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Numero do processo: 10875.723818/2014-72
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed May 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/07/2010 a 31/12/2013
MULTA ISOLADA APLICADA SOBRE A COMPENSAÇÃO INDEVIDA. COMPROVAÇÃO DA FALSIDADE DA DECLARAÇÃO.
Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à aplicação de multa isolada nos termos do art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991.
Numero da decisão: 9202-006.885
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencida a conselheira Patrícia da Silva, que lhe deu provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Ana Paula Fernandes, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patricia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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COMPROVAÇÃO DA FALSIDADE DA DECLARAÇÃO. Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à aplicação de multa isolada nos termos do art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencida a conselheira Patrícia da Silva, que lhe deu provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Ana Paula Fernandes, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patricia da Silva, Heitor de Souza AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 5. 72 38 18 /2 01 4- 72 Fl. 671DF CARF MF 2 Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de auto de infração referente a lavratura de Multa Isolada no valor de R$42.044.109,77 (quarenta e dois milhões, quarenta e quatro mil, cento e nove reais e setenta e sete centavos) sob o DEBCAD nº 51.067.5484, fls. 326. De acordo com o termo de verificação fiscal foi efetuado o lançamento da Multa Isolada em conformidade com o determinado no Despacho Decisório contido nas folhas 289 a 305 do processo. Tal despacho referese a análise da compensação de valores relativos a contribuição previdenciária declaradas em GFIP dos estabelecimentos matriz – 02.269.509/000160 nas competências de 07 a 09/2010, 03/2011 a 04/2012, 08/2012, 10/2012 a 12/2012, 03/2013 a 07/2013, 09/2013 a 12/2013, e da filial – 02.269.509/000402 nas competências de 07 a 09/2010, 03 a 11/2011, 04 e 05/2012, 08/2012, 04/2013, 06/2013 a 12/2013 no montante de R$28.029.406,49 (vinte milhões, vinte e nove mil, quatrocentos e seis reais e quarenta e nove centavos). Quando da análise destas compensações, após as intimações para esclarecimentos, o contribuinte informou que os valores compensados tratavamse de créditos decorrentes de não incidência da contribuição sobre as seguintes verbas: auxíliodoença, 1/3 das férias gozadas, aviso prévio indenizado, salário maternidade, salário paternidade, acréscimos de horas extras, férias gozadas, horas extras, DSR –Variáveis, fator Acidentário de Prevenção – FAP, 13º salário, Adicional Noturno, INCRA, SEBRAE, e RAT e apesar de citar pronunciamentos de tribunais não apresentou ser parte beneficiária de qualquer processo judicial capaz de exonerálo da incidência da contribuição previdenciária sobre as referidas verbas. De acordo com o relatório da autoridade lançadora, o contribuinte, àquela época, apresentou planilha de apuração e compensação de créditos previdenciários, onde apontou créditos em 30/05/2011 – folhas 121 do processo – decorrente do período de 09/2008 a 04/2011, sendo que o período de 11/2008 a 06/2010 já havia sido objeto de análise nos processos de auto de infração nº16095.00622/201046 e 16095.000624/201035 (DEBCAD 37.245.6197, 37.245.6200 e 37.245.6219), com os créditos mantidos pela DRJ e que se encontram atualmente em fase recursal no CARF. Na planilha, segundo a autoridade lançadora, constava ainda a apuração em 31/12/2013 de créditos dos períodos de 06 a 11/2013 – folhas 125/126 do processo, sendo que não houve qualquer recolhimento neste período que pudesse gerar créditos ao contribuinte conforme pesquisa no “conta corrente” da empresa. Desta forma, a decisão no despacho foi pela glosa integral dos valores compensados e pela conclusão de que a contribuinte se valeu de crédito de origem duvidosa para proceder as compensações e consequentemente reduzir indevidamente os recolhimentos das contribuições previdenciárias. Foi dada a ciência ao contribuinte do despacho decisório e emitido despacho para o lançamento da multa isolada por se tratar de falsidade das compensações. A autoridade lançadora emitiu o auto de infração no percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) sobre o valor das contribuições que deixaram de ser recolhidas em função da falsidade das compensações. Fl. 672DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 3 3 O autuado apresentou impugnação, tendo Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Juiz de Fora/MG julgado a impugnação improcedente, mantendo o crédito tributário em sua integralidade. Apresentado Recurso Voluntário pelo autuado, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 08/06/2017, foi negado provimento ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2301005.060 (fls. 571/577), com o seguinte resultado: "Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, por conhecer do recurso voluntário, para negarlhe provimento. Vencido o conselheiro Fabio Piovesan Bozza, que dava parcial provimento, mantendo a multa apenas em relação às compensações efetuadas com base em valores não recolhidos. Votou pelas conclusões a conselheira Fernanda Melo Leal.”. O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/07/2010 a 31/01/2014 MULTA ISOLADA APLICADA SOBRE A COMPENSAÇÃO INDEVIDA. COMPROVAÇÃO DA FALSIDADE DA DECLARAÇÃO. Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à aplicação de multa isolada nos termos do art. 89, § 10, da Lei nº 8.212/1991. Intimado em 17/07/2017, o contribuinte interpôs em 31/07/2017, portanto, tempestivamente, Recurso Especial (fls. 589/606). Ao Recurso Especial do Contribuinte foi dado seguimento, conforme o Despacho s/nº da 3ª Câmara, de 11/09/2017 (fls. 657/661). Em seu recurso visa a rediscussão das seguintes matérias: a) necessidade de comprovação de dolo e de atos de sonegação, fraude ou conluio na falsidade da declaração para aplicação da multa isolada, paradigma 2301004.238 de 12/2014 e 9202003.743 de 06/2017; e b) compensações referentes a verbas afastadas pelo STJ em julgamento de recurso repetitivo, paradigma 2402004.812 · Em relação ao item a) necessidade de comprovação de dolo e de atos de sonegação, fraude ou conluio na falsidade da declaração para aplicação da multa isolada, o contribuinte diz que da análise conjunta dos §§ 9º e 10, do artigo 89, da Lei nº 8.212/91, verificase a existência de duas possíveis penalidades: a primeira, multa moratória calculada à taxa de 0,33%, por dia de atraso, limitada a 20%, a qual será aplicada indistintamente em todos os casos de compensação indevida, ou, a segunda, multa isolada de 150%, que somente deverá ser aplicada quando comprovada a falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. Ressalta que o termo “falsidade”, em nosso vernáculo, possui íntima denotação de intencionalidade. · Nota que, para se aplicar a multa isolada de 150%, exigese apenas a demonstração da falsidade da declaração, independentemente da Fl. 673DF CARF MF 4 constatação de ter o sujeito passivo agido com malícia ou com puro engano, ou, exigese, além da constatação da falsidade da declaração, a demonstração que o sujeito passivo agiu com dolo de fraudar o Fisco. · Argumenta que a segunda interpretação se mostra muito mais compatível e razoável com o ordenamento jurídico, especialmente no que se refere ao primado da proporcionalidade (due process of law), tendo em vista que a aplicação de multa qualificada sem a necessidade de comprovação do dolo do sujeito passivo não cumpre o requisito da necessidade. · Indaga se é possível sustentar, a partir do sistema jurídico, a proporcionalidade da aplicação de multa no percentual de 150% para o contribuinte que incorre em falsidade de declaração, sem que se comprove, no entanto, sua intenção de fraudar o Fisco e diz que a resposta é, indubitavelmente, negativa · Lembra que, dentre as multas de ofício, as multas qualificadas e agravadas, como os próprios nomes relevam, pressupõem, respectivamente, um qualificativo ou um agravante na situação fática ensejadora da sanção pecuniária, qual seja, a vontade consciente (dolo) na prática da ilicitude. · Ressalta que, caso contrário, sempre que o contribuinte usar para compensação créditos declarados como líquidos e certos, mas que, na realidade, não revelam ter tais qualidades, aplicarseia a multa de 150%, concluindo que qualquer compensação previdenciária considerada indevida pela fiscalização pela não liquidez e certeza do crédito utilizado implicaria por si só a penalidade agravada, nos termos do artigo 82, § 10, da Lei nº 8.212/91. · Repisa que, por força do que dispõe o artigo 136 do CTN, salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável, ou seja, independe de dolo; todavia, quanto à multa isolada, parece haver disposição em contrário, pois há a condicionante de comprovação da falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, ou seja, para a compensação ser considerada indevida, ou a declaração que deu origem era falsa ou se tornou falsa. Conclui que, sempre haverá falsidade, de sorte que não haveria razão para o legislador condicionar a sua aplicação à comprovação da falsidade despretensiosa. · Afirma que o CARF já assentou que “para qualificação da multa, é necessária a conduta dolosa por parte do agente”, sendo considerado que o “dolo ocorre quando o indivíduo age de máfé, sabendo das consequências que possam vir a ocorrer, e o pratica para de alguma forma beneficiarse de algo”, ou seja, “para a ocorrência de dolo deve haver a intenção de burlar a lei, enganando o próximo em proveito próprio ou alheio”. Fl. 674DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 4 5 · Salienta que a Lei n.º 9.430/96 somente determina a aplicação de multa de 150% nos casos em que a fiscalização demonstrar cabalmente que o sujeito passivo praticou atos de sonegação, fraude ou conluio. Para as situações de mero inadimplemento do sujeito passivo (isto é, sem a existência do dolo), a referida lei previu a imposição da multa de 50%, constatação esta que apenas corrobora com a interpretação ora defendida. · Em relação ao item b) compensações referentes a verbas afastadas pelo STJ em julgamento de recurso repetitivo, o contribuinte afirma que os créditos compensados decorrem do pagamento indevido a título de Contribuição Previdenciária sobre determinadas parcelas de natureza indenizatória (por exemplo, um terço de férias e primeiros dias de afastamento do empregado que antecedem o auxílioacidente ou auxíliodoença), as quais, em maioria, foram decididas como indevidas pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial n.º 1.230.957RS, em sede de recurso repetitivo, em que restou decidido como indevida a incidência da contribuição previdenciária sobre o terço de férias e sobre os primeiros dias de afastamento do empregado que antecedem o auxílioacidente ou auxíliodoença. · Salienta que o CARF expressamente já reconheceu que “não caracteriza falsidade a opção do sujeito passivo compensar verba que já fora reconhecida pelo STF e/ou STJ, na sistemática dos artigos 543B e 543C da Lei 5.869/1973, como verba não sujeita à incidência de contribuição previdenciária”. O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional, em 12/09/2017 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional apresentou em 26/09/2017, portanto, tempestivamente, contrarrazões (fls. 663 ). § Em suas contrarrazões, a Fazenda Nacional diz que a aplicação da penalidade em questão está prevista no art. 89, §10º da Lei nº 8.212/91 c/c o art. 44, I da Lei nº. 9.430/96, verbis: Lei nº 8.212/91: Art. 89 (...) § 10. Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à multa isolada aplicada no percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicado em dobro, e terá como base de cálculo o valor total do débito indevidamente compensado. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). Lei nº 9.430/96: Fl. 675DF CARF MF 6 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) § Argumenta que, da análise desses dispositivos, fica claro que, na hipótese de compensação indevida, e uma vez constatada a inidoneidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, impõese a aplicação da multa isolada no percentual de 150%. § Afirma que o contribuinte compensou créditos que, dada a sua natureza controvertida, não cumprem os requisitos legais de liquidez e certeza; e que, nessa perspectiva, constatase que a compensação se fundamenta em declaração falsa, ante a inexistência de seus pressupostos legais. Acrescenta: “Uma vez verificada a falsidade, temse configurada a hipótese de incidência prevista no § 10º do art. 89 da Lei nº 8.212/91, que, repitase, não exige dolo do agente”. § Ressalta que o Código Tributário Nacional prevê, em seu art. 97, que “somente a lei pode estabelecer as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades”. § Conclui que, ao afastar a multa isolada diante da ausência de dolo do agente, o julgado recorrido terminou por criar hipótese de redução de penalidade não prevista em lei, violando, por consequência, o Princípio da Legalidade. É o relatório. Fl. 676DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 5 7 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora. Pressupostos de Admissibilidade O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, conforme despacho de Admissibilidade, fls. 657. Assim, não havendo qualquer questionamento acerca do conhecimento e concordando com os termos do despacho proferido, passo a apreciar o mérito da questão Do mérito Das compensações Antes de adentrarmos ao mérito da procedência da multa isolada, importante identificar o resultado do lançamento da glosa de compensações, já que proferida em outro processo. Para isso, vale transcrever trecho da decisão do acórdão recorrido: Inicialmente cabe salientar que, no presente processo, está em litígio apenas a multa isolada aplicada, uma vez que a origem dos créditos, sua comprovação e quantificação, foi discutida no processo nº 10875.721701/201454, que concluiu que "os valores em questão sejam considerados como COMPENSADOS INDEVIDAMENTE, em razão do crédito ser inexistente de fato" (efl.494). O contribuinte não apresentou impugnação e o crédito foi enviado para inscrição em Dívida Ativa da União, estando definitivamente constituídos na esfera administrativa. Portanto aqui não cabe analisar a incidência ou não das contribuições previdenciárias sobre as verbas consideradas pelo contribuinte como indenizatórias. Nesse ponto, entendo que não há o que ser apreciado quanto a mérito das compensações referentes a verbas supostamente afastadas pelo STJ em julgamento em sede de recurso repetitivo, tendo em vista que nos presentes autos apenas se discuti a multa isolada. O lançamento consubstanciado na Lei n ° 8.212/1991 está em perfeita consonância com o ordenamento jurídico, haja vista o próprio CTN dispor em seu artigo 97, VI, que as hipóteses de extinção do crédito tributário, entre essas a compensação e a dação em pagamento, são de estrita reserva legal. Assim, para verificar a possibilidade de compensação há que ser remetido para os permissivos legais. Art.97 somente a lei pode estabelecer: VI as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. Conforme prevê o art. 89, § 2º da Lei n ° 8.212/1991, somente pode ser compensado nas contribuições arrecadadas pelo INSS os valores recolhidos de forma indevida. Fl. 677DF CARF MF 8 Dessa forma, só após a conclusão de serem indevidos tais valores poderia o recorrente valerse do instituto da compensação. Com relação ao argumento de realização de compensação nos limites legais, entendo que acordo com os princípios basilares do direito processual, cabe ao autor provar fato constitutivo de seu direito, por sua vez, cabe à parte adversa a prova de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Na hipótese dos autos, não se vislumbra essa condição para as compensações efetuadas pela contribuinte. Não bastasse isso, consoante restou circunstanciadamente demonstrado pela fiscalização, em seu relatório fiscal: No exercício das funções de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, com fulcro nos artigos 194 a 197 do Código Tributário Nacional, combinado com os artigos 33 e 37 da Lei n° 8.212/91 e artigos 2o e 3o da Lei n° 11.457/2007, efetuamos o lançamento da MULTA ISOLADA, de conformidade com o determinado no Despacho Decisório DRF/GUA n° 0165/2014 (fls. 289 a 305), com ciência eletrônica em 19/07/2014 (fls. 307), que decorreu da análise da COMPENSAÇÃO DE VALORES RELATIVOS A CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA, declarados em Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP dos estabelecimentos matriz (02.269.509/000160)nas competências de 07/2010 a 09/2010; 03/2011 a 04/2012, 08/2012, 10/2012 a 12/2012, 03/2013 a 07/2013, 09/2013 a 12/2013; e filial 0004 (02.269.509/000402) nas competências de 07/2010 a 09/2010; 03/2011 a 11/2011, 04/2012, 05/2012, 08/2012, 04/2013, 06/2013 a 12/2013, no montante de R$ 28.029.406,49 abaixo relacionadas: [...] A empresa METALÚRGICA DE TUBOS DE PRECISÃO LTDA foi intimada através do Termo de INTIMAÇÃO SEORT/DRF/GUA N° 0314/2014 (fls. 02 a 04), e do Termo de INTIMAÇÃO SEORT/DRF/GUA N° 0318/2014 (fls. 06 a 08), ambos com ciência por via postal em 13/05/2014 por meio de AR (fls. 199) , a esclarecer o motivo das compensações declaradas, detalhando em planilha, em meio digital, para cada competência em que foi declarada compensação, bem como a apresentar documentação hábil e idônea da origem do crédito utilizado, em meio digital. 2. Em resposta (fls. 10 a 115), o contribuinte apresentou, resumidamente,esclarecimentos que as compensações tratamse de créditos decorrentes de não incidência da contribuição sobre as seguintes verbas: Auxilio Doença; 1/3 das Férias Gozadas; Aviso Prévio Indenizado, Salário Maternidade, Salário Paternidade,Acréscimos de Horas Extras, Férias Gozadas, Horas Extras, DSR Variáveis, FatorAcidentário de Prevenção FAP; 13° Salário, Adicional Insalubridade, AdicionalNoturno, INCRA SEBRAE e RAT. O sujeito passivo citou, em seus esclarecimentos,acórdãos do STF, STJ, entretanto não apresentou ser parte beneficiária de qualquer pronunciamento Fl. 678DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 6 9 judicial capaz de exonerálo da incidência da contribuição previdenciária sobre as referidas verbas, conforme preceitua o CPC LEI N° 5.869 de11 de janeiro de 1973 em seu artigo 472: Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros. 3.DA ORIGEM DUVIDOSA DOS CRÉDITOS o contribuinte em sua planilha "EXTRATO DE APURAÇÃO E COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS PREVIDENCIÁRIOS" (fls. 116 a 127) aponta apuração de créditos em 30/05/2011 (fls.121) decorrente do período de set/2008 a abr/2011, sendo que o período de 11/2008 a 06/2010 já foi objeto de análise nos processos de auto de infração n°16095.00622/201046 e 16095.000624/201035, (DEBCAD 37.245.6197,37.245.6200 e 37.245.6219 (fls. 203), protocolizados em 25/11/2010 e 26/11/2010respectivamente, com os créditos tributários lançados mantidos pela DRJ, ou seja, em 30/05/2011 utilizou como geradores de créditos valores compensados e considerados improcedentes pela DRJ (Decisões as fls. 225 a 249, 251 a 268 e 270 a 287), nos processos que se encontram atualmente em fase recursal ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF (fls. 197 e 198). Trazendo mais um exemplo de crédito falacioso temos, na mesma planilha, a apuração em 31/12/2013 de créditos dos períodos de jun/2013 a nov/2013 (fls. 125 e 126), sendo que não houve qualquer recolhimento neste período que pudesse gerar créditos ao contribuinte conforme pesquisado no CCOR (Consulta Conta Corrente de Estabelecimento (fls. 193 a 196) Sendo assim, as compensações realizadas na GFIP, com créditos sabidamente inexistentes de fato, reduzindo indevidamente os recolhimentos das contribuições, pela empresa METALÚRGICA DE TUBOS DE PRECISÃO LTDA não se enquadram nas hipóteses legais. (Lei 8.212/91, art. 11 § único, letras a,b,c; C/C art. 89). Motivo pelo qual, devem ser glosados os valores indevidamente compensados pelo estabelecimento matriz nas competências de 07/2010 a 09/2010; 03/2011 a 04/2012, 08/2012, 10/2012 a 12/2012, 03/2013 a 07/2013, 09/2013 a 12/2013; e pelo estabelecimento filial 0004 nas competências de 07/2010 a 09/2010; 03/2011 a 11/2011, 04/2012, 05/2012, 08/2012, 04/2013, 06/2013 a 12/2013, com a respectiva multa isolada do inciso I do art. 44 da Lei n° 9.430/96 c/c § 10 do artigo 89 da Lei 8.212/91. FALSIDADE DAS COMPENSAÇÕES MULTA ISOLADA: o contribuinte vem irregularmente deixando de recolher as contribuições previdenciárias devidas por efetuar falsas compensações em GFIP considerando que não existem quaisquer recolhimentos efetuado indevidamente que possam servir de lastro para justificar as referidas compensações, e, Fl. 679DF CARF MF 10 tampouco, é titular de direito que lhe tenha sido administrativa ou judicialmente reconhecido em relação à matéria objeto de suas alegações, para que pudesse ter lançado mão da compensação, para assim deixar legalmente de recolher contribuições previdenciárias devidas. Assim, cabe a aplicação de multa isolada prevista no parágrafo 10 do artigo 89 da Lei n.° 8.212/91, em decorrência da falsidade das compensações declaradas em GFIP, que resultaram em prejuízo do recolhimento das contribuições previdenciárias devidas e que referida multa é aplicada no percentual de 150% sobre o valor das contribuições que deixaram de serem recolhidas em função da falsidade das compensações; com o objetivo de retardar, ou impedir, ou reduzir, ou diferir o pagamento do tributo efetivamente devido conforme estabelecido no art. 89 da Lei 8212/91, caput e §10, c/c art. 44 da Lei 9.430/96, caracterizando fraude, dolo e simulação conforme art. 72 da Lei n° 4.502/64 Registrese, que ao admitir a compensação na forma pretendida pela contribuinte, estaríamos não só malferindo o disposto no artigo 89 da Lei nº 8.212/91, mas também interpretando àquela norma de forma extensiva, o que vai de encontro com a legislação de regência, como acima demonstrado, sobretudo em face da impossibilidade de compensação sobre valores que não provou o recorrente ter efetivamente recolhido, bem como, evidente ausência de liquidez e certeza do crédito utilizado pela contribuinte para promover as compensações. Nesse sentido, não há como se acolher a pretensão da contribuinte, de maneira a homologar as compensações pleiteadas afastando a multa isolada pela não demonstração de dolo. A autoridade recorrida agido corretamente, com estrita observância à legislação previdenciária. Da Multa Isolada Quanto ao questionamento acerca da multa isolada, base do presente recurso, correto o procedimento adotado pela autoridade fiscal que ensejou no acórdão recorrido, considerando que, informação em GFIP de compensações realizadas, sem que a empresa encontrese exercendo direito líquido e certo leva sim, a uma falsa declaração, capaz de ensejar a aplicação da multa prevista no § 10 da lei 8212/91, no patamar de 150%. A argumentação da autoridade fiscal para glosa e aplicação da multa isolada ratificada pelo acórdão recorrido, foi assim, descrita: O art. 89,§ 10, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009, assim dispõe: Art. 89. As contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, as contribuições instituídas a título de substituição e as contribuições devidas a terceiros somente poderão ser restituídas ou compensadas nas hipóteses de pagamento ou recolhimento indevido ou maior que o devido, nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). ... Fl. 680DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 7 11 § 10. Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à multa isolada aplicada no percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicado em dobro, e terá como base de cálculo o valor total do débito indevidamente compensado. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). Pelo texto acima, vêse que o fundamento para a aplicação da multa isolada no caso de compensação indevida consiste na falsidade da declaração apresentada, não sendo necessário ficar configurada sonegação, fraude ou conluio A respeito desse tema, transcrevo excertos do voto proferido pelo Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, em 12/4/2016, no Acórdão nº 9202003.929 da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF): Esclarecida a diferença entre o lançamento em geral e o caso da compensação de contribuições previdenciárias, passo a apresentar como interpreto sistematicamente os conceitos de: (a)fraude/sonegação/conluio, (b) falsidade e (c) mero erro. Por sonegação/fraude/conluio, entendo, em linha com o disposto nos arts. 71 a 73 da Lei n° 4.502, de 1964, que é ação dolosa tendente a impedir o conhecimento do fato pela autoridade ou a alteração de suas características, com ou sem a participação de duas ou mais pessoas. Por falsidade, referida no art. 89 da Lei n° 8.212, de 1991, entendo a consciência do agente, de que a conduta praticada consiste em inserção de informação, na declaração de compensação, que não corresponda à verdade. Por fim, por mero erro escusável, temos a inserção de informações equivocadas na declaração, sem que esteja comprovada a consciência do agente acerca do fato. Concluindo, no caso de erro não cabe a exigência da multa prevista no art. 89 Lei nº 8212, de 1991. Já no casos de falsidade e de fraude/sonegação/conluio, cabe a multa. Porém não é necessária a comprovação de fraude/sonegação/conluio, basta a comprovação da falsidade. No caso em tela, temse que o relatório fiscal circunstanciou adequadamente os fatos, demonstrando ter sido realizada compensação com créditos que não detinham os necessários atributos de liquidez e certeza. Ao contrário, os créditos não foram reconhecidos no processo administrativo nº 10875.721701/201454. Ainda foram utilizados valores de suposto crédito em período que sequer houve pagamento de contribuições previdenciárias (06/2013 a 11/2013 efls. 309/310). Fl. 681DF CARF MF 12 Cabe transcrever ainda excertos do voto do conselheiro Mauro José Silva, proferido no Acórdão nº 2301002.736, que manteve a aplicação da multa isolada sobre compensações com falsidade de declaração referente ao período anterior (09/2008 a 06/2010): Apesar de o Direito Tributário não exigir, genericamente, em suas infrações a presença do dolo, o que marca uma das diferenças em relação ao do Direito Penal, podemos buscar naquele ramo do Direito a noção da falsidade em si, dissociada do elemento doloso. Tomamos a lição de Guilherme de Souza Nucci (Código Penal Comentado, São Paulo: Editora do Tribunais, 2007, p. 972) sobre a falsidade prevista no art. 299 do CP(falsidade ideológica): A introdução de algo não correspondente à realidade compõe a falsidade (ex.: incluir na carteira de habilitação que no motorista pode dirigir qualquer veículo, quando sua permissão limitase aos automóveis de passeio) e a inserção de declaração não compatível com a que se esperava fosse colocada compõe outra situação.” Assim, falsa é a declaração sobre um fato que não corresponde à realidade ou que não é compatível com o que se esperava fosse colocado. O que se esperava de um crédito que o contribuinte utiliza para compensar créditos tributários da União? Esperase aquilo que o CTN exige: que seja líquido e certo. É esse o comando do art. 170: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Só existe direito creditório compensável se este for líquido e certo. Um crédito oriundo de um pagamento tido como indevido por tese jurídica bastante contestada judicialmente não é líquido e certo. Só haverá liquidez e certeza depois do transito em julgado da respectiva ação judicial ou depois que a Fazenda Pública reconhecer o crédito administrativamente. Nenhuma das situações ocorreu no caso. (...) A realidade jurídica da recorrente era a não existência de créditos líquidos e certos. Ao declarar que os possuía, declarou fato falso, fato diverso da realidade jurídica. Fez declaração contendo informação diversa da que se esperava, uma vez que se esperava que só declarasse a compensação de créditos líquidos e certos. (...) Fl. 682DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 8 13 Se a compensação indevida for identificada por falta de provas do pagamento, por erros escusáveis de cálculo do crédito, entre outras hipóteses, não teremos a aplicação da multa de 150% por ausência de falsidade. Mas no caso temos evidenciada a declaração em GFIP da existência de créditos líquidos e certos que se revelou falsa. Parecenos que a situação prevista na lei para a aplicação da penalidade de 150% ficou configurada. (grifo nosso) No caso dos autos, além de a autoridade tributária não ter reconhecido a existência dos créditos objeto de compensação, foram compensados supostos créditos sob a alegação de inconstitucionalidade, decorrentes de contribuições para terceiros e, inclusive, de períodos em que sequer houve recolhimento de contribuições previdenciárias. É certo que o contribuinte pode se compensar de valores recolhidos indevidamente, mas é prioritário que exista o recolhimento indevido, o que não restou demonstrado pela autuada. Por todo o exposto, entendo que ficou demonstrada a falsidade na declaração de valores compensados em GFIP, configurando a situação para a aplicação da multa isolada nos termos do §10, do art. 89 da Lei nº 8.212/1991, na redação da Lei nº 11.941/2009, porque a recorrente ao fazer inserir em Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social — GFIP, informação de compensação de créditos ilíquidos, reduziu, deliberadamente, o valor devido e o subsequente recolhimento de sua obrigação tributária para com a Seguridade Social. Notese que a aplicação da multa isolada não foi fundamentada apenas na compensação de valores questionáveis em juízo, mas especialmente na ausência de comprovação do efetivo recolhimento indevido. Novamente transcrevese trecho do relatório de Verificação Fiscal, fls. 308 e seguntes: Concluindo, no caso de erro não cabe a exigência da multa prevista no art. 89 Lei nº 8212, de 1991. Já no casos de falsidade e de fraude/sonegação/conluio, cabe a multa. Porém não é necessária a comprovação de fraude/sonegação/conluio, basta a comprovação da falsidade. No caso em tela, temse que o relatório fiscal circunstanciou adequadamente os fatos, demonstrando ter sido realizada compensação com créditos que não detinham os necessários atributos de liquidez e certeza. Ao contrário, os créditos não foram reconhecidos no processo administrativo nº 10875.721701/201454. Ainda foram utilizados valores de suposto crédito em período que sequer houve pagamento de contribuições previdenciárias (06/2013 a 11/2013 efls. 309/310). Fl. 683DF CARF MF 14 Ao contrário de outros processos de compensação, onde a empresa promove as compensações, amparada em decisão judicial, no presente caso, mesmo que se argumente a existência de jurisprudência que poderia levar ao entendimento do recorrente, não há como afastar o fato que a empresa realizou as compensações ao seu “bel prazer”, sem qualquer amparo, ou seja, não buscou judicialmente o direito a compensação. Não falo com isso que a empresa deva sempre buscar seu direito perante o judiciário, pelo contrário, a própria lei autoriza a compensação direta do tributo recolhido indevidamente, porém essa definição de recolhimento indevido estará sujeita a posterior homologação, por parte da DRFB. Dessa forma, entendo que compete ao sujeito passivo, demonstrar de forma clara e objetiva o seu direito creditório, para que só então a autoridade fiscal rebata afastando o direito o direito e efetivando não apenas o lançamento da glosa, como aplicando a multa isolada. Devese, analisando pontualmente, cada caso concreto, identificar a verba compensada, para só então definir a existência de falsidade de declaração. Notese que aqui, não exigiu o legislador a demonstração da fraude por parte do agente fiscal, como destacado na decisão recorrida, nem mesmo dolo, mas a indicação de informação falsa na GFIP. Convém apreciar, inicialmente o dispositivo legal utilizado pela autoridade fiscal para imposição da multa isolada, o § 10 do art. 89 da Lei n.º 8.212/1991: Art. 89. As contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, as contribuições instituídas a título de substituição e as contribuições devidas a terceiros somente poderão ser restituídas ou compensadas nas hipóteses de pagamento ou recolhimento indevido ou maior que o devido, nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). (...) § 10. Na hipótese de compensação indevida, quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, o contribuinte estará sujeito à multa isolada aplicada no percentual previsto no inciso I do caput do art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, aplicado em dobro, e terá como base de cálculo o valor total do débito indevidamente compensado.(Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). (...) Entendo que o dispositivo em questão retrata multa diversa da comumente aplicada nos lançamentos de ofício, consubstanciada no art. 44, § 1, Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) Fl. 684DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 9 15 a) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Incluída pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) § 2º Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1º deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007) Ou seja, o legislador determina a aplicação de multa de 150% quando se trata de falsidade de declaração, sem que no mencionado dispositivo, tenha o legislador, mencionado a necessidade de imputação, de dolo, fraude ou mesmo simulação na conduta do contribuinte. Mas, qual o limiar entre a caracterização de simples informação inexata, ou sem que o recorrente tenha legitimidade para exercer naquele momento o direito e a falsidade propriamente dita. Ao efetivar compensação sobre valores de contribuições ao qual não demonstrou o recorrente ter efetivamente promovido o recolhimento, procedeu o recorrente a informação de existência de crédito na verdade inexistente, indicando nítida falsidade de declaração. A declaração em GFIP de créditos a compensar gera a conseqüente diminuição da contribuição devida, todavia, está sujeita a posterior homologação. Nesse sentido, compete a autoridade fiscal intimar o contribuinte a esclarecer a base dos valores declarados, informações essas que devem estar disponíveis à fiscalização, tão logo seja o contribuinte intimado para tanto. De igual forma, alegar em sede de impugnação que compensou valores à horas extras, 13º salário, adicional noturno, recolhimento do FAP, RAT, terceiros INCRA título de 1/3, horas extras e gratificações, salário maternidade, RSR, salário paternidades carece de respaldo se a lei previdenciária, em momento algum, excluiu ditas rubricas do conceito de salário de contribuição. Nesse caso, proceder a compensação de valores sem amparo judicial, sem declaração de inconstitucionalidade que determine serem indevidos os valores e, sem nem mesmo deixar claro qual o montante que compensou a este título, não pode ser aceito. Assim, a não comprovação do direito creditório a esse título gera também falsidade de declaração. Fl. 685DF CARF MF 16 Pelos fatos descritos, fica fácil identificar que não se desincumbiu o sujeito passivo de provar que os valores indicados como crédito em sua GFIP, realmente existiram. É nesse caso, que resta demonstrada a falsidade. Neste ponto, entendo pertinente transcrever o voto do ilustre Conselheiro Kleber, que tratou com muita propriedade a questão: Verificase de início que a lei impõe como condição para aplicação da multa isolada que tenha havido a comprovada falsidade na declaração apresentada. Assim, para que o fisco possa impor a penalidade de 150% sobre os valores indevidamente compensados, é imprescindível a demonstração de que a declaração efetuada mediante a Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP contém falsidade, ou seja, não retrata a realidade tributária da declarante. Pesquisando o significado do termo falsidade em http://www.dicionariodoaurelio.com, obtémse o seguinte resultado: “s.f. Propriedade do que é falso. / Mentira, calúnia. / Hipocrisia; perfídia. . Delato que comete aquele qud consciendemente esconde ïu alter` a0vErdade.” Ifserindo essa vocábulO no coNtepto da compensação indevida é de se concluir que re o!sujgito pasóivo inserir na guia informativa cré$itos que decorrenter de contribuições incidentes sobre parcelas integrantes$do saláriodeconTribuição, evideltemente cometeu falsidate, haja ¶istc ter inserido ~o sistema da Administreção Tributária informação inverídica no intuito de se livrar do pagamento dos tributow. Vale ressaltar que legislador foi bastante feliz na"redação dO dispositivo elciMado, posto que utilizouse dï ert. 44 da Ldi n. �9.4#0/ 99v apenas para balizar o percentu`l de multa a ser apli#ado, não condmcionaleo à aplicação da mulTa à ocorrência laS condutas de skneccção, graude d conluio< definida{ respectiva}ente los artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 5.502/196$. Esse opçëo megislativa {erviu exatamente para afastar os questionamentos de que a mera0compelsação indevida não repres%ntaria os ilícitos acima, nos casos em que o sujeito passivo tivesse declarado corretamente os fatos geradores, posto que não se poderia falar em sonegação ou fraude fiscal. Contudo, não há que se confundir fraude com falsidade, tendo em vista que se o legislador, quisesse atribuir a mesma natureza as duas penalidades, teria simplesmente determinado a aplicação do art. 44, § 1º da 9430, No meu entender a previsão de multa isolada pela falsidade de declaração, visa justamente coibir a prática de compensação de valores, sem que o contribuinte, ao ser inquirido para tanto, prove que os valores lançados em GFIP são seu direito. Se assim não o fosse, veríamos a criação de uma prática de que contribuinte se daria o direito de compensar Fl. 686DF CARF MF Processo nº 10875.723818/201472 Acórdão n.º 9202006.885 CSRFT2 Fl. 10 17 tudo aquilo que até então recolhia de contribuição previdenciária sobre sua folha, por simplesmente entender que indevida a inclusão das verbas no conceito de remuneração. Importante destacarmos, que dois são os fundamentos para imposição da multa aplicada, considerando a falsidade das declarações em GFIP: a) se considerarmos que o recorrente compensou valores, amparado em jurisprudência esparsa, estaríamos chancelando que pode o recorrente “de acordo com sua interpretação da lei” a partir de hoje, definir o alcance do conceito de remuneração, mesmo inexistindo qualquer amparo legal ara suas exclusões; b) segundo, conforme trazido pelo auditor, não restou demonstrado que os valores compensados haviam efetivamente sido recolhidos pelo sujeito passivo, pela qual devida a multa pela falsidade de indicação de valores recolhidos indevidamente, sem que o recorrente demonstrasse o recolhimento efetivo. De se concluir que na imposição da multa isolada, relativa à compensação indevida de contribuições previdenciárias, a única demonstração que se exige do fisco é a ocorrência de falsidade na GFIP apresentada pelo sujeito passivo, como no presente caso. Conclusão Pelo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, mantendo a decisão recorrida. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Fl. 687DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10611.001294/2010-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 22/02/2010
DEPÓSITO JUDICIAL TEMPESTIVO E INTEGRAL, REALIZADO COM O OBJETIVO DE SUSPENDER A INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA AFASTAM OS ENCARGOS MORATÓRIOS - SUMULA CARF N.05.
Os depósitos judiciais realizados de forma tempestiva e integral, efetivados com o objetivo de suspender a exigibilidade do crédito tributário, afastam os encargos moratórios, conforme a Súmula CARF n. 05.
Numero da decisão: 3302-005.423
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède- Presidente.
(assinado digitalmente)
Raphael Madeira Abad - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus Paulo, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: RAPHAEL MADEIRA ABAD
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 22/02/2010 DEPÓSITO JUDICIAL TEMPESTIVO E INTEGRAL, REALIZADO COM O OBJETIVO DE SUSPENDER A INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA AFASTAM OS ENCARGOS MORATÓRIOS - SUMULA CARF N.05. Os depósitos judiciais realizados de forma tempestiva e integral, efetivados com o objetivo de suspender a exigibilidade do crédito tributário, afastam os encargos moratórios, conforme a Súmula CARF n. 05.
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Os depósitos judiciais realizados de forma tempestiva e integral, efetivados com o objetivo de suspender a exigibilidade do crédito tributário, afastam os encargos moratórios, conforme a Súmula CARF n. 05. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Raphael Madeira Abad Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus Paulo, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e Raphael Madeira Abad. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 61 1. 00 12 94 /2 01 0- 32 Fl. 623DF CARF MF Processo nº 10611.001294/201032 Acórdão n.º 3302005.423 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório A Recorrente importou uma aeronave, minuciosamente descrita às fls. 03, em regime de admissão temporária e, por discordar da incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI sobre o bem, impetrou Mandado de Segurança (2007.3800.0008147) visando o reconhecimento do seu alegado direito de não recolher o tributo na entrada da mesma no território nacional. A recorrente não logrou êxito no intento de suspender a exigibilidade do crédito por meio de medida liminar em Mandado de Segurança (CTN art. 151, IV), fazendoo então por meio do depósito do montante do tributo (CTN art. 151, II), o que resulta na mesma consequência prática, qual seja a suspensão da exigibilidade do crédito e o não computo de eventuais acréscimos moratórios enquanto perdurar a referida suspensão. Quando da lavratura do lançamento para se prevenir a decadência, a autoridade fiscal lançou, além do tributo em discussão, encargos moratórios sem, contudo, exigilos. Em sede de Impugnação, a Recorrente insurgiuse contra o lançamento dos juros de mora, dentre outras matérias, que foram todas decididas pela DRJ, que entendeu pela sua improcedência, com a consequente manutenção do Auto de Infração, tendo sido lavrada a seguinte ementa: " ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 01/02/2007 PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. DIVERGÊNCIAPARCIAL DE OBJETOS. RENÚNCIA PARCIAL À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Em razão do Princípio da Unidade de Jurisdição, a propositura de ação judicial contra a Fazenda Pública importa renúncia ao direito de recorrer às instâncias julgadoras administrativas, no tocante à matéria objeto de discussão perante o Poder Judiciário, em relação à qual o lançamento tornase definitivo na esfera administrativa, ficando vinculado ao que for decidido no processo judicial. Havendo divergência parcial de objetos entre o processo administrativo e a ação judicial, é cabível o julgamento administrativo da lide unicamente no que concerne à matéria diferenciada. Nessa hipótese, havendo conexão ou interdependência entre ambos os processos, a eficácia da decisão administrativa ficará subordinada ao resultado definitivo do processo judicial. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 01/02/2007 DEPÓSITO JUDICIAL. LANÇAMENTO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. Fl. 624DF CARF MF Processo nº 10611.001294/201032 Acórdão n.º 3302005.423 S3C3T2 Fl. 4 3 Diante de causa suspensiva da exigibilidade do crédito tributário o lançamento do tributo e consectários legais deve ser realizado com a finalidade de prevenir a decadência do direito da Fazenda Pública. O depósito do montante integral suspende a exigibilidade do crédito tributário, porém, não importa nulidade do lançamento de ofício realizado pela autoridade fiscal, ficando assegurado ao sujeito passivo não ser iniciado qualquer procedimento executório enquanto subsistir o depósito. DEPÓSITO JUDICIAL. JUROS DE MORA. O depósito do montante integral do crédito tributário, a partir da data em que é efetivado, afasta a fluência dos juros de mora em favor da Fazenda Pública, o que será reconhecido ao término do processo judicial em que se discute o crédito tributário, quando o valor depositado será devolvido ao depositante, acrescido de juros moratórios, se a sentença lhe for favorável, ou, por ocasião da transformação do depósito em pagamento definitivo, cujos efeitos retroagirão à data de realização do depósito, extinguindo o crédito tributário, inclusive os juros de mora relativos a período posterior àquela data, na hipótese de decisão favorável à Fazenda Nacional. Entretanto, os encargos moratórios lançados deverão continuar a incidir normalmente, no caso excepcional de levantamento do depósito antes do encerramento da lide judicial. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Todas as matérias arguidas foram julgadas improcedentes pela DRJ, contudo apenas os “juros de mora” foram objeto de Recurso Voluntário, no qual a Recorrente reitera as razões aduzidas na impugnação, especialmente pela aplicação da Sumula 05 do CARF, razão pela qual apenas esta matéria deverá ser apreciada por este Colegiado. É o relatório. Voto Conselheiro Raphael Madeira Abad Relator 1. Admissibilidade do recurso. O presente Recurso é tempestivo e atende os demais pressupostos formais de admissibilidade, razão pela qual dele conheço. 2. Incidência de juros de mora sobre o valor lançado. O Demonstrativo Consolidado do Crédito Tributário do Processo expressamente referese a LANÇAMENTO PARA PREVENIR DECADÊNCIA, havendo Fl. 625DF CARF MF Processo nº 10611.001294/201032 Acórdão n.º 3302005.423 S3C3T2 Fl. 5 4 informação expressa de que apesar de haver menção aos juros de mora, eles estão com a exigibilidade suspensa por força de depósito judicial do valor integral do tributo sob discussão. A única menção a juros de mora está às fls. 02, onde há referência de será utilizada a Taxa Selic acumulada mensalmente. No entanto, o Recorrente invoca a Súmula CARF n. 5, segundo a qual: “ São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa a sua exigibilidade, salvo quando existir depósito do montante integral." destaques nossos. Ocorre que com a efetivação do depósito judicial do valor integral do crédito tributário, a quantia é disponibilizada antecipadamente ao fisco, facultando ao contribuinte discutir a legitimidade da cobrança sem submeterse às consequências da mora, a contar da data da efetivação do depósito. Isto significa que caso o depósito integral seja realizado antes ou na data do vencimento do tributo, o contribuinte nada mais deverá ao fisco no caso de sucumbência. De outro lado, no caso de lograr êxito em seu intento, o contribuinte levantará o valor depositado, acrescido de acréscimos moratórios, representado pela "Taxa Selic". Assim, este é o caso de aplicação da citada Súmula CARF n. 5, que veda a exigência de juros moratórios no caso do sujeito passivo realizar depósito integral do valor do tributo sob discussão. Por esta razão, é de se dar total provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Raphael Madeira Abad Fl. 626DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.002340/2011-17
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.749
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 11242.000598/2009-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício e Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 00 23 40 /2 01 1- 17 Fl. 620DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 3 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Contra o contribuinte foi lavrado o presente auto de infração para cobrança de contribuições previdenciárias destinadas à Seguridade Social. Após o trâmite processual, a turma a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário do Contribuinte para determinar o recálculo da multa aplicada haja vista alterações promovidas na redação da Lei nº 8.212/1991. Inconformada com o resultado do julgamento, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial cujo objeto é a discussão acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.733, de 19/04/2018, proferido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.733): "O recurso preenche os pressuposto de admissibilidade razão pela qual deve ser conhecido. A controvérsia levantada pela Fazenda Nacional é relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: Fl. 621DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 4 3 I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão n. 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento Fl. 622DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 5 4 e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da Fl. 623DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 6 5 declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para Fl. 624DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 7 6 as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas Fl. 625DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 8 7 competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 626DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 9 8 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional para determinar que a multa seja aplicada nos termos em que fixado pela Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009." Fl. 627DF CARF MF Processo nº 10830.002340/201117 Acórdão n.º 9202006.749 CSRFT2 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 628DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10909.720271/2015-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Data do fato gerador: 13/03/2013
AÇÃO JUDICIAL. EFEITOS. CONCOMITÂNCIA.
A propositura de qualquer ação judicial anterior, concomitante ou posterior a procedimento fiscal, com o mesmo objeto do lançamento, importa em renúncia ou desistência à apreciação da mesma matéria na esfera administrativa. Assim, o apelo interposto pelo sujeito passivo não deve ser conhecido no âmbito administrativo.
As matérias diferenciadas entre o processo judicial e o processo administrativo e impugnadas devem ser apreciadas no âmbito administrativo, desde que não tenham influência quanto ao mérito do objeto litigado judicialmente.
Numero da decisão: 3302-005.597
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Walker Araujo - Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), Fenelon Moscoso de Almeida, Vinícius Guimarães, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Walker Araujo, José Renato Pereira de Deus e Diego Weis Júnior.
Nome do relator: WALKER ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Data do fato gerador: 13/03/2013 AÇÃO JUDICIAL. EFEITOS. CONCOMITÂNCIA. A propositura de qualquer ação judicial anterior, concomitante ou posterior a procedimento fiscal, com o mesmo objeto do lançamento, importa em renúncia ou desistência à apreciação da mesma matéria na esfera administrativa. Assim, o apelo interposto pelo sujeito passivo não deve ser conhecido no âmbito administrativo. As matérias diferenciadas entre o processo judicial e o processo administrativo e impugnadas devem ser apreciadas no âmbito administrativo, desde que não tenham influência quanto ao mérito do objeto litigado judicialmente.
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EFEITOS. CONCOMITÂNCIA. A propositura de qualquer ação judicial anterior, concomitante ou posterior a procedimento fiscal, com o mesmo objeto do lançamento, importa em renúncia ou desistência à apreciação da mesma matéria na esfera administrativa. Assim, o apelo interposto pelo sujeito passivo não deve ser conhecido no âmbito administrativo. As matérias diferenciadas entre o processo judicial e o processo administrativo e impugnadas devem ser apreciadas no âmbito administrativo, desde que não tenham influência quanto ao mérito do objeto litigado judicialmente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Walker Araujo Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 9. 72 02 71 /2 01 5- 08 Fl. 285DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (presidente da turma), Fenelon Moscoso de Almeida, Vinícius Guimarães, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Walker Araujo, José Renato Pereira de Deus e Diego Weis Júnior. Relatório Por bem descrever a realidade dos fatos, adoto e transcrevo do relatório da decisão de piso de fls. 144151: Versa o presente processo sobre o Auto de Infração lavrado (fls. 02/13) para a exigência do crédito tributário no valor de R$ 174.758,89, relativo ao IPI Importação, acrescido dos juros de mora e da multa de ofício, em decorrência do registro da Declaração de Importação nº 13/04883240, em 13/03/2013, a fim de nacionalizar um veículo automotor (I/PORSCHE/CAYENNE, Chassi WP1AA2A27DLA06636). A auditoria informa que o contribuinte impetrou o Mandado de Segurança nº 500101520.2013.404.7208/SC, no intuito de obter provimento jurisdicional para reconhecer a inexigibilidade do IPI, no caso de importação de veículo para uso próprio, por ferir o princípio da nãocumulatividade previsto no art. 153, §3º, inciso II da Constituição Federal de 1988, bem como para determinar que a base de cálculo do PISImportação e da COFINSImportação fosse somente o valor aduaneiro, sem considerar o ICMS incidente sobre o desembaraço aduaneiro, nem o valor das próprias contribuições tal como previsto na Lei nº10.685/2004. Em 08/03/2013, a liminar foi deferida. Tal decisão culminou com a sentença de 1º grau reconhecendo a inexigibilidade do IPI sobre a importação do veículo, porém, tal sentença foi reformada em Acórdão do TRF 4ª Região exarado em 14/08/2013. Atualmente o mérito da ação encontrase sobrestado no STF aguardando o julgamento de paradigma. Relata a auditoria que o autuado possuía o direito de recolher o tributo reconhecidamente devido, sem imposição de multa, até 13/09/2013, o que não ocorreu. Informa que o depósito judicial de R$ 106.790,06, efetuado em 30/01/2015, não corresponde ao integralmente devido, o qual, somado aos juros e multa de mora, daria R$ 124.848,52. Assim, não se enquadra nas hipóteses de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, previstas no art. 151, do CTN, e é inaplicável o art. 63, da Lei nº 9.430/96, ao caso em questão. Cientificado (fls. 65/70), o interessado apresentou impugnação tempestiva, às fls. 72/85, na qual, em síntese: Alega nulidade da intimação feita na pessoa de procurador, cuja procuração fora outorgada para a realização do serviço de despacho aduaneiro e não para receber o lançamento. Quanto à não incidência do IPI na importação realizada por pessoa física, aduz que o procedimento fiscal está em desacordo com a determinação Fl. 286DF CARF MF Processo nº 10909.720271/201508 Acórdão n.º 3302005.597 S3C3T2 Fl. 3 3 constitucional, porque viola os princípios da nãocumulatividade, da segurança jurídica e estrita legalidade. Argumenta, ao contrário do disposto no auto de infração, que o acórdão que afastou a liminar concedida somente produziu efeitos 10 dias após a decisão dos embargos de declaração proferida em 27/02/2014. Este equívoco importa na desconstituição do crédito tributário. Alega que efetuou o depósito do montante de IPI devido (R$ 90.746,13) acrescido dos juros de mora, conforme o art. 61 da Lei nº 9.430/96. Entretanto, o fisco indevidamente aplicou a multa de 75% sobre a integralidade do crédito tributário depositado, sendo que o valor depositado a menor (R$ 18.149,23) é inferior a 20% do total lavrado no auto de infração. Desta forma, a multa de ofício lançada tem efeito confiscatório, porque extrapola o princípio da razoabilidade. Requer o cancelamento do lançamento, ou, subsidiariamente, que seja sobrestado o processo administrativo fiscal até o julgamento dos recursos interpostos, nos termos do regimento interno do CARF. Em 07 maio de 2015, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento, por unanimidade de votos, decidiu em não conhecer o mérito da presente ação administrativa, em face da concomitância de objeto com processo judicial e, julgar devida a cobrança dos juros de mora e da multa de ofício de 75% por falta de recolhimento dos impostos, nos termos da ementa abaixo: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 13/03/2013 ESFERA JUDICIAL E ADMINISTRATIVA. CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA. A propositura pelo contribuinte de ação judicial contra a Fazenda Nacional, com o mesmo objeto do auto de infração, configura renúncia às instâncias administrativas no tocante a mesma matéria. LANÇAMENTO. AÇÃO JUDICIAL. COBRANÇA. A ação judicial não suspende ou interrompe a prática do ato administrativo de lançamento, decorrente de atividade vinculada e obrigatória, o qual segue seu curso normal de julgamento nesta instância, caso apresentada a impugnação ou recurso com matéria diferente daquela discutida judicialmente. Após a definitividade da exigência na esfera administrativa, para a cobrança e execução fiscal, serão avaliadas as causas de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, o desfecho final da ação judicial, ou, ainda, causas impeditivas de inscrição em dívida ativa. Intimada da decisão em 19.05.2015 (fls.154), a Recorrente interpôs recurso voluntário em 18.06.2015 (fls. 156164), alegando, em síntese, os seguintes tópicos: (i) prejudicial de mérito, nulidade de intimação; e (ii) da não incidência do IPI sobre a importação realizada por pessoa física; (iii) da cassação da liminar; (iv) do lançamento de ofício e da multa aplicad; e, ao final (v) requereu sobrestamento do feito até decisão definitiva do STF sobre a matéria em litígio. É o relatório. Fl. 287DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Walker Araujo Relator I Tempestividade A Recorrente foi intimada da decisão de piso em 19.05.2015 (fls.154) e protocolou Recurso Voluntário em 18.06.2015 (fls. 156164) dentro do prazo de 30 (trinta) dias previsto no artigo 33, do Decreto 70.235/721. Desta forma, considerando que o recurso preenche o requisito de admissibilidade, dele tomo conhecimento. II Preliminar Nulidade de intimação A Recorrente alega que a intimação realizada na pessoa do procurador é nula, consistindo em ato discricionário. Cita afronta ao artigo 23, inciso II, e §4º, inciso I, do Decreto 70.235/72. Inicialmente, verificase que o Sr. Jean Carlos Braga dos Santos possuía à época dos fatos poderes para representar o Recorrente em todas as repartições públicas federais e estaduais, conforme demonstra o mandato de fls. 66. Verificase, ainda, que o caput, do artigo 23, do Decreto 70235/72 prevê expressamente que a intimação poderá ser realizada na pessoa do mandatário, a saber: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar Neste cenário, possuindo a Recorrente mandatário devidamente constituído para representála perante as repartições públicas e, diante do permissivo normativo autorizando a intimação na pessoa de terceiro, resta improfícuo a alegação de nulidade suscitada pelo Recorrente. Somase a isso, que a Recorrente apresentou tempestivamente sua defesa e, em nenhum momento demonstrou ter ocorrido cerceamento defesa e/ou qualquer causa de prejudicialidade em razão da intimação ter sido realizado na pessoa de terceiros. Por estes motivos, deixo de acolher o pedido de nulidade arguido pelo Recorrente. III Mérito III.1 Da não incidência do IPI sobre a importação realizada por pessoa física 1 Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. Fl. 288DF CARF MF Processo nº 10909.720271/201508 Acórdão n.º 3302005.597 S3C3T2 Fl. 4 5 A matéria concernente a não incidência do IPI foi levada ao judiciário pelo Recorrente, fato este incontroverso nos autos. Diante disso, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento aplicou a concomitância entre o objeto da ação de judicial e o presente processo administrativo. A Recorrente, por sua vez, ignora a decisão "a quo" e traz em seu recurso alegações em relação a não incidência do imposto. Cita jurisprudência do STJ (RESP 1.396.488/SC, recebido nos termos do artigo 543C, do antigo CPC. Ao final, suplica pela aplicação da decisão do STJ, em total respeito as determinações do regimento interno do CARF. Considerando que a matéria concernente a incidência do IPI foi levado ao judiciário, culminando na renúncia à esfera administrativa e, considerando que a Recorrente não recorreu dessa matéria, fica este relator impedido de apreciar os argumentos explicitados pela Recorrente. Assim,deixo de conhecer os argumentos explicitados pela Recorrente neste tópico. III.2 Cassação da liminar Neste ponto, a Recorrente pleiteia a desconstituição do Auto de Infração por entender que houve equivoco por parte do fisco, ao informar que a data de início para a contagem do prazo para cumprimento do acórdão, que afastou a liminar concedida foi o dia 14.08.2013, ao passo que a data para o cumprimento teve seu início em 11.03.2014. Com todo respeito aos argumentos explicitados pela Recorrente, não vejo que o equivoco em relação a datas constantes no relatório sejam passíveis de nulidades e/ou desconstituir o Auto de Infração, posto que fora do rol previsto nos artigos 59 e 60 do Decreto nº 70.235/72, senão vejamos: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem Fl. 289DF CARF MF 6 em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Não bastasse isso, a Recorrente também não demonstrou qual prejuízo sofreu com eventual equivoco cometido por parte da fiscalização. Neste eito, resta afastado o pedido de desconstituição do Auto de Infração, por tal ausência de fundamento legal. III.3 Do lançamento de ofício e da Multa aplicada O Recorrente traz em seu recurso, toda matéria alegada em sede de impugnação. Contudo, deixou o Recorrente de recorrer da decisão de primeira instância que aplicou a concomitância em relação a exigência da multa de ofício e quanto a exigibilidade do crédito tributário frente ao montante depositado, senão vejamos: Desta forma, verificase que a impugnante apresentou os mesmos argumentos já levados à apreciação da esfera judicial, não somente no tocante à incidência do IPI sobre o bem importado, mas também quanto à imposição de multa de ofício e exigibilidade do crédito tributário frente ao montante depositado. Assim, sob este aspecto, o crédito tributário deve ser considerado definitivo na via administrativa, uma vez que a propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública, em qualquer momento, com o mesmo objeto (mesma causa de pedir e mesmo pedido) implica renúncia às instâncias administrativas, conforme dispõe o Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, em seu art. 62, e o Parecer Normativo Cosit nº 7, de 22 de agosto de 2014. Neste cenário, considerando que a Recorrente não recorreu da decisão recorrida que aplicou a concomitância, resta prejudicado à análise das demais matérias suscitadas pela Recorrente. IV Conclusão Diante do exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em conhecer parcialmente o recurso voluntário para negarlhe provimento. É como voto (assinado digitalmente) Walker Araujo Fl. 290DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.905374/2006-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. LEI N° 10.276/2001. AQUISIÇÕES DE NÃO CONTRIBUINTES DE PIS E COFINS. PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS.
Por imperativo do art. 62-A do RICARF, reproduz-se o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede Recurso Representativo de Controvérsia, para reconhecer a possibilidade de inclusão, na base de cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, do valor das aquisições de insumos de pessoas físicas e de cooperativas, que não sofreram a incidência do PIS e COFINS (STJ, REsp 993.164/MG).
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. OPOSIÇÃO ILEGÍTIMA. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC.
É devida a correção monetária do creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco (STJ, Súmula nº 411, REsp 1.035.847/RS e REsp 993.164). A correção monetária pela Taxa SELIC, deve incidir a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias, de acordo com o art. 24 da Lei n° 11.457/07 (REsp 1.138.206 - RS). Precedente da 3ª Turma da CSRF, no Acórdão n° 9303-005.900.
Recurso Voluntário Provido em Parte..
Numero da decisão: 3301-004.659
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reconhecer que as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas podem ser computadas no cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, devendo a glosa ser revertida e ainda, para sobre esses créditos presumidos incidir, a partir do 360° dia da apresentação das Dcomp, a Taxa Selic. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques d'Oliveira e Valcir Gassen, que davam provimento para correção pela Taxa Selic a partir do protocolo da Dcomp.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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LEI N° 10.276/2001. AQUISIÇÕES DE NÃO CONTRIBUINTES DE PIS E COFINS. PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. Por imperativo do art. 62A do RICARF, reproduzse o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede Recurso Representativo de Controvérsia, para reconhecer a possibilidade de inclusão, na base de cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, do valor das aquisições de insumos de pessoas físicas e de cooperativas, que não sofreram a incidência do PIS e COFINS (STJ, REsp 993.164/MG). CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. OPOSIÇÃO ILEGÍTIMA. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC. É devida a correção monetária do creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco (STJ, Súmula nº 411, REsp 1.035.847/RS e REsp 993.164). A correção monetária pela Taxa SELIC, deve incidir a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias, de acordo com o art. 24 da Lei n° 11.457/07 (REsp 1.138.206 RS). Precedente da 3ª Turma da CSRF, no Acórdão n° 9303005.900. Recurso Voluntário Provido em Parte.. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reconhecer que as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas podem ser computadas no cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, devendo a glosa ser revertida e ainda, para sobre esses créditos presumidos incidir, a partir do AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 90 53 74 /2 00 6- 11 Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 414 2 360° dia da apresentação das Dcomp, a Taxa Selic. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques d'Oliveira e Valcir Gassen, que davam provimento para correção pela Taxa Selic a partir do protocolo da Dcomp. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Na origem, a Recorrente apresentou Dcomp, em 19/09/2003 e 24/09/2003, para compensar débitos de sua responsabilidade com o crédito presumido de IPI estabelecido pela Lei n° 10.276/2001, referente ao 4º trimestre de 2002, no valor de R$ 41.496.628,81, que é o resultado da soma do crédito no valor de R$ 36.349.534,70, acrescido de atualização monetária pleiteada de R$ 5.147.094,11. A DRF deferiu parcialmente o crédito e, consequentemente, as compensações, em R$ 20.665.845,30, e glosou R$ 20.830.783,51, nos termos do despacho decisório: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI – PERÍODO DE APURAÇÃO: 4° TRIMESTRE DE 2002. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI: Não se incluem na base de cálculo do benefício as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem de cooperativas de produtores e de pessoas físicas, por não terem sofrido a incidência da contribuição para o PIS/Pasep e para a Cofins. A base de cálculo do benefício compreende apenas os valores das aquisições no mercado interno de matériasprimas (MP), produtos intermediários (PI) e materiais de embalagem (ME), bem como de energia elétrica e combustíveis utilizados no processo industrial e do valor correspondente à prestação de serviços por encomenda, sendo o encomendante contribuinte do IPI. Leis 10.276/2001 e 9.363/96. Inaceitável por falta de previsão legal, a atualização monetária do valor do ressarcimento de crédito de IPI. DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO HOMOLOGADAS ATÉ LIMITE DO CRÉDITO RECONHECIDO. Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 415 3 O Despacho Decisório glosou os seguintes valores: a) aquisições realizadas de pessoas físicas e cooperativas, não contribuintes do PIS e da COFINS; b) atualização monetária do crédito no valor de R$ 5.147.094,11; c) valores não pertencentes ao período em questão, referentes a supostos créditos dos períodos 2° e 3° trimestres do anocalendário 2000 e 1°, 2°, 3° e 4° trimestres do anocalendário 2001. Em manifestação de inconformidade, a empresa teceu os seguintes argumentos, bem sintetizados pela decisão da DRJ/RPO: • O incentivo fiscal estipulado pela lei visou incentivar as exportações com desoneração da tributação e via de consequência, do custo dos produtos brasileiros exportados, devolvendo às empresas produtoras/exportadoras os valores que foram recolhidos à título de contribuições sociais PIS e Cofins; • Independente da ocorrência ou não de incidência das contribuições na etapa anterior, as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem de pessoas físicas e cooperativas estão amparadas pelo benefício. • A Instrução Normativa SRF n° 23/97 restringe claramente o incentivo fiscal criado pela Lei n° 9.363/96, ferindo os princípios basilares insculpidos na Constituição Federal e agindo em flagrante e absoluta ilegalidade. • A lei estabelece que a base de cálculo é o valor total das aquisições de matériaprima, produtos intermediários e material de embalagem, sem exclusões. • A jurisprudência administrativa emanada pela Câmara Superior confirma a ilegalidade da IN SRF 23/97. • Em situação análoga ao presente caso, houve reparação normativa do equívoco adotado para o PIS nãocumulativo previsto na Lei n° 10.637/2002, que teria onerado demasiadamente o adquirente de produtos de pessoas físicas. Ainda que o art. 1° da citada lei tenha a princípio restringido a possibilidade de crédito aos bens e serviços adquiridos de pessoas físicas, mereceu reparo, por meio da MP n° 107/2003, que expressamente incluiu tais créditos da vedação. • A aplicação de fator de atualização monetária configura medida de irrefutável obediência aos princípios gerais do direito, em especial ao princípio da isonomia, sendo cabível a analogia com o disposto no art. 66, 3°, da Lei n° 8.383/1991, dispensados aos institutos da restituição ou compensação. A 2ª Turma da DRJ/RPO, no acórdão n° 1427.246, negou provimento à manifestação de inconformidade, com decisão assim ementada: MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 416 4 A matéria submetida a glosa, em revisão de cálculo no ressarcimento de crédito presumido de IPI, não especificamente contestada na manifestação de inconformidade é reputada como incontroversa e insuscetível de ser trazida à baila em momento processual subsequente. CRÉDITO PRESUMIDO. BASE DE CALCULO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE PESSOAS FÍSICAS. São glosados os valores referentes a aquisições de insumos de pessoas físicas, nãocontribuintes do PIS/PASEP e da Cofins, pois, conforme a legislação de regência, os insumos adquiridos devem sofrer o gravame das referidas contribuições. CRÉDITO PRESUMIDO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Incabível a concessão do crédito presumido acrescido de juros de mora pela taxa SELIC. Como bem apontou a decisão da DRJ/RPO, a empresa não contestou uma das glosas: a inclusão, no cálculo do benefício fiscal, de valores não pertencentes ao período em questão, que se referiam a créditos de outros períodos. Logo, é tal glosa matéria incontroversa. Em seu recurso voluntário, a empresa repisa os exatos argumentos de sua manifestação de inconformidade, para, ao final, requerer: a reforma da decisão no que tange aos débitos glosados, a fim de reconhecer o direito de crédito presumido de IPI das aquisições realizadas de pessoas físicas e cooperativas, bem como a atualização monetária do crédito pela Taxa Selic, homologando totalmente as compensações realizadas pela empresa. Em razões complementares, a empresa aduziu que: Conforme se pode apreender da fl. 2 da r. decisão, a empresa ora impugnante transmitiu as PER/DCOMP'S 20338.19022.190903.1.3.010438, 33533.74719.240903.1.3.01 1511 e 02757.52173.240903.1.3.011577 respectivamente, em 19/09/2003, 24/09/2003 e 24/09/2003, relativas a créditos de credito presumido do IPI, em razão de ressarcimento de contribuições para o PIS e COFINS incidentes sobre insumos adquiridos para a fabricação de produtos destinados à exportação, apurados no 4° trimestre de 2002. Nesse passo, considerando que os pedidos de compensação foram formulados em 19/09/2003, 24/09/2003 e 24/09/2003, e tendo em vista que o despacho decisório o qual não homologou parte de referidas compensações foi proferido em 30/06/2009, sendo a empresa intimada em 31/07/2009, resta evidente que os débitos glosados foram atingidos pela decadência, conforme restará demonstrado. (...) Pois bem, considerando que se tratam de Per/dcomp's transmitidas em 2003, verificase que decaiu o direito do Fisco de proceder o lançamento dos débitos objeto da compensação Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 417 5 em comento, vez que ultrapassou os cinco anos de prazo estabelecido pelo § 4°, do artigo 150, do Código Tributário Nacional. Tendo a empresa, ora impugnante transmitido as PERD/COMP'S acima destacadas em 19/09/2003, 24/09/2003 e 24/09/2003, o Fisco teria, portanto, até 31/12/2008, para constituir o crédito tributário no que tange os valores glosados. Considerando que a constituição definitiva somente se deu por meio da decisão ora impugnada, operouse a decadência, visto que as compensações foram realizadas em 19/09/2003, 24/09/2003 e 24/09/2003, tendo sido a empresa intimada do despacho decisório proferido neste somente em 31/07/2009. (...) Com efeito, com o instituto da decadência há perda do direito de a Fazenda Pública efetuar o lançamento tributário em decorrência da eventual não homologação do lançamento realizado pelo contribuinte, no prazo estipulado em lei. O feito foi levado a julgamento pela 3ª Câmara/1ª Turma Ordinária, que no acórdão n° 3301000.823, entendeu pela homologação tácita de todas as compensações, cuja ementa foi assim redigida: DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. O transcurso do prazo quinquenal desde a transmissão da Declaração de Compensação, sem a manifestação do fisco acarreta a homologação tácita das compensações declaradas, extinguindo o crédito tributário. Recurso Voluntário Provido em Parte. Observase do voto condutor as razões para o reconhecimento da homologação tácita: Por sua vez, com base no procedimento fiscal realizado junto à contribuinte, conforme Termo de Encerramento Fiscal e o Relatório Fiscal (fls. 72/75 do anexo I), datados de 03/04/2009 e 05/06/2009 respectivamente, a DRF elaborou o Relatório e Despacho Decisório de fls. 44/48, datado de 30/06/2009, cuja ciência, pela interessada, ocorreu em 30/07/2009 (fl. 50v). De se registrar que cinco anos após a transmissão das últimas Dcomp, ou seja, em 24/09/2008, ocorrera a homologação tácita da compensação declarada, consoante o art. 74, § 5º, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 10.833/03, que assim dispõe: Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 418 6 § 5º O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003. Portanto, à época da ciência do Despacho Decisório, 30/07/2009, a totalidade dos débitos já se encontrava extinta pela compensação declarada, desde 24/09/2008. Assim, ainda que a homologação tácita pelo decurso do prazo quinquenal não tenha sido aduzida na manifestação de inconformidade nem no recurso, tendo sido arguido tão somente em sustentação oral, entendo tratarse de questão de ordem pública, vez que o crédito tributário encontravase extinto, devendo tal matéria ser apreciada e reconhecida por este colegiado. Em seguida, a Fazenda Nacional interpôs recurso especial, apontando divergência jurisprudencial quanto à aplicação do prazo de 5 anos para homologação da compensação, previsto no art. 74, §5º da Lei nº 9.430/96, aos pedidos protocolados antes de 31/10/2003, data da publicação da Medida Provisória nº 135/2003. Defendeu que o prazo de 5 anos para homologação tácita, previsto no art. 74, §5º da Lei nº 9.430/96, com redação dada pelo art. 17 da Medida Provisória nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833/2003, aplicase apenas a partir de 30/10/2003. Ressaltou que a lei não poderia retroagir. A 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, no acórdão n° 9303 004.390, prescreveu que não ocorreu a homologação tácita: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Salvo exceções expressa em lei, no sistema jurídico brasileiro impõese a observância dos atos praticados sob a égide da lei revogada ou alterada, bem como dos seus efeitos, vedandose a retroação da lei nova. Tal afirmação leva à inexorável conclusão de que a homologação tácita das compensações por decurso de prazo, somente alcança as declarações apresentadas a partir da vigência do § 5º do art. 74 da Lei 9.430/1996, introduzido pela MP 135, de 30/10/2003. Recurso Especial do Procurador Provido. Por conseguinte, os autos retornaram para análise das demais matérias do recurso voluntário, como determinado pelo voto vencedor: Assim, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional para declarar que não estavam homologadas tacitamente as Dcomps apresentadas no presente processo. Como a decisão de piso não adentrou no mérito do recurso voluntário apresentado pelo contribuinte, o presente processo deve retornar à instância a quo, para decidir sobre as demais questões não apreciadas. Fl. 418DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 419 7 É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Em primeiro lugar, cumpre ressaltar que a alegação de decadência, feita em razões complementares, não tem aplicabilidade ao caso, uma vez que não se está diante de lançamento tributário, mas sim de glosa de créditos submetidos à apreciação da autoridade fiscal. Diferese glosa de crédito escritural e constituição do crédito tributário pelo lançamento. A glosa decorre de créditos escriturais não admitidos pela legislação, mas que foram utilizados pelo contribuinte na sua escrita fiscal. Já a constituição do crédito tributário referese à exigibilidade do pagamento do saldo devedor do IPI, apurado na escrita fiscal do RAIPI, mas não espontaneamente pago ou compensado (DCOMP) ou confessado (mediante DCTF). A constituição do crédito tributário pelo lançamento é que deve se dar no prazo de 5 anos. Se da glosa dos créditos escriturados resultar a apuração de saldos devedores, estes serão passíveis de exigência mediante lançamento de ofício se relativos aos últimos cinco anos, contados pela regra do art. 150, § 4º do CTN ou do art. 173, I, do CTN. O prazo decadencial para a constituição de crédito tributário foi tratado pelo STJ, no REsp nº 973.733/SC, julgado na sistemática dos recursos repetitivos, no qual se pacificou que a constituição do crédito tributário dos tributos sujeitos a pagamento lançamento por homologação regese pelo art.150, §4º, do CTN, quando ocorre pagamento antecipado, ainda que inferior ao efetivamente devido, sem que o contribuinte tenha incorrido em dolo, fraude ou simulação. Inexistindo pagamento ou ocorrendo dolo, fraude ou simulação, o prazo é o do art.173, I, do CTN, ou seu parágrafo único, se verificada a existência de medidas preparatórias indispensáveis ao lançamento. Dessa forma, a decadência operase em relação ao crédito tributário decorrente da existência de saldo devedor do IPI apurado e não em relação à glosa de ofício dos créditos indevidos. Por fim, o acórdão n° 9303004.390 do Recurso Especial afastou a ocorrência de homologação tácita. Diante disso, nego provimento às alegações. Crédito decorrente de aquisições de pessoas físicas e cooperativas Fl. 419DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 420 8 A Recorrente é empresa que se dedica a exploração das atividades frigoríficas, inclusive exportação de produtos e subprodutos de origem animal. Considerou na base de cálculo dos créditos presumidos de IPI, as compras de matériaprima adquiridas de pessoas físicas e cooperativas, não contribuintes do PIS e da COFINS, para efeito de cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.2762/2001. A fiscalização glosou referidos créditos presumidos, por entender que não havia suporte legal para esse creditamento. Dispõe o art. 1° da Lei n° 9.363/96: Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares n° 7, de 7 de setembro de 1970, 8, de 3 de dezembro de 1970, e de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo . Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, nos casos de venda a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação para o exterior. Por sua vez, a Lei n° 10.2762/2001 prescreve sobre o cálculo alternativo: Art. 1º Alternativamente ao disposto na Lei nº 9.363, de 13 de dezembro de 1996, a pessoa jurídica produtora e exportadora de mercadorias nacionais para o exterior poderá determinar o valor do crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como ressarcimento relativo às contribuições para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/PASEP) e para a Seguridade Social (COFINS), de conformidade com o disposto em regulamento. § 1º A base de cálculo do crédito presumido será o somatório dos seguintes custos, sobre os quais incidiram as contribuições referidas no caput: I de aquisição de insumos, correspondentes a matériasprimas, a produtos intermediários e a materiais de embalagem, bem assim de energia elétrica e combustíveis, adquiridos no mercado interno e utilizados no processo produtivo; II correspondentes ao valor da prestação de serviços decorrente de industrialização por encomenda, na hipótese em que o encomendante seja o contribuinte do IPI, na forma da legislação deste imposto. Fl. 420DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 421 9 § 2o O crédito presumido será determinado mediante a aplicação, sobre a base de cálculo referida no § 1o, do fator calculado pela fórmula constante do Anexo. (...) § 5o Aplicamse ao crédito presumido determinado na forma deste artigo todas as demais normas estabelecidas na Lei no 9.363, de 1996. A Instrução Normativa n° 23/97 e as subsequentes n° 313/2003 e 419/2004 regulamentaram o cálculo e a utilização do crédito presumido instituído pela Lei n° 9.363/96, nestes termos: Art. 2º Fará jus ao crédito presumido a que se refere o artigo anterior a empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais. § 1º O direito ao crédito presumido aplicase inclusive: I Quando o produto fabricado goze do benefício da alíquota zero; II nas vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação. § 2º O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições PIS/PASEP e COFINS. Ao passo que o cálculo alternativo da Lei n° 10.276/2001 foi regulamentado pela Instrução Normativa n° 315/2003: Direito ao Crédito Presumido Art. 5° Fará jus ao crédito presumido a que se refere o art. 12 a pessoa jurídica produtora e exportadora de produtos industrializados nacionais. § 1° 0 direito ao crédito presumido aplicase inclusive: I — a produto industrializado sujeito a alíquota zero; II — nas vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação. § 2° O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 22 da Lei n° 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como MP, PI ou ME, na industrialização de produtos exportados, será calculado, Fl. 421DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 422 10 exclusivamente, em relação as aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas contribuição para o PIS/Pasep e à Cofins. Ocorre que o STJ já pacificou o entendimento sobre essa temática, na Súmula n° 494 e no REsp 993.164MG, julgado sob a sistemática de recursos repetitivos. Dessa forma, no cálculo do crédito presumido de IPI, instituído pela Lei n° 9.363/96, podem ser computadas as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeitos à tributação pelo PIS e pela COFINS. Confirase: Súmula 494 O benefício fiscal do ressarcimento do crédito presumido do IPI relativo às exportações incide mesmo quando as matérias primas ou os insumos sejam adquiridos de pessoa física ou jurídica não contribuinte do PIS/PASEP (Primeira Seção, DJ 13/08/2012). REsp 993.164 – MG, DJ 17/12/2010 PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. O crédito presumido de IPI, instituído pela Lei 9.363/96, não poderia ter sua aplicação restringida por força da Instrução Normativa SRF 23/97, ato normativo secundário, que não pode inovar no ordenamento jurídico, subordinandose aos limites do texto legal. Fl. 422DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 423 11 2. A Lei 9.363/96 instituiu crédito presumido de IPI para ressarcimento do valor do PIS/PASEP e COFINS, ao dispor que: (...) 3. O artigo 6º, do aludido diploma legal, determina, ainda, que "o Ministro de Estado da Fazenda expedirá as instruções necessárias ao cumprimento do disposto nesta Lei, inclusive quanto aos requisitos e periodicidade para apuração e para fruição do crédito presumido e respectivo ressarcimento, à definição de receita de exportação e aos documentos fiscais comprobatórios dos lançamentos, a esse título, efetuados pelo produtor exportador". 4. O Ministro de Estado da Fazenda, no uso de suas atribuições, expediu a Portaria 38/97, dispondo sobre o cálculo e a utilização do crédito presumido instituído pela Lei 9.363/96 e autorizando o Secretário da Receita Federal a expedir normas complementares necessárias à implementação da aludida portaria (artigo 12). 5. Nesse segmento, o Secretário da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 23/97 (revogada, sem interrupção de sua força normativa, pela Instrução Normativa 313/2003, também revogada, nos mesmos termos, pela Instrução Normativa 419/2004), assim preceituando: (...) 6. Com efeito, o § 2º, do artigo 2º, da Instrução Normativa SRF 23/97, restringiu a dedução do crédito presumido do IPI (instituído pela Lei 9.363/96), no que concerne às empresas produtoras e exportadoras de produtos oriundos de atividade rural, às aquisições, no mercado interno, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas às contribuições destinadas ao PIS/PASEP e à COFINS. 7. Como de sabença, a validade das instruções normativas (atos normativos secundários) pressupõe a estrita observância dos limites impostos pelos atos normativos primários a que se subordinam (leis, tratados, convenções internacionais, etc.), sendo certo que, se vierem a positivar em seu texto uma exegese que possa irromper a hierarquia normativa sobrejacente, viciar seão de ilegalidade e não de inconstitucionalidade (Precedentes do Supremo Tribunal Federal: ADI 531 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 11.12.1991, DJ 03.04.1992; e ADI 365 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 07.11.1990, DJ 15.03.1991). 8. Consequentemente, sobressai a "ilegalidade" da instrução normativa que extrapolou os limites impostos pela Lei 9.363/96, ao excluir, da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI, as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/PASEP e pela COFINS (Precedentes das Turmas de Direito Público: REsp 849287/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.08.2010, DJe 28.09.2010; AgRg no REsp 913433/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, Fl. 423DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 424 12 julgado em 04.06.2009, DJe 25.06.2009; REsp 1109034/PR, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 16.04.2009, DJe 06.05.2009; REsp 1008021/CE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01.04.2008, DJe 11.04.2008; REsp 767.617/CE, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12.12.2006, DJ 15.02.2007; REsp 617733/CE, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.08.2006, DJ 24.08.2006; e REsp 586392/RN, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 19.10.2004, DJ 06.12.2004). 9. É que: (i) "a COFINS e o PIS oneram em cascata o produto rural e, por isso, estão embutidos no valor do produto final adquirido pelo produtorexportador, mesmo não havendo incidência na sua última aquisição" ; (ii) "o Decreto 2.367/98 Regulamento do IPI , posterior à Lei 9.363/96, não fez restrição às aquisições de produtos rurais" ; e (iii) "a base de cálculo do ressarcimento é o valor total das aquisições dos insumos utilizados no processo produtivo (art. 2º), sem condicionantes" (REsp 586392/RN). 10. A Súmula Vinculante 10/STF cristalizou o entendimento de que: "Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no todo ou em parte." 11. Entrementes, é certo que a exigência de observância à cláusula de reserva de plenário não abrange os atos normativos secundários do Poder Público, uma vez não estabelecido confronto direto com a Constituição, razão pela qual inaplicável a Súmula Vinculante 10/STF à espécie. 12. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI (decorrente da aplicação do princípio constitucional da não cumulatividade), descaracteriza referido crédito como escritural (assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil), exsurgindo legítima a incidência de correção monetária, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Aplicação analógica do precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1035847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 24.06.2009, DJe 03.08.2009). 13. A Tabela Única aprovada pela Primeira Seção (que agrega o Manual de Cálculos da Justiça Federal e a jurisprudência do STJ) autoriza a aplicação da Taxa SELIC (a partir de janeiro de 1996) na correção monetária dos créditos extemporaneamente aproveitados por óbice do Fisco (REsp 1150188/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20.04.2010, DJe 03.05.2010). 14. Outrossim, a apontada ofensa ao artigo 535, do CPC, não restou configurada, uma vez que o acórdão recorrido Fl. 424DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 425 13 pronunciouse de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Salientese, ademais, que o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão, como de fato ocorreu na hipótese dos autos. 15. Recurso especial da empresa provido para reconhecer a incidência de correção monetária e a aplicação da Taxa Selic. 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. A aplicação do REsp 993.164 MG é vinculante, como determina o § 2º, do art. 62 do RICARF: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Entendo que a decisão do REsp 993.164 MG deve ser aplicada ao regime alternativo instituído pela Lei nº 10.276/2001, considerando que: I Ambas as leis tratam de crédito presumido de IPI para empresas produtoras e exportadoras de mercadorias; II Ambas as leis permitem o creditamento como ressarcimento das contribuições incidentes sobre as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo; III Ambas as leis não trazem a vedação aos créditos em relação a pessoas físicas e cooperativas; IV O § 5° do art. 1° da Lei n° 10.276/2001 comanda que “Aplicamse ao crédito presumido determinado na forma deste artigo todas as demais normas estabelecidas na Lei no 9.363, de 1996”. A questão já teve acolhida na 3ª Turma da CSRF: Acórdão n° 9303004.682, julg. 14/02/2017, Rel. Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. REGIME ALTERNATIVO. LEI 10.276/2001. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. POSSIBILIDADE. Fl. 425DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 426 14 Mantémse a possibilidade de aproveitamento do crédito presumido do IPI, exercido na forma alternativa da Lei nº 10.276/2001, nas aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas. Aplicação dos mesmos fundamentos utilizados pelo STJ no RESP nº 993.164, que foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos art. 543C do CPC. Cito trecho do Voto do Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, que bem esclarece a similitude entre as normas: Evidentemente, a decisão abarca somente as restrições impostas pela IN SRF nº 23/97, e as que lhe sucederam, em delimitar o crédito presumido somente nas aquisições de pessoas jurídicas, situação esta não delimitada pela Lei nº 9.363/96. Porém, embora leis diferentes, elas tratam do mesmo assunto, crédito presumido de IPI como forma de ressarcimento das contribuições ao PIS e à Cofins onerados nas aquisições de insumos nas cadeias de consumo antecedentes. Na verdade, a Lei nº 10.276/2001 apenas dá uma opção ao produtor/exportador de fazer o cálculo do crédito presumido de uma forma alternativa, mas o direito já veio lá da Lei nº 9.363/96, sendo que a lei nova também não trouxe a limitação que o RESP 993.164 afastou. Não procede o argumento da recorrente de que somente na Lei 10.276/2001 teria havido disposição expressa de que o crédito presumido só seria permitido quando houvesse incidência do PIS e da Cofins na aquisição dos insumos. Na minha leitura, as duas leis trouxeram de forma cristalina essa condição. Na verdade a redação das duas, no que interessa ao presente exame, são muito parecidas. Veja a comparação: Fl. 426DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 427 15 Em suma, as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas podem ser computadas no cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, devendo a glosa ser revertida. Atualização monetária dos créditos presumidos de IPI Assiste razão à Recorrente, porquanto é legítima a incidência de correção monetária sobre os créditos presumidos, em virtude do pedido de ressarcimento/compensação contra o qual houve a oposição ilegítima do fisco, consubstanciada no despacho decisório denegatório. Em regra, o aproveitamento de créditos escriturais não implica em correção monetária, salvo quando o Fisco opõe resistência ilegítima ao creditamento. É o teor da Súmula n° 411 do STJ: É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. Esse tema também está sob o manto das decisões do STJ, nos REsp 1.035.847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, DJ 03/08/2009 e o já citado acima REsp 993.164, Rel. Luiz Fux, DJ 17/12/2010, julgadas sob a sistemática de recursos repetitivos. Confirase: REsp 1.035.847 RS PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. 1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da nãocumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da nãocumulatividade, descaracteriza referido crédito como escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. 3. Destarte, a vedação legal ao aproveitamento do crédito impele o contribuinte a socorrerse do Judiciário, circunstância que acarreta demora no reconhecimento do direito pleiteado, dada a tramitação normal dos feitos judiciais. 4. Consectariamente, ocorrendo a vedação ao aproveitamento desses créditos, com o consequente ingresso no Judiciário, postergase o reconhecimento do direito pleiteado, exsurgindo legítima a necessidade de atualizálos monetariamente, sob pena Fl. 427DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 428 16 de enriquecimento sem causa do Fisco (Precedentes da Primeira Seção: EREsp 490.547/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.09.2005, DJ 10.10.2005; EREsp 613.977/RS, Rel. Ministro José Delgado, julgado em 09.11.2005, DJ 05.12.2005; EREsp 495.953/PR, Rel. Ministra Denise Arruda, julgado em 27.09.2006, DJ 23.10.2006; EREsp 522.796/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, julgado em 08.11.2006, DJ 24.09.2007; EREsp 430.498/RS, Rel. Ministro Humberto Martins, julgado em 26.03.2008, DJe 07.04.2008; e EREsp 605.921/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 12.11.2008, DJe 24.11.2008). 5. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. REsp 993.164 PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. (...) 15. Recurso especial da empresa provido para reconhecer a incidência de correção monetária e a aplicação da Taxa Selic. 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Todavia, a oposição ilegítima está configurada apenas após o decurso do prazo de 360 dias, previsto pelo art. 24 da Lei nº 11.457/07. O STJ fixou entendimento, no REsp 1.138.206 RS (Rel. Ministro Luiz Fux, DJ 01/09/2010), em sede também de recurso repetitivo, que a duração razoável do processo Fl. 428DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 429 17 administrativo é de 360 dias, determinado a aplicabilidade do art. 24 da Lei nº 11.457/07 aos processos em curso: TRIBUTÁRIO. CONSTITUCIONAL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL FEDERAL. PEDIDO ADMINISTRATIVO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO PARA DECISÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. APLICAÇÃO DA LEI 9.784/99. IMPOSSIBILIDADE. NORMA GERAL. LEI DO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. DECRETO 70.235/72. ART. 24 DA LEI 11.457/07. NORMA DE NATUREZA PROCESSUAL. APLICAÇÃO IMEDIATA. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA. 1. A duração razoável dos processos foi erigida como cláusula pétrea e direito fundamental pela Emenda Constitucional 45, de 2004, que acresceu ao art. 5º, o inciso LXXVIII, in verbis: "a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação." 2. A conclusão de processo administrativo em prazo razoável é corolário dos princípios da eficiência, da moralidade e da razoabilidade. (Precedentes: MS 13.584/DF, Rel. Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 13/05/2009, DJe 26/06/2009; REsp 1091042/SC, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/08/2009, DJe 21/08/2009; MS 13.545/DF, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 29/10/2008, DJe 07/11/2008; REsp 690.819/RS, Rel. Ministro JOSÉ DELGADO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 22/02/2005, DJ 19/12/2005) 3. O processo administrativo tributário encontrase regulado pelo Decreto 70.235/72 Lei do Processo Administrativo Fiscal , o que afasta a aplicação da Lei 9.784/99, ainda que ausente, na lei específica, mandamento legal relativo à fixação de prazo razoável para a análise e decisão das petições, defesas e recursos administrativos do contribuinte. 4. Ad argumentandum tantum, dadas as peculiaridades da seara fiscal, quiçá fosse possível a aplicação analógica em matéria tributária, caberia incidir à espécie o próprio Decreto 70.235/72, cujo art. 7º, § 2º, mais se aproxima do thema judicandum, in verbis: (...) 5. A Lei n.° 11.457/07, com o escopo de suprir a lacuna legislativa existente, em seu art. 24, preceituou a obrigatoriedade de ser proferida decisão administrativa no prazo máximo de 360 (trezentos e sessenta) dias a contar do protocolo dos pedidos, litteris: " Fl. 429DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 430 18 Art. 24. É obrigatório que seja proferida decisão administrativa no prazo máximo de 360 (trezentos e sessenta) dias a contar do protocolo de petições, defesas ou recursos administrativos do contribuinte." 6. Deveras, ostentando o referido dispositivo legal natureza processual fiscal, há de ser aplicado imediatamente aos pedidos, defesas ou recursos administrativos pendentes. 7. Destarte, tanto para os requerimentos efetuados anteriormente à vigência da Lei 11.457/07, quanto aos pedidos protocolados após o advento do referido diploma legislativo, o prazo aplicável é de 360 dias a partir do protocolo dos pedidos (art. 24 da Lei 11.457/07). 8. O art. 535 do CPC resta incólume se o Tribunal de origem, embora sucintamente, pronunciase de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Ademais, o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. 9. Recurso especial parcialmente provido, para determinar a obediência ao prazo de 360 dias para conclusão do procedimento sub judice. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. Logo, a correção monetária pela Taxa Selic deve incidir a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art. 24 da Lei n° 11.457/07). E dessa forma, a 3ª Turma da Câmara Superior tem decidido: Acórdão n° 9303005.900, julg. 19/10/2017, Rel. Conselheiro Demes Brito CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. OPOSIÇÃO ILEGÍTIMA DO FISCO. CORREÇÃO. TAXA SELIC. POSSIBILIDADE. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça STJ, no julgamento do REsp 1.035.847/RS, sob o rito do art. 543C do CPC, firmou entendimento no sentido de que o aproveitamento de créditos escriturais, em regra, não dá ensejo à correção monetária, exceto quanto obstaculizado injustamente o creditamento pela Fazenda. É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco" (Súmula 411/STJ). Em tais casos, a correção monetária, pela taxa SELIC, deve ser contada a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art.24 da Lei nº11.457/07), nos termos do REsp 1.138.206/RS, submetido ao rito do art. 543C do CPC e da Resolução 8/STJ. Fl. 430DF CARF MF Processo nº 10880.905374/200611 Acórdão n.º 3301004.659 S3C3T1 Fl. 431 19 Por fim, ressaltese que a incidência da Taxa Selic se dá apenas sobre o crédito glosado no Despacho Decisório na origem, o qual tem seu reconhecimento nesta oportunidade: o crédito decorrente de aquisições de pessoas físicas e cooperativas. Isso porque, foi esse o crédito que sofreu oposição ilegítima por parte do Fisco. Conclusão Do exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, para reconhecer que as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas podem ser computadas no cálculo do crédito presumido da Lei n° 10.276/2001, devendo a glosa ser revertida e ainda, para sobre esses créditos presumidos incidir, a partir do 360° dia da apresentação das Dcomp, a Taxa Selic. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 431DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13005.902308/2015-88
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2013
SERVIÇOS HOSPITALARES. LUCRO PRESUMIDO. APLICAÇÃO DA ALÍQUOTA DE 12%. NECESSIDADE DE ATENDIMENTO INTEGRAL DAS NORMAS DA ANVISA. AUSÊNCIA DE ALVARÁ DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA.
A ausência do alvará de Vigilância Sanitária pressupõe que o contribuinte não atende integralmente as normas da ANVISA, descumprindo requisito previsto na Lei n. 9.249/95 para gozo da alíquota reduzida de 12%.
O atendimento à tais normas da Anvisa somente pode ser comprovado através da apresentação do alvará da vigilância sanitária estadual ou municipal, vigente à época do fato gerador do tributo, não sendo possível acolher alvará emitido em exercício posterior.
Numero da decisão: 1201-002.191
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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ME Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2013 SERVIÇOS HOSPITALARES. LUCRO PRESUMIDO. APLICAÇÃO DA ALÍQUOTA DE 12%. NECESSIDADE DE ATENDIMENTO INTEGRAL DAS NORMAS DA ANVISA. AUSÊNCIA DE ALVARÁ DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA. A ausência do alvará de Vigilância Sanitária pressupõe que o contribuinte não atende integralmente as normas da ANVISA, descumprindo requisito previsto na Lei n. 9.249/95 para gozo da alíquota reduzida de 12%. O atendimento à tais normas da Anvisa somente pode ser comprovado através da apresentação do alvará da vigilância sanitária estadual ou municipal, vigente à época do fato gerador do tributo, não sendo possível acolher alvará emitido em exercício posterior. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 5. 90 23 08 /2 01 5- 88 Fl. 208DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de processo gerado para tratamento manual, a partir de Representação do Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil na qual relata que fora apresentada pelo Contribuinte pedido indevido de restituição de CSLL. Como conseqüência, foi emitido Despacho Decisório com o seguinte teor: 20. Logo, o pedido de restituição há que ser indeferido por inexistência de pagamento indevido de CSLL para o 4º trimestre/2013, eis que o contribuinte não se sujeita ao percentual favorecido incidente sobre a receita bruta de 12% para apuração da base de cálculo da CSLL por não atender as normas da Anvisa em vista de não apresentar alvará sanitário vigente no período de apuração em seu nome e endereço cadastral. [...] 22. No uso da competência delegada pelo artigo 2°, inciso IV, da Portaria DRF/SCS nº 17, de 10 de abril de 2014, e da competência atribuída pelos artigos 241, inciso I, 302, inciso VI, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF n° 203, de 14 de maio de 2012, na forma da fundamentação, DECIDO: (I) NÃO RECONHECER o direito creditório do contribuinte frente à Fazenda Pública da União a título de pagamento indevido de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL relativo ao 4º trimestre de 2013, para INDEFERIR o pedido eletrônico de restituição 03866.71007.030915.1.2.046436. O contribuinte foi cientificado do referido despacho decisório e apresentou manifestação de inconformidade, contrapondose contra o Despacho Decisório DRF/SCS/Saort com base nos fundamentos a seguir sintetizados. A Manifestante é uma sociedade de responsabilidade limitada, segundo se vê no seu Contrato Social (doc. 01), estabelecida junto ao Hospital Santa Cruz, com o objetivo social de prestação de “serviços de análises clínicas”. Isto é, a Manifestante nasceu para prestar serviços de análises clínicas junto ao órgão hospitalar. Desde a sua constituição está em exercício regular de sua atividade e está adequada às regras da vigilância sanitária. Desta forma, entende ter havido grave equívoco por parte da Autoridade Fiscalizadora, e pede a desconstituição do Despacho Decisório da DRF/SCS/Saort. Do Enquadramento da Manifestante como atividade de prestação de serviço hospitalar. Fl. 209DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 4 3 Alega a manifestante que a própria Receita Federal em seu Despacho Decisório reconheceu o seu enquadramento exerce atividade de prestação de serviço hospitalar. Quanto ao requisito de enquadramento da atividade exercida não carece de maiores digressões em vista da literal disposição legislativa. Quanto ao requisito de estar constituída sob a forma de sociedade empresária, analisandose o contrato social e alterações, vêse que o contribuinte consta como sociedade empresária desde a sua constituição. Assim, resta claro que atende os preceitos normativos para exercer atividade de prestação de serviço hospitalar, reconhecida pela própria Receita Federal em sua análise. Da Regularidade da Manifestante. Preocupada com a situação, mesmo que tenha cumprido com a solicitação da Receita Federal de apresentar seu Contrato Social e a sua Regularidade de funcionamento, a Manifestante procurou a Prefeitura local e requereu a expedição do Alvará de Saúde, que atestasse não só sua regularidade no atendimento às normas de saúde, mas também a aptidão para exercer sua atividade. Em virtude de o alvará ter sido expedido após o término do prazo do requerimento da Receita Federal, não foi possível anexálo naquele momento. Entende que foi equivocado o posicionamento da fiscalização. A Lei Federal nº 9.249/95, em seu art. 20 estabelece que a base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devido pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral, sob o regime do Lucro Presumido, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1º do art. 15, cujo percentual corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). Contudo, o artigo 15, § 1º, inciso III, alínea "a" (redação alterada pela Lei 11.727/08), previu uma exceção ao percentual de 32% exatamente para os serviços hospitalares, caso da Manifestante, em que a base da CSLL será de 12%, desde que seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa. Vejase, a parte final da redação da alínea ‘a’, estabelece como requisito para que os contribuintes sejam tributados pela CSLL sobre a base de 12% da receita bruta desde que atendam às normas da Vigilância Sanitária. O dispositivo é claro, não estabelece como critério, que para os contribuintes terem o direito ao beneficio de serem tributados pela CSLL sobre a base de 12% da receita bruta, somente com a apresentação do “alvará de saúde”, mas sim que atendam às suas normas. E nesse sentido, assim que requerido pela Receita Federal, a Manifestante imediatamente apresentou sua regularidade de funcionamento. Aliás, nesse aspecto não foi apontada nenhuma irregularidade por parte da Receita Federal. Se a Manifestante não estivesse cumprindo com as normas de saúde, não lhe seria expedido o alvará de regularidade de funcionamento. Ainda, para dirimir qualquer dúvida Fl. 210DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 5 4 de que efetivamente estava regular perante a vigilância sanitária, foilhe expedido o Alvará de Saúde atestando o cumprimento das normas por parte da Manifestante desde sua constituição. Ademais, seria impossível à Manifestante não atender as normas de saúde previstas na Legislação, isso porque, realiza suas atividades junto ao Hospital Santa Cruz, local periodicamente analisado, seja por meio de órgão federal, estadual ou municipal. Portanto, não é legítimo, por parte da Fiscalização, não reconhecer que a Manifestante atende às normas de saúde, uma vez que está em exercício regular de sua atividade, fato esse atestado por meio da Secretaria da Saúde, através da expedição do Alvará de saúde. Nesse sentido, os nossos Tribunais em diversos julgados, rechaçam as exigências da Fiscalização que vão além do preceituado pelo Legislador Ordinário. O que importa é que o serviço prestado seja de natureza hospitalar, pois foi apenas essa a circunstância imposta pela Lei. Foi esse o entendimento do STJ no REsp nº 1.116.399, julgado pelo rito do Recurso Repetitivo, ao julgar a aplicação da alíquota de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido aos contribuintes prestadores de Serviços Hospitalares, oportunidade na qual consignou que os regulamentos emanados da Receita Federal não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei para a obtenção do benefício. Decisão da DRJ A DRJ julgou a Manifestação de Inconformidade improcedente, conforme ementa abaixo: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2013 CSLL. SERVIÇOS HOSPITALARES. ALÍQUOTA DE 12%. LUCRO PRESUMIDO. NECESSIDADE DE ALVARÁ DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA. 1. Para utilizaação da alíquota no percentual de 12%, para apuração da base de cálculo sobre o lucro presumido da CSLL, é necessário que a empresa que presta serviços hospitalares seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa. 2. Como atendimento às normas da Anvisa deve ser entendido, dentre outros requisitos, que os serviços sejam prestados em ambientes desenvolvidos de acordo com a Resolução de Diretoria Colegiada Anvisa nº 50, de 2002, cuja comprovação deve ser feita mediante alvará expedido pelo órgão de vigilância sanitária competente." Recurso Voluntário Inconformada, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário no qual ratifica seu termos de defesa apresentados na Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Fl. 211DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 6 5 Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa Relatora O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201002.174, de 11/06/2018, proferido no julgamento do Processo nº 13005.720774/2016 28, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. O processo paradigma analisou o direito creditório do contribuinte decorrente de pagamento indevido de IRPJ Lucro Presumido Código de Receita 2089, relativo a trimestres de apuração dos anoscalendário de 2011, 2012, 2013 e 2014. O presente processo referese à análise de direito creditório com origem em pagamento indevido de CSLL, relativo ao 4º trimestre/2013. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201002.174): "Admissibilidade O Recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos previstos legais, assim, merece ser apreciado. Mérito Em apertada síntese, o tema aqui tratado referese à possibilidade do Alvará da Vigilância Sanitária ou sua ausência definir a alíquota do IRPJ do Lucro Presumido a ser utilizada pelo contribuinte que presta serviços hospitalares, se de 8% ou 32%. A DRJ decidiu no sentido de que a ausência do citado alvará pressupõe que o contribuinte não atende as normas da ANVISA o que é um requisito previsto na Lei n. 9.249/95 para gozo da alíquota reduzida de 8%. O entendimento da DRJ me parece razoável. Contudo, seus efeitos devem ser avaliados. Conforme mencionado no relatório, no julgamento do Resp. nº 1.081.441, a 2ª Turma do STJ definiu o que são “serviços hospitalares” para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, in verbis: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. LUCRO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO. ART. 15, § 1º, III, "A" DA LEI Nº 9.249/95. RADIOLOGIA, ULTRASSONOGRAFIA E DIAGNÓSTICO DE IMAGENS. INCLUSÃO NO Fl. 212DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 7 6 CONCEITO DE SERVIÇO HOSPITALAR. PRECEDENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. 1. Acórdão proferido antes do advento das alterações introduzidas pela Lei nº 11.727, de 2008. O art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95 explicitamente concede o benefício fiscal de forma objetiva, com foco nos serviços que são prestados, e não no contribuinte que os executa. 2. Independentemente da forma de interpretação aplicada, ao intérprete não é dado alterar a mens legis. Assim, a pretexto de adotar uma interpretação restritiva do dispositivo legal, não se pode alterar sua natureza para transmudar o incentivo fiscal de objetivo para subjetivo. 3. A redução do tributo, nos termos da lei, não teve em conta os custos arcados pelo contribuinte, mas, sim, a natureza do serviço, essencial à população por estar ligado à garantia do direito fundamental à saúde, nos termos do art. 6º da Constituição Federal. 4. Qualquer imposto, direto ou indireto, pode, em maior ou menor grau, ser utilizado para atingir fim que não se resuma à arrecadação de recursos para o cofre do Estado. Ainda que o Imposto de Renda se caracterize como um tributo direto, com objetivo preponderantemente fiscal, pode o legislador dele se utilizar para a obtenção de uma finalidade extrafiscal. 5. Devese entender como "serviços hospitalares" aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde. Em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos. Precedente da Primeira Seção. 6. No caso, tratase de entidade que presta serviços de radiologia, ultrassonografia e diagnóstico por imagens dentro do Hospital Geral pertencente à Associação de Caridade Santa Casa do Rio Grande, que não possui esses serviços e, portanto, os terceiriza à recorrente. Não se está diante de simples consulta médica, mas de atividade que se insere, indubitavelmente, no conceito de "serviços hospitalares, já que demanda maquinário específico, geralmente adquirido por hospitais ou clínicas de grande porte. 7. A redução da base de cálculo somente deve favorecer a atividade tipicamente hospitalar desempenhada pela recorrente especificamente a prestação de serviços de radiologia, ultrassonografia e diagnóstico de imagens excluídas as simples consultas e atividades de cunho administrativo. Fl. 213DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 8 7 8. Recurso especial provido em parte. Em apertada síntese, decidiram os ministros do STJ que os serviços hospitalares são aqueles relacionados ás atividades desenvolvidas pelos hospitais e que tenham por finalidade a promoção da saúde da população. Posteriormente, a RFB publicou a IN n.1.234/12 que assim define os serviços hospitalares: “Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles prestados por estabelecimentos assistenciais de saúde que dispõem de estrutura material e de pessoal destinados a atender à internação de pacientes humanos, garantir atendimento básico de diagnóstico e tratamento, com equipe clínica organizada e com prova de admissão e assistência permanente prestada por médicos, que possuam serviços de enfermagem e atendimento terapêutico direto ao paciente humano, durante 24 (vinte e quatro) horas, com disponibilidade de serviços de laboratório e radiologia, serviços de cirurgia e parto, bem como registros médicos organizados para a rápida observação e acompanhamento dos casos.” Mais adiante, já no ano de 2015, foi publicada a Instrução Normativa n. 1.540/15 que assim dispõe: “Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, prestados pelos estabelecimentos assistenciais de saúde que desenvolvem as atividades previstas nas atribuições 1 a 4 da Resolução RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, da Anvisa” (NR) A Resolução RDC n. 50 da Anvisa, dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde. Na mencionada resolução é possível perceber que o item 3 trata do Dimensionamento, Quantificação e Instalações Prediais dos Ambientes da Parte II Programação FísicoFuncional dos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde da Resolução RDC nº 50/12. O atendimento à tais normas da Anvisa somente pode ser comprovado através da apresentação do alvará da vigilância sanitária estadual ou municipal. No caso em tela, além de evidenciar a ora Recorrente que, de fato, presta serviços hospitalares, trouxe também documento que julgo de extrema importância e que já fora analisado pela DRJ que é o Alvará de Saúde emitido pela Secretaria Municipal Fl. 214DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 9 8 de Santa Cruz do Sul que comprova a regularidade de sua situação e por consequência o atendimento às normas da Anvisa: Contudo, a DRJ entendeu que não poderia acolher tal documento como elemento de prova, dado que foi emitido em 04/02/2016, posteriormente ao fato gerador em análise, ao passo que a Lei Estadual RS n° 6.503/1972 estabelece no §1º do art. 43 que o alvará a que se refere este artigo só terá validade durante o ano civil de sua concessão. É neste ponto que entendo que a Contribuinte perde seu argumento. Isso porque, ainda que defenda que do ponto de vista de essência já vinha prestando serviços hospitalares e que não o podia fazer se não estivesse regularizada, temos que do ponto de vista formal, a interpretação conjunta das normas acima mencionadas nos leva à conclusão de que a evidência de cumprimento das normas da Anvisa somente poderia ser feita por meio do respectivo alvará de vigilância sanitária e que o alvará apresentado é datado de 2016, produzindo efeitos, portanto, somente para este ano segundo a mencionada lei estadual. Aliás, o próprio alvará acima apresentado traz a previsão expressa de validade de 01 ano (válido até 03/02/17). Fl. 215DF CARF MF Processo nº 13005.902308/201588 Acórdão n.º 1201002.191 S1C2T1 Fl. 10 9 Assim, entendo que para os anosbase não cobertos pelo alvará apresentado pelo Contribuinte, ora Recorrente, não há que se falar em alíquota presumida de 8% uma vez que não foram preenchidos os requisitos legais e formais para gozo de tal benefício, especificamente, o atendimento às normas da Anvisa cuja evidência restou falha em razão da ausência de alvará de vigilância sanitária para os anos ora em discussão. Conclusão Diante do exposto, CONHEÇO do RECURSO VOLUNTÁRIO para NEGARLHE PROVIMENTO. É como voto!" Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 216DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11131.001598/2004-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jul 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 23 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3302-000.818
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para efetivar a ciência do Auto de Infração relativo aos co-obrigados SIMON BOLIVAR DA SILVEIRA BUEMO (CPF 974.777.028-87) e ANTONIO CARLOS BRUNO (CPF: 148.407.278-21).
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Renato Pereira de Deus - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes (suplente convocado), José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
Relatório
Nome do relator: JOSE RENATO PEREIRA DE DEUS
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para efetivar a ciência do Auto de Infração relativo aos coobrigados SIMON BOLIVAR DA SILVEIRA BUEMO (CPF 974.777.02887) e ANTONIO CARLOS BRUNO (CPF: 148.407.27821). (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes (suplente convocado), José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório trazido pela resolução nº 3202 00.003, de 13 de agosto de 2009, que passo a transcrever: O presente recurso decorre de auto de infração, lavrado em 22 10 2004 por meio do qual se constituiu crédito tributário de multa no valor total RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 11 31 .0 01 59 8/ 20 04 -1 7 Fl. 562DF CARF MF Processo nº 11131.001598/200417 Resolução nº 3302000.818 S3C3T2 Fl. 3 2 de R$ 956 765,00 (novecentos e cinqüenta e seis mil, setecentos e sessenta e cinco reais), em razão da conversão da pena de perdimento em multa equivalente a 100% do valor aduaneiro 'das mercadorias importadas pela empresa, por conta da impossibilidade de sua apreensão. A multa foi lavrada porque, segundo consta do Auto de Infração, foi constatada a interposição fraudulenta tem operações do comércio exterior na pessoa juridica CBAComércio, Importação e Exportação Ltda., pela não comprovação da origem dos recursos aplicados em operações de importação. Apresentada impugnação pela contribuinte CBA Comércio Importacao e Exportação Ltda (fls. 315/347) e pelo responsável Márcio Pascoal' Guida (fls. 261/292) a 3 Tumia da DRJ/FOR, na sessão de de outubro de 2,007 e por meio do acórdão n° 0811 892 por unanimidade de votos julgou improcedente o lançamento. Irresignada, a empresa contribuinte CESTAS NORDESTE COMERCIO DE ALIMENTOS IMPORTACAO E. EXPORTAÇAO LTDA., nova denominação do CNPJ n 04.175.078/00289, apresentourecurso voluntário a'este Eg. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, suscitando, em síntese, o seguinte: Nulidade da decisão por vício insanável de 'legalidade 'do procedimento, alegando que a DRF teria deixado de intimar da lavratura do auto de infração os demais coresponsáveis, que foram incluídos no Auto de Infração; Vícios do procedimento administrativoque deu origem ao auto de infração, em obediência as normas constitucionais que asseguram a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal, baseandose exclusivamente este auto de infração em outro auto de infração em que a recorrente apresentou defesa, estando suspensa a exigibilidade e em trâmite, não sendo líquido e certo, devendo ser reconhecida a nulidade, total insubsistência e iliquidez da presente autuação fiscal; Nulidade pela ausência de descrição minuciosa e induvidosa dos fatos que dão suporte à autuação; Nulidade do lançamento: Como conseqüência da inobservância das normas relativas ao ato administrativo de lançamento tributário e da forma de apuração, identificação e individualização da infração e da penalidade imposta; Cereeamento de defesa: Como conseqüência das ímpropriedades do ato administrativo que exarou o auto de infiação, incompatíveis com a segurança jurídica e a garantia da ampla defesa e contraditário,' Nulidade do ato administrativo por violação ao princípio da legalidade e da tipicidade, diant _ completa ausência de demonstração e comprovação da subsunção do conceito dos fatos efetivamente ocorridos com a norma tributária; Ausência de lei devido à inconstitucionalidade do DecretoLei 1455/76: alegando que deve ser reconhecida a inconstitucionalidade das normas :dispostas nos referidos decretosleis_que disciplinavam a Fl. 563DF CARF MF Processo nº 11131.001598/200417 Resolução nº 3302000.818 S3C3T2 Fl. 4 3 pena de perda de mercadoria no âmbito do Poder Executivo e'm. conformidade com o disposto no art. 5 'Í XLVe)fl,VI, "b", bem como, por não terem sido ratificados pelo Congresso Nacional no prazo de 180 dias quando da promulgação da Constituição Federal de 1988, por força do art. 25 do ADCT conseqüentemente, declarandose a insubsisténcia do auto de infração fundado em norma inconstitucional; Impossibilidade da retroatividade para fundamentar infração e impor penalidades, alegando que não pode servir para fundamentar ou provar eventual infração, fatos ocorridos antes da vigência da norma que estabeleceu a infração, quer pela vedação de retroatividade para alcançar fatos prctéritos, salvo quando seja retroação benigna, devendo, por essa razão, ser reconhecida e declarada a nulidade do procedimento e ato administrativo que culminou o presente auto de infração; Observância ao direito de propriedade e da livre iniciativa, tendo em vista que a autuação fiscal afiontou as referidas garantias constitucionais na medida em que aplicou pena de perda de mercadoria a todas as importações que a recorrente realizou no desenvolvimento regular de suas atividades por suposta infração, o que redunda emf odiosa interferência nas atividades econômica e na liberdade de iniciativa e desenvolvimento de atividade lícita pelos particulares; Impossibilidade de medida provisória criar normas penais e de detenção de bens, afirmando que a insubsistência do auto de infração se dá também pelo fato do seu fundamento legal possuir vício insanável de origem, uma vez que não poderia ter sido veiculado através de Medida Provisória; Da aplicação da norma do artigo 112 do CTN; Por fim, requereu a observância da Presunção de inocência e a inconstitucionalidade da exigência tributária com base em lançamento presuntivo, na medida em que afirma que a autuaçao foi realizada com base em presunções e. A resolução da qual o relatório acima foi retirada decidiu pela realização de diligência nos seguintes termos: Pelo que se nota no Auto de Infração, especialmente à il. 03 dos autos, a DRF de origem, Alfândega do Porto deFortaleza, atribuiu também a condição de responsável pelas infrações, com fundamento nos aits. 134, III, 135 e 137 do CTN, às seguintes pessoas: SIMON BOLIVAR DA SILVEIRA BUEMO (CPF 974.777.02887); ANTONIO CARLOS BRUNO (CPF: 148.407.27821) e MARCIO PASCOAL GUIDA (CPF: 029.838.66823). Todavia, não restou claro nos autos se a DRE de origem promoveu a intimação de todos os coresponsáveis indicados acima, até para que lhes fosse concedido prazo para a apresentação de defesa administrativa. Fl. 564DF CARF MF Processo nº 11131.001598/200417 Resolução nº 3302000.818 S3C3T2 Fl. 5 4 Dessa forma,.se faz necessário que os autos retornem à Unidade da SRF para que os responsáveis se manifestem acerca do seguinte ponto:` Se todos os envolvidos no Auto de Infração foram intimados especialmente os indicados como responsáveis pela infração, Simon Bolivar da Silveria Bueno (CPF 974. 777.02887); ANTONIO CARLOS BRUNO (CPF: 148.407.27821) ; se foi alterado o Auto de Infração ou o porquê de não terem sido intimados os Contribuintes acima mencionados. Ante todo o exposto, evidenciado está que faltam elementos indispensáveis ao adequado julgamento do feito, razão pela qual VOTO PELA CONVERSÃO DO PRESENTE JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA. Após, seja intimada a empresa Recorrente para manifestação. Em resposta à resolução a autoridade autuante as efls. 539 e segs., em apertada síntese, alega que a falta de intimação dos coobrigados não macularia o andamento do presente processo, sendo certo que essa seria a sistemática utilizada pela fiscalização à época dos fatos, colacionando julgados que supostamente embasariam seu entendimento, finalizando seu entendimento alegando que a fiscalização da RFB em sua interpretação acerca da legislação tributária e aduaneira, não estaria vinculada a entendimento emanados de órgãos julgadores, judiciais tampouco administrativos. Intimada da informação fiscal acima mencionada, a empresa reiterou suas alegações trazidas em defesa e recurso, alegando que a falta de intimação dos coobrigados levaria a nulidade do processo administrativo. Juntada ao processo a manifestação da empresa recorrente, nos termos do regimento o presente processo foi distribuído a esse conselheiro para julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro José Renato Pereira de Deus Relator O recurso é tempestivo, preenche os requisitos de admissibilidade e por tais razões dele tomo conhecimento. I Preliminar de Nulidade Falta de intimação dos coresponsáveis Segundo o entendimento da contribuinte recorrente o presente processo padeceria de nulidade, uma vez não realizada pela autoridade autuante a intimação dos co obrigados da decisão prolatada pela DRJ. Para a autoridade autuante o fato de não haver a intimação de tais envolvidos no presente processo administrativo, não macularia seu andamento regular. No entanto, não é esse o entendimento desse conselheiro, pois que a falta de intimação sobre a decisão tomada pela instância de origem acarreta dano significativo para a defesa da responsável solidária, bem como resulta em evidente cerceamento ao direito de Fl. 565DF CARF MF Processo nº 11131.001598/200417 Resolução nº 3302000.818 S3C3T2 Fl. 6 5 defesa (preconizado nos inciso LV, art. 5º da Constituição Federal), entendo que este julgamento deve ser convertido em diligência para que os autos sejam devolvidos para a instância de origem, e que lá seja emitida a competente intimação, de modo a sanar a nulidade constatada. Ademais, o direito de defesa das partes envolvidas no processo administrativo tributário é objeto de Súmula Vinculante desse E. CARF, traduzida no verbete de 71, vejamos: Súmula CARF nº 71: Todos os arrolados como responsáveis tributários na autuação são parte legítima para impugnar e recorrer acerca da exigência do crédito tributário e do respectivo vínculo de responsabilidade. Vale ainda ressaltar que, com o objetivo de promover segurança jurídica quanto as decisões reiteradas em determinadas matérias pelo CARF, o Ministério da Fazenda editou a Portaria MF nº 277, de 07 de junho de 2018, atribuindo às referidas súmulas efeito vinculante à administração tributária federal. Disciplina o art. 1º da supracitada Portaria: Art. 1º Fica atribuído às sumulas do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, relacionadas no Anexo Único desta Portaria, efeito vinculante em relação à administração tributária federal. E a invocada Súmula CARF nº 71, faz parte do anexo único da portaria, motivo pelo qual dever ser observada pela autoridade fiscalizadora. II. Conclusão Por todo o acima exporto, voto por converter o presente julgamento e diligência, baixando o processo a origem, para que seja promovida a intimação dos coresponsáveis apontados no auto de infração, Simon Bolivar da Silveria Bueno (CPF 974. 777.02887); ANTONIO CARLOS BRUNO (CPF: 148.407.27821). (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator Fl. 566DF CARF MF
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Numero do processo: 13839.003755/2007-30
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/11/2004 a 31/01/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.777
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 11242.000598/2009-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício e Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 00 37 55 /2 00 7- 30 Fl. 277DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 3 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Contra o contribuinte foi lavrado o presente auto de infração para cobrança de contribuições previdenciárias destinadas à Seguridade Social. Após o trâmite processual, a turma a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário do Contribuinte para determinar o recálculo da multa aplicada haja vista alterações promovidas na redação da Lei nº 8.212/1991. Inconformada com o resultado do julgamento, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial cujo objeto é a discussão acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.733, de 19/04/2018, proferido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.733): "O recurso preenche os pressuposto de admissibilidade razão pela qual deve ser conhecido. A controvérsia levantada pela Fazenda Nacional é relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: Fl. 278DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 4 3 I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão n. 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento Fl. 279DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 5 4 e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da Fl. 280DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 6 5 declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para Fl. 281DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 7 6 as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas Fl. 282DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 8 7 competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 283DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 9 8 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional para determinar que a multa seja aplicada nos termos em que fixado pela Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009." Fl. 284DF CARF MF Processo nº 13839.003755/200730 Acórdão n.º 9202006.777 CSRFT2 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 285DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.010115/2008-58
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 08/09/2008
CONCOMITÂNCIA. AUSÊNCIA. NULIDADE DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA.
Inexistindo concomitância entre o processo administrativo e o judicial, deve ser anulada a decisão recorrida, para que seja analisada a questão de mérito, sob pena de supressão de instância. A teor da Súmula CARF nº 1, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura de ação judicial pelo sujeito passivo com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.
Decisão Recorrida Nula.
Numero da decisão: 3402-005.390
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso para anular a decisão recorrida em face da inexistência de concomitância, com o retorno dos autos à DRJ/SPO para apreciação dos argumentos de mérito trazidos na Impugnação.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado).
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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AUSÊNCIA. NULIDADE DECISÃO. Recorrente MOSAIC FERTILIZANTES DO BRASIL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 08/09/2008 CONCOMITÂNCIA. AUSÊNCIA. NULIDADE DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. Inexistindo concomitância entre o processo administrativo e o judicial, deve ser anulada a decisão recorrida, para que seja analisada a questão de mérito, sob pena de supressão de instância. A teor da Súmula CARF nº 1, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura de ação judicial pelo sujeito passivo com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Decisão Recorrida Nula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso para anular a decisão recorrida em face da inexistência de concomitância, com o retorno dos autos à DRJ/SPO para apreciação dos argumentos de mérito trazidos na Impugnação. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 01 01 15 /2 00 8- 58 Fl. 307DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado). Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado com a finalidade de prevenir a decadência da multa de 1% do valor aduaneiro prevista no art. 84, da Medida Provisória n° 2.15835/2001 e no art. 69 da Lei n° 10.833/2003, decorrente de declaração inexata dos dados das importações referentes às Declarações de Importação 08/13966226 e 08/13966242. Conforme relatado na autuação, quando da conferência aduaneira das mercadorias (cloreto de potássio granulado, a granel) foi constatado que os dados informados no campo "Fabricante/Produtor" das DIs foram declarados em desacordo com as informações contidas nas Faturas Comerciais (indicada a empresa MOSAIC CANADA CROP NUTRITION, LP, ao invés da empresa POTASH CORPORATION OS SASKATCHEWAN INC., que consta nas Faturas Comerciais como produtor). Por essa razão, foi proferido despacho no SISCOMEX determinando a correção da informação e o correspondente recolhimento da multa. Em face desse despacho, a empresa impetrou o Mandado de Segurança n° 2008.61.04.0096099 visando a liberação das mercadorias objeto das DIs. Conforme inicial acostada às efls. 165/179, a empresa busca naquele processo a liberação das mercadorias, sem prejuízo da lavratura de Auto de Infração para a exigência da multa. O pedido daquela ação judicial foi formulado nos seguintes termos: "IV— O PEDIDO Diante de todo o exposto, é o presente para requerer se digne V.Exa. conceder medida liminar, inaudita altera pars, que determine à autoridade cOatora a imediata liberação das mercadorias retidas desde 28/11/04 na Alfândega do Porto de Santos, registradas pelas Declarações de Importação n° 08/13966242, n° 08/13966226, n° 08/13966153 e n° 08/13966102, sem prejuízo de seu direito de constituir e receber á multa que considerar devida, mediante o ato de lançamento fiscal (auto de infração), concedendose ao final e em definitivo a segurança, confirmando o direito da impetrante à liberação de suas mercadorias importadas." (efls. 178/179 grifei) Na decisão liminar proferida naquele processo, foi autorizada a liberação da mercadoria mediante a realização de depósito. Após a realização do depósito judicial da exigência da multa referente ao presente processo e de outros processo administrativos envolvidos na inicial no Mandado de Segurança (efl. 62), as mercadorias foram liberadas. Em seguida, foi lavrada a presente autuação para prevenir decadência. Inconformada, a empresa apresentou Impugnação administrativa para discutir a validade da multa aplicada, defesa esta que não foi conhecida em acórdão ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Data do fato gerador: 08/09/2008 CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. Fl. 308DF CARF MF Processo nº 11128.010115/200858 Acórdão n.º 3402005.390 S3C4T2 Fl. 308 3 Liminar concedida em Mandado de Segurança, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial (Súmula nº 1 Portaria CARF nº 52, de 2010). Não se toma conhecimento da impugnação no tocante à matéria objeto de ação judicial. Impugnação Não Conhecida Crédito Tributário Mantido" (efl. 201) Intimada desta decisão em 25/11/2014 (efl. 217), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 10/12/2014 (efls. 219/236) sustentando, em síntese: (i) a ausência de concomitância no presente caso, vez que o mérito da multa não foi objeto de discussão na seara judicial; (ii) a inexigibilidade da multa aplicada diante da ausência de dano ao erário. Em seguida, os autos foram direcionados a este Conselho para julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. O Recurso Voluntário é tempestivo e merece análise. Como relatado, é possível constatar com clareza pela inicial do Mandado de Segurança n° 2008.61.04.0096099 que este pleito judicial se referiu, apenas, à liberação das mercadorias, sem envolver o mérito objeto do presente processo administrativo, em torno da validade da aplicação da multa de 1% do valor da mercadoria por erro na Declaração de Importação. Além do pedido já transcrito no relatório, possível vislumbrar que ao longo de toda a inicial a ora Recorrente buscou afastar a discussão em torno da validade da multa, que seria travada apenas na instância administrativa. Vejamos trechos da inicial daquele processo: "Notese que a impetrante já efetuou a retificação das licenças de importação, sendo que o, respectivo órgão anuente, inclusive, já acatou tal retificação (vide docs.). Todavia, a impetrante não concorda com a penalidade aplicada pelo impetrante, por entender ser medida injusta e descabida, razão pela qual pretende discutir a legalidade da multa aplicada perante a instância administrativa. Porém, sabese que a discussão em via administrativa poderá levar anos e a impetrante não poderá aguardar o desfecho da discussão administrativa para ter liberadas suas mercadorias importadas. Frisese que a decisão da impetrante de discutir a aplicação de tal penalidade na via administrativa encontra respaldo na atual jurisprudência do E. Conselho de Fl. 309DF CARF MF 4 Contribuintes e deste poder judiciário, conforme se pode observar nas decisões abaixo citadas: (...) Assim, para sanar com maior segurança a questão, tanto para o fisco, como para a impetrante, o procedimento correto deveria ser a lavratura de auto de infração, a fim de que se instaure o contencioso administrativo, dando, portanto, a oportunidade da impetrante exercer o contraditório. Porém, a interrupção do despacho aduaneiro pelo impetrado, apreendendo a mercadoria importada com a intenção de ser cobrada a multa, caracteriza nítida e inadmissível violação de direito liquido e certo da impetrante em ver suas mercadorias desembaraçadas. A impetrante, portanto, vêse privada de suas mercadorias desde 23/09/2008, e para têlas liberada deverá pagar a penalidade imposta pelo impetrado. O impetrado, no entanto, ao invés de aplicar a lei e efetuar o, ato de lançamento (auto de infração), insiste em manter retidas as mercadorias importadas e coagir a impetrante a recolher a multa imposta" (efls. 168/171 grifei) Acrescese que, como informado pela Recorrente, foi proferida sentença naquele processo extinguindo o processo sem julgamento de mérito exatamente em razão da liberação das mercadorias e a correspondente perda superveniente de interesse de agir, não constando qualquer apreciação pelo Judiciário da validade da multa aplicada nos exatos limites da lide delineados na inicial1. Desta forma, não se vislumbra na hipótese a existência de concomitância indicada pela r. decisão recorrida. Repitase: o objeto do presente processo administrativo (discussão de mérito em torno da validade da multa de 1% das mercadorias) não foi objeto de apreciação pelo judiciário, não cabendo se falar em concomitância na forma do art. 87 do Decreto n° 7.574/2011 e da Súmula CARF n.º 1: Decreto 7.574/2011 "Art. 87. A existência ou propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial com o mesmo objeto do lançamento importa em renúncia ou em desistência ao litígio nas instâncias administrativas (Lei no 6.830, de 1980, art. 38, parágrafo único). 1 Conforme se observa do extrato de andamentos do processo no Tribunal Regional federal da 3ª Região (disponível em http://web.trf3.jus.br/consultas/Internet/ConsultaProcessual/Processo?NumeroProcesso= 00096092820084036104), a sentença foi mantida pelo Tribunal em acórdão já transitado em julgado, pendente apenas o pedido subsidiário da empresa quanto a transferência dos depósitos judiciais para a seara administrativa. Nos termos do v. acórdão: "Nesse passo, a impetrante realizou, no curso do processo, em 02 de outubro de 2008, o depósito judicial dos valores referentes à multa aplicada pela autoridade impetrada, razão pela qual houve, em 08 de outubro de 2008, a liberação das mercadorias objeto das declarações de importação enumeradas na exordial. O presente mandamus foi impetrado com o objetivo de assegurar a liberação de mercadorias de propriedade da impetrante, sob a alegação de que é inadmissível a apreensão de bens como modo coercitivo para pagamento de multas e tributos. Notase, assim, que a demanda perdeu o objeto em face da ausência superveniente de interesse. (...) No caso concreto, observase que, após a impetração do mandado de segurança, a parte autora efetuou, voluntariamente, o depósito do valor correspondente à multa discutida em âmbito administrativo, o que levou ao desembaraço das mercadorias em questão. Notase, destarte, que o atendimento favorável ao pleito da impetrante pela Administração, possibilitando a liberação das mercadorias retidas, desde 28/11/2004, na Alfândega do Porto de Santos/SP, deuse unicamente em razão do aludido depósito voluntário e não em virtude de ordem judicial exarada pelo r. Juízo a quo, como restou comprovado nos presentes autos, estando ausente, portanto, o interesse processual. (...) Em face do exposto, com fulcro no art. 557, caput do CPC, nego seguimento à apelação, devendo ser mantida a r. sentença recorrida pelos seus próprios e jurídicos fundamentos." (Disponibilizado no DJe de 13/10/2014 grifei) Fl. 310DF CARF MF Processo nº 11128.010115/200858 Acórdão n.º 3402005.390 S3C4T2 Fl. 309 5 Parágrafo único. O curso do processo administrativo, quando houver matéria distinta da constante do processo judicial, terá prosseguimento em relação à matéria diferenciada." (grifei) Súmula CARF nº 1 "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial." (grifei) Assim, afastada a existência de concomitância levantada pela decisão de primeira instância, que não analisou quaisquer dos argumentos trazidos em sede de Impugnação, o processo deve retornar à autoridade julgadora para manifestação sobre o mérito, sob pena de supressão de instância, conforme entendimento desta turma (vide, por exemplo, o Acórdão n.º 3402004.603, de minha relatoria) e deste E. CARF: "Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/09/1989 a 31/05/1991 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. Inexistindo concomitância entre o processo administrativo e o judicial, deve ser anulada a decisão recorrida, para que seja analisada a questão de mérito, sob pena de supressão de instância. Recurso Voluntário Provido em Parte." (Número do Processo 10580.013421/9911 Sessão 25/06/2013. Relator Nilton Luiz Bartoli, Nº Acórdão 3201001.392 Unânime grifei) "Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 30/01/2002 NÃO HÁ CONCOMITÂNCIA DE OBJETO ENTRE ESTE PROCESSO E AÇÃO JUDICIAL ANTERIOR. Não se caracterizou a concomitância de objeto com processo judicial nem tampouco se pode afirmar que o objeto do presente processo coincida com a questão efetivamente enfrentada pelo Judiciário, que se restringiu exclusivamente a conceder liminar para liberação da mercadoria importada sem constrangimento por parte do fisco. A lide administrativa foi iniciada dois anos depois de haver sido encerrada sem julgamento do mérito a ação mandamental cuja sentença transitada em julgado apenas confirmou a liminar liberatória da mercadoria importada e homologou a expressa desistência do autor quanto aos demais pedidos inicialmente apresentados para que fossem apreciados administrativamente. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA DE JULGAMENTO. A indevida negativa de conhecimento do mérito pela instância julgadora a quo representa empecilho à ampla defesa e negação de garantia do contribuinte ao duplo grau de jurisdição. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. Deve ser anulada a decisão recorrida por cerceamento ao direito de defesa, devendo ser a devolução integral da matéria de mérito à apreciação da Delegacia de Julgamento competente. Processo Anulado" (Número do Processo 10907.000672/200235 Data da Sessão 16/10/2007 Relator Zenaldo Loibman Nº Acórdão 30334.758 Unânime grifei) "(...) NÃO HÁ CONCOMITÂNCIA ENTRE O PROCESSO JUDICIAL E O ADMINISTRATIVO. Fl. 311DF CARF MF 6 Tratase de empresa exclusivamente prestadora de serviços; a interessada não comprovou a afirmação de que auferiu receita de venda de mercadorias, ao contrário, nas suas declarações DIRPJ de 1990 a 1993 indicou apenas receitas de prestação de serviços, confirmadas nas cópias do Livro de Registro de Serviços Prestados. O objeto da ação judicial movida pelo sinduscon, e transitada em julgado em 1994, é o pedido de aplicação da alíquota de 0,5% para as empresas exclusivamente prestadoras de serviços, enquanto o processo administrativo tem por objeto o pedido de compensação. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. O pedido não foi julgado. O processo deve retornar à primeira instância para que julgue o mérito da compensação requerida. ANULADA A DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA." (Número do Processo 14052.003131/9310 Data da Sessão 18/03/2004 Relator Zenaldo Loibman Nº Acórdão 30331.320 Unânime grifei) Diante do exposto, voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para anular a decisão recorrida em face da inexistência de concomitância, com o retorno dos autos à DRJ/SPO para apreciação dos argumentos de mérito trazidos na Impugnação. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. Fl. 312DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11060.722406/2011-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 10 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
IOF. CONTRATO DE CONTA CORRENTE. MÚTUO. GESTÃO DE CAIXA ÚNICO. NÃO INCIDÊNCIA.
O contrato de conta corrente é instrumento hábil para operacionalizar a gestão de caixa único (cash pooling) no âmbito de um grupo econômico, não havendo que se confundir as transferências decorrentes deste daquelas relacionadas a contratos de mútuo e abrangidas pela hipótese de incidência do IOF.
Os recursos financeiros das empresas controladas que circulam nas contas da controladora não constituem de forma automática a caracterização de mútuo, pois dentre as atividades da empresa controladora de grupo econômico está a gestão de recursos, por meio de conta-corrente, não podendo o Fisco constituir uma realidade que a lei expressamente não preveja.
Numero da decisão: 3402-005.232
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Pedro Sousa Bispo.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto - Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Pedro Sousa Bispo.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF Anocalendário: 2007, 2008, 2009 IOF. CONTRATO DE CONTA CORRENTE. MÚTUO. GESTÃO DE CAIXA ÚNICO. NÃO INCIDÊNCIA. O contrato de conta corrente é instrumento hábil para operacionalizar a gestão de caixa único (cash pooling) no âmbito de um grupo econômico, não havendo que se confundir as transferências decorrentes deste daquelas relacionadas a contratos de mútuo e abrangidas pela hipótese de incidência do IOF. Os recursos financeiros das empresas controladas que circulam nas contas da controladora não constituem de forma automática a caracterização de mútuo, pois dentre as atividades da empresa controladora de grupo econômico está a gestão de recursos, por meio de contacorrente, não podendo o Fisco constituir uma realidade que a lei expressamente não preveja. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 0. 72 24 06 /2 01 1- 10 Fl. 477DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Pedro Sousa Bispo. Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado pela fiscalização referente ao Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários (IOF), acrescido de juros de mora e multa de ofício de 75%, conforme enquadramento legal discriminado no referido documento. Por bem retratar o feito, utilizarei aqui de trechos do relatório da DRJ. A fiscalização constatou repasses de recursos entre a fiscalizada e sua controladora JMT mediante utilização de duas contas de mútuo, sendo uma do Ativo/Circulante/Contratos de Mútuo (1107010101 JMT Adm e Participações Ltda.) e outra do Ativo/Realizável a Longo Prazo/Contratos de Mútuo/Créditos de Coligadas e Controladas (1201010201 JMT Adm e Participações Ltda.). A conta de Ativo Circulante – 1107010101 – recebia somente dois lançamentos por mês: um no início, quando o seu saldo era transferido para a conta de Ativo Realizável a Longo Prazo 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda e outro no último dia do mês, quando recebia, por transferência, o saldo existente na citada conta de Ativo Realizável a Longo Prazo 1201010201. Dessa forma, a conta 1201010201 refletiria as operações de mútuo realizadas entre o sujeito passivo e sua controladora. Com relação aos lançamentos feitos nessa conta 1201010201 a fiscalização observa que “os lançamentos a débito registram o fornecimento de recursos de Veisa Veículos Ltda a sua controladora JMT Administração e Participações Ltda, que os utiliza para fazer frente a obrigações de outras empresas do grupo, enquanto que os lançamentos a crédito registram a devolução dos recursos. Exemplificando, quando a autuada Veisa recebe o pagamento de vendas realizadas a prazo de seus clientes, é debitada a conta 1201010201 JMT Adm e Participações Ltda. e creditada a conta 1103010101 Duplicatas a Receber, e assim ao invés dos recursos ingressarem em conta representativa de Caixa ou Bancos, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. registra que são entregues à controladora JMT Administração e Participações Ltda. E quando, por exemplo, fornecedores de Veisa Veículos Ltda. são pagos com recursos originados de sua controladora JMT Administrações e Participações Ltda, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. é creditada e a conta 2102090901 Fornecedores Diversos é debitada, registrando a devolução dos recursos. No Relatório do Procedimento Fiscal é esclarecido, ainda, que a controladora JMT Administração e Participações Ltda. havia sido alvo de ação fiscal relativa aos anos calendário 2006 e 2007, na qual foi intimada a manifestarse sobre uma série de contas de sua contabilidade em que são registradas operações de mútuo, dentre as quais a conta do Passivo Circulante “Mútuo/Veisa Veículos Ltda”, que registra operações de mútuo com a autuada, contabilizados nesta pela conta 1201010201 – JMT Adm. e Participações Ltda., tendo esclarecido, em síntese, que em cumprimento ao seu objeto social controla ou participa de outras empresas e, por intermédio de seus sócios, presta serviços de gestão e administração financeira a essas empresas controladas ou coligadas, e que tal administração se dá em Fl. 478DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 3 3 regime de caixa único e as contas de mútuo registram contabilmente os saldos em conta corrente entre si e as empresas controladas e coligadas. Esclarece que realiza pagamentos e recebimentos de contas das empresas controladas e coligadas, registrando contabilmente o respectivo débito e crédito na conta de cada uma delas, sendo que ora uma empresa apresenta saldo credor devido aos recebimentos realizados pela JMT em seu nome, ora saldo devedor devido aos pagamentos realizados pela JMT em seu nome. Diante disto, frisa que a designação nominal dessa conta e de outras referidas como mútuo seria imprópria ou equivocada, não refletindo a natureza das operações entre as sociedades coligadas. Além disso, esclarece também que não firmou contratos escritos com suas controladas e coligadas relativamente às operações. Entendeu a fiscalização, naquele procedimento, que as operações mencionadas caracterizam fato gerador do IOF, o que resultou na lavratura de auto de infração objeto do processo administrativo nº 11060.002788/200947. Conforme Relatório Fiscal, em fl. 311, a análise das operações praticadas levou à conclusão de que JMT realiza gestão de recursos financeiros de empresas coligadas e controladas mediante "caixa único", mantendo contas correntes onde registra o trânsito de recursos, sendo que os lançamentos a débito na conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda, e que registram empréstimos de recursos do sujeito passivo Veisa Veículos Ltda. à controladora JMT e os lançamentos a crédito, o pagamento desses empréstimos. Os saldos devedores dessa conta representam o montante dos recursos emprestados ou postos à disposição pela autuada à controladora, o que caracteriza a prática de operações de crédito, na modalidade de mútuo, sujeitas à incidência do IOF. Irresignado, o Contribuinte apresentou Impugnação na qual alegou: i) aponta inicialmente a nulidade do lançamento, por violação ao princípio da legalidade, pois o critério de cálculo adotado não corresponde, no seu entendimento, ao que está previsto no art. 13 da Lei nº 9.779, de 1999 que determina que a tributação dos empréstimos entre pessoas jurídicas será a mesma aplicável às operações financeiras, a qual teria alíquotas e base de cálculo inteiramente distintas daquelas previstas no Ato Declaratório SRF nº 007, de 1999, mencionado pela fiscalização. ii) Alega que segundo os artigos 2º e 3º da Lei nº 5.143, de 1966, que regulamenta o IOF, a base de cálculo do imposto incidente sobre operações financeiras é o saldo da operação de empréstimo apurado mensalmente, cuja alíquota é de 0,3%, enquanto a base do IOF nos empréstimos entre pessoas jurídicas é o saldo diário da conta corrente, com alíquota de 0,0052%, o que resultaria na incidência de 1,898%, ao ano, tendo em vista que a aplicação desta alíquota é diária, o que afrontaria o postulado da igualdade exigido em lei, resultando na impossibilidade de a União exigir o IOF nas operações entre empresas não financeiras, com base na legislação que fundamentou o lançamento. Sustenta ainda que o lançamento Fl. 479DF CARF MF 4 teria se valido de instrução normativa para quantificar o tributo, ao invés da lei. iii) Após analisar conjuntamente os artigos 63 e 143 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966), bem como o art. 153, inc. V, da Constituição Federal e o art. 1º da Lei nº 5.143, de 1966, defende que a Lei nº 9.779/99 teria inovado ao exigir o tributo nas operações feitas por empresas não financeiras. iv) Argumenta que tanto a Constituição Federal, como o Código Tributário Nacional e a Lei Ordinária utilizam o termo operações de crédito, que se configurariam pela mera entrega do respectivo valor regulada por um contrato de crédito. O que definiria a incidência do IOF seria a existência de um contrato típico, tendo por objeto uma operação financeira de empréstimo de dinheiro a juro com todos os seus elementos de qualificação, notadamente partes absolutamente distintas e não vinculadas por um comando único. E assim, nem todas entregas de valor de uma pessoa jurídica a outra seriam empréstimo, e ao se interpretar a lei deve ser considerada a presença das mesmas características e conteúdo de uma operação financeira, seja para efeitos formais, seja para efeitos materiais, independente do tomador. v) Sustenta que a relação existente entre empresas controladas desfiguraria o contrato de operação financeira, não se concebendo que uma empresa controladora de 99% do capital da beneficiaria da operação financeira possa determinar a devolução de valores no mesmo grau e exigência que seriam adotados caso não houvesse tal controle. vi) Por fim, argumenta que nem a lei, nem o intérprete poderiam estender a lei a hipóteses não previstas na Constituição Federal, e que não fosse a inconstitucionalidade da cobrança do IOF na hipótese analisada, mesmo assim que este seria incobrável nos termos postos no CTN e na lei invocada no lançamento, não podendo ser exigido com base em uma instrução normativa. E assim, solicita a desconstituição do lançamento, sob pena de afronta aos artigos 146, inc. III e 153, inc. V, da Constituição Federal combinados com o artigo 63 do Código Tributário Nacional e artigos 1º , 4º e 5º da Lei nº 5.143, de 1966. A sua impugnação foi julgada improcedente pela DRJ em acórdão assim ementado: SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2009 ALEGAÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. A autoridade administrativa não é competente para examinar alegações de ilegalidade/inconstitucionalidade de leis regularmente editadas, tarefa privativa do Poder Judiciário. Fl. 480DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 4 5 MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE EMPRESAS. INCIDÊNCIA DO IOF. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas integrantes do mesmo grupo econômico sujeitamse à incidência do IOF. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformado, apresentou o Contribuinte o seu Recurso Voluntário, reiterando a preliminar de nulidade e sustentando, no mérito, o afastamento da incidência do IOF nas transações realizadas entre empresas de mesmo grupo econômico (coligadas). É o relatório. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. Inicialmente, quanto à preliminar de ilegalidade dos fundamentos da autuação, escoimada no Ato Declaratório SRF n 007/1999, entendo que tal matéria se confunde com o mérito da discussão, visto que envolve os fundamentos da subsunção do fato autuado à hipótese de incidência do IOF, questão que será abordada adiante. Quanto ao mérito, certos fatos são incontroversos entre a Recorrente e Recorrida, visto que reconhecidos no bojo do próprio Relatório da fiscalização, pelo que serão repisados aqui: I) A JMT realiza gestão de recursos financeiros de empresas coligadas e controladas mediante "caixa único", mantendo contas correntes onde registra o trânsito de recursos, sendo que os lançamentos a débito na conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda, e que registram transferências de recursos do sujeito passivo Veisa Veículos Ltda. à controladora JMT e os lançamentos a crédito, transferências daquela a esta. II) A JMT Adm. e Participações Ltda. possui entre seus objetivos sociais as atividades de gestão e administração financeira a essas empresas controladas ou coligadas, tal administração se dando sob o regime de caixa único, com registro contábil dos saldos em conta corrente entre si e as empresas controladas e coligadas. III) A operação se dá na seguinte forma: quando a autuada Veisa recebe o pagamento de vendas realizadas a prazo de seus clientes, é debitada a conta 1201010201 JMT Adm e Participações Ltda. e creditada a conta 1103010101 Duplicatas a Receber, e assim ao invés dos recursos ingressarem em conta representativa de Caixa ou Bancos, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. registra que são entregues à controladora JMT Fl. 481DF CARF MF 6 Administração e Participações Ltda. E quando, por exemplo, fornecedores de Veisa Veículos Ltda. são pagos com recursos originados de sua controladora JMT Administrações e Participações Ltda, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. é creditada e a conta 2102090901 Fornecedores Diversos é debitada, registrando a devolução dos recursos. IV) Não existem contratos escritos acerca dessas operações. Diante desse contexto fático, a fiscalização entendeu se tratarem essas transferências de operações de mútuo, ao passo que o Recorrente aduz que por se tratar de operação entre partes coligadas não se trataria de "operação de crédito", desconfigurando a figura contratual do mútuo. Tenho para mim que assiste razão ao Recorrente, sem todavia compartilhar das mesmos fundamentos por ele esgrimidos. No presente caso, não estão presentes os elementos característicos de um contrato de mútuo, mas sim de um contrato de conta corrente mercantil, como se buscará demonstrar posteriormente. Em primeiro lugar, enfrentarei o tema da incidência do IOF nas operações de mútuo entre pessoas jurídicas coligadas, indo de encontro aos fundamentos da Recorrente, para em seguida enfrentar propriamente a natureza do vínculo contratual existente entre a autuada e a empresa JMT, para demonstrar que não se tratam de operações de mútuo. A) DA INCIDÊNCIA DE IOF SOBRE OPERAÇÕES DE MÚTUO ENTRE PESSOAS JURÍDICAS COLIGADAS. O fundamento do pleito da Recorrente consiste na afirmação de que o mútuo entre empresas de um mesmo grupo econômico não deveria ser tributado. A contribuinte não contesta a existência das operações de mútuo, mas alega que a natureza jurídica das operações realizadas difere daquela inerente ao mútuo comercial justamente por serem as partes integrantes de um mesmo grupo econômico, e, portanto, não estariam sujeitas ao IOF. Em que pese suas alegações, a legislação do IOF não prevê qualquer exceção ou regra especial para as operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros realizadas entre pessoas jurídicas integrantes de grupo econômico. A despeito da distinção existente entre o mútuo e o mútuo com finalidade econômica, tal discrímen tem relevância apenas para fins de presunção de serem devidos os juros na operação, sem contanto descaracterizar qualquer uma das modalidades com operação de crédito. É o que se depreende dos artigos 586 e 592 do Código Civil: Código Civil Art. 586. O mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis. O mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade. Art. 591. Destinandose o mútuo a fins econômicos, presumemse devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 406, permitida a capitalização anual. Digase também que não procede o argumento de uma unicidade subjetiva entre os participantes de um grupo econômico. As pessoas jurídicas integrantes de grupo Fl. 482DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 5 7 econômico são pessoas distintas – como se depreende da literalidade do art. 266 da Lei nº 6.404/76 – e, como tal, permanecem como sujeitos passivos das obrigações tributárias relativas aos fatos geradores por eles praticados. Senão vejamos: Lei nº 6.404, de 1976: Art. 265. A sociedade controladora e suas controladas podem constituir, nos termos deste Capítulo, grupo de sociedades, mediante convenção pela qual se obriguem a combinar recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos, ou a participar de atividades ou empreendimentos comuns. Natureza Art. 266. As relações entre as sociedades, a estrutura administrativa do grupo e a coordenação ou subordinação dos administradores das sociedades filiadas serão estabelecidas na convenção do grupo, mas cada sociedade conservará personalidade e patrimônios distintos. Nesse sentido, inclusive, consolidouse a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a exemplo do Recurso Especial nº 770.876/MG, cuja ementa aduz claramente tal ponto: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA DA PESSOA JURÍDICA. INCIDÊNCIA SOBRE OPERAÇÕES DE MÚTUO FIRMADAS ENTRE EMPRESAS COLIGADAS, CONTROLADAS, CONTROLADORAS OU INTERLIGADAS. REVOGAÇÃO DO ART. 77, II, DA LEI 8.981/95 PELO ART. 5º, § ÚNICO, DA LEI 9.779/99. VIOLAÇÃO DO ART. 535, I e II, DO CPC. NÃO CONFIGURADA. 1. As operações de mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas controladoras, controladas, coligadas ou interligadas, após a revogação da isenção concedida pelo inciso II do art. 77 da Lei 8.981/95, são consideradas operações financeiras sujeitas à incidência do Imposto de Renda. (Precedentes do STJ: REsp 572792 / RS, DJ 18/09/2006; REsp 522294 / RS , DJ 08/03/2004) (...) 5. Recurso especial desprovido. (REsp 770.876/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2007, DJ 04/06/2007, p. 309) Assim, o simples fato de a operação ter sido realizada com integrante do grupo econômico da contribuinte não afasta a incidência do IOF, não devendo prosperar o argumento do contribuinte. Todavia, como ressaltamos anteriormente, nosso fundamento para o provimento do presente Recurso Voluntário diverge daquele dado pelo Recorrente, pois entendemos que, em rigor, a operação em tela não se trata de contrato de mútuo. B) DA NÃO INCIDÊNCIA DO IOF SOBRE TRANSFERÊNCIAS DECORRENTES DE CONTRATO DE CONTA CORRENTE MERCANTIL. Fl. 483DF CARF MF 8 Sobre esse tema já nos manifestamos em outras oportunidades, razão pela qual parte das considerações de ordem teórica serão abaixo reproduzidas. Trata a presente autuação acerca da incidência de IOF sobre remessas entre empresas coligadas com fundamento em contratos de conta corrente estabelecidos entre as partes, instituindo regime de "caixa único", sob o fundamento de que tais remessas haviam se dado a título de mútuo. A questão controvertida nesse processo é a existência ou não de dissimulação decorrente da utilização de um contrato de conta corrente para realização de operações de mútuo sem o pagamento o IOF. Antes de entrar na questão propriamente da suposta dissimulação e do atendimento ou não aos requisitos do contrato típico de conta corrente mercantil, cabe enfrentar questões prejudiciais. 1. Da Relação entre o Direito Privado e o Direito Tributário Tema dos mais relevantes, que põe em contraste a ideia de uma unidade do sistema jurídico e a coexistência de subsistemas correlacionados (mas com sistemáticas que lhe são peculiares por refletirem suas igualmente próprias finalidades.), é a relação entre o Direito Tributário e o Direito Privado. Tratase de preocupação antiga, visto que remete ao Precis de Droit Financier (1906) de MyrbachRheinfeld, cuja obra defendia à época pela inaplicabilidade das normas de Direito Privado para reger relações de Direito Financeiro (incluindo aí o tributário), mas que mantém sua atualidade (e prejudicialidade) em uma infinidade de discussões atuais. Como lembra Alcides Jorge Costa (Direito Tributário e Direito Privado. In Direito Tributário Estudos em Homenagem a Ruy Barbosa Nogueira. São Paulo: Dialética, 1984. P.222), as relações entre o Direito Tributário e o Direito Privado é multifacetada, com um foco maior na subordinação ou não do daquele aos conceitos e institutos deste, que por sua vez comportaria, no plano teórico: i) a recepção expressa dos conceitos de direito privado; ii) uma recepção implícita; iii) uma alteração implícita de conceitos do direito privado; e iv) uma aplicação analógica das normas de direito privado. É fato inconteste que a legislação tributária faz diversas remissões ao Direito Privado, todavia, o que causa discussão é a pergunta acerca de o que é salário, serviço, mútuo etc., e se a resposta do Direito a esta pergunta é privatista ou não isso nos situa entre duas hipóteses limites de trabalho: ou i) o empréstimo de expressões é o mais restrito possível, não passando de uma remissão meramente terminológica; ou ii) o emprego da terminologia privatista implica uma assunção substancial do objeto em matéria fiscal (PUJOL, Jean. L'application du Droit Privé en Matière Fiscale. Paris: Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence, 1987. P.23). No mesmo sentido, enfrentou Humberto Ávila (Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In: GRUPPENMACHER, Betina. (Org.). Direito Tributário e o Novo Código Civil. São Paulo: Quartier Latin, 2004, p.6465) a discussão sobre tratarse de uma remissão meramente terminológica ou conceitual, posicionandose pela segunda opção, haja vista que carecia de sentido lógico referirse a uma figura jusprivatística de forma arbitrária, sem qualquer propósito linguístico. Fl. 484DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 6 9 Naturalmente, o Direito Tributário possui fonte essencialmente legislativa, de modo que é natural que se busque prescrições textuais que indiquem a solução para essa questão. Tradicionalmente a remissão é imediata aos arts. 109 e 110 do Código Tributário Nacional: Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Parecenos, todavia, que os dispositivos normalmente tratados de forma unitária tratam de coisas distintas. O artigo 110 encontrase embrincado a uma questão vertical, ligada à hierarquia da Constituição e à impossibilidade da lei alterar dispositivos dela através de alteração de institutos e formas do direito privado a que as competências tributárias fazem remissão. Seria um dispositivo despiciendo em um sistema jurídico com o funcionamento são, mas que no Brasil assume o papel cada vez mais relevante de lembrar a todos o óbvio. A respeito disso, inclusive, o Supremo Tribunal Federal possui jurisprudência consolidada acerca da necessária observância dos conceitos pressupostos pelo Constituinte no momento de positivação das regras de competência (Ex. RE nº 150.7641, RE nº 117.8876, RE nº 203.0759 etc.), cujo entendimento encontra lúcida formulação no voto do Min. Marco Aurélio Mello no RE nº 166.7729, ao rechaçar a contribuição cobrada sobre a remuneração dos autônomos: O conteúdo político de uma Constituição não é conducente ao desprezo do sentido vernacular das palavras, muito menos ao do técnico, considerados institutos consagrados pelo Direito. Toda ciência pressupõe a adoção de escorreita linguagem, possuindo os institutos, as expressões e os vocábulos que a revelam conceito estabelecido com a passagem do tempo, quer por força de estudos acadêmicos quer, no caso do Direito, pela atuação dos Pretórios. Por outro lado, o art.109 traz uma questão horizontal, a respeito da forma que o Direito Privado se relaciona com o Direito Tributário nos demais conceitos e institutos que são utilizados em normas tributárias infraconstitucionais, especialmente para determinar quais os efeitos tributários a que elas estarão sujeitas. Mais do que isso, é preciso determinar se a utilização de "conceitos impregnados pelo Direito Civil" (zivilrechtliche vorgeprägte Begriffe) implica a possibilidade da sua alteração pelo legislador tributário tese da flexibilidade ou ele deve acatar o conceito existente e somente lhe determinar as consequências tributárias tese da rigidez (Cf. CREZELIUS, Georg. Steuerrechtliche Rechtsanwendung und allgemeine Rechtsordnung. Berlin: Neue Wirtschaftsbriefe, 1983. P.180). Fl. 485DF CARF MF 10 Nesse sentido, devemos buscar subsídios no Direito Positivo para fundamentar a opção por um ou outro. Em primeiro lugar, verificase que a Constituição Brasileira optou, ao tratar do Direito Tributário, pela previsão expressa de diversas regras de competência, que, em razão da sua eficácia de trincheira entrenchment (SCHAUER, Frederick. Playing by the Rules. Oxford: Clarendon Press, 2002. P.42) dão maior rigidez e certeza ao conjunto normativo, evitando que poderes e obrigações surjam exclusivamente de princípios constitucionais, dando um timbre de segurança e previsibilidade ao subsistema constitucional tributário que, por força da hierarquia. No âmbito do CTN, calha remeter a dois artigos pouco mencionados nesta discussão, o art.114 e 116: Art. 114. Fato gerador da obrigação principal é a situação definida em lei como necessária e suficiente à sua ocorrência. Ora, é aristotélica a lição de que as condições necessárias e suficientes para que um objeto seja determinado como algo são o conteúdo desse conceito! É dizer, na dicção do artigo mencionado, que falar em fato gerador é pressupor a existência de um conceito ao qual ele vai se subsumir, com elementos determinados. Fica evidente que o CTN reconhece a existência de conceitos nas hipóteses de incidências tributárias que devem ser observados no momento da aplicação, sob pena de restar sem sentido a dicção do artigo supramencionado. Em mesmo sentido, o art.116 é categórico: Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. (grifos nossos) Ora, ao incluir determinado ato ou negócio jurídico no antecedente de uma norma tributária abstrata e geral, o legislador não abarca a totalidade do fenômeno, o fato bruto (rohe Tatsachen), mas sim fatos institucionais (WEINBERGER, Ota. Fatti e Descrizione di fatti Riflessioni logicometodologiche su un problema fondamentale delle scienze sociali. In. LA TORRE, Maximo. Il Diritto come Instituizione. Milano: Giuffrè, 1990. P.95113) seja à partir de uma institucionalização dos fatos brutos, quando delimita positivamente "as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios", seja à partir de convenções humanas normativamente instauradas, caso em que o fato se verificará quando "definitivamente constituída, nos termos do direito aplicável". Há, pois, uma necessidade intrínseca ao Direito que tais fatos tenham alguma determinação prática seja ela normativa ou não anterior à sua utilização nas hipóteses de incidência tributárias. Em se tratando das situações jurídicas, remetese a um "direito aplicável" que, a nosso ver, nada mais é do que o Direito Privado que impõe a sua observância não por razões de unidade conceitual necessária que a nosso ver pode ser elidida pela construção de conceitos próprios no âmbito tributário (como se fez com o conceito de faturamento, com a Lei das S.A. e o DecretoLei 2397/67) mas por uma unidade conceitual decorrente do grau de elaboração do Direito Privado quando da tomada de consciência da Fl. 486DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 7 11 autonomia do Direito Tributário (VANONI, Ezio. Natureza e Interpretação das leis tributárias. Trad. Rubens Gomes de Sousa. Rio de Janeiro: Edições Financeiras, 1932. p.167). Não se trata de uma vinculação necessária, mas apriorística, desde que não sobrevenha uma previsão específica de sentido na seara tributária. Corroborando essa conclusão, a Lei Complementar 95/98, versando expressamente sobre a redação de textos legais, traz relevantes subsídios interpretativos, a exemplo de seu art.11: Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: I para a obtenção de clareza: a) usar as palavras e as expressões em seu sentido comum, salvo quando a norma versar sobre assunto técnico, hipótese em que se empregará a nomenclatura própria da área em que se esteja legislando; Além disso, sob uma análise estrutural do Código Tributário, a própria previsão da figura da simulação, evidenciando uma discrepância entre o declarado e o efetivamente realizado para justificar a revisão do lançamento e outras consequências legais, já traz pressuposta a assunção de uma estrutura de Direito Privado que, por conta de um vício (se de vontade ou de causa é outra discussão) deve ser desconsiderado para fins tributários mas ainda assim, um prius lógico deste instituto é a consideração da forma de Direito Privado, ainda que vicidada. Resta clara, portanto, a necessidade de observância, via de regra, dos conceitos de Direito Privado na interpretação das hipóteses de incidência tributária. Todavia, entendemos necessário acrescentar uma segunda camada de considerações, haja vista que o que foi dito acima o foi com vistas apenas à interpretação do Direito Tributário o que seria suficiente em um pensamento estritamente subsuntivo e conceitual, mas que não se sustenta diante das teorias hermenêuticas atuais. Em rigor, a aplicação do Direito não consiste apenas em interpretar normas. A interpretação da lei (Gesetzauslegung) e a valoração dos fatos (Sachverhaltsbeurteilung) são dois aspectos do mesmo problema hermenêutico, haja vista que no processo aplicativo os elementos fático e jurídico atuam reciprocamente um sobre o outro tanto a interpretação da norma quanto a qualificação dos fatos fazem parte do processo de compreensão do sentido da norma e sua projeção sobre os casos concretos (NOVOA, César García. La Cláusula Antielusiva en la Nueva Ley General Tributaria. Madrid: Marcial Pons, 2004. P.209211). Podemos entender como qualificação, o conjunto de operações que se realizam, por parte dos aplicadores do Direito, com a finalidade de analizar desde o ponto de vista jurídico aquelas circunstâncias do mundo real que podem ser incluídas nas hipóteses da normas (SANCHÍS, Luís Prieto. Ideologia e Interpretación Juridica. Madrid: Tecnos, 1987. P.88). Fl. 487DF CARF MF 12 A distinção é relevante pois a incidência tributária passa pela determinação do conteúdo normativo da hipótese interpretação e pela análise dos fatos concretos ocorridos e da sua pertinência ou não àquela hipótese qualificação. A respeito dela, deve a Administração Pública respeitar as formas adotadas pelo Contribuinte sempre que estiverem de acordo com o regramento específico da situação jurídica que se incorre, respeitando os elementos que compõem o conceito adotado na hipótese de incidência. Da mesma forma que a interpretação das normas, o CTN traz disposições específicas acerca da qualificação dos fatos, a exemplo do art.108, §1º: Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: I a analogia; (...) § 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei. Não se pode utilizar de juízos de semelhança entre fatos, negócios ou atos para exigir o tributo é dizer, a legislação veda que o aplicador do Direito Tributário, ao se deparar com um caso que esteja fora da hipótese de incidência, se baseie em elementos desse fato que tenham semelhança com elementos de outro fato (este presente em uma hipótese de tributação) para que determine a sua tributabilidade (a exemplo do caso que erroneamente se pretenda tributar indenização por danos materiais como se renda fosse, estendendo por analogia a hipótese do IR, considerando apenas o elemento de aquisição de disponibilidade, mas não o do acréscimo patrimonial). Não é à toa que o art.150, I da Constituição Federal determina que a exigência do tributo está condicionada a Lei que o estabelece, que tem como consectário lógico o dever de conformidade da tributação com o "fato gerador", desenvolvido em festejado trabalho de Gerd Rothmann, que reflete uma faceta principiológica da legalidade na disposição de que a lei não pode deixar ao critério da administração a diferenciação objetiva, devendo ela própria prever, na maior medida, possível, os aspectos necessários à configuração do fato gerador, não bastando ao legislador autorizar, de forma ampla, vaga, genérica ou indeterminada, a criação do tributo, mas cabendo a ele descrever a situação que lhe dará causa (ROTHMANN, Gerd Willi. O Princípio da Legalidade Tributária. In. DÓRIA, A.R.S.; ROTHMANN, G.W. Temas Fundamentais do Direito Tributário Atual. Belém: Cejup, 1983. P.9099). E ao determinar, através do art.109, que a a definição, conteúdo e alcance dos institutos, conceitos e formas de Direito Privado deverão ser aqueles que naquele ramo lhe são atribuídos, ressalvados os efeitos tributários que decorrem das regras tributárias, o legislador optou por vedar a possibilidade de requalificação de atos e negócios jurídicos sob um filtro finalístico a exemplo da malfadada interpretação econômica do Direito Tributário. Nesse ponto, concordamos com as lições de García Novoa, ao sustentar que somente o desrespeito aos dois dispositivos acima citados somente pode se dar quando a Administração é dotada de autênticos poderes extraordinários para, por exemplo, requalificar, interpretar as normas de acordo com sua finalidade econômica ou aplicar o tributo por Fl. 488DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 8 13 analogia, ou, em geral, para desconsiderar atos ou negócios realizados com fins de elusão fiscal (NOVOA, Ob.Cit., p.211.) É o que se dá, por exemplo, com o parágrafo único do art.116 do CTN, que prevê expressamente, digase a possibilidade de requalificação de atos ou negócios jurídicos com finalidade dissimulatória. O caráter excepcional da prática de requalificação ou de analogia fica mais expresso ainda na cláusula "salvo disposição de lei em contrário" no caput do art.116 do CTN, que evidencia a primazia ao regime de Direito Privado na constituição dos fatos geradores. Pois bem, parecenos que há uma clara primazia dos conceitos e formas de Direito Privado na definição, conteúdo e alcance das hipóteses de incidência e dos fatos geradores, salvos nas exceções previstas expressamente por lei. 2. Do Contrato de Conta Corrente seus elementos e requisitos O primeiro cuidado a ser dispensado quando se examina a espécie contratual contacorrente reside em definir as suas características básicas e, mais ainda, o seu fundamento no Direito Positivo. Em primeiro lugar, cumpre esclarecer um equívoco que parece comprometer grande parte das decisões do CARF e de outros órgãos decisórios que enfrentam a questão: o contrato de Conta Corrente NÃO É UM CONTRATO ATÍPICO. O Código Comercial de 1850 já tratava desse contrato em seus arts.253, 254, 432 e 445, referindose expressa e nominalmente a ele: Art. 253 É proibido contar juros de juros; esta proibição não compreende a acumulação de juros vencidos aos saldos liquidados em conta corrente de ano a ano. Art. 254 Não serão admissíveis em juízo contas de capital com juros, em que estes senão acharem reciprocamente lançados sobre as parcelas do débito e crédito das mesmas contas. Art. 432 As verbas creditadas ao devedor em conta corrente assinada pelo credor, ou nos livros comerciais deste (artigo nº. 23), fazem presumir o pagamento, ainda que a dívida fosse contraída por escritura pública ou particular. Art. 445 As dívidas provadas por contas correntes dadas e aceitas, ou por contas de vendas de comerciante a comerciante presumidas líquidas (artigo nº. 219), prescrevem no fim de 4 (quatro) anos da sua data. E sobre tais dispositivos já escrevera Augusto Teixeira de Freitas: O art.254 do Código do Comércio também referese unicamente às contas correntes, pois que só nestas há contagem de juros recíprocos. (...) Toda conta não é uma conta corrente. Uma coisa é conta simples e outra é conta corrente. Esta última corre, isto é, vai reciprocamente demonstrando as parcelas de débito e crédito, sem compensação de umas com as outras; para no fim do ano, ou de outro período, fazerse, então a liquidação ou Fl. 489DF CARF MF 14 compensação total. (Aditamentos ao Código de Comércio, Rio de Janeiro, vol.1, 1878. P.618) Ainda que se objete que a lei retrocitada foi revogada pelo Código Civil atual, há que se acatar a validade e vigência da Lei do Cheque (Lei 7.357/1985), que em seu art.4º, §2º, b, traz a previsão expressa dessa forma contratual, inclusive é feliz em contrastar expressamente a contacorrente contratual da contacorrente bancária, afastando incautos que pretendam uma identificação entre figuras positivamente distintas: Art . 4º O emitente deve ter fundos disponíveis em poder do sacado e estar autorizado a sobre eles emitir cheque, em virtude de contrato expresso ou tácito. A infração desses preceitos não prejudica a validade do título como cheque. (...) § 2º Consideramse fundos disponíveis: a) os créditos constantes de contacorrente bancária não subordinados a termo; b) o saldo exigível de contacorrente contratual; Essa lei expressase de maneira clara, ressaltando a característica principal desse contrato, que é a exigibilidade do saldo na liquidação da conta, ao dispor no §2º do art.4º que se considera fundo disponível o saldo exigível de conta corrente contratual. Além disso, alegar a ausência de disposições expressas sobre seu regime jurídico é uma afirmação de todo equivocada, como bem apontou Fran Martins (Ob.Cit., p.367 368), ao apontar a existência de regulação no art.4º do Decreto nº 22.626/33 (a chamada Lei da Usura), revogado por Decreto de 25/04/1991, mas revigorado em seguida, por Decreto de 29/11/1991, estando vigente atualmente, in verbis: "É proibido contar juros de juros: esta proibição não compreende a acumulação dos juros vencidos aos saldos liquidados em conta corrente de ano a ano." Poderseia argumentar que nunca um texto legislativo trouxe expresso as minúcias do regime jurídico do contrato em comento mas isto não é suficiente (além de ser equivocado, como demonstramos nos parágrafos anteriores) para negar a tipicidade do mesmo haja vista que uma peculiaridade do Direito Comercial e Civil é o caráter de fonte que assumem os "usos e costumes", inclusive positivado no art.113 do atual Código Civil ao tratar da parte geral dos Negócios Jurídicos (Art.113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boafé e os usos do lugar de sua celebração.). A previsão típica do contrato na Lei de Cheque, complementado pelos dispositivos mencionados e os usos e costumes de sua prática longínqua, desde o Tribunal de Comércio da Corte no Brasil, lhe dá o timbre de um CONTRATO TÍPICO com elementos necessários para a sua caracterização que devem, por força do art.109 do Código Tributário Nacional, serem observados no momento de qualificação dos fatos geradores. É dizer, uma vez que a Lei de Cheque traz nomeadamente o contrato de contacorrente, tornao típico o nome traz consigo a prática e a convenção sobre ele. Todos os usos e costumes relacionados àquela espécie de contrato são recepcionados pela remissão expressa e nominal que a supramencionada lei traz. Na pior das hipóteses, poderseia dizer que se trata de contrato socialmente típico, da mesma forma que outros como factoring, franchising, shopping center etc., que são, em regra, invariavelmente praticados por empresários no exercício de sua atividade, e, por Fl. 490DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 9 15 consequência, se submetem aos princípios, regras e métodos do Direito Empresarial, tendo seu regime jurídico recebido tutela dos tribunais como se legalmente típicos fossem. Uma vez ultrapassada a questão da tipicidade que imediatamente conduz à obrigatoriedade da Administração Tributária observar seus elementos típicos devese tratar aqui das suas características principais. Em definições de consagradas autores brasileiros e estrangeiros fica evidente que não se trata de uma invenção recente, mas de uma forma contratual historicamente consolidada: Conta corrente é o contrato segundo o qual duas pessoas convencionam fazer remessas recíprocas de valores sejam bens, títulos ou dinheiro , anotando os créditos daí resultantes em uma conta para posterior verificação do saldo exigível, mediante balanço. (...) As remessas são as operações praticadas pelos correntistas para alimentar a conta. Podem constar essas remessas de dinheiro, bens ou títulos de crédito; deverão, sempre, ter um valor determinado, para que possam servir de base aos lançamentos que são feitos na conta. (MARTINS, Fran. Contratos e Obrigações Comerciais, 16ªed. Rio de Janeiro: Forense, 2010. P.366) No mesmo sentido é a lição de Gianinni, expoente italiano do tema, e Paulo de Lacerda, comercialista brasileiro responsável pela obra maior acerca do contrato de conta corrente: "[o contrato de conta corrente é] um contrato pelo qual duas pessoas convêm em concederse crédito recíproco a respeito de operações realizadas entre si e por igual duração de tempo de modo a que, ao fim do prazo, a diferença entre as duas somas de crédito represente um crédito exigível" (GIANINNI, Torquato. I contratti di conto corrente. Firenze, 1895. P.59) O nome do contrato é contacorrente, a qual abrese quando se estabelece entre os correntistas ou correspondentes, alimentase pelas recíprocas remessas a debito e credito, formando no exercício do contrato as sucessivas parcellas, verbas, artigos ou lançamentos das partidas de deve e haver; sujeitase a encerramentos, balanços ou liquidações periódicos, para de tempos a tempos ser acertada a mesma contacorrente e extrahindose o saldo periódico a se levar ao seguinte período de contacorrente, até o fechamento ou encerramento final quando, feito o balanço definitivo, se apurar o saldo final possível de pronunciase contra um qualquer dos dois correntistas e portanto a favor do outro. (LACERDA, Paulo de. Do Contrato de ContaCorrente, Editor Jacinto Ribeiro, 2ª edição, 1928, P.24 25) Em um esforço sistematizador, e recorrendo às lições de J. X. Carvalho de Mendonça, Waldirio Bulgarelli (Contratos Mercantis, 4ªed. São Paulo: Atlas, 1987. P.555) e Fran Martins (Ob.cit., P.369370) trazem uma sistematização das características desse contrato: 1) O contrato de conta corrente supõe uma série de operações sucessivas e recíprocas entre as partes. Essas operações são anotadas nas contas, como partidas de débito e de crédito, e Fl. 491DF CARF MF 16 somente ao final do prazo convencionado, ou com a manifestação de uma das partes, se não houver período estabelecido, somamse as partidas de débito e as de crédito, verificandose o saldo final. 2) Só entram na conta corrente os créditos resultantes das operações a elas destinadas. 3) Durante a vigência da conta corrente não pode um dos correntistas julgarse credor ou devedor, pois esse status só lhe será atribuídos após o encerramento da conta. 4) Enquanto vigente o contrato, as remessas constituem uma massa homogênea cujo resultado só pode ser conhecido com o balanço final, destacandose a indivisibilidade e unidade das remessas. 5) Em razão da perda da individualidade das remessas, não podem dar causa a ação particular sobre elas, nem ser objeto de execução. Prosseguindo na caracterização desta espécie contratual, é preciso classificá la nas categorias tradicionais do Direito Privado: I) Tratase de um contrato bilateral, com obrigações recíprocas para as partes que nele se vinculam, devendo cada um dos contraentes fazer crédito ao outro pelas remessas a que procederem. II) É contrato oneroso, por envolver vantagens econômicas para ambos os contratantes. Frise que o contrato tem essa natureza não porque a conta corrente faz decorrer juros recíprocas, pois estes podem ser excluídos contratualmente (Cf. LACERDA. Ob.Cit., p.111; e GIANINNI, ob.cit., §10º), mas pela concessão de crédito recíproco. III) É contrato comutativo, pela reciprocidade de obrigações; IV) É contrato consensual, formandose pelo simples consentimento das partes sobre esta última característica precisamos dedicar mais alguma análise. Paulo de Lacerda faz extenso histórico da discussão sobre o conteúdo desse contrato, que pretendemos resumir brevemente aqui (Ob. Cit., p.113 e ss.). Durante o séc.XIX, especialmente pela lavra de Delamarre e Lepoitvin, o contrato de conta corrente era definido como um contrato real, exigindo para sua perfeição a realização de pelo menos a primeira remessa. Essa afirmação, todavia, sofreu inúmeras críticas da doutrina e da jurisprudência, vindo a ser abandonada universalmente. O equívoco da consideração como contrato real está em colocar em antítese a convenção de conta corrente com a própria conta corrente, quando, em rigor, pouco importa as características individuais da remessa, vez que remetida através da convenção, ele perde sua individualidade. Não apenas isso, fosse o contrato real, o estorno da primeira remessa por qualquer motivo que seja implicaria a rescisão do contrato, o que não se verifica, pela possibilidade de outras remessas posteriores permanecerem. Enfim, em perfeita síntese, Paulo de Lacerda (ob.cit., p.121) pontua que os contratos em regra são consensuais, sendo reais apenas aqueles em que se obriga a parte a dar retorno ao mesmo objeto que recebe, ou outro da mesma espécie o que não acontece com o contrato de conta corrente, pois a intenção das partes está em criar uma massa homogênea das transações recíprocas, para gozar das vantagens que daí resultam. A perda da existência autônoma e distinta das remessas que descaracteriza o contrato como real é inclusive reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal: CONTACORRENTE Contrato Indivisibilidade Análise das suas remessas Discussão pretendida de algumas operações que Fl. 492DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 10 17 o alimentaram, para arguir a sua prescrição Inadimissibilidade. Nos contratos de contacorrente não há que esmiuçar a natureza das operações originárias para verificar a prescrição de cada lançamento porque as remessas lançadas na conta perdem a sua existência autônoma e distinta. (Rec. Extr. nº 12.941SC. Ac. unânime da 1ª Turma Rel. Min. Barros Barreto, julgado em 05/07/1948) O fato das remessas se iniciarem imediatamente após o contrato é mera contingência, haja vista que enquanto permanecer válido o contrato a conta corrente será válido meio para as remessas. Em síntese: o seu ponto central é a convenção, e não a tradição. Sobre a temporalidade do contrato, as partes podem convencionar um prazo de duração, mas Gianinni (Ob.cit., §87) observa que um limite convencional de tempo é coisa supérflua em contratos de contacorrente, frisando que é pouco usado na verdade, poucas vezes se apresentará uma hipótese do contrato de conta corrente com prazo determinado, sendo facultado aos correntistas romper o contrato quando quiserem. Além disso, não há obrigatoriedade de realização de balanços provisórios mas podendo ser estipulado contratualmente dentro de prazos determinados sendo essencial à forma contratual apenas o balanço definitivo, quando da sua extinção (Cf. LACERDA, Paulo M. de. Ob.Cit. P.267271). O que também não impede que o saldo apurado em uma liquidação periódica seja transportado para nova conta ou seja logo pago, a critério da estipulação dos contratantes. Um último ponto essencial à sua caracterização diz respeito à forma de sua contabilização, que demanda uma atenção especial. A escrituração se faz nos mesmos moldes da conta corrente contábil, não devendo ser confundidos o contrato e a sua escrituração (MARTINS, ob.cit., p.367). Sobre a escrituração contábil do contrato de contacorrente, é feita como qualquer contacorrente, mas há distinção entre a contacorrente de contrato e a mera conta corrente derivada apenas de procedimento escritural, como veremos logo abaixo. Não obstante, face ao regime jurídico próprio do contrato de conta corrente, impõese que a escrituração derivada dele seja feita à parte de outras contascorrentes meramente contábeis, assim como se impõe a sua separação em relação a outros débitos e créditos das duas partes envolvidas no contrato, débitos e créditos estes que não estejam abrangidos pelo contrato, segundo suas disposições quanto ao seu objeto. Cremos ter elucidado aqui a natureza jurídica do contrato de conta corrente e suas características essenciais. Cabe fazer um contraste com a figura que consideram sua próxima, o mútuo. 3. Contrato de Conta Corrente e o Caixa Único (Cash Pooling) Fl. 493DF CARF MF 18 O contrato de conta corrente (sweep account) é usualmente utilizado para a prática de "caixa único" (Cash pooling / Liquiditätsbündelung) dentro de um grupo de empresas coligadas. Esse conceito se refere a um acordo de liquidez dentro de um grupo econômico, através de um centro de controle financeiro, que tem por função remover o excesso de liquidez de certas empresas do grupo ou compensar quedas de liquidez através de transferências caracterizandose pelo elemento de gestão centralizada do caixa. Para isso, a "contaúnica" (Master Account), que controla tanto os repasses quanto os recebimentos das empresas coligadas, é gerida pela empresa controladora (parent company) normalmente uma holding. Assim, apenas nos casos em que a possibilidade de compensação de liquidez dentro do próprio grupo for insuficiente para manter a capacidade operacional das empresas, que se tornará necessária a realização de contratos de mútuo. Tal prática, cada vez mais comum no Direito Societário, tem recebido guarida legislativa nos países mais desenvolvidos, a exemplo da Alemanha, que promulgou a Gesetz zur Modernisierung des GmbHRechts und zur Bekämpfung von Missbräuchen (Lei de modernização do direito societário e de combate ao abuso), cujo §30 explicitamente aprova a prática do cash pooling, regulando suas condições e limites. Da mesma forma, a Áustria recentemente aprovou o EigenkapitalersatzGesetz (EKEG) que também cuidou de dar as linhas mestras de operação do cash pooling dentro do âmbito de um grupo econômico. Assim, as controladas e a controladora criam contas correntes nas quais são registrados débitos e créditos decorrentes de transferências que serão, ao final de um período, liquidadas, com a apuração de saldo credor ou devedor de uma em relação às outras, que deverá ser pago, com incidência de juros. Não há, nesse caso, empréstimo de valores, mas uma concentração do caixa do grupo em uma única empresa, de modo que todas as aquisições da controlada o sejam à partir de recursos da controladora e gestora do caixa único, ao passo que todos os recebimentos serão igualmente destinados, automaticamente, ao caixa da controladora. 4. Contrato de Conta Corrente e Mútuo Contrastes O primeiro cuidado que se deve ter ao contrastar o Contrato de Conta Corrente e o de Mútuo é observar que ambos são contratos típicos, como cuidamos de demonstrar cabalmente no tópico anterior. Esta distinção não é necessária apenas para verificação das possíveis incidências tributárias sobre a movimentação econômica e financeira decorrente do contrato, mas principalmente, e até mesmo antes daquelas, para que as partes possam ser exigidas no cumprimento das suas obrigações e possam exercer os seus direitos de acordo com a efetiva natureza jurídica do contrato. O Mútuo é contrato tipificado pelo Código Civil, regulado pelos artigos 586 a 592, e consistindo no empréstimo de bens fungíveis, como o dinheiro, para serem restituídos ao mutuante na mesma quantidade, gênero e qualidade. Calha trazer a definição legal de mútuo, qual seja: Fl. 494DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 11 19 “Art. 586 O mútuo é o empréstimo de coisas fungíveis. O mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade.” Da essência desse contrato, portanto, são os seguintes elementos que lhe dão conformação e existência como tal: 1) empréstimo de coisa fungível; 2) obrigação do mutuário restituir ao mutuante o mesmo que dele recebeu, no mesmo gênero, na mesma qualidade e na mesma quantidade. Tratando sobre as características do Mútuo, Waldirio Bulgarelli (Ob. Cit., p.562)) aponta que se trata de um contrato: I) Unilateral, pois uma vez aperfeiçoado, gera obrigações para apenas uma das partes, o mutuário, que deverá devolver a coisa, e se for o caso, acrescido de juros. II) Oneroso ou Gratuito, a depender da previsão de juros, os quais, quando o mútuo tenha fins econômicos, presumemse devidos, e também podem ser objeto de fixação contratual, desde que no limite legal (SELIC), além de ser permitida a capitalização anual (art. 406 e 591). III) Temporário, pela necessidade de previsão temporal para a restituição da coisa emprestada. IV) Real, pois implica a entrega da coisa para o uso do mutuário, transferindose a sua propriedade. Por meio do contrato de mútuo, a propriedade dos bens é transferida ao mutuário. Na verdade, o mútuo, embora contratado, somente se aperfeiçoa se houver a efetiva entrega dos bens mutuados, sendo por isso classificado como contrato real. Após a transferência dos bens, o mutuário pode utilizálos como quiser, eis que, sendo proprietário, pode deles dispor, usando e gozando deles como lhe aprouver (Código Civil, art. 1228). Todavia, ele passa a ser responsável pelos prejuízos que os bens possam sofrer, exatamente porque fica com a propriedade daqueles que recebeu, mas, em contrapartida, tem a obrigação de devolver outros do mesmo gênero, da mesma qualidade e na mesma quantidade. Vejase de pronto, de cotejo entre as características, que é evidente a distinção entre os dois contratos, o que se pode demonstrar com a tabela abaixo: Critério de classificação Contrato de Conta Corrente Contrato de Mútuo Quanto a positivação Típico Típico Quanto à natureza do contrato Convencional Real Quanto ao objeto do contrato Abertura de conta corrente para débitos e créditos recíprocos, para liquidação posterior. Empréstimo de coisa determinada e fungível, mediante devolução posterior. Quanto à natureza da Indivisíveis, devendo ser Divisíveis e individualizadas, Fl. 495DF CARF MF 20 tradições entre as partes tratadas como uma massa homogênea com tratamento próprio para cada transação Quanto ao aspecto subjetivo da obrigação Bilateral Unilateral Quanto à dimensão econômica Oneroso ou Gratuito Oneroso ou Gratuito Quanto ao aspecto subjetivo As partes assumem natureza de credor e devedor após a liquidação da conta corrente As partes são mutuante e mutuário desde a tradição do bem Quanto à cobrança de juros Somente após a liquidação Imediatamente após a tradição Quanto ao tempo do contrato Temporário ou Tempo Indeterminado Temporário Parece restar clara, após este esforço de sistematização, a distinção entre as duas figuras. No contrato de conta corrente não se faz um mútuo nem se abre um crédito, mas se determina o destino de créditos futuros entre dois sujeitos, adotando uma conta na qual vão sendo lançados débitos e créditos que se excluem mutuamente e cujo saldo só é exigível quando se dá o vencimento do contrato ou mediante extinção voluntária deste. Não discrepa disso Antônio da Silva Cabral (“Negócios de Mútuo entre Empresas do Mesmo Grupo”. In. Direito Tributário Atual nº10, p. 2855.), jurista que integrou os quadros da SRF e foi por vários anos presidente da 3ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes e, como tal, membro da Câmara Superior de Recursos Fiscais, notabilizandose por seu rigor técnico e por sua cultura jurídica, ao enfrentar o tema à partir das lições de Pontes de Miranda, o maior civilista brasileiro: “5.6 – MÚTUO E CONTRATO DE CONTA CORRENTE PONTES DE MIRANDA (Tratado, cit., LXII, pág. 120) forneceu a seguinte definição: ‘Contrato de conta corrente é o contrato pelo qual os figurantes se vinculam a que se lancem e se anotem, em conta, os créditos e débitos de cada um para com o outro, só se podendo exigir o saldo ao se fechar a conta.’ Pela definição logo se percebe não existir possibilidade de se confundir mútuo com contrato de conta corrente, como também não existe qualquer identidade entre mútuo e abertura de crédito. Estamos diante de três espécies de acordos que de maneira alguma se confundem, embora, na contabilidade, o contrato de abertura de crédito se exteriorize mediante conta corrente. O contrato de conta corrente não envolve em si nenhum acordo para empréstimo de dinheiro. A promessa, neste caso, está, Fl. 496DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 12 21 apenas, em se escriturarem os créditos decorrentes de operações em que os contratantes sejam titulares. No contrato de conta corrente não se faz um mútuo nem se abre um crédito, mas se convenciona o que fazer com créditos passados, presentes e futuros. Nessa conta vão sendo lançados débitos e créditos que se excluem mutuamente e o saldo da conta só é exigível quando se dá o vencimento do contrato de conta corrente, (...) ‘Do contrato de conta corrente não se irradiam relações jurídicas creditícias (que são relações jurídicas obrigatórias entre os figurantes), mas apenas o dever de lançar e anotar os créditos de um e de outro, e, para o outro figurante, o de aterse a esses lançamentos e anotações.’ Mais adiante haveria de escrever: ‘Os negócios jurídicos de que resultam os créditos e os débitos são estranhos à conta corrente, que a eles apenas se refere, para os submeter à escrituração específica.’ Este é um aspecto para o qual tanto o Fisco quanto os contribuintes não vêm atentando, querendo aquele se computem juros e correção monetária sobre quantias escrituradas em conta corrente só porque estão em conta corrente, como se esta conta representasse um mútuo em si mesmo. Esquecemse de que o importante é a análise do negócio jurídico que deu motivo ao lançamento em conta corrente. É um erro, freqüentemente encontrado na escrituração de empresas e em atos normativos do Fisco, encararse a conta corrente como se esta representasse uma dação recíproca de empréstimo, quando o importante seria analisaremse os negócios jurídicos que motivaram os débitos ou créditos em conta corrente. Nem há que se calcular correção monetária e juros sobre determinada quantia escriturada em conta corrente justamente porque, enquanto existir a conta corrente nenhum dos contratantes poderá exigir a obrigação do outro. Tal só ocorrerá quando a conta corrente for fechada. O que é exigível é, repitase, o saldo da conta corrente. O que domina, pois, o contrato de conta corrente é o princípio da reciprocidade: ao mesmo tempo em que se lança um crédito, temse que considerar o que a débito existe, de modo a sempre se apurar um saldo, não se podendo lançar uma quantia simplesmente como mútuo, sem se atentar para o fato de que essa conta supõe relação débitocrédito. Além do mais, o contrato de conta corrente é consensual, enquanto o contrato de mútuo é real. Não há, pois, como se tomar um pelo outro. Em homenagem à sabedoria do Mestre, transcrevo o que disse PONTES DE MIRANDA (Tratado de Direito Privado, 3ª. ed., 1984, vol. LXII, pág. 132): Fl. 497DF CARF MF 22 ‘MÚTUO E CONTRATO DE CONTA CORRENTE – O que mais caracteriza o contrato de conta corrente é que as prestações prometidas são atividades computísticas e contabilísticas. Não há mútuo, nem promessa de mútuo. Quando se fecha a conta corrente ocorre o reconhecimento é que se estabelece nova relação jurídica, pois os créditos constantes dos saldos expedientes, sobre os quais se pode convencionar fluírem juros, são créditos com pretensões paralisadas, por sua função meramente contábil. A falta de atenção de muitos juristas à exterioridade, em relação aos créditos entrados, do conteúdo e da função do contrato de conta corrente, levou ao desespero, a ponto de ter um jurista francês afirmado haver sujeito (ente moral) na conta corrente. Não há, tãopouco, abertura recíproca de crédito, porque os créditos entrados ficam sem pretensão eficaz e sem ação eficaz, mesmo no que se refere aos saldosexpedientes. (...) A idênticas conclusões chegou Paulo M. de Lacerda (Ob.cit., p.109 e ss.), em sua obra nunca suficientemente citada nas discussões sobre o Contrato de Conta Corrente: É da substância do mútuo que o mutuário se obrigue a dar ao mutuante outro tanto ‘in genere’ do que recebeu; de maneira que imediatamente após a realização do contrato, perfeito e acabado pela entrega do objeto fungível cuja propriedade passa do mutuante para o mutuário, começa a existir dívida certa a cargo de devedor certo, que é o mutuário. A obrigação assumida pelo mutuário é de dar no significado jurídico técnico da palavra. Sem a tradição do objeto não ha mútuo, pois este contrato é real: ‘Re contrahitur obligatio, velut mutui datione’, dizia Gaio no seu Commentario II, 90. Fungível deve ser o objeto do mútuo, que se numera, pesa ou mede, ‘qualis est pecunia numerata, vinum, oleum, frumentum, aes, argentum, aurum’; pois é da essência do contrato que essas coisas sejam emprestadas para serem consumidas. Devem elas ser fungíveis pela sua mesma natureza, ou pelo modo que as partes as consideram. A propriedade do objeto deve passar do mutuante para o mutuário, como explicava Paulo, no Digesto, liv. XII, tit .I, fragmento 2 §2: ‘Appellata est autem mutui datio ab eo, quod de meo tuum fit: et ideo si non fiat tuum, non nascitur obligatio’. Ora, na contacorrente não há dívida enquanto a conta corre. O aparecimento do saldo, única dívida que a contacorrente pode produzir, é eventual, não certo, e como se não pode ao menos juridicamente determinar desde logo contra quem resultará, o devedor, se houver dívida, não é certo desde logo, porém incerto. Dupla incerteza na contacorrente: a dívida, que pode vir ou não vir, e a do devedor que, caso futuramente haja dívida, tanto pode ser um como outro correntista. No mútuo a certeza é desde logo dupla: a divida é certa, o devedor é certo. Quando as partes formam o contrato de mútuo já imediatamente sabem que o mutuante há de entregar ao mutuário um Fl. 498DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 13 23 determinado objeto fungível, transferindolhe a propriedade, que o mutuário, findo o prazo concedido para gozar do beneficio, deve dar por sua vez ao mutuante outro objeto do mesmo gênero. Na contacorrente as partes não sabem de antemão precisamente quais os objetos que se remeterão reciprocamente, e cujos valores nela entrarão como verbas componentes. A distinção entre objetos fungíveis e infungíveis é supérflua; pois na contacorrente entram somente valores, e estes, em sendo depósitos, não pertencerão juridicamente a ela, embora materialmente anotados no respectivo quadro gráfico, uma vez que a remessa feita e recebida funde no todo indivisível da contacorrente o respectivo valor, coisa esta incompatível com o depósito regular. Igualmente não pesa ao recipiente a obrigação de dar outro tanto do mesmo gênero. Ele tem apenas a faculdade de remeter também; mas não coisa de gênero certo, idéia que se não aplica ao valor. (...) na contacorrente não há dívida a que se possa aplicar uma cláusula que torne exigíveis as suas parcelas, uma a uma, no fim de certo tempo. Enquanto a contacorrente há tão somente obrigação para cada um dos correntistas de se debitar pelos valores das remessas recebidas. Se as verbas fossem suscetíveis de sujeitarse à clausula semelhante, burlada ficaria a intenção das partes e nada mais significaria o encerramento da conta corrente, quando esta na verdade se teria composto de créditos independentes uns dos outros, com vencimentos seus, e por conseguinte inscritos na contacorrente como inscritos estariam em qualquer outra conta ou quadro computístico de transações efetuadas. Tirarseia, portanto, à contacorrente o caráter contratual; ficaria ela reduzida a mero sistema computístico, e muito menos estaríamos em face a um contrato ‘sui generis’. A verdadeira intenção das partes, porém é reunir as operações numa só massa homogênea, deixar de lado todos os característicos, efeitos e conseqüências especiais de cada uma das transações, e liquidar todas por junto depois de findo o tempo do contrato. Isto exclui a idéia de obrigação exigível ou exeqüível. A única obrigação é a de creditar e debitar; a única dívida a do saldo, findo o contrato ou, segundo for a vontade das partes, no fim de períodos determinados.” Aderem às lições supra também José Xavier Carvalho de Mendonça (“Tratado de Direito Comercial Brasileiro”, Livraria Editora Freitas Bastos, 1934, vol. VI, Livro IV, Parte II, p.352); Caio Mário da Silva Pereira (“Instituições de Direito Civil”, Editora Forense, 7aed., p. 368); e Fran Martins (”Comentários ao Código Civil”, Editora Forense, 5ª ed., p. 483 e 490). Parece restar derrocada qualquer dúvida que possa haver sobre as diferenças e semelhanças entre o mútuo e a conta corrente, com a conclusão de que se tratam de figuras absolutamente diversas. Podese passar agora, com segurança, à discussão dos reflexos tributários deste contrato. Fl. 499DF CARF MF 24 5. Da Inaplicabilidade do art.13 da Lei 9.779/99 aos contratos de Conta Corrente O título deste tópico decorre da norma de incidência do IOF e a pretensão fiscal de fazêla incidir sobre os contratos de conta corrente, suficientemente descritos anteriormente, pelo que repetimos o seu teor: “Art. 13 As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física sujeitamse à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras.” Ora, como já insistentemente demonstrado, o contrato de contacorrente não é contrato de mútuo, pelo contrário, guardam diversas diferenças e tampouco é operação de crédito correspondente a mútuo, como as diferenças entre eles já evidenciam. Para ser semelhante a mútuo, teria que ter o mesmo núcleo, a mesma natureza, divergindo apenas em aspectos acidentais o que não se verifica no cotejo que fizemos na tabela supra. Como falamos no primeiro tópico, é dever imposto por força do art.109 do CTN que se respeitem os conceitos, institutos e formas de Direito Privado no momento de interpretar normas tributárias e qualificar fatos geradores, cabendo à lei tributária apenas lhe atribuírem efeitos característicos de normas desta jaez, sem alterarlhes as condições e características. Em exemplo irá elucidar isto. O Direito Privado traz uma figura negocial X, atribuindolhe as características A, B e C (X = A,B,C). O Direito Tributário, ao utilizar esse X em uma hipótese de incidência, sujeita a consideração dos elementos caracterizadores desse negócio a dois níveis de aplicação, de modo que diante de um Fato Y, com a presença da característica A (Y = A), as seguintes situações podem ocorrer: I) Em um primeiro nível (interpretação), o aplicador da norma tributária pode considerar que: I.a) X = A,B,C nesse caso, ele respeita integralmente a regra de Direito Privado na configuração da hipótese de incidência; I.b) X = Ø caso em que o intérprete desconsidera inteiramente o conceito do Direito Privado, construindo um novo conceito dentro do Direito Tributário; e I.c) X = A e/ou B e/ou C caso em que ele transforma um conceito de Direito Privado em um tipo, tratando seus elementos característicos como renunciáveis para fins de adequação à hipótese. II) Em um segundo nível (qualificação), o aplicador irá analisar o caso concreto para qualificálo normativamente: Fl. 500DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 14 25 II.a.) (X = A,B,C) ≠ (Y=A) o aplicador reconhece que para a caracterização de um fato Y como o conceito X, é preciso que todos os elementos estejam presentes. II.b) X é semelhante a Y o aplicador reconhece a divergência entre os critérios de X e o elemento de Y, mas entende que a característica A é o suficiente para que Y seja tratado como X, à partir de um juízo de semelhança. II.c) F(X = Y) O aplicador entende que sob o critério jurídico Y não possui as características de X, mas entendeos como semelhantes à partir da aplicação de um"filtro" F, que passa a tratar tanto a hipótese quanto o fato gerador sob outro ponto de vista, como o econômico. Analisando as hipóteses possíveis à luz da posição assumida no item 1, verificase que a possibilidade I.b só é possível nos casos em que há legislação tributária expressa dando uma definição própria pra determinada figura, já o I.c se afigura de difícil aplicação no caso concreto, por se estar tratando de figuras típicas, nominadas, com regime jurídico bem delimitado. Resta, por exclusão e por força da literalidade do art.109 do CTN, a opção de acatar as características do conceito no âmbito privado. A nível de qualificação, as hipóteses II.b e II.c correspondem, respectivamente, à utilização de analogia e à interpretação econômica, ambas vedadas no Direito Tributário brasileiro para que se exija tributo. Resta ao aplicador negar a qualificação de um fato ao conceito quando não tenha consigo as demais características. Isto é, quando por exemplo uma norma de lei tributária determinar certo tratamento aos contratos de mútuo, ela somente se aplicará aos negócios jurídicos que, de acordo com a lei civil, sejam efetivamente enquadrados como mútuo. Já quando se tratar de outra espécie de contrato, ainda que inominada, não será ela abarcada pela norma da lei tributária relativa aos mútuos, salvo se essa mesma lei, por uma regra expressa, também der a esta outra espécie de contrato o mesmo tratamento prescrito para os mútuos. No caso concreto, digase desde logo que não há disposição legal estendendo a norma do art. 13 da Lei n. 9.779 a outras espécies de contrato que não sejam mútuos. E não se pode olvidar que, além do art. 109, o CTN prescreve no art. 116, inciso II, que tratandose de situação jurídica, considerase realizado o fato gerador no momento em que esteja definitivamente constituída a operação, nos termos de direito aplicável. O fato gerador do IOF somente ocorre quando a situação jurídica de crédito decorrente de mútuo estiver completa de acordo com o direito aplicável, o qual é o previsto nos art. 1.256 e seguintes do Código Civil. Isso nada mais é do que consectário do princípio da legalidade, limitação constitucional ao poder de tributar prevista no art. 150, inciso I, da Constituição e no art. 97 do CTN, e tem preciosa descrição no art. 114 desse mesmo código, quando diz: "Fato gerador da obrigação principal é a situação definida em lei como necessária e suficiente à sua ocorrência.”. Já percorremos esta senda anteriormente: condições necessárias e suficientes para a ocorrência de algo correspondem exatamente ao conceito disto, aos seus elementos caracterizadores, que devem ser buscados no Direito Privado. Fl. 501DF CARF MF 26 Portanto, se a lei tributária se refere a mútuo, e não estende a disposição referida a mútuo para outras espécies contratuais nominadas, a situação necessária e suficiente à ocorrência do fato gerador descrito nessa lei é exclusivamente a de contrato de mútuo segundo o Direito Privado, e não haverá a situação necessária e suficiente à ocorrência do fato gerador quando de outro contrato se tratar. Senão, vejamos o art. 63, I do CTN: Art. 63. O imposto, de competência da União, sobre operações de crédito, câmbio e seguro, e sobre operações relativas a títulos e valores mobiliários tem como fato gerador: I quanto às operações de crédito, a sua efetivação pela entrega total ou parcial do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado; Podese ver que é elemento essencial das operações de crédito tributáveis por IOF que a efetivação da operação se dê pela entrega total ou parcial do montante ou a sua colocação à disposição noutros termos, exige que a operação tenha natureza real, caracterizada pela tradição, o que largamente discrepa do contrato de conta corrente, de natureza convencional,, determinando que os créditos e débitos recíprocos dos contratantes serão registrados em uma conta contábil especial, para balanço e liquidação posterior, somente à partir daí se caracterizando relação creditícia no caso de se verificar que um é credor do outro. É de obviedade exuberante a impossibilidade de aproximar o conceito de mútuo e operação de crédito ao de conta corrente: basta verificar que as remessas feitas na conta corrente não caracterizam um ou outro contratante como credor e devedor, o que é essencial às operações de crédito, e mais, é plenamente possível que ao fim do contrato, com a liquidação da conta corrente, não haja débitos ou créditos, de modo que em momento algum qualquer dos contratantes teve direito subjetivo patrimonial oponível ao outro. Basta que se compulse o art. 64 do CTN para verificar a procedência da crítica feita acima: Art. 64. A base de cálculo do imposto é: I quanto às operações de crédito, o montante da obrigação, compreendendo o principal e os juros; Ao escolher a base de cálculo, opta pelo montante da obrigação. Ora, no caso das remessas de conta corrente não há qualquer obrigação, que só será eventual e acidentalmente verificada após a liquidação da conta não haveria como adequar a operação à base de cálculo eleita pelo CTN. A mera remessa de valores no bojo de uma conta corrente não pode ser equiparada à entrega da coisa do mútuo, pois divergem largamente em seu regime jurídico salvo se considere possível interpretar economicamente a remessa e a entrega, para considerar apenas o montante econômico transladado, hipótese esta em que poderíamos certamente pôr fogo em todos os livros de Direito Tributário e toda a jurisprudência de nossas Cortes Superiores, usando a Constituição Federal como estopa para acender essa fogueira. Para haver mútuo não é suficiente haver a entrega de dinheiro, mas, sim, é necessário que esta seja acompanhada da obrigação da pessoa que a recebe de devolver a mesma quantidade de dinheiro na data aprazada, ou, na falta de prazo contratual, na data legal. Fl. 502DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 15 27 Para haver remessa em conta corrente também não é suficiente a entrega de dinheiro, é preciso que essa remessa seja integrada a uma massa homogênea e indivisível de créditos e débitos, sem qualquer exigibilidade, e desvinculada das condições e operações que originaram a remessa, dependendo de liquidação posterior com ou sem prazo determinado para a apuração do saldo final. Querer equiparar entrega de dinheiro no mútuo à remessa em conta corrente é equiparar o tratamento jurídico tributário das duas pela simples semelhança de envolver movimentação de montantes economicamente apreciáveis. Tributar com base em juízo de semelhança nada mais é do que tributar com base em analogia (LARENZ, Karl. Metodologia da Ciência do Direito, 6ªed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2012. P.540541), conduta vedada expressamente pelo art. 108, §1º do CTN: "O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei.". Outra leitura possível do art.13 da Lei 9.779/99, posto que igualmente desprovida de juridicidade, é interpretar o termo "As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros " como uma cláusula indeterminada, aberta, para permitir abranger qualquer espécie de remessa de dinheiro entre pessoas jurídicas e/ou físicas. Tal leitura viola frontalmente o dever de conformidade da tributação com o "fato gerador", consectário da legalidade tributário apontado por Gerd Rothmann, que reflete uma faceta principiológica da legalidade na disposição de que a lei não pode deixar ao critério da administração a diferenciação objetiva, devendo ela própria prever, na maior medida, possível, os aspectos necessários à configuração do fato gerador, não bastando ao legislador autorizar, de forma ampla, vaga, genérica ou indeterminada, a criação do tributo, mas cabendo a ele descrever a situação que lhe dará causa (ROTHMANN, Ob.Cit.. P.9099). Por força do próprio art.97, III do CTN, é dever da lei definir o fato gerador, isto é, darlhe significado, determinação, de modo que não coaduna com esse dispositivo, tampouco com a legalidade tributária, a utilização de expressões vagas ou indeterminadas na definição das hipóteses de incidência. O absurdo da assunção de tal interpretação é patente: estarseia incluindo na hipótese de incidência do IOF também pagamentos, doações e quaisquer remessas de dinheiro, independente da sua causa e regime jurídico. Igualmente patente é a ilegalidade do Ato Declaratório nº07/99, no qual o Secretário da Receita Federal declara: 1. No caso de mútuo entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, sem prazo, realizado por meio de conta corrente, o Imposto sobre Operações de Crédito Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários IOF devido nos termos do art. 13 da Lei No 9.779, de 19 de janeiro de 1999: a) incide somente em relação aos recursos entregues ou colocados à disposição do mutuário a partir de 1o de janeiro de 1999; b) será calculado e cobrado no primeiro dia útil do mês subseqüente àquele a que se referir, relativamente a cada valor Fl. 503DF CARF MF 28 entregue ou colocado à disposição do mutuário durante o mês, e recolhido até o terceiro dia útil da semana subseqüente; c) os encargos debitados ao mutuário serão computados na base de cálculo do IOF a partir do dia subseqüente ao término do período a que se referirem. Ao equiparar o contrato de conta corrente ao de mútuo, ambos contratos típicos e largamente distintos, o Ato Declaratório anda ao largo das restrições que deve ter, inaugurando no ordenamento nova hipótese de incidência do IOF, ao arrepio da lei e da própria Constituição. Não causa espécie que a jurisprudência de Conselho reconhecera essa distinção claramente. Neste sentido, para exemplificar cito o acórdão n. 10180803, de 21.11.1990, da 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, cuja ementa diz: “IRPJ – Negócios de mútuo. A contacorrente relativa a operações entre coligadas, interligadas, controladoras e controladas, não é, em si mesma, bastante para caracterizar negócio de mútuo. Há que se investigar a natureza jurídica de cada operação objeto do lançamento, separando aquelas que realmente espelhem mútuo.” Na mesma linha, mas aludindo à gestão de recursos de empresas coligadas (gestão de caixa), foi o acórdão n. 10177901, de 15.8.1988, no qual se lê: “IRPJ – NEGÓCIOS DE MÚTUO – ART. 21 DO DECRETO LEI N. 2065/83. A CONTACORRENTE CONTÁBIL. A conta corrente contábil relativa a operações entre coligadas, interligadas, controladoras e controladas, não é, em si mesma, bastante para caracterizar ‘negócios de mútuo’. Há que investigar a natureza jurídica de cada operação objeto de lançamento na contacorrente, separando aquelas que, realmente, espelham o mútuo. Ademais, a evidência de que a recorrente era uma espécie de gestora de negócios com outorga das coirmãs afasta a hipótese do art. 21 do Decretolei n. 2065/83.” Também o acórdão n. 10707173, de 11.6.2003, que aludiu expressamente ao contrato de contacorrente, diferentemente de outros casos que giraram em torno da conta corrente meramente contábil, embora sempre no mesmo sentido: “IRPJ – CORREÇÃO MONETÁRIA – ART. 21 DO DL. 2065/83 – CONTA CORRENTE ENTRE EMPRESAS – CARACTERIZAÇÃO COMO MÚTUO – IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO – O mútuo, a teor do disposto no artigo 1256 do Código Civil, pressupõe o empréstimo de coisas fungíveis, não se caracterizando como tal a figura do contrato de conta corrente, mormente quando originado de operações mercantis.” E também o acórdão n. 10195392, de 22.2.2006, que fez o contraste entre mútuo e conta corrente, com os seguintes dizeres: “NEGÓCIOS DE MÚTUO – Os negócios de mútuo não se confundem com o da contacorrente ou qualquer movimentação financeira existente entre empresas ligadas que acuse débito ou Fl. 504DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 16 29 crédito, ao teor do disposto no art. 1256 do antigo Código Civil Brasileiro e do art. 247 do Código Comercial Brasileiro.” Por fim, mais recentemente, há o Acórdão 3101001.094, julgado em 04.07.2013, no qual se reconhece também a distinção entre os dois contratos e a possibilidade da conta corrente ser utilizada para gestão de caixa: IOF. RECURSOS DA CONTROLADA EM CONTA DA CONTROLADORA. CONTA CORRENTE. RAZÃO DE SER DA HOLDING. Os recursos financeiros das empresas controladas que circulam nas contas da controladora não constituem de forma automática a caracterização de mútuo, pois dentre as atividades da empresa controladora de grupo econômico está a gestão de recursos, por meio de contacorrente, não podendo o Fisco constituir uma realidade que a lei expressamente não preveja. Recurso Voluntário Provido Tratase, pois, de um contraste que antiguíssimo, que apenas por um descuido técnico sofreu o lapso que verificamos atualmente. Desse modo, não restam dúvidas que o Contrato de Conta Corrente não pode ser admitido na hipótese de incidência do IOF prevista no art.13 da Lei 9.779/99, por se tratarem de contratos típicos e absolutamente distintos entre si. Estabelecido o regime jurídico do contrato de conta corrente e a clara inadmissibilidade da sua tributação por meio do IOF, resta agora analisar os elementos do caso concreto. 6. O caso concreto Para a adequada compreensão do caso em tela, é preciso observar a precisão do relato do fiscal a respeito das operações entre as empresas: quando a autuada Veisa recebe o pagamento de vendas realizadas a prazo de seus clientes, é debitada a conta 1201010201 JMT Adm e Participações Ltda. e creditada a conta 1103010101 Duplicatas a Receber, e assim ao invés dos recursos ingressarem em conta representativa de Caixa ou Bancos, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. registra que são entregues à controladora JMT Administração e Participações Ltda. E quando, por exemplo, fornecedores de Veisa Veículos Ltda. são pagos com recursos originados de sua controladora JMT Administrações e Participações Ltda, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. é creditada e a conta 2102090901 Fornecedores Diversos é debitada, registrando a devolução dos recursos. A Recorrente claramente não mantém caixa próprio, visto que todos os seus dispêndios advém diretamente do caixa único da holding, ao passo que todos os seus recebimentos são diretamente repassados à controladora, que centraliza o fluxo financeiro não Fl. 505DF CARF MF 30 apenas da Recorrente, mas também das demais empresas controladas daquele grupo econômico. É dizer, todos os pagamentos recebidos de clientes são debitados na conta 1201010201 JMT Adm e Participações Ltda, e todos os pagamentos feitos a fornecedores, por sua vez, são creditados na mesma conta, sem que haja qualquer registro desses valores no Caixa ou Bancos da Recorrente, evidenciando que todas as operações que usualmente são registradas com contrapartida no caixa o foram contra a conta corrente contábil estabelecida com a JMT Adm e Participações Ltda. Vejase, por exemplo, o Razão em fls. 25 e seguintes, no qual resta claro que todos o fluxo de entradas e saídas de recursos na Recorrente tem destino e origem a conta relativa à JMT. Verificase que ao final do ano de 2009 o saldo é completamente zerado, demonstrando que o caixa está integralmente centralizado na holding, transitando pela Recorrente para pagamento das despesas dela e para o recebimento do produto de suas operações. Não há "furo de caixa" que indique a existência de outras operações de crédito entre as empresas, após a liquidação da conta corrente é dizer, na liquidação da conta corrente, não há o estabelecimento de relação de crédito e débito entre os envolvidos (o que indicaria a existência de uma operação de crédito no valor do saldo remanescente). A descrição do registro contábil deixa clara a natureza de conta corrente do vínculo contratual existente entre a Recorrente e sua controladora, ao apontar a: utilização de duas contas de mútuo, sendo uma do Ativo/Circulante/Contratos de Mútuo (1107010101 JMT Adm e Participações Ltda.) e outra do Ativo/Realizável a Longo Prazo/Contratos de Mútuo/Créditos de Coligadas e Controladas (1201010201 JMT Adm e Participações Ltda.). A conta de Ativo Circulante – 1107010101 – recebia somente dois lançamentos por mês: um no início, quando o seu saldo era transferido para a conta de Ativo Realizável a Longo Prazo 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda e outro no último dia do mês, quando recebia, por transferência, o saldo existente na citada conta de Ativo Realizável a Longo Prazo 1201010201. Dessa forma, a conta 1201010201 refletiria as operações de mútuo realizadas entre o sujeito passivo e sua controladora. O recebimentos e despesas da Recorrente através da conta 1107010101 eram controlados através da transferências mensais do seu saldo para a conta 1201010201, para refletir os lançamentos decorrentes da movimentação do caixa gerido pela holding, promovendo os débitos e créditos naquela conta relativamente aos valores utilizados nas transações do período. O único equívoco da fiscalização, neste caso, foi entender que as transferências ocorridas correspondiam a operações de mútuo, à partir da aplicação do Ato Declaratório nº07/99, cuja ilegalidade foi fartamente demonstrada anteriormente. De resto, afastada a premissa interpretativa equivocada, o que se verifica é a operacionalização de uma gestão centralizada de caixa, sem qualquer saldo ao final do exercício de 2009, que pudesse indicar a existência de operação de crédito tributada pelo IOF, não havendo que subsistir a tributação pretendida. Fl. 506DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 17 31 Há que se respeitar a forma jurídica adotada pelo contribuinte, mesmo que não expressamente delineada em contrato escritos, mas haurida da fiel representação contábil dos fatos econômicos ocorridos. C) CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário para exonerar o Recorrente do pagamento do IOF sobre transferências decorrentes de contrato de conta corrente para gestão de caixa único. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Declaração de Voto Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz No intuito de corroborar as conclusões expostas pelo i. Relator, peço vênia para apresentar manifestação sobre o caso, especialmente em razão de algumas particularidades nas premissas adotadas para a sua solução. A Recorrente afirma que não ocorreu o fato gerador do IOF in casu. Isto porque os valores vinculados às Contas que foram objeto de autuação dizem respeito a operações entre ela e demais pessoas jurídicas do mesmo grupo econômico. No seu sentir, tal situação não se enquadra na hipótese de incidência traçada pela legislação para o referido imposto, o mútuo, capaz de lhe atribuir a condição de responsável pelo pagamento do IOF. Vejamos a legislação sobre o fato gerador do IOF, utilizada como fundamento da autuação fiscal: Artigo 13 da Lei n. 9.779/99: Art. 13 As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física sujeitamse à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. § 1o Considerase ocorrido o fato gerador do IOF, na hipótese deste artigo, na data da concessão do crédito. Fl. 507DF CARF MF 32 § 2o Responsável pela cobrança e recolhimento do IOF de que trata este artigo é a pessoa jurídica que conceder o crédito. § 3o O imposto cobrado na hipótese deste artigo deverá ser recolhido até o terceiro dia útil da semana subseqüente à da ocorrência do fato gerador. Artigos 2º, inciso I, alínea “a” e 3º, §3º, inciso III, do Decreto n. 6.306/2007 Art. 2º O IOF incide sobre: I operações de crédito realizadas: a) por instituições financeiras; b) por empresas que exercem as atividades de prestação cumulativa e contínua de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção de riscos, administração de contas a pagar e a receber, compra de direitos creditórios resultantes de vendas mercantis a prazo ou de prestação de serviços (factoring) (Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, art. 15, § 1o, inciso III, alínea “d”, e Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997, art. 58); c) entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física Art. 3º O fato gerador do IOF é a entrega do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado (...) § 3º A expressão “operações de crédito” compreende as operações de: I empréstimo sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito e desconto de títulos; II alienação, à empresa que exercer as atividades de factoring, de direitos creditórios resultantes de vendas a prazo III mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física (Lei no 9.779, de 1999, art. 13). Pois bem. Diante dos supratranscritos mandamentos legais, a Recorrente afirma que as operações que levaram aos lançamentos tributários são relativos a conta corrente, cujo objeto é a centralização de caixas das empresas, com gestão unificada das disponibilidades. Assim, ao tributar tais valores pelo IOF, que fora do mercado financeiro só incide sobre os contratos de mútuo, a Fiscalização estaria infringindo o princípio da legalidade, ao ir na contramão do artigo 13 da Lei n. 9.779/99. Tal diferenciação entre contrato de mútuo e contrato de conta corrente, existente de fato, deve ser precisamente aplicada ao caso concreto, demonstrandose que as transações entre empresas relacionadas se subsomem a uma ou outra hipótese. No presente caso, não havendo contrato firmado entre as empresas relacionados, a análise da natureza jurídica das transações restringese aos demais documentos e informações prestadas pelo contribuinte. Fl. 508DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 18 33 Registro nesse sentido, trecho do voto do Conselheiro José Fernandes do Nascimento no Acórdão n. 3102002.318: É indubitável que o contrato de conta corrente e de mútuo são distintos, porém, a meu ver, esta não é questão relevante para o deslinde da controvérsia, mas sim a natureza das transações financeiras que a recorrente realizou com as demais empresas do grupo, isto é, se tais operações representavam, na essência, uma operação de mútuo financeiro ou uma mera operação de conta corrente. Com efeito, enquanto nos contratos de conta corrente o que se objetiva é a compensação entre créditos e débitos das partes, dispensando reciprocamente os pagamentos diretos, 1 nas operações de mútuo, há “o empréstimo de coisas fungíveis” no qual “o mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade” (artigo 586 do Código Civil). São situações jurídicas que, portanto, não se confundem. Contudo, é possível que nos contratos de conta corrente haja, concomitantemente, operações de concessão de crédito correspondente ao mútuo. Somente em tais situações é que haverá evento capaz de ensejar a tributação pelo IOF, como expressamente estabelecido pelo artigo 13 da Lei n. 9.779/99. É o que ressalta o Superior Tribunal de Justiça, ao afirmar que a abertura de crédito é uma das formas de realização da “operação de crédito”, assim como o mútuo, prevista no artigo 13 a Lei n. 9.119/99, 2 de modo que deve sim ensejar a tributação pelo IOF. Vale destacar o trecho do voto do Ministro Relator Mauro Campbell Marques, bem como a ementa atribuída ao Recurso Especial n. 1.239.101 – RJ: “Com efeito, o que a lei caracteriza como fato gerador do IOF é a ocorrência de ‘operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas’ e não a específica operação de mútuo. (...) Sendo assim, o contrato de mútuo, longe de ser a única espécie contratual a ser tributada, é tido por um modelo cujas características essenciais devem ser buscadas em outras espécies de contrato que envolvam operações de crédito para que possam ser alcançadas pela hipótese de incidência do IOF. 1 Além das modalidades comuns de empréstimo por descontos de títulos à ordem, adquiriram grande incremento o contrato de financiamento, a abertura de crédito e a conta corrente. (...) Na conta corrente (que pode combinar com a abertura do crédito), as partes ajustam um movimento de débito e crédito, por lançamentos em conta, e podem estipular que os saldos credores, para um ou para outro, vencerão juros. (...) A maior utilidade da conta corrente é produzir a compensação de créditos e débitos, dispensando reciprocamente os pagamentos diretos. (PEREIRA, Caio Mario da Silva. Instituições de Direito Civil – VOL. III – Contratos. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2007, 12ª ed, p 354 e 355 2 Não se olvida aqui que este dispositivo legal tem sua constitucionalidade contestada, perante o Supremo Tribunal Federal, no RE 590186/RS com repercussão geral reconhecida. Esse julgamento, contudo, ainda é pendente, de modo que o CARF deve aplica a lei em seus exatos dizeres (súmula CARF n. 2) até que sobrevenha eventual declaração de inconstitucionalidade por parte do Pretório Excelso. Fl. 509DF CARF MF 34 É por esse motivo que o §1º, do art. 13, da lei citada considera ocorrido o fato gerador do tributo na data da concessão do crédito. O contrato de abertura de crédito que a recorrente celebra estabelece que a controladora disponibiliza créditos às controladas, que poderão utilizálos total ou parcialmente. A remuneração do capital emprestado são os juros sobre o capital da controladora disponibilizado às controladas. Nesse sentido, não resta dúvida que as operações realizadas ao abrigo de contrato de conta corrente entre empresas coligadas, com a previsão de concessão de crédito, são verdadeiras operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros, na medida em que, em todos os casos, é disponibilizado numerário de forma imediata para pagamento futuro a depender do saldo existente” Ementa: TRIBUTÁRIO. IOF. TRIBUTAÇÃO DAS OPERAÇÕES DE CRÉDITO CORRESPONDENTES A MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS. ART. 13, DA LEI N. 9.779/99. 1. O art. 13, da Lei n. 9.779/99 caracteriza como fato gerador do IOF a ocorrência de "operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas " e não a específica operação de mútuo. Sendo assim, no contexto do fato gerador do tributo devem ser compreendidas também as operações realizadas ao abrigo de contrato de conta corrente entre empresas coligadas com a previsão de concessão de crédito. Recurso especial não provido Tem sido esse o posicionamento da jurisprudência do CARF (Acórdão 3301 002.282 Processo 16682.721207/201191; Acórdão 3301001.520 Processo 10680.016007/200851; Acórdão 340200270 Processo 10920.000809/20079820402386; Acórdão 20402386 Processo 10675.003563/200241; Acórdão 3302000.616 Processo 10980.002141/200717; Acórdão nº 3302002.264 Processo nº 10480.722140/2010¬11) De tudo isso, percebese que o problema a ser enfrentado não se esgota na discussão de existir ou não um contrato de conta corrente – com as características que lhe são particulares, tão bem desenvolvidas pela doutrina jurídica – entre a Contribuinte e qualquer outra empresas do grupo econômico. Sobre a impossibilidade de o IOF incidir indiscriminadamente sobre toda e qualquer transação abrigada pelo contrato de conta corrente, não há dúvida. A questão palpitante é, isto sim, o fato de a conta corrente ser utilizada para a concretização de empréstimos entre as empresas (pela abertura de crédito, por exemplo), o famigerado mútuo, “empréstimo de coisas fungíveis” no qual “o mutuário é obrigado a restituir ao mutuante o que dele recebeu em coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade” (artigo 586 do Código Civil). Sobre a qualificação do mútuo, ressalto que o prazo pode ser livremente estipulado pelas partes, e que, como se trata de grupo empresarial, não há necessidade de estabelecimento de juros sobre os valores emprestados (artigos 591 e 592 do Código Civil).3 3 Art. 591. Destinandose o mútuo a fins econômicos, presumemse devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 406, permitida a capitalização anual. Art. 592. Não se tendo convencionado expressamente, o prazo do mútuo será: Fl. 510DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 19 35 Nesse sentido, o Conselheiro Natanael Martins, depois de acurada explanação sobre a natureza do contrato de conta corrente na doutrina de Fran Martins,4 Carvalho de Mendonça,5 Pontes de Miranda6, conclui justamente sobre a indispensabilidade de verificação dos negócios jurídicos operados através da conta corrente, conforme se depreende dos trechos a seguir transcritos: IRPJ CORREÇÃO MONETÁRIA ART. 21 DO DL. 2.065/83 CONTA CORRENTE ENTRE EMPRESAS CARACTERIZAÇÃO COMO MÚTUO IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO O mútuo, a teor do disposto no artigo 1256 do Código Civil, pressupõe o empréstimo de coisas fungíveis, não se caracterizando como tal a figura do contrato de conta corrente. (...) Assim, não teria o contrato de conta corrente o condão de modificar a causa jurídica das remessas individualmente consideradas, ocorrendo, apenas, espécie de paralisação de sua exigibilidade, ao menos até o encerramento da conta. O Conselho de Contribuintes, em reiterados acórdãos, tem exarado o entendimento de que o contacorrente e o mútuo são institutos jurídicos distintos, de modo que, casuisticamente, deve ser avaliada a origem das remessas que integram a conta corrente para que se possa discernir sua real natureza. Ocorre que, como já se disse, o contrato de conta corrente é, na verdade, contrato normativo, destinado a regular, apenas e tão somente, o tratamento a ser dados a cada uma das remessas, não interferindo em suas respectivas causas. Nesse contexto, um contrato de conta corrente poderia, entre suas remessas, conter adiantamentos ou reembolsos de despesas, dívidas ou adiantamentos comerciais, remessas para gestão unificada de caixa e, até mesmo, mútuos, sem que, pelo I até a próxima colheita, se o mútuo for de produtos agrícolas, assim para o consumo, como para semeadura; II de trinta dias, pelo menos, se for de dinheiro; III do espaço de tempo que declarar o mutuante, se for de qualquer outra coisa fungível 4 " (...) é o contrato segundo o qual duas pessoas convencionam fazer remessas recíprocas de valores sejam bens, títulos ou dinheiro anotando os créditos daí resultantes em uma conta para posterior verificação do saldo exigível, mediante balanço" (Contratos e Obrigações Comerciais, Ed Forense, 14ª Edição, p. 397 e seguintes) 5 "a) O contrato de conta corrente 'supõe uma série de operações sucessivas e recíprocas entre as partes'. Essas operações não se liquidam imediatamente e sim são anotadas nas contas, como partidas de débito e crédito. Ao final do prazo convencionado, ou no fim de um ano, se não houver período estabelecido, somamse as partidas de débito e as de crédito, verificandose o saldo. Esse será o resultado da diferença entre os débitos e os créditos. b) (..) c) Durante a vigência da conta corrente não pode um dos correntistas julgarse credor ou devedor, pois essa averiguação só se obterá no momento do encerramento da conta. As remessas constituem uma massa homogênea cujo resultado só será reconhecido pelas partes ao fazerse o balanço para a verificação final d) As remessas de cada correntista, perdendo a sua individualidade, unificamse na massa de débitos e de créditos, não podendo, assim, dar causa a ação particular sobre elas, nem ser objeto de execução." 6 "Pontes de Miranda, em seu Tratado de Direito Privado (Ed. BookSeller, § 4.615 e seguintes), ressalta a normatividade do contrato de conta corrente, haja vista que se destina a regular o tratamento a ser conferido a remessas, de diversas origens, efetuadas entre as partes contratantes." (trecho retirado do próprio voto citado) Fl. 511DF CARF MF 36 fato de serem escrituradas em conta corrente se desvinculassem de suas origens. In casu, resta comprovado que o contrato de conta corrente compreende remessas decorrentes de duplicatas recebidas pela interligada em nome da Recorrente, como também despesas a pagar pela Recorrente à interligada, liquidandose o saldo apurado ao final de cada mês. Ou seja, os valores lançados na conta corrente em análise não caracterizam contra to de mútuo, de modo que não se deve pretender seja aplicado à hipótese o DecretoLei n° 2.065/83." Corroborando esse entendimento, confirase a ementa do Acórdão n° 10180.803, da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes: "IRPJ — Negócios de mútuo. A contacorrente relativa a operações entre coligadas, interligadas, controladoras e controladas, não é, em si mesma, bastante para caracterizar negócio de mútuo. Há que se investigar a natureza jurídica de cada operação objeto do lançamento, separando aquelas que realmente espelhem mútuo." (Recurso n° 132.337, Sétima Câmara, Acórdão n° 10706.903, Rei. Natanael Martins) Ratificando tudo quanto exposto, a doutrina especializada de Antônio da Silva Cabral7 traz a seguinte lição da obra de Pontes de Miranda: “5.6 – MÚTUO E CONTRATO DE CONTA CORRENTE PONTES DE MIRANDA (Tratado, cit., LXII, pág. 120) ‘Os negócios jurídicos de que resultam os créditos e os débitos são estranhos à conta corrente, que a eles apenas se refere, para os submeter à escrituração específica.’ Este é um aspecto para o qual tanto o Fisco quanto os contribuintes não vêm atentando, querendo aquele se computem juros e correção monetária sobre quantias escrituradas em conta corrente só porque estão em conta corrente, como se esta conta representasse um mútuo em si mesmo. Esquecemse de que o importante é a análise do negócio jurídico que deu motivo ao lançamento em conta corrente. É um erro, freqüentemente encontrado na escrituração de empresas e em atos normativos do Fisco, encararse a conta corrente como se esta representasse uma dação recíproca de empréstimo, quando o importante seria analisaremse os negócios jurídicos que motivaram os débitos ou créditos em conta corrente. Nem há que se calcular correção monetária e juros sobre determinada quantia escriturada em conta corrente justamente porque, enquanto existir a conta corrente nenhum dos contratantes poderá exigir a obrigação do outro. Tal só 7 Negócios de Mútuo entre Empresas do Mesmo Grupo”. In. Direito Tributário Atual n. 10, p. 2855 Fl. 512DF CARF MF Processo nº 11060.722406/201110 Acórdão n.º 3402005.232 S3C4T2 Fl. 20 37 ocorrerá quando a conta corrente for fechada. O que é exigível é, repitase, o saldo da conta corrente. Na análise das particularidades do caso, percebemos que, efetivamente, não estamos diante de operações de mútuo acobertadas por uma contabilização via conta corrente contábil entre empresas, haja vista que inexiste contrato entre as partes. A descrição da operação, devidamente provada nos autos e salientada pelo i. Relator, demonstra tal conclusão. Lembremos: quando a autuada Veisa recebe o pagamento de vendas realizadas a prazo de seus clientes, é debitada a conta 1201010201 JMT Adm e Participações Ltda. e creditada a conta 1103010101 Duplicatas a Receber, e assim ao invés dos recursos ingressarem em conta representativa de Caixa ou Bancos, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. registra que são entregues à controladora JMT Administração e Participações Ltda. E quando, por exemplo, fornecedores de Veisa Veículos Ltda. são pagos com recursos originados de sua controladora JMT Administrações e Participações Ltda, a conta 1201010201 JMT Adm. e Participações Ltda. é creditada e a conta 2102090901 Fornecedores Diversos é debitada, registrando a devolução dos recursos. Deste modo é imperioso que este Conselho reconheça que o trabalho da Fiscalização foi falho, pois fez incidir o imposto sobre simples gestão de caixa entre as empresas do grupo econômico. Já que a Conta Contábil operacional era utilizada para registrar de tais operações entre partes relacionadas, não se sujeitam à incidência do IOF, imposto federal que incide sobre operações de crédito correspondentes à mútuo (artigo 13 da Lei n. 9.779/1999 e artigos 2º e 3º do Decreto n. 6.306/2007). Não há empréstimo, uma vez que os valores constituem acertos de contas entre as empresas, não havendo, portanto, posterior restituição do dinheiro em espécie, requisito para configuração do mútuo (artigo 586 do Código Civil). Com essas considerações, acompanho o voto do I. Relator. Thais de Laurentiis Galkowicz Fl. 513DF CARF MF
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