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Numero do processo: 11020.002309/2009-69
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.871
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 00 23 09 /2 00 9- 69 Fl. 212DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 213DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 214DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 215DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 216DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 217DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 218DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 219DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 220DF CARF MF Processo nº 11020.002309/200969 Acórdão n.º 9202004.871 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 221DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10280.901697/2009-39
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2007
ESTIMATIVA. COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84).
Numero da decisão: 9101-002.623
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário.
[assinado digitalmente]
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. [assinado digitalmente] Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 120200.666, que julgou o recurso voluntário interposto pela contribuinte acerca da possibilidade de compensação de créditos de pagamentos de estimativas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 90 16 97 /2 00 9- 39 Fl. 216DF CARF MF Processo nº 10280.901697/200939 Acórdão n.º 9101002.623 CSRFT1 Fl. 3 2 O Acórdão recorrido deu provimento parcial ao recurso voluntário para afastar o argumento jurídico da não homologação, entendendo ser possível a compensação de créditos de pagamentos de estimativas. Em seguida, para comprovar a divergência de interpretação necessária ao conhecimento do seu recurso, a Fazenda Nacional interpôs o presente recurso especial de divergência, por entender que a decisão de reconhecer a possibilidade de compensação do valor indevidamente pago, ou pago a maior, de estimativa é fruto de interpretação da legislação tributária que conflita com a interpretação adotada no acórdão paradigma colacionado aos autos. O recurso foi admitido por meio do despacho do Presidente da Câmara. Após, sobrevieram contrarrazões em que o sujeito passivo defende o acerto da decisão questionada e pugna pela sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9101002.610, de 16/03/2017, proferido no julgamento do processo 10280.900603/200912, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9101002.610): O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento, na forma como foi admitido. O contribuinte apresentou DCOMP apontando indébito oriundo de pagamento a maior de estimativa. Ao apreciar a referida declaração, a Receita Federal não homologou a compensação, sob o fundamento de que o pagamento de estimativa não é passível de compensação, devendo compor a apuração anual do tributo. A decisão recorrida foi no sentido oposto, reconhecendo o direito de o contribuinte compensar o indébito de estimativa, devolvendo os autos para a unidade de origem, para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário pleiteado, vez que essa matéria ainda não sofreu apreciação pela Administração Tributária. O recurso especial veio para que esta Câmara Superior reforme a decisão recorrida, restabelecendo a declaração de impossibilidade de o contribuinte compensar crédito de estimativa, nos termos da legislação infralegal então em vigor. Fl. 217DF CARF MF Processo nº 10280.901697/200939 Acórdão n.º 9101002.623 CSRFT1 Fl. 4 3 Todavia, a IN RFB nº 900, de 2008, retirou a referida proibição do ordenamento tributário e é pacífico na jurisprudência administrativa o entendimento de que seus efeitos devem retroagir para alcançar as compensações pendentes de decisão administrativa. Esse entendimento é adotado pela própria Administração Tributária, exteriorizado por meio da Solução de Consulta Interna Cosit n° 19, de 05/12/2011, assim ementada: ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO. O art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, que admite a restituição ou a compensação de valor pago a maior ou indevidamente de estimativa, é preceito de caráter interpretativo das normas materiais que definem a formação do indébito na apuração anual do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, aplicandose, portanto, aos PER/DCOMP originais transmitidos anteriormente a 1º de janeiro de 2009 e que estejam pendentes de decisão administrativa. Caracterizase como indébito de estimativa inclusive o pagamento a maior ou indevido efetuado a este título após o encerramento do período de apuração, seja pela quitação do débito de estimativa de dezembro dentro do prazo de vencimento, seja pelo pagamento em atraso da estimativa devida referente a qualquer mês do período, realizado em ano posterior ao do período da estimativa apurada, mesmo na hipótese de a restituição ter sido solicitada ou a compensação declarada na vigência das IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005. A nova interpretação dada pelo art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, aplicase inclusive aos PER/DCOMP retificadores apresentados a partir de 1º de janeiro de 2009, relativos a PER/DCOMP originais transmitidos durante o período de vigência da IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005, desde que estes se encontrem pendentes de decisão administrativa. No âmbito deste Tribunal Administrativo, a matéria foi pacificada por meio da Súmula CARF nº 84: Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Procuradoria, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional, e, no mérito, negolhe provimento, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. assinado digitalmente Fl. 218DF CARF MF Processo nº 10280.901697/200939 Acórdão n.º 9101002.623 CSRFT1 Fl. 5 4 Carlos Alberto Freitas Barreto Fl. 219DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12266.721279/2011-98
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011
DISPLAYS DE CRISTAL LÍQUIDO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL.
Os displays de cristal líquido classificam-se no código NCM 8529.90.20 quando corresponderem a partes de monitores ou de televisores.
REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO LEGAL.
O art. 570 do Regulamento Aduaneiro/2002 define a revisão aduaneira como o ato pelo qual a autoridade fiscal, após o desembaraço da mercadoria, verifica a regularidade do pagamento dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestada pelo importador na declaração de importação. A reclassificação fiscal de mercadoria submetida a despacho, em decorrência de revisão aduaneira, não configura mudança de critério jurídico.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011
PEDIDO DE PERÍCIA/DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO.
Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, não gera cerceamento ao direito de defesa do sujeito passivo o indeferimento, por prescindível, do pedido de diligência ou perícia por este formulado.
Numero da decisão: 3201-002.509
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Em sede preliminar foi suscitado pelo contribuinte, a aplicação do art. 100 do CTN. Por voto de qualidade decidiu-se que a matéria não foi suscitada na impugnação e no recurso voluntário e portanto, não faria parte da lide, Vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que votaram por aceitar a discussão sobre a aplicação do art. 100 do CTN no julgamento do recurso. Por unanimidade de votos afastou-se a preliminar que pedia a inaplicabilidade da revisão aduaneira. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo. Por voto de qualidade deu-se provimento parcial ao recurso para excluir a exigência referente a pelicula e fotocopiadora, nos termos do voto do relator. Vencidos os conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que davam provimento integral ao recurso voluntário quanto a classificação fiscal. Por voto de qualidade foram mantidos os juros sobre a multa de ofício, Vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que davam provimento ao recurso para afastar a exigência dos juros sobre a multa de ofício. Ficaram de apresentar declaração de voto os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário e Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Designado o Conselheiro Winderley Morais Pereira para formalizar o voto vencedor.
Winderley Morais Pereira - Presidente Substituto e Redator Ad hoc
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto, Paulo Roberto Duarte Moreira, Mércia Helena Trajano Damorim, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisario e Winderley Morais Pereira.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO NASCIMENTO E SILVA PINTO
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camara_s : Segunda Câmara
ementa_s : Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011 DISPLAYS DE CRISTAL LÍQUIDO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Os displays de cristal líquido classificam-se no código NCM 8529.90.20 quando corresponderem a partes de monitores ou de televisores. REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO LEGAL. O art. 570 do Regulamento Aduaneiro/2002 define a revisão aduaneira como o ato pelo qual a autoridade fiscal, após o desembaraço da mercadoria, verifica a regularidade do pagamento dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestada pelo importador na declaração de importação. A reclassificação fiscal de mercadoria submetida a despacho, em decorrência de revisão aduaneira, não configura mudança de critério jurídico. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011 PEDIDO DE PERÍCIA/DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, não gera cerceamento ao direito de defesa do sujeito passivo o indeferimento, por prescindível, do pedido de diligência ou perícia por este formulado.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 41; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1995; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C2T1 Fl. 2 1 1 S3C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 12266.721279/201198 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3201002.509 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 20 de fevereiro de 2017 Matéria CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIAS Recorrente SAMSUNG ELETRONICA DA AMAZONIA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011 DISPLAYS DE CRISTAL LÍQUIDO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Os displays de cristal líquido classificamse no código NCM 8529.90.20 quando corresponderem a partes de monitores ou de televisores. REVISÃO ADUANEIRA. PREVISÃO LEGAL. O art. 570 do Regulamento Aduaneiro/2002 define a revisão aduaneira como o ato pelo qual a autoridade fiscal, após o desembaraço da mercadoria, verifica a regularidade do pagamento dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestada pelo importador na declaração de importação. A reclassificação fiscal de mercadoria submetida a despacho, em decorrência de revisão aduaneira, não configura mudança de critério jurídico. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011 PEDIDO DE PERÍCIA/DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, não gera cerceamento ao direito de defesa do sujeito passivo o indeferimento, por prescindível, do pedido de diligência ou perícia por este formulado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Em sede preliminar foi suscitado pelo contribuinte, a aplicação do art. 100 do CTN. Por voto de qualidade decidiuse que a matéria não foi suscitada na impugnação e no recurso voluntário e portanto, não faria parte da lide, Vencidos os Conselheiros Tatiana AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 26 6. 72 12 79 /2 01 1- 98 Fl. 1685DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 3 2 Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que votaram por aceitar a discussão sobre a aplicação do art. 100 do CTN no julgamento do recurso. Por unanimidade de votos afastouse a preliminar que pedia a inaplicabilidade da revisão aduaneira. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo. Por voto de qualidade deuse provimento parcial ao recurso para excluir a exigência referente a pelicula e fotocopiadora, nos termos do voto do relator. Vencidos os conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que davam provimento integral ao recurso voluntário quanto a classificação fiscal. Por voto de qualidade foram mantidos os juros sobre a multa de ofício, Vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo e Cássio Shappo, que davam provimento ao recurso para afastar a exigência dos juros sobre a multa de ofício. Ficaram de apresentar declaração de voto os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário e Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Designado o Conselheiro Winderley Morais Pereira para formalizar o voto vencedor. Winderley Morais Pereira Presidente Substituto e Redator Ad hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto, Paulo Roberto Duarte Moreira, Mércia Helena Trajano Damorim, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisario e Winderley Morais Pereira. Relatório Preliminarmente, ressaltase que nos termos do artigo 17, inciso III, do anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF/2015 c/c a Portaria CARF 107/2016 fui designado como redator ad hoc para formalização do Acórdão, tendo em vista que o Conselheiro original do Processo não mais pertence ao CARF. Por bem descrever a matéria de que trata este processo, adoto e transcrevo abaixo o relatório que compõe a Decisão Recorrida. Tratase de auto de infração lavrado no intuito de prevenir a decadência de tributos suspensos em razão da liminar concedida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, nos autos do processo nº 5468285.2010.4.01.0000/AM, bem assim de promover a cobrança de tributos, multa de ofício e multa regulamentar de 1% relativamente a operações não abrangidas por aquele instrumento. Segundo consta do Relatório de Fiscalização Aduaneira ALFMNS/EQFIS 060/2011, colacionado às fls. 34 a 421, a impugnante promoveu a importação de Painéis (Displays) de Fl. 1686DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 4 3 Cristal Líquido (LCD) e, quando do preenchimento de suas declarações, teria indicado erroneamente a classificação desses produtos: ao invés de indicar o código 8529.90.20, indicara o código 9013.80.10. Segundo expõe, os fundamentos para que se promovesse a reclassificação seriam os mesmos que orientaram a prolação da Solução de Consulta nº 4, de 2010, expedida pela Coordenação Geral de Administração Aduaneira. No mesmo sentido iria a Câmara de Comércio Exterior, quando da expedição da Resolução Camex 84, de 09/12/2010, incluindo os “ex” tarifários 001 e 002 no item 8529.90.20, relativos a telas de visualização de cristal líquido (LCD). Complementa que, tratandose de produtos destinados à industrialização da Zona Franca de Manaus, onde os tributos relativos à importação seriam suspensos quando da sua entrada, a incidência de impostos se daria quando da sua internação no restante do Território Nacional. Nesse momento, apurase o coeficiente de redução inerente ao Regime. Havendo diferença no valor dos impostos devidos quando da importação, haverá igualmente diferença quando da internação. Esclarece, ademais, que tomou conhecimento da ação judicial manejada pela impugnante, bem assim da medida liminar concedida em tal ação, demonstrando o seu entendimento no sentido de que os produtos objetos do presente processo diriam respeito a Processos Produtivos Básicos de diversos produtos, e que a medida judicial diria respeito exclusivamente a Processos Produtivos Básicos de Monitores de Vídeo. O critério para distinção foi a descrição do processo produtivo lançado nos correspondentes Demonstrativos de Coeficiente de Redução elaborados pelo sujeito passivo. Com base em tais critérios, elaborara demonstrativo que distingue as operações em relação as quais as diferenças de impostos apuradas, bem como a multa administrativa de 1% aplicada em razão de erro de classificação fiscal teriam exigibilidade suspensa, reconhecendo que, nesses casos, não caberia promover o lançamento de multa de ofício de 75%. Quanto às demais operações, não albergadas pela liminar, informa que o lançamento da diferença de tributos foi elaborado prevendo a inclusão das multas de ofício e da multa administrativa de 1%, e que a exigibilidade dos valores ali consignados, segundo seu entendimento, não estaria suspensa. Regularmente cientificada, a impugnante comparece tempestivamente ao processo para, sinteticamente, arguir: 1 Nulidade do auto de infração em razão de prejuízo seu direito de defesa. Fl. 1687DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 5 4 Segundo aponta, na página 8/19 do demonstrativo de apuração que instrui o lançamento, constaria que o DCR 2009/00131 diria respeito a fotocopiadoras, quando, de fato, diria respeito a Televisor em Cores com Tela de Cristal Líquido. 2 Suspensão da Exigibilidade da Integralidade do Crédito Tributário A autoridade fiscal equivocarase quando interpretou que a decisão obtida em sede de agravo de instrumento alcançaria exclusivamente os dispositivos de cristal líquido destinados ao processo produtivo de monitores de vídeo. Aduz para tanto, que a Solução de Consulta nº 4, no seu entender, o fundamento da autuação, assentara categoricamente a conclusão de que os dispositivos de cristal líquido teriam como função precípua a exibição de imagens e tal função seria inerentes aos monitores da posição 8528. Se, de acordo com os próprios critérios utilizados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, todos os produtos em cuja industrialização foram utilizados os painéis de LCD importados seriam "monitores de vídeo", todos eles estariam amparados pela decisão judicial. Tratandose de lançamento com a finalidade de prevenir a decadência, afastadas estariam as multas de ofício, de mora e por erro de classificação. 3 Ausência de Erro de Classificação Admitindo, eventualmente, que não se considere que toda matéria estaria afeta à Ação Ordinária nº 1013390.2010.4.01.3200, defende a exatidão da classificação informada. Relembra, para tanto, o texto da RG 1 e afirma, após transcrever o texto da posição 9013, do item 9013.80.10, que descreveriam “Dispositivos de cristais líquidos”, transcreve a Nota Explicativa do Sistema Harmonizado da posição 9013, publicada por meio da Instrução Normativa nº 807, de 2008. Faz ainda menção ao Relatório Técnico da Divisão de Sistemas Eletrônicos, do Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento LACTEC, de onde se extrairia a conclusão de que o produto importado seria um dispositivo de cristal líquido. Transcreve trecho. Estaria equivocada, ademais, a afirmação no sentido de que as características dos painéis de LCD importados pela Impugnante, caracterizados como dispositivos eletrônicos, com uma matriz de transistores e circuitos integrados que os acionam e controlam, além de dispositivo de retroalimentação (backlight), os afastaria da posição 9013, segundo o Fisco, destinada ao enquadramento de produtos de óptica. Fl. 1688DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 6 5 Afirma, para tanto, que essa restrição não constaria do texto da posição, que admitiria inclusive outros dispositivos do capítulo 90, que iria muito além dos dispositivos de óptica, como instrumentos e aparelhos para medicina, cirurgia, etc. Não haveria qualquer apoio à afirmação de que a posição 9013 incluiria apenas os dispositivos de cristais líquidos que fossem simples, pois o capitulo 90 incluiria produtos de extrema complexidade, como microscópios eletrônicos e microscópios protiônicos, além dos já mencionados aparelhos eletromédicos. Destaca, ainda, com base no mesmo relatório técnico anteriormente mencionado, que os demais componentes que acompanham o dispositivo de cristal líquido importado seriam necessários ao seu funcionamento. Transcreve outro trecho e cita jurisprudência do Terceiro Conselho de Contribuintes. Diferentemente do afirmado pela autoridade fiscal, os painéis importados não se enquadrariam em nenhuma outra posição, do capítulo 90 ou de outro capítulo. Mais especificamente no que se refere ao alegado equivoco do enquadramento na posição 8529, defendida pelo Fisco, argumenta a recorrente que dito código se prestaria à classificação de partes reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinadas aos aparelhos das posições 8525 a 8528 e que os produtos alvo de litígio não teriam essa característica. Cita outro trecho do Relatório técnico que descreve as múltiplas utilizações dos painéis de LCD. Registra, outrossim, que o próprio relatório fiscal reforçaria essa conclusão, pois inclui na exigência equipamentos de processamento de dados, DVDs, câmeras de vídeo e condicionadores de ar. Por outro lado, ainda que não houvesse obstáculos ao enquadramento na posição 8529, permitindo que se comparasse essa posição com a 9013, caberia enquadrar o produto nesta última, em razão da aplicação da RGI 3, “a”. Transcreve a RGI e a NESH dessa regra. Argumenta que suas conclusões encontrariam respaldo nas próprias regras aplicáveis à posição 8529. Cita, como exemplo, a classificação dos tubos de raios catódicos, que exercem as mesmas funções dos painéis de LCD, mas se classificam na posição 8540. Finalmente, sustenta que se todos esses fundamentos não fossem suficientes, prevaleceria a posição 9013 pela observância da RGI 3, “c”. Cita julgados do Terceiro Conselho de Contribuintes. Mantida tal classificação, não haveria diferença de tributos nem multas a cobrar. Fl. 1689DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 7 6 Reforça, em outro ponto, que a manutenção da exigência não depende exclusivamente do erro perpetrado pelo Sujeito Passivo. É necessário que se demonstre que a classificação proposta pelo Fisco seria a que classificaria corretamente a mercadoria. Cita jurisprudência dos Terceiro Conselho de Contribuintes. Assim sendo, tendo em vista que vários dos produtos listados nos demonstrativos que acompanham o auto de infração não se classificariam nas posições 8527 ou 8528, mas nas posições 8515, 8471, 8521, 8525, restaria demonstrado o equívoco do código proposto na autuação. Apresenta demonstrativo que ratificaria essa afirmação. 4 Impossibilidade de Revisão por Mudança de Critério Após defender que, segundo o Ordenamento, a introdução de novos critérios jurídicos só produz efeito sobre fatos geradores futuros, argumenta que todas as importações e internações de produto foram processadas nos termos em que foram apresentadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil. Consequentemente, as informações prestadas, inclusive a classificação fiscal, foram referendadas, inclusive mediante as verificações inerentes ao canal vermelho de conferência. Processado o desembaraço, restariam homologados os lançamentos. Cita o art. 146 do Código Tributário Nacional, doutrina e julgados do Superior Tribunal de Justiça . Argumenta que, no presente processo, não se verificam quaisquer das hipóteses previstas no art. 149 do CTN. 5 Impossibilidade de Cobrança de Juros de Mora sobre Multa de Ofício. Segundo defende, não haveria suporte legal para a incidência de juros de mora sobre multa. Tais acréscimos só poderiam alcançar o valor do tributo em si. Cita o art. 161 do CTN, os arts. 43 e 61 da lei nº 9.430, de 1996, além de julgados dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais e do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Pleiteia a realização de perícia, indica assistente e formula quesitos. Sobreveio decisão da 6ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Recife/PE, que julgou, por unanimidade de votos, improcedente a impugnação. Os fundamentos do voto condutor do acórdão recorrido encontramse consubstanciados na ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 Fl. 1690DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 8 7 NULIDADE. HIPÓTESES. A nulidade do procedimento é medida excepcional, que só se justifica quando se está diante da incompetência do agente ou de cerceamento do direito de defesa. Se não demonstrada pelo menos uma dessas hipóteses, não há como decretar a nulidade do lançamento. CONCOMITÂNCIA. EFEITOS Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial, sob qualquer modalidade processual, com o mesmo objeto do processo administrativo. Tratandose de objetos parcialmente coincidentes, cabe conhecer e julgar a fração que não foi submetida ao crivo do Poder Judiciário. PEDIDO DE PERÍCIA. CONDIÇÕES Não se defere a perícia quando os autos reúnem os elementos necessários à formação da convicção do julgador e, o que é mais relevante, o sujeito passivo não logra êxito em demonstrar a imprescindibilidade desse exame suplementar. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 TELAS DE VISUALIZAÇÃO (MÓDULO LCDTFT). Tela de visualização, constituída de um painel de cristal líquido com matriz ativa de transistores de filme fino (Thin Film Transistor), circuitos eletrônicos de controle e acionamento dos transistores, dispositivo de retroiluminação (“backlight”) e tampas frontal e traseira, comercialmente denominada “módulo LCDTFT” classificase no código 8529.90.20 da Tarifa Externa Comum MULTA DE OFÍCIO DE 75% EM RAZÃO DE INEXATIDÃO NA DECLARAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CABIMENTO. A inexatidão da classificação fiscal inserese no universo das condutas puníveis com a multa de 75% sobre o imposto que deixou de ser recolhido, salvo se comprovada hipótese que excluiria sua aplicação como, por exemplo, o lançamento para prevenir a decadência. MULTA DE 1% POR ERRO NA INDICAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO TARIFÁRIA A indicação errônea da classificação fiscal dá ensejo à aplicação da multa de 1%, ainda que a exigibilidade do crédito se encontre suspensa. Nesta hipótese, a exigibilidade da multa permanecerá igualmente suspensa. Fl. 1691DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 9 8 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 CONCESSÃO DE LIMINAR EM ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE A suspensão da exigibilidade em razão da concessão de medida liminar limitase à fração da exigência amparada pela decisão. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA A correção de ofício da classificação fiscal fornecida pelo sujeito passivo, levada a efeito em sede de Revisão Aduaneira, realizada nos contornos do art. 54 do Decretolei nº 37, de 1966, segundo a redação que lhe foi fornecida pelo Decretolei nº 2.472, de 1988, não representa retificação do lançamento em razão de mudança de critério jurídico, não afrontando, consequentemente o art. 146 do Código Tributário Nacional. Tratandose de correção de informação prestada pelo sujeito passivo, tal procedimento encontra pleno respaldo no art. 149, IV do mesmo Código Tributário Nacional. Durante as verificações executadas por ocasião do despacho de importação, a autoridade fiscal limitase a verificar as informações necessárias à apuração da classificação fiscal e não tendo, naquele momento, o compromisso de verificar a classificação fiscal em si. TAXA SELIC A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC e incidirão sobre a totalidade da exigência fiscal. Inconformada com a decisão, apresentou a recorrente, tempestivamente, o presente recurso voluntário. Na oportunidade, reiterou os argumentos colacionados em sua defesa inaugural. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Redator ad hoc. Inicialmente é necessário ressaltar que em razão da saída do Conselheiro Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto deste Conselho, fui designado como redator ad hoc do Acórdão, nos termos previstos no art. 17, inciso III, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 c/c a Portaria CARF nº 107/2016. Fl. 1692DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 10 9 O recurso voluntário atende aos requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. Esclarecese, inicialmente, que parte da matéria alvo do presente litígio é concomitante com a discussão travada no âmbito do Poder Judiciário Ação Ordinária nº 1013390.2010.4.01.3200. A matéria objeto de discussão judicial não será apreciada neste voto. A citada ação judicial teve por objeto: [...] assegurar â Autora, de forma definitiva, a aplicação da vigente classificação fiscal 9013.80.10 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) nas operações de importação do insumo/ componente "Dispositivo de Cristal Liquido (LCD)" para emprego no Processo Produtivo Básico (PPB) de Monitores de Vídeo com projetos industriais aprovados pela Portaria 58, de 15/06/2000, Resolução 394, de 14/12/2004, Portaria 354, de 17/11/2005, Resolução 50, de 08/05/2007 e Resolução 337, de 18/12/2008, todas da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), determinando, ainda, que a Ré, por suas autoridades fiscais na Zona Franca de Manaus (ZFM), abstenhase de impor quaisquer sanções à Autora pela aplicação da referida posição tarifária NCM 9013.80.10; (c2) declarar a inexistência de relação jurídicotributária que tenha permitido a exigência de Imposto de Importação (II) nas operações de importação de "Dispositivo de Cristal Liquido (LCD)", a partir de maio de 2010, à alíquota de 12% (doze por cento), realizadas pela NCM 8529.90.19, bem como declarar o direito da Autora de compensar todo o montante indevidamente pago, acrescido de juros equivalentes à taxa Selic (Lei 9.250/95, art. 39, § 4°), com débitos de quaisquer tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB), com amparo nos arts. 66, da Lei 8.383, de 30/12/1991, e 74, da Lei 9.430, de 27/12/1996 (e alterações), e demais normas aplicáveis, ressalvandose à fiscalização da Ré o poderdever de conferir a exatidão dos valores compensados, tudo como medida à mais ampla e justa prestação jurisdicional; A autoridade fiscal, ao formalizar o lançamento, separou os produtos vinculados aos PPB próprios de monitores de vídeo para uso exclusivo em informática e os demais monitores, identificados como “exceto para uso exclusivo em informática”, conforme definição das respectivas portarias interministeriais. Em decorrência da concessão de medida liminar, em relação aos painéis de LCD adquiridos para uso em monitores de informática não foi formalizada a exigência da multa de ofício de 75%. Das preliminares A recorrente sustenta a nulidade do Auto de infração devido à equívoco no "Demonstrativo de Apuração", nestes termos: Fl. 1693DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 11 10 De fato, na página 8/19 do "Demonstrativo de Apuração" que instrui o Auto de Infração (fl. 50), consta que o DCR 2009/00131 seria referente ao produto "Fotocopiadora (reconstruída) JNC08299", quando, na verdade, tal DCR é relativo ao produto 'Televisor em Cores com Tela de Cristal Líquido" (doe. 02 da Impugnação). Também na página 8/19 do "Demonstrativo de Apuração" que instrui o Auto de Infração (fl. 50), consta que o DCR 2009/00154 seria referente ao produto "película de plástico", quando, na verdade, este DCR é relativo ao produto 'Televisor em Cores com Tela de Cristal Líquido" (doe. 03 da Impugnação). Em se tratando de contencioso administrativo tributário, as hipóteses de nulidade encontramse previstas no artigo 59 do Decreto n.º 70.235/1972: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Segundo este dispositivo, são duas as hipóteses de nulidade relacionadas ao processo administrativo fiscal federal: a primeira corresponde a um pressuposto subjetivo de atos processuais, qual seja a incompetência funcional do emissor do ato; já a segunda se refere a um pressuposto processual das decisões administrativas, este com fundamento na CF/88, que exige respeito ao contraditório e a ampla defesa. Por conseguinte, considerase nulo o ato praticado por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa. Em análise ao arguido, de fato, em se tratando de auto de infração decorrente de mudança de classificação fiscal adotada por contribuintes, a correta identificação do produto deve ser uma premissa do lançamento fiscal, de forma a permitir o pleno exercício do direito de defesa do sujeito passivo. Observo, contudo, que os equívocos alegados pela recorrente restringemse a dois itens do auto de infração, e que o erro na descrição destes dois produtos não prejudica a defesa em relação a todos os demais itens que foram corretamente descritos. Não constato, desta forma, a presença de vício suficiente para impingir de nulidade a totalidade do lançamento fiscal. Apesar do exposto, entendo que deve ser cancelada a exigência em relação a estes dois itens, descritos como "Fotocopiadora (reconstruída) JNC08299" e "película de plástico", pois os mesmos, notadamente, não correspondem aos produtos objetos da reclassificação fiscal proposta pelo Fisco, quais sejam "Display de Cristal Líquido (LCD)", classificados no código 8529.90.20 da NCM. A recorrente sustenta a nulidade do acórdão recorrido, devido ao indeferimento da produção da prova pericial. Em relação à realização de prova pericial, o artigo 18 do Decreto nº 70.235/72 esclarece que a autoridade julgadora pode determinar a sua produção quando Fl. 1694DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 12 11 entender que a mesma é necessária, devendo indeferila quando as considerar prescindível ou impraticável: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) A decisão recorrida, ao analisar o pedido da recorrente, afirma não ser necessária a produção de prova pericial, nestes termos: A impugnante formulou os seguintes quesitos: i) os painéis de LCD importados pela Impugnante descritos no Auto de Infração são "Dispositivos de cristais líquidos (LCD)", podendo ser descritos como "dispositivos de cristais líquidos, constituídos por uma camada de cristal líquido encerrada entre duas placas ou folhas de vidro ou de plástico, com ou sem condutores elétricos, em peça ou recortados em formas determinadas''"? ii) os painéis de LCD importados pela Impugnante descritos no Auto de Infração podem ser utilizados apenas nos aparelhos das Posições 85.27 ou 85.28? iii) os painéis de LCD importados pela Impugnante descritos no Auto de Infração podem ser utilizados em outros aparelhos, além daqueles das Posições 85.27 ou 85.28? iv) caso positiva a resposta ao quesito anterior, podese afirmar que os painéis de LCD importados pela Impugnante descritos no Auto de Infração sejam "principalmente" destinados aos aparelhos das Posições 85.27 ou 85.28 ou não há como se indicar a que aparelhos tais painéis de LCD seriam "principalmente" destinados? Penso que não há fundamento para que se acolha o pedido de perícia, pois já constam do processo os elementos de natureza técnica que poderiam ser obtidos com os quesitos formulados. Com efeito, os quesitos “i”, “ii” e “iii” tratam de premissas assumidas pela própria autoridade fiscal, a partir da Solução de Consulta nº 4 de 2010. Não há dúvida, portanto, a respeito da composição do produto e nem com relação ao fato de que os dispositivos podem ser incorporados a produtos diversos dos classificados na posição 8527 e 8528. Quanto ao quesito iv, entendo que a indagação teria como finalidade rediscutir a interpretação do SH e tal tarefa, com a devida licença, não se insere na competência do perito. Lembrar da regra contida no § 1º do art. 30 do Decreto 70.235, de 1972. Conforme já explicitado, a autoridade fiscal partiu do pressuposto de que, qualquer que fosse o produto final daquele Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 13 12 processo produtivo, os painéis de LCD seriam sempre empregados em componentes destinados à exibição de imagens, finalidade inerente aos monitores. Relembro, aqui, o exemplo, do telefone celular. Apesar do equipamento final não ter nenhuma semelhança com um monitor, dentre os seus componentes, há um monitor, montado a partir de um painel de LCD. Dito de outra forma: apesar do produto final não possuir a função de monitor, é fato inconteste que ele incorpora um subconjunto, montado a partir de painéis de LCD que, indiscutivelmente, exerce essa função. Ou seja, mesmo que o produto final não exerça estritamente a função de monitor, o produto importado destinarseia, pelo menos num primeiro momento, à montagem de um subconjunto que, se analisado individualmente, constitui um monitor. Sob essa perspectiva, portanto, não resta margem para dúvida de que os painéis de LDC destinamse, principalmente, à fabricação de monitores (ainda que ditos monitores sejam incorporados a outros produtos), fato que corrobora a adoção da posição 8529. Consequentemente, com base no disposto no art 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, indefiro o pedido de perícia Desta forma, em sendo a determinação da produção de prova pericial competência da autoridade julgadora, e esta tendo sido expressa nas razões pelas quais a considera prescindível, o seu indeferimento não representa qualquer hipótese de nulidade desta decisão, razão pela qual não se acata a preliminar levantada pela recorrente. A recorrente solicita ainda a produção da prova pericial por este órgão julgador. Entendo, contudo, ser desnecessária a realização de perícia, notadamente devido ao presente processo já possuir informações suficientes para o deslinde da questão. Observese que as perícias existem para fins de que sejam dirimidas questões para as quais exigese conhecimento técnico especializado, ou seja, matéria impassível de ser resolvida a partir do conhecimento das partes e do julgador. No presente processo, tendo em vista os elementos carreados aos autos, entre os quais constam laudos técnicos emitidos por especialistas, bem como parecer expedido pela RFB acerca da matéria, é perfeitamente possível a este órgão colegiado determinar a correta classificação desta mercadoria. Indeferese, desta forma, o pedido de produção de prova pericial. Da classificação de mercadorias O presente auto de infração decorre da modificação, efetuada pela Fiscalização, na classificação fiscal adotada pela recorrente em operações de importação/internação das mercadorias descritas como "LCD" ou "Dispositivo de Cristal Líquido", importadas no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2010. Fl. 1696DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 14 13 A recorrente alega ter adotado a classificação fiscal correta, qual seja a posição desdobrada 90.13.80.10 "Dispositivos de cristal líquido (LCD)". Alega que sua classificação decorre da aplicação da RGI 1, que determina que seja feita com base no texto da posição, e como o texto da posição 9013 descreve exatamente "dispositivos de cristal líquido", em comparação com as outras posições, deve prevalecer. Afirma, embasada em laudos técnicos, que se tratam de dispositivos óticos de cristal líquido, sendo esta a descrição mais específica possível para as mercadorias. Seriam produtos passíveis de múltiplas aplicações, não configurando partes reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinadas a nenhum equipamento. Aduz ainda que, em caso de dúvidas, deveria ser utilizada a RGI 3A, o que também conduziria a posição 90.13, pois, por ser mais específica, prevaleceria sobre as mais genéricas. A Fiscalização, a seu turno, procedeu com a reclassificação fiscal das mercadorias, entendendo que o texto da posição 9013 coloca os "Dispositivos de Cristais Líquidos" em uma condição residual, de forma que, existindo uma outra posição cujo texto lhe confira maior especificidade, esta prevaleceria. Afirma que, o insumo "Tela de visualização, constituída de um painel de cristal líquido com matriz ativa de transistores de filme fino (Thin Film Transistor), circuitos eletrônicos de controle e acionamento dos transistores, dispositivo de retroiluminação ("backlight") e tampas frontal e traseira, comercialmente denominada 'módulo LCDTFT' ", nesse relatório chamado simplesmente de "Display de Cristal Líquido (LCD)", classificase no código 8529.90.20 da NCM, conferindo o tratamento tributário adequado. Antes de adentrar na lide, esclarecese que os pareceres técnicos anexados aos autos devem ser conhecido apenas nos seus aspectos técnicos, abstraídas todas as incursões inerentes à classificação da mercadoria, matéria privativa de órgãos da Secretaria da Receita Federal do Brasil e a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. A autoridade fiscal reclassificou os itens identificados pela recorrente como "tela de visualização, constituída de um painel de cristal líquido com matriz ativa de transistores de filme fino (Thin Film Transistor), circuitos eletrônicos de controle e acionamento dos transistores, dispositivo de retroiluminação (backlight) e tampas frontal e traseira (módulo LCDTFT)", no código NCM de subitem 8529.90.20. A recorrente defende o enquadramento no código 90.13.80.10. A classificação fiscal de mercadorias no Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH) é subordinada às Regras Gerais de Interpretação (RGI), bem como às Regras Gerais Complementares (RGC). A RGI 1 assim determina: 1. Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 15 14 Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, pelas Regras seguintes: Segundo esta norma, a classificação é determinada, prioritariamente, pelos textos das posições e das notas de Seção e de Capítulo, sendo as demais regras aplicadas apenas caso a RG1 não seja suficiente para definir a classificação da mercadoria. As posições em discussão possuem os seguintes enunciados: 85.29 Partes reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinadas aos aparelhos das posições 85.25 a 85.28 8529.90 Outras 8529.90.20 De aparelhos das posições 85.27 ou 85.28 90.13 Dispositivos de cristais líquidos que não constituam artigos compreendidos mais especificamente noutras posições; lasers, exceto diodos laser; outros aparelhos e instrumentos de óptica, não especificados nem compreendidos noutras posições do presente Capítulo 9013.80 Outros dispositivos, aparelhos e instrumentos 9013.80.10 Dispositivos de cristais líquidos (LCD) Em relação às notas envolvendo a lide, mostram relevo a Nota 1, "m", da Seção XVI e a Nota 2, "a" do Capítulo 90, abaixo transcritas: Notas Seção XVI. 1. A presente Seção não compreende: [...] m) os artefatos do Capítulo 90; Notas Capítulo 90 2. Ressalvadas as disposições da Nota 1 acima, as partes e acessórios para máquinas, aparelhos, instrumentos ou outros artefatos do presente Capítulo, classificamse de acordo com as seguintes regras: a) As partes e acessórios que consistam em artefatos compreendidos em qualquer das posições do presente Capítulo ou dos Capítulos 84, 85 ou 91 (exceto as posições 84.87, 85.48 ou 90.33) classificamse nas respectivas posições, quaisquer que sejam as máquinas, aparelhos ou instrumentos a que se destinem; Da análise das referidas notas, extraise, inicialmente, que a seção XVI, que inclui o Capítulo 85, não compreende os artefatos classificados no Capítulo 90. Mostrase necessário, portanto, verificar se o artigo em discussão enquadrase no capítulo 90. Fl. 1698DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 16 15 A posição 90.13, pretendida pela recorrente, abrange "Dispositivos de cristais líquidos que não constituam artigos compreendidos mais especificamente noutras posições". As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (Nesh) referentes a posição 90.13 esclarecem que: [...]a presente posição compreende especialmente: 1) Os dispositivos de cristais líquidos, constituídos por uma camada de cristal líquido encerrada entre duas placas ou folhas de vidro ou de plástico, com ou sem condutores elétricos, em peça ou recortados em formas determinadas, e que não consistam em artefatos compreendidos mais especificamente em outras posições da Nomenclatura. (grifo nosso) Do exposto, resta claro que a presente posição compreende apenas os dispositivos de cristais líquidos que não consistam em artefatos compreendidos mais especificamente em outras posições. A Nota 2, "a", do Capítulo 90, por sua vez, estabelece que as partes e acessórios que consistam em artefatos compreendidos em qualquer das posições do presente Capítulo ou dos Capítulos 84, 85 ou 91 (exceto as posições 84.87, 85.48 ou 90.33) classificam se nas respectivas posições, quaisquer que sejam as máquinas, aparelhos ou instrumentos a que se destinem. Desta forma, analisando as duas notas em conjunto, temse que, em se tratando de dispositivos de cristal líquido, quando trataremse de partes de artefatos compreendidos nos capítulos 84 ou 85, devem ser classificados nas respectivas posições destes capítulos, quaisquer que sejam as máquinas, aparelhos ou instrumentos a que se destinem. Nas hipóteses em que os dispositivos de cristais líquidos que não possam ser classificados como partes de artefatos compreendidos nos capítulos 84 ou 85, ou mesmo em qualquer outras posição, classificamse na posição 90.13. Pois bem, por dispositivo de cristal líquido entendese quaisquer produtos que tenham seu funcionamento à base de materiais com propriedade de cristal líquido. Em relação ao produto, o Relatório Técnico elaborado pelo Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento LACTEC, anexado aos autos, apresenta as seguintes considerações: 18.Devido à sua alta complexidade, as telas de LCD do tipo TFT incorporam um conjunto de circuitos eletrônicos responsáveis por controlar o processo de exibição das imagens e proceder à ativação de cada um pixels da tela mediante o acionamento dos transistores correspondentes. Tanto estes circuitos quanto o sistema de retroiluminação, constituído de uma ou mais fontes luminosas (lâmpada fluorescente ou LED), difusores (e, por vezes, circuito inversor) também fazem parte do produto em estudo, comercialmente chamado de “módulo LCDTFT”. 19.As telas de LCD do tipo TFT são utilizadas, principalmente, para a fabricação de monitores de vídeo e televisores, mas Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 17 16 podem ser utilizadas também como insumos para a fabricação de uma grande variedade de produtos, tais como monitores de vídeo, notebooks, aparelhos receptores de televisão, telefones celulares, máquinas fotográficas, consoles de vídeo game portáteis, aparelhos de GPS, aparelhos e instrumentos médicos, de automação industrial, etc. 20.Assim, conforme mencionado pelo Interessado em sua petição, é impossível definir com exatidão o produto no qual será montada, visto que a mesma pode ser acoplada a qualquer aparelho capaz de fornecer um sinal de vídeo através de uma conexão adequada – em que pese o fato de que, pelo tamanho, seja possível por exemplo, presumir que uma certa tela deva servir para um aparelho receptor de TV, o que não impede, entretanto, que se utilize esta mesma tela para a fabricação de um equipamento médico, por exemplo. O LACTEC afirma que, em que pese ser impossível definir com exatidão o produto final a que se destina, os displays de cristal líquido servirão para a exibição de imagens em monitores para uso em televisão, microcomputadores, máquinas de entretenimento, aparelhos portáteis móveis de telecomunicação, painéis mostradores em uso de automação industrial, entre outros. Neste sentido, o item 2.1 do relatório citado: [...]a tecnologia LCD permite a exibição de imagens monocromáticas ou coloridas e animações em praticamente qualquer dispositivo, sem a necessidade de um tubo de imagem, como acontece com os monitores CRT..[...] Esta função, de exibir imagens, é inerente aos monitores da posição 85.28: 85.28 Monitores e projetores, que não incorporem aparelho receptor de televisão; aparelhos receptores de televisão, mesmo que incorporem um aparelho receptor de radiodifusão ou um aparelho de gravação ou de reprodução de som ou de imagens Mostrase, correta, portanto, a classificação destes produtos na posição 85.29, posto sua função estar intimamente ligada à de um monitor, ou seja, mostrar imagens, caracterizandose como parte reconhecível como principalmente destinada aos aparelhos das posições 85.28. Ressaltase que o texto da posição 8529 não exige que os produtos se destinem exclusivamente aos equipamentos das posições 85.25 a 85.28, basta que haja uma preponderância e tal preponderância é inquestionável. Como com a aplicação da RGI 1 se alcança a classificação fiscal das mercadorias, não se mostra correta a utilização da RGI 3A, pretendida pela recorrente. Observase, ainda, que a classificação proposta pelo Fisco atualmente encontrase positivada, posto os produtos corresponderem a exata reprodução da descrição do Ex Tarifário do subitem 8529.90.20 criado pela Resolução Camex nº 84, de 8 de dezembro de 2010, que inclusive a Recorrente passou a utilizar após sua publicação: Fl. 1700DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 18 17 8529.90.20 De aparelhos das posições 85.27 ou 85.28 Ex 001 Tela de visualização, constituída de um painel de cristal líquido com matriz ativa de transistores de filme fino (Thin Film Transistor), circuitos eletrônicos de controle e acionamento dos transistores, dispositivo de retroiluminação (“backlight”) e tampas frontal e traseira – (“módulo LCDTFT”) O Decreto nº 7.600/2011, da mesma forma, ao estabelecer os critérios para habilitação ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores PADIS, estabelece que os displays de cristal líquido devem ser classificados no código NCM 85.29: Anexo I Mostradores de Informação NCM Dispositivos de plasma 85.29 Displays construídos a partir de OLED da posição 85.41 Displays construídos a partir de TFEL das posições 85.41 e 85.42 Displays de cristal líquido (LCD) 85.29 Dispositivos de cristais líquidos (LCD) 9013.80.10 Ora, as posições e as respectivas notas de referência não tiveram nenhuma alteração, mostrandose ilógico e incoerente afirmar que no período anterior ao dispositivo a classificação deveria ser efetuada em um código diferente do atual. Não se trata de um novo entendimento, mas apenas a positivação de uma interpretação por meio de um ato administrativo, que deixa explícita a classificação de um produto. Este novo ato, contudo, não inovou na ordem jurídica, pois a classificação dos produtos sempre foi vinculada a este código. Desta forma, a atual classificação dos produtos, expressa no subitem 8529.90.20, mostrase adequada também para o período pretérito. Se a classificação correta fosse a suscitada pela recorrente, teria a CAMEX e a Presidência da República classificado os dispositivos no subitem 9013.80.10, o que, como visto, não ocorreu. Desta forma, deve ser mantida a reclassificação fiscal imposta pela autoridade fiscal. A recorrente afirma ainda que foram incluídos na apuração do Imposto de Importação valores referentes a painéis de LCD destinados a diversos produtos que não podem ser enquadrados nas posições 85.27 e 85.28, indicados em listagem anexada a impugnação. A análise dos produtos indicados na planilha, contudo, não permite que se alcance tal entendimento, posto trataremse de insumos adquiridos para utilização em processos produtivos básicos de monitores de cristal líquido e televisor em cores. Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 19 18 Vejase, por amostragem, os primeiros cinco itens trazidos pela recorrente em sua planilha: Em confronto destes itens com o auto de infração, extraíse as seguintes informações: Constatase, de pronto, que os itens citados foram utilizados na produção de monitores de vídeo e televisores, o que os enquadra no código 85.28. Em sendo constatado que a reclassificação fiscal proposta pela autoridade fiscal estava correta, mostrase lícita a exigência dos tributos que deixaram de ser recolhidos em decorrência da classificação fiscal equivocada declarada pela recorrente. No que tange à multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria, também se mostra correta a exigência fiscal, posto a penalidade decorrer da classificação fiscal errônea verificada nos presentes autos, nos termos do artigo 84 a Medida Provisória (MP) n° 2.15835, com vigência a partir de 27/08/2001: Art.84. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria: I classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; ou II quantificada incorretamente na unidade de medida estatística estabelecida pela Secretaria da Receita Federal. §1º O valor da multa prevista neste artigo será de R$ 500,00 (quinhentos reais), quando do seu cálculo resultar valor inferior. §2º A aplicação da multa prevista neste artigo não prejudica a exigência dos impostos, da multa por declaração inexata prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, e de outras Fl. 1702DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 20 19 penalidades administrativas, bem assim dos acréscimos legais cabíveis. Da revisão aduaneira Alega a recorrente a mudança de critério jurídico não autoriza as autoridades fiscais a realizar lançamento em relação a fatos geradores passados, mas tão somente em relação a fatos geradores ocorridos após a introdução do novo critério jurídico. Aduz que, como a desclassificação fiscal foi promovida após o desembaraço aduaneiro dos insumos importados e após a internação das mercadorias fabricadas na Zona Franca de Manaus, a imposição de nova classificação configuraria mudança de critério jurídico, o que é vedado pelo art. 146 do CTN. Esclarecese a recorrente, contudo, que o que ocorreu, no caso concreto, foi tão somente a revisão dos enquadramentos das mercadorias, decorrente do processo de revisão aduaneira, previsto em lei. A Receita Federal do Brasil pode e deve proceder a revisão aduaneira, dentro do prazo quinquenal legal, para fins de verificar a correição dos procedimentos adotados pelo importador. Após o despacho aduaneiro, a DI pode ser submetida a revisão para apurar qualquer irregularidade relativa ao despacho. Aliás, o art. 54 do Decretolei nº 37/66, com a redação dada pelo art. 2º do Decretolei nº 2.472/88, assim já previa: Art. 54. A apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício fiscal aplicado, e da exatidão das informações prestadas pelo importador será realizada na forma que estabelecer o regulamento e processada no prazo de cinco anos, contado do registro da declaração de que trata o art. 44 deste DecretoLei. Do mesmo modo, já previa o RA/1985, em seu art. 455: Art. 455: Revisão aduaneira é o ato pelo qual a autoridade fiscal, após o desembaraço da mercadoria, reexamina o despacho aduaneiro, com a finalidade de verificar a regularidade da importação ou exportação quanto aos aspectos fiscais, e outros, inclusive o cabimento de benefício aplicado (DL 37/66, art. 54) O mesmo se manteve no Regulamento Aduaneiro/2002, conforme se depreende do disposto no art. 570, a saber: Art.570 – Revisão Aduaneira é o ato pelo qual é apurada, após o desembaraço aduaneiro, a regularidade do pagamentos dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda Nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração de importação, ou pelo exportador na declaração de exportação(Decretolei nº. 37, de 1966, art. 54, com a redação dada pelo Decretolei nº. 2.472, de 1988, art. 2º), e Decretolei nº. 1.578, de 1977, art. 8º) Fl. 1703DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 21 20 Mostrase, desta forma, totalmente desnecessário que a RFB explicite quais as Declarações de Importação que foram parametrizadas para o Canal Vermelho, pois a informação não influencia na julgamento da lide. Assim, mais uma vez são incabíveis as alegações da contribuinte. Dos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício Por fim, em relação à incidência da Selic sobre as multas aplicadas, entendo ser devida a Taxa Selic nos cálculos dos débitos dos contribuintes para com a Fazenda Pública Federal, independente de tratarse de obrigação principal decorrente da ocorrência de fato gerador ou decorrente da aplicação de penalidade pecuniária. O art. 161 do Código Tributário Nacional (CTN) autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra a expressão “crédito” a que se refere o caput desse artigo. Assim, fazendo parte do crédito junto com o tributo, devem ser aplicados a multa os mesmos procedimentos e os mesmos critérios de cobrança, devendo, portanto, sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. No mesmo sentido, manifestouse por maioria a Câmara Superior de Recursos Fiscais, no Acórdão 920201.806, de 24 de outubro de 2011, cuja ementa e excerto do voto transcrevese abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Ano calendário:1997 JUROS DE MORA COM BASE NA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO APLICABILIDADE. O art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o “crédito” a que se refere o caput do artigo Recurso especial negado. É legítima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. Precedentes do Tribunal Regional da 4ª Região. Recurso Especial Negado. A matéria sob exame pode ser dividida em duas questões, que se completam. A primeira, diz respeito à própria possibilidade genérica da incidência de juros sobre a multa, e centrase na interpretação do artigo 161 do CTN; a segunda questão envolve a discussão sobre a existência ou não de previsão legal para a exigência de juros sobre a multa, cobrados com base na taxa Selic. Fl. 1704DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 22 21 Sobre a incidência de juros de mora o citado art. 161 do CTN prevê o seguinte: “Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.” Inicialmente entendo que o art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o “crédito” a que se refere o caput do artigo. Ou seja, tanto a multa como o tributo compõem o crédito tributário, devendolhes ser aplicado os mesmos procedimentos e os mesmos critérios de cobrança, devendo, portanto, sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Ademais, não haveria porque o valor da multa permanecer congelado no tempo. Por seu turno o § 1.º do art. 161 do CTN, ao prever os juros moratórios incidentes sobre os créditos não satisfeitos no vencimento, estipula taxa de 1% ao mês, não dispondo a lei de modo diverso. Abriu, dessa forma, possibilidade ao legislador ordinário tratar da matéria, o que introduz a segunda questão: a da existência ou não de lei prevendo a incidência de juros sobre a multa de oficio com base na taxa Selic. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa. Confirase in verbis: "Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." (grifei) Esse entendimento se coaduna com a Súmula nº 45 do extinto Tribunal Federal de Recursos, que já previa a correção monetária da multa: "As multas fiscais, sejam moratórias ou punitivas, estão sujeitas à correção monetária." Fl. 1705DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 23 22 Considerando a natureza híbrida da taxa SELIC, representando tanto taxa de juros reais quanto de correção monetária, justifica se a sua aplicação sobre a multa. Precedentes do Tribunal Regional da 4ª Região: “TRIBUTÁRIO. AÇÃO ORDINÁRIA. REPETIÇÃO. JUROS SOBRE A MULTA. POSSIBILIDADE. ART. 113, § 3º, CTN. LEI Nº 9.430/96. PREVISÃO LEGAL. 1. Por força do artigo 113, § 3º, do CTN, tanto à multa quanto ao tributo são aplicáveis os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. E não poderia ser diferente, porquanto ambos compõe o crédito tributário e devem sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Não haveria porque o valor relativo à multa permanecer congelado no tempo. 2. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa, que pode, inclusive, ser lançada isoladamente. 3. Segundo o Enunciado nº 45 da Súmula do extinto TFR "As multas fiscais, sejam moratórias ou punitivas, estão sujeitas à correção monetária." 4. Considerando a natureza híbrida da taxa SELIC, representando tanto taxa de juros reais quanto de correção monetária, justificase a sua aplicação sobre a multa.” (APELAÇÃO CÍVEL Nº 2005.72.01.0000311/ SC, Relator: Desembargador Federal Dirceu de Almeida Soares) “TRIBUTÁRIO. ART. 43 DA LEI 9.430/96. MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DE JUROS MORATÓRIOS. LEGITIMIDADE. 1. É legítima a exigência fiscal consistente na incidência de juros moratórios sobre multa de ofício aplicada ao contribuinte. Inteligência do artigo 43 da Lei 9.430/96 c/c art. 113, § 3, do CTN. 2. Improvida a apelação.” (APELAÇÃO CÍVEL Nº 2004.70.00.0263869/ PR, Relator: Juiz Federal Décio José da Silva). Destarte, entendo que é legítima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. Face o exposto, entendo plenamente aplicável a incidência de juros sobre a multa de ofício, conforme demonstrado na decisão acima transcrita, a qual adoto como razão de decidir. Diante de todo o exposto, voto por não conhecer da matéria submetida ao Poder Judiciário e, na parte conhecida, dar parcial provimento ao voluntário, cancelando a Fl. 1706DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 24 23 exigência em relação a aos itens descritos como "Fotocopiadora (reconstruída) JNC08299" e "película de plástico", e mantendose os demais valores exigidos. Winderley Morais Pereira Redator Ad hoc Declaração de Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário A presente manifestação tem por objetivo pontuar acerca da possibilidade de aplicação da exoneração prevista no art. 100 do CTN na hipótese dos autos, ainda que não exista pedido literalmente expresso nesse sentido pelo Contribuinte. Inicialmente, cabe registrar o posicionamento já firmado pela presente Turma Julgadora em caso análogo ao presente, onde se decidiu pela citada aplicação do art. 100 do CTN: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 24/05/2007 a 31/12/2011 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. INEXISTÊNCIA DE OBRIGATORIEDADE DO JULGADOR APRECIAR, PONTO A PONTO, TODAS AS TESES DE DEFESA. LIVRE CONVENCIMENTO. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE DA DECISÃO. (...) NORMAS COMPLEMENTARES. PRÁTICA REITERADA. Considerase prática reiterada das autoridades administrativas, à luz do artigo 100, inciso III, do CTN, a utilização de classificação fiscal de mercadorias já determinadas em soluções de consulta da RFB e confirmadas em despachos de importação selecionados para canais de conferência. (Acórdão 3201002.026) Ou seja, já restou assentado por esta Turma Julgadora que, restando comprovado nos autos a existência de prática reiterada das autoridades administrativas no mesmo sentido da conduta adotada pelo contribuinte, este será exonerado dos acréscimos decorrentes de juros e multa em razão de posterior alteração do entendimento fiscal. Segue trecho do voto: Fl. 1707DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 25 24 Não há como negar que a administração confirmou a classificação fiscal adotada nas Declarações de Importação. Sem dúvida a administração é soberana para a qualquer tempo rever a posição adotada e neste casso especifico entendeu reclassificar as mercadorias para o código 90.13.80.10 em procedimento de revisão aduaneira. Não vislumbro nenhum problema ou questionamento quanto a legalidade da reclassificação realizada pela Autoridade Aduaneira, entretanto, não se pode negar o fato da recorrente ter orientação quanto a classificação das telas de LCD, no código 90.13.80.10, diferentes despachos de importação, confirmada a classificação que vinha sendo adotada. Não há como exigir um procedimento diferente da recorrente que não fosse permanecer utilizando a classificação já adotada nestes despachos nas suas próximas declarações de importação. Situação que foi alterada a partir de novo posicionamento da Receita Federal por ato da COANA que mudou o entendimento anterior externados nos despachos aduaneiros e nas soluções de consulta das Regiões Fiscais da RFB, passando a adotar o código 90.13.80.10 para as telas de LCD. Entendo, que após ser realizada a reclassificação das mercadorias no procedimento de revisão aduaneira, eventuais diferenças de tributos deverão ser exigidos por meio de lançamento, entretanto, resta a discussão sobre a aplicação de penalidades. O Código Tributário Nacional, resguarda o contribuinte, quando age de acordo com orientação da Administração Tributária, a não ser sofrer a aplicação de penalidade, nos termos previstos no seu art. 100, inciso III e Parágrafo Único. Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo." Considerando a existência de soluções de consulta da RFB e de diversos despachos de importação selecionados para canais de conferência, onde foram confirmadas as classificações adotadas pela recorrente, entendo que a classificação adotada pela recorrente ocorreu diante de diversas práticas reiteradas da Administração Tributária, assim não são exigíveis as penalidades e a cobrança de juros nos termos previstos no art. 100, III, parágrafo único do CTN. Fl. 1708DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 26 25 Na hipótese dos presentes autos, contudo, referido entendimento digase, aplicado em situação fática bastante similar, quando não, idêntica deixou de ser aplicado, por decisão proferida por voto de qualidade, ao entendimento de que inexistindo pedido expresso do contribuinte nesse sentido não competiria a aplicação do art. 100 do CTN "de ofício" por este órgão julgador. Com efeito, não se nega e nem mesmo o contribuinte o faz que não houve pedido literalmente expresso no sentido de aplicação do 100, inciso III, do CTN. Houve, no entanto, a efetiva demonstração de que a Autoridade Fiscal, por longo período, adotou posicionamento em linha com aquele adotado pela Contribuinte em suas importações, e, ainda, o pedido de anulação integral da exigência fiscal. Ou seja, houve a demonstração dos fatos, sob os quais cabe ao julgador aplicar o direto. É o que se denomina, na doutrina processual, do princípio iura novit curia, ou, ainda, da mihi factum, dabo tibi ius (me dá os fatos, e eu te darei o direito). No magistério de Alexandre Freitas Câmara: "Após a qualificação das partes, deve passar o autor a indicar a causa de pedir, já definida anteriormente, e que é composta pelos fatos que dão origem à pretensão do autor. A necessidade de indicação da causa de pedir vem expressa no art. 282, III, do CPC, que fala em fatos e fundamentos jurídicos do pedido. Os fatos a que se refere a norma são os que compõem a causa de pedir próxima, ou seja, os fatos que segundo a descrição do demandante lesaram ou ameaçaram o direito de que o mesmo afirma ser titular. Já os fundamentos jurídicos são, em verdade, a causa de pedir remota, ou seja, o título (o fato constitutivo) do direito afirmado pelo autor. É absolutamente desnecessária a indicação dos dispositivos legais onde o autor foi buscar os fundamentos para embasar sua demanda, já que iura novit curia (o juiz conhece o direito). (CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. V. I, 17. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 2007, p. 307). Cumpre salientar que o princípio ora exposto foi completamente albergado pelo Novo Código Civil Brasileiro, consoante disposto em seu art. 319, III (idêntico ao supra citado art. 282, III do CPC/73). Assim, o julgador é conhecedor do direito, o qual deve ser aplicado à exata medida dos fatos e fundamentos que lhe são trazidos a conhecimento pelas partes. O que não se pode permitir, é a aplicação de fundamento diverso daqueles trazidos pelas partes, o que implicaria em verdadeiro julgamento ultra ou extra petita. Todavia, a simples ausência de citação de dispositivo legal, quando este decorre logicamente dos fatos expostos, não configura, em absoluto, a aplicação de fundamento estranho à lide. Por fim, anoto que a possibilidade / necessidade aplicação do princípio do iura novit curia ao processo tributário administrativo já foi reconhecida pela Câmara Superior deste CARF: Neste processo, os fatos estão postos de forma clara e para decidir qual o índice aplicável o julgador deve verificar qual a Fl. 1709DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 27 26 metodologia prevista na legislação fiscal. Como vimos, a pessoa jurídica se equivocou ao utilizar o índice de 70,28% para o mês de janeiro, quando sua abrangência temporal é maior.Tratase, a meu ver, de matéria estritamente de direito, em que o julgador não está restrito a decidir apenas escolhendo entre os argumentos trazidos pelos interessados, podendo aplicar fundamento jurídico distinto no julgamento da questão posta a seu exame (juria novit cúria). No caso em comento, o julgador deve ajustar o que foi pedido no recurso voluntário pela contribuinte para adequar a legislação de regência. (Acórdão 0105.971, grifos nossos) Diante das razões exposta, divirjo do Relator, assentando a possibilidade e a necessidade de se aplicar o art. 100, III do CTN, para fins de excluir a aplicação de juros e multa sobre o crédito tributário lançado, uma vez que restou devidamente demonstrado pela Contribuinte a existência de prática reiterada da administração tributária no exato sentido da conduta adotada em suas importações. É como voto. Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Conforme o Direito Tributário, a legislação, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno, apresentase esta declaração de voto. Esta declaração de voto tem o objetivo de demonstrar a divergência dos votos vencidos com relação à classificação da mercadoria importada como insumo (tela de LCD) e à aplicação do Art. 100 do CTN para, em provimento ao mérito do Recurso Voluntário, cancelar todo o lançamento, as cobranças das diferenças de alíquota e cancelar as multas de ofício de 75% e de 1%, diante da correta classificação adota pelo contribuinte na NCM 9013.80.10 e do reconhecimento das práticas reiteradas da administração pública (consultas indicando a classificação do contribuinte como correta, parametrização em canal vermelho durante anos, posterior validade da NCM adotada pela fiscalização e decisão do CARF reconhecendo como correta a classificação do contribuinte) como normas complementares das leis. O relatório deste acórdão, assim como as planilhas de fls 665 a 890 e as DIs de fls 1148 e seguintes, confirmam que o contribuinte importou Dispositivos de Cristais Líquidos (LCD), telas de LCD, e classificou na NCM 9013.80.10, enquanto a fiscalização entendeu que o produto deveria ter sido classificado na NCM 8529.90.20, em razão da Resolução Camex n.º 84/2010, e realizou o lançamento com fundamento no suposto erro de classificação e cobrou as diferenças das alíquotas, os juros e a multa de ofício de 75% e multa de 1%, conforme transcrito a seguir: "Segundo consta do Relatório de Fiscalização Aduaneira ALFMNS/EQFIS 060/2011, colacionado às fls. 34 a 421, a impugnante promoveu a importação de Painéis (Displays) de Fl. 1710DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 28 27 Cristal Líquido (LCD) e, quando do preenchimento de suas declarações, teria indicado erroneamente a classificação desses produtos: ao invés de indicar o código 8529.90.20, indicara o código 9013.80.10. Segundo expõe, os fundamentos para que se promovesse a reclassificação seriam os mesmos que orientaram a prolação da Solução de Consulta nº 4, de 2010, expedida pela Coordenação Geral de Administração Aduaneira. No mesmo sentido iria a Câmara de Comércio Exterior, quando da expedição da Resolução Camex 84, de 09/12/2010, incluindo os “ex” tarifários 001 e 002 no item 8529.90.20, relativos a telas de visualização de cristal líquido (LCD)." Destacase que as terminologias "Dispositivos de Cristais Líquidos (LCD)" e "Painéis (Displays) de Cristal Líquido (LCD)" tratam do mesmo produto, telas individuais de cristal líquidos (conforme DIs de fls 1148 e seguintes) e, diferenciam unicamente em razão dos textos adotados na NCM 9013.80.10 (adotada pelo contribuinte) e NCM 8529.90.20, respectivamente. Alias, não há nenhum laudo nos autos que comprove o contrário ou qualquer controvérsia sobre a identificação do produto, de modo que não é possível concluir com segurança jurídica e técnica que as terminologias das NCMs representam outros produtos que não a mencionada tela de LCD. A lide em nenhum momento surgiu sobre a identificação do produto, mas somente sobre sua classificação. Destacase também que a questão da concomitância votada na decisão de primeira instância, conforme transcrito abaixo, foi discutida durante esta sessão e superada, de forma que se decidiu pela não concomitância. Assim, foi dada a continuidade ao julgamento desta lide. Transcrevese a Ementa da decisão de primeira instância para melhor expor os detalhes da presente lide administrativa: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 NULIDADE. HIPÓTESES. A nulidade do procedimento é medida excepcional, que só se justifica quando se está diante da incompetência do agente ou de cerceamento do direito de defesa. Se não demonstrada pelo menos uma dessas hipóteses, não há como decretar a nulidade do lançamento. CONCOMITÂNCIA. EFEITOS Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial, sob qualquer modalidade processual, com o mesmo objeto do processo administrativo. Tratandose de objetos parcialmente coincidentes, cabe conhecer e julgar a fração que não foi submetida ao crivo do Poder Judiciário. PEDIDO DE PERÍCIA. CONDIÇÕES Fl. 1711DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 29 28 Não se defere a perícia quando os autos reúnem os elementos necessários à formação da convicção do julgador e, o que é mais relevante, o sujeito passivo não logra êxito em demonstrar a imprescindibilidade desse exame suplementar. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 TELAS DE VISUALIZAÇÃO (MÓDULO LCDTFT). Tela de visualização, constituída de um painel de cristal líquido com matriz ativa de transistores de filme fino (Thin Film Transistor), circuitos eletrônicos de controle e acionamento dos transistores, dispositivo de retroiluminação (“backlight”) e tampas frontal e traseira, comercialmente denominada “módulo LCDTFT” classificase no código 8529.90.20 da Tarifa Externa Comum MULTA DE OFÍCIO DE 75% EM RAZÃO DE INEXATIDÃO NA DECLARAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CABIMENTO. A inexatidão da classificação fiscal inserese no universo das condutas puníveis com a multa de 75% sobre o imposto que deixou de ser recolhido, salvo se comprovada hipótese que excluiria sua aplicação como, por exemplo, o lançamento para prevenir a decadência. MULTA DE 1% POR ERRO NA INDICAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO TARIFÁRIA A indicação errônea da classificação fiscal dá ensejo à aplicação da multa de 1%, ainda que a exigibilidade do crédito se encontre suspensa. Nesta hipótese, a exigibilidade da multa permanecerá igualmente suspensa. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 09/01/2007 a 09/12/2010 CONCESSÃO DE LIMINAR EM ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE A suspensão da exigibilidade em razão da concessão de medida liminar limitase à fração da exigência amparada pela decisão. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA A correção de ofício da classificação fiscal fornecida pelo sujeito passivo, levada a efeito em sede de Revisão Aduaneira, realizada nos contornos do art. 54 do Decretolei nº 37, de 1966, segundo a redação que lhe foi fornecida pelo Decretolei nº 2.472, de 1988, não representa retificação do lançamento em razão de mudança de critério jurídico, não afrontando, consequentemente o art. 146 do Código Tributário Nacional. Fl. 1712DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 30 29 Tratandose de correção de informação prestada pelo sujeito passivo, tal procedimento encontra pleno respaldo no art. 149, IV do mesmo Código Tributário Nacional. Durante as verificações executadas por ocasião do despacho de importação, a autoridade fiscal limitase a verificar as informações necessárias à apuração da classificação fiscal e não tendo, naquele momento, o compromisso de verificar a classificação fiscal em si. TAXA SELIC A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC e incidirão sobre a totalidade da exigência fiscal." Feita este introdução à declaração de voto, passase à análise da classificação dos Dispositivos de Cristais Líquidos LCD e da aplicação do Art. 100 do CTN, transcrito a seguir: "SEÇÃO III Normas Complementares Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo." De início, é importante esclarecer que a NCM 9013.80.10 foi corretamente adotada pelo contribuinte à época dos fatos, isto porque a Regra Geral n.º 1 do sistema harmonizado define que a classificação correta será a que mais equivaler ao texto da posição, logo, considerando que o texto da posição 9013 corresponde exatamente aos Dispositivos de Cristais Líquidos LCD e que a resolução Camex 84 somente trouxe o texto da NCM 8529.90.20 após os fatos dos autos, não há como concluir que a NCM 9013.80.10 seria uma classificação errada, de acordo com as nomenclaturas vigentes, à luz das regras do sistema harmonizado e do regulamento aduaneiro. Fl. 1713DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 31 30 De acordo com disposição expressa do Regulamento Aduaneiro de 2009, nos seus Art. 721, 732 e 94, a mercadoria deve ser classificada de acordo com o estado em que se encontra no momento da importação e não de acordo com suas futuras e possíveis aplicações, seja aplicar a LCD em computadores, vídeos ou qualquer outro produto. Veja a transcrição do Art. 94 do RA/09: "Art. 94. A alíquota aplicável para o cálculo do imposto é a correspondente ao posicionamento da mercadoria na Tarifa Externa Comum, na data da ocorrência do fato gerador, uma vez identificada sua classificação fiscal segundo a Nomenclatura Comum do Mercosul. Parágrafo único. Para fins de classificação das mercadorias, a interpretação do conteúdo das posições e desdobramentos da Nomenclatura Comum do Mercosul será feita com observância das Regras Gerais para Interpretação, das Regras Gerais Complementares e das Notas Complementares e, subsidiariamente, das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, da Organização Mundial das Aduanas (DecretoLei no 1.154, de 1o de março de 1971, art. 3o, caput)." Esta disposição expressa justifica inclusive a não aplicação da concomitância com o processo judicial citado no relatório, que discute a classificação no processo produtivo básico de monitores e não a classificação dos Dispositivos de Cristais Líquidos LCD como encontrada no momento da importação. São momentos e produtos distintos. Portanto, correta a utilização da NCM 9013.80.10. Com relação à aplicação do Art. 100 do CTN, é importante destacar que esta Turma de julgamento decidiu por aplicar este dispositivo em caso de matéria idêntica, a classificação das telas de LCD na NCM 9013.80.10, conforme Acórdão 3201002.026, de outro contribuinte. Após muito trabalho e discussão, julgamento em que estive presente e apresentei declaração de voto no mesmo teor desta, por unanimidade decidiuse por aplicar o Art. 100 do CTN para reconhecer as práticas reiteradas da administração pública e, portanto, estas poderiam ser consideradas como normas complementares, o que serviu para cancelar as penalidades impostas àquele contribuinte conforme o texto do voto vencedor. 1 CAPÍTULO II DO FATO GERADOR Art. 72. O fato gerador do imposto de importação é a entrada de mercadoria estrangeira no território aduaneiro (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 1º, caput, com a redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 1988, art. 1º). § 1º Para efeito de ocorrência do fato gerador, considerase entrada no território aduaneiro a mercadoria que conste como importada e cujo extravio tenha sido verificado pela autoridade aduaneira (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 1º, § 2º com a redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 1988, art. 1º). 2 Art. 73. Para efeito de cálculo do imposto, considerase ocorrido o fato gerador (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 23, caput e parágrafo único, este com a redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010, art. 40): (Redação dada pelo Decreto nº 8.010, de 2013) I na data do registro da declaração de importação de mercadoria submetida a despacho para consumo; Fl. 1714DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 32 31 O que, a princípio, na minha leitura, não deveria se limitar ao cancelamento das penalidades, uma vez que aplicado o Art. 100 do CTN e reconhecido que a administração reiteradamente permitiu e inclusive orientou a aplicação da NCM 9013.80.10 para os dispositivos de Cristais Líquidos, o lançamento deveria ser cancelado de forma integral, porque não haveria como concluir que a classificação adotada pelo contribuinte era equivocada. Ao contrário, equivocada, inovadora e retroativa foi a classificação adotada pela fiscalização. Mas mesmo após aquele julgamento, em que pese nesta sessão o presente contribuinte ter expressamente solicitado o provimento integral do Recurso Voluntário, ter alegado a mudança de critério jurídico (Art. 146 do CTN) em razão da mudança do entendimento quanto ao uso da NCM 9013.80.10 para a classificação das telas de LCD, ter solicitado em memoriais e durante a sessão a aplicação do Art. 100 do CTN, inclusive citando o precedente desta própria Turma de julgamento, por voto de qualidade decidiuse que o contribuinte não havia expressamente solicitado a aplicação do Art. 100 do CTN em sua impugnação e, portanto, não haveria como considerar sua aplicação. Segue o Art. 146 do CTN transcrito, para que seja possível clarear sua ligação e identidade com o Art. 100 do CTN: "Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução." Respeito a posição vencedora dos nobres colegas conselheiros e respeito o princípio da colegialidade, mas a posição vencedora adotada poderia ter mais coesão com outros princípios adotados pela administração pública, como aqueles previstos na Lei 9.784/99 e no CTN. É simples, se este próprio conselho edita e publica de forma vinculativa suas próprias súmulas, por exemplo, é porque o Conselho adota e observa o princípio da igualdade, de forma que o que se pretende, é evitar que diferentes contribuintes tenham decisões diferentes para casos idênticos. Logo, em que pese não existir súmula sobre a aplicação do Art. 100 do CTN na presente lide administrativa, razão pela qual reconheço e respeito a liberdade dos colegas que decidiram por não aplicar o Art. 100 do CTN, esta Turma de julgamento teve e tem total direito e liberdade para aplicar o Art. 100 do CTN, principalmente para não ferir o princípio da igualdade, para manter a própria posição adotada anteriormente e para observar o princípio da verdade material inerente à própria lide administrativa apresentada. O centro da presente lide administrativa é o erro ou acerto na classificação da mercadoria e, diante disto, o contribuinte alega como correta a adoção da NCM 9013.80.10 uma vez que por anos a tela de LCD foi classificada na NCM 9013.80.10, uma vez que outros contribuintes adotavam esta mesma NCM e uma vez que a NCM adotada pela fiscalização foi uma posterior mudança de critério. Fl. 1715DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 33 32 Assim, apresentados os fatos, alegações e direitos, como poderia esta Turma de julgamento não reconhecer que a administração pública, reiteradamente, orientou pela utilização da NCM 9013.8010 como a correta para as telas de LCD? As consultas de n.º 98/99 da 8.ª Região DIANA, 31/07 da 10.ª Região e 37/07 da 6.ª Região apresentadas no Acórdão 3201002.026, mencionado, são públicas e de conhecimento desta Turma. Se a posição vencedora continuar a ser adotada, as Turmas de julgamento poderiam entender por não mais aplicar o Art. 112 do CTN por exemplo, nada mais inseguro e temerário, porque alguns dispositivos expressos como os do Art. 112 e 100 do CTN devem e podem ser aplicados, independentemente da solicitação do contribuinte em sua impugnação ou não, porque são garantias previstas no ordenamento jurídico brasileiro, mais especificamente no Direito Tributário, matéria criada justamente para equilibrar e limitar o poder do estado em punir e cobrar tributo. Segue o Art. 122 do CTN transcrito: “Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação.” Assim, conforme disposto no Art. 113 do CTN3, a obrigação principal somente surge se os fatos subsumem às normas e, pelo raciocínio decorrente e sistêmico, se os fatos subsumem à determinada norma, à esta norma devem corresponder e esta norma deveria ser aplicada. Como o órgão que é, tribunal colegiado administrativo que julga recursos fiscais em segunda instância, suas decisões não somente podem, como devem ser legalmente fundamentadas (Decreto 70.235/72), tenha o contribuinte solicitado expressamente determinado dispositivo ou não. Ajudará a expor a semelhança com o mencionado precedente desta Turma, Acórdão 3201002.026, oportunidade em que esta Turma se manifestou pela aplicação do Art. 100 do CTN, a transcrição do trecho da Ementa que tratou disto: "NORMAS COMPLEMENTARES. PRÁTICA REITERADA. Considerase prática reiterada das autoridades administrativas, à luz do artigo 100, inciso III, do CTN, a utilização de classificação fiscal de mercadorias já determinadas em soluções 3 Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Fl. 1716DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 34 33 de consulta da RFB e confirmadas em despachos de importação selecionados para canais de conferência." Da mesma forma, segue trecho do voto vencedor que demonstrou o entendimento da Turma em aplicar o Art. 100 do CTN: A matéria referente a reclassificação das mercadorias foi tratada nos tópicos anteriores. Resta para apreciação as alegações da recorrente, que a época dos fatos existia uma orientação da administração no sentido de classificar as mercadorias na posição 90.13.80.10. Tais argumentos são lastreados em decisões exaradas por Superintendências da Receita Federal que quando questionadas acerca da correta classificação da mercadoria se pronunciou no sentido de classificar as mercadorias na posição 90.13.80.10. Também consta dos argumentos da recorrente que as mercadorias foram desembaraçadas pela RFB confirmando a classificação na posição 90.13.80.10. Alega a recorrente que em razão destes despachos serem submetidos a todos os controles previstos para o canal seleção vermelho, teria ali a Administração Aduaneira confirmado a classificação utilizada nas Declarações de Importação, sendo assim, a classificação realizada em momento posterior não poderia obrigar a recorrente ao pagamento de multas pois, a conferência física das mercadorias não identificou qualquer problema com a classificação adotada. Estaria assim, afastada a exigência das multas nos termos previstos no art. 100 do CTN. As alegações do recurso alega a obediência a orientações recebidas da Administração Tributária, que neste caso se materializaram por meio das conferências realizadas em diversos despachos de importação, que segundo a recorrente teriam mercadorias idênticas àquelas que sofreram as reclassificação e ensejaram a aplicação das multas fiscais e administrativas. Sobre a matéria relembro o funcionamento dos canais de conferência aduaneira na importação, instituídos a partir da entrada em funcionamento do SiscomexImportação. Até o advento deste sistema informatizado, a conferência aduaneira acontecia em duas etapas: a primeira uma conferência documental, responsável por verificar os documentos referentes a importação e benefícios fiscais pleiteados e um segundo momento de conferência física das mercadorias, onde eram quantificadas e realizada a classificação fiscal das mercadorias. Com a implantação do SiscomexImportação foram criados canais de conferência aduaneira. Inicialmente, foram definidos 3 (três) canais de conferência: o canal vermelho com a conferência física e documental das mercadorias, o canal amarelo que determinava somente a conferência documental e o canal verde onde a carga era liberada sem conferência fiscal. Fl. 1717DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 35 34 Posteriormente, foi criado o canal de conferência cinza, que determinava a conferência documental, física e ainda procedimentos referentes a valoração aduaneira. A Instrução Normativa SRF 69/96, no seu art. 19 disciplinava os procedimentos a serem adotados para os diferentes canais de conferência. Art. 19. Após o registro da declaração de importação, a mesma será submetida a procedimento de seleção para controle do valor aduaneiro, por meio do SISCOMEX, de acordo com critério previamente estabelecido pela CoordenaçãoGeral do Sistema Aduaneiro COANA. (Redação dada pela IN SRF n º 111/98, de 17/09/1998 ) (Vide art. 6 º , da IN SRF n º 111/98) § 1º Na hipótese de seleção para controle do valor aduaneiro, a declaração será conduzida para o canal cinza de conferência aduaneira, pelo qual o desembaraço somente será realizado após o exame documental, a verificação da mercadoria e o exame preliminar do valor aduaneiro e desde que observados os demais requisitos estabelecidos na norma específica. (Redação dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) § 2º Caso não ocorra a situação prevista no parágrafo anterior, a declaração será selecionada para um dos demais canais de conferência aduaneira, conforme segue: (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) I verde, pelo qual o sistema registrará o desembaraço automático da mercadoria, dispensados o exame documental e a verificação da mercadoria; (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) II amarelo, pelo qual será realizado o exame documental, e, não sendo constatada irregularidade, efetuado o desembaraço aduaneiro, dispensada a verificação da mercadoria; ou (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) III vermelho, pelo qual a mercadoria somente será desembaraçada após a realização do exame documental e da verificação da mercadoria. (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) § 3º Para os efeitos deste artigo, entendese por: (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) I exame documental, o procedimento destinado a constatar: (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) a integridade dos documentos apresentados; (Incluída dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) a exatidão e correspondência das informações prestadas na declaração em relação àquelas constantes dos documentos que a instruem; (Incluída dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) o cumprimento dos requisitos de ordem legal ou regulamentar correspondentes aos regimes aduaneiro e de tributação solicitados; (Incluída dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998) o cumprimento de formalidades Fl. 1718DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 36 35 referentes a mercadoria sujeita a controle especial; e (Incluída dada pela IN SRF nº 16/98, de 16/02/1998) (Revogada pela IN SRF n º 114/98, de 24/09/1998 ) (Vide art. 7 º da IN SRF n º 114/98) o mérito de benefício fiscal pleiteado. (Incluída dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) II verificação da mercadoria, o procedimento destinado a identificar e quantificar a mercadoria, bem como a determinar sua origem e classificação fiscal; e (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) III exame preliminar do valor aduaneiro, o procedimento destinado a verificar a existência dos documentos justificativos do valor aduaneiro declarado e a correspondência das informações neles contidas com aquelas prestadas na declaração de importação e na declaração de valor aduaneiro. (Incluído dada pela IN SRF n º 16/98, de 16/02/1998 ) O inciso II do parágrafo único do art. 19, esclarece que a verificação da mercadoria selecionada para o canal vermelho é destinada a identificar e quantificar a mercadoria, bem como determinar sua origem e classificação fiscal. Por este artigo fica claro que caberia a Fiscalização quando da conferências aduaneira das importações selecionadas para o canal vermelho determinar a classificação da mercadoria. Segundo as informações do recurso, para as mercadorias constantes destas Declarações de Importação, foram mantidas as classificação no código 90.13.80.10. Além deste fato, as soluções de consulta exaradas pela Receita Federal deixam cristalino o entendimento adotada pela Administração Tributária quanto a classificação a ser adotada pela recorrente para as telas de LCD. Não há como negar que a administração confirmou a classificação fiscal adotada nas Declarações de Importação. Sem dúvida a administração é soberana para a qualquer tempo rever a posição adotada e neste casso especifico entendeu reclassificar as mercadorias para o código 90.13.80.10 em procedimento de revisão aduaneira. Não vislumbro nenhum problema ou questionamento quanto a legalidade da reclassificação realizada pela Autoridade Aduaneira, entretanto, não se pode negar o fato da recorrente ter orientação quanto a classificação das telas de LCD, no código 90.13.80.10, diferentes despachos de importação, confirmada a classificação que vinha sendo adotada. Não há como exigir um procedimento diferente da recorrente que não fosse permanecer utilizando a classificação já adotada nestes despachos nas suas próximas declarações de importação. Situação que foi alterada a partir de novo posicionamento da Receita Federal por ato da COANA que mudou o entendimento anterior externados nos despachos aduaneiros e nas soluções de consulta das Regiões Fiscais da RFB, passando a adotar o código Fl. 1719DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 37 36 90.13.80.10 para as telas de LCD. Entendo, que após ser realizada a reclassificação das mercadorias no procedimento de revisão aduaneira, eventuais diferenças de tributos deverão ser exigidos por meio de lançamento, entretanto, resta a discussão sobre a aplicação de penalidades. O Código Tributário Nacional, resguarda o contribuinte, quando age de acordo com orientação da Administração Tributária, a não ser sofrer a aplicação de penalidade, nos termos previstos no seu art. 100, inciso III e Parágrafo Único. Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo." Considerando a existência de soluções de consulta da RFB e de diversos despachos de importação selecionados para canais de conferência, onde foram confirmadas as classificações adotadas pela recorrente, entendo que a classificação adotada pela recorrente ocorreu diante de diversas práticas reiteradas da Administração Tributária, assim não são exigíveis as penalidades e a cobrança de juros nos termos previstos no art. 100, III, parágrafo único do CTN. Diante de todo o exposto, voto por dar parcial provimento ao Recurso de Ofício, retornando a exigência dos valores cancelados a título de Imposto de Importação referentes às declarações de importação registradas em 24 e 25/05/2007, e mantendo o cancelamento dos demais valores; e por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, cancelando a exigência em relação aos débitos abarcados pelo benefício da suspensão do IPI e aos débitos decorrentes da inclusão do valor do ICMS da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep – Importação e Cofins – Importação, as penalidades e a cobrança de juros, mantendose os demais valores exigidos." Por fim, mas não menos importante, segue transcrita a minha declaração de voto no mencionado precedente, com as razões, fatos e fundamentos que solucionam a lide, a meu ver, as quais adoto também nesta declaração de voto, conforme segue: "Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Fl. 1720DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 38 37 Nesta Declaração de Voto expresso entendimentos divergentes do nobre colega Relator em questões de mérito, situação que prejudica neste momento a discussão das demais questões. Meu entendimento é convergente com julgamento anterior deste próprio Conselho, que reconheceu como correta a classificação da NCM 90.13.80.10 para os Dispositivos de Cristais Líquidos LCD, para o mesmo contribuinte ora parte no presente procedimento administrativo. O contribuinte classificou corretamente as mercadorias importadas na Nomenclatura Comum do Mercosul NCM Dispositivos de Cristais Líquidos LCD 9013.80.10 (Classificação nas Declarações de Importação de 20 de Maio de 2007 a 31 de Dezembro de 2011). O único fundamento do Auto de Infração é a suposição de erro na classificação fiscal. Consequentemente a fiscalização imputou a multa de 1% sobre o valor aduaneiro e lançou as diferenças de alíquotas dos Impostos de Produtos Industrializados IPI, de Importação II, PIS e COFINS, correspondentes às NCM's que a fiscalização entendeu como corretas (NCM 8529.90.20, NCM 8517.70.99 e NCM 8531.20.00). Apesar da questão da suspensão do IPI não alterar a linha de motivação e nem a conclusão da presente declaração de voto, aqui é importante reproduzir a declaração de voto constante na Decisão da DRJ de São Paulo, que reconheceu a suspensão do IPI a partir de junho de 2009, conforme Art. 11, IN 948/2009. No estudo dos autos verificase que este fato pode ter atraído a atenção do agente fiscal, situação que pode ter motivado o início da fiscalização. Segue declaração mencionada: "Declaração de Voto Salvo melhor juízo, tenho entendimento divergente ao do relator apenas em relação à exigibilidade dos créditos de IPI relativos a mercadorias importadas sob o regime de suspensão do art. 29, §1º, inciso I, “c” da Lei nº 10.637/02, regulamentado art. 11, inciso II da Instrução Normativa RFB nº 948/09. É fato incontroverso tanto para a fiscalização como para a impugnante que os bens importados em questão enquadravamse na hipótese de suspensão acima citada. Logo, não há que se cogitar da exigência tributária do IPI no momento da ocorrência do fato gerador na importação, qual seja, o registro da respectiva declaração de importação. A eventual resolução da suspensão do IPI depende da apuração individual de cada venda no mercado interno de bens contendo tais insumos importados, visto que é neste segundo momento que o tributo volta a ser exigível, apurandose concomitantemente o efetivo recolhimento porventura já realizado pela empresa em cada operação. Fl. 1721DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 39 38 A fiscalização não respeitou tal exigência, presumindo os recolhimentos nas vendas ao mercado interno e considerando o IPI exigível desde a data de registro das importações. Dessa forma, entendo incabível o lançamento realizado em relação a essas importações alcançadas pela suspensão do IPI." Ainda que não seja fato controverso a identificação da mercadoria, Dispositivos de Cristais Líquidos LCD, a fiscalização obrigou o contribuinte a identificar cada item importado de acordo com uma possível aplicação futura, de acordo com o P/N utilizado para os controles de produção e estoques. Apesar de haver múltiplas e simultâneas possibilidades de aplicações futuras dos produtos importados, o contribuinte teve de respeitar a intimação e respondeu de acordo com a planilha dos Anexos I e VIII da intimação 2012000140, restringindo essas possíveis aplicações futuras. Foi de acordo com esta planilha que a fiscalização decidiu que a NCM utilizada pelo contribuinte não era suficiente para atender a todas as exigências regulamentares. Discordo de como procedeu a fiscalização e da conclusão desta, pois correta a classificação utilizada pelo contribuinte. É incontestável que a classificação da mercadoria, primeiro, deve ser baseada nas características do produto no momento do despacho aduaneiro, independentemente de sua futura possível utilização. Fisco encaixou em subitens de posições de NCM's, como se fossem mais específicas. Oneroso e burocrático auferir de forma clara, concisa e legal todas as possíveis futuras aplicações da mercadoria importada no momento do despacho aduaneiro. Logo, a fiscalização decidiu restringir e de forma arbitrária a classificação. Apesar de haver uma projeção do contribuinte em seu plano de negócios da aplicação futura das mercadorias importadas, os negócios industriais têm estruturas dinâmicas, "orgânicas" e devem acompanhar e atender a oferta e procura, o que pode alterar de imediato a projeção da utilização futura das mercadorias importadas. Entendo que a fiscalização deixou de considerar o Regulamento Aduaneiro nos seus Artigos 72, 73 e 94 que positivaram essa garantia jurídica, da classificação da mercadoria de acordo com suas características no momento do despacho aduaneiro. Com relação ao entendimento minucioso da aplicação ou não da NCM 9013.80.10, basta observar a Regra Geral n.º 1 para interpretação do sistema harmonizado e concluir que esta NCM é a correta para a mercadoria importada. Regra 1: " Os títulos das seções, capítulos e subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das notas se seção e de capítulo [...]" Fl. 1722DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 40 39 Vejamos o texto da posição 90.13 "Dispositivo de Cristal Líquido LCD" na posição específica 80.10 "quaisquer que sejam as máquinas, aparelhos ou instrumentos a que se destinem". É evidente que a mercadoria é um artefato da posição 90.13, identificada logo pelo texto e de acordo com RG 1, para "quaisquer que sejam as máquinas, aparelhos ou instrumentos a que se destinem". Ainda que já solucionado pela RG1, uma vez que o texto é adequado em sua posição e não em subposições como nos casos das NCM 8529.90.20, NCM 8517.70.99 e NCM 8531.20.00, em que o texto da posição não está de acordo com a mercadoria importada. Não se observaria a Regra Geral n.º 1 do Sistema Harmonizado se classificarmos a mercadoria nos textos: NCM 8517 “Aparelhos Telefônicos, incluídos os telefones para redescelulares e para outras redes sem fio; outros aparelhos [...]”. NCM 8529 – “Partes reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinadas aos aparelhos das posições 85.25 a 85.28”. NCM 8531 – Aparelhos elétricos de sinalização acústica ou visual (por exemplo, campainhas, sirenes [...]”. Se observarmos a Regra Geral n.º 3, na remota hipótese da situação não ter solucionado com a Regra Geral n.º 1, essa também elege a posição 90.13 como a correta pois é mais específica tanto no item quanto no subitem, de acordo com a Nota 2.a, Capítulo 90 da Notas Explicativas do Sistema Harmonizado NESH. É exatamente o que foi decidido no Acórdão definitivo deste Conselho, Acórdão de n.º 30333.326, de 12 de julho de 2006, com relação ao próprio contribuinte, que reconheceu o direito de aplicar aos Dispositivos de Cristal Líquido LCD a NCM 9013.80.10. Para reforçar o presente entendimento, a posição da NCM 9013 indica nominalmente um artigo em particular, enquanto que as outras NCM’s apontadas pela fiscalização designam uma família de artigos, o que torna estas classificações da fiscalização menos específicas uma vez que a Nota IV e IV, b, da R.G. n.º 3, expressamente vinculam que a especificidade deve ser analisada conforme a natureza do produto e não conforme sua futura utilização, além de delimitar ser a posição mais específica aquela que nominalmente descreve um artigo em particular e não aquela que aponta uma família de artigos. Não foi considerada na análise da fiscalização a Nota 1, m, da Seção XVI, que abrangem as classificações pretendidas pela autoridade fiscal. O caput da Nota 2 expressamente exclui das suas disposições os casos contemplados pela Nota 1 da Seção XVI. Fl. 1723DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 41 40 A análise desta Nota confirma a classificação adotada pelo contribuinte, pois exclui do seu alcance os “artefatos classificados no capítulo 90”. A fiscalização deixou de observar a vigência dos Ex Tarifários 001 e 002 da posição 8529.90.20 (Resolução CAMEX 84 de Dezembro de 2010). Deixou de observar que as mercadorias tem reconhecida importância no Brasil e por este motivo foram concedidas as exceções à Tarifa Externa Comum, para contemplar sem onerar e impedir o desenvolvimento do setor. Foi nesse sentido que se publicou a resolução CAMEX 84/2010 com os Ex Tarifários, acompanhados de coerência tarifária para os dispositivos de LCD e mantido o mesmo nível tarifário da NCM 9013.80.10. Assim, é temerário concluir que a CAMEX teria classificado os dispositivos somente no subitem 9013.80.10 se esta NCM fosse a correta para o produto. Não há lógica em determinada conclusão uma vez que a NCM 9013.80.10 é também expressa no Anexo I do Decreto e é razão do Ex Tarifário, além de ser prática reiterada no âmbito da administração pública. O texto "Displays de Cristal Líquido" apenas foi inserido na NCM 85.29.90.20, após a redação do Decreto 7.600/11. Anteriormente este texto estava presente somente na NCM 9013, o que configura mudança de critério jurídico, uma clara alteração do critério de classificação anteriormente adotado em múltiplos níveis da administração pública. Vejamos: Não houve reclassificações de outras DI’s da empresa parametrizadas em canal vermelho; Consultas de n.º 98/99 da 8.ª Região DIANA, 31/07 da 10.ª Região e 37/07 da 6.ª Região apontam a NCM 9013.80.10 como a correta classificação para a mercadoria; Decisão Administrativa definitiva que determina a NCM 9013.80.10 neste Conselho, P.A. 10860.000559/200586; IN RFB 740/2007, Art. 3.º, II, vigente à época. O Contribuinte ficou impedido de realizar nova consulta sobre tema já decidido, conforme Art. 52 do Decreto 70.235/72. E não só, ficou vinculado a classificar as mercadorias na NCM 9013.80.10. Declarações de Importação foram incluídas após a lavratura do Auto de infração (fato conhecido na DRJ), erros de cálculo não foram sanados, mas a divergência desta declaração de voto é no mérito e neste, o contribuinte acertou na classificação, inclusive Pareceres e Laudos Técnicos confirmam a natureza técnica do produto e sua direta relação com a NCM utilizada. O contribuinte preencheu as regras gerais e interpretativas, contribuiu para a manutenção das praticas reiteradas e observou Fl. 1724DF CARF MF Processo nº 12266.721279/201198 Acórdão n.º 3201002.509 S3C2T1 Fl. 42 41 as decisões de consulta e deste conselho. Está configurada a característica de normas complementares às práticas reiteradas das autoridades administrativas. Com fundamento em todo o exposto e principalmente nos Artigos 100, 146 e 149 do Código Tributário Nacional, que estabelecem a legalidade das práticas administrativas reiteradamente observadas e protegem o contribuinte das modificações de critério jurídico, não há legitimidade para o lançamento pois é "conditio sine qua non" que o Auto de Infração tenha elementos suficientes para a configuração do fato tributável. Por todo o exposto, por faltar objeto e não restar configurado o suposto "erro de classificação" da mercadoria, diante do vício material insanável que caracteriza o lançamento, voto pela improcedência do Auto de Infração, seu cancelamento integral e consequente cancelamento de todas as penalidades e demais encargos, e seja conhecido e provido o Recurso Voluntário em sua integralidade." Por todo o exposto, com fundamento nos Art. 72, 73 e 94 do Regulamento Aduaneiro de 2009, nos Art. 100, 112, 113, 142, 146 e 149 do CTN e Lei 9.784/99 e Decreto 70.235/72, votase para dar provimento integral ao Recurso Voluntário, no mérito, para cancelar todo o lançamento, multas e juros. Declaração de voto proferida. Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Fl. 1725DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10073.900580/2008-01
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2003 a 10/10/2003
IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO.
Não compete ao CARF afastar a aplicação de norma legal em face da alegação de inconstitucionalidade. A norma do Regulamento do IPI quanto ao Valor Tributável Mínimo tem presunção de legitimidade que não pode ser afastada nessa seara.
Numero da decisão: 3201-002.437
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencido o Conselheiro Cássio Schappo, que dava provimento ao recurso.
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
TATIANA JOSEFOVICZ BELISÁRIO - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente Substituto), Mércia Helena Trajano D'Amorim; Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, José Luiz Feistauer de Oliveira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário e Cássio Schappo.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 13; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1453; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C2T1 Fl. 256 1 255 S3C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10073.900580/200801 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3201002.437 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 25 de janeiro de 2017 Matéria IPI Recorrente PEUGEOTCITROEN DO BRASIL AUTOMOVEIS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2003 a 10/10/2003 IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Não compete ao CARF afastar a aplicação de norma legal em face da alegação de inconstitucionalidade. A norma do Regulamento do IPI quanto ao Valor Tributável Mínimo tem presunção de legitimidade que não pode ser afastada nessa seara. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencido o Conselheiro Cássio Schappo, que dava provimento ao recurso. WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. TATIANA JOSEFOVICZ BELISÁRIO Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente Substituto), Mércia Helena Trajano D'Amorim; Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, José Luiz Feistauer de Oliveira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário e Cássio Schappo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 07 3. 90 05 80 /2 00 8- 01 Fl. 258DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário em face de acórdão proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG), que assim relatou o feito: Trata o presente processo da DCOMP n o 33756.25949.101104.1.3.04 3355; que utilizou como lastro da compensação declarada pagamento indevido do IPI no valor original de R$191.767,77, oriundo de recolhimento efetuado em 20/10/2003, no valor de R$ 191.767,77, relativo ao primeiro decêndio de outubro de 2003. A apuração e o recolhimento são referentes ao estabelecimento 67.405.936/000416. A verificação da legitimidade dos créditos alegados foi efetuada pela unidade de origem, que intimou a contribuinte a identificar e comprovar o crédito oriundo do pagamento indevido do IPI (fls. 38/39). Em atendimento, a contribuinte apresentou os documentos de fls. 41/109, informando, em resumo, que: a) quando de sua chegada ao Brasil, adotou a estratégia de vender veículos a preços inferiores ao valor da importação; b) não obstante, "realizou indevidamente o estorno dos créditos do IPIimportação, proporcionalmente à diferença entre os valores de entrada e saída" (historiados como estornos ref. valor tributável mínimo); c) em razão desses estornos indevidos, apurou e efetuou recolhimentos de valores a maior do IPI, visto não terem sido deduzidos os créditos escriturais pertinentes; d) posteriormente (em 2004), ciente do equívoco cometido, decidiu recuperar os créditos estornados mediante a apresentação de DCOMPs, sem lançálos no RAIPI. A Saort/DRF/Volta Redonda/RJ analisou as informações/documentos apresentados, mas não reconheceu o direito ao crédito. Fundamentou o indeferimento, essencialmente, nas seguintes razões: o procedimento adotado pela interessada, de vender os veículos importados por preço inferior ao custo de aquisição, não encontra respaldo na legislação do IPI (valor tributável mínimo); no tocante ao valor alegado como pagamento indevido, argumentou que a contribuinte não comprovou a redução do valor do saldo devedor do IPI originalmente apurado, única forma de comprovar ter sido indevido o pagamento efetuado (na sua totalidade). Concluiu que o procedimento adotado pela contribuinte não se enquadra na sistemática da restituição de pagamento indevido prevista no artigo 165 do CTN, do que resultou o nãoreconhecimento do direito creditório. Por conseguinte, a compensação declarada resultou não homologada. É o que se extrai do Despacho Decisório de fls. 111/114. Fl. 259DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 257 3 Insurgiuse a interessada contra o indeferimento de seu pleito apresentando manifestação de inconformidade (fls. 126/155). Em preliminar, requereu a nulidade do Despacho Decisório por falta de motivação para o indeferimento do pleito, o que acarretou prejuízo à defesa da Impugnante. No mérito, apresentou as seguintes razões, em apertada síntese: i. suscitou a ilegalidade do artigo 136 do RIPI/2002, que exike) a observância de um valor tributável mínimo, quando confrontado aos artigos 46 e 47 do CTN, que definem a base de cálculo do IPI; ii. que é imperiosa a manutenção dos créditos escriturais, indevidamente estornados, em razão do princípio da não cumulatividade e da capacidade contributiva; iii. que é inequívoca a existência dos estornos indevidamente efetuados, e, por consequência, dos créditos utilizados nas compensações declaradas; iv. ao final, requer a realização de diligência para confirmar o valor dos créditos estornados como ajustes ao valor tributável mínimo, bem como a vinculação desses estornos com a diferença entre os valores de entradas e saídas dos veículos importados. Apesar de a contribuinte ter apresentado alguns documentos em atendimento à intimação da unidade de origem, deixou de apresentar a cópia do RAIPI relativo ao período de apuração para o qual solicitou a restituição (110/2003). O processo foi, então, baixado em diligência por intermédio do despacho de fl. 166. Em atendimento, foi juntado aos autos a cópia do RAIPI solicitada (fls. 173/177). Após apresentação de Manifestação de Inconformidade pelo Contribuinte, o lançamento foi integralmente mantido em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2003 a 10/10/2003 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR QUE O DEVIDO. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Nos termos das disposições do art. 165 do CTN, não há como reconhecer direito creditório informado como pagamento indevido se não restar comprovado que o valor do pagamento do tributo foi superior ao devido em face da legislação tributária aplicável. Eventual inadequação na forma de tributação do imposto, da qual não resulte pagamento em montante superior ao devido, não enseja direito a restituição. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 260DF CARF MF 4 Intimado da referida decisão, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário reiterando os termos da Impugnação. Os autos foram, então, remetidos a este CARF e a mim distribuídos por sorteio. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário O Recurso é próprio e tempestivo e dele tomo conhecimento. Para melhor exame dos fundamentos de recurso, passo a analisar cada um dos tópicos do Recurso Voluntário apresentado. IV — PRELIMINARMENTE IV.1 — DA POSSÍVEL NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO EM FACE DO INDEFERIMENTO DA PERÍCIA CONTÁBIL Inicialmente a Recorrente aduz a nulidade do despacho decisório e do próprio despacho recorrido uma vez que estes indeferiram o pedido de perícia contábil do contribuinte. Todavia, entendo que o indeferimento da prova pericial fundamentouse no fato de que os julgadores entenderam ser desnecessária tal prova ou ainda, indiferente, para a formação de seu convencimento. É certo que, não obstante tal indeferimento, nada impede que estes julgadores (CARF), entendendo que a produção das provas requeridas possam influenciar o presente, requeiram a sua produção, de ofício ou a requerimento das partes. Todavia, nem mesmo tal circunstância seria caracterizadora de nulidade das decisões anteriores, posto que, como visto, o destinatário da prova é o julgador e a este cabe decidir ou não pela conveniência de sua produção. Logo, havendo fundamentação para o indeferimento das provas periciais requeridas, não há falar em nulidade das decisões. Afasto, pois, a preliminar suscitada. IV.2 — DA NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO A Recorrente sustenta a nulidade do despacho decisório por entender ter ocorrido vício na motivação. Entende a contribuinte que os motivos exposto não são suficientes para fundamentar o lançamento. Fl. 261DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 258 5 O "motivo" em questão seria a que a Recorrente "não comprovou a origem dos créditos compensados", expondo com clareza a razão pela qual entendeu não restar comprovada esta origem. Inicialmente ressalto que tratase de Pedido de Restituição de crédito apresentado pelo contribuinte e, portanto, a ele compete o ônus da prova do direito alegado. Assim, não vislumbro ausência de motivação, mas, sim, inconformismo da Recorrente quanto aos fundamentos do lançamento e, portanto, esta deve ser analisada juntamente com o mérito. IV.3 DA GARANTIA LEGAL E O PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL Discorrendo amplamente acerca dos princípios da garantia legal e da verdade material, a Recorrente defende que: O fato de as autoridades fiscais se negarem a verificar as provas que a Recorrente informa serem necessárias à comprovação dos créditos compensados e, ao mesmo tempo, taxarem tais créditos como inexistentes, tornam plenamente nulo o despacho decisório originário e ensejam seu cancelamento, a respeito do que seguemse imperiosas as ponderações no subitem seguinte. Em síntese, aduz a Recorrente que, ainda que a forma de utilização do crédito de IPI por ela apurado não estivesse em conformidade com a normatização vigente, a sua existência é incontestável e, portanto, deveria a Autoridade Fiscal buscar todo e qualquer meio de prova de existência do crédito alegado e não apenas negálo com base nos elementos existentes apenas no momento da autuação. A Recorrente ainda acrescenta que "ao recusarse a restituir crédito efetivamente existente, ainda que através de compensação, a Autoridade Fazendária viola, entre outros, o princípio do enriquecimento sem causa, pois obtém vantagem de cunho econômico em detrimento do contribuinte sem justa fundamentação". Pois bem. Como já manifestado em votos anteriormente proferidos, o Princípio da Verdade Material é bastante caro à esta Turma Julgadora, e especialmente à esta Relatora. Havendo qualquer indício acerca do direito alegado ao contribuinte, deve ser buscada a prova correspondente, devendo o fato e o direito incontestável se sobrepor a eventuais procedimentos, especialmente quanto estes não estejam pautados em lei no sentido estrito. Não obstante, na hipótese concreta dos autos, entendo que a matéria fática é subsidiária em face da matéria de direito efetivamente debatida. A negativa do direito ao crédito não se deu com base em eventual irregularidade de forma ou ausência de comprovação. A negativa é fundada em matéria essencialmente de direito, qual seja a "necessidade de observância do valor tributável mínimo (impossibilidade de "comercializar" por preço inferior ao custo de aquisição". Fl. 262DF CARF MF 6 Ainda que a Autoridade Fiscal tenha acrescentado às razões de indeferimento o fato de que o valor pleiteado não teria sido comprovado "segundo normas atinentes a pedidos de restituição", entendo que não é esta a fundamentação essencial para o indeferimento. À evidência, acaso superada a questão de direito nesta instância julgadora, caberá, dentro dos princípios da verdade material e do devido processo legal, perquirir acerca das provas existentes e de eventual perícia contábil. Não obstante, tal circunstância não macula de nulidade a decisão recorrida, posto que sua fundamentação encontrase coerente com o entendimento de direito nela firmado, entendimento está sendo colocado sob revisão por esta Turma Julgadora, nos termos do Recurso Voluntário interposto pela parte. Pelo exposto, rejeito a preliminar de nulidade aventada quanto à violação ao princípio da verdade material. IV.4 — DA NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO POR FALTA DE MOTIVAÇÃO E DE FUNDAMENTO FÁTICO Nesse tópico preliminar a Recorrente, com a devida vênia, apresenta fundamentos genéricos (ainda que jurídicos e sólidos) acerca da nulidade do Despacho Decisório por suposta ausência de motivação e fundamento fático. Em síntese, aduz: Resta patente que não há elementos suficientes para se determinar a razão que deu ensejo à exigência fiscal em comento, visto ser impossível extrair os reais motivos que suportam a decisão fazendária, sendo inviável a Recorrente se defender da exigência que ora lhe é imposta, em flagrante ofensa aos princípios da ampla defesa e do contraditório, previstos no art. 50, inciso LV, da CF. As afirmações de que a Recorrente não comprovou a origem dos créditos compensados não se afigura como fundamento suficiente para denegação da compensação, pois a Recorrente esclareceu que a comprovação do crédito dependia de diligência, mas esta somente não pode ser realizada porque as autoridades fiscais as julgaram despiciendas. Verificase, por conseguinte, a contradição patente no arrazoado das autoridades fiscais e a inexistência dos pressupostos de fato que ensejam a não homologação vergastada, do que decorre a falta de motivação, o cerceamento do direito de defesa da Recorrente e, assim, a nulidade do despacho decisório impugnado. Com a devida vênia, na hipótese dos autos não vislumbro a nulidade apontada. O Auto de Infração apresentou de forma clara os fatos e fundamentos pelos quais indeferiu o crédito pleiteado pelo contribuinte, possibilitandolhe amplamente sua defesa. Os "os reais motivos que suportam a decisão fazendária" foram devidamente apresentados: inobservância, pela Recorrente, do Valor Tributável Mínimo do IPI. Fl. 263DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 259 7 Quanto à alegação de que "a comprovação do crédito dependia de diligência, mas esta somente não pode ser realizada porque as autoridades fiscais as julgaram despiciendas", como já exposto anteriormente, tenho que, por ser a decisão recorrida fundamentada essencialmente em matéria de direito, não há qualquer nulidade no indeferimento da perícia contábil. O inconformismo da Recorrente quanto à fundamentação utilizada pela DRJ deve e será objeto de análise por esta Turma Julgadora quando do exame do mérito da demanda. Pelo exposto, afasto também esta preliminar de nulidade. V — DO MÉRITO V.1 — DA ILEGALIDADE DA BASE DE CÁLCULO MÍNIMA DO IPI Nesse tópico a Recorrente se dedica a questionar a legalidade da base de cálculo mínima do IPI, prevista na legislação de regência, que é, exatamente, o ponto nevrálgico da presente lide. A Recorrente defende que o art. 136 do Regulamento do IPI RIPI (Decreto nº 4.544/02 estabelece uma base de cálculo distinta daquela prevista nos arts. 46 e 47 do CTN. O referido art. 136 do então vigente RIPI/02 assim dispunha quanto ao Valor Tributável Mínimo do IPI: Art. 136. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e Decretolei nº 34, de 1966, art. 2º, alteração 5ª); II a noventa por cento do preço de venda aos consumidores, não inferior ao previsto no inciso I, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso II, e Lei nº 9.532, de 1997, art. 37, inciso III); III ao custo de fabricação do produto, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, no caso de produtos saídos do estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso III, e Decretolei nº 1.593, de 1977, art. 28); Fl. 264DF CARF MF 8 IV a setenta por cento do preço da venda a consumidor no estabelecimento moageiro, nas remessas de café torrado a comerciante varejista que possua atividade acessória de moagem (Decretolei nº 400, de 1968, art. 8º). § 1º No caso do inciso II, sempre que o estabelecimento varejista vender o produto por preço superior ao que haja servido à determinação do valor tributável, será este reajustado com base no preço real de venda, o qual, acompanhado da respectiva demonstração, será comunicado ao remetente, até o último dia do período de apuração subseqüente ao da ocorrência do fato, para efeito de lançamento e recolhimento do imposto sobre a diferença verificada. § 2º No caso do inciso III, o preço de revenda do produto pelo comerciante autônomo, ambulante ou não, indicado pelo estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, não poderá ser superior ao preço de aquisição acrescido dos tributos incidentes por ocasião da aquisição e da revenda do produto, e da margem de lucro normal nas operações de revenda. O art. 137 do mesmo RIPI, aplicável à hipótese dos autos por se tratar de produto importado, assim dispunha: Art. 137. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 136, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, vigorastes no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: I no caso de produto importado, o valor que serviu de base ao Imposto de Importação, acrescido desse tributo e demais elementos componentes do custo do produto, inclusive a margem de lucro normal; e II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. De acordo com a argumentação desenvolvida pela Recorrente, o Valor Tributável Mínimo (seja qualquer um dos critérios previstos nos dispositivos acima) estaria em desacordo com os artigos 46 e 47 do CTN quanto à definição de fato gerador e, especialmente, base de cálculo do IPI: Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: I o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; Fl. 265DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 260 9 III a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a natureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo. Art. 47. A base de cálculo do imposto é: I no caso do inciso I do artigo anterior, o preço normal, como definido no inciso II do artigo 20, acrescido do montante: a) do imposto sobre a importação; b) das taxas exigidas para entrada do produto no País; c) dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; II no caso do inciso II do artigo anterior: a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente; III no caso do inciso III do artigo anterior, o preço da arrematação. Na hipótese, é preciso salientar, não há controvérsia quanto ao fato de que a recorrente promoveu a saída de veículos importados de seu estoque em valor inferior ao da importação, sendo esta a diferença de IPI que pleiteia. Ou seja, o contribuinte requer que a base de cálculo do IPI na saída seja equivalente ao valor efetivo da operação, enquanto a Fiscalização entende que o valor desta operação de saída não pode ser inferior ao da sua entrada, para fins de base de cálculo do imposto. Assim, é preciso perquirir se a forma de apuração da base de cálculo do IPI previstas nos artigos 136 e 137 do RIPI/02 estão ou não em conformidade com os artigos 46 e 47 do CTN, especialmente o art. 47, inciso II, alíneas 'a' e 'b'. Para tanto, é essencial que se tenha assinalada a forma de composição da base de cálculo utilizada pela Recorrente relativamente aos fatos geradores ora examinados. Confirase o esclarecimento prestado às fl. 42/43 dos autos: Quando de 'sua chegada ao Brasil; a ' Requerente importava' veículos de sua matriz francesa para revendêlos no mercado nacional e, devido às circunstâncias, buscava divulgar sua marca no mercado nacional e conquistar novos consumidores. Em razão disso, adotou a estratégia de comercializar seus Fl. 266DF CARF MF 10 veículos importados a valores inferiores àqueles praticados quando da importação, de modo a possibilitar um preço ao menos competitivo com os veículos de outras marcas já comercializados no país. Em resumo, a Requerente vendia veículos a preços inferiores ao valor da importação, arcando com o ônus financeiro desta operação, certa de que esse prejuízo econômico imediato seria compensado pelas vantagens comerciais a serem colhidas a médio e longo prazos. A Autoridade Tributária, a seu turno, entendeu que a Recorrente não poderia ter utilizado como base de cálculo o valor da operação de saída, mas que deveria ter adotado o Valor Tributável Mínimo previsto no RIPI/02: De outra parte, o regulamento do IPI estabelece um valor tributável mínimo, que, no caso em questão, não deve ser inferior (RIPI, art. 136): I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinada a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; II a noventa por cento do preço de venda aos consumidores, não inferior ao previsto no inciso I, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, tomarseá por base de cálculo (RIPI, art. 137, parágrafo único): I no caso de produto importado, o valor que serviu de base ao Imposto de Importação, acrescido desse tributo e demais elementos componentes do custo do produto, inclusive a margem de lucro normal; e II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. A matéria não é nova e já foi objeto de inúmeras decisões proferidas por este CARF. Cito, inicialmente, trecho de voto do Relator Jean Cleuter Simões Mendonça no Processo nº 17878.000139/200983, Acórdão nº 3401002.885, Sessão de 24 de fevereiro de 2015 : A delegacia de origem aplicou a legislação do IPI pertinente à base de cálculo e concluiu que a venda de veículos por um valor inferior ao custo de aquisição não encontra amparo na legislação do IPI. A DRJ interpretou o entendimento da delegacia de origem no sentido de que, na verdade, o que se quis dizer é que a Contribuinte não poderia tributar os veículos na venda em um valor menor que o tributado na aquisição. Como a Fl. 267DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 261 11 Recorrente não refutou essa afirmação, a acolho como incontroversa. Sendo assim, cabe apreciar a base de cálculo mínima. A Recorrente alega que o art. 47, do CTN, determina que a base de cálculo do IPI deve ser o valor da efetiva operação e que o valor tributável mínimo é ilegal, por ser determinado pelo decreto que regulamento o IPI, norma inferior ao CTN. Em primeiro lugar, cabe destacar que a previsão do valor tributável mínimo no RIPI 2002 (Decreto nº 4.544/02), vigente na época dos fatos objetos deste processo, tinha base na Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, mas que permanece vigente. Vejamos o que diz o art. 15, da Lei nº 4.502/64: “Art . 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto fôr remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro incluído no artigo 42 e seu parágrafo único; (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) II a 90% (noventa por cento) do preço de venda aos consumidores, não inferior ao previsto no inciso anterior, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo.; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) III ao custo do produto, acrescido das margens de lucro normal da empresa fabricante e do revendedor e, ainda, das demais parcelas que deverão ser adicionadas ao preço da operação, no caso de produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”. Desse modo, o valor tributável mínimo, previsto no Decreto nº 4.544/02 (RIPI/2002) tem base legal. Afastar a legalidade do VTM em razão do CTN, dependeria de uma análise constitucional da hierarquia das leis, o que não é permitido em decorrência da Súmula nº 2, do CARF, que assim disciplina: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. Desse modo, para fins de julgamento administrativo, a VTM deve ser mantido, haja vista ter base em lei vigente. Como, em resumo, o que a Recorrente pretende é o ressarcimento da diferença recolhida com base no VTM, sob premissa de que nada deveria recolher por ter vendido os veículos a um custo menor que o da aquisição/importação, o direito não lhe ampara e o pleito deve ser indeferido. Fl. 268DF CARF MF 12 Como a questão foi dirimida na análise da matéria de Direito e é incontroverso que os documentos fiscais obrigatórios não apresentam crédito em favor da Recorrente, é inócua a realização de diligência, motivo pelo qual é indeferida. Ex positis, nego provimento ao recuso voluntário interposto. (destaques pela Relatora) Embora a tese defendida pela Recorrente no sentido de que a base de cálculo do IPI deve corresponder ao valor da operação efetivamente praticada possa ser relevante e juridicamente defensável, ressalto as limitações impostas a este órgão julgador Com efeito, nos termos do art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, este Conselho está vedado de afastar a aplicação do de lei ou decreto: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Desse modo, adotando os fundamentos acima como razão de decidir, nego provimento ao Recurso Voluntário quanto ao mérito. V.2 — DA IMPERIOSA MANUTENÇÃO DOS CRÉDITOS ESCRITURAIS EM RAZÃO DO PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE E DA CAPACIDADE CONTRIBUTIVA A Recorrente traz sólida argumentação acerca da violação aos Princípios da Não Cumulatividade e da Capacidade Contributiva. Não obstante, diante das limitações impostas à este órgão julgador (art. 62 do Anexo II do RICARF), não merece acolhida o Recurso nesse ponto. V.3 — DA INEQUÍVOCA EXISTÊNCIA DOS CRÉDITOS ESTORNADOS E DOS CRÉDITOS COMPENSADOS Os argumentos expostos nesse tópico do Recurso dizem respeito à forma de apropriação dos créditos de IPI por parte da recorrente. Todavia, como exposto, a negativa ao reconhecimento do crédito decorre de questão exclusivamente de direito. Inexistindo o reconhecimento do direito ao crédito pleiteado, se torna irrelevante a forma de apuração adotada. Assim, nego provimento nesse aspecto. Fl. 269DF CARF MF Processo nº 10073.900580/200801 Acórdão n.º 3201002.437 S3C2T1 Fl. 262 13 IV. DA PERÍCIA CONTÁBIL A Recorrente postula pela realização de prova pericial tendente, justamente, a comprovar a existência dos créditos apropriados em livro fiscal. Contudo, tendo em vista que o presente feito se decide por aspecto exclusivamente de direito, conforme exposto em tópico precedente, tornase inócua a produção de prova pericial. Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário do Contribuinte em razão da impossibilidade de se afastar, na esfera do contencioso administrativo, a legalidade da cobrança do Valor Tributável Mínimo previsto no Regulamento do IPI. É como voto. Tatiana Josefovicz Belisário Relatora Fl. 270DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13688.000012/2007-89
Turma: Terceira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 26 00:00:00 UTC 2011
Ementa: SSISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E
CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO
PORTE SIMPLES
Data do fato gerador: 12/05/2006
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. MULTA POR ATRASO DSPJ.
Improcedente a aplicação de penalidade por obrigação acessória, enquanto pendente a discussão acerca do regime de tributação a que estava sujeita a pessoa jurídica e impossível o seu cumprimento por restrição imposta pelos sistemas do sujeito ativo da relação jurídico-tributária.
Numero da decisão: 1803-000.900
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar
provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. O conselheiro Sérgio Rodrigues Mendes votou pelas conclusões.
Matéria: IRPJ - multa por atraso na entrega da DIPJ
Nome do relator: Walter Adolfo Maresch
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ementa_s : SSISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Data do fato gerador: 12/05/2006 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. MULTA POR ATRASO DSPJ. Improcedente a aplicação de penalidade por obrigação acessória, enquanto pendente a discussão acerca do regime de tributação a que estava sujeita a pessoa jurídica e impossível o seu cumprimento por restrição imposta pelos sistemas do sujeito ativo da relação jurídico-tributária.
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MULTA POR ATRASO DSPJ. Improcedente a aplicação de penalidade por obrigação acessória, enquanto pendente a discussão acerca do regime de tributação a que estava sujeita a pessoa jurídica e impossível o seu cumprimento por restrição imposta pelos sistemas do sujeito ativo da relação jurídicotributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. O conselheiro Sérgio Rodrigues Mendes votou pelas conclusões. (assinado digitalmente) Selene Ferreira de Moraes Presidente. (assinado digitalmente) Walter Adolfo Maresch Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Selene Ferreira de Moraes (Presidente), Sérgio Rodrigues Mendes, Walter Adolfo Maresch, Sérgio Luiz Bezerra Presta, Meigan Sack Rodrigues e Victor Humberto da Silva Maizman. Fl. 56DF CARF MF Emitido em 07/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 07/06/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 13688.000012/200789 Acórdão n.º 180300.900 S1TE03 Fl. 53 2 Relatório IOLANDA MARIA PEREIRA ME, pessoa jurídica já qualificada nestes autos, inconformada com a decisão proferida pela DRJ JUIZ DE FORA (MG), interpõe recurso voluntário a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, objetivando a reforma da decisão. Adoto o relatório da DRJ por bem retratar os fatos. Trata o presente processo de auto de infração para exigência de multa por atraso na entrega da DSPJ do anocalendário de 2003, da empresa supra, no valor de R$ 200,00. Notificada do lançamento, a interessada apresentou impugnação, alegando que a entrega em atraso foi motivada por sua exclusão indevida do Simples. Assim que foi restabelecida sua condição de optante pelo Simples por despacho decisório, com efeito retroativo, realizou a entrega da DSPJ. Durante a discussão administrativa ficou impedida de apresentar declaração pela internet no Simples. A DRJ JUIZ DE FORA/MG, através do acórdão 0923.178, de 01 de abril de 2009 (fls. 38/40), julgou procedente o lançamento, ementando assim a decisão: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2003 MULTA POR ATRASO. DSPJ. É devida a multa por atraso na entrega da DSPJ quando provado que sua entrega se deu após o prazo fixado na legislação. Ciente da decisão em 13/04/2009, conforme Aviso de Recebimento – AR (fl. 43), apresentou o recurso voluntário em 12/05/2009 fl. 44, onde reitera os argumentos da inicial de que é improcedente a exigência pois estava impossibilitado de efetuar a entrega tempestiva da DSPJ enquanto discutia o mérito da exclusão. É o relatório. Fl. 57DF CARF MF Emitido em 07/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 07/06/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 13688.000012/200789 Acórdão n.º 180300.900 S1TE03 Fl. 54 3 Voto Conselheiro Walter Adolfo Maresch O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais para sua admissibilidade, dele conheço. Trata o presente processo de multa por atraso na entrega da Declaração Simplificada de Pessoa Jurídica – DSPJ, relativa ao ano calendário 2003, entregue em 12/05/2006 e cujo prazo de entrega ocorreu em 31/05/2004. Alega a recorrente em síntese: a) Que foi excluída indevidamente do SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96), por suposto débito inscrito em Dívida Ativa da União, cuja improcedência foi reconhecida pela própria Secretaria da Receita Federal; b) Que durante o período em que tramitou o pedido de revisão da exclusão, ficou impedida de efetuar a entrega da DSPJ, revelandose temerária a entrega de outro tipo de declaração que acabaria gerando a obrigação da entrega de DCTF e novos gravames e cobranças indevidas para a empresa. Assiste razão à interessada. Conforme entendimento majoritário desta turma julgadora, o fato gerador da obrigação acessória no SIMPLES é nos termos dos artigos 115, 116 e 117 do CTN derivado do Ato de exclusão do SIMPLES. Assim enquanto não for definitiva a exclusão ou a manutenção na sistemática do SIMPLES, não está constituída a situação jurídica definidora de qual o regime de tributação estará sujeita a pessoa jurídica, ficando indefinida qual a obrigação acessória deverá efetivamente cumprir. Se a lei dá à pessoa jurídica o direito de ampla defesa contra o Ato Declaratório de Exclusão do SIMPLES, suspendendo temporariamente seus efeitos, deve a contribuinte poder continuar a apurar e recolher seus tributos bem como cumprir suas obrigações acessórias de acordo com esta sistemática. No entanto, não foi o que ocorreu conforme se observa dos elementos constantes do processo. Com efeito, conforme requerimento às fls. 11 formulado pela empresa em 31/05/2004 (prazo de vencimento normal para a entrega do AC 2003), não foi possível a entrega da DSPJ via internet, ficando obstaculizado o cumprimento regular da obrigação acessória exigida pela sistemática do SIMPLES. Fl. 58DF CARF MF Emitido em 07/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 07/06/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 13688.000012/200789 Acórdão n.º 180300.900 S1TE03 Fl. 55 4 Impor à contribuinte a obrigação acessória de entrega de outro tipo de declaração que atrairia por sua vez a obrigação de entrega de DCTF contendo a declaração de tributos inexistentes parece surreal e ilógico. Como ficou comprovado às fls. 04/05, a exclusão da contribuinte foi indevida e corretamente invalidada pela Administração Tributária conforme despacho de 10/04/2006, tendo em conseqüência sido alterada a Ficha Cadastral do CNPJ – FCPJ, possibilitando somente então a entrega da DSPJ por parte do contribuinte. Afigurase assim despida de razoabilidade a exigência de impor uma sanção por descumprimento de obrigação acessória enquanto era impossível o seu cumprimento. Ante o exposto, voto para dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Walter Adolfo Maresch Relator Fl. 59DF CARF MF Emitido em 07/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 07/06/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 03/06/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH
score : 1.0
Numero do processo: 11060.002038/2009-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2007, 2008
BOLSAS DE ESTUDO. ISENÇÃO. REQUISITOS.
Somente são isentas do imposto de renda as bolsas caracterizadas como doação quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos, pesquisas ou extensão e desde que os resultados dessas atividades não representem vantagem para o doador, nem importem contraprestação de serviços.
Numero da decisão: 2402-005.762
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Kleber Ferreira de Araújo - Presidente
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2005, 2007, 2008 BOLSAS DE ESTUDO. ISENÇÃO. REQUISITOS. Somente são isentas do imposto de renda as bolsas caracterizadas como doação quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos, pesquisas ou extensão e desde que os resultados dessas atividades não representem vantagem para o doador, nem importem contraprestação de serviços.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo - Presidente (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
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ISENÇÃO. REQUISITOS. Somente são isentas do imposto de renda as bolsas caracterizadas como doação quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos, pesquisas ou extensão e desde que os resultados dessas atividades não representem vantagem para o doador, nem importem contraprestação de serviços. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 0. 00 20 38 /2 00 9- 75 Fl. 1497DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo Presidente (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 1498DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Porto Alegre – DRJ/POA (fls. 1.048/1060), que julgou improcedente impugnação apresentada em face de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF, relativo ao anoscalendário 2004, 2006 e 2007 / exercícios 2005, 2007 e 2008, o qual resultou na exigência de crédito tributário no valor de R$ 20.220,96, sendo R$ 9.363,75 de imposto; R$ 7.022,81, de multa proporcional; e R$ 3.834,40, de juros de mora calculados até 31/07/2009. Consta do Auto de Infração (fls. 90/93) que o procedimento fiscal teve como escopo a apuração da apuração de classificação indevida rendimentos na Declaração de Imposto de Renda de Pessoa Física. Impugnação Por bem retratar as alegações trazidas pelo contribuinte na peça impugnatória, reproduzemse os trechos correspondente do Acórdão nº 1029.376, da 4ª Turma da DRJ/POA: Tempestivamente, o interessado apresenta a impugnação da exigência às fls. 73 a 98. Suas alegações estão, em síntese, a seguir descritas. Lançamento, contra o contribuinte, de juros de mora já lançados contra a FATEC, bis in idem tributário. A Auditoria lançou, a débito do Contribuinte, juros de mora calculados pela taxa Selic incidentes sobre o Imposto de Renda lançado com base nas bolsas recebidas. Ocorre que, recentemente, juros de mora incidentes sobre a mesma base de cálculo, qual seja, Imposto de Renda da Pessoa Física, foram lançados contra a Fundação de Apoio á Tecnologia e Ciência. Os juros foram lançados contra a FATEC, juntamente com multa, em razão da falta de recolhimento do IR na fonte. Apesar de se tratar de um título de recolhimento diferente, eventualmente sob uma alíquota diferente, é óbvio que tratase do mesmo imposto que está sendo cobrado da contribuinte, sobre o mesmo fato gerador; logo, sendo idêntica a natureza do principal, idêntica é a natureza do acessório. Transcreve o disposto no art. 4º do CTN. Pelo exposto, requer a decretação da nulidade do Auto de Infração. Boafé. Uso arraigado da isenção nas fundações. Fiscalização dentro do período que não apontou irregularidade. Fl. 1499DF CARF MF 4 Basicamente, o AFRFB encarregado do cumprimento do MPF apresentou, como motivo para o Lançamento de Ofício, a acusação de que o Contribuinte teria apresentado, nos anos base afetados, "declaração inexata", fundamentando a opção no art. 841, III do RIR/99. No caso, a "inexatidão" consistiria em "classificação indevida de rendimentos na DIRPF", consubstanciada pela declaração, na qualidade de rendimento isento, de bolsas recebidas pelo contribuinte no período afetado. Ocorre que o contribuinte, ao classificar suas bolsas como rendimento nãotributável, não errou nem agiu de máfé. Ao revés,f seguiu orientação da Lei e de seus regulamentos, bem como das práticas reiteradamente adotadas pela DRF de Santa Maria na interpretação do alcance e da incidência da isenção concedida pelas leis 8.958/94 e 9.250/95 e seus regulamentos, notadamente o Decreto n° 5.205/04. Ou seja, não se trata de inexatidão; mas sim, da aplicação de uma interpretação juridicamente válida e até então pacificamente aceita, e compartilhada pelos próprios AFRFB lotados em Santa Maria. Vale dizer que o entendimento do contribuinte, que era também o da Receita, é no sentido de que suas bolsas são nãotributáveis, embora a Declaração não lhe permita fazer diferença entre essa natureza e a de "receita isenta". Em 31 de maio de 2001, a Fundação foi intimada, pelo MPF 1010300 2001 000714, referente às bolsas pagas, onde então foi verificado o cumprimento das obrigações fiscais. Logo, houve fiscalização sobre os mesmos fatos analisados pela presente autuação, sem que fosse apontada a suposta irregularidade agora lançada. Como houve fiscalização específica sobre o cumprimento das obrigações fiscais relativamente às bolsas de estudo e pesquisa, com análise de toda a documentação pertinente, restou consolidado o entendimento de que as bolsas em questão não sofrem a incidência do IRRF. Por conseguinte, este critério jurídico deve sei" respeitado, até o momento em que a administração muda de entendimento. Cita o artigo 100 do CTN. Como no caso em tela tratamos de modificação de interpretação jurídica, e não erro de fato, deve vigorar o entendimento que até então era aceito. Nesse sentido, o contribuinte cita a doutrina. Transcreve ementas da jurisprudência judicial. Pelo exposto, requer que, em face de ter o contribuinte agido: A) com base em prática arraigada em situações de fato e de direito análogas ou idênticas; B) de ser tal prática aceita pelas autoridades competentes; C) de ter sido o sistema de bolsas da FATEC, no qual se origina a matéria de fato, ter sido Fl. 1500DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 4 5 sucessivamente fiscalizado em 1996, 2001 e 2005, com ênfase especial em 2001, e de não ter sido constatada nenhuma infração em tais ocasiões, corroborando a prática em vigor; D) de ter agido o contribuinte; de boafé, ao declarar suas bolsas como nãotributáveis, de acordo com o informe assim rotulado, que lhe foi entregue pela FATEC; E) de acreditar o contribuinte, assim como já interpretou a SRF, que as bolsas que recebeu são, de fato e de direito, nãotributáveis, como abaixo se comprovará. Seja o auto de infração anulado, por conter multa e juros de mora indevidos, a teor do disposto no art. 100, § único do CTN. Efeito confiscatório art. 150, IV da CF Princípio dos motivos determinantes. O Auto de Infração deve ser anulado, por representar o uso indevido da legislação tributária com intenção confiscatória proibida pela Constituição Federal. Configuração dos requisitos para isenção Está ao abrigo da isenção preconizada pelas leis 8.958/94, 9.250/95 e pelo Decreto 5.205/04. Suas atividades preenchem plenamente os requisitos estabelecidos pela legislação; ou seja, sua declaração, nesse sentido e contexto, foi perfeitamente exata, afastando o fundamento principal do Lançamento de Ofício. A legislação invocada no auto de infração como delimitadora da outorga de isenção: Lei 9250/95, Lei 8958/94 e Decreto 5.205/04 estabelece o seguinte conjunto de requisitos: 1. Que a bolsa seja caracterizada como doação (sendo, portanto, inadmitida a contraprestação de serviços, exceto no caso de extensão); 2.Que a bolsa seja de estudo, pesquisa ou EXTENSÃO; 3. Que os resultados do estudo, da pesquisa ou do ato de extensão não revertam economicamente para o doador da bolsa. A bolsa é uma doação em dinheiro, titulada, no caso em tela, pela FATEC como doadora e pelo contribuinte como donatário. A contraprestação (no caso, de serviços) é caracterizada como elemento sinalagmatismo, ou seja, o troco da bolsa, o bolsista presta um serviço a favor do donatário. Salvo no restrito caso da Patente, regrada por lei própria, o conteúdo d arte ou do conhecimento produzido por um bolsista é patrimônio universal, que nessa qualidade, também pode ser recebido pelo doador. A outra exceção é a extensão. E de sua essência a prestação do serviço especializado, fundamentalmente como atividade de meio para a qualificação do estudante ou docente, vez que propicia o Fl. 1501DF CARF MF 6 campo prático pra exercício do estudo teórico e para a comprovação e aplicação de hipóteses e teses. A bolsa de pesquisa constituise em instrumento de apoio e incentivo à execução de projetos de pesquisa científica e tecnológica. A bolsa de extensão constituise em instrumento de apoio à execução de projetos desenvolvidos em interação com os diversos setores da sociedade que visem ao intercâmbio e ao aprimoramento do conhecimento utilizado, bem como ao desenvolvimento institucional, científico e tecnológico da instituição federal de ensino superior ou de pesquisa científica e tecnológica apoiada. Pelo último requisito, o doador a bolsa não pode obter benefício econômico com o resultado do estudo, da pesquisa ou do ato j de extensão; ou, em bom português, não pode obter lucro. O sistema de relacionamento Universidade Fundação Docente foi idealizado de modo que os institutos comuns da legislação civil permitissem o efeito isenção. A intermediação da Fundação destinase exatamente' a evitar que o Docente estabeleça relacionamento direto com o Mercado, bem como a vincular os fins de sua atividade aos pilares da educação superior Ensino, Pesquisa e Extensão. Destarte, a Fundação aparecerá, na maioria dos casos, como doadora das bolsas, sem obter com isso nenhum proveito econômico nem contraprestação de serviços do docente. Pelo exposto, impugna o sentido dado pelo AFRFB responsável pela autuação à legislação pertinente, por ser ofensivo à real aplicabilidade da isenção às bolsas em geral. Fundamento econômico da isenção favorecimento do PIB e do patrimônio público por via diversa da tributária A isenção é incentivo econômico e não meramente financeiro As isenções sempre são fundamentadas em um interesse do Estado que seja maior ou mais importante que a receita renunciada. Dessa forma, a isenção serve para estimular o desenvolvimento de atividades econômicas incipientes; para estimular o desenvolvimento de certa região geográfica; para incrementar a capacidade competitiva de certo setor econômico em face da concorrência internacional; para combater crises; para privilegiar( cidadão em situação fática especial, como certos doentes; e muitas outras razões da mais alta importância. No caso em tela, a isenção se presta a privilegiar o Docente que, por sua iniciativa, busca desenvolver as atividades não obrigatórias de ensino, pesquisa e extensão. Mais recentemente, o processo de inovação ,tecnológica foi oficialmente estatizado pela Lei 10.973, que igualmente trouxe importantes incentivos para os docentes universitários, além da bolsa. Fl. 1502DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 5 7 É perfeitamente claro que a incorporação de desenvolvimento e de capital intelectual à nação Brasileira é muito mais valiosa e importante que a renúncia fiscal consistente na isenção e é a sua razão de ser. Tratase de uma forma de arrecadação extrafiscal, acrescida de arrecadação reflexa decorrente de novos negócios e atividades baseados em tecnologia e conhecimento nacionais. Destarte, uma interpretação que anule a possibilidade de isenção vai de encontro ao sistema idealizado pelas leis 8.958 e 10.973, frustrando os objetivos estratégicos do Estado assim envolvidos, e, portanto, ofendendo a baliza teleológica da interpretação. Relação de trabalho Art. 43 do RIR x Doação com encargos – nãoincidência do IR Incompetência material da SRF O RIR/99 dá dois tratamentos possíveis a bolsas de estudo: ou a isenção, pelo art. 39, ou a tributação, pelo art. 43,1. O caso de isenção e seus requisitos já foram exaustivamente analisados. O caso de tributação, ao contrário'do que possa parecer, não é de mera aplicação alternativa dos dispositivos supracitados; mas cumulativa. Ou seja, não só a bolsa deve deixar de preencher os requisitos de isenção, mas também deve preencher os requisitos de tributação do art. 43, I. Ou seja: a bolsa de estudo e pesquisa deve ser resultado de contrato de trabalho assalariado ou resultar do exercício de cargo, emprego ou função. Ocorre que a FATEC nunca toma a iniciativa de um projeto. Os projetos sempre são de iniciativa dos Professores, que possuem as equipes e a previsão dos recursos necessários para sua execução. Logo, tratase da primeira desconfiguração de incidência do IR. A segunda desconfiguração vem do fato que os Professores bolsistas não detém cargo, nem emprego nem função na FATEC. Não são contratados, nem formal nem informalmente, para prestar serviços. A relação entre as partes é totalmente voluntária, sem subordinação, dependência econômica ou obrigação de assiduidade. A terceira vem do fato de que normalmente as ações que possam ser identificadas como contraprestação de serviços ficam ao encargo dos alunos, na qualidade de prática profissional, ou, a cargo dos empregados da FATEC. Ainda há o caso especial da Bolsa de Extensão, que não foi prevista no dispositivo supracitado, mas está prevista como isenta no dec. 5.205/04.Logo, ou a bolsa de extensão é isenta, ou, é caso absoluto de nãoincidência,por falta de previsão expressa (como fato gerador). Fl. 1503DF CARF MF 8 Logo, observase que, uma vez que, no caso, não estão preenchidos os requisitos para tributação, mesmo que eventualmente não se configure a isenção, a situação é de não tributação pelo IR. Ademais, ao escapar, ao menos em tese, da hipótese de isenção, parece haver sério conflito de competência tributária entre o Estado do RS e a União. Isso porque as bolsas de pesquisa, salvo que sejam fraude ao contrato de trabalho (e este não é o caso), sempre são doação mesmo que com encargos. Como se pode observar do art. 43, I (supracitado), o mesmo é aplicável à bolsa não em função da mera contraprestação voluntária de serviço; mas da existência de vínculo jurídico de prestação de serviço entre o "doador'j e o "donatário": O Contribuinte Donatário nunca teve vínculo jurídico nenhum para com a FATEC. Não mantém contrato de tipo nenhum com a mesma, não lhe deve subordinação, nem dependência econômica, nem assiduidade. Suas obrigações decorrentes do Projeto são apenas morais, para com a UFSM e ninguém mais. Vale dizer, se o Contribuinte deixar de executar as tarefas do Projeto, a Fatec nada pode fazer, exceto deixar de doar ajbolsa no próximo mês. Mas não poderá exigir do Contribuinte que faça ou deixe de fazer qualquer tarefa. Igualmente, a UFSM também não o pode exigir. No mesmo compasso, se a FATEC deixar de lhe pagar as bolsas, a legislação não dá ao Contribuinte título jurídico para exigi las. | Logo, estamos diante de doação, mesmo que, eventualmente, com encargo a favor de terceiro. Em tese, pode incidir o ITCMD, instituído no RS pela Lei 8.821/89. Mas isso não diz respeito à Receita Federal. Pelo exposto, requer que o Auto de Infração seja integralmente anulado, por ter sido lavrado em ofensa às normas constitucionais e infraconstitucionais sobre competência tributária, e por ter aplicado Imposto de Renda sobre eventos, que, em tese, são fatos geradores de ITCMD do Estado do Rio Grande do Sul. Amoldamento dos fatos à legislação em vigor Segundo a Fiscalização, os projetos que originaram a autuação, contém contraprestação de serviços, apresentam vantagem para o doador das bolsas e não são de pesquisa, motivo pelo qual as bolsas oriundas dos mesmos foram erroneamente classificadas como isentas; fato esse que consistiria em "DECLARAÇÃO INEXATA", fazendo incidir, entre outros dispositivos, os arts. 43 e 841, II, do RIR/99 e o art. 44,1, da lei 9.430. O contribuinte descreve os projetos pelos quais ele recebeu bolsa, com o intuito de demonstrar que o entendimento da fiscalização é totalmente equivocado. Fl. 1504DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 6 9 Pelo exposto, o contribuinte requer: A A juntada dos documentos comprobatórios em anexo aos autos do processo fiscal, para que seja encaminhado ao órgão competente para julgamento e surta seus efeitos legais; B A decretação da nulidade do Auto de Infração, de pleno direito, por: 1. Conter bis in idem tributário; 2. Ser resultante do uso indevido do sistema tributário federal com o fim de provocar efeito de confisco; 3. Resultar da aplicação indevida de multas e juros, contra contribuinte que seguiu orientação jurídica pacificamente aceita e emanada da SRF; 4. Resultar de conduta, em tese, penalmente típica, por ser presumivelmente de conhecimento da SRF e de seus prepostos o lançamento, contra outro Contribuinte, de parcelas que foram lançadas contra o impugnante; 5. Ter sido lavrado por autoridade incompetente para fiscalizar e tributar fatos geradores relativos à doação; C O reconhecimento de ser o Imposto de Renda nãoincidente sobre fatos geradores caracterizados como doação; J D Alternativamente, que sejam as bolsas! recebidas pelo Impugnante consideradas isentas do Imposto de Renda, em vista dd entendimento da SRF que estava em vigor à época dos fatos geradores; E Sendo as bolsas consideradas nãoisentas, que sejam excluídos do auto os juros já cobrados da FATEC, como acima descrito; F Em vista da boafé do contribuinte, e da alteração de entendimento da SRF, que sejam excluídas as parcelas referentes a multa e juros de mora, na forma da legislação aplicável. A 4ª Turma de Julgamento DRJ/POA, por unanimidade de votos, julgou procedente o lançamento, conforme ementa do acórdão da decisão recorrida. Vejamos: ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2004, 2006 e 2007 Ementa: NULIDADE. Comprovado que o procedimento fiscal foi feito regularmente, não se apresentando, nos autos, as causas apontadas no art. 59 do Decreto n.° 70.235, de 1972, não há que se cogitar em nulidade do lançamento. INCONSTITUCIONALIDADE. O exame da constitucionalidade ou legalidade das leis é tarefa estritamente reservada aos órgãos do Poder Judiciário. Fl. 1505DF CARF MF 10 DECISÕES JUDICIAIS. EFEITOS. a eficácia dos acórdãos dos tribunais limitase especificamente ao caso julgado e às partes inseridas no processo de que resultou a sentença, não aproveitando esses acórdãos em relação a qualquer outra ocorrência senão aquela objeto da sentença, ainda que de idêntica natureza, seja ou não interessado na nova relação o contribuinte parte do processo de que decorreu o acórdão. DIRPF. INFORMAÇÕES. RESPONSABILIDADE DO CONTRIBUINTE. A responsabilidade pelas informações prestadas na declaração de rendimentos é do declarante, independentemente de entrega do comprovante de rendimentos pela fonte pagadora. BOLSAS DE ESTUDO E PESQUISA. Somente são isentas as bolsas de estudo caracterizadas como doação, quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos ou pesquisas e desde que os1 resultados dessas pesquisas não representem vantagem pra o doador e nem importem contraprestação de serviços. MULTA DE OFÍCIO E JUROS DE MORA. Os valores apurados em procedimento fiscal deverão ser submetidos à devida tributação com a aplicação da multa de ofício e dos juros de mora. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em seu recurso voluntário (fls. 1.418/1.429) o recorrente repisa questões trazidas na impugnação no que diz respeito à natureza das pesquisas realizadas, ressaltando, adicionalmente, que: a) a decisão não analisou a vasta documentação apresentada, eis que nada mencionou sobre a especificidade dos projetos em que atuou ou da forma como se deu sua atuação, tendo os julgadores simplesmente optado por não analisar nenhuma das provas carreadas aos autos; e b) os membros do Colegiado a quo decidiram todas as impugnações opostas por bolsistas da FATEC juntas, como se uma só fossem, sem avaliar casuisticamente nenhuma delas, sem atentar para a gigantesca diversidade de projetos em que os bolsistas estão envolvidos (pesquisa, extensão, ensino, convênios, contratos, termos de parceria, etc), o que não é condizente com o princípio do contraditório e da ampla defesa. Por fim, postula pela reforma da decisão ora atacada, de modo que seja determinada a anulação do Auto de Infração, reconhecendose que as bolsas que lhe foram concedidas pela FATEC, nos projetos em que este atuou, tiveram o caráter jurídico de doação, de forma que sobre elas não há incidência do IRPF. É o relatório. Fl. 1506DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 7 11 Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade, portanto, dele conheço. Preliminar de Nulidade Consoante consta da peça recursal, os julgadores de primeira instância simplesmente optaram por não analisar nenhuma das provas carreadas aos autos, julgando todas as impugnações opostas por bolsistas da FATEC como se fossem uma só. Ao agir dessa forma, sem atentar para a diversidade de projetos em que os bolsistas atuavam, a DRJ/POA adotou procedimento que vai de encontro à noção de ampla defesa e contraditório. Primeiramente, é preciso esclarecer que o fato de não haver, na decisão atacada, menção a cada um dos projetos cujas cópias foram acostadas aos autos pelo recorrente, não quer dizer que o Colegiado a quo não os tenha analisado. No caso, verificase prescindível fazer referência às especificidades desses projetos para formar juízo a respeito da situação fática abordada no Auto de Infração, bastando para tal, como se verá adiante, o exame dos contratos que respaldaram o pagamento das bolsas objeto da autuação. Além do mais, é pacífico no âmbito deste Colegiado, que o órgão julgador não é obrigado a rebater cada um dos argumentos declinados pelo contribuinte, aqui compreendida a documentação colacionada aos autos, desde que tenha adotado argumento suficiente para fundamentar a sua decisão. Com efeito, o decisum atacado considerou que, para que os valores recebidos a título de bolsa de estudos pudesse gozar da isenção em pauta, farseia necessário o atendimento cumulativo dos seguintes requisitos: i) serem caracterizados como doação; ii) serem recebidos exclusivamente para a realização de estudos/pesquisas; e ii) que os resultados destas atividades não representassem vantagens para o doador nem importasse em contraprestação de serviços. De se notar que o voto condutor do acórdão da DRJ/POA, ao assentar que os requisitos previstos em lei para a fruição do favor legal não foram cumpridos, tomou por base os apontamentos contidos no Relatório de Fiscalização (fls. 94/100), feitos a partir da análise dos contratos trazidos aos autos, segundos os quais, “a concessão das referidas bolsas teve por objeto o pagamento de mãodeobra especializada e imprescindível para o atendimento dos compromissos contratados com financiadores dos projetos, caracterizando, desta forma a contraprestação de serviços”. Senão vejamos: Fl. 1507DF CARF MF 12 Conforme consta do Relatório da Fiscalização contido no auto de infração às fls. 93 a 99, os rendimentos recebidos a título de bolsa de estudo e pesquisa da Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência FATEC, nos anos calendário 2004, 2006 e 2007, considerados pelo contribuinte como isentos e não tributáveis, foram objetos de lançamento, por entender que tais bolsas não satisfazem os critérios previstos para usufruir o benefício de isenção previsto em lei. Diante da minuciosa descrição dos fatos feita pela fiscalização e da farta documentação constante dos autos, constatase que os valores percebidos pelo impugnante foram em virtude de prestação de serviços à Fundação. No caso, verificase que há prestação de serviço da FATEC para a UFSM, sendo que a fundação contrata servidores pertencentes aos quadros da própria universidade para comporem a equipe técnica que atuará na execução do projeto, mediante o pagamento de bolsas. Assim, a FATEC efetua os pagamentos aos servidores participantes como remuneração pelos serviços prestados nos diversos projetos. Destarte, as atividades desenvolvidas pelos bolsistas representam uma vantagem para o doador ou contraprestação de serviços, ainda que de forma indireta, descaracterizando a isenção nos termos do inciso VII do art. 39 do RIR/99, pretendida pelo impugnante.(Grifamos) Assim, embora, por desnecessário, não se tenha feito referência individualizada a cada um dos documentos anexados à impugnação, constato que, diferentemente do que indaga o recorrente, não restou caracterizada a alegada ofensa à ampla defesa ou ao contraditório, mormente porque as razões que levaram os julgadores de primeira instância a concluir pela improcedência da impugnação estão devidamente evidenciadas no acórdão recorrido. Afasto, pois, a preliminar. Mérito No que se refere ao mérito, a questão cingese à discussão sobre a natureza dos rendimentos percebidos pelo sujeito passivo e caracterizados como bolsa de extensão, na forma da Lei nº 8.958/1994, com o objetivo de determinar se estes estariam amoldados à espécie de rendimentos isentos ou não tributáveis, tal como informado nas Declarações Anuais de Ajuste DAA, ou se deveriam ser entendidos como rendimentos tributáveis. Alega o recorrente que as bolsas que lhe foram concedidas pela FATEC preenchem o requisitos estabelecidos na legislação isentiva, estando em consonância com os disposto no art. 26 da Lei nº 9.250/1996, no art. 4º da Lei nº 8.958/1994 e nos arts. 6º e 7º do Decreto nº 5.205/2004. Consta do peça recursal que: O contribuinte, ora recorrente, atuou em projetos de pesquisa. EM NENHUM DOS PROJETOS, NENHUM. A FATEC FICOU COM O MONOPÓLIO DOS Fl. 1508DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 8 13 RESULTADOS DA SUA PESQUISA, NUNCA. Tais também não foram privilégio da UFSM ou de qualquer outra empresa ou entidade. Os resultados das pesquisas FORAM PUBLICADOS EM CENTENAS DE ARTIGOS E PERIÓDICOS de âmbito nacional e internacional. Ou seja, o conhecimento desenvolvido pelo autor se tornou PÚBLICO! Ninguém obteve lucro com essa pesquisa (a não ser a humanidade como um todo, haja vista o conhecimento obtido), muito menos a FATEC que doou bolsas para incetivo da mesma e NÃO GANHOU ABSOLUTAMENTE NADA COM ISSO! (Grifos do Original) De conformidade com o acórdão recorrido, as bolsas concedidas por instituições de ensino são, via de regra, consideradas como rendimentos tributáveis, tal como estabelecido pelo art. 43, I, do RIR/1999, na medida em que, acrescendo o patrimônio do contribuinte, devem ser consideradas riquezas novas, passíveis de tributação. A despeito do tratamento conferido pela legislação tributária para as bolsas em geral, o legislador conferiu tratamento diferenciado a essa espécie de benefício quando verificadas simultaneamente três condições, a saber: i) constituir mera liberalidade do cedente em favor do beneficiário, sem significar o pagamento de contraprestação, caracterizandose como doação; ii) sua concessão se dê exclusivamente para a realização de estudos e pesquisas; e iii) os resultados destas atividades não representem vantagens para o doador. Aliás, é essa a dicção expressa do art. 39, VII do RIR (fundamentado no art. 26 da Lei n.º 9.250/95), in verbis: Art. 39. Não entrarão no cômputo do rendimento bruto: [...] VII as bolsas de estudo e de pesquisa caracterizadas como doação, quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos ou pesquisas e desde que os resultados dessas atividades não representem vantagem para o doador, nem importem contraprestação de serviços (Lei nº 9.250, de 1995, art. 26). Esse entendimento é perfeitamente aplicável também às bolsas de ensino e pesquisa referidas no § 1º do art. 4º da Lei n.º 8.958/1994 e no Decreto nº 5.205/2004, que regulamenta a legislação em espeque, conforme se infere dos dispositivos reproduzidos a seguir: Lei nº 8.958/1994 Art. 4º As IFES e demais ICTs contratantes poderão autorizar, de acordo com as normas aprovadas pelo órgão de direção superior competente e limites e condições previstos em regulamento, a participação de seus servidores nas atividades realizadas pelas fundações referidas no art. 1º. desta Lei, sem prejuízo de suas atribuições funcionais. Fl. 1509DF CARF MF 14 § 1º A participação de servidores das IFES e demais ICTs contratantes nas atividades previstas no art. 1º. desta Lei, autorizada nos termos deste artigo, não cria vínculo empregatício de qualquer natureza, podendo as fundações contratadas, para sua execução, conceder bolsas de ensino, de pesquisa e de extensão, de acordo com os parâmetros a serem fixados em regulamento. Decreto n.º 5.205/2004 Art. 6º As bolsas de ensino, pesquisa e extensão a que se refere o art. 4º , § 1º , da Lei 8.958, de 1994, constituem se em doação civil a servidores das instituições apoiadas para a realização de estudos e pesquisas e sua disseminação à sociedade, cujos resultados não revertam economicamente para o doador ou pessoa interposta, nem importem contraprestação de serviços. (...) Art. 7º As bolsas concedidas nos termos deste Decreto são isentas do imposto de renda, conforme o disposto no art. 26 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integram a base de cálculo de incidência da contribuição previdenciária prevista no art. 28, incisos I a III, da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991. (Grifos Nossos) Extraise do art. 110 do Código Tributário Nacional que “a lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado [...] para definir ou limitar competências tributárias”, em vista disso, temse que, nos termos da legislação de regência, as bolsas de estudo somente podem ser consideradas como rendimentos isentos ou não tributáveis nas hipóteses em que tais verbas possam, na forma da legislação cível, ser consideradas como doações por parte da instituição de ensino em favor do beneficiário e, como já se viu, sem qualquer exigência de contraprestação por parte deste em favor do doador. Não é outro o juízo que tem imperado nas decisões do Superior Tribunal de Justiça: TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE RENDA BOLSA DE ESTUDOS DO BANCO CENTRAL DO BRASIL ISENÇÃO DOAÇÃO NÃO CARACTERIZADA CONTRAPRESTAÇÃO DE SERVIÇOS RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. 1. A isenção do imposto de renda prevista no art. 26 da Lei 9.250/95 exige que a bolsa de estudos seja espécie de doação, sem vantagens para o doador. 2. Hipótese em que o recorrente continuou recebendo salário a título de bolsa de estudos para desenvolver atividades acadêmicas no exterior, assumindo por escrito a obrigação de reverter ao empregador os resultados dos estudos e pesquisas por este financiados. 3. A manutenção da natureza salarial da verba paga para cobrir os custos da oportunidade dada pelo Banco Central do Brasil ao seu servidor descaracteriza a doação. 4. Recurso especial improvido.” (STJ, 2ª Turma, REsp 959.195/MG, Rel. Ministra ELIANA CALMON, julgado em 25/11/2008, DJe 17/02/2009) (Grifos Nossos) Fl. 1510DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 9 15 No mesmo sentido, é o entendimento que prepondera neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF Exercício: 2006, 2007, 2008 IRPF. BOLSA DE EXTENSÃO. ISENÇÃO. De acordo com a jurisprudência deste CARF e em consonância com julgados do STJ, apenas são isentos os rendimentos provenientes de bolsas de estudos concedidas se tais valores decorrerem de liberalidade, bem como se os trabalhos exercidos pelo beneficiário não representem, de nenhuma forma, benefício econômico para a instituição de ensino ou contraprestação pela prestação de serviços. Hipótese em que as bolsas recebidas pelo contribuinte não caracterizam mera liberalidade da instituição de ensino. (Acórdão 2101002.370, Processo: 11080.005297/2009 10, data de Publicação: 24/02/2014, Relator(a): ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF Exercício: 2005, 2007, 2008 BOLSAS DE ESTUDO. ISENÇÃO. REQUISITOS NÃO ATENDIDOS. Somente são isentas do imposto de renda as bolsas de estudo e de pesquisa caracterizadas como doação, quando recebidas exclusivamente para proceder a estudos ou pesquisas e desde que os resultados dessas atividades não representem vantagem para o doador, nem importem contraprestação de serviços. (Acórdão 2102003.083, Processo: 11060.002452/2009 84, data de Publicação: 14/08/2014, Relator(a): ROBERTA DE AZEREDO FERREIRA PAGETTI) Com base nesses assentamentos, mostrase adequado analisar, de forma individualizada, cada uma das circunstâncias que deram ensejo ao lançamento, de modo a concluir se os valores recebidos pelo contribuinte da FATEC poderiam ser qualificados juridicamente como doações, importando mera liberalidade em favor do recorrente, sem a exigência de contraprestação em favor do pretenso doador. A esse respeito, o Relatório de Fiscalização (fls. 94/100) esclarece que, com o fim de estabelecer a natureza dos rendimentos, a autoridade autante examinou a documentação entregue pela FATEC relativa aos seguintes projetos: a) Projeto 95365 Programa de Cooperação para Atividades de Pesquisa e Ensino entre UFSM, Centro de Pesquisas Florestais e Empresas Florestais. b) Projeto 95399 Integração UFSM/DCFL/CEPEF com as Empresas Florestais; Fl. 1511DF CARF MF 16 c) Projeto 96301 Estudo para Implantação do Programa FlorestaIndústria RS Os códigos de cada um desses projetos constam da última coluna dos comprovantes de rendimentos entregues pelo sujeito passivo (fls. 6/8). Sobre os citados projetos, a fiscalização apresentou considerações que, pela relevância para o deslinde da controvérsia que ora se analisa, fazse necessário reproduzir em sua integralidade: Projeto 95365 Programa de Cooperação para Atividades de Pesquisa e Ensino entre UFSM, Centro de Pesquisas Florestais e Empresas Florestais O objetivo deste.projeto é "Promover o intercâmbio entre o Departamento de Ciências Florestais da UFSM através do Centro de Pesquisas Florestais/FATEC, com empresas florestais do sul do Brasil, visando a produção e difusão do conhecimento técnicocientífico: O projeto foi firmado pela UFSM e a FATEC respectivamente contratante e contratada através do contrato 81/2005 e na qual ajustam a prestação de serviços necessários para a execução do mesmo, onde na especificação das fontes de recursos consta: "Recursos Financeiros provenientes da arrecadação de clientes." E no item 5 Clientela, consta: O público alvo do presente projeto constitui a comunidade empresarial do setor florestal do Sul do Brasil, especialmente as empresas públicas e privadas, compreendendo os .empresários, técnicos è demais profissionais ligados, ao setor". De acordo com consulta aos arquivos digitais de lançamentos contábeis entregues pela FATEC em 07/02/08, obtidos em decorrência de ação fiscal em cumprimento ao Mandado de Procedimento Fiscal. Fiscalização nº 1010300.2008.00045, verificamos que os recursos obtidos pela Fundação para a execução do Projeto foi obtida a partir de mensalidades pagas por pessoas jurídicas interessadas na participação no referido projeto, tais como: JF&C COMERCIO E REPRESENTAÇÕES, VOTÒRANTIN CELULOSE E PAPEL S/A, ARACRUZ CELULOSE S.A, BUNGE FERTILIZANTES S/A e SETA S/A EXTRATIVA DE TANINO DE ACÁCIA, etc. Projeto 95399 Integração UFSM/DCFL/CEPEF com as Empresas Florestais O objetivo deste projeto é a "Promover o intercâmbio entre o Departamento de Ciências Florestais da UFSM através do Centro de Pesquisas Florestais/F ATEC, com empresas florestais sul brasileiras, visando a produção e difusão do conhecimento técnicocientífico. O projeto foi firmado, pela UFSM e aFATEC respectivamente contratante e contratada através do Fl. 1512DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 10 17 contrato 096/2007, e n qual ajustam a prestação de serviços necessário para a execução do mesmo, onde, na especificação das fontes de recursos consta: "Recursos, Financeiros provenientes dos interessados dos repasses dos clientes. E no item 5 Clientela, consta: O público alvo do presente projeto constitui a comunidade empresarial do setor florestal do Sul do Brasil, especialmente as empresas públicas e privadas, compreendendo os empresários, técnicos e demais profissionais ligados ao setor" . De acordo com consulta aos arquivos digitais de lançamentos contábeis entregues pela FATEC em 07/02/08, obtidos em decorrência de ação fiscal em cumprimento ao Mandado de Procedimento Fiscal. Fiscalização nº 1010300.2008.00045, verificamos que os recursos obtidos pela Fundação para a execução do Projeto foi obtida a partir de mensalidades pagas por pessoas jurídicas interessadas na participação no referido projeto, tais como: CERAN – COMPANHIA ENERGÉTICA, ARACRUZ CELULOSE S.A, BUNGE FERTILIZANTES S/A e SETA S/A EXTRATIVA DE TANINO DE ACÁCIA, etc. Projeto 96301 Estudo para Implantação do Programa FlorestaIndústria RS O objetivo deste projeto é a realização de estudos necessários para a implantação do PROGRAMA FLORESTA INDUSTRIA RS que visa.ampliar a produção de matériaprima florestal e atrair novos investimentos para o Estado. O projeto foi firmado pela UFSM e a FATEC, respectivamente contratante e contratada através de contrato e na qual ajustam a prestação de serviços necessários para a execução do mesmo, onde na especificação das fontes de recursos consta: "Governo do Estado do RS. E no item Clientela, consta: Empresas do ramo e Indústrias." De acordo com consulta aos arquivos digitais de lançamentos contábeis entregues pela FATEC em 07/02/08, obtidos em decorrência de ação fiscal em cumprimento ao Mandado de Procedimento Fiscal. Fiscalização nº 1010300.2008.00045, verificamos que os recursos obtidos pela Fundação para a execução do Projeto foi obtida a partir de mensalidades pagas por pessoas jurídicas interessadas na participação no referido projeto, tais como CENTRO DAS INDUSTRIAS DO ESTADO CIERGS. Considero elucidativos os esclarecimentos constantes do Relatório de Fiscalização. De fato, verificase, em vista dos elementos trazidos aos autos, sobretudo dos contratos e demais documentos de fls. 9/88 e 107/108, que as bolsas pagas ao contribuinte decorreram de sua participação em projetos desenvolvidos a partir de contratos firmados entre Fl. 1513DF CARF MF 18 a Universidade Federal de Santa Maria e a FATEC, cujos recurso foram obtidos junto a pessoas jurídicas de direito público e privado. Por certo, não há como considerar que tais pagamentos tenham constituído mera liberalidade da FATEC em favor do sujeito passivo, tampouco que os produtos das atividades desenvolvidas pelo recorrente não tenham representado vantagem para a contratante. Ao revés disso, todos os serviços remunerados sob a forma de bolsa de extensão exigiam resultados específicos em benefício dos financiadores dos projetos. Também não remanescem dúvidas quanto ao proveito econômico obtido pela Fundação, eis que essa captou recursos junto ao Estados do Rio Grande do Sul e entidades privadas e, em contrapartida, desenvolveu programas voltados para os interesses dessas pessoas jurídicas. Cabe fazer ainda um breve comentário sobre asserção feita no recurso voluntário, de que “EM NENHUM DOS PROJETOS, NENHUM. A FATEC FICOU COM O MONOPÓLIO DOS RESULTADOS DA SUA PESQUISA, NUNCA. Tais também não foram privilégio da UFSM ou de qualquer outra empresa ou entidade. Os resultados das pesquisas FORAM PUBLICADOS EM CENTENAS DE ARTIGOS E PERIÓDICOS de âmbito nacional e internacional. Sobre essa questão, convém salientar que os dois primeiros contratos acima citados continham cláusula de confidencialidade, o que também denota que as pesquisas foram feitas em proveito de seus demandantes. Abaixo reproduzse referida cláusula, cuja redação e comum aos citados contratos: CLÁUSULA SÉTIMA DA CONFIDENCIALIDADE, TITULARIDADE E PARTICIPAÇÃO NA CRIAÇÃO INTELECTUAL A CONTRATADA comunicará a CONTRATANTE, durante e após a vigência do presente Contrato, os resultados alcançados pelo PROJETO, passíveis de obtenção de proteção legal, no âmbito da legislação de propriedade intelectual, ou de licenciamento a terceiros, devendo ser informado à CONTRATANTE, caso seja efetuado o respectivo registro no Instituto Nacional de Propriedade Industrial INPI, ou em outro órgão competente. SUBCLÁUSULA ÚNICA Qualquer licença de uso da criação intelectual resultante do PROJETO, para terceiros nele não envolvidos, deverá observar a regulamentação específica aplicável às operações com recursos públicos e incluir a participação da CONTRATANTE, desde a fase de sua negociação, devendo o respectivo contrato ser formalmente aprovado pela CONTRATANTE1 e registrado no órgão competente. Aludida cláusula se soma aos demais elementos já evidenciados, tornando ainda mais claro que os valores recebidos pelo recorrente decorreram de verdadeira prestação de serviços à FATEC, a qual obteve proveito com as atividades desenvolvidas, não havendo que se falar que os recursos despendidos para o pagamento dos executores dos referidos projetos tenham constituído qualquer espécie de doação. Do mesmo modo, não pairam dúvidas quanto ao fato de que os valores recebidos pelo recorrente em decorrência do contrato celebrado entre o Estado do Rio Grande Fl. 1514DF CARF MF Processo nº 11060.002038/200975 Acórdão n.º 2402005.762 S2C4T2 Fl. 11 19 do Sul a UFSM e a FATEC representaram contraprestação aos serviços por ele desenvolvidos, o afasta a hipótese de aplicação da norma isentiva. De se acrescentar que há inúmeras decisões de segunda instância administrativa que versam sobre situação semelhante à retratada no presente processo, onde a fonte pagadora é, inclusive, a mesma (FATEC) e os contratados são professores vinculados à Universidade Federal de Santa Maria. Essas decisões reconhecem, indistintamente, a natureza tributável de rendimentos de mesma espécie dos tratados neste processo. A título de exemplo, citamos os acórdãos nº 2801003.850, 2801003.680, 2801003.338, 2801003.343. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto no sentido CONHECER, afastar a preliminar de nulidade e, no mérito, NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho. Fl. 1515DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.934345/2009-89
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 07 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/01/2005
CONTRATOS. PREÇO PREDETERMINADO. ÍNDICE DE REAJUSTE. DESCARACTERIZAÇÃO.
Incumbe à empresa postulante à manutenção na sistemática cumulativa da contribuição a demonstração de que o índice empregado cumpre os requisitos legais, expressamente a de que a variação dos custos efetivamente ocorrida seria igual ou superior à praticada com base no índice contratualmente definido.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9303-004.529
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Erika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
1.0 = *:*
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PREÇO PREDETERMINADO. CORREÇÃO. IGPM. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado COMPANHIA ESTADUAL DE GERAÇÃO E TRANSMISSÃO DE ENERGIA ELÉTRICA CEEEGT ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/01/2005 CONTRATOS. PREÇO PREDETERMINADO. ÍNDICE DE REAJUSTE. DESCARACTERIZAÇÃO. Incumbe à empresa postulante à manutenção na sistemática cumulativa da contribuição a demonstração de que o índice empregado cumpre os requisitos legais, expressamente a de que a variação dos custos efetivamente ocorrida seria igual ou superior à praticada com base no índice contratualmente definido. Recurso Especial do Procurador Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Erika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 93 43 45 /2 00 9- 89 Fl. 611DF CARF MF Processo nº 11080.934345/200989 Acórdão n.º 9303004.529 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 3803005.974, que julgou o recurso voluntário interposto pela contribuinte contra a não homologação de compensação declarada (PER/DCOMP). A compensação está lastreada em crédito oriundo de pagamento de contribuição supostamente efetuado a maior, em razão de apuração efetuada na sistemática nãocumulativa. O colegiado a quo entendeu, em síntese, que a correção dos preços pelo IGP M não descaracteriza a natureza de preço predeterminado para os efeitos da tributação pelas contribuições cumulativas, incidentes sobre contratos de longo prazo firmados antes de 31 de outubro de 2003, conforme previsão contida no inciso XI, b, do artigo 10 e inciso V do artigo 15 da Lei nº10.833/2003. Com esse entendimento, ficou caracterizado o pagamento a maior em razão da apuração da contribuição na sistemática não cumulativa. Para comprovar a divergência de interpretação necessária ao conhecimento do seu recurso, a Fazenda Nacional aponta decisões que enfrentaram exatamente a mesma situação mesmo setor econômico, mesmo índice em discussão e concluíram de modo antagônico. Após, sobrevieram contrarrazões em que o sujeito passivo defende o acerto da decisão questionada e pugna pela sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303004.467, de 07/12/2016, proferido no julgamento do processo 11080.909061/201179, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303004.467): O recurso cumpre os requisitos regimentais para que seja apreciado; dele conheço. Fl. 612DF CARF MF Processo nº 11080.934345/200989 Acórdão n.º 9303004.529 CSRFT3 Fl. 4 3 Começo com o registro de que concordo com quase todos os fundamentos da decisão recorrida, da lavra do douto e coerente ex membro desta casa, o dr. Belchior Melo de Souza. De fato, apenas discordo dele quando vislumbra diferença semântica relevante entre as locuções presentes na lei ("reajuste em função de ...") e no ato normativo que buscou regulamentar o assunto ("reajuste em percentual ... "). Para mim, nenhuma diferença há aí: reajuste "em função de" quer dizer exatamente "aplicando o percentual previsto no" índice. O que se tem de ver é se o índice cumpre os requisitos da lei, isto é, refletir "a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do §1º do art. 27 da Lei nº 9.069, de 29 de junho de 1995". É que, como já reiteradamente transcrito, a norma que temos de aplicar autoriza a adoção de dois critérios alternativos e mutuamente excludentes para fixação do reajuste do preço: pode ele expressar a variação dos custos ou se basear em índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados. Por "variação dos custos", entendo eu, quer o ato legal se referir à variação efetivamente ocorrida e devidamente apurada pela empresa em sua escrita contábil. Já o índice que se empregue pode, em princípio, ser qualquer um objeto do acordo celebrado com o cliente, mas não pode superar a efetiva variação dos custos. A meu sentir, a norma sob análise decorre das especificidades do setor em discussão. Como é bem sabido, tratase de uma atividade essencialmente monopolizada, na qual prestador e tomador acordam condições que prevalecerão por períodos de tempo bastante longos. Nesses casos, inexistente um "mercado fixador", o preço é contratualmente definido, especificando o contrato também a forma de reajuste que o preserve dos efeitos inflacionários. Outra especificidade do setor diz com o elevado aporte de capital necessário a sua exploração, o que o fez, até há duas décadas, exclusivamente estatal. A privatização do setor, ocorrida nos idos dos anos 90 do século passado, exigia, por isso, que se garantisse (até onde possível) uma remuneração ao capital privado suficiente a estimular o seu ingresso. E na fixação desse percentual, obviamente, um fator essencial é a "margem de contribuição", no dizer dos contabilistas, ou o markup, na dos economistas: em ambos as acepções, a diferença entre o preço e o custo (unitário, na primeira; marginal, na segunda). E tal diferença, sabidamente, é influenciada pela tributação que incida sobre o setor. É por isso que o legislador, a meu ver acertadamente, previu que o reajuste do preço em percentual "compatível" com a variação efetiva dos custos, por si só, não afetaria a forma de tributação pelas contribuições PIS e COFINS que vigia quando os contratos foram assinados. A rigor, tal regra limitaria a correção dos preços à efetiva variação ocorrida nos custos, mas o legislador a ampliou ao deferir que fosse usado índice, desde que ele refletisse a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados. Fl. 613DF CARF MF Processo nº 11080.934345/200989 Acórdão n.º 9303004.529 CSRFT3 Fl. 5 4 É importante aqui considerar, como minudentemente feito no voto do dr. Belchior, a diferença entre reajuste, recomposição e repactuação. Citoo: Nesse passo, importa identificar três formas de fixação de preços nos contratos em andamento: a repactuação ou revisão, a recomposição e o reajuste. A autorizada doutrina de Marçal Justen Filho1 define o que vêm a ser recomposição e reajuste. “A recomposição é o procedimento destinado a avaliar a ocorrência de evento que afeta a equação econômico financeira do contrato e promove adequação das cláusulas contratuais aos parâmetros necessários para recompor o equilíbrio original. Já o reajuste é procedimento automático, em que a recomposição se produz sempre que ocorra a variação de certos índices, independentemente de averiguação efetiva do desequilíbrio” A recomposição, também chamada de revisão, decorre de fatos imprevisíveis: caso de força maior, caso fortuito, fato do príncipe ou álea econômica extraordinária. O reajuste objetiva reconstituir os preços praticados no contrato em razão de fatos previsíveis, é dizer, álea econômica ordinária, no momento da contratação, ante a realidade existente, como a variação inflacionária. Por decorrência, o reajuste deve retratar a alteração dos custos de produção a fim de manter as condições efetivas da proposta contratual, embora muitas vezes não alcance este desiderato relativamente a certo segmento ou agente econômico. A repactuação visa à adequação dos preços contratuais aos novos preços de mercado e, no âmbito da Administração Pública Federal, encontrase regulamentada no art. 5º do Decreto nº 2.271, de 7 de julho de 19972. A possibilidade de repactuação prevista neste decreto não se faz acompanhar de disciplina acerca dos seus efeitos tributários, valendo a citação apenas para destacar a definição do signo repactuação. Novamente, em nada posso divergir dessa conceituação, mas tampouco posso concordar com a conclusão que dela extrai meu celebrado colega: para mim, a possibilidade de o contrato estabelecer cláusula de alteração em consequência de mudança tributária que venha a afetar o preço, implementada posteriormente à assinatura do contrato, está exatamente a validar o meu entendimento. É que ela seria totalmente desnecessária (ao menos no tocante às contribuições em tela) se fosse possível mantêlo no regime cumulativo pela aplicação de qualquer índice contratual, pois, nesse caso, nunca haveria impacto tributário do reajuste. 1 Filho, Marçal Justen. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos. São Paulo: Dialética, 10. ed., 2004, p. 389. 2 Art. 5º Os contratos de que trata este Decreto, que tenham por objeto a prestação de serviços executados de forma contínua poderão, desde que previsto no edital, admitir repactuação visando à adequação aos novos preços de mercado, observados o interregno mínimo de um ano e a demonstração analítica da variação dos componentes dos custos do contrato, devidamente justificada. Fl. 614DF CARF MF Processo nº 11080.934345/200989 Acórdão n.º 9303004.529 CSRFT3 Fl. 6 5 Penso que, ao contrário, ela pode se dar (caso a correção pelo índice leve à tributação não cumulativa) o que atrai o procedimento de recomposição. Divirjo, portanto, dos que entendem (como parece ser a conclusão da decisão recorrida) que a autorização legal esteja a permitir que a empresa adote um determinado índice e não mais precise averiguar se ele é inferior ou superior à efetiva variação dos seus custos. É óbvio que se for inferior, não estará autorizada a deixar de aplicar o índice contratualmente previsto para reajuste. Aplicamse, nesse caso, as disposições contratuais relativas à recomposição e/ou repactuação, conforme didaticamente exposto pelo dr. Belchior em seu voto. O que isso não implica, porém, é que, em qualquer caso, mantém se o regime cumulativo, pois não é isso o que diz o ato legal. Necessário, pois, provar. Quando se trata de lançamento de ofício, essa prova, a meu sentir, há de ser exigida e desconstituída fundamentadamente pela fiscalização para que possa ser mantido o lançamento. Já nos casos, como o presente, em que é a própria empresa quem postula administrativamente a sistemática cumulativa, ela deve ser a primeira peça a instruir o seu pleito. No presente caso, do relatório da decisão recorrida e da leitura da íntegra do processo, não encontro qualquer prova, no entanto, ainda que a empresa tenha afirmado em seu recurso voluntário que: "(...) em nenhum momento foram aferidos os custos de produção do contribuinte no período fiscalizado. Nesse caso, mesmo considerando que o IGPM desfigura o conceito normativo de preço predeterminado, não poderia ter sido ignorada outra prerrogativa legal, a qual estabelece um percentual não superior ao acréscimo do custo de produção". Como já repetidamente afirmado, tal prova competia a ela, postulante, e não à fiscalização. Fora isso, a defesa da empresa lastreiase essencialmente no ato da ANEEL, que efetivamente afirma que o IGPM cumpre o requisito legal relativo à tributação aqui discutida. Isso não obstante, rejeito o argumento, pois a competência da ANEEL não alcança matéria tributária. Com efeito, entre as atribuições daquela agência reguladora, exaustivamente elencadas na própria lei que a criou3, nada há acerca da tributação incidente sobre o setor. Assim, as Notas Técnicas e as Resoluções daquela agência reguladora aplicamse às questões inerentes à geração e à distribuição de energia elétrica e às atividades correlatas. Sua competência, pois, restringese à seara dos contratos, dos preços da energia e da remuneração das concessionárias e permissionárias desses serviços públicos. Por óbvio, entre tais atribuições está dizer que possa ser contratualmente previsto o IGPM. O que não pode é dizer que isso implica tal ou qual consequência tributária. 3 Lei 9.427/96, arts. 3º e 4º Fl. 615DF CARF MF Processo nº 11080.934345/200989 Acórdão n.º 9303004.529 CSRFT3 Fl. 7 6 No presente caso, como já afirmado, embora postule a compensação, nada trouxe a empresa que comprovasse a adequação do índice aos ditames legais. Voto, pois, por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional, e, no mérito, doulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 616DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.727495/2013-21
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009
PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. VÍCIO NO LANÇAMENTO. COMPROVAÇÃO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR.
Cabe ao Fisco a comprovação do fato constitutivo de seu direito de crédito, ou seja, a comprovação do ocorrência do fato gerador. Ao sujeito passivo, resta a comprovação da existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do crédito tributário comprovado pelo Fisco.
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MEDIANTE CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETENÇÃO. CABIMENTO.
A antecipação tributária representada pelo dever do contratante em reter e recolher 11% sobre o valor dos serviços prestados mediante cessão de mão-de-obra ocorre quando os serviços prestados constam do rol exaustivo do artigo 219 do RPS, são prestados em local indicado pelo contratante, são necessidade permanente deste contratante, e os trabalhadores são efetivamente cedidos, pelo prestador ao tomador dos serviços.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. LEI Nº 10.101/00. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. APLICABILIDADE.
Os valores pagos a título de PLR não sofrem incidência tributária somente se cumpridos os requisitos estabelecidos na Lei nº 10.101/00. Tais requisitos são aplicáveis aos segurados contribuintes individuais, não sendo permitido, porém a fixação de metas e resultados a serem atingidos unilateralmente, ou seja, sem a comprovação da participação dos trabalhadores e do sindicato.
PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR. NECESSIDADE DE EXTENSÃO DO BENEFÍCIO A TODOS OS SEGURADOS. CABIMENTO.
Após o advento da LC n° 109/2001, somente no regime fechado, a empresa está obrigada a oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados e dirigentes. No caso de plano de previdência complementar em regime aberto, poderá a empresa eleger como beneficiários grupos de empregados e dirigentes pertencentes a determinada categoria, em face das disposições da novel legislação.
ABONO DE FÉRIAS. CONCEITO. NÃO INCIDÊNCIA. DISTINÇÃO DA GRATIFICAÇÃO DE FÉRIAS.
A conversão do período de 10 dias de férias em período laboral é denominado pela legislação trabalhista e não sofre incidência das contribuições previdenciárias em face de seu caráter indenizatório. A gratificação de férias, valor ajustado e pago quando do gozo de férias, acordado por meio de contrato de trabalho, individual ou coletivo, sofre incidência tributária em face do caráter de adicional de remuneração.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO.
É ônus da Autoridade Lançadora a comprovação da ocorrência das condutas previstas na lei e ensejadoras da multa de ofício qualificada, sob pena de sua inaplicabilidade.
Numero da decisão: 2201-003.417
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso de ofício para restaurar o lançamento tributário referente à retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviços da prestadora EAGOES Serviços de Engenharia Elétrica Ltda. Quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i) excluir do lançamento os valores das retenções relativas aos contratos firmados pelas empresas: MGD Engenharia e Treinamento Ltda (levantamento 31); BEARINPOINT S/A (levantamento 28), BULL LTDA. (levantamento 24), TIVIT Terc. de Processos e Serv. (levantamento 18), ENERGIA ASSESSORIA (levantamento 03), STK Consultoria (somente o contrato nº 4600019969 de fls 2639); ii) excluir do lançamento os valores incidentes sobre a contribuição aos terceiros relativos ao plano de previdência privada pago aos diretores e gerentes; e iii) excluir a qualificadora da multa de ofício, reduzindo o valor desta ao percentual de 75%. Vencidos os Conselheiros Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Dione Jesabel Wasilewski que negavam provimento para a exclusão dos valores pagos a título de previdência privada. Realizou sustentação oral o Dr. Francisco Carlos Rosa Giardina, OAB/DF nº 41.765.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. VÍCIO NO LANÇAMENTO. COMPROVAÇÃO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. Cabe ao Fisco a comprovação do fato constitutivo de seu direito de crédito, ou seja, a comprovação do ocorrência do fato gerador. Ao sujeito passivo, resta a comprovação da existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do crédito tributário comprovado pelo Fisco. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MEDIANTE CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETENÇÃO. CABIMENTO. A antecipação tributária representada pelo dever do contratante em reter e recolher 11% sobre o valor dos serviços prestados mediante cessão de mão-de-obra ocorre quando os serviços prestados constam do rol exaustivo do artigo 219 do RPS, são prestados em local indicado pelo contratante, são necessidade permanente deste contratante, e os trabalhadores são efetivamente cedidos, pelo prestador ao tomador dos serviços. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. LEI Nº 10.101/00. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. APLICABILIDADE. Os valores pagos a título de PLR não sofrem incidência tributária somente se cumpridos os requisitos estabelecidos na Lei nº 10.101/00. Tais requisitos são aplicáveis aos segurados contribuintes individuais, não sendo permitido, porém a fixação de metas e resultados a serem atingidos unilateralmente, ou seja, sem a comprovação da participação dos trabalhadores e do sindicato. PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR. NECESSIDADE DE EXTENSÃO DO BENEFÍCIO A TODOS OS SEGURADOS. CABIMENTO. Após o advento da LC n° 109/2001, somente no regime fechado, a empresa está obrigada a oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados e dirigentes. No caso de plano de previdência complementar em regime aberto, poderá a empresa eleger como beneficiários grupos de empregados e dirigentes pertencentes a determinada categoria, em face das disposições da novel legislação. ABONO DE FÉRIAS. CONCEITO. NÃO INCIDÊNCIA. DISTINÇÃO DA GRATIFICAÇÃO DE FÉRIAS. A conversão do período de 10 dias de férias em período laboral é denominado pela legislação trabalhista e não sofre incidência das contribuições previdenciárias em face de seu caráter indenizatório. A gratificação de férias, valor ajustado e pago quando do gozo de férias, acordado por meio de contrato de trabalho, individual ou coletivo, sofre incidência tributária em face do caráter de adicional de remuneração. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. É ônus da Autoridade Lançadora a comprovação da ocorrência das condutas previstas na lei e ensejadoras da multa de ofício qualificada, sob pena de sua inaplicabilidade.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso de ofício para restaurar o lançamento tributário referente à retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviços da prestadora EAGOES Serviços de Engenharia Elétrica Ltda. Quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i) excluir do lançamento os valores das retenções relativas aos contratos firmados pelas empresas: MGD Engenharia e Treinamento Ltda (levantamento 31); BEARINPOINT S/A (levantamento 28), BULL LTDA. (levantamento 24), TIVIT Terc. de Processos e Serv. (levantamento 18), ENERGIA ASSESSORIA (levantamento 03), STK Consultoria (somente o contrato nº 4600019969 de fls 2639); ii) excluir do lançamento os valores incidentes sobre a contribuição aos terceiros relativos ao plano de previdência privada pago aos diretores e gerentes; e iii) excluir a qualificadora da multa de ofício, reduzindo o valor desta ao percentual de 75%. Vencidos os Conselheiros Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Dione Jesabel Wasilewski que negavam provimento para a exclusão dos valores pagos a título de previdência privada. Realizou sustentação oral o Dr. Francisco Carlos Rosa Giardina, OAB/DF nº 41.765. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 70; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2177; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C2T1 Fl. 2.669 1 2.668 S2C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10830.727495/201321 Recurso nº De Ofício e Voluntário Acórdão nº 2201003.417 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 07 de fevereiro de 2017 Matéria Contribuições Sociais Previdenciárias Recorrentes COMPANHIA PAULISTA DE FORCA E LUZ FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. VÍCIO NO LANÇAMENTO. COMPROVAÇÃO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. Cabe ao Fisco a comprovação do fato constitutivo de seu direito de crédito, ou seja, a comprovação do ocorrência do fato gerador. Ao sujeito passivo, resta a comprovação da existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do crédito tributário comprovado pelo Fisco. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MEDIANTE CESSÃO DE MÃODE OBRA. RETENÇÃO. CABIMENTO. A antecipação tributária representada pelo dever do contratante em reter e recolher 11% sobre o valor dos serviços prestados mediante cessão de mão deobra ocorre quando os serviços prestados constam do rol exaustivo do artigo 219 do RPS, são prestados em local indicado pelo contratante, são necessidade permanente deste contratante, e os trabalhadores são efetivamente cedidos, pelo prestador ao tomador dos serviços. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. LEI Nº 10.101/00. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. APLICABILIDADE. Os valores pagos a título de PLR não sofrem incidência tributária somente se cumpridos os requisitos estabelecidos na Lei nº 10.101/00. Tais requisitos são aplicáveis aos segurados contribuintes individuais, não sendo permitido, porém a fixação de metas e resultados a serem atingidos unilateralmente, ou seja, sem a comprovação da participação dos trabalhadores e do sindicato. PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR. NECESSIDADE DE EXTENSÃO DO BENEFÍCIO A TODOS OS SEGURADOS. CABIMENTO. Após o advento da LC n° 109/2001, somente no regime fechado, a empresa está obrigada a oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados e AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 74 95 /2 01 3- 21 Fl. 2670DF CARF MF 2 dirigentes. No caso de plano de previdência complementar em regime aberto, poderá a empresa eleger como beneficiários grupos de empregados e dirigentes pertencentes a determinada categoria, em face das disposições da novel legislação. ABONO DE FÉRIAS. CONCEITO. NÃO INCIDÊNCIA. DISTINÇÃO DA GRATIFICAÇÃO DE FÉRIAS. A conversão do período de 10 dias de férias em período laboral é denominado pela legislação trabalhista e não sofre incidência das contribuições previdenciárias em face de seu caráter indenizatório. A gratificação de férias, valor ajustado e pago quando do gozo de férias, acordado por meio de contrato de trabalho, individual ou coletivo, sofre incidência tributária em face do caráter de adicional de remuneração. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. É ônus da Autoridade Lançadora a comprovação da ocorrência das condutas previstas na lei e ensejadoras da multa de ofício qualificada, sob pena de sua inaplicabilidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso de ofício para restaurar o lançamento tributário referente à retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviços da prestadora EAGOES Serviços de Engenharia Elétrica Ltda. Quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para: i) excluir do lançamento os valores das retenções relativas aos contratos firmados pelas empresas: MGD Engenharia e Treinamento Ltda (levantamento 31); BEARINPOINT S/A (levantamento 28), BULL LTDA. (levantamento 24), TIVIT Terc. de Processos e Serv. (levantamento 18), ENERGIA ASSESSORIA (levantamento 03), STK Consultoria (somente o contrato nº 4600019969 de fls 2639); ii) excluir do lançamento os valores incidentes sobre a contribuição aos terceiros relativos ao plano de previdência privada pago aos diretores e gerentes; e iii) excluir a qualificadora da multa de ofício, reduzindo o valor desta ao percentual de 75%. Vencidos os Conselheiros Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Dione Jesabel Wasilewski que negavam provimento para a exclusão dos valores pagos a título de previdência privada. Realizou sustentação oral o Dr. Francisco Carlos Rosa Giardina, OAB/DF nº 41.765. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Fl. 2671DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.670 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão que julgou improcedente a impugnação ao lançamento de retenção de contribuições previdenciárias devida sobre o valor das notas fiscais/faturas de prestação de serviço mediante cessão de mão de obra. Os motivos ensejadores do lançamento tributário se encontram no Relatório Fiscal (fls 36 do processo digitalizado). Na ação fiscal foram constituídos os seguintes documentos de crédito: · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0177, no valor de R$ 7.880.189,73, atualizado até dezembro de 2013, referente ao valor do tributo, juros e multa de ofício, constituído no âmbito do processo administrativo nº 10830.727494/201387. · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0185, no valor de R$ 346.080,09, atualizado até dezembro de 2013, referente ao valor do tributo, juros e multa de ofício, constituído no âmbito do processo administrativo nº 10830.727494/201387. · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0193, no valor de R$ 29.510.222,34, atualizado até dezembro de 2013, referente à retenção das contribuições previdenciárias devidas sobre o valor das notas fiscais/fatura de serviços prestados mediante cessão de mãodeobra · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0207, no valor de R$ 2.077.504,55, atualizado até dezembro de 2013, relativa às contribuições incidentes sobre a folha de pagamento e devidas aos terceiros. · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0215, no valor de R$ 5.152,14, atualizado até dezembro de 2013, por descumprimento de obrigação acessória (CFL 30). · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0223, no valor de R$ 34.347,16, atualizado até dezembro de 2013, por descumprimento de obrigação acessória (CFL 35). · Auto de Infração Debcad n° 51.055.0231, no valor de R$ 3.434,76, atualizado até dezembro de 2013, por descumprimento de obrigação acessória (CFL 93). O crédito tributário constituído se refere a período de janeiro de 2009 a dezembro de 2009. Os lançamentos por descumprimento de obrigação acessória são lavrados no próprio mês da constituição do crédito tributário da obrigação principal inadimplida. O lançamento tributário se aperfeiçoou com a ciência do devedor principal em 20 de dezembro de 2013. Fl. 2672DF CARF MF 4 Inconformado, o devedor principal apresenta impugnação (fls. 1669), tempestivamente. A 5ª Turma da DRJ em Juiz de Fora/MG, por maioria de votos, por meio do Acórdão 09.51.435 (fls. 1181), decidiu pela procedência parcial da impugnação. Em razão dos valores excluídos do lançamento, a 5ª Turma da DRJ em Juiz de Fora recorre de ofício de sua decisão. Tal decisão contém o seguinte relatório, que adoto, por sua clareza e precisão (fls. 1183): "a) AIOP – DEBCAD nº 51.055.0193 consolidado em 17/12/2013, no valor de R$29.510.222,34 relativos ao período de 01/2009 a 12/2009 acostado às fls. 04/85 dos autos, para cobrança de obrigação principal proveniente da contribuição previdenciária patronal, para custeio da seguridade social decorrente da retenção de 11%, sob o amparo do artigo 31 da Lei nº 8.212/1991, em relação aos valores de serviços prestados mediante cessão de mãodeobra e empreitada. Os fatos geradores, conforme Discriminativo de Débito – DD de fls. 7/54 foram identificados em 33 levantamentos, contendo a identificação do CNPJ e o nome da empresa prestadora de serviço, bem como o período de exigência, onde foram exigidas a contribuição retida de 11% do valor do serviço contratado, acrescida da multa de ofício de 150%. b) AIOP DEBCAD nº 51.055.0207 consolidado em 17/12/2013, no valor de R$2.077.504,55, relativos às competências 01/2009 a 12/2009, acostado às fls. 86/100 dos autos, para cobrança da contribuição social de custeio das entidades e fundos – SALÁRIOEDUCAÇÃO; INCRA; SENAI; SESI e SEBRAE, incidente sobre a remuneração dos segurados empregados. Os fatos geradores, conforme Discriminativo de Débito – DD de fls. 89/94 foram identificados nos seguintes levantamentos: FE FÉRIAS exigindose a contribuição patronal de 5,8% para o custeio das outras entidades e fundos, os “terceiros”, com a aplicação da multa de oficio qualificada, no percentual de 150%, incidente sobre as remunerações pagas aos segurados empregados a título de adicional e gratificação de férias. PC – PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR: exigindose a contribuição patronal de 5,8% para o custeio das outras entidades e fundos, os “terceiros”, com a aplicação da multa de oficio qualificada, no percentual de 150%, incidente sobre as remunerações pagas aos segurados empregados a título de previdência complementar. PR – PARTICIPAÇÃO NOS RESULTADOS exigindose a contribuição patronal de 5,8% para o custeio das outras entidades e fundos, os “terceiros”, com a aplicação da multa de oficio qualificada, no percentual de 150%,, incidente sobre as remunerações pagas aos segurados empregados a título de participação nos resultados. c) AIOA DEBCAD nº55.055.0215 (fls. 101) lavrado em 17/12/2013, no valor de R$5.152,14, no Código de Fl. 2673DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.671 5 Fundamentação Legal 30, por infração ao disposto no art. 32, I, da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, combinado com o art. 225,I §9º do Regulamento da Previdência Social –RPS, aprovado pelo Decreto 3.048 de 06.05.1999, em razão de a empresa ter deixado de preparar folhas de pagamento das remunerações pagas ou creditadas a todos os segurados a seu serviço, de acordo com os padrões e normas estabelecidos pelo órgão competente da Seguridade Social. d) AIOA DEBCAD nº 51.055.0223 (fls.102) lavrado em 17/12/2013, no valor de R$34.347,16, no Código de Fundamentação Legal 35, por infração ao disposto no art. 32, III, e §11 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com redação da MP nº 449, de 03/12/2008, convertida na Lei nº. 11.941 de 27/05/2009, combinado com o art. 225,III do Regulamento da Previdência Social –RPS, aprovado pelo Decreto 3.048 de 06.05.1999, em razão de a empresa ter deixado de prestar a Secretaria da Receita Federal do Brasil todas as informações cadastrais, financeiras e contábeis de interesse da mesma, na forma estabelecida, bem como os esclarecimentos necessários à fiscalização. e) AIOA DEBCAD nº 51.055.0231 (fls.103) lavrado em 17/12/2013, no valor de R$3.434,76, no Código de Fundamentação Legal 93, por infração ao disposto no art. 31 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991,com a redação dada pela Medida Provisória 447 de 17/11/2008, combinado com o art. 219 do Regulamento da Previdência Social –RPS, aprovado pelo Decreto 3.048 de 06.05.1999, em razão de a empresa contratante de serviços executados mediante cessão de mão de obra de reter 11% do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviço. No Relatório Fiscal de fls. 104/171, sobre as autuações específicas do presente processo de constituição, a autoridade lançadora registrou, em síntese, que: O auditor após identificar o sujeito passivo registra que tratase de grupo econômico à luz do inciso IX do art. 30 da Lei nº8.212/1991, contudo para este processo de lançamento não formalizou os procedimentos necessários para a consecução da responsabilidade solidária. Ressalta o auditor que o contribuinte, em ações fiscais anteriores, reiteradamente, recebeu autuações pelos mesmos fatos geradores, no caso, pelo não recolhimento de contribuições devidas incidentes sobre valores pagos a título de participação nos lucros e resultados, previdência complementar, gratificações de férias, bem como retenções relativas a serviços terceirizados. Às fls. 112 /124 do Relatório Fiscal o auditor transcreve a legislação previdenciária que disciplina a exigência da retenção de 11% da contribuição previdenciária, incidente sobre o valor bruto da prestação de serviço. A partir da fls. 124 até 133 cita a legislação constitucional e ordinária que regem os fatos Fl. 2674DF CARF MF 6 geradores Participação nos Lucros e ResultadosPLR; Previdência Complementar e Férias. Na descrição dos fatos apurados no procedimento fiscal o auditor ressalta que ao longo dos anos as empresas do Grupo CPFL Energia vem sendo fiscalizada e reiteradamente autuada tanto por deixar de recolher contribuições para a previdência social como por descumprimento de obrigação acessória, esta prática freqüente, somada ao que se constatou durante o procedimento fiscal, demonstra que a CPFL Energia tem ciência de que as referidas importâncias são base de cálculo das contribuições previdenciárias, assim como tem ciência de que determinadas condutas tem como resultado a supressão ou redução do recolhimento de contribuição previdenciária, o que é tipificado como crime. Para a apuração das contribuições devidas foram analisados os seguintes documentos: arquivos magnéticos de folhas de pagamento e da contabilidade; acordo coletivo de trabalho, contratos de previdência complementar na modalidade PGBL; Planilha de pagamentos de contribuições relativas à previdência complementar; Plano de Previdência Complementar com Bradesco Vida e Previdência S/A FGB; notas fiscais de serviço emitidas por terceiros em meio digital leiaute do Ato Declaratório Executivo ADE Cofis n° 15/2001, com redação dada pelos ADE Cofis nº 55/2009 e 25/2010; contratos de prestação de serviço relativos a cessão de mão de obra e empreitada, incluindo aditivos, anexos e minutas; informações extraídas dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil No tocante ao lançamento, a fiscalização apresenta as seguintes considerações: 1. Sobre Retenção explica que foram anexados ao relatório fiscal todos os contratos que serviram de base aos levantamentos feitos na presente ação fiscal, incluindo algumas minutas quando estas eram as únicas fontes contratuais disponíveis. No relatório denominado “RELAÇÃO DE NOTAS Paulista” foram incluídos todas as notas fiscais que serviram de base para o lançamento, extraídas dos arquivos digitais. No relatório “RL –Relatório de Lançamentos” do Auto de Infração AI DEBCAD n° 51.055.0193 foram lançadas as somas dos valores das notas fiscais por competência e por prestador de serviços. No relatório “DD – Discriminativo do Débito” foram relacionados todos os códigos de levantamento, discriminando por competência, as bases de cálculo, as rubricas, as alíquotas, as diferenças existentes, o valor dos juros SELIC, o valor da multa e o valor total cobrado. Os códigos de levantamento receberam números sequenciais (01, 02, …), seguidos dos nomes dos levantamentos que correspondem ao número do participante adotado pela própria empresa. Às fls. 141/144 o auditor apresenta a relação das empresas prestadoras de serviço o período e a identificação do serviço, cujos contratos foram inseridos na presente exigência fiscal. 2 Quanto ao lançamento de valores pagos a título de Participação nos Lucros e/ou Resultados – PLR, aduz que a Fl. 2675DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.672 7 empresa apresentou acordos coletivos de trabalho abrangendo o período de 2008 a 2010, celebrado entre as empresas do grupo CPFL Energia COMPANHIA PAULISTA DE FORÇA E LUZ (CPFL Paulista), CPFL GERAÇÃO DE ENERGIA S/A (CPFL Geração) e CPFL COMERCIALIZAÇÃO BRASIL S/A (CPFL Brasil) – e o SINDICATO DOS TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DE ENERGIA ELÉTRICA DE CAMPINAS. O acordo coletivo disciplina na sua cláusula 5ª a PRL. Nesta cláusula estipula as regras e condições da participação dos empregados, prevendo metas de resultado, montante a ser distribuído e período de pagamento no caso de as metas serem cumpridas ou superadas. No parágrafo 10° desta cláusula foram definidos os trabalhadores que teriam direito à percepção dos valores, assim como as condições de pagamento no caso de admissão, desligamento ou afastamento dentro do período de referência, no entanto, no parágrafo 11 prevê que a PLR destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuaria seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na referida cláusula, definidas diretamente pela CPFL e interessados. A mesma situação foi constatada no acordo coletivo apresentado pela CPFL Piratininga. Diante da cláusula contratual que estabelecia negociações especiais para a PLR foi solicitado às empresas do grupo fiscalizadas os instrumentos decorrentes da negociação entre a CPFL e os ocupantes de cargos gerenciais e diretivos. Em resposta, a CPFL Energia entregou em 01/08/2013 esclarecimentos por escrito em que informa que “a aprovação da contratação de metas dos ocupantes dos cargos gerenciais e diretivos é realizada através do sistema Web”. Junto com tal explicação acrescentou telas de um sistema informatizado interno da empresa em que consta uma relação de matrículas, siglas, nomes e cargos de trabalhadores. Concluindo o tema PLR o auditor destaca que na forma apresentada, a autuada deixou de observar o disposto nos incisos I e II do art. 2º da Lei 10.101/2000, que exige, em todos os procedimentos de negociação entre a empresa e seus empregados, a presença do sindicato representativo da categoria dos trabalhadores, em conseqüência, tal verba passa a integra o salário de contribuição, não sendo aplicada, ao caso a exceção prevista na alínea “j” do §9º do art. 28 da Lei 8.212/1991. A identificação de ocupantes de cargos gerenciais e diretivos da CPFL Paulista, denominados diretores e gerentes, consta da relação anexada ao processo intitulada “PLR de cargos gerenciais”e todos os valores utilizados no lançamento foram extraídos da folha de pagamento em meio digital apresentada, conforme arquivos constantes da relação de Recibos de Entrega de Arquivos Digitais anexada ao processo, correspondentes às rubricas “VR1 PARTIC LUCRO RESULTADO” e “VR2 PARTIC LUCRO RESULTADODIFEREN”. Fl. 2676DF CARF MF 8 Destaca o auditor que não foram lançadas contribuições dos segurados empregados, relativamente a PLR, uma vez que a remuneração dos ocupantes de cargos gerenciais e diretivos que receberam as rubricas VR1 e VR2 era superior ao limite máximo do salário de contribuição. 3. Sobre o levantamento Previdência Complementar a autoridade lançadora explica que a CPFL Energia celebrou contratos de previdência complementar com a “FUNDAÇÃO CESP”, “Bradesco Vida e Previdência” e “Brasilprev”, que foram oferecidos como parte do pacote de benefícios a empregados, chamados de Colaboradores Efetivos, e aos Gerentes, Diretores, Presidentes e Vices, denominados Gerentes de Divisão, Gerentes de Departamento e Executivos. (...) 4.Com relação ao levantamento Férias apurouse pelo exame das folhas de pagamento que o valor do adicional constitucional de férias e de gratificação de férias não integraram a base de cálculo das contribuições previdenciárias da CPFL Energia. (...) Conclui o auditor que a Gratificação de Férias do Acordo Coletivo celebrado pela CPFL Paulista corresponde a valor complementar ao adicional constitucional mínimo de um terço. O terço constitucional de férias e qualquer gratificação adicional integram o salário de contribuição, Finaliza resumindo que as rubricas V37, V30, V34 e V42 integram o conceito de salário de contribuição nos termos do artigo 28 da Lei nº 8.212/1991. Ressalta que as contribuições dos segurados empregados foram lançadas em observância ao § 5º do artigo 216 do Decreto 3.048/1999, que prevê que o desconto da contribuição legalmente determinado sempre se presumirá feito. Fundamentando a qualificação da multa o auditor cita o art. 44 da Lei 9.430/1996 e aduz que a CPFL Paulista tinha plena ciência de que determinadas importâncias eram fatos geradores de contribuições previdenciárias e destinadas a outras entidades e fundos, porque já havia sido anteriormente fiscalizada e exigida a contribuição previdenciária sobre as mesmas verbas (AI DEBCAD 37.347.8232, 37.347.8240, 37.347.8259, 37.347.8267, 37.347.8275, 37.347.8283 e 37.365.1317, incluídos no Processo Administrativo Fiscal COMPROT 10830.720976/201225, e os Autos de Infração – AI DEBCAD 51.011.9514 e 51.011.9522, incluídos no Processo Administrativo Fiscal COMPROT 10830.720975/201281item 9.1.4 fls. 134 do RF ). Entende o auditor que a permanência com o procedimento de exclusão da incidência de tais verbas, implicou em ação ou omissão dolosa, com vistas a impedir o conhecimento por parte das autoridades fazendárias da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, caracterizada pelo evidente intuito de sonegação. Fl. 2677DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.673 9 Sobre as autuações por descumprimento de obrigações acessórias o auditor fiscal para o AIOA CFL 30 assim descreveu a infração: “A CPFL Paulista deixou de preparar folhas de pagamento das remunerações pagas aos segurados a seu serviço de acordo com os padrões e normas estabelecidos pela Receita Federal do Brasil, considerando que não incluiu as parcelas integrantes da remuneração dos segurados empregados correspondentes à contribuição da pessoa jurídica para os planos PGBL (Levantamento PC – PREVIDENCIA COMPLEMENTAR)”. A multa aplicada corresponde ao valor de R$5.152,14 , e foi determinada considerando: A atualização do valor da multa prevista no inciso I do artigo 283 do RPS, por meio da PORTARIA MF/MPS nº 15, de 10/01/2013, (DOU de 11/01/2013), para R$ 1.717,38. O fato de a empresa ter incorrido em reincidência, o que constitui circunstância agravante da infração, prevista no inciso V do artigo 290 do RPS, uma vez que foram lavrados em procedimentos fiscais anteriores, dentre outros, Autos de Infração de Código de Fundamentação Legal n° 30 (AI DEBCAD 51.011.9514) e n° 34 (AI DEBCAD 51.011.9522) em 02/2012; Que a multa foi elevada em três vezes, conforme determinado no inciso IV do artigo 292 do RPS, que estabelece que a mesma deve ser elevada em três vezes a cada reincidência no mesmo tipo de infração, observados os valores máximos estabelecidos. O AIOA – CFL 35 foi motivado da seguinte forma: A CPFL Paulista deixou de prestar os esclarecimentos necessários à fiscalização, tendo em vista que deixou de apresentar parte dos contratos e anexos relativos aos serviços executados mediante cessão ou empreitada de mão de obra, requeridos por meio dos Termos de Intimações lavrados em 12/04/2013 e em 06/06/2013. A multa aplicada corresponde ao valor de R$ 34.347,16 e foi determinada considerando: A atualização do valor da multa prevista no inciso II do artigo 283 do RPS, por meio da PORTARIA MF/MPS nº 15, de 10/01/2013, (DOU de 11/01/2013), para R$ 17.173,58; O fato de a empresa ter incorrido em reincidência, o que constitui circunstância agravante da infração, prevista no inciso V do artigo 290 do RPS, uma vez que foram lavrados em procedimentos fiscais anteriores, dentre outros, Autos de Infração de Código de Fundamentação Legal n° 30 (AI DEBCAD 51.011.9514) e n° 34 (AI DEBCAD 51.011.9522) em 02/2012; Fl. 2678DF CARF MF 10 Que a multa foi elevada em duas vezes, conforme determinado no inciso IV, do artigo 292 do RPS, que estabelece que a mesma deve ser elevada em duas vezes a cada reincidência em infrações diferentes, observados os valores máximos estabelecidos; O AIOA – CFL 93 foi motivado da seguinte forma: A CPFL Paulista, empresa contratante, deixou de reter onze por cento do valor bruto de nota fiscal ou fatura de prestação de serviços executados mediante cessão e empreitada de mãode obra. A multa aplicada corresponde ao valor de R$ 3.434,76 e foi determinada considerando: A atualização do valor da multa pela infração a qualquer dispositivo do RPS, para a qual não haja penalidade expressamente cominada no art. 283 do RPS, por meio da PORTARIA MF/MPS nº 15, de 10/01/2013, (DOU de 11/01/2013), variando, conforme a gravidade da infração, de R$ 1.717,38 a R$ 171.736,10; O fato de a empresa ter incorrido em reincidência, o que constitui circunstância agravante da infração, prevista no inciso V do artigo 290 do RPS, uma vez que foram lavrados em procedimentos fiscais anteriores, dentre outros, Autos de Infração de Código de Fundamentação Legal n° 30 (AI DEBCAD 51.011.9514) e n° 34 (AI DEBCAD 51.011.9522)em 02/2012; Que a multa foi elevada em duas vezes, conforme determinado no inciso IV do artigo 292 do RPS, que estabelece que a mesma deve ser elevada em duas vezes a cada reincidência em infrações diferentes, observados os valores máximos estabelecidos. Cientificada do lançamento, a autuada oferece em 21/01/2014 a impugnação de fls. 565/639, onde, após qualificarse e resumir os fatos que levaram à autuação, apresenta as alegações contra os lançamentos, propugnando, pela tempestividade da peça de contestação e em preliminar, aduz estar ausente a descrição dos fatos imponíveis, haja vista a falta de uma fundamentação clara e precisa sendo que essa situação prejudica o devido processo legal, pois “a generalidade existente impossibilita a ampla produção de provas, em face do alargamento semântico atribuído à conjuntura da incidência e o desconhecimento do imputado.” Sobre os fatos geradores específicos do presente processo de constituição, alega que as ponderações trazidas nos autos de infração não passam de conjecturas, porque deixam de pormenorizar a relação descrevendo precisamente o fato que dá início à incidência dos débitos de contribuições sociais. Diz que o Auditor Fiscal não relacionou as normas jurídicas que imporiam o recolhimento previdenciárias sobre os eventos de folha autuados e sobre a PLR e as contribuições ao PGBL, tão pouco demonstrou que os prestadores executaram serviços mediante cessão de mão de obra ou empreitada, a ensejar o dever legal de retenção. A auditoria, em síntese, atribuiu à Impugnante o dever ilegal de constituir prova negativa, demonstrando, dentre outros fatos, que: Fl. 2679DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.674 11 os serviços contratados não foram executados mediante cessão de mão de obra ou empreitada até porque não são atividades sujeitas ao modelo de cessão ou empreitada presumindo, ilegalmente, a existência dessa relação jurídica a Participação nos Resultados deferida aos gerentes e diretores não contrariou o disposto na Lei 10.101/00, sobretudo porque a PLR foi objeto de negociação coletiva entre os interessados a previdência privada não era discriminatória, na medida em que todos os empregados dispunham de planos patrocinados pela impugnante, e ainda que não houvesse observado universalidade, a Resolução nº 139, de 2005, autoriza os plano abertos coletivos para uma ou mais categoria específica de empregados de um mesmo empregador, sem prejuízo da descaracterização da sua natureza salarial enunciada pelo artigo 202, §25, da CF e pelo artigo 458, inciso VI, da CLT; os eventos de gratificação de férias, abono de férias e aviso prévio indenizado não integram a base de cálculo das contribuições previdenciárias sobre a folha. Requer a nulidade material dos Autos de Infração, ante a inobservância de requisitos essenciais à validade do ato administrativo de lançamento, consistente na descrição pormenorizada dos fatos imponíveis. No mérito, sobre retenção, aduz que a fiscalização não se desincumbiu da tarefa de apurar, previamente, a efetiva existência de débito previdenciário dos prestadores de serviços, antes de exigir o indébito da Impugnante. Argumenta que a existência de débito é condição primeira e necessária para que se proceda ao lançamento de oficio, nas hipóteses em que o tributo é sujeito ao lançamento por homologação como é o caso da contribuição previdenciária. Entende nulos os autos de infração, porque o Auditor Fiscal não procedeu, preliminarmente, à fiscalização das empresas prestadoras de serviços, na condição de contribuintes principais, ou por tratarse de responsabilidade solidária, deveria ter efetuado o lançamento concomitante contra a empresa prestadora de serviço e o responsável. Neste sentido transcreve decisões judiciais. Alega que as contratadas recolheram as contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração das pessoas com as quais manteve vínculo de emprego no período fiscalizado. Se fosse admitida lançamentos fiscais ora combatidos, estarseia referendando a bitributação, haja vista que ocorre o lançamento de ofício sobre fato gerador anteriormente tributado mediante o lançamento por homologação. Defende que às situações contratadas não se aplica o art. 31 da Lei 8.212/1991, porque não se configura na contratação a cessão de mão de obra pois ausente a submissão do empregado ao poder de comando do contratante. Não basta, portanto, a colocação de empregados à disposição do contratante, devendo Fl. 2680DF CARF MF 12 haver entre este e aqueles uma inegável subordinação hierárquica, sem a qual não se aperfeiçoará a cessão de mão de obra. Reclama que o auditor não se ocupou de investigar a natureza dos serviços contratados pela Impugnante. Negligenciou, outrossim, a forma de execução desses serviços, que sequer poderiam se adequar ao formato da relação jurídica de cessão ou empreitada. Afirma que os serviços contratados pela Impugnante no exercício fiscal de 2009 não foram executados mediante cessão ou empreitada de mãodeobra, tampouco estavam previstos no inventário taxativo do artigo 219 do Decreto n. 3.048/99. Com relação aos serviços arrolados no relatório diz que os serviços de treinamento; elaboração de projeto de instalação, sistemas e construção, serviços de informática/tecnologia da informação; não estão sujeitos à retenção porque não foram contratados como cessão de mão de obra ou empreitada, salienta que : Os serviços eram executados de forma personalíssima pelos sócios da contratada, que não estavam à disposição da contratante em caráter habitual; O trabalho não era executado nas dependências da contratante ou nas dependências de terceiros, mas em estabelecimento da empresa contratada; O objeto da contratação não era a realização de serviços contínuos, por não constituírem necessidade permanente da contratante; Os serviços estavam objetivavam a entrega de obra ou serviço por preço ajustado; Os serviços contratados foram prestados pessoalmente pelos sócios, sem o concurso de empregados ou de outros contribuintes individuais, não há que se cogitar acerca do dever de retenção. Transcreve solução de consulta sobre o tema Destaca que, mesmo tendo sido os serviços prestados com cessão de mão de obra ou empreitada e previstos no rol taxativo do artigo 219, do Decreto 3.048/1999, foram contratados e executados, observadose a norma prevista no art. 120, inciso III, da IN RFB nº 971/2009, que desobriga a retenção quando a contratação envolver somente profissionais relativos ao exercício de profissionais regularmente por legislação federal, ou serviços de treinamento e ensino definidos no inciso X do art. 118, desde que prestados sem concurso de empregados ou de outros contribuintes individuais, a exemplo dos serviços contratados envolvendo engenheiros, arquitetos e agrônomos. Sobre os serviços de instalação e leitura de medidores, afirma que não foram prestados mediante cessão de mãodeobra, porque não atenderam os requisitos previstos nos parágrafos do artigo 31, quais sejam: Colocação de segurados à disposição do contratante; Realização dos serviços nas dependências do contratante ou nas de terceiros; Realização de serviços contínuo, relacionados ou não com a atividadefim da empresa. Acrescenta que as atividades de instalação e leitura de medidores, por sua natureza, não poderiam ser realizadas nas dependências da contratante, tampouco as pessoas físicas Fl. 2681DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.675 13 prestadoras de serviço poderiam estar hierarquicamente subordinadas à Impugnante, sobretudo porque o trabalho é realizado em vias públicas, e não nas dependências do contratante. Com relação aos serviços de construção civil diz que foram contratados no regime de empreitada global e sobre os serviços de cobrança nega a cessão de mão de obra, porque não eram realizados nas dependências da contratante ou de terceiro por ela indicado, mas nas dependências da contratada. (...)" Cientificado de decisão que contrariou seus interesses em 23 de junho de 2014, às 9.59hs, por meio de notificação eletrônica realizada em seu domicilio tributário (despacho de folhas 2318), o sujeito passivo interpôs, tempestivamente, em 23 de julho de 2014, recurso voluntário (fls. 2331). Constam do recurso voluntário do devedor principal, em síntese, as mesmas alegações constantes da impugnação interposta e acima reproduzida. O processo foi distribuído, por sorteio eletrônico, para este Conselheiro. É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira Tanto o recurso de ofício quanto o voluntário preenchem os requisitos de admissibilidade. Deles conheço e passo a apreciálos na ordem de suas alegações, iniciando pelo recurso de impulso oficial. RECURSO DE OFÍCIO Consta da decisão de piso (fls. 2.279): "Acordam os membros da 5ª Turma de Julgamento, por maioria de votos, julgar procedente em parte a impugnação, mantendose o crédito tributário retificado, bem como indeferir o pedido de diligência. Vencida a relatora no tocante à exclusão da qualificação da multa de ofício. Designada a julgadora Maria Isabel Steinherz Hippert para redação do voto vencedor. A retificação no crédito tributário constituído deve observar os seguintes itens: 1. Exclusão da agravante de reincidência dos autos de infração por descumprimento de obrigação acessória, corrigindose o valor da multa para CFL 30 DEBCAD 51.055.0215 = Fl. 2682DF CARF MF 14 R$1.717,38; CFL 35 DEBCAD 51.055.0223 = R$17.173,58; CFL 93 DEBCAD 51.055.0231, = R$1.717,38. 2. Exclusão dos seguintes levantamentos de exigência da retenção de 11% : Levantamento Período Nome 04 1028533 01/2009 a 12/2009 ATOS ORIGIN SERVIÇOS DE TECNOLOGIA 05 1022955 01/2009 a 12/2009 ULTRACON CONSULTORIA EM TECNOLOGIA 07 1016488 01/2009 a 12/2009 CLIC ENERGIA S/C LTDA 09 1022347 01/2009 a 12/2009 PAULISTA SERVICE ENGENHARIA LTDA 12 1028400 01/2009 a 12/2009 TEMAQ ENGENHARIA COMERCIO E REPRESE 13 1033091 01/2009 a 12/2009 MEGAENERGIA INSTALAÇÕES ELÉTRICAS E C 14 1036446 01/2009 a 12/2009 DO IT TECNOLOGIA E CONSULTORIA EM INF 17 1031532 01/2009 a 12/2009 TECNOLIGHT PROJETOS, INSTALAÇÕES E SERVIÇOS 19 1041399 01/2009 a 12/2009 SOFTWARE AG BRASIL INFORMÁTICA E SERV 20 1037659 04/2009 a 12/2009 EAGOES SERVIÇOS DE ENGENHARIA ELETRICA 21 1039099 01/2009 a 12/2009 TIVIT TERCEIRIZAÇÃO DE TECNOLOGIA 22 1041213 01/2009 a 12/2009 DATASUL 27 1016778 01/2009 a 12/2009 TOTVS S/A 29 – 1011879 01/2009 a 12/2009 STEFANINI CONSULTORIA E ASSESSORIA 32 1000723 01/2009 a 12/2009 SAP BRASIL LTDA 3. Manutenção da multa de ofício no percentual de 150% em todo os valores remanescentes. Intimese para pagamento do crédito mantido no prazo de 30 dias da ciência, salvo interposição de recurso voluntário ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em igual prazo, conforme facultado pelo art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 6 de março de 1972, alterado pelo art. 1º da Lei n.º 8.748, de 9 de dezembro de 1993, e pelo art. 32 da Lei 10.522, de 19 de julho de 2002. Submetase à apreciação do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de1997, e Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008, por força de recurso necessário. A exoneração do crédito procedida por este acórdão só será definitiva após o julgamento em segunda instância." Observase que o recurso de ofício se deve à exclusão das reincidência verificada pela Autoridade nos autos de infração por descumprimento de obrigação acessória e Fl. 2683DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.676 15 pelo afastamento da cobrança da retenção relativa às notas fiscais dos serviços prestados pelas empresas acima mencionadas. No tocante à exclusão da reincidência observada pelo Fiscal, não vejo reparos a serem feitos na decisão de piso. Assim decidiu o julgador 'a quo' (fls 2.310): "Sobre os autos de infração por descumprimento da obrigação acessória de elaborar folha de pagamento nos padrões exigidos, deixar de apresentar documento solicitado pela fiscalização e deixar de fazer a retenção cumpre esclarecer que a fiscalização, ao constatar o descumprimento de obrigação acessória, não pode se abster da lavratura do Auto de Infração, com a aplicação da multa correspondente, sob pena de responsabilidade funcional, tendo em vista o artigo 142, parágrafo único do Código Tributário Nacional. Na situação em pauta as infrações foram apuradas e as penalidades sustentadas em legislação previdenciária específica No Relatório Fiscal da Aplicação da Multa (fls.165) informa o auditor que o contribuinte é reincidente na mesma infração, uma vez que consta Auto de Infração lavrado em ação fiscal anterior, fato que caracteriza circunstância agravante, sendo o valor da multa triplicado na autuação relativa ao CFL 30, por reincidência especifica, e em duas vezes nos autos de CFL 35 e 93, por reincidência genérica, conforme determina o art. 290, inciso V, art. 292, inciso IV do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/1999. Contudo, verificase que foi equivocada a gradação da multa aplicada pela fiscalização, como demonstrado a seguir: Os artigos 290, inciso V, parágrafo único, e 292, inciso IV do RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99 dispõem que: Art. 290. Constituem circunstâncias agravantes da infração, das quais dependerá a gradação da multa, ter o infrator: (...) V incorrido em reincidência. Parágrafo único. Caracteriza reincidência a prática de nova infração a dispositivo da legislação por uma mesma pessoa ou por seu sucessor, dentro de cinco anos da data em que se tornar irrecorrível administrativamente a decisão condenatória, da data do pagamento ou da data em que se configurou a revelia, referentes à autuação anterior. (Redação dada pelo Decreto nº 6.032, de 2007) (...) Art. 292. As multas serão aplicadas da seguinte forma: (...) Fl. 2684DF CARF MF 16 IV a agravante do inciso V do art. 290 eleva a multa em três vezes a cada reincidência no mesmo tipo de infração, e em duas vezes em caso de reincidência em infrações diferentes, observados os valores máximos estabelecidos no caput dos arts. 283 e 286, conforme o caso; e Os autos de infração citado pelo auditor como motivadores da reincidência cujos DEBCAD são os de nºs 51.011.9514 e 51.011.9522, foram formalizados no processo COMPROT 10830.720975/201281contendo os autos de infração por descumprimento de obrigação acessória nos CFL 30 e 34, cientificados em 05/03/2012. Julgamento de 1ª Instância, Acórdão nº 05038.382 da 6ª Turma da DRJ – Campinas, exarado em 10/07/2012 – Situação atual – CARF “FORMALIZAR DECISÃO. Assim, diante da falta de decisão administrativa definitiva, conforme exigido no art. 42 do Decreto nº 70.235/1972, não há, com relação a estes processos, a agravante de reincidência . Pelo exposto, a correta gradação da multa deve se dar sem nenhuma elevação do valor mínimo, correspondendo , tendo em vista a não ocorrência de circunstâncias agravantes a: CFL 30 DEBCAD 51.055.0215 valor da multa R$1.717,38; CFL 35 DEBCAD 51.055.0223 valor da multa R$17.173,58; CFL 93 DEBCAD 51.055.0231, valor da multa R$1.717,38." Assiste razão à decisão de primeiro grau. A reincidência só se aplica após o trânsito em julgado do auto de infração que constatou o descumprimento da obrigação acessória pelo sujeito passivo. A transcrição acima demonstra que, à época dos fatos, tal trânsito ainda não havia ocorrido. Recurso de ofício negado nessa parte Vejamos agora a exclusão do crédito tributário no tocante a retenção das contribuições previdenciárias incidentes sobre o valor da nota fiscal de prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra. Por se tratar de tema que permeia todo o lançamento e por via de consequência, tanto o recurso de ofício quanto o voluntário, necessário que se explicite os conceitos aplicáveis, antes da análise específica das alegações pontuais. Para tanto, esmiucemos os termos legais, mais notadamente a definição de cessão de mãodeobra, nos aspectos da disponibilização de trabalhadores e na exigência da continuidade da prestação de serviços. Como explicitado na Instrução Normativa RFB nº 971/2009, por disponibilização de trabalhadores entendese a efetiva cessão dos empregados da empresa contratada para a contratante, nas dependências desta ou onde ela indicar, deixando de ter a prestadora de serviços a força do labor dos seus trabalhadores cedidos. Tal conceituação, que à primeira vista parece tautológica, permite – quando bem entendida – que se afira a efetiva cessão de mãodeobra, uma vez que a empresa contratada quando cede seus trabalhadores com eles não pode contar para a realização de qualquer outra tarefa, exceto aquela estabelecida com seu contratante, na qual mediante cessão de mãodeobra prestará o serviço avençado. Enfrentemos agora a questão da continuidade dos serviços prestados por meio de cessão de mãodeobra. Por expressa disposição da Instrução Normativa RFB nº Fl. 2685DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.677 17 971, acima colacionada, no parágrafo 2º do artigo 115, a continuidade da prestação dos serviços não deve ser entendida como um tempo, ou ainda uma freqüência da efetiva contratação da prestadora de serviços e sim deve ser aferida quanto à necessidade da contratante, ou seja, se a utilidade daquele serviço prestado pela contratada se repetirá para a tomadora do serviço de modo contínuo, de modo perene, mesmo que com amplo intervalo de tempo entre os eventos que demandem a prestação de serviço. Com exemplo se entende melhor: a prestação de um serviço de manutenção de uma máquina ou um equipamento é uma necessidade contínua de uma empresa que possua tal máquina ou equipamento, sob pena de não poder utilizar o seu bem por falha na manutenção deste. Agora, a periodicidade dessa manutenção depende do tipo de equipamento, de seu uso, de sua condição de uso, de sua idade, etc. Logo, se realizada com disponibilização de pessoal, e nas dependências da contratante ou onde ela indicar, a prestação de serviços de manutenção será mediante cessão de mãodeobra, e, portanto, deverá sofrer a antecipação tributária previdenciária instituída pela Lei nº 9.711, de 1998. Assentemos. Ocorre prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra quando os serviços sob análise constam do rol taxativo elencado no parágrafo 2º do artigo 219 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, e a prestadora disponibiliza seus trabalhadores (deixando de com eles contar para outras tarefas que não as contratadas no caso em análise), para prestar serviços que sejam de necessidade contínua da tomadora, nas dependências dela, ou em local por ela indicado. Por todo o dito, podemos inferir que os serviços são prestados mediante cessão de mãodeobra, e portanto, deverão sofrer a retenção de 11% sobre os valores a eles referentes, constantes da nota fiscal, fatura ou recibo, nos termos do artigo 31 da Lei nº 8.212, de 1991, quando no serviço constante do rol exaustivo do artigo 219, §2º, do RPS, a contratada perde, por ter efetivamente cedido, a capacidade de contar com os trabalhadores que – naquele momento contratualmente previsto – estiverem laborando na consecução do desiderato do contrato firmado com a tomadora dos seus serviços. Firmes quanto aos conceitos aplicáveis à prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra, analisemos as alegações da decisão 'a quo'. Sobre o ponto, assim decidiu a 5ª Turma da DRJ em Juiz de Fora (fls 2294): "(...) Recorrendose, doravante, aos elementos de defesa temse que a impugnante insurge contra a existência de cessão de mão de obra nos serviços de treinamento. Sobre esta prestação de serviço foram indicadas no Relatório Fiscal as seguintes contratada: STK CONSULTORIA LTDA; ZITTO & VALADARES LTDA; EAGOS SERVIÇOS DE ENGENHARIA ELÉTRICA LIMITADA Analisando os contratos anexados na peça de defesa cabem os seguintes comentários: às fls. 1907 foi anexado o contrato da ZITTO & VALADARES LTDA onde no item II consta que o OBJETO DO CONTRATO, CONDIÇÕES PARA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS E PRAZO seriam descritos no Anexo I, cujos termos fazem parte integrante do contrato, contudo o referido anexo não foi acostado aos autos, o que tornou impossível a análise pedida pela autuada. Fl. 2686DF CARF MF 18 Pela leitura só do contrato, sequer é possível conhecer o tipo de atividade. O mesmo acontece com o STK Consultoria Ltda, cujo contrato e Anexo não foram apresentados. Com relação a EAGOES SERVIÇOS DE ENGENHARIA ELÉTRICA LIMITADA às fls. 2238 e às fls. 2249, acostouse o contrato padrão da empresa e o ANEXO I onde o objeto descrito é “ a prestação de serviços de treinamentos aos engenheiros e técnicos de proteção e automação da CPFL, os fundamentos básicos necessários para uma visão ampla ao entendimento do protocolo de comunicação IEC 61850, utilizado atualmente nos dispositivos de proteção das subestações”. A metodologia exigida para a prestação de serviço “ a técnica expositiva realizar uma explanação detalhada dos fundamentos e conceitos do referido protocolo IEC 61850”. O numero de participantes era de 15 por curso, o local na sede da CPFL em Campinas e o prazo de contrato de 04/2008 a 03/2009, prorrogado conforme termo aditivo de fls. 2274 até 02/2010. O levantamento da retenção de 11% do presente contrato recebeu o número 201037659. Em consonância com a autuada entendo que não há neste caso retenção, pela falta de cessão de mão de obra. Especificamente, sobre serviços de treinamento é pertinente atentar que o deslocamento de profissionais da empresa contratada para ministrar treinamentos nas instalações da contratante ou em local por esta designado, por si só, não é fator suficiente para configurar a cessão de mão de obra, especialmente quando os treinamentos constituem produto desenvolvido pela contratada e por ela ofertado aos interessados, ainda que cada produto sofra adequações para ajustarse às peculiares necessidades de cada contratante, sendo irrelevante, neste caso, o tempo de duração de cada curso. Nesta hipótese, entendo estar diante de uma empreitada, assim considerado porque a empresa contratada tem como objeto social a preparação e realização de treinamentos por ela produzidos e oferecidos a interessados, com preços fixados conforme o produto oferecido, ainda que os conteúdos e a carga horária possam ser ajustados às necessidade de cada contratante. O contrato celebrado pela consulente tem por objeto um resultado determinado, qual seja, a capacitação de pessoas em determinado assunto, por isso, uma vez treinadas as pessoas, aquela necessidade deixa de existir, evidenciando que não se trata de serviços contínuos, donde se conclui que, também por este aspecto, não há cessão de mão de obra, ainda que os serviços sejam executados nas dependências da contratante." Não se pode concordar com os argumentos da turma recorrida. Como visto acima, há cessão de mãodeobra quanto os serviços são prestados de maneira contínua, assim Fl. 2687DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.678 19 entendida a necessidade permanente do tomador, no local indicado pela contratante, ou em suas próprias dependências e na efetiva disponibilização do trabalhador pela prestadora, assim entendida a efetiva cessão, ou seja, quando o empregador do trabalhador a empresa prestadora de serviços não pode contar com esse trabalhador pois ele está cumprindo o contrato que ela, prestadora, firmou com a contratante. Ora, como se pode imaginar que um profissional que preste serviços a alguém que se propõe a ministrar um treinamento não esteja disponível para aquele que contratou esse treinamento. Por óbvio que esse trabalhador, esse instrutor ou professor, fica durante o tempo do curso cedido ao contratante dos serviços, não podendo por absoluta impossibilidade física, o prestador de serviços com ele contar nesse período. Óbvia cessão, evidente a disponibilização. Sendo a contratação realizada nas dependências da contratante, e por certo, ser a necessidade dessa tomadora de contratar treinamentos e cursos, uma necessidade permanente, temos a constatação das características legais da prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra. Exata subsunção do fato à norma. Imperiosa a obrigação de reter e recolher. Recurso de ofício provido nessa parte. Quanto às demais contratações explicitadas no quadro constante do relatório do presente voto concordo com a decisão de piso pelos motivos e fundamentos apontados, que com a devida vênia os tomo como minhas razões de decidir. Com essa consideração, nego provimento ao recurso de ofício nessa parte. Em conclusão, dou provimento parcial ao recurso de ofício para restaurar o lançamento tributário referente à retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviços da prestadora EAGOES Serviços de Engenharia Elétrica Ltda. RECURSO VOLUNTÁRIO Passo a analisar o apelo do contribuinte na ordem de suas alegações. PRELIMINARMENTE: DA APRESENTAÇÃO DE NOVOS ELEMENTOS PROBATÓRIOS EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO A Recorrente alega a possibilidade de apresentação de provas em sede recursal. São seus argumentos, fundados no princípio da verdade material (fls 2336): "19.Como informado linhas acima, a ora Recorrente, após minucioso levantamento, logrou êxito na obtenção de novos contratos hábeis a, assim como os anteriormente apresentados, comprovar o lídimo direito que milita em seu favor. 20.Desta forma, impõese, de início, registrar a possibilidade de instrução probatória e oferecimento de novos argumentos em sede de Recurso Voluntário, tal como perfeitamente previsto na legislação aplicável e permitido pela jurisprudência desse Egrégio Conselho de Contribuintes." Fl. 2688DF CARF MF 20 Entendo assistir razão ao Recorrente. A busca da verdade material consubstancia no plano adjetivo o comando do artigo 142 do CTN no tocante à quantificação do tributo devido. Cristalina a disposição codicista sobre o lançamento tributário, em especial quanto à necessidade do mesmo em quantificar o tributo devido. Como nos recorda Luis Eduardo Schoueri (ob. cit., p. 585), “a atividade do lançamento tem uma finalidade: apurar o “an" e o “quantum debeatur”: se é devido e o quanto é devido”. Indiscutível o comando legal: o lançamento tributário, assim entendida também a notificação de lançamento, deve observar a ocorrência do fato gerador e apurar a base de cálculo do tributo devido. Nesse sentido, entendo ser perfeitamente possível a apresentação de prova em sede de apelo voluntário. AUSÊNCIA DE DESCRIÇÃO DOS FATOS IMPONÍVEIS Segundo o Recorrente, a autuação, como realizada, padece do vício de nulidade material. São seus argumentos (fls .2339) O Auto de Infração, na qualidade de ato jurídicoadministrativo, deve satisfazer a forma para se legitimar na produção de efeitos (matéria). Além dos requisitos legais, esse ato administrativo, ante a natureza imputativa, deve notar o devido processo legal constando em seu corpo, de forma pormenorizada, as razões (fundamentação) da imputação (conclusão). A observação desse pressuposto satisfaz por via tangencial a ampla defesa e o contraditório, permitindo a defesa ao sujeito passivo da imputação. Não basta à satisfação desse requisito a simples fundamentação do ato. O princípio da estrita legalidade impõe a pormenorização, exigindo da fundamentação a descrição de todos os elementos necessários e observados à incidência da norma jurídica. O que se exige não é análise ideológica, mas uma investigação minuciosa dos elementos fáticos e do modelo jurídico descrito na hipótese. A constatação não decorre da hermenêutica. Tratase de expressa previsão legal; o inciso II do artigo 50 da da Lei n. 9.784/99 regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal impõe à autoridade administrativa, como pressuposto de validade do ato, a indicação específica dos fatos que justificaram a imputação. Assim também é o previsto no artigo 142 do CTN. Sucede, todavia, que tais requisitos não foram observados pelo Auditor Fiscal quando da constituição do ato administrativo recorrido. Os Autos de Infração foram constituídos à revelia de uma fundamentação clara e precisa; essa situação prejudica sobremodo o devido processo legal administrativo. A generalidade existente impossibilita a ampla produção de provas, em face do alargamento semântico atribuído à conjuntura da incidência e o desconhecimento do imputado. Fl. 2689DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.679 21 A postura adotada pela administração impede a defesa da Recorrente, pois o fato a ser comprovado restou omitido no ato administrativo, ou generalizado de tal forma a tornálo imperceptível ou ambíguo. O Auditor Fiscal, em síntese, arrogou a obrigação à corrente sem justificar a razão da imputação. A Recorrente ficou privada do contraditório por desconhecer o que deve ser provado. As ponderações trazidas nos autos de infração não passam de conjecturas, sobretudo porque deixam de pormenorizar a relação descrevendo precisamente o fato que encetou a incidência dos débitos de contribuições sociais. O Auditor Fiscal não mencionou até porque inexistente , as normas jurídicas que imporiam o recolhimento de contribuições previdenciárias sobre os eventos de folha autuados e sobre a PLR e as contribuições ao P6BL, tampouco demonstrou que os prestadores executavam os serviços mediante cessão de mãodeobra ou empreitada, a ensejar o dever legal de retenção da contribuição previdenciária sobre o valor bruto da nota fiscal, fatura ou recibo de prestação de serviços. A auditoria, em síntese, arrogou à Recorrente o dever desproporcional e ilegal de constituir prova negativa, demonstrando, dentre outros fatos, que: i)A Participação nos Resultados deferida aos gerentese diretores não contrariou o dispositivos da Lei n.10.101/00, sobretudo porque a PLR foi objeto de negociação coletiva entre os interessados. ii)A previdência privada não era discriminatória, na medida em que todos os empregados dispunham de planos patrocinados pela Recorrente, e ainda que não houvesse observado universalidade, a Resolução n. 139, de 2005, autoriza os planos abertos coletivos para uma ou mais categorias específicas de empregadores de um mesmo empregador, sem prejuízo da descaraterização da natureza salarial enunciada pelo artigo 202, §22, da CF e pelo artigo458, inciso VI, da CLT; iii) Os eventos de gratificação de férias, abono de férias e aviso prévio indenizado não integram a base de cálculo das contribuições previdenciárias sobre a folha. A administração descumpriu a vinculação, constituindo ato administrativo à revelia do devido processo legal. Ao invés de investigar o suporte fático da incidência (fato jurídico tributário), prendeuse à forma e indícios extraídos da documentação, deixando de investigar o conteúdo da relação jurídica. Deveria o Auditor Fiscal ter aferido a relação em si, colhendo dados reais para modelar o suposto fato jurídico tributário, de forma a permitir à Recorrente, ante o inconformismo, contraditar a decisão, provando que a inexistência do fato declarado. 0 ato administrativo cerceia as franquias constitucionais e legais do contraditório e da ampla defesa Fl. 2690DF CARF MF 22 asseguradas à Recorrente, pois sem conhecer a imputação, não dispõe de meios para promover a contestação. A ausência desses dados impossibilita a verificação da incidência das contribuições sociais, impedindo, por via convexa, a produção de provas eficazes à demonstração da imunidade, da não incidência ou da isenção." (sublinhei; os negritos são originais) Não vejo a nulidade apontada. Não padece o lançamento de falta de comprovação da ocorrência do fato gerador e portanto, do direito de crédito do Fisco. A transcrição acima, em especial em sua parte negritada, quer nos fazer crer que a Autoridade Fiscal não se desincumbiu do ônus de comprovar a ocorrência do fato gerador tributário. Não é isso que se observa. Soube o Fisco comprovar a ocorrência do fato gerador, comprovadamente, como se observa no excerto abaixo do Relatório Fiscal (fls 108): 2.10 Além dos termos lavrados durante o procedimentos fiscal, são elementos de prova os seguintes arquivos e documentos apresentados pela CPFL Energia: ✔ folha de pagamento em meio digital – leiaute MANAD *; ✔ informações contábeis em meio digital – leiaute da Escrituração Contábil Digital (ECD), transmitidas ao SPED; ✔ notas fiscais de serviço emitidas por terceiros em meio digital leiaute do Ato Declaratório Executivo ADE Cofis n° 15/2001, com redação dada pelos ADE Cofis nº 55/2009 e 25/2010; ✔ esclarecimentos por escrito relacionados aos Autos de Infração lavrados; ✔ pedidos de dilação de prazo para apresentação de documentos; ✔ contratos de prestação de serviço relativos a cessão de mão de obra e empreitada, incluindo aditivos, anexos e minutas; ✔ acordos coletivos de trabalho; ✔ mensagens de correio eletrônico; * anexados ao processo os respectivos Recibos de Entrega de Arquivos Digitais 3.11 Integram também o processo as seguintes peças de instrução, contendo informações e dados extraídos dos arquivos e documentos apresentados pela empresa e extraídos dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil: ✔ “Instruções Para o Contribuinte – IPC”: relatório que fornece ao sujeito passivo orientações, dentre outros assuntos de seu interesse, sobre as providências para regularização de sua situação perante a Secretaria da Receita Federal do Brasil, por meio de recolhimento, parcelamento ou apresentação de defesa ou recurso, quando for o caso; Fl. 2691DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.680 23 ✔ “Relatório Fiscal – REFISC”: o presente relatório, contendo a identificação do sujeito passivo, a apresentação e organização do Processo, a descrição dos fatos apurados no procedimento fiscal e a descrição de todos os Autos de Infração que compõem o processo, além de outras informações pertinentes ao procedimento fiscal ; ✔ “Relatório de Lançamentos – RL”, que relaciona os lançamentos efetuados nos sistemas específicos para apuração dos valores devidos, com observações; ✔ “Relatório de Vínculos – VÍNCULOS”: relatório que lista todas as pessoas físicas ou jurídicas de interesse da administração previdenciária em razão de seu vínculo com o sujeito passivo, representantes legais ou não, indicando o tipo de vínculo existente e o período correspondente; ✔ relação processos eletrônicos em andamento das empresas do grupo ora fiscalizadas; ✔ termos recusados pela CPFL Energia; ✔ relatório “PLR de cargos gerenciais”; ✔ relatório “Rubricas de proventos”; ✔ relatório “RELAÇÃO DE NOTAS Paulista”; ✔ relatório “Cálculo CSE de férias”." Em acréscimo, devemos apontar que a dialética da provas exige que o contribuinte apresente, e comprove, fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito de crédito do Fisco constante do lançamento e, no caso, devidamente corroborado por provas. Tal exegese, no sentido da exigência de comprovação dos fatos alegados pelas partes constantes do processo administrativo tributário, consta do Decreto nº 70.235 em especial dos artigos 9º e 15. O que se observa é que não pôde o Recorrente se desvencilhar do encargo probatório, não se permitindo, portanto, admitir tal argumento. Padece do mesmo vício a alegação da falta de comprovação, pelo Fisco, de que (fls 2341): "i) Os serviços contratados não foram executados mediante cessão de mãodeobra ou empreitada até porque não são atividades sujeitas ao modelo de cessão ou empreitada presumindo, ilegalmente, a existência dessa relação jurídica; ii) Os serviços contratados, aind a que executados mediante cessão de mãodeobra ou empreitada,não estavam previstos no rol de atividades sujeitas à retenção; iii) A Participação nos Resultados deferida aos gerentese diretores não contrariou o dispositivos da Lei n.10.101/00, sobretudo porque a PLR foi objeto denegociação coletiva entre os interessados. Fl. 2692DF CARF MF 24 vi) A previdência privada não era discriminatória, na medida em que todos os empregados dispunham de planos patrocinados pela Recorrente, e ainda que não houvesse observado universalidade, a Resolução n. 139, de 2005, autoriza os planos abertos coletivos para uma ou mais categorias específicas de empregadores de um mesmo empregador, sem prejuízo da descaraterização da natureza salarial enunciada pelo artigo 202, §22, da CF e pelo artigo458, inciso VI, da CLT; v) Os eventos de gratificação de férias, abono de férias e aviso prévio indenizado não integram a base de cálculo das contribuições previdenciárias sobre a folha." Tal comprovação é ônus do Recorrente, não cabendo à Administração Tributária tal encargo. Tratamse de matéria de defesa, posto que as provas no sentido da alegação da Recorrente se constituem fatos impeditivos ou modificativos do direito do Fisco. Recordemos, a lógica presente na ação fiscal. O Fisco, verificando o pagamento de verbas que, ao seu ver, descumprem os requisitos legais que ensejam a isenção tributária, efetua o lançamento. Cediço que a ausência da comprovação, segundo a legislação tributária, enseja o lançamento. No processo administrativo fiscal instaurado pela impugnação, o Contribuinte deve comprovar suas alegações. Observase no presente caso, que o Recorrente não o fez no procedimento inquisitório fiscalizatório restandolhe, portanto, produzir suas provas aqui, no processo administrativo tributário. Logo não observo a nulidade arguída. Não há vício material no lançamento guerreado. Houve sim, o cumprimento dos requisitos constantes do artigo 142 do CTN e do artigo 9º e 10º do Decreto nº 70.235/72. Recurso rejeitado nessa parte. DA NULIDADE DOS AUTOS DE INFRAÇÃO: RETENÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PELO TOMADOR DE SERVIÇOS INEXISTÊNCIA DE DÉBITO TRIBUTÁRIO OBRIGAÇÃO ADIMPLIDA PELO CONTRATADO Segundo a Autoridade Fiscal, o sujeito passivo deixou de reter e recolher a retenção de 11% sobre as notas fiscais dos serviços prestados mediante cessão de mãodeobra. Vejamos o relatório fiscal (fls 136): " 9.2.1 Na análise dos arquivos digitais relativos aos documentos fiscais foram identificadas grandes quantidades de “Participantes”, como são chamados os prestadores de serviço nos arquivos de cadastro. Os dados dos arquivos de documentos fiscais foram confrontados com a contabilidade, GFIP e outros extraídos dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil, não só relativamente às empresas da CPFL Energia ora fiscalizadas, mas também relativamente aos prestadores de serviço identificados nos arquivos. A partir desta confrontação, foram selecionados prestadores de serviço cuja análise era necessária para determinar se as retenções de 11% relativas aos serviços prestados mediante cessão de mãodeobra ou empreitada estavam sendo feitas de acordo com o disposto na legislação que rege a matéria. As empresas do grupo foram intimadas em 12/04/2013 e em 06/06/2013 a apresentar contratos de prestação de serviços* celebrados com as empresas selecionadas e apontadas nos respectivos Termos de Intimação. Fl. 2693DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.681 25 *Nota: digitalizados e apresentados sob a forma de arquivos digitais no formato PDF 9.2.2 Cabe destacar que foi feita extensiva análise nos arquivos e dados mencionados no item anterior. Ainda assim, em relação a uma parcela dos prestadores, foram necessárias análises adicionais mais específicas. Como é de conhecimento público e notório, a CPFL Energia é grupo econômico de grande porte, com amplos recursos e estrutura organizacional. Quando se leva em consideração o porte do grupo, podemos dizer que foi selecionada pequena quantidade* de prestadores que exigiram ainda a referida análise mais específica por meio dos contratos de prestação de serviço, aditivos, anexos e planilhas de acompanhamento de serviços. *Nota: para a CPFL Geração foram selecionados 15 prestadores para análises adicionais, dentre 407 participantes relacionados nos arquivos digitais dos documentos fiscais; para a CPFL Piratininga foram selecionados 61 prestadores dentre 808 participantes; para a CPFL Paulista foram selecionados 65 prestadores dentre 1414 participantes e para a CPFL Brasil foram selecionados 24 prestadores dentre 1729 participantes 9.2.3 Ressaltase que esta fiscalização concedeu todos os prazos que foram requeridos pela CPFL Energia para apresentação, não só dos contratos de prestação de serviço, mas de todos os arquivos digitais, documentos, esclarecimentos por escrito e demais elementos requeridos por meio de Termos de Intimação durante todo o procedimento fiscal. Somente quando não havia mais nenhum prazo requerido ainda pendente, portanto, somente quando a CPFL Energia havia concluído a entrega de todos os elementos que tinha a intenção de apresentar à fiscalização, é que foram lavrados os Termos de Continuidade do Procedimento Fiscal de 16/09/2013, em que as empresas foram cientificadas da continuidade do procedimento fiscal e de que este seria concluído com base nos documentos e demais elementos apresentados até aquela data, conforme reproduzido a seguir: (...) 9.2.4 Embora as intimações de 12/04/2013 e de 06/06/2013 representassem pequena quantidade de prestadores quando comparado ao porte do grupo, foram grandes os problemas encontrados na apresentação dos elementos requeridos. Além de contratos que não foram apresentados, mais de 80% dos arquivos apresentados não atendiam ao que foi requerido nos termos de intimação. Foram identificados os seguintes problemas no material apresentado: 9.2.4.1 muitos arquivos eram meras minutas, não assinados por nenhuma das partes, portanto, sem nenhuma validade jurídica; 9.2.4.2 foram entregues muitos arquivos repetidos; Fl. 2694DF CARF MF 26 9.2.4.3 embora se tratasse de grupo econômico localizado na mesma sede e a fiscalização estivesse sendo atendida pelas mesmas pessoas, os primeiros arquivos entregues não obedeciam a um padrão de identificação, ou seja, para cada empresa fiscalizada havia uma forma diferente de entrega. Em decorrência, nos Termos de Intimação lavrados em 06/06/2013 foi requerido e apontado um padrão para entrega, o que não seguido corretamente pela CPFL Energia, uma vez que foram entregues muitos arquivos fazendo alusão a Termos diversos daqueles que efetivamente se referiam, assim como foram apresentados diversos arquivos com indicação de determinado número de CNPJ no nome, mas cujo conteúdo se referia a CNPJ diverso. Foram ainda identificados outros erros na formatação no nomes. 9.2.4.4 foram apresentados alguns arquivos relativos a prestadores de serviço que não haviam sido requeridos nos Termos de Intimação; 9.2.4.5 dos contratos digitalizados e efetivamente assinados, muitos se referiam a períodos diversos daqueles apontados nos Termos de Intimação, no caso, contratos celebrados após o período de apuração determinado pelo MPF; 9.2.4.6 dentre os contratos efetivamente assinados e que se referiam ao período apontado nas intimações, vários destes não vieram acompanhados de seus anexos, impedindo assim análise detalhada de seus conteúdos. Por exemplo, a descrição detalhada do objeto da maioria contratos era feita no anexo. (...) 9.2.7 Portanto, a CPFL Paulista deixou de prestar os esclarecimentos necessários à fiscalização, uma vez que deixou de apresentar parte dos contratos e/ou anexos relativos aos serviços executados mediante cessão ou empreitada de mão de obra, requeridos por meio dos Termos de Intimações lavrados em 12/04/2013 e em 06/06/2013, o que ensejou a lavratura do Auto de Infração de Código de Fundamentação Legal n° 35 (AI DEBCAD 51.055.0223). 9.2.8 Isto posto, após a análise do arquivos digitais e das consultas aos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil, complementada pela verificação dos contratos de prestação de serviço acima apontados (quando apresentados), constatamos que a CPFL Energia deixou de reter os 11% relativamente aos serviços prestados por diversos prestadores." (destaques não constam do relatório fiscal) Alega a Recorrente (fls.2343) "Utilizase a fiscalização, para fundamentar o lançamento, do enunciado no artigo 31 da Lei n. 8.212/91, que atribui dever tributário instrumental às empresas tomadoras de serviços prestados mediante cessão de mãodeobra ou empreitada. A essas empresas é conferido o dever de reter, parcialmente, as contribuições sociais sobre a folha devidas pelos cedentes, repassando tais importâncias, posteriormente, à RFB. Fl. 2695DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.682 27 A retenção importa em 11% sobre o valor bruto da nota fiscal, fatura ou recibo de prestação de serviços. As contribuições apuradas devem ser recolhidas até o dia 20 do mês subsequente ao da emissão da nota fiscal. A contribuição retida pelo tomador consiste, portanto, em antecipação das contribuições previdenciárias sobre a folha devida pelo cedente da mãode obra ou empreiteiro. 45. Desta forma, por entender a fiscalização que o tomador dos serviços responde solidariamente com o prestador na obrigação tributária de recolher as contribuições. lendárias incidentes sobre a folha de pagamentos dos seus empregados, promoveu o lançamento ora impugnado. Sucede, nobres Conselheiros, que a solidariedade prevista no artigo 31 da Lei n. 8.212/91 se traduz em penalidade imposta ao tomador de serviços executados mediante cessão de mãode obra ou empreitada, quando este descumprir o dever instrumental de reter e repassar o respectivo tributo ou de exigir cópias das guias da Previdência Social GPS's de seus prestadores de serviço. Não obstante, eventual descumprimento do dever instrumental previsto no artigo 31 da Lei n. 8.212/91 não importa, necessariamente, em fazer surgir contra o tomador do serviço a presunção de que o tributo não foi regularmente recolhido pelo prestador, sobretudo diante da ausência de previsão legal neste sentido." (destaques não constam do recurso) Em acréscimo, mencionando jurisprudência, a recorrente discorre sobre a impossibilidade de efetuarse o lançamento antes da fiscalização dos prestadores de serviços na condição de contribuintes principais. Não obstante os argumentos esposados, não cabe razão à Recorrente. Explico. A retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviço é mera antecipação tributária compensável, técnica de eficiência tributária que prestigia o princípio da praticabilidade da Administração Tributária. Sobre tal princípio, leciona Regina Helena Costa (Curso de Direito Tributário, 3ª ed., Ed. Saraiva, pg. 89): Assim é que a lei se vale de instrumentos para reduzir essa complexidade e viabilizar o cumprimento de suas normas: abstrações generalizantes (presunções, ficções, normas de simplificações, conceitos jurídicos indeterminados, clausulas gerais) e outros recursos (analogia, privatização da gestão tributária, meio alternativos para a solução de conflitos tributários) De tal assertiva, observamos que a retenção em comento mera técnica de antecipação do tributo devido pelo prestador de serviços referente à mãodeobra utilizada pelo tomador dos serviços contratados não vincula a obrigação do tomador, expressamente prevista em lei, com a existência ou não de adimplemento tributário do prestador de serviços contratado. Fl. 2696DF CARF MF 28 Ora, tal vinculação do contratante com as obrigações devidas pelo contratado é, do ponto de vista tributário, típica de um relação de solidariedade ou mesmo subsidiariedade. Exatamente os institutos que existiam na Lei nº 8.212/91 antes da redação dada pela Lei nº 9.711/98. Por certo que a alteração legislativa vem justamente para, em louvor ao princípio da praticabilidade tributária, afastar a responsabilidade solidária do contratante com o prestador de serviços e em seu lugar, imputar o dever de reter e recolher o percentual determinado pela lei sobre o valor da nota fiscal/fatura dos serviços prestados mediante cessão de mãodeobra. Nesse sentido, encontramos de maneira cristalina que a obrigação de reter e recolher não pode ser afastada pela análise da verificação prévia, pelo Fisco, do adimplemento do prestador de serviços. Diante do exposto, nego provimento ao recurso nessa parte. DA INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 31 DA LEI N. 8.212/91: AUSÊNCIA DE CESSÃO OU EMPREITADA DE MÃODEOBRA. As alegações recursais quanto ao tópico se encontram às folhas 2349 e seguintes. Após discorrer longamente sobre a retenção na prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra, a apelante alega (fls 2353): "71.Ademais, a cessão de mãodeobra não se configura se ausente à submissão do empregado ao poder de comando do contratante. Não basta, portanto, a colocação de empregados à disposição do contratante, devendo haver entre este e aqueles uma inegável subordinação hierárquica, sem a qual não se aperfeiçoará a cessão de mãodeobra. Não é outro o entendimento da Primeira Turma do E. STJ: PROCESSUAL CIVIL. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. MATÉRIA FÁTICA. SÚMULA 07/STJ. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SOBRE A FOLHA DE SALÁRIOS. RETENÇÃO DE 11% SOBRE FATURAS (LEI 9.711/88). EMPRESAS PRESTADORAS DE SERVIÇO. NATUREZA DAS ATIVIDADES. TRANSPORTE DE CARGA. CESSÃO DE MÃO DEOBRA NÃO CARACTERIZADA. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. A falta de prequestionamento da questão federal impede o conhecimento do recurso especial (Súmulas 282 e 356/STF). Não se configura a cessão de mãodeobra se ausentes os requisitos de colocação de empregados à disposição do contratante, submetidos ao poder de comando deste (art. 31, § 38, da Lei 8.212/91). Precedente: EDcl no AgRg no REsp 584.890, Relator Ministro Luiz Fux, 1^ Turma, D.J. de 28.02.2005. É vedado o reexame de matéria fáticoprobatória em sede de recurso especial, a teor do que prescreve a Súmula 7 desta Corte. Fl. 2697DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.683 29 4. Recurso especial a que se nega provimento. (Grifouse). Não obstante o rol exaustivo (numerus clausus) de atividades sujeitas à retenção se contratadas mediante cessão de mãode obra ou empreitada, o Auditor Fiscal não se ocupou de investigar a natureza dos serviços contratados pela Recorrente. Negligenciou, outrossim, a forma de execução desses serviços, que sequer poderiam se adequar ao formato da relação jurídica de cessão ou empreitada. 73. Tivesse o Auditor Fiscal se desincumbido da tarefa que lhe competia, o encerramento da fiscalização certamente não teria culminado em autuação fiscal, na medida em que os serviços contratados pela Recorrente no exercício fiscal de 2009 não foram executados mediante cessão ou empreitada de mãode obra, tampouco estavam previstos no inventário taxativo do artigo 219 do Decreto n. 3.048/99. Notem, nobres Conselheiros, que o Acórdão recorrido, ao apreciar o ponto da Impugnação que versava sobre a ausência do dever de retenção, reformou a decisão para excluir os lançamentos fiscais relacionados aos contratos abaixo: (..) (destaques originais) Não se pode concordar com os argumentos da recorrente. Há um erro crasso ao se afirmar que não há cessão de mãodeobra se os trabalhadores da contratada não estiverem sob subordinação da contratante, assim entendido que este tem o poder de comando sobre aqueles. Segundo o parágrafo 1º do artigo 219 do Regulamento da Previdência Social reproduzido linhas atrás, “entendese como cessão de mãodeobra a colocação à disposição do contratante, em suas dependências ou nas de terceiros, de segurados que realizem serviços contínuos, relacionados ou não com a atividade fim da empresa, independentemente da natureza e da forma de contratação”, ou seja, não há necessidade de que exista um controle das atividades dos trabalhadores do prestador pelo contratante. Ao reverso, se existir o comando pelo tomador das atividades dos trabalhadores vinculados ao prestador de serviços, por estes serem necessidade permanente do contratante e aliado ao fato de serem prestados continuamente e nas dependências deste tomador de serviços, ou ainda em local por ele indicado, o que se verificaria – muito fortemente – é a possibilidade de criação de vínculo de emprego entre o tomador de serviços e o trabalhador da empresa terceirizada. Isto porque se encontrariam presentes os requisitos da relação de emprego, a saber: i) pessoalidade, pois não se poderia fazer substituir o trabalhador em face do vínculo pessoal que se formaria entre o responsável pelas ordens – representante do tomador – e o executor dessas ordens – trabalhador da contratada; ii) habitualidade, decorrente lógico da habitualidade na prestação de serviços pelo contratado; iii) onerosidade, uma vez que os serviços prestados não são gratuitos; iv) subordinação que por óbvio surgiria das ordens emanadas pelo tomador e cumpridas de plano pelo contratado. Fl. 2698DF CARF MF 30 Assim, como visto acima, a verdadeira cessão de trabalhador, a disponibilização do empregado do prestador de serviços ao tomador, deve ser verificada sob dois planos distintos. O primeiro ocorre quando o contratado efetivamente deixa o seu trabalhador sob as vistas do tomador, sob sua guarda, como acontece – por exemplo – nos serviços de vigilância, de limpeza, de segurança etc... Nessa primeira visão verificase a efetiva disponibilização pela própria outorga do trabalhador pelo contratado ao contratante durante a jornada de trabalho estabelecida no contrato entre o tomador e o prestador de serviços – que mantém sob seu foco a força laboral do prestador de serviços. Porém, também ocorre a cessão de mãodeobra segundo outro modelo de disponibilização. Por vezes, o contrato entre prestador e tomador não exige a disponibilização integral do ‘funcionário’ do contratado como, por exemplo, nos casos de manutenção de máquinas, equipamentos ou instalações; de profissionais de saúde, cobrança, coleta ou reciclagem de resíduos, entrega de contas ou documentos, etc... Nesse segundo plano da cessão de mãodeobra não é pela entrega de forma integral da mãodeobra do prestador ao tomador que se consubstancia a disponibilização daquela. Observase a cessão do trabalhador quando seu empregador, o contratado, por força do contrato de prestação de serviços que firmou com o tomador, utiliza sua força laboral na consecução do objeto do pacto firmado com seu contratante, deixando de contar com essa mãodeobra para outras atividades de seu interesse. Esse é o entendimento pelo qual a melhor doutrina assevera, como mencionado no relatório fiscal, que há cessão de mão de obra quando o prestador não consegue firmar outro contrato de prestação de serviços como igual teor, sem aumentar o efetivo de trabalhadores com os quais pode contar, ou seja, ele disponibilizou, cedeu seus empregados ao contratante para que esses cumpram o mister contratual que ele, contratado, firmou. Flagrante o desrespeito à dogmática trabalhista ao se asseverar que a cessão do trabalhador ao tomador de serviços, pela empresa prestadora, necessita do comando desta tomadora, contratante, sobre os trabalhadores da prestadora, contratada. O que se observa, ao reverso, é que o trabalhador cedido labora no exato sentido da consecução do contrato firmado entre seu empregador a empresa prestadora de serviços e o contratante, a empresa tomadora dos serviços de seu empregador. Com o veemente repúdio ao argumento da necessidade de comando da tomadora sobre os serviços prestados pelos trabalhadores da prestadora, rejeito o recurso nessa parte. DOS CONTRATOS ANALISADOS PELA FISCALIZAÇÃO Preliminarmente, ressalto que ao final da análise das alegações recursais relativas à cessão de mãodeobra, e por óbvio da apresentação das minhas razões de decidir e da fundamentação da decisão, vou me pronunciar casuisticamente sobre os contratos acostados ao recurso voluntário, especificamente sobre aqueles que forem objeto de provimento do recurso. Nesse tópico, sobre os contratos analisados pelo Fisco, diz a recorrente (fls. 2355): "Diante deste quadro, demonstraremos que tanto os contratos avaliados pela DRJ quanto aqueles não analisados, não ensejam a exigibilidade de a tomadora reter a contribuição sobre o valor bruto da nota fiscal, fatura ou recibo de prestação de serviços, e, Fl. 2699DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.684 31 por consequência, geram a insubsistência dos lançamentos fiscais. Por apego à didática, a Recorrente analisará exatamente os contratos citados pela fiscalização; diferentemente da fiscalização, porém, investigará a natureza e forma de execução dos serviços supostamente contratados na forma de empreitada e cessão de mãodeobra para, no derradeiro, comprovar que não havia dever de retenção da contribuição previdenciária." Com essa ressalva, prossegue o apelo. A recorrente alega que os serviços de engenharia não se sujeitam ao instituto da retenção, posto que não foram executados nas dependências da contratante e não eram serviços contínuos, posto que não constituem necessidade permanente da contratante. Em acréscimo alega serem serviços profissionais relativos ao exercício de profissão regulamentada por lei federal. Não obstante os argumentos expostos a prestação de serviços de engenharia não constam do rol exaustivo do artigo 219, § 2º, do Regulamento da Previdência Social, o que afasta de modo peremptório a retenção das contribuições previdenciárias O mesmo ocorre no tocante aos serviços de tecnologia da informação. Assim assiste razão ao recorrente, posto que tanto os serviços de engenharia, como os de TI, não constam do rol exaustivo constante do artigo 219, § 2º do RPS. Passando aos contratos de serviços de construção civil, a recorrente se insurge contra a decisão da DRJ que não afastou a retenção em razão da ausência de comprovação que tais serviços foram contratados em empreitada total, pois não houve a apresentação da matrícula CEI. Assim se pronunciou a decisão de piso (fls. 2301): Com esta natureza tem a ABB LTDA, cujo objeto do contrato é o seguinte: "Execução da empreitada de instalação do 2º transformador de força 20/26, MVA; 138 11,9 KV, autoregulável e demais adequações na Subestação Batatais, com fornecimento de materiais, mão de obra e equipamentos." Conforme já citado, no âmbito da construção civil, as atividades que se submetem ao instituto da retenção achamse descritas no art. 142 da IN 971/2009. Reportandose, ao Anexo VII da IN 971/2009 referido no art. 142, III, acima transcrito, temse: ANEXO VII DISCRIMINAÇÃO DE OBRAS E SERVIÇOS DE CONSTRUÇÃO CIVIL (...) Fl. 2700DF CARF MF 32 No art. 149 da referida Instrução Normativa, estão previstas outras hipóteses de exclusão da retenção e dentre eles no inciso II – a empreitada total, conforme definida na alínea “a” do inciso XXVII do caput e no § 1º, ambos do art. 322, aplicandose nesse caso o instituto da solidariedade, conforme disposições previstas na Seção III , do Capítulo IX deste Título, observado o disposto no art. 164 e no inciso IV do §2º do art 151; O art. 322 inciso XXVII determina o seguinte: contrato de construção civil ou contrato de empreitada (também conhecido como contrato de execução de obra, contrato de obra ou contrato de edificação),aquele celebrado entre o proprietário do imóvel, o incorporador, o dono da obra ou o condômino e uma empresa, para a execução de obra ou serviço de construção civil, no todo ou em parte, podendo ser: a) total, quando celebrado exclusivamente com empresa construtora, definida no inciso XIX, que assume a responsabilidade direta pela execução de todos os serviços necessários à realização da obra, compreendidos em todos os projetos a ela inerentes, com ou sem fornecimento de material; Basicamente, empreitada total é a situação em que é contratada, exclusivamente, uma empresa construtora em que ela assume responsabilidade direta por todos os serviços necessários a realização da obra, ou seja, a contratada é responsável na integralidade por todo o empreendimento previsto nos projetos pertencentes aquela obra. Quando se tratar de empreitada total, a matrícula da obra junto ao INSS (matrícula CEI) é de responsabilidade da empresa contratada, ou seja, em nome e CNPJ da construtora (art. 19, II, c; art. 26, I). Já no caso de empreitada parcial, a matrícula CEI deve ser feita pela contratante, ou seja, pelo dono do imóvel/obra em seu nome e CNPJ (art. 26, II). Feitas estas considerações, cabe ressaltar que a autuada alega que se trata de empreitada global. Do contrato firmado entre a autuada e a ABB Ltda vêse que abrange todas as etapas da obra, contudo, faltou a apresentação de prova que determina tratarse de empreitada global, no caso, a matrícula CEI em nome da contratada. Assim não é possível alterar o feito fiscal e em conseqüência excluir a exigência da retenção, por falta de elementos de prova." Sobre o ponto, assim se manifesta o Recorrente (fls 2364): "Percebam, Conselheiros, que a DRJ de Juiz de Fora, ao analisar o contrato de construção civil celebrado entre a Recorrente e a ABB Ltda, concluiu tratarse se empreitada global, mantendo o crédito constituído em razão da ausência de prova no sentido de que a matrícula no Cadastro Específico do Fl. 2701DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.685 33 INSS ("CEI") foi realizado em nome da contratada, como se colhe do seguinte trecho da decisão: "Feitas estas considerações, cabe ressaltar que a autuada alega que se trata de empreitada global. Do contrato firmado entre a autuada e a ABB Ltda vêse que abrange todas as etapas da obra, contudo, faltou a apresentação de prova que determina tratase de empreitada global, no caso, a matrícula CEI em nome da contratada. Assim não é possível alterar o feito fiscal e em consequência excluir a exigência da retenção, por falta de elementos de prova". (Grifouse). Sucede que a forma jamais poderia predominar sobre o conteúdo. Ainda que a matrícula no CEI tivesse sido realizada em nome da contratante, o contrato não deixa dúvidas de que se está diante de uma empreitada global. O Decreto n. 70.235/72, que regula o Processo Administrativo Fiscal, determina, em seu artigo 29, que o procedimento é informado pelos princípios da verdade material e do livre convencimento motivado: (...)" A solução da questão se encontra na tormentosa diferenciação entre obra e serviço de construção civil e as formas de contratação de ambos. Explicitemos os conceitos aplicáveis. A indústria da construção civil é um segmento de importância econômica indiscutível e de amplo relevo social, tanto na geração de empregos, quanto no produto de seu mister. Possui, porém, especificidades técnicas relevantes e que fogem ao senso comum. Assim, comecemos pelo conceito de obra, necessário até pelo questionamento que devemos enfrentar. Explicita o ato normativo aplicável, a IN RFB 971/09, no artigo 322, inciso I, que obra de construção civil é a edificação e a benfeitoria agregada ao solo ou ao subsolo. Indiscutível que a subestação de energia elétrica se encontra agregada ao solo, com ânimo de permanência e por efeito de serviços de construção civil, como, por exemplo, a terraplenagem e execução das fundações apropriadas, sendo obra de construção civil nos termos do ato normativo mencionado. Do exposto no contrato, verificase que a obra foi contratada em empreitada total. Vejamos o conceito normativo aplicado ao termo. Voltemos à IN RFB nº 971/09, ao artigo 322, inciso XXVII, alínea 'a', que define empreitada: "total, quando celebrado exclusivamente com empresa construtora, definida no inciso XIX, que assume a responsabilidade direta pela execução de todos os serviços necessários à realização da obra, compreendidos em todos os projetos a ela inerentes, com ou sem fornecimento de material; A mesma Instrução Normativa RFB 971/09, (artigo 322, inciso XIX), define construtora como sendo a empresa registrada no CREA que contenha objeto social tendente a explorar o segmento da construção civil em sua inteireza. Fl. 2702DF CARF MF 34 No caso em apreço não temos a comprovação de que o desiderato social da prestadora de serviços ABB, seu objeto explicitado no contrato social, é a exploração da industria da construção civil em sua inteireza. Tal exigência é fulcral para que se possa considerar que a contratação se dá em empreitada total no termos previstos na legislação tributária. Mister realçar que, no caso da contratação de prestador de serviços que não seja construtora, mesmo que em regime de contratação que determine ser o prestador o responsável pela execução de todas as obras e serviços constantes do projeto da obra em análise, tal contratação nos termos da legislação tributária se dá em empreitada parcial. Senão vejamos: IN RFB 971/09. Art. 322: (...) b) parcial, quando celebrado com empresa construtora ou prestadora de serviços na área de construção civil, para execução de parte da obra, com ou sem fornecimento de material; § 2ºReceberá tratamento de empreitada parcial: I a contratação de empresa não registrada no Crea ou no CAU ou de empresa registrada nesses Conselhos com habilitação apenas para a realização de serviços específicos, como os de instalação hidráulica, elétrica e similares, ainda que essas empresas assumam a responsabilidade direta pela execução de todos os serviços necessários à realização da obra, compreendidos em todos os projetos a ela inerentes, observado o disposto no inciso III do art. 26; (...)" (destaques não constam do texto normativo) Necessário recordar que a contratação de obra de construção civil sob o regime de empreitada parcial enseja a retenção dos 11%, como se observa da leitura do artigo 142 da mencionada IN RFB nº 971: "Art. 142. Na construção civil, sujeitase à retenção de que trata o art. 112, observado o disposto no art. 145: I a contratação de obra de construção civil mediante empreitada parcial, conforme definição contida na alínea “b” do inciso XXVII do art. 322;" Ora, não se pode comprovar que a prestadora de serviços contratada pela Recorrente era construtora no termos definidos pela legislação tributária. Com essa ausência de comprovação, forçoso reconhecer que o contrato firmado deve obedecer os ditames da empreitada parcial de obra de construção civil, o que, como visto, enseja a obrigação da contratante de reter e recolher os 11% sobre a nota fiscal/fatura de serviços. Recurso negado nessa parte. Vejamos agora as alegações recursais quanto aos serviços de instalação e leitura de medidores. Consta das folhas 2366: Fl. 2703DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.686 35 "Os serviços de instalação e leitura de medidores contratados pela Recorrente não são prestados mediante cessão de mãode obra, porque não atenderam os requisitos previstos no §3º do artigo 31, quais sejam: iv)Colocação de segurados à disposição do contratante; v)Realização dos serviços nas dependências do contratante ou nas de terceiros; vi)Realização de serviços contínuos, relacionados ou não com a atividadefim da empresa. As atividades de instalação e leitura de medidores, por sua natureza, não poderiam ser realizadas nas dependências da contratante, tampouco as pessoas físicas prestadoras de serviço poderiam estar hierarquicamente subordinadas à Impugnante, sobretudo porque o trabalho é realizado em vias públicas, e não nas dependências do contratante. Deste modo, seja pela localidade onde os serviços são realizados, seja pela ausência de subordinação hierárquica entre os empregados da contratada e a Recorrente, a atividade não poderia ser considerada cessão de mãodeobra." Não cabe razão ao Recorrente. Não se pode admitir seus argumentos. A prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra, como visto com minudência acima, ocorre quando, além do serviço constar do rol exaustivo previsto no RPS, i) há efetiva disponibilização dos trabalhadores da prestadora para a tomadora, assim entendido quando a prestadora não pode contar com esses trabalhadores pois estão cumprindo o contrato que ela, prestadora, firmou com a contratante; ii) o local da prestação de serviços é determinado pelo contratante, ou ocorre nas dependências deste; e iii) é uma necessidade contínua do tomador os serviços contratados. Nítido que para um companhia de distribuição de energia a instalação e leitura de medidores é necessidade permanente. Também ultrapassa a obviedade que os locais de instalação de medidores e sua leitura deve ser determinado pelo tomador de serviços, no caso a Recorrente. Por fim, e mais evidente ainda, os empregados da prestadora foram cedidos, posto que seu labor é exatamente o objeto do contrato, para a tomadora de serviços. Ao se recordar que os serviços de instalação e leitura de medidores consta do rol do inciso XIV do § 2º do artigo 319 do RPS, exsurge o dever de reter e recolher da Recorrente. Ressalto com tintas fortes que todo o exposto acima também se aplica aos serviços de cobrança, exceto quanto ao fundamento legal, posto que tal serviço consta do inciso VII do mencionado artigo 319, § 2º, do RPS. Não se pode admitir, sem nenhuma comprovação, a alegação que a cobrança dos valores devidos à Recorrente se dá nas dependências da empresa prestadora de serviços. Também a poda de árvores se insere nos serviços prestados mediante cessão de mãodeobra, consoante não só todo o exposto como também a disposição do inciso I do § 2º do artigo 319 do RPS, explicitado pelo inciso I do artigo 117 da IN RFB nº 971/09. Fl. 2704DF CARF MF 36 Recurso negado também nessa parte. Por essas considerações e pelos fundamentos apresentados, explicito que dos contratos apresentados em sede de recurso voluntário, somente os contratos firmados com ENGELÉTRICA SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE ENGENHARIA LTDA. (folhas 2357), que tem objeto a leitura de medidores, ZITO & VALADARES (folhas 2577), serviço de treinamento, CITELUZ SERVIÇOS DE ILUMINAÇÃO URBANA (fls. 2591), que tem por objeto serviços de construção civil iluminação pública, e STK CONSULTORIA LTDA, contrato 4600016912 (fls. 2624), relativo ao treinamento sobre a ferramenta de informática Power Center, GALEGO Com e Plantio de Arvores, que tem por objeto a poda de árvores (fls. 2654), devem sofrer a retenção das contribuições previdenciárias. Por amor a clareza, explicito que a contratação da ABB Ltda. e das demais empresas de construção civil devem sofrer a retenção em análise. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS OCUPANTES DE CARGOS GERENCIAIS E DIRETIVOS Segundo a Autoridade Fiscal, o pagamento da PLR ao diretores e gerentes da Recorrente descumpriu a legislação de regência. Vejamos o relatório fiscal (fls 145): "Em atenção às intimações, a CPFL Energia protocolou em 03/06/2013 a entrega de CDs contendo Acordos Coletivos de Trabalho (anexados ao processo) e arquivos contendo indicação das contas contábeis e rubricas da folha de pagamento em que foram lançadas as importâncias pagas ao referido título. Estes arquivos foram reapresentados em 01/08/2013 com o correspondente Recibo do SVA, uma vez que não havia sido gerado na primeira apresentação. 9.3.3 Um dos acordos coletivos de trabalho apresentado (e respectivo aditivo), abrangendo o período de 2008 a 2010, foi celebrado entre as empresas do grupo CPFL Energia COMPANHIA PAULISTA DE FORÇA E LUZ (CPFL Paulista), CPFL GERAÇÃO DE ENERGIA S/A (CPFL Geração) e CPFL COMERCIALIZAÇÃO BRASIL S/A (CPFL Brasil) – e o SINDICATO DOS TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DE ENERGIA ELÉTRICA DE CAMPINAS. A cláusula 05 do acordo trata da Participação nos Lucros ou Resultados, em que foram estipuladas as regras e condições da participação dos empregados, prevendo metas de resultado, montante a ser distribuído e período de pagamento no caso de as metas serem cumpridas ou superadas. 9.3.4 No parágrafo 10° da cláusula 05 foram definidos os trabalhadores que teriam direito à percepção dos valores, assim como as condições de pagamento no caso de admissão, desligamento ou afastamento dentro do período de referência. 9.3.5 Entretanto, o parágrafo 11 da cláusula previa que a PLR destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuaria seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na referida cláusula, definidas diretamente pela CPFL e interessados. Vejamos: Fl. 2705DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.687 37 Parágrafo 11° A Participação nos Lucros ou Resultados destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuará seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na presente cláusula, definidas diretamente pela CPFL e interessados. 9.3.6 Constatamos a mesma situação na CPFL Piratininga. Em 03/06/2013 protocolou a entrega de CD (reapresentado em 01/08/2013 com o correspondente Recibo do SVA), em que foi apresentado acordo coletivo de trabalho para o período de 2008 a 2010, e respectivo aditivo, celebrado entre a COMPANHIA PIRATININGA DE FORÇA E LUZ e o SINDICATO DOS TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DE ENERGIA ELÉTRICA DE CAMPINAS. Neste acordo, as regras e condições da PLR estavam previstas na cláusula 04. Da mesma forma, o parágrafo 11 da cláusula previa que a PLR destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuaria seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na referida cláusula, definidas diretamente pela CPFL Piratinga e interessados: Parágrafo 11° A Participação nos Lucros ou Resultados destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuará seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na presente cláusula, definidas diretamente pela CPFL PIRATININGA e interessados. (...) 9.3.8 Em resposta, a CPFL Energia entregou em 01/08/2013 esclarecimentos por escrito (datados de 31/07/2013 e anexados ao processo) em que informa simplesmente: ... Item 5 – A aprovação da contratação de metas dos ocupantes dos cargos gerenciais e diretivos é realizada através do sistema Web. 9.3.9 Anexou ao esclarecimento telas de um sistema informatizado interno da empresa em que consta uma relação de matrículas, siglas, nomes e cargos de trabalhadores, sem nenhuma explicação adicional. As telas também foram anexadas ao processo sob a denominação “PLR sistema Web”. 9.3.10 Conforme apontado no Capítulo VII deste relatório, em todos os procedimentos de negociação entre a empresa e seus empregados é obrigatória a presença do sindicato representativo da categoria dos trabalhadores, de acordo com o estabelecido nos incisos I e II do artigo 2° da Lei 10.101/2000, que prevem negociação mediante comissão escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria, ou mediante convenção ou acordo coletivo de trabalho. 9.3.11 A PLR destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos, como já visto, não foi estabelecida nos Fl. 2706DF CARF MF 38 Acordos Coletivos de Trabalho celebrados pelas empresas da CPFL Energia. Intimada a apresentar os instrumentos decorrentes da negociação, constatase que os pagamentos ao referido título para os ocupantes de cargos gerenciais e diretivos foram feitos pelo que o grupo denominou de “sistema Web”. Portanto, não há a presença do sindicato representativo da categoria dos trabalhadores, estando os pagamentos em desacordo com a lei específica que rege a matéria." Alega a Recorrente (fls. 2367): "O Relatório Fiscal aponta que as empresas da CPFL Energia foram Intimadas a apresentar os instrumentos decorrentes da negociação entre a empresa e seus empregados referentes à PLR, sendo que um dos ACTs apresentados, relativo ao período de 2008 a 2010 e celebrado entre as empresas do Grupo CPFL Energia e o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica de Campinas, enunciava o seguinte em sua cláusula 5, §119 §11 A participação nos Lucros ou Resultados destinada aos empregados ocupantes de cargos gerenciais e diretivos continuará seguindo regras próprias, diversas das estabelecidas na presente cláusula, definidas diretamente pela CPFL e interessados. Não obstante a efetiva negociação da PLR entre a CPFL e os empregados elegíveis, que culminou, inclusive, na elaboração de instrumento fundado no artigo 1, inciso XI, da Constituição Federal e nas disposições da Lei n. 10.101/00, entendeu o Auditor Fiscal, equivocadamente, que a ausência do sindicato na negociação descaracterizaria o programa, determinando a incidência de contribuições previdenciárias sobre os valores pagos, devidos ou creditados a esse título. O DRJ concluiu, contudo, que a Recorrente descumpriu o inciso I do artigo 22 da Lei n. 10.101/00, pela não participação do sindicato na negociação do plano, em que pese a PLR ter sido negociada diretamente com todos os interessados, assegurando a ampla transparência e representatividade. O lançamento tributário, portanto, há de ser sumariamente anulado, na medida em que as importâncias pagas a título de PLR oportunamente negociada entre os empregados ocupantes de cargos gerenciais e a Recorrente , além de atenderem os requisitos da Lei n. 10.101/00 e não retribuírem o trabalho, consubstanciamse em parcelas constitucionalmente imunes de tributação previdenciária." (destaques não constam do recurso) Em acréscimo, mencionando jurisprudência, a recorrente discorre sobre a impossibilidade de se limitar a imunidade da PLR, em razão de ser um preceito constitucional, e ainda sobre a não incidência de uma verba paga a esse título, posto que expressamente desvinculada da remuneração, consoante os ditames constitucionais e legais atinentes. Não obstante os argumentos esposados, não cabe razão à Recorrente. Explico. Como regra geral, as contribuições previdenciárias têm por base de cálculo a remuneração percebida pela pessoa física pelo exercício do trabalho. É dizer: toda pessoa física Fl. 2707DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.688 39 que trabalha e recebe remuneração decorrente desse labor é segurado obrigatório da previdência social e dela contribuinte, em face do caráter contributivo e da compulsoriedade do sistema previdenciário pátrio. De tal assertiva, decorre que a base de cálculo da contribuição previdenciária é a remuneração percebida pelo segurado obrigatório em decorrência de seu trabalho. Nesse sentido caminha a doutrina. Eduardo Newman de Mattera Gomes e Karina Alessandra de Mattera Gomes (Delimitação Constitucional da base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias ‘in’ I Prêmio CARF de Monografias em Direito Tributário 2010, Brasília: Edições Valentim, 2011. p. 483.), entendem que: “...não se deve descurar que, nos estritos termos previstos no art. 22, inciso I, da Lei nº 8.212/91, apenas as verbas remuneratórias, ou seja, aquelas destinadas a retribuir o trabalho, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo disponibilizado ao empregador, é que ensejam a incidência da contribuição previdenciária em análise” (grifos originais) Academicamente (OLIVEIRA, Carlos Henrique de. Contribuições Previdenciárias e Tributação na Saúde ‘in’ HARET, Florence; MENDES, Guilherme Adolfo. Tributação da Saúde, Ribeirão Preto: Edições Altai, 2013. p. 234.), já tivemos oportunidade de nos manifestar no mesmo sentido quando analisávamos o artigo 214, inciso I do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, que trata do salário de contribuição: “O dispositivo regulamentar acima transcrito, quando bem interpretado, já delimita o salário de contribuição de maneira definitiva, ao prescrever que é composto pela totalidade dos rendimentos pagos como retribuição do trabalho. É dizer: a base de cálculo do fato gerador tributário previdenciário, ou seja, o trabalho remunerado do empregado, é o total da sua remuneração pelo seu labor” (grifos originais) O final da dessa última frase ajudanos a construir o conceito que entendemos atual de remuneração. A doutrina clássica, apoiada no texto legal, define remuneração como sendo a contraprestação pelo trabalho, apresentando o que entendemos ser o conceito aplicável à origem do direito do trabalho, quando o sinalagma da relação de trabalho era totalmente aplicável, pois, nos primórdios do emprego, só havia salário se houvesse trabalho. Com a evolução dos direitos laborais, surge o dever de pagamento de salários não só como decorrência do trabalho prestado, mas também quando o empregado "está de braços cruzados à espera da matériaprima, que se atrasou, ou do próximo cliente, que tarda em chegar", como recorda Homero Batista (Homero Mateus Batista da Silva. Curso de Direito do Trabalho Aplicado, vol 5: Livro da Remuneração.Rio de Janeiro, Elsevier. 2009. pg. 7). O dever de o empregador pagar pelo tempo à disposição, ainda segundo Homero, decorre da própria assunção do risco da atividade econômica, que é inerente ao empregador. Ainda assim, cabe o recebimento de salários em outras situações. Numa terceira fase do direito do trabalho, a lei passa a impor o recebimento do trabalho em situações em que não há prestação de serviços e nem mesmo o empregado se encontra ao dispor do empregador. São as situações contempladas pelos casos de interrupção do contrato de trabalho, como, por exemplo, nas férias e nos descansos semanais. Há efetiva responsabilização do empregador, quando ao dever de remunerar, nos casos em que, sem culpa do empregado e normalmente como decorrência de necessidade de preservação da saúde física e mental do trabalhador, ou para cumprimento de obrigação civil, não existe trabalho. Assim, temos salários como contraprestação, pelo tempo à disposição e por força de dispositivos legais. Fl. 2708DF CARF MF 40 Não obstante, outras situações há em que seja necessário o pagamento de salários A convenção entre as partes pode atribuir ao empregador o dever de pagar determinadas quantias, que, pela repetição ou pela expectativa criada pelo empregado em recebêlas, assumem natureza salarial. Típico é o caso de uma gratificação paga quando do cumprimento de determinado ajuste, que se repete ao longo dos anos, assim, inserese no contrato de trabalho como dever do empregador, ou determinado acréscimo salarial, pago por liberalidade, ou quando habitual. Nesse sentido, entendemos ter a verba natureza remuneratória quando presentes o caráter contraprestacional, o pagamento pelo tempo à disposição do empregador, haver interrupção do contrato de trabalho, ou dever legal ou contratual do pagamento. Assentados no entendimento sobre a base de cálculo das contribuições previdenciárias, vejamos agora qual a natureza jurídica da verba paga como participação nos lucros e resultados. O artigo 7º da Carta da República, versando sobre os direitos dos trabalhadores, estabelece: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) XI – participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; De plano, é forçoso observar que os lucros e resultados decorrem do atingimento eficaz do desiderato social da empresa, ou seja, tanto o lucro como qualquer outro resultado pretendido pela empresa necessariamente só pode ser alcançado quando todos os meios e métodos reunidos em prol do objetivo social da pessoa jurídica foram empregados e geridos com competência, sendo que entre esses estão, sem sombra, os recursos humanos. Nesse sentido, encontramos de maneira cristalina que a obtenção dos resultados pretendidos e do conseqüente lucro foi objeto do esforço do trabalhador e portanto, a retribuição ofertada pelo empregador decorre dos serviços prestados por esse trabalhador, com nítida contraprestação, ou seja, com natureza remuneratória. Esse mesmo raciocínio embasa a tributação das verbas pagas a título de prêmios ou gratificações vinculadas ao desempenho do trabalhador, consoante a disposição do artigo 57, inciso I, da Instrução Normativa RFB nº 971, de 2009, explicitada em Solução de Consulta formulada junto à 5ªRF (SC nº 28 – SRRF05/Disit), assim ementada: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias PRÊMIOS DE INCENTIVO. SALÁRIODECONTRIBUIÇÃO. Os prêmios de incentivo decorrentes do trabalho prestado e pagos aos funcionários que cumpram condições pré estabelecidas integram a base de cálculo das contribuições previdenciárias e do PIS incidente sobre a folha de salários. Dispositivos Legais: Constituição Federal, de 1988, art. 195, I, a; CLT art. 457, §1º; Lei nº 8.212, de 1991, art. 28, I, III e §9º; Fl. 2709DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.689 41 Decreto nº 3.048, de 1999, art. 214, §10; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 2º, 9º e 50. (grifamos) Porém, não só a Carta Fundamental como também a Lei nº 10.101, de 2000, que disciplinou a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), textualmente em seu artigo 3º determinam que a verba paga a título de participação, disciplinada na forma do artigo 2º da Lei, “não substitui ou complementa a remuneração devida a qualquer empregado, nem constitui base de incidência de qualquer encargo trabalhista, não se lhe aplicando o princípio da habitualidade” o que afasta peremptoriamente a natureza salarial da mencionada verba. Ora, analisemos as inferências até aqui construídas. De um lado, concluímos que as verbas pagas como obtenção de metas alcançadas tem nítido caráter remuneratório uma vez que decorrem da prestação pessoal de serviços por parte dos empregados da empresa. Por outro, vimos que a Constituição e Lei que instituiu a PLR afastam – textualmente – o caráter remuneratório da mesma, no que foi seguida pela Lei de Custeio da Previdência Social, Lei nº 8.212, de 1991, que na alínea ‘j’ do inciso 9 do parágrafo 1º do artigo 28, assevera que não integra o salário de contribuição a parcela paga a título de “participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica” A legislação e a doutrina tributária bem conhecem essa situação. Para uns, verdadeira imunidade pois prevista na Norma Ápice, para outros isenção, reconhecendo ser a forma pela qual a lei de caráter tributário, como é o caso da Lei de Custeio, afasta determinada situação fática da exação. Não entendo ser o comando constitucional uma imunidade, posto que esta é definida pela doutrina como sendo um limite dirigido ao legislador competente. Tácio Lacerda Gama (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, Ed. Quartier Latin, pg. 167), explica: "As imunidades são enunciados constitucionais que integram a norma de competência tributária, restringindo a possibilidade de criar tributos" Ao recordar o comando esculpido no artigo 7º, inciso XI da Carta da República não observo um comando que limite a competência do legislador ordinário, ao reverso, vejo a criação de um direito dos trabalhadores limitado por lei. Superando a controvérsia doutrinária e assumindo o caráter isentivo em face da expressa disposição da Lei de Custeio da Previdência, mister algumas considerações. Nesse sentido, Luis Eduardo Schoueri (Direito Tributário 3ªed. São Paulo: Ed Saraiva. 2013. p.649), citando Jose Souto Maior Borges, diz que a isenção é uma hipótese de não incidência legalmente qualificada. Nesse sentido, devemos atentar para o alerta do professor titular da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que recorda que a isenção é vista pelo Código Tributário Nacional como uma exceção, uma vez que a regra é que: da incidência, surja o dever de pagar o tributo. Tal situação, nos obriga a lembrar que as regras excepcionais devem ser interpretadas restritivamente. Paulo de Barros Carvalho, coerente com sua posição sobre a influência da lógica semântica sobre o estudo do direito aliada a necessária aplicação da lógica jurídica, Fl. 2710DF CARF MF 42 ensina que as normas de isenção são regras de estrutura e não regras de comportamento, ou seja, essas se dirigem diretamente à conduta das pessoas, enquanto aquelas, as de estrutura, prescrevem o relacionamento que as normas de conduta devem manter entre si, incluindo a própria expulsão dessas regras do sistema (abrogação). Por ser regra de estrutura a norma de isenção “introduz modificações no âmbito da regra matriz de incidência tributária, esta sim, norma de conduta” (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 25ª ed. São Paulo: Ed. Saraiva, 2013. p. 450), modificações estas que fulminam algum aspecto da hipótese de incidência, ou seja, um dos elementos do antecedente normativo (critérios material, espacial ou temporal), ou do conseqüente (critérios pessoal ou quantitativo). Podemos entender, pelas lições de Paulo de Barros, que a norma isentiva é uma escolha da pessoa política competente para a imposição tributária que repercute na própria existência da obrigação tributária principal uma vez que ela, como dito por escolha do poder tributante competente, deixa de existir. Tal constatação pode, por outros critérios jurídicos, ser obtida ao se analisar o Código Tributário Nacional, que em seu artigo 175 trata a isenção como forma de extinção do crédito tributário. Voltando uma vez mais às lições do Professor Barros Carvalho, e observando a exata dicção da Lei de Custeio da Previdência Social, encontraremos a exigência de que a verba paga a título de participação nos lucros e resultados “quando paga ou creditada de acordo com lei específica” não integra o salário de contribuição, ou seja, a base de cálculo da exação previdenciária. Ora, por ser uma regra de estrutura, portanto condicionante da norma de conduta, para que essa norma atinja sua finalidade, ou seja impedir a exação, a exigência constante de seu antecedente lógico – que a verba seja paga em concordância com a lei que regula a PLR – deve ser totalmente cumprida. Objetivando que tal determinação seja fielmente cumprida, ao tratar das formas de interpretação da legislação tributária, o Código Tributário Nacional em seu artigo 111 preceitua que se interprete literalmente as normas de tratem de outorga de isenção, como no caso em comento. Importante ressaltar, como nos ensina André Franco Montoro, no clássico Introdução à Ciência do Direito (24ªed., Ed. Revista dos Tribunais, p. 373), que a: “interpretação literal ou filológica, é a que toma por base o significado das palavras da lei e sua função gramatical. (...). É sem dúvida o primeiro passo a dar na interpretação de um texto. Mas, por si só é insuficiente, porque não considera a unidade que constitui o ordenamento jurídico e sua adequação à realidade social. É necessário, por isso, colocar seus resultados em confronto com outras espécies de interpretação”. (grifos nossos) Nesse diapasão, nos vemos obrigados a entender que a verba paga à título de PLR não integrará a base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias se tal verba for paga com total e integral respeito à Lei nº 10.101, de 2000, que dispõe sobre o instituto de participação do trabalhador no resultado da empresa previsto na Constituição Federal. Isso porque: i) o pagamento de verba que esteja relacionada com o resultado da empresa tem inegável cunho remuneratório em face de nítida contraprestação que há entre o fruto do trabalho da pessoa física e a o motivo ensejador do pagamento, ou seja, o alcance de determinada meta; ii) para afastar essa imposição tributária a lei tributária isentiva exige o Fl. 2711DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.690 43 cumprimento de requisitos específicos dispostos na norma que disciplina o favor constitucional. Logo, imprescindível o cumprimento dos requisitos da Lei nº 10.101 para que o valor pago a título de PLR não integre o salário de contribuição do trabalhador. Vejamos quais esses requisitos. Dispõe textualmente a Lei nº 10.101/00: Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. ... Art. 3º ... (...) § 2o É vedado o pagamento de qualquer antecipação ou distribuição de valores a título de participação nos lucros ou resultados da empresa em mais de 2 (duas) vezes no mesmo ano civil e em periodicidade inferior a 1 (um) trimestre civil. (grifamos) Da transcrição legal podemos deduzir que a Lei da PLR condiciona, como condição de validade do pagamento: i) a existência de negociação prévia sobre a participação; ii) a participação do sindicato em comissão paritária escolhida pelas partes para a determinação das metas ou resultados a serem alcançados ou que isso seja determinado por convenção ou acordo coletivo; iii) o impedimento de que tais metas ou resultados se relacionem à saúde ou segurança no trabalho; iv) que dos instrumentos finais Fl. 2712DF CARF MF 44 obtidos constem regras claras e objetivas, inclusive com mecanismos de aferição, sobre os resultados a serem alcançados e a fixação dos direitos dos trabalhadores; v) a vedação expressa do pagamento em mais de duas parcelas ou com intervalo entre elas menor que um trimestre civil. Esses requisitos é que devemos interpretar literalmente, ou como preferem alguns, restritivamente. O alcance de um programa de PLR, ao reverso, não pode distinguir determinados tipos de trabalhadores, ou categorias de segurados. Não pode o Fisco valorar o programa de meta, ou mesmo emitir juízo sobre a participação sindical. A autoridade lançadora deve sim, verificar o cumprimento dos ditames da Lei nº 10.101/00. Com essas considerações devemos, por ser o ponto fulcral, verificar se o contrato coletivo de trabalho firmado, ao delegar para as partes o ajuste da participação nos resultados dos diretores e gerentes, cumpriu os requisitos prescritos na Lei nº 10.101/00 para que a verba paga a esse título não seja considerada como verba remuneratória. A questão determinante é: podese admitir que as partes firmem um acordo pelo qual se impute ao critério de somente uma delas a a ambas sem a efetiva participação sindical, a definição dos parâmetros para a percepção dos valores a título de PLR? Vejamos. Com visto acima, ao analisarmos a participação nos lucros ou resultados, que a verba de nítida natureza contraprestacional, não sofre incidência tributária quando cumpridos os requisitos da Lei nº 10.101/00, em face do caráter isentivo desta. Assim, é no bojo dos ditames da Lei nº 10.101 que devemos buscar a resposta da questão que se apresenta. Recordemos o texto legal: "Art.2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. §1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. §2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores." Fl. 2713DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.691 45 A leitura do texto legal espanca qualquer dúvida. Devem as partes acordar sobre as metas claras e objetivas, contando com a participação sindical, não só quanto ao direito substantivo como também quanto às regras adjetivas, e devem, também, publicizar o acordo celebrado. Ora, tal determinação, voltada não só para o ajuste entre os interessados mas também para a total transparência do conteúdo acordado, não pode ser tomada como simples tutela da convergência de vontades, mas também deve ser entendida como ajuste expresso, que conte com a participação do sindicato, ajuste formal e transparente sobre os direitos e mecanismo de exercício desses direitos e deveres. Assim, entendo que o legislador não só exigiu o acordo entre as vontades, mas também determinou que tal ajuste ocorra sobre determinadas condições e balizas, tendo condicionado a vantagem tributária ao cumprimento dessas condicionantes. Com essas considerações, observo que, no caso concreto, o sindicato delegou às partes o ajuste e mais, a Recorrente não pode comprovar, ainda que minimamente, que houve algum acordo, ou tratativa para implementar o acordo. Tais posturas impediram o acesso da empresa e dos trabalhadores às vantagens tributárias constantes da Lei nº 10.101/00. Ressalto que, se ao reverso, tivessem estipulado, minimamente, as condições para a percepção da PPR, e os valores desta, ainda que indiciariamente, não haveria a ofensa mencionada à vontade do legislador. Com tais considerações, que abrangem o instituto da PLR, tanto em seu aspectos de incidência quanto de imunidade/isenção, entendo desnecessário qualquer comentário sobre os pontos constantes do recurso no tocante às alegações da imunidade e da não incidência e da própria caracterização das verbas pagas a título de participação nos lucros. Diante do exposto, nego provimento ao recurso nessa parte. PGBL PARA GERENTES E EXECUTIVOS Segundo a autoridade fiscal, a Recorrente ofertou, por meio de aportes, plano de previdência privada em desacordo com a legislação. São as razões da Autoridade Lançadora (fls. 150) "9.4.3 A partir da documentação apresentada, constatamos que a CPFL Energia celebrou contratos de previdência complementar com a “FUNDAÇÃO CESP”, “Bradesco Vida e Previdência” e “Brasilprev”, que foram oferecidos como parte do pacote de benefícios a empregados, chamados de Colaboradores Efetivos, e aos Gerentes, Diretores, Presidentes e Vices, denominados Gerentes de Divisão, Gerentes de Departamento e Executivos. 9.4.4 Conforme já apontado no Capítulo VIII, os valores das contribuições pagas por pessoa jurídica referentes a programa de previdência complementar não integram o saláriode Fl. 2714DF CARF MF 46 contribuição para os fins da Lei 8.212/1991, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes. 9.4.5 Como pode ser verificado na planilha “Quadro Previdenciário” apresentada pela CPFL Paulista, o plano PPCPFL, conforme convênio de adesão celebrado com a FUNDAÇÃO CESP, foi disponibilizado a todos os empregados e dirigentes da empresa, uma vez que são elegíveis os chamados Colaboradores Efetivos, Gerentes de Divisão, Gerentes de Departamento e Executivos. Entretanto, o plano denominado PGBL, celebrado com “Bradesco Vida e Previdência” e “Brasilprev”, não foi disponibilizado aos empregados chamados de Colaboradores Efetivos, sendo elegíveis para o mesmo somente Gerentes de Divisão, Gerentes de Departamento e Executivos. 9.4.6 Portanto, as contribuições pagas pela CPFL Energia para as empresas “Bradesco Vida e Previdência” e “Brasilprev”, referentes a programa de previdência complementar na modalidade plano PGBL, destinado aos Gerentes, Diretores, Presidente e Vice, integram o saláriodecontribuição para os fins da Lei 8.212/1991." As alegações recursais se encontram às folhas 2378 e seguintes. Após discorrer longamente sobre a incompetência da RFB para fiscalizar planos de previdência, sobre a natureza dos planos de previdência complementar, sua imunidade e não incidência em razão da ausência do caráter remuneratório, a Apelante alega (fls 2388): "A alínea "p" isenta de contribuição previdenciária os valores pagos através da previdência complementar quando o pagamento ou o crédito observar um único requisito:que o programa de previdência complementar seja disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes. Esse enunciado reitera a não incidência, ratificando a exclusão dos valores aportados a programa de previdência complementar da base de cálculo da contribuição previdenciária. Não obstante este único requisito tenha sido atendido pela Recorrente, o Auditor Fiscal entendeu que os aportes ao programa de previdência complementar especificamente aqueles realizados para os PGBL's mantidos pela Bradesco Vida e Previdência e Brasilprev efetuados no período autuado, deveriam ser considerados base de cálculo das contribuições previdenciárias, justificando a exação na constatação de que parte dos empregados, denominados colaboradores efetivos, não era elegíveis ao plano. Sucede, contudo, que, diversamente do apurado pelo Auditor Fiscal, tal critério restou cabalmente atendido pela Recorrente, que disponibilizou e patrocinou a totalidade dos empregados plano previdenciário privado gerido pela Fundação CESP. A sintática do artigo 28, §99, alínea "p", incontestavelmente, não impõe como requisito a universalidade do plano de previdência privada; a universalidade, nos exatos termos do artigo 28, §9e, alínea "p", da Lei n. 8.212/91, atinge o programa previdenciário, e não o plano ao qual o empregado é elegível. Fl. 2715DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.692 47 Neste sentido, a Resolução CNSP n. 139/05 da SUSEP, ao consolidar as regras de funcionamento e os critérios para operação dos planos de previdência complementar aberta, rimando com o disposto na alínea "p" do §92 do artigo 28, ratificou a possibilidade do plano aberto coletivo abranger apenas grupos específicos de empregados de um mesmo empregador, sem que o exercício dessa faculdade do patrocinador comprometa necessidades específicas da população protegida e de se estruturar pianos homogêneos para cada grupo protegido. a universalidade do programa ou descaracterize a natureza previdenciária do plano ou do aporte: Art. 22. A contratação sob a forma coletiva por uma pessoa jurídica denominada averbadora ou instituidora, conforme o caso, destinase a grupos de pessoas que a ela estejam vinculadas, direta ou indiretamente, por relação lícita. Art. 23. O grupo de pessoas de que trata o artigo 22 poderá ser constituído por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, podendo abranger as pessoas jurídicas coligadas, controladas ou subsidiárias, e por membros de associações legalmente constituídas, de caráter profissional ou classista. Há, nobres Conselheiros, diferença ontológica entre a expressão "plano de previdência complementar" e "programa de previdência complementar". O programa pode abranger um ou mais planos previdenciários, sobretudo em face da necessidade de atender necessidades específicas da população protegida e de se estruturar pianos homogêneos para cada grupo protegido." (destaques originais) Em que pesem os argumentos da Recorrente quanto a não incidência e imunidade dos valores pagos a título de previdência complementar, a questão convertida se cinge à necessidade de extensão do benefício da previdência privada para todos os empregados e dirigentes da empresa. Me filio à corrente que entende que após o advento da Lei Complementar nº 109/01, a interpretação do dispositivo constante da Lei nº 8.212/91, deve ser realizada em consonância com os ditames da lei complementar editada para cumprir a determinação da Carta de 1988 , em especial quanto à disposição do §2º do artigo 202. Tal entendimento há tempos é exarado por este Colegiado. Transcrevo, com a devida permissão, o voto do Conselheiro Júlio César Vieira Gomes, prolatado nos autos do processo 10783.723424/201109, Acórdão 2402003.661: "O benefício tem previsão constitucional no artigo 202, com a redação trazida pela Emenda Constitucional n° 20, de 15/12/98; portanto, tratase de imunidade de contribuição previdenciária: Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar. Fl. 2716DF CARF MF 48 ... § 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998). ... Em destaque nas transcrições acima, temse que, atendidos os requisitos da lei, as contribuições vertidas pelo empregador não integram a remuneração e, conseqüentemente, sobre as quais não incidem contribuições previdenciárias. De fato, outra não poderia ser a interpretação. Isto porque somente se pode falar em Previdência Complementar quando suas características estão presentes. Aliás, qualquer que seja o benefício oferecido, são justamente as características que evidenciam sua natureza. E não é diferente com a Previdência Complementar Privada. Para que assim seja considerada e daí não incidirem contribuições previdenciárias devem estar presentes as características exigidas pela Lei Complementar n° 109, de 29/05/2001 que regulou o artigo 202 da Constituição Federal e revogou a Lei n° 6.435, de 15/07/1977. Quanto ao artigo 28, §9°, alínea p, parte final, da Lei n° 8.212, de 24/07/91, incluído pela Lei nº 9.528, de 10/12/1997, portanto anterior mesmo à EC n° 20/98, não tenho dúvida que se houver incompatibilidade com os artigos 68 e 69, §1° da Lei Complementar n° 109, de 29/05/2001, que passaram a regular o artigo 202, §2° da Constituição Federal, restará derrogado, pois além desta última veicular norma tributária especial é posterior àquela: Art. 28 (...) §9° (...) p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluído pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. Fl. 2717DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.693 49 § 1o Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Apenas como esclarecimento, meu entendimento sobre a expressão: “desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes” já havia sido manifestado no Acórdão n° 20500.176, de 11/12/2007 quando se apreciou a incidência ou não sobre o benefício Plano Educacional. Naquele caso, não havia disposição legal posterior de natureza tributária silente quanto ao requisito, como neste caso; a CLT, regulando relações de trabalho, é que deixava de considerar como salário o benefício, persistindo com isso a parte final do artigo 28, § 9º, alínea “t” da Lei n° 8.212, de 24/07/1991: Quanto às exigências para o gozo da isenção de que o benefício não substitua parcelas salariais e seja extensivo à totalidade dos segurados empregados e dirigentes, parte final do dispositivo, entendo que não houve revogação. Isto porque é razoável que a legislação tributária procurasse evitar práticas elisivas, como a pretensiosa redução da base de cálculo por meio da substituição pelo benefício ou mesmo sua disponibilização vinculada à produtividade do empregado, do que o caracterizaria como uma gratificação. E não se diga que a falta de previsão dessas exigências na lei posterior tenha sido intencional para a revogação de todo o dispositivo legal da Lei n° 8.212/91. Interessa ao Direito do Trabalho a definição de salário e não as regras periféricas voltadas aos efeitos tributários. As exigências da legislação tributária na parte final do artigo 28, §9°, alínea “t” da Lei n° 8.212/91, ao contrário da parte inicial, não integram a caracterização de alguma utilidade como salário ou não, apenas estabelecem o necessário para gozo da isenção. Retomando ao exame da LC n° 109/2001, selecionamos as principais disposições para este estudo: Lei Complementar nº 109, de 29 de Maio de 2001 Art. 1o O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, é facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício, nos termos do caput do art. 202 da Constituição Federal, observado o disposto nesta Lei Complementar. Art. 4o As entidades de previdência complementar são classificadas em fechadas e abertas, conforme definido nesta Lei Complementar. Seção II Dos Planos de Benefícios de Entidades Fechadas... Art. 16. Os planos de benefícios devem ser, obrigatoriamente, oferecidos a todos os empregados dos patrocinadores ou associados dos instituidores. Fl. 2718DF CARF MF 50 § 1o Para os efeitos desta Lei Complementar, são equiparáveis aos empregados e associados a que se refere o caput os gerentes, diretores, conselheiros ocupantes de cargo eletivo e outros dirigentes de patrocinadores e instituidores. ... Seção III Dos Planos de Benefícios de Entidades Abertas Art. 26. Os planos de benefícios instituídos por entidades abertas poderão ser: I individuais, quando acessíveis a quaisquer pessoas físicas; ou II coletivos, quando tenham por objetivo garantir benefícios previdenciários a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma pessoa jurídica contratante. § 1o O plano coletivo poderá ser contratado por uma ou várias pessoas jurídicas. § 2o O vínculo indireto de que trata o inciso II deste artigo referese aos casos em que uma entidade representativa de pessoas jurídicas contrate plano previdenciário coletivo para grupos de pessoas físicas vinculadas a suas filiadas. § 3o Os grupos de pessoas de que trata o parágrafo anterior poderão ser constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, podendo abranger empresas coligadas, controladas ou subsidiárias, e por membros de associações legalmente constituídas, de caráter profissional ou classista, e seus cônjuges ou companheiros e dependentes econômicos. § 4o Para efeito do disposto no parágrafo anterior, são equiparáveis aos empregados e associados os diretores, conselheiros ocupantes de cargos eletivos e outros dirigentes ou gerentes da pessoa jurídica contratante. ... CAPÍTULO VIII DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. ... Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1o Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. § 2o Sobre a portabilidade de recursos de reservas técnicas, fundos e provisões entre planos de benefícios de entidades de Fl. 2719DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.694 51 previdência complementar, titulados pelo mesmo participante, não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Apenas para que não fiquem espaços vazios na linha de desenvolvimento deste trabalho, lembrase que os dispositivos legais não são interpretados em fragmentos, mas dentro de um conjunto que lhe dê unidade e sentido. As disposições gerais nos artigos 68 e 69 são apenas partes do estatuto da previdência complementar, veiculado pela LC n° 109/2001. Inicialmente, dispõe a lei que os programas podem ser abertos ou fechados, de acordo com a natureza da entidade de previdência complementar. Após, trata de cada um nas seções que se seguem: na Seção II os programas em regime fechado e na Seção III, regime aberto. Para o primeiro, através de seu artigo 16, é exigido, obrigatoriamente, que o benefício seja oferecido à totalidade dos empregados, tal como no artigo 28, § 9º, “p” da Lei n° 8.212, de 24/07/1991: Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: ... p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluído pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). Portanto, um suposto programa de previdência complementar em regime fechado não oferecido à totalidade dos empregados não pode ser considerado como tal e as contribuições vertidas devem ser tributadas normalmente, eis que carecem de característica essencial. As entidades fechadas são instituídas para o conjunto de empregados da patrocinadora e não para grupos de categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, faculdade somente possível quando a opção é pelo regime aberto, conforme artigo 26, §3° da lei. Vêse que para o regime fechado, considerando a unidade da lei, não há incompatibilidade com a Lei n° 8.212/1991, apenas que nesta as regras de incidência e abrangência estão em um mesmo dispositivo legal. Agora, como já sinalizado acima, para o regime aberto a lei faculta que, direta ou indiretamente através da entidade, a empresa contrate em benefício de grupos específicos de categorias de empregados plano de previdência complementar, artigo 26, §2° e 3° da lei. Então, neste caso não incidem contribuições previdenciárias ainda que o benefício não seja oferecido à totalidade dos empregados. Fl. 2720DF CARF MF 52 Mas, sem precipitações, a interpretação será mais segura quando considerado o todo da lei. No caso dos programas em regime aberto, embora não seja necessário estendêlo à totalidade dos empregados e dirigentes, os grupos selecionados são de categorias de empregados, sem discriminações dentro de um mesmo grupo. A escolha recai sobre determinada categoria não como incentivo à produtividade ou outras finalidades relacionadas ao trabalho, mas em razão de necessidades específicas. Em síntese, temos que para a não incidência de contribuições previdenciárias: a) até o advento da LC n° 109/2001, em quaisquer casos, a empresa tinha que oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados e dirigentes; b) a partir da LC n° 109/2001, somente no regime fechado, a empresa deverá oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados, diretores, conselheiros ocupantes de cargo eletivo e outros dirigentes de patrocinadores e instituidores. Caso adotado o regime aberto, poderá oferecer o benefício a grupos de empregados ou dirigentes pertencentes a determinada categoria, mas não como instrumento de incentivo ao trabalho, eis que flagrantemente o caracterizaria como um prêmio e, portanto, gratificação. No presente caso sob exame, os fatos geradores ocorreram posteriormente à LC n° 109/2001. Tratandose da modalidade de previdência complementar em regime aberto, de acordo com a tese aqui desenvolvida, não haveria necessidade de disponibilização dos planos de previdência complementar à totalidade dos dirigentes e empregados, desde que a restrição ao benefício seja de forma genérica e impessoal, que é o caso; portanto, os valores lançados são insubsistentes. O benefício tem previsão constitucional no artigo 202, com a redação trazida pela Emenda Constitucional n° 20, de 15/12/98; portanto, tratase de imunidade de contribuição previdenciária: Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar. ... § 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998). ... Fl. 2721DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.695 53 Em destaque nas transcrições acima, temse que, atendidos os requisitos da lei, as contribuições vertidas pelo empregador não integram a remuneração e, conseqüentemente, sobre as quais não incidem contribuições previdenciárias. De fato, outra não poderia ser a interpretação. Isto porque somente se pode falar em Previdência Complementar quando suas características estão presentes. Aliás, qualquer que seja o benefício oferecido, são justamente as características que evidenciam sua natureza. E não é diferente com a Previdência Complementar Privada. Para que assim seja considerada e daí não incidirem contribuições previdenciárias devem estar presentes as características exigidas pela Lei Complementar n° 109, de 29/05/2001 que regulou o artigo 202 da Constituição Federal e revogou a Lei n° 6.435, de 15/07/1977. Quanto ao artigo 28, §9°, alínea p, parte final, da Lei n° 8.212, de 24/07/91, incluído pela Lei nº 9.528, de 10/12/1997, portanto anterior mesmo à EC n° 20/98, não tenho dúvida que se houver incompatibilidade com os artigos 68 e 69, §1° da Lei Complementar n° 109, de 29/05/2001, que passaram a regular o artigo 202, §2° da Constituição Federal, restará derrogado, pois além desta última veicular norma tributária especial é posterior àquela: Art. 28 (...) §9° (...) p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluído pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1o Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Apenas como esclarecimento, meu entendimento sobre a expressão: “desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes” já havia sido manifestado no Acórdão n° 20500.176, de 11/12/2007 quando se apreciou a incidência ou não sobre o benefício Plano Educacional. Naquele caso, não havia disposição legal posterior de natureza tributária silente Fl. 2722DF CARF MF 54 quanto ao requisito, como neste caso; a CLT, regulando relações de trabalho, é que deixava de considerar como salário o benefício, persistindo com isso a parte final do artigo 28, § 9º, alínea “t” da Lei n° 8.212, de 24/07/1991: Quanto às exigências para o gozo da isenção de que o benefício não substitua parcelas salariais e seja extensivo à totalidade dos segurados empregados e dirigentes, parte final do dispositivo, entendo que não houve revogação. Isto porque é razoável que a legislação tributária procurasse evitar práticas elisivas, como a pretensiosa redução da base de cálculo por meio da substituição pelo benefício ou mesmo sua disponibilização vinculada à produtividade do empregado, do que o caracterizaria como uma gratificação. E não se diga que a falta de previsão dessas exigências na lei posterior tenha sido intencional para a revogação de todo o dispositivo legal da Lei n° 8.212/91. Interessa ao Direito do Trabalho a definição de salário e não as regras periféricas voltadas aos efeitos tributários. As exigências da legislação tributária na parte final do artigo 28, §9°, alínea “t” da Lei n° 8.212/91, ao contrário da parte inicial, não integram a caracterização de alguma utilidade como salário ou não, apenas estabelecem o necessário para gozo da isenção. Retomando ao exame da LC n° 109/2001, selecionamos as principais disposições para este estudo: Lei Complementar nº 109, de 29 de Maio de 2001 Art. 1o O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, é facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício, nos termos do caput do art. 202 da Constituição Federal, observado o disposto nesta Lei Complementar. Art. 4o As entidades de previdência complementar são classificadas em fechadas e abertas, conforme definido nesta Lei Complementar. Seção II Dos Planos de Benefícios de Entidades Fechadas... Art. 16. Os planos de benefícios devem ser, obrigatoriamente, oferecidos a todos os empregados dos patrocinadores ou associados dos instituidores. § 1o Para os efeitos desta Lei Complementar, são equiparáveis aos empregados e associados a que se refere o caput os gerentes, diretores, conselheiros ocupantes de cargo eletivo e outros dirigentes de patrocinadores e instituidores. ... Seção III Dos Planos de Benefícios de Entidades Abertas Art. 26. Os planos de benefícios instituídos por entidades abertas poderão ser: I individuais, quando acessíveis a quaisquer pessoas físicas; ou II coletivos, quando tenham por objetivo garantir benefícios Fl. 2723DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.696 55 previdenciários a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma pessoa jurídica contratante. § 1o O plano coletivo poderá ser contratado por uma ou várias pessoas jurídicas. § 2o O vínculo indireto de que trata o inciso II deste artigo referese aos casos em que uma entidade representativa de pessoas jurídicas contrate plano previdenciário coletivo para grupos de pessoas físicas vinculadas a suas filiadas. § 3o Os grupos de pessoas de que trata o parágrafo anterior poderão ser constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, podendo abranger empresas coligadas, controladas ou subsidiárias, e por membros de associações legalmente constituídas, de caráter profissional ou classista, e seus cônjuges ou companheiros e dependentes econômicos. § 4o Para efeito do disposto no parágrafo anterior, são equiparáveis aos empregados e associados os diretores, conselheiros ocupantes de cargos eletivos e outros dirigentes ou gerentes da pessoa jurídica contratante. ... CAPÍTULO VIII DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. ... Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1o Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. § 2o Sobre a portabilidade de recursos de reservas técnicas, fundos e provisões entre planos de benefícios de entidades de previdência complementar, titulados pelo mesmo participante, não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Apenas para que não fiquem espaços vazios na linha de desenvolvimento deste trabalho, lembrase que os dispositivos legais não são interpretados em fragmentos, mas dentro de um conjunto que lhe dê unidade e sentido. As disposições gerais nos artigos 68 e 69 são apenas partes do estatuto da previdência complementar, veiculado pela LC n° 109/2001. Fl. 2724DF CARF MF 56 Inicialmente, dispõe a lei que os programas podem ser abertos ou fechados, de acordo com a natureza da entidade de previdência complementar. Após, trata de cada um nas seções que se seguem: na Seção II os programas em regime fechado e na Seção III, regime aberto. Para o primeiro, através de seu artigo 16, é exigido, obrigatoriamente, que o benefício seja oferecido à totalidade dos empregados, tal como no artigo 28, § 9º, “p” da Lei n° 8.212, de 24/07/1991: Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: ... p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluído pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). Portanto, um suposto programa de previdência complementar em regime fechado não oferecido à totalidade dos empregados não pode ser considerado como tal e as contribuições vertidas devem ser tributadas normalmente, eis que carecem de característica essencial. As entidades fechadas são instituídas para o conjunto de empregados da patrocinadora e não para grupos de categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, faculdade somente possível quando a opção é pelo regime aberto, conforme artigo 26, §3° da lei. Vêse que para o regime fechado, considerando a unidade da lei, não há incompatibilidade com a Lei n° 8.212/1991, apenas que nesta as regras de incidência e abrangência estão em um mesmo dispositivo legal. Agora, como já sinalizado acima, para o regime aberto a lei faculta que, direta ou indiretamente através da entidade, a empresa contrate em benefício de grupos específicos de categorias de empregados plano de previdência complementar, artigo 26, §2° e 3° da lei. Então, neste caso não incidem contribuições previdenciárias ainda que o benefício não seja oferecido à totalidade dos empregados. Mas, sem precipitações, a interpretação será mais segura quando considerado o todo da lei. No caso dos programas em regime aberto, embora não seja necessário estendêlo à totalidade dos empregados e dirigentes, os grupos selecionados são de categorias de empregados, sem discriminações dentro de um mesmo grupo. A escolha recai sobre determinada categoria não como incentivo à produtividade ou outras finalidades relacionadas ao trabalho, mas em razão de necessidades específicas. Em síntese, temos que para a não incidência de contribuições previdenciárias: Fl. 2725DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.697 57 a) até o advento da LC n° 109/2001, em quaisquer casos, a empresa tinha que oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados e dirigentes; b) a partir da LC n° 109/2001, somente no regime fechado, a empresa deverá oferecer o benefício à totalidade dos segurados empregados, diretores, conselheiros ocupantes de cargo eletivo e outros dirigentes de patrocinadores e instituidores. Caso adotado o regime aberto, poderá oferecer o benefício a grupos de empregados ou dirigentes pertencentes a determinada categoria, mas não como instrumento de incentivo ao trabalho, eis que flagrantemente o caracterizaria como um prêmio e, portanto, gratificação. No presente caso sob exame, os fatos geradores ocorreram posteriormente à LC n° 109/2001. Tratandose da modalidade de previdência complementar em regime aberto, de acordo com a tese aqui desenvolvida, não haveria necessidade de disponibilização dos planos de previdência complementar à totalidade dos dirigentes e empregados, desde que a restrição ao benefício seja de forma genérica e impessoal, que é o caso; portanto, os valores lançados são insubsistentes." (destaques originais) O voto acima reproduzido contempla na totalidade, meu entendimento, inclusive quanto às razões de decidir. Do exposto, entendendo caber razão à Recorrente, pois, após o advento da Lei Complementar nº 109/01, o benefício da previdência privada aberta não precisa ser extensivo a todos os segurados e dirigentes da empresa. Recurso provido nessa parte. ABONO E GRATIFICAÇÃO DE FÉRIAS Segundo o Fisco (fls. 153): " Em 01/08/2013 a empresa apresentou esclarecimento por escrito (datado em 31/07/2013) em atenção à intimação fiscal, reproduzido a seguir : Item 1 – Até o ano de 2009 as rubricas de terço constitucional V37 e V30, possuíam incidências previdenciárias com recolhimentos mensais. Com relação à Gratificação de Férias V34 e V42, nunca houve incidência previdenciária sobre essas rubricas com fundamento no art. 7°, inciso XVII da CF/88 e art. 144 da CLT, no qual estabelece de forma expressa que a a referida verba é desvinculada da remuneração do trabalhador, nos termos da lei. Fl. 2726DF CARF MF 58 Ao confrontar a folha de pagamento com o esclarecimento apresentado, constatamos que a CPFL Energia tentou confundir a fiscalização, conforme demonstrado a seguir. Primeiramente, de acordo com os dados apresentados pela própria empresa em sua folha de pagamento, as rubricas V37 ABONO CONST DE FERIASDIFERENC e V30 ABONO CONSTIT DE FERIAS não integraram a base de cálculo das contribuições previdenciárias. Anexamos ao processo o relatório denominado “Rubricas de proventos”, em que são apresentadas todas as rubricas de proventos das folhas de pagamento, extraídas dos arquivos digitais apresentados, cuja prova de conteúdo se dá por meio dos códigos de autenticação constantes nos Recibos de Entrega de Arquivos Digitais assinados por representantes da CPFL Energia, também anexados ao presente processo. Podemos claramente verificar no relatório, gerado a partir da extração de dados dos arquivos digitais, que as rubricas V37 e V30 receberam o indicativo “NÃO É BASE”. Apenas para ilustrar o fato, vejamos as linhas números 24825 e 25050 do arquivo da folha de pagamento de 05/2009 da CPFL Paulista: K300|383058019860080188|1|3080018176|08020801080448622 0|0528009|V37|11,57|P|1|8 K300|383058019860080188|3|3080008087|08020801080458074 0|0528009|V30|1669,29|P|1|8 De acordo com o leiaute do MANAD, constatase que as rubricas V37 e V30, no bloco K300, correspondente aos “Itens de Folha”, receberam o “Indicador de Base de Cálculo para a Previdência Social” 8 – não é base de cálculo. Portanto, ao contrário do que foi afirmado pela CPFL no esclarecimento, as rubricas V37 e V30, correspondentes ao adicional constitucional de férias, não integraram a base de cálculo das contribuições previdenciárias na folha de pagamento da empresa*. *nota: em 16/12/2010 a CPFL Energia protocolou na Justiça Federal da 3a Região o Processo 001809613.2010.403.6105, em que discute a incidência de contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias e sobre a ajuda de custo eventual. Não nos aprofundaremos nesta ação judicial, uma vez que rubricas relacionadas a férias foram objeto de verificação neste procedimento fiscal somente no ano de 2009. Prosseguindo, vejamos o já mencionado Acordo Coletivo de Trabalho celebrado entre a COMPANHIA PAULISTA DE FORÇA E LUZ e o SINDICATO DOS TRABALHADORES NA INDÚSTRIA DE ENERGIA ELÉTRICA DE CAMPINAS, que em sua cláusula 09 estabelece regra relativa à Gratificação de Férias dos empregados, conforme reproduzido a seguir: 09 – GRATIFICAÇÃO DE FÉRIAS A CPFL manterá a Gratificação de Férias, com a parte fixa no valor de R$ 1.550,90 (um mil, quinhentos e cinquenta reais, noventa centavos), mantendo a parte variável de 40% (quarenta por cento) sobre o Fl. 2727DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.698 59 valor que resultar da diferença entre a remuneração fixa mensal do empregado e a parte fixa da Gratificação. Parágrafo 1° A Gratificação de Férias continuará limitada à remuneração fixa mensal do empregado, quando esta for inferior ao valor fixo da Gratificação. Parágrafo 2° Com a presente sistemática de Gratificação de Férias, a CPFL cumpre plenamente o disposto no artigo 7°, inciso XVII, da Constituição Federal. Da leitura acima, constatase inequivocamente que a Gratificação de Férias, estabelecida no Acordo Coletivo e lançada na folha de pagamento nas rubricas V34 GRAT FERIAS AC COLETIVO e V42 GRAT FERIAS AC COLETIVO– DIFE, não tem nenhuma relação com o abono de férias. Não se confunde gratificação de férias concedida em acordo coletivo de trabalhado com abono de férias, que é a conversão de parte do período de férias a que o empregado tem direito em pecúnia. O artigo 144 da CLT, que foi mencionado no esclarecimento da empresa, estabelece que não integra a remuneração do empregado para os efeitos da legislação do trabalho, desde que não excedente de vinte dias do salário, o abono de férias concedido em virtude de acordo coletivo , de cláusula do contrato de trabalho, do regulamento da empresa ou de convenção. Destacamos o mesmo a seguir: Art. 144. O abono de férias de que trata o artigo anterior, bem como o (abono de férias) concedido em virtude de cláusula do contrato de trabalho, do regulamento da empresa, de convenção ou acordo coletivo, desde que não excedente de vinte dias do salário, não integrarão a remuneração do empregado para os efeitos da legislação do trabalho. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 1998) Lembramos mais uma vez que o abono de férias, na forma do artigo 143 da CLT, corresponde à faculdade legal de o empregado converter um terço da duração de suas férias em abono pecuniário; enquanto que na forma do artigo 144 da CLT, acordo coletivo de trabalho pode estabelecer conversão de férias em pecúnia, que não integra a remuneração desde que não excedente de vinte dias do salário. Assim, a CPFL Energia mais uma vez tenta confundir a fiscalização ao mencionar o artigo 144 da CLT, que trata de abono de férias que pode ser concedido por acordo coletivo, quando na verdade se trata de gratificação de férias adicional ao terço mínimo estabelecido pela Constituição. Portanto, a Gratificação de Férias do Acordo Coletivo celebrado pela CPFL Paulista corresponde a valor complementar ao adicional constitucional mínimo de um terço. O terço constitucional de férias e qualquer gratificação Fl. 2728DF CARF MF 60 adicional integram o saláriodecontribuição. Conforme já apontado no Capítulo IX, estas parcelas só não integram o saláriodecontribuição quando estiverem vinculadas a férias indenizadas ou a abono de férias. As rubricas V37, V30, V34 e V42 integram o conceito de salário decontribuição nos termos do artigo 28 da Lei nº 8.212/1991, mas não compuseram a base de cálculo das contribuições na folha de pagamento da CPFL Paulista. Em decorrência, foram lançadas sob o Código de Levantamento “FE – Férias”, também relacionado no relatório “DD – Discriminativo do Débito”, já mencionado neste relatório. Todos os valores utilizados no lançamento foram extraídos da folha de pagamento, apresentada em meio digital, conforme arquivos constantes da relação de Recibos de Entrega de Arquivos Digitais." As alegações da Recorrente podem ser resumidas com as seguintes transcrições do apelo (fls 2393): "O Auditor Fiscal narrou que após análise das folhas de pagamento em meio digital apresentadas, identificou que as rubricas relativas ao adicional constitucional de férias e a gratificações de férias não integraram a base de cálculo das contribuições previdenciárias. Relativamente ao abono constitucional de férias, o Auditor Fiscal partiu da equivocada premissa de que a motivação do pagamento é a remuneração adicional de férias do empregado, assegurada pela Constituição Federal nos termos do artigo 79, inciso XVII, correspondente a, no mínimo, 1/3 da remuneração mensal na data da concessão das férias. Os eventos "abono const. de fériasdiferenc" (V37) e "abono consti de férias"(V30) pagos pela Recorrente corresponderam, na forma do artigo 143 da CLT, à conversão de 1/3 (um terço) do período de férias a que o empregado tinha direito em abono pecuniário, novalor da remuneração que lhe seria devida nos dias correspondentes: Art. 143 É facultado ao empregado converter 1/3 (um terço) do período de férias a que tiver direito em abono pecuniário, no valor da remuneração que lhe seria devida nos dias correspondentes. (Redação dada pelo Decretolei n^ 1.535, de 13.4.1977 (Grifouse). O artigo 144, da CLT, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.528/98,afora tratar do abono concedido em virtude de cláusula do contrato de trabalho, do regulamento da empresa ou de normas coletivas, faz remissão ao abono de que trata o artigo143, afastandoos expressamente da base de cálculo da contribuição sobre a folha, por consideralos não integrativo da remuneração: (...) Em que pese as importâncias pagas, devidas ou creditadas a esse título não integrarem a base de cálculo das contribuições Fl. 2729DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.699 61 previdenciárias, a DRJ entendeu, como se colhe do Acórdão proferido, que a ausência de decisão do STF com efeito erga omnes impediria o acolhimento da defesa: "Relativamente à referência a reconhecimento da natureza indenizatória do adicional constitucional de férias, pelo STF, temse que não há decisão da Egrégia Corte com efeito erga omnes, nesse sentido. Assim, não se pode acolher a alegação da Recorrente." Sucede, contudo que o E. Superior Tribunal de Justiça, enaltecendo a única interpretação possível a ser conferida aos artigos 143 e 144 da CLT, consolidou o entendimento segundo o qual não incidem contribuições previdenciárias sobre os valores pagos, devidos ou creditados a título de "abono de férias": (...)" Em acréscimo, a recorrente alega que as gratificações de férias pagas também não sofrem incidência posto que decorrem de previsão constante do Acordo Coletivo de Trabalho (cláusula 11), que equipara tal gratificação ao abono único do artigo 144 da CLT. Vejamos (fls. 2399): "O pagamento da gratificação de férias, diferentemente do abono, obedece a cláusula 11 do Acordo Coletivo de Trabalho, que estabelece: 11 Gratificação de férias A CPFL manterá a gratificação de férias, com a parte fixa no valor de R$ 1.463,11 (um mil, quatrocentos e sessenta e três reais e onze centavos), mantendo a parte variável de 40% (quarenta por cento) sobre o valor que resultar da diferença entre a remuneração fixa mensal do empregado e a parte fixa da gratificação. Parágrafo lº A gratificação de férias continuará limitada à remuneração fixa mensal do empregado, quando esta for inferior ao valor fixo da gratificação. Parágrafo 2º Com a presente sistemática de gratificação de férias, a CPFL cumpre plenamente o disposto no artigo 7e, inciso XVII, da Constituição Federal. A gratificação de férias prevista no ACT firmado entre a Recorrente e o sindicato da categoria atende rigorosamente o artigo 144 da CLT, na medida em que jamais o valor pago ao empregado ultrapassa aquele que seria devido por 20 (vinte) dias de trabalho. A título exemplificativo, imaginemos a seguinte situação: (...) Como se colhe do exemplo acima, a gratificação de férias complementar ao 1/3 constitucional jamais excederá o valor do salário a que o empregado faria jus por 20 (vinte) dias de trabalho. O valor não atinge sequer 20% (vinte por cento) do Fl. 2730DF CARF MF 62 valor da remuneração mensal do empregado, ostentando natureza jurídica idêntica ao 1/3 constitucional deferias." Não assiste razão a Recorrente. O Direito do Trabalho, assim como outros ramos do direito, padece do defeito crônico da denominação de seus institutos. Abono é um vocábulo polissêmico para o direito do trabalho. Na acepção que aqui nos interessa, abono deve ser entendido como o período de férias, que, por expressa vontade do trabalhador e havendo interesse do empregador, pode ser convertido em período de trabalho, mediante a percepção de uma verba abono de férias de nítida natureza indenizatória, posto que destinada a reparar a ofensa ao direito impetrada pelo empregador que anuiu, ou até solicitou, com o labor do empregado quando este se encontrava no gozo de seu direito de férias, típica situação de interrupção dos efeitos do contrato de emprego, posto que não há trabalho, mas remanesce o direito a percepção de salário. Outro não é o ensinamento da doutrina. Alice Monteiro de Barros (Curso de Direito do Trabalho, 2ª ed. LTR, pg. 832), Homero Batista Mateus da Silva (Curso de Direito do Trabalho Aplicado, Volume 2, Jornadas e Pausas, Ed. Elsevier. pag.322) e Arnaldo Sussekind (Curso de Direito do Trabalho, 3ª ed. Ed. Renovar, pg. 501) corroboram as afirmações. Assim, se torna perfeitamente lógico o comando celetista (artigos 143 e 144) e, por via de consequência, da Lei de Custeio da Previdência (artigo 28, § 9º, 'e', 6) quanto à não incidência de contribuições previdenciárias sobre a verba. Esse é o abono de férias e esse é o motivo pelo qual não incidem contribuições sociais previdenciárias sobre tal verba. Simples assim: se o trabalhador, como se diz no linguajar próprio, 'vendeu' suas férias, recebeu como contrapartida um abono de férias, que segundo a lei não pode exceder 10 dias de trabalho, mas pode ser ajustado, por contrato coletivo em no máximo 20 dias. Do exposto, forçoso concluir que se não houver a comprovação, no caso concreto, que a verba paga a título de abono de férias correspondeu ao efetivo valor indenizado pelo trabalho prestado no período de gozo das férias do empregado, essa verba deve sofrer incidência da contribuição previdenciária. Tal situação foi observada pela Fiscalização no caso concreto. Como bem relatou a autoridade fiscal, quando intimada a empresa alegou que a rubrica abono de férias se referia ao acréscimo de 1/3 sobre o valor das férias, instituído pelo artigo 7º, inciso XVII, da Constituição. Depois, disse que tal verba, na verdade é o abono previsto no artigo 144 da CLT, posto que previsto na cláusula 11 do contrato coletivo firmado. Tal tese é esposada no recurso, como se comprova no excerto acima transcrito das alegações constantes do apelo. Porém, como visto, do abono de férias previsto nos artigo 143 e 144 da CLT, tal verba não se trata. Será que se trata do chamado terço constitucional sobre as férias? É o que me parece. Fl. 2731DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.700 63 Como dito no recurso, tal gratificação de férias é devida pela empresa, como acréscimo ao valor das férias quando do gozo desta pelo empregado. Como dito no parágrafo 2º da mencionada cláusula 11 do ACT: "Parágrafo 2º Com a presente sistemática de gratificação de férias, a CPFL cumpre plenamente o disposto no artigo 7e, inciso XVII, da Constituição Federal." Assim, basta verificarmos a incidência para o terço constitucional sobre as férias para descobrirmos se a mesma ocorre sobre tal gratificação. Aqui, com a máxima vênia, nossa discordância com as decisões do Superior Tribunal de Justiça se exprime. Há incidência sobre o terço constitucional pago sobre as férias gozadas. Que reste claro: Só sobre as férias gozadas, mas sobre essas há incidência. A explicação é de uma simplicidade franciscana e clareza solar: como dito alhures, férias são caso típico de interrupção dos efeitos do contrato de emprego, dito de maneira direta: não se observam as obrigações principais do contrato de trabalho, o empregador, cumpre a sua, paga salário, porém o empregado não trabalha, está desobrigado de entregar a sua prestação. Assim sendo, nas férias gozadas, há salário, como reconhecem até os tribunais superiores. Mas e o terço constitucional, o que é? Vejamos a dicção da Carta Magna: "Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) XVII gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal;" Despiciendo qualquer argumentação. Basta ler. Ler com olhos de ler! É salário, mais que isso, é remuneração por expressa disposição constitucional. Não é necessário nenhuma teoria hermenêutica para interpretar a norma, ou caberia alguma leitura que afastasse o acréscimo criado como salário? Assim, a gratificação paga pela Recorrente sofre incidência. Recurso negado também nessa parte. INDEVIDA QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO A Autoridade Fiscal majorou a multa de ofício aplicada. Vejamos seus argumentos (fls. 158): Fl. 2732DF CARF MF 64 "Conforme relatado no Capítulo X DESCRIÇÃO DOS FATOS APURADOS NO PROCEDIMENTO FISCAL, a CPFL Paulista tinha plena ciência de que determinadas importâncias eram fatos geradores de contribuições previdenciárias e destinadas a outras entidades e fundos e, mediante ações ou omissões dolosas, tentou impedir o conhecimento por parte das autoridades fazendárias da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, caracterizada pelo evidente intuito de sonegação. 11.4 Dessa forma, demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses definidas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, o lançamento de ofício será efetuado com qualificação da multa, correspondente ao percentual de 75% duplicado, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Portanto, a Multa Qualificada a ser aplicada corresponde ao percentual de 150% sobre o imposto ou contribuição não recolhido e não declarado." Em sua defesa, a Recorrente alega (fls. 1260): "Utilizase o Auditor Fiscal, na tentativa de justificar a qualificação da multa, do argumento de que a Recorrente tinha plena ciência de que determinadas importâncias eram fatos geradores de contribuições previdenciárias e destinadas a outras entidades e fundos e, mediante ações ou omissões dolosas, tentou impedir o conhecimento por parte das autoridades fazendárias da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, caracterizada pelo evidente intuito de sonegação. A Recorrente, além de não concordar com a glosa dos valores referentes aos lançamentos de ofício, não praticou qualquer ação ou omissão dolosa na tentativa de impedir o conhecimento, pela RFB, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Ademais, não houve qualquer falsidade nas declarações transmitidas pela Recorrente, tampouco a sonegação de contribuições previdenciárias ou evidente intuito de fraude, eis que ausente qualquer elemento de dolo nas suas ações (o que se comprova pelo fato de ter a Recorrente cooperado ao longo de toda a curta fiscalização). O que se verifica na presente hipótese é tão somente a aplicação de interpretação legal diversa daquela entendida como correta pelo Auditor Fiscal." Assiste razão à Apelante. Não houve comprovação, pelo Fisco, das condutas ensejadoras da qualificadora da multa de ofício, ou seja, nos termos da Lei 4.502/64, reprováveis são a fraude, a sonegação e o conluio. Vejamos os conceitos aplicáveis. O dolo, leciona Luiz Regis Prado (Curso de Direito Penal Brasileiro, 6ª ed. Ed. Revista dos Tribunais, p. 113), se observa quando Fl. 2733DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.701 65 "(...) age dolosamente o agente que conhece e quer a realização dos elementos da situação fática ou objetiva, sejam descritivos, sejam normativos, que integram o tipo legal do delito." (negritamos) Transportando para a seara tributária, podemos dizer que age dolosamente o contribuinte que conhecendo a incidência tributária, sabendo que determinada conduta enseja o fato gerador, dela procura se afastar, não com vista a não praticar o fato ensejador da incidência, mas sim, buscando de alguma forma, se escusar ao cumprimento da obrigação tributária. Nesse sentido a dicção da Lei nº 4.502/64, que conceitua fraude como sendo toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador ou a reduzir as suas características essenciais de modo a reduzir o montante do tributo devido. Já a sonegação, nos dizeres legais, é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador ou das condições pessoais do contribuinte ou do crédito tributário. Claro resta que a intenção do agente, do contribuinte é determinante para caracterização da fraude e da sonegação nos termos da Lei nº 4.502/64. E mais, deve ser provada pela Fisco. Mas como a Autoridade Fiscal pode verificar a intenção do contribuinte, se a verificação do cumprimento das obrigações tributárias é realizada, praticamente sempre, tempos após o surgimento dessas obrigações? A lição de Vasco Branco Guimarães, reproduzida por Paulsen (Direito Tributário Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência, 15ª ed., Livraria do Advogado Editora, p. 1117), nos auxilia: "A fraude fiscal pode ser definida como a conduta ilegítima tipificada que visa a obtenção indevida de vantagem mediante: não liquidação, entrega ou pagamento de prestação tributária; aquisição de benefício fiscal indevido; aquisição de qualquer outra vantagem patrimonial à custa de receitas tributárias" Ora, não restou patente no relatório fiscal que as condutas do Recorrente visavam impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador ou reduzir suas condições essenciais com vista a obtenção de vantagem por meio da postergação ou não pagamento do tributo devido. Não houve comprovação, pelo Fisco, de uma única situação quanto às condutas praticadas pelo contribuinte que se possa conceituar nos termos acima aplicáveis à sonegação, fraude ou conluio. Nada contribuiu para o convencimento deste julgador da ocorrência das condições legais ensejadoras da qualificação da multa de ofício. Logo, o recurso deve ser provido nessa parte. Fl. 2734DF CARF MF 66 IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA CONCOMITANTE DA MULTA DE MORA E DA MULTA DE OFÍCIO E DA NÃO APLICAÇÃO DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Alega, sucintamente a Recorrente (fls. 1266): "Dispensamse maiores delongas a respeito do tema, na medida em que o Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda (atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) pacificou o entendimento quanto à vedação da cobrança da multa de mora cumulada com a da multa isolada, conforme exemplificam os acórdãos abaixo transcritos: (...)" Alega também que o § 3º da Lei nº 9.430/96 restringe a incidência dos juros de mora sobre o valor do principal lançado e que tal vedação se apoia na inteligência do CTN. Quanto ao tema se encontra pacificado no âmbito deste colegiado, ao contrário dos argumentos da Apelante. A incidência dos juros nos créditos tributários inadimplidos decorre de Lei, assim como as penalidades moratórias e sancionatórias. Não obstante, tal tema se encontra devidamente pacificado no âmbito deste colegiado. Tanto assim o é que a Súmula CARF nº 4, expressamente dispõe: "A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais." Mister recordar que a multa de ofício integra o crédito tributário por expressa disposição do CTN. Corroborando tal entendimento, a Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira no voto condutor do Acórdão 9202002003.765, de 16/02/16, explicitou: "Ao contrário do que entende o recorrente, a aplicação de juros sobre multa de ofício é devida, na medida em que a penalidade compõe o crédito apurado. De acordo com o art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN é autorizada a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. Fazendo parte do crédito juntamente com o tributo, devem ser aplicados à multa os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. Nesse sentido, já se manifestou esta Câmara, em outras oportunidades, como no processo 10.768.010559/200119, Acordão 920201.806 de 24 de outubro de 2011, cuja ementa transcrevo a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Fl. 2735DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.702 67 Ano calendário:1997 JUROS DE MORA COM BASE NA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO APLICABILIDADE O art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o “crédito” a que se refere o caput do artigo. Recurso especial negado. É legítima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. Precedentes do Tribunal Regional da 4ª Região. Recurso Especial Negado. A matéria sob exame pode ser dividida em duas questões, que se completam. A primeira, diz respeito à própria possibilidade genérica da incidência de juros sobre a multa, e centrase na interpretação do artigo 161 do CTN; a segunda questão envolve a discussão sobre a existência ou não de previsão legal para a exigência de juros sobre a multa, cobrados com base na taxa Selic. Sobre a incidência de juros de mora o citado art. 161 do CTN prevê o seguinte: “Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.” Inicialmente entendo que o art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o “crédito” a que se refere o caput do artigo. Ou seja, tanto a multa como o tributo compõem o crédito tributário, devendolhes ser aplicado os mesmos procedimentos e os mesmos critérios de cobrança, devendo, portanto, sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Ademais, não haveria porque o valor da multa permanecer congelado no tempo. Por seu turno o § 1.º do art. 161 do CTN, ao prever os juros moratórios incidentes sobre os créditos não satisfeitos no Fl. 2736DF CARF MF 68 vencimento, estipula taxa de 1% ao mês, não dispondo a lei de modo diverso. Abriu, dessa forma, possibilidade ao legislador ordinário tratar da matéria, o que introduz a segunda questão: a da existência ou não de lei prevendo a incidência de juros sobre a multa de oficio com base na taxa Selic. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa. Confirase in verbis: "Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." Esse entendimento se coaduna com a Súmula nº 45 do extinto Tribunal Federal de Recursos, que já previa a correção monetária da multa: "As multas fiscais, sejam moratórias ou punitivas, estão sujeitas à correção monetária." Considerando a natureza híbrida da taxa SELIC, representando tanto taxa de juros reais quanto de correção monetária, justifica se a sua aplicação sobre a multa. Precedentes do Tribunal Regional da 4ª Região: “TRIBUTÁRIO. AÇÃO ORDINÁRIA. REPETIÇÃO. JUROS SOBRE A MULTA. POSSIBILIDADE. ART. 113, § 3º, CTN. LEI Nº 9.430/96. PREVISÃO LEGAL. 1. Por força do artigo 113, § 3º, do CTN, tanto à multa quanto ao tributo são aplicáveis os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. E não poderia ser diferente, porquanto ambos compõe o crédito tributário e devem sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Não haveria porque o valor relativo à multa permanecer congelado no tempo. 2. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa, que pode, inclusive, ser lançada isoladamente. 3. Segundo o Enunciado nº 45 da Súmula do extinto TFR "As multas fiscais, sejam moratórias ou punitivas, estão sujeitas à correção monetária." 4. Considerando a natureza híbrida da taxa SELIC, representando tanto taxa de juros reais quanto de correção monetária, justificase a sua aplicação sobre a multa.” (APELAÇÃO CÍVEL Nº 2005.72.01.0000311/ SC, Relator: Desembargador Federal Dirceu de Almeida Soares) “TRIBUTÁRIO. ART. 43 DA LEI 9.430/96. MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DE JUROS MORATÓRIOS. LEGITIMIDADE. 1. É legítima a exigência fiscal consistente na incidência de juros moratórios sobre multa de ofício aplicada ao contribuinte. Fl. 2737DF CARF MF Processo nº 10830.727495/201321 Acórdão n.º 2201003.417 S2C2T1 Fl. 2.703 69 Inteligência do artigo 43 da Lei 9.430/96 c/c art. 113, § 3, do CTN 2. Improvida a apelação.” (APELAÇÃO CÍVEL Nº 2004.70.00.0263869/ PR, Relator: Juiz Federal Décio José da Silva). Destarte, entendo que é legítima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. Conforme descrito acima, os juros de mora sobre a multa são devidos em função do § 3º do art. 113 do CTN, pois tanto a multa quanto o tributo compõe o crédito tributário. Esse entendimento encontra precedentes da 2ª Turma da CSRF: Acórdão nº 920201.806 e Acórdão nº 920201.991. Destacase ainda que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a legalidade dos juros de mora sobre a multa de oficio (AgRg no REsp 1.1335.688/PR; REsp 1.129.990PR; REsp 834.681MG)." Recurso negado nessa parte. CONCLUSÃO Diante do exposto, e pelos fundamentos apresentados, voto por conhecer dos recursos, e por dar provimento parcial ao recurso de ofício para restaurar o lançamento tributário referente à retenção de 11% sobre o valor das notas fiscais/faturas de serviços da prestadora EAGOES Serviços de Engenharia Elétrica Ltda. Quanto ao recurso voluntário, voto por rejeitar as preliminares de nulidade e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso para: i) excluir do lançamento os valores das retenções relativas aos contratos firmados pelas empresas: MGD Engenharia e Treinamento Ltda (levantamento 31); BEARINPOINT S/A (levantamento 28), BULL LTDA. (levantamento 24), TIVIT Terc. de Processos e Serv. (levantamento 18), ENERGIA ASSESSORIA (levantamento 03), STK Consultoria (somente o contrato nº 4600019969 de fls 2639). ii) excluir do lançamento os valores incidentes sobre a contribuição aos terceiros relativos ao plano de previdência privada pago aos diretores e gerentes e iii) a qualificadora da multa de ofício, reduzindo o valor desta ao percentual de 75%. assinado digitalmente Carlos Henrique de Oliveira Relator Fl. 2738DF CARF MF 70 Fl. 2739DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.722632/2014-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010
IMPUGNAÇÃO. TEMPESTIVIDADE. SUCESSOR. LEGITIMIDADE.
Comprovada a cisão parcial da empresa autuada e a cessão de seus ativos e passivos a nova sociedade, a qual, posteriormente, é incorporada, legitimada a sucessora a apresentar impugnação e demais atos do processo administrativo, na condição de contribuinte.
Numero da decisão: 2401-004.611
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos em conhecer do recurso e, no mérito, dar-lhe provimento. Vencidas as conselheiras Maria Cleci Coti Martins e Miriam Denise Xavier Lazarini que não conheciam do recurso. Votou pelas conclusões o conselheiro Marcio de Lacerda Martins.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alexandre Tortato - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini (Presidente), Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Marcio de Lacerda Martins, Andrea Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins, Luciana Matos Pereira Barbosa e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: CARLOS ALEXANDRE TORTATO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 IMPUGNAÇÃO. TEMPESTIVIDADE. SUCESSOR. LEGITIMIDADE. Comprovada a cisão parcial da empresa autuada e a cessão de seus ativos e passivos a nova sociedade, a qual, posteriormente, é incorporada, legitimada a sucessora a apresentar impugnação e demais atos do processo administrativo, na condição de contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos em conhecer do recurso e, no mérito, darlhe provimento. Vencidas as conselheiras Maria Cleci Coti Martins e Miriam Denise Xavier Lazarini que não conheciam do recurso. Votou pelas conclusões o conselheiro Marcio de Lacerda Martins. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 72 26 32 /2 01 4- 20 Fl. 12515DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini (Presidente), Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Marcio de Lacerda Martins, Andrea Viana Arrais Egypto, Maria Cleci Coti Martins, Luciana Matos Pereira Barbosa e Rayd Santana Ferreira. Fl. 12516DF CARF MF Processo nº 10805.722632/201420 Acórdão n.º 2401004.611 S2C4T1 Fl. 12.516 3 Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 12359/12432) oposto contra o Acórdão nº. 0367.397 (fls. 12335/12339) da 5ª Turma da DRJ/BSB, que restou assim ementado: REPRESENTAÇÃO PROCESSUAL – NECESSIDADE DE PROCURAÇÃO É imprescindível a apresentação de procuração quando da interposição de impugnação por terceira pessoa em nome do contribuinte. Impugnação Não Conhecida Crédito Tributário Mantido Trata o presente processo administrativo fiscal de Autos de Infração de Obrigação Principal e Obrigação Acessória lavrados em desfavor da empresa ora recorrente, assim divididos: · AI nº. 51.062.1147: referente as contribuições destinadas à Previdência Social, correspondentes a cota patronal, incluindo os riscos de acidentes de trabalho (RAT); · AI nº. 51.062.1155: referente às contribuintes previdenciárias destinadas à Outras Entidades e Fundos sobre a remuneração paga aos segurados empregados; · AI nº. 51.062.1163: referente à multa por descumprimento de obrigação acessória. Nos termos do Relatório Fiscal – REFISC (fls. 104/123), temse que os fatos geradores que ensejaram a autuação são decorrentes da ausência do recolhimento das contribuições previdenciárias incidentes sobre: a) Parte de PLR – Participação nos Lucros e Resultados pago pela Recorrente, referente aos valores pagos nos resultados de unidades (filiais) sem instrumentos de negociação coletiva específicos para aquelas bases territoriais; b) Pagamentos a título de Vantagens Adicionais – “EXTRA” (vantagens adicionais, benefícios e bonificações pagas aos empregados); c) Pagamentos à título de “ValeRefeição”, realizados em dinheiro; d) Pagamentos à título de “Bolsa de Estudo”, por se referirem a reembolso de cursos de graduação e pósgraduação; e) Multa por deixar a empresa de lançar mensalmente em títulos próprias da sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as Fl. 12517DF CARF MF 4 contribuições, nos termos do art. 32, II, da Lei nº. 8.212/91 c/c art. 225, II, §§ 13 a 17 do RPS; A intimação dos Autos de Infração se deu em face da pessoa jurídica Casa Bahia Comercial Ltda. (CNPJ 59.291.534/000167), que fora cientificada em 24/09/2014 (fl. 12103), e apresentou a sua impugnação (fls. 12112/12154) na data de 23/10/2014, já sob a designação de VIA VARAJO S.A (CNPJ 33.041.260/065290) na qualidade de sucessora por incorporação de Nova Casa Bahia S/A que, por sua vez, era sucessora de CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. (CNPJ 59.291.534/000167), esta última a empresa qualificada como sujeito passivo nos Autos de Infração do presente processo administrativo fiscal. Importante destacar o tópico IV do REFISC (fls. 107/108), onde nos itens “20.”, “21” e “22”, o AFRFB destaca a existência do “Protocolo e Justificação de Cisão Parcial” entre as empresas CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. e NOVA CASA BAHIA S/A (NCB) onde ficara decidido cisão da primeira pessoa jurídica e que versão da parcela cindida do patrimônio da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. passaria a NOVA CASA BAHIA S/A. Também, reconhece o AFRFB que a cláusula 6.2.4 do referido protocolo estabelece que os empregados da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. passarão a ser empregados da NOVA CASA BAHIA S/A mas que, por questões de ordem operacional não possam formalizar o seu vínculo trabalhista com a nova companhia, permanecerão empregados da sociedade até que seja possível transferir o registro desses a NCB. Assim, conclui o AFRFB no item “22.” do REFISC: “22. De fato, constatamos que os empregados permaneceram sendo remunerados, declarados em GFIP e em DIRF pela CASA BAHIA COMERCIAL, após a Cisão Parcial, motivo pelo qual os valores devidos foram lançados em nome desta”. Ocorre que, justamente em virtude da peça impugnatória ter sido apresentada pela sucessora da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., no caso, a VIA VAREJO S/A, a impugnação não fora conhecida pela turma julgadora de primeira instância, “tendo em vista a não apresentação da procuração”. Segundo a decisão recorrida, a autuação decorreu de valores pagos a empregados que permaneceram sendo remunerados, declarados em GFIP e em DIRF pela empresa autuada (CASA BAHIA COMERCIAL), sendo verificado que no correr da fiscalização toda a comunicação da autoridade fiscal com a empresa ocorreu em nome desta, sendo as respostas apresentadas pela CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. Assim, a procuração de fls. 12206/12207 outorgada pela empresa VIA VAREJO S.A., não produz efeitos no presente processo, já que esta empresa não figura no polo passivo do presente processo administrativo fiscal. Ressalta, ainda, que a autuada foi intimada para apresentar nova procuração (fl. 12316), porém não se manifestou. Por essas razões, com fulcro nos artigos 16, II, do Decreto 70.235/72, 6º, II, 40 e 63, da Lei nº. 9.784/99, e art. 13 do Código de Processo Civil, a impugnação não deveria Fl. 12518DF CARF MF Processo nº 10805.722632/201420 Acórdão n.º 2401004.611 S2C4T1 Fl. 12.517 5 ser conhecida e, assim, não fora instaurada a fase litigiosa do processo administrativo, nos termos do art. 14 do Decreto 70235/72. O recorrente foi intimado eletronicamente do referido acórdão em 27/04/2015 (fl. 12356) e, em 27/05/2015, tempestivamente, apresentou o seu recurso voluntário de fls. 12359/12432, alegando, em síntese: a) Legitimidade da recorrente VIA VAREJO S.A. para impugnar os autos de infração lavrados em face da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., por têlo feito em nome próprio e não por representação, por ser sucessora de direitos e obrigações da NOVA CASA BAHIA S.A. que, por sua vez, é sucessora de direito e obrigações da autuada originariamente CASA BAHIA COMERCIAL LTDA.; b) Nos termos do art. 132 do CTN, é responsável tributária por sucessão pelos débitos da CASA BAHIA COMERCIAL e, via de consequência, a decisão de primeira instância é nula, nos termos do art. 59, II do Decreto 70.235/72; c) Existência de permissão legal para conhecimento da impugnação, ainda que não se reconhece ser a VIA VAREJO S.A. sucessora de direitos e obrigações da CASA BAHIA COMERCIAL, por força do art. 58, I e II, da Lei nº. 9.784/99, que conferem legitimidade para interpor recurso administrativo àqueles “titulares de direito e interesses que forem parte no processo” e “cujos direitos ou interesses forem indiretamente afetados pela decisão recorrida"; d) Nulidade das autuações, por inexistência de descrição dos fatos imponíveis, causando violação aos princípios da ampla defesa e contraditório; e) Isenção, não incidência e imunidade da PLR; f) Isenção sobre o pagamento de gratificações não ajustadas; g) Isenção do vale refeição; h) Isenção e não incidência sobre Bolsa de Estudos; i) Impossibilidade de aplicação do FAP ao caso concreto por ofensa à Resolução CNPS 1.316/2010; j) Não incidência de juros de mora sobre a multa de ofício; É o relatório. Fl. 12519DF CARF MF 6 Voto Conselheiro Carlos Alexandre Tortato Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Preliminarmente a) Da representação processual Como demonstrado acima, a impugnação apresentada no presente processo administrativo fiscal não foi conhecida pela 5ª Turma da DRJ/BSB e, assim, declarouse não instaurado o contencioso administrativo. Segundo o acórdão recorrido, a procuração contida nos autos aos patronos que apresentaram a peça impugnatória fora outorgada pela empresa VIA VAREJO S.A., a qual não era parte legítima nos autos e, portanto, não teria o condão de representar a autuada (CASA BAHIA COMERCIAL LTDA.). Já segundo a recorrente, a VIA VAREJO S.A. é sucessora da empresa NOVA CASA BAHIA que, por sua vez, é sucessora da empresa CASA BAHIA COMERCIAL, sendo, portanto, incontestavelmente, parte legítima para apresentar as peças impugnatórias e recursais no presente processo administrativo fiscal. Para o deslinde da controvérsia, outra alternativa não há que não seja a análise dos atos societários de cisão e incorporação envolvendo as três empresas mencionadas, verificando as suas datas e cláusulas a fim de verificar a legitimidade ou não da VIA VAREJO S.A., cotejandoos com os atos realizados no presente processo. Vêse que referida análise deixou de ser feito pela decisão recorrida, sendo que o que fora analisado pelo acórdão a quo fora simplesmente a qualificação da pessoa jurídica contida no Auto de Infração e a qualificação da pessoa jurídica que apresentou a peça impugnatória. Vejamos: a) Primeiramente, os atos do presente processo: 1) A Fiscalização na empresa autuada iniciase pelo Termo de Início de Procedimento Fiscal (fl. 06/07), tendo sido a empresa CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. (CNPJ nº. 59.291.534/000167) cientificada em 17/09/2013 por procurador, cujo período de apuração a ser fiscalizado é de 01/2010 a 12/2010; 2) Respostas aos termos de intimação são realizadas pela CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., conforme doc. de fls. 125/126, datado de 28/02/2014, doc. de fls. 129, datado de 20/03/2014, e demais no curso fiscalizatório; Fl. 12520DF CARF MF Processo nº 10805.722632/201420 Acórdão n.º 2401004.611 S2C4T1 Fl. 12.518 7 3) Em 24/09/2014 a pessoa jurídica CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. (CNPJ 59.291.534/000167) é cientificada dos Autos de Infração (fl. 12103); 4) Em 23/10/2014 é apresentada a impugnação (fls. 12112/12154), pela VIA VAREJO S.A. (CNPJ 33.041.520010) b) Em segundo lugar, os atos sucessórios: 1) Cisão Parcial da empresa CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. datada de 01/10/2010, dando origem a NOVA CASA BAHIA S.A., conforme doc. 04 da impugnação (fls. 12220/12232); 2) Incorporação da empresa NOVA CASA BAHIA S.A. pela VIA VAREJO S.A em 02/01/2013, conforme doc. 05 da impugnação (fls. 12234/12250); Na 131ª Alteração Contratual de Casa Bahia Comercial Ltda. (CNPJ 59.291.534/000167), de fls. 12220/12232, registrada na JUCESP em 14/10/2010, temos que a referida sociedade aprova o protocolo e justificação de CISÃO PARCIAL onde, em sua cláusula “1.I”, fica consignada a versão da parcela cindida para a NOVA CASA BAHIA S.A. (CNPJ nº. 10.757.237/000175), a qual restou consignada em Laudo de Avaliação aprovado naquele ato, sendo o valor do acervo líquido contábil cindido apurado igual a R$ 1.468.899.000,00 (um bilhão, quatrocentos e sessenta e oito milhões, oitocentos e noventa e nove mil reais). Destaco, também, a cláusula 4.1: “4.1 Em virtude da cisão parcial da sociedade, com versão de seus ativos e passivos para a NCB, deliberam os sócios pelo encerramento dos estabelecimentos empresariais da sociedade, listados em anexo que passa a fazer parte integrante do presente instrumento”. Na Cláusula Décima Nona estão descritas as filiais que restaram mantidas na CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. (fls. 12231/12232): Fl. 12521DF CARF MF 8 Às fls. 12234 e seguintes encontrase a ATA DE ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA, realizada em 02/01/2013,pela VIA VAREJO S.A. (CNPJ 33.041.260/065290), de onde destacamos as seguintes cláusulas (fls. 12236/12237): O ‘PROTOCOLO DE INCORPORAÇÃO E INSTRUMENTO DE JUSTIFICAÇÃO’ entre NOVA CASA BAHIA S.A. (CNPJ 10757.237/000175) e VIA VAREJO S.A. (CNPJ 33.041.260/065290), de fls. 12239/12244, datado de 26/11/2012 e registrado na JUCESP em 24/01/2013, em sua cláusula 5.3 (fl. 12243) assim dispõe: Já às fls. 12245/12250, encontrase o Relatório do “Laudo de avaliação do acervo líquido contábil apurado por meio dos livros contábeis” da empresa Nova Casa Bahia S.A., datado de 30/06/2012. Às fls. 12392/12395 a recorrente traz em seu Recurso Voluntário (destacase que a numeração destas páginas decorre de erro na digitalização do presente processo administrativo, posto que referido documento, bem como dos que lhe seguem até a fl. 12407 estão indevidamente “inseridos” no meio do recurso voluntário, ao invés de constarem após este na ordem sequencial dos documentos, todavia, sem implicar em prejuízo na apreciação do presente recurso voluntário) o documento de informe ao mercado, denominado “FATO RELEVANTE”, datado de 01/07/2010, onde os acionistas da Fl. 12522DF CARF MF Processo nº 10805.722632/201420 Acórdão n.º 2401004.611 S2C4T1 Fl. 12.519 9 COMPANIA BRASILEIRA DE DISTRIBUIÇÃO (CNPJ 47.508.411/000156) e GLOBEX UTILIDADES S.A. (primeira denominação de VIA VAREJO S.A. CNPJ 33.041.260/0652 90) informações acerca dos atos preparatórios para a associação entre as duas companhias (atestamos a veracidade da publicação deste documento em http://www.gpari.com.br/arquivos/GPA_FR_20100701_port.pdf). No item 1.3. (fl. 12392) está disposto: O item 7.1 informa: Às fls. 12445/12454, traz a recorrente a ATA DE ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA de NOVA CASA BAHIA S.A. (CNPJ 10.757.237/000175), realizada em 01/10/2010, e o PROTOCOLO E JUSTIFICAÇÃO DE CISÃO PARCIAL DA CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. COM VERSÃO DA PARCELA CINDIDA PARA NOVA CASA BAHIA S.A., datado de 29/09/2010. Da análise de ambos os documentos, extraímos as seguintes conclusões: a) Da parcela dos ativos e passivos que compõe a parcela cindida a serem incorporados pela NCB, verificase basicamente 52,5% do total do ativo, 67,9% do passivo e 38,6% do patrimônio líquido da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. (Anexo I do Protocolo e Justificação – fls. 12459/12450); b) A Cisão Parcial se justifica pelo fato de a CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., seus sócios, a COMPANHIA BRASILEIRA DE DISTRIBUIÇÃO e a GLOBEX UTILIDADES S.A. resolverem integrar seus negócios do setor de varejo de bens duráveis e de comércio eletrônico de bens duráveis; (item “3.1. (a)” do Protocolo e Justificação – fl. 12449) c) Como condição para a integração dos negócios, os ativos e passivos descritos e qualificados no Anexo I do protocolo deverão ser objeto de cisão parcial da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., e serem incorporados ao patrimônio da NOVA CASA BAHIA S.A.; (item “3.1. (c)” do Protocolo e Justificação – fl. 12449) Fl. 12523DF CARF MF 10 d) Conforme registro na JUCESP em 14/10/2010, é aprovada a Cisão Parcial da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA. e a versão do patrimônio cindido a NOVA CASA BAHIA S.A.; e) Em Assembleia Geral Extraordinária realizada em 02/01/2013 (ata de fls. 12476/12492), a VIA VAREJO S.A aprova a incorporação da sua subsidiária integral, NOVA CASA BAHIA S.A. Com base nos atos societários de todas as pessoas jurídicas envolvidas, bem como todas as informações contidas na imprensa à época dos fatos, temos que as “Casas Bahia” (aqui utilizase propositadamente o nome comercial) realizou uma fusão com o Grupo Pão de Açúcar (COMPANHIA BRASILEIRA DE DISTRIBUIÇÃO), criando uma nova Companhia de varejo que abrigava as atividades das duas empresas. Esta “associação” (termo utilizado nas atas e protocolos e justificação) nasceu, inicialmente (da análise sob o prisma das “Casas Bahia”) de uma cisão parcial da empresa que originariamente detinha o negócio, sendo a parcela cindida transferida para a companhia denominada “NOVA CASA BAHIA S.A.”, a qual acabou sendo incorporada pela “VIA VAREJO S.A.”, esta última que possuía entre seus sócios, justamente, os sócios majoritários dos dois grupos originários (CASAS BAHIA e PÃO DE AÇÚCAR). Diante de todo o contexto, não resta dúvidas de que a VIA VAREJO S.A. é sucessora da NOVA CASA BAHIA S.A. que, por sua vez, foi sucessora da CASA BAHIA COMERCIAL LTDA., razão pela qual em 23/10/2014 a VIA VAREJO S.A. apresentou a sua impugnação, em nome próprio, no presente processo administrativo fiscal, por ser sucessora da empresa originariamente autuada (CASA BAHIA COMERCIAL LTDA.), nos termos dos artigos 227 e 229 da Lei nº. 6.404/76: Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindose a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindose o seu capital, se parcial a versão. § 1º Sem prejuízo do disposto no artigo 233, a sociedade que absorver parcela do patrimônio da companhia cindida sucede a esta nos direitos e obrigações relacionados no ato da cisão; no caso de cisão com extinção, as sociedades que absorverem parcelas do patrimônio da companhia cindida sucederão a esta, na proporção dos patrimônios líquidos transferidos, nos direitos e obrigações não relacionados. Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações.. Destaquese, ainda, que todos os atos societários destacam a responsabilidade integral das empresas que incorporaram patrimônio de outras, como já destacado acima. Ainda, faço a seguinte reflexão: acaso esse débito venha a ser cobrado pela Receita Federal do Brasil e, posteriormente, pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, iriam os sujeitos ativos da cobrança deixar de cobrar da VIA VAREJO por essa não ser a responsável pelo débito? Fl. 12524DF CARF MF Processo nº 10805.722632/201420 Acórdão n.º 2401004.611 S2C4T1 Fl. 12.520 11 Nesse contexto, entendo que a impugnação de fls. 12112/12154 deve ser conhecida, posto que apresentada por pessoa jurídica legitimada para figurar como parte no presente processo administrativo fiscal. Tendo em vista que a peça impugnatória apresenta suas razões de defesa a diversos pontos contidos nos autos de infração combatidos e estes não foram apreciados pela primeira instância, caracterizase, assim, nítido cerceamento ao direito de defesa, por supressão de instância, razão pela qual deve ser declarado nulo o Acórdão nº. 0367.397 da 5ª Turma da DRJ/BSB (fls. 12335/12339), por ofensa ao artigo 59, II, do Decreto 70.235/72: Art. 59. São nulos: [...] II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Assim, nos termos do § 2º do art. 59 do Decreto 70.235/72, entendo que devem os autos retornar à DRJ para que seja proferido novo julgamento onde seja conhecida e apreciada a peça impugnatória de fls. 12112/12154, proferindose novo acórdão. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por CONHECER e DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para o fim de declarar a nulidade do Acórdão nº. 0367.397 da 5ª Turma da DRJ/BSB (fls. 12335/12339), por ofensa do art. 59, II, do Decreto 70.235/72, determinando o retorno dos autos à Delegacia da Receita Federal de Julgamento, para que a peça impugnatória seja conhecida e seja proferido novo acórdão, instaurandose o contencioso administrativo no presente processo. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Fl. 12525DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10140.721707/2012-54
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2009
DILIGÊNCIA. COMPROVAÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO.
São isentos do imposto de renda pessoa física os rendimentos provenientes de aposentadoria, reforma, reserva ou pensão, uma vez comprovado, por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que o interessado é portador de uma das moléstias apontadas na legislação de regência como aptas à concessão do benefício.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2402-005.604
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Kleber Ferreira de Araújo - Presidente
(assinado digitalmente)
Bianca Felícia Rothschild Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
Nome do relator: BIANCA FELICIA ROTHSCHILD
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo - Presidente (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
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COMPROVAÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. PROVENTOS DE APOSENTADORIA. ISENÇÃO. São isentos do imposto de renda pessoa física os rendimentos provenientes de aposentadoria, reforma, reserva ou pensão, uma vez comprovado, por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que o interessado é portador de uma das moléstias apontadas na legislação de regência como aptas à concessão do benefício. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 14 0. 72 17 07 /2 01 2- 54 Fl. 94DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e darlhe provimento. (assinado digitalmente) Kleber Ferreira de Araújo Presidente (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Kleber Ferreira de Araújo, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Theodoro Vicente Agostinho, Mário Pereira de Pinho Filho, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild. Fl. 95DF CARF MF Processo nº 10140.721707/201254 Acórdão n.º 2402005.604 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Campo Grande (MS) DRJ/CGE, que julgou procedente Notificação de Lançamento de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) exigindo crédito tributário no valor total de R$ 3.094,00 relativo ao anocalendário 2009. A autuação decorreu da apuração de omissão de rendimentos tributáveis recebidos da fonte pagadora de CNPJ nº 10.306.292/000149 no montante de R$ 11.311,65, havendo sido compensado o imposto de renda retido na fonte na cifra de R$ 352,55. Em sede de impugnação, o contribuinte alegou, em síntese, que esses rendimentos são isentos por trataremse de proventos de aposentadoria, reforma ou pensão de portador de moléstia grave. A decisão recorrida manteve o lançamento, sob o entendimento de que, apesar ter ficado esclarecido que o autuado era aposentado desde 27/5/2009, e de haver laudo médico pericial informando início de patologia em 18/4/2009, não houve comprovação de que os rendimentos em tela eram oriundos de aposentadoria. Irresignado, o contribuinte interpôs o recurso voluntário em 27/11/2012, pedindo o cancelamento do débito e afirmando que "Conforme meu estado de saúde confirmado como moléstia grave e ser aposentado estou no direito de ter esse benefício conforme comprovante de rendimento recebido do MS PREV APOSENTADOS, em 2010 houve o mesmo caso no qual tive ganho conforme recurso". Junta, ao final, "Comprovante de Rendimentos Pagos e de Retenção de Imposto de Renda na Fonte" relativo aos valores em questão. O processo foi incluído na pauta da sessão realizada em 5 de novembro de 2014, tendo a 2ª Turma Especial, da 2ª Seção proferido a Resolução nº 2802000.223, que, por maioria de votos, entendeu pela necessidade de conversão do julgamento do presente processo em diligência, nos termos do voto do redator designado, para que a Unidade da Receita Federal de origem intimasse a fonte pagadora Sec. Est. de Educação , CNPJ 10.306.292/000149 a informar se o comprovante de rendimentos de fls. 59 referese a rendimentos do trabalho de quando o servidor estava em atividade ou a proventos de aposentadoria. Conforme mencionado pela decisão recorrida, o contribuinte teria aposentado em 27/05/2009 e o início da patologia ocorrera em 18/04/2009. Desta forma, o exame dos comprovantes de rendimentos que instruem os autos, por si só, não poderiam levar à conclusão de que os valores dos rendimentos neles destacados são exclusivamente de natureza salarial. Em resposta à diligencia, foram acostados aos autos, informe da Sec. Est. de Educação MS (fl. 120). Cumprida a referida diligência, os autos retornaram ao atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais para prosseguimento. É o relatório. Fl. 96DF CARF MF 4 Voto Conselheira Bianca Felicia Rothschild Relatora A isenção do imposto de renda para os portadores de moléstia grave tem de como base legal os incisos XIV e XXI do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, abaixo transcritos: Art. 6o Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: (...) XIV os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Pagel (osteíte deformante), contaminação por radiação,síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma; (...) Por sua vez, o art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, passou a veicular a exigência de que a moléstia fosse comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, nos termos a seguir: Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6° da Lei n" 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelo art. 47 da Lei n°8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º O serviço médico oficial fixará o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 2º Na relação das moléstias a que se refere o inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, fica incluída a fibrose cística (mucoviscidose). Portanto, é necessário o cumprimento cumulativo de dois requisitos para que o beneficiário faça jus à isenção em foco, a saber: que ele seja portador de uma das doenças mencionadas no texto legal, e que os rendimentos auferidos sejam provenientes de aposentadoria, reforma ou pensão. De acordo com o relatado, a instância recorrida entendeu que não restara comprovado serem os rendimentos de R$ 11.311,65 decorrentes de aposentadoria, reforma ou pensão, o que motivou a manutenção do lançamento. Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10140.721707/201254 Acórdão n.º 2402005.604 S2C4T2 Fl. 4 5 Conforme se depreende da decisão recorrida, a questão se torna incontroversa no que tange ao fato do recorrente ser portador de moléstia grave, pois apresentou: i) Laudo Médico Pericial expedido, em 17/05/2011, pelo Governo do Estado de Mato Grosso do Sul Fundação Serviços de Saúde – Coordenação de Perícias Médicas, fl. 10, informando início da patologia em 18/04/2009; ii) Relatório Medico expedido pelo CECADCentro Especializado em Cirurgia do Aparelho Digestivo, fl. 11; iii) Relatório de exames expedido pelo Laboratório de Anatomia Patológica e CitopatologiaLAC, fl. 12. Desta forma, permaneceu pendente a comprovação de que os proventos recebidos eram provenientes de aposentadoria. Vejamos extrato da decisão recorrida: Quanto ao primeiro requisito, verificase que foi concedida aposentadoria ao contribuinte, conforme Diário Oficial de 27/05/2009, fl. 6. Entretanto, não há nos autos comprovação relativa a rendimentos recebidos a título de aposentadoria. Tendo em vista que foi juntado aos autos, após procedimento de diligencia, informe da fonte pagadora (fl. 120), da Sec. Est. de Educação MS, esclarecendo que "na época, em virtude de o servidor ter se aposentado no decorrer do exercício, constou de forma equivocada, como fonte pagadora no comprovante o órgão de lotação originária do servidor, ou seja, a Secretaria de Estado de Educação. No entanto, a fonte pagadora correta é a Agência de Previdência Social de Mato Grosso do Sul, conforme CNPJ informado." Informam, por fim, que os rendimentos constantes do referido comprovante referemse a proventos de aposentadoria. Diante do exposto, voto por CONHECER do recurso e, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO para reconhecer o direito à isenção do imposto de renda incidente sobre os rendimentos de aposentadoria do anocalendário 2004 recebidos pela Sec. Est. de Educação MS. (assinado digitalmente) Bianca Felícia Rothschild. Fl. 98DF CARF MF
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