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Numero do processo: 12466.001177/2007-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 30 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.381
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento do processo em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente
(assinado digitalmente)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento do processo em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente (assinado digitalmente) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Waldir Navarro Bezerra. RELATÓRIO Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento ("DRJ") de São Paulo/SP, que julgou improcedente a impugnação apresentada pela Contribuinte. Por bem consolidar os fatos ocorridos até a decisão da DRJ, colaciono o relatório do Acórdão recorrido in verbis: Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 13/03/2007, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 24 66 .0 01 17 7/ 20 07 -1 0 Fl. 573DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 574 2 Imposto de Importação acrescido de multa de ofício e juros de mora, no valor de R$ 479.625,98 em virtude dos fatos a seguir descritos. A empresa BRAZIL EXPLORER LTDA submeteu a despacho vinhos chilenos, classificáveis na Tarifa Externa Comum no código 2204.21.00, por meio das declarações de importação arroladas no Relatório Fiscal, às folhas 4 e 5 do processo digital. No momento do registro das importações, acima identificadas, a BRAZIL EXPLORER solicitou redução da alíquota do Imposto de Importação, em decorrência do Acordo de Complementação Econômica ACE nº 35, firmado entre o MERCOSUL e o CHILE, em vigor desde 20/11/96. Na verificação desses processos ficou constatado que o importador não apresentou, no momento do registro das declarações de importação o certificado de qualidade do vinho, emitido por organismo estatal competente, do pais exportador. Em vista do exposto, no presente Auto de Infração, cobrase a diferença existente entre o II devido e aquele recolhido. Cientificado do auto de infração, pessoalmente, em 26/03/2007 (fls. 3), o contribuinte, protocolizou impugnação, tempestivamente em 24/04/2007, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 311 à 321, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: PRELIMINARMENTE DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO Transcreve o artigo 59 do Decreto 70.235/72. O trabalho fiscal foi iniciado pelos Srs. Auditores Fiscais Marcelo Curtolo Cavalcanti e Paulo Sérgio Andrião que, através do Termo de Intimação 669 01 (doc.), intimaram a empresa a apresentar cópias dos Certificados de Qualidade do Vinho relativos às Dl n°s 02/10640400, 02/10676390, 03/03349870, 03/03350169, 03/03826171, 03/10921192, 04/01687044, 04/07889480, 04/08229688, 04/12073921, 04/12404120, 04/12464629, 05/13624885 e 05/1390845, no que foram atendidos na totalidade da exigência. A aposição da assinatura do Sr. Auditor Fiscal na cópia do documento acima indicado, significa que todos os documentos relativos às DI’s requeridas, sem exceção, foram entregues à fiscalização. Pois bem, ao se examinar as DI’s relacionadas no Termo de Intimação, verificase que as de n°s 03/03349870, 03/03350169, 03/03826171, 04/07889480, 04/08229688, 04/12073921, 04/12404120, 04/12464629, foram objeto de autuação e os Certificados se encontram anexos a essas DI’s, respectivamente às folhas 83, 93, 122, 178, 188, 219, 230, 246, e, se os Certificados de A.iálises relativos às DI’s de n°s 02/10640400, 02/10676390, 03/109°1192, 04/04016870443, 05/13624885 e 05/13908425, também entregues ao fisco, não estão nos autos é porque as mercadorias a que se referem atendem os requisitos exigidos pela legislação, pois ao contrário o auto de infração incluiria, por óbvio, tais DI’s. Fl. 574DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 575 3 Isto quer dizer, que a intimação fiscal foi atendida na sua totalidade, não procedendo a afirmação do Sr. Auditor Fiscal de que o Contribuinte, intimado a apresentar tais documentos referentes a algumas DFs sob análise, “no que foi sido atendida em diversos casos”, porque tem conotação de que a outra parte da exigência fiscal, para a qual não existe o Certificado de Qualidade do Vinho, foi motivada pelo fato da Impugnante não haver apresentado os Certificados exigidos. Aliás, é verdade a afirmação do Sr. Auditor Fiscal que “entre as condições impostas pelo acordo, a obrigatoriedade de apresentação, pelo importador, de certificado de qualidade do vinho, emitido por organismo estatal competente, do país exportador, e que é fundamental para a verificação do cumprimento das condições citadas. Normalmente direcionadas para os canais amarelo, vermelho ou cinza de conferência, evidentemente, a fiscalização aduaneira poderá ou não exigir o referido documento nesse momento ou em qualquer outro, mas não pode lavrar um auto de infração por suposição, sem a devida comprovação do elemento fundamental à sua convicção. Transcreve o artigo 18 da INSRF n° 680/2006. De se observar que o cerceamento do direito de defesa não reside somente no fato de permitir ao contribuinte promover a sua defesa após a lavratura do auto de infração. O cerceamento do direito de defesa começa a partir do momento em que o contribuinte deixa de ser intimado para exercer o seu direito como cidadão, ocasião em que se podería evitar a formação do processo e/ou a exigência às vezes de valores absurdos. O fato de a fiscalização, inadvertidamente, lavrar um auto de infração obriga o inicio do contencioso e suas implicações; obriga o registro financeiro da exigência; a promoção da defesa pelo contribuinte e a apresentação de documentos, como a Impugnante o fará no presente processo, comprovando o erro da exigência formalizada dessa forma. Pesquisa Fiscal SAPEL n°9/2006 (fls. 24 a 26 do AI) onde é apresentado o quadro de estimativa de crédito tributário anual por empresa (fls. 26 do AI), e feito comparações, naturalmente evitaria o erro cometido, , haja vista que a estimativa de crédito originário no valor de R$ 71.169,57 indicada no quadro relativamente à Impugnante, atingiu com a lavratura do auto o montante de R$ 479.625,98. Feita a exigência fiscal sem o requisito necessário e fundamental à sua existência, no caso o Certificado de Qualidade do Vinho, não requerido pela fiscalização, demonstrada está a preterição do direito de defesa, devendo ser anulado o lançamento efetuado. DO MÉRITO Com relação à quantidade de mercadoria declarada para efeito de comprovação de quota, o Sr. Auditor Fiscal esqueceu que o produto vinho somente é autorizado a sua importação após o importador obedecer os seguintes procedimentos: Fl. 575DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 576 4 1. formaliza junto ao DECEX pedido de anuência prévia (LI) para efeito de controle e conformidade à quantidade estabelecida como quota permitida importar pelo Brasil nos termos do Acordo firmado com os países do Mercosul para este produto; Obs. A mercadoria somente é embarcada após o deferimento da LI, observados os controles de quotas e preços pelo DECEX. 2. após a chegada da mercadoria no País, formaliza junto ao Ministério da Agricultura o pedido de deferimento da licença de importação afeto a esse órgão ao qual junta obrigatoriamente os seguintes documentos: a) Certificado de Análise emitido por órgão oficial do país de origem; b) Certificado de Origem emitido por órgão oficial do país de origem; c) Licença de importação deferida pelo DECEX; d) Cópia do Requerimento para solicitação de importação de bebidas em geral, vinhos e derivados da uva e do vinho (Formulário padrão) devidamente homologado pelo SIPAG/DTUF onde se localize o ponto de entrada do produto; e) carta de tipicidade emitida pelo Laboratório de origem do produto, quando este ultrapasse o limite de teor alcoólico exigido pelas normas de regência; f) Cópia da Fatura (Commercial invoice); g) cópia do Conhecimento ou Manifesto de carga; h) Termo de Fiel Depositário da Mercadoria. Após a protocolização do pedido de deferimento da LI pelo MAPA, o referido órgão analisa os documentos e coleta amostras do produto para análise de sua conformidade às exigências brasileiras, quando é deferido o licenciamento para efeito de nacionalização do produto. Após os procedimentos relativos à conferência documental, inspeção da partida, conclusão da análise laboratorial e emissão do Certificado de Inspeção de Bebidas pelo órgão, o produto poderá ser comercializado. Isto quer dizer que a importação de vinhos segue rigoroso procedimento desde a compatibilidade às quotas até a conclusão da análise laboratorial, entendendo se assim que os referidos órgãos previamente ao registro da operação de importação junto às Repartições Aduaneiras, já examinaram o produto de forma que dificilmente ocorrem irregularidades. Assim, superada a questão das quotas, já que é impossível importar o produto pelas vias normais sem se submeter às exigências quantitativas sob fiscalização do DECEX, vemos que o MAPA controla os limites toleráveis físico/químico para efeito de autorizar a importação do produto, o mesmo acontecendo quando os produtos são exportados do Fl. 576DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 577 5 Brasil para outros países do Mercosul, o que toma difícil a ocorrência de irregularidades. _ DA CONCORDÂNCIA COM RELAÇÃO A PARTE DA EXIGIBILIDADE ORIGINÁRIA, OBJETO DE PEDIDO DE PARCELAMENTO Com a intensificação das operações de importação de vinhos, os importadores passaram a observar que o teor alcoólico do produto pode apresentar variações em razão do solo, nível de açúcar presente na uva, clima, transporte, etc., e aí os países participantes do acordo passaram a aceitar a importação de vinhos com pequenas alterações de seu teor alcoólico, inclusive fornecendo certificados (does.) onde pode se ver que o grau alcoólico de certos vinhos tradicionais, exatamente na faixa de U$ 10.80 a US$ 30.00, supera ligeiramente a faixa prevista no Acordo firmado entre os Países, motivo que através do 42° Protocolo ao ACE 35, que entrou em vigor no Brasil a partir de 03/03/2006, os vinhos dessa faixa passaram a ser aceitos da faixa de graduação alcoólica máxima 11 a 13 para 11 a 14, independente da sua coloração. Essa diferença de menos de 10% na graduação alcoólica passou costumeiramente a ser aceita pelas autoridades dos países produtores,exportadores e importadores de vinhos e assim, somente em face do procedimento fiscal é que os adquirentes verificaram que realmente, sem qualquer intencionalidade de iludir o fisco, estavam realizando operações de importação aos chamados vinhos tradicionais com pequena margem de diferença no seu teor alcoólico, sendo certo que variações físico/químico podem ocorrer. Desta forma, apesar do acima exposto e, embora os vinhos importados nessa faixa de preço atingidos pela exação, regra geral, não superam a graduação máxima de 14 graus de teor alcoólico, de acordo com os laudos em anexo (does.), graduação hoje permitida nos termos do 42° Protocolo ao ACE n° 35/1996, não lhe restou outro caminho a não ser concordar com o pagamento parcial da exigência fiscal relativa a tais vinhos, bem como de produto pontual na faixa de preço mínimo de US$ 50.00, porque realmente apresentou variação em item físico/químico. Assim, de conformidade com a planilha em anexo, sob o título Auto de Infração Vinhos que não se enquadram nas exigências (devidos), relaciona as Declarações de Importação e adições respectivas, com o indicativo do valor do II, Multa e Juros, que concordou em pagar valendose do instituto do parcelamento, providencia já adotada junto ao órgão originário da exigência fiscal, embora entenda pudesse merecer juízo de valor dessa respeitável Corte em razão dos fatos acima relatados relativos às variações que podem sofrer o vinho desde o produtor até a chegada ao país importador. O quadro abaixo contempla os valores relativos à importação de vinhos que se enquadram na exigência fiscal e que são objeto do pedido de parcelamento requerido. Fl. 577DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 578 6 Valores relativos à importação de vinhos que se enquadram na exigência fiscal Observem Srs. Julgadores, o grande erro cometido pelo Sr. Auditor Fiscal ao incluir na exigência fiscal as Declarações de Importação objeto importações de vinhos com valor mínimo de UR$50.00, e alguns poucos com valores menores, sob o argumento de que não foram apresentados os certificados, cujos benefícios foram desqualificados de imediato, no que se refere aos limites máximos e mínimos permitidos para a fruição dos benefícios. Evidentemente, se não foram apresentados é porque não foram requeridos pela fiscalização, conforme acima provado e, ademais disso, se observado o Relatório de Pesquisa Fiscal SAPEL n° 09/2006, verificase claramente que a Revisão Aduaneira tinha por objetivo “desqualificar o benefício fiscal usado, qual seja, a preferência tarifária de 30% do II”, não havendo referência aos vinhos na faixa de valor US$ 50.00, provavelmente devido ao estudo do SAPEL, considerando que as variáveis quanto à exigibilidades são diferentes no contexto do Acordo e a experiência fiscal demonstrar ser mais factível ocorrer divergências na faixa dos vinhos mais tradicionais. No presente caso está devidamente comprovado o cerceamento do direito de defesa do contribuinte pela falta de qualquer pedido ou exigência que lhe oportunizasse apresentar os Certificados de Qualidade do Vinho (antes da lavratura do auto), motivo que se vale deste direito junto a essa respeitável Corte, requerendo desde já o seu reconhecimento, na forma da planilha anexa (doc.) sob o título Auto de Infração Vinhos que se enquadram nas exigências (Não Devidos), conforme resumo abaixo, à qual estão anexados todos os Certificados de Qualidade do Vinho (does.), provando que estão dentro dos limites estabelecidos pelo Acordo e, portanto, gozam do benefício fiscal utilizado de preferência tarifária de 100% do Imposto de Importação, sendo de justiça que o auto de infração seja julgado improcedente no que se refere a tais valores. Valores relativos à importação de vinhos que NÃO se enquadram na exigência fiscal DOS PEDIDOS Posto isto, requer, preliminarmente, seja anulado o lançamento efetuado em virtude de haver ficado demonstrado a preterição do direito de defesa. No mérito, requer a total insubsistência Fl. 578DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 579 7 e improcedência da exigibilidade no valor de R$ 299.668,58, considerando que não foi intimada a apresentar as provas materiais, ora juntadas ao presente processo, consubstanciadas pelos Certificados de Qualidade dos Vinhos que provam a indevida exigência fiscal. Oportuno observar que quanto à exigência no montante de R$179.957,40, embora pudesse merecer dessa r. Corte juízo de valor em razão dos fatos acima relatados relativos às variações que podem sofrer o vinho desde o produtor até a chegada ao país importador, dela prescindiu, requerendo o parcelamento do débito. O julgamento da impugnação resultou no Acórdão da DRJ de São Paulo/SP (fls 514 a 530), cuja ementa segue colacionada abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 10/12/2002 No momento do registro das importações, o importador solicitou redução da alíquota do Imposto de Importação, em decorrência do Acordo de Complementação Econômica ACE nº 35, firmado entre o MERCOSUL e o CHILE., Na verificação desses processos ficou constatado que o importador não apresentou, no momento do registro das declarações de importação o certificado de qualidade do vinho, emitido por organismo estatal competente, do pais exportador. Outras irregularidades também foram apuradas. A competência exercida a priori por um órgão anuente em comércio exterior, não afasta a competência da Receita Federal do Brasil em proceder com a revisão aduaneira. Compete à DRJ o controle de legalidade dos atos administrativos, não podendo conceder qualquer margem de tolerância em relação aos quesitos analisados. O autuado poderia apresentar a documentação comprobatória da regularidade dos itens assinalados na ação fiscal durante a fase de instrução, o que não foi feito. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Irresignada, a Contribuinte recorre a este Conselho por meio de petição de fls 537 a 571, repisando os argumentos de sua impugnação. É o relatório. VOTO Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, Relatora Conforme informações de fls 572, a o recurso é tempestivo, com base no que dispõe o artigo 33 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, bem como atende as demais condições de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. Fl. 579DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 580 8 Entretanto, ainda não é possível o julgamento do mérito do caso. Explico. Pela análise do auto de infração (fls 1 a 25), são três os motivos que levaram a Fiscalização a desconsiderar a redução de alíquota do Imposto de Importação (II) utilizada pela Recorrente nas operações de internalização de vinhos chilenos, fundada no Acordo de Complementação Econômica n. 35 (ACE 35)1 firmando entre Mercosul e Chile: i) não apresentação do certificado de qualidade do vinho; ii) graduação alcoólica fora dos limites estabelecidos; iii) relação álcool/extrato (e acidez) não apresentados. Vejase o seguinte trecho do lançamento (fls 7 e 8) 1 "Nesse acordo o Brasil concede ao Chile, na versão original de 20/11/96, uma preferência tarifária de 30% para vinhos com prego mínimo CIF de US$ 10,80 ou de US$ 30,00 a caixa com 12 garrafas de 750m1s cada, sendo incluído, na edição do 30 2 Protocolo Adicional PA ao ACE 35, inserido no ordenamento jurídico nacional em 04/10/02 através do Decreto n 2 4.404, os vinhos com prego mínimo CIF de US$ 50,00 a caixa com 12 garrafas de 750m1s cada, com preferência tarifária de 100% (f is 39 a 42). Para o gozo desse beneficio, alem do valor mínimo, existe uma quota anual, assim como outras condições, dentre as quais destacamos a graduação alcoólica, acidez, razão entre o peso do álcool e do extrato seco reduzido e tempo mínimo de envelhecimento (f is 34 a 38)." Fl. 580DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 581 9 Quanto ao segundo item (graduação alcoólica fora dos limites estabelecidos), a Recorrente concordou com os termos da autuação fiscal (fls 554 do RV), informando nestes autos que parcelou os respectivos valores. Esse ponto fica então fora do julgamento a ser proferido por este Conselho, uma vez que não foi objeto de impugnação, devendo ser tomadas as devidas providências pela autoridade fiscal de origem sobre a verificação do alegado parcelamento dos valores. O que resta para julgamento são o primeiro e o terceiro itens. Assim, a discussão cingese a dez declarações de importação (DI) relativamente às quais entendeu a fiscalização não terem sido entregues os certificados de qualidade do vinho (DI 02/10965457; 02/1096554 6; 03/11037547; 03/11282312; 03/11368470; 04/12072500; 05/00895753; 05/03953304; 05/05212387; 06/01962243); e duas DI cuja motivação para o lançamento foi a relação álcool extrato não ter sido apresentada (0310347089; 0311231920). Pois bem. A Recorrente vem bradando, desde sua impugnação, que não fora intimada para apresentar a totalidade dos certificados, razão pela qual requer preliminarmente a Fl. 581DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 582 10 nulidade do lançamento, por ofensa ao seu direito a ampla defesa, citando as Instruções Normativas 206/2002 e 680/2006 (artigos 17, parágrafo único2 e 18, §1º,3 respectivamente). O mérito da discussão possui o mesmo fundo, já que a Recorrente salienta que todos os certificados de qualidade em questão estão acostados na peça impugnatória (fls 466 a 510), os quais implicariam no cancelamento da autuação relativamente aos motivos de i) não apresentação do certificado de qualidade do vinho e ii) relação álcool/extrato (e acidez) não apresentados. Dessarte, havendo indícios contundentes sobre o direito da Recorrente, e tendo em vista que até o presente momento nem a fiscalização nem a decisão recorrida analisaram a citada documentação, entendo que o julgamento deste processo deve ser convertido em diligência, com base no artigo 18 do Decreto 70.235/72, para a repartição fiscal de origem, a fim de que: i) certifique a notícia do parcelamento aventado pela Recorrente, segregando o que efetivamente continua em trâmite neste processo administrativo daquilo já controlado em procedimento de parcelamento fiscal; ii) elabore, com base nos elementos constantes nesses autos, parecer conclusivo que assegure que os documentos apresentados pela Recorrente em fls 466 a 510 (certificados de qualidade) compatibilizamse com as DIs, o objeto e o período da autuação fiscal; iii) o referido parecer deverá também consignar a correspondência da documentação com os motivos e a tabela apresentada pelo lançamento tributário (fls 7 e 8), quais sejam, a não apresentação do certificado de qualidade do vinho e relação álcool/extrato (e acidez) não apresentados, bem como quaisquer outras informações que julgar pertinentes; iv) ato contínuo, dê ciência desse parecer à Procuradoria da Fazenda Nacional e à Recorrente, abrindolhes prazo de 30 dias para manifestação, e; v) finalmente, devolva o processo para este Colegiado, para prosseguimento do julgamento. Thais De Laurentiis Galkowicz 2 Art. 17. A DI será instruída com os seguintes documentos: (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 680, de 02 de outubro de 2006) I via original do conhecimento de carga ou documento equivalente; (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 680, de 02 de outubro de 2006) II via original da fatura comercial; e (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 680, de 02 de outubro de 2006) III outros, exigidos em decorrência de Acordos Internacionais ou de legislação específica. (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 680, de 02 de outubro de 2006) Parágrafo único. Os documentos de instrução da DI devem ser entregues à SRF quando sua apresentação for solicitada, devendo ser mantidos em poder do importador pelo prazo previsto na legislação. 3 Art. 18. A DI será instruída com os seguintes documentos: I via original do conhecimento de carga ou documento equivalente; II via original da fatura comercial, assinada pelo exportador; III romaneio de carga (packing list), quando aplicável; e IV outros, exigidos exclusivamente em decorrência de Acordos Internacionais ou de legislação específica. § 1º Os documentos de instrução da DI devem ser entregues à SRF quando sua apresentação for solicitada, devendo ser mantidos em poder do importador pelo prazo previsto na legislação. Fl. 582DF CARF MF Processo nº 12466.001177/200710 Resolução nº 3402001.381 S3C4T2 Fl. 583 11 Fl. 583DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10410.720066/2011-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do Fato Gerador: 29/04/2011
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. ÔNUS DA PROVA.
Compete a quem transmite o PER o ônus de provar a liquidez e certeza do crédito tributário alegado.
À autoridade administrativa cabe a verificação da existência desse direito, mediante o exame de provas hábeis, idôneas, eficazes e suficientes a essa comprovação.
Numero da decisão: 3401-004.980
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Cássio Schappo e Lazaro Antonio Souza Soares.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ÔNUS DA PROVA. Compete a quem transmite o PER o ônus de provar a liquidez e certeza do crédito tributário alegado. À autoridade administrativa cabe a verificação da existência desse direito, mediante o exame de provas hábeis, idôneas, eficazes e suficientes a essa comprovação. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Cássio Schappo e Lazaro Antonio Souza Soares. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 41 0. 72 00 66 /2 01 1- 11 Fl. 59188DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de recurso voluntário contra decisão da DRJ/CTA, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade do contribuinte contra Despacho Decisório que indeferiu totalmente o Pedido Eletrônico de Ressarcimento PER, relativo a contribuições não cumulativas, face a ausência de comprovação dos créditos pleiteados. O Despacho Decisório adotou as razões exaradas em Parecer Fiscal resultante de diligência havida em cumprimento ao provimento judicial contido no Mandado de Segurança nº 000020560.210.4.05.8000, da 1ª Vara da Justiça Federal de Alagoas e ao MPF – Mandado de Procedimento Fiscal nº 0440100 004622010. Cientificada desta decisão, a recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade em que sustenta a legitimidade de seus créditos, pugna pela aplicação do princípio da verdade material, afirma que atendeu as solicitações do Fisco no curso da fiscalização e solicita que os autos sejam novamente baixados em diligência para apurar o valor que a autoridade administrativa entende ser devido. Por unanimidade de votos, a DRJ/CTA indeferiu o pedido de diligência e julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade. Entendeu este colegiado que é ônus do contribuinte a comprovação da existência de seu direito creditório e que há de se indeferir solicitação que objetive transferir esta obrigação à autoridade administrativa. Irresignada, a recorrente interpôs seu recurso voluntário tempestivo, requerendo em preliminar a nulidade do presente processo, pois tanto o despacho decisório, quanto o acórdão da DRJ/CTA, não poderiam ser emitidos antes da decisão final administrativa do auto de infração 10410.006237/201014, vez que este auto discute justamente a legitimidade dos créditos pleiteados e que foram objeto de glosa tanto no despacho decisório quanto no acórdão. No mérito, basicamente ratifica os argumentos expendidos em sua manifestação de inconformidade. É o relatório. Fl. 59189DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.972, de 21 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10410.720043/201106, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.972): "O recurso voluntário é tempestivo, vez que a Recorrente tomou ciência da decisão recorrida em 11/05/2015 (efl. 59.145), interpondo seu voluntário em 09/06/2015 (efls. 59.146/59.147), logo, dele tomo conhecimento. O ponto nodal diz respeito ao reconhecimento de créditos fiscais do PIS e da COFINS nãocumulativas, no ramo de laticínios leite e seus derivados , acumulados mensalmente, decorrentes das aquisições de matériasprimas, embalagens, materiais intermediários, dentre outros, os quais restaram indeferidos totalmente pela autoridade fiscal, por meio de despacho decisório em sede de Pedido de Restituição, Ressarcimento ou Reembolso PER. Notese que a questão cingese à formação, instrução, cognição da prova, e esta, quando se trata de PER/DCOMP um pedido de iniciativa do sujeito passivo , a ele cabe tal ônus. Por mais longínquo e penoso tenha sido o percurso judicial e administrativo percorrido pela Recorrente no caso concreto, a conclusão é de que o contribuinte há de fazer esta prova. Antes de adentrar neste assunto de mérito, necessário tratar da preliminar de nulidade. Entende a Recorrente que tanto o despacho decisório, quanto o acórdão da DRJ/CTA, não poderiam ser emitidos antes da decisão final administrativa do auto de infração 10410.006237/201014, vez que este auto discute justamente a legitimidade dos créditos pleiteados e que foram objeto de glosa tanto no despacho decisório quanto no acórdão, asseverando que este teve como nascedouro o mesmo mandado de procedimento fiscal. A lógica é respeitável, porém, como se trata de Pedido de Restituição, a prova dos créditos diz respeito a cada um dos PER, para os quais, dependendo de sua instrução e prova cabal, logrará ou não êxito o Pleiteante. Fl. 59190DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 5 4 Portanto, afasto a nulidade arguida. Volvendo a questão meritória, destacamse trechos do Termo de Encerramento de Diligência 0001 (efl. 9 e ss.): No dia 18/02/2010, o contribuinte entregou basicamente os livros contábeis e fiscais e alguns arquivos magnéticos contendo memórias de cálculo. Constatamos após examinar os primeiros arquivos entregues, que os mesmo possuíam erros formais e tivemos que solicitar que os arquivos fossem refeitos. Este fato demonstrou que o contribuinte não possuía memória de cálculo dos valores informados na DACON e conseqüentemente dos PER/DCOMP. A partir desta data começou um processo inverso. A Receita Federal que estava com o prazo fixado para apreciar os PER/DCOMP, teve que pedir prorrogações de prazo ao Judiciário, não para fazer o trabalho, mas para que o contribuinte pudesse apresentar os documentos e elementos necessários ao exame dos PER/DCOMP. Foram solicitadas e concedidas duas prorrogações de prazo. Uma de 250 dias em 10/05/2010 e outra de 180 em 02/08/2010. Desde a data da entrega dos primeiros arquivos, até 27/10/2010, data do último arquivo entregue, diversos contatos telefônicos, 02 reintimações fiscais e cerca de 30 e mails foram enviados e recebidos, cobrando as informações e recebendo arquivos magnéticos. Em 18/06/2010, através da Reintimação Fiscal nº0001, foi feito um resumo do que havia sido entregue e o que estava pendente. Podese verificar que passados quase 5 meses do termo de diligência fiscal/solicitação de documentos, apenas 4 itens haviam sido entregues, faltavam 12 itens. Mais uma vez o contribuinte apresentou pedido de prorrogação para entrega dos documentos. Em 08/07/2010 o contribuinte entregou a maior parte das informações restantes. Faltando ainda o arquivo do almoxarifado e da depreciação. (...) Estes mesmos arquivos de saída de mercadorias, no campo "tributação", onde informa se o produto vendido é tributado a alíquota zero ou é tributado a alíquota positiva, foram fornecidos com essa informação totalmente equivocada. Produtos que na época da emissão da nota fiscal eram tributados, foram considerados como alíquota zero e vice versa. Assim, tivemos que refazer esta informação, produto a produto, nota fiscal a nota fiscal obedecendo à legislação vigente, no intuito de aproveitar o arquivo para confronto com a DACON. Após finalizar, formatar e totalizar mensalmente os arquivos. Fomos fazer o confronto com os valores Fl. 59191DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 6 5 informados na DACON, para então passar para a segunda etapa do trabalho que é a auditoria propriamente dita, ou seja, fazer os devidos ajustes na ótica da Receita Federal, apurar os créditos devidos e confrontar com os respectivos PER/DCOMP. (...) Constatamos uma total divergência de valores. Nas rubricas acima relacionada, não houve um mês em que houvesse coincidência de valores entre os constantes na DACON e os valores constantes nos arquivos fornecidos. Elaboramos as planilhas denominadas: Demonstrativo das diferenças entre os valores constantes da DACON e arquivos magnéticos fornecidos como memória de cálculo I, II e III, os quais evidenciam as divergências encontradas. (...) CONCLUSÃO O ônus da prova dos créditos pleiteados é do contribuinte, assim deve haver uma correspondência entre os valores constantes no documentário fiscal, esses com os arquivos magnéticos, esses com a DACON, que é base de apuração dos créditos, e por final, a DACON com os PER/DCOMP, para que então possamos examinar, fazer os ajustes necessários de acordo com a legislação e deferir os eventuais créditos que o contribuinte esteja pleiteando. O fato de entregar uma série de arquivos magnéticos, livros fiscais e documentos, não fazem prova dos créditos. É preciso que os mesmos guardem estrita correlação com o valor exato do crédito pedido. Não se pode pedir um crédito de um determinado valor e tentar comprovar outro. No caso em tela, ao longo de 10 meses e muito esforço envidado para obtenção das informações e execução do trabalho, restou demonstrado que o contribuinte não possuía memória de cálculu dos créditos solicitados, foi fazendo durante a execução do trabalho e os elementos e documentos fornecidos, não guardam nenhuma correlação com os valores dos créditos pleiteados nos PED/COMP. Desta forma, face à falta de comprovação, não se revela possível deferir os créditos solicitados pelos motivos acima expostos. A partir de sua manifestação de inconformidade, juntou a Recorrente mais de 5.000 documentos, a partir da efl. 66 e seguintes, num total de 49 (quarenta e nove) Anexos, na realidade, planilhas, informando, em síntese, número das notas fiscais, CFOP, tipo de tributação (alíquota zero, isento e tributado), descrição do material, montante, etc. Fl. 59192DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 7 6 Enfatiza a decisão da DRJ/CTA (efl. 59.137) que o direito creditório deve estar lastreado em documentação comprobatória (artigo 1.179 do CC c/c artigos 3°, 34 e 65, todos da IN/RFB 900/2008), asseverando ainda (efl. 59.138): Assim, para comprovar a existência de um crédito vinculado a um registro contábil, não basta apresentar o registro, mas também indicar, de forma específica, que documentos estão associados a que registros; ainda, é importante, quando a natureza da operação escriturada/documentada for importante para a caracterização ou não do direito creditório, que a descrição da operação constante dos registros e documentos seja clara, sem abreviaturas ou códigos que dificultem ou impossibilitem a perfeita caracterização do negócio. No presente processo, salientase que a unidade de origem não indeferiu o pleito com base na falta da escrituração contábil, pois, como bem acentuou a interessada, a fiscalização não encontrou nenhuma anormalidade formal nos arquivos da contabilidade. O crédito não foi concedido, simplesmente, porque a interessada, mesmo diante dos inúmeros demonstrativos e documentos apresentados, não logrou êxito em comprovar a origem dos valores solicitados. Ao que se viu, durante muitos meses fora oportunizado o direito de a Recorrente fazer prova de seus hipotéticos créditos, porém, embora juntando muitos documentos, faltou comprovação da origem de seus valores, e por conseguinte, o quantum respectivo para fins de restituição. Noutro falar, há se ter uma conciliação entre registros contábeis e documentos que respaldem tais registros, não bastando os apresentar, mas também indicar, de forma específica que os documentos estão associados aos respectivos registros; natureza da operação escriturada/documentada, a fim de caracterizar ou não o direito ao crédito. Dispõe o artigo 373, I do CPC/2015, aplicado subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal PAF (Decreto 70.235/72): "Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito;" A propósito, neste sentido entende o CARF: DCOMP. CRÉDITOS. HOMOLOGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE Cabe à autoridade administrativa autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A ausência de elementos imprescindíveis à comprovação eficaz desses atributos Fl. 59193DF CARF MF Processo nº 10410.720066/201111 Acórdão n.º 3401004.980 S3C4T1 Fl. 8 7 impossibilita à homologação. (Acórdão 3802003.395, v.u., para negar provimento ao recurso voluntário). RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS. Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. (Acórdão 3301003.192, v. u. para negar provimento ao recurso voluntário). Ante o exposto, voto por negar provimento ao presente recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 59194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.904218/2011-12
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2005
CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA.
Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na operação de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo frete na operação de venda, e não frete de venda quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições.
Numero da decisão: 9303-006.888
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal (relator), Luiz Eduardo de Oliveira Santos e Jorge Olmiro Lock Freire, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Tatiana Midori Migiyama.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício.
(Assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal - Relator.
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama - Redatora designada.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ANDRADA MARCIO CANUTO NATAL
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2005 CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na operação de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo frete na operação de venda, e não frete de venda quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal (relator), Luiz Eduardo de Oliveira Santos e Jorge Olmiro Lock Freire, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Tatiana Midori Migiyama. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício. (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal - Relator. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama - Redatora designada. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2005 CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na “operação” de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo “frete na operação de venda”, e não “frete de venda” quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 90 42 18 /2 01 1- 12 Fl. 662DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 726 2 conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal (relator), Luiz Eduardo de Oliveira Santos e Jorge Olmiro Lock Freire, que lhe negaram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Tatiana Midori Migiyama. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício. (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Relator. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Redatora designada. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pelo contribuinte contra decisão tomada no acórdão nº 3402002.667, de 24 de fevereiro de 20151 (efolhas 256 e segs), integrado pelo acórdão de embargos nº 3402002.779, de 08 de dezembro de 2015(e folhas 288 e segs), que receberam, respectivamente, as ementas a seguir transcritas: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. CONCEITO. Insumos, para fins de creditamento da contribuição social não cumulativa, são todos aqueles bens e serviços que são pertinentes e essenciais ao processo produtivo ou à prestação de serviços, ainda que sejam neles empregados indiretamente. 1 Data retificada em sede de embargos. Fl. 663DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 727 3 NÃO CUMULATIVIDADE. DESPESAS COM SERVIÇOS DE CAPATAZIA, REBOCAGEM E SERVIÇOS PORTUÁRIOS. INADMISSIBILIDADE. Não se vinculando à atividade propriamente produtiva, as despesas incorridas com capatazia e estiva se assemelham mais a espécies de despesas com vendas, sem que, todavia, haja hipótese permissiva para o creditamento. FRETE ENTRE ESTABELECIMENTOS. PRODUTOS ACABADOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Por ausência de previsão legal, as despesas com transporte de produtos acabados entre estabelecimentos do próprio contribuinte não geram direito ao crédito das contribuições sociais não cumulativas. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 EMBARGOS INOMINADOS. INEXATIDÃO MATERIAL. CORREÇÃO. Verificada inexatidão material devida a lapso manifesto no acórdão embargado, especificamente no que diz respeito à indicação da data em que ocorreu a sessão de julgamento, impõese a sua devida correção. A divergência suscitada no recurso especial (efolhas 300 e segs) diz respeito (i) ao indeferimento de prova pericial ou de realização de diligência; (ii) direito de crédito sobre as despesas com serviços portuários, (iii) direito de créditos sobre fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma firma e (iv) direito de crédito sobre despesas com estudos e projetos e com serviços de geologia. O Recurso especial foi parcialmente admitido conforme despacho de admissibilidade de efolhas 400 e segs e despacho de admissibilidade de agravo, efolhas 440 e segs, apenas em relação direito de créditos sobre fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma firma. Fl. 664DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 728 4 Contrarrazões da Fazenda Nacional às efolhas 415 e segs. Defende que se negue provimento ao recurso especial do contribuinte. É o Relatório. . Voto Vencido Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, Relator. Conhecimento do Recurso Especial Preenchidos os requisitos de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso. Mérito A legislação que estabeleceu a sistemática de apuração não cumulativa das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins trouxe uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de apropriação de créditos, pelo reconhecimento de que as demais mercadorias também se enquadram no conceito de insumo. Fosse para atingir todos os gastos essenciais à obtenção da receita, não necessitaria a lei ter sido elaborada com tanto detalhamento, bastava um único artigo ou inciso. No caso concreto, discutese a possibilidade de apropriação de créditos em relação às despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma firma. Como é cediço, na etapa posterior ao processo de produtivo propriamente dito, o único dispêndio vinculado ao transporte das mercadorias para o qual o legislador previu direito ao crédito foi em relação ao frete na operação de venda, quando o ônus é suportado pelo vendedor. Não há mecanismo de hermenêutica que autorize a apropriação de créditos, por analogia, com gastos genéricos com o transporte de mercadorias. Naquilo em que melhor se ajusta à jurisprudência deste Colegiado, o recurso especial sustenta o direito ao crédito reclamado com base nos seguintes fundamentos. Fl. 665DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 729 5 Não é demais destacar que, in casu, não se trata de mero transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da Recorrente, o que por si só já geraria o direito de crédito, a teor dos precedentes acima, mas de transporte integrado que compreende o trânsito das mercadorias até a exportação e seu destino final, aperfeiçoando a venda, seja enquanto realizado entre estabelecimentos (mina para mina), seja enquanto efetivado do estabelecimento ao Porto pela empresa MRS LOGÍSTICA, seja enquanto realizado via marítima pela empresa LOGIN, todos integralmente arcados pela Recorrente. Contudo, como já foi dito, apenas o gasto específico com o frete na operação de venda dá direito ao crédito. Não há previsão legal para concessão de créditos decorrentes de gastos com transporte integrado de produtos acabados, entre estabelecimentos ou não, sob o argumento de que estes aperfeiçoam a venda. Voto por negar provimento ao recurso especial do contribuinte. (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 666DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 730 6 Voto Vencedor Conselheira Tatiana Midori Migiyama, Redatora designada. Peço vênia ao ilustre relator, que tanto admiro, para trazer o entendimento dado pela maioria desse Colegiado, acerca da possibilidade de tomada de créditos das contribuições sociais não cumulativas sobre os custos de fretes nas transferências internas de mercadorias. Para tanto, recordase que essa discussão já foi apreciada por nossa turma, tendo sido firmado posicionamento de que os custos de frete de mercadorias entre estabelecimentos gerariam o direito à constituição e crédito. Frisese a ementa do acórdão 9303005.156: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 30/09/2008 CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. Não obstante à observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02 eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na “operação” de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo “frete na operação de venda”, e não “frete de venda” quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições. CRÉDITO. FRETES NA TRANSFERÊNCIA DE MATÉRIAS PRIMAS ENTRE ESTABELECIMENTOS Fl. 667DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 731 7 Os fretes na transferência de matérias primas entre estabelecimentos, essenciais para a atividade do sujeito passivo, eis que vinculados com as etapas de industrialização do produto e seu objeto social, devem ser enquadrados como insumos, nos termos do art. 3º, inciso II, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso II, da Lei 10.637/02. Cabe ainda refletir que tais custos nada diferem daqueles relacionados às máquinas de esteiras que levam a matériaprima de um lado para o outro na fábrica para a continuidade da produção/industrialização/beneficiamento de determinada mercadoria/produto.” Nesse ínterim, proveitoso citar os acórdãos 9303005.155, 9303005.154, 9303005.153, 9303005.152, 9303005.151, 9303005.150, 9303005.116, 9303006.136, 9303006.135, 9303006.134, 9303006.133, 9303006.132, 9303006.131, 9303006.130, 9303006.129, 9303006.128, 9303006.127, 9303006.126, 9303006.125, 9303006.124, 9303006.123, 9303006.122, 9303006.121, 9303006.120, 9303006.119, 9303006.118, 9303006.117, 9303006.116, 9303006.115, 9303006.114, 9303006.113, 9303006.112, 9303006.111, 9303005.135, 9303005.134, 9303005.133, 9303005.132, 9303005.131, 9303005.130, 9303005.129, 9303005.128, 9303005.127, 9303005.126, 9303005.125, 9303005.124, 9303005.123, 9303005.122, 9303005.121, 9303005.127, 9303005.126, 9303005.125, 9303005.124, 9303005.123, 9303005.122, 9303005.121, 9303005.120, 9303005.119, 9303005.118, 9303005.117, 9303006.110, 9303004.311, etc. Não obstante, para melhor elucidar meu entendimento, passo a discorrer a priori sobre o conceito de insumos, vez que influenciará na questão da segmentação das atividades da recorrente. Primeiramente, sobre os critérios a serem observados para a conceituação de insumo para a constituição do crédito do PIS e da Cofins trazida pela Lei 10.637/02 e Lei 10.833/03, não é demais enfatizar que se tratava de matéria controvérsia – pois em fevereiro de 2018 o STJ, em sede de recurso repetitivo, definiu que o conceito de insumo, para fins de constituição de crédito de PIS e de Cofins, deve observar o critério da essencialidade e Fl. 668DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 732 8 relevância – considerandose a imprescindibilidade do item para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte.. Definiu, ainda, ser ilegal a disciplina de creditamento prevista nas IN SRF 247 e 404 que, por sua vez, traz um entendimento mais restritivo que descrita na lei. Nessa linha, efetivamente a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária para se definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. O que, por conseguinte, ainda que o acórdão do STJ não tenha sido publicado, tal como já entendia, expresso que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas pela contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Importante recordar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins nãocumulativo, não se restringe aos conceitos de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e Fl. 669DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 733 9 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Ademais, vêse que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, é de se constatar que o entendimento predominante considera o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo. Não obstante à jurisprudência dominante, importante discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Fl. 670DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 734 10 Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na Fl. 671DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 735 11 produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. Ademais, a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, vêse que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admite se também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Fl. 672DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 736 12 Frisese que o raciocínio de Marco Aurélio Greco traz, para tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. Tal como expressou o STJ em recente decisão. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: · O art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep nãocumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: (Incluído) I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: (Incluído) a. Matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou Fl. 673DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 737 13 químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; (Incluído) b. Os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. (Incluído) [...]” · art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matériaprima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. [...]” Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa Fl. 674DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 738 14 conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis Fl. 675DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 739 15 que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: · Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; · Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração Fl. 676DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 740 16 manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de não cumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a Fl. 677DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 741 17 abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido.” Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: “COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS N. 10.637/2002 E 10.833/2003. 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos.” Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos. Fl. 678DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 742 18 Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Nessa linha, aguardamos o trânsito em julgado da decisão do STJ proferida após apreciação, em sede de repetitivo, do REsp1.221.170 – e que trouxe, pelas discussões e votos proferidos, o mesmo entendimento já aplicável pelas suas turmas e pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Privilegiando, assim, a segurança jurídica que tanto merece a Fazenda Nacional e o sujeito passivo. Passadas tais considerações, ressurgindo ao caso vertente, considerando a atividade e objeto do sujeito passivo, é de se entende que os custos de fretes de mercadorias até os estabelecimentos para a distribuição são considerados insumos, vez que essenciais e pertinentes à sua atividade. O que geraria crédito de PIS e Cofins. Não obstante a esse entendimento, é de se entender que, em verdade, se trata de frete para a venda, passível de constituição de crédito das contribuições, nos termos do art. 3º, inciso IX, das Lei 10.833/03 e Lei 10.637/02 – pois a inteligência desse dispositivo considera o frete na “operação” de venda. A venda de per si para ser efetuada envolve vários eventos. Por isso, que a norma traz o termo “operação” de venda, e não frete de venda. Inclui, portanto, nesse dispositivo os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda, dentre as quais o frete ora em discussão. Em vista de todo o exposto, votamos por dar provimento ao recurso do sujeito passivo. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 679DF CARF MF Processo nº 16682.904218/201112 Acórdão n.º 9303006.888 CSRFT3 Fl. 743 19 Fl. 680DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720104/2014-22
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1402-000.661
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a PGFN tome ciência e se manifeste sobre os documentos, memoriais e parecer juntados pela recorrente após o processo ser indicado para pauta.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente
(assinado digitalmente)
Evandro Correa Dias - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: EVANDRO CORREA DIAS
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FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a PGFN tome ciência e se manifeste sobre os documentos, memoriais e parecer juntados pela recorrente após o processo ser indicado para pauta. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente (assinado digitalmente) Evandro Correa Dias Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente). RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 65 61 .7 20 10 4/ 20 14 -2 2 Fl. 2132DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.133 2 Relatório Tratase de Recurso de Ofício e Recurso Voluntário interpostos contra o acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (SP), que manteve parcialmente o crédito tributário, cujo lançamento foi realizado por meio do Auto de Infração lavrado em face de FB PARTICIPAÇÕES S.A. O caso foi relatado pela Instância a quo nos seguintes termos: "DA AUTUAÇÃO Conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 516/549, em fiscalização empreendida junto à contribuinte acima identificada, constatouse o seguinte: DA INTRODUÇÃO 1. A presente auditoria objetiva verificar o recolhimento do IRPJ e da CSLL incidentes sobre o ganho auferido pela FB Participações ("FB", fiscalizada) quando da unificação dos grupos JBS e Bertin no final de 2009. A FB foi criada para exercer o papel de holding no contexto da união das operacionais JBS S.A. ("JBS") e Bertin S.A. ("Bertin") dos dois conglomerados. 2. A primeira comunicação pública oficial a respeito da associação entre os dois grupos foi feita em 16/09/2009 pela JBS. O Fato Relevante arquivado na CVM (doc. 29) informava como se daria a unificação: “Conforme o Acordo de Associação, os acionistas controladores da JBS, J&F Participações S.A. ("J&F") e ZMF Fundo de Investimento em Participações ("ZMF") concordaram em contribuir para uma sociedade holding ("Nova Holding") a totalidade das ações que ambos detêm na JBS. Os acionistas controladores da Bertin, por sua vez, concordaram em contribuir para a Nova Holding ações representativas de 73,1% do capital da Bertin. A Nova Holding, portanto, passará a ser a acionista controladora tanto da Bertin como da JBS”. 3. Como informado nas Notas Explicativas da JBS do ano de 2010 (doc. 31), a "Nova Holding" foi criada em 23/12/2009, mediante a integralização, realizada por cerca de R$ 2,5 bilhões, das ações JBS detidas pelos então controladores da JBS. Com isso, a holding passou a controlar diretamente 51,7% do capital da JBS. O acionista controlador da Bertin a que se refere a nota explicativa é o Bertin Fundo de Investimento em Participações ("Bertin FIP" ou "FIP" ou "fundo"). 4. Notase, desde o primeiro comunicado, que a intenção das partes era exercer o controle das empresas operacionais dos dois grupos por meio de uma holding. A holding em questão passou a chamarse FB Participações. Um novo Fato Relevante foi então divulgado em 14/12/2009 (doc. 30), trazendo mais detalhes de como se implementaria a associação. O "Passo 1" descrito nesse Fato Relevante, que inclusive corrobora a intenção de que os controladores da Bertin não seriam sócios da JBS, mas da holding, é o seguinte: Fl. 2133DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.134 3 “Passo 1. Os acionistas da Bertin deverão aprovar, em assembléia geral, a Incorporação de Ações, mediante a emissão de novas ações ordinárias da JBS. Em seguida, os acionistas controladores da Bertin subscreverão novas ações de emissão da Nova Holding, a serem integralizadas mediante a entrega, à Nova Holding, da parcela das novas ações da JBS a serem atribuídas aos acionistas controladores da Bertin ("Novas Ações JBS"), nos termos do "Passo 2" abaixo:”. 5. Algumas figuras mostradas no Fato Relevante de 14/12/2009 foram adaptadas e complementadas com outras informações para tornar o entendimento da operação mais claro. Antes da incorporação de ações da Bertin pela JBS, assim se estruturavam os dois conglomerados (percentuais do capital votante): 6. A JBS então incorpora as ações da Bertin (29/12/2009), o que significa que a "incorporadora" (JBS) emitiu novas ações aos exsócios da Bertin que foram integralizadas com a totalidade das ações da "incorporada" (Bertin). Dessa forma, os dois grupos passaram formalmente a apresentar o seguinte desenho: Fl. 2134DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.135 4 7. A situação mostrada na Figura 2 será detalhada adiante, mas cabe adiantar que, nesse momento da incorporação das ações da Bertin, a JBS registrou um ágio de cerca de R$ 9,5 bilhões. Como regra, a contrapartida ao reconhecimento do ágio é o reconhecimento de um ganho de mesmo valor. Pelos números apresentados na Figura 2, seria esperado, em tese, que um ganho de R$ 7 bilhões (R$ 8,8 bilhões [ações JBS] R$ 1,8 bilhão [ações Bertin]) fosse reconhecido pelo Bertin FIP, mas, como se apurou, o ganho registrado por ele foi de apenas R$ 3,1 bilhões. Os outros R$ 2,5 bilhões (em complemento aos R$ 7 bilhões) foram ganho da BNDESPAR, que não é objeto da presente auditoria. Pela Figura 2, vêse, portanto, que ainda falta localizar um ganho de R$ 3,9 bilhões. 8. Por exigência contratual (doc. 14), no exato momento em que recebe as ações da JBS, o Bertin FIP integraliza suas ações JBS no capital da FB pelo valor de R$ 4,9 bilhões, o que levou à seguinte configuração societária 9. Em 31/12/2009, portanto apenas dois dias após a incorporação das ações da Bertin, a JBS incorpora a Bertin. Fl. 2135DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.136 5 10. Como mostra a Figura 2, o FIP recebeu as ações JBS por R$ 8,8 bilhões em troca de ações Bertin que estavam nele contabilizadas por cerca de R$ 1,8 bilhão. Em princípio, o fundo teria obtido, nesse momento, um ganho de R$ 7 bilhões. No entanto, a integralização feita pelo FIP, no mesmo instante e por exigência contratual, no capital da FB por apenas R$ 4,9 bilhões acabou resultando no reconhecimento contábil de um ganho de tão somente R$ 3,1 bilhões pelo fundo. Os livros do Bertin FIP nem sequer registram a entrada das ações JBS: a operação foi contabilizada pela diferença entre o investimento que o fundo detinha na Bertin (R$ 1,8 bilhão) e o valor pelo qual ele passou a participar do capital da FB (R$ 4,9 bilhões). 11. No parágrafo 7, mencionase que um ganho de R$ 3,9 bilhões ainda precisava ser localizado. A comparação entre a Figura 2 e a Figura 3 revela uma situação peculiar: a JBS emite ações para o Bertin FIP por R$ 8,8 bilhões e, no mesmo instante, o fundo as integraliza no capital da FB (controladora da JBS) por R$ 4,9 bilhões. Numa análise superficial e intuitiva, o que se observa nessa integralização com o mesmo ativo, no mesmo instante, é que o FIP teria perdido R$ 3,9 bilhões, pois as suas ações recémrecebidas da JBS (controlada da FB) pelo valor de R$ 8,8 bilhões foram integralizadas no capital da FB (controladora da JBS) por apenas R$ 4,9 bilhões. Ainda intuitivamente, a perda sofrida pelo fundo seria um ganho auferido pela FB, pois a holding teria recebido por R$ 4,9 bilhões um ativo de R$ 8,8 bilhões. Não foi exatamente isso que aconteceu, mas a noção intuitiva de que uma contraparte ganhou em detrimento de outra pode servir, por ora, para entender, ainda que preliminar e, repitase, intuitivamente, que o ganho que faltava localizar na Figura 2 está realmente na FB. 12. O que é absolutamente nãointuitivo é admitir que possa acontecer, no mundo real, algo como o que foi formalizado. Como imaginar que, no mesmo instante, em operações "casadas" (uma condicionada à outra), o FIP receba ações emitidas pela JBS (controlada da FB) a R$ 8,8 bilhões e ato contínuo, por determinação contratual, essas mesmas ações são integralizadas no capital da FB (controladora da JBS) por apenas R$ 4,9 bilhões? O que aconteceu foi outra coisa. 13. O modo como as operações foram formalmente realizadas está representado na Figura 2 e na Figura 3. Vêse que as ações emitidas pela JBS na incorporação de ações da Bertin entraram e saíram instantaneamente no Bertin FIP e por fim "pararam" na FB. É evidente que todo esse "trajeto" foi planejado desde a primeira hora. Tão evidente quanto isso é o fato de que, em operações societárias de tamanha monta, já estava previsto e acordado que a integralização do FIP na FB seria feita por R$ 4,9 bilhões. Todavia, como já estava também previamente acordado (entre FIP, FB e JBS) que o fundo jamais seria acionista da JBS e que, ademais, não é crível que o FIP perdesse R$ 3,9 bilhões num ativo recebido (da JBS) e alienado (para a FB) no mesmo instante, o que circulou, em essência, não foram as ações da JBS, mas as da Bertin. A formalização adotada carece de lógica econômica. 14. Para que se dê o contorno do que se pretende discutir, a lógica aqui defendida e que será à frente detalhada baseiase no fato de que a participação do excontrolador da Bertin na FB já estava prevista e quantificada quando o anúncio da unificação foi divulgado ao público. "Os acionistas controladores da Bertin, por sua vez, concordaram em contribuir para a Nova Holding ações representativas de 73,1% do capital da Bertin", como consta do primeiro fato relevante (parágrafo 2), é a essência do que deveria ter sido formalizado, mas não foi. O valor contribuído (R$ 4,9 bilhões) pelo Bertin na associação ao grupo JBS se deu materialmente pela subscrição na FB com o investimento que o FIP detinha na Bertin, registrado na sua contabilidade por R$ 1,8 bilhão (ganho de R$ 3,1 bilhões, como registrado na contabilidade do fundo). 15. Da forma como as operações foram implementadas, a cláusula (presente em vários documentos) que exigia que as ações JBS fossem imediata e irrevogavelmente entregues pelo FIP à FB conduz à conclusão de que a JBS, na verdade, em decorrência da incorporação de Fl. 2136DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.137 6 ações da Bertin, emitiu novas ações por R$ 8,8 bilhões para a sua controladora, a FB, que, em troca, cederia as ações da Bertin recémintegralizadas pelo FIP por R$ 4,9 bilhões no capital da holding no momento anterior. Ao integralizar no capital da JBS por R$ 8,8 bilhões as ações Bertin recebidas por R$ 4,9 bilhões, a FB teria que registrar um ganho de R$ 3,9 bilhões, mas não o fez. 16. Esse é o ganho tributável que deveria ter sido oferecido à tributação pela FB e que ainda faltava ser localizado. A bem da verdade, contudo, a FB registrou, sim, um ganho. No entanto, de acordo com o que foi formalizado, o ganho foi registrado não apenas em valor significativamente menor, mas sob uma rubrica contábil ganho por variação percentual no capital de controlada (no caso, a JBS) cujo tratamento tributário permite que ele não seja computado na apuração do lucro real nem da CSLL. O ganho auferido pela FB, entretanto, não teve natureza de ganho por variação percentual. A natureza dele foi de ganho tributável decorrente de uma integralização (com as ações Bertin) que foi vantajosa à FB. 17. O desvirtuamento da natureza do ganho se deu porque a formalização dos atos societários não correspondeu à realidade dos fatos, nem tampouco fez qualquer sentido econômico. Em função dos atos formalizados, a FB registrou contabilmente, ao contrário de um ganho tributável, um ganho não tributável originado de variação percentual da participação da FB no capital da JBS. No presente caso, o ganho por variação teria se originado, conforme explicado pela FB, da entrada do Bertin FIP no capital da JBS. A "entrada", porém, não ocorreu de fato, como aliás atestam expressamente os documentos referentes à própria incorporação de ações, que jamais admitiram que os excontroladores da Bertin fizessem parte do capital da JBS. Desde sempre, o que se convencionou foi que os excontroladores da Bertin materializariam a sua associação ao grupo JBS por meio da sua entrada na FB. 18. A incorporação de ações da Bertin pela qual o Bertin FIP se tornaria um acionista da JBS jamais cogitado de sêlo e a integralização realizada pelo FIP no capital da FB com as ações JBS que acabara de receber por R$ 8,8 bilhões, mas por um valor menor em R$ 3,9 bilhões, revelam a mais absoluta falta de lógica negocial ou econômica. Por conta disso, como se comprovará, a FB deveria ter registrado um ganho tributável da ordem de R$ 3,9 bilhões. A FB, contudo, não ofereceu qualquer ganho à tributação, razão pela qual a fiscalização procedeu à lavratura do Auto de Infração correspondente ao IRPJ e à CSLL que deixaram de ser recolhidos sobre o ganho auferido pela FB em dezembro de 2009, bem como ao PIS e à COFINS incidentes sobre a receita não tributada, como explicado no tópico próprio. DO DETALHAMENTO DA OPERAÇÃO 19. O Acordo de Associação entre os grupos JBS e Bertin foi formalizado em 16/09/2009 (doc. 14), dia em que a unificação foi comunicada ao mercado. No item 2 do Acordo, determinamse as participações de cada grupo na nova holding criada para controlar a JBS e a Bertin. Estabeleceuse que "(i) os Acionistas Controladores JBS deterão uma participação societária de 51,5% da Nova Holding, representada em sua totalidade por ações ordinárias, e (ii) que os Acionistas Controladores Bertin, por sua vez, deterão uma participação societária de 48,5% da Nova Holding, representada em sua totalidade por ações preferenciais". 20. Observase, de imediato, que o Acordo de Associação deixava claro que o controle da "Nova Holding" seria exercido pelos excontroladores da JBS, pois aos exsócios da Bertin caberiam tão somente ações preferenciais da holding, que, como expresso no item 4 do Acordo, "serão nãovotantes, e terão prioridade no reembolso, sem prêmio, e serão detidas pelos Acionistas Controladores Bertin". Apurouse, no entanto, que os documentos que suportam as operações indicam que as ações da "Nova Holding" emitidas para os excontroladores da Bertin foram do tipo ordinárias, diferentemente do que previa o Acordo de Associação. De qualquer Fl. 2137DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.138 7 forma, o controle da holding deveria continuar a ser exercido, em qualquer circunstância, pelos ex controladores da JBS (parágrafo 23, abaixo). 21. O Acordo menciona em dois itens a expressão "estrutura tributária mais benéfica para as Partes". No item 8, dispõese que "As partes deverão envidar seus melhores esforços para que todos os contratos definitivos sejam negociados em boafé, levando em consideração a estrutura tributária mais benéfica para as Partes...". No item 13, está determinado que "Não obstante o disposto neste Acordo, as Partes poderão, em comum acordo, avaliar e eventualmente implementar outra estrutura alternativa para a combinação de seus respectivos negócios, levando em consideração a estrutura tributária mais benéfica para as Partes". 22. A estrutura societária alternativa escolhida para formalizar a integração das operações da JBS e da Bertin foi a representada pelas Figura 2, Figura 3 e Figura 4. O Fato Relevante publicado em 14/12/2009 (parágrafo 4) divulga os passos e procedimentos que os dois grupos deveriam adotar para a unificação das operações. O Passo 1, onde se mostra a incorporação de ações da Bertin pela JBS, está reproduzido no parágrafo 4. 23. O Passo 2 está abaixo transcrito: “Passo 2. Os acionistas da JBS deverão aprovar a Incorporação de Ações em assembléia geral extraordinária convocada para ocorrer em 29.12.2009, conforme indicado abaixo. As Novas Ações JBS serão entregues diretamente pela JBS à Nova Holding, para fins de integralização das ações subscritas pelos acionistas controladores da Bertin no "Passo 1" acima. Como resultado de tal operação: (i) os atuais acionistas controladores da JBS e da Bertin deterão participação acionária indireta na JBS, por meio da Nova Holding, sendo certo que o controle da Nova Holding será exercido em qualquer circunstância pelos atuais acionistas controladores da JBS; e (ii) a Bertin tornarseá subsidiária integral da JBS (...)“. 24. O mesmo Fato Relevante relata como se daria o aumento de capital da JBS em decorrência da incorporação de ações da Bertin. Aprovada a incorporação de ações pelos acionistas da JBS e da Bertin, o capital social da JBS aumentaria (como, de fato, aumentou) em R$ 11.987.963.196,14, mediante emissão de 929.392.550 novas ações ordinárias, cuja totalidade deveria ser (como foi): “(i) subscrita pelos acionistas de Bertin, nos termos do artigo 252, § 2°, da Lei das S.A.; (ii) integralizada com as ações de emissão da Bertin, a serem incorporadas ao patrimônio da JBS; e (iii) imediatamente após ser atribuída aos acionistas da Bertin, na proporção de suas respectivas participações no capital da Bertin e de acordo com a relação de substituição proposta acima, as ações recebidas pelos atuais acionistas controladores da Bertin serão entregues diretamente à Nova Holding, denominada "FB Participações S.A.", como integralização de capital subscrito de emissão da FB Participações S.A. Dessa forma, o capital social da JBS, no valor de R$ 16.483.544.165,08, passará a ser representado por 2.323.481.376 ações ordinárias, nominativas, escriturais e sem valor nominal”. 25. O excerto acima menciona que as novas ações emitidas pela JBS deveriam ser integralizadas com todas as ações da Bertin. Também cita que os acionistas controladores da Bertin Fl. 2138DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.139 8 deveriam, imediatamente após receber as ações da JBS, integralizálas no capital da FB Participações, denominação adotada pela "Nova Holding". 26. A Figura 2 precisa ser explicada e complementada para retratar mais adequadamente os fatos. Para tanto, além das informações que até aqui foram apresentadas, releva saber qual a participação detida na Bertin pelos seus acionistas no momento em que as suas ações foram incorporadas pela JBS. Como descrito no parágrafo 24, em decorrência da incorporação das ações da Bertin, a JBS aumentou seu capital social em R$ 11.987.963.196,14, mediante emissão de 929.392.550 novas ações ordinárias. Desse total de ações, couberam ao Bertin FIP 679.182.067 ações (ver ata da AGE de 29/12/2009 da JBS, doc. 33). O restante das ações coube à BNDESPAR (conforme Protocolo e Justificação da incorporação das ações da Bertin pela JBS, doc. 32). Isso significa que o Bertin FIP detinha cerca de 73% do capital votante da Bertin, e a BNDESPAR, cerca de 27%. 27. A ata da AGE de 29/12/2009 (doc. 33) da JBS informa que as novas ações foram emitidas ao preço unitário de R$ 12,89870808. Como o Bertin FIP recebeu 679.182.067 ações, o valor atribuído a essas ações foi de R$ 8.760.571.215,40 (informação também confirmada pela fiscalizada no doc. 7). Por diferença, portanto, a BNDESPAR recebeu 250.210.483 ações da JBS por R$ 3.227.391.980,74. 28. Para que a Figura 2 represente, enfim, o retrato completo do que ocorreu, falta ainda saber o valor pelo qual o Bertin FIP cedeu suas ações na Bertin na operação de incorporação de ações, realizada em 29/12/2009. Segundo as demonstrações financeiras em 31/03/2010 do Bertin FIP (doc. 35), as ações da Bertin, que estavam registradas na contabilidade do fundo por R$ 1.775.231.000, foram trocadas pelas 679.182.067 ações ON (ordinárias) da JBS em decorrência da referida incorporação de ações. 29. Por último, para saber o valor do ágio (e, consequentemente, do ganho idêntico que nasce em contrapartida), é necessário conhecer o valor do PL da Bertin no momento em que suas ações foram incorporadas, pois o ágio é obtido pela diferença entre o valor pago e o patrimônio líquido da investida adquirida (artigo 385 do RIR/99). 30. O laudo produzido para fins de registro fiscal do ágio (doc. 34, obtido em diligência na JBS) informa que o PL da Bertin no momento da aquisição do investimento era de R$ 2,527 bilhões, o que resultou no registro do ágio de R$ 9,46 bilhões (=R$ 11.987.963 R$ 2.557.354), cujo fundamento foi a rentabilidade futura da Bertin. Agora, sim, podese redesenhar a Figura 2: Fl. 2139DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.140 9 31. As participações da FB, Bertin FIP e BNDESPAR no capital da JBS (31%, 29,2% e 18,8%, respectivamente) foram transcritas de resposta da FB (doc. 7). 32. O valor contábil das ações Bertin entregues à JBS pela BNDESPAR (R$ 656 milhões), indicado na figura acima, foi obtido com base no valor contabilizado pelo Bertin FIP. Se o FIP, que contabilizava suas ações Bertin por R$ 1,775 bilhão, detinha 73% do capital da Bertin, a BNDESPAR, cuja participação na Bertin era de 27%, contabilizava suas ações Bertin por cerca de R$ 656 milhões. 33. Verificase também na Figura 5 que o valor pago pela JBS pelas ações da Bertin já está desdobrado entre PL da Bertin e ágio, como dispõe a legislação tributária. 34. Conforme mencionado, as novas ações recebidas pelo Bertin FIP deveriam ser imediatamente integralizadas no capital da FB. Essa integralização está descrita na ata da AGE da JBS realizada em 29/12/2009 (doc. 33), que registrou a aprovação, entre outros pontos, do aumento de capital da companhia em virtude da incorporação de ações da Bertin: “Também em virtude da incorporação de ações ora aprovada, a Bertin tornase subsidiária integral da Companhia. Nesse contexto, a mesa recebeu e arquivou, e também encaminhou ao Banco Bradesco S.A. na qualidade de agente escriturador das ações de emissão da Companhia para as devidas providências, uma cópia do boletim de subscrição de ações da FB Participações S.A. (acionista controladora da Companhia), datado de 28.12.2009, pelo qual o Bertin Fundo de Investimento em Participações (acionista controlador da Bertin antes da incorporação de ações da Bertin pela Companhia) outorgou mandato irrevogável e irretratável com instruções para que o agente escriturador das ações da Companhia registrasse diretamente em nome da FB Participações S.A. a titularidade de todas as ações de emissão da Companhia neste ato atribuídas ao Bertin Fundo de Investimento em Participações em decorrência da incorporação de ações ora aprovada, ou seja, 679.182.067 (seiscentos e setenta e nove milhões, cento e oitenta e dois mil, sessenta e sete) ações ordinárias, nominativas, escriturais, sem valor nominal, de emissão da Companhia, tendo em vista que o Bertin Fundo de Investimento em Participações subscreveu aumento de capital na FB Participações S.A. em assembléia geral extraordinária da FB Participações S.A. realizada em 28.12.2009 com o compromisso de integralização imediata do capital subscrito mediante conferência da totalidade das 679.182.067 (seiscentos e setenta e nove milhões, cento e oitenta e dois mil, sessenta e sete) ações de emissão da Companhia atribuídas ao Bertin Fundo de Investimento em Participações tão logo fosse aprovada a incorporação de ações da Bertin pela Companhia. (grifos da fiscalização)”. 35. O Boletim de Subscrição anexo à ata da AGE da FB realizada em 28/12/2009 (doc. 4) confirma que as ações da JBS recebidas pelo Bertin FIP deveriam ser devidamente subscritas pelo fundo. O subscritor, Bertin Fundo de Participações, subscreveu 2.334.370.428 ações ordinárias da FB por R$ 4.949.046.230,13, mediante conferência das 679.182.067 ações da JBS recebidas em virtude da operação de incorporação de ações da Bertin. A Figura 5 é agora atualizada para retratar essa subscrição do Bertin FIP no capital da FB: Fl. 2140DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.141 10 36. No dia 31/12/2009, a JBS incorpora a Bertin, cujas ações haviam sido incorporadas pela JBS há apenas 2 dias. Evidenciado o ágio, cabe agora revelar os ganhos indicados na Figura 2 e na Figura 3: primeiramente, o auferido pelo Bertin FIP e, na sequência, o auferido pela FB. DOS EFEITOS NO BERTIN FIP DA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES DA BERTIN E DA INTEGRALIZAÇÃO NA FB 37. Para se compreender o ganho da FB, é preciso analisar o que aconteceu com o Bertin FIP. Como comentado, o ganho de capital do Bertin FIP, no momento da incorporação de ações da Bertin, deveria ter sido, em tese, de cerca de R$ 7 bilhões, obtido pela diferença entre o valor contabilizado das ações Bertin entregues à JBS (R$ 1,775 bilhão) em contrapartida às ações recebidas (R$ 8,760 bilhões) da JBS (Figura 5). 38. No entanto, as demonstrações financeiras do FIP relativas ao período de 11/12/2009 a 31/03/2010 (doc. 35) indicam que o ganho foi de apenas R$ 3,173 bilhões. A nota 4 das demonstrações financeiras informa que: “O Fundo tem como principal ativo a participação na FB Participações S.A. detendo 48,52% das ações ON do seu capital. O objeto social da FB Participações S.A. consiste na participação social em outras sociedades, como sócio ou acionista (holding) e administração de bens próprios. A FB Participações S.A. foi constituída para a criação de uma associação entre as companhias JBS S.A. e Bertin S.A. Em 11 de dezembro de 2009, foi integralizada no Bertin Fundo de Investimento em Participações (Fundo) a quantidade de 20.296.764 ações da Bertin S.A., com valor de R$ 1.775.231, correspondente a 1.775.231 cotas. O valor das ações integralizados foi estipulado com base em laudo de avaliação contábil de empresa especializada. Em 23 de dezembro de 2009, foi aprovada em Ata de Assembléia Geral Extraordinária a incorporação das ações da Bertin S.A. pela JBS S.A., onde Fl. 2141DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.142 11 o Fundo recebeu 32,45518835 ações ordinárias da JBS S.A. para cada ação da Bertin S.A. sob sua titularidade, totalizando um recebimento de 679.182.067,18 ações ordinárias da JBS S.A.”. 39. As demonstrações financeiras do FIP não registram o valor pelo qual o fundo recebeu as ações JBS na incorporação de ações. Tampouco os livros contábeis (doc. 36) do Bertin FIP, apresentados em cumprimento a intimação feita para a fiscalização se certificar acerca da contabilização das operações em comento, fazem qualquer referência ao valor de R$ 8,8 bilhões pelo qual as ações foram emitidas pela JBS em nome do FIP. 40. Os livros do fundo registram tão somente a constituição do FIP com as ações da Bertin por R$ 1.775.231.541,38, em 11/12/2009, e a baixa desse investimento com a correspondente entrada no ativo das ações da FB, por R$ 4.949.046.230,13, em 29/12/2009, correspondente à integralização do FIP no capital da holding, retratada na Figura 6. 41. Dessa forma, toda a contabilidade do FIP, aí incluídas as notas explicativas, só permite antever que: (i) o fundo foi constituído com ações da Bertin (R$ 1,775 bilhão); (ii) essas ações foram "trocadas" por ações da JBS na incorporação das ações da Bertin pela JBS (sem qualquer referência ao valor de R$ 8,8 bilhões nas demonstrações financeiras do fundo nem nos seus livros contábeis), e (iii) a totalidade das ações JBS recebidas pelo FIP foram integralizadas na FB por R$ 4,9 bilhões. 42. Independentemente do que tenha ou não registrado a contabilidade do fundo, não se pode perder de vista que a JBS, em pagamento pelas ações Bertin (R$ 1,775 bilhão), emitiu novas ações para o FIP pelo valor de R$ 8,8 bilhões, integralizadas no mesmo instante no capital da FB por R$ 4,9 bilhões. Do ponto de vista econômico, o esquema abaixo representa o resultado obtido com essas operações: 43. Como se verá adiante, o FIP interpretou que o recebimento das ações JBS em troca das ações Bertin foi um fato meramente permutativo, ou seja, as ações emitidas pela JBS por R$ 8,8 bilhões foram contabilizadas pelo fundo pelo mesmo valor pelo qual estavam registradas as ações Bertin dadas em troca (R$ 1,775 bilhão). Assim, a forma como o fundo "viu" as operações é esquematizada como se segue: Fl. 2142DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.143 12 44. As duas figuras acima demonstram que o ganho contábil registrado pelo fundo é idêntico ao ganho econômico obtido por ele. Do ponto de vista informativo, contudo, a contabilidade do fundo não retrata fielmente a realidade dos fatos, pois se tem a falsa impressão de que o FIP teria tido apenas um ganho de R$ 3,1 bilhões, quando, na verdade, o fundo teria tido um ganho de R$ 7 bilhões seguido de uma perda, sofrida pelo mesmo ativo e no mesmo instante, de R$ 3,9 bilhões. 45. De acordo com a formalização adotada pelas partes pela qual o FIP teria recebido ações da JBS em decorrência da incorporação de ações , a contabilização feita pelo fundo evidentemente não está correta. Afinal, a ata da AGE de 29/12/2009 da JBS (parágrafo 27), assinada pelo administrador do fundo à época, expressa que as ações JBS foram emitidas por R$ 8.760.571.215,40 para o Bertin FIP no ato da incorporação das ações da Bertin pela JBS. A contabilização feita pelo então administrador do fundo (Citibank DTVM) simplesmente ignorou um ativo de R$ 8,8 bilhões que teria entrado em seu patrimônio. Os registros contábeis nem sequer fazem referência às ações JBS. 46. Ao ser questionada a respeito da ausência desse registro contábil, a Citibank DTVM assim respondeu (doc. 42): “Inicialmente é necessário esclarecer o procedimento contábil adotado pelo Fundo Bertin. A Instrução CVM 409 de 18 de agosto de 2004, em seu artigo 10, determina que: Art. 10 As cotas do fundo correspondem a frações ideais de seu patrimônio, e serão escriturais e nominativas. §1° O valor da cota do dia é resultante da divisão do valor do patrimônio líquido pelo número de cotas do fundo, apurados, ambos, no encerramento do dia, assim entendido, para os efeitos desta Instrução, o horário de fechamento dos mercados em que o fundo atua. §2° As cotas do fundo conferirão iguais direitos e obrigações aos cotistas. §3° Quando se tratar dos fundos de investimentos referidos nos arts. 93, 94 e 95, o valor da cota do dia poderá ser calculado a partir do patrimônio líquido do dia anterior, devidamente atualizado por um dia. Fl. 2143DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.144 13 Assim, o valor da cota decorre da divisão do valor do patrimônio líquido do fundo pelo número de cotas ao fim de cada dia, sendo assim, o cálculo da cota, bem como o fechamento do patrimônio do fundo, é efetuado ao fim de cada dia. Assim, o que realmente importa para a contabilidade do fundo e para a valoração da cota é o patrimônio líquido do fundo no encerramento do dia. Este é o caso do Fundo Bertin, onde as aprovações societárias, por meio de AGEs, a respeito da incorporação de ações da Bertin S/A pela JBS S/A ocorreram no mesmo dia, 28/12/2009. Desta forma, de fato, o patrimônio líquido do fundo foi afetado por tais operações societárias no dia 29/12/2009, conforme dispõe o parágrafo 3° do art. 10 da Instrução CVM 409. Conforme demonstrado no razão contábil, no dia 29 de dezembro de 2009, foi contabilizado um lucro no valor R$ 3.173.531.625,94, gerado pela diferença entre R$ 4.949.046.230,13 (valor das ações da FB Participações) e R$ 1.775.231.541,38 (valor do aporte inicial no Fundo). Tais valores representam o resultado das citadas operações societárias ocorridas no encerramento do dia 28/12/2009. Assim, a contabilidade do Fundo Bertin está em conformidade com as normas da CVM, e sob o ângulo fiscal não houve qualquer prejuízo ao Erário Público, visto que quando da ocorrência do fato gerador (resgate das quotas) a base econômica foi devidamente demonstrada no encerramento do mês e exercício de 2009. Ressaltese que a contabilidade do fundo, conforme dispõe a CVM, foi revisada por auditoria independente comprovada pelo parecer da Pricewaterhousecoopers PWC já disponibilizado nos autos”. 47. Será que "o que realmente importa para a contabilidade do fundo e para a valoração da cota é o patrimônio líquido do fundo no encerramento do dia"? Será que os cotistas não desejariam saber que teriam perdido, num único momento e na negociação de um ativo que acabara de receber, a absurda quantia de R$ 3,9 bilhões? A resposta é óbvia. O fato de a Instrução CVM dispor que o cálculo do valor da cota é obtido pela divisão do valor do PL pelo número de cotas do fundo, apurados, ambos, no final do dia, não significa que o cotista não tenha que saber como aquele PL chegou ao valor do final do dia. 48. Com efeito, o lucro registrado pelo fundo seria o mesmo se as ações JBS tivessem sido registradas pelos R$ 8,8 bilhões ou se o registro fosse de acordo com a resposta do administrador do FIP (Figura 7 e Figura 8). Dizer, contudo, que o que importa é apenas o lucro no encerramento do dia é uma afronta a qualquer investidor, em qualquer lugar do mundo. Como se sentiria um investidor se soubesse que o fundo no qual aplica suas economias tivesse um ativo que foi adquirido por R$ 8,8 bilhões num instante, mas, no mesmo instante, o fundo o alienasse por R$ 4,9 bilhões? Ficaria satisfeito em saber que teve, no encerramento do dia, um lucro de R$ 3,1 bilhões em vez de um lucro de R$ 7 bilhões? 49. O fato de o fundo interpretar a incorporação de ações como uma permuta não significa que os seus registros contábeis deveriam omitir a entrada de um ativo de R$ 8,8 bilhões e a sua saída, no mesmo instante, com desvalorização de R$ 3,9 bilhões. A contabilidade do FIP poderia, por exemplo, ter registrado a entrada das ações da JBS como ilustrado na Figura 7: haveria um ganho, num primeiro momento, de R$ 7 bilhões resultante da diferença entre o valor de entrada das ações JBS (R$ 8,8 bilhões) e a saída das ações Bertin (R$ 1,8 bilhão). Reconhecido esse ganho, o fundo poderia ter registrado, no instante imediatamente seguinte, a perda de R$ 3,9 bilhões ao integralizar as ações JBS no capital da FB por R$ 4,9 bilhões. Resultado: o mesmo ganho líquido de R$ 3,1 bilhões ([R$ 8,8 1,8] R$ 3,9), mas dando a devida informação ao público. Fl. 2144DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.145 14 50. O FIP poderia também ter contabilizado o recebimento das ações JBS de acordo com o CPC 15 (combinação de negócios), cuja adoção inicial foi a partir de 2010, o que o desobrigaria à adoção do novo normativo contábil, uma vez que a incorporação de ações ocorreu em 2009. No entanto, de acordo com a Deliberação CVM 580, de 31/07/2009, que aprovou o CPC 15 (tornandoo obrigatório também para o Bertin FIP), às demonstrações financeiras de 2009 que deveriam ser divulgadas em conjunto com as demonstrações de 2010, para fins de comparação, deveria ser aplicado o CPC 15, fato ignorado pelo fundo. Se assim tivesse procedido, no ano de 2009 divulgado em conjunto com o de 2010, registraria um ganho em 2009 por compra vantajosa de R$ 7 bilhões, que, diminuído da perda de R$ 3,9 bilhões pela integralização das ações JBS pelo valor menor, resultaria no ganho líquido de R$ 3,1 bilhões. Mesmo resultado que o divulgado pelo fundo, mas com a informação completa. 51. A contabilidade do fundo, contudo, não registrou o ganho de R$ 7 bilhões nem a perda de R$ 3,9 bilhões, fosse pela regra contábil anterior ao CPC 15, fosse pela nova (que deveria ser seguida a partir de 2010, inclusive para as demonstrações do ano de 2009 divulgadas em 2010 para fins de comparação). Simplesmente se limitou a informar o resultado líquido ao final do dia em que tais eventos ocorreram. 52. É claro que, no mundo real, a hipótese de deixar de informar um ganho dessa magnitude é inadmissível a qualquer stakeholder. Da mesma forma, é igualmente inaceitável que uma perda tão expressiva, ocorrida no mesmo instante em que aquele ganho é auferido, deixe de ser evidenciada. Como imaginar que o mesmo ativo, no mesmo momento, é recebido por R$ 8,8 bilhões e alienado por R$ 4,9 bilhões? A fiscalização perguntou, uma vez mais, em diligência fiscal, ao administrador do fundo à época, o porquê de tamanha perda. A resposta foi esta (doc. 37): “O valor mencionado de R$ 8.760.571.215,00 corresponde ao valor de mercado dado às ações da Bertin S/A que o Fundo Bertin detinha para fins de incorporação de ações efetuada na JBS S/A. Para contextualizar, vale ressaltar que a Bertin S/A e a JBS S/A eram concorrentes e não tinham ligação societária, bem como a JBS S/A era e continua a ser empresa listada em bolsa. Assim, para se concretizar a referida incorporação de ações foi necessário trazer as ações da Bertin S/A a valor de mercado, para se evitar qualquer questionamento por parte de acionistas minoritários na distribuição das ações da JBS S/A após a incorporação de ações. Esse método de avaliação é usual e comum no mercado de capitais, para se trazer a uma perspectiva de avaliação a preço justo para então atenderse os interesses dos sócios, inclusive dos minoritários, e necessária transparência para fins regulatórios. Por esse motivo, o valor de mercado da Bertin S/A, com base em laudo de avaliação, foi de R$ 11.987.963.196,14, como o fundo detinha 73,08% da companhia, o valor de mercado das referidas ações, para fins de incorporação de ações, foi de R$ 8.760.571.215,00. Por sua vez, o valor de R$ 4.949.046.230,12 é o valor patrimonial das ações da JBS S/A que o Fundo Bertin detinha e que foram objeto de aumento de capital na FB Participações, conforme laudo de avaliação patrimonial emitido por empresa especializada, o qual foi entregue à este Administrador tendo sido considerado para fins de contabilização, em conformidade com o Estatuto do fundo e regras emitidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Assim, sob a perspectiva deste Administrador, não teria havido uma perda propriamente dita (diferença entre o valor de R$ 8.760.571.215,00 e o montante de R$ 4.949.046.230,12), uma vez que se entendeu que o ativo em questão é o mesmo, o qual não foi negociado, alienado ou vendido, mas Fl. 2145DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.146 15 teria havido uma avaliação sob óticas distintas, uma considerandose o valor econômico para fins de uma operação de incorporação entre particulares seguindo o rito e em observância às práticas do mercado de capitais, e de outro modo seguindose a metodologia de avaliação com base no valor patrimonial, conforme laudo entregue à este Administrador que serviu de referência para os registros na contabilidade do fundo”. (grifos da fiscalização). 53. A resposta é surpreendente, para dizer o mínimo. Como assim, o ativo não foi negociado, alienado ou vendido? Como será que o administrador do fundo considera a integralização feita com as ações da JBS no capital da FB? Será que é "comum no mercado de capitais" entender que essa operação pode ser vista sob várias óticas, inclusive a ótica de não considerála como uma negociação, alienação ou venda? 54. Em decorrência da resposta inconsistente dada pelo administrador do FIP, deu se nova oportunidade ao único cotista do fundo à época (Tinto Holding) para informar a razão pela qual as ações da JBS foram recebidas por R$ 8,8 bilhões pelo fundo e, no mesmo instante, tais ações foram integralizadas na FB por um valor inferior em cerca de R$ 3,9 bilhões. A resposta foi igualmente inconsistente, porém com um "argumento" adicional, como abaixo se transcreve (doc. 38): “O termo de intimação fiscal em referência afirma que o valor de emissão das ações da JBS S.A. ("JBS") em favor do Bertin Fundo de Investimento em Participações ("Bertin FIP") decorrente da incorporação das ações de emissão da Bertin S.A. ("Bertin") totalizaria R$ 8.760.571.215,00. Ainda segundo o termo de intimação fiscal n.° 04, as ações de emissão da JBS recebidas pelo Bertin FIP teriam sito contribuídas ao capital FB Participações S.A. ("FB Participações") pelo valor de R$ 4.949.046.230,13. A partir dessas informações, o termo de informação (sic) fiscal conclui que o Bertin FIP teria realizado uma efetiva perda de aproximadamente R$ 3.800.000.000,00 na contribuição das ações de emissão da JBS ao capital da FB Participações. Nesse sentido, cumpre esclarecer, novamente, que a operação de incorporação de ações da Bertin pela JBS foi implementada por critério de avaliação distinto da operação de contribuição das ações de emissão da JBS ao capital da FB Participações pelo Bertin FIP. Além dos critérios utilizados terem suporte na legislação societária e fiscal, notese que eles foram utilizados uniformemente pelas partes envolvidas em cada uma das operações. Com efeito, na incorporação de ações foi utilizado o mesmo critério (valor econômico) tanto por JBS como pelo Bertin FIP. Na contribuição das ações de emissão da JBS ao capital da FB Participações, por sua vez, o mesmo critério foi utilizado por esta última e o Bertin FIP (valor contábil). Consequentemente, não houve qualquer perda (que não meramente escritural) de valor que representasse redução efetiva no patrimônio do FIP. É de se notar, ainda, que os investimentos que compõem a carteira de um FIP, a exemplo do investimento que o Bertin FIP detém na FB Participações, devem ser avaliados segundo critérios próprios aplicáveis ao FIP, os quais tem previsão em legislação e normas regulamentares específicas. O fato de um FIP ter recebido investimento (ações) a um determinado valor (baseado, por exemplo, no critério contábil) não necessariamente significa que tal investimento manterá esse valor durante toda sua permanência na carteira do FIP” (grifos da fiscalização). 55. Não deixa de ser curiosa a alegação de uniformidade de critérios. A que uniformidade se refere a Tinto Holding quando diz que recebeu ações pelo valor econômico e as Fl. 2146DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.147 16 integralizou pelo valor contábil? É justamente o contrário: tratase da mais cristalina forma de ausência de uniformidade na aquisição e na alienação do mesmo ativo, no mesmo momento. 56. Interessante também analisar o trecho grifado da resposta acima, em que a Tinto Holding admite uma perda que, nas suas palavras, teria sido "meramente escritural" e que, por isso, não representaria "redução efetiva no patrimônio do FIP". A afirmação de que a perda teria sido "meramente escritural" é absurda. Uma perda meramente escritural ocorreria, por exemplo, no caso de uma aplicação de renda fixa prefixada feita num cenário em que as taxas de juros estivessem em determinado patamar e que, em momento posterior, elas subissem. Nessa hipótese, para manter imutável o valor a resgatar no futuro, o ativo teria que sofrer uma imediata desvalorização. Se o investidor mantivesse a aplicação até a data de resgate contratada, o valor final do ativo seria o valor inicial aplicado acrescido da valorização contratada, ou seja, aquela perda seria apenas escritural, no sentido de que a perda não teria sido efetivamente realizada. Se, contudo, o investidor resgatasse a aplicação antes da data contratada, sofreria uma perda efetiva, ou seja, a perda deixaria de ser apenas escritural para tornarse real, efetiva. Nesse sentido, a integralização feita pelo fundo pelo valor menor teria realizado a perda, que nada teria de escritural. 57. Sábias são as palavras no último parágrafo transcrito da resposta da Tinto Holding: "O fato de um FIP ter recebido investimento (ações) a um determinado valor (baseado, por exemplo, no critério contábil) não necessariamente significa que tal investimento manterá esse valor durante toda sua permanência na carteira do FIP". O incrível, no caso, é que o investimento teria deixado de manter o valor instantaneamente, não teria sido necessário nem esperar por toda a sua permanência na carteira do FIP. E não teria sido uma perda de alguns centavos, mas, acredite quem quiser, seria uma perda de quase 4 bilhões de reais. 58. O que tudo isso evidencia é que uma perda dessa magnitude, nas condições em que ocorreu, não é crível. Ninguém perde tanto numa negociação ocorrida primeiro entre FIP e JBS e, no mesmo instante, numa segunda negociação ("casada" com a primeira) entre FIP e controladora da JBS. Ainda menos sentido faz essa perda quando se verificam os motivos pelos quais a Tinto Holding constituiu o Bertin FIP (doc. 39): “A constituição do FUNDO DE INVESTIMENTO EM PARTICIPAÇÕES por parte da TINTO HOLDING Ltda. constituiu na formalização da transferência de controle acionário com o objetivo intrínseco ainda de terceirizar a administração desta carteira de investimentos e ações, como modo de redução de custos internos de administração. [...] Em suma, o principal motivo para a criação do FUNDO DE INVESTIMENTOS [... ] foi a formalização do controle acionário e administrativo do acervo da BERTIN S.A. e a racionalização dos custos de administração e gestão dos investimentos”. 59. Redução de custos internos? Racionalização dos custos de administração e gestão de investimentos? Será que houve redução de custos e alguma racionalização na operação em que o FIP recebe ações da JBS por R$ 8,8 bilhões e no mesmo instante as integraliza por R$ 4,9 bilhões? Será que é possível imaginar que, com a constituição do fundo, houve economia maior do que a perda de R$ 3,9 bilhões que a integralização na FB acabou por infligir ao fundo? 60. Em outra resposta (doc. 40), a Tinto Holding tece as seguintes observações: “A administração da Tinto Holding optou por utilizar o Bertin FIP entendendo que o mesmo seria mais adequado como instrumento para seu investimento na FB Participações S.A., tendo em vista os elevados níveis de governança e controle sobre o investimento, já que a manutenção de um FIP envolve necessariamente controle dela (sic) CVM, bem como a atuação de terceiros com expertise em Fl. 2147DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.148 17 investimentos desta natureza e.g. administrador/gestor e auditores, nos termos das normas regulamentares da Comissão de Valores Mobiliários que dispõem sobre a constituição, administração e funcionamento dos fundos de investimento em geral, abertos ou fechados”. 61. Elevados níveis de governança? Alguém deu alguma informação sobre o que supostamente teria acontecido entre o aporte inicial no fundo e a integralização na FB? Houve alguma satisfação sobre por que as ações recebidas da JBS por R$ 8,8 bilhões teriam sido integralizadas na controladora da JBS por um valor R$ 3,9 bilhões menor? Houve alguma indicação de que esses valores estavam em jogo? Expertise do administrador/gestor? Será que algum investidor reconheceria alguma expertise num administrador que perdesse quase 4 bilhões de reais na negociação de um ativo cujo recebimento pelo fundo acabara de acontecer? 62. Em outro trecho da mesma resposta, a Tinto Holding tenta explicar sobre a "suposta" perda: “O item 03 do Termo de Intimação Fiscal requer informações sobre a suposta perda registrada pelo Bertin FIP, em função do fato de que o valor atribuído à Bertin para fins da incorporação das ações foi superior ao valor da posterior contribuição das ações da JBS contribuídas ao capital da FB Participações. De fato, a operação de incorporação de ações não gerou qualquer alteração no patrimônio do Bertin FIP, já que se trata de operação de caráter permutativo, onde as ações na Bertin foram substituídas por ações da JBS. O valor atribuído teve por principal objetivo a correta determinação das participações dos sócios no capital da JBS. Em momento subsequente, o Bertin FIP contribuiu as ações da JBS ao capital da FB Participações. Independentemente das operações societárias realizadas, o Bertin FIP sempre registrou seus investimentos exclusivamente nos termos das normas que o regem e de seu Regulamento”. 63. Quer dizer que a incorporação de ações foi uma "operação de caráter permutativo", mas a integralização com as ações da JBS no capital da FB não o foi? Na integralização não teriam sido trocadas ações da JBS por ações da FB? Só a troca de ações da Bertin por ações da JBS tem caráter permutativo? Por que na integralização o fundo reconheceu um ganho de R$ 3,1 bilhões, mas nenhum ganho foi reconhecido quando na operação feita no segundo imediatamente anterior? Não poderia o fundo ter reconhecido um ganho de capital seguido de uma perda ou uma compra vantajosa seguida de perda, como discutido nos parágrafos 49 e 50, ainda que o resultado ao final fosse o mesmo? O FIP sempre registrou seus investimentos de acordo com as normas e o seu regulamento, "independentemente das operações societárias realizadas"? Ora, é justamente em função das operações formalizadas sem qualquer racionalidade econômica que se pode afirmar que o fundo não pode ter obedecido a qualquer regra ou regulamento, a não ser que houvesse regra ou regulamento que estipulasse que o fundo foi constituído para perder somas consideráveis na negociação de ativos recebidos e alienados no mesmo instante. 64. Perguntouse à Tinto Holding, por fim, se ela havia ingressado em juízo para reaver tamanha perda ou se o administrador do FIP teria pago indenização pelo prejuízo causado. A resposta (doc. 38) foi de total apoio ao administrador do fundo. Será que, se uma perda imensa como essa tivesse mesmo existido, alguém não seria responsabilizado? 65. Pelas respostas dadas pelo administrador do FIP e pela Tinto Holding, ficou claro que seria contraproducente obter qualquer esclarecimento minimamente consistente a respeito da natureza e da contabilização das operações formalizadas. E não poderia ser diferente. Afinal, a formalização das operações revela uma total incoerência econômica. Tudo porque o que se Fl. 2148DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.149 18 formalizou difere da substância do que de fato aconteceu. A Tinto Holding e o administrador do Bertin FIP à época dos fatos não têm uma explicação minimamente plausível para justificar a aquisição e a alienação, ocorridas num mesmo momento, de um ativo adquirido por R$ 8,8 bilhões e alienado por R$ 4,9 bilhões. E assim é porque a formalização não fez qualquer sentido. 66. A ausência de contabilização do ganho de R$ 7 bilhões e da perda de R$ 3,9 bilhões, como ilustrado na Figura 8, não muda o fato de que, pela formalização adotada, teria ocorrido, do ponto de vista econômico (Figura 7), um ganho de R$ 7 bilhões e uma perda de R$ 3,9 bilhões. Como a perda é inaceitável e a integralização foi feita por R$ 4,9 bilhões, só se pode concluir que um ganho de R$ 7 bilhões não pode ter existido no FIP. 67. A distorção da realidade se deu porque os grupos procuraram fazer crer que em algum momento os excontroladores da Bertin (Bertin FIP) fizeram parte do capital da JBS. Nunca sequer se cogitou isso. O primeiro Fato Relevante publicado a respeito da associação entre os grupos JBS e Bertin (parágrafo 2) explicitou a essência de toda a operação: "...os acionistas controladores da Bertin, por sua vez, concordaram em contribuir para a Nova Holding ações representativas de 73,1% do capital da Bertin". Basta lembrar também que está explícito, em vários e vários documentos, como por exemplo a AGE de 29/12/2009 da JBS (parágrafo 34) e o boletim de subscrição anexo à AGE da FB realizada em 28/12/2009 (parágrafo 35), o compromisso firmado pelo Bertin FIP de integralizar imediatamente, de forma irrevogável e irretratável, as ações JBS por ele recebidas em decorrência da incorporação das ações da Bertin. 68. Aliás, é relevante voltar a alguns detalhes da AGE de 29/12/2009 da JBS. O trecho extraído dela e que consta do parágrafo 34 informa que "o Bertin FIP [...] outorgou mandato irrevogável e irretratável com instruções para que o agente escriturador das ações da Companhia [JBS] registrasse diretamente em nome da FB Participações S.A. a titularidade de todas as ações de emissão da Companhia [JBS] neste ato atribuídas ao Bertin fundo de Investimento em Participações em decorrência da incorporação de ações ora aprovada". O agente escriturador, portanto, nem sequer efetuou o registro das ações emitidas pela JBS em nome do FIP. Elas foram diretamente registradas em nome da FB. O registro do recebimento, pelo Bertin FIP, da significativa quantidade de ações da JBS, pelo valor não menos relevante de R$ 8,8 bilhões, foi solenemente deixado de fora, efetivandose o registro em nome da FB. Tudo isso equivale dizer que as 679.182.067 ações ordinárias da JBS tiveram como destinatário a FB; nunca, nem nos registros feitos pelo agente escriturador, o Bertin FIP. 69. Fica patente o descasamento entre a incorporação de ações e a informação prestada acerca do registro das ações JBS emitidas ao FIP. A incorporação de ações da Bertin pela JBS, com o consequente recebimento de ações JBS pelo FIP por R$ 8,8 bilhões, seguida da integralização pelo Bertin FIP no capital da FB com as mesmas ações JBS por apenas R$ 4,9 bilhões, como mostrado na Figura 5 e na Figura 6, demonstram, quando vistas em conjunto, a mais absoluta falta de lógica negocial. Em vez de formalizarem conforme o que haviam divulgado ao público pela primeira vez, ou seja, com o fundo integralizando as suas ações Bertin no capital da FB, os grupos optaram por uma estruturação societária que deu a aparência de que o fundo teria recebido ações da JBS por R$ 1,8 bilhão e, no mesmo instante, o FIP teria incorrido num ganho de R$ 3,1 bilhões ao integralizálas no capital da controladora da JBS por R$ 4,9 bilhões. 70. Não foi apenas ao público em geral que se estava desinformando, mas também ao Fisco. Já é bastante significativo que o Acordo de Associação vedasse a entrada dos ex controladores da Bertin no capital da JBS, mas ainda assim eles tenham procedido, ainda que só formalmente, a despeito de nunca terem sido registrados como tal. Como se isso não bastasse, os próprios excontroladores do fundo determinaram que o Bertin FIP deveria, num primeiro momento (de 26/11/2009 a 23/12/2009), participar da administração da Bertin e apenas e tão Fl. 2149DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.150 19 somente investir em títulos de emissão da Bertin (doc. 41). Realizada a incorporação de ações, contudo, o Regulamento do fundo foi modificado (23/12/2009, doc. 41), de maneira que o conceito de "portfólio alvo" foi alterado para determinar que o fundo só poderia investir em papéis da FB Participações. Em nenhuma linha ou sequer nas entrelinhas, falavase em participar, ainda que remota ou instantaneamente, do capital da JBS. O artigo 2º do Regulamento, modificado em 23/12/2009 e até hoje intacto, define o portfólio alvo do Bertin FIP: “Portfólio Alvo É o conjunto dos títulos e valores mobiliários de emissão da FB Participações S.A sediada na Cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2391, segundo andar, conjunto 22, sala 21, bairro Jardim Paulistano, sob o número de CNPJ/MF 11.309.502/000115 ("Companhia"), representado por ações, debêntures conversíveis em ações ou bônus de subscrição ou outros títulos e valores mobiliários conversíveis ou permutáveis em ações de emissão da Companhia, nos termos previstos no parágrafo primeiro do artigo 3°” (grifos da fiscalização). 71. O caput do artigo 3° do Regulamento diz que "o FUNDO tem por finalidade a obtenção de ganhos de capital mediante a valorização dos ativos que compõem a sua carteira e, em menor proporção, pelo recebimento de rendimentos de suas aplicações". O parágrafo primeiro do artigo 3° dispõe que "O FUNDO investirá no Portfólio Alvo, participando do processo decisório da Companhia..." (grifos da fiscalização). A companhia, como se viu, é a FB Participações. 72. Observase que o Bertin FIP nasceu com o intuito de investir no que chamou de "portfólio alvo", que, a não ser pelo breve período de 26/11 a 23/12/2009, quando ainda possuía as ações da Bertin, deveria se compor de "títulos e valores mobiliários de emissão da FB Participações". Mais: o fundo "investirá no Portfólio Alvo". Por que o fundo, um mês depois da sua criação, formalizou a sua entrada na JBS, por meio da incorporação de ações da Bertin, quando teria recebido ações JBS por R$ 8,8 bilhões, integralizadas na FB por R$ 4,9 bilhões no mesmo instante? Se o fundo "tem por finalidade a obtenção de ganhos de capital mediante a valorização dos ativos que compõem a sua carteira", como explicitado pelo caput do artigo 3° do Regulamento, como explicar que o fundo premeditadamente perdeu a fabulosa quantia de R$ 3,9 bilhões? 73. Apenas para não deixar qualquer dúvida de que o Regulamento foi completamente ignorado, o seu artigo 33 dispõe como se deveria compor a carteira do fundo: “Artigo 33 O FUNDO investirá seus recursos de acordo com a política de investimento delineada no capítulo III, observando ainda as seguintes limitações: I No mínimo 67% da carteira do FUNDO deverá ser investida em valores mobiliários correspondentes ao seu Portfólio Alvo; (... )”. 74. A incorporação de ações por meio da qual o fundo teria recebido ações da JBS não seguiu política de investimento nenhuma, nem se obedeceu ao dispositivo de investir em títulos do portfólio alvo. A incorporação de ações afrontou não apenas o bom senso e a lógica econômica, mas também infringiu o Regulamento do FIP e o Acordo de Acionistas, que deixam claríssimo que os excontroladores da Bertin só poderiam investir na FB. Jamais poderiam ter participado de uma operação que fosse contrária a todos os documentos que dão publicidade aos atos negociais dos dois grupos, em especial quando, contra toda e qualquer razoabilidade, mas em linha com a formalização, o fundo sofresse uma perda tão expressiva quanto inexplicável. Fl. 2150DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.151 20 75. Os grupos deixaram de informar a essência das operações e optaram por uma formalização tortuosa e sem sentido econômico. A sequência da formalização (“emissão de ações JBS a R$ 8,8 bi para o FIP” à “integralização do FIP no capital da FB com as ações JBS por R$ 4,9 bi”) revela que o FIP teria auferido um ganho de R$ 7 bilhões e uma perda imediata de R$ 3,9 bilhões, ambos (ganho e perda) inexplicáveis e sem razão plausível. A ausência de racionalidade das operações, sem qualquer fundamento econômico minimamente defensável, deixa às claras que a sequência de operações acima tentou retratar algo que não aconteceu de fato. A essência da unificação está inserta no Acordo de Acionistas, no Fato Relevante publicado em 16/09/2009, na ausência de registro do fundo como participante do capital da JBS e no Regulamento do FIP. A formalização foi contrária a tudo isso, tornando os atos desprovidos de racionalidade. 76. Como visto à exaustão, nos moldes em que se deram as operações, é inaceitável que o ganho gigantesco fosse parcial e instantaneamente "corroído" pela perda também descomunal, no mesmo instante, com o mesmo ativo e numa negociação casada entre o fundo, a JBS e a controladora da JBS. Podese afirmar com total segurança que operações que envolvem tantos bilhões não foram pactuadas de um dia para outro. A integralização do FIP no capital da FB já estava prevista de ser realizada por R$ 4,9 bilhões, como demonstra, inclusive, o Regulamento do fundo e a omissão do registro do fundo no órgão de registro. O fundo foi concebido para participar da FB e só da FB, desde sempre (com exceção dos dias em que se aguardava a entrada do FIP na FB). Ninguém minimamente bemintencionado pode imaginar que a controladora da JBS (FB) não sabia que as ações emitidas num instante pela sua controlada (JBS) por R$ 8,8 bilhões seriam integralizadas no seu capital (da controladora), no mesmo instante, por R$ 4,9 bilhões. O FIP estava obrigado contratualmente a entregar suas ações JBS para a FB, sem sequer figurar em qualquer registro como sendo, ainda que instantaneamente, acionista da JBS. É impossível acreditar que o valor não estivesse devidamente estipulado, a saber, o valor de R$ 4,9 bilhões. 77. Desde o princípio, como aliás revelado já no Acordo de Associação, os ex controladores da Bertin tinham ajustado que seriam sócios da FB, jamais participariam diretamente do capital da JBS. É inequívoco também o fato de que a integralização do fundo no capital da FB foi realizada por R$ 4,9 bilhões e que isso, natural e evidentemente, já estava previsto e acertado entre todas as partes. Como corolário de tudo o que até aqui se expôs, é forçoso concluir que as ações da JBS nunca integraram o ativo do fundo, como reforçado pela contabilidade e o Regulamento do próprio FIP. A formalização adotada resultaria, economicamente, no ganho de R$ 7 bilhões e na perda de R$ 3,9 bilhões. Essa linha absurda, contudo, só existiria se admitíssemos uma formalização deformada e desprovida de qualquer lógica, como a adotada pelas partes. 78. A aparente (e essencialmente inexistente) participação dos ex controladores da Bertin no capital da JBS, conduzida por meio de uma incorporação de ações artificiosa, trouxe como consequência o mascaramento de um ganho tributável que deveria ter se materializado na FB. Como se verá na seqüência, o que foi reconhecido na FB, em virtude da formalização tortuosa implementada, foi outro tipo de ganho que seria, se legítimo fosse, isento de imposto de renda. DOS EFEITOS, NA FB, DA EMISSÃO DE AÇÕES DA JBS E DA INTEGRALIZAÇÃO NA FB FEITA PELO FIP COM ESSAS MESMAS AÇÕES 79. A pseudoentrada dos excontroladores da Bertin no capital da JBS em decorrência da incorporação das ações da Bertin causou reflexos contábeis e tributários na FB. Como se viu, a FB foi criada (23/12/2009) com o aporte dos então controladores da JBS Fl. 2151DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.152 21 com as suas ações da JBS. Neste momento, a FB passou a controlar 51,7% do capital da JBS (parágrafo 5). Em valores absolutos, a FB passou a deter um investimento de R$ 2.514.005.679 na JBS, cujo PL era de R$ 4.863.078.133 (doc. 25). 80. Em 29/12/2009, a JBS realiza a AGE que aprova a incorporação de ações da Bertin. Em virtude disso, a JBS emite 929.392.550 novas ações, subscritas pela FB (679.182.067 ações a R$ 8.760.571.216) e pela BNDESPAR (250.210.483 ações a R$ 3.227.391.980) pelo valor de total de R$ 11.987.963.196. 81. Após a emissão das novas ações, a participação da FB na JBS passou a ser de 31% do "novo" PL da JBS (R$ 16.851.041.329), ou seja, o investimento da FB na JBS aumentou de R$ 2.514.005.679 para R$ 5.226.765.327 em decorrência da aplicação do método da equivalência patrimonial. A diferença entre a participação antes e depois da incorporação de ações (R$ 5.226.765.327 R$ 2.514.005.679) foi o ganho por variação percentual reconhecido pela FB (R$ 2.712.759.648). Ainda foi feito um ajuste por conta de uma diferença entre os PLs utilizados para fins de cálculo de variação percentual que elevou o ganho registrado pela FB para R$ 2.726.469.042 (doc. 25). 82. Como se vê, a participação da FB (e dos demais acionistas) no capital da JBS foi diluída pela entrada do Bertin FIP e da BNDESPAR no capital da sociedade, que passaram a participar com 29,2% e 18,8%, respectivamente, da JBS. No mesmo instante, porém, o Bertin FIP integraliza essas ações (recebidas por R$ 8.760.571.216 e que nem foram registradas como sendo do fundo) por R$ 4.949.046.230 no capital da FB, numa operação desprovida de qualquer lógica negocial, por tudo o que até aqui se expôs. A diluição da FB, pois, foi apenas instantânea, pois a integralização do FIP no capital da holding restituiu à FB o controle da JBS, ou melhor, aumentou ainda mais o seu percentual de controle, já que antes da incorporação de ações a FB detinha 51,7% do capital da JBS e passou a deter, após a incorporação, 60,25%. 83. Do ponto de vista tributário, o ganho por variação percentual não compõe o lucro real, como disposto pelo artigo 428 do RIR/99. 84. É apropriado ressaltar a natureza do ganho registrado pela FB. Quando a JBS incorporou as ações da Bertin, a JBS passou formalmente a ser a única acionista da "incorporada". Por seu turno, nos termos do §1o do artigo 252 da Lei das S.A., uma vez aprovada a incorporação de ações, a assembléia geral da companhia incorporadora deverá autorizar o aumento de capital, a ser realizado com as ações incorporadas. Assim, o aumento de capital da JBS decorreu da incorporação das ações da Bertin. Esse aumento se deu mediante a emissão de novas ações que foram subscritas pela diretoria da companhia incorporada e deveriam ser entregues aos acionistas da companhia cujas ações foram incorporadas (Bertin FIP e BNDESPAR). Vale dizer que a JBS, no momento da incorporação de ações, passaria a ter novos acionistas (Bertin FIP e BNDESPAR), que integralizaram com as ações da Bertin as novas ações JBS a eles emitidas. Tal subscrição, como se viu, se deu por cerca de R$ 12 bilhões. 85. O ganho por variação percentual contabilizado na FB teria se originado, consequentemente, da entrada de novos acionistas no capital da JBS. A FB detinha, antes da incorporação de ações da Bertin, uma participação de 51,7% na JBS, cujo PL era de R$ 4,9 bilhões. Imediatamente depois, a participação da FB no capital da JBS caiu para 31%, mas sobre um PL agora de R$ 16,9 bilhões (doc. 7). No entanto, o que efetivamente se viu foi que jamais houve a intenção de que os excontroladores da Bertin fizessem parte do capital da JBS. Dito de outra forma, o ganho por variação percentual registrado pela FB é inadmissível, visto que ele nada mais foi do que um reflexo de uma "entrada" de sócios que nunca foram nem sequer cogitados de sêlo. O ganho por variação percentual registrado pela FB, portanto, decorreu de uma formalização dissociada da realidade dos fatos. Fl. 2152DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.153 22 86. A natureza da relação entre FB, Bertin FIP e JBS S.A. foi outra, diferente da formalizada pelos dois grupos. Em momento algum, os conglomerados se organizaram de maneira a respeitar o instituto da incorporação de ações realizada, pois não se cogitou, desde a primeira hora, que os excontroladores da Bertin fizessem parte do capital da JBS (como, aliás, corrobora a ausência de registro, pelo escriturador, de que o fundo seria, ainda que momentaneamente, acionista da JBS). E foi exatamente por isso que aqui se apontam o dissonante ganho por variação percentual registrado pela FB e a absoluta falta de lógica na operação em que o FIP entregou ações que valiam R$ 8,8 bilhões por R$ 4,9 bilhões. A falta de lógica de tudo o que foi feito só evidencia que as operações analisadas, nos moldes em que foram formalizadas, não podem ter, de fato, ocorrido. A formalização teve o intuito de transformar um ganho tributável em ganho isento de tributação. DA ESSÊNCIA DA OPERAÇÃO 87. A completa falta de razoabilidade na operação em que o Bertin FIP integraliza por R$ 4,9 bilhões um ativo "adquirido" no mesmo segundo por R$ 8,8 bilhões revela que a realidade dos fatos é outra. O ganho por variação percentual originado da "entrada" de um novo acionista que nunca entrou, também. 88. A incorporação de ações retratada pela Figura 5 indica que os grupos econômicos, pelo menos no aspecto formal, desejavam que a Bertin se tornasse subsidiária integral da JBS S.A. Assim, a decorrência da incorporação de ações da Bertin é que ela passaria a ter como único acionista a JBS, sociedade incorporadora das ações. 89. A incorporação de ações é regida pelo art. 252 da Lei das S.A. 90. Pela incorporação de ações, é estabelecida uma relação entre duas sociedades, a incorporadora e aquela que teve as ações incorporadas. É condição sine qua non que haja a convergência de vontades entre as duas companhias, como disposto nos §§1º e 2º do artigo 252 da Lei das S.A. 91. Mas que convergência houve se apenas dois dias depois da incorporação de ações a Bertin S.A. foi efetivamente incorporada pela JBS S.A.? A intenção dos excontroladores das duas companhias era que a Bertin desaparecesse, não que ficasse como subsidiária integral da JBS. 92. A única vontade que se pode constatar é a dos controladores das duas empresas, afinal o lapso entre a incorporação de ações (vontade das sociedades) e a incorporação (vontade dos controladores de ambas) propriamente dita foi de apenas dois dias. O fato de ambas terem participado formalmente da incorporação de ações não significa que havia, de fato, uma vontade de que a Bertin se tornasse subsidiária integral da JBS. Os acionistas controladores de ambas já tinham evidentemente deliberado que a Bertin seria incorporada pela JBS, ou seja, ficou valendo a vontade dos controladores das duas sociedades. Além disso, os controladores de ambas já haviam concordado que o Bertin FIP jamais participaria do capital da JBS. 93. A vontade do FIP (controladora da Bertin) e da FB (controladora da JBS), materializada na exigência contratual de que o fundo deveria irrevogável e imediatamente integralizar as suas ações JBS no capital da FB, sem que o fundo figurasse em quaisquer registros como acionista da JBS, além do disposto no Regulamento do fundo, era de que o FIP deveria participar da holding. A integração societária estava prevista desde sempre de ocorrer na "Nova Holding". Não havia sentido em a JBS emitir ações para o FIP já sabendo que tais ações iriam ser imediatamente integralizadas na controladora da JBS, por conta de uma vedação contratual e regulamentar. Mesmo que a JBS tivesse incorporado diretamente a Bertin, ainda assim tal operação Fl. 2153DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.154 23 seria desprovida de essência, pois o FIP, igualmente à hipótese da incorporação de ações, receberia novas ações emitidas pela JBS. E, se os excontroladores da JBS não admitiam que os ex controladores da Bertin participassem diretamente do capital da JBS, por que a JBS emitiria novas ações ao FIP, que, além disso, tinha um regulamento que dispunha que o portfólio em que investiria deveria comporse tão somente de ações da FB? Fosse feita a incorporação de ações ou a incorporação da Bertin propriamente dita, o FIP Bertin nunca esteve sujeito a um conjunto de direitos e obrigações que lhe outorgasse o status de acionista da JBS S.A. Nem nunca se previu que estaria. Muito pelo contrário. 94. O problema não foi terse formalizado a incorporação de ações em lugar da incorporação da Bertin, que foi o que essencialmente existiu. O problema é que o FIP foi formalizado como destinatário das novas ações emitidas pela JBS quando não o poderia ser, como deixou evidente a AGE de 29/12/2009 da JBS, que determinava que o escriturador das ações emitidas pela companhia registrasse em nome da FB, sem deixar qualquer margem de dúvida de que essas ações jamais deveriam figurar como propriedade do Bertin FIP (parágrafo 68). 95. A relação verdadeira entre acionista e sociedade foi estabelecida entre o FIP e a FB. As ações da JBS recebidas pelo fundo nem mesmo foram contabilizadas por ele. Em hipótese alguma foi conferida ao fundo a condição de acionista da JBS, até porque, contratualmente, essa hipótese foi explicitamente afastada. O fundo nunca foi proprietário das ações, pois nem sequer poderia alienálas a outro que não a FB. Não há propriedade de algo de que não se pode livremente dispor ou que jamais esteve sob sua propriedade ou mesmo posse. Aliás, é bom que se diga que, se o FIP tivesse alguma chance de alienar as ações JBS, não o teria feito à FB. Já que elas valiam R$ 8,8 bilhões, por que alienálas para alguém que se dispôs a pagar apenas R$ 4,9 bilhões? 96. É oportuno mostrar a posição acionária (formal) na JBS imediatamente antes e imediatamente depois da incorporação de ações da Bertin pela JBS (doc. 25): 97. A tabela acima lista os formais detentores de ações ordinárias da JBS nos instantes anterior e posterior da incorporação de ações da Bertin. Vêse que a FB detinha cerca de 51,7% da JBS antes da incorporação de ações da Bertin, passando a deter cerca de 31% imediatamente após a incorporação de ações. 98. No mesmo momento, a participação detida pelo Bertin FIP é integralizada no capital da FB, de forma que a FB passou a deter cerca de 60,25% do capital da JBS. O aumento de participação ocorreu porque o FIP incondicionalmente repassou suas ações na JBS para a FB. Em essência, a JBS emitiu novas ações para a sua controladora, a FB. A contrapartida dada pela FB será vista adiante. Fl. 2154DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.155 24 99. Num único instante, a FB deteve 51,7% da JBS, passou a deter 31% e finalmente ficou com 60,25% de participação. Tudo isso no mesmo momento e formalizado como se a JBS tivesse emitido ações a R$ 8,8 bilhões para o FIP, que as integralizou na FB por R$ 4,9 bilhões. Em resumo, a participação de 60,25% detida pela FB na JBS pode ser decomposta, de acordo com a formalização, em três parcelas: (i) constituição da holding mediante a integralização, em 23/12/2009, das participações detidas por J&F e ZMF na JBS, por cerca de R$ 2,5 bilhões; (ii) novas ações da JBS são integralizadas no capital da holding por R$ 4,9 bilhões; por fim, (iii) ganho por variação percentual de cerca de R$ 2,7 bilhões em função da "entrada" do "novo sócio" (Bertin FIP). A soma dessas três parcelas (R$ 10,1 bilhões) representa 60,25% do PL da JBS em 31/12/2009, que era de R$ 16,85 bilhões (doc. 25). 100. A entrada formal e fictícia dos excontroladores da Bertin no capital da JBS torna inválido, por conseguinte, o ganho por variação percentual da FB. A isso se alia a estrondosa perda de quase R$ 4 bilhões pelo fundo, algo inaceitável fora dos moldes ilogicamente formalizados. 101. A união entre os grupos só faz sentido se olhada por outro ângulo. Os pressupostos em que a unificação entre JBS e Bertin repousou são os seguintes: (i) os ex controladores da Bertin deveriam ser sócios da FB, jamais da JBS; (ii) a entrada dos ex controladores da Bertin no capital da FB seria realizada por R$ 4,9 bilhões, e (iii) as ações da Bertin seriam incorporadas pela JBS por cerca de R$ 12 bilhões (ou, tanto faz, a Bertin seria incorporada pela JBS, que emitiria ações por cerca de R$ 12 bilhões aos acionistas da incorporada). 102. O que não pode fazer parte dos pressupostos é o fato de os excontroladores da Bertin incorrerem em um ganho de R$ 7 bilhões, nem em uma perda instantânea de quase R$ 4 bilhões, nem o fato de a FB registrar um ganho por variação percentual decorrente de uma entrada de sócios que nunca foram cogitados de entrar no capital da JBS. 103. A formalização tortuosamente realizada dos três pressupostos tornou a visão global das operações desprovida de lógica econômica. Por isso, para que façam sentido, esses pressupostos devem obedecer a uma ordem que torne aceitável, do ponto de vista econômico e tributário, o resultado pretendido pelos grupos. O primeiro Fato Relevante publicado pela JBS (parágrafo 2) divulgava, nos termos do Acordo de Associação firmado, que "os acionistas controladores da Bertin...concordaram em contribuir para a Nova Holding ações representativas de 73,1% do capital da Bertin. A Nova Holding, portanto, passará a ser acionista controladora tanto da Bertin como da JBS". 104. O Bertin FIP contabilizou a sua entrada na FB exatamente como divulgado pelo fato relevante, ou seja, integralizou por R$ 4,9 bilhões as ações Bertin registradas na sua contabilidade por R$ 1,8 bilhão. Relembrese que, antes da unificação, o FIP detinha 73% da Bertin, enquanto a FB participava com 51,7% do capital da JBS. Esquematicamente, pois, assim ficou a verdadeira configuração dos dois grupos depois da integralização que essencialmente o FIP fez na FB: Fl. 2155DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.156 25 105. A essência da unificação entre os dois grupos se deu na FB. Primeiramente, os exacionistas da JBS integralizam na holding suas participações na JBS. Pouco depois, como dispõe o Regulamento do FIP que prevê que o fundo só deve investir seus recursos em títulos emitidos pela FB , os excontroladores da Bertin integralizam na FB a sua participação na Bertin por R$ 4,9 bilhões. Não faz qualquer sentido imaginar que os excontroladores da Bertin teriam recebido R$ 8,8 bilhões em ações da JBS, que no mesmo instante seriam integralizadas por R$ 4,9 bilhões na controladora da JBS. O que faz sentido é que os excontroladores da Bertin receberam R$ 4,9 bilhões em ações da FB pela parte na Bertin que eles contabilizavam por R$ 1,8 bilhão. Daí o ganho registrado pelo FIP, de R$ 3,1 bilhões. 106. Uma vez efetivada a unificação dos grupos na FB, o passo seguinte, pela lógica da essência da operação, é a incorporação das ações (ou incorporação) da Bertin pela JBS, que emite novas ações pelo valor total de R$ 11,987 bilhões aos acionistas da Bertin. Como ilustrado na Figura 9, nessa configuração, diferentemente da formalização adotada, os acionistas da Bertin são a BNDESPAR e a FB. Na proporção da sua participação na Bertin, a FB recebe R$ 8,8 bilhões em ações da JBS. Ou seja, a participação na Bertin contabilizada pela FB por R$ 4,9 bilhões, é integralizada no capital da JBS por R$ 8,8 bilhões, em virtude da incorporação das ações (ou incorporação) da Bertin pela JBS. 107. É evidente que as novas ações formalmente emitidas pela JBS para o Bertin FIP tinham como destino final a FB, desde o instante da emissão que coincide com o momento da integralização delas no capital da FB , como contratualmente disposto e sacramentado no Regulamento do fundo. A "entrada" do FIP no capital da JBS, de fato, nunca ocorreu. O que houve foi a emissão das 679.182.067 ações por R$ 8.760.571.216 para a FB, integralizadas com as ações da Bertin por R$ 4.949.046.230. 108. Só com essa lógica é possível aceitar a emissão das ações da JBS por quase R$ 12 bilhões ou, dito alternativamente, só assim é possível conceber que a JBS pagou pela Bertin quase R$ 12 bilhões, como registra a ata da AGE de 29/12/2009 da JBS (parágrafos 26 e 27). O que é inconcebível é imaginar que a JBS teria pagado R$ 8,8 bilhões em ações ao controlador da Bertin, mas este, numa hipótese absurda, teria auferido um ganho estrondoso de R$ 7 bilhões e alienado essas mesmas ações com uma perda instantânea e também estrondosa de R$ 3,9 bilhões. 109. A entrega imediata e irrevogável à FB das ações JBS recebidas pelo Bertin FIP na incorporação de ações a ponto de o fundo "outorgar mandato irrevogável e irretratável com instruções para que o agente escriturador das ações da Companhia [JBS] registrasse em nome da Fl. 2156DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.157 26 FB Participações S.A. a titularidade de todas as ações de emissão da Companhia [JBS] [...]" (parágrafo 34) é uma clara emissão de novas ações da controlada (JBS) para a sua controladora (FB), sem qualquer interveniência do fundo. A contrapartida dada pela FB ao receber essas novas ações foi a participação de 73% da Bertin, recebida pela holding na integralização feita pelo FIP. 110. Assim, os grupos passam a apresentar a seguinte configuração: 111. Pela lógica aqui defendida, baseada no Acordo de Acionistas, na determinação de que o registro das ações fosse feito em nome da FB e no Regulamento do Bertin FIP, a incorporação de ações existiu (ou melhor, em essência, o que houve foi a incorporação propriamente dita, porém isso não faz diferença para os efeitos tributários aqui apurados), mas, diversamente da formalização adotada pelos grupos, o acionista majoritário da incorporada foi a FB, não o Bertin FIP. A incorporadora e a incorporada continuam a JBS e a Bertin, respectivamente. 112. É o que mostra a Figura 10. As setas pontilhadas que "chegam" na JBS representam as ações Bertin cedidas pela FB e pela BNDESPAR em troca das novas ações emitidas pela JBS em virtude da incorporação de ações (ou da incorporação) da Bertin. As novas ações emitidas pela JBS estão representadas pelas setas cheias que "saem" da caixa correspondente à JBS. 113. As ações Bertin (em pontilhado na caixa representativa da FB) deixam a holding pelo valor de R$ 4,9 bilhões, enquanto as novas ações JBS (retângulo cheio) entram na FB por R$ 8,8 bilhões. Neste momento, nasce na FB o ganho tributável que ficou "invisível" pela formalização descasada da realidade implementada pelos grupos. A subscrição de capital realizada pela FB com as ações da Bertin se deu pelo montante de R$ 8,8 bilhões, tendose em mente que, pela essência econômica da operação, essas ações Bertin foram subscritas pelo FIP no capital da FB por R$ 4,9 bilhões. A diferença entre o valor pelo qual as ações Bertin foram integralizadas no Fl. 2157DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.158 27 capital da JBS e o valor pelo qual elas estavam contabilizadas na FB é precisamente o ganho obtido pela holding, que, no caso, foi de R$ 3,9 bilhões (R$ 8,8 bilhões R$ 4,9 bilhões). 114. Cumpre esclarecer outra característica do ganho obtido pela FB. Tratase de ganho na alienação das ações da Bertin integrantes do ativo circulante da holding. É evidente que a intenção da FB nunca foi de manter permanentemente as ações da Bertin. Elas foram recebidas e imediatamente passadas para a JBS. Elas jamais figuraram no ativo não circulante (antes chamado ativo permanente) da FB. Em outras palavras, jamais a Bertin foi, pela ótica da FB, um investimento permanente em controlada ou coligada. Esse ponto é relevante para justificar a incidência do PIS e da COFINS sobre a receita de alienação dessas ações Bertin, como se verá adiante. 115. Não se pretende aqui subtrair ao particular o seu direito de autoorganização. Mas a forma adotada pelos dois grupos prescinde da mais básica lógica econômica e negocial, tornando inaceitáveis as conseqüências tributárias produzidas por esses atos. A conduta empregada por eles demonstrouse contaminada por meios artificiosos destinados a contornar a incidência da norma tributária. 116. Cumpre observar que, nas suas respostas, o fundo jamais admitiu a ocorrência de um ganho de R$ 7 bilhões nem uma perda de R$ 3,9 bilhões. Pela formalização dos atos, no entanto, seria indiscutível que houve esse ganho e essa perda. A formalização, no entanto, demonstrouse inteiramente desprovida de lógica ou substância econômica e, ainda, contrária ao que dispunha o Acordo de Acionistas e o Regulamento do fundo. O que conduz à conclusão de que, nos moldes em que aqui se admite a ocorrência dos atos, a inexistência daquele ganho e da perda só faz sentido se a subscrição do FIP no capital da FB tenha se dado mediante a entrega das ações Bertin por R$ 4,9 bilhões, não das ações JBS, como mostrado na Figura 10. 117. Pela essência da negociação, o Bertin FIP não fez parte do capital da JBS, nem houve um ganho de R$ 7 bilhões auferido pelo FIP, nem houve perda na integralização feita pelo fundo na FB, nem existiu na holding o ganho por variação percentual. É fato inequívoco que o ativo que desde sempre foi detido pelo Bertin FIP era uma participação na FB de R$ 4,9 bilhões. E, evidentemente, isso já estava previsto quando os atos foram formalizados (como demonstram as disposições do Regulamento do fundo). O ganho auferido pela FB foi, na verdade, um ganho tributável de R$ 3,9 bilhões decorrente de alienação das ações Bertin integrantes do seu ativo circulante que deixou de ser oferecido à tributação por conta de operações que intencionalmente visaram tão somente à economia tributária. DOS DISPOSITIVOS LEGAIS TRIBUTÁRIOS INFRINGIDOS E BASES DE CÁLCULO Do IRPJ e da CSLL 118. Viuse que o ganho por variação percentual registrado pela FB está em desacordo com a verdadeira natureza do ganho auferido pela holding. A Figura 10 ilustra que o ganho que deveria ter sido reconhecido pela FB foi consequência da incorporação de ações da Bertin pela JBS, cuja sistemática resultou na integralização das ações da Bertin, contabilizadas pela FB por R$ 4,9 bilhões, no capital da incorporadora (JBS) por um valor majorado em R$ 3,9 bilhões. 119. A incorporação de ações é uma operação regida societariamente pelo artigo 252 da Lei das S.A. (parágrafo 89). Ainda que parte da doutrina diferencie a incorporação de ações da subscrição de capital com bens, é inegável que, na incorporação de ações, haverá a subscrição de ações da sociedade incorporadora (JBS) com a totalidade das ações do capital social da Fl. 2158DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.159 28 companhia cujas ações serão incorporadas (Bertin). No caso de se considerar que o que foi feito foi a incorporação propriamente dita, o mesmo se aplica. 120. A subscrição de ações com bens gerará ganho quando eles forem integralizados por valor maior que o valor pelo qual estão contabilizados nos acionistas da sociedade "incorporada" (ou efetivamente incorporada). No caso, de acordo com a essência das operações, as ações Bertin deveriam estar contabilizadas por R$ 4.949.046.230 no ativo circulante da FB e foram integralizadas, em decorrência da incorporação de ações, por R$ 8.760.571.215 no capital da JBS em 29/12/2009, como disposto na AGE da JBS que deliberou pela aceitação da referida operação (parágrafos 26 e segs.). 121. Relativamente ao IRPJ, o ganho acima referido comporá o lucro operacional, como definido pelo artigo 277 do RIR/99, haja vista que as ações que deram causa ao ganho integrariam o ativo circulante da FB. Cumpre destacar que a FB tem como objeto social a "participação em outras sociedades, como sócia ou acionista (holdings) e administração de bens próprios“ (doc. 48), como informado no estatuto social da holding. 122. A modalidade de lucro tributável apurado pela FB é o lucro real, cujo cômputo inclui o tal ganho operacional obtido com as ações Bertin, como disposto no artigo 247 do RIR. 123. Idêntica conclusão quanto à inclusão desse ganho na determinação da base de cálculo da CSLL se infere do artigo 2º da Lei nº 7.689/88 (com redação dada pela Lei nº 8.034/90), bem assim do artigo 57 da Lei nº 8.981/95 (com redação dada pela Lei nº 9.065/95). 124. Não há dúvida, portanto, de que o ganho calculado pela diferença entre o valor integralizado (R$ 8,8 bilhões) pela FB na JBS com a participação na Bertin e o valor pelo qual essa participação deveria estar registrada na FB deve ser computado na apuração do IRPJ e da CSLL. 125. À época dos fatos sob análise (2009), portanto, o ganho auferido pela FB deveria ser imediatamente oferecido à tributação. Isso é corroborado pelo fato de uma lei anterior (Lei nº 10.637/2002), revogada no final de 2005, expressamente permitir o diferimento sobre o ganho decorrente de integralização de participação societária realizada por valor superior ao valor contábil da participação registrada na escrituração do subscritor. Se o ganho de capital da FB tivesse sido auferido na vigência do artigo 36 da referida lei (revogado pela Lei nº 11.196/2005), ele poderia ser diferido na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. 126. Com a revogação do artigo 36 da Lei nº 10.637/2002, em 2005, o ganho descrito no caput daquele artigo passou a ser imediatamente tributado no momento em que auferido (tal como já estabelecia o ordenamento antes da Lei nº 10.637/2002). O legislador revogou do nosso ordenamento jurídico a hipótese de diferimento da tributação do ganho auferido pela FB em 2009. Revogada a norma de diferimento, voltou a incidir a norma aplicável ao ganho em tela, até hoje vigente. 127. Apenas para efeito de argumentação, ainda que remotamente se assumisse que a participação detida pela FB na Bertin estivesse contabilizada no ativo permanente (o que aqui restou cabalmente afastado, como já antes se discorreu notadamente no parágrafo 114), ainda assim tal ganho seria tributado pelo IRPJ e pela CSLL, haja vista o disposto no artigo 418 do RIR/99, bem como por força do artigo 2º da Lei nº 7.689/88, respectivamente. Notese que nesta hipótese o argumento antes aduzido com a utilização da Lei nº 10.637/2002 restaria igualmente aplicável, uma vez que o referido artigo 36 não exigia que a participação societária estivesse contabilizada no ativo circulante ou no permanente. Fl. 2159DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.160 29 128. O valor exato do ganho na alienação das ações Bertin, auferido pela FB do anocalendário de 2009, a ser tributado de ofício é a diferença entre o valor das ações recebidas quando da integralização do Bertin FIP no capital da FB (R$ 4.949.046.230) e o valor dessas ações integralizadas pela FB no capital da JBS (R$ 8.760.571.215), como ilustrado pela Figura 10. O ganho operacional a ser tributado, portanto, é de R$ 3.811.524.985. Do PIS e da COFINS 129. No período em que foi auferido o ganho operacional, a fiscalizada, que apurava o lucro real, estava sujeita ao regime não cumulativo do PIS e da COFINS. Nessa modalidade, a base de cálculo das duas contribuições é o valor do faturamento, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil (artigo 1º, §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, e artigo 1°, §§ 1° e 2° da Lei nº 10.833/2003). 130. Dessa forma, a base de cálculo do PIS e da COFINS a ser tributada é a receita de alienação das ações Bertin, já discutida ao longo deste Termo, e que tem o valor de R$ 8.760.571.215. DA MULTA QUALIFICADA 131. A multa aplicável ao presente caso está prevista no artigo 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96 (com redação dada pela Lei nº 11.488/2007). 132. A majoração da multa em razão da qualificação já foi devidamente justificada ao longo deste Termo, mas ainda cabem alguns comentários. A comparação entre a formalização e a essência das operações traz à tona a insuspeita intenção por trás do planejamento tributário engendrado. É inaceitável imaginar que o FIP adquira um ativo por R$ 8,8 bilhões e o aliene, no mesmo instante, por R$ 4,9 bilhões. Seria admitir que alguém teve a intenção de perder, instantaneamente, a descomunal quantia de R$ 3,9 bilhões, em operações "casadas" entre o FIP e a JBS e entre o FIP e a FB, ou seja, em operações ocorridas no mesmo momento entre o fundo e a controladora da JBS (FB) e entre o fundo e a controlada da FB (JBS). 133. Por outro lado, é perfeitamente cabível a situação em que o FIP alienasse as ações da Bertin por R$ 4,9 bilhões à FB e esta, numa segunda alienação, obtivesse um lucro de R$ 3,9 bilhões. Afinal, é esperável que conglomerados como Bertin e JBS visem ao lucro. Nesse contexto, a seguinte questão poderia ser suscitada: por que, então, sendo possível obter o preço de R$ 8,8 bilhões pelas ações da Bertin numa alienação à JBS, o Bertin FIP as teria alienado por apenas R$ 4,9 à FB? 134. A resposta a essa pergunta só pode ser dada se o cenário em que a unificação da Bertin à JBS for revisitado. A Bertin estava passando por grandes dificuldades financeiras, devastada por prejuízos e dívidas vultosas. Segundo notícia do Valor Econômico de 20/07/2012, reproduzida pela AviSite, portal de notícias ligado ao agronegócio, o BNDES havia aportado uma quantia considerável na Bertin em 2008, mas o reforço de capital dado pelo banco estatal não evitou o colapso do frigorífico. A saída vislumbrada pelo BNDES teria vindo, segundo o site de notícias, por meio de "estímulos" para que a JBS incorporasse a Bertin. 135. Diante desse cenário, restavam poucas opções aos Bertin. O preço pago pelos donos da JBS aos exdonos da Bertin pelos 73% que eles detinham no frigorífico foi de R$ 4,9 bilhões. Esse foi o valor que ao final foi fechado desde que o "salvamento" da Bertin estava em curso, como demonstra a contabilidade do FIP. Não havia nem há a menor lógica em os Bertin aceitarem R$ 8,8 bilhões em ações da JBS e, na sequência, integralizálas no capital da Fl. 2160DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.161 30 controladora da JBS por R$ 4,9 bilhões. Como inclusive já comentado, o FIP nunca teve de fato a propriedade das ações JBS, do contrário não as teria alienado à FB, que se propôs a pagar apenas R$ 4,9 bilhões por elas. 136. O que ficou acordado também foi que o valor unitário da ação emitida pela JBS para incorporar as ações da Bertin foi de R$ 12,89870808 (parágrafo 27). Relembrese que couberam à BNDESPAR 250.210483 ações ON da JBS, enquanto ao Bertin FIP foram emitidas 679.182.067 ações JBS. Quando se multiplica o número de ações recebidas pelo FIP pelo valor unitário das ações chegase ao valor de R$ 8.760.571.215 a que o fundo fez jus. Se dividirmos o valor pelo qual essas ações foram integralizadas no capital da FB (R$ 4.949.046.230) pelo número de ações recebidas pelo FIP, chegamos ao valor de R$ 7,286774004 por ação. É aceitável entregar uma ação recebida num momento a R$ 12,89870808 pelo valor de R$ 7,286774004 no mesmo momento para a controladora da companhia que acabou de emitilas? Tratase, evidentemente, de uma pergunta retórica. 137. Só faz sentido o que aqui se afirma ser a essência da operação, ilustrada na Figura 10. As novas ações emitidas pela JBS ao preço unitário de R$ 12,89870808 foram subscritas pela BNDESPAR e pela FB, e não pelo Bertin FIP. Admitir a formalização adotada pelos grupos é admitir o total absurdo. Mesmo numa situação frágil como a que se encontrava a Bertin, a lógica imposta pela formalização é desprovida de sentido. 138. Importante esclarecer que não pretendese impor a forma pela qual uma estruturação societária devesse ser implementada. No entanto, a autonomia patrimonial não pode ultrapassar os limites impostos pela boafé intrínseca a qualquer negócio jurídico válido, como determina o Novo Código Civil (Lei nº 10.406/2002). 139. A forma estruturada para a unificação dos grupos Bertin e JBS foi abusivamente concebida. A comparação entre a forma e a essência mostra que houve um ajuste doloso entre a JBS, o Bertin FIP e a FB que visou ocultar um ganho de R$ 3,9 bilhões que deveria ter sido reconhecido pela FB. Sem a colaboração ativa de cada uma dessas partes, não seria possível obter um resultado como o obtido ao final. Todos os partícipes estavam cientes de que a integralização do fundo na holding seria feita pelo valor de R$ 4,9 bilhões. A JBS não poderia, portanto, emitir ações a R$ 8,8 bilhões para uma parte sabendo que tais ações seriam integralizadas no capital da sua controladora por um valor R$ 3,9 bilhões menor. A FB não poderia concordar em participar de um esquema em que já sabia que o subscritor das ações recémemitidas pela sua controlada iria integralizálas em seu capital por valor quase R$ 4 bilhões menor. E o FIP não poderia integralizar ações recebidas a R$ 8,8 bilhões por R$ 4,9 bilhões no mesmo instante se não fosse pela participação ativa da JBS e da FB. 140. Os mesmos resultados econômicos seriam obtidos se as operações seguissem o curso natural dos acontecimentos, mas os atos e negócios jurídicos implementados tiveram a única finalidade de obter vantagem tributária. 141. Houve clara e evidente discrepância entre o que se fez e a vontade declarada pelas partes no negócio jurídico celebrado. Os atos formalizados não corresponderam à verdadeira intenção dos contratantes, pois presente estava o intuito de iludir e ludibriar o Fisco. Houve intenção e ciência de todas as partes, pois incabível imaginar que a JBS e a sua controladora (FB) não soubessem que o Bertin FIP integralizaria no capital da FB, por apenas R$ 4,9 bilhões, as ações emitidas naquele instante pela JBS por R$ 8,8 bilhões. 142. A causa da ocultação estava voltada para a obtenção de um tratamento tributário benéfico à FB, que acabou passando a ter como acionistas os excontroladores da JBS e Fl. 2161DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.162 31 os excontroladores da Bertin (Bertin FIP). A economia fiscal não poderia ser obtida pelas vias normais, o que demonstra tratarse de atos antecipadamente deliberados pelas partes envolvidas. 143. O ajuste doloso entre FB, Bertin FIP e JBS para obter a vantagem tributária indevida está exaustivamente demonstrado. Resta averiguar o papel do administrador do Bertin FIP à época em que se deu toda a operação. Como informado, o então administrador do fundo era a Citibank Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. 144. Foi dito ao longo deste termo que a essência das operações de unificação entre JBS e Bertin foi indevidamente formalizada. O administrador do fundo sempre justificou que não houve o ganho de R$ 7 bilhões nem a perda de R$ 3,9 bilhões. No entanto, de acordo com a formalização, que, do ponto de vista lógico e econômico, é absurda, houve tal ganho e tal perda. 145. Pela formalização, o Bertin FIP teria em mãos um ativo de R$ 8,8 bilhões e decidira abrir mão de parte considerável desse valor numa integralização feita com esse mesmo ativo e no mesmo momento em que o recebera. Nenhum administrador de fundo aceitaria passivamente uma operação como essa. Tampouco nenhum cotista aceitaria trocar um ganho de R$ 7 bilhões por outro de R$ 3,1 bilhões num ativo recebido por R$ 8,8 bilhões e imediatamente depois alienado por R$ 4,9 bilhões. Ou melhor, um administrador e um cotista só aceitariam algo assim esdrúxulo se isso fosse apenas formal, não real. 146. A Citi DTVM era, de acordo com o artigo 6° do Regulamento do Bertin FIP, "responsável pela administração do FUNDO e gestão de sua carteira". Também extraído do regulamento do Bertin FIP, o artigo 7° dispõe sobre a administração do fundo: “Artigo 7° A Administradora deverá empregar, no exercício de suas funções, o cuidado que toda entidade profissional ativa e proba costuma empregar na administração de seus próprios negócios, devendo, ainda, servir com lealdade ao FUNDO. Respeitados os limites estabelecidos na regulamentação em vigor e neste Regulamento, o Administrador terá poderes para tomar todos os atos que se façam necessários à administração e operacionalização do Fundo, bem como, mas não se limitando, relacionados à aquisição e alienação dos Valores Mobiliários e dos Outros Ativos integrantes da carteira, bem como relacionados ao exercício de todos os direitos inerentes aos valores mobiliários e outros ativos integrantes da carteira, inclusive o de representar o Fundo em juízo ou fora dele, de eleger membros para cargos de administração da Companhia [FB], comparecer e votar em Assembléias gerais de acionistas da Companhia [FB] e eventuais alterações, assim como firmar contratos de compra e venda dos valores mobiliários, acordos de acionistas da Companhia [FB], acordos de investimento e/ou instrumentos de garantia, conforme o caso, observadas as limitações deste Regulamento e da regulamentação em vigor” (grifos da fiscalização). 147. O excerto do regulamento do Bertin FIP revela (como não poderia deixar de ser) que a Citibank DTVM exercia, na qualidade de administrador e gestor, todos os atos de administração e operacionalização do fundo, inclusive os relacionados à aquisição e à alienação de títulos integrantes da sua carteira. Não há como a Citibank DTVM se eximir do que acontecia. 148. A resposta da DTVM reproduzida no parágrafo 52 tenta explicar que a integralização com as ações Bertin no capital da FB teria se dado pelo seu valor patrimonial e esse seria o valor considerado na contabilização do fundo. Tenta dar sustentação à forma pela qual contabilizou dizendo que o registro contábil foi feito de acordo com laudo emitido por empresa especializada e entregue à DTVM. Deu a já comentada "justificativa" de que "teria havido uma avaliação por óticas distintas", uma aplicável à incorporação de ações (valor econômico), outra utilizada para fins de integralização no capital da FB e respectiva contabilização dessa última Fl. 2162DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.163 32 operação. Repete que o valor patrimonial em que se baseou a integralização e o registro contábil feito pelo FIP foi baseado em laudo entregue a ela, Citibank DTVM. 149. Ficase com a impressão de que a DTVM, uma vez que lhe foi entregue um laudo do valor patrimonial das ações JBS, poderia integralizálas por esse valor. Como se um simples laudo a eximisse da responsabilidade de realizar uma operação que, se verdadeira fosse, causaria ao fundo uma perda descomunal. Cabe questionar que tipo de cuidado, probidade e lealdade a administradora e gestora teve com o fundo que supostamente administra e gere. 150. É impossível crer que a DTVM não tivesse perfeita noção de que estava sendo partícipe de um esquema que procurou acobertar um ganho de quase R$ 4 bilhões. Sem a aquiescência do administrador e gestor do fundo, não seria possível implementar os atos formalizados. A Citibank DTVM só não foi à bancarrota em decorrência de um processo judicial impetrado pelo cotista porque este estava ao lado da DTVM e da JBS para promover algo cujo propósito foi ludibriar o Fisco. 151. Enfim, FB, JBS, Tinto Holding e Citibank DTVM, dolosa e conjuntamente, contribuíram para travestir um ganho tributável em ganho por variação percentual, que não é tributado, razão pela qual há que se fazer o presente lançamento de ofício com a qualificação da multa prevista pelo artigo 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96 (com redação dada pela Lei nº 11.488/2007) e a respectiva Representação Fiscal para Fins Penais (processo nº 16561.720105/201477) de todos os envolvidos. DOS LANÇAMENTOS Em face do acima exposto, foram efetuados os seguintes lançamentos, relativos ao anocalendário 2009 (valores em reais): Obs: · Multa de 150%; · Juros de mora calculados até 09/2014; · Fundamento legal constante dos respectivos Autos de Infração. Fl. 2163DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.164 33 DA IMPUGNAÇÃO Cientificada dos lançamentos em 01/10/2014 (AR de fl. 584), a contribuinte, por meio de seu representante e de seu advogado, regularmente constituído, apresentou, em 30/10/2014 (fl. 604), a impugnação de fls. 606/693, retificada (basicamente corrigindo numeração dos parágrafos) em 31/10/2014 (fl. 888) pela impugnação de fls. 889/976, alegando, em síntese, o seguinte: "DAS PRELIMINARES "Da nulidade do Auto de Infração A desconsideração da estrutura pela fiscalização implica erro de sujeito passivo Como será detalhado na presente impugnação, neste Auto de Infração a fiscalização pretende exigir valores de IRPJ e CSLL incidentes sobre um suposto ganho de capital auferido pela impugnante em operação ocorrida em dezembro de 2009, na qual o Grupo JBS adquiriu a participação detida pelo Grupo Bertin na Bertin S.A. ("Bertin'"). Para chegar a essa infundada conclusão, a fiscalização desconsiderou uma série de atos e operações legitimamente e legalmente praticadas no caso em exame. Mais especificamente, a fiscalização considerou que a incorporação das ações da Bertin pela JBS S.A. ("JBS"), realizada a valor econômico, teria ocorrido em momento no qual a maioria do capital da Bertin seria supostamente detida pela impugnante, e não pelo Bertin Fundo de Investimento em Participações ("Bertin FIP"). Assim, por assumir apenas de forma "intuitiva" que a participação detida pela impugnante no capital da Bertin teria sido recebida pelo valor de aproximadamente R$ 4,9 bilhões, mediante integralização realizada pelo Bertin FIP em aumento de seu capital, e que a incorporação de ações da Bertin pela JBS teria gerado emissão de novas ações da JBS em favor da impugnante por um valor de aproximadamente R$ 8,8 bilhões, a fiscalização simplesmente imputou à impugnante um ganho de capital tributável equivalente a aproximadamente R$ 3,9 bilhões (R$ 8,8 bilhões. () R$ 4,9 bilhões). Não bastasse o absurdo acima, a fiscalização ainda considerou que a receita supostamente auferida pela impugnante teria a natureza de receita decorrente de alienação de ações integrantes do seu ativo circulante, exigindo também valores de PIS e COFINS sobre a suposta "receita" de alienação dessas ações em favor da JBS. Conforme ficará claro ao longo da presente impugnação, os fatos levados em consideração pela fiscalização não correspondem à realidade praticada pela impugnante e nem aos negócios jurídicos firmados na transação em análise neste processo administrativo. Na realidade, houve sim a incorporação das ações da Bertin pela JBS. No entanto, essa incorporação de ações ocorreu em momento no qual a maioria do capital da Bertin (empresa cujas ações foram incorporadas) era detida pelo Bertin FIP, de forma que a JBS (incorporadora das ações da Bertin) emitiu novas ações em favor do Bertin FIP, e não em favor da Fl. 2164DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.165 34 impugnante. Destaquese que a impugnante nunca chegou a deter participação na Bertin. Na essência, o que a fiscalização pretende com o presente Auto de Infração é imputar um ganho de capital tributável à impugnante sob o pressuposto de que referido ganho de capital deveria ter sido reconhecido pelo Bertin FIP e não o foi. O parágrafo 7 do Termo de Verificação Fiscal, que acompanha o presente Auto de Infração, deixa muito claro essa pretensão da fiscalização: Na visão equivocada da fiscalização, o referido ganho de capital tributável, suposta "contrapartida ao reconhecimento do ágio" reconhecido pela JBS na transação, teria sido auferido pela própria impugnante, pois, ao contribuir as ações da JBS em aumento de capital da impugnante, o Bertin FIP teria reconhecido uma perda decorrente da contribuição de um ativo que valia R$ 8,8 bilhões pelo valor de R$ 4,9 bilhões. Confirase o parágrafo 11 do Termo de Verificação Fiscal. Ao que tudo indica, pelo simples fato de que a operação em análise gerou o reconhecimento de um ágio para a JBS, incorporadora (e adquirente) das ações da Bertin, a fiscalização pretende "alocar" um ganho de capital e uma receita tributável na operação para a impugnante, ganho de capital e receita tributável esta que, ainda que se pudesse ser admitida, só poderia obviamente ser auferida pelo vendedor das ações da Bertin (ou seja, o Bertin FIP). Não obstante essa pretensão, a fiscalização exige os tributos (IRPJ, CSLL, PIS e COFINS) de pessoa jurídica que não realizou os respectivos fatos geradores vislumbrados neste Auto de Infração. A impugnante nunca deteve ações da Bertin que poderiam ter sido alienadas, transferidas ou contribuídas para o Grupo JBS. A impugnante nada mais era do que a pessoa jurídica que passaria a centralizar o investimento do Grupo JBS e do Grupo Bertin na maioria do capital social da JBS. A verdade é que se a fiscalização estava tão inconformada com a perda sofrida pelo Bertin FIP quando da contribuição das ações da JBS em aumento do capital da impugnante, ela deveria ter simplesmente desconsiderado essa perda experimentada pelo fundo, de forma que o ganho de capital efetivo experimentado pelo Bertin FIP não fosse de apenas R$ 3,1 bilhões, mas sim de R$ 7 bilhões (R$ 3,1 bilhões ( + ) R$ 3,9 bilhões). Ou seja, embora durante todo o Termo de Verificação Fiscal a fiscalização tenha demonstrado o seu inconformismo contra a perda de R$ 3,9 bilhões experimentada pelo Bertin FIP, ao invés de ela simplesmente desconsiderar referida perda e atribuir ao Bertin FIP verdadeiro vendedor da participação societária adquirida pela JBS o ganho de R$ 3,9 bilhões, ela simplesmente entendeu melhor imputar referido ganho de capital à impugnante. Nada mais absurdo. Portanto, neste caso, ainda que se pudesse cogitar da existência de um ganho de capital tributável nas transações, e de uma receita decorrente da alienação de ações integrantes de ativo circulante, conforme pretende a fiscalização, é claro que referido ganho de capital e receita tributável só poderia ser exigida do Bertin FIP, veículo de investimento que detinha a Fl. 2165DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.166 35 participação societária (ações da Bertin) adquirida pela JBS via operação de incorporação de ações realizada a valor econômico. Assim, este Auto de Infração seria nulo por ter sido lavrado contra sujeito passivo equivocado (impugnante), já que deveria ter sido lavrado contra o Grupo que alienou as ações à JBS na operação ocorrida em dezembro de 2009, qual seja, o Grupo Bertin. No presente caso, a fiscalização pretendia, na verdade, exigir os tributos do Grupo Bertin por conta da alienação das ações da Bertin, conforme se depreende do parágrafo 37 do Termo de Verificação Fiscal. Destaquese que o artigo 142 do CTN dispõe, sobre o lançamento tributário, que “Compete privativamente à autoridade administrativa ... identificar o sujeito passivo“ (grifo da impugnante), sendo, portanto, nulo o lançamento na hipótese de ser indicado suieito passivo diferente daquele que deve integrar a obrigação tributária. A posição exposta acima é também corroborada pela jurisprudência administrativa que reconhece a nulidade de lançamento de ofício lavrado contra sujeito passivo errado, conforme ementas às fls. 894/895. Portanto, no caso em análise, se o equivocado entendimento da fiscalização pudesse prevalecer, o que se admite apenas para argumentar, certo é que o lançamento de ofício lavrado conteria vício formal insanável, qual seja, erro na identificação do sujeito passivo e da matéria tributável. Nesse caso, o Auto de Infração deve ser declarado nulo e, como conseqüência, deve ser cancelado integralmente, inclusive com relação às suas penalidades. Da nulidade do Auto de Infração – Do erro na descrição dos fatos O artigo 10, do Decreto nº 70.235/72 estabelece que o Auto de Infração deverá conter, obrigatoriamente, a descrição dos fatos relacionados à infração tributária (inciso III). Ocorre que, como será demonstrado na presente impugnação, a fiscalização simplesmente se equivocou na análise dos fatos objeto do presente processo administrativo, tendo, inclusive, descrito os fatos de maneira errônea e confusa. Com base em mera "intuição", a fiscalização simplesmente inverteu os fatos objeto do presente processo administrativo. Isso porque, conforme atestam todos os documentos que suportam os negócios jurídicos aqui analisados, a estrutura da transação implementada para que a JBS adquirisse as ações da Bertin foi basicamente a seguinte: No 1º Passo, a maioria das ações da JBS foi contribuída em aumento de capital da impugnante. Portanto, o Grupo controlador da JBS passou a deter sua participação nessa sociedade de forma indireta, por meio da impugnante. No 2º Passo, que corresponde à aquisição das ações da Bertin pela JBS, as ações da Bertin foram incorporadas a valor econômico pela JBS. Como efeito dessa incorporação de ações, a Bertin se torna subsidiária integral da JBS e os antigos acionistas da Bertin (empresa cujas ações foram Fl. 2166DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.167 36 incorporadas) recebem em troca de sua antiga participação novas ações representantes do capital social da JBS. No 3º Passo, as ações da JBS recebidas pelos antigos acionistas da Bertin, por conta do 2º Passo descrito acima, foram contribuídas em aumento de capital da impugnante. Como efeito, a impugnante passa a deter participação adicional na JBS e os antigos acionistas da Bertin, acionistas estes que "alienaram" sua participação na Bertin à JBS, passam a exercer sua participação na JBS também mediante a impugnante. Os passos acima estão de acordo com os negócios jurídicos efetivamente realizados pelas partes e estão suportados pelos devidos documentos jurídicos. A estrutura acima estava embasada em razões empresariais legítimas e, além disso, foi claramente divulgada ao mercado por meio de Fatos Relevantes, conforme será esclarecido ao longo desta impugnação. Não obstante, ao lavrar o Auto de Infração ora impugnado, a fiscalização, por "intuição", simplesmente inverteu os passos descritos acima a fim de imputar um ganho de capital e uma receita tributável para a impugnante que simplesmente não existiu. No entendimento equivocado da fiscalização, os passos da transação em análise teriam sido basicamente os seguintes: No 1º Passo, a maioria das ações da JBS foi contribuída em aumento de capital da impugnante. Portanto, o Grupo controlador da JBS passou a deter sua participação nessa sociedade de forma indireta, por meio da impugnante. No 2º Passo, as ações que o Bertin FIP detinha na Bertin teriam sido contribuídas em aumento de capital da impugnante, pelo valor de aproximadamente R$ 4,9 bilhões. Interessante notar que, ainda que a fiscalização tenha invertido a estrutura da operação, ela continua a atribuir o valor de R$ 4,9 bilhões à participação que o Bertin FIP detinha na Bertin, o que não faz nenhum sentido, na medida em que esses R$ 4,9 bilhões correspondem ao valor de patrimônio líquido das ações da JBS que o Bertin FIP recebeu após a incorporação das ações da Bertin pela JBS. Ou seja, a fiscalização atribuiu o valor patrimonial das ações JBS às ações Bertin (o que já não faz qualquer sentido), sendo que essas ações JBS só seriam recebidas pelo Bertin FIP após a incorporação de ações da Bertin pela JBS, operação que, na "intuição" da fiscalização, só teria ocorrido após este 2º Passo. No 3º Passo, as ações da Bertin, já sob o suposto controle da impugnante, teriam sido incorporadas pela JBS a valor econômico. Como efeito dessa suposta incorporação de ações, a JBS teria emitido ações em favor da impugnante, o que teria gerado o ganho de capital e a receita tributável para a impugnante, tendo em vista que: (i) a impugnante teria auferido um ganho de capital equivalente ao valor aproximado de R$ 3,9 bilhões, decorrente do valor de custo de R$ 4,9 bilhões e o valor de "preço de aquisição" de R$ 8,8 bilhões pago pela JBS; e (ii) o "valor de alienação" de aproximadamente R$ 8,8 bilhões, por conta da integralização das ações Bertin em aumento de capital da JBS, configuraria uma receita decorrente de alienação de ações integrantes do ativo circulante da impugnante. Diante do exposto acima, é notório que a fiscalização descreveu os fatos de maneira completamente errônea, desconsiderando as operações tal como Fl. 2167DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.168 37 elas efetivamente ocorreram. Ainda pior, de forma confusa e sem sentido, a fiscalização pretende levar em consideração operações que nem poderiam ter ocorrido na realidade, principalmente quando atribuiu às ações da Bertin o mesmo valor patrimonial que só poderia ser atribuído às ações da JBS após a incorporação de ações. Além disso, ressaltese novamente, a fiscalização presume, por mera intuição, que a impugnante teria ações da Bertin no momento da incorporação de ações ocorrida entre JBS e Bertin. Ora, isso não faz qualquer sentido, na medida em que a impugnante nunca foi acionista da Bertin. Ainda sob outro aspecto, ao lavrar o Auto de Infração contra a impugnante, a fiscalização o faz de maneira incorreta, pois tributou variação patrimonial, e não suposta receita, que inexiste no presente caso. Conforme “Descrição dos Fatos” constante dos Autos de Infração, foram tributadas “OUTRAS RECEITAS omissão de ganho tributável” (IRPJ e CSLL) e “omissão de receita” (PIS e COFINS). Contudo, no Termo de Verificação Fiscal (parágrafo 118), ficou consignado que se tributou ganho por variação percentual registrado pela impugnante, que estaria em desacordo com o ganho auferido pela holding (a impugnante), decorrente da incorporação de ações da Bertin pela JBS. Assim, há um verdadeiro erro no lançamento fiscal, pois variação patrimonial não guarda identidade com outras receitas operacionais (em decorrência do objeto social da autuada) para fins de incidência tributária. Não houve na impugnante lucros decorrentes da sua atividade para considerálos tributáveis. Destaquese que o artigo 428 do RIR/99 (que tem como base legal o artigo 33 do Decretolei nº 1.598/77) estabelece a não inclusão na determinação do lucro real do acréscimo do valor do patrimônio líquido do investimento, decorrente de ganho ou perda de capital por variação na percentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada. Inclusive, esse foi o entendimento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em recente decisão sobre a matéria (processo n° 13855.002820/201015, Acórdão n° 1201.001.070, julgado em 26/08/2014, conforme excerto às fls. 901/902). Da mesma forma, não se pode falar em tributação de ganho na impugnante, pois, se houve alguma variação patrimonial, a mesmo ocorreu no Bertin FIP, e não na impugnante. Em face do exposto, temse que a descrição incorreta dos fatos objeto do Auto de Infração ora combatido deve ensejar a decretação de sua nulidade e cancelamento integral em razão do vício material apontado ou, no mínimo, vício formal, o que desde já requer a impugnante. Fl. 2168DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.169 38 Da impossibilidade de lançamento com base em meras presunções e intuições. Ainda como fruto da errônea desconsideração e inversão de toda a estrutura implementada para a realização da transação sob análise neste processo administrativo, tal como visto no item acima, o que mais chama atenção no presente caso é o fato de a fiscalização ter realizado o lançamento que consubstancia a exigência ora impugnada apenas com base na simples presunção de que as operações societárias não teriam sido realizadas da forma como divulgada ao mercado e retratada nos documentos jurídicos relevantes. Ocorre que é incontestável que as infrações de natureza tributária não podem ser baseadas simplesmente em presunções ou indícios, como pretende a fiscalização no presente caso, devendo os fatos e o nexo de causalidade entre a infração imputada e a conduta do sujeito passivo ser cabalmente demonstrados e comprovados pela autoridade fiscal, assegurando ao sujeito passivo o direito ao contraditório e à ampla defesa. No presente caso, a fiscalização simplesmente presumiu que a impugnante teria recebido a participação detida pelo Bertin FIP na Bertin que essa mesma participação teria sido posteriormente contribuída, a valor econômico, em aumento de capital da JBS (nesse sentido, observese o parágrafo 11 do Termo de Verificação Fiscal). Entretanto, conforme comprovado documentalmente e divulgado ao mercado, não foi nada disso que ocorreu. Cumpre descrever o item 11 do Termo de Verificação Fiscal: A presunção criada pela fiscalização afronta diretamente os princípios da legalidade, do contraditório e da ampla defesa assegurados pela Constituição Federal, bem como pelo artigo 59 do Decreto nº 70.235/72 e pelo artigo 2º da Lei nº 9.784/99, que rege de forma subsidiária o procedimento administrativo em âmbito federal. Ademais, em caso de dúvida quanto a fatos e à prática de infrações, a interpretação da legislação tributária deve ser feita favoravelmente ao contribuinte, nos termos do artigo 112 do CTN. A impugnante destaca que, mesmo em casos de omissão de receitas, a jurisprudência mais recente do CARF (vide ementas às fls. 904/905) é no sentido de que não é suficiente a existência de meras presunções das autoridades fiscais, devendo haver também outros elementos de prova da ocorrência do fato gerador tributário: A prova utilizada para embasar o Auto de Infração precisa ser suficiente e conclusiva, não podendo ser utilizados somente indícios para caracterizar infração, como feito pela fiscalização no presente caso. Nesse sentido, observase decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais (fl. 905), do TRF da 1ª Região (fl. 905) e da própria Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo (fl. 906). Portanto, o presente lançamento padece de vícios que implicam a necessidade de cancelamento integral da exigência nele consubstanciada, uma vez que foi realizado com base em uma mera presunção da fiscalização. Fl. 2169DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.170 39 DO AUTO DE INFRAÇÃO O presente Auto de Infração pretende exigir da impugnante valores supostamente devidos a título de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, acrescidos de multa agravada de 150% e juros de mora. Sob a premissa equivocada de que as operações levadas a efeito pelas partes envolvidas estariam desprovidas de qualquer lógica econômica, a fiscalização simplesmente desconsiderou a estrutura implementada e inverteu os passos da transação. Também "criou" uma operação que não existiu na realidade e nem poderia existir: a contribuição das ações da Bertin detidas pelo Bertin FIP em aumento de capital da impugnante. No entendimento da fiscalização, baseado em mera "intuição", a lógica da essência da operação levaria a acreditar que a incorporação das ações da Bertin pela JBS teria ocorrido em momento no qual os acionistas da Bertin seriam a impugnante (o que é um absurdo) e a BNDESPAR. Dessa forma, a participação detida pela impugnante na Bertin, que estava imaginariamente registrada na impugnante por R$ 4,9 bilhões, teria sido integralizada em aumento de capital da JBS por um valor de R$ 8,8 bilhões, o que teria gerado um ganho de capital tributável pelo IRPJ e pela CSLL na impugnante no valor de R$ 3,9 bilhões. Confirase o trecho conclusivo contido no parágrafo 113 do Termo de Verificação Fiscal. Como se não bastasse o absurdo acima, a fiscalização ainda pretende exigir da impugnante valores de PIS e COFINS sobre o valor de R$ 8,8 bilhões, que corresponde ao valor econômico das ações da JBS emitidas de forma imaginária em favor da impugnante como fruto da incorporação das ações da Bertin pela JBS. A exigência das contribuições sociais está baseada na premissa, também equivocada, de que as ações da Bertin que estavam imaginariamente registradas pela impugnante, antes da incorporação de ações, integravam o ativo circulante da sociedade, de forma que a sua "alienação" em favor da JBS teria configurado uma receita passível de tributação pelo PIS e pela COFINS. Confirase o parágrafo 114 do Termo de Verificação Fiscal. Por fim, com base no artigo 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96 (com redação dada pela Lei nº 11.488/2007), houve também aplicação de multa qualificada de 150%. No entendimento da fiscalização, a estrutura utilizada para a unificação dos Grupos JBS e Bertin teria sido abusivamente concebida, de forma que configuraria um ajuste doloso que visou apenas à obtenção de um tratamento tributário mais benéfico à impugnante. Como restará demonstrado na presente impugnação, a fiscalização equivocouse claramente em sua análise dos fatos discutidos no presente Auto de Infração e todas as suas alegações constantes do Termo de Verificação Fiscal são improcedentes, de forma que essa exigência fiscal deve ser integralmente cancelada, juntamente com as indevidas e excessivas penalidades impostas à impugnante. Fl. 2170DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.171 40 DOS FATOS DO HISTÓRICO DA TRANSAÇÃO A associação entre a JBS e a Bertin tornouse pública em 16/09/2009, conforme "Fato Relevante" anunciado pela JBS nesse dia (doc. nº 05), mesma data em que o Acordo de Associação foi assinado entre os dois Grupos (doc. nº 06). O controle das empresas envolvidas (JBS e Bertin), em momento anterior à operação analisada no presente processo administrativo, era o seguinte: A JBS já era uma companhia aberta, exclusivamente com ações ordinárias em negociação no Novo Mercado da BM&FBovespa. O ZMF Fundo de Investimento em Participações ("ZMF") e a J&F Participações S.A ("J&F") eram titulares, em conjunto, de 51,7% das ações de emissão da JBS e efetivamente exerciam controle da companhia. As quotas do ZMF e as ações da J&F, a seu turno, eram detidas pela Família Batista ("Controladores JBS" ou "Família Batista"). A Bertin era controlada pelo Bertin FIP, titular de 73,1% das ações de emissão da companhia. As cotas do Bertin FIP pertenciam à Bracol Holding Ltda. e à Heber Participações S.A., sociedades controladas pela Família Bertin ("Controladores Bertin" ou "Família Bertin"). A representação gráfica abaixo demonstra a estrutura societária relevante da JBS e da Bertin antes da associação: As duas empresas (JBS e Bertin) eram fortes concorrentes entre si, tendo em vista que a JBS era considerada a maior empresa de carne bovina do Brasil, enquanto que a Bertin era considerada a segunda maior no setor. A Bertin, no entranto, que se encontrava com dívidas vultosas. Tanto foi assim que, em 2008, o BNDES fez aporte de quantia considerável na empresa, o qual, no entanto, não era suficiente para evitar uma possível falência da Bertin. A alternativa encontrada foi justamente a associação da Bertin com a JBS, formalizada por meio do Acordo de Associação no qual as partes trataram das premissas e diretrizes para a união dos negócios das duas empresas. Fl. 2171DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.172 41 Ao final, a associação fez simplesmente com que a JBS se tornasse uma das maiores empresas de processamento de carnes do mundo. A operação de unificação entre a JBS e a Bertin, na sua essência, foi uma aquisição da Bertin pela JBS, conforme noticiam várias matérias divulgadas na imprensa (doc. n° 08). O que houve é que em contrapartida à entrega da participação detida na Bertin, os antigos acionistas da empresa incorporada (a Família Bertin e o BNDESPAR) receberiam ações de emissão da JBS, tal como usualmente ocorre em operações complexas que envolvem empresas de grande porte. Conforme negociado entre as partes, ficou estabelecido que a estrutura adotada para a associação dos grupos precisaria necessariamente resultar: na unificação das atividades operacionais das duas sociedades, que atuavam em ramos de atividade economicamente semelhantes ramo frigorífico; na concentração das participações em uma única sociedade holding (a própria impugnante), que concentraria as participações dos Controladores JBS e Controladores Bertin na entidade que passaria a combinar as atividades da JBS e da Bertin; na continuidade do exercício de controle da holding (a própria impugnante) pelos "Controladores de JBS" (Família Batista), de forma que a Família Bertin fosse apenas acionista minoritário da impugnante; e na definição da participação societária a ser detida por cada acionista controlador na sociedade holding (i.e. impugnante) com base na relação de substituição das ações das sociedades operacionais, apurada de forma justa com suporte nos estudos apresentados pelos Comitês Independentes contratados por cada uma das sociedades operacionais, evitando dessa forma uma discussão negocial entre os acionistas controladores e mitigando o risco de eventual questionamento por parte de acionistas minoritários. A esse respeito, é importante ter em mente que a JBS era companhia aberta, com ações negociadas na Bolsa de Valores e, portanto, deveria realizar a operação com a Bertin de forma a atender às melhores práticas de governança corporativa. Em Fato Relevante de 22/10/2009, a JBS declarou ao mercado que "diante da expressividade deste negócio e de forma a atender os mais elevados padrões de governança, entendem apropriado e recomendam que a determinação final da relação de substituição para fins de uma incorporação da Bertin na JBS, ou de uma incorporação de ações envolvendo a Bertin e a JBS, conforme estrutura que venha a ser adotada, deve seguir os procedimentos sugeridos no Parecer de Orientação CVM n° 35/08". Nos itens a seguir da presente impugnação, a impugnante passará a detalhar como a associação do Grupo JBS e Grupo Bertin efetivamente ocorreu. Fl. 2172DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.173 42 DA ASSOCIAÇÃO ENTRE O GRUPO JBS E O GRUPO BERTIN Da contribuição do controle da JBS para a FB Participações A impugnante foi constituída em 23/09/2009 pelo próprio Grupo JBS e tem como objeto social a participação em outras sociedades, como sócia ou acionista e administração de bens próprios. Em 23/12/2009, os Controladores da JBS contribuem em aumento de capital da impugnante todas as ações que detinham no capital da JBS, participação esta que foi avaliada, para fins da contribuição, pelo seu valor de patrimônio líquido contábil (aproximadamente R$ 2,47 bilhões). Esse aumento de capital foi aprovado em Assembléia Geral Extraordinária da impugnante (doc. n° 09). Após a contribuição do controle da JBS em aumento de capital da impugnante, a sociedade passou a deter 51,7% do capital social da JBS. Nesse momento, a estrutura societaria relevante para fins do presente processo poderia ser gráficamente representada da seguinte forma: Fl. 2173DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.174 43 Da incorporação das ações da Bertin pela JBS Em seguida, deuse início à operação de associação em si entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin. O primeiro passo propriamente dito foi a incorporação de ações da Bertin pela JBS, que foi aprovada conforme constou de Ata de Assembléia Geral Extraordinária da Bertin, realizada em 28/12/2009 (doc. nº 10), a qual atendeu aos termos estabelecidos pelo artigo 252 da Lei das S.A. A incorporação de ações foi aprovada em Assembléia Geral Extraordinária da JBS, realizada em 29/12/2009 (doc. nº 11). Em decorrência e conforme previsto no artigo 252 da Lei das S.A. , foi aprovado que: (i) os acionistas da Bertin subscreveriam aumento de capital da JBS; (ii) os acionistas da Bertin (e não a impugnante) receberiam, como substituição de sua participação na Bertin, ações da JBS; e (iü) a Bertin tomarseia subsidiária integral da JBS. Importante notar que, conforme esclarecido pelo próprio Protocolo de Incorporação de Ações firmado entre as administrações da Bertin e da JBS, as ações da Bertin não eram detidas pela impugnante, conforme pretende fazer crer a fiscalização, e sim pelo Bertin FIP e pelo BNDESPAR. Tanto JBS quanto Bertin constituíram seus respectivos Comitês Especiais Independentes, nos termos do Parecer de Orientação CVM nº 35/08, com a finalidade única e exclusiva de analisar as condições da incorporação de ações e submeter suas recomendações à administração da JBS e da Bertin. Atendendo às premissas da negociação, se o negócio Bertin tinha um valor econômico de aproximadamente R$ 12 bilhões e os acionistas estavam ingressando em um negócio que, somado à JBS R$ 18 bilhões, apresentaria um valor total de aproximadamente R$ 30 bilhões, o mais correto do ponto de vista econômico e societário era que os exacionistas da Bertin passassem a deter participação de 40% do negócio "conjugado" (40% de R$ 30 bilhões). Fl. 2174DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.175 44 Dessa forma, aprovada a incorporação das ações, a JBS emitiu novas ações aos antigos acionistas da Bertin (Bertin FIP e BNDESPAR) representando, no total, 40% do capital social da JBS após a incorporação de ações. Com a incorporação de ações, a impugnante passou a deter 31,01% do capital da JBS. , de forma que o valor de patrimônio líquido do seu investimento na sociedade passou a equivaler a R$ 5.226.765.327. Como consequência da incorporação das ações da Bertin pela JBS, a impugnante experimentou um ganho de equivalência patrimonial de R$ 2.712.759.648, mas deixou de deter o controle societário da JBS. Após a incorporação das ações da Bertin pela JBS, a estrutura societária relevante para fins do presente processo administrativo poderia ser graficamente representada da seguinte forma: Fl. 2175DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.176 45 Sob a perspectiva do Bertin FIP, que interessa ao presente caso, dos 40% do capital social da "nova" JBS, decorrente da emissão de novas ações para os exacionistas da Bertin, este acionista subscreveu 29,23% das "novas" ações da JBS. Esse percentual de 29,23% se justifica porque o Bertin FIP detinha a parcela de 73,1% da Bertin, ao lado do BNDESPAR, que era detentor do restante das ações (26,9%). Notase, assim, que o valor econômico das ações emitidas pela JBS em favor do Bertin FIP, como decorrência da incorporação das ações da Bertin, atingiu o montante aproximado de R$ 8,760 bilhões. Em outras palavras, o Bertin FIP substituiu 20.926.764 ações da Bertin (do total de 28.636.178, pois demais ações eram de titularidade do BNDESPAR), que representavam um valor econômico de R$ 8,760 bilhões, por 679.182.067 ações da JBS que também representavam um valor econômico de R$ 8,760 bilhões. A relação de substituição da incorporação de ações, baseada nas recomendações dos Comitês Independentes das duas companhias, já havia sido divulgada ao mercado por meio de Fato Relevante de 07/12/2009 (doc. nº 13). A impugnante esclarece que a incorporação das ações da Bertin pela JBS foi realizada como 1º passo em direção à associação entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin por razões puramente econômicas. Isso porque, caso contrário, a relação de substituição de troca das ações ficaria vulnerável, no tempo, a intempéries relacionadas ao valor econômico das ações ou mesmo à vontade das partes envolvidas. Mais adiante, a impugnante detalhará essas razões econômicas, as quais escaparam da análise feita pela fiscalização quando da lavratura do Auto de Infração aqui impugnado. Da contribuição pelo Bertin FIP da participação detida na JBS em aumento de capital da FB Participações O próprio Protocolo de Incorporação de ações assinado entre as administrações da JBS e da Bertin estipulava que, imediatamente após serem atribuídas aos acionistas da Bertin, na proporção de suas respectivas participações no capital da Bertin e de acordo com a relação de substituição proposta, as ações da JBS recebidas pelo Bertin FIP seriam entregues diretamente à impugnante, mediante integralização de seu capital social. Foi assim que, em 30/12/2009, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária da impugnante, o Bertin FIP integralizou aumento do capital social da impugnante, pelo preço de emissão de R$ 2,12007778 para cada ação, emitidas pela sociedade (a impugnante) conforme deliberação tomada na Assembléia Geral Extraordinária realizada em 28/12/2009 (doc. n° 14). A impugnante destaca que referida ata de aumento de capital estabelece de forma clara e cristalina que o Bertin FIP efetuou aumento de capital da impugnante mediante aporte de ações da JBS, e não da Bertin. Como consequência, o Bertin FIP passou a deter participação não mais na JBS, mas na impugnante, conforme representação gráfica da estrutura relevante trazida abaixo: Fl. 2176DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.177 46 É muito importante destacar que o percentual de participação subscrito e integralizado pelo Bertin FIP em aumento do capital social da impugnante levou em consideração a mesma relação de substituição acordada entre as partes. Neste ponto também é importante fazer um esclarecimento relevante, que não foi considerado pela fiscalização quando alegou que a estrutura da associação entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin não estava baseada em razões econômicas. As duas famílias optaram por definir a relação de substituição final obtida no quadro societário da empresa holding (i.e. impugnante) após a definição da relação de substituição entre as empresas operacionais (JBS e Bertin). Esse procedimento evitou uma negociação entre as famílias e mitigou o risco de eventual questionamento por parte de acionistas minoritários que pudessem se sentir prejudicados por uma Fl. 2177DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.178 47 relação de substituição mais benéfica pelo acionista controlador no nível da sociedade holding (a impugnante). De fato, caso a operação em análise tivesse sido realizada como pretende insinuar a fiscalização, os acionistas controladores teriam definido antecipadamente um percentual de participação societária na empresa holding (i.e. impugnante) que poderia ser diferente da relação de substituição definida somente ao final da operação de incorporação de ações havida entre JBS e Bertin. Muito embora a integralização do capital da impugnante tenha sido feita por valor de patrimônio líquido das ações da JBS recebidas pelo Bertin FIP, o percentual de ações subscrito e integralizado pelo Bertin FIP em aumento de capital da impugnante foi definido considerando os mesmos valores econômicos de R$ 17,98 bilhões para a JBS e R$ 11,99 bilhões para a Bertin, proporcionalmente aos percentuais de participação dos Controladores JBS e Controladores Bertin. Esse ponto será explorado adiante em maiores detalhes. Com o aumento de capital, a impugnante passou a deter participação de 60,25% no capital da JBS, de forma que, nesse momento, o controle da JBS pela impugnante, perdido quando da incorporação de ações ocorrida entre JBS e Bertin, foi novamente consolidado pela sociedade holding (impugnante). Da unificação efetiva das atividades JBS e Bertin Incorporação da Bertin pela JBS Como passo final da associação entre a JBS e a Bertin, em 31/12/2009, foi aprovada a incorporação da Bertin ao patrimônio da JBS, a valores de patrimônio líquido. Com a incorporação, a Bertin foi extinta, de forma que a JBS absorveu todos os seus direitos e obrigações (doc. nº 15). Considerando que, ao tempo da incorporação, a Bertin já era subsidiária integral da JBS, a incorporação foi realizada sem aumento de capital da JBS e sem emissão de novas ações pela sociedade incorporadora. Na contabilidade da JBS, houve mera substituição dos ativos da JBS representados por sua conta de investimento referente à participação no capital social da Bertin pelos elementos ativos e passivos integrantes do balanço patrimonial da incorporada. Nesse momento, a estrutura societária relevante para fins desse processo poderia ser graficamente representada da seguinte forma: Fl. 2178DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.179 48 Assim, no final, tal como pretendido pelas partes, as premissas estabelecidas pelas partes para a associação foram atingidas, quais sejam: a JBS unificou as atividades operacionais das duas sociedades, que atuavam em ramos de atividade economicamente semelhantes ramo frigorífico; as participações foram concentradas em uma única sociedade holding (a própria impugnante), que passou a concentrar as participações dos Controladores JBS e Controladores Bertin na entidade que passaria a combinar as atividades da JBS e da Bertin; Fl. 2179DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.180 49 a Família Batista continuou no exercício de controle da holding e, em consequência, da JBS; e a definição da participação societária detida por cada acionista controlador na sociedade holding (i.e. impugnante) foi determinada com base na relação de substituição das ações das sociedades operacionais (JBS e Bertin), apurada de forma justa com suporte nos estudos apresentados pelos Comitês Independentes contratados por cada uma das sociedades operacionais, evitando dessa forma uma discussão negocial entre os acionistas controladores e mitigando o risco de eventual questionamento por parte de acionistas minoritários. Portanto, como companhia aberta que era, a JBS atendeu às exigências da CVM e adotou as melhores práticas de governança corporativa. Em relação à 4a premissa acima, a impugnante destaca novamente que, tendo em vista a estrutura adotada para a associação (primeiro a incorporação de ações da Bertin pela JBS e então a contribuição pelo Bertin FIP das ações da JBS em aumento de capital da impugnante), a relação de substituição definida na sociedade holding (i.e. impugnante) entre os acionistas Família Batista e Família Bertin foi efetivamente definida com base no valor econômico definido pelos respectivos Comitês Independentes da cada sociedade operacional (Bertin e JBS). Caso a operação tivesse sido realizada como pretendia a fiscalização, primeiro as partes teriam definido a relação de substituição entre elas e somente depois é que o percentual seria efetivamente definido em condições de mercado pelos referidos Comitês Independentes. Em conclusão, há um aspecto de ordem econômica e societária da estrutura que escapou da análise da fiscalização: a ordem da operação visou também evitar discussões desnecessárias entre as partes sobre a relação de substituição mais adequada, buscando refletir no nível da sociedade holding (a impugnante) a mesma relação de substituição praticada entre as sociedades operacionais, nos termos exigidos pela legislação de mercado de capitais. Tal como comentado nas linhas introdutórias da presente impugnação, a operação configurou uma alienação da participação societária que a Família Bertin detinha na Bertin em favor da JBS. O preço foi pago pela JBS em favor da Família Bertin mediante entrega de participação na própria JBS. Após esse passo, o controle da nova JBS foi concedido à impugnante, mediante aporte de capital. A incorporação da Bertin pela JBS foi divulgada em Fato Relevante da JBS de 31/12/2009 (doc. n° 16). Além disso, toda a estrutura implementada pelas partes para a associação do Grupo JBS com o Grupo Bertin foi indicada nas "Notas explicativas às demonstrações contábeis dos exercícios findos em 31 de dezembro de 2010 e 2009" da impugnante. Fl. 2180DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.181 50 DAS RAZÕES ECONÔMICAS QUE EMBASARAM A ESTRUTURA DE ASSOCIAÇÃO ENTRE O GRUPO JBS E O GRUPO BERTIN Em primeiro lugar, de pronto deve ser afastada a equivocada premissa adotada pela fiscalização no sentido de que as operações levadas a efeito pelas partes não teriam qualquer propósito negocial e, por contrário, estavam embasadas em meras vantagens fiscais. Tal como visto na descrição dos fatos acima, a associação firmada entre o Grupo JBS e Grupo Bertin tinha como objetivo expandir e fortalecer as duas maiores empresas do setor de carne bovina do País. Vale ressaltar que a operação sob análise neste processo administrativo foi, inclusive, analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica ("CADE"), tendo o órgão regulador aprovado a operação no âmbito do processo nº 08012.008074/200911. Não há dúvidas de que a estrutura implementada fez com que a JBS atendesse às melhores práticas de governança corporativa e evitou discussões desnecessárias entre as partes, já que refletiu no nível da sociedade holding (a impugnante) a mesma relação de substituição praticada entre as sociedades operacionais. Não bastasse o exposto acima, também escapa aos olhos da fiscalização que toda a transação efetuada foi realizada entre partes independentes, envolvendo grupos econômicos que não tinham qualquer relação entre si. Muito pelo contrário, tratavase de empresas concorrentes entre si. Assim, de imediato, já é notório que a causa de toda operação não estava embasada em qualquer vantagem fiscal ou economia tributária. O objetivo de toda a operação era a associação em si de dois grupos que decidiram unificar suas atividades a fim de expandir e se fortalecer. Pretender alegar que a transação não estava revestida de propósitos negociais e que tinha como pretensão apenas a economia tributária da operação é como fechar os olhos para o filme todo que foi a associação entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin. Isso não pode prevalecer. Tal como defendido pela doutrina de Marco Aurélio Greco, devese analisar o filme como um todo, e não apenas a foto. A impugnante aproveita para fazer uma distinção importante: o valor utilizado pelas partes para calcular o número de ações a serem emitidas pela impugnante em beneficio do Bertin FIP (isto é, R$ 8,76 bilhões) não guarda qualquer relação com o valor segundo o qual as ações da JBS foram, pelo Bertin FIP, contribuídas em aumento de capital da impugnante. Tratase de situação idêntica a uma Incorporação de sociedades onde o acervo líquido da sociedade incorporada é avaliado pelo valor contábil, ao passo que a relação de substituição é estabelecida pelo critério de mercado ou qualquer outro estabelecido pelas partes. Aliás, destaquese que as ações da JBS, quando do aumento de capital da impugnante Integralizado pelo Bertin FIP, poderiam ter sido contribuídas Fl. 2181DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.182 51 pelo valor de R$ 8,76 bilhões, tal como exaustivamente desejado pela fiscalização, sem que houvesse qualquer mudança no resultado final da operação em análise, nem tampouco na composição societária do Grupo. Caso a contribuição das ações da JBS tivesse sido feita a valores de mercado, o efeito, sob a perspectiva contábil, seria apenas o registro de um ágio de aproximadamente R$ 3,86 bilhões (R$ 8,76 4,9 bilhões) pela impugnante em relação às novas ações da JBS recebidas em aumento do seu capital. No entanto, esse ágio nada mais representaria do que parcela do mesmo ágio que foi registrado pela JBS quando da incorporação das ações da Bertin. Na verdade, notase, assim, que o que não teria qualquer racional econômico é justamente a exigência da fiscalização no sentido de que a contribuição das ações da JBS em aumento de capital da impugnante deveria ter sido feita pelo valor econômico dessas ações. Esta operação é que não teria qualquer sentido lógico, nem tampouco jurídico. O que foi deixado de lado na análise da fiscalização é que todos os passos da operação de associação, no que diz respeito às ações emitidas para cada uma das partes, levaram em consideração os valores econômicos de R$ 17,98 bilhões para a JBS e R$ 11,99 bilhões para a Bertin. Na incorporação de ações da Bertin pela JBS, estes valores econômicos foram utilizados para definir o percentual de ações emitidas pela JBS para os antigos acionistas da Bertin. No caso, as novas ações emitidas representavam 40% do capital total da JBS após a incorporação de ações, o que é compatível com o valor econômico da Bertin comparado com o valor econômico da JBS (i.e. os 40% equivalem a R$ 11,99 bilhões dividido pelo valor econômico total de R$ 29,97 bilhões). Quer dizer, o valor econômico das ações da Bertin incorporadas pela JBS, de R$ 11,99 bilhões, é idêntico ao valor econômico das novas ações emitidas pela JBS em decorrência da incorporação de ações. Esta correspondência de valores é um pressuposto do instituto da incorporação de ações, o qual representa uma subrogação real das ações incorporadas (i.e. uma efetiva "substituição" de um bem ações incorporadas por outro bem no mesmo valor novas ações emitidas). Em uma operação entre partes independentes, a própria relação de substituição tem como pressuposto tal equivalência de valores. Qualquer discrepância entre o valor das ações entregues pelos acionistas da companhia incorporada e o valor das novas ações emitidas pela incorporadora representaria, necessariamente, um benefício indevido aos acionistas de uma companhia e um prejuízo indevido aos acionistas da outra. A mesma lógica foi aplicada para a participação detida pelo Bertin FIP. O percentual subscrito pelo Bertin FIP na JBS, de 29,2%, considera o valor econômico das ações incorporadas, proporcionalmente ao percentual de participação do Bertin FIP na Bertin (R$ 11,99 bilhões x 73,1% = R$ 8,76 bilhões). Este valor econômico proporcional foi comparado com o valor econômico total da JBS após a incorporação de ações (i.e. os 29,2% equivalem a R$ 8,76 bilhões dividido pelo valor econômico total de R$ 29,97 bilhões). Fl. 2182DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.183 52 Posteriormente, no aumento de capital da impugnante integralizado pelo Bertin FIP com as novas ações da JBS, os mesmos valores econômicos foram utilizados para determinar o percentual de participação do Bertin FIP na impugnante. Em outras palavras, as partes mantiveram a mesma relação de substituição adotada no passo anterior. Assim, o valor econômico da participação do Bertin FIP na impugnante correspondia aos mesmos R$ 8,76 bilhões. O Bertin FIP iniciou e terminou a transação com participações societárias cujo valor econômico era de R$ 8,76 bilhões. Consequentemente, ao contrário do que alega a fiscalização, não há que se falar na apuração de perda para o Bertin FIP na operação. Nem poderia ser diferente, em se tratando de uma operação entre partes independentes. A existência dessa perda para o Bertin FIP seria desprovida de qualquer sentido lógico ou econômico. O que houve, na verdade, foi o reconhecimento de um ganho de capital pelo Bertin FIP quando do recebimento das ações JBS, como resultado da incorporação das ações Bertin pela própria JBS. Este é o único ganho de capital gerado em toda a operação e que poderia eventualmente ter sido exigido do Bertin FIP, mas nunca da impugnante. A verdade, que escapa da fiscalização, é que o fato de o aumento de capital da impugnante ter sido realizado pelo valor de patrimônio líquido contábil proporcional das ações da JBS contribuídas, de R$ 4,9 bilhões, não modifica as conclusões acima. Não se pode confundir valor de aumento de capital com percentual de ações emitidas: o primeiro considera meramente o valor de um bem isoladamente (no caso, ações da JBS pelo valor de patrimônio líquido contábil, após a incorporação das ações da Bertin), ao passo que o último considera a relação de substituição i.e. necessariamente o valor econômico de um bem comparado (ou relativo) ao valor econômico de outro bem. A esse respeito, a impugnante ressalta que a questão da perda de controle das companhias durante o processo de associação era fator de extrema importância para os envolvidos. Esse fator explica, inclusive, o porquê da subscrição de ações (mas não a integralização, até porque o Bertin FIP ainda nem detinha a titularidade das ações de emissão da JBS a serem contribuídas) da impugnante pelo Bertin FIP ter sido realizada um dia antes da incorporação de ações da Bertin pela JBS (doc. nº 17). A subscrição antecipada era, do ponto de vista societário, indispensável para a manutenção do controle societário sobre a JBS por parte dos Controladores JBS. Isso porque, tal como explicado acima, após a incorporação das ações da Bertin pela JBS, a participação da impugnante na JBS foi reduzida para 31,02%. Caso não houvesse um compromisso de integralização de ações da impugnante por parte do Bertin FIP, haveria o risco de a impugnante perder o controle societário da JBS. Isto poderia ocorrer, por exemplo, caso o Bertin FIP celebrasse um acordo de acionistas com o BNDESPAR (ou outros acionistas) e não contribuísse suas ações da JBS para a impugnante. A perda do controle da JBS pela Família Batista iria contra as premissas da transação. Fl. 2183DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.184 53 Importante destacar ainda que, embora a fiscalização tenha alegado que toda a transação tenha sido artificial, simulada e fraudulenta, toda a descrição da operação foi detalhadamente divulgada a todo o mercado pela JBS por meio de Fato Relevante de 14/12/2009, conforme transcrição abaixo (doc. nº 18): A estrutura da associação do Grupo JBS com o Grupo Bertin foi também esclarecida no âmbito da CVM, conforme demonstra a Resposta ao OFÍCIO/CVM/SEP/GEA4/N0 294/09 (doc. nº 19). Nessa resposta, a JBS explicou de forma clara qual seria a estrutura da transação. O que se conclui é que, infelizmente, toda esta autuação decorre unicamente de um grave equívoco cometido pela fiscalização, que merece ser integralmente remediado, por meio do integral cancelamento deste Auto de Infração. DA NECESSÁRIA DESCONSIDERAÇÃO DAS ALEGAÇÕES CONTIDAS NO AUTO DE INFRAÇÃO E QUE SE REFEREM AO GRUPO BERTIN/BERTIN FIP Antes de adentrar nas razões de direito que reforçam a improcedência do Auto de Infração ora impugnado, a impugnante entende importante esclarecer que, ao longo do Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização questiona uma série de atos que foram cometidos pelo Bertin FIP (e o próprio Grupo Bertin) ao longo da operação objeto de análise. Por exemplo, (i) a fiscalização questiona a forma como a contabilização da operação foi feita pelo Bertin FIP e seu administrador; (ii) a fiscalização questiona o fato de que, de acordo com o regulamento do Bertin FIP, ele só poderia investir em ações da impugnante; e (iii) a fiscalização questiona o fato de que as ações da Bertin foram contribuídas no Bertin FIP apenas alguns dias antes da alienação das ações Bertin para a JBS. Ora, aparentemente, a fiscalização se equivocou ao utilizar essa série de supostas infrações cometidas pelo Grupo Bertin e Bertin FIP para embasar um questionamento fiscal direcionado contra a impugnante. Ao contrário do que pretende a fiscalização, a impugnante não pode ser responsabilizada pelas supostas infrações cometidas pelo Grupo Bertin e, mais especificamente, pelo Bertin FIP. Desta forma, os únicos atos praticados pelo Bertin FIP que envolveram a impugnante, e que devem ser levados em conta para fins da análise do presente processo administrativo são (a) subscrição de ações de emissão da impugnante pelo Bertin FIP; (b) outorga do instrumento de mandato com instruções para que o agente escriturador das ações da JBS transferisse essas ações para a impugnante, por conta e ordem do Bertin FIP; e (c) o recebimento das ações da JBS como integralização, pelo Bertin FIP, das ações da impugnante, subscritas sob condição suspensiva. Por conta disso, para a devida análise do presente processo administrativo, que tem a impugnante como sujeito passivo, solicitase que todas as supostas infrações cometidas pelo Grupo Bertin e Bertin FIP sejam desconsideradas pelas Autoridades Julgadoras. Fl. 2184DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.185 54 DO DIREITO DA QUESTÃO PRINCIPAL: A INEXISTÊNCIA DE GANHO DE CAPITAL E RECEITA TRIBUTÁVEL PARA A REQUERENTE Tal como já exposto pela impugnante nas linhas acima, as operações realizadas em direção à associação entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin foram legítimas e estavam de acordo com a legislação fiscal e societária em vigor ao tempo dos fatos. Não bastasse isso, as operações estavam também revestidas de propósitos negociais e visavam atender às premissas que norteavam toda a transação. Sendo assim, devem ser respeitados os efeitos fiscais atribuídos pela legislação tributária às operações efetivamente realizadas pelas partes, até porque, caso a operação tivesse que ocorrer na forma como imaginada pela fiscalização, as partes não teriam entrado em um acordo para realizar a transação. A impugnante passa, então, a expor os devidos efeitos fiscais da transação. Da contribuição pelos controladores JBS das ações da JBS em aumento de capital da impugnante No primeiro passo da estrutura, as ações detidas pelos Controladores JBS são contribuídas em aumento de capital da impugnante. Essa operação foi realizada pelo valor de patrimônio líquido das ações JBS e, como contrapartida, os Controladores JBS receberam ações emitidas pela impugnante. Essa operação é fiscalmente neutra do ponto de vista da sociedade recipiente do capital subscrito e integralizado. Da incorporação das ações da Bertin pela JBS A fim de unificar as empresas JBS e Bertin, e atender às premissas negociais estabelecidas pelas partes no âmbito da associação, o 2º passo da transação compreendeu a incorporação das ações da Bertin pela JBS, realizada a valores de mercado. Nesse caso, por se tratar basicamente de operação envolvendo partes não relacionadas, as ações da Bertin a serem incorporadas pela JBS foram avaliadas pelos seus respectivos valores econômicos. Assim, como consequência da incorporação das ações da Bertin, os acionistas que tiveram as suas ações Bertin incorporadas receberam novas ações emitidas pela JBS, ações estas que correspondiam ao valor econômico das ações Bertin incorporadas. A Bertin se tornou subsidiária integral da JBS e o capital social da JBS foi aumentado por conta da incorporação. A incorporação de ações é procedimento previsto no artigo 252 da Lei das S.A.. A operação de incorporação de ações não possui tratamento específico previsto na legislação tributária. Embora a legislação comercial determine que a incorporação de ações deva seguir os procedimentos aplicáveis às operações de incorporação de sociedades, é fato que estas operações, em Fl. 2185DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.186 55 substância, aproximamse a uma operação de contribuição de ações em aumento de capital da sociedade que está recebendo tais ações, ou mesmo a uma simples subscrição de ações de uma sociedade em processo de constituição. Para as pessoas que tem suas ações incorporadas, o tratamento tributário da relação de substituição das ações depende, exclusivamente, da forma como a avaliação das ações a serem incorporadas é feita. A avaliação dessas ações pode ser feita com base no seu valor patrimonial ou no seu valor econômico. Caso a contribuição seja feita a valor econômico, a diferença positiva entre o valor de custo das ações e o valor pelo qual as ações tiverem sido contribuídas constituirá ganho de capital potencialmente tributável para a pessoa jurídica subscritora, desde que determinados requisitos sejam preenchidos. No caso em análise, no entanto, como a avaliação foi realizada a valor econômico, a princípio os acionistas da Bertin (e não a impugnante) teriam apurado um ganho de capital potencialmente sujeito à tributação. Do ponto de vista da JBS, sociedade incorporadora das ações da Bertin, a impugnante destaca que o artigo 248 da Lei das S.A. estabelece que os investimentos permanentes em sociedades coligadas ou controladas devem ser avaliados pelo método da equivalência patrimonial. No caso em exame, com a transferência das ações da Bertin para a JBS, por meio de operação de incorporação de ações, a JBS passou a deter investimento relevante na Bertin, de modo que a aplicação do método de equivalência patrimonial tornouse obrigatória. Interessante notar que esse 2º passo, que compreendeu a incorporação das ações da Bertin pela JBS, não causou nenhum efeito fiscal relevante para a impugnante, sujeito passivo neste processo administrativo. Basicamente, apenas por conta do aumento do patrimônio líquido da JBS e da emissão de novas ações dessa sociedade em favor dos exacionistas da Bertin, a impugnante teve mero ganho de equivalência patrimonial. Isso porque, após a incorporação de ações da Bertin pela JBS, a impugnante passou a deter 31% do capital da JBS, companhia que teve seu patrimônio líquido aumentado para R$ 16.851.041.329, justamente por conta da incorporação das ações da Bertin. Em outros termos, em decorrência da incorporação das ações da Bertin pela JBS e o respectivo aumento de capital da JBS, a impugnante teve sua participação na JBS diluída e registrou um ganho por variação na porcentagem de participação na JBS. Esse ganho (também conhecido como "ganho de diluição") é não tributável, conforme previsão expressa do artigo 428 do RIR/99. Tal ganho corresponde simplesmente à diferença positiva entre (a) valor patrimonial do investimento calculado com base no patrimônio líquido da investida após o aporte de capital efetuado por terceiro, multiplicado pelo percentual de participação da investidora após sua diluição e (b) valor patrimonial anterior do investimento, considerando o patrimônio líquido e percentual de participação da investidora anteriores ao aporte do terceiro na investida. Fl. 2186DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.187 56 O ganho de variação de percentual de participação registrado pela impugnante correspondeu a R$ 2,7 bilhões (não sujeito à tributação pelo IRPJ/CSLL, nos termos do artigo 33, § 2º do Decretolei nº 1.598/77), conforme demonstrativo trazido abaixo (em R$ bi): A impugnante destaca que esse resultado positivo da equivalência patrimonial também não estava sujeito ao PIS/COFINS, também por expressa previsão legal (artigo 1º, § 3º, inciso V, alínea "b", da Lei nº 10.637/2002 e Lei 10.833/2003) que excluía esses valores da incidência das contribuições sociais. Temse, portanto, que a operação de incorporação de ações da Bertin pela JBS não ocasionou qualquer ganho de capital (IRPJ/CSL) ou receita tributável (PIS/COFINS) para a impugnante, que consta como sujeito passivo no presente processo administrativo. Caso fosse admitido algum efeito fiscal adverso, esse só poderia ser atribuído aos exacionistas da Bertin (Bertin FIP e BNDESPAR), os quais tiveram as suas ações incorporadas pela JBS a valor econômico. Da contribuição pelo Bertin FIP das ações da JBS em aumento de capital da impugnante Posteriormente à incorporação das ações da Bertin pela JBS, o Bertin FIP, um dos exacionistas da Bertin que recebeu as novas ações emitidas pela JBS na operação, contribuiu essas novas ações JBS em aumento de capital da impugnante. Essa contribuição ocorreu pelo valor patrimonial das ações da JBS recebidas pelo Bertin FIP, muito embora a relação de substituição tenha levado em consideração os valores econômicos da JBS e da Bertin. Como consequência da contribuição feita pelo Bertin FIP, a impugnante passou a deter participação adicional no capital da JBS, enquanto que o Bertin FIP passou a deter participação na JBS de forma indireta, por meio da impugnante. Tal como facultado pela legislação tributária e societária, a contribuição das ações da JBS pelo Bertin FIP foi feita pelo valor patrimonial dessas ações, de forma a evitar a geração de um "novo ágio" na impugnante, correspondente à diferença entre o valor patrimonial das ações e o valor econômico relativo à emissão das ações da impugnante. É importante destacar que, ao contrário do que alega a fiscalização, essa operação estava embasada em todo o racional econômico que norteava a associação entre a JBS e a Bertin, na medida em que, muito embora a contribuição das ações da JBS pelo Bertin FIP tenha sido feita por valor Fl. 2187DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.188 57 patrimonial, a emissão das ações da impugnante em favor do Bertin FIP levou em consideração os valores econômicos das empresas envolvidas. Exatamente por isso que o valor econômico que o Bertin FIP passou a deter na impugnante tinha o mesmo valor econômico das ações da JBS e, inclusive, das ações Bertin que foram incorporadas pela JBS no passo anterior da transação. De qualquer forma, ressaltese novamente que, caso a contribuição das ações da JBS fosse feita a valores de mercado, o potencial efeito tributário daí decorrente só poderia ser atribuído ao Grupo Bertin, mais especificamente ao Bertin FIP, que foi a entidade que efetivamente transferiu as ações em favor da impugnante. Para a impugnante, a contribuição das ações da JBS em aumento do seu capital não gerou qualquer impacto fiscal relevante, tendo em vista que a sociedade foi mera beneficiária do aporte de capital efetuado pelo Bertin FIP e não houve qualquer auferimento de renda ou receita. No caso, a impugnante apenas recebeu as ações da JBS como decorrência do aumento de seu capital integralizado pelo Bertin FIP. A impugnante não alienou, transferiu ou contribuiu qualquer investimento para outra pessoa. Como já explicado anteriormente, qualquer aumento de capital, seja por valor de custo, seja por valor econômico, é sempre neutro do ponto de vista fiscal da sociedade anônima beneficiária da contribuição. Daí o absurdo de a impugnante figurar como sujeito passivo nesse processo administrativo, tal como já salientado nas linhas anteriores dessa impugnação. Quanto à contribuição das ações da JBS, pelo Bertin FIP, em aumento de capital da impugnante, é importante esclarecer que a subscrição desse aumento de capital, deliberada em 28/12/2009, foi realizada de forma condicional, tendo em vista que a integralização das ações da impugnante só seria juridicamente aperfeiçoada em caso de realização da incorporação das ações da Bertin pela JBS. Conforme a própria ata de subscrição de ações da impugnante estabeleceu, caso a incorporação das ações da Bertin pela JBS não fosse efetuada, o aumento de capital da impugnante pelo Bertin FIP seria automaticamente cancelado. A esse respeito, é importante destacar que, nos termos do artigo 117, inciso I, do CTN, os negócios jurídicos condicionais reputamse perfeitos e acabados apenas quando, sendo suspensiva a condição, desde o momento do seu implemento. Com a realização da incorporação das ações da Bertin pela JBS, o Bertin FIP se tornou legítimo proprietário das ações emitidas pela JBS após a incorporação de ações. Tanto foi assim que o Bertin FIP outorgou mandato para que o agente escriturador das ações da JBS entregasse tais ações em aumento de capital da impugnante. Não há dúvidas de que, ao proceder assim, o agente escriturador estava apenas agindo em nome e de acordo com o mandato outorgado pelo legítimo proprietário das ações da JBS, qual seja, o Bertin FIP. Em outras palavras, ao contrário do que alega a fiscalização, é inegável que a incorporação das ações da Bertin pela JBS foi deliberada pelo Bertin FIP, Fl. 2188DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.189 58 acionista que, à época, detinha mais de 73% do capital da Bertin (empresa cujas ações foram incorporadas pela JBS). Ao contrário do que alega a fiscalização, é inegável que a JBS (empresa incorporadora das ações da Bertin) só poderia ter emitido ações para o Bertin FIP (acionista da Bertin, cujas ações foram incorporadas pela JBS), também como consequência da incorporação das ações da Bertin pela JBS. Não obstante as indevidas alegações da fiscalização, é também inegável que a impugnante não recebeu novas ações da JBS por conta da incorporação das ações da Bertin pela JBS (empresa incorporadora das ações da Bertin), pelo simples fato de que a impugnante não era acionista da Bertin (empresa cujas ações foram incorporadas pela JBS). Ao longo do Termo de Verificação Fiscal, em inúmeras vezes a fiscalização questiona a efetividade da transferência das ações de JBS pelo Bertin FIP para a impugnante, na medida em que, por conta do mandato irrevogável e irretratável outorgado pelo Bertin FIP ao agente escriturador, as ações de JBS foram transferidas para a impugnante. Ora, não há nada de errado em utilizar o instrumento de mandato para instruir alguém que cumpra uma obrigação por sua conta e ordem, como ocorreu no presente caso. Claro que, quem tinha direito a receber as ações da JBS em virtude da incorporação de ações não era, nem nunca foi, a impugnante: era e sempre foi o Bertin FIP. Agora, a forma como o Bertin FIP contabilizou ou deixou de contabilizar as ações da JBS pouco importa para a impugnante. Como muito bem destacado preliminarmente, a impugnante não tem, nem nunca teve, qualquer responsabilidade ou ingerência sobre a contabilidade, sobre as cotas, sobre a administração, ou sobre qualquer outro tema do Bertin FIP. Lembrando, o Bertin FIP foi acionista e tinha acesso às informações da impugnante, não o contrário. Repisando: a entrega e registro das ações da JBS, às quais tinha direito o Bertin FIP em decorrência da incorporação de ações da Bertin pela JBS, foi realizada para a impugnante mediante outorga, por parte do Bertin FIP, de mandato irrevogável e irretratável ao agente escriturador. A integralização das ações da JBS recebidas pelo Bertin FIP, após a incorporação de ações da Bertin, no capital da impugnante deveria ser realizada imediatamente após a aprovação da operação de incorporação de ações. Para garantir referida integralização, conforme acima já pontuado, o Bertin FIP outorgou mandato para o agente escriturador para que transferisse as ações para a impugnante, como constou da Ata da Assembleia Extraordinária da JBS, realizada em 29/12/2009. A simples existência da cláusula mandato demonstra de forma inequívoca que o titular das ações da JBS que seriam emitidas por força da incorporação das ações da Bertin era o Bertin FIP. Com efeito, se fosse admitida a tese sustentada pela fiscalização, as ações da JBS já teriam sido emitidas em nome da impugnante, e nem haveria que se falar em mandato Fl. 2189DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.190 59 outorgado pelo Bertin FIP (legítimo proprietário das ações da JBS recebidas por força da incorporação das ações da Bertin) para o agente escriturador. Portanto, a impugnante recebeu ações da JBS apenas como decorrência do aumento de seu capital integralizado pelo Bertin FIP, legítimo proprietário das ações da JBS após a incorporação das ações da Bertin pela JBS. É exatamente isso que reflete todos os documentos jurídicos e atas societárias da operação. DA CONCLUSÃO: O EQUIVOCADO ENTENDIMENTO DA FISCALIZAÇÃO Em primeiro lugar, restou demonstrado que a transação em análise se encontrava revestida de efetivos propósitos negociais e não estava embasada em meras vantagens fiscais. A associação realizada entre Grupo JBS e Grupo Bertin unificou duas empresas independentes e concorrentes, dando origem à maior empresa de processamento de carne bovina do mundo. Durante toda a transação, quando da emissão de ações às partes envolvidas, sempre foi levado em consideração os valores econômicos das empresas JBS e Bertin, de forma que a transação estava em sua integralidade norteada por racional econômico usualmente utilizado no mercado. E nem poderia ser diferente, na medida em que a operação envolvia partes não relacionadas. Com a estrutura implementada para viabilizar a transação, todas as premissas estabelecidas negocialmente pelas partes na associação foram atingidas. Embora o aumento de capital da impugnante pelo Bertin FIP tenha sido realizado pelo valor de patrimônio líquido contábil proporcional das ações da JBS, o percentual de ações emitidas pela impugnante fez com que o Bertin FIP passasse a deter participação equivalente exatamente ao valor econômico das ações JBS contribuídas. Com a estrutura implementada pelas partes, houve não só a consecução de todos os objetivos pretendidos pelas partes, mas houve também a manutenção do controle da JBS pelos Controladores da JBS durante todo o processo de associação, sem falar que a incorporação de ações não ficou sujeita a oscilações do valor econômico das ações ou mesmo à vontade das partes envolvidas. Do ponto de vista exclusivamente fiscal, tal como detalhado nas linhas acima, o único ganho experimentado pela impugnante na transação tem natureza de ganho decorrente de equivalência patrimonial, o qual não está sujeito à tributação pelo IRPJ/CSLL e pelo PIS/COFINS, conforme expressa previsão legal. A fiscalização pretende exigir tributos que só poderiam incidir sobre o Grupo vendedor das ações que foram adquiridas pelo Grupo JBS, qual seja, o Grupo Bertin. É esse ganho que a fiscalização pretende atribuir à impugnante no presente caso, sem qualquer base legal para isso. A incidência de tributos sobre um ganho de capital ou uma receita tributável só poderia ser exigida da impugnante caso ela fosse a detentora das ações Fl. 2190DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.191 60 da Bertin e caso ela tivesse praticado qualquer ato de alienação dessas mesmas ações. Ocorre que, no presente caso, a impugnante nunca chegou a ter a titularidade das ações da Bertin e, exatamente por isso, nunca praticou qualquer ato de alienação dessas mesmas ações. A impugnante, no presente caso, era e é titular apenas das ações da JBS, ações estas que são detidas por ela até os dias atuais. Ou seja, mesmo em relação às ações da JBS, ações estas que a impugnante deteve e detém a titularidade até hoje, não houve qualquer ato de alienação que pudesse ensejar incidência tributária. Portanto, é evidente que o Auto de Infração ora impugnado não merece prosperar e deve ser imediatamente cancelado pelas Autoridades Julgadoras de 1ª Instância. DA INFUNDADA ALEGAÇÃO DE FALTA DE RAZÕES ECONÔMICAS PARA A ASSOCIAÇÃO DA JBS E BERTIN Conforme explicado pela impugnante nas linhas acima, a estrutura de associação do Grupo JBS com o Grupo Bertin estava plenamente revestida de propósitos empresariais. Nessa seara, é importante esclarecer que não cabe à fiscalização fazer juízo sobre a administração da sociedade, muito menos quando as decisões tomadas pela administração provocam efeitos fiscais expressamente previstos na legislação tributária. Não obstante, ainda que não se admitissem os pontos trazidos pela impugnante, a fiscalização não poderia desconstituir completamente uma operação realizada em absoluta conformidade com a legislação em vigor, unicamente por conta de suas motivações econômicas. Sobre essa questão, cabe lembrar que a aplicação da chamada "teoria da substância econômica" passou a ser adotada pelas autoridades fiscais a partir da edição da Lei Complementar nº 104/2001, que alterou o artigo 116, parágrafo único, do CTN. No entanto, além desse dispositivo não ter sido expressamente citado pela fiscalização na lavratura do presente Auto de Infração, a parte final do referido dispositivo deixa expresso que ele não é autoaplicável, mas depende de regulamentação por lei ordinária, a qual não ocorreu até o presente momento. Portanto, ainda que não se entenda que houve efetivo propósito negocial e verdadeira substância econômica na operação ora discutida, não é dado à fiscalização desconsiderar negócios jurídicos existentes, válidos e eficazes, como de fato foi a operação de associação entre o Grupo JBS e o Grupo Bertin, apenas com base em uma suposta interpretação da "substância econômica" envolvendo a operação. Além disso, ainda que fosse possível aplicar a teoria do propósito negocial ao caso aqui analisado, temse que este Auto de Infração também nunca poderia ter sido lavrado contra a impugnante. De fato, quem alienou as ações da Bertin para a JBS foi o Bertin FIP, e quem aportou ações da JBS em aumento da capital da impugnante também foi o Bertin FIP. Fl. 2191DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.192 61 Assim, do ponto de vista econômico, temse uma parte sempre vendedora (i.e., Bertin FIP) e dois adquirentes, quais sejam, JBS adquiriu ações da Bertin por meio da incorporação de ações, e a impugnante, adquiriu ações da JBS detidas pelo Bertin FIP através do aporte de capital concluído após a incorporação de ações da Bertin pela JBS. Portanto, caso fosse aplicada a teoria da interpretação econômica, o suposto ganho de capital objeto de tributação nesse Auto de Infração também só poderia mesmo ter sido auferido pelo Bertin FIP, o que deixa claro o erro de sujeito passivo cometido pela fiscalização. AD ARGUMENTANDUM, DA INEXISTÊNCIA DE GANHO DE CAPITAL E RECEITA TRIBUTÁVEL PARA A IMPUGNANTE NO CENÁRIO CRIADO PELA FISCALIZAÇÃO Apenas por amor à argumentação, a impugnante esclarece que, mesmo que a estrutura "criada" pela fiscalização ao analisar a transação sob análise pudesse existir, temse que ainda assim não havia qualquer valor de IRPJ/CSLL/PIS/COFINS a serem exigidos da impugnante. A fiscalização afirma que a incorporação das ações da Bertin pela JBS teria ocorrido em momento no qual a Bertin era detida pela impugnante. Como essa participação imaginária da impugnante na Bertin teria sido supostamente transferida pelo Bertin FIP pelo valor patrimonial (que, frise se, corresponde ao valor patrimonial das ações da JBS, o que também não faz qualquer sentido), a incorporação de ações da Bertin a valores de mercado teria acarretado um ganho de capital e uma receita tributável para a impugnante para fins de IRPJ/CSLL/PIS/COFINS. O raciocínio feito pela fiscalização é tão confuso e absurdo que, para rebater os efeitos fiscais desse raciocínio equivocado a impugnante deve assumir uma série de premissas que não correspondem à realidade dos fatos e que são até contraditórias: O Bertin FIP contribuiu as ações da Bertin em aumento de capital da impugnante. O valor patrimonial das ações da Bertin era exatamente igual ao valor patrimonial das ações da JBS após a incorporação das ações da própria Bertin, o que seria uma premissa praticamente impossível. As ações da Bertin eram detidas pela impugnante no momento da incorporação das ações da Bertin pela JBS e que, portanto, a JBS teria emitido ações do seu capital em favor da impugnante. A esse respeito, destaquese novamente que a impugnante nunca foi acionista da Bertin. Para fins da análise do PIS/COFINS, deve ser assumida a premissa de que as ações da Bertin estavam registradas no ativo da impugnante, mesmo que fossem no seu ativo circulante. A esse respeito, destaquese novamente que a impugnante nunca foi acionista da Bertin. De qualquer forma, embora não faça qualquer sentido, a impugnante esclarece que essa imaginária incorporação de ações da Bertin pela JBS em momento no qual a Bertin era detida pela impugnante não seria apta a Fl. 2192DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.193 62 gerar qualquer ganho de capital ou receita tributável para a impugnante. É isso que a impugnante passa a explorar. Da inexistência de acréscimo patrimonial na operação de incorporação de ações A operação de incorporação de ações da Bertin pela JBS, tal como imaginada pela fiscalização, só poderia acarretar a incidência do IRPJ/CSLL para a impugnante caso a houvesse a geração de um acréscimo patrimonial para a impugnante. Nesse sentido, a primeira premissa que deve ser afastada é a de que qualquer espécie de alienação, seja qual for o ato o negócio jurídico, acarretaria um acréscimo patrimonial para o alienante. Isso não é verdade, de forma que há operações que, embora configurem uma alienação, não geram qualquer acréscimo patrimonial. No caso de subscritora pessoa jurídica, ainda que a contribuição e integralização dos bens em aumento de capital de outra pessoa jurídica seja feita por valor superior ao seu custo de aquisição, há a possibilidade de diferir o ganho de capital, mediante a constituição de uma reserva de reavaliação, nos termos do artigo 36 do Decretolei nº 1.598/77. No caso em análise, o problema é que, como não foi a impugnante que recebeu as ações da JBS por conta da incorporação das ações da Bertin, é óbvio que não houve a constituição da reserva de reavaliação pela sociedade. Isso seria impossível, até porque a impugnante nem era acionista da Bertin. De qualquer forma, deve ser levado em consideração que, ainda que pudesse ser admitida a estrutura imaginada pela fiscalização, fato é que a impugnante não era obrigada a reconhecer um ganho de capital tributável de forma imediata, já que o suposto ganho de capital por ela imaginariamente experimentado poderia ter sido registrado em conta de reserva de reavaliação que só seria submetida à tributação quando efetivamente realizada. Da não incidência do PIS/COFINS na incorporação de ações da Bertin pela JBS Ainda no cenário em que a estrutura imaginária trazida pela fiscalização pudesse ser levada em consideração, temse que os valores de PIS/COFINS exigidos da impugnante também seriam indevidos. Isso porque, ainda que se admitisse que as ações estavam registradas no ativo circulante da impugnante, o que é um absurdo mas se admite apenas para fins de argumentação, temse que a "receita" decorrente da contribuição dessas ações em aumento de capital da JBS teria a natureza de receita financeira, justamente por se tratar receita decorrente de alienação de ações. Nesse cenário, não haveria que se falar em exigência de PIS/COFINS, na medida em que as receitas financeiras estão sujeitas à alíquota zero, conforme dispõe o artigo 1º do Decreto nº 5.442/2005. Fl. 2193DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.194 63 Subsidiariamente, mesmo se houvesse tributação por PIS/COFINS, a base de cálculo corresponderia apenas à diferença entre o valor contábil do ativo (supostamente R$ 4,9 bi) e o valor da contribuição (supostamente R$ 8,8 bi), já que este seria o único suposto efeito no resultado da impugnante. Em outras palavras, o dito montante seria a única "receita" da impugnante na estrutura hipotética aventada pela fiscalização. O custo de aquisição de R$ 4,9 bi representaria uma mera "mudança de linhas de ativo" ("investimento na Bertin" substituído por "investimento na JBS", sem efeito no resultado). Do valor das operações Por fim, ainda que os atos societários fossem realizados na "ordem" desejada pela fiscalização (i.e. primeiro, aumento de capital na impugnante e, segundo, incorporação de ações da Bertin pela JBS), é evidente que os atos não seriam realizados nos "valores" desejados pela fiscalização (i.e. primeiro R$ 4,9 bi e segundo R$ 8,8 bi). Isto porque os R$ 4,9 bi correspondem ao patrimônio líquido da JBS após a incorporação de ações multiplicado pelo percentual de participação do Bertin FIP na JBS após a incorporação de ações. Antes da incorporação de ações, tal valor não corresponde nem ao patrimônio líquido contábil das ações da Bertin detidas pelo Bertin FIP, nem tampouco ao valor econômico destas ações. Faz todo sentido que, em uma operação entre partes independentes, ações sejam transferidas pelo seu valor econômico. A operação entre partes independentes incorporação de ações da Bertin pela JBS foi efetivamente praticada por valor econômico. Assim, se a operação entre partes independentes consistisse em aumento de capital da impugnante pelo Bertin FIP, esta operação seria realizada a valor econômico de R$ 8,8 bi. Assim, se, na sequência, as mesmas ações da Bertin então detidas pela impugnante na hipótese da fiscalização fossem incorporadas ao capital da JBS pelo mesmo valor de R$ 8,8 bi, a impugnante não verificaria qualquer ganho/perda de capital. Em outras palavras, mesmo que os atos societários fossem realizados na ordem sugerida pela fiscalização, qualquer que fosse o valor do primeiro ato societário (contribuição ao capital da impugnante), este valor seria equivalente ao valor do segundo ato (incorporação de ações da Bertin pela JBS). Isto porque a impugnante seria, nesta situação hipotética, proprietária de 73% das ações da Bertin e controladora da JBS, podendo dispor sobre o valor do aumento de capital da JBS (sujeito à aprovação em assembleia geral de acionistas com voto favorável dos minoritários). Não faria qualquer sentido a impugnante, nesta hipótese titular das ações da Bertin, contribuir estas ações por valor diverso do seu custo de aquisição. Rememorando, para fins do aumento de capital, as ações da JBS foram avaliadas pelo seu valor de patrimônio líquido proporcional, em R$ 4,9 bilhões (R$ 16,9 bilhões x 29,23%). O valor de R$ 4,9 bilhões equivale ao patrimônio líquido da JBS após a incorporação de ações, de R$ 16,9 bilhões; multiplicado pelo percentual de participação do FIP Bertin na JBS após a incorporação de ações, de 29,23%, conforme exposto anteriormente. Já o percentual de participação subscrito pelo FIP Bertin na impugnante levou em consideração a mesma relação de substituição acordada entre as Fl. 2194DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.195 64 partes. Quer dizer, o percentual de ações subscrito pelo FIP Bertin na impugnante foi definido considerando os mesmos valores econômicos de R$ 17,98 bilhões para a JBS e R$ 11,99 bilhões para a Bertin, proporcionalmente aos percentuais de participação dos Controladores JBS e Controladores Bertin. A estrutura societária final é: Dessa forma, por mais esse motivo, não merece guarida a acusação fiscal, uma vez que a hipótese sustentada pela fiscalização não se sustenta. DO DESCABIMENTO DA MULTA QUALIFICADA Ainda que, ad argumentandum, fosse admitida a exigência do principal nesta autuação, não poderia ser aplicada a multa qualificada de 150%, pois conforme restou acima demonstrado, não ocorreu nenhuma conduta simulada, dolosa ou fraudulenta por parte da impugnante neste caso. Da inocorrência de fraude, simulação ou dolo Nos termos do artigo 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96 (com redação dada pela Lei nº 11.488/2007) a aplicação de multa qualificada no valor de 150% da exigência principal somente pode ocorrer nas hipóteses descritas pelos artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502/64, isto é, nos casos de, sonegação, fraude ou conluio, respectivamente. Além disso, as autoridades fiscais devem trazer provas inequívocas da ocorrência desses vícios no caso concreto para que, somente assim, possam aplicar a penalidade sob a forma qualificada de 150%. No presente caso, a fiscalização argumenta, com base em alegações genéricas e em sua intuição, que as operações praticadas no caso concreto teriam sido fraudulentas e simuladas, tendo como objetivo único a obtenção de economia tributária. Todavia, não há, conforme exposto anteriormente, qualquer ocultação de fato imponível tributário. O conceito de fraude se baseia essencialmente na prática de ato lesivo a interesses de terceiros. O sujeito que atua de forma fraudulenta é aquele que tem a clara intenção de frustrar regras e deveres legais. Fl. 2195DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.196 65 A caracterização da fraude ainda depende da comprovação da intenção dolosa de mascarar ou disfarçar a ocorrência do fato gerador. Desse modo, a fraude à lei se constata nos casos em que o contribuinte se vale de meios muitas vezes ilícitos para evitar a tributação ou reduzir o montante devido, como ocorre nos casos de falsificação de documentos, declarações falsas, contabilização de notas fiscais em duplicidade etc. No caso analisado, não se verifica a ocorrência de fraude à lei tributária, tampouco em abuso de direito ou simulação. Em momento algum a impugnante pretendeu realizar atos societários para "driblar" as normas tributárias em questão buscando a redução dos tributos devidos. Muito pelo contrário, todos os atos praticados estão embasados na documentação aplicável e, inclusive, tal como exposto pela própria fiscalização, a estrutura implementada para fins da associação entre o Grupo JBS e Grupo Bertin foi ampla e detalhadamente divulgada ao público por meio de Fatos Relevantes. A jurisprudência administrativa é pacífica ao determinar que a fiscalização tem o ônus de comprovar, de forma inequívoca, o dolo na conduta do contribuinte para que seja aplicada a multa agravada (vide ementas da Câmara Superior de Recursos Fiscais à fl. 962). No presente caso, fica claro que não existe qualquer espaço para a aplicação de multa qualificada. As operações praticadas no âmbito da associação do Grupo JBS com o Grupo Bertin foram reais, efetuadas entre terceiros independentes, além de serem também devidamente registradas nos órgãos públicos competentes e contabilizadas nos livros fiscais e contábeis das sociedades envolvidas. Mais que tudo, tais operações tiveram razões empresariais e não tributárias legítimas para ocorrer. O antigo Primeiro Conselho de Contribuintes chegou a editar Súmula nº 14, no sentido de que a multa qualificada de 150% somente pode ser aplicada em caso de "evidente intuito de fraude". O CARF já decidiu (fl. 963) que, mesmo na ocorrência de simulação (o que não é o caso), não cabe a aplicação da multa qualificada se não ficou evidenciado o intuito de fraude. Destaquese que a contribuinte, além de registrar todos os seus atos nos estritos termos da legislação em vigor, portouse de forma exemplar durante a fase de fiscalização e disponibilizou todas as informações e documentos solicitados pela fiscalização, sem jamais omitir ou ocultar qualquer coisa da fiscalização. Vale ressaltar o que ficou decidido no Caso Santander, no sentido de que se o contribuinte é transparente em seus atos e contribui com a fiscalização, apresentando também todos os lançamentos contábeis pertinentes, não se pode aplicar a multa de 150%. Na realidade, no pior cenário, o presente caso deveria ser tratado como um mero conflito entre interpretações dadas pela fiscalização e pela impugnante a um mesmo conjunto fático, de forma que a multa qualificada aplicada pela fiscalização deve ser integralmente cancelada, ou, no mínimo, reduzida para 75%, dadas as disposições contidas do artigo 112, incisos I e II, do CTN Fl. 2196DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.197 66 (que dispõe expressamente que a norma tributária que comine penalidades deverá ser interpretada e aplicada da maneira mais favorável ao contribuinte em casos de dúvida a respeito da capitulação legal do fato e da natureza ou das circunstâncias materiais do fato). Do erro de proibição e dúvida relevante No caso em análise, não se pode argüir simulação, fraude ou dolo; quando muito se poderia falar em "erro de proibição", pois, se é que havia qualquer ilicitude nas operações examinadas, o que se admite para argumentar, não havia ao menos conhecimento por parte da impugnante acerca dessa suposta ilicitude do negócio. Dessa forma, se considerado o tratamento que se dá à figura do erro de proibição no Direito Tributário, resta demonstrada a insubsistência da multa qualificada imposta pela fiscalização. É nesse sentido que tem decidido a jurisprudência administrativa, conforme ementas às fls. 966/967. Do princípio da proporcionalidade e o artigo 142 do CTN Por fim, importa notar que a aplicação de sanções deve sempre seguir o princípio da razoabilidade e proporcionalidade, conforme dispõe o artigo 2º, § único, inciso VI, da Lei nº 9.784/99, que rege supletivamente o processo administrativo fiscal. No mesmo sentido, o artigo 142 do CTN dispõe que no ato do lançamento a Autoridade Administrativa, sendo o caso, poderá “propor” a aplicação da penalidade cabível. Ou seja deve ponderar as situações objetivas e subjetivas da conduta praticada pelo contribuinte, de modo que possa ser feito um verdadeiro juízo de pertinência e de adequação da aplicação da penalidade, se for o caso. Em recente julgamento, o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade de votos, confirmou a redução do percentual de multa originalmente fixada em 60% do valor principal em discussão para 30%, corroborando a aplicação da teoria da proporcionalidade ao caso concreto, conforme ementa à fl. 968. Da conclusão quanto à multa qualificada Por todas as razões acima expostas, resta demonstrado o total descabimento da aplicação da multa qualificada de 150% à impugnante no presente caso, razão pela qual se pleiteia seu imediato cancelamento. DA IMPROCEDÊNCIA DOS JUROS DE MORA Como se sabe, após a lavratura dos Autos de Infração, as multas de ofício passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros SELIC. Essa atualização não é realizada com amparo na lei, mas com base no Parecer MF n° 28/98, emitido pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação (COSIT), tomando por base o artigo 61 da Lei n° 9.430/96. Fl. 2197DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.198 67 Contudo, tal dispositivo legal trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo qualquer menção às multas de ofício aplicadas pela RFB. Ainda quanto aos juros de mora, tendo em vista a real possibilidade de a taxa SELIC vir a ser considerada inconstitucional para fins tributários pelo Poder Judiciário, a impugnante contesta sua aplicação e requer sua desconsideração no cômputo do crédito tributário principal, de modo os juros de mora sejam calculados com base no artigo 161, § 1º, do CTN. DAS CONCLUSÕES E DO PEDIDO Conforme restou demonstrado ao longo da presente impugnação, a premissa adotada pela fiscalização foi equivocada, na medida em que a operação em análise no presente processo administrativo estava baseado em efetivos propósitos negociais/societários e racional econômico, além de estar de acordo com a legislação societária e tributária em vigor à época dos fatos. À luz das razões de fato e de direito trazidas nesta impugnação, podese concluir que: Preliminarmente, o presente Auto de Infração deve ser imediatamente cancelado, tendo em vista que: (a) ainda que o equivocado entendimento da fiscalização pudesse prevalecer, fato é que o lançamento contém vício material insanável ou, ainda, formal, qual seja, erro na identificação do sujeito passivo e da matéria tributável, pois deveria ter sido lavrado contra o Grupo vendedor das ações Bertin (Bertin FIP); (b) houve descrição incorreta dos fatos objeto do Auto de Infração ora combatido, o que viola o direito de defesa da impugnante e o artigo 10, inciso III, do Decreto nº 70.235/72; e (c) a presente autuação foi lavrada com base em mera presunção da fiscalização, pois presumiu que a impugnante teria recebido a participação detida pelo Bertin FIP na Bertin e que essa mesma participação teria sido posteriormente contribuída, a valor econômico, em aumento de capital da JBS; A transação aqui analisada se encontrava revestida de efetivos propósitos negociais, de forma que a associação realizada entre Grupo JBS e Grupo Bertin unificou duas empresas independentes e concorrentes, dando origem à maior empresa de processamento de carne bovina do mundo. Não obstante as alegações da fiscalização, todas as operações envolvendo a transação levaram em consideração os valores econômicos das empresas JBS e Bertin, de forma que a transação estava em sua integralidade norteada por racional econômico usualmente utilizado no mercado; Além disso, no final da implementação da estrutura, as premissas estabelecidas pelas partes para a associação foram todas atingidas, quais sejam: a JBS unificou as atividades operacionais das duas sociedades, que atuavam em ramos de atividade economicamente semelhantes ramo frigorífico; as participações foram concentradas em uma única sociedade holding (a própria impugnante), que passou a concentrar as participações dos Fl. 2198DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.199 68 Controladores JBS e Controladores Bertin na entidade que passaria a combinar as atividades da JBS e da Bertin; a Família Batista continuou no exercício de controle da holding e, em consequência, da JBS; e a definição da participação societária detida por cada acionista controlador na sociedade holding (i.e. impugnante) foi determinada com base na relação de substituição das ações das sociedades operacionais (JBS e Bertin), apurada de forma justa com suporte nos estudos apresentados pelos Comitês Independentes contratados por cada uma das sociedades operacionais, evitando dessa forma uma discussão negocial entre os acionistas controladores e mitigando o risco de eventual questionamento por parte de acionistas minoritários. Portanto, como companhia aberta que era, a JBS atendeu às exigências da CVM e adotou as melhores práticas de governança corporativa. Caso a operação tivesse sido realizada como pretendia a fiscalização, primeiro as partes teriam definido a relação de substituição entre elas e somente depois é que o percentual seria efetivamente definido em condições de mercado pelos referidos Comitês Independentes. Em outras palavras, na estrutura da fiscalização, a 4ª premissa estabelecida para nortear a associação entre as partes não teria sido atendida, já que a ordem dos passos efetuados pelas partes na associação teve o objetivo claro de preservar a premissa negocial estabelecida para evitar uma discussão entre as duas famílias sobre a relação de substituição mais adequada, bem como de mitigar eventual questionamento por parte dos minoritários; Do ponto de vista exclusivamente fiscal, o único ganho experimentado pela impugnante na transação tem natureza de ganho decorrente de equivalência patrimonial, o qual não está sujeito à tributação pelo IRPJ, pela CSLL, pelo PIS ou pela COFINS, conforme expressa previsão legal encontrada no artigo 33, § 2º do Decretolei nº 1.598/77 e artigo 1º, § 3º, inciso V, alínea "b" das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003; A verdade é que, no presente caso, a fiscalização pretende exigir tributos sobre a alienação das ações da Bertin, ou seja, operação que só poderia ter sido praticada pelo próprio Grupo Bertin. A incidência dos tributos não poderia ser exigida da impugnante, já que ela nunca chegou a ter a titularidade das ações da Bertin e nunca praticou qualquer ato de alienação dessas mesmas ações; O presente processo trata de caso claro de não ocorrência da hipótese de incidência tributária. Utilizando as palavras trazidas no artigo 114 do CTN, temse que a impugnante não praticou a situação definida em lei como necessária e suficiente à ocorrência do fato gerador; Mesmo que não se entenda que houve efetivo propósito negocial e verdadeira substância econômica na associação do Grupo JBS com o Grupo Bertin, foi demonstrado que o ordenamento jurídico brasileiro não permite à fiscalização desconsiderar negócios jurídicos existentes, válidos e eficazes (como de fato foi a operação em análise) apenas com base em uma suposta interpretação da "substância econômica" envolvendo a operação; Fl. 2199DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.200 69 De qualquer forma, ainda que o cenário absurdo desenhado pela fiscalização para lavrar o presente Auto de Infração pudesse ser levado em consideração, restou demonstrado que não haveria valores de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS a serem exigidos da impugnante; A severa multa de 150% aplicada pela fiscalização também deve ser prontamente afastada, pois essa penalidade somente poderia ser imposta a casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, quando restar provada pelo Fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. Porém, é claro que este não é um caso de fraude, sonegação ou conluio. Ainda que se entenda que as operações praticadas pela impugnante não lhe davam o direito de proceder como procedeu, não se pode falar em qualquer tipo de fraude. A impugnante jamais falsificou documentos ou "maquiou" livros contábeis ou fiscais, ao contrário, sempre registrou, às claras, todas as operações em sua contabilidade. A impugnante registrou todos os seus atos nas Juntas Comerciais e demais órgãos públicos cabíveis (CVM e CADE), inclusive publicou toda a operação ao mercado por meio de Fatos Relevantes, e sempre recebeu a fiscalização com total transparência e atendeu a todas as suas solicitações com clareza e prontidão. Na pior das hipóteses, a fiscalização pode alegar que discorda dos efeitos jurídicos e legais das operações praticadas pela impugnante, mas isso jamais poderia servir de base para se pressupor a falta de boa fé da impugnante e acusála de ter incorrido em fraude; A taxa SELIC não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária. Assim sendo, a impugnante pleiteia o imediato cancelamento integral do Auto de Infração em tela (principal, multas e juros), com o consequente arquivamento do processo administrativo. A impugnante protesta ainda pela juntada posterior de documentos que possam se fazer necessários, nos termos do artigo 16, § 4º, alínea "a", do Decreto 70.235/72, bem como do princípio da verdade material que orienta o processo administrativo fiscal. Outrossim, requer que, durante todo o curso do presente feito, todas as publicações e intimações sejam realizadas em nome de seu advogado, inclusive para se fazer presente no julgamento e realizar sustentação oral. " Fl. 2200DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.201 70 DA DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA A Impugnação foi Julgada Procedente em Parte no Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (SP), que apresenta a seguinte ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 GANHO DE CAPITAL. COMPROVAÇÃO. Comprovado, por simples operação matemática, o ganho de capital da contribuinte na troca de suas ações pelas ações da JBS que o Bertin FIP possuía (3ª operação, na qual o Bertin FIP subscreve / integraliza ações da contribuinte com a totalidade das ações que detinha na JBS), mantémse a tributação correspondente. SUJEITO PASSIVO. O sujeito passivo é a contribuinte fiscalizada, pois o Bertin FIP, por obrigação contratual, “repassoulhe” parte do o ganho obtido junto à JBS em operação anterior (2ª operação). GANHO POR VARIAÇÃO NO PERCENTUAL DE PARTICIPAÇÃO. O ganho de capital objeto da presente autuação foi o obtido na 3ª operação, que nada tem a ver com o ganho por variação no percentual de participação da contribuinte na JBS, ocorrido na 2ª operação. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao IRPJ aplicase à tributação da CSLL, decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2009 OMISSÃO DE RECEITA. DESCONSIDERAÇÃO INDEVIDA DE ATOS JURÍDICOS. Demonstradas as razões econômicas / empresariais da reorganização societária, não há razão para a desconsideração, pela fiscalização, dos atos jurídicos realizados (que a levaram a concluir pela existência de omissão de receita). Fl. 2201DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.202 71 INEXISTÊNCIA DE ALIENAÇÃO DE AÇÕES. Sendo indevida a desconsideração, pela fiscalização, dos atos jurídicos realizados, não se sustentam seus argumentos de que (1) o Bertin FIP teria subscrito ações da contribuinte (e não da JBS), integralizandoas com as ações que detinha na Bertin; e (2) a contribuinte teria, então, alienado essas ações da Bertin para a JBS (omitindo a tributação da receita correspondente). Exonerase, dessa forma, a tributação correspondente. COFINS. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao PIS aplicase à tributação da COFINS, decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO INDEVIDA. Não se justificando a desconsideração, por parte da fiscalização, dos atos jurídicos realizados, visando a reorganização societária na medida em que todas as etapas / operações tiveram suas razões econômicas / empresariais , e não restando comprovada a utilização de mecanismos fraudulentos e a deliberada intenção de não tributar um ganho sabidamente tributável, há que se reduzir a multa de ofício para 75%, sendo improcedente a sua qualificação (duplicação). JUROS DE MORA. TAXA SELIC. O cálculo dos juros de mora com base na taxa SELIC tem previsão legal, não competindo à esfera administrativa a análise da ilegalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. Tratandose de aspecto que não faz parte da presente lide, esta autoridade julgadora não se manifesta a respeito de juros sobre multa de ofício." Em resumo, a decisão da Instância a quo: manteve a matéria tributável relativa ao ganho de capital (base de cálculo do IRPJ e da CSLL) ), no montante de R$ 3.811.524.985,27 (reduzindose a multa de ofício para 75%); excluiu a matéria tributável relativa à omissão de receita (base de cálculo do PIS e da COFINS), no montante de R$ 8.760.571.215,40. Em conseqüência da exoneração de parcela do crédito tributário, recorreuse de ofício, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), de acordo com o artigo 34 do Decreto nº 70.235/1972 e alterações introduzidas pelas Leis nºs 8.748/1993 e 9.532/97, e pela Portaria MF nº 03/2008. Fl. 2202DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.203 72 DO RECURSO VOLUNTÁRIO Inconformada com a decisão de 1ª Instância, a Recorrente interpôs recurso voluntário, em que apresenta, em síntese, as seguintes razões para a reforma da decisão a quo: (a) Preliminarmente, o presente Auto de Infração deve ser imediatamente cancelado, tendo em vista que (a) ainda que o equivocado entendimento da D. Fiscalização pudesse prevalecer, o que se admite apenas para argumentar, fato é que o lançamento contem vício material insanável ou, ainda, formal, qual seja, erro na identificação do sujeito passivo e da matéria tributável, pois deveria ter sido lavrado contra o Grupo vendedor das ações Bertin (Bertin FIP); (b) a presente autuação foi lavrada com base em meras presunções da D. Fiscalização, pois presumiu a realização de fatos inexistentes (que a Recorrente teria recebido a participação detida pelo Bertin FIP na Bertin e que essa mesma participação teria sido posteriormente contribuída, a valor econômico, em aumento de capital da JBS); (b) A transação aqui analisada se encontrava revestida de efetivos propósitos negociais, de forma que a associação realizada entre Grupo JBS e Grupo Bertin unificou duas empresas independentes e concorrentes, dando origem à maior empresa de processamento de carne bovina do mundo. Não obstante as alegações da D. Fiscalização, todas as operações envolvendo a transação levaram em consideração os valores econômicos das empresas JBS e Bertin, de forma que a transação estava em sua integralidade norteada por racional econômico usualmente utilizado no mercado; (c) A ordem dos passos adotados na reorganização societária (que foi ratificada pela r. decisão recorrida) constitui faculdade dos Grupos JBS e Bertin, especialmente quando a estrutura não envolveu a interposição de entidades sem substância econômica e a realização de operações societárias com o objetivo exclusivo de economia fiscal. Na pior das hipóteses, se a inversão da ordem dos passos tivesse trazido qualquer benefício fiscal, tratase de mera opção fiscal das pessoas jurídicas envolvidas, que não estão obrigadas a implementar determinada reorganização societária em ordem que lhe seja mais gravosa; (d) Ainda que se admita que a transação foi realizada com o propósito de economia fiscal, não existe qualquer fundamentação legal para a desconsideração de operações legitimamente praticadas, em razão da ausência de regulamentação da norma geral antielisão (LC 104/01); (e) Não obstante seja absolutamente desnecessário tecer considerações acerca das razões econômicas que levaram as partes envolvidas a estruturar os passos na ordem efetivamente realizada (primeiramente a incorporação de ações, seguido da contribuição das ações da JBS em aumento de capital da Recorrente), a Recorrente demonstrou que a estrutura estava revestida de três razões econômicas principais; Fl. 2203DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.204 73 (f) A primeira razão econômica é que a operação foi estruturada com enorme cautela para evitar: (a) a perda Imediata de controle na Bertin, com insegurança para o BNDES e o Bertin FIP; e (b) o risco de perda de controle na JBS, com riscos para os Controladores JBS. A forma mais racional e segura para implementar a operação envolveu, portanto, a realização da primeira transação no nível da companhia aberta com a obtenção das aprovações dos minoritários para aí sim perseguir a integralização das ações da Recorrente com as ações da JBS. (g) A segunda razão econômica é que, caso a operação tivesse sido realizada como pretendia a D. Fiscalização, primeiro as partes teriam definido a relação de substituição entre elas e somente depois é que o percentual seria efetivamente definido em condições de mercado pelos referidos Comitês Independentes. Em outras palavras, na estrutura da D. Fiscalização, uma das principais premissa estabelecida para nortear a associação entre as partes não teria sido atendida, já que a ordem dos passos efetuados pelas partes na associação teve o objetivo claro de preservar a premissa negocial estabelecida para evitar uma discussão entre as duas famílias sobre a relação de substituição mais adequada, bem como de mitigar eventual questionamento por parte dos minoritários (inclusive o BNDES); (h) A terceira razão econômica é que existe a contribuição das ações da JBS pelo seu valor contábil em aumento de capital da Recorrente não representou qualquer perda patrimonial para o Bertin FIP, que permaneceu com investimento na Recorrente com valor de mercado de R$ 8,8 bilhões; (i) Após análise detalhada dos efeitos fiscais da operação, foi verificado que, do ponto de vista exclusivamente fiscal, o único ganho experimentado pela Recorrente na transação tem natureza de ganho decorrente de equivalência patrimonial, o qual não está sujeito à tributação pelo IRPJ/CSL e pelo PIS/COFINS, conforme expressa previsão legal encontrada no artigo 33, parágrafo 2o do Decretolei 1.598/77 e artigo Io, parágrafo 3o, inciso V, alínea "b" das Leis 10.637/02 e Lei 10.833/03; (j) Muito embora a r. decisão recorrida tenha reconhecido que os passos foram legítimos e que a sua ordem não deve ser invertida, a D. Autoridade Julgadora equivocouse ao entender que a Recorrente reconheceu um ganho de capital tributável no aumento de capital realizado pelo Bertin FIP com as ações da JBS; (k) Este equívoco da r. decisão recorrida é comprovado por quatro argumentos específicos: (i) a legislação fiscal autoriza expressamente que a operação de aumento de capital seja realizada pelo seu valor contábil ou pelo valor de mercado, com reflexos única e exclusivamente para o acionista que efetua o aumento de capital (nunca para a empresa que tem o seu capital social aumentado); (ii) não existe na legislação fiscal qualquer obrigatoriedade de registrar a aquisição de ativos pelo seu Fl. 2204DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.205 74 valor de mercado. No momento da aquisição, a entidade reconhece os ativos adquiridos pelo seu custo (preço efetivamente pago, em dinheiro ou em instrumentos patrimoniais); (iii) não há qualquer vedação à realização da operação de aumento de capital pelo seu valor contábil, com relação de troca a valor de mercado. Na perspectiva da sociedade investida (Recorrente), o ativo é adquirido tendo como contrapartida a conta de capital social. Não há o registro de qualquer ganho de capital tributável para a entidade nesse momento da capitalização; e (iv) a própria legislação fiscal estabelece que, ainda que exista subscrição da participação societária com ágio (ou seja, caso o ativo seja contribuído por um valor superior ao das ações emitidas, o que não ocorreu), esta diferença terá como contrapartida a conta de reservas de capital, sem que esteja sujeita a qualquer tributação; (l) No presente caso, a D. Fiscalização pretende exigir tributos sobre a alienação das ações da Bertin, ou seja, operação que só poderia ter sido praticada pelo próprio Grupo Bertin. A incidência dos tributos não poderia ser exigida da Recorrente, já que ela nunca chegou a ter a titularidade das ações da Bertin e nunca praticou qualquer ato de alienação dessas mesmas ações; (m) De qualquer forma, ainda que o cenário absurdo desenhado pela D. Fiscalização para lavrar o presente Auto de Infração pudesse ser levado em consideração, o que se admite apenas para argumentar, restou demonstrado que não haveria valores de IRPJ/CSL/PIS/COFINS a serem exigidos da Recorrente; (n) Em linha com o decidido na r. decisão de primeira instância, a severa multa de 150% aplicada pela D. Fiscalização também deve ser prontamente afastada, pois, como se sabe, essa penalidade somente poderia ser imposta a casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, quando restar provada pelo Fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. A Recorrente jamais falsificou documentos ou "maquiou" livros contábeis ou fiscais, ao contrário, sempre registrou, às claras, todas as operações em sua contabilidade. A Recorrente registrou todos os seus atos nas Juntas Comerciais e demais órgãos públicos cabíveis (CVM e CADE), inclusive publicou toda a operação ao mercado por meio de Fatos Relevantes, e sempre recebeu a D. Fiscalização com total transparência e atendeu a todas as suas solicitações com clareza e prontidão. Na pior das hipóteses, portanto, a D. Fiscalização pode alegar que discorda dos efeitos jurídicos e legais das operações praticadas pela Recorrente, mas isso jamais poderia servir de base para se pressupor a falta de boa fé da Recorrente e acusála de ter incorrido em fraude; (o) A taxa SELIC não pode ser aplicada aos créditos tributários e, se admitida a sua aplicação, só poderá incidir sobre o crédito tributário principal, não podendo recair sobre o valor da multa de ofício, que é penalidade e não tem natureza tributária; Fl. 2205DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.206 75 DAS CONTRARRAZÕES AO RECURSO VOLUNTÁRIO Em 24/08/2016, a Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário, requerendo que seja negado provimento ao recurso interposto pela contribuinte. DAS RAZÕES ADITIVAS A RECURSO VOLUNTÁRIO Em 06/06/2018, a Recorrente apresentou Razões Aditivas a Recurso Voluntário, juntamente com o Parecer de Orientação CVM n° 35, de 1º/9/2008. Em 11/06/2018, em caráter complementar às Razões Aditivas a Recurso Voluntário, a Recorrente juntou Parecer Técnico de Natureza Contábil e Fiscal com o detalhamento dos lançamentos contábeis e respectivos efeitos tributários relativos aos atos praticados por esta contribuinte e as alternativas aventadas pela Autoridade Fiscal para o presente processo. Fl. 2206DF CARF MF Processo nº 16561.720104/201422 Resolução nº 1402000.661 S1C4T2 Fl. 2.207 76 Voto Conselheiro Evandro Correa Dias, Relator. Os recursos de ofício e voluntário atendem aos pressupostos de admissibilidade, pelo que deles se toma conhecimento. Ressaltase que, após a indicação do presente processo para a pauta, a recorrente FB Participações apresentou Razões Aditivas a Recurso Voluntário, juntamente com o Parecer de Orientação CVM n° 35, de 1º/9/2008, e Parecer Técnico de Natureza Contábil e Fiscal com o detalhamento dos lançamentos contábeis e respectivos efeitos tributários. Notase que é induvidoso que as Razões Aditivas a Recurso Voluntário, juntamente com o Parecer de Orientação CVM n° 35, e o Parecer Técnico de Natureza Contábil e Fiscal acostados pela defesa às vésperas deste processo ser julgado e já com definição de pauta, à luz do princípio da “busca da verdade material”, norteadora do processo administrativofiscal, precisam ser submetidos ao conhecimento da Procuradoria da Fazenda Nacional, parte nestes autos e que já havia acostado suas “contrarrazões” antes da juntada dos mencionados documentos. Dizendo de outro modo, no momento em que integrado ao presente processo os referidos documentos, inexistem dúvidas de que a parte contrária, no caso, a Fazenda Nacional, por sua Procuradoria, restou prejudicada, já que a juntada deuse após as contrarrazões interpostas contra o recurso voluntário. Deste modo, em respeito ao princípio de igualdade de tratamento entre os litigantes, basilar no ordenamento jurídico pátrio, a PGFN deve ter acesso e vista às Razões Aditivas a Recurso Voluntário, juntamente com o Parecer de Orientação CVM n° 35, de 1º/9/2008, e o Parecer Técnico de Natureza Contábil e Fiscal juntados, para sobre eles se manifestar, se entender pertinente. Assim, voto no sentido de CONVERTER o julgamento do recurso em diligência e encaminhar o processo à PGFN, a fim de que esse Órgão seja cientificado e se manifeste, no prazo de 30 (trinta) dias e exclusivamente, sobre o teor das Razões Aditivas a Recurso Voluntário, juntamente com o Parecer de Orientação CVM n° 35, de 1º/9/2008, e o Parecer Técnico de Natureza Contábil e Fiscal juntados após o processo ter sido incluído em pauta. Transcorrido o prazo citado, com ou sem manifestação da Fazenda Pública, o presente processo deverá retornar a esta 2ª Turma da 4ª Câmara da 1ª Seção para prosseguimento de seu julgamento. (assinado digitalmente) Evandro Correa Dias Fl. 2207DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13052.000309/2004-78
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples
Ano-calendário: 2002
ADESÃO. MANUTENÇÃO. ENGENHARIA.
Súmula CARF nº 57: A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal.
Numero da decisão: 1001-000.751
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(Assinado Digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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ementa_s : Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples Ano-calendário: 2002 ADESÃO. MANUTENÇÃO. ENGENHARIA. Súmula CARF nº 57: A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal.
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LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Anocalendário: 2002 ADESÃO. MANUTENÇÃO. ENGENHARIA. Súmula CARF nº 57: A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 05 2. 00 03 09 /2 00 4- 78 Fl. 99DF CARF MF 2 Tratase de Ato Declaratório DRF/SCS n 544.928, de 02 de agosto de 2004 (efl. 05), através do qual o contribuinte referenciado foi excluído do SIMPLES FEDERAL em razão de constatação de situação incluída nas hipóteses de vedação à opção pela sistemática tributária em questão, ou seja, de que o contribuinte exerceria atividade econômica não permitida (29297/02 Instalação, reparação e manutenção de outras máquinas e equipamentos de uso geral), por força do artigo 9°, inciso XIII, alínea "f" da Lei 9.317/96. Abaixo a descrição do litígio, relatada na decisão recorrida (efl. 34): A empresa foi excluída do Sistema Integrado de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES conforme Ato Declaratório Executivo DRF/PFO n° 544.928, de 02/08/2004, com eleitos a partir de 0l/06/2002, por exercer atividade econômica vedada conforme código CNAE 29297/02 Instalação, reparação e manutenção de outras maquinas e equipamentos de uso geral (fl. 04). A interessada tomou ciência da exclusão, em 30/08/2004. conforme cópia e/ou original do Aviso de Recebimento AR à folha 44. Apresentou sua manifestação de inconformidade (impugnação) em 28/09/2004. conforme consta às folhas 01 a 03, instruída com cópias e/ou originais de documentos de folhas 04 a 42. argumentando. em síntese como segue: Entende que foi excluída do Simples pelo seu CNAE Fiscal (29297/02); Diz que a indicação desse CNAE (em 28/05/2002) foi equivocada; argumenta que exerce a atividade de prestação de serviços de conserto por meio de solda em máquinas industriais, não havendo nenhuma necessidade de existir um engenheiro mecânico acompanhando as atividades: Entende que não há um CNAE mais adequado para indicar a sua atividade; Esclarece ainda que sua atividade consiste em serviços de solta dentro das empresas (clientes): ou seja, quando quebra uma máquina, normalmente muito grande, se desloca até essa empresa e executa os serviços de solda das peças quebradas; Para provar que essas são as atividades exercidas anexa Laudo Tecnico fornecido por um engenheiro mecânico e de segurança do trabalho, Sr. Ricardo Antonizazzi; Lembra que na Decisão n° 127, da 6” Região Fiscal (DOU de 06/06/ I998) foi externado o entendimento no sentido que reforma de peças mecânicas de equipamentos industriais não impede a opção pelo Simples; _ Também lembra decisão judicial no sentido de que pequenas oficinas não estão impedidas de optar pelo Simples (Processo 2004.7l.00.()2l4733); Ainda, para demonstrar que os serviços executados são apenas serviços de solda junta cópias de notas fiscais; Fl. 100DF CARF MF Processo nº 13052.000309/200478 Acórdão n.º 1001000.751 S1C0T1 Fl. 100 3 Protesta quanto aos efeitos retroativos da exclusão. Requer seja declarada a insubsistência do Ato Declaratório Executivo DRF/SCS n° 544.928. de 02 de agosto de 2004. A decisão de primeira instância (efls. 57/64) julgou a manifestação de inconformidade improcedente. Inicialmente o voto condutor desta decisão argumenta que a contribuinte foi excluída do Simples não somente em razão de seu CNAE indicar a atividade vedada. Esclarece que " a exclusão não decorre por constar esse ou aquele código CNAE em seu CNPJ mas, sim. pela atividade efetivamente exercida pela empresa. E assevera que a atividade da empresa consiste na soldagem elétrica em peças de porte. bem como a substituição de peças danificadas em máquinas e veículos com o uso dos equipamentos supracitados, segundo laudo anexado pela própria empresa. A seguir o voto condutor da decisão recorrida dá as razões pelas quais a atividade é vedada. Entre estas a afirmação de que os serviços de montagem e manutenção de máquinas e equipamentos industriais foi declarada atividade vedada ao sistema simplificado de tributação pelo Ato Declaratório (Normativo) n° 04 de 22/02/2000, publicado no D.O.U. de 23/02/2000: Prescreve este ato: ...não podem optar pelo SIMPLES as pessoas jurídicas que prestem serviços de montagem e manutenção de equipamentos industriais. por caracterizar prestações de serviço profissional de engenharia. Cientificada da decisão de primeira instância em 28/07/2008 (efl. 66) a Interessada interpôs recurso voluntário, protocolado em 26/08/2008 (efl. 69), em que repete os argumentos da manifestação de inconformidade. Voto Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator O recurso ao CARF é tempestivo. Dele conheço. Conforme já destacado pelo voto condutor da decisão recorrida, o contribuinte foi excluído do Simples pela constatação de situação incluída nas hipóteses de vedação à opção pela sistemática tributária em questão, ou seja, de que a contribuinte exerceria atividade econômica não permitida (29297/02: Instalação, reparação e manutenção de outras máquinas e equipamentos de uso geral), por força do artigo 9°, inciso XIII, alínea ”f" da Lei 9.317/96. Tratase de alegação, pelo Fisco, de que a atividade montagem e manutenção de equipamentos industriais caracterizariam prestações de serviço profissional de engenharia. Tal assertiva foi consubstanciada no Ato Declaratório (Normativo) n° 04 de 22/02/2000, publicado no D.O.U. de 23/02/2000. Posterior a este ato normativo sobreveio a Súmula CARF nº 57 prescrevendo que a prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em Fl. 101DF CARF MF 4 máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Súmula CARF nº 57: A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Constato que a atividade (que deu razão à exclusão) de prestação de serviços de Montagem e Ajustagem de Máquinas industriais está prevista no contrato social de empresa (efl. 06). Desta forma, e em obediência ao disposto no art. 45, VII, do Ricarf, devese aplicar os ditames da Súmula 57 deste CARF. Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Fl. 102DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.954255/2008-45
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 15/08/2005
DILIGÊNCIA. PEDIDO. INDEFERIMENTO.
Indefere-se pedido de diligência quando sua realização revele-se prescindível para a formação de convicção pela autoridade julgadora.
JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA.
Somente devem ser observados os entendimentos jurisprudenciais para os quais a lei atribua eficácia normativa.
RECURSO VOLUNTÁRIO. ADOÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA REPRODUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO.
Registrando o relator que as partes não apresentaram novas razões de mérito perante o Carf e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida, é facultado a transcrição dos termos da decisão de primeira instância, como fundamento para decidir a controvérsia.
DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA.
A DCTF é instrumento suficiente para constituição do crédito tributário.
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/COFINS. EXTINÇÃO.
O direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário.
PER/DCOMP. PAGAMENTO A MAIOR. DCTF RETIFICADORA. HIPÓTESE. TRANSMITIDA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO E DO PRAZO DE 5 ANOS DO FATO GERADOR.
DCTF retificadora transmitida após a ciência do despacho decisório e do transcurso do prazo de cinco anos para o pleito da restituição, com objetivo de reduzir o valor do débito ao qual o pagamento estava integralmente alocado não gera efeitos jurídicos para a compensação pleiteada por meio da apresentação de Per/Dcomp, em face da sua caducidade.
Numero da decisão: 3001-000.478
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para rejeitar a diligência suscitada e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 15/08/2005 DILIGÊNCIA. PEDIDO. INDEFERIMENTO. Indefere-se pedido de diligência quando sua realização revele-se prescindível para a formação de convicção pela autoridade julgadora. JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA. Somente devem ser observados os entendimentos jurisprudenciais para os quais a lei atribua eficácia normativa. RECURSO VOLUNTÁRIO. ADOÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA REPRODUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO. Registrando o relator que as partes não apresentaram novas razões de mérito perante o Carf e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida, é facultado a transcrição dos termos da decisão de primeira instância, como fundamento para decidir a controvérsia. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. A DCTF é instrumento suficiente para constituição do crédito tributário. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/COFINS. EXTINÇÃO. O direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário. PER/DCOMP. PAGAMENTO A MAIOR. DCTF RETIFICADORA. HIPÓTESE. TRANSMITIDA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO E DO PRAZO DE 5 ANOS DO FATO GERADOR. DCTF retificadora transmitida após a ciência do despacho decisório e do transcurso do prazo de cinco anos para o pleito da restituição, com objetivo de reduzir o valor do débito ao qual o pagamento estava integralmente alocado não gera efeitos jurídicos para a compensação pleiteada por meio da apresentação de Per/Dcomp, em face da sua caducidade.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 18; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1884; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C0T1 Fl. 107 1 106 S3C0T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10880.954255/200845 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3001000.478 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 15 de agosto de 2018 Matéria PIS/COFINS RESTITUIÇÃO ELETRÔNICO PAGAMENTO A MAIOR Recorrente MULTILABEL DO BRASIL S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 15/08/2005 DILIGÊNCIA. PEDIDO. INDEFERIMENTO. Indeferese pedido de diligência quando sua realização revelese prescindível para a formação de convicção pela autoridade julgadora. JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA. Somente devem ser observados os entendimentos jurisprudenciais para os quais a lei atribua eficácia normativa. RECURSO VOLUNTÁRIO. ADOÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA REPRODUÇÃO. FUNDAMENTAÇÃO. Registrando o relator que as partes não apresentaram novas razões de mérito perante o Carf e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida, é facultado a transcrição dos termos da decisão de primeira instância, como fundamento para decidir a controvérsia. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. A DCTF é instrumento suficiente para constituição do crédito tributário. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/COFINS. EXTINÇÃO. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário. PER/DCOMP. PAGAMENTO A MAIOR. DCTF RETIFICADORA. HIPÓTESE. TRANSMITIDA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO E DO PRAZO DE 5 ANOS DO FATO GERADOR. DCTF retificadora transmitida após a ciência do despacho decisório e do transcurso do prazo de cinco anos para o pleito da restituição, com objetivo de reduzir o valor do débito ao qual o pagamento estava integralmente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 95 42 55 /2 00 8- 45 Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 108 2 alocado não gera efeitos jurídicos para a compensação pleiteada por meio da apresentação de Per/Dcomp, em face da sua caducidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário, para rejeitar a diligência suscitada e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante. Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão 1635.287, da 13ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo 1 DRJ/SP1 que, em sessão de julgamento realizada no dia 12.12.2011, julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório pleiteado no Per/Dcomp 40010.72943.020904.1.7.040707. Da síntese dos fatos Por bem sintetizar os fatos, transcrevo o relatório do acórdão recorrido (efls. 39 a 46), verbis: Relatório 1. Trata o presente processo de Declaração de Compensação apresentada em meio eletrônico (PER/DCOMP nº 40010.72943.020904.1.7.040707) em 02/09/2004, cujos relatórios foram anexados ao presente processo administrativo (fls. 7 e seguintes). Nesta declaração, pretende o Contribuinte quitar os débitos declarados às fls. 10, no valor total de R$ 3.228,37, com supostos créditos (R$ 3.228,37) decorrentes de recolhimento indevido realizado por meio do DARF no valor de R$ 6.922,09 (código de receita: 8109), recolhido em 15/08/2003. 2. Apreciando o pedido formulado, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo (DERAT/SPO) emitiu Despacho Decisório (fls. 2) no qual pronunciouse pela não homologação da compensação diante da inexistência do crédito declarado pelo Contribuinte às fls. 8. 3. Cientificado em 02/12/2008 (fls. 5) da solução dada à declaração de compensação apresentada, o Contribuinte, por seu representante legal, interpôs a Manifestação de Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 109 3 Inconformidade de 12/12/2008 (fls. 12), tempestivamente, com a juntada de documentos de fls. 13/37 (Despacho Decisório; DARF; DCTF Retificadora; Procuração e cópia de documentos do procurador; Ata da Assembléia Geral Extraordinária e Estatutos Sociais), afirmando, resumidamente, que foi elaborada DCTF retificadora do 3º trimestre de 2003 onde consta o crédito utilizado na PER/DCOMP. Citada DCTF retificadora e o DARF do recolhimento do tributo estão anexados à Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Da ementa da decisão recorrida A 13ª Turma da DRJ/SP1, ao julgar improcedente a manifestação de inconformidade, exarou o citado acórdão de manifestação de inconformidade, cuja ementa foi vazada nos seguintes termos, verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/08/2003 DESPACHO DECISÓRIO. AUSÊNCIA DE SALDO DISPONÍVEL. MOTIVAÇÃO. Motivada é a decisão que, por conta da vinculação total de pagamento a débito do próprio interessado, expressa a inexistência de direito creditório disponível para fins de compensação. ALTERAÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PAGAMENTO HOMOLOGADO TACITAMENTE. IMPOSSIBILIDADE. Crédito tributário definitivamente constituído e extinto pelo pagamento em virtude do transcurso do lustro previsto no § 4º, art. 150 do CTN, não é passível de alteração pelo Contribuinte e nem pela Administração Tributária. DCOMP. DÉBITO CONFESSADO EM DCTF. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO INDEVIDO. Considerando que o DARF indicado no Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação PER/DCOMP como origem do crédito foi utilizado para quitar débito confessado em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, e que o Contribuinte não logra comprovar que a verdade material é outra, não há que se falar em pagamento indevido. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Da ciência Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 110 4 O contribuinte, conforme depreendese da "INTIMAÇÃO Nº 117/2012" (efl. 47) e do Aviso de Recebimento AR (efl. 48), conheceu do teor do acórdão vergastado em 23.01.2012, razão pela qual, irresignado com a decisão recorrida, em 22.02.2012, protocola, perante a Derat/SP, o presente recurso voluntário, acompanhados de demais documentos, é o que demonstra o carimbo constante em sua "Folha de Rosto" (efls. 49 a 105). Do recurso voluntário Após tomar ciência da decisão vergastada, o recorrente comparece mais uma vez aos autos para, em sede de recurso voluntário, essencialmente, reiterar as alegações manejadas por ocasião da instauração da fase litigiosa, conforme os argumentos de defesa a seguir sintetizados, ocasião em que (re)apresenta os documentos, ao final, listados. Depois de historicizar os fatos inerentes ao seu pedido de restituição da contribuição em comento, cumulado com o de compensação e sua negativa por parte do colegiado a quo, o recorrente argumenta em sua defesa, que: 1 se assim entender a Autoridade Julgadora, o julgamento pode ser convertido em diligência para análise dos documentos ora juntados, na medida em que o pagamento indevido ou a maior pode ser comprovado por todos os meios de prova admitidos em direito, em atenção ao principio da economia processual; 2 o cerne da questão comprobatória constitui no valor devido a título de contribuição social; 3 a declaração de imposto de renda DIPJ juntada aos presentes autos demonstra e comprova o valor devido a titulo de contribuição social é inferior ao efetivamente recolhido para o período em questão; 4 as informações transmitidas pela DCTF prestamse exclusivamente para alocar o crédito tributário o vinculálo, mas, é a DIPJ que o torna definitivo; 5 os valores constantes em DCTF somente têm natureza informativa, ao passo que a DIPJ que têm natureza jurídica declaratória para constituir o crédito tributário, cuja homologação tácita contase em 5 (anos) do primeiro dia do exercício à sua apresentação, tanto para o fisco exigir o crédito tributário apurado na DIPJ como para o contribuinte impugnálo; 6 o direito à compensação contados a partir de 5 (cinco) anos do seu pagamento não desnatura a natureza jurídica contida na DIPJ; 7 a homologação do crédito tributário dáse na DIPJ, tanto é assim, que a prescrição para o fisco cobrar contase da data da referida declaração; 8 os valores informados em DCTF não têm natureza jurídica de confissão de dívida, mas, meramente informativo para efeitos de vinculação do crédito tributário pago; 9 o Per/Dcomp regularmente transmitido têm natureza de processo administrativo fiscal e suspende a exigibilidade do crédito tributário, assim sendo suspende também o prazo prescricional, conforme dispõe o inciso III do artigo 151 do CTN, assim, não haveria impedimento para que a autoridade administrativa procedesse a alteração de oficio nas informações contidas na DCTF; Fl. 110DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 111 5 10 a escrituração contábil também deve ser considerada para efeitos de comprovação dos valores recolhido a título de contribuições sociais (PIS/Pasep e Cofins); 11 tanto as informações contidas na DIPJ como na escrituração contábil demonstram e comprovam a existência de valor pago a maior ou indevido a título da referida contribuição, cujo direito compensação não pode ser negado ao contribuinte; 12 devem ser analisados o conjunto dos documentos produzidos pelo contribuinte a fim de poder firmar o convencimento da autoridade julgadora; 13 no exame do recurso 898266 o Carf decidiu que prevalece as informações contidas na DIPJ sobre as informações em DCTF. Diante do alegado, requer o provimento do recurso, declarandose o direito de compensar o valor pleiteado, extinguindose o respectivo crédito tributário. Ou subsidiariamente, seja o julgamento do presente recurso voluntário convertido em diligência, para análise dos documentos ora juntados. Juntamente com a presente peça recursal, (re)apresenta: procuração e cópia de documentos do procurador; ata da assembléia geral extraordinária e estatutos sociais, listagem informando o darf mencionado, despacho decisório, acórdão da decisão recorrida, DIPJ entregue em 22.06.2004 (Fichas 01, 02, 03, 21), razão geral/acumulado de janeiro a dezembro de 2003, referente às contas 2.10.10.06.0353PIS, 2.10.10.06.0354Cofins, 4.20.40.01.0833PIS e 4.20.40.01.0834Cofins. Do encaminhamento Em razão disso, os autos ascenderam ao Carf em 07.10.2014 (efl. 106), que, na forma regimental, foi distribuído e sorteado para manifestação deste colegiado extraordinário da 3ª Seção, cabendo a este conselheiro o processamento do presente feito. É o relatório. Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da competência para julgamento do feito Observo que, em conformidade com o prescrito no artigo 23B do Anexo II da Portaria MF 343 de 2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Ricarf, com redação da Portaria MF 329 de 2017, este colegiado é competente para apreciar o presente feito. Da tempestividade Fl. 111DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 112 6 O recurso voluntário foi juntado aos autos em 22.02.2012, depois da ciência ocorrida em 23.01.2012; portanto, a petição é tempestiva e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação de regência, de modo que dela conheço. Do pedido de diligência Quanto ao pedido de diligência efetuado pelo recorrente, para melhor apuração do alegado crédito tributário e, por consequência, sua habilitação para a compensação pleiteada, entendo que todos os elementos necessários à formação da convicção deste julgador se encontram presentes nos autos, o que, por si só, já responde à condicionante corretamente suscitada pelo interessado, ao assentar que "Se assim entender a Autoridade Julgadora o julgamento pode ser convertido em diligência para análise dos documentos ora juntados". Destarte, aplicase o artigo 18 do Decreto 70.235 de 06.03.1972, que dispõe que a "autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis". Embora o comando legal inserido na norma em referência esteja direcionado ao julgador administrativo de primeira instância, entendo também aplicável a esta instância recursal diante de eventual necessidade de esclarecimento de fatos necessários ao julgamento da lide, o que não ocorre no presente caso. Neste sentido, indefiro pleito. Da jurisprudência administrativa Cabe esclarecer que, no que concerne à interpretação da legislação e aos entendimentos jurisprudenciais indicados pelo recorrente, somente devem ser observados os atos para os quais a lei atribua eficácia normativa, o que não se aplica ao presente caso, nos termos do artigo 100 do Código Tributário Nacional CTN. A alegação relatada na peça recursal, por consequência, não está justificada. Dos fundamentos de mérito Da adoção, como razão de decidir, da decisão recorrida Dispõe o parágrafo 3º do artigo 57 do Anexo II do Ricarf, verbis: § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) Em análise do pleito, pouco há que deva ser acrescentado por este juízo administrativo aquilo que já foi minuciosamente explicitado pela 13ª Turma da DRJ/SP1, quando da prolação do acórdão recorrido. Fl. 112DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 113 7 Com efeito, andou bem o colegiado a quo ao assentar a vinculação estrita das autoridades administrativas às determinações contidas de forma literal em lei. Assim, só cabe aqui reafirmarse aquilo que de forma expressa consta da legislação tributária: o prazo para repetição do indébito é de cinco anos, contados da extinção do crédito tributário (inciso I do artigo 168 do CTN), sendo que o pagamento antecipado, efetuado no âmbito do lançamento por homologação, conformase como uma das hipóteses de extinção, mesmo que pendente a sua homologação (parágrafo 1º do artigo 150 do CTN). De tal sorte, do ponto de vista estritamente legal, o pedido de restituição tem de ser efetuado no período de cinco anos que sucede o eventual recolhimento indevido ou a maior. Desta feita, em sua manifestação de inconformidade, o contribuinte argumenta que (i) o valor do crédito compensado deriva de apuração constante em DIPJ, (ii) o Per/Dcomp regularmente transmitido têm natureza de processo administrativo fiscal e suspende a exigibilidade do crédito tributário, bem assim seu prazo prescricional, não estando a autoridade administrativa, portanto, impedida de alterar de oficio nas informações contidas na DCTF, devendo, por consequência, prevalecer as informações contidas na DIPJ sobre as informações em DCTF. Por sua vez, o colegiado a quo, não acolhe o pleito do contribuinte, tendo em vista que o crédito tributário pleiteado em questão está definitivamente constituído e extinto pelo pagamento em virtude do transcurso do prazo previsto no parágrafo 4º do artigo 150 do CTN, não sendo, portanto, passível de alteração pelo contribuinte ou pela Administração Tributária. Desta forma, com amparo no permissivo regimental reproduzido, por concordar com seus fundamentos, adoto como razão de decidir os termos do voto condutor da decisão recorrida, notadamente no que respeita ao tema "RETIFICAÇÃO DE DCTF APÓS A HOMOLOGAÇÃO DO “AUTOLANÇAMENTO” ", que reproduzo, verbis: Voto (...) 4.1. Destacase, por oportuno, que os atos administrativos, qualquer que seja sua categoria ou espécie, nascem com a presunção de legitimidade, independentemente de norma legal que a estabeleça. Essa presunção decorre do princípio da legalidade da Administração, declinando à Impugnante a iniciativa de apresentar os elementos capazes de demonstrar qualquer irregularidade no ato praticado. 4.2. Nesses termos, as matérias não expressamente questionadas presumemse legítimas e não deverão ser objeto de análise, vez que não se tornaram controvertidas nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, na redação dada pela Lei nº 9.532/97. 4.3. Ressaltase, por fim, que o regramento previsto no Decreto nº 70.235/72 é aplicável à Manifestação de Inconformidade em decorrência da previsão contida no § 11 do art. 74 da Lei 9.430/96, incluído pela Lei nº 10.833/03. CRÉDITO DO CONTRIBUINTE NÃO COMPROVADO Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 114 8 5. Inicialmente, cumpre transcrever o regramento emanado pelo artigo 74 da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 10.637/02: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 2002) § 2º A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 2002) 5.1. A Declaração de Compensação, apresentada por meio de PER/DCOMP (Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação) eletrônico, prestase a formalizar o encontro de contas entre o Contribuinte e a Fazenda Pública, por iniciativa do primeiro, a quem cabe a responsabilidade pelas informações sobre os créditos e os débitos, ao passo que à Administração Tributária compete a sua necessária verificação e validação. Confirmada a existência do crédito pleiteado, sobrevém a homologação e a consequente extinção dos débitos vinculados. 5.2. No caso concreto, o Contribuinte declarou débitos de PIS/PASEP (fls. 10) e apontou o suposto saldo não alocado no DARF supracitado de valor R$ 6.922,09 como origem do crédito, conforme fls. 9. 5.3. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão (fls. 2). 5.4. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que, embora localizado o pagamento indicado no PER/DCOMP como origem do crédito, o seu valor integral fora utilizado para a extinção do débito referente ao período de apuração 31/07/2003 e Código de Receita 8109, conforme apontado no campo 3 do próprio Despacho Decisório. 5.5. Assim, o exame das declarações prestadas pela própria interessada à Administração Tributária revela que o crédito utilizado na compensação declarada não existia, visto que já havia sido aproveitado para liquidar, por meio de pagamento, Fl. 114DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 115 9 débito distinto anteriormente declarado pelo Contribuinte em DCTF. Por conseguinte, não havia saldo disponível para suportar uma nova extinção, desta vez por meio de compensação, o que justificou a não homologação do valor que já estava destinado a pagamento de tributo anteriormente confessado. 5.6. Em suma, os motivos da não homologação residem nas próprias declarações e documentos produzidos pelo Contribuinte. Estes são, portanto, a prova e o motivo do ato administrativo. APRESENTAÇÃO DE PROVAS NO PRAZO DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE 6. Estabelece o art. 16 do Decreto nº 70.235/72 que a Impugnação deverá mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Em complemento, o § 4º do citado artigo é manifesto ao prescrever que a prova documental deverá ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, ressalvados os casos específicos descritos. Art. 16. A impugnação mencionará: ... III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pelo art. 1º da Lei nº 8.748/1993) ... § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. (Acrescido pelo art. 67 da Lei nº 9.532/1997) (destaques não constam do original) 6.1. Assim, a simples apresentação de DCTF retificadora neste momento do rito processual não é suficiente para fazer prova em favor do Contribuinte. Mantémse, nesses casos, a necessidade de comprovação documental do quanto alegado, por meio da apresentação da escrituração contábil/fiscal do período, em especial os Livros Diário e Razão. 6.2. Insta observar que, em consonância com o art. 16 acima transcrito do Decreto nº 70.235/72, consta, nas “Orientações para apresentação de manifestação de inconformidade” Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 116 10 disponível ao Contribuinte a partir da ciência da não homologação do crédito no sítio da Secretaria da Receita Federal do Brasil, a instrução de que a manifestação de inconformidade deve mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir, como, por exemplo, comprovação de que o recolhimento indicado como crédito foi efetuado de forma indevida. 6.3. Desta sorte, na medida em que a Declaração de Compensação restou não homologada e, apresentada a Manifestação de Inconformidade, converteuse em processo administrativo, cabia à Manifestante instruílo com todos os argumentos e documentos que entendesse suficientes e necessários para demonstrar a existência do crédito que pretende utilizar para compensação. RETIFICAÇÃO DE DCTF APÓS A HOMOLOGAÇÃO DO “AUTOLANÇAMENTO” 7. O Contribuinte questiona o Despacho Decisório que não homologou a compensação afirmando possuir crédito líquido e certo contra a Fazenda Pública. Para sustentar esta afirmação apresenta declaração DCTF retificadora do 3º Trimestre (documento anexo à Manifestação de Inconformidade), entregue em 11/12/2008, na qual alterou os débitos de PIS/PASEP anteriormente declarados por meio da DCTF Retificadora transmitida em 22/05/2005. 7.1. Em que pese o acima exposto sobre a necessidade de comprovação documental do alegado, a análise do documento apresentado pelo Contribuinte (DCTF Retificadora) se mostra relevante para a confirmação da improcedência da Manifestação de Inconformidade. 7.2. Inicialmente, registrese que, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, a compensação de débitos tributários somente pode ser efetuada mediante existência de créditos líquidos e certos dos interessados frente à Fazenda Pública. Nesse sentido, a DCTF é instrumento de confissão de dívida e constituição definitiva do crédito tributário, conforme legislação de regência (art. 5º do Decretolei nº 2.124/84, e Instruções Normativas da RFB que dispõem sobre a DCTF). 7.2.1. De fato, a conclusão emitida pela Autoridade Fiscal teve como pressuposto os dados constantes dos Sistemas da Receita Federal do Brasil, que decorrem das informações prestadas pelo Contribuinte através de declaração fiscal própria (DCTF), válida a produzir efeitos na data da emissão do Despacho Decisório. Conforme se verifica no corpo do citado despacho, não havia qualquer incongruência entre os débitos declarados na DCTF transmitida em 22/05/2005 e o valor dos pagamentos desses débitos em DARF: o valor pago por meio de DARF foi Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 117 11 integralmente aproveitado para liquidar tributos declarados pelo Contribuinte como devidos. 7.2.2. Somente após a ciência do Despacho Decisório a Manifestante apresentou declaração retificadora (11/12/2008) na qual, por meio da diminuição do valor do débito de PIS/PASEP anteriormente declarado (DCTF de 22/05/2005), pretende comprovar a origem de seu direito creditório. 7.3. Cumpre observar, neste ponto, que a análise em apreço envolve declaração de tributo lançado na modalidade por homologação, vez que a Impugnante apurou o montante devido e declarou a ocorrência e quantificação dos fatos geradores verificados por intermédio da DCTF, consoante previsto no art. 150, caput, do CTN. 7.3.1. Sobre o assunto, mencionase o que entende a doutrina pátria acerca da modalidade de lançamento em tela, mormente quanto ao seu objeto. Assim, conforme ensina Hugo de Brito Machado1, in verbis: Lançamento por homologação, é aquele aplicável aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, no que concerne a sua determinação. (...) Objeto da homologação não é o pagamento, como alguns tem afirmado. É a apuração do montante devido, de sorte que é possível a homologação mesmo que não tenha havido pagamento.(...) O que caracteriza essa modalidade de lançamento é a exigência legal de pagamento antecipado. Não o efetivo pagamento antecipado. 7.3.2. Por outro lado, cumpre transcrever o que leciona Luciano Amaro2, que traduz a linha de raciocínio também sustentada por Aliomar Baleeiro3 e Eduardo Sabbag4. Na prática, o “dever de antecipar o pagamento” significa que o sujeito passivo tem o encargo de valorizar os fatos à vista da norma aplicável, determinar a matéria tributável, identificarse como sujeito passivo, calcular o montante do tributo e pagálo, sem que a autoridade precise tomar qualquer providência. E o lançamento? Este diz o Código Tributário Nacional operase por meio do ato da autoridade que, tomando conhecimento da atividade exercida pelo devedor, nos termos do dispositivo, homologaa. A atividade aí referida outra não é senão a de pagamento, já que esta é a única providência do sujeito passivo tratada no texto. Melhor seria falarse em “homologação do pagamento”, ... . Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 118 12 7.3.3. Notese que a homologação, que segundo Celso Antonio Bandeira de Melo5, “é o ato vinculado pelo qual a administração concorda com ato jurídico já praticado, uma vez verificada a consonância dele com os requisitos legais condicionadores de sua válida emissão”, tem por efeito dar ao ato homologado a eficácia que até então não se lhe atribuía. Homologar, portanto, pressupõe não apenas concordar com o ato praticado, mas também, conferirlhe validade ou eficácia que antes não sustentava. É somente diante desta ótica que se pode aceitar a idéia de “autolançamento” sem entender ferido o art. 142 do CTN. 7.3.4. Assim, tendo havido apuração do montante devido e a correspondente informação ao Fisco (declaração em DCTF), corroborada pelo pagamento dos tributos declarados como devidos, há de ser considerado efetuado o “autolançamento”. 7.3.5. Por seu turno, de acordo com o disposto no § 1º do referido art. 150 do CTN, o pagamento do tributo apurado conforme tal modalidade de lançamento extingue o crédito tributário sob condição resolutória de sua ulterior homologação. 1 Curso de direito Tributário, 25a ed., 2004, São Paulo: Malheiros, pp 180/181. 2 Direito Tributário Brasileiro, 14a ed., São Paulo: Saraiva, 2008, pp. 364. 3 Direito Tributário Brasileiro, 11ª ed., atualizada por Misabel Abreu Machado Derzi, Rio de Janeiro: Forense, p. 829. 4 Manual de Direito Tributário, São Paulo: Saraiva, 2009, p. 713. 5 Curso de Direito Administrativo, 9ª. Ed., São Paulo: Malheiros, 1997. 7.3.6. Em complemento, o § 4º do mesmo artigo do Código Tributário determina que, caso a lei não fixe prazo à homologação, será ele de 05 (cinco) anos a contar da ocorrência do fato gerador. Em não havendo pronunciamento da Fazenda Pública dentro de tal interstício, considerase homologado, tacitamente, o lançamento e definitivamente extinto o crédito tributário dele decorrente. 7.4. Neste ponto, relembrase que o Direito não socorre àquele que, por largo espaço de tempo, permanece inerte quanto ao exercício de determinado direito/faculdade que lhe possa assistir (“dormientibus non succurrit jus”). 7.4.1. No caso em análise, apreciase suposto direito creditório referente a pagamento indevido originado de erro na declaração de tributo do período de apuração findado em 31/07/2003, sendo considerada esta data, ainda que por ficção legal, a da ocorrência do respectivo fato gerador. 7.4.2. Assim, não tendo a Administração Fazendária se pronunciado durante o lustro legalmente previsto, cujo termo Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 119 13 final se deu em 31/07/2008, o crédito tributário em análise foi, de forma inafastável, definitivamente constituído e extinto pelo pagamento nessa data. Tratase de prazo decadencial a pesar contra a Fazenda e contado a partir do fato imponível. 7.4.3. Tendose operado a homologação tácita (constituição definitiva do crédito tributário), a partir de tal advento resta defeso à Fazenda questionar ou rever o ato comissivo do Contribuinte alcançado por tal instituto jurídico, consubstanciado na apuração e respectiva quitação dos tributos reputados devidos. 7.5. Por seu turno, é lícito ao Contribuinte retificar as informações prestadas ao Fisco, ao menos enquanto não iniciado qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, sempre se resguardando à Administração Tributária o direito de analisar e revisar as informações declaradas, consoante o disposto no art. 149 do CTN, enquanto não verificada a decadência tributária. 7.5.1. Contudo, no caso vertente, o Contribuinte quedouse inerte, não apresentando DCTF Retificadora dentro do prazo legal em que esta surtiria efeito (antes da ocorrência da homologação tácita), deixando de declarar o direito creditício que sustenta deter em face da Fazenda Pública. 7.5.2. Uma vez constatado o suposto erro cometido na declaração DCTF transmitida em 22/05/2005, cumpria à Manifestante a obrigação de dar conhecimento da nova apuração por meio do documento próprio para tanto DCTF Retificadora. Em não o fazendo, frente à relação jurídico tributária, deixou de “retificar” o “autolançamento” e, por via transversa, não formalizou a existência do crédito que pretendeu utilizar por intermédio da DCOMP em apreço. 7.6. Assim, foi corretamente emitido o Despacho Decisório que não homologou a compensação declarada no presente PER/DCOMP, vez que baseado em documentos hábeis e aptos a produzirem seus naturais efeitos ao tempo da decisão. (...) Do complemento aos termos da decisão recorrida Especificando a cronologia da apresentação dos documentos que importam para a solução do litígio, temos que: (i) Darf do período de apuração de 31.07.2003, código de receita 8109, referente ao PIS/JUL/03, informa o recolhimento, em 15.08.2003, do valor de R$ 6.922,09; (ii) a Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ 2004, do período de 01.01.2003 a 31.12.2003, foi entregue/transmitida em 22.06.2004; (iii) o Per/Dcomp retificador 40010.72943.020904.1.7.040707, foi criado e transmitido em 02.09.2004; Fl. 119DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 120 14 (iv) o Despacho Decisório rastreamento 808284565, foi emitido em 24.11.2008 e cientificado em 02.12.2008; (v) a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF retificadora, do 3º trimestre de apuração de 2003, que retificou a DCTF retificadora de 22.05.2005, foi entregue/transmitida em 11.12.2008. Feitos estes esclarecimentos, convém, em reforço ao quanto decidido no acórdão vergastado, anotar que os argumentos tecidos pelo recorrente em seu recurso voluntário, notadamente os sintetizados nos itens 4 a 9 do tópico "Do recurso voluntário" falecem de juridicidade e, por consequência, de plausibilidade, pois desde o anocalendário 1998, quando foi instituída a DIPJ, temse que esta declaração possui ter caráter meramente informativo, ocasião em que a DCTF passou a ser instrumento específico de confissão irretratável de dívida e de constituição do crédito tributário. Nesse sentido, transcrevo o disposto no Parecer PGFN 1.372/2012, verbis: (...) 9. Quanto à Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), ela está presentemente disciplinada pela Instrução Normativa Nº 1.264, de 30 de março de 2012, a qual obriga todas as pessoas jurídicas, inclusive as equiparadas, a apresentarem a DIPJ, centralizada pela matriz. Desde a Instrução Normativa Nº 127, de 30 de outubro de 1998, a obrigação da apresentação da DIPJ é anual. 10. Sobre as diferenças normativas entre a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF e a DIPJ, o Parecer PGFN/CAT/Nº 632, de 2011, teceu, entre outras, as seguintes considerações: "27. Não é demais repetir que a previsão de inscrição em dívida ativa dos débitos declarados em DCTF existe desde a publicação da IN SRF nº 126, de 1998, que a criou, mantendose vigente, até os dias atuais, ex vi do art. 8º, § 1º, da IN RFB nº 1.110, de 24 de dezembro de 2010: Art. 8º. (...) § 1º. Os saldos a pagar relativos a cada imposto ou contribuição, informados na DCTF, bem como os valores das diferenças apuradas em procedimentos de auditoria interna, relativos às informações indevidas ou não comprovadas prestadas na DCTF, sobre pagamento, parcelamento, compensação ou suspensão de exigibilidade, serão objeto de cobrança administrativa com os acréscimos moratórios devidos e, caso não liquidados, enviados para inscrição em dívida ativa. 28. Os débitos informados por meio de DIPJ não seguem a mesma sorte, dada a inexistência de previsão nesse sentido, tanto na IN SRF nº 127, de 1998, que a instituiu, quanto no normativo vigente, qual seja, a IN RFB nº 1.028, de 30 de abril de 2010. Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 121 15 29. Outro ponto que evidencia a natureza diversa das duas declarações reside no fato de constar, do recibo de entrega da DCTF, a informação expressa de que a declaração correspondente constitui confissão de dívida e que os valores ali declarados e não pagos serão encaminhados para inscrição em DAU, nos exatos termos a seguir transcritos: O presente Recibo de Entrega da DCTF contém a transcrição da Ficha Resumo da referida declaração, que constitui confissão de dívida, de forma irretratável, dos impostos e contribuições declarados. Fica o declarante ciente de que os impostos e contribuições declarados na DCTF e não pagos serão enviados para inscrição em Dívida Ativa da União, conforme o disposto no parágrafo 2º do artigo 5º do DecretoLei nº 2.124, de 13 de junho de 1984. 30. O recibo de entrega da DIPJ, por sua vez, veicula a mensagem de que as informações ali prestadas "correspondem à expressão da verdade", o que não lhe atribui o status de confissão de dívida. 31. O conteúdo das declarações também leva a identificar outra diferença que confere a apenas uma delas o condão de constituir o crédito tributário. A DIPJ traz informações de natureza contábil (balanço patrimonial, despesas operacionais e demonstrativo de lucros ou prejuízos acumulados), informações societárias (dados cadastrais, identificação dos sócios) e informações de natureza fiscal (cálculo do IR mensal por estimativa e sobre lucro real, cálculo da Contribuição Social sobre Lucro Líquido Mensal por estimativa, cálculo da Contribuição Social sobre Lucro Líquido). 32. Observase que, relativamente às informações fiscais, há dados sobre a base de cálculo, o percentual de alíquota, as eventuais deduções e até mesmo um campo específico para o montante do tributo a pagar. Todavia, não são computados, como na DCTF, eventuais pagamentos com DARF, compensação de pagamento indevido ou a maior, outras compensações, parcelamentos e suspensão da exigibilidade do crédito." 11. Em arremate, o opinativo concluiu: "33. Portanto, verificase que, mesmo trazendo informações detalhadas sobre os tributos que abrange, a DIPJ não é instrumento bastante para a cobrança do débito e não pode ser considerada confissão de dívida, uma vez que o cômputo do valor do tributo nela veiculado não leva em conta dados que possam influir no valor do tributo (pagamentos, compensações) ou na própria exigência do crédito (parcelamentos, suspensão da exigibilidade).(...) Fl. 121DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 122 16 37. Não restam dúvidas de que a DIPJ, de fato, tem caráter meramente informativo, não representa confissão de dívida e não constitui o crédito tributário. (...) 39. Dessa forma, a DIPJ é, ou deveria ser, precedida das DCTFs mensais relativas aos tributos que informa. Se as DCTFs correspondentes aos créditos executados existem e foram entregues, o crédito foi devidamente constituído, não se operando, necessariamente, a decadência, pois a constituição pode ter se dado dentro do prazo legal de cinco anos contados a partir do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN) ou a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I), conforme o caso. Noutros falares, se o débito exequendo foi regularmente constituído por meio de DCTF, não ocorre a decadência. 40. Outra hipótese a se considerar é a inexistência de DCTFs precedentes à DIPJ sob a qual se fundamenta a execução, ocasião em que, não transcorrido o prazo decadencial, devese informar a RFB sobre o ocorrido, para que proceda ao lançamento do crédito correspondente. Caso contrário, operase, por óbvio, a decadência.(...)" 12. Como visto, o Parecer PGFN/CAT/Nº 632, de 2011, concluiu que a DIPJ não tem o efeito de se constituir em declaração capaz de configurar lançamento por homologação, porque a DIPJ tem efeito meramente informativo, não constituindo o crédito tributário nem se configurando como confissão de dívida. (...) De se ver, portanto, que a DCTF é consagradamente instrumento de confissão de dívida e suficiente para a inscrição em dívida ativa da União. Com efeito, o Superior Tribunal de Justiça STJ, no rito dos recursos repetitivos, decidiu que a DCTF é modo de constituição do crédito tributário (Resp 1.120.295/SP). Reproduzo trecho da ementa, verbis: “4. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, de Guia de Informação e apuração do ICMS GIA, ou de outra declaração dessa natureza prevista em lei (dever instrumental adstrito aos tributos sujeitos a lançamento por homologação), é modo e constituição do crédito tributário, dispensando a Fazenda Pública de qualquer outra providência conducente à formalização do valor declarado (Precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: Resp 962.379/RS)” Por seu turno, o CTN, em seu artigo 141, prevê que o crédito tributário, regularmente constituído, somente pode ser alterado nas modalidades do artigo 145, verbis: Art. 141. O crédito tributário regularmente constituído somente se modifica ou extingue, ou tem sua exigibilidade suspensa ou Fl. 122DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 123 17 excluída, nos casos previstos nesta Lei, fora dos quais não podem ser dispensadas, sob pena de responsabilidade funcional na forma da lei, a sua efetivação ou as respectivas garantias. (…) Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I impugnação do sujeito passivo; II recurso de ofício; III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. O artigo 156 estabelece os modos de extinção do crédito tributário, verbis: Art. 156. Extinguem o crédito tributário: I o pagamento; II a compensação; III a transação; IV remissão; V a prescrição e a decadência; VI a conversão de depósito em renda; VII o pagamento antecipado e a homologação do lançamento nos termos do disposto no artigo 150 e seus §§ 1º e 4º; VIII a consignação em pagamento, nos termos do disposto no § 2º do artigo 164; IX a decisão administrativa irreformável, assim entendida a definitiva na órbita administrativa, que não mais possa ser objeto de ação anulatória; X a decisão judicial passada em julgado. XI a dação em pagamento em bens imóveis, na forma e condições estabelecidas em lei. Parágrafo único. A lei disporá quanto aos efeitos da extinção total ou parcial do crédito sobre a ulterior verificação da irregularidade da sua constituição, observado o disposto nos artigos 144 e 149. Observese, por fim, que todas essas modalidades, incluindo a compensação, ensejam a extinção, mas não a desconstituição, do crédito tributário. Evidentemente, a compensação extingue na exata medida do que for compensado. Destarte, por óbvio, pelo que depreendese destes autos, na data da apresentação do Per/Dcomp em apreço, não homologada pela autoridade fiscal, a DCTF Fl. 123DF CARF MF Processo nº 10880.954255/200845 Acórdão n.º 3001000.478 S3C0T1 Fl. 124 18 retificadora de 22.05.2005 ainda não tinha sido objeto de nova retificação, uma vez que transmitida somente em 11.12.2008, significando que o crédito utilizado pelo recorrente em sua compensação, juridicamente, era e é ainda inexistente. Neste caso, não haveria que se falar, juridicamente, no alegado pagamento a maior, o que retiraria do crédito pretendido a liquidez e certeza que a lei impõe para que este possa ser objeto de repetição, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, verbis: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Portanto, ao efetuar a retificação da DCTF somente em 11.12.2008, restou evidenciado o transcurso do prazo de cinco anos contado da data de ocorrência do fato gerador do débito nela declarado, nos termos do caput do artigo 168 do CTN, de forma que a referida retificação não produziria quaisquer efeitos tributários, o que tornase dispensável a análise fática do direito material do suposto crédito tributário perseguido pelo recorrente, em face da sua peremptoriedade jurídica. Não havendo qualquer reparo à decisão recorrida. Da conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, para rejeitar o pedido de diligência e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 124DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12898.001619/2009-18
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2003
DESPESA MÉDICA. FILHOS MAIORES DE 24 ANOS
Somente serão dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda as despesas com plano de saúde de filhos maiores de idade quando comprovada a incapacidade para o trabalho e sem meios para proverem a própria subsistência.
Numero da decisão: 2202-004.541
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rosy Adriane da Silva Dias - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: ROSY ADRIANE DA SILVA DIAS
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FILHOS MAIORES DE 24 ANOS Somente serão dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda as despesas com plano de saúde de filhos maiores de idade quando comprovada a incapacidade para o trabalho e sem meios para proverem a própria subsistência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 89 8. 00 16 19 /2 00 9- 18 Fl. 165DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão nº 1257.396, proferido pela 18a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro (DRJ/RJ1), que julgou procedente o lançamento, e de ofício reduziu a multa aplicada. Pela clareza, reproduzo o relatório do acórdão recorrido, na parte anterior à decisão da DRJ/RJ1 Contra a contribuinte na qualidade de Herdeira do espólio de Aidee El Abras Haddad,CPF 93483872787) foi lavrada notificação de fls.5 , relativa ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Física, anocalendário 2002, para apurar imposto suplementar de R$303 6,90 com multa de 75% e juros legais. Foi apurada dedução indevida de despesas médicas uma vez que foram informadas despesas com pessoas não declaradas dependentes na DAA de AIDEE EL ABRAS HADDAD. Tal lançamento foi em decorrência da decisão que tornou nulo o auto de infração (fls. 17 a 23) constante do processo n° l5471002604/200704 em apenso. Em agosto de 2010. o processo foi encaminhado a DRF/RJ1/DIFIS Em fevereiro de 2013. o processo foi encaminhado a Eqau/Dicat para que fosse analisada a tempestividade da impugnação. Em abril de 2013. o processo foi encaminhado para julgamento tendo em vista o despacho de fl.61. A fl. 44 consta impugnação da inventariante e herdeira do espólio de AIDEE EL ABRAS HADDAD, datada de 4 de junho de 2010, mencionando que apresentou impugnação em 15/10/2009(fl.53). Em sua impugnação, a interessada alega que na declaração da Sra. Aidee não foram inseridos os nomes de seus netos que eram seus dependentes. Alega que o pai deles (filho de Aidee) era portador de grave enfermidade e que os bens eram administrados pela Sra. Aidee. Entende que as despesas devem ser consideradas dedutíveis, inclusive a relativa ao plano de saúde que a Sra. Aidee pagava para ela, Eliane Haddad, por ser portadora de moléstia grave.Por último, alega que a cobrança seria improcedente com base no artigo 901 do RIR/99. A impugnação foi julgada improcedente pela DRJ/RJ1, cuja decisão teve a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2003 Fl. 166DF CARF MF Processo nº 12898.001619/200918 Acórdão n.º 2202004.541 S2C2T2 Fl. 166 3 Plano de saúde Somente são dedutíveis os pagamentos a planos de saúde de pessoas físicas consideradas dependentes perante a legislação tributária e incluídas na declaração do responsável IMPUGNAÇÃO. ALEGAÇÃO SEM PROVAS. Cabe ao contribuinte no momento da impugnação trazer ao julgado todos os dados e documentos que entende comprovadores dos fatos que alega. MULTA DE MORA. ESPÓLIO. A legislação tributária determina a aplicação da multa de mora de 10% sobre o imposto apurado anteriormente a abertura da sucessão Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificado do Acórdão da DRJ/RJ1 em 09/05/2014, o procurador e irmão de Eliane Haddad apresentou Recurso Voluntário em 22/05/2014 (efls. 83/93), repisando os argumentos da impugnação em relação à decadência e a condição de dependente de Eliane Haddad, para fins de dedução de despesas médicas. O Recurso Voluntário do contribuinte foi julgado em 12/05/2016, momento em que foi exarado o acórdão nº 2202003.407, que teve a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2003 DECADÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. IMPOSTO DE RENDA. DATA DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. O fato gerador do imposto de renda das pessoas físicas, sujeito ao ajuste anual, ocorre em 31 de dezembro do ano calendário, sendo o tributo sujeito a lançamento por homologação. O prazo decadencial contase a partir da ocorrência do fato gerador, quando há antecipação do pagamento, conforme artigo 150, § 4o do CTN. Contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, inexistindo declaração prévia do débito, ou ainda quando se verifica a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. VÍCIO MATERIAL. Os aspectos pessoal e quantitativo compõem o chamado "consequente" da hipótese de incidência tributária, isto é, descrita a materialidade e indicadas as coordenadas espacial e Fl. 167DF CARF MF 4 temporal do fato no antecedente da norma, exsurge uma relação jurídica mediante a qual um sujeito possui o direito de exigir o tributo e outro sujeito o dever de pagálo (aspecto subjetivo), apontandose o valor da prestação correspondente (aspecto quantitativo).(COSTA. Regina Helena, Curso de Direito Tributário, 2a ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 205) Erro na identificação do sujeito passivo não é mero vício de forma, mas está ferida a própria substância do lançamento, constituindose em vício material. Recurso Voluntário Provido. A Fazenda Nacional apresentou Recurso Especial argumentando, em síntese, a divergência de entendimento entre o acórdão recorrido, que entendeu que o erro na identificação do sujeito passivo é vício material, e o acórdão paradigma, que entendeu ser vício formal. Em 24/05/2017, a 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais converteu o julgamento em diligência, por meio da Resolução nº 9202000.109, para: [...] saneamento quanto à legitimidade de Flávio Haddad para subscrever os atos que se seguiram à impugnação no processo fiscal, relativamente ao espólio de Aide ElAbras Haddad, sob pena de o recurso voluntário por ele firmado não poder ter sido admitido, levando à insubsistência dos demais atos que lhe sucederam e à definitividade na esfera administrativa do acórdão de impugnação nº 1257.396, da 18a Turma da DRJ/RJ1. Após a juntada dos documentos objeto da diligência (fls. 137/143), o Recurso Especial voltou a julgamento em 27/09/2017, tendo sido exarado o acórdão nº 9202006.015, com a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2003 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. ESPÓLIO. NULIDADE VÍCIO FORMAL A identificação do sujeito passivo, de forma que permita ao inventariante exercer a defesa do espólio, é vício formal, não inquinado por nulidade absoluta. Quando nos deparamos com um vício de natureza formal o princípio pas de nullité sans grief, ou princípio do prejuízo, deve ser amplamente aplicado, isto porque, a adoção de sistema rígido de invalidação processual impede a eficiente atuação da Administração Pública. Diante dessa decisão, a 2ª Turma da Câmara Superior determinou o retorno dos autos a este Colegiado, para apreciação das demais questões do Recurso Voluntário. A defesa foi cientificada da decisão em 26/10/2017. Em 11/01/2018, apresentou petição, fls 162, informando haver um crédito relativo a imposto retido na fonte desde 2009, e propôs ao atendente a compensação com o débito do presente processo. Solicita a suspensão da cobrança até que seja efetuada a atualização do crédito existente e sua Fl. 168DF CARF MF Processo nº 12898.001619/200918 Acórdão n.º 2202004.541 S2C2T2 Fl. 167 5 compensação. Requer que o saldo existente após a compensação seja parcelado em até 24 parcelas. É o relatório. Voto Conselheira Rosy Adriane da Silva Dias, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo, e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Considerando a decisão da Câmara Superior, pela não ocorrência da decadência, limitome à análise dos demais argumentos do Recurso Voluntário. Da retificadora A defesa argumenta que em nenhum momento foram solicitados documentos relacionados a despesas médicas, e que apresentou declaração retificadora em 06/06/2006, e que tais despesas foram declaradas desde a DIRPF original de 14/04/2003, e não apenas quando da entrega da retificadora, como afirmou o julgador a quo. Não encontro razão a tal argumento. O lançamento se originou da revisão na DIRPF 2003, de Aidee Haddad, efetuada por meio de batimento dos dados constantes nos sistemas informatizadas da Receita Federal, de cuja notificação houve intimação, facultando lhe a apresentação de impugnação ao Delegado da Receita Federal, oportunidade para apresentação de documentos que comprovassem as despesas declaradas. Cabe observar ainda que, a notificação de lançamento não decorreu da falta de declaração de despesas médicas, mas pela falta de comprovação dessas despesas declaradas na DIRPF 2003, anocalendário 2002, considerando que os documentos apresentados referem se a despesas médicas dos netos e da filha Eliane Haddad, que não foram declarados como dependentes de Aidee Haddad tanto na DIRPF original quanto na retificadora, conforme se observa às fls. 29 e 33 do processo nº 15471.002604/200704, apenso ao presente: DIRPF 2003 original: DIRPF 2003 retificadora: Fl. 169DF CARF MF 6 Assevero ainda que, não se observa no acórdão recorrido que o julgador a quo tenha afirmado que as despesas médicas só foram declaradas na retificadora. O que afirmou a autoridade julgadora é que não há como aceitar despesas com pessoas não declaradas e, retificações para incluir deduções após início de procedimento fiscal; o que não destoa do que dispõe a legislação. Das deduções das despesas médicas A defesa arrazoa que não havia obrigatoriedade de a filha Eliane Haddad, portadora de grave moléstia, ser declarada como dependente da mãe, pois já tinha essa condição desde 10/2003, conforme atestado médico, e que Aidee Haddad já tinha direito constitucional a efetuar as deduções de despesas médicas com a filha. Acrescenta que seria inaplicável a exigência de esta ser curadora ou tutora daquela, pois Eliane sempre foi sua dependente desde a infância. Não assiste razão à defesa. O julgador de primeira instância já transcrevera todas as disposições normativas que disciplinam as condições para dedução de despesas médicas, que aqui transcrevo as específicas sobre a matéria: Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995 Ari. 8 A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; [...] § 2 O disposto na alínea a do inciso II: [...] II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; Fl. 170DF CARF MF Processo nº 12898.001619/200918 Acórdão n.º 2202004.541 S2C2T2 Fl. 168 7 [...] Art. 35. Para efeito do disposto nos arts. 4o, inciso III, e 8o, inciso II, alínea c, poderão ser considerados como dependentes: [...] III a filha, o filho, a enteada ou o enteado, até 21 anos, ou de qualquer idade quando incapacitado física ou mentalmente para o trabalho; V o irmão, o neto ou o bisneto, sem arrimo dos pais, até 21 anos, desde que o contribuinte detenha a guarda judicial, ou de qualquer idade quando incapacitado física ou mentalmente para o trabalho; (Grifei). Diante da legislação acima transcrita, verificase que a dependência de filho maior de idade para fins de imposto de renda, só se perfaz caso haja incapacidade física ou mental para o trabalho. No caso dos autos, para o anocalendário de 2002 não há comprovação dessa condição, visto que o atestado emitido em 1993 não está acompanhado por laudo pericial que ateste a incapacidade, conforme determina a legislação. O único laudo constante nos autos data de 05/09/2006 (fls. 39), emitido pela Gerência de Acompanhamento à Saúde do Servidor da Prefeitura do Rio. Para que a contribuinte Aidee Haddad pudesse deduzir as despesas médicas de sua filha maior de idade, deveria têla declarado como sua dependente, e comprovado a incapacidade de física e mental de Eliane Haddad para o trabalho. Assim, não há razão para reforma do acórdão recorrido, devendo ser mantido o crédito tributário ora debatido. Em relação às deduções com despesas médicas dos netos, a defesa nada alegou, tornandose incontroverso o lançamento relativo a essa matéria. No que toca à petição para compensação de possível crédito decorrente de imposto retido na fonte, e posterior parcelamento do saldo restante (fls. 162), a defesa não apresentou provas da existência de referido crédito, não sendo possível aferir se efetivamente houve a solicitação de parcelamento, pois condicionou este ao restante de um crédito não demonstrado. Porém, observo que, possíveis compensações e parcelamentos podem ser feitos junto à Unidade de Origem, ocasião em que esta apurará se há ou não crédito passível de compensação, e as condições do parcelamento pleiteado. Conclusão Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Fl. 171DF CARF MF 8 Fl. 172DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.723582/2013-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
DESPESAS NECESSÁRIAS. NÃO COMPROVAÇÃO. GLOSA.
As despesas consideradas necessárias ou operacionais devem ser comprovadas pelo contribuinte com documentação hábil e idônea, sob pena de glosa.
DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA PARCIAL.
Na hipótese de inexistir dolo, fraude ou simulação, e havendo pagamento antecipado do tributo, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se segundo o previsto pelo artigo 150, §4º do CTN, ou seja, em cinco anos contados da ocorrência do fato gerador do tributo, conforme precedente vinculante do STJ.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. FRAUDE. SONEGAÇÃO. DOLO. NÃO PAGAMENTO DE TRIBUTO. NÃO CARACTERIZAÇÃO.
Uma vez ausente a figura do dolo, fraude ou simulação, a multa qualificada deve ser afastada.
O não pagamento de tributo, por si só, não revela conduta dolosa. Trata-se, na verdade, de situação típica que enseja a aplicação da multa de ofício ordinária, de 75%, nos termos do artigo 44, I, da Lei nº 9.430/1996.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR. ART. 135, III DO CTN. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE CONDUTA DOLOSA. IMPROCEDÊNCIA.
Inexistindo motivação ou prova de que a pessoa praticou conduta dolosa que caracterize excesso de poderes ou infração a lei, contrato social ou estatuto social, não há que se falar em responsabilidade tributária dos sócios, ainda que detenha poderes de gestão.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL.
Aplica-se à tributação reflexa, de CSLL, idêntica solução dada ao IRPJ.
Numero da decisão: 1201-002.249
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para: afastar a multa qualificada passando de 150% para 75%; reconhecer a decadência do IRPJ e CSLL em relação ao ano calendário de 2007; bem como afastar a responsabilidade solidária do recorrente Sr. Florisberto Ferreira de Cerqueira. Os conselheiros: Luis Fabiano Alves Penteado e Gisele Barra Bossa davam integral provimento aos recursos voluntários. Vencidos os conselheiros José Carlos de Assis Guimarães (relator) e Eva Maria Los que negavam provimento aos recursos. Designado o conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Carlos de Assis Guimarães - Relator.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: JOSE CARLOS DE ASSIS GUIMARAES
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NÃO COMPROVAÇÃO. GLOSA. As despesas consideradas necessárias ou operacionais devem ser comprovadas pelo contribuinte com documentação hábil e idônea, sob pena de glosa. DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA PARCIAL. Na hipótese de inexistir dolo, fraude ou simulação, e havendo pagamento antecipado do tributo, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese segundo o previsto pelo artigo 150, §4º do CTN, ou seja, em cinco anos contados da ocorrência do fato gerador do tributo, conforme precedente vinculante do STJ. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. FRAUDE. SONEGAÇÃO. DOLO. NÃO PAGAMENTO DE TRIBUTO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Uma vez ausente a figura do dolo, fraude ou simulação, a multa qualificada deve ser afastada. O não pagamento de tributo, por si só, não revela conduta dolosa. Tratase, na verdade, de situação típica que enseja a aplicação da multa de ofício ordinária, de 75%, nos termos do artigo 44, I, da Lei nº 9.430/1996. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SÓCIO ADMINISTRADOR. ART. 135, III DO CTN. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE CONDUTA DOLOSA. IMPROCEDÊNCIA. Inexistindo motivação ou prova de que a pessoa praticou conduta dolosa que caracterize excesso de poderes ou infração a lei, contrato social ou estatuto social, não há que se falar em responsabilidade tributária dos sócios, ainda que detenha poderes de gestão. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 35 82 /2 01 3- 94 Fl. 3149DF CARF MF 2 Aplicase à tributação reflexa, de CSLL, idêntica solução dada ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para: afastar a multa qualificada passando de 150% para 75%; reconhecer a decadência do IRPJ e CSLL em relação ao ano calendário de 2007; bem como afastar a responsabilidade solidária do recorrente Sr. Florisberto Ferreira de Cerqueira. Os conselheiros: Luis Fabiano Alves Penteado e Gisele Barra Bossa davam integral provimento aos recursos voluntários. Vencidos os conselheiros José Carlos de Assis Guimarães (relator) e Eva Maria Los que negavam provimento aos recursos. Designado o conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Relator. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima. Relatório NORAUTO CAMINHÕES LTDA, CNPJ nº 07.146.187/000185, recorre a este Conselho com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1536.051, de 24/07/2014, da 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador (BA), que julgou procedente em parte a impugnação apresentada, rejeitando a preliminar de nulidade e, no mérito, mantendo parcialmente o Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas –IRPJ, no valor de R$172.471,49 (cento e setenta e dois mil, quatrocentos e setenta e um reais e quarenta e nove centavos), e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, no valor de R$70.227,70 (setenta mil, duzentos e vinte e sete reais e setenta centavos), conforme indicado nas tabelas A e B, juntamente com a multa de oficio, no percentual de 150%, e os juros de mora, e mantendo parcialmente as Multas exigidas isoladamente por falta de recolhimento do IRPJ e da CSLL sobre base de cálculo estimada, nos valores, respectivos de R$141.719,85 (cento e quarenta e um mil, setecentos e dezenove reais e oitenta e cinco centavos) e R$55.086,17 (cinquenta e cinco mil, oitenta e seis reais e dezessete centavos), conforme indicado nas tabelas C e D, mantendo também a imputação de responsabilidade tributária solidária dos diretores Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira. A seguir trago a colação a ementa daquele Acórdão: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 3150DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 3 3 Anocalendário: 2007, 2008, 2009 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Tendo os autos de infração preenchido os requisitos legais e o processo administrativo proporcionado plenas condições à interessada de impugnar os lançamentos, descabe a alegação de nulidade. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009 SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. Comprovado que o autuado simulou a prestação de serviços por empresa que, apesar de criada atendendo às formalidades legais, de fato não existe, cabe a responsabilização dos diretores da empresa autuada por infração de lei e do contrato social, restando caracterizada a solidariedade e justificada a reunião da empresa e das pessoas físicas indicadas nos autos de infração no mesmo polo passivo da obrigação tributária. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. INDEDUDITIBILIDADE. GLOSA. As despesas operacionais devem estar lastreadas em documentação hábil e idônea, bem como sua dedutibilidade condicionase à comprovação de que são necessárias às atividades da empresa. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SIMULAÇÃO. SONEGAÇÃO. FRAUDE. CONLUIO. Os atos ilícitos praticados pelo contribuinte e pelos responsáveis tributários, dentre os quais a simulação, por interposição de pessoa, configuram procedimento doloso, visando a impedir ou retardar, total ou parcialmente, que a autoridade fazendária tomasse conhecimento da ocorrência do fato gerador, ou ainda visando a modificar as características essenciais do fato gerador, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar o seu pagamento, demonstrando o objetivo de sonegação de tributos, e sujeitam a pessoa jurídica à multa de ofício qualificada, no percentual de 150%. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CONHECIMENTO. LEGALIDADE DA COBRANÇA. A matéria relativa à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício faz parte do lançamento e deve ser conhecida por este órgão julgador, entendendose que a multa de ofício, como Fl. 3151DF CARF MF 4 parcela integrante do crédito tributário, está sujeita aos juros de mora, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. MULTA ISOLADA. Aplicase a multa isolada no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal no anocalendário correspondente. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 DESPESAS OPERACIONAIS. INDEDUDITIBILIDADE. GLOSA. As despesas operacionais devem estar lastreadas em documentação hábil e idônea, bem como sua dedutibilidade condicionase à comprovação de que são necessárias às atividades da empresa. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SIMULAÇÃO. SONEGAÇÃO. FRAUDE. CONLUIO. Os atos ilícitos praticados pelo contribuinte e pelos responsáveis tributários, dentre os quais a simulação, por interposição de pessoa, configuram procedimento doloso, visando a impedir ou retardar, total ou parcialmente, que a autoridade fazendária tomasse conhecimento da ocorrência do fato gerador, ou ainda visando a modificar as características essenciais do fato gerador, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar o seu pagamento, demonstrando o objetivo de sonegação de tributos, e sujeitam a pessoa jurídica à multa de ofício qualificada, no percentual de 150%. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CONHECIMENTO. LEGALIDADE DA COBRANÇA. A matéria relativa à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício faz parte do lançamento e deve ser conhecida por este órgão julgador, entendendose que a multa de ofício, como parcela integrante do crédito tributário, está sujeita aos juros de mora, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. MULTA ISOLADA. Aplicase a multa isolada no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento da contribuição social deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado base de cálculo negativa no anocalendário correspondente. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da Decisão de Primeira Instância, completandoo ao final: Fl. 3152DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 4 5 "Tratase dos autos de infração de fls. 3/20 e 21/38, relativos aos anoscalendário de 2007 a 2009, lavrados em 28/05/2013, que pretendem a cobrança, respectivamente: do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ, no valor de R$285.389,12 (duzentos e oitenta e cinco mil, trezentos e oitenta e nove reais e doze centavos), além da multa de ofício no percentual de 150% e dos juros de mora, e da Multa Isolada, decorrente da falta de recolhimento do IRPJ sobre base de cálculo estimada, no valor de R$177.532,41 (cento e setenta e sete mil, quinhentos e trinta e dois reais e cinquenta e um centavos); da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, no valor de R$110.878,05 (cento e dez mil, oitocentos e setenta e oito reais e cinco centavos), além da multa de ofício, no percentual de 150%, e dos juros de mora, e da Multa Isolada, decorrente da falta de recolhimento da CSLL sobre base de cálculo estimada, no valor de R$66.867,49 (sessenta e seis mil, oitocentos e sessenta e sete reais e quarenta e nove centavos). No Termo de Verificação Fiscal de fls. 39 a 71, parte integrante dos autos de infração, o autuante apresenta as informações a seguir: 1. DO HISTÓRICO a) em 17/04/2012, o contribuinte foi intimado a apresentar os livros e documentos listados no Termo de Início de Procedimento Fiscal (fls. 91/93): arquivos digitais relativos aos registros contábeis 2006 e 2009, e de notas fiscais de 2006, novembro de 2007 e 2010; contrato social/estatuto e suas alterações/consolidações; atas de reuniões diversas; LALUR; balanço patrimonial e DRE; declaração expressa acerca da existência de ação judicial relativa a IRPJ e demais tributos administrados pela Receita Federal do Brasil RFB; contratos de prestação de serviços com a empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, CNPJ 08.578.708/000136, bem como notas fiscais e comprovantes de pagamento com a indicação/apresentação do documento de liquidação (extratos, livros/documentos contábeis,etc); demonstrativo em papel e meio magnético contendo a relação das notas fiscais do item 12, as datas das respectivas prestações de serviços, os valores dos respectivos pagamentos e as retenções dos tributos administrados pela RFB; b) em 18/05/2012, o contribuinte foi intimado (Termo de Intimação Fiscal nº 0001, de fls. 99/100) a apresentar arquivos digitais referentes à folha de pagamento, livros registros de empregados, entre outros; c) em 20/05/2012, o contribuinte solicitou dilação de prazo para cumprimento integral do quanto requerido na última intimação, que foi deferida, tendo, em 30/05/2012 e 14/06/2012, apresentado documentos em atendimento aos Termos de Início Fl. 3153DF CARF MF 6 de Procedimento Fiscal e de Intimação Fiscal nº 0001, respectivamente; d) em 29/06/2012, o contribuinte foi intimado, mediante Termo de Intimação Fiscal nº 0002 (fls. 112/113) a apresentar, entre outros, os seguintes documentos: contratos de prestação de serviços com a empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, e cópias da inicial e das decisões ocorridas nos processos em que litiga, bem como certidão de objeto e pé; e) em 12/07/2012 o contribuinte apresentou parte do quanto solicitado, e em 14/08/2012 apresentou documentos complementares referentes às intimações anteriores; f) em 27/08/2012, o contribuinte foi intimado (Termo de Intimação Fiscal nº 0003, de fls. 118/119) a apresentar, dentre outros documentos, demonstrativo identificando as rubricas que compuseram o cálculo dos débitos e créditos de PIS e COFINS, referentes aos anoscalendário 2008 e 2009, e a informar rubrica contábil referente aos lançamentos de retorno de financiamento, bem como classificação destas receitas; g) decorrido o prazo legal, inclusive a dilação do prazo deferida, constatouse que o contribuinte não cumprira o pactuado, por isso, em 08/10/2012 foi reintimado pessoalmente, mediante Termo de Reintimação Fiscal nº 0001 (fls. 121/122) a apresentar o quanto requerido, tendo apresentado o quanto solicitado em 23/10/2012; h) em 19/11/2012, o contribuinte foi intimado (Termo de Intimação Fiscal nº 0004, de fls. 159/161) a apresentar notas fiscais relativas aos serviços tomados junto à empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, entre outros. Na referida intimação foi integrada a constatação realizada nas sedes das empresas Anira Veículos Ltda, Morena Veículos Ltda e MC Assessoria. Em 05/12/2012, o contribuinte apresentou parte do quanto solicitado; i) em 19/12/2012, o contribuinte foi intimado (Termo de Constatação Fiscal nº 0001, fl. 164) da inclusão dos tributos PIS e Cofins referentes aos anoscalendário 2008 e 2009. A empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda foi intimada a retificar DCTF relativa ao 2º trimestre de 2009, referente ao IRPJ e CSLL, e assim o fez; j) em 04/02/20013 o contribuinte foi intimado da continuidade desta Auditoria (fl. 165); k) em 04/04/2013 o contribuinte foi cientificado (Termo de Constatação Fiscal nº 0002, fl. 166) da inclusão dos tributos IRPJ e CSLL, referente ao anocalendário de 2007, na presente Auditoria. 2. DO DESENVOLVIMENTO DA AÇÃO FISCAL. A auditoria realizada demonstrou a ligação/controle entre as empresas Norauto Caminhões Ltda, Norauto Veículos Ltda, Morena Veículos Ltda, Anira Veículos Ltda e MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, bem como os efeitos tributários no que Fl. 3154DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 5 7 se refere à dedução de despesas com prestação de serviços tomados da MC Assessoria. 2.1. Do controle comum, através dos mesmos quotistas, entre as empresas Norauto Caminhões Ltda e MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda. A empresa Norauto Caminhões Ltda iniciou suas atividades, de acordo com o Contrato Social, em 20/12/2004 (fls. 193/200), cujos quotistas estavam dispostos da seguinte forma: Norauto Veículos Ltda (99,9998%), Modezil Ferreira de Cerqueira (0,0001%) e Florisberto Ferreira de Cerqueira (0,0001%). De acordo com a cláusula 7ª do citado contrato a sociedade era administrada pelos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira, com as funções respectivas de Diretor Presidente e Diretor Superintendente. A composição societária da empresa Norauto Veículos Ltda, na época da constituição da Norauto Caminhões Ltda era a indicada no demonstrativo de fl. 42, onde se vê que os sócios com maiores participações são os Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira (26,67%) e Florisberto Ferreira de Cerqueira (20,83%), que ocupam as funções respectivas de Diretor Presidente e Diretor Superintendente. No que se refere aos anos auditados (2007 a 2009) o quadro societário da Norauto Caminhões Ltda é o indicado na fl. 43. 2.2. Da Constituição da empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda. A empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda foi constituída em 29/09/2006 e registrada na JUCEB em 12/01/2007, data esta também indicada nos dados cadastrais na Receita Federal do Brasil – RFB. Observase que a empresa está situada em endereço similar ao da Anira Veículos Ltda (empresa administrada pelos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira e controlada pela Morena Veículos Ltda.), tem como objeto a prestação de serviços de assessoria em gestão empresarial e possuía o quadro societário formado pela Morena Veículos Ltda, Jacuípe Veículos Ltda, Norauto Veículos Ltda, Anira Veículos Ltda e Norauto Caminhões Ltda, com os percentuais indicados na tabela de fl. 44. Em 10/07/2007, de acordo com a 1ª alteração do Contrato Social da MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda., os sócios acima mencionados retiraramse da sociedade, cedendo suas cotas para as seguintes pessoas físicas: Modezil Ferreira de Cerqueira (30%), Florisberto Ferreira de Cerqueira (30%), Modezil Rodrigues Ferreira de Cerqueira (15%), Myllene Rodrigues de Cerqueira (15%) e Luiz José Pimenta (10%). Esta alteração contratual foi a última a ter efeito nos períodos compreendidos nesta auditoria. Assim, constatase que a empresa MC Assessoria possui Diretor Presidente e Diretor Superintendente idênticos aos da Norauto Caminhões Ltda. Fl. 3155DF CARF MF 8 De acordo com a cláusula sétima do contrato social da MC Assessoria os seus administradores (Diretor Presidente e Diretor Superintendente) são idênticos aos da Norauto Caminhões Ltda. Esta situação encontrase resumida no quadro de fl. 45. Resta claro que o controle das empresas Norauto Caminhões Ltda e MC Assessoria, no período compreendido por esta auditoria, é exercido majoritariamente pela família Ferreira de Cerqueira e que a gestão dos negócios é realizada pelos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira. Observase ainda que os diretores Presidente e Superintendente da empresa Morena Veículos Ltda administram e controlam a Norauto Veículos, Norauto Caminhões e MC Assessoria, conforme se observa no demonstrativo de fl. 46. A cláusula 7ª da 11ª alteração contratual da empresa Morena Veículos Ltda dispõe que a sociedade era administrada pelos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira, Florisberto Ferreira de Cerqueira, Luiz José Pimenta, Modezil Rodrigues Ferreira e Cerqueira e Myllene Rodrigues de Cerqueira Telles de Souza, com as funções respectivas de Diretor Presidente, Diretor Superintendente, Diretor Financeiro, Diretor Comercial e Diretora Administrativa. Outro ponto que merece destaque para o deslinde desta auditoria é a ligação entre as empresas Anira Veículos Ltda, Norauto Veículos Ltda, Norauto Caminhões Ltda e Morena Veículos Ltda, nos períodos investigados (2007 a 2009) conforme mostram os diagramas de fls. 47/48. De todo o exposto concluise que, no período compreendido entre os anos de 2007 e 2009, a empresa Anira Veículos Ltda é controlada diretamente pela empresa Morena Veículos Ltda, que por sua vez é controlada por pessoas físicas diversas, sendo que duas delas, Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira, administram as empresas Norauto Veículos Ltda, Norauto Caminhões Ltda e MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, conforme mostrado no diagrama de fl. 48. 2.3. Da artificialidade na constituição da MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda. A empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda foi constituída em janeiro de 2007, todavia, apenas em 15 de junho do corrente ano houve integralização de capital no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), de acordo com Razão da conta “Capital Registrado”, código 2301010001. De acordo com análise realizada nos arquivos digitais de folha de pagamento apresentados pela MC Assessoria é possível perceber que a empresa iniciou suas atividades com 46 funcionários (dados limitados até 11/06/2007), sendo que 42 deles oriundos do próprio grupo econômico, conforme mostra a planilha de fls. 48/49. Ainda de acordo com os citados arquivos de folha de pagamento, os funcionários transferidos das empresas do grupo econômico para a empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda Fl. 3156DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 6 9 continuaram a receber, em sua grande maioria, os mesmos proventos e não tiveram alteração do cargo após transferência. No caso específico da Norauto Caminhões Ltda o único funcionário transferido para a MC Assessoria foi contratado em 02/04/2007, cujos proventos no período de experiência correspondiam a R$420,00 (quatrocentos e vinte reais) e em junho de 2007, portanto, após a transferência, correspondia a R$ 1.080,00 (um mil e oitenta reais), não tendo havido alteração do cargo após a transferência. Resta claro ter havido apenas transferência de funcionários entre empresas do próprio grupo, principalmente quando se observa a data de admissão na empresa MC Assessoria, anterior a sua constituição de fato. Observase ainda que todos os funcionários transferidos, bem como os novos contratados pela MC Assessoria, trabalham fisicamente nas dependências da empresa Morena Veículos Ltda, que inicialmente a constituiu, juntamente com a Norauto Caminhões Ltda e, posteriormente mantém sócios e diretoria comum com aquela (MC), demonstrando, cabalmente que as três empresas são parte integrantes do mesmo grupo econômico, formado ainda por Aníra Veículos, Jacuípe Veículos Ltda, Norauto Veículos Ltda, Jubiabá Veículos Ltda, Brune Veículos Ltda e Jubiabá Autos e Comerciais Ltda. Em 3 de abril de 2012 esta auditoria compareceu ao endereço cadastral da empresa Anira Veículos Ltda e constatou que a empresa MC Assessoria está localizada fisicamente nas dependências daquela, no segundo andar. Inquirido acerca da localização da empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda., o Sr. Aurivalter C. P. Silva Júnior, Diretor Executivo da Anira Veículos Ltda, se limitou a dizer que a mesma funciona numa sala, com uma mesa e algumas cadeiras, e que não há responsável pela gerência naquele local. A autoridade fiscal lavrou Termo de Intimação Fiscal n° 0004, cuja ciência ao contribuinte (Norauto Caminhões Ltda) se deu de forma pessoal, contendo constatação acerca do que fora observado na visita acima mencionada, todavia, não houve qualquer manifestação por parte da empresa. Salientase também que a Sra. Rita dos Santos Campos, Supervisora Contábil do grupo, corroborou a informação de que os funcionários lotados na área contábil/financeira, inclusive staff, das empresas investigadas nesta auditoria trabalham nas dependências da empresa Morena Veículos Ltda., exceção feita aos funcionários da empresa TV Subaé Ltda, localizada no município de Feira de Santana Bahia. A empresa MC Assessoria foi intimada pessoalmente a apresentar cópias das contas de luz e aluguel, bem como informar motivo da constituição da empresa, já que funciona no mesmo local e dispõe de quadros societário idêntico ao das empresas tomadoras dos serviços. Em resposta a intimação fiscal, a empresa MC informa que não possui contas de luz, utilizando, portanto, a energia da cedente Anira Veículos Ltda. Fl. 3157DF CARF MF 10 Apresenta ainda, contrato de cessão de uso sem ônus do espaço físico referente ao imóvel localizado a Via Urbana, n° 5.520, Centro Industrial de Aratu, Cia Sul, Simões Filho Bahia, de propriedade da empresa Anira Veículos Ltda. Em relação ao motivo da constituição da citada empresa, o contribuinte alega que a sociedade foi criada para promover gestão integrada dos partícipes do grupo econômico, entre outros. A análise da escrita contábil da empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda mostrou que os saldos das contas de luz e aluguéis estão zerados, ou seja, não apresentaram movimentação. Ressaltase que estas contas apresentaram o mesmo padrão em 2008 e 2009. Em 19 de novembro de 2012, a empresa Norauto Caminhões Ltda foi intimada, através de Termo de Intimação Fiscal n° 0004, a apresentar o relatório de atividades desenvolvidas pela empresa MC Assessoria, respondendo inicialmente, de modo verbal, através do procurador, Sr. José Carlos dos Santos Campos, que não dispunha de tal controle, essencial para existência/dedutibilidade de despesas contabilizadas e deduzidas da base de cálculo do lucro tributável. Todavia, após diversos contatos, em 5 de dezembro de 2012 o contribuinte apresentou arrazoado cujo teor versava sobre rol de serviços genericamente prestados referente a cada área operacional da empresa, tais como, Contabilidade, Escritório PósVendas, entre outros. Frisase que as notas fiscais emitidas pela prestadora para a contratante não discriminam os serviços desenvolvidos, contendo apenas indicação genérica de prestação de serviços. Concluise, portanto, que o arrazoado produzido não demonstra quais são os serviços oferecidos, os custos, tampouco a mão de obra envolvida, não se prestando a comprovar a efetividade da prestação. Outrossim, não se pode olvidar que as tarefas elencadas genericamente no arrazoado são idênticas as prestadas por qualquer funcionário em uma empresa. Analisandose as DIPJ, ano calendário 2007, ficha 03, página 02, das diversas empresas do grupo, constatase que a responsável pelo preenchimento das informações ali contidas é a Sra. Rita dos Santos Campos, Supervisora Contábil do grupo, anteriormente lotada na empresa Morena Veículos Ltda e transferida para a empresa MC Assessoria. Frisase que o correio eletrônico informado nas DIPJ citadas é idêntico, qual seja, CONTABILIDADE@MORENAVEICULOS.COM.BR. Converge ainda, na linha de artificialidade na constituição da MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda o fato do contato informado na GFIP da empresa Norauto Caminhões Ltda ser a Sra. Rosane Ferreira Andrade, Supervisora de Pessoal, admitida no quadro de funcionários da Morena Veículos Ltda em 17/06/1997 e transferida para a MC Assessoria em 01/06/2007. A despeito da MC Assessoria ter sido constituída para promover gestão integrada dos partícipes do grupo econômico sequer é responsável pelo envio da GFIP da Norauto Caminhões Ltda, tarefa esta realizada pelo próprio impugnante, pela Norauto Veículos Ltda e, em alguns meses pela Morena Veículos (maio a outubro de 2007 e novembro, dezembro e décimo terceiro de Fl. 3158DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 7 11 2009). Constatouse também que a MC Assessoria sequer envia sua própria GFIP, em alguns meses, tarefa esta realizada pela empresa Morena Veículos Ltda. Estas constatações demonstram cabalmente, no mínimo, a confusão patrimonial que existia entre as empresas acima citadas. Diante do exposto, restou comprovado que a empresa MC Assessoria possui endereço cadastral no mesmo local da Anira Veículos Ltda, não possui qualquer estrutura física/operacional condizente com uma empresa prestadora de serviços, tais como despesas de luz, aluguel, ou qualquer outra comum à atividade empresarial. Ressaltase que de acordo com a DRE 2007, apresentada pela empresa MC Assessoria, só é possível observar despesas com pessoal (ordenados da administração e bolsa de estagiários) e seus encargos, bem como pagamento de tributos. Constatouse, ainda, que a MC Assessoria iniciou suas atividades com a transferência de funcionários das empresas para as quais prestaria serviço, cuja remuneração destes alterou infimamente, com auferimento de receitas e elevada margem de lucro. Observase, por fim, mas não de forma exaustiva, que a empresa MC Assessoria utiliza as dependências físicas da empresa Morena Veículos Ltda, bem como presta os mesmos serviços que os funcionários transferidos prestavam na lotação anterior (empresas do grupo econômico), inclusive com mesmos proventos. Merece ainda atenção o fato de que todo o atendimento a esta Auditoria para prestação de informações foi realizado pela mesma pessoa, qual seja, Rita dos Santos Campos, Supervisora Contábil do grupo. Estas afirmações estão corroboradas, entre outros, pelos seguintes fatos: a) envio das GFIP por pessoa comum ao grupo (Rosane Ferreira Andrade); b) envio das DIPJ por pessoa comum ao grupo (Rita dos Santos Campos); c) manutenção dos proventos pagos antes da constituição da MC e após a transferência dos funcionários mencionados na planilha; d) data de admissão dos funcionários na empresa MC Assessoria convergente com a data de admissão na antiga lotação conforme dados obtidos nos arquivos de folha de pagamento apresentado pelas empresas do grupo investigado; e) ausência de relatórios de atividades comprovando a efetividade dos serviços prestados, requisito essencial à idoneidade da despesa contabilizada e deduzida do lucro tributável, bem como, identificação genérica dos serviços prestados no corpo das notas fiscais; Fl. 3159DF CARF MF 12 f) gestão dos negócios realizada pelos mesmos responsáveis, quais sejam, Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira, ambos quotistas/administradores das empresas investigadas por esta auditoria; g) prestação de serviços pela empresa MC Assessoria apenas a empresas do grupo econômico com elevada margem de lucro. h) endereço cadastral similar/idêntico e comprovação posterior de localização no mesmo lugar entre a Anira Veículos Ltda e MC Assessoria, está última sem qualquer estrutura física/operacional; i) ausência de rubricas contábeis na empresa MC Assessoria, referentes a despesas convencionais observadas em qualquer sociedade. Esta Auditoria comprova ao término deste Termo de Verificação Fiscal que a empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda não existe de fato, tendo sido constituída apenas com fito de reduzir tributos e maximizar distribuição de lucros aos quotistas, utilizandose do instituto da simulação para consecução dos objetivos. 2.4. Da consolidação das operações de prestação de serviços entre as empresas MC Assessoria Gestão Empresarial Ltda (prestadora) e a Norauto Caminhões Ltda (tomadora) e a consequente infração de glosa de despesas não necessárias/ existentes: Nos tópicos anteriores, esta auditoria demonstrou que os quotistas da empresa Norauto Caminhões Ltda controlam a MC Assessoria, bem como a administram, conforme Contrato Social. Foi constatado que a MC Assessoria foi constituída em endereço idêntico ao da Anira Veículos Ltda (controlada pela Morena Veículos Ltda e ligada à Norauto Caminhões Ltda), sem capacidade operacional, com o objetivo de oferecer os mesmos serviços que já eram prestados pelos funcionários nas lotações anteriores, repisese, empresas do mesmo grupo econômico. Ademais, constatouse ainda que os proventos dos funcionários transferidos das empresas do grupo econômico para a empresa MC Assessoria não se modificaram na grande maioria. Analisandose a questão profundamente percebeuse que a empresa Norauto Caminhões Ltda possuía gasto com pessoal (proventos verificados nos arquivos de folha de pagamento apresentados referentes ao único funcionário transferido) no valor de R$1.145,00, entre abril e maio de 2007, ou seja, antes do início das atividades da MC Assessoria. Observase que após o citado início de atividades da MC Assessoria, a Norauto Caminhões Ltda transferiu um funcionário para a MC Assessoria, cujos proventos, após a transferência, totalizaram R$9.091,80. Todavia, constatouse que a despesa contabilizada, com a tomada de serviços, na empresa Norauto Caminhões Ltda, totalizou R$296.252,55. As notas fiscais de prestação dos serviços emitidas pela empresa MC Assessoria sequer discriminam os serviços prestados e, em resposta à intimação, a empresa Norauto Caminhões Ltda se Fl. 3160DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 8 13 limitou a apresentar arrazoado contendo rol de atividades, em tese, realizadas por setores da empresa. Por si só, este preâmbulo já seria suficiente para glosar as despesas com a citada prestação de serviços, pela falta de sua efetiva comprovação, através dos relatórios de atividades desenvolvidas na atividade comercial, que se tornam mais importantes, sobretudo, por se tratar de empresas de um mesmo grupo econômico. Todavia, esta auditoria demonstra em detalhe a real intenção das empresas ao constituir uma empresa de prestação de serviços sob controle comum. Inicialmente, observase que a Norauto Caminhões Ltda é tributada pelo Lucro Real Anual, com recolhimento de estimativas mensais, conforme se depreende da ficha 01 da DIPJ ano calendário 2007, portanto, tem seu lucro tributável reduzido pelas despesas contabilizadas e não adicionadas ao Livro de Apuração do Lucro Real – LALUR. Notase, no caso em tela, que não se verifica qualquer adição a título de despesas com prestação de serviços no referido livro. Da análise realizada na escrita contábil, relativa ao ano calendário 2007, apresentada pela Norauto Caminhões Ltda, percebese que as citadas despesas estão contabilizadas na conta "Legais e Profissionais", código n° 462101010121, e, que reduzem o lucro tributável no montante de R$ 296.252,55. Ressaltase que o citado valor contabilizado diverge um pouco da informação prestada pelo contribuinte na DIPJ do ano calendário 2007 e planilha, porém, esta auditoria utilizou a informação contábil coincidente inclusive com as notas fiscais. No outro lado desta questão surge a constituição, em tese, da empresa MC Assessoria, que de acordo com a DIPJ ficha 01, página 01, fez opção por tributar seu lucro de forma presumida, com recolhimentos trimestrais. Da análise do artigo 51, parágrafo 2º, da Instrução Normativa SRF n° 11, de 21 de fevereiro de 1996, constatase que, no caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro presumido ou arbitrado, a parcela dos lucros ou dividendos que exceder o valor da base de cálculo do imposto, diminuída de todos os impostos e contribuições a que estiver sujeita a pessoa jurídica, também poderá ser distribuída sem a incidência do imposto, desde que a empresa demonstre, através de escrituração contábil feita com observância da lei comercial, que o lucro efetivo é maior que o determinado segundo as normas para apuração da base de cálculo do imposto pela qual houver optado, ou seja, o lucro presumido ou arbitrado. De acordo com o regramento acima descrito, o lucro contábil pode ser distribuído sem a incidência de impostos. No caso concreto, conforme mostram os demonstrativos 1 e 2 (fls. 54/55), a despesa transferida da Norauto Caminhões Ltda para a empresa MC Assessoria (um funcionário) tem efeito na tributação e no lucro a distribuir da empresa Norauto Caminhões Ltda (a maior). Ressaltase que a relação entre Fl. 3161DF CARF MF 14 tributos a recolher e Lucro Líquido a distribuir variou de 37,72% (antes da auditoria) para 42,02% (após a auditoria). À fl. 55 encontrase demonstrado o benefício auferido com a constituição da empresa MC Assessoria, que, além de reduzir a tributação do grupo econômico, apura um lucro contábil bem superior ao lucro presumido, possibilitando uma distribuição favorecida aos sócios. Constatouse que o lucro a distribuir representa cerca de 85,6% da receita auferida da forma como a operação foi realizada e que a relação entre tributos a recolher e Lucro Líquido a distribuir equivale a 16,72%, aproximadamente 1,96 vezes (32,72/16,72) melhor que a configuração verificada na empresa Norauto Caminhões Ltda. Após estes esclarecimentos, resta claro que o objetivo da constituição da empresa MC Assessoria é transformar despesas com pessoal de empresas optantes pelo Lucro Real em receitas de prestação de serviço com tributação favorecida e alta margem de lucro para distribuílo aos quotistas comuns. Outrossim, ressaltase que há vantagem econômico/financeira substancial, no que se refere à redução da tributação das empresas optantes pelo Lucro Real, em face da criação de despesas elevadas com prestação de serviços. Do acima exposto, concluise que a constituição da empresa MC Assessoria se deu apenas no papel, respeitando as formalidades legais, todavia, restou comprovado que de fato a empresa não existe e cumpre apenas seu objetivo de redução da tributação e aumento da distribuição de lucros de forma ilícita. Insta salientar que esta conduta perpetrada pela empresa Norauto Caminhões Ltda tem como consequência a glosa de despesas com a referida prestação de serviços e lavratura de Auto de Infração, referentes aos anos calendário de 2007 a 2009, planilha a seguir. Conforme já mencionado, de acordo com os arquivos digitais de folha de pagamento apresentados pela empresa Morena Veículos Ltda, todos os funcionários da área contábil/financeira estavam ali lotados, todavia, estes prestavam serviços para todas as empresas do grupo, exceto a TV Subaé Ltda. Por isso, entende esta Auditoria que existem despesas de pessoal a serem rateadas por todas as empresas do grupo. O critério utilizado foi reduzir o montante relativo à lavratura do Auto de Infração dos tributos (IRPJ e CSLL) efetivamente declarados em DCTF e/ou pagos pela empresa MC Assessoria, que de fato não existe, proporcionalmente ao faturamento das referidas empresas, situação que se encontra sintetizada nos demonstrativos de fls. 56/57. Fl. 3162DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 9 15 2.5. Da simulação e consequente glosa das despesas com a prestação de serviços tomada da empresa MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, inexistente de fato. De acordo com todo o acima exposto, não resta qualquer dúvida que a empresa MC Assessoria não existe de fato e que foi constituída com objetivo de reduzir a carga tributária do grupo econômico e maximizar a distribuição de lucros/dividendos. A citada distribuição de dividendos está evidenciada na ficha 51A, páginas 08 e 12 das DIPJ dos anoscalendário 2007 e 2008, respectivamente, e ficha 61A, página 18, da DIPJ ano calendário 2009, bem como, registrada na conta contábil “Exercício Seguinte”, código nº 2303020002. Esta afirmação se baseia em diversos aspectos já pormenorizados neste Termo de Verificação Fiscal, cuja consequência é a glosa da referida despesa. Anteriormente à constituição da MC Assessoria a empresa Norauto Caminhões Ltda. deduzia do lucro tributável suas despesas com pessoal, entre outras. Posteriormente à constituição daquela foi possível planejar, de forma ilícita, o montante a deduzir do lucro real, cuja consequência é a redução da carga tributária desta, bem como a elevação da distribuição de dividendos, mediante apuração de altos lucros em empresa recém criada e optante pelo Lucro Presumido (MC Assessoria). No curso deste procedimento fiscal, ficou comprovado, consoante conjunto probatório vasto, que a empresa MC Assessoria presta os mesmos serviços outrora prestados pelos funcionários integrantes do grupo econômico, porém, com elevado custo para os optantes do lucro real. Ressaltase que o mais importante é que os serviços prestados não foram devidamente comprovados, através de relatórios de atividades, requisito essencial para dedução das despesas nas empresas optantes pelo lucro real. Outrossim, percebese que a indicação dos serviços prestados no corpo das notas fiscais fora feita de forma genérica. Não se pode olvidar que o contribuinte simulou a prestação dos referidos serviços cumprindo as formalidades legais, com objetivo claro de redução da carga tributária e maximização da distribuição dos lucros e dividendos. Neste caso, observase claramente que substância e forma das operações, como foram realizadas, não se coadunam. Concluise que o negócio realizado aparentemente, ou, simulado, não subsistirá, ou seja, a prestação dos serviços realizados pela MC Assessoria de fato não ocorreu, consequentemente, impondose a glosa das despesas respectivas. O Código Civil do Brasil, aprovado pela Lei n° 10.406, de 2002, estabelece que: "Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, Fl. 3163DF CARF MF 16 se válido for na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; (...)" A essência do negócio jurídico ocorrido foi a criação de despesas não comprovadas, através de atos simulados, cujo objetivo maior era a redução da carga tributária, conforme relato. A simulação, tal qual se verifica na espécie, pressupõe que se procure fingir, disfarçar, mostrar o irreal como verdadeiro, dissimular a verdade. No campo eminentemente privado, os atos anuláveis podem ser retificados, ou seja, as partes podem corrigir os vícios neles existentes, de forma a se compatibilizarem com a vontade da lei. De outra parte, o ato nulo é insanável, de modo que o ato simulado é nulo, não podendo produzir qualquer efeito, nem ser sanado. O artigo 109 do Código Tributário Nacional dispõe, in verbis: "Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. (...)" Art. 118, do referido Código dispõe, in verbis: "A definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose: I da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos; II dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos." O texto reproduzido traz as linhas gerais de interpretação e aplicação da legislação tributária aos fatos econômicos, quando intervém atos jurídicos simulados. O artigo 109 determina que os princípios gerais de direito privado não devem ser utilizados para definir ou conformar os efeitos tributários de seus institutos, conceitos e formas. Portanto, os fatos relevantes para o nascimento da obrigação tributária (fatos econômicos, essencialmente) devem ser analisados com abstração das formas jurídicas sob as quais se apresentarem, sempre que a realidade econômica dos fatos, subjacentes à forma jurídica utilizada, se mostrarem vigorosamente distintos da roupagem jurídica que lhes foi imposta, mormente com artificialidade evidente. Fl. 3164DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 10 17 Ainda é possível observar que o artigo 149, inciso VII, do referido Código dispõe que o lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação. Enquadramento Legal: Infração Glosa de Despesa não comprovada/existente na apuração do IRPJ: • Artigos 247; 248; 249, inciso I; 251; 277; 278; 299 e 300 do RIR/99; • Artigos 109; 116; 118 e 149 do CTN. Infração Glosa de Despesa não comprovada/existente na apuração da CSLL: • Artigo 2º e 3º, inciso II, da lei 7.689 de 15 de dezembro de 1988 e alterações posteriores; • Artigo 57, da Lei 8.981 de 20 de janeiro de 1995 e alterações posteriores; • Artigo 1º da Lei 9.316 de 22 de novembro de 1996; • Artigo 28, da Lei 9.430 de 27 de dezembro de 1996. 2.6 Da qualificação da multa de ofício pela prática de Sonegação, Fraude e Conluio: A Norauto Caminhões Ltda apura seu resultado fundamentado no Lucro Real Anual com pagamento de estimativas mensais calculadas com base em balanços de redução/suspensão. Este resultado é composto por contas de resultado representado por receitas, despesas e custos, cujo confronto ajustado concebe o fato gerador do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. As condutas supracitadas do contribuinte tiveram a finalidade, de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, além de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador, de modo a reduzir o montante do imposto devido, a evitar ou diferir o seu pagamento, conforme descrição abaixo. De acordo com todo arrazoado produzido, não se questiona que a empresa Norauto Caminhões Ltda participou, inicialmente, da constituição da empresa MC Assessoria, todavia, em seguida cedeu as suas cotas para seus gestores, que por sua vez a controlam diretamente, configurando, assim, o supracitado grupo econômico. Fl. 3165DF CARF MF 18 Ato contínuo à constituição da MC Assessoria observase que os serviços anteriormente executados por funcionários próprios passaram a ser executados por valores muito superiores pela empresa recém criada. Contudo constatouse que os funcionários desta vieram transferidos das empresas agora omadoras dos serviços. Concluise ainda que a empresa MC Assessoria não existe de fato, tendo sido constituída de forma simulada, para atender a objetivos específicos do grupo econômico. O processo de constituição da empresa MC Assessoria se baseou nas benesses concedidas pelo artigo 51, parágrafo 2º, da Instrução Normativa SRF n° 11, de 21 de fevereiro de 1996, que possibilita a distribuição do lucro contábil quando superior ao presumido. Diante deste regramento, algumas empresas pertencentes ao grupo econômico, quais sejam, Norauto Veículos Ltda, Jacuípe Veículos Ltda, Morena Veículos Ltda, Anira Veículos Ltda e Norauto Caminhões Ltda, estabeleceram que deveriam criar uma situação jurídica para se beneficiar diante do universo legal estabelecido. A forma encontrada para conseguir o intento foi constituir fictamente uma empresa optante pelo lucro presumido para prestar serviços apenas a empresas ligadas com elevada margem de lucro. Percebese que o grupo econômico demonstrou no papel, através de operações formais, uma intenção que não foi corroborada com os atos efetivamente praticados, ou seja, essência e forma não se coadunam. Os atos públicos praticados não tiveram outra finalidade a não ser esconder/dissimular os verdadeiros. Após a leitura deste Termo de Verificação Fiscal não resta qualquer dúvida que a empresa MC Assessoria não existe de fato. Esta conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, aumentou as despesas operacionais da Norauto Caminhões Ltda, reduzindo sensivelmente o valor do tributo a recolher, mediante comportamento doloso, tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, bem como alteração das características fundamentais do fato gerador, qual seja, o lucro tributável. O artigo 71, da Lei 4.502 de 30 de novembro de 1964, dispõe o seguinte, in verbis: "Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 3166DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 11 19 II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente." O artigo 72, da Lei 4.502 de 30 de novembro de 1964, dispõe o seguinte, in verbis: "Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento." Neste cenário observase ainda que o artigo 73, da referida Lei, dispõe o seguinte, in verbis: "Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72." Entende esta Auditoria, consoante arrazoado elaborado neste item e em todo o trabalho realizado, que a conduta intencional adotada pela Norauto Caminhões Ltda para reduzir seu lucro tributável encaixase com perfeição nos conceitos acima mencionados. Assim, concluise que de acordo com artigo 44, inciso II, da lei 9.430 de 27 de dezembro de 1996, com nova redação dada pela lei 11.488, de 15 de junho de 2007, a multa de ofício será duplicada, mormente ter havido Sonegação, Fraude e Conluio praticada pelas empresas Norauto Caminhões Ltda, Morena Veículos Ltda, através de seus quotistas/administradores comuns, Norauto Veículos Ltda, Anira Veículos Ltda e MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, entre outros partícipes do Grupo Econômico. 2.7. Das considerações acerca da possibilidade do lançamento referente ao anocalendário 2007: Havendo sido demonstrada a sonegação, o intuito de fraude, o dolo, a simulação e o conluio, o prazo de decadência não é mais contado da data da ocorrência do fato gerador, conforme o §4º do art. 150 do CTN, concluise que o início da contagem do prazo, a teor do inciso I do art. 173 do CTN, se desloca para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ser efetuado, qual seja 1º de janeiro de 2009, decaindo somente em 1º de janeiro de 2014, podendo, portanto, a glosa de despesas não comprovadas/existentes ser lançada de ofício até 31/12/2013. 2.8. Da Infração referente à Multa pelo não pagamento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL: Tendo em vista que para os anoscalendário de 2007 a 2009 a empresa optou pela forma de tributação do IRPJ e da CSLL com base no lucro real anual, com pagamento de estimativas Fl. 3167DF CARF MF 20 mensais, e em se considerando as infrações apuradas por esta fiscalização que alteram os resultados fiscais dos períodos e das estimativas citados, constatase que a empresa deixou de efetuar diversos pagamentos do IRPJ e da CSLL estimados. A falta do pagamento do IRPJ e da CSLL devidos mensalmente por estimativa está sujeita a multa de 50% sobre o valor que deixou de ser pago, conforme disposto no artigo 44 da Lei n° 9.430/1996, inciso II, alínea b, com a redação dada pelo artigo 14 da Lei n° 11.488, de 15/06/2007 (conversão da Medida Provisória n° 351 de 22/01/2007), que diz: "Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas multas: ... II – de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: ... na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica." Corroborando entendimento do citado diploma legal, em 24 de dezembro de 1997, a Receita Federal do Brasil publicou Instrução Normativa SRF n° 93, cujo artigo 16, determina o seguinte: "Art. 16. Verificada a falta de pagamento do imposto por estimativa, após o término do anocalendário, o lançamento de ofício abrangerá: I – a multa de ofício sobre os valores devidos por estimativa e não recolhidos; II o imposto devido com base no lucro real apurado em 31 de dezembro, caso não recolhido, acrescido de multa de ofício e juros de mora, contados do vencimento da quota única do imposto." Do todo acima exposto, foram cobradas as multas isoladas pela falta dos pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, conforme constatação nos Demonstrativos de Apuração dos anoscalendário específicos, parte integrante deste Auto de Infração. DA CONCLUSÃO: Da análise da escrita contábil/fiscal e dos fatos acima expostos concluise que a despesa com prestação de serviços tomados da empresa MC Assessoria, nos moldes utilizados pela Norauto Caminhões Ltda, é indevida consoante diplomas legais vigentes. Em função desta constatação foram recompostas as bases de cálculo do IRPJ e CSLL, glosandose as despesas acima citadas. Fl. 3168DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 12 21 A multa de ofício referente a esta infração foi duplicada nos termos do artigo 44, inciso II, da Lei 9.430/96, com nova redação dada pela Lei 11.488/2007, por entender esta Auditoria que houve Sonegação, Fraude e Conluio nas operações intragrupo realizadas. Ainda neste contexto, observase outra infração cometida pelo contribuinte cuja penalidade é a aplicação de multa isolada pelo não pagamento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Dos Termos de Sujeição Passiva Solidária. Em razão da infração cometida pelo contribuinte, já descrita no Termo de Verificação Fiscal, foram lavrados os Termos de Sujeição Passiva Solidária contra os diretores da Norauto Caminhões Ltda: Modezil Ferreira de Cerqueira (Diretor Presidente), fls. 77/83, e Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente), fls. 84/90. Nos referidos Termos encontrase descrita a conduta da empresa que resultou na autuação fiscal, já pormenorizadamente detalhada no Termo de Verificação Fiscal anteriormente citado e a razão da lavratura dos Termos de Solidariedade Passiva: • de acordo com a cláusula 7ª do Contrato de Constituição da Norauto Caminhões Ltda, vigente durante o período que impacta esta auditoria (2007 a 2009), a sociedade era administrada pelos sócios Modezil Ferreira de Cerqueira (Diretor Presidente), Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente). • os artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30/11/1964, tratam da sonegação, fraude e conluio que consoante arrazoado elaborado neste item e em todo o trabalho fiscal realizado se encaixa com perfeição na conduta materializada; • a cláusula 17ª da consolidação citada dispõe que compete à Diretoria cumprir e fazer cumprir as cláusulas e condições deste contrato, com poder legal para garantir o regular funcionamento da sociedade, investidos de mais os seguintes: (a) Manter, sob sua guarda e responsabilidade, todos os títulos e valores mobiliários da sociedade; (b) Decidir sobre a celebração de contratos, convênios, acordos, empréstimos e financiamentos do interesse da sociedade; (c) Decidir sobre aquisição, locação, alienação, oneração ou gravame de bens imóveis; (d) Decidir sobre a lotação de pessoal; (e) Praticar todos os demais atos necessários ao exercício da administração social, exceto os que por lei sejam contrários aos interesses da sociedade ou que, por esse contrato sejam de atribuição da Reunião de Quotistas. (grifos nossos). Fl. 3169DF CARF MF 22 • de todo o exposto nos Termos de Solidariedade Passiva e no Termo de Verificação Fiscal, concluise que houve infração a lei, Contrato Social ou Estatutos em face do não cumprimento da legislação em vigor, mediante conduta simulada dos diretores empossados; • O artigo 135 do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172, de 25/10/1966), dispõe in verbis: "Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I – as pessoas referidas no artigo anterior; II – os mandatários, prepostos e empregados; III – os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Grifos nossos. • ante o exposto, restou caracterizada a sujeição passiva pessoal dos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira (Diretor Presidente) e Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente), nos termos do art. 135 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN). IMPUGNAÇÃO O contribuinte tomou ciência dos autos de infração em 28/05/2013 e apresentou a impugnação em 27/06/2013 (fls. 2.694/2.793), alegando, em síntese: • a nulidade da autuação, pela incompetência da autoridade administrativa para decretar a desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria e Gestão Empresarial Ltda, empresa prestadora de serviços, haja vista a necessidade de lei regulamentadora prevendo o procedimento para a decretação; • o impugnante integra um grupo de empresas estruturadas a partir de sistema de gestão pelo qual há uma empresa, a MC Assessoria, especificamente dedicada a prover as demais empresas nas necessidades de serviçosmeio e back office (serviços contábeis, de recursos humanos, tecnologia da informação, serviços gerais, dentre outros tipicamente abrangidos sobre uma estrutura de serviços compartilhados), através de uma Central de Serviços Compartilhados e Central de Compras; • a autoridade fiscal compondo um cenário em que tal estrutura de serviços compartilhados consubstancia um suposto estratagema fraudulento, decretou a desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria, reputandoa "inexistente" e atribuindo suas atividades às empresas que contratam os seus serviços, ou seja, as empresas operacionais do grupo empresarial, dentre as quais o impugnante. Após cerca de nove meses de auditoria na contabilidade, documentos e atividades da contribuinte, a fiscalização, iniciada em 29/03/2012, restou concluída via lavratura de auto de infração Fl. 3170DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 13 23 que decretou a "inexistência" de uma terceira empresa fornecedora do impugnante e glosou as despesas contratadas pelo impugnante junto à MC Assessoria, para efeito de apuração do IRPJ e CSLL; • a autoridade autuante desconsiderou a existência jurídica da empresa MC Assessoria como ente personalizado, decretando a ineficácia dos seus atos constitutivos, e, conseguintemente, dos atos civis praticados pela empresa, inclusive o contrato de prestação de serviços celebrado com o impugnante, seus consectários obrigacionais e fiscais; • a decretação da desconsideração da personalidade jurídica para efeitos tributários, pela Autoridade Administrativa, é matéria regida pelo Código Tributário Nacional, em seu art. 116, parágrafo único, inserido pela Lei Complementar n° 104/2001. Ocorre que, consoante se infere da redação do dispositivo, a forma de decretação da desconsideração de atos ou negócios jurídicos visando dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo deverá observar "os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária". A norma, como se vê, carece de regulamentação. Sem a lei estabelecendo o procedimento, resta inaplicável a desconsideração dos atos ou negócios jurídicos supostamente dissimulados; • em dado momento, foi editada a Medida Provisória n° 66/02, em cujos artigos 13 a 19 foram editados os dispositivos estabelecendo "Procedimentos Relativos à Norma Geral Anti Elisão", regulamentando, assim, a regra do art. 116 do CTN, mas durante o trâmite do diploma normativo nas instâncias legislativas, contudo, até a sua conversão na Lei n° 10.637/02, o texto referente à regulamentação do procedimento relativo à desconsideração foi suprimido, de modo que esta possibilidade de atuação da Autoridade Administrativa continua pendente de autorização no direito positivo. A propósito, é reiterado entendimento do CARF quanto à natureza do dispositivo do art. 116 do CTN, que, de eficácia limitada, queda inaplicável enquanto não sobrevier sua regulamentação; • pretender fugir ao regime jurídico do art. 116 do CTN e aplicar regras análogas a do Código Civil, para elidir a inaplicabilidade do regime fiscal de desconsideração, tampouco traz melhor sorte à pretensão fiscal, pois, de logo, já se reputa prejudicada a aplicabilidade da legislação civil geral para a espécie, na medida em que a lei tributária é norma especial, quando se trata de ato de lançamento de obrigação tributária, não podendo, ante o princípio da especialidade, recusar a sua aplicação em prol de norma geral, tal qual a lei civil. Por sua vez, o regime de desconsideração da personalidade jurídica do direito civil, sobre não se aplicar preferencialmente ao regime tributário, ante o postulado da especialidade, requer, ainda mais, a decretação pela autoridade judicial, consoante se infere do art. 50 da codificação privada, a saber: Fl. 3171DF CARF MF 24 Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. • na mesma esteira, o regime jurídico de simulação, do art. 167 da lei civil, evocado pela autoridade autuante para fundamentar o seu ato de desconsideração da personalidade jurídica, também requer a intervenção do órgão do Poder Judiciário. De efeito, a simulação, enquanto vício, da vontade na produção do ato jurídico, é hipótese de nulidade, e, como tal, não pode ser reconhecida senão por decisão do órgão jurisdicional, conforme determinado no art. 168, parágrafo único, do Código Civil; • demonstrase que nem mesmo a aplicação do regime geral de desconsideração, tampouco a hipótese de simulação, enquanto vício de vontade passível de macular o ato jurídico, ambos da lei civil, lastreiam a atuação da autoridade autuante no caso concreto, ao arrogarse competência para decretar veredito normativo que, nos termos da lei, é privativo da autoridade judicial; • a autoridade fiscal decretou a desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria, reputandoa "inexistente", ao supostamente vislumbrar nesta estrutura de gestão de redundâncias e sinergias, com a otimização do atendimento às necessidades comuns de todas as empresas através de uma única estrutura hospedada por uma empresa focada exclusivamente em tais atividades meio, um suposto engenhoso esquema fraudulento que pretendeu combater com o presente Auto de Infração; • ocorre que o procedimento administrativo em pauta, no qual se operou a análise das atividades do impugnante, que teve a sua contabilidade auditada e os recolhimentos tributários escrutinados, corresponde a procedimento administrativo em que o contribuinte fiscalizado, e, assim, parte no PAF que daí foi instaurado, é o próprio Impugnante, e não a MC Assessoria; • todas as alegações e supostos elementos que conduziram à autuação não se referem ao autuado, mas sim à MC Assessoria: quais as atividades da MC Assessoria? Ela prestava serviços? Ela tinha conta em banco? Ela tinha empregados em folha, quantos e desenvolvendo quais atividades? Ela tinha contratos com fornecedores? Quais os custos e despesas da MC Assessoria? Os custos e despesas estavam contabilizados? A MC Assessoria detinha contrato de prestação de serviços com as empresas do grupo? Ela emitia nota fiscal? A MC Assessoria declarava e recolhia os tributos sobre as receitas auferidas? Essas são as questões fundamentais para o deslinde do feito, porém, nenhuma dessas questões foi respondida pela auditoria realizada pela Autoridade Fiscal, exatamente porque sua análise se centrou na empresa fiscalizada e autuada e não a MC Assessoria; Fl. 3172DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 14 25 • demonstrase, destarte, a total incongruência do ato de lançamento: decreta a desconsideração da personalidade jurídica de uma empresa dentro de um procedimento fiscalizatório que tem como objeto uma outra empresa. Mutatis mutandis, é como se o Ministério Público movesse uma denúncia criminal contra Fulano de Tal, e, na peça acusatória, descrevesse como fundamento um ato cometido por Beltrano; • a incongruência, verdadeira inépcia do ato de lançamento, está expressa e simbolizada em uma constatação: um ato jurídico, ou é válido ou não é; ou é nulo ou não é. Não pode ser um e outro ao mesmo tempo. Temos, porém, que este mesmo Auto de Infração que decreta a nulidade da constituição da MC Assessoria foi lavrado contra 9 empresas, dentre as quais o impugnante, e deverá ainda ser, certamente, lavrado contra outras tantas, na medida em que o mesmo grupo empresarial é composto por mais de 10 empresas que contratam os mesmos serviços junto à MC Assessoria; • lógico e coerente, do ponto de vista formal/procedimental, seria que fosse instaurado um procedimento de desconsideração contra a própria MC Assessoria, e, caso fosse afinal consumada a desconsideração, os lançamentos contra as empresas que contrataram seus serviços seriam meros reflexos. Agora, contudo, correse o risco, completamente inusitado, de que a MC Assessoria tenha decretada sua nulidade em um auto lavrado contra uma determinada empresa; e seja mantida, na apreciação dos outros autos de Infração, válida para as demais, ou vice versa!; • medida excepcional que é, a desconsideração da personalidade jurídica, inclusive na hipótese de alegada simulação, exige, como premissa fundamental de segurança, como método de máximo suporte fático e probatório do ato de desconsideração e a oferta do contraditório à pessoa cuja desconsideração é pretendida; • fato é que o procedimento administrativo instaurado contra um determinado contribuinte não é idôneo para decretar a desconsideração da personalidade jurídica de um outro contribuinte, totalmente alheio ao procedimento fiscalizatório epigrafado. Tratase de absoluta ineficácia do procedimento administrativo fiscal que pretende afetar a esfera jurídica de outrem além daquele sujeito passivo que é objeto da auditoria, ficando patente o desvio de forma que enseja a nulidade. Vale ainda ressaltar que este auto de infração é modelo idêntico para as diversas empresas do grupo empresarial em epígrafe, que contratam serviços compartilhados nos mesmos moldes, perante a mesma MC Assessoria; • o fato é que o impugnante integra grupo empresarial composto por mais de uma dezena de empresas, preponderantemente do ramo do varejo automotivo. Tal cenário, que o fiscal autuante falhou em descrever com precisão, demanda, como um paradigma de gestão, eficiência e plataforma para a expansão Fl. 3173DF CARF MF 26 das atividades e negócios do grupo empresarial, a instalação de uma central de serviços compartilhados para atender a todos os negócios existentes e àqueles a serem futuramente instalados; • as necessidades de um ambiente econômico crescentemente competitivo, em que os negócios, sobretudo aqueles que operam no varejo, via mera revenda, trabalham com margens de lucro cada vez mais exíguas, exigem uma estrutura de compartilhamento de serviçosmeio, ou seja, serviços que não dizem respeito ao negócio principal da empresa e geram redundâncias quando instalados em cada uma das unidades do grupo isoladamente. Uma empresa do grupo hospeda a central de serviços e fornece às demais unidades de negócio tais utilidades que geram demanda comum a todas elas, de modo que aquilo que o fiscal autuante pretendeu caracterizar como fraude não é senão o paradigma do mercado quando se trata de estrutura de gestão de serviçosmeio, administrativos e back office em grupos empresariais; • o autuante, revelando, reiteradamente, pouco rigor e descompromisso com a verdade material, sobre não escrutinar as bases econômicas e fáticas que pautaram a estrutura de serviços compartilhados fornecida pela MC Assessoria, tampouco, mantevese fiel à realidade, inclusive fiscal e contábil, dos fatos, quando pretendeu apurar o IRPJ e a CSLL do impugnante partindo da "inexistência" da MC Assessoria. De fato, para neutralizar a existência da MC Assessoria como pessoa jurídica autônoma, o autuante imputou os valores de IRPJ e CSLL pagos por esta empresa às empresas contratantes, inclusive o impugnante. Deveria, porém, além de haver imputado tais valores de IRPJ, fazêlo igualmente quanto aos demais tributos federais, inclusive PIS/Cofins e contribuições sociais, além de, igualmente, atribuir às contratantes também as despesas incorridas pela própria MC Assessoria, inclusive despesas com pessoal, fornecedores, e todas aquelas assim admitidas, como dedutíveis, pela legislação do IRPJ; • os dispêndios incorridos pela pessoa jurídica são, ou não, dedutíveis para efeito de apuração de IRPJ e CSLL na estrita medida em que se conformam aos critérios do art. 299 do Regulamento do Imposto sobre a Renda, aprovado pelo Decreto n° 3000/99 (RIR/99). Tratase de aspectos técnicos, de fundamental relevância, que a lavratura em momento algum considerou; • o lançamento manteve a sua verve persecutória quando determinou a aplicação da multa qualificada. Para tanto, atribuiu ao impugnante atos de sonegação e fraude com a aplicação da multa em dobro do art. 44, §1°, da Lei n° 9.430/96. A mansa jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), entende que a aplicação da multa qualificada requer a demonstração específica e inequívoca do dolo do contribuinte sob a forma da intenção de fraudar o Erário, logro probatório do qual a lavratura sequer se aproxima; • a lavratura está permeada de uma má compreensão generalizada da estrutura negocial e de gestão do impugnante, e do grupo de empresas que integra, o que, refletindo diretamente Fl. 3174DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 15 27 o modelo amplamente adotado no mercado, e reconhecido pela própria Receita Federal do Brasil, fornece o grau de incompatibilidade que a lavratura aufere a partir dos fatos que pautam a lide e das normas jurídicas que regem o tema, tudo o que, subsequente e especificamente, nas suas diversas nuanças e vertentes, restará demonstrado, como suficiente para o cancelamento da autuação; • o estabelecimento de uma estrutura de serviços compartilhados na MC Assessoria não consubstancia mero capricho, muito menos engenho fraudulento como surpreendentemente pretendeu caracterizar o autuante, mas sim um passo do grupo empresarial, e do Impugnante como unidade de negócio nele inserida, visando atender a exigências inexoráveis da realidade de mercado, quanto à otimização dos custos do negócio via capitalização das sinergias e ganhos de escala tão necessários em um mercado que pratica margens cada vez mais estreitas, conforme relata no item III da impugnação “A racionalidade econômica e o propósito negocial da estruturação de central de serviços compartilhados, via MC Assessoria”; • salta aos olhos que, após nove meses de auditoria dentro das diversas empresas do grupo empresarial, a fiscalização tenha passado ao largo das atividades e negócios realizados pela MC Assessoria e, conseguintemente, da constatação do valor agregado pela empresa à estrutura do grupo. A mensagem que o Termo de Verificação Fiscal transmite para aquele que o lê é de que a MC Assessoria não detém custos nem despesas, não tem qualquer legitimidade contratual perante terceiros, não realiza qualquer operação ou negociação em prol do grupo de empresas, enfim, não desenvolve qualquer atividade; • apesar de haver sido objeto das diligências da autoridade fiscal, conforme atestam os Termos de Intimação anexos, endereçados pela fiscalização diretamente à MC Assessoria, em momento algum esta empresa foi, ela própria, retratada nos autos do PAF como uma entidade per se, com sua contabilidade, custos, despesas, contratos, ativos e passivos, analisados e auditados. Tal circunstância, ou seja, a virtual ausência da MC Assessoria do PAF, observase, foi utilizada pela fiscalização como plataforma de sustentação da pretensão fiscal empunhada na autuação, baseada na desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria, por suposta "inexistência", o que explica porque a MC Assessoria não foi autuada, fosse a título de alvo da desconsideração, como codevedora ou qualquer outra modalidade; • a auditoria, dado que teve como alvo o impugnante, não analisou a contabilidade da MC Assessoria, que é empresa distinta, não arrolou os negócios em que esta figura, não abriu seus custos e despesas, que são insumos para a prestação dos serviços às demais empresas do grupo e justificam o preço cobrado e as despesas incorridas nas contratantes. A única referência, no Termo de Verificação Fiscal, às atividades da MC Assessoria é o seu quadro de funcionários. E assim o faz a Fl. 3175DF CARF MF 28 fiscalização no afã de comprovar a sua tese de que a MC Assessoria é mero repositório de empregados, sem qualquer atividade. Observase que a própria auditoria, ao identificar o quadro de empregados da MC Assessoria, e as funções que exercem, demonstra e reconhece que a empresa presta serviços e, mais ainda, quais os serviços que presta, exatamente aqueles que são objeto da função das pessoas ali arroladas e de cada uma das equipes que, podemos identificar, ali estão descritas. • é natural que, em se tratando da implementação de um compartilhamento intragrupo, os empregados que serão alocados à empresa hospedeira da Central de Serviços Compartilhados – CSC, sejam oriundos de cada uma das unidades que serão atendidas pela provedora dos serviços, dado que não há ruptura no relacionamento de um lado ou de outro, aproveitase a experiência acumulada pelo colaborador, garantese a sucessão trabalhista e os direitos dos empregados, e se alavanca o vínculo patrãoempregado a partir de uma relação pessoal já consolidada, pelo empregado, dentro do próprio grupo; • é de estranhar o questionamento da fiscalização quanto ao local de trabalho dos empregados da MC Assessoria, que se encontram baseados nas empresas contratantes. Se uma determinada empresa contrata com a KPMG, por exemplo, um outsourcing de compliance fiscal, onde será que os colaboradores cedidos vão trabalhar, escriturando os lançamentos, preenchendo as declarações, gerando os documentos de arrecadação e efetuando os recolhimentos? É evidente que as pessoas cedidas ficarão alocadas dentro do cliente, onde toda a documentação que é utilizada no diaadia do trabalho está baseada. A lógica utilizada pela fiscalização, para questionar os serviços contratados pelo impugnante e prestados pela MC Assessoria, diferente da lógica que pautou as empresas na estruturação da CSC, não guarda qualquer compromisso com a racionalidade econômica e o propósito negocial, não podendo se considerar compreensível sob uma perspectiva empresarial de desempenho e eficiência; • são inúmeras as transações, despesas, custos e negócios em geral que a MC ASSESSORIA celebra no mercado, sempre com a finalidade de prover serviços e centralizar despesas das empresas operacionais que compõem o Grupo MC. Apenas revendedoras de veículos, como já descrito nesta impugnação, são 14 unidades e estabelecimentos, cuja demanda por serviços de back office e fornecimento de insumos e outras utilidades, cada vez maior, é atendida pela MC Assessoria; • a MC Assessoria provê, efetivamente, utilidades às contratantes, via prestação de serviços realizada por seu quadro de empregados, cujas equipes e respectivas funções são identificadas e descritas no relatório da própria auditoria. Assim, no intuito de exaurir as informações relativas às atividades da MC Assessoria é de se escrutinar, e trazer a lume e ao crivo do julgador administrativo, suprindo omissão da auditoria fiscal neste ponto fundamental e caro à pretensão fiscal, as despesas, custos e atividades especificamente desenvolvidas pela citada empresa, demonstradas a partir da Fl. 3176DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 16 29 escrituração contábil, documentos e evidências que, disponibilizadas à fiscalização, foram ignoradas na lavratura. Objetivamente, temos que as atividades da MC Assessoria se centram em: Central de Serviços Compartilhados, prestados pela própria MC Assessoria via fornecimento de mãodeobra em serviçosmeio e central de compras e contratação de fornecedores comuns às diversas empresas do grupo; • todas as despesas, custos, contratos, negócios e atividades em geral, promovidas pela MC Assessoria, estão amparados e lastreados em documentos anexos, notadamente a contabilidade da empresa (Doc. N° 05), além de instrumentos, notas fiscais e documentos que formalizam as transações respectivas (Doc. N° 06). Finalmente, acompanha a presente impugnação Relatório de Especialista elaborado pela consultoria Ernst & Young Terço, avaliando e atestando todas as atividades desenvolvidas pela MC Assessoria, desde o seu estabelecimento até 2011, conforme anexo (Doc. N° 07); • a descrição do quadro de funcionários da MC Assessoria, com destaque para a função exercida, e a composição das equipes setoriais, representadas na folha de pagamento da empresa, comprovam e identificam os serviços prestados pela MC Assessoria, que compõem a Central de Serviços Compartilhados, tudo conforme descrição realizada pelo próprio autuante; • demonstrase, conforme relatório transcrito no Termo de Verificação Fiscal e folha de pagamento da MC Assessoria (anexa em Doc. N° 02), a prestação, a partir da força de trabalho da própria prestadora, dos seguintes serviços compartilhados, às demais empresas do grupo: (a) serviço de contabilidade; (b) serviço de compliance fiscal; (c) serviço de consultoria em recursos humanos; (d) serviço de tecnologia da informação; (e) serviço de crédito e cobrança; (f) serviço de consultoria financeira e securitária (F&I). • o volume de serviços prestados pela MC Assessoria expandiu se significativamente desde a sua instalação, exigindo o aumento do seu quadro de empregados, ao longo dos anos. A empresa saiu de 46 empregados em 2007 para 127 empregados em 2011, conforme demonstram as folhas de pagamento anexas (Doc. N° 02), e destacado ainda pelo Relatório da Ernst & Young Terco (Doc. N° 07); • observase que, na linha de uma estrutura típica de serviços compartilhados, não se identifica a alocação ao CSC de atividades vinculadas ao negócio principal das empresas operacionais, ou seja, não houve incorporação, ao quadro de pessoal da MC Assessoria, de vendedores, gerentes de vendas, Fl. 3177DF CARF MF 30 consultores de oficina, mecânicos e demais colaboradores vinculados ao core business das empresas. A estrutura de back office e serviços compartilhados deve se resumir a atividades meio, e assim se dá na MC Assessoria; • por meio da centralização dos relacionamentos com fornecedores diversos, de insumos, mercadorias e serviços comuns às empresas do Grupo MC, a MC Assessoria viabiliza ganho de escala e gestão uniformizada e centralizada dos processos de compras, agregando valor ao grupo via estruturação de uma central de compras e contratação de fornecedores comuns; • todas estas transações, operações, negociações e contratações estão devidamente documentadas e contabilizadas na empresa, e demonstram, reiteradamente, e em conjunto com as demais evidências já apontadas, a existência, necessidade e o valor da MC Assessoria dentro do grupo empresarial, como prestadora de serviços ao impugnante e às demais empresas do Grupo MC; • conforme lançamentos contábeis (Doc. N° 05 anexo), lastreados em instrumentos, notas fiscais e documentos que formalizam as transações respectivas, também colacionados aos autos (Doc. N° 06 anexo), identificamse diversas áreas de atuação da central de compras, como estrutura proporcionadora de escala na aquisição de insumos e contratação de fornecedores, dentre as quais podemos indicar as seguintes: (a) serviço de assistência médica aos colaboradores do grupo; (b) aquisição de vestuário padronizado para os colaboradores do grupo; (c) serviço de catering e alimentação para os colaboradores do grupo; (d) serviço de consultoria em tecnologia da informação para as empresas do grupo; (e) serviços de auditoria e consultoria para as empresas do grupo; (f) aquisição de insumos de informática; (g) aquisição de material de escritório; (h) contratação de financiamento para as empresas do grupo junto a instituições financeiras; (i) contratação de escritórios de advocacia para as empresas do grupo; (j) contratação de serviços de propaganda e marketing para as empresas do grupo. • não passa despercebido que figuram entre as fornecedoras da MC Assessoria empresas de reconhecida credibilidade no mercado, dentre outras entidades que negociaram e entabularam com a MC Assessoria negócios jurídicos válidos e representativos operacional e economicamente. Desnecessário Fl. 3178DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 17 31 afirmar que tais entidades nunca se prestariam a colaborar com um teatro fraudulento como aquele roteirizado pela fiscalização no Auto de Infração em epígrafe; • salta aos olhos a disparidade que se identifica do cotejo entre o cenário idealizado pelo autuante, em que a operação da MC Assessoria é fictícia, e a realidade negocial, em que a empresa detém volume significativo de operações, com múltiplos e idôneos fornecedores, legitimadas jurídica e economicamente a partir de uma estrutura racional imposta pelo mercado, baseada na eficiência e na redução de custos; • queda assim demonstrada, mais uma vez, a precariedade da lavratura, quanto ao suporte fático que pretende construir, na medida em que, ao resumir as atividades da empresa à folha de pagamento, ignora vertente relevante e estratégica da atuação da MC Assessoria, que é a operação de centro de compras e contratação de fornecedores comuns; • sendo esta estrutura uma opção racional do contribuinte, consectário do direito à autonomia privada e livre exercício da atividade econômica, visando a maior eficiência de sua atividade econômica, veremos afinal a caracterização jurídica desta estrutura, que, verseá, não representa novidade para o Fisco, cujo entendimento em nada reprime a autonomia privada do contribuinte ao formatar as suas operações, baseado em critérios de eficiência, fazendo uso do formato dos serviços compartilhados intragrupo; • neste contexto, o contrato de prestação de serviços compartilhados provê ao grupo empresarial integrado por interesse comum uma estrutura jurídica que viabiliza uma gestão integrada de custos e despesas, incrementando a eficiência dos processos vinculados aos serviçosmeio, entre empresas do grupo, e, por consequência, a eficiência da própria gestão do core business de cada unidade empresarial; • o contrato de prestação de serviços compartilhados é um negócio jurídico que implementa a gestão centralizada de serviços administrativos, back office, custos e/ou despesas comuns a todas as empresas do grupo, de modo que uma entidade empresarial otimize as sinergias e agregue escala às operações redundantes das empresas, centralizandoas e, afinal, reduzindo custos e agregando valor ao grupo como um todo. São objeto de contrato de prestação de serviços compartilhados, dentre outros: serviços de assessoria contábil, assessoria jurídica, programação, coordenação, controle orçamentário, consultoria financeira, serviços de informática, assistência no domínio da produção, das compras, serviços de recrutamento e treinamento, prestados pela própria Central de Serviços Compartilhados; e também a centralização de despesas comuns e compartilhadas entre as empresas do grupo, a exemplo de despesas com pessoal terceirizado, relativas a publicidade, marketing, divulgação, informação de conjuntura, métodos de gestão, assistência de cobrança, consultorias especializadas, Fl. 3179DF CARF MF 32 serviços gerais, serviços legais, dentre outros, contratados de forma centralizada em fornecedores terceiros; • o contrato de prestação de serviços compartilhados não se confunde, ressaltese, com o contrato de rateio de despesas. Malgrado tenham objeto semelhante o contrato de rateio de despesas e o contrato de prestação de serviços compartilhados guardam diferença em elemento fundamental, que é a causa do negócio. O contrato de rateio de despesas é transação fora do mercado, que tem como objeto prestações que são marginais ao objeto social da prestadora, e visa atender exclusivamente a entidades sob controle comum e sem auferir qualquer mais valia; ao passo que o contrato de prestação de serviços compartilhados é prestação de serviços a mercado, tendo como objeto prestações que constituem a própria expertise da prestadora, ou seja, seu objeto social, o que faz com fito de lucro, podendo oferecêlos não apenas a unidades do mesmo grupo de empresas, mas também, eventualmente, a outras empresas alheias ao grupo empresarial. Daí porque sua prestação é formalizada via emissão de nota fiscal, e os pagamentos pelos serviços prestados consubstanciam receita e são tributáveis na empresa que centraliza o rateio, inclusive por PIS/Cofins; • o contrato de prestação de serviços compartilhados é, efetivamente, a estrutura implementada pela MC Assessoria, que presta serviços em condições de mercado e, sobre o preço cobrado, emite nota fiscal e recolhe todos os tributos incidentes, inclusive IRPJ, CSLL e PlS/Cofins, nos termos de DIPJs anexas (Doc. N° 08). Daí porque, na medida em que não realiza rateio, mas sim desenvolve atividade econômica como qualquer outra, com fito de lucro, a MC Assessoria agrega margens de lucro (markup) aos seus preços, como retribuição, ou contraprestação, à maisvalia gerada às empresas contratantes, pelo valor que lhes agrega a partir da estrutura que disponibiliza, do expertise consolidado sobre os serviços oferecidos, da uniformização de padrões e procedimentos, da centralização e otimização de processos, e da redução de custos; • não há qualquer grau de ilicitude na contratação com empresas do mesmo grupo econômico, muito menos em uma estrutura em que uma das causas da sua criação reside justamente no fato de se tratar de empresas do mesmo grupo; do contrário, não seria compartilhamento, centralizado e com padrões uniformes. O contrato intragrupo é, per se, negócio jurídico lícito e válido; • sabese, sim, que os negócios jurídicos realizados entre empresas do mesmo grupo econômico sofrem, quanto às margens de lucro aplicáveis, o controle das normas de distribuição disfarçada de lucros "DDL", do art. 60 do Decreto Lei n° 1.598/77 e art. 464 do sejam concretizadas em condições análogas às de mercado. Em nenhum momento, porém, as margens de lucro empregadas na prestação de serviços realizada pela MC Assessoria foram objeto de questionamento por parte da auditoria, o que só reitera a regularidade da estrutura implementada sob todos os aspectos, inclusive sob o controle fiscal das margens de lucro nas transações intragrupo, Fl. 3180DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 18 33 proporcionado pelas regras de DDL. E se a auditoria não aplicou as regras de DDL, ou seja, não utilizou os controles fiscais de markup intragrupo, é porque os preços da prestação realizada pela MC Assessoria são absolutamente normais e razoáveis, por compatíveis com a realidade de mercado; • em dado momento, algo que en passant, a Autoridade Fiscal pretende apontar, sem exatamente quantificar, ou melhor, sem questionar tecnicamente, nas despesas contraídas, bases de preço superiores às que entende adequadas à prestação de serviços da MC Assessoria, entretanto, tal juízo, equivocado, decorre exatamente da total subrepresentação da realidade contábil, financeira e jurídica da MC Assessoria nos autos do PAF, do qual consta, dentre as diversas atividades, custos e despesas da entidade, apenas a folha de pagamento. De fato, a Autoridade Fiscal, quando analisa os cenários de despesas do impugnante pré e pós MC, compõe um quadro distorcido, exatamente porque a sua visão estava limitada à despesa com empregados, quando os custos, e, portanto, os serviços, da MC Assessoria, não se referem apenas a empregados (cessão de mãodeobra especializada), mas também e, substancialmente, em valores, a serviços, insumos e utilidades diversas que adquire, como central de compras, de terceiros no mercado para fornecer às empresas do Grupo MC; • não procede a tese, da auditoria, de que os trabalhadores após migrarem para a MC Assessoria passaram a custar mais caro, mas sim que, entre os custos faturados pela MC Assessoria às empresas operacionais, estão não apenas na mãodeobra cedida, mas também inúmeros outros custos e despesas compartilhados entre o grupo através da estrutura criada, a exemplo da contratação de escritórios de advocacia, assistência médica para os colaboradores do grupo, consultorias e auditorias, e até mesmo aquisição de vestuário padronizado para todo o grupo. Tal circunstância exigiria, para o comparativo, proposto pela fiscalização, ser fiel à realidade, que, às despesas de empregados anteriores à migração, fossem acrescentadas as despesas outras incorridas na MC que compuseram os custos desta empresa na prestação de serviços compartilhados ao impugnante; • a comprovar que os níveis de preço praticados pela MC Assessoria são absolutamente razoáveis, e mesmo módicos, está a proporção entre o custo da MC e o faturamento das empresas do grupo, cujos serviços de back office, administrativos, centrais de compras e fornecedores comuns estão todos concentrados e custeados na MC Assessoria. Vêse que as despesas que a MC Assessoria fatura às empresas operacionais correspondem, no período fiscalizado, a um percentual anual médio de 0,97% da receita bruta das empresas, conforme mostra demonstrativo de fl. 2744, número que se pode de plano afirmar é pequeno para o nível de serviço demandado pelas empresas do grupo, e o escopo abrangente dos serviços prestados, como já retratado acima. Decerto que, caso se almejasse engendrar um estratagema fraudulento para drenar recursos das empresas e escapar à Fl. 3181DF CARF MF 34 tributação, não soaria compreensível tamanha exposição, com riscos legais de toda ordem, para lograr um benefício de meros 0,97%; • a MC Assessoria, portanto, como qualquer outra empresa, prestando serviços, cobra preço, no qual está incluída margem de lucro que viabilizará a continuidade das suas atividades, a expansão e a evolução do negócio, investimentos no aprimoramento dos serviços prestados e contratação de mais quadros, cenário que, como já retratado nesta impugnação e demonstram as folhas de pagamento anexas (Doc. N° 02), caracterizou, desde o surgimento, a dinâmica da MC Assessoria, que iniciou com folha de 46 empregados e em 2011 passou abrigar 127 pessoas em seus quadros; • de todo o exposto, fica caracterizada: I) a existência da MC Assessoria como entidade dotada de substância jurídica e de fato, figurando como sujeito contratante em negócios jurídicos entabulados com inúmeros fornecedores, empregados, pessoas físicas e pessoas jurídicas, terceiros em geral sem qualquer vinculação com a empresa, muitos deles instituições reconhecidamente idôneas e rigorosas em seus relacionamentos no mercado; II) a validade do contrato de prestação de serviços compartilhados, como ato jurídico dotado de propósito negocial e racionalidade econômica e executado através de efetiva prestação de serviços realizada pela MC Assessoria. • demonstrase, com base em todas as evidências acima referidas, inclusive aquelas descritas pela própria auditoria no Termo de Verificação Fiscal, que a vontade manifestada e consumada contratualmente, seja na constituição da MC Assessoria, como ente personalizado, seja na celebração e cumprimento do contrato de prestação de serviços compartilhados e central de custos e despesas, celebrado entre esta empresa e as demais que compõem o grupo empresarial, guarda perfeita e absoluta consonância e correspondência com a realidade dos fatos, tanto objetiva quanto subjetivamente, ou seja, tanto pela prestação contratada quanto pelas pessoas obrigadas, sendo inaplicável a desconsideração da personalidade jurídica, pretendida pelo autuante, como também o art. 167 do Código Civil, sendo absolutamente despropositado falarse em simulação, quando o ato jurídico reflete exatamente a vontade manifestada e as pessoas que nele intervieram, com as respectivas obrigações; • a jurisprudência do CARF é absolutamente rigorosa no sentido de que a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, inclusive sob alegação de simulação, deve ser acompanhada de demonstração robusta e inequívoca, por parte da autoridade fiscal, da fraude alegada. Análise criteriosa dos autos do PAF revela que em momento algum a autoridade fiscal se vale de provas efetivas, muito menos contundentes, da fraude ou simulação que alega. Sua pretensão, de desconsideração da personalidade jurídica, pautase efetivamente numa pré concepção de máfé do contribuinte, que impregna o juízo da auditoria, e a impede de realizar um escrutínio isento e técnico da realidade negocial do impugnante e do grupo econômico que integra; Fl. 3182DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 19 35 • todos os elementos que a autoridade autuante pretende utilizar para caracterizar o suposto enredo fraudulento na verdade são dados e circunstâncias de fato que, pelo contrário, justificam, do ponto de vista negocial, e, mais ainda, exigem a implementação da estrutura de serviços compartilhados adotada pela Impugnante: a existência de um grupo de empresas sob controle comum; a alocação de funcionários das empresas operacionais numa Central de Serviços Compartilhados recém instalada, na MC Assessoria; a cessão dos empregados para prestação de serviços de back office e administrativos nas dependências das empresas operacionais; a centralização da contratação de despesas e aquisição de insumos numa central de compras que atende a todo o grupo; • demonstrada a substância negocial e econômica, além da formal e jurídica, do negócio sob o qual a MC Assessoria presta serviços compartilhados ao impugnante e demais empresas do Grupo MC, não pode subsistir a glosa de despesas decretada pela autoridade fiscal, impondose o cancelamento de lavratura, o que se requer desde já; • para constituir crédito tributário referente a IRPJ e CSLL, como levou a cabo na lavratura em epígrafe, o autuante glosou as despesas contratadas pelo impugnante junto à MC Assessoria, reputandolhes indedutíveis para efeito de apuração dos tributos sobre a renda e o lucro da pessoa jurídica. A lavratura simplesmente decretou, genericamente, a desnecessidade ou inexistência de despesa dedutível. Eximiuse de escrutinar os critérios de dedutibilidade da legislação do IRPJ, ou cotejálos com a atividade desenvolvida pela prestadora, MC Assessoria, no caso concreto; • efetivamente, não existe despesa dedutível ou indedutível per se, mas sim despesas que, individualmente consideradas, se subsumem ou não aos critérios do art. 299 do RIR/99, que em seu caput e §§1° e 2º, enuncia cláusula geral de dedutibilidade dos dispêndios não ativáveis, verbis: "Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei n° 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei n°4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei n° 4.506, de 1964, art. 47, §2°)." • as despesas dedutíveis são aquelas necessárias às atividades da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, ou seja, são as despesas usuais ou normais para a realidade negocial, operacional e empresarial da pessoa jurídica. A definição de despesa necessária, e, portanto, dedutível, é complementada via contraposição à mera liberalidade, que é exatamente a despesa Fl. 3183DF CARF MF 36 não necessária: o ato gracioso e de mero favor que a empresa realiza e, assim, não guarda coerência com a lógica segundo a qual a atuação empresarial deve visar a maisvalia, o lucro. Todos os dispêndios que, não sendo custos, são realizados dentro da perspectiva de destinarse a produzir e gerar resultado positivo na atividade econômica da pessoa jurídica, sendo inerentes ao contexto empresarial e compreensíveis dentro dessa moldura, são considerados despesas dedutíveis. Fixada tal premissa, não requer grande esforço para constatar que os serviços prestados ao impugnante pela MC Assessoria consubstanciam despesas necessárias às atividades do impugnante, na medida em que provêem de utilidades absolutamente necessárias para o desenvolvimento de suas atividades empresariais, conforme já relatado nesta impugnação; • do conteúdo dos serviços prestados ao impugnante pela MC Assessoria, já citados, deflui claramente que os dispêndios a eles relacionados consubstanciam despesas necessárias às atividades do impugnante, na medida em que a provêem de utilidades absolutamente necessárias para o desenvolvimento de suas atividades. Sem poder contar com serviços de contabilidade, recursos humanos e tecnologia da informação, por exemplo, o impugnante não terá a mínima estrutura para poder desenvolver a sua atividade fim que é a venda a varejo de veículos automotores, partes e acessórios, e prestação de serviço de manutenção e instalação de peças em veículos automotores; • os serviços prestados pela MC Assessoria, que compõem a Central de Serviços Compartilhados são comprovados e identificados a partir da descrição, realizada pelo próprio auditor fiscal, do quadro de funcionários da MC Assessoria, apontando a função que cada um exerce, e permitindo identificar, pelo cotejo da função e o cargo, a composição das equipes setoriais, representadas na folha de pagamento da empresa, conforme reprodução digitalizada de passagem do Termo de Verificação Fiscal e folha de pagamento da MC Assessoria, anexa à presente. Ali estão demonstrados os serviços de contabilidade; serviço de compliance fiscal; serviço de consultoria em recursos humanos; serviço de tecnologia da informação; serviço de crédito e cobrança; serviço de consultoria financeira e securitária (F&I); dentre outros; • o fornecimento de utilidades e serviços comuns contratados pela MC Assessoria perante terceiros, via central de compras, para provimento de despesas e custos comuns do impugnante e demais empresas do Grupo MC, encontramse demonstradas e comprovadas via lançamentos contábeis (Doc. N° 05 anexo), instrumentos contratuais, notas fiscais e documentos que formalizam as transações respectivas (Doc. N° 06 anexo), identificamse diversas as áreas de atuação da central de compras, como estrutura proporcionadora de escala na aquisição de insumos e contratação de fornecedores, dentre as quais podemos indicar as seguintes: serviço de assistência médica aos colaboradores do grupo; aquisição de vestuário padronizado para os colaboradores do grupo; serviço de catering e alimentação para os colaboradores do grupo; serviço de consultoria em tecnologia da informação para as empresas Fl. 3184DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 20 37 do grupo; serviços de auditoria e consultoria para as empresas do grupo; aquisição de insumos de informática; aquisição de material de escritório; contratação de financiamento para as empresas do grupo junto a instituições financeiras; contratação de escritórios de advocacia para as empresas do grupo; • comprovada a efetiva realização dos serviços pela MC Assessoria, via fornecimento das utilidades e atendimento das demandas de serviços administrativos, back office e central de compras, do impugnante e demais empresas operacionais do grupo empresarial, incumbiria à fiscalização, como motivação absolutamente imprescindível à glosa das despesas, apontar e demonstrar, especificamente, dentro do universo de despesas contratadas e dedutíveis, qual a parcela, fração ou item que efetivamente não foi prestado, no seu julgamento; • falta à autoridade fiscal competência para, e tampouco é ato compatível com a regramatriz do imposto sobre a renda e o modo de sua apuração, glosar genericamente despesas, por supostamente inexistentes, quando se sabe, e a própria fiscalização em seu relatório reconhece, que existiu volume substancioso de serviços que foi prestado, senão todo ele, pela MC Assessoria; • na ausência de demonstração precisa, via elementos de prova, da inidoneidade de despesas específicas, mediante a comprovação da sua inexistência ou da sua indedutibilidade, à luz do art. 299 do RIR/99, não subsiste glosa genérica, nos moldes pretendidos pela autoridade fiscal, que não pode se arrogar soberana para além da Lei e dos fatos, como aparentemente pretendeu colocarse. Assim tem se manifestado o CARF em seu entendimento sobre a matéria, exigindo da fiscalização, como fundamento à pretensão de glosa e desconsideração, a demonstração e comprovação das operações especificamente apontadas como supostamente irregulares, como se infere dos acórdãos citados nesta impugnação; • a fiscalização, de fato, não conseguiu reunir qualquer elemento de prova, apenas se apegou, como em todo o curso da peça de lavratura, a uma idéia préconcebida, verdadeira presunção ad hoc, de que toda a atividade do contribuinte é fraudulenta, o que, à luz da dialética do PAF, não é expediente idôneo a fundamentar, com suporte fático e probatório suficiente, a sua pretensão fiscal; • é inaplicável, no caso, a multa qualificada de 150%, a título de penalidade, pelo não recolhimento dos valores apurados como devidos, após a desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria, com arrimo no art. 957, II do RIR/99 e no art. 44, inciso I e §1°, da Lei n° 9.430/96, sob alegação de atuação com evidente intuito de fraude. Decerto, a Autoridade Fiscal, conquanto tenha se referido aos dispositivos legais que instituem a referida multa, não reuniu elementos probatórios que são essenciais à caracterização dessa figura excepcional da legislação. A aplicação da multa qualificada pressupõe o dolo, a Fl. 3185DF CARF MF 38 intenção inequívoca para praticar especificamente o ilícito tributário de impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sendo, para tanto, absolutamente irrelevante, a bem de fundamentar a válida aplicação da sanção epigrafada, ter o contribuinte optado por uma estrutura negocial mais eficiente, inclusive quanto aos custos fiscais incidentes; • a mera alegação de fraude, sem descrever os elementos de fato, especialmente o dolo, o ânimo de fraudar, e sem apresentar elementos de prova, não tem o condão de lastrear a aplicação da multa agravada. De fato, em momento algum aponta o Fisco dados ou subsídios que demonstrem a intenção do contribuinte de se esvair da imposição fiscal. E a mera remissão a uma estrutura negocial, que, ademais, é padrão no mercado e paradigma de eficiência na gestão de grupos empresariais, não autoriza, per se, a imposição da multa qualificada. Sobre o tema, há jurisprudência torrencial do Egrégio CARF (transcreve ementas de Acórdãos); • a propósito da exigência da multa agravada nos lançamentos em que se empunha pretensão de desconsideração da personalidade jurídica, inclusive por alegada simulação, o CARF também mantém mesma linha de entendimento, de que não se pode presumir a fraude ou simulação, com base em meras conjecturas, devendo ser provada especificamente a intenção dolosa, conforme mostra acórdãos transcritos. Não destoa dos argumentos trazidos pelo impugnante as lições que a doutrina nos presta acerca da indigitada penalidade, a fraude fiscal e a sua prova (transcreve excertos doutrinários); • o impugnante não praticou qualquer ato que induzisse a erro a fiscalização, ou terceiro, tendo colaborado, de forma ampla e irrestrita, com a fiscalização, fornecendo toda a documentação solicitada e ao seu alcance, o que provam as respostas à miríade de intimações fiscais fornecidas pelo impugnante, em atendimento às requisições, do fisco, e que integram o PAF nos autos originariamente formados pela autoridade autuante; • em nenhum ponto da lavratura restou demonstrada a concorrência dos elementos da fraude, conforme a sua definição legal. Não se desincumbiu o autuante do ônus de construir o suporte fático da fraude no caso concreto, haja vista que não descreveu fatos específicos de cunho fraudulento, muito menos reuniu elementos de prova a eles relativos; • ainda que não se entenda pela integral improcedência do auto de infração, o que se admite apenas para argumentar, há que se reconhecer a improcedência da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. Havendo lançamento de ofício, há a incidência de multa à razão de 75%, na forma prevista no art. 44 da Lei n.° 9.430/96. Tal sanção ocorre quando o contribuinte não declara o seu débito, fato este que obrigará o fisco a apurar de ofício o crédito tributário respectivo. Na seara tributária, há espaço somente para a incidência de juros de natureza moratória. Afinal, o Estado, no exercício de sua competência tributária, não empresta dinheiro ao contribuinte, não havendo, portanto, como cobrar juros compensatórios; Fl. 3186DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 21 39 • não há previsão legal para a incidência de juros sobre multa. O §3º do artigo 61 da Lei n° 9.430/96 determina que "sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o §3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. À evidência, a expressão "sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora", que inaugura o dispositivo supra citado, diz respeito somente ao valor do principal relativo à obrigação tributária não paga no vencimento; • quando o legislador ordinário pretendeu autorizar a incidência de juros sobre a multa decorrente de lançamento de ofício, fêlo expressamente. Nesse sentido, vejamos o quanto determinado pelo artigo 43 da Lei 9.430/96, cujo parágrafo único determina a incidência de juros moratórios sobre as multas e os juros exigidos isoladamente. Feita esta análise, mostrase inafastável concluir que não há previsão legal para a cobrança de juros de mora sobre a multa lançada de ofício nos casos que não foram abrangidos pelo artigo 43 da Lei n° 9.430/96, como já decidido pela C. Câmara Superior de Recursos Fiscais nos autos do processo administrativo n° 10680.002472/200723; • pelo princípio da eventualidade, e a bem do dever de concentração e exaustão de todos os elementos de defesa na peça impugnatória, o contribuinte vem protestar por elementos de defesa na hipótese, que não se espera em qualquer circunstância, em que a controvertida desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria seja mantida por este Colegiado Julgador. Abstraindose o mérito da desconsideração, já ampla e robustamente impugnada e contraditada nesta impugnação, temse que, a se admitir a inexistência da MC Assessoria, os atos por ela praticados, com seus reflexos fiscais, devem sim, inexoravelmente, ser imputados àquelas entidades que a fiscalização aponta como as entidades que, na suposta simulação subjetiva, eram responsáveis por aquelas atividades, e que estariam se utilizando da entidade desconsiderada como um instrumento de ardil; • o autuante aplicou esse raciocínio quando, ao apurar o IRPJ e a CSLL do impugnante, após a glosa das despesas, imputou o IRPJ e a CSLL recolhidos pela MC Assessoria às diversas empresas operacionais, inclusive o impugnante, em cujas apurações esses valores foram compensados em benefício de cada uma das empresas, conforme reprodução da fl. 62 dos autos, a saber: que existem despesas de pessoal a serem rateadas por todas as empresas do grupo. O critério utilizado por esta auditoria é reduzir o montante relativo à lavratura do auto de infração dos tributos (IRPJ e CSLL) efetivamente declarados em DCTF e/ou pagos pela empresa MC Assessoria que, segundo o autuante, de fato não existe, proporcionalmente pelo faturamento das referidas empresas, conforme sintetizado nos demonstrativos; Fl. 3187DF CARF MF 40 • considerando que são várias as empresas do grupo às quais a MC Assessoria presta serviços, a fiscalização utilizou como critério de rateio, para imputação, a cada uma das empresas, dos valores pagos a título de IRPJ e CSLL pela empresa desconsiderada, o faturamento de cada uma em face da soma total de todas, o que, decerto, é um critério razoável, admitido, inclusive, pela própria Receita Federal, como critério para rateio de despesas. Por tal critério, ao impugnante, dentre as demais empresas autuadas, conforme se vê nas planilhas produzidas no Termo de Verificação Fiscal, foi atribuída com os percentuais de participação no rateio, correspondentes à sua participação no total da receita bruta auferida pelas empresas, por ano. Ocorre que a imputação rateada que o autuante realizou sobre as atividades da MC Assessoria restringiuse apenas ao IRPJ e a CSLL, de sorte que, conforme itens subsequentes, a bem de manterse coerente com a decretação da desconsideração, fazse necessário imputar também, para efeito dos tributos federais auditados e apurados, as despesas realizadas pela MC Assessoria e os demais tributos federais recolhidos pela empresa; • ocorre que esta imputação, rateada segundo percentuais acima descritos, foi realizada pela autoridade fiscal de forma apenas parcial, restrita aos IRPJ e CSLL recolhidos pela MC Assessoria. Esta empresa, porém, efetuou vasta gama de despesas no período, que devem ser consideradas, no cenário da despersonalização, como despesas do impugnante e demais empresas operacionais. Para começar, a própria despesa com empregados da MC Assessoria, que a autoridade fiscal, repetidamente, indica que em verdade se trata de empregados do próprio impugnante e das outras empresas operacionais. A propósito, quando vai apurar o IRPJ e a CSLL, o próprio autuante reconhece que existem despesas de pessoal a serem rateadas entre as empresas; • na apuração dos tributos referidos não foi efetuado o rateio dessas despesas em momento algum, de modo que a lavratura, para se manter coerente, ou seja, para que a apuração quantitativa dos tributos guarde consonância com o ato concreto de lançamento, baseado na despersonalização, deve efetivamente promover o rateio, não apenas das despesas de pessoal, mas de todas as despesas incorridas pela MC Assessoria, inclusive despesas com tributos, despesas com fornecedores, enfim, todas as despesas dedutíveis assim contabilizadas na MC Assessoria e declaradas ao fisco. Dessa forma, considerando o erro apontado, o impugnante refez os cálculos de IRPJ e CSLL, rateando todas as despesas dedutíveis contabilizadas na MC Assessoria, devidamente declaradas em DIPJ, com base no mesmo critério e nos mesmos percentuais de rateio utilizados pelo fiscal autuante, resultando nos valores demonstrados nas planilhas de fls. 2.774/2.779; • a imputação ampla de todas as despesas, como se viu no item anterior, implicou a correção das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, quanto ao lucro apurado no final doexercício. Ocorre que idêntica correção deve ser promovida quanto aos recolhimentos das estimativas mensais, apropriandose os saldos de despesas mensais da MC na proporção do rateio, ou seja, na proporção Fl. 3188DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 22 41 da participação da empresa na receita bruta total. Decorrente disso, a imputação das despesas na apuração das estimativas mensais implicará redução da multa isolada aplicada, o que desde logo se requer; • em qualquer hipótese é inexigível a multa isolada na hipótese em que, ao final ao exercício, a base de cálculo efetivamente apurada é inferior aos valores mensais de estimativa, um exemplo típico do que é exatamente a hipótese em que é apurado prejuízo ao final do exercício prejuízo, ou seja, não há lucro tributável sujeito à incidência de IRPJ ou CSLL. Tendo em vista que o impugnante é sujeito ao lucro real anual para efeito da apuração do IRPJ e da CSLL, as estimativas mensais que a empresa recolhe, apuradas com base na receita bruta ou balanços de suspensão/redução, consubstanciam, em verdade, antecipações relativamente ao imposto que será apurado sobre o lucro eventualmente auferido no final do exercício. Inexistente o lucro ao final do exercício, ou sendo o lucro anual inferior às estimativas exigidas, não há falarse em IRPJ ou CSLL devidos a título de estimativa mensal, quanto ao valor que supera o lucro real anual, de sorte que resta inaplicável a multa pela falta do recolhimento antecipado. A propósito, é reiterada a jurisprudência do CARF a esse propósito. Na hipótese em que os valores mensais de estimativa são superiores à base de cálculo efetivamente devida ao final do exercício, inclusive, mas não apenas, na hipótese de apuração de prejuízo, não se pode considerar aplicável a multa isolada, na medida em que não há saldo de crédito tributário devido em favor do Fisco; • considerando a imputação e o rateio das despesas da MC Assessoria no cálculo das estimativas mensais de IRPJ e CSLL do impugnante e a inexigibilidade das estimativas mensais naquilo que superam, em valor, o lucro real apurado ao final do exercício, deve ser excluída, ou, se for o caso, reduzida a multa isolada aplicada; • não se limitam às despesas rateadas os reflexos fiscais da decretação da desconsideração da personalidade jurídica da MC Assessoria. De fato, a desconsideração, a determinar a inexistência da empresa, implica que os eventos contábeis registrados em sua escrituração passem a ser atribuídos às empresas operacionais, que contrataram sua prestação de serviços. Levantando o véu que representa a suposta e alegada pessoa simulada, surgem os supostos efetivos protagonistas das operações, e, tal se aplica a todos os eventos, o que, para efeito de apuração de tributos federais, tem reflexo não apenas no que se refere às despesas incorridas pelo ente despersonalizado, como descrito no item anterior, mas também quanto aos tributos federais recolhidos pela MC Assessoria; • a auditoria considerou os valores de IRPJ e CSLL recolhidos pela MC Assessoria e efetuou o rateio e a compensação desses valores em benefício das empresas operacionais. Efetivamente, se a MC Assessoria não existe, e os serviços não foram prestados, como pretende a lavratura, os pagamentos realizados Fl. 3189DF CARF MF 42 não têm relevância para efeitos jurídicofiscais, e assim não houve receita apurada e os tributos recolhidos pela MC Assessoria são indevidos. Ocorre que os mesmos efeitos que tiveram os recolhimentos de IRPJ e CSLL, aplicamse aos recolhimentos de PIS/Cofins realizados pela empresa despersonalizada, o que o autuante, equivocadamente, não considerou ao efetuar o rateio e a compensação dos tributos federais recolhidos pelo ente que teve a despersonalização decretada; • não sendo considerados eficazes para efeitos jurídicofíscais as receitas de prestação de serviço da MC Assessoria, mas sim considerados pagamentos das empresas contratantes, inclusive a Impugnante, para elas próprias, não há incidência de PIS/Cofins, e os valores recolhidos a este título são indevidos e devem ser compensados ou, se for o caso, restituídos. A propósito, considerando o erro apontado, o impugnante, a partir das DIPJ e DARF de PIS/Cofins, em anexo, recolhidos pela MC ASSESSORIA, rateou tais valores entre as empresas contratantes, inclusive o impugnante, com base no mesmo critério e nos mesmos percentuais de rateio utilizados pelo fiscal autuante, resultando nos valores indicados na fl. 2.785, os quais devem ser compensados ou restituídos em benefício do impugnante. Na parte final da sua contestação protesta o impugnante pela produção de todas as provas em Direito admitidas. Os Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira apresentaram impugnação conjunta aos autos de infração e aos termos de sujeição passiva às fls. 2.509 a 2618. Contestam os autos de infração com os mesmos argumentos apresentados pela Norauto Caminhões Ltda, já mencionados neste relatório. Quanto aos termos de sujeição passiva, alegam: • a ilegitimidade passiva como devedores solidários, por ausência de demonstração de atuação pessoal nas circunstâncias de fato que embasaram a pretensão fiscal; • a autoridade autuante considerou que o estabelecimento de uma central de serviços compartilhados e central de compras na MC Assessoria, para atender à pessoa jurídica autuada e às demais empresas do grupo empresarial que integra, composto por 14 concessionárias de veículos e outras empresas de ramo distinto de atividade, consubstanciaria uma articulação de suposta arquitetura fraudulenta, visando sonegar tributos e lesar o Fisco; • decerto que o estabelecimento de uma central de serviços compartilhados e central de compras, através de empresa especificamente constituída para desenvolver tal expertise, dotada de estrutura própria de empregados, contratos com fornecedores diversos, regularmente operantes, com toda receita declarada e tributada, e, ainda mais, efetivamente prestando os serviços para as empresas clientes, focadas no negócio principal do grupo, nem de longe pode consubstanciar engenho ardiloso, muito menos para fraudar o Fisco, senão estrutura de gestão de redundâncias e sinergias em grupos empresariais que todo o Fl. 3190DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 23 43 mercado utiliza, visando a eficiência administrativa e redução de custos; • a autoridade fiscal não apenas atribuiu natureza fraudulenta à atividade da pessoa jurídica autuada, no que se refere à contratação da MC Assessoria, como também imputou responsabilidade pessoal ao impugnante, sob o fundamento de que a mera existência do suposto esquema fraudulento implicaria responsabilização dos impugnantes pelo mero fato de serem membros da diretoria da pessoa jurídica, pela prática de atos com infração à lei, nos termos do art. 135 da Lei nº 5.172, de 1966, Código Tributário Nacional – CTN; • a responsabilidade tributária do art. 135 do CTN, contudo, é pessoal, consoante expressamente dispõe a norma, e é aquela imputada à pessoa por atos por ela praticados, comprovada e demonstradamente. A mera condição de membro da diretoria não fornece o liame subjetivo entre a conduta apontada como fraudulenta e a pessoa reputada responsável: imperiosa é (i) a descrição do protagonismo da pessoa responsabilizada no fato infracional; e também (ii) a demonstração, com provas e documentos idôneos, de que os fatos supostamente ilícitos tenham sido praticados pela imputada pessoa. A necessidade de descrição e comprovação das hipóteses do art. 135 do CTN é requisito reiteradamente exigido pela jurisprudência quanto à responsabilização dos gestores, consoante julgados do CARF e do Egrégio Superior Tribunal de Justiça, cujas ementas transcreve; • nos autos, a autoridade autuante nem descreveu em que medida o impugnante atuou com finalidade de sonegar tributo, nem tampouco demonstrou tal intenção com os indispensáveis elementos de prova. Fundamentar a responsabilidade pessoal na mera condição formal de membro da diretoria da pessoa jurídica autuada não atende decerto aos requisitos legais da responsabilidade tributária do art. 135 do CTN, e implica derrogar, por vias oblíquas, o regime legal que é de responsabilidade limitada, para que seja ilimitada a responsabilidade dos sócios e administradores. A simples figuração na diretoria da pessoa jurídica não vincula o administrador a todos os atos praticados pela empresa, sendo necessário demonstrar que tal tenha ocorrido relativamente aos supostos atos fraudulentos em que a fiscalização pretende fundamentar o ato de lançamento; • o impugnante Sr. Modezil Ferreira de Cerqueira há anos vem sofrendo de problemas de saúde que afetam o seu discernimento e impedem que exerça uma atividade profissional, afigurase, por decisão do Exmo Juízo da 1ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Salvador, conforme documento de fl. 2.713, subtraído da sua plena capacidade civil, sendo representado pelo seu curador, que é seu filho Modezil Rodrigues Ferreira de Cerqueira. O impugnante está, portanto, há anos afastado do diaadia das empresas de que é sócio, não podendo a ele ser imputado, em hipótese alguma, qualquer ato de cunho positivo Fl. 3191DF CARF MF 44 ou negativo, praticado pelas empresas, sendo este apenas o caso mais aviltante, o que não dispensa que, quanto aos demais imputados responsáveis, haja a demonstração específica e cabal da conduta supostamente fraudulenta que se lhes quer atribuir como ensejadora de responsabilidade solidária; • resta demonstrado que a responsabilização em pauta não prescinde da descrição e comprovação da atuação específica do reputado responsável nos atos inquinados de infringentes à lei. Falhando a lavratura em apontar os elementos de fato assim necessários para atender à aplicabilidade do art. 135 do CTN, e, ainda mais, em comproválos via suporte documental idôneo, fica descaracterizada a responsabilidade tributária do impugnante, havendo de ser acolhida a presente preambular para reconhecer a sua ilegitimidade passiva, como se requer; • para determinar a aplicação da responsabilização, o fiscal autuante partiu da estrutura de serviços compartilhados intragrupo, providos pela MC Assessoria à pessoa jurídica autuada e demais empresas do grupo empresarial, como fato suficiente para caracterizar a fraude descrita na lei, conforme se infere de descrição nos autos do PAF; • a aplicação do regime de responsabilidade pessoal, do art. 135, do CTN pressupõe o dolo, a intenção inequívoca para praticar especificamente o ilícito tributário, de impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sendo, para tanto, absolutamente irrelevante, a bem de fundamentar a válida aplicação da sanção epigrafada, ter o contribuinte optado por uma estrutura negocial mais eficiente, inclusive quanto aos custos fiscais incidentes; • em momento algum aponta o Fisco dados ou subsídios que demonstrem a intenção da empresa autuada de se esvair da imposição fiscal; muito menos qualquer contribuição do impugnante, via atos específicos de sua autoria, neste sentido. E a mera remissão a uma estrutura negocial, que, ademais, é padrão no mercado e paradigma de eficiência na gestão de grupos empresariais, não autoriza, per se, a caracterização de fraude. O autuante sequer descreveu onde está ou qual foi a fraude praticada pelo contribuinte, que teve todos os seus documentos escrutinados, tem toda a sua documentação idônea e em momento algum deixou de atender à fiscalização, havendo contribuído com pletora de documentos e atendido a todas as demandas da fiscalização. • a estrutura apontada como fraudulenta, consoante resta demonstrado à saciedade na presente impugnação, está absolutamente calcada em critérios de eficiência e de desempenho financeiro e administrativo do autuado e das demais pessoas jurídicas que integram o mesmo grupo empresarial. A contribuinte e o responsável tributário Florisberto Ferreira de Cerqueira foram cientificados da decisão de primeira instância e apresentaram os respectivos recursos voluntários ás fls. 2.963/3.074 e 3.100/3.136, respectivamente, cuja conclusão e pedido, idênticos, trago a colação: Fl. 3192DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 24 45 Fl. 3193DF CARF MF 46 Fl. 3194DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 25 47 Fl. 3195DF CARF MF 48 Fl. 3196DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 26 49 Fl. 3197DF CARF MF 50 O sujeito passivo solidário Modezil Ferreira de Cerqueira não apresentou o recurso voluntário, apesar de cientificado da decisão de piso (Intimação 322/2015 fls. 3.083 e AR de fls. 3.098). Os autos foram remetidos a este Conselho para apreciação e julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães, Relator. Os recursos voluntários da contribuinte e do responsável tributário Florisberto Ferreira de Cerqueira preenchem os requisitos legais para admissibilidade, portanto, deles tomo conhecimento. O sujeito passivo solidário Modezil Ferreira de Cerqueira, ainda que devidamente cientificado da decisão de primeira instância, conforme registrado no relatório deste Acórdão, não apresentou recurso voluntário, havendo restado precluso o direito de recorrer de seus termos, consoante regra o art. 15 do Decreto nº 70.235/72 c/c o art. 223 do Código de Processo Civil (CPC). 1. DA SUPOSTA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA EMPRESA MC ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA. Por concordar com os seus fundamentos, trago a colação excertos do voto prolatado no Acórdão nº 1302001.663, pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, na sessão de 04 de março de 2015, de interesse da contribuinte NORAUTO VEÍCULOS LTDA, CNPJ nº 13.615.174/000100, concluindo que não houve a aplicação do instituto de desconsideração da personalidade jurídica da empresa MC ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA. Vamos ao voto: No caso em análise, a recorrente trás à baila questionamento sobre a possibilidade e validade de a autoridade administrativa fiscal determinar a desconsideração da sua personalidade jurídica, alegando que tal prerrogativa se restringe à figura de órgãos jurisdicionais, não podendo ocorrer mediante o mero processo administrativo de fiscalização. Fl. 3198DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 27 51 Entretanto, ao analisarmos atentamente a fundamentação elaborada pelo auditor fiscal em Termo de Verificação Fiscal de fls. 03/79, 39/65 nestes autos, é possível perceber que não houve a aplicação do instituto civilista da desconsideração da personalidade jurídica da empresa MC ACESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA, mas sim, a desconsideração do conjunto de atos tidos por simulados perpetrados pela mencionada empresa de gestão. Essa constatação, aliás, fica evidente se tomarmos em conta o seguinte trecho do TVF (fl. 64 e 58 nestes autos), onde a autoridade fiscal deixa claro que a glosa efetuada se impõe graças à artificialidade das operações de prestação de serviços entre as empresas em questão: "Não se pode olvidar que o contribuinte simulou a prestação dos referidos serviços, cumprindo as formalidades legais, com objetivo claro de redução da carga tributário e maximização da distribuição de lucros e dividendos. Neste caso, observase claramente que substância e forma das operações como foram realizadas não se coadunam. Concluise que o negócio realizado aparentemente, ou, simulado, não subsistirá, ou seja, a prestação dos serviços realizados pela MC Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, de fato não ocorreu, consequentemente, impondose a glosa das despesas respectivas." Assim, o que se discute nos presentes autos não tem a ver com a desconsideração da personalidade jurídica de nenhuma das empresas em questão, restringindose unicamente à possibilidade de a autoridade fazendária desconstituir o ato praticado mediante suposta simulação, conforme determinam os artigos 116 e 149 do Código Tributário Nacional, combinados com as disposições do artigo 167, caput, do Código Civil. Nessa esteira, a fim de garantir a clareza da argumentação aqui tecida, importa transcrever o teor dos mencionados dispositivos: Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. Fl. 3199DF CARF MF 52 Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: [...] VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Dessa feita, vejase que, pela análise combinada dos dispositivos acima mencionados, em consonância com as constatações descritas no Termo de Verificação Fiscal TVF elaborado pela autoridade fiscalizadora, o auto de infração que se viu lavrar pela autoridade competente teve como ponto central a suposta constatação acerca da ocorrência de simulação nas operações de prestação de serviços da MC ACESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA, sendo determinado, por consequência, a glosa das despesas incorridas referente aos valores atrelados à simulação constatada. Por esse motivo, penso que se revela descabido o argumento posto pela recorrente, pois não se trata no presente caso de utilização do instituto civilista da desconsideração da personalidade jurídica. Antes, fica evidente que se operou neste expediente administrativo foi a desconsideração dos atos supostamente segundo as constatações do AFRFB. Nessa esteira, aliás, não bastasse a extensa fundamentação legal que determina a desconstituição do ato fraudulento já referida aqui em momento precedente, vejase que é firme a posição deste egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais quanto à possibilidade de a autoridade fiscalizadora desconsiderar os atos e negócios jurídicos praticados em simulação: FATO GERADOR DISSIMULADO. DESCONSIDERAÇÃO DE ATO OU NEGOCIO JURÍDICO. POSSIBILIDADE. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. [...] (CARF, Acórdão n. 2302003.309, Rel. Arlindo Da Costa e Silva, data da sessão: 13/08/2014). FATO GERADOR DISSIMULADO. DESCONSIDERAÇÃO DEATO OU NEGOCIO JURÍDICO. POSSIBILIDADE. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. PERSONALIDADE JURÍDICA DE EMPRESA TERCEIRIZADA. DESCONSIDERAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Estando presentes todos os elementos caracterizadores da relação de segurado empregado, impõese a incidência imperativa das normas tributárias inscritas na Lei nº 8.212/91 sobre a empresa tomadora e sobre o segurado, sem que tal sujeição implique a desconsideração da personalidade jurídica da empresa terceirizada, a qual permanece produzindo todos os demais Fl. 3200DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 28 53 efeitos no mundo jurídico. (CARF, Acórdão n. 2302003.291, Rel. Arlindo Da Costa e Silva, data da sessão: 12/08/2014). Assim, tendo em vista que, no presente caso, a desconsideração recaiu não sobre a personalidade jurídica de qualquer empresa, mas sim sobre os atos fraudulentos supostamente praticados em conjunto pelas empresas do Grupo MC e a empresa MC ACESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA, não há como reconhecer as alegações apresentadas pela recorrente, sendo, ao contrário, imperativa a manutenção da decisão prolatada pela DRJ, especificamente quanto a esse tópico. Assim, ante o exposto, considero prejudicada a alegação do sujeito passivo de que a fiscalização decretou a desconsideração da personalidade jurídica da empresa MC ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA. 2. DA GLOSA DE DESPESAS NÃO COMPROVADAS COM A PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DA EMPRESA MC ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA. Segundo a Fiscalização, a recorrente não logrou comprovar a efetiva prestação de serviços da MC Assessoria durante os anoscalendário de 2007 a 2009, tendo como consequencia a glosa dessas despesas e a lavratura dos autos de infração de IRPJ e CSLL. Informa a autoridade fiscal no TVF de fls. 51, verbis: O voto condutor da decisão de Primeira Instância conclui que a recorrente não comprovou que os serviços foram efetivamente prestados. A seguir, trago a colação o trecho do voto que o relator fundamenta a sua decisão: Fl. 3201DF CARF MF 54 Atentese, ainda, que conforme informa o autuante, o impugnante não comprovou que os serviços foram efetivamente prestados (a indicação dos serviços prestados no corpo das notas fiscais foi feita de forma genérica), através dos relatórios de atividades desenvolvidas na atividade comercial, requisito essencial à idoneidade da despesa contabilizada e deduzida do lucro tributável, sobretudo por se tratar de empresas de um mesmo grupo econômico. Este fato, por si só, já justificaria a glosa das despesas com a suposta prestação de serviços. Ademais, entendo que o conjunto de fatos levantados pela Fiscalização, transcritos resumidamente neste voto, e minuciosamente detalhados no Termo de Verificação Fiscal, comprovam claramente que a Norauto Caminhões Ltda, juntamente com as demais empresas do Grupo, simulou a prestação dos referidos serviços cumprindo as formalidades legais, com objetivo claro de redução da carga tributária e maximização da distribuição dos lucros e dividendos, de modo que o negócio realizado aparentemente, ou, simulado, não subsistirá, e seus resultados não poderão ser oponíveis ao Fisco. O sujeito passivo, por sua vez, refuta os argumentos do autuante e da DRJ com as seguintes alegações: Fl. 3202DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 29 55 O que se verifica é que a Fiscalização trouxe aos autos convergente conjunto de provas e evidências dando conta que as referidas operações não ocorreram na realidade, comprometendo assim a prova da efetividade da prestação de serviços. E esse comprometimento se deu por várias vias, não tendo as alegações e documentos trazidos durante a ação fiscal a força de comprovar a efetiva prestação dos serviços: apresentou Notas Fiscais de Serviços emitidas pela empresa MC Assessoria que não discriminam os serviços prestados (fls. 634/673) acompanhadas de relatório de atividades desenvolvidas na atividade empresarial (fls. 621/633). Mas, o que considero mais importante que tudo isso foram as diligências efetuadas pelo fiscal no sentido de provar que a respectiva empresa que prestava os supostos serviços não existia de fato. Sintetizo, a seguir, as evidências coletadas pela Fiscalização nesse sentido: falta de infraestrutura própria e adequada à prestação dos serviços; falta de registro de despesas básicas com aluguel, energia elétrica; de acordo com a DRE 2007, apresentada pela empresa MC Assessoria, só é possível observar despesas com pessoal (ordenados da administração e bolsa de estagiários) e seus encargos, bem como pagamento de tributos; a MC Assessoria iniciou suas atividades com a transferência de funcionários das empresas para as quais prestaria serviço, cuja remuneração destes alterou infimamente, com auferimento de receitas e elevada margem de lucro; ausência de relatórios de atividades comprovando a efetividade dos serviços prestados, requisito essencial à idoneidade da despesa contabilizada e deduzida do lucro tributável, bem como, identificação genérica dos serviços prestados no corpo das notas fiscais; falta de elementos de comprovação da efetiva prestação dos serviços; a empresa MC Assessoria utiliza as dependências físicas da empresa Morena Veículos Ltda, bem como presta os mesmos serviços que os funcionários transferidos prestavam na lotação anterior (empresas do grupo econômico), inclusive com mesmos proventos; envio das GFIP por pessoa comum ao grupo (Rosane Ferreira Andrade; envio das DIPJ por pessoa comum ao grupo (Rita dos Santos Campos); gestão dos negócios realizada pelos mesmos responsáveis, quais sejam, Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira, ambos quotistas/administradores das empresas investigadas por esta auditoria; Fl. 3203DF CARF MF 56 prestação de serviços pela empresa MC Assessoria apenas a empresas do grupo econômico com elevada margem de lucro. endereço cadastral similar/idêntico e comprovação posterior de localização no mesmo lugar entre a Anira Veículos Ltda e MC Assessoria, está última sem qualquer estrutura física/operacional; ausência de rubricas contábeis na empresa MC Assessoria, referentes a despesas convencionais observadas em qualquer sociedade. Demonstrado pela fiscalização, portanto, o artificialismo na prestação dos serviços, por parte da empresa MC Assessoria, correto o procedimento fiscal de glosar as respectivas despesas. Esse mesmo artificialismo na prestação dos serviços é que enseja a multa qualificada de 150%. Não basta ser formalmente verdadeiro que a empresa prestava declarações e que era do conhecimento do fisco a identidade dos sócios. Tais informações não indicam, por si sós, a ausência de estrutura operacional da MC ASSESSORIA EM GESTÃO EMPRESARIAL LTDA. Apenas com uma profunda fiscalização é que o fato veio à tona. Creio que o intuito de alterar o conteúdo verdadeiro dos fatos está presente nos atos do contribuinte. Manifestome assim pela aplicação da penalidade qualificada. A fiscalização imputou responsabilidade solidária dos créditos tributários apurados na Norauto Caminhões Ltda (Contribuinte) para as pessoas físicas Srs Modezil Ferreira de Cerqueira (Diretor Presidente) e Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente), ex vi art. 135 do CTN. O interesse pessoal no fato gerador previsto no art. 135 do CTN por essas pessoas físicas foi provado a contento pela fiscalização. Carreou aos autos uma série de fatos e circunstância que em seu conjunto demonstram, que na realidade, as pessoas físicas Modezil e Florisberto tiveram uma conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, aumentou as despesas operacionais da Norauto Caminhões Ltda, reduzindo sensivelmente o valor do tributo a recolher, mediante comportamento doloso, tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, bem como alteração das características fundamentais do fato gerador, qual seja, o lucro tributável. A decisão de piso assim enfrentou a questão: Notese que no caso em tela, consoante arrazoado elaborado no Termo de Verificação Fiscal, e já analisado neste voto, a conduta da empresa que resultou na autuação fiscal confirmou a presença das três figuras jurídicas definidas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, in verbis: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 3204DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 30 57 II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. Assim, de todo o descrito no Termo de Verificação Fiscal e nos Termos de Solidariedade Passiva, concluise que houve infração à lei em face do não cumprimento da legislação em vigor, mediante conduta simulada dos diretores da empresa autuada, à época da ocorrência dos fatos geradores objeto dos autos de infração, restando caracterizada a sujeição passiva pessoal dos Srs. Modezil Ferreira de Cerqueira e Florisberto Ferreira de Cerqueira, nas qualidades, respectivamente, de Diretor Presidente e Diretor Superintendente da Norauto Caminhões Ltda., nos termos do art. 135 do CTN (Lei nº 5.172, de 25/10/1966), abaixo transcrito: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I – as pessoas referidas no artigo anterior; II – os mandatários, prepostos e empregados; III – os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Portanto, mantenho os termos de sujeição passivas nos termos propostos pelo fiscal. Por outro lado, é certo que as despesas glosadas, pela ótica das MC Assessoria, constituem a sua receita. Como esta receita inexiste de fato, entendeu a fiscalização, corretamente, que deveria descontar, dos valores lançados, os valores do IRPJ e da CSLL que foram recolhidos pela MC Assessoria, tendo assim fundamentado o procedimento: Fl. 3205DF CARF MF 58 A DRJ também considerou, consoante planilhas elaboradas pelo relator (fls. 2.943/2.950) e atendendo pleito do sujeito passivo em sua impugnação, o rateio das despesas incorridas pela MC Assessoria, segundo o mesmo critério utilizado para o rateio do IRPJ e CSLL, reduzindo as despesas glosadas pela FISCALIZAÇÃO e, consequentemente, reduzindo o IRPJ e CSLL apurados e as multas isoladas em razão da falta de recolhimento do IRPJ e CSLL. Contudo, a recorrente requer ainda o desconto dos valores do PIS e da COFINS pagos pela MC Assessoria, com base no percentual sobre a receita bruta utilizados pelo auditor fiscal, o qual não foi aceito pela autoridade julgadora a quo, sob o fundamento de que não há como deduzilos na apuração do lucro real da empresa autuada, por não se tratarem de despesas necessárias nos termos do art. 299 do RIR/1999. Abaixo, trago a colação o pleito do sujeito passivo em seu voluntário: Nesse ponto, não há como acolher a possibilidade aventada pela recorrente, no sentido de que os montantes pagos pela MC Assessoria, a título de PIS e COFINS, sejam compensados com os montantes autuados a título de IRPJ e CSLL contra a NORAUTO CAMINHÕES LTDA, pois tratase de tributos distintos e com sistemáticas de apuração próprias, que não permitem compensação de ofício por este Colegiado, por absoluta falta de previsão legal. Eventuais indébitos, oriundos da presente decisão, poderão ser resolvidos mediante pedido de restituição ou qualquer outra providência juridicamente válida, a critério dos interessados. Fl. 3206DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 31 59 No recurso voluntário, o sujeito passivo argui, finalmente, que os reflexos fiscais decorrentes do auto de infração de PIS e COFINS, relativo ao mesmo período objeto do PAF nº 10530.728133/201251, lavrado pouco antes do presente auto de infração, não foram devidamente observados pela autoridade fiscal, quanto aos seus reflexos na apuração do IRPJ e da CSLL do período, na quantificação dos tributos auditados, com a correspondente dedução do lucro tributável. Nesse sentido, a recorrente refez os cálculos de IRPJ e CSLL, considerando tais dispêndios, resultando nos valores demonstrados nas planilhas de fls. 3.060/3.065. Com relação a esse pleito da recorrente, entendo que não há como acolher a possibilidade de se deduzir tributos lançados em auto de infração, que não foram recolhidos pelo sujeito passivo, da base de cálculo do IRPJ e da CSLL por absoluta falta de previsão legal. Ante o exposto, CONHEÇO do recurso e, no mérito, voto por NEGARLHE provimento. É como voto. (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Relator Voto Vencedor Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Redator Designado. Em que pesem os argumentos expendidos pelo Ilustre Conselheiro Relator, peço vênia para, respeitosamente, divergir de seu voto no que diz respeito à caracterização de simulação, bem como à imputação de responsabilidade solidária ao Recorrente Sr. Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente). De acordo com a acusação fiscal, a prestação dos serviços objeto de rateio de despesas administrativas, que corretamente ensejou a glosa por falta de comprovação adequada, teria sido, na verdade, criada artificialmente por meio de uso de estrutura simulada. Mais precisamente, entenderam a autoridade fiscal autuante, a DRJ e o voto vencido, que a empresa prestadora de serviços não existiria de fato. Teria sido simulada dentro do grupo econômico, essencialmente porque não possuiria estrutura física adequada, não teria custos próprios senão de pessoal transferido de outras empresas do grupo, possui sede em endereço semelhante ao de outra pessoa jurídica vinculada, compartilha o uso de determinados funcionários, tem identidade de administradores e prestaria serviços de forma exclusiva a empresas ligadas. Com base nesses indícios, concluíram que houve artificialismo, ou melhor, simulação na prestação dos serviços por parte da MC Assessoria, o que ensejou, além da glosa das despesas, a qualificação da multa de ofício (de 75% para 150%) e a responsabilização solidária dos dirigentes. Não concordo, entretanto, com esse racional. Senão, vejamos: Fl. 3207DF CARF MF 60 Simulação Em primeiro lugar, vale assinalar que restou demonstrado que MC Assessoria tem como objeto social a gestão e assessoria empresarial, tendo sido constituída justamente para prestar serviços administrativos em geral (contabilidade, informática, escritório etc.), backoffice e central de compras às demais empresas do Grupo MC, sem prejuízo de prestar serviços também a terceiros. Em face da necessidade de centralizar gerencialmente as atividades meio, até então exercidas de forma diversificada e sem controle de gestão rigoroso nas 22 empresas do grupo e também mediante "terceirização", foi decidido, na linha do que adota o mercado, concentrar tais atividades em uma única empresa do grupo, unificando, assim, não somente a gestão, mas também os padrões de qualidade e sem perder de vista a potencial otimização de custos operacionais e tributários. Os documentos contábeis da MC Assessoria, os negócios por ela celebrados, a relação de fornecedores e clientes e o laudo apresentado na defesa, segundo penso, ratificam não só a existência da empresa, mas principalmente sua atuação ativa no mercado, ainda que domiciliada em sala no mesmo endereço e local de outra empresa vinculada. O compartilhamento de custos dentro de um mesmo grupo, na verdade, constitui prática permitida e usual, não havendo qualquer problema quanto à sua adoção. Também a cessão do espaço, dentro de uma segregação clara de atividade e função, não desqualifica a existência da pessoa jurídica. Ressaltase que a transferência ou alocação de funcionários para iniciar a operação é natural. A partir do momento que atividades não preponderantes passam a ser concentradas como atividades fim em pessoa jurídica autônoma, é decorrência lógica a reestruturação do quadro de funcionários. Também o compartilhamento de uso de um ou mais funcionários ou equipe para cumprir algo pontual ou tarefa específica não constitui indício contundente ou prova de abuso ou simulação. Pelo contrário, nesse caso concreto, restou demonstrado que a própria MC Assessoria teve um crescimento na folha em todos os anos e evolução de faturamento no período objeto dos Autos. A contratação de funcionários ocorria mediante anúncios diretos em seu nome. Havia controle de ponto, cartão, emails próprios que atestam haver uma estrutura organizada própria. Ao contrário do que sustenta a decisão de piso, a contabilidade indica não só gastos com pessoal, mas outras despesas que estão em consonância ao objeto social explorado. Há registro de receitas auferidas pela MC por serviços prestados a clientes independentes, isto é, empresas fora do grupo MC. A MC Assessoria possui ativos próprios, tendo sido, aliás, contratada por instituições financeiras para atuar como correspondente financeiro, atividade esta sujeita a controle rigoroso e que pressupõe pessoalidade da parte. Outro fato que chama atenção é o de que a Recorrente anexou na defesa laudo contábil (fls. 2.811/2.875) que detalha as atividades da empresa MC Assessoria, analisa a Fl. 3208DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 32 61 quantidade e função dos funcionários ao longo dos anos e identifica toda a mutação patrimonial da empresa no período. Esse documento, do qual não há notícias de que tenha sido de fato apreciado, somado aos demais elementos probatórios trazidos pela Recorrente na sua defesa, comprova que a dita empresa simulada (MC Assessoria) não apenas desempenhava funções compatíveis àquelas demonstradas nos Contratos firmados com as empresas do grupo, como também manteve relação comercial com outras empresas, adquiriu materiais compatíveis a estas atividades e remunerou funcionários assim alocados. Nesse contexto, penso que os "indícios" trazidos na peça acusatória não se sustentam diante das provas juntadas pelo Recorrente acerca da existência e operação na MC Assessoria. Ora, não é porque as partes não lograram êxito na comprovação da composição dos valores e dos critérios objetivos efetivos do rateio que a operação é simulada. A falta de comprovação do dispêndio, na hipótese como esta, é passível de glosa nos termos do artigo 299 do RIR/99, mas daí a afirmar que a prestação dos serviços foi simulada por ser a MC mera empresa de papel entendo existir um abismo. E nem se diga que o ordenamento jurídico vigente permite ao fisco desqualificar atos em razão exclusivamente de economia tributária. Esta tese não tem amparo e, inclusive, foi afastada com a rejeição do artigo 14 da Medida Provisória n. 66/20021, que não possui eficácia em razão de sua não conversão em lei. Feitas essas considerações, afasto a caracterização de simulação. Multa qualificada Uma vez descaracterizada a simulação da MC Assessoria, o fundamento legal da qualificação da multa de ofício deixa de existir, razão pela qual ela deve ser reduzida de 150% para 75%, nos termos do artigo 44, I, da Lei nº 9.430/1996: “Artigo 44 Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata.” 1 Artigo 14 São passíveis de desconsideração os atos ou negócios jurídicos que visem a reduzir o valor de tributo, a evitar ou a postergar o seu pagamento ou a ocultar os verdadeiros aspectos do fato gerador ou a real natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. § 1º Para a desconsideração de ato ou negócio jurídico deverseá levar em conta, entre outras, a ocorrência de: I falta de propósito negocial; ou II abuso de forma. § 2º Considerase indicativo de falta de propósito negocial a opção pela forma mais complexa ou mais onerosa, para os envolvidos, entre duas ou mais formas para a prática de determinado ato. § 3º Para o efeito do disposto no inciso II do § 1º, considerase abuso de forma jurídica a prática de ato ou negócio jurídico indireto que produza o mesmo resultado econômico do ato ou negócio jurídico dissimulado. Fl. 3209DF CARF MF 62 Decadência parcial É importante notar que a Recorrente, no período objeto da autuação (AC 2007 a 2009), efetuou pagamentos de IRPJ e CSLL como antecipação, conforme registra o TVF na seguinte passagem: O Poder Judiciário, representado pelo STJ em sede de recurso repetitivo2, consolidou o entendimento de que o termo inicial para contagem de decadência de tributos sujeitos ao lançamento por homologação – caso do IRPJ e CSLL – depende de dois fatores: existência ou não de pagamento antecipado e constatação ou não de fraude, dolo ou simulação. Nessa conformidade, a regra que prevalece e que vincula o presente Julgador à luz do artigo 62A do Regimento Interno do CARF é a de que aplicase o artigo 150, §4º (5 anos a contar do fato gerador) no caso de existir pagamento antecipado pelo contribuinte e desde que ele não tenha cometido fraude, dolo ou simulação. Caso contrário, ou seja, apenas na hipótese de inexistir pagamento antecipado OU restando demonstrada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, aplicável o artigo 173, I, do CTN. Nessa situação particular, tendo em vista que houve a descaracterização de simulação e antecipação de pagamento de tributo, aplicável o artigo 150, §4º. Assim, considerando que a ciência do lançamento ocorreu em 28/05/2013, entendo que as cobranças de IRPJ e CSLL referentes ao anocalendário de 2007 foram atingidas pela decadência. Responsabilidade solidária Finalmente, cumpre observar que a motivação para a qualificação da solidariedade da pessoa física Sr. Florisberto Ferreira de Cerqueira (Diretor Superintendente e minoritário) restringiuse ao fato dele ter figurado como sócio administrador. E como fundamento legal, invocou a autoridade responsável pelo lançamento o artivo 135, III, do CTN, verbis: Dispõe o artigo 135 do CTN: 2 Recurso Especial nº 973.733/SC (DJ e 18/09/2009). Fl. 3210DF CARF MF Processo nº 10530.723582/201394 Acórdão n.º 1201002.249 S1C2T1 Fl. 33 63 Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Os pressupostos previstos no caput do artigo 135 prática de ato com excesso de poder ou infração de lei ou contrato social não foi objeto de nenhum comentário pela fiscalização na imputação da solidariedade. Ora, se foi o uso indevido ou abusivo do cargo ou função de sócio a causa da caracterização da responsabilidade solidária, deveria a autoridade ao menos ter apontado e motivado qual ato teria sido este, como foi praticado, qual a finalidade, seus efeitos etc, mas nada disso foi feito. O TVF deveria, para valer sua tese de incidência do artigo 135, III, ter demonstrado em que medida o sócio representante agiu em infração a lei, ou em contrariedade aos limites do desempenho de sua função de gestor. Quer a autoridade fiscal ver prevalecer o Termo de Sujeição Passiva Solidária, mister que ela motive adequadamente o Auto, bem como demonstre a participação direta e consciente daquele que detém poder de representação na realização dos atos alegadamente simulados ou fraudulentos. A atribuição de responsabilidade tributária não constitui expediente que possa ser utilizado “por atacado” ou “no modo automático”, uma vez que tal instituto exige a comprovação de que os fatos ou atos que geraram o descumprimento de normas tributárias tenham sido praticados com dolo pela pessoa qualificada como responsável. A mera qualificação de sócio administrador jamais poderia ensejar responsabilidade pessoal ou solidária, ainda mais nesse caso concreto, no qual a simulação restou afastada. Nesse contexto, não se pode perder de vista que já foi reconhecido e consolidado pelo STJ, por meio da súmula 430, que o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. Esse entendimento foi ratificado em recurso julgado sob o rito do art. 543C do CPC (sistemática de recursos repetitivos), cuja ementa foi assim redigida: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DISPENSA. Fl. 3211DF CARF MF 64 RESPONSABILIDADE DO SÓCIO. TRIBUTO NÃO PAGO PELA SOCIEDADE. [...] 2. É igualmente pacífica a jurisprudência do STJ no sentido de que a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa (EREsp 374.139/RS, 1ªSeção, DJ de 28.02.2005).[...]” (Resp 1.101.728/SP, julgado. Dje 23/03/2009). A jurisprudência, contudo, firmouse no sentido de que o não pagamento do tributo pela sociedade não é causa suficiente para que seus representantes se tornem responsáveis pelos débitos fiscais. Também a mera qualificação de diretor, gerente ou representante da empresa autuada, desacompanhada de motivação e comprovação de prática de conduta abusiva, não é suficiente para ensejar a responsabilidade pessoal. Não há dúvidas de que o Recorrente (solidário) exerce um cargo de administração, afinal é sócio assim qualificada, mas isso não significa dizer que ele tenha participado dolosamente de operação para lesar o fisco. Diante dessas considerações, e na linha dos precedentes jurisprudenciais mencionados, afasto a imputação da responsabilidade solidária de Florisberto Ferreira de Cerqueira. Conclusão Pelo exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO aos RECURSOS VOLUNTÁRIOS para: (i) afastar a multa qualificada, reduzindoa de 150% para 75%; (ii) reconhecer a decadência do IRPJ e CSLL em relação ao ano calendário de 2007; e (iii) afastar a responsabilidade solidária do Recorrente Sr. Florisberto Ferreira de Cerqueira. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Redator Designado Fl. 3212DF CARF MF
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Numero do processo: 13227.900656/2009-68
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO.
Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ).
SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
Numero da decisão: 1401-002.535
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13227.900318/2010-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005 COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ). SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13227.900318/2010-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
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GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ). SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 22 7. 90 06 56 /2 00 9- 68 Fl. 40DF CARF MF Processo nº 13227.900656/200968 Acórdão n.º 1401002.535 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte em face do Acórdão n. 0125.452 3ª Turma da DRJ/BEL, que, por unanimidade de votos, não homologou a compensação correlata ao crédito de IRPJ não reconhecido. A Recorrente transmitiu declaração de compensação em 06/04/2006, na qual indicou crédito resultante de pagamento indevido ou a maior originário de DARF relativo à receita de código 5993, do período de apuração de 09/2005. A unidade de origem, por intermédio de despacho decisório, não homologou a compensação declarada, sob o argumento de que após analisadas as informações prestadas pela Recorrente foi constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade na qual alegou que: a) A empresa efetuou pagamento de IRPJ Código de Receita: 5993, relativo ao período de apuração de 09/2005; b) Por ocasião do levantamento do balancete de suspensão e/ou redução nesse mês, após os ajustes apresentou lucro fiscal inferior ao já apurado em períodos anteriores, ou seja, não teria nada a recolher mesmo assim recolheu.; c) Oportunamente, aproveitou o crédito do pagamento indevido para compensar, via PER/DCOMP e de forma legal, débitos próprios. Diante dos fatos apresentados, requereu a anulação do Despacho Decisório, por questão de justiça e direito. Apreciados tais argumentos, o despacho decisório restou mantido, sob o entendimento de que as declarações de compensação apresentadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil somente podem ser homologadas quando reste comprovada pelo sujeito passivo a existência do respectivo direito creditório. Em sede de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito. Inconformada, a Recorrente interpôs Voluntário com vistas a obter a reforma do julgado defendendo estar suficiente comprovado seu direito creditório. Era o essencial a ser relatado. Passo a decidir Fl. 41DF CARF MF Processo nº 13227.900656/200968 Acórdão n.º 1401002.535 S1C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.523, de 17/05/2018, proferida no julgamento do Processo nº 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. O processo paradigma analisou a possibilidade de utilização de crédito relativo a pagamento indevido de IRPJ estimativa mensal, referente ao período de apuração de fevereiro/2006, para compensação com débitos do contribuinte. O presente processo tratase de pedido de compensação de crédito relativo a pagamento indevido de IRPJ estimativa mensal, do período de apuração de 09/2005, com débitos do contribuinte. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.523): O Recurso apresenta os requisitos essenciais para sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Ao julgar improcedente a manifestação de inconformidade, a decisão de piso manifestase no sentido de que pode a Fiscalização, após o encerramento do ano calendário, exigir estimativas eventualmente não recolhidas durante o ano calendário, por expressa previsão legal e que a falta de recolhimento de estimativas. Segundo o Acórdão recorrido, descabe a alegação da contribuinte no sentido de que a glosa de estimativas da apuração de saldo negativo representa dupla exigência à Recorrente decorrente do mesmo fato, pois o pagamento de estimativas deveria ter sido feito dentro do prazo legal, o que não teria ocorrido no presente caso, assim como não houve o adimplemento dos débitos confessados, a glosa do saldo negativo é consequência deste fato. Por isso, no entendimento da decisão de piso, não haveria como se manter o saldo negativo de parcelas constituintes que não estariam satisfeitas, porque a cobrança dos valores não pagos decorre de determinação legal, de forma que não haveria que se falar em dupla cobrança, já que uma vez adimplido o débito, este procedimento reflete na apuração do saldo negativo. Ocorre que, conforme apontado pela recorrente em sede de voluntário, embora a compensação tenha se dado de forma equivocada, uma vez que ao entregar a DCTF, a recorrente ao invés de simplesmente comparar o valor devido com o valor recolhido a título de estimativa e assim declarar somente o valor Fl. 42DF CARF MF Processo nº 13227.900656/200968 Acórdão n.º 1401002.535 S1C4T1 Fl. 5 4 devido, caso apurasse valor a maior do que o recolhido por estimativa, declarou o valor apurado como devido e apresentou PERD/DCOMP para compensálo. Considerando que as informações acima transcritas restam localizadas na DIPJ e LALUR, que apontam a base de cálculo da contribuição e os DARFs (fls.) devidamente pagos que originaram o crédito em discussão. Tratase, portanto, de erro de fato no preenchimento do PER aqui analisado, que não pode, sob hipótese alguma, refletir na glosa de estimativas já liquidadas, computadas na apuração do saldo negativo do IRPJ do período. Desta forma, tendo a Recorrente comprovado de maneira incontroversa que as estimativas mensais de outubro de 2006 foram liquidadas através da quitação antecipada autorizada pela Lei nº 13.043/2014 (Doc. 7 do RV), não pode ser mantida a redução do saldo negativo de 2004. Ademais, consolidando este entendimento, temos: SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Diante de todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, para afastar a glosa das estimativas. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves. Fl. 43DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10410.720185/2011-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do Fato Gerador: 29/04/2011
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. ÔNUS DA PROVA.
Compete a quem transmite o PER o ônus de provar a liquidez e certeza do crédito tributário alegado.
À autoridade administrativa cabe a verificação da existência desse direito, mediante o exame de provas hábeis, idôneas, eficazes e suficientes a essa comprovação.
Numero da decisão: 3401-004.998
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Cássio Schappo e Lazaro Antonio Souza Soares.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do Fato Gerador: 29/04/2011 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. ÔNUS DA PROVA. Compete a quem transmite o PER o ônus de provar a liquidez e certeza do crédito tributário alegado. À autoridade administrativa cabe a verificação da existência desse direito, mediante o exame de provas hábeis, idôneas, eficazes e suficientes a essa comprovação.
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ÔNUS DA PROVA. Compete a quem transmite o PER o ônus de provar a liquidez e certeza do crédito tributário alegado. À autoridade administrativa cabe a verificação da existência desse direito, mediante o exame de provas hábeis, idôneas, eficazes e suficientes a essa comprovação. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Cássio Schappo e Lazaro Antonio Souza Soares. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 41 0. 72 01 85 /2 01 1- 65 Fl. 59273DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de recurso voluntário contra decisão da DRJ/CTA, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade do contribuinte contra Despacho Decisório que indeferiu totalmente o Pedido Eletrônico de Ressarcimento PER, relativo a contribuições não cumulativas, face a ausência de comprovação dos créditos pleiteados. O Despacho Decisório adotou as razões exaradas em Parecer Fiscal resultante de diligência havida em cumprimento ao provimento judicial contido no Mandado de Segurança nº 000020560.210.4.05.8000, da 1ª Vara da Justiça Federal de Alagoas e ao MPF – Mandado de Procedimento Fiscal nº 0440100 004622010. Cientificada desta decisão, a recorrente apresentou Manifestação de Inconformidade em que sustenta a legitimidade de seus créditos, pugna pela aplicação do princípio da verdade material, afirma que atendeu as solicitações do Fisco no curso da fiscalização e solicita que os autos sejam novamente baixados em diligência para apurar o valor que a autoridade administrativa entende ser devido. Por unanimidade de votos, a DRJ/CTA indeferiu o pedido de diligência e julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade. Entendeu este colegiado que é ônus do contribuinte a comprovação da existência de seu direito creditório e que há de se indeferir solicitação que objetive transferir esta obrigação à autoridade administrativa. Irresignada, a recorrente interpôs seu recurso voluntário tempestivo, requerendo em preliminar a nulidade do presente processo, pois tanto o despacho decisório, quanto o acórdão da DRJ/CTA, não poderiam ser emitidos antes da decisão final administrativa do auto de infração 10410.006237/201014, vez que este auto discute justamente a legitimidade dos créditos pleiteados e que foram objeto de glosa tanto no despacho decisório quanto no acórdão. No mérito, basicamente ratifica os argumentos expendidos em sua manifestação de inconformidade. É o relatório. Fl. 59274DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.972, de 21 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10410.720043/201106, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.972): "O recurso voluntário é tempestivo, vez que a Recorrente tomou ciência da decisão recorrida em 11/05/2015 (efl. 59.145), interpondo seu voluntário em 09/06/2015 (efls. 59.146/59.147), logo, dele tomo conhecimento. O ponto nodal diz respeito ao reconhecimento de créditos fiscais do PIS e da COFINS nãocumulativas, no ramo de laticínios leite e seus derivados , acumulados mensalmente, decorrentes das aquisições de matériasprimas, embalagens, materiais intermediários, dentre outros, os quais restaram indeferidos totalmente pela autoridade fiscal, por meio de despacho decisório em sede de Pedido de Restituição, Ressarcimento ou Reembolso PER. Notese que a questão cingese à formação, instrução, cognição da prova, e esta, quando se trata de PER/DCOMP um pedido de iniciativa do sujeito passivo , a ele cabe tal ônus. Por mais longínquo e penoso tenha sido o percurso judicial e administrativo percorrido pela Recorrente no caso concreto, a conclusão é de que o contribuinte há de fazer esta prova. Antes de adentrar neste assunto de mérito, necessário tratar da preliminar de nulidade. Entende a Recorrente que tanto o despacho decisório, quanto o acórdão da DRJ/CTA, não poderiam ser emitidos antes da decisão final administrativa do auto de infração 10410.006237/201014, vez que este auto discute justamente a legitimidade dos créditos pleiteados e que foram objeto de glosa tanto no despacho decisório quanto no acórdão, asseverando que este teve como nascedouro o mesmo mandado de procedimento fiscal. A lógica é respeitável, porém, como se trata de Pedido de Restituição, a prova dos créditos diz respeito a cada um dos PER, para os quais, dependendo de sua instrução e prova cabal, logrará ou não êxito o Pleiteante. Fl. 59275DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 5 4 Portanto, afasto a nulidade arguida. Volvendo a questão meritória, destacamse trechos do Termo de Encerramento de Diligência 0001 (efl. 9 e ss.): No dia 18/02/2010, o contribuinte entregou basicamente os livros contábeis e fiscais e alguns arquivos magnéticos contendo memórias de cálculo. Constatamos após examinar os primeiros arquivos entregues, que os mesmo possuíam erros formais e tivemos que solicitar que os arquivos fossem refeitos. Este fato demonstrou que o contribuinte não possuía memória de cálculo dos valores informados na DACON e conseqüentemente dos PER/DCOMP. A partir desta data começou um processo inverso. A Receita Federal que estava com o prazo fixado para apreciar os PER/DCOMP, teve que pedir prorrogações de prazo ao Judiciário, não para fazer o trabalho, mas para que o contribuinte pudesse apresentar os documentos e elementos necessários ao exame dos PER/DCOMP. Foram solicitadas e concedidas duas prorrogações de prazo. Uma de 250 dias em 10/05/2010 e outra de 180 em 02/08/2010. Desde a data da entrega dos primeiros arquivos, até 27/10/2010, data do último arquivo entregue, diversos contatos telefônicos, 02 reintimações fiscais e cerca de 30 e mails foram enviados e recebidos, cobrando as informações e recebendo arquivos magnéticos. Em 18/06/2010, através da Reintimação Fiscal nº0001, foi feito um resumo do que havia sido entregue e o que estava pendente. Podese verificar que passados quase 5 meses do termo de diligência fiscal/solicitação de documentos, apenas 4 itens haviam sido entregues, faltavam 12 itens. Mais uma vez o contribuinte apresentou pedido de prorrogação para entrega dos documentos. Em 08/07/2010 o contribuinte entregou a maior parte das informações restantes. Faltando ainda o arquivo do almoxarifado e da depreciação. (...) Estes mesmos arquivos de saída de mercadorias, no campo "tributação", onde informa se o produto vendido é tributado a alíquota zero ou é tributado a alíquota positiva, foram fornecidos com essa informação totalmente equivocada. Produtos que na época da emissão da nota fiscal eram tributados, foram considerados como alíquota zero e vice versa. Assim, tivemos que refazer esta informação, produto a produto, nota fiscal a nota fiscal obedecendo à legislação vigente, no intuito de aproveitar o arquivo para confronto com a DACON. Após finalizar, formatar e totalizar mensalmente os arquivos. Fomos fazer o confronto com os valores Fl. 59276DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 6 5 informados na DACON, para então passar para a segunda etapa do trabalho que é a auditoria propriamente dita, ou seja, fazer os devidos ajustes na ótica da Receita Federal, apurar os créditos devidos e confrontar com os respectivos PER/DCOMP. (...) Constatamos uma total divergência de valores. Nas rubricas acima relacionada, não houve um mês em que houvesse coincidência de valores entre os constantes na DACON e os valores constantes nos arquivos fornecidos. Elaboramos as planilhas denominadas: Demonstrativo das diferenças entre os valores constantes da DACON e arquivos magnéticos fornecidos como memória de cálculo I, II e III, os quais evidenciam as divergências encontradas. (...) CONCLUSÃO O ônus da prova dos créditos pleiteados é do contribuinte, assim deve haver uma correspondência entre os valores constantes no documentário fiscal, esses com os arquivos magnéticos, esses com a DACON, que é base de apuração dos créditos, e por final, a DACON com os PER/DCOMP, para que então possamos examinar, fazer os ajustes necessários de acordo com a legislação e deferir os eventuais créditos que o contribuinte esteja pleiteando. O fato de entregar uma série de arquivos magnéticos, livros fiscais e documentos, não fazem prova dos créditos. É preciso que os mesmos guardem estrita correlação com o valor exato do crédito pedido. Não se pode pedir um crédito de um determinado valor e tentar comprovar outro. No caso em tela, ao longo de 10 meses e muito esforço envidado para obtenção das informações e execução do trabalho, restou demonstrado que o contribuinte não possuía memória de cálculu dos créditos solicitados, foi fazendo durante a execução do trabalho e os elementos e documentos fornecidos, não guardam nenhuma correlação com os valores dos créditos pleiteados nos PED/COMP. Desta forma, face à falta de comprovação, não se revela possível deferir os créditos solicitados pelos motivos acima expostos. A partir de sua manifestação de inconformidade, juntou a Recorrente mais de 5.000 documentos, a partir da efl. 66 e seguintes, num total de 49 (quarenta e nove) Anexos, na realidade, planilhas, informando, em síntese, número das notas fiscais, CFOP, tipo de tributação (alíquota zero, isento e tributado), descrição do material, montante, etc. Fl. 59277DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 7 6 Enfatiza a decisão da DRJ/CTA (efl. 59.137) que o direito creditório deve estar lastreado em documentação comprobatória (artigo 1.179 do CC c/c artigos 3°, 34 e 65, todos da IN/RFB 900/2008), asseverando ainda (efl. 59.138): Assim, para comprovar a existência de um crédito vinculado a um registro contábil, não basta apresentar o registro, mas também indicar, de forma específica, que documentos estão associados a que registros; ainda, é importante, quando a natureza da operação escriturada/documentada for importante para a caracterização ou não do direito creditório, que a descrição da operação constante dos registros e documentos seja clara, sem abreviaturas ou códigos que dificultem ou impossibilitem a perfeita caracterização do negócio. No presente processo, salientase que a unidade de origem não indeferiu o pleito com base na falta da escrituração contábil, pois, como bem acentuou a interessada, a fiscalização não encontrou nenhuma anormalidade formal nos arquivos da contabilidade. O crédito não foi concedido, simplesmente, porque a interessada, mesmo diante dos inúmeros demonstrativos e documentos apresentados, não logrou êxito em comprovar a origem dos valores solicitados. Ao que se viu, durante muitos meses fora oportunizado o direito de a Recorrente fazer prova de seus hipotéticos créditos, porém, embora juntando muitos documentos, faltou comprovação da origem de seus valores, e por conseguinte, o quantum respectivo para fins de restituição. Noutro falar, há se ter uma conciliação entre registros contábeis e documentos que respaldem tais registros, não bastando os apresentar, mas também indicar, de forma específica que os documentos estão associados aos respectivos registros; natureza da operação escriturada/documentada, a fim de caracterizar ou não o direito ao crédito. Dispõe o artigo 373, I do CPC/2015, aplicado subsidiariamente ao Processo Administrativo Fiscal PAF (Decreto 70.235/72): "Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito;" A propósito, neste sentido entende o CARF: DCOMP. CRÉDITOS. HOMOLOGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE Cabe à autoridade administrativa autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A ausência de elementos imprescindíveis à comprovação eficaz desses atributos Fl. 59278DF CARF MF Processo nº 10410.720185/201165 Acórdão n.º 3401004.998 S3C4T1 Fl. 8 7 impossibilita à homologação. (Acórdão 3802003.395, v.u., para negar provimento ao recurso voluntário). RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS. Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. (Acórdão 3301003.192, v. u. para negar provimento ao recurso voluntário). Ante o exposto, voto por negar provimento ao presente recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 59279DF CARF MF
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