOTA SE POR NÃO CONHECER o Recurso Especial no que tange à qualificação da multa, restando prejudicada a questão da incidência de juros de mora sobre a penalidade. Fl. 895DF CARF MF Processo nº 11065.001087/200941 Acórdão n.º 9101002.942 CSRFT1 Fl. 32 31 (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Fl. 896DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10715.004208/2010-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Período de apuração: 01/07/2007 a 27/07/2007
REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DE EMBARQUE NA
EXPORTAÇÃO. MULTA DO ART. 107, IV, E, DO DECRETO-LEI 37/1966 (IN
SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE.
RETROATIVIDADE BENIGNA.
Em se tratando de descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF 28/1994, a multa instituída pelo artigo 107, IV, e do DL 37/1966, deve ser mitigada diante do novo prazo imposto pela IN SRF 1.096/2010, em decorrência da retroatividade benigna.
Numero da decisão: 3302-004.709
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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MULTA DO ART. 107, IV, E, DO DECRETO-LEI 37/1966 (IN SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em se tratando de descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF 28/1994, a multa instituída pelo artigo 107, IV, e do DL 37/1966, deve ser mitigada diante do novo prazo imposto pela IN SRF 1.096/2010, em decorrência da retroatividade benigna. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo. (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente (assinatura digital) Lenisa Prado - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Prado. A C Ó R D Ã O G E R A D O N O P G D -C A R F PR O C E SS O 1 07 15 .0 04 20 8/ 20 10 -8 5 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária agosto de 2017 agosto de 2017 Obrigações Acessórias Obrigações Acessórias AMERICAN AIRLINES INC AMERICAN AIRLINES INC FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL AA Fl. 376DF CARF MF 2 Relatório A questão tem início na lavratura de auto de infração contra a contribuinte American Airlines Inc. consolidando a exigência da multa prevista na alínea "e" do inciso IV do art. 107 do Decreto-lei 37/1966, com a redação conferida pelo artigo 77 da Lei n. 10.833/2003, regulamentado pelas Instruções Normativas SRF 28, de 1994, e 510, de 2005. De acordo com a descrição dos fatos apresentados pela autoridade fiscal, constatou-se que a contribuinte deixou de registrar as informações de embarque de Declarações de Exportação, na forma e prazo estabelecidos pelo artigo 37 da IN SRF 28/1994. Por esse motivo, foi imposta multa em desfavor da ora recorrente, no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por embarque desacompanhado do respectivo registro no SISCOMEX. Regularmente cientificada sobre a imposição da sanção pecuniária, a contribuinte apresentou impugnação, oportunidade na qual discorreu sobre os seguintes argumentos: a) em razão de erro operacional de seu estabelecimento no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, as informações concernentes ao embarque das mercadorias foram fornecidos ao SISCOMEX com atraso que excedeu entre 1 a 8 dias do prazo previsto na legislação de regência; b) ao contrário do que afirma a autoridade fiscal, para a imposição de multa não basta a mera inobservância da legislação aduaneira; é necessária a demonstração da intenção dolosa do contribuinte em fraudar o controle aduaneiro, bem como a comprovação de dano ao Erário, o que não restou configurado na hipótese dos autos; c) a aplicação da pena é desarrazoada e desproporcional, devendo ser aplicado o que dispõe o artigo 654 do Regulamento Aduaneiro vigente há época dos fatos (Decreto n. 4.543/2002), a qual prevê a relevação da multa quando a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento de tributos; d) o Superior Tribunal de Justiça consolidou o entendimento que se aplica às infrações de uma mesma espécie, apuradas numa mesma ação fiscal, a teoria da continuidade delitiva, de modo que, ainda que se entendesse pela configuração da infração, esta somente poderia ensejar a imputação de uma multa no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por todas as infrações apuradas pela fiscalização. A impugnação foi julgada improcedente pela Delegacia de Julgamentos de Florianópolis (SC), em acórdão que resultou na seguinte ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 REGISTRO NO SISCOMEX DOS DADOS DE EMBARQUE. PRAZO. Fl. 377DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 377 3 O registro dos dados de embarque no Siscomex em prazo superior a 7 dias, contados da data do efetivo embarque, para a via de transporte aérea, caracteriza a infração ontida a línea e", inciso IV, do artigo 107 do DecretoLei n° 37/66. PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA. Aplica-se a lei tributária, em matéria de penalidades, a ato ou fato pretérito não definitivamente julgado quando for mais benéfica ao sujeito passivo. INFRAÇÃO CONTINUADA. EMBARQUES DIFERENTES. MERA REITERAÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL. É incabível falar em infração continuada quando os atos caracterizadores da infração não resultam do aproveitamento das condições objetivas que balizaram a prática das infrações anteriores. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. Tendo em vista a presunção de constitucionalidade das normas legais que foram legitimamente inseridas no ordenamento jurídico, cabe à autoridade administrativa tão somente verificar se os fatos subsumemse na norma de regência e aplicar a penalidade em face da existência de expressa determinação legal, dado que o lançamento não é atividade discricionária, mas, bem ao contrário, vinculado e obrigatória. Impugnação rocedente em Parte Crédito Tributário Mantido Parte Irresignada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, o que ensejou a subida dos autos a este Conselho. Em 27 de janeiro de 2015, a 1ª Turma Especial desta 3ª Seção de julgamentos, ao apreciar os argumentos defendidos pelo contribuinte, deu provimento ao recurso voluntário, em decisão que foi assim sumariada: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração:01/11/2006 a 30/11/2006 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. APLICAÇÃO ÀS PENALIDADES DE NATUREZA ADMINISTRATIVA. INTEMPESTIVIDADE NO CUMPRIMENTO DE Fl. 378DF CARF MF 4 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RETROATIVIDADE BENIGNA. Aplica-se o instituto da denúncia espontânea às obrigações acessórias de caráter administrativo cumpridas intempestivamente, mas antes do início de qualquer atividade fiscalizatória, relativamente ao dever de informar, no Siscomex, os dados referentes ao embarque de mercadoria destinada à exportação. Recurso Voluntário Provido. Com supedâneo no artigo 67, do Anexo II do RICARF, a Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs recurso especial contra a decisão proferida no apelo do contribuinte. Ultrapassado o juízo inicial de admissibilidade, o recurso foi levado a julgamento pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, tendo sido parcialmente provido. Segue ementa do acórdão: Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/11/2006 a 30/11/2006 PENALIDADE ADMINISTRATIVA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO OU PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento de deveres instrumentais, como os decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do Decreto-lei 37/1966, dada pelo art. 40 da Lei n. 12.350, de 2010. Recurso Especial Provido em Parte. Naquela assentada, restou determinado que o processo deveria retornar à instância a quo para apreciação das demais questões trazidas em recurso voluntário e que não foram objeto de deliberação na oportunidade de seu julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Lenisa Prado Na oportunidade do primeiro julgamento do recurso voluntário, foram apreciados os seguintes argumentos: Fl. 379DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 378 5 (i) Sobre a denúncia espontânea- a turma de julgamento concluiu que a multa imposta deve ser cancelada, em estrita obediência ao artigo 138 do CTN, uma vez que a contribuinte informou à administração tributária as infrações por ela praticadas, antes de iniciado qualquer procedimento fiscalizatório. (ii) Sobre a nulidade do auto de infração- tal argumento não foi reconhecido por aquele Colegiado, já que "a fiscalização apresentou planilha contendo o número das declarações, a data do embarque e a data em que foi enviada a declaração e a que vôo pretendia" o que não resulta na nulidade argüida pelo contribuinte. (iii) Sobre a ausência de dano ao Erário- foi afastada a argumentação sobre inexistência de dano aos cofres públicos porque prevaleceu o entendimento que houve embaraço à fiscalização, já que: "as declarações a que as empresas de transporte são obrigadas a apresentar são obrigações acessórias com finalidade exclusiva de auxiliar a fiscalização das importações e exportações, possibilitando a ciência do que cada empresa que utiliza a transportadora tem transportado, para onde vai e se foi recolhido o tributo a que esta operação está sujeita". (iv) Sobre a multa singular e o Princípio da Proporcionalidade e Razoabilidade - o colegiado não constatou equívocos na decisão proferida na impugnação, já que a multa foi imposta sobre cada informação prestadas em atraso em relação cada vôo (proporcional ao número de viagens). Concluiu-se, portanto, que foram respeitados os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Integram o recurso voluntário as seguintes alegações: 1. PRELIMINARES. SOBRE A NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA: * O auto de infração não fornece qualquer elemento que comprove que a contribuinte tenha deixado de prestar informações no prazo de 2 dias; * Não foram indicadas no auto de infração os números das Declarações de Exportação relacionando-os com os respectivos conhecimentos aéreos (AWBs); * Indica a existência de várias decisões administrativas proferidas pelos órgãos julgadores da Receita Federal que declararam nulas as autuações idênticas à que se submete a julgamento. 2. MÉRITO. DA RETROATIO IN MELIUS 1 . * Após a lavratura do auto de infração foi publicada a Instrução Normativa RFB n. 1.096, de 13/13/2010, que ampliou o prazo para registro dos dados pertinentes no SISCOMEX para 7 dias2. Afirma que o art. 106 do CTN permite que a dilação do prazo pela publicação da recente norma deve gerar benefícios a seu favor, já que não é mais considerada infração o não fornecimento de informações no prazo de 2 dias. 1 Transcrição ipsis literis da petição de recurso voluntário. 2 O prazo anterior era de 2 dias, conforme determinava a IN RFB 28, de 27/04/1997. Fl. 380DF CARF MF 6 Considerando que não poderão ser objeto de deliberação por este Colegiado as matérias abordadas no recurso voluntário e que já foram objeto de deliberação, nos resta apreciar, unicamente, o argumento sobre o fato superveniente, que é a publicação da IN RFB n. 1.096/2010 e se seus efeitos retroagem à data dos fatos descritos no auto de infração. E, sobre esse tópico, filio-me à vasta jurisprudência deste Conselho, que reconhece que os efeitos benignos da IN RFB n. 1.096/2010 devem surtir efeitos em hipóteses análogas à dos autos. Isso porque estamos diante de uma sanção (ainda que na seara tributária) e a melhor interpretação sobre o texto contido no inciso XL do artigo 5º da Constituição Federal 1988 impõe o reconhecimento que a lei penal deverá retroagir, sempre que for para beneficiar o réu (no caso, o contribuinte apenado pela multa). A propósito, e ilustrativamente, segue a ementa de julgado deste Conselho3, o qual adoto como fundamento: TERCEIRA SECÃO DE JULGAMENTO / 2ª CAMARA / 2ª TURMA ORDINARIA / ACÓRDÃO 3202-000.486 em 25/04/2012 ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. MULTA. Data do fato gerador: 04/07/2006, 06/07/2006, 10/07/2006, 11/07/2006, 13/07/2006, 15/07/2006, 23/07/2006 e 29/07/2006 REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DE EMBARQUE NA EXPORTAÇÃO. MULTA DO ART. 107, IV, 'E' DO DL 37/1966 (INs SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em se tratando do descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF no 28/1994, a multa instituída no art. 107, IV, 'e' do Decreto-lei no 37/1966, na redação dada pelo art. 77 da Lei no 10.833/2003, somente começou a ser passível de aplicação a partir de fatos ocorridos a partir de 15/2/2005, data em que a IN SRF no 510/2005 entrou em vigor e fixou prazo de dois dias para o registro desses dados no Siscomex. Uma vez que a IN SRF no 1.096/2010 fixou o prazo de sete dias para o registro dos dados no Siscomex, deve ser aplicada, com fulcro no princípio da retroatividade benigna, a norma mais benéfica ao contribuinte. CONTAGEM DE PRAZO. DIA ÚTIL. A contagem dos prazos estipulados na legislação tributária deve seguir os ditames do artigo 210 do Código Tributário Nacional. Os prazos iniciam e terminam apenas em dias úteis. SISCOMEX. INDISPONIBILIDADE. PROVA. A parte que alega a indisponibilidade do sistema SISCOMEX deve apresentar prova irrefutável sobre tal situação. A mera 3 Acórdão n. 3202-000.486, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 10715.001370/2010-41, em 25/04/2012. Fl. 381DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 379 7 alegação, sem comprovação do alegado, não é capaz de influir no entendimento do julgador. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA N. 02 DO CARF. De acordo com a Súmula n. 02 do CARF, o órgão não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da lei tributária. Recurso voluntário conhecido em parte. Na parte conhecida, preliminar de nulidade do auto de infração não acolhida e, no mérito, recurso voluntário provido em parte. (grifos adicionados) Assim, entendo que o recurso voluntário deve ser provido para que as multas impostas em decorrência das informações prestadas dentro do prazo de 7 dias (IN SRF n. 1.096/2010) sejam canceladas. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Relatora Lenisa Prado - Relatora Fl. 382DF CARF MF
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Numero do processo: 16095.720049/2014-14
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011
TEMPESTIVIDADE. INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admite-se a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento - AR.
DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindo-a integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante.
MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 1401-001.910
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Livia De Carli Germano - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: LIVIA DE CARLI GERMANO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011 TEMPESTIVIDADE. INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admite-se a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento - AR. DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindo-a integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1641; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C4T1 Fl. 201 1 200 S1C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16095.720049/201414 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 1401001.910 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 21 de junho de 2017 Matéria DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF Recorrente RTK INDUSTRIA DE FIOS ELÉTRICOS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 TEMPESTIVIDADE. INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admitese a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento AR. DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 72 00 49 /2 01 4- 14 Fl. 201DF CARF MF 2 Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Tratase de auto de infração para cobrança de IRPJ e CSLL relativos ao ano calendário 2011, acrescido de multa de 75% e juros Selic, em virtude de divergências entre os valores declarados na DIPJ e os constantes das DCTFs e DARFs recolhidos. A contribuinte era tributada pelo lucro real trimestral. Impugnada a autuação, esta foi julgada improcedente pela DRJ em São Paulo em 10 de dezembro de 2014, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. Descabidas as alegações de que teria havido transgressão a Princípios que regem a Administração Pública ou a Princípios Constitucionais quando a auditoria fiscal transcorreu nos estritos termos das normas tributárias, e o lançamento foi devidamente efetivado na forma da legislação vigente. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Tendo sido o ato praticado por autoridade competente e inexistente a alegada preterição do direito de defesa, descabe falarse em nulidade do auto de infração. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 FALTA DE DECLARAÇÃO E/OU RECOLHIMENTO. Cabível a exigência fiscal lastreada em informações contidas na DIPJ quando não logra o contribuinte demonstrar a existência de erro na declaração. MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO. Por expressamente prevista em lei, não há que se falar em caráter confiscatório da multa de ofício aplicada pela autoridade fiscal. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 FALTA DE DECLARAÇÃO E/OU RECOLHIMENTO. Cabível a exigência fiscal lastreada em informações contidas na DIPJ quando não logra o contribuinte demonstrar a existência de erro na declaração. Fl. 202DF CARF MF Processo nº 16095.720049/201414 Acórdão n.º 1401001.910 S1C4T1 Fl. 202 3 MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO. Por expressamente prevista em lei, não há que se falar em caráter confiscatório da multa de ofício aplicada pela autoridade fiscal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal em 18 de dezembro de 2014. A fl. 131 consta termo de ciência por abertura de mensagem indicando que o destinatário teve ciência do acórdão por meio de sua Caixa Postal na data de 18 de dezembro de 2014, sendo a ciência realizada por seu procurador 135.556.33805 SILVIA SAHEKI KAWAMURA. A fl. 132 consta aviso de recebimento AR constando como data de entrega 22 de dezembro de 2014. O recurso voluntário foi apresentado em 20 de janeiro de 2015 (fl. 134144 e 145). Nesta peça a recorrente alega, em síntese, que: (i) apresentou corretamente os valores devidos em sua DIPJ e em suas DCTFs originais, no entanto estas DCTFs foram retificadas sem o seu conhecimento ou consentimento, passando a apresentar valores zerados; (ii) foi instaurada auditoria interna para apurar esta falha contábil a fim de verificar o responsável por este fato; (iii) o fato de os valores permanecerem declarados em sua DIPJ demonstra a sua boafé; (iv) a multa aplicada, de 75%, tem caráter abusivo e confiscatório cita julgados do TRF e STF. Recebi o processo em distribuição realizada em 15 de fevereiro de 2017. Voto Conselheira Relatora Livia De Carli Germano A peça recursal não traz qualquer alegação acerca da tempestividade. Conforme relatado, o destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal em 18 de dezembro de 2014 (quintafeira). Neste caso, nos termos do artigo 23 do Decreto 70.235/1972, a data da ciência, para fins da contagem do prazo de 30 dias para a apresentação do recurso voluntário, será (i) a data em que o destinatário efetuar consulta à mensagem na sua Caixa Postal ou, não o fazendo, (ii) o 15º dia após a data de entrega acima informada. Fl. 203DF CARF MF 4 No caso, a mensagem foi consultada na caixa postal no mesmo dia de sua entrega, 18 de dezembro de 2014, conforme comprova o Termo de Ciência por Abertura de Mensagem de fl. 131. Considerada esta data, o prazo para recurso voluntário teria expirado em 19 de janeiro de 2015 (segundafeira), de maneira que o recurso voluntário apresentado em 20 de janeiro seria intempestivo. Não obstante, a contribuinte também foi intimada por meio físico, tendo recebido o Aviso de Recebimento dos Correios em 22 de dezembro de 2014 (segundafeira) (fl. 132). Considerada esta data, o prazo para a apresentação do recurso voluntário seria o dia 21 de janeiro, o que levaria à conclusão pela tempestividade no caso concreto. A questão é saber o que prevalece no caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico. O artigo 23 do Decreto 70.235/1972, que trata das intimações, não contempla resposta a esta pergunta, indicando apenas que "§ 3o Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência.". Tampouco a regulamentação dada pela Receita Federal sobre a matéria esclarece a questão de forma expressa. A Portaria SRF 259/2006 que "dispõe sobre a prática de atos e termos processuais, de forma eletrônica, no âmbito da Secretaria da Receita Federal" apenas indica que a prática de atos de forma eletrônica dispensa a física, sem nada concluir em caso de haver ambas (artigo 2o, § 3º A utilização de meio eletrônico desobrigará o sujeito passivo de protocolar os documentos em papel na RFB."). No caso em questão, verificase que embora se tratasse de processo eletrônico todas as intimações recebidas pela contribuinte antes do acórdão da DRJ o foram em meio físico. A empresa também praticou todos os atos processuais por meio físico. Assim, revelase de conformidade com o princípio da moralidade administrativa e da segurança jurídica concluir que, no caso, ela poderia confiar no prazo contado a partir da intimação recebida por meio de AR. Considero, portanto, o recurso voluntário tempestivo. O recurso preenche também os demais requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço. Não obstante, melhor sorte não assiste à recorrente quanto à procedência das razões recursais. A transmissão de declarações à Receita Federal depende do conhecimento de dados específicos sobre a pessoa em questão, sendo dever desta zelar por seus dados, salvo situações excepcionais. No caso, a Recorrente não fez sequer prova de que teve seus dados indevidamente acessados por terceiros, de maneira que quaisquer argumentos de força maior não passam de meras alegações. A legislação em vigor prevê que a declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente. Assim, em regra a última declaração apresentada pelo contribuinte é a que prevalece para todos os fins. No caso, se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. Fl. 204DF CARF MF Processo nº 16095.720049/201414 Acórdão n.º 1401001.910 S1C4T1 Fl. 203 5 Quanto à penalidade aplicada, o artigo 44 da Lei 9.430/1996 determina que o lançamento de ofício seja acompanhado da cobrança de multa de 75%. Sendo tal exação prevista em lei, os argumentos relacionados à impossibilidade de se cobrar o percentual aplicadas em face dos princípios da vedação ao confisco e da proporcionalidade demandariam uma análise da sua constitucionalidade, o que é vedado a este Tribunal, nos termos da Súmula CARF n. 2: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Vale ressaltar que a não observância de enunciado de súmula do CARF é, inclusive, causa de perda de mandato dos Conselheiros, nos termos do Regimento Interno do CARF (art. 45, VI do Anexo II da Portaria MF 343/2015). Diante do exposto, conheço do recurso voluntário e, no mérito, nego provimento. Ressalto que em sessão de julgamento foi noticiada a existência de petição do contribuinte informando que os valores objeto do auto de infração discutido no presente processo foram integralmente quitados via compensação. Diante da juntada extemporânea dessa informação aos autos, considero que ela deve ser considerada pela unidade de origem na execução dos débitos em questão. (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Fl. 205DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13016.000051/2004-46
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.371
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004 NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1850; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 2 1 1 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 13016.000051/200446 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9303005.371 – 3ª Turma Sessão de 25 de julho de 2017 Matéria PIS/COFINS. INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado MADEM SA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MADEIRAS E EMBALAGENS ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 01 6. 00 00 51 /2 00 4- 46 Fl. 190DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão 380300.846. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. A Fazenda Nacional requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão onerosa de créditos de ICMS é uma operação que equiparase a verdadeira alienação de direitos a titulo oneroso, originando receita tributável, devendo compor a base de cálculo da PIS/ COFINS, conforme dispõe o art. 1° §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, bem como o art. 1° da Lei nº 10.833/2003. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. O contribuinte apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 192DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 193DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.000143/2008-61
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Sat Sep 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 16/05/2006
AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL.
Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.458
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 16/05/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Recurso Especial do Procurador Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 16/05/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Recurso Especial do Procurador Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 01 43 /2 00 8- 61 Fl. 869DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 870 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência, tempestivo, de acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010, interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional ao amparo do art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, em face do Acórdão nº 3202000.516, que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: VALORAÇÃO ADUANEIRA Data do fato gerador: 16/05/2006 VALORAÇÃO ADUANEIRA. DESCLASSIFICAÇÃO DO VALOR DE TRANSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE MÉTODOS SEQUENCIAIS DO AVA – ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA. Verificado que houve vinculação entre as partes – importador e exportador – e que esta vinculação influenciou no preço, deve ser afastado o 1º Método de Valoração Aduaneira. O valor aduaneiro deverá ser determinado com base nos métodos subsequentes previstos, observada a ordem sequencial estabelecida no Acordo de Valoração Aduaneira, sob pena de acarretar a nulidade material do lançamento administrativo. Recurso de Ofício provido, para retificar, no mérito, o teor da decisão a quo. O presente processo referese a lançamentos de ofício, veiculados através de Autos de Infração para a cobrança do Imposto de Importação, PISImportação e COFINS Importação, acrescidos de multas de ofício e juros moratórios, em decorrência de alegada irregularidade no valor aduaneiro atribuído pela Recorrente na importação de um “forno elétrico de resistência, semicontínuo, para brasagem com atmosfera controlada, controlado por CLP, utilizado na fabricação de radiadores, marca Abar Ipsen, modelo CAL 14X65X192, número de série BM 1480, ano de fabricação 1994”, formalizada através da Declaração de Importação 06/05568639, registrada em 16/05/2006. A turma julgadora a quo, por maioria de votos, deu parcial provimento ao Recurso de Ofício para reconhecer a nulidade do auto de infração por vício material, devido a descrição imprecisa dos fatos geradores. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial (fls. 793 a 800), suscitando divergência em relação à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento. O Recurso Especial foi integralmente admitido pela comprovação da divergência suscitada, conforme despacho de admissibilidade às fls. 808 a 810. O sujeito passivo apresentou suas contrarrazões às fls. 819 a 823. É o relatório. Fl. 870DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 871 3 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O Recurso Especial de divergência foi interposto pela Fazenda Nacional em 01/11/2013, conforme documentos anexados às fls. 793 a 800, de forma tempestiva, de acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010. A recorrente alega divergência jurisprudencial em relação à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento: enquanto a decisão recorrida entendeu que vício na motivação do lançamento seria vício de natureza material, os acórdãos paradigmas decidiram que a natureza do vício seria formal. Cotejando as decisões, constatase a divergência jurisprudencial apontada, acerca da aplicação do instituto da nulidade. Diante da comprovação do dissídio jurisprudencial alegado e atendido os demais requisitos de admissibilidade, conheço do recurso. Portanto, a matéria devolvida ao Colegiado cingese à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento. Tratase de questão estritamente processual, qual seja, na nulidade por cerceamento de defesa aduzida em razão de má ou incompleta descrição da infração ou dos fundamentos da autuação. No caso em análise, a Fiscalização não aceitou os valores atribuídos pelo contribuinte, quando do preenchimento da respectiva Declaração de Importação. Entretanto, cabia a ela demonstrar porque não aplicou o 2º e 3º Métodos de Valoração, e sim o 6º Método, com base em procedimentos previstos no AVA – Acordo de Valoração Aduaneira. Ausente essa demonstração nos autos, os demais arrazoados apresentados como fundamentação do entendimento fiscal revelamse destituídos da força probante necessária para conferirlhes segurança jurídica. Sendo assim, o julgador a quo reconheceu a nulidade do lançamento, por vício material, visto que se tratava de erro de conteúdo, não de formalização. Transcrevese trecho do voto condutor do acórdão, no qual fica clara a motivação da decisão ora recorrida: “[...] o que houve foi uma errônea aplicação da norma tributária, já que não permitida a aplicação per saltum de método posterior se não exaurida a possibilidade de aplicação dos métodos de valoração pretéritos. Não houve qualquer vício na descrição dos fatos, requisito essencial do lançamento administrativo, mas um desacordo entre o preceito legal e o caso examinado. O vício, destarte, é de conteúdo, não de formalização, hipótese que o qualifica como material, tal como defende Eurico de Santi, citado por Marcos Vinicius Neder e Maria Tereza López (Processo Administrativo Fiscal Comentado, Dialética, 3ª. Ed: São Paulo, 2010, p. 566), para quem Fl. 871DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 872 4 “... se o lançamento objeto de invalidação apresentar vício em seu processo de produção, é caso de anulação; se o vício estiver instalado em seu produto, é caso de nulidade. Vincula, portanto, a anulação aos problemas que se referem ao processo de produção do lançamento (vícios formais) e a nulidade aos problemas inerentes ao conteúdo do ato (vícios materiais).” Ainda sobre o mesmo tema, acrescem Neder e López, na mesma obra e página: “Assim, se a invalidade do lançamento decorre de problemas nos pressupostos de constituição do ato, ou seja, na aplicação da regramatriz de incidência e na comprovação da ocorrência do fato (direito material), dizse que o vício é material. Se a anulação decorre de vício de forma ou de formalização do ato, o vício é formal e se aplica o artigo 173, inciso II, para reinício da contagem do prazo decadencial”. A recorrente alega que não haveria como caracterizar a natureza do vício como sendo material, por se tratar de vício relacionado à motivação. Segundo seu entendimento, a deficiência do Auto de Infração podia ser facilmente sanada com a correção, pela autoridade fiscal, do motivo pelo qual não foram aplicados o 2º e o 3º Métodos de Valoração, configurando, dessa forma, como vício relativo à formalização do lançamento, de natureza formal. Não assiste razão à recorrente. Não restam dúvidas que o vício do lançamento está em seu conteúdo, não em sua formatação: o vício referese à descrição dos fatos, requisito essencial do lançamento administrativo, com a ausência dos fatos que motivaram à Autoridade Fiscal a desconsiderar os métodos 2 e 3 do AVAGATT, revelando um desacordo entre o preceito legal e o caso examinado. A alegação de que a deficiência na descrição dos fatos originários do lançamento constituiria causa pura e simples para a anulação do lançamento por vício formal, relacionado a elemento de exteriorização do ato administrativo, não deve prosperar, por se tratar da própria substância do ato. Esta turma julgadora enfrentou a matéria em 26 de abril de 2016, no Acórdão nº 9303003.811, da lavra da Conselheira Vanessa Marini Cecconello, cuja ementa abaixo transcrevo: AUTO DE INFRAÇÃO. RECLASSIFICAÇÃO FISCAL. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação e indicação das normas de interpretação adotadas na reclassificação fiscal de mercadoria importada alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Fl. 872DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 873 5 A ausência de motivação no Auto de Infração acarreta a sua nulidade, por vício material. Transcrevo trecho do voto vencido (vencedor nesse ponto) do acórdão 9303 003.811, que externa os fundamentos da referida decisão, adotada em nossas razões de decidir: “A relevância de se distinguir se o vício que maculou o lançamento é de ordem formal ou material está no fato de o Código Tributário Nacional CTN prolongar o prazo de decadência para que seja constituído o crédito tributário quando se reconhece a existência do vício formal, conforme inteligência do seu art. 173, inciso II. O vício formal pode ser entendido como aquele que atinge o procedimento e, não raro, pode ser sanado sem a necessidade de anulação do ato de lançamento original, podendo ser corrigido pela própria autoridade julgadora. O vício material, por sua vez, por macular a substância do lançamento, norma individual e concreta, prejudica a validade da obrigação tributária, sendo imprescindível nesses casos a realização de um novo ato administrativo de lançamento. Os requisitos do auto de infração, dentre eles a descrição dos fatos e a fundamentação legal, estão estabelecidos no art. 10 do Decreto nº 70.235/72 e no art. 142 do Código Tributário Nacional: [...] Sendo a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e da fundamentação legal elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, o equívoco em análise alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Embora a distinção entre os vícios de ordem formal e material não seja tarefa simples, o caso em exame mostra claramente estarse diante da ocorrência de vício de ordem material, assertiva corroborada pelos fundamentos bem lançados no acórdão recorrido ao negar provimento ao recurso de ofício, proferido pela Ilustre Conselheira Irene Souza da Trindade Torres Oliveira, e que passam a integrar as razões de decidir deste julgado:[...]” A i. relatora cita, ainda, outro recente precedente da CSRF (Acórdão nº 9101 002.146) no mesmo sentido, cuja ementa abaixo transcrevo: NULIDADE DE LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL. VÍCIO FORMAL. ASPECTOS QUE ULTRAPASSAM O ÂMBITO DO VÍCIO FORMAL. Fl. 873DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 874 6 Vício formal é aquele verificado de plano no próprio instrumento de formalização do crédito, e que não está relacionado à realidade representada (declarada) por meio do ato administrativo de lançamento. Espécie de vício que não diz respeito aos elementos constitutivos da obrigação tributária, ou seja, ao fato gerador, à base de cálculo, ao sujeito passivo, etc. A indicação defeituosa ou insuficiente da infração cometida, da data em que ela ocorreu, do montante correspondente à infração (base imponível); e dos documentos caracterizadores da infração cometida (materialidade), não configura vício formal. Transcrevo ementas de outros julgados no mesmo sentido: AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO LANÇAMENTO E DESCRIÇÃO DOS FATOS GERADORES. IMPROCEDÊNCIA. VÍCIO MATERIAL, NÃO FORMAL. A falta de indicação suficiente dos fatos que motivaram o lançamento e da origem do crédito tributário fulmina o lançamento por vício material. (grifei) (Acórdão 9202003.285, sessão de 30 de julho de 2014, 2ª Turma CSRF, Rel. Gustavo Lian Haddad) NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. O vício material ocorre quando o auto de infração não preenche aos requisitos constantes do art. 142 do Código Tributário Nacional, havendo equívoco na construção do lançamento quanto à verificação das condições legais para a exigência do tributo ou contribuição do crédito tributário, enquanto que o vício formal ocorre quando o lançamento contiver omissão ou inobservância de formalidades essenciais, de normas que regem o procedimento da lavratura da auto, ou seja, da maneira de sua realização. (grifei) (Acórdão 2403002.707, de 10/09/2014, Relator: Marcelo Magalhães Peixoto) NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. PROVIMENTO. VÍCIO. MATERIAL. DESCRIÇÃO DO FATO GERADOR. A descrição do fato gerador constituise no núcleo do lançamento tributário, sua essência. Quando a descrição do fato gerador não permite a conclusão sobre sua ocorrência o lançamento é improcedente, como no caso do lançamento original em questão. (grifei) (Acórdão 2301004.055, de 15/05/2014, Relator: Marcelo Oliveira) DISCRIMINAÇÃO DOS FATOS GERADORES. INSUFICIÊNCIA. NULIDADE DO LANÇAMENTO. O lançamento deve evidenciar a ocorrência dos fatos geradores das contribuições previdenciárias de forma clara e precisa, sob pena de nulidade por vício material. (grifei) Fl. 874DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 875 7 (Acórdão 2302002.258, de 22/11/2012, Relatora: Liége Lacroix Thomasi) Portanto, sendo a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e da fundamentação legal elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, o equívoco em análise alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Diante do exposto, considero que a nulidade do lançamento efetuado possui natureza material, razão pela qual NEGO PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL. (assinatura digital) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 875DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10821.720408/2013-14
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF.
Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado.
Numero da decisão: 2202-004.009
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente.
(Assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio- Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal.
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF. Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio- Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF. Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 1. 72 04 08 /2 01 3- 14 Fl. 148DF CARF MF 2 Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA): O contribuinte foi notificado de lançamento relativo ao imposto sobre a renda, exercício 2011, anocalendário 2010 (fls.8 a 11), por meio do qual formalizouse a exigência de imposto suplementar, no valor de R$9.458,71, acrescido de multa de ofício e juros de mora, calculados até abril de 2012, totalizando um crédito tributário de R$17.596,98, até a data da notificação. O lançamento foi motivado por omissão de rendimentos recebidos da WGT Tecnologia em Informática Ltda, no valor de R$54.720,00. O contribuinte contesta o lançamento à fl.2, argumentando em síntese que não houve omissão de rendimentos, pois foi recebido dessa fonte pagadora apenas o valor declarado. Refere erro do responsável pela transmissão, corrigido com declaração retificadora que anexa aos autos à fl.4. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), negou provimento à Impugnação em decisão cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF. Anocalendário:2010 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Mantémse o lançamento quando rendimentos tributáveis auferidos pelo contribuinte tenham sido omitidos na declaração de ajuste anual. Impugnação Improcedente. Cientificado da decisão (AR fls. 143) apresenta o Recurso Voluntário de fls. 31/32, no qual reitera as alegações já suscitadas na Impugnação e requer, em fase recursal, a juntada dos seguintes documentos: a) Contrato Social (fls. 41/46); b) GFIP (fls. 64/82); c) GPS (fls. 49/60); d) DIPJ (fls 111/127); e) Informe de Rendimentos do Período (fls. 110); f) DIRF Original; g) DIRF Retificada; h) Folha de pagamento do Ano; Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10821.720408/201314 Acórdão n.º 2202004.009 S2C2T2 Fl. 149 3 Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual, dele conheço. Antes de analisarmos o Recurso Voluntário, é imprescindível que seja analisada a possibilidade de juntada de provas em fase recursal. Isso porque, conforme mencionado na decisão recorrida, a glosa dos valores recebidos como omissão de receitas foi mantida em virtude da ausência de documento idôneo à comprovação da moléstia grave. O Recurso Voluntário do contribuinte teve como objetivo, fundamentalmente, a trazer aos autos a mencionada documentação. O artigo 16 § 4º do Decreto 70.235/72 determina que "a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Todavia, esse Conselho, em razão do princípio do formalismo moderado que se aplica aos processos administrativos, têm admitido a juntada de provas em fase recursal como se verifica pelas ementas abaixo transcritas: "IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AUTUAÇÃO POR DEDUÇÃO INDEVIDA DE IMPOSTO RETIDO NA FONTE. COMPROVAÇÃO IDÔNEA EM FASE RECURSAL. ADMITIDA EM HOMENAGEM AO PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO. Comprovada idoneamente, por demonstrativos de pagamentos de rendimentos, a retenção de imposto na fonte, ainda que em fase recursal, são de se admitir os comprovantes apresentados a destempo, com fundamento no princípio do formalismo moderado, não subsistindo o lançamento quanto aeste aspecto. Recurso provido" (Ac 2802001.637, 2ª Turma Especial, 2ª Seção, Sessão 18/04/2012) "PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRECLUSÃO. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72 deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, especialmente instrumentalidade das formas e formalismo moderado. O controle da legalidade do ato de lançamento e busca da “verdade material” alçada como princípio pela jurisprudência dessa Corte impõem flexibilidade na interpretação de regras relativas à instrução da causa, tanto no tocante à iniciativa quanto ao momento da produção da prova. Recurso voluntário provido para anular decisão de primeira instância." (Ac 1102 Fl. 150DF CARF MF 4 000.859, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 09/04/2013) "PEDIDO DE RESTITUIÇÃO / DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PRECLUSÃO. APRESENTAÇÃO DE NOVAS PROVAS NO RECURSO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72, que determina que a prova documental deva ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de se fazêlo em outro momento processual, deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, tais como o formalismo moderado e a busca da “verdade material”. A apresentação de provas após a decisão de primeira instância, no caso, é resultado da marcha natural do processo, pois, não tendo a decisão de piso considerado suficientes os documentos apresentados pelo contribuinte para a comprovação do seu direito creditório, trouxe ele novas provas, em sede de recurso, para reforçar o seu direito". (Ac 1102001.148, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 29/04/2014) Conforme se verifica pelo trecho da decisão recorrida abaixo transcrito, a razão do indeferimento da Impugnação foi a insuficiência das provas apresentadas pelo Impugnante: O contribuinte invoca erro no preenchimento da declaração do imposto de renda retido na fonte (Dirf), transmitida originalmente pela fonte pagadora dos rendimentos que lhe estão sendo atribuídos no lançamento. Consta, entretanto, da base de dados que nela figura como sócio gerente. E como responsável por essa pessoa jurídica, a retificação da Dirf em momento posterior à sua ciência do lançamento não pode operar quaisquer efeitos sobre a infração que lhe é apontada, a menos que tivesse sido justificada nos autos com documentos comprobatórios do erro que alega, a exemplo da escrituração contábil tempestivamente registrada. As GPS de fls. 48/63, as Relações de Trabalhadores constantes do arquivo SEFI (fls.64/83) e a folha de prólabore de fls. 84/107 confirmam que o valor de prólabore mensal pago ao Recorrente no valor de R$ 510,00, condizente, portanto, com os valores constantes da DIRF retificadora de fls. 04. 3) CONCLUSÃO Em face do exposto, dou provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10821.720408/201314 Acórdão n.º 2202004.009 S2C2T2 Fl. 150 5 Fl. 152DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720184/2012-54
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007, 2008
GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. PESSOA FÍSICA. SUJEITO PASSIVO.
Ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo - JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários - CVM, concluiu corretamente a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao Fisco e apurou o tributo devido, apontando como sujeito passivo a pessoa física.
APURAÇÃO DO TRIBUTO. CUSTO DO BEM ALIENADO. FALTA DE QUESTIONAMENTO ESPECÍFICO.
O que o recurso questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria a pessoa física mas a pessoa jurídica, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo ou de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal e o recurso não aponta onde estaria o erro, se for considerado que o sujeito passivo é a pessoa física.
MULTA QUALIFICADA. DOLO. FRAUDE. RESULTADO.
A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros.
Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputam dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais.
Numero da decisão: 2202-004.013
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar as preliminares, vencido o Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que suscitou a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância. No mérito, quanto às infrações, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal, que deram provimento ao recurso. Quanto à qualificação da multa, pelo voto de qualidade, manter a multa qualificada, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Fernanda Melo Leal, que a reduziram para 75%. O Conselheiro Martin da Silva Gesto votou pela conclusões em relação à preliminar de nulidade. O Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto informou que apresentará declaração de voto. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF).
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente.
(assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora.
(assinado digitalmente)
Marcio Henrique Sales Parada - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Fernanda Melo Leal, Denny Medeiros da Silveira, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF).
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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PESSOA FÍSICA. SUJEITO PASSIVO. Ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, concluiu corretamente a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao Fisco e apurou o tributo devido, apontando como sujeito passivo a pessoa física. APURAÇÃO DO TRIBUTO. CUSTO DO BEM ALIENADO. FALTA DE QUESTIONAMENTO ESPECÍFICO. O que o recurso questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria a pessoa física mas a pessoa jurídica, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo ou de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal e o recurso não aponta onde estaria o erro, se for considerado que o sujeito passivo é a pessoa física. MULTA QUALIFICADA. DOLO. FRAUDE. RESULTADO. A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros. Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputam dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 84 /2 01 2- 54 Fl. 1674DF CARF MF 2 enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar as preliminares, vencido o Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que suscitou a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância. No mérito, quanto às infrações, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal, que deram provimento ao recurso. Quanto à qualificação da multa, pelo voto de qualidade, manter a multa qualificada, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Fernanda Melo Leal, que a reduziram para 75%. O Conselheiro Martin da Silva Gesto votou pela conclusões em relação à preliminar de nulidade. O Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto informou que apresentará declaração de voto. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF). (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora. (assinado digitalmente) Marcio Henrique Sales Parada Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Fernanda Melo Leal, Denny Medeiros da Silveira, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF). Relatório Trata o presente Auto de infração de lançamento de imposto de renda pessoa física relativo a fatos geradores ocorridos em 2007 e 2008 de R$ 130.200.725,93, de multa de ofício de R$ 195.301.088,86 e juros de mora calculados até 30/11/2012 de R$ 43.173.305,39. Conforme documentação dos autos e relatado pela autoridade fiscal, no Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização que deu origem ao presente auto iniciouse junto à CM Indústria e Comércio Ltda por meio da Diligência Fiscal determinada pelo MPF nº Fl. 1675DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.675 3 08.1.85.002012000417 (fls.3). Conforme o Termo de Intimação Fiscal nº 01 (fls. 4) o escopo do trabalho fiscal era a comprovação da origem dos valores que constituiriam o custo da participação alienada. De acordo com a fiscalização, a empresa não fez a necessária comprovação do ágio, argumentando que se tratava de participação societária adquirida no ano de 1973, cujos documentos comprobatórios não mais possuía. Em relação ao lançamento dos deságios como exclusão em 2007 e 2008, a empresa esclareceu que, na verdade, tratavamse de ágios, lançados como exclusão a título de deságios, por não existir linha própria nas DIPJ´s respectivas. Em razão das respostas acima mencionadas, a Diligência Fiscal foi transformada em Fiscalização, sendo, então, emitido o MPF nº 08.1.85.002012002789 em face da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO, por meio do qual a fiscalização intimou a empresa para que apresentasse documentos relativos à aquisição, em setembro/73, das ações da Vigor que geraram o ágio, tais como contrato de compra e venda, comprovantes de pagamentos, etc. Em resposta a empresa apresentou, dentre outros elementos, cópias dos "Livros Registro de Ações Nominativas nº 3 r 4, Livros de Registro de Transferência das Ações nºs 2 e 3, Livro de Presença de Acionistas nº 2, Livro de Atas das Reuniões da Diretoria nº 2, Livro de Atas das Reuniões da Diretoria nº 2, Certidão da JUCESP , indicando a Ata da AGE de 14/09/1973, a qual retrata a eleição do Sr. Carlos Alberto Mansur para Diretor de Relações Públicas da Vigor, bem como, a Ata da AGO de 22/04/1974, a qual retrata a eleição do Sr. Carlos Alberto Mansur para Diretor VicePresidente da Vigor Doc. 12 a 18 Depois de fazer a análise dos mencionados documentos, concluiu a autoridade fiscal (fls. 1218) Do exposto sobre os registros nos livros citados, constatase impossibilidade de determinar com clareza em qual momento as ações passaram a pertencer à pessoa jurídica ou pessoas jurídicas. Sabese, apenas, que elas foram adquiridas pelos Mansur em 1973, mas não se sabe o valor pago, o qual seria a base de tudo para o cálculo do custo contábil quando da sua alienação. No demonstrativo de cálculo, apresentado juntamente com os livros citados, se limitou apenas a indicar o valor do ágio a partir da aquisição das ações pela CM e, a partir daí, passando a corrigilo, porém sem explicar como ele se originou" Depois de fazer um histórico de todas alterações societárias ocorridas, desde o momento da aquisição em 1973 até a alienação em 2007 (fls. 1220 à 1225), a autoridade fiscal menciona a operação de alienação da participação societária detida pela Fiscalizada na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA, a qual era controladora da S/A FÁBRICA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS VIGOR. Em 21/11/2007 foi assinado o Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças. Por meio do referido contrato, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA vendeu à BERTIN S/A 56% das quotas do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA (controladora da Vigor), pelo preço de R$ 400.000.000,00, sendo R$ 200.000.000,00 no ato da assinatura e o restante em 25 parcelas atualizadas pela SELIC. Fl. 1676DF CARF MF 4 Todavia, ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, conclui a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao fisco pela empresa fiscalizada. Isso porque, a empresa fiscalizada (CM Indústria e Comércio) fez uma cisão parcial, transferindo parcela do seu patrimônio para a GOULT PARTICIPAÇÕES Ltda., parcela esta constitutiva da participação societária de 99,9% a CM detinha na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. A participação restante de 0,01% pertencia a Carlos Alberto Mansur. A entrada da GOULT no quadro societário foi registrada em 30/10/2007. Relata ainda a fiscalização que a GOULT foi constituída em 20/07/2007, tendo como sócios Roberto Mário Amaral de Lima Neto e Carlos David Albuquerque Braga, com capital de R$ 100,00. Em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a Goult recebe a parcela cindida do PL da empresa fiscalizada, constitutiva da participação societária de 99;9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da Vigor. Ao analisar as mencionadas informações, a fiscalização intimou a empresa JBS (incorporadora da adquirente BERTIN S/A), para que apresentasse o contrato de compra e venda das ações da VIGOR e constatou a existência de contrato que, de acordo com a fiscalização, confirmaria as informações publicadas nos órgãos acima mencionados (CVM, CADE, etc). Por meio do mencionado contrato, o autuado (Carlos Alberto Mansur) juntamente com Carlos Alberto Mansur Filho, constavam como vendedores de 56% das quotas do capital da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. Em razão dos fatos acima narrados a fiscalização conclui que: Diante do exposto, até o presente momento, constatase que houve duas versões para alienação das ações da Vigor, uma, amparada pelo contrato de compra e venda de 21/11/2007, informada e declarada à Receita Federal e, outra, amparada no contrato de compra e venda de 25/11/2007, informada ao público e demais órgãos governamentais, diferente daquela. É importante frisar que todos os atos contratuais necessários para a operação que foi informada ao público e demais órgãos governamentais, com inclusão da Goult Participações Ltda, foram aquivados na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP. No entanto, todos os atos que incluíram a Goult foram anulados por alterações contratuais não arquivadas na JUCESP. (...) Em resposta a esta intimação, a JBS apresentou cópia autenticada do Instrumento Particular de Distrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Venda e Outras Avenças, datado de 21/11/2007, assinado por Carlos Alberto Mansur representando a CM Indústria e Comércio Ltda e pelo representante da Bertin S/A. (grifos no original) (fls. 1232 a 1235) Fl. 1677DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.676 5 Diante do exposto, concluiu a fiscalização que a operação a ser considerada como verdadeira seria a alienação das ações da BERTIN pelas pessoas físicas Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho, uma vez que, para que a operação declarada à Receita Federal (que revogaram os efeitos da cisão da CM) tivesse validade jurídica deveriam ser arquivadas e registradas na JUCESP: Vejamos: "Da análise das duas situações apresentadas, constatase que: A primeira operação, declarada à Receita Federal, referese à alienação efetuada pela CM Indústria e Comércio Ltda, das quotas sociais da Gestior, para Bertin S/A, ou seja, tratase de uma operação de pessoa jurídica para pessoa jurídica. Nesse caso, o ganho de capital estaria inserido na própria demonstração de resultados da empresa, onde a receita de alienação seria diminuída do custo contábil, incluindo nele o eventual ágio. (...) Frisese que o eventual ágio considerado como parte do custo contábil deve ser devidamente comprovado, fato que a contribuinte não conseguiu fazêlo, embora tenha tido prazo considerável para tal. No entanto, para que esta operação tivesse validade jurídica, as alterações que revogaram os efeitos da cisão da CM, transferindo as quotas da Gestior para a Goult, deveriam ser arquivadas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o que não ocorreu. Vale lembrar que os atos sujeitos ao registro público somente têm validade e produzem os efeitos pertinentes a partir da sua formalização. Para finalizar, a autoridade fiscal utiliza como fundamento legal a embasar a necessidade de registro público para a validade dos negócios jurídicos perante a terceiros o artigo 1.157 do Código Civil. Intimado, o contribuinte apresentou Impugnação (fls. 1282 a 1316), na qual alega o seguinte: a) Preliminarmente, que haveria erro na identificação do sujeito passivo, uma vez que a venda teria sido realizada pela CM, controladora da GESTIOR para a BERTIN. Isso porque: a.1) o próprio auto de infração reconhece que a cisão foi rescindida. Todavia, invocando o artigo 1.154 do Código Civil para reger as relações fisco/contribuinte, a fiscalização anula os efeitos da rescisão sob o argumento de que esta não teria validade pelo fato de tal rescisão não se encontrar registrada na JUCESP. a.2) o impugnante não alienou, nos três períodosbase apontados, qualquer bem que tenha gerado ganho de capital nos termos postos no auto de infração e os valores Fl. 1678DF CARF MF 6 apontados pela ação fiscal foram regularmente declarados pelo contribuinte em suas declarações anuais de ajustes, a justo título, como dividendos que são. a.3) que os valores apontados como omissão de rendimentos pela autoridade fiscal também se referem a dividendos a.4) que em nenhum momento houve qualquer questionamento em relação ao valor dos contratos. b) Quanto ao mérito: b.1) Traz à colação o Instrumento Particular de Retificação, Ratificação, e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, celebrado entre o impugnante, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA e a BERTIN S/A em 14 de maio de 2009 (fls. 1320/1323), por meio do qual as partes resolvem "tornar sem efeito o Instrumento Particular de Distrato firmado em 21/11/2007, bem como reiterar as cláusulas e condições do Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras avenças firmado em 21/11/2007 ("Primeiro Contrato") (Cláusula 1). b.2) Que a fiscalização intimou para obter o contrato o Grupo JBS (sucessora) e não a empresa BERTIN (sucedida), interveniente nos dois contratos. Além do tempo transcorrido entre a transferência, de fato, o Grupo JBS, embora tenha depois adquirido o controle da Vigor, não teve qualquer participação no negócio. b.3) que a fiscalização não intimou a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA para explicar porque considerava válido o primeiro contrato, ao invés disso, decidiu por sua conta e risco, tomar partido do segundo. Tivesse intimado a empresa sob fiscalização, a CM INDÚSTRIA teria obtido o Instrumento de Particular de Retificação trazido junto com a Impugnação. b.4) que as Declarações de Rendimento do Impugnante (fls. 1144/1154 e 1155/1163) e as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (fichas 38 A), anoscalendário 2007 e 2008 da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO demonstram a absoluta consistência entre as declarações prestadas pelo contribuinte e pela empresa, pois ambas Declarações refletem os dividendos pagos. b.5) que as declarações de rendimentos mencionadas comprovam que a cisão que a autoridade fiscal tomou como negócio real foi revogada e o negócio celebrado entre as partes refletia uma situação patrimonial que abstraia completamente a referida cisão. A prova disso é que a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA, na sua declaração de rendimentos, respeitando o regime de competência, declara a venda mencionada e apura o seu resultado. Tais fatos estão demonstrados nas declarações de rendimentos tempestivamente entregues. b.6) A prova de que a Receita Federal conhecia o distrato da cisão é a Declaração de Rendimentos, por ser este o instrumento, por excelência, de comunicação entre o fisco e o contribuinte. b.7) As escriturações das duas partes envolvidas na alienação discutida nos autos refletem a transação da mesma forma. As duas partes, o grupo Mansur e o grupo Bertin, registraram a operação da mesma forma. A venda e compra da GESTIOR teve o preço de mais de oitocentos milhões e a compra e venda da GOULT teve o preço de cem reais. Fl. 1679DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.677 7 b.8) que os pressupostos necessários para aplicação da multa agravada não foram demonstrado na hipótese dos autos. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento negou provimento à Impugnação (fls. 1449 à 1469) em decisão cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007, 2008 GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA LEGITIMIDADE PASSIVA TRIBUTAÇÃO PESSOA FÍSICA. Correto o lançamento de ganhos de capital na alienação de participação societária na pessoa física detentora das quotas representativas do capital social, quando fartamente demonstrado nos autos que a operação foi realizada tendo como parte vendedora o próprio contribuinte e não pessoa jurídica de cujo capital participe. GANHOS DE CAPITAL MULTA QUALIFICADA PROCEDÊNCIA. Evidenciado nos autos que o contribuinte agiu de forma dolosa tendente a ocultar do Fisco a real operação de venda de participação societária, apresentando contrato revogado e instrumento de alteração de contrato social não registrado, com o objetivo de atribuir à pessoa jurídica a titularidade das quotas alienadas, deve ser aplicada a multa qualificada sobre o valor do imposto de renda a pagar. Cientificada da decisão acima transcrita (AR fls. 1478), a Impugnante apresentou o recurso voluntário de fls 1479/1509 no qual reitera as alegações já suscitadas quando da Impugnação. Alega, em particular, que o "não é possível, em razão de todas as transformações, seja da empresa, seja do País, pois só neste período tiveram em curso quatro moedas diferentes, se determinar o custo de um investimento através de uma pesquisa no Registro de Comércio, como fez a fiscalização, em detrimento dos livros Diários (fls. 1324/1398) das empresas intervenientes e dos livros LALUR (fls 1428/1443). Por fim, ressalta que em 18/07/2013 a fiscalização encerrou o procedimento fiscal aberto da empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO o que demonstra que o agente fiscal não encontrou qualquer irregularidade relativa a apuração de ganho de capital na empresa, uma vez que encerra a fiscalização sem qualquer lançamento. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou as contrarrazões de fls. 1522 a 1544, nas quais reitera as alegações já suscitadas pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Em 13 de julho de 2016 o Recorrente juntou aos autos cópia de parecer dos juristas Sacha Calmon Navarro Coêlho, Misabel de Abreu Machado Derzi e Igor Mauler Santiago e, em 26 de agosto de 2016, cópia do Parecer do jurista Paulo de Barros Carvalho (fls. 1625 à 1671), sobre a discussão travada nos presentes autos. Foi dada vista dos referidos pareceres à Procuradoria da Fazenda Nacional (fls. 1622) Fl. 1680DF CARF MF 8 É o relatório. Voto Vencido Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço A discussão travada nesses autos se resume à validade jurídica da alienação das ações da VIGOR pela empresa CM PARTICIPAÇÕES. De forma muito simples, a questão posta para decisão do colegiado é definir qual a verdadeira negociação realizada: se uma alienação ações de pessoa física para uma pessoa jurídica (como quer a fiscalização) ou uma alienação de pessoa jurídica para pessoa jurídica (como alega o Recorrente). Para facilitar a análise, faremos a seguir um quadro com a documentação relevante e sua respectiva numeração no eprocesso. Evento Data Numeração no eprocesso 1 Ações da VIGOR adquiridas por CAM Indústria e Comércio e R.Mansur S/A (futura UNITED Ind. Comercio) 1973 fls. 301/313 2/3 . Cisão parcial da CAM e Criação da CM com ações da VIGOR; Cisão parcial da UNITED e versão das ações da VIGOR para patrimônio da CM, que passa deter 74,69% de VIGOR 1988 fls. 624/645 4 Criação da empresa GESTIOR e transferência da participação na VIGOR por meio de cisão parcial da CM 14/02/2006 fls. 833/847 5 Criação da GOULT 20/07/2007 6 Entrada do Recorrente (99,9%) e seu filho (0,1%) na GOULT 29/10/2007 1084/1086 7 Cisão Parcial de CM e transferência da participação da GESTIOR para GOULT 30/10/2007 939/946 8 Contrato de compra e venda entre a CM e a BERTIN a respeito da alienação de participação acionária em GESTIOR (e, consequentemente, da participação na VIGOR) 21/11/2007 1073/1083 9 Recorrente assina contrato de venda de ações de GOULT para BERTIN 25/11/2007 1028/1048 10 Instrumentos Particulares de Alteração e Consolidação do Contrato Social da Gestior Participações e 26/11/2007 997/1009 Fl. 1681DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.678 9 Instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retirada da GOULT. 11 Instrumento de Ratificação e Consolidação da venda confirmando operação realizada por CM e BERTIN e instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retidada da GOULT. 14/05/2009 997/1009 As operações relevantes para a compreensão da questão posta nos autos centramse nos eventos destacados nos itens 7 a 11 da tabela acima. De acordo com a fiscalização, o contrato de compra e venda das ações da VIGOR realizado entre CM e a BERTIN em 21/11/2007, não seria válido, uma vez que, na época da venda, o controle acionário das ações da GESTIOR teria sido transferido para GOULT. Alega ainda que o contrato de compra e venda realizado entre o Recorrente e a BERTIN, datado de 25/11/2007, confirma que a operação efetivamente realizada teria sido a constante desse último contrato. O Recorrente, por sua vez, alega que a operação efetivamente realizada foi a Venda do Controle da VIGOR para BERTIN, por meio da empresa CM (contrato de 21/11/2007), uma vez que o contrato firmado em 25/11/2007 teria sido revogado em 26/11/2007. Tal revogação teria sido ratificada, posteriormente, em 14/05/2009. De acordo com o trabalho fiscal e a decisão recorrida, três elementos justificariam a tributação tal como prevista no lançamento: a) simulação dos contratos que atestam a venda das ações da CM à BERTIN, uma vez que a transferência desses ativos teria sido, na realidade, feita pela pessoa física b) ainda que os contratos não fossem simulados, eles não teriam quaisquer efeitos fiscais, uma vez que, nos termos do artigo 1.154, as alterações societárias que revogaram a cisão parcial da CM e a entrada da GOULT no quadro societário da GESTIOR não teriam sido registradas da JUCESP; c) a verdadeira operação teria sido aquela comunicada ao CADE e a CVM, segundo a qual a venda teria sido realizada pela pessoa física. A lide em questão centrase na validade dos negócios jurídicos entabulados pelas partes, levandose em consideração as provas juntadas aos autos. É o que passaremos a analisar. 1) PRELIMINARES O Recorrente aponta nulidade do Auto de Infração por erro na identificação do sujeito passivo. A Delegacia de Julgamento se limitou a afirmar, com fundamento no art. 59 do Decreto nº 70.235/72, que não haveria que se falar em nulidade, uma vez que, sob o aspecto formal, os atos praticados no processo foram lavrados por pessoa competente (inciso I) e os despachos e decisões foram igualmente lavrados por autoridades competentes e sem preterição do direito de defesa (inciso II). Fl. 1682DF CARF MF 10 Entendo que o alegado erro na identificação do sujeito passivo se confunde com o mérito e, por isso, será juntamente com ele analisada. Na sessão de julgamento, o Conselheiro Dilson Jatahy suscitou, de ofício, duas nulidades da decisão recorrida em razão das seguintes omissões: a) não se pronunciou em relação ao arbitramento do custo de aquisição; b) restou silente quanto ao ato de que as parcelas recebidas nos meses de dezembro de 2007 à dezembro de 2010 referemse à dividendos. A turma, por maioria, entendeu por bem rejeitar as referidas preliminares, uma vez que ambas partem do pressuposto de que a operação discutida nesses autos referese a uma alienação realizada pela pessoa jurídica CM. Todavia, tal premissa (alienação por pessoa jurídica) restou vencida nesse colegiado. 2) MÉRITO 2.1) DA ALIENAÇÃO REALIZADA PELA EMPRESA CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO Conforme exposto no extenso relatório, a fiscalização entendeu que, no caso em questão, haveria uma dissimulação da operação praticada. Isso porque, ao contrário do constante nas declarações enviadas à Receita Federal, a real operação seria aquela declarada ao público (CVM e CADE). Para respaldar a desconsideração do negócio jurídico declarado a fiscalização trouxe como prova os seguintes elementos: a) Cópia dos atos publicados na CVM e CADE b) O contrato obtido junto à incorporadora da BERTIN a empresa JBS c) O fato de que o depósito dos valores ter sido feito na conta do Recorrente d) Os distratos que validariam as informações prestadas à Receita Federal não terem sido objeto de arquivamento perante à JUCESP. Em contraposição às mencionadas alegações, o Recorrente traz os seguintes elementos: a) O contrato considerado de 25/11/2007 teria sido revogado em 26/11/2007 pela alteração do contrato social da GESTIOR, bem como pelo instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retirada da GOULT. b) Instrumento Particular de Retificação, Ratificação, e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, celebrado entre o impugnante, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA e a BERTIN S/A em 14 de maio de 2009 (fls. 1320/1323), por meio do qual as partes resolvem "tornar sem efeito o Instrumento Particular de Distrato firmado em 21/11/2007, bem como reiterar as cláusulas e condições do Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras avenças firmado em 21/11/2007 b) as Declarações de Rendimento do Impugnante (fls. 1144/1154 e 1155/1163) e as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (fichas 38 A), anoscalendário 2007 e 2008 da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO (fls.1512 à 1515) que demonstram a consistência entre as declarações prestadas pelo contribuinte e pela empresa. Fl. 1683DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.679 11 c) os lançamentos contábeis constantes da contabilidade da CM que registram a venda de ações à BERTIN (razão analítico de fls. 1516/1517) d) Os valores depositados na conta corrente do autuado, ora Recorrente, referemse à distribuição de dividendos realizada pela CM Indústria e Comércio aos seus sócios, em face dos lucros contabilmente acumulados. Ressalta também que a distribuição dos dividendos foi devidamente registrada na declaração de rendimento dos sócios. 2.1.1. NULIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO Para analisarmos a validade da venda realizada pela empresa CM do controle acionário da VIGOR para empresa BERTIN é importante verificar no negócio jurídico, tal como entabulado, se operação realizada padece de alguma das causas de nulidade dos negócios jurídicos previstas no artigo 166 e 167 do Código Civil. Antes de analisarmos a simulação apontada no trabalho fiscal, é importante registrar que o contrato questionado não padece de qualquer dos defeitos mencionados no artigo 166. Isso porque a parte era capaz, o objeto era lícito e determinado (venda do controle acionário da VIGOR), o motivo era igualmente lícito, não possuía forma imperativa prescrita em lei e não tinha qualquer cominação de nulidade determinada em lei. Quanto a simulação alegada no trabalho fiscal, pela análise dos autos, entendemos que esta não foi comprovada. Isso porque não há indício de ocorrência de simulação absoluta ou relativa. Com efeito, o objetivo do contrato era conferir o controle acionário da VIGOR para BERTIN. Esse controle acionário poderia se dar por meio da pessoa jurídica CM ou da pessoa física do Recorrente. O fato do recorrente ser o acionista majoritário da pessoa jurídica não retira a distinção necessária entre esta (pessoa jurídica e a pessoa do sócio). Além disso, é importante registrar que o preço previsto para operação e o pagamento das parcelas, não foi, em momento algum, questionado no trabalho fiscal. Em outras palavras, não houve qualquer alegação de que os valores envolvidos fossem menores do que o valor real da operação. Não há que se falar, portanto, em declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. Outro ponto relevante é que, em nenhum momento, a fiscalização apontou qualquer indício de irregularidade ou falsidade dos livros contábeis da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO ou da BERTIN. Esse último dado (regularidade dos registros contábeis) tem especial relevância porque a própria legislação do imposto de renda determina o valor probatório da contabilidade, conforme se verifica pelos artigos 923 e 924 do Regulamento do Imposto de Renda que assim dispõe: Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º); Fl. 1684DF CARF MF 12 Art. 924. Cabe à autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância (grifamos) Diante do exposto nos mencionados artigos, é possível concluir que a contabilidade, juntamente com os livros fiscais, é elemento fundamental de toda investigação fiscal. O que se verifica pela documentação trazida aos autos, bem como do relatório fiscal, é que a fiscalização apontou problema na comprovação do ágio registrado pela empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todavia, não levou adiante a investigação quanto ao ágio, tendo, inclusive encerrado o trabalho fiscal junto a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. A jurisprudência deste Conselho é firme em reconhecer a força probatória da contabilidade, a qual poderá se dar a favor ou contra o contribuinte. Na decisão constante do Acórdão nº 2600727, relatado pela Conselheira Bernadete de Oliveira Barros, fica claro que, para desconsiderar a contabilidade como elemento de prova, a autoridade fiscal demonstrar que esta não merecia fé. Vejamos: (...) Vários documentos apreendidos demonstram, ainda, que a empresa Meta Organização Contábil S/C Ltda, sediada em Curitiba, também faz parte do grupo Meta, pois comprova o controle administrativo e financeiro exercido pelo Grupo sobre a referida empresa. A fiscalização, após constatada a existência de folhas de pagamentos frias, de receitas não contabilizadas e de grande volume de tributos suprimidos, entendeu que a contabilidade das empresas do Grupo Meta não era merecedora de fé, sendo imprestável para identificação dos fatos geradores das contribuições previdenciárias o que levou ao entendimento arbitrado. (grifamos) Nesse mesmo sentido, mencionese a decisão proferida no Acórdão nº 205.00929, cuja ementa é a seguinte: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/05/2001 a 31/07/2003 RESTITUIÇÃO DA RETENÇÃO DE 11% ESTABELECIDA DA LEI N.º 9.711/98 A restituição dos valores retidos pressupõe a existência de mão de obra compatível com os serviços prestados. Quando a contabilidade não registra o movimento real da remuneração dos segurados a seu serviço, o faturamento e o lucro, serão apuradas, por aferição indireta, as contribuições efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. Recurso Voluntário Negado.(grifamos) Do voto da Conselheira Liege Lacroix Thomasi destacase o seguinte trecho: (...) Também a contabilidade da empresa se mostrou eivada de vícios que a macularam, não podendo comprovar a escassa mão de obra referida pela recorrente. Pelos dados constantes do processo, a fiscalização atestou que a contabilidade da recorrente não se prestou a fazer prova a seu favor pelas inúmeras irregularidades existentes, dentre as quais Fl. 1685DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.680 13 destacase lançamentos contábeis equivocados (fls. 615/622) e pagamentos aos sócios em decorrência do seu trabalho, mas efetuados à título de 'lucro distribuído' antes mesmo da sua apuração. Na análise da contabilidade de uma empresa a auditoria fiscal verifica a obediência das formalidades intrínsecas e extrínsecas determinadas pela legislação comercial, fiscal e resoluções do Conselho Federal de Contabilidade, que visam possibilitar que os usuários da contabilidade possam analisar a situação da empresa versando seus interesses e que a demonstração dos resultados seja correta para apuração dos tributos que forem previstos em lei. Os princípios contábeis que regem a contabilidade visam, justamente, que os demonstrativos reflitam a real situação da empresa no período analisado. Assim a escrituração contábil que preenche os requisitos determinados na legislação, faz prova a favor do contribuinte, contrariamente, aquela que apresenta vícios que a tornam inidônea e os demonstrativos contábeis incorretos, não deve ser considerada. No caso presente, a fiscalização apontou a existência de diversos equívocos contábeis que viciaram a escrita do contribuinte, não podendo fazer prova a seu favor, tendo em vista que, comprovadamente, não registrou o movimento real de remuneração dos segurados a seu serviço e deixou de registrar diversos itens ou contabilizouos de maneira diverso no previsto pela boa técnica contábil ou com divergência da legislação tributária, ou que, diante dos fatos que estão descritos no relatório do indeferimento do pedido de restituição, fls. 688/691, feriu os princípios contábeis. (grifamos) No caso dos autos, entendo que a fiscalização não se desincumbiu do ônus de demonstrar a incorreção ou erro dos lançamentos contábeis relativos à alienação realizada pela empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Isso porque, como já dito, a única objeção apontada em relação a escrituração foi a falta de comprovação do ágio conforme se verifica pelo trecho abaixo transcrito: Do exposto sobre os registros nos livros citados, constatase impossibilidade de determinar com clareza em qual momento as ações passaram a pertencer à pessoa jurídica ou pessoas jurídicas. Sabese, apenas, que elas foram adquiridas pelos Mansur em 1973, mas não se sabe o valor pago, o qual seria a base de tudo para o cálculo do custo contábil quando da sua alienação. No demonstrativo de cálculo, apresentado juntamente com os livros citados, se limitou apenas a indicar o valor do ágio a partir da aquisição das ações pela CM e, a partir daí, passando a corrigilo, porém sem explicar como ele se originou" Conforme se verifica, em momento algum, a fiscalização questionou a alienação efetuada pela empresa. A objeção centravase na ausência de comprovação do ágio, Fl. 1686DF CARF MF 14 que, certamente, poderia impactar a apuração do IRPJ da empresa, mas, de forma alguma, configura um indicativo de que a venda teria sido realizada pelo sócio. Como já dito, a fiscalização não apontou qualquer indício de falsidade dos valores envolvidos na operação e reconheceu o pagamento do preço. É relevante também observar que a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO decorreu da cisão parcial da empresa CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA em 1988. A fiscalização não contesta a existência da mencionada empresa, existência essa, claramente demonstrada em toda documentação juntada ao trabalho fiscal. Ademais, ainda que se desconsidere os efeitos do distrato realizado em 26/11/2005 e, por conseguinte, se considere que na data da realização da venda pela CM (21/11/2007) esta não possuía a propriedade das ações, a alienação não seria inválida. Isso porque o Código Civil, em seu artigo 1268, §1º, admite validade da chama venda a non domino, nestes termos: Art. 1.268. Feita por quem não seja proprietário, a tradição não aliena a propriedade, exceto se a coisa, oferecida ao público, em leilão ou estabelecimento comercial, for transferida em circunstâncias tais que, ao adquirente de boafé, como a qualquer pessoa, o alienante se afigurar dono. § 1o Se o adquirente estiver de boafé e o alienante adquirir depois a propriedade, considerase realizada a transferência desde o momento em que ocorreu a tradição. (grifamos) Diante do mencionado dispositivo legal, verificase que é possível reconhecer a validade da venda a non domino, desde que o alienante (no caso a CM) se torne adquirente da propriedade. É exatamente o que ocorreu com o desfazimento da transferência do controle da VIGOR para GOULT. Além disso, é importante registrar que a empresa adquirente (BERTIN) participou de todas as operações societárias mencionadas nesse processo. Conforme esclarece ORLANDO GOMES: Parece absurda a venda de coisa alheia, pois, intuitivamente, a coisa vendida deve pertencer ao vendedor. Uma vez, porém, que pelo contrato, o vendedor se obriga, tãosó, a transferir a propriedade da coisa, nada obsta que efetue a venda de bem que ainda não lhe pertence; se consegue adquirilo para fazer a entrega prometida, cumprirá especificamente a obrigação; caso contrário, a venda resolvese em perdas e danos. A venda de coisa alheia não é nula, nem anulável, mas simplesmente ineficaz. (GOMES, Orlando. Contratos. 18 ed. Rio de Janeiro, Forense, 1999, p.228). (grifamos) Nesse mesmo sentido, valiosas as lições de PONTES DE MIRANDA: Uma vez que o contrato de compra e venda é consensual e por ele só se promete a transmissão da propriedade e da posse, ou só da posse, nada obsta a que seja objeto de tal contrato o bem alheio, isto é, o bem de propriedade, ou de posse, ou de propriedade e de posse alheias.Não há qualquer invalidade, nem ineficácia. Se o vendedor vem a prestar, por ter adquirido o bem, ou por ter encarregado o dono de prestar a propriedade e a posse ou só a propriedade ou só a posse, cumpriu o que prometeu. Se falha, inadimpliu, e há consequências do Fl. 1687DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.681 15 inadimplemento. Se prestou propriedade, ou posse, em vez de prestar propriedade e posse, houve adimplemento ruim. A compra e venda do bem alheio é eficaz apenas entre o vendedor e o comprador. Não se pode dizer, a priori, que não tenha efeitos quanto ao terceiro, porque isso depende de outro negócio jurídico, ou situação de direito, entre o vendedor e o terceiro. O terceiro pode propor contra o vendedor as ações que lhe tocam, e talvez não tenha ações, nem pretensões, nem direitos, a despeito de ter sido o dono (MIRANDA, Pontes "Tratado de Direito Privado, vol. 39, ed. Borsoi, 1962, §4.266, nº 3, pg. 26) (grifamos) Dessa forma, todas as circunstâncias que precederam à realização do negócio, ou seja, todo histórico de controle das ações da VIGOR por parte da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO, bem como os contratos firmados pelas partes e refletidos na escrituração contábil e fiscal da empresa, permitem concluir que a venda foi feita pela pessoa jurídica da CM. Da mesma forma, não há que se falar em invalidade do negócio ainda que se conclua que, no momento da alienação, o controle da VIGOR pertencia a empresa GOULT. Isso porque, com o distrato realizado em 26/11/2007, a CM voltou a possuir o controle acionário da VIGOR, consolidando, assim, a propriedade das referidas ações. 2.2) INVALIDADE DO INSTRUMENTO DE RETIFICAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL DA GESTIOR PREVENDO A RETIRADA DA GOULT E DO INSTRUMENTO PARTICULAR DE RETIFICAÇÃO, RATIFICAÇÃO, E CONSOLIDAÇÃO DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE QUOTAS EM RAZÃO DA AUSÊNCIA DE REGISTRO NA JUCESP Ainda que se considere válida a alienação, é importante analisar se a ausência de registro dos instrumentos societários que concluem o distrato da operação, informada à CVM e ao CADE, poderiam produzir efeitos, uma vez que não foram registrados na JUCESP. Isso porque, conforme exposto no relatório, a fiscalização entendeu que: "Da análise das duas situações apresentadas, constatase que: A primeira operação, declarada à Receita Federal, referese à alienação efetuada pela CM Indústria e Comércio Ltda, das quotas sociais da Gestior, para Bertin S/A, ou seja, tratase de uma operação de pessoa jurídica para pessoa jurídica. (...) No entanto, para que esta operação tivesse validade jurídica, as alterações contratuais que revogaram os efeitos da cisão da CM, transferindo as quotas da Gestior para a Goult, deveriam ser arquivadas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o que não ocorreu. Vale lembrar que os atos sujeitos ao registro público somente têm validade e produzem os efeitos pertinentes a partir da sua formalização. Vejamos o que diz o Código Civil a respeito: Art. 1.154. O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes do cumprimento das respectivas Fl. 1688DF CARF MF 16 formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o conhecia. Parágrafo único. O terceiro não pode alegar ignorância, desde que cumpridas as referidas formalidades. De acordo com o dispositivo citado, o ato da revogação por meio das alterações contratuais não pode ser oposto a terceiros, incluindo entre estes, a Fazenda Nacional. O registro mencionado no artigo 1157 do Código Civil é exigido para dar publicidade ao ato, a fim de que terceiros possam dele tomar conhecimento e, se for o caso, questionálo. No entanto, como bem ressalta o Recorrente, caso se comprove que terceiro teve acesso ao ato por outros meios, ele gerará todos os efeitos, ainda que não registrado. É exatamente por esse motivo, que o artigo menciona que o ato não poderá ser oposto ao terceiro, salvo prova de que este o conhecia. A Receita Federal tem acesso às informações do contribuinte, em razão das diversas obrigações acessórias a que este está submetido. Sendo assim, é corriqueiro que fiscalização tenha conhecimento dos diversos atos do contribuinte ainda que não realizado o competente registro. Dessa forma, o registro das operações perante a junta é irrelevante para determinar a tributação aplicável. Tanto é assim que diversas autuações fiscais desconsideram as operações registradas na Junta, sob o argumento de que, em seu conjunto, não seriam oponíveis ao fisco. A jurisprudência desse Conselho tem decidido, reiteradamente, que o registro na Junta Comercial é irrelevante para que o ato possua efeitos perante à fiscalização. Nesse sentido, citese o Acórdão 1102001.206, de 24/09/2014, cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1989, 1990 IRPJ. INCORPORAÇÃO. CRÉDITOS DA INCORPORADA. COMPENSAÇÃO COM DÉBITOS DA INCORPORADORA. POSSIBILIDADE. A incorporação transfere débitos e créditos da incorporada para a incorporadora, a partir do momento em que aprovada pelos sócios o ato societário. O registro da Junta Comercial é mera formalidade que visa dar conhecimento do ato a terceiros para que estes possam questionálo nas hipóteses legalmente previstas. O Fisco, por exigências próprias, toma conhecimento da incorporação no momento da apresentação da declaração de encerramento da empresa. Inexigibilidade do registro para efeitos fiscais. (grifamos) Merece transcrição, pela clareza com que aborda a questão, os seguintes trechos do voto do Conselheiro Relator Francisco Alexandre dos Santos Linhares: O cerne da questão é saber se o crédito. utilizado pela Contribuinte lhe pertencia no momento da compensação' ou se era crédito de terceiro. A, 'contribuinte deliberou, assim como também deliberou a empresa incorporada, operação, de incorporação' da ,segunda pela primeira em' " , 15,03.2003 e Q registrou na JUCEES,em 18.03.2003, antes, portanto, da extinção 'do débito tributário' pela compensação. Também não há, 'questionamento acerca do crédito utilizado. A operação; Fl. 1689DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.682 17 todavia, ainda não foi registrada na JUCERJA, em virtude de exigências formais da própria JUCERJA, Não consta' oposição de credores à incorporação. A dúvida é saber se o ato societário é suficiente para fins fiscais ou se, de fato, o registro, na JUCERJA condiciona à validade da operação. (...) A Lei 6.404/76, aplicável subsidiariamente aos casos da espécie, tem disposição semelhante:. . Art: 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes .sucede em todos'os direitos e obrigações. §1º A assembléia geral da companhia incorporadora. se aprovar. protocolo da operação, deverá autorizar o 'aumento de' capital a ser subscrito e realizado pela incorporada mediante versão do seu patrimônio .liquido, e nomear os peritos que o avaliarão. § 2º A sociedade que houver de ser. incorporada, se aprovar o protocolo da operação. autorizará seus administradores a praticarem;' os atos necessários' à . incorporação. inclusive a subscrição do aumento de capital da incorporadora. § 3 º Aprovados .pela assembléia. geral da incorporadora o laudo de avaliação e a incorporação: extinguese a incorporada, competindo à primeira promover o arquivamento e a publicação dos atos da incorporação. Em ambas as normas, apresentase claro que a extinção da pessoa jurídica se dá no' momento da aprovação do ato societário, que deverá a posteriori, ser.arquivado e publicado. A legislação fiscal não destoa deste entendimento. A Lei.9.430/96 considera o encerramento da empresa; para. fins fiscais, como 'a data do evento societário. Confirase: Art.1º I" A partir do ano calendário de 1997, o imposto de renda das pessoas jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou' arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de. cada ano calendário, observada a'legislação vigente, com as alterações desta Lei. §1 º Nos' casos de 'incorporação, fusão ou cisão, a apuração da base de cálculo e do imposto de renda devido será efetuada na data do evento, observado o disposto no art. 21 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995. §2°Na'extinção da pessoa jurídica, pelo encerramento da liquidação, a apuração da base de cálculo e do imposto devido será efetuada na data desse evento.' A lei 9.249/95, por sua vez, determina a apresentação do balanço' de encerramento da empresa sem fazer qualquer menção ao registro na Junta Comercial. Fl. 1690DF CARF MF 18 (...) Por fim, o regulamento do imposto de renda mais uma vez fortalece a. interpretação de'que a extinção da pessoa jurídica incorporada se dá na data da deliberação, conforme se vê do artigo 235: Art. 235.A pessoa jurídica que tiver parte ou todo o seu patrimônio absorvido em virtude de incorporação, fusão ou cisão deverá levantar balanço específico na data desse evento (Lei n° 9.249, de 1995, art. 21, e Lei . n° 9.430, de 1996, art. 1º, §1º ). §1ºConsiderase data do evento a data da deliberação que aprovar a incorporação, fusão. ou. cisão. Enfim, para fins fiscais, a data da incorporação, portanto a data em que a. incorporadora assume direitos e obrigações da incorporada, é a data do evento .societário que deliberou a extinção da pessoa jurídica. Não há uma só norma que condicione; a eficácia da incorporação ao registro do ato societário na . junta comercial. Nesta data,' a . pessoa jurídica' incorporadora, sucessora universal da incorporada, passa a figurar na relação obrigacional que tem .como contraparte a Fazenda Nacional e, portanto, a ser. titular do crédito .tributário surgido quando estava em funcionamento a incorporada. Sendo . titular do crédito, o crédito é seu, não de terceiros. Sendo seu o crédito (assim . como sãos seus os débitos da incorporada), pode compensálos com débitos seus também. Não há norma 'que vede a extinção do crédito. por esta modalidade. o registro; como muito bem frisado pela Contribuinte, serve para dar conhecimento a 'terceiros da decisão, para que estes possam oporse ao ato societário, acaso se sintam prejudicados. No caso do Fisco, o arquivamento (é. isto mesmo; mero arquivamento Lei 8.934/94, artigo 32) é absolutamente desnecessário para que ele tome conhecimento do ocorrido e possa se opor ao ato praticado. Isso porque o próprio Fisco impôs obrigações específicas para a. comunicação a ele do ato praticado. De posse da informação,pode manejar todas as ferramentas necessárias para impugnar o ato, caso seja lesivo aos seus interesses. Nesse mesmo sentido, mencionese as decisões constantes dos Acórdãos 1402 001142 e 1402 000 431. Diante do exposto, não há que se falar em invalidade do distrato que reafirmou a operação originalmente efetuada (venda da CM do controle acionário da Vigor por meio da empresa GESTIOR) pelo simples fato de que tal operação não foi registrada na JUCESP. 2.3) DA OPERAÇÃO COMUNICADA AO CADE E À CVM Finalmente, é importante analisar se a operação de venda comunicada ao CADE e a CVM, seria suficiente para desconstituir a alienação realizada pela CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Isso porque mencionados atos foram uma das provas trazidas pela fiscalização para atestar a simulação da venda promovida pela CM e estabelecer a sujeição passiva na pessoa do Recorrente. Fl. 1691DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.683 19 A declaração prestada pelo contribuinte junto à CVM ou ao CADE não é suficiente para, isoladamente, determinar a natureza jurídica do negócio realizado. Como bem ressalta o parecer juntado aos autos, a informação prestada à CVM não tem o condão de anular o ato efetivamente praticado, apenas sujeitaria o Diretor às sanções previstas pelo art. 11 da Lei nº 6.385/76. Da mesma forma, a impropriedade das informações fornecidas ao CADE não tem efeito anulatório do negócio jurídico efetivamente realizado. Isso porque, de acordo como artigo 54, §4º da Lei nº 8.884/94 (que regulava a prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica à época dos fatos geradores), não se exigia a notificação prévia dos atos de concentração. Tais atos geravam os seus efeitos até que o CADE apreciasse a operação e então decidisse pela sua manutenção ou reversão. É importante registrar que, ainda que a operação fosse reprovada, a consequência não seria a nulidade dos atos praticados. Caberia às partes firmar novos negócios jurídicos para desconstituir os efeitos dos negócios já exteriorizados. Além disso, mesmo que exista um pronunciamento formal da CVM definindo a natureza jurídica de determinado ato, tal pronunciamento não será vinculante quanto a sua natureza fiscal. Nesse sentido, elucidativo o exemplo da Deliberação nº 207/96 da CVM que disciplinou a natureza jurídica dos juros sobre o capital próprio, sob o enfoque do acionista, como uma participação no resultado. A pretensão dos contribuintes era de que a referida deliberação fosse vinculante o que determinaria a identificação do JCP aos dividendos. No entanto, o Ministro Mauro Campbell, ao definir a natureza jurídica do JCP no julgamento do Recurso Especial nº 1.200.492/RS (submetido à sistemática do artigo 543 C do Código de Processo de Civil de 1973), fez clara distinção dos efeitos fiscais dos eventos societários, conforme se verifica pela seguinte passagem do seu aditamento ao voto: Desse modo, optandose por um conceito único de JCP, sacrificamse, necessariamente, ou os propósitos tributários da Lei 9.249/95, ou os princípios societários, protegidos pelas Deliberações CVM nº 207/96 e 683/12. A melhor solução, portanto, é a cisão dos efeitos produzidos pelo instituto jurídico para efeitos tributários e para efeitos societários. (grifamos) Em face do exposto, a ausência de submissão de um ato de concentração empresarial ao CADE ou sua submissão errônea não gera sua nulidade e não pode, isoladamente, ser utilizada como prova da simulação. 3) DA INAPLICABILIDADE DA MULTA DE 150% Finalmente, ainda que se considere os atos praticados como simulados, o que, como visto, não foi comprovado, é importante analisar a qualificação da multa promovida pelo trabalho fiscal. Isso porque as divergências quanto à interpretação jurídica dos fatos não se identifica com a fraude, elemento essencial a qualificação da multa. A respeito da impossibilidade de se equiparar a simulação às hipóteses prescritas pelos citados arts. 71, 72 e 73, destaco Acórdão nº 9101002.189, proferido pela Câmara Superior deste Conselho, nestes termos: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2001, 2002 MULTA QUALIFICADA. Para que se possa Fl. 1692DF CARF MF 20 preencher a definição do evidente intuito de fraude que autoriza a qualificação da multa, nos termos do artigo 44, II, da Lei 9.430/1996, é imprescindível identificar a conduta praticada: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente, arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. A mera imputação de simulação não é suficiente para a aplicação da multa de 150%, sendo necessário comprovar o dolo, em seus aspectos subjetivo (intenção) e objetivo (prática de um ilícito). (grifamos) No voto vencedor da decisão acima mencionada, proferido pela Conselheira Lívia de Carli Germano, fica claro que a norma relativa à imputação de multa qualificada não faz menção a simulação. Vejamos: “Ocorre que o artigo 44, II, da Lei 9.430/1996 não faz qualquer menção à simulação. Na verdade, tal dispositivo estabelece a aplicação de multa de 150 % nos casos de evidente intuito de fraude, definidos nos arts.71, 72 e 73 da Lei n 4.502, de 30 de novembro de 1964,(...)(redação vigente à época da autuação). Ora, para que se pudesse completar a definição de "evidente intuito de fraude", que autorizaria a qualificação da multa de ofício, seria imprescindível a identificação da conduta praticada pelo contribuinte: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. No caso porém, não houve qualquer fundamentação neste sentido, do que se conclui que o agravamento da penalidade carece de suporte material e, por isso, não pode subsistir” (Processo nº 18471.000009/200633. 1ª Turma. Sessão de 21.01.2016) Em face do exposto, ainda que se entenda que a fiscalização se desincumbiu do ônus de comprovar a simulação, entendo que não foi demonstrada a ocorrência de qualquer das hipóteses dos arts. 71,72 e 73 da Lei nº 4.502/64, motivo pelo qual, a multa aplicada deverá ser reduzida para o percentual de 75%. 4) CONCLUSÃO Em face de todo o exposto, rejeito a preliminar e, no mérito, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Voto Vencedor Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada Redator designado. O caso que ora está em análise é bastante complexo, considerando as operações societárias que envolve. Assim, natural que tenha despertado um longo debate, neste Colegiado. Natural também que haja opiniões diversas sobre o assunto, tanto em sede de preliminares quanto de mérito, bem como em relação à aplicação de penalidade. Assim, peço licença à ilustre Relatora, Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio, bem como ao nobre Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que expressou voto Fl. 1693DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.684 21 diverso, registrado aqui em sua brilhante declaração, para divergir de suas conclusões pelas seguintes razões que passo a exprimir, buscando ser direto e sucinto. Em relação às nulidades suscitadas pelo contribuinte em seu recurso voluntário, quais sejam: erro na identificação do sujeito passivo e erro no cálculo do tributo devido por "arbitrar" a apuração e não considerar "o custo efetivo da lei", foram rejeitadas pelo colegiado, como já apontado pela Relatora, porque só fazem sentido se fosse admitida a defesa do contribuinte de que quem efetuou a alienação que aqui se discute foi a pessoa jurídica CM e não a pessoa física Carlos Alberto Mansur. Em relação à nulidade da decisão de 1ª instância levantada de ofício pelo Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, também foi rejeitada pelos membros do colegiado, uma vez que, considerando que a alienação deuse pela pessoa física, não há que se falar ou se admitir que recebimentos por ele realizados decorreram de distribuição de dividendos da pessoa jurídica. Por essas razões, meu voto vencedor cingese às questões em que foi vencida a Relatora. Ao analisar o recurso do contribuinte, verifico três pontos a serem tratados: I haveria erro na identificação do sujeito passivo; II haveria erro no cálculo do tributo (custo de aquisição das quotas alienadas), III estaria incorreta a qualificação da multa aplicada (150%). I O CORRETO SUJEITO PASSIVO DA EXIGÊNCIA TRIBUTÁRIA Para embasar meu raciocínio, colho do Relatório elaborado pela ilustre Relatora os seguintes trechos: Em 21/11/2007 foi assinado o Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças. Por meio do referido contrato, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA vendeu à BERTIN S/A 56% das quotas do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA (controladora da Vigor), pelo preço de R$ 400.000.000,00, sendo R$ 200.000.000,00 no ato da assinatura e o restante em 25 parcelas atualizadas pela SELIC. Todavia, ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, conclui a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao fisco pela empresa fiscalizada. (...) Relata ainda a fiscalização que a GOULT foi constituída em 20/07/2007, tendo como sócios Roberto Mário Amaral de Lima Neto e Carlos David Albuquerque Braga, com capital de R$ 100,00. Em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a Goult recebe a parcela cindida do PL da empresa fiscalizada, Fl. 1694DF CARF MF 22 constitutiva da participação societária de 99,9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da Vigor. O contribuinte Carlos Mansur tinha participação e controle acionário na CM INDÚSTRIA há muito tempo (vejase registro de alteração contratual nas folhas 624 a 645). Então, decidese alienar a VIGOR para a empresa BERTIN (mediante a alienação da GESTIOR, que era controladora da VIGOR). Analisandose e planejandose tal alienação, decidiuse que a melhor forma, ou a mais econômica ou a mais vantajosa, seria diretamente da pessoa física de Carlos Mansur à BERTIN. Para dar ensejo a tal desiderato, constituise a empresa GOULT, uma empresa que não tinha outra finalidade que não viabilizar essa operação de alienação. Vejamos que no Relatório consta que ela foi criada em 20/07/2007, com um capital de R$ 100,00. Logo depois da criação, em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a GOULT recebe a parcela cindida do PL da CM INDÚSTRIA, constitutiva da participação societária de 99,9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da VIGOR. Por essa narrativa, pareceme claro o "papel" da empresa GOULT, da qual Carlos Mansur detinha, repito, 99,9% das quotas. Além da questão tributária, temse ainda outros campos, como o econômico, o empresarial e o do consumidor, a encaminhar a alienação pela pessoa física. Vejamos que em 27 de novembro de 2007, o jornal O Estado de São Paulo (Estadão), noticiou que "o Grupo Bertin, segundo maior exportador de carne bovina do país, anunciou a compra do controle da Vigor, uma das líderes no mercado de produtos lácteos da região Sudeste". Nessa notícia, que interessa ao mercado e a investidores, informase ainda que "foram compradas 56% do total de 74,69% das ações ordinárias da Goult Participações, de propriedade de Carlos Alberto Mansur...Carlos Alberto vendeu o controle, mas continuará na gestão, dividindo as decisões com os novos controladores...". (disponível em http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,frigorificobertincompraavigor,86375, pesquisa realizada em 29/07/2017). Ou seja, o "nome" de Carlos Alberto Mansur faz diferença no mercado, considerando sua expertise empresarial, e o fato de ter vendido e "continuar na gestão" representa informação relevante e com efeitos econômicos. Além disso, tratandose de grandes grupos empresariais, com ações negociadas em bolsa de valores, interessa também a terceiros e investidores. Logo depois dessas operações, o mesmo jornal O Estado de São Paulo noticiava em 27 de agosto de 2009 que "depois de registrar lucro recorde no segundo trimestre do ano, a Bertin prepara finalmente sua abertura de capital..." A citada cisão na CM INDÚSTRIA foi formalizada em 30 de outubro de 2007 e registrada na JUCESP em 07/12/2007. A partir daí, conforme o registro público, ela não era mais a proprietária indireta da VIGOR (fl. 883 a 903). Ademais, essa operação de alienação da VIGOR, considerandose a necessidade de verificação de concentração econômica, "em benefício da transparência e uniformidade de condutas" e a defesa da concorrência e interesse do consumidor, foi analisada Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.685 23 pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, que emitiu Parecer Técnico em 21 de dezembro de 2007. Concluiu que em se tratando "da compra, pela Bertin, de 56% das quotas representativas do capital social da Goult Participações Ltda, controladora indireta da Vigor", a recomendação era "aprovação sem restrições" (fls. 863 a 867). No Relatório do CADE, que consta das fls. 868 a 870, também foi essa a operação analisada. E se fosse outra operação, onde não existisse Goult e a CM INDÚSTRIA alienasse a VIGOR, através de suas controladas, à BERTIN, qual seria o Parecer da SAE/MF? Não se sabe. E onde estariam o interesse do consumidor, a transparência, a uniformidade e a defesa da concorrência? É que a operação que o contribuinte quer que seja considerada para fins tributários, apenas, não é a operação que foi informada aos órgãos de controle, de interesse público e econômico e aos investidores e consumidores. Ou seja, a ser como pretende o Recorrente, terseia uma realidade diversa, única, no campo tributário. Ressaltese ainda que durante os procedimentos fiscais na CM INDÚSTRIA, intimouse a empresa JBS (fl. 952 a 988), incorporadora da adquirente BERTIN, a apresentar o Contrato de Compra relativo à aquisição das ações da VIGOR efetuada pela BERTIN e o demonstrativo de eventual ágio apurado na operação. A empresa circularizada respondeu para demonstrar o "eventual ágio" a partir da aquisição de 56% do capital da GOULT, pelo valor de R$ 400.000.000,00. Apresentou ainda uma cópia de contrato onde Carlos Mansur e seu filho de um lado e a BERTIN de outro, acertam a venda da VIGOR, "considerando que a GOULT é sócia controladora do capital da GESTIOR ... que por sua vez é acionista controladora da VIGOR...". Destaquese, o contrato que a JBS tinha cópia e conhecia era esse, não de uma alienação pela CM INDÚSTRIA. E foi a partir daí que a fiscalização tomou ciência da real operação. Não foi um redirecionamento, como alega o Recorrente, porque não conseguiu apurar o valor do ágio que a CM contabilizara e que enfim fizera com que a tributação, se a alienação se desse diretamente por ela pessoa jurídica, e não pela pessoa física de Carlos Mansur, ficasse bastante menor. Vejamos que na operação que a Recorrente quer fazer valer perante o Fisco, a alienação dáse pela CM à BERTIN, portanto de pessoa jurídica para pessoa jurídica e, nesse caso, o ganho de capital estaria inserido na apuração de resultados da empresa e a receita seria diminuída dos custos contábeis, incluindo nele um ágio contabilizado, o que fez com que não houvesse ganho de capital a tributar na pessoa jurídica, segundo a fiscalização. O que se verifica é que depois de todos os efeitos, da submissão ao CADE e SAE, do registro na JUCESP, do anúncio perante terceiros, a CM resolve fazer um "distrato", uma "revogação", uma "anulação" do negócio, desde a cisão e transferência do controle da VIGOR à GOULT. Fl. 1696DF CARF MF 24 Entretanto, com reflexo apenas no campo tributário, porque nos demais os efeitos, observase, já estavam exauridos, inclusive com a tradição das quotas e o pagamento do preço diretamente em uma conta da pessoa física de Carlos Mansur, conforme combinado em um dos aditamentos do contrato. Para justificar o recebimento diretamente na conta da pessoa física, o recurso diz que "por seu turno, a CM Industria e Comércio Ltda distribuiu como dividendos aos seus sócios, face seus lucros contabilmente acumulados, a totalidade dos valores recebidos pela mencionada venda, como consta das declarações de rendimentos destes mesmos sócios controladores."(sublinhei) Afigurase uma "conta de chegada", onde a empresa CM distribui, como dividendos não tributáveis, em registro posterior à venda (DIPJ), exatamente o valor das parcelas pagas no negócio que envolveu a pessoa física, que recebeu o dinheiro, e a compradora BERTIN. Resumiu a fiscalização, em seu Termo de Verificação, que: Diante do exposto, até o presente momento, constatase que houve duas versões para a alienação das ações da Vigor, uma, amparada no contrato de compra e venda de 21/11/2007, informada e declarada à Receita Federal e, outra, amparada no contrato de compra e venda de 25/11/2007, informada ao público e demais órgãos governamentais, diferente daquela. Destacou ainda que todos os atos contratuais com a inclusão da GOULT foram arquivados na JUCESP. Entretanto, todos esses atos contratuais foram pretensamente "anulados" por alterações não arquivadas na JUCESP. Segundo Marco Aurélio Greco, ao tratar de planejamento tributário, não há uma definição do que seja um plano, mas a experiência mostra que, como regra, há algumas características que se repetem cuja constância permite afirmar existir essa figura. Em síntese, menciona a circunstância de haver um objetivo escolhido previamente à escolha dos instrumentos a serem utilizados, ou seja, um predomínio do fim sobre o meio. O plano pode se materializar numa única operação ou em um conjunto delas; no segundo caso, importante é sublinhar que ele deve ser visto como uma unidade formada por uma pluralidade de negócios, o que implica o enquadramento no tipo tributário dever ser o do negócio global (conjunto) e não de cada um separadamente. Nesse conceito, assumem importância o efeito prático e a intenção objetiva dos negócios. O autor segue dizendo que um plano tem como características o encadeamento de etapas, explicando que entre essas: a) a posterior só existe se ocorrer a anterior (e vice versa) e b) a anterior “constrói” o pressuposto legal ou 'de fato' do cabimento e da realização da posterior. Aponta ainda, como características de um plano, buscar no arcabouço legal existente uma estrutura formal que sirva ao objetivo visado ainda que ela seja não usual e, por vezes, até mesmo inadequada ao caso concreto, e a neutralização de efeitos indesejáveis que adviriam dos negócios celebrados se eles se mantivessem com o perfil que lhes é próprio. Em relação a essas duas características, aponta a ocorrência de “coincidências”. Conclui que nessas hipóteses, a variável “tempo”, em que os fatos ocorreram, pode assumir papel relevante para aferir a natureza do negócio global e levar à sua adequada Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.686 25 qualificação jurídica (GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3ª ed. Dialética Editora, São Paulo: 2011, p. 125/126). A PFN apontou em suas contrarazões várias datas que demonstram ter havido formalização de documentos ao tempo em que as operações estavam concluídas e seus efeitos já se encontravam exauridos (fls. 1522 a 1544). O recurso diz que: "Registrese, ademais, que toda a operação foi retificada e consolidada em 14/05/2009 (fls. 1320/1323) através do Instrumento Particular de Retificação, Ratificação e Consolidação ... ou seja, em data posterior às comunicações feitas ao CADE e ao SEAD, de modo que, se as retificação e consolidação foram posteriores às comunicações, obviamente que as comunicações àqueles órgãos somente poderiam retratar a operação anterior, que deixou de existir em 14/05/2009." (destaques no original) Ou seja, o recurso admite que "a operação anterior", que existiu!, só "deixou de existir em 14/05/2009", depois, portanto, que todos os efeitos, comunicações, registros, tradição e pagamento, já haviam sido realizados. Enfim, analisando essa operação de alienação de participação societária, o que se pode concluir é que o contribuinte escolheu e planejou um caminho a seguir. Nesse caminho, existem a lei, os atos administrativos, o interesse de terceiros e a transparência perante o público. Não se pode, posteriormente, apenas para reduzir a carga tributária, "revogar" ou "anular" (e não se encontram razões ou vícios que justificassem uma anulação) ou desfazer tal operação, sem que houvesse qualquer propósito negocial, uma vez que o fim seria o mesmo, a alienação da VIGOR à BERTIN, havendo reflexo, repito, apenas na redução dos tributos a pagar. Em conclusão, considerandose a operação real, aquela que foi perpetrada e que, ineficazmente, pelas razões aqui expostas, se tentou alterar posteriormente, está correta a identificação do contribuinte na pessoa física de Carlos Alberto Mansur. No recurso (fls. 1479 a 1511) o contribuinte demonstra ter perfeito conhecimento das imputações que lhe são feitas, especificando valores, infrações, enquadramento legal, percentual de multa e a razão de seu agravamento. Alega, contudo, que a fiscalização "não intimou a CM Indústria a lhe explicar porque considerava como válido o primeiro contrato...Tivesse intimado a empresa sob fiscalização, a CM Indústria e Comércio, terlheia apresentado o instrumento, a trazido a estes autos por ocasião da impugnação e tudo estaria esclarecido." Registrese que não se está deixando de analisar nenhuma alegação ou documento do Recorrente sob o argumento de preclusão. De acordo com o Decreto 70.235, de 1972, "é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar" que inaugura a fase litigiosa do procedimento. Então, dizer que na fase que precedeu ao lançamento a CM não foi intimada, e que naquele caso "tudo estaria esclarecido", é entender que haveria um "litígio" antes de formalizado o lançamento. Fl. 1698DF CARF MF 26 Ao contrário, após a formalização da exigência fiscal, o contribuinte autuado, a pessoa física, foi regularmente cientificado do Auto de Infração e foilhe ofertado o direito de impugnar e recorrer, com a apresentação de todos os documentos que lhe fossem convenientes, inclusive em relação à CM Indústria e Comércio, da qual fora sócio controlador. Diz, adicionalmente, que houve um "arbitramento ilegal" da base de cálculo do tributo, quanto ao custo do bem envolvido na apuração do ganho de capital. II PORQUE HAVERIA ERRO NO CÁLCULO DO TRIBUTO, SEGUNDO O RECURSO ? Diz o recurso que: Olvidou que o lançamento do tributo no auto de infração não decorreu de qualquer troca de sujeito passivo ou de operação, mas sim do fato que a fiscalização desconsiderou o custo do ativo vendido, com base no custo de aquisição do mesmo, para eleger em seu lugar outro custo que arbitrou, a seu bel prazer, para o ativo. No TVF, o cálculo do tributo, a partir do ganho de capital apurado para a pessoa física de Carlos Mansur está demonstrado com base no previsto na IN SRF nº 84, de 2001. Considerouse o preço à vista dos 56% das quotas da GOULT, em 25/11/2007, o preço à vista dos restantes 44%, de acordo com a operação exercida em 08/09/2008, e explicouse, a respeito dos custo de aquisição que: E o ganho de capital foi assim calculado: Portanto, não há um "arbitramento a bel prazer", ou um cálculo que impedisse o conhecimento, compreensão e, consequentemente, o contraditório. Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.687 27 Existe um tópico do recurso intitulado: "ii) Custo das Quotas de Capital Alienadas", onde se afirma que "contra todas as evidências, a fiscalização, nestes autos, defende que a transferência ocorreu pela venda das cotas do capital da Goult pelo Sr. Carlos Alberto Mansur, e que a operação como feita e declarada pelo contribuinte consistia em fraude". A seguir, falase da inexistência de "fraude" (que trataremos no item relativo ao agravamento da multa), da contabilização pela CM Indústria e Comércio de ágio em seus Livros contábeis e fiscais e da apuração de seu Lucro Real. Após discorrer sobre o custo de aquisição dos ativos pela CM, em uma história iniciada em 1973, e da formação de ágio, conclui o recurso que "fato é que o custo dos ativos alienados como declarado é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas..." Mas vejamos que o pretenso "erro" ou "arbitramento ilegal" que teria sido efetuado pela fiscalização ao apurar o ganho de capital decorrente da operação em questão, na pessoa física de Carlos Mansur não é expressamente apontado ou questionado. O que se questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria Carlos Mansur mas a CM Indústria e Comércio, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Mas, já se deixou claro aqui porque se entende que o sujeito passivo não é a CM pessoa jurídica, e sim Carlos Mansur e, sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal, e onde está o erro, se considerar que o sujeito passivo é a pessoa física, o recurso não aponta. III MULTA QUALIFICADA. MANUTENÇÃO. Existe também um tópico intitulado "i) do indevido agravamento da multa ausência de fraude". Primeiro, a fiscalização não "tomou outro rumo" porque não conseguiu apurar o custo de aquisição dos bens alienados. Ela tomou outro rumo porque durante seu procedimento descobriu, mediante informações prestadas por terceiros, que havia uma "outra operação", que até então lhe fora ocultada. Surgiu um contrato de compra e venda em que aparecia a GOULT, que detinha as quotas da VIGOR, alienadas à BERTIN. Uma operação que a CM Indústria tentara desfazer, com atos posteriores, não registrados na JUCESP nem informados aos órgãos de controle econômico, como já se tratou aqui. E aí, no recurso, sublinhase novamente que a fiscalização "não logrou opor qualquer reparo ao custo apurado e declarado pela CM na venda mencionada." Mas, de novo, não se está considerando que foi a CM quem vendeu, mas a pessoa física, como já tratado. Então, o fato de não se contradizer o custo apurado pela CM não é a base para a qualificação ou não da multa. No Acórdão 9202003.128, de 27 de março de 2014, consta que: MULTA QUALIFICADA. MANUTENÇÃO. Fl. 1700DF CARF MF 28 A fraude se caracteriza por uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe, sempre, a intenção de causar dano à fazenda pública, num propósito de liberado de se subtrair no todo ou em parte a uma obrigação tributária. Assim, ainda que o conceito de fraude seja amplo, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública, onde, utilizandose de subterfúgios, escamoteia na ocorrência do fato gerador ou retardam o seu conhecimento por parte da autoridade fazendária. Ou seja, o dolo é elemento específico da sonegação, da fraude e do conluio, que a diferenciada declaração inexata ou da falta ou pagamento a menor do tributo ou da omissão de rendimentos na declaração de ajuste anual, seja ela pelos mais variados motivos que se possa alegar. Dessa forma, o intuito doloso deve estar plenamente demonstrado (nota fiscal fria, calçada, declaração do beneficiário do pagamento de que não prestou os serviços etc), sob pena de não restarem evidenciados os ardis característicos da fraude, elementos indispensáveis para ensejar o lançamento da multa qualificada. O intuito do contribuinte de fraudar não pode ser presumido: Compete ao fisco exibir os fundamentos concretos que revelem a presença da conduta dolosa. Se, por um lado, cabe ao contribuinte comprovar as despesas deduzidas dos rendimentos tributáveis declarados, sob pena de serem glosados, como ocorreu no lançamento em comento, de outra banda, compete à fiscalização apresentar os elementos de prova que demonstrem a intenção do contribuinte de fraudar o fisco. A multa qualificada não é aplicada somente quando existem nos autos documentos com fraudes materiais, como contratos e recibos falsos, notas frias etc. Decorre também da análise da conduta ou dos procedimentos adotados pelo contribuinte que emergem do processo.(...)(sublinhei) A lei 4.502/64, art. 72, conceituou fraude como “toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento.” Na lição de VENOSA: A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros. A má fé encontra guarida não só na fraude, mas também em outros vícios, como dolo, coação e simulação. (VENOSA. Silvio de Salvo, Direito Civil, 4ª ed. Parte Geral. Atlas: 2004, p. 505/506) A multa de 150%, segundo PAULO DE BARROS CARVALHO, “é a espécie de multa que tem por conteúdo a agravação da penalidade...É aplicada quando a Administração demonstra, por elementos seguros de prova, no Auto de Infração, a existência da intenção do sujeito infrator de atuar com dolo, fraudar ou simular situação perante o Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.688 29 Fisco” (CARVALHO, Paulo de Barros, Curso de Direito Tributário, 21 ed. Saraiva, 2009, p. 581). Pelo que se pode perceber, "fraude é vício de muitas faces" e na sua caracterização e para a aplicação da multa qualificada que aqui se discute, deve estar presente o dolo. Ao final de nossa análise quanto à questão da identificação do sujeito passivo como sendo a pessoa física, dissemos que não encontramos propósito negocial no pretenso "desfazimento" do negócio inicialmente perpetrado, registrado e informado, que não reduzir a carga tributária. Assim, a intenção dos agentes pareceunos clara. Após exauridos os efeitos dos atos praticados, intentouse dar forma a uma outra operação, que não teria mais efeitos econômicos, porque já analisada pelos órgãos de controle, ou efeitos perante terceiros porque já registrada (e assim ficou) na JUCESP. Também já fora divulgada a investidores e futuros compradores/adquirentes, como aconteceu com a JBS, que enfim tinha arquivado era o contrato entre os Mansur e a BERTIN. Não é possível, assim, verificar que não tenha havido intenção de reduzir a carga tributária a ser suportada pelas pessoas envolvidas, quando se busca fazer uma "nova operação", entregando declarações ao Fisco informandoa. Aliás, esse é outro grande argumento do recurso, de que nas declarações entregues ao Fisco, a operação informada era aquela envolvendo duas pessoas jurídicas e não a pessoa física. Mas observamos que na DIPJ/2008, a GOULT, que tinha como sócios BERTIN S/A com 56% e Carlos Alberto Mansur com 44%, declarouse "dona" da GESTIOR (que detinha as ações da VIGOR), no valor de R$ 127.194.825,67. (fl. 1164 a 1185). Na DIPJ seguinte, relativa ao ano calendário de 2008, a GOULT já informa que tinha como sócios BERTIN, com 99,99% e uma outra pessoa física, com 0,01%. Essas declarações também foram entregues à Receita Federal. E o que está correto, afinal? E a CM também se declara em DIPJ "dona" (indireta) das ações da VIGOR? Existe uma inconsistência. O recurso diz que: Ora, é mais que óbvio de que houve um erro de fato no preenchimento dos documentos de fls. 989/996 e 997/999, um mero erro de digitação na data aposta nos documentos, erro este que, absolutamente, não poderia subtrair dos documentos societários a força probatória que a lei lhes atribui, muito menos alterar a verdade dos fatos. O documento de fls. 989/996 é o "instrumento particular de reratificação de alteração do contrato social datada de 30.10.2007 e outras avenças". A fiscalização anotou que ele não fora registrado na JUCESP. Objetivava anular a cisão da CM, a qual tinha transferido a participação na GESTIOR para a GOULT. Ele está datado em 26/11/2007 e diz que seu objetivo era alterar um outro contrato, que só seria registrado na JUCESP em 07/12/2007. Fl. 1702DF CARF MF 30 O documento de fls. 997 a 999 é a revogação da entrada da GOULT como sócia da GESTIOR. Também não foi registrado na JUCESP, segundo anotado pela fiscalização. Tem data de 26/11/2007 e objetiva retificar uma alteração de contrato social que só seria registrada na JUCESP em 09/01/2008. Não faz nenhum sentido que mediante instrumentos que sequer viriam a ser registrados, se alterasse, em novembro, outros instrumentos que só seriam registrados em dezembro e janeiro seguintes. Obviamente que, elaborados posteriormente, os instrumentos foram antedatados e, data vênia, creditar isso a "erro de digitação", considerando as operações que aqui se analisam, é incrível. Temse ainda o seguinte registro, no TVF, em relação à conduta do agente, em relação a registros documentais: Enfim, ao realizar um negócio jurídico e informar a operação de duas formas diversas, está clara a intenção do contribuinte em reduzir a carga tributária incidente sobre a alienação. Para a Receita Federal, apresentou DIPJ's com informações conflitantes, defendendo perante a fiscalização, posteriormente, aquela que mais lhe convinha; para o mercado e para a Junta Comercial, ou seja, para o público, deixou clara a real operação realizada, que o foi pela pessoa física, envolvendo a GOULT. Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputa dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais. Entendese, portanto, que houve sim um retardamento de recolhimento de tributos, que enfim ensejaria um não recolhimento, caso não houvesse o procedimento de ofício que aqui se analisa. Presentes, dessa feita, os antecedentes e os conseqüentes, para a aplicação da multa qualificada. CONCLUSÃO Sendo assim, VOTO por negar provimento ao recurso, mantendo a qualificação da multa. (assinado digitalmente) Marcio Henrique Sales Parada. Fl. 1703DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.689 31 Declaração de Voto Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto. Congratulo a i.Relatora pela clareza do seu relatório e pela bem fundamentada e minuciosa exposição dos fatos e da posição doutrinária adotada. Igualmente, registro os louros que merece a posição do voto que inaugurou a divergência, já verbalmente antecipado nesta sessão. Contudo, considero necessário incluir terceira posição, vez que não me filio a nenhum dos dois votos proferidos. Preliminar: É imperioso que esta turma, antes de adentrar no mérito, analise questão preliminar suscitada pelo Recorrente. Ainda que tenha sido ofuscada pela relevância da discussão de mérito, especificamente acerca da sujeição passiva, não pode ser olvidada: afirma o Contribuinte que houve omissão no acórdão recorrido, senão vejamos: "Ressaltase, desde já, que o auto de infração, contrariando o disposto no §2º do artigo 3º da Lei nº 7.713/88, considerou como custo na apuração que procedeu, um valor que houve por bem arbitrar, e não o custo efetivo de lei. Assim ainda que viesse a ser admitida a mudança arbitrária do sujeito passivo como pretendeu o auto de infração, ainda assim o mesmo estaria eivado de vício por não obedecer o preceito legal quanto ao custo do bem envolvido na apuração de ganho de capital. Sobre esta ilegalidade, aliás, não se pronunciou a decisão recorrida, preferiu ignorála. " fl. 1.481 (grifo no original); Remontando à Impugnação, percebese que o Contribuinte efetivamente levantou a questão do arbitramento do custo de aquisição. Fêlo não apenas no tópico em que combateu o "agravamento" (qualificação) da multa, mas também abriu todo um tópico para o tema, senão vejamos: "A diferença apurada nestes autos não decorre deste fato, a diferença de imposto que se tenta cobrar é decorrente do fato que a fiscalização abandonou o custo apurado para a operação sem explicar o porquê, e adotou um outro custo, artificial, ao seu bel prazer, sem nenhum respaldo legal. A lei estabelece que o custo do ativo alienado é o valor pago por ele. A fiscalização, contudo, atribuiu a venda a quem não era o proprietário do ativo, e com isto teve de dar um passo além, qual seja, o de ungirse da liberdade de decretar o custo do ativo. Decretou este custo de forma a produzir a diferença de imposto que tenta cobrar nestes autos. Diferença, portanto, que não decorre de nenhuma manobra de qualquer um dos contribuintes presentes nestes autos que visasse disfarçar uma operação real com alguma outra que lhe fosse mais favorável." fl. 1.310; (...) Fl. 1704DF CARF MF 32 "Repitase, o que houve foi que a fiscalização, percebendo a correção do lucro apurado pela pessoa jurídica, tentou tributar na pessoa física, arrumandolhe um custo, a seu critério em substituição ao custo de lei." fl. 1.311; (...) "A diferença de imposto, como também já vimos, é decorrente de dois fatores, o primeiro é negar ao contribuinte o legítimo custo da operação e o segundo em transformar dividendos, renda classificada pela lei como não tributável, em rendimento sujeito á tributação. Em ambos os casos, a pretensa diferença no imposto apurada pela fiscalização nada tem a ver com a tal fraude que os autos tentam, mas não conseguem demonstrar." fl. 1.313; (...) "Não é possível, em razão de todas essas transformações, seja da empresa, seja do País, pois só neste período tiveram em curso quatro moedas diferentes, se determinar o custo de um investimento através de uma pesquisa no Registro do Comércio, como fez a fiscalização, em detrimento dos livros Diário da empresa intervenientes e dos livros LALUR. Considerada a complexidade para o controle dos investimentos em empresas coligadas e controladas avaliadas por equivalência patrimonial fica evidente que não há como se chegar ao custo fiscal do investimento sem se fazer valor do LALUR, livro desprezado pela fiscalização, no presente caso. (...) Fato é que o custo dos ativos alienados como declarados é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas. Se encontrou um erro no custo declarado, então porque não autuou a quem de direito? Para evidenciar o que ora se afirma, e facilitar a localização, o impugnante anexa co´pias do Livro Diário e Razão onde foram apurados pela CM Indústria e Comércio os resultados da participação societária, a baixa no LALUR dos custos ali controlados (docs. anexos)..." fl. 1.315 Por sua vez, o acórdão recorrido chegou a incluir tal argumento no relatório, na parte da impugnação ver itens 21, 27, 30, 32, 33 e 34 do relatório do acórdão recorrido (fls. 1.453/1.454). No voto, entretanto, apenas afirmou que: "Em relação aos cálculos do ganho de capital, o impugnante não apresenta nenhuma contestação específica." fl. 1.466; Perguntase: dessa afirmação, é possível entender que a DRJ concordou com o lançamento? que a forma como foi apurada a base de cálculo foi analisada? Não se trata de julgamento; há, pelo contrário, declaração expressa de que não se julgará a matéria. Não se discute aqui o mérito da questão, mas apenas a nulidade por cerceamento do direito de defesa. Voltando à Impugnação, especificamente nos excertos transcritos, percebese que o Contribuinte foi claro em afirmar que entende que o custo de Fl. 1705DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.690 33 aquisição da apuração do ganho de capital deve ser aquele mesmo calculado pela CM Indústria em sua contabilidade, senão vejamos novamente: "A diferença apurada nestes autos não decorre deste fato, a diferença de imposto que se tenta cobrar é decorrente do fato que a fiscalização abandonou o custo apurado para a operação sem explicar o porquê, e adotou um outro custo, artificial, ao seu bel prazer, sem nenhum respaldo legal." fl. 1.310; (...) "A diferença de imposto, como também já vimos, é decorrente de dois fatores, o primeiro é negar ao contribuinte o legítimo custo da operação e o segundo em transformar dividendos, renda classificada pela lei como não tributável, em rendimento sujeito á tributação. Em ambos os casos, a pretensa diferença no imposto apurada pela fiscalização nada tem a ver com a tal fraude que os autos tentam, mas não conseguem demonstrar." fl. 1.313; (...) "Fato é que o custo dos ativos alienados como declarados é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas. Se encontrou um erro no custo declarado, então porque não autuou a quem de direito? Para evidenciar o que ora se afirma, e facilitar a localização, o impugnante anexa cópias do Livro Diário e Razão onde foram apurados pela CM Indústria e Comércio os resultados da participação societária, a baixa no LALUR dos custos ali controlados (docs. anexos)..." fl. 1.315 De outra banda, a Procuradoria da Fazenda Nacional também identificou a contestação dessa questão, tanto assim que discorreu sobre a matéria em suas Contrarrazões: "Já o custo de aquisição corresponde ao valor do capital social de R$ 74.510.099,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e dez mil, noventa e nove reais), dividido em 74.510.099 quotas iguais, com valor nominal de R$ 1,00 cada, conforme constou da segunda alteração do contrato social da Goult Participações. Frisese que, no período, não houve a incorporação de lucros ou reservas de lucro de modo a aumentar o custo de aquisição. A metodologia de cálculo utilizada pela fiscalização não apresenta equívocos. No recurso, ao tratar do “custo das cotas de capital alienadas”, o contribuinte insiste em trazer para discussão fatos que envolvem a empresa CM Indústria e Comércio. Porém, como já foi exposto acima, a verdadeira operação foi realizada pela pessoa física. Dessarte, despiciendo enfrentar alegações que envolvem pessoa jurídica que não auferiu o ganho de capital." fl. 1.544; Enfim, a correta identificação do custo de aquisição é elemento essencial para a apuração da base de cálculo (ganho de capital) e do próprio Imposto de Renda. Fl. 1706DF CARF MF 34 A análise dessa questão poderia ter levado a DRJ a proferir decisão diametralmente oposta. Ou não. Não cabe fazer julgamento de mérito sobre a questão, em sede de preliminar. Certo é, entretanto, que a omissão cerceou o direito de defesa do Recorrente, até porque não tem noção dos argumentos que poderia ter acrescentado ao recurso sobre a matéria. Constatase, portanto, hipótese de omissão no acórdão recorrido, incidindo no art. 59, II, do Decreto nº 70.235/1972, cerceamento do direito de defesa. Da segunda infração: No ensejo da omissão acima, constatase do auto de infração e do TVF que foram imputadas ao Contribuinte duas infrações: "001 GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES/COTAS NÃO NEGOCIADAS EM BOLSA Omissão de ganhos de capital obtidos na alienação de ações ou quotas, conforme Termo de Verificação Fiscal, parte integrante e indissociável deste Auto de Infração." fl. 1.268 (...) "002 OMISSÃO DE RENDIMENTOS Omissão de rendimentos apurados conforme descrita no Termo de Verificação Fiscal, parte integrante e indissociável deste Auto de Infração." fl. 1.271; Segundo o TVF, tratamse dos "acréscimos sobre as parcelas", que foram tributados separadamente do ganho de capital (fl. 1.244). Em relação à segunda infração, o Contribuinte argumentou na impugnação que: "A segunda pretensa infração, apontada no auto de infração é qualificada, singelamente, como "OMISSÃO DE RENDIMENTOS". Esta omissão teria se configurado pela não inclusão na Declaração de Rendimentos do impugnante de trinta e seis parcelas entradas na conta bancária do impugnante, nos meses de dezembro de 2.007 a dezembro de 2.010, exceto no mês de fevereiro de 2.010, totalizando a quantia de R$ 75.376.244,47 (...)." 1.290; "Tais valores, também, correspondem a dividendos creditados ao impugnante e regularmente declarados em suas Declarações de Ajustes (fls. 1144 e seguintes e 1155 e seguintes)" fl. 1.293; Novamente, o acórdão quedou silente sobre a matéria. Dessa vez, porém, não há uma única linha discorrendo sobre a contestação, nem mesmo para afirmar que foi genérica e não merece julgamento. Imperioso ressaltar que o Contribuinte voltou a contestar a segunda infração no seu Recurso Voluntário, nos exatos termos da Impugnação (fl. 1.481). Pois bem. Tratase de nova omissão no acórdão recorrido, configurando nova hipótese de cerceamento do direito de defesa. Fl. 1707DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.691 35 MÉRITO: Tendo sido vencido em relação às nulidades do acórdão recorrido, dou continuidade ao julgamento da lide. Da Infração 001: Chegando à questão central dessa lide, encontrome numa situação efetivamente curiosa. Como já foi suscitado aqui pelo patrono, foi demonstrado nos pareceres e é de conhecimento público, a Fazenda Nacional tem tendência a desconsiderar atos de reorganização social que, sem o que denominam "propósito negocial", findem por levar a estruturas que diminuem a tributação. É o caso, por exemplo, da empresa veículo utilizadas em relação ao ágio ou à alienação de ativos especificamente no tocante à apuração de ganho de capital. Por sua vez, os Contribuinte muito se utilizaram dessa estrutura criação de uma empresa cujo propósito é exatamente transferir um determinado ativo para outrem, operação de casa e separa etc. , entre outros motivos, por levar a uma economia tributária. Este e.CARF tem muitas vezes aceito essa posição apresentada pela Fazenda e afastado negócios jurídicos formalmente perfeitos ao argumento de que não têm uma "substância" subjacente. Por exemplo: Acórdão CSRF nº 9101002.429, de 18/08/2016: OPERAÇÕES DE REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. INADMISSIBILIDADE. Não se pode admitir, à luz dos princípios constitucionais e legais entre eles os da função social da propriedade e do contrato e da conformidade da ordem econômica aos ditames da justiça social , que, a prática de operações de reorganização societária, seja aceita para fins tributários, pelo só fato de que há, do ponto de vista formal, lisura per se dos atos quando analisados individualmente, ainda que sem propósito negocial. GANHO DE CAPITAL. CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE SEM PROPÓSITO NEGOCIAL. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. O sólido e convergente acervo probatório produzido nos autos demonstra que o contribuinte valeuse da criação de uma sociedade, para a alienação de bens classificados em seu ativo permanente, evadindose da devida apuração do respectivo ganho de capital, por meio de simulação, que é reforçada pela ausência propósito negocial para sua realização. (...) Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte, vencido o Fl. 1708DF CARF MF 36 conselheiro Rafael Vidal de Araújo, que não o conheceu. E, no mérito, em negarlhe provimento: i) por maioria de votos, quanto ao planejamento tributário abusivo, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), que lhe deram provimento; e ii) por voto de qualidade, quanto à qualificação da multa, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), que lhe deram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Luís Flávio Neto e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio). No voto vencedor, o conselheiro relator esclareceu que as razões pela qual entendeu inválido o planejamento efetuado. Convém breve transcrição: " Alegam as contribuintes, em seu recurso especial, que “não se deve perder de vista o fato de que a Constituição Federal consagrou a autonomia privada como direito fundamental, direito este consistente na aptidão conferida ao cidadão em se autorregular em suas relações privadas, desde que observados os limites de licitude e interesse coletivo constantes do ordenamento jurídico brasileiro.” (efls.793) Ora, é justamente o interesse coletivo que deve delimitar aquela autonomia privada. Explicase. Até poucas décadas atrás, assim no Brasil, como no mundo, prevalecia o pensamento liberal, que privilegiava a liberdade econômica e a propriedade privada, em detrimento de quaisquer outros interesses sociais. Tal pensamento, com o correr dos anos, quedouse superado por aquele que passou a priorizar o bemestar social. A Constituição Federal de 1988, em vários de seus dispositivos, deixa claro esse novo posicionamento (...) É, pois, o interesse coletivo que impede que as empresas ajam, em seus negócios particulares, como se não pertencessem a uma coletividade, a uma comunidade, a um grupo social. É bem verdade que, a se entender que eventual vantagem fiscal que se possa ter em razão de determinada estrutura de negócios seja impeditiva à realização do próprio negócio em si, terseia a invalidade, para fins tributários, de boa parte das incorporações, fusões e cisões que comumente ocorrem nas atividades empresariais (mas não é este o caso presente). Isso porque é evidente que, para o emprego dessas operações de rearranjo societário, pelas empresas, são analisados, dentre outros aspectos, também o aspecto tributário. Fl. 1709DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.692 37 Porém, o que não se pode admitir, à luz dos princípios constitucionais e legais acima expostos entre eles os da função social da propriedade e do contrato e da conformidade da ordem econômica aos ditames da justiça social —, é que, para a adoção dessas operações, seja analisado, única e exclusivamente, o seu aspecto tributário (falta de propósito negocial). Por outro lado, a adoção de operações de reorganização societária, pelas empresas, de forma a esconder, ou subtrair à incidência tributária, a verdadeira operação da qual resulta as operações, implica a consideração dessas operações como simuladas, com a consequente qualificação da multa de ofício aplicada. Isso porque, não possuindo essas operações qualquer propósito negocial, configuramse, antes, meros artifícios jurídicos, simples truques organizacionais, objetivando burlar a tributação, ao aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas (“empresas veículo”, “interpostas pessoas”, “testas de ferro”, “laranjas”, etc.) daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem, na precisa dicção do § 1º do art. 167 do Novo Código Civil, e dessa forma, impedindo ou retardando, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, ou das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente (art. 71 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964). No presente caso, o que se verifica é que a reorganização societária procedida consubstanciouse em operação simulada que visou, exclusivamente, uma indevida redução tributária sobre alienações de imóveis e florestas. Basta ver que a empresa Saiqui, originária de cisão da Transpinho como muito bem ressaltado na decisão da DRJ e no voto vencedor da decisão recorrida não possuía qualquer estrutura física ou mãodeobra apta a desenvolver as atividades objeto de seu contrato social: (...) Além disso, os imóveis por ela (Saiqui) transacionados, e que foram, todos, recebidos de seus sócios mediante integralização de capital, foram a eles mesmos restituídos, por meio de distribuição de lucros, com a consequente descapitalização total da empresa ao final dessas operações. Assim, procedente a afirmação da Fazenda Nacional, em contrarrazões, de que, na realidade, estáse diante de uma “empresa veículo, com único intuito de diminuir a tributação sobre as operações realizadas” (efls. 960). Ou seja, em que pese a regularidade formal das operações, como a venda dos ativos foi feita de por meio de operação que Fl. 1710DF CARF MF 38 escondeu a verdadeira operação realizada, caracterizando a simulação com o objetivo exclusivo de economia tributária. A simulação, que é dolosa, no caso em questão, restou caracterizada pelo dolo específico do tipo previsto art. 44 da Lei 9.430/1996, que remete ao art. 71 da Lei n. 4.502/1964, impondo a multa qualificada." Imprescindível, entretanto, ler a brilhante Declaração de Voto proferida também neste mesmo acórdão nº 9101002.429, e que transcrevo alguns trechos: "Colhese do clássico ensinamento de EZIO VANONI1 que, “no direito privado, a causa é sinteticamente definida como a razão econômicojurídica do negócio, como a finalidade a que se destina o negócio objetivamente considerado. Por outras palavras, causa é a função prática que caracteriza o negócio jurídico, em garantia da qual o direito concede a sua tutela”. No caso, a causa da reorganização patrimonial ora sob julgamento consiste na segregação de parcela do patrimônio do particular para integralização de capital personalidade jurídica de entidade reconhecida pelo Direito para a exploração de atividade econômica no setor imobiliário. A motivação de reorganizações patrimoniais dessa natureza pode ser muito variada e, diante de seu caráter íntimo, não apresenta relevância jurídica. (...) (...) No Brasil, o particular possui um núcleo de direitos livre de intervenções, dentro do qual está inserido o planejamento tributário1. Mais especificadamente, essa garantia dos contribuintes decorre das liberdades econômicas asseguradas pelo Constituinte. Conforme leciona TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR2, essas liberdades atribuem ao ser humano um espaço que não pode ser absorvido pela sociabilidade, tendose como reconhecida a capacidade de “reger o próprio destino, expressar a sua singularidade como indivíduo, igual entre iguais: o homem como distinto e singular entre iguais”. Não há dúvidas que o Estado, por meio da tributação, deve participar dos resultados econômicos bem sucedidos dos particulares a ele conectados. Conforme o princípio da legalidade, o legislador deve eleger, dentro de seu respectivo âmbito de competência tributária, fatos geradores que captem capacidades contributivas conforme uma dosagem adequada. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a Constituição Federal garante aos particulares a existência desse âmbito de liberdade, outorga ao Poder Legislativo a competência para regular e interferir em seu exercício, inclusive no que diz respeito aos planejamentos tributários. Não se trata de questão reclusa ao Direito brasileiro: geralmente, há nos ordenamentos jurídicos estrangeiros normas gerais general anti avoindance rules – 1 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 7577. 2 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 196. Fl. 1711DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.693 39 GAAR) ou normas específicas (specific anti avoindance rules – SAAR) para a reação aos planejamentos tributários não tolerados. As normas gerais de reação ao planejamento tributário se prestam a alcançar algumas ou todas as espécies tributárias, com a prescrição de critérios para a identificação do “abuso”. Já as normas específicas incluem no âmbito de incidência da norma tributária, casuisticamente, situações que a experiência tenha demonstrado serem utilizadas pelo contribuinte como substitutas não tributadas ou ainda menos onerosas e que, por decisão do legislador, devem ser submetidas àquela tributação mais onerosa. No Brasil, diante de decisão clara do legislador brasileiro, compete à administração fiscal o papel de atribuir eficácia à intervenção estatal sobre as liberdades econômicas dos particulares, especialmente sobre o seu patrimônio. Essa intervenção, no entanto, depende prévia e clara autorização do legislador. (...) Há mais um esclarecimento que se mostra necessário em face do planejamento tributário sob análise: não há qualquer norma, no ordenamento jurídico brasileiro, que autorize distinguir reorganizações patrimoniais motivadas por proposítos tributários ou extratributários. A adoção desse critério, à sombra da lacuna legislativa, entre muitos outros óbices que podem ser suscitados, encontra vedação no art. 108 do CTN, por ofensa à equidade e aos princípios gerais de direito público. A título ilustrativo, suponhase que um casal (“A”) vislumbre na reorganização patrimonial, com integralização de todos os seus imóveis em uma pessoa jurídica imobiliária, a forma de evitar longas disputas entre os herdeiros após a sua morte. Suponha se, ainda, que o casal vizinho (“B”), que não possui filhos, decida conduzir reorganização semelhante, mas com o único motivo de usufruir do regime de tributação do lucro presumido. Suponhase, então, que ambos os casais conduzam reorganização semelhante, passando a explorar, de fato, a atividade imobiliária por meio de suas respectivas pessoas jurídicas. Nesse exemplo, haveria tratamento não isonômico entre os casais “A” e “B” caso, para fins de opção à sistemática do lucro presumido, fosse utilizado como critério de discriminação a existência de motivos extratributários (“propósito negocial”). Enquanto o primeiro casal (“A”) poderia gozar da opção de submeter os rendimentos com aluguel e venda de bens imóveis à tributação conforme a sistemática do lucro presumido, o casal vizinho (“B”) restaria privado dessa opção, de forma submeter rendimentos de natureza semelhante obrigatoriamente à tributação pelo lucro real. Fl. 1712DF CARF MF 40 No entanto, NÃO há lei que autorize a referida discriminação com base na aferição subjetiva de motivos extratributários (“propósitos negociais”). Apenas se poderia atribuir tratamento distinto entre contribuinte que se encontram em condições semelhantes (“A” e “B”) caso o legislador houvesse prescrito tal discrímen, com o delineamento do que viriam a ser esse conceito de “propósito negocial” até hoje não delineados e desconhecidos no Direito positivo brasileiro. A jurisprudência do CARF tradicionalmente reconhece os efeitos jurídicos de reorganizações patrimoniais reais, isto é, que não contenham vícios de fraude, simulação ou dolo para a evasão de tributos. Vide, nesse sentido, os acórdão n. 10323357, n. 3402 001.908, n. 3302003.138." (...) No caso, a simulação a que se refere o art. 149, VII, do CTN, corresponderia à “mentira” quanto à prática de um ato relevante para fins tributários. Sonegase da Administração Fiscal a verdade dos fatos ocorridos. O ato simulado é um ato aparente, que não existe no mundo dos fatos, mas apenas de forma precária no mundo jurídico. Na simulação absoluta, o contribuinte buscaria construir determinado invólucro que, caso real, lhe atribuiria benefícios fiscais, embora nada exista. Na simulação relativa, a ocorrência do fato gerador de uma obrigação tributária seria ocultada pela oposição do ato simulado. No Direito tributário brasileiro, então, a simulação se presta à sonegação, ou seja, oo ilícito. O que se combate não é a utilização de formas anormais, atípicas, para se alcançar determinado resultado. Combatese o ato doloso da evasão de tributos em que as partes realizam um determinado negócio jurídico, mas declaram ao fisco que outro teria sido realizado. Notese que para se verificar a ocorrência de simulação não se teria relevância o efetivo propósito de uma operação, como a economia de tributos. Interessaria demonstrar que, por meio dos negócios jurídicos apresentados pelo contribuinte, foram ocultadas do Fisco as verdadeira configuração dos atos praticados pelo contribuinte. Nesse cenário, embora muito se discuta o assunto, o legislador complementar brasileiro sempre limitou os poderes da administração fiscal para desconsiderar atos praticados pelo contribuinte, restringindoos para tornar inoponíveis apenas atos “simulados”. Não há a outorga, pelo legislador competente (lei complementar), para que a administração fiscal considere inoponível atos que não possam ser qualificados como “simulados”. Isso significa que o legislador competente não considera o conceito de “simulação”, tal como prescrito pelo Direito civil, tão estreito a ponto de permitir atos que não deveriam ser tolerados, nem tão amplo a ponto de permitir arbitrariedades por parte do fisco. O legislador tributário complementar, desde e edição do CTN (anos 60) até hoje, considera suficiente que a administração fiscal reaja exclusivamente em face de atos Fl. 1713DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.694 41 simulados, fraudulentos, com o dolo da evasão de tributos, reconhecendose a legitimidade das demais práticas (planejamento tributário). A apurada análise da questão exige que se diferencie a simulação dos negócios jurídicos praticados da simulação da pessoa jurídica. Nesse primeiro, reconhecese a personalidade jurídica das pessoas jurídicas envolvidas, mas evidenciase a simulação dos negócios jurídicos praticados por estas. Embora não descarte a priori a possibilidade de simulação da própria pessoa jurídica, pareceme tratase de hipóteses rara. A “pessoa jurídica” é ficção criada pelo Direito para segregarse uma personalidade jurídica dotada de direitos, inclusive patrimoniais, e apta a assumir deveres, com autonomia em relação ao seus sócios. A existência da pessoa jurídica, portanto, é questão mais de direito que de fato. Parece mais factível a ocorrência de simulação de negócios jurídicos, em que se atribuam a pessoas jurídicas existentes rendimentos que não decorram, verdadeiramente, de suas atividades. Desse modo, no âmbito do Direito civil e, por remissão do legislador complementar, também do Direito tributário, são reais e existentes atos de transmissão de direitos que efetivamente façam com que seja alterado o titular de direitos e obrigações de um determinado acervo patrimonial. Ainda que a reorganização patrimonial possa ser verificada documentalmente, isso pode ser irrelevante para fins tributários se tais documentos contivessem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. Caso se simule a segregação de fontes produtoras de receitas, submetendo indevidamente parte ou todos os seus rendimentos à tributação mais branda decorrente do lucro presumido, estará sujeito ao lançamento de ofício da diferença do tributo que seria devido conforme o lucro real. Caso não seja possível a apuração do lucro real, deve ser apurado, nos termos da legislação, o lucro arbitrado. Diante de simulação, com o dolo específico da evasão de tributos, deverá, ainda, ser imposta multa qualificada. Operações que apenas simulam a segregação de fontes produtoras de rendimentos devem ser transparentes aos olhos da fiscalização tributária: inoponível, a operação dissimulada, por transparente aos olhos do fisco, conduz a que se desvende a operação verdadeira que se procurou ocultar, à qual devem ser aplicadas as consequências tributárias correspondentes à espécie. A aferição da simulação, contudo, parece requerer atenção distinta diante de empresas com rendimentos ativos ou passivos. No caso da restruturação societária em que se segrega uma atividade operacional (por exemplo, produção de peças de reposição), a demonstração do efetivo exercício da atividade econômica pela entidade segregada (no exemplo, a produção das peças ou a sua terceirização). Outro exemplo emblemático consiste em uma indústria de calçados, tributada Fl. 1714DF CARF MF 42 pelo lucro real, segregar a sua atividade de distribuição e constituir oito distribuidoras de calçados, sem estrutura física ou funcionários suficientes para a realização de suas atividades típicas, passando a realizar a venda a preço de custo a essas empresas que, tributadas pelo lucro presumido, realizariam a venda a preço de mercado. A inexistência de estrutura operacional e negocial para o desempenho das atividades de distribuição de calçados, nesse segundo exemplo, pode ser determinante para evidenciar a simulação, de forma a tributar os rendimentos nas mãos da indústria, que verdadeiramente os auferiu. Já no caso de rendimentos passivos, como aplicações financeiras, a estrutura operacional requerida para a sua condução tende a ser, por natureza, ínfima. Suponhase, por exemplo, que um casal com 15 imóveis constitua uma pessoa jurídica imobiliária, integralizandoos ao seu capital social. O marido seria o administrador da empresa, enquanto que a esposa cuidaria das contas a pagar e a receber. Ambos receberiam pro labore e dividendos na proporção da participação acionária. Os contratos celebrados, os encargos assumidos, as receitas recebidas, as negociações etc. realizados em nome da pessoa jurídica. Seria exigida alguma estrutura profissional sofisticada, com outros funcionários ou uma sala locada para a sua sede, a fim de que se reconheça a legítima existência dessa pessoa jurídica para fins de opção ao lucro presumido? A resposta parece ser negativa, embora o volume de negócios imobiliários realizados possa demandar aferição diferenciada. Este Tribunal administrativo mantém longa tradição ao tratar da segregação operacional e societária de fontes produtoras, com correta intolerância a restruturações comprovadamente simuladas, sujeitandoas, inclusive por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), às multas qualificadas. Vide, nesse sentido, acórdãos n. 10307260 e 101 95.208. (...) Reside na má compreensão dessa questão aparentemente teórica um enorme perigo. Ao justificar os seus atos exclusivamente a partir de uma controvertida concepção sobre princípio da solidariedade, de forma a tornar pouco relevante a autorização de decisão clara do legislador para a intervenção no patrimônio particular (princípio da legalidade), a administração fiscal se desvia da Constituição Federal. Ao adotarse como justitificativa um suposto dever fundamental de pagar tributos, pela exploração do princípio da capacidade contributiva em uma controvertida vertente ativa (isto é, tributase todo aquele que apresente capacidade contributiva, com a flexibilização da legalidade), fragilizase gravemente, ainda, a eficácia dos princípios da segurança jurídica, da certeza do direito, de iniciativa privada, de livre concorrência e da igualdade, pois não há como prever questões fundamentais à vida social e econômica, como: O que, afinal, ostenta fato gerador dos tributos? Quem deve pagar? A tributação entre concorrentes de Fl. 1715DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.695 43 mercado fica condicionada ao arbítrio de um agente fiscal na mensuração de critérios próprios para a estabilização da justiça social via tributos? As normas constitucionais relevantes para a matéria, especialmente aquelas que asseguram o Direito à livre iniciativa, à livre concorrência, à legalidade, à segurança jurídica, à igualdade, à solidariedade e à observância da capacidade contributiva na eleição legal do fato gerador, obrigam que se reconheçam premissas fundamentais para que este julgamento seja coerente, como: (i) não se sustentam, no Brasil, teses sobre o dever fundamental de pagar tributos por todas as capacidades contributivas descobertas, já que, diferente dessa suposta “sujeição” automática e constante ao arbítrio da administração, vige com dignidade Constitucional o dever do particular contribuir com parcela de seu patrimônio sempre que incorrer no fato gerador previamente escolhido por decisão do legislador competente; ii) a norma constitucional se limita a atribuir competência ao legislador para regular a liberdade do contribuinte à realização de seus planejamentos tributários, mas não possui eficácia para legitimar, de forma imediata, a reação da Administração tributária a situações consideradas abusivas; iii) para a reação ao abuso, deve ser enunciada lei complementar de reação a planejamentos tributários realizados conforme determinado padrão não tolerado, a qual encontraria limites materiais nos nas normas constitucionais analisados. O peculiar detalhismo da Constituição brasileira não chegou ao ponto de prever uma norma geral de reação a planejamentos tributários considerados abusivos, mas estabeleceu que compete ao legislador complementar regular a matéria por meio de norma geral (“GAAR”) e, ao legislador ordinário, a competência para prescrever normas específicas (“SAAR”). (...) Nesse cenário, retornase à questão: qual a competência da administração fiscal e, ainda, dos Conselheiros do CARF, para desconsiderar os efeitos jurídicos de atos praticados pelo contribuinte e que tenham como consequência a redução ou o diferimento do ônus fiscal? A resposta parece ser clara: a administração fiscal apenas pode considerar inoponíveis atos simulados. Como não há lei que outorgue à administração fiscal a compentencia para a desconsideraração dos efeitos jurídicos que defluiriam de atos que não possam ser qualificados como simulados, não é suficiente que a fiscalização subjetivamente repute um determinado planejamento tributário como “abusivo”. Nos limites da competência que me foi outorgada pelo sistema jurídico vigente, portanto, cabeme julgar como correto o lançamento nas hipóteses em que a administração fiscal tenha cumprido o seu ônus probatório de demonstrar a ocorrência de atos simulados pelo contribuinte, engendrados com o dolo de evadir tributos, o que enseja a qualificação da multa para 150% Fl. 1716DF CARF MF 44 e todas as demais consequências. Com a mesma carga mandatória, cabeme julgar como indevida, por ilegalidade, a desconsideração de restruturação patrimonial efetivamente levada a termo pelo contribuinte, em que não reste demonstrada a ocorrência de atos simulados, fraudulentos, com o dolo de evadir tributos." (grifos no original) Esse acórdão da Câmara Superior não é o único a tratar da matéria. Outro curioso exemplo pode citado: Acórdão CARF nº 2202003.318, de 13/04/2016: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. NEGÓCIO JURÍDICO INDIRETO. SIMULAÇÃO. A simulação existe quando a vontade declarada no negócio jurídico não se coaduna com a realidade do negócio firmado. O fato gerador decorre da identificação da realidade e dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos, e não de vontades formalmente declaradas pelas partes contratantes. (...) Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento parcial para compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ZMM Empreendimentos e Participações Ltda., relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto, Dílson Jatahy Fonseca Neto e José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), que deram provimento integral. Neste, o relator esclareceu que: "Pelo conjunto probatório constante dos autos e pelos argumentos apresentados exaustivamente no Termo de Encerramento da Ação Fiscal, parte integrante do Auto de Infração, não me resta dúvida de que ocorreu uma simulação por parte do fiscalizado, com o objetivo de se submeter a regras mais favoráveis de tributação em relação aos valores por ele recebidos da empresa FERROUS, em virtude dos serviços prestados. (...) O Recorrente não logrou contrapor de forma convincente os argumentos da Fiscalização, notadamente se analisarmos o conjunto das transações, sem focar em cada uma individualmente. Cada transação isolada, do ponto de vista formal, pode até ostentar legalidade, porém quando analisado o conjunto das atividades percebese que os atos praticados possuíam finalidade distinta daquela que parecia. Na simulação, a declaração recíproca das partes não corresponde à vontade efetiva, pois ela se caracteriza pela divergência entre o ato aparente (realização formal) e o ato que se quer materializar (oculto). A causa da ocultação está sempre Fl. 1717DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.696 45 voltada para se alcançar algum benefício que não poderia ser obtido caso se utilizasse das vias normais. Para que não se configure simulação se torna necessário que as partes queiram praticar esses atos não apenas formalmente, mas também materialmente, porquanto na simulação os atos exteriorizados são sempre desejados pelas partes, mas apenas formalmente, pois materialmente o ato praticado é outro. Pode ser citado outro exemplo, ainda mais recente, de julgamento no qual foi desconsiderado o planejamento tributário, especificamente da "empresa veículo" no acórdão CARF nº 1301002.156, de cuja fundamentação extraíse que: "Consta do Termo de Constatação Fiscal, anexo aos autos de infração, que a recorrente era detentora de 836.074 ações ordinárias do capital social da Pisa Papel, no valor de R$ 2.645.325.98, e o restante das ações da Pisa Papel eram detidas pela OESP Gráfica e pelas pessoas físicas do Grupo OESP. Por decisão estratégica do Grupo OESP, no anocalendário de 2000, decidiuse pela alienação das participações societárias detidas nas empresas Paranaprint, Pisa Papel e, indiretamente na Pisa Florestal, à Norske Skog Pisa. Para tanto, as empresas envolvidas celebraram um contrato definindo todos os passos a serem adotados pelas partes com vistas a alcançar a transferência do controle acionário das empresas do Grupo OESP acima mencionadas, contemplando a utilização de uma holding destinada exclusivamente para esse fim, a Popescu Participações S/A. (...) (...) No recurso voluntário apresentado, a recorrente sustenta que os atos societários foram efetivamente realizados e gozam de plena validade jurídica. Não admite que houve simulação pois as operações pactuadas entre as partes não aparentaram direito diverso daquele que foi realmente contratado, não contém quaisquer declarações ou cláusulas não verdadeiras, assim como não causaram quaisquer prejuízos a terceiros, inclusive ao Fisco. (...) Analisando as provas trazidas aos autos, firmei convicção de que os atos societários praticados pela recorrente são simulados. Ao contrário do que sustenta a recorrente, os negócios jurídicos realizados, se analisados isoladamente são formalmente válidos, entretanto, da análise conjunta, extraise que em sua essência se prestaram a fins diversos do que os declarados, caracterizando a hipótese de simulação prevista no inciso II do art. 102 do antigo Código Civil [de 1916, vigente à época dos fatos], conforme a seguir demonstrado: A empresa Popescu Participações S/A, a despeito de constar no contrato social que seu objeto seria a participação em outras sociedades, na verdade, foi verdadeira empresa veículo, criada Fl. 1718DF CARF MF 46 especificamente para implementação do "planejamento tributário" engendrado. (...) Assim, nas operações societárias implementadas não se verifica a intenção efetiva das partes em compor uma sociedade. Certamente, a intenção dos contratantes não era aquela que aparentava ser, o que, efetivamente, caracteriza a simulação." De outro lado, também não são poucos os julgamentos que aceitam as operações indiretas realizadas pelo contribuinte, mesmo quando muitas delas são realizadas em um mesmo dia, como se extrai dos seguintes precedentes: Acórdão CARF nº 1201001.618, de 10/04/2017: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. LEGALIDADE E VERACIDADE DAS OPERAÇÕES. APROVAÇÃO DA REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA POR AUTORIDADES FISCALIZADORAS E REGULADORAS. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO OU ARTIFICIALIDADE. EXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL "BUSINESS PURPOSE". OPONIBILIDADE AO FISCO. Não pode o fisco desconsiderar operações sob entendimento de terem sido executadas de forma simulada ou artificial quando todo o conjunto das operações foi monitorado, avaliado e aprovado pelos órgãos fiscalizadores e reguladores como o BACEN, CADE e CVM. O contribuinte não é obrigado e optar pela via onerosa do ponto de vista fiscal quando existem outras opções que se apresentam mais eficientes, desde que possuam essência alinhada com a forma adotada e possuam propósito negocial (business purpose). A existência de "step transactions" e a execução de diversas etapas no mesmo dia, por si só, não são suficientes para viciar a operação ou negarlhe oponibilidade ao fisco, ainda mais quando todas as possíveis opções identificadas pelo autoridade fiscal também se baseiam em "step transactions" executadas num curto espaço de tempo. (...) Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em DAR provimento ao Recurso Voluntário. A Conselheira Eva Maria Los acompanhou o Relator pelas conclusões e apresentará declaração de voto. Vencidos os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Roberto Caparroz de Almeida, que negavam provimento ao Recurso Voluntário. Ao longo do voto, o Relator esclareceu que o simples fato de que uma operação societária se deu por diversos "passos", e mesmo que estes "passos" tenham se dado em um único dia, não é suficiente para configurar como simulado o negócio. Vejamos: "Como já dito, a fiscalização parte do racional que a Recorrente executou reorganização societária que cujas etapas vistas de forma isolada ou em conjunto, se mostraram artificiais e Fl. 1719DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.697 47 desconexas com a realidade e cujo objetivo único foi o ganho fiscal representado pela não tributação de um ganho de capital que deveria ter sido tributado. Além de questionar a natureza de cada uma etapas, a ordem em que ocorreram e os valores pelos quais foram registrados, a fiscalização propõe alternativas (devidamente corrigidas pela DRJ) para que a Associação entre Itaú e Unibanco ocorresse e, claro, o tributo tido como devido fosse pago. Diz a fiscalização que a operacionalização de diversos atos "step transactions" num período diminuto de tempo demonstra de forma clara a artificialidade da operação. Enxergo aqui uma contradição enorme no argumento do fiscal. Isso porque, ao mesmo tempo em que depõe contra as chamadas "step transactions", traz alternativas que também se operacionalizam através de várias etapas, ou seja, que também são "step transactions". Aliás, conforme acima demonstrado, a opção trazida pelo fiscal e pela DRJ incorporam mais "steps" que o modelo adotado pela Recorrente. De qualquer forma, me abstraindo de qualquer preconceito, vejo no caso concreto ser plenamente justificável a adoção de uma reorganização societária baseada em diversas etapas que ocorrem quase que simultaneamente. (...) Os objetivos eram unir as operações dos bancos no Banco Itaú (que era uma companhia fechada) e unir os acionistas no Itaú Holding (ora Recorrente). Para alcançar tais objetivos era inevitável o cumprimento de etapas em seqüência, sendo impossível fazer isso através de um único ato. Por outro lado, não haveria sentido que se aguardasse um tempo entre uma etapa e outra, pois, os objetivos finais que eram a união de bancos e acionistas deveria ser alcançado o mais rápido possível. Aliás, cabe aqui uma pergunta: existe uma regra quanto ao tempo que deve transcorrer entre uma operação e outra para tornar o conjunto de atos legal? Seria uma semana, um mês, um ano? Logicamente, não existe essa regra. O que deve ser avaliado é se o caso concreto justifica tal encadeamento simultâneo de atos societários. (...) Minha intenção neste tópico é discorrer sobre o direito do contribuinte de efetuar suas escolhas que, desde que legais e não artificiais ou simuladas, são válidas, ainda que isso leve à uma redução da tributação. Tratase do direito do contribuinte de escolher o melhor caminho, não cabendo ao Fisco apontar qual seria e, menos ainda, desconsiderar as opções escolhidas pelo Fl. 1720DF CARF MF 48 contribuinte para definir uma diferente que implique em maior tributação. Ora, parece óbvio mas o óbvio tem que ser dito: se o contribuinte tem a opção de escolher o melhor caminho, aquele que seja mais eficaz do ponto de vista fiscal, temos também que inexiste lei que obrigue o contribuinte, diante de 02 opções legais e válidas, a escolher aquela que lhe traga tributação mais severa. Também pode ser citado: Acórdão CARF nº 1302001.980, de 14/09/2016: SIMULAÇÃO. EMPRESA VEÍCULO. NEGÓCIO INDIRETO. Não se deve confundir simulação relativa com negócio jurídico indireto, pois quando verificamos o que os autuantes denominam como "empresa veículo", notase perfeitamente que tal sociedade foi constituída para surtir os efeitos que lhes eram próprios e não para dissimular outros negócios jurídicos. O fundamento central da autuação demonstrouse frágil para justificar a desconsideração dos atos praticados, ao verificarmos que não havia obstáculos na legislação tributária para que o mesmo resultado tributário fosse obtido sem a utilização das ditas empresas veículos. ABUSO DE DIREITO. ART. 116, PARÁGRAFO ÚNICO, CTN. INAPLICÀVEL O parágrafo único do art. 116 do CTN é uma norma de eficácia limitada, pois só adquirirá plena eficácia a partir do momento em que for publicada a sua lei ordinária integrativa. Se a Lei Complementar 104/01 exigiu que a lei ordinária estipulasse procedimentos específicos como condição para a aplicação da norma tributária específica sobre abuso de direito (parágrafo único do art. 116 do CTN), não há como tal condição ser dispensável para a aplicação da norma de direito privado sobre o abuso do direito (art. 187 do CC) no campo tributário. (...) Acordam os membros do colegiado: em rejeitar a preliminar de decadência suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Marcelo Calheiros Soriano. Os Conselheiros Ana de Barros Fernandes Wipprich e Luiz Tadeu Matosinho Machado votaram pelas conclusões. Acordaram ainda, por unanimidade, em negar provimento ao recurso de ofício Expostas as diversas posições e entendimentos, faço um breve resumo da lide: De um lado, o Contribuinte admite que decidiu adotar a estrutura de criar uma empresa para vender o ativo diretamente na pessoa física com o propósito de gerar economia tributária. Em tese, a tributação diretamente pela pessoa física levaria a uma despesa Fl. 1721DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.698 49 tributária menor, haja vista que incorre(ia) em alíquota de 15%, antes os 15% + 10% do IRPJ e 9% da CSL. Acontece que, realizando as contas, percebeu que não haveria tributação de ganho de capital se a alienação fosse feita pela pessoa jurídica, vez que seria incorporado ao custo de aquisição um ágio. Além disso, percebeu o risco de que a estrutura a criação de uma empresa para figurar como intermediária na alienação do ativo fosse desconsiderada pelo Fisco ao argumento de ser abusiva. Portanto, decidiu volver sobre seus próprios passos para realizar a tributação da forma corriqueiramente aceita pela Fazenda Nacional, i.e., pela pessoa jurídica que historicamente era proprietária do ativo. Diante da autuação, o Contribuinte passou a defender a desconsideração do negócio efetuado por meio da empresa veículo argumentando em petição juntada após o Recurso Voluntário que, "Assim, à vista do entendimento em voga na seara do Direito Tributário, cristalizado, sobretudo, neste Colendo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, a transferência da participação da empresa CM na empresa GESTIOR para a GOULT, bem como a operação consubstanciada no contrato de venda das quotas sociais da GOULT pelo Recorrente à BERTIN, poderiam ser maculadas pelo véu da fraude ou simulação, já que foram realizadas justamente às vésperas da concretização do negócio entabulado, dando ensejo a suspeitas de qual o real intento almejado pela súbita transferência da VIGOR em operações estruturadas, com o fim exclusivamente de obter economia tributária. Como consabido, este Colendo CARF orientase justamente no sentido de retirar os véus que porventura tentam encobrir os negócios jurídicos realizados, a fim de buscar sua real essência e, por conseguinte, a tributação a que eles devem se sujeitar, o que, in casu, levaria à inexorável conclusão de que o único negócio que poderia ser considerado válido é o que fora previsto no primeiro contrato, firmado entre as empresas CM e BERTIN." fl. 1.562; Em outras palavras, além de afirmar que seus atos de cisão da CM Indústria e transferência do ativo para a GOULT foram desconstituídos, argumenta que deve ser adotada a "teoria do filme", vez que historicamente o ativo pertencia à pessoa jurídica e que só foi transferido à pessoa física quando da formalização da alienação. De outro lado, diante do vulto econômico da operação, a Fazenda Nacional iniciou sua fiscalização buscando analisar o ágio. Fosse capaz de glosálo, geraria ganho de capital para tributar. Acontece que não logrou fazêlo. Ainda assim, no âmbito de sua fiscalização, entendeu que a alienação do ativo não havia sido realizada como descrevia o Contribuinte. Ao invés de ter sido vendida diretamente pela proprietária histórica, o ativo havia sido incorporado a uma empresa e havia negócio de venda realizado diretamente pela pessoa física. Decidiu por aceitar a estrutura que sempre recusa: considerou válido um negócio elaborado por meio de empresa veículo exatamente para economizar tributação. Para complicar, acusa ocorrência de fraude ante a Fl. 1722DF CARF MF 50 apresentação de documentos que, entende, foram elaborados com o único fim de impedir à Fazenda Nacional o conhecimento do fato gerador. Defende, no auto de infração, na DRJ e nas Contrarrazões ao Recurso Voluntário a manutenção do negócio jurídico formulado por meio de empresa veículo, argumentando que o fato de historicamente o ativo pertencer à pessoa jurídica é irrelevante e que não é possível desconsiderálo vez que ele se revestiu de todas as formalidades. Quem tem razão? Fazse necessário responder a algumas perguntas: Em primeiro lugar, em abstrato, é válida a criação de uma pessoa jurídica com o único propósito de incorporar um ativo e, por meio dessa reestruturação societária, alienálo diretamente pela pessoa física ao invés da pessoa jurídica historicamente proprietária? Em segundo lugar, em abstrato, qual o fato gerador do imposto de renda sobre o ganho de capital? Em terceiro lugar, a forma é relevante para o direito em geral e especificamente para o caso concreto? Em quarto lugar, no caso concreto, quem é o alienante? qual o valor da alienação? Em quinto lugar, caso o sujeito passivo esteja corretamente identificado, a apuração da base de cálculo está correta? 1. Da utilização de empresa veículo: Segundo o TVF, o ativo (GESTIOR) foi transferido da CM Indústria para a GOULT, empresa criada poucas semanas antes, e, subsequentemente, esta foi alienada para a BERTIN. Em outras palavras, houve utilização de "empresa veículo" (GOULT) com o único propósito de segregar o ativo e transferilo ao terceiro adquirente. Se é verdade que tal estruturação societárianegocial é muitas vezes contestada pelo Fisco, não foi o caso na lide ora sob julgamento. Pelo contrário, a autoridade lançadora foi expressa em afirmar que: "A segunda operação, declarada ao público e demais órgãos governamentais (...) é a que reputa ser verdadeira. Nesse caso, a operação se referiu a uma alienação de quotas sociais da Goult efetuada pelas pessoas físicas Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho, à Bertin S/A." 1.237; Igualmente, a DRJ afirmou que: "Resta, portanto, perfeitamente comprovado, em face de todos os documentos acima referidos, que Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho alienaram as quotas representativas do capital social da Goult Participações Ltda, controladora da Gestior Participações Ltda, acionista controladora da S.A Vigor, para a Bertin S.A, na forma como descrito no Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças firmado, em 25/11/2007 (fls. 959/969), cujos pagamentos ocorreram como apresentado Fl. 1723DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.699 51 no Demonstrativo de Pagamentos (fl. 1.072), ratificado pelos extratos bancários de fls. 1.091/1.138. " fl. 1.464; Ainda, a Procuradoria da Fazenda Nacional, em Contrarrazões ao Recurso Voluntário, esclareceu que: "Isso porque, em 30/10/2007, semanas antes da alienação da Vigor, houve uma cisão parcial na CM Indústria e transferência de parcela de seu patrimônio para a Goult Participações Ltda. A parcela transferida correspondia à participação societária que a CM detinha até então na Gestior Participações. A mencionada cisão foi registrada na Junta Comercial. Também foi objeto de registro a entrada da Goult no quadro societário da Gestior Participações." fl. 1.531; (...) " É de se notar, como ficou indicado em cada parágrafo acima, que todas as alterações nos Contratos Sociais da CM Indústria e Comércio Ltda, da Gestior Participações Ltda e da Goult Participações Ltda foram devidamente protocoladas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo. Tais alterações confirmam que a CM Indústria e Comércio já não tinha mais participação societária na Gestior quando houve a alienação da Vigor S/A." fl. 1.533; (...) "Todos os atos e documentos acima descritos confirmam que a venda da Vigor foi realizada pelo recorrente, por meio da alienação de participação societária na Goult Participações para Bertin S/A, conforme constou do contrato de 25 de novembro de 2007. Aliás, os demonstrativos de pagamento apresentados pela JBS, ratificados por extratos bancários demonstram, também, que o contribuinte recebeu diretamente da Bertin os valores decorrentes da referida alienação. Nesse caso, como a alienação foi realizada por Carlos Alberto Mansur, correto o lançamento realizado em face da pessoa física." fl. 1.537; (...) "Pelas razões expostas, está claro que a operação verdadeira e efetivamente realizada é aquela que consta do TVF: alienação realizada pela pessoa física, e não pela empresa CM Indústria e Comércio. Logo, não existe a nulidade alegada pelo recorrente, pois o sujeito passivo do lançamento foi corretamente identificado pela fiscalização." fl. 1.542; Tampouco o Recorrente afirma ser ilícita ou abusiva a prática. Pelo contrário, o Parecer dos Profs. Sacha Calmon e Misabel Derzi juntado pelo Contribuinte é expresso em afirmar que: "Assim é que a primeira opção negociai cogitada pelas partes no caso em análise, isto é, a venda das ações da VIGOR pela pessoa Fl. 1724DF CARF MF 52 física do Consulente, não seria inválida, ainda que tivesse o único propósito de economia fiscal, tendo em vista que o caso seria de planejamento tributário lícito." fl. 1.606; Apenas, tanto na Impugnação e nos Pareceres quanto no Recurso Voluntário, afirma que não foi esse o negócio que prevaleceu no caso concerto. Concordo com a licitude desse meio: em tese, não há qualquer ato ilícito, abusivo nem simulado na criação (ou utilização) de uma empresa veículo para a transferência de um ativo. Em muitos casos, há inclusive uma motivação (subjetiva) alheia à questão tributária. Contudo, essa motivação externa não é indispensável. Em suma, constatase que, se se entender por manter o lançamento tal como realizado no qual os atos formais ocorreram em um prazo inferior a um mês e com utilização de uma empresa com atividade econômica exclusiva de holding , estarseá reconhecendo a validade da utilização de uma empresa veículo para transferir um ativo da pessoa jurídica para a pessoa física antes de uma alienação onerosa, o que pode resultar, inclusive, em redução de tributação em outros casos. 2. Do imposto de renda sobre o ganho de capital: Muito se discutiu, até o momento, sobre a identificação de qual o negócio jurídico de compra e venda válido. Inclusive, no seio dos pareceres, fui suscitada a questão da venda a non domino para demonstrar que o negócio pode ser realizado por quem não seja proprietário da coisa. A verdade, entretanto, é que o imposto de renda sobre o ganho de capital incide, propriamente dito, sobre a alienação e não sobre o contrato de compra e venda. É o que se depreende do comando legal: Lei nº 7.713/1988: Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, DECORRENTES DE ALIENAÇÃO de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de TRANSMISSÃO do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem ALIENAÇÃO, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua AQUISIÇÃO, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e Fl. 1725DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.700 53 venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. Lei nº 8.981/1995 (redação vigente à época dos fatos): Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da ALIENAÇÃO de bens e direitos de qualquer natureza sujeitase à incidência do Imposto de Renda, à alíquota de quinze por cento. (grifei) Em outras palavras, o fato gerador é o auferimento de ganho de capital (rendimento) na alienação de um bem ou direito (ativo). Desnecessário discorrer, aqui, sobre a noção de "auferimento". Impende definir, por outro lado, a noção de alienação e de ganho de capital. 2.1. Alienação: Alienação3 é, conforme EMILIO BETTI, hipótese de "ato dispositivo", pela qual alguém adquire um direito em consequência direta da perda do mesmo direito por outra pessoa4. Pode se extrair da Lei nº 10.406/2002, que alienar é transmitir a propriedade5. Pode se dar por diversas formas, tais como a tradição (que pode ser a entrega física ou jurídica da coisa) e o registro em cartório. Registrase que o mero negócio jurídico entre as partes não leva à transferência da propriedade, Art. 1.267. A propriedade das coisas não se transfere pelos negócios jurídicos antes da tradição. Ainda, Art. 1.245. Transferese entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. § 1o Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel. 2.1.1. Da formalidade na alienação: A despeito da classificação em negócios formais e informais, todo negócios jurídico tem forma. Remontando à lição de EMILIO BETTI, alguns têm forma específica, porquanto a Lei a estabelece taxativamente, enquanto outros não há exigência pre estabelecida6. É o que se extrai, igualmente, dos arts. 104, III, 107 e 166, IV e V do CC/2002. 3 "a·li·e·na·ção (latim alienatio, onis) substantivo feminino (...) 2. Cessão ou transmissão de bens ou direitos. ≠ INALIENAÇÃO; a·li·e·nar (latim alieno, are) verbo transitivo 1. Transferir para domínio alheio (por venda, troca, doação, etc.)." DICIONÁRIO PRIBERAM, voc. "alienação", disponível em: https://www.priberam.pt/DLPO/aliena%C3%A7%C3%A3o, acessado em 29/06/2017 4 E. BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, 2ª ed., Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 2002, p. 292. 5 Vide, entre outros, os arts. 307, 444, 445, 501, §único, 533, II, 576, 579, 587, 879, 1.144, 1.245, §1º, 1.267, 1.268 e 1.275 e.g. 6 E. BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, 2ª ed., Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 2002, p. 125. Fl. 1726DF CARF MF 54 A constituição de uma pessoa jurídica exige forma específica, que é a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, como se observa do Código Civil: Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbandose no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150). Art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculamse ao Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais, e a sociedade simples ao Registro Civil das Pessoas Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de sociedade empresária. Não se confunde, anotese, a pessoa jurídica (que pode ser uma associação, uma fundação etc.) com a sociedade, este um contrato (art. 981 e seguintes do CC/2002). A sociedade nasce entre os sócios desde a firma do contrato social; já a pessoa jurídica, apenas com o registro. Reforçase esse entendimento o art. 986 e seguintes, do mesmo diploma, que regula as sociedades não personificadas. Enfim, em relação à formalidade na constituição e modificação das sociedades personificadas, é relevante ler o art. 997, I, IV e parágrafo único, art. 998, art. 999, caput e parágrafo único, art. 1.003, caput e parágrafo único, sobretudo7: Art. 1.057. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição de titulares de mais de um quarto do capital social. Parágrafo único. A cessão terá eficácia quanto à sociedade e terceiros, inclusive para os fins do parágrafo único do art. 1.003, a partir da averbação do respectivo instrumento, subscrito pelos sócios anuentes. Em suma, constatase que a alienação das cotas de uma sociedade encontra se sujeita a formalidade específica, qual seja, a averbação da mudança do contrato social. Sem essa formalidade, o ato até pode ser existente, válido e eficaz entre as partes (o sócio e o adquirente), mas não tem eficácia em relação à sociedade e muito menos a terceiros. Tratase de ineficácia, como diz a Lei expressamente, e não invalidade. Em outras palavras, até a averbação, o adquirente pode inclusive imitirse na posse (situação de fato) da coisa, passando a exercer os atos de controle e de administração econômicos da empresa. Contudo, o alienante só perderá a propriedade e o alienatário só se tornará proprietário das quotas quando da averbação. 2.2.Do momento do fato gerador: 7 Tratamse das normas referentes às sociedades simples mas que têm aplicabilidade subsidiária à sociedade ltda., nos termos dos arts. 1.052 a 1.054 do CC/2002. Fl. 1727DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.701 55 Definido o conceito de alienação, bem como a sua formalidade no caso de transferência da propriedade de quotas sociais, impende retornar à legislação tributária. Percebese que o fato gerador é o auferimento de rendimento, especificamente o ganho de capital identificado em qualquer tipo de alienação. Ora, só ocorre o fato gerador se houver alienação com apuração de ganho de capital. O negócio jurídico subjacente pouco importa para a alienação como já foi anotado em relação ao art. 1.267 do CC/2002 , bem como para apuração do ganho de capital a ser tributário, como se observa do art. 3º, § 3º, da Lei nº 7.713/1988, que convém repetir: Art. 3º (omissis) § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem ALIENAÇÃO, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua AQUISIÇÃO, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. Nessa senda, constatase que o fato gerador não é o negócio jurídico subjacente; não pode incidir o imposto sobre o mero contrato de compra e venda ou sobre a promessa de doação. Só há ganho de capital caso haja transferência da propriedade. Nesse sentido, por exemplo, IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. TRIBUTAÇÃO DO COMPRADOR. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE GANHO. A tributação pelo Imposto de Renda sobre Ganho de Capital pressupõe a existência de ganho do contribuinte na alienação de um bem ou direito, sendo certo que tal tributação, portanto, sempre deve incidir sobre o vendedor e não sobre o comprador. Também não há ganho de capital quando não existiu alienação de qualquer bem ou direito ou quando o valor de suposta alienação não é superior ao valor de aquisição do objeto da venda em virtude de óbvia falta de preenchimento dos aspectos material e quantitativo da hipótese de incidência do tributo. (acórdão CARF nº 1201001.618, de 10/04/2017) Em suma, inexistindo alienação, não pode haver tributação. 2.3. Ganho de capital: Ainda na identificação do fato gerador, é imperioso entender a identificação da base de cálculo. Como já afirmado, à exaustão, a alienação pode ser decorrente de diversos negócios jurídicos, gratuitos ou onerosos (e.g. a doação ou a compra e venda). O bem ou direito, em ambos os casos, terá um valor econômico. A Lei estabelece a forma de identificar esse valor do bem ou direito alienado: Fl. 1728DF CARF MF 56 Art. 19. Valor da transmissão é o preço efetivo de operação de venda ou da cessão de direitos, ressalvado o disposto no art. 20 desta Lei. Parágrafo único. Nas operações em que o valor não se expressar em dinheiro, o valor da transmissão será arbitrado segundo o valor de mercado. Tratandose de imposto de renda, deve incidir sobre o "produto do capital" ou sobre o "acréscimo patrimonial". Não pode incidir sobre o próprio patrimônio, sobre o próprio capital. Logo, para apurar a base sobre a qual incide, devese excluir o montante tido anteriormente, i.e., o custo de aquisição. Daí, que o ganho de capital é exatamente a diferença positiva (sobra) do valor da alienação em relação ao custo de aquisição. 2.4. Da sujeição passiva: Tendo em vista que o fato gerador é a apuração de ganho de capital na alienação de bem ou direito, denotase que o sujeito passivo será definido exatamente pelo ato jurídico relevante: a alienação. Da própria definição de ganho de capital na alienação, na qual se busca identificar a renda pelo acréscimo patrimonial, podese inferir que o contribuinte será aquele que auferiu o ganho de capital, i.e., o alienante. É este quem observa um acréscimo no valor do bem, na comparação do seu valor no momento da alienação em relação ao seu valor no momento da aquisição. Esse é o entendimento mesmo nos casos de doação (art. 23, §2º, II, da Lei nº 9.532/1997), a despeito de o benefício econômico do negócio subjacente ser do alienatário e não do doador. 3. No caso concreto: No caso concreto, como bem expôs o Prof. Paulo de Barros em seu Parecer juntado aos autos, "Devese ressaltar que, indisputadamente, os documentos que dão suporte às duas formas de efetivar a operação de venda das ações de VIGOR foram produzidos e não se discute, em nenhum momento, a sua existência. Com efeito, na lida de questões societárias de grande monta, é comum que se considere diversas vias para a implementação do negócio de fundo, cada uma com sua forma jurídica correspondente, estando a decisão sobre a formatação final sujeita a uma série de ponderações negociais que identifiquem o caminho que melhor compatibilize as vantagens financeiras, empresariais, trabalhistas, tributárias e, com não menos importância, a segurança jurídica e previsibilidade quanto aos efeitos da transação. O que se põe em jogo é saber qual das formas construídas melhor se condiz com o negócio praticado à luz dos critérios jurídicos e, especialmente, em meio às demais etapas da operação, tal como factualmente registrada." fl. 1.637 (grifei); Efetivamente, constam nos autos, entre outros elementos: · inúmeros contratos de compra e venda e alterações, um figurando como vendedor ora a CM ora o Recorrente, ambos distratados em algum momento; Fl. 1729DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.702 57 · registros contábeis e declarações fiscais que apontam ambas as pessoas como vendedoras, especificamente o Razão Analítico da CM INDÚSTRIA (fls. 138/143), · DIPJ/2008 "normal" da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., transmitida às 17:24:29 do dia 22/12/2008, na qual consta participação na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. o valor de R$ 127.194.825,67 e como sócios a Bertin (56%) e o Contribuinte (44%) (fls. 1.164/1.185); · DIPJ/2008 "incorporação" (evento em 15/12/2008) da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., transmitida às 18:24:41 do dia 22/12/2008, na qual consta participação na GESTIOR sob o valor de 94.823.072,22 somada a R$ 32.371.753,45 a título de resultado de equivalência patrimonial e como sócios a BERTIN (99%) e outra pessoa física (não o contribuinte nem seu filho) com 1% (fls. 1.186/1.212); · DAA Retificadora do Recorrente, entregue em 16/10/2009, referente ao anocalendário de 2008, registrando a venta de 41.725.655 quotas de sua particiapção na GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., ao custo de aquisição de R$ 41.725.655,00, para a BERTIN S.A., em 25/11/2007, pelo mesmo valor de R$ 41.725.655,00 (fls. 1.153/1.154) Como, então, definir o sujeito passivo? Despiciendo analisar todos os argumentos suscitados por ambos os lados. Convençome, como defendido pelos supracitados pareceres que ambos os negócios são existentes e, na medida em que se formalizaram, são aptos a gerar os respectivos efeitos. A questão, como pormenorizei anteriormente, não é definir quem é o vendedor mas sim quem é o alienante. Tomando sempre em consideração que a estrutura adotada pelo Contribuinte de utilizar uma empresa veículo é válida, porquanto inexiste norma jurídica proibindoa, passo à análise dos fatos e documentos, como narrados e/ou comprovados nos autos por ambas as partes: · 14/09/1973: Ata de Assembleia da VIGOR registrando o Sr. Ricardo Mansur como acionista majoritário (fls. 303/305); · 01/12/1977: Constituição da CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (fls. 368/468); · 09/12/1988: Alteração do Contrato Social da CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. para registrar a sua cisão com a criação da CM INDÚSTRIA LTDA. (fls. 273/276) · 29/12/1988: Constituição da CM INDÚSTRIA LTDA. (fl. 238 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); Fl. 1730DF CARF MF 58 · 30/12/1993: Alteração do Contrato Social da CRM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. para registra a sua cisão com transferência de investimentos para a CM Indústria Ltda. (fls. 279/287); · 30/01/1998: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA LTDA., registrado na JUCESP, com o registro do aumento do capital pela integralização das ações da VIGOR e da LECO (fl. 288/298); · 13/03/1998: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA LTDA. registrando a integralização das ações da VIGOR e da LECO (fls. 626/636); · 2006: início das tratativas entre a CM e a Bertin, inclusive com a criação da Gestior (fl. ... informação dada pelo Contribuinte em Recurso Voluntário); · 14/02/2006: Constituição da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. ( informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 28/12/2006: Elevação do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. pela integralização das ações da VIGOR e da LECO (fl. 241 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 20/07/2007: Constituição da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. por outras pessoas físicas; (fl. 213/218); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., registrada na JUCESP, registrando a entrada do Recorrente e a saída dos sócios originais, (fls. 219/232); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES, registrado na JUCESP, pela qual o Recorrente transfere todas as suas quotas, menos uma, para a CM INDÚSTRIA (fls. 188/199); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES, posterior à anterior, registrado na JUCESP, pela qual a CM Indústria saí da sociedade, transferindo para a nova Sócia GOULT todas as suas quotas (fls. 200/211 e 904/915); · 30/10/2007: Registro na JUCESP de cisão da CM INDÚSTRIA com transferência das quotas da GESTIOR para a GOULT (fl. 34/46), pela redução de capital da CM Indústria para a restituição de valores para o sócio quotista Carlos Mansur (fl. 240 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 30/10/2007: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA., registrado na JUCESP, aprovando a cisão parcial com incorporação do acervo cindido à GOULT (fls. 883/896) com apresentação de Laudo de Avaliação (fls. 897/903), identificando como valor da parcela cindida em R$ 162.994.143,31; Fl. 1731DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.703 59 · 30/10/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrando na JUCESP, aprovando da incorporação dos ativos cindidos da CM INDÚSTRIA (fls. 920/930); · 21/11/2007: Contrato de venda figurando a CM INDÚSTRIA como vendedora (fl. 145/166), registrado em 31/10/2008 em cartório de Registro de Títulos e Documentos (repetido em fls. 1.073/1.086, dessa vez entregue pela sucessora da BERTIN); · 25/11/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrado na JUCESP, pela qual o Contribuinte transfere à BERTIN 56% das quotas sociais (fls. 1.028/1.047); · 26/11/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. em função da sua venda pela CM para a BERTIN S.A. (fl. 242); · 26/11/2007: assinado "Instrumento Particular de ReRatificação de Alteração do Contrato Social [da CM Indústria] datado de 30.10.2007 e Outras Avenças" (fls. 989/996), no qual os sócios revogam a cisão parcial da CM Indústria e a consequente incorporação do patrimônio cindido à GOULT, mas ainda assim: "3. Ainda, os sócios resolvem aprovar a redução do capital social da Sociedade no montante de R$ 74.509.999,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e nove mil, novecentos e noventa e nove Reais), por considerálo excessivo em relação ao objeto social da Sociedade, nos termos do Artigo 1.082, inciso II, do Código Civil, passando o mesmo de R$ 80.000.000,00 (oitenta milhões de Reais) para R$ 5.490.001,00 (cinco milhões, quatrocentos e noventa mil, e um Reais), dividido em 5.490.001 (cinco milhões quatrocentos e noventa mil, e uma) quotas, no valor nominal de R$ 1,00 (um Real) cada, mediante o cancelamento de quotas representativas do capital social da Sociedade de titularidade dos sócios. 4. Em virtude da redução do capital social da Sociedade mencionada no item 3 acima, aprovar a restituição do montante de R$ 74.509.999,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e nove mil, novecentos e noventa e nove Reais) ao sócio quotista Carlos Alberto Mansur." fl. 990; · 26/11/2007: firma de "Instrumento Particular de Retificação de Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. datada de 30.10.2007" (fls. 997/999), pelo qual revogam a entrada da GOULT nessa empresa GESTIOR, determinando que a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. retorne à situação de sócia; Fl. 1732DF CARF MF 60 · 26/11/2007: firma de "Instrumento Particular de Alteração e Consolidação do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. datada de 30.10.2007" (fls. 1000/1.009), pelo qual registram a transferência pela CM INDÚSTRIA de 56% das quotas dessa empresa GESTIOR para a BERTIN S.A.,; · 26/11/2007: Firma de "Instrumento Particular de ReRatificação de Alteração do Contrato Social [da GOULT] datada de 25.11.2007" (fls. 1.048/1.055), pelo qual se revoga a transferência das quotas do Contribuinte para a BERTIN, retornando o Recorrente à situação de sócio com 99% das quotas (1% pertencente ao seu filho); · 27/11/2007: Fato Relevante publicado no Diário Oficial Empresarial (fl. 871), originalmente elaborado em 25/11/2007; registrando que a BERTIN adquiriu 56% das quotas da GOULT, e que esta era detentora de 64,69% do Capital Social da VIGOR; · 30/11/2007: Deferida a alteração do Contrato Social da GOULT (fl. 916/951); · 21/12/2007: emissão do Parecer Técnico 06735/2007 do COGCE/SEAE/MF (fls. 863/867), informando que a BERTIN adquiriu do Recorrente as ações da GOULT, sendo que esta seria controladora indireta da VIGOR por meio da GESTIOR, mas que concluiu que: "17. As requerentes informam que a operação não resultará em qualquer concentração horizontal e/ou integração vertical entre as atividades desenvolvidas pelas postulantes. No Brasil, nenhuma das empresas controladas e ligadas à Betin (sic) atua no mesmo mercado em que a Vigor atua. (...) 19. Diante dos fatos acima apresentados, esta Sear concluiu que a operação não é capaz de gerar prejuízos ao ambiente concorrencial brasileiro (...)." fl. 866; Em outras palavras, percebese que a análise não foi em relação à alienante, nem mesmo da estrutura utilizada para a transferência do ativo, mas sim em relação à potencialidade de prejuízos pela integração da VIGOR à BERTIN; · 01/02/2008: Ato de Concentração nº 08012.014331/200784 do CADE (fls. 858/870), que igualmente analisou a potencialidade do de prejuízo concorrencial da integração da Vigor à Bertin, mas que registrou que a transferência se deu por meio da venda pelo Recorrente das ações da GOULT, no qual ficou registrado, registrando ainda que: "3. DATA DA NOTIFICAÇÃO Fl. 1733DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.704 61 De acordo com as requerentes, a operação foi formalizada por meio do "Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras Avenças", em apartado confidencial, assinada em 25 de novembro de 2007, sendo que a apresentação da operação aos órgãos brasileiros de defesa da concorrência deuse em 14 de dezembro de 2007." fl. 869; (...) 6. PARACERES (...) A Secretaria de Direito EconômicoSDE/MJ (fl. 128) e a Procuradoria do CADEProCADE (fls. 132/138) concordaram com o teor do parecer da SEAE/MF. A ProCADE analisou, ainda, o instrumento contratual que formalizou a operação e concluiu que, no mencionado contrato, não se observam cláusulas que possam ser nocivas à concorrência." fl. 870; · 23/02/2008: Republicação de Fato Relevante no Diário Oficial Empresarial (fl. 872). Tratase de republicação do Fato Relevante publicado em 27/11/2007, em atendimento a Ofício da CVM, agregando informações referentes ao preço e à razão da aquisição do controle indireto da VIGOR, mas ratificando a informação que o negócio se formalizada pelo contrato de 25/11/2007, em decorrência de aquisição de participação da GOULT. · 25/06/2008: 1ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur) em 25/11/2007, com firmas reconhecidas mas em data ilegível, alterando a conta bancária onde deveria ser feito o pagamento (fl. 970/973); · 22/09/2008: 2ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur) em 25/11/2007, consolidando o exercício da Opção de Compra pela compradora, notificada aos vendedores (Carlos Mansur e Filho) em 08/09/2008, (fl. 974/978); · 01/10/2008: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrado na JUCESP, pela o Contribuinte se retira da empresa, transferindo para a BERTIN suas quotas (fls. 1.056/1.058). · 03/10/2008: Contrato de Venda e Compra de Quotas e outras Avenças" (fls. 1.139/1.143), entre o Contribuinte e a BERTIN, tendo como objeto 100% do capital social da GOULT pelo valor de R$ 100,00 (cem reais); · 03/10/2008: Alteração do Contrato Social da GOULT em relação à alteração datada de 01/10/2008, pela qual se ratifica a saída do Fl. 1734DF CARF MF 62 Contribuinte, mas se altera o valor das cotas transferidas: antes eram 32.783.443, representando 44% da empresa, agora são 99 quotas representando 99% da empresa (fls. 1.059/1.067); · 03/10/2008: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA., em decorrência da venda de quotas pela CM INDÚSTRIA para a BERTIN S.A. e da venda de quotas pelo Recorrente para FERNANDO BERTIN (fl. 242 informação do contribuinte e fls. 1.027/1.027 ); · 09/10/2008: emissão do Parecer Técnico nº 06212/2008 COGCE/SEAE/MF (fls. 873/878), informando que a BERTIN consolidava o controle da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. pela aquisição das 44% das cotas restantes do Recorrente, e assim o controle indireto da VIGOR, mas o qual se analisou "13. O contrato que formaliza a presente operação data de CONFIDENCIAL e o seu valor é de, aproximadamente CONFIDENCIAL. De acordo com as Requerentes a presente notificação é resultado de uma operação realizada no Brasil, entre empresas brasileiras e com efeitos concorrenciais limitados no mercado brasileiro. Assim, informaram que a operação foi notificada apenas às autoridades antitruste brasileiras, fato ocorrido em 29 de setembro de 2008. 14. Destacase que, no documento que formaliza o presente Ato, Contrato de COmpra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, não consta cláusula de não concorrência." fl. 876; Ainda assim, percebese que a análise não foi em relação à alienante, nem mesmo da estrutura utilizada para a transferência do ativo, mas sim em relação à potencialidade de prejuízos pela integração da VIGOR à BERTIN; · 14/05/2009: 3ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur), registrado em cartório de Registro de Títulos e Documentos em 10/06/2009, no qual acordam a extensão do prazo para o pagamento do preço (fl. 979/983); · 14/05/2009: firmado "Instrumento Particular de Retificação, Ratificação e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças" (fl. 1.320/1.323): firmado pela CM INDÚSTRIA, Carlos Mansur e BERTIN, visava anular a cisão da CM, tornar sem efeito o distrato de 21/11/2007, reiterar o contrato de venda de 21/11/2007 e tornar sem efeito o contrato de 25/11/2007; Enfim, percebese que há uma série de negócios jurídicos, sejam contratos de compra e venda, rescisões, revogações e alterações de Contratos Sociais, muitos dos quais parecem ser contraditórios entre si. Isso não os torna, em abstrato, nulos nem inexistentes. Fl. 1735DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.705 63 Como bem discorrido pela i.Relatora e pelos Pareceres anexos, é plenamente aceitável a venda a non domino, pela qual uma pessoa se compromete (contrato meramente consensual) a realizar a transferência de determinado bem ou direito a outrem. Desde que o faça ou seja, que a propriedade passe ao adquirente, por qualquer meio estará adimplida a obrigação. De outro lado, não satisfazendo a obrigação por impossibilidade, e.g. , não há nulidade nem simulação do contrato, per si, mas mera inadimplência que se converterá em restituição dos valores porventura pagos e em perdas e danos, se for o caso. Nesse contexto, ressalto, é irrelevante do ponto de vista tributário as notícias publicadas a título de Fato Relevante ou de informação às autoridades antitrute. Esses atos (publicações e informações) não têm o condão de alienar as quotas, mas apenas servem de prova que esse negócio jurídico, a compra e venda firmada entre o Contribuinte e a BERTIN, era/foi válido e existente entre as partes. Tampouco são hábeis a comprovar que o negócio jurídico firmado entre a CM Indústria e a Bertin fosse inexistente ou nulo. Nessa esteira, o negócio particular de desconstituição da cisão é válido entre as partes, como acordo em que prometem fazêlo ou que se comprometem a não impedir o seu registro (vide arts. 219, 221 etc. do CC/2002). Contudo, não tem validade em relação à sociedade (que continua cindida) e em relação a terceiros (inclusive o fisco) enquanto não for averbado. Portanto, entendo que a alienação das quotas se deu do Contribuinte, Carlos Mansur, para a BERTIN, porque era ele o proprietário das quotas ao tempo da transferência. Consequentemente, é ele o sujeito passivo do imposto sobre a renda incidente sobre o ganho de capital. 4. Da apuração do ganho de capital do custo de aquisição: Tendo em vista que o valor da alienação dos bens não foi questionado em qualquer momento, seja pelo Fisco seja pelo Contribuinte, impossível enfrentar esse ponto. O mesmo não pode ser dito em relação ao custo de aquisição que, conforme já explorado nas preliminares, foi objeto de expressa impugnação e recurso voluntário, sendo tratado também pelas Contrarrazões oferecidas pela Fazenda Nacional. Estabelece a Lei 7.713/1991 que: Art. 16. O custo de aquisição dos bens e direitos será o preço ou valor pago, e, na ausência deste, conforme o caso: (...) § 2º O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens. In casu, o Contribuinte adquiriu as quotas da GOULT, inicialmente, pelo valor de R$ 99,00, como se depreende da 1ª Alteração Contratual dessa empresa, datada de 29/10/2007 (fls. 219/232). Posteriormente, quando da cisão da CM INDÚSTRIA, recebeu a título de retirada o valor de R$ 74.509.999,00, consubstanciadas nas quotas da GESTIOR que foram incorporadas à GOULT, com o respectivo aumento do capital desta de R$ 100,00 para R$ 74.510.099,00, como se depreende das informações prestadas pela CM INDÚSTRIA, pela Fl. 1736DF CARF MF 64 alteração dos Contratos Sociais das empresas envolvidas (fls. 34/46, 200/211, 240, 883/896, 897/903 e 920/930), e ainda pela DAA do contribuinte (fls. 1.153/1.154). Efetivamente, esse foi o mesmo valor apurado pela autoridade lançadora: "A respeito do custo de aquisição cabem as seguintes explicações: Nos casos de participações societárias (ações ou quotas) de propriedade de pessoas físicas, o que deve ser considerado como custo de aquisição é o valor do patrimônio líquido da sociedade. Acréscimos no PL da empresa investida, como reservas e lucros, por exemplo, devem ser considerados para efeito de custo de aquisição, desde que eles sejam incorporados ao capital social. Conforme as Declarações de Imposto de Renda PJ da Goult, relativas aos anoscalendários de 2007 e 2008, os seus Patrimônios Líquidos são, respectivamente, de R$ 175.792.566,25 e R$ 143.419.604,80, os quais contêm como Reserva de Reavaliação os valores de R$ 99.220.904,22 e R$ 97.610.258,01. Doc. 68 e 69 Em 2007 há lucros acumulados de R$ 2.061.563,03 e, em 2008, Prejuízos de R$ 28.700.752,21. Como se observa, os lucros não foram incorporados ao capital social e a Reserva de Reavaliação não está amparada pela mesma isenção dos lucros, razão pela qual consideramos apenas o valor do capital social de R$ 74.510.099,00, equivalentes a 74.510.099 quotas." (fl. 1.241/1.242); Ora, se o próprio Contribuinte declarou ter que adquirido as quotas de Goult por R$ 100,00 e, posteriormente, acrescentou a esse o valor das quotas da Gestior, recebidas da CM Indústria por R$ 74.510.099,00, então está correto o custo de aquisição utilizado pela autoridade lançadora, posto que foi por esse valor que o ativo havia sido incorporado ao seu patrimônio. Razão pela qual entendo que não assiste razão ao recurso nesse ponto. Da segunda infração: A identificação da sujeição passiva ganhou tamanho relevo que sombreou os demais pontos que da defesa do contribuinte ser enfrentados. Nem por isso podem ser olvidados. Passo à análise, portanto, do Recurso em relação à segunda infração. O TVF esclareceu que, "Os acréscimos sobre as parcelas foram tributados em separado do ganho de capital, conforme esclarece o art. 19, §3º da IN SRF nº 94/2001, combinado com o Parecer Normativo nº 1, de 24/09/2002." fl. 1.245 Em outras palavras, entendeu a autoridade lançadora que, tendo sido pago em conjunto com o valor das parcelas do preço um "acréscimo", tal montante "extra" não poderia ser tributado como ganho de capital, devendo ser apurado pelo ajuste anual. Efetivamente, os juros podem ter natureza remuneratória ou indenizatória (juros de mora). Em qualquer das hipóteses, não se configuram pagamento do preço da coisa Fl. 1737DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.706 65 vendida, propriamente dita, mas sim compensação pela indisponibilidade dos recursos durante certo prazo. Nesse sentido, correta a tributação em separado desses valores, pelo ajuste anual, se se entenderem tributáveis. Já o Contribuinte afirmou que esses valores são, na verdade, dividendos e que também foram devidamente declarados na sua DAA como tal. Depreendese, portanto, que defende serem isentos, bem como afirma que não os omitiu. Percebese, portanto, que o julgamento dessa infração 002 depende intrinsecamente da definição em relação à causa pela qual os valores foram depositados na conta do Contribuinte. Em outras palavras, compreendendose que os recursos identificados na infração 001 são, efetivamente, pagamento de preço, como quer a Fazenda Nacional, então esses valores identificados na infração 002, pagos em conjunto, são, efetivamente, "acréscimos" vez que não fazem parte do preço acordado , não são isentos e devem ser tributados pelo ajuste anual (não afirmou o Contribuinte, em momento algum que esses acréscimos poderiam ser juros de mora; por outro lado, depreendese dos contratos que os pagamento parcelados seriam acrescido de 50% da Taxa Selic à época do adimplemento, logo é compreensível que fossem correção monetária/juros remuneratórios). Se, por outro lado, se compreender que os valores apontados na infração 001 são efetivamente dividendos, não há razão para dar natureza distinta a esses recursos identificados na infração 002. Diferentemente do que sustentam a defesa e os ilustríssimos Pareceristas, data maxima venia, compreendo que o negócio jurídico que melhor fundamenta a alienação realizada na prática tendo a BERTIN como adquirente e o Recorrente como alienante é a compra e venda celebrada diretamente pelo Contribuinte. Efetivamente, constatase, dos autos, que após a celebração do contrato de 21/11/2007 ainda que o documento tenha sido revogado ele, pessoa física, ainda firmou três alterações ao longo dos anos de 2008 e 2009 em relação a esse mesmo contrato. Mais, era ele o legítimo proprietário da coisa à época da alienação e, sem dúvidas, estava amparado em um contrato de venda que justificava a transferência. Qual o negócio jurídico entre o Contribuinte e a CM INDÚSTRIA, entretanto, que justificava a alienação pelo Contribuinte diretamente para a BERTIN à época desse ato? De um lado, poderíamos argumentar pela dação em pagamento (vez que devia à CM INDÚSTRIA a devolução das quotas, conforme o contrato particular não formalizado); pagamento por terceiro, pagamento com subrogação ou doação, também são cogitáveis exemplo. Contudo, não há argumentação nesse sentido, portanto seriam meras elucubrações. Noutra senda, mais convence como causa da alienação o contrato firmado em 25/11/2007, figurando o alienante como vendedor. Esse contrato só foi "tornado sem efeitos" em 14/05/2009 (fls. 1.320/1.323). Acontece que a maior parte dos seus efeitos já haviam sido observados: a alienação da coisa já havia ocorrido em 25/11/2007 (fl. 1.028/1.047). Ora, adimplida a obrigação, o contrato já surtiu seus efeitos. O Contrato de 14/05/2009 tem, portanto, objeto em tese possível mas com efeitos impossíveis, haja vista que o fato que busca impedir já ocorreu e já se exauriu. Poderseia falar em recompra (nova venda), o que não é o objetivo do contrato de 2009 nem pode ser depreendido dos seus termos, já que ratificam a aquisição do ativo pela BERTIN. Somase, apenas como elementos complementares mas de forma alguma essenciais ou suficientes: além das alterações do contrato de compra e venda subsequentes à sua revogação, o próprio contribuinte declarou em sua DAA, entregue em 16/10/2009, ter efetuado alienação de ativos para a BERTIN. Ora, ainda que se aceitasse o "sem efeito" de 2009, Fl. 1738DF CARF MF 66 o documento firmado em 25/11/2007 vinculava as partes e justificou a declaração pelo Contribuinte ao Fisco do fato dessa forma em outubro de 2009. Logo, se era válida ao tempo da alienação a venda pelo próprio alienante, é compreensível que os pagamentos efetuados em sua conta se referiam aos preço e, consequentemente, os acessórios a juros, razão pela qual não se pode reformar o lançamento nesse ponto. Da multa qualificada: Em relação à multa qualificada, não observo simulação nos distratos, nas alterações não registradas e demais documentos apresentados. Pelo contrário, como vastamente defendido, tratamse de negócios jurídicos existentes e válidos, apenas ineficazes, seja por não terem adimplido suas formalidades, seja porque os efeitos que buscavam surtir eram impossível pelo exaurimento do seu objeto. Portanto, inexistente simulação, mas apenas mais uma forma pela qual o negócio foi cogitado, não vejo como manter a multa qualificada. Dispositivo: Diante de tudo quanto exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a qualificação da multa de ofício. (assinado digitalmente) Dilson Jatahy Fonseca Neto Fl. 1739DF CARF MF
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