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Numero do processo: 10469.721371/2017-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 26 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.639
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gisele Barra Bossa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição ao conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), Carmem Ferreira Saraiva (suplente convocada em substituição ao conselheiro Jose Carlos de Assis Guimarães), Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Jose Carlos de Assis Guimarães e Luis Fabiano Alves Penteado.
Relatório
Nome do relator: GISELE BARRA BOSSA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição ao conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), Carmem Ferreira Saraiva (suplente convocada em substituição ao conselheiro Jose Carlos de Assis Guimarães), Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Jose Carlos de Assis Guimarães e Luis Fabiano Alves Penteado. Relatório 1. Tratase de processo administrativo decorrente de autos de infração lavrados para a cobrança de IRPJ (R$ 34.619018,44) e de CSLL (R$ 12.362.463,57), relativos aos anos calendário de 2012 e 2013, incluindo a cobrança de multa isolada, multa de ofício e juros de mora. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 69 .7 21 37 1/ 20 17 -3 1 Fl. 1388DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 3 2 2. A fiscalização concluiu serem indedutíveis as despesas com a amortização de ágio e despesas decorrente de multas regulatórias. 3. De acordo com o Relatório Fiscal, a contribuinte registrou em sua contabilidade valores sob o título de amortização de ágio que fora analisado em outros processos administrativos fiscais sob o nº 10469.721.944/201051 (IRPJ) e 10469.721945/201003 (CSLL). 4. No presente processo, a fiscalização aplicou o mesmo entendimento dos processos passados por entender que a situação é uma repetição daquela verificada anteriormente e que as operações societárias teriam sido realizadas com excesso de forma jurídica e abuso de direito. Logo, glosou a despesa de amortização de ágio deduzida nos resultados de 2012 e 2013. 5. Em razão da recomposição das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL nos anosbase de 2012 e 2013, a fiscalização concluiu que a Recorrente teria deixado de efetuar o recolhimento do IRPJ e da CSLL a título de estimativas mensais, razão pela qual foi aplicada a multa de 50% sobre tais valores, nos termos do artigo 44 da Lei n° 9.430/97, inciso II, alínea b, com a redação dada pelo artigo 14 da Lei n° 11.488, de 15/06/07. 6. No que tange à despesa com multas regulatórias, o relatório constante na decisão de piso descreve os fatos sinteticamente: “Nesta infração, a autoridade fiscal glosa a dedução de despesas com multas regulatórias aplicadas pela ANEEL e decorrentes do descumprimento dos indicadores/parâmetros como o DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora), FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora), DIC (Duração de Interrupção Individual por Unidade Consumidora), FIC (Frequência de Interrupção Individual por Unidade Consumidora), DMIC (Duração Máxima de Interrupção Contínua por Unidade Consumidora ou por Ponto de Conexão). O descumprimento dos limites desses indicadores resultou em compensações ao consumidor (ou penalidades aplicadas pela ANEEL)”. 7. A fiscalização concluiu que as multas decorrem da prestação do serviço de distribuição de energia em desacordo com as normas estabelecidas e, portanto, não são despesas dedutíveis para fins de apuração do lucro real visto que não são aquisições necessárias à atividade da empresa e ao funcionamento regular. 8. Devidamente intimada em 31/03/2017 (fl. 865), a contribuinte apresentou impugnação ao lançamento (fls. 878/946), na qual, inicialmente, descreve a operação que gerou o ágio em questão: 11.1.1— Breves Considerações acerca da Operação em Tela (...)Como acima ressaltado, o ágio gerado no presente caso decorre da aquisição do controle da Impugnante, em processo licitatório de privatização. De fato, após o leilão público especial realizado em 18 de dezembro de 1997 (DOC 03), o novo grupo de controle da Impugnante passou a ser composto pelas seguintes empresas: Fl. 1389DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 4 3 (i) GUARANIANA S/A; (ii) COMPANHIA DE ELETRICIDADE DO ESTADO DA BANIA COELBA; E (iii) UPTIK PARTICIPAÇÕES S.A. Conforme ressaltado pelo Sr. Agente Fiscal, a aquisição da participação societária da lmpugnante se deu com o pagamento de ágio ao Estado do Rio Grande do Norte (antigo titular de suas ações), em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros. Confirase o seguinte quadro ilustrativo da operação. Posteriormente, e como não poderia deixar de ser, os adquirentes manifestaram seu interesse em aproveitar o benefício fiscal de dedutibilidade da despesa com a amortização do ágio gerado na aquisição das participações societárias, conforme lhes era expressamente autorizado pelo artigo 386 do RIR/99. Dessa forma, para que fosse possível o aproveitamento do benefício fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99, os adquirentes resolveram subscrever e integralizar capital na empresa IBIDEM S.A, mediante entrega das ações da Impugnante acrescidas do ágio. A operação societária acima ilustrada foi previamente submetida à aprovação do órgão regulador do setor elétrico Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, conforme exigência prevista no artigo 27 da Lei nº 8.987/953. A ANEEL, no exercício de sua competência regulatória, autorizou a transferência do bloco de controle acionário da Impugnante para a Fl. 1390DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 5 4 IBIDEM S.A, conforme se depreende da Resolução n° 474, de 30 de novembro de 2000 (DOC 04). Com a transferência do controle acionário da Impugnante à IBIDEM S.A, criouse o ambiente necessário para que a Impugnante incorporasse sua controladora e, assim, aproveitasse o benefício fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99, razão pela qual não pode prosperar a glosa das despesas pretendida pela D. Fiscalização. É importante ressaltar que, mais uma vez em cumprimento ao artigo 27 da Lei n° 8.987/95, a operação societária pretendida foi submetida à apreciação da ANEEL, a qual autorizou a Impugnante a promover a incorporação de sua controladora por meio da Resolução n° 474, de 30 de novembro de 2000, parcialmente reproduzida abaixo: (DOC 04). “AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA ANEEL RESOLUÇÃO Nº 242, DE 30 DE NOVEMBRO DE 2000 Autoriza a Companhia Energética do Rio Grande do Norte COSERN a promover a incorporação de sua controladora IBIDEM S.A. Art. 2° Para a realização da incorporação a concessionária fica obrigada a cumprir integralmente os seguintes requisitos: (...)III contabilizar o ágio, oriundo da empresa a ser incorporada, em conta a ser determinada pela ANEEL” (...) Ademais, para a realização da incorporação foram estipulados diversos requisitos na própria Resolução ANEEL n° 474, de 30 de novembro de 2000, dentre os quais a obrigação de que o ágio fosse amortizado segundo a curva baseada em resultados de exercícios futuros e no prazo remanescente da concessão, sendo que o controle do aproveitamento do ágio seria feito pela Superintendência de Fiscalização Econômica e Financeira da ANEEL. Confirase, a seguir, o quadro ilustrativo da operação: Novamente, devese destacar que o valor do ágio transferido à Impugnante em razão da incorporação da sua controladora (IBIDEM) estava devidamente contabilizado, nos termos do artigo 385 do RIR/99 Fl. 1391DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 6 5 (desmembrandose valor do investimento e ágio), bem como estava devidamente amparado por novo laudo de avaliação de ações fornecido pela Ernst & Young, data base de 30 de novembro de 2000 (DOC. 05). Tal Laudo de Avaliação, bem como o Protocolo de Incorporação (Doc. 06) datado de 18 de dezembro de 2000, Justificação da Operação elaborado pela diretoria da Impugnante (DOC. 07), e o Parecer do Conselho Fiscal da Impugnante (DOC. 08) de 26 de dezembro de 2000, foram todos aprovados pela Ata da Assembleia Geral Extraordinária da Impugnante, de 29 de dezembro de 2000 (DOC. 09)”. 9. Em síntese, a contribuinte trouxe em sua impugnação os seguintes aspectos: (i) a fiscalização não poderia questionar os atos societários que deram origem ao ágio, pois estes já estão "preclusos"; (ii) os atos societários da operação que gerou o ágio foram fiscalizados e autorizados pela ANEEL; (iii) o ágio tem natureza de benefício fiscal e é uma forma de incentivar a prática de fusões; (iv) a operação tinha objetivos que não eram predominantemente tributários, logo, não há que se falar em ausência de propósito negocial; (v) a fiscalização não observou a peculiaridade do caso ao concluir que as despesas relativas às multas são indedutíveis; (vi) inexiste previsão legal para a adição, na base de cálculo da CSLL, das despesas com amortização de ágio considerada indedutível; (vii) defende a impossibilidade de cumulação da multa de ofício com a multa isolada; e (viii) alega ser inaplicável juros sobre a multa. 10. Em sessão de 29 de agosto de 2017 a 2ª Turma da DRJ/BHE, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, nos termos do voto relator, Acórdão nº 0274.321 (fls. 1210/1245), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo, verbis: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012, 2013 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata se de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do Fl. 1392DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 7 6 RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontramse atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a controladora e a controlada ou coligada, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. MULTA ADMINISTRATIVA. AGÊNCIA REGULADORA. ANEEL. INDEDUTIBILIDADE. As multas impostas pelo descumprimento de normas administrativas são indedutíveis. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2012, 2013 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão relativa ao auto de infração matriz deve ser igualmente aplicada no julgamento do auto de infração conexo, decorrente ou Fl. 1393DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 8 7 reflexo, no que couber, uma vez que ambos os lançamentos, matriz e reflexo, estão apoiados nos mesmos elementos de convicção. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2012, 2013 DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. FATO GERADOR. O fato gerador do IRPJ é constituído por uma série de eventos jurídicos, ocorridos ao longo do anobase. Em 31 de dezembro, encerrase a apuração do imposto. Nessa data, ocorre o fato gerador e surge a obrigação tributária. DECADÊNCIA. FATOS PRETÉRITOS. NATUREZA PROBATÓRIA. POSSIBILIDADE. A análise da formação do ágio tem natureza de prova e independentemente da data do fato a que se reporte, está sujeita à livre apreciação pelo fisco que pode efetuar o lançamento com base nela desde que o fato gerador esteja dentro do prazo decadencial. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido”. 11. A DRJ/BHE julgou improcedente a impugnação, em síntese, sob os seguintes fundamentos: (i) a contagem do prazo decadencial não se inicia na data da aquisição; (ii) a operação que deu origem ao ágio amortizado foi construída artificialmente para se enquadrar na incidência de aproveitamento do ágio; (ii) a IBIDEM, empresa criada no curso da operação, não tem substância para figurar como pessoa jurídica investidora; (iii) não foi concretizada a confusão patrimonial exigida por lei entre a IBIDEM e a COSERN; (iv) não é possível caracterizar as multas exigidas pela ANEEL como despesas necessárias ou usuais; (v) as motivações da multa isolada e da multa de ofício são distintas e, portanto, não há que se falar em impossibilidade da cumulação; e (vi) os juros sobre a multa não constam no lançamento (matéria não litigiosa). 12. Cientificada da decisão (Termo de ciência por abertura de mensagem em 11/09/201, fl. 1256), a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário em 10/10/2017 (fls. 1259/1342) reiterando as razões já expostas em sede de Impugnação (item 8) e complementando sua defesa com os seguintes pontos: (i) diferente do entendimento da fiscalização e da decisão recorrida, o artigo 7º da Lei nº 9.532/97 não restringe a transferência de um investimento e, por conseguinte, a migração de um ágio in casu é claramente possível a transferência do ágio adquirido; (ii) a existência de suposta empresa veículo não é suficiente para impossibilitar a amortização do ágio; e (iii) diferente do afirmado pela fiscalização e decisão recorrida, a empresa autuada registrou como despesas operacionais aquelas relativas ao pagamento de compensação aos seus consumidores, por eventuais descumprimentos de metas de fornecimento de energia elétrica, e não as despesas relativas as multas impostas pela ANEEL. 13. Por fim, requer seja: (i) declarada nula a decisão recorrida; (ii) desconstituído o crédito tributário exigido e cancelados os autos de infração respectivos; e (iii) afastada a multa isolada e dos juros sobre a multa. É o relatório. Fl. 1394DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 9 8 Voto Conselheira Gisele Barra Bossa, Relatora 14. O recurso é tempestivo e cumpre os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciar. Questão de Ordem 15. A Recorrente apresentou questão de ordem para fins de requerer a aplicação imediata do artigo 24, do DecretoLei nº 4.657/42, incluído pela Lei nº 13.655/2018, com o consequente cancelamento das respectivas autuações fiscais. 16. Acerca da temática apresentada, vale trazer algumas ponderações. I. Da Aplicabilidade da LINDB ao CARF 17. Inicialmente, cumpre consignar que a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) deve ser observada e aplicada por todos os Órgãos de Estado. 18. A recente decisão da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais chamou a atenção dos operadores ao afastar a aplicação desta Lei a atividade judicante do CARF, verbis: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2002 “PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. QUESTÃO DE ORDEM. CONHECIMENTO. Não se conhece de questão de ordem cujo conteúdo não tem pertinência com o objeto do Recurso Especial, tampouco é aplicável ao Processo Administrativo Fiscal.” (Processo nº 19515.003515/200774, Acórdão nº 9202006.996, 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Sessão de 21 de junho de 2018, Relatora Maria Helena Cotta Cardozo). 19. Como fundamento, o voto condutor do r. Acórdão entendeu que a lei só “promoveu alterações na atuação dos órgãos de controle da Administração Pública, principalmente do Tribunal de Contas da União (TCU)”. Fez questão de consignar que “os dispositivos ora tratados basearamse na obra dos Professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto, denominada Contratações Públicas e Seu Controle, o que não deixa margem de dúvida acerca da natureza essencialmente administrativa dos novos dispositivos”. 20. No mais, registrou que “em nenhum momento a lei em tela sinaliza que seria dirigida à atividade judicante administrativa, como é o caso do CARF”, de modo que,“quando muito, a aplicação desta lei no CARF restringirseia às atividades essencialmente administrativas, afetas à sua SecretariaExecutiva”. Fl. 1395DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 10 9 21. Diante de tais colocações, os citados professores e coautores do anteprojeto da LINDB, manifestaramse na mídia. Vale conferir os seguintes trechos, verbis: Floriano de Azevedo Marques1 “A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro trata da aplicação da norma por todo o órgão que o faça no exercício de competência estatal. Me surpreende que este argumento tenha sido utilizado para gerar uma imunidade à Lei de Introdução – ou por acaso o Carf não utiliza a regra da Lei de Introdução sobre a vigência? Aplicar a LINDB na contratação ou exoneração de servidor público? Esta é uma interpretação contra legis." (...) "Se alguém achar que existe algum órgão que é imune à aplicação das Leis de Introdução”, ponderou, “este alguém está dizendo que algum órgão está imune à aplicação das regras do Direito”. Carlos Ari Sundfeld2 “A resposta quanto ao âmbito de incidência dos novos arts. 20 a 30 da Lei de Introdução é bem clara, a começar da ementa da lei que a alterou. Tratase de “disposições sobre segurança jurídica e eficiência na criação e aplicação do direito público”. Os dispositivos da lei 13.655 não são de direito administrativo em sentido estrito (isto é, sobre contratos administrativos, servidores públicos, serviços públicos e outros temas a cargo dos professores desse ramo), tampouco sobre controle da administração; a lei é geral de direito público. Seus dispositivos são abrangentes e serão observados nas operações jurídicas envolvendo o direito público em geral. Entendemse como tal as operações cuja tutela tenha como centro as autoridades administrativas, embora com fiscalização e participação de controladores externos e juízes. Em suma, os arts. 20 a 30 da Lei de Introdução tratam do direito público cuja aplicação primária seja administrativa. (...) Quanto à esfera administrativa, a lei não fez distinções nem previu tratamento especial ou imunidades para suas subdivisões. Logo, a Lei de Introdução reformada tem de ser observada por todas as autoridades administrativas, seja qual for sua atuação material específica (ativa, consultiva, controladora, licenciadora, reguladora, sancionadora, etc.), a legislação setorial a que está sujeita (contratual, concorrencial, tributária, etc.), sua vinculação organizacional (autoridades singulares, membros de colegiado, etc.) ou seu nível hierárquico (primeira instância, órgãos recursais, Chefe do Executivo, etc.). 1 MENDES, Guilherme. CARF deve aplicar artigo 24 da LINDB, afirma autor da nova redação da norma. Jota, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: https://goo.gl/phv85x. Acesso em: 07 ago. 2018. "Floriano de Azevedo Marques, que formulou as alterações da lei, afirma que o CARF não está imune à sua aplicação." 2 SUNDFELD, Carlos Ari. LINDB: Direito Tributário está sujeito à Lei de Introdução reformada. Jota, São Paulo, 10 ago. 2018. Disponível em: https://goo.gl/3kub1r. Acesso em: 10 ago. 2018. Fl. 1396DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 11 10 Eis então o âmbito objetivo de incidência da lei: situações de criação e aplicação do direito público sob tutela primária da administração pública como um todo. Ela impacta diretamente a aplicação dos direitos constitucional, tributário, administrativo (em sentido estrito), financeiro, ambiental, sanitário, concorrencial, previdenciário, de trânsito, enfim, os ramos do direito público. (...) Impor normas comuns a todos os administradores, controladores e juízes não significa desconhecer as especificidades de organização e funcionamento do controle externo e do Judiciário, tampouco as diferenças que existem na extensão de suas competências de aplicação das normas de direito público cuja tutela primária seja da administração. Para a sujeição de todos às mesmas normas sobre criação e aplicação do Direito, a Lei de Introdução levou em conta a necessidade de coerência normativa: nem o juiz, nem o controlador, podem invalidar, sancionar ou substituir as opções do administrador usando parâmetros de interpretação e decisão discrepantes dos que são naturais e exigíveis na função administrativa. A interpretação tributária feita pelo juiz tem de estar sujeita às mesmas diretrizes que vinculam o administrador tributário. Por identidade de razão, autoridades administrativas judicantes (como o CARF) não podem, para decidir casos, usar conjunto próprio e autônomo de referências jurídicas, diversas das que estão a vincular o administrador tributário ativo e o Poder Judiciário. Convém não esquecer que, ao menos nesse sentido, o Direito é uno, e que a autoridade judicante administrativa em matéria tributária nada mais faz do que aplicar o Direito, e não outra coisa qualquer.” (grifos nossos) 22. Em vista do exposto, fica claro que a LINDB é plenamente aplicável ao CARF e, pessoalmente, não encontro qualquer sentido técnico, jurídico ou hermêutico para afastar os preceitos contidos na LINDB da atividade judicante administrativa. 23. Não há dúvidas de que a LINDB é preceito norteador interpretativo que objetiva, em última análise, assegurar segurança jurídica e previsibilidade aos administrados e anseia pela almejada coerência normativa dada a unicidade do Direito. 24. Nessa esteira, o primado da eficiência buscar atingir tais preceitos e garantir a satisfatividade das decisões na esfera administrativa. De acordo com Prof. Doutor Humberto Ávila3 " para que a administração esteja de acordo com o dever de eficiência, não basta escolher meios adequados para promover seus fins. A eficiência exige mais o que mera adequação. Ela exige satisfatoriedade na promoção dos fins atribuídos à administração. Escolher um meio adequado para promover um fim, mas que promove o fim de modo insignificante, com muitos efeitos negativos paralelos ou com pouca certeza, é violar o dever de eficiência administrativa. O dever de eficiência traduzse, pois, na exigência de promoção satisfatória, para esse propósito, a promoção minimamente intensa e certa do fim”. 3 ÁVILA, HUMBERTO. Moralidade, Razoabilidade e Eficiência na Atividade Administrativa. In: Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, nº 04, out/nov/dez 2005, p. 2324. Disponível em: https://goo.gl/Hn3CpK. Acesso em: 01/01/2018. Fl. 1397DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 12 11 25. Assim sendo, a inobservância dos citados preceitos aqui descritos viola o princípio da eficiência, pois os litígios acabam sendo levados para o âmbito do Poder Judiciário. Para além do ônus suportado pelas partes, temos o ônus para o própria Administração Pública. O Estado é um só e os custos do contencioso são suportados por todos os cidadãos brasileiros. A eficiência de gestão dos recursos públicos e o cuidado na busca de soluções satisfativas são valores legais necessários à promoção do interesse público e não podem ser considerados incompatíveis com esse objetivo. 26. Esses valores atrelados à eficiência, estabilidade e uniformidade são grandes marcos do CPC/2015 e devem liderar não só as iniciativas do Poder Judiciário, mas desafiar os órgãos do Legislativo e Executivo a cumprirem suas funções como verdadeiros guardiões da segurança jurídica. 27. Dito isto, é fácil evidenciar que a LINDB está alinhada aos princípios que regem a Administração Pública, constantes do artigo 374, da CF/88 e do artigo 2º5, da Lei nº 9.784/99, às diretrizes processuais da Lei nº 13.105/20156 (Código de Processo Civil), ao Código Tributário Nacional e, portanto, não há como afastar sua aplicação no âmbito do CARF. II. Da Pertinência da Questão de Ordem Suscitada 28. É notório que tema ágio é altamente controvertido e respondeu em 2014, pelo montante de R$ 18,7 bilhões, nas 30 maiores empresas nãofinanceiras do País (em receita líquida) que acumulavam R$ 283,4 bilhões em contencioso tributário, conforme estudo empírico realizado por Ana Teresa Lopes7 na Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. 29. Não podemos olvidar que tais montantes, a depender da classificação de risco da companhia, deixam de ser provisionados e, portanto, em termos práticos, não afetam o resultado financeiro e permitem que tais montantes sejam investidos nas atividades empresariais. 30. Nessa linha, se determinada questão vem sendo julgada pelos tribunais administrativos e/ou judiciais de forma predominantemente favorável aos administrados, as 4 "Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:" 5 Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. 6 Sobre o tema, não é demais citar os valores processuais contantes dos artigos 4º, 6º e 8º, da Lei nº 13.105/2015: "Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. (...) Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. (...) Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência." 7 LOPES, Ana Teresa. O contencioso tributário sob a perspectiva corporativa: estudo das informações publicadas pelas maiores companhias abertas do país. Dissertação de mestrado apresentada no programa de direito da FGV DIREITO SP (p. 35 e p. 49), em 15/03/2017. Disponível em: https://goo.gl/2xp1fN. Acesso em: 24/07/2018. Fl. 1398DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 13 12 companhias deixam de provisionar determinados valores em litígio, de acordo com as próprias diretrizes do CPC 258: "Provisão 14. Uma provisão deve ser reconhecida quando: (a) a entidade tem uma obrigação presente (legal ou não formalizada) como resultado de evento passado; (b) seja provável que será necessária uma saída de recursos que incorporam benefícios econômicos para liquidar a obrigação; e (c) possa ser feita uma estimativa confiável do valor da obrigação. Se essas condições não forem satisfeitas, nenhuma provisão deve ser reconhecida. Obrigação presente 15. Em casos raros não é claro se existe ou não uma obrigação presente. Nesses casos, presumese que um evento passado dá origem a uma obrigação presente se, levando em consideração toda a evidência disponível, é mais provável que sim do que não que existe uma obrigação presente na data do balanço. 16. Em quase todos os casos será claro se um evento passado deu origem a uma obrigação presente. Em casos raros – como em um processo judicial, por exemplo –, podese discutir tanto se certos eventos ocorreram quanto se esses eventos resultaram em uma obrigação presente. Nesse caso, a entidade deve determinar se a obrigação presente existe na data do balanço ao considerar toda a evidência disponível incluindo, por exemplo, a opinião de peritos. A evidência considerada inclui qualquer evidência adicional proporcionada por eventos após a data do balanço. Com base em tal evidência: (a) quando for mais provável que sim do que não que existe uma obrigação presente na data do balanço, a entidade deve reconhecer a provisão (se os critérios de reconhecimento forem satisfeitos); e (b) quando for mais provável que não existe uma obrigação presente na data do balanço, a entidade divulga um passivo contingente, a menos que seja remota a possibilidade de uma saída de recursos que incorporam benefícios econômicos (ver item 86)." (grifos nossos) 31. Trago este singelo exemplo para demonstrar como a mudança repentina de entendimento do CARF pode impactar diretamente o resultado das companhias e na tomada de decisão dos investidores. 32. Vejam que, em razão da alteração de posicionamento, as empresas acabam, inevitavelmente, por afetar seus resultados (constituição de provisão). Tal movimentação financeira é, por óbvio e diretamente, sentida pelos investidores9. O efeito desta dinâmica 8 "Na elaboração das demonstrações financeiras é comum que as empresas reconheçam como provisão os valores relativos às ações judiciais passivas cuja probabilidade de perda é provável. De acordo com o CPC 25, embora haja um nível de incerteza nestas provisões, o reconhecimento desses eventos como passivo indica que é mais provável que a saída de caixa aconteça do que não aconteça (itens 15 e 16)", por CANADO, Vanessa. Precedentes e Probabilidade de Perda em Ações Judiciais. Jota, São Paulo, 10 mai. 2018. Disponível em: https://goo.gl/eHKKPf. Acesso em: 13 ago. 2018. 9 A simples divulgação dos balanços e notas explicativas afugentam os investimentos. Fl. 1399DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 14 13 nefasta é simples: assistimos o desinvestimento nas operações nacionais, o agravamento do “Custo Brasil” 10, a saída de grupos econômicos do país e o aumento da crise de confiança diante da insegurança jurídica provocada pelos Órgãos de Estado. 33. Sobre este aspecto, bem caminhou o artigo 20 da LINDB, ao dispor que: "Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão. Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas.” 34. A devida motivação calcada em valores concretos, a observância prática dos efeitos da decisão proferida e a publicização de eventual mudança de posicionamento, são fundamentais para trazer coerência aos julgados, bem como asseguram que o administrado tenha ciência e previsibilidade para bem gerir suas atividades empresariais. O respeito ao interesse público primário relacionase com a observância dos preceitos que regem a Ordem Econômica, em especial, do exercício da livre iniciativa. 35. Igualmente alinhado aos valores da segurança jurídica e da previsibilidade, o invocado artigo 24, da LINDB, proíbe expressamente que a administração tributária dê aplicação retroativa a nova interpretação sobre a legislação tributária, verbis: LINDB "Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público." (grifos nossos) 36. Notase que, o caput do citado dispositivo converge com os preceitos contidos, especialmente, no artigo 2º, parágrafo único, inciso XIII, da Lei nº 9.784/1999, artigo 100, incisos II e III, do CTN. Confirase: Lei nº 9.784/1999 10 O custo Brasil é um termo genérico, usado para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarecem o investimento no Brasil, dificultando o desenvolvimento nacional, aumentando o desemprego, o trabalho informal, a sonegação de impostos e a evasão de divisas. Em outros termos, "é custo adicional de transacionar, de realizar negócios, no Brasil, em comparação ao custo em um país com instituições que funcionam adequadamente", em PINHEIRO, Armando Castelar. A Justiça e o Custo Brasil. In: Revista USP, nº 101, mar/abr/mai. São Paulo, p. 141158. Disponível em: https://goo.gl/CSvJcn. Acesso em: 13/08/2018. Fl. 1400DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 15 14 "Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (...) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação." CTN "Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: (...) II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo." (grifos nossos) 37. Contudo, a polêmica trazida pelos operadores com relação a aplicação do artigo 24, da LINDB, gira em torno das expressões “revisão”, "orientações gerais da época", entendidas como "jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público". 38. In casu, a Recorrente sustenta que a operação de amortização do ágio decorre de processo licitatório de privatização ocorrido em dezembro de 1997, por meio do qual a aquisição da participação societária da contribuinte se deu com o pagamento de significativo ágio ao Estado do Rio Grande do Norte, em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros. 39. Com efeito, invoca a aplicação do artigo 24, da LINDB, por considerar que a jurisprudência administrativa era majoritária na época dos fatos geradores objeto do lançamento fiscal. 40. Para comprovar o alegado, apresenta relação de casos semelhantes ao presente, onde o aproveitamento fiscal de ágio foi considerado legítimo e plenamente válido, são eles: Acórdão nº 1401001.166 (sessão de 08/04/2014), Acórdão nº 1402001.409 (sessão de 10/07/2013), Acórdão nº 1302002.548 (sessão de 20/02/2018), Acórdão nº 1402000.993 (sessão de 11/04/2012), Acórdão nº 1301000.999 (sessão de 07/08/2012), Acórdão nº 1101 000.835 (sessão de 04/12/2012) e Acórdão nº 1101000.841 (sessão de 06/12/2012). 41. No mais, a Recorrente faz referência a recente decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (“TJ/SP”), onde houve a manutenção do um acórdão anteriormente prolatado mediante a utilização do artigo 24, da LINDB, uma vez que a Fl. 1401DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 16 15 decisão antiga estava em consonância com a orientação jurisprudencial da época. Vale conferir: EMENTA JUÍZO DE RETRATAÇÃO Pretensão à anulação de auto de infração lavrado em decorrência da suposta ausência de recolhimento de ICMS Autuação baseada em informações obtidas junto a operadoras/administradoras de cartões de crédito (Operação Cartão Vermelho) Sentença de procedência Acórdão que negou provimento ao recurso da Fazenda do Estado de São Paulo Recursos Especial e Extraordinário interpostos por ela Retorno dos autos nos termos do art. 1.030, inciso II, do CPC, para eventual adequação ou manutenção do acórdão, tendo em vista o julgamento do RE n° 601.314 / SP Decisão que seguiu orientação jurisprudencial de então Impossibilidade de adoção de nova orientação Inteligência do artigo 24 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro Manutenção do acórdão, com determinação. (TJSP: Apelação nº 001337590.2014.8.26.0224, rel. Desembargador Reinaldo Miluzzi, 6ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, julgado em 27/08/2018 grifos nossos). 42. Por fim, a Recorrente procedeu a juntada de planilha contendo todos os acórdãos do CARF acerca de ágio gerado em privatização / desverticalização. Ademais, destacou que, "até 2016, foram proferidas 18 decisões colegiadas favoráveis aos contribuintes e apenas 1 desfavorável, ressaltando que os fatos geradores autuados são de 2012 e 2013 e, nesse preciso período, o CARF se manifestou favoravelmente ao contribuinte em 14 julgamentos e apenas um contrariamente". 43. Desta forma, não há dúvidas da aplicação imediata dos comandos da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasile iro, devendo ser cancelada a autuação fiscal, já que o procedimento adotado pela Recorrente se deu com base nas orientações da época, ou seja, foi paut ado na jurisprudência majoritária deste CARF. 44. Diante das razões técnicas e jurídicas aqui apresentadas e em vista da relação de julgados supra, evidencio que há fortes indícios de que a jurisprudência aplicável seria majoritária. Assim, considero prudente, em consonância com o princípio do contraditório, que a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) seja intimada para se manifestar acerca do pleito em questão. III. Das Despesas Incorridas com o pagamento de "Multas Regulatórias Devolução a Consumidor" 45. Além da questão de ordem suscitada, em suas peças de defesa a Recorrente afirma que a fiscalização se equivocou ao glosar os valores referentes aos pagamentos registrados como “Multas Regulatórias – Devolução Consumidor”, pois tais montantes não são relativos a multas, mas sim a pagamentos compensatórios a seus consumidores em face de "oscilações próprias da estrutura ínsita ao fornecimento de energia". 46. Em resposta a intimação no curso da fiscalização, a contribuinte afirma que: “De início, cumpre esclarecer que, apesar de a rubrica sob análise possuir o termo “multa” em parte de sua designação, os valores a Fl. 1402DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 17 16 ela referentes não correspondem propriamente e a rigor a uma penalidade, mas sim a instrumentos regulatórios de compensação do consumidor de energia elétrica (FEC/DEC e FIC/DIC), inerentes à atividade operacional da COSERN e dela naturalmente indissociáveis, em função de oscilações próprias da estrutura ínsita ao fornecimento de energia. (...) De fato, a solicitação da Receita Federal do Brasil, nos termos do Ofício nº 01 ora respondido, referese a valores decorrentes de mecanismos regulatórios de compensação aplicados pela ANEEL às Concessionárias de Energia Elétrica em relação aos índices de DEC – Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora, FEC – Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora, DIC – Duração de Interrupção Individual por Unidade Consumidora, FIC _ frequência de Interrupção Individual por Unidade Consumidora, DMIC – Duração Máxima de Interrupção Contínua por Unidade Consumidora ou por Ponto de Conexão, entre outros. Tais índices refletem aspectos relacionados com o fornecimento de energia elétrica pelas concessionárias, em especial aqueles que afetam diretamente o serviço contratado pelos consumidores. (...) Existem ainda as causas de força maior que afetam diretamente a prestação do serviço, mas não dependem da atuação da Concessionária, poso que decorrem de fenômenos da natureza, geralmente sem previsibilidade, como os fatores climáticos. (...) Há também questões atreladas à noção de caso fortuito e fatores externos alheios à vontade da companhia, tais como trânsito, períodos críticos de ocorrências de acidentes na rede, a exemplo de colisões em postes ou fios etc. (...) Ademais, existem aspectos de sazonalidade que acometem tais situações, geralmente decorrentes de períodos de fortes chuvas, ou outros eventos semelhantes que, quando ocorrem, geram danos incomensuráveis na rede, interferindo imediatamente no fornecimento de energia elétrica. Tudo isso por fatores alheios à vontade da empresa e que por ela não podem ser controlados. (...)Desse modo, como os fatores que influenciam na apuração do FEC/DEC e FIC/DIC não dependem necessariamente de atos de vontade da empresa, é que se lhes atribuiu exatamente uma natureza compensatória, e não sancionatória. Isso porque não faria sentido penalizar alguém por questões que não dependem da sua esfera de vontade, atuação ou controle. Por outro lado, como em decorrência de tais fatores alheios à vontade da empresa acabam por afetar o fornecimento de energia ao consumidor, é preciso que estes sejam compensados por tais circunstâncias. Daí porque tais verbas possuem caráter compensatório, e não sancionatório”. 47. A decisão de piso manteve a glosa por entender que "não se pode caracterizar despesas relativas a atos e omissões, proibidos e punidos por norma de ordem pública, como despesas necessárias ou usuais". No mais, os fatores que levaram ao pagamento Fl. 1403DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 18 17 dos valores em questão são referentes a risco inerente à atividade, mas não podem ser considerados necessários. 48. Insta esclarecer que, a exigência em exame decorre de procedimento previsto pela ANEEL diante do descumprimento de metas de distribuição de energia elétrica por parte das distribuidoras. 49. Conforme descrito pela Recorrente, em face de eventual descumprimento da meta de distribuição, as Concessionárias de energia elétrica devem efetuar, por sua conta e risco, os cálculos das compensações e creditálas diretamente ao consumidor de energia elétrica em sua própria conta de luz. 50. Tal procedimento está descrito na Resolução ANEEL nº 395, verbis: “2. TENSÃO EM REGIME PERMANENTE (...) 2.1 Termos e definições 2.1.1 São estabelecidos os limites adequados, precários e críticos para os níveis de tensão em regime permanente, os indicadores individuais e coletivos de conformidade de tensão elétrica, os critérios de medição e de registro e os prazos para compensação ao consumidor, caso as medições de tensão excedam os limites dos indicadores. (...) 2.7 Compensação aos Consumidores 2.7.1 A distribuidora deve compensar os consumidores que estiveram submetidas a tensões de atendimento com transgressão dos indicadores DRP ou DRC e os titulares daquelas atendidas pelo mesmo ponto de conexão. (...) 2.7.3 A compensação deve ser mantida enquanto o indicador DRP for superior ao DRP limite e/ou o indicador DRC for superior ao DRC limite. 2.7.4 O valor da compensação deve ser creditado na fatura apresentada no prazo máximo de dois meses subsequentes ao mês civil de referência da última medição que constatou a violação. (...) 5 INDICADORES DE CONTINUIDADE DO SERVIÇO DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA 5.1 Por meio do controle das interrupções, do cálculo e da divulgação dos indicadores de continuidade de serviço, as distribuidoras, os consumidores e a ANEEL podem avaliar a qualidade do serviço prestado e o desempenho do sistema elétrico. (...)5.11 Compensações. 5.11.1 No caso de violação do limite de continuidade individual dos indicadores DIC, FIC e DMIC em relação ao período de apuração (mensal, trimestral ou anual), a distribuidora deverá calcular a compensação ao consumidor acessante do sistema de Fl. 1404DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 19 18 distribuição, inclusive àqueles conectados em DIT, e efetuar o crédito na fatura, apresentada em até dois meses após o período de apuração”. 51. Em face de compensações feitas em desconformidade com o regulamento, a ANEEL deve autuar a distribuidora e multála no caso da desconformidade restar comprovada. 52. Importante ressaltar que a própria agência regulatória, a ANEEL, reconhece que as concessionárias estão sujeitas a eventuais descumprimentos de metas de fornecimento, pois como foi descrito no item 50, muitas das situações que impedem o fornecimento de energia não estão sujeitas ao controle das concessionárias. 53. Diante do fato de que a ANEEL inclusive regulamentou o procedimento de compensação direta aos consumidores, as despesas referentes a essas compensações devem ser caracterizadas como operacionais, pois são intrínsecas à atividade desenvolvida pela contribuinte. 54. Logo, é possível concluir que a dedutibilidade da base de cálculo do IRPJ e da CSLL será possível somente no caso de os valores serem relativos ao pagamento de compensação aos consumidores. Entretanto, caso tais valores sejam relativos a multas pagas à ANEEL em face de compensações feitas em desconformidade, estes não podem ser considerados dedutíveis. 55. Do exposto, fica evidente que o cerne da questão é a identificação dos valores enquanto multa ou pagamento a título de compensação dos consumidores da empresa autuada. 56. Em análise dos autos, verifico que nem a fiscalização, através do Termo de Verificação Fiscal, nem a ora Recorrente, procuraram evidenciar/demonstrar que os valores pagos e registrados sob a rubrica “Multas Regulatórias – Devolução Consumidor” correspondem, total ou parcialmente, as compensações feitas diretamente aos consumidores e/ou as multas pagas à ANEEL. 57. Frisese que, o fato de a escrituração contábil apresentar os valores com a rubrica “Multas Regulatórias – Devolução Consumidor” torna impossível ao julgador administrativo diferenciar e identificar os valores entre as categorias de compensação ou multa. 58. E, por mais que a ora Recorrente, à título exemplificativo, tenha juntado aos autos cópia de autuação efetivada pela ANEEL (incidência de multa), não trouxe a identificação/comprovação de que tais despesas glosadas referemse exclusivamente a compensação. 59. De outra parte, tanto a autoridade fiscal com a autoridade julgadora partiram do pressuposto de que, independente da natureza (compensação ou multa), tais dispêndios são indedutíveis. Data máxima vênia, considero que tal raciocínio não merece prosperar. 60. No mais, os valores envolvidos são expressivos: R$ 2.237.906,63, no anocalendário 2012 e R$ 1.772.361,48, no anocalendário 2013. Fl. 1405DF CARF MF Processo nº 10469.721371/201731 Resolução nº 1201000.639 S1C2T1 Fl. 20 19 61. Por essas razões fáticas e jurídicas, a diligência mostrase necessária para garantir o direito ao contraditório, a ampla defesa e, fundamentalmente, a busca da verdade material, sob pena de enriquecimento ilícito da União. 62. Não é demais lembrar que as atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão devem ser realizadas de ofício pela autoridade fiscal, nos termos do artigo 29, da Lei nº 9.784/9911. IV. Das Providências 63. Em face do exposto com relação aos itens I e II, proponho a remessa dos presentes autos à unidade preparadora com o objetivo de intimar a PGFN para se manifestar acerca da questão de ordem suscitada pela Recorrente e, em especial, sobre a relaçaõ de decisões apresentadas que, a priori, demonstram ser o entendimento majoritário da época favorável ao aproveitamento fiscal de ágio em casos semelhantes ao presente. Se for o caso, apresente rol de julgados para contrapor os apresentados pela Recorrente. 64. Após tais providências, a Recorrente deverá ser intimada para que demonstre serem os valores registrados na rubrica “Multas Regulatórias – Devolução Consumidor” referentes a pagamentos à título de compensação a seus consumidores (item III), ainda que tal comprovação seja feita através de controles internos que segreguem tais incidências e demonstrem que o valor lançado nestes autos se referem exclusivamente a estes dispêndios e não a multas pagas à ANEEL. 65. É inequívoco que, em caso de dúvidas quanto à exatidão das informações prestadas, a autoridade fiscal deve intimar a contribuinte a prestar esclarecimentos complementares. 66. Após a conclusão da diligência, a autoridade preparadora deverá elaborar Relatório Conclusivo, com posterior ciência à Recorrente, para que, se assim desejar, se manifeste no prazo de 30 (trinta) dias e na sequência retornem os autos ao E. CARF para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa 11 Art. 29. As atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão realizamse de ofício ou mediante impulsão do órgão responsável pelo processo, sem prejuízo do direito dos interessados de propor atuações probatórias. § 1º O órgão competente para a instrução fará constar dos autos os dados necessários à decisão do processo. § 2º Os atos de instrução que exijam a atuação dos interessados devem realizarse do modo menos oneroso para estes. Fl. 1406DF CARF MF
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Numero do processo: 15504.732952/2013-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Nov 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2008 a 30/04/2009
PROVA. PRESSUPOSTO DE FATO.
Não tendo a prova apresentada pelo contribuinte o condão de infirmar o Acórdão recorrido, impõe-se o não provimento ao recurso.
Numero da decisão: 2401-005.869
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Monica Renata Mello Ferreira Stoll (Suplente Convocada), Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: JOSE LUIS HENTSCH BENJAMIN PINHEIRO
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PRESSUPOSTO DE FATO. Não tendo a prova apresentada pelo contribuinte o condão de infirmar o Acórdão recorrido, impõese o não provimento ao recurso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Monica Renata Mello Ferreira Stoll (Suplente Convocada), Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 73 29 52 /2 01 3- 15 Fl. 5739DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.740 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão da 6ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte que, por unanimidade de votos, julgou improcedente Manifestação de Inconformidade contra Despacho Decisório que indeferiu requerimento de restituição de valores retidos nos termos do art. 31 da Lei nº 8.212, de 1991, na redação da Lei nº 9.711, de 1998, relativos às competências 01/2008 a 04/2009, uma vez que: (1) os lançamentos contábeis não registram, em contas individualizadas, por tomador de serviços, os fatos geradores de contribuições previdenciárias; (2) nas competências de 01/2008 a 02/2009, a empresa apenas informou GFIP no código 155, e não duas GFIPs, uma no código 155 (empreitada total), e outra no código 150 (pessoal da administração e empreitada parcial); e (3) nas competências de 03/2009 a 04/2009, com GFIP no código 150, os empregados não foram alocados nos respectivos tomadores de serviços. Os pedidos foram veiculados nos seguintes documentos: Compt PER VALOR REQUERIDO 01/2008 16266.30621.171106.1.2.150370 87.885,07 02/2008 11776.08661.271206.1.2.154033 30.627,61 03/2008 01280.87360.171106.1.2.158607 364.246,88 04/2008 26773.60637.271206.1.2.157318 113.273,46 05/2008 10060.65636.171106.1.2155608 29.605.91 06/2008 02676.36300.171106.1.2151673 51.898,84 07/2008 26023.78160.171106.1.2154346 99.479,62 08/2008 21115.38654.171106.1.2152746 180.303,73 09/2008 31664.80353.171106.1.2150280 119.923,71 10/2008 32026.36666.271206.1.2157005 119.857,15 11/2008 05882.84761.171106.1.2153201 231.355,02 12/2008 04886.52618.171106.1.2158144 515.903,71 01/2009 16125.76330.171106.1.2150537 202.481,04 02/2009 05636.36666.171106.1.2155375 115.321,88 03/2009 26162.80507.271206.1.2157176 51.576,17 04/2009 17323.27355.271206.1.2152035 142.121,24 TOTAL 2.455.861,04 Da Manifestação de Inconformidade, em síntese, extraise: a) As obras (Sites de Telecom, Centrais de Telefonia, reforma de Agências Bancárias e Lojas de Shopping) apresentam peculiaridades, e, para tanto, se discorre a respeito dos serviços realizados, com destaque para a pouca utilização de mãodeobra, do alto custo dos materiais / equipamentos instalados, e da forma de pagamento (30% quando do pedido de compra, 50% no término da obra, e 20% após a aceitação). b) Não se pode exigir uma forma específica para a contratação, segundo o Código Civil de 2002. Os Pedidos de Compra formalizam os contratos das tomadoras de serviço com a requerente apos seu aceite. Fl. 5740DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.741 3 c) Os atos normativos vigentes à época estabeleciam que a contratada estava dispensada da elaboração de folhas de pagamento e GFIP com informações distintas por obra quando utilizase os mesmos empregados, alternativamente, em duas ou mais obras. d) Teve, pelos tomadores de serviços, retido e recolhido quantias bem superiores à parcela que inclui a mão de obra utilizada. Elabora planilha com as Notas Fiscais, os valores retidos, os destacados, e os recolhidos relativos à contribuição previdenciária, observando que os diversos tomadores de serviços não teriam respeitado a aplicação de 11% (onze por cento) sobre a mãodeobra, mas, em muitos casos, incidiram a retenção sobre o valor total da Nota fiscal. Em razão disso, surgiram as divergências. e) Está desobrigada da escrituração contábil, pois o seu regime de tributação é pelo lucro presumido, mesmo assim necessita das peças contábeis registradas para a sua participação em licitações públicas, cadastros de fornecedores, transações comerciais e bancárias. f) As GFIPs foram inicialmente informadas com as retenções destacadas nas Notas Fiscais, e, posteriormente, com o recebimento das Notas com retenções superiores às destacadas, retificaramse as GFIPs para se adequarem aos valores efetivamente retidos, sendo que, nos PER/DCOMP, também foram informados os valores efetivamente retidos. g) As contribuições previdenciárias não divergem dos registros contábeis. Anexa cópias dos resumos das folhas e do Livro Razão, e bem assim elabora Quadro (fl. 3654), para as competências 04/2008 e 06/2008, demonstrando os valores que constam das folhas, informadas nas GFIPs, e os lançamentos do Razão. h) As divergências GFIP/PER/DCOMP foram sanadas para as competências 01/2008 a 04/2009. Promoveu todas as correções necessárias quanto aos códigos da GFIP 155 e 150. Foi emitida GFIP específica para o escritório e para as empreitadas parciais no código 150, e, para as obras de empreitada total no código 155. i) Deixou de apresentar os lançamentos contábeis, em contas individualizadas, por tomador de serviço, e deixou de alocar os funcionários nos respectivos tomadores de serviços, porque é empresa optante pelo lucro presumido, não sendo necessário que se mantenha escrituração contábil detalhada a centro de custo (obra por obra), conforme o permissivo legal do § 16, inciso II, do artigo 225 do Regulamento da Previdência Social. j) A mãodeobra utilizada pela requerente circula entre as obras, de acordo com os permissivos constantes da Instrução Normativa MPS/SRP nº 3, de 14/07/2005, em seu artigo 162, e da Instrução Normativa RFB nº 971, de 13/11/2009, em seu artigo 135. As obras realizadas em sua maioria são de baixa complexidade no tocante à obra civil e demandam pouca alocação de mãodeobra. Houve subcontratação de serviços, conforme Notas Fiscais, GPS e comprovantes de recolhimento. Fl. 5741DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.742 4 k) A mãodeobra própria declarada em GFIP somada à contratada pela ENCOP sob a forma de subempreitada é a mãodeobra real, condizente com o tipo de obra executada, que difere das obras de construção civil enquadradas na classe 41 da CNAE – Construções de Edifícios, uma vez que, no período requerido, enquadrase na classe 42 da CNAE – Obras de Infraestrutura, subclasse 42219/04 – Construções de Estações e Redes de Telecomunicações. l) Requer seja acolhida a Manifestação de Inconformidade para que seja deferida a restituição pleiteada. Em face das questões fáticas e dos documentos apresentados, foi comandada diligência e da qual, em síntese, extraise: a) A mãodeobra empregada na prestação de serviços é inferior a 40% do valor bruto dos serviços contidos nas Notas Fiscais. b) O reenvio de GFIP no código 155, para as competências 07, 08 e 09/2008, ficou pendente na situação “em análise”, pois a nova GFIP enviada no código 150 alterou a base de cálculo da GFIP 155. Considerando as GFIPs processadas para essas competências, conforme o artigo 1º da Portaria Conjunta INSS/RFB nº 3.764/2011, elas continuaram sendo indeferidas. As GFIPs retificadas no código 150 deixaram de informar os trabalhadores correspondentes aos tomadores. c) Não existem folhas de pagamento por tomadores, conforme dispõe o § 5º do artigo 31 da Lei nº 8.212, de 24/07/1991 e o § 9º do inciso I do artigo 225 do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 1999. As GFIPs também deveriam ser por tomadores, de acordo com o Manual GFIP/SEFIP, aprovado pela IN RFB nº 880, de 16/10/2008, não havendo comprovação de que os trabalhadores atendiam a várias empresas contratantes, alternativamente, no mesmo período, inviabilizando a individualização de suas remunerações por tarefa ou serviço contratado (Notas 1 e 2 do item III do capítulo II do referido Manual). d) Os serviços prestados foram em diversas cidades localizadas em vários Estados e a execução deles vão de dois a cinco meses, o que não se aplicariam as disposições do artigo 162 da IN nº 03/2005, e do artigo 135 da IN RFB nº 971/2009. e) A empresa apresentou Notas Fiscais de prestação de serviços e Guias da Previdência Social dos subempreiteiros, mas não se utiliza dos dados dos subempreiteiros, conforme dispõe o § 1º do artigo 127 da IN RFB nº 971/2009. f) A empresa, como optante pelo regime de tributação do lucro presumido, poderia escriturar o Livro Caixa, exceto se mantiver escrituração contábil nos termos da legislação comercial, segundo o artigo 18 da Lei nº 8.541, de 1992. A requerente apresentou o Livro Diário e o Livro Razão, mas nesses os lançamentos contábeis não registram, em contas individualizadas, por tomador de serviços, os fatos geradores de contribuições previdenciárias, Fl. 5742DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.743 5 estando em desacordo os incisos I, II e IV do § 9º; inciso II do § 13º, todos do artigo 225; e em desacordo com o § 5º do artigo 219 do RPS. Diante do resultado da diligência, a empresa complementou sua manifestação de inconformidade, em síntese, alegando: a) Apresenta Quadro das contribuições retidas, dos valores compensados e dos valores de restituição requeridos. Todos os serviços e obras executados foram contratados com a obrigatoriedade de fornecimento de materiais e de equipamentos, estes, majoritariamente, fornecidos com colocação / mãode obra de terceiros. Reporta aos Pedidos de Compra, e às Instruções Normativas que tratam da definição da base de cálculo em 50% do valor da Nota Fiscal. b) Na quitação de inúmeras Notas Fiscais, as contratantes, arbitrariamente, consideraram como base de cálculo o valor integral do documento, impondo à contratada retenções que incidiam sobre os materiais e equipamentos fornecidos. Com isso, requer a devolução das retenções acima dos valores destacados, bem como a devolução das retenções que incidiram sobre itens que são excluídos legalmente da base de cálculo, como fundações, instalação de ar condicionado, muros de concreto, e outros materiais e equipamentos fornecidos com colocação. c) Discrimina as Notas Fiscais, os valores de materiais, a mãodeobra, os destaques, as contribuições retidas de fato, os recolhimentos, e a importância retida a maior. Em cem Notas Fiscais os contratantes desconsideraram o valor destacado, sendo que a requerente aplicou, na maioria dos casos, a regra geral, 50% como base. Às fls. 5307/5311, exemplifica com competências cuja retenção foi maior do que as destacadas em Notas Fiscais. d) Às fls. 5312/5315, a requerente descreve as obras e os serviços (sites de telefonia, centrais de telefonia, agências bancárias, lojas em shopping centers) com o objetivo de demonstrar a inaplicabilidade dos critérios e parâmetros usualmente utilizados para avaliar as obras de construção civil em geral, e, com isso, afirmar que teriam sido feitas retenções sobre bases de cálculo superiores à devida. Na mesma linha, diz que a mãodeobra constante das folhas de pagamento e declarada em GFIP é a que efetivamente foi empregada na execução dos serviços e obras contratadas no período, somada à que consta das Notas Fiscais de subempreitadas, uma vez que as obras da ENCOP se diferenciam das demais obras de edificação civil. Acrescenta o fato de que os cronogramas de recebimento das notas fiscais não coincidiram com o período de execução das obras ou serviços. e) O valor da mão de obra indicado nas notas fiscais não expressa a mão de obra real empregada na execução dos serviços prestados pela ENCOP. Fala a respeito dos pagamentos iniciais pela contratante para a aquisição de materiais, e conclui que a mãodeobra empregada nos sites é a que está indicada nos Quadros de fl. 16 da Manifestação, observando, ainda, que são valores médios, os quais podem sofrer alterações devido às condições da obra. Às fls. 5317/5327, traz exemplos para demonstrar os equívocos Fl. 5743DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.744 6 relativos a retenções muito acima das que deveriam ter sido efetivadas. Comenta cada exemplo indicando valores que deveriam ter sido excluídos da base de cálculo, conforme se verifica às fls. 5327/5328 (fls. 26/27 da Manifestação). Já, às fls. 5329/5341, exemplificando as obras de Centrais de Telefonia, procura demonstrar a inexatidão da base de cálculo considerada, vez que não teriam sido excluídos os materiais / equipamentos. f) Trata da elaboração das folhas de pagamento e das GFIPs não específicas dizendo que, para as obras não identificadas por matrículas CEI, consolidou todos os pagamentos de seus empregados na folha do escritório, em razão das dificuldades em alocar em folha específica os trabalhadores que participaram, em períodos inferiores a um mês, em várias obras ou serviços. Por serem obras de curta duração (sites de telefonia) e não se enquadrarem no conceito de empreitada total, não foram retiradas as matrículas CEI, ressaltando que esse procedimento estaria respaldado em consulta à Receita Federal (Solução de Consulta nº 122). Com isso, afirma que estava desobrigada de providenciar as matrículas das obras executadas parcialmente. Parte ponderável do faturamento no período teria decorrido da prestação de serviços com duração inferior a uma semana, para os quais é impossível a geração de folhas de pagamento e GFIPs específicas. Quando contratada para recuperar diversos sites vandalizados, situados distantes uns dos outros, mobiliza empregados que em um ou dois dias executam o serviço contratado em uma localidade e se deslocam para a próxima. Apresenta demonstrativos, com a finalidade demonstrar os vários tipos de trabalhos executados, com as respectivas retenções, e que permitem que se conclua que para muitos serviços, além da inexigibilidade de matrícula, também não seria possível a elaboração de folhas específicas e GFIP. g) Utilizouse de serviços de subempreiteiros, sendo que a mãodeobra não teria sido considerada pela autoridade a quo. Segundo o artigo 127 da IN RFB nº 971, de 2009, é facultado à contratante deduzir da retenção destacada na Nota Fiscal as retenções retidas de subempreiteiros no mês de emissão do documento fiscal. A ENCOP optou por suportar um encargo superior ao devido, uma vez que a legislação (artigo 127, supracitado) é autorizativa, e não determinativa, ao incluir no texto a expressão "poderão ser deduzidos", e não "deverão ser deduzidos”. Teria cumprido com os deveres atinentes à sua condição de contratante, retendo e recolhendo as contribuições dos subempreiteiros, o que os serviços por estes prestados devem ser considerados como mãodeobra empregada nas obras. h) Para as competências 07, 08 e 09/2008, na matrícula 41.310.03189/77, e para a competência 08/2008, na matrícula 41.310.03938/78, as restituições foram indeferidas (item 3.3 da Informação Fiscal), entretanto, todos os trabalhadores foram informados em GFIP, o que estaria a demonstrar a consistência entre os PER/DCOMPs e as GFIPs, em anexo. i) Por ser optante pelo regime de tributação do lucro presumido, está dispensada de escrituração contábil, conforme o Regulamento da Previdência Social, em seu artigo 225, § 16. Desse modo, em sendo a empresa optante pelo regime do lucro presumido, desnecessário é que se Fl. 5744DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.745 7 mantenha a escrituração detalhada a centro de custo (obra por obra), o que não seria possível a penalização por descumprimento de uma obrigação que não se aplica. Não nega a escrituração do Diário e do Razão, mas não por determinação legal, e sim por conveniência e estratégia. Nenhum fato gerador foi excluído dos lançamentos, as receitas e retenções foram integralmente lançadas, e no balanço patrimonial, no ativo, estão registrados os créditos decorrentes de contribuições a recuperar. Não há omissão de despesa ou receita que assinale o cometimento de um crime ou irregularidade ou que aponte para qualquer tipo de sonegação, fraude ou simulação. Constatada irregularidade, estaria descumprindo uma obrigação acessória, talvez punível com uma autuação (multa pecuniária), e não ser negado o seu direito de receber restituições de contribuições retidas. j) Requer a reforma do Despacho Decisório. Do Acórdão prolatado pela Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, em síntese, se extrai: a) No caso em análise, não se pode proceder ao encontro de contas para os serviços / obras, prestados sob o regime de empreitada parcial, GFIP no código 150, eis que a requerente não alocou os trabalhadores, nessas GFIPs, por tomador de serviços, considerando que não elabora folhas de pagamento específicas com a identificação dos tomadores. Ainda que por empreitada parcial, hipótese que a matrícula CEI não é de responsabilidade da contratada (prestadora dos serviços), a empresa cedente deve relacionar os trabalhadores ao correspondente tomador, conforme se verifica no Manual GFIP/SEFIP. A Instrução Normativa MPS/SRP nº 03, de 14/07/2005 (artigo 162, parágrafo único) e a Instrução Normativa RFB 971, de 13/11/2009 (artigo 135, parágrafo único) vigentes à época da prestação dos serviços, dispunham no mesmo sentido sobre a dispensa de elaboração de folha de pagamento e GFIP específicas, para a empresa contratada. O artigo 162 e seu parágrafo único, da IN MPS/SRP nº 03/2005, dispõe que: Art. 162. A empresa contratada fica dispensada de elaborar folha de pagamento e GFIP com informações distintas por estabelecimento ou obra de construção civil em que realizar tarefa ou prestar serviços, quando, comprovadamente, utilizar os mesmos segurados para atender a várias empresas contratantes, alternadamente, no mesmo período, inviabilizando a individualização da remuneração desses segurados por tarefa ou por serviço contratado. Parágrafo único. São considerados serviços prestados alternadamente, aqueles em que a tarefa ou o serviço contratado seja executado por trabalhador ou equipe de trabalho em vários estabelecimentos ou várias obras de uma mesma contratante ou de vários contratantes, por etapas, numa mesma competência, e que envolvam os serviços que não compõem o CUB, relacionados no Anexo XIV. a1) Percebese, do artigo 162, e seu parágrafo único, acima, que os serviços que dispensam a elaboração de folhas de pagamento por tomador são aqueles que satisfazem (duas) condições: (1) Serviços que não compõem o CUB, relacionados no Anexo XIV (Esses serviços estão dispensados de Fl. 5745DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.746 8 matrícula CEI); e (2) Serviços nos quais a tarefa é executada por trabalhador(es) em vários estabelecimentos ou obras numa mesma competência inviabilizando a individualização da remuneração por tarefa ou por serviço contratado. b) Em face dos esclarecimentos da requerente, verificase que os serviços realizados não são, exclusivamente, os do referido Anexo XIV, mas “Gerais de Engenharia”, conforme a descrição em alguns Pedidos de Compra. Os serviços e obras de construção civil estão discriminados no Anexo XIII, da também IN 03/2005, enquanto os não sujeitos à folha por tomador são os do Anexo XIV. Na situação, não se vê que a ENCOP tenha apenas instalado equipamentos, e numa atividade de curta duração, mas executado reformas e construções novas, em centrais de telefonia, em agências bancárias, e em lojas de shoppings. É uma situação que não impossibilita a individualização da remuneração dos trabalhadores por tarefas ou por serviços contratados, até mesmo porque o período médio de execução das obras varia de vinte a trinta dias, segundo os esclarecimentos da requerente. Se é assim, a ENCOP poderia ter rateado a remuneração dos trabalhadores pelos dias trabalhados em cada obra, o que, ainda que tenha realizado algum dos serviços do Anexo XIV, não satisfez a condição “2”, acima, para a sua dispensa de folha por tomador. c) Se a requerente era obrigada a ter folhas de pagamento por tomador, e não as tem, não há como saber das remunerações e das contribuições previdenciárias devidas, em cada obra, em cada serviço contratado, de modo a possibilitar o encontro de contas, entre os valores devidos e os recolhidos (retenções e/ou recolhimentos realizados pelos contratantes), e ainda possibilitar a homologação de possíveis créditos a seu favor, considerando que as GFIPs, por tomador, não informam a mão de obra alocada. A hipótese é de incerteza e de iliquidez de créditos a favor da requerente, não sendo reconhecidos possíveis excessos de retenção, e ainda sendo julgados improcedentes os pedidos relacionados aos serviços / obras, prestados em empreitada parcial (GFIP 150). d) A autoridade a quo, em sua prerrogativa de condicionar o conhecimento do direito creditório à apresentação de documentos contábeis, segundo a disposição do artigo 76 da IN RFB 1.300/12, não realizou o encontro de contas (valores devidos X valores recolhidos), também em relação à contratação sob o regime de empreitada total (GFIP 155). Isso porque, os lançamentos contábeis da requerente não registram, em contas individualizadas, por tomador de serviços, os fatos geradores de contribuições previdenciárias. Essa exigência está no inciso II do art. 32 da Lei nº 8.212, de 24/07/1991, combinado com o inciso II do § 13 do art. 225 do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 06/05/1999. Dessa feita, sem a comprovação da mãodeobra alocada, a hipótese é de incerteza e iliquidez de créditos a favor da requerente, sendo também julgados improcedentes os pedidos relacionados às obras em empreitada total (GFIP 155). Intimado em 22/07/2016, o contribuinte interpôs em 17/08/2016 recurso voluntário, em síntese, alegando: Fl. 5746DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.747 9 a) Tempestividade. Dada ciência em referência no dia 22 de julho de 2016, o prazo de trinta dias encerrase em 21 de agosto de 2016. b) Prevenção. Informação Fiscal e Decisões Divergentes. Desde 27 de março de 2009, protocolou sucessivos requerimentos de restituição abrangendo o período de 03/2004 a 12/2012, pois a Recorrente teve retidas importâncias muito superiores às que deveriam de fato ter sido descontadas em suas notas fiscais, isto em razão da inflexibilidade e extremo rigor por parte de empresas contratantes, em especial a CLARO S/A. A Receita Federal agrupou os PER/DCOMPs em processos diferentes: Processo / D Decisório Período Requerido Restituído 15504.732950/201326 /1.215 03/04 a 12/05 239.676,77 23.887,00 15504.732951/201371 /1.121 01/06 a 12/07 762.930,07 0,00 15504.732952/201315 /1.224 01/08 a 04/09 2.455.861,04 0,00 15504.732953/201360 /1.244 05/09 a 09/10 678.265,05* 212.175,19 15504.724569/201474 /1.633 09/09; 10/10 a 02/2011 473.955.28 173.109,44 15.504.725841/201433 /1.420 03/2011 a 05/2011 112.670,45 32.164,10 15504.725842/201488 /1.438 07/2011 a 09/2011e 01/2012 64.408,60 37.294,41 15504.724067/201524 /1.421 06/2011; 10/2011 e 11/2011 101.755,12 20.482,37 15504.724068/201579 /1.431 12/2011 52.473,48 25.833,40 15504.724041/201586 /1.439 02/2012 a 08/2012 78.865,93 66.746,04 15.504.724043/201575/1.432 09/2012 a 12/2012 55.142,81 24.271,27 TOTAL 5.076.004,60 615.963,22 * Retificado b1) Encaminhados para autoridades diferentes, não houve uniformidade na apreciação, a denotar que os indeferimentos se basearam em interpretações subjetivas e não na adequada avaliação dos documentos e demonstrações. b2) Na análise e julgamento dos requerimentos, também foram observadas divergências, com decisões conflitantes sobre casos concretos exatamente iguais, o que surpreendeu a Recorrente, haja vista que em idênticas situações, casos idênticos e circunstâncias similares, apenas em épocas diferentes, não deveriam provocar conflitos de interpretação e decisão, em patente falta de uniformidade de procedimento na apreciação de matéria que era essencialmente a mesma. Este fato denota que indeferimentos podem ter sido baseados em interpretações subjetivas e não na adequada avaliação dos documentos e demonstrações apresentados pela Recorrente. Caracteriza bem esta flagrante discrepância de julgamento a decisão exarada no processo objeto deste recurso e a exarada no processo nº 15504.732953/201360. Em outros processos, por exemplo, o de número 15504.732950/201326, as retenções relativas a obras identificadas por matrículas CEI foram corretamente deferidas. Nesse processo, o DD entendeu a auditoria fiscal que também restituições requeridas no CNPJ deveriam ser restituídas. c) Mão de obra efetivamente empregada. A Recorrente reitera todas as alegações, explicações, justificativas, documentos e fundamentações apresentados, constantes dos autos. A mão de obra que consta das folhas de pagamento de empregados, declarada em GFIP, é a que efetivamente foi empregada, pois as obras em questão se diferenciam das de construção civil, não sendo exatas conclusões obtidas por aferição indireta de obra de construção civil. As notas não expressam a mão de obra real, pois no início das obras era emitida nota como adiantamento para aquisição de material e equipamentos, o que ainda não tinha ocorrido e na impossibilidade da Fl. 5747DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.748 10 comprovação sofreu a retenção sobre o valor total. Em outras notas fiscais, a divisão material / mãodeobra era estabelecida em 50% para cada item, conforme estabelece o ato normativo. Esta divisão, entretanto, também não expressava a realidade, o que impossibilitou a compensação integral nos recolhimentos mensais, gerando as retenções ora requeridas. Em várias ocasiões, a contratante ignorou a parcela indicativa dos materiais e efetuou a retenção sobre o valor total do documento. Demonstrouse que são divergentes as parcelas de materiais indicados das notas e a especificação dos itens constantes dos Pedidos de Compra que são os documentos contratuais que regem a relação entre as partes. Na execução dos sites de telefonia a Receita Federal, em julgamentos anteriores, considerou apropriada a informação prestada pela ENCOP quanto à mão de obra utilizada nos sites Greenfield e Rooftop, deferindo grande número de requerimentos. Em média, a execução de um site tem a duração de 20 a 30 dias, dependendo também das várias ocorrências citadas anteriormente. É o que reconheceu o julgador ao deferir diversas restituições no Despacho Decisório nº 1.633, processo 15504.724569/201474. “3. Dentre os documentos apresentados, a empresa entregou uma explanação sobre vários itens relacionados ao seu serviço. Uma parte dos pedidos de restituição relativo às matrículas CEI foi deferida levandose em consideração a mão de obra utilizada para o site novo tipo Greenfield e site novo tipo Rooftop, da forma como a própria empresa definiu, como consta às fls 3.439, como também pelo fato de ter subempreitado serviços em algumas destas obras. Outra parte foi indeferida por não possuir a mão de obra necessária o serviço ou por se referir a outros tipos de serviços cujo número de empregados é incompatível com o serviço executado”. e) Folha, GFIP e Contabilidade refletem mão de obra. Explicita justificativas em relação a obras e serviços em SITES DE TELEFONIA tipo Greenfield e tipo Rooftop, juntando pedidos de compras para comprovar os excessos de retenção. Além disso, parte ponderável das restituições pleiteadas se relacionaria à execução de CENTRAIS DE TELEFONIA, representando 33,3% do total. São valores expressivos, tendo em vista que as retenções também ocorreram sobre base de cálculo na qual estavam incluídos materiais e equipamentos, considerando que as contratantes destas centrais eram as mesmas que contrataram os sites. Na execução destas obras são observadas especificações padronizadas pela empresa contratante, com pequenas diferenças de preço, decorrentes de condições locais ou variações que o custo dos itens pode apresentar entre praças diferentes. Para exemplificar, são transcritas no recurso planilhas de três obras. f) Forma de contratação. O documento majoritariamente empregado para contratação de obras e serviços é o PEDIDO DE COMPRA. É o instrumento contratual que estabelece as regras e obrigações da prestação de serviços, traz discriminados os itens que compõem os projetos, ficando, portanto, atendida a exigência estabelecida, de acordo com o período de vigência do ato, na Instrução Normativa nº 3/2005 ou na Instrução Normativa nº IN 971/2009, para que a base de cálculo para a retenção pudesse ser definida em 50% do valor do documento. Este documento contratual está perfeitamente ajustado ao que estabelece o § 7º do artigo 219, do Regulamento da Previdência Social. É oportuno dizer que este tipo de Fl. 5748DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.749 11 contrato foge um pouco do formalismo convencional em favor de um maior dinamismo na relação entre as partes, sendo, entretanto, do ponto de vista legal, um contrato de prestação de serviço para todos os fins de direito. O Pedido de Compra composto de páginas e cláusulas é regido pela Lei 8.078/1990. g) Elaboração de Folha de Pagamento e GFIP. Para as obras não identificadas por matrícula CEI, por serem desobrigadas deste cadastramento, os pagamentos dos salários foram consolidados na folha de pagamento do escritório e declarados na GFIP 150. Este procedimento deveuse à dificuldade de se alocar em folha de pagamento específica trabalhadores que participaram, em períodos inferiores a um mês de várias obras ou serviços. Muitos sites foram realizados simultaneamente, alguns na mesma cidade, alternando a participação dos trabalhadores de acordo com as necessidades. O rateio proposto pelo julgador poderia ter sido adotado, mas em nada alteraria a verdade dos fatos, considerando que as folhas de pagamento foram escrituradas em títulos próprios pelo valor total das remunerações. A divisão das folhas de pagamento em mais de um tomador apenas redundaria em decomposição do valor da folha contabilizada em outras, sem alteração de um centavo na base de cálculo que foi utilizada para cálculo das contribuições previdenciárias. Seria irrelevante sob o ponto de vista da demonstração do real movimento das remunerações pagas ou creditadas aos segurados empregados. Parte ponderável do faturamento no período decorreu da prestação de serviços, com duração inferior a uma semana, às vezes determinados serviços eram executados em apenas um dia. Por exemplo, recuperar diversos sites vandalizados situados distantes uns dos outros geograficamente. Além da construção de sites de telefonia, outros serviços de breve execução foram prestados pela ENCOP, entre outros, pintura, reformas, reforço de estruturas, infraestrutura elétrica, lógica e de telefonia, construção de acesso, de muros. Diante dos serviços realizados, podese concluir que que para muitos serviços, além da inexigibilidade de matrícula, também não é possível a elaboração de folhas específicas e GFIP. h) Escrituração contábil. Nas manifestações de Inconformidade apresentadas a Recorrente sustentou que por ser optante pelo regime de tributação do lucro presumido está desobrigada da apresentação de escrituração contábil. Apenas por conveniência elaborou Diário e Razão. Não há irregularidade e se há ensejaria apenas o descumprimento de obrigação acessória. Se fiscalizada, não haveria o que se lançar de obrigação principal. i) Retenção em valores superiores aos destacados. Um ponto fundamental comprovado pela Recorrente foi a retenção e recolhimento de contribuições superiores às destacadas nas notas fiscais. De acordo com o voto que integra o Despacho Decisório, o pedido de restituição é analisado levando em consideração as retenções que são destacadas nas notas fiscais, com o que, data venia, a Recorrente não concorda. O fato concreto é que contratantes retiveram contribuições superiores às retenções destacadas em nota fiscal. A possibilidade de retenção a maior em desfavor da empresa contratada e a sua recuperação estão previstas nos atos normativos – artigo 210 da IN Fl. 5749DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.750 12 MPS/SRP Nº 3/2005 e artigo 18 da IN RFB Nº 900/2008. Todas as retenções a maior foram recolhidas pelas empresas contratantes. Cita exemplos. j) Subempreiteiros. Na execução de obras e serviços a ENCOP utilizou com frequência serviços de subempreiteiros. Todos os documentos comprobatórios da utilização desses serviços foram juntados à Manifestação de Inconformidade anterior. As contribuições retidas dos subempreiteiros foram recolhidas nos respectivos CNPJ. No entanto, por várias razões entre as quais se destaca o descompasso que costuma ocorrer entre o cronograma de execução das obras e o financeiro, a prerrogativa autorizada pela instrução normativa não foi exercida. Antes de ser iniciada a obra, a ENCOP recebe a primeira parcela e no mês de adiantamento não há despesa com pessoal próprio ou cedido. E a última parcela é sempre paga após a conclusão da obra, em alguns casos, vários meses depois de encerrada e no mês do recebimento também não há despesa com pessoal próprio ou terceirizado. O mês de faturamento pela ENCOP nem sempre era o mesmo em que os serviços foram faturados por subempreiteiro, o que inviabilizaria a operação autorizada pelo artigo 127. Também pesou o fato de serem as contratantes muito intransigentes com relação às retenções impostas à contratada, impedindo qualquer operação que representasse dedução do valor destacado. O artigo 127 da IN 971 facultava à contratante deduzir da retenção destacada na nota fiscal as retenções retidas de subempreiteiros no mês de emissão da nota fiscal. Por esta razão, a ENCOP optou por suportar um encargo superior ao devido. como cumpriu os deveres atinentes à sua condição de contratante, retendo e recolhendo as contribuições dos subempreiteiros, os serviços por estes prestados inquestionavelmente devem ser considerados como mãodeobra empregada nas obras executadas pela ENCOP. Ademais, a utilização da mão de obra subempreitada foi acatada em julgamento anterior, conforme Despacho Decisório nº 1.633, Processo 15504.724569/201474, fl. 4028. k) REQUER sejam analisadas e acolhidas as razões de fato e de direito ora para que seja reformada a decisão proferida no Acórdão 1269.424, determinando, desta forma, a restituição das contribuições recolhidas em excesso. Sem prejuízo do pedido principal, REQUER a restituição dos créditos que tiveram origem em retenções superiores aos destaques consignados nas notas fiscais, conforme discriminados nesta peça recursal. Ainda, alternativamente, REQUER a restituição das retenções que comprovadamente incidiram sobre itens que a legislação em vigor exclui expressamente da base de cálculo, mas que foram retidas e recolhidas por empresas contratantes. É o relatório. Voto Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Fl. 5750DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.751 13 Tempestividade. Intimado em 22/07/2016, o recurso interposto em 17/08/2016 é tempestivo (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 33). Presentes as condições de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. Prevenção. Informação Fiscal e Decisões Divergentes. Os recursos voluntários apresentados no âmbito dos processos n° 15504.724569/201474, n° 15504.732950/201326, n° 15504.732951/201371, n° 15504.732952/201315 e n° 15504.732953/201360 me foram distribuídos e integraram a presente pauta de julgamento. Quando da elaboração do presente voto, consultei o andamento processual dos outros seis processos citados nas razões recursais e constatei não haver pendência de recurso voluntário e nem decisão de primeira instância administrativa prolatada. A apreciação dos fatos ou do direito veiculada em Informação Fiscal não vincula o julgador, tratandose de mera manifestação da fiscalização em sede de diligência. Em relação à pretensa ausência de uniformidade nas decisões proferidas no conjunto dos onze processos do contribuinte, devemos asseverar que cada processo deve ser julgado e apreciado segundo as provas nele constantes, sendo livre a apreciação motivada das mesmas (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 29), cabendo ao contribuinte enquanto autor do pedido de restituição o ônus de provar a existência do crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional (Lei n° 9.784, de 1999, arts. 36 e 69; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, I; e Lei nº 13.105, de 2015, arts. 15 e 373, I). Mão de obra efetivamente empregada. Folha, GFIP e Contabilidade. Forma de contratação. Elaboração de Folha e GFIP. Escrituração Contábil. Retenção superior ao destacado. Subempreiteiros. Para a recorrente, está correta a mãodeobra informada nas folhas de pagamento do escritório e das obras e declaradas em GFIP, a ser somada à que consta de notas fiscais de subempreiteiras. Logo, diante dos recolhimentos havidos, seria cabível, no seu entender, a restituição requerida. Para a decisão recorrida, a recorrente deixou de elaborar folhas de pagamento específica, incluindo na folha da administração remunerações que deveriam constar de folha específica. Além disso, corretamente destaca que a inobservância do art. 127 da IN inviabiliza o aproveitamento de retenções relativas a subempreiteiros. Acrescenta ainda que e a aferição indireta da mão de obra constante das notas fiscais revelaria omissão de rendimentos. No entender da recorrente, não haveria a obrigação de elaborar folha específica, estando para tando amparada em consulta administrativa. Além disso, obras/serviços sem CEI (GFIP 150) teriam sido consolidadas na folha do escritório pela dificuldade de se alocar em folha específica, sendo os sites realizados simultaneamente e alternando trabalhadores e rateio não alteraria realidade, bastando decomposição. Acrescenta, ainda que, em especial, para as centrais de telefonia as retenções teriam incidido sobre base integrada por materiais e equipamentos; e que, além de sites e centrais de telefonia, executou outros serviços breves. Por outro lado, segundo a recorrente, a aferição indireta a partir das notas não revelaria a mão de obra empregada por haver divergência entre o cronograma das notas e o das obras/serviços, por haver divergência entre parcela de materiais da nota e o dos respectivos pedidos e em razão da natureza de suas atividades. Fl. 5751DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.752 14 Esclarece ainda que, a divergência de cronograma se daria desde o início das obras/servios, pois faturaria apenas serviço, mas naquele valor já estariam, em face dos pedidos, envolvidos materiais e equipamentos, ainda que não explicitados nas notas em razão de ainda não os ter adquirido. Além disso, não se teria efetuado corretamente o destaque com divisão meio a meio de material e serviço e ainda que se tivesse, a regra normativa seria dissociada da realidade das obras/serviços da recorrente com emprego intensivo de material e equipamentos. Assim, descreve as atividades pertinentes aos sites Greenfield e Hooftop, em que empregaria muito material e equipamento e pouca mão de obra em processos anteriores essa descrição teria sido considerada apropriada e no processo 15504.724569/201474 inclusive restituição teria sido deferida. A recorrente destaca ainda ainda haver casos de o contratante simplesmente ignorar o destaque e reter a maior. De plano, devemos ponderar que a solução de consulta invocada versa sobre a legislação em tese. Assim, incumbe à contribuinte, na situação concreta, demonstar o não cabimento da elaboração de folhas específicas e a confiabilidade da folha da administração (escritório). A empresa reconheceu que exerceu atividades de construção de sites de Telecom (Greenfield e Rooftop), cuja execução média pode chegar a 30 dias, e centrais de telefonia, a empreender atividades enquadradas na classe 42 OBRAS DE INFRAESTRUTURA, subclasse 42219/04 CONSTRUÇÃO DE ESTAÇÕES E REDES DE TELECOMUNICAÇÕES. Acrescenta ainda que diversos serviços e obras não identificadas por matrícula CEI foram executados simultaneamente e em um ou poucos dias (pintura, reformas, reforço de estrutura, infra estrutura elétirca, lógica e de telefonia, contrução de acessos, de muros), a justificar a não elaboração de folha de pagamento específica. Não vislumbro que a obra representada por essa subclasse esteja abrigada no Anexo XVII da IN INSS/DC n° 100, de 2003, ou no Anexo XIV da IN SRP n° 03, de 2005, ou no Anexo VIII da IN RFB n° 971, de 2009, tendo inclusive passado a constar como OBRA no Anexo VII da IN RFB n° 971, de 2009, a demandar matrícula CEI. Logo, correta a percepção do Acórdão de piso de que as atividades em questão não dispensam folha de pagamento específica (IN INSS/DC n° 100, de 2003, art. 171; IN SRP n° 03, de 2005, art. 162; e IN RFB n° 971, de 2009, art. 135). Acerca da alegada execução simultânea e/ou em poucos dias de diversos serviços não identificados por matrícula CEI (pintura, reformas, reforço de estrutura, infra estrutura elétirca, lógica e de telefonia, contrução de acessos, de muros), a justificar a não elaboração de folha de pagamento específica, devemos considerar que os pedidos de constantes dos autos são apócrifos (sem assinaturas), fls. 1721/3557. De todo modo, ainda que estivessem devidamente firmados, os pedidos de compra fazem referência expressa a um contrato (Pedidos de Compras asseveram a prevalência do contrato no caso de conflito com o pedido de compras) não podendo ser tidos por conclusivos quanto a simultaneidade e curta duração do serviço. Os pedidos de compras podem eventualmente ser o único instrumento contratual efetivamente produzido pelas partes, contudo para fazer prova hábil devem ser devidamente formalizados (de plano, devem estar preenchidos todos os campos de data, assinatura e carimbo, bem como todas suas folhas rubricadas). Se devidamente formalizados, têm ainda seu valor probatório comprometido por em sua elaboração terem sido empregados códigos e serem extremamente sintéticos em suas disposições. Fl. 5752DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.753 15 A validade entre as partes de declaração negocial pode não demandar forma especial, mas, para valer perante terceiros, deve haver prova do contrato (Código Civil, arts. 107 e 221). O reconhecimento do direito creditório está condicionado à apresentação de documentos comprobatórios (IN RFB n° 900, de 2008, art. 65; IN RFB n° 1.300, de 2012, art. 76; e IN RFB n° 1717, de 2017, art. 161). A recorrente sustenta que as obras executadas não se confundem com edificação civil e, por conseguinte, não poderiam ser aferidas a partir de notas fiscais. Equivocase. A legislação admite a aferição indireta da remuneração da mão de obra com base na Nota Fiscal, na Fatura ou no Recibo de Prestação de Serviços. A restituição pressupõe a existência de pagamento indevido e, na falta de documentação hábil e completa (pedidos de compras e ordens de serviços não assinados, ausência de folha específica, notas fiscais postas em dúvida pela própria emitente e contabilidade irregular), apresentase como indício norteador ao convencimento do julgador a apuração de haver ou não em face da legislação de regência pagamento indevido, ou seja, se, segundo critério de aferição indireta, haveria valor indevidamente recolhido ou não. Logo, não prospera a alegação de bastar a simples decomposição da mão de obra alocada no escritório, eis que a aplicação da aferição indireta indica a ocorrência de omissão de mão de obra. Além disso, ainda que eventualmente para parte dos serviços se possa sustentar o cabimento de inclusão na folha da administração, a inclusão na folha do escritório de mão de obra que deveria constar de folha específica retira a confiabilidade da folha do escritório. Para piorar, segundo a recorrente, o cronograma das notas não coincidiria com o período de execução das obras e serviços e a não coincidência é invocada como fundamento quando a recorrente reconhece que não foram observados os requisitos do art. 127 da IN RFB n° 971, de 2009, e, assim, postular o aproveitamento da mão de obra de subempreiteiros. Não detecto, entretanto, prova do efetivo período de execução das obras e serviços. Contratos e pedidos de compra não têm tal condão, ainda mais quando as notas fiscais destoam dos mesmos e os pedidos de compras são apócrifos. A nota fiscal deve ser emitida quando da prestação de serviços, ainda que seu pagamento seja postergado. Não detecto prova nos autos a comprovar que as notas foram extemporâneamente emitidas. Nada impede que a prática executiva venha a divergir do previsto ao tempo da celebração do ajuste de vontades, ainda mais quando parte da documentação não foi devidamente formalizada ou nem foi apresentada. A não coincidência inviabiliza a vinculação inequívoca da mão de obra dos subempreiteiros nas competências em debate. A recorrente alega ainda emissão de notas sem correspondência para com o os pedidos de compra (notas emitidas antes da aquisição de material e a omitílos por sua inclusão como se tratasse de serviços; inclusão na base de cálculo de parcelas não representativas de mão de obra) e sem a divisão igualitária entre materiais (50%) e mão de obra (50%) admitida por ato normativo ou mesmo a inobservância pelo contratante do valor de retenção destacado na nota. Não foram apresentadas provas capazes de comprovar inequivocamente as situações em tela. Nem mesmo o contrato havido restou efetivamente evidenciado, em face da já relatada insuficiência probatória dos pedidos de compras. De todo Fl. 5753DF CARF MF Processo nº 15504.732952/201315 Acórdão n.º 2401005.869 S2C4T1 Fl. 5.754 16 modo, a circunstância de eventualmente ter havido retenção em valor superior ao admitido pela instrução normativa não gera, por si só, direito creditório. Para comprovar a natureza dos serviços realizados e o recolhimento a maior do que o destacado nas notas, estando este adequado ao contratado, apresentou a recorrente pedidos de compras (fls. 1721/3557). Contudo, os documentos em questão são apócrifos, todos os campos a serem assinados e datados estão em branco. Logo, caem por terra todas as alegações alicerçadas em tais documentos, eis que destituídos de valor probatório. Além disso, o simples fato de se efetuar recolhimento em montante superior ao destacado na nota não é prova de ser cabível restituição. Pelo contrário, revela discordância entre contratante e contratado sobre o que deva ser retido e recolhido. Também despidas de valor probatório as Planilhas de Custos de fls. 5350/5379, eis que não se comprovou a autoria e as razões e circunstâncias de sua produção e não há prova de sua integração aos contratos ou aos pedidos de compra, ambos não carreados aos autos. Pelas mesmas razões, despidas de valor probatório as planilhas transcritas nas razões recursais (fls. 5696/5706). Assim, não prosperam as alegações nelas lastreadas. Acrescentese que não houve a apresentação de contabilidade regular, com a devida escrituração em títulos próprios. A pessoa jurídica optante pela tributação com base no lucro presumido pode manter apenas livrocaixa e nele escriturar somente os recebimentos e pagamentos ocorridos em cada mês. Contudo, ao manter livos diário e razão, como ocorreu no caso concreto, a escrituração deve observar a legislação de regência, conforme asseverado no inciso I do art. 18 da Lei n° 8.541, de 1992. Não houve imposição de penalidade por descumprimento de obrigação acessória, eis que se analisava requerimento de restituição. A inobservância das obrigações acessórias pertinentes (folha específica) ou a apresentação de livro contábil sem as formalidades inerentes ao mesmo (registro em contas individualizadas) comprometem a comprovação dos fatos alegados pela recorrente, devendo a mesma arcar com o ônus probatório que lhe é incumbido pela legislação em pedido de restituição. Portanto, diante da inconsistência do conjunto probatório produzido pela recorrente, resta prejudicada a totalidade das alegações recursais. Não se forma convencimento acerca do cabimento da restituição postulada e, não tendo a empresa se desincumbido de seu ônus probatório, não há como se reformar o Acórdão atacado. Isso posto, voto por conhecer e negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator Fl. 5754DF CARF MF
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Numero do processo: 13603.907083/2009-69
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 16/10/2005 a 31/10/2005
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. Para fazer jus à compensação pleiteada, o contribuinte deve comprovar a existência do crédito reclamado à Secretaria da Receita Federal do Brasil, sob pena de restar seu pedido indeferido.
Recurso Especial Negado.
Numero da decisão: 9303-007.479
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator) e Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que votaram em devolver os autos à câmara recorrida para nova análise do exame de admissibilidade. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento parcial, para que se apure a liquidez do crédito no valor pleiteado com retorno dos autos à Unidade de Origem. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Semíramis de Oliveira Duro (suplente convocada). Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Redatora Designada
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Semíramis de Oliveira Duro (suplente convocada).
Nome do relator: DEMES BRITO
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LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. Para fazer jus à compensação pleiteada, o contribuinte deve comprovar a existência do crédito reclamado à Secretaria da Receita Federal do Brasil, sob pena de restar seu pedido indeferido. Recurso Especial Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator) e Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que votaram em devolver os autos à câmara recorrida para nova análise do exame de admissibilidade. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Demes Brito (relator), Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento parcial, para que se apure a liquidez do crédito no valor pleiteado com retorno dos autos à Unidade de Origem. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Semíramis de Oliveira Duro (suplente convocada). Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 90 70 83 /2 00 9- 69 Fl. 203DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 204 2 Demes Brito Relator (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Redatora Designada Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Semíramis de Oliveira Duro (suplente convocada). Relatório Tratase de recurso especial de divergência, tempestivo, interposto pela Contribuinte ao amparo do art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, contra acórdão nº 3401002.345, proferido pela 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, que decidiu em negar provimento ao recurso voluntário, que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 16/10/2005 a 31/10/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ELEMENTOS DE PROVA. A prova por excelência do direito de crédito do contribuinte, por força de lei, é a sua contabilidade comercial e fiscal, bem assim, os documentos que a respaldam, não se prestando a tal desiderato exclusivamente as declarações entregues à RFB. Recurso voluntário negado. Não conformada com tal decisão, a Contribuinte interpõe o presente Recurso Especial, aduz divergência jurisprudencial quanto ao suposto erro de preenchimento de suas declarações fiscais, o que ensejou sua retificação, não restando impedimento para apresentação de DCTF retificadora, apresentada posteriormente à intimação do despacho eletrônico, conforme depreendese na peça recursal, às fls. 104/128. Para comprovar o dissenso, aponta como paradigma o Acórdão nº 3102 001.237. Em seguida, o Presidente da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF, deu seguimento ao Recurso, especialmente quanto "à efetividade das declarações fiscais retificadoras (ex.: DCTF) prestadas pela contribuinte para comprovar a existência do crédito, e necessidade da autoridade administrativa diligenciar caso tenha dúvidas a respeito das retificações feitas." Nos termos do despacho de admissibilidade, às fls. 145/148. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, às fls. 158/163. Fl. 204DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 205 3 No essencial é o Relatório. Voto Vencido Conselheiro Demes Brito, Relator Preliminar Não conformidade erro no despacho de Admissibilidade "Nulidade do Julgado" Cerceamento do Direito de Defesa O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamado de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos, não tendo espaço para questões fáticas, que já ficaram devidamente julgadas no Recurso Voluntário. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame do caso em espécie. Com efeito, Presidente da 4ª Câmara da 3º Seção do CARF, deu seguimento ao Recurso, especialmente quanto "à efetividade das declarações fiscais retificadoras (ex.: DCTF) prestadas pela contribuinte para comprovar a existência do crédito, e necessidade da autoridade administrativa diligenciar caso tenha dúvidas a respeito das retificações feitas." Nos termos do despacho de admissibilidade, às fls. 145/148. Compulsando detidamente o exame de admissibilidade, detecto um vício formal, o examinador indica um acórdão estranho a discussão. Vejamos: Acórdão nº 3801002.025 (fls. 147) "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004 ZONA FRANCA DE MANAUS. ISENÇÃO. Fl. 205DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 206 4 A destinação de mercadorias para a Zona Franca de Manaus equivale à exportação de produto brasileiro para o estrangeiro segundo disposto no Decretolei 288/67. Tendo o artigo 40 do ADCT mantido as características de área de livre comércio, de exportação e importação, e de incentivos fiscais, por vinte e cinco anos, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 e, ainda, considerando que a receita de exportações de produtos nacionais para o estrangeiro é desonerada do PIS e da COFINS, nos termos do artigo 149, § 2°, I da Constituição Federal, enquanto não Iterado ou revogado o artigo 4° do DL n° 288/67, sobre elas não incide o PIS e a COFINS. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado." (destacamos) (1ª Turma Especial da 3a Seção de Julgamento do CARF, Cons. Relator Sidney Eduardo Stahl, Acórdão n° 3801002.025, de 20/08/2012). Acórdão recorrido tem fundamento que o benefício fiscal das vendas para a ZFN Franca de Manaus (ZFM) não abrange as contribuições sociais criadas após o início da vigência do DL 288, de 1967. Vejamos: "(..,) Refirome à arguição de isenção nas vendas à Zona Franca de Manaus e de que as vendas de sucatas, de fato seriam indenizações recebidas de seguradoras. Quanto ao primeiro ponto, peço vénia para transcrever, mais uma voto da i. Conselheira Sílvia de Brito Oliveira, de cujas conclusões partilho inteiramente: (...) Quanto ao mérito da inclusão das receitas em questão na base de cálculo do PIS, não vislumbro abrigo na ordem jurídica para agasalhar a pretensão contrária da recorrente, pois o dispositivo legal invocado no recurso, editado em fevereiro de 1967, traz em si expressão cuja literalidade fornece os exatos contornos temporais para o alcance dos efeitos fiscais a que se refere, estando assim redigido o art. 4° do Decretolei n° 288, de 1967: (...) Observase, portanto, que o próprio dispositivo legal tratou de restringir seus efeitos fiscais à legislação vigente à data de sua publicação, evitando se, dessa forma, a produção de efeitos em relação a tributos que forem instituídos posteriormente, como é o caso do PIS, que somente foi introduzido no ordenamento jurídico pela Lei Complementar n° 7, de 07 de setembro de 1970. (...)'. Devese, pois, negar provimento ao recurso quanto à matéria. (...)" (destacamos) Mas, como traz o acórdão paradigma, outro colegiado do CARF já proferiu decisão com entendimento contrário do acórdão recorrido, no sentido de que, "por força do art. 40 do ADCT c/c art. 149, § 2o, I da Constituição Federal, o comando do art. 4° do DecretoLei n° 288/67 é aplicável a toda e qualquer venda à ZFM, equiparando à exportação e, portanto, sujeita à legislação aplicável às exportações no momento da operação, pelo que as receitas auferidas com vendas à ZFM no período autuado são isentas do PIS". Fl. 206DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 207 5 Ao consultar os documentos que instruem o contraditório, vejo que a matéria aqui posta como divergente já foi motivo de discussão, análise e decisão; portanto, consideroa como pré questionada". Em que pese o Presidente da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF, optar em dar seguimento ao Recurso, entendo que o referido despacho está eivado de vício formal, levando prejuízo a contribuinte, bem como o cerceamento do direito de defesa. À luz do formalismo literal, de acordo com as regras impostas pela Coordenação Geral de Julgamento, devolvo o processo para secretária da 3ª Seção de Julgamento, para que se proceda um novo exame de admissibilidade contendo o paradigma correto, bem como, o exame e revisão do texto redigido, sob pena de nulidade do julgado. Por fim, restou consignado em sessão pública, que este Relator caso não apresenta diversas soluções para o litígio, está sujeito a perda de mandato, em que pese receber de modo reiterado processos contendo não conformidades, erros de despacho de admissibilidade, distribuição indevida processos, etc. Passo ao julgamento do mérito, isentandome de eventuais sanções que possam ser aventadas pela Coordenação Geral de Julgamento em prejuízo a este Relator. Mérito. Conforme determinado, caso o Conselheiro não apresenta diversas soluções para o litígio, está sujeito a perda de mandato, em que pese muitas das vezes receber processos contendo não conformidades, erros de despacho de admissibilidade, competência estranha a esta 3º Seção de Julgado. Passo ao julgamento do mérito, isentandome das eventuais sanções que possam recair sobre este Relator. Tratase, na espécie, de despacho decisório eletrônico de não homologação de compensação, relativo ao PER/DCOMP 22520.94674.140807.1.3.049603, cujo fundamento é a integral vinculação do crédito indicado em outro(s) débito(s) de titularidade do contribuinte. Por sua vez, a Contribuinte sustenta a efetiva existência do crédito utilizado e atribuiu a não homologação da compensação a um equívoco no processamento da DCTF, ao passo que a retificara em 23/09/2010, portanto, antes da prolação do despacho decisório (07/10/2009), além do que, tal retificação estaria amparada pelo art. 11 da IN RFB 903/08. Analisando a quaestio, em que pese a Contribuinte ter apresenta a retificação da DCTF, antes do despacho decisório, não justifica a ineficiência da decisão recorrida em presumir que não há direito creditório, até porque tratase de um despacho eletrônico, sob condição de um exame apurado da Autoridade Lançadora. Com efeito, a DCTF é a forma com que a Contribuinte dá conhecimento ao Fisco da ocorrência do fato jurídicotributário e informa o pagamento do valor correspondente ao tributo. Como se depreende da sua própria denominação, é uma declaração contendo débitos e créditos tributários federais. Nos termos do § 1º do art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, “o documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a Fl. 207DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 208 6 exigência do referido crédito”. Tratase de confissão extrajudicial da existência daqueles débitos, conforme arts. 389 e 3911, do atualmente vigente Código de Processo Civil (CPC), lei nº13.105, de 16 de março de 2015, e por isso tratase de um título executivo. Por se tratar de uma confissão de dívida da Contribuinte, inclusive podendo ser contra ela efetuada a cobrança na falta de pagamento, ela necessariamente terá de alterar essa confissão se entender que pagou um valor indevido, para então poder requerer um pedido de restituição ou apresentar uma DCOMP. Como visto, quanto a tônica da decisão recorrida no sentido de que, permanecem carentes de comprovação tanto o direito creditório quanto a liquidez do crédito utilizado em compensação pela postulante, não lhe assiste razão alguma, não se pode olvidar em declarar um lançamento sem ao menos cumprir os requisitos mínimos do exercício da ampla defesa e contraditório, sob a justificativa de que não existe crédito, ora, compulsando aos autos não localizo nenhum juízo técnico do Colegiado recorrido capaz de comprovar a existência ou não do direito creditório guerreado. Neste contexto, ao controlar as operações de quantificação dos créditos e débitos, o Fisco está atrelado ao princípio da verdade material que rege o lançamento. Tem, pois, o dever de investigar a veracidade dos elementos constitutivos da obrigação tributária, sejam elas a favor ou contra os interesses da Fazenda Pública. Neste aspecto, leciona José Souto Maior Borges: "A atuação do Fisco no procedimento administrativo tributário é imparcial. Porque nele o Fisco persegue, como se disse, a descoberta da verdade material; é, então, indiferente ao objeto do processo sejam os fatos apurados 'favoráveis', e. g., à constatação do débito tributário ou 'desfavoráveis' ao Fisco, tal como sucede com a verificação administrativa da inexistência de débito ou de ocorrência dos pressupostos legais para o desfrute de uma isenção tributária. Já se caracterizou essa posição processual do Fisco e não sem razão como a de uma parte imparcial. Parte, porque intervém no processo, na qualidade de sujeito ativo da relação tributária. Imparcial, porque sua atuação está desvinculada dos interesses que se controvertem no processo, sem consideração a interesses parciais de qualquer ordem' (LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO; p. 122; Malheiros, 2ª edição). Frente a evidente constatação, a Contribuinte retificou a DACON e sua DCTF para declarar efetivamente o valor devido e, assim, liberar o crédito, não resta dúvida quanto ao seu direito creditório. Quando da apresentação das declarações retificadoras, a Contribuinte estava sob a égide da IN RFB nº 1.110/2010, que estabelecia os procedimentos quanto apresentação da DCTF nos casos de retificação, em especial regida pelo artigo 9º: 1 Art. 389. Há confissão, judicial ou extrajudicial, quando a parte admite a verdade de fato contrário ao seu interesse e favorável ao do adversário. Art. 391. A confissão judicial faz prova contra o confitente, não prejudicando, todavia, os litisconsortes. Parágrafo único. Nas ações que versarem sobre bens imóveis ou direitos sobre imóveis alheios, a confissão de um cônjuge não valerá sem a do outro. Fl. 208DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 209 7 Art. 9º A alteração das informações prestadas em DCTF, nas hipóteses em que admitida, será efetuada mediante apresentação de DCTF retificadora, elaborada com observância das mesmas normas estabelecidas para a declaração retificada. § 1º A DCTF retificadora terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar qualquer alteração nos créditos vinculados. Registrese ainda que o art. 18 da medida provisória nº 2.18949, também estabelece que a retificação terá a mesma natureza da declaração original, in verbis: Art.18.A retificação de declaração de impostos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, nas hipóteses em que admitida, terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, independentemente de autorização pela autoridade administrativa. Como se observa, não existe qualquer impedimento para que se altere débitos e créditos, contudo, a mesma instrução em testilha, logo em seguida, estabelece as hipóteses em que a retificação, não produzirá efeitos, nos termos do § 2º do art. 11: Art.18. A retificação de declaração de impostos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, nas hipóteses em que admitida, terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, independentemente de autorização pela autoridade administrativa. §2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto alterar os débitos relativos a impostos e contribuições: I cujos saldos a pagar já tenham sido enviados à PGFN para inscrição em DAU, nos casos em que importe alteração desses saldos; II cujos valores apurados em procedimentos de auditoria interna, relativos às informações indevidas ou não comprovadas prestadas na DCTF, sobre pagamento, parcelamento, compensação ou suspensão de exigibilidade, já tenham sido enviados à PGFN para inscrição em DAU; ou III em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada sobre o início de procedimento fiscal. Portanto, não existe impedimento para a retificação produzir seus efeitos, pois não há débitos enviados à PGFN e inscritos em dívida ativa, com também não houve procedimento de auditoria ou início de procedimento fiscal e sim indeferimento do despacho decisório sob o fundamento de que não existe direito creditório, deste modo, DCTF retificadora passa a substituir integralmente a DCTF original, produzindo seus devidos efeitos. Por oportuno, esclareço que o processo administrativo fiscal está adstrito as regras positivadas do sistema, neste sentido, invoco o magistério do Professor Luiz Orlando Fl. 209DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 210 8 Junior Zanon (pg.104,105106) o qual em sua tese de Doutorado, Teoria Complexa do Direito2, esclarece a correta inserção das normas no plano sistêmico. In verbis: "O Positivismo Jurídico pressupõe que o Direito é formado exclusivamente (ou ao menos preponderantemente) por Regras Jurídicas, como sinônimo de Normas Jurídicas positivadas, devidamente fixadas pelos parlamentares (no sistema codificado) ou estabelecidas em precedentes judiciais anteriores (no modelo judiciário ou consuetudinário)3 No primeiro cenário (civil law, statutory law ou code based legal system), a Regra Jurídica é o resultado da interpretação de um texto elaborado pelo legislador, no sentido de reconstruir sua intenção ao prolatar o dispositivo normativo, como se fosse um procedimento de adivinhação de qual teria sido a solução dada pelo órgão legiferante, acaso diante do caso concreto. E, no segundo (common law ou judge made law), a Regra Jurídica pode ser extraída não só da legislação, mas também do texto de um precedente anterior, num esforço de verificar qual seria a solução que teria sido dada pelo Poder Legislativo para reger o novo caso, nos pontos relevantes em que é precisamente similar ao julgamento anterior. Em ambas hipóteses, a interpretação e a aplicação do Direito são consideradas, pela generalidade dos juspositivistas [...] (com a notável ressalva de Kelsen), como meramente reprodutoras de sentidos já previamente fixados por Regras Jurídicas anteriores, que já guardam a resposta para solução do novo problema emergido no tecido social”. (pg.104,105106). [...] Dispositivo Ex positis, dou parcial provimento ao Recurso da Contribuinte, com retorno dos autos a unidade de jurisdição para que se apure a liquidez do crédito no valor pleiteado. 2 ZANON JUNIOR, Orlando Luiz. Teoria Complexa do Direito. Florianópolis: Cejur, 2013. 3 DIMOULIS, Dimitri. Positivismo jurídico: Introdução a uma teoria do direito e defesa do pragmatismo jurídicopolítico. São Paulo: Método, 2006. p. 68: “Isso indica que ser positivista no âmbito jurídico significa escolher como exclusivo objeto de estudo o direito que é posto por uma autoridade e, em virtude disso, possui validade (direito positivo)”; e, p. 131: “Partindo dessa delimitação negativa, o PJ stricto sensu afirma a absoluta identidade entre o conceito de direito e o direito efetivamente posto pelas autoridades competentes, isto é, pelas autoridades que, em razão de uma constelação de poder, possuem a capacidade de impor o direito”. E FERRAJOLI, Luigi. Principia iuris: teoría del derecho y de la democracia. V 1. Madrid: Trotta, 2011. p. 395457. Especialmente, p. 396: “Las normas son reglas que pertenecen al derecho positivo em cuanto son efectos jurídicos puestos o causados por actos (T8.11, T8.12). Obviamente, em tanto que reglas, las normas son significados de preceptos (T8.13), a los que vienen asociadas em cada caso mediante interpretación jurídica”. Fl. 210DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 211 9 É como voto. (assinado digitalmente) Demes Brito Voto Vencedor Conselheira Semíramis de Oliveira Duro Redatora Designada A despeito do excelente voto do Ilustre Relator, ouso divergir quanto a solução dada ao caso. Preliminar Erro no Despacho de Admissibilidade Aduziu o Relator que o despacho de admissibilidade seria nulo, por vício formal, porquanto o examinador indica um acórdão estranho à discussão dos presentes autos. De fato, observase nas efls. 145 a 149, um despacho de admissibilidade referente a outro processo, de matéria completamente diversa. É notório que se trata de mero equívoco na anexação a este processo. Todavia, nas efls. 150 a 156, consta corretamente posto o despacho de admissibilidade do presente processo. Referido ato tratou de todos os argumentos arguidos no recurso especial da empresa, bem como está devidamente motivado. Assim, nos termos do art. 59, II do Decreto n° 70.235/72, os despachos e decisões são nulos apenas se proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, o que não se observa no presente processo. Por isso, não vislumbro nulidade no despacho de admissibilidade de efls. 150156. Logo, voto por afastar a preliminar suscitada pelo Relator. Divergência – “efetividade das declarações fiscais retificadoras (ex.: DCTF) prestadas pela contribuinte para comprovar a existência do crédito, e necessidade da autoridade administrativa diligenciar caso tenha dúvidas a respeito das retificações feitas” CONHECIMENTO Na origem, a empresa sustentou que possuía crédito decorrente de recolhimento a maior de COFINS, no período de 05/2004, e que após essa constatação procedeu à compensação, por meio do PER/DCOMP. Informa que, por conta de equívoco ocorrido na DCTF originária, efetuou correções em DCTF retificadora, antes da prolação do despacho decisório. A DRJ Belo Horizonte/MG julgou improcedente a manifestação de inconformidade, por entender que não havia prova da liquidez e certeza do crédito pleiteado e Fl. 211DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 212 10 que não bastaria a retificação da DCTF desacompanhada de outros elementos, além de destacar que a retificação fora extemporânea. Em recurso voluntário, asseverou que a retificação foi tempestiva e observou os ditames da IN RFB n° 903/08; bem como que o montante recolhido é superior àquele efetivamente devido. O acórdão recorrido, n° 3401002.345, da 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, negou provimento ao apelo, com decisão assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 16/10/2005 a 31/10/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ELEMENTOS DE PROVA. A prova por excelência do direito de crédito do contribuinte, por força de lei, é a sua contabilidade comercial e fiscal, bem assim, os documentos que a respaldam, não se prestando a tal desiderato exclusivamente as declarações entregues à RFB. Recurso voluntário negado. Como paradigma, foi apontado o acórdão n° 3102001.237, assim ementado: APRESENTAÇÃO DE DCTF RETIFICADORA APÓS DESPACHO HOMOLOGATÓRIO POSSIBILIDADE DO RECONHECIMENTO DO CRÉDITO A declaração retificadora possui a mesma natureza e substitui integralmente a declaração retificada. Descaracterizadas às hipóteses em que a retificadora não produz efeitos. 1. Saldos enviados à PGFN para inscrição em DAU. 2. Valores apurados em procedimentos de auditoria interna já enviados a PGFN. 3. Intimação de início de procedimento fiscal. Recurso Conhecido e parcialmente provido. Retorno dos autos a unidade de jurisdição para apuração do crédito. A identidade fática apontada pela Recorrente reside: "... mormente ao fato de que o simples erro de preenchimento das declarações fiscais, que ensejam a apresentação de retificações, não retiram o caráter constitutivo da DCTF retificadora em relação ao crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior, ..." O acórdão recorrido consignou que apenas a apresentação das declarações fiscais retificadoras (DCTF, DACON) prestadas pela contribuinte que instruem o pedido de compensação, sem o acompanhamento de outros elementos de prova, não se prestam a comprovar o crédito pleiteado. Ao passo que no acordão paradigma, restou decidido que a comprovação da existência de crédito é suficientemente feita pela DCTF retificadora, quando não há impedimento legal para a sua produção de efeitos, e que, havendo alguma dúvida em Fl. 212DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 213 11 relação aos valores declarados pelo contribuinte, caberia à Fiscalização realizar diligências a fim de esclarecêlas e não, simplesmente, deixar de homologar a compensação declarada. Está configurada a divergência, portanto voto por conhecer do Recurso Especial. MÉRITO Para a Recorrente (e a posição externada no paradigma) as declarações retificadoras seriam suficientes para comprovação do crédito a que faz jus. Tal pretensão não merece acolhida. No tocante à efetividade das declarações fiscais retificadoras prestadas pela contribuinte para comprovar a existência do crédito, entendo que não são isoladamente instrumento hábil para conferir certeza e liquidez aos créditos declarados no PER/DCOMP. A compensação via PER/DCOMP não está vinculada à retificação de DCTF. Isso porque o indébito tributário decorre do pagamento indevido, nos termos dos art. 165 e 168 do CTN, cujos fatos demandam suporte probatório. Nesse sentido, o CARF já se manifestou: Acórdão n° 3403002.370, 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária: DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO (DDE). NÃO HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO (DCOMP). RETIFICAÇÃO POSTERIOR DE DADOS DA DCTF. A retificação da DCTF, para demonstrar a diferença entre valor confessado e recolhido, não é condição prévia para a transmissão da DCOMP, nem é ato que, por si mesmo, cria o direito de crédito do contribuinte. A existência do indébito depende da demonstração, por meio de provas, pelo contribuinte. Dispõe o art. 170, do CTN, que a compensação depende da comprovação da liquidez e certeza dos créditos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Regra geral considerase que o ônus de provar recai sobre quem alega o fato ou o direito: CPC/2015 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I – ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 213DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 214 12 II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor A Recorrente trouxe aos autos o comprovante de arrecadação, o PER/DCOMP, DACON, DCTF e DCTF Retificadora. Por sua vez, no DACON entregue consta valor diferente do valor da DCTF retificadora. A contribuinte só teria direito subjetivo à compensação se comprovasse a liquidez e certeza de seu crédito. Então, apenas a escrituração contábil e fiscal, acompanhada dos documentos que as instruem, poderiam conferir a força probante do crédito. Neste processo, vieram duas páginas de documentos apenas em sede de memoriais. E também apenas nos memoriais a empresa expressamente consignou a origem de seu crédito: Após rever a apuração do período, a Recorrente verificou, no que interessa ao presente caso, que havia considerado, na apuração do tributo devido, valor inferior (ao limite legal) a título de comissões de venda direta de veículos que, nos termos do art. 2°, § 2° da Lei n° 10.485/2002, são passíveis de dedução da base de cálculo da COFINS: (...) Nessa oportunidade, informou que a apuração deste crédito já havia sido registrada em sua escrita fiscal e contábil antes mesmo da retificação da DCTF. A documentação a que se refere é uma página do Livro Razão no qual consta a suposta apuração do crédito e uma página de demonstrativo de cálculo. Diante desse quadro, a empresa deveria de ter trazido aos autos os demonstrativos das bases de cálculo de apuração da COFINS nãocumulativa, as planilhas das comissões de venda dos veículos, o DACON original e retificador, devidamente conciliados com cópias dos livros contábeis, notas fiscais e guias de recolhimento. Uma vez ausentes esses elementos, deve ser negado o direito ao crédito, já que a certeza e liquidez não foram comprovadas. Assim, a Recorrente não pode transferir o ônus da produção probatória para a autoridade fiscal ou para o julgador, alegando a obrigatoriedade da realização de diligências. A autoridade julgadora administrativa, a teor do art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, pode determinar, de ofício ou a requerimento do interessado, a realização de diligências ou perícias, mas somente quando entendêlas necessárias ao seu convencimento, devendo indeferir as prescindíveis ao julgamento. Há que se ter em conta que tal previsão legal não existe com o propósito de suprir o ônus da prova colocado às partes, mas sim de elucidar questões pontuais mantidas controversas mesmo em face dos documentos trazidos. As diligências voltamse à confrontação de elementos de prova trazidos pelas partes, mas não substituem o que a lei já impunha como obrigação, desde a instauração do litígio, às partes componentes da relação jurídica. Fl. 214DF CARF MF Processo nº 13603.907083/200969 Acórdão n.º 9303007.479 CSRFT3 Fl. 215 13 De se ressaltar, outrossim, que o fato de o processo administrativo ser informado pelo princípio da verdade material, em nada macula tudo o que foi até aqui tratado. É que o referido princípio se destina à busca da verdade, mas isto num cenário dentro do qual as partes trabalharam proativamente no cumprimento dos seus respectivos ônus probatório. Em suma, nego provimento ao recurso especial. Dispositivo Do exposto, voto por conhecer do recurso especial interposto pela contribuinte e, no mérito, negarlhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Redatora Designada Fl. 215DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.722816/2012-36
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
MOLÉSTIA GRAVE. INÍCIO DA ISENÇÃO.
A isenção dos rendimentos percebidos a título de aposentadoria, por moléstia grave tipificada em lei, aplica-se a partir do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria.
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. MOMENTO DA TRIBUTAÇÃO.
As diferenças decorrentes de verbas salariais, ainda que recebidas acumuladamente pelo contribuinte, devem ser tributadas pelo imposto sobre a renda com a aplicação das tabelas progressivas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência.
Numero da decisão: 2402-006.732
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para, nos termos do Acórdão 9202-005.650, determinar a retificação do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Gregório Rechmann Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 MOLÉSTIA GRAVE. INÍCIO DA ISENÇÃO. A isenção dos rendimentos percebidos a título de aposentadoria, por moléstia grave tipificada em lei, aplica-se a partir do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. MOMENTO DA TRIBUTAÇÃO. As diferenças decorrentes de verbas salariais, ainda que recebidas acumuladamente pelo contribuinte, devem ser tributadas pelo imposto sobre a renda com a aplicação das tabelas progressivas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência.
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ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. Recorrente RUTH EVARISTO ALVES DUTRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2009 MOLÉSTIA GRAVE. INÍCIO DA ISENÇÃO. A isenção dos rendimentos percebidos a título de aposentadoria, por moléstia grave tipificada em lei, aplicase a partir do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. MOMENTO DA TRIBUTAÇÃO. As diferenças decorrentes de verbas salariais, ainda que recebidas acumuladamente pelo contribuinte, devem ser tributadas pelo imposto sobre a renda com a aplicação das tabelas progressivas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 28 16 /2 01 2- 36 Fl. 122DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para, nos termos do Acórdão 9202005.650, determinar a retificação do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da 7ª Tuma da DRJ/BHE, consubstanciada no Acórdão nº 0239.030 (fls. 47), que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da decisão de primeira instância: Contra a contribuinte em epígrafe foi emitida Notificação de Lançamento do Imposto de Renda da Pessoa Física, referente ao Exercício 2010, Ano Calendário 2009. Após a revisão da Declaração foram apurados os seguintes valores: R$ 8.971,89 de imposto suplementar, acrescido de multa de ofício de 75% e de juros de mora calculados até 29/02/2012. De acordo com a Descrição dos Fatos, fl. 32, o lançamento acima foi decorrente de infração relativa a Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, Decorrentes de Ação da Justiça Federal. Constatouse omissão de rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente, no valor de R$ 85.858,21, auferidos pelo titular e/ou dependentes. Na apuração do imposto devido, foi compensado o Imposto Retido na Fonte (IRRF) sobre os rendimentos recebidos, no valor de R$ 2.575,74. Segundo a Complementação da Descrição dos Fatos, foram incluídos rendimentos de ação da justiça federal conforme Dirf fev/2009, anterior à moléstia. Os rendimentos da aposentadoria foram reduzidos para R$ 14.566,69 conforme Laudo médico oficial. Fl. 123DF CARF MF Processo nº 15504.722816/201236 Acórdão n.º 2402006.732 S2C4T2 Fl. 123 3 Inconformada, a interessada apresentou impugnação em 21/3/2012, fls. 2 a 7, por meio de procurador constituído, conforme documentos de fls. 9/10. Alega que é idosa e tem direito aos benefícios da Lei nº 10.741, de 2003 – Estatuto do Idoso, art. 71, caput e § 3º. Pede a observância dessa lei no exame de seu caso. Argumenta que prestou os esclarecimentos solicitados pela fiscalização, com o Termo de Atendimento nº 201010000080592, em 16/09/2011. Diz que foi beneficiada com isenção de imposto de renda por doença incapacitante, consoante certidão passada pelo Instituto Nacional do Seguro Social INSS, do qual foi servidora, mas a informação não foi considerada pela fiscalização. Discorda da autuação pois tem direito à isenção do imposto de renda sobre os valores de aposentadoria recebidos no ano base de 2009, exercício 2010, inclusive sobre as diferenças recebidas em função de processos administrativos ou judiciais, conforme dispõe o art. 6º, inciso XIV da Lei nº 7.713, de 1988 e decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, todos transcritos na impugnação. Informa que o INSS, ao emitir o Comprovante de Rendimentos Pagos e de Retenção de Imposto de Renda na Fonte não observou que os rendimentos de aposentadoria pagos estavam amparados pela isenção, incluindoos como rendimentos tributáveis. Ao elaborar a declaração promoveu sua correção, mas deixou de incluir o valor relativo à diferença de proventos de aposentadoria recebida em decorrência de ação judicial coletiva (processo 1997.34000358535), não pagos em época própria, que não constava do comprovante do INSS, esclarecendo ainda, que não foi emitido comprovante pelo Banco do Brasil. Fala que a omissão na Declaração de Rendimentos não retira seu direito à isenção do imposto, sendo caso de simples retificação da declaração e não de lançamento de tributo, aduzindo que tais rendimentos devem constar na declaração como isentos e não tributáveis. Entende, a impugnante, que tem um crédito de imposto a restituir no valor de R$ 7.185,09, referente a soma de R$ 4.609,35 (valor retido pelo INSS) com R$ 2.575,74 (valor retido pelo Banco do Brasil), e não débito de imposto a pagar como deseja a fiscalização através da autuação. Registra que o fato gerador do imposto de renda da pessoa física ocorre no último dia do ano base, o que implica dizer estar isento todo o rendimento recebido neste ano quando materializada a hipótese fática de isenção conferida por lei, inclusive o 13º salário. Fl. 124DF CARF MF 4 Apresenta os documentos comprobatórios de seu direito, pedindo que seja acolhida sua impugnação e cancelada a Notificação de Lançamento, com a devolução do valor retido indevidamente pelas fontes pagadoras, creditandoo em sua conta corrente no Banco 001, Agência 22871, conta nº 550515. A DRJ julgou improcedente a impugnação do contribuinte, nos termos do Acórdão 0239.030 (fls. 47), cuja ementa reproduzse a seguir: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2010 MOLÉSTIA GRAVE. INÍCIO DA ISENÇÃO. A isenção dos rendimentos percebidos a título de aposentadoria, por moléstia grave tipificada em lei, aplicase a partir do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. AÇÃO JUDICIAL. Considerase omissão de rendimentos os valores recebidos acumuladamente, decorrentes de ação judicial, não declarados pelo contribuinte e, por previsão legal, são tributados no mês de seu recebimento. DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. As decisões administrativas não têm efeito vinculante em relação às decisões proferidas pelas Delegacias de Julgamento da Receita Federal do Brasil. Cientificado dessa decisão, a contribuinte interpôs recurso voluntário de fls. 62, reiterando o quanto aduzido na impugnação apresentada. Na sessão de julgamento realizada em 11/05/2016, este Colegiado deu provimento ao Recurso Voluntário da contribuinte, cancelando o lançamento fiscal, nos termos do Acórdão nº 2402005.288 (fls. 74), com a seguinte ementa: Fl. 125DF CARF MF Processo nº 15504.722816/201236 Acórdão n.º 2402006.732 S2C4T2 Fl. 124 5 Desafiado por Recurso Especial da Fazenda Nacional, os membros da 2ª Turma da CSRF, na sessão de julgamento realizada em 26/07/2017, deram provimento ao apelo especial da Fazenda para determinar a retificação do montante do crédito tributário com aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em que foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. Ainda, considerando que a desconstituição do lançamento propugnada pelo Colegiado a quo levou ao não exame de alegações constantes do Recurso Voluntário do contribuinte (mais especificamente quanto à isenção alegadamente aplicável aos rendimentos recebidos), de se retornar o feito ao Colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do Recurso Voluntário. É o relatório. Voto Conselheiro Gregório Rechmann Junior Relator A admissibilidade do Recurso Voluntário já foi objeto de análise e apreciação por este Colegiado, por ocasião do seu julgamento em 11/05/2016, nos termos do Acórdão 2402 005.288 (fls. 74). Conforme exposto no relatório supra, o lançamento em análise foi decorrente de infração relativa a Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, Decorrentes de Ação da Justiça Federal. Constatouse omissão de rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente, no valor de R$ 85.858,21, auferidos pelo titular e/ou dependentes. Segundo a Complementação da Descrição dos Fatos, foram incluídos rendimentos de ação da justiça federal conforme Dirf fev/2009, anterior à moléstia. A irresignação da contribuinte se restringe, basicamente, à alegação de que ela (contribuinte) tem direito à isenção do imposto de renda sobre os valores de aposentadoria recebidos no anobase 2009, exercício 2010, inclusive diferenças recebidas em função de processos administrativos ou judiciais, consoante dispõe o art. 6º, inciso XIV, da Lei nº 7.713/88. Aduz que o regime de apuração do imposto de renda da pessoa física é anual, ocorrendo o fato gerador do imposto no dia 31 de dezembro de cada ano calendário (...). A isenção, portanto, abrange todos os rendimentos obtidos, no caso concreto, no anobase 2009, inclusive a gratificação natalina – 13º salário, haja vista o exercício do direito à isenção darse no momento em que ela apurou o imposto de renda a pagar relativamente a todo o ano calendário, ou seja, na Declaração de Rendas entregue no exercício de 2010. A simples omissão do rendimento recebido no anobase não implica em perda do direito à isenção. Razão não assiste à Recorrente. Fl. 126DF CARF MF 6 Inicialmente, esclareçase que não há nos autos qualquer documento que demonstre a natureza dos rendimentos recebidos pela contribuinte em decorrência de ação judicial e apurados como omitidos, nos termos da Notificação de Lançamento. Não fosse a assertiva da Recorrente de que tais rendimentos se referem a diferenças de proventos, jamais se saberia da natureza destes, já que não há nos autos qualquer meio de prova neste sentido. Tal fato, entretanto, sequer foi abordado pela fiscalização. Esclareçase, ainda, que, ao contrário do quanto afirmado pela Recorrente, a fiscalização não negou o direito à isenção do IRPF, em decorrência de moléstia grave, em razão da simples omissão do rendimento recebido. Em verdade, o que fez a Fiscalização de forma correta, registrese – foi evidenciar que, no mês de recebimento das diferenças de proventos em decorrência de ação judicial, qual seja: fevereiro/2009, a contribuinte não fazia jus à isenção do IRPF, já que o Laudo de Exame Médico Pericial emitido pelo INSS (fls. 18), expressamente sinaliza o dia 18/04/2009 como a data de início da incapacidade. A Recorrente sustenta que o regime de apuração do imposto de renda da pessoa física é anual, ocorrendo o fato gerador do imposto no dia 31 de dezembro de cada ano calendário (...). A isenção, portanto, abrange todos os rendimentos obtidos, no caso concreto, no anobase 2009, inclusive a gratificação natalina – 13º salário, haja vista o exercício do direito à isenção darse no momento em que ela apurou o imposto de renda a pagar relativamente a todo o ano calendário, ou seja, na Declaração de Rendas entregue no exercício de 2010. Ocorre que, conforme já exposto linhas acima, no caso em análise, a fiscalização respeitou o início do direito à isenção, conforme o disposto no Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, Regulamento do Imposto de renda (RIR/1999), art. 39, inciso XXXIII, e §§ 4º, 5º e 6º, abaixo transcritos: Art.39. Não entrarão no cômputo do rendimento bruto: Proventos de Aposentadoria por Doença Grave XXXIII os proventos de aposentadoria ou reforma, desde que motivadas por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados de doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência adquirida, e fibrose cística (mucoviscidose), com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma (Lei nº 7.713, de 1988, art. 6º, inciso XIV, Lei nº 8.541, de 1992, art. 47, e Lei nº 9.250, de 1995, art. 30, §2º); Fl. 127DF CARF MF Processo nº 15504.722816/201236 Acórdão n.º 2402006.732 S2C4T2 Fl. 125 7 §4ºPara o reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII, a partir de 1º de janeiro de 1996, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, devendo ser fixado o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle (Lei nº 9.250, de 1995, art. 30 e §1º). §5ºAs isenções a que se referem os incisos XXXI e XXXIII aplicamse aos rendimentos recebidos a partir: I do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; II do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão; III da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial. §6ºAs isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII também se aplicam à complementação de aposentadoria, reforma ou pensão. Ora, consta, à fl. 17, Certidão do INSS atestando que a aposentadoria da impugnante, ocorrida em 11/2/83, foi alterada, ficando seus proventos, a partir de 18/4/2009, isentos da tributação do Imposto de Renda na fonte devido a moléstia especificada no § 1º do art. 186 da Lei 8112/90 e art. 6º, inciso XIV da Lei 7713/88. Foi ainda acostado à fl. 18 o Laudo de Exame Médico Pericial, emitido pelo INSS, cujo relatório conclusivo determina que a contribuinte, a partir de 18/4/2009, faz jus à isenção de Imposto de Renda na Fonte. Consoante a legislação acima, a isenção em análise se aplica em relação aos rendimentos recebidos a partir do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão, não abrangendo, portanto, no caso concreto, o período anterior a abril de 2009, o que inclui como tributáveis os rendimentos do período janeiro a abril de 2009 percebidos pela contribuinte do INSS, bem como, o pagamento feito em fevereiro de 2009 por meio do Banco do Brasil S/A, todos em data anterior ao reconhecimento da isenção, que se deu com base no Laudo de Exame Médico Pericial emitido pelo INSS, fl. 18, o qual determina o dia 18/4/2009 como data de início da incapacidade. Portanto, sem razão à Recorrente neste particular. Por fim, mas não menos importante, no que tange aos rendimentos omitidos em análise, recebidos acumuladamente em decorrência de ação judicial, no valor de R$ 85.858,21, ao contrário do procedimento adotado pela fiscalização e convalidado pela DRJ, devese observar que, conforme já decidido pela Egrégia 2ª Turma da CSRF nos presentes autos (Acórdão 9202005.650, fls. 105), o montante do crédito tributário deve ser retificado com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. Fl. 128DF CARF MF 8 Conclusão Ante o exposto, concluo o voto no sentido de DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário para, nos termos do Acórdão 9202005.650, determinar a retificação do crédito tributário com a aplicação tanto das tabelas progressivas como das alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (meses em foram apurados os rendimentos percebidos a menor), ou seja, de acordo com o regime de competência. É como voto. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Fl. 129DF CARF MF
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Numero do processo: 10730.003520/2005-04
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Nov 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011
SUPOSTA RESTITUIÇÃO INDEVIDA DE IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. MOLÉSTIA GRAVE COMPROVADA.
A isenção aplicável aos proventos da aposentadoria ou pensão, recebidos por portadores de moléstia grave, requer a prova da condição de aposentado, em relação à fonte pagadora; bem como a prova da moléstia grave, atestada em laudo médico oficial que preencha todos os requisitos exigidos pela legislação tributária.
Numero da decisão: 2001-000.807
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernanda Melo Leal - Relatora.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira e Jorge Henrique Backes.
Nome do relator: FERNANDA MELO LEAL
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MOLÉSTIA GRAVE COMPROVADA. A isenção aplicável aos proventos da aposentadoria ou pensão, recebidos por portadores de moléstia grave, requer a prova da condição de aposentado, em relação à fonte pagadora; bem como a prova da moléstia grave, atestada em laudo médico oficial que preencha todos os requisitos exigidos pela legislação tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira e Jorge Henrique Backes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 73 0. 00 35 20 /2 00 5- 04 Fl. 227DF CARF MF 2 Relatório Contra a contribuinte acima identificada foi lavrado Auto de Infração, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2001, anocalendário de 2000, por meio do qual formalizouse a cobrança da restituição indevida a devolver corrigida de R$ 4.133,02 ( quatro mil cento e trinta e três reais e dois centavos). Inconformado, o contribuinte, por intermédio de sua representante legal, apresentou impugnação, de fls.01/09, alegando, em síntese, que é portador do Mal de Alzheimer o que lhe permite isenção do imposto de renda pessoa física, nos termos da legislação tributaria, razão pela qual apresentou declaração retificadora para o anocalendário 2000. Sustenta que quando intimado pela fiscalização apresentou documentos que comprovavam seu direito à isenção do imposto de renda pessoa física. Ressalta a necessidade de ser analisada a ilegalidade da lavratura de Auto de Infração determinando devolução de restituição de IR aprovada pelo próprio Fisco, passando, inclusive, pela malha fina. Alega que a administração não pode desconstituir ato que ela achou por certo decidir em favor do contribuinte e embasa seu entendimento com a opinião de doutrinadores e por fim, solicita o cancelamento do crédito tributário e que seja comprovado o direito à isenção por ser portador de doença degenerativa. A DRJ Rio de Janeiro, na análise da peça impugnatória, manifestou seu entendimento no sentido de que a contribuinte não logrou êxito em comprovar a condição de moléstia grave para fins de isenção de imposto de renda tendo em vista que a doença contida nos laudos, qual seja Alzheimer, não se encontra elencada no rol das doenças passíveis de isenção previstas no inciso XIV do art. 6º da Lei n.º 7.713/88. Em sede de Recurso Voluntário, repisa a contribuinte as mesmas razões alegadas na impugnação. É o relatório. Voto Conselheira Fernanda Melo Leal Relatora. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Mérito do direito a isenção por moléstia grave Consoante art. 6º, inciso XIV da Lei nº 7.713/88A, a qual altera a legislação do imposto de renda e dá outras providência, são seguintes as hipóteses de isenção do imposto sobre a renda: Fl. 228DF CARF MF Processo nº 10730.003520/200504 Acórdão n.º 2001000.807 S2C0T1 Fl. 3 3 Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: XIV – os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma;(destaque nosso) Noutro giro, de acordo com os termos do art. 111 do Código Tributário Nacional – CTN, a legislação tributária que trata de isenção de imposto de renda deve ser interpretada literalmente. Senão vejamos: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Como se vê, pelos dispositivos transcritos, para o contribuinte portador de moléstia grave ter direito à isenção são necessárias duas condições concomitantes, uma é que os rendimentos sejam oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão ou ainda de complementação de aposentadoria e a outra é que seja portador de uma das doenças previstas no texto legal, comprovada por laudo pericial emitido por médico integrante do Serviço Médico Oficial, inclusive devendo ser identificado no laudo, o n.º de registro do profissional no órgão público. Sustenta a DRJ que a interpretação da legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção é literal (art. 111 do CTN). Portanto, deveria estar expressamente previsto no laudo a alienação mental da contribuinte. Discordo da DRJ . Entendo que Alzheimer é uma espécie de “alienação mental”, e portanto deve ser considerada para fins de isenção do pagamento do tributo. Tanto que por diversas vezes a declaração e o laudo pericial emitido por serviço oficial reconhece a alienação mental, em razão do mal de Alzheimer. Inclusive questão semelhante já foi julgada pelo ministro Luiz Fux em Recurso Especial Ou seja, ainda que o mal de Alzheimer não esteja expressamente relacionado na lista das doenças que autorizam a isenção do imposto de renda, a jurisprudência passou a reconhecêlo como uma espécie do gênero ‘’alienação mental’’, concedendo assim, isenção do tributo para os portadores da doença, bastando que seja comprovada através de laudo emitido por médico que faça parte do serviço público de saúde. Fl. 229DF CARF MF 4 A isenção neste caso não será concedida por causa da doença de Alzheimer, mas por causas de seus sintomas e suas conseqüências, neste caso, a alienação mental. Merece trazer à baila apenas a título de reflexão jurídica, a importância do princípio pela busca da verdade material. Sabemos que o processo administrativo sempre busca a descoberta da verdade material relativa aos fatos tributários. Tal princípio decorre do princípio da legalidade e, também, do princípio da igualdade. Busca, incessantemente, o convencimento da verdade que, hipoteticamente, esteja mais aproxima da realidade dos fatos. De acordo com o princípio são considerados todos os fatos e provas novos e lícitos, ainda que não tragam benefícios à Fazenda Pública ou que não tenham sido declarados. Essa verdade é apurada no julgamento dos processos, de acordo com a análise de documentos, oitiva das testemunhas, análise de perícias técnicas e, ainda, na investigação dos fatos. Através das provas, buscase a realidade dos fatos, desprezandose as presunções tributárias ou outros procedimentos que atentem apenas à verdade formal dos fatos. Neste sentido, deve a administração promover de oficio as investigações necessárias à elucidação da verdade material para que a partir dela, seja possível prolatar uma sentença justa. A verdade material é fundamentada no interesse público, logo, precisa respeitar a harmonia dos demais princípios do direito positivo. É possível, também, a busca e análise da verdade material, para melhorar a decisão sancionatória em fase revisional, mesmo porque no Direito Administrativo não podemos falar em coisa julgada material administrativa. A apresentação de provas e uma análise nos ditames do princípio da verdade material estão intrinsecamente relacionadas no processo administrativo, pois a verdade material apresentará a versão legítima dos fatos, independente da impressão que as partes tenham daquela. A prova há de ser considerada em toda a sua extensão, assegurando todas as garantias e prerrogativas constitucionais possíveis do contribuinte no Brasil, sempre observando os termos especificados pela lei tributária. A jurisdição administrativa tem uma dinâmica processual muito diferente do Poder Judiciário, portanto, quando nos depararmos com um Processo Administrativo Tributário, não se deve deixar de analisálo sob a égide do princípio da verdade material e da informalidade. No que se refere às provas, é necessário que sejam perquiridas à luz da verdade material, independente da intenção das partes, pois somente desta forma será possível garantir o um julgamento justo, desprovido de parcialidades. Somase ao mencionado princípio também o festejado princípio constitucional da celeridade processual, positivado no ordenamento jurídico no artigo 5º, inciso LXXVIII da Constituição Federal, o qual determina que os processos devem desenvolverse em tempo razoável, de modo a garantir a utilidade do resultado alcançado ao final da demanda. Ratifico, ademais, a necessidade de fundamento pela autoridade fiscal, dos fatos e do direito que consubstancia o lançamento. Tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. Assim sendo, com fulcro nos festejados princípios supracitados, e baseando se nos fatos e argumentos acima expostos, entendo que deve ser exonerado o crédito tributário lançado pela autoridade fiscal. Fl. 230DF CARF MF Processo nº 10730.003520/200504 Acórdão n.º 2001000.807 S2C0T1 Fl. 4 5 CONCLUSÃO: Diante tudo o quanto exposto, voto no sentido de, CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para considerar a contribuinte como portador de moléstia grave e por conseqüência, reconhecer a sua isenção para fins de imposto de renda. (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal. Fl. 231DF CARF MF
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Numero do processo: 15374.910033/2009-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Nov 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2004
ESTIMATIVAS RECOLHIDAS A MAIOR OU INDEVIDAMENTE. COMPENSAÇÃO ANTES DO FINAL DO PERÍODO DE APURAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 84. AFASTAMENTO DA VEDAÇÃO PELA IN SRF Nº 600/05. POSSIBILIDADE. INDÉBITO CARACTERIZADO. DEMANDA DE NOVA ANÁLISE.
Súmula CARF nº 84: É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa.
Verificada a legalidade da manobra de compensação pretendida pelo contribuinte, afastando-se entendimento anterior pela sua vedação, devem ser, materialmente, analisadas a procedência e a quantificação do crédito pretendido antes da sua homologação.
Numero da decisão: 1402-003.431
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com base na Súmula CARF nº 84, para afastar a vedação da compensação pretendida pela Contribuinte, determinando o retorno à Unidade Local para a prolatação de novo Despacho Decisório, considerando a materialidade e a quantificação do crédito utilizado na compensação, analisando a documentação já acostada aos autos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 15374.910035/2009-24, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente Substituto e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente Substituto).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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COMPENSAÇÃO ANTES DO FINAL DO PERÍODO DE APURAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 84. AFASTAMENTO DA VEDAÇÃO PELA IN SRF Nº 600/05. POSSIBILIDADE. INDÉBITO CARACTERIZADO. DEMANDA DE NOVA ANÁLISE. Súmula CARF nº 84: É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa. Verificada a legalidade da manobra de compensação pretendida pelo contribuinte, afastandose entendimento anterior pela sua vedação, devem ser, materialmente, analisadas a procedência e a quantificação do crédito pretendido antes da sua homologação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com base na Súmula CARF nº 84, para afastar a vedação da compensação pretendida pela Contribuinte, determinando o retorno à Unidade Local para a prolatação de novo Despacho Decisório, considerando a materialidade e a quantificação do crédito utilizado na compensação, analisando a documentação já acostada aos autos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 15374.910035/200924, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente Substituto e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 91 00 33 /2 00 9- 35 Fl. 111DF CARF MF Processo nº 15374.910033/200935 Acórdão n.º 1402003.431 S1C4T2 Fl. 3 2 Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente Substituto). Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra v. Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento a quo, que negou provimento à Manifestação de Inconformidade apresentada pela Contribuinte, mantendo o r. Despacho Decisório que deixou de homologar a compensação pretendida, por entender que estimativas recolhidas a maior/indevidamente só podem ser objeto de compensação ao final ou após o período de apuração do IRPJ e da CSLL. Em sua Manifestação de Inconformidade, em suma, alegou a ora Recorrente que a Lei nº 9430/96 garante a compensação de quaisquer indébitos, fruto de recolhimento indevido ou maior, não se sustentando legalmente a impossibilidade invocada pela Autoridade Fiscal. Traz excertos jurisprudenciais e doutrinários. Também pugna pela inconstitucionalidade da Instrução Normativa nº 600/05 e invoca do princípio da busca pela verdade material. Ao seu turno, a DRJ a quo proferiu o v. Acórdão, ora recorrido, deixando de conhecer a matéria constitucional invocada e, na parte conhecida, negando provimento à defesa, por entender haver vedação expressa no art. 10 da IN nº 600/05 que impediria essa pretensão compensatória da Contribuinte. Ressaltase lá a vinculação daqueles N. Julgadores aos entendimentos da Receita Federal do Brasil. Diante de tal revés, a Contribuinte interpôs o Recurso Voluntário, agora sob análise, em suma, abandonando as alegações de inconstitucionalidade, mas reiterando e frisando a legalidade da compensação das estimavas, no mesmo período em que apurado o indébito, trazendo novos julgados deste E. CARF que corroboram sua pretensão e infirmam o posicionamento do v. Acórdão combatido. Na sequência, os autos foram encaminhados para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.428, de 20/09/2018, proferido no julgamento do Processo nº 15374.910035/2009 24, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.428): Fl. 112DF CARF MF Processo nº 15374.910033/200935 Acórdão n.º 1402003.431 S1C4T2 Fl. 4 3 "O Recurso Voluntário é manifestamente tempestivo e sua matéria se enquadra na competência desse N. Colegiado. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. Ausentes alegações preliminares, passase ao mérito da demanda. O tema exclusivo agora sob análise é a possibilidade legal da Contribuinte utilizar em compensação, via DCOMP, crédito oriundo de estimativas recolhidas indevidamente, ainda no mesmo período de apuração. Como fica muito claro nos autos, o único fundamento para a denegação da compensação foi a suposta vedação da manobra intentada, como se verifica tanto no r. Despacho Decisório como, posteriormente, no v. Acórdão, ora recorrido, que expressamente invocam o art. 10 da IN SRF nº 600/05, vigente à época da transmissão da DCOMP. Registrese que não houve qualquer análise da materialidade do crédito ou da sua quantificação, ainda que a Recorrente tenha carreado documentação aos autos, sendo a motivação da não homologação da compensação exclusivamente jurídica. Pois bem, tal matéria sob apreço é tema há muito debatido neste E. CARF (e no predecessor E. Conselho de Contribuintes), sendo, desde 10 de dezembro de 2012, objeto da Súmula CARF nº 84, a qual, recentemente, em sessão de 03 de setembro de 2018, pela composição do Pleno da C. Câmara Superior de Recursos Fiscais, foi mantida e teve sua redação revisada: Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Como se observa da leitura de tal entendimento sumular, da mesma forma como defende a Recorrente, é autorizada a compensação de estimativas recolhidas a maior (indébito) a partir do seu pagamento. Logo, o óbice imposto à Contribuinte não deve prevalecer, em obediência a tal enunciado. Inclusive, não há qualquer limitação temporal da aplicabilidade da Súmula nº 84, mostrandose, no entender deste Conselheiro, irrelevante qual normativo interno da Receita Federal do Brasil regulava a matéria à época do pleito de compensação. Contudo, apenas para robustecer o presente julgamento, esclarecese que existem inúmeros precedentes desta C. 1ª Seção que, especificamente, abordam e afastam a vedação Fl. 113DF CARF MF Processo nº 15374.910033/200935 Acórdão n.º 1402003.431 S1C4T2 Fl. 5 4 contida no art. 10 da IN nº 600/05, para promover a devida e mandatória aplicação da referida Súmula. Nesse sentido, ilustrando aquilo acima consignado, confirase o recente Acórdão nº 1301003.233, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara desta C. 1ª Seção, de relatoria do I. Conselheiro Nelso Kichel, publicado em 30/08/2018: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. DCOMP. AFASTAMENTO DO ÓBICE DO ART. 10 DA IN SRF Nº 460/04 E REITERADO PELA IN SRF Nº 600/05. SÚMULA CARF Nº 84. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa mensal caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação, desde que comprovado o erro de fato e desde que não utilizado no ajuste anual. Não comprovado o erro de fato, mas existindo eventualmente pagamento a maior de estimativa mensal em relação ao valor do débito apurado no encerramento do respectivo anocalendário, cabível a devolução do saldo negativo no ajuste anual. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para superar os óbices da IN SRF 600 (Súmula CARF nº 84) no que diz respeito à possibilidade de indébito relativo a pagamento de estimativas em que se basearam o despacho decisório e a decisão de primeira instância, determinando o retorno dos autos à unidade de origem para que analise o mérito do direito creditório pleiteado, retomandose, a partir daí, o rito processual habitual. (destacamos) Desse modo, merece reforma o v. Acórdão (assim como r. Despacho Decisório, digase), vez que lícita e viável a postura procedimental da Contribuinte. Porém, como já esclarecido, em momento algum houve investigação sobre a existência e quantificação do crédito empregado, fruto do alegado recolhimento a maior/indevido de estimativa (por consequência lógica do afastamento sumário da regularidade da postura da Recorrente, não havendo, então, em se falar de lapso nos julgamentos pretéritos). De forma reversa, agora, uma vez aceita a circunstância jurídica da compensação, mister proceder à devida análise de materialidade do valor utilizado. Fl. 114DF CARF MF Processo nº 15374.910033/200935 Acórdão n.º 1402003.431 S1C4T2 Fl. 6 5 Todavia, tal análise não deve ser direta e imediatamente feita por esta C. 2ª Instância, sobre pena de supressão do iter regular processual, bem como do próprio direito de defesa da Contribuinte, devendo os autos serem remetidos à Unidade Local competente para a análise da documentação acostada ao feito e de sistemas de informação internos, proferindose novo Despacho Decisório, com o prosseguimento do regular do processo (garantida, inclusive, a apresentação de nova Manifestação de Inconformidade, Recurso Voluntário e todos outros apelos contemplados pela legislação). Diante de todo o exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com base na Súmula CARF nº 84, para afastar a vedação da compensação pretendida pela Contribuinte, invocada tanto no r. Despacho Decisório, como no v. Acórdão recorrido. Devem ser os autos encaminhados à D. Unidade Local competente para a prolatação de novo Despacho Decisório, considerando a materialidade e a quantificação do crédito utilizado na compensação, analisando a documentação já acostada aos autos e sistemas de informações internos da RFB. Deverá também ser retomado o curso natural e ordinário do processo administrativo após tal nova decisão." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com base na Súmula CARF nº 84, para afastar a vedação da compensação pretendida pela Contribuinte, determinando o retorno à Unidade Local para a prolatação de novo Despacho Decisório, considerando a materialidade e a quantificação do crédito utilizado na compensação, analisando a documentação já acostada aos autos. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 115DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13005.721188/2017-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 02 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2013 a 30/09/2014
CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Não há de se falar em cerceamento do direito de defesa quando o Termo de Verificação Fiscal encontra-se elaborado de forma a descrever com precisão os elementos fáticos e jurídicos norteadores da exigência fiscal. OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE.
A relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo enseja a observância pelo sujeito passivo do valor tributável mínimo previsto na legislação que rege a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados.
COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA.
Provada a participação de estabelecimento, único distribuidor dos produtos, ou seja, distribuidor exclusivo, no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010.
Numero da decisão: 3302-006.111
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo que lhe dava provimento integral.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente
(assinado digitalmente)
Jorge Lima Abud - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente)
Nome do relator: JORGE LIMA ABUD
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2013 a 30/09/2014 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há de se falar em cerceamento do direito de defesa quando o Termo de Verificação Fiscal encontra-se elaborado de forma a descrever com precisão os elementos fáticos e jurídicos norteadores da exigência fiscal. OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE. A relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo enseja a observância pelo sujeito passivo do valor tributável mínimo previsto na legislação que rege a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados. COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA. Provada a participação de estabelecimento, único distribuidor dos produtos, ou seja, distribuidor exclusivo, no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 33; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1681; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C3T2 Fl. 2 1 1 S3C3T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13005.721188/201781 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3302006.111 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 27 de novembro de 2018 Matéria IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Recorrente COMPANHIA BRASILEIRA DE CARTUCHOS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2013 a 30/09/2014 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há de se falar em cerceamento do direito de defesa quando o Termo de Verificação Fiscal encontrase elaborado de forma a descrever com precisão os elementos fáticos e jurídicos norteadores da exigência fiscal. OPERAÇÕES COM INTERDEPENDENTE. A relação de interdependência com comerciante atacadista exclusivo enseja a observância pelo sujeito passivo do valor tributável mínimo previsto na legislação que rege a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados. COMPOSIÇÃO DO MERCADO ATACADISTA. Provada a participação de estabelecimento, único distribuidor dos produtos, ou seja, distribuidor exclusivo, no mercado atacadista da praça do remetente, seus preços devem servir de parâmetro para a definição do valor tributável mínimo, previsto no Art. 195, I, RIPI/2010. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo que lhe dava provimento integral. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 5. 72 11 88 /2 01 7- 81 Fl. 737DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Jorge Lima Abud Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente) Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de auto de infração lavrado para a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (“IPI"), supostamente devido pela Recorrente, relativo aos exercícios de 2013 e 2014, incidente em operações de venda de mercadorias destinadas à empresa interdependente CBC Brasil Comércio e Distribuição Ltda. De acordo com as informações contidas no Relatório de Verificação Fiscal ("RVF"), que acompanhou aludido auto de infração, a Recorrente teria recolhido a menor o IPI por não ter respeitado o Valor Tributável Mínimo ("VTM") aplicável ao presente caso (fls. 24/67). O lançamento presume a existência de um "mercado atacadista notoriamente monopolista caso em que seria aplicável o Parecer Normativo n0 89/1970 e, por isso, o VTM a ser considerado não podería "ser inferior ao preço de venda do adquirentd' que, na exclusiva visão do fisco, seria relativo ao preço praticado pela CBC Brasil na venda aos seus clientes. O lançamento se baseou nas seguintes premissas: ü A Impugnante e a CBC Brasil atuariam no mesmo mercado e, portanto, os seus preços seriam comparáveis; ü Haveria um monopólio de mercado detido pela CBC Brasil; ü Os únicos preços confiáveis seriam aqueles praticados pela CBC Brasil; ü A CBC Brasil seria a única adquirente dos produtos da empresa autuada. Tomase por esteio o Relatório do Acórdão de Impugnação exarado pela 3a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Juiz de Fora/MG. Em julgamento o auto de infração de fls.2 a 19, que exige da contribuinte o montante de R$ 141.408.695,26, assim discriminado: Ø IPI: R$ 65.325.233,97; Ø MULTA: R$ 48.993.925,38; Fl. 738DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 3 3 Ø JUROS: R$ 27.089.535,91 A razão de existência do lançamento foi minuciosamente descrita no TVF, dele sendo possível extrairse a seguinte síntese: III DA AÇÃO FISCAL Distribuidora A CBC Brasil Com. Distribuição Ltda é considerada uma atacadista em consonância com o disposto pelo artigo 14, inciso I, do Regulamento do IPI, aprovado pelo Decreto n° 7.212, de 15.06.2010. A CBC (CNPJ 57.494.031/000163) e a Distribuidora fazem parte de um mesmo grupo econômico uma detém 99,99% do capital da outra e mantêm relação de interdependência, nos termos do artigo 612, incisos I e IV, do RIPI/2010 abaixo transcrito: Companhia Brasileira de Cartuchos CBC Montenegro. A empresa CBC realiza operações comerciais com a Distribuidora, com pessoas físicas, com pessoas jurídicas públicas e com pessoas jurídicas privadas diversas. A característica principal das operações da CBC com a Distribuidora é o destaque de IPI sobre as operações com as mercadorias comercializadas, diferente das que realiza com o consumidor final onde não há destaque do IPI sobre praticamente todas as operações comerciais. As operações sem destaque de IPI ocorrem, na maioria das vezes, com pessoas jurídicas públicas como por exemplo: Secretária de Segurança, Brigada Militar, Polícia Civil, etc. ...Das operações comerciais sujeitas a destaque do IPI com NCM em comum entre a Distribuidora e demais clientes da CBC, apenas as NCM 90131010, 93059900 e 96170010 são para atacadistas e apenas as da NCM 9617001 referemse ao mesmo item (GARRAFA TÉRMICA CARTUCHO). As NCM que não são comuns se referem a operações comerciais entre a CBC e consumidor final, sendo eles pessoas físicas, órgãos públicos e PJ. Esses adquirentes são fabricantes de armas de fogo ou utilizam as mercadorias em seus produtos e em testes (ex: Forjas Taurus SA, ER Amantino e Cia, Condor S/A (em coletes). Semelhante ao AC 2013, observouse que apenas as operações com a Distribuidora e as operações comerciais dos itens classificados na NCM 90131010, 93059900 são por atacado. Diferente do AC 2013, no AC 2014 NÃO HOUVE comercialização do item "garrafa térmica cartucho", NCM 96170010, diretamente da CBC para terceiros pessoa jurídica (atacadistas). Fl. 739DF CARF MF 4 Como se observa, a Distribuidora é um mercado atacadista notoriamente monopolista, isto é, exercido por único estabelecimento atacadista interdependente da CBC, que revende, com exclusividade, os produtos adquiridos da CBC para todo País. Em outros termos, tratase de mercado atacadista monopolizado, em todo território nacional, pelo estabelecimento interdependente e distribuidor exclusivo dos produtos fabricados e/ ou comercializados pela CBC. Conforme demonstrado em item específico as vendas da CBC para a Distribuidora são efetuadas por um preço bem inferior aos das vendas de mesmo produto efetuado diretamente da CBC para pessoas físicas e órgão públicos. Ressaltese que as operações entre a CBC e a Distribuidora são concentradas nas mercadorias em que há destaque de IPI, sendo as vendas com mercadorias sem destaque de IPI efetuadas diretamente da CBC para o consumidor final. Também ficou claramente demonstrado que a Distribuidora funciona como um setor do grupo industrial, possuindo um comando e gestão centralizado nos mesmos administradores da CBC Indústria, um reduzido quadro operacional efetivo e terceirização dos demais setores com a própria indústria Matriz. A CBC, do ponto de vista empresarial, tem toda liberdade de adotar o modelo gerencial mais conveniente e adequado para a obtenção de melhores resultados econômicos, por meio da redução de custos e despesas e, consequentemente da elevação dos lucros. No entanto, não se pode esquecer que há exigências na legislação tributária que não podem ser desconsideradas. No caso, ainda que não tenha sido o propósito da empresa, as diferenças de preços praticados entre o estabelecimento industrial e o distribuidor interdependente nas operações onde há destaque de IPI destoam enormemente dos preços praticados entre o estabelecimento industrial e outros adquirentes, sem interdependência. Fica evidente que por serem produtos submetidos a elevadas alíquotas do IPI, alcançando em torno de 45%, qualquer redução no preço de venda dos referidos produtos, que compõe a base cálculo do citado imposto, tem elevada repercussão em relação à redução do valor do IPI devido nas correspondentes operações de saída, o que representa elevada economia tributária, fato confirmado pelos elevados valores do IPI que deixaram de ser devidos pela recorrente nos anos de 2013 e 2014 conforme demonstrativos em anexo e que são objeto do presente procedimento fiscal. Diante das constatações, fica evidenciado que os únicos preços por atacado confiáveis e que se revelam apropriados para fim de cálculo do VTM, sem dúvida, são os preços médios por atacado praticados pela Distribuidora, estabelecimento atacadistas exclusivo, nas operações de revenda para os seus clientes situados em todo território nacional, excluídos o valor do frete e do IPI. DO VALOR TRIBUTÁVEL. Fl. 740DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 4 5 O valor tributável a ser utilizado nas operações entre a CBC e a Distribuidora é definido conforme os artigos 195 e 196 do Decreto n° 7.212, de 26/12/2010 RIPI/2010), Para o presente caso, o de mercado atacadista monopolizado, a definição do procedimento de apuração do VTM encontrase definido no Parecer Normativo CST 89/1970, a seguir reproduzido: PARECER NORMATIVO CST N.° 89/70 Produto destinado a estabelecimento de firma interdependente: o valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente (RIPI, art. 21, inciso I). Estabelecimento que vende seus produtos a terceiros atacadistas e, além destes, para uma empresa, também atacadista, com a qual mantém relação de interdependência. Neste último caso, o valor tributável "não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", conforme dispõe o inciso I do art. 21 do Decreto n.° 61.514/67. O "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente" é, evidentemente, o preço de venda por atacado feita pelo mencionado estabelecimento, a terceiros, não interdependentes. Na falta de outros adquirentes, ou melhor, na remessa para estabelecimento que seja o único comprador do produto (firma interdependente), o valor tributável não poderá ser inferior ao preço de venda do adquirente, salvo se este operar, excl usivamente, na venda a varejo, devendo, neste caso, ser observado o disposto no inciso II e §§ 4.° e 5.° do art. 21 do RIPI. (grifos não originais) O texto em destaque deixa claro que, diante da existência de estabelecimento atacadista exclusivo ou monopolista, o VTM "não poderá ser inferior ao preço de venda praticado pelo estabelecimento adquirente"', que, no caso em tela, correspondem aos preços por atacado praticados pela Distribuidora. Deuse da forma seguinte a insurgência da Interessada: Embora a acusação seja de descumprimento das regras relativas ao VTM, ensejando suposto recolhimento a menor do IPI, a d. Fiscalização, presumindo que haveria um mercado monopolista, no qual a CBC Brasil figuraria como único adquirente dos produtos da Impugnante, sem explicar os motivos pelos quais os valores praticados pela Impugnante não estariam de acordo com a legislação, utilizouse dos preços praticados pela CBC Brasil para determinar a base de cálculo do IPI. Nesse ponto, ainda que se extraia do lançamento que a d. Fiscalização desconsiderou os valores praticados pela Impugnante e se utilizou dos preços praticados pela CBC Brasil, não . foram apresentadas quais as razoes de . fato e de direito Fl. 741DF CARF MF 6 que a levaram a concluir pela desconsideração dos referidos valores. Como se sabe, em se tratando de operações entre partes interdependentes, a apuração e recolhimento do IPI devem seguir os critérios legais relativos ao VTM que, como será detalhado adiante, devem observar a seguinte ordem: (i) preço corrente do produto no mercado atacadista da praça do remetente; (ii) inexistindo tal valor, o custo de fabricação acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade e margem; e (iii) sendo tais custos omissos ou não merecedores de fé, o resultado de arbitramento a ser realizado nos termos da legislação. Devido a inexistência de preço corrente do produto no mercado atacadista da praça da Impugnante (fato este não questionado pela d. Fiscalização), no desenvolvimento de suas atividades, o VTM é calculado com base nos custos e margens de seus produtos, conforme previsto na legislação. O afastamento de tal critério, todavia, dependeria da efetiva demonstração de sua irregularidade. Ou seja, em atendimento ao disposto na legislação, a d. Fiscalização deveria ter apresentado os fundamentos que a levaram a concluir que os valores utilizados pela Impugnante nas operações realizadas com a CBC Brasil estariam em desconformidade com a legislação relativa ao VTM ou, ainda, que as informações por ela prestadas seriam omissas ou não merecedoras de fé. Não é, todavia, o que ocorre no caso concreto. Afinal, basta uma leitura do Relatório de Verificação Fiscal para se verificar que não há qualquer informação a respeito das razões que levaram a d. Fiscalização a desconsiderar os valores informados pela Impugnante e concluir que "os únicos valores por atacado confiáveis" seriam aqueles praticados pela CBC Brasil. Nem se alegue que eventual fundamentação pudesse estar implícita no referido documento e que o fato de a Impugnante apresentar a presente Impugnação implicaria em eventual superação do vício constante da autuação. MÉRITO Ao dispor sobre os critérios para apuração do VTM, a própria administração tributária reconhece a limitação do conceito de praça aos limites de um município, cidade ou localidade, conforme se verifica dos trechos abaixo extraídos do PN CST n.° 44/81: "5. A norma superveniente determina, pois, ser 'o preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. Fl. 742DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 5 7 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, deforma isolada. (...)" (grifos nossos) Tal interpretação é corroborada, ainda, pela jurisprudência do E. CARF que, em diversas oportunidades reconhece expressamente a correspondência entre praça e cidade, bem como a impossibilidade de extensão de tal conceito. Vejamos: "IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente (...). As vendas realizadas pela empresa adquirente do produto, localizada em outra praça, não se prestam para cálculo do valor mínimo tributável (...). Recurso negado/' (Acórdãos n.° 204.02.706 e 204.02.707, julgados em 15/08/2007) Do critério adotado pela Impugnante Regularidade do VTM calculado com base no parágrafo único, inciso II, do artigo 196, do RIPI/2010 Não obstante a d. Fiscalização tenha desconsiderado os valores apresentados pela Impugnante sem apresentar os motivos pelos quais estes não poderiam ter sido considerados, o que como demonstrado preliminarmente é causa evidente da nulidade do Auto de Infração, fato é que, conforme se passa a demonstrar, o valor por ela adotado está em total conformidade com a legislação, não havendo que se falar em recolhimento a menor de IPI. No caso sob análise, considerando a inexistência de mercado atacadista na praça da Impugnante (Montenegro/RS) fato este sequer questionado pela d. Fiscalização e a consequente impossibilidade de se aplicar o primeiro critério para apurar o VTM aplicável às operações por ela realizadas, adotouse o segundo critério, previsto no parágrafo único, inciso II, do artigo 196, do RIPI/2010. Assim, valendose do referido critério, a Impugnante calculou o VTM aplicável às operações realizadas com a CBC Brasil, calculandoo a partir do preço do custo de fabricação dos produtos, acrescido dos demais custos (custos financeiros, de venda, de administração, de publicidade, bem como margem de lucro, etc). Nesse sentido, ao se deparar com preços distintos praticados pela Impugnante e pela CBC Brasil, sem sequer intimála para aprofundar quais seriam as práticas adotadas em seu mercado, com o objetivo de compreender melhor o seu modelo de Fl. 743DF CARF MF 8 negócios, a d. Fiscalização p r e s u m i u q u e " os únicos preços por atacado confia veis e que se re velam apropriados para fim de cálculo do VTM' seriam os da CBC Brasil, empresa atuante em mercado completamente distinto ao da Impugnante. Ocorre que, diferentemente do que faz entender a d. Fiscalização, tal entendimento, não merece prosperar. Afinal, os valores informados pela Impugnante se encontram em consonância com a legislação, não havendo razões para a sua desconsideração. Inicialmente, cumpre esclarecer que, considerando o tipo de negócio realizado pela Impugnante e as obrigações regulatórias a serem observadas na fabricação de seus produtos, o custo de produção varia de acordo com a quantidade de produtos fabricados no período. Como amplamente demonstrado em tópico anterior, a Impugnante fabrica diversos tipos de produtos, classificados em diversas categorias. Considerando a sua destinação, tais produtos podem ser vendidos para um mercado especializado (Forças Armadas, Polícias, etc.) ou para um mercado não especializado (segurança privada, tiro e caça esportivos), apresentando produtos de uso restrito ou permitido. A despeito da existência de critério regular adotado pela Impugnante para apuração do VTM, a d. Fiscalização procedeu a sua desconsideração arguindo que haveria supostas divergências nos preços praticados entre CBC e Distribuidora, CBC e outros cliente e CBC Brasil e clientes. Ademais, como detalhado anteriormente, há outras empresas que atuam no nicho de mercado da CBC Brasil, tais como Rossi, Fixxar, Gamo, QGK e que, por sua vez, deixam claro a existência de concorrência e reforçam a inexistência de monopólio no setor. Não obstante o exposto, fato é que a jurisprudência é pacífica ao reconhecer que o preço praticado pelo adquirente, seia este exclusivo ou não, não figura como critério a ser adotado para . fins de VTM e, portanto, não deve ser aplicado. Nesse sentido, já entendeu o antigo Conselho de Contribuintes: "IPI BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, 'a', do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o _praticado pelo adcpiirente. Recurso de ofício negado" (g.n Processo n° 202 18215). Não obstante o posicionamento da jurisprudência sobre o tema, destacase que os próprios atos administrativos PN CST n.° 44/8113 e ADN CST n.° 5/8214 reforçam tal impossibilidade e apresentam vedação expressa sobre a possibilidade de Fl. 744DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 6 9 consideração de preços praticados por um único estabelecimento, como verificado no presente caso. Assim, considerando que a Impugnante e a CBC Brasil são localizados em praças distintas, estando a Impugnante situada na cidade de Montenegro, Estado do Rio Grande do Sul, e a CBC Brasil em São Paulo, capital, não haveria que se falar na aplicação de tal critério, sendo necessário o afastamento da base de cálculo determinada pela d. Fiscalização. Nesse sentido, citase o acórdão n.° 340100.768, que dispõe expressamente acerca da impossibilidade de se considerar preços praticados em outra praça, que não a do remetente, para fins de determinação do VTM: "Como muito bem observado nestes autos, a resposta a este quesito é de extrema valia, uma vez que o Ato Declaratório CST n° 5/82, o Parecer Normativo CST n° 44/81 e os artigos 68 do RIPI/82 e 123, I, do RIPI/98 determinam que o valor tributável do IPI base de cálculo do IPI nas operações entre empresas interdependentes será o preço corrente no mercado atacadista na praça do remetente, ou seja, na praça da cidade onde está localizada a autuada, in casu, cidade de São Paulo. Que fique bem claro, por oportuno, que tais dispositivos afastam quaisquer hipóteses de inclusão na média ponderada de preços praticados por empresas atacadistas localizadas em outras praças que não a do remetente. Não obstante o exposto, ainda que se admita a existência de um único adquirente no caso concreto, permanece imperiosa a necessidade de afastamento dos preços praticados pela CBC Brasil como base de cálculo do IPI. Isso porque, caso essa premissa fosse verdadeira, o que se admite apenas em respeito ao princípio da eventualidade, seguindo o raciocínio adotado pela d. Fiscalização, com o qual não se concorda, a Impugnante pratica vendas em grandes volumes para a CBC Brasil, devendo seus valores serem considerados no cálculo da média de preços para se chegar ao VTM pretendido. Não obstante, a corroborar pela impossibilidade de aplicação da lógica pretendida pela d. Fiscalização, a Impugnante e a CBC Brasil, embora interdependentes, atuam em mercados completamente distintos: enquanto a primeira é responsável pela industrialização dos produtos a serem vendidos em grandes lotes e quantidades para um mercado especializado no setor de defesa e segurança nacional (órgãos públicos e exportação), a CBC Brasil (que adquire parte dos produtos produzidos pela Impugnante) é responsável pela venda de produtos a um mercado não especializado (segurança privada, caça e tiro Fl. 745DF CARF MF 10 esportivo), voltado para o setor do varejo e com vendas pulverizadas. Diferentemente da Impugnante, a CBC Brasil incorre em gastos com logística, gastos comerciais e operacionais inerentes a sua atividade altamente regulamentada de promover a distribuição e a venda dos seus produtos de forma pulverizada, em todo o Brasil. Destaquese, ainda, que, como decorrência dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, é imperioso que nos processos administrativos seja adotado critério da vedação da aplicação de multas em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público. *A imposição da multa, nesse patamar, revela que o critério utilizado desconsidera as circunstâncias do fato, da situação do contribuinte e de sua atividade, bem como qualquer outro parâmetro razoável para balizar o cálculo da penalidade, incluindo a intenção do contribuinte. Neste sentido, em primeiro lugar, ressaltese que o artigo 3o do CTN estabelece que o tributo é uma prestação pecuniária que não constitui sanção por ato ilícito. Por esse motivo, o tributo não pode ser utilizado para punir, da mesma forma que as sanções não podem ser utilizadas como instrumento de arrecadação disfarçado. *Assim, demonstrado que (i) multa não é tributo; e (ü) só há previsão legal para que os juros calculados à taxa SELIC incidam sobre tributo (e não sobre multa), a cobrança de juros sobre a multa desrespeita o princípio constitucional da legalidade, expressamente previsto nos artigos 5o, II, e 37 da Constituição Federal20. Nesse sentido, citese, por oportuno, trecho do voto proferido no Acórdão n° 20178.718 que deixa claro o entendimento manifestado pela então denominada Primeira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes: "A portaria n° 379, de 23 de dezembro de 1988, tinha por pressuposto outra legislação já revogada. No caso da Selic, não há previsão legal para incidência de juros sobre a multa, mas apenas sobre o tributo", (g.n.) Em 23 de fevereiro de 2018, a 3a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Juiz de Fora/MG por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Entendeu a Turma que: ü Não vejo consistência na alegação de que a fundamentação do lançamento não teria sido explicitada no Termo de VerificaçãoTVF. O referido documento é claro, abrangente e descreve pormenorizadamente a trilha operacional e legal seguida pela Autoridade Fiscal. Depois de analisar todos os produtos comercializados pela CBC e de explicitálos em comparativo de Fl. 746DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 7 11 preços por meio de tabelas explicativas, o Autuante concluiu com um texto objetivo, que nenhuma dúvida deixou acerca do objetivo da fiscalização e das conclusões advindas da auditoria; ü Não se vislumbra alternatividade na obrigação tributária em questão. Há, em lugar disso, uma hierarquização bem delineada pelo legislador. Se há mercado atacadista na praça de quem remete o produto, imperiosa é a utilização do disposto no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010; se não há, que se utilize a regra residual que elege a soma dos elementos de formação do preço do produto como base imponível do IPI; ü A CBC Brasil revestese da condição de revendedor atacadista monopolista e que, nessa condição, representaria ela, em carreira solo, o mercado atacadista demandado pelo RIPI cujos preços serviriam de parâmetro para aplicação do valor tributário mínimo; ü Claro está que ao separar os nichos de mercado, a CBC: 1 reservou para si as vendas dos produtos fabricados e destinados a grandes clientes; 2 repassou para sua ü interdependente, CBC Brasil, a comercialização de produtos outros, destinados, em operações ü pulverizadas, a consumidores os mais diversos. E conforme constatou a Fiscalização, os produtos não se confundem; e como não se confundem, assomase a condição da CBC Brasil de revendedor exclusivo atacadista dos produtos que comercializa, gerador portanto dos preços a serem tomados como parâmetro para aplicação do inciso I do artigo 195 do RIPI; ü O posicionamento da Receita Federal é claro: se há um único distribuidor interdependente de estabelecimento industrial fabricante, o VTM corresponderá aos preços praticados pelo distribuidor. E no presente caso, temos, sim, um único distribuidor de todos os produtos objeto do auto de infração, qual sejam os produtos comercializados pela CBC Brasil; ü A Terceira Turma da DRJ/JFA adotou posicionamento expresso no Acórdão nº 60.794/2016; ü Fechando o raciocínio, temos um atacadista interdependente corretamente identificado como distribuidor exclusivo dos produtos que revende, localizado no perímetro de atuação comercial do fabricante e que portanto pode ser eleito como gerador de parâmetro de preços para fins de cumprimento do Valor Tributável Mínimo nos termos do inciso I do artigo 195 do RIPI/2010; ü A discussão acerca do suposto aspecto confiscatório da multa aplicada nos termos do artigo 44 da Lei n° 9.430/96 tem contornos de questionamento de validade de norma jurídica em pleno vigor, o que Fl. 747DF CARF MF 12 extrapola o perímetro de atuação do julgador administrativo. E mais, em se tratando de matéria constitucional, como é o caso do argumento de presença de confisco, aplicase de imediato a Súmula CARF n° 2, que repele a legitimidade de juízo de valor a respeito de tal matéria por parte dos órgãos de julgamento administrativos. A empresa autuada foi cientificada do Acórdão de Impugnação em 28/02/2018, folhas 453, ingressando com Recurso Voluntário em 02/04/2018, folhas 455, de folhas 457 a 506. Em síntese, foi alegado que: ü O mercado em que atua a Recorrente não se confunde com o mercado de atuação da CBC Brasil, sendo que o modelo de negócios decorre das próprias especificidades regulatórias; ü Os custos, as exigências regulatórias, logísticas e comerciais, bem como riscos nos mencionados negócios são completamente diferentes. Consequentemente, o custo, a margem e o preço de cada nicho de mercado observa as suas respectivas especificidades; ü Em que pese a d. Fiscalização afirme que não se poderia esquecer do cumprimento das exigências da legislação tributária, os esclarecimentos necessários quanto aos nichos de mercado existentes evidenciam que não se pode presumir a existência de "mercado atacadista notoriamente monopoiistat', pois: a configuração do mercado armamentista não condiz com referida suposição; sustentar o contrário do afirmado pelo CADE no que se refere à inexistência de mercado monopolista afrontaria o disposto no artigo 110 do Código Tributário Nacional ("CTN"); inaplicáveis os preços de mercado do nicho da distribuidora como passíveis de adoção nas operações praticadas pela Recorrente, as quais possuem nichos com especificidades únicas, as quais não podem ser sumariamente desconsideradas; ü A r. decisão proferida pela E. DRJ deve ser declarada nula por vício de fundamentação e cerceamento do direito de defesa, já que deixou de analisar argumentos e provas apresentados e se limitou à transcrição de trechos diversos cerca de 24 páginas de transcrição em um acórdão com 29 folhas; ü Adoção de presunções pela r. decisão recorrida e desconsideração das provas apresentadas pela Recorrente em sede de Impugnação; ü Da necessidade de reforma da r. decisão recorrida Dos equívocos da E. DRJ que serviram de premissa para a manutenção do lançamento; ü Nulidade da Autuação por ausência de pressupostos de validade; ü Necessidade de reforma da r. decisão recorrida Impossibilidade de se aplicar o preço praticado pela CBC Brasil no caso concreto Inobservância dos critérios legais para a definição do VTM; ü Presunção de mercado monopolista; Fl. 748DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 8 13 ü Impossibilidade de consideração do preço de venda da Distribuidora para definição do VTM à luz do artigo 195, I, do RIPI; ü Improcedência e ilegalidade da multa de ofício Vedação ao Confisco; ü Ilegalidade da Cobrança dos Juros sobre a Multa. DO PEDIDO Diante do exposto, requer a este E. Conselho que o presente Recurso seja recebido para que o Auto de Infração seja declarado nulo por inobservância dos requisitos de validade do lançamento. Caso assim não se entenda, requer seja declarada nula a r. decisão recorrida por descumprimento dos requisitos legais de sua validade, especialmente por violação aos princípios da ampla defesa e contraditório. Por fim, na remota hipótese de não acolhimento das preliminares de nulidade arguidas, no mérito, requer a reforma da r. decisão recorrida pelos fundamentos acima determinandose o cancelamento integral do Auto de Infração. A Procuradoria da Fazenda Nacional ingressou com Contrarrazões de folhas 634 a 670. Em síntese, foi alegado que: ü Da validade do lançamento e da decisão recorrida; ü Da irrelevância da análise da legalidade do modelo de negócio da recorrente; ü Do valor tributável mínimo; ü Do conceito de praça; ü O legislador não utiliza palavras inúteis; ü O comércio não conhece fronteiras geopolíticas; ü O conceito comercial de “praça”; ü A finalidade da norma tributária do VTM; ü O “mercado atacadista” quando o interdependente é destinatário exclusivo; ü O conceito de “praça” na jurisprudência do CARF ü Dos juros sobre a multa de ofício. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lima Abud – Relator. Da admissibilidade. Fl. 749DF CARF MF 14 Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que a recorrente teve ciência da decisão de primeira instância em 28 de fevereiro de 2018, por via eletrônica, às folhas 453 do processo digital. A contagem do prazo de 30 (trinta) dias se iniciou em 01/03/2018. No dia 30/03/2018, término do prazo, foi feriado nacional (Paixão de Cristo). O prazo restou prorrogado para o dia 02/04/2018, primeiro dia útil subsequente. O recurso voluntário foi apresentado em 02 de abril de 2018, sendo, portanto, tempestivo. Da controvérsia. Foram alegados os seguintes pontos: ü A r. decisão proferida pela E. DRJ deve ser declarada nula por vício de fundamentação e cerceamento do direito de defesa; ü Adoção de presunções pela r. decisão recorrida e desconsideração das provas apresentadas pela Recorrente em sede de Impugnação; ü Da necessidade de reforma da r. decisão recorrida Dos equívocos da E. DRJ que serviram de premissa para a manutenção do lançamento; ü Nulidade da Autuação por ausência de pressupostos de validade; ü Necessidade de reforma da r. decisão recorrida Impossibilidade de se aplicar o preço praticado pela CBC Brasil no caso concreto Inobservância dos critérios legais para a definição do VTM; ü Presunção de mercado monopolista; ü Impossibilidade de consideração do preço de venda da Distribuidora para definição do VTM à luz do artigo 195, I, do RIPI; ü Improcedência e ilegalidade da multa de ofício Vedação ao Confisco; ü Ilegalidade da Cobrança dos Juros sobre a Multa. Passase à análise. Iniciase a presente análise com a transcrição do artigo 612 do RIPI/2010, tendo por destaque os incisos I e IV: Art. 612. Considerarseão interdependentes duas firmas: I quando uma delas tiver participação na outra de quinze por cento ou mais do capital social, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o Fl. 750DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 9 15 segundo grau e respectivos cônjuges, se a participação societária for de pessoa física (Lei n° 4.502, de 1964, art. 42, inciso I, e Lei no 7.798, de 1989, art. 9°); II quando, de ambas, uma mesma pessoa fizer parte, na qualidade de diretor, ou sócio com funções de gerência, ainda que exercidas sob outra denominação (Lei n° 4.502, de 1964, art. 42, inciso II); III quando uma tiver vendido ou consignado à outra, no ano anterior, mais de vinte por cento no caso de distribuição com exclusividade em determinada área do território nacional, e mais de cinquenta por cento, nos demais casos, do volume das vendas dos produtos tributados, de sua fabricação ou importação (Lei n° 4.502, de 1964, art. 42, inciso III); IV quando uma delas, por qualquer forma ou título, for a única adquirente, de um ou de mais de um dos produtos industrializados ou importados pela outra, ainda quando a exclusividade se refira à padronagem, marca ou tipo do produto (Lei n° 4.502, de 1964, art. 42, parágrafo único, inciso I); ou V quando uma vender à outra, mediante contrato de participação ou ajuste semelhante, produto tributado que tenha fabricado ou importado (Lei n° 4.502, de 1964, art. 42, parágrafo único, inciso II). Parágrafo único. Não caracteriza a interdependência referida nos incisos III e IV a venda de matériasprimas e produtos intermediários, destinados exclusivamente à industrialização de produtos do comprador. (Grifo e negrito nossos) Tipificação no inciso I do artigo 612 do RIPI/2010: A empresa industrial COMPANHIA BRASILEIRA DE CARTUCHOS, informou, através do TIPF – Item 02 , que de acordo com a DIPJ AC 2013, ficha 62, o percentual de participação permanente em coligadas ou controladas é de 99,99%: A Companhia Brasileira de Cartuchos (CNPJ nº 57.494.031/000163) é sócia da CBC Brasil Comércio e Distribuição Ltda (CNPJ 61.482.725/000158) detentora de cotas que representam mais de 15% do capital social e, portanto, há relação de interdependência entre elas. Fl. 751DF CARF MF 16 A CBC (CNPJ 57.494.031/000163) e a Distribuidora fazem parte de um mesmo grupo econômico: uma detém 99,99% do capital da outra e, portanto, mantêm relação de interdependência. Tipificação no inciso IV do artigo 612 do RIPI/2010: No presente caso, temos, um único distribuidor de todos os produtos objeto do auto de infração, qual sejam os produtos comercializados pela CBC Brasil. Portanto, a situação em análise se enquadra tanto no inciso I. quanto no inciso IV, do artigo 612 do RIPI/2010, o que implica em interdependência de duas firmas, por força de Lei. Consequência normativa da situação de interdependência de duas firmas: a aplicação do Valor Tributável Mínimo. Comprovada a interdependência, é imperiosa a aplicação do art. 15, I da Lei n° 4.502, para determinação do valor tributável mínimo. Art. 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto fôr remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro incluído no artigo 42 e seu parágrafo único; (Grifo e negrito nossos) Para o cálculo do valor tributável mínimo, a legislação prescreve: Decreto n° 7.212, de 2010 RIPI Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei n° 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e DecretoLei no 34, de 1966, art. 2o, alteração 5a); (...) Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195, será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomarseá por base de cálculo: I no caso de produto importado, o valor que serviu de base ao Imposto de Importação, acrescido desse tributo e demais Fl. 752DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 10 17 elementos componentes do custo do produto, inclusive a margem de lucro normal; e II no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. (Grifo e negrito nossos) Assim, para fins de determinação do preço mínimo, deve a autoridade autuante: 1. verificar a existência de relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, nos termos do art. 612 do RIPI/2010; 2. caso configurada tal relação, deverá verificar se a contribuinte obedeceu, por sua vez, à regra do valor tributável mínimo, assim entendido como o "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", em conformidade com o art. 195 do RIPI/2010. Nulidade da r. decisão recorrida Vício de fundamentação e cerceamento do direito de defesa É alegado às folhas 10 e 11 do Recurso Voluntário: A r. decisão recorrida é nitidamente nula, pois se limitou a reproduzir argumentos e fundamentos já constantes no processo, atos normativos, raciocínios de outros julgamentos, sem, contudo, explicar o motivo concreto de sua relação/incidência no caso concreto. De fato, do confronto entre as razões apresentadas em sua peça impugnatória e as alegações insertas na r. decisão recorrida, constatase que a r. decisão recorrida desconsiderou sumariamente pontos essenciais ao deslinde do presente processo administrativo, afetando, assim, o exercício do contraditório e da ampla defesa pela Recorrente. Nesse sentido, vejase que a r. decisão recorrida não examina os fatos e argumentos trazidos no tópico II da Impugnação, relativos à inexistência do suposto monopólio presumido pelo lançamento. Ao contrário, se limitou a repisar as premissas e presunções adotadas pelo lançamento, omitindose em enfrentálos. (Negrito nosso) Às folhas 11 do Recurso Voluntário é introduzido argumento referente a existência de empresas concorrentes do mesmo nicho de mercado da CBC Brasil, o que implicaria na inexistência de monopólio: Fl. 753DF CARF MF 18 Além disso, embora a Recorrente tenha indicado a existência de empresas concorrentes do mesmo nicho de mercado da CBC Brasil, colacionando até mesmo imagens dos produtos similares por elas comercializados, a r. decisão recorrida furtouse de combater os argumentos trazidos, tendo afirmado vagamente que não há nos autos qualquer indício de que haveria no mercado a que se dedica a Autuada produtos com similaridade significativa àqueles produzidos pela CBC (fl. 434). Igualmente, a r. decisão recorrida não traz qualquer menção à estrutura comercial e operacional da Recorrente, tampouco quanto à alta regulação do mercado e quanto aos seus impactos no modelo adotado que foi fiscalizado. Não bastasse, a r. decisão recorrida repisa as mesmas presunções e equívocos adotados pelo lançamento, não tendo indicado a motivação para a adoção como critério para a apuração da base de cálculo do IPI o preço praticado pela CBC Brasil, novamente deixando de avaliar a inaplicabilidade de adoção do critério pretendido frente às especificidades do nicho de mercado de atuação da Recorrente. A questão foi enfrentada pelo Acórdão de Impugnação, às folhas 14, da seguinte forma: E no presente caso, temos, sim, um único distribuidor de todos os produtos objeto do auto de infração, qual sejam os produtos comercializados pela CBC Brasil. Além disso, frisese que não há nos autos qualquer indício de que haveria no mercado a que se dedica a Autuada produtos com similaridade significativa àqueles produzidos pela CBC. A vaga indicação, por parte da Autuada, de que empresas como a Rossi, Fixxar, Gamo e QGK pertenceriam ao mesmo ramo de atividade não comprova a presença de similaridade técnico funcional capaz de afastar a ilação de que estamos tratando de um fabricante que destina determinada parcela de seus produtos a um distribuidor interdependente exclusivo, que comercializa produtos exclusivos, o que nos faz zelar pela aplicação do inciso I do artigo 195 do RIPI/2010, devendo, em decorrência do citado dispositivo, ser obedecido o VTM na forma preconizada na norma em comento. Por via de conseqüência, resta afastada a possibilidade de utilização do critério estabelecido no parágrafo único, inciso II, do artigo 196, erroneamente utilizado pela Contribuinte. Em nosso auxílio, transcrevese o PARECER NORMATIVO CST N.° 89/70: 01.08.01 VALOR TRIBUTÁVEL Produto destinado a estabelecimento de firma interdependente: o valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente (RIPI, art. 21, inciso I). Estabelecimento que vende seus produtos a terceiros atacadistas e, além destes, para uma empresa, também atacadista, com a qual mantém relação de interdependência. Neste último caso, o Fl. 754DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 11 19 valor tributável "não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", conforme dispõe o inciso I do art. 21 do Decreto n° 61.514/67. O "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente" é, evidentemente, o preço de venda por atacado feita pelo mencionado estabelecimento, a terceiros, não interdependentes. Na falta de outros adquirentes, ou melhor, na remessa para estabelecimento que seja o único comprador do produto (firma interdependente), o valor tributável não poderá ser inferior ao preço de venda do adquirente, salvo se este operar, exclusivamente, na venda a varejo, devendo, neste caso, ser observado o disposto no inciso II e §§ 4.° e 5.° do art. 21 do RIPI. (grifos não originais) O preâmbulo do presente VOTO trouxe dois elementos fáticos, que não mereceram qualquer esforço de refutação por parte da Recorrente, que implicam em interdependência das duas firmas por força normativa (incisos I e IV do artigo 612 do RIPI/2010) que exigirá o valor tributável mínimo, ou seja, o valor tributável não poderá ser inferior ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente. A situação descrita no Termo de Verificação Fiscal expõe a presença de um único distribuidor interdependente de estabelecimento industrial fabricante, que nos moldes do PARECER NORMATIVO CST N.° 89/70 também exigirá o valor tributável mínimo Independentemente de estar configurado monopólio ou não, da presença no mercado interno de outros concorrentes ou não, foi constatada a situação tipificada no inciso I do artigo 195 do RIPI/2010 e aquela descrita no PARECER NORMATIVO CST N.° 89/70, o que indica precisa e adequada a aplicação do valor tributável mínimo. Adoção de presunções pela r. decisão recorrida e desconsideração das provas apresentadas pela Recorrente em sede de Impugnação É alegado às folhas 15 e 16 do Recurso Voluntário: Aqui é possível observar outra arbitrariedade cometida no lançamento: acusação indiciária de que as diferenças de preço não seriam confiáveis sem, contudo, existir qualquer comprovação da existência ou autoria de qualquer fato ilícito. Entretanto, o que salta aos olhos é o fato de que a r. decisão recorrida, mais uma vez, se refutou em analisar as considerações da Recorrente e, novamente, não dedicou sequer 1 (uma) linha para abordar a confiabilidade do critério adotado pela Recorrente, bem como a sua motivação para imputar a aplicação de critério diverso. Ocorre que, diferentemente do que faz entender a d. Fiscalização e como alegado pela Recorrente em sede de Impugnação, tal entendimento, não merece prosperar. Afinal, os valores informados pela Recorrente se encontram em consonância com a legislação, não havendo razões para a sua desconsideração. Fl. 755DF CARF MF 20 Nesse sentido, ao se deparar com preços distintos praticados pela Recorrente pela CBC Brasil, sem sequer enfrentar quais seriam as práticas adotadas em seu mercado, com o objetivo de compreender melhor o seu modelo de negócios, referida decisão reproduziu a presunção, sem trazer qualquer elemento de prova e/ou apresentar qualquer justificativa. Ademais, na tentativa de combater as demonstrações da Recorrente acerca dos produtos similares comercializados por seus concorrentes, a r. decisão recorrida se limitou a afirmar que "a vaga indicação, por parte da Autuada, de que empresas como a Rossi, Fixxar, Gamo e QGK pertenceríam ao mesmo ramo de atividade não comprova a presença de similaridade técnicofuncionai'\f\s. 434). Entretanto, como é possível observar às fls. 19 da Impugnação, a Recorrente não indicou vagamente os produtos, mas colacionou imagens palpáveis de outros fornecedores de armamentos no mercado brasileiro. Ou seja, na verdade, a r. decisão recorrida, mais uma vez, se furtou em analisar argumentos e provas colacionadas à Impugnação, buscando ainda imputar à Recorrente o ônus da prova, em patente tentativa de se punir com base em presunções. E nem se alegue que eventual fundamentação pudesse estar implícita no referido documento e que o fato de a Recorrente ter apresentado a Impugnação implicaria em eventual superação do vício constante da autuação. Como dito. A postura da fiscalização não foi desprovida de critério, posicionamento que a Recorrente quer fazer prevalecer em sua argumentação. Como evidenciado, dois fatos trazidos pelo Termo de Verificação Fiscal ( incisos I e IV do artigo 612 do RIPI/2010) apontam para a interdependência entre empresas e exigem a aplicação do Valor Tributável Mínimo ( inciso I, artigo 195 do RIPI/2010 ). Nulidade da Autuação por ausência de pressupostos de validade Após a transcrição do artigo 142 do Código Tributário Nacional, o Recorrente assim se manifestou às folhas 21 do Recurso Voluntário: Da leitura do artigo acima depreendese que a validade do ato administrativo de lançamento tributário depende da observância de requisitos básicos inerentes ao próprio procedimento correspondente ao lançamento, como a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, a determinação da matéria tributável e apuração do montante do tributo devido. Isto é, considerando o disposto no artigo 142 do CTN, a autoridade fiscal não pode simplesmente imputar ao contribuinte o cometimento de uma infração à legislação tributária, sem demonstrar e comprovar precisamente a ocorrência dos fatos identificados/apontados e a sua consequência lógica que é a suposta infração à legislação tributária. Em outras palavras, o lançamento tributário somente será válido se restar perfeitamente comprovada a correspondência lógica Fl. 756DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 12 21 entre os fatos identificados e a consequente infração imputada ao contribuinte. No mesmo sentido, a legislação federal também condiciona a validade do Auto de Infração à observância de certos requisitos formais e de conteúdo, dentre os quais destacamse a necessidade de descrição dos fatos e determinação da exigência, como se pode observar do art. 10 do Decreto n. 70.235/72: E foi exatamente assim que a fiscalização procedeu: Identificados fatos que apontavam para a interdependência entre empresas ( incisos I e IV do artigo 612 do RIPI/2010) houve a aplicação do Valor Tributável Mínimo, por força normativa do inciso I, artigo 195 do RIPI/2010. DO MÉRITO Necessidade de reforma da r. decisão recorrida Impossibilidade de se aplicar o preço praticado pela CBC Brasil no caso concreto Inobservância dos critérios legais para a definição do VTM É alegado às folhas 26 do Recurso Voluntário: ü Presunção de mercado monopolista Como descrito, no entendimento da d. Fiscalização, entendimento repisado pela r. decisão recorrida, a Recorrente teria deixado de observar as regras relativas ao VTM, pois, diante do contexto de um mercado monopolista, de acordo com o Parecer Normativo CST n.0 89/70, o VTM a ser considerado em operações destinadas a um único adquirente "não poderá ser inferior ao preço de venda do adquirente' que, no caso sob análise, seria relativo ao preço praticado pela CBC Brasil. Ou seja, de acordo com a fiscalização, fato repisado pela r. decisão recorrida, havería a caracterização de um "mercado atacadista notoriamente monopolista', atraindo a aplicação do Parecer Normativo CST n0 89/70. Nesse ponto, a r. decisão recorrida repisa tal presunção de monopólio sob a fundamentação de que "não há nos autos qualquer indício de que havería no mercado a que se dedica a Autuada produtos com similaridade significativa àqueles produzidos peia CBC' (fl. 434). Outra vez o Recorrente se apega a uma argumentação desconexa, pois o que ocasionou a aplicação do Valor Tributável Mínimo, não foi a presunção de monopólio, mas a interdependência entre empresas ( incisos I e IV do artigo 612 do RIPI/2010) que exigiu a aplicação do Valor Tributável Mínimo, por força normativa do inciso I, artigo 195 do RIPI/2010. É alegado às folhas 28 do Recurso Voluntário: Portanto, a total desconsideração dos preços praticados pela Recorrente sem fundamentação, atrelada à imposição de valores das operações da distribuidora não se sustenta, eis que Fl. 757DF CARF MF 22 desconsidera o contexto e as especificidades regulatórias do nicho de mercado, o que não se pode admitir. Não bastasse o acima exposto, devese evidenciar a existência de concorrência no mercado de atuação da Recorrente. Nesse ponto, novamente apresentamos provas que evidenciam claramente a existência de concorrência, a qual é passível de identificação não apenas da simples análise das fotos apresentadas, como no que se refere ao aspecto técnico funcional dos produtos comercializados no mercado de armas e munições. Considerando a grande variedade de produtos autuados, a demonstrar a absoluta impropriedade da presunção adotada no sentido de existência de mercado monopolista, a Recorrente destaca abaixo, por amostragem, algumas das provas colacionadas com vistas a evidenciar a existência de concorrência no mercado de atuação da Recorrente: A fiscalização não desconsiderou preços praticados pela Recorrente ao seu alvedrio. Em estrita observância à Lei, uma vez constatada a interdependência entre empresas ( incisos I e IV do artigo 612 do RIPI/2010), a própria legislação exige a aplicação do Valor Tributável Mínimo, por força normativa do inciso I, artigo 195 do RIPI/2010. ü Regras de VTM As laudas 33 a 36 do Recurso Voluntário reforçam o entendimento até aqui esposado, que pode ser sintetizado no seguinte fragmento de folhas 33: Em se tratando de operações entre partes interdependentes (artigo 612, do RIPI/2010), a legislação prevê regras específicas, nas quais a determinação da base de cálculo do IPI deverá observar certos limites e parâmetros. Nesse sentido, considerando que a Recorrente e a CBC Brasil são partes interdependentes, a determinação da base de cálculo do IPI incidente em suas operações deve levar em consideração as regras atinentes ao chamado valor tributável mínimo VTM. O valor tributável mínimo corresponde ao limite a partir do qual deve ser calculado o IPI em situação específica, definida pelo legislador complementar. É uma base de cálculo presumida mínima que deve ser considerada em determinadas situações na qual o legislador identificou uma circunstância especial, para a qual entendeu que deveria ser estabelecido um limite de base de cálculo específico. (Grifo e negrito nossos) Portanto, o próprio argumento apresentado pelo Recorrente, corrobora com a linha de raciocínio apresentada no VOTO até agora. Especificamente, às folhas 36 e 37 a Recorrente nos remete a uma outra questão: Assim, não havendo mercado atacadista na praça do remetente, deve ser aplicado, invariavelmente o segundo critério para Fl. 758DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 13 23 apuração do VTM, previsto no inciso II do parágrafo único do artigo 196, cuja redação define que, para produtos nacionais, a base de cálculo do IPI será calculada a partir do (i) custo de fabricação acrescido dos (ii) custos financeiros, dos (/ii) custos de venda, dos (/V) custos de administração e dos (v) custos de publicidade, bem como de sua (vi) margem de lucro normal e (vii) das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos tenham sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. Caso não seja possível auferir tal valor ou se demonstre a impossibilidade de utilizar as informações e dados detidos pelo contribuinte, no artigo seguinte, 197 do RIPI/2010, o legislador estabeleceu que "o Fisco poderá arbitrar o valor tributável ou qualquer dos seus elementos, quando forem omissos ou não merecerem fé os documentos expedidos pelas partes'. Tratase, todavia, de exceção à regra, que deve ser aplicada apenas em última hipótese e diante da demonstração da impossibilidade de se calcular o VTM conforme os parâmetros estabelecidos na lei, o que não ocorre no caso em análise. Aqui já é possível perceber, portanto, a regularidade do VTM adotado pela Recorrente. Como visto, restou incontroverso nos autos que não há mercado atacadista na praça da Recorrente. Dessa forma, inexistindo o "preço corrente no mercado atacadista" da praça do remetente a que alude o artigo 195,1, do RIPI, a legislação determina a aplicação do segundo critério, tal como disposto no inciso II, parágrafo único, do artigo 196 do RIPI. (Grifo e negrito próprios do original) Como se sabe, em conformidade com o art. 46 do Código Tributário Nacional, o imposto sobre produtos industrializados, previsto no inciso IV do art. 153 da Constituição de 1988, tem, como fato gerador: 1. o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; 2. a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51 da norma; e 3. a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. O art. 51 do diploma em referência, por sua vez, determina que a contribuinte do imposto é o industrial (ou equiparado) e o comerciante de produtos sujeitos ao IPI que os forneça a industriais ou equiparados. Da simples leitura de tais dispositivos, é possível se concluir, e.g., que a venda de distribuidora para consumidor final não se convola como fato gerador do imposto. Uma vez definida a sua materialidade, depreendese da leitura do art. 474 a base de cálculo do IPI correspondente em uma operação de saída do produto interno: Fl. 759DF CARF MF 24 a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria, ou b) na falta dele, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente. Nos termos do quanto preceituado pelo art. 190 do Decreto n° 7212/2010 (Regulamento do IPI), constitui "valor tributável" dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, assim entendido como o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. O art. 195 do RIPI/2010, por seu turno, de forma a ecoar o preceptivo normativo do alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional, dispõe a respeito da necessidade de um valor mínimo tributável no caso de produto destinado a outro Estabelecimento do próprio remetente: o preço corrente no mercado atacadista da praça do próprio remetente, cf. inciso I do art. 15 da Lei n° 4.502/1964 e art. 2° do DecretoLei no 34/1966. O propósito do legislador foi garantir que o IPI viesse a incidir sobre uma base de cálculo cuja dimensão econômica resguardasse o valor do mercado, evitando artificialismo na fixação dessa base de cálculo. O posicionamento da Receita Federal é claro: se há um único distribuidor interdependente de estabelecimento industrial fabricante, o VTM corresponderá aos preços praticados pelo distribuidor. Solução de Consulta Interna n° 08 COSIT, de 13 de junho de 2012 O inciso I do art. 195 do RIPI/2010 assim dispõe sobre a matéria, in verbis: Art.195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência; Observase que o dispositivo legal acima não faz qualquer referência ao número mínimo de ofertantes que devem atuar no mercado para que este seja caracterizado como um “mercado atacadista”. Tampouco faz qualquer distinção entre mercados monopolizados, oligopolizados, livre concorrência ou monopsônio. Desse modo, não havendo base legal para se estabelecer o número mínimo de ofertantes, nem distinções entre os tipos de mercado, deve ser aplicada a regra prevista no inciso I do art. 195 do RIPI/2010 sempre que o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. Já o Parecer Normativo CST n° 44, de 1981, ao tratar do valor tributável para efeito de cálculo do IPI, assim dispôs sobre “mercado atacadista”, in verbis: Fl. 760DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 14 25 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente do mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o§ 5° do artigo 46 do RIPI/79. Ou seja, existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. 9.1. Agora, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST n° 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Conclusão 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto. (grifos não constam no original) Fl. 761DF CARF MF 26 Caso se constate que a parte interdependente é o único fornecedor/distribuidor da praça do remetente ("mercado monopolista local"), o valor tributável mínimo aplicável será a média ponderada dos preços praticados por este distribuidor único para aquele produto. No presente caso, como já ressaltado, decidido em outras oportunidades e bem acentuado na SCI Cosit n° 8/12, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no art. 195, I, do RIPI/2010, em detrimento de arbitramentos de ofício, seja por meio do cálculo de ofício, portanto, arbitramento em relação ao cálculo feito pelo contribuinte, proposto pelo parágrafo único, do art.196; seja pelo arbitramento propriamente dito, do art. 197. Entender de outra forma, nos casos de interdependente adquirente como único distribuidor, seria negar a aplicação da regra de apuração direta da base de cálculo sobre o preço de venda efetivamente praticado. O "mercado atacadista" da praça do remetente (art. 195 RIPI/2010) é composto pelas vendas do mesmo produto "efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente [estes, caso existam], no atacado, na mesma localidade" (Ato Declaratório Normativo CST n° 5/1982). Do conceito de praça. Pelo já exposto, entendo não merecer reparos nos cálculos da fiscalização. O art. 47 do Código Tributário Nacional é expresso ao se referir ao preço "o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente". Em igual sentido, de maneira igualmente expressa, o inciso I do art. 195 do Decreto n° 7212/2010 (RIPI), ao tratar do valor tributável mínimo, referese ao "ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente'". Uníssonos e uniconcordes, como não poderiam deixar de ser, o Parecer Normativo CST n° 44/1981 e o Ato Declaratório Normativo CST n° 5/1982, cujo trecho a seguir se transcreve: "deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente". Harmoniosa com tal determinação legal também a Solução de Consulta Interna Cosit n° 8, de 13/06/2012: "o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único". A fixação da "regra do remetente" encontrou ressonância, ainda, na jurisprudência deste Conselho: Acórdão CARF n° 20216475, proferido em sessão de 09/08/2005, sob a relatoria da Conselheira Maria Cristina Roza da Costa. Ementa: "IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. INTERDEPENDÊNCIA. Aplicase o disposto no inciso I, letra “a”, c/c § 5° do art. 68 do RIPI/82, com a interpretação dada pelo ADN CSTn° 5/82, quando ocorrer interdependência entre fabricante e adquirente nos termos do art. 394, inciso IV, do RIPI/82. Recurso provido". Fl. 762DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 15 27 A respeito da ambiguidade do conceito jurídico, averbou DARCY ARRUDA MIRANDA JÚNIOR (fonte: Acórdão n.° 3401003.954): 'Podemos tomar a expressão Praça de Comércio em dois sentidos, um amplo e outro restrito. No primeiro sentido, é um centro onde as operações comerciais assumem grande vulto e enorme desenvolvimento e é assim que se fala em Praça de São Paulo, Praça do Rio, Praça de Belém etc.; no segundo, é o lugar onde os comerciantes se retinem para tratar de seus negócios, [...] A origem de tais institutos [praças e bolsas] perdese na névoa dos tempos, pois desde que existe o comércio, reuniões em determinados locais, das pessoas envolvidas no tráfego mercantil, para tratar de seus recíprocos interesses, nâ'o são, não foram e não serão incomuns. Foram conhecidas por emporium na Grécia, collegium mercatoum em Roma, Praça de Comércio ou Bolsa, em Portugal'. Também a contribuição de Fábio Ulhoa Coelho sobre o sentido de "praça" (fonte: Acórdão n.° 3401003.954): Também em razão do princípio constitucional da legalidade tributária, o contribuinte só está obrigado a mensurar o montante devido do tributo segundo os critérios estabelecidos em lei para a base de cálculo. Quando a lei tributária, ao estabelecer o critério de quantificação de certo tributo, valese, na identificação da base de cálculo, da expresso "praça" (e não de outras, como "mercado", "campo de atuação do comerciante", etc (33), ela está definindo o Município, ou sua fração, como elemento territorial na mensuração a ser feita pelo contribuinte e pela Administração Tributária. (...) Pelo que se demonstrou ao longo do Parecer, quem pesquisa a lei referente à matéria (Lei n° 4.502/64), bem como todos os seus sucessivos regulamentos, a jurisprudência e a maioria das decisões administrativas, não chega a outra conclusão sendo a de que o secular conceito de praça, adotado pelo direito comercial, como referência a Município, ou_ fração, é o critério para a construção do sentido da expressão contida no quesito. Quando o art. 195 do RIPI20I0 menciona, na definição do Valor Mínimo Tributável era operações entre partes interdependentes, a locução 'preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", cabe unicamente a interpretação de que se refere ao preço normalmente praticado entre os empresários que comercializam o produto entre si (excluindo, portanto, os das vendas aos consumidores) no Município em que o estabelecimento remetente encontrase situado. Qualquer outra interpretação representa uma reinvenção do conceito de praça, tal como secularmente empregado pelo direito comercial." (seleção e grifos nossos). Fl. 763DF CARF MF 28 Certo é que o direito tributário não definiu objetivamente o significado de "praça", para fins de aferição do VTM. Não por outra razão emergemse variantes interpretativas que, buscando apoio em outros ramos do direito, acabam por apresentarem fundamentos e conclusões divergentes entre si, frutos de visões relativas, ainda que, r.g., ancoradas em fundadas interpretações, igualmente válidas juridicamente. Assim, não obstante a validade fática e jurídica dos precedentes trazidos pela recorrente, deles não me vinculo, fazendo a seguir minhas próprias considerações. Para o presente lançamento tributário, no caso específico das circunstâncias de mercado em que inseriamse os atores únicos e exclusivos, o conceito de praça não exerce maior influência, pois, entendo, no mesmo sentido da decisão recorrida e da Solução de Consulta Interna Cosit n° 8, de 13 de junho de 2012) que, na hipótese de existir no mercado atacadista apenas um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto, o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante remetente corresponde aos próprios preços praticados pelo distribuidor único adquirente, nas vendas por atacado do citado produto, até porque, tratandose de distribuidor monopolista, restam esses preços como sendo os preços correntes do mercado atacadista, aplicável às praças do adquirente e do remetente, independente do entendimento restritivo de praça como a circunscrição territorial do município onde situase o adquirente ou o remetente. O art. 15, da Lei n° 4.502/64, estabelece que o valor tributável, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro interdependente, não poderá ser inferior ao 'preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente', restando em situações como a presente, existindo no mercado atacadista apenas o interdependente como único distribuidor, descritas na SCI Cosit n° 8/12, a adoção do único preço praticado no mercado atacadista, pois, monopolizado pelo distribuidor interdependente, ditando o preço corrente do mercado atacadista da praça do remetente. Como bem acentuado na SCI Cosit n° 8/12, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no art. 195, inc., I, do RIPI/2010. Entender de outra forma, nos casos de interdependente adquirente como único distribuidor, seria negar a aplicação da regra de apuração direta da base de cálculo sobre o preço de venda efetivamente praticado, ainda que inequívoco, pois, monopolizado por um único vendedor, entendendo inexistente o preço corrente no mercado atacadista do remetente, quando estes estiverem situados em 'praças' ou municípios distintos, aplicandose, como regra, as subsidiárias bases de cálculo indiretas, calculadas na forma das normas do parágrafo único, do art. 196 e no art. 197, do RIPI/2010, não resultando esta na interpretação mais adequada ou em consonância com a finalidade antielisiva das normas: garantir que as saídas dos produtos entre empresa fabricante e comercial interdependente sejam tributados, no mínimo, pelo valor efetivamente praticado no mercado atacadista. Assumir a posição proposta, seria negar a finalidade da norma e o valor do preço efetivamente praticado no mercado atacadista, em detrimento de arbitramentos de ofício. Fl. 764DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 16 29 Assim sendo, diante dos preços únicos, praticados por distribuidor único, nas vendas por atacado do citado produto, resta analisar a sistemática de apuração do preço mínimo tributável utilizado pela fiscalização. No caso em análise, a Recorrente enviou seus produtos exclusivamente a CBC Brasil, o que por si só já justifica a apuração do valor tributável mínimo VTM a partir da saída de sua distribuidora quase que exclusiva. O preço será do estabelecimento atacadista, apurado no mês anterior ao de saída do estabelecimento remetente e aplicado às saídas deste estabelecimento (remetente), conforme preceitua o artigo 195, inciso I, do Decreto n° 7.212, de 2010 RIPI. Apenas para deixar ainda mais claro, como ficou configurada a relação de interdependência e, no caso em análise, a Recorrente possui praticamente um único mercado atacadista na mesma praça, que é CBC Brasil, a partir do preço de saída desta deve ser considerado o valor tributável mínimo. Na espécie, uma vez configurada a interdependência, nos exatos termos da legislação do IPI, cabe ao Auditor Fiscal da RFB aplicála. O lançamento tributário é atividade administrativa plenamente vinculada, consoante dispõem os arts. 3° e 142, parágrafo único, do CTN, logo a autoridade fiscal deve obrigatoriamente observar a legislação específica, ao apurar os valores que compõem o crédito tributário, não podendo negar aplicação a lei ou ato normativo em vigor. Intrinsecamente, tenho que "praça", na acepção do artigo 195, I, do RIPI/2010, deve representar a região onde o preço do produto será o mesmo em qualquer parte desse território, sem interferência externa como frete, seguro, comissões, entre outras despesas, que, em se existindo, provocaria um desnivelamento do preço a ser comparado, não havendo que se falar, a meu ver, em limite geográfico, genericamente estabelecido. Ademais, repitase, não se vislumbra, na letra da Lei, qualquer definição objetiva referente ao termo "praça comercial", tampouco menção territorial que a limite ao espaço de Município. Sob esse diapasão, convidase a seguinte reflexão: Tomase a situação de dois irmãos. Dois jovens, prematuros empreendedores que resolvem tentar a sorte assumindo o risco de um negócio, cada qual em sua área. O primeiro irmão se apropria de uma receita de empanadas de sua avó, monta uma carrocinha toda enfeitada, com direito a toldo e letreiro luminoso, e a posiciona em uma praça movimentada que é confluência de um grande número de transeuntes, além de possuir naquele local diversos prédios públicos e pontos comerciais. O segundo irmão opta por comprar chinelos e sandálias e enfeitálos com missangas e outros badulaques e ofertalos em páginas de ecomerce na internet. Ambos obtém sucesso. O primeiro consegue uma freguesia cativa daqueles que trabalham naquela quadra, além de angariar diariamente um sem número de compradores transeuntes que passam por aquele ponto, nas mais diversas horas do dia. Fl. 765DF CARF MF 30 O segundo, inusitadamente, tem 90% der suas vendas concentradas na localidade de Pantai Nampu, na Indonésia, uma vez que seu produto caiu nas graças das adolescentes daquele lugar e passou a ser a febre do último verão. Se partimos de um conceito hermético de “praça”, ancorado em sua concepção inicial formulada pelo Código Comercial de 1.850, calcada no critério de localidade geográfica, fica inviável conjugar os dois exemplos sob esse mesmo denominador comum. Isso porque no primeiro exemplo, a “praça” das empanadas é literalmente uma praça. Já no segundo exemplo, as vendas estão concentradas em uma localidade do outro lado do planeta. As novas tecnologias tornaram o planeta uma “aldeia global”, sendo capaz de conectar instantaneamente duas localidades, por mais equidistante que estejam. Sistemas interligados de logística, apoiados em um sistema de transporte de carga multimodal, garantem a eficaz dispersão de mercadorias através do Comércio Internacional, O Código Comercial de 1.850 foi concebido em uma sociedade agrária e escravagista que se servia de tropas de mulas para transporte de cargas, servindose inclusive de rotas traçadas pelos indígenas. A própria Via Dutra, que ligou os dois maiores polos urbanos do Brasil, foi construída em cima de uma antiga rota indígena. Partindo dessa premissa, temos que no contexto atual o conceito de praça de comércio não deve mais ser atrelado a um único critério geográfico território de Município . Outros fatores que integram a operação, a depender da situação, são tão ou mais importantes para se estabelecer o novo critério de “praça” a saber: produto, concorrência, exclusividade, região de destino, etc. Logo, dentro do novo paradigma de “aldeia global”, arriscase a afirmar que a praça do produto é onde a sua presença alcança. Em se tratando de mercado monopolizado, o preço praticado será único, sendo determinado pelo atacadista, único distribuidor, que detém o poder de lançar, distribuir o produto para o mercado consumidor. Na espécie, temos um mercado atacadista formado por uma única empresa, CBC Brasil, quem determina o preço desse mercado, ainda que situado em cidade diversa da unidade produtora, sua interdependente. Portanto, CBC Brasil compõe com exclusividade o marcado atacadista dos produtos que comercializa, porquanto única distribuidora, com quem mantém relação de interdependência, razão pela qual estão inseridas na mesma praça comercial, para fins do art. 195, I, do RIPI/2010. Nesse caso, a consideração do preço de saída do distribuidor interdependente e único é o parâmetro acertado para o valor tributável mínimo (VTM), nos termos da SCI: os próprios preços praticados por esse distribuidor único. Resta cristalino que, em se havendo no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante, o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado. Transcrevese excertos do Acórdão 3401003.954 4a Câmara/1a Turma Ordinária, de 29 de agosto de 2017, processos n° 18470.720682/201594 da relatoria do Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida, cujo teor bem ilustra e converge com os fundamentos uso expostos : Fl. 766DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 17 31 No presente caso, entendo mesmo inócua a interpretação restritiva pretendida, sobre o conceito de 'praça', entre os municípios do Rio de Janeiro/RJ e de São João de Meriti/RJ, pois, o monopólio da distribuição garante à empresa Delly Distribuidora a fixação dos preços, em todo mercado atacadista, não existindo outros distribuidores dos mesmos produtos à formar preços distintos. Como bem acentuado na SCI Cosit n° 8/12, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no art. 136, inc. I, do RIPI/2002, e art. 195, inc., I, do RIPI/2010. Citese ainda excertos do Acórdão n° 3101001.806 1a Câmara 1a Turma Ordinária, de 24 de fevereiro de 2015, de Relatoria do Conselheiro Rodrigo Mineiro Fernandes: No presente caso, tratase de produto industrializado por Memphis Industrial, possuindo características específicas, identificados por códigos próprios, de forma a distinguilos de produtos de marcas fabricadas por outras empresas do mesmo setor. Neste caso, estando a primeira distribuição destes bens restrita às empresas comerciais interdependentes, não alcançando pessoas jurídicas independentes, há mercado atacadista e o Valor Tributável Mínimo será determinado a partir das vendas efetuadas pelo interdependente, nos termos do que definido pela Solução de Consulta Interna COSIT n° 08/2012 (Grifo nossos) Improcedência e ilegalidade da multa de ofício Vedação ao Confisco Multa de ofício. Previsão legal e percentual. O litigante investe contra a aplicação da multa qualificada de 75%, que diz ser confiscatória e injustificada. O dispositivo aplicado, conforme indicado no auto de infração, foi o inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que, expressa e objetivamente, prevê: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide MEDIDA PROVISÓRIA Nº 351 DE 22 DE JANEIRO DE 2007 DOU DE 22/1/2007 Edição extra) Alterada pela LEI Nº 11.488 DE 15 DE JUNHO DE 2007 DOU DE 15/5/2007 Edição extra I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; Fl. 767DF CARF MF 32 (…)” (Grifouse.) A multa de ofício calculada sobre o valor do imposto cuja falta de recolhimento se apurou, está em consonância com a legislação de regência, sendo o percentual 75 % o legalmente previsto para a situação descrita no Termo de Verificação Fiscal, não se podendo, em âmbito administrativo, reduzilo ou alterálo por critérios meramente subjetivos, contrários ao princípio da legalidade. Considerações sobre a graduação da penalidade, no caso, não se encontram sob a discricionariedade da autoridade administrativa, uma vez definida objetivamente pela lei, não dando margem a conjecturas atinentes à ocorrência de efeito confiscatório ou de ofensa ao princípio da capacidade contributiva. Nesse sentido, qualquer pedido ou alegação que ultrapasse a análise de conformidade do ato administrativo de lançamento com as normas legais vigentes, em franca ofensa à vinculação a que se encontra submetida a instância administrativa (art. 142, parágrafo único, do CTN), como a contraposição a princípios constitucionais, somente podem ser reconhecidos pela via competente, o Poder Judiciário. Desse modo, devese considerar correta a aplicação da multa de lançamento de ofício ao percentual de 75%, definido em lei, sobre os valores do imposto não recolhido, rejeitandose a contestação de que não haveria previsão legal para tanto. Tendo em vista que a vedação ao confisco tem seio em norma constitucional, na alegação da defesa de que a exação é confiscatória, implícita está a arguição de inconstitucionalidade da própria norma legal que prevê a penalidade, para afastar sua a aplicação no caso concreto. Entretanto, em face do modelo adotado em nosso sistema jurídico, a autoridade administrativa não tem competência para decidir sobre inconstitucionalidade de normas legais, cabendo apenas executálas, não podendo negar aplicação à lei, sob argumento de que há conflito com a Constituição Federal. Com efeito, o órgão administrativo não é o foro apropriado para discussões dessa natureza, uma vez que exercício do controle da constitucionalidade, regulado pela própria Constituição Federal, é reservado ao Poder Judiciário que detém, com exclusividade, essa prerrogativa, conforme prevê a Lei Maior no Capítulo III do Título IV. A presunção é que o Legislativo, antes de aprovar a lei tenha examinado eventual conflito com a Constituição Federal e chegado à conclusão de não haver tal contrariedade. Essa presunção somente sucumbe ante o pronunciamento judicial. Inadmissível é pretender que a autoridade administrativa descumpra a lei. Até aí não vai o seu poder, tendo em vista o alcance limitado do julgamento nessa esfera, que não pode se desviar dos estritos ditames legais, sendo vedado imiscuirse na competência do Poder Judiciário para examinar a constitucionalidade de normas. No mais, agasalhase o entendimento de que vem a ser essa uma limitação imposta pelo Legislador constituinte ao Legislador infraconstitucional (ordinário), portanto, não se pode dizer que o princípio esteja direcionado à Administração Tributária. Legalidade da Cobrança dos Juros sobre a Multa A matéria já se encontra pacificada no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais através de Súmula. Súmula CARF n° 108: Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Fl. 768DF CARF MF Processo nº 13005.721188/201781 Acórdão n.º 3302006.111 S3C3T2 Fl. 18 33 Com estas considerações, voto por NEGAR provimento ao recurso voluntário. Jorge Lima Abud. Fl. 769DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.001289/2005-54
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2000, 2001, 2002
RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO.
A inexistência de dissídio jurisprudencial, caracterizada pela ausência de similitude fática e pela indicação de dispositivos legais distintos, que conferem aos tributos regimes também diferentes, impede o conhecimento e processamento do recurso especial interposto.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2000, 2001, 2002
MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108.
A multa de ofício integra a obrigação tributária principal e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência de juros de mora, calculados de acordo com a taxa SELIC.
Numero da decisão: 9101-003.877
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à incidência dos juros de mora calculados pela taxa SELIC sobre a multa de ofício e, no mérito, na parte conhecida, acordam em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
Viviane Vidal Wagner - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo, Luis Fabiano Alves Penteado, Viviane Vidal Wagner, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado para substituir o conselheiro Luis Flávio Neto), Caio César Nader Quintella (suplente convocado), Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: VIVIANE VIDAL WAGNER
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2000, 2001, 2002 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. A inexistência de dissídio jurisprudencial, caracterizada pela ausência de similitude fática e pela indicação de dispositivos legais distintos, que conferem aos tributos regimes também diferentes, impede o conhecimento e processamento do recurso especial interposto. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2000, 2001, 2002 MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. A multa de ofício integra a obrigação tributária principal e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência de juros de mora, calculados de acordo com a taxa SELIC.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 12; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1598; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 2 1 1 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16327.001289/200554 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9101003.877 – 1ª Turma Sessão de 6 de novembro de 2018 Matéria AUTO DE INFRAÇÃO Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado WHIRLPOOL S/A (SUCESSORA DE MULTIBRÁS S/A) ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2000, 2001, 2002 RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. A inexistência de dissídio jurisprudencial, caracterizada pela ausência de similitude fática e pela indicação de dispositivos legais distintos, que conferem aos tributos regimes também diferentes, impede o conhecimento e processamento do recurso especial interposto. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2000, 2001, 2002 MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. A multa de ofício integra a obrigação tributária principal e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência de juros de mora, calculados de acordo com a taxa SELIC. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à incidência dos juros de mora calculados pela taxa SELIC sobre a multa de ofício e, no mérito, na parte conhecida, acordam em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 12 89 /2 00 5- 54 Fl. 1496DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo, Luis Fabiano Alves Penteado, Viviane Vidal Wagner, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado para substituir o conselheiro Luis Flávio Neto), Caio César Nader Quintella (suplente convocado), Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial da Fazenda Nacional contra o acórdão nº 101 96.858, de 13 de agosto de 2008, em que a Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes decidiu dar provimento parcial ao recurso voluntário, para, por unanimidade de votos, cancelar as exigências a título de PIS e de COFINS e admitir a compensação dos prejuízos fiscais remanescentes, apurados nos anoscalendário de 1989 a 1998, sem a limitação de 30% e, por maioria de votos, afastar a aplicação dos juros de mora sobre a multa por lançamento de ofício. A matéria em discussão nos autos diz respeito a infrações no âmbito do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, anoscalendário de 2000, 2001 e 2002, decorrentes das seguintes irregularidades: IRPJ 1. ADIÇÕES NÃO COMPUTADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL 1.1 Adição de provisão para devedores duvidosos em valor inferior, conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal às fls. 271/272. 1.2 Excesso de despesas com previdência privada glosa de valor superior aos 20% permitidos, consoante demonstração constante do Teimo de Verificação Fiscal às fls. 269/271. 2. EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. EXCLUSÕES INDEVIDAS. Exclusão indevida do créditoprêmio de exportação na apuração do lucro real, consoante demonstração constante do Termo de Verificação Fiscal às fls. 266/269. PIS (fls. 249/252): Fl. 1497DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 4 3 1 FALTA/INSUFICIÊNCIA DO PIS Omissão de receitas relativa aos valores do créditoprêmio exportação que o contribuinte deixou de oferecer à. tributação, consoante demonstração constante do Termo de Verificação Fiscal às fls. 266/269. COFINS (fl. 253/256): 1 FALTA/INSUFICIÊNCIA DA COFINS Omissão de receitas relativas aos valores do créditoprêmio exportação que o contribuinte deixou de oferecer a tributação, consoante demonstração constante do Termo de Verificação Fiscal às fls. 266/269. CSLL (fls. 239/241 e 257/263): 1. FALTA DE RECOLHIMENTO DA CSLL Referente a adição de provisão para devedores duvidosos em valor inferior, conforme está demonstrado no Termo de Verificação Fiscal às fls. 271/272). 2. REDUÇÃO INDEVIDA DO LUCRO LIQUIDO Relativa à exclusão indevida do créditoprêmio exportação e de excesso de despesas com previdência privada (despesas indedutíveis), da base de cálculo da CSLL, consoante demonstração constante do Termo de Verificação Fiscal às fls. 266/269. Com a ciência das autuações, o contribuinte apresentou a impugnação de fls. 284, cujo principal argumento foi de que os créditosprêmio de IPI não são receitas de exportação e, portanto, não se sujeitam à tributação, além do fato de que a empresa possuía projetos aprovados desde 1998 no âmbito de incentivos fiscais do BEFIEX. A 2a Turma da Delegacia de Julgamento de Brasília, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação e manteve, na íntegra, os lançamentos efetuados. Com a ciência da decisão o contribuinte apresentou recurso voluntário (fls. 486 e seguintes), no qual, em síntese, alegou: que a fiscalização não contestou, em momento algum, a validade do Programa BEFIEX, isto é, não há qualquer discussão nos autos acerca do cumprimento das metas estabelecidas nos termos de compromissos referentes ao programa firmado pela recorrente; tampouco houve contestação quanto à existência de direito a isenção do IRPJ e da CSL no âmbito do referido programa; também não foi objeto de questionamento a validade do créditoprêmio de IPI, nem quanto à existência desse direito, muito menos quanto à forma de aproveitamento do benefício fiscal; Fl. 1498DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 5 4 destarte, todas as questões acima mencionadas são incontroversas e não podem ser objeto de discussão nos presentes autos, sob pena de inovação do feito, vedada pela legislação em vigor e pela jurisprudência; o único argumento utilizado pela fiscalização, no que diz respeito às exigências do IRPJ e da CSL, é que os créditos em questão não estariam abrangidos pela isenção concedida no âmbito do Programa BEFIEX; com relação à contribuição para o Pis e a Cofins, o Sr. AFRF considerou que os ingressos decorrentes do créditoprêmio de IPI seriam receitas novas para a recorrente, razão pela qual seriam tributáveis por tais contribuições; no que tange ao IRPJ e à CSL foi demonstrado que os valores aproveitados a título do créditoprêmio, embora contabilizados como receita operacional, poderiam ser excluídos da base de cálculo de tais tributos, haja vista que compunham o resultado decorrente das exportações, o qual é isento de tributação, nos termos da legislação que rege os benefícios fiscais relativos ao Programas BEFIEX; no que se refere a contribuição para o Pis e a Cofins, a recorrente evidenciou tratarse de transferências patrimoniais que não se confundem com receitas e que por isso não devem ser tributadas pelas referidas contribuições; finalmente, a recorrente requereu que, na hipótese de manutenção das glosas, total ou parcialmente, fosse reconhecida a compensação dos prejuízos fiscais e bases negativas da CSL. E com relação a parte desses resultados negativos, requereu a compensação sem a "trava" dos trinta por cento, haja vista que uma parcela dos prejuízos em questão foi apurada no âmbito do Programa BEFIEX. Ao apreciar o recurso voluntário, a Primeira Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes deu provimento parcial para cancelar as exigências a título de PIS e de COFINS e admitir a compensação dos prejuízos fiscais remanescentes, apurados nos anos calendário de 1989 a 1998, sem a limitação de 30%, além de, por maioria de votos, afastar a aplicação dos juros de mora sobre a multa por lançamento de oficio, em decisão assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anoscalendário: 2000 a 2002 Ementa: NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Deficiências no enquadramento legal não inquinam de nulidade o auto de infração se a descrição dos fatos for de modo a permitir o perfeito conhecimento da acusação. CRÉDITO PRÊMIO DE IPI. PROGRAMAS BEFIEX. Fl. 1499DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 6 5 Para os projetos aprovados a partir de 01/01/88, não obstante o valor do crédito prêmio represente receita de exportação, não há previsão legal para sua exclusão do lucro líquido, devendo ser computado para fins de lucro da exploração relativo à atividade incentivada, para fins de tributação por alíquota reduzida (se aprovados ou apreciados pelo CDI entre 01/01/88 e 19/05/88), ou são tributados alíquota normal (programas apreciados após 20/05/88). RECEITAS OPERACIONAIS. EXCLUSÃO DO LUCRO LÍQUIDO. Os valores das receitas operacionais, ainda que decorrentes de estímulo à exportação, integram o lucro líquido do período em que ocorre sua disponibilidade econômica ou jurídica, e só podem ser excluídos, para fins de tributação, se houver previsão expressa na legislação ou determinação judicial nesse sentido. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS E DE BASES NEGATIVAS DE CSLL. EMPRESAS TITULARES DE PROGRAMAS BEFIEX. Os prejuízos apurados na vigência do programa podem ser compensados no prazo de seis anos, desde sua apuração, sem limitação de 30%. Após esse prazo, considerando que, pela legislação em vigor, os prejuízos se tornaram imprescritíveis, o saldo não compensado pode ser utilizado para compensações, porém observando o limite de 30%. Para as bases de cálculo negativas de CSLL não há previsão na legislação para afastar o limite. PIS E COFINS. CRÉDITO PREMIO DE IPI. PROGRAMAS BEFIEX. Não obstante representar receita de exportação, o crédito prêmio tem a natureza de recuperação de custos, não estando compreendido no conceito de faturamento. Por conseguinte, sua inclusão na base de cálculo da Cofins e do PIS está amparada no alargamento do conceito de faturamento trazido pelo § 1o do art. 3o da Lei 9.718/98, e não pode subsistir em face da declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, desse dispositivo. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A penalidade pecuniária não decorre de tributo ou contribuição, nos termos do art. 61 da Lei n.° 9.430/96, e sim do descumprimento do dever legal de declarálo e/ou pagálo. Inaplicável a incidência da taxa Selic e dos juros do art. 161 do CTN sobre a multa de ofício. Ainda, é vedado ao órgão administrativo julgador inovar o lançamento efetuado. Com a ciência da decisão, a Fazenda Nacional apresentou recurso especial (fls. 733), em que questionou dois pontos da decisão: a) possibilidade de incidência de PIS e COFINS sobre receitas decorrentes de créditoprêmio de exportação; Fl. 1500DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 7 6 b) incidência de juros sobre multa de ofício. O recurso especial fazendário foi analisado pelo despacho de fls. 788, que lhe deu integral seguimento. Por seu turno, ao tomar ciência da decisão, o contribuinte opôs embargos de declaração (fls. 801), sob os argumentos de que a decisão teria inovado os fundamentos do lançamento e se omitido em relação às informações passadas pela embargante durante os procedimentos de fiscalização. Ato contínuo, o contribuinte também apresentou contrarrazões (fls. 814) ao recurso especial da Fazenda Nacional, em que questiona o conhecimento do apelo, posto que o fundamento da autuação já teria sido declarado inconstitucional pelo STF, ante o alargamento indevido das bases de cálculo do PIS e da COFINS pelo legislador ordinário. Quanto ao mérito, o contribuinte discorre sobre os elementos do conceito de receita para concluir que o créditoprêmio de IPI é uma subvenção econômica, destinada aos produtoresexportadores de mercadorias nacionais e que consiste em um crédito financeiro calculado com base no valor da exportação, como forma de ressarcimento dos tributos incidentes nas etapas produtivas anteriores à venda para o exterior. Nesse contexto, defende que os valores ingressados no patrimônio a título de créditoprêmio não possuem natureza jurídica de receitas, pois decorrem da lei que instituiu o beneficio, de sorte que não é a exportação que enseja o seu pagamento, mas sim o dispositivo legal que previu tal incentivo. Por fim, o contribuinte, ainda em contrarrazões, pugna pela não incidência dos juros sobre a multa de ofício. Os embargos de declaração do contribuinte foram inicialmente aceitos, conforme despacho de fls. 850. Posteriormente, sobreveio outro despacho (fls. 853), que os rejeitou. Ao perceber o erro in procedendo, o Presidente da 1a Câmara da 1a Seção do CARF, mediante decisão de fls. 859, entendeu que o segundo despacho não poderia prevalecer, porque contraditório ao anterior, que não foi expressamente revogado, razão pela qual o superveniente foi declarado nulo, de ofício, com o encaminhamento dos autos para apreciação dos embargos do contribuinte. Em 02 de março de 2016, os embargos foram julgados pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara, que proferiu o acórdão n. 1302001.800 e decidiu, por unanimidade de votos, rejeitálos. O contribuinte interpôs novos embargos de declaração (fls. 1.006), sob os argumentos de superveniência de questão de ordem pública e de erros de fato na decisão. Os embargos foram analisados pelo despacho de fls. 1.072, que os rejeitou. Na sequência, o contribuinte apresentou recurso especial (fls. 1.091), em que indicou a existência de diversos dissídios jurisprudenciais em relação às matérias discutidas no processo e mantidas pelo acórdão do CARF. Fl. 1501DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 8 7 O recurso foi analisado pelo despacho de fls. 1.390, que não o conheceu. Inconformado, o contribuinte apresentou agravo, reiterando os termos do recurso especial e pugnando pelo seu seguimento integral. O agravo foi apreciado pela Presidência do CARF (fls. 1.463), que decidiu confirmar a negativa de seguimento ao recurso especial do contribuinte. É o relatório. Voto Conselheira Viviane Vidal Wagner, Relatora Inicialmente, convém ressaltar que só se encontra sob julgamento o recurso especial fazendário, posto que, conforme relatado, ao recurso especial do contribuinte foi negado seguimento, em caráter definitivo, nos termos da decisão proferida em sede de agravo pela presidência do CARF. O recurso especial da Fazenda Nacional, por sua vez, foi admitido, conforme despacho de fls. 788, e o contribuinte, em contrarrazões, defendeu que este não deve ser conhecido, por não atender aos preceitos regimentais. Passo, então, a análise de seus pressupostos. Como se sabe, a admissibilidade do recurso especial está condicionada ao atendimento das condições previstas no art. 67 do RICARF: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. § 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar a legislação tributária interpretada de forma divergente. (...) § 8º A divergência prevista no caput deverá ser demonstrada analiticamente com a indicação dos pontos nos paradigmas colacionados que divirjam de pontos específicos no acórdão recorrido. A Fazenda Nacional, em seu recurso, questiona, como relatado, dois pontos de divergência: a) possibilidade de incidência de PIS e COFINS sobre receitas decorrentes de créditoprêmio de exportação; Fl. 1502DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 9 8 b) incidência de juros sobre multa de ofício. A primeira matéria recorrida foi sintetizada pela recorrente nos seguintes termos (destaques no original): DO FUNDAMENTO DE VALIDADE DA INCIDÊNCIA DO PIS E DA COFINS SOBRE A RECEITA DECORRENTE DO CRÉDITOPRÊMIO DO IPI O r. acórdão ora recorrido entendeu que a receita advinda do crédito incentivado de IPI, enquanto receita operacional, não deve ser incluída na base de cálculo do PIS e da COFINS, haja vista que o alargamento concedido pela Lei n° 9.718/1998 fora declarado inconstitucional pelo STF em sede de controle difuso. Inferese, assim, que o julgado soluciona a questão cotejando o conceito de receita à atividade do contribuinte. Considera que receita é aquilo que decorre somente da venda de bens ou de bens e serviços. Em razão disso, afasta a possibilidade de se entender o montante ressarcido/compensado a titulo de crédito incentivado de IPI como receita. Tal posicionamento, apesar de respaldado em antiga jurisprudência do STF, não se conforma à definição atual de receita propalada pela doutrina moderna. É importante ter em mente que o conceito de receita vem sendo reformulado dia após dia, e não se pode negar que a tendência é ampliar sua interpretação. (...) Ora, parece que a intenção da doutrina moderna vem sendo a de entender a palavra receita como aquele ingresso que represente um plus jurídico em favor do contribuinte, esteja ou não sua origem relacionada A atividade fim da empresa, ou ainda, seja ou não decorrente de esforço do contribuinte. Não é de modo algum impróprio, desta feita, considerar um crédito concedido legalmente em favor de empresas que realizem determinadas atividades empresariais como receita, principalmente se ele decorre de forma direta de sua atividade principal. É exatamente isso que ocorre com o crédito incentivado de IPI. São créditos oriundos de incentivo para empresas que realizam específica atividade, no caso, a de exportação. Neste ponto, cumpre asseverar que o próprio STF ainda não fechou de modo definitivo o conceito de receita para fins de incidência do PIS e da COFINS, tanto assim que em voto da lavra do Ministro Cezar Peluzo, a Corte (2a Turma), precisamente por ocasião do julgamento de Embargos de declaração no RE 444.6014/RJ, decidiu que o conceito de receita bruta para fins de incidência da COFINS envolve, não só aquela decorrente da venda de mercadorias e da prestação de Fl. 1503DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 10 9 serviços, mas também a soma das receitas oriundas do exercício de outras atividades empresariais. Nesse ponto, o apelo fazendário indicou o Acórdão nº 20179.962, que trata de crédito presumido de IPI, assim ementado: Processo n: 11065.003858/200420 Recurso n: 130.414 Acórdão n: 20179.962 Recorrente: INDÚSTRIA DE PELES MINUANO LTDA. Recorrida: DRJ em Porto Alegre RS PIS. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. NÃO INCIDÊNCIA DE PIS E COFINS. Não há incidência de PIS e de Cofins sobre a cessão de créditos de ICMS, por se tratar esta operação de mera mutação patrimonial. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. TRATAMENTO FISCAL. RECEITA TRIBUTÁVEL. A receita relativa ao crédito presumido do IPI, de que trata a Lei n° 9.363/96, apurada em função da ocorrência de exportação ou venda a empresa comercial exportadora com fim específico de exportação e contabilizada como receita operacional, deverá ser oferecida à tributação do PIS. RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA. SELIC. Por falta de previsão legal, é incabível a incidência de correção monetária e/ou juros sobre valores recebidos a titulo de ressarcimento de créditos de Cofins nãocumulativa. Em contrapartida, o contribuinte aduz que o recurso não merece ser conhecido quanto a este ponto, visto que o caso dos autos difere daquele analisado no paradigma. Com efeito, a própria Fazenda Nacional reconhece que as figuras analisadas nos dois processos são distintas e possuem matrizes jurídicas diversas, pois o acórdão paradigma trata do crédito presumido de IPI, estabelecido pela Lei nº 9.363/96, enquanto que o acórdão recorrido cuida do créditoprêmio de IPI, criado pelo DecretoLei nº 491/69, décadas antes daquela primeira figura. Contudo, a Recorrente aduz que ambos se enquadram no conceito de "crédito tributário incentivado" e seriam espécies de subvenções econômicofinanceiras, nos termos do art. 12, § 3°, da Lei nº 4.320/64, bem como receitas operacionais na forma do art. 44, IV, da Lei n° 4.506/64 e do art. 392 do RIR/99. Entendo que não assiste razão à Recorrente, pois resta evidente que os acórdãos versam sobre normas tributárias distintas, em confronto com o que preconiza o art. 67, § 1º, do RICARF. Fl. 1504DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 11 10 O créditoprêmio de IPI, instituído a partir dos arts. 1o e 5o do DecretoLei nº 491/69, época em que sequer existiam as contribuições para o PIS e a COFINS, tem a seguinte característica: Art. 1º As empresas fabricantes e exportadoras de produtos manufaturados gozarão, a título estimulo fiscal, créditos tributários sobre suas vendas para o exterior, como ressarcimento de tributos pagos internamente. (...) Art. 5º É assegurada a manutenção e utilização do crédito do IPI relativo às matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem efetivamente utilizados na industrialização dos produtos exportados. Por outro lado, o crédito presumido estabelecido pela Lei nº 9.363/96 foi especificamente desenhado para as referidas contribuições, como se pode depreender do art. 1o do referido diploma legal: Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos 7, de 7 de setembro de 1970, de 3 de dezembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. Parágrafo único.O disposto neste artigo aplicase, inclusive, nos casos de venda a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação para o exterior. Além da evidente distinção nas matrizes jurídicas, a situação fática dos dois processos também não guarda qualquer semelhança. No acórdão paradigma o caso versava sobre compensação de débito de contribuição social com créditos de PIS nãocumulativo decorrentes de operações de exportação. Já no caso dos autos cuidase, como visto, de autuação fiscal na qual PIS e COFINS seriam reflexos das autuações a título de IRPJ e CSLL, com fundamento no fato de que o contribuinte, ao receber créditosprêmio de IPI decorrentes de adesão ao BEFIEX, não os ofereceu à tributação, circunstância que levou a autoridade fiscal aos lançamentos ora questionados, por entender que a partir da edição da Lei nº 9.718/98 essas contribuições passaram a incidir sobre toda e qualquer receita, independentemente da denominação ou classificação contábil. Vejase que, no ponto, temse por irrelevante a circunstância de que as duas decisões teriam considerado, para fins de classificação, tais incentivos como receitas, até porque não se pode desconsiderar que no paradigma analisouse a incidência do PIS no regime de não cumulatividade, enquanto que no presente caso tratase da possibilidade de incidência Fl. 1505DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 12 11 de PIS e COFINS sob o regime cumulativo, o que também denota a presença de matrizes jurídicas completamente distintas. Diante disso, resta evidente que não foi demonstrada a divergência jurisprudencial necessária para o processamento do recurso especial, não devendo ser conhecido o apelo fazendário nessa matéria. No que tange ao segundo ponto de debate, aduz a Fazenda Nacional que o acórdão recorrido discrepa da jurisprudência deste CARF em relação à possibilidade de incidência de juros sobre a multa de ofício, com a indicação de dois paradigmas, acórdãos n° 910100.539 e CSRF/0400.651, cujas ementas, na parte que nos interessa, foram assim redigidas, respectivamente: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFICIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à Selic. e JUROS DE MORA. MULTA DE OFICIO. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de ofício proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Diante disso, constatase que a Recorrente logrou êxito em demonstrar a divergência jurisprudencial, posto que os paradigmas aceitaram a incidência dos juros de mora, calculados de acordo com a taxa SELIC, enquanto que o recorrido afastou tal possibilidade, tudo com base nos mesmos dispositivos legais. Portanto, quanto a este segundo ponto, reconheço a similitude e o dissídio interpretativo indicados pela Fazenda Nacional e voto por conhecer do recurso especial apresentado. Quanto ao mérito, a questão que remanesce é amplamente conhecida e debatida no âmbito deste CARF e diz respeito à possibilidade de incidência de juros sobre a multa de ofício, que foi afastada pelo acórdão recorrido. Nesse caso, a exigência deve ser restabelecida, haja vista que a matéria encontrase atualmente pacificada no âmbito deste E. Conselho, a partir da recente edição da Súmula CARF nº 108, que dispõe: Súmula CARF nº 108 Fl. 1506DF CARF MF Processo nº 16327.001289/200554 Acórdão n.º 9101003.877 CSRFT1 Fl. 13 12 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Conclusão Ante o exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso fazendário, apenas quanto à incidência dos juros de mora calculados pela taxa SELIC sobre a multa de ofício e, na parte conhecida, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner Fl. 1507DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.720263/2016-32
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2012
CSLL. GLOSA DE EXCLUSÕES NA APURAÇÃO DO LUCRO LÍQUIDO AJUSTADO. RECEITAS SUJEITAS AO REGIME TRIBUTÁRIO ESPECIAL (RET). COMPROVAÇÃO.
Comprovado que a exclusão de valores na apuração do lucro líquido ajustado, base de cálculo da CSLL, refere-se a receitas submetidas ao RET da Lei 10.631/2004, deve ser cancelada a exigência.
Numero da decisão: 1201-002.674
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente
(assinado digitalmente)
Gisele Barra Bossa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Henrique Marotti Toselli, Ailton Neves da Silva (Suplente convocado), Bárbara Santos Guedes (Suplente convocada), Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro José Carlos de Assis Guimarães.
Nome do relator: GISELE BARRA BOSSA
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2012 CSLL. GLOSA DE EXCLUSÕES NA APURAÇÃO DO LUCRO LÍQUIDO AJUSTADO. RECEITAS SUJEITAS AO REGIME TRIBUTÁRIO ESPECIAL (RET). COMPROVAÇÃO. Comprovado que a exclusão de valores na apuração do lucro líquido ajustado, base de cálculo da CSLL, referese a receitas submetidas ao RET da Lei 10.631/2004, deve ser cancelada a exigência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Henrique Marotti Toselli, Ailton Neves da Silva (Suplente convocado), Bárbara Santos Guedes (Suplente convocada), Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro José Carlos de Assis Guimarães. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 02 63 /2 01 6- 32 Fl. 504DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 3 2 1. Tratase de processo administrativo decorrente de auto de infração lavrado para a cobrança de CSLL, referente ao anocalendário de 2012, no montante de R$ 5.801.236,55, com o acréscimo de juros de mora e multa de ofício de 75%. 2. Em síntese, a infração apontada pela fiscalização consiste na suposta exclusão indevida a título de receitas do Regime Especial de Tributação (RET). A DIPJ do anocalendário de 2012 demonstra que a contribuinte ofereceu à tributação o montante de R$ 63.963.929,61 pelo RET e as exclusões remontam R$ 94.710.405,40 (DIPJ Retificadora não transmitida). A autoridade fiscalizadora conclui, então, que somente as receitas correspondentes ao RET confessadas em DCTF (R$ 63.963.929,61) poderiam ser excluídas para fins de apuração do lucro real. 3. Valendose dos números apresentados pela contribuinte, com exceção das exclusões relativas ao RET, a autoridade lançadora apurou a base de cálculo relativa ao período de 2012 no importe de R$ 30.803.075,47, sobre o qual aplicou as alíquotas da CSLL. Do valor apurado, subtraiu as importâncias pagas a título de CSLL por estimativa, no importe de R$ 2.925,71. Desta forma, formalizou o crédito tributário no valor de R$ 5.801.236,55, composto pela exigência da CSLL no valor de R$ 2.769.351,04, multa no importe de R$ 2.077.013,28 e juros de R$ 954.872,23. 4. Em análise das declarações apresentadas pela contribuinte (DIPJ e DCTF), a fiscalização detectou as seguintes inconsistências, conforme Termo de Verificação Fiscal (fls. 379/389): “O contribuinte, apurou o seu lucro na sistemática do Lucro Real Anual, e nada informou na DIPJ sobre valores de IRPJ por Estimativa. Da mesma forma, nenhum valor de estimativa foi confessado em DCTF como também nada foi recolhido em DARF em nenhum código de IRPJ. No entanto, na mesma DIPJ, na Ficha 12 A – Cálculo do Imposto de Renda sobre o Lucro Real – ajuste anual, o contribuinte informou na Linha 22. Imposto de Renda a Pagar o valor de R$ R$ 6.246.717,87. Analisamos a DCTF entregue pelo contribuinte bem como os recolhimentos do grupo Imposto de Renda Pessoa Jurídica e nada foi encontrado. Esta análise se encontra na planilha anexa “Diferenças Encontradas IRPJ e CSLL J J Rodrigues” INSUFICIÊNCIA DE DECLARAÇÃO E RECOLHIMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES (...) O contribuinte preencheu uma DIPJ retificadora a qual submete à fiscalização, onde apresenta os saldos devidos e pagos de IRPJ e CSLL através dos comprovantes de pagamento nos códigos 2484 CSLL e 2362 IRPJ, sendo estes impostos pagos na forma de estimativa conforme apuração anexa. Como atendimento à intimação, o contribuinte apresentou nos anexos 8, 9 e 10, as planilhas de cálculo e comprovantes de pagamento do imposto unificado pelo RET – Patrimônio de Fl. 505DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 4 3 Afetação referente aos três empreendimentos, comprovando assim os recolhimentos do código 4095 referente aos três empreendimentos. Constatamos que os recolhimentos efetuados no código 4095, referentes aos três empreendimentos perfizeram o montante de R$ 3.837.835,77 em 2012. Quanto às correções pretendidas por ele na DIPJ “retificadora” não transmitida, fizemos uma planilha comparativa entre a DIPJ original (objeto da revisão) e a pretendida retificadora, transcrita abaixo: Analisando as correções pretendidas pelo contribuinte, a L03 da retificadora é maior que a original, favorável ao fisco. Nada a observar quanto às adições, visto que tanto a L06 quanto à L33 são maiores que a DIPJ original. No entanto, a exclusão da L67 – Receitas tributadas pelo RET no valor de 94 milhões devem ser comparadas com as receitas constantes dos Anexos 8, 9 e 10 do atendimento ao Termo Nº 1. Nesses anexos referentes aos empreendimentos realizados pelo contribuinte em 2012, constam as receitas tributadas pelo RET mês a mês em cada empreendimento e o valor de RET a ser recolhido também em todo o período de 2012. Consultando a DCTF do contribuinte constatamos que somente os valores de RET correspondentes às receitas abaixo foram confessados. Somente as receitas que efetivamente foram tributadas pelo RET poderão ser excluídas. (...) Serão reconhecidas pela fiscalização somente o valor da exclusão de R$ 63.963.929,61. A L87 também não será considerada, pois veio desacompanhada de qualquer comprovação. O Lucro Real então será: Fl. 506DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 5 4 (...) Notese que o contribuinte apresentou comprovante de um recolhimento de Contribuição Social por Estimativa realizado que será́ considerado. A Contribuição Social a Pagar da Declaração de Ajuste será́: (…) Em vista das irregularidades apontadas neste termo, fica o contribuinte, desde já, intimado a efetuar as correções devidas na parte B do LALUR e demais registros contábeis”. 5. Cumpre ressaltar que, o procedimento fiscal se desdobrou em dois processos administrativos fiscais relativos ao anocalendário de 2012: (i) Processos nº 19515.720263/201632, referente a exigência de CSLL e (ii) Processo nº 19515.720262/201698, referente a exigência de IRPJ. 6. Devidamente intimada (AR de 03/05/2016, fl. 402), a Contribuinte apresentou impugnação ao lançamento (fls. 407/433), na qual trouxe as seguintes razões de Fl. 507DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 6 5 defesa: (i) no Regime Especial de Tributação as receitas são tributadas no regime de caixa e, por sua vez, na contabilidade devem ser reconhecidas no regime de competência; (ii) toda a sua receita operacional está submetida ao RET; e (iii) o erro cometido pela contribuinte no preenchimento de declaração não é suficiente para a lavratura de auto de infração que distorce a natureza de suas receitas. Por fim, requer seja realizada perícia para confirmar que todas as receitas excluídas na DIPJ retificadora dizem respeito efetivamente ao RET e, por consequência, declarada a invalidade do lançamento. 7. Em sessão de 22 de março de 2017 a 3ª Turma da DRJ/RPO, por unanimidade de votos, julgou procedente a impugnação, nos termos do voto relator, Acórdão nº 1464.795 (fls. 481/495), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo, verbis: “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2012 CSLL. GLOSA DE EXCLUSÕES NA APURAÇÃO DO LUCRO LIQUIDO AJUSTADO. RECEITAS SUJEITAS AO REGIME TRIBUTÁRIO ESPECIAL RET (Lei 10.631/2004). COMPROVAÇÃO. Comprovado que a exclusão de valores na apuração do lucro liquido ajustado, base de calculo da CSLL, referese a receitas submetidas ao RET da Lei 10.631/2004, cancelase a exigência. Impugnação Procedente Credito Tributário Exonerado”. 8. Diante da documentação acostada aos autos, a DRJ exonerou o crédito exigido ao concluir que (i) a contribuinte fez prova de que quase a totalidade de suas receitas estavam submetidas ao RET em 2012 e (ii) ainda que a totalidade não esteja absolutamente comprovada, o correto seria tributar eventuais diferenças no RET e não no regime do lucro real. 9. Cientificada da decisão (Termo de Ciência por Abertura de Mensagem em 11/04/2017, fl. 499) a Contribuinte não interpôs Recurso Voluntário. 10. Diante da exoneração do sujeito passivo do pagamento de tributo em limite superior ao fixado na Portaria MF nº 63 de 2017, foi interposto Recurso de Ofício. É o relatório. Voto Conselheira Gisele Barra Bossa, Relatora 11. Para analisar a admissibilidade do recurso de ofício devese considerar o teor do artigo 1º, da Portaria MF nº 63/2017, a seguir transcrito: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total Fl. 508DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 7 6 superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. 12. No caso em tela, o valor exonerado (R$ 2.769.351,04) supera o limite estabelecido pela norma em referência de 2,5 milhões. Portanto, concluo que o recurso de ofício é cabível, dele tomo conhecimento e passo a apreciar. Questões de Mérito I. Premissas Técnicas sobre o Regime Especial de Tributação 13. Por considerar imprescindíveis para o desenrolar do presente julgamento, trago ponderações acerca do Regime Especial de Tributação (RET), previsto na Lei nº 10.931/04, regulamentado pela Instrução Normativa RFB nº 934/2009, posteriormente revogada pela vigente Instrução Normativa RFB nº 1.435/2013. 14. O RET é um regime aplicável às incorporações imobiliárias, em caráter opcional e irretratável, conforme artigo 1º da Lei nº 10.931/2004, verbis: Art. 1º Fica instituído o regime especial de tributação aplicável às incorporações imobiliárias, em caráter opcional e irretratável enquanto perdurarem direitos de crédito ou obrigações do incorporador junto aos adquirentes dos imóveis que compõem a incorporação. (grifos nossos) 15. A Lei nº 10.931/2004 estabelece uma série de contrapartidas para as incorporadoras que optem pelo benefício fiscal do RET como (i) a impossibilidade de sujeitar créditos deste regime especial a parcelamento fiscal; (ii) elaboração de escrituração contábil individualizada para cada incorporação; e (iii) a criação de patrimônio de afetação. 16. Nesse regime especial é permitido ao Contribuinte Incorporador optar pela incidência de tributação definitiva sobre a receita mensal recebida relativamente a cada patrimônio afetado. Em 2012, período objeto do presente processo, a redação do artigo 4º, da Lei nº 10.931/04, previa uma alíquota unificada de 6% correspondente ao pagamento mensal de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, verbis: “Art. 4º Para cada incorporação submetida ao regime especial de tributação, a incorporadora ficará sujeita ao pagamento equivalente a 6% (seis por cento) da receita mensal recebida, o qual corresponderá ao pagamento mensal unificado dos seguintes impostos e contribuições: I Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas IRPJ; II Contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público PIS/PASEP; III Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL; e Fl. 509DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 8 7 IV Contribuição para Financiamento da Seguridade Social COFINS. § 1º Para fins do disposto no caput, considerase receita mensal a totalidade das receitas auferidas pela incorporadora na venda das unidades imobiliárias que compõem a incorporação, bem como as receitas financeiras e variações monetárias decorrentes desta operação. § 2º O pagamento dos tributos e contribuições na forma do disposto no caput deste artigo será considerado definitivo, não gerando, em qualquer hipótese, direito à restituição ou à compensação com o que for apurado pela incorporadora. § 3º As receitas, custos e despesas próprios da incorporação sujeita a tributação na forma deste artigo não deverão ser computados na apuração das bases de cálculo dos tributos e contribuições de que trata o caput deste artigo devidos pela incorporadora em virtude de suas outras atividades empresariais, inclusive incorporações não afetadas. (...) § 5º A opção pelo regime especial de tributação obriga o contribuinte a fazer o recolhimento dos tributos, na forma do caput deste artigo, a partir do mês da opção”. (grifos nossos). 17. A partir da leitura dos dispositivos acima transcritos, fica evidente que tanto a escolha do sistema de tributação quanto a tributação em si das receitas pela sistemática do RET são definitivas e irretratáveis, enquanto perdurarem direitos de crédito ou obrigações do incorporador junto aos adquirentes dos imóveis que compõem a incorporação. No mais, é possível concluir que o RET segue o regime de reconhecimento de receitas efetivamente recebidas (regime de caixa). 18. Os valores correspondentes as receitas mensais (caput do artigo 4º da Lei nº 10.931/04) não devem ser considerados em eventuais ajustes para efeito de apuração no regime regular de tributação, seja pelo lucro real ou presumido. II. Das Circunstâncias Fáticas 19. No presente caso, a opção da contribuinte pelo RET é matéria incontroversa, vez que o foco da autuação é a suposta exclusão indevida de receitas tributadas por esse regime. 20. Não é demais ressaltar que, conforme descrito nos itens 13 a 18, a opção pelo Regime de Tributação Especial é uma faculdade da Contribuinte que se torna definitiva enquanto perdurarem os direitos de crédito ou obrigações do incorporador junto aos adquirentes dos imóveis. Logo, a escolha da Contribuinte pelo RET vincula as receitas dos empreendimentos imobiliários à tributação de acordo com o artigo 4º, da Lei nº 10.931/04, com a redação vigente no ano de 2012 dada pela Lei nº 12.024/09. 21. Partindo deste entendimento, resta apurar se o montante de R$ 94.710.405,40 está submetido ao RET ou não. Em consonância com a r. decisão de piso, verifico que a Contribuinte foi capaz de comprovar que suas atividades operacionais estão relacionadas com as incorporações imobiliárias (único objeto social da Sociedade de Propósito Fl. 510DF CARF MF Processo nº 19515.720263/201632 Acórdão n.º 1201002.674 S1C2T1 Fl. 9 8 Específico) e que quase a totalidade de suas receitas relativas ao anocalendário de 2012 está submetida ao Regime Especial de Tributação, conforme trecho do voto condutor da r. decisão da DRJ: “Na DIPJ original a contribuinte havia registrado R$ 102.907.553,97 de receitas na linha 07 da Ficha 06A (fl. 7 e seguintes). Tratase exatamente do valor constante no Balancete da empresa, apresentado à Fiscalização durante a auditoria (fl. 316). Vejamos o facsímile:” 22. Segundo a Contribuinte, a diferença entre valores lançados na DCTF (R$ 63.963.929,61) e os valores submetidos ao RET (R$ 94.710.405,40) existe porque o reconhecimento das receitas para fins de recolhimento seguiu o regime de caixa enquanto as receitas que constam nos registros contábeis seguiram o regime de competência. 23. E, ainda que a composição do valor excluído pela contribuinte, qual seja a diferença entre receitas efetivamente realizadas e as reconhecidas, mas pendentes de recebimento, apresente alguma inconsistência/diferença (a contribuinte fez prova de quase a totalidade das receitas, mas não da totalidade), esta só poderia ser tributada no RET e não no regime do lucro real, nos termos do artigo 4º da Lei nº 10.931/04 (itens 13 a 18 – a opção pelo RET é definitiva). 24. Em vista das razões fáticas e jurídicas aqui apresentadas, considero que deve ser cancelada integralmente a exigência em questão. Conclusão 25. Diante do exposto, VOTO no sentido de CONHECER do RECURSO DE OFÍCIO interposto e, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO. É como voto. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Fl. 511DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13819.900210/2009-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE
Ano-calendário: 2005
CIDE/REMESSAS. CRÉDITO PREVISTO NO ART. 4º DA MP 2.159-70/2001. APROVEITAMENTO EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
O crédito de CIDE previsto no art. 4º da MP nº 2.159-70/2001 não decorre de pagamento indevido. Logo, não pode ser utilizado por meio de Declaração de Compensação, mas tão somente para fins de dedução da contribuição incidente em operações posteriores.
Numero da decisão: 3301-005.143
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13819.900202/2009-27, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE Ano-calendário: 2005 CIDE/REMESSAS. CRÉDITO PREVISTO NO ART. 4º DA MP 2.159-70/2001. APROVEITAMENTO EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O crédito de CIDE previsto no art. 4º da MP nº 2.159-70/2001 não decorre de pagamento indevido. Logo, não pode ser utilizado por meio de Declaração de Compensação, mas tão somente para fins de dedução da contribuição incidente em operações posteriores.
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CRÉDITO PREVISTO NO ART. 4º DA MP 2.159 70/2001. APROVEITAMENTO EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O crédito de CIDE previsto no art. 4º da MP nº 2.15970/2001 não decorre de pagamento indevido. Logo, não pode ser utilizado por meio de Declaração de Compensação, mas tão somente para fins de dedução da contribuição incidente em operações posteriores. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 13819.900202/200927, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 90 02 10 /2 00 9- 73 Fl. 103DF CARF MF Processo nº 13819.900210/200973 Acórdão n.º 3301005.143 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório do tributo por suposto pagamento a maior ou indevido e aproveitar esse crédito com débitos referentes a impostos e contribuições administrados pela RFB. Em análise ao referido documento, a autoridade tributária proferiu Despacho Decisório Eletrônico, explicando que o pagamento indicado já estava integralmente alocado, não restando, assim, crédito para ser utilizado na compensação em questão. Com isso, decidiu pela não homologação da referida Declaração de Compensação. Inconformado, o interessado apresentou manifestação de inconformidade tempestiva alegando, em suma, que seu direito creditório tem fundamento no artigo 4º da Medida Provisória nº 2.15970/2001, o qual afirma terlhe outorgado o direito de compensar tal crédito com débitos do mesmo tributo, conforme o fez através da Dcomp em tela. A DRJ julgou a manifestação de inconformidade improcedente, nos termos do Acórdão nº 12065.695. Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário em que discorre sobre sua atividade, o contrato de exploração de patente e uso de marca que firmou com empresa estrangeira, as remessas de royalties, o direito ao crédito de CIDE, sob o amparo da MP n° 2.15970/01, e a correção do procedimento adotado utilização do crédito da CIDE para liquidação de débitos vincendos, via PER/DCOMP. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301005.136, de 25 de setembro de 2018, proferido no julgamento do processo 13819.900202/200927, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301005.136): Fl. 104DF CARF MF Processo nº 13819.900210/200973 Acórdão n.º 3301005.143 S3C3T1 Fl. 4 3 "O recurso voluntário preenche os requisitos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. Com fulcro no § 1° do art. 50 da Lei n° 9.784/99, adoto como razão de decidir o voto condutor do Acórdão DRJ n° 1265.687, de 22/05/14, da lavra do i.julgador Bernardo Moraes Fiuza Pequeno: "(. . .) Verificase que o interessado fundamenta sua defesa no art. 4º da MP Nº 2.15970/2001, deste modo, transcrevo o referido dispositivo legal por ser de suma importância para a solução da lide (grifos de minha autoria). 'Art. 4º É concedido crédito incidente sobre a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, instituída pela Lei nº 10.168, de 2000, aplicável às importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas para o exterior a título de róialties referentes a contratos de exploração de patentes e de uso de marcas. § 1º O crédito referido no caput: I será determinado com base na contribuição devida, incidente sobre pagamentos, créditos, entregas, emprego ou remessa ao exterior a título de róialties de que trata o caput deste artigo, mediante utilização dos seguintes percentuais: a) cem por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1o de janeiro de 2001 até 31 de dezembro de 2003; b) setenta por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1o de janeiro de 2004 até 31 de dezembro de 2008; c) trinta por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1o de janeiro de 2009 até 31 de dezembro de 2013; II será utilizado, exclusivamente, para fins de dedução da contribuição incidente em operações posteriores, relativas a róialties previstos no caput deste artigo. § 2o O Comitê Gestor definido no art. 5º da Lei nº 10.168, de 2000, será composto por representantes do Governo Federal, do setor industrial e do segmento acadêmicocientífico.' Percebese na leitura deste artigo, que a MP nº 2.15970/2001 concedeu crédito ao contribuinte nos casos de remessas ao exterior a título de róialties, o qual é calculado com base na contribuição devida. No entanto, o interessado informou na Declaração de Compensação crédito oriundo de pagamento indevido, ou seja, o crédito previsto na MP nº 2.15970/2001 não tem relação com o Fl. 105DF CARF MF Processo nº 13819.900210/200973 Acórdão n.º 3301005.143 S3C3T1 Fl. 5 4 crédito de pagamento indevido, haja vista que o pagamento só é indevido se a CIDE não é devida. Por outro lado, o crédito da MP nº 2.15970/2001 só é gerado com base na CIDE que é devida. Portanto, percebese que a defesa sustenta um crédito distinto daquele informado na Declaração de Compensação. Ademais, ainda que o interessado obtivesse êxito em comprovar o suposto crédito previsto na MP nº 2.15970, este não poderia ser utilizado através de Declaração de Compensação, mas tão somente por meio de dedução da CIDE de períodos subseqüentes, em conformidade com o art. 4º, § 1º, inciso II, que diz (grifos meus): 'II será utilizado, exclusivamente, para fins de dedução da contribuição incidente em operações posteriores, relativas a róialties previstos no caput deste artigo.' Portanto, diante de todo exposto, voto por julgar a manifestação de inconformidade improcedente, mantendose integralmente o Despacho Decisório, a fim de não homologar a Declaração de Compensação." Com base no acima exposto, nego provimento ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 106DF CARF MF
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