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Numero do processo: 10850.720960/2011-01
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Feb 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO.
É licita a exigência de outros elementos de prova além dos recibos das despesas médicas quando a autoridade fiscal não ficar convencida da efetividade da prestação dos serviços ou da materialidade dos respectivos pagamentos.
Numero da decisão: 2002-000.735
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator.
(assinado digitalmente)
Mônica Renata Mello Ferreira Stoll Redatora Designada
Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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COMPROVAÇÃO. É licita a exigência de outros elementos de prova além dos recibos das despesas médicas quando a autoridade fiscal não ficar convencida da efetividade da prestação dos serviços ou da materialidade dos respectivos pagamentos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Relator. (assinado digitalmente) Mônica Renata Mello Ferreira Stoll – Redatora Designada Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 72 09 60 /2 01 1- 01 Fl. 248DF CARF MF 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (efls. 138 a 143), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a glosa de despesas médicas indevidamente deduzidas. Tal autuação gerou lançamento de imposto de renda pessoa física suplementar de R$ 3.535,22, acrescido de multa de ofício no importe de 75%, bem como juros de mora. Impugnação A notificação de lançamento foi objeto de impugnação, às efls. 02 a 154 dos autos, que, conforme decisão da DRJ: O (A) contribuinte, cientificado(a) apresentou defesa (fls. 02) tempestiva, alegando em breve síntese que: apresenta novos recibos médicos com os requisitos estabelecidos pela legislação tributária e anexa extratos bancários da Caixa Econômica Federal (fls. 144/154), para comprovar a efetividade dos pagamentos das despesas médicas. A impugnação foi apreciada na 7ª Turma da DRJ/BSB que, por unanimidade, em 15/01/2015, no acórdão 0365.607, às efls. 158 a 162, julgou a impugnação improcedente. Recurso Voluntário Ainda inconformado, o contribuinte apresenta Recurso Voluntário, às efls. 168 a 242, alegando, em síntese, que há provas suficientes nos autos que comprovam as despesas médicas, como recibos e declarações dos prestadores de serviços. Voto Vencido Conselheiro Thiago Duca Amoni Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo, já que o contribuinte foi intimado do teor do acórdão da DRJ em 05/02/2015, efls. 166, e interpôs o presente Recurso Voluntário em 03/03/2015, efls. 168, posto que atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. O contribuinte foi autuado pela dedução indevida das seguintes despesas médicas: · Fábio Altem Carpi R$12.000,00; Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10850.720960/201101 Acórdão n.º 2002000.735 S2C0T2 Fl. 249 3 · Vanessa Carla da Costa R$5.000,00. A DRJ manteve a glosa sob os fundamentos abaixo narrados: Dessa forma, tendo em vista que todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação a juízo da autoridade fiscal e que estas não foram realizadas satisfatoriamente, concluise que a glosa objeto deste lançamento encontrase perfeitamente embasada. As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99): Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; : Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"). §1ºO disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, §2º): I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; Fl. 250DF CARF MF 4 II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento (grifos nossos) O trecho em destaque é claro quanto a idoneidade de recibos e notas fiscais, desde que preenchidos os requisitos legais, como meios de comprovação da prestação de serviço de saúde tomado pelo contribuinte e capaz de ensejar a dedução da despesa do montante de IRPF devido, quando da apresentação de sua DAA. O dispositivo em comento vai além, permitindo ainda que, caso o contribuinte tomador do serviço, por qualquer motivo, não possua o recibo emitido pelo profissional, a comprovação do pagamento seja feita por cheque nominativo ou extratos de conta vinculados a alguma instituição financeira. Assim, como fonte primária da comprovação da despesa temos o recibo e a nota fiscal emitidos pelo prestador de serviço, desde que atendidos os requisitos legais. Na falta destes, pode, o contribuinte, valerse de outros meios de prova. Ademais, o Fisco tem a sua disposição outros instrumentos para realizar o cruzamento de dados das partes contratantes, devendo prevalecer a boafé do contribuinte. Nesta linha, no acórdão 2001000.388, de relatoria do Conselheiro deste CARF José Alfredo Duarte Filho, temos: (...) No que se refere às despesas médicas a divergência é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pela contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. (...) Fl. 251DF CARF MF Processo nº 10850.720960/201101 Acórdão n.º 2002000.735 S2C0T2 Fl. 250 5 É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (dedução tributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagador recebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de Fl. 252DF CARF MF 6 comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma." Ainda, há várias outras jurisprudências deste Conselho que corroboram com os fundamentos até então apresentados: Processo nº 16370.000399/200816 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.387 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 18 de abril de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FLÁVIO JUN KAZUMA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Processo nº 13830.000508/200923 Recurso nº 908.440 Voluntário Acórdão nº 220201.901 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 10 de julho de 2012 Matéria Despesas Médicas Recorrente MARLY CANTO DE GODOY PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006 DESPESAS MÉDICAS. RECIBO. COMPROVAÇÃO. Recibos que contenham a indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem prestou os serviços são documentos hábeis, até prova em contrário, para justificar a dedução a título de despesas médicas autorizada pela legislação. Os recibos que não contemplem os requisitos previstos na legislação poderão ser aceitos para fins de dedução, desde que Fl. 253DF CARF MF Processo nº 10850.720960/201101 Acórdão n.º 2002000.735 S2C0T2 Fl. 251 7 seja apresenta declaração complementando as informações neles ausentes. Às efls. 172 a 175 há recibos emitidos pela profissional Vanessa Carla da Costa, no importe de R$5.000,00. Às efls. 179 a 181 há ficha de avaliação e evolução fisioterápica elaborada pela fisioterapeuta. Ainda, às efls. 14 há declaração confirmando os serviços prestados. Às efls. 176 a 178 há recibos de Fábio Altem Carpi que somam R$12.000,00. Ainda, Às efls. 10 há declaração do profissional ratificando a prestação de serviços. Feitas estas considerações, conheço do presente Recurso Voluntário para, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Voto Vencedor Conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll – Redatora Designada. Com a devida vênia, divirjo do Relator quanto à comprovação das despesas médicas em litígio. Extraise da Notificação de Lançamento (efls. 06/07) que a autoridade fiscal procedeu à glosa das despesas declaradas para Fábio Altem Carpi e Vanessa Carla da Costa por não ter o contribuinte, devidamente intimado, comprovado o seu efetivo pagamento. A decisão de primeira instância manteve a glosa efetuada, corroborando as razões expostas pela fiscalização conforme trecho a seguir reproduzido (efls. 161): Em sua impugnação, o contribuinte anexa recibos das despesas glosadas e extratos bancários referentes ao anocalendário de 2009, no intuito de comprovar a liquidez para promover pagamentos em moeda corrente do país. Contudo, os documentos apresentados não são suficientes para demonstrar o efetivo pagamento, requisito solicitado pela autoridade fiscal. Não é possível concluir que os saques em conta apresentados nos extratos bancários referemse às despesas declaradas, pois, da análise dos extratos bancários e dos recibos médicos apresentados, não é possível fazer o confronto entre os referidos saques com os recibos apresentados (datas e valores). Fl. 254DF CARF MF 8 Ademais, o contribuinte não apresentou nenhuma planilha relacionando quais saques teriam sido utilizados para os recibos apresentados, limitandose a juntar seu extrato bancário. Ressaltese que, ainda que o montante global dos saques tenha sido superior ao valor das despesas declaradas, os pagamentos propriamente ditos não restaram comprovados. A disponibilidade financeira, por si só, não comprova o efetivo pagamento das despesas médicas declaradas. Tal comprovação requer a coincidência de datas e valores, e o impugnante não logrou êxito em fazer a vinculação entre as despesas realizadas e os saques efetuados. Em seu Recurso Voluntário o interessado apresenta cópias de extratos bancários sem apontar qualquer correspondência de datas e valores entre as movimentações realizadas e os recibos de despesas médicas já apresentados, permanecendo sem comprovação o efetivo pagamento das despesas. Cumpre esclarecer que a dedução de despesas médicas na Declaração de Ajuste Anual está sujeita à comprovação por documentação hábil e idônea a juízo da autoridade lançadora, nos termos do art. 73 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/99, aprovado pelo Decreto 3.000/99. Dessa forma, ainda que o contribuinte tenha apresentado recibos emitidos pelos profissionais, é licito a autoridade fiscal exigir, a seu critério, outros elementos de prova caso não fique convencida da efetividade da prestação dos serviços ou da materialidade dos respectivos pagamentos. Havendo questionamento acerca das despesas declaradas, cabe ao sujeito passivo o ônus de comproválas de maneira inequívoca, sem deixar margem a dúvidas. Ressaltese que tal exigência não está relacionada à constatação de inidoneidade dos recibos examinados, mas tão somente à formação de convicção da autoridade lançadora. As decisões a seguir, proferidas pela Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF e pela 1ª Turma da 4ª Câmara da 2ª Seção do CARF, corroboram esse entendimento: IRPF. DESPESAS MÉDICAS.COMPROVAÇÃO. Todas as deduções declaradas estão sujeitas à comprovação ou justificação, mormente quando há dúvida razoável quanto à sua efetividade. Em tais situações, a apresentação tãosomente de recibos e/ou declarações de lavra dos profissionais é insuficiente para suprir a não comprovação dos correspondentes pagamentos. (Acórdão nº9202005.323, de 30/3/2017) DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. APRESENTAÇÃO DE RECIBOS. SOLICITAÇÃO DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA PELO FISCO. Todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação, podendo a autoridade lançadora solicitar motivadamente elementos de prova da efetividade dos serviços médicos prestados ou dos correspondentes pagamentos. Em havendo tal solicitação, é de se exigir do contribuinte prova da referida efetividade. (Acórdão nº9202005.461, de 24/5/2017) Fl. 255DF CARF MF Processo nº 10850.720960/201101 Acórdão n.º 2002000.735 S2C0T2 Fl. 252 9 IRPF. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS E DO CORRESPONDENTE PAGAMENTO. A Lei nº 9.250/95 exige não só a efetiva prestação de serviços como também seu dispêndio como condição para a dedução da despesa médica, isto é, necessário que o contribuinte tenha usufruído de serviços médicos onerosos e os tenha suportado. Tal fato é que subtrai renda do sujeito passivo que, em face do permissivo legal, tem o direito de abater o valor correspondente da base de cálculo do imposto sobre a renda devido no ano calendário em que suportou tal custo. Havendo solicitação pela autoridade fiscal da comprovação da prestação dos serviços e do efetivo pagamento, cabe ao contribuinte a comprovação da dedução realizada, ou seja, nos termos da Lei nº 9.250/95, a efetiva prestação de serviços e o correspondente pagamento. (Acórdão nº2401004.122, de 16/2/2016) O contribuinte deve levar em consideração que o pagamento de despesas médicas não envolve apenas ele e o profissional, mas também o Fisco, caso haja intenção de se beneficiar da dedução correspondente em sua Declaração de Ajuste Anual. Por esse motivo, deve se acautelar na guarda de elementos de prova da efetividade dos pagamentos e dos serviços prestados. É possível que o recorrente tenha feito seus pagamentos em espécie, tal como alega, não havendo nada de ilegal neste procedimento. A legislação não impõe que se faça pagamentos de uma forma em detrimento de outra. Não obstante, como exposto no acórdão de primeira instância, cabia a ele demonstrar a correspondência de datas e valores entre os saques efetuados em sua conta e os recibos apresentados, o que não ocorreu no presente caso. Importa salientar que não é o Fisco que precisa provar que as despesas médicas declaradas não existiram, mas o contribuinte que deve apresentar as devidas comprovações quando solicitadas. Isto porque, sendo a inclusão de despesas médicas na Declaração de Ajuste Anual nada mais do que um benefício concedido pela legislação, incumbe ao interessado provar que faz jus ao direito pleiteado. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Mônica Renata Mello Ferreira Stoll Fl. 256DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.722722/2017-62
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Feb 01 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2013
DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS QUE JUSTIFIQUEM O SERVIÇO MÉDICO E QUE SE REFIRA A PROCEDIMENTO DE MEDICINA.
São dedutíveis da base de cálculo do Imposto sobre a Renda as despesas médicas devidamente comprovadas, independentemente da especialidade, quando o serviço for efetuado por profissional habilitado, com a finalidade prevenir, manter ou recuperar a saúde física ou mental do paciente.
Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física somente quando revestido das formalidades legais e que permita a perfeita identificação dos procedimentos médicos realizados por profissionais devidamente registrados no órgão de controle do sistema de saúde e medicina. A glosa de despesa é conhecida na ausência dos elementos que assegurem tratar-se de serviços médicos ou quando na presença de indícios consistentes de sua inaplicabilidade ao que dispõe a legislação.
Numero da decisão: 2001-001.003
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS QUE JUSTIFIQUEM O SERVIÇO MÉDICO E QUE SE REFIRA A PROCEDIMENTO DE MEDICINA. São dedutíveis da base de cálculo do Imposto sobre a Renda as despesas médicas devidamente comprovadas, independentemente da especialidade, quando o serviço for efetuado por profissional habilitado, com a finalidade prevenir, manter ou recuperar a saúde física ou mental do paciente. Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física somente quando revestido das formalidades legais e que permita a perfeita identificação dos procedimentos médicos realizados por profissionais devidamente registrados no órgão de controle do sistema de saúde e medicina. A glosa de despesa é conhecida na ausência dos elementos que assegurem tratar-se de serviços médicos ou quando na presença de indícios consistentes de sua inaplicabilidade ao que dispõe a legislação.
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DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS QUE JUSTIFIQUEM O SERVIÇO MÉDICO E QUE SE REFIRA A PROCEDIMENTO DE MEDICINA. São dedutíveis da base de cálculo do Imposto sobre a Renda as despesas médicas devidamente comprovadas, independentemente da especialidade, quando o serviço for efetuado por profissional habilitado, com a finalidade prevenir, manter ou recuperar a saúde física ou mental do paciente. Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física somente quando revestido das formalidades legais e que permita a perfeita identificação dos procedimentos médicos realizados por profissionais devidamente registrados no órgão de controle do sistema de saúde e medicina. A glosa de despesa é conhecida na ausência dos elementos que assegurem tratarse de serviços médicos ou quando na presença de indícios consistentes de sua inaplicabilidade ao que dispõe a legislação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 27 22 /2 01 7- 62 Fl. 82DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de Despesas Médicas. O Lançamento da Fazenda Nacional em revisão da DAA modifica o resultado final da apuração do imposto que passa de uma restituição declarada pelo Contribuinte de R$ 6.157,01 para R$ 1.444,00, de imposto de renda pessoa física a pagar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2013. A fundamentação do Lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura o fato de não ter sido apresentada comprovação complementar referente aos pagamentos de despesas médicas além dos recibos. A constituição do acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente na comprovação da despesa, especialmente no que se refere a documentos suplementares aos recibos apresentados pelos serviços médicos prestados, como segue: (...) A fiscalização procedeu ao lançamento de ofício fazendo a glosa de despesas médicas no valor de R$ 37.210,00. Ressaltese que a legislação lista algumas formas para o contribuinte provar o seu direito ao mesmo tempo em que permite ao Fisco, a seu juízo, exigir outros meios de comprovação de maneira a firmar sua convicção frente aos fatos informados. O que importa ao presente julgamento, conforme determina a lei, é que o impugnante apresente provas de que realmente arcou com tais despesas, tanto que permite que ele comprove de várias maneiras o seu direito de deduzir. Assim, se o contribuinte pretende deduzir tais despesas médicas deve agir provando a veracidade de suas afirmações. Ressaltese que a dedução dessas despesas com saúde é uma faculdade do contribuinte, ou seja, ele não está obrigado a deduzilas, mas caso deseje aproveitálas, deve obedecer, se submeter aos ditames da lei. Confirmando o entendimento acima, acrescentese ainda à presente discussão, que mesmo estando presente todos os requisitos enumerados para os recibos, a legislação tributária não confere aos mesmos valor probante absoluto, pois a tônica do art. 80, § 1º, inciso III, do RIR/99, é a especificação e comprovação dos pagamentos. Em sendo assim, o contribuinte deve ter em conta que o pagamento de despesa médica não envolve apenas ele e o profissional de saúde Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10120.722722/201762 Acórdão n.º 2001001.003 S2C0T1 Fl. 83 3 (prestador de serviços), mas também o Fisco caso haja intenção de se beneficiar da dedução na declaração de rendimentos. Por isso, este deve se acautelar na guarda de outros elementos de prova da efetividade do pagamento e do serviço. No caso em tela, a Autoridade Fiscal informou que não foram aceitas as despesas médicas pelos seguintes motivos: a) intimado a comprovar transferência de numerário e efetiva prestação de serviço, a defesa restringiuse a informar que o pagamento foi realizado em espécie e a apresentar o recibo dos serviços prestados (intimações e respostas constam no dossiê nº 10010.030510/061518). Analisando as provas dos autos com o que foi disposto na Notificação de Lançamento e na Impugnação, podese concluir: a) a defesa não conseguiu documentalmente comprovar as despesas médicas, pois o Termo de Intimação Fiscal solicitou a comprovação do efetivo pagamento. A defesa limitouse a apresentar apenas o demonstrativo de pagamento de salários com o desconto da Unimed sem fazer qualquer referência do beneficiário. Desta feita, deve ser mantida a infração de dedução indevida de despesas médicas por força do que determina os incisos II e III, do §1º, do art. 80 do RIR/99. Destarte, considerando os motivos discorridos em itens anteriores e com base no princípio da livre convicção do julgador na apreciação da prova, gravado no art. 29 do Decreto nº 70.235, de 1972, deve ser mantida a infração no valor de R$ 37.210,00. Por todo exposto, VOTO julgar improcedente a impugnação para manter os termos da Notificação de Lançamento. Assim, conclui o acórdão vergastado pela improcedência da impugnação para manter a reversão do resultado de imposto a ser restituído para imposto de renda a pagar no valor de R$ 1.444,00. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: O peticionante vem a presença de Vossa Senhoria para, nos autos do processo supra requerer a reconsideração da decisão proferida por essa relatoria, pelos motivos que adiante expõe: No caso em tela, a Autoridade Fiscal informou que não foram aceitas as despesas médicas pagas a Nutriderma Médicos Associados A/C Ltda., CNPJ 05703765/000101, no valor de R$ 37.210,00 pelos seguintes motivos: Fl. 84DF CARF MF 4 a)O intimado não comprovou a forma de pagamento. Conforme informado a esta Instituição Senhor Auditor, os pagamentos estão descritos de forma clara e transparente no recibo anexo, lembrando que o pagamento feito em espécie, moeda corrente em nosso país, é aceito conforme forma de pagamento em todas as instituições, não sendo assim contravenção, portanto não existe nada de ilegal. b)A Receita Federal do Brasil alega que o peticionante limitouse a apresentar apenas o demonstrativo de pagamentos de salários com desconto da UNIMED, sem fazer qualquer referência ao beneficio. Equivocadamente a Receita Federal do Brasil não observa que em momento algum em sua declaração, o peticionante faz menção a pagamentos ou descontos feitos a UNIMED conforme afirma a Receita, o que pode ser comprovado conforme o Comprovante de Rendimentos Pagos e de Imposto Sobre a Renda Retido na Fonte, Ano Calendário 2013 anexo, E do Comprovante de Pagamentos Folha 4 da Declaração de Imposto de Renda. Nenhum desconto ou pagamento foi feito pelo contribuinte para a UNIMED, improcedendo assim a afirmação feita pela Receita Federal do Brasil. Observase: que consta no Comprovante de Rendimentos apenas os seguintes itens: 1 – Total de Rendimentos Inclusive Férias. R$ 71.077,00 2 – Contribuição Previdenciária Oficial. R$ 5.489,67 5 – Imposto de Renda Retido na Fonte. R$ 6.610,60 51 Décimo Terceiro Salário. R$ 4.263,04 No Comprovante de Pagamentos, folha 4 da Declaração de Imposto de Renda: 11 João Geraldo V. Junior R$ 1.800,00 21 Nutriderma Médicos Associados R$ 37.210,00 Até prova em contrário, que deve ser produzida pela RFB, presumese verdadeiro o recibo anexado, bem como as informações neles prestadas, o que não foi devidamente refutado. Invoca o impugnante as disposições do Artigo 923 do RIR 1999, que diz que: “A escrituração mantida com observância das disposições legais faz a prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais” (DecretoLei Nº 1.598, de 1977, Artigo 9º, Parágrafo 1º). Em síntese quer dizer o impugnante que o que conclui é que a escrituração referida no Artigo 923 do RIR/1999, no caso de despesas médicas, deve ser tida como a guarda do recibo de pagamento de tais despesas, desde que contenha os dados no Artigo 80, Parágrafo 1º, inciso III, do mesmo regulamento, como é no presente caso. Assim, conclui o impugnante que o recibo através do qual provou o dispêndio com tratamento médico , se não eficazmente contestado por essa Autarquia, deve ser admitido para fins de dedução da base de cálculo do imposto sobre a renda, nos termos da legislação vigente, especialmente, o Artigo 924 do RIR/1999, segundo o qual cabe à Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10120.722722/201762 Acórdão n.º 2001001.003 S2C0T1 Fl. 84 5 autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância nas disposições legais. Por tais argumentos, o impugnante requer a improcedência da glosa feita por essa Autarquia Federal no processo administrativo em epígrafe, relativa a despesas médicas por declaradas na declaração do IRPF 2013/2014 e, de consequência, a ele restitua o respectivo valor apurado. É o relatório. Voto Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. A lide trata de comprovação de despesas médicas utilizadas como redutor na tributação do imposto sobre a renda de pessoa física com comprovação fornecida por pessoa jurídica que disponibilizou recibos de prestação de serviços no valor de R$ 37.210,00. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com Fl. 86DF CARF MF 6 hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; IV não se aplica às despesas ressarcidas por entidade de qualquer espécie ou cobertas por contrato de seguro; V no caso de despesas com aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias, exigese a comprovação com receituário médico e nota fiscal em nome do beneficiário. Decreto nº 3.000/99 Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): (...) II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (grifei) A exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (deduçãotributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Ocorre, assim, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10120.722722/201762 Acórdão n.º 2001001.003 S2C0T1 Fl. 85 7 lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. De considerar plenamente admissível que os comprovantes revestidos das formalidades legais sustentam a condição de valor probante se especificar com clareza a espécie de serviço prestado de forma a identificalo com a permissibilidade da dedução amparada na legislação tributária. Neste sentido passemos a analisar o caso aqui apresentado. No presente caso, foi apresentado recibo nº 169, da empresa FORMA DAY SPA – Nutriderma Médicos Associados Ltda., emitido em 12/11/2013, no valor de R$ 37.210,00, dos atendimentos do anobase de 2013, que corresponde ao período examinado pela fiscalização. Contudo, o documento apresentado carece de clareza quanto à especificação dos serviços prestados, especialmente quando informa como procedimento “aplicações corporais”, sem identificar a que tipo se refere e qual sua finalidade em relação à saúde do paciente/contribuinte. Igual indefinição e de difícil leitura está contida no descritivo do item “aplicações corporais s/médicos”, o que pressupõe entender que se refere a procedimento de alguém sem habilitação médica ou sem acompanhamento do profissional médico, o que não seria enquadrado como despesa médica a menos que tivesse sido realizado em ambiente hospitalar, clínica ou laboratório médico, reconhecido como tal. Se a empresa FORMA DAY SPA – Nutriforma Médicos Associados Ltda. estivesse claramente identificada como estabelecimento hospitalar, clínica ou laboratório seria perfeitamente entendível que os itens “consultas” e “honorários médicos” teriam sido realizados por profissionais da medicina, pelo rígido controle que os órgãos de saúde e da profissão médica exercem sobre essas atividades. Contudo, num estabelecimento que se dedica a tratar da forma estética corporal o contribuinte poderia ser atendido por profissionais não enquadrados na atividade de médico. Portanto, o serviço carece de comprovação específica da atividade de medicina conforme dispõe a legislação. O instrumento de prova utilizado é inadequado para a situação em vista de que sendo o prestador de serviço uma pessoa jurídica deveria fornecer nota fiscal, e não recibo que é um comprovante emitido por profissional pessoa física. Este fato, por si só não seria definidor da rejeição do documento, porém, em vista da existência de outras inconsistências passa a ser considerado como elemento de inadequada comprovação. O recibo, mesmo que aceito para justificar serviço prestado por pessoa jurídica, em complemento ou substituição à nota fiscal, deveria ter a assinatura de alguém responsável pelo recebimento dos valores, fato relevante que não consta do documento apresentado. A comprovação mostrase com ausência absoluta de identificação direta ou indireta de profissionais médicos nos atendimentos a que fora submetido o contribuinte. Fl. 88DF CARF MF 8 Também não há assinatura em qualquer documento de profissionais médicos e identificação de registro do órgão de controle profissional. Em resumo, o recibo apresenta várias indefinições na identificação dos procedimentos que resultam em incerteza de tratarse de procedimento médico e/ou realizado por profissional habilitado, pelo que se vê do enunciado no corpo do documento. Assim sendo, o recibo não se mostra como documento hábil para fazer prova efetiva da prestação do serviço utilizado como dedução do imposto na DAA. É evidente que os pagamentos de prestação de serviços médicos possam ser realizados em espécie porque são meios de pagamento legalmente admitidos, contudo, o documento comprobatório de quitação deve apresentarse com clareza para transmitir certeza da realização da operação. A ausência de comprovação escritural seja na pessoa física ou na pessoa jurídica do fornecedor/emitente dos recibos não permite a verificação da veracidade dos fatos ocorridos entre o Recorrente e o prestador dos serviços. Assim, verificase que o Recorrente não logrou êxito em comprovar a despesa utilizada como dedutível do imposto sobre a renda porque tão somente o recibo apresentado não se fez suficiente para respaldar a realidade dos fatos alegados como verdadeiros. Neste caso, a documentação comprobatória da despesa não contempla o benefício da dedução do imposto porque incompatível com as disposições legais e, por isso, não poderia ter sido utilizada como dedutível na declaração de ajuste do imposto, razão porque se faz necessária a manutenção da glosa das despesas no valor de R$ 37.210,00. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito NEGAR PROVIMENTO, para manter o crédito tributário no valor de R$ 1.444,00. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 89DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10437.720962/2015-05
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Feb 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
IRPF. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DIREITO ADQUIRIDO. ISENÇÃO. DECRETO No 1.510/76. APLICAÇÃO.
A manutenção da participação societária da empresa pelo período de 05 (cinco) no decorrer da vigência do Decreto-Lei nº 1.510/76, importa na não incidência do imposto de renda sobre o ganho de capital auferido a partir da alienação de aludido direito, nos termos do artigo 4º, alínea d, daquele Diploma Legal, ainda que o ato negocial tenha ocorrido posteriormente à revogação de referida benesse fiscal, em face do direito adquirido pelo contribuinte no período sob a égide do precitado comando legal.
IRPF. GANHO DE CAPITAL. DECADÊNCIA.
O art. 62, § 2°, do Regimento Interno do CARF impõe a utilização da regra definida no REsp nº 973.733 - SC, decidido na sistemática do art. 543-C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que o art. 150, §4º, do CTN, somente deva ser adotado nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalecem os ditames do art. 173 do CTN.
Numero da decisão: 2401-005.810
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator) e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), que negavam provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rayd Santana Ferreira.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator.
(assinado digitalmente)
Rayd Santana Ferreira - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa., Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010 IRPF. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DIREITO ADQUIRIDO. ISENÇÃO. DECRETO No 1.510/76. APLICAÇÃO. A manutenção da participação societária da empresa pelo período de 05 (cinco) no decorrer da vigência do Decreto-Lei nº 1.510/76, importa na não incidência do imposto de renda sobre o ganho de capital auferido a partir da alienação de aludido direito, nos termos do artigo 4º, alínea d, daquele Diploma Legal, ainda que o ato negocial tenha ocorrido posteriormente à revogação de referida benesse fiscal, em face do direito adquirido pelo contribuinte no período sob a égide do precitado comando legal. IRPF. GANHO DE CAPITAL. DECADÊNCIA. O art. 62, § 2°, do Regimento Interno do CARF impõe a utilização da regra definida no REsp nº 973.733 - SC, decidido na sistemática do art. 543-C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que o art. 150, §4º, do CTN, somente deva ser adotado nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalecem os ditames do art. 173 do CTN.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator) e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), que negavam provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rayd Santana Ferreira. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier - Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira - Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa., Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier.
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GANHO DE CAPITAL Recorrente MARCOS EDUARDO DO AMARAL GUIMARAES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010 IRPF. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DIREITO ADQUIRIDO. ISENÇÃO. DECRETO No 1.510/76. APLICAÇÃO. A manutenção da participação societária da empresa pelo período de 05 (cinco) no decorrer da vigência do DecretoLei nº 1.510/76, importa na não incidência do imposto de renda sobre o ganho de capital auferido a partir da alienação de aludido direito, nos termos do artigo 4º, alínea “d”, daquele Diploma Legal, ainda que o ato negocial tenha ocorrido posteriormente à revogação de referida benesse fiscal, em face do direito adquirido pelo contribuinte no período sob a égide do precitado comando legal. IRPF. GANHO DE CAPITAL. DECADÊNCIA. O art. 62, § 2°, do Regimento Interno do CARF impõe a utilização da regra definida no REsp nº 973.733 SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que o art. 150, §4º, do CTN, somente deva ser adotado nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalecem os ditames do art. 173 do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator) e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), que negavam provimento ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rayd Santana Ferreira. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 43 7. 72 09 62 /2 01 5- 05 Fl. 839DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 840 2 (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Suplente Convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa., Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão da 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora que, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte Impugnação apresentada contra Auto de Infração, ano calendário 2010, que apurou omissão/apuração incorreta de ganhos de capital na alienação de bens e direitos e deduções indevidas de previdência privada, de pensão judicial e de despesas médicas e com instrução. Do Termo de Verificação Fiscal, em síntese, extraise: a) A aquisição da totalidade das quotas da Organização Farmacêutica Drogão Ltda ocorreu em 21/06/2010 e perfez a quantia total de RS 96.852.000,00. Numa primeira etapa, pelo Contrato Particular de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças, comprouse 2.858.180 cotas (1.935.790 do Sr. Marcos Eduardo do Amaral Guimarães e 1.935.790 do Sr. Paulo Nei Amarai Guimarães) por R$ 24.500.000,00 com pagamento em 22/06/2010 (R$ 12.250.000,00 para cada um dos sócios). Por indicação dos vendedores o crédito foi realizado da seguinte forma: (a) R$ 10.405.121,02 em conta/corrente de cada um dos sócios (para o autuado: na c/c n° 112937 do Banco Safra S/A) e (b) RS 2.094.878,98 na conta n° 2043331 no Banco Safra S/A. Na segunda parte, com lastro no Contrato Particular de Subscrição de Ações e Outras Avenças, houve a subscrição de 1.935.790 ações de emissão da empresa Drogaria São Paulo S/A, no valor total de RS 72.352.000,00, mediante a conferência de 8.438.974 quotas da empresa Organização Farmacêutica Drogão Ltda (sendo 4.219.487 do autuado), conforme Ata da Assembléia Geral Extraordinária da Drogaria São Paulo S/A de 21/06/2010. Por fim, no mesmo documento, houve a integralização de 1.411.832 ações da Companhia Comercial de Drogas e Medicamentos Codrome, no valor de R$ 72.352.000,00, mediante a conferência de 1.935.790 ações da Drogaria São Paulo S/A (sendo 967.895 do autuado), conforme comprovado pela Ata da Assembléia Geral Extraordinária da Codrome realizada em 21/06/2010. b) Assim, o Sr. Marcos Eduardo do Amaral Guimarães era detentor de 50% (= 6.155.267 quotas) da Organização Farmacêutica Drogão e alienou totalmente sua participação em 21/06/2010 para a Drogaria São Paulo S/A Fl. 840DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 841 3 CNPJ pelo valor de RS 48.426.000.00. A importância de R$ 10.405.121,02 foi depositada em conta/corrente no dia 22/06/2010 por 1.935.790 quotas. A importância de R$ 36.176.000,00 decorrente da subscrição de 967.895 ações da Drogaria São Paulo S/A (pela conferência de 4.219.487 quotas), depositadas no Inhambú II Fundo de Investimento em Participações. Por fim, no mesmo documento, foram integralizadas ações da Companhia Comercial de Drogas e Medicamentos Codrome mediante conferência de 967.865 ações da Drogaria São Paulo S/A pertencentes ao Sr. Marcos Eduardo do Amaral Guimarães. c) Desconsiderando o valor da totalidade das quotas da Organização Farmacêutica Drogão Ltda em 31/12/2009 declaradas pelo contribuinte em sua Declaração de Ajuste Anual do exercício 2011 ano/calendário 2010 e considerando o valor obtido a partir da documentação apresentada pela Drogaria São Paulo S/A em diligência, após o contribuinte não ter atendido intimação para apresentação de documentação, resta demonstrado que a participação acionária do contribuinte montava em R$ 5.648.577,00. Considerando que a totalidade de sua participação, representada por 6.155.277 quotas, tem um custo médio ponderado de R$0,9177 o custo total seria RS 5.648.577,00. Portanto temos um Ganho de Capital de R$ 42.777.423,00 ou seja: R$ 48.426.000,00 menos R$ 5.648.577.00. Não há recolhimento. O ganho de capital não foi submetido à tributação. O contribuinte apresentou impugnação, considerada tempestiva, da qual, em síntese, se extrai: a) Descrição dos fatos alegados pela fiscalização e dos fatos como eles são (fls. 363/382). b) Decadência em face do art. 150, § 4°, do CTN (fls. 382/385). c) Cumprida a condição exigida pelo Decretolei n°. 1.510, de 1976, durante a sua vigência, há direito à isenção do imposto de renda sobre o ganho de capital havido na operação, mesmo com a posterior revogação da norma de isenção (fls. 385/394). d) Houve mera permuta de cotas/ações com torna, deixando o impugnante de ter a totalidade do capital social da Organização Farmacêutica Drogão Ltda. e passando a ser acionistas da Drogaria São Paulo S/A, conferindo suas cotas para integralização no capital social desta (aumentado para este fim) e, logo em seguida e no mesmo ato societário, passando a se tornar acionista da CODROME, conferindo as cotas da Drogaria São Paulo S/A para a integralização no capital. d1) Segundo as autoridades fiscais, à época dos fatos, as cotas que o impugnante detinha na Organização Farmacêutica Drogão Ltda. valiam R$ 5.648.577,00. Ao alienar as suas ações à Drogaria São Paulo S/A, o Impugnante dela teria recebido em troca: a) R$ 10.405.121,02 em espécie; e b) ao final, 967.895 ações da CODROME no valor total R$ 36.176.000,00. O ganho de capital tributado equivaleria à soma de "a" e "b" menos o valor das cotas da Drogão (custo). Fl. 841DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 842 4 d2) Contudo, não recebeu valor líquido em dinheiro, pois por disposição contratual expressa assumiu responsabilidade perante a CODROME por passivos e contingências da Organização Farmacêutica Drogão Ltda., sendo que boa parte deste valor em espécie (R$ 4.580.674,10) já foi revertido em favor dessas empresas para ressarcilas de tais revezes e o remanescente persiste como garantia depositado em um fundo de investimentos. Logo, não há disponibilidade jurídica e econômica e, no mínimo, o valor já arcado deve ser abatido do ganho. d3) Na permuta de cotas por ações, trocouse apenas um bem por outro sem correspondência de dinheiro em espécie. Há mera expectativa de direito de se auferir no futuro ganho de capital tributável, ou seja, quando da alienação dos papéis. Houve ganho apenas escritural, não liquidado em dinheiro, e meramente potencial decorrente da permuta pura e simples sem referência no mercado bursátil (CODROME é sociedade anônima de capital fechado) e mesmo o patrimônio líquido ajustado não seria referência segura. Não houve alienação no mercado de ações, mas utilização das ações para integralizar cotas em fundo de investimento. A melhor leitura do art. 23, § 2°, da Lei n° 9.249, de 1995, é a de que o ganho de capital só pode ser tributado no momento em que realizado e o art. 121, § 2°, do RIR limita a apuração do ganho de capital na permuta com torna ao valor recebido em dinheiro. Só há tributação quando as ações são vendidas no mercado e a permuta deve levar em consideração o caráter hedonístico e não o valor em si dos bens permutados (Pareceres PGFN/PGA n° 970/91 e n° 454/92). Pelo art. 150, II, da Constituição, o legislador não pode conferir tratamento diverso para contribuintes em situação equivalente. Cita doutrina e jurisprudência. Logo, como na permuta de bens há mera expectativa de ganho a ser realizado futuramente, não incide imposto de renda. e) Possibilidade das deduções e princípio da verdade material (fls. 409/410). f) Pedido. Pede a procedência da impugnação, uma vez que nada é devido a título de Imposto de renda sobre o ganho de capital havido, seja por conta da decadência, seja porque ele é acobertado por isenção tributária ou, finalmente, porque ainda não se encontra realizado para fins de tributação. Subsidiariamente, que o ganho de capital seja limitado ao valor da torna em dinheiro efetivamente auferida (deduzir comissão Banco Safra, provisões para contingências e pagamentos diversos conta gráfica, escrow account). Do Acórdão prolatado pela Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, em síntese, se extrai: a) Ante a ausência de pagamento, mesmo que parcial, não há o que se falar em homologação, o que desloca o marco inicial da contagem da decadência para o previsto no art. 173, I, do CTN, o que, no caso em concreto, corresponderia a 01/01/2011, com término em 31/12/2015. A ciência do lançamento se deu em 22/07/2015, conforme Aviso de Recebimento (AR) de fl. 358, abrangida, portanto, pelo indigitado lustro, o que afasta a alegação de decadência. Fl. 842DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 843 5 b) A Lei n. 7.713/1988 revogou, em seu art. 58, os arts. 1º a 9º do citado Decretolei n. 1.510/1976, sem se olvidar ainda que o art. 3º, § 5º, daquela assim determinou: “§5º Ficam revogados todos os dispositivos legais concessivos de isenção ou exclusão, da base de cálculo do imposto de renda das pessoas físicas, de rendimentos e proventos de qualquer natureza, bem como os que autorizam redução do imposto por investimento de interesse econômico ou social”. A supressão da isenção se operou por lei e sem reconhecimento de direito adquirido. c) Quanto ao valor recebido em espécie, R$ 10.405.121,02, é líquido. O "INSTRUMENTO PARTICULAR DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE QUOTAS E OUTRAS AVENÇAS" de fls. 420/433 não contempla qualquer ressalva que modifique tal compreensão. Dos R$ 25.000.000,00 pagos aos alienantes indicados (Paulo e o ora impugnante, Marcos), conforme comunicação de fl. 478, já se excluem R$ 4.189.757,96 destinados ao Banco Safra BSI S/A, em face de serviços de assessoria e intermediação nos contratos firmados. Dessa forma, cada um dos sócios recebeu líquidos R$ 10.405.121,02 {=(R$ 25.000.000,00 R$ 4.189.757,96) : 2}. No contrato de intermediação, às fls. 479/484, fora estabelecida pela prestação dos serviços, de acordo com a cláusula 4ª (fl. 481), a remuneração de 3% da consideração agregada, ou seja, do valor bruto recebido, direta ou indiretamente em decorrência da operação, considerandose pagamentos a vista, valores a prazo, em moeda corrente ou outras ativos nãomonetários em geral e eventuais dívidas assumidas pelo adquirente da participação acionária, se for o caso, quando da conclusão da operação. Se o preço do serviço fora fixado em 3% do valor bruto da operação, ao se relacionar em simples regra de três obtémse um total de R$ 139.658.598,67 (= R$ 4.189.757,96 x 100 : 3), o que permite pressupor que a negociação ocorreu em patamar maior até do que os importes apresentados à Fiscalização. Destarte, mesmo sem referência bursátil nos termos alegados, a compreensão é a de que a mensuração da participação acionária envolvida na operação apresentese no mínimo representativa do patrimônio a que se refere. Para a parcela recebida em espécie, não se vislumbra qualquer instrumento que sugerisse algum contrato de caução ou, nos moldes aduzidos pelo interessado, similar a "escrow account". Em relação à alegação de que na permuta os bens são equivalentes em valor, deve ser invocado o art. 23 da Lei n° 9.249/95 para o qual inclusive pouco importa se a operação se deu de forma escritural, sendo fato que, com base na legislação, se verifica que ocorreu ganho de capital, uma valorização dos bens do contribuinte. Havendo incremento de valor, há plena tipificação no art. 43 do CTN. O art. 121, § 2º, do RIR/1999, não se refere à questão e nem os Pareceres PGFN/PGA n. 970/1991 e 454/1992, se amoldam à situação em exame. Por fim, a jurisprudência e a doutrina invocadas não são vinculantes. d) Das glosas. Em parte, há comprovação. Intimado em 29/05/2017, o contribuinte interpôs em 22/06/2017 recurso voluntário, em síntese, alegando: Fl. 843DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 844 6 a) Tempestividade. Cientificado em 29/05/2017, o prazo recursal de 30 dias expira em 28/06/2017. Logo, está clara a tempestividade. b) Por uma questão de materialidade, o recorrente restringirá a discussão recursal ao ganho de capital, tendo em vista que os valores envolvidos nas glosas são mínimos, se comparados com o valor total exigido no auto de infração. c) Decadência. A tributação do ganho de capital é definitiva e exclusiva. Logo, não faz sentido deslocar a decadência para o art. 173, I, do CTN. Isto é, não há necessidade de se aguardar o encerramento do exercício para então se apurar o tributo devido, não havendo se falar em regime de recolhimentos mensais pela metodologia de estimativa. Além disso, até hoje não houve ganho de capital. Por conseguinte, não faz sentido alegar que o contribuinte deveria ter recolhido em parte para se aplicar o art. 150, § 3°, do CTN. A tributação é exclusiva e submetida ao regime de lançamento por homologação de modo que o prazo decadencial independe de pagamento prévio. Nesse sentido, cita jurisprudência do 1º Conselho de Contribuintes. Portanto, a pretensão fiscal está fulminada pela decadência. e) Decretolei n° 1.510, de 1976. A decisão recorrida ignorou os argumentos de defesa, restringindose a mera interpretação literal da legislação em desconsideração ao contexto fático e jurisprudencial. A Organização Farmacêutica Drogão Ltda foi constituída em 21/11/1975 e em 27/11/1976 publicado o Decretolei n° 1.510, de 1976, a isentar o imposto de renda sobre o lucro havido na alienação de participações societárias, desde que o seu titular as mantivesse dentro do seu patrimônio durante cinco anos, contado da data da subscrição ou aquisição das participações. O prazo em questão findou em 21/11/1980 ou, contado da data de vigência do Decreto lei, findou em 27/11/1981. Mesmo com a ulterior revogação dessa isenção pela Lei n° 7.713, de 1988, cumpridas antes da revogação as exigências para o gozo da isenção, está assegurada sua fruição, sob pena de frustração de justa e fundada expectativa de direito. A exegese se sustenta por ser a isenção em tela condicionada (CTN, art. 178; princípio da boafé, doutrina e jurisprudência). Logo, em face da isenção, o lançamento é ilegal e nulo de pleno direito. f) Permuta de ativos financeiros, inocorrência do ganho de capital. Ao contrário do decidido, houve deduções do valor recebido em dinheiro de passivos anteriormente constituídos em face da Drogão que depois foram imputados à CEDROME, por conta da operação de permuta de ações. Por força do "Instrumento Particular de Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças", 25,30% do capital social da Organização Farmacêutica Drogão Ltda. foi adquirido mediante pagamento em espécie. Contudo, o valor avençado não foi líquido, conforme se depreende da cláusula 4.1, do Instrumento Particular de Contrato de Subscrição de Ações e Outras Avenças: 4.1. Indenização pelos Quotistas Drogão. Os Quotistas Drogão, individualmente e sem solidariedade, deverão indenizar, defender ou manter a Drogaria, a Codrome, os Acionistas Codrome, e seus respectivos conselheiros, diretores, empregados, Fl. 844DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 845 7 procuradores, Afiliadas, representantes e respectivos sucessores e cessionários (em conjunto, "Partes Indenizáveis Codrome" e, individualmente, "Parte Indenizável Codrome") isentos de todas e quaisquer perdas, danos, obrigações, responsabilidades, contingências (consubstanciadas em processos judiciais ou administrativos ou em procedimentos de arbitragem), prejuízos, passivos, reclamações, ações, processos, demandas, investigações, fiscalizações, autuações, decisões (incluindo judiciais, administrativas ou arbitrais), cobranças, multas, juros, penalidades, custos e despesas (incluindo, sem limitação, honorários de advogados, custas, depósitos judiciais e desembolsos) (em conjunto, "Passivos Indenizáveis", e, individualmente, "Passivo Indenizável") efetivamente incorridos pela Drogão ou por uma Parte Indenizável Codrome e decorrente exclusivamente: (...) f1) Assim, da data da celebração do negócio até hoje, o Recorrente teve de arcar com diversas despesas deduzidas da torna em dinheiro, a saber: (a) Comissão paga ao Banco Safra no valor de R$ 4.189.757,96 por ter intermediado o negócio, conforme recibo anexo ao contrário do que assevera a r. decisão atacada, o valor tem total relação com a operação e o Recorrente não possui nenhum outro negócio com valor igual ou próximo; (b) Provisões para contingências, perdas de funcionários, estoques, custas processuais etc. no valor de R$ 9.161.348,19, conforme recibo de quitação de 31.05.2011 da Drogaria São Paulo S/A, sendo deste total o Recorrente arcou com a metade; e (c) Pagamentos diversos ligados a passivos processuais (honorários de advogado, perito, custas etc), sendo que destes totais o Recorrente arcou com a metade, tal como já provado nesses autos. f2) O dinheiro recebido não esteve livre e à disposição do Recorrente por ter sido integralizado em fundo de investimento, cujas cotas ainda se encontram na titularidade do Recorrente. Não há disponibilidade jurídica e econômica e, no mínimo, o valor já arcado deve ser abatido do ganho. Os rendimentos produzidos nesse fundo de investimento fechado, mantido como lastro para as eventuais indenizações por passivos, são isentos enquanto lá permanecerem ou cujas cotas forem alienadas para aquisição de outras pertencentes a outro fundo, só podendo ser tributadas pelo resgate ou em caso de liquidação (MP n 2.18949/01, art. 6, §§ 3° e 4°; Lei n° 8.981/95, art. 66, parágrafo único). Por conseguinte, não há, pois, disponibilidade pelo recorrente sobre este valor, o que afasta a incidência do imposto (CTN, art. 43). f3) Apesar de não haver instrumento jurídico em apartado, foi mantida entre o Recorrente e a Drogaria São Paulo S/A uma verdadeira conta gráfica (escrow account) por conta da cláusula contratual acima citada. Há prova de que as deduções que ocorreram (R$ 4.580.674,10 já foi revertido e deve ser abatido do ganho). Tornandose exigíveis os passivos da Drogão, o recorrente arca com o valor correspondente e o deduz do montante recebido em dinheiro e em algumas dessas remessas foram retidos na fonte valores a titulo de imposto de renda. Ainda existem passivos não exigíveis, a serem eventualmente deduzidos dos valores mantidos no fundo de investimentos. Uma vez debitados, tais valores não mais repercutem positivamente no patrimônio e não podem ser considerados como ganho de capital. f4) Por força das cláusulas 2.1 e 2.2 do "Instrumento Particular de Contrato de Subscrição de Ações e Outras Avenças", mediante conferência do Fl. 845DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 846 8 restante das cotas que o Recorrente detinha na Organização Farmacêutica Drogão Ltda., foram subscritas ações da Drogaria São Paulo S/A e, com a totalidade destas, foram finalmente subscritas ações da CODROME. No dia 21 de junho de 2010, foi celebrado um "Contrato de Penhor de Ações", juntado aos autos, por força do qual ficaram empenhadas as ações da CODROME subscritas pelo Recorrente, uma vez que o contrato de subscrição, conforme já visto acima, prevê dever de indenização à CODROME em razão de passivos constituídos contra a Organização Farmacêutica Drogão Ltda. Em 22 de dezembro de 2010, foi efetuado cancelamento do penhor que incidiu sobre as ações da CODROME e as ações, de acordo com convencionado entre as partes contratantes, foram utilizadas para subscrever e integralizar cotas no fundo "INHAMBU II Fundo de Investimento em Participações". Assim, o ganho de capital havido na permuta de cotas e ações até o momento foi puramente contábil e escritural, decorrente apenas da mera diferença de valores dos papeis permutados, sobre o qual o Recorrente ainda não possui qualquer disponibilidade, pois: (a) não houve qualquer ato de alienação das ações para gerar ganho disponível e suscetível de tributação; (b) por seguir o regime de caixa, eventual tributação só pode ocorrer no momento da realização dos papéis em mercado bursátil a terceiros, sem o qual não surgem os recursos para se fazer frente ao imposto devido; (c) os valores permutados não têm referência em mercado bursátil por ser CODROME sociedade anônima de capital fechado e nem é segura a precificação com base em patrimônio líquido ajustado. Logo, quanto à permuta de cotas e ações, no presente momento o Recorrente não tem nada além de uma mera expectativa de direito de auferir no futuro um ganho de capital tributável, no momento em que alienar seus papeis. f5) Na permuta de cotas por ações, trocouse apenas um bem por outro sem correspondência de dinheiro em espécie. Houve ganho apenas escritural, não liquidado em dinheiro e meramente potencial decorrente da permuta pura e simples. Não houve alienação no mercado de ações, mas utilização das ações para integralizar cotas em fundo de investimento. A melhor leitura do art. 23, § 2°, da Lei n° 9.249, de 1995, é a de que o ganho de capital só pode ser tributado no momento em que realizado e o art. 121, § 2°, do RIR limita a apuração do ganho de capital na permuta com torna ao valor recebido em dinheiro. Só há tributação quando as ações são vendidas no mercado e a permuta deve levar em consideração o caráter hedonístico e não o valor em si dos bens permutados (Pareceres PGFN/PGA n° 970/91 e n° 454/92). Pelo art. 150, II, da Constituição, o legislador não pode conferir tratamento diverso para contribuintes em situação equivalente. Cita doutrina e jurisprudência. Logo, como na permuta de bens há mera expectativa de ganho a ser realizado futuramente, não incide imposto de renda. g) Pedido. Requer a nulidade do auto de infração, uma, porque decaiu o direito de a Fazenda Nacional lançar qualquer tributo e, duas, porque o Recorrente faz jus à isenção sobre eventual ganho de capital, mesmo em caso de sua revogação superveniente, uma vez que cumpriu os requisitos da norma isentiva enquanto permaneceu em vigor, cabendo, nesse particular, a aplicação do artigo 178, do CTN. Subsidiariamente, requer o cancelamento Fl. 846DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 847 9 integral do auto de infração, uma vez que nada é devido a título de imposto de renda sobre o ganho de capital havido, uma vez que, sobre o valor pago a título de torna, houve deduções já efetuadas e o valor remanescente encontrase adstrito ao pagamento de eventuais passivos da Drogão imputáveis à CODROME, por conta da permuta de ações, não havendo, pois, falar em disponibilidade econômica ou jurídica sobre esse rendimento. Sobre a permuta de ações, não há se falar em tributação, porquanto o ganho amealhado na operação não está realizado, só podendo ser onerado quando estiver liquidado, já que às pessoas físicas se aplica o regime de caixa. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Intimado em 29/05/2017, o recurso interposto em 22/06/2017 é tempestivo (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 33). Presentes as condições de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. Notese que o recurso é parcial, tendo o recorrente expressamente sustentado que restringiria a discussão recursal ao ganho de capital. Decadência. A decisão recorrida afastou a preliminar de decadência por aplicar o art. 173, I, do CTN, em face da inexistência de pagamento antecipado, mesmo que parcial. O recorrente não nega a inexistência de qualquer pagamento e nem que o tributo em questão sujeitese ao lançamento por homologação. No seu entender, contudo, não seria possível a aplicação do art. 173, I, por ser a tributação do ganho de capital definitiva e exclusiva e por até hoje não ter havido o ganho de capital. A objeção levantada pelo recorrente não tem o condão de afastar a incidência do art. 173, I, do CTN, eis que a incidência do art. 150, §4°, do CTN demanda a existência de antecipação de pagamento. Esse entendimento é de observância obrigatória, eis que o art. 62, § 2°, do Regimento Interno do CARF impõe a utilização da regra definida no REsp nº 973.733 – SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que o art. 150, §4º, do CTN, somente deva ser adotado nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e, cumulativamente, não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalecem os ditames do art. 173 do CTN. Além disso, a matéria está sumulada pelo Superior Tribunal de Justiça: Súmula STJ n° 555 Quando não houver declaração do débito, o prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário contase exclusivamente na forma do art. 173, I, do CTN, nos casos em que a legislação atribui ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa. Fl. 847DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 848 10 Se houve ou não ganho de capital, é matéria de mérito e com ele será analisada. Logo, em relação à preliminar de decadência, não merece reforma a decisão de piso. Isenção. A isenção prevista no artigo 4º do DecretoLei nº 1.510, de 1976, por ter sido expressamente revogada pelo artigo 58 da Lei nº 7.713, de 1988, não se aplica a fato gerador (alienação) ocorrido a partir de 1º de janeiro de 1989, pois inexiste direito adquirido a regime jurídico e não se tratava de isenção concedida por prazo determinado e nem em caráter oneroso (CTN, art. 178). Aprovada na Sessão Plenária de 03/12/1969, a aplicação da Súmula do STF n° 544 se restringe aos limites traçados pela nova redação do art. 178 do CTN, advinda da Lei Complementar n° 24, de 1975. Logo, no caso concreto, deve ser aplicada a lei vigente ao tempo da alienação, por força do art. 144 do CTN. Nesse sentido, invocase a jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais (Acórdão nº 9202006.508, de 26 de fevereiro de 2018; e Acórdãos nº 9202004.506 e nº 9202004.507, ambos de 25 de outubro de 2016). A Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), por meio da Solução de Consulta (SC) Cosit nº 505, de 17 de outubro de 2017, passou, após o lançamento e o julgamento de primeira instância, a compreender que as alienações de participações societárias efetuadas depois de 1º de janeiro de 1989 podem se beneficiar da isenção da alínea "d" do art. 4º do DecretoLei nº 1.510, de 1976, ao ponderar a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a Portaria PGFN n° 502, de 2016. Contudo, a jurisprudência e os encaminhamentos da ProcuradoriaGeral da Fazenda e da Cosit não são vinculantes, como bem destacado no voto vencedor do Acórdão n° 9202006.508 da 2ª Turma da Câmara Superior de Recuros Fiscais, proferido na sessão de 26 de fevereiro de 2018: Por fim, faço notar, ainda, quanto aos atos administrativos emanados da PGFN e da COSIT relacionados ao tema citados pela nobre Relatora, que nenhum deles possui caráter vinculante em relação a este Conselho, o que também se aplica aos julgados do STJ ali citados, visto que não proferidos sob a sistemática constante do art. 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 Código de Processo Civil/2015, de forma a que fossem obrigatoriamente aqui reproduzidos, na forma do art. 62, §2° do RICARF vigente. Destarte, mantenho o entendimento de não haver direito adquirido à isenção do imposto sobre o ganho de capital decorrente das participações societárias alienadas a partir de 1º de janeiro de 1989, data de vigência da Lei nº 7.713, de 1988. Permuta de ativos e inocorrência de ganho de capital. Segundo o recorrente, teria havido permuta com torna e o dinheiro recebido pela venda das ações nunca teria estado livre e à disposição do vendedor, pois se obrigara a arcar com contingências ou indenizações imputáveis à Drogão e para tanto teria depositado o preço em fundo de investimentos e dele iria abatendo os valores para arcar com tais dívidas, havendo escrow account. Foram pactuados três instrumentos contratuais. A compra e venda das ações está veiculada no "Instrumento Particular de Contrato de Compra e Venda de Quotas e outras Avenças" (fls. 86/96). Não apenas o título, mas as premissas e cláusulas desse contrato deixam claro de que se trata de uma compra e venda e que o preço é certo e deve ser pago a vista, transcrevo: Fl. 848DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 849 11 PREMISSAS CONSIDERANDO QUE: (a) os Quotistas Drogão, cm conjunto, detêm a totalidade do capital social da Drogão; (b) a Drogaria deseja adquirir 2.858.180 (dois milhões, oitocentas e cinquenta e oito mil, cento c oitenta) quotas de emissão da Drogão, equivalentes a 25,30% (vinte e cinco inteiros e trinta centésimos por cento) do seu capital sócia! total, diretamente dos Quotistas Drogão, e os Quotistas Drogão desejam vender à Drogaria referidas quotas; e (c) as Partes celebrarão na presente data um (i) Instrumento Particular de Subscrição de Ações e Outras Avenças ("Contrato de Subscrição''), por meio do qual os Quotistas Drogão subscreverão i.935.790 (um milhão, novecentas e trinta e cinco mil, setecentas e noventa) ações de emissão da Drogaria, mediante a conferência, pelos Quotistas Drogão para a Drogaria, de 8 438.974 (oito milhões, quatrocentas e trinta e oito mil, novecentas e setenta e quatro) quotas de emissão da Drogão representativas de 74,70% (setenta e quatro inteiros e setenta centésimos por cento) do total do capital social da Drogão, e (ii) Instrumento Particular de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças ("Contrato de Compra e Venda de Quotas Administradora"), por meio do qual a Drogaria adquiriu 20.000 (vinte mil) quotas de emissão da Drogão Administradora de Cartões de Crédito. Comércio e Participações Ltda. de titularidade dos Quotistas; AS PARTES RESOLVEM celebrar o presente Instrumento Particular de Contrato de Compra e Venda de Quotas e Outras Avenças, de acordo com os seguintes termos e condições: (...) CLÁUSULA II COMPRA E VENDA 2.1. Compra c Venda. Observados os termos e condições do presente Contrato de Compra e Venda, Paulo e Marcos, neste ato e pelo presente Contrato de Compra e Venda, vendem à Drogaria e a Drogaria compra de Paulo e Marcos, respectivamente, 1.429.090 (um milhão, quatrocentos e vinte e nove mil e noventa) c 1.429.090 (um milhão, quatrocentos e vinte e nove mil e noventa) quotas de emissão da Drogüo (em conjunto, "Quotas"), representativas de 25,30% (vinte e cinco inteiros t trinta centésimos poi cento) do seu capital social. A transferência de tais Quotas à Drogaria darseá na presente data mediante alteração do contrato social da Drogão. a ser assinada na presente data. 2.1.1. Preço, O valor total pago pelas Quotas é de R$24.500.000,00 (vinte e quatro milhões e quinhentos mil Reais) ("Preço das Quotas"), a ser pago no primeiro Dia Útil após a presente data, da seguinte forma: (i) RS 12.250.000,00 (doze Fl. 849DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 850 12 milhões, duzentos e cinquenta mil Reais) para Paulo, e (ii) R$12.250.000,00 (doze milhões, duzentos e cinquenta mil Reais) para Marcos. 2.1.2. Pagamento. O Preço das Quotas deverá será pago à vista, no primeiro Dia Útil após a presente data, pela Drogaria para Paulo e Marcos, nos lermos da Cláusula 2.1.1 acima, mediante transferência de fundos imediatamente disponíveis por meio de transferência eletrônica (TED), para as contas correntes indicadas por Paulo e Marcos. (...) CLAUSULA IV VALIDADE E INDENIZAÇÃO 4.1. Indenização pelos Quotistas Drogao. Toda ç qualquer indenização devida pelos Quotistas Drogão oriunda do presente Contrato deverá seguir o rito, processo e limites estabelecidos no Contrato de Subscrição, nos termos da Cláusula IV, conforme aplicável. Portanto, não se sustenta a alegação de que teria havido permuta de ações com torna em dinheiro. A leitura do "Instrumento Particular de Contrato de Subscrição de Ações e Outras Avenças"(fls. 108134) corrobora essa constatação, transcrevo: PREMISSAS CONSIDERANDO QUE: (a) (i) os Acionistas Codrome detêm, em conjunto. 81,0343% das ações que compõem o capitai social da Codrome, e (ii) os Quotistas Drogao detêm, em conjunto, a totalidade do capitai saciai da Drogão; (b) a Codrome detém 99,9951% das ações que compõem o capital social de Drogaria; (c) as Partes decidiram unificar as operações da Drogao o da Drogaria ("Associação"), mediante uma operação que envolve, num primeiro instante, a subscrição de ações de Drogaria pelos Quotistas Drogão, a serem integral izadas mediante a conferência, de quotas do capitai social da Drogão, e. num segundo instante, a subscrição, pelos Quotistas Drogão, de ações do capitai cie Cocirome, integralizadas mediante a conferência das ações de Drogaria que esses subscreveram, como acima referido; e (d) as Panes entendem que a Associação resulta na redução de custos redundantes e ganhos dc escala operacional que viabilizarão investimentos mais elevados e uma maior taxa de crescimento de (brma sustentada, em linha com a estratégia de contínua expansão, dos negócios da Drogão e da Drogaria, resultando em maior eficiência e competitividade para fazer frente aos desafios do mercado nacional: Fl. 850DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 851 13 AS PARTES RESOLVEM celebrar o presente Instrumento Particular de Contrato de Subscrição de Ações e Outras Avenças, de acordo com os seguintes termos e condições: (...) CLAUSULA IV VALIDADE E INDENIZAÇÃO 4.1. Indenização pelos Quotistas Drogão. Os Quotistas Drogão, individualmente e sem solidariedade, deverão indenizar, defender ou manter a Drogaria, a Codrome, os Acionistas Codrome, e seus respectivos conselheiros, diretores, empregados, procuradores. Afiliadas, representantes e respectivos sucessores e cessionários (cm conjunto.''Partes indenizáveis Codrome'' e, individualmente, •'Parte Indcmzável Codrome''") isentos de todas e quaisquer perdas, danos, obrigações, responsabilidades, contingências (consubstanciadas em processos judiciais ou administrativos ou em procedimentos de arbitragem), prejuízos, passivos, reclamações, ações, processos, demandas, investigações, fiscalizações, autuações, decisões (incluindo judiciais, administrativas ou arbitrais), cobranças, multas, juros, penalidades, custos e despesas' (incluindo, sem limitação, honorários de advogados, custas, depósitos judiciais e desembolsos) (em conjunto. "Passivos Indenizáveis". e, individualmente, "Passivo Indenizável") efetivamente incorridos pela Drogão ou por uma Parte Indenizável Codrome e decorrentes exclusivamente: (i) de violação, inveracidade ou inexatidao de qualquer declaração ou garantia prestada pelos Quotistas Drogão nes termos da Cláusula 11I(B) acima; (ii) do não cumprimento, pela Drogao ou pelos Quotistas Drogão, de quaisquer de suas obrigações constantes do presente Contrato de Subscrição: ou (íií) de fatos, atos, omissões ou negócios da Drogào relativos ao período anterior à presente data e cujo valor não esteja especifica e integralmente provisionado nas demonstrações financeiras de Drogão." datadas de 31 de dezembro de 2009 e anexas ao presente Contrato de Subscrição como Anexo 4,l("Demonstrações financeiras Drogão). 42 Garantia da indenização pelos Quotistas Drogão, Em garantia da obrigação assumida nos termos desta Cláusula, os Quotistas Drogão constituíram, nesta data, em favor dos Acionistas Codrorne, da Codrome c da Drogaria, penhor sobre as Novas Ações da Codrome, nos termos do Contrato de Penhor ("Penhor'). Para tanto, os Quotistas Drogão autorizam, neste ato e pelo presente instrumento, o lançamento do registro do Penhor nos registros societários da Codrome e nos certificados de ações eventualmente emitidos, 4.2.1. O .Penhor constituído sobre as Novas Ações Codrome permanecerá em vigor ate a ocorrência de um Evento de Liquidez. Na ocorrência de um Evento de Liquidez, o Penhor Fl. 851DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 852 14 constituído sobre as Novas Ações Codrome que estiverem sendo Transferidas deverá ser liberado para que o(s) Quotísta(s) Drogão possa(m) Transferir tais ações livres de quaisquer Gravames, desde que o(s) Quotista(s) Drogão constitua(m), nos termos do Contrato de Penhor, garantia real em favor dos Acionistas Codrome. da Codrome e da Drogaria, sobre 50% dos créditos ou recursos recebidos pelo(s) Quotista(s) Drogão em razão de tal Transferência {"Penhor de Direitos Creditórios"). 4,2.2. O Penhor de Direitos Creditórios permanecerá válido e em vigor por um prazo de quatro unos contados da presente data ("Data de A Duração"). Na Data de Apuração, as Partes deverão so reunir' c determinar, dentro cio prazo cie 05 (cinco) Dias Úteis, o valor total de Passivos Indeniza veis que lenham se materializado ate tal data c que, nos termos das Cláusulas 4.1 e 4.4. sejam de responsabilidade dos Quotistas Drogão ("Valor Final de Contingências"). Após a determinação do Valor Final de Contingências, deverá ser liberado da garantia constituída, nos termos do Contrato de Penhor, o que for excedente enlie (i) o valor total depositado na conta corrente objeto do Penhor de Direitos Creditórios, e (íi) o Valor Final de Contingências. O procedimento previsto nesta Cláusula deverá ser repetido anualmente após a Data de Apuração até que a totalidade dos recursos depositados na conta corrente bem corno as aplicações financeiras a ela vinculadas objeto do Penhor de Direitos Creditórios sejam liberados para os Quotistas Drogão ou utilizados para o pagamento do Valor Final de Contingências. Caso as Partes, na Data de Apuração ou em qualquer data de apuração posterior, não cheguem a um acordo com relação aos valores que devem ficar relidos em garantia ou liberados para os Quotistas Drogão, a matéria será submetida a arbitragem nos termos da Cláusula 11.7 abaixo para que os árbitros, com o auxílio de uma das Empresas de Auditoria Acordada, determinem os valores em discussão. A determinação dos árbitros será final e não passível de questionamento. Os custos da arbitragem e da Empresa de Auditoria Acordada serão antecipados pelos Quotistas Drogão e pelos Acionistas Codrome, na proporção dc 50% (cinqüenta por cento) para cada, ressalvado, entretanto, que após decisão ou determinação arbitral definitiva a parte perdedora deverá reembolsar os custos incorridos pela outra parte, na proporção da sucumbência em que incorrer. Constatase, destarte, que houve uma efetiva compra e venda com preço certo e pago à vista e duas integralizações de ações; ações da Dogrão integralizadas na Drogaria e, a seguir, as ações da Drogaria integralizadas na Codrome. Não houve instituição de escrow account, cuja definição dada pelo Banco Central do Brasil transcrevo1: ESCROW ACCOUNT conta especial instituída pelas partes junto a uma terceira entidade, sob contrato, destinada a acolher depósitos, a serem feitos pelo devedor e ali mantidos em custódia, para liberação após o cumprimento de requisitos especificados. O dinheiro percebido pela venda das ações integrou o patrimônio jurídico do contribuinte, a caracterizar disponibilidade econômica ou jurídica (e também a financeira), e ao 1 http://www.bcb.gov.br/htms/infecon/dividarevisada/apends_gloss_bibliografia.pdf Fl. 852DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 853 15 aplicálo em fundo de investimentos o autuado exerce prerrogativa inerente ao direito de propriedade, sendo irrelevante a forma de tributação dos rendimentos do fundo. Além disso, como bem demonstrou o Acórdão recorrido, o montante de R$ 4.189.757,96 destinado ao Banco Safra BSI S/A pela intermediação do negócio foi devidamente excluído. A circunstância de se valer do dinheiro aplicado para arcar com dívidas assumidas por força do "Instrumento Particular de Contrato de Subscrição de Ações e Outras Avenças" em nada afeta a anterior caracterização do ganho de capital. Integralização de Ações. No caso, o recorrente adquiriu a participação societária na Drogaria mediante entrega das ações da Drogão e, a seguir, na Codrome mediante entrega das ações da Drogaria. Em outras palavras, saíram ações de seu patrimônio jurídico e novas ações ingressaram. A situação em questão representa uma transferência de domínio de um bem para outra pessoa, tendo em vista os efeitos patrimoniais para o sócio, o qual, ao adquirir participação societária atual, entrega ações anteriormente possuídas integrantes de seu patrimônio. Nesse sentido, dispõe a legislação: Lei 9.249, de 1995 Art. 23. As pessoas físicas poderão transferir a pessoas jurídicas, a título de integralização de capital, bens e direitos pelo valor constante da respectiva declaração de bens ou pelo valor de mercado. § 1º Se a entrega for feita pelo valor constante da declaração de bens, as pessoas físicas deverão lançar nesta declaração as ações ou quotas subscritas pelo mesmo valor dos bens ou direitos transferidos, não se aplicando o disposto no art. 60 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, e no art. 20, II, do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983. § 2º Se a transferência não se fizer pelo valor constante da declaração de bens, a diferença a maior será tributável como ganho de capital. As operações que importem alienação de bens estão sujeitas à apuração de ganho de capital: Lei 7.713, de 1988 Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (...)§ 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, decorrentes de alienação de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de transmissão do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou Fl. 853DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 854 16 direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. § 4º A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Notese que o §3º do art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, veicula rol exemplificativo, enumerando sem esgotar negócios jurídicos reconhecidamente distintos, como a compra e venda, permuta, desapropriação e os contratos afins. A disponibilidade da nova riqueza em pecúnia não é requisito absoluto para a tributação do ganho de capital, bastando o acréscimo patrimonial advindo do ingresso de bem ou direito. Ao definir o fato gerador do imposto, o ordenamento não se reporta à disponibilidade financeira ou circulação de numerário (dinheiro em caixa regime de caixa), mas à disponibilidade econômica ou jurídica (acréscimo patrimonial): Constituição Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: (...) III renda e proventos de qualquer natureza; (...) § 2º O imposto previsto no inciso III: I será informado pelos critérios da generalidade, da universalidade e da progressividade, na forma da lei; Código Tributário Nacional Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Lei 7.713, de 1988 Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (...)§ 4º A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou Fl. 854DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 855 17 proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Por isso, não há que se falar em mera expectativa de renda a ser concretizada apenas quando da venda das ações, uma vez que as ações entregues em pagamento foram avaliadas economicamente, refletindo o seu valor a prática do mercado, ainda que sem referência bursátil, e representando o acréscimo patrimonial do contribuinte na perspectiva estática, ou seja, em relação a situação anterior à operação. Notese que o artigo 55 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, Regulamento do Imposto de Renda, RIR, em seus incisos IV e XIII, traz exemplificativamente hipóteses de incidência em que não há recebimento de valores em dinheiro: Art. 55. São também tributáveis (Lei nº 4.506, de 1964, art. 26, Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 4º, e Lei nº 9.430, de 1996, arts. 24, § 2º, inciso IV, e 70, § 3º, inciso I): (...) IV os rendimentos recebidos na forma de bens ou direitos, avaliados em dinheiro, pelo valor que tiverem na data da percepção; (...) XIII as quantias correspondentes ao acréscimo patrimonial da pessoa física, apurado mensalmente, quando esse acréscimo não for justificado pelos rendimentos tributáveis, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva; Não há uma mera substituição de ações, com equivalência de valores entre bens substituídos e, no caso concreto, não há como se considerar haver uma simples troca entre bens de mesmo valor. Não se amoldam ao caso concreto o art. 121, § 2°, do RIR e nem os Pareceres PGFN n° 970/1991 e 454/1992. Independentemente da existência de torna, por força do § 3º do art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, há ganho de capital tributável sempre que existir uma diferença positiva entre o custo de aquisição e o valor de bens permutados. Há aquisição de disponibilidade econômica com o recebimento de um valor que acresce efetivamente riqueza ao patrimônio do contribuinte, mesmo que não seja em dinheiro. A celebração do contrato de penhor pelo contribuinte revela que adquiriu a titularidade e a disponibilidade jurídica das ações, pois apenas o proprietário pode dar bens em garantia e para tanto, além do domínio, deve ter a livre disposição da coisa (Lei n° 3.071, de 1916, art. 756; e Lei n° 10.406, de 2002, art. 1.420). Notese que o Contrato de Penhor de Ações estabelece expressamente como uma de suas premissas que "os Acionistas Garantidores são legítimos titulares das Ações Empenhadas" (fls. 509). Assim, a instituição do penhor não implica concluir pela existência de mera expectativa de acréscimo patrimonial e, portanto, pela necessidade de diferimento da tributação para a data de encerramento do mesmo ou para o momento de alienação das participações societárias, quando só então seria possível mensurar, na visão do recorrente, o seu efetivo acréscimo patrimonial. Fl. 855DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 856 18 Houve entrega de ações para subscrição de novas ações, sendo estas penhoradas. Há aquisição de disponibilidade econômica com o recebimento de bem que acresce efetivamente riqueza ao patrimônio do contribuinte, mesmo que não seja em dinheiro. Isso porque, a incidência da exação tributária é demarcada no momento em que as ações mais valiosas ingressam no patrimônio do contribuinte, de acordo com precificação determinada por laudos de avaliação específicos, não ficando a base de cálculo do ganho de capital submetida aos fatores naturais do mercado de ações que acarretam flutuações no preço do ativo. Se, após a liberação do penhor, o contribuinte integraliza as ações em fundo de investimento como garantia, novamente exercita seu domínio sobre as ações. A jurisprudência e doutrina invocadas não são vinculantes. Por todo o exposto, não prosperam as razões recursais. Isso posto, voto por conhecer e negar provimento ao recurso voluntário. Após a leitura desse voto, diante da invocação do Ato Declaratório PGFN n° 12, de 2018, entendo que, ainda assim, a situação em tela possibilita a conclusão por se negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator Voto Vencedor Rayd Santana Ferreira Redator Designado. Não obstante as sempre bem fundamentadas razões do ilustre Conselheiro Relator, peço vênia para manifestar entendimento divergente, por vislumbrar na hipótese vertente conclusão diversa da adotada pelo nobre julgador, quanto o posicionamento ao Recurso Voluntário, devendo ser modificada a decisão a quo, com o cancelamento do ganho de capital, como passaremos a demonstrar. Consoante se positiva dos autos, os argumentos do recorrente têm o condão de reformar o Acórdão atacado, bem como o Auto de Infração, por representar a melhor interpretação a propósito do tema, garantindo a segurança jurídica em homenagem ao direito adquirido à isenção de ganho de capital sobre a alienação de participação societária, posteriormente à vigência do DecretoLei nº 1.510/76, conquanto que tenha permanecido com a propriedade de sua participação por 05 (cinco) anos durante o período de validade de aludido Diploma Legal, impondo o acolhimento do pleito do contribuinte, com o fito de se restabelecer a ordem legal nesse sentido. Com efeito, a Colenda Câmara Superior de Recursos Fiscais já se manifestou em diversas ocasiões a respeito da matéria, oferecendo guarida ao requerimento do contribuinte, conforme se extrai do excerto do voto do ilustre Conselheiro Gonçalo Bonet Allage, acolhido de forma unânime, exarado nos autos do processo nº 10875.004768/0054, Acórdão nº 920200.102, de onde peço vênia para transcrever excerto e adotar como razões de decidir, in verbis: Fl. 856DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 857 19 Reitero que o acórdão proferido pela Segunda Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, deu provimento ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte, reconhecendo o direito à restituição do indébito tributário pleiteado. Segundo a recorrente, como a alienação ocorreu após a revogação da isenção prevista pelo Decretolei n° 1.510/76 e inexiste direito adquirido no caso, estão corretos os recolhimentos efetuados e não merece prosperar o pedido de restituição. Eis a matéria em litígio. Pois bem, o artigo 4°, alínea “d”, do Decretolei n° 1.510/76, que tratou, entre outros temas, da tributação de resultados obtidos na venda de participações societárias por pessoas físicas, estabeleceu o seguinte: Art. 4°. Não incidirá o imposto de que trata o art. 1°: (...) d) nas alienações efetivadas após decorrido o período de 5 (cinco) anos da data da subscrição ou aquisição da participação. Este benefício fiscal foi revogado pelo artigo 58 da Lei n° 7.713/88. No caso, é incontroverso que o contribuinte recebeu por doação participações societárias em 22/08/1979 e em 15/04/1983, tendo as alienado em 14/05/1996. Com isso, ele faz jus a tal benefício? Penso que sim, de modo que a decisão recorrida merece ser confirmada. Sob minha ótica, o benefício fiscal previsto no Decretolei n° 1.510/76 tinha por objetivo excluir da tributação os ganhos auferidos quando da alienação de participações societárias, após decorrido o prazo de cinco anos da aquisição ou subscrição das participações. Salvo melhor juízo, esta foi a intenção do legislador. Nesse sentido, não se pode olvidar que ao tempo da edição da Lei n° 7.713/88, o interessado já havia cumprido a exigência prevista no artigo 4°, alínea “d”, do Decretolei n° 1.510/76, pois era proprietário das ações da empresa Pardelli S.A. Indústria e Comércio desde 22/08/1979 e 15/04/1983, quando as recebeu por doação. Entendo que a incidência do imposto de renda pessoa física sobre o ganho de capital apurado na alienação de participações societárias não se aplica quando tais ações foram adquiridas há Fl. 857DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 858 20 mais de cinco anos contados do início de vigência da Lei n° 7.713/88, como ocorre no caso em tela. Devese respeitar o direito adquirido, previsto no artigo 5°, inciso XXXVI, da Constituição Federal e no artigo 6° da Lei de Introdução ao Código Civil – LICC. Segundo De Plácido e Silva1,: ... direito adquirido quer significar o direito que já se incorporou ao patrimônio da pessoa, já é de sua propriedade, já constitui um bem, que deve ser judicialmente protegido contra qualquer ataque exterior, que ouse ofendêlo ou turbálo. (...) O direito adquirido tira a sua existência dos fatos jurídicos passados e definitivos, quando o seu titular os pode exercer. No entanto, não deixa de ser adquirido o direito, mesmo quando o seu exercício depende de um termo prefixado ou de uma condição preestabelecida, inalterável a arbítrio de outrem. Por isso, sob o ponto de vista da retroatividade das leis, não somente se consideram adquiridos os direitos aperfeiçoados ao tempo em que se promulga a lei nova, como os que estejam subordinados a condições ainda não verificadas, desde que não se indiquem alteráveis ao arbítrio de outrem. Sob minha ótica, a edição da Lei n° 7.713/88 não pode prejudicar o direito do contribuinte previsto no artigo 4°, alínea “d”, do Decretolei n° 1.512/76, apenas pelo fato de a alienação da participação societária não ter ocorrido anteriormente, ou seja, antes da revogação do benefício fiscal. A posição defendida por este julgador é corroborada pela jurisprudência amplamente majoritária do extinto e Egrégio Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme ilustram as ementas dos seguintes acórdãos: IRPF – PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS – DIREITO ADQUIRIDO – DECRETOLEI 1.510/76 – Não incide imposto de renda na alienação de participações societárias integrantes do patrimônio do contribuinte há mais de cinco anos, nos termos do art. 4º, alínea d, do DecretoLei 1.510/76 a época da publicação da Lei de nº 7.713, em decorrência do direito adquirido. Recurso especial negado. (CSRF, Quarta Turma, Recurso n° 102134.080, Acórdão CSRF/0400.215, Relator Conselheiro Wilfrido Augusto Marques, julgado em 14/03/2006) IRPF – PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS – AQUISIÇÃO SOBRE OS EFEITOS DA HIPÓTESE DE NÃO INCIDÊNCIA PREVISTOS NO ART. 4º, ALÍNEA "d" DO DECRETOLEI 1.510/76 – DIREITO ADQUIRIDO A ALIENAÇÃO SEM TRIBUTAÇÃO MESMO NA VIGÊNCIA DE LEGISLAÇÃO Fl. 858DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 859 21 POSTERIOR ESTABELECENDO A HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA (LEI 7.713/88) – Se a pessoa Física titular da participação societária, sob a égide do artigo 4º "d", do DecretoLei 1.510/76, subseqüentemente ao período de 5 (cinco) anos da aquisição da participação, alienoua, ainda que legislação posterior ao decurso do prazo de 5 (cinco) anos tenha transformado a hipótese de não incidência em hipótese de incidência, não torna aquela alienação tributável, prevalecendo, sob o manto constitucional do direito adquirido o regime tributário completado na vigência da legislação anterior que afastava qualquer hipótese de tributação. (CSRF, Primeira Turma, Recurso n° 106013.824, Acórdão CSRF/0103.725, Redator Designado Conselheiro Victor Luís de Salles Freire, julgado em 18/02/2002) IMPOSTO SOBRE GANHO DE CAPITAL PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS ISENÇÃO Participações societárias com mais de cinco anos sob a titularidade de uma mesma pessoa, completados até 31.12.88, trazem a marca de bens exonerados do pagamento do imposto sobre ganho de capital, na forma do art. 4º letra d, do DL 1.510/76, sendo irrelevante que a alienação tenha ocorrido já na vigência da Lei nº. 7.713/88. IRPF PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS DIREITO ADQUIRIDO DECRETOLEI 1.510/76 Não incide imposto de renda na alienação de participações societárias integrantes do patrimônio do contribuinte há mais de cinco anos, nos termos do art. 4º, alínea d, do Decretolei 1.510/76 a época da publicação da Lei de nº. 7.713, em decorrência do direito adquirido. DISPONIBILIDADE ECONÔMICA. De ser afastada a alegação de que parte dos valores foram recebidos e posteriormente depositados em conta especial, sem permitir ao contribuinte a disponibilidade econômica e jurídica sobre o valor tributado, já que a estipulação efetuada entre as partes, comprador e vendedor das ações, não modificou a natureza da forma de pagamento. Recurso provido. (Primeiro Conselho, Segunda Câmara, Recurso Voluntário n° 158.393, Acórdão n° 10249.306, Relatora Conselheira Vanessa Pereira Rodrigues, julgado em 08/10/2008) AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA SOB A ÉGIDE DO DECRETOLEI Nº. 1510, DE 1976 ALIENAÇÃO NA VIGÊNCIA DE NOVA LEI REVOGADORA DO BENEFÍCIO DIREITO ADQUIRIDO PAGAMENTO INDEVIDO RESTITUIÇÃO A alienação de participação societária adquirida sob a égide do art. 4°, alínea "d", do Decretolei nº. 1.510, de 1976, após decorridos cinco anos da aquisição, não constitui operação tributável, ainda que realizada sob a vigência de nova lei revogadora do benefício, tendo em vista o direito adquirido, constitucionalmente previsto. Implementada a condição antes da revogação da lei que concedia o benefício, os Fl. 859DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 860 22 pagamentos porventura efetuados são indevidos, portanto passíveis de restituição. Recurso provido. (Primeiro Conselho, Quarta Câmara, Recurso Voluntário n° 147.557, Acórdão n° 10421.519, Relator Conselheiro Nelson Mallmann, julgado em 26/04/2006) Entendo, portanto, que a decisão recorrida merece ser confirmada. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso da Fazenda Nacional.” Na hipótese dos autos, tendo o contribuinte permanecido com sua participação societária por mais de 05 (cinco) anos, durante a vigência do DecretoLei nº 1.510/1976, não há que se falar em expectativa de direito, mas, sim, em direito adquirido, tendo em vista o cumprimento dos pressupostos legais para fruição da isenção no decorrer do período regido pelo dispositivo legal retro. Destarte, o fato de a alienação de sua participação societária ter ocorrido sob o manto dos preceitos insculpidos na Lei nº 7.713/88, não tem o condão de rechaçar o seu direito adquirido. Como muito bem asseverou a recorrente há de se observar o princípio do tempus regit actum, implicando dizer que o contribuinte adquiriu o direito de gozar de aludida benesse fiscal no período em que vigia a norma isentiva, sendo defeso a alteração introduzida pela Lei nº 7.713/88 retroagir de maneira a alcançar fato jurídico perfeito e acabado. A possibilidade de aplicação de uma norma mesmo após a sua revogação, dá se o nome de “ultratividade”. Sobre a ultratividade em matéria de direito adquirido, vale destacar a lição do professor Roque Antônio Carraza (Curso de direito constitucional tributário. São Paulo: Malheiros, 1999, 13ª ed., p. 555.), oportunidade em que o doutrinador demonstra com clareza a impossibilidade de lei posterior suprimir direito adquirido: Em remate, convém assinalarmos que o direito adquirido e o ato jurídico perfeito mais do que imunes ao efeito retroativo da lei nova, impedem que esta, de algum modo, os desconstitua. (...) Neste sentido, o direito adquirido e o ato jurídico perfeito asseguram a ultratividade da lei velha, que continuará a disciplinar as situações que sob sua égide se consumara, mesmo depois da entrada em vigor da lei nova. Tudo em homenagem ao princípio da segurança jurídica. (grifos acrescidos) Em se tratando diretamente de matéria tributária, mais especificamente com relação às isenções, o direito adquirido é disciplinado pelo Código Tributário Nacional. De acordo com o art. 178 deste código, as isenções podem ser revogadas ou modificadas por lei, exceto quando estas forem concedidas mediantes determinados requisitos ou condições, as chamadas isenções condicionadas. Fl. 860DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 861 23 Art. 178 – A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art. 104. Depreendese, a partir da leitura deste dispositivo, que o contribuinte passa a ter direito adquirido a uma isenção condicionada a partir do momento em que cumpre as exigências legais para tanto. Além de que, como demonstrado anteriormente, esse direito não se esvazia com a eventual revogação póstera da norma concedente do referido benefício. Não sendo o bastante a vasta fundamentação acima esposada, a Solução de Consulta Cosit n° 505, de 17 de outubro de 2017, aduz que a hipótese desonerativa prevista na alínea “d” do art. 4º do DecretoLei nº 1.510, de 1976, aplicase às alienações de participações societárias efetuadas por pessoa física após 1° de janeiro de 1989, data de revogação do benefício, desde que tais participações já constassem do patrimônio do adquirente em prazo superior a cinco anos, contado da referida data, assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA SOB A ÉGIDE DO DECRETOLEI Nº 1510, DE 1976. ALIENAÇÃO NA VIGÊNCIA DE NOVA LEI REVOGADORA DO BENEFÍCIO. LEGISLAÇÃO APLICÁVEL. A hipótese desonerativa prevista na alínea “d” do art. 4º do DecretoLei nº 1.510, de 27 de dezembro de 1976, aplicase às alienações de participações societárias efetuadas após 1° de janeiro de 1989, desde que tais participações já constassem do patrimônio do adquirente em prazo superior a cinco anos, contado da referida data. A isenção é condicionada à aquisição comprovada das ações até o dia 31/12/1983 e ao alcance do prazo de 5 anos na titularidade das ações ainda na vigência do Decretolei nº 1.510, de 1976, revogado pelo art. 58 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Dispositivos Legais: art. 4º, alínea “d”, do Decreto Lei nº 1.510, de 27 de dezembro de 1976; art. 178 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). No mesmo sentindo, claramente aplicável ao caso, dispõe o Ato Declaratório PGFN n° 12, de 25 de junho de 2018, in verbis: (...)nas ações judiciais que fixam o entendimento de que há isenção do imposto de renda no ganho de capital decorrente da alienação de participações societárias adquiridas até 31/12/1983 e mantidas por, pelo menos, cinco anos, sem mudança de titularidade, até a data da vigência da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988,(...) Fl. 861DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 862 24 Ante o exposto, resta claro que o contribuinte tem direito adquirido à isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física incidente sobre o ganho de capital auferido pela alienação de participação societária, vez que atendeu a condição imposta pelo art. 4º, alínea “d” do DecretoLei 1.510/76 antes mesmo de sua revogação pela Lei n. 7.713/88. Imprescindível mencionar o entendimento do Conselheiro Cleberson Alex Friess, pois há algumas ressalvas com a posição adotada por este Redator, como muito bem restou demonstrado na "Declaração de Voto" exarada no Acórdão n° 2401005.278, senão vejamos: A alínea "d" do art. 4º do DecretoLei nº 1.510, de 1976, estabeleceu hipótese de não incidência do imposto sobre a renda nas alienações de participações societárias efetivadas após decorrido o período de 5 (cinco) anos contados da data da subscrição ou aquisição da participação. O dispositivo foi revogado pelo art. 58 da Lei nº 7.713, de 1988, com efeitos a partir de 1º de janeiro de 1989. Meu ponto de vista é que não se tratou de isenção concedida por prazo determinado, tampouco de caráter oneroso (ver, por exemplo, Acórdão nº 2401004.662, de 15 de março de 2017). Uma vez qualificada como isenção não onerosa e por prazo indeterminado, não há que se falar em direito adquirido ao benefício fiscal, podendo ser revogada a qualquer tempo pelo legislador, aplicandose a lei tributária vigente no momento da ocorrência do fato gerador, quando configurado o acréscimo patrimonial resultante da operação de alienação das participações societárias. (...) Acontece que, recentemente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), por meio da Solução de Consulta (SC) Cosit nº 505, de 17 de outubro de 2017, declarou que mesmo as alienações de participações societárias efetuadas após 1º de janeiro de 1989 podem gozar da hipótese desonerativa estabelecida na alínea "d" do art. 4º do DecretoLei nº 1.510, de 1976. Senão vejamos a ementa da SC Cosit nº 505/2017: (...) Em linhas gerais, a SC Cosit nº 505/2017 acolheu a orientação prevalente sobre o tema existente no Superior Tribunal de Justiça (STJ), assim como o encaminhamento dado pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, por meio da Portaria PGFN nº 502, de 12 de maio de 2016. As soluções de consulta emitidas pela CoordenaçãoGeral de Tributação da RFB tem efeito vinculante no âmbito daquele órgão fazendário, inclusive no que tange às decisões proferidas pelas Delegacias de Julgamento, representando a interpretação oficial da legislação tributária aplicável a fato determinado. Fl. 862DF CARF MF Processo nº 10437.720962/201505 Acórdão n.º 2401005.810 S2C4T1 Fl. 863 25 Implica reconhecer, portanto, que os contribuintes em idêntica situação tributária, sob pena de inaceitável discriminação, devem ser tratados uniformemente pelo Poder Público. À vista dessas razões, com a ressalva do ponto de vista pessoal sobre a matéria, acompanho o voto do I. Relator no sentido de que as ações adquiridas pelo contribuinte até 31 de dezembro de 1983 fazem jus à isenção a que alude o DecretoLei nº 1.510, de 1976, mesmo que a alienação das participações societárias tenha se efetivado na vigência da Lei nº 7.713, de 1988 (Fração Anterior FA).(...)(grifo nosso) Por todo o exposto, VOTO NO SENTIDO DE CONHECER DO RECURSO VOLUNTÁRIO e, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, para afastar o ganho de capital, pelas razões de fato e de direito acima esposadas. É como voto. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Fl. 863DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.901581/2013-86
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do Fato Gerador: 30/09/1999
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. BASE DE CÁLCULO DECLARADA INCONSTITUCIONAL. DEFICIÊNCIA PROBATÓRIA.
É do contribuinte o ônus de provar a existência e regularidade do crédito que pretende ter restituído. É sua a incumbência demonstrar liquidez e certeza quando do exame administrativo. Se tal demonstração não é realizada não há como deferir seu pleito.
Numero da decisão: 3401-005.571
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto da Silva Esteves (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lazaro Antônio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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BASE DE CÁLCULO DECLARADA INCONSTITUCIONAL. DEFICIÊNCIA PROBATÓRIA. É do contribuinte o ônus de provar a existência e regularidade do crédito que pretende ter restituído. É sua a incumbência demonstrar liquidez e certeza quando do exame administrativo. Se tal demonstração não é realizada não há como deferir seu pleito. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto da Silva Esteves (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lazaro Antônio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a conselheira Mara Cristina Sifuentes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 90 15 81 /2 01 3- 86 Fl. 340DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratam os autos de Pedido de Restituição de contribuição para o PIS realizado através de PER/DCOMP, referente pagamento à maior que o devido, incidente sobre base de cálculo definida pelo art. 3º, §1º da Lei nº 9.718,98, declarada inconstitucional pelo STF em sede de repercussão geral. Inicialmente cabe esclarecer que houve evolução na empresa titular do crédito, na época dos fatos (junho/1999) a empresa denominavase SANDIESEL S/A, que foi incorporada em 17/12/2002 pela BELÉM DIESEL S.A. e que por sua vez foi incorporada em 31/01/2007 pela RODOBENS CAMINHÕES CIRASA S.A. A DRF São José do Rio Preto proferiu Despacho Decisório (eletrônico), indeferindo o Pedido de Restituição por inexistência de crédito. Tomando por base o DARF discriminado no PER/DCOMP, constatou que fora integralmente utilizado para quitação de débito declarado para o mesmo período. Não satisfeito com a resposta do fisco, a interessada apresentou Manifestação de Inconformidade, sob as seguintes razões: (i) por economia processual pede para que seja reunidos todos os processos que relaciona, por conterem o mesmo objeto; (ii) que o Despacho Decisório está equivocado pois não foi examinado o real motivo que sustenta o pedido, que foi o recolhimento de PIS com base de cálculo alargada pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, vigente à época dos fatos; (iii) sendo inconstitucional o dispositivo legal mencionado, que trata da ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS, matéria já superada pelo STF com repercussão geral no RE nº 585.235, de 10/09/2008, dá validade ao pedido por pagamento a maior ou indevido; (iv) por força do inciso I do §6º do art. 26A, incluído no Decreto nº 70.325 de 06/03/1972 pela Lei nº 11.941/2009, os órgãos administrativos deverão seguir as decisões com repercussão geral do STF, como aliás, já prevalece nas decisões das CSRF conforme acórdãos que menciona; (v) requer ao final, provar o alegado por todos os meios de prova admitidos, produção de perícia, realização de diligência e a juntada de documentos. Em Primeiro Grau a DRJ/RPO ratificou inteiramente o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição, nos termos do Acórdão nº 14062.228. O sujeito passivo ingressou tempestivamente com recurso voluntário contra a decisão de primeiro grau, reafirmando: (i) que a base de cálculo para o PIS e COFINS deverá ser composta tão somente do valor do faturamento da empresa; (ii) que o montante que compõe o crédito pleiteado se refere a inclusão indevida, na base de cálculo daquela contribuição, de receitas estranhas do conceito de faturamento, o que implicou em pagamento a maior que o devido, efetuado com base no art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98; (iii) que a controvérsia centrase única e exclusivamente na comprovação do direito creditório, porém, entende que o Fisco não se aprofundou na investigação dos fatos, a teor do art. 142 do CTN; (iv) que a DCTF não é o único meio de prova da existência de crédito passível de restituição, tal formalidade não pode se sobrepor ao direito substantivo e destaca jurisprudência do CARF sobre o caso; (v) da mesma forma, amparada em jurisprudência do CARF apela pela busca da verdade material no processo administrativo tributário, realizando uma análise ampla de todas as minúcias da situação para descobrir toda a situação fática e aplicar a norma de forma correta e eficaz; (vi) entende que o conjunto probatório é suficiente para lastrear o crédito por ela pleiteado, com a juntada de balancete devidamente transcrito no Livro Diário, Livro Razão e planilha com memória de cálculo; (vii) salienta, também, que a DRJ deveria ter convertido o julgamento em diligência, conforme previsto no art. 18 do Decreto nº 70.235, em atenção ao princípio da Fl. 341DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 4 3 verdade material; (viii) ao final reforça seu pedido de reforma da decisão recorrida e a restituição do crédito pleiteado. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401005.560, de 26 de novembro de 2018, proferido no julgamento do processo 10280.901573/201330, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Resolução 3401005.560): "O recurso voluntário atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Destacase, primeiramente, que a Recorrente fez constar do pedido de sua Manifestação de Inconformidade que: “Em atendimento ao disposto no inciso V, do art. 16, do Decreto n. 70235, de 6.3.1972, a requerente informa que a matéria objeto desta manifestação de inconformidade não foi submetida à apreciação judicial”, caso contrário deveria juntar cópia da petição, já que o assunto diz respeito à declaração de inconstitucionalidade de Lei (§1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98). Quanto a inconstitucionalidade do dispositivo legal mencionado, é tema já superado em face da revogação do mesmo pela Lei nº 11.941, de 2009. Enquanto não alterado a redação do art. 3º da Lei nº 9.718/98, foi expedido Nota Explicativa pela PGFN/CRJ nº 1.114 de 30/08/2012, delimitando o julgado pelo STF no RE nº 585.235, nos seguintes termos: DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: O PIS/COFINS deve incidir somente sobre as receitas operacionais das empresas, escapando da incidência do PIS/COFINS as receitas não operacionais. Consideramse receitas operacionais as oriundas dos serviços financeiros prestados pelas instituições financeiras (serviços remunerados por tarifas e atividades de intermediação financeira). Repetese aqui o que já firmado pela decisão de piso, em que “chegase à conclusão que a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS, implementada pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, é inconstitucional e deve ser afastada também no âmbito administrativo”. Vêse, portanto, que em termos teóricos convergem para o mesmo ponto, tanto o entendimento do Fisco quanto ao alegado fato que sustenta a tese da Recorrente, de que não cabe Fl. 342DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 5 4 incidência da Contribuição para o PIS sobre receitas que estão fora do conceito de faturamento. Com a declaração de inconstitucionalidade pelo STF, do §1º do art.3º da Lei 9.718/98, sob o regime previsto pelo art. 543B do CPC, assentado como repercussão geral, abriu espaço para os contribuintes reverem suas bases de contribuição para o PIS e a COFINS e pleitearem junto ao fisco o ressarcimento de eventuais valores pagos a maior ou indevidamente. Pelo que ficou demonstrado no processo ora analisado, a Recorrente deu início com Pedido de Ressarcimento de contribuição para o PIS, do período de apuração 30/06/1999, alegando a existência de indébito fiscal pelo pagamento de valor a maior que o devido, pela inclusão na base de cálculo do PIS de valores referentes a receitas que não integram o conceito de faturamento, compreendido exclusivamente pelo produto das vendas de mercadorias e da prestação de serviços. A causa do pedido de ressarcimento é plausível, a controversa reside nas provas que o caso exige. Não basta que existam hipotéticos pagamentos da contribuição para o PIS sobre base de cálculo fora do alcance do conceito de faturamento, é preciso que exista a certeza do pagamento e seja líquido o valor requerido. A repetição de indébito fundase no princípio da legalidade, sob a premissa da existência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. Não basta alegar, deverá ser provado àquilo que se requer. De acordo com o art. 170 do CTN, a compensação de débitos tributários só é autorizada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública, da mesa forma deve ser tratado o pedido de ressarcimento. O Despacho Decisório respondeu ao interessado que o valor do indébito fiscal requerido não existe, pois o pagamento que lhe deu suporte (DARF) foi totalmente utilizado para quitar débito declarado em DCTF. A requerente em sua manifestação de inconformidade esclarece a razão de seu pedido, cujo crédito estaria respaldado por pagamento a maior que o devido por ter sido incluído na base de cálculo da contribuição para o PIS, valores que estariam fora do alcance do conceito de faturamento, conforme declaração de inconstitucionalidade pelo STF do §1º do art.3º da Lei nº 9.718/98. Mas deixa de proceder a retificação da DCTF para que nos sistemas da SRFB fique registrado o crédito reivindicado. As provas trazidas aos autos com a manifestação de inconformidade, são o balancete e folhas do Razão do período de 01 a 30/06/1999, além de uma relação de contas e valores de receitas financeiras, cujo valor atribuído ao PIS S/ Receita Financeira diverge do valor do crédito pleiteado. Fl. 343DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 6 5 A decisão de piso confirma a posição da unidade de origem, atestando que incumbe a requerente demonstrar com provas hábeis, a composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. Fundamenta o voto proferido pela DRJ/POR: Para que existisse algum saldo a restituir, seria necessário que, no mínimo, a interessada houvesse retificado sua DCTF até a transmissão do seu PER/Dcomp, fazendo constar o suposto débito inferior ao declarado, o que faria exsurgir a possibilidade de se alegar pagamento a maior. (...) Ocorre que para se aferir qual o valor exato da base de cálculo do PIS e da Cofins que deve ser afastado, é necessário que o contribuinte informe e comprove qual o montante total das receitas, para se apartar o faturamento das demais receitas. Mesmo diante das colocações feitas pela decisão de primeiro grau, a Recorrente nada de novo trouxe em seu Recurso Voluntário, insiste que o Fisco não se aprofundou na investigação dos fatos e quanto ao conjunto probatório ser insuficiente, a DRJ deveria ter convertido o julgamento em diligência, em atenção ao princípio da verdade material. Ora, quem alega deve provar e esse compromisso é do interessado que declarou existir indébito fiscal pelo pagamento a maior que o devido. As provas juntadas com o Recurso, praticamente são as mesmas que foram apresentadas com a Fl. 344DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 7 6 manifestação de inconformidade, o que diverge é a planilha (e fls.340): Insiste a Recorrente em inverter o ônus da prova, querendo que o Fisco faça o papel de demonstrar qual a receita que deu causa ao recolhimento do PIS no valor do DARF apresentado e qual a receita que deve ser excluída por motivo de ampliação indevida de sua base de cálculo. Outro ponto que depõe contra a Recorrente é a ausência de DCTF retificadora. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada, inclusive há previsão normativa para isso, vide INRFB nº 1.110/2010: Art. 9º A alteração das informações prestadas em DCTF, nas hipóteses em que admitida, será efetuada mediante apresentação de DCTF retificadora, elaborada com observância das mesmas normas estabelecidas para a declaração retificada. § 1º A DCTF retificadora terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar qualquer alteração nos créditos vinculados. A apresentação de DCTF Retificadora poderá ser acatada, inclusive, quando apresentada depois do despacho decisório, porém, sendo tempestiva a apresentação da manifestação de inconformidade contra o indeferimento do PER/DCOMP, situação em que a Delegacia da Receita Federal Fl. 345DF CARF MF Processo nº 10280.901581/201386 Acórdão n.º 3401005.571 S3C4T1 Fl. 8 7 do Brasil de Julgamento (DRJ) poderá baixar em diligência à Delegacia da Receita Federal (DRF). A administração tributária orienta sobre o tema através do Parecer Cosit nº 02/2015,de 28 de agosto de 2015, cuja ementa se deu nos seguintes termos: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. (...) É lamentável o fato de a Recorrente pleitear a restituição de um crédito que teoricamente lhe assiste razão, com direito assegurado, mas que de fato não consegue fazer prova de sua existência. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 346DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.000929/2009-91
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2006
CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS.
Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/18, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo - qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes.
DIREITO AO CRÉDITO DAS CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. INSUMOS.
Afinando-se ao conceito exposto pela Nota SEI PGFN MF 63/18 e aplicando-se o Teste de Subtração, é de se reconhecer o direito ao crédito das contribuições sobre os valores relativos a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, considerando tais itens serem essenciais à atividade do sujeito passivo.
Numero da decisão: 9303-007.797
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial, para reconhecer o direito ao crédito referente a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento parcial em maior extensão. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2006 CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/18, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo - qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. DIREITO AO CRÉDITO DAS CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. INSUMOS. Afinando-se ao conceito exposto pela Nota SEI PGFN MF 63/18 e aplicando-se o Teste de Subtração, é de se reconhecer o direito ao crédito das contribuições sobre os valores relativos a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, considerando tais itens serem essenciais à atividade do sujeito passivo.
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CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. INSUMOS DIVERSOS. Recorrentes INDÚSTRIA CARBONÍFERA RIO DESERTO LTDA FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2006 CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/18, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. DIREITO AO CRÉDITO DAS CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. INSUMOS. Afinandose ao conceito exposto pela Nota SEI PGFN MF 63/18 e aplicandose o “Teste de Subtração”, é de se reconhecer o direito ao crédito das contribuições sobre os valores relativos a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, considerando tais itens serem essenciais à atividade do sujeito passivo. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar lhe provimento parcial, para reconhecer o direito ao crédito referente a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 00 09 29 /2 00 9- 91 Fl. 638DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 3 2 bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento parcial em maior extensão. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratamse de recursos interpostos pela Fazenda Nacional e pelo sujeito passivo contra o acórdão nº 3803003.878, que deu provimento parcial ao recurso voluntário. Após ser integrado por acórdão que acolheu, em parte, os embargos de declaração interpostos por Conselheiro, restou consignada a seguinte ementa: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Anocalendário: 2006 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. Insumo dedutível para efeito de Cofins não cumulativa é todo aquele relacionado direta ou indiretamente com a produção do contribuinte e que afete as receitas tributadas pela contribuição social. E quando o cumprimento das obrigações ambientais impostas pelo Poder Público, como condição para o funcionamento da empresa, gere despesas, estas devem ser consideradas insumo. Insatisfeita, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial suscitando divergência quanto ao conceito de insumo aplicável para fins de tomada de créditos das contribuições não cumulativas. Dentre outros argumentos, defende que, para dos créditos em foco, a legislação estabelece que se incluem no conceito de insumo, além das matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem, os bens que, embora não se integrando ao novo produto, sejam consumidos/alterados no processo de industrialização em função de ação exercida diretamente sobre o produto. Mediante Despacho do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção do CARF foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Fl. 639DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 4 3 Irresignado, o sujeito passivo opôs Embargos de Declaração alegando contradição e obscuridade quanto ao pronunciamento acerca dos concretos e corretos itens passíveis de aproveitamento do crédito. Todavia, seus embargos foram rejeitados. Contrarrazões ao Recurso Especial da Fazenda foram apresentados pelo sujeito passivo. Em síntese, o contribuinte defende que não se deve considerar, para fins de creditamento do PIS e da Cofins não cumulativos, os conceitos de insumos aplicáveis à apuração de créditos do IPI e do ICMS. O sujeito passivo também interpôs Recurso Especial ao qual foi dado seguimento. Foi admitida a rediscussão da questão relativa ao conceito de insumo aplicável para o reconhecimento do direito de créditos das contribuições não cumulativas. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões ao Recurso Especial do sujeito passivo. Alega, essencialmente, que não há como se admitir a adoção da legislação do IRPJ para se conceituar insumo para fins de constituição de créditos de PIS e Cofins não cumulativos. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303007.785, de 11/12/2018, proferido no julgamento do processo 11516.000925/200911, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 9303007.785): "Depreendendose da análise dos recursos interpostos pelo sujeito passivo e pela Fazenda Nacional, entendo que devo conhecêlo, eis que em relação às matérias trazidas foram comprovadas as divergências, conforme preceitua o art. 67 do RICARF/2015 – Portaria MF 343/2015 com alterações posteriores. O que concordo com os exames constantes dos Despachos de Admissibilidade. Em vista do exposto, conheço os recursos interpostos pela Fazenda Nacional e pelo sujeito passivo. Primeiramente, sobre os critérios a serem observados para a conceituação de insumo para a constituição do crédito do PIS e da Cofins trazida pela Lei 10.637/02 e Lei 10.833/03, não é demais enfatizar que se tratava de matéria controvérsia – pois, em fevereiro de 2018, o STJ, em sede de recurso repetitivo, ao apreciar o REsp 1.221.170, definiu que o conceito de insumo, para fins de constituição de crédito de PIS e de Cofins, deve observar o critério da essencialidade e relevância – considerandose a imprescindibilidade do item para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo sujeito passivo. Fl. 640DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 5 4 Em 24.4.2018, foi publicado o acórdão do STJ, que trouxe em sua ementa: “TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individualEPI. 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentamse as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de nãocumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte.” Definiu ser ilegal a disciplina de creditamento prevista nas IN SRF 247 e 404 que, por sua vez, traz um entendimento mais restritivo que a descrita na lei. Nessa linha, efetivamente a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária para se definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. O que, por conseguinte, tal como já entendia, expresso que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas pela contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Fl. 641DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 6 5 Importante recordar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins não cumulativo, não se restringe aos conceitos de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Ademais, vêse que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, era de se constatar que o entendimento predominante considerava o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo. Não obstante à jurisprudência dominante, importante discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de Fl. 642DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 7 6 insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. Ademais, a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, vêse que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admite se também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Fl. 643DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 8 7 Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Frisese que o raciocínio de Marco Aurélio Greco traz, para tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. Tal como expressou o STJ em recente decisão. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: · O art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep nãocumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: (Incluído) I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: (Incluído) a. Matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; (Incluído) b. Os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. (Incluído) [...]” · art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): Fl. 644DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 9 8 “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matériaprima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. [...]” Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Fl. 645DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 10 9 Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: · Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; · Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados Fl. 646DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 11 10 IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido.” Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: “COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS N. 10.637/2002 E 10.833/2003. 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos.” Fl. 647DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 12 11 Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos. Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Nessa linha, o STJ, que apreciou, em sede de repetitivo, o REsp1.221.170 – trouxe, pelas discussões e votos proferidos, o mesmo entendimento já aplicável pelas suas turmas e pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Privilegiando, assim, a segurança jurídica que tanto merece a Fazenda Nacional e o sujeito passivo. Ademais, importante trazer ainda a NOTA SEI PGFN/MF 63/2018: "Recurso Especial nº 1.221.170/PR Recurso representativo de controvérsia. Ilegalidade da disciplina de creditamento prevista nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004. Aferição do conceito de insumo à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Tese definida em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. Autorização para dispensa de contestar e recorrer com fulcro no art. 19, IV, da Lei n° 10.522, de 2002, e art. 2º, V, da Portaria PGFN n° 502, de 2016. Nota Explicativa do art. 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 01/2014." Tal Nota contempla em seus itens 41 a 43: “41. Consoante se observa dos esclarecimentos do Ministro Mauro Campbell Marques, aludindo ao “teste de subtração” para compreensão do conceito de insumos, que se trata da “própria objetivação segura da tese aplicável a revelar a imprescindibilidade e a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto tal método não esteja na tese firmada, é um dos instrumentos úteis para sua aplicação in concreto. 42. Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. 43. O raciocínio proposto pelo “teste da subtração” a revelar a essencialidade ou relevância do item é como uma aferição de uma “conditio sine qua non” para a produção ou prestação do serviço. Buscase uma eliminação hipotética, suprimindose mentalmente o item do contexto do processo produtivo atrelado à atividade empresarial desenvolvida. Ainda que se observem despesas importantes para a empresa, inclusive para o seu êxito no mercado, elas não são necessariamente essenciais ou relevantes, quando analisadas em cotejo com a atividade principal desenvolvida pelo contribuinte, sob um viés objetivo." Sendo assim, fica firmado pela PGFN o seguinte conceito de insumos: Fl. 648DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 13 12 “Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes.” Após superada a conceituação de insumos para fins de constituição de crédito de PIS e Cofins, passo a analisar os itens trazidos pelo sujeito passivo que, por sua vez, tem como atividade a exploração e produção do carvão mineral. Para tanto, importante recordar o voto constante do acórdão recorrido: “[...] Não é possível reconhecer o direito creditório em relação às despesas com o transporte de funcionários, fornecimento de água, leite, pintura de banheiro, material de limpeza, material de escritório, refeição, vigilância, limpeza, encadernação, controle e prevenção de pneumoconiose, fornecer equipamento de proteção individual etc, pois estas despesas não podem ser consideradas insumo para efeito de creditamento, ainda que o Acordo Coletivo de Trabalho tenha obrigado a empresa a fornecer, equipamento de proteção aos funcionários, aquisição de caixas de papelão, bem como o fornecimento de água e leite aos seus funcionários. Por certo que estes 2 (dois) últimos produtos, dentre outros, não apresentam nenhuma relação com o processo produtivo de uma mina de extração de carvão mineral e por isso agiu bem a fiscalização em glosálos. [...] A mesma sorte ocorre em relação às despesas resultantes das aquisições com correias transportadoras, os cabos elétricos e mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão e aquisição de caixas de papelão, pois penso que aqui falhou a interessada ao não ter demonstrado se estes produtos foram efetivamente aplicados na atividade de extração mineral. Ainda não deve ser concedido crédito em relação as despesas com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, uma vez que as notas fiscais anexas às fls. 498/499 do PAF n.º 13963.000565/200573, referentes a serviços de conserto de motor, não provam que estes serviços tenham sido realizados em equipamentos relacionados com o processo produtivo da empresa, ainda mais quando estas notas fiscais não são coincidentes com nenhuma das notas fiscais glosas e citadas na planilha elaborada pelo agente fazendário. Cumpre ainda observar que embora a empresa tenha juntado aos autos as notas fiscais anexas às fls. 498/499 do PAF n.º 13963.000565/200573, referentes a serviços de conserto de motor, por outro lado não há provas de que estes serviços tenham sido realizado em equipamentos relacionados com o processo produtivo da empresa, ainda mais quando estas notas fiscais não são coincidentes com nenhuma das notas fiscais glosas e citadas na planilha elaborada pelo agente fazendário. Quanto às despesas com aquisições de explosivos e cursos em relação aos mesmos, penso que estas despesas estão relacionadas com o processo produtivo. Entretanto, o contribuinte não instruiu os autos com notas fiscais de aquisição e nem mesmo contratos de prestação de serviços em relação aos cursos de operacionalização destes explosivos, razão pela qual não demonstrando o seu direito não há fundamento para o reconhecimento dos créditos neste particular. O mesmo digase em relação às despesas com embalagens e etiquetas.” Fl. 649DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 14 13 Após breve recordação, considerando que o acórdão de recurso voluntário não trouxe especificamente os diversos itens constantes do recurso voluntário, ainda que tenha sido apreciado pelo colegiado a quo ao adotar o termo “etc.” no voto recorrido, passarei a analisar os diversos itens questionados em recurso voluntário, com exceção daqueles que o contribuinte logrou êxito no acórdão recorrido (custos relacionados às obrigações ambientais e aos custos de serviços de terraplanagem e destinação final de resíduos, monitoramento do ar e serviços necessários para a recuperação do meio ambiente): 1. Despesas com o transporte de funcionários em trajetos específicos, por não conseguir identificar se referia a trajeto interno (na produção) ou externo (do domicílio do trabalhador para a produção), entendo que não há como reconhecer o crédito das contribuições; 2. Fornecimento de água potável, leite, marmitas, lanches, entendo serem itens passíveis de geração de crédito das contribuições, vez que, pela atividade do contribuinte, o trabalho em minas de carvão traz uma particularidade crítica na movimentação dos trabalhadores – inclusive para sair desse ambiente à procura de estabelecimentos de comércio alimentar e, adotando o teste de subtração da Nota PGFN, entendo que tal item é essencial para a sua atividade; 3. Exames e tratamentos médicos e assistência ao trabalhador acidentado, ainda que necessários, não há como se reconhecer o direito ao crédito das contribuições, pois não entendo que há como se vincular direta ou indiretamente à produção do carvão, por exemplo; 4. Uniformes e Equipamentos de Proteção Individual, entendo que tais custos geram o direito ao crédito das contribuições, inclusive por ser obrigatório nessa atividade. Recordo que essa turma já apreciou esse item – o que peço licença para transcrever parte das ementas dos seguintes acórdãos: · Acórdão 9303006.222 – Conselheiro Demes Brito “[...] COFINS NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE. DIREITO A CRÉDITO. UNIFORME/VESTUÁRIO. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. LUBRIFICANTES E COMBUSTÍVEIS. POSSIBILIDADE. De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS uniforme, vestuário, equipamento de proteção individual, combustíveis e lubrificantes.[...]” · Acórdão 9303005.526 – Charles Mayer de Castro Souza “[...] No caso julgado, são exemplos de insumos: a) os materiais de segurança ou proteção individual, tais como: avental, bota, botina, capacete, creme protetor, máscaras, meia, protetor auricular, protetor facial e botas sete léguas; b) materiais de uso geral: arruela, mangueira, rodinho, chave allen, chave boca, chave fenda, lâmpadas, Fl. 650DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 15 14 parafuso allen, parafuso bucha, parafuso sextavado, porca inox, retentor, rolamento, tubo galvanizado e tubo PVC [...]” · Acórdão 9303005.912 – Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas “[...] PIS. REGIME NÃOCUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. POSSIBILIDADE A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas PIS/COFINS informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição de uniformes/vestimentas, cuja aplicação não seja em decorrência de exigências legais, além da necessária comprovação de sua utilização diretamente no processo produtivo. Da mesma forma os combustíveis e lubrificantes só dão direito ao crédito se utilizados diretamente no processo produtivo. Acatase os créditos da aquisição de equipamentos de proteção individual em razão de seu necessário consumo, com o tempo, durante o uso no processo produtivo. [...]” 5. Controle e Prevenção de Pneumoconiose, tal como os custos com exames e tratamentos médicos, ainda que necessários, não há como se reconhecer o direito ao crédito das contribuições; 6. Auditorias de certificação de qualidade e de procedimento como as ISO, ainda que necessários, não há como se gerar crédito pois não vinculada diretamente ou indiretamente à produção do carvão; 7. Caixas de Papelão e Sacos BIG Bag, entendo que geram direito ao crédito, pois essenciais para o acondicionamento do carvão produzido; ademais as etiquetas decorrem de exigência obrigatória, por se tratar de produtos perigosos; 8. Correias de Transporte, entendo ser essencial à atividade na exploração da mina, o que entendo ser gerador de crédito; 9. Gastos com explosivos e cursos técnicos relativos à operação da mina, entendo serem essenciais à sua atividade de exploração, bem como o curso atrelado a esses gastos, para se prevenir a segurança; 10. Sondagens, entendo que serem geradores de crédito, pois essencial à sua atividade; 11. Pintura de banheiro, material de limpeza, material de escritório, vigilância, limpeza, encadernação, entendo que não há como se reconhecer o crédito, vez que são meros custos administrativos. Quanto à limpeza, não há comprovação da vinculação à sua atividade fim; 12. Custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão, entendo que tais itens são essenciais à sua atividade. Em vista do exposto, dou provimento parcial ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. Quanto aos itens trazidos em Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, importante recordar o voto do acórdão recorrido: Fl. 651DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 16 15 “[...] Assim, considerando a planilha anexa aos autos em que estão relacionados os serviços e produtos glosados pela fiscalização, ou seja, excluídos do creditamento da contribuição, reconheço do pleito do contribuinte em relação todas as despesas ocorridas em razão das prestações de serviços vinculados ao meio ambiente, dado que estas despesas somente ocorreram em função das imposições decorrentes do Acordo Judicial de Conduta e dos Termos de Ajuste de Conduta celebrados com Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e FÁTMA. Assim, partindo da planilha elaborada pelo agente fazendário, concedo créditos em relação às aquisições de serviços e produtos mencionados na tabela abaixo, por compreender que estes são essenciais para o processo produtivo da empresa e ainda por estas despesas terem decorrido de imposição do Poder Público: [...] Logo, compreendo que deve ser reconhecido o direito aos créditos pleiteados para todas as despesas relacionadas de alguma forma com a recuperação do meio ambiente, ainda que não estejam relacionadas na planilha elaborada pela repartição de origem, uma vez que esses serviços são essenciais ao funcionamento da empresa, ou seja: risco ambiental, recuperação ambiental, auditorias ambiental, terraplanagem para recuperação ambiental, prestação de serviços com o objetivo de obtenção da Licença Ambiental Prévia, prestação de serviços de monitoramento do ar na área de influência das minas, serviços de acompanhamento das etapas de elaboração de diagnóstico ambiental, serviços de estudos hidrológicos, locação de máquinas e equipamentos para aterro com o intuito de recuperação ambiental, de ensaio técnico, serviços de elaboração de Estudos de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (FIA/RIMA), prestação de serviços de diagnóstico ambiental nas áreas impactadas pela mineração por meio de avaliação da flora e fauna visando a avaliação da reabilitação de áreas degradadas, prestação de serviços de geomecânica e avaliação dos parâmetros de qualidade das camadas que foram o teto e o piso da mina, prestação de serviços de dimencionamento de pilares de minas, prestação de serviços planialtimétricos, anteprojeto de recuperação de área ambiental e drenagem, serviços de coleta de resíduos sólidos. Ainda assiste razão ao contribuinte quando requer os créditos em relação a depreciação dos bens do ativo imobilizado, principalmente quando o fiscal nada comenda a respeito, bem mesmo o julgador de primeiro grau, uma vez que os contribuintes sujeitos a incidência não cumulativa do PIS/COFINS, em relação aos bens adquiridos, podem descontar créditos calculados sobre os encargos de depreciação, nos termos da legislação aplicável. Assim, podem gerar direito a estes créditos as depreciações das empilhadeiras, bombas hidráulicas, motores etc, desde que registrados no ativo imobilizado.[...]” Em relação aos itens descritos no voto do acórdão recorrido, manifesto minha concordância, pois entendo que todos são essenciais à atividade do sujeito passivo, o que, fazendo o teste de subtração, impossível a operacionalização de sua atividade. Em vista do exposto, voto por: · Dar provimento parcial ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo; Fl. 652DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 17 16 · Negar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional." (...) Transcrevese, a seguir, o voto vencedor do acórdão paradigma, que tratou do direito de crédito quanto ao fornecimento de água potável, leite, marmitas, lanches e cursos técnicos relativos à operação da mina: "Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, mas discordo parcialmente de suas conclusões quanto aos itens que são possíveis de creditamento à luz do novo conceito de insumos introduzidos pela decisão do STJ, na sistemática dos recursos repetitivos. Importante esclarecer, que parte desse colegiado, nas sessões de julgamento precedentes, inclusive eu, não compartilhava do entendimento de que a legislação da não cumulatividade do PIS e da Cofins dava margem para compreender o conceito de insumos no sentido de sua relevância e essencialidade às atividades da empresa como um todo. No nosso entender a legislação do PIS/Cofins traz uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de aceitálos dentro do conceito de insumo. Embora não aplicável a legislação restritiva do IPI, o insumo era restrito ao item aplicado e consumido diretamente no processo produtivo, não se admitindo bens ou serviços que, embora relevantes, fossem aplicados nas etapas préindustriais ou pós industriais, a exemplo dos conhecidos insumos de insumos, como é o caso do adubo utilizado na plantação da canadeaçúcar, quando o produto final colocado à venda é o açúcar ou o álcool. Porém, como bem esclareceu a relatora em seu voto, o STJ, no julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, submetido à sistemática dos recursos repetitivos de que tratam os arts. 1036 e seguintes do NCPC, trouxe um novo delineamento ao trazer a interpretação do conceito de insumos que entende deve ser dada pela leitura do inciso II dos art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. A própria Fazenda Nacional, editou a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN MF, na qual traz que o STJ em referido julgamento teria assentado as seguintes teses: “(a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de nãocumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte". Portanto, a partir desta sessão de julgamento, por força do efeito vinculante da citada decisão do STJ, esse conselheiro passará a adotar o entendimento muito bem explanado pela relatora e também pela citada nota da PGFN. Para que o conceito doravante adotado seja bem esclarecido, transcrevo abaixo excertos da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF, os quais considero esclarecedores dos critérios a serem adotados. (...) 15. Devese, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos Fl. 653DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 18 17 mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poderseia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. 17. Observase que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividadefim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques. 18. (...) Destarte, entendeu o STJ que o conceito de insumos, para fins da não cumulatividade aplicável às referidas contribuições, não corresponde exatamente aos conceitos de “custos e despesas operacionais” utilizados na legislação do Imposto de Renda. (...) 36. Com a edição das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, o legislador infraconstitucional elencou vários elementos que como regra integram cadeias produtivas, considerandoos, de forma expressa, como ensejadores de créditos de PIS e COFINS, dentro da sistemática da nãocumulatividade. Há, pois, itens dentro do processo produtivo cuja indispensabilidade material os faz essenciais ou relevantes, de forma que a atividadefim da empresa não é possível de ser mantida sem a presença deles, existindo outros cuja essencialidade decorre por imposição legal, não se podendo conceber a realização da atividade produtiva em descumprimento do comando legal. São itens que, se hipoteticamente subtraídos, não obstante não impeçam a consecução dos objetivos da empresa, são exigidos pela lei, devendo, assim, ser considerados insumos. (...) 38. Não devem ser consideradas insumos as despesas com as quais a empresa precisa arcar para o exercício das suas atividades que não estejam intrinsicamente relacionadas ao exercício de sua atividadefim e que seriam mero custo operacional. Isso porque há bens e serviços que possuem papel importante para as atividades da empresa, inclusive para obtenção de vantagem concorrencial, mas cujo nexo de causalidade não está atrelado à sua atividade precípua, ou seja, ao processo produtivo relacionado ao produto ou serviço. 39. Vale dizer que embora a decisão do STJ não tenha discutido especificamente sobre as atividades realizadas pela empresa que ensejariam a existência de insumos para fins de creditamento, na medida em que a tese firmada referese apenas à atividade econômica do contribuinte, é certo, a partir dos fundamentos constantes no Acórdão, que somente haveria insumos nas atividades de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. Desse modo, é inegável que inexistem insumos em atividades administrativas, jurídicas, contábeis, comerciais, ainda que realizadas pelo contribuinte, se tais atividades não configurarem a sua atividadefim. (...) 43. O raciocínio proposto pelo “teste da subtração” a revelar a essencialidade ou relevância do item é como uma aferição de uma “conditio sine qua non” para a produção ou prestação do serviço. Buscase uma eliminação hipotética, suprimindose mentalmente o item do contexto do processo produtivo atrelado à atividade empresarial desenvolvida. Ainda que se observem despesas importantes para a empresa, inclusive para o seu êxito no mercado, elas não são necessariamente essenciais ou relevantes, quando analisadas em cotejo com a atividade principal desenvolvida pelo contribuinte, sob um viés objetivo. (...) Fl. 654DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 19 18 50. Outro aspecto que pode ser destacado na decisão do STJ é que, ao entender que insumo é um conceito jurídico indeterminado, permitiuse uma conceituação diferenciada, de modo que é possível que seja adotada definição diferente a depender da situação, o que não configuraria confusão, diferentemente do que alegava o contribuinte no Recurso Especial. 51. O STJ entendeu que deve ser analisado, casuisticamente, se o que se pretende seja considerado insumo é essencial ou relevante para o processo produtivo ou à atividade principal desenvolvida pela empresa. Vale ressaltar que o STJ não adentrou em tal análise casuística já que seria incompatível com a via especial. 52. Determinouse, pois, o retorno dos autos, para que observadas as balizas estabelecidas no julgado, fosse apreciada a possibilidade de dedução dos créditos relativos aos custos e despesas pleiteados pelo contribuinte à luz do objeto social daquela empresa, ressaltandose as limitações do exame na via mandamental, considerando as restrições atinentes aos aspectos probatórios. (...) Portanto, partindo dessas premissas é que iremos analisar, em cada caso, o direito ao crédito de PIS e Cofins de que tratam o inc. II do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Passemos então à análise dos itens específicos do presente processo, dos quais discordamos da ilustre relatora. No caso específico nossa discordância é em relação a fornecimento de água potável, leite, marmitas, lanches e cursos técnicos relativos à operação da mina. Apesar de tanto a relatora quanto eu estarmos em sintonia em relação ao conceito de insumos trazidos pela decisão do STJ, não tenho a mesma conclusão que ela que tais itens possam ser considerados insumos e serem relevantes e pertinentes para a atividade produtiva exercida pelo contribuinte. Com a devida venia, não considero que sejam itens, cuja subtração possa obstar a atividade produtiva do contribuinte. Não há como considerálos como insumos da atividade produtiva do contribuinte. Veja como dispõe a legislação do PIS e da Cofins quanto à possibilidade de creditamento: Lei nº 10.833/2003: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (...) Creio que a atenta leitura do dispositivo legal é suficiente para afastar o crédito da nãocumulatividade em relação a itens estranhos ao processo produtivo do contribuinte. Portanto, deixo de acompanhar a relatora em relação aos itens: fornecimento de água potável, leite, marmitas, lanches e cursos técnicos relativos à operação da mina. Em conclusão, nego o aproveitamento de créditos da nãocumulatividade de PIS/Cofins sobre esses itens." Fl. 655DF CARF MF Processo nº 11516.000929/200991 Acórdão n.º 9303007.797 CSRFT3 Fl. 20 19 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o Recurso Especial do Contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento parcial, para reconhecer o direito ao crédito referente a uniformes e equipamentos de proteção individual, caixas de papelão e sacos big bag, correias de transporte, gastos com explosivos, sondagens e custos com a manutenção de empilhadeiras, bombas hidráulicas, material rodante, esteiras, motores, cabos elétricos, mangueiras, iluminação/energização, ligação com as máquinas e equipamentos, suprimento da água em alta pressão. O colegiado também conheceu do Recurso Especial da Fazenda Nacional, mas, no mérito, negoulhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 656DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13411.000212/2006-09
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/09/2003 a 30/09/2003, 01/02/2004 a 30/04/2004, 01/06/2004 a 30/06/2004, 01/08/2004 a 30/09/2004, 01/12/2004 a 31/12/2004, 01/03/2005 a 30/06/2005
CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS.
Não é cabível o alargamento da base de cálculo das contribuições PIS/COFINS com a inclusão de receitas financeira. Inconstitucionalidade da do art. 2º e 3º da Lei 9.718/1998 reconhecida pelo STF no RE 585.235-1/MG. Reconhecida imunidade nas receitas destinadas a exportação pelo RE 627.815/PR.
Numero da decisão: 3003-000.039
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
Marcos Antônio Borges - Presidente.
Müller Nonato Cavalcanti Silva - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Borges (presidente da turma), Müller Nonato Cavalcanti Silva, Vinícius Guimarães e Márcio Robson Costa.
Nome do relator: MULLER NONATO CAVALCANTI SILVA
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 8; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1557; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C0T3 Fl. 473 1 472 S3C0T3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13411.000212/200609 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3003000.039 – Turma Extraordinária / 3ª Turma Sessão de 12 de dezembro de 2018 Matéria PIS/COFINS RECEITAS FINANCEIRAS Recorrente VDS EXPORT LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2003 a 30/09/2003, 01/02/2004 a 30/04/2004, 01/06/2004 a 30/06/2004, 01/08/2004 a 30/09/2004, 01/12/2004 a 31/12/2004, 01/03/2005 a 30/06/2005 CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. Não é cabível o alargamento da base de cálculo das contribuições PIS/COFINS com a inclusão de receitas financeira. Inconstitucionalidade da do art. 2º e 3º da Lei 9.718/1998 reconhecida pelo STF no RE 585.235 1/MG. Reconhecida imunidade nas receitas destinadas a exportação pelo RE 627.815/PR. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Marcos Antônio Borges Presidente. Müller Nonato Cavalcanti Silva Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Borges (presidente da turma), Müller Nonato Cavalcanti Silva, Vinícius Guimarães e Márcio Robson Costa. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 41 1. 00 02 12 /2 00 6- 09 Fl. 477DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra acórdão prolatado pela E. DRJ de Recife/PE. Em suas razões a Recorrente reitera os termos da impugnação, que, em síntese, requer a anulação do Auto de Infração por vício de forma, e alternativamente, pede o cancelamento do lançamento por ser descabida a exação essencialmente em razão de receitas financeiras por variação cambial não servirem de base de cálculo para as contribuições especiais PIS e COFINS. Pela acuidade na elaboração do relatório pela DRJ de Recife de fls. 420/421, adotoo em transcrição fiel para após complementar com as razões aludidas do Recurso Voluntário: "Contra a pessoa jurídica acima identificada foram lavrados os AUTOS DE INFRAÇÃO relativos i Contribuição para o Programa de Integração Social — PIS (fls.338/341) e A Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social — Cofins (fls.316/319), nos períodos especificados na ementa, para exigência dos créditos tributários adiante relacionados. Enquadramentos legais nos respectivos autos de infração. Juros calculados até 24/02/2006. 2. Cada um dos supramencionados lançamentos encontrase acompanhado dos respectivos DEMONSTRATIVOS DE APURAÇÃO E DE MULTA E JUROS DE MORA (Pis, as fls.342/345; Cofins, às fls.320/323), DEMONSTRATIVOS CONSOLIDADOS DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO DO PROCESSO (Pis, is fls.04; Cofins, is fls.03), TERMOS DE ENCERRAMENTO (Pis, às fls.346/347; Cofins, As fls.320/321) e RELATÓRIO FISCAL (fls.348/354), bem como os DEMONSTRATIVOS DE COMPOSIÇÃO DA BASE DE CALCULO (APURAÇÃO SINTÉTICA) (fls.304/306 e 326/328), APURAÇÃO DE DÉBITOS, PAGAMENTOS e DEMONSTRATIVO DE SITUAÇÃO FISCAL APURADA (PIS, is fls.329/337; Cofins, is fls.307/315), documentos esses que fazem parte integrante dos autos de infração como se neles transcritos estivessem. 3. Afirma a autoridade fiscal, na DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL de cada um dos autos de infração que detectou falta/insuficiência de recolhimentos das contribuições para o Pis e a Cofins. Nos subitens 5.1.1 e 5.1.2 do RELATÓRIO FISCAL, afirma ter levantado, nos períodos compreendidos entre 2003 e 2005, as receitas de vendas no mercado interno com base no Livro de Apuração de ICMS e as outras receitas — tais como descontos obtidos, variação cambial ativa (operações liquidadas) por meio dos Livros Razão, segundo discriminado no DEMONSTRATIVO DE RECEITAS AUFERIDAS (fls.301/30?). Esclarece que, no que concerne is receitas de variações cambiais ativas, considerou, na apuração das bases de cálculo, apenas as relativas a operações liquidadas, conforme dispõe o art. 30 da Medida Provisória — MP no 2.15835, de 24 de agosto de 2001. E acrescenta que, a Fl. 478DF CARF MF Processo nº 13411.000212/200609 Acórdão n.º 3003000.039 S3C0T3 Fl. 474 3 partir do DEMONSTRATIVO DE RECEITAS AUFERIDAS, elaborou as demais planilhas, referenciadas no item anterior, em decorrência das quais lavrou os AUTOS DE INFRAÇÃO relativos As contribuições para o PIS e a Cofins. Além dos elementos já referenciados, a autoridade fiscal acostou aos autos, ainda, outros elementos (fls.01/02, 05/300 e 355). 4. Devidamente cientificada dos lançamentos em 12/04/2006 (fls.356/357), a pessoa jurídica autuada apresentou, em 12/05/2006 (fls.359), por intermédio de sua procuradora (instrumento de mandato e identificações às fls.381/382, 395 e 397/398), impugnações (Pis, is fls.360/369; Cofins, is fls.370/380), acompanhadas de cópia da oitava alteração do seu contrato social (fls.383/390). Intimada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Petrolina — DRF/Petrolina (fls.391 e 393), a autuada encaminhou expediente acompanhado de cópias dos documentos solicitados (fls.394/414). Por meio dessas peças de defesa, contesta os lançamentos ora sob análise utilizandose das alegações que serão a seguir sintetizadas. 4.1. Argúi preliminar de nulidade de ambos os lançamentos sob a alegação de '(...) evidente ausência de correlação lógica entre a descrição do fato típico e seu enquadramento legal (...).' Adiante, aduz que o auto de infração '(...) deve, necessariamente, ao observar as irregularidades Micas, indicar — entre outros elementos — a disposição legal supostamente infringida pelo contribuinte, sob pena de violação ao principio da legalidade e da segurança jurídica." Acrescenta ter havido violação do principio da motivação, bem assim do contraditório e da ampla defesa, uma vez que foilhe retirada '(...)toda possibilidade de defesa especifica e precisa quanto aos elementos da autuação (...).'(grifos do original). Transcreve doutrina, bem como o caput e o inciso IV do art.10 do Decreto n° 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o Processo Administrativo Fiscal — PAF.• 4.2. Discorda da apuração das bases de calculo das contribuições em razão da inclusão de parcelas que entende não integrarem o conceito de faturamento, quais sejam, receitas financeiras a titulo de variação cambial ativa. Afirma que o Supremo Tribunal Federal — STF já reputara inconstitucional o alargamento de tais bases de cálculo introduzida pelo § 10 do art. 30 da Lei n° 9.718, de 1998, ao julgar os Recursos Extraordinários — RE que cita. E acrescenta que os mencionados valores não correspondem ao efetivo conceito de "receita", dado não representarem disponibilidade financeira. 4.3. Discorre longamente sobre as operações de Adiantamento sobre Contrato de Câmbio — ACC, na forma da Circular BACEN n° 2.632/95, que realiza, ao exercer a atividade de exportação de frutas. Aduz que delas não resulta receita ou despesa financeira, uma vez que os efeitos da variação cambial registrados na conta passiva de financiamento por ACC são neutralizados pela variação correspondente na conta ativa de clientes a receber de exportação. Reproduz decisões do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Fl. 479DF CARF MF 4 4.4. Ao final, requer sejam os lançamentos julgados improcedentes e pugna pela apresentação de provas, inclusive juntada de novos documentos." Em suas razões de Recurso Voluntário reitera a preliminar de nulidade do Auto de Infração em razão de, em suas palavras "ausência de correlação lógica entre a descrição do fato típico e seu enquadramento legal". Prossegue na argumentação e faz referência ao Decreto 70.235/1972 em seu artigo 10, inciso IV, reiterando a necessidade da discriminação da imputação da infração cometida. Ainda em sede de preliminar, alega que o fato por ela descrito cerceoulhe o direito de defesa que, em suas próprias palavras "não há como impugnar especificamente a autuação". Prosseguiu, em essência, reiterando as razões de Impugnação, tais como falta de materialidade à norma que imputoulhe a exigência do crédito tributário; que variações cambiais não se enquadram no conceito de faturamento/receita; fez menção à Lei 9.718/1998 e precedentes do Supremo Tribunal Federal. Prossegue afirmando que a Recorrente é empresa que realiza exportação de frutas in natura e promove operações de adiantamento de crédito perante instituições financeiras por meio de contrato ACC, razão pela qual a ela não se aplica o alargamento da base de cálculo da PIS/COFINS sobre receitas financeiras. Concluiu com o requerimento pela total procedente do Recurso Voluntário e anulação do Auto de Infração em questão. É o relatório. Voto Conselheiro Müller Nonato Cavalcanti Silva. Relator. O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende a todos os requisitos formais de validade, portanto dele tomo conhecimento. Da Preliminar de nulidade Antes de adentrar a temática meritória insurge questão preliminar levantada pela Recorrente que merece apreciação. Como relatado, a Recorrente irresignase contra o Auto de Infração de fls. 316/319 afirmando não existir correlação entre o fato típico e seu enquadramento legal. Ao avaliar detidamente o Auto de Infração constatei a presença de todos os requisitos formais de validade exigidos no art. 10 do Decreto 70.235/1972: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; Fl. 480DF CARF MF Processo nº 13411.000212/200609 Acórdão n.º 3003000.039 S3C0T3 Fl. 475 5 II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Em especial sobre o enquadramento legal, é visível no referido Auto de Infração que a exigência fora devidamente cumprida pela autoridade competente. Há enquadramento legal que dá azo à autuação, de modo a verificar no ato administrativo lançamento toda a Regra Matriz de Incidência Tributária, tais como sujeito ativo, sujeito passivo, critério espacial, critério temporal, e toda a materialidade que diz respeito à base de cálculo e alíquota. Ainda sobre a preliminar arguida, a Recorrente assevera ter sido prejudicada no seu direito de defesa e afirmou não haver como impugnar especificamente a autuação. Ora, o que se vê tanto nas peças de impugnação primevas quanto no presente Recurso Voluntário é uma minuciosa impugnação de cada ponto da autuação, inclusive com citação de precedentes de Recursos Extraordinários prolatados pelo STF. Se houvesse, de fato, impossibilidade de impugnar especificamente a autuação, não seria possível à Recorrente delongarse sobre a materialidade da exação, tampouco intentar comparála àquelas enfrentadas nos precedentes por ela citados. Em razão de estar o Auto de Infração de fls. 316/319 em perfeita consonância com as exigência legais, voto pela rejeição da preliminar de nulidade arguida. Da incidência da Pis/Cofins sobre receitas financeiras O artigo 397 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado e consolidado pelo Decreto nº 9.580/2018, cuja matriz legal corresponde ao artigo 17 do Decretolei nº 1.598/1977, relaciona os principais tipos de receitas financeiras e disciplina o tratamento jurídicotributário a ser seguido para a sua imputação ao lucro operacional da pessoa jurídica. “Art. 397. Os juros, o desconto, o lucro na operação de reporte e os rendimentos ou os lucros de aplicações financeiras de renda fixa ou variável, que tenham sido ganhos pelo contribuinte, Fl. 481DF CARF MF 6 serão incluídos no lucro operacional e, quando derivados de operações ou títulos de renda fixa com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração, poderão ser rateados pelos períodos a que competirem (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 17, caput; Lei nº 8.981, de 1995, art. 76, § 2º; e Lei nº 9.249, de 1995, art. 11, § 3º).”. Em complemento, o artigo 407 do RIR/2018 determina: Art. 407. As variações monetárias dos direitos de crédito e das obrigações do contribuinte, em função da taxa de câmbio, serão consideradas, para efeito de determinação da base de cálculo do imposto sobre a renda e da determinação do lucro da exploração, quando da liquidação da correspondente operação (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 30, caput). Os dispositivos versam sobre a apuração do Imposto sobre a Renda, tanto o é que faz menção aos regimes de caixa e de competência ao afirmar que as receitas por variação cambial apuramse quando da liquidação da operação. A Recorrente atacou em suas razões o alargamento da base de cálculo das contribuições PIS/COFINS pela Lei 9.718/1998 e fez menção aos precedentes do STF 357950, 390840, 358273 e 346084 nos quais o Plenário declarou inconstitucional o artigo 3º da Lei 9.718/1998. Pela análise do Relatório Fiscal de fls. 348/354, tanto nas contribuições COFINS e PIS, a Autoridade Fiscal efetuou o lançamento por meio da apreciação de livros contábeis que, além do registro do somatório da atividade empresarial, também registrava as variações cambiais ativas, de modo a alargar a base de cálculo das contribuições. Destacase que a Autoridade Fiscal, quando da análise de fato gerador da COFINS, prendeuse ao momento de liquidação da operação que tinha origem na variação cambial ativa. Por oportuno, tratase de critério de apuração de receitas exclusivas para o cálculo do Imposto de Renda, tais sejam o Regime de Caixa e o Regime de Competência. Contudo, para o caso em debate é irrelevante o momento que o Contribuinte escritura como liquidada a operação, haja vista que a monta advinda de variação cambial não poderá compor a base de cálculo da PIS/COFINS. Fl. 482DF CARF MF Processo nº 13411.000212/200609 Acórdão n.º 3003000.039 S3C0T3 Fl. 476 7 Importa mencionar que o Plenário do STF reconheceu a repercussão geral no RE 585.2351/MG cujo inteiro teor do Acórdão declara inconstitucional o art. 3º, §1º da Lei 9.718/1998 que alargou a base de cálculo das Contribuições Especiais PIS/COFINS por meio da inclusão das receitas financeiras.sob o fundamento de ferir o artigo 195, I b da Constituição da República. Vale menção voto do eminente relator Ministro Cezar Peluso: 1. O recurso extraordinário está submetido ao regime de repercussão geral e versa sobre tema cuja jurisprudência é consolidada nesta Corte, qual seja, a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, violando, assim, a noção de faturamento pressuposta na redação original do art. 195, I, b, da Constituição da República, e cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais(RE 585.235 1/MG) Por império do artigo 62, §2º do Anexo II do RICARF, a decisão do Pretório Excelso deve ser observada pelo Tribunal Administrativo, razão pela qual somente poderseá considerar como receita bruta/faturamento as vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, que nada mais é do que o somatório do resultado da atividade empresarial. Ainda sobre a jurisprudência do STF, no RE 627.815/PR, também reconhecida sua repercussão geral, a Ministra Relatora Rosa Weber apreciou o histórico de julgamentos de Corte Maior quanto à desoneração da operação de exportação, conferindo ao artigo 149, §2º, I interpretação ampla que compreende as receitas provenientes de variação cambial em contratos de exportação como receitas imunes, e, por consequência, fora da base de cálculo da PIS/COFINS. O que se discute nestes autos é se as receitas das variações cambiais ativas podem ser consideradas como receitas decorrentes de exportação,de modo a atrair a aplicação da regra de imunidade e afastar a incidência do PIS e da COFINS. Tenho que a resposta é positiva. Variações cambiais constituem atualizações de obrigações ou de direitos estabelecidos em contratos de câmbio. Estão compreendidas entre dois grandes marcos: a contratação (fechamento) do câmbio, com a venda, para uma instituição financeira, por parte do exportador, da moeda estrangeira que resultará da operação de exportação; e a liquidação do câmbio, com a entrega da moeda estrangeira à instituição financeira e o consequente pagamento, ao exportador, do valor equivalente em moeda nacional, à taxa de câmbio acertada na data do fechamento do contrato de câmbio. (RE 627.815/PR) O que se tem pela análise dos dois precedentes aludidos é que, por repercussão geral, o STF entende que a base de cálculo da PIS e da COFINS não pode ser alargada para tributar também receitas financeiras inclusive com a declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, §1º da Lei 9.718/1998, bem como a interpretação ampliativa Fl. 483DF CARF MF 8 das hipóteses de imunidade de receitas de tributação, retirando a variação cambial da base da dupla PIS/COFINS. O entendimento da jurisprudência tributária dá guarida ao pleito da Recorrente. Inicialmente, pelo RE 627.815/PR que determina ser imune as receitas provenientes de variação cambial. Em complemento, por declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, §1º da Lei 9.718/1998, excluiu as receitas financeiras por variação cambial da base de cálculo das Contribuições. Ou seja, as receitas financeiras por variação cambial não podem compor a base de cálculo da PIS/COFINS, e se pudessem seriam receitas protegidas pela égide da imunidade. Sem mais o que discorrer a respeito do tema em debate, aplico o mandamento do artigo 62, §º2º do Anexo II do RICARF para conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade e no mérito darlhe provimento no sentido de excluir as receitas financeiras por variação cambial da base de cálculo da PIS/COFINS. Müller Nonato Cavalcanti Silva Relator Fl. 484DF CARF MF
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Numero do processo: 13855.002100/2008-27
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008
INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. MÃO-DE-OBRA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO.
Restando incontroverso que houve utilização de empresas interpostas se para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, a sua desconsideração acarreta em tratar tal estrutura como pagamento pelo fornecimento de mão-de-obra por pessoa física, que não permite direito a crédito no regime não-cumulativo do PIS e Cofins, por expressa vedação legal.
Numero da decisão: 3401-005.723
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso e, no mérito, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Lazaro Antonio Souza Soares, Tiago Guerra Machado, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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MÃODEOBRA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Restando incontroverso que houve utilização de empresas interpostas se para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, a sua desconsideração acarreta em tratar tal estrutura como pagamento pelo fornecimento de mãodeobra por pessoa física, que não permite direito a crédito no regime nãocumulativo do PIS e Cofins, por expressa vedação legal. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso e, no mérito, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Lazaro Antonio Souza Soares, Tiago Guerra Machado, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 85 5. 00 21 00 /2 00 8- 27 Fl. 249DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Cuidase de Recurso Voluntário contra decisão da 2ª Turma da DRJ/REC, que considerou improcedentes as razões da Recorrente contra Despacho Decisório que glosou créditos por ela pleiteados. Do Despacho Decisório Naquela ocasião, a D. Fiscalização não reconheceu créditos decorrentes de aquisição de serviços das empresas referenciadas nos autos por entender que estas se constituíam em interpostas empresas utilizadas para a contratação de empregados com redução de encargos previdenciários. Concluiu assim que os empregados destas interpostas empresas eram, na verdade, empregados da própria recorrente. Os elementos de prova constam dos processos 13855.001760/200971 13855.001761/200916 e 13855.001762/200961. Assim, os créditos foram glosados em virtude de, em diligencia da delegacia previdenciária, haver sido verificado suposto esquema da Recorrente para interpor pessoas jurídicas, tendo, como sócios, empregados a fim de se mitigar a incidência das contribuições previdenciárias. A conclusão, nos lançamentos relativos àqueles processos, é de que haveria vínculo empregatício entre os sócios das empresas e, portanto, seria vedado o crédito de contribuições provenientes de pessoas físicas por expressa previsão em lei. Da Manifestação de Inconformidade A Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, em síntese, a motivação fática do indeferimento é “falha, omissa e não condiz com a verdade” e informa que os processos administrativos que motivaram o indeferimento parcial do direito creditório não haviam transitado em julgado, porém não refuta os fatos narrados no Despacho Decisório. Da Decisão de 1ª Instância Sobreveio Acórdão 11046.232, através do qual a manifestação de inconformidade foi tida como improcedente. Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, que veio a repetir os argumentos apresentados na impugnação, bem como acrescentou suas considerações trazidas aos processos administrativos que deram azo ao Despacho Decisório de que decorre esse contencioso. É o relatório. Fl. 250DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401005.716, de 11 de dezembro de 2018, proferido no julgamento do processo 13855.000846/200987, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 3401005.716): "O Recurso é tempestivo, e, reunindo os demais requisitos de admissibilidade, tomo seu conhecimento. Todavia, verificase que a Recorrente optou por trazer novos argumentos em sede de Recurso Voluntário com o objetivo de reapreciação de matéria discutida nos processos administrativos de nºs 13.855.001760/200971, 13855.001761/200916 e 13855.001762/200961. Não há como conhecer dessa parcela do recurso em vista de ocorrência de preclusão argumentativa nos termos do Decreto 70.235/1972. Por outro lado, a Recorrente insiste na tese de os fatos causadores dos lançamentos de ofício consignados naqueles processos acima mencionados não se relacionam com os créditos ora glosados, porém nada traz de concreto a fim de embasar essa alegação. Nesse ínterim, insubsistente sua defesa por absoluta ausência de comprovação. Por fim, quanto à alegação de sobrestamento, necessário mencionar que os referidos processos já passaram pelo crivo do CARF, em seguidos julgamentos, que passou a mencionar Do Julgamento dos PAT’s 13.855.001760/200971 e 13855.001761/200916 Tais processos tiveram Acórdãos proferidos em 03.12.2014, sendo desfavorável ao contribuinte quanto ao objeto comum do litígio: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 Fl. 251DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 5 4 CARF. SÚMULA 76. SIMULAÇÃO. FORMA DE EVADIRSE DAS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS. INTERPOSTAS PESSOAS. SIMPLES. SAT. LEGALIDADE. MULTA. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observandose os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. A utilização de interpostas pessoas enquadradas no SIMPLES para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, à fim de não recolher a quota patronal das contribuições previdenciárias, quando comprovado que o único fim desta empresa é desvincular o empregador, não merece surtir efeitos. O enquadramento da empresa no respectivo grau de risco é realizado pelo código CNAE, até a competência 05/2007, em decorrência da aplicação do anexo V do Decreto nº 3.048/99, e pelo CNAE FISCAL, a partir de 06/2007, tendo em vista a alteração do anexo mencionado pelo Decreto nº 6.042/97. No que diz respeito à multa de mora aplicada até 12/2008, com base no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, tendo em vista que o artigo 106 do CTN, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei nº 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação e prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Recurso Voluntário Provido em Parte (Acórdão 2403002.855 Rel. Marcelo Magalhaes Peixoto) Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 SIMULAÇÃO. FORMA DE EVADIRSE DAS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS. INTERPOSTAS PESSOAS. SIMPLES A simulação não é aceita como forma de planejamento tributário com vistas a reduzir a carga tributária da empresa. Manobra considerada ilegal. A utilização de interpostas pessoas enquadradas no SIMPLES para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, à fim de não recolher a quota patronal das contribuições previdenciárias, Fl. 252DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 6 5 quando comprovado que o único fim desta empresa é desvincular o empregador para com uma empresa, há de ser reconhecida a nulidade do negócio por abuso de direito e simulação. MULTA. RECÁLCULO. MP 449/08. LEI 11.941/09. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Antes do advento da Lei 11.941/09, não se punia a falta de espontaneidade, mas tão somente o atraso no pagamento a mora. No que diz respeito à multa de mora aplicada até 12/2008, com base no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, tendo em vista que o artigo 106 do CTN determina a aplicação do princípio da retroatividade benigna, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei nº 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada com base na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação e prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Recurso Voluntário Provido em Parte. (Acórdão 2403002.856 Rel. Marcelo Magalhaes Peixoto) Esses processos seguiram para Agravos por parte da Fazenda e do Contribuinte contra essas decisões e consta que, em virtude de adesão a programa de parcelamento (PERT), houve desistência por parte da Recorrente em janeiro de 2018. Do Julgamento do PAT 13855.001762/200961 Esse processo foi apensado aos demais por ocasião do Recurso Especial à CSRF interposto pela Fazenda Nacional, nos termos da Resolução 9202000.166: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Secretaria de Câmara, para que este processo seja apensado ao de n° 13855.001760/200971, que trata de obrigação principal e se encontra pendente de apreciação de agravo interposto em face de exame de admissibilidade do Recurso Especial do Contribuinte, sugerindose, ainda a apreciação conjunta por esta CSRF do referido feito de n°. 13855.001760/200971 com o de n°. 13855.001761/200916, para posterior distribuição a este relator para fins de julgamento em conjunto de Recursos Especiais, por conexão, caso aplicável. Portanto, inexistem decisões pendentes diante da desistência da própria Recorrente nos aludidos processos, e, sendo certo Fl. 253DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 7 6 que não restaram argumentos de mérito a serem apreciados, não há o que se acolher do Recurso apresentado. Por todo o exposto, conheço parcialmente o Recurso, e, na parte conhecida, negolhe provimento." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por conhecer parcialmente o Recurso, e, na parte conhecida, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 254DF CARF MF Processo nº 13855.002100/200827 Acórdão n.º 3401005.723 S3C4T1 Fl. 8 7 Fl. 255DF CARF MF
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Numero do processo: 12466.001361/2006-89
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Data do fato gerador: 26/04/2006
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. PENA DE PERDIMENTO E CONVERSÃO EM MULTA. ORIGEM DOS RECURSOS APLICADOS NA IMPORTAÇÃO. NÃO COMPROVAÇÃO. ADIANTAMENTOS.
Não apresentada documentação idônea capaz de comprovar a origem e disponibilidade dos recursos utilizados nas operações de comércio exterior, tem-se por configurada a interposição fraudulenta de terceiros. Na impossibilidade de apreensão da mercadoria sujeita a pena de perdimento, em razão de sua não localização, consumo ou transferência a terceiros, aplica-se a penalidade pecuniária de conversão da pena de perdimento. A não comprovação da origem de recursos monetários que ingressaram na empresa, bem como os diversos recursos monetários a título de adiantamentos para a realização de importações omitidos da aduana e ainda o registro das importações em nome próprio, caracterizam a interposição fraudulenta nos termos do art. 23, inciso V, §2° do Decreto-Lei n° 1.455/76.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. LEGALIDADE. INDIVIDUALIZAÇÃO DAS CONDUTAS.
Cabe a atribuição de responsabilidade solidária apenas àqueles que tiverem interesse comum na situação que constitua o fato jurídico tributário, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, apenas quem, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. A autuação deve arrolar todos os envolvidos para que estes respondam pelo crédito tributário decorrente da fraude aduaneira realizada, em respeito aos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Impossibilidade de responsabilização isolada de apenas um sujeito pela integralidade do auto de infração, se outros concorreram para o cometimento da fraude.
Recurso de Ofício Provido.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3301-005.535
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso de ofício e em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a solidariedade da recorrente Tupy Fundições Ltda. do polo passivo da autuação. O Conselheiro Marcelo Costa Marques d'Oliveira votou pelas conclusões quanto ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marcos Roberto da Silva (Suplente Convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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PENA DE PERDIMENTO E CONVERSÃO EM MULTA. ORIGEM DOS RECURSOS APLICADOS NA IMPORTAÇÃO. NÃO COMPROVAÇÃO. ADIANTAMENTOS. Não apresentada documentação idônea capaz de comprovar a origem e disponibilidade dos recursos utilizados nas operações de comércio exterior, temse por configurada a interposição fraudulenta de terceiros. Na impossibilidade de apreensão da mercadoria sujeita a pena de perdimento, em razão de sua não localização, consumo ou transferência a terceiros, aplicase a penalidade pecuniária de conversão da pena de perdimento. A não comprovação da origem de recursos monetários que ingressaram na empresa, bem como os diversos recursos monetários a título de adiantamentos para a realização de importações omitidos da aduana e ainda o registro das importações em nome próprio, caracterizam a interposição fraudulenta nos termos do art. 23, inciso V, §2° do DecretoLei n° 1.455/76. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. LEGALIDADE. INDIVIDUALIZAÇÃO DAS CONDUTAS. Cabe a atribuição de responsabilidade solidária apenas àqueles que tiverem interesse comum na situação que constitua o fato jurídico tributário, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, apenas quem, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. A autuação deve arrolar todos os envolvidos para que estes respondam pelo crédito tributário decorrente da fraude aduaneira realizada, em respeito aos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Impossibilidade de responsabilização isolada de apenas um sujeito pela integralidade do auto de infração, se outros concorreram para o cometimento da fraude. Recurso de Ofício Provido. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 00 13 61 /2 00 6- 89 Fl. 7673DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.674 2 Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso de ofício e em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a solidariedade da recorrente Tupy Fundições Ltda. do polo passivo da autuação. O Conselheiro Marcelo Costa Marques d'Oliveira votou pelas conclusões quanto ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marcos Roberto da Silva (Suplente Convocado) e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Tratase de recurso de oficio e recursos voluntários de Tupy Fundições Ltda. e Chinabraz Com. Imp. e Exp. Ltda., contra o acórdão proferido pela 2ª Turma de Julgamento da DRJ de Florianópolis (fls. 6.549ss) que, por unanimidade de votos, considerou parcialmente procedente o lançamento, consubstanciado no auto de infração de fls. 01 a 21, para excluir o valor de R$ 49.293.385,00 (quarenta e nove milhões, duzentos e noventa e três mil trezentos e oitenta e cinco reais) e manter o crédito tributário de R$ 26.141.765,00 (vinte e seis milhões cento e quarenta e um mil setecentos e sessenta e cinco reais). A DRJ, ademais, manteve como responsável solidária, a Tupy Fundições Ltda. Adoto o relatório da decisão recorrida, para os detalhes do litígio até aquele momento: Trata o presente processo do Auto de infração de fls. 01 a 24 por meio do qual é feita a exigência de R$ 75.435.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e cinco mil e cento e cinquenta reais), de multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada, ou que tenha sido transferida a terceiro ou consumida, aplicada em substituição à pena de perdimento que incide sobre mercadorias estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, nos termos do art. 23, V e §§ Fl. 7674DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.675 3 2° e 3°, do Decretolei n° 1.455 de 07/04/1976 DOU 08/04/1976 ret. em 13/04/1976. Conforme consta na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fl. 02 e Relatório de Ação Fiscal de fls. 05 a 24, em procedimentos de fiscalização foi constatado que a empresa Amerimex Internacional Ltda, CNPJ n° 04.639.330/000182, que tinha o cadastro suspenso, endossou a favor da autuada as importações referentes as DI n. 05/00159997, 05/00246712 e 05/002246720. Foi instaurado procedimento especial de verificação da origem dos recursos aplicados em operações de comércio exterior e combate à interposição fraudulenta de pessoas, nos moldes preconizados pelos arts. 1° e 2°, da Instrução Normativa SRF n°228, de 21 de outubro de 2002, DOU de 23/10/2002 contra Amerimex e, por extensão, contra a Chinabraz para quem foram endossadas a propriedade das mercadorias e se concluiu que esta última, também, não dispunha de capacidade econômica e financeira, legalmente demonstrada, para realizar as importações dos produtos apresentados na lista de fls. 22 a 24 e que não foram localizados pela fiscalização. Verificações fiscais levaram à conclusão de que a empresa autuada procedia a importações de carvão coque chinês para a Tupy Fundições, causando prejuízos às empresas brasileiras do setor, de acordo com a denúncia do Sindicato das Indústrias de Carvão do Estado de Santa Catarina, maior produtor brasileiro dessa matériaprima. A fiscalização concluiu, também, que houve fraudes relativas ao FUNDAP, tendo em vista que a Chinabraz era Fundapeana. Lavrado o Auto de Infração em questão foram intimadas a autuada em 11/05/2006 e a considerada solidária, Tupy Fundições, em 17/05/2006 fl. 1.816 vol. X). Em 09/06/2006 Chinabraz apresentou as impugnações de fls. 5.479 a 5.549 (volume XXVIII) e Tupy as de fls. 1.818 a 1.880 (volume X). As impugnações que discorrem a respeito das motivações da autoridade fiscal para a realização dos lançamentos, apresentando contraargumentos, são em síntese as seguintes: Impugnação de Chinabraz fls. 5.479 a 5.549 (volume XXVIII) o Auditor Fiscal Raimundo da Silva, por ter se sentido insultado devido a peticionária haver impetrado mandado de segurança contra a ação fiscal, agiu de forma retaliatória buscando, a todo custo, imputar conduta ilícita contra a impugnante e uma de suas clientes, Tupy Fundições; quando procurou deflagrar a instauração de inquérito policial contra os sócios da autuada o próprio Delegado de Polícia Federal do caso atestou que nem a firma em questão, nem seus sócios estariam sob investigação, por parte daquela delegacia especializada em crimes fazendários; assim, a representação fiscal para fins penais não merece guarida, pois a autoridade fiscal não foi capaz de especificar em qual dos incisos consubstanciados nos arts. 1° e 2°, da Lei n° 8.137/1990 estaria subsumida a suposta infração penal; a fiscalização interpretou erroneamente as movimentações contábil, fiscal e financeira, da autuada, presumindo equivocadamente que ela não dispunha de recursos próprios para liquidar o câmbio referente às várias importações e que, portanto, teria se valido de simulação, se apresentando como importadora para obter benefícios financeiros proporcionados pelo FUNDAP; pelo fato de a peticionária haver enviado apenas uma cópia do contrato assinado entre ela e a conceituada empresa Tupy Fundições, através do qual foram contratadas a compra e venda de carvão coque ao preço de US$ 361,00 a tonelada, Fl. 7675DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.676 4 a fiscalização tece equivocadas ilações a respeito do valor alegando, sem provas, que a Tupy teria adiantado a quantia de US$ 2.400,000.00, restando uma diferença de US$ 1.210,000.00 que nunca teria sido paga. A fiscalização conclui que Tupy teria pagado exatamente o valor de US$ 240,00 a tonelada, quando é normal que quando existem adiantamentos de recursos monetários para a realização de importações existam maiores garantias; a autoridade fiscal tece errôneas apreciações sobre a situação financeira da peticionária que, na verdade, tratase de empresa sólida e ativa com vários empregados que paga, pontualmente, os salários e impostos (faz a apresentação de seus argumentos, inclusive a respeito da decretação da falência e de seus negócios com afirma Amerimex, às fls. 5.505 a 5.524); as conclusões da fiscalização a respeito de interposição fraudulenta, alegando que o fato de a peticionária haver recebido adiantamento para algumas importações que foram feitas em seu nome a caracterizaria, é afirmação que vai contra todos os princípios comerciais; a Chinabraz é a real adquirente do carvão coque, tendo em vista seu objeto social, e é praxe comercial algumas firmas procederem a adiantamentos de pagamentos das mercadorias encomendadas (às fls. 5.526 a 5.531 cita o art. 167 do Código Civil, vários doutrinadores, como Orlando Gomes e Silvio Rodrigues, além de jurisprudência de TJ estaduais e do STJ e procede a um estudo sobre simulação. Às fls. 5.531/5.532 discorre a respeito do FUNDAP); quanto a Tupy Fundições é fato que a empresa consome 70% (setenta por cento) do carvão coque chinês importado, mas, também, é fato que a peticionária mantêm estoque permanente desse produto para que sua cliente não necessite ficar no aguardo das importações; ademais, é notório que uma empresa do poderio econômico da Tupy Fundições jamais se atreveria ou necessitaria de se valer de uma terceira empresa, como a impugnante, para lesar ou fraudar o erário Federal, ou estadual; apenas por amor a argumentação se fosse o caso de imputação de responsabilidade solidária à Tupy a autoridade fiscal deveria também imputar solidariedade às demais empresas que mantêm relações comerciais com a Chinabraz, conforme se verifica pela listagem de clientes anexa. Havendo chamado à responsabilidade somente a Tupy Fundições a fiscalização cometeu mais uma arbitrariedade; de se salientar que a autoridade fiscal para atingir o valor da multa em questão considerou, segundo se constata através do Relatório Fiscal, todas as mercadorias comercializadas pela Chinabraz, sendo que a Tupy lhe compra apenas o coque para fundição a granel, cujas quantidades foram de R$ 46.064.086,00 (quarenta e seis milhões, sessenta e quatro mil e oitenta e seis reais); além de tudo que já se expôs a multa em questão ofende os princípios constitucionais da razoabilidade e proporcionalidade, por ser extremamente abusiva e confiscatória (defende sua tese às fls. 5.543 a 5.549). Pede a improcedência do Auto de Infração em tela e o afastamento da responsabilidade solidária da Tupy Fundições Ltda. Impugnação de TUPV Fundições Ltda fls. 1.818 a 1.880 (volume X) As partes com tese já apresentadas pela Chinabraz não serão relatadas. nulidade do lançamento devido ao cerceamento do direito de defesa, haja vista que a peticionária foi autuada apenas com dados levantados na empresa Chinabraz, que são desconhecias pelo Tupy. Não foram fornecidos junto com o auto de infração todos os documentos. A impossibilidade de ter acesso aos anexos do Auto Fl. 7676DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.677 5 de Infração em questão impede a impugnante de saber o teor dos documentos fornecidos pela Chinabraz e, em consequência, quais os fundamentos das alegações da autoridade fiscal; o fato de a Tupy não adquirir o coque diretamente de fornecedores chineses (às fls. 1.823 a 1.828 faz uma apresentação a respeito do coque brasileiro em comparação com o chinês) devese ao fato de haver alto grau de intervenção estatal na China, além do que a Tupy não possui estrutura portuária de estocagem e beneficiamento/peneiramento do coque; representantes da Tupy visitaram as instalações da Chinabraz e constataram que a empresa possuía infraestrutura adequada ao atendimento de seus interesses destacandose um pátio de 200.000 metros quadrados, sendo cerca de 16 mil de área coberta, caminhões, máquinas de peneiramento e enorme estoque de coque chinês. Os adiantamentos de alguns pagamentos se deram para que se pudessem obter melhores condições de aquisição do produto; a Tupy não agiu com fraude nem arquitetou qualquer interposição com a Chinabraz que opera no mercado de coque desde 1993, ou seja, muito antes de a peticionária proceder às aquisições dessa empresa (às fls. 1.832/1.833, 1.838 e 1.840/1.841 transcreve trechos de correspondências que teria trocado com a Chinabraz); ressaltese que quando se adquire produtos de uma empresa é costume se avaliar apenas suas condições gerais de atender a demanda e não acompanhar, dia a dia o caixa dessa empresa; quanto à alegada fraude relativamente ao ICMS devido ao fato de Chinabraz ser fundapeana e a Tupy não ter sede no Estado do Espírito Santo é consideração irreal, haja vista que esta última tem muitos créditos desse tributo e não necessitaria se valer de tal subterfúgio; ainda, há que se salientar que mesmo após a Tupy haver parado de adquirir coque da Chinabraz essa empresa continuou a efetuar importações de grande monta o que demonstra que ela possui recursos financeiros independentes da peticionária. Isso descaracteriza a afirmação do fisco de que as importações desta autuação se tratariam de operações por conta e ordem de terceiros, embora documentadas como importação pela Chinabraz para venda posterior (às fls. 1.841 a 1.849 analisa o caso mediante a transcrição de trechos da IN/SRF n° 228/2003 e emails); no que se refere à suspensão do CNPJ da Chinabraz de se salientar que ela somente ocorreu em março de 2006 (transcreve à fl. 1.847/1.848 os arts. 16 e 36 da IN/SRF n°2, de 02/01/2001). Durante todo o tempo que comercializou com a Tupy a situação da Chinabraz era ativa regular; de se frisar que a Chinabraz obtinha, normalmente, as Licenças para importação referentes aos produtos em questão, assim, não havia como Tupy ter qualquer desconfiança relativamente à empresa, a não ser os normais cuidados que se toma para realizar negócios de vulto. A Tupy era adquirente de boafé (às fls. 1.851 a 1.853 apresenta acórdãos a respeito da aplicação da pena de perdimento contra o adquirente de boafé); de se observar, também, que as regras de solidariedade tributária se referem a créditos tributários e não a pena de perdimento. Em decorrência a multa em questão não pode ser aplicada solidariamente a Tupy Fundições. Ademais várias supostas irregularidades cometidas pela Chinabraz, tais como transferência de ativos da Chinabraz para Amerimex, declarações de IR da empresa em 2002 e 2003, realização de importações pela Amerimex durante período em que seu CNPJ Fl. 7677DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.678 6 estava suspenso e a suposta falta de capacidade econômica por parte da Chinabraz, que se tenta demonstrar através de inúmeros demonstrativos contábeis e livros fiscais, além dos supostos ingressos de recursos sem comprovação de origem, aparentemente desvinculados de sua atividade não concernem, por qualquer forma, a Tupy; também a representação penal lavrada não pode dizer respeito a Tupy, adquirente de boafé que recolheu todos os tributos que devia; Pede a produção de provas por todos os meios em Direito admitidos, especialmente a pericial, indicando quesitos e assistentes técnicos às fis. 1.879/1.880. e ao final a improcedência das exigências, ou a exclusão da Tupy do polo passivo. A decisão da 2ª Turma da DRJ de Florianópolis foi assim ementada: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 26/04/2006 IMPORTAÇÕES. DISPONIBILIDADE E ORIGEM DOS RECURSOS. FECHAMENTO DE CÂMBIO. Depósitos bancários sem identificação de sua origem legal, na conta de importador que não tem possibilidade financeira/creditória, segundo levantamento contábil/patrimonial, para realizar determinadas importações, bem assim fechamentos de câmbio não esclarecidos, leva a presunção juris tantum de interposição fraudulenta de terceiros apenável com o perdimento ou, em substituição, com multa igual ao valor aduaneiro da mercadoria. Adiantamentos financeiros, de clientes compradores de mercadorias importadas, regularmente registrados na contabilidade da importadora e comprovados através de extratos bancários, constituem prova de origem regular dos recursos disponíveis, portanto, importações que tenham base neles não podem ser consideradas na determinação do valor da multa substitutiva da pena de perdimento, salvo se o valor de comercialização da mercadoria não comportar lucro, pois por presunção hominis, nenhuma firma irá importar para outra, sem nenhuma vantagem. SOLIDARIEDADE. Segundo a legislação do Comércio Exterior, respondem pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. JULGAMENTO DA LEGALIDADE E/ OU INCONSTITUCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Aos julgadores administrativos não foi dada a competência legal para o afastamento de normas vigentes pelos motivos de ilegalidade e inconstitucionalidade, salvo nos casos em que ela já tenha sido declarada inconstitucional, em caráter definitivo, pelo Supremo Tribunal Federal. Fl. 7678DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.679 7 Lançamento Procedente em Parte. Os fundamentos do voto condutor da decisão de piso foram bem resumidos pela Resolução n° 3012.094 (fls. 67706784): i) No tocante ao cerceamento de defesa alegado pela Tupy, que consta claramente na autuação que esta se refere ao fato de a Chinabraz não haver demonstrado a origem legal dos recursos aplicados na importação de produtos, que teve grande incremento após a Tupy Fundições haver passado a negociar com ela, e que, tendo procedido às devidas intimações da importadora Chinabraz, dela obteve apenas a demonstração parcial da origem dos recursos empregados. Com isso, lavrou o Auto de Infração e intimou o autuado e o considerado solidário. ii) Que a Tupy pede a produção de provas por todos os meios em Direito admitidos, especialmente a pericial, indicando quesitos e assistentes técnicos às fls. 1.879/1.880, mas que, no caso, com base no princípio do livre convencimento, o relator entende que não são necessárias maiores provas para a solução da lide. iii) Que, no que tange à interposição fraudulenta, esta é presumida quando não são comprovadas a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação. Conforme a DRJ, na forma que está redigida a Lei depreendese que cabe a fiscalização apenas demonstrar que, devido a situação contábil da importadora ela, aparentemente, não dispunha de recursos para proceder à(s) determinada(s) importação(ões). Cabe a importadora, em tais casos, demonstrar a origem dos recursos necessários (registrados legalmente), para as importações que realizou, coisa que Chinabraz não fez, no presente caso, para o incremento das importações de carvão coque ocorridas entre janeiro de 2003 a janeiro de 2004. Se os aportes financeiros necessários para os incrementos de importação tivessem sido adequadamente demonstrados pela importadora não seria possível se aplicar a penalidade em tela. Também, se Tupy Fundições, considerada solidária, em sua impugnação, houvesse apresentado demonstrativos contábeis e extratos bancários, no sentido de que havia antecipado todos os recursos necessários ao incremento das importações (que provocou) efetuadas pela Chinabraz, comprovaria que agiu legalmente. Nesse caso, a Chinabraz seria a única responsável pela não demonstração da origem dos recursos (contabilização) e Tupy seria excluída do polo passivo, pois ao menos contra ela deixaria de haver subsunção aos termos legais que exigem a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. iv) Que quando a importadora procede a vendas para diversas firmas a interposição, para fins de solidariedade, deve ser demonstrada por grupos de importações. No caso em tela foi chamada apenas a Tupy. Embora nos autos haja indícios de que mesmo nas demais importações (com os diversos clientes restantes) tenha havido prejuízo ao fisco, relativamente ao imposto de renda nas vendas posteriores (devidos aos prejuízos contábeis apurados pela fiscalização), a importadora demonstrou ter recursos para elas. Assim, do total apurado pela fiscalização é de se excluir a parte demonstrada da origem de recursos, como antecipação realizada por clientes O que deve ser mantido do lançamento é apenas a parte que não teve a origem comprovada. Conforme já analisamos se uma firma não dispõe de recursos para importar, mas recebe adiantamento de outra, tudo de forma legal e documentada não lhe é aplicável a presunção prevista no art. 23, V, § 2°, do Decretolei n° 1.455/1976 que, conforme vimos, exige a não comprovação (legal) da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Fl. 7679DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.680 8 Ao se admitir os adiantamentos de clientes (fls. 942 a 961 volume que estão comprovados, ver Demonstrativo de Saldo de Contas de fls. 1.726 a 1.729) e, também, o da Tupy no valor de US$ 2.400.000,00 nas datas de ingresso de suas parcelas, da lista de fls. 22 a 24 apenas recursos necessários às importações referentes ao carvão coque, de determinados períodos, por serem de vulto, podem ser considerados como não tendo sido totalmente justificados. Do contrato realizado entre a Chinabraz e a Tupy (fls. 1.217 a 1.221 volume VII) estão comprovados, apenas os adiantamentos no total de US$ 2.400,000.00 realizados a partir de 10/02/2004. O coque importado a partir dessa data, também, deve ser excluído da lista de fl. 23, pois os recursos estão comprovados e para outras importações a Chinabraz dispunha de recursos declarados. Do total da multa aplicada (ver cálculo às fls. 22 a 24) de R$ 75.436.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e seis mil e cento e cinquenta reais) deve, portanto, ser excluído o valor de R$ 49.293.385,00 (quarenta e nove milhões duzentos e noventa e três mil trezentos e oitenta e cinco reais) mantendo se os valores relativos às importações de coque de abril de 2003 a janeiro de 2004 destacado no rol de fls. 22 a 24. Resta, portanto, R$ 26.142.765,00 (vinte e seis milhões cento e quarenta e dois mil setecentos e sessenta e cinco reais) de importações cuja origem financeira legal não foram satisfatoriamente comprovadas. v) Que Tupy Fundições alega que as regras de solidariedade tributária se referem a créditos tributários e não a pena de perdimento e que, em decorrência, a multa em questão não pode ser aplicada solidariamente a ela. A DRJ, no entanto, asseverou que tratandose de multa substitutiva aplicase a regra do art. 95 do Decretolei n° 37/1966. vi) Que dos R$ 203.345.198,64 (duzentos e três milhões trezentos e quarenta e cinco mil cento e noventa e oito reais e sessenta e quatro centavos) de importações constatadas pela fiscalização (esses dados são facilmente obtidos pela SRF através dos registros do S1SCOMEX) a importadora logrou demonstrar de onde vieram muitos dos recursos para sua realização. No caso, a autoridade fiscal não agiu de forma retaliatória devido aos obstáculos interpostos pela fiscalizada, conforme sua alegação, pelo contrário, foi muito criteriosa, pois do total acima reduziu os valores referentes às importações que a autuada apresentou as comprovações chegando a um total de R$ 75.435.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e cinco mil e cento e cinquenta reais) que entendeu estarem não comprovados, ou seja, considerou que a importadora ofereceu comprovação de R$ 127.910.048,64 (cento e vinte e sete milhões novecentos e dez mil e quarenta e oito reais e sessenta e quatro centavos). Houve, entretanto, um engano de entendimento a respeito do par. 2°, do Decretolei n° 1.455/1976, por parte da autoridade fiscal, pois alguns recursos cujas origens foram comprovadas adiantamento de clientes —foram igualmente glosados juntamente como os de origens não comprovadas o que é equivocado (ver demonstrativo de fls. 1.726 a 1.729 volume IX). Esse engano está sendo corrigido no presente voto. vii) Que a considerada solidária Tupy Fundições Ltda. em sua impugnação não apresentou outras comprovações de transferências de recursos para a importadora, além dos já analisados US$ 2.484.769,03, ou US$ 2.400.000,00 descontandose a importação de outros produtos além do coque; Fl. 7680DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.681 9 Em seus recursos voluntários, as Recorrentes aduziram: TUPY i) Que podese depreender da decisão recorrida que o montante da multa excluída corresponde à monta dos recursos utilizados para a realização das importações pela Chinabraz que, segundo o órgão julgador, tiveram sua origem, disponibilidade e transferência devidamente comprovados, afastando, assim, relativamente a tal parcela, a presunção de interposição fraudulenta a que se refere o DecretoLei n°1.455/76, V, par. 2°. Ocorre que as autoridades julgadoras, para fins de verificação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos utilizados para a realização das importações, analisaram tão somente os extratos e comprovantes juntados pela Chinabraz. Deixou, portanto, o órgão julgador de constatar que a Tupy comprovou devidamente, através da juntada dos comprovantes de depósito bancário e de pagamento de boletos bancários (Docs. 08 e 09 da Impugnação da Tupy), a origem, disponibilidade e transferência dos recursos necessários à importação das mercadorias a ela destinadas. ii) Que basta confrontar os documentos fiscais emitidos pela Chinabraz em face da Tupy (Doc. 08 da Impugnação da Tupy) com os comprovantes de depósito e de pagamento de boletos efetuados pela Recorrente em favor da Chinabraz (Doc. 09 da Impugnação da Tupy), para se verificar, de forma límpida, a origem, disponibilidade e transferência dos recursos que suportaram a importação das mercadorias destinadas à Tupy. Com o intuito de facilitar a verificação de tais transferências de recursos efetuadas pela Tupy em favor da Chinabraz, vejase planilha (Doc. 02 do presente Recurso Voluntário) contendo as respectivas datas e valores dos depósitos e pagamentos de boletos. Dessa maneira, resta evidente que a origem, disponibilidade e transferência de todos os recursos despendidos pela Chinabraz para a importação das mercadorias destinadas à Recorrente está devidamente atestada pelos comprovantes de depósito e de transferência bancária já anexados pela Tupy à sua Impugnação. iii) Que uma vez demonstrada a origem dos recursos utilizados pela Chinabraz para a realização das importações de mercadorias destinadas à Recorrente, resta afastada qualquer responsabilidade desta última. iv) Que caso se entenda que tais documentos não são suficientes para comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos, requer a Tupy seja oficiado o banco Bradesco (visto haverem sido realizados os depósitos indicados na planilha anexa na Agência n° 1.5733, Conta n° 163996 deste banco), bem como os bancos indicados nas faturas emitidas pela Chinabraz em face da Tupy (Doc. 08 da Impugnação da Tupy onde foram quitados os boletos indicados na planilha), a fim de que confirmem a veracidade dos depósitos e transferências de recursos constantes da planilha anexada pela Recorrente ao presente Recurso Voluntário. v) Que o órgão julgador não apresentou qualquer fundamento para atribuir à Tupy a responsabilidade pelas importações de mercadorias a ela não destinadas, concluindo, nesse sentido, que todo o montante de recursos cuja origem não foi comprovada corresponderia a importações de mercadorias destinadas à Tupy. Que, nesse sentido, basta confrontar as declarações de importação com os documentos fiscais emitidos pela Chinabraz em face da Tupy (Doc. 08 da Fl. 7681DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.682 10 Impugnação da Tupy) para que se verifique quais mercadorias foram, de fato, destinadas à Recorrente e, desse modo, possa ser a sua responsabilidade limitada ao montante relativo às importações de mercadorias a ela destinadas. vi) Que requer a Recorrente sejam solicitadas informações à Chinabraz, a fim de que ela possa atestar as efetivas destinatárias de cada mercadoria importada no período abrangido pelo Auto de Infração e, dessa maneira, possa ser a Recorrente responsabilizada tão somente pela multa relativa às importações de mercadorias a ela destinadas. vii) Que a planilharesumo anexada ao recurso voluntário apenas compila as informações relevantes dos comprovantes de depósito e transferência que já haviam sido juntados pela requerido Tupy quando da impugnação, e que, da mesma forma, anexou à sua Impugnação todos os documentos que demonstram a origem, disponibilidade e transferência dos recursos necessários às importações de mercadorias a ela destinadas. CHINABRAZ i) O que importa especificamente para este recurso são as lesivas imputações de inexistência de comprovação da origem dos recursos financeiros para as operações de importação entre 17.01.2003 até 21.02.2005 e de interposição fraudulenta entre Chinabraz e a empresa Tupy Fundições Ltda. ii) Que o erro de julgamento reside na assertiva de que a recorrente não gozava de crédito junto aos fornecedores estrangeiros. Inúmeros documentos fornecidos ao Fiscal informavam que a maioria das importações era realizada a prazo, todavia, tais fatos foram omitidos no relatório final. Então, seguem anexas novas cópias dos mesmos (d. 1). Das sete (7) operações glosadas pela 2ª Turma da DFJ/FNS apenas uma (1) foi antecipada. Tabelas abaixo e os contratos de câmbio juntados aos autos, provam que os contratos de câmbio das seis (6) primeiras DI's foram liquidados após a data limite (13.01.2004) fixada no acórdão recorrido: (..) Como visto, com exceção aos contratos relativos a DI n° 04/00307604, todos os contratos de câmbio relacionados importações glosadas foram liquidados após o dia 13.01.04. (...) Exceção única foi a importação declarada sob n° 0400307304/001, pois dita operação foi realizada com fornecedor espanhol que não concede prazo em suas negociações. As liquidações dos contratos de câmbio desta operação foram realizadas antecipadamente; iii) Que, portanto, não condiz com a realidade a afirmação de que CHINABRAZ não tinha capacidade financeira para tais importações. iv) Que indagouse no voto impugnado (fls. 6.557) "como uma firma, como a Chinabraz, que não dispunha dos recursos (demonstrados de forma legal) necessários poderia ter feito uma importação de coque em tal valor, além dos produtos que normalmente importava, para posterior venda à Tupy?" A resposta é simples: a CHINABRAZ gozava de crédito junto a vários fornecedores estrangeiros e todas as operações a prazo eram devidamente registradas e informadas à Alfândega do Porto de Vitória/ES. Fl. 7682DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.683 11 A 1ª Câmara do 3° Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converteu o julgamento em diligência para a complementação de informações por parte da DRF de origem e quanto ao recurso de ofício, à DRJ recorrida, para explicitar os cálculos referentes à parcela exonerada. Foram os termos da diligência os seguintes: Assim, para que não se alegue violação aos princípios constitucionais acima aludidos, e em face da complexidade da matéria e grande volume de documentos, entendo que o presente julgamento deve ser convertido em diligência a fim de que (i) seja realizada a perícia solicitada pela Tupy na sua impugnação, além de perícia técnicacontábil para verificação das alegações apresentadas pela Tupy, fazendose o cotejo das informações contidas na planilha acostada aos autos com seu recurso voluntário e os documentos juntados em sua impugnação. Entendo, também, que deve ser realizado (ii) exame técnico contábil na documentação, já constante dos autos, apontada pela Chinabraz no seu recurso voluntário que, a princípio, segundo suas alegações, comprovaria que a maioria das importações era realizada a prazo e que, no tocante às operações glosadas, todos os contratos de câmbio relacionados foram liquidados após o dia 13/01/2004. Em síntese, as recorrentes devem apurar detalhadamente as origens dos recursos e a vinculação a cada uma das importações. Por outro lado, (iii) no tocante aos valores exonerados na r. decisão recorrida, entendo que a DRJ deve apresentar quadro demonstrativo dos cálculos, com cruzamento de informações com os documentos constantes dos autos, incluindo as respectivas páginas, fazendo tal demonstração de forma detalhada a fim de possibilitar o perfeito entendimento de corno a autoridade julgadora chegou ao montante global exonerado. A perícia solicitada pela Tupy foi realizada, o que resultou nas informações prestadas nas fls. 6.974ss.: 1º) Há alguma ligação societária entre a Tupy e a Chinabraz? Resposta: Para responder ao presente quesito, lançamos mão, inicialmente, das cópias dos contratos sociais e suas alterações (fls. 37/46) da empresa Chinabraz Comércio Importação e Exportação LTDA, que nos foram enviadas para atender o Termo de Início de Fiscalização (fls. 35). Em seguida, realizamos cotejo junto a nossa base de dados (Sistema RADAR fls. 6.864/6.865). Com base apenas nesses dados, verificamos que NÃO HÁ alguma ligação societária entre a Tupy e a Chinabraz; 2°) A Chinabraz realiza peneiramento/beneficiamento de coque antes de vendêlo no mercado interno? Resposta: No dia 21 de janeiro de 2010 os AFRFBs Raimundo da Silva (matrícula 76.264) e Marcos Rios Correa (matrícula 19.098) compareceram no endereço da Chinabraz para obterem informações para resposta ao presente quesito. Em lá chegando, Fl. 7683DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.684 12 constataram que a referida empresa não mais desenvolve nenhum tipo de atividade no seu endereço constante em nossa base de dados (Sistema CNPJ). No local havia apenas uma senhora, a qual não possuía nenhum conhecimento sobre o assunto. Entretanto, a referida senhora dissenos que poderia transmitir ao senhor Denis Ferreira Casagrande, representante legal da empresa Chinabraz, as informações que fossem de nosso interesse. Assim sendo, deixamos com a referida senhora cópia das perguntas realizadas pela Tupy Fundições (fls. 1879) para ser entregue ao Sr. Denis Ferreira Casagrande, o qual, posteriormente, nos entregou as respectivas respostas (fls. 6871/6877). Posteriormente, consultamos o sítio da empresa Wilfer Comércio e Representações LTDA (CNPJ 50.672.526/000196) e obtivemos informações sobre o beneficiamento e peneiramento do carvão coque por parte da CHINABRAZ (fls. 6866). Em tais informações, observase que para o beneficiamento e peneiramento do coque a CHINABRAZ necessitaria possuir alguns equipamentos tais como: peneiras, pás carregadeiras, balanças, laboratório etc. Consultandose a contabilidade da empresa nos anos de 2003 e 2004 (fls. 079/274) que nos foi fornecida em atendimento à intimação fiscal, observase que no Ativo Permanente da CHINABRAZ não está escriturado nenhum desses equipamentos e/ou maquinários. A contabilidade somente apresenta, de forma generalizada, a conta "MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS", sem, entretanto, discriminar quais são essas máquinas e equipamentos. Consultandose a relação de pessoas que prestaram serviços para a CHINABRAZ (fls. 1320/1365), relação essa que nos foi enviada para atender intimação fiscal realizada no curso da fiscalização, não encontramos nenhuma informação de que alguma empresa realizara prestação de serviço para a CHINABRAZ referente a beneficiamento e/ou peneiramento de coque. Durante a pesquisa na referida relação, encontramos, porém, as seguintes informações: Com as informações obtidas, NAO SE PODE AFIRMAR que a CHINABRAZ realizava peneiramento/beneficiamento de coque antes de vendêlo no mercado interno. 3°) No mercado brasileiro, a Chinabraz era a única fornecedora do coque de fundição chinês peneirado durante o período da autuação? Resposta: Para responder ao presente quesito, consultamos a nossa base de dados para verificarmos quais foram as empresas que importaram coque fundição nos anos de 2003 e 2004. Conforme relatório gerado no Sistema DW Aduaneiro (fls. 6867/6868), constata se que somente as empresas Chinabraz (CNPJ 39265913) e Teksid do Brasil LTDA (CNPJ 16694812/000114) realizaram importações de coque fundição, sendo que as importações da Teksid foram originadas dos Estados Unidos e as importações da CHINABRAZ foram originadas da Espanha e da China. Na descrição dos produtos, não se consegue saber se os coques importados são peneirados, e pelo que se obteve ao respondermos o quesito 02, não podemos afirmar que o Coque negociado pela CHINABRAZ era peneirado. Dessa forma, O QUESITO RESTOU PREJUDICADO. Fl. 7684DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.685 13 4°) Qual era o valor do total de ativos da Chinabraz quando a Tupy começou a comprar o seu coque (ano de 1996)? Qual era o total de ativos, em especial, estoque, durante o ano de 1999? Resposta: Conforme já informado na resposta ao quesito 02, no dia 21 de janeiro de 2010 comparecemos no endereço da Chinabraz constante em nossa base de dados, e constatamos que a referida empresa não exerce atualmente nenhuma atividade naquele endereço. Assim sendo, para responder ao presente quesito, realizamos consulta a nossa base de dados (sistema CNP)) onde extraímos os dados referentes ao Ativo da empresa relativos aos anos de 1996 e 1999. Conforme documentos em anexo (fls. 6869/6870), NO ANO DE 1996 O VALOR TOTAL DO ATIVO DA CHINABRAZ ERA DE R$ 6.862.725,96 E NO ANO DE 1999 O VALOR TOTAL DO ATIVO ERA DE R$ 0,00 E O VALOR DOS ESTOOUES DA CHINABRAZ ERA DE R$ 0,00. 5°) Todas as mercadorias adquiridas pela Chinabraz eram destinadas à Tupy? Resposta: Consultandose a Relação das Notas Fiscais de Entradas (fls. 278/281) e consultandose a Relação das Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz no curso da ação fiscal, podese verificar que todas as mercadorias adquiridas pela Chinabraz NÃO ERAM DESTINADAS à Tupy Fundições. 6°) A Tupy era o único cliente de coque de fundição da Chinabraz? Quais mercadorias adquiridas pela Chinabraz foram destinadas à Tupy e qual o seu valor aduaneiro? Resposta: Consultandose a Relação das Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz no curso da ação fiscal, podese verificar que durante o período compreendido entre o dia 02/01/2003 e o dia 30/12/2004 a Tupy Fundições NAO FOI O ÚNICO CLIENTE de coque fundição da Chinabraz. As mercadorias que foram destinadas, durante tal período, à Tupy Fundições são aquelas constantes da Relação das Mercadorias Destinadas à Tupy Fundições LTDA em anexo (fls. 6878/6921), cujos dados foram obtidos na Relação de Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz durante o curso da fiscalização em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal N o 01 (fls. 277). Quanto ao valor aduaneiro, O QUESITO RESTOU PREJUDICADO, já que, de acordo com o Acordo de Valoração Aduaneira (AVA), o valor aduaneiro somente é passível de apuração quando da importação de mercadorias, não sendo possível obterse o valor aduaneiro nas transações realizadas entre empresas no mercado doméstico de cada país signatário do AVA. 7°) As mercadorias adquiridas pela Tupy possuem as respectivas notas fiscais? Resposta: QUESITO PREJUDICADO, já que na fiscalização realizada não foram utilizadas notas fiscais. A fiscalização baseouse na Relação das Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) enviada pela auditada no curso da fiscalização, e, atualmente, a Chinabraz não mais exerce as suas atividades no seu endereço informado à RFB, conforme acima relatado, não sendo possível, então, termos acesso às notas fiscais de saídas emitidas pela Chinabraz para apurarmos os dados solicitados. Entrementes, quando da apresentação da impugnação por parte da Tupy, a mesma anexou ao processo diversas notas fiscais de saídas (fls. 2157/4449). Com base em tais NFs, elaboramos a Relação das NFs de Saídas Enviadas Pela Tupy (fls. Fl. 7685DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.686 14 6935/6970). Consultandose tal relação, verificase que na planilha de notas fiscais que nos foram enviadas pela Chinabraz não constam diversas NFs que constam na relação de NFs enviadas pela Tupy. Assim, fica caracterizada que as informações prestadas pela Chinabraz no curso da fiscalização foram incompletas. Dessa forma, para responder a tal quesito, necessário se faz uma fiscalização aprofundada, voltada para a área de tributos internos, para se atender, corretamente, a pergunta feita no presente quesito. 8°) A Tupy realizou o pagamento das mercadorias? Resposta: QUESITO PREJUDICADO, já que a documentação solicitada à Chinabraz no curso da fiscalização não permite apurar o dado solicitado, e, atualmente, a Chinabraz não mais exerce as suas atividades no seu endereço informado à RFB, conforme acima relatado, não sendo possível, então, termos acesso à documentação necessária para apurarmos o que foi solicitado. Entrementes, junto com a sua impugnação, a Tupy Fundições juntou ao processo diversos documentos (fls. 4450/5477) com o intuito de provar os pagamentos referentes às mercadorias adquiridas junto à Chinabraz. Entretanto, ao consultar tais documentos, verificase que os mesmos são: (1) Relação das Autorizações de Pagamento Pagas e a Pagar Por Fornecedor; (2) Detalhe da Remessa do Lote Para Pagamento Escriturai; (3) Retorno de Títulos Pagos; (4) Guia de Depósito Bancário; (5) Boleto Bancário; (6) DOC; (7) Guia de Pagamento. Analisandose tais documentos, verificase que somente fazem prova de realização de pagamentos aqueles documentos constantes na relação por nós elaborada com a denominação de Depósitos Realizados Pela Tupy (fls. 6922/6934). Confrontandose tal relação com aquela referente as cópias das NFs fiscais que foram enviadas pela Tupy (fls. 6935/6970), verificase que só podemos apurar alguns pagamentos referentes aos anos de 2003 e de 2004. 9°) A Tupy comprou coque da Chinabraz em 2004 pagando o preço de US$ 240,00 por tonelada? Resposta: Como se pode observar na relação por nós elaborada referente as NFs da Chinabraz que nos foram enviadas no curso da fiscalização (fls. 6878/6921), bem como se pode observar na relação por nós elaborada referente às NFs enviadas pela Tupy no momento de apresentação de sua impugnação (fls. 6935/6970), os valores constantes nas mesmas estão expressos em real, não sendo possível apurar o valor em dólar. Assim sendo, O QUESITO RESTOU PREJUDICADO. (2) Para a perícia técnicacontábil solicitada tendo por finalidade a verificação das alegações apresentadas pela Tupy Fundições, procedendose ao devido cotejo das informações contidas na planilha acostada aos autos com o seu recurso voluntário (tis 6627/6661) e os documentos juntados com sua impugnação (fls. 4450/5477) podemos verificar que na referida planilha constam os números de diversas notas fiscais, seguidos das respectivas datas de pagamento, forma de pagamento e do respectivo valor pago. Entretanto, analisandose os documentos que foram juntados com a impugnação (fls. 4450/5477), com o intuito de provar os pagamentos referentes às mercadorias adquiridas junto à Chinabraz, verificase que os mesmos são: (1) Relação das Autorizações de Pagamento Pagas e a Pagar Por Fornecedor; (2) Detalhe da Remessa do Lote Para Pagamento Escritural; (3) Retorno de Títulos Pagos; (4) Guia de Depósito Bancário; (5) Boleto Bancário; (6) DOC; (7) Guia de Pagamento. Fl. 7686DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.687 15 Analisandose tais documentos, verificase que somente fazem prova de realização de pagamentos aqueles documentos constantes na relação por nós elaborada com a denominação de Depósitos Realizados Pela Tupy (fls. 6922/6934). Confrontandose tal relação com as informações contidas na planilha acostada aos autos, verificase que só podemos apurar que foram realizados somente alguns pagamentos das mercadorias adquiridas. Por fim, cabe assinalar que para a elaboração da relação dos depósitos somente levamos em consideração os anos de 2003 e 2004, os quais são os abrangidos pela fiscalização realizada. (3) Acessando a nossa base de dados (Sistema DW Aduaneiro), foi possível elaborar a Relação dos Prazos de Pagamento das Importações (fls. 6971/6973) onde se verifica que a maioria das importações realizadas pela Chinabraz foram declaradas como importações realizadas a prazo. Quanto às operações glosadas, não se pode afirmar que todos os contratos de câmbio relacionados (fls. 6673 e 6676/6677) foram liquidados após o dia 13/01/2004, já que observamos as seguintes situações: (A) Alguns valores não foram localizados nos extratos de conta corrente obtidos junto à Chinabraz no curso da fiscalização (fls. 739/778). Os valores não localizados foram: R$ 228.443,32; R$ 8.064,44; R$ 348.419,85; R$ 584.094,55; R$ 97.844,04 e R$ 1.377.319,60; (B) O somatório dos valores informados é menor, em sua maioria, do que os valores das respectivas DIs. (C) Não foi informado a data de pagamento da DI 03/03036456. Manifestação da Tupy quanto ao resultado da diligência Insurgiuse, especialmente, sobre dois insuperáveis óbices ao deslinde do caso, verbis: 27. Ocorre que o seu pedido não foi atendido e a Alfândega do Porto de Vitória desconsiderou, sem qualquer fundamentação, a maior parte dos documentos apresentados (fls. 6976). 28. Restringiuse a fiscalização a afirmar que apenas os documentos que sequer identifica utilizados para a elaboração da Relação "Depósitos Realizados pela Tupy" foram considerados para fins de comprovação. Quais foram os documentos aceitos? Por que os demais foram desconsiderados? Qual o montante dos valores apurados? Qual o valor considerado comprovado? Qual o valor demonstrado pelos documentos juntados pela Tupy, mas considerado não comprovado? Nenhuma dessas perguntas foi respondida pela fiscalização! E também, sobre outro ponto: 35. A fiscalização, por sua vez, não respondeu ao quesito relativo à indicação do montante global dos valores cuja transferência foi comprovada pela Tupy, nem ao relativo à identificação do valor total das mercadorias que, tendo sido objeto das importações autuadas, não foram posteriormente Fl. 7687DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.688 16 adquiridas pela Tupy, mas por outros clientes. Será exigível da Tupy que comprove o pagamento efetuado por outros clientes à Chinabraz para que possa se ver livre da responsabilidade solidária? Por sua vez, o retorno à DRJ, para esclarecimentos quanto ao cálculo do valor exonerado, não ocorreu. Esta 1ª turma converteu novamente o julgamento em diligência, Resolução n° 3301000.533, para determinar à unidade de origem, Alfândega do Porto de Vitória, que respondesse aos quesitos propostos. O relatório da diligência foi acostado nas fls. 72997565, verbis: a) Segregue do auto de infração, as importações destinadas a Tupy e aquelas destinadas a outros clientes da Chinabraz, para todo o período da atuação. Resposta: Para segregar as DIs destinadas à Tupy, tomamos como base a tabela de fls. 290 a 549, apresentada por Chinabraz, que relaciona as DIs com as notas fiscais de saída, contendo o CNPJ do cliente. Comparandose esta tabela com a tabela de fls. 25 a 27, DIs objeto do Auto e Infração, obtivemos o resultado abaixo que são as DIs que continham mercadorias adquiridas pela empresa em questão. As duas tabelas supracitadas encontramse em formato de planilha no Anexo I. (...) Ressaltese que todo o trabalho se resumiu em efetuar a leitura das tabelas em PDF, transformálas em planilha e efetuar cruzamento das tabelas, embora tenha havido grande esforço manual, houve pouco labor intelectual. b) Especifique, para o período de janeiro/2003 a fevereiro de 2004, quais DIs foram destinadas a Tupy e os seus respectivos valores. Resposta: Considerandose, do quadro acima, a data do desembaraço, obtivemos a relação abaixo: (...) c) Verifique a liquidez e certeza dos adiantamentos efetuados pela Tupy, no período de janeiro/2003 a fevereiro de 2004. Considerar o consolidado dos pagamentos, segundo as planilhas juntadas pela Tupy, a partir de fls.7258 ss. Resposta: Entendemos como liquidez e certeza, a comprovação das transferências bancárias devidamente comprovadas no extrato bancário. Na tabela abaixo, consta cada valor lançado e a folha do processo onde se encontra o respectivo extrato. (...) Fl. 7688DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.689 17 Ressaltese que todo o trabalho se resumiu em efetuar a manualmente a coleta de dados das páginas do processo e montálos na tabela, requerendo novamente muito pouco esforço intelectual. d) Aponte, conclusivamente se os adiantamentos são suficientes para cobertura das importações de coque a ela destinadas. Resposta: Considerandose a tabela do item b, quanto às importações de coque, temos a seguinte relação: (...) Como as mercadorias importadas por meio destas DIs não foram integralmente revendidas a Tupy, há que se verificar qual a quantidade adquirida por esta empresa por meio das notas fiscais de saída, comparar com a quantidade total da DI e aplicar o percentual resultante no valor total da nota fiscal de entrada emitida por Chinabraz, relativa a cada DI. Abaixo apresentamos a relação das DIs acima com a quantidade de notas fiscais de saída emitidas e a quantidade de mercadorias vendidas. Estes dados foram extraídos do processo e encontramse pormenorizados nas tabelas do Anexo II. (...) De pronto observamos que a quantidade total vendida constante nas notas fiscais de saída emitidas por Chinabraz é maior que a quantidade constante nas notas fiscais de entrada e esta coincide com a quantidade constante nas DIs, comparativo abaixo, indicando erro na tabela apresentada pelo contribuinte e que utilizamos como base para calcular as quantidades nas saídas das mercadorias. (...) Portando, os dados cruciais para determinação da parcela correspondente a Tupy na importação estão incorretos, tornando inviável a determinação do valor da importação correspondente a esta empresa. Informamos que devido à quantidade notas fiscais de saída emitidas, à qualidade ruim das cópias das notas fiscais e a falta de ordenamento das mesmas no bojo do processo, a determinação correta dos dados demanda exaustivo trabalho manual de pesquisa nas notas fiscais, uma a uma, sem a garantia de que serão corrigidos a contento. Portanto, entendemos tal trabalho como inviável. Não obstante, apresentamos abaixo a quantidade de mercadorias adquiridas por Tupy. (...) Fl. 7689DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.690 18 Assim, encontrase prejudicada a resposta deste quesito. Tratase, novamente, de grande esforço manual com a utilização de dados integrantes dos autos do processo, com pouco esforço intelectual. e) Caso não sejam suficientes, aponte a quantia exata que representam os pagamentos que, porventura, não tiveram a sua transferência comprovada Resposta: prejudicada pelos mesmos motivos do quesito anterior. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso de ofício e os recursos voluntários atendem aos pressupostos legais de admissibilidade, deles, portanto, tomo conhecimento. Conforme relatado, tratase de auto de infração lavrado em face da Chinabraz Comércio Importação e Exportação Ltda. e como responsável solidária a Tupy Fundições S/A, em razão de ocorrência de interposição fraudulenta de terceiros nas importações de diferentes mercadorias praticadas pela Chinabraz entre janeiro de 2003 e fevereiro do 2005, por falta de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. A Tupy defende que os adiantamentos por ela efetuados comprovam a origem, disponibilidade e transferência dos recursos, afastando a presunção legal. A DRJ concluiu que o contrato celebrado entre a Tupy e a Chinabraz, por comprovar a realização de adiantamentos a partir de fevereiro de 2004, serviu de prova da origem dos recursos empregados pela Chinabraz nas importações. Assim, ao cotejar os elementos dos autos, a DRJ concluiu que: estava ilidida a interposição fraudulenta de terceiros a partir de fevereiro de 2004, bem como identificou que no tocante às outras mercadorias, que não o coque, a Chinabraz foi capaz de demonstrar a capacidade financeira. Exonerou, por conseguinte, os valores relacionados a esses dois fatos. A DRJ manteve a multa aplicada apenas em relação às importações de coque realizadas entre abril de 2003 e janeiro de 2004, excluindo todo o valor posterior à celebração do contrato: Do total da multa aplicada (ver cálculo às fls. 22 a 24) de R$ 75.436.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e seis mil e cento e cinquenta reais) deve, portanto, ser excluído o valor de R$ 49.293.385,00 (quarenta e nove milhões, duzentos e noventa e três mil trezentos e oitenta e cinco reais) mantendose os valores relativos as importações de coque de abril de 2003 a janeiro de 2004 destacado no rol de fls. 22 a 24. Fl. 7690DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.691 19 Reiteradamente, a Tupy alega que, também para o período em relação ao qual a multa foi mantida, entre janeiro de 2003 e janeiro de 2004, houve antecipações de pagamentos feitos à Chinabraz e que a DRJ teria deixado de analisar os comprovantes de operações bancárias. Ressaltese que é fato incontroverso nos autos a existência de adiantamentos das clientes da Chinabraz, incluída a Tupy, para a realização das importações declaradas por ela em nome próprio. O principal ponto de discussão é se os adiantamentos podem implicar em reconhecimento de “origem” de recursos empregados nas operações de comércio exterior. E, a manutenção da Tupy como responsável solidária. Interposição fraudulenta presumida A disposição legal do § 2º do art. 23 do DecretoLei nº 1.455/1976 prevê que a ausência de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de comércio exterior enseja a pena de perdimento ou multa substitutiva. Tratase de presunção legal que pode ser afastada sempre que a empresa autuada comprovar a origem, a disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Então, na interposição presumida as operações de comércio exterior não são realizadas pela própria empresa, mas por outrem. Por consequência, aplicase o perdimento e a declaração de inaptidão da empresa, com base no art. 81, § 1º da Lei nº 9.430/1996. Entendo que os elementos colacionados aos autos são suficientes para a caracterização da interposição fraudulenta presumida. Isso porque a Chinabraz não detinha capacidade financeira para lastrear as suas operações do comércio exterior. A Chinabraz registrou todas as Declarações de Importação em seu próprio nome. Mas não houve comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação, bem como houve adiantamentos da Tupy e de outras empresas não identificadas. A Chinabraz realizava as importações de diversos produtos, utilizandose dos recursos antecipados e com baixa agregação de valor. Apresentou apenas um contrato com a Tupy. Não comprovou que dispunha de crédito junto aos fornecedores estrangeiros. Tanto a Chinabraz quanto a Tupy admitiram em suas peças de defesa a prática usual e permanente dos adiantamentos. Assim, os recursos que custearam as operações de importação foram disponibilizados pela Tupy e por outras empresas, que perante a Secretaria da Receita Federal do Brasil permaneceram ocultas nas declarações de importação formalmente apresentadas pela Chinabraz. Fl. 7691DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.692 20 Por conseguinte, diante desse quadro fático aplicase o disposto no art. 27, da Lei n° 10.637/02, pelo qual se presume por conta e ordem de terceiros a utilização de recursos destes nas operações de comércio exterior: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória n. 2.15835, de 24 de agosto de 2001. A existência de adiantamentos de recursos em data anterior ao registro da declaração de importação das mercadorias estrangeiras indica que, de fato, as mercadorias já haviam sido negociadas em momento anterior à formalização do procedimento alfandegário perante a autoridade aduaneira, caracterizando a ocultação. É certo que os adiantamentos não são os únicos fundamentos da autuação, mas representam apenas um alicerce atrelado a outros compilados pela fiscalização, sobre os quais manifestome a seguir. Não se trata de se aferir se a Chinabraz tem ou não disponibilidade/capacidade financeira para as operações a partir apenas dos adiantamentos, mas os adiantamentos compõem o quadro da comprovação de incapacidade econômica. Já no processo fiscalizatório a Chinabraz confessou que opera por adiantamentos (fl. 1228): Fl. 7692DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.693 21 Em sua impugnação, a Chinabraz segue sustentando a fraude (fl. 5669), verbis: 104. Conforme se verifica da transcrição acima, demonstra o Auditor Fiscal, data maxima venha, desconhecer as práticas comerciais e os usos e costumes das relações de comércio exterior, mormente, os negócios jurídicos celebrados entre empresas de grande porte, que têm por finalidade importar mercadorias de alto valor e em larga escala e onde é comum a realização de adiantamentos pelas empresas envolvidas na transação, o que significa uma garantia da concretização do negócio elaborado. 105. Entretanto, ao contrário do que assevera o Fiscal, a Chinabraz, efetivamente, é a real adquirente das mercadorias que importa, na sua maior parte, carvão coque, não havendo que se falar, nem mesmo ad argumentandum, em simulação, ou fato similar, já que consta, expressamente, do objeto social da empresa impugnante, que a mesma pode vender as mercadorias importadas para terceiros. Ipsis literis. A Chinabraz recebia os adiantamentos e assinava notas promissórias como garantia da efetivação das operações de importação (vide por exemplo fl. 1238). Há contrato de importação de coque firmado entre a Tupy e a Chinabraz, datado de 10 de fevereiro de 2004 (fls. 1229ss.). Contudo, a relação comercial entre ambas é anterior: Fl. 7693DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.694 22 A Tupy também admite que seus adiantamentos sustentavam as importações: Esclareçase que, exatamente por conta do caráter continuo dos adiantamentos e dos pagamentos realizados, ocorria um descolamento temporal entre as datas do adiantamento, da quitação e da entrega propriamente dita do coque objeto do respectivo pedido de compra. Essa é a razão pela qual as datas dos adiantamentos e pagamentos realizados possuem cerca de 1 (um) mês de diferença em relação. As datas em que as importações foram realizadas pela Chinabraz. Dessa forma, o demonstrativo acima, cuja composição se encontra devidamente demonstrada nas planilhas anexas, evidencia que a Tupy efetuava pedidos de compra com regularidade a Chinabraz, de modo que os valores adiantados ou pagos, em relação a tais pedidos de compra, eram utilizados pela Chinabraz para custear as importações, que eram financiadas junto aos fornecedores no exterior, como aliás, já restou consignado pelas diligências realizadas pela própria Alfândega de Vitória. Aduz a Tupy que: Ocorre que as autoridades julgadoras, para fins de verificação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos utilizados para a realização das importações, analisaram tão somente os extratos e comprovantes juntados pela Chinabraz. Deixou, portanto, o órgão julgador de constatar que a Tupy comprovou devidamente, através da juntada dos comprovantes de depósito bancário e de pagamento de boletos bancários (Docs. 08 e 09 da Impugnação da Tupy), a origem, disponibilidade e transferência dos recursos necessários à importação das mercadorias a ela destinadas. (...) Nesse contexto, basta confrontar os documentos fiscais emitidos pela Chinabraz em face da Tupy (Doc. 08 da Impugnação da Tupy) com os comprovantes de depósito e de pagamento de boletos efetuados pela Recorrente em favor da Chinabraz (Doc. 09 da Impugnação da Tupy), para se verificar, de forma límpida, a origem, disponibilidade e transferência dos recursos que suportaram a importação das mercadorias destinadas à Tupy. Com o intuito de facilitar a verificação de tais transferências de recursos efetuadas pela Tupy em favor da Chinabraz, vejase planilha (Doc. 02 do presente Recurso Voluntário) contendo as respectivas datas e valores dos depósitos e pagamentos de boletos. Juntou planilha síntese dos pagamentos nas fls. 68076841. A Tupy teve o objetivo de confrontar os documentos fiscais emitidos pela Chinabraz com os comprovantes de depósito e de pagamento de boletos efetuados por ela, o Fl. 7694DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.695 23 que supostamente permitiria a verificação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos utilizados para importação das mercadorias a ela destinadas. Entretanto, as diligências determinadas pelo CARF apontaram que não é possível a segregação das importações da Chinabraz, entre as mercadorias destinadas à Tupy e aquelas destinadas a outros clientes. De qualquer forma, entendo que o próprio fato de existirem os adiantamentos configura o contexto que somado a outros elementos, caracteriza a interposição fraudulenta. Em suma, como já dito anteriormente, os adiantamentos e a prévia negociação das mercadorias importadas são incontroversos. Em manifestação de fl. 6982, a Chinabraz defende que: (a) realizava suas operações, negociando com os exportadores no exterior; (b) possuía vasta carteira de clientes no Brasil; (c) financiava suas operações com recursos próprios, com bancos e principalmente com os exportadores no exterior; (d) a antecipação de clientes é normalmente utilizada como garantia da compra a ser realizada; (e) não possuía intermediários, fazendo ela própria a distribuição de seus produtos e dispondo de conhecimento técnico e logístico para carregar, descarregar e transportar as mercadorias, normalmente grandes quantidades de matériaprima e produtos intermediários. A mera antecipação de recursos circunscrevese a uma prática comercial das mais comuns, mormente quando no caso em exame foi utilizada meramente como garantia das operações e não como recurso para bancar a importação de mercadorias. Afirma também que “62. A resposta é simples: a CHINABRAZ gozava de crédito junto a vários fornecedores estrangeiros e todas as operações a prazo eram devidamente registradas e informadas à Alfândega do Porto de Vitória/ES.” Entretanto, não logrou êxito em comprovar a concessão de prazos de pagamento pelos exportadores, tampouco a conciliação entre as importações, o fluxo financeiro e sua escrituração. As duas diligências apontaram as inconsistências de seus argumentos. A DRJ entendeu que para parte das DI’s autuadas havia comprovação da origem, motivo pelo qual o voto condutor excluiu a parte demonstrada da origem de recursos, como antecipação realizada por clientes, citando a fl. 15 onde a autoridade fiscal declara: O Demonstrativo do Fluxo Financeiro elaborado pela fiscalização (fls. 1.726/1.729) demonstra que a fiscalizada não dispunha de recursos monetários próprios para liquidar o câmbio referente a diversas importações (na elaboração do demonstrativo foram excluídos os valores referentes aos recursos monetários que NÃO TIVERAM A SUA ORIGEM COMPROVADA, bem como foram excluídos os valores Fl. 7695DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.696 24 recebidos a título de adiantamento da empresa Tupy Fundições referentes ao contrato apresentado e o saldo da conta Antecipação de Clientes), demonstrandose, assim, a falta de possibilidade financeira da Chinabraz para a realização da operações de comércio exterior evidenciadas. Ocorre que seu cálculo para exonerar R$ 49.293.385,00 não fica de forma alguma claro. É impossível traçar o trajeto percorrido pelo voto condutor para se chegar a esse montante: O que deve ser mantido do lançamento é apenas a parte Que não teve a origem comprovada. Conforme já analisamos se uma firma não dispõe de recursos para importar, mas recebe adiantamento de outra, tudo de forma legal e documentada não lhe é aplicável a presunção prevista no art. 23, V, §2°, do Decretolei n 1.455/1976 que, conforme vimos, exige a não comprovação (legal) da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Para chegar ao valor da multa R$ 75.436.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e seis mil e cento e cinquenta reais) a autoridade fiscal às fls. 2 a 24 apresentou um quadro de mercadorias importadas pela Chinabraz a partir de 17/01/2003 até 21/02/200 considerou que a empresa não tinha recursos próprios suficientes, devido aos demonstrativos de fluxo financeiro de fls. 1.726 a 1.729 (volume IX) e aplicou a multa substitutiva, devido ao fato de não haver encontrado as mercadorias. Ao se admitir os adiantamentos de clientes (fls. 942 a 961 volume V) que estão comprovados (ver Demonstrativo de Saldo de Contas de fls. 1.726 a 1.729 volume IX) e, também, o da Tupy no valor de US$ 2,400,000.00 nas datas de ingresso de suas parcelas, da lista de fls. 22 a 24 apenas recursos necessários às importações referentes ao carvão coque, de determinados períodos, por serem de vulto, podem ser considerados como não tendo sido totalmente justificados. Do contrato realizado entre a Chinabraz e a Tupy (fls. 1.217 a 1.221 volume VII) estão comprovados, apenas os adiantamentos no total de US$ 2,400,000.00 realizados a partir de 10/02/2004 (ver declaração da fiscalização à fl. 18 depósitos na conta 110167 do Bradesco fls. 670 a 680 volume IV). À fl. 670 consta transferência de numerário originário da Tupy de R$ 1.416.000,00 em 10/02/2004; fl. 674 de R$ 1.593.298,75 em 27/02/2004; fl. 677 de R$ 1.392.000,00 em 16/03/2004; fl. 679 de R$ 1.387.008,00 em 02/04/2004 e fl. 680 de R$ 1.417.523,44 (R$ 32.675,44 em 14/04 e R$ 1.384.848,00 em 15/04). O total em reais é de R$ 7.205.830,19 considerando que à época o dólar valia aproximadamente R$ 2,90 o total dos depósitos em dólares foi de US$ 2,484,769.03. Vimos que Tupy importava outros produtos além do coque, embora fosse este último o principal item. Assim o excesso sobre Fl. 7696DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.697 25 US$ 2,400,000.00, valor que está expressamente posto em contrato, se refere, obviamente, a esses outros produtos. O coque importado a partir dessa data, também, deve ser excluído da lista de fl.23, pois os recursos estão comprovados e para outras importações a Chinabraz dispunha de recursos declarados. Do total da multa aplicada (ver cálculo às fls. 22 a 24) de R$ 75.436.150,00 (setenta e cinco milhões quatrocentos e trinta e seis mil e cento e cinquenta reais) deve, portanto, ser excluído o valor de R$ 49.293.385,00 (quarenta e nove milhões duzentos e noventa e três mil trezentos e oitenta e cinco reais) mantendose os valores relativos às importações de coque de abril de 2003 a janeiro de 2004 destacado no rol de fls. 22 a 24. Resta, portanto, R$ 26.142.765,00 (vinte e seis milhões cento e quarenta e dois mil setecentos e sessenta e cinco reais) de importações cuja origem financeira legal não foram satisfatoriamente comprovadas. (...) Houve, entretanto, um engano de entendimento a respeito do § 2, do Decretolei n° 1.455/1976, por parte da autoridade fiscal, pois alguns recursos cujas origens foram comprovadas adiantamento de clientes foram igualmente glosados juntamente com os de origens não comprovadas o que é equivocado (ver demonstrativo de fls. 1.726 a 1.729 volume IX). Esse engano está sendo corrigido no presente voto. (...) Por todo o exposto voto no sentido de considerar procedente em parte o lançamento consubstanciado no Auto de Infração de fls. 01 a 24 excluindo o valor de R$ 49.293.385,00 (quarenta e nove milhões duzentos e noventa e três mil trezentos e oitenta e cinco reais) e mantendo R$ 26.141.765,00 (vinte e seis milhões cento e quarenta e um mil setecentos e sessenta e cinco reais). Voto, também, no sentido de manter a solidariedade sobre a exação entre Chinabraz Comércio Importação e Exportação Ltda. e Tupy Fundições Ltda. Tanto é não inteligível que o CARF, na Resolução n° 3012.094, solicitou diligência a DRJ para esclarecimento do cálculo: Por outro lado, (iii) no tocante aos valores exonerados na r. decisão recorrida, entendo que a DRJ deve apresentar quadro demonstrativo dos cálculos, com cruzamento de informações com os documentos constantes dos autos, incluindo as respectivas páginas, fazendo tal demonstração de forma detalhada a fim de possibilitar o perfeito entendimento de corno a autoridade julgadora chegou ao montante global exonerado. Fl. 7697DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.698 26 De toda a sorte, entendo que a decisão recorrida merece reparos. Isso porque não há ilicitude em adiantamentos de numerários à importadora na compra de produtos, desde que não sejam ocultados do órgão de controle e fiscalização. A transferência de recursos dentro da legalidade implica, não apenas, que o adiantamento de numerário esteja registrado nas contabilidades do importador e do repassador e demonstrada mediante extratos bancários, mas sim deve também ser informado ao fisco. Em síntese, a não comprovação da origem de recursos monetários que ingressaram na empresa, bem como os diversos recursos monetários a título de adiantamentos para a realização de importações omitidos da aduana e ainda o registro das importações em nome próprio, caracterizam a interposição fraudulenta nos termos do art. 23, inciso V, §2° do DecretoLei n° 1.455/76. Logo, voto por dar provimento ao recurso de ofício e por negar provimento ao recurso voluntário da Chinabraz, por considerar que os adiantamentos realizados de forma irregular não se prestam para afastar a presunção legal do art. 23. Das provas produzidas pela fiscalização para a caracterização da interposição presumida O contexto probatório descrito no relatório fiscal e comprovado por intimações e demais documentos juntados pela fiscalização, é o seguinte: 1 Em dezembro de 2003 a empresa Amerimex Internacional Ltda protocolou na Alfândega do Porto de Vitória pedido de habilitação de responsável legal junto ao SISCOMEX. Na diligência realizada para o fornecimento da habilitação, apurouse que estava ocorrendo o acobertamento dos reais beneficiários das operações, já que a mesma recebera a transferência de diversos ativos da empresa Chinabraz Comércio Importação e Exportação Ltda, a qual constava como devedora em um processo de falência. 2 No início do ano de 2005, foi realizada diligência na empresa Chinabraz, para revisar a habilitação do responsável legal da empresa junto ao SISCOMEX, já que na base de dados da Secretaria da Receita Federal constava nas Declarações de Imposto de Renda da empresa valores iguais a zero para os anoscalendário de 2002 e 2003. 3 Durante a diligência de revisão da habilitação da Chinabraz, o SEFIA tomou conhecimento de que a empresa Amerimex havia realizado importação através das Declarações de Importações n. 05/00149997, 05/00246712 e 05/002246720 e que a mesma endossou tais importações para a empresa Chinabraz. A Amerimex encontravase nessa data com o seu CNPJ suspenso (em virtude de ter sido detectado, no momento da análise do seu pedido de habilitação, que ela era inexistente de fato). 4 Analisando os Balancetes de Verificação e as Demonstrações de Resultado do Exercício da Chinabraz, a fiscalização construiu o demonstrativo abaixo, que indica a falta de capacidade econômica da Chinabraz para realizar os gastos com importações: Fl. 7698DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.699 27 5 A Chinabraz apresentou vultosos prejuízos em suas atividades normais, o que representa estado de insolvência. 6 Não há, no Passivo, registro de empréstimos adquiridos pela empresa de entidades financeiras em volume suficiente para a manutenção das suas atividades. 7 Nos Balancetes de Verificação, na conta Bancos c/Movimento, houve movimento atípico em 2 (duas) contas do Bradesco e em uma conta do Banco do Brasil. Ao se examinar todos os trimestres de 2003 e 2004, percebese que os valores sacados nas referidas contas são praticamente iguais aos valores nelas depositados. 8 Na conta clientes, constante nos Balancetes de Verificação, há o mesmo fenômeno verificado na conta Bancos, ou seja, em diversas subcontas verificase que os valores lançados a débito são quase iguais aos valores lançados a crédito e há situações em que as contas assumem saldo credor. 9 No Livro Razão, na conta Créditos em Falência e Concordata, verificouse que vários valores creditados na referida conta foram debitados nas contas bancárias da empresa (o que significa depósitos em bancos), cujos ingressos representaram um total de R$ 1.678.387,12. Tal fato é indício de que poderiam estar ingressando na empresa recursos monetários que não eram oriundos de suas atividades normais, já que não havia a identificação dos depositantes de tais recursos monetários, e como já foi visto anteriormente, a Chinabraz figurava como devedora em um processo de falência e não teria, consequentemente, direitos a receber. A existência de tal conta demonstra que ela é utilizada para registrar recursos monetários estranhos às atividades normais. 10 O exame da conta Antecipações de Clientes revelou a existência de vários depósitos efetuados nas contas correntes da empresa junto ao BRADESCO (duas contas) e junto ao Banco do Brasil, os quais tinham por finalidade o adiantamento de recursos monetários para a realização de importações, conforme históricos constantes no Livro Razão. 11 No confronto dos lançamentos do Livro Razão das contas bancárias com os constantes nos extratos de conta corrente, temse que: a) no Livro Razão, as contas bancárias assumem em diversos momentos saldos credores (bem como a conta Caixa), o mesmo, porém, não ocorre nos extratos bancários. Tal fato significa falta de escrituração de recursos monetários recebidos; Fl. 7699DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.700 28 b) em diversos momentos, tanto no razão como nos extratos bancários, os saldos são bem pequenos, em relação aos valores transacionados no comércio exterior. Tais saldos diminutos ocorrem, inclusive, após a liquidação de câmbio; c) existência de diversos depósitos sem a identificação do depositante e sem a especificação de sua finalidade, tanto no Razão quanto nos extratos; d) no Razão, para vários depósitos, o histórico referese a recebimentos de recursos monetários relativos à falência, e nos extratos tais valores constam como depósitos realizados por diversas empresas ou, em sua grande maioria, não há a identificação do depositante; e) no Razão, diversos depósitos referemse à recebimento antecipado para a realização de prestação de serviço e nos extratos não há a identificação do depositante dos recursos monetários; f) conforme histórico no Razão, houve a realização de vários depósitos efetuados a título de antecipação para a realização de importações; g) no Livro Razão, para diversos depósitos, os históricos referemse a recebimento de duplicatas (em alguns casos não há a identificação da duplicata) e nos extratos tais recebimentos referemse a transferência eletrônica (TED) ou a outros tipos de transferências, não se referindo a recebimento de títulos; h) no Razão, para diversos depósitos, os históricos referemse a recebimentos de títulos colocados em cobrança e nos extratos tais recebimentos referemse a Transferência Eletrônica (TED) ou a outros tipos de transferências, não se referindo a recebimentos de títulos colocados em cobrança; i) existência no Livro Razão de saídas de recursos referentes a devoluções em virtude de importações não realizadas. 12 Cotejando os Livros Razão das contas bancárias e os respectivos extratos bancários, observase nos históricos do Livro Razão, a remessa de recursos monetários para a Amerimex Comércio Internacional Ltda, geralmente referentes a empréstimos concedidos, bem como a existência de vários recebimentos de recursos monetários da Amerimex (tal movimentação também ocorre na conta Caixa). Ocorre que o Serviço de Fiscalização Aduaneira (SEFIA) da Alfândega do Porto de Vitória, através de diligência realizada na Amerimex, constatou que a mesma era inexistente de fato, pois naquela oportunidade verificouse que a Amerimex estava localizada no mesmo endereço da Chinabraz e que ela (Amerimex) recebeu da Chinabraz a transferência de diversos Ativos, bem como foi verificado a falta de capacidade econômicofinanceira da Amerimex para realizar as suas atividades, detectandose, também, a falta de capacidade financeira dos sócios da Amerimex para a integralização do Capital Social da empresa. Pelos fatos apurados, foi proposta a declaração de inaptidão da Amerimex, sendo a proposta acatada pela Delegacia da Receita Federal (DRF) de Vitória/ES. 13 Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal n. 02, a Chinabraz informou "algumas vendas de volumes maiores são negociadas anteriormente ao embarque, sendo algumas delas com pagamentos antecipados para a liquidação destas compras no exterior". Fl. 7700DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.701 29 14 Quanto às notas fiscais de saída, a fiscalização identificou que: (a) notas fiscais emitidas com um CNPJ e recursos depositados por outro CNPJ; (b) valores com divergências relevantes; (c) nota fiscal informada nas planilhas dos bancos e não localizadas nas planilhas de notas fiscais de saídas emitidas; (d) notas fiscais emitidas com data posterior ao do recebimento dos recursos e (e) notas fiscais de saídas emitidas para a prestação de serviços de limpeza de resíduos químicos. 15 A empresa recebeu expressivos recursos monetários pela prestação de serviços de limpeza de resíduos químicos, sem, entretanto, constar no seu contrato social esse tipo de serviço como objeto social. Mas a empresa não possuía nenhum funcionário com qualificação específica para a realização de limpeza de produtos químicos, bem como não foi encontrado nenhum pagamento realizado à pessoa jurídica ou física que tivesse realizado esse tipo de serviço. 16 Ao analisar as notas fiscais de prestação de serviços, consta que: os valores eram os mesmos da intimação fiscal, nas notas fiscais constam recebimentos a vista e os valores foram recebidos em parcelas e não há concordância entre as datas e entre as somas dos valores digitados com o total constante nas notas fiscais. 17 No Livro de Apuração do ISS, para todos os meses dos anos de 2003 e 2004 constava a expressão "sem movimento". 18 O Demonstrativo do Fluxo Financeiro demonstra que a Chinabraz não dispunha de recursos monetários próprios para liquidar o câmbio das importações (na elaboração do demonstrativo foram excluídos os valores referentes aos recursos monetários que não tiveram a sua origem comprovada, bem como foram excluídos os valores recebidos a título de adiantamento da empresa Tupy. Fundições referentes ao contrato apresentado e o saldo da conta "Antecipação de Cliente"). 19 A empresa gozou dos benefícios financeiros proporcionados pelo FUNDAP, ao declarar as importações como próprias. 20 A Chinabraz impetrou Mandado de Segurança, onde era requerido, dentre outros, o trancamento da fiscalização, com a devolução de todos os documentos fornecidos pela empresa, ou, em caráter sucessivo, a substituição do AFRF que conduziu o processo fiscalizatório. 21 A Chinabraz utilizouse de deputado federal para tentar paralisar a fiscalização: Fl. 7701DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.702 30 Fl. 7702DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.703 31 22 Formulou denúncia “vazia” junto ao Secretário da Receita Federal e junto à Corregedoria Geral contra o AFRF. 23 Não atendeu às intimações no prazo de 60 (sessenta) dias para a comprovação da origem dos recursos monetários utilizados em suas operações de comércio exterior, no total de R$ 13.480.950,43. Assim, por todos os elementos colacionados acima, restou comprovado pela fiscalização o modus operandi da operações de importação da Chinabraz, na forma do art. 23, inciso V, § 2º e 3º, do DecretoLei nº 1.455/1976. Desse modo, voto por dar provimento ao recurso de ofício e por negar provimento ao recurso voluntário da Chinabraz, por considerar configurada a interposição fraudulenta para todo o período autuado. Atribuição de responsabilidade tributária à Tupy Fundições A ocultação do real adquirente das mercadorias decorre da prestação falsa de informação na declaração de importação, obrigação acessória relacionada aos tributos incidentes nas operações de comércio exterior. Regra geral em casos como este a Fiscalização costuma fundamentar a responsabilidade tributário nos art. 124, 134 e 135, do CTN e art. 95 do DecretoLei nº 37/1966, verbis: Fl. 7703DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.704 32 CTN Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: I os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores; II os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou curatelados; III os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes; IV o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio; V o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo concordatário; VI os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício; VII os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de penalidades, às de caráter moratório. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. DecretoLei nº 37/1966 Art. 95. Respondem pela infração: I – conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; (...) Fl. 7704DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.705 33 Entretanto, a responsabilização da Tupy há que ser afastada por duas razões: a) A fiscalização não citou o dispositivo legal utilizado para trazer a Tupy aos autos como solidária e b) a fiscalização inseriu a Tupy como solidária da fraude nas importações de todas as DI’s listadas no auto de infração, contudo há inúmeras provas de que a Tupy não foi a adquirente da integralidade das importações da Chinabraz. Sobre os dois pontos, manifestome a seguir. a) A fiscalização não citou o dispositivo legal utilizado para trazer a Tupy aos autos como solidária Observese o auto de infração: O relatório fiscal de efls. 24, não tece nenhum registro do dispositivo legal para enquadramento da Tupy como responsável solidário. O relatório fiscal se refere à Tupy nos trechos que cito abaixo: 33.No atendimento do Termo de Intimação Fiscal N° 02 (fls. 1213/1221), a auditada enviounos somente um contrato assinado com a empresa Tupy Fundições Ltda, o que nos deixa dúvidas sobre a inexistência de outros contratos, já que existe o adiantamento de recursos monetários para a realização de importações e, nesses casos, o normal é a realização de garantias mesmo entre os parceiros mais tradicionais, como é o caso da própria Tupy Fundições, que embora venha mantendo relações comerciais com a Chinabraz há muito tempo não deixou de celebrar o contrato abojado à presente fiscalização Fl. 7705DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.706 34 (fls. 1217/1221). Tal omissão na entrega dos contratos não permitiu à fiscalização uma análise mais abrangente dos danos causados com as simulações praticadas pela Chinabraz. Entretanto, a situação que se relata a seguir demonstra o quadro de prejuízos que tal prática nefasta ocasiona as empresas nacionais. 34.No ano de 2002, a Alfândega do Porto de Vitória recebeu denúncia do Sindicado das Indústrias de Carvão do Estado de Santa Catarina, maior produtor brasileiro de carvão coque, reclamando que o "modus operandi" da Chinabraz estava causando prejuízos às empresas daquele setor (cabe ressaltar que o maior cliente da Chinabraz, a empresa Tupy Fundições, direciona todo o coque adquirido para a sua filial que está situada em Santa Catarina). (...) 35. As irregularidades verificadas na diligência realizada em 2002 também foi detectada na presente fiscalização no ano de 2004. Ao se esquadrinhar o contrato assinado entre a Chinabraz e a Tupy Fundições (fls. 1217/1221) para o fornecimento de 10.000 (dez mil) toneladas de coque, verificase que foi contratado o preço de US$ 361,00 (trezentos e sessenta e um dólares americanos) por tonelada. No contrato verificase que a Tupy Fundições, visando assegurar o embarque do produto na China em tempo hábil para que o mesmo esteja a sua disposição até o dia 30 de abril de 2004, realizou pagamentos antecipados do preço em 5 (cinco) parcelas de US$ 480.000,00 (quatrocentos e oitenta mil dólares americanos), perfazendose um total de US$ 2.400.000,00 (dois milhões e quatrocentos mil dólares americanos) a título de adiantamento, as quais foram depositadas no BRADESCO (conta 110167 fls. 670/680) em 10 de fevereiro de 2004 (R$ 1.416.000,00), 27 de fevereiro de 2004 (R$ 1.411.344,00), 16 de março de 2004 (R$ 1.392.000,00), 02 de abril de 2004 (R$ 1.387.008,00) e em 15 de abril de 2004 (R$ 1.384.848,00), respectivamente. Ainda analisandose a referido contrato, verificamos que não existe cláusula estipulando a data para se pagar a diferença entre o preço total e o adiantamento realizado, a qual representa o valor de US$ 1.210.000,00 (um milhão e duzentos e dez mil dólares americanos), aproximadamente R$ 3.509.000,00 (três milhões, quinhentos e nove mil reais). Examinandose os extratos de conta corrente de todos os bancos que a Chinabraz possui conta (fls. 545/939) e a conta caixa (fls. 961/968 e 1098/1101), não localizamos o ingresso do referido valor na Chinabraz. Pesquisandose a nossa base de dados através do sistema DW: Aduaneiro, elaboramos o Demonstrativo das Importações de Coque (fls. 1763). Em tal demonstrativo, verificase que nas importações realizadas da China pela Chinabraz nos anos de 1977 até o ano de 1998 a tonelada do coque foi negociada a US$ 130,00 (cento e trinta dólares americanos). A partir do ano de 1999 até o ano de 2004, a tonelada do coque foi negociada a US$ 240,00 (duzentos e quarenta dólares americanos). Desta forma, vêse que o apurado na diligência realizada em 2002 continuou a ocorrer, já que, na realidade, no contrato apresentado a Tupy Fundições pagou pelas 10.000 (dez mil) toneladas de coque o valor de US$ Fl. 7706DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.707 35 2.400.000,00 (dois milhões e quatrocentos mil dólares americanos), ou US$ 240,00 (duzentos e quarenta dólares americanos) por tonelada, que foi o valor negociado na China. Realmente, a denúncia oferecida pelo Sindicado das Indústrias de Carvão do Estado de Santa Catarina está impregnada de razão, pois, como se vê, o esquema engendrado dilacera a indústria nacional e provoca profundos prejuízos aos interesses nacionais. São solidariamente responsáveis os sujeitos que tenham interesse comum na situação que constitua o fato jurídico tributário, somado ao proveito em conjunto dessa situação. Ocorre que não é possível se afirmar que a Tupy teve proveito de todas as importações da Chinabraz. Cabe a atribuição de responsabilidade solidária apenas àqueles que tiverem interesse comum na situação que constitua o fato jurídico tributário, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, apenas quem, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. Assim, a autuação deve arrolar todos os envolvidos para que estes respondam pelo crédito tributário decorrente da fraude aduaneira realizada, em respeito aos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Logo, é ilegal a responsabilização isolada de apenas um sujeito pela integralidade do auto de infração, se outros concorreram para o cometimento da fraude. Temse que a infração em apreço não poderia ter sido praticada sem a participação direta de outras clientes da Chinabraz. A Tupy não era a única real interessada na aquisição de todas as mercadorias estrangeiras, tampouco concorreu para a prática de todas as importações fraudadas. Dessa forma, não há interesse comum demonstrado e atuação em conjunto na organização dos esquemas de ocultação de todas as importações. Por outro lado, no tocante à responsabilização solidária, outro equívoco da fiscalização foi cometido. É certo que na qualidade de “administradores” da empresa autuada, os sócios tinham inteiro e integral conhecimento das operações realizadas objeto destes autos, sendo, portanto aplicável o art. 135, III do CTN. Ocorre que nenhum sócio da Chinabraz foi trazido aos autos. b) A fiscalização inseriu a Tupy como solidária da fraude nas importações de todas as DI’s listadas, contudo há inúmeras provas nos autos de que a Tupy não foi a adquirente da integralidade das importações da Chinabraz Penso que a ilegalidade da inclusão da Tupy no polo passivo é notória. Nos termos da segunda diligência proposta, restou provado que a Tupy foi posta como responsável pelas importações de mercadorias a ela não destinadas. Fl. 7707DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.708 36 Assim, as duas diligências apontaram que nem todo o montante de recursos cuja origem não foi comprovada corresponderia a importações de mercadorias destinadas a Tupy. Se a autuação referiuse a operações que não foram integralmente ligadas a Tupy, a responsabilidade deveria ser limitada ao montante relativo às importações de mercadorias a ela destinadas. A primeira diligência determinada pelo CARF assim afirmou: 5°) Todas as mercadorias adquiridas pela Chinabraz eram destinadas à Tupy? Resposta: Consultandose a Relação das Notas Fiscais de Entradas (fls. 278/281) e consultandose a Relação das Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz no curso da ação fiscal, podese verificar que todas as mercadorias adquiridas pela Chinabraz NÃO ERAM DESTINADAS à Tupy Fundições. 6°) A Tupy era o único cliente de coque de fundição da Chinabraz? Quais mercadorias adquiridas pela Chinabraz foram destinadas à Tupy e qual o seu valor aduaneiro? Resposta: Consultandose a Relação das Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz no curso da ação fiscal, podese verificar que durante o período compreendido entre o dia 02/01/2003 e o dia 30/12/2004 a Tupy Fundições NAO FOI O ÚNICO CLIENTE de coque fundição da Chinabraz. As mercadorias que foram destinadas, durante tal período, à Tupy Fundições são aquelas constantes da Relação das Mercadorias Destinadas à Tupy Fundições LTDA em anexo (fls. 6878/6921), cujos dados foram obtidos na Relação de Notas Fiscais de Saídas (fls. 287/544) que nos foram enviadas pela Chinabraz durante o curso da fiscalização em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal N o 01 (fls. 277). Quanto ao valor aduaneiro, O QUESITO RESTOU PREJUDICADO, já que, de acordo com o Acordo de Valoração Aduaneira (AVA), o valor aduaneiro somente é passível de apuração quando da importação de mercadorias, não sendo possível obterse o valor aduaneiro nas transações realizadas entre empresas no mercado doméstico de cada país signatário do AVA. 8°) A Tupy realizou o pagamento das mercadorias? Resposta: QUESITO PREJUDICADO, já que a documentação solicitada à Chinabraz no curso da fiscalização não permite apurar o dado solicitado, e, atualmente, a Chinabraz não mais exerce as suas atividades no seu endereço informado à RFB, conforme acima relatado, não sendo possível, então, termos acesso à documentação necessária para apurarmos o que foi solicitado. Entrementes, junto com a sua impugnação, a Tupy Fundições juntou ao processo diversos documentos Fl. 7708DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.709 37 (fls. 4450/5477) com o intuito de provar os pagamentos referentes às mercadorias adquiridas junto à Chinabraz. Por sua vez, a segunda diligência apontou: a) Segregue do auto de infração, as importações destinadas a Tupy e aquelas destinadas a outros clientes da Chinabraz, para todo o período da atuação. Para segregar as DIs destinadas à Tupy, tomamos como base a tabela de fls. 290 a 549, apresentada por Chinabraz, que relaciona as DIs com as notas fiscais de saída, contendo o CNPJ do cliente. Comparandose esta tabela com a tabela de fls. 25 a 27, DIs objeto do Auto e Infração, obtivemos o resultado abaixo que são as DIs que continham mercadorias adquiridas pela empresa em questão. Assim, as DI’s destinadas a Tupy foram apenas as acima listadas, quantidade inferior ao número de DI’s autuadas (efls. 2527). E ainda, segundo a autoridade diligenciante: d) Aponte, conclusivamente se os adiantamentos são suficientes para cobertura das importações de coque a ela destinadas. Como as mercadorias importadas por meio destas DIs não foram integralmente revendidas a Tupy, há que se verificar qual a quantidade adquirida por esta empresa por meio das notas fiscais de saída, comparar com a quantidade total da DI e aplicar o percentual resultante no valor total da nota fiscal de entrada emitida por Chinabraz, relativa a cada DI. (...) Fl. 7709DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.710 38 Portando, os dados cruciais para determinação da parcela correspondente a Tupy na importação estão incorretos, tornando inviável a determinação do valor da importação correspondente a esta empresa. Informamos que devido à quantidade notas fiscais de saída emitidas, à qualidade ruim das cópias das notas fiscais e a falta de ordenamento das mesmas no bojo do processo, a determinação correta dos dados demanda exaustivo trabalho manual de pesquisa nas notas fiscais, uma a uma, sem a garantia de que serão corrigidos a contento. Portanto, entendemos tal trabalho como inviável. De fato, observase na relação de notas fiscais de saída (efls. 290 e ss.), que a Tupy não foi a única destinatária do COQUE: A própria Chinabraz sustentou em suas peças recursais o equívoco da figura da Tupy como solidária e não de seus outros clientes (fl. 5.684), verbis: 140. Ainda, apenas ad argumentandum tantum, e por amor ao debate, se fosse o caso de imputação de responsabilidade solidária pelo pagamento da vultosa multa aplicada, deveria ter o Vistor Fiscal estendido esta imputação às demais empresas que mantém relações comerciais com a empresa Chinabraz, conforme se verifica pela listagem de clientes anexa (doc. fls.), e não como ocorreu, declarando devedora solidária somente a empresa Tupy Fundições Ltda, o que caracteriza mais uma arbitrariedade cometida pelo Auditor. Fl. 7710DF CARF MF Processo nº 12466.001361/200689 Acórdão n.º 3301005.535 S3C3T1 Fl. 7.711 39 Com razão a Tupy ao afirmar que não pode ser “responsabilizada pela pena aplicada às mercadorias a ela não destinadas cujo ônus de comprovação da origem dos recursos necessários à importação não lhe incumbe estarseia favorecendo sem qualquer fundamento os demais clientes da Chinabraz e penalizando a Recorrente por fatos sobre os quais não exerceu e nem poderia qualquer influência.” Por isso, a atribuição de responsabilidade à Tupy desatendeu aos requisitos legais. Assim, voto por dar provimento ao recurso voluntário da Tupy, para excluíla do polo passivo da autuação. Conclusão Do exposto, voto por dar provimento ao recurso de ofício e em dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a solidariedade da recorrente Tupy Fundições Ltda. do polo passivo da autuação. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 7711DF CARF MF
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Numero do processo: 10314.720725/2016-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
IMPORTAÇÃO DE MOTOCICLETAS DESMONTADAS. FRAUDE.
Importação de "mobiletes" desmontadas e descritas na declaração de importação como "partes e peças", com redução de alíquotas, caracteriza FRAUDE, e devem ser classificadas na posição do produto completo ou acabado (Regra Geral de Interpretação do SH nº 2). Comprovada a ocorrência de fraude, cabível a exigência da multa agravada no valor de 150%.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM.
As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário. A pessoa, física ou jurídica, que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente.
MULTA REGULAMENTAR. HIPÓTESE. APLICAÇÃO.
Detectada que a importação se tratava de produto acabado e não de partes de peças, aplicável a multa regulamentar.
PENA DE PERDIMENTO. OCULTAÇÃO. APLICAÇÃO.
Configurada a ocultação do real adquirente da mercadoria, aplicável a pena de perdimento.
Numero da decisão: 3401-005.377
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Redator Ad Hoc.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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FRAUDE. Importação de "mobiletes" desmontadas e descritas na declaração de importação como "partes e peças", com redução de alíquotas, caracteriza FRAUDE, e devem ser classificadas na posição do produto completo ou acabado (Regra Geral de Interpretação do SH nº 2). Comprovada a ocorrência de fraude, cabível a exigência da multa agravada no valor de 150%. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário. A pessoa, física ou jurídica, que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente. MULTA REGULAMENTAR. HIPÓTESE. APLICAÇÃO. Detectada que a importação se tratava de produto acabado e não de partes de peças, aplicável a multa regulamentar. PENA DE PERDIMENTO. OCULTAÇÃO. APLICAÇÃO. Configurada a ocultação do real adquirente da mercadoria, aplicável a pena de perdimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 07 25 /2 01 6- 11 Fl. 2994DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. Relatório (cf. relatório constante na pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros) "Adotase o relatório do Acórdão 0656.857 8ª Turma da DRJ/CTA de piso (efls. 2857 e seguintes) por bem retratar a situação dos autos: Trata o presente processo de autos de infração, lavrados em 26/04/2016, formalizando a exigência de impostos (II; IPI), juros de mora, multa de ofício agravada de 150%, multa do Controle Administrativo e multa equivalente ao valor aduaneiro, em razão da reclassificação das mercadorias importadas por caracterização de fraude, totalizando o valor do crédito tributário de R$ 9.862.843,30. Do Relatório Fiscal, parte integrante do AI, às fls. 49/151 e, também, juntado às fls. 296/398, destacamse, em síntese, as seguintes informações: Verificar indícios de irregularidade em operações de importação registradas pelas empresas nos anos de 2011 a 2014. Em pesquisas prévias aos sistemas da Receita Federal, foi constatado transações volumosas entre a Bikelete e a WMX, as quais motivaram, em 30/10/2014, a diligência no estabelecimento da WMX; A autoridade fiscal juntou aos autos fotos do estabelecimento e apresentou documentos de ambas empresas, os quais foram encontrados na WMX, denotando uma confusão patrimonial; Os auditoresfiscais foram recepcionados pelo Sr. Clayton Cardoso de Souza, responsável pelas operações de importação das empresas, o qual tomou ciência do início do procedimento fiscal em nome da empresa WMX e franqueou a entrada na empresa permitindo assim o livre acesso à documentação arquivada, inclusive, aos documentos mantidos em arquivos magnéticos. Destes, destacamse os seguintes itens encontrados: Fl. 2995DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 2.995 3 a) Conversas com exportadores chineses revelando o planejamento da fraude; b) Manipulação do modo de envio da mercadoria e pagamento a menor de tributos; c) Fuga das regras de licenciamento; d) Uso de laranja para ocultar o real interessado e conseguir enquadrar a empresa no simples nacional. Durante a diligência, foi realizada entrevista gravada com o Sr. Clayton (Anexo 4); Do arquivo magnético coletado no computador do Sr. Clayton, a autoridade fiscal transcreve, às fls. 76/84; 104/108 e 117 , registros de trechos da conversa entre o Sr. Clayton e os exportadores estrangeiros, nos quais é demonstrado o processo de montagem, desmontagem e envio das peças em caixas de forma a disfarçar o produto final, com objetivo de reduzir as alíquotas dos impostos incidentes sobre a importação; Além do arquivo da conversa descrevendo o “modus operandi” das importações das mobiletes, foi encontrado no computador do Sr. Clayton uma conversa em áudio com o Sr. Aguinaldo da Silva Azevedo, advogado que representa as empresas. Dessa conversa foi transcrito trecho final às fls. 109, da qual se deduz o uso de “laranja” para ocultar o real interessado (Sr. Natanael) e conseguir enquadrar a WMX no Simples Nacional. O áudio completo foi juntado ao PAF como anexo 3; Em consulta aos sistema da Receita Federal do Brasil, a fiscalização verificou que: ● Laurisvaldo Castro Cruz – consta como dirigente acionista com 100% de participação societária da empresa Bikelete Comercial Ciclomotores Eireli, data de abertura em 30/09/2010, CNPJ nº 12.670.719/000119 e Capital Social de R$ 200.000,00. Todavia, o Sr. Laurisvaldo não teria patrimônio e nem rendimentos próprios em montantes compatíveis com os volume das atividades operacionais da empresa Bikelete, uma vez que nos anos de 2007 e 2008, figurou como dependente do Sr. Sivaldo Castro Cruz por se tratar de irmão sem arrimo dos pais, do qual o contribuinte detém a guarda judicial. Ressaltese que não houve apresentação de DIRPF nos anos de 2009 e 2010 e nos anos de 2011, 2012 e 2013, a capacidade econômica da pessoa física parece incompatível com o volume das atividades operacionais da Bikelete; ● Karina Del Grande Leite (irmã do Sr. Natanael) – sócia administadora com 100% de participação societária da empresa WMX com data de abertura em 21/10/2009, CNPJ nº 11.289.859/000189. Já fizeram parte do quadro societário da empresa WMX a Srª Rosa Del Grande Jr (mãe do Sr. Natanael) e o Sr. Laurisvaldo Castro Cruz. Fl. 2996DF CARF MF 4 A Srª Karina, apesar de nunca ter figurado como sócia da Bikelete, recebeu rendimentos dessa empresa nos anos de 2011 e 2012. A WMX movimentou mais de cinco milhões, porém, sua única sócia declarou receber apenas R$ 20.400,00 no ano de 2014; ● Natanael Del Grande Junior – 1) sócioadministrador com 100% de participação da empresa Wind Ind. e Com. de Peças e Ciclomotores, CNPJ 06.963751/000190; 2) e, também, sócio administrador da empresa Natanael Del Grande Jr, CNPJ nº 58.653.429/000168, esta foi baixada após o início da fiscalização em 09/02/2015. O Sr. Natanael não apresentou a declaração de IR nos anos (anocalendário) 2012, 2013 e 2014. O Sr. Laurisvaldo e a Srª Kariana, apesar de intimados, não compareceram à Delegacia da Receita Federal para prestar esclarecimentos. No Radar, a Bikelete foi suspensa por operar acima dos valores autorizados e a empresa WMX parou de operar assim que atingiu o limite; No procedimento fiscal, com base nos documentos coletados e em consultas aos sistemas da RFB, foi concluído que as empresas Bikelete Comercial Ciclomotores Eireli e WMX Comercial Importadora Ltda realizaram operações fraudulentas de comércio exterior ocultando o Sr. Natanael Del Grande Junior, o qual foi identificado como real interessado nas operações e real administrador das empresas; A empresa WMX, que é optante do Simples Nacional, importou as bicicletas desmontadas e as enviou para Bikelete para efetuar a montagem, que por sua vez devolveu para própria WMX para efetuar a revenda. Dessa forma, fez uso de artifício doloso de importar motocicletas desmontadas para não ser desqualificada do Simples Nacional, uma vez que há impedimento de participação para empresas que importem ou fabriquem automóveis e motocicletas. Além disso, se o Sr. Natanael aparecesse como sócio de todas as empresas, a WMX não poderia figurar como empresa de pequeno porte; As importações das empresas WMX e Bikelete foram feitas por artifício doloso, que consiste na compra de bicicletas motorizadas da China já completas e eram enviadas desmontadas como partes e peças, despachadas por portos diferentes com alternância de CNPJ’s. Com isso obtinhase classificação fiscal mais benéfica com pagamento a menor de tributos e fuga das regras de licenciamento de importação; Assevera a fiscalização que o Sr. Natanael fez uso do nome da irmã, da mãe e do Sr. Laurisvaldo e manipulava o uso dos CNPJ’s para fraudar o comércio exterior; Fl. 2997DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 2.996 5 Destaca que as empresas Bikelete e WMX, apesar de juridicamente serem duas unidades, operavam de fato como uma só, ocultando por meio de uso de “laranjas” no quadro societário o real interessado, Sr. Natanael; A autoridade fiscal reproduz nos autos os detalhes da operação de importação de bicicletas motorizadas como se fossem partes e peças, demonstrando as vantagens financeiras da operação realizada; Foram arrolados como sujeitos passivos o Sr. Natanael Del Grande Jr e a WMX Comercial Importadora Ltda – EPP. Considerando que os documentos coletados na diligência na empresa WMX e as pesquisas realizadas foram suficientes para demonstrar a fraude e a interligação das empresas, foi realizado o lançamento relativos às Declarações de Importação listadas às fls. 05/48. Da Impugnação – BIKELETE A empresa Bikelete Comercial Ciclomotores Eireli apresentou a impugnação (fls. 1356/1437), acompanhada dos documentos de fls. 1438/2704, na qual cita jurisprudência e doutrinas, alegando, em síntese, que: Em Preliminar 1) Nulidade do AI A fiscalização agiu com meras presunções para conclusão das irregularidades, não verificou que o produto que se referia o e mail era “moto mini RV”, que a impugnante nunca importou, sendo que a importação mencionada foi realizada pela empresa Wind Industria e Comércio de Peças e Ciclomotores no ano de 2011; Considerando as DI’s destacadas no AI, empresa Bikelete importou em 2011, apenas partes e peças que não completam uma mobilete. Sendo impossível a fiscalização dispor que a empresa Bike importa partes e peças como produtos acabados; Relaciona os itens necessários para montagem de uma motocicleta, motoneta, e/ou bicicleta motorizada completa (fls. 1363/1365). 2) Nulidade do AI por transcurso de prazo Deverá ser nula a autuação, tendo em vista que a BIKE foi intimada sobre o início da fiscalização em novembro/2014, depois de transcorrido um ano e três meses entre os documentos apresentados e a lavratura do auto de infração, ultrapassando todo período razoável que norteiam os atos administrativos. Cita o artigo 11 da Portaria RFB nº 1687/2014 e a Constituição Federal. Fl. 2998DF CARF MF 6 3) Do benefício “In Dubio Contra Fiscum” Em caso de dúvida a interpretação será sempre em favor contribuinte. No Mérito 1) Sr. Natanael Del Grande Junior – Exclusão Obrigatória – Prova ilícita A relação existente entre o Sr. Natanel com as empresas Bikelete e WMX advém do vinculo familiar (irmão) da Sra. Karina, e por assim ser, lhe auxiliando em algumas questões técnicas dos produtos por ser grande conhecedor. A Fiscalização enfatiza a ausência de capacidade econômica, principalmente, do Sr. Laurisvaldo, mas não apresenta nenhum documento que comprove que o Sr. Natanel teria condições financeiras para ser o real proprietário das empresas Bike e WMX; Ressalta a suposição de patrimônio blindado do Sr. Natanael e a utilização de prova ilícita, referindose ao áudio da conversa entre o Sr. Clayton e o advogado das empresas, Sr. Aguinaldo (anexo 3). Solicita que sejam excluídas dos autos a transcrição e sua gravação (anexo 3), pois foram obtidas de forma ilícita, vez que viola o sigilo profissional garantido pela Constituição Federal, artigo 5º inciso XII. Cita a lei 8906/94, que protege os atos praticados no exercício da advocacia. 2) Bike e WMX – empresas interdependentes – ausência de interposição fraudulenta Há de fato um grupo econômico entre a Bike e WMX sob o comando da Srª Karina Del Grande Leite, porém, cada empresa possui vida própria e com público alvo distinto. A empresa WMX somente comercializa o produto acabado, sendo seu principal veículo de venda a internet; os produtos adquiridos pela WMX, grande parte, partes e peças de motor para revenda, não seriam suficientes para fabricar a motocicleta e/ou bicicleta motorizada. Portanto, se torna impossível a afirmação de que a mesma exerce atividade vedada pelo regime do Simples Nacional; A Bikelete não é sua única fornecedora da WMX; Cita outras empresas que possuem CNPJ’s distintos para ofertar produtos diversos a públicos diferentes. 3) Ausência de fraude na importação – importação de partes e peças A troca de email, juntado aos autos pela fiscalização, referese ao produto Mini RV importados pela empresa Wind Ind. E Com. de Peças e Ciclomotores Ltda. Assim, é impossível dispor que a Fl. 2999DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 2.997 7 Bikelete fraudava com base em importação que não fora por ela realizada; Relaciona as DI’s referentes ao ano de 2011 para comprovar que não se trata de uma mobilete completa; 4) Da multa de 150% Inaplicabilidade – confisco Afronta ao princípio do não confisco. 5) Multa regulamenta de 30% por ausência de licença de importação não automática Tratamse de parte e peças que não exigem a licença de importação não automática. 6) Pena de perdimento convertida em multa É vedado a fiscalização exigir o tributo, multa agravada de 150% e juros de mora e ainda aplicar a pena de perdimento pela mesma infração. Conforme o regulamento aduaneiro a pena de perdimento é aplicada quando ocorrer dano ao erário. Se a autuação exige a diferença do tributo com multas e juros, não há o que se cogitar em dano ao erário. Do pedido: Antes de elencar os pedidos, discorre sobre a imparcialidade do julgamento e solicita que, sendo superadas as preliminares, que seja julgado improcedente o auto de infração por inexistência de interposição fraudulenta ou, ainda, por fraude nas importações. Caso não seja esse o entendimento do julgamento que a multa de ofício agravada seja afastada, refutada a multa regulamentar por ausência de licença de importação e afastada a pena de perdimento. Por fim, requer a realização de perícia por engenheiro técnico. A DRJ/CTA decidiu pela improcedência da impugnação, sob a seguinte ementa: IMPORTAÇÃO DE MOTOCICLETAS. Importação de mobiletes desmontadas e descritas na declaração de importação como "partes e peças", com redução de alíquotas, caracteriza FRAUDE, e devem ser classificadas na posição do produto completo ou acabado (Regra Geral de Interpretação do SH nº 2). Comprovada a ocorrência de fraude, cabível a exigência da multa agravada no valor de 150%. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal são solidariamente obrigadas em relação ao crédito tributário. A pessoa, física ou jurídica, que concorra, de alguma forma, para Fl. 3000DF CARF MF 8 a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente. PEDIDO DE DILIGÊNCIA/PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis. A Contribuinte tomou ciência da referida decisão em 13/02/2017 irresignada, interpôs recurso voluntário em 10/03/2017, na qual argumenta: Preliminarmente: A possibilidade de apresentar Recurso Voluntário em nome do sujeito passivo principal e responsáveis solidários; A ocorrência de violação ao princípio do Devido Processo Legal Processual em razão do impedimento de utilização de jurisprudência; Sustenta a inviolabilidade do sigilo profissional, advogado/cliente, com o viés de afastar provas; A aplicação do Benefício “In Dubio Contra Fiscum”, sob o argumento de que não há provas suficientes para embasar as alegações da autoridade fiscal; A nulidade da autuação, sob o argumento de a fiscalização se perpetuou acima do prazo de 120 dias. No mérito basicamente reitera os argumentos da impugnação. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Redator Ad Hoc O voto a seguir reproduzido é de lavra do Conselheiro André Henrique Lemos, relator original do processo, que, conforme Portaria CARF no 143, de 30/11/2018, teve o mandato extinto antes da formalização do resultado do presente julgamento. O texto do voto, in verbis, foi retirado da pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros. “O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos recursais, portanto dele toma se conhecimento. Fl. 3001DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 2.998 9 PRELIMINARES 1. Da Possibilidade de defesa única Considerando que o acórdão recorrido entendeu pela possibilidade de julgar em conjunto as peças de defesa, respeitando as especificidades de cada caso, a recorrente também interpôs recurso em peça única, da qual não se vislumbra motivos para vedar tal prática, desde que, como mencionado no acórdão recorrido, as especificidades sejam respeitadas. 2. Da violação ao Princípio do Devido Processo Legal Segundo a recorrente, “força que emana a jurisprudência transcende a normas complementares do Direito Tributário, pois se trata de uma fonte do Direito posto, sendo norma presente vigente aplicável a todo ramo do Direito”; e que, portanto, as jurisprudências trazidas não devem ser desconsideradas, sob pena de violação ao contraditório e a ampla defesa, garantias constitucionais. Em análise ao acórdão recorrido, no tocante ao ponto ora em questão, depreendese que a recorrente interpretou de forma equivocada os dizeres da DRJ. O Acórdão recorrido simplesmente esclarece que as jurisprudências, seja ela judicial ou administrativa, não possui força normativa, e que as decisões em âmbito administrativo devem seguir estritamente a legislação concernente, pois o poder da autoridade administrativa é vinculado. Deste modo, não há que se falar em violação ao contraditório e a ampla defesa. 3. Da inviolabilidade do sigilo profissional A recorrente argumenta que “a Fiscalização tem o dever legal e o conhecimento jurídico, para ter ciência que o arquivo magnético contendo os diálogos sigilosos travados entre cliente e advogado estão protegidos por lei (Estatuto da OAB) e pela Constituição da República (artigo 5º incisos XII e LV). Em ato contínuo, a “ilegalidade na quebra do sigilo profissional do diálogo travado entre cliente e advogado, a exação fiscal em tela é nula de pleno direito”. Segundo o acórdão recorrido, cuja versão confere com aquela informada pela fiscalização, temse: A diligência foi realizada no estabelecimento comercial da empresa, com acompanhamento do Sr. Clayton Cardoso de Souza, responsável pelas operações de importação das empresas, que franqueou a entrada na empresa permitindo assim o livre acesso à documentação arquivada, inclusive, aos documentos mantidos em arquivos magnético, dentre estes, o áudio em questão, encontrado no computador do Sr. Clayton. Fl. 3002DF CARF MF 10 Ora, denotase que a fiscalização teve acesso a gravação mediante prévio consentimento do Sr. Clayton, logo, não há se falar em quebra do sigilo advogado cliente, uma vez que foi o próprio cliente que autorizou o acesso a referida gravação. Ademais, a fiscalização tributária tem o poderdever de examinar toda documentação inerente ao objeto da fiscalização, para que seja possível encontrar a verdade material. Quanto ao contribuinte, este possui a obrigação de fornecer toda documentação que se encontra em sua posse, que seja relevante à fiscalização, nos termos dos arts. 194, 195 e 200 da Lei n.º 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN) e dos artigos 34 a 36 da Lei nº 9.430, de 1996. In casu, o Sr. Clayton autorizou acesso a diversos documentos relevantes para fins de apuração pela fiscalização, e dentre os documentos havia a referida gravação. Portanto, no caso em apreço, a quebra de sigilo de clienteadvogado não se encontra caracterizada, motivo pelo qual se nega acolhimento ao argumento da defesa, neste particular. 4. A aplicação do benefício “in dubio contra fiscum” Neste ponto a Recorrente arguiu que, o “auto de Infração restou lavrado sob suposta acusação fiscal baseadas em mero indícios, que efetivamente não foram comprovados pelo Fisco, e que também não se vislumbra fundamentação legal e probatória nas razões da r.decisão.” Em apreciação aos documentos acostados ao auto de infração, efl. 65 e seguintes, constatase que fora formalizado mediante diversas provas capazes de embasar as alegações da fiscalização (Notas Fiscais, áudios, emails, fotos, informações prestadas por representante da recorrente, dentre outras). Ademais, conforme também mencionou o acórdão recorrido, “o conjunto probatório, inclusive o áudio (anexo 3) entre o Clayton e Sr. Aguinaldo da Silva Azevedo, advogado que representa as empresas, com trechos transcritos às fls. 109, levanos a concluir de que se tratavam de uma só empresa com o fim de ocultar, por meio de uso de “laranjas”, o real interessado, Sr. Natanael Del Grande Junior. Confirmandose, assim, a clara confusão patrimonial detectada já no curso da diligência no estabelecimento da WMX.” Diante do exposto e da análise do conjunto probatório presente nos autos, é inviável a aplicação do In Dubio Contra Fiscum, previsto no artigo 112 do CTN. 5. Da Nulidade da Autuação A última preliminar arguida pela Recorrente diz respeito ao prazo para finalizar a fiscalização. Argumenta que a fiscalização “objeto do presente auto se iniciou em NOVEMBRO DE 2014, se tornando findo apenas UM ANO E TRÊS MESES após a apresentação dos documentos exigidos pelo Fisco Federal”, e que tal fato viola o art. 11, inciso I da PORTARIA RFB Nº 1687, DE 17 DE SETEMBRO DE 2014 e artigo 5º, LXXVIII da Constituição Federal. Pois bem. As hipóteses de nulidade são as previstas nos incisos 1 e II do artigo 59 do Processo AdministrativoFiscal, aprovado pelo Decreto n.º 70.235 (PAF), de 06 de março de 1972, que dispõe: Art. 59 São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; Fl. 3003DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 2.999 11 II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Por sua vez, o art. 60 do referido PAF determina: Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Oportuno salientar, também, que o prazo estabelecido pelo inciso 1º da Portaria da RFB nº 1687/2014 pode ser prorrogado, conforme §1º do mesmo artigo. Vejase: Art. 11. Os procedimentos fiscais deverão ser executados nos seguintes prazos de duração: I cento e vinte dias, no caso de procedimento de fiscalização; II sessenta dias, no caso de procedimento fiscal de diligência. § 1º Os prazos de que trata o caput poderão ser prorrogados até a efetiva conclusão do procedimento fiscal e serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento, nos termos do art. 5º do Decreto nº 70.235, de 1972. (grifase). Portanto, não merece guarida a nulidade pretendida. MÉRITO 1. Da ilegalidade na sujeição passiva solidária do Sr. NATANAEL DEL GRANDE JUNIOR e da empresa WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA A recorrente sustenta que, assim como Laurisvaldo Castro Cruz e Karina Del Grande Leite, o Sr. Natanael Del Grande Jr não teria condições financeiras de ser o real proprietário de um grupo econômico formado por BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES EIRELE – EPP, WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA LTDA e WIND IND. E COM. DE PEÇAS E CLICOMOTOTES. Aduz que a fiscalização não trouxe aos autos elementos plausível e provas cabais da participação do Sr. Natanael Del Grande Jr nas empresas BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES EIRELE – EPP e WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA LTDA, e que, portanto, não há se falar em responsabilidade solidária. Que para haver responsabilidade solidária é necessário comprovação de ligação direta com determinada empresa e elementos que comprovem destinação financeira, negocial ou de bens das BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES EIRELE – EPP e WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA para o Sr. Natanael. Fl. 3004DF CARF MF 12 Já no que tange a sujeição passiva entre o Sr Natanael e as empresas BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES EIRELE – EPP e WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA, defende que é necessário comprovar que este detinha poderes de administração e gerência em tais empresas. Conforme informam as Eecorrentes, “visando descentralizar suas atividades e atender um apelo familiar, toda parte de comercialização de motocicleta de baixa cilindrada fora transferida para recémcriada empresa BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES, de propriedade de Karina Del Grande Leite, irmã do Sr. Natanael”. Tal versão não coaduna com as informações constantes nos autos, segundo o relatório fiscal, efl. 63, o Sr. Laurisvaldo Castro Cruz é o proprietário da BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES, o que é confirmado pelo contrato social anexo efl. 1438. Extraise ainda do recurso das recorrentes: Repisase que, o Sr. Natanael nunca figurou como sócio, administrador ou deteve qualquer poder de gerência da empresa BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES, empresa essa regularmente constituída por sua irmã, a Sra Karina Del Grande Leite, que mantem apenas relações negociais devidamente amparadas por normas legais, fiscais e contábeis. Ao que se viu da instrução probatória feita pela fiscalização e o que defendem as Recorrentes há total dissonância entre eles. A partir da fl. 109 a fiscalização, de forma minuciosa, demonstrou o envolvimento do Sr. Sr. Natanael, o qual é, segundo as provas carreadas o real administrador das empresas envolvidas. Complementase com o disposto no relatório fiscal efl. 66: A capacidade econômica da pessoa física indicada como sendo a única sócia da empresa autuada parece absolutamente incompatível com o volume das atividades operacionais desenvolvido por essa pessoa jurídica. Vejamos, de acordo com a DIMOF a BIKELETE teve a seguinte movimentação financeira: 2011 R$ 8.776.045,37 2012 R$ 12.337.578,67 2013 – R$ 12.600.824,55 Os rendimentos particulares declarados pelo Sr. Laurisvaldo Castro Cruz indicados em suas Declarações do Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF) nessa mesma sequência de anoscalendário corresponderam a R$ 31.200,00, R$ 19.460,00, R$ 20.760,00 sendo que todos esses rendimentos declarados se originaram da própria BIKELETE. Nos anoscalendário 2009 e 2010, o Sr. Laurisvaldo Castro Cruz sequer apresentou DIRPF, enquanto que nos anoscalendário 2007 e 2008, figurou como dependente do Sr. Sivaldo Castro Cruz (CPF: 123.205.24851) por se tratar de irmão sem arrimo dos pais, do qual o contribuinte detém a guarda judicial, em qualquer idade, quando incapacitado física e/ou mentalmente Fl. 3005DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 3.000 13 para o trabalho. Portanto, o Sr. Laurisvaldo Castro Cruz jamais declarou rendimentos particulares antes de supostamente ingressar no quadro societário da empresa, sendo considerado incapaz pouco antes de ter seu nome como sócio exclusivo da autuada. Extraise da folha 73 a seguinte conclusão, a qual se encontra acompanhada das respectivas provas: Dos documentos coletados acima, podese constatar que a Bikelete e a WMX são juridicamente empresas distintas, mas de fato formam apenas uma unidade. Isso é comprovado logo na chegada, pois o logo da Bikelete identifica a loja localizada no endereço da WMX, depois dentro do mesmo estabelecimento somente produtos à venda com o logo Bikelete, ou com os 2 logotipos juntamente. Além disso, não há motivos para que empresas com CNPJs e quadros societários diferentes mantenham documentos confidenciais, tais como faturas comerciais e documentos de negociação das mercadorias com o exterior, no mesmo local. Isso sem mencionar que foi identificado o um mesmo responsável por ambas as empresas, o Sr. Clayton, que armazena dentro do estabelecimento da WMX, separado por pastas, faturas e documentos de ambas as empresas. De acordo com entrevista realizada com o Sr. Clayton, no dia da diligência, quando questionado sobre o motivo pelo qual predominavam logotipos e produtos da BIKELETE dentro da loja da WMX, este explicou que a WMX detinha uma franquia da BIKELETE por isso distribuía seus produtos. No entanto, nenhum contrato de franquia foi apresentado, mas sim ficou comprovada a confusão patrimonial entre as duas empresas com o objetivo de ocultar o real interessado nas operações: o Sr. Natanael Del Grande Jr. Ao analisar a documentação inerente a fiscalização foi possível encontrar os itens abaixo, os quais são detalhados a partir da efl. 74: a. Conversas com exportadores chineses revelando o planejamento da fraude. b. Manipulação do modo de envio da mercadoria e pagamento a menor de tributos. c. Fuga das regras de licenciamento d. Uso de laranja para ocultar o real interessado e conseguir enquadrar as empresas no simples nacional. Para reforçar, na pág. 27 do recurso se extrai: Com o advento da empresa BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES, a empresa WIND IND. E COM. DE PEÇAS E CLICOMOTOTES passou importar determinadas peças e, conjuntamente com as peças que fabrica, a montar as motocicletas de baixa cilindradas, sendo que a comercialização do produto finalizado restou a carga da primeira empresa, qual seja a BIKELETE. Fl. 3006DF CARF MF 14 Já na pg. 32 consta: Para que seja possível vislumbrar melhor a atuação das empresas do grupo, cabe destacar a atividade comercial das empresas WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA LTDA e BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES. WMX 50 COMERCIAL IMPORTADORA LTDA: revenda de motocicletas de baixa cilindrada e/ou bicicleta motorizada, bem como, suas partes e peças para CONSUMIDORES FINAIS. BIKELETE COMERCIAL CICLOMOTORES: produção motocicletas de baixa cilindrada e/ou bicicleta motorizada. Diante das incongruências, dos fatos relatados pela fiscalização e pelas provas acostadas aos autos, afastase os argumentos de defesa. 2. Ausência de Fraude na importação – importação de partes e peças Conforme conversa via email datado de 09/01/2011, que se refere à mobilete MiniRV, denotase como era realizado o modus operandi: Diante de tal prova não há dúvida de que os emails transcritos referemse às mobiletes que foram despachadas como partes e peças com a intenção de fraudar a alfândega. Assevera o Acórdão recorrido: Para melhor compreensão, temse a informar que considerando a lição de De Plácido e Silva (Vocabulário Jurídico, Volume II DI, Editora Forense, Fl. 3007DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 3.001 15 1978, pág. 718), que nos ensina que fraude é o vocábulo derivado do latim fraus, fraudis (engano, máfé, logro), que serve para caracterizar o engano malicioso ou a ação astuciosa, promovida de máfé, para ocultação da verdade ou fuga ao cumprimento do dever. Nestas condições, a fraude traz consigo o sentido do engano, especificamente o engano oculto (falsificação ou adulteração com intuito de iludir ou enganar) para furtarse o fraudulento ao cumprimento do que é de sua obrigação ou para logro de terceiros. É a intenção de causar prejuízo a terceiros. Portanto, a fraude sempre se funda na prática de ato lesivo a interesse deterceiros ou da coletividade, ou seja, em ato, onde se evidencia a intenção de frustrarse a pessoa aos deveres obrigacionais ou legais. É, por isso, indicativa de lesão de interesses individuais, ou contravenção de regra jurídica, a que se está obrigado. O art. 72 da Lei nº 4.502, de 30.11.1964, definiu a fraude, sob a ótica tributária, ao conceituar que "é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento". Logo, a fraude admitida na legislação tributária brasileira traz implícito o elemento dolo para sua configuração, ou seja, a vontade deliberada de praticar ato ilícito (ou criminoso) com o intuito de prejudicar terceiro em benefício próprio. Por fim, embora a fraude já esteja perfeitamente caracterizada, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964, cumpre ainda atentar que o bem jurídico protegido não é unicamente o Erário, mas visa essencialmente resguardar o controle aduaneiro e proteger a economia nacional, que se vêem afetados pela importação fraudulenta e pela entrada clandestina de mercadorias no País. No caso em tela, as importações, isoladamente, foram consideradas de “partes e peças” de motocicletas/bicicletas. Mas, como explicitado no auto de infração, tratase de importação fracionada de mercadorias despachadas para diferentes portos e por diferentes CNPJ’s, com intuito de reduzir o valor dos tributos devidos na importação. Vale reproduzir mais um trecho da conversa entre o Sr. Clayton e o exportador chinês: Fl. 3008DF CARF MF 16 O modo CBU Completely BuiltUp, tratase de produtos prontos para venda, citado como referência ao tipo de envio das mercadorias quando são transportadas. O email entre os chineses e o Sr. Clayton Cardoso de Souza, responsável pelas operações de importação das empresas Bikelete, WMX e Wind, evidencia um esquema fraudulento na importação de produtos acabados como se fossem “partes e peças”. A fiscalização, em seu relatório, deixa claro que o padrão de comportamento foi adotado para todas as operações de importação constantes do auto. Assim, caracterizada a fraude, adequadamente, a autoridade fiscal reclassificou as mercadorias importadas como partes e peças para produto acabado, utilizando a Regra Geral para interpretação do Sistema Harmonizado “2 a”, a qual referese ao produto incompleto ou inacabado, in verbis: 2.a)Qualquer referência a um artigo em determinada posição abrange esse artigo mesmo incompleto ou inacabado, desde que apresente, no estado em que se encontra, as características essenciais do artigo completo ou acabado. Abrange igualmente o artigo completo ou acabado, ou como tal considerado nos termos das disposições precedentes, mesmo que se apresente desmontado ou por montar. Diante dos fatos e das provas trazidas pela fiscalização, não merecem amparo os argumentos de defesa. 3. Da multa de 150% Inaplicabilidade – Confisco Segundo a Recorrente a “multa exigida em percentual tão elevado agride o patrimônio do contribuinte, residindo aí sua natureza confiscatória, algo que é vedado e repudiado pelo sistema constitucional, conforme determina o art. 5º, inciso XIII, art. 170, “caput”, da Constituição Federal”. Sobre o efeito confiscatório da multa agravada de 150 %, conforme indicado no auto de infração, foi o inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que, expressa e objetivamente, prevê: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: Fl. 3009DF CARF MF Processo nº 10314.720725/201611 Acórdão n.º 3401005.377 S3C4T1 Fl. 3.002 17 I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) E dispõe a Lei nº 4.502/1964: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. In casu, a multa de ofício calculada sobre o valor do imposto cuja falta de recolhimento se apurou, está em consonância com a legislação de regência, sendo o percentual 150 % o legalmente previsto para a situação descrita no Relatório Fiscal, não se podendo, em âmbito administrativo, reduzilo ou alterálo por critérios meramente subjetivos, contrários ao princípio da legalidade, e mais, não há declarações de ilegalidade ou inconstitucionalidade declaradas pelos Tribunais Superiores, seja em repercussão geral (STF) ou recursos repetitivos (STJ). Demais disso, a instrução feita pela fiscalização denota a nítida intenção de segmentar as operações das empresas, a fim de recolher menos tributos, portanto, vontade livre e consciente de lesar o fisco, razão pela qual é de se manter o lançamento fiscal, fazendo com que os fundamentos da autuação, bem como dos expendidos pela DRJ sirvam como razões de decidir do presente voto. Neste aspecto, voto no sentido de manter o lançamento fiscal. Fl. 3010DF CARF MF 18 4. Multa Regulamentar de 30% por ausência de licença de importação não automática – descabimento Defende a Recorrente que parte e peças não exigem a licença de importação não automática, porém, mantida a autuação no sentido de que houve irregularidade em seccionar a operação fazendo com que ao invés de a importação ser de partes e peças, mas sim de um só produto, com nítido intuito de recolher menos tributo, logo, de partes e peças não se tratava a importação. Ato contínuo, a autoridade fiscal reclassificou as mercadorias importadas para produto acabado, utilizando a RGI do SH 2a (produto incompleto ou inacabado), e por conseguinte, lançou a diferença dos tributos, juros, multa administrativa por ausência de licença de importação, multa agravada e a pena de perdimento. Vêse que a decisão recorrida deve ser mantida, mantendose incólume multa aplicada. 5. Pena de perdimento convertida em multa pecuniária – totalmente indevida Como se viu, ficou configurada a ocultação do real adquirente da mercadoria, e assim, legal a aplicação da pena de perdimento. Sobre assunto é da jurisprudência deste Tribunal (ac. 3302005.817): INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS A ocultação do real adquirente de mercadorias importadas configura a infração tipificada como dano ao Erário, punível com a penalidade de perdimento das mercadorias. Neste sentido também: ac. 3302005.749 e 9303007.343. Com essas razões, conheço do recurso voluntário, mas lhe nego provimento.” (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan (Ad Hoc) Fl. 3011DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.900134/2008-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 29 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Feb 20 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/09/2003 a 30/09/2003
PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO DE MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. LIMITES DA LIDE. ORIGEM DO CRÉDITO.
Nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, considera-se preclusa a questão que não tenha sido suscitada expressamente em impugnação/manifestação de inconformidade e extrapola os limites do processo administrativo - no caso de compensação tributária, limitada pelo conteúdo do despacho decisório e pela defesa sobre a origem do crédito pleiteado -, de modo que sua colocação na peça recursal dirigida ao CARF não deve ser conhecida.
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÕES. INEFICÁCIA DO DISPOSITIVO LEGAL.
Os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, não devem ser excluídos na determinação da base de cálculo de PIS/COFINS sob o regime cumulativo, em virtude da ineficácia do dispositivo legal (art. 3º inciso III, § 2º da Lei 9.718/98) que estabeleceu a sua previsão.
Numero da decisão: 3402-006.080
Decisão:
Acordam os membros do Colegiado, não conhecer em parte do Recurso Voluntário da seguinte forma: (i) por unanimidade de votos, quanto aos argumentos da ilegalidade da aplicação da SELIC e a inconstitucionalidade da multa aplicada; e (ii) por maioria de votos, quanto a exclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. Vencido o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Na parte conhecida, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/09/2003 a 30/09/2003 PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO DE MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. LIMITES DA LIDE. ORIGEM DO CRÉDITO. Nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, considera-se preclusa a questão que não tenha sido suscitada expressamente em impugnação/manifestação de inconformidade e extrapola os limites do processo administrativo - no caso de compensação tributária, limitada pelo conteúdo do despacho decisório e pela defesa sobre a origem do crédito pleiteado -, de modo que sua colocação na peça recursal dirigida ao CARF não deve ser conhecida. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÕES. INEFICÁCIA DO DISPOSITIVO LEGAL. Os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, não devem ser excluídos na determinação da base de cálculo de PIS/COFINS sob o regime cumulativo, em virtude da ineficácia do dispositivo legal (art. 3º inciso III, § 2º da Lei 9.718/98) que estabeleceu a sua previsão.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, não conhecer em parte do Recurso Voluntário da seguinte forma: (i) por unanimidade de votos, quanto aos argumentos da ilegalidade da aplicação da SELIC e a inconstitucionalidade da multa aplicada; e (ii) por maioria de votos, quanto a exclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. Vencido o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Na parte conhecida, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz.
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NÃO CONHECIMENTO DE MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. LIMITES DA LIDE. ORIGEM DO CRÉDITO. Nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, considerase preclusa a questão que não tenha sido suscitada expressamente em impugnação/manifestação de inconformidade e extrapola os limites do processo administrativo no caso de compensação tributária, limitada pelo conteúdo do despacho decisório e pela defesa sobre a origem do crédito pleiteado , de modo que sua colocação na peça recursal dirigida ao CARF não deve ser conhecida. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. PAGAMENTO A MAIOR. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÕES. INEFICÁCIA DO DISPOSITIVO LEGAL. Os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, não devem ser excluídos na determinação da base de cálculo de PIS/COFINS sob o regime cumulativo, em virtude da ineficácia do dispositivo legal (art. 3º inciso III, § 2º da Lei 9.718/98) que estabeleceu a sua previsão. Acordam os membros do Colegiado, não conhecer em parte do Recurso Voluntário da seguinte forma: (i) por unanimidade de votos, quanto aos argumentos da ilegalidade da aplicação da SELIC e a inconstitucionalidade da multa aplicada; e (ii) por maioria de votos, quanto a exclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. Vencido o Conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Na parte conhecida, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 90 01 34 /2 00 8- 61 Fl. 117DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 1016.105, proferido pela DRJ/POA, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo contribuinte, mantendo assim a negativa de homologação da compensação pretendida. Em sua manifestação de inconformidade, a recorrente contestou o conceito de receita bruta e a tributação sobre a totalidade das receitas, afirmou que houve tributação indevida sobre valores repassados a terceiros, que deveriam ter sido excluídos da base de cálculo tributável com base no disposto no art. 3º, §2º, inciso III, da Lei nº 9.718/1998, gerando assim, indébitos compensáveis. Devidamente cientificada da decisão da DRJ, a recorrente interpôs, tempestivamente, o recurso voluntário ora em apreço, onde repisou os fundamentos desenvolvidos em sua manifestação de inconformidade, bem como acresceu os seguintes fundamentos: (i) a inclusão do ICMS na base de cálculo da exação em comento seria indevida; (ii) a ilegalidade da SELIC como fator de correção do crédito tributário; e, ainda (iii) a multa aplicada apresentaria caráter confiscatório, motivo pelo qual deveria ser afastada. É o relatório Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402006.073, de 29 de janeiro de 2019, proferido no julgamento do processo 11080.900040/200892, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Fl. 118DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 3 Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Resolução 3402006.073): "I. Do não conhecimento de parte do recurso voluntário interposto 5. Conforme destacado no relatório desenvolvido no presente voto, parte dos fundamentos desenvolvidos no presente recurso voluntário inovam a lide, na medida em que externados apenas em sede de recurso voluntário. É o caso dos seguintes tópicos da peça recursal: (i) a inclusão do ICMS na base de cálculo da exação em comento seria indevida; (ii) a ilegalidade da SELIC como fator de correção do crédito tributário; e, ainda (iii) a multa aplicada apresentaria caráter confiscatório, motivo pelo qual deveria ser afastada. 6. Acontece que, em sua manifestação de inconformidade, o ora recorrente não desenvolveu tais fundamentos. Dessa feita, está precluso o direito do contribuinte, em sede de recurso voluntário, debater as exigências tratadas nos itens "ii" e "iii" alhures, nos exatos termos do disposto no art. 17 do Decreto n. 70.235/72, in verbis: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. 7. Não se tratando de questões de ordem pública, que poderiam ser reconhecidas de ofício e em qualquer grau de jurisdição, em razão da aplicação subsidiária do art. 485, § 3o, c.c. o art. 15, ambos do Novo Código de Processo Civil1, não poderia o recorrente, em grau recursal, inovar a lide, sob pena de haver notória supressão de instância judicativa. 8. Neste sentido, não conheço dos fundamentos desenvolvidos pelo recorrente no sentido de combater (i) a ilegalidade da aplicação da SELIC, bem como (ii) a inconstitucionalidade da multa aplicada no caso em tela. (...)2 1 "Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: (...). 3o O juiz conhecerá de ofício da matéria constante dos incisos IV, V, VI e IX, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito em julgado. (...)." "Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente." 2 Transcrito apenas o entendimento que prevaleceu na discussão sobre o conhecimento do recurso voluntário quanto a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS. Íntegra do voto pode ser consultada no processo paradigma (11080.900040/200892) Fl. 119DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 4 Lembremos que o presente processo fiscal iniciouse por manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório emitido eletronicamente pela DRF de Porto Alegre relativo à COFINS, em virtude exame de declaração de compensação, a qual não foi homologada por ausência/insuficiência de créditos oponíveis contra a Fazenda Pública. Foi essa a motivação adotada pela Administração Tributária no despacho decisório, o qual impõe os limites do processo administrativo e a impossibilidade de sua alteração, nos moldes esculpidos pelo artigo 146 do CTN. A Recorrente, por sua vez, contestou o referido Parecer alegando que ao fazer levantamento de importâncias pagas a título da Contribuição ao PIS e da COFINS, conforme disposição da Lei 9.718/98, constatou valores pagos a maior. O cerne da inconformidade da Recorrente foi o conceito de receita bruta, instituído pela lei acima referida, alegando ser o indébito que pleiteia decorrente da tributação indevida sobre valores repassados a terceiros, que deveriam ter sido excluídos da base tributável com base no disposto no artigo 3º, §2º, inciso III, da Lei 9.718/1998. Também afirma que houve burla à lei pela falta de regulamentação do dispositivo retrocitado, o que geraria majoração indevida do tributo. Ou seja: segundo a própria Recorrente, o indébito tributário pleiteado, que fora utilizado para compensar débitos via declaração de compensação, são decorrentes de pagamentos indevidos porque fundados em interpretação equivocada do conceito de receita, discussão essa amplamente conhecida a respeito da Lei n. 9.718/98. Como poderia agora, nesse pé do processo administrativo, vir alegar que o indébito, na realidade, o crédito decorre da indevida inclusão do ICMS na base da cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS? Isso só demonstra a iliquidez e incerteza do crédito tributário utilizado pelo contribuinte, inclusive no que tange à sua base legal, tudo indo na contramão das determinações que regem a matéria (artigos 165 e 170 do Código Tributário Nacional, bem como o artigo 74 e seguintes da Lei n. 9.430/96). Mas a verdade é que nem isso a Recorrente alega. Em seu longo Recurso Voluntário, de repente passa a discorrer sobre a exclusão do ICMS da base de cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS (fls 54), em nenhum momento apontando nem provando como essa discussão implicaria no presente processo administrativo, no crédito utilizado na declaração de compensação ou porque foi extemporaneamente apresentada. Enfim, na hipótese de efetivamente a Recorrente ter direito à restituição de indébito tributário, decorrente da imprópria tributação das contribuições sociais com o ICMS compondo a sua base, deverá iniciar outro processo administrativo, Fl. 120DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 5 requerendo pelas vias cabíveis a devolução de tais valores, demonstrando e provando a pertinência da decisão proferida pelo STF no RE n. 574.706. Eis aí o correto caminho processual a ter tomado. Tratase, portanto, de questão que além de extrapolar os limites do presente dissídio, é preclusa, nos termos do artigo 17 do Decreto nº 70.235/72, e não vejo razão para o afastamento da citada regra in casu. Desta feita, a mencionada matéria de defesa não deve ser conhecida por este Colegiado. Por essas razões, especificamente com relação ao tópico da defesa atinente inclusão do ICMS na base da cálculo da Contribuição ao PIS e da COFINS, voto no sentido de não conhêlo. (...) (ii.b) Do mérito propriamente dito 35. Superada a proposta acima, mister se faz a análise do mérito propriamente dito do recurso voluntário interposto pelo contribuinte, o que faz nos seguintes termos. (...)3 (2) Do crédito vindicado pelo contribuinte com fundamento no inciso III, § 2º do art. 3º da Lei 9.718. de 1998 39. A questão de fundo não é nova neste Tribunal e diz respeito a (in)aplicabilidade imediata do inciso III, § 2º do art. 3º da Lei 9.718. de 1998, que assim prescreve: Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. (...). § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: [...] III os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo; (...). (grifos nosso). 40. A questão aqui travada foi bem tratada pelo acórdão n. 3302004.903, de relatoria da Conselheira Maria do Socorro Ferreira Aguiar, que assim prescreveu em seu voto acompanhado a unanimidade pela turma julgadora: 3 Transcrito apenas o entendimento que prevaleceu no julgamento do mérito. Íntegra do voto pode ser consultada no processo paradigma (11080.900040/200892) Fl. 121DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 6 Esclarecida a situação a fática, examinase a seguir as normas objeto da controvérsia: Lei nº 9.718, de 1998: Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: [...] III os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo;(grifei) A norma em destaque foi expressamente revogada pela alínea b do inciso IV da art. 47 da Medida Provisória n° 1.99118, de 2000: • Medida Provisória nº 199118, de 09 de junho de 2000 (DOU, de 10/06/2000): Art.47.Ficam revogados: [...] IV a partir da publicação desta Medida Provisória: (...); b) o inciso III do § 2º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998.(grifei). Dos atos acima transcritos constatase que o inciso III do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718, de 1998 é uma norma que depende de regulamentação, tipificada portanto segundo a doutrina abalizada como norma de eficácia limitada, que é aquela que depende de uma regulamentação e integração por meio de normas infraconstitucionais. É digno de nota que a matéria em tela foi objeto de vários precedentes nesse E. Conselho, a exemplo dos acórdãos: 380200.893, de 20/03/2012, 3302002.174, de 26/06/2013 e 3202001.051, de 20/01/2014. Nesse sentido, adoto como fundamento decisório o voto proferido no Acórdão 3202001.051, de 20/01/2014, ex vi do §1º do art. 50 da Lei nº 9.784, de 1999: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/02/1999 a 30/09/2000 Fl. 122DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 7 COFINS. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. EFICÁCIA CONDICIONADA À EDIÇÃO DE NORMA REGULAMENTAR. IMPOSSIBILIDADE. A Lei nº 9.718/98 admitia, em seu artigo 3º, § 2º, inciso III, a exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins das receitas transferidas a outras pessoas jurídicas, exclusão esta, contudo, condicionada à edição de norma regulamentadora. Tal norma de eficácia limitada, embora vigente, nunca chegou a ter eficácia, já que não editado o decreto regulamentador.(grifei) RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação, nos termos do que dispõe o artigo 170 do Código Tributário Nacional. APLICAÇÃO DE PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. Não cabe a órgão administrativo apreciar arguição de inconstitucionalidade de leis ou mesmo de violação a qualquer princípio constitucional de natureza tributária. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de legislação tributária. Súmula CARF nº 02. Excertos do voto: Como visto, a decisão recorrida indeferiu o restituição solicitada e não homologou as compensações pleiteadas pela Recorrente, fundamentalmente, em decorrência da ausência de regulamentação, pelo Poder Executivo, da norma que previa a exclusão de valores computados como receitas e transferidos para terceiros (art. 3º, §2º, inciso III, da Lei nº 9.718/98). Por conseguinte, a declaração de compensação apresentada não pode ser homologada por falta de certeza e liquidez dos indébitos utilizados. Não há reparos a fazer na decisão recorrida. De fato, o dispositivo legal acima referenciado – que, posteriormente, foi expressamente revogado pelo artigo 47, inciso IV, alínea “b”, da MP no 1.99118, de 09/06/2000, posteriormente convertido na Medida Provisória no 2.15835, de 2001 – tratava da possibilidade de exclusão da base de cálculo da Cofins e do PIS dos valores que, computados como receita, fossem transferidos para outra pessoa jurídica, contudo, “observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo”, conforme se observa da simples leitura do preceito em comento, verbis: (...) Fl. 123DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 8 Tais normas regulamentadoras, no entanto, nunca chegaram a ser editadas. Destarte, a norma em comento, embora vigente, nunca produziu efeitos.(grifei). Por esse motivo, a Secretaria da Receita Federal, inclusive, editou o Ato Declaratório nº 056, de 20 de julho de 2000, nos seguintes termos: O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso de suas atribuições, e considerando ser a regulamentação, pelo Poder Executivo, do disposto no inciso III do § 2o do art. 3o da Lei no 9.718, de 27 de novembro de 1998, condição resolutória para sua eficácia; considerando que o referido dispositivo legal foi revogado pela alínea b do inciso IV do art. 47 da Medida Provisória n° 1.99118, de 9 de junho de 2000; considerando, finalmente, que, durante sua vigência, o aludido dispositivo legal não foi regulamentado, declara: não produz eficácia, para fins de determinação da base de cálculo das contribuições para o PIS/PASEP e da COFINS, no período de 1° de fevereiro de 1999 a 9 de junho de 2000, eventual exclusão da receita bruta que tenha sido feita a título de valores que, computados como receita, hajam sido transferidos para outra pessoa jurídica. A meu ver, o próprio Poder Legislativo, ao criar a possibilidade de exclusão da base de cálculo do PIS e da Cofins das receitas transferidas para outra pessoa jurídica, condicionando a sua aplicação à edição de normas regulamentadoras a serem expedidas pelo Poder Executivo, demonstrou sua intenção de dar ao citado dispositivo natureza de norma de eficácia limitada. Por ausência de regulamentação tal norma tornouse inaplicável, já que não acompanhada dos comandos operacionais e disciplinadores que o Poder Legislativo outorgara ao Poder Executivo para tanto.(grifei) Desse modo, não cabe a este órgão de julgamento, ao alvedrio de norma regulamentadora específica, dada sua inexistência, usurpar de competência que não é a sua para fixar, segundo seu juízo, as particularidades necessárias à eficácia do comando então previsto em lei. Nesse sentido, é remansosa a jurisprudência do CARF. Confiramse os seguintes acórdãos: nº 20180596, de 20/09/2007; nº 20218928, de 09/04/2008; nº 220100.334, de 05/06/2009; nº 3302000.725, de 08/12/2010; 380200.893, de 20/03/2012. O mesmo cunho decisório tem sido adotado pelo Superior Tribunal de Justiça STJ, a exemplo do AgRg no Ag 977750 SC, Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES , Fl. 124DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 9 SEGUNDA TURMA, julgado em 15/03/2011, DJe 22/03/2011, cuja ementa e excertos do voto a seguir se transcrevem: PROCESSUAL CIVIL. VÍCIO DE OMISSÃO. ALEGAÇÃO EM AGRAVO REGIMENTAL. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA UNICIDADE RECURSAL. PIS. COFINS. BASE DE CÁLCULO. TRANSFERÊNCIA ENTRE PESSOAS JURÍDICAS. ART. 3º, § 2º, INC. III, DA LEI N. 9.718/98. NECESSIDADE DE REGULAMENTAÇÃO. 1. A via apropriada para questionar a existência de omissão, contradição ou obscuridade em decisão monocrática é a dos embargos de declaração, dirigido ao relator, e não a do agravo regimental. As finalidades dos recursos são diversas e a Segunda Turma não vem permitindo nestes casos a mescla de espécies recursais distintas, em atenção ao princípio da unicidade recursal. Precedentes. 2. O art. 3º, § 2º, inciso III, da Lei 9.718/98, que excluía da base de cálculo do PIS e da Cofins os valores que, computados como receita, foram transferidos a outra pessoa jurídica , nunca teve eficácia, em virtude da ausência de norma regulamentadora exigida em tal dispositivo, posteriormente revogado com a edição da MP 1.99118/2000. (grifei). 3. Precedentes: AgRg no REsp 1074304/RS, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, Primeira Turma, DJe 1.7.2010; AgRg no REsp 1072533/PR, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 25.5.2009; AgRg no REsp 969.967/RS, Rel. Min. Humberto Martins, DJ 26.11.2007; AgRg no Ag 913.463/RS, Rel. Min. Castro Meira, DJ 18.10.2007; e AgRg no REsp 708.619/SC, Rel. Min. Denise Arruda, DJ 23.10.2006. 4. Agravo regimental parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido Excertos do voto: Quanto ao mérito, a decisão merece ser mantida por seus próprios fundamentos, os quais transcrevo. Dessumese do exame dos autos que o entendimento sufragado pelo Tribunal de origem está perfeitamente alinhado com o posicionamento do STJ no sentido de não ser possível a exclusão da base de cálculo do PIS e da COFINS dos valores que fossem transferidos a outra pessoa jurídica, ao integrarem a receita da empresa, pois tal procedimento dependia de regulamentação sobre a matéria, em atenção ao princípio da legalidade. (grifei). Fl. 125DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 10 Entrementes, com o advento da MP n. 1.99118/2000, houve a revogação da norma que previa a exclusão pretendida (art. 3º, §2º, III, da Lei n. 9.718/98), o que retirou totalmente a sua eficácia no plano jurídico.(grifei). E mais recentemente no AgInt no AREsp 288345/ RN, AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL2013/00189748: Data do Julgamento 02/02/2017 Data da Publicação/Fonte DJe 08/02/2017 EMENTA [...]PIS/PASEP E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DOS VALORES COMPUTADOS COMO RECEITAS QUE TENHAM SIDO TRANSFERIDOS PARA OUTRAS PESSOAS JURÍDICAS. ART. 3º, § 2º, III, DA LEI Nº 9.718/98. NORMA DE EFICÁCIA LIMITADA. NÃOAPLICABILIDADE. 12. A Corte Especial deste STJ já firmou o entendimento de que a restrição legislativa do artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9.718/98 ao conceito de faturamento (exclusão dos valores computados como receitas que tenham sido transferidos para outras pessoas jurídicas) não teve eficácia no mundo jurídico já que dependia de regulamentação administrativa e, antes da publicação dessa regulamentação, foi revogado pela Medida Provisória n. 2.15835, de 2001. Precedentes: [...] 13. Tese firmada para efeito de recurso representativo da controvérsia: "O artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9718/98 não teve eficácia jurídica, de modo que integram o faturamento e também o conceito maior de receita bruta, base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica". [...] (REsp 1144469 PR, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Rel. p/ Acórdão Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/08/2016, DJe 02/12/2016) (...). 41. Ademais, convém destacar que, em outros períodos que não o aqui tratado, o próprio contribuinte já possui decisões no sentido de afastar sua pretensão. É o que se observa dos seguintes acórdão deste Tribunal: 3803006.885, 3803006.876 e 3803006.884, dentre outros. 42. Assim, empregando como meu as razões de decidir externadas no acórdão n. 3302004.903 acima reproduzido e, ainda, com fundamento no art. 50, § 1o da lei n. 9.784/99, Fl. 126DF CARF MF Processo nº 11080.900134/200861 Acórdão n.º 3402006.080 S3C4T2 Fl. 0 11 encaminho meu voto para negar provimento ao recurso voluntário interposto." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por não conhecer de parte do recurso voluntário interposto e, na parte conhecida, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra. Fl. 127DF CARF MF
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