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Numero do processo: 10855.722347/2015-02
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011
IRPF. RETENÇÃO NA FONTE. DEDUTIBILIDADE
O imposto retido na fonte poderá ser deduzido na declaração de rendimentos se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos
Recurso Voluntário Provido
Numero da decisão: 2202-004.509
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado,. por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente.
(Assinado digitalmente)
Junia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Reginaldo Paixão Emos e Ronnie Soares Anderson
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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PREVIDÊNCIA Recorrente OSWALDO FERREIRA DE ALENCAR Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 IRPF. RETENÇÃO NA FONTE. DEDUTIBILIDADE O imposto retido na fonte poderá ser deduzido na declaração de rendimentos se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos Recurso Voluntário Provido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado,. por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (Assinado digitalmente) Junia Roberta Gouveia Sampaio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Reginaldo Paixão Emos e Ronnie Soares Anderson AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 72 23 47 /2 01 5- 02 Fl. 172DF CARF MF 2 Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém (PA): Versa o presente processo sobre Impugnação à Notificação de Lançamento nº 2012/433042343550608, datada de 15/06/2015, referente a Imposto de Renda Pessoa Física, correspondente ao exercício de 2012, anocalendário de 2011, que resultou em cobrança do valor principal de R$ 514,09, sob o código 2904 e R$ 512,46, sob o código 0211, que somados aos acréscimos legais atingiu a soma de R$ 1.813,12, conforme fls 74 a 79. O sujeito passivo pleiteou na sua DIRPF apresentada restituição no valor de R$ 322,92, conforme demonstrativo de apuração do imposto devido, que se encontra na fl 78, com ciência via postal, na data de 24/06/2015, conforme “AR”, fl nº 80. 2. A Notificação descreveu as seguintes infringências, que foi cientificada via postal, na data de 17/08/2012, conforme tela do Sistema SUCOP, fl 29: Dedução Indevida de Previdência Oficial Relativa a Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, no valor de R$ 6.855,46, ´com a observação de que os documentos apresentados pelo contribuinte não comprovam a retenção da contribuição previdenciária, que os sistemas da RFB indicam inexistência de recolhimentos de contribuição previdenciária em nome do contribuinte. Que a fonte pagadora também não apresentou declaração ao FISCO informando a retenção da contribuição previdenciária, fl nº 76; Compensação Indevida de Imposto de Renda Retido na Fonte, no valor de R$ 673,64, declarado como retido pelas Fonte Pagadora ASSOCIAÇÃO EVANGÉLICA BENEFICENTE (ATIVA) – CNPJ nº 61.705.877/000172, com a observação de que os documentos apresentados pelo contribuinte não comprovam a retenção do IR na fonte. A fonte pagadora também não apresentou declaração ao FISCO informando a retenção do IR. Que não há recolhimento de IRPF nos sistemas informatizados da RFB em nome do contribuinte, fl nº 77. 3. Inconformado o sujeito passivo apresentou impugnação protocolada na data 20/07/2015, com as seguintes argumentações em seu favor, em resumo, fls nº 02 e 03: Que o valor da dedução em favor da Previdência Oficial foi descontado pela Fonte Pagadora ASSOCIAÇÃO EVANGÉLICA BENEFICENTE (ATIVA) – CNPJ nº 61.705.877/000172, bem como o Imposto de Renda Retido na Fonte declarado de R$ 673,64. 4. Para comprovar suas argumentações, apresentou cópia dos seguintes documentos: Fl. 173DF CARF MF Processo nº 10855.722347/201502 Acórdão n.º 2202004.509 S2C2T2 Fl. 173 3 Contrato de Agenciamento de Contribuição do Hospital Evangélico de Sorocaba – CNPJ nº 61.705.877/300034, fls nº 6 a 7; Documento em papel timbrado da empresa General Assessoria Contábil e Empresarial S/C Ltda, referente à informação de desconto de Previdência Social, no percentual de 11%, com citação da MP nº 83, regulamentada pela IN nº 87, de 27/03/2003, fls 08 e 09; Comprovante de Rendimentos Pagos e de Imposto sobre a Renda Retido na Fonte, referente ao anocalendário de 2011, mencionando que se tratou de Rendimentos de Trabalho sem vínculo empregatício, com as seguintes informações, fl 10: Total dos Rendimentos...............................................R$ 36.000,00 Contribuição Previdência Oficial..............................R$ 6.855,46 Imposto de Renda Retido na Fonte............................R$ 673,64 Recibos emitidos pelo Hospital Evangélico – Programa Amigo da Saúde, fls 11 a 59. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém (PA), negou provimento à Impugnação (fls. 142), em decisão cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2011 EMENTA Os descontos de Imposto de Renda e de contribuições em favor da Previdência Social devem estar comprovados com informações denominadas de obrigações acessórias, bem como, guardar compatibilidade com o valor dos pagamentos. Cientificado (AR fls. 150), o contribuinte apresentou o Recurso Voluntário (fls. 152/156), no qual requer a juntada, em fase recursal, dos seguintes documentos: a) ´Planilha resumo: demonstrando que os valores discriminados nos recibos de pagamento correspondem aos valores informados no Comprovante de Rendimento Anual, bem como comprovam os totais mensais informados em GFIP e constante da base de dados do CNIS(fls 157); b) Extrato de Processamento do CNIS: para comprovar que os salários da contribuição previdenciária informada na GFIP;(fls.158/159); c) Carta de Concessão/Memória de Cálculo do Benefício (fls. 160/163) Fl. 174DF CARF MF 4 d) Comprovantes de Rendimentos dos anos base 2010 e 2012: para comprovar a relação de trabalho com o Hospital Evangélico de Sorocaba durante todo o período; (fls. 164/166); d) Correspondência eletrônica recebida em 13/07/2016 da fonte pagadora informando a retificação da DIRF ano base 2011 (fls.167/168); É o relatório Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. A decisão recorrida negou provimento à Impugnação por não constar da DIRF da Fonte Pagadora, conforme se verifica pelo trecho abaixo transcrito: 7. Por pairar dúvidas quanto a efetiva retenção do Imposto de Renda Retido na Fonte, bem como o desconto previdenciário decidimos por realizar diligência junto à Delegacia de Origem, conforme fls 87 a 89. 8 A Delegacia de Origem procedeu à intimação, conforme documento à fl 90, e em resposta foram apresentados cópia dos mesmos documentos que já se encontravam no processo, fls 11 a 59, que não comprovam efetivamente as retenções e recolhimentos. 9 Pesquisado o Sistema DIRF desta Secretaria, relativamente ao anocalendário de 2011, verificouse que a suposta Fonte Pagadora, não apresentou DIRF em favor do interessado neste processo. 10. Analisando os documentos acostados ao processo, às fls 6 a 59, 74 a 79, já acima relatados, verificouse que não assiste razão ao sujeito passivo, tendo em vista que embora tenha tomado conhecimento através da Notificação de Lançamento que não foram comprovadas as retenções em favor da Previdência Social e nem do Imposto considerado como Retido na Fonte, com as observações contidas nas fls 76 e 77, por falta de informação da Fonte Pagadora aos Sistemas informatizados desta Secretaria, não tomou as devidas providências, no sentido de juntar os comprovantes de recolhimento dos valores que supostamente foram retidos, e mesmo após a realização da diligência a Fonte Pagadora também não apresentou a comprovação solicitada. Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10855.722347/201502 Acórdão n.º 2202004.509 S2C2T2 Fl. 174 5 O Regulamento do Imposto sobre a Renda, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999, é elucidativo ao explicitar em seu artigo 87, §2º as condições para dedutibilidade do Imposto de Renda Retido na Fonte: Art.87.Do imposto apurado na forma do artigo anterior, poderão ser deduzidos: I as contribuições feitas aos fundos controlados pelos Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente; II as contribuições efetivamente realizadas em favor de projetos culturais, aprovados na forma da regulamentação do Programa Nacional de Apoio à Cultura PRONAC, de que trata o art.90; III os investimentos feitos a título de incentivo às atividades audiovisuais de que tratam os arts. 97 a 99; IV o imposto retido na fonte ou o pago, inclusive a título de recolhimento complementar, correspondente aos rendimentos incluídos na base de cálculo; V o imposto pago no exterior de acordo com o previsto no art. 103. §1º A soma das deduções a que se referem os incisos I a III fica limitada a seis por cento do valor do imposto devido, não sendo aplicáveis limites específicos a quaisquer dessas deduções. §2ºO imposto retido na fonte somente poderá ser deduzido na declaração de rendimentos se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos, ressalvado o disposto nos arts. 7º, §§1º e 2º e 8º, §1º. De acordo com o artigo acima transcrito, a dedução do imposto sobre a renda retido pela fonte pagadora poderá ser realizada se o contribuinte tiver comprovante emitido pela fonte, em seu nome. Conforme se verifica pela documentação trazida aos autos, desde a impugnação o contribuinte juntou o comprovante de rendimentos pagos e de Imposto sobre sobre a Renda Retido na Fonte (fls. 10). Sendo assim, o fato da fonte pagadora, eventualmente, não ter feito o recolhimento dos valores retido ou não ter apresentado DIRF relativa às mencionadas retenções não pode ser causa de indeferimento das deduções pretendidas. Ademais, o contribuinte juntou, em fase recursal, Extrato de Processamento do CNIS: para comprovar que os salários da contribuição previdenciária informada na GFIP correspondem aquele constante da sua declaração.(fls.158/159); O artigo 16 § 4º do Decreto 70.235/72 determina que "a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Fl. 176DF CARF MF 6 Todavia, esse Conselho, em razão do princípio do formalismo moderado, aplicável aos processos administrativos, tem admitido a juntada de provas em fase recursal como se verifica pelas ementas abaixo transcritas: "IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AUTUAÇÃO POR DEDUÇÃO INDEVIDA DE IMPOSTO RETIDO NA FONTE. COMPROVAÇÃO IDÔNEA EM FASE RECURSAL. ADMITIDA EM HOMENAGEM AO PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO. Comprovada idoneamente, por demonstrativos de pagamentos de rendimentos, a retenção de imposto na fonte, ainda que em fase recursal, são de se admitir os comprovantes apresentados a destempo, com fundamento no princípio do formalismo moderado, não subsistindo o lançamento quanto aeste aspecto. Recurso provido" (Ac 2802001.637, 2ª Turma Especial, 2ª Seção, Sessão 18/04/2012) "PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRECLUSÃO. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72 deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, especialmente instrumentalidade das formas e formalismo moderado. O controle da legalidade do ato de lançamento e busca da “verdade material” alçada como princípio pela jurisprudência dessa Corte impõem flexibilidade na interpretação de regras relativas à instrução da causa, tanto no tocante à iniciativa quanto ao momento da produção da prova. Recurso voluntário provido para anular decisão de primeira instância." (Ac 1102 000.859, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 09/04/2013) "PEDIDO DE RESTITUIÇÃO / DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PRECLUSÃO. APRESENTAÇÃO DE NOVAS PROVAS NO RECURSO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72, que determina que a prova documental deva ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de se fazêlo em outro momento processual, deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, tais como o formalismo moderado e a busca da “verdade material”. A apresentação de provas após a decisão de primeira instância, no caso, é resultado da marcha natural do processo, pois, não tendo a decisão de piso considerado suficientes os documentos apresentados pelo contribuinte para a comprovação do seu direito creditório, trouxe ele novas provas, em sede de recurso, para reforçar o seu direito". (Ac 1102001.148, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 29/04/2014) Embora entenda desnecessária a juntada dos documentos adicionais para o provimento da Impugnação, tais documentos reforçam a conclusão acima exposta. Com efeito, o direito a dedução dos valores retidos não podem ficar condicionados ao cumprimento da obrigação acessória por parte da fonte pagadora. Tanto é assim que a súmula 12 deste Conselho reconhece a possibilidade de constituição do crédito tributário em nome do beneficiário ainda que a fonte pagadora não tenha procedido a retenção: Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10855.722347/201502 Acórdão n.º 2202004.509 S2C2T2 Fl. 175 7 Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. Ou seja, se a obrigação do beneficiário de pagar o imposto de renda permanece ainda que a fonte pagadora não tenha procedido a retenção é justo concluir que este também deverá ter direito a dedução dos valores retidos ainda que estes não tenham sido repassados e/ou declarados pela fonte pagadora pela Receita Federal. Em face do exposto, dou provimento ao Recurso Voluntário. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Fl. 178DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13603.721351/2011-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jun 26 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3401-005.016
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Rosaldo Trevisan - Presidente.
(assinado digitalmente)
Mara Cristina Sifuentes - Relatora.
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: MARA CRISTINA SIFUENTES
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Rosaldo Trevisan - Presidente. (assinado digitalmente) Mara Cristina Sifuentes - Relatora. (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1488; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T1 Fl. 353 1 352 S3C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13603.721351/201171 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3401005.016 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 22 de maio de 2018 Matéria IPI Recorrente CSD INDÚSTRIA, COMÉRCIO, CORTE E DOBRA DE AÇO S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 31/12/2008 a 31/12/2009 APRECIAÇÃO DE ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA, COMO REGRA GERAL, DOS ÓRGÃOS ADMINISTRATIVOS DE JULGAMENTO. SÚMULA CARF 2. Fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade (Art. 26A, caput, do Decreto nº 70.235/72, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Rosaldo Trevisan Presidente. (assinado digitalmente) Mara Cristina Sifuentes Relatora. (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 72 13 51 /2 01 1- 71 Fl. 354DF CARF MF Processo nº 13603.721351/201171 Acórdão n.º 3401005.016 S3C4T1 Fl. 354 2 Tratase de auto de infração de IPI, relativo ao período de 31/12/2008 a 31/12/2009, onde foi lançado o tributo, juros de mora, multa de ofício proporcional de 75% e multa de ofício do IPI não lançado com cobertura de crédito, no valor total de R$ 103.983,83. Segundo o TVF a autuação foi efetuada pela falta de lançamento do IPI nas saídas para o mercado interno de produtos industrializados importados pelo estabelecimento equiparado a industrial, conforme inciso I do art. 9º do RIPI/2002. Os débitos que deixaram de ser lançados foram calculados com base em planilha de Notas Fiscais de Saída de produtos importados apresentada pelo contribuinte (fls. 205 a 251) e os créditos com base nos valores pagos no desembaraço aduaneiro. Do encontro dos créditos com os débitos, resultaram saldos devedores em quatro períodos de apuração. Nos demais períodos, não houve falta de recolhimento, mas, da mesma forma, foi aplicada a multa por falta de lançamento, desta feita com cobertura de créditos, também prevista no art. 80, caput, da Lei nº 4.502/64. A DRJ de Recife/PE julgou improcedente a impugnação por unanimidade de votos, prolatando o acórdão nº 1145.121, de 24/02/2014. A empresa apresentou recurso voluntário onde alega: inconstitucionalidade e ilegalidade da exigência do IPI em razão da não ocorrência do fato gerador; ocorrência de Bis In Idem e bitributação; afronta ao princípio do tratamento nacional e ao princípio da legalidade estrita; imprevisibilidade das decisões judiciárias e seus reflexos na segurança jurídica. É o relatório. Voto Conselheira Mara Cristina Sifuentes, Relatora. O recurso voluntário é tempestivo e preenche as demais condições de admissibilidade, por isso dele tomo conhecimento. Tanto na impugnação como no recurso voluntário a recorrente não contesta a forma de apuração dos valores lançados. Em que pese a aplicação obrigatória por esse colegiado da Súmula CARF nº 2 pela alegação de inconstitucionalidade levantada pela recorrente, abro espaço para prestar alguns esclarecimentos. Fl. 355DF CARF MF Processo nº 13603.721351/201171 Acórdão n.º 3401005.016 S3C4T1 Fl. 355 3 Súmula 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. O CTN deixou claro a instituição do imposto, seu fato gerador e definição do contribuinte: Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: I o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; ... Art. 51. Contribuinte do imposto é: I o importador ou quem a lei a ele equiparar; II o industrial ou quem a lei a ele equiparar; ... Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase contribuinte autônomo qualquer estabelecimento de importador, industrial, comerciante ou arrematante. A Lei nº 4.502/64 trouxe a equiparação do importador ao estabelecimento produtor: Art . 3º Considerase estabelecimento produtor todo aquele que industrializar produtos sujeitos ao imposto. ... Art . 4º Equiparamse a estabelecimento produtor, para todos os efeitos desta Lei: I os importadores e os arrematantes de produtos de procedência estrangeira; Logo a controvérsia apresentada é infrutífera, ainda mais que já superada pelas decisões unânimes do STJ (REsp nº 1.385.952/SC, REsp nº 1.393.102/SC e REsp nº 1.393.362/SC). 3. Não há qualquer ilegalidade na incidência do IPI na saída dos produtos de procedência estrangeira do estabelecimento do importador, já que equiparado a industrial pelo art. 4°, I, da Lei n. 4.502/64, com a permissão dada pelo art. 51, II, do CTN. Todas as outras alegações da recorrente: ocorrência de Bis In Idem e bitributação, por ter sido tributado no desembaraço e na saída do estabelecimento e por a saída ser tributada também pelo ICMS, afronta ao princípio do tratamento nacional e ao princípio da Fl. 356DF CARF MF Processo nº 13603.721351/201171 Acórdão n.º 3401005.016 S3C4T1 Fl. 356 4 legalidade estrita e imprevisibilidade das decisões judiciárias e seus reflexos na segurança jurídica são questionamentos sobre o teor das leis. Como é sabido as leis são de aplicação obrigatória pelos tribunais administrativos que são vinculados, não podendo se eximir de aplicálas, conforme art. 26A do Decreto nº 70.235/72. O questionamento sobre o seu teor e legalidade deve ser levado às instâncias competentes. Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Pelo exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e no mérito por negar lhe provimento. Mara Cristina Sifuentes Relatora Fl. 357DF CARF MF Processo nº 13603.721351/201171 Acórdão n.º 3401005.016 S3C4T1 Fl. 357 5 Fl. 358DF CARF MF
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Numero do processo: 10865.720953/2015-66
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue May 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012
IRPJ/CSLL - SIMULAÇÃO - INEXISTÊNCIA
O direito de se auto-organizar autoriza a constituição de sociedades pelos mesmos sócios, que tenham por escopo atividades similares, complementares ou mesmo distintas. Se corretamente constituídas e operadas, afasta-se o entendimento de que se trata de mera simulação. Para que determinada operação seja considerada simulada, devem ser consideradas as características do caso concreto, demonstradas através de provas.
Numero da decisão: 1301-002.977
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que votou por lhe dar provimento.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
José Eduardo Dornelas Souza - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Antunes Nunes (suplente convocado para manter paridade do colegiado), Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à Conselheira Bianca Felícia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira e Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que votou por lhe dar provimento. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza - Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Antunes Nunes (suplente convocado para manter paridade do colegiado), Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à Conselheira Bianca Felícia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira e Bianca Felícia Rothschild.
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Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CONSTRUTORA SCALA GUAÇU LTDA E OUTRO ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 IRPJ/CSLL SIMULAÇÃO INEXISTÊNCIA O direito de se autoorganizar autoriza a constituição de sociedades pelos mesmos sócios, que tenham por escopo atividades similares, complementares ou mesmo distintas. Se corretamente constituídas e operadas, afastase o entendimento de que se trata de mera simulação. Para que determinada operação seja considerada simulada, devem ser consideradas as características do caso concreto, demonstradas através de provas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que votou por lhe dar provimento. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 72 09 53 /2 01 5- 66 Fl. 5642DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.643 2 Antunes Nunes (suplente convocado para manter paridade do colegiado), Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à Conselheira Bianca Felícia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira e Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de Recurso de Ofício contra o acórdão nº 0272.296, proferido pela 10ª Turma da DRJ/BHE, na sessão de 20 de março de 2017, que, por voto de qualidade, entendeu julgar procedente a impugnação do sujeito passivo para exonerar o crédito tributário exigido. Por bem descrever o ocorrido, valhome parcialmente do relatório elaborado por ocasião do julgamento do processo em primeira instância, a seguir transcrito: I – DO LANÇAMENTO. Contra o Contribuinte, pessoa jurídica, já qualificada nos autos, foram lavrados os Autos de Infração e respectivos Anexos de fls. 620/672, a saber: Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica IRPJ, no valor de R$13.542.704,95, cumulado com multa de ofício e juros de mora pertinentes, calculados até 07.2015. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, no valor de R$4.548.360,16, cumulada com multa de ofício e juros de mora pertinentes, calculados até 07.2015. Lançamento do IRPJ e CSLL. Descrição dos Fatos. Na descrição dos fatos, a Fiscalização fez as anotações abaixo transcritas: “Responsabilidade Tributária do Sócio Administrador: a Scala, sob administração de Olivo nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012, infringiu a lei tributária ao aplicar indevidamente a tributação com base na Lei 9.718/98, art. 13 e Dec. 3.000/99, art. 516, no lugar da Lei 9.718/98, art. 14 e Dec. 3.000/99, art. 246, mediante planejamento tributário que reduziu o montante devido de IRPJ e CSLL e assim promoveu prejuízo aos cofres da fazenda nacional, conforme relatório fiscal da fiscalização. Em decorrência da infração à lei tributária do IRPJ e CSLL, o sócio administrador Olivo Simoso – CPF 773.819.47820 passa a ser responsabilizado pelo crédito tributário lançado de ofício contra a empresa que administra, nos termos do CTN, art. 135, III. (...) RESULTADOS NÃO DECLARADOS Fl. 5643DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.644 3 INFRAÇÃO: OPÇÃO INDEVIDA PELO LUCRO PRESUMIDO – RESULTADOS OPERACIONAIS Contribuinte, obrigado a apurar o imposto de renda pelo regime do lucro real, entregou declaração optando pelo lucro presumido, mas manteve escrituração com observância das leis comerciais e fiscais, conforme relatório fiscal em anexo.” Relatório Fiscal – RF (fls. 594/617). Eis os principais pontos abordados pela Fiscalização. RESUMO DA AUTUAÇÃO Resumo da autuação: no decorrer do presente Relatório Fiscal serão relatadas as constatações baseadas nos elementos arrecadados e analisados durante a presente auditoria fiscal. A Fiscalização apurou que houve infração tributária tendo em vista redução da tributação devida do IRPJ e da CSLL, em razão da opção indevida pela apuração do lucro pelo regime do Lucro Presumido para os anoscalendário 2011 e 2012, através da utilização de outra empresa pertencentes aos mesmos sócios, que realizam o mesmo tipo de negócio e compartilham estrutura física, para distribuição, pulverização, da receita bruta total do negócio entre as duas empresas e assim não ultrapassarem, individualmente, o limite legal de R$ 48 milhões nos anos anteriores. Em razão desse planejamento tributário a Fiscalizada, bem como a outra empresa pertencente aos mesmos sócios (Construtora Simoso Ltda – Simoso), submeteuse à tributação menor que a devida, uma vez que nenhuma delas, considerando as receitas brutas somadas, poderia ter optado pelo regime de tributação com base no lucro presumido (Decreto nº 3.000/99, art. 246, I). Não ficou demonstrado o propósito negocial da Scala que pudesse justificar a divisão das receitas do conjunto Simoso e Scala. (...) Das Informações Fiscais: tratase de uma sociedade limitada e apresentou as DIPJ (DOC 18), conforme abaixo: Fl. 5644DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.645 4 CONSTATAÇÃO DE INFRAÇÃO À LEI TRIBUTÁRIA Distribuição da Receita Bruta para Tributação com Base no Lucro Presumido: conforme verificado por esta Fiscalização, a Construtora Simoso Ltda – CNPJ 48.169.536/000161 (Simoso) e a Scala – são controladas e gerenciadas pelos mesmos sócios e têm a mesma atividade. Os elementos que atestam essa situação são abaixo relatados: 1) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo; 2) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas empresas; 3) Mesmo objeto social (atividade formal); 4) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato). 1) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo: (...) Conforme podese observar nos quadros acima, os endereços de todos estabelecimentos da Scala coincidem com os endereços da Simoso, observandose tãosomente um estabelecimento da Simoso em que não há coincidência de endereço com a Scala (filial Simoso Aguaí) e um estabelecimento da Scala na Rua São José em MogiGuaçu – que encerrou atividades em 1992, segundo apurado pela Fiscalização através de visita local. (...) As diligências estão relatadas em detalhes nos Termos de Constatação, inclusive com a devida qualificação (nome completo e CPF) dos entrevistados, fotos do local e assinados pelos três AuditoresFiscais da RFB que participaram da visita (DOC 05). Intimada, a Scala esclareceu, dentre outras, que não existem contas e respectivos comprovantes de energia elétrica vez que as salas comerciais comodatadas não possuíam medidores separados. Considerando a resposta acima, a Fiscalização observa que a ausência de contas de água, luz e telefone, além das despesas com IPTU ou ITR demonstram o compartilhamento de estrutura entre as empresas Scala e Simoso. Não há cobranças de aluguéis, sendo ausentes contratos de locação de imóveis, substituídos por simples contratos de comodato ou arrendamento rural, sem registro público, nos termos do Código Civil, art. 221. Em referidos contratos figuram como comodantes ou arrendantes, sempre, a Simoso ou filhos dos proprietários da Simoso (que também figuram como funcionários da Simoso). Em um contrato de arrendamento Fl. 5645DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.646 5 datado de 01/01/2009, consta a previsão de pagamento de arrendamento mensal, porém, como já visto, inexiste comprovante de tais pagamentos. Quanto aos equipamentos e máquinas necessários à atividade da Scala, esses eram, segundo contrato de locação de equipamentos – sem registro público , firmados também com a Simoso. Ou seja, a Simoso locava equipamentos para a Scala realizar o mesmo objeto social da primeira. Tais situações demonstram o compartilhamento das mesmas instalações comerciais, produtivas e administrativas. Significa dizer, as empresas operam na mesma atividade, realizam o mesmo negócio. 2) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas empresas: (...) Os sócios (Olavo Simoso e Antônia Tereza Campaidi Simoso), que são marido e mulher, possuem idêntica participação nas duas empresas (60% e 40%, respectivamente). Simoso e Scala estão sob o mesmo controle e unidade de comando. 3) Mesmo objeto social (atividade formal): (...) Há forte similaridade no objeto social das empresas. 4) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato): (...) Em 2010, 85,2% da receita da Simoso corresponde a idênticos tipos de receitas da Scala. (...) Em 2011, 93,6% da receita da Simoso corresponde a idênticos tipos de receitas da Scala. Se considerada a receita de revenda de mercadorias da Simoso juntamente com sua receita de vendas de mercadorias, 98,8% das receitas da Simoso passam a ser idênticas às da Scala. (...) Em 2012, 98,1% da receita da Simoso corresponde a idênticos tipos de receitas da Scala. A denominação dos tipos de receita nos quadros acima são os informados pela Simoso e pela Scala em seus respectivos planos de contas transmitidos via Sistema Público de Escrituração Digital (Sped). (DOCs 11 a 15). Portanto, não só as atividades formalizadas em seus contratos sociais são similares como também suas atividades de fato. Fl. 5646DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.647 6 Em resumo, verificase que em razão de: 1) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo; 2) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas empresas; 3) Mesmo objeto social (atividade formal); e 4) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato); que a Simoso e a Scala dividem entre si a receita bruta total do negócio. Das Justificativas Finais da Scala sobre o Planejamento Tributário Adotado: (...) A Scala atendeu à intimação apresentando, em síntese, a seguinte resposta (DOC 03): 1) que não encontrou justificativa para o Fisco tributála pelo lucro real, pois considera correta sua opção pelo lucro presumido com base no inciso I, art. 246 do RIR/99; (...) 4) que a empresa exerce a atividade de construção civil desde 1992; 5) que o capital social é de R$ 2.000.000,00 e o patrimônio líquido de R$ 9.974.647,43 e que a execução de obras de menor porte geralmente tem lucratividade muito estreita; 6) que a Scala tem condições de participar de licitações de no máximo 20 milhões de reais; 7) que “Entendeu que no rigor da lei havia um único requisito a ser observado: a receita total, do ano anterior, ser inferior ao limite fixado na lei. Considerou que obedecido o referido limite, a opção tornavase livre e dispensada de outras providências. Avaliou também que o ingresso no lucro presumido era uma opção, significando que o regime ordinário continua sendo o lucro real.” (...) Manifestação Fiscal às Justificativas Finais da Scala: com relação aos argumentos apresentados, a Fiscalização assim se manifesta: 1) a motivação para a tributação no lucro real está apresentada e fundamentada ao longo do presente relatório fiscal e os elementos de prova estarão juntados ao respectivo processo administrativo fiscal. 2) os documentos juntados pelo contribuinte podem ser encontrados no PAF no DOC 03. Cabe esclarecer, em relação ao item 7.1 da intimação fiscal (contas de água, eletricidade, telefone e IPTU/ITR) que foram apresentadas apenas 3 contas telefônicas correspondentes a um único número de telefone. Salientese que existem 8 estabelecimentos da Scala, sendo, segundo a Scala, que dois deles não estariam funcionando no período (um que nunca teria operado e outro que encerrou as atividades). Observase que, por via de regra, cada estabelecimento deveria ter suas próprias despesas de consumo de água, energia e telefone, insumos mínimos imprescindíveis para funcionamento de um negócio de construção civil, ou comprovação fundada em Fl. 5647DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.648 7 documentação hábil e idônea do reembolso de tais despesas aos locadores/arrendadores/comodantes. (...) Com relação ao item 7.3) (contratos de locação ou escrituras) foram apresentados: (...). Em suma, são todos contratos firmados entre pessoas ligadas (Scala, Simoso, filhos e pais). Com exceção do contrato de arrendamento onerado em R$ 600,00 por ano, todos os demais não estabelecem ônus ao comodatário. Nenhum dos contratos tem seu registro em cartório. Outros detalhes e conclusões relativos à análise desses documentos já foram analisados no item deste relatório que trata do “Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo”. 3) A Scala adicionalmente informou que: (itens 3, 4, 5 e 6). Ponderando sobre essas informações, a Fiscalização não encontrou lógica nos motivos apresentados para o grupo se estruturar em duas empresas praticantes do mesmo negócio, a não ser o motivo tributário de escapar à tributação com base no lucro real mediante diluição da receita entre a Simoso e a Scala. Vejamos, se a Simoso possui toda a estrutura para mineração de brita e sua comercialização e para prestação de serviços de obras de construção civil em geral, qual o sentido em constituir uma empresa sem praticamente estrutura, que loca equipamentos da própria Simoso, utilizandose gratuitamente de espaço (contratos de comodato) para suas atividades? Qual o diferencial? A vantagem de menor custo operacional com transporte não encontra suporte fático, porque desprovida de qualquer lógica financeira, se assim fosse a Simoso teria a mesma vantagem, pois os endereços das duas são os mesmos. A administração e a estrutura sãos as mesmas. Quanto à proposição de que somente a Scala poderia participar de obras com valor máximo de R$ 20 milhões, ainda que essa proposição estivesse embasada em elementos fáticos comprovados pela Scala, careceria de lógica da mesma forma. Quem pode o mais, pode o menos, não é exagero afirmar isso. Se a Simoso tem o poder, seja de deter o Know how e toda estrutura indispensável, por que ela mesma não executaria todos os negócios em seu nome? Por fim, a justificativa central da Scala de que a execução de obras de menor porte geralmente tem a lucratividade muito estreita, por isso são por ela realizadas. Verificase que as margens líquidas da Scala foram bastante significativas. Não ficou demonstrado o propósito negocial da Scala que pudesse justificar a divisão das receitas do conjunto Simoso e Scala. Fl. 5648DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.649 8 (...) Da prevalência da Essência sobre a Forma. As novas normas contábeis brasileiras, vigentes a partir de 01/01/2008, foram criadas para ajustar a contabilidade brasileira à contabilidade internacional International Financial Reporting Standards (IFRS). Dentre os princípios básicos, ganhou forte relevância o da Primazia da Essência sobre a Forma, estampado na Resolução CFC nº 1.121/08, que aprova a Estrutura Conceitual para elaboração e apresentação das demonstrações contábeis, vigentes já em 2009. Em seu item 35, estabelecese que os eventos sejam contabilizados e apresentados de acordo com a sua substância e realidade econômica, e não meramente sua forma legal, uma vez que a essência das transações nem sempre é consistente com o que aparenta ser com base em sua forma legal ou artificialmente produzida. Em decorrência dessa premissa, embora cada empresa (Simoso e Scala) tenha sua receita formalmente declarada e tributada em separado, a realidade econômica demonstra que se trata de um negócio único, de uma receita única, não podendo ser separado por mera liberalidade dessas empresas para produzir efeitos tributários em prejuízo da Fazenda Nacional. Por conseguinte, as receitas das duas empresas devem ser somadas para fins de aferição do limite legal para poder optar validamente pela tributação com base no lucro presumido (art. 516, do RIR/1999). (...) A Solução de Consulta nº 381, de 2014, DOU de 23/02/2015 (DOC 16), trata da consideração da receita de todos os negócios como única para fins de verificação do limite da receita bruta para fins de opção válida à tributação com base no lucro presumido. Tanto a Simoso quanto a Scala não poderiam optar pela tributação com base no lucro presumido nos anos de 2010, 2011, e 2012. As receitas juntas somaram valores superiores a R$ 48 milhões anuais em 2009, 2010 e 2011. Portanto, devem submeterse à tributação com base no lucro real. Conclusão (...) Assim, a Scala deve ser tributada com base no art. 246, I, do RIR/1999, que trata da obrigatoriedade de tributação da pessoa jurídica com base no lucro real. (...) Fl. 5649DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.650 9 Responsabilidade Tributária do Sócio Administrador: a Scala, sob administração de Olivo nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012, infringiu a lei tributária ao aplicar indevidamente a tributação com base na Lei 9.718/98, art. 13 e RIR/1999, art. 516, no lugar da Lei 9.718/98, art. 14 e RIR/1999, art. 246, mediante planejamento tributário que reduziu o montante devido de IRPJ e CSLL e assim promoveu relevante prejuízo aos cofres da Fazenda Nacional. Em decorrência da infração à lei tributária do IRPJ e CSLL, o sócio administrador Olivo Simoso – CPF 773.819.47820 passa a ser responsabilizado pelo crédito tributário lançado de ofício contra a empresa que administra, nos termos do CTN, art. 135, III. II – TERMO DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA Foi lavrado contra o responsável tributário, Olivo Simoso, o Termo de Sujeição Passiva Solidária de fls. 674/675. II – DA IMPUGNAÇÃO. Tendo sido dele cientificado via postal (AR de fls. 677/678) tanto o sujeito passivo como o responsável tributário devidamente arrolado no correspondente Termo de Sujeição Passiva Solidária, em 04.08.2015 e 30.07.2015, respectivamente, foi apresentada contestação em nome de ambos em 28.08.2015, mediante o instrumento de fls. 680/726. Adiante compendiamse suas razões. I – DA TEMPESTIVIDADE A Impugnante ressalta a tempestividade da impugnação, considerando que foi intimada em 04.08.2015 e o responsável Olivo Simoso em 30.07.2015. II – DOS FATOS A autuação tem supedâneo em alegada distribuição da receita bruta total, fato esse construído a partir da circunstância de a Impugnante procurar, de acordo com o permitido pela lei e expressamente aceito no próprio Relatório Fiscal, a opção de tributação que lhe é mais vantajosa, considerando o limite então vigente para o lucro presumido. Com isso, constatouse uma alternância entre o lucro presumido (anoscalendário 2009, 2011 e 2012) e o lucro real (2010). A suposta distribuição da receita bruta decorre da equivocada premissa de que a Impugnante e a Construtora Simoso (sujeito passivo no PA nº 10865.720.538/201511), não teriam autonomia entre si, sendo, na realidade, um único negócio, de receita única. Segundo a Fiscalização, os elementos probatórios dessa irregularidade seriam os seguintes (fls.4 e ss. do Relatório Fiscal). Fl. 5650DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.651 10 Diferentemente do alegado no Relatório Fiscal, os elementos não comprovam qualquer irregularidade fiscal. Atestam, sim, que são sociedades com o mesmo controle, o que, além de não ser ilícito, tampouco é suficiente para afirmar que a Simoso e a Scala distribuem entre si a receita bruta total do negócio, driblando a lei no que diz respeito ao limite legal de R$ 48 milhões para que o negócio pudesse ser tributado com base no lucro presumido. Além disso, o propósito negocial da Impugnante foi o de segregar atividades com o objetivo de explorar serviços que não interessavam à Simoso (os de pequeno porte, ou seja, até 20 milhões de reais). Não fosse isso, o resultado do grupo seria menor, o que certamente não interessaria aos sócios. Qual irregularidade disso? Nenhuma. E qual a inconsistência da afirmação de que uma empresa de grande porte não tem condições práticas de realizar pequenos serviços, posto que a margem de lucro não cobriria os custos da atividade? Igualmente nenhuma. Por que segregar as atividades e pagar elevados valores de PIS, Cofins, IRPJ e CSLL nas vendas de brita realizadas pela Simoso a favor da Scala? Esses fatos geradores e respectivos débitos não teriam existido caso as duas sociedades fossem uma empresa só. Mas a Impugnante e a Simoso são pessoas jurídicas distintas, com autonomia financeira, econômica, laboral e operacional. Além disso, as atividades foram exercidas separadamente, em locais independentes (a filial compartilhada com a Simoso era apenas administrativa, já que essa empresa executava serviços de recapeamento, realizados no local). Não refutamos, por outro lado, as circunstâncias de que elas têm os mesmos sócios, com idêntica participação societária, assim como em parte possuem semelhante objetivo social (atividade formal) e compartilham endereços em função de necessidades operacionais adiante justificadas. Mas qual a relevância de possuir essa “identidade” de endereços, se todos os demais pontos são divididos e os serviços que executam são substancialmente diferentes? A resposta é simples: absolutamente nenhuma. III – DO DIREITO A seguir trataremos tanto da demonstração de que a segregação de atividades econômicas é atividade lícita e aceita pela jurisprudência, quanto da prova de que o auto de infração ora impugnado deve ser anulado porque a (i) conclusão de que se tratava de um único negócio foi construída a partir de indícios fracos e plenamente justificáveis, e (ii) que não considerou inúmeros outros fatos que invalidaram tal conclusão. Por último trataremos da responsabilidade tributária. III.1 – DA LEGALIDADE DA SEGREGAÇÃO DE ATIVIDADES EMPRESARIAIS Fl. 5651DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.652 11 Contrariamente ao afirmado no Relatório Fiscal, a Impugnante não distribuiu a receita bruta de seu negócio entre duas empresas, para poder se enquadrar no lucro presumido. Ao invés, os sócios segregaram atividades planejandose comercialmente. O que faz com que a operação seja considerada simulada (art. 167, I, do Código Civil) são as características do caso concreto, demonstradas mediante provas. Por outro lado, se a nova sociedade não possuía funcionários (ou os possuía em número simbólico); não possuía despesas de qualquer natureza (já que todas eram suportadas e aproveitadas fiscalmente pela sociedade originária); não demonstrou que exercia a atividade pela qual cobrava e, finalmente, se seu caixa era utilizado para pagamento das despesas de sociedade segregada, sem qualquer explicação, seria correto considerar simulada as atividades desta última sociedade, existente apenas para reduzir a carga tributária do grupo, sem qualquer respaldo factual factível. Mas esse não é o caso dos autos, conforme adiante se demonstrará. A Impugnante discorre acerca da: (1) Simulação de atos e negócios jurídicos; (2) Ilícitos atípicos; e (3) Abuso de direito no Código Civil de 2002 – reflexos em matéria tributária? III.2 – DA JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA SOBRE A MATÉRIA Jurisprudência já se debruçou sobre o tema “segregação de atividades econômicas” em diversas oportunidades. Destacamos os casos a seguir, que podem ser utilizados como paradigma para decidir o presente caso. PARADIGMA UM – Acórdão 3403002.5119 – 4ª Câmara/3ª Turma Ordinária – 3ª Seção – Sessão de 22 de outubro de 2.013 Não se configura simulação absoluta se a pessoa jurídica criada para exercer atividade de revendedor atacadista efetivamente existe e exerce tal atividade, praticando atos válidos e eficazes que evidenciam a intenção negocial de atuar na fase de revenda de produtos. A alteração na estrutura de um grupo econômico, separando em duas pessoas jurídicas diferentes atividades de industrialização e de distribuição, não configura conduta abusiva nem a dissimulação prevista no art. 116, p.u. do CTN, nem autoriza o tratamento conjunto das duas empresas como se fosse uma só, a pretexto de configuração de unidade econômica, não se aplicando ao caso o art. 126, III, do CTN. Aspecto relevante deste julgado é que, no entendimento do CARF, se a empresa criada efetivamente existe e exerce tal atividade, praticando atos válidos e eficazes que evidenciam a Fl. 5652DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.653 12 intenção negocial de atuar na fase de revenda dos produtos, não se configura simulação. Ora, no caso desses autos, comprovase que a Construtora Scala existe, possui independência financeira, técnica, patrimonial, operacional, laboral e, ainda, atua num ramo de negócio distinto da Construtora Simoso, que se dedica às obras de construção civil de maior porte e complexidade. PARADIGMA DOIS – Acórdão 149.524 – 3ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes – Sessão de 23 de janeiro de 2.008 EMENTA: SIMULAÇÃO – INEXISTÊNCIA – Não é simulação a instalação de duas empresas na mesma área geográfica com o desmembramento das atividades antes exercidas por uma delas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. PARADIGMA TRÊS – Acórdão 105.184 – 3ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes – Sessão de 4 de julho de 1.994 Lucro presumido. Simulação. Para que, no caso em apreço, ficasse perfeitamente caracterizada a simulação apontada, não deveria a acusação restringirse à tese de que a nova empresa, constituída em local vizinho à original, e com igual composição societária, visava burlar limite de receita bruta; cumpria aprofundar o exame contábilfiscal em ambas as empresas, a fim de cientificarse, de fato, que existia uma única prestadora de serviços. No caso em apreço, não é necessário maior esforço para se concluir que a Fiscalização não provou a acusação que faz. As provas são fracas e inconsistentes. O auditor presume, apressadamente, se tratar de um negócio único, sendo que lhe competia aprofundar no exame probatório, seja para sopesar as provas a favor da segregação, seja para verificar se as “desfavoráveis” não eram justificáveis pelo ramo de atividade exercida. PARADIGMA QUATRO – Acórdão 3403002.854 – 3ª Seção – 4ª Câmara/3ª Turma Ordinária – Seção de 26 de março de 2014 AUTO DE INFRAÇÃO. ABUSO DE DIREITO. SEGREGAÇÃO DE ATIVIDADES ECONÔMICAS. REQUISITOS. A segregação de diferentes atividades econômicas em duas entidades é admissível, mesmo que dela decorra economia de tributária, quando realizada previamente à ocorrência dos fatos geradores e revelar evidentes ganhos extrafiscais decorrentes do efetivo desenvolvimento dessas atividades separadamente e em estruturas independentes e com administração, corpo de funcionários e instalações próprios. Dessa decisão decorre que para que a segregação seja lícita e acatada pela RFB, deve ser provado que: Fl. 5653DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.654 13 O desenvolvimento das respectivas atividades ocorra separadamente e em estruturas independentes – o requisito foi cumprido no caso concreto, pois os clientes e as obras eram diversos, a Simoso possuía atividade operacional muito maior que a Impugnante, os serviços realizados pelas empresas eram muito diferentes do ponto de vista técnico – vide atestados técnicos, contratos e fotos – e com relação ao valor contratado, etc.; e Haja distinção com relação à administração, corpo de funcionários e instalações – requisito igualmente cumprido, pois embora os sócios fossem os mesmos, os funcionários e equipamentos necessários aos serviços eram distintos – vide GFIP, Balanço e fotos anexas. Portanto, seja porque a Impugnante comprovou a efetividade e independência do seu negócio em relação à Construtora Simoso, seja porque a Fiscalização não conseguiu reunir elementos mínimos para firmar uma convicção precisa e concordante de que os estabelecimentos seriam um único negócio, alternativa não há a não ser reconhecer improcedência do auto de infração. III. 3. DAS OPERAÇÕES DA IMPUGNANTE E DA CONSTTURA SIMOSO Passemos agora a refutar os fatos mencionados no auto de infração e a trazer informações que demonstrarão a legalidade da segregação e a necessidade de anulação do auto de infração ora impugnado. O Relatório Fiscal cita o princípio da primazia da essência sobre a forma como fundamento para a desconsideração da segregação de atividades da Impugnante e da Construtora Simoso. Nada mais equivocado, tendo em vista a aplicação restrita desse princípio em esfera tributária, bem como o não enquadramento dos fatos a ele. A prevalência da essência sobre a forma ganha relevo, em direito tributário, quando uma e outra levam a interpretar diversamente um mesmo negócio jurídico. Nesses casos, a forma jurídica utilizada aponta para um conceito econômico que, no entanto, é infirmado pela essência dos atos praticado. Como exemplos desses paradoxos, o arrendamento financeiro, que é considerado propriedade da arrendadora (juridicamente) e ativo da arrendatária (contabilmente), e a ação preferencial resgatável, título de capital (juridicamente) e passivo (contabilmente). Ocorre que fatos juridicamente relevantes devem ser construídos e interpretados segundo regras jurídicas tributárias, e não contábeis. Se aquelas forem insuficientes para regular a realidade social que hoje vivemos – chegando até mesmo a comprometer a cidadania fiscal, a gestão de políticas públicas tributárias e a isonomia , a lei deve ser alterada, e tais efeitos, combatidos. Mas, jamais se utilizar da analogia para justificar a Fl. 5654DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.655 14 aplicação de lei a fim de atender a “isonomia e a capacidade contributiva”, conceitos que encontram limites no texto legal. Ora, diferentemente do que asseverou a Fiscalização, a realidade econômica das operações da Impugnante e da Simoso comprova, de forma inconteste, que, no caso em tela a forma adotada pelas partes corresponde, em sua integralidade, à essência das operações. Não há distorção ou defeito entre o que foi contabilizado, e o que é praticado pelas partes. Não há um negócio único. Não há receita única. No caso, existiam dois negócios, distintos e autônomos, gerenciados pelas mesmas pessoas, mas com incontestável independência operacional, laboral, patrimonial e técnica, e não apenas independência formal. É evidente que a Autoridade Administrativa interpretou equivocadamente os supostos elementos de prova, ao afirmar que a contestada distribuição da receita bruta total deuse em função dos seguintes fatos (fls. 4 do Relatório Fiscal): 1) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo; 2) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas empresas; 3) Mesmo objeto social (atividade formal); 4) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato). Contestaremos objetivamente cada um desses pontos. a) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo Para demonstrar a impropriedade do entendimento fiscal e, principalmente, para se atestar que o simples fato de existir compartilhamento de um endereço não pode, em absoluto, justificar a alegação de que estamos diante de um único negócio, uma única receita, mister se faz refutar cada um dos argumentos levantados pela Fiscalização. 1º argumento fiscal) Coincidência de estabelecimentos da Scala nos endereços da Simoso (fls. 5 e 6 do Relatório Fiscal) Diferentemente do que asseverou a Fiscalização, não há qualquer ilegalidade nesta conduta. Pelo contrário, tratase de lógica do mercado de pavimentação asfáltica, que requer a abertura de estabelecimentos nos municípios mais próximos em que os serviços serão realizados e materiais vendidos, propiciando com isso a possibilidade de emissão de nota fiscal e o recolhimento de ISS/ICMS. Isso não implica, por outro lado, a necessidade de estrutura administrativa em todas as filiais. Não! O serviço contratado da Scala (recapeamento) era executado diretamente no local, por funcionários e maquinários, não requerendo estrutura administrativa e comercial específica. Fl. 5655DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.656 15 Esse era o real motivo. Sem as filiais, a Impugnante teria sérios entraves operacionais perante os Fiscos Municipal e Estadual, dada a natureza dos serviços que presta (sujeitos aos recolhimentos do ISS no local da prestação) e da mercadoria que ocasionalmente comercializa. A customização do transporte era necessária mas secundária nesse contexto, e a dinâmica dos fatos aqui exposta e as características de suas filiais (receita, número de empregados, estrutura física ou não etc.) não deixa dúvida da procedência dessas alegações. Ademais, muito embora tenha sido devidamente esclarecido à Fiscalização a natureza das operações desenvolvidas pela Impugnante e pela Simoso, não restou consignado que esta última, além de prestar serviços e locar equipamentos, também extrai e comercializa pedra britada (atividade de receita mais uniforme e constante, não tão sazonal quanto à construção civil), o que não ocorre com a Scala, que apenas revende esses materiais, adquiridos da Simoso. E este fato explica não só a razão pela qual as sociedades compartilham o mesmo endereço físico em vários casos, como também a razão pela qual a Impugnante não assume a ônus financeiro de despesas de luz, telefone, ITR e IPTU de sua filial 1 – CNPJ 00328, local em que efetivamente era estabelecida sua estrutura administrativa (como será posteriormente esclarecido e provado). Usualmente, e sem que isso implique fraude, as empresas que atuam no segmento de construção civil constroem verdadeiros parques industriais, aglutinando diversas sociedades, dos mais diversos ramos da cadeia produtiva da construção civil, com vistas a otimizar as operações de todas as partes envolvidas. O Relatório Técnico 30, apresentado pelo Ministério de Minas e Energia – MME, atesta essa forma de atuação. 2º argumento fiscal) Constatação de estruturas compartilhadas entre as duas empresas, a partir das diligências feitas nos dias 14 e 15 de janeiro de 2.015, nos CNPJs 56.111.347/000166 e 56.111.347/000832 (filiais da Construtora Scala) (fl. 5 e 6 do Relatório Fiscal) Sobre a utilização dessas diligências como prova contra a Impugnante temos que essa atitude é, no mínimo, curiosa, haja vista que as diligências foram feitas nos estabelecimentos 56.111.347/000166 (situado na Rodovia MogiGuaçu a Itapira Km 1,1, Município de MogiGuaçu/SP) e 56.111.347/000832 (situado na Estrada Velha São João, Km 2, Município de São João da Boa Vista/SP). Analisando as DIPJs da Impugnante, relativas aos anos calendário 2.011 e 2.012 (doc. 4), especificamente na ficha 54, observamos que os estabelecimentos que, de fato e de direito, desempenham atividade econômica são basicamente as filiais 000328 e 000751. Fl. 5656DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.657 16 Por que a Fiscalização não realizou diligencias nestes locais??? E considerando que praticamente toda a receita gerada pela Impugnante advém da filial 56.111.347/000328, não seria no mínimo razoável que a Fiscalização tivesse diligenciado neste endereço, antes de concluir enfaticamente que as estruturas são compartilhadas entre as duas empresas; as empresas operam na mesma atividade, realizam o mesmo negócio? Evidentemente que essas diligências não provam nada contra a Impugnante. 3º argumento fiscal) Inexistência de pagamento, por parte da Impugnante,de despesa de água, luz, telefone, IPTU ou ITR, com a utilização de contratos de comodatos, sem registros públicos e sem assunção dos ônus normais “correntes e usuais de mercado” atinentes à ocupação do imóvel No que diz respeito às cotas de consumo de água, sequer há como segregar a cobrança, uma vez que a utilização da água é feita a partir de poço artesiano (doc. anexo), e não via concessionária de fornecimento de água. Quanto às demais despesas, a relação comercial existente entre a Impugnante e a Construtora Simoso – decorrente da aquisição de brita para utilização na pavimentação asfáltica – afasta a assunção de quaisquer ônus em relação à ocupação, já que a divisão, dado ao fato de que a maioria dos funcionários da Impugnante estão alocados em obras e não no setor administrativo, tornaria a cobrança praticamente ínfima. Ademais, a Impugnante possuía linha própria de telefone. Além disso, como informado à Fiscalização, o valor unitário da brita, assim como o compromisso de aquisição regular de produtos, já abrangia todos os custos, inclusive energia elétrica, telefone, IPTU ou ITR. A fim de que não fiquemos apenas em palavras, apresentamos outras situações semelhantes de comodato de áreas, em que há vinculação a concessões para compra de produtos resultantes de britagem (docs. 8 e 9). Esses contratos não foram firmados entre as empresas aqui envolvidas, seus sócios e sucessores, mas com terceiros, o que demonstra que a estranheza causada à Fiscalização justificase pelo não conhecimento das regras e da cultura vigentes no mercado. É comum, por exemplo, o comodato de área não onerosa, quando o comodatário obrigase a adquirir brita da comodante. É o que normalmente acontecia no caso da Impugnante e da Simoso. Em 30 de julho de 1.997, a Simoso, na qualidade de comodatária. Firmou contrato de comodato de área de terras de 24,20 alqueires, no Município de Nova Odessa/Estado de São Paulo, com a Sr. Helena Alice Pertelevitz Silekis. Fl. 5657DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.658 17 Este contrato estava diretamente atrelado ao contrato de compra e venda de produtos resultantes de exploração e de britagem de rocha celebrado em 17 de março de 2.000, entre a Simoso (CONTRATANTE) e da Pedreira Fazenda Velha Ltda. (CONTRATADA), que já era responsável pela exploração de parte da jazida de rocha existente na propriedade. Vejamos os termos das cláusulas 1ª e 2ª: (...) A leitura dos parágrafos primeiro e terceiro não deixam dúvidas de que houve uma concessão por parte da CONTRATADA, Pedreira Fazenda Velha Ltda, com a assunção dos custos (i) para colocação dos produtos na Usina da CONTRATANTE e (ii) de óleo e graxa para abastecimento de maquinário da CONTRATANTE, no caso da Impugnante. Mas vamos a um segundo caso. Em 10 de julho de 2.000, a Simoso, na qualidade de comodatária, firmou contrato de comodato de gleba de terras localizado no imóvel designado Fazenda Velha, no Município de Mogi Mirim/Estado de São Paulo, com a empresa Imobiliária Quaglio S/C Ltda, cujo sócio era o Sr. Orlando Quaglio. Este contrato estava diretamente atrelado ao contrato de compra e venda de produtos resultantes de exploração e de britagem de rocha celebrado em 17 de março de 2000, entre a Simoso (CONTRATANTE) e a Irmãos Quaglio & Cia Ltda (CONTRATADA), cujo sócio era também o Sr. Orlando Quaglio. Veja os termos das cláusulas 1ª e 2ª: (...) E agora um terceiro e último caso. Em 18 de junho de 1.999, a Simoso, na qualidade de comodatária, firmou contrato de comodato de gleba de terras localizado no Município de Mogi Mirim/Estado de São Paulo, com Agostinho Rampazzo de Barros e sua esposa Lucia Helena Stort de Barros. Este contrato estava diretamente atrelado ao contrato de compra e venda de produtos resultantes de exploração e de britagem de rocha celebrado em 17 de março de 2000, entre a Simoso (CONTRATANTE) e a Pedreira Mogiana Ltda (CONTRATADA). Veja os termos das cláusulas 1ª e 2ª: (...) Estes três casos acima amoldamse exatamente ao contexto da Impugnante e da Construtora Simoso. A fim de que a Impugnante adquirisse constantemente britagem da Simoso, ela era beneficiada com a dispensa dos ônus de ocupação do imóvel cedido (luz, telefone, IPTU ou ITR). A única diferença é que, no caso em tela, a operação é entre pessoas sob o mesmo controle. Fl. 5658DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.659 18 Nos três casos acima, por outro lado, a operação é com pessoas não relacionadas. Isso e nada mais. Ainda, temos também que os valores relativos a essas despesas seriam muito baixos, se fossem rateados proporcionalmente à utilização, especialmente diante do fato de que a operação de extração de pedras é feita pela Simoso (o que lhe permitia assumir maior custo pela maior utilização local, além de maior utilização da energia elétrica). Não percamos de vista que eram apenas cinco funcionários da Impugnante na filial 00328 (única em que havia pessoal administrativo/comercial) em 2011, e três em 2012, trabalhando nos locais compartilhados com a Impugnante. O restante dos funcionários da Scala trabalhava diretamente nas obras. Não percamos de vista, finalmente, que as despesas de energia elétrica e IPTU de que ora tratamos são insignificantes considerando o faturamento das empresas, embora elevadas para uma estrutura administrativa, pois como não existiam relógios separados, a energia era consumida também por toda a área de pátio e oficina, não compartilhadas pela Impugnante. Da mesma forma ocorria com o IPTU. A área total da Simoso é de 89.905,87 m2, ou seja, muito grande em comparação com o rateio de uma sala para os cinco funcionários da Scala (filial 00328). Por fim, quanto à ausência de registro público dos contratos, temos que este argumento não pode ser utilizado para invalidar as operações firmadas. Ora, o art. 221 do Código Civil, expressamente mencionado no Relatório Fiscal, prescreve que o documento que preencher as condições nele referidas fará lei entre as partes, mas a sua oponibilidade perante terceiros, no caso de cessão das prerrogativas nele insculpidas, somente advirá do registro perante o cartório competente. A Impugnante e a Construtora Simoso celebraram contratos de comodato, de interesse exclusivo das partes, sendo que a forma e os termos pactuados não geraram reflexos para outros que não elas, pouco interessando ao Fisco, que o recebeu apenas como mais um elemento indiciário da presumida ausência de segregação de atividades. 4º argumento fiscal) Utilização de equipamentos e máquinas da Simoso para realização das atividades da Scala, por meio de contrato de locação firmados com a Simoso (fls. 7 do Relatório Fiscal) Neste tópico, o equívoco fazendário é flagrante. A Scala esclareceu durante a fiscalização que possuía em 2.011 sete máquinas e um caminhão, conforme listagem do imobilizado fornecida, mas que sempre que necessário alugava equipamentos Fl. 5659DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.660 19 e máquinas. E a justificativa desta conduta é simples. A Impugnante é uma empresa de construção civil que desenvolve atividades de pequeno porte, não sendo típico e tampouco viável, neste modelo de negócio, a imobilização de recursos via aquisição de ativos. A sazonalidade de receitas, atrelada ao alto custo para aquisição e manutenção de maquinário pesado de construção civil, impede que a Scala mantenha frota e equipamento próprio para realização das suas atividades. A Simoso, por sua vez, possuía número de negócios e receitas muito mais significativos, justificando, ao longo dos anos, a aquisição de equipamentos. Não procede, pois, a conclusão do Relatório Fiscal (fls. 15), de que a Simoso também deveria locar os equipamentos, dado seu maior poder de barganha. A situação seria totalmente diferente se a Impugnante não tivesse absolutamente nenhuma máquina, equipamento ou veículo. Fosse uma empresa sem qualquer ativo. Ocorre que esse não é o seu caso, pois a empresa possui maquinário totalmente compatível com o seu trabalho, diferentemente do que faz crer a afirmação constante ao final das fls. 7 do Relatório Fiscal. Na eventual e pontual necessidade de atender determinada obra, a Impugnante alugava de terceiros (da Simoso também, mas não só dela) máquinas e equipamentos. Não há nada de ilícito nisso. Não há prova de ausência de autonomia operacional. Não há prova de ausência de propósito negocial e abuso de forma. Anexamos aos autos uma listagem das máquinas, equipamentos e veículos tanto da Impugnante, quanto da Construtora Simoso, a fim de comprovar que as sociedades possuem autonomia patrimonial e, com, isso, afastar a conclusão fiscal de que estamos diante de um único negócio, uma única receita. A Impugnante e a Simoso não podem, de forma alguma, ser tratadas como um único negócio. A comparação é simples de ser feita, conforme informações extraídas dos Balanços Patrimoniais das empresas (docs. anexos). b) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas as empresas Sim, é verdade que os sócios são marido e mulher e possuem idêntica participação nas duas empresas. E igualmente verdadeiro que o Sr. Olivo Simoso, sócio majoritário da Impugnante e responsável tributário pelo débito ora impugnado, possui participação em outras pessoas jurídicas (Briteng Britagens e Construções Ltda, Pedra Brita Indústria e Comércio Ltda, Britagran Britas e Granitos Mineradora Ltda, Construtora Simoso Ltda e Simccon Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda), as quais desempenham atividades distintas e independentes da Impugnante. Fl. 5660DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.661 20 O fato de a Impugnante e a Simoso serem sociedades sob mesmo controle não justifica a conclusão de que se trata de um negócio único, de uma receita única. Se esse fato isoladamente pudesse levar ao entendimento ora contestado, o legislador teria taxativamente previsto que uma das condições para optar pelo lucro presumido seria a análise conjunta da receita bruta global de sociedades sob mesmo controle. Lembrese que quando a intenção foi esta, o legislador foi expresso, o que se infere da leitura do inciso III, do §4º, do art. 3º, da Lei Complementar 123/2006. Em casos ainda mais nebulosos, como, por exemplo, na hipótese de sociedade em conta de participação – SCP, nas quais duas atividades podem estar sendo exteriorizadas pela mesma pessoa jurídica (uma na condição de atividade própria e outra na condição de sócio ostensivo), a própria RFB reconhece que a sistemática de tributação pode ser livremente escolhida pelas partes (art. 1º, §1º, da IN/SRF 31/2001). c) Mesmo objeto social (atividade formal) A Fiscalização registra que há forte similaridade no objeto social das empresas. Primeiramente, a similaridade de objeto social não pode ser interpretada como prova de um único negócio, uma única receita. A Fiscalização ignora o fato de que duas empresas podem possuir o mesmo objetivo social, mas atuar em ramos empresariais completamente distintos. As fotos em anexo (doc. 21) buscam elucidar as explicações que faremos a seguir, tornando inconteste a ilegalidade da autuação. De mais relevante destacamos que: 1) A Simoso atua no segmento de obras de construção civil de grande porte, bem como na mineração, realização de obras de terraplanagem, pavimentação asfáltica (aberturas de ruas inexistentes), sendo que possui atestado de capacidade técnica para construir até mesmo barragem/represas de água, estação de tratamento, pistas de aeroporto etc. Veja alguns exemplos nos atestados de capacidade técnica anexos (doc. 5). 2) A Impugnante, por seu turno, desenvolve apenas obras de pequena complexidade e valor, tais como recapeamento, em que o pavimento já existe e exige menor pessoal, com poucos equipamentos. Veja alguns exemplos nos atestados de capacidade técnica anexos (doc. 6) Não há dúvidas que são ramos completamente distintos, muito embora contidos no segmento “construção civil”. A análise do Fisco foi, com o devido respeito, deveras simplista, limitandose a confrontar a nomenclatura das atividades contidas no contrato social. A realidade fática, suportada por inúmeros documentos fiscais, explicações Fl. 5661DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.662 21 prestadas à época, fotos, etc. não permite que se sustente a absurda afirmação de que as empresas possuíam o mesmo negócio. A Scala não podia executar os serviços da Simoso (pois lhe faltava know how, atestados, funcionários, maquinário), e a Simoso embora teoricamente pudesse executar os serviços prestados pela Scala, também não poderia, pois sua estrutura era cara demais para realizar pequenos serviços. Seu custo fixo não comportava a execução de serviços de pequeno valor. d) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato) Aqui o elemento probatório deveria ter sido explorado pela Fiscalização, mas novamente não o foi. A Fiscalização assevera que as receitas da Simoso são idênticas às da Scala. Vejamos (fls. 9 a 11 do Relatório Fiscal). Observe que a conclusão fiscal está pautada, única e exclusivamente, na nomenclatura dos tipos de receitas das pessoas jurídicas. A precariedade desse raciocínio é flagrante, se considerado, entre outros pontos, que não houve análise: i) Dos contratos de prestação de serviços firmados pelas empresas, verificandose a natureza das atividades e principalmente o volume das operações (considerando os aspectos técnicos e operacionais para desenvoltura das mesmas); ii) Dos clientes de cada uma das pessoas jurídicas; iii) Da capacidade técnica (atestados de capacidade técnica) de cada uma das empresas para gerar as receitas tributadas; e iv) Do quadro de funcionários de cada pessoa jurídica para saber a capacidade laboral das empresas. Ademais, cumprenos agora pontuar outros fatos que demonstram a inquestionável independência operacional, financeira, administrativa e laboral da Construtora Simoso em relação à Impugnante (vide arquivo anexo). Quadros de dados comparativos entre a Simoso e a Impugnante dos anoscalendário de 2011 e 2012, contidos na defesa: FORNECEDORES; CLIENTES; MAIORES CLIENTES POR FATURAMENTO; QUANTIDADE DE FUNCIONÁRIOS ATIVOS POR MÊS; e RECEITA BRUTA X FOLHA DE SALÁRIO. Além disso, existem diversos outros fatores que atestam que não se trata de um único negócio, uma única receita. Tal como informado alhures, em algumas situações a Impugnante terceirizava parte de suas atividades, como pode ser observado dos contratos firmados com a Tesmaq Comércio de Materiais para Construção Ltda. ME, para execução de guias e sarjetas extrusadas (doc. 10). Do confronto entre as informações acima – devidamente comprovadas pela documentação ora acostada – com a Fl. 5662DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.663 22 simplória prova produzida pela Fiscalização, não há dúvidas de que é totalmente improcedente a afirmação fazendária de que não só as atividades formalizadas em seus contratos sociais são similares, como também suas atividades de fato. Por fim, contestamos veementemente as margens líquidas apresentadas às fls. 16 do Relatório Fiscal, e que visam demonstrar que, contrariamente ao afirmado pela Impugnante, as margens de lucro de sua atividade (obras de pequeno porte) são baixas. Primeiramente a Fiscalização desconsidera as despesas relativas à consecução das atividades, já que a apuração era de lucro presumido, e não se considerou todas as despesas. Esse número, portanto, é uma mera ficção, inútil para demonstrar que a atividade da Scala era altamente lucrativa. Veja que no anocalendário de 2010, em que a apuração foi pelo lucro real, a margem líquida foi de meros 4,5%, portanto, significativamente inferior aos 77% e 82% presumidos no auto de infração. III. 4. RESUMO DAS PROVAS QUE CONFIRMAM A LEGALIDADE DA SEGREGAÇÃO Esse é o ponto importante: se tanto a Impugnante quanto a Simoso exerciam atividades de modo independente, a receita poderia sujeitarse por vezes ao lucro presumido, pois a legislação assim autoriza. Não se tratava de ilícito, pois se assim o fosse a Impugnante jamais teria recolhido IRPJ e CSLL, com base no lucro real, já que o sócio da empresa é titular de outras sociedades de construção civil e britagem, sujeitas ao lucro presumido, que faturam valores significativamente inferiores ao limite do LP e que poderiam perfeitamente “distribuir” a receita. Além disso, a Simoso recolheu PIS, Cofins, IRPJ e CSLL sobre as vendas de brita efetuadas a favor da Impugnante, o que confirma que a razão dessa estrutura não era tributária e sim negocial. A vantagem pretensamente havida com o lucro presumido não existiu, pois se a Scala pagou “menos imposto” por conta do lucro presumido, a Simoso pagou muito mais que o devido pois tributou a venda das britas para a Scala, fato que não teria ocorrido caso fosse uma empresa só. Assim, o caso concreto revela tão somente a segregação de atividades econômicas motivada por necessidades comercial e operacional. Tratase, pois, de mera economia fiscal, desprovida de qualquer ilicitude. Destacamos, nessa oportunidade, algumas provas a favor da legalidade da segregação: Não há qualquer problema no fato dos sócios serem os mesmos. Ser diverso não garante, por si só, a legalidade. O que importa é o conjunto probatório. Fl. 5663DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.664 23 As sociedades estavam estabelecidas em local compatível com suas atividades, e com estrutura necessária para a execução dos serviços. O objeto social não coincidia totalmente (o da Simoso era muito maior, e englobava também a pedreira), e naquilo em que formalmente coincidia, possuía de fato uma abrangência técnica e de custos muito maior. Todas as filiais da Simoso eram operacionais e possuíam estrutura administrativa. Já da Impugnante, apenas uma (CNPJ 00328) possuía funcionários, tendo em vista sua constituição para fins meramente fiscais. As sociedades tinham empregados em sua folha de pagamento, em número suficiente ao exercício de sua atividadefim. As sociedades possuíam máquinas e equipamentos em número suficiente para a execução de suas atividades. Nas raras exceções em que a Impugnante precisava locar equipamentos, fazia de diversos fornecedores distintos. Os clientes eram diversos. Não houve confusão patrimonial: receitas, despesas e controles eram totalmente separados e controlados. A Fiscalização concordou com isso. Os pagamentos feitos pelos clientes eram sempre a favor da empresa que havia prestado o serviço. IV – DA DEFESA DO RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO OLIVO SIMOSO O fundamento utilizado no auto de infração foi o art. 135, III, do CTN, conforme a seguir (fls. 24 do Relatório Fiscal). No caso concreto, Olivo Simoso não agiu com dolo, pois administrou empresa efetivamente existente, possuía empregados, estrutura e clientes e pagava todos os impostos devidos, dentro de um contexto de “britibutação” da Simoso, se considerarmos as premissas fazendárias. Ademais, utilizouse licitamente da segregação de atividades, fato permitido na lei e acatado pela doutrina administrativa, conforme já demonstrado acima. Por isso, o Impugnante Olivo não é parte legítima para figurar no polo passivo deste processo. Os autos não têm provas diretas ou indiciárias relativas a ele, capazes de autorizar sua responsabilidade. E ainda que assim não fosse – o que admitimos somente por hipótese – o Impugnante Olivo também não deve ser considerado responsável tributário, pois não agiu propositadamente de forma contrária à lei, tendo segregado suas atividades de acordo com o que é plenamente aceito pela jurisprudência e defendido pela doutrina. Agiu como qualquer administrador zeloso faria. Pagou Fl. 5664DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.665 24 os tributos das duas pessoas jurídicas, não incorreu em confusão patrimonial e prestou todas as informações pertinentes antes e durante a fiscalização. Não é possível acusarlhe, portanto, de ter agido com dolo. Portanto, requer seja afastada a responsabilidade tributária. V – DO PEDIDO Por todo o exposto, requer: 1) Seja julgada procedente a presente impugnação, para anular os autos de infrações lavrados. 2) Caso o pedido não seja atendido de imediato, requer sucessivamente a baixa dos autos em diligência, a fim de que o Fisco manifestese sobre as questões passíveis de convalidação aqui colocadas; e 3) Finalmente, requer seja julgada procedente a impugnação de Olivo Simoso, para os fins de, caso o pedido “1” não seja deferido, julgar procedente sua impugnação para afastar a responsabilidade tributária a ele atribuída. III – DAS DILIGÊNCIAS REALIZADAS. Por meio da Resolução nº 2.001.969, da 10º Turma/DRJ/BHE, de 21 de março de 2016 (documento de fls. 5413/5416), o julgamento do processo foi convertido em diligência para que a Fiscalização, diante das alegações e provas trazidas aos autos pela defesa, se manifestasse. Abaixo transcrevese a parte final da referida Resolução que contém a sua solicitação: “Diante das amostras de contratos, digase contemporâneas e extemporâneas ao período fiscalizado, trazidas aos autos pela defesa que buscam corroborar suas alegações em torno da distinção entre as atividades das duas empresas, fazse necessário que a Fiscalização diligencie junto à Impugnante para: a) trazer aos autos documentos, tais como, notas fiscais de prestação de serviços, contratos, medições e outros que contenham de forma detalhada e inequívoca as efetivas atividades desenvolvidas por ambas empresas, Simoso e Scala; b) auditar ou analisar os referidos documentos, discriminando as situações em que as duas empresas executaram atividades similares, tanto no escopo, quanto na complexidade e valor, conforme afirma na autuação; c) ainda, quanto às demais questões postas pela defesa, manifestarse, caso entenda necessário. Assim sendo, nos termos do art. 18 c/c o art. 29, ambos do Decreto nº 70.235, de 1972, proponho o retorno do presente processo à DRF de origem para que sejam realizadas as Fl. 5665DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.666 25 diligências solicitadas acima nos itens “a”, “b” e “c”, podendo a Fiscalização, a seu critério, estendêlas a outros pontos, considerando o vasto arrazoado contido na defesa.” Do Relatório Fiscal Diligência Feitas as diligências acima solicitadas, a Fiscalização elaborou o “RELATÓRIO FISCAL Diligência” (documento de fls. 5454/5487). Abaixo, transcrevemse trechos do aludido Relatório: “(...) PRIMEIRA PARTE – ANÁLISE PRELIMINAR DA QUESTÃO “ATIVIDADE” 6. (...) importa tecer comentários a respeito do que se deve entender por mesma “atividade” empresarial. A Scala sustentou em sua impugnação que as atividades dela e da Simoso são diferentes (...), basicamente, por que teriam executado obras de complexidade diferentes, cujos valores seriam em função disso também diferenciados e que os clientes de ambas não seriam os mesmos. 7. Executar atividades diferentes não se confunde: 1º com prestar serviços da mesma natureza ou vender produtos iguais para clientes diferentes. (...). O fato de a Scala afirmar que são clientes diferentes não bastariam para comprovar que as “atividades” exercidas por ela e pela Simoso são diferentes. Os clientes poderiam ser diferentes, mas a atividade continuaria sendo a mesma; (mais adiante veremos que não eram clientes diferentes) 2º com prestar serviços de valores diferentes. (...). É difícil padronizar preços na execução de serviços personalizados – obras de construção civil é o melhor exemplo disso. Os riscos de execução, de recebimento, de atraso na execução, de logística de movimentação de pessoal, de equipamentos e materiais, etc., induz à formação de preços diferentes para cada obra. Além do mais, em nenhum momento o contribuinte comprovou a afirmação de que os custos da Scala são menores em confronto com os da Simoso, a ponto de demonstrar o propósito negocial não tributário do negócio. Os valores poderiam ser diferentes, e naturalmente sempre o seriam, mas a atividade continua sendo a mesma; 3º com prestar serviços de complexidades diferentes. Em qualquer atividade de prestação de serviços ocorre esse tipo de variação de complexidade. Uns serviços são mais ou menos complexos que outros. Vai depender do que cada diferente cliente vai contratar. Isso não quer dizer que um empresário precise abrir diferentes pessoas jurídicas para cada tipo de nível de complexidade que o mercado demande, ou mesmo constituir uma pessoa jurídica para executar serviços mais fáceis e outra Fl. 5666DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.667 26 para serviços mais difíceis. Se o empresário pretende atuar nos vários nichos do mercado e controlar separadamente seus resultados, pode optar pelo método de departamentalização de custos e manter uma só pessoa jurídica. Prestar serviços de complexidade diferentes não significa que a atividade econômica desenvolvida seja diferente. No caso das locações (máquinas e veículos) e de venda de mercadorias (pedras) isso é mais evidente. 8. Atividade econômica diferente significa executar negócios empresariais diferentes. Por exemplo, os mesmos sócios possuem um supermercado e uma oficina mecânica – são atividades diferentes. Ou possuem uma transportadora e uma indústria de embalagens – são atividades diferentes. Ou uma loja de roupas e um posto de gasolina – da mesma forma são atividades diferentes. (...). Executar obras de pavimentação, terraplenagem, pavimentação asfáltica, venda ou revenda de pedras e locação de máquinas e veículos são as atividades desenvolvidas por ambas empresas e por isso as atividades das duas, Simoso e Scala, são as mesmas, (...). É natural que as obras executadas sempre serão diferentes, em vários detalhes, umas das outras. 9. a questão da alegação da complexidade diferente dos serviços prestados para firmar que as atividades da Simoso e da Scala são diferentes também não procede. (...). Outro exemplo, se uma transportadora tem uma divisão que transporta somente carros, “caminhão cegonha”, e outra divisão que transporta bobinas de aço, não importa se ela opera sob uma única pessoa jurídica, se opera por uma matriz e uma filial, ou ainda se opere por meio de duas pessoas jurídicas, o que importa é que o negócio é o mesmo: transporte de cargas, em conclusão, tratase da mesma atividade. 10. Atividade de pavimentação, por exemplo, é uma só, independentemente dos preços cobrados, de quem é o cliente ou mesmo da complexidade de cada obra. Portanto não há subtipos de pavimentação para a atividade de pavimentação para os fins tributários de verificação do limite anual de receita bruta para opção válida no ano seguinte ao regime do lucro presumido. 11. Portanto, não há menor cabimento na afirmação dada de que as atividades são diferentes com base em preços, clientes e/ou complexidade. Alertase, ainda, que a Simoso não comprovou em nenhum momento os quesitos preço e complexidade diferentes por ela alegada, apesar da extensa documentação apresentada na impugnação. 12. A pergunta que se deve fazer é se todos os negócios poderiam ter sido realizados unicamente pela Simoso. A resposta é sim. Essa resposta foi dada pela própria Impugnante em sua peça impugnatória na página 37. (...). (...). Mais adiante veremos, com base nos contratos analisados e notas fiscais que os serviços prestados são os mesmos. O tipo de Fl. 5667DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.668 27 clientes é o mesmo e muitos deles são atendidos pelas duas empresas em serviços iguais: predominantemente pavimentação asfáltica, recapeamento, guias e sarjetas, fornecimento de CBUQ, etc. 13. Uma verificação do rol de clientes das empresas indica que a Scala atendeu a 52 clientes entre 2010 e 2012. Desses, 37 também foram atendidos pela Simoso no período entre 2009 e 2013. Ou seja, 71,15% dos clientes Scala foram atendidos também pela Simoso. Essa verificação contradiz a justificativa de propósito negocial da Scala constante na página 12 da peça impugnatória: (...). (...) O quadro a seguir foi elaborado para ilustrar melhor e é suportado pelas planilhas e folhas do diário anexadas ao presente relatório (DOC 40): (...) SEGUNDA PARTE – ANÁLISE DOS ITENS “a” E “b” 15. Esta fiscalização informa que as notas fiscais da Simoso haviam deixado de serem juntadas ao presente Processo Administrativo Fiscal (PAF) por entender sua desnecessidade como prova da mesma atividade, uma vez juntadas partes pertinentes da escrituração contábil para esse mister, uma vez que é a escrituração contábil a linguagem que resume e retrata as características econômicas das operações realizadas, pois presumemse fielmente baseadas nos contratos e notas fiscais atrelados aos negócios. (...) (...) 17. A fiscalização, em atendimento ao item “a” da DRJ, junta ao PAF uma amostra representativa do conjunto de notas fiscais de vendas das duas empresas e que servem para demonstrar a similaridade das operações mercantis (DOC 42). 18. Quanto as análises, item “b”, foram verificadas as notas fiscais emitidas no período de 2010 a 2012. (...). 19. Notas Fiscais: a pergunta a ser respondida aqui é: as operações de venda/revenda das empresas Simoso e Scala referemse a mercadorias/produtos similares? Em busca dessa resposta, a fiscalização verificou as denominações constante no corpo das notas fiscais utilizadas no campo “descrição do produto/serviços”, por esse ser o dado de maior relevância para responder ao questionamento. Amostra de notas (DOC 42). (...) 21. As vendas e revendas de mercadorias da Scala nos anos calendário 2009 a 2012 somaram R$ 2.016.918,37, o que representa 3,01% da receita bruta da empresa no período. Observase que a mercadoria vendida (BGS – Brita Graduada Fl. 5668DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.669 28 Simples) é igualmente comercializada pela Simoso. Os produtos vendidos são britas – utilizadas na construção civil, sendo que as denominações diferentes correspondem a granulações do mineral. 22. Ambas empresas também produzem o Cimento Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ). Esse produto não é objeto de operação de venda (incidência de ICMS), e sim de incorporação à prestação de serviços de pavimentação asfáltica ou recapeamento (incidência de ISS). Como dito, ambas empresas fazem o fornecimento do CBUQ às prefeituras e demais clientes atendidos. Sendo muitos dos clientes em comum, conforme quadro apresentado em parágrafos anteriores desse relatório. 23. Prestação de Serviços: as prestações de serviços compõem o montante de maior relevância no faturamento das empresas e tema base da discussão sobre a igualdade de atividade econômica delas. A pergunta a ser respondida aqui é: as operações de prestação de serviços das empresas Simoso e Scala referemse ao mesmo tipo de serviço prestado? 24. Amostra: A verificação dos contratos das duas empresas foi concentrada em amostra, cuja escolha se baseou em clientes indicados, em tabela, pela Simoso, em sua peça impugnatória páginas 40 e 41 da peça. (...) (...) 28. Os contratos foram analisados um a um, sendo tais elementos levados em consideração, cujos dados foram planilhados (Comparativo de Clientes Simoso e Scala DOC 40) para fins de facilitar a visualização e comparação das informações entre a Simoso e a Scala. Foram desconsiderados da análise, os contratos da Impugnante, relativos a 2003 e 2006, por não haver evidências de prorrogações ou termos aditivos e por ser indicado nos contratos termo final de vigência anterior a 2010. O mesmo ocorreu com um dos contratos da Scala. Essa desconsideração foi necessária para tornar mais efetiva a comparação, haja vista que os períodos autuados foram de 2010 a 2012, e o fato discutido é a similaridade das atividades de ambas empresas. 29. Constatações: 1) no que se trata de tipos de serviços e vendas contratadas, constatouse a que os objetos constantes nos contratos, de ambas empresas, têm a mesma denominação. Por exemplo, ambas têm contratos de venda de CBUQ (Concreto Betuminoso Usinado a Quente), prestação de serviços de pavimentação asfáltica, recapeamento asfáltico, guias, sarjetas, locação de equipamentos; 2) no que se refere aos tipos de clientes atendidos, observase que há uma forte concentração em prefeituras municipais do Estado de São Paulo, bem como do DER (Departamento de Estradas e Rodagem). Alguns outros clientes são outras empresas ligadas à construção civil ou empreendimentos imobiliários, e ocupam uma proporção bem menor no faturamento. Há também coincidência entre vários desses clientes sendo atendidos por ambas empresas. Essas Fl. 5669DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.670 29 constatações podem ser observadas na planilha elaborada (Análise de Contratos Simoso e Scala DOC 44). Por exemplo: Enquanto a Simoso prestava serviços à PM (Prefeitura Municipal) de Hortolândia, tais como pavimentação e recapeamento, a Scala fornecia CBUQ. Na PM de Pirassununga, os papéis se invertiam: a Simoso fornecia CBUQ e prestou serviços de pavimentação e a Scala prestou serviços de pavimentação e recapeamento. Para a Sequoia Empreendimentos Imobiliários SS Ltda., Simoso e Scala prestaram serviços de pavimentação asfáltica. Para a PM de Vargem Grande do Sul, Simoso e Scala prestaram serviços de pavimentação, recapeamento, guias e sarjetas. Para a PM de São João da Boa Vista, Simoso e Scala forneceram CBUQ. Para a PM de Itapira, Simoso e Scala prestaram serviços de recapeamento asfáltico. Para o DER, Simoso e Scala prestaram serviços de pavimentação asfáltica e fornecimento de matérias com aplicação – é possível observar na planilha (DOC 44), com relação aos valores dos contratos, que tanto a Scala quanto a Simoso fazem serviços de valores globais baixos e altos, em contradição com os atestados anteriormente apresentados na impugnação (páginas 34 a 36), que apresentavam atestados de obras de valores globais altos para a Simoso e de valores globais baixos para a Scala, demonstrando uma amostra não coerente com o conjunto de serviços prestados. Ou seja, há a similaridade de clientes e também há coincidência de clientes, bem como os serviços prestados são pertencentes à idêntica atividade econômica; 3) no que se refere aos valores envolvidos nos contratos, tanto a Impugnante quanto a Scala firmaram contratos de pequeno porte, de menores valores e valores em níveis semelhantes, como já observado, invalidando a tese de que o propósito negocial da Scala, segundo o qual a Simoso não poderia realizar pequenas obras porque seus custos eram muito altos e de que a Scala não tinha Know how para fazer obras maiores. 30. Conclusão: as atividades econômicas das empresas é a mesma. Seja pelos tipos similares de clientes atendidos (prefeituras, DER, construtoras etc.), seja pelos objetos constantes nos contratos (de pavimentação, recapeamento, guias, sarjetas, fornecimento de CBUQ, etc.), seja por parte dos clientes (clientes de grande relevância no faturamento) serem igualmente atendidos por ambas, seja pelos valores contratuais, excetuados poucos contratos, serem em valores similares. Nos períodos fiscalizados de 2010, 2011 e 2012, 100% de toda a receita da Scala poderia ser obtida diretamente pela Simoso. TERCEIRA PARTE – ANÁLISE DOS DEMAIS ITENS DA IMPUGNAÇÃO SUBPARTE 1 – Documento de Impugnação (...) 32. Na página 3, a Impugnante assim afirma: (...) Fl. 5670DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.671 30 A Scala afirma que a fiscalização teria baseado a autuação na verificação de não autonomia entre as duas empresas para chegar à conclusão da realização do mesmo negócio. A fiscalização alerta para essa equivocada afirmação, conforme já esclarecido no início deste relatório. Podese verificar que, ao longo de todo relatório fiscal do auto de infração, em nenhum momento se falou em falta de autonomia. Sequer a fiscalização afirmou a inexistência da Scala ou sua não operacionalidade. Os elementos demonstrados, tais como compartilhamento dos mesmos endereços, de sócios, objeto social e atividade de fato, serviram para demonstrar, juntamente com os demais elementos de prova, que as atividades econômicas eram as mesmas e, portanto, a receita das duas deveria ser somada para fins de aferição do limite anual para enquadramento no lucro presumido. (...). (...) Portanto, há um desvio do foco na peça impugnatória quanto à motivação fiscal, pois atacase fato inexistente na base da autuação. 33. Na página 4, a Scala assim se manifesta: (...) Quantos essas afirmações a fiscalização, por bem de uma melhor contextualização, precisa destacar os seguintes pontos: em relação ao item “a)” a fiscalização atesta a existência de contabilidade regular, naquilo que representou o escopo da auditoria fiscal, que teve um objeto limitado como já informado no Relatório Fiscal: em relação ao item “b)” a fiscalização não teve por escopo a verificação/investigação de omissão de receitas, portanto não há nenhum atestado de bom comportamento nesse sentido; “c)” a fiscalização apurou erro no oferecimento à tributação com base no regime de tributação pelo lucro presumido. (...) 34. Na página 5, consta: (...) Nesse ponto, esclarecese que houve a demonstração pela fiscalização no Relatório Fiscal onde constam as receitas brutas das duas empresas (quadro “Receita Bruta”) e os regimes de apuração do lucro intercaladas entre elas (quadro “Regime de apuração do lucro”). Fl. 5671DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.672 31 (...) Fl. 5672DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.673 32 35. Ainda na página 5: (...) Em relação a afirmação de que “todos os demais pontos são divididos e os serviços que executam são substancialmente diferentes?”, é relevante observar que não foram apresentadas provas hábeis que dessem sustentação à essa alegação de que as empresas realizaram atividades diferentes. Destacase que a fiscalização não considerou as atividades da Scala como inexistentes em nenhum momento, apenas fez menção à coincidência de endereços, sócios e atividades formais e de fato, para comprovar, juntamente com os demais elementos da autuação, que a Simoso e a Scala deveriam ter considerado ambas receitas para fins de aferição do limite de R$ 48 milhões para poderem se enquadrar no lucro presumido para os anos seguintes, pois ambas realizam a mesma atividade econômica. 36. (...). (...) Para melhor afirmação do que acima dito, reproduzse a seguinte parte do RF: “Em decorrência dessa premissa fundamental, embora cada empresa (Simoso e Scala) tenha sua receita formalmente declarada e tributada em separado, a realidade econômica demonstra que tratase de um negócio único, de uma receita única, não podendo ser separado por mera liberalidade dessas empresas para produzir efeitos tributários em prejuízo da fazenda nacional. Por conseguinte, as receitas das duas empresas devem ser somadas para fins de aferição do limite legal para poder optar validamente pela tributação com base no lucro presumido, (...). (...) Solução de Consulta: Abaixo se reproduz, como exemplo, a Solução de Consulta nº 381, de 26 de dezembro de 2014, publicada no DOU – seção 1, página 33, de 23/02/2015 (DOC 16), que trata da consideração da receita de todos os negócios como única para fins de verificação do limite da receita bruta para fins de opção válida à tributação com base no lucro presumido: (...) 37. Nas páginas 15 a 42 a Scala discorre sobre suas operações e as da Simoso. (...) A análise dos contratos dos 15 maiores clientes contidos na relação apresentada nas peças impugnatórias permitenos inferir que: 1) nenhum contrato da Simoso teve valor igual ou superior a 20 milhões de reais, então, nesse aspecto, ambas empresas encontravamse concorrendo nos mesmos portes de concorrência; 2) tanto a Simoso como a Scala executaram Fl. 5673DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.674 33 contratos de pequeno valor – abaixo de 100.000,00 (observese que estamos falando apenas dos contratos dos 15 maiores clientes a grande maioria dos contratos de ambas situase abaixo de R$ 1 milhão): 3) a grande maioria dos contratos da Simoso (84%) e da Scala (100%) referemse a montantes de até R$ 5 milhões; 4) as obras realizadas foram da mesma natureza: pavimentação asfáltica, recapeamento, guias, sarjetas etc. e as vendas foram dos mesmos produtos/mercadorias (conforme notas fiscais): fornecimento de CBUQ – Concreto Betuminoso Usinado a Quente (asfalto) e britas (que assumem nomes diferentes em razão de sua graduação); 5) coincidência de parte dos clientes e mesmo tipos de clientes (por exemplo: prefeituras e DER); 6) mesmos administradores e engenheiros responsáveis perante o CREA/SP – indicando mesmo grau de know how (entendendose como conhecimento empresarial e técnico) necessário à execução dos serviços; 7) mesma capacidade estrutural pare realizar as obras: imobilizado próprio da Simoso e imobilizado próprio e alugado da Scala. (…) 39. Argumentase que: (...) A fiscalização não considerou as operações da Scala irregulares, mas sim a opção pelo regime de lucro presumido pelas empresas. 40. A Scala cita a Simoso extrai e comercializa pedra britada enquanto que a Scala apenas as revende. A fiscalização entende que isso não altera a igualdade de atividade de ambas, uma vez que a denominação receita de venda e receita de revenda representam a comercialização do mesmo produto, o cliente recebe a mesma coisa. Logo a argumentação dada pela Scala não comprova que as atividades econômicas são diferentes, pelo contrário. (...) 42. A Scala apresenta diversos “atestados de capacidade técnica” relacionados a ela e à Simoso. A Impugnante solicita a seus clientes que expeçam os atestados para fins de participarem de concorrências públicas ou outros tipos de contratação. Dos atestados indicados na impugnação, a fiscalização segregou aqueles que se referem a períodos contemporâneos aos fatos geradores fiscalizados, uma vez que a verificação da atividade econômica tem que ser contemporânea aos fatos geradores discutidos (não estamos verificando 2004, 2001,1995, 1994 ou 1991): (...) Através dos atestados acima, observase que se tratam de obras de construção civil para preparo ou reparo de vias públicas ou particulares no caso de ambas empresas. Mostram tratarse da Fl. 5674DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.675 34 mesma atividade desenvolvidas pelas duas, variandose apenas a complexidade da obra. Em relação a complexidade, vale tecer a seguinte consideração: A Simoso e a Scala afirmaram que a primeira assumia serviços de maior complexidade por faltar Know How à Scala. Entendemos Know How como “saber fazer” (em tradução livre). Referese ao conhecimento empresarial e técnico necessário à realização de uma atividade ou trabalho. Assim, no que diz respeito ao conhecimento empresarial do negócio temos que o sócio Sr. Olivo Simoso é o administrador de ambas empresas, portanto não falta know how empresarial à Scala. No que se refere ao conhecimento técnico específico em obras, observase nos atestados acima que ambas empresas têm o mesmo responsável técnico o Sr. Fábio Leandro Simoso – Engenheiro Civil, portanto também não falta Know How técnico à Scala. Assim, sendo incorreta a argumentação de falta de Know How, a questão complexidade não pode ser invocada para dizer que as atividades eram diferentes no período fiscalizado para fins de não se considerar o conjunto das receitas para fins de enquadramento no lucro presumido. E ainda que a complexidade pudesse ser sustentada por outras razões, o que não ocorre, ainda não se vislumbraria poder afirmar que são atividades econômicas diferentes para os fins tributários propostos no presente caso. O CREA/SP é o órgão de classe dos engenheiros e arquitetos. Através de pesquisa realizada ao site http://creanet1.creasp.org.br/AnotRespTec/PesquisaArt.aspx, em 11/07/2016, obtevese o quadro técnico das empresas Simoso e Scala (DOC 45). A Simoso conta com 4 responsáveis e a Scala com 3. Todos os Engenheiros da Scala também trabalham na Simoso. O Engenheiro Orlando Generoso é cadastrado somente na Simoso e é Engenheiro de Minas. Os demais são engenheiros civis, sendo um deles ainda engenheiro de segurança do trabalho. Portanto o quadro técnico cadastrado no CreaSP é o mesmo: 43. Consta nas páginas 37 e 38 da peça impugnatória: (...) Com relação à justificativa levantada na impugnação de que: “a Impugnante, embora teoricamente pudesses executar os serviços prestados pela Scala, também não poderia, pois sua estrutura era cara demais para realizar pequenos serviços5. Seu custo fixo não comportava a execução de serviços de pequeno valor”, a Fl. 5675DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.676 35 fiscalização observa que essa afirmação não foi provada pela Scala. Entendese por custo fixo aquele custo que não varia em relação ao nível de negócios da empresa. Exemplo de despesas: depreciações de imóveis, pessoal administrativo, aluguel do imóvel. Significa que a empresa arcará mensalmente com esse tipo de custo, prestando ou não serviços, vendendo ou não suas mercadorias. Se a Simoso tem custos fixos altos, por ter uma estrutura cara, como asseverado na peça impugnatória, ela precisa executar serviços e realizar vendas para fazer frente a essas despesas. Havendo capacidade operacional ociosa, é economicamente viável e desejável que ela execute mais serviços, mesmo que de menor tamanho, para absorver tais custos. Assim, essa argumentação não encontra respaldo do ponto de vista empresarial ou econômico e financeiro. Lembrando mais uma vez que não foram apresentados elementos probatórios hábeis para demonstrar tais argumentos. Portanto, o alegado propósito negocial não se sustenta no mundo real. SUBPARTE 2 – Documentos anexos à Impugnação (...) QUARTA PARTE – CONCLUSÃO DA FISCALIZAÇÃO 45. A impugnação apoiase em equivocada premissa de que a fiscalização considerou as operações da Scala como inexistentes. Importante esclarecer que a existência da Scala não foi questionada e, portanto, não foi a motivação da autuação, mesmo por que se fosse verificada sua inexistência, a fiscalização teria procedido à baixa de ofício do CNPJ por inexistência de fato, além da proposição de representação para fins penais e qualificação da multa. Isso pode ser observado ao longo de todo o relatório fiscal da autuação. 46. A impugnação destaca como propósito negocial da Scala a execução de obras simples, de baixa complexidade, considerando não ter Know How ou estrutura para atender obras maiores e que a Simoso, mesmo podendo realizar as obras que a Scala realiza, não o faz por ter uma estrutura de custos muito alta, e que, por isso, tratamse de ramos completamente distintos. O único propósito verificado pela fiscalização é tributário, qual seja, manter ao menos uma das empresas no regime do lucro presumido. Conforme comprovado no presente relatório de diligência, tanto a Simoso quanto a Scala realizam obras grandes e pequenas, os clientes são coincidentes em muitos casos ou similares (predominantemente prefeituras e DER); as obras são da mesma natureza (pavimentação asfáltica, recapeamento, guias, sarjetas, etc) e de contratos com valores tanto altos como baixos. As duas empresas fornecem CBUQ às prefeituras, como também receitas de vendas de britas (variandose apenas a granulação) para os mesmos tipos de Fl. 5676DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.677 36 clientes; o know how das duas é o mesmo, tanto empresarial quanto técnico, uma vez que o administrador é o mesmo das duas, bem como o quadro de engenheiros cadastrados no CREA/SP e os engenheiros que assinam como responsáveis técnicos nos contratos de obras; a Scala loca os equipamentos necessários da Simoso e de outras pessoas ligadas para suprir sua alegada falta de estrutura para obras maiores; há incoerência quando argumenta que a Simoso não poderia realizar obras menores, pois seu custo é muito alto, mas ao mesmo tempo loca equipamentos, máquinas e caminhões para a Scala o fazer; além disso a Scala é uma empresa com faturamento expressivo. A alegação de que somente a Simoso poderia executar obras de valores acima de R$ 20 milhões não foi provada, ao mesmo tempo que a análise dos 15 maiores clientes das duas empresas demonstrou não haver nenhum contrato, contemporâneo aos fatos geradores, com valor superior a tal cifra. Portanto o propósito negocial da Scala alegado na impugnação não se comprova. 47. A regra da lei tributária federal, no que diz respeito ao IRPJ, é que as pessoas jurídicas devem ser tributadas com base no lucro real. Como exceção à essa regra, a legislação tributária confere tratamento diferenciado às pessoas jurídicas que em razão de sua atividade e seu tamanho, como por exemplo as microempresas e empresas de pequeno porte, possam ter condições de se manter e crescer até atingirem força para arcarem com concorrência e as obrigações das empresas de maior porte. O tratamento privilegiado, ou benefício fiscal, diz respeito ao cumprimento simplificado das obrigações acessórias bem com de menor carga tributária a ser suportada e é o caso das sistemáticas do Simples Nacional e do Lucro Presumido. A legislação tributária, para garantir que o tratamento diferenciado da sistemática do lucro presumido beneficiasse adequadamente as pessoas jurídicas necessitadas, impôs uma série de restrições aos interessados, entre elas o limite máximo da receita bruta total do ano anterior à opção (Decreto nº 3.000/99, Art. 246 e 516, Lei nº 10.637/2002, art. 46). Portanto é inadmissível que o empresário utilize duas ou mais empresas realizando a mesma atividade econômica para fins de reduzir sua carga tributária, pois desvirtuar as regras mais benéficas do lucro presumido. 48. Assim, detidamente alisadas a impugnação e os documentos a ela anexados, bem como as notas fiscais e contratos solicitados na presente diligência, esta fiscalização mantém convicção sobre a regularidade do lançamento. Fl. 5677DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.678 37 IV – CONTRARAZÕES. Cientificada do “RELATÓRIO FISCAL Diligência”, a defesa apresentou contrarazões (fls. 5494 a 5514), cujos principais pontos são: (...) II – DAS NOVAS RAZÕES DE DEFESA (...) A autuação tem supedâneo em alegada distribuição de receita bruta total, fato esse construído a partir de circunstâncias de a Impugnante procurar, de acordo com o permitido em lei e expressamente aceito no próprio Relatório Fiscal, a opção que lhe era mais vantajosa, (...). (...) Não se pode perder de vista, ademais, que a Simoso recolheu PIS, Cofins, IRPJ e CSLL sobre as vendas de brita efetuadas em favor da Construtora Scala, o que confirma que a razão dessa estrutura não era tributária, e sim negocial. A vantagem pretensamente havida com o lucro presumido não existiu, pois se a Construtora Scala pagou “menos imposto” por conta do lucro presumido, a Impugnante Simoso pagou “mais que o devido”, pois tributou a venda das britas para a Scala e a locação de equipamentos, fatos que não teriam ocorrido se fosse uma única empresa. (...) Assim, o caso concreto revela tão somente a segregação de atividades econômicas motivada por necessidades operacionais. (...) Fl. 5678DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.679 38 Antes de enfrentar os pontos do Relatório Fiscal, a Impugnante destaca: 1) Não existe lei que autorize o lançamento ora impugnado, (...). 2) A segregação de atividades é legal, (...). 3) Se o objetivo fosse fraudar o Fisco, Olívio teria usado as outras empresas que possuem o sócio Olívio em comum, (...). 4) De 2000 a 2012 (12 anos), apenas quatro exercício ultrapassaram o limite do lucro presumido (2009 a 2012 – doc. 7), mas ainda sim a segregação de atividades, de receitas e de despesas existiram. Esta realidade fática demonstra, de forma inconteste, que o propósito não era economia tributária. 5) As empresas “bitributaram” a compra de brita e a locação de máquinas. 6) O propósito negocial da segregação de atividades entre a Impugnante e a Simoso ficou demonstrado na impugnação: apenas a segunda poderia exercer atividade de pedreira, terraplenagem, detonação pedras e obras de valor elevado. (...) (...) 7) Em momento algum a fiscalização alega que as despesas eram concentradas em uma empresa, para fins de aproveitamento no lucro real. E assim foi porque esse fato jamais ocorreu. Cada uma das sociedades se apropriava das despesas correspondentes às suas receitas. Os quadros abaixo mostram a diferença abismal entre as despesas das duas sociedades: (...) É o relatório Na seqüência, foi proferido o Acórdão nº 0272.296, pela 10ª Turma da DRJ/BHE, julgando procedente a impugnação apresentada, com o seguinte ementário: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 5679DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.680 39 Anocalendário: 2010, 2012 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. BASE LEGAL. Os vícios dos contratos caracterizados por condutas dolosas que tipifiquem, por exemplo, a simulação, a fraude, o abuso de direito e de formas afastam a liberdade de contratar e autorizam a atuação do Fisco no sentido de desconstituir o ato viciado, como parte diretamente interessada e em defesa à Fazenda Pública. O art. 149, VII, do CTN, outorga ao Fisco a competência para desconsiderar, para efeitos fiscais, atos ou negócios fictícios, fraudados, eivados de vício de vontade ou de forma, ou simulados. A conduta dolosa que tipifique tais vícios deve estar devidamente comprovada no processo administrativo fiscal. Não havendo nos autos elementos que evidenciem tal conduta dolosa, carece de base legal o lançamento. No caso, os indícios trazidos aos autos pela Fiscalização não foram suficientes para suster a sua acusação. Impugnação Procedente Crédito Tributário Exonerado Ciente do acórdão recorrido, o contribuinte não apresentou Recurso Voluntário, sendo objeto de apreciação unicamente o Recurso de Ofício. É o Relatório. Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator. Quanto à admissibilidade do recurso de ofício, devese ressaltar que a Portaria MF nº 63, de 2017, estabeleceu novo limite para interposição de recurso de ofício pelas Turmas de Julgamento das Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ). Confirase: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). No caso em tela, somandose os valores exonerados em primeira instância, verifico que superam o limite de dois milhões e quinhentos mil reais, estabelecido pela norma em referência. Portanto, conheço do recurso de ofício. Fl. 5680DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.681 40 Assim, passo ao exame do mérito da questão em apreciação: Tratase o presente processo de autos de infração de IRPJ e CSLL, referentes aos anoscalendário de 2011 e 2012, lavrados com base na alegada pulverização da receita bruta total, que teria implicado redução da tributação, já que as receitas brutas das duas pessoas jurídicas envolvidas (Construtoras Simoso e Scala), se somadas, não permitiriam a opção pelo lucro presumido nos referidos exercícios. Em decorrência, as bases de cálculo do IRPJ e CSLL foram recalculadas com base no lucro real. Em conformidade com o Relatório Fiscal e as diligências efetuadas, a irregularidade apontada foi construída a partir dos seguintes elementos: 1) Compartilhamento do mesmo endereço administrativo, comercial e produtivo; 2) Mesmos sócios e idêntica participação societária em ambas as empresas; 3) Mesmo objeto social (atividade formal); 4) Mesma atividade comercial e produtiva (atividade de fato). A fiscalização emitiu ainda o Termo de Responsabilidade Solidária contra o sócio Olívio Simoso, fundamentado no artigo 135, III, do CTN, sob a seguinte motivação: O contribuinte e o responsável tributário, após notificados, apresentam, em uma única peça, as respectivas impugnações, com o intuito de rebater as conclusões a eles impostas. Aduz a recorrida que essas conclusões foram construídas a partir de indícios fracos e plenamente justificáveis, e que a fiscalização não considerou inúmeros outros fatos que as invalidam. Seus argumentos podem ser assim sintetizados: i) A segregação de atividades é legal, existindo várias decisões do CARF nesse sentido, sendo vedada apenas quando as empresas não comprovarem que exerciam efetivamente tais atividades, ou quando agirem de forma fraudulenta, o que não é o caso dos autos; ii) O propósito negocial da segregação de atividades entre a SIMOSO e a SCALA ficou demonstrado na impugnação e foi acatado pela DRJ/BHE: apenas a primeira poderia exercer atividades de pedreira, terraplanagem, detonação pedras e obras de valor elevado. As estruturas física, de pessoal e operacional, conseqüentemente, eram muito diferentes entre as duas (o que foi devidamente provado). Fl. 5681DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.682 41 iii) O objeto social não coincidia totalmente (o da Recorrida era menor), e naquilo em que formalmente coincidia, possuía uma abrangência técnica e de custos muito maior. Também foram juntadas diversas provas nesse sentido. iv) As sociedades tinham empregados em sua folha de pagamento, em número suficiente ao exercício de sua atividadefim. v) As sociedades possuíam máquinas e equipamentos em número suficiente para a execução de suas atividades. Nas raras exceções em que que a SCALA precisava locar equipamentos, fazia de diversos fornecedores distintos. vi) Apenas parte dos clientes coincidiam. vii) Não houve confusão patrimonial: receitas, despesas e controles eram totalmente separados e controlados. Fiscalização concordou com isso. viii) Os pagamentos feitos pelos clientes eram sempre a favor da empresa que havia prestado o serviço. ix) De 2000 a 2012 (12 anos), apenas quatro exercícios ultrapassaram o limite do lucro presumido (2009 a 2012), mas ainda assim a segregação de atividades, de receitas e de despesas existiu. x) Olivo Simoso, sócio majoritário da Recorrida e responsável solidário, possui participação em quatro outras pessoas jurídicas, conforme provado nos autos. Se a intenção realmente fosse diluir o faturamento de forma a ficar individualmente abaixo do limite do lucro presumido, porque, então, ele não ter usado suas outras sociedades? Esta realidade fática demonstra que o propósito não era economia tributária. xi) As empresas “bitributaram” a compra de brita e a locação de máquinas. Assim, a vantagem pretensamente havida com o lucro presumido não existiu, pois se a Recorrida pagou “menos imposto” por conta do lucro presumido, a Simoso pagou “mais que o devido”, pois tributou a venda das britas para a SCALA e a locação de equipamentos, fatos que não teriam ocorrido se fosse uma única empresa. Mais uma vez, vantagem tributária afastada. Pois bem. A primeira questão que deve ser verificada diz respeito à existência ou não de simulação no fato de sócios segregarem atividades antes desenvolvidas por uma só pessoa jurídica. Perfilho do entendimento de que tal fato, por si só, não comprova de que se trate de simulação, pois o simples desmembramento de atividades não caracteriza ato ilícito. O direito de se autoorganizar autoriza a constituição de sociedades pelos mesmos sócios, que tenham por escopo atividades similares, complementares ou mesmo distintas. Se corretamente constituídas e operadas, afastase o entendimento de que se trata de mera simulação. “Simular” significa disfarçar uma realidade jurídica, encobrindo uma que é efetivamente praticada, ou que não existe. Assim, para que determinada operação seja Fl. 5682DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.683 42 considerada simulada (art. 167, I, do Código Civil1), devem ser consideradas as características do caso concreto, demonstradas através de provas. No caso, vêse que foi constituída uma nova sociedade, com contratação de funcionários compatíveis para o exercícios da atividadefim da empresa constituída; adquiriu se ou alugouse maquinários para o desenvolvimento dessa atividade, e ainda, elas (as atividades) e receitas decorrentes, foram devidamente declaradas à Receita, com a emissão das correspondentes notas fiscais, contabilizadas, e o correspondente pagamento de tributo. Tais provas, a meu ver, são mais do que suficientes de que não existiu disfarce de uma realidade. A fiscalização foi em direção oposta, concluindo por haver simulação no caso, entendendo existir uma independência meramente formal entre a empresarecorrida e a Construtora Simoso, de sorte que, em sua ótica, a realidade econômica comprovaria que se tratava de um único negócio, de uma única receita, e que a criação da nova empresa serviu apenas para propiciar a alternância dos regimes de apuração do IRPJ e da CSLL. Penso que a Fiscalização utilizouse de uma interpretação equivocada dos fatos, quando concluiu pela inexistência de dois negócios, distintos e autônomos, vez que, embora sejam gerenciados pelas mesmas pessoas, encontro nos autos provas de que há entre elas independência operacional, laboral, patrimonial e técnica, e não apenas a independência formal. O fato de compartilharem o mesmo endereço, não pode, em absoluto, justificar a alegação de que se trate de um único negócio, vez que inexiste qualquer ilegalidade nesta conduta, quando se observa a atividade desenvolvida pelas empresas em questão. No caso em espeque, a acusação fiscal aponta irregularidade na coincidência de estabelecimentos da Construtora Scala, ora recorrida, com os endereços da Construtora Simoso, além de ausência de contas de água, luz e telefone, além das despesas com IPTU e ITR, por parte da recorrida. A defesa justificase, aduzindo que: i) não há ilegalidade de conduta, por tratarse de lógica do mercado de pavimentação asfáltica, que requer a abertura de estabelecimentos nos municípios mais próximos em que os serviços são realizados e materiais vendidos, não implicando assim, necessidade de estrutura administrativa e comercial em todas as filiais, bastando apenas que o serviço contratado da autuada (recapeamento) seja executado por ela, através de seus funcionários e maquinários; ii) além de prestar serviços e locar equipamentos, a Simoso também extrai e comercializa pedra britada, e que esta atividade não é desenvolvida pela Construtora Scala, que apenas revende esses materiais, adquiridos da recorrida, o que justifica o fato das empresas compartilharem o mesmo endereço físico em vários casos, como também a razão pela qual a 1 Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I – aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem. II – contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. III – os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados Fl. 5683DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.684 43 Construtora Scala não assume o ônus financeiro de despesas de luz, telefone, ITR e IPTU de sua filial 1 CNPJ 000328, local em que efetivamente era estabelecida sua estrutura administrativa; iii) usualmente, e sem que isso implique fraude, as empresas que atuam no segmento de construção civil constroem verdadeiros parques industriais, aglutinando diversas sociedades, dos mais diversos ramos da cadeia produtiva da construção civil, com vistas a otimizar as operações e todas as partes envolvidas, e que o Relatório Técnico 30, acerca do perfil de brita para a construção civil, apresentado ao Ministério de Minas e Energia MME (contrato 18000.003155/200717, atesta essa forma de atuação; iv) as diligências realizadas em dois estabelecimentos da empresa autuada, que concluíram pelo compartilhamento de estruturas, não servem de prova, por que nestes locais, como dito acima, são filiais criadas basicamente para emissão de notas e recolhimento de tributos, compra de materiais, etc., já que a atividade da Construtora Scala eram exercidas de fato nos locais a serem recapeados; a estrutura administrativa da Scala existia apenas na sua filial 000328, local em há identificação da sociedade e de seus funcionários. v) a utilização de equipamentos e máquinas da Simoso para realização das atividades da Scala não evidencia qualquer ilegalidade de conduta, pois estes alugueis seriam pontuais e eventuais para atender a necessidade de determinada obra, esclarecendo que a Scala possuía em 2011 sete máquinas e um caminhão, mas sempre que possível alugava equipamentos e máquinas de terceiros, seja da Construtora Simoso, seja de outra pessoa jurídica, e que tal fato não representaria prova de ausência de autonomia operacional. Na oportunidade de sua impugnação, apresentou uma listagem das máquinas, equipamentos e veículos tanto da Construtora Simoso quanto da Construtora Scala, a fim de comprovar que as sociedades possuem autonomia patrimonial. No mesmo rumo da decisão recorrida, estou convencido de que se trata de lógica do mercado de pavimentação asfáltica, e com escopo operacional. Razoável a ponderação de existir necessidade apenas de abertura de estabelecimentos nos municípios mais próximos em que os serviços são executados e materiais vendidos, sem que implique, necessariamente, abertura de estrutura administrativa e comercial em todas as filiais. Assim, basta que o serviço contratado seja executado pela empresa efetivamente contratada, como de fato ocorreu. Desta forma, a coincidência de endereços decorre do propósito de reduzir custos e aumentar a segurança nas atividades desenvolvidas, e por isso constituíamse nos locais ou próximos às pedreiras, tornando os processos mais eficazes, céleres e seguros em relação ao recebimento e processamento da brita, componente indispensável para pavimentação asfáltica. Também não há que se dá relevo ao fato de haver os mesmos sócios e idêntica participação societária nas empresas, pois tal constatação não justifica a conclusão de que se trata de um negócio único, de receita única. Inexiste previsão legal de que uma das condições para determinada sociedade faça opção pelo lucro presumido seria a análise conjunta da receita bruta legal de sociedades sob o mesmo controle. Quanto ao fato das empresas apresentarem o mesmo objeto social, verifico que não há controvérsia neste aspecto, pois a defesa não nega existir forte similaridade no objeto social constante no contrato social das duas empresas, enfatizando tãosomente que cada Fl. 5684DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.685 44 uma atua em ramos empresariais distintos. Os exemplos de atestados de capacidade técnica de ambas empresas (Simoso e Scala) anexados aos autos pela defesa fortalecem o seu argumento de que, embora havendo identidade ou forte similaridade na forma de objeto social, elas atuam em áreas técnicas diversas, desempenhando atividade de fato distintas. Para respaldar a conclusão fiscal de que as empresas, Simoso e Scala, exercem a mesma atividade de fato, verificase que a fiscalização tomou como parâmetro apenas a nomenclatura contábil das receitas, sem aprofundar sua investigação para estabelecer ligação quantos aos aspectos técnicos dos serviços prestados por ambas, uma vez que, mesmo atuando no segmento de obras de construção civil podem desenvolver atividades distintas. Logo, razoável a alegação da defesa, quando diz na impugnação que a identidade na nomenclatura contábil das receitas é irrelevante e não se presta, isoladamente, para confirmar que há a mesma atividade. De fato, diante dos atestados de capacidade técnica anexados aos autos e da estrutura operacional de ambas empresas, é crível que a Construtora Simoso atue no segmento de obras de construção civil de grande porte, como mineração, terraplanagem e pavimentação asfáltica, e a Construtora Scala, em obras de pequena complexidade, como recapeamento, desenvolvendo, portanto, atividades de fato distintas. Acresçase ainda que no "Relatório fiscal Diligência, o Fisco constata que a Simoso extrai e comercializa pedra britada enquanto que a Scala apenas as revende. Vejase: A defesa ataca o entendimento, aduzindo: "como defender que quem revende pedra britada pratica a mesma atividade econômica de quem explora a extração, o beneficiamento e a comercialização?" Com efeito, não se deve focar a igualdade da atividade de ambas empresas apenas na venda ou revenda de pedra britada, desconsiderando completamente o fato de que a Simoso pratica a extração mineral do referido produto. Obviamente, tratamse de atividades bem distintas. A venda ou revenda de pedra brita já extraída e beneficiada é atividade meramente comercial, enquanto a sua extração é atividade de mineração. Para extração de minério, fazse necessário “perfurar rochas, detonar dinamites, possuir atestados técnicos específicos, possuir título minerário regulamentado e aprovado pelo DNPM, pagamento de CFMEM, ser fiscalizada pelo Exército, ter em seu corpo funcionários engenheiro de minas e geoólogo, licença da CETESB”, enfim, ter condições especiais para execução desta atividade, seja ela técnica ou operacional. Essas condições apenas a Simoso possui. Fl. 5685DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.686 45 Logo, sendo a execução de tal atividade desempenhada unicamente pela Construtora Simoso, enquanto que a Scala apenas revende o produto extraído, penso que tal fato também é elemento diferenciador das atividades desenvolvidas por estas empresas. Dessa forma, concluo que a recorrida agiu segundo a lei, não havendo que se falar em segregação ilegal de suas atividades e muito menos em pulverização dolosa de receitas, inexistindo a alegada empresa fictícia para propiciar a alternância dos regimes de apuração do IRPJ e da CSLL, vez que os fatos provam a licitude da organização societária perpetrada e a autonomia jurídica, laboral e patrimonial das sociedades envolvidas. Concluo também, como base nas evidências acima, ter sido preservado o princípio da Entidade. Tal princípio professa a verdade intuitiva e jurídica de que o patrimônio da entidade, objeto de contabilização, tem de estar completamente separado do patrimônio de seus sócios ou acionistas. Tal separação, por evidente, afeta também os patrimônios de pessoas jurídicas distintas, ainda que possuam quadro societário idêntico, como ocorre no caso aqui em espeque. Compulsando os autos, não vejo provas de que o referido princípio tenha sido desrespeitado. Não houve confusão patrimonial entre as duas empresas ou mistura no reconhecimento de receitas, custos e despesas. Cada empresa existia de fato com estrutura própria, de equipamentos operacionais e pessoal próprio. A defesa, a todo tempo, alega isso a seu favor. E a Fiscalização, no "Relatório Fiscal Diligência", expressamente admitiu isso, vejase: “35. Ainda na página 5: (...) Em relação a afirmação de que “todos os demais pontos são divididos e os serviços que executam são substancialmente diferentes?”, é relevante observar que não foram apresentadas provas hábeis que dessem sustentação à essa alegação de que as empresas realizaram atividades diferentes. Destacase que a fiscalização não considerou as atividades da Scala como inexistentes em nenhum momento, apenas fez menção à coincidência de endereços, sócios e atividades formais e de fato, para comprovar, juntamente com os demais elementos da autuação, que a Simoso e a Scala deveriam ter considerado ambas receitas para fins de aferição do limite de R$ 48 milhões para poderem se enquadrar no lucro presumido para os anos seguintes, pois ambas realizam a mesma atividade econômica. 36. A partir do último parágrafo da página 6 até a página 15, a Scala argumenta sobre a legalidade de segregação de atividades da Simoso e da Scala. Nesse ponto a fiscalização lembra, mais uma vez, que em nenhum momento a fiscalização considerou a Scala uma pessoa jurídica fictícia, ou que suas atividades são fictícias, mas sim que: “Tais situações demonstram o compartilhamento das mesmas instalações comerciais, produtivas e administrativas. Significa dizer, as empresas operam a mesma atividade, realizam o mesmo negócio.” (Relatório Fiscal página 8). Logo, o enfoque naquele ponto do Relatório Fiscal (RF) era demonstrar mais uma evidência de que Fl. 5686DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.687 46 as atividades das duas empresas eram as mesmas. As duas empresas existem e operam, mas fazem a mesma coisa, por isso, para fins tributários de opção pelo lucro presumido a receita limite deve ser considerada em uma soma única. (Grifos são do original) (Grifouse e sublinhouse) (...) 39. Argumentase que: (...) A fiscalização não considerou as operações da Scala irregulares, mas sim a opção pelo regime de lucro presumido das empresas. (Grifouse) (...) 45. (...). Importante esclarecer que a existência da Scala não foi questionada e, portanto, não foi a motivação da autuação, mesmo por que se fosse verificada sua inexistência, a fiscalização teria procedido à baixa de ofício do CNPJ por inexistência de fato, além da proposição de representação para fins penais e qualificação da multa. Isso pode ser observado ao longo de todo o relatório fiscal da autuação. (Grifouse).” Ainda, em alguns pontos do Relatório Fiscal o Fisco afirmou que a autuada possuía contabilidade regular. Nesse sentido, transcrevemse trechos do mencionado relatório: “Com tal planejamento tributário, a Scala burlou a tributação devida com base no Decreto nº 3.000/99, art. 246, I – que trata da obrigatoriedade de tributação da pessoa jurídica com base no lucro real. Em decorrência, as bases de cálculo dos anoscalendário 2011 e 2012 foram recalculadas pela Fiscalização com base no Lucro Real, uma vez existente a contabilidade regular do Fiscalizado. (...). (Grifouse) (...) Dos Procedimentos Fiscais Finais – Lançamento de Ofício: em decorrência da opção indevida pelo lucro presumido a Fiscalização refez de ofício as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL com base na sistemática do lucro real, uma vez que a empresa possui contabilidade regular. A partir do resultado contábil encontrado na escrita contábil da Scala, e mediante a falta de apresentação de adições, exclusões e compensações ao lucro por parte da Scala em resposta à intimação fiscal, a Fiscalização apurou o lucro real de ofício. (Grifouse e sublinhouse) A apuração foi realizada da seguinte forma: 1) Foram tomados os saldos da conta 6.2.1 – Lucro/Prejuízo do Exercício por trimestre; Fl. 5687DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.688 47 2) Em seguida foram eventuais ajustes aos resultados do exercício (adições, exclusões e compensações), finalizandose na apuração do Lucro Real (LR) de cada trimestre 3) Foram calculados o IRPJ, e adicional do IR, e a CSLL pela sistemática do LR; 5) Foram aproveitados os débitos confessados em DCTF pelo contribuinte relativos ao IRPJ e à CSLL na sistemática do Lucro Presumido (LP); 6) Foram apurados o IRPJ, e adicional do IR, e a CSLL devidos;” Como se vê, a determinação tanto do lucro real como da base de cálculo da CSLL foi feita com os dados existentes na escrituração das empresas em referência, o que demonstra, nos períodos fiscalizados, a existência de escrituração regular apta para a determinação da base de cálculo dos tributos e contribuições aqui exigidas. Estes fatos demonstram, em minha ótica, que o princípio da Entidade não foi violado, seja porque não há confusão patrimonial entre as empresas, seja porque existem de fato, cada qual operando independente uma da outra, ainda que, segundo o Fisco, exercendo a mesma atividade. Por fim, observese no "Relatório Fiscal Diligência", consta (fls. 5484): Incontroverso que as empresas realizaram entre si operações comerciais, como locação de máquinas e equipamentos, bem assim compra/venda de brita. Um dos pontos da acusação fiscal reside no fato de que a Simoso alugava máquinas e equipamentos à Scala para ela realizar o mesmo objeto social da primeira. Entretanto, não se vê no Relatório Fiscal nenhum aprofundamento quanto aos procedimentos contábeis adotados, por ambas, nessas operações, seja quanto aos preços praticados, pois apesar da Fiscalização lançar dúvidas que as locações fossem subfaturadas em favor da Scala, não investiga, seja quanto à forma de reconhecer receitas e custos/despesas, seja quanto à forma de quitação dessas operações, seja ainda quanto ao reconhecimento e recolhimento dos tributos decorrentes dessas operações. Assim, na esteira dessas considerações, despiciendo analisar os Termos de Responsabilidade Passiva Solidária. CONCLUSÃO Fl. 5688DF CARF MF Processo nº 10865.720953/201566 Acórdão n.º 1301002.977 S1C3T1 Fl. 5.689 48 Portanto, diante do exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso de ofício, mantendose os termos da decisão recorrida, que considerou procedente a impugnação e exonerou o crédito tributário exigido. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 5689DF CARF MF
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Numero do processo: 10380.009929/2004-62
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri May 11 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.358
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Vinícius Guimarães (Suplente convocado), Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente justificadamente o Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, que foi substituído pelo Conselheiro Suplente convocado.
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
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DIAS BRANCO INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Vinícius Guimarães (Suplente convocado), Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente justificadamente o Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, que foi substituído pelo Conselheiro Suplente convocado. Relatório 1. Por bem retratar os fatos narrados nos autos, utilizo como meu o relatório desenvolvido pelo Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho, quando da lavratura do acórdão n. 3402002.415 (fls. 928/936), o que passo a fazer nos seguintes termos: O processo trata de auto de infração formalizado para constituir os créditos tributários referentes às diferenças apuradas entre o valor RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 03 80 .0 09 92 9/ 20 04 -6 2 Fl. 1804DF CARF MF Processo nº 10380.009929/200462 Resolução nº 3402001.358 S3C4T2 Fl. 1.805 2 escriturado e o valor declarado/pago, o procedimento de verificações obrigatórias. A 4ª Turma da Delegacia de Julgamento de São Paulo manteve em parte o lançamento tributário nos termos do Acórdão nº 6.274, de 20 de maio de 2005. A 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF, por unanimidade de votos, deu provimento ao recurso voluntário do sujeito passivo, nos termos do Acórdão nº 3402001.846, de 18 de julho de 2012, cuja ementa abaixo reproduzo: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 Ementa: BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. APLICAÇÃO DE DECISÃO INEQUÍVOCA DO STF. POSSIBILIDADE. Nos termos regimentais, podese afastar a aplicação de dispositivo de lei que tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária do Supremo Tribunal Federal. Afastado o disposto no §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 por sentença proferida pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, com trânsito em julgado, a base de cálculo do PIS e da Cofins, até a vigência das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, voltou a ser o faturamento, assim compreendida a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e de mercadorias e de serviços. A Fazenda Pública opôs embargos de declaração sob alegação de omissão da decisão acima mencionada quanto a inclusão na base de cálculo da Cofins do ICMS –Substituição Tributária, da subvenção para custeio e investimento e das variações cambiais ativas. Segundo a embargante, a decisão deu provimento ao recurso sem, contudo, atentar para a natureza específica e peculiaridades das receitas envolvidas, variações cambiais, subvenção de custeio e investimento e ICMS – Substituição Tributária. Defende a embargante que a subvenção para custeio deve fazer parte da base de cálculo da Cofins por ser considerada receita operacional. As receitas oriundas das variações cambiais ativas, por se caracterizarem acessórias das receitas de exportações devem fazer parte do conceito de faturamento e ser tributada pela Cofins. Por derradeiro, afirma a embargante que o ICMS – Substituição Tributária deve fazer parte da base de cálculo da exação, uma vez que a legislação interna do Estado do Ceará não estipulou o quantum foi pago na condição de contribuinte e o quantum foi pago na condição de substituto tributário. (...) (grifos nosso). 2. Uma vez processado, os embargos de declaração interpostos pela União foram julgados procedentes, nos termos abaixo indicados: Fl. 1805DF CARF MF Processo nº 10380.009929/200462 Resolução nº 3402001.358 S3C4T2 Fl. 1.806 3 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 Ementa. CONSULTA. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA. É de observância obrigatória a solução de consulta provocada pelo sujeito passivo, tanto para o consulente como para administração, uma vez que está vinculada a observar a decisão dada à consulta apresentada pelo consulente, já que expressa a sua interpretação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 4ª câmara / 2ª turma ordinária do terceira SEÇÃO DE JULGAMENTO, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos de declaração e acolhêlos para sanar a omissão, com efeitos infringentes, para dar provimento parcial ao recurso apenas para afastar as receitas oriundas das variações cambiais e das subvenções para custeio e investimento da base de cálculo da Cofins, mantendo no cálculo da exação o valor do ICMS. Votou pelas conclusões o conselheiro Pedro Souza Bispo que entendeu que as subvenções de custeio fazem parte do faturamento, logo, haveria omissão quanto a essa matéria. Declarouse impedido o conselheiro Francisco Mauricio Rabelo de Albuquerque Silva. 3. Não obstante, uma vez intimado desta decisão, o contribuinte interpôs os embargos de declaração de fls. 1.620/1.656 alegando, em suma, os seguintes vícios: · Vícios de Omissão · Ausência de análise do prazo decadencial que fulminou grande parte do crédito tributário · Falta de análise do histórico fático, normativo e legislativo · Não apreciação da efetiva fundamentação contida no auto de infração e da correspondente ausência de fundamentação quanto a suposta infração relacionada ao ICMSST · Desconsideração da mudança de entendimento do Fisco sobre o fundamento da Solução de Consulta n° 46/98 e o provimento judicial favorável à Embargante · Vícios de Contradição · Fundamentação legal diversa à que baseia a autuação · Submissão do contribuinte e do CARF às Soluções de Consulta 4. Em despacho de admissibilidade (fls. 1.676/1.81), o então Presidente desta turma julgadora, Conselheiro Antonio Carlos Atulim, admitiu o recurso do contribuinte apenas para sanar suposta omissão em relação à discussão quanto à decadência, o que fez nos seguintes termos: Fl. 1806DF CARF MF Processo nº 10380.009929/200462 Resolução nº 3402001.358 S3C4T2 Fl. 1.807 4 Compulsando o recurso voluntário, fls. 940 a 970, verifico que o ora embargante ofereceu preliminar de decadência pela regra do § 4° do art. 150 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional CTN. Quanto ao mérito, arguiu a inconstitucionalidade declarada pelo STF da ampliação da base de cálculo da Contribuição. Apoiandose em decisão do STJ no REsp 601.741, a exigência feita no Estado do Ceará quanto à não exclusão dos valores de ICMS Substituição Tributária das bases de cálculo da Cofins é ilegal e dupla. Da mesma forma, insurgiuse contra a incidência da Cofins sobre receitas relativas aos programas de incentivo financeiro implementados pelos governos do Ceará e Rio Grande do Norte ("PROVIN", "PROADI" e "FDI"). Defendeu, de igual modo a exclusão da tributação das receitas de variação cambial. Finalmente, alegou que alguns valores de Cofins pagos pelo contribuinte não foram corretamente computados. Essa rápida revisão permite concluir que o embargante está correto ao inquinar o Acórdão nº 3402002.415 do vício de omissão, no que tange à arguição da preliminar de decadência. Tanto nesta decisão quanto na que ela integrou, a matéria não foi abordada. O vício merece saneamento e, desde já, admitese o apelo ao Colegiado Recursal para que ele seja saneado. A revisão também permite constatar que as demais omissões suscitadas resumemse, na verdade, em manifestações da insatisfação do embargante para com o que foi decidido pelo acórdão embargado. De omissões não se trata, posto que não foram arguidas no recurso voluntário, nem se trata de pontos sobre os quais o Colegiado deveria manifestarse de ofício. (...). A embargante ainda acusa a decisão recorrida de fundarse em legislação distinta da que embasou o lançamento e de vincular o contribuinte e o CARF a soluções de consulta que em nada se refere ao período de janeiro/99 a fevereiro/01, mas a período e norma muito diversos, ou seja, às normas do Protocolo ICMS 46/00 e ao período de março/2001 a dezembro/2003. Ab initio, cumpre gizar que a contradição que “autoriza os embargos de declaração é aquela interna ao acórdão, verificada entre a fundamentação do julgado e a sua conclusão, e não aquela que possa existir, por exemplo, com a prova dos autos” (STJ, REsp 322056), nem “a que porventura exista entre a decisão e o ordenamento jurídico; menos ainda a que se manifeste entre o acórdão e a opinião da parte vencida” (STF, Emb Decl RHC 79785). Assim, no caso, não vislumbro a contradição alegada pelo embargante, na medida em que, conforme consignado, o aludido vício de intelecção deve ser interno, aquilatável entre as proposições manifestadas pelo juízo naquele mesmo julgado, e não eventual divergência entre os fundamentos da decisão e demais provas e fatos do processo, isto é, externo ao julgado. Fl. 1807DF CARF MF Processo nº 10380.009929/200462 Resolução nº 3402001.358 S3C4T2 Fl. 1.808 5 (...). Com essas considerações, forte no § 3° e em face do que dispõe o § 7, todos do art. 65 do RICARF, com a redação que lhe foi dada pela Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016, admito os embargos interpostos, no que tange à omissão pela falta de apreciação da arguição de decadência, formulada no recurso voluntário. Portanto, incluase o presente processo em lote para sorteio a um dos conselheiros da 2ª TO/4ª C/3ª S/CARF. (grifos nosso). 5. Diante deste despacho decisório e, ainda, levando em consideração o potencial efeito infringente dos embargos interpostos, esta Turma julgadora veiculou a Resolução n. 3402000.834 (fls. 1.688/1.692) determinado que a Procuradoria da Fazenda Nacional fosse intimada para, querendo, manifestarse a respeito do recurso interposto. 6. Devidamente intimada, a Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou sua manifestação as fls. 1.694/1698, oportunidade em que, em suma, alegou inexistir prova do pagamento de tributo a implicar a contagem do prazo decadencial pela regra do art. 150, § 4º do CTN, afastando, por conseguinte, o precedente do STJ formado sob o rito de recursos repetitivos e externado no REsp n. 973.733. 7. Não obstante, por entender que haveriam indícios de pagamento do tributo exigido (COFINS) para o período objeto de questionamento por meio de embargos de declaração (janeiro a dezembro de 1999), essa Turma julgadora novamente baixou o caso em diligência (resolução n. 3402001.006 fls. 1.707/1.712), determinando o que segue: (...). 14. Diante deste quadro, em respeito ao princípio da verdade material e, ainda, para evitar a judicialização de uma exigência fiscal que pode ser indevida, o que, por conseguinte, é ofensivo as ideias de eficiência e moralidade pública, entendo por bem converter em julgamento em diligência para que a unidade preparadora apresente nos autos os extratos de eventuais recolhimentos efetuados pelo contribuinte a título de COFINS para o período compreendido entre janeiro e setembro de 1999. 15. Concluída a diligência, o Recorrente deverá ser intimado para eventual manifestação no prazo de 30 (trinta) dias, exatamente como prescreve o art. 35, parágrafo único do Decreto n. 7.574/2011. (...). 8. Diante deste quadro, a unidade preparadora manifestouse a fl. 1.720 nos seguintes termos: ...segue em anexo, para ciência, o resultado da diligência, representado pelas cópias das telas dos pagamentos efetuados a título de COFINS, código 2172, pelo contribuinte acima identificado, no período de 01/01/1999 a 30/09/1999, recuperadas do Sistema SIEF/Documentos de Arrecadação Pagos. 9. Tal informação veio devidamente instruída com consulta formulada pela RFB (fls. 1.715/1.719). Fl. 1808DF CARF MF Processo nº 10380.009929/200462 Resolução nº 3402001.358 S3C4T2 Fl. 1.809 6 10. Intimado a respeito, o contribuinte manifestouse por meio da petição de fls. 1.726/1.731, oportunidade em que vindicou o reconhecimento da decadência para o período compreendido entre janeiro e maio de 1999, haja vista prova cabal do pagamento parcial, da exação aqui tratada. Não obstante, em relação ao período compreendido entre junho e setembro de 1999, alegou que também fez pagamentos parciais, o que se deu mediante compensação. Para comprovar tais fatos juntou aos autos os documentos de fls. 1.735/1.757. 11. Tendo em vista os fatos inovadores apresentados pela recorrente, proferi despacho de fls. 1.786/.1.789, chancelado pelo Presidente desta Turma julgadora, oportunidade em abri vista para manifestação da Fazenda Nacional, a qual foi acostada aos autos as fls. 1.794/1.796. 12. É o relatório. Resolução 13. De forma muito objetiva, os novos fatos trazidos ao conhecimento desta Turma julgadora e retratados pelos documentos de fls. 1.734/1.757, acabam por suscitar em nova dúvida por parte do Relator deste caso. 14. A primeira delas é por qual razão a guia DARF de fl. 1.757, que comprova o pagamento (ainda que parcial) de COFINS referente a competência de setembro de 1999 e pago em outubro daquele ano e que não foi detectado pela unidade preparadora quando das informações prestadas as fls. 1.715/1.719. Assim, para dissipar qualquer dúvida acerca desta pagamento, resolvo novamente converter o julgamento em diligência para que: (i) a unidade preparadora certifique a validade do aludido pagamento, prestando as informações cabíveis no presente processo. 15. Não obstante, em relação ao período compreendido entre junho e agosto de 1999, a recorrente traz aos autos os documentos de fls. 1.735/1.756 (DCOMP's) que atestariam que também houve pagamento parcial de COFINS para tais meses, ainda que mediante compensação. Acontece que a assertividade de tal afirmação depende de verificar se tais compensações foram ou não homologadas pela autoridade competente, o que me motiva a também converter o presente julgamento em diligência para que: (ii) a unidade preparadora ateste a situação processual das compensações referidas nos documentos de fls. 1.735/1.756, bem como preste outros esclarecimentos que entender pertinentes acerca de tais compensações. 16. Concluída a diligência, o Recorrente deverá ser intimado para eventual manifestação no prazo de 30 (trinta) dias, exatamente como prescreve o art. 35, parágrafo único do Decreto n. 7.574/2011. 17. É a resolução. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Relator. Fl. 1809DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10715.008215/2009-12
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 04/09/2005, 13/09/2005, 23/09/2005, 28/09/2005
INFRAÇÃO REGULAMENTAR. REGISTRO DOS DADOS DO EMBARQUE. DESCUMPRIMENTO DO PRAZO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE.
A denúncia espontânea não se aplica à penalidade decorrente da prática da infração por deixar o transportador internacional de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil.
Numero da decisão: 9303-006.793
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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REGISTRO DOS DADOS DO EMBARQUE. DESCUMPRIMENTO DO PRAZO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A denúncia espontânea não se aplica à penalidade decorrente da prática da infração por deixar o transportador internacional de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 5. 00 82 15 /2 00 9- 12 Fl. 229DF CARF MF 2 Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Relatório Trata o presente de auto de infração lavrado (efls. 03 a 10) para constituição de crédito tributário referente a multa regulamentar por descumprimento da obrigação acessória de prestar informações sobre a carga transportada dentro do prazo determinado à época (até dois dias da data do voo); quatro infrações conforme relação à efl. 10. A autuação resultou em um total de quatro multas no montante de R$ 20.000,00, cientificada ao contribuinte em 23/12/2009 (efls. 13 e 40). Irresignada, em 18/01/2010, a contribuinte apresentou impugnação, às efls. 14 a 24. Em 12/01/2011, o sujeito passivo apresentou aditamento à impugnação, às efls. 63 a 65, pleiteando que fosse reconhecido o benefício da retroatividade benigna, para exclusão das multas, em face de alteração da IN RFB nº 28/1994, decorrente da edição da IN RFB nº 1096 de 13/12/2010 que alterou o prazo para registros dos embarques para sete dias. Em 27/10/2011, reiterou o pleito, agora à DRJ/FNS (efls. 72 e 73), informando que o CARF em julgamento da mesma matéria, para a mesma contribuinte, havia entendido pela aplicação da retroatividade benigna. A 1ª Turma da DRJ/FNS, apreciou a impugnação em 11/04/2012, e no acórdão nº 0728.144, às efls. 119 a 126, considerou parcialmente procedente a impugnação, pela aplicação da retroatividade benigna, mantendo as multas apenas com relação às informações sobre os despachos de exportação nº 20510327478 e nº 20510661858, prestadas em prazo superior a sete dias. Ainda inconformada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, às efls. 136 a 142, em 09/04/2014. Em breve resumo argumenta: a) houve atraso nas informações de embarques em razão de problemas no Siscomex, além disso, até 2008, as correções e averbações tinham a mesma forma de registro, e na autuação não há prova do fato gerador das multas, pois não destacam quais seriam averbações e quais seriam correções; b) não houve prejuízo ao erário público com o suposto atraso; c) a multa só poderia ser aplicada se houvesse embaraço à fiscalização em decorrência do atraso. A 1ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento apreciou o recurso na sessão de 20/03/2015, dando provimento a ele no acórdão de nº 3801005.349, às efls. 147 a 160, o qual teve a seguinte ementa: REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DE EMBARQUE. PRESTAÇÃO DA INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA DE FORMA ESPONTÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. POSSIBILIDADE. O cumprimento espontâneo de obrigação tributária acessória, consubstanciada na informação dos dados de embarque no Fl. 230DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 230 3 Siscomex, subsumese à hipótese de denúncia espontânea da obrigação tributária, devendo o contribuinte ser liberado do pagamento da multa. O acórdão foi assim lavrado: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso reconhecendose o instituto da denúncia espontânea. Vencidos os Conselheiros Flávio de Castro Pontes e Marcos Antônio Borges que negavam provimento ao recurso nesta matéria. Designada para elaborar o voto vencedor a Conselheira Maria Inês Caldeira Pereira da Silva Murgel. Recurso especial de Fazenda Intimada para ciência do acórdão nº 3801005.349 em 21/05/2015 (efl. 161), a Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs recurso especial de divergência em 07/07/2015, às efls. 162 a 175. A Fazenda indica duas matérias para as quais entende haver divergências: a) retroatividade benigna e b) instituto da denúncia espontânea. Com relação à primeira matéria indicada, o Procurador apresentou como paradigma da divergência o acórdão nº 3202000.544, que afastou a aplicação retroativa da IN RFB nº 1096/2010, por defender que a ampliação do prazo pela nova norma não se enquadra na hipótese de retroatividade benigna, divergindo de entendimento expresso no recorrido quanto a isso. Com relação a aplicação da denúncia espontânea ao caso concreto, o paradigmas esgrimidos foram os acórdãos nº CSRF/0305.339 e nº 3802001.128, pelos quais a denúncia espontânea não se aplicariam a penalidades decorrentes de atos formais do contribuinte tal como a entrega atrasada de declaração. O Presidente da 1ª Câmara de Terceira Seção de Julgamento do CARF, apreciou o recurso especial de divergência da Fazenda em 31/03/2016, no despacho de efls. 212 a 215, com base nos arts. 67 e 68 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria n° 343 de 09/06/2015, dandolhe seguimento somente quanto ao instituto da denúncia espontânea, haja vista que não houve apreciação quanto à retroatividade benigna no acórdão recorrido. O presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, em despacho de efls. 216 e 217, ratificou o posicionamento anterior quando da realização de reexame de admissibilidade do recurso especial, com fulcro no art. 71 do RICARF. A contribuinte foi intimada (efl. 223) do acórdão nº 3801005.349 e do recurso especial de divergência da Fazenda, em 14/04/2016 (efl. 226) e não apresentou qualquer manifestação nos autos dentro dos prazos regimentais. Constam do processo duas peças, intituladas Exame de Admissibilidade de Recurso Especial (efls. 204 a 206, datado de 23/10/2015) e Despacho de Reexame de Admissibilidade de Recurso Especial (efls. 207 e 208), tratando de suposto recurso da contribuinte. Contudo, de acordo com o que lá constava, tais peças tratam, conjuntamente dos Fl. 231DF CARF MF 4 processos: 10715000183201041, 10715000809201019, 10715001367201028, 10715001477201090, 10715005474201025 e 10715008215200912. Todavia, não havia qualquer recurso da contribuinte nos autos àquela época e, por questão lógica, não poderia haver, visto que seu recurso voluntário havia sido provido. Dessa forma, entendo tratarse de lapso manifesto a produção das peças com relação ao presente processo, pois nem mesmo a ementa transcrita no despacho de efls. 204 a 206 se refere ao acórdão de recurso voluntário ora questionado. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator O recurso especial da Procuradoria da Fazenda Nacional é tempestivo, cumpre os requisitos regimentais e dele conheço. Cingese a discussão à aplicação do instituto da denúncia espontânea ao descumprimento de obrigação acessória. Com a devida vênia, penso que ao caso não se aplica tal instituto. Assim entendo, ver impossibilidade lógica em ser espontâneo para recuperação do tempo. O art. 138, invocado com fator que afasta o fato gerador da penalidade, não tem esse condão. O referido artigo teve sua origem remota no anteprojeto do CTN1, de autoria do Prof. Rubens Gomes de Souza, é o art. 289, que constava do Capítulo III Da punibilidade, com a seguinte dicção: Art. 289. Excluem a punibilidade: I. A denúncia espontânea da infração pelo respectivo autor ou seu representante, antes de qualquer ação fiscal, acompanhada do pagamento, no próprio ato, do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa competente, se o montante do tributo devido depender de apuração; (...) § 2.°. As causas de exclusão da punibilidade previstas neste artigo não se aplicam: I. Às infrações de dispositivos da legislação tributária referentes a obrigações tributárias acessórias; (...) Quando levado ao Congresso, já como projeto de lei, em 1954, essa redação foi alterada conforme se observava então no art. 1742, do Capítulo II, que tratava da responsabilidade por infrações, então com a redação: Art. 174. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada do pagamento do tributo 1 http://www2.senado.gov.br/bdsf/handle/id/511517 000064039.pdf, pág. 339 e 340. 2 http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/511517, 000064039.pdf, pág. 70 Fl. 232DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 231 5 devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo devido dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada depois do início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização. Assim se manifestou Rubens Gomes de Souza, autor do anteprojeto e participante da Comissão Especial de elaboração do projeto, a respeito desse artigo: Por último, o art. 174 abre ainda exceção ao princípio da objetividade, admitindo a exclusão da responsabilidade penal nos casos de denúncia espontânea da infração e sua concomitante reparação. 3 Após sua tramitação no Poder Legislativo, obtevese a norma do art. 138, conforme invocado no acórdão a quo, dispõe: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. Fica evidenciado que desde sua origem, o atual artigo 138 do CTN visou à exclusão de punição, mas atrelando esta exclusão à reparação da falta originalmente praticada, sem o que as normas tributárias não seriam cogentes; sendo o sistema tributário não impositivo, careceria de lógica o sistema. Como criar uma obrigação, ainda que acessória, e inexistir qualquer sanção por descumprimento, simplesmente pela denunciação do descumprimento? O fato gerador da infração está disposto na alínea “e”, inciso IV, do artigo 107 do DecretoLei n° 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei n° 10.833/2003, com a seguinte dicção: Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (...) IV de R$ 5.000,00 (cinco mil reais): (...) e) por deixar de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a 3 http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/511517, 000064039.pdf, pág. 245 Fl. 233DF CARF MF 6 prestadora de serviços de transporte internacional expresso portaaporta, ou ao agente de carga; e... (Negritei.) O fato gerador da penalidade em comento é deixar de prestar informação na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal. Existindo o atraso, não há como reparar a falta, pois, no estágio atual, não é possível fazer o tempo retroagir e recuperar o prazo perdido; teríamos uma impossibilidade que se desconsiderada significaria fazer ruir o sistema cogente da tributação. Não se pode olvidar que o sistema de tributação aduaneiro não envolve apenas questões financeiras ou de arrecadação, mas inúmeras exigências visando à defesa do Estado Nacional, tais como controles sanitários, econômicos, segurança pública, etc. É evidente que o descumprimento de normas que venham a impor tais exigências nem sempre podem ser reparadas pela simples denúncia. Assim, desfazer ou desonerarse do atraso informando sua existência só levaria a incentivar o atraso, fazendo com que a norma do CTN em vez de prestigiar o cumprimento da legislação tributária, no cotidiano, tivesse efeito contrário. Se a fiscalização não estiver permanentemente a postos para verificar os prazos, os contribuintes que não os cumpram podem se desonerar da obrigação que a lei lhes impõe (prestar informação em até sete dias do embarque) sem atender a própria norma e sem qualquer reparação. Aliás, esse entendimento não é estranho a esta Turma, que na sessão de 26/04/2016, no acórdão de nº 9303003.676, em voto do Ilustre exPresidente do CARF, Dr. Carlos Alberto Freitas Barreto, trouxe a fundamentação adicional que abaixo reproduzo: Por concordar na íntegra com os fundamentos, e por aplicarse à solução do presente litígio, adoto o voto proferido pelo ilustre Conselheiro Solon Sehn no Acórdão 3802002.314, de 27/11/2013, do qual transcrevo os seguintes excertos: "O Recorrente alega ainda que as informações sobre o embarque foram prestadas antes da lavratura do auto de infração. Portanto, nos termos do art. 138, caput, do Código Tributário Nacional (CTN), a multa deveria ter sido excluída em razão da caracterização da denúncia espontânea: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. A aplicabilidade da denúncia espontânea às “obrigações acessórias” é sustentada por parte da doutrina com base na expressão “se for o caso”, encontrada no caput do art. 138 do CTN. Nesse sentido, cumpre destacar as lições de Hugo de Brito Machado, Luciano Amaro e Sacha Calmon Navarro Coêlho: 'Como a lei diz que a denúncia há de ser acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido, resta Fl. 234DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 232 7 induvidoso que a exclusão da responsabilidade tanto se refere a infrações das quais decorra o não pagamento do tributo como a infrações meramente formais, vale dizer, infrações das quais não decorra o não pagamento do tributo. Inadimplemento de obrigações tributárias meramente acessórias' 1. 'A expressão ‘se for o caso’ explicase em face de que algumas infrações, por implicarem desrespeito a obrigações acessórias, não acarretam, diretamente, nenhuma falta de pagamento de tributo, embora sejam também puníveis, porque a responsabilidade não pressupõe, necessariamente, dano (art. 136). Outras infrações, porém, de um modo ou de outro, resultam em falta de pagamento. Em relação a estas é que o Código reclama o pagamento' 2. 'Se quisesse excluir uma ou outra, teria adjetivado a palavra infração ou teria dito que a denúncia espontânea elidiria a responsabilidade pela prática de infração à obrigação principal excluindo a assessória, ou viceversa. Ora, onde o legislador não distingue não é lícito ao intérprete distinguir segundo cediço princípio de hermenêutica' 3. Essa interpretação, porém, não foi acolhida pela Jurisprudência, consoante se depreende dos seguintes julgados do Superior Tribunal de Justiça: 'TRIBUTÁRIO. MULTA MORATÓRIA. ART. 138 DO CTN. ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE RENDIMENTOS. 1. O STJ possui entendimento de que a denúncia espontânea não tem o condão de afastar a multa decorrente do atraso na entrega da declaração de rendimentos, pois os efeitos do art. 138 do CTN não se estendem às obrigações acessórias autônomas. 2. Agravo Regimental não provido.” (STJ. 2ª T. AgRg nos EDcl no AREsp 209663/BA. Rel. Min. Herman Benjamin. DJe 10/05/2013).' (...) A mesma interpretação foi adotada no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, conforme Súmula CARF nº 49: “A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração”, que foi fruto de reiterados julgados do Câmara Superior de Recursos Fiscais (...) Fl. 235DF CARF MF 8 A discussão, entretanto, foi reaberta em face da nova redação do art. 102 do DecretoLei nº 37/1966, decorrente do art. 40 da Lei nº 12.350/2010: Art. 102. A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988). § 1º Não se considera espontânea a denúncia apresentada: (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) b) após o início de qualquer outro procedimento fiscal, mediante ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, tendente a apurar a infração. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2º A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010). (...) De fato, a Lei nº 12.350/2010 resultou da conversão da Medida Provisória n.º 497/2010. De acordo com a exposição de motivos desta, seu objetivo foi “deixar claro” que o instituto da denúncia espontânea aplicase a todas as penalidades pecuniárias, inclusive multas isoladas vinculadas ao descumprimento de obrigação acessória, conforme se depreende da leitura da exposição de motivos: '40. A proposta de alteração do § 2º do art. 102 do DecretoLei nº 37, de 1966, visa a afastar dúvidas e divergência interpretativas quanto à aplicabilidade do instituto da denúncia espontânea e a consequente exclusão da imposição de determinadas penalidades, para as quais não se tem posicionamento doutrinário claro sobre sua natureza. [...] 43. Fundamentalmente, o Linha Azul é um procedimento simplificado que propicia às empresas habilitadas um menor percentual de seleção para os canais de verificação amarelo e vermelho e conferência aduaneira das declarações selecionadas realizada prioritariamente, inclusive com compromisso de tempo máximo para essa conferência estipulado. Esse procedimento segue a orientação internacional de Operadores Econômicos Autorizados OEA, ou seja, de credenciamento de Fl. 236DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 233 9 operadores legítimos e confiáveis para operar no comércio exterior com menores entraves burocráticos. 44. A avaliação sistêmica da empresa candidata ao Linha Azul inclui a realização, previamente à adesão, de uma auditoria de controles internos para autoavaliação de seus controles e procedimentos aduaneiros, referente, no mínimo, aos quatro últimos semestres civis. O objetivo dessa autoavaliação é induzir a empresa a verificar o cumprimento da legislação aduaneira (controles administrativos e fiscais), com reflexo na garantia da regularidade dos registros aduaneiros e do recolhimento dos tributos devidos. Exigese, sempre que a auditoria de controles internos aponte irregularidades, que sejam apresentados documentos que comprovem o seu saneamento ou a adoção das providências cabíveis para a sua solução. 45. No caso específico, o que se tem verificado é que, durante o processo de auditoria, as empresas têm constatado reiterados erros em declarações de importação registradas e desembaraçadas no canal verde de conferência e, como forma de sanear a irregularidade para cumprimento do programa, apresentado a relação desses erros na unidade de jurisdição e adotado as respectivas providências para a retificação das declarações aduaneiras. 46. Todavia, ao adotar essa providência, mesmo que a empresa não tenha que recolher quaisquer tributos, ela pode estar sujeita à imposição da referida multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria (multa isolada), disciplinada no art. 711 do Regulamento Aduaneiro, ainda que espontaneamente tenha apurado tais erros e adotado as providências para a sua regularização, o que onera por demais o processo de adesão à Linha Azul. 47. A proposta de alteração objetiva deixar claro que o instituto da denúncia espontânea alcança todas as penalidades pecuniárias, aí incluídas as chamadas multas isoladas, pois nos parece incoerente haver a possibilidade de se aplicar o instituto da denúncia espontânea para penalidades vinculadas ao nãopagamento de tributo, que é a obrigação principal, e não haver essa possibilidade para multas isoladas, vinculadas ao descumprimento de obrigação acessória.' (EMI nº 111 /MF/MP/ME/MCT/MDIC/MT). Todavia, cumpre considerar que, nas obrigações acessórias ou deveres instrumentais, o sujeito passivo está vinculado a um fazer ou nãofazer, sem expressão econômica, destinado a facilitar a fiscalização e a arrecadação dos tributos4. Podem assumir os conteúdos mais variados, desde a manutenção de escrituração fiscal regular, da descrição adequada do bem importado na declaração de importação, emissão de nota fiscal, bem Fl. 237DF CARF MF 10 como da apresentação de informações para a Fazenda Pública dentro dos prazos previstos na legislação tributária. Em razão disso, na aplicação do art. 102 do DecretoLei nº 37/1966, devese analisar o conteúdo da “obrigação acessória” violada. Isso porque nem todas as infrações pelo descumprimento de deveres instrumentais são compatíveis com a denúncia espontânea, como é o caso das infrações caracterizadas pelo fazer ou nãofazer extemporâneo do sujeito passivo. Essa importante distinção foi evidenciada em voto do eminente Conselheiro José Fernandes do Nascimento, no Acórdão 310200.988.3a S/1a C/2a TO. S. de 22/08/2013: 'O objetivo da norma em destaque, evidentemente, é estimular que o infrator informe espontaneamente à Administração aduaneira a prática das infrações de natureza tributária e administrativa instituídas na legislação aduaneira. Nesta última, incluída todas as obrigações acessórias ou deveres instrumentais (segundo alguns) que tenham por objeto as prestações positivas (fazer ou tolerar) ou negativas (não fazer) instituídas no interesse fiscalização das operações de comércio exterior, incluindo os aspectos de natureza tributária, administrativo, comercial, cambial etc. Não se pode olvidar que, para aplicação do instituto da denúncia espontânea, é condição necessária que a infração de natureza tributária ou administrativa seja passível de denunciação à fiscalização pelo infrator. Em outras palavras, é requisito essencial da excludente de responsabilidade em apreço que a infração seja denunciável. No âmbito da legislação aduaneira, em consonância com o disposto no retrotranscrito preceito legal, as impossibilidades de aplicação dos efeitos da denúncia espontânea podem decorrer de circunstância de ordem lógica (ou racional) ou legal (ou jurídica). No caso de impedimento legal, é o próprio ordenamento jurídico que veda a incidência da norma em apreço, ao excluir determinado tipo de infração do alcance do efeito excludente da responsabilidade por denunciação espontânea da infração cometida. A título de exemplo, podem ser citadas as infrações por dano erário, sancionadas com a pena de perdimento, conforme expressamente determinado no § 2º, in fine, do citado art. 102. A impossibilidade de natureza lógica ou racional ocorre quando fatores de ordem material tornam impossível a denunciação espontânea da infração. São dessa modalidade as infrações que têm por objeto as condutas extemporâneas do sujeito passivo, caracterizadas pelo cumprimento da obrigação após o prazo estabelecido na legislação. Para tais tipos de infração, a denúncia espontânea não tem o Fl. 238DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 234 11 condão de desfazer ou paralisar o fluxo inevitável do tempo. Compõem essa última modalidade toda infração que tem o atraso no cumprimento da obrigação acessória (administrativa) como elementar do tipo da conduta infratora. Em outras palavras, toda infração que tem o fluxo ou transcurso do tempo como elemento essencial da tipificação da infração. São dessa última modalidade todas as infrações que têm no núcleo do tipo da infração o atraso no cumprimento da obrigação legalmente estabelecida. A título de exemplo, pode ser citada a conduta do transportador de registrar extemporaneamente no Siscomex os dados das cargas embarcadas, infração objeto da presente autuação. Veja que, na hipótese da infração em apreço, o núcleo do tipo é deixar de prestar informação sobre a carga no prazo estabelecido, que é diferente da conduta de, simplesmente, deixar de prestar a informação sobre a carga. Na primeira hipótese, a prestação intempestiva da informação é fato infringente que materializa a infração, ao passo que na segunda hipótese, a mera prestação de informação, independentemente de ser ou não a destempo, resulta no cumprimento da correspondente obrigação acessória. Nesta última hipótese, se a informação for prestada antes do início do procedimento fiscal, a denúncia espontânea da infração configurase e a respectiva penalidade é excluída. De fato, se registro extemporâneo da informação da carga materializasse a conduta típica da infração em apreço, seria de todo ilógico, por contradição insuperável, que o mesmo fato configurasse a denúncia espontânea da correspondente infração. De modo geral, se admitida a denúncia espontânea para infração por atraso na prestação de informação, o que se admite apenas para argumentar, o cometimento da infração, em hipótese alguma, resultaria na cobrança da multa sancionadora, uma vez que a própria conduta tipificada como infração seria, ao mesmo tempo, a conduta configuradora da denúncia espontânea da respectiva infração. Em consequência, ainda que comprovada a infração, a multa aplicada seria sempre inexigível, em face da exclusão da responsabilidade do infrator pela denúncia espontânea da infração. Esse sentido e alcance atribuído a norma, com devida vênia, constitui um contrassenso jurídico, uma espécie de revogação da penalidade pelo intérprete e aplicador da norma, pois, na prática, a sanção estabelecida para a penalidade não poderá ser aplicada em hipótese alguma, excluindo do ordenamento jurídico qualquer possibilidade punitiva para a prática de infração desse jaez.' Fl. 239DF CARF MF 12 Destarte, a aplicação da denúncia espontânea às infrações caracterizadas pelo fazer ou nãofazer extemporâneo do sujeito passivo implicaria o esvaziamento do dever instrumental, que poderia ser cumprido há qualquer tempo, ao alvedrio do sujeito passivo. Exegese dessa natureza comprometeria toda a funcionalidade dos deveres instrumentais no sistema tributária. Destacase, nesse sentido, a doutrina de Yoshiaki Ichihara: 'Caso se entenda que o descumprimento de dever instrumental formal possa ser denunciado e corrigido sem o pagamento das multas decorrentes, na prática não haverá mais infração da obrigação acessória. Seria, a rigor, uma verdadeira anistia, que somente poderá ser concedida por lei específica. Exemplificando, uma empresa que deixou de registrar e escriturar livros fiscais, com a denúncia espontânea da infração, se assim se entender, não haverá mais multa, e a aplicação da lei tributária estará integralmente frustrada' 5. Entendese, portanto, que a denúncia espontânea (art. 138 do CTN e art. 102 do DecretoLei n° 37/1966) não alcança as penalidades exigidas pelo descumprimento de dever instrumental caracterizado pelo atraso na prestação de informação à administração aduaneira. (...)" O objetivo do art. 138 do CTN é estimular o contribuinte que não pagou os tributos a fazêlo e regularizar a situação, resgatando as pendências deixadas e não conhecidas pelo fisco, que recebe o que deveria ter sido pago e cuja satisfação, não fosse a iniciativa do contribuinte, talvez jamais ocorresse. Tal norma objetiva estimular o cumprimento espontâneo das obrigações tributárias. Porém, a responsabilidade pelo cometimento das infrações restará afastada apenas com o reconhecimento e cumprimento da obrigação, preservando assim a higidez do sistema, não se podendo ver nela nenhum estímulo à inadimplência. De fato, a jurisprudência dominante em nossos tribunais não admite a configuração da denúncia espontânea ante a prática de determinados atos, que representam infrações à legislação tributária. Várias são as decisões no sentido da inaplicabilidade do art. 138 do CTN no descumprimento do prazo quanto às obrigações acessórias. Vejamos: “DENÚNCIA ESPONTÂNEA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INAPLICABILIDADE. 1. Inaplicável o instituto da denúncia espontânea quando se trata de multa isolada imposta em face do descumprimento de obrigação acessória.” (STJ, 2ª T. AgRg no Resp 916.168/SP, Herman Benjamin, mar/09) No mesmo sentido do entendimento ora defendido, manifestouse recentemente o e. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, conforme se Fl. 240DF CARF MF Processo nº 10715.008215/200912 Acórdão n.º 9303006.793 CSRFT3 Fl. 235 13 infere do enunciado da ementa e dos trechos do voto condutor do julgado, a seguir transcritos: EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. MULTA DECORRENTE DA INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA DE DADOS DE EMBARQUE. AGENTE MARÍTIMO. LEGITIMIDADE PASSIVA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA AUTÔNOMA. INAPLICABILIDADE DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA. PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE. VALOR QUE NÃO OFENDE O PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE CONFISCO. 1. O agente marítimo assume a condição de representante do transportador perante os órgãos públicos nacionais e, ao deixar de prestar informação sobre veículo ou carga transportada, concorre diretamente para a infração, daí decorrendo a sua responsabilidade pelo pagamento da multa, nos termos do artigo 95, I, do DecretoLei nº 37, de 1966. 2. Não se aplica a denúncia espontânea para os casos de descumprimento de obrigações tributárias acessórias autônomas. 3. A finalidade punitiva e dissuasória da multa justifica a sua fixação em valores mais elevados, sem que com isso ela ofenda os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e vedação ao confisco. [...]Voto. [...] Não é caso, também, de acolhimento da alegação de denúncia espontânea. A Lei nº 12.350, de 2010, deu ao artigo 102, § 2º, do DecretoLei nº 37, de 1966, a seguinte redação: [...]Bem se vê que a norma não é inovadora em relação ao artigo 138 do CTN, merecendo, portanto, idêntica interpretação. Nesse sentido, é pacífico o entendimento no sentido de que a denúncia espontânea não se aplica para os casos em que a infração seja à obrigação tributária acessória autônoma. [...] (BRASIL. TRF4. 2ª Turma. Apelação Cível nº 500599981.2012.404.7208/ SC. rel. Des. Rômulo Pizzolatti, j. 10.12.2013) (grifo acrescido) Importante observar que, no mesmo sentido da mencionada decisão do TRF da 4ª RF, existe a Súmula CARF nº 49 A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Todavia, não se trata aqui de aplicar a Súmula 49 para resolver o presente litígio, uma vez que proferida antes das alterações promovidas pela Lei 12.350/2010. A intransigência em matéria de controles administrativos aduaneiros se justifica, muito mais do que pela questão tributáriofinanceira, pela questão da defesa do Estado nacional. A falta de pagamento de tributo, ou de parte Fl. 241DF CARF MF 14 dele, não é o único dano que se faz aos cofres públicos e à sociedade no descumprimento das regras de controle aduaneiro. Muitas vezes, a administração tributária prioriza a arrecadação de tributos e não enfatiza as razões dos controles não tributários ou aduaneiros. Assim, pode ficar a impressão de que não havendo falta de pagamento de tributos não há dano efetivo ao erário, mas essa é uma falsa observação. Cabe a administração aduaneira cumprir as decisões dos demais órgãos do Poder Executivo e de Acordos Internacionais, relativamente à saúde, à defesa da economia, à defesa dos interesses culturais, do patrimônio histórico, da segurança pública, entre outros. São atribuições fundamentadas em conhecimentos que ultrapassam largamente aqueles necessários à excelência do trabalho de fiscalização. Ao fazer o julgamento, especialmente por que não há tantos julgadores especializados em nuances do comércio internacional, passase ao largo dos verdadeiros delitos que são cometidos à sombra da ausência de danos fiscais explícitos — quero dizer — da falta de pagamento de impostos. Por último, é de se observar que o entendimento acerca da impossibilidade de aplicar a denúncia espontânea para afastar a multa capitulada no artigo no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DL 37, de 1966, alcança, indistintamente, a exigência dessa penalidade nas diversas situações nas quais é aplicada, tais como: atraso na prestação de informações sobre mercadoria embarcada, sobre atracação de embarcação, sobre vinculação de manifesto de carga, etc. Dessarte, também pelos fundamentos desse ilustrado voto confirmo minha razão de decidir pelo provimento do recurso especial de divergência da fazenda, Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do recurso especial de divergência da Fazenda Nacional para darlhe provimento e manter o crédito tributário das penalidades mantidas pela DRJ/FNS. (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 242DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720205/2012-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jun 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
REEXAME DE PERÍODO FISCALIZADO.
Não caracteriza reexame de período fiscalizado a autuação relativa a períodos diversos e fundada em constatações que não respaldaram o encerramento do procedimento fiscal anterior.
INCORPORAÇÃO - AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO - NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE "EMPRESA VEÍCULO".
Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica sem substância econômica ou finalidade negocial, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, transferido pela original controladora e adquirente do investimento, mormente se verificado que não houve alteração na relação societária inicial.
POSTERGAÇÃO DE IMPOSTO. AMORTIZAÇÃO FISCAL.
A glosa de despesas decorrentes de amortização de ágio pago com fundamento na rentabilidade futura da investida não configura inexatidão quanto a período de apuração de competência de receitas, rendimentos ou deduções. A amortização ocorre na medida em que os resultados projetados da investida se confirmam, sendo inaplicáveis as regras de postergação de pagamento de imposto.
DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO.
O reconhecimento contábil do ágio não representa manifestação de fato tributário imponível. A obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surgem apenas com a ocorrência do fato gerador, no caso em tela, a cada dedução das despesas de ágio.
MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE.
O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL.
A solução dada ao litígio principal, em relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, aplica-se ao litígio decorrente ou reflexo relativo à Contribuição Social sobre o Lucro (CSLL).
Numero da decisão: 1201-002.169
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para afastar a multa qualificada de 150% para 75%, vencidos os conselheiros Ester Marques Lins de Sousa (relatora), Eva Maria Los e José Carlos de Assis Guimarães, que lhe negaram provimento; vencidos também os conselheiros Gisele Barra Bossa e Eduardo Morgado Rodrigues, que lhe deram provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor, quanto à desqualificação da multa de ofício, o conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
(assinado digitalmente)
Paulo Cezar Fernandes de Aguiar - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Gisele Barra Bossa, José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima), Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado, Rafael Gasparello Lima e Luis Henrique Marotti Toselli.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008 REEXAME DE PERÍODO FISCALIZADO. Não caracteriza reexame de período fiscalizado a autuação relativa a períodos diversos e fundada em constatações que não respaldaram o encerramento do procedimento fiscal anterior. INCORPORAÇÃO - AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO - NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE "EMPRESA VEÍCULO". Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica sem substância econômica ou finalidade negocial, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, transferido pela original controladora e adquirente do investimento, mormente se verificado que não houve alteração na relação societária inicial. POSTERGAÇÃO DE IMPOSTO. AMORTIZAÇÃO FISCAL. A glosa de despesas decorrentes de amortização de ágio pago com fundamento na rentabilidade futura da investida não configura inexatidão quanto a período de apuração de competência de receitas, rendimentos ou deduções. A amortização ocorre na medida em que os resultados projetados da investida se confirmam, sendo inaplicáveis as regras de postergação de pagamento de imposto. DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. O reconhecimento contábil do ágio não representa manifestação de fato tributário imponível. A obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surgem apenas com a ocorrência do fato gerador, no caso em tela, a cada dedução das despesas de ágio. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A solução dada ao litígio principal, em relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, aplica-se ao litígio decorrente ou reflexo relativo à Contribuição Social sobre o Lucro (CSLL).
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 55; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2072; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C2T1 Fl. 2 1 1 S1C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16561.720205/201231 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 1201002.169 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 16 de maio de 2018 Matéria Glosa de amortização de ágio Recorrente TERRA NETWORKS BRASIL S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 REEXAME DE PERÍODO FISCALIZADO. Não caracteriza reexame de período fiscalizado a autuação relativa a períodos diversos e fundada em constatações que não respaldaram o encerramento do procedimento fiscal anterior. INCORPORAÇÃO AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE "EMPRESA VEÍCULO". Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica sem substância econômica ou finalidade negocial, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, transferido pela original controladora e adquirente do investimento, mormente se verificado que não houve alteração na relação societária inicial. POSTERGAÇÃO DE IMPOSTO. AMORTIZAÇÃO FISCAL. A glosa de despesas decorrentes de amortização de ágio pago com fundamento na rentabilidade futura da investida não configura inexatidão quanto a período de apuração de competência de receitas, rendimentos ou deduções. A amortização ocorre na medida em que os resultados projetados da investida se confirmam, sendo inaplicáveis as regras de postergação de pagamento de imposto. DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. O reconhecimento contábil do ágio não representa manifestação de fato tributário imponível. A obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surgem apenas com a ocorrência do fato gerador, no caso em tela, a cada dedução das despesas de ágio. MULTA QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 02 05 /2 01 2- 31 Fl. 3129DF CARF MF 2 O não reconhecimento pelo Fisco do ágio gerado em operações realizadas dentro do mesmo grupo econômico, com a consequente glosa de sua amortização, não enseja, por si só, a aplicação da multa qualificada, quando os atos praticados revelam interpretação equivocada por parte do contribuinte quanto à legislação de regência. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A solução dada ao litígio principal, em relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, aplicase ao litígio decorrente ou reflexo relativo à Contribuição Social sobre o Lucro (CSLL). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para afastar a multa qualificada de 150% para 75%, vencidos os conselheiros Ester Marques Lins de Sousa (relatora), Eva Maria Los e José Carlos de Assis Guimarães, que lhe negaram provimento; vencidos também os conselheiros Gisele Barra Bossa e Eduardo Morgado Rodrigues, que lhe deram provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor, quanto à desqualificação da multa de ofício, o conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora (assinado digitalmente) Paulo Cezar Fernandes de Aguiar Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Gisele Barra Bossa, José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado), Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima), Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição à ausência do conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado, Rafael Gasparello Lima e Luis Henrique Marotti Toselli. Relatório Por economia processual e bem descrever os fatos adoto o Relatório da decisão recorrida, efls.2.849/2888, que transcrevo a seguir: Fl. 3130DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 3 3 Em ação fiscal empreendida junto ao contribuinte acima identificado, originada pelo MPF nº 08.1.71.002010002676, foram lavrados Autos de Infração de IRPJ Imposto de Renda Pessoa Jurídica e de CSLL – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, resultantes da glosa de despesas de amortização de ágio na aquisição de investimento, nos períodos base de 2007 e de 2008. Descrição dos fatos e enquadramento legal a fls. 989, do Auto de Infração de IRPJ: “0001AMORTIZAÇÃO. VALORES NÃO AMORTIZÁVEIS. Amortização indedutível em função da natureza do bem ou do direito ou da despesa, que não é amortizável, conforme relatório fiscal em anexo. Fato Gerador Valor Tributável ou Imposto Multa (%) 31/12/2007 R$ 77.416.265,60 150,00 Enquadramento legal: Fatos geradores ocorridos entre 01/01/2007 e 31/12/2007: Art. 3º da Lei nº 9.249/95. Arts. 249, inciso I, 251, 299, 324, §§ 2º e 4º, e 325, do RIR/99. 0002 – EXCLUSÕES/COMPENSAÇÕES NÃO AUTORIZADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL. EXCLUSOES INDEVIDAS. Valor excluído indevidamente do Lucro Líquido do período, na determinação do Lucro Real, conforme relatório fiscal em anexo. Fato Gerador Valor Apurado (R$) Multa (%) 31/12/2008 R$ 67.026.895,03 150,00 Enquadramento legal: Fatos geradores ocorridos entre 01/01/2008 e 31/12/2008: Art. 3º da Lei nº 9.249/95. Arts. 247 e 250 do RIR/99.” A matéria tributável do ano calendário de 2007 foi compensada com prejuízos de períodos anteriores de R$ 23.224.879,68 e bases negativas de CSLL de períodos anteriores de R$ 23.224.879,68, conforme demonstrativos de compensação de fls. 997 e 1.003. A matéria tributável do ano calendário de 2008 foi compensada com prejuízos e bases negativas de CSLL do próprio período, no Fl. 3131DF CARF MF 4 valor de R$ 25.838.835,61, e com prejuízos e bases negativas de CSLL de períodos anteriores, de R$ 12.356.417,83, conforme demonstrativos de fls. 998 e 1.004. Os créditos tributários apurados em R$, incluídos os juros calculados até 12/2012 e as multas de ofício, perfazem os totais de: IRPJ CSLL PRINCIPAL 20.731.756,88 7.472.072,47 JUROS DE MORA 9.387.875,35 3.382.873,39 MULTA PROPORCIONAL 31.097.635,32 11.208.108, 71 TOTAL 61.217.267,55 22.063.054, 57 Em face do disposto na Portaria RFB n° 2.439, de 21 de dezembro de 2010, que estabelece procedimentos a serem observados na comunicação ao Ministério Público Federal de fatos que configurem, em tese, crimes relacionados com as atividades da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), a autoridade autuante formalizou a respectiva Representação Fiscal para Fins Penais. Conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 1.012/1.048: DA PESSOA JURÍDICA FISCALIZADA · O fiscalizado TERRA Networks Brasil S/A faz parte do grupo espanhol Telefónica que, em 1999, adquiriu empresas de internet locais no Brasil, México, Chile e Espanha, lançando, naquele mesmo ano, a marca TERRA simultaneamente na América Latina e na Europa. · O portal hoje conhecido como TERRA Brasil tem uma longa história, iniciada com a antiga Nutec Informática S.A, fundada no ano de 1987 em Porto Alegre. A Nutec Informática era, inicialmente, uma revendedora de softwares e integradora de sistemas. · Em outubro de 1995, a Nutec criou a NutecNet, objetivando ingressar no mercado da internet. Em 1996, a empresa foi adquirida pelo Grupo RBS, criandose o canal interativo ZAZ, sendo este um dos primeiros canais de entretenimento e lazer via internet no Brasil. · Em junho de 1999, iniciouse o processo de aquisição da NUTEC INFORMÁTICA SA (que passou a se chamar TERRA Networks Brasil S/A) pela TIB (Telefônica Interactiva do Brasil Ltda), ao que se seguiu uma série de operações societárias que são alvo da presente fiscalização. · Em 14 de novembro de 2008, ocorreu a incorporação da TELEFÔNICA INTERACTIVA BRASIL LTDA pelo fiscalizado (incorporação por dentro), conforme atos societários apresentados pelo fiscalizado em resposta aos itens 1 e 2 da Intimação N" 6, de forma que a empresa SP TELECOMUNICAÇÕES HOLDING LTDA passou a deter o controle direto, com 99,97% das ações do fiscalizado, conforme DIPJ 2009. DAS INFRAÇÕES APURADAS. Fl. 3132DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 4 5 Amortização de ágio sobre investimento · A empresa NUTEC INFORMÁTICA SA (hoje denominada Terra Networks Brasil SA) foi adquirida pelo grupo espanhol Telefónica, através da Telefônica Interactiva do Brasil Ltda., por meio de subscrição de ações com ágio (15.06.1999) e posterior retirada dos demais acionistas (05.08.1999); · Embora não sejam alvo da fiscalização dos autos, as operações que originaram o ágio relativo à aquisição da fiscalizada na contabilidade da TIB foram consideradas ilícitas pela fiscalização, conforme consta do PAF 11080.008088/2001 71, referente ao Auto de Infração lançado sobre o contribuinte RBS ADMINISTRAÇÃO E COBRANÇAS LTDA; · Em 27 de dezembro de 2000, a recém criada empresa ABCD 0011 Participações Ltda. recebeu investimento da TIB (Telefônica Interactiva do Brasil Ltda) que teve seu Capital Social elevado de R$ 100,00 para R$ 387.081 mil, montante composto por: a) R$ 75.400 mil referentes a mútuo pactuado entre a TIB (Telefônica Interactiva do Brasil Ltda) e a Terra Networks Brasil SA (autuada); b) R$ 311.681 mil referentes à transferência das ações da Terra Networks SA, representado monetariamente pelo valor contabilizado na rubrica de Investimento na TIB. · Em 29 de dezembro de 2000, apenas dois dias depois da operação de integralização do capital social da empresa ABCD 0011 Participações Ltda., que passou a ser, por dois dias, controladora da Terra Networks Brasil SA (fiscalizado), houve a incorporação da empresa ABCD 0011 Participações Ltda. pelo fiscalizado, caracterizando a operação societária conhecida como incorporação reversa ou "às avessas";∙ · A criação da empresa ABCD 0011 Participações Ltda. foi planejada pelo grupo Telefônica para ser utilizada como empresa veículo; foi constituída e extinta em curto lapso temporal (dois dias de vida jurídica), com o evidente intuito de transferir o ágio sobre investimento constante da contabilidade da investidora (TIB) para a investida (Terra), por meio da integralização de capital social da empresa veículo ABCD 0011 Participações Ltda., a partir do valor da conta Investimento (mais ágio) relativo a Terra Networks e da conta Empréstimo, também relativa a Terra Networks, e posterior (dois dias depois) incorporação reversa (Terra Networks incorpora empresa veículo); · Observouse um conjunto de simulações com o intuito de fazer crer o Fisco de que a hipótese prevista no artigo 386 do RIR/99 havia ocorrido no mundo dos fatos. O resultado da simulação foi um patrimônio líquido inflado pela capitalização da reserva de ágio criada, por ficção, como contrapartida ao Fl. 3133DF CARF MF 6 surgimento indevido da conta de ágio sobre investimento (Terra Networks) no balanço da própria Terra Networks; · O montante de RS 354.807 mil, que representa 91% do total de ágio a amortizar registrado na contabilidade em 30/11/03, é resultante do plano de reestruturação societária iniciado em abril de 2000. Esta reestruturação foi realizada com o intuito de aproveitar fiscalmente o ágio da aquisição da Nutec Informática SA (posteriormente denominada Terra Networks SA) fazendo com que o mesmo se tomasse dedutível; · A empresa ABCD 0011 teve por endereço a Rua da Consolação n° 247 6 º andar, conforme contrato social, sendo que ambos os endereços pertenciam ao escritório de advocacia Machado Meyer Sendacz Opice que, não por coincidência, foi o escritório responsável pela impugnação ao Auto de Infração lançado contra o fiscalizado no tocante aos anos de 2005 e 2006 (processo n° 16643.000425/201073); • No curso da fiscalização, a contribuinte não deu justificativa econômica plausível ou propósito negocial para os atos societários envolvendo a empresa ABCD 0011, evidenciando que a mesma não passou de uma “empresa de prateleira” criada, desde o início, para integrar o planejamento tributário abusivo perpetrado pelo grupo Telefônica; • A justificativa de que “as operações envolvendo a empresa ABCD 0011 tiveram como objetivo imediato sanear a situação patrimonial da TERRA visando à expansão de suas atividades e implantação de projeto de expansão do Grupo Telefônica no ramo da internet” surgiu após a fiscalizada ter sido autuada em relação aos anos de 2005 e 2006 e confrontase com as demais evidências documentais, além de estar desvinculada de qualquer suporte probatório; • A incorporação da ABCD não implicou efetivo aumento do patrimônio da fiscalizada, por ter sido criada a respectiva conta de reserva de ágio, de modo que “qualquer hipotético parceiro econômico/negocial (que sequer foi apontado) perceberia primo ictu oculi que parcela do patrimônio líquido seria composta pela conta de reserva de ágio, de forma que tal operação não poderia viabilizar nem deixar de viabilizar esse ou aquele negócio, uma vez que não envolveu qualquer substância negocial. Ademais, não há qualquer elemento de prova ou registro à época que possa relacionar as operações envolvendo a incorporação da empresa veículo ABCD 0011 com a viabilização de qualquer projeto de expansão.” • A fiscalizada não respondeu ao item 8 da intimação fiscal, confirmando que a empresa ABCD 0011 jamais exerceu qualquer atividade econômica, jamais teve funcionários contratados, jamais efetuou contratos de qualquer ordem, ou negociou, intermediou negócios, jamais adquiriu participações em outras sociedades, jamais geriu ou comercializou bens próprios ou alheios, que seriam o objeto social da empresa; Fl. 3134DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 5 7 • Sendo o fiscalizado uma empresa de capital fechado, não se vislumbra quem teriam sido os destinatários das demonstrações financeiras supostamente saneadas com o cômputo do "ágio de si mesmo" dentre as contas de ativo e, por outro lado, da reserva de ágio dentre as contas do patrimônio líquido • no subitem 1.3 do item “Justificação do Protocolo de Incorporação e Instrumento de Justificação entre Terra Networks Brasil SA e ABCD 0011 Participações Ltda.” (fl. 274), o fiscalizado afirma: "13 Considerando que ABCD é detentora do ágio relativo ao investimento na TERRA, o qual poderá ser aproveitado fiscalmente pela TERRA após a incorporação da ABCD, nos termos da legislação em vigor" (grifo da autoridade fiscal); • do ponto de vista da TBI (investidora), não houve absolutamente nenhuma alteração patrimonial, mas tão somente a alteração da conta de ágio sobre a Terra Networks (originalmente mantida em separado do valor do investimento avaliado pelo MEP), que passou a integrar a própria conta de investimento em decorrência das já citadas operações societárias com a empresa ABCD 0011, as quais transferiram o ágio da contabilidade da investidora (TBI) para a contabilidade da investida (Terra Networks). • Não houve acréscimo ou diminuição no ativo ou no patrimônio líquido da empresa TBI, de forma que "a capacidade econômica e de investimento do Grupo Telefônica" não sofreu qualquer alteração. Irregularidade quanto ao cômputo dos mútuos no valor do ágio • Mesmo que a amortização de ágio pretendida fosse autorizada pela legislação pertinente, o valor de R$ 75.400 mil mostrase indedutível e sua apropriação como despesa deve ser glosada, porque correspondente a mútuos pactuados entre a TIB e o fiscalizado, que jamais poderiam ser transformados em ágio. • A fiscalizada apresentou os contratos de mútuo, sendo o primeiro no valor de R$ 8.550.000,00, datado de 24/03/2000, o segundo no valor de R$ 43.123.000,00, datado de 27/03/2000, e o terceiro no valor de R$ 10.744.800,00, datado de 28/04/2000, totalizando o valor original de R$ 62.417.800,00. • A fiscalizada esclareceu que, por meio de contribuição em aumento de capital social da ABCD 0011, o valor do mútuo feito entre a TIB e a TERRA foi transferido pela TIB para a ABCD 0011. Ato contínuo, a ABCD subscreveu novas ações da TERRA, as quais foram integralizadas mediante capitalização dos créditos em comento; Fl. 3135DF CARF MF 8 • Essas operações de subscrição de ações primeiro da ABCD 0011 Participações Ltda., integralizadas com o crédito detido pela TIB contra a Terra Networks Brasil SA, e depois da Terra Networks Brasil SA, integralizadas com o mesmo crédito, que passou a ser detido pela ABCD 0011 Participações Ltda. não poderiam gerar ágio na aquisição de investimento, pela simples razão de que não houve investimento adquirido; • Nem constou nos atos societários qual seria o custo de aquisição (e qual seria o ágio) das ações subscritas da empresa Terra Networks Brasil SA, integralizadas por meio dos créditos decorrentes dos mútuos, até porque a empresa ABCD 0011 Participações Ltda. já era a detentora de 99,99% das ações da Terra Networks Brasil SA, de forma que não haveria nexo no pagamento de ágio para si mesmo. Da origem do ágio na aquisição da TERRA pela TIB As operações societárias que envolveram a aquisição da fiscalizada TERRA pelo grupo espanhol Telefônica caracterizam o conhecido movimento “casa e separa” entre o grupo Telefônica e o grupo RBS, utilizado para que o ganho de capital na venda do investimento não fosse tributado, simulando a entrada de novo sócio (com seu investimento mais ágio) e, em seguida, a saída dos sócios anteriores; • O próprio fiscalizado explicitou os objetivos dessas operações, por meio do arquivo intitulado "histórico ágio ABCD.doc" “O montante de RS 354.807 mil, que representa 91% do total de ágio a amortizar registrado na Contabilidade em 30/11/ 03, é resultante do plano de reestruturação societária iniciado em abril de 2000. Esta reestruturação foi realizada com o intuito de aproveitar fiscalmente o ágio da aquisição da Nutec Informática SA (posteriormente denominada Terra Networks SA) fazendo com que o mesmo se tornasse dedutível." (grifo da autoridade fiscal) Dos lançamentos contábeis que comprovam o aproveitamento das despesas de amortização • Os lançamentos contábeis que comprovam o aproveitamento de tais valores no cômputo total das despesas do período de 2007, cujos resultados foram efetivamente afetados pela manobra tributária em pauta, foram efetuados a débito da conta de resultado "31212.15.0275121 Amort. Agio cfe Laudo" e a crédito da conta "133701.920.027 Amort.agio laudo/2003", redutora de ativo, no valor total de R$ 153.071.792,32, no ano calendário de 2007, conforme Anexo I Razão 2007 da Conta 133701.920.027 AMORT.AGIO LAUDO/2003. • No tocante ao ano calendário de 2008 (DIPJ 2009), não houve lançamentos contábeis de despesas, haja vista que todo o ágio contabilizado pelo fiscalizado, no valor de R$ 387.081.328,00 já havia sido deduzido contabilmente. Entretanto, foi lançada exclusão na apuração do Lucro Real no valor de R$ 77.416.265,60 (folhas 13 e 15 do LALUR 2008), Fl. 3136DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 6 9 que é exatamente o limite de 20% (ou 12/60) do valor do ágio considerado pelo fiscalizado. VERIFICAR • O fiscalizado considerou indevidamente, na parte B do LALUR 2007, crédito de R$ 85.887.189,97, sendo o correto o valor de R$ 83.706.868,58. (ti 14), de forma que o fiscalizado fica intimado a efetuar esta correção, bem como a controlar na parte B do LALUR, de forma apartada e específica, o ágio alvo da presente fiscalização; • No tocante ao ano calendário de 2007, cabe adicionar, de ofício, o valor de R$ 77.416.265,60 ao lucro líquido para fins de apuração do Lucro Real que, ao final, corresponde justamente à quinta parte (20%) do valor total do ágio (R$ 387.081.328,00) contabilizado pela incorporação da ABCD 0011; • Quanto ao ano calendário de 2008, considerado o direito à dedução fiscal das despesas de amortização de ágio nos meses de novembro e dezembro de 2008, por conta da incorporação da TBI (controladora) pelo fiscalizado (controlada), em 14 de novembro de 2008, o fiscalizado poderia deduzir, para fins fiscais, o montante de R$ 10.389.370,57 (R$ 311.681.117,00 multiplicado por dois sessenta avos (2/60)); • Portanto, cabe glosar, de ofício, relativamente ao ano calendário de 2008, o excesso de exclusão no valor de RS 67.026.895,03 (R$ 77.416.265,60 R$ 10.389.370,57) Qualificação da multa · O procedimento adotado pelo fiscalizado está compreendido na hipótese prevista no art. 72 da Lei n° 4.502/64, o qual define fraude, mostrandose aplicável a duplicação do percentual de multa disposta no § 1º do art. 44, inciso II, da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pela Lei n° 11.488/2007; · Ao descrever as etapas do planejamento tributário abusivo no documento "histórico ágio ABCD.doc”, que na realidade reproduz o que já constou claramente dos documentos que ampararam as operações societárias (atas, alterações do contrato social, Protocolo de Incorporação), a fiscalizada evidenciou sua total consciência da falta de propósito negocial das operações societárias em pauta e do intuito único de evitar o pagamento dos tributos devidos; • Os eventos societários que culminaram na amortização fiscal do ágio correspondem a uma seqüência de atos meramente formais, sem conteúdo econômico ou propósito negocial, com intuito único de evitar o pagamento dos tributos devidos, o que configura abuso de forma, simulação e fraude; Dos efeitos futuros da incorporação reversa ocorrida em 2008 Fl. 3137DF CARF MF 10 • A partir da incorporação da TIB pelo fiscalizado (14.11.2008), demonstrado o propósito negocial dessa incorporação, o fiscalizado passou a ter o direito de amortizar o ágio decorrente da aquisição da Nutec Informática SA (R$ 311.681 mil, e não RS 387.081 mil. Da possibilidade de postergação de pagamento • Não se trata de inobservância do regime de competência ou de inexatidão quanto ao período base de escrituração das despesas, mas de atos simulados com o objetivo de "fabricar" despesas sem qualquer lastro com a realidade; • Além disso, não houve, nem em tese, a postergação de pagamento; • As despesas de amortização de ágio diferem completamente das despesas em geral, cujo registro contábil e fiscal ocorrem obrigatoriamente em um determinado ano calendário, por imposição do regime de competência. Dentro do limite legal de 10 anos e na fração máxima de 1/60 ao mês, é o contribuinte quem determina o quantum que deseja abater na apuração do lucro real; • Nos anos calendários de 2009, 2010 e 2011, mesmo remanescendo saldo de ágio a ser amortizado, o fiscalizado optou por não utilizar o saldo de ágio ainda não computado para fins de exclusão do Lucro Real, o que afasta a hipótese de postergação de pagamento; • Essa opção do contribuinte foi evidenciada também na resposta ao item 10 da Intimação N° 5 (em anexo), referente à fiscalização em curso (MPF 08.1.85.002010002676),quando, instado a "Justificar a opção do contribuinte por não lançar a amortização de ágio na apuração do Lucro real do ano de 2009 no valor do saldo de R$ 50.917.693,17 (Parte B do LALUR 2009 folha 14), tendo optado pela dedução de apenas R$ 24.054.325,00", respondeu (resposta em anexo) que o montante anual a ser amortizado é determinado a partir da projeção de resultados, e que por isso o valor do ágio efetivamente amortizado foi inferior ao saldo disponível, embora pudesse ter amortizado integralmente o saldo passível de amortização, pois era inferior ao limite máximo (1/60 ao mês); • No ano calendário de 2009, o fiscalizado optou por excluir do lucro real apenas R$ 24.054.325,00, valor inferior ao limite legal de 20% ao ano e inferior ao total de R$ 50.917.693,17, passível de utilização em razão do excesso de ágio em anos anteriores; • No ano de 2010, o fiscalizado apurou Lucro Real de R$ 39.000.548,48 (após compensação de prejuízos anteriores), e optou por não utilizar o valor de R$ 26.863.368,17 que o fiscalizado ainda teria, sob sua ótica, para excluir do Lucro Real Fl. 3138DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 7 11 em razão do excesso de ágio em anos anteriores, controlado na Parte B do LALUR 2010 (fl. 14); • No ano de 2011, o fiscalizado apurou Lucro Real de R$ 32.428.706,76 (após compensação de prejuízos anteriores), e optou novamente por não utilizar o valor de R$ 26.863.368,17 que o fiscalizado ainda teria, sob seu ponto de vista, para excluir do Lucro Real em razão do excesso de ágio em anos anteriores, controlado na Parte B do LALUR 2011 (fl 14). • A fiscalização não poderia, de ofício, impor a exclusão de valor superior ao delimitado pelo próprio contribuinte, que tem a discricionariedade de computar as despesas com amortização de ágio no limite de 10 anos e na fração máxima de 1/60 ao mês; Irresignada com a autuação, da qual tomou ciência em 29/12/2010, a interessada apresentou, em 28/01/2011, a IMPUGNAÇÃO de fls. 427/493, na qual apresenta as alegações e pretensões abaixo sintetizadas: O AUTO DE INFRAÇÃO. • 0 Auto de Infração objeto dos presentes autos está intimamente relacionado à autuação vinculada ao processo administrativo n° 16643.000425/201073, lavrada pelo mesmo agente fiscal e que se refere à glosa das despesas com ágio pago na aquisição da Impugnante deduzidas das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL nos anos de 2005 e 2006; • A autoridade fiscal expressamente reconheceu a existência e a validade do ágio amortizado pela Impugnante, tendo admitido que o montante registrado a título de ágio foi efetivamente pago na aquisição do investimento e que esse valor sempre esteve justificado na expectativa de rentabilidade futura da Impugnante; • Apesar de também reconhecer a validade jurídica dos atos societários realizados, a autoridade lançadora discordou da operação de incorporação que permitiu a amortização do ágio para fins fiscais, sem, porém, demonstrar qualquer prejuízo ao Fisco ou qualquer vantagem escusa experimentada pela Impugnante no procedimento adotado; OS FATOS. • A fim de viabilizar um projeto de expansão dos negócios envolvendo o portal Terra, mediante a aquisição de 60 outros provedores de acesso brasileiros e a realização de investimentos em marketing, conteúdos e tecnologias, a impugnante ingressou no grupo Telefónica, em junho de 1999, quando a Telefônica Interactiva do Brasil Ltda. ("TIB") subscreveu novas ações emitidas pela Nutec Informática S.A.("Nutec"), sua antiga denominação. Essa subscrição foi realizada com ágio, o qual foi Fl. 3139DF CARF MF 12 pago integralmente em razão das perspectivas de rentabilidade futura do investimento; • Em 2000, ano seguinte ao ingresso da Impugnante no grupo Telefónica, a TIB contribuiu dois valores ao capital de uma outra sociedade, a ABCD 0011 Participações Ltda. ("ABCD"): (i) o investimento que detinha na Impugnante pelo valor contábil registrado pela TIB, equivalente a R$ 311.681.116,81 e (ii) créditos decorrentes de mútuos havidos pela TIB contra a Impugnante, que totalizavam R$75.400.110,76 e que, em seguida, foram utilizados para subscrição de novas ações emitidas pela Impugnante para aumento de seu capital social com ágio no mesmo valor; • Posteriormente, a Impugnante incorporou a ABCD, passando a registrar em conta de ativo diferido o valor que outrora era registrado pela ABCD como ágio (R$387.081.227,57), conforme determinavam a legislação e as regras contábeis então vigentes; • A incorporação da ABCD teve por principal objetivo viabilizar a implantação de seu projeto de expansão, por meio do saneamento da situação patrimonial da Impugnante, que se encontrava negativa porque os relevantes investimentos realizados ainda não haviam começado a retornar; • Além disso, a incorporação da ABCD não foi uma operação isolada, mas integrou uma longa reorganização societária realizada pelo grupo e pela divisão de negócios do qual a Impugnante era parte; • As evidências do alegado ilícito fiscal não possuem qualquer correlação com os efeitos fiscais supostamente pretendidos pela Impugnante, vez que, apesar de alguns eventos societários terem sido implementados de maneira célere em dezembro de 2000, a amortização do ágio objeto de questionamento pelo Auto de Infração não se iniciou logo em seguida à incorporação da ABCD, mas somente 3 anos depois, em 2003. Da fiscalização realizada em 2001 sobre a reorganização societária • O lançamento mostrase inconsistente com as conclusões atingidas pela fiscalização realizada em 2001, a qual homologou as amortizações realizadas pela Impugnante nos anos 2003 e 2004 e foi encerrada sem que qualquer questionamento quanto à validade, fundamentação ou mensuração do ágio fosse oposto pelo Fisco; O DIREITO Preliminarmente Nulidade por inobservância da postergação no pagamento dos tributos • A autoridade fiscal incorreu em erro no critério jurídico adotado, por deixar de aplicar os ajustes decorrentes da Fl. 3140DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 8 13 postergação no pagamento do imposto, conforme Parecer Normativo COSIT nº 2/96, embora tenha reconhecido que as despesas de amortização de ágio poderiam ser validamente deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL em períodos posteriores à incorporação da TIB, realizada em 2008; • O recolhimento dos tributos nos exercidos que se seguiram é comprovado pelas anexas Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica ("DIPJ"), devidamente acompanhadas dos comprovantes de pagamento dos tributos (doc. 14); • Em atendimento à regra do artigo 273 do RIR e ao PN 2/96, a autoridade lançadora deveria (i) adicionar as despesas com amortização do ágio ao lucro líquido dos anos de 2007 e 2008, (ii) excluir esse montante do lucro líquido dos exercícios posteriores à incorporação da TIB (2009 e seguintes) e, finalmente, (iii) apurar as eventuais diferenças entre os valores pagos e os devidos a título de IRPJ e CSLL. Vale dizer, jamais poderia o agente fiscal ter simplesmente glosado as despesas apropriadas nos anos de 2007 e 2008, já que o artigo 273 do RIR determina que o lançamento seja feito exclusivamente para exigir eventual diferença na apuração do IRPJ e da CSLL. • Aliás, nos termos do parágrafo único do artigo 100 do CTN, nem mesmo os acréscimos moratórios poderiam ser exigidos da Impugnante, vez que todos os atos relevantes foram examinados e validados quando da fiscalização realizada em 2001 e que culminou na homologação das amortizações realizadas nos anos de 2003 e 2004. • os ágios amortizados pela Impugnante nos anos de 2009 a 2011 referiamse a outras aquisições que não relacionadas à operação que deu origem ao ágio objeto do Auto de Infração aqui discutido. 0 saldo de ágio no valor de R$ 26.863.368,17 a que a autoridade fiscal se refere está relacionado quase que integralmente a essas outras aquisições realizadas pela Impugnante, na medida em que o saldo do ágio pago pela ABCD quando da aquisição do investimento na Impugnante foi integralmente amortizado para fins fiscais no início de 2009; • A planilha anexa, apresentada durante a fiscalização, lista essas outras aquisições e indica que o valor total do ágio pago nessas outras operações era de R$ 27.910.685,55 (doc. 16) • “69. Nesse contexto, deve ser considerado que a amortização fiscal do ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura é determinada de maneira consistente com o laudo que demonstra a justificativa econômica do ágio e de acordo com os índices de lucratividade projetados para o período.” – REPRODUZIR. Nulidade por alteração do critério jurídico Fl. 3141DF CARF MF 14 • O lançamento impugnado apresenta flagrante alteração do critério jurídico até então adotado pela Administração. • É evidente a boa fé da Impugnante e descabida a caracterização de fraude ou simulação, vez que a Impugnante amortizou o ágio ora combatido pautada pelos parâmetros jurisprudenciais vigentes na época no Conselho de Contribuintes existentes, pelo entendimento majoritário da doutrina existente mas, sobretudo, em razão de o Fisco ter fiscalizado, previamente ao início das amortizações, todos os aspectos da reorganização levada a efeito e ter validado a origem, registro e fundamentação do ágio aqui analisado. • As operações com a finalidade de promover a amortização do ágio pago na aquisição de investimento eram comuns e usuais e seu questionamento jamais havia sido cogitado pelo Fisco, sob pena de se verem frustrados os programas de privatização realizados naquela época, tais como os do sistema Telebrás e Eletrobrás, de bancos públicos e empresas do ramo de infraestrutura. • O Fisco não está proibido de alterar o critério jurídico adotado anteriormente para realização do lançamento. O que lhe é vedado é fazêlo com efeitos que retroajam ao momento em que manifestada a alteração no critério adotado, conforme dispõe o artigo 146 do CTN e corrobora o artigo 2º, parágrafo único, XIII, da Lei nº 9.784/98. Nulidade por violação ao artigo 906 do RIR – reexame de período já fiscalizado. • Na parte relativa à amortização de ágio, é nulo o Auto de Infração, face à inexistência de expressa autorização para reexame dos fatos envolvidos, expedida pelo Delegado da Receita Federal, nos termos do artigo 906 do RIR/99, a qual não pode ser suprida pelo MPF; • Nem se alegue que o Auto de Infração está relacionado aos anos de 2007 e 2008 e que a fiscalização realizada no passado teria ficado adstrita ao ano calendário 2000. Apesar de a exigência fiscal consubstanciada se referir a amortizações realizadas pela Impugnante nos anos de 2007 e 2008, a operação que originou as deduções realizadas nesse período ocorreu em 2000 e esta operação que deu origem e teve efeitos nos exercícios de 2003 a 2008 já foi fiscalizada e validada pelo Fisco. São esses os fatos que ora se reexaminam e se lhes requalificam juridicamente, para deles se extraírem outros efeitos. Decadência do lançamento • Ao Fisco é defeso desconsiderar a amortização do ágio executada pela Impugnante, porque, embora seus efeitos sejam percebidos somente nos anos de 2007 e 2008, o ágio decorre de fatos (aquisição do investimento e incorporação) ocorridos num passado já acobertado pela decadência, nos termos do § 4º, do artigo 150 do CTN. Fl. 3142DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 9 15 Decadência do lançamento – argumento subsidiário amortização mensal do ágio • Como a impugnante adotou, em 2007 e 2008, a sistemática de apuração por suspensão e redução do recolhimento do IRPJ e da CSLL, segundo a qual a glosa das despesas de amortização de ágio registradas pela impugnante mensalmente apenas poderia ter sido levada a efeito em até cinco anos contados de cada apuração mensal, todas as amortizações efetuadas até 31/11/2007 foram objeto de homologação tácita pela Fiscalização, restando inadmissível sua glosa em dezembro de 2012. Mérito. Legitimidade para amortização do ágio. • No momento em que recebeu o investimento na Impugnante em integralização de capital, nos termos do artigo 385 do RIR/99, a ABCD desdobrou o custo de aquisição na Impugnante (representado pelo valor aportado, cuja contraprestação foi a emissão e entrega à ABCD de novas ações representativas do capital da Impugnante) em patrimônio líquido e ágio, o qual foi fundamentado economicamente na rentabilidade futura da Impugnante, conforme refletido no laudo acostado aos autos; • A proximidade temporal entre os atos societários e a ausência de propósito negocial, elementos suspeitos suscitados pela autoridade fiscal, não são suficientes para a conclusão pela inoponibilidade ao Fisco dos atos praticados no presente caso; • Apesar de os eventos da reorganização terem sido levados a efeito durante o mês de dezembro de 2000, o ágio objeto de questionamento pelo Auto de infração somente foi amortizado 3 anos depois do evento de incorporação. E não se tratou de simples opção da Impugnante, mas decorreu de fato antecipado pelo próprio laudo de avaliação econômica que fundamentou o ágio elaborado à época da aquisição do investimento, o qual projetava a geração de lucros somente a partir do ano de 2004; • De fato, as operações envolvendo a ABCD tiveram por objetivo imediato sanear a situação patrimonial da Impugnante visando a viabilizar a desejada expansão de suas atividades, mediante o registro integral da contrapartida ao ágio pago na aquisição de investimentos em reserva especial de ágio, conforme determinava o artigo 6º, §1° da Instrução Normativa CVM n° 319/1999. • Ao contrário do quanto sustentado pela autoridade fiscal, as operações analisadas tiveram efetivo reflexo positivo na situação patrimonial da intimada, pois a reserva de ágio, conforme depreendese da leitura do artigo 182, § 1º, “a”, da Lei 6.404/76, Fl. 3143DF CARF MF 16 é classificada como reserva de capital e, portanto, é parte integrante do patrimônio líquido. • Contrariamente ao afirmado pela Fiscalização, que alega que as demonstrações contábeis da Impugnante não teriam destinatários em razão de a Impugnante ser uma sociedade de capital fechado, o que se verifica na teoria e na prática é que as demonstrações contábeis desempenham importantes funções nas relações internas e externas da sociedade, seja ela de capital aberto ou fechado Inexistência de simulação, abuso de forma e fraude • A multa aplicada deve, no mínimo, ser reduzida para 75%, visto que não houve qualquer conduta dolosa com vistas a modificar ou ocultar a ocorrência do fato gerador. A controvérsia aqui posta reside em mera divergência quanto à interpretação das normas aplicáveis, lembrandose que o procedimento adotado pela Impugnante era aceito pelas autoridades fiscais e corroborado pela jurisprudência do CARF à época dos fatos; • Inexiste a figura do abuso de forma no caso presente, já que a Impugnante quis e se sujeitou a todos os efeitos dos negócios jurídicos realizados; • Também não há qualquer indício de simulação nos termos do artigo 102 do Código Civil de 1916, vigente à época dos fatos e, se houvesse, seria uma simulação inocente, tal como disposta no artigo 103 do mesmo diploma, vez que os efeitos tributários da incorporação da TIB pela Impugnante (ou viceversa) seriam exatamente os mesmos verificados na incorporação da ABCD pela Impugnante, ou seja, não se verifica qualquer prejuízo ao Fisco; • Nem tampouco ocorreu fraude à lei, por meio da qual o infrator valese de uma autorização legal sem violar diretamente outra norma, para atingir um resultado que o conjunto das normas proíbe. A jurisprudência do E. CARF sobre o tema • Foram atendidos os três requisitos básicos eleitos pelo CARF para que seja reconhecido o direito à amortização do ágio: (i) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; (ii) a realização das operações originais entre partes não ligadas; (iii) a demonstração da fundamentação econômica do ágio pago com base na expectativa de rentabilidade futura. Do saldo dos contratos de mútuo. • Quando da entrega das ações da Intimada em aumento de capital da ABCD, a TIB também contribuiu ao capital da ABCD créditos decorrentes de mútuos havidos pela TIB contra a Impugnante, no montante de R$ 75.400.110,76, que foram Fl. 3144DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 10 17 utilizados pela ABCD para subscrição de novas ações emitidas pela Impugnante para aumento de seu capital social; • A aquisição dessa nova parcela do investimento também levou ao desdobramento do custo de aquisição das novas ações nos termos do artigo 385 do RIR, o que implicou o registro do valor de R$75.400.110,7 6 a título de ágio, haja vista a posição negativa do patrimônio liquido da Impugnante. Amortização do ágio e seus reflexos em relação à CSLL. • Não havendo qualquer disposição legal que impeça a dedutibilidade do ágio da base de cálculo da CSLL, tampouco qualquer norma que estenda a esta contribuição as disposições relativas ao IRPJ, resta concluir que não existe qualquer óbice ou limitação quanto à amortização do ágio para a dedutibilidade dos valores pagos a título de ágio quanto à contribuição em tela; • Além disso, a Instrução Normativa n° 390/04, que compila as normas relativas à contribuição, traz em seu artigo 75 disposição que, a exemplo do inciso III do artigo 386 do RIR, autoriza a amortização do ágio pago na hipótese de incorporação da sociedade investidora pela investida. Excesso na constituição do crédito tributário – juros e multa • Ao menos parte do Auto de Infração deveria ser cancelada por esta. C.Turma de Julgamento em razão do excesso na constituição do crédito tributário, seja porque desrespeitado o parágrafo único do artigo 100 do seja porque aplicada a multa majorada de 150% indevidamente • Eventual exigência fiscal não poderia ser acompanhada da aplicação de multa punitiva e juros moratórios, haja vista que todos os atos relevantes foram validados quando da fiscalização realizada em 2001 e as amortizações realizadas nos anos de 2003 e 2004 foram homologadas; A ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa • não há previsão legal para a cobrança de juros de mora sobre a multa lançada de oficio nos casos que não foram abrangidos pelo artigo 43 da Lei n° 9.430/96. • A impugnante protesta ainda pela produção de todas as provas em Direito admitidas e pela oportuna sustentação oral de suas razões de defesa. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (5ª Turma/ DRJ/São Paulo I/SP, mediante o Acórdão nº 1650.552, de 19 de setembro de 2013, julgou improcedente a impugnação. O Acórdão recorrido está assim ementado: Fl. 3145DF CARF MF 18 INCORPORAÇÃO AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE "EMPRESA VEÍCULO" Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica sem substância econômica ou finalidade negocial, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, transferido pela original controladora e adquirente do investimento, mormente se verificado que não houve alteração na relação societária inicial. POSTERGAÇÃO DE IMPOSTO. AMORTIZAÇÃO FISCAL. A glosa de despesas decorrentes de amortização de ágio pago com fundamento na rentabilidade futura da investida não configura inexatidão quanto a período de apuração de competência de receitas, rendimentos ou deduções. A amortização ocorre na medida em que os resultados projetados da investida se confirmam, sendo inaplicáveis as regras de postergação de pagamento de imposto. DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. O reconhecimento contábil do ágio não representa manifestação de fato tributário imponível. A obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surgem apenas com a ocorrência do fato gerador, no caso em tela, a cada dedução das despesas de ágio. A suspensão ou redução do pagamento de tributos por meio de balancetes mensais é opção dos contribuintes no regime de apuração do lucro real anual, cujo fato gerador ocorre em 31 de dezembro de cada ano. REEXAME DE PERÍODO FISCALIZADO. Não caracteriza reexame de período fiscalizado a autuação relativa a períodos diversos e fundada em constatações que não respaldaram o encerramento do procedimento fiscal anterior. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. A operação consistente em constituir pessoa jurídica desprovida de atividade operacional, por breve período de tempo, sem propósito negocial justificado a não ser o de servir de veículo para o recebimento de ágio e sua posterior transferência àquela que lhe deu causa, caracteriza fraude, qualificando a conduta infracional e motivando o agravamento da multa de ofício. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário:2007, 2008 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A solução dada ao litígio principal, em relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, aplicase ao litígio decorrente ou reflexo relativo à Contribuição Social sobre o Lucro. Fl. 3146DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 11 19 A contribuinte tomou ciência da referida decisão de 1ª instância, em 21/11/2013, conforme o Termo de Ciência (efl.2.895), e protocolizou Recurso Voluntário em 05/12/2013 (efls.2.896/2.952). Consta dos autos, contrarrazões da PFN (efls.3.043/3.097) No recurso voluntário a autuada, alega, no essencial, os mesmos argumentos trazidos na impugnação. Conclui a Recorrente que: (i) Apesar de reconhecer que as despesas glosadas poderiam ser validamente deduzidas a partir do ano de 2008, quando a Recorrente incorporou a TIB, o agente fiscal desconsiderou os efeitos da postergação no pagamento dos tributos,violando o artigo 273 do RIR e o procedimento do PN 2/96 e ensejando a nulidade do Auto de Infração; (ii) A lavratura do Auto de Infração representa afronta direta ao artigo 906 do RIR, já que pretende promover reexame dos fatos já analisados pelo procedimento de fiscalização realizado em 2001 sem respaldo em autorização expressa do Delegado da Receita Federal, o que também leva à nulidade da autuação; (iii)O Auto de Infração tem por objeto período já atingido pela decadência, já que no ano de 2010 não caberia mais às autoridades fiscais requalificar as operações societárias realizadas em 2000 e cuja amortização iniciouse em 2003,ainda que o Auto de Infração abranja os anos de 2007 e2008; (iv)A amortização do ágio realizada pela Recorrente é válida,já que preenchidos os requisitos dos artigos 385 e 386 do RIR, teve origem em atos que obedeceram a forma válida, que tiveram objeto lícito e que foram respaldados em legítimos propósitos negociais e operativos, motivo pelo qual são plenamente oponíveis ao Fisco; (v)O registro do ágio pela aquisição do novo investimento é legítimo, uma vez que se trata de aquisição de novas açõesda Recorrente cujo pagamento se deu com o saldo dos contratos de mútuo que a ABCD tinha contra a Recorrente; (vi) As operações societárias envolvendo a ABCD tiveram como objetivo o saneamento da situação patrimonial da Recorrente com vistas a viabilizar a implantação do projeto de expansão de suas atividades, já que permitiu que as demonstrações financeiras da Recorrente refletissem os vultosos investimentos realizados pelo Grupo Telefônica; (vii) Os atos jurídicos praticados pela Recorrente não se caracterizam como simulação sob os seguintes fundamentos:(a) a Recorrente quis e se sujeitou a todos os efeitos dos negócios jurídicos realizados, tendo todos os atos sido praticados às claras, (b) a constituição e incorporação da ABCD respeitou a Fl. 3147DF CARF MF 20 causa jurídica típica do negócio implementado e (c) não houve prejuízo à Administração em decorrência dos atos praticados; (viii) Também não houve caracterização de fraude à lei, uma vez que a incorporação da ABCD levou ao atendimento da norma veiculada pelos artigos 385 e 386 do RIR ao permitir a confluência entre ágio e capacidade de geração de lucros; (ix)Inexiste dispositivo legal que impeça a dedutibilidade do ágio da base de cálculo da CSLL, tampouco qualquer norma que estenda a essa contribuição às disposições relativas ao IRPJ, motivo pelo qual não há qualquer óbice ou limitação quanto à amortização do ágio para a CSLL; (x)O Auto de Infração exigiu indevidamente multa punitiva e acréscimos moratórios, haja vista que todos os atos relevantes para esta parte da autuação foram realizados sob a chancela do próprio Fisco, seja porque validados quando da fiscalização realizada em 2001, seja pela homologação das amortizações realizadas nos anos de 2003 e 2004, violando frontalmente o artigo 100, § único do CTN e (xi)O Auto de Infração aplicou a multa majorada de 150%indevidamente, já que em momento algum se demonstrou a prática de atos fraudulentos pela Recorrente; pelo contrário, todos os atos foram praticados às claras e foram inclusive chancelados no passado pelo Fisco. Aduz no final que, é ilegal a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. Finalmente requer o provimento do recurso voluntário. A Recorrente requer que todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados do DRA. RAQUEL NOVAIS, com escritório à Av. Brigadeiro Faria Lima, n° 3.144, 11°andar, 01451000, São Paulo, SP, enviando de tudo cópia à Recorrente no endereço constante dos autos. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Ester Marques Lins de Sousa Relatora O recurso voluntário apresentado pela contribuinte/autuada é tempestivo, preenche os requisitos de admissibilidade. Dele conheço. O recurso voluntário versa sobre a glosa de despesas de amortização de ágio na aquisição de investimento, nos períodosbase de 2007 e de 2008. Como destacado no Relatório, por meio do processo administrativo fiscal de nº 16643.000425/201073, foram lavrados Autos de Infração de IRPJ e CSLL contra a fiscalizada, relativos aos mesmos ágios tratados nos presentes autos, cujos encargos de amortização foram deduzidos das bases dessas exações nos anoscalendário precedentes (2005 e 2006). Fl. 3148DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 12 21 Assim, no presente feito são tratadas, exclusivamente, as amortizações desses ágios deduzidos nos anoscalendário de 2007 e 2008, tendo em vista que as amortizações iniciais já foram objeto de outra fiscalização, que culminou na lavratura de Autos de Infrações, os quais encontramse materializados no processo supra citado. Quanto à amortização do ágio, a Recorrente alega, em síntese, nulidade do auto de infração em razão do reexame de período já fiscalizado; nulidade do auto de infração em razão da alteração no critério jurídico; decadência do direito de lançar o crédito tributário; nulidade do auto de infração em decorrência da não observância da postergação no pagamento dos tributos; legitimidade para amortização do ágio no caso presente; legitimidade no registro do ágio referente ao saldo dos contratos de mútuo; inexistência de disposição legal que imponha qualquer vedação de amortização do ágio para fins de apuração da CSLL; indevida aplicação da multa de 150%, e ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa Tendo em vista que as situações fáticas examinadas nestes autos são exatamente as mesmas afetas ao processo nº 16643.000425/201073, julgado nessa mesma sessão, adoto os mesmos fundamentos do voto proferido por esta relatora, que a seguir transcrevo: nulidade do auto de infração em razão do reexame de período já fiscalizado, e, em razão da alteração no critério jurídico. A Recorrente alega que o Fisco já tinha fiscalizado toda a operação em ação fiscal que examinou todos os detalhes relativos à origem do ágio registrado na Recorrente a partir da reorganização societária combatida nos presentes autos. Diz que, apesar de naquele momento o ágio ainda não havia impactado as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL da Recorrente, mas a concordância do Fisco com o procedimento adotado fica evidente ao se constatar que, em coerência com as conclusões fiscais da ação fiscal de 2001, as amortizações realizadas pela Recorrente nos anos 2003 e 2004 foram integralmente homologadas. Como bem esclarecido na decisão recorrida, o lançamento de ofício tratado nos presentes autos não configura revisão de lançamento em relação ao procedimento fiscal a que a Recorrente foi submetida em 2001, tampouco mudança de critério jurídico, porque sequer se referem aos mesmos exercícios, hipótese contemplada pelo invocado artigo 906 do RIR/99. Explica a DRJ: No tocante à amortização do ágio pago na sua própria aquisição, a impugnante sustenta que o lançamento seria nulo por incorrer em alteração no critério jurídico adotado e reexame de exercício já fiscalizado sem autorização da autoridade competente. Segundo a impugnante, a amortização de ágio ora combatida foi pautada pelos parâmetros jurisprudenciais vigentes à época no Conselho de Contribuintes, pelo entendimento majoritário da doutrina existente e, sobretudo, em razão de o Fisco ter fiscalizado, previamente ao início das amortizações, todos os Fl. 3149DF CARF MF 22 aspectos da reorganização levada a efeito e ter validado a origem, registro e fundamentação do ágio aqui analisado. A mudança de critério jurídico, nos termos do artigo 146 do CTN abaixo reproduzido, ocorre em duas situações distintas: uma primeira consiste na substituição, pelo órgão de aplicação do direito, de uma interpretação por outra, sem que se possa dizer que qualquer delas seja incorreta; uma segunda consiste na substituição de um critério por outro que, alternativamente, a lei faculta ao órgão do Fisco, como sucede no caso de arbitramento da margem de lucro das pessoas jurídicas: "Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. No tocante ao suposto respaldo jurisprudencial e doutrinário invocado, cabe esclarecer que tais elementos não refletem, nem mesmo em caráter geral, o critério jurídico adotado pela Administração. Pelo contrário, a alegada existência de decisões do Conselho de Contribuintes que pudessem respaldar a conduta do contribuinte indica que o Fisco (Administração) vinha atuando em direção oposta àquela corte. Por sua vez, entendimentos doutrinários não vinculam a Administração e nem tampouco se confundem com o critério jurídico adotado por aquela. Sobre a alegação de reexame de período já fiscalizado, cumpre esclarecer, preambularmente, que o presente lançamento não configura revisão de lançamento em relação ao procedimento fiscal a que a impugnante foi submetida em 2001, porque nem sequer se referem aos mesmos exercícios, hipótese contemplada pelo invocado artigo 906 do RIR/99. O encerramento da fiscalização levada a efeito no ano de 2001, a despeito da análise efetuada sobre os atos societários relevantes à autuação ora combatida, não poderia concretizar mudança de critério jurídico, nos termos do artigo 146 do CTN: Isso porque, naquele ano de 2001, não havia ocorrido qualquer fato gerador de tributos devidos em virtude de amortização de ágio cujos efeitos fiscais já pudessem ser contestados pela autoridade fiscal. As conclusões consignadas pela autoridade fiscal nem mesmo justificariam uma expectativa de direito em relação ao aproveitamento fiscal do ágio contabilizado, visto que a contabilização de um ágio evidencia um sacrifício que, via de regra, será recuperado nos termos do artigo 391 do RIR, reduzindose o ônus tributário na apuração de ganho de capital; e excepcionalmente, nos termos do artigo 386, mediante amortização com efeitos fiscais, como se verá adiante. Com efeito, à época em que o impugnante esteve submetida à noticiada fiscalização, não havia amortização fiscal de ágio já realizada pela contribuinte que pudesse ser convalidada pela Fl. 3150DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 13 23 autoridade fiscal, a qual não aplicou, e nem poderia, qualquer interpretação a respeito do artigo 386 do RIR/99 no ano em que empreendida aquela fiscalização, 2001. Bem assim, as conclusões da fiscalização anterior não têm o condão de afastar a imposição de penalidades e a cobrança de juros de mora nos termos do artigo 100 do CTN, uma vez que não convalidaram as amortizações fiscais rejeitadas pela autoridade fiscal. De acordo com o artigo 142 do Código Tributário Nacional, o lançamento se constitui no procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Portanto, sem a materialização no campo da existência de qualquer hipótese de incidência tributária prevista em lei, não há que se falar em constituição de crédito fiscal, o que, por sua vez, afasta a possibilidade de qualquer homologação. Em resumo, não havendo fato gerador, não há o que ser homologado. Com efeito, uma vez demonstrado que, em razão do procedimento de fiscalização realizado no ano de 2001, a Receita Federal não tinha o que lançar e homologar com relação ao ágio registrado pela interessada (autuada) no ano de 2000, concluise que não houve qualquer alteração no critério jurídico ou reexame de período já fiscalizado pelo presente lançamento. Nessa ordem de idéia, inexiste qualquer afronta ao artigo 906 do RIR/99, e, não caracteriza reexame de período fiscalizado a autuação relativa a períodos diversos e fundada em constatações que não respaldaram o encerramento do procedimento fiscal anterior. Tampouco há que se falar em mudança de critério jurídico tendo como base a apuração de outros fatos geradores. Nulidades rejeitadas. decadência do direito de lançar o crédito tributário. A Recorrente alega que, o Auto de Infração tem por objeto período já atingido pela decadência, já que no ano de 2010 não caberia mais às autoridades fiscais requalificar as operações societárias realizadas em 2000 e cuja amortização iniciouse em 2003,ainda que o Auto de Infração abranja os anos de 2005 e2006. É dizer, alega a recorrente que o direito de a Fazenda fiscalizar a operação que deu origem ao ágio aqui discutido (ocorrida no ano de 2000) já estava decaído quando da sua ciência do auto de infração, ocorrida em 29/12/2010. Conforme assentado no item anterior, a obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surge apenas com a ocorrência do fato gerador que, no caso em tela, é a dedução das despesas de ágio, nos anos calendário de 2007 e 2008. Indubitavelmente, o prazo decadencial para a constituição dos efeitos da amortização de um ágio somente pode ser contado a partir de cada fato gerador ocorrido e na proporção que a dedução do ágio influencia na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Fl. 3151DF CARF MF 24 Somente quando o contribuinte deduz o ágio na apuração lucro real, o Fisco tem algo a homologar (no presente caso, o lucro real apurado pelo sujeito passivo nos anos de 2007 e 2008). No caso dos presentes autos, embora o ágio tenha surgido de operações societárias realizadas no ano 2000, os seus efeitos tributários se prolongaram de 2003 a 2009. Aqui se discute esses efeitos ocorridos nos anoscalendário de 2007 e 2008. Assim, se o sujeito passivo utilizou seu ágio criado em 2000 para reduzir a sua tributação nos anos de 2007 e 2008, inexiste vício no lançamento ocorrido no ano de 2012. Sobre o assunto, registros contábeis referentes a ágio decorrente da aquisição de participação societária, com repercussão tributária futura, registrase o Acórdão nº. 1101 000.961, de 08 de outubro de 2013, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) o qual conclui que a verificação de registros contábeis pela Autoridade Fiscal não se submete ao prazo decadencial tributário: AUDITORIA FISCAL. PERÍODO DE APURAÇÃO ATINGIDO PELA DECADÊNCIA PARA CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO. VERIFICAÇÃO DE FATOS, OPERAÇÕES, REGISTROS E ELEMENTOS PATRIMONIAIS COM REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA FUTURA. POSSIBILIDADE. LIMITAÇÕES. O fisco pode verificar fatos, operações e documentos, passíveis de registros contábeis e fiscais, devidamente escriturados ou não, em períodos de apuração atingidos pela decadência, em face de comprovada repercussão no futuro, qual seja: na apuração de lucro liquido ou real de períodos não atingidos pela decadência. Essa possibilidade delimitase pelos seus próprios fins, pois, os ajustes decorrentes desse procedimento não podem implicar em alterações nos resultados tributáveis daqueles períodos decaídos, mas sim nos posteriores. Em relação a situações jurídicas, definitivamente constituídas, o Código Tributário Nacional estabelece que a contagem do prazo decadencial para constituição das obrigações tributárias, porventura delas inerentes, somente se inicia após 5 anos, contados do período seguinte ao que o lançamento do correspondente crédito tributário poderia ter sido efetuado (art. 173 do CTN). Portanto, não merece qualquer reparo à decisão da DRJ, cujos fundamentos também adoto como razão de decidir, verbis: Ocorre que a obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário através do lançamento, surge apenas com a ocorrência do fato gerador que, no caso em tela, é a dedução das despesas de ágio, nos anos calendário de 2007 e 2008. O momento do surgimento ou da contabilização do ágio amortizado pela contribuinte não pode ser levado em conta para imposição de qualquer limite temporal à atuação do Fisco, visto que eventual direito ao aproveitamento fiscal do ágio iniciase com o evento de incorporação e o efetivo exercício desse direito (esse sim, aspecto de relevância para eventual lançamento) pode ser iniciado mesmo após cinco anos do surgimento do ágio. Fl. 3152DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 14 25 De fato, os efeitos decadenciais devem ser considerados em face da autonomia de cada períodobase de incidência do IRPJ. Cada evento ou cada período de apuração em que ocorre a amortização parcial do ágio pago na aquisição de investimento constitui fato jurídico autônomo, a partir do qual se inicia nova contagem decadencial, exclusivamente relativa ao tributo incidente naquela amortização. Há que se observar que a dedução fiscal de ágio amortizado, mesmo quando considerada cabível, consiste em uma faculdade do contribuinte, e não um dever, de modo que o seu não aproveitamento nos limites percentuais e temporais da legislação não gera qualquer direito adicional ao contribuinte, mesmo em exercícios posteriores. Com efeito, o inciso III do artigo 386 do RIR/99 estabelece que o ágio pago com fundamento em rentabilidade futura do investimento poderá ser amortizado nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração, nos casos que estabelece. Para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do artigo 173, inciso I do CTN; tendo havido pagamento antecipado, aplicase a regra do § 4º do artigo 150 do CTN, conforme entendimento da Procuradoria da Fazenda Nacional, exarado no Parecer PGFN/CAT nº 1.617/2008 (alíneas “d” e “e” do item 49), sobre a fixação do termo a quo de prazos de decadência e prescrição, em face da publicação da Súmula Vinculante nº 8 do STF: “49. (...) (...) d) para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; e) para fins de cômputo do prazo de decadência, tendo havido pagamento antecipado, aplicase a regra do § 4º do art. 150 do CTN; (...)” (grifei). Os supracitados artigos do CTN dispõem que (grifos meus): “Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. Fl. 3153DF CARF MF 26 (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação”. “Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; (...)”. Considerando que a periodicidade de apuração do lucro real é anual, o fato gerador da glosa de despesas indedutíveis contabilizadas a título de amortização de ágio e de perdas com créditos ocorreu em 31/12/2007 e 31/12/2008. Tendo ou não havido pagamento antecipado de tributos, o lançamento não se afigura decaído, uma vez que os possíveis dies a quem do prazo decadencial seriam 31/12/2010 (nos termos do artigo 150, § 4º) e 01/01/2012 (nos termos do artigo 173, inciso I). No caso presente, o lançamento efetuado não foi atingido pela decadência, uma vez que a impugnante, no período autuado, apurou prejuízo e base negativa de contribuição, mostrandose aplicável o artigo 173, inciso I do CTN, segundo o qual o prazo decadencial se encerra em 01/01/2016. Não procede, portanto, a alegação de decadência apresentada pela impugnante. nulidade do auto de infração em decorrência da não observância da postergação no pagamento dos tributos. Consta do TVF (parte integrante do Auto de Infração): Da possibilidade de postergação de pagamento Cabe ressaltar que não se trata aqui da observância ou não do regime de competência ou de inexatidão quanto ao períodobase de escrituração das despesas, mas de atos simulados com o objetivo de "fabricar" despesas sem qualquer lastro com a realidade. Para se constatar a hipótese de postergação de pagamento, seria imprescindível que houvesse o efetivo pagamento de imposto a maior em período posterior, o qual não teria sido pago caso determinada despesa lançada indevidamente em período anterior — fosse lançada corretamente, de acordo com o regime de competência. No caso concreto, o primeiro período com Lucro Real positivo do fiscalizado foi o ano de 2009 (DIPJ 2010), no valor de R$ Fl. 3154DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 15 27 45.823.604,63 (após compensação de prejuízos anteriores). No ano de 2009 foi excluído do Lucro Real o valor de R$ 24.054.325,00 (valor inferior ao limite legal de 20% ao ano) a título de "Agio excedente em anos anteriores", conforme registros na Parte A e B do LALUR 2009 (fls. 13 e 14). Isso demonstra que o fiscalizado utilizou as despesas com amortização do ágio em pauta na apuração do Lucro Real de 2009, e, portanto, não houve, nem em tese, a postergação de pagamento. Ou seja: embora o fiscalizado tenha apurado lucro em 2009, o lucro seria maior, evidentemente, se não houvesse excluído do Lucro Real o referido valor a titulo de "Agio excedente em anos anteriores". Ademais, o fiscalizado teria, sob sua ótica, um total de R$ 50.917.693,17 para excluir do Lucro Real em razão do excesso de ágio cm anos anteriores, controlado na Parte B do LALUR, e optou, a seu arbítrio, dentro dos limites legais, excluir apenas o montante de R$ 24.054.325,00. Dessa forma, jamais a fiscalização poderia, de ofício, impor a exclusão de valor superior ao delimitado pelo próprio contribuinte, que tem a discricionariedade de computar as despesas com amortização de ágio no limite de 10 anos e na fração máxima de 1/60 ao mês. No ano de 2010, o fiscalizado apurou Lucro Real de RS 39.000.548,48 (após compensação de prejuízos anteriores), e optou por não utilizar o valor de R$ 26.863.368,17 que o fiscalizado ainda teria, sob sua ótica, para excluir do Lucro Real em razão do excesso de ágio em anos anteriores, controlado na Parte B do LALUR 2010 (£1 14). No ano de 2011, o fiscalizado apurou Lucro Real de R$ 32.428.706,76 (após compensação de prejuízos anteriores), e optou novamente por não utilizar o valor de R$ 26.863.368,17 que o fiscalizado ainda teria, sob seu ponto de vista, para excluir do Lucro Real em razão do excesso de ágio em anos anteriores, controlado na Parte B do LALUR 2011 (tl 14). Portanto, não há como contemplar a hipótese de que o imposto devido nos anos calendários anteriores tenha sido pago quando da apuração do Lucro Real de 2009 ou posteriores, como se as despesas lançadas indevidamente nos anos calendários anteriores fossem, pelo regime de competência, do ano de 2009 ou posteriores, e, portanto, o lucro apurado no ano de 2009 ou posteriores teria sido inferior ao efetivamente apurado pelo fiscalizado. ... A Recorrente sustenta que apesar de reconhecer que as despesas glosadas poderiam ser validamente deduzidas a partir do ano de 2008, quando a Recorrente incorporou a TIB, o agente fiscal desconsiderou os efeitos da postergação no pagamento dos tributos,violando o artigo 273 do RIR e o procedimento do PN 2/96 e ensejando a nulidade do Auto de Infração. Fl. 3155DF CARF MF 28 Portanto, entende que, a Fiscalização não deveria ter glosado todas as despesas de ágio deduzidas nos anos de 2007 e 2008, mas sim apurado eventual diferença com base nos valores que deixaram de ser deduzidos a partir de novembro de 2008. Conforme mencionado pela Recorrente, a postergação no pagamento de tributos encontrase disciplinada pelo artigo 273 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999, que tem como base legal o artigo 6º do DecretoLei nº 1.598/1977, e pelo Parecer Normativo COSIT nº 02/1996 que assim dispõem: Artigo 273 do RIR/99 Art. 273. A inexatidão quanto ao período de apuração de escrituração de receita, rendimento, custo ou dedução, ou do reconhecimento de lucro, somente constitui fundamento para lançamento de imposto, diferença de imposto, atualização monetária, quando for o caso, ou multa, se dela resultar (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 5º): I ‑ a postergação do pagamento do imposto para período de apuração posterior ao em que seria devido; ou II ‑ a redução indevida do lucro real em qualquer período de apuração. § 1º O lançamento de diferença de imposto com fundamento em inexatidão quanto ao período de apuração de competência de receitas, rendimentos ou deduções será feito pelo valor líquido, depois de compensada a diminuição do imposto lançado em outro período de apuração a que o contribuinte tiver direito em decorrência da aplicação do disposto no § 2º do art. 247 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 6º). § 2º O disposto no parágrafo anterior e no § 2º do art. 247 não exclui a cobrança de atualização monetária, quando for o caso, multa de mora e juros de mora pelo prazo em que tiver ocorrido postergação de pagamento do imposto em virtude de inexatidão quanto ao período de competência (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 7º, e DecretoLei nº 1.967, de 23 de novembro de 1982, art. 16). Parecer Normativo COSIT nº 02/96 ... 6. O § 5º, transcrito no item 5, determina que a inexatidão de que se trata, somente constitui fundamento para o lançamento de imposto, diferença de imposto, inclusive adicional, correção monetária e multa se dela resultar postergação do pagamento de imposto para exercício posterior ao em que seria devido ou redução indevida do lucro real em qualquer período‑ base. 6.1 ‑ Considera‑ se postergada a parcela de imposto ou de contribuição social relativa a determinado período‑ base, quando efetiva e espontaneamente paga em período‑ base posterior. 6.2 ‑ O fato de o contribuinte ter procedido espontaneamente, em períodobase posterior, ao pagamento dos valores do Fl. 3156DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 16 29 imposto ou da contribuição social postergados deve ser considerado no momento do lançamento de ofício, o qual, em relação às parcelas do imposto e da contribuição social que houverem sido pagas, deve ser efetuado para exigir, exclusivamente, os acréscimos relativos a juros e multa, caso o contribuinte já não os tenha pago. 6.3 ‑ A redução indevida do lucro líquido de um períodobase, sem qualquer ajuste pelo pagamento espontâneo do imposto ou da contribuição social em períodobase posterior, nada tem a ver com postergação, cabendo a exigência do imposto e da contribuição social correspondentes, com os devidos acréscimos legais. Qualquer ajuste daí decorrente, que venha ser efetuado posteriormente pelo contribuinte não tem as características dos procedimentos espontâneos e, por conseguinte, não poderá ser pleiteado para produzir efeito no próprio lançamento. (GRIFEI) Sobre a postergação aventada pela Recorrente, a DRJ com escora na legislação acima, pormenorizadamente teceu substanciosas considerações para demonstrar que resta improcedente a alegação de nulidade fundada em inobservância de postergação de pagamento, cujos fundamentos também adoto como razão de decidir, razão pela qual transcrevo os termos do voto condutor da decisão (fls.21/24), conforme faculta o art.50, § 1º, da Lei nº 9.784/99, verbis: Como se pode depreender mediante a leitura atenta dos trechos reproduzidos acima, a pretensão a que o lançamento seja efetuado apenas pela diferença, diminuído do tributos que supostamente tenham sido recolhidos a maior em períodos posteriores, depende do pressuposto de que (i) a irregularidade observada configure “inexatidão quanto ao período base de escrituração de receita, rendimento, custo ou dedução” e, também, do preenchimento da condição de (ii) ter havido efetiva postergação do pagamento do imposto devido. Ocorre que, consoante observou a autoridade fiscal, a conduta apresentada, fundamentalmente, não caracteriza “inobservância do regime de competência ou de inexatidão quanto ao período base de escrituração das despesas”, nos termos do art. 273 do RIR, hipótese que possibilitaria a ocorrência de uma postergação de pagamento. Ao apreciar essa questão nos autos do processo fiscal que resultou da mesma fiscalização, porém relativo aos anos calendário de 2005 e 2006, foi consignado o entendimento no sentido de que inadmissibilidade dos efeitos fiscais da amortização do ágio nos termos do artigo 386, nos anos de 2005 e 2006, não implicaria o desfazimento da amortização do ágio na contabilidade da empresa, mas sim a adição do ágio amortizado para apuração do lucro real, nos termos do artigo 391 do RIR. Contudo, da leitura do Termo de Verificação Fiscal que integra o presente lançamento, depreendese que a autoridade fiscal Fl. 3157DF CARF MF 30 admite o restabelecimento do saldo de ágio a ser amortizado a partir de 2008 nos registros contábeis da impugnante, conforme tabela de fl.1.034, e observandose os limites legais de percentual (máximo de 1/60 ao mês) e tempo (até 10 anos contados dessa incorporação). Com efeito, o reconhecimento da subsunção da incorporação da TIB à hipótese prevista no artigo 386 do RIR/99 indubitavelmente aplicado no presente lançamento na medida em que não foram objeto de glosa as amortizações fiscais efetuadas nos meses posteriores à cotejada incorporação afasta a possibilidade de a impugnante obter a recuperação do ágio nos termos do artigo 391 do RIR/99, ou seja, no momento em que ocorresse a alienação ou baixa do investimento. A despeito disso, ainda há que se ter em conta que a amortização do ágio fundado em rentabilidade futura, como se depreende de seu próprio fundamento, deve ser realizada na medida em que confirmada essa rentabilidade. Como asseverou a própria impugnante no item 69 de suas razões de defesa, “Nesse contexto, deve ser considerado que a amortização fiscal do ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura é determinada de maneira consistente com o laudo que demonstra a justificativa econômica do ágio e de acordo com os índices de lucratividade projetados para o período.” Além de a amortização do ágio nos termos do artigo 386 do RIR/99 restringirse ao ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura da investida, não alcançando ágios pagos com outros fundamentos, essa expectativa deve estar demonstrada em laudo que contenha a projeção de lucratividade para os períodos em que realizadas as amortizações nos termos do artigo 386, no caso em apreço, nos períodos de 2007 e 2008. Ocorre que, conforme verificou a autoridade fiscal, após a incorporação da TIB, a impugnante, por discricionariedade, não computou as despesas com amortização de ágio no limite de 10 anos e na fração máxima de 1/60 ao mês, de modo que eventual reconhecimento de efeitos de postergação configuraria imposição de exclusão de valor superior ao delimitado pelo próprio contribuinte. Na realidade, a discricionariedade da contribuinte quanto ao montante de despesa de amortização apropriada em cada período está sujeita aos limites da norma geral (máximo de 10 anos e 1/60 ao mês) e também à efetiva lucratividade da investida, ou seja, à confirmação dos resultados projetados conforme laudo que fundamentou a aquisição do investimento com ágio. Assim, o fato de a impugnante não ter deduzido dos lucros apurados em 2009 a 2011 as amortizações de ágio no valor máximo permitido pela norma geral, mesmo remanescendo saldo amortizável, indica, salvo demonstração em contrário, que os resultados decorrentes da lucratividade da investida justificaram somente os montantes efetivamente deduzidos a título de ágio (fundado em rentabilidade futura) amortizado. Fl. 3158DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 17 31 Como o restabelecimento do ágio pago na aquisição da impugnante ao saldo de ágio existente em 2008 não tem o condão de alterar os resultados apurados naqueles períodos, subseqüentes aos do lançamento, seria incoerente admitir que nesses períodos (2009 a 2011) a impugnante deduziria o ágio cuja amortização fiscal foi glosada de ofício em períodos anteriores. Seria incoerente, inclusive, com a resposta dada pela impugnante ao item 10 da Intimação nº 5, que a instou a "Justificar a opção do contribuinte por não lançar a amortização de ágio na apuração do Lucro real do ano de 2009 no valor do saldo de R$ 50.917.693,17 (Parte B do LALUR 2009 folha 14), tendo optado pela dedução de apenas R$ 24.054.325,00", no sentido de que o montante anual a ser amortizado é determinado a partir da projeção de resultados, e que por isso o valor do ágio efetivamente amortizado foi inferior ao saldo disponível, embora pudesse ter amortizado integralmente o saldo passível de amortização, pois era inferior ao limite máximo (1/60 ao mês). De fato, a fiscalização não poderia, de ofício, impor a exclusão de valor superior ao delimitado pelo próprio contribuinte. Mostrase irrelevante, outrossim, a informação apresentada pela impugnante, de que o ágio não amortizado nos anos de 2009 a 2011 seria resultante de outras aquisições societárias pois, como observado, a amortização nos termos do artigo 386 do RIR está atrelada aos resultados positivos da impugnante projetados em laudo específico. De qualquer forma, caso se pudesse reconhecer na hipótese a mera inexatidão de período base de escrituração das despesas, caberia à impugnante, como ressaltado inicialmente, demonstrar que essa inexatidão resultou em postergação de pagamento de tributo, ou seja, demonstrar que a impugnante efetivamente pagou (e em que medida) os tributos devidos em período base posterior. Verificase, contudo, que, além de não restar configurada a hipótese de postergação de pagamento, a impugnante não demonstrou ter efetivamente pago o imposto devido em período base posterior. Diante de todas as considerações acima, resta improcedente a alegação de nulidade fundada em inobservância de postergação de pagamento, não havendo reparos a fazer no lançamento em análise. legitimidade para amortização do ágio, legítimos propósitos negociais, e, legitimidade no registro do ágio referente ao saldo dos contratos de mútuo. Sobre o assunto a Recorrente sustenta, em síntese, que: a amortização do ágio realizada é válida, já que preenchidos os requisitos dos artigos 385 e 386 do RIR, teve origem em atos que obedeceram a forma válida, que Fl. 3159DF CARF MF 32 tiveram objeto lícito e que foram respaldados em legítimos propósitos negociais e operativos, motivo pelo qual são plenamente oponíveis ao Fisco; o registro do ágio pela aquisição do novo investimento é legítimo, uma vez que se trata de aquisição de novas ações da Recorrente cujo pagamento se deu com o saldo dos contratos de mútuo que a ABCD tinha contra a Recorrente; as operações societárias envolvendo a ABCD tiveram como objetivo o saneamento da situação patrimonial da Recorrente com vistas a viabilizar a implantação do projeto de expansão de suas atividades, já que permitiu que as demonstrações financeiras da Recorrente refletissem os vultosos investimentos realizados pelo Grupo Telefônica. O tratamento tributário do ágio de investimentos foi introduzido pelo DecretoLei nº 1.598, de 26/12/1977, incorporado no RIR/99 pelo art. 385, que prevê a necessidade de desdobrar o custo de aquisição dos investimentos avaliados pelo método de equivalência patrimonial, de forma a separar o valor do patrimônio líquido e o ágio. Esse dispositivo vem a confirmar o conceito de ágio, como sendo a diferença entre o valor pago pela sociedade investidora na aquisição de investimento e o valor patrimonial contábil atribuído a ele na sociedade investida. O Decretolei também impõe a necessidade de indicação do fundamento econômico do ágio, que pode ser de três espécies: i) valor de mercado dos bens do ativo da coligada, quando este for superior ao custo registrado em sua contabilidade; ii) valor da rentabilidade futura da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; iii) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. De acordo com o predito DecretoLei, a contrapartida da amortização do ágio não é despesa dedutível para fins de apuração do lucro real, conforme art. 25 (art. 391 do RIR/99). O ágio somente é dedutível na ocasião de posterior alienação da participação societária, quando deverá ser acrescido ao custo de aquisição do investimento na apuração do ganho de capital (art. 426 do RIR/99). Com o advento da Lei n° 9.532, de 10/12/1997, a amortização do ágio de investimentos com fundamento em perspectivas de rentabilidade futura passou a ser dedutível na apuração do IRPJ e CSLL, à razão de (1/60) um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração, em operações de incorporação, fusão ou cisão, conforme redação do art.7°. De acordo com o art. 8°, a dedução vale mesmo em caso de investimento não avaliado pelo valor do patrimônio líquido, ou quando a sociedade investida incorpora a investidora, operação esta denominada de “incorporação às avessas”. Enfim, o artigo 25 do DecretoLei nº 1.598, de 1977 (base legal do art. 391 do RIR de 1999), com a redação dada pelo DecretoLei nº 1.730, de 1979, não autoriza a dedução da amortização direta do ágio apurado na aquisição de investimentos avaliados pelo patrimônio líquido, razão pela qual a possibilidade de dedução do encargo com a amortização do ágio restringese à hipótese prevista na Lei nº 9.532, de 1997. Para melhor compreensão sobre a dedutibilidade da amortização do ágio com fundamento econômico em rentabilidade futura, fazse mister trazer à lume a legislação que rege a matéria. Assim dispõem os artigos 7º, inciso III, e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (base legal do art. 386 do RIR de 1999): Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado Fl. 3160DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 18 33 segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea ‘b’ do § 2º do art. 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) (...) Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: (...) b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária.” (Grifouse) A alínea “b” do § 2º do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, a que se refere o inciso III do referido artigo 7º, diz respeito ao ágio com fundamento econômico em valor de rentabilidade futura da coligada ou controlada: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. (...) § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. GRIFOUSE Fl. 3161DF CARF MF 34 Logo, o encargo com amortização do ágio verdadeiro, ou seja, com substância econômica e não gerado artificialmente, somente será dedutível na apuração do lucro real se forem atendidas, concomitantemente, as seguintes condições: (i) fundamento econômico em valor de rentabilidade futura; (ii) a pessoa jurídica absorve o patrimônio de outra – na qual detenha participação societária adquirida com ágio – em virtude de incorporação, fusão ou cisão (inciso III do art. 7º), ou quando a empresa incorporada, fusionada ou cindida é aquela que detinha a propriedade da participação societária (alínea “b” do artigo 8º). Sintetizamos a seguir, os principais movimentos promovidos pelas sociedades envolvidas, que culminaram na constituição do ágio. • 15/06/1999 a empresa Telefônica Interativa do Brasil Ltda (TIB – pertencente ao Grupo espanhol TELEFÓNICA) subscreve, em dinheiro, novas ações emitidas pela empresa Nutec Informática S/A pelo valor de R$ 411.848.000,00. Em face dessa operação, a TIB registra um ágio referente a NUTEC no valor de R$ 343.272.000,00. A TIB adquire participação da Nutec (atual TERRA Networks Brasil S/A) mediante subscrição de ações com ágio. • 05/08/1999 O Grupo brasileiro RBS, antigo controlador da NUTEC, se retira da sociedade mediante o resgate de ações no valor de R$ 339.788.000,00 (com uma retirada de caixa TVF fl.334). Os demais acionistas da Nutec se retiram da sociedade, remanescendo a TIB no controle da TERRA. • 27/12/2000 a TIB adquire participação na empresa ABCD 0011 PARTICIPAÇÕES LTDA e aumenta o seu capital de R$ 100,00 para R$ 387.081.000,00 mediante a entrega de R$ 75.400.110,76 referente a um crédito de mútuo que a TIB detinha em face da TERRA, e R$ 311.681.116,81 relacionado à transferência das ações da TERRA (investimento + ágio). Ato contínuo, a ABCD0011 utiliza o crédito que recebeu para a subscrição com ágio de novas ações da TERRA. Em decorrência dessas operações, a ABCD0011 passa a registrar um ágio de rentabilidade futura referente a TERRA no valor de R$ 387.081.227,57 (R$ 311.681.116,81 + R$ 75.400.110,76). • 29/12/2000 a TERRA incorpora a ABCD0011 e absorve o ágio referente a suas próprias ações. A TERRA inicia a amortização e dedução desse ágio no ano calendário de 2003. • 14/11/2008 a TERRA incorpora a TIB Em 14 de novembro de 2008, ocorreu a incorporação da TELEFÔNICA INTERACTIVA BRASIL LTDA pelo fiscalizado (incorporação por dentro), conforme atos societários apresentados pelo fiscalizado cm resposta aos itens 1 e 2 da Intimação N" 6, de forma que a empresa SP TELECOMUNICAÇÕES HOLDING LTDA passou a deter o controle direto, com 99,97% das ações do fiscalizado, conforme DIPJ 2009. A interpretação literal para a formação da norma conduz ao entendimento de que o ágio a ser amortizado é aquele surgido nos termos do que previu o artigo 20 do Decreto Lei nº 1.598/77. Isto é, somente a empresa que "detenha participação societária adquirida" naqueles moldes poderá figurar como incorporadora ou incorporada no evento que resultará no encontro do seu patrimônio com o da empresa investida. Fl. 3162DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 19 35 Em termos econômicos, tal como era antes regulado no âmbito do artigo 34 daquele mesmo Decreto Lei, tratase de permitir, em razão da confusão patrimonial estabelecida, a dedução da perda de capital que era do investidor (só que, agora, garantindose sua expressão na totalidade do ágio contabilizado). Por isso, há que se exigir a presença do real investidor no evento da incorporação, melhor dizendo, quem efetivamente suportou a perda de capital. Quanto à compreensão dos fatos, devese deixar claro que o negócio jurídico essencial para o deslinde da questão é justamente aquele que proporcionou a geração do ágio que foi objeto do aproveitamento. Ou seja, a operação de aquisição da participação societária pela ABCD 0011 PARTICIPAÇÕES LTDA. Passemos, então, à análise dessa operação. Consta do Termo de Verificação Fiscal: ... Portanto, tal empresa ABCD 0011 Participações Ltda, a partir da integralização de capital social pela Telefônica Interactiva do Brasil Ltda que utilizou para isso o valor de seu investimento (mais ágio) na Terra Networks Brasil SA e o valor de um mútuo entre a Telefônica Interactiva do Brasil Ltda e a Terra Networks Brasil SA, passou a ser a controladora da Terra Networks Brasil S/A. Em seguida, a empresa ABCD 0011 Participações Ltda. integralizou, com o valor do empréstimo (R$ 75.400 mil) supramencionado no capital social da Terra Networks Brasil SA, transferindo o valor da conta de "Empréstimos" para a conta de "Investimentos", na contabilidade da ABCD 0011 Participações Ltda. ... E importante verificar que esse conjunto de operações não teve qualquer impacto na contabilidade da Telefônica Interactiva do Brasil Ltda (investidora detentora original do ágio). No dia 27 de dezembro de 2000, houve a transferência do valor contabilizado nas rubricas de "Ágio Sobre os Investimentos" e "Empréstimos e Financiamentos" (Ativo), referentes à Terra Networks Brasil SA, para a conta de Investimentos (ABCD 0011). Dois dias depois, no dia 29 de dezembro de 2000, em razão da operação de incorporação reversa da ABCD 0011 Participações Ltda pela Terra Networks Brasil SA, a conta Investimento (ABCD 0011) passou novamente a representar o investimento original (Terra Networks), agora somado com o valor do mútuo (R$ 75.400 mil). O presente caso não demanda da fiscalização maiores esforços para provar a falta de propósito negocial das operações societárias em pauta, as quais promoveram a transferência do ágio decorrente da aquisição da Nutec Informática SA pela TIB para a contabilidade do próprio fiscalizado, com o único objetivo de tornar o ágio dedutível, uma vez que o próprio Fl. 3163DF CARF MF 36 fiscalizado delineou com clareza todas as 8 (oito) etapas do planejamento tributário abusivo que levou a cabo, conforme demonstra o supramencionado documento intitulado "Histórico Ágio ABCD" e resposta do fiscalizado entregues no curso da fiscalização relativa aos anos de 2005 e 2006 (fls. 32 e 40 a 42 do PAF N° 16643.000425/201073, cópia em anexo), com destaque para o subitem 1.3 do item Justificação do Protocolo de Incorporação e Instrumento de Justificação entre Terra Networks Brasil SA e ABCD 0011 Participações Ltda. (fl. 274), que afirma: "1.3 Considerando que ABCD é detentora do ágio relativo ao investimento na TERRA, o qual poderá ser aproveitado fiscalmente pela TERRA após a incorporação da ABCD, nos termos da legislação em vigor;" (grifo meu). Não obstante as evidências documentais de que a empresa veículo ABCD 0011 Parücipações Ltda. tenha sido adquirida pelo grupo Telefônica e extinta (em dois dias) com o propósito de participar de operações societárias com o único objetivo de economia tributária, o fiscalizado foi intimado a esclarecer, conforme Intimação N" 5, qual seria a justificativa econômica e/ou propósito negocial para os seguintes atos societários (itens 4 a 7): ... Em relação à resposta do fiscalizado, o primeiro fato que chamou a atenção foi a utilização de resposta em bloco para os itens 4 a 8 da referida Intimação. O fiscalizado poderia ter explicado porque razão teria adquirido uma empresa de nome ABCD 0011, dc capital social no valor de R$ 100,00, das advogadas Sra. Maria Cristina Cescon Avcdissian e Sra. In Hee Choa, ambas residentes e domiciliadas na Rua da Consolação n° 247 — 4o andar. A empresa ABCD 0011 teve por endereço a Rua da Consolação n° 247 — 6° andar, conforme contrato social, sendo que ambos os endereços pertenciam ao escritório de advocacia Machado Meyer Sendacz Opice, que, não por coincidência, foi o escritório responsável pela impugnação ao Auto de Infração lançado contra o fiscalizado no tocante aos anos de 2005 e 2006 (PAI' N° 16643.000425/201073). O fiscalizado optou por não dar qualquer explicação ao que fora indagado no item 4, pois é notório que a empresa ABCD 0011 não passou de uma "empresa de prateleira" criada, desde o início, para integrar o planejamento tributário abusivo perpetrado pelo grupo Telefônica. ... Segundo se extrai dos documentos e das respostas entregues pelo fiscalizado, a criação, aquisição, aumento e integralização de capital, e posterior incorporação reversa da empresa ABCD0011 Participações Ltda não revelaram qualquer substância econômica ou propósito negocial, e não poderiam, em hipótese alguma, criar direitos oponíveis ao Fisco. ... Fl. 3164DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 20 37 Dos limites do planejamento tributário lícito O contribuinte pode planejar suas atividades econômicas buscando evitar, postergar ou diminuir o valor devido ao Fisco, de forma a evitar, postergar ou diminuir a concretização do fato jurídicotributário o que, no mundo jurídico, é denominado de elisão fiscal. Mas, caso o contribuinte tome medidas visando pagar menos tributos, a despeito da ocorrência do fato jurídico tributário, ficará caracterizada uma fraude fiscal, também denominada de evasão fiscal, sujeitandose às penalidades legais cabíveis. Há casos de elisão fiscal induzidos pelo próprio ente tributante como instrumento de política econômica, e outros provenientes de "brechas" que o legislador cria ao elaborar as leis. Como exemplo do primeiro caso, temos os artigos 7º e 8º da Lei 9.532/97, que permite a dedução da amortização fiscal do ágio na cisão, fusão ou incorporação de empresas, desde que a empresa incorporadora ou incorporada já tenha participação acionária adquirida com ágio. No presente caso, teríamos a ocorrência da permissão legal (art. 386 do RIR/99) para deduzir o ágio decorrente da aquisição da Terra Networks Brasil SA pela Telefônica Interactiva do Brasil Ltda (TIB), caso a TIB (controladora) tivesse incorporado a Terra Networks (controlada) ou mesmo que a Terra Networks tivesse incorporado a TIB, porque a legislação permite o aproveitamento fiscal do ágio em casos de incorporação reversa. Entretanto, no caso concreto, o grupo Telefônica, por meio da TIB, em uma sequência de operações societárias sem nenhuma substância econômica ou propósito negocial: planejou a criação de uma típica empresa veículo (ABCD 0011), constituída e extinta em curto lapso temporal (dois dias dc vida jurídica), com o evidente intuito de transferir o ágio sobre investimento constante da contabilidade da investidora (TIB) para a investida (Terra); efetuou a integralizaçao do capital social da empresa veículo ABCD 0011 Participações Ltda, pela TIB, utilizandose dos valores da conta Investimento (mais ágio) relativo a Terra Networks e da conta Empréstimo (tomado pela Terra Networks), constantes da contabilidade da TIB; e posteriormente (dois dias depois), promoveu a incorporação reversa (Terra Networks incorpora empresa veículo). Apreciando a sequência de operações, verificase que não houve qualquer alteração de riqueza do grupo, nem mesmo qualquer mudança na relação entre as empresas, mantendose o mesmo status de empresa controladora (TIB) e empresa controlada (Terra). Fl. 3165DF CARF MF 38 ... Como visto, a norma em análise, acima reproduzida (Lei nº 9.532/97) se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. A autoridade fiscal bem explicou o permissivo legal para que pudesse se dar a legitimidade para amortização do ágio no caso presente: No presente caso, teríamos a ocorrência da permissão legal (art. 386 do RIR/99) para deduzir o ágio decorrente da aquisição da Terra Networks Brasil SA pela Telefônica Interactiva do Brasil Ltda (TIB), caso a TIB (controladora) tivesse incorporado a Terra Networks (controlada) ou mesmo que a Terra Networks tivesse incorporado a TIB, porque a legislação permite o aproveitamento fiscal do ágio em casos de incorporação reversa. Entretanto, não foi isso que ocorreu. A Terra Networks, no período sob análise, não incorporou nem foi incorporada pela TIB, cuja contabilidade registrava o ágio decorrente da aquisição da Nutec Informática SA (hoje denominada Terra Networks Brasil SA). No caso sob análise temse que o real investidor que adquiriu as ações da TERRA não fora a empresa ABCD, mas sim a empresa TIB. Isso porque, fora a TIB a empresa que adquiriu as ações da TERRA de terceiros, por meio da subscrição de ações realizada no dia 15/06/1999, assim como a empresa que era detentora dos créditos utilizados na subscrição de ações realizada no dia 27/12/2000. Portanto, a TIB fora a empresa que suportou as duas parcelas do ágio que fora registrado pela ABCD. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. É o que se depreende do Acórdão nº9101002.186, de cuja ementa se extrai: TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. IMPOSSIBILIDADE. A subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora de fato) é que haverá o atendimento a esses aspectos, tendo em vista a ausência de normatização própria que amplie os aspectos pessoal e material a outras pessoas jurídicas ou que preveja a possibilidade de intermediação ou de interposição por meio de outras pessoas jurídicas. Não há previsão legal, no contexto dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, para transferência de ágio por meio de interposta pessoa jurídica da pessoa jurídica que pagou o ágio para a pessoa jurídica que o Fl. 3166DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 21 39 amortizar, que foi o caso dos autos, sendo indevida a amortização do ágio pela recorrida. Para sedimentar o que se afirma acima, vale ainda reproduzir, os termos das Contrarrazões apresentadas pela Procuradoria da Fazenda Nacional (página 28/29): A intenção da Lei nº 9.532/1997 foi estimular as aquisições societárias seguidas da confusão patrimonial entre a real investidora e a investida; foi beneficiar o real adquirente de uma participação societária; e não transformar o potencial direito à dedução dessa despesa em uma “moeda” que pudesse ser transferida a quem o seu detentor quisesse. Se assim não fosse, haveria uma norma expressa que autorizaria a transferência da “mais valia” por meio de operações intragrupo. Nesse diapasão, registra‑ se o teor do Acórdão nº 130200.834: Ementa (...) ÁGIO. TRANSFERÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Em virtude da absoluta ausência de previsão legal, o ágio, supostamente incorrido na aquisição de particip ação societária de pessoa jurídica domiciliada no exterior, não pode ser transferido por meio de aumento de capital e quitação dívida. (...) Voto condutor (...) Alinhome, aqui, ao entendimento esposado na peça de autuação no sentido de que o disposto no inciso III do art. 386 do RIR/99 (abaixo reproduzido) não pode ser interpretado de forma dissociada da norma estampada no caput do art. 385 do referido ato regulamentar, ou seja, o dever de segregar o custo de aquisição, no caso de avaliação de investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, obviamente é de quem incorreu em tal custo, e a faculdade de amortizar o ágio antes segregado não é deferida a outro senão àquele que adquiriu a participação societária com sobrepreço. (...) Não se trata, como parece crer a Turma Julgadora de primeiro grau, de vedação ao repasse de controle de empresas, mas, sim, de ausência de lei autorizadora de transferência de ágio por meio de subscrição de aumento de capital e de quitação de dívida. (grifos nossos) Portanto, à evidência, o ágio registrado e amortizado pela TERRA (Recorrente) com a incorporação da ABCD0011, é indedutível nos termos do artigo 386 do Fl. 3167DF CARF MF 40 RIR/99, pois não há como aplicar a presunção de perda de investimento preconizada na Lei nº 9.532/1997. A Recorrente argúi, legítimos propósitos negociais, e, legitimidade no registro do ágio referente ao saldo dos contratos de mútuo. Consta do Termo de Verificação Fiscal (página 16): Conforme afirmou o próprio fiscalizado, o valor de R$ 75.400.110,76 foi transferido pela TIB para a ABCD 0011 Participações Ltda, por meio de contribuição em aumento de capital social da ABCD 0011 Participações Ltda. Ou seja: o mutuante — que era a empresa TBI passou a ser a empresa ABCD 0011 Participações Ltda. Ato contínuo, a empresa ABCD 0011 Participações Ltda subscreveu novas ações da Terra Networks Brasil SA, as quais foram integralizadas mediante a capitalização dos créditos detidos pela acionista ABCD para com a Terra Networks Brasil SA. É evidente que essas operações de subscrição de ações — primeiro da ABCD 0011 Participações Ltda., integralizadas com o crédito detido pela TIB contra a Terra Networks Brasil SA, e depois da Terra Networks Brasil SA, integralizadas com o mesmo credito, que passou a ser detido pela ABCD 0011 Participações Ltda. não poderiam gerar ágio na aquisição de investimento, pela simples razão de que não houve investimento adquirido. Ainda que, por absurdo, fosse possível raciocinar em termos de ágio interno, não constou nos atos societários qual seria o custo de aquisição (e qual seria o ágio) das ações subscritas da empresa Terra Networks Brasil SA, integralizadas por meio dos créditos decorrentes dos mútuos, até porque a empresa ABCD 0011 Participações Ltda. já era a detentora de 99,99% das ações da Terra Networks Brasil SA, de forma que não haveria nexo no pagamento de ágio para si mesmo Sobre o assunto, a decisão recorrida, traz em seu bojo os fundamentos com os quais concordo, pelo que transcrevo seus termos (fls.34 e seguintes) conforme faculta o art.50, § 1º, da Lei nº 9.784/99, e, os adoto como razão de decidir: Do crédito originado em mútuo tido contra a Impugnante. Além de transferir o ágio da contabilidade da TIB para a do fiscalizado, o valor total dos mútuos pactuados entre a TIB e o fiscalizado foram transformados em ágio (R$ 75.400 mil) e conseqüentemente somado ao valor de R$ 311.681 mil para totalizar os R$ 387.081 mil que o fiscalizado deduziu da base de cálculo do IRPJ e da CSLL a partir de 2003. A constatação de que o surgimento e a validade do ágio pago na aquisição da impugnante seriam irrelevantes para a lide apresentada também se aplica ao ágio que teria surgido na subscrição de ações da Terra mediante a contribuição de créditos havidos em mútuo entre a TIB e a TERRA. Ainda que fosse válida essa parcela do ágio contabilizado pela impugnante, sua amortização fiscal não seria admitida em razão da Fl. 3168DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 22 41 desconsideração da criação e incorporação da empresa ABCD 0011. No tocante a essa parcela do ágio amortizado, a autoridade fiscal apresenta como motivação da glosa não somente a descaracterização do evento de incorporação previsto no artigo 386 do RIR/99, mas também impossibilidade de se transformar um crédito de mútuo em ágio sobre aquisição de investimento. Apreciado anteriormente o primeiro motivo (desconsideração de empresa veículo) da glosa, cabe esclarecer que também a impossibilidade de créditos de mútuo com a investida serem transformados em ágio configura óbice ao aproveitamento fiscal dessa parcela. Com efeito, entendo que a subscrição de novas ações emitidas por uma empresa não tem o condão de originar ágio ao adquirente dessas ações, já que não houve efetiva aquisição de nova parcela de investimento (a ABCD já se apresentava como controladora da impugnante). Logo, o valor de R$ 75.400.110,76, decorrente de contratos de mútuo tido originalmente pela TIB contra a Impugnante também não pode ser admitido, o que impede a amortização fiscal pretendida pela impugnante em sua integralidade. DO PROPÓSITO NEGOCIAL DA ABCD. Empresa de passagem. A questão fundamental para a apreciação da parte do lançamento relativa às despesas com amortização de ágio repousa no propósito negocial da ABCD, vez que o nascimento e a justificativa do ágio amortizado foram irrelevantes para a glosa efetuada pela autoridade fiscal, que assim agiu por entender que referida empresa foi criada e extinta com o único propósito de permitir à impugnante o aproveitamento fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99. A fiscalização consignou que, após o nascimento desse ágio, as operações societárias atinentes à criação da empresa ABCD 0011 Participações Ltda. e sua incorporação reversa pela Terra Networks Brasil SA possuíram o único intuito de criar um ágio sobre investimento, na contabilidade do fiscalizado, que teria, por origem, a aquisição da própria Terra Networks Brasil SA (TERRA) pela Telefônica Interactiva do Brasil Ltda (TIB). Com efeito, em 27 de dezembro de 2000, a recém criada empresa ABCD 0011 Participações Ltda. teve seu Capital Social elevado de inexpressivos R$ 100,00 para R$ 387.081 mil, mediante recebimento de investimento e créditos de mútuo da TIB. Em 29/12/2000, apenas dois dias depois da operação de integralização do capital social da empresa ABCD 0011 Participações Ltda., que figurou durante esses dois dias como controladora da Terra Networks Brasil SA (impugnante), houve a incorporação da empresa ABCD 0011 Participações Ltda. por Fl. 3169DF CARF MF 42 sua então controlada, caracterizando a operação societária conhecida como incorporação reversa ou "às avessas". Do relatório fiscal, cumpre extrair importante constatação no confronto entre a situação anterior e a situação posterior à participação da empresa ABCD 0011 na dinâmica societária do grupo Terra: É importante verificar que esse conjunto de operações gerou, na contabilidade da Telefônica Interactiva do Brasil Ltda, no dia 27 de dezembro de 2000, a transferência do valor contabilizado nas rubricas de "Ágio Sobre os Investimentos" e "Empréstimos e Financiamentos" (Ativo), referentes à Terra Networks Brasil SA, para a conta de Investimentos (ABCD 0011). Dois dias depois, no dia 29 de dezembro de 2000, em razão da operação de incorporação reversa da ABCD 0011 Participações Ltda. pela Terra Networks Brasil SA, não houve alteração contábil na Telefônica Interactiva do Brasil Ltda, a não ser pela alteração do Investimento (ABCD 0011) para novamente representar o Investimento (Terra Networks). Em resumo, a única operação real foi o aumento de capital social da Terra Networks Brasil SA pela integralização do valor de "Empréstimos e Financiamentos" (crédito da Telefônica para com a Terra Networks) no capital social da Terra Networks Brasil SA. ... Apreciando a sequência de operações, verificase que não houve qualquer alteração de riqueza do grupo, nem mesmo qualquer mudança na relação entre as empresas, mantendose o mesmo status de empresa controladora (Telefônica) e empresa controlada (Terra). ... No mais, a criação e posterior incorporação reversa da empresa ABCD 0011 Participações Ltda. não revelou qualquer substância econômica ou propósito negocial, e não poderia, jamais, criar direitos oponíveis ao Fisco. ... Observase que, para a desconsideração dos atos analisados, foram determinantes: (i) a constatação de que não houve alteração na riqueza do grupo e nem na relação entre a fiscalizada TERRA e sua controladora TIB; (ii) a falta de substância econômica e de propósito negocial da empresa ABCD, corroborada por sua efêmera existência jurídica (apenas dois dias). O retorno à mesma relação de controle entre a TIB e a TERRA, bem como a falta de substância econômica da empresa ABCD, que teria sido utilizada como veículo de um planejamento fiscal, foram aspectos não contestados diretamente pela impugnante. Apesar de admitir que os atos societários tiveram como objetivo o aproveitamento fiscal do ágio pago na aquisição da empresa TERRA, a impugnante sustenta que também havia um propósito econômico para a criação e extinção da ABCD, consistente no Fl. 3170DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 23 43 saneamento da situação patrimonial negativa da fiscalizada TERRA, mediante o registro integral da contrapartida ao ágio pago na aquisição de investimentos em reserva especial de ágio, conforme determinava o artigo 6º, §1° da Instrução Normativa CVM n° 319/1999. Por valerse dessa regra de contabilização, a impugnante alega que teve saneada sua situação patrimonial e assim pôde viabilizar a desejada expansão de suas atividades. De fato, o artigo 6º, §1° da Instrução Normativa CVM n° 319/1999 determina que a incorporadora deverá registrar o ágio fundado em expectativa de resultado futuro originado na aquisição de seu controle em conta do ativo diferido, em contrapartida a reserva especial de ágio, conta do patrimônio líquido. Ocorre que o registro de uma nova conta – reserva especial de ágio não pode ser admitido como propósito imediato da incorporação da ABCD, porque não implica efetivamente aumento de riqueza e, além disso, poderia no máximo justificar a incorporação, mas não a própria criação da ABCD, que também foi considerada uma operação artificial. Ademais, não é crível que esse tratamento contábil fosse determinante para atribuir credibilidade à impugnante no mercado e viabilizar seu plano empresarial de expansão, considerando que a norma da CVM é genérica e, sempre que aplicada, gera esse “efeito positivo” na situação patrimonial da investida/incorporadora. Se não houve efetiva alteração na condição econômica da impugnante o que não se pode negar, já que a ABCD surgiu e foi extinta sem qualquer substância e atuação econômica não é crível que o aventado “saneamento patrimonial” pudesse realmente convencer terceiros de que sua situação patrimonial estaria efetivamente recuperada. De toda forma, a impugnante não trouxe aos autos elementos que demonstrassem, em concreto, a relação de causa e efeito entre o registro da referida conta de reserva especial de ágio e a suposta abertura para implementação de seu plano de expansão no mercado. Assim, em que pese o esforço da impugnante em atribuir à existência da ABCD 0011 um propósito extrafiscal, observo que a alegada relevância das alterações contábeis determinadas pelo evento da incorporação não se mostra plausível. No tocante à celeridade dos atos apontada pela autoridade fiscal, a impugnante contrapõe o fato de a amortização do ágio objeto do questionamento ter sido iniciada apenas três anos após o evento da incorporação. Essa espera teria sido determinada pelo próprio laudo de avaliação econômica que fundamentou o ágio elaborado à época da aquisição do investimento, o qual projetava a geração de lucros somente a partir do ano de 2004. Fl. 3171DF CARF MF 44 Não obstante, além do fato de a efetiva amortização fiscal terse iniciado em 2003, e não em 2004, ano em que os lucros começariam a ser gerados, segundo laudo de avaliação econômica invocado, há que se considerar que o exercício do aproveitamento fiscal do ágio depende não somente da projeção de lucros da investida, mas de outros aspectos de conveniência empresarial da própria impugnante. Assim, o fato de não ter a impugnante iniciado a amortização fiscal do ágio imediatamente após o evento de incorporação não indica necessariamente a existência de propósito negocial diverso do aproveitamento fiscal discutido. A alegação da defesa de que os efeitos da incorporação da TIB pela Impugnante (ou viceversa)na apuração do resultado tributável da Impugnante seriam exatamente os mesmos verificados na incorporação da ABCD pela Impugnante mostra se impertinente aos eventos analisados nos autos, simplesmente porque tal hipótese (incorporação da TIB pela impugnante ou vice versa) não ocorreu antes dos períodos abrangidos pelo lançamento. A amortização do ágio e seus reflexos em relação à CSLL A Recorrente alega que, inexiste dispositivo legal que impeça a dedutibilidade do ágio da base de cálculo da CSLL, tampouco qualquer norma que estenda a essa contribuição às disposições relativas ao IRPJ, motivo pelo qual não há qualquer óbice ou limitação quanto à amortização do ágio para a CSLL. Quanto a exigência da CSLL, após a vigência do art. 28 da Lei 9430/1996, “Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei”, ou seja, as mesmas normas aplicáveis ao IRPJ. Os julgamentos do CARF tem reiterado esse entendimento, a exemplo do acórdão CSRF 0104.686. CSLL, aplicamse as mesmas conclusões em relação ao lançamento principal, por decorrerem dos mesmos fatos. DECORRÊNCIA CSLL Em se tratando de contribuição que tem por base os mesmos fatos que ditaram o lançamento do imposto de renda, o lançamento para sua cobrança é reflexivo e, assim, a decisão de mérito prolatada no processo principal constitui prejulgado na decisão do processo decorrente. Portanto, cabe manter a exigência da CSLL sobre a glosa da amortização do ágio em comento. Multa qualificada A multa de ofício do lançamento em relação à indevida amortização do ágio, foi qualificada, sob o argumento de fraude, e consequentemente alçada ao percentual de 150%. A Recorrente aduz que o Auto de Infração aplicou a multa majorada de 150% indevidamente, já que em momento algum se demonstrou a prática de atos fraudulentos pela Fl. 3172DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 24 45 Recorrente; pelo contrário, todos os atos foram praticados às claras e foram inclusive chancelados no passado pelo Fisco. Os fatos que conduzem à aplicação da multa qualificada estão bem delineados, acima, no tópico "DO PROPÓSITO NEGOCIAL DA ABCD. Empresa de passagem." também sintetizados no Termo de Verificação Fiscal (fls.342/343) parte integrante do Auto de Infração, vejamos: Especial atenção deve ser dedicada ao que dispõe o §1 ° do art. 44 da Lei n° 9.430/96, acima transcrito. Nele citado, o art. 72 da Lei n° 4.502/64 assim define fraude: "Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento" O procedimento adotado pelo fiscalizado está compreendido na hipótese prevista na norma acima. Não cabe à companhia invocar desconhecimento ou prática de erro escusável: nem quando foi criado o ágio na contabilidade do fiscalizado, nem quando ele começou a ser amortizado, nem em qualquer outro momento anterior ou posterior. A fiscalizada estava perfeitamente consciente da falta de propósito negocial das operações societárias em pauta e do intuito único de evitar o pagamento dos tributos devidos, e evidencia essa condição ao descrever as etapas do planejamento tributário abusivo, descrito no documento "histórico ágio ABCD. doe" (fls. 40 a 42 do PAF N° 16643.000425/201073), na verdade, reproduzindo o que já consta claramente dos documentos que amparam as operações societárias (Atas, alterações do contrato social, Protocolo de Incorporação),como se extrai do subitem 1.3 do item Justificação do Protocolo de Incorporação e Instrumento de Justificação entre Terra Networks Brasil SA e ABCD 0011 Participações Ltda. (fl. 274 do PAF N° 16643.000425/201073), que afirma: "1.3 Considerando que ABCD é detentora do ágio relativo ao investimento na TERRA, o qual poderá ser aproveitado fiscalmente pela TERRA após a incorporação da ABCD, nos termos da legislação em vigor;" (grifo meu) A multa prevista no art. 44, inciso 1, da Lei n° 9.430/96 é cabível nos casos de "falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata". Não há como olvidar se de que o caso concreto envolve um conjunto de atos muito distintos do que a mera falta de pagamento ou de declaração. Não há como equiparar a hipótese de omissão do contribuinte ao não efetuar o pagamento ou a declaração ou fazer a declaração de forma inexata, sem o devido zelo com a postura notoriamente proativa da Terra Networks Brasil SA e do grupo Telefônica que a controla, que promoveu a criação de uma Fl. 3173DF CARF MF 46 empresa veículo (ABCD 0011) por meio das advogadas Sra. Maria Cristina Cescon Avedissian e Sra. In Hee Choa (conforme já explicado anteriormente), adquiriu suas quotas por R$ 100,00 para em seguida subscrever novas quotas, subscrevêlas e integralizálas por meio de ações da Terra Networks Brasil SA (exNutec), para depois de dois dias extinguir a empresa veículo (ABCD 0011) por meio da operação de incorporação reversa, fazendo com que a Terra Networks Brasil SA voltasse a ser controlada direta da TIB, após ter passado dois dias como controlada indireta. É evidente que esse conjunto de iniciativas e, sobretudo, ao fato consumado de, intencionalmente, reduzir ou evitar o pagamento do imposto devido nos anoscalendário em pauta, não pode receber a mesma punição prevista para os casos em que o contribuinte tãosomente deixa de realizar o pagamento ou a declaração. Haveria outra forma, essa, sim, lícita, de tornar dedutível o ágio sobre investimento (decorrente da aquisição da Nutec), que seria a efetiva incorporação do fiscalizado pela sua controladora (TIB) ou a incorporação de sua controladora (TIB)pelo fiscalizado, o que veio a ocorrer apenas no ano de 2008, quando o fiscalizado já tinha deduzido praticamente todo o ágio. Entretanto, o contribuinte optou pela simulação, pela seqüência de atos apenas formais, sem conteúdo econômico ou propósito negocial, com intuito único de evitar o pagamento dos tributos devidos, o que configura abuso de forma, simulação e fraude. Pelo exposto, fica patente a caracterização do intuito fraudulento, justificandose plenamente a aplicação da multa qualificada. Nesse contexto, portanto, foi utilizada a empresa ABCD0011. Após ter sido adquirida pelo Grupo TELEFÓNICA no dia 27/12/2000 com capital social de R$ 100,00, nesse mesmo dia ela recebeu, a título de aumento de capital, todas as ações da TERRA antes detidas pela TIB. Em face dessa operação, a ABCD registrou o ágio que fora originalmente pago pela TIB. Por fim, em 29/12/2000 (dois dias depois), a ABCD elabora o laudo que justifica o fundamento econômico do ágio registrado na rentabilidade futura da TERRA, é incorporada pela recorrente, e, nos termos da Lei nº 9.532/1997 (pelo menos de forma aparente), absorve o ágio e passa a ter o direito de deduzilo, haja vista que incorporou a “adquirente” de suas ações. A fiscalização destaca que, a empresa ABCD0011 foi adquirida pelo grupo TELEFÓNICA com o único propósito de servir de canal de passagem de um patrimônio, sem que tivesse efetivamente outra função dentro do contexto, com o intuito de economia tributária indevida reduzindo o pagamento de tributos, sem nenhuma fundamentação econômica. Como se vê, nessa reorganização societária, a " ABCD0011" figura como interposta pessoa, servindo de "empresa passagem" para a autuada com propósito de geração do ágio para o subsequente aproveitamento e como resultado reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, por ocasião da amortização do referido ágio. Em suma, do exame do conjunto das diversas etapas da operação, constato que a finalidade econômica da incorporação realizada pela interessada restou desfigurada, distorcida, ainda que tenha sido observada a legislação societária. Fl. 3174DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 25 47 Constatase, com nitidez, a construção artificial do suporte fático, para que se pudesse amoldar à hipótese de incidência de despesa de amortização do ágio. Movimentações em datas próximas, utilização de empresas sem nenhuma substância, com o deliberado intuito de fabricar uma despesa com repercussão na base tributável do IRPJ e da CSLL. De fato, não há como aceitar que a amortização do ágio interno, fabricado com emprego de empresaveículo possa reduzir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Da análise dos fatos e documentos trazidos aos autos, denotase que cada etapa planejada visou tão somente a geração do ágio fictício. Foram promovidas operações sequencialmente planejadas cujo único objetivo era o de escapar da regular carga tributária. No caso sob exame, não há causa econômica a não ser a economia fiscal para o aproveitamento de ágio criado dentro do mesmo grupo societário e através de empresaveículo. Tampouco há essência econômica na operação em que a fiscalizada incorpora a empresa veículo "ABCD0011" para absorver o ágio de si mesma. O artifício engendrado carrega subjacentemente a intenção de realizar supostos negócios entre as mesmas pessoas, artifícios estes que não podem produzir os efeitos fiscais planejados. Fica, assim, clara, a intenção de lesar o Fisco. As operações realizadas não podem legitimar consequências tributárias, visto que são procedimentos legais apenas no seu aspecto formal, mas ilícitas na medida em que objetivaram unicamente reduzir a carga tributária a que estava sujeita a fiscalizada. Não merece reparo à decisão de primeira instância ao concluir que: No caso presente, o negócio formal realizado compôsse de duas operações societárias, a subscrição das ações da impugnante com ágio na empresa ABCD e, dois dias após, a incorporação desta pela própria impugnante. Entendo que a circunstância qualificadora está demonstrada nos autos, porque não se vislumbra propósito negocial na constituição da ABCD a não ser o de servir de “veículo” para permitir a transferência do ágio contabilizado na real investidora TIB e, posteriormente, com a sua incorporação, a autorização da amortização desse ágio pela própria investida TERRA, sem que nenhuma das empresas do grupo (TIB e TERRA) tivessem que ser extintas. Diversamente do quanto sustentado pela defesa, é possível verificar, em uma mesma conduta, a ocorrência tanto de simulação quanto de fraude à lei. Constatandose a utilização da empresa ABCD como empresa veículo de ágio pago na aquisição de investimento, temse configurada a simulação na forma de “pura mentira”, porque, apesar de não se prestar a acobertar um negócio real, o negócio aparente deve ser desconsiderado (ignorado) para fins tributários. A seqüência de atos societários também se enquadra no conceito de fraude à lei, vício que ocorre quando o infrator valese de uma autorização legal sem violar diretamente outra norma, para atingir um resultado que o conjunto das normas proíbe. Fl. 3175DF CARF MF 48 A norma contornada pelo comportamento rejeitado pelo Fisco, nesse caso, foi a que determina a incidência tributária sobre os valores que foram afastados da tributação por conta da dedução indevida. Isso porque o par de eventos “criação e incorporação” da ABCD prestouse a mascarar a indedutibilidade do ágio e a criar artificialmente a hipótese do artigo 386 do RIR. Em conclusão, é acertada a análise fiscal sobre a intenção fraudulenta da impugnante, pois de fato constatase que a impugnante perpetrou um conjunto de simulações com o intuito de fazer crer o Fisco de que a hipótese prevista no artigo 386 do RIR/99 havia ocorrido no mundo dos fatos. Por meio de uma aparente seqüência de operações societárias, o que a impugnante realmente procurou foi uma redução indevida de sua carga tributária, sendo inevitável a aplicação da multa de ofício. A autuada agiu dolosamente de forma que fosse beneficiada com a amortização de ágio gerado artificialmente, resultando na redução indevida do IRPJ e da CSLL no período compreendido de 2007 e 2008. O procedimento adotado pela fiscalizada está compreendido na hipótese de fraude descrita no artigo 72 da Lei 4.502/64, transcrito acima. Para melhor entendimento, transcrevese, a seguir, o art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, com a redação vigente à época da ocorrência dos fatos geradores (com a redação dada pela Lei nº 11.488/2007): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.” [...] Conforme se observa, nos termos do parágrafo 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, só é admitida a aplicação da multa no percentual de 150%, nos casos de evidente intuito de fraude/sonegação, como previsto nos arts.71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que assim dispõem: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente; Fl. 3176DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 26 49 Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. A multa de ofício qualificada, foi aplicada no percentual de 150%, porque a Fiscalização entendeu que a conduta engenhosa do contribuinte, notadamente, pelas operações realizadas sem propósito negocial e o uso de empresaveículo nos atos constitutivos, caracterizam a fraude como definido na Lei nº 4.502, de 1964, art. 72 e necessário à qualificação da multa. Com efeito, a fraude se caracteriza em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à fazenda pública, num propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, ou retardar uma obrigação tributária. Assim, ainda que o conceito de fraude seja amplo, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública, onde, utilizandose de subterfúgios escamoteiase a ocorrência do fato gerador ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento, dificultando o seu conhecimento por parte da autoridade fazendária. Diante disso, é cabível a imposição da multa qualificada de 150%, prevista no artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996, uma vez que o procedimento adotado pelo sujeito passivo enquadrase nas hipóteses definidas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Juros de mora sobre a multa de ofício A Recorrente requer que, caso seja não seja reformada a decisão recorrida, quando da cobrança do crédito tributário constituído, não sejam exigidos juros de mora sobre a multa de ofício lançada, em razão do disposto no artigo 161, do Código Tributário Nacional, conforme já decidido pela I a Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, no julgamento do recurso especial interposto nos autos do processo administrativo n° 10680.002472/200723, realizado na sessão do dia 09/11/2010. Como cediço, os débitos de tributos e contribuições e de multas (penalidades) têm causas diversas. Enquanto os débitos de tributos e contribuições decorrem da prática dos respectivos fatos geradores, as multas decorrem de violações à norma legal, no caso, do suposto não pagamento dos tributos e contribuições nos prazos legais. O artigo 142 do CTN, descreve, na verdade, o fato de que, no mesmo auto de infração, pode ocorrer o lançamento tributário, em que se exige o tributo devido pelo contribuinte, e a aplicação da penalidade pelo fato de este contribuinte ter deixado de recolher o tributo. Portanto reunidos em um único lançamento, e, devidamente discriminados, a cobrança do tributo e a aplicação da multa pela infração, resta constituído o crédito tributário que deve ser exigido com os acréscimos legais (juros de mora). Fl. 3177DF CARF MF 50 Portanto, efetuado o lançamento tributário, de ofício, ou seja, constituído o crédito tributário a sua substância é o pagamento do tributo e da penalidade pecuniária aplicada pelo descumprimento da norma legal, no presente caso, a denominada multa de ofício de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/96. Sobre os juros de mora, o próprio art. 161 do CTN menciona a incidência dos juros sobre o crédito não integralmente pago no vencimento, não podendo ser outro crédito senão àquele constituído nos termos do art.142 do CTN, ou seja, crédito tributário (objeto prestacional, representado em dinheiro) = tributo (não pago) + penalidade aplicada (não paga). Dizer que a penalidade aplicada não integra o montante do crédito tributário não passa de um flagrante equívoco. A exigência dos juros sequer depende de formalização, uma vez que serão devidos sempre que o principal ( tributo ou penalidade) estiver sendo recolhido após o prazo de vencimento, mesmo que não quantificados (os juros) quando da formalização do crédito tributário por meio do lançamento. Apesar disso, há quem argumente que, se do crédito a que se refere o caput do transcrito art. 161 do CTN constasse a multa de ofício, não haveria razão para mencionar nesse mesmo dispositivo “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”. Não é nenhuma novidade dizer que o CTN é recheado de repetições. A verdade é que, não haveria necessidade de novamente constar no mencionado artigo 161 tal comando, porque a partir do lançamento surge o crédito, no entanto com o intuito de afastar os juros de mora outros argumentos poderiam advir no sentido de que tendo sido aplicada a penalidade não seria cabível a aplicação dos juros de mora porque a “penalidade” seria em substituição de outros encargos etc., Ora, a caracterização da mora dáse de direito, e, não depende sequer que o sujeito passivo seja interpelado com o auto de infração. Não sendo o valor devido integralmente pago até o vencimento, o crédito deve ser acrescido de juros de mora. Partilho do entendimento expresso no Parecer MF/SRF/Cosit/Coope/Senog nº 28, de 02 de abril de 1998, segundo o qual, considerando o disposto no art.161 do CTN, é possível concluir que mencionada norma legal autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa em caráter geral, nada impedindo que a lei específica disponha de forma diferente, determinando que os juros de mora devam incidir apenas sobre os tributos e as contribuições. É certo que tivemos no passado dispositivos legais (art. 59 da Lei nº 8.383/91 e art.84 da Lei nº 8981/95) que deixaram dúvidas quanto a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício aplicada. A interpretação literal decorrente da mencionada legislação era no sentido de que pela redação das leis mencionadas os juros deveriam incidir apenas sobre os tributos e contribuições, não autorizando, pois, a exigência dos juros de mora sobre outros débitos sem a natureza jurídica de tributo. No entanto, com a edição da Lei nº 9.430/96, é possível mudar de paradigma para concluir que, com apoio no artigo 61 e seu § 3º, restou explícito ser cabível a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício, a partir do vencimento da penalidade, cujos fatos geradores (descumprimento da norma legal) ocorrerem a partir de 01/01/1997, vejamos: Fl. 3178DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 27 51 Art.61.Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. ... §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Lei nº 9.716, de 1998) (Grifei) Sobre o vencimento da multa de ofício lançada, depreendese dos autos de infração que a multa de ofício tem prazo para pagamento, qual seja, trinta dias após a ciência do lançamento pelo sujeito passivo. Ora, se os juros moratórios a que se refere o § 3º do art. 61, da Lei nº 9.430/96, somente se aplicam sobre débitos com prazo de vencimento, inferese que incidem sobre a multa de ofício não paga no prazo de trinta dias após a ciência do lançamento pelo autuado. O artigo 43 da lei nº 9.430/96 ao tratar do auto de infração sem tributo (crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente) prevê a incidência de juros de mora calculados à taxa Selic sobre o crédito tributário formalizado, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento, o que demonstra claramente a imbricação com o art.161 do CTN e com o artigo 61, § 3º da mesma Lei nº 9.430/96, desnecessário seria repetir que nos casos da multa de ofício de que trata o artigo 44 da mesma lei também deverão incidir os juros de mora. Feitas as considerações acima e no contexto de uma interpretação sistemática, é forçoso concluir que ao teor do art.161 do CTN, bem como dos artigos 43, parágrafo único, e 61, § 3°, da Lei n° 9.430/96, por se tratar de débitos para com a União, incidem tanto sobre os tributos quanto sobre a multa de oficio, os juros de mora com base na taxa Selic a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do seu pagamento. Sabendose que os juros de mora incidem a partir de vencimentos distintos em relação ao vencimento do tributo e ao vencimento da multa lançada de ofício (30 dias após a ciência do lançamento). Antes do lançamento não há falar em juros de mora sobre a multa de ofício. Os juros de mora incidentes sobre as multas pecuniárias proporcionais, aplicadas de ofício, terão como termo inicial de contagem o mês seguinte ao do vencimento do prazo fixado na intimação do auto de infração ou de notificação de lançamento, conforme fixado na Portaria MF nº 370 de 231288, verbis: I Os juros de mora incidentes sobre as multas pecuárias proporcionais, aplicadas de ofício, terão como termo inicial de contagem o mês seguinte ao do vencimento do prazo fixado na Fl. 3179DF CARF MF 52 intimação do auto de infração ou da notificação de lançamento e serão calculados, à razão de 1% (um por cento) ao mês calendário ou fração, sobre o valor corrigido monetariamente. II. Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação Nesse sentido trazse à lume excerto do voto do Desembargador Dirceu de Almeida Soares quando do julgamento, pela 2a. Turma do TRF4, da AC 2005.72.01.000031 1/SC, em 2006 (Leandro Paulsen, Direito Tributário, 9ª ed., Livraria do Advogado, pág. 1028), ipsis litteris: “...tanto a multa quanto ao tributo são aplicáveis os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. E não poderia ser diferente, porquanto ambos compõe o crédito tributário e devem sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Não haveria porque o valor relativo à multa permanecer congelado no tempo. Tampouco há falar em violação da estrita legalidade ...O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa, que pode, inclusive, ser lançada isoladamente.” Com efeito, é legitima a exigência de juros de mora tanto sobre os débitos lançados como da respectiva multa de ofício, não pagos no vencimento, calculados pela taxa Selic a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao dos respectivos vencimentos dos prazos até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento, conforme determinação legal expressa. Para sedimentar as considerações feitas no presente voto, trazse à colação o entendimento expresso nos seguintes Acórdãos da Câmara Superior de Recursos Fiscal desse Egrégio Conselho Administrativo: ACÓRDÃO nº CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007: JUROS DE MORA – MULTA DE OFÍCIO – OBRIGAÇÃO PRINCIPAL – A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. ACÓRDÃO nº 9101002.5011ª Turma, julgado em 12/12/2016 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2002 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. LANÇAMENTO REFLEXO – CSLL. Decorrendo a exigência da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada a mesma decisão Fl. 3180DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 28 53 proferida para o imposto de renda, na medida em que não há fatos ou argumentos novos a ensejar conclusão diversa. A Recorrente requer que todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados do DRA. RAQUEL NOVAIS, com escritório à Av. Brigadeiro Faria Lima, n° 3.144, 11°andar, 01451000, São Paulo, SP, enviando de tudo cópia à Recorrente no endereço constante dos autos. Sobre o assunto, a Súmula CARF nº 9, é suficiente para o indeferimento do pleito, vejamos: Súmula CARF nº 9: É válida a ciência da notificação por via postal realizada no domicílio fiscal eleito pelo contribuinte, confirmada com a assinatura do recebedor da correspondência, ainda que este não seja o representante legal do destinatário. O domicílio fiscal da pessoa jurídica é o constante do Cadastro da Pessoa Jurídica. Assim, razão não há para que as intimações sejam encaminhadas para outros endereços que não seja o domicílio fiscal eleito pelo contribuinte indicado no CNPJ. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 3181DF CARF MF 54 Voto Vencedor Conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Redator designado. Multa qualificada. Com a devida vênia da i. relatora, as operações realizadas pela autuada e que levaram o fisco à glosa da amortização do ágio não podem, no caso dos autos, dar ensejo à qualificação da multa de ofício. Pelo que se verifica do contido nos autos, não restou caracterizada uma situação de simulação ou fraude por parte da recorrente. O que se percebe é uma interpretação equivocada do real alcance das normas tributárias que disciplinam a amortização do ágio nas reorganizações societárias. Não é possível afirmar que o processo de reorganização societária empreendido de nada tenha servido aos objetivos empresariais da recorrente. Também, há que se considerar toda a gama de interpretações divergentes acerca dos limites para a dedução do ágio nas aquisições de investimentos por parte das empresas ao se estipular a penalidade decorrente da glosa das amortizações que não se amoldam ao texto legal. Ao tempo da reorganização societária que deu ensejo ao lançamento de que tratam os autos, a recorrente fazia interpretação das normas aplicáveis de forma diversa da que veio a prevalecer posteriormente. No recurso foi alegado: 241. A controvérsia aqui reside em mera divergência quanto à interpretação das normas aplicáveis, já que o procedimento adotado pela Recorrente era aceito pelas autoridades fiscais e corroborado pela jurisprudência do CARF à época dos fatos. Além disso, a Recorrente sempre atendeu a todas as intimações que as autoridades fiscais lhe dirigiram, dando publicidade de todos os atos praticados. Relativamente a essa alegação, trouxe a recorrente a jurisprudência administrativa abaixo transcrita: "MULTA QUALIFICADA EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE INEXISTÊNCIA IMPROCEDÊNCIA Nos chamados "planejamentos tributários", constituídos de atos devidamente registrados, feitos às claras e cumpridas todas as obrigações acessórias, quando é dado ao fisco conhecer, sem dificuldade alguma, toda a extensão dos negócios engendrados, não cabe a qualificação da penalidade, quando não provada presença de alguma das figuras delituosas." (ACÓRDÃO 10709.169, Relator Luiz Martins) Ante ao exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso, para reduzir o percentual da multa de ofício aplicada de 150% para 75%. (assinado digitalmente) Paulo Cezar Fernandes de Aguiar Fl. 3182DF CARF MF Processo nº 16561.720205/201231 Acórdão n.º 1201002.169 S1C2T1 Fl. 29 55 Fl. 3183DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.013104/2006-12
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 30/04/2001
MULTA DE MORA ISOLADA. DECADÊNCIA. QUINQUÊNIO. CONTAGEM. INOCORRÊNCIA.
A contagem do prazo quinquenal decadencial de que a Fazenda Pública dispõe para a constituição de crédito tributário referente à multa de mora incidente sobre débito fiscal pago a destempo, deve ser feita a partir do 1º dia do exercício seguinte àquele em o lançamento poderia ter sido efetuado.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9303-006.370
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 30/04/2001 MULTA DE MORA ISOLADA. DECADÊNCIA. QUINQUÊNIO. CONTAGEM. INOCORRÊNCIA. A contagem do prazo quinquenal decadencial de que a Fazenda Pública dispõe para a constituição de crédito tributário referente à multa de mora incidente sobre débito fiscal pago a destempo, deve ser feita a partir do 1º dia do exercício seguinte àquele em o lançamento poderia ter sido efetuado. Recurso Especial do Procurador Provido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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DECADÊNCIA. QUINQUÊNIO. CONTAGEM. INOCORRÊNCIA. A contagem do prazo quinquenal decadencial de que a Fazenda Pública dispõe para a constituição de crédito tributário referente à multa de mora incidente sobre débito fiscal pago a destempo, deve ser feita a partir do 1º dia do exercício seguinte àquele em o lançamento poderia ter sido efetuado. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 380300.119, de 14/09/2009, proferido pela extinta 3ª Turma Especial da 3ª Câmara da Terceira Seção do CARF, conforme ementa transcrita abaixo: AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 01 31 04 /2 00 6- 12 Fl. 293DF CARF MF Processo nº 10380.013104/200612 Acórdão n.º 9303006.370 CSRFT3 Fl. 294 2 "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/12/2000 NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO DECADÊNCIA O lançamento de oficio da multa de mora não recolhida com o principal, em procedimento de revisão do lançamento por homologação só pode ser iniciado se não extinto o direito da Fazenda de homologar o pagamento antecipado efetuado pelo contribuinte, que ocorre com o decurso de 5 (cinco) anos a contar do fato gerador, nos termos do artigo 150, § 4°, do Código Tributário Nacional. Recurso Voluntário Provido." Intimada do referido acórdão, a Fazenda Nacional apresentou o recurso especial às fls. 237e/251e, questionando a contagem do prazo decadencial quinquenal, nos termos do § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN), defendendo a contagem, nos termos do inciso I do art. 173, sob o argumento de que o primeiro dispositivo se aplica somente a tributos sujeitos a lançamento por homologação e não a penalidades, como no presente caso. Por meio do Despacho de Exame de Admissibilidade às fls. 257e/259e, o Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF deu seguimento àquele recurso especial. Intimado do acórdão, do recurso especial da Fazenda Nacional e do despacho de sua admissibilidade, o contribuinte apresentou as contrrazzões às fls. 264e/282e, solicitando a manutenção da decisão recorrida, alegando, em síntese, que, no caso de penalidade aplicada a tributo sujeito a lançamento por homologação, o prazo decadencial de que a Fazenda Pública dispõe para a constituição do respectivo crédito tributário decai juntamente com o tributo homologado, expressa ou tacitamente. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O recurso apresentado atende ao pressuposto de admissibilidade e deve ser conhecido. O acórdão recorrido deu provimento ao recurso voluntário do contribuinte para reconhecer a decadência do direito de a Fazenda Nacional constituir o crédito tributário referente à multa de mora incidente sobre o valor da Cofins do mês de dezembro de 2000, vencido em 15/01/2001 e pago em 30/4/2001, sem o acréscimo da multa de mora, nos termos do § 4º do art. 150 do CTN. A Fazenda Nacional discordou dessa decisão, suscitando divergência, quanto à data de início da contagem do prazo decadencial quinquenal, alegando que o quinquênio deve ser contado nos termos do inciso I do art. 173 daquele mesmo Código. Fl. 294DF CARF MF Processo nº 10380.013104/200612 Acórdão n.º 9303006.370 CSRFT3 Fl. 295 3 A decadência do direito de a Fazenda Pública constituir crédito tributário está prevista no CTN, arts. 150, § 4º e art. 173, inciso I. O disposto no art. 150, § 4º, aplicase exclusivamente aos créditos tributários decorrentes de tributos sujeitos a lançamento por homologação. Já o disposto no art. 173, inciso I, aplicase aos créditos tributários em geral, inclusive, aos decorrentes de penalidades por descumprimento de obrigações tributárias. Assim, ao contrário do entendimento do Colegiado da Câmara baixa e do próprio contribuinte, o prazo decadencial quinquenal, para a constituição de crédito tributário decorrente de penalidade aplicada por descumprimento da obrigação tributária, deve ser contado nos termos do inciso I do art. 173 do CTN, que assim dispõe: "Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; (...)." No presente caso, embora o débito tributário pago a destempo tenha vencido em 15/01/2001, a Fazenda Nacional não poderia efetuar o lançamento do crédito tributário decorrente da penalidade antes da data em que foi efetivamente pago, em 30/04/2001, conforme consta dos autos. Assim, somente a partir da data daquele recolhimento, é que a Fazenda Nacional tomou conhecimento de que a multa de mora devida, em decorrência do pagamento a destempo, não fora recolhida juntamente com o principal. Até então, não havia como efetuar o lançamento pelo simples fato de que a infração ao art. 61 da Lei nº 9.430/1996 não havia se materializado. Portanto, não há que se falar em decadência do direito de a Fazenda Nacional constituir o crédito tributário em discussão. Ressaltese ainda que, em relação ao IRPJ e à CSLL recolhidos por estimativa, o Pleno do CARF já editou súmula para que a contagem do prazo decadencial quinquenal do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário referente à multa isolada por falta e/ ou insuficiência do recolhimento, determinado que o quinquênio deve ser contado nos termos do inciso I do art 173 do CTN, conforme a Súmula nº 104, in verbis: "Súmula CARF nº 104: Lançamento de multa isolada por falta ou insuficiência de recolhimento de estimativa de IRPJ ou de CSLL submetese ao prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN." Ante o exposto, voto por dar provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 295DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.727299/2009-60
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed May 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2004, 2005, 2006
DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA SALARIAL.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte.
Numero da decisão: 9202-006.357
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes, Patrícia da Silva e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10580.726609/2009-29, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(Assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
EDITADO EM: 05/05/2018
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2004, 2005, 2006 DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA SALARIAL. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte.
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NATUREZA SALARIAL. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes, Patrícia da Silva e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10580.726609/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator EDITADO EM: 05/05/2018 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 72 99 /2 00 9- 60 Fl. 327DF CARF MF 2 Relatório Tratase de lançamento, conforme Auto de Infração, para cobrança de Imposto de Renda de Pessoa Física, constituído em razão de ter sido apurada classificação indevida de rendimentos tributáveis na Declaração de Ajuste Anual como sendo rendimentos isentos e não tributáveis. Os rendimentos foram recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em decorrência da Lei Estadual da Bahia nº 8.730, de 08 de setembro de 2003. O acórdão recorrido manifestou o entendimento de que referida verba tem natureza tributável. Consoante despacho de exame de admissibilidade proferido pelo Presidente da 1ª Câmara da 2ª Seção do CARF, o recurso especial de divergência interposto pelo sujeito passivo, em face do acórdão recorrido, obteve seguimento parcial para que a divergência relacionada à natureza indenizatória da URV fosse apreciada pela Câmara Superior de Recursos Fiscais. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, pugnando pela manutenção do acórdão recorrido, por seus próprios e jurídicos fundamentos. É o relatório. Voto Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.334, de 29/01/2018, proferido no julgamento do processo 10580.726609/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor dos votos proferidos naquela decisão (Acórdão 9202006.334): Voto Vencido Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pelo Contribuinte é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de processo de Autuação, conforme Auto de Infração, para cobrança de Imposto de Renda de Pessoa Física, exercícios de 2005, 2006 e 2007, para exigência de crédito tributário no valor de R$ 178.526,73, incluída a multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e juros de mora, constituído em razão de ter sido apurada classificação indevida de rendimentos tributáveis na Declaração de Ajuste Anual como sendo rendimentos isentos e não tributáveis. Os rendimentos foram recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Estadual da Bahia nº 8.730, de 08 de setembro de 2003. Fl. 328DF CARF MF Processo nº 10580.727299/200960 Acórdão n.º 9202006.357 CSRFT2 Fl. 3 3 O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial apresentado pelo Contribuinte trouxe para análise a divergência jurisprudencial em relação à definição da natureza da verba URV. IMPOSTO SOBRE A RENDA E INDENIZAÇÕES Pois bem, como dito a problemática consiste na questão da natureza atribuída a verba recebida pelo contribuinte, e para melhor deslinde da questão mister se faz analisar o enquadramento das indenizações perante a legislação do imposto sobre a renda. A interpretação dada pela Fazenda Nacional é a de que na medida em que a legislação federal, prevê expressamente a isenção ou nãotributação de certas verbas indenizatórias (como as contempladas nos incisos IV e V do artigo 6° da Lei federal n. 7.713/88 ), então só estariam excluídas da incidência estas verbas; e por consequência, todas as demais verbas de caráter indenizatório não expressamente contempladas estariam sujeitas à tributação pelo imposto sobre a renda. Para os doutrinadores esta afirmação é incompatível com os dispositivos constitucionais e também as disposições do Código Tributário Nacional. Para Aliomar Baleeiro, " a renda se destaca da fonte sem empobrecêla", e Marco Aurélio Greco complementa: "indenizar é tornar" sem dano" aquele patrimônio; não é acrescêlo, é recompôlo ao que era antes do evento. Portanto, nestes casos, a indenização não é produto do capital e/ou do trabalho, nem acréscimo patrimonial, razão pela. qual está fora do âmbito de incidência do imposto sobre a renda". Isto significa que o fato de não haver na legislação federal regra expressa prevendo a não incidência de determinada indenização (com o perfil acima) não implica na sua tributação. Ao contrário, não há necessidade de regra neste sentido, pela singela razão de esta indenização não estar alcançada pela norma constitucional (art. 153, Ill). Por definição, está fora do âmbito material de incidência; logo, não precisa haver previsão neste sentido e as que existirem terão caráter explicitador, por vezes, resultantes de dúvidas surgidas quanto à natureza jurídica de determinada verba. O jurista citado ainda ensina que, "indenização que implique recomposição de patrimônio passado economicamente identificável (ou seja, sem haver acréscimo patrimonial), não configura hipótese de incidência do imposto sobre a renda. A verba paga é evento do mundo dos fatos que pode receber mais de uma qualificação jurídica a depender das circunstâncias que a cercam". A questão primordial a ser debatida aqui é saber a quem cabe afirmar a natureza jurídica de determinada verba para fins de enquadramento na legislação do imposto sobre a renda. Três situações podem ser identificadas: a) partes privadas (contratualmente ou por outro instrumento) qualificam determinada verba como de caráter indenizatório; b) o Poder Judiciário, no bojo da prestação jurisdicional, qualifica a verba como indenizatória; e c) a Lei qualifica a verba como indenizatória. Na medida em que a natureza jurídica é que determina a incidência ou não do imposto sobre a renda, importante compreender em quais hipóteses o Fisco Federal pode Fl. 329DF CARF MF 4 recusar a qualificação oriunda de qualquer das situações acima e afirmar a natureza não indenizatória da verba, de modo a deflagrar a incidência das regras do imposto. A terceira hipótese é a que nos importa no caso em tela, uma vez que o contribuinte em questão teve a natureza de sua verba declarada como indenizatória por meio de Lei Estadual. É de se destacar o fato de a qualificação indenizatória dada a verba foi editada pelo legislador através de uma lei específica. Toda lei goza de presunção de constitucionalidade. Caso se tratasse de uma lei federal, o Fisco também federal, não teria competência para afastar sua aplicabilidade, pois não lhe é dado substituirse ao legislador, nem tem competência para declarar a inconstitucionalidade de uma norma. Tratandose de lei estadual abrese o debate, pois a qualificação jurídica por ela veiculada tem o efeito de atribuir ao fato subjacente uma qualidade que por decorrência e em função do caráter de Direito de superposição de que se reveste o Direito Tributário repercute na aplicação da lei tributária federal, ao afastála no caso de indenizações (que não impliquem acréscimo patrimonial). Daí a pergunta, que responde toda a problemática aqui veiculada: pode a lei estadual interferir com a interpretação e aplicação da lei tributária federal? Embora pareça questão de fácil resolução, e a resposta pareça ser a simples alegação realizada pelo Fisco, de que não cabe a Lei estadual interferir nas hipóteses de incidência (fato gerador) de tributo federal, penso que a questão envolve outros institutos jurídicos e concepções tributárias. Para alguns juristas, nos quais novamente cito Marco Aurélio Greco, a pergunta envolve um falso problema. Pois a questão efetiva não é esta, obviamente os Estados não têm competência para legislar sobre imposto sobre a renda. A questão legítima aqui discutida é, se o Fisco Federal pode afastar a qualificação jurídica de determinada verba que tenha sido atribuída por lei estadual válida no ordenamento jurídico. E aqui neste ponto, sem dúvida a resposta é não, por força da presunção de constitucionalidade de que se reveste toda lei. Portanto, enquanto subsistir o preceito normativo, o Fisco federal não possui competência para afastar a qualificação jurídica ali contida. Para afastála é preciso, previamente, buscar a declaração da sua inconstitucionalidade, o que não pode ser realizado pelo Poder Executivo, sem a chancela do Poder Judiciário. Ainda que a alegação do fisco fosse de que o preceito nela contido é manifestamente inconstitucional, por dispor sobre matéria que não cabe ao Estado regular ou se seu conteúdo contiver disciplina inequivocamente conflitante com o ordenamento, a ponto de configurar aquilo que a jurisprudência denomina de "ato teratológico", não é o que ocorre no caso em tela, pois a disposição sobre a verba submetida ao regime estatutário é de plena competência do ente estadual. Assim, não há que se falar que a Lei Complementar n. 20/2003 ou a Lei n. 8.730/2003, possua qualificação jurídica teratológica que possa afastar de plano sua aplicabilidade. Assim, além da presunção de constitucionalidade de que se revestem as leis em referência, elas dispõem sobre matéria que compete aos Estados regular, por dizer respeito ao funcionamento das respectivas Instituições. Portanto, não é estranho que seja a lei a reconhecer a natureza jurídica de determinada verba, à luz do contexto do respectivo regime estatutário, conforme previsão expressa do § 11 do artigo 37, CF, que é explícito ao prever que: Fl. 330DF CARF MF Processo nº 10580.727299/200960 Acórdão n.º 9202006.357 CSRFT2 Fl. 4 5 “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (...) XI a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da administração direta, autárquica e fundacional, dos membros de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, dos detentores de mandato eletivo e dos demais agentes políticos e os proventos, pensões ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aplicandose como limite, nos Municípios, o subsídio do Prefeito, e nos Estados e no Distrito Federal, o subsídio mensal do Governador no âmbito do Poder Executivo, o subsídio dos Deputados Estaduais e Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o subsídio dos Desembargadores do Tribunal de Justiça, limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, no âmbito do Poder Judiciário, aplicável este limite aos membros do Ministério Público, aos Procuradores e aos Defensores Públicos; (...) § 11. Não serão computadas, para efeito dos limites remuneratórios de que trata o inciso XI do caput deste artigo, as parcelas de caráter indenizatório previstas em lei." (grifo nosso) Ou seja, podem existir pagamentos a agentes públicos que tenham caráter indenizatório, desde que as respectivas parcelas estejam previstas em lei. Ora, se tais parcelas podem existir, a própria lei também pode afirmar esse caráter, "especialmente" em relação a verba submetida ao regime estatutário. Ad argumentandum tantum, ainda há que se salientar que, sendo da competência dos Estados definir a natureza de tais verbas, ainda é também de sua competência a responsabilidade pela retenção do imposto na fonte e consequentemente é de sua titularidade o direito de cobrála. Contudo até o presente momento não vemos no Estado da Bahia nenhuma menção neste sentido. Assevera, Marco Aurélio Grecco, que a CF/88, a titularidade não é sobre o resultado material da atividade de reter, mas é sobre todo aquele imposto que de acordo com a legislação pertinente deva ser submetido ao regime de retenção na fonte. Esta titularidade é atribuída em caráter exclusivo ao Estado o que afasta qualquer interesse ou pretensão por parte da União. Vale dizer, se determinada verba, pela sua natureza, deve submeterse à retenção, o simples fato de esta ser a respectiva qualificação, afasta por si só a titularidade da União. Ou seja, a União não tem titularidade sobre a parcela do imposto sobre a renda na fonte que incidir (juridicamente) na fonte. A circunstância de haver ou não no plano fático a retenção não modifica esta qualificação jurídica da titularidade sobre esse montante, posto que a qualificação advém diretamente da CF/88 e a eventual inação do Estado em reter não configura transferência de titularidade à União; nem doação a seu favor de verba que pertence ao Estado, Daí a conclusão de que, em relação ao imposto incidente na fonte, a relação jurídica que se instaura é entre o contribuinte e Estado, diretamente, sem qualquer mediação da União. A União editou a lei que dispõe sobre o tratamento tributário das diversas verbas que o contribuinte pode auferir. Mas, em relação àquelas que, por sua natureza, devam se submeter à retenção na fonte, o respectivo imposto pertence integral e exclusivamente ao Estado. Por fim o julgamento do caso em tela implica na aplicação de princípio basilar do Direito Administrativo, qual seja o respeito a legalidade. Assim, enquanto a Administração Fl. 331DF CARF MF 6 Pública só pode fazer o que está previsto em lei, ao Administrado, no caso em tela Contribuinte, é possível fazer tudo aquilo que não é proibido. Ainda, para Hely Lopes Meirelles: Na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza” (MIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 30. Ed. São Paulo: Malheiros, 2005). A Legalidade é intrínseca a ideia de Estado de Direito, pensamento este que faz que ele próprio se submeta ao direito, fruto de sua criação, portanto esse é o motivo desse princípio ser tão importante, um dos pilares do ordenamento. É na legalidade que cada indivíduo encontra o fundamento das suas prerrogativas, assim como a fonte de seus deveres. A administração não tem fins próprios, mas busca na lei, assim como, em regra não tem liberdade, escrava que é do ordenamento. O Princípio da Legalidade é uma das maiores garantias para os gestores frente o Poder Público. Ele representa total subordinação do Poder Público à previsão legal, visto que, os agentes da Administração Pública devem atuar sempre conforme a lei. Assim, o administrador público não pode, mediante mero ato administrativo, conceder direitos, estabelecer obrigações ou impor proibições aos cidadãos. A criação de um novo tributo, por exemplo, dependerá de lei. Do mesmo modo, a limitação de direitos não poderá ser feita por via de interpretação mais gravosa que aquela propriamente estabelecida na norma. Na fiscalização, o Princípio da Legalidade possui atividade totalmente vinculada, ou seja, a falta de liberdade para a autoridade administrativa. A lei define as condições da atuação dos Agentes Administrativos, determinando as tarefas e impondo condições excludentes de escolhas pessoais ou subjetivas. Por fim, esse princípio é vital para o bom andamento da Administração Pública, sendo que ele coíbe a possibilidade do gestor público agir por conta própria, tendo sua eficácia através da execução jurídica dos atos de improbidade, evitando a falta de vinculação à norma e, principalmente, a corrupção no sistema. Essa preocupação se faz constante para que seja atingido o objetivo maior para o país, o interesse público, através da ordem e da justiça. No caso em tela, entendo que não houve por parte do Estado da Bahia uma intromissão quanto ao tributo federal de competência da União imposto de renda pessoa física. Mas que houve sim, uma natureza indenizatória dada a verbas oriundas do regime estatutário daquele Estado, as quais são de competência exclusiva do mesmo, responsável por gerir e organizar seu Regime Próprio de Trabalho e Previdência. A existência destas leis legitimou o agir do contribuinte, que exerceu direito que lhe foi conferido por lei. Lei esta emitida por Ente participante da Administração Pública, face ao pacto federativo constitucionalmente imposto. Desse modo, por melhor que seja a construção jurídica utilizada pela Receita Federal, afastar a legalidade ou a constitucionalidade de norma válida no ordenamento jurídico prescinde de um conjunto de medidas dispostas na Constituição Federal, as quais não contemplam a possibilidade do Fisco, ou até mesmo do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, negar validade ou aplicabilidade. Observo que o controle de constitucionalidade pode ser realizado de modo preventivo (antes de a lei entrar em vigor) pelo Poder Legislativo ou de modo repressivo (a lei já está em vigência e deve ser expulsa do ordenamento), em regra, no Brasil, é jurisdicional, logo pelo Poder Judiciário na modalidade concentrado ou difuso. Assim resume Zeno Veloso: (...) O controle jurisdicional da constitucionalidade, no Brasil, utiliza o método concentrado, sendo o controle abstrato, em tese, através de ação direta, a ser julgada pelo Supremo Tribunal Federa, tendo por objeto leis e atos normativos federais e estaduais, em confronto com a Constituição Federal, que nos Estadosmembros, compete aos Tribunais de Justiça, Fl. 332DF CARF MF Processo nº 10580.727299/200960 Acórdão n.º 9202006.357 CSRFT2 Fl. 5 7 tendo por objeto leis e atos normativos estaduais e municipais, em face da Constituição estadual. Servimonos, também, do controle difuso, concreto, incidenter tantum, exercido por qualquer órgão, singular ou coletivo, do Poder Judiciário. (VELOSO, Zeno. p. 35) Assim, resta evidente que no caso em apreço, ainda que fosse caso de não aplicar a natureza jurídica dada a verba por lei, esta seria de exclusiva competência do Poder Judiciário, pois por uma questão de competência constitucional, legal e regimental, este Tribunal Administrativo não pode afastar a constitucionalidade de Lei. Ressaltese aqui, a clara diferenciação entre o poder dever dos julgadores no âmbito judicial e administrativo. Enquanto o juiz é dotado de equidade, o conselheiro do Tribunal Administrativo é dotado de obediência ao princípio da legalidade. Contudo, compreendo que a melhor solução da questão não prescinde de Juízos de constitucionalidade, vez que conforme explanado acima, a natureza das verbas percebidas pelo contribuinte foram legitimamente declaradas indenizatórias por força de lei estadual, sendo que conforme previsão constitucional é da competência do Ente Federado responsável pelo Regime estatutário fazêlo, não usurpando assim competência da União para declarar as hipóteses de incidência do imposto de renda pessoa física, a quem coube determinar que o imposto era devido sobre verbas remuneratórias, excluindo as indenizatórias, sem no entanto, ser responsável por determinar quais verbas são de uma natureza ou de outra. Pelo exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte para afastar a incidência do imposto de renda sobre as parcelas pagas a Agentes Públicos Estaduais a Título de Diferença de URV, as quais tem natureza claramente indenizatória. Voto Vencedor Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Redatora Designada Em que pese o brilhantismo e a logicidade do voto da ilustre Relatora, ouso dela divergir, com a máxima vênia, quanto à incidência do imposto de renda sobre o valor recebido a título de diferenças da Unidade Real de Valor (URV). Argumenta o Recorrente, em síntese, a não incidência do imposto de renda sobre a diferença de URV, considerando a natureza indenizatória de tais verbas. A primeira apreciação a ser feita referese à natureza das verbas sob análise. E o segundo ponto a ser analisado é sobre a existência ou não de isenção relativa à URV. Entendo que os valores recebidos pelos contribuintes decorrem da compensação pela falta de correção no valor nominal do salário, oportunamente, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. Não obstante o meu entendimento anteriormente destacado acerca da natureza salarial da diferença de URV, cabe ressaltar que, no caso do Ministério Público da Bahia, foi publicada uma Lei Estadual (LC 20/2003) que dispôs de modo diverso, tratando a verba como indenização. Tendo em vista que o imposto de renda é regido por legislação federal, tal dispositivo não possui efeito tributário para a análise do tributo em questão. Assim, estando a mencionada lei em plena vigência, prestase apenas ao fim por ela almejado, qual seja o pagamento de precatório, de forma especial. Fl. 333DF CARF MF 8 Cabe destacar que a inaplicabilidade da LC 20/2003 não decorre de um juízo de inconstitucionalidade, mas sim de uma interpretação sistemática das normas, em observância do princípio da legalidade, tendo em vista a ausência de lei isentiva, no presente caso. Sobre a aplicação da Resolução do Supremo Tribunal Federal (STF) 245/2002 pugnada pela recorrente, notase que foi conferida natureza jurídica indenizatória ao abono variável concedido à Magistratura Federal e ao Ministério Público da União, não se confundindo com as diferenças decorrentes de URV, ora analisadas. Desse modo, deve ser considerada a natureza salarial das diferenças sob apreciação. Ainda que fosse caracterizada como indenizatória a verba sob análise, ressaltase que a incidência do imposto de renda independe da denominação do rendimento, pois as indenizações não gozam de isenção indistintamente, mas tão somente as previstas em lei específica concessiva de isenção. Havendo, notadamente, acréscimo patrimonial, sob a forma de diferenças de vencimentos recebidos a destempo, resta evidente a incidência do imposto de renda, não havendo lei concessiva de isenção apta a afastar a tributação, nesse caso. Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, negarlhe provimento. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 334DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.003789/2009-25
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004
DECADÊNCIA. APLICAÇÃO DO ART. 150§ 4º DO CTN. FATO GERADOR. CRÉDITO PREVIDENCIÁRIO
Aplica-se a súmula 99 do E. CARF quando houver identificado no relatório fiscal recolhimentos na época dos fatos geradores lançados ou diferenças lançadas. Decadência que se acolhe na forma do art. 150§ 4º do CTN.
PERDA DA ESPONTANEIDADE. PAGAMENTOS EFETUADOS DURANTE A AÇÃO FISCAL
Espontaneidade afastada. Não se considera mais espontâneo os recolhimentos efetuados pelo contribuinte durante a ação fiscal. Possibilidade apenas de apropriação pela autoridade preparadora dos valores efetivamente recolhidos.
CO-RESPONSÁVEIS. APLICAÇÃO DA SÚMULA SÚMULA CARF Nº 88
De acordo com, Súmula Carf nº 88 o relatório de vínculos indicados no lançamento não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa.
Numero da decisão: 2201-004.398
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente a preliminar de decadência do crédito tributário do período de 01 a 08/2004 e, no mérito, também por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para determinar a apropriação, pela autoridade responsável pela administração do tributo, dos valores correspondentes aos débitos lançados que tenham sido recolhidos pelo contribuinte após o início da ação fiscal.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcelo Milton da Silva Risso - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado), Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: MARCELO MILTON DA SILVA RISSO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 DECADÊNCIA. APLICAÇÃO DO ART. 150§ 4º DO CTN. FATO GERADOR. CRÉDITO PREVIDENCIÁRIO Aplica-se a súmula 99 do E. CARF quando houver identificado no relatório fiscal recolhimentos na época dos fatos geradores lançados ou diferenças lançadas. Decadência que se acolhe na forma do art. 150§ 4º do CTN. PERDA DA ESPONTANEIDADE. PAGAMENTOS EFETUADOS DURANTE A AÇÃO FISCAL Espontaneidade afastada. Não se considera mais espontâneo os recolhimentos efetuados pelo contribuinte durante a ação fiscal. Possibilidade apenas de apropriação pela autoridade preparadora dos valores efetivamente recolhidos. CO-RESPONSÁVEIS. APLICAÇÃO DA SÚMULA SÚMULA CARF Nº 88 De acordo com, Súmula Carf nº 88 o relatório de vínculos indicados no lançamento não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa.
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APLICAÇÃO DO ART. 150§ 4º DO CTN. FATO GERADOR. CRÉDITO PREVIDENCIÁRIO Aplicase a súmula 99 do E. CARF quando houver identificado no relatório fiscal recolhimentos na época dos fatos geradores lançados ou diferenças lançadas. Decadência que se acolhe na forma do art. 150§ 4º do CTN. PERDA DA ESPONTANEIDADE. PAGAMENTOS EFETUADOS DURANTE A AÇÃO FISCAL Espontaneidade afastada. Não se considera mais espontâneo os recolhimentos efetuados pelo contribuinte durante a ação fiscal. Possibilidade apenas de apropriação pela autoridade preparadora dos valores efetivamente recolhidos. CORESPONSÁVEIS. APLICAÇÃO DA SÚMULA SÚMULA CARF Nº 88 De acordo com, Súmula Carf nº 88 o relatório de vínculos indicados no lançamento não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 37 89 /2 00 9- 25 Fl. 696DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente a preliminar de decadência do crédito tributário do período de 01 a 08/2004 e, no mérito, também por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para determinar a apropriação, pela autoridade responsável pela administração do tributo, dos valores correspondentes aos débitos lançados que tenham sido recolhidos pelo contribuinte após o início da ação fiscal. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Marcelo Milton da Silva Risso Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado), Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório 1 Tratase de Recurso Voluntário (fls.639/669) interposto pelo contribuinte contra a R. decisão da DRJSPI (fls. 625/634) que julgou improcedente sua Impugnação ao lançamento Auto de Infração — DEBCAD n° 37.233.1033, lavrado em face do contribuinte acima identificado referindose à apuração de valores devidos à título de salário – educação ao FNDE, no período de 31/01/2004 a 31/12/2004 (fls. 479/485 do relatório fiscal) no valor total de R$ 968.735,23 recebido pelo contribuinte em 25/09/2009 (fls. 489). 2 – Adoto inicialmente como complemento ao relatório a narrativa constante do V. Acórdão da DRJ (fls. 625/634) por sua precisão e clareza: Fl. 697DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 697 3 Fl. 698DF CARF MF 4 Fl. 699DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 698 5 Fl. 700DF CARF MF 6 3 A decisão da DRJSP I julgou improcedente a Impugnação do contribuinte, conforme decisão ementada abaixo: Fl. 701DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 699 7 4 Cientificados da decisão de piso (fls. 637) em 09/06/2010, o contribuinte interpôs recurso voluntário às fls. (639/669) protocolizado em 06/07/2010 mantendo praticamente os mesmos argumentos da impugnação e ao final requer o provimento do recurso com o cancelamento do auto de infração. 5 Em sessão de 04/07/2017 essa C. Turma em Resolução às fls. 310/313 converteu o julgamento em diligência devido à falhas na digitalização do processo correto pela autoridade preparadora. Houve o cumprimento da diligência com a digitalização sequencial do PAF ora em julgamento. 6 É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Marcelo Milton da Silva Risso Relator Fl. 702DF CARF MF 8 6 – O recurso às fls.486/517 que se encontram nos autos do PAF principal nº 19515.003783/200958 é tempestivo (ao contrário do certificado às fls. 585 dos autos principais) e atende os demais requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço em face da decisão da DRJ que se encontra nesses autos às fls. 291/300. Da Decadência 7 – Alega o contribuinte que foi intimado da lavratura do auto de infração em 25/09/2009 referente aos débitos de apuração do período de 01/2004 a 12/2004 alegando que deve ser reconhecida a decadência de parte do período na forma do artigo 150, § 4º do CTN. A DRJ por sua vez entende ser aplicável as disposições do artigo 173, I do CTN por ser lançamento de ofício. 8 – Entendo que deve ser reconhecido parte da decadência do crédito tributário na forma do artigo 150, § 4º do CTN e súmula CARF nº 99 deste E. CARF: Súmula CARF nº 99: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. 9 – Afasto a aplicação do artigo 173, I do CTN aplicado pela decisão da DRJ uma vez que não houve apuração de dolo, fraude ou simulação e houve o reconhecimento por parte da fiscalização de pagamentos antecipados lançados em GFIP, posto que a fiscalização lançou parte dos créditos previdenciários sobre diferenças apuradas conforme planilhas juntadas às fls. 329/338. Fl. 703DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 700 9 10 – Indico como forma parte da fundamentação sobre a matéria trechos da declaração de voto do I. Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira no AC. 2201003.593 j. 09/05/2017 dessa C. Turma, verbis: “Inegável que o marco temporal inciador do prazo para que a Adminstração Tributária inicie a verificação da correção do procedimento adotado pelo sujeito passivo, e se for o caso, constitua seu direito de crédito, é a data de ocorrência do fato gerador do tributo. Assim, necessário perquirir em qual data ocorre o fato gerador tributário. A Lei de Custeio, Lei nº 8.212/91, esclarece a questão em seu artigo 22, inciso I: ‘Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa. ‘ (negritei) Sabedores que a base de cálculo das contribuições previdenciárias, o chamado salário de contribuição, é o total das remunerações pagas devidas ou creditadas pela empresa, podemos – com segurança – inferir que o período de apuração do fato gerador das contribuições previdenciárias incidentes sobre a folha de pagamento se encerra no último dia do mês, consubstanciando o chamado fato gerador com ocorrência mensal, por expressa disposição de lei tributária. Fl. 704DF CARF MF 10 Ao transportarmos a dicção da Lei de Custeio para o caso em concreto, observaremos que o valor pago pela empresa no mês de fevereiro de 2009, a título de PLR, integra os fatos geradores de tal competência. Enfim, existindo a comprovação do pagamento de contribuições previdenciárias relativas à competência fevereiro de 2009, o prazo legal para que o Fisco constituísse eventual crédito relativo a fato gerador ocorrido nesse mês expira em 5 anos a contar dessa data, ou seja, em fevereiro de 2014, posto que não foi comprovada a ocorrência de fraude, dolo ou simulação.” 11 Dessa forma reconheço a decadência dos créditos tributários cujos fatos geradores foram lançados de 01/2004 a 08/2004, dando parcial provimento ao recurso do contribuinte nessa parte. Recolhimentos anteriores à MP 449 não reconhecidos durante a ação fiscal 12 – O contribuinte efetuou vários recolhimentos durante a ação fiscal no qual a autoridade lançadora não os considerou para qualquer efeito após a abertura da fiscalização, em vista da perda da espontaneidade. 13 – A meu ver, correta a decisão da DRJ quanto a esse ponto e o lançamento, na medida em que após a edição da MP 449/08 transformada na lei 11.941/09 o contribuinte teria perdido a espontaneidade e dessa forma apenas para fins de se evitar o locupletamento ilícito por parte do Estado, agiu bem a r. decisão vergastada em ressalvar na decisão para que a autoridade preparadora faça o cotejo e apropriação no momento do trânsito em julgado do real valor a ser pago pelo contribuinte sobre o principal, sendo que a multa deve ser mantida. 14 – Abaixo trechos do voto da DRJ que adoto como razões de decidir às fls. 631: Fl. 705DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 701 11 15 – E continua às fls. 634: Fl. 706DF CARF MF 12 16 Pelo exposto, voto no sentido de se manter a r. decisão da DRJ para que haja a apropriação dos valores efetivamente recolhidos pelo contribuinte durante a ação fiscal a serem apropriados pela autoridade preparadora quando do trânsito em julgado, mantendo a perda da espontaneidade do contribuinte. Da incorreta identificação dos responsáveis pelo pagamento do crédito 17 – Quanto a esse questionamento a indicação do relatório de vínculos de fls. 338, apesar de não ter sido objeto de julgamento pela DRJ passo a tecer comentários a respeito por ser matéria eminentemente de direito e já sumulada no âmbito deste E. CARF. 18 – Aplicável ao caso os termos da Súmula 88 do E. CARF: Súmula CARF nº 88: A Relação de CoResponsáveis CORESP”, o “Relatório de Representantes Legais – RepLeg” e a “Relação de Vínculos – VÍNCULOS”, anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. 19 – Portanto, nesse ponto, afasto o questionamento do contribuinte mantendo a lisura do trabalho fiscal. Conclusão 20 Diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer do recurso voluntário e provêlo parcialmente para reconhecer a decadência do crédito tributário do Fl. 707DF CARF MF Processo nº 19515.003789/200925 Acórdão n.º 2201004.398 S2C2T1 Fl. 702 13 período de 01/2004 a 08/2004 e que haja a apropriação dos valores efetivamente recolhidos pelo contribuinte durante a ação fiscal a serem apropriados pela autoridade preparadora. (assinado digitalmente) Marcelo Milton da Silva Risso – Relator Fl. 708DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.722021/2015-29
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
ISENÇÃO DE RENDIMENTOS DE APOSENTADORIA. MOLÉSTIA GRAVE RECONHECIDA POR LAUDO MÉDICO COMPETENTE. CEGUEIRA MONOCULAR.
A legislação pertinente ao disciplinar o assunto, quando estabeleceu a isenção do IRPF sobre proventos de aposentadoria de contribuinte portador de cegueira, não fez qualquer menção no sentido de que apenas o portador de cegueira total fizesse jus ao benefício.
Numero da decisão: 2002-000.124
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Fábia Marcília Ferreira Campêlo.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente.
(assinado digitalmente)
Virgílio Cansino Gil - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Fábia Marcília Ferreira Campêlo.
Nome do relator: VIRGILIO CANSINO GIL
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MOLÉSTIA GRAVE RECONHECIDA POR LAUDO MÉDICO COMPETENTE. CEGUEIRA MONOCULAR. A legislação pertinente ao disciplinar o assunto, quando estabeleceu a isenção do IRPF sobre proventos de aposentadoria de contribuinte portador de cegueira, não fez qualquer menção no sentido de que apenas o portador de cegueira total fizesse jus ao benefício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Votou pelas conclusões a conselheira Fábia Marcília Ferreira Campêlo. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 72 20 21 /2 01 5- 29 Fl. 96DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Fábia Marcília Ferreira Campêlo. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls.47/50), contra decisão de primeira instância (fls.38/41) que julgou procedente em parte a impugnação, para exonerar R$ 1.020,80, e por manter o imposto de renda suplementar de R$ 15.681,42, com os acréscimos legais pertinentes. Foi lavrado auto de infração por Omissão de Rendimentos do Trabalho com vínculo e/ou sem vínculo empregatício. A contribuinte apresentou Laudo Médico, indicando ser portador de doença grave, dizendo ter o benefício da isenção, referente aos proventos de sua aposentadoria. Com relação a Dedução Indevida com despesa de instrução, a contribuinte não comprovou os pagamentos. Inconformada com o auto de infração, a contribuinte apresentou impugnação parcial, requerendo no restante a insubsistência do auto, pelos seguintes fundamentos: a) que a isenção dos rendimentos de aposentadoria, é de direito eis que portadora de moléstia grave, "Cegueira", conforme Laudo Oficial, juntado às fls.14; b) contesta a glosa de parte das despesas médicas, pagas a UNIMED, conforme fls.15 e despesas próprias, conforme documento de fls.13. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou procedente em parte a impugnação, por exonerar R$ 1.020,80 (27,5% de R$ 3.713,00), mantendo o imposto de renda suplementar de R$ 15.681,42, com os acréscimos pertinentes. Inconformada a contribuinte apresentou Recurso Voluntário: reiterando as alegações da impugnação; requerendo a insubsistência e improcedência da ação fiscal, no que pertine a doença grave. É o relatório. Passo ao voto. Voto Conselheiro Virgílio Cansino Gil Relator Recurso Voluntário, aviado a modo e tempo, portanto dele conheço. Razão assiste à recorrente, eis que é portadora de doença grave, apresentou Laudo Médico realizado pelo Serviço Médico do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, onde comprova o seu estado clínico, ou seja, Cegueira Monocular. Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10280.722021/201529 Acórdão n.º 2002000.124 S2C0T2 Fl. 3 3 A isenção está estribada no art. 6º caput e inc. XIV e XXI da Lei nº 7.713/88, com alterações do art. 47 da Lei 8.541 de 23 de dezembro de 1992, art. 30 §2º da Lei 9.250 de 26 de dezembro de 1995, bem como, art. 39 inc. XXXIII do Decreto 3.000/99. Junta ainda a recorrente, julgados deste órgão "CARF", jurisprudência favorável a sua tese nos processos: Proc. 11853.720276/201405 Proc. 13830/720898/201176 Proc. 13851.721634/201515 Assim, neste sentido, comungo deste entendimento: O legislador tributário ao estabelecer a isenção do IRPF sobre os proventos de aposentadoria de contribuinte portador de cegueira, não fez qualquer limitação no sentido de que somente o portador de cegueira nos dois olhos fizesse jus ao benefício. Portanto a contribuinte portadora de Cegueira Monocular, se enquadra no dispositivo do incentivo. Isto posto, e pelo que mais consta nos autos, conheço do Recurso Voluntário, e no mérito, dáse provimento, para expungir da condenação do IR, sobre os proventos de aposentadoria. É como voto. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Fl. 98DF CARF MF
score : 1.0
