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Numero do processo: 10314.722131/2014-75
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/06/2009 a 31/07/2009
PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR ABERTA. CONCESSÃO NA FORMA DE GRATIFICAÇÃO, BÔNUS OU PRÊMIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO.
Após o advento da Lei Complementar 109/2001, nos casos de plano de previdência complementar em regime aberto,pode-se oferecer planos diferenciados a categorias diferentes de trabalhadores, mas desde que não seja utilizado como instrumento de incentivo ao trabalho, ou concedido a título de gratificação, bônus ou prêmio.
Integram a remuneração e se sujeitam à incidência de contribuição previdenciária os aportes de contribuições a planos de previdência privada complementar, se não comprovado o caráter previdenciário destas contribuições.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional, e sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SONEGAÇÃO.
O pagamento de bônus através de crédito em conta de previdência complementar, em simulação de negócio jurídico, configura a prática de sonegação, situação para qual está prevista a aplicação de multa de ofício qualificada, nos termos do artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/1996 combinado com o artigo 71 da Lei nº 4.502/64.
Numero da decisão: 2301-005.238
Decisão: Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Alexandre Evaristo Pinto (relator), Wesley Rocha, Marcelo Freitas de Souza Costa e Juliana Marteli Fais Feriato, que davam provimento ao recurso. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Andrea Brose Adolfo.
((assinado digitalmente)
João Bellini Junior - Presidente
(assinado digitalmente)
Alexandre Evaristo Pinto - Relator
(assinado digitalmente)
Andrea Brose Adolfo - Relatora Designada
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato e João Bellini Júnior (Presidente).
Nome do relator: ALEXANDRE EVARISTO PINTO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/06/2009 a 31/07/2009 PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR ABERTA. CONCESSÃO NA FORMA DE GRATIFICAÇÃO, BÔNUS OU PRÊMIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. Após o advento da Lei Complementar 109/2001, nos casos de plano de previdência complementar em regime aberto,podese oferecer planos diferenciados a categorias diferentes de trabalhadores, mas desde que não seja utilizado como instrumento de incentivo ao trabalho, ou concedido a título de gratificação, bônus ou prêmio. Integram a remuneração e se sujeitam à incidência de contribuição previdenciária os aportes de contribuições a planos de previdência privada complementar, se não comprovado o caráter previdenciário destas contribuições. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional, e sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. O pagamento de bônus através de crédito em conta de previdência complementar, em simulação de negócio jurídico, configura a prática de sonegação, situação para qual está prevista a aplicação de multa de ofício qualificada, nos termos do artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/1996 combinado com o artigo 71 da Lei nº 4.502/64. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Alexandre Evaristo Pinto (relator), Wesley AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 21 31 /2 01 4- 75 Fl. 512DF CARF MF 2 Rocha, Marcelo Freitas de Souza Costa e Juliana Marteli Fais Feriato, que davam provimento ao recurso. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Andrea Brose Adolfo. ((assinado digitalmente) João Bellini Junior Presidente (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Relator (assinado digitalmente) Andrea Brose Adolfo Relatora Designada Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato e João Bellini Júnior (Presidente). Relatório Tratase de crédito tributário constituído pela fiscalização em relação ao interessado acima identificado, por meio dos seguintes autos de infração: AI DEBCAD nº 51.001.8025, no valor de R$ 2.734.619,55, lavrado em 11/04/2014, referente às contribuições destinadas à Seguridade Social e devidas pela empresa, incidentes sobre as remunerações pagas, nas competências 06/2009 e 07/2009, aos segurados contribuintes individuais (Levantamento BI – Bônus Pagos a Contribuintes Individuais). AI DEBCAD nº 51.001.8033, no valor de R$ 334.485,19, lavrado em 11/04/2014, referente às contribuições destinadas às Outras Entidades e Fundos e devidas pela empresa, incidentes sobre as remunerações pagas, na competência 06/2009, aos segurados empregados (Levantamento BE – Bônus Pagos a Empregados). Por se tratar de uma agroindústria (FPAS 833), para a qual é aplicável a substituição das contribuições previdenciárias da parte patronal, só foram lançadas as contribuições destinadas às Outras Entidades e Fundos. Remunerações pagas através de Plano de Previdência Complementar Constituiu fato gerador das contribuições lançadas o pagamento de remuneração variável (bônus), efetuados pela empresa, nas competências 06/2009 e 07/2009, através de crédito em contas de Previdência Complementar (Plano de Contribuição Variável junto à seguradora Itaú Vida e Previdência S.A.), a administradores e empregados ocupantes de funções de gerência e direção. Essas remunerações foram apuradas na contabilidade da empresa, nas contas ‘Bônus a pagar’, ‘Bônus CPP a pagar’, ‘Bônus EPP a pagar’ e ‘Merit Bônus’, sem que tenham sido informadas nas folhas de pagamento, tampouco declarados em GFIP. Fl. 513DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 3 3 Esses pagamentos não têm natureza de previdência complementar. Houve uma contratação, firmada entre o empregado e a empresa, acordando o pagamento de remuneração variável, em razão dos resultados alcançados pela segunda, que se pressupõem vinculados à atuação do primeiro. Tratase de um bônus, contabilizado como tal e submetido à contribuição previdenciária. Os aportes feitos em previdência privada não são pagos de forma eventual, tendo sido pagos como contraprestação do trabalho. Nos termos do artigo 28, §9º, letra “e”, item 7, da Lei nº 8.212/91, combinado com o artigo 214, §9º, V, “j”, do Decreto n° 3.048/1999, o pagamento de abono possui natureza remuneratória quando não expressamente desvinculado do salário por força de lei. O contribuinte, ao efetuar o pagamento dessas verbas por intermédio de crédito em conta de previdência complementar, e sem informalas em folha de pagamento e GFIP, utilizouse de simulação, no intuito de evitar a tributação previdenciária. Uso Indevido da Previdência Complementar para Pagamento de Bônus Além dos argumentos anteriores, esses pagamentos não podem ser classificados como contribuições a planos de previdência, já que também ofendem a lógica previdenciária. Houve uso indevido da previdência privada para o pagamento de bônus. A previdência privada foi usada somente para que a empresa se esquivasse do pagamento das contribuições previdenciárias devidas, não tendo sido usada para os fins legais para os quais foi criada. Em análise aos documentos apresentados pela Itaú Vida e Previdência S.A., tais como os contratos, faturas emitidas, relação dos beneficiários, informações sobre os valores aportados e regatados nos planos de previdência privada mantidos pela empresa fiscalizada, verificouse que o Plano de Previdência Complementar de Contribuição Variável só apresentava contribuições extraordinárias da instituidora, os resgates eram constantes (totais ou parciais) e quase sempre em seguida ao aporte. Segundo o artigo 202 da Constituição Federal, o regime de previdência privada está baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado. O plano de previdenciária variável utilizado pela empresa fere essa diretriz básica estabelecida pelo artigo 202 da Constituição Federal, pois não há manutenção de reserva garantindo o benefício futuro previsto no contrato. O plano de previdenciária variável utilizado pela empresa também não atende um ponto crucial da segurança dos planos de previdência privada, que se encontra na necessidade das entidades previdenciárias criarem as reservas técnicas, fundos e provisões, de tal forma a garantir a integralidade futura dos benefícios de todos os participantes. No pagamento de verbas remuneratórias mediante depósito em conta de previdência privada há uma divergência entre a vontade real e a aparente: a empresa quer pagar salário, mas para se furtar à tributação o faz mediante depósitos em conta de previdência privada como se tratassem de contribuições normais a estes planos. Tal situação configura a simulação do negócio jurídico. Fl. 514DF CARF MF 4 Aplicase o princípio da primazia da realidade, que demonstra que a simples utilização de contas de previdência privada para o pagamento de remuneração variável ajustada, não a transforma em verba não incidente. A real essência do fato gerador é a que deve prevalecer, o instituto utilizado para pagálo visou somente à ocultação da sua real natureza, e a conseqüente sonegação das obrigações previdenciárias. O lançamento de ofício das contribuições sociais devidas foi efetuado com fundamento no artigo 149, inciso VII do CTN, ante a comprovada simulação de negócio jurídico. Multa de Ofício Qualificada A multa de ofício de 75% sobre o valor do débito apurado foi aplicada em dobro (150%), nos termos do artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, em razão do procedimento adotado pela empresa, consistente em depositar os valores de bônus em conta de previdência complementar privada, para evitar que a autoridade fiscal tomasse ciência da obrigação principal em sua totalidade, configurar a sonegação prevista no artigo 71 da Lei nº 4.502/64. Termo de Sujeição Passiva Solidária A fiscalização imputou ao Sr. Kenneth Carlson Geld, presidente da empresa no período de 07/08/2008 a 25/12/2013, a responsabilidade solidária pelo crédito tributário lançado, com fundamento nos artigos 124, I e 135 do CTN. A empresa Louis Dreyfus (contribuinte) apresentou impugnação, na qual alega e requer, em suma, o seguinte: Da não incidência da contribuição previdenciária A empresa mantém dois planos nas modalidades PGBL e VGBL, disponíveis a todos os funcionários, e um terceiro plano de contribuição variável, na modalidade FGB, destinado apenas a determinados funcionários, que ocupam funções de gerência e direção. Este plano tem por finalidade permitir que a impugnante aporte contribuições suplementares a seus funcionários que recebem maior remuneração, uma vez que são estes quem mais precisam da complementação de aposentadoria porque são os que mais perdem na inatividade em termos percentuais. O plano de previdência complementar de contribuição variável, na modalidade FGB, mantido pela impugnante, foi instituído com total atendimento às normas constitucionais e legais que disciplinam a matéria, em especial o artigo 202 da Constituição Federal e os artigos 26 e 27 da Lei Complementar 109/2001, que disciplinam os planos de benefícios instituídos por entidades abertas, como é o caso da Itaú Vida e Previdência S.A. Tratase de um plano coletivo que garante benefícios previdenciários a um grupo de pessoas, constituídos por mais de uma categoria de empregados e dirigentes, diretamente vinculados à impugnante e a outras empresas do Grupo LDC, implantado mediante contrato celebrado com a Itaú Vida e Previdência S.A., com atendimento a todas as exigências de forma, critérios, condições e requisitos mínimos estabelecidos pelo órgão regulador, no caso a SUSEP, que aprovou o Regulamento Básico Plano de Fundo Corporate Itauprev (Processo SUSEP nº 1006647/19940). As contribuições pagas pelos empregadores a programas de previdência privada em favor de gerentes e diretores não integram o saláriodecontribuição, nos termos do Fl. 515DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 4 5 artigo 202, §2º, da Constituição Federal, dos artigos 68 e 69, §1º, da Lei Complementar nº 109/2001, e do artigo 28, §9º, alínea ‘p’, da Lei nº 8.212/91. A previsão do artigo 202, §2º, da Constituição Federal equivale a verdadeira imunidade, cuja interpretação deve ser ampla, não se admitindo quaisquer limitações por normas infraconstitucionais. Para tanto, basta que as contribuições da empresa destinadas a custear planos de previdência privada em benefícios dos empregados e dirigentes sejam pagas a entidades de previdência privada regularmente constituídas, cujos planos tenham sido instituídos na forma da lei. No caso concreto, todos os fatos invocados pela autoridade fiscal para justificar a exigência de contribuições previdenciárias e de terceiros, considerados indícios da suposta ilegalidade que teria sido praticada pela impugnante, não são vedados ou são expressamente admitidos pela legislação que disciplina a matéria. Os planos das entidades abertas podem ser instituídos para grupos de pessoas constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador (art. 26, II, §3º, da LC nº 109/2001). O resgate é de previsão obrigatória, constituindo um direito do participante (arts. 14, III, e 27, da LC nº 109/2001). As regras do plano FGB estão definidas no Regulamento Básico do Fundo Corporate Itauprev e no Contrato, e estão rigorosamente de acordo com a legislação previdenciária em vigor. No Regulamento Básico do Fundo Corporate Itauprev e no Contrato, estão previstos as contribuições e os resgates, questionados pelo Fisco, da seguinte forma: Regulamento 5.1 O custeio das coberturas contratadas caberá ao Participante, à Instituidora, ou a ambos, na forma e/ou valor definidos na Proposta de Inscrição, conforme estabelecido em Contrato de Adesão. 9.3 O direito à solicitação de resgate relativo às contribuições efetuadas pelo participante é imediato e, com relação às contribuições efetuadas pela Instituidora, deverá estar previsto em Contrato de Adesão. Contrato de Adesão 6.3 Contribuição Extraordinária: A efetivação da contribuição extraordinária não gera obrigação de contrapartida para a outra parte. 12. Resgate. Durante o período de diferimento será permitido ao Participante, após 60 dias a contar da data do protocolo da proposta de inscrição, solicitar o resgate total ou parcial da provisão do Participante, observada a legislação vigente na ocasião da solicitação e o disposto na cláusula 12.3 adiante. Fl. 516DF CARF MF 6 12.3 O resgate, parcial ou total, pelo Participante, de contribuições extraordinárias aportadas pela Instituidora poderá ser efetuado a qualquer momento a partir do 5º dia útil contado da data em que a Instituidora fizer o aporte respectivo, mediante entrega da solicitação pelo Participante. Essas disposições estão de acordo com a Circular SUSEP nº 338/07, que altera e consolida regras e critérios de funcionamento e operação da cobertura por sobrevivência oferecida por planos de previdência. Os diretores e gerentes, ainda que não façam aportes para o plano FGB, contribuem para os outros dois planos que integram o programa de previdência complementar mantido pela impugnante. Dos 230 resgates efetuados, somente 16 correspondem a resgates totais, enquanto 209 a resgates parciais e 5 a migração externa total. A fiscalização está se voltando contra a própria legislação, na medida em que esta prevê expressamente várias modalidades de planos, contribuições variáveis, valor e periodicidade livres, liberdade aos participantes para efetuar ou não suas contribuições e direito ao resgate. No plano destinado a cobertura por sobrevivência na modalidade contribuição variável, as contribuições são livres e o resgate é um direito do participante e deve ser a ele oferecido, obrigatoriamente e a qualquer tempo, durante o prazo de diferimento, respeitados apenas os prazos de carência e intermediário entre os pedidos de resgate na forma prevista no Regulamento e no Contrato. Os fatos apontados não autorizam as exigências em causa A natureza jurídica da verba não decorre da rubrica contábil A contabilização do valor dos aportes para o plano de previdência privada na rubrica ‘bônus’ e a falta de informação dos pagamentos desses ‘bônus’ em folha de pagamento e GFIP não autorizam a descaracterização dos aportes como contribuição para previdência privada e seu enquadramento como remuneração variável. A afirmação, da autoridade fiscal, de que a impugnante efetuou pagamento de remuneração variável em razão de metas atingidas, foi feita sem o amparo de qualquer prova contida nos autos. Os aportes de previdência complementar não são fixados em função de quaisquer metas acordadas, mas em função da remuneração dos participantes de forma a permitir que seus funcionários com maior remuneração possam depois de aposentados manter o padrão semelhante ao fruído durante a vida profissional. A autoridade fiscal limitouse a fundamentar o lançamento no único fato de ter a impugnante em algumas situações contabilizado na conta pertinente a ‘bônus a pagar’ valores relativos aos aportes ao plano de previdência privada feito à Itaú Vida e Previdência. Contudo, a natureza da verba não decorre da sua contabilização, mas do seu regime jurídico, este decorrente da relação jurídica estabelecida entre as partes e normas legais que lhe são aplicáveis. A contabilidade não cria fatos, nem direitos, apenas retrata a realidade e se não o faz de forma adequada, fica afastada a contabilização e prevalece a realidade fenomênica. A impugnante esclarece que deixou de registrar tais pagamentos em folha de pagamento e GFIP exatamente porque eles não possuem natureza remuneratória, nem constituem fato gerador das contribuições que estão sendo exigidas. Fl. 517DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 5 7 As contribuições são livres Por se tratar de um plano de previdência na modalidade de contribuição variável é inerente a ele a possibilidade de as contribuições da instituidora serem feitas em qualquer valor e a qualquer tempo, constando expressamente do regulamento do plano aprovado pela SUSEP e no contrato não haver obrigatoriedade de o participante contribuir. Nesse sentido também a Circular SUSEP nº 338/2007. O resgate nas condições efetuadas é um direito dos participantes Não se vislumbra a existência de uma contacorrente paralela de pagamento de remuneração disfarçada, já que mais de 90% dos casos de resgates apontadas pela fiscalização ou os recursos permaneceram parcialmente depositados na conta de previdência ou são integralmente transferidos para outra conta de previdência. O artigo 27 da LC nº 109/2001 não deixa dúvida de que ao participante é possibilitado o resgate total ou parcial das contribuições vertidas ao plano. Para corroborar suas alegações, a impugnante transcreve ainda o artigo 19 da Circular SUSEP nº 338/2007, o item 9.1 do Regulamento do Plano e os itens 12 e 12.3 do Contrato de Adesão. Os resgates já são tributados Nos termos da Lei nº 11.953/2004, há duas opções de tributação: tributação exclusiva na fonte, à alíquota de 35% a 10%, conforme prazo de permanência no plano, e tributação não exclusiva na fonte, à alíquota de 15%, ficando o beneficiário responsável pelo ajuste na declaração anual do imposto de renda, de acordo com a tabela progressiva. Se o beneficiário optar pela tributação não exclusiva e deixar de levar os valores resgatados ao ajuste anual, ele poderá pagar menos imposto de renda, mas não por causa do plano de previdência, e sim porque descumpriu a legislação tributária, situação em que caberá aos agentes fiscais detectar a infração e exigir o imposto eventualmente devido. Em hipótese alguma, esse possível fato pode ser invocado para justificar a descaracterização dos aportes para plano de previdência privada e sua transformação em bônus. Ausência de simulação de negócio jurídico Para a existência da simulação deve ocorrer dois negócios: um aparente e outro real (artigo 53 do Código Civil). No caso, existe apenas um negócio, que é o negócio aparente e o negócio real: Plano de Previdência Privada Aberta na modalidade FGB, instituído pela impugnante em favor de seus gerentes e diretores. Nada foi ocultado. Para que a simulação ocorresse seria necessário provar o envolvimento de várias partes: a impugnante, o participante, a Itaú Vida e Previdência S.A. e a própria SUSEP, que aprovou o regulamento do Fundo Corporate ITAUPREV, atestando tratarse de verdadeiro plano de previdência privada. Houve atendimento de todas as normas constitucionais e legais Fl. 518DF CARF MF 8 As contribuições foram pagas a entidade de previdência privada aberta legalmente constituída, autorizada a instituir e operar planos estruturados na forma da legislação aplicável à espécie e aprovados pelos órgãos superiores. Tanto é assim, que o plano de previdência privada aberta FGB, renda fixa, estruturado no regime financeiro de capitalização e na modalidade contribuição variável, foi devidamente aprovado pela SUSEP Processo nº 1006647/19940. Por sua vez, o Fisco em momento algum põe em dúvida a qualidade da entidade Itaú Vida e Previdência S.A., legalmente autorizada a instituir planos de previdência privada aberta nas modalidades previstas na legislação. Multa qualificada A fiscalização não descreveu uma única conduta que pudesse ensejar o seu enquadramento como sonegação, fraude ou conluio, previstas, respectivamente, nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Tais condutas típicas correspondem a uma tentativa do contribuinte de ocultar o fato gerador ou seus elementos, de impedir que a autoridade fiscal tome conhecimento dos fatos relevantes para permitir a correta exigência dos tributos devidos. O fato de a impugnante ter qualificado como aporte à previdência privada algo que a autoridade fiscal considera ser salário constitui uma mera divergência quanto à qualificação jurídica dos fatos ocorridos, incapaz de deflagrar a aplicação da multa qualificada, por não configurar fraude. Todos os fatos em que se pautou a fiscalização estão devidamente registrados na contabilidade da impugnante e na documentação relativa ao plano de previdência privada, tendo sido prestadas todas as informações solicitadas pela fiscalização, não havendo assim que se falar em aplicação de multa qualificada. Nas hipóteses em que se conclua que o contribuinte praticou atos de planejamento tributário ou elisão cujos efeitos fiscais devam ser desconsiderados pela Fazenda, como no caso concreto, mas que tais atos tenham sido práticos às claras, não pode ser imposta a multa qualificada, fato consagrado pela jurisprudência administrativa. Exigência de juros sobre a multa de ofício A prevalecer a exigência fiscal, o Fisco certamente exigirá da impugnante juros de mora sobre o valor da multa de ofício, como vem procedendo em outros casos, o que acresce em muito o valor supostamente devido. Assim, ainda que não exigida neste auto de infração, a impugnante impugna a pretensão, até para que não se alegue posteriormente que tal matéria não poderia ser objeto de exame porque não foi abordada na defesa apresentada. A exigência de juros sobre multa não tem suporte legal. A legislação que rege a matéria apenas autoriza a incidência de multa e juros sobre o valor atualizado do tributo. Nesse sentido, existem várias decisões administrativas, inclusive da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Os débitos de tributos e de multas têm causas diversas, conforme expresso no artigo 3º do CTN. Fl. 519DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 6 9 Nos termos do artigo 61 da Lei nº 9.430/96, os juros de mora incidem apenas sobre os débitos decorrentes de tributos e contribuições. Portanto, não abrange o débito relativo à multa de ofício lançada, até porque referido artigo está a disciplinar os acréscimos moratórios incidentes sobre os débitos em atraso que ainda não foram objeto de lançamento. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 evidencia ainda mais que o artigo 61 da Lei nº 9.430/96 prevê a cobrança de juros unicamente sobre o valor dos tributos e contribuições. Se contemplasse também a multa de ofício, não haveria necessidade alguma da previsão do parágrafo único do artigo 43 da Lei nº 9.430/96, que prevê a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício lançada isoladamente. O Sr. Kenneth Carlson Geld (responsável solidário), apresentou impugnação, na qual alega e requer, em suma, o seguinte: Nulidade do Termo de Sujeição Passiva – Inexistência de fundamento O Termo de Verificação Fiscal não motivou a imputação de responsabilidade solidária à impugnante, que na época dos supostos fatos geradores ocupava o cargo de presidente do conselho de administração, em violação ao artigo 142 do Código Tributário Nacional, aos artigos 5º, II, 37, e 150, I, todos da Constituição Federal, e da Portaria RFB nº 2.284/2010. Inexistência de infração O impugnante se reporta as razões expostas pela autuada, segundo a qual ficou evidente que não ocorreu a suposta infração imputada à autuada, o que é razão suficiente para justificar a exclusão do nome da impugnante dos autos de infração em causa, conforme síntese que segue: a) não há que se falar em pagamento de bônus, tendo a acusação fiscal concluído sua suposta existência unicamente em razão de erro de escrituração cometido pela autuada; b) o plano de previdência complementar mantido pela autuada segue todas as determinações legais e regulamentares pertinentes, não havendo assim, razão para que seja desconsiderado pela fiscalização tributária; c) quando menos, é incabível a qualificação da multa de ofício em razão da inexistência da simulação alegada pela fiscalização. Inaplicabilidade do artigo 124, I, do CTN Mediante a leitura conjunta dos incisos I e II do artigo 124 do Código Tributário Nacional, percebese que o inciso I trata das hipóteses em que, mesmo sem a designação expressa em lei, aquelas pessoas, em razão do interesse comum na situação que constitui o fato gerador, são unidas por uma solidariedade natural, como a que existe entre coproprietários de um bem, ou entre cônjuges unidos mediante regime de comunhão de bens. Já entre a pessoa jurídica e o presidente de seu conselho administrativo não se pode vislumbrar a existência de um vínculo de "solidariedade natural", razão pela qual pretender aplicar ao caso concreto o artigo 124, I do CTN demandaria admitir que o fato de os Fl. 520DF CARF MF 10 administradores de uma empresa terem possivelmente "interesse" em que a mesma gere bons resultados os faz responsáveis tributários pelos tributos e contribuições devidos pela empresa. No presente caso, houve uma indevida largueza na interpretação do artigo 124, I, do CTN por parte da autoridade fiscal. Não fosse a mera exegese do artigo 124, I do CTN suficiente para demonstrar sua inaplicabilidade ao caso concreto, o fato de o CTN tratar a responsabilidade dos administradores pelos tributos devidos pela empresa em norma específica (artigo 135) reafirma a total inadequação da aplicação do artigo 124, I ao caso concreto. O Plenário do STF reconheceu por unanimidade no RE n° 562.276/PR a inconstitucionalidade formal e material do artigo 13 da Lei n° 8.620/93, que estabelecia responsabilidade solidária dos sócios pelas dívidas tributárias das empresas por cotas de responsabilidade limitada, argumentando exatamente que a responsabilidade solidária que independe da prática de ato ilícito não decorre do artigo 135 do CTN, nem é albergada por nosso ordenamento jurídico em se tratando de sócios, gerentes e administradores de pessoas jurídicas. E se nem a lei pode prever a responsabilidade solidária entre os sócios, diretores, gerentes, administradores e as sociedades, menos ainda poderá fazêlo o intérprete da legislação como está ocorrendo no caso concreto. Inaplicabilidade do artigo 135 do CTN No caso concreto, em momento algum o Fisco demonstrou que o impugnante teria agido com excesso de poderes ou infração à lei ou aos estatutos da autuada. Assim, o impugnante não está sendo responsabilizado por ato ilícito próprio, mas por suposto descumprimento da legislação tributária por parte da pessoa jurídica, e, por conseqüência, teve seu nome incluído no auto de infração apenas porque à época do suposto fato gerador integrava a administração da Autuada. Por essa razão, a autoridade fiscal não logrou demonstrar qualquer ato ilícito praticado pelo impugnante, sendo pacífica a jurisprudência dos nossos Tribunais e do CARF no sentido de que sem essa prova cabal não pode haver responsabilização dos diretores e administradores nos termos do artigo 135 do CTN. Nessas condições, não remanesce dúvida quanto à impossibilidade de se arrolar o impugnante como responsável pelos débitos lançados, em face da ausência de demonstração da prática de atos enquadráveis nos artigos 135 "caput" do CTN. Manutenção da responsabilidade do contribuinte Embora existam opiniões divergentes, é prevalecente na doutrina e na jurisprudência do CARF que, por falta de previsão expressa na legislação para a exoneração do contribuinte, mesmo caracterizada a responsabilidade do diretor ou administrador, não fica a devedora principal exonerada, estabelecendose nesse caso "solidariedade" entre ambos, podendo o Fisco exigir a dívida de qualquer deles. Essa solidariedade, porém difere daquela prevista no artigo 124 do CTN, pois esta não prescinde da prova da prática de ato ilícito pelos diretores e administradores. Assim, ainda que comprovada a prática de ato ilícito por parte do impugnante, a responsabilidade da pessoa jurídica não ficaria afastada, porque é ela a devedora principal. Fl. 521DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 7 11 No caso concreto, em que a devedora principal é empresa existente, solvente, estando em situação absolutamente regular perante o Fisco, gozando de sólida situação financeira, não tem o menor sentido ou utilidade para o Fisco a inclusão do nome do impugnante no auto de infração como devedor solidário, até porque em momento algum a fiscalização fez ao menos referência de suposta prática de ato com excesso de poderes ou violação à lei ou aos estatutos por ele praticado. Sujeição passiva. Prejuízos irreparáveis ao impugnante A manutenção do nome do impugnante como devedor solidário é indevida, podendo acarretarlhe graves prejuízos, bem como violação ao seu direito de propriedade e ao direito de livre exercício de profissão, garantidos pelo artigo 5º, XIII e XXII da CF/88, além da violação aos artigos 5º, II, 37 e 150, I, da CF/88, dos artigos 124, I e 135, III e 142 do CTN, bem como da jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do CARF. A DRJ julgou a impugnação parcialmente procedente, mantendo o crédito tributário, mas excluindo a responsabilidade do Sr. Kenneth Carlson Geld, e o acórdão recorrido (fls. 424 e ss) recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de Apuração: 01/06/2009 a 31/07/2009 SALÁRIODECONTRIBUIÇÃO. BÔNUS. PARCELA INTEGRANTE DO SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. AUSENTE DESVINCULAÇÃO DO SALÁRIO POR FORÇA DE LEI. As importâncias pagas a título de bônus integram o salário de contribuição quando não expressamente desvinculadas do salário por força de lei. SALÁRIODECONTRIBUIÇÃO. PROGRAMA DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR PRIVADA. O valor das contribuições pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar privada, aberta ou fechada, integra o saláriodecontribuição, quando em desacordo com a legislação específica. PRINCIPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE. APLICAÇÃO. Em matéria tributária aplicase o princípio da primazia da realidade, segundo o qual a real essência do fato gerador é a que deve prevalecer. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. O pagamento de bônus através de crédito em conta de previdência complementar, em simulação de negócio Fl. 522DF CARF MF 12 jurídico, configura a prática de sonegação, situação para qual está prevista a aplicação de multa de ofício qualificada, nos termos do artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/1996 combinado com o artigo 71 da Lei nº 4.502/64. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. REPRESENTANTE DA PESSOA JURÍDICA (PRESIDENTE). CONCATENAÇÃO ENTRE O FUNDAMENTO LEGAL E FÁTICO. AUSÊNCIA. A motivação da responsabilidade solidária do representante da pessoa jurídica deve ser efetuada através de uma concatenação lógica entre os fundamentos legais dessa responsabilidade e os correspondentes fundamentos fáticos apurados durante o procedimento fiscal. INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. É vedado à autoridade julgadora afastar a aplicação de leis, decretos e atos normativos por inconstitucionalidade. Contra a decisão, o recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 459 e ss) reiterando os argumentos apresentados na impugnação, ressaltando que a Constituição Federal estabelece que as contribuições que tenham natureza de previdência privada sejam pagas a empresa de previdência privada regularmente constituída, o que configuraria verdadeira imunidade, assim como o participante do plano de previdência privada tem o direito ao resgate do plano e que grande parte dos resgastes foram parciais e não totais. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Da Questão da Incidência da Contribuição Previdenciária sobre os Pagamentos a Título de Previdência Privada O Plano de Previdência Complementar de Contribuição Variável, na modalidade FGB mantido pela Recorrente foi instituído com total atendimento às normas constitucionais e legais que disciplinam a matéria, em especial o artigo 202 da CF/88 e os artigos 26 e 27 da Lei Complementar 109, de 29.05.201l, que disciplinam os Planos de Benefícios instituídos por Entidades Abertas, como é o caso da Itaú Vida e Previdência S. A., como pode ser observado abaixo: “Art. 26. Os planos de benefícios instituídos por entidades abertas poderão ser: Fl. 523DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 8 13 I individuais, quando acessíveis a quaisquer pessoas físicas; ou II coletivos, quando tenham por objetivo garantir benefícios previdenciários a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma pessoa jurídica contratante. § 1º. O plano coletivo poderá ser contratado por uma ou várias pessoas jurídicas. § 2º. O vínculo indireto de que trata o inciso II deste artigo referese aos casos em que uma entidade representativa de pessoas jurídicas contrate plano previdenciário coletivo para grupos de pessoas físicas vinculadas a suas filiadas. § 3º. Os grupos de pessoas de que trata o parágrafo anterior poderão ser constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, podendo abranger empresas coligadas, controladas ou subsidiárias, e por membros de associações legalmente constituídas, de caráter profissional ou classista, e seus cônjuges ou companheiros e dependentes econômicos. (...)” Art. 27. Observados os conceitos, a forma, as condições e os critérios fixados pelo órgão regulador, é assegurado aos participantes o direito à portabilidade, inclusive para plano de benefício de entidade fechada, e ao resgate de recursos das reservas técnicas, provisões e fundos, total ou parcialmente.” (destaques nossos) Assim, cumpre ressaltar que o Plano de Previdência Complementar de Contribuição Variável na modalidade FGB em causa é um plano coletivo que garante benefícios previdenciários a um grupo de pessoas, constituídos por mais de uma categoria de empregados e dirigentes, diretamente vinculados à Recorrente e outras empresas do Grupo LDC, implantado mediante contrato celebrado com a Itaú Vida e Previdência S. A. com atendimento a todas as exigências de forma, critérios, condições e requisitos mínimos estabelecidos pelo órgão regulador, no caso a SUSEP, que aprovou o Regulamento Básico Plano Fundo Corporate Itauprev – sob o Processo SUSEP nº 1006647/19940 (Item 1.1 do Regulamento – doc. 02 da impugnação – e Item 19 do Contrato – fl. 99 dos autos). No Título VIII – Da Ordem Social, a Constituição Federal de 1988 no Título VIII – Da Ordem Social – cuida da Seguridade Social e da Educação, da Cultura e do Desporto prevendo as ações dos Poderes Públicos e da sociedade destinadas a assegurar a todos os direitos à saúde, à previdência e à assistência social (arts. 194 a 204) e à educação (artigos 205 a 217). Fl. 524DF CARF MF 14 Ainda que tais ações devessem caber ao Estado, o constituinte tem incentivado a participação dos particulares nestas áreas, de forma que as empresas que, por iniciativa própria ou por força de negociação coletiva, oferecem a seus empregados benefícios nestas áreas, ficam desoneradas de incidências tributárias. Cumpre ressaltar que tais benefícios não têm relação com o trabalho prestado, se originando da exclusiva vontade do empregador ou de negociações coletivas. Mesmo que sob a égide do contrato de trabalho, são prestações de caráter benemerente, em completa desconexão com seus aspectos contraprestacionais. Diante da ausência do caráter contraprestacional, a CF/88, a legislação ordinária, a doutrina e a jurisprudência têm reconhecido a natureza assistencial e/ou previdenciária de tais prestações, que, assim, por natureza não integram o salário, nem a remuneração dos empregados para nenhum efeito. Este é o caso das prestações no âmbito da previdência privada em causa que, a despeito das mencionadas normas constitucionais, o Fisco pretende indevidamente incluir na base de cálculo das contribuições ao INSS e Terceiros. Nesse ponto, ressaltamos a distinção entre verbas pagas "pelo" trabalho e verbas pagas "para" o trabalho, tão bem assinalada pelo exministro do Tribunal Superior do Trabalho, Pedro Paulo Teixeira Manus quando analisou a natureza não salarial da PLR: “Buscase assim instituir uma melhoria no padrão de vida dos trabalhadores, sem aumentar sua remuneração. Isso porque do ponto de vista trabalhista as verbas pagas “pelo” trabalho têm sempre natureza salarial. Já aquelas que são pagas “para” o trabalho não têm natureza de salário. Isso significa, por exemplo, que uma gratificação pela assiduidade, ou pela produção tem natureza de salário, pois é instituída pelo trabalho. Já uma verba paga para cobrir despesas comprovadas no exercício de uma função não tem natureza salarial, porque é requisito para desenvolvimento do trabalho, o que não ocorre no primeiro caso. (MANUS, Pedro Paulo Teixeira. Direito do Trabalho. 14ª ed. São Paulo: Atlas, 2012. Pp.151152) Embora tal texto tenha sido feito no âmbito da análise da PLR, o mesmo raciocínio pode ser aplicado para os pagamentos de previdência privada, uma vez que a previdência privada não é paga “pelo” trabalho, mas sim paga “para” o trabalho. O sistema de previdência privada foi instituído como forma de suplementar o sistema previdenciário oficial pela Lei nº 6.435/77, de modo que é reconhecido o seu relevante interesse social e econômico. Vale notar que a previdência privada está regida no artigo 202 da CF/88 e pela Lei Complementar nº 109/01 que acabaram recepcionando e aperfeiçoando os institutos acima referidos. Nessa linha, observase o artigo 202, da Constituição caput e parágrafos 1º e 2º da CF/88, na redação da Emenda Constitucional nº 20/98, verbis: “Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) Fl. 525DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 9 15 (...) § 2º As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998).” A partir da leitura do parágrafo 2º acima, o que era mera previsão legal (artigo 2º do Decretolei nº 2296/86), ganhou status constitucional. Assim, por força de norma constitucional expressa, as contribuições em causa não integram a remuneração dos participantes de Planos de Previdência Privada, não podendo em razão disso ser incluídas na base de cálculo das contribuições previdenciárias. Tal regra constitucional é reafirmada na Lei Complementar nº 109/01, que assim dispõe: “Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1º. Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza.” De acordo com o parágrafo 2º do artigo 202 da CF/88, basta que as contribuições da empresa destinadas a custear planos de previdência privada em benefício dos empregados e dirigentes sejam pagas a entidades de previdência privada regularmente constituídas, cujos planos tenham sido instituídos na forma da lei, para que não sejam consideradas integrantes da remuneração. Em sendo assim, desde que as contribuições sejam vertidas para Planos de Previdência Privada estruturados e administrados por empresa que se dedica a essa atividade com o atendimento da legislação específica, não pode a fiscalização pretender que tais contribuições sejam consideradas pagamento de remuneração disfarçada, porque essa não é a sua natureza. Em que pese a disposição constitucional do §2º do artigo 202 da Constituição Federal no sentido de que os pagamentos de previdência privada não integram o contrato de Fl. 526DF CARF MF 16 trabalho, o artigo 28, §9º, p, da Lei nº 8.212/91 explicitou que o pagamento de previdência privada não integra o salário de contribuição, nos seguintes termos: Art. 28. Entendese por salário de contribuição: (...) §9º Não integram o salário de contribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluída pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). Vale dizer que o referido dispositivo somente explicita uma não incidência da contribuição previdenciária sobre os valores pagos a título de previdência privada, sendo que no caso há uma não incidência qualificada constitucionalmente, de modo que ainda que não houvesse o oferecimento à totalidade dos empregados e dirigentes, isso não transformaria a natureza jurídica do pagamento de previdência privada a tornando parte do contrato do trabalho e lhe conferindo caráter salarial. É importante notar que os fatos invocados pela autoridade fiscal como justificativa para a exigência de contribuições previdenciárias e de terceiros, considerados indícios da suposta ilegalidade que teria sido praticada pela Recorrente, não são vedados ou são expressamente admitidos pela legislação que disciplina a matéria. Assim, não há vedação para que os planos das entidades abertas sejam instituídos para grupos de pessoas constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, bem como somente existam contribuições do empregador e não existam contribuições do empregado. Ademais, o resgate da previdência privada configura item de previsão obrigatória, constituindo um direito do participante. Dessa forma, as contribuições são livres na medida em que se trata de um plano de previdência na modalidade de contribuição variável, no qual é inerente a possibilidade de as contribuições da instituidora serem feitas em qualquer valor e a qualquer tempo, constando expressamente do regulamento do plano aprovado pela SUSEP e no contrato não haver obrigatoriedade de o participante contribuir. No tocante ao direito ao resgate dos participantes do plano de previdência privada, ao contrário do que entende a fiscalização não é possível vislumbrar a existência de uma contacorrente paralela de pagamento de remuneração disfarçada, já que mais de 90% dos casos de resgates apontadas pela fiscalização ou os recursos permaneceram parcialmente depositados na conta de previdência ou são integralmente transferidos para outra conta de previdência. Ocorre que a Recorrente traz à baila a informação de que dos 230 resgates efetuados, somente 16 correspondem a resgates totais, enquanto 209 a resgates parciais e 5 a migração externa total. Somese a isso o fato de que os resgates já são tributados no âmbito do imposto de renda. Além disso, o artigo 27 da LC nº 109/2001 possibilita que o participante efetue o resgate total ou parcial das contribuições vertidas ao plano. Fl. 527DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 10 17 Cabe salientar que as regras do plano FGB estão definidas no Regulamento Básico do Fundo Corporate Itauprev e no Contrato e estão rigorosamente de acordo com a legislação previdenciária em vigor, sendo que as regras relativas às contribuições e resgates de previdência privada estão previstas n Regulamento Básico do Fundo Corporate Itauprev e no Contrato, conforme pode ser observado abaixo: Regulamento 5.1 O custeio das coberturas contratadas caberá ao Participante, à Instituidora, ou a ambos, na forma e/ou valor definidos na Proposta de Inscrição, conforme estabelecido em Contrato de Adesão. 9.3 O direito à solicitação de resgate relativo às contribuições efetuadas pelo participante é imediato e, como relação às contribuições efetuadas pela Instituidora, deverá estar previsto em Contrato de Adesão. Contrato de Adesão 6.3 Contribuição Extraordinária: A efetivação da contribuição extraordinária não gera obrigação de contrapartida para a outra parte. 12. Resgate. Durante o período de diferimento será permitido ao Participante, após 60 dias a contar da data do protocolo da proposta de inscrição, solicitar o resgate total ou parcial da provisão do Participante, observada a legislação vigente na ocasião da solicitação e o disposto na cláusula 12.3 adiante. 12.3 O resgate, parcial ou total, pelo Participante, de contribuições extraordinárias aportadas pela Instituidora poderá ser efetuado a qualquer momento a partir do 5º dia útil contado da data em que a Instituidora fizer o aporte respectivo, mediante entrega da solicitação pelo Participante. Tal Regulamento está em conformidade com a Circular SUSEP nº 338/07, que alterou e consolidou as regras e critérios de funcionamento e operação da cobertura por sobrevivência oferecida por planos de previdência. No tocante aos diretores e gerentes, cumpre ressaltar que ainda que não façam aportes para o plano FGB, contribuem para os outros dois planos que integram o programa de previdência complementar mantido pela Recorrente. A fiscalização está se voltando contra a própria legislação, na medida em que esta prevê expressamente várias modalidades de planos, contribuições variáveis, valor e periodicidade livres, liberdade aos participantes para efetuar ou não suas contribuições e direito ao resgate. Por fim, cumpre salientar que a natureza jurídica da verba não decorre da rubrica contábil, de modo que o mero registro contábil do valor dos aportes para o plano de previdência privada na rubrica ‘bônus’ e a falta de informação dos pagamentos desses ‘bônus’ em folha de pagamento e GFIP não autoriza a descaracterização dos aportes como contribuição para previdência privada e seu enquadramento como remuneração variável. Fl. 528DF CARF MF 18 Assim, não ficou comprovada a afirmação, da autoridade fiscal, de que a Recorrente efetuou pagamento de remuneração variável em razão de metas atingidas, foi feita sem o amparo de qualquer prova contida nos autos. Ocorre que os aportes de previdência complementar não são fixados em razão de quaisquer metas acordadas, mas em virtude da remuneração dos participantes de forma a permitir que seus funcionários com maior remuneração possam depois de aposentados manter o padrão semelhante ao fruído durante a vida profissional. Logo, a suposta simulação somente poderia ter ocorrido se houvesse o envolvimento de várias partes: a Recorrente, o participante, a Itaú Vida e Previdência S.A. e a própria SUSEP, que aprovou o regulamento do Fundo Corporate ITAUPREV, atestando tratar se de verdadeiro plano de previdência privada. Ante o exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário no tocante à não incidência da contribuição previdenciária sobre os pagamentos a título de previdência privada. Da Questão da Multa qualificada Tal qual exposto pela Recorrente, não houve descrição de conduta que pudesse ensejar o seu enquadramento como sonegação, fraude ou conluio, previstas, respectivamente, nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, sendo que tais condutas típicas se referem a situações nas quais o contribuinte tenta ocultar o fato gerador ou seus elementos, ou impedir que a autoridade fiscal tome conhecimento dos fatos relevantes para permitir a correta exigência dos tributos devidos. O mero fato da Recorrente ter qualificado como aporte à previdência privada algo que a autoridade fiscal entende possuir natureza salarial configura uma mera divergência quanto à qualificação jurídica dos fatos ocorridos, incapaz de deflagrar a aplicação da multa qualificada, por não configurar fraude. Somese a isso o fato de que todas as situações sobre as quais a fiscalização se pautou estão devidamente registrados na contabilidade da Recorrente e na documentação relativa ao plano de previdência privada, tendo sido prestadas todas as informações solicitadas pela fiscalização, não havendo assim que se falar em aplicação de multa qualificada. Sendo assim, voto por afastar a multa qualificada no caso em tela. Da Questão da Incidência de Juros de Mora sobre a Multa Por fim, a Lei n° 9.430/97, em seu artigo 61 passou a dispor que sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal, incidirão juros de mora à taxa SELIC, veja: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1° de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (.) § 3° Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3° do art. 5°, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do Fl. 529DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 11 19 prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Partindo do disposto no referido artigo, a discussão centrouse na interpretação da expressão "débitos decorrentes de tributos e contribuições", sendo que a multa de ofício não é débito decorrente de tributos e contribuições, decorrendo, nos exatos termos do art. 44 da Lei nº 9.430/96, da punição aplicada pela fiscalização às seguintes condutas: “a) falta de pagamento ou recolhimento dos tributos e contribuições, após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória; e b) falta de declaração e nos de declaração inexata.” Dessa forma, a regra veiculada pelo art. 61 da Lei n.° 9.430/96 referese à incidência de acréscimos moratórios sobre ‘débitos decorrentes de tributos e contribuições’, sendo certo que a penalidade pecuniária não decorre de tributo ou contribuição, mas do descumprimento do dever legal de declarálo e/ou pagálo, de onde se extrai a conclusão de ser inaplicável os juros de mora a taxa Selic sobre a multa de oficio. Conclusão Com base no exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e darlhe provimento. (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Voto Vencedor Conselheira Andrea Brose Adolfo Descaracterização de Plano de Previdência Complementar Incidência de Contribuições Previdenciárias Tratase de lançamento de contribuições previdenciárias sobre pagamentos de remuneração, efetuados pela empresa, através de crédito nas contas de Previdência Complementar dos empregados e contribuintes individuais elegíveis a BÔNUS. Estes lançamentos referemse ao Plano FGB de Contribuição Variável junto à seguradora ITAU VIDA E PREVIDENCIA S A, no período de 06/2009 e 07/2009. Constatado o pagamento de previdência privada de forma dissimulada pela empresa, tais valores passaram a integrar o salário de contribuição base de cálculo das contribuições previdenciárias. Afirma a recorrente que valores pagos a título de previdência complementar aberta não integram o salário de contribuição por força dos artigos 26 e 69 da LC 109/01, e entende ser inaplicável a Lei 8.212/91, art. 28, §9°, alínea 'p'. Sobre a matéria transcrevo excertos do voto da Conselheira Miriam Denise Xavier Lazarini, no acórdão nº 2401004.939, de 04/07/2017, ao analisar lançamento idêntico de outra empresa do mesmo grupo: Fl. 530DF CARF MF 20 Diante da possibilidade de se aplicar mais de uma lei perante um mesmo caso, os critérios clássicos de resolução do conflito sempre prezaram pela exclusão de uma das leis (critérios hierárquico, da especialidade e cronológico), e não pela conformação de todas as existentes na busca de tutelar a relação jurídica posta na melhor forma possível, tornando o sistema jurídico harmônico. Sobre o tema, a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), Decreto 4.657/42, na redação dada pela Lei 12.376/10, estabelece que a lei nova nem sempre revoga ou modifica a anterior: Art. 2°. [...] §2° A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior. Percebese então a necessidade de o Direito ser analisado como um todo, viabilizando a aplicação conjunta das normas citadas, já que ambas tratam do sistema previdenciário. Assim, o disposto na Lei 8.212/91, art. 28, § 9º, alínea 'p', deve ser analisado em conformidade com o que determina a LC 109/01, artigos 16, 26, 68 e 69. Sobre a previdência complementar, a Constituição Federal em seu art. 202, dispõe: Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar. (grifo nosso) § 1° A lei complementar de que trata este artigo assegurará ao participante de planos de benefícios de entidades de previdência privada o pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos. § 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. Vêse, portanto, que o regime de previdência privada deve estar baseado na constituição de reservas que garantam o benefício de caráter previdenciário contratado. Se assim o for, as contribuições vertidas pelo empregador (patrocinador do plano) não integram a remuneração, logo, não são base de cálculo de contribuição previdenciária. Não cabe aqui interpretação diversa, pois somente cabe falar em previdência complementar quando suas características estão Fl. 531DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 12 21 presentes. No caso da previdência complementar, deve ser observado o disposto na LC 109/01. Quanto à Lei 8.212/91, art. 28, § 9º, alínea 'p', ela deve ser aplicada no que não for incompatível com a LC 109/01, pois esta é especial e posterior àquela. A LC 109/01, no que tange a previdência complementar, dispõe que: Art. 1º O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, é facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício, nos termos do caput do art. 202 da Constituição Federal, observado o disposto nesta Lei Complementar. (grifo nosso) Art. 2º O regime de previdência complementar é operado por entidades de previdência complementar que têm por objetivo principal instituir e executar planos de benefícios de caráter previdenciário, na forma desta Lei Complementar. (grifo nosso) Art. 26. Os planos de benefícios instituídos por entidades abertas poderão ser: I individuais, quando acessíveis a quaisquer pessoas físicas; ou II coletivos, quando tenham por objetivo garantir benefícios previdenciários a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma pessoa jurídica contratante. § 1º O plano coletivo poderá ser contratado por uma ou várias pessoas jurídicas. § 2º O vínculo indireto de que trata o inciso II deste artigo referese aos casos em que uma entidade representativa de pessoas jurídicas contrate plano previdenciário coletivo para grupos de pessoas físicas vinculadas a suas filiadas. § 3º Os grupos de pessoas de que trata o parágrafo anterior poderão ser constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador, podendo abranger empresas coligadas, controladas ou subsidiárias, e por membros de associações legalmente constituídas, de caráter profissional ou classista, e seus cônjuges ou companheiros e dependentes econômicos. § 4º Para efeito do disposto no parágrafo anterior, são equiparáveis aos empregados e associados os diretores, conselheiros ocupantes de cargos eletivos e outros dirigentes ou gerentes da pessoa jurídica contratante. Fl. 532DF CARF MF 22 § 5º A implantação de um plano coletivo será celebrada mediante contrato, na forma, nos critérios, nas condições e nos requisitos mínimos a serem estabelecidos pelo órgão regulador. § 6º É vedada à entidade aberta a contratação de plano coletivo com pessoa jurídica cujo objetivo principal seja estipular, em nome de terceiros, planos de benefícios coletivos. Art. 68. As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstos nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência complementar não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes. § 1º Os benefícios serão considerados direito adquirido do participante quando implementadas todas as condições estabelecidas para elegibilidade consignadas no regulamento do respectivo plano. § 2º A concessão de benefício pela previdência complementar não depende da concessão de benefício pelo regime geral de previdência social. Art. 69. As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1º Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. (grifo nosso) § 2º Sobre a portabilidade de recursos de reservas técnicas, fundos e provisões entre planos de benefícios de entidades de previdência complementar, titulados pelo mesmo participante, não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Da leitura dos dispositivos legais citados, concluise que para um plano ser considerado de previdência complementar, devem ser observadas as seguintes condições: i) constituição de reservas que garantam o benefício contratado; e ii) as entidades de previdência complementar têm por objetivo instituir e executar planos de benefícios de caráter previdenciário. Podese observar ainda que a LC 109/01 inovou ao dispor que os planos coletivos, quando tenham por objetivo garantir benefícios previdenciários a pessoas físicas vinculadas, direta ou indiretamente, a uma pessoa jurídica contratante, poderão ser constituídos por uma ou mais categorias específicas de empregados de um mesmo empregador. E ainda determinou que as contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio dos planos de benefícios de Fl. 533DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 13 23 natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda e que sobre essas contribuições não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza. Contudo, não há como interpretar o art. 69 da LC 109/01, sem antes observar o comando constitucional (art. 202) e o disposto no art. 1º da própria LC 109/01, onde se impõe a necessidade do caráter previdenciário e a constituição de reservas. O caráter previdenciário está ligado à finalidade do sistema e não ao instrumento que o viabiliza. Tem como objetivo prover uma renda adicional aos trabalhadores quando do atendimento dos requisitos de elegibilidade aos benefícios previstos nos planos. Pressupõe o pagamento de contribuições, a constituição de reservas e a sua capitalização; o interesse deliberado em formar reservas, capitalizando contribuições, para uso futuro, quando ocorrerem eventos incapacitantes para o próprio sustento do segurado pelo produto do seu trabalho, seja por idade avançada, doença ou acidente. Assim, o caráter previdenciário de um plano de benefícios somente pode ser concretizado por meio da constituição de reservas, realizandose aportes financeiros, que investidos, formarão a reserva matemática do plano, objetivandose atender às necessidades futuras. A previsão legal do participante resgatar contribuições tem por objetivo resguardar seu direito de reaver as contribuições que verteu para o plano, caso não queira mais participar. Entretanto, a previsão de resgates da contribuição para o plano efetuada pela patrocinadora, na forma como ora se apresenta, retira, por completo, o caráter previdenciário do plano contratado, configurando, como bem demonstrou a fiscalização, que o plano foi usado simplesmente para remunerar os trabalhadores. Assim, os valores pagos a título de previdência complementar, regime aberto, não estão sujeitos à incidência da contribuição previdenciária, desde que não sejam caracterizados como instrumento de incentivo ao trabalho, situação que não se verifica no presente caso. Acrescentese que para o plano em análise, também não restaram cumpridos os requisitos do art. 10 da LC 109/01: Art. 10. Deverão constar dos regulamentos dos planos de benefícios, das propostas de inscrição e dos certificados de participantes condições mínimas a serem fixadas pelo órgão regulador e fiscalizador. Fl. 534DF CARF MF 24 § 1º A todo pretendente será disponibilizado e a todo participante entregue, quando de sua inscrição no plano de benefícios: I certificado onde estarão indicados os requisitos que regulam a admissão e a manutenção da qualidade de participante, bem como os requisitos de elegibilidade e forma de cálculo dos benefícios; (grifo nosso) II cópia do regulamento atualizado do plano de benefícios e material explicativo que descreva, em linguagem simples e precisa, as características do plano; III cópia do contrato, no caso de plano coletivo de que trata o inciso II do art. 26 desta Lei Complementar; e IV outros documentos que vierem a ser especificados pelo órgão regulador e fiscalizador. No item 3.1 do contrato firmado entre a Louis Dreyfus e a Itaú Vida, consta que o plano é disponível a todos os empregados e/ou administradores da instituidora que sejam elegíveis. Esta cláusula é genérica, pois não há discriminação de quem são os empregados ou administradores elegíveis, ou seja, que podem ser admitidos no plano.(Grifos no original) Portanto, a oferta do plano de previdência era feita a quem a empresa desejava, sem nenhuma previsão contratual, também efetuava as contribuições de forma totalmente discricionária. Plano Aprovado Pela Susep A recorrente alega que seu plano foi aprovado pela Susep e, por isso, está de acordo com a legislação. Salientese que a atividade da Susep como órgão regulador e fiscalizador, previsto na LC 109/01, quis assegurar ao participante a solvência do plano, devendo sempre ser avaliado seu equilíbrio financeiro e atuarial. A fiscalização das entidades de previdência complementar aberta pela Susep não afasta a competência das autoridades fiscais, relativamente ao pleno exercício das atividades de fiscalização tributária, conforme determina o § 4º do art. 41 da LC 109/01: Art. 41. No desempenho das atividades de fiscalização das entidades de previdência complementar, os servidores do órgão regulador e fiscalizador terão livre acesso às respectivas entidades, delas podendo requisitar e apreender livros, notas técnicas e quaisquer documentos, caracterizandose embaraço à fiscalização, sujeito às penalidades previstas em lei, qualquer dificuldade oposta à consecução desse objetivo. [...] § 4o O disposto neste artigo aplicase, sem prejuízo da competência das autoridades fiscais, relativamente ao pleno exercício das atividades de fiscalização tributária. Fl. 535DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 14 25 Portanto, não é porque a comercialização de referido plano de previdência foi autorizada pelo órgão competente e o contrato foi celebrado com entidade de previdência complementar regularmente constituída, que a autoridade fiscal não pode desqualificálo, para fins fiscais, se ficar comprovado que os valores pagos, o foram como instrumento de incentivo ao trabalho. Aportes e Resgates Sobre os valores aportados e resgatados nos Planos de Previdência Privada mantidos pela empresa fiscalizada, conforme consta do TVF, mediante diligência na seguradora ITAU VIDA E PREVIDENCIA S/A, foi constatado que: o Plano de Previdência Complementar de Contribuição Variável (Tipo FGBFundo Garantidor de Beneficio) só apresentava Contribuições Extraordinárias da Instituidora (LDCA). Os resgates eram constantes (Totais ou parciais), indicando desvirtuamento do instituto da Previdência Privada pois, atuariamente, inviabilizava renda futura aos beneficiários. diversos resgates quase que em seguida ao aporte. Analisando o contrato de previdência complementar anexado às efls. 91/104, verificase essa possibilidade, conforme as seguintes cláusulas: 12. RESGATE. Durante o período de diferimento será permitido ao Participante, após 60 (sessenta) dias a contar da data do protocolo da proposto de inscrição, solicitar o resgate total ou parcial da Provisão do Participante, observada a legislação vigente na ocasião da solicitação e o disposto na cláusula 12.3 adiante. ... 12.3. O resgate, parcial ou total, pelo Participante, de contribuições extraordinárias aportadas pela INSTITUIDORA poderá ser efetuado a qualquer momento a partir do 5º (quinto) dia útil contado da data em que a INSTITUIDORA fizer o aporte respectivo, mediante entrega da solicitação pelo participante. 12.3.2. O intervalo mínimo entre resgates das contribuições extraordinárias da INSTITUIDORA é de 03 (três) dias úteis contados a partir do último crédito. Vêse que há autorização expressa para resgates logo após os aportes, contrariando, inclusive o disposto na Resolução CNSP 139/05, art. 56, § 4º: Art. 56. Durante o período de diferimento, e na forma regulada pela SUSEP, será permitido ao participante resgatar os recursos da provisão matemática de benefícios a conceder. [...] § 4º Os recursos correspondentes a cada uma das contribuições das pessoas jurídicas no plano de previdência somente poderão ser resgatados após período de carência de um ano civil completo, Fl. 536DF CARF MF 26 contado a partir do primeiro dia útil do mês de janeiro do ano subseqüente ao da contribuição. Alega ainda a recorrente que as disposições contratuais sobre contribuições e resgates estão em consonância com a Circular SUSEP n° 338/07, que altera e consolida critérios de funcionamento, operação e cobertura por sobrevivência oferecida por planos de previdência. Tal Circular dispõe que: Art. 8º. Para os planos estruturados na modalidade de contribuição variável, o valor e a periodicidade das contribuições poderão ser definidos na proposta de inscrição, sendo facultado ao participante efetuar pagamentos adicionais a qualquer tempo. ... Art. 19. O participante poderá solicitar, independentemente do número de contribuições pagas, resgate, parcial ou total, de recursos do saldo da provisão matemática de benefícios a conceder, após o cumprimento de período de carência, que deverá estar compreendido entre 60 (sessenta) dias e 24 (vinte e quatro) meses, a contar da data de protocolo da proposta de inscrição na EAPC. § 1º Não poderão ser estipulados resgates com intervalo inferior ao estabelecido no plano, que deverá estar compreendido entre 60 (sessenta) dias e 6 (seis) meses. (Grifamos) Contudo, além de ter descumprido os prazos estabelecidos também na Circular SUSEP n° 338/07, ainda com base nesta Circular, o sentido de ‘saldo da provisão matemática de benefícios a conceder’ passível de resgate foi dado conforme abaixo: CAPÍTULO III DA PROVISÃO MATEMÁTICA DE BENEFÍCIOS A CONCEDER SEÇÃO I DAS DISPOSIÇÕES COMUNS Art. 13. Deverão ser mantidas aberturas do saldo da provisão matemática de benefícios a conceder que permitam o perfeito acompanhamento do plano e a imediata prestação de informações de caráter obrigatório. [...] DOS PLANOS COLETIVOS INSTITUÍDOS PERÍODO DE VESTING Art. 15. O saldo da provisão matemática de benefícios a conceder constituído pelo montante das contribuições pagas pela instituidora, líquidos de carregamento, quando for o caso, deverá ser integrado ao saldo da provisão matemática de benefícios a conceder a que fazem jus os participantes, com estrita observação e cumprimento das cláusulas do contrato que regem o vesting. Fl. 537DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 15 27 Art. 16. Além do disposto nos arts. 13 e 14 desta Circular, a EAPC deverá manter controle analítico do saldo da provisão matemática de benefícios a conceder constituído pelo montante das contribuições pagas pela instituidora, segregando os valores referentes a participantes que tenham descumprido as cláusulas de vesting. (Grifamos) Observese que as condições para o resgate do saldo da provisão matemática de benefícios a conceder, quando constituído pelo montante das contribuições pagas pela instituidora/patrocinadora, não se restringe à observância de prazos de carência mínimos (art. 19) e entre os resgates (art. 19, §1º). De acordo com a Circular SUSEP nº 338/07, o resgate também estaria sujeito à observância de cláusulas de vesting, assim conceituadas no ato normativo: Art. 5º Considerase vesting o conjunto de cláusulas constantes do contrato entre a EAPC e a instituidora, a que o participante, tendo expresso e prévio conhecimento, está obrigado a cumprir para que lhe possam ser oferecidos e postos à sua disposição os recursos das provisões decorrentes das contribuições pagas pela instituidora, líquidos de carregamento, quando for o caso. No contrato do plano de previdência ora em análise, não se verificou a instituição de tais cláusulas de vesting, haja vista que bastaria a observância do prazo (5º dia útil contado da data em que as instituidoras fizessem os aportes respectivos), e que fosse formalizada a solicitação, para que o participante pudesse resgatar os recursos das provisões decorrentes das contribuições pagas pela instituidora. Mais um elemento a confirmar o caráter sui generis do contrato ora analisado. Daí que os preceitos relativos aos prazos de resgates previstos na Circular SUSEP nº 338/07, não podem ser interpretados isoladamente dos demais preceitos normativos ali contidos, principalmente quando se verifica uma clara distinção de tratamento e destinação, estabelecida pelos atos normativos, entre os aportes de recursos feitos pelos próprios Participantes e pela Instituidora/Patrocinadora. Sem razão a recorrente ao alegar que após a remessa dos valores cabia à instituição seguradora a responsabilidade de zelar pelas regras instituidoras da previdência complementar e de seus órgãos regulamentadores e se os resgates ocorrerem em desacordo com a legislação, é de exclusiva responsabilidade da instituição seguradora, pois a possibilidade do resgate já estava prevista nos contratos firmados, sem observar a legislação de regência. Na verdade, o plano foi desqualificado como um todo, porque, além de tudo que já foi dito, as cláusulas contratuais acerca dos resgates não observaram a legislação de regência. O fato de os resgates terem ocorrido no ínfimo prazo previsto no contrato apenas confirmou que a contratação do plano não visava a constituição de reservas que garantissem os benefícios contratados, mas apenas o pagamento de valores de natureza salarial. Ademais, da análise dos valores apresentados pela fiscalização, vêse que na grande maioria dos casos, os resgates parciais representavam a quase totalidade dos recursos aportados pela autuada (cotejo entre DOC 03 (RESGATES efls. 246/257) e DOC 05 (APORTES PLANO FGB efls. 259/260). Fl. 538DF CARF MF 28 Portanto, uma vez descaracterizado o plano de previdência complementar citado, todos os valores aportados foram considerados como salário de contribuição. Imposição de Multa Qualificada Observase que consta do Termo de Verificação Fiscal TVF (efls. 263/279), no item 19, que os valores das contribuições para previdência privada foram contabilizados nas contas: Bônus a pagar conta 24340023, Bônus CPP a pagar conta 24340028, Bônus EPP a pagar – conta 24340029 e Merit Bônus – conta 48101028, e não previdência privada a pagar. Descreve ainda a ocorrência de negócio simulado: 7 – DA SIMULAÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO 48. O Código Civil (Lei nº 10.406, de 10.01.2002) dispõe sobre a simulação no § 1° e incisos, do art. 167, nos seguintes termos: § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. 49. No que diz respeito ao pagamento de verbas remuneratórias mediante depósito em conta de previdência privada há uma divergência entre a vontade real e a aparente: a fiscalizada quer pagar salário, mas para se furtar à tributação o faz mediante depósitos em conta de previdência privada como se tratassem de contribuições normais a estes planos. Enquadrase, pois, no inciso II, § 1°, do art. 167, do Código Civil em vigor. E ainda, sob o título "Da qualificação da multa de ofício", no item 65, a fiscalização explica que: A ocorrência da conduta de sonegação por parte do contribuinte fica caracterizada quando se verifica que a fiscalizada tinha total conhecimento da legislação, ou seja, forjou a desvirtuação de um produto financeiro chamado PREVIDENCIA PRIVADA, para pagamento de Remuneração Variável. Isto está claro quando para os demais empregados temos uma Previdência Privada nos moldes legais e, com operacionalização condizente com as premissas de tal produto financeiro, inclusive lançados em folha de pagamento. O dolo está visível, pois, para evitar que a autoridade fiscal tomasse ciência da obrigação principal em sua totalidade, já que ofereceu outras verbas salariais à tributação, quis disfarçála com o titulo de Previdência Privada, mas, sem as características legais e operacionais inerentes a esta verba. Fl. 539DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 16 29 A contabilidade da empresa faz prova desta conduta quando exibe os lançamentos de BONUS sendo saldados através de pagamentos das faturas ao ITAU VIDA e PREVIDENCIA. Esta conduta ocorreu em todas as competências aqui lavradas. Intencionalmente a empresa apresentou ao fisco declarações (GFIPs) inverídicas sobre as remunerações de alguns de seus empregados e diretores. As declarações ao fisco ocultam o efetivo valor da obrigação tributária principal, constituindo fato que evidencia intuito de sonegação previdenciária, implicando na qualificação da multa de oficio, além de formalização de representação fiscal para fins penais. (Grifos nossos.) Pelo exposto, correta a aplicação da multa de ofício qualificada, nos termos do artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, uma vez que restou demonstrada a simulação de negócio jurídico, configurada na prática de sonegação, conforme prevista no artigo 71 da Lei nº 4.502/64, em razão do procedimento adotado pela empresa, consistente no pagamento de bônus através de conta de previdência complementar privada. Exigência de Juros Sobre Multa de Ofício Ao contrário do que entende o recorrente, incide juros de mora sobre a multa de ofício. O CTN, no art. 161, dispõe que: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. A Lei 9.430/96, art. 61, determina: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. [...] § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O conceito de crédito tributário abrange a multa de ofício, portanto, não efetuado o pagamento no prazo legal, incide juros de mora sobre o principal e a multa de ofício. Fl. 540DF CARF MF 30 Sobre essa matéria, as três turmas da Câmara Superior têm se manifestado pela incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, cito acórdãos nº 9101003.469 –1ª Turma sessão 7/03/2018 relatora Adriana Gomes Rêgo; nº 9202006.473 – 2ª Turma sessão de 30/01/2018 relator Luiz Eduardo de Oliveira Santos e nº 9303006.008 3ª Turma sessão 29/11/2017 redator voto vencedor Andrada Márcio Canuto Natal. Transcrevo excerto do voto do Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, que, ao redigir o voto vencedor no citado acórdão nº 9303006.008 expõe com minuciosa precisão a matéria: De acordo com o art. 161 do CTN, o crédito tributário não pago no vencimento deve ser acrescido de juros de mora, qualquer que seja o motivo da sua falta. Dispõe ainda em seu parágrafo primeiro que, se a lei não dispuser de modo diverso, os juros serão cobrados à taxa de 1% ao mês. Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (...) De forma que o art 61 da Lei nº 9.430/96 determinou que, a partir de janeiro/97, os débitos vencidos com a União serão acrescidos de juros de mora calculados pela taxa Selic quando não pagos nos prazos previstos na legislação tributária, até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Entendo que os débitos a que se refere o art. 61 da Lei nº 9.430/96 correspondem ao crédito tributário de que dispõe o art. 161 do CTN. Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do Fl. 541DF CARF MF Processo nº 10314.722131/201475 Acórdão n.º 2301005.238 S2C3T1 Fl. 17 31 prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 139 do CTN dispõe que o crédito tributário decorre da obrigação tributária e tem a mesma natureza desta. Já o art. 113, parágrafo primeiro, do mesmo diploma legal, define que a obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Assim, se o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta, necessariamente deve abranger o tributo e a penalidade pecuniária. Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A multa de ofício aplicada ao presente lançamento está prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/96 que prevê expressamente a sua exigência juntamente com o tributo devido. Ao constituir o crédito tributário pelo lançamento de ofício, ao tributo somase a multa de ofício, tendo ambos a natureza de obrigação tributária principal, devendo incidir os juros à taxa Selic sobre a sua totalidade. Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) Tanto é assim, que a própria Lei 9.430/96, em seu art. 43, prevê a incidência de juros Selic quando a multa de ofício é lançada de Fl. 542DF CARF MF 32 maneira isolada. Não faria sentido a incidência dos juros somente sobre a multa de ofício exigida isoladamente, pois ambas tem a mesma natureza tributária. Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Por todo o exposto, a multa de ofício proporcional, lançada juntamente com o tributo devido, se não paga no vencimento, sujeitase a juros de mora calculado com base na taxa SELIC por força do disposto no art. 61, caput e §3º da Lei nº 9.430, de 1996. Sem razão o recorrente. Conclusão Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário, mantendo o lançamento na sua integralidade. É como voto. (assinado digitalmente) Andrea Brose Adolfo Fl. 543DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13005.900889/2008-94
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005
CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE.
É nula a decisão de primeira instância em que é cerceado o direito de defesa do contribuinte.
Numero da decisão: 1302-002.939
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para anular o acórdão recorrido e determinar o retorno do processo à DRJ para que se profira nova decisão, nos termos do relatório e voto do relator, vencido o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Cesar Candal Moreira Filho - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: CARLOS CESAR CANDAL MOREIRA FILHO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. É nula a decisão de primeira instância em que é cerceado o direito de defesa do contribuinte.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. É nula a decisão de primeira instância em que é cerceado o direito de defesa do contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para anular o acórdão recorrido e determinar o retorno do processo à DRJ para que se profira nova decisão, nos termos do relatório e voto do relator, vencido o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Cesar Candal Moreira Filho Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 5. 90 08 89 /2 00 8- 94 Fl. 414DF CARF MF 2 A Empresa apresentou PerDcomp em 28/07/2006, no intuito de compensar débitos com saldo negativo de IRPJ relativo ao 4º trimestre de 2005, no valor original de R$8.050,37. A DRF de Santa Cruz do Sul emitiu o Despacho Decisório (DD) eletrônico nº de rastreamento 759964715 não reconhecendo o direito creditório e nãohomologando as compensações pleiteadas por não ter havido a apuração de crédito na DIPJ correspondente: Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado, constatouse que não houve apuração de crédito na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) correspondente ao período de apuração do saldo negativo informado no PER/DCOMP. Valor original do saldo negativo informado no PER/DCOMP com demonstrativo de crédito: R$ 8.050,37 Valor do crédito na DIPJ: R$ 0,00 A Interessada apresentou Manifestação de Inconformidade, informado que teria havido erro no preenchimento da DIPJ/2006. A DRJ do Rio de Janeiro 1 julgou o recurso, afirmando, resumidamente, que: (i) a DIPJ deveria ter sido retificada antes da apresentação da Dcomp; (ii) o ato de verificação da certeza e liquidez do crédito não está limitado às antecipações, podendo alcançar a regularidade da base de cálculo apurada pelo contribuinte; (iii) a DRJ é instância revisional, e a matéria a ser por ela apreciada é tão somente aquela apreciada pela decisão a quo que foi atingida pelo recurso. (iv) sem apuração em tempo hábil de saldo negativo, não há que se falar em constituição de direito creditório a tal título. Assim, o DD deve ser mantido, por não terem sido elididos os fatos que lhe deram causa. A Empresa foi cientificada desta decisão em 11 de março de 2011 e apresentou Recurso Voluntário em 1º de abril de 2011, alegando, de forma confusa, o seguinte: Fl. 415DF CARF MF Processo nº 13005.900889/200894 Acórdão n.º 1302002.939 S1C3T2 Fl. 415 3 Os equívocos se deram da seguinte forma: 1) que o valor correto do crédito de saldo negativo do 4º trimestre de 2005 na Dcomp de 28/07/2006 é de R$7.724,99 e não R$8.050,37; 2) que a retificação do PerDcomp de 28/07/2008 enviada em 08/09/2006 foi indevida pois teve aumento de débito no 2º trimestre de 2006, o que não foi aceito pela Receita Federal; 3) como a PerDcomp original já havia sido objeto de DD não havia possibilidade de cancelamento ou retificação. Conforme orientação da Receita Federal de Santa Cruz, Sr. Felipe (contato telefônico) e Anderson Montenegro, foi feita uma PerDcomp em 14/08/2008 seguindo da original de 28/07/2008, compensando a diferença ref. ao 2º trimestre de 2006, o que também não foi aceito. A diferença de R$485,23 referente à retificação da PerDcomp foi recolhido com DARF; Sobre a decisão da DRJ afirma que retificou a DIPJ na manifestação de 11/06/2008, corrigindo o erro e colocando o valor na linha 113 da Ficha 12. Informa que está anexando os comprovantes dos IRRF emitidos pelo banco, DIPJ original e retificadora do ano calendário de 2005 e demonstração dos crédito e dos débitos. Requer o cancelamento dos débitos e a revisão do despacho em tela. É o relatório. Voto Conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho Relator O recurso é tempestivo e o subscritor tem poderes para apresentálo, portanto, dele conheço. Da análise dos documentos constantes desse processo podemos constatar: a) a intimação para que a Empresa retificasse a DIPJ ou a Dcomp emitida pelo Sistema de Controle de Créditos (SCC), antes de expedir o DD, não foi entregue ao contribuinte pelo motivo "ausente" conforme se vê do documento de folhas 51/52. Embora não tenha sido entregue o endereço parece estar correto; b) quando da apresentação da manifestação de inconformidade a Empresa juntou a DIPJ retificadora (fls. 18/49) e os comprovantes de retenção na fonte (fls. 16). Mesmo ante esta documentação, que deveria ter sido pelo menos considerada, a DRJ afirma que a retificação deveria ter sido feita antes da transmissão do PerDcomp ou do Despacho Decisório e que não pode, como instância revisional, rever algo que não foi objeto de análise pelo órgão detentor da competência originária. Nesse prisma, mantém integralmente o decidido no DD. Ao assim decidir, a primeira instância está negando ao contribuinte o direito de defesa, pois ele nada pode fazer para ver seu direito reconhecido. Fl. 416DF CARF MF 4 Este julgado, data maxima venia, é uma afronta ao princípio da verdade material, uma agressão ao duplo grau de jurisdição administrativa e um desrespeito ao direito de ampla defesa do administrado, na medida em que afirma que nada pode fazer, independentemente da existência ou não do direito creditório do Recorrente, uma vez que o motivo do DD (inexistência de declaração em DIPJ do direito creditório) não foi elidido pelo recorrente. Isso porque deveria ter sido elidido antes da apresentação da Manifestação de Inconformidade. Ora, o Recorrente apresentou os comprovantes de retenção na fonte e retificou, tão logo soube que a providência tinha de ser tomada, a sua DIPJ. Segundo informa, ainda recebeu informações insatisfatórias por membros da Receita Federal, pelo que teve, embora não seja objeto deste processo, uma Dcomp considerada nãodeclarada. A sequência de equívocos e problemas deste processo levou à negativa ao direito creditório pelo fato de ter havido erro no preenchimento da DIPJ/2006, cuja retificação, nos termos da decisão da DRJ, não poderia ser feita em sede de Manifestação de Inconformidade. Foram simplesmente desconsiderados os comprovantes de IRRF juntados. O artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, e claro: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...) § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo.(grifei) (...) Na presente lide, caso a autoridade julgadora de primeira instância se considerasse incompetente para decidir originariamente sobre o direito creditório, ante a prova de retenção e a retificadora da DIPJ, deveria ter baixado o processo em diligência para manifestação da Delegacia de origem sobre o crédito em discussão. Jamais poderia ter encerrado a discussão negando a defesa ao contribuinte. Em que pese esta Turma Ordinária ter proferido resolução no sentido de que a unidade de origem apurasse a existência do direito creditório alegado, a decisão direta da lide por este colegiado implicaria supressão de instância, em especial por ter sido reconhecido, na diligência, parcialmente o direito requerido, não se aplicando o § 3º do artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. Nestes termos considero nulo o Acórdão nº 1235.758 1ª Turma da DRJ/RJ1, por preterição do direito de defesa, devendo os autos retornarem àquela Unidade para prolação de nova decisão sobre o tema, apreciando os elementos juntados pelo contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) Fl. 417DF CARF MF Processo nº 13005.900889/200894 Acórdão n.º 1302002.939 S1C3T2 Fl. 416 5 Carlos Cesar Candal Moreira Filho Relator Fl. 418DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.001729/2008-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 01/11/2007
ROUBO DE CARGAS. CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR. ART. 393 DO CÓDIGO CIVIL. NÃO ENQUADRAMENTO. NÃO EXCLUI RESPONSABILIDADE POR EXTRAVIO.
A leitura do parágrafo único do art. 393 do Código Civil: o caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir; faz ver que o rouba de cargas de fato nele não se enquadra, posto tratar-se de risco previsível, presente na própria atividade da transportadora-autuada; não excluindo pois a responsabilidade por extravio, nos termos do Decreto nº 4.543/2002, art. 595.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.765
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS DA COSTA CAVALCANTI FILHO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 01/11/2007 ROUBO DE CARGAS. CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR. ART. 393 DO CÓDIGO CIVIL. NÃO ENQUADRAMENTO. NÃO EXCLUI RESPONSABILIDADE POR EXTRAVIO. A leitura do parágrafo único do art. 393 do Código Civil: o caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir; faz ver que o rouba de cargas de fato nele não se enquadra, posto tratar-se de risco previsível, presente na própria atividade da transportadora-autuada; não excluindo pois a responsabilidade por extravio, nos termos do Decreto nº 4.543/2002, art. 595. Recurso Voluntário Negado
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CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR. ART. 393 DO CÓDIGO CIVIL. NÃO ENQUADRAMENTO. NÃO EXCLUI RESPONSABILIDADE POR EXTRAVIO. A leitura do parágrafo único do art. 393 do Código Civil: o caso fortuito ou de força maior verificase no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir; faz ver que o rouba de cargas de fato nele não se enquadra, posto tratarse de risco previsível, presente na própria atividade da transportadoraautuada; não excluindo pois a responsabilidade por extravio, nos termos do Decreto nº 4.543/2002, art. 595. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 17 29 /2 00 8- 49 Fl. 178DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 0737.001, proferido pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório constante do acórdão recorrido, em parte: Trata o presente processo de autos de infração lavrados para a exigência de crédito tributário no valor de [...] referente a multas de ofício relativas a Imposto de Importação, Imposto sobre Produtos Industrializados, PIS/Pasepimportação e Cofinsimportação em razão de descumprimento do Regime Aduaneiro Especial de Trânsito Aduaneiro. Depreendese da descrição dos fatos dos autos de infração que à interessada, na condição de transportadora, foi concedido Regime Aduaneiro Especial de Admissão Temporária para o transporte de mercadorias estrangeiras, amparado na DTA nº 07/04437767, em 25/10/2007, tendo como beneficiária a empresa Megaware Industrial Ltda. No dia 31/10/2007 foi apresentada queixa perante a Polícia Civil do Estado de São Paulo, por parte da interessada, informando que as mercadorias por ela transportadas haviam sido roubadas, conforme Boletins de Ocorrência nº 223/2007, nº 224/2007 e nº 11174/2007. O fato foi comunicado à repartição aduaneira que protocolizou o processo nº 11128.008673/200772. O prazo para conclusão da DTA findou em 01/11/2007, tendo sido consideradas extraviadas, nos termos do art. 580, inciso II, do Decreto nº 4.543/2002. Os tributos haviam sido lançados por meio de Termo de Responsabilidade. Não há que se falar em caso fortuito ou de força maior, nos termos no art. 393 da Lei nº 10.406/2002 e Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 12/2004. Considerando o disposto nos art. 266 e art. 645, inciso I, ambos do Decreto nº 4.543/2002 e a legislação aplicável, foram lavrados os autos de Fl. 179DF CARF MF Processo nº 11128.001729/200849 Acórdão n.º 3301004.765 S3C3T1 Fl. 178 3 infração do presente processo, para constituição e exigência das multas de ofício relativas aos tributos incidentes na operação e não pagos. Foi lançada ainda a multa referida no art. 628, inciso II, alínea “d”, do Decreto nº 4.543/2002 em virtude do extravio das mercadorias. Foi lavrado Termo de Sujeição Passiva Solidária em nome da beneficiária do regime, Megaware Industrial Ltda (fl. 53). Os tributos e juros de mora serão exigidos mediante execução do Termo de Responsabilidade. Cientificadas da autuação, a empresa MC Trans Transporte e Logística Ltda apresentou impugnação na qual alega, em síntese, que: Foi vítima de roubo, devidamente comprovado e com prisão em flagrante dos autores, portanto não pode ser responsabilizada pelo pagamento dos valores lançados, pois, de acordo com o art. 595 do Decreto nº 4.543/2002 caso fortuito ou de força maior é excludente de sua responsabilidade. Ato Declaratório Interpretativo não pode fazer tabula rasa das definições, conteúdos e alcance dos institutos, conceitos e formas de direito privado, pois sequer a Lei tributária tem essa prerrogativa. Em nenhum momento se responsabilizou expressamente pelo extravio das mercadorias transportadas em razão de caso fortuito ou de força maior, ao contrário do que a fiscalização quis entender e é exigido pela ressalva contida no caput do art. 393 do Código Civil. Requer seja decretada a insubsistência da autuação. Não consta dos autos que a autuada Megaware Industrtial Ltda tenha apresentado impugnação. O citado acórdão decidiu pela improcedência da impugnação, assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 01/11/2007 JULGADORES. VINCULAÇÃO. É dever do Julgador observar o disposto no inciso III do art. 116 da Lei nº 8.112, de 1990, bem como o entendimento da RFB expresso em atos normativos. Inconformada com decisão de primeira instância, a contribuinte apresentou recurso voluntário, alegando, basicamente, ser o roubo da carga motivo de força maior, excludente de sua responsabilidade e que não se aplicam à hipótese as disposições o ADI, tendo em vista o art. 110 do Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 180DF CARF MF 4 Foime distribuído o presente processo para relatar e pautar. É o relatório. Fl. 181DF CARF MF Processo nº 11128.001729/200849 Acórdão n.º 3301004.765 S3C3T1 Fl. 179 5 Voto Conselheiro Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Relator. O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade1. O núcleo da discussão é verificar se o roubo de cargas no trânsito aduaneiro caracterizase como caso fortuito ou força maior, excludente de responsabilidade nos termos do Decreto nº 4.543/2002, art. 595 ( Regulamento Aduaneiro então vigente) e do Código Civil, art. 393, parágrafo único: Do Decreto nº 4.543/2002: Art. 595. A autoridade aduaneira, ao reconhecer a responsabilidade nos termos do art. 591, verificará se os elementos apresentados pelo indicado como responsável demonstram a ocorrência de caso fortuito ou de força maior que possa excluir a sua responsabilidade. [...] Art. 591. A responsabilidade pelo extravio ou pela avaria de mercadoria será de quem lhe deu causa, cabendo ao responsável, assim reconhecido pela autoridade aduaneira, indenizar a Fazenda Nacional do valor do imposto de importação que, em conseqüência, deixar de ser recolhido, ressalvado o disposto no art. 586 (Decretolei no 37, de 1966, art. 60, parágrafo único). Da Lei 10.406/2002: Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verificase no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. O julgador de primeiro grau amparase na obediência que deve ao Ato Declaratório Interpretativo (ADI) SRF 12/2004: Artigo único. O roubo ou o furto de mercadoria importada não se caracteriza como evento de caso fortuito ou de força maior, para efeito de exclusão de responsabilidade, nos termos do art. 595 do Decreto nº 4.543, de 26 de dezembro de 2002 Regulamento Aduaneiro, com as alterações do 1 Ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ, 1ª Seção, EDcl no MS 21.315DF, julgado de 8/6/2016, rel. Min. Diva Malerbi). Fl. 182DF CARF MF 6 Decreto nº 4.765, de 24 de junho de 2003, tendo em vista não atender, cumulativamente, as condições de ausência de imputabilidade, de inevitabilidade e de irresistibilidade. (Grifouse). Alega a recorrente ser o roubo da carga motivo de força maior: Acrescenta que a o dito roubo é "fato notoriamente inevitável e irressistível" (grifos do original)e que "não se poderia exigir dos funcionários da recorrente que se opusessem oo resistissem à subtração do veículo e da mercadoria transportada", em linha com a construção do STJ que traz: Reproduz ainda decisões da TERCEIRA CÃMARA DE CONTRIBUINTES, de 2005 e 2006, a darem por caso fortuito ou força maior o roubo de cargas sob trânsito aduaneiro, excludentes de responsabilidade O jurisprudência deste Conselho, inclusive da Câmara Superior é em sentido contrário, seguindo a inteligência do ADI em pauta: ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Anocalendário: 2000 Trânsito Aduaneiro. Extravio. Responsabilidade do Depositário. O roubo ou o furto de mercadoria importada não se caracteriza como evento de caso fortuito ou de força maior, para efeito de exclusão de responsabilidade, tendo em vista não atender, cumulativamente, as condições de ausência de imputabilidade, de inevitabilidade e de irresistibilidade. Recurso Especial do Procurador Provido [...] A leitura do parágrafo único do art. 393 do Código Civil: "o caso fortuito ou de força maior verificase no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir"; faz ver que o rouba de cargas, de fato, nele não se enquadra, posto tratarse de risco previsível, presente ma própria atividade da transportadoraautuada. Fl. 183DF CARF MF Processo nº 11128.001729/200849 Acórdão n.º 3301004.765 S3C3T1 Fl. 180 7 Tal entendimento está em linha com decisões recentes do STJ, de que não há caso fortuito no caso do assalto em agência bancária: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULA Nº 282/STF. ASSALTO EM AGÊNCIA BANCÁRIA. BENS DE CLIENTES. COFRE. SUBTRAÇÃO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO BANCO. DEVER DE INDENIZAR. CONFIGURAÇÃO. SÚMULA Nº 568/STJ. SISTEMA DE SEGURANÇA. FALHA. DANOS MATERIAIS E MORAIS. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. DISSÍDIO PREJUDICADO. [...] 2. A responsabilidade objetiva da instituição financeira, no caso de assalto com subtração de bens do interior de seus cofres, não pode ser afastada sob a alegação de ocorrência de caso fortuito ou culpa de terceiro, devendo haver a indenização dos clientes lesados em valor correspondente aos bens por eles reclamados. Precedentes. Súmula nº 568/STJ. [...] (Grifouse). (AIREsp 654.076/RJ, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, TerceiraTurma, julgado em 24.10.2017, DJE 31.10.2017). Entende a recorrente que "não se aplicam à hipótese as disposições o ADI", por força do art. 110 do CTN, quando diz que "a lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado". Descbe razão à recorrente. O que se verificou é que os institutos do caso fortuito e da força maior foram tomados justamente do diplomamatriz do direito privado. Assim, por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Fl. 184DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12278.720318/2016-13
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2013
DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção.
Numero da decisão: 2002-000.167
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso, para, no mérito, negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção.
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DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. Recorrente LELIA DE PAULA AGUIAR Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2013 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso, para, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 27 8. 72 03 18 /2 01 6- 13 Fl. 39DF CARF MF Processo nº 12278.720318/201613 Acórdão n.º 2002000.167 S2C0T2 Fl. 40 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (fls. 13/17), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a alterações na declaração de ajuste anual da contribuinte acima identificada, relativa ao exercício de 2014. A autuação implicou na alteração do resultado apurado de saldo de imposto a pagar declarado de R$3.439,91 para saldo de imposto a pagar de R$5.835,16. A notificação noticia a dedução indevida de despesas médicas, por falta de comprovação. Impugnação Cientificada à contribuinte em 27/6/2016, a NL foi objeto de impugnação, em 21/7/2016, à fl. 2/11 dos autos, na qual o representante do contribuinte indica a juntada de documentação comprobatória da despesa declarada. Previamente a análise do feito, a autoridade julgadora de primeira instância, converteu o julgamento em diligência, para intimar a contribuinte a comprovar a efetividade dos pagamentos da despesa médica glosada (fl.22). Não houve atendimento a essa intimação (fl.26). A impugnação foi apreciada na 3ª Turma da DRJ/SDR que, por unanimidade, julgoua improcedente em decisão assim ementada (fls. 27/29): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2013 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. DESPESAS MÉDICAS. DEDUÇÃO. NÃO CABIMENTO. Incabível a dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual quando não comprovada a efetiva realização das despesas declaradas. A decisão justifica a manutenção da glosa pela falta de comprovação do efetivo ônus da despesa declarada. Recurso voluntário Ciente do acórdão de impugnação em 8/5/2017 (fl. 32), a contribuinte, em 26/5/2017 (fl. 34), apresentou recurso voluntário, às fls. 34/36, no qual resume a ação fiscal e requer o restabelecimento da despesa informada com Caroline Bellani Rodrigues, tendo em vista a apresentação do recibo correspondente. Fl. 40DF CARF MF Processo nº 12278.720318/201613 Acórdão n.º 2002000.167 S2C0T2 Fl. 41 3 Processo distribuído para julgamento em Turma Extraordinária, tendo sido observadas as disposições do artigo 23B, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, e suas alterações (fl.19). Fl. 41DF CARF MF Processo nº 12278.720318/201613 Acórdão n.º 2002000.167 S2C0T2 Fl. 42 4 Voto Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Relatora Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Mérito Em relação às despesas médicas, são dedutíveis da base de cálculo do IRPF os pagamentos efetuados pelos contribuintes a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"), desde que devidamente comprovados. No que tange à comprovação, a dedução a título de despesas médicas é condicionada ainda ao atendimento de algumas formalidades legais: os pagamentos devem ser especificados e comprovados com documentos originais que indiquem nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) ou Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) de quem os recebeu (art. 8º, § 2º, inc. III, da Lei 9.250, de 1995). Esta norma, no entanto, não dá aos recibos valor probatório absoluto, ainda que atendidas todas as formalidades legais. A apresentação de recibos de pagamento com nome e CPF do emitente têm potencialidade probatória relativa, não impedindo a autoridade fiscal de coletar outros elementos de prova com o objetivo de formar convencimento a respeito da existência da despesa. Nesse sentido, o artigo 73, caput e § 1º do RIR/1999, autoriza a fiscalização a exigir provas complementares se existirem dúvidas quanto à existência efetiva das deduções declaradas: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decretolei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte. (Decreto lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º. (Grifei). Fl. 42DF CARF MF Processo nº 12278.720318/201613 Acórdão n.º 2002000.167 S2C0T2 Fl. 43 5 Sobre o assunto, seguem decisões emanadas da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) e da 1ª Turma, da 4ª Câmara da 2ª Seção do CARF: IRPF. DESPESAS MÉDICAS.COMPROVAÇÃO. Todas as deduções declaradas estão sujeitas à comprovação ou justificação, mormente quando há dúvida razoável quanto à sua efetividade. Em tais situações, a apresentação tãosomente de recibos e/ou declarações de lavra dos profissionais é insuficiente para suprir a não comprovação dos correspondentes pagamentos. (Acórdão nº9202005.323, de 30/3/2017) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. APRESENTAÇÃO DE RECIBOS. SOLICITAÇÃO DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA PELO FISCO. Todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação, podendo a autoridade lançadora solicitar motivadamente elementos de prova da efetividade dos serviços médicos prestados ou dos correspondentes pagamentos. Em havendo tal solicitação, é de se exigir do contribuinte prova da referida efetividade. (Acórdão nº9202005.461, de 24/5/2017) IRPF. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS E DO CORRESPONDENTE PAGAMENTO. A Lei nº 9.250/95 exige não só a efetiva prestação de serviços como também seu dispêndio como condição para a dedução da despesa médica, isto é, necessário que o contribuinte tenha usufruído de serviços médicos onerosos e os tenha suportado. Tal fato é que subtrai renda do sujeito passivo que, em face do permissivo legal, tem o direito de abater o valor correspondente da base de cálculo do imposto sobre a renda devido no ano calendário em que suportou tal custo. Havendo solicitação pela autoridade fiscal da comprovação da prestação dos serviços e do efetivo pagamento, cabe ao contribuinte a comprovação da dedução realizada, ou seja, nos termos da Lei nº 9.250/95, a efetiva prestação de serviços e o correspondente pagamento. (Acórdão nº2401004.122, de 16/2/2016) No caso, intimada pela autoridade julgadora de primeira instância a comprovar o efetivo pagamento da despesa declarada, a recorrente nada apresentou, nem em Fl. 43DF CARF MF Processo nº 12278.720318/201613 Acórdão n.º 2002000.167 S2C0T2 Fl. 44 6 resposta à diligência efetuada pela autoridade julgadora de primeira instância, nem em sede de recurso. Registrese que a autuação consigna que, no curso da ação fiscal, a contribuinte não apresentou comprovação da despesa. Diante da prova trazida pela contribuinte (recibo à fl. 5) em sede de impugnação, pela primeira vez aos autos, o julgador entendeu necessária a realização de diligência, a qual, repisese, não foi atendida pela contribuinte Assim, não há que se falar em inovação da motivação do lançamento, já que a motivação continua sendo a não comprovação da dedução pleiteada e foram respeitados os princípios da ampla defesa e do contraditório. Dessa feita, não há reparos a se fazer à decisão de piso, sendo de se manter a glosa da despesa médica no valor de R$8.710,00, pela falta de apresentação de provas quanto ao seu efetivo pagamento. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do recurso, para, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 44DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.003649/2009-90
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005
RECURSO ESPECIAL. ART. 5º C/C ART. 67, §12 DO RICARF APROVADO PELA PORTARIA 343/2015. DECISÃO VINCULANTE DOS TRIBUNAIS SUPERIORES. NÃO CONHECIMENTO.
Não servirá como paradigma o acórdão que, na data da análise da admissibilidade do recurso especial, contrariar decisão vinculante proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral.
Numero da decisão: 9202-007.003
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
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ART. 5º C/C ART. 67, §12 DO RICARF APROVADO PELA PORTARIA 343/2015. DECISÃO VINCULANTE DOS TRIBUNAIS SUPERIORES. NÃO CONHECIMENTO. Não servirá como paradigma o acórdão que, na data da análise da admissibilidade do recurso especial, contrariar decisão vinculante proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede de repercussão geral. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 00 36 49 /2 00 9- 90 Fl. 246DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra acórdão que deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte para determinar o cancelamento do lançamento por meio do qual exigese IRPF sobre rendimentos recebidos acumuladamente em razão de decisão proferida em ação judicial. Referido recurso foi interposto com base no art. 67 do RICARF, então aprovado pela Portaria nº 256/2019. O acórdão 2801003.436, de 18 de março de 2014, recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2007 IRPF. RENDIMENTO RECEBIDO ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO REGIME DE COMPETÊNCIA. O Imposto de Renda incidente sobre os rendimentos pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Recurso Voluntário Provido. Intimada da decisão, a Fazenda Nacional apresentou o presente recurso. Indicando como paradigmas os acórdãos 2102002.806 e 380400.031 a recorrente defende a manutenção do lançamento cuja fundamentação legal era o art. 12 da Lei nº 7.713/88, oportunamente foi requerido ainda o sobrestamento do processo até o julgamento dos Recursos Extraordinários nº 614.406 e 614.232, recebidos pelo Supremo Tribunal Federal sob a sistemática da repercussão geral. O contribuinte apresentou contrarrazões pugnando pela manutenção do acórdão por seus próprios fundamentos. É o relatório. Voto Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Antes de analisarmos o mérito do recurso, pertinente tecer alguns comentários sobre o juízo de admissibilidade. Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10166.003649/200990 Acórdão n.º 9202007.003 CSRFT2 Fl. 247 3 Conforme exposto no relatório, por meio do Recurso Especial a Fazenda Nacional devolve a este Colegiado a discussão acerca do critério utilizado para o cálculo do IRPF incidente sobre rendimento recebidos acumuladamente. A Recorrente assim descreve a divergência: A divergência ocorre em relação à solução jurídica. Os acórdãos paradigmas aplicam integralmente o art. 12 da Lei n. 7.713/88, segundo o qual, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto de renda incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos. Com efeito, de acordo com os Colegiados prolatores dos paradigmas, a incidência do IRPF deve ocorrer de uma só vez e sobre a totalidade dos rendimentos. Por sua vez, o acórdão recorrido afirma que, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o IRPF deve ser recolhido de acordo com o regime de competência, considerandose os meses a que se referirem os rendimentos. Ou seja, para fins de aplicação da alíquota, devem ser considerados os valores mensais, e não o montante global auferido. Cabe observar, inclusive, que o paradigma nº 2102002.806 foi proferido em 2014 e não aplicou o entendimento sedimentado pelo STJ no julgamento do Resp nº 1.118.429/SP. Em termos mais claros, o paradigma não se valeu do disposto no artigo 62 A do RICARF para decidir a questão, nada obstante ter sido proferido em data recente. Comprovada, portanto, a divergência jurisprudencial quanto à aplicação do art. 12 da Lei n. 7.713/88. Considerando que o acórdão recorrido aplicou, por força do art. 62A do então regimento interno decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça sob a sistemática dos recursos repetitivos, o despacho de admissibilidade recebeu o recurso apenas com base no acórdão paradigma de nº 2102002.806, desprezando o segundo que havia sido proferido em contexto fático distinto. Assim temos a seguinte situação: 1) decisão que entendendo que os rendimentos recebidos acumuladamente devem ser tributados pelo regime de competência, obedecidas as alíquotas e tabelas vigentes na época do correto recebimento, deu provimento ao recurso voluntário e cancelou o lançamento; e 2) recurso especial baseado em paradigma cuja fundamentação afasta a tese do recorrido e defende a incidência do imposto de renda pelo regime de caixa, com alíquota e tabela do mês do recebimento ou crédito e sobre o total dos rendimentos. Quando da interposição do recurso ainda não tínhamos decisão definitiva sobre a matéria no âmbito do Supremo Tribunal Federal. Assim, considerando que o acórdão paradigma afastou expressamente a aplicação ao caso do Resp 1.118.429, a Fazenda Nacional apresentou, em 22.04.2014, recurso defendendo a constitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88. Entretanto, quando da análise da admissibilidade o cenário era outro. Fl. 248DF CARF MF 4 Em 09.12.2014, transitou em julgado a decisão do STF no Recurso Extraordinário nº 614.406, decisão proferida sob a sistemática da repercussão geral e a qual declarou a inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88. O Tribunal Superior definiu, de forma definitiva, que o "Imposto de Renda incidente sobre verbas recebidas acumuladamente deve observar o regime de competência, aplicável a alíquota correspondente ao valor recebido mês a mês, e não a relativa ao total satisfeito de uma única vez". Embora o recurso tenha sido interposto na vigência do antigo regimento interno, o respectivo exame de admissibilidade ocorreu em 30.09.2015, data em que já se encontrava vigente o RICARF aprovado pela Portaria nº 343/2015 publicado em 10.06.2015, razão pela qual, por força do respectivo art. 5º, deveria ter sido observado a nova regra do §12 do art. 67. Vejamos os dispositivos com a redação válida na época: Art. 5º Os despachos de exame e reexame de admissibilidade dos recursos especiais exarados depois da data de publicação desta Portaria observarão, no que couber, o nela disposto. .. Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado. ... § 12. Não servirá como paradigma o acórdão que, na data da análise da admissibilidade do recurso especial, contrariar: I Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; II decisão judicial transitada em julgado, nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC); e III Súmula ou Resolução do Pleno do CARF. Assim, aplicando os art. 5º c/c art. 67, §12 do Regimento Interno aprovado pela Portaria 343/2015, entendo que o acórdão paradigma considerado pelo exame de admissibilidade também não é apto para fundamentar a divergência perseguida pela Recorrente, haja vista que seu entendimento foi superado por decisão vinculante proferida pelo Supremo Tribunal Federal. Diante do exposto, deixo de conhecer do recurso especial interposto. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10166.003649/200990 Acórdão n.º 9202007.003 CSRFT2 Fl. 248 5 Fl. 250DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.003366/2008-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006
SIMPLES. OMISSÃO DE RECEITA
É procedente a autuação por omissão de receitas, apurada mediante cotejo entre a receita bruta apurada na ação fiscal, por meio de notas fiscais de entrada obtidas de clientes, e a receita bruta declarada na declaração anual simplificada.
BASE DE CÁLCULO DO SIMPLES
A base de cálculo do Simples é a receita bruta auferida pela pessoa jurídica optante, assim entendido o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos Serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, excluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos, vedada a utilização ou destinação de qualquer valor a título de despesa, incentivo fiscal, ou transferência de créditos.
EXCLUSÃO. RECEITA BRUTA. LIMITE LEGAL
Exclui-se a pessoa jurídica que no ano-calendário ultrapassou o limite de receita bruta que permitiria continuar no Simples como microempresa ou empresa de pequeno porte, no ano-calendário seguinte.
MULTA ISOLADA. FALTA DE COMUNICAÇÃO DA EXCLUSÃO DO SIMPLES
A falta de comunicação, quando obrigatória, da exclusão da pessoa jurídica do Simples, nos prazos estabelecidos pela norma, induz à aplicação da multa isolada prevista no artigo 13 da Lei n 9.317, de 1996.
A exigência da multa de oficio não exclui ou absorve a multa isolada aqui referida.
Numero da decisão: 1402-003.125
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: LEONARDO LUIS PAGANO GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006 SIMPLES. OMISSÃO DE RECEITA É procedente a autuação por omissão de receitas, apurada mediante cotejo entre a receita bruta apurada na ação fiscal, por meio de notas fiscais de entrada obtidas de clientes, e a receita bruta declarada na declaração anual simplificada. BASE DE CÁLCULO DO SIMPLES A base de cálculo do Simples é a receita bruta auferida pela pessoa jurídica optante, assim entendido o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos Serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, excluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos, vedada a utilização ou destinação de qualquer valor a título de despesa, incentivo fiscal, ou transferência de créditos. EXCLUSÃO. RECEITA BRUTA. LIMITE LEGAL Exclui-se a pessoa jurídica que no ano-calendário ultrapassou o limite de receita bruta que permitiria continuar no Simples como microempresa ou empresa de pequeno porte, no ano-calendário seguinte. MULTA ISOLADA. FALTA DE COMUNICAÇÃO DA EXCLUSÃO DO SIMPLES A falta de comunicação, quando obrigatória, da exclusão da pessoa jurídica do Simples, nos prazos estabelecidos pela norma, induz à aplicação da multa isolada prevista no artigo 13 da Lei n 9.317, de 1996. A exigência da multa de oficio não exclui ou absorve a multa isolada aqui referida.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone - Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone.
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EMP. AGRO FLORESTAS LTDA. Recorrida FAZENDA PÚBLICA. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006 SIMPLES. OMISSÃO DE RECEITA É procedente a autuação por omissão de receitas, apurada mediante cotejo entre a receita bruta apurada na ação fiscal, por meio de notas fiscais de entrada obtidas de clientes, e a receita bruta declarada na declaração anual simplificada. BASE DE CÁLCULO DO SIMPLES A base de cálculo do Simples é a receita bruta auferida pela pessoa jurídica optante, assim entendido o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos Serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, excluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos, vedada a utilização ou destinação de qualquer valor a título de despesa, incentivo fiscal, ou transferência de créditos. EXCLUSÃO. RECEITA BRUTA. LIMITE LEGAL Excluise a pessoa jurídica que no anocalendário ultrapassou o limite de receita bruta que permitiria continuar no Simples como microempresa ou empresa de pequeno porte, no anocalendário seguinte. MULTA ISOLADA. FALTA DE COMUNICAÇÃO DA EXCLUSÃO DO SIMPLES A falta de comunicação, quando obrigatória, da exclusão da pessoa jurídica do Simples, nos prazos estabelecidos pela norma, induz à aplicação da multa isolada prevista no artigo 13 da Lei n 9.317, de 1996. A exigência da multa de oficio não exclui ou absorve a multa isolada aqui referida. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 00 33 66 /2 00 8- 61 Fl. 808DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 809 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone. Fl. 809DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 810 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto face v. acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil que decidiu manter as exigências perpetradas no Auto de Infração. A Recorrente foi autuada para recolher o crédito tributário constituído relativo aos tributos abrangidos pelo Simples (IRPJ, contribuição para o PIS, CSLL, COFINS e Contribuição para a Seguridade Social INSS), multa proporcional e juros de mora, referentes a fatos geradores ocorridos em 2006 (janeiro a dezembro de 2006). Os créditos exigidos nestes AIs foram arbitrados com base na receita encontrada por meio das notas fiscais de saída, escrituradas no Livro Registro de Saídas da Recorrente e com as informações obtidas na circularização feita nos clientes da Recorrente. A Fiscalização encontrou no Livro Registro de Saída notas fiscais de saída cuja a soma registram receita superior a declarada na Declaração do Simples e comparou com as notas fiscais de entrada emitidas pelos clientes, obtidas em resposta a circularização feita junto aos mesmos. Ou seja, a Base de Cálculo utilizada para apurar o valor devido mensaImente.a título de "SIMPLES", corresponde à Receita Bruta auferida mensalmente pela Recorrente, entendida essa como o produto da venda de bens e serviços, vedada quaisquer exclusões, exceção feita às vendas canceladas e aos descontos incondicionais concedidos. Dessa forma, a Base de Cálculo foi determinada mediante as informações prestadas pelos Clientes Circularizados através de planilhas e Notas Fiscais de Entrada, bem como pelas informações prestadas pelo própria autuada no Livro de Registro de Saídas. Com relação às informações prestadas pelos Clientes da Recorrente, cumpre salientar acerca da divergência constatada entre as Notas Fiscais de Entrada (NFE) dos Clientes e as Notas Fiscais de Venda/Saída (NFV) do Contribuinte. A NFV do Contribuinte traz em seu bojo a indicação da quantidade transacionada de produto (carvão vegetal) medida pela própria Recorrente e que serve de lastro para o transporte da carga. Durante o recebimento da carga, o Cliente executa uma nova medição do produto, e emitia uma NFE do seu estabelecimento e efetua o pagamento ao Recorrente de acordo com essa nova medição, que, via de regra, é superior ao valor indicado na NFV do Contribuinte. A Fiscalização observou essa divergência e para a correta determinação da Receita Bruta mensal auferida pelo Contribuinte, considerou nesse caso, em substituição aos valores da NFV do Contribuinte, os valores efetivamente pagos pelos Clientes, conforme suas NFE. Nesse sentido, elaborouse o Anexo I correlacionando as NFV do Contribuinte com as NFE dos Clientes e assim foi encontrada a receita bruta. Fl. 810DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 811 4 A Receita Bruta utilizada para cálculo do valor do “SIMPLES” devido mensalmente foi determinada mediante as informações prestadas pelos Clientes Circularizados e aquelas constantes do Livro de Registro de Saídas (LRS) do Contribuinte. A Receita Bruta foi obtida adicionandose ao valor total de Saídas do LRS os valores referentes às NFE dos Clientes Circularizados (valores efetivamente pagos pelos produtos) e subtraindose as correspondentes NFV da Recorrente que se encontravam devidamente escrituradas no LRS. Dessa forma, evitouse tributar a mesma receita duas vezes e apurouse efetivamente a Receita Bruta do Contribuinte. Após ter sido encontrada a Receita Bruta, foi feita a comparação dos valores declarados em sua Declaração Simplificada (DSPJ), onde se determinou os valores correspondentes a omissão de receita. A Recorrente foi excluída do Simples Federal a partir de 01/01/2007. No presente Auto de Infração, também consta a infração relativa a insuficiência de recolhimento gerado pela alteração da alíquota do Simples quando incluída na base de cálculo os valores relativos a receita encontrada com a movimentação financeira dos depósitos bancários. Por fim a Fiscalização aplicou multa isolada referente ao mês de dezembro de 2006 nos termos do artigo Para evitar repetições aproveito o bem elaborado relatório do v. acórdão recorrido. O processo é de Autos de Infração do Simples, exigindo o crédito tributário no valor de R$ 739.517,84, a título de tributos, multa de ofício no percentual de 75%, multa isolada por falta de comunicação de exclusão obrigatória do Simples, e juros de mora, conforme Demonstrativo Consolidado à fl. 02. A exigência fiscal é referente aos períodos de apuração de janeiro a dezembro de 2006. A descrição dos fatos, a fundamentação legal e a forma de apuração do crédito tributário exigido se encontram no Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 51/57) e nos autos de infração (fls. 03/75). Como relatou o autuante no TVF, a autuação se deu por omissão de receita e insuficiência de recolhimento do Simples. A receita bruta utilizada para calcular o valor do Simples devido, mensalmente, foi definida mediante cruzamento das informações prestadas pelos clientes circularizados e aquelas escrituradas no Livro de Registro de Saídas (LRS) da contribuinte. A Fiscalização intimou alguns clientes da autuada a apresentar as notas fiscais (NF) e comprovantes de pagamentos das operações comerciais mantidas com a empresa, no que foi devidamente atendida. Do cotejo entre valor das NF de clientes, valor escriturado no LRS e valor declarado na DSPJSimples do ano calendário de 2006 foi verificada omissão de receita no valor de R$ 3.158.791,62. Valor que resultou da diferença entre a receita bruta apurada na ação fiscal (R$ 3.533.733,22) e a receita bruta declarada na DSPJSimples (R$ 374.941,60), como demonstrado no TVF (fls. 51/57). Em decorrência da autuação, houve lançamento de multa isolada por falta de comunicação da exclusão obrigatória do Simples; exclusão de Fl. 811DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 812 5 oficio do Simples a partir de 19/01/2007, de acordo com o ADE n9 25, de 23/09/2008 (fl. 142); e Representação Fiscal para Fins Penais, processo ni' l0530.003367/200814, apenso ao presente. A contribuinte foi cientificada em 12/09/2008 (fl. 03) e apresentou impugnação em 13/10/2008 (fls. 143/148), alegando, em síntese, que: (i) Devem ser excluídos da base de cálculo apurada pelo Fisco os valores de frete pagos pelos destinatários das mercadorias aos transportadores e do ICMS pagos pelos mesmos, já que tais valores não representam receita da autuada. (ii) Reforça que a Fiscalização considerou a totalidade do valor lançado nas NF de entrada emitidas pelos destinatários das mercadorias (carvão), as quais englobam tanto o valor das mercadorias, quanto o valor do frete e do ICMS devido na operação. Daí que a diferença de valores que o Fisco Federal intitulou de receita omitida é decorrente de tais diferenças, que não foram excluídas da base tributável. (iii) Ademais, ressalta a impugnante que em todas as operações refletidas nas NF fiscalizadas, o frete foi por conta dos adquirentes das mercadorias e, por isso, só aparecem nas NF de entrada, conforme demonstrado na planilha anexa às fls. 117/118. Outrossim, o valor de ICMS pago pelos destinatários das mercadorias ao seu estado também não integra a receita da autuada. (iv) Feitas tais exclusões, verificarseá que a impugnante não excedeu ao limite de receita bruta do Simples, não justificando a manutenção da exclusão de oficio do Simples e da pertinente multa isolada, ainda mais que essa multa é concomitante com a multa de ofício. (v) Ante o exposto, requer o cancelamento dos autos de infração, incluindo o da multa pela exclusão do Simples. Ato contínuo, a DRJ proferiu v. acórdão mantendo integralmente a exigência do Auto de Infração, registrando a seguinte ementa: ASSUNTO: SISTEMA INTEoRADo DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENQ PORTE SIMPLES Anocalendário: 2006 SIMPLES. OMISSÃO DE RECEITA É procedente a autuação por omissão de receitas, apurada mediante cotejo entre a receita bruta apurada na ação fiscal, por meio de notas fiscais de entrada obtidas de clientes, e a receita bruta declarada na declaração anual simplificada. BASE DE CÁLCULO DO SIMPLES A base de cálculo do Simples é a receita bruta auferida pela pessoa jurídica optante, assim entendido o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos Serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, Fl. 812DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 813 6 excluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionais concedidos, vedada a utilização ou destinação de qualquer valor a título de despesa, incentivo ñscal, ou transferência de créditos. EXCLUSÃO. RECEITA BRUTA. LIMITE LEGAL Excluise a pessoa jurídica que no anocalendário ultrapassou o limite de receita bruta que permitiria continuar no Simples como microempresa ou empresa de pequeno porte, no anocalendário seguinte. MULTA ISOLADA. FALTA DE COMUNICAÇÃO DA EXCLUSÃO Do SIMPLES A falta de comunicação, quando obrigatória, da exclusão da pessoa jurídica do Simples, nos prazos estabelecidos pela norma, induz à aplicação da multa isolada prevista no an. 21 da Lei n9 9. 17, de 1996. A exigência da multa de ofício não exclui ou absorve a multa isolada aqui referida. Lançamento Procedente Inconformada com o v. acórdão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário repisando os mesmos argumentos da impugnação. Ato contínuo, os autos retornaram para o E. CARF/MF e foram distribuídos para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Fl. 813DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 814 7 Voto Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator Os Recursos Voluntário são tempestivos e possuem os requisitos previstos na legislação, motivo pelo qual devem ser admitidos. Como a Recorrente deixou de apresentar argumentos de defesa em relação a sua exclusão do Simples, devido ao valor da receita bruta ter ultrapassado o limite previsto em lei para tal regime tributário, entendo que a lide referente a tal matéria restou definitiva nos autos. Mérito: As notas fiscais de saída não indicam qualquer retenção relativa ao ICMSST por parte da Recorrente, bem como ao frete. Também não consta nos autos qualquer documento que comprove que o frete foi arcado por parte dos clientes da Recorrente. Nas notas de entrada das mercadorias nos clientes não consta indicação qualquer em relação ao frete. Da alegação de nulidades ou cerceamento do direito de defesa: Em relação a alegação de cerceamento do direito de defesa, entendo que não deve ser acolhida. A acusação está bem instruída com os documentos necessários para demonstrar a infração a legislação tributária de omissão de receita nos termos do artigo 42 da Lei 9.430/96 (287 do RIR/99), sendo que neste caso, a Recorrente é quem tem o ônus de provar que tal diferença não se refere a receita tributável, inexistindo assim cerceamento ao direito de defesa. Também entendo necessário se observar que as preliminares de nulidade do lançamento fiscal arguidas pela Recorrente não encontram amparo nas hipóteses previstas no artigos 10 e 59 do Decreto nº 70.235/72 (Processo Administrativo Fiscal – PAF). Observa se que quaisquer outras irregularidades, incorreções e omissões cometidas em Auto de Infração não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o Sujeito Passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio, nos termos do art. 60 do mencionado decreto. Da leitura do Termo de Verificação Fiscal (fls. vol. 1) percebese que a Autoridade Autuante narrou as etapas do procedimento fiscal e os fatos verificados em consequência daquele, bem como a subsunção à presunção legal adiante versada. Constam do referido termo e dos documentos que compõem os Autos de Infração lançados os dispositivos Fl. 814DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 815 8 legais nos quais se alicerçaram, estando ainda presentes no processo administrativo a composição analítica da base de cálculo e os demonstrativos dos tributos devidos. Por conseguinte, restaram adequadamente observadas as previsões estampadas nos incisos do art. 10, do Decreto nº 70.235/72, não merecendo prosperar as alegações da Recorrente em sentido contrário. Ademais, foram disponibilizadas cópias dos documentos integrantes da autuação à Autuada, tendolhes sido conferido tempo hábil, após regularmente cientificado dos lançamentos, para apresentar seus questionamentos, consubstanciados na Impugnação apresentada nos autos, da qual é possível se depreender que a Recorrente entendeu perfeitamente dos fatos que lhes foram imputados. Assim, não houve qualquer preterição do respectivo direito de defesa. Mérito: Em relação as alegações de inconstitucionalidade da legislação referente a presunção de omissão de receita, insta esclarecer que nos termos da Súmula 2, este E. Tribunal não tem competência para analisar ou afastar aplicação de lei por entendêla inconstitucional. O contribuinte é optante do Simples que é um sistema que se constitui em uma forma simplificada e unificada de recolhimentos de tributos, por meio da aplicação e percentuais favorecidos e progressivos, incidentes sobre uma única base de cálculo, a receita bruta, que é considerado nos termos do artigo 186 do RIR/99 como o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, não incluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionalmente concedidos. Ressalvadas essas exclusões, é vedado, para fins da determinação da receita bruta apurada mensalmente procederse a qualquer outra exclusão ou individualização em virtude da alíquota incidente ou de tratamento tributário diferenciado, tais como, substituição tributária, diferimento, crédito presumido, redução de base de cálculo e isenção, aplicáveis as demais pessoas jurídicas não optantes ao Simples (Lei no 9.317 de 1996, art. 2°, § 2° e IN SRF n° 250/2002, art. 40, §1°, e art. 1'). Assinalese que a base de cálculo do Simples não é o acréscimo patrimonial, o resultado ou o lucro, ainda que este seja diminuto em comparação com a receita bruta, mas sim esta última, que no caso da autuada foi constatada por meio dos créditos bancários cuja origem não foi comprovada pela contribuinte regularmente intimada. Observese que os conceitos de renda, acréscimo patrimonial ou lucro não interessam aos optantes do Simples, quer exista ou não lançamento de ofício, pois a base de cálculo dos tributos devidos em conformidade com este sistema simplificado de tributação é a receita bruta, conforme previsto no art. 5º da Lei nº 9.317/1996. Portanto, a base de cálculo para optantes do Simples é a totalidade das receitas auferidas pela empresa, não admitindo a exclusão dos valores relativos a gastos efetivados ou depósitos cuja a origem não foi identificada, bem como a individualização das bases tributáveis por imposto ou contribuição. Fl. 815DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 816 9 Dando continuidade ao raciocínio, a autuação trata de omissões de receita de microempresas e empresa de pequeno porte, onde existe o artigo 18 da Lei 9.317/1996 que determina que aplicamse as presunções de omissão de receita existentes nas legislações específicas de regência dos impostos e contribuições. Vejamos o texto do dispositivo: “Art. 18. Aplicamse à microempresa e à empresa de pequeno porte todas as presunções de omissão de receita existentes nas legislações de regência dos impostos e contribuições de que trata esta Lei, desde que apuráveis com base nos livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas. " Sendo assim, foi correta a aplicação da infração de omissão de receita com base no artigo 24 da Lei 9.249/95 quando encontrada receita não escriturada e apuradas mediante cotejo entre a Receita Bruta do Contribuinte apurada na ação fiscal e os valores por ele declarados na Declaração Simplificada de Pessoa Jurídica (DSPJ). Quando detectada tal hipótese prevista no dispositivo acima indicado, cabe aos contribuintes demonstrar com documentos idôneos e hábeis o registro e a origem do depósitos não escriturados, quando questionados pela fiscalização, sob pena de serem considerados receita tributável. Portanto, verificada a ocorrência da hipótese descrita em lei, qual seja, a que o contribuinte recebeu depósitos, não os escriturou e eximiuse de comprovar depósito por depósito mediante documentação hábil e idônea a sua origem, correta está a autuação. Continuando o raciocínio, entendo importante ressaltar que os rendimentos omitidos pela Recorrente, objeto da infração 1, também serviram como base de cálculo para a infração 2 do Auto de Infração de insuficiência do valor recolhido, apurada de acordo com a recomposição da receita bruta mensal auferida no período e os percentuais progressivos fixados em relação a receita bruta acumulada, nos termos do artigo 188 do RIR/991. Ao enquadrar os depósitos bancários não escriturados como acréscimo à receita bruta declarada pela Recorrente; logo como aumento da base de cálculo; verificouse também um novo enquadramento da alíquota do SIMPLES, ou seja, os valores originalmente recolhidos foram insuficientes, ensejando também a cobrança complementar devido a insuficiência de recolhimentos, conforme demonstrativo de apuração dos valores não recolhidos, que faz parte do presente processo de débito. 1 Este artigo 188 do RIR/99 preve exceção de como será determinada a receita bruta para as microempresas e empresas de pequeno porte inscritas no SIMPLES, conforme pode se verificar em seu texto abaixo colacionado. "art. 188. O valor devido mensalmente pela microempresa e empresa de pequeno porte, inscritas no SIMPLES, será determinado mediante a aplicação, sobre a receita bruta mensal auferida, dos percentuais e nas condições estabelecidas no art. 5, e seus parágrfos, da Lei 9.317/96, observado, quando for o caso, o disposo nos arts. 204 e 205." Fl. 816DF CARF MF Processo nº 10530.003366/200861 Acórdão n.º 1402003.125 S1C4T2 Fl. 817 10 Desta forma, não verifico que as duas infrações constantes no Auto de Infração estão imputando a Recorrente dupla tributação, eis que na primeira foi recomposta a receita bruta mensal com base nos depósitos bancários não escriturados e, na segunda, foram aplicados os percentuais progressivos fixados na legislação que prevê exceção para as microempresas e empresas de pequeno porte inscritas no Simples, em relação a receita bruta acumulada. Sendo assim, entendo que ambas infrações indicadas no Auto de Infração estão corretas, devendo ser mantida a acusação fiscal em seus termos. Em relação a multa de 10% sobre o total dos impostos e contribuições devidos no SIMPLES incidente no mês que anteceder o início dos efeitos da exclusão, chamada pela fiscalização como multa isolada, nos termos do artigo 13 da Lei 9.317, de 1996, entendo que deve ser mantida, eis que restou comprovado nos autos que a Recorrente não comunicou sua exclusão do Simples a Receita Federal. No mais, mantido o lançamento relativo ao IRPJ, igual tratamento deve ser dado aos lançamentos de PIS, Cofins, CSLL e INSS, decorrentes da omissão de receita, ante a íntima relação de causa e efeito. Pelo exposto e por tudo que consta processo nos autos conheço do Recurso Voluntário e nego provimento. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Fl. 817DF CARF MF
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Numero do processo: 11128.009347/2008-63
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 09/01/2004
AGENTE MARÍTIMO. DESPACHO DE EXPORTAÇÃO. REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DA CARGA. LEGITIMIDADE PASSIVA. IMPOSIÇÃO DA MULTA. POSSIBILIDADE.
Por expressa determinação legal, o agente marítimo, representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este em relação à exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de infração à legislação tributária. Logo, o recorrente, investido na qualidade de representante do transportador estrangeiro, ao não prestar as informações devidas, no prazo regulamentar, sobre carga destinada ao exterior, no âmbito do despacho aduaneiro de exportação, responde pela respectiva sanção pecuniária, em face da referida infração.
INFRAÇÃO ADUANEIRA. MULTA REGULAMENTAR. DESCONSOLIDAÇÃO DE CARGA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE.
O instituto da denúncia espontânea é incompatível com o cumprimento extemporâneo de obrigação acessória concernente à prestação de informações ao Fisco, via sistema Siscomex, relativa a carga transportada, uma vez que tal fato configura a própria infração.
Numero da decisão: 3001-000.419
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 09/01/2004 AGENTE MARÍTIMO. DESPACHO DE EXPORTAÇÃO. REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DA CARGA. LEGITIMIDADE PASSIVA. IMPOSIÇÃO DA MULTA. POSSIBILIDADE. Por expressa determinação legal, o agente marítimo, representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este em relação à exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de infração à legislação tributária. Logo, o recorrente, investido na qualidade de representante do transportador estrangeiro, ao não prestar as informações devidas, no prazo regulamentar, sobre carga destinada ao exterior, no âmbito do despacho aduaneiro de exportação, responde pela respectiva sanção pecuniária, em face da referida infração. INFRAÇÃO ADUANEIRA. MULTA REGULAMENTAR. DESCONSOLIDAÇÃO DE CARGA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. O instituto da denúncia espontânea é incompatível com o cumprimento extemporâneo de obrigação acessória concernente à prestação de informações ao Fisco, via sistema Siscomex, relativa a carga transportada, uma vez que tal fato configura a própria infração. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante, que lhe deram provimento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 93 47 /2 00 8- 63 Fl. 113DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 113 2 (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Francisco Martins Leite Cavalcante. Relatório Cuidase de recurso voluntário (efls. 95 a 106) interposto contra o Acórdão 1644.780, da 24ª Turma Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo 1 DRJ/SP1 que, na sessão de julgamento realizada em 13.03.2013 (efls. 76 a 88), julgou procedente em parte a impugnação e, por consequência, manteve parcialmente o crédito tributário lançado de ofício. Dos fatos Por sua clareza e síntese, adoto o relatório da decisão recorrida, que transcrevo em seguida: Relatório O presente Auto de Infração, no valor de R$ 205.000,00, foi lavrado face ao descumprimento da obrigação acessória de prestar as informações dos dados de embarque de mercadorias para exportação, no Siscomex, no prazo estabelecido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Conforme consta na peça impositiva (fls. 02/13), a autoridade fiscal fundamentou a autuação no art. 107, inciso IV, alíneas “c” e “e”, do Decretolei 37, de 1966, com a redação dada pelo art. 77 da Lei 10.833, de 2003, bem como nos artigos 37 e 44, da Instrução Normativa SRF nº 28, de 27 de abril de 1994. Às fls. 14/15, foi juntada planilha, na qual se verifica 41 viagens/navios cujos dados de embarque foram registrados fora do prazo de 07 dias estipulado pela RFB, cujas cargas estão amparadas nas Declarações de Despacho de Exportação DDE ali discriminadas. Foram também especificados os nomes dos navios, as respectivas datas dos embarques e dos registros das informações, extraídos de consultas ao sistema Siscomex. Cientificada do lançamento em 16/01/2009 (fl. 19), a interessada apresentou impugnação, em 10/02/2009, juntada às fls. 20 e seguintes, alegando em síntese que: a) a autuação é nula, pois a fiscalização não anexou qualquer documento que comprove a infração apontada atraso no registro de informações de 41 navios no mês de janeiro de 2004, impossibilitando o direito à ampla defesa; Fl. 114DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 114 3 b) à exceção do navio “STAR POLARIS”, cuja data de embarque ocorreu em 19/01/2004, todos os demais fatos geradores da obrigação tributária impugnada estão extintos pela decadência; c) a requerente não é parte legítima para figurar no polo passivo da autuação, agente marítimo não pode ser equiparado ao transportador para fins de imputação de responsabilidade tributária, com base nas disposições do DecretoLei nº 37/66. Cita jurisprudência judicial e Súmula 192 do extinto TFR; d) os fatos não se enquadram na hipótese prevista pela alínea “c”, IV, do art. 107 do DL 37/66, uma vez que a Requerente não deixou de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada. Apenas o fez com atraso, o que não quer dizer que tenha criado embaraços, dificultado ou impedido a ação da fiscalização aduaneira. Cita jurisprudência administrativa; e) a multa estabelecida na alínea “e”, IV, do art. 107 do DL 37/66 não pode ser aplicada ao agente marítimo, nem tampouco a este pode ser estendida a solidariedade passiva, por absoluta falta de previsão legal a respeito dessa obrigação acessória; f) todas as infrações, supostamente cometidas em janeiro de 2004, decorrem de um só fato descumprimento do prazo para o registro no Siscomex dos dados relativos ao embarque das mercadorias. Portanto, correspondem a uma só infração, praticada de forma continuada, que deve ser penalizada tão somente mediante a aplicação de uma única multa limitada ao valor de R$ 5.000,00, e não de uma multa para cada ato isolado. Esclarece que a infração continuada é uma adaptação de um instituto originário do Direito Penal e o STJ vem adotando, há muito, a teoria da infração continuada em seus julgamentos, conforme jurisprudência que cita; g) alega ser fácil constatar, na situação dos autos, que a não tempestividade das informações se deu por fatos alheios à sua vontade. Por inúmeras vezes, os exportadores passam dados incorretos do número das respectivas DDE e a requerente passa a retificar as informações. Logo, o que ocorreu não foi um atraso, mas simples retificação, o que corrobora sua boa fé, além de não ter havido nenhum prejuízo ao Erário. Assim, não obstante o previsto no art. 94 do DL 37/66, a jurisprudência pátria tem navegado no sentido de que a presunção da boafé é verdadeira causa de exclusão de ilicitude, conforme decisões administrativas e judiciais que cita; h) requer, ao final, que a multa aplicada seja reduzida, isto se o julgamento não for julgado totalmente nulo, prescrito ou improcedente. Às fls. 64/65, a interessada foi intimada a regularizar sua representação processual, providência adotada por meio dos documentos juntados às fls. 66/70. Em face da publicação da Medida Provisória nº 497/2010, a contribuinte protocolizou o expediente de fls. 73/75, requerendo a exclusão da penalidade Fl. 115DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 115 4 em face do instituto da denúncia espontânea, o qual deve ser aplicado ao caso, em face do princípio da retroatividade benigna. Todos os números de folhas citados neste acórdão são os atribuídos pelo “eprocesso”. É o relatório. Da ementa da decisão de primeira instância Com a apresentação da manifestação de inconformidade sobreveio, então, o acórdão da 24ª Turma da DRJ/SP1, cuja ementa colacionase: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 07/07/2000 a 19/01/2004 MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. REGISTRO DOS DADOS DE EMBARQUE NO SISCOMEX. No caso de transporte marítimo, constatado que o registro, no Siscomex, dos dados pertinentes ao embarque de mercadorias se deu após decorrido o prazo de 7 (sete) dias, é devida a multa regulamentar por falta do respectivo registro, aplicada sobre cada viagem. INFRAÇÃO CONTINUADA. EMBARQUES DIFERENTES. MERA REITERAÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL. É incabível falar em infração continuada quando os atos caracterizadores da infração não resultam do aproveitamento das condições objetivas que balizaram a prática das infrações anteriores. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. Não caracteriza denúncia espontânea a informação extemporânea dos registros dos dados de embarque, pois este fato, por si, caracteriza conduta infracional cominada por multa regulamentar. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 07/07/2000 a 19/01/2004 AGENTE MARÍTIMO. REPRESENTANTE DE TRANSPORTADOR MARÍTIMO ESTRANGEIRO. LEGITIMIDADE PASSIVA. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. O Agente Marítimo, por ser o representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este, no tocante à exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de Fl. 116DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 116 5 infração à legislação aduaneira, em razão de expressa determinação legal. DECADÊNCIA. INFRAÇÕES AO REGULAMENTO ADUANEIRO. O direito de impor penalidade por infrações ao Regulamento Aduaneiro extinguese em cinco anos a contar da data da infração. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Do recurso voluntário Inconformado com a decisão da 24ª Turma da DRJ/SP1, o contribuinte interpôs recurso, no qual, em apertada síntese, trouxe à discussão os temas/pontos abaixo. II EXCLUSÃO DA PUNIBILIDADE FATO NOVO Denúncia Espontânea Retroatividade Benigna Lei 12.350/2010 alterou o parágrafo 2º, do art. 102, do DecretoLei 37/66 Alega que na espécie o procedimento fiscal só foi iniciado após a inserção das DDE/SDe no "Siscomex", circunstância que caracteriza, a seu ver, a denúncia espontânea que impôs a presente exigência fiscal. Nesse passo, com a vigência da Medida provisória 497 de 27.07.2010, transformada na Lei 12.350 de 2010, que alterou a redação do parágrafo 2º, do artigo 102, do Decretolei 37 de 1966, referida norma reconheceu que a denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidade de natureza administrativa, exatamente o caso sob apreço. Devendo, portanto, tal regramento, retroagir para alcançálo, de acordo co o disposto na alínea "a", do inciso II do artigo 106, do Código tributário Nacional, por tratarse de exclusão de punibilidade. Restando, por fim, prejudicado o presente Auto de Infração. III AUSÊNCIA DE TIPICIDADE LEGAL Assevera que a norma é extremamente clara e que o legislador excluiu o agente marítimo do rol daqueles imputáveis pela presente penalidade, pois, quando quis fazê lo, o fez expressamente, como observase do teor do artigo 32 Decretolei 37 de 1966, em relação à solidariedade ao pagamento do Imposto de Importação, situação distinta do presente processo, por tratarse de uma obrigação tributária acessória, não podendose ampliar o alcance da norma para albergar hipóteses que a lei não previu. Logo, "não há embasamento legal para sua autuação, tendo em vista que o dispositivo legal que serviu de base para a aplicação da multa em discussão só pode ser aplicado ao (i) transportador internacional, a (ii) prestadora de serviços de transporte internacional expresso porta a porta e/ou ao (iii) agente de carga". IV INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DO AGENTE MARÍTIMO Aduz que a não responsabilização do agente marítimo, inclusive, é matéria já sumulada pelos tribunais, consoante proclamado pela Súmula 192 do extinto Tribunal Federal de Recursos. Colaciona jurisprudências. Fl. 117DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 117 6 Portanto, pede que seja reformada a decisão recorrida, julgandose improcedente o presente lançamento fiscal. Do encaminhamento Em razão disso, os autos ascenderam ao Carf em 10.09.2013 (efl. 113), que posteriormente foi distribuído para manifestação deste colegiado extraordinário da 3ª Seção, e na forma regimental, sorteado a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da tempestividade O Recurso Voluntário atende aos pressupostos de admissibilidade extrínsecos, pois há regularidade formal e apresentase tempestivo, na medida em que foi protocolado na Alfândega do Porto de Santos em 24.04.2013, conforme depreendese da chancela gravada na "Folha de Rosto" da respectiva peça recursal, após ciência no dia 25.03.2013, conforme observase do Aviso de Recebimento AR juntado (efls. 92/93), tendo respeitado o trintídio legal, conforme exige o artigo 33 do Decreto 70.235 de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal. Da competência para julgamento do feito Observo, ainda, a competência deste Colegiado, na forma do artigo 23B do Anexo II da Portaria MF 343 de 09.06.2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Carf, com redação da Portaria MF 329 de 2017. Do litígio É ponto incontroverso que os dados de embarque no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) foram inseridos em prazo superior a sete dias em 61 embarques em 41 navios por ela representados. O litígio cingese, portanto, aos seguintes pontos: a1) ilegitimidade passiva do recorrente e, complementarmente, a2) impossibilidade de aplicação da multa, por ausência de tipicidade legal; e b) excludente de responsabilidade, por denúncia espontânea da infração, notadamente em razão da alteração legal promovida pela Lei 12.350 de 2010. Da preliminar de ilegitimidade do agente marítimo Para o recorrente, o agente marítimo não é considerado responsável tributário, uma vez que não pode ser equiparado ao transportador para efeito da responsabilização tributária, porque esta atribuição não se aplica à natureza de sua atividade de mandatária. Fl. 118DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 118 7 Para tanto, cita a Súmula 192 do extinto Tribunal Federal de Recursos, que possui o seguinte verbete: O agente marítimo, quando no exercício exclusivo das atribuições próprias, não é considerado responsável tributário, nem se equipara ao transportador para efeitos do DecretoLei nº 37, de 1966, bem como outras jurisprudências. Em vista disso, requer seja dado provimento ao seu recurso voluntário para cancelamento do auto de infração. De plano, conforme se demonstrará a seguir, não lhe assiste razão neste tópico preliminar. Dispõe o artigo 32 do Decretolei 37 de 18.11.1966, verbis: Art. 32. É responsável pelo imposto: (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) I o transportador, quando transportar mercadoria procedente do exterior ou sob controle aduaneiro, inclusive em percurso interno; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) (grifei) II o depositário, assim considerada qualquer pessoa incumbida da custódia de mercadoria sob controle aduaneiro. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) Parágrafo único. É responsável solidário: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) I o adquirente ou cessionário de mercadoria beneficiada com isenção ou redução do imposto; (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) II representante, no País, do transportador estrangeiro; (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) III adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) c) o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora; (Incluída pela Lei nº 11.281, de 2006) d) o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora. (Incluída pela Lei nº 11.281, de 2006) Ressaltese que a redação do parágrafo único dada pelo Decretolei 2.472 de 1988, foi mantida na redação dada pela Medida Provisória 2.15835 de 24.08.2001. Além disso, a solidariedade tributária passiva encontra guarida no CTN, nos seguintes dispositivos: Fl. 119DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 119 8 Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. (grifei) Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. (grifei) Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindoa a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação. (grifei) A respeito da legitimidade da solidariedade tributária do agente marítimo em relação ao transportador estrangeiro, citese a decisão do REsp 1.129.430/SP, relator ministro Luiz Fux, Primeira Seção do STJ, DJE de 14/12/2010, em sede de recurso repetitivo, que assentou que o agente marítimo, no exercício exclusivo de atribuições próprias, no período anterior à vigência do DecretoLei 2.472 de 1988 (que alterou o artigo 32, do Decretolei 37 de 1966), não ostentava a condição de responsável tributário, porque inexistente previsão legal para tanto. Entretanto, a partir da vigência do Decretolei 2.472 de 1988 já não há mais óbice para que o agente marítimo figurasse como responsável tributário. Em decorrência do exposto, o Agente Marítimo, por ser o representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este, com relação à eventual exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de infração à legislação aduaneira. Consignase, por fim, que para os dois primeiros argumentos tecidos pelo recorrente em seu voluntário, este E. Tribunal em inúmeros precedentes idênticos ao caso concreto já teve a oportunidade de se manifestar, mantendo as autuações, dentre outros, citese os acórdãos 3401003.883, 3401003.882, 3401003.881, 3401002.443, 3401002.442, 3401 002.441, 3401002.440, 3102001.988, 3401002.357, 3401002.379, 3302002.733, 3802 003.962, 3403003.252, 3802001.127 e 3302002.732. Por economia, cito apenas a primeira parte da ementa do acórdão 3301 002.972, cujo julgado ocorreu em 17.06.2016, verbis: Assunto: Obrigações Acessórias Fl. 120DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 120 9 Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 AGENTE MARÍTIMO. LEGITIMIDADE PASSIVA. Por expressa determinação legal, o agente marítimo, representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este em relação à exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de infração à legislação tributária. O agente marítimo é, portanto, parte legítima para figurar no polo passivo do auto de infração. (...) Recurso de Ofício negado e Recurso Voluntário negado. É também nesse sentido o Acórdão 9303003.276, da 3ª Turma da Câmara Superior, cujo julgado ocorreu já em 05.02.2015, verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE IMPORTAÇÃO Período de apuração: 01/04/1998 a 30/06/1998 ILEGITIMIDADE PASSIVA. RESPONSABILIDADE DO AGENTE MARÍTIMO. O Agente Marítimo, representante no país do transportador estrangeiro, é responsável solidário e responde pelas penalidades cabíveis. Recurso Especial da Fazenda provido. Afastase, portanto, esta contestação preliminar, feita subliminarmente quando da argumentação da matéria tratada no tópico imediatamente a seguir. Da impossibilidade de aplicação da multa, por ausência de tipicidade legal Esclareçase, que embora o tema agora abordado ser concorrente ao tratado no tópico anterior ilegitimidade passiva do agente marítimo, em homenagem ao pleno direito de defesa, procederseá a breves considerações sobre referida temática. O enquadramento legal da infração praticada pelo recorrente é a alínea "e" do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37 de 1966, que assim dispõe, verbis: Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (...) IV de R$ 5.000,00 (cinco mil reais): (...) e) por deixar de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a prestadora de serviços de transporte internacional expresso portaaporta, ou ao agente de carga. Fl. 121DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 121 10 No caso em tela, não se discute se a informação foi prestada tempestiva ou intempestivamente, pois o descumprimento do prazo foi confessado pelo recorrente, não sendo, portanto, objeto de contenda. Apenas em reforço, sabese que o agente marítimo, na qualidade de representante do transportador estrangeiro, no país, por força do artigo 95 do Decretolei 37 de 1966, responde pela infração consistente na prestação de informações sobre embarques de exportação, no SISCOMEX, fora do prazo, sendo legitimado sujeito passivo a figurar na presente exação fiscal. Conforme também já abordado no tópico anterior, a conduta do recorrente está enquadrada de forma correta, de modo que não cabe o cancelamento do auto de infração, logo, não acode o direito ao recorrente, haja vista que prevista a obrigação de informar em prazo definido os embarques de exportação no sistema próprio e não observada a temporalidade da informação plenamente cabível a infração prescrita na alínea "e" do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37 de 1966, consoante o qual é aplicável a multa de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), àquele que deixa de prestar informação sobre carga ou sobre as operações que execute, no prazo estabelecido pela Secretaria da Receita Federal, à empresa de transporte internacional ou ao agente de carga. Neste contexto, portanto, não há falar em inaplicabilidade da penalidade em comento, sob a equivocada alegação de falta de tipicidade legal, por suposta inimputabilidade dos agentes marítimos. Da denunciação espontânea da infração O recorrente alegou a denúncia espontânea da infração cometida, para excluir a penalidade que lhe fora aplicada, sob o argumento de que com a alteração legislativa do parágrafo 2º do artigo 102 do Decretolei 37 de 1966, promovida pela Lei 12.350 de 20.12.2010, resultante da conversão da Medida Provisória 497 de 27.07.2010, passouse a reconhecer que a denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidade de natureza administrativa. Porém, melhor sorte também não assiste ao recorrente, porque, como veremos, a infração em apreço, inequivocamente, não é passível de denúncia espontânea. A fim de justificar e, por conseguinte, fundamentar o por quê de a penalidade ora objetada não comportar o instituto da denúncia espontânea, previsto no CTN, peço licença ao ilustre conselheiro José Fernandes do Nascimento para colacionar trechos do voto de sua lavra, consignado no Acórdão 3102002.187, exarado em 26.03.2014: (...) Não procede a alegação da recorrente, pois, no caso em comento, não se aplica o instituto da denúncia espontânea da infração previsto no art. 138 do CTN e tampouco o específico da infração a legislação aduaneira estabelecido no art. 102 do Decretolei nº 37, de 1966, com as novas redações dadas pelo Decretolei nº 2.472, de 01 de setembro de 1988 e pela Lei nº 12.350, de 20 dezembro de 2010, a seguir reproduzido: Fl. 122DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 122 11 Art. 102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º Não se considera espontânea a denúncia apresentada: (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) b) após o início de qualquer outro procedimento fiscal, mediante ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, tendente a apurar a infração. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2º A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) O objetivo da norma em destaque, evidentemente, é estimular que o infrator informe espontaneamente à Administração aduaneira a prática das infrações de natureza tributária e administrativa instituídas na legislação aduaneira. Nesta última, incluída todas as obrigações acessórias ou deveres instrumentais (segundo alguns) que tenham por objeto as prestações positivas (fazer ou tolerar) ou negativas (não fazer) instituídas no interesse fiscalização das operações de comércio exterior, incluindo os aspectos de natureza tributária, administrativo, comercial, cambial etc. Não se pode olvidar que, para aplicação do instituto da denúncia espontânea, é condição necessária que a infração de natureza tributária ou administrativa seja passível de denunciação à fiscalização pelo infrator. Em outras palavras, é requisito essencial da excludente de responsabilidade em apreço que a infração seja denunciável. No âmbito da legislação aduaneira, em consonância com o disposto no retrotranscrito preceito legal, as impossibilidades de aplicação dos efeitos da denúncia espontânea podem decorrer de circunstância de ordem lógica (ou racional) ou legal (ou jurídica). No caso de impedimento legal, é o próprio ordenamento jurídico que veda a incidência da norma em apreço, ao excluir determinado tipo de infração do alcance do efeito excludente da responsabilidade por denunciação espontânea da infração cometida. A título de exemplo, podem ser citadas as infrações por dano erário, sancionadas com a pena de perdimento, Fl. 123DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 123 12 conforme expressamente determinado no § 2º, in fine, do citado art. 102. A impossibilidade de natureza lógica ou racional ocorre quando fatores de ordem material tornam impossível a denunciação espontânea da infração. São dessa modalidade as infrações que têm por objeto as condutas extemporâneas do sujeito passivo, caracterizadas pelo cumprimento da obrigação após o prazo estabelecido na legislação. Para tais tipos de infração, a denúncia espontânea não tem o condão de desfazer ou paralisar o fluxo inevitável do tempo. Compõem essa última modalidade toda infração que tem o atraso no cumprimento da obrigação acessória (administrativa) como elementar do tipo da conduta infratora. Em outras palavras, toda infração que tem o fluxo ou transcurso do tempo como elemento essencial da tipificação da infração. São dessa última modalidade todas as infrações que têm no núcleo do tipo da infração o atraso no cumprimento da obrigação legalmente estabelecida. (...) De fato, se registro extemporâneo da informação da carga materializasse a conduta típica da infração em apreço, seria de todo ilógico, por contradição insuperável, que o mesmo fato configurasse a denúncia espontânea da correspondente infração. (...) Esse sentido e alcance atribuído a norma, com devida vênia, constitui um contrassenso jurídico, uma espécie de revogação da penalidade pelo intérprete e aplicador da norma, pois, na prática, a sanção estabelecida para a penalidade não poderá ser aplicada em hipótese alguma, excluindo do ordenamento jurídico qualquer possibilidade punitiva para a prática de infração desse jaez. (...) No mesmo sentido, o entendimento manifestado pela 3ª Turma da CSRF, por meio do Acórdão nº 9303003.552, de 26/04/2016, rel. Rodrigo da Costa Pôssas, cujo enunciado da ementa segue reproduzido: (...) No âmbito dos Tribunais Regionais Federais (TRF), o entendimento tem sido o mesmo. A título de exemplo, citase trechos do enunciado da ementa e do voto condutor do TRF da 4ª Região, proferido no julgamento da Apelação Cível nº 500599981.2012.404.7208/SC, que seguem parcialmente transcritos: EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. MULTA DECORRENTE DA INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA DE DADOS DE EMBARQUE. AGENTE MARÍTIMO. Fl. 124DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 124 13 LEGITIMIDADE PASSIVA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA AUTÔNOMA. INAPLICABILIDADE DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA. PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE. VALOR QUE NÃO OFENDE O PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE CONFISCO. 1. O agente marítimo assume a condição de representante do transportador perante os órgãos públicos nacionais e, ao deixar de prestar informação sobre veículo ou carga transportada, concorre diretamente para a infração, daí decorrendo a sua responsabilidade pelo pagamento da multa, nos termos do artigo 95, I, do DecretoLei nº 37, de 1966. 2. Não se aplica a denúncia espontânea para os casos de descumprimento de obrigações tributárias acessórias autônomas. 3. A finalidade punitiva e dissuasória da multa justifica a sua fixação em valores mais elevados, sem que com isso ela ofenda os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e vedação ao confisco. [...] Voto. [...] Não é caso, também, de acolhimento da alegação de denúncia espontânea. A Lei nº 12.350, de 2010, deu ao artigo 102, § 2º, do DecretoLei nº 37, de 1966, a seguinte redação: [...] Bem se vê que a norma não é inovadora em relação ao artigo 138 do CTN, merecendo, portanto, idêntica interpretação. Nesse sentido, é pacífico o entendimento no sentido de que a denúncia espontânea não se aplica para os casos em que a infração seja à obrigação tributária acessória autônoma. [...]. Também com base no mesmo entendimento, a questão tem sido decidida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), conforme confirma, a título de exemplo, o recente acórdão proferido no julgamento do REsp 1613696/SC, cujo enunciado da ementa segue transcrito: O art. 107 do Decretolei 37, de 1966, por sua vez, estabelece a penalidade de multa, no caso de descumprimento da obrigação acima mencionada. Oportuno anotar, ainda, que a declaração do embarque das mercadorias é obrigação acessória e sua apresentação intempestiva caracteriza infração formal, Fl. 125DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 125 14 cuja penalidade não é passível de ser afastada pela denúncia espontânea.”. Com base nessas considerações, afastase a alegada excludente de responsabilidade por denúncia espontânea, suscitada pela recorrente. Em reforço, é de relevo destacar que a presente situação envolve operações de exportação cujos dados foram obtidos junto ao SISCOMEX EXPORTAÇÃO. O Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX é o instrumento administrativo que integra as atividades de registro, acompanhamento e controle das operações de comércio exterior, conforme artigo 2º do Decreto 660 de 25.09.1992. A Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, como um dos órgãos gestores do Siscomex é responsável pelas áreas aduaneira e tributária, assim, a fiscalização no âmbito de sua competência objete os dados junto ao referido sistema. Para contextualizar a situação fática, observese que toda mercadoria destinada ao exterior, inclusive a reexportada, está sujeita a despacho de exportação, com as exceções estabelecidas na legislação específica. (RA/2002, artigo 520) e (RA/2009, artigo 581). Em geral, o despacho de exportação será processado por meio de Declaração de Despacho de Exportação (DDE), registrada no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), tendo a si vinculados um ou mais Registros de Exportação (RE). Assim, constatase da planilha elaborada pela autoridade lançadora, como fundamento a exação em discussão, que os dados obtidos pela fiscalização junto ao SISCOMEX EXPORTAÇÃO foram prestados pelo próprio recorrente, já que é também, como interveniente, usuário do sistema e responsável pelos dados do embarque das mercadorias, na forma e prazo estabelecidos pela RFB, contemplam as informações necessárias para a individualização dos dados referente ao embarque remanescente, ocorrido em 19.01.2004, único cujo direito de impor penalidade não foi atingido pelo decurso do prazo fatal, como corretamente abordado na decisão recorrida. Portanto, sabedores que tais processamentos de embarques são determinantes para propiciar o desembaraço aduaneiro das respectivas mercadorias e, por consequência, procede à conclusão dos despachos de exportação (DDE's), não há como prevalecer a hipótese do recorrente para adotarse a tese da denúncia espontânea da infração prevista no artigo 138 do CTN. Isto por que, como já salientado, em se tratando de penalidade aduaneira, a denúncia espontânea possui tratamento específico. Com efeito, reproduzse os preceitos dos artigos 612 do Decreto 4.543 de 26.12.2002 Regulamento Aduaneiro à época vidente e do atualmente em vigor, qual seja o 683 do Decreto 6.759 de 05.02.2009: Regulamento Aduaneiro/2002 Art. 612. A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos legais, excluirá a imposição da correspondente penalidade (Decretolei Fl. 126DF CARF MF Processo nº 11128.009347/200863 Acórdão n.º 3001000.419 S3C0T1 Fl. 126 15 no 37, de 1966, art. 102, com a redação dada pelo Decretolei no 2.472, de 1988, art. 1o). § 1o Não se considera espontânea a denúncia apresentada (Decretolei no 37, de 1966, art. 102, § 1o, com a redação dada pelo Decretolei no 2.472, de 1988, art. 1o): I no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; ou (...) Regulamento Aduaneiro/2009 Art. 683. A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento dos tributos dos acréscimos legais, excluirá a imposição da correspondente penalidade (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 102, caput, com a redação dada pelo DecretoLei no 2.472, de 1988, art. 1o; e Lei nº 5.172, de 1966, art. 138, caput). § 1o Não se considera espontânea a denúncia apresentada (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 102, § 1º, com a redação dada pelo DecretoLei no 2.472, de 1988, art. 1o): I no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; ou (...) Da leitura dos enunciados normativos acima transcritos, verificase que, depois do ano de 2010, com o advento das novas redações do artigo 102 do Decretolei 37 de 1966, dadas pelo Decretolei 2.472 de 01.12.1988 e pela Lei 12.350 de 20.12.2010, em alguns casos a denúncia espontânea passou a alcançar também as multas de natureza administrativa. Entretanto, este mesmo regramento é taxativo em determinar, desde muito antes da ocorrência do fato gerador da infração que culminou na exigência da multa sob exame, que "não se considera espontânea a denúncia apresentada no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria". E é justamente este o caso dos autos, tendo em vista que o recorrente prestou extemporaneamente as informações exigidas e, por óbvio, antes do desembaraço aduaneiro das mercadorias/cargas descritas nos respectivos despachos de exportação; isto porque tal procedimento desembaraço aduaneiro somente é passível de perfectibilizarse depois de prestadas as informações que estavam sob a responsabilidade do agente marítimo ora autuado. Da conclusão Dessa forma, evidenciada a legitimidade passiva do recorrente, demonstrada a infração praticada e a correta aplicação da penalidade ora objurgada, voto por conhecer do recurso voluntário interposto, para rejeitar a preliminar suscitada, e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 127DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.914187/2012-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/11/2003 a 30/11/2003
RESTITUIÇÃO. REQUISITO.
O direito à restituição pressupõe a existência de créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública (art. 170 do CTN).
Numero da decisão: 3201-003.838
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. Acompanharam o relator pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/11/2003 a 30/11/2003 RESTITUIÇÃO. REQUISITO. O direito à restituição pressupõe a existência de créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública (art. 170 do CTN). Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. Acompanharam o relator pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. Relatório METROBENS AUTOMÓVEIS LTDA. apresentou pedido eletrônico de restituição de crédito da contribuição (Cofins/PIS), pedido esse que restou indeferido pela repartição de origem em razão do fato de que o pagamento informado pelo pleiteante já havia sido utilizado para quitação de outros débitos de sua titularidade. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 91 41 87 /2 01 2- 30 Fl. 50DF CARF MF Processo nº 10980.914187/201230 Acórdão n.º 3201003.838 S3C2T1 Fl. 3 2 Cientificado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade e requereu a reavaliação do despacho decisório, alegando, aqui apresentado de forma sucinta, o seguinte: a) o direito creditório pleiteado se refere a pagamento a maior da contribuição (PIS/Cofins) decorrente da inclusão indevida do ICMS em sua base de cálculo; b) a contribuição (PIS/Cofins) incide sobre o faturamento mensal que corresponde à receita bruta da venda de mercadorias e/ou serviços; c) a Lei nº 9.718/1998 extrapolou a previsão constitucional, instituindo as contribuições sobre a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente do tipo de atividade exercida e/ou da classificação contábil adotada, enquanto que o art. 195, I, "b", da Constituição Federal previa a instituição de contribuições sociais somente sobre o faturamento, o que não abrange o valor pago a título de ICMS, visto que tal valor constitui ônus fiscal e não faturamento. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento, por meio do acórdão nº 12 076.725, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, diante da não comprovação do crédito pleiteado. Irresignado, o contribuinte interpôs, no prazo legal, Recurso Voluntário, repisando os mesmos argumentos de defesa, destacando a inconstitucionalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição (PIS/Cofins), conforme decisão do Plenário do Supremo Tribunal Federal proferida no dia 8 de outubro de 2014, nos autos do Recurso Extraordinário (RE) nº 240.7852/MG, que também reconheceu a repercussão geral da matéria no julgamento do RE nº 574.706. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201003.778, de 20/06/2018, proferido no julgamento do processo 10980.912250/201201, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201003.778): O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. A Recorrente apresentou PER/DCOMP por meio do qual requereu a restituição da Cofins apurada em novembro de 2006. Indeferido o pleito ao argumento de que o crédito vindicado estava integralmente utilizado para quitação de débitos do próprio contribuinte, Fl. 51DF CARF MF Processo nº 10980.914187/201230 Acórdão n.º 3201003.838 S3C2T1 Fl. 4 3 a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade, por meio da qual alegou, com fundamento em decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal STF, que o direito à restituição decorre do fato do pagamento a maior do PIS/Cofins, em face da inclusão, nas suas respectivas bases de cálculos, do ICMS estadual, argumento repetido no recurso voluntário, ora apreciado. A Recorrente, contudo, não se atentou para o fato – devidamente explicitado no acórdão recorrido – de que a razão para o indeferimento do pedido repousou na utilização integral do crédito para pagamento de débito da mesma contribuição. Noutras palavras, a Recorrente sequer apresentou, antes ou após a ciência do Despacho Decisório (na verdade, nada falou a respeito em suas defesas), DCTF retificadora para permitir a liberação do valor requerido, se fosse o caso, e a sua restituição em pecúnia ou a sua compensação com outros tributos. Ainda que eventualmente seja procedente o argumento que embasa o pedido (isso não significa que concordemos com a tese), a Administração Tributária não podia e não pode restituir valor já alocado para quitação de um tributo. Quem deve fazêlo é o próprio contribuinte, de ordinário antes de apresentar o pedido eletrônico de restituição. É como, aliás, entende a própria RFB, como indica o Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. O procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9ºA da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido Fl. 52DF CARF MF Processo nº 10980.914187/201230 Acórdão n.º 3201003.838 S3C2T1 Fl. 5 4 objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. A não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazêla em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. O valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53. Dispositivos Legais. arts. 147, 150, 165 170 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN); arts. 348 e 353 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 – Código de Processo Civil (CPC); art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984; art. 18 da MP nº 2.18949, de 23 de agosto de 2001; arts. 73 e 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996; Instrução Normativa RFB nº 1.110, de 24 de dezembro de 2010; Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 20 de novembro de 2012; Parecer Normativo RFB nº 8, de 3 de setembro de 2014. eprocesso 11170.720001/201442 Portanto, para que haja a possibilidade de restituição, o crédito respectivo deve estar liberado, mediante a entrega de DCTF retificadora, exceto quanto às hipóteses de impedimento à sua apresentação, não verificadas, aliás, no caso ora em exame, como, por exemplo, quando o saldo a pagar já tenha sido enviado à Procuradoria da Fazenda Nacional PFN para inscrição em Dívida Ativa. Não cabe, ademais, à RFB fazer a retificação de ofício. Como consignado nos fundamentos do referido PN, "enquanto não retificada a DCTF, o débito ali espontaneamente confessado é devido, logo, valor utilizado para quitálo não se constitui formalmente em indébito, sem que a recorrente promova a prévia retificação da declaração. (Acórdão nº 1302001.571, Rel. Cons. Alberto Pinto Souza Júnior, 25 de novembro de 2014)". A situação aqui enfrentada é, como se percebe, diferente da que comumente se vê no Contencioso Administrativo, em que o interessado costuma apresentar DCTF retificadora, mas não apresenta, na manifestação de inconformidade, documentos contábeis/fiscais Fl. 53DF CARF MF Processo nº 10980.914187/201230 Acórdão n.º 3201003.838 S3C2T1 Fl. 6 5 comprovando o erro cometido na original, ou os apresenta neste recurso, mas o só fato de a DCTF retificadora ter sido apresentada após a ciência do Despacho Decisório leva a DRJ a manter, por esse só motivo, o indeferimento do pedido de restituição. Não tendo sido apresentada DCTF retificadora, o crédito reclamado continua vinculado ao pagamento confessado na DCTF enviada à RFB, de modo que, nesse contexto, não há como restituílo. Contudo, não foi este o entendimento dos demais integrantes da Turma, que, muito embora também negando provimento ao recurso, fizeramno ao argumento de que não haveria provas do direito reclamado pela Recorrente (apenas apresentou planilha discriminando os valores pleiteados, mas nenhum documento fiscal ou contábil). Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Cofins, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 54DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.013814/2008-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2004, 2005
Ementa:
ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO.
Constatada - pelo Fisco - a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica - ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT.
ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ADA. OBRIGATORIEDADE.
A partir do exercício 2001, faz-se obrigatória, para valer-se da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação - tempestiva - do ADA ao IBAMA, com referidas informações.
ITR. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO.
A ARL deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, consoante estabelecem os §§ 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65.
Numero da decisão: 2402-006.228
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que deram provimento parcial.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: MAURICIO NOGUEIRA RIGHETTI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR Exercício: 2004, 2005 Ementa: ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatada - pelo Fisco - a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica - ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT. ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ADA. OBRIGATORIEDADE. A partir do exercício 2001, faz-se obrigatória, para valer-se da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação - tempestiva - do ADA ao IBAMA, com referidas informações. ITR. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO. A ARL deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, consoante estabelecem os §§ 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que deram provimento parcial. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho - Presidente (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti - Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2018-06-21T15:41:05Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: pdfsam-console (Ver. 2.4.3e); access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2018-06-21T15:41:05Z; Last-Modified: 2018-06-21T15:41:05Z; dcterms:modified: 2018-06-21T15:41:05Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2018-06-21T15:41:05Z; pdf:docinfo:creator_tool: pdfsam-console (Ver. 2.4.3e); access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2018-06-21T15:41:05Z; meta:save-date: 2018-06-21T15:41:05Z; pdf:encrypted: true; modified: 2018-06-21T15:41:05Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2018-06-21T15:41:05Z; created: 2018-06-21T15:41:05Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 19; Creation-Date: 2018-06-21T15:41:05Z; pdf:charsPerPage: 1713; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2018-06-21T15:41:05Z | Conteúdo => S2C4T2 Fl. 2 1 1 S2C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10980.013814/200837 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2402006.228 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 05 de junho de 2018 Matéria ITR Recorrente QUIELSE CRISOSTOMO DA SILVA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2004, 2005 Ementa: ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatada pelo Fisco a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT. ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ADA. OBRIGATORIEDADE. A partir do exercício 2001, fazse obrigatória, para valerse da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação tempestiva do ADA ao IBAMA, com referidas informações. ITR. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO. A ARL deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, consoante estabelecem os §§ 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 01 38 14 /2 00 8- 37 Fl. 165DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que deram provimento parcial. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório Cuida o presente de Recurso Voluntário em face do Acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento, que considerou improcedente a Impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Contra o contribuinte (espólio) foi lavrado Auto de Infração para constituição do ITR, exercícios 2004 e 2005 no valor principal de R$ 18.005,23 e R$ 19.464,31, respectivamente, acrescidos de multa de ofício (75%) e juros legais (Selic), relativo ao NIRF 1.450.5169 FAZENDA MANIKA. Foram apuradas as seguintes infrações em ambos os exercícios: 1 Área de Preservação Permanente não comprovada; 2 Área de Reserva Legal não comprovada; 3 VTN declarado não comprovado; e 4 Área Ocupada com Produtos Vegetais não comprovadas. Regulamente intimado do lançamento, apresentou Impugnação, que foi julgada improcedente pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ fls. 119/129. Em seu Recurso Voluntário de fls. 134/155 aduz, em resumo: 1 Que a área do imóvel consta do ecossistema da Mata Atlântica, inserida na Área de Proteção Ambiental APA de Guaraqueçaba, criada pelo Decreto Federal n° 90.883 de 31 de janeiro de 1.985 e declarada como área de proteção ambiental no âmbito do Estado do Paraná, conforme Decreto Estadual PR n° 1.228 de 30 de março de 1992, e o excluiria definitivamente da condição de áreas tributáveis, uma vez que proibida toda e qualquer atividade nessas áreas. Fl. 166DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 3 3 Que o ADA apresentado demonstraria a integralidade da área como de interesse ecológico. 2 Que as áreas utilizadas com benfeitorias e produtos vegetais que foram glosadas pela Fiscalização deveriam ser consideradas como APP; 3 Que o VTN considerado no lançamento, infundado e inconseqüente, decorreu de uma valor de terras que é varias vezes maior do que o negociado quando da aquisição do imóvel. Que não se trataria de terras mistas inaproveitáveis e si de área de preservação formada por manguezais, morros, serras, montanhas, enfim topografia exageradamente acidentada, servindo de abrigo de animais silvestres e florestal protegidos pela legislação comercial e que não tem valor comercial, apenas preservação natural e permanente. É o relatório. Voto Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, Relator O contribuinte tomou ciência do acórdão recorrido em 06.072010 e apresentou tempestivamente seu Recurso Voluntário em 03.08.2010. Observados os demais requisitos de admissibilidade, dele passo a conhecer. Consoante se denota do demonstrativo de apuração do ITR devido, a Fiscalização promoveu alterações na DITR do contribuinte no que toca às áreas: de preservação permanente, de reserva legal, além de no valor total do imóvel e áreas utilizadas por produtos vegetais e sobre tais assuntos se desenvolverá a análise a seguir. Vejamos: Fl. 167DF CARF MF 4 As alterações promovidas de ofício pelo lançamento trazem repercussão direta na base imponível e alíquota do tributo. Glosa das Áreas de Preservação Permanente APP e Reserva Legal ARL. Prosseguindo na análise, o § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, que deve ser aplicado em sua literalidade por força do artigo 111 do CTN1, elenca as áreas que podem ser deduzidas da área tributável para fins de apuração do ITR. Vejamos: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: 1 Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. (...) Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 4 5 a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior; c) comprovadamente imprestáveis para qualquer exploração agrícola, pecuária, granjeira, aqüícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual; d) as áreas sob regime de servidão florestal.(Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006) f) alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidrelétricas autorizada pelo poder público. (Incluído pela Lei nº 11.727, de 2008) As áreas de preservação permanente APP, consoante definidas na Lei 4.771/65, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bemestar das populações humanas, podem ser classificadas como legais (art. 2º) e administrativas (art. 3º). Quanto às primeiras, as legais, temos as florestas e demais formas de vegetação natural situadas próximas a fontes de recursos hídricos e a relevos com importância a preservação dos eco sistemas, tais como: i) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal; ii) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; iii) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura; iv) no topo de morros, montes, montanhas e serras; v) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; e vi) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues. Fl. 169DF CARF MF 6 Por sua vez, as APP administrativas, declaradas por ato do poder público, são as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas; c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares; e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico; f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção; g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; h) a assegurar condições de bemestar público. Percebese que há uma evidente diferença entre as duas espécies de APP. Enquanto que para as legais, já determinadas no diploma legal, a finalidade é intrínseca ao que se propõe a lei; para as administrativas, a finalidade a ser alcançada pelo administrador público está textualmente prevista nas alíneas daquele artigo 3º. Assim, indubitavelmente, a ação do poder público tornase imprescindível para a constituição dessas APP administrativas. Frisese que a supressão total ou parcial dessas áreas de preservação permanente só será admitida com prévia autorização do Poder Executivo Federal, quando for necessária à execução de obras, planos, atividades ou projetos de utilidade pública ou interesse social. Por seu turno, ainda de acordo com o diploma encimado, as reservas legais são áreas localizadas no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada a de preservação permanente, necessárias ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas, cuja vegetação não pode ser suprimida, podendo apenas ser utilizada sob regime de manejo florestal sustentável, de acordo com princípios e critérios técnicos e científicos estabelecidos. Devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada (§ § 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65). A obrigatoriedade da aprovação acima citada foi introduzida na lei de regência, por conta da MP 2.16667/2001. Veja, a obrigatoriedade de se ter aprovada a localização da ARL pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada está diretamente relacionada à vedação a que se constitua reserva legal sobre área de preservação permanente, já dedutível, observadas as exigências legais, na apuração do imposto. Com isso, tendese a evitar a utilização da mesma área, por mais de uma vez, como dedução do ITR. Assim, podese resumir: APP Pode haver a supressão, quando assim determinar o interesse público; Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 5 7 ARL Não pode haver a supressão, mas somente sua utilização em regime de manejo florestal sustentável. E, por fim, naquilo que interessa ao caso, temos as áreas de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que, destacase: ampliem as restrições de uso previstas para as APP e ARL. Em outras palavras: ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não possui suporte legal. Confirase. ITR ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA/ÁREA DECLARADA DE INTERESSE ECOLÓGICO NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Para que não se tribute pelo Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR a área de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declarada mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, deve ser comprovada a ampliação às restrições de uso previstas para as áreas de preservação permanente e reserva legal, ou seja, restrições além do manejo sustentável. Acórdão nº 9202003.051 – Sessão de 12 de fevereiro de 2014 ÁREA DE INTERESSE ECOLÓGICO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. Para que as Áreas de Interesse Ecológico para a proteção dos ecossistemas sejam isentas do ITR, é necessário que sejam assim declaradas por ato específico do órgão competente, federal ou estadual, e que estejam sujeitas a restrições de uso superiores àquelas previstas para as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. O fato de o imóvel rural encontrarse inserido em zoneamento ecológico, por si só, não gera direito à isenção ora tratada. Acórdão nº 9202004.576 – Sessão de 24 de novembro de 2016 Reforçase: para efeito de exclusão do ITR, a Área de Interesse Ecológico deve ser assim declarada em caráter específico para determinada área da propriedade particular. Quer dizer com isso, que a área declarada em caráter geral não satisfaz, por si só, a condição legal para sua dedutibilidade. Portanto, se o imóvel rural estiver dentro de área declarada em caráter geral como de interesse ecológico, é necessário também o reconhecimento específico de órgão competente federal ou estadual para a área da propriedade particular. O reconhecimento dessas áreas depende de ato específico, por imóvel, expedido pelo Ibama (Ato Declaratório Ambiental – ADA). Prosseguindo, a alínea "e" do inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, com a redação dada pela lei 11.428/2006, autorizou a dedução, a partir de 01.01.2007, das Fl. 171DF CARF MF 8 áreas cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração. Notese que áreas cobertas por florestas nativas secundárias em estágio inicial de regeneração não foram contempladas pelo dispositivo.2 Malgrada a digressão acima, seja qual for a área que, ao amparo do inciso II, do § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, se pretenda expurgar daquela tributável pelo ITR, o fato é que ela deve constar consignada no competente Ato Declaratório Ambiental ADA, conforme preconiza o artigo 17O da Lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei 10.165/2000. Confirase. Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA. A Taxa de Vistoria a que se refere o caput deste artigo não poderá exceder a dez por cento do valor da redução do imposto proporcionada pelo ADA.(Incluído pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1o A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (...) § 5o Após a vistoria, realizada por amostragem, caso os dados constantes do ADA não coincidam com os efetivamente levantados pelos técnicos do IBAMA, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, para as providências cabíveis. Por sua vez, o Ato Declaratório Ambiental – ADA é um instrumento legal que possibilita ao Proprietário Rural uma redução do Imposto Territorial Rural – ITR, em até 100%, sobre a área efetivamente protegida, quando declarar no Documento de Informação e Apuração DIAT/ITR, Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal, Reserva Particular do Patrimônio Natural, Interesse Ecológico, Servidão Florestal ou Ambiental, áreas cobertas por Floresta Nativa e áreas Alagadas para fins de Constituição de Reservatório de Usinas Hidrelétricas. É documento de cadastro das áreas do imóvel rural junto ao IBAMA e das áreas de interesse ambiental que o integram para fins de isenção do Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, sobre estas últimas. Deve ser preenchido e apresentado pelos declarantes de imóveis rurais obrigados à apresentação do ITR. O texto legal encimado evidencia uma atuação conjunta de órgãos autônomos no sentido de manter o controle em relação à desoneração tributária. Ademais, prevê a necessidade de pagamento de uma taxa de vistoria, a qual, em sendo realizada, e não se confirmando a existência das áreas excluídas de tributação, poderá ensejar o lançamento de ofício do tributo, sendo inequívoco que o ADA é obrigatório para aqueles que desejam se beneficiar da redução do tributo devido a título de ITR. É dizer: é instrumento eleito pelo legislador para controle, integração de órgãos e fonte de custeio da atividade de vistoria, questões absolutamente indispensáveis ao acompanhamento do cumprimento dos preceitos da legislação relativos à limitação da utilização de tais áreas, bem assim da correção no gozo da benesse fiscal. 2 http://www.fundacaofia.com.br/gdusm/florestas_estagios.htm Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 6 9 Nesse contexto, o legislador estabeleceu a forma que entendeu adequada para promover tal controle e fiscalização, não sendo possível a este Conselho deixar de aplicar comando legal válido e vigente apenas pela eventual convicção de que tal atividade poderia ser levada a termo de outra forma. Reprisese. Não há esforço interpretativo que, a partir da literalidade da frase "a utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória", possa ser capaz de concluir pela desnecessidade da obrigação imposta pelo legislador. É entendimento corrente neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, com o advento da lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei nº 10.165/00, é obrigatória a apresentação do ADA protocolado junto ao IBAMA. Situação diversa da verificada em períodos anteriores ao ano de 2001, como se depreende da Súmula Carf. nº 41, segundo a qual, “a não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA) emitido pelo IBAMA, ou órgão conveniado, não pode motivar o lançamento de ofício relativo a fatos geradores ocorridos até o exercício de 2000”. No caso em tela, o que se vê é a utilização da função extrafiscal do tributo, mediante sua aplicação como instrumento de política ambiental, estimulando a preservação ou recuperação da fauna e da flora em contrapartida a uma redução do valor devido a título de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural. Contudo, a legislação impõe requisitos para gozo de tais benefícios, os quais variam de acordo com a natureza de cada hipótese de exclusão do campo de incidência do tributo e das limitações que cada situação impõe ao direito de propriedade. Voltando às reservas legais, caso de fato existentes, há que se observar, cumulativamente, o preenchimento dos dois requisitos a seguir: sua averbação junto à matrícula do imóvel previamente ao exercício em que dela se pretenda usufruir, após aprovação do local pelo órgão ambiental e sua informação no ADA protocolizado no IBAMA, no prazo estabelecido em norma regulamentar. 3 Em suma: a existência das ARL, APP, áreas cobertas pro floresta nativa ou qualquer outra especificada naquele inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, por si só não assegura ao contribuinte a não tributação das áreas s que se refere. Há de se cumprir as exigências legais. Notem por sua vez, que os prazos acima destacados não se tratam de mera formalidade ou desprovidos de propósito razoável. Vejamos: Se por um lado é indubitável que as ARL devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, por outro, o que se questiona é se tal providência pode ser efetivada a qualquer tempo. Tenho que não. Tal averbação é condição legal para que o sujeito passivo possa, a rigor, se valer de tal isenção e não ter contra si constituído o crédito tributário a ela relacionada. Logo, todas as circunstâncias constitutivas 4 e fatos devem estar perfeitamente configurados à data do fato gerador da obrigação principal. E mais, a averbação em registro 3 Artigo 9º, § 3º, I da IN SRF 256/2002. 4 o STJ, no EREsp 1.027.051/SC, reconheceu que, para fins tributários, a averbação deve ser condicionante da isenção, tendo eficácia constitutiva. Fl. 173DF CARF MF 10 próprio possibilita a determinação dos limites e localização das ARL, viabiliza o efetivo controle de sua manutenção pelo poder público, além de dar publicidade de seus contornos à eventuais adquirentes da propriedade. Seria, a grosso modo, uma via de mão dupla. Assim dispõe o § 1º do artigo 12 do Decreto 4.382/2002, de obediência obrigatória por este colegiado: Art. 12. São áreas de reserva legal aquelas averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, nas quais é vedada a supressão da cobertura vegetal, admitindose apenas sua utilização sob regime de manejo florestal; § 1º Para efeito da legislação do ITR, as áreas a que se refere o caput deste artigo devem estar averbadas na data de ocorrência do respectivo fato gerador. Já no que toca ao prazo para o protocolo do ADA, da mesma forma de evidente obrigatoriedade legal, veja que está relacionado á viabilidade do exercício do poder de polícia a cargo do IBAMA. Admitir o protocolo a qualquer tempo conduzira, por óbvio, ao inegável prejuízo no exercício da atividade estatal, já que poderia não mais dispor de tempo hábil à tomada de eventuais providências no âmbito do lançamento de oficio do ITR. Esvaziaria, assim entendido, o propósito legal. Na mesma linha, o inciso I do § 3º do artigo 10 daquele Decreto 4.382/2002 estabelece: Art. 10. Área tributável é a área total do imóvel, excluídas as áreas: I de preservação permanente; II de reserva legal; III de reserva particular do patrimônio natural; IV de servidão florestal; V de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas nos incisos I e II do caput deste artigo; VI comprovadamente imprestáveis para a atividade rural, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual.. § 1º A área do imóvel rural que se enquadrar, ainda que parcialmente, em mais de uma das hipóteses previstas no caput deverá ser excluída uma única vez da área total do imóvel, para fins de apuração da área tributável. § 2º A área total do imóvel deve se referir à situação existente na data da efetiva entrega da Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural DITR. Fl. 174DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 7 11 § 3º Para fins de exclusão da área tributável, as áreas do imóvel rural a que se refere o caput deverão: I ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental ADA, protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo; E II estar enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos I a VI em 1º de janeiro do ano de ocorrência do fato gerador do ITR. § 4º O IBAMA realizará vistoria por amostragem nos imóveis rurais que tenham utilizado o ADA para os efeitos previstos no § 3º e, caso os dados constantes no Ato não coincidam com os efetivamente levantados por seus técnicos, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, que apurará o ITR efetivamente devido e efetuará, de ofício, o lançamento da diferença de imposto com os acréscimos legais cabíveis. Nesse diapasão, em atenção à parte final daquele inciso I do parágrafo 3º acima, a Instrução Normativa SRF nº 256/2002, que é, na forma do artigo 100 do CTN, norma complementar das leis e, portando, de observância obrigatória por todos os contribuintes, estabelece em seu artigo 9º, o prazo para a apresentação do referido ADA, para fins do seu aproveitamento em matéria tributária. Reforçase: não se trata de criar tributo ou mesmo restringir/limitar o exercício do direito do contribuinte, que se deu por força da lei 9.393/96 e artigo 17O da Lei 6.938/81, mas sim de regulamentar seu exercício. Em outras palavras: para se valer dessa isenção condicionada, seu cumprimento deve se dar de forma a efetivamente assegurar ao Estado, por meio de seu órgão ambiental, a possibilidade de se aferir o escorreito enquadramento da área a ele declarada e que pretende ver excluída da apuração do ITR. Assim, não resta dúvida que para fins de exclusão da área tributável, aquelas áreas deverão ser obrigatoriamente informadas em ADA, protocolado pelo sujeito passivo no IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo. É o que exige o Decreto 4.382/2002, de observância obrigatória por este colegiado, a teor do artigo 62 do RICARF. Conforme se extrai do excerto abaixo, que constou do voto vencedor no acórdão 9202005753, da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a jurisprudência neste Conselho consolidouse no sentido de aceitar o ADA protocolizado até o início da ação fiscal. Confirase: É certo que, no caso da Área de Preservação Permanente (APP), tratase de acidentes geográficos já existentes na natureza, porém a exclusão da tributação desta área ambiental não está condicionada à criação da área e sim da sua preservação, como a própria denominação está a indicar. Como o lançamento se reporta à data de ocorrência do fato gerador do tributo (art. 144 do CTN) e, Fl. 175DF CARF MF 12 no que tange ao ITR, este foi fixado em 1º de janeiro (art. 1º da Lei nº. 9.393, de 1996), é claro que a fruição do benefício está condicionada à preservação à época do fato gerador. Nesse passo, a Receita Federal, utilizandose da prerrogativa de regulamentar a forma e os prazos para cumprimento de obrigações acessórias, estabeleceu o prazo de seis meses após a data de entrega da DITR, para que o Contribuinte providencie o protocolo do ADA. E tratandose de declarar algo que a priori já existiria na natureza, este Colegiado consolidou a jurisprudência no sentido de aceitarse o ADA protocolado antes do início da ação fiscal, em respeito à espontaneidade do Contribuinte. Não retrata, com a devida venia, o entendimento deste relator. Não seria razoável imaginar que tal informação pudesse ser prestada em data, por exemplo, próxima a da ação fiscal, porquanto a potencial vistoria pelo órgão ambiental não observaria, decerto, o lustro legal para a constituição do imposto, fosse o caso. Da mesma forma, supor que a atividade de polícia, legalmente exigida e que traria certa segurança ao considerar isentas aquelas áreas, possa ser substituída pela exclusiva atuação privada (por meio de laudos técnicos), não me parece atender ao interesse público. No mesmo sentido, como bem destacado no voto acima parcialmente colacionado, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas, conforme estabelece a lei, em determinados locais do imóvel, são de PRESERVAÇÃO PERMANENTE existentes a época do fato gerador do tributo, consoante preceitua o inciso II do § 3º do artigo 10 do Decreto 4.382/2002. Vale dizer: as florestas e demais formas de vegetação natural devem estar em permanente preservação, sobretudo na data do fato gerador. Dito isso, como se aferir tal circunstância pelo órgão de controle ambiental, admitindose a apresentação do ADA em data significativamente distante da do fato gerador do tributo ? Em outras palavras, haveria como o IBAMA empreender alguma vistoria eficaz a partir de um ADA apresentado após 4 anos do exercício a que se referem as informações nele prestadas, ainda que tenha sido entregue antes de o início da ação fiscal ? Não basta que no imóvel exista rios ou qualquer outro curso d´água, lagoas ou reservatórios de d´ água naturais ou artificiais, topo de morros, montes ou serra, fazse necessário, aí sim, que nesses locais efetivamente haja floresta ou demais formas de vegetação natural permanentemente preservadas. Da mesma forma, não se pode imaginar que a dispensa à prévia comprovação, por parte do declarante, no que toca às APP e ARL declaradas para fins de isenção do ITR, consoante estabelece o § 7º do artigo 10 da L. 9.393/96, o estaria desincumbindo da obrigação legal imposta pelo § 1º do artigo 17O da Lei 6.938/81. Longe disso. Uma coisa é a desnecessidade da prévia apresentação da comprovação das áreas quando da entrega da DITR; outra, a obrigatoriedade de que tais informações sejam prestadas tempestivamente ao IBAMA, por meio do competente ADA e ao Fisco, quando intimado por autoridade competente no exercício de seu dever funcional. E veja, o parágrafo 7º encimado foi originalmente introduzido ao artigo 10 da Lei 9.393/96 por meio da Medida Provisória 1.95650/2000, de 26.05.2000, ao passo que Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 8 13 aquele que impõe a obrigatoriedade do ADA, por meio da posterior Lei 10.165/2000 de 27.12.2000. Com isso, considerando o período em que ambos vigeram não há, a meu ver, como entender que aquele primeiro desobrigou a apresentação do ADA. Não há, no meu entender, qualquer antinomia entre os dispositivos, na medida em que tratam de diferentes circunstâncias. Voltando ao prazo para apresentação do ADA, a IN SRF 256/2002, em sua redação original, o estabelecia como sendo "de até seis meses, contado a partir do término do prazo fixado para a entrega da DITR". Com a entrada em vigor da obrigatoriedade de sua apresentação anual, o órgão ambiental o estabeleceu como sendo de 1º de janeiro a 30 de setembro. .5 Daí a alteração naquela IN SRF 256/2002, que passou a estabelecer, a partir da IN RFB 861, de 17 de julho de 2008, ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental (ADA), protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), observada a legislação pertinente." Em resumo, podese dizer, no que toca à dedução das áreas elencadas nos inciso I ao VI do artigo 10 do Decreto nº 4.382/2002, que além dos requisitos de ordem formal previstos na legislação, há de se comprovar, quando intimado, sua efetiva existência, a teor do inciso II do parágrafo 3º retro citado, por meio de laudo técnico que deve, de forma clara, especificar, detalhar, dimensionar e localizar cada uma das áreas eventualmente existente à época do fato gerador. A partir do exercício 2007, a apresentação do ADA ao IBAMA passou a ser anual.6 Voltando ao caso sob análise, notase que não consta dos autos a apresentação do ADA tempestivo com as informações acerca das áreas as quais o recorrente pretende deduzir, seja ela a ARL ou APP, o que, por si só, impede, na forma da lei, a dedução dessas áreas na apuração do ITR. A Ação Fiscal iniciouse em 19.09.2007, consoante denotase de fls. 6. Há, outrossim, um extrato de ADA, sem data aparente de sua entrega, no qual é declarada a totalidade do imóvel como sendo de interesse ecológico (fls.50). Perceba que a data de entrega lá registrada afigurase como um padrão assumido pelo sistema e não a que exprima a real data de sua entrega. Vejase: Consta ainda às fls 156, ADA transmitido a destempo em 30.09.2009. com as seguintes informações: 5 http://www.ibama.gov.br/imovelrural/atodeclaratorioambientalada/oqueeoada 6 http://www.ibama.gov.br/imovelrural/atodeclaratorioambientalada/oqueeoada Fl. 177DF CARF MF 14 Somese a isso, a constatação de que nas matrículas apresentadas as averbações constantes não são relativas a ARL. A destinação da área averbada é para exploração de floresta com plano de manejo. Vide fls 24/26 (matrícula 6.590), 27/28 (matrícula 6.589) e 29/31 (matrícula 6.707). Confirase: Mat. 6.590: Mat. 6.707: Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 9 15 Da Área de Interesse Ecológico. De outro lado, não lhe socorre a alegação de que pelo fato de a área do imóvel constar do ecossistema da Mata Atlântica, inserida na Área de Proteção Ambiental APA de Guaraqueçaba, criada pelo Decreto Federal n° 90.883 de 31 de janeiro de 1.985 e declarada como área de proteção ambiental no âmbito do Estado do Paraná, conforme Decreto Fl. 179DF CARF MF 16 Estadual PR n° 1.228 de 30 de março de 1992, ela estaria definitivamente excluída da condição de áreas tributáveis. Vejase: referida área, tida pelo recorrente como "de interesse ecológico", não constou declarada nos DIAT/DITR dos exercícios envolvidos, fazendo com que não fosse objeto da atuação fiscal. Ademais, como já dito alhures, ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não é legalmente possível. É o que se denota da parte final da alínea "b", II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96. "....mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior;" Nesse sentido, à luz do disposto no artigo 6º daquele Decreto 90.883/85, infra reproduzido, não me afigura que referido ato tenha, conforme sugerido no recurso do contribuinte, "proibida toda e qualquer atividade nessas áreas", ampliando, desta forma e indiscutivelmente, as restrições de uso que se tem nas ARL e APP. Ao contrário, tratou o ato, a meu ver, de estabelecer condutas negativas mínimas para a preservação ambiental. Confirase: Art. 6º. Na APA de Guaraqueçaba ficam proibidas ou restringidas: I a implantação de atividades industriais potencialmente poluidoras, capazes de afetar mananciais de água; II a realização de obras de terraplenagem e a abertura de canais, quando essas iniciativas importarem em sensível alteração das condições ecológicas locais, principalmente das Zonas de Vida Silvestre, ande a biota será protegida com mais rigor; III o exercício de atividades capazes de provocar acelera da erosão das terras ou acentuado assoreamento das coleções hídricas; IV o exercício de atividades que ameacem extinguir as espécies raras da biota regional, principalmente o papagaioderabovermelho, macuco, jaó, jacutinga, onça pintada, jacarédepapoamarelo; V o uso de biocidas, quando indiscriminado ou em desacordo com as normas ou recomendações técnicas oficiais. Perceba: o próprio recorrente declarou em suas DITR, 5,9ha ocupados com benfeitorias e 284ha utilizados com Produtos Vegetais e Área de Descanso. Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 10 17 Glosa da área ocupada com produtos vegetais e área de descanso. Quanto à glosa a este título, a fiscalização assim fundamentou: Tomando por base o mapa de uso do solo apresentado e tendo em vista o disposto no § 2°, art. 147 da Lei n° 5.172/66, também foi procedida a glosa integral da área ocupada por produtos vegetais originalmente declarada e respectivo valor das culturas, pastagens cultivadas e melhoradas e florestas plantadas. A fundamentação para o lançamento não foi especificamente refutada pelo recorrente, que se limitou a sustentar deveria a autoridade lançadora considerar toda a área do imóvel, excetuada a de reserva legal, como de preservação permanente. Como já apontado no tópico anterior, tenho que tal possibilidade, na seara do contenciosos administrativo, não encontra guarida na legislação. Em função das glosas das áreas encimadas, os valores correspondentes às culturas/pastagens/florestas também as foram. Alteração no VTN. No que se refere ao VTN atribuído pela Fiscalização, o recorrente alega que o considerado no lançamento decorreu de uma valor de terras que é varias vezes maior do que o negociado quando da aquisição do imóvel. Todavia, no curso da ação fiscal, o autuado foi intimado a apresentar o "laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados.". E mais, foi feito constar na intimação que a falta de apresentação do laudo de avaliação ensejaria o arbitramento do VTN, com base nas informações do Sistema de Preços de Terra SIPT, da RFB. Não obstante, o contribuinte não atendeu a intimação fiscal com vistas a infirmar o valor eleito pela Fiscalização. Prestouse, no entanto, a apresentar um Laudo Técnico fls. 34 que, ao final, assim se pronunciou quanto à avaliação do imóvel. Fl. 181DF CARF MF 18 Ora, o fato de a terra supostamente não possuir valor tributável não é justificativa para, a meu entender, não se chegar a um valor de mercado para o imóvel. Como informado pela Fiscalização, foram utilizados os valores médios por hectare na sistemática a seguir resumida: O tipo de terra segue a conceituação adiante:7 MECANIZADA São áreas destocadas, sem restrições para o preparo do solo e plantio, cuja declividade (topografia) permite operações com máquinas e implementos agrícolas motorizados, podendo estar sendo cultivada ou em pousio, independente da cultura existente, incluindo várzea sistematizada. NÃO MECANIZÁVEL São áreas cujo relevo e/ou profundidade do solo são desfavoráveis à execução de operações ou práticas agrícolas com máquinas e implementos motorizados, permitindo, porém, o plantio manual ou a tração animal. São consideradas também áreas não mecanizáveis, as 7 site: http://www.agricultura.pr.gov.br/arquivos/File/deral/Metodologia_atual.pdf Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10980.013814/200837 Acórdão n.º 2402006.228 S2C4T2 Fl. 11 19 reservas legais, tendo em vista que as mesmas só poderão sofrer algum tipo de desmatamento e/ou corte, mediante um plano de manejo sustentável, com projeto devidamente aprovado pelo IAP e/ou IBAMA. Note, o valor médio, por hectare, utilizado pelo autuado correspondeu a, apenas e aproximadamente, 36,5 e 34% daquele verificado no SIPT para os imóveis no município de Guaraqueçaba/PR, não deixando a menor dúvida quanto à sua potencial subavaliação. Por sua vez, o SIPT, aprovado pela Portaria 447/2002, é alimentado com os valores de terras e demais dados recebidos das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, e com os valores de terra nua da base de declarações do ITR. Com isso, entendo que na falta de um valor de mercado apresentado por meio de um Laudo de Avaliação, na forma de como constou na intimação, o valor extraído do SIPT, embora, reconheçase, estimado, é, além de uma alternativa legal (art. 14 da L. 9.393/96), uma razoável opção no caso em tela. Por fim, no que se refere à alegação de que o lançamento realizado seria ilegal, eis que teria supostamente se afastado do conteúdo da obrigação tributária definida em lei, para pretender fundamento apenas na declaração equivocada prestada pelo recorrente, com a devida venia, dela não compartilho. A ação fiscal foi desenvolvida e concluída a partir das informações prestadas/declaradas pelo contribuinte em sua DITR. Perceba que o lançamento do ITR regese pela sistemática legal, por meio da qual sujeito passivo tem o dever de apurar e antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa. Assim procedendo o contribuinte, a autoridade fazendária, observado o lustro legal, expressamente homologará ou não, sua atividade. O não acatamento das informações que constaram em seu DIAT/DITR será, caso regularmente questionado em recurso, objeto do contencioso administrativo. Esse é, a meu ver e como regra, o limite da lide e sobre o quê se pronunciará as instâncias julgadoras. Contudo, caso efetivamente demonstrado o patente erro de fato no preenchimento da respectiva DITR, em função do equívoco na informação, seja por sua omissão, seja por sua incorreção, entendo admissível, em sede de contencioso administrativo e à luz do princípio da verdade material, a retificação das informações originalmente prestadas naquela declaração, bem como a alteração do lançamento naquilo que dele decorreu. No caso em exame, pelo todo fundamentado, entendo pelo não acatamento do pleito do contribuinte quanto à retificação das informações em sua DITR. Frente ao exposto, voto por CONHECER do recurso e, no mérito, NEGAR LHE provimento. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 183DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.724221/2011-34
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Data do fato gerador: 31/08/2007, 30/09/2007, 31/10/2007, 30/11/2007, 30/04/2008, 30/06/2008, 30/11/2008, 30/04/2009
PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO TEMPORAL. PERÍCIA
A apresentação de provas, inclusive provas documentais, no contencioso administrativo, deve ser feita juntamente com o recurso, precluindo o direito de fazê-lo em outro momento, salvo se fundamentado nas hipóteses expressamente previstas.
PROVA. PERÍCIA. INDEFERIMENTO.
A autoridade julgadora pode indeferir a perícia que considerar prescindível, e as diligências desnecessárias.
GANHO DE CAPITAL. VALOR DA ALIENAÇÃO. PARCELA DESTINADA A PAGAMENTO DE PASSIVO
A parcela do valor do negócio destinada a pagamento de passivo da pessoa jurídica, que não foi recebida pelos sócios alienantes da participação societária, não compõe o valor da alienação, se comprovada a efetiva destinação da parcela para liquidação de passivo, e não for demonstrado pela auditoria fiscal que o contrato não teve propósito negocial.
INTIMAÇÃO NO ENDEREÇO DO ADVOGADO.
O domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço postal, fornecido pelo contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil para fins cadastrais, ou o eletrônico por ele autorizado. Inexiste previsão legal para encaminhamento das intimações ao endereço dos procuradores.
Numero da decisão: 2202-004.743
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares, e, no mérito. em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rosy Adriane da Silva Dias - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: ROSY ADRIANE DA SILVA DIAS
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MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO TEMPORAL. PERÍCIA A apresentação de provas, inclusive provas documentais, no contencioso administrativo, deve ser feita juntamente com o recurso, precluindo o direito de fazêlo em outro momento, salvo se fundamentado nas hipóteses expressamente previstas. PROVA. PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora pode indeferir a perícia que considerar prescindível, e as diligências desnecessárias. GANHO DE CAPITAL. VALOR DA ALIENAÇÃO. PARCELA DESTINADA A PAGAMENTO DE PASSIVO A parcela do valor do negócio destinada a pagamento de passivo da pessoa jurídica, que não foi recebida pelos sócios alienantes da participação societária, não compõe o valor da alienação, se comprovada a efetiva destinação da parcela para liquidação de passivo, e não for demonstrado pela auditoria fiscal que o contrato não teve propósito negocial. INTIMAÇÃO NO ENDEREÇO DO ADVOGADO. O domicílio tributário do sujeito passivo é o endereço postal, fornecido pelo contribuinte à Secretaria da Receita Federal do Brasil para fins cadastrais, ou o eletrônico por ele autorizado. Inexiste previsão legal para encaminhamento das intimações ao endereço dos procuradores. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 42 21 /2 01 1- 34 Fl. 575DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares, e, no mérito. em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão nº 0955.570, proferido pela 6a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (DRJ/JFA), que julgou procedente o lançamento, mantendo a cobrança do crédito tributário. Do lançamento Fiscal Foi lançado o Imposto de Renda de Pessoa Física, decorrente de omissão de ganhos de capital na alienação de ações/quotas não negociadas em bolsa, relativo aos anos calendário 2007, 2008 e 2009, no montante de R$ 273.035,11 (duzentos e setenta e três mil trinta e cinco reais e onze centavos), incluídos multa de ofício e juros de mora. A auditoria fiscal relata que a Brumafer Mineração Ltda (BRUMAFER) alienou 100% das quotas para a empresa MSA Mineração Serra Azul (MSA), em 31/08/2007. Os titulares as quotas eram as pessoas físicas, que detinham os seguintes percentuais: ESPÓLIO DE JOSÉ EVANDRO DE CASTRO TOLEDO (22%); EVANDRO TOLEDO (15,5%), PETRÔNIO TOLEDO (15,5%); ANTONIO CARLOS CASTRO TOLEDO (21%), JOSÉ RODOLFO CASTRO TOLEDO (21%); JOSÉ MARIA CASTRO TOLEDO (5%). Transcreve trechos do Contrato Promissório de Cessão e Transferência de Quotas Sociais, que contém a cessão de 36.000 quotas (100%), no valor de US$ 33.000.000,00, ajustado em moeda nacional (convertido pela taxa de compra PTAX 800, opção 5, divulgada pelo SISBACEN, vigente à data anterior ao pagamento), a ser pagos da seguinte forma: Parcelas Valor em US$ Data pagto Valor em R$ Sinal do negócio (cláusula "a") 1.598.295,15 01/08/2007 (depositada em conta de titularidade da BRUMAFER) 3.000.000 2ª (cláusula "b") 6.000.000,00 10/04/2008 (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 3ª (cláusula "c") 6.000.000,00 10/10/2008 (depositada em conta indicada pelos Fl. 576DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 575 3 promitentes cedentes) 4ª (cláusula "d") 4.401.704,85 10/04/2009 (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 5ª (cláusula "e") 12.000.000,00 data da renovação das licenças para o funcionamento (depositada em conta indicada pelos promitentes cedentes) 6ª (cláusula "f") 3.000.000,00 utilizada para liquidação de passivos (apurados por due diligence) Entre os trechos transcritos desse Contrato, consta que: 1) a due diligence para apuração de ativo e passivo total da cedente será realizada na data da assinatura contratual até o vencimento da 2ª parcela; 2) todas as obrigações de qualquer natureza que recaírem sobre a BRUMAFER até a data do registro de alteração contratual para a realização do objeto do contrato, seriam de responsabilidade dos promitentes cedentes; 3) se o valor do passivo apurado na due diligence fosse superior aos US$ 3.000.000,00, a promitente cessionária poderia descontar o valor excedente da parcela equivalente aos US$ 12.000.000,00, e se ultrapasse esse valor poderia descontar das demais parcelas vincendas, na ordem inversa das datas de pagamento. A auditoria fiscal informa que em 26/06/2008 foi assinado o 1o Termo Aditivo ao Contrato Promissório de Cessão e Transferência de Quotas Sociais, que estabelecia: 1) o valor de US$ 1.325.190,70 que foi antecipado para pagamento dos passivos da BRUMAFER seria descontado da 3ª parcela (US$ 6.000.000,00) e da 5ª parcela (US$ 12.000.000,00); 2) o valor integral do passivo a ser descontado do valor total do negócio seria o consolidado no prazo de 60 dias após o registro de cessão das cotas na JUCEMG (ocorrido em 13/11/2008); 3) o valor de US$ 3.000.000,00 (cláusula "f") e os demais valores liquidados ou a serem liquidados relativos aos passivos da BRUMAFER seriam considerados como custos para efeito da determinação do valor total atribuído ao contrato; O autuante comunica que realizou diligência na empresa MSA, cujos documentos por ela apresentados, demonstram que já tinham sido realizados os seguintes pagamentos: DATA R$ US$ FINALIDADE 27/08/2007 250.000,00 133.191,26 Pagto passivo Brumafer 03/09/2007 1.250.000,00 665.956,31 Pagto passivo Brumafer 19/09/2007 500.000,00 266.382,53 Pagto passivo Brumafer 24/09/2007 1.000.000,00 532.765,05 Pagto passivo Brumafer TOTAL Parcela Sinal 3.000.000,00 1.598.295,15 21/11 /2007 41.582,00 23.573,90 Pagto passivo Brumafer 11/04/2008 9.790.138,08 5.737.411,58 Pagto aos sócios e passivo Brumafer 11/04/2008 390.000,00 239.014,52 Pagto passivo Brumafer TOTAL 2ª Parcela (10/04/2008) 10.180.138,08 6.000.000,00 03/10/2007 1.837.820,96 1.006.143,09 Pagto passivo Brumafer 05/10/2007 136.500,00 75.000,00 Pagto passivo Brumafer 15/10/2007 134.340,00 75.000,00 Pagto passivo Brumafer 30/04/2008 283.057,63 169.047,62 Pagto passivo Brumafer 21/11/2008 3.293.218,20 1.374.809,30 Pagto aos sócios 21/11/2008 3.300.000,00 Multa Contratual Aplicada (em juízo) TOTAL 3ª Parcela (10/10/2008) 5.684.218,20 6.000.000,00 13/04/2009 9.577.229,41 4.401.704,85 Pagto aos sócios TOTAL 4ª Parcela (10/04/2009) 9.577.229,41 4.401.704,85 Fl. 577DF CARF MF 4 30/06/2008 4.820.700,00 3.000.000,00 Pagto passivo Brumafer TOTAL 5ª Parcela (06/2008) 4.820.700,00 3.000.000,00 Noticia que a recorrente era titular de ações representativas de 4,5% do capital social da BRUMAFER, que era de R$ 36.000,00, conforme Declaração de Informações Pessoa Jurídica (DIPJ) do ano calendário de 2007. E como já havia sido pago aos vendedores o valor de R$ 33.287.929,62, coube à recorrente o valor de R$ 1.708.074,02, recebido parte por meio de liquidação do passivo da BRUMAFER, conforme tabela abaixo (fls. 24): VRS. RECEBIDOS PROPORCIONALMENTE À PARTICIPAÇÃO DE CADA SÓCIOQUOTISTA MÊS DO RECEBIMENTO VR. DO DESEMBOLSO R$ MARIA OLGA DOS SANTOS 4,5% R$ 31/08/2007 250.000,00 11.550,00 30/09/2007 2.750.000.00 127.050,00 31/10/2007 2.092.004.30 96.650,60 30 1 1/2007 41.582,00 1.921,09 30/04/2008 6.966.138,23 321.835,59 30/04/2008 673.057.63 31.095,26 30/04/2008 1.177.922.45 0,00 30/04/2008 227.712,55 10.520,32 30/06/2008 1.418.364,85 290.120,15 30/06/2008 4.820.700.00 222.716.34 30 11/2008 3.293.218,20 152.146,68 30/04/2009 9.577.229.41 442.468,00 TOTAL 33.287.929,62 1.708.074,02 O Auditor Fiscal explica a composição da tabela, nos seguintes termos: 2.6.1 O valor de R$ 6.966.138,23 referese ao cheque de R$ 8.384.503,08 recebido pelos alienantes menos o valor de R$ 1.418.364,85 desembolsado para pagamento dos 22% de participação societária do espólio de José Evandro de Castro Toledo, dividido entre a meeira Maria Olga dos Santos e as herdeiras Maria Inez Toledo Detoni e Maria Saturnina de Castro Toledo. Sobre este valor já foi recolhido o Imposto de Renda Sobre Ganho de Capital no valor de R$ 211.566,73 em nome do espólio. 2.6.2 O valor de R$1.177.922,45 referese ao valor levantado por Raquel Leite Rangel, exesposa do sócio José Maria de Castro Toledo, referente aos 2,50% de participação societária da mesma, havidos mediante partilha de bens em acordo judicial no processo de divórcio do casal, processo n° 0024.00.126.804 4. 2.6.3 O valor de R$227.712,55 referese à diferença entre o valor depositado judicialmente pela MSA Mineração Serra Azul Ltda, R$1.405.635,00 e o valor levantado por Raquel Leite Rangel. O valor de R$1.405.635,00 é equivalente a 2,50% (participação da exesposa) de US$33.000.000,00 (preço de venda das participações societárias). Este valor foi repassado para os sócios remanescentes. Informa que a recorrente não considerou na apuração do ganho de capital os valores repassados pela adquirente para pagamento do passivo da BRUMAFER, e por isso calculou a diferença, conforme abaixo: QUOTAS SOCIAIS VENDIDAS VALOR DE VENDA CUSTO GANHO DE CAPITAL Fl. 578DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 576 5 BRUMAFER MINERAÇÃO 1.708.074,02 1.620,00 1.706.454,02 Acrescenta que o percentual entre o ganho de capital total e o valor total da alienação foi de 99,90%, o qual deve ser aplicado aos valores de cada parcela recebida nos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, cujo efetivo recebimento foi comprovado pela documentação bancária juntada pelo recorrente e pela MSA. Sobre esses valores apurou o imposto devido à alíquota de 15%, e aplicou a multa de ofício em 75%. Cientificado da autuação (fls. 347), o sujeito passivo apresentou impugnação (fls. 349/360), que foi julgada improcedente pela DRJ/JFA, tendo a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Data do fato gerador: 31/08/2007, 30/09/2007, 31/10/2007, 30/11/2007, 30/04/2008, 30/06/2008, 30/11/2008, 30/04/2009 OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS. ALIENAÇÃO DE QUOTAS SOCIETÁRIAS. ALEGAÇÃO DE CLÁUSULA CONTRATUAL. A alegação de existência de cláusula contratual prevendo que uma parte dos valores recebidos decorrentes da alienação da participação societária seria utilizado para pagamento do passivo da empresa alienada não cabe para refutar a infração de omissão de ganhos de capital, quando esta houver sido claramente demonstrada nos autos pela fiscalização, sem que tenham sido trazidas quaisquer provas em contrário pelo impugnante. Salvo disposição de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes, nos termos do art. 123 do CTN. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 31/08/2007, 30/09/2007, 31/10/2007, 30/11/2007, 30/04/2008, 30/06/2008, 30/11/2008, 30/04/2009 PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVAS. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, não podendo o impugnante apresentála em outro momento a menos que demonstre motivo de força maior, refira se a fato ou direito superveniente, ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos. Indeferese a solicitação de perícia quando a prova do fato não depende de conhecimento especial de técnico e sua demonstração pode ser efetuada pela juntada de documentos. INTIMAÇÃO AO ADVOGADO. Na fase do contencioso administrativo, as intimações são feitas no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Fl. 579DF CARF MF 6 Cientificada da decisão da DRJ/JFA em 05/12/2014 (fls. 556/557), a contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 05/01/2015, com as mesmas alegações da impugnação, que em síntese são as seguintes: · A data efetiva do negócio ocorreu em 28/06/2008, porque não houve pagamento integral da 1ª parcela constante no contrato original, por parte do adquirente; · O adquirente MSA Mineração Serra Azul Ltda assumiria todo o passivo (pagamento de credores) da Brumafer Mineração Ltda, cujo valor apurado seria descontado do valor do negócio; · Foi acordado que os sócios da Brumafer Mineração Ltda, receberiam o resultado da diferença entre o valor global do negócio e o valor total do passivo, apurado por meio de uma due diligence; · Do valor global do negócio foi destinado o equivalente a US$ 3.000.000,00 para liquidação do passivo da Brumafer Mineração Ltda, e se o passivo ultrapassasse esse valor, a adquirente estaria autorizada a descontar o excesso, do valor global do negócio; · Os valores recebidos para liquidação do passivo, antes da assinatura do 1º termo de aditamento ao contrato de alienação das quotas, seriam descontados das parcelas futuras; · O valor antecipado pela adquirente para pagamento desse passivo não pode entrar na base de cálculo do ganho de capital, porque está expresso que ele será descontado do valor global do negócio; · O Auditor Fiscal considerou como fato gerador do ganho de capital simplesmente a alienação do bem; e não apontou a realidade factual da análise da materialidade do evento econômico, do qual o recorrente foi partícipe; · Não houve acréscimo ao patrimônio do recorrente, porque o montante foi utilizado para quitação de débitos da Brumafer Mineração Ltda; · Ao efetuar o cálculo do imposto sobre ganho de capital levou em consideração o rendimento bruto, nos termos da Lei nº 7.713/88. · Os valores adiantados pela adquirente para pagamento do passivo da Brumafer Mineração Ltda. não podem ser considerados rendimento bruto; · A exigência de imposto de renda sobre os valores utilizados para liquidação do passivo da Brumafer é ilegal, porque se está tributando o próprio negócio de compra e venda, que não é competência da União; · Isso levaria ao entendimento de ser possível a tributação quando da cessão de quotas dos sócios proprietários para seus credores, a fim de liquidação de dívidas préexistentes, sem que eles recebessem valor algum; Fl. 580DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 577 7 · Nas alienações a prazo, para a ocorrência do fato gerador, deve estar efetivamente comprovado o recebimento dos valores pelo contribuinte, e não apenas baseado em valores estabelecido em instrumento particular; · Comprovado que não houve omissão de ganho de capital a multa deve ser anulada juntamente com o Auto de Infração; · O Auto não foi instruído da fundamentação correspondente para validálo; · O art. 123 do CTN não se aplica aos autos, que não dizem respeito à determinação do sujeito passivo a obrigação tributária; · A perícia contábil é relevante para detalhar que os valores foram efetivamente utilizados para pagamento do passivo. Dos pedidos: O recorrente requer: · Conhecimento do recurso, a improcedência do lançamento, e a extinção do crédito; · Produção de provas e juntada posterior de documentos, assim como, realização de prova pericial contábil; · Intimação no endereço de seus advogados e procuradores. É o relatório. Voto Conselheira Rosy Adriane da Silva Dias, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo, e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço Produção de provas. Perícia. Em relação à solicitação de produção de provas, importante lembrar que o Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo Fiscal, no art. 16 e parágrafos, e art. 18, aborda a questão nos seguintes termos: Art. 16. A impugnação mencionará: [...] Fl. 581DF CARF MF 8 III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) [...] § 1º Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refirase a fato ou a direito superveniente; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) [...] Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no art. 28, in fine. (redação dada pelo art. 1° da Lei n° 8.748/93). Os dispositivos acima transcritos demonstram que a juntada de documentos após o recurso somente é permitida nas situações expressamente previstas, devendo ser indeferidos eventuais pedidos em desacordo com o estatuído. A prova documental deve ser apresentada no momento do recurso e não em outro. Por fim, registrese que é justamente nesta fase do processo administrativo que a interessada deve exercer o seu direito de ampla defesa, ocasião em que deve comprovar suas alegações. A realização de diligência, ou perícia, pressupõe que a prova não pode, ou não cabe, ser produzida por uma das partes, ou que o fato a ser provado necessite de Fl. 582DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 578 9 conhecimento técnico especializado, fora do campo de atuação do julgador, o que não é o caso dos presentes autos. O Relatório Fiscal e seus anexos detalham de forma clara os critérios utilizados pelo Auditor Fiscal, a forma de apuração da base de cálculo, informando os valores e diferenças apuradas. Portanto, a empresa teve todas as condições para contestar o lançamento, sem a realização de diligências ou perícia. Por isso, não vejo necessidade desses procedimentos, uma vez que o Auto de Infração apresenta todos os elementos necessários para formar a convicção do julgador. Ademais, entendese que não estão presentes os requisitos necessários ao pedido, ao teor do inciso IV e § 1º do art. 16 do Processo Administrativo Fiscal PAF, assim, indeferese o pedido por entendêlo prescindível à solução do litígio. Do mérito A controvérsia reside no fato de parte do valor total do negócio ter sido utilizada para pagamento de passivos da BRUMAFER. Alega o recorrente que a auditoria não poderia acrescentar ao ganho de capital o valor utilizado para pagar passivos da BRUMAFER. Para a solução de controvérsia, importante trazer ao debate o art. 4o da Resolução CFC nº 750, de 29/12/1993, publicado no DOU de 31/12/1993, verbis: SEÇÃO I O PRINCÍPIO DA ENTIDADE Art. 4°. O Princípio da ENTIDADE reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma a autonomia patrimonial, a necessidade da diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, independentemente de pertencer a uma pessoa, um conjunto de pessoas, uma sociedade ou instituição de qualquer natureza ou finalidade, com ou sem fins lucrativos. Por conseqüência, nesta acepção, o Patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição. Parágrafo único — O PATRIMÔNIO pertence à ENTIDADE, mas a recíproca não é verdadeira. A soma ou agregação contábil de patrimônios autônomos não resulta em nova ENTIDADE, mas numa unidade de natureza econômico contábil." A análise desse princípio, leva à conclusão que o passivo de uma sociedade é diferente do passivo pessoal de seus sócios. As dívidas da sociedade são diferentes das dos seus sócios. Isso está estipulado nos arts. 1024 e 1052 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil): Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais. Fl. 583DF CARF MF 10 [...] Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. Tal autonomia patrimonial também está disposta no art. 795 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Novo Código de Processo Civil NCPC), cuja previsão já estava contida do antigo CPC (Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973): Art. 795. Os bens particulares dos sócios não respondem pelas dívidas da sociedade, senão nos casos previstos em lei. § 1oO sócio réu, quando responsável pelo pagamento da dívida da sociedade, tem o direito de exigir que primeiro sejam excutidos os bens da sociedade. Assim, a pessoa jurídica é um ente distinto das pessoas físicas que a constituem, tem nome próprio, domicílio próprio, nacionalidade própria, e patrimônio próprio. Diante das transcrições anteriores, voltemos ao negócio efetuado entre os sócios da BRUMAFER e a MSA. Com base nas cláusulas do Contrato Promissório de Transferência de Quotas Sociais da empresa BRUMAFER, verificase que o valor do negócio não foi definido em sua assinatura, pois dependia de algumas ocorrências para se chegar ao valor final da alienação, pois as parcelas dependiam do valor do passivo apurado no due diligence, e ao longo do período até que se chegasse ao pagamento da última parcela, e da renovação das licenças ambientais. Com isso temse que o valor da alienação, apesar de ser estipulado em US$ 33.000.000,00, poderia ser reduzido a depender do valor do passivo e da liberação de licença ambiental, não sendo um valor definido. Então, para se determinar o ganho de capital dessa alienação, devese primeiramente, saber qual o valor real da alienação, e segundo qual o valor do custo de aquisição das quotas que foram alienadas. Entendo não haver controvérsia quanto ao segundo elemento. O debate gira em torno do valor da alienação: devese incluir ou não a parcela destacada do valor estipulado em contrato para pagamento do passivo da BRUMAFER? Para isso vamos ver o que diz a Lei nº 7.713/88: Art. 1º Os rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de 1º de janeiro de 1989, por pessoas físicas residentes ou domiciliados no Brasil, serão tributados pelo imposto de renda na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (grifei) Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer Fl. 584DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 579 11 natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, decorrentes de alienação de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de transmissão do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. Pelos trechos legais acima transcritos, percebese que o imposto recairá sobre o que for recebido, e na medida em que for recebido. Assim, no caso hipotético de uma alienação de participação societária ao valor contratual de R$ 1.000,00, com pagamento diferido, da seguinte forma: 1ª parcela: 100,00 deduzidas as dívidas da empresa; 2ª parcela: 200,00 reais deduzidas de possíveis dívidas encontradas na empresa; 3ª parcela: R$ 700,00 quando liberada a licença ambiental, deduzidas dívidas remanescentes da sociedade. Vamos dizer, que à época do pagamento da 1ª parcela, foi apurado de passivo na empresa o valor de R$ 40,00, em vista disso a alienante paga ao sócio R$ 60,00; ao tempo da 2ª parcela, foram encontradas mais dívidas da empresa no valor de R$ 100,00, em função disso, são pagos ao alienante R$ 100,00; e depois de 5 anos finalmente o órgão público libera a licença ambiental da sociedade, ocasião em que a adquirente paga ao sócio alienante os R$ 700,00 relativo à última parcela, mas deduz desse valor, dívidas remanescentes da sociedade no valor de R$ 100,00. Pergunto: qual será o valor considerado para apuração do ganho de capital? Entendo que, apenas o valor efetivamente recebido pelo sócio: 60 + 100 + 600 = 760,00, porque não se tributa o que não foi recebido, e aqui não se inclui o passivo porque não é obrigação do sócio, mas da sociedade, enquanto detentora de autonomia patrimonial. O exemplo é similar ao ocorrido no presente caso, o valor da alienação das participações societárias correspondeu aos valores efetivamente recebidos pelos sócios, e o valor do passivo não foi recebido por eles. Ao que tudo se lê do contrato, a MSA fez uma apuração de haveres, com encontro de contas entre ativo e passivo, para determinar qual seria o valor do negócio, e partindo disso, estipulou um preço que levaria em conta o valor de dívidas da empresa. Isso é o que se conclui dos seguintes trechos do Contrato Promissório transcrito no TVF: Parágrafo Primeiro A due diligence para apuração do ativo e passivo total da Brumafer Mineração Ltda, deverá ser realizada da data de assinatura do presente contrato até o vencimento da parcela prevista na letra "b" da cláusula segunda, e verificará, além dos passivos contábeis, a situação dos ativos de minério de ferro, relacionados diretamente com as operações de lavra, beneficiamento, comercialização e transporte de minério a eles relacionados, incluindo a avaliação de recursos e reservas minerais, bem como os direitos, deveres e obrigações decorrentes de Termos de Ajustamento e Conduta TAC"s.. Parágrafo Segundo Todas as obrigações, de qualquer espécie, de qualquer natureza, seja a nível tributário, fiscal, trabalhista, previdenciário, reparação civil, que recaírem sobre a Brumafer Mineração Ltda, até a data do registro da alteração contratual necessária à realização do objeto do presente instrumento de Fl. 585DF CARF MF 12 cessão e transferência de quotas sociais, serão de responsabilidade dos PROMITENTES CEDENTES, passando a ser, de responsabilidade da PROMITENTE CESSIONÁRIA, a partir daquela mesma data, ou seja, do registro da alteração contratual. Parágrafo Terceiro Finda a due diligence, se o valor do passivo apurado, definitivo e consolidado, for superior em dólares, aos US$3.000.000,00 (três milhões de dólares norte americanos), referidos na letra "f da cláusula segunda, a PROMITENTE CESSIONÁRIA ficará autorizada a descontar o valor a maior eventualmente encontrado e efetivamente pago, da parcela em reais, equivalente a US$ 12.000.000,00 (doze milhões de dólares norteamericanos), referida na letra "e" também da cláusula segunda, observandose, invariavelmente, o estabelecido no Parágrafo Segundo da Cláusula Quinta. Parágrafo Quarto Caso o valor total do passivo apurado e efetivamente pago for superior ao valor da parcela referida na letra "e" da cláusula segunda, poderá a PROMITENTE CESSIONÁRIA, descontar das parcelas vincendas, sempre na ordem inversa das datas de pagamento, o valor que exceder." Vejo que a due diligence teve por objetivo estipular qual seria o valor real das participações societárias, em função da situação patrimonial da sociedade, o que por consequência excluía desse valor o passivo, que ia se acumulando, em função da situação da empresa, que estava com as atividades paradas por decisão judicial. Isto porque, consta no Contrato Promissório, que a cada verificação do passivo que ultrapassasse os US$ 3.000.000,00, o excesso seria descontado do valor das parcelas subsequentes. Se houve destaque do preço de aquisição para pagamento do passivo, o preço de aquisição real foi o preço de venda menos esse passivo. Da mesma forma, a empresa adquirente poderia ter estipulado um valor líquido (excluído o passivo) para as participações societárias, e reservado o valor que correspondesse ao passivo, para liquidar quando do registro da alteração contratual de realização do objeto do Contrato Compromissário. Nesse caso, o passivo teria efeito sobre o valor líquido que seria recebido pelos alienantes? Entendo que não, caso não houvesse cláusula contratual estipulando dedução de valor em função de diferença de passivos apurados; mas se tal cláusula estivesse presente, os valores das parcelas a serem pagas seriam reduzidas. Ou seja, se as parcelas estivessem estipuladas contratualmente, no momento do pagamento a adquirente iria descontar o passivo apurado, então esse líquido corresponderia ao efetivo valor de alienação. Em realidade, houve uma retenção de parcela do valor da alienação, para pagamento do passivo. A questão é que, o sócio não recebeu o valor destinado ao passivo, que foi diretamente depositado na conta de outros dois sócios para pagamento de dívidas da BRUMAFER. Se o valor destacado era para o passivo, então não era para os sócios, visto que o sócio não é responsável pelas dívidas da empresa, no caso de o capital social estar todo integralizado, e não houver a desconsideração da personalidade jurídica, ou outro fato determinado em lei, que responsabilize os sócios por aquelas dívidas. Diferente seria se, o sócio fosse responsabilizado pelas dívidas da sociedade, em função de situações comprovadamente provocadas por ele, então, o valor destinado ao Fl. 586DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 580 13 passivo comporia o valor da alienação, visto que foi destinado ao pagamento do passivo que é de responsabilidade do sócio, assim, uma parte seria utilizada para quitar dívidas dele. Nesse momento, oportuno citar a solução de Consulta Cosit nº 3/2016, que sana dúvidas em relação a ágio na alienação de ações, mas que aborda matéria pertinente ao presente processo: [...] Com efeito, a aquisição acionária pode ser feita através de outras formas de integralização, como o oferecimento de bens ou ações, a assunção de passivos e emissão e entrega de instrumentos de capital ou o conjunto combinado de mais de um dos tipos de contraprestação3 . Entretanto, deve haver efetiva contribuição do investidor em qualquer espécie de bem suscetível de avaliação em dinheiro, já que só pode haver o registro do valor pago na escrituração contábil se houver segurança em sua mensuração. Nesse sentido é a exegese dos arts. 1.052 e 1.055 do Código Civil: (destacouse) Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. (...) Art. 1.055. O capital social dividese em quotas, iguais ou desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio. [...] Importante destacar que os valores depositados na conta caução, apesar de essa ter sido aberta em nome dos Vendedores, ainda não podem ser considerados como custo de aquisição, pois esses valores se destinam a cobrir as garantias impostas pelo Comprador, e só estarão à disposição dos Vendedores na forma e nos prazos estipulados em contrato. 41. Em síntese, o preço de aquisição da participação societária não restou determinado no contrato apresentado pela Consulente, pois, em razão das diversas condições estipuladas no texto, é possível que o montante total a ser pago pelo Comprador seja ajustado para mais ou para menos, a depender de eventos futuros e incertos. Contudo, os valores já transferidos aos Vendedores correspondem a pagamento do preço acordado entre as partes, caracterizandose, desta forma, como custo de aquisição da participação societária para fins de apuração do ágio verificado no negócio celebrado pela Consulente. E, contrario sensu, os valores devolvidos pelos Vendedores representam redução desse custo de aquisição. Por óbvio, essas alterações influenciarão a apuração do ágio na transação, o que será melhor visto a seguir. [...] As obrigações acessórias estipuladas no contrato devem ser analisadas em face dos requisitos da existência jurídica e da ausência de autonomia frente a obrigação principal. Desta Fl. 587DF CARF MF 14 forma, essas obrigações, que no caso em tela determinam a devolução de valores para o Comprador, fazem parte do contrato de compra e venda, e não podem ser analisadas de forma isolada do objeto principal do negócio celebrado entre as partes. [...] 47. Considerando que gravar a coisa é impor a ela limitações ou gravames, também não se aplica ao caso em tela o art. 502 do Código Civil, acima apontado pela Consulente, já que a existência de eventuais débitos anteriores à data de sua alienação não “grava” a participação societária objeto do negócio celebrado entre as partes. Ademais, esses débitos são da sociedade, não do sócio vendedor. Cabe ainda ressalvar que nas sociedades limitadas a responsabilidade do sócio se restringe ao valor de suas quotas, desde que já integralizadas. Quanto à responsabilidade acerca de débitos passados após a incorporação, assim determina o art. 1.116 do Código Civil: (destacouse) Art. 1.116. Na incorporação, uma ou várias sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações, devendo todas aprovála, na forma estabelecida para os respectivos tipos. [...] 51. De fato, o regime de competência determina que o valor das transações e de outros eventos seja reconhecido nos períodos a que se refere, independentemente do recebimento ou pagamento. Entretanto, para seu reconhecimento fiscal é necessário também que esse valor represente com fidedignidade aquilo que consubstancia, no caso em tela o efetivo preço da aquisição da participação societária, uma vez que, conforme sobejamente demonstrado acima, o preço consignado em contrato não é determinado, já que o valor final está condicionado a eventos futuros e incertos. Somente a efetiva e definitiva entrega de numerário aos Vendedores, nas condições estabelecidas no contrato, é que permite reconhecer que determinado valor integra o custo de aquisição da participação societária. [...]53. Em síntese, o custo de aquisição da participação societária é o valor total efetivamente pago pelo Comprador ao Vendedor. Em regra, é aquele estipulado no contrato, mas, deve se sempre observar o que foi acordado entre as partes, a fim de verificar se o preço consignado em contrato equivale àquele que será efetivamente pago aos Vendedores ao final da transação. Pois bem, a solução de consulta entende que o preço estipulado no contrato, pode não ser o definitivo, e isso vale tanto do lado do comprador quanto do lado do vendedor, o qual será determinado ao final da transação. Além disso, é bem clara ao afirmar que no preço da participação societária não deve ser considerado o passivo da sociedade, por ser dívida da empresa e não do sócio. Verificase ainda, no TVF que o fundamento do Auditor Fiscal para efetuar o lançamento se limitou ao fato de que as parcelas destacadas para pagamento do passivo deveriam compor o valor da base para apuração do ganho de capital. Entendendo que esse Fl. 588DF CARF MF Processo nº 15504.724221/201134 Acórdão n.º 2202004.743 S2C2T2 Fl. 581 15 valor não deveria entrar na base de cálculo, pelas razões expostas ao longo deste voto, acrescento que, a auditoria em nenhum momento demonstrou que o valor ao qual se insurge teve outros fins que não o pagamento de dívidas, ou que tais recursos tiveram como beneficiários finais os próprios sócios da empresa, e que as tratativas contratuais foram apenas artifício para evitar o pagamento de imposto, situações essas, que poderiam descaracterizar o negócio e atrair a incidência do imposto. Ao contrário, o que vejo nos autos são documentos apresentados pela recorrente durante a ação fiscal e com a peça impugnatória, demonstrando o pagamento pela MSA de dívidas da Brumafer, conforme fls. 145/226 e fls. 367/502. Portanto, entendo que não há motivo para manter o lançamento, referente às diferenças apontadas. Diante do exposto, devem ser excluídas da base de cálculo do ganho de capital do recorrente, os valores do passivo da sociedade que foram acrescentados pela Auditoria Fiscal no preço de alienação. Intimação ao advogado Por fim, a recorrente requereu que todas as intimações atinentes ao presente recurso fossem realizadas em nome de seu advogado no endereço lá constante. O artigo 23 do Decreto n° 70.235/72 disciplina integralmente a matéria. Seus incisos I, II e III configuram as modalidades de intimação, atribuindo ao Fisco a discricionariedade de escolher qualquer uma delas. Nesse sentido, o § 3º estipula que os meios de intimação previstos nos incisos do caput do artigo 23 não estão sujeitos a ordem de preferência. O inciso II considera que a intimação via postal deve acontecer no domicílio tributário apenas do sujeito passivo. Já o § 4º dispõe que, para fins de intimação, o domicílio tributário do contribuinte pode ser apenas em dois locais: no endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; ou no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. De tais regras, concluise pela inexistência de intimação postal na figura do procurador do sujeito passivo. Assim, a intimação via postal, no endereço dos procuradores, não acarretaria qualquer efeito jurídico de intimação, pois estaria em desconformidade com o artigo 23, inciso II e §§ 3° e 4°, do Decreto n° 70.235/72. Sendo assim, é de indeferir o pleito da recorrente. Conclusão Por todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares, e, no mérito, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Fl. 589DF CARF MF 16 Fl. 590DF CARF MF
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